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DOCÊNCIA EM

SAÚDE
ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO DE CÃES E
GATOS
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Portal Educação

P842a Alimentação e nutrição de cães e gatos / Portal Educação. - Campo


Grande: Portal Educação, 2013.

180p. : il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-8241-661-7

1. Nutrição animal. 2. Alimentação – Cães e gatos. I. Portal Educação. II.


Título.

CDD 636.0852
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................3
2 FISIOLOGIA DIGESTIVA COMPARADA DE CÃES E GATOS ................................................6
2.1 Comportamento alimentar de cães e gatos ..........................................................................22
2.2 Particularidades nutricionais dos felinos ..............................................................................26 2
3 ENERGIA E NUTRIENTES .......................................................................................................30
3.1 Protocolo mínimo para a determinação da energia metabolizável a partir de ensaios
com animais ......................................................................................................................................33
3.2 Determinação de energia metabolizável de um alimento a partir do uso de equações
de predição .........................................................................................................................................41
3.3 Densidade energética..............................................................................................................47
3.4 Excesso e deficiência energética ...........................................................................................49
3.5 Água .........................................................................................................................................50
3.6 Proteína ....................................................................................................................................65
3.7 Lipídeos ....................................................................................................................................73
3.8 Carboidratos ............................................................................................................................77
3.9 Minerais ....................................................................................................................................80
3.10 Vitaminas..................................................................................................................................89
4 NUTRIÇÃO E MANEJO ALIMENTAR DE CÃES NAS DIFERENTES FASES DA VIDA ........96
4.1 Cães e gatos neonatos............................................................................................................96
4.2 Filhotes em crescimento........................................................................................................102
4.3 Necessidades energéticas e de nutrientes ..........................................................................109
4.4 Animais em reprodução, gestação e lactação .....................................................................115
4.5 Animais em manutenção .......................................................................................................126
4.6 Animais atletas .......................................................................................................................134
4.7 Animais senis .........................................................................................................................137
5 OS ALIMENTOS ......................................................................................................................141
5.1 Alimentos comerciais para cães e gatos..............................................................................141
5.2 Ingredientes utilizados na formulação de rações comerciais ............................................154
5.3 Dietas caseiras para cães e gatos.........................................................................................162
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................................168
1 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, as relações entre seres humanos e animais de companhia


estreitaram-se consideravelmente. A vida agitada nas grandes cidades, o estresse do cotidiano e
a habitação de espaços cada vez menores levaram a uma maior aproximação do homem aos
seus animais, estabelecendo-se uma estreita relação de afetividade. Esses laços têm permitido 3
uma melhor superação de situações adversas e qualidade de vida aos seres humanos. Além
disso, em alguns casos específicos, como doenças crônicas e terminais, cães e gatos têm sido
importantes pela participação em programas de zooterapia, auxiliando na recuperação
psicológica de pacientes. Dessa forma, desempenham hoje um papel social importante.
Esse cenário é facilmente comprovado pelo crescimento no número de animais de
estimação alcançado recentemente. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de
Alimentos Pet (2007), calcula-se que existam atualmente no Brasil cerca de 31 milhões de cães
e 15 milhões de gatos, sendo o segundo país do mundo em número de animais de companhia.
Essa maior proximidade gera uma preocupação em proporcionar-lhes boa saúde e
melhor qualidade de vida, aumentando a longevidade e o bem-estar, e a alimentação é um fator
primordial nesse processo. Oferecer nutrição adequada aos cães e gatos pode funcionar como
uma importante medida de saúde preventiva, evitando a ocorrência de distúrbios secundários,
tais como obesidade, patologias ósseas, dentre outras.
Concomitantemente ao aumento no número de animais de companhia e ao
estreitamento de sua relação com os proprietários, houve um grande avanço no campo da
nutrição e alimentação destes. O maior conhecimento a respeito de suas necessidades
nutricionais possibilitou o crescimento do mercado de alimentos comerciais observado nos
últimos anos. Segundo dados da ANFAL-PET, em 2007, a indústria brasileira do setor produziu
1,8 milhões de toneladas de alimentos para cães e gatos. A Região Sudeste é a maior
responsável por este resultado, respondendo por 52,64% do mercado, seguida pela Sul
(40,42%), Centro-Oeste (4,45%), Nordeste (1,94%) e Norte (0,55%). O balanço mostrou
aumento de 4,26% em relação a 2006, o que representa um faturamento em torno de US$ 3,07
bilhões. Esses números levam o Brasil à colocação de segundo maior mercado do mundo em
volume de produção, com uma geração de cerca de 12.000 empregos diretos.
Os produtos gerados estão segmentados em quatro categorias principais:
- a econômica ou básica, que representa 65% do mercado e absorve todo o
crescimento do setor;
- a Standard, que representa 23% do mercado;
- a Premium – 8% do mercado;
- a Super Premium (4%).
Isto gera aos proprietários a disponibilização de uma grande variedade de produtos em
supermercados, clínicas veterinárias e pet shops. Diante dessa diversidade, as pessoas
procuram os médicos veterinários para orientá-las a respeito de qual a melhor alimentação a 4
oferecer aos seus animais. Além disso, proprietários que preferem cozinhar não sabem ao certo
que ingredientes podem ou não usar na composição da dieta de seu cão ou gato e, perguntas
sobre o que e quanto utilizar, têm se tornado freqüentes nos consultórios.
Além disso, o crescimento alcançado pelo setor da indústria de alimentos comerciais
gerou nos últimos anos espaço para atuação de profissionais da medicina veterinária, zootecnia
e agronomia, com o objetivo de garantir o controle da qualidade das matérias-primas utilizadas,
possibilitar a elaboração de formulações adequadas e que atendam às exigências dos cães e
gatos, realizar assessoria técnica em clínicas veterinárias e junto a canais de comercialização,
entre outros.
Tendo em vista essa nova situação é primordial que o profissional que trabalha com a
saúde de animais de estimação domine conceitos e os princípios básicos da nutrição de seus
pacientes, não apenas como suporte para o tratamento de patologias, mas também como
medida preventiva, já que a nutrição adequada pode retardar ou evitar o aparecimento de
patologias. Adicionalmente, para os profissionais que trabalharão em indústrias, é fundamental
obter informação a respeito de formulação e processamento desses alimentos.
Por sua vez, o estudo da nutrição pode ser dividido em dois grandes blocos: o das
exigências nutricionais e o da avaliação de alimentos. A partir do conhecimento das
necessidades nutricionais das espécies e da composição do alimento (considerando-se aspectos
como fontes, digestibilidade e biodisponibilidade de nutrientes, fatores antinutricionais, etc.),
pode-se determinar a quantidade de um determinado alimento que o animal deverá consumir
para satisfazer às suas exigências diárias.
Com esse objetivo, o curso foi dividido em quatro módulos. No primeiro, estudaremos a
fisiologia digestiva, o comportamento de cães e gatos e as particularidades da nutrição dos
felinos. Os dois primeiros são importantes, pois o entendimento do funcionamento do sistema
digestório é primordial para se compreender de que forma o animal aproveita o alimento que lhe
é oferecido. Por sua vez, felinos não podem ser considerados como cães pequenos, já que são
absolutamente distintos do ponto de vista fisiológico, de comportamento e especialmente,
dietético, devido às particularidades metabólicas que possuem.
O segundo módulo abordará a energia e os princípios nutritivos, descrevendo as
particularidades metabólicas de cada uma das duas espécies estudadas. Definição,
classificação, principais características metabólicas e funcionais de energia, água, proteína e
aminoácidos, lipídeos, carboidratos, minerais e vitaminas será o tema de estudo dessa etapa do
curso. 5
No terceiro módulo, será abordado o manejo nutricional e alimentar dos cães e gatos
nas diferentes fases fisiológicas, como gestação e lactação, neonatologia, crescimento,
manutenção, atividade e senilidade, já que as exigências nutricionais são distintas em cada um
dos estágios da vida dos animais.
No último, serão discutidos aspectos relacionados ao alimento. Falaremos sobre os
principais ingredientes utilizados na alimentação de cães e gatos, bem como as principais
vantagens e desvantagens de dietas caseiras e comerciais.
Dessa forma, abordaremos as duas grandes metades da nutrição animal: o estudo das
necessidades e o de alimentos oferecendo uma visão geral dos principais conceitos envolvidos
na nutrição de animais de companhia, úteis para aqueles profissionais que trabalham
diretamente com animais de estimação, seja na criação, na clínica ou na indústria de alimentos.
2 FISIOLOGIA DIGESTIVA COMPARADA DE CÃES E GATOS

O conhecimento da anatomia e fisiologia do aparelho digestivo é extremamente


importante em nutrição animal devido à relação estreita entre trato gastrointestinal e utilização de
alimentos e nutrientes. O trato gastrointestinal é um tubo que vai da boca até o ânus e onde os
alimentos passam por processos diversos, dito digestivos. 6
Os órgãos e tecidos que o compõe estão envolvidos na apreensão, na mastigação,
deglutição, digestão, absorção e excreção de nutrientes. Anatomicamente, tanto cães quanto
gatos são considerados carnívoros, embora os cães domésticos tenham um comportamento
alimentar onívoro. Cães e gatos têm um trato digestivo similar, exceto no comprimento.
Enquanto os cães possuem um corpo com aproximadamente 0,75 m e um intestino medindo
cerca de 4,5 m (3,9 m de delgado e 0,6m de grosso), os gatos com corpo de 0,5 m, têm um
intestino com aproximadamente 2,1 m (1,7 e 0,4m para o delgado e grosso, respectivamente)
conforme demonstrado na figura 1.

A B

Figura 1- Trato gastrointestinal. (A) cão e (B) gato. National Research Council (2006)
Desde o momento em que o alimento entra na cavidade oral até que os resíduos
indigeríveis deixem o corpo, o alimento está continuamente sujeito aos movimentos que o
degradam e garantem sua efetiva mistura com os sucos digestivos. A apreensão, a mastigação,
a salivação e deglutição formam a primeira parte desse processo e constituem uma seqüência
ordenada de eventos que resultam no bolo alimentar misturado com a saliva que penetram no
estômago. Concomitantemente à ação mecânica, ocorre a secreção de eletrólitos, água e
enzimas digestivas; esta é um processo ativo com requerimento energético controlado por 7
sistema neuroendócrino. As glândulas salivares, o estômago, o pâncreas, o fígado e o intestino
são capazes de secretar grandes quantidades de volumes líquidos próprios.
Os agentes extracelulares que iniciam os processos secretórios ativos são os
neurotransmissores do sistema nervoso autônomo e os hormônios gastrointestinais. Os
estímulos centrais ou reflexos promovem aumento na liberação desses agentes que ativam o
sistema por ocupação de receptores específicos sobre as membranas celulares. Os mecanismos
intracelulares são ativados e efetuam uma resposta coordenada que conduz à secreção de
enzimas ou íons pelas células alvo.
Essas funções motoras e secretórias são realizadas pelos órgãos ao longo de sua
passagem pelo trato digestivo. A seguir, a descrição das principais alterações sofridas pelo
alimento, em cada órgão do sistema digestório, durante o processo de digestão.

Boca: A digestão começa nesse órgão, através do qual os alimentos são introduzidos
no organismo animal, iniciando a mastigação física e os misturando com saliva. Esse
desdobramento em partículas menores e o conseqüente umedecimento são de suma
importância para a posterior digestão nos compartimentos seguintes; os dentes, a língua e a
saliva são extremamente importantes nesse processo. Comparados com as numerosas espécies
ruminantes e herbívoras, que mastigam completamente o seu alimento, cães e gatos usualmente
deglutem grandes bolos de comida com pouca ou nenhuma mastigação. No entanto, o exame
dos dentes de ambos revela importantes diferenças entre as duas espécies: a boca dos cães
apresenta mais pré-molares quando comparada à dos gatos, o que indica maior mastigação e
esmagamento do alimento, devido à dieta mais onívora destes.
A língua realiza a apreensão, a mistura e a deglutição e é nela que se encontram as
papilas gustativas, responsáveis pelo paladar. As glândulas salivares (parótidas,
submandibulares, submaxilares, sublinguais e zigomática) secretam a saliva durante a
mastigação do alimento e sua composição varia entre as glândulas e com a taxa de fluxo salivar,
sendo que as submaxilares e sublinguais secretam grandes quantidades de muco e as parótidas
secretam um fluido seroso. Os maiores íons inorgânicos presentes na saliva são sódio, potássio
e cloreto, derivados do plasma e, bicarbonato, secretado pelas células glandulares.
Quando há um alto fluxo salivar, a saliva que é liberada na boca dos animais tem
osmolaridade e relação sódio/potássio similar, mas uma relação bicarbonato e cloreto e pH
menor que o do plasma.
No baixo fluxo, as atividades de absorção das células das glândulas salivares 8
reduzem a osmolaridade, a relação sódio/potássio, as concentrações de cloreto e bicarbonato e
o pH da saliva. O pH da saliva dos cães varia entre 7,34 e 7,80, enquanto que no gato é cerca
de 7,5. Como em muitas espécies, em cães e gatos falta a enzima -amilase que iniciaria o
processo de digestão do amido.
Dentre as funções da saliva podem ser destacadas a capacidade de lubrificação da
cavidade oral, facilitando a deglutição; o estímulo dos receptores do paladar pelos diferentes
compostos encontrados nos alimentos; o controle da população bacteriana da cavidade oral por
inibição do crescimento de algumas bactérias (pela presença de lisozimas, que causam a lise
bacteriana; lactoferrina, que remove o ferro livre da saliva necessário para o crescimento de
algumas bactérias e sialoperoxidase, que oxida o tiocianato em hipotiocianato, um potente
agente antibacteriano) e o estímulo para o crescimento de outras. Além de termorregulação
(através de estimulação parassimpática que leva a uma secreção de saliva cerca de 10 vezes
maior do que em humanos).
Após sofrer esses processos na boca, o alimento está pronto para seguir até o
estômago e inicia-se o reflexo da deglutição. Este é o primeiro reflexo no sistema digestório e
consiste em uma seqüência de eventos ordenados que promovem o deslocamento do alimento
da boca até o estômago, inibindo, ao mesmo tempo, a respiração, e impedindo dessa forma, a
entrada do alimento na traquéia. Este reflexo se inicia pela ativação dos mecanorreceptores,
principalmente aqueles situados na abertura da faringe. Estes emitem sinais até centros
localizados no bulbo e ponte, no tronco encefálico, os quais recebem a denominação de “centro
da deglutição”. Desse centro partem impulsos motores até a musculatura da faringe e esôfago
superior, via nervos cranianos.
Após a fase oral ou voluntária da deglutição dá-se início ao estágio faríngeo. Nesse
processo, o palato mole é puxado para cima, e as dobras palatofaríngeas movem-se para
dentro, em direção uma à outra. Isso impede o refluxo do alimento para a nasofaringe e forma
uma passagem estreita, através da qual o alimento se move para a faringe. A epiglote cobre a
abertura da laringe, que é movida para cima, impedindo a entrada do alimento na traquéia. O
esfíncter esofágico superior relaxa para receber o bolo alimentar. Então, os músculos
constritores superiores da faringe contraem-se fortemente, empurrando o bolo. Uma onda
peristáltica é então iniciada e o alimento move-se em direção ao esôfago através do esfíncter
esofágico superior relaxado, o qual se contrai reflexamente após a passagem do bolo alimentar.
Inicia-se a fase esofágica da deglutição, que se caracteriza por uma onda peristáltica que
começa logo abaixo do esfíncter esofágico superior, indo até o esfíncter esofágico inferior. Este 9
último relaxa em função da ação de fibras vagais que são inibitórias para o músculo circular.

Esôfago: é um tubo muscular curto que se estende da faringe até o estômago,


cruzando o tórax e atravessando o diafragma. Sua parede está constituída por quatro porções:
uma camada de tecido conjuntivo externo, uma camada muscular, a submucosa e a mucosa. Em
cães, as fibras de músculo estriado constituem os músculos longitudinais e circulares por quase
toda a extensão do esôfago, mas em gatos há uma proporção variável do esôfago caudal
composta por músculos lisos (figura 2). Entre as camadas musculares e o revestimento epitelial
escamoso estratificado está a camada submucosa relativamente densa, a qual forma dobras
para dentro da superfície epitelial. No esôfago vazio, essas dobras estão em íntima justaposição
e obliteram o lúmen. Durante a passagem do bolo alimentar, as dobras são niveladas ou
distendidas e o revestimento esofagiano se torna aplainado.
O esôfago está normalmente fechado na junção faringoesofagiana pelo esfíncter
esofagiano superior. O principal suprimento nervoso para o esôfago provém dos nervos vagos.
No cão e no gato, as fibras que deixam o vago cranial para o recorrente laríngeo exercem
controle considerável sobre o esôfago cervical. Onde as paredes do esôfago são constituídas
por músculo liso, um plexo nervoso mioentérico está presente e suas células ganglionares
servem como estações de transferência entre as fibras pré-ganglionares vagais que passam às
células musculares. No músculo estriado as placas motoras terminais conectadas às fibras
eferentes constituem a principal inervação. As fibras simpáticas que suprem o esôfago nascem
principalmente do gânglio estrelado e entram em plexos incertos, mas não se sabe se eles
inervam realmente o músculo.
------------------------------------------== ---------------------------------======
------------------------------------------== ---------------------------------======

(A) (B)

Figura 2- Distribuição do músculo estriado esofagiano (linhas simples) e músculo liso


(linhas duplas) (A) cão (B) gato. Adaptado: Swenson e Reece (1996).
10

As células esofágicas produzem muco para lubrificar o alimento durante o processo


peristáltico que o propulsiona ao longo do trato digestivo. Essas células são estimuladas pela
presença do alimento e o transporte da boca ao estômago leva apenas poucos segundos. A
força da onda peristáltica em carnívoros é mostrada pela facilidade com que o alimento deglutido
é transportado ao longo do esôfago. As medições da força exercida pela onda contrátil no cão
têm mostrado que ela é suficiente para superar uma força oposta igual a um peso de 400 g.

Estômago: funcionalmente consiste de seções: proximal e distal (figura 3). A parte


proximal expande durante a estocagem temporária de alimentos, controlando a taxa de
passagem da ingesta para o intestino delgado. O estômago atua como um reservatório do
organismo, permitindo que os alimentos sejam digeridos ao longo do dia.

Figura 3- Anatomia do estômago de cão.


Tem uma capacidade relativa de cerca de 63% nos cães e 69% nos gatos, o que
permite o armazenamento de uma grande quantidade de alimentos e torna a distensão gástrica
um fator secundário na regulação do consumo desses animais. Além de sua função de depósito,
também inicia a digestão química das proteínas, mistura o alimento com secreções gástricas e
regula a entrada do bolo alimentar no intestino delgado. As secreções do epitélio gástrico e
glândulas associadas incluem água, muco, ácido clorídrico, enzimas proteolíticas e íons
11
inorgânicos que são secretados em resposta a estímulos, tais como visão e cheiro do alimento, a
presença do alimento na boca ou no próprio estômago. O muco alcalino forma uma camada
sobre a superfície da mucosa gástrica para protegê-la da digestão pelo ácido e enzimas
proteolíticas.

A composição de eletrólitos do suco gástrico de cães é a seguinte: bicarbonato, 5-33


mmol/L; potássio, 7-28 mmol/L; sódio, 22-155 mmol/L; cloreto, 123-173 mmol/L; cálcio, 0,5-4
mmol/L; fosfato, 0,026-12 mmol/L; e magnésio, 0,021 mmol/L. Em gatos, a composição é a
seguinte: potássio, 12-14 mmol/L; sódio, 12-56 mmol/L; cloreto, 156-166 mmol/L; cálcio, 1-2,5
mmol/L; fósforo, 0,06-0,19 mmol/L; nitrogênio, 7,1-29,3 mmol/L.. O mecanismo pelo qual as
células parietais ou oxínticas secretam HCl envolve a hidratação do CO2 nas células parietais,
responsável pela produção contínua de íons H e HCO3. Essa reação é catalisada pela enzima
anidrase carbônica presente em altas concentrações nessas células. Os íons hidrogênio são
transportados para o lúmen por um mecanismo ativo de bomba acoplado ao metabolismo
celular. O cloreto é secretado para o lúmen por um mecanismo que pode ser acoplado de
algumas maneiras à bomba de H, porquanto a estequiometria de H e Cl secretados é de 1:1. Os
íons cloro disponíveis para transporte parecem ser derivados da operação de um mecanismo de
troca Cl-HCO3 na membrana contraluminal.

Assim para cada íon H secretado para o lúmen, difunde-se um íon HCO3 para o
sangue, em troca de um cloro. Essa alcalose metabólica que ocorre durante a secreção ativa
após alimentação é conhecida como maré alcalina (figura 4).
12

Figura 4- Um possível mecanismo para a secreção de HCl pela célula gástrica parietal. Os íons
H e HCO3 formados pela degradação de ácido carbônico são transportados através de
membranas opostas por um processo ativo (H) que necessita de energia e por um mecanismo
de co-transporte (HCO3). Transporte ativo mediado por carreador; transporte mediado
por carreador; ↔ difusão passiva. Adaptado de Swenson e Reece, 1996.

Normalmente, ocorre reversão da maré alcalina quando o bicarbonato existente no


sangue é consumido indiretamente durante a neutralização de secreções gástricas à medida que
entram no intestino. Assim, com base no corpo inteiro, a produção de ácido gástrico resulta em
alterações apenas pequenas e transitórias no pH sanguíneo; no entanto, em estados mórbidos
nos quais as secreções gástricas ficam impedidas de entrar no intestino ou se perdem do corpo
por causa de vômitos, o pH do sangue pode elevar-se para valores perigosamente altos.

Poucas substâncias estimulam diretamente a secreção ácida pela célula parietal. O


hormônio gastrina e o neurotransmissor parassimpático acetilcolina (ACh) são os mais
importantes reguladores fisiológicos. A ACh estimula a liberação de gastrina além do estimulo
direto sobre a célula parietal. A histamina também é um potente estimulador da secreção das
células parietais. Há evidências de que a liberação de histamina é regulada pela gastrina, na
maioria dos mamíferos. A histamina estimula a secreção ácida por meio dos receptores H2, a
acetilcolina por meio dos receptores muscarínicos M1 e a gastrina pelos receptores de gastrina
das membranas das células parietais. Os receptores H2 aumentam a concentração intracelular
de AMPc, enquanto os muscarínicos e os de gastrina exercem seus efeitos aumentando a
concentração intracelular de cálcio livre.
Os mecanismos intracelulares interagem, de forma que a ativação de um tipo de
receptor potencializa a estimulação do outro. A histamina deriva das células da mucosa
semelhante à mastócitos, a acetilcolina é liberada das terminações colinérgicas pós-ganglionares
que inervam as células parietais e a gastrina chega até as células produtoras de ácido através
da circulação (figura 5). Alguns aminoácidos circulantes também podem estimular as células
parietais fornecendo o estímulo para a secreção ácida resultante da presença de alimento no
13
intestino delgado.

Figura 5- Acetilcolina (ACh), histamina e gastrina estimulam, todas, a secreção HCl. A ação da
ACh ou da gastrina é potencializada pela histamina, a qual está sempre presente em certo grau
nas extremidades da célula parietal. Na presença de bloqueador de receptor de histamina, a
ACh ou a gastrina eliciam respostas apenas fracas. Conseqüentemente, o bloqueio dos
receptores colinérgicos com atropina ou dos receptores de gastrina com proglumida seria menos
efetivo do que aquele com cimetidina para inibir a secreção de HCl. Adaptado de Swenson e
Reece, 1996.
As enzimas presentes em maior concentração no lúmen do estômago do cão são a
pepsina e a lipase. A lipase em pH 4 é cerca de 13 vezes mais ativa nos triacilglicerídeos de
cadeia longa do que nos de cadeia curta. É irreversivelmente inativada em pH abaixo de 1,5 ou
acima de 7,0. Comparada à lipase pancreática, a lipase gástrica tem uma importância muito
menor no metabolismo dos lipídeos, mas auxilia na formação de micelas. Já a pepsina tem uma
atividade ótima em pH 2 mantido pela secreção do ácido clorídrico e é influenciada por
hormônios, tal como o ACTH, sendo inativada em pH neutro. Como essa enzima é mais ativa 14
quando os animais ingerem colágeno, ela é mais ativa na digestão de carnes do que de fontes
de proteína vegetal.
A secreção gástrica é influenciada pela quantidade de proteína da dieta, pela
quantidade de alimento e por hormônios que indiretamente afetam os conteúdos ácidos do
estômago. No cão, a resposta do pH gástrico varia de acordo com a dieta ingerida e com a
capacidade tampão do alimento. Após a ingestão de uma dieta líquida, pode haver queda para
menos que 4 entre 10-20 minutos.
Com uma dieta à base de carne, uma queda para pH 6,0 pode ser verificada após 60
minutos. Já o pH médio do estômago do gato é 2,5. A taxa de esvaziamento gástrico é afetada
pelo volume estomacal, conteúdo de energia, viscosidade, densidade e tamanho das partículas,
temperatura, peso corpóreo, quantidade de ácido no duodeno, ingestão de água, quantidade de
alimento por refeição e tipo de dieta. Para cães, a média de tempo para ocorrer metade do
esvaziamento gástrico varia entre 72-240 minutos e para gatos varia entre 22-25 (estado
acelerado) a 449 minutos (quando alimentados com dietas úmidas).

Intestino delgado: Antes de chegar ao intestino delgado, a maioria dos processos


digestivos que ocorre nos cães e gatos é de índole mecânica. O quimo que passa através do
esfíncter pilórico até o duodeno é uma massa semilíquida constituída por partículas alimentares
misturadas com secreções gástricas. Os carboidratos e as gorduras conservam a sua
composição quase inalterada, mas as proteínas já foram parcialmente hidrolisadas em
oligopeptídeos menores. No entanto, essa digestão prévia não é essencial, pois as enzimas
presentes no intestino delgado são capazes de digerir completamente proteínas intactas. Uma
digestão mecânica adicional ocorre nesse órgão e esses movimentos misturam completamente a
massa alimentar com as secreções intestinais, aumentam a exposição das partículas
alimentares digeridas em relação à superfície mucosa e torna mais lenta a propulsão da massa
alimentar pelo trato intestinal. Os constantes movimentos das microvilosidades intestinais
misturam o quimo que se encontra em contato com a parede e aumentam a eficiência de
absorção da partícula digerida. Uma vez que o alimento penetra no intestino delgado, grandes
quantidades de muco são secretadas pelas glândulas de Brünner e este tem a função de
proteger a mucosa contra a irritação e a erosão produzida pelos ácidos gástricos procedentes do
estômago, além de lubrificar novamente o bolo alimentar.
De qualquer forma, a maioria da digestão enzimática do alimento ocorre no intestino
delgado sendo que quatro secreções estão normalmente presentes nesse local: suco duodenal, 15
bile, suco pancreático e suco entérico. O suco duodenal é também sintetizado pelas glândulas
de Brünner e constituído por uma solução alcalina que tem por finalidade lubrificar a mucosa
duodenal e protegê-la contra o ácido clorídrico proveniente do estômago. A ingestão de grandes
volumes de água pode induzir a secreção ácida no estômago por estimular a liberação de
gastrina e abaixar o pH da porção proximal do duodeno para valores próximos a 1,5. O pH
duodenal médio para gatos é em torno de 5,7 e os do jejuno e íleo, 6,4 e 6,6, respectivamente.
Por sua vez, a bile é secretada pelos hepatócitos e tem como funções fornecer uma
fonte de ácidos biliares que são necessários para a digestão e a absorção de gorduras
(facilitando a ação da lipase pancreática), servir como rota de excreção para certos metabólitos e
drogas e como um tampão adicional para a neutralização de íons H no duodeno. Os ácidos
biliares são sintetizados no fígado a partir do colesterol sob a ação da enzima 7-alfa-hidroxilase
sendo a atividade da enzima inversamente proporcional à quantidade de sais biliares presentes.
Os sais biliares formados no fígado são chamados primariamente ácidos biliares e usualmente
são os ácidos taurocólico e quenodesoxicólico e são conjugados com glicina ou taurina para
formar os ácidos taurocólico e glicocólico. No entanto, os gatos só conseguem conjugar os
ácidos biliares com taurina. Os sais são transportados ativamente nos hepatócitos para dentro
dos canalículos biliares por um processo dependente de energia. Os cátions e a água seguem
por difusão passiva o que torna a bile isosmótica.
Há um componente secretório que está sob o controle da secretina e sua função é a
liberação de bile para o intestino. No íleo, ocorre transporte ativo dos sais biliares e pelo menos
90% deles são absorvidos nesse segmento. A bile é armazenada na vesícula e durante os
processos interdigestivos, o esfícter de Oddi está fechado e o músculo da vesícula relaxado, o
que a deixa recolhida nesse órgão. Durante os processos digestivos, a vesícula contrai-se e o
esfíncter relaxa sob o comando da colecistoquinina (CCK) e grandes quantidades de bile são
liberadas para o duodeno.
A função do pâncreas exócrino é a secreção de bicarbonato para alcalinizar o pH ácido
do conteúdo gástrico que flui para o duodeno e a secreção de enzimas para a digestão luminal
de carboidratos, gorduras e proteínas. O suco pancreático é sintetizado pelas células exócrinas
do pâncreas organizadas em ácinos que possuem grânulos de zimogênio responsáveis pela
secreção de enzimas. A secretina e a colecistoquinina regulam a secreção de suco pancreático.
A secretina estimula o pâncreas a secretar bicarbonato quando ocorre a acidificação dos
conteúdos do intestino delgado. A concentração de bicarbonato e o pH do fluido pancreático são
dependentes da taxa de fluxo. A liberação de colecistoquinina resulta da presença de alimento 16
parcialmente digerido, especialmente gordura e peptídeos contendo fenilalanina, no intestino, e
resulta na liberação de sucos ricos em enzimas.
As principais características do suco pancreático são: pH 7,1-8,2, taxa de secreção,
0,2-1,1 mL/min, 98% de água, 8,4 a 9,7 g/L de minerais, 14-64 g/L de sólidos totais, 93-143
mmol/L e 71,4-671,4 mmol/L de nitrogênio total. Para gatos, a informação é mais limitada: 2,3-
2,55 mmol/L de cálcio, 67-93 mmol/L de cloreto e 34,1 unidades por 120 minutos. O suco tem
propriedades antibacterianas e o componente ativo é uma proteína molecular com peso de
aproximadamente 4000 daltons e pH alcalino como ótimo para ação. As enzimas pancreáticas,
os zimógenos e as suas respectivas funções, segundo descrito por Murgas et al. (2004) estão
apresentadas a seguir:

1- Amilase: realiza a quebra de polissacarídeos até açúcares mais simples e é


encontrada no pâncreas ativo;
2- Tripsinogênio: é um zimógeno, ou seja, um precursor. As enzimas não podem
ser secretadas na sua forma ativa, pois digeririam os órgãos que as secretam. É ativado
pela enteroquinase a tripsina (enzima proteolítica) que por sua vez continua a ativação
do tripsinogênio. Embora o tripsinogênio possa transformar-se espontaneamente em
tripsina essa conversão é suprimida na glândula pancreática pelo inibidor de tripsina. Se
isto não ocorresse essa enzima seria capaz de digerir a própria glândula pancreática.
3- Quimotripsinogênio: Precursor da quimiotripsina.. Estas duas são classificadas
como endopeptidases, por atuarem no meio da molécula protéica.
4- Procarboxipeptidase: convertida a carboxipeptidase pela tripsina. É uma
exopeptidase e ataca a molécula protéica nas extremidades, liberando um aminoácido
terminal.
5- Lipase pancreática: é ativada pelos sais biliares e tem como função romper a
molécula lipídica. Os produtos finais da digestão dos triglicerídeos, pela lípase, são uma
mistura de di e monoglicerídeos, mais ácidos graxos livres.
6- Outras enzimas: lecitinase A e B, colesterol esterase, polinucleotidases,
nucleosidases e fosfatases.

Intestino Grosso: O papel principal do intestino grosso de cães e gatos é a absorção 17


de eletrólitos e água e servir como ambiente para a fermentação microbiana de nutrientes que
escapam da digestão e absorção no intestino delgado. Nas duas espécies, é um órgão
relativamente curto (0,6 m em cães e 0,4 m em gatos). É anatomicamente dividido em três
porções: o ceco, o cólon e o reto. Dentre essas, o cólon compreende a maior parte, dividido em
três porções – cólon ascendente, transverso e descendente.
O intestino grosso não possui qualquer vilosidade e sua superfície é lisa. Glândulas
retas, tubulares, as criptas de Lieberkuhn, estendem-se da superfície serosa através da mucosa.
Ele contém células mucosas em sua porção mais profunda e células mucosas e epiteliais
próximo à superfície. O muco é alcalino (bicarbonato) e sua função é proteger a mucosa de
injúrias mecânicas e químicas, além de promover a lubrificação para facilitar a passagem das
fezes. Além disso, os íons bicarbonato neutralizam os ácidos produzidos pela fermentação
bacteriana. Cerca de apenas 8% da digestão total dos alimentos ocorre no intestino grosso dos
cães, embora isso possa variar com a dieta. O tempo de permanência da ingesta não digerida,
nesse órgão, é de aproximadamente 12 horas.

Microbiota do trato gastrointestinal

Conforme pudemos observar, as várias porções do trato gastrointestinal possuem


funções e características morfológicas específicas. Desta forma, é esperado que os
microorganismos presentes sejam também específicos em cada local de colonização e assim
cada espécie microbiana colonizará segmentos do trato digestivo nos quais estará mais bem
adaptada. Além das espécies bacterianas que estão sempre presentes no TGI (Trato
Gastrointestinal) e fazem o papel mais importante da população residente normal, existem ainda
outras que estão em menor número, como contaminantes e transientes oriundos da boca e da
dieta.
A comunidade microbiana que habita o trato gastrointestinal é caracterizada por sua
alta densidade populacional, alta variedade e complexidade de interações. Todos os maiores
grupos de microrganismos estão presentes no intestino. As bactérias são predominantes, mas
uma grande variedade de protozoários pode ser encontrada.

No estômago e no intestino delgado o ambiente é desfavorável para a colonização e


proliferação bacteriana, que é reduzida, por ação bactericida do suco gástrico, da bile e da 18
secreção pancreática, como pelo intenso peristaltismo do delgado. O íleo é um sítio de transição
bacteriológica, entre a escassa população bacteriana do jejuno e a densa flora do cólon. No
cólon, as bactérias encontram condições favoráveis para sua proliferação devido à ausência de
secreções intestinais, peristaltismo lento e abundante suprimento nutricional. Em números, a
cavidade oral é considerada a maior fonte de bactérias que colonizam o TGI.

O número de bactérias na boca é de 107 ufc (unidades formadoras de colônia) por


grama de secreções residuais, o estômago possui apenas de 101 a 102 microorganismos por
grama de secreções residuais, sendo que estes números aumentam após as refeições e
abaixam significantemente após a secreção de ácido clorídrico. O intestino delgado vazio
apresenta 101 a 102 microorganismos por grama de conteúdo na parte cranial e aumenta
para103 a 104 na parte caudal. No intestino grosso este número está entre 1010 a 1011 por grama
de conteúdo. A enorme população bacteriana é composta predominantemente por poucos
gêneros bacterianos, altamente diversos quanto às espécies. Prevalecem os gêneros
bacteróides, Bifidobacterium, Eubacterium, Clostridium, Peptococcus, Peptostreptococcus e
Ruminococcus. A população microbiana do trato gastrointestinal é caracterizada por uma ampla
variedade, uma alta densidade populacional e complexas interações. A maior parte dos grupos
está presente no intestino e é formada principalmente por bactérias, mas diversos protozoários
podem ser encontrados. Quanto às bactérias, embora possam ser encontradas por todo o trato
gastrointestinal, a sua distribuição é bastante heterogênea.

No estômago e no intestino delgado, o ambiente é desfavorável para a colonização e a


proliferação bacteriana devido à ação bactericida do suco gástrico, da bile e da secreção
pancreática, além do intenso peristaltismo do delgado. As concentrações de microrganismos
viáveis no conteúdo desta porção intestinal (104 a 106 por grama) são muito menores do que as
do intestino grosso (1010 a 1011 por grama) e em geral, aceita-se que a maioria das bactérias do
intestino delgado é transitória e que o impacto destas na digestão seja mínimo. No entanto, em
condições patológicas, ele pode ser colonizado por microrganismos específicos ou por
populações semelhantes àquelas do cólon. Por sua vez, o íleo é uma região de transição entre
a escassa população bacteriana do jejuno e a densa microbiota do cólon. No cólon, as bactérias
encontram condições favoráveis para a sua proliferação devido à ausência de secreções
intestinais, peristaltismo lento e abundante suprimento nutricional. A colonização do trato
gastrointestinal depende da capacidade de adesão das bactérias, em receptores denominados
19
sítios de adesão na mucosa intestinal.

As espécies com esta característica tendem a colonizar de forma permanente o trato


gastrointestinal, sem necessidade de reintrodução periódica, e constitui a denominada flora
autóctone. Por outro lado, espécies alóctones são aquelas externas ao ecossistema intestinal,
sem adequada capacidade de aderir à mucosa, e são transitórias.

Pelas características biológicas citadas, a flora autóctone tende a ser estável quanto às
espécies bacterianas e número de colônias ao longo do tempo, acompanhando o indivíduo
durante toda a vida. Algumas bactérias patogênicas autóctones podem viver em harmonia com
os seus hospedeiros, tornando-se patogênicas apenas quando o ecossistema é prejudicado de
alguma forma. Da mesma forma, espécies que são autóctones para o trato gastrointestinal de
um determinado animal pode ser alóctone para outro.

Os processos envolvidos no estabelecimento das populações microbianas são


complexos, envolvendo a sucessão bem como as interações microrganismo-hospedeiro que
resultam na densa e estável população que habita algumas regiões do intestino. Os fetos são
estéreis no útero. No entanto, durante e após o nascimento eles são expostos a microrganismos
originários da mãe e do ambiente. É bem estabelecido que a forma como se dá o parto tem um
significado importante no desenvolvimento da microbiota. Microrganismos vaginais podem ser
encontrados na boca e no estômago de recém-nascidos. Após o nascimento, os microrganismos
ambientais, orais e cutâneos da mãe, serão automaticamente transferidos para o feto, por
processos que incluem a amamentação.

Posteriormente, eles continuam sendo expostos à entrada de novos microrganismos


no trato gastrointestinal a partir da alimentação. A sucessão microbiana durante as primeiras
semanas de vida no trato alimentar dos humanos, frangos e suínos é similar. Poucos dias após o
nascimento, os coliformes e os estreptococos dominam a microbiota de todas essas espécies.
Os anaeróbios obrigatórios aparecem um tempo mais tarde. O controle dos fatores
externos e do hospedeiro irá estabelecer a ordem de sucessão das colônias de maior
importância. No entanto, este assunto ainda necessita de muitos estudos porque há uma grande
variação quanto às práticas alimentares e limitações na amostragem que dificultam a
caracterização das comunidades bacterianas. A sucessão microbiana no trato gastrointestinal é
influenciada por numerosos fatores externos e internos relacionados ao hospedeiro. Dentre os
20
fatores externos, podem-se citar a carga bacteriana do ambiente, alimento e hábitos alimentares
e composição da microbiota materna. Já entre os internos, estão incluídos pH intestinal e taxa de
esvaziamento gástrico, interações microbianas, temperatura corpórea, fatores fisiológicos,
peristaltismo, ácidos biliares, secreções, respostas imunes e receptores de mucosa às bactérias.

Segundo Fernandes et al. (2000), a regulação fisiológica da microflora intestinal é


exercida por uma série de funções que são necessárias para manter cada espécie bacteriana
em seus locais de colonização e em níveis normais de crescimento. Esta regulação previne
possíveis efeitos patológicos tais como: crescimento anormal da flora residente, colonização por
microorganismos de sítios atípicos da mucosa e fixação de microorganismos transientes ou
patogênicos.

Muitas das informações disponíveis sobre a microbiota do cólon foram obtidas de


estudos que empregavam técnicas microbiológicas clássicas baseadas no plaqueamento em
ágar. Muitas bactérias que fazem parte da microbiota não podem ser isoladas por esta técnica e
a caracterização microbiológica baseada nos métodos de DNA pode ser realizada nesse caso.
Grande parte dessa metodologia envolve a amplificação, detecção e/ou seqüenciamento de
regiões do rRNA 16S, uma impressão digital molecular (Os RNA ribossomais ou rRNA,
juntamente com diferentes proteínas, formam os ribossomos. Cada ribossomo é composto de
duas subunidades diferentes: na menor há um rRNA e na maior dois. Estas sub-unidades estão
separadas no citossol e só se unem para a síntese protéica. O rRNA 16S faz parte da sub-
unidade menor). Nas figuras 6 e 7 estão apresentadas as características da microbiota intestinal
de cães e gatos, respectivamente.
21

Figura 6- Microbiota canina. (A) Em um estudo em cães pastores, os grupos bacterianos foram
isolados por plaqueamento e confirmados por eletroforese em gel. (B) Grupos bacterianos
isolados de estudo com um cão Labrador. Os números na escala correspondem à escala
logarítmica Fonte: Rastall (2004).
22

Figura 7 – Principais microrganismos do cólon de felinos. Adaptado de Rastall Os números na


escala correspondem à escala logarítmica. (2004).

2.1 Comportamento alimentar de cães e gatos

No presente estágio de domesticação de cães e gatos, é difícil fazer uma descrição


completa de seus comportamentos alimentares, já que de diferentes formas, ambos tornaram-se
dependentes dos humanos pelo fornecimento de alimentos. No entanto, é possível dizer que
eles apresentam hábitos distintos que influenciam marcadamente em sua nutrição. Abaixo
estarão descritos os principais hábitos alimentares de cães e gatos.
23

Cães

Na natureza, os canídeos, incluindo os cães, caçam em matilhas e se alimentam de


pequenos animais e de várias partes de plantas. Um cão é capaz de atender suas exigências
alimentando-se uma única vez ao dia, sendo que um Labrador macho pode comer cerca de 10%
de seu peso vivo em alimento úmido e um lobo privado de alimento por sete dias, é capaz de
ingerir cerca de 17% de seu peso corporal em carne. Normalmente são neófilos, ou seja, em
condições de conforto aumentam o consumo frente a um novo alimento.

Quanto às preferências, cães normalmente optam por alimentos úmidos aos secos,
alimentos secos extrusados a alimentos secos peletizados, carne bovina a carne de frango,
gordura animal a vegetal, carne cozida a crua, açúcares simples aos complexos, dietas com alto
teor de gordura a dietas com baixo teor de gordura, alimentos mornos a alimentos frios ou
demasiadamente quentes, horários regulares para refeição e companhia de outros cães na hora
de se alimentar.
24

Gatos
Felídeos (exceto os leões) geralmente são caçadores solitários e não apresentam
comportamento onívoro, o que nos permite defini-los como carnívoros estritos. Além disso, a
freqüência de alimentação é um fator importante a ser considerado. Como um camundongo
fornece cerca de 30 kcal de energia metabolizável, os gatos podem precisar caçar 8-12 desses
animais para suprir suas necessidades energéticas diárias. E os gatos fazem diversas pequenas
refeições diárias, devendo o alimento ficar disponível a eles durante as 24 horas do dia, já que
restrição de horários pode levar à diminuição de consumo. Rejeitam os alimentos com sabor
doce e com alta concentração de triglicerídeos de cadeia média, mas gostam de peptídeos e
aminoácidos livres como alanina, prolina, lisina, histidina e leucina. São neófobos, ou seja,
tendem a apresentar diminuição do consumo quando ocorre troca de alimento.

O consumo de alimentos

Durante muito tempo, postulou-se que para monogástricos adultos, o consumo de


alimentos é estabelecido, primariamente, pelo conteúdo de energia metabolizável da dieta. Se
existe um aumento da concentração de energia da dieta (com a diminuição da concentração de
fibra ou aumento de lipídeos), o consumo de energia líquida não é alterado, pois se reduz o
consumo de matéria seca dessa dieta. Do mesmo modo, se ocorre uma diminuição da
densidade energética da dieta, com o aumento na concentração de fibra da mesma, espera-se
que o consumo aumente. Este conceito é estendido a todas as espécies de monogástricos,
inclusive cães e gatos; entretanto, a teoria da regulação de consumo somente pelo conteúdo
energético dos alimentos confronta com o crescente número de cães e gatos obesos.

Quando se trabalha com a nutrição de cães e gatos é importante lembrar que


experiências prévias têm um importante papel na escolha do alimento. Assim, a exposição à
flavours e texturas específicas pode influenciar a aceitabilidade. Assim, diversos fatores internos
e externos podem influir no consumo de energia e de alimentos. Dentre os principais sinais 25
internos que afetam o consumo de animais de companhia podem ser citados a distensão
gástrica, a resposta fisiológica ao aspecto e odor do alimento, as mudanças das concentrações
plasmáticas de nutrientes específicos, hormônios e peptídeos. Por sua vez, como fatores
externos podem ser citados a disponibilidade de alimentos, bem como o horário de oferecimento
e sua quantidade, textura, composição e palatabilidade.

Dentre todos estes, a palatabilidade se destaca como fator regulador de consumo em


cães e gatos. Segundo o National Research Council, a palatabilidade pode ser definida como as
propriedades físicas e químicas da dieta que estão associadas com a promoção ou supressão
do comportamento alimentar, durante o período pré-absortivo e imediatamente após o período
pós-absortivo, isto é, uma resposta não condicionada, antes que um efeito metabólico ou
qualquer subseqüente condicionamento na ingestão de alimento ocorra.

Quando oferecidas aos cães dietas com diferentes concentrações de proteína, eles
tenderão a ingerir aquelas em que a proteína supre cerca de 25-30% de suas necessidades
calóricas, dependendo do tipo de proteína e quantidade de carboidratos na dieta. Já os gatos
não são capazes de selecionar os alimentos pela sua concentração protéica, o que faz com que
fatores ligados à palatabilidade conferida pelos aminoácidos e peptídeos sejam mais importantes
na manutenção da adequação nutricional dessa espécie.

Além da palatabilidade, a aversão aprendida a determinadas dietas ou ingredientes é


um fator importante no comportamento alimentar de cães e gatos. Os carnívoros parecem
aprender mais facilmente a não comer algo com gosto ruim do que comer o que tem gosto
agradável. No entanto, os felinos apresentam comportamentos de aversão aprendida para dietas
com baixo sódio apenas em situações de acidose metabólica, não prevenindo a deficiência de
sódio em condições de homeostase.
2.2 Particularidades nutricionais dos felinos

Para fornecer nutrição e alimentação adequada aos felinos deve-se considerar que
estes não podem ser tratados como cães de pequeno porte, já que cães e gatos pertencem a
espécies bem distintas, o que é evidenciado a partir de diferenças fisiológicas, de conduta e
também dietéticas.
Filogeneticamente, embora ambos pertençam à classe Mammalia e a ordem 26
Carnívora, os cães estão situados na superfamília Canoidea enquanto os gatos pertencem à
Feloidea. Na superfamília na qual estão incluídos os cães encontram-se várias famílias com
hábitos alimentares diferentes, por exemplo: a Ursidae (ursos) e Procinidae são onívoras, a
Mustelidae (doninhas) é carnívora e a Ailuridade (pandas), herbívora. Por outro lado, todas as
famílias incluídas na superfamília Felidae são carnívoras estritas. Dentre elas estão a Viverridae
(ginetes), a Hienidae (hiena) e Felidae (gatos). Enquanto a história do cão levou-os a uma dieta
mais onívora na natureza, os gatos tiveram uma alimentação puramente cárnica, o que levou
esses animais a adaptações metabólicas.
Em relação aos carboidratos, os gatos possuem um metabolismo único que os fazem
ter uma semelhança maior com o metabolismo dos ruminantes do que com o dos canídeos. O
fígado da maioria dos animais classificados como onívoros tem duas enzimas, a glicoquinase e a
hexoquinase, que catalisa a fosforilação da glicose a glicose-6-fosfato. A hexoquinase tem uma
baixa Constante de Michaelis (Km) para glicose, enquanto a glicoquinase tem alta Km e opera
principalmente quando o fígado recebe um grande aporte de glicose pela veia porta. Como a
constante corresponde a concentração do substrato em que a velocidade da reação é metade da
velocidade máxima, isso significa dizer que a hexoquinase age em concentrações mais baixas
de glicose, enquanto que a glicoquinase atua em concentrações mais elevadas desta. A
atividade da glicoquinase em gatos é extremamente baixa, enquanto que a atividade da
hexoquinase é normal. Os carnívoros com hábitos onívoros, como o cão, possuem ambas as
enzimas e tem maior tolerância aos carboidratos na dieta. Não possuem amilase salivar, mas
tem amilase pancreática eficiente.
Os requisitos protéicos dos felinos também são maiores do que o dos cães. Isso ocorre
porque esses animais apresentam maiores necessidades para manutenção do tecido corporal
normal do que para o crescimento. Aproximadamente 60% das necessidades protéicas do gato
em crescimento são utilizadas para a manutenção de tecidos e somente 40% empregadas para
o crescimento, diferente dos cães que empregam 35 e 65% para manutenção e crescimento,
respectivamente. Os felinos são incapazes de regular as enzimas hepáticas responsáveis pelo
catabolismo do nitrogênio em função de mudanças na concentração de proteínas na dieta.
Parece que a extensão com que os animais podem aumentar ou diminuir a quantidade
das enzimas do catabolismo de nitrogênio é o que realmente dita a habilidade, por um lado, para
utilizar eficientemente as dietas altas em proteínas e, por outro, de ser capaz de manter o
balanço nitrogenado quando a dieta é baixa em proteína. Desta forma sugere-se que a alta
exigência de proteína para gatos em manutenção é resultado de sua inabilidade em diminuir a 27
ação das enzimas hepáticas que participam do catabolismo do nitrogênio. Assim, animais
onívoros alimentados com dietas ricas em proteínas aumentam a atividade de enzimas que
intervém no catabolismo do nitrogênio para se adaptarem à alta ingestão de proteínas na dieta.
Da mesma forma, baixa ingestão leva à diminuição na atividade dessas enzimas para
conservar o nitrogênio. E isso não ocorre nos gatos. Além da incapacidade das enzimas
catabólicas adaptarem-se às mudanças dos níveis protéicos da dieta, as enzimas que intervêm
no catabolismo do nitrogênio funcionam com índices relativamente elevados de atividade. Isso
faz com que os felinos catabolizem uma quantidade substancial de proteína depois de cada
refeição, independentemente do conteúdo protéico da dieta. Assim, os gatos não conseguem
conservar o nitrogênio.
Outro fator que deve ser considerado é a necessidade de maiores concentrações de
arginina e de taurina. Metabolicamente a arginina é glicogênica e tem outras funções, além do
seu papel na síntese de inúmeras proteínas. É um intermediário no ciclo da uréia, e quando
absorvida com a dieta atua estimulando a síntese de uréia e como ativador alostérico do acetil-
glutamato, que por sua vez é um ativador essencial da carbamoil fosfato sintase, a primeira
enzima na destoxificação de amônia e síntese da uréia. Em geral, a arginina estimula a liberação
de vários hormônios e mediadores metabólicos tais como insulina, glucagon e gastrina, além de
ser um precursor das aminas biogênicas, importantes na replicação celular.
A arginina também é precursora do óxido nítrico, um neurotransmissor envolvido em
muitos sistemas, desde regulação da pressão sanguínea, via relaxamento dos vasos
sangüíneos, até participação na atividade dos macrófagos na destruição dos antígenos (por
exemplo, bactérias e vírus). Muitos estudos têm usado a arginina como agente terapêutico
devido ao seu importante papel na nutrição adequada e na manutenção da saúde.
Em gatos parece haver dois motivos para a sensibilidade à deficiência de arginina: a
incapacidade de sintetizar ornitina de novo e de produzir arginina a partir da ornitina. Na maioria
dos animais, o glutamato e a prolina funcionam como precursores da ornitina na mucosa
intestinal, mas os gatos têm um nível muito baixo da enzima pirrolina-5-carboxilato sintetase
ativa, essencial nessa vida metabólica. Além disso, os felinos não conseguem sintetizar arginina
a partir da ornitina, para ser utilizada pelos tecidos extra-hepáticos mesmo quando existe ornitina
na dieta. Na maioria dos mamíferos, a arginase hepática impede o acúmulo de arginina a níveis
que permitam a sua saída para a circulação sangüínea, mas a citrulina (uma substância
produzida a partir da ornitina) pode viajar até os rins e lá ser convertida a arginina. A mucosa
intestinal do gato não produz citrulina (pela dificuldade em produzir ornitina) e a presente no 28
fígado parece ser incapaz de sair do hepatócito. As principais passagens estão demonstradas na
figura 8.

Figura 8 – Principais vias metabólicas da síntese de arginina e particularidades dos felinos.


Adaptado de Case et al. (1998).

Já a taurina é um ácido β-aminosulfônico (ácido-2-aminoetanosulfônico) e constitui-se


em um nutriente essencial para gatos, mas não para cães alimentados com quantidades
adequadas de aminoácidos sulfurados. É um dos aminoácidos livres mais abundantes em
mamíferos, estando presente particularmente no cérebro, coração e músculo esquelético.
Os gatos são capazes de sintetizar apenas pequenas concentrações de taurina devido
à baixa atividade da cisteína-sulfínico descarboxilase e da via competitiva do metabolismo da
cisteína que origina piruvato ao invés de taurina, a partir de metionina e cisteína. Sua deficiência
resulta em degeneração retiniana central felina e cegueira; cardiomiopatia dilatada e insuficiência
cardíaca; resposta imune inadequada; retardo no crescimento dos neonatos; redução da
capacidade auditiva; dificuldades na reprodução, resultando em menor número de fetos,
reabsorções, abortos, diminuição do peso ao nascimento, baixa taxa de sobrevivência e defeitos
congênitos incluindo hidrocefalia e anencefalia.
No metabolismo da maioria dos mamíferos, o triptofano pode ser utilizado para
sintetizar quantidades limitadas de niacina. Embora seja um processo ineficiente (em que
somente um mg de ácido nicotínico é gerado a partir do triptofano, somente quando este está
presente em grandes quantidades e após as necessidades de proteína e energia terem sido 29
preenchidas) é uma fonte adicional de niacina para esses animais. Um ponto de ramificação da
via metabólica que intervém no metabolismo do triptofano ocasiona a síntese do ácido
quinolínico ou do ácido picolínico. Este é metabolizado a glutamato depois de ter formado a
niacina. Embora as espécies apresentem níveis elevados de atividade da picolino carboxilase
que originam uma maior produção de ácido picolínico, uma quantidade importante de niacina é
produzida. No entanto, a atividade dessa enzima no gato é cerca de 30-50 vezes superior em
relação aos ratos o que leva a uma síntese muito limitada de niacina a partir do triptofano.
Quanto ao metabolismo de lipídeos, os felinos não conseguem realizar a conversão de
ácido linoléico em araquidônico devido a uma deficiência enzimática. Só os cães conseguem
realizar essa conversão. Isto porque a transformação de ácido linoléico para os precursores de
prostaglandina, dihomo-gama-linolênico e araquidônico, depende da atividade das enzimas
delta-5 e delta- 6 dessaturase, que estão presentes em concentração baixa (delta 6) ou que
possuem atividade reduzida nos felinos (delta 5). Os tecidos animais são ricos em ácido
araquidônico e por esse motivo, gatos precisam recebê-los na dieta.
Finalmente, quanto ao metabolismo de vitaminas, além da maior exigência em niacina
pela incapacidade de conversão a partir do triptofano, os gatos apresentam maior necessidade
de piridoxina (pelas exigências mais altas de proteína, já que essa vitamina participa ativamente
do metabolismo protéico). Além disso, são incapazes de converter o beta caroteno em vitamina.
3 ENERGIA E NUTRIENTES

Antes de iniciarmos o estudo das necessidades nutricionais e das características dos


alimentos utilizados na nutrição e alimentação dos animais de companhia, é necessário que se
faça uma breve revisão dos princípios básicos da nutrição, ressaltando as características
particulares de cães e gatos. 30
De forma geral podemos dizer que o termo nutrição se refere ao estudo dos alimentos,
assim como dos nutrientes e outros componentes que estes contenham. Isto inclui o estudo da
ação dos nutrientes específicos, suas interações e seu equilíbrio na dieta. Além disso, a ciência
da nutrição inclui o exame do modo como o animal ingere, digere, absorve e utiliza os nutrientes.
Nutriente seria qualquer substância que, administrada ao organismo, participe dos processos
metabólicos normais e contribua para a manutenção da vida. Nenhum nutriente, isoladamente,
consegue promover a manutenção dos processos metabólicos normais de um animal, assim
como existem nutrientes que, tomados de forma isolada, não podem ser conceituados como
alimento.
Por sua vez, a definição conceitual de alimentação seria a ação fisiológica de ingerir,
por vontade própria, substâncias que assegurem, pelo menos, a manutenção da vida. Por
conseqüência, alimento pode ser definido como toda a substância que, ingerida por vontade
própria, elimine a fome, contribuindo com pelo menos um nutriente básico. Assim, alimentos
contêm nutrientes (em maior ou menor quantidade) que, quando combinados em proporções
adequadas para cada espécie, constituem a dieta.

A seguir, apresentaremos as principais informações a respeito da energia e dos


princípios nutritivos (água, proteína, lipídeos, carboidratos, vitaminas e minerais).

Energia

À exceção da água, a energia é o componente mais importante a se considerar em


uma dieta. As plantas obtêm a sua energia da radiação solar, transformando-as em nutrientes
que contêm energia. Alguns animais consomem plantas e delas utilizam diretamente a energia
ou então os seus nutrientes em outras moléculas energéticas. A energia não é por si só um
nutriente, mas uma propriedade obtida a partir da oxidação de três nutrientes: gorduras
(lipídeos), carboidratos e proteínas. Nas plantas, os carboidratos constituem a principal forma de
energia armazenada ao passo que nos animais a principal forma de armazenamento são os
lipídeos. A energia é necessária para que o trabalho metabólico do organismo ocorra, incluindo a
manutenção e a síntese de tecidos orgânicos, a atividade física e a regulação da temperatura
corporal.

Dessa forma, a principal demanda a ser satisfeita pelo animal é a calórica e somente
após o atendimento dessas exigências é que os nutrientes são direcionados a outras funções. A 31
energia é assim uma propriedade de alguns nutrientes e pode ser mensurada a partir da
produção de calor, sendo expressa em duas unidades: quilocalorias (Kcal) ou quilojoules (KJ),
onde uma caloria equivale a 4,184 KJ. No Brasil, a unidade de medida mais comumente utilizada
é a de Kcal.

Os cães e gatos precisam de energia para suportar o metabolismo durante a


manutenção, o crescimento, a reprodução, a lactação e a atividade física. Na ausência de
energia adequada, o desempenho animal será regular, e haverá uma depleção de energia e dos
estoques de nutrientes.

No entanto, o aproveitamento de energia por qualquer espécie animal nunca é de


100%. Durante a oxidação dos nutrientes, ocorrem perdas nas fezes, na urina, nos gases
provenientes de fermentação e no próprio metabolismo (incremento calórico) o que faz com que
a eficiência de utilização seja diferente, dependendo do alimento e da capacidade que o sistema
digestivo daquela espécie tem em utilizá-lo. Dessa forma, a partição energética leva à
classificação da energia em energia bruta, digestível, metabolizável e líquida.

A energia bruta (EB) é definida como a energia química total proveniente da


combustão completa do alimento em bomba calorimétrica. Por sua vez, a energia digestível (ED)
é aquela disponível para ser absorvida pela mucosa intestinal, e é obtida descontando as perdas
de energia através das fezes (ED= EB- energia das fezes). Já a energia metabolizável (EM), é
aquela disponível para ser utilizada pelos tecidos do organismo e considera as perdas adicionais
de energia na urina. As perdas pela produção de gases no trato digestivo também deveria ser
considerada nesta fase.

No entanto, em cães e gatos, esta perda é mínima e geralmente não é registrada;


assim, EM= ED- energia da urina. A EM pode ser dividida naquela pura que realmente poderá
ser utilizada pelo organismo e a energia perdida durante a termogênese dietética (energia que o
animal utiliza para metabolizar os nutrientes). A energia líquida (EL) considera as perdas
oriundas da termogênese dietética e constitui a energia necessária para a manutenção de
tecidos (metabolismo basal) e para a produção (crescimento, gestação, lactação e atividade
física). Em cães e gatos, utilizam-se os sistemas que consideram a energia digestível e
metabolizável, já que aqueles que consideram a determinação de energia líquida são
procedimentos complexos e o número de dados desta, em animais de companhia, é bastante
32
limitado. O esquema de partição energética está demonstrado na figura 9:

Figura 9- Partição da energia

Por algum tempo considerou-se que o conteúdo de energia de um alimento era o


principal fator que regulava o seu consumo. No entanto, devido aos diversos fatores internos e
externos que exercem influência sobre a ingestão voluntária de cães e gatos, dentre os quais
merece especial destaque a palatabilidade, este fator passou a exercer menor importância na
quantidade de alimentos ingerida por cães e gatos. Por esse motivo, é fundamental que a
alimentação de animais de companhia seja controlada, especialmente daqueles alimentos que
possuem uma concentração energética muito alta, já que o consumo de quantidades de energia
maior que as necessidades, pode levar a sobrepeso e à obesidade.
Ressaltamos no início do curso que a nutrição pode ser dividida basicamente em dois
grandes blocos: o da avaliação dos alimentos e o das exigências nutricionais das espécies, já
que a partir dessas duas informações conseguimos determinar o quanto de um determinado
alimento um animal deve consumir. A exigência energética de cães e gatos em cada uma das 33
fases fisiológicas será tema do próximo módulo. Focaremos agora nosso estudo na avaliação do
conteúdo de energia de alimentos para animais de companhia.
Duas maneiras são possíveis para a determinação da concentração energética de uma
dieta: a realização de ensaios com animais ou equações de predição.

3.1 Protocolo mínimo para a determinação da energia metabolizável a partir de ensaios


com animais

Há duas metodologias para determinar a concentração energética de alimentos para


cães e gatos quando se realiza ensaios com animais: a coleta total e o uso de indicadores.
No entanto, antes de saber como se determina a energia metabolizável de um
alimento, é preciso que se entenda o que é e como calcular a digestibilidade dos nutrientes, já
que a digestibilidade da proteína é utilizada para determinação da energia metabolizável quando
não se coleta a urina, conforme veremos adiante.
Entende-se por digestibilidade uma medida de qualidade da dieta que determina de
forma direta qual a proporção de nutrientes disponíveis para a absorção pelo organismo. Da
mesma forma que ocorre com a energia, são consideradas as perdas de nutrientes nas fezes e
por diferença calcula-se a quantidade assimilada. Quando esses resultados são expressos em
porcentagem, obtemos o chamado “coeficiente de digestibilidade”. Este valor é denominado de
aparente já que as fezes contêm alguns resíduos metabólicos que são provenientes do animal e
não da dieta. A digestibilidade verdadeira pode ser determinada descontando-se a perda
metabólica de nutrientes observada nas fezes. Para tanto, normalmente, faz-se isso submetendo
os animais ao jejum ou fornecendo a eles uma dieta livre de proteína. A digestibilidade
verdadeira é uma medida mais precisa, mas normalmente a maioria das pesquisas utiliza os
valores de digestibilidade real, por serem mais facilmente obtidos e não exigirem métodos que
causem desconforto aos animais experimentais.
A seguir, no quadro 1, há um exemplo de como determinar a digestibilidade aparente
da matéria seca e da proteína bruta, extraído de Carciofi et al. (2006).

Quadro 1- Cálculo da digestibilidade aparente de nutrientes (coleta total)


Um cão foi submetido a um ensaio tendo sido obtido os seguintes resultados:

Consumo total de ração (a)= 1200 g


Excreção fecal (b) = 240 g 34
Proteína bruta da ração (c) = 24%
Proteína bruta das fezes (d) = 20%

Coeficiente de digestibilidade aparente da matéria seca (CDAMS)


CDAMS= [a-b] x 100
a
CDAMS = [1200-240] x 100 = 80%
1200

Coeficiente de digestibilidade aparente da proteína bruta (CDAPB)


CDAPB = [(c x a) – (d x b)] x 100
(c x a)
CDAPB = [(24 x 1200) – (20 x 240)] x 100 = 83,3%
(24 x 1200)

Para os demais nutrientes, o cálculo é o mesmo, devendo-se apenas substituir a


concentração de PB pela concentração do nutriente de interesse.
Fonte: Carciofi et al. (2006).

Todos os valores realizados devem ser colocados na matéria seca, porção de alimento
e fezes que contém os nutrientes e a energia. O restante corresponde à água. Assim, se um
animal comeu 1320 g de um alimento que contém 90 % de matéria seca, ou seja, 10% de
umidade, isto significa que ele ingeriu, na realidade, cerca de 1200 g de matéria seca.
Por sua vez, a expressão do conteúdo dos nutrientes na matéria seca do alimento
permite que nós façamos comparações entre alimentos que contenham teores de umidade
distintos. Por exemplo, se digo que uma ração úmida (com cerca de 80% de água) tem 6% de
proteína e, uma seca (cerca de 10% de água) tem 26%, pareceria à primeira vista que elas
teriam concentrações muito distintas deste nutriente. Devemos considerar, no entanto, que a
água age como um diluente e se convertermos a proteína para a matéria seca encontraremos
teores de 29% para a ração seca e 30% para a ração úmida (quadro 2).
Quadro 2- Correção dos teores de proteína para a matéria seca
Ração seca

10% umidade (90 % matéria seca)


26% proteína na matéria natural

26 ------- 90 35
x ------- 100 = x= 26 x100/90 = 28,89% de proteína na matéria seca

Ração úmida

80% umidade (20 % matéria seca)


6% proteína na matéria natural

6 ------- 20
x ------- 100 = x= 6x100/20 = 30% de proteína na matéria seca

É claro que o consumo dessas rações será bem distinto, já que a concentração
energética, assim como a dos nutrientes, é menor no alimento úmido (como será visto adiante e
no próximo módulo). Mas, não há como comparar alimentos com teores distintos de umidade
sem realizar a conversão para a matéria seca.
Feitas essas considerações, a seguir estarão descritos os protocolos para
determinação da energia metabolizável a partir de ensaio com animais, segundo descrito por
Carciofi et al. (2006). As indústrias de alimentos comerciais para cães e gatos normalmente
realizam esses testes para verificar a digestibilidade de suas dietas e determinar o conteúdo de
energia metabolizável.
No método de coleta total, a primeira etapa neste processo é o recebimento e a
identificação da amostra. Os dados referentes ao alimento, tais como tipo, espécie e fase da vida
para o qual é destinado, devem ser anotados, juntamente com a marca, fabricante, lote e data de
fabricação da ração. Devem-se anotar os níveis de garantia de nutrientes e a lista de
ingredientes presente no rótulo da ração, além de verificar e anotar as condições do produto, tais
como odor, cor, aspecto, uniformidade, presença de contaminantes e presença de finos no saco.
Posteriormente, amostra-se cerca de 500 g do alimento, devidamente identificado e vedado que
será utilizado para a realização das análises laboratoriais.
Os animais utilizados no teste (seis no mínimo) devem estar clinicamente sadios,
sendo desverminados e vacinados. Para a determinação da energia metabolizável mediante a
coleta de urina, os animais deverão ser mantidos em gaiolas metabólicas individuais, de inox,
durante todo o período experimental. Caso a urina não seja coletada e a energia metabolizável 36
seja estimada com base nos fatores de correção para a perda urinária (conforme será visto a
seguir). Os animais poderão ser mantidos em gaiolas individuais equipadas com grade no fundo
que permita a separação de fezes e urina, além de permitir a coleta quantitativa segura de fezes,
admitindo-se também o uso de baias que permitam a coleta das fezes não contaminadas.
O protocolo é dividido em duas fases, sendo chamadas de adaptação e coleta. O
período de adaptação é composto por um tempo mínimo de cinco dias, tendo por objetivo
adaptar o animal à dieta, à gaiola, ajustar a ingestão de alimento e, quando necessário, verificar
a manutenção do peso corporal. A fase de coleta deve constar de no mínimo 120 horas para
cães e de sete dias para gatos. Durante este dia, toda a produção de fezes e/ou urina devem ser
quantificadas e recolhidas. Na fase de coleta o consumo alimentar deve ser rigorosamente
mensurado e registrado. O consumo alimentar deverá permanecer constante durante essa
última fase, de forma a evitar variações de excreção.
Para a fase de adaptação devem-se pesar os animais que participarão do ensaio e
anotar o peso em local apropriado, junto com os dados e nome do mesmo. A quantidade de
alimento fornecida a cada animal pode ser baseada na quantidade necessária para manter o
peso corporal ou estimada segundo as necessidades energéticas de manutenção, utilizando-se
os procedimentos recomendados pelo NRC (2006) uma associação norte-americana de
pesquisadores que determina as exigências nutricionais de diversas espécies, incluindo cães e
gatos e que serão detalhadas no módulo 3. e que serão detalhadas no módulo 3. A quantidade
diária de alimento pode ser fornecida uma vez ao dia ou dividida em duas porções. Deve-se
alimentar os animais sempre no mesmo horário ao longo do ensaio e a água deve estar
disponível durante todo o período. Se, na adaptação, o alimento for rejeitado pelos animais ou a
maior parte não consumir 75% da quantidade recomendada, o teste deverá ser interrompido.
Para ensaios com ração semi-úmida e úmida, deve ser recolhida quantitativamente e
armazenada em freezer (-15°C). Ao final do procedimento estas deverão ser homogeneizadas e
sua matéria seca determinada. Esta sobra da matéria seca deverá ser empregada no cálculo da
ingestão de ração.
Por sua vez, na fase de coleta, a quantidade fornecida e as sobras devem ser pesadas
em balança de precisão de no mínimo 0,01 g. As fezes devem ser coletadas no mínimo duas
vezes ao dia, mas preferencialmente à medida que os animais defecarem, pesadas,
armazenadas em saco plástico e congeladas para posterior análise de matéria seca e
composição. Os frascos coletores de urina devem conter 1 ml de ácido sulfúrico 1Eq/L, com a 37
finalidade de evitar a deterioração da amostra, ter o volume medido e congelado para posterior
análise. Se não houver possibilidade de coleta da urina, podem ser utilizados fatores de correção
para estimar as perdas, sendo estes de 1,25 ou 0,86 Kcal/g de proteína digestível ingerida
(PDing), para cães e gatos, respectivamente.
Seguindo o exemplo proposto anteriormente para avaliar a digestibilidade de
nutrientes, nos quadros 3 e 4, estão demonstrados os cálculos da energia metabolizável
aparente, com e sem colheita de urina, respectivamente.

Quadro 3- Cálculo de Energia Metabolizável Aparente (EMA) com colheita de urina


Um cão foi submetido a um ensaio tendo sido obtido os seguintes resultados:
Consumo total de ração (a)= 1200 g
Excreção fecal (b) = 240 g
Energia bruta da ração (c) = 4,2 kcal/g
Energia bruta da urina (d) = 0,5 kcal/mL
Volume de urina (e) = 400 mL
Energia bruta das fezes (f) = 3,2 kcal/g
EMA (kcal/g) = (ax c) – [(bx f) + (d x g)]
a
EMA (kcal/g) = (1200 x 4,2) – [(240 x 3,2)]+ (0,5 x 400)] = 3,39 kcal/g ou 3390 kcal/kg
1200
Fonte: Carciofi et al. (2006).
Quadro 4- Cálculo de Energia Metabolizável Aparente (EMA) sem colheita de urina
Um cão foi submetido a um ensaio tendo sido obtido os seguintes resultados:
Consumo total de ração (a)= 1200 g
Excreção fecal (b) = 240 g
Energia bruta da ração (c) = 4,2 kcal/g
Energia bruta das fezes ( d ) = 3,2 kcal/g
Fator de correção (e), segundo a AAFCO (2004) = cães: 1,25 kcal/g de proteína 38
digestível ingerida (PDing) e gatos: 0,86 1,25 kcal/g de PDing
EMA (kcal/g) = (ax c) – [(bx d) + ( e x proteína digestível ingerida)]
a
PDing = [a x (c/100)] x (CDAPB/100)
PDing = [1200 x (24/100)] x (83,33/100) = 239,9 g
EMA (kcal/g) = (1200x 4,2) – [(240x 3,2) + ( 1,25 x 239,9)] = 3,31 kcal/g ou 3310 kcal/kg
1200
Fonte: Carciofi et al. (2006).

Diferente da coleta total, o método com uso de indicadores exige o preparo do alimento
para o teste. Quando a ração a ser empregada, já se encontrar extrusada, deve-se calcular a
quantidade de alimento necessário para realização do ensaio, moendo com peneira de 2,5 mm
ou maior. Peneiras menores não devem ser utilizadas quando os produtos comerciais forem
empregados no teste, pois uma moagem mais fina do produto em teste pode involuntariamente
elevar a sua digestibilidade, levando a um resultado incorreto. Deve-se pesar exatamente a
quantidade de ração obtida após a moagem e calcular a quantidade de óxido crômico a ser
adicionada. Sugere-se adição de 0,25% a 0,35% de óxido crômico. Deve-se pesar a quantidade
de indicador necessária para a adição na ração e guardar uma amostra de 2 g para uso nas
análises laboratoriais, separando parte da ração moída em um recipiente (cerca de 5 Kg) e
peneirando sobre ela o óxido crômico, em peneira fina, de forma a desfazer todos os grumos. À
medida que o cromo é peneirado sobre a ração, deve ser misturado, para evitar a formação de
novos grumos.
Deve-se colocar a ração farelada e o conteúdo do recipiente (ração pré- misturada ao
óxido crômico) no misturador e efetuar a mistura final do óxido crômico à ração. Depois, retirar
500 g de ração e armazenar em saco plástico apropriado devidamente identificado. Esta amostra
será empregada para as determinações laboratoriais para o cálculo de digestibilidade e energia
metabolizável. Quando o indicador for adicionado ao produto antes da extrusão, este deverá ser
homogeneizado à pré-mistura dos ingredientes da ração e posteriormente extrusado, juntamente
com o produto.
O procedimento experimental incluindo o número mínimo de animais, fase de
adaptação e de coleta, é semelhante ao do método de coleta total, com as seguintes
particularidades: não é necessário colher todo o material fecal e nem quantificar o conteúdo 39
alimentar, a ração farelada e misturada ao cromo deve ser fornecida aos animais, umedecida em
água na forma pastosa. Gatos se recusam a ingerir o alimento dessa forma, sendo preferível
para estes animais a utilização da coleta total ou a mistura do óxido crômico à ração antes da
extrusão, e o óxido crômico contido nas fezes e no alimento deve ser quantificado por
colorimetria ou espectrofotometria de absorção atômica. No quadro 5 e 6 está demonstrada a
determinação da digestibilidade dos nutrientes e da energia metabolizável, respectivamente, com
o uso de indicador.

Quadro 5- Cálculo da digestibilidade aparente de nutrientes (método do indicador)


Um cão foi submetido a um ensaio tendo sido obtido os seguintes resultados:

Óxido crômico na ração (a)= 0,35%


Óxido crômico nas fezes (b) = 2,1%
Proteína Bruta da ração (c)= 24%
Proteína Bruta das fezes (d)= 20%

Coeficiente de digestibilidade aparente da matéria seca (CDAMS)

CDAMS (%) = (1-a) x 100


b
CDAMS (%) = (1-0,35) x 100 = 83,34%
2,1

Coeficiente de digestibilidade aparente da proteína bruta (CDAPB)

CDAPB (%) = 100 – [100x (a) x (d)]


b c
CDAPB (%) = 100 – [100x (0,35) x (20)] = 86,11%
2,1 24

Para os demais nutrientes, o cálculo é o mesmo, devendo-se apenas substituir a


concentração de PB pela concentração do nutriente de interesse.
Fonte: Carciofi et al. (2006).

Quadro 6- Cálculo de Energia Metabolizável Aparente (EMA) sem colheita de urina


40
Um cão foi submetido a um ensaio tendo sido obtido os seguintes resultados:
Óxido crômico na ração (a)= 0,35%
Óxido crômico nas fezes (b) = 2,1%
Proteína Bruta da ração (c)= 24%
Proteína Bruta das fezes (d)= 20%
Energia bruta da ração (e) = 4,2 kcal/g
Energia bruta das fezes (f) = 3,2 kcal/g
Fator de correção (g), segundo a AAFCO (2004) = cães: 1,25 kcal/g de proteína
digestível ingerida (PDing) e gatos: 0,86 1,25 kcal/g de PDing

EMA (kcal/g) = ED – [(PD/100) x g]


Onde; ED- Energia digestível; PD- proteína digestível

ED = [1- (a) x (f)] x e


b e

ED = [1- (0,35) x (3,2)] x 4,2 = 3,6


2,1 4,2

PD = [1- (a) x (d)] x c


b c

PD = [1- (0,35) x (20)] x 24 = 20,68


2,1 24

Então:

EMA (kcal/g) = ED – [(PD/100) x g]


EMA (kcal/g) = 3,6 – [(20,68/100) x 1,25] = 3,34 kcal/g ou 3340 kcal/kg de alimento.
Fonte: Carciofi et al. (2006).
Através destes protocolos é que se determina a concentração energética de um
alimento utilizando-se ensaios com animais.

3.2 Determinação de energia metabolizável de um alimento a partir do uso de equações de


predição:

Em alguns casos, o valor de energia metabolizável não está presente nos rótulos das 41
dietas destinadas aos animais de companhia. E, como a necessidade de energia determina qual
é o consumo do animal, é primordial saber quanto de energia metabolizável um alimento possui.
Por esse motivo, algumas equações foram desenvolvidas para esse fim. No entanto, é primordial
que se saiba que uma equação só se ajusta adequadamente ao alimento se ele apresentar
digestibilidade semelhante àquela com os quais a equação foi obtida.
Os valores de energia metabolizável podem ser determinados a partir do conteúdo de
carboidratos, lipídeos e proteína bruta de um determinado alimento. A primeira equação de
predição foi obtida por Robner em 1901 para cães alimentados com carne e vísceras; seus
fatores foram mais tarde modificados por Atwater (1902). Os fatores de 4 para proteína, 9 para
gordura e 4 kcal/g para carboidratos (ENN) ainda funcionam relativamente bem para cães,
quando ingredientes caseiros são utilizados: carne, vísceras (exceto ossos e farinha de ossos),
frango, peixe, produtos de amido altamente purificados, produtos lácteos. Nesses alimentos, os
ENN são basicamente açúcares ou amido. Os fatores de Atwater devem ser utilizados com
alimentos altamente digestíveis, como os substitutivos do leite e alimentos líquidos para a
nutrição enteral. Considerando-se os valores de energia bruta de 4,1 kcal/g para carboidratos,
9,4 kcal/g para gordura e 5,7 kcal/g para proteína e mais uma perda urinária de 1,25 de PD, os
fatores de Atwater consideram uma digestibilidade de 98% para carboidratos, 96% para gordura
e 90% para proteína e são 4, 9 e 4, respectivamente.

No entanto, quando os fatores de Atwater são aplicados em dietas padrões para cães,
eles superestimam os fatores de energia metabolizável da dieta. Dessa forma, esses fatores
foram modificados de acordo com a digestibilidade das dietas aos quais foram aplicados.

Por esse motivo, foram criados os fatores modificados de Atwater (3,5 para proteína e
carboidratos e 8,5 kcal/g para gordura) que são na maior parte derivados de alimentos
comerciais padrões típicos disponíveis no mercado na década de 1970 e início da década de
1980, mas que também podem super ou subestimar o conteúdo energético de muitos alimentos
atuais. Esses fatores podem ser aplicados para dietas que contenham digestibilidade, como a de
alimentos padrão, já que consideram coeficientes de digestibilidade de 80, 90 e 85% para
proteína, lipídeos e carboidratos, respectivamente.

Os fatores e os coeficientes de digestibilidade das fórmulas de Atwater e de Atwater


modificado estão demonstrados no quadro 7.

42

Quadro 7- Fatores de Atwater e Atwater modificado e seus coeficientes de digestibilidade

Coeficiente de Coeficiente de
digestibilidade digestibilidade Fator de Atwater
Nutriente Fator de Atwater
dos alimentos dos alimentos modificado
para humanos para animais

91% 4 kcal/g 80% 3,5 kcal/g


Proteínas
96% 9 kcal/g 90% 8,5 kcal/g
Lipídeos Carboidratos
96% 4 kcal/g 85% 3,5 kcal/g

Fonte: Case et al. (1998)

Para calcular a fração carboidrato (ENN) a ser utilizada nessas fórmulas, é necessário
que se conheça os níveis de umidade, proteína bruta, extrato etéreo, fibra bruta e matéria
mineral do alimento. Ele é o resultado da seguinte subtração: 100 – (umidade+ proteína bruta +
extrato etéreo + fibra bruta + matéria mineral). Assim, se um rótulo diz que uma ração para gatos
contém 12 % de umidade, 10% de extrato etéreo, 30% de proteína bruta, 4% de fibra bruta e
10% de matéria mineral, ele terá 34% de ENN (extrativos não nitrogenados, ou seja,
carboidratos), já que o ENN = 100- (12+10+30+ 4+10).
No entanto, atualmente, existe no mercado um grande número de alimentos com
digestibilidades variando de menos de 70 a mais de 90%, o que não permite o uso de uma única
equação com fatores para macronutrientes. A variação na digestibilidade não é menor dentro de
uma mesma categoria de alimentos (seco, úmido ou semi-úmido), dessa forma o uso de
equações diferenciadas para cada categoria não resolve o problema. Algumas equações têm
utilizado a concentração de energia bruta ou fibra (fibra bruta, fibra dietética total ou fibra total)
para predizer a digestibilidade da energia. O uso do conteúdo de fibra bruta em equações para a
predição da digestibilidade da energia abrange uma grande variedade de alimentos preparados
para cães e gatos (quadros 8 e 9). No entanto, em alimentos com um conteúdo de fibra acima de
8% na matéria seca e com uma alta porcentagem de polissacarídeos não amiláceos na fração
de fibra bruta, os valores são sistematicamente subestimados.
43

Quadro 8- Equações de predição da energia metabolizável (EM) em alimentos para cães


Para alimentos não processados ou comida caseira, tais como carnes, vísceras,
produtos lácteos, fontes de amido cozidos, produtos altamente digestíveis (>90%), tais como
substitutivos do leite ou dietas enterais:
EM (kcal/g) = (4 x g de proteína) + (9 x g de gordura) + (4 x g de ENN)
Alimentos comerciais:
Passo 1- Determinar a energia bruta por bomba calorimétrica ou através da seguinte
equação:
EB (kcal/g) = (5,7 x g de proteína) + (9,4 x g de gordura) + [4,1 x (fibra bruta + ENN)]
Passo 2- Determinar a porcentagem de digestibilidade da energia (DE) a
DE (%) = 91,2 – (1,43 x % FB na matéria seca)
Passo 3 - Determinar a energia digestível (ED)
ED (kcal/g) = (EB x % DE/100)
Passo 4 - Determinar a energia metabolizável (EM)
EM (kcal/g) = ED- (1,04 x g proteína)
aEquação alternativa usando fibra dietética total: DE (%) = 96,6 – (0,95 x % FB na matéria seca)
Fonte: National Research Council (2006).

Quadro 9- Equações de predição da energia metabolizável (EM) em alimentos para gatos


Para alimentos não processados ou comida caseira, tais como carnes, vísceras,
produtos lácteos, fontes de amido cozidos, produtos altamente digestíveis (>90%), tais como
substitutivos do leite ou dietas enterais:
EM (kcal/g) = (4x g de proteína) + (9 x g de gordura) + (4 x g de ENN)
Alimentos comerciais:
Passo 1- Determinar a energia bruta por bomba calorimétrica ou através da seguinte
equação:
EB (kcal/g) = (5,7 x g de proteína) + (9,4 x g de gordura) + [4,1 x (fibra bruta + ENN)]
Passo 2- Determinar a porcentagem de digestibilidade da energia (DE)a
DE (%) = 87,9 – (0,88 x % FB na matéria seca)
Passo 3 - Determinar a energia digestível (ED)
ED (kcal/g) = (EB x % DE/100) 44
Passo 4 - Determinar a energia metabolizável (EM)
EM (kcal/g) = ED- (0,77 x g proteína)
aEquação alternativa usando fibra dietética total: DE (%) = 95,6 – (0,89 x % FB na matéria seca)
Fonte: National Research Council (2006).

Atualmente, tem-se recomendado a utilização das fórmulas propostas pelo NRC (2006)
para a determinação da energia metabolizável: a de Atwater modificado para alimentos caseiros
e não processados e aquela a partir da energia bruta para os comerciais. O guia nutricional da
Associação Nacional dos Fabricantes de Alimento pet propõe isso. No entanto, por questões
práticas, pode ser utilizada a de Atwater modificado, dependendo da digestibilidade estimada da
ração, ou seja, se ela é compatível com os coeficientes adotados por essa equação (de 80-90%,
o que podemos supor a partir da composição básica do produto).
Tomando como exemplo os níveis de garantia da ração para gatos citada
anteriormente e de outra mais úmida para a mesma espécie, vamos determinar o conteúdo de
energia metabolizável utilizando as três fórmulas apresentadas:

Nível de garantia do produto:


Seco
12% de umidade (máx.), 10% de extrato etéreo (mín.), 30% de proteína bruta (mín.),
4% de fibra bruta (máx.) e 10% de matéria mineral (máx.) e 34% de ENN (calculado).
Úmido
80% de umidade (máx.), 3% de extrato etéreo (mín.), 8% de proteína bruta (mín.),
1,5% de fibra bruta (máx.) e 2,5% de matéria mineral (máx.) e 5% de ENN (calculado).
1ª equação: Atwater
EM (kcal/100 g) = (PB x 4) + (EEx 9) + (ENN x 4),
onde PB=proteína bruta, EE= extrato etéreo e ENN = extrativo não nitrogenado

Seco
EM (kcal/100 g) = (30 x 4) + (10 x 9) + (34 x 4) = 120 + 90 + 136 = 346 kcal/100g ou
3460 kcal/kg. 45
Note que por utilizarmos os valores de 30, 10 e 34, que estão expressos em
porcentagem, obtivemos o valor em kcal/100g. Se tivéssemos utilizado gramas de nutriente por
grama de alimento (0,3, 0,1 e 0,34) obteríamos o valor de 3,46 kcal/g. Normalmente, os valores
são expressos em kcal/kg; nesse caso basta multiplicar o valor obtido por 10 (se utilizarmos
valores expressos em %) ou por 1000 (se usarmos o valor de g do nutriente).

Úmido
EM (kcal/100 g) = (PB x 4) + (EEx 9) + (ENN x 4),
onde PB=proteína bruta, EE= extrato etéreo e ENN = extrativo não nitrogenado
EM (kcal/100 g) = (8 x 4) + (3 x 9) + (5 x 4) = 32 + 27 + 20 = 79 kcal/100g ou 790
kcal/kg.

2ª equação: Atwater modificado


Seco
EM (kcal/100 g) = (PB x 3,5) + (EEx 8,5) + (ENN x 3,5),
onde PB=proteína bruta, EE= extrato etéreo e ENN = extrativo não nitrogenado

EM (kcal/100 g) = (30 x 3,5) + (10 x 8,5) + (34 x 3,5) = 105+ 85+ 119 = 309 kcal/100g
ou 3090 kcal/kg.
Note que por utilizarmos os valores de 30, 10 e 34, que estão expressos em
porcentagem, obtivemos o valor em kcal/100g. Se tivéssemos utilizado gramas de nutriente por
grama de alimento (0,3, 0,1 e 0,34) obteríamos o valor de 3,09 kcal/g. Normalmente, os valores
são expressos em kcal/kg; nesse caso basta multiplicar o valor obtido por 10 (se utilizarmos
valores expressos em %) ou por 1000 (se usarmos o valor de g do nutriente).
Úmido
EM (kcal/100 g) = (PB x 3,5) + (EEx 8,5) + (ENN x 3,5),
onde PB=proteína bruta, EE= extrato etéreo e ENN = extrativo não nitrogenado

EM (kcal/100 g) = (8 x 3,5) + (3 x 8,5) + (5 x 3,5) = 28 + 25,5 + 17,5 = 71 kcal/100g ou


710 kcal/kg.
46
3ª equação: NRC 2006
Seco
EB (kcal/g) = (5,7 x 0,3) + (9,4 x 0,1) + [4,1 x (0,04 + 0,37)] = 1,71+ 0,94 + 1,681 =
4,331 kcal/g ou 4331 kcal/kg

DE (%) = 87,9 – (0,88 x % FB na matéria seca)


DE (%) = 87,9 – (0,88 x 4,55*) = 87,9-4,004 = 83,9%

* Fibra bruta na matéria natural = 4% 88 % de matéria seca (100-12% umidade)

Fibra bruta na matéria seca = x 100% de matéria seca


X= 4,55% de FB na matéria seca

ED (kcal/g) = (EB x % DE/100)


ED (kcal/g) = (4,331 x 83,9/100) = 3,634 kcal/g ou 3634 kcal/kg

EM (kcal/g) = ED- (0,77 x g proteína)


EM (kcal/g) = 3,634- (0,77 x 0,3)= 3,634- 0,231 = 3,403 kcal/g ou 3,403 kcal/kg

Úmido
EB (kcal/g) = (5,7 x g de proteína) + (9,4 x g de gordura) + [4,1 x (fibra bruta + ENN)]
EB (kcal/g) = (5,7 x 0,08) + (9,4 x 0,03) + [4,1 x (0,015 + 0,05)] = 0,456+ 0,282 + 0,2665= 1,005
kcal/g ou 1005 kcal/kg

DE (%) = 87,9 – (0,88 x % FB na matéria seca)


DE (%) = 87,9 – (0,88 x 7,5*) = 87,9-6,6 = 81,3%
* Fibra bruta na matéria natural = 1,5% 20 % de matéria seca (100-80%
umidade)
Fibra bruta na matéria seca = x 100% de matéria seca

X= 7,5% de FB na matéria seca


ED (kcal/g) = (EB x % DE/100)
ED (kcal/g) = (1,005 x 81,3/100) = 0,817 kcal/g ou 817 kcal/kg 47
EM (kcal/g) = ED- (0,77 x g proteína)
EM (kcal/g) = 0,817- (0,77 x 0,08)= 0,817- 0,0616 = 0,755 kcal/g ou 755 kcal/kg

Conforme pôde ser observado, tanto para a ração úmida quanto para a seca, a
equação de Atwater modificado subestimou a energia metabolizável e a de Atwater levemente
superestimou em relação à nova adotada pelo NRC 2006.

3.3 Densidade energética

Como o consumo do animal é baseado nas suas necessidades de energia é preciso


que todos os outros nutrientes estejam contidos naquela porção de alimento que o cão ou o gato
irá ingerir. Define-se como densidade energética a quantidade de calorias que um determinado
alimento possui por unidade de peso, normalmente por quilo. Se a densidade energética é
demasiadamente baixa, a ingestão pode ser limitada pelo trato gastrointestinal, causando uma
deficiência energética. Além disso, se os nutrientes não estão balanceados com a energia, um
consumo insuficiente de proteína, lipídeos, vitaminas, minerais e demais nutrientes vai
acontecer.
Os teores de nutrientes descritos no guia da Association of American Feed Countrol
Officials de 2007 (uma organização composta por membros especialistas de toda América do
Norte que tem como objetivo esclarecer e uniformizar as regras federais e estaduais. As quais
regem a indústria de alimentos para animais naquela região) prevêem uma densidade energética
de 3500 e 4000 kcal EM/kg na matéria seca de dieta para cães e gatos, respectivamente. Muitos
alimentos terão estas concentrações energéticas e nesse caso não é necessário fazer a
correção para a energia. No entanto, algumas rações possuem os valores consideravelmente
maiores de calorias. Nestes casos, os animais precisarão consumir menos para atender as suas
necessidades e os outros nutrientes devem então ser ajustados, aumentando
proporcionalmente, para que os animais recebam toda a quantidade diária dos demais nutrientes
em concentrações menores de alimento. Inversamente, assume-se que alimentos que
contenham concentrações menores do que as definidas neste padrão não precisam de correção,
pois o animal poderá consumir uma maior quantidade de alimento e dessa forma suprir as suas
necessidades de nutrientes (quadro 10). Mas, é importante ressaltar que alimentos com baixa
densidade energética não devem ser recomendados para fases de crescimento e reprodução em 48
que as necessidades de energia e nutrientes são maiores.

Quadro 10- Correção do teor de proteína da dieta para o conteúdo energético do alimento

Exemplos: Para todos os casos, consideramos um cão com necessidade energética diária de
1000 kcal/dia (aprenderemos como calcular a necessidade energética no módulo 3). Para
determinar quanto um animal deve consumir de ração por dia, devemos dividir a sua
necessidade energética diária pela quantidade de energia presente no alimento. Abaixo,
colocaremos exemplos de dietas contendo concentrações maiores e menores do que os 3500
sob os quais as exigências de demais nutrientes são fornecidas para os cães. A AAFCO (2007)
determina que a exigência mínima de proteína é de 22% na matéria seca de dieta contendo
3500 kcal para animais em crescimento. Os exemplos abaixo consideram rações contendo essa
densidade energética, além de densidades maiores e menores:

1º exemplo: 1000/3500 = 286 g do alimento x 22% = 62,9 proteína

2º exemplo: 1000/4200= 238 g do alimento x 22% = 52,46 g proteína

3º exemplo: 1000/3000= 333 g do alimento x 22% =73,3 g de proteína

Pelo observado, vemos que quando a concentração energética é maior, a quantidade de


alimento que o animal comerá é menor. Se a dieta contiver os mesmos 22% de proteína na
matéria seca, o cão não irá ingerir o mínimo de proteína recomendado pela associação. Neste
caso, é necessário corrigi-la:
22----- 3500
x ----- 4200 x = 26,5% . Neste caso a ração deve conter no mínimo 26,5% de
proteína, para que o animal consuma os 62,9 g (consumirá 63,07%).

3.4 Excesso e deficiência energética

49
O excesso de energia pode levar ao acúmulo de gordura que em grandes
concentrações culmina com a obesidade. Quando este acúmulo ocorre precocemente pode levar
à hiperplasia de células adipócitas, ou seja, o seu aumento em número, o que predispõe a
ocorrência de sobrepeso e obesidade em fases posteriores. Além disso, em cães de raças
grandes e gigantes pode levar à aceleração da taxa de crescimento o que induz ao
aparecimento de doenças do esqueleto como osteocondroses, osteocondrites e displasias. Essa
situação tem sido bastante freqüente nos últimos anos, já que proprietários preocupados em
nutrir os seus animais adequadamente acabam fornecendo dietas à vontade, sem limitação de
quantidade, o que predispõe a um excesso no aporte energético.
Em relação à deficiência, os sinais são freqüentemente não específicos, e o
diagnóstico pode ser complicado pela deficiência simultânea de vários nutrientes. O sinal mais
fidedigno e visível de uma deficiência de energia é a perda generalizada de peso. Sob condições
de parcial ou completa privação alimentar, a maioria dos órgãos internos sofre alguma atrofia. A
perda de gordura subcutânea, mesentérica, perirenal, uterina, testicular e retroperitonial são os
primeiros sinais. O baixo conteúdo de gordura na medula dos ossos longos é um bom indicador
de inanição prolongada. O tamanho do cérebro é menos afetado, mas o tamanho das gônadas
pode ser grandemente diminuído. Hipoplasia dos linfonodos, baço e timo levam a uma redução
considerável no seu tamanho. As glândulas adrenais normalmente estão aumentadas. O
esqueleto dos animais jovens é extremamente sensível à deficiência de energia, e o crescimento
pode ser diminuído ou completamente parado. No animal adulto, pode haver osteoporose. A
lactação e a habilidade para o trabalho são prejudicadas. Como as proteínas musculares são
catabolizadas para energia, a perda de nitrogênio endógeno aumenta. O parasitismo e infecções
bacterianas ocorrem freqüentemente sob essas condições e podem se sobrepor aos outros
sinais clínicos.
3.5 Água

A água é o nutriente mais importante para o organismo. Ainda que os animais possam
sobreviver à perda de quase toda a gordura e mais da metade da quantidade de proteínas, a
perda de somente 10% de água é suficiente para provocar-lhes a morte. Cerca de 70% do peso
corporal adulto é água; numerosos outros tecidos são compostos de uma porcentagem de água
que oscila entre 70-90%. O líquido extracelular corresponde a aproximadamente 40 a 45% do 50
peso corporal, enquanto que o intracelular constitui entre 20-25%. A presença de um meio
aquoso no interior das células e de muitos tecidos é essencial para que a maioria dos processos
metabólicos e das reações químicas ocorra.
No entanto, é frequentemente esquecida no estudo das necessidades nutricionais,
mesmo porque ainda não há uma definição para as suas reais exigências pelo organismo
animal. Como costuma ser oferecida de forma ad libitum (à vontade), espera-se que os animais
sejam capazes de regular a sua ingestão de acordo com as suas necessidades. No entanto, é
necessário considerar um aspecto importante ao tratar da água: a sua qualidade. A má
qualidade pode interferir grandemente no manejo nutricional dos animais de produção e de
companhia.
No organismo animal, constitui um nutriente indispensável, já que todas as células
necessitam de um aporte de água para exercer as suas funções. Sua bioquímica é complexa e
de difícil entendimento. Não é uma simples molécula de HOH. Grande parte dessas moléculas
está interligada por pontes de hidrogênio formando complexas macromoléculas. A facilidade e a
rapidez com que ocorre a dissociação delas é que caracteriza a sua participação nas reações do
organismo.

As ligações de hidrogênio entre as moléculas de água possibilitam uma força de


coesão que a faz líquida na temperatura ambiente e que favorece a extrema organização, que
pode se vista quando a água assume a forma cristalina (gelo). Moléculas polares se dissolvem
rapidamente nela porque elas podem substituir as interações água-água formando ligações
água-soluto, devido ao favorecimento energético.

Em contraste, as biomoléculas não polares interferem com essas ligações, mas são
incapazes de formar interações água-soluto e, portanto, são insolúveis. As ligações de
hidrogênio são iônicas, hidrofóbicas e do tipo Van der Walls que individualmente são fracas, mas
coletivamente têm uma significância muito grande nas estruturas tridimensionais de proteínas,
ácidos nucleicos, polissacarídeos e lipídeos de membrana.

A água tem um ponto de fusão, de ebulição e calor específico maior do que a maioria
dos outros solventes. Essas propriedades incomuns são conseqüências da atração entre as
moléculas de água adjacentes que dão ao líquido uma grande capacidade interna de coesão. A
observação da estrutura de elétrons das moléculas de água revela a causa dessas interações. 51
Cada átomo de hidrogênio pareia-se com um elétron presente no átomo de oxigênio. A
geometria da molécula é ditada pela forma dos elétrons presentes mais externamente nos
orbitais do átomo de oxigênio. Estes orbitais descrevem um tetraedro, com um átomo de
hidrogênio em cada um dos cantos e elétrons não partilhados nos outros 2 cantos. A ligação
HOOOH tem um ângulo de 104,5, ligeiramente inferior do que 109,5 de um tetraedro perfeito
devido aos orbitais não ligantes do átomo de oxigênio. O núcleo oxigênio atrai elétrons mais
fortemente do que o hidrogênio (um próton); o oxigênio é mais eletronegativo. O resultado disso
são dois pólos elétricos na molécula de água, um ao longo de cada ligação HOO; cada
hidrogênio porta uma carga positiva parcial e o oxigênio possui uma carga negativa igual à soma
das duas cargas positivas dos hidrogênios.

Como resultado, há uma atração eletrostática entre o átomo de oxigênio da molécula


de água e o hidrogênio da outra, chamada ligações de hidrogênio (figura 10) por possuir orbitais
não ligados aos átomos de hidrogênio. Elas são relativamente fracas. As ligações de hidrogênio
da água líquida têm uma energia de dissociação (a energia necessária para quebrar a ligação)
de cerca de 23 kJ/mol, comparada com 470 kJ/mol da ligação covalente OOH da água. A ligação
de hidrogênio é cerca de 10% covalente, devido a uma sobreposição de ligações nos orbitais e
90% eletrostática. À temperatura ambiente, a energia térmica de uma solução aquosa (a energia
cinética de movimento de átomos e moléculas individuais) é da mesma ordem de magnitude que
a necessária para quebrar as pontes de hidrogênio nos orbitais não ligados ao átomo de
oxigênio. Quando a água é aquecida, o aumento na temperatura se reflete no movimento mais
rápido das moléculas individuais de água. A maioria das moléculas no líquido está ligada por
ligações de hidrogênio, mas o tempo de duração de cada uma delas é apenas 1 a 20
picosegundos. Seguida a quebra de uma ligação, outra se forma dentro de 0,1 ps.

A soma de todas as ligações entre as moléculas de água é que confere a coesão na


água em estado líquido. As ligações de hidrogênio das moléculas de água também formam
pontes entre solutos (ácidos nucléicos e proteína, por exemplo) que permitem que as moléculas
maiores interajam com as menores à distância, sem contato físico. O arranjo tetraédrico permite
que cada molécula de água reaja com pelo menos quatro ao redor. A água líquida na
temperatura ambiente e pressão atmosférica estão desorganizadas e em movimento contínuo.

52

Figura 10- Estrutura molecular da água. A natureza dipolar da água é mostrada por (a) modelo ball-and-stick e (b)
modelo space-filling. Onde as linhas tracejadas em (a) representam os orbitais não ligados. É um arranjo quase
tetraédrico das camadas mais externas de elétron formando os átomos de oxigênio; o átimo do oxigênio tem cargas
parciais negativas e os de hidrogênio possuem cargas positiva. (c) duas moléculas de água unidas por uma ligação
de hidrogênio (representadas pela linha azul tracejada) entre o átomo de oxigênio da parte superior da molécula e o
hidrogênio mais inferior. As ligações de hidrogênio são mais longas e fracas que as OOH covalentes (Nelson e Cox,
2004).

As ligações de hidrogênio são mais fortes quando as ligações da molécula


estão orientadas para maximizar o átomo de hidrogênio e os dois átomos estão em linha reta,
que é quando o átomo receptor está em linha com a ligação covalente entre o átomo doador e o
hidrogênio. As ligações de hidrogênio são então direcionadas e capazes de segurar duas
moléculas ligadas ou grupos em um arranjo geométrico específico (figura 11).
53
Figura 11- Direção da ligação de hidrogênio. A atração entre as cargas elétricas parciais é mais forte quando os
átomos envolvidos (neste caso O, H, O) perfazem uma linha reta. Quando as ligações de hidrogênio estão muito
coesas (quando elas são partes de uma molécula de proteína), esta geometria ideal pode não ser possível e resulta
em ligação mais fraca. (Nelson e Cox, 2004).

Devido a essas características da molécula, a água adquire uma série de funções


importantes, tais como:
- auxílio da digestão (processo hidrolítico);
- absorção dos nutrientes no trato digestivo;
- translocação de todos os compostos químicos do corpo;
- excreção de metabolismo do sistema orgânico;
-secreção de hormônios, enzimas e outras substâncias bioquímicas;
- termorregulação corporal (devido ao alto calor específico, igual a 1, que facilita o
armazenamento de grandes quantidades de calor, com aumento limitado da temperatura);
- manutenção da pressão osmótica intracelular;
-equilíbrio ácido básico (o processo oxidativo resulta na produção de resíduos como o
gás carbônico, ácido lático, radical superóxido que acidifica os líquidos extracelulares e, através
de reações envolvendo água, ocorre a eliminação de resíduos para manter a homeostase
orgânica);
- facilita as reações enzimáticas que ocorrem no metabolismo intermediário, onde a
maioria envolve subtração e adição de água.
Também desempenha uma série de funções especiais ao organismo como fluido
cérebro-espinhal (protege o sistema nervoso, amortecendo choques), líquido sinovial
(lubrificando articulações), fluido auricular (transportando sons), fluido intra-ocular (importante no
processo de visão) e fluído amniótico (protegendo o feto).
O volume de água total no corpo permanece relativamente constante no dia-a-dia e ela
pode ser obtida a partir de três fontes: bebida, alimentos e metabolismo, onde é produzida pela
oxidação dos nutrientes.

A água de bebida é a principal fonte para os animais, devendo apresentar certas


características que afetam sua qualidade e, conseqüentemente, seu consumo direto. Dentre as
características que afetam a ingestão voluntária de água estão: temperatura, consumo de 54
matéria seca, quantidade de água presente no alimento, qualidade, entre outros.

a) Temperatura: normalmente o consumo de água aumenta quando o animal está fora


das suas condições de conforto. O calor ambiente leva a um incremento da perda de água que,
por sua vez, eleva as necessidades de consumo; Em baixas temperaturas também acontece
aumento quanto às exigências de água de bebida devido ao catabolismo das proteínas
orgânicas. A própria temperatura da água influi: os animais diminuem a ingestão voluntária de
água quando a temperatura desta é menor que 6o C ou superior a 36o C;

b) Consumo de matéria seca: dentro dos intervalos de temperatura de conforto o


consumo de água está diretamente relacionado com o consumo de matéria seca;

c) Teores de água no alimento: altos teores de água no alimento reduzem o consumo


desta enquanto que altos teores de sais e proteína aumentam o consumo de água;

d) Idade: para cada kg de peso vivo os animais jovens necessitam de mais água que
animais de maior idade;

e) Qualidade: água precisa ser de boa qualidade, sem presença de contaminantes,


com pH ideal e aspecto característico.

Quanto à água presente no alimento, o conteúdo varia conforme o tipo de alimento


(processamento, armazenagem, etc.). E a água metabólica é a produzida nos tecidos animais
pela oxidação das substâncias que contêm hidrogênio em sua fórmula (carboidratos, proteínas e
gorduras). As inúmeras estimativas realizadas sugerem que a oxidação de 1,4 g de proteínas,
1,7 g de carboidratos ou 0,9 de gorduras produz 1,0 g de água metabólica. A maior quantidade
de água metabólica produzida pela oxidação das gorduras está relacionada com o maior
conteúdo de hidrogênio em relação ao oxigênio dentro da molécula. Por sua vez, a quantidade
de água metabólica produzida está em relação inversa à complexidade do carboidrato: a
oxidação da sacarose, por exemplo, fornece 57,9% de água metabólica, enquanto a do amido
gera 55%. Apesar do consumo diário de água, as perdas são contínuas e naturalmente se
desenvolve um déficit. Este deve ser corrigido pela ingestão e se, ela não ocorre, gera no animal
a sensação de sede. Nesse aspecto, parece haver diversos mecanismos que controlam a
ingestão de água.

O sistema neuronal que controla a sede e o ato de beber está localizado na região 55
hipotalâmica do cérebro. Durante a privação de água, a concentração osmótica dos líquidos
corporais eleva um pouco a sua porcentagem e as células do hipotálamo e, provavelmente
tecidos nas cercanias dos ventrículos cerebrais são sensíveis às mudanças na
osmoconcentração que causam desidratação celular, sede e comportamento de beber.

O local de estímulo são as células que estão expostas à circulação sangüínea, isto é,
onde a barreira hematoencefálica é deficiente. Quando o déficit de água se desenvolve, tanto a
pressão osmótica quanto a concentração do líquido extracelular aumentam. O aumento de sódio
e a concentração de ânions associados são normalmente as causas do aumento da
osmolaridade. O sódio é normalmente retido no líquido extracelular, o que contribui para uma
pressão osmótica efetiva que causa difusão de água a partir das células. Um aumento na
osmolaridade causado pela uréia (livremente difusível) não deve contribuir para uma pressão
osmótica efetiva, e a sede não é estimulada.

As modificações na composição dos fluidos corporais que banham as células do


sistema de controle hipotalâmico não são a única fonte de informação para o sistema nervoso
central acerca do conteúdo de água corporal. Um déficit de água produz queda no volume
líquido tanto quanto aumento na concentração de líquido extracelular (ECF). Embora
inicialmente o volume de sangue esteja protegido das perdas dos líquidos intersticial e
intracelular, a diminuição geral do volume de ECF refletirá em queda na pressão e volume
sanguíneo. Parece haver dois mecanismos de detecção associados com o sistema vascular:
receptores de estiramento nas grandes veias e no átrio do coração e as células renais
liberadoras de renina que são sensíveis à diminuição na pressão vascular. Uma queda no
retorno venoso é resultante de uma menor potência de estiramento das paredes das veias, átrios
e possivelmente barorreceptores arteriais no seio carótido e arco aórtico e age como um
estímulo por via vagal aferente até os centros hipotalâmicos.
Assim, ocorrem sede e aumento da ingestão de água, bem como liberação do
hormônio antidiurético (ADH), o qual promove decréscimo do volume urinário. Uma queda na
pressão arterial também causa diretamente a liberação de renina a partir das células
justaglomerulares da arteríolas aferentes do glomérulo renal. A renina age sobre o
angiotensinogênio do plasma para formar angiotensina I, que por sua vez é convertida em
angiotensina II, pela enzima conversora (enzima conversora de angiotensina, a ECA, que faz
56
essa passagem da angiotensina I para angiotensina II)..

Em um grande número de espécies animais, a angiotensina II mostrou-se capaz de


aumentar a ingestão de água. Entretanto o modo exato de ação da angiotensina II na região
hipotalâmica não está claro. Acredita-se que os compostos que não podem ultrapassar a barreira
hematoencefálica estimulam receptores nas estruturas periventriculares altamente
vascularizadas que estão expostas tanto à circulação cerebral quanto ao líquido cérebro-
espinhal (liquor), como por exemplo, o órgão subfornical.

A questão sobre como a angiotensina oriunda do sangue influencia a atividade


hipotalâmica complica-se mais pela presença de um complexo renina-angiotensina. Quando um
animal desidratado ingere água, a sede é temporariamente inibida após uma ingestão de uma
quantidade aproximadamente igual à das perdas. A satisfação prolongada, entretanto, não é
alcançada até que a absorção e diluição dos líquidos corporais transfiram o estímulo osmótico e
de intensidade para os sistemas de controle hipotalâmico.

Por sua vez, na privação de água, a taxa de excreção na urina diminui, e o inverso
também é verdadeiro, mas existem limites. Um volume mínimo de urina é determinado pela
quantidade de solutos a ser excretado e pela capacidade do rim de concentrar urina. Por outro
lado, o volume máximo também é limitado, mas esse limiar é muito alto e normalmente o
excesso de água será excretado rapidamente. A excreção de água pelos rins é controlada
principalmente pelo ADH da glândula hipófise posterior. O ADH (também conhecido como
vasopressina) age no néfron para permitir o aumento da reabsorção de água e assim diminuir a
excreção da urina. Durante a privação de água, a concentração de ADH no sangue aumenta e o
volume urinário diminui. Se o animal é super-hidratado, menor a concentração de ADH e maior é
o fluxo de urina, que deve ter a sua concentração próxima a do plasma.
Acredita-se que a liberação de ADH pela glândula pituitária posterior seja causada
primariamente por modificações na osmoconcentração do plasma. Uma solução salina
hipertônica injetada dentro da artéria carótida resulta em diminuição de fluxo sangüíneo. Outra
evidência indica que a solução hipertônica age sobre estruturas no diencéfalo ventral e sugere
que o núcleo supra-óptico do hipotálamo contém células que são sensíveis às modificações na
osmoconcentração do plasma. Esse núcleo exerce seu controle por via dos tratos nervoso
57
hipotalâmico-hipofisiários para causar a liberação do ADH.

Esta hipótese estabelece que, quando a concentração osmótica do plasma aumenta,


estimula maior liberação do ADH; quando a osmoconcentração cai, menos ADH é liberado.
Também há evidências de que um mecanismo osmorreceptor está localizado na veia porta
hepática ou no próprio fígado e que o mecanismo, de modo semelhante, sinaliza um aumento da
osmoconcentração nesse ponto, resultando na liberação de ADH. Se este controle hepático de
liberação de ADH opera normalmente, ainda é incerto.

O sistema osmorreceptor hipotalâmico está envolvido com a regulação da


concentração do ECF através da variação na excreção de água, mas o ADH também funciona
como controle no volume de ECF. A diminuição no volume de ECF geralmente envolve queda no
volume de sangue circulante. Entretanto, nesse local, não parece estar um verdadeiro receptor
de volume. Por outro lado, um grau da distensão do átrio esquerdo e grandes artérias é
monitorizado por receptores de estiramento localizados naqueles pontos. Este ramo aferente da
via é o mesmo daquele da sede. As modificações resultantes na descarga do nervo aferente
causam freqüentemente, por via do hipotálamo, aumento na liberação do ADH pela hipófise
posterior. A conseqüente conservação da água pelos rins ajuda a restabelecer o volume do ECF.
Uma outra conseqüência dessa resposta hipotalâmica é o aumento da retenção de sódio que é
necessário para manter a osmoconcentração normal quando ocorre retenção de água. A
liberação de ADH também pode ser estimulada pela dor, exercícios e outras tensões. Variações
na taxa de filtração glomerular (GFR) podem ter uma influência importante sobre a conservação
da água em alguns animais.

Qualidade da água
Devido à sua importância funcional é fundamental que se garanta a boa qualidade da
água. O termo "qualidade" se refere às características químicas, físicas e biológicas sob as
quais são estipuladas diferentes finalidades para a água. Assim, a política normativa nacional de
uso da água, como consta na resolução número 20 do CONAMA (Conselho Nacional do Meio
Ambiente), procurou estabelecer parâmetros que definem limites aceitáveis de elementos
estranhos, considerando os diferentes usos.
58
Os corpos de água foram classificados em nove categorias, sendo cinco classes de
água doce (salinidade <0,5%), duas classes salinas (salinidade superior a 30%) e duas salobras
(salinidade entre 0,5 e 30%). A classe "especial" é apta para uso doméstico sem tratamento
prévio, enquanto o uso doméstico da classe IV é restrito, mesmo após tratamento, devido à
presença de substâncias que oferecem risco à saúde humana. A classificação padronizada dos
corpos de água possibilita que se fixem metas para atingir níveis de indicadores consistentes
com a classificação desejada. Garantir fontes de boa qualidade é uma tarefa difícil, mas
essencial para a garantia da segurança alimentar em seres humanos e animais.

Diversas características físico-químicas são utilizadas para determinar a qualidade da


água: pH, presença de substâncias químicas, dureza, oxigênio dissolvido, etc.

Dentre as características físicas, a água para consumo deve ser inodora, insípida e
incolor. Sabor e odor são características indesejáveis e normalmente são originados da
decomposição de matéria orgânica, atividade biológica de microrganismos ou de fontes
industriais de poluição. Já as alterações da cor indicam a presença de substâncias orgânicas,
oriundas dos processos de decomposição e de alguns íons metálicos como ferro e manganês,
plâncton e despejos industriais. A turbidez refere-se à alteração da intensidade da penetração da
luz nas partículas em suspensão na água (plâncton, bactérias, argilas, material poluente fino e
outros), que provocam a sua difusão e absorção.

Os parâmetros químicos são importantes para caracterização da qualidade da água,


permitindo sua classificação pelo conteúdo mineral, determinação de seu grau de contaminação
e evidenciação dos picos de concentração de poluentes tóxicos. Um grande número de
elementos ou compostos químicos pode ocorrer, naturalmente ou por contaminação, na água.
Estão presentes em quantidades que podem ou não interferir nas funções de metabolismo ou
digestão. Quando os níveis dessas substâncias químicas estão fora do equilíbrio, podem por si
só ou em combinação com outras afetar o desempenho das aves.

A determinação de sólidos dissolvidos totais (SDT) na água se dá pela quantificação


de todas as impurezas nela dissolvidas, com exceção dos gases. O cálcio, magnésio, sódio,
cloro, bicarbonato e enxofre são os minerais que mais contribuem para a determinação do nível
de SDT, pelo qual se pode primariamente determinar a qualidade química da água. 59

À medida que o valor de SDT aumenta a qualidade piora, o que faz diminuir o consumo
de água, causando prejuízos no desempenho zootécnico. O oxigênio dissolvido (OD) é um
índice expressivo da qualidade da água. As águas superficiais devem apresentar-se saturadas
de oxigênio, entretanto, água de captação subterrânea pode ser deficiente de oxigênio, mesmo
não estando poluída, pois o oxigênio pode ter sido consumido pela oxidação de minerais
dissolvidos na água. O OD é de fundamental importância para a sobrevivência dos seres
aquáticos aeróbios.

A dureza é decorrente, principalmente, da concentração de íons de cálcio e de


magnésio na forma de sulfatos ou carbonatos em solução formando precipitados, embora, outros
íons como ferro, zinco, cromo e manganês também produzam dureza. Ela causa sabor
desagradável à água, podendo apresentar efeito laxativo. Todavia, o fato de poder ser laxativa,
não significa que seja prejudicial à performance das aves, a menos que os íons responsáveis
pela dureza, estejam presentes em quantidades tóxicas.

Quando a água apresenta grau de dureza elevado, a mesma torna-se inadequada ao


uso, pelos danos que causa nos equipamentos de distribuição de água, pois produz incrustações
e depósitos nas tubulações deste sistema, dificultando limpeza e diminuindo sua vida útil. Além
disso, a água dura interfere na capacidade de sabões e detergentes em formar espuma,
prejudicando a limpeza e desinfecção das instalações. Ela também interfere na eficiência de
alguns medicamentos como a oxitetraciclina, que é inativada pelos íons de cálcio, magnésio e
ferro, e os desinfetantes, como a amônia quaternária, que tem sua efetividade diminuída.

O pH da água representa o teor de dióxido de carbono livre, ácidos minerais e sais de


ácidos fortes, os quais por dissociação resulta em íons hidrogênio em solução. De um modo
geral, a acidez é classificada em carbônica, mineral e orgânica, sendo que as águas naturais
normalmente apresentam reação alcalina, embora a acidez não seja necessariamente
indesejável. O consumo de água com pH diferente de 6 a 8, pode alterar o desempenho,
afetando performance de frangos, a produção e qualidade dos ovos, precipitar antibióticos e
interferir na eficiência da cloração da água.

Em relação aos contaminantes, os mais freqüentemente encontrados nas águas de


superfície são: materiais orgânicos, os minerais e bactérias. Os poluentes orgânicos são
compostos derivados do nitrogênio que podem ter origem vegetal, animal, industrial ou urbana. 60
São exemplos o amoníaco, na zona rural, e os óxidos de azoto na zona urbana, estes últimos
oriundos de indústrias de alimentos, papel, produtos químicos, têxteis, etc. Estas matérias
orgânicas, em quantidade elevada, são índices de poluição ambiental. A água potável para
consumo humano tolera a presença de até 2mg/L de substâncias orgânicas.
Dentre os minerais, flúor, cloro, cobre, fósforo, bismuto, arsênico, zinco, cádmio e
alumínio são os principais. A presença de flúor na água potável varia conforme a fluoração
praticada nos diferentes países. A sobrecarga crônica por fluoretos ocasiona quadros de
osteomalácia. Já o cloro livre e seus derivados (dióxido, hipocloritos, cloramina) são adicionados
às águas naturais para eliminar microorganismos e/ou oxidar certos íons indesejáveis, como íon,
ferro e manganês.

A cloramina, resultante da combinação de clorina e amônia, quando presente em


concentrações elevadas, leva à metahemoglobinemia, hemólise e anemia severa. O cobre vem
da poluição industrial ou tratamentos agrícolas (usado como antifúngico). Pode também provir de
tratamento para algas ou da corrosão das canalizações. Foram descritos casos de hemólise
severa e lesões hepáticas por contaminação pelo cobre. O bismuto, quando em quantidades
superiores a 200 mg/l, leva a quadro de encefalopatia. A prata provém de dejetos da fabricação
de objetos, jóias, filmes para fotografia e radiografias. A intoxicação crônica em humanos leva à
argirose cutânea, que se caracteriza por pele acinzentada e formação de linha acinzentada
gengival.

O arsênico se origina de detergentes à base de fosfatos, produtos sanitários,


pigmentos e corantes. Pode ocasionar problemas digestivos, neurológicos e cutâneos
(melanomas). Altera o DNA no processo de divisão celular O cádmio, produto de revestimentos
metálicos, pinturas e matérias plásticas é um elemento extremamente tóxico, tem efeito
carcinogênico, lesa túbulos renais, provoca doença óssea (osteomalácia) e hipertensão arterial.
O zinco, em excesso, pode levar ao aparecimento de anemia hemolítica, além de
náuseas e vômitos. O acúmulo crônico está relacionado a casos de encefalopatia. Se a água
potável for rica em chumbo, o metal pode persistir mesmo após o tratamento. Os sintomas de
intoxicação por chumbo são anemia hipocrônica, síndrome abdominal (dor abdominal, anorexia:
cólica do chumbo), síndrome neuro-muscular (astemia, dores musculares e articulares) até a
encefalopatia saturnina que se constitui por sintomas de agitação e tremores, podendo evoluir
61
para convulsões, coma e morte.

O Alumínio pode causar osteomalácia, anemia microcítica e lesão funcional aos


hepatócitos, sendo que nos casos mais severos pode evoluir para um quadro de encefalopatia,
demência da diálise, catatonia e morte. O mercúrio provém da contaminação ambiental pelas
fábricas de cimento, siderúrgicas, além de fungicidas organomercuriais. A grande
lipossolubilidade do metal leva ao acúmulo no sistema nervoso central, causando tremores,
paralisias. Níveis elevados de potássio e sódio geralmente provêm de contaminação industrial.

As águas naturais contêm quantidades variáveis de cálcio conforme o solo. A utilização


de água com conteúdo acima de 80 mg/L de cálcio (água dura) provoca cefaléia, náuseas,
vômitos, hiperemia das conjuntivas, hipertensão e convulsões. O magnésio é um íon abundante
que representa 2,1% da crosta terrestre. Também confere dureza à água. Quando em excesso
causa diminuição da sensibilidade da placa motora à acetilcolina e provoca bloqueio da
transmissão neuromuscular. O fósforo se apresenta na água de várias formas, tais como
ortofosfatos, polifosfatos e fósforo orgânico, não apresentando importância sob o aspecto
sanitário para a água de abastecimento público.

Outro composto prejudicial à saúde é o nitrato. Este íon geralmente ocorre em baixos
teores nas águas superficiais, mas pode atingir altas concentrações em águas profundas. O seu
consumo por meio das águas de abastecimento está associado a dois efeitos adversos à saúde:
a indução à metemoglobinemia, especialmente em crianças, e a formação potencial de
nitrosaminas e nitrosamidas carcinogênicas.

O desenvolvimento da metemoglobinemia a partir do nitrato nas águas potáveis


depende da conversão bacteriana deste, para nitrito, durante a digestão, o que pode ocorrer na
saliva e no trato gastrointestinal. Níveis de 100 a 200 ppm de nitratos na água, por exemplo, são
potencialmente tóxicos.
As concentrações máximas permitidas de substâncias orgânicas e inorgânicas na água
potável, segundo a Portaria MS 518/2004, estão descritas no quadro 11.

Quadro 11- Padrão de potabilidade para substâncias químicas com risco à saúde
PARÂMETRO
Unidade Valor máximo
62
INORGÂNICAS

Antimônio mg/L 0,005

Arsênio mg/L 0,01

Bário mg/L 0,7

Cádmio mg/L 0,005

Cianeto mg/L 0,07

Chumbo mg/L 0,01

Cobre mg/L 2

Cromo mg/L 0,05

Fluoreto mg/L 1,5

Mercúrio mg/L 0,001

Nitrato (como N) mg/L 10

Nitrito (como N) mg/L 1

Selênio mg/L 0,01

ORGÂNICAS
Acrilamida µg/L 0,5

Benzeno µg/L 5

Benzo[a]pireno µg/L 0,7

Cloreto de Vinila µg/L 5

1,2 Dicloroetano µg/L 10


63
1,1 Dicloroeteno µg/L 30

Diclorometano µg/L 20

Estireno µg/L 20

Tetracloreto de Carbono µg/L 2

Tetracloroeteno µg/L 40

Triclorobenzenos µg/L 20

Tricloroeteno µg/L 70

Do ponto de vista microbiológico, embora a água não seja um meio biológico


importante para a multiplicação de microrganismos, ela pode funcionar como carreador de
agentes etiológicos. Com o tempo, é comum se formar no interior de canos de PVC que fazem a
distribuição de água de reservatórios, muitas comunidades de microrganismos denominados
biofilmes (Gama, 2007).

No contexto de ecologia microbiana, os biofilmes são definidos como complexos


conglomerados de células, embebidos em uma matriz de exopolissacarídeos (EPS), arquitetados
sobre os mais variados tipos de superfície, como aquelas empregadas na cadeia de produção de
alimentos.

Para a sua formação são necessárias diversas etapas consecutivas, que se iniciam
com a adesão do microrganismo a uma superfície, em resposta a estímulos sociais (‘quorum
sensing’) ou a alguma condição do meio, como temperatura, pH, presença de componentes
orgânicos e inorgânicos, com destaque a biodisponibilidade de nutrientes.
A adesão inicial, também tratada por adesão reversível, envolve a participação de
ligações fracas, como Van der Waals, ácido-base de Lewis, pontes de hidrogênio e
hidrofobicidade. Seguindo este processo, inicia-se a colonização da superfície, seguida pela
chamada adesão irreversível à co-agregação de células, a maturação da estrutura e o retorno
das células ao meio. Ao longo de todas as fases, as células procariontes, com o intuito de
sobreviver aos desafios impostos pelos microhabitats de um biofilme, hora caracterizados pela
64
restrição de nutrientes, espaço e oxigênio, requerem uma refinada regulação gênica.

Impedir a formação dessas comunidades é importante na garantia da qualidade e na


manutenção da saúde das criações. Segundo Brasil (2000), a água potável deve estar em
conformidade com o padrão microbiológico conforme Quadro 12.

Quadro 12- Padrão microbiológico de potabilidade da água para consumo

PARÂMETRO VALOR MÁXIMO


Água para consumo humano

Escherichia coli ou Ausência em 100ml


coliformes
termotolerantes
Água na saída do tratamento

Coliformes totais Ausência em 100ml

Água tratada no sistema de distribuição (reservatórios e rede)


Escherichia coli ou Ausência em 100ml
coliformes
termotolerantes
Coliformes totais Sistemas que analisam 40 ou mais amostras por
mês: ausência em 100ml em 95% das amostras
examinadas no mês.
Sistemas que analisam menos de 40 amostras por
mês: apenas uma amostra poderá apresentar
mensalmente resultado positivo em 100ml
Fonte: Brasil, 2000.

3.6 Proteína

As proteínas são moléculas complexas que, como os carboidratos e os lipídeos, 65

contêm carbono, hidrogênio e oxigênio. No entanto, além disso, elas possuem também enxofre e
cerca de 16% de nitrogênio. São as macromoléculas mais abundantes na natureza, estando
presentes em todas as células e porções celulares. Também ocorrem em grande variedade,
havendo milhares de diferentes tipos de proteína que abrangem desde pequenos peptídeos até
grandes polímeros que apresentam peso molecular na ordem de milhão.
Estruturalmente, podem ser classificadas em quatro diferentes categorias: primárias,
secundárias, terciárias e quaternárias. Isto ocorre porque as centenas de ligações covalentes da
cadeia principal das proteínas podem rotacionar livremente, o que faz com que elas assumam as
mais diversas conformações.
Nas proteínas de estrutura primária, as ligações são rígidas e planas, nas secundárias
em alfa-hélice ou conformação beta, nas terciárias há um arranjo tridimensional de todos os
aminoácidos das proteínas formando cadeias polipeptídicas e nas quaternárias, duas ou mais
cadeias separadas ou subunidades destas que podem ser semelhantes ou diferentes e que
formam complexas estruturas tridimensionais, conforme pode ser verificado na figura 12.

a b c d

Figura 12- Estrutura das proteínas, (a) estrutura primária, onde os aminoácidos são unidos por ligações peptídicas e
pontes dissulfeto; (b) estrutura secundária, helicoidal; (c) estrutura terciária do ovomucóide; (d) estrutura
quaternária. Adaptado de Nelson e Cox, 2004.
São formados por unidades básicas denominadas aminoácidos que se mantêm unidos
por ligações peptídicas, formando cadeias longas. Por sua vez, todos estes são compostos por
uma extremidade carboxil, uma extremidade amina e um radical. Duas moléculas de
aminoácidos podem estar covalentemente ligadas a partir da substituição de uma ligação amida,
para produzir um dipeptídeo.
Tal ligação é formada pela remoção dos elementos de água (desidratação) do grupo
carboxil de um aminoácido e o grupo amino de outro. A formação da ligação peptídica é um 66
exemplo da reação de condensação, uma classe comum de reações nas células vivas.
Da mesma forma em que acontece a ligação peptídica entre dois aminoácidos, três
aminoácidos podem se unidos por duas ligações peptídicas para formar um tripeptídeo e assim
sucessivamente. Quando a estrutura é composta de poucos aminoácidos ela é denominada
oligopeptídeo e quando muitos estão presentes são chamados de polipeptídeos, conforme
demonstrado nas figuras 13 e 14.

Figura 13 -Formação de ligação peptídica pela condensação. Nelson e Cox (2004)


67

Figura 14 – O pentapeptídeo seril-glicil-tirosil-alanil-leucina. As ligações peptídicas estão em amarelo e os radicais


em vermelho. Nelson e Cox (2004).

Existem mais de 300 aminoácidos na natureza, mas destes, cerca de 22 fazem parte
das cadeias protéicas: arginina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina,
triptofano, treonina, valina, alanina, asparagina, aspartato, cisteína, glutamato, glutamina, glicina,
hidroxilisina, hidroxiprolina, prolina, serina, tirosina. Destes, os dez primeiros são ditos
essenciais, ou seja, aqueles que os animais não podem sintetizar e que deverão estar presentes
na dieta e os demais são os não essenciais, ou seja, podem ser sintetizados no organismo se
fontes adequadas de carbono e nitrogênio são oferecidas.
Deve-se ressaltar que os felinos, têm necessidade dietética de taurina. Os principais
aminoácidos estão demonstrados na figura 15.
68

Figura 15- Estrutura dos vinte aminoácidos mais comuns. Em vermelho, o radical. Nelson e Cox (2004).

No organismo, as proteínas têm numerosas funções. São os principais componentes


estruturais dos pêlos, plumas, unhas, tendões, ligamentos e cartilagens. O colágeno, uma
proteína fibrosa, é o material básico que forma a maior parte do tecido conjuntivo de todo o
corpo. As proteínas contráteis, como miosina e actina, intervêm na regulação da ação muscular.
Todas as proteínas que catalisam as reações metabólicas essenciais do organismo e que são
fundamentais para a digestão e assimilação dos nutrientes, também são moléculas protéicas.

Diversos hormônios que controlam os mecanismos homeostáticos dos diferentes


sistemas são formados por proteínas. Por exemplo, a insulina e o glucagon, que interferem no
controle da glicemia, são de natureza protéica. As proteínas presentes no sangue atuam como
substâncias transportadoras, tais como a hemoglobina, que transporta o oxigênio, a transferrina
que transporta o ferro, e a proteína de união ao retinol que carreia a vitamina A. Além de suas
funções de transporte, as proteínas plasmáticas também contribuem para a regulação do
equilíbrio ácido-base.

A proteína dietética é exigida por duas razões. Primeiro, porque fornece os


aminoácidos essenciais, mas que são necessários para a síntese de proteínas no organismo.
Depois, porque são fontes dos aminoácidos não essenciais que o animal necessita para 69
manutenção, crescimento, gestação e lactação. Os aminoácidos não essenciais são importantes
como fontes de carbono e nitrogênio para a síntese de outros aminoácidos, e de carbono para a
gliconeogênese e/ou geração de energia.
Além disso, fornecem nitrogênio e/ou outros componentes estruturais para a síntese de
outras substâncias importantes para a vida, tais como purinas, pirimidinas, grupo heme, vários
hormônios, neurotransmissores e/ou neuromoduladores (por exemplo, tiroxina, catecolaminas,
ácido gama aminobutírico, taurina).
Tanto para cães quanto para gatos que consomem primariamente tecidos animais, os
aminoácidos fornecem carbono para a gliconeogênese para atender os tecidos que dela
necessitam (células vermelhas do sangue e tecido nervoso) na manutenção de seu metabolismo
normal. Como para a maioria dos outros animais, dez aminoácidos têm sido descritos como
essenciais: arginina (Arg), histidina (His), isoleucina (Ile), leucina (Leu), lisina (Lys), metionina
(Met), fenilalanina (Phe), treonina (Trh), triptofano (Trp) e valina (Val). Em onívoros e certos
herbívoros (ratos, frangos), a remoção de um único aminoácido essencial resulta na diminuição
do consumo, a primeira neuro-resposta associada à deficiência de aminoácido essencial
limitante. Em gatos, os poucos trabalhos disponíveis mostram que o consumo não diminui tão
rapidamente quanto nos ratos.
Embora o consumo diminua com o tempo, a depressão não é severa como em
onívoros e nos herbívoros. Ela parece ser um efeito secundário, resultante da falta de
atendimento das necessidades de energia para o crescimento, uma vez que os gatos param de
crescer e perdem peso vagarosamente. Os gatos servem como um bom modelo para os
carnívoros estritos onde se acredita que por se alimentarem exclusivamente de tecidos animais
eles nunca deveriam apresentar deficiência de um aminoácido essencial.
Dessa forma, os carnívoros não respondem com tamanha sensibilidade a uma
deficiência de proteína ou aminoácidos como os onívoros e herbívoros. Isso é menos evidente
em cães. Mas, parece que os cães podem responder mais que alguns onívoros. Onívoros e
herbívoros evitam dietas deficientes em um aminoácido essencial. Os ratos são capazes de
selecionar entre dietas que contenham menos que 0,1g/kg em um aminoácido essencial. Para
animais de companhia poucos trabalhos foram realizados para saber se a aversão ocorre após
várias alimentações com dietas deficientes em aminoácidos essenciais. Os cães selecionam
para uma quantidade de proteína (três ou quatro vezes superior à exigência) enquanto os gatos,
não.
Em cães e gatos, assim como nos demais animais monogástricos, avaliar se um alimento é 70
“bom” ou “ruim” apenas através da concentração protéica é um equívoco. Isto porque a
qualidade da proteína, (isto é, o seu perfil aminoacídico e sua digestibilidade) são fatores
importantes.
Assim como para todos os animais monogástricos, a qualidade da proteína (perfil
aminoacídico e como conseqüência a sua digestibilidade) é importante. Avaliar se um alimento é
“bom” ou “ruim” apenas através da concentração protéica é um equívoco.
Particularmente vale ressaltar que os felinos têm uma necessidade de proteína maior
para a manutenção de seus tecidos. Assim, é relevante nas exigências de proteína bruta e dos
aminoácidos essenciais em diversas espécies, a natureza e a extensão da adaptação ao
metabolismo do nitrogênio e dos aminoácidos. Por exemplo, os ratos conseguem regular ou
diminuir as enzimas do catabolismo do nitrogênio para manter o balanço nitrogenado quando a
dieta contém entre 4 a 5% de EM como proteína . Eles podem diminuir a rota catabólica de lisina
já que a exigência de lisina para manutenção é apenas 12% da necessária para o crescimento,
enquanto que a falta de um mecanismo específico para diminuir a ação degradativa das enzimas
de isoleucina resulta em uma exigência desse aminoácido de cerca de 50% da necessária para
o crescimento.
Não há informação detalhada para cães e gatos; no entanto, sabe-se que nenhuma
das duas espécies consegue regular tão eficazmente as enzimas catabólicas de nitrogênio como
os ratos. Os herbívoros e os onívoros, em geral, regulam diminuindo a concentração das
enzimas catabólicas de nitrogênio e de outras envolvidas no primeiro passo irreversível do
catabolismo dos aminoácidos.
Para dispor e conservar o nitrogênio, essas adaptações envolvem a superativação ou a
inativação de todas as enzimas do ciclo da uréia, bem como da alanina transferase e da
aspartato aminotransferase; mudanças no fluxo do ciclo da uréia ocorrem sem uma diminuição
na quantidade das enzimas, como resultado dos seguintes mecanismos:
1. Aumento ou diminuição da concentração do substrato: O aumento ou diminuição da
concentração de alanina, ácido aspártico, amômia e ácido glutâmico irá afetar o fluxo de
nitrogênio desses e de outros aminoácidos, já que a maioria das enzimas catabólicas trabalha
com concentrações de substrato consideravelmente abaixo de suas constantes de Michaelis
(Km).
2. Mudanças na concentração de ornitina no fígado: Quando o estado pós- absortivo
se inicia e a amônia proveniente dos aminoácidos diminui, ou após a alimentação com uma dieta
baixa em proteína, a concentração de ornitina no fígado diminui (como resultado da atividade da 71
ornitina δ-aminotransferase) e com muito pouco receptor disponível para a carbamoil fosfato, a
síntese de uréia diminui acentuadamente. Após a ingestão e a absorção de arginina (usualmente
presente na proteína dietética) e a ação da arginase hepática, o fígado é abastecido com ornitina
suficiente para maximizar a síntese de uréia para qualquer atividade particular das enzimas do
ciclo da uréia. Se a ornitina é limitante no fígado e uma fonte livre de nitrogênio ou baixa arginina
é fornecida ao animal, hiperamoninemia ocorre. Isto devido a incapacidade de felinos em regular
as enzimas no catabolismo do nitrogênio. Se um gato receber uma dieta com alto ou com baixo
teor de proteína irá usar o nitrogênio da mesma maneira, não sendo capaz de conservá-lo.
3. Regulação alostérica da carbamoil fosfato sintase: O primeiro passo na síntese de
uréia ocorre via ativação pelo N-acetilglutamato (NAG). A síntese do NAG é alostericamente
regulada pela arginina. Dessa forma, embora a Ka da síntese de NAG pela arginina seja 5 vezes
maior em gatos que em ratos, a concentração de arginina no fígado, bem como os precursores
de NAG (glutamato e acetil coenzima A) influenciam as concentrações de NAG hepáticas.
Embora o glutamato e a arginina aumentem rapidamente no fígado após o consumo de uma
dieta alta em proteína, há uma melhora na habilidade do fígado em utilizar o excesso de
nitrogênio. Como o substrato para síntese de uréia diminui, o NAG difunde para fora da
mitocôndria e é clivado por uma acetilase.
4. Aumento e diminuição das enzimas do catabolismo de nitrogênio: o controle final
que capacita um animal a manter a homeostase do metabolismo dos aminoácidos é a ativação e
inativação das enzimas do catabolismo de nitrogênio. Esta regulação pode ocorrer pela mudança
da taxa de degradação das enzimas ou, geralmente, pela mudança da taxa de síntese das
enzimas através do aumento na síntese de RNAm. O aumento ou diminuição da ação da
atividade das enzimas do catabolismo não parece ocorrer extensamente em gatos, e ocorre
menos extensamente em cães do que no rato. Os três níveis de controle mencionados acima
são todos rápidos, ocorrendo em segundos, enquanto que mudança nas quantidades das
enzimas leva de 1 a 5 dias.
Parece que a extensão com que os animais podem aumentar ou diminuir a quantidade
das enzimas do catabolismo de nitrogênio é o que realmente dita a habilidade, por um lado, para
utilizar eficientemente as dietas altas em proteínas e por outro, de ser capaz de manter o
balanço nitrogenado quando a dieta é baixa em proteína. Desta forma sugere-se que a alta
exigência de proteína para gatos em manutenção é resultado de sua inabilidade em diminuir a
ação das enzimas hepáticas que participam do catabolismo do nitrogênio. No entanto, há
opiniões contrárias: gatos adultos podem oxidar toda a proteína após adaptação tanto para dieta 72
com níveis adequados (350g/Kg) quanto para dieta alta (520g/Kg) em proteína bruta. Embora
ainda não seja totalmente conhecido como os gatos se adaptam a esses níveis de proteína na
dieta, sugere-se que os três primeiros níveis de controle descritos acima, junto com o aumento
no tamanho do fígado (aumentando a concentração de enzimas do catabolismo de nitrogênio),
são suficientes para promover uma completa oxidação de quantidades relativamente altas de
proteína dietética testada. Russel et al. (2002) não relataram a inabilidade do gato para se
adaptar às dietas baixas em proteína. Independente da interpretação dos resultados desses dois
grupos, os estudos das exigências de manutenção de gatos adultos mostram a falta de
habilidade dos gatos em manter o balanço nitrogenado na mesma concentração dietética mínima
como os cães e a inabilidade dos cães (pelo menos a longo prazo) em manter o balanço de
nitrogênio nas mesmas baixas concentrações como os ratos.
A disponibilidade limitada de informações do efeito da proteína dietética no
metabolismo dos aminoácidos e a adaptação das enzimas envolvidas no primeiro passo da
degradação dos aminoácidos essenciais (bem como aminoácidos não essenciais importantes
como a tirosina e a cistina), indicam alguma capacidade de regulação dessas enzimas no gato,
mas não semelhante à capacidade dos ratos.
Para enzimas envolvidas no metabolismo do triptofano, histidina, metionina, treonina,
tirosina, cisteína e transporte de taurina somente cerca de 20 a 120% do aumento na atividade
dessas enzimas ocorrem em gatos que passam de uma dieta de baixa para alta proteína quando
comparados ao aumento generalizado dessas enzimas em ratos.
Por exemplo, as enzimas catabólicas de treonina aumentam duas vezes em gatos que
passam de uma dieta com baixa proteína para alta, enquanto sob condições similares, um
aumento de cerca de dez vezes ocorre em ratos. Parece que os ritmos diários induzidos pela
dieta como resultado da alimentação com uma dieta normal causa somente uma leve mudança
(cerca de 35%) na atividade da tirosina aminotransferase dos gatos, enquanto que em ratos uma
mudança de quatro a cinco vezes ocorre. A conseqüência da menor adaptação metabólica dos
cães e gatos mesmo após certo tempo se alimentando de uma dieta com alta proteína, é que as
concentrações plasmáticas de aminoácidos são mais altas após a refeição, enquanto que em
ratos após a adaptação, as concentrações são similares se eles são adaptados para uma dieta
baixa ou alta em proteína.

3.7 Lipídeos 73

Os lipídeos pertencem a um grupo heterogêneo de compostos que se classificam de


forma conjunta devido à solubilidade em solventes orgânicos e por serem insolúveis em água.
Podem ser classificados como simples, compostos e derivados. Os simples incluem os
triglicerídeos, que são a forma de gordura mais presente na dieta, e as ceras.
Os triglicerídeos compõem-se de ácidos graxos unidos a uma molécula de glicerol e as
ceras contêm um número maior de ácidos graxos unidos a uma molécula de álcool de cadeia
longa. Os lipídeos compostos constam de um lipídeo unido a uma molécula não lipídica, como os
fosfolipídeos e as lipoproteínas. Já os derivados incluem os compostos de esterol, como o
colesterol (figura 16).

H O
H C O C R1
O
H C O C R2
H C O C R3
H O

(A) (B)

(C )

Figura 16- Estrutura dos tipos de lipídeos. (A)Triacilglicerídeo (Simples); (B) Colesterol (derivado); (C) Fosfolipídeo
(composto).
Dentre as funções dos lipídeos no organismo animal podemos citar: estrutural em
células e estruturas teciduais (especialmente fosfolipídeos e esfingolipídeos), reserva (principal
estocagem de energia), já que fornecem cerca de 2,25 mais energia de carboidratos e
proteínas, são fontes de ácidos graxos essenciais (necessários para o crescimento, manutenção
de estrutura de membranas, síntese de fosfolipídeos, produção de prostaglandinas),
precursores na biossíntese de prostaglandinas, prostaciclinas, prostaglandinas, troboxanos e
leucotrienos; transporte e solubilização de determinadas vitaminas, proteção renal e intestinal 74
(depósitos perirenal e omental), ação antimicrobiana na pele de mamíferos e palatabilizante, por
isso é pulverizada sobre as rações.

A unidade estrutural do lipídeo é o ácido graxo. Este é formado por uma cadeia
parafínica (hidrófoba) e a carboxila que é hidrofílica:

CH3 - CH2 - (CH2)n - CH2 …………………- COOH

Cadeia Carboxila
parafínica

Os ácidos graxos podem ser classificados em saturados e insaturados, dependendo da


presença ou não de duplas ligações entre os carbonos. Ácidos graxos insaturados, com mais de
uma dupla ligação, são denominados poliinsaturados. A posição da primeira dupla permite a
classificação dos ácidos graxos insaturados em séries: quando ela está localizada após o nono,
sexto ou terceiro carbono a partir da extremidade metil, diz-se que o ácido graxo é da série
ômega 9, 6 ou 3, respectivamente.
Levando em consideração o número de carbonos, a quantidade de duplas ligações e a
série a que pertencem, é comum nos referirmos aos ácidos graxos utilizando nomenclaturas. Por
exemplo, o ácido linoléico possui 18 carbonos, apresenta duas duplas ligações, é um ômega-6 e
pode ser assim representado: 18:2n-6. Abaixo, estão alguns exemplos de ácidos de cada uma
dessas séries e falaremos mais a respeito deles (figura 17).
Saturados
Ácido láurico (12:0)
CH3-CH2-CH2- CH2-CH2- CH2-CH2- CH2-CH2- CH2-CH2- COOH

Monoinsaturados
Ácido palmitoléico
CH3-CH2-CH2- CH2-CH2- CH=CH- CH2-CH2- CH2-CH2- CH2- CH2- CH2-COOH 75

Ácido oléico (18:1n-9)- ômega 9


CH3-CH2-CH2- CH2-CH2- CH2- CH2- CH2-CH= CH-CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2-COOH

Poliinsaturados
Ácido linoléico (18:2n-6)- ômega 3
CH3-CH2-CH2- CH2-CH2- CH=CH- CH2-CH = CH-CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2-COOH

Ácido alfa-linolênico (18:3n-3)- ômega 3


CH3-CH2-CH= CH-CH2- CH=CH- CH2-CH = CH-CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2- CH2-COOH

Ácido araquidônico (20:4n-6)


CH3-CH2-CH2- CH2-CH3-CH= CH-CH2- CH=CH- CH= CH-CH2- CH=CH- CH2- CH2- CH2- CH2-
COOH

Figura 17- Alguns ácidos graxos. Adaptado de Case et al. (1998)

O ácido linoléico é o precursor de todos os ácidos graxos da série ômega 6 e o alfa


linolênico da série ômega 3. Não há interconversão entre as séries de forma que estes são
dieteticamente essenciais, ou seja, por não poderem se converter uns nos outros, os precursores
das duas séries precisam estar presentes na dieta de cães e gatos. Para cães, o ácido
araquidônico é metabolicamente essencial, o que significa que embora seja necessário para as
diversas funções orgânicas, pode ser sintetizado no organismo desde que haja o ácido linoléico
no alimento.
Conforme comentado no módulo 1, gatos têm deficiência enzimática (nas enzimas
delta 5 e delta 6 dessaturase) e para eles, o 20:4n-6 deve estar presente na dieta. O ácido
araquidônico é importante por exercer a função de precursor de diversos mediadores
biologicamente ativos, denominados prostaglandinas, prostaciclinas e tromboxanos que intervêm
nos processos inflamatórios. Os ácidos graxos advindos dos precursores da série 3 (como o
eicosapentaenóico e docosahexaenóico) também exercem funções importantes no organismo,
especialmente como componentes estruturais em tecidos especializados como retina e cérebro.
Dentro de uma mesma série, um ácido graxo dá origem a outros pela ação de enzimas 76
dessaturases (que acrescentam duplas ligações às moléculas) e alongases (que adicionam
carbonos). Na figura 18 está demonstrado o metabolismo dos ácidos graxos das séries 6 e 3.

Ômega 6 Ômega 3
Ácido linoléico(18:2n-6) Ácido alfa-linolênico (18:3n-3)
Delta 6- dessaturase ↓ ↓

Ácido gama-linolênico (18:3n-6) 18:4n-3


Alongase ↓ ↓
Ac. dihomogamalinolênico (20:3n-6) 20:4n-3
Delta 5-dessaturase ↓ ↓
Ácido araquidônico (20:4n-6) Ácido eicosapentaenóico (20:5n-3)
↓ ↓
Alongase 22:4n-6 22:5n-3
↓ ↓
Delta 4-dessaturase 22:5n-6 Ácido docosahexaenóico (22:6n-3)

Figura 18- Metabolismo dos ácidos graxos poliinsaturados.


3.8 Carboidratos

Os carboidratos são formados por carbono, hidrogênio, oxigênio e recebem essa


denominação por possuírem a mesma relação de hidrogênio e oxigênio da água, ou seja, dois
átomos de hidrogênio para cada um de oxigênio, possuindo a fórmula geral (com algumas
77
exceções) de (CH2O)n onde n é maior que três. A fórmula molecular da glicose, por exemplo, é
C6H12O6. Podem ser classificados em monossacarídeos, dissacarídeos e polissacarídeos. Os
monossacarídeos são composições mais simples formadas por hidratos de carbono, contendo
de três a sete carbonos.

As três hexoses mais importantes do ponto de vista nutricional são: glicose, frutose e
galactose. Os monossacarídeos livres são absorvidos diretamente e por isso não requerem
enzimas digestivas. Somente monossacarídeos presentes como constituintes de polímeros de
carboidratos precisam de enzimas hidrolíticas para serem absorvidos no intestino delgado. Em
cães e gatos (similar a muitas outras espécies), absorção de glicose e galactose através da
borda da membrana ocorre principalmente por um mecanismo de transporte ativo,0 dependente
de Na+, em adição à difusão passiva. A frutose é uma exceção, sendo absorvida por um
sistema transportador de glicose independente (GLUT-5) em humanos e em animais de
companhia.

O primeiro passo para a utilização da glicose é a captação da glicose livre no sangue


e sua transformação em glicose-6-fosfato. Nos cães, a glicoquinase tem Km elevado, não é
inibida pela glicose 6-fosfato e é estimulada pela insulina. Estas propriedades da enzima
permitem uma alta captação de glicose portal. Sob condições de gliconeogênese estimulada a
capacidade desta enzima diminui. A glicoquinase é específica do fígado e não é encontrada na
família dos felinos, que tem pouca absorção de glicose e baixa captação de glicose pelo fígado.
Nos felinos, a fosforilação da glicose é catalisada pela hexoquinase. A hexoquinase tem Km
baixo e é inibida pela glicose-6-fosfato. Já nos cães, a glicoquinase parece ter uma atividade
elevada.

Desta forma os cães parecem ser metabolicamente mais adaptados à absorção e


utilização de glicose que os felinos; embora dependendo da dieta, não necessitam da mesma,
desde que a capacidade gliconeogênica não esteja limitada e que a dieta supra a quantidade
apropriada de precursores.

Quatro grupos são responsáveis pela formação da glicose no organismo animal: a)


propionato, b) glicerol, c) aminoácidos e d) lactato e piruvato (Outros precursores como valerato,
citrato, ribose, etc., contribuem em pouca quantidade). Nos cães alimentados, o principal
precursor da glicose seria o aminoácido, enquanto que em períodos de subnutrição, o glicerol 78
contribui consideravelmente (liberação de glucagon e epinefrina).

Em animais em jejum, 20 a 30% da glicose derivam do glicerol. Níveis altos de ácidos


graxos no sangue diminuem a utilização do glicerol para glicose. Quase todos os aminoácidos
são glicogênicos (exceções: lisina, leucina e taurina). Os esqueletos de carbono dos mesmos
formam a glicose e o nitrogênio é metabolizado à uréia e excretado na urina.

Os dissacarídeos estão compostos por duas unidades de monossacarídeos. Dentre os


principais estão a lactose, a sacarose e a maltose. A lactose, o açúcar que se encontra no leite,
contém uma molécula de glicose e uma de galactose, sendo o único carboidrato importante de
origem animal. A sacarose é uma molécula de glicose unida à outra de frutose; a maltose se
constitui de duas moléculas de glicose e não se encontra normalmente presente em alimentos,
mas é produzida no metabolismo intermediário, durante a digestão do amido.

Os polissacarídeos, por sua vez, são constituídos por várias unidades de


monossacarídeos e incluem o amido, o glicogênio, as dextrinas e as fibras da dieta.

O amido é fonte de carboidratos de extrema importância na nutrição de animais de


companhia. É considerada a reserva energética de vegetais e, portanto, encontrado em
quantidades significativas em cereais, raízes e legumes. Bioquicamente é caracterizado como
um homopolímero constituído de cadeia alfa-glicosídica que, por hidrólise, fornece somente
glicose. Os principais componentes do amido são a amilose e amilopectina, sendo a amilose um
polímero de glicose em estrutura helicoidal não ramificada, onde suas moléculas são unidas
somente por ligações alfa 1,4. Já a amilopectina, possui cadeias ramificadas e, portanto,
apresenta ligações alfa 1,4 nas cadeias e alfa 1,6 nos pontos de ramificação.

Estas características conferem a essas moléculas diferenças na metabolização e no


processamento. As moléculas de amido nos alimentos estão presentes em arranjos granulares,
sendo que a amilose se apresenta em estrutura helicoidal que dificulta a entrada e a saída de
água. Com a menor infiltração desta, o acesso de enzimas digestivas torna-se dificultado.

Assim, a amilase praticamente só tem acesso à extremidade do grânulo, fazendo com


que a glicose seja liberada de maneira mais lenta, porém com maior constância e durante um
tempo maior. A amilopectina também está arranjada em grânulos, mas sua estrutura ramificada
permite um maior espaçamento entre as moléculas, facilitando a entrada de água; por sua vez, 79
carreia com facilidade as enzimas digestivas, amilases, amiloglicosidades, no processo de
digestão.

Desta forma, não somente a extremidade, mas todo o grânulo sofre um ataque
enzimático ao mesmo tempo, liberando grandes quantidades de glicose rapidamente. Além da
importância nutricional, como fonte de glicose, o amido possui importância no processamento de
alimentos extrusados. No processo de extrusão, assim como em outros processos que envolvem
calor e umidade, ocorre um processo chamado gelatinização do amido que consiste em uma
mudança estrutural do grânulo de amido. Onde as pontes de hidrogênio que estabilizam a
estrutura cristalina interna do grânulo começam a se romper assim que se atinge a temperatura
específica para cada tipo de amido e forma de seu grânulo.

À medida que o aquecimento prossegue, com quantidades suficientes de água, além


do rompimento das pontes de hidrogênio, haverá uma desestruturação da região cristalina com
uma inclusão cada vez maior de água entre as moléculas de amido, fazendo o grânulo modificar
a sua forma física, mas sem se romper; as moléculas de amido então passam a se rearranjar em
uma forma mais filamentosa, aumentando enormemente sua viscosidade, formando um gel.

O processo de extrusão e a apresentação do produto extrusado estão diretamente


relacionados ao processo de gelatinização do amido. O comportamento da amilose e da
amilopectina, durante o processo de extrusão, também é diferente. O grânulo de amilose, devido
a sua estrutura em hélice, forma um filamento menor, mais fino e com menor viscosidade após a
gelatinização, ou seja, um excesso de amilose dificulta a expansão do produto. A apresentação
característica do produto extrusado depende da gelatinização de quantidades suficientes de
amilopectina. Os grânulos de amilopectina, por apresentarem ramificações entre as moléculas
formam, após gelatinização, filamentos mais longos, com maior viscosidade e aderência, sendo
assim realmente efetivos no processo de expansão.
As fibras também são carboidratos e hoje o seu conceito para monogástricos tem sido
bastante discutido. Ela pode ser definida como um carboidrato estrutural (constituído por
polissacarídeos e lignina) não hidrolisado pelas enzimas do trato digestivo de animais
superiores, devido à presença de ligações do tipo ß entre suas moléculas de glicose.
Antigamente sua importância para animais monogástricos era questionada, já que não se
conhecia nenhum papel direto como nutriente. Acreditava-se que possuía função apenas na
80
formação do bolo fecal e na manutenção do trânsito no trato gastrointestinal, promovendo o
aumento do peristaltismo, diluição da energia e a diminuição da digestibilidade dos nutrientes.

Por esse motivo, era considerada substância inerte nas rações de carnívoros e
onívoros, e sua determinação em alimentos tinha apenas o objetivo de estabelecer a
caracterização e o limite máximo de inclusão de ingredientes, sem que se tivesse chegado à
concentração que se otimiza o consumo energético. Pensando em como a fibra hoje é
classificada, a idéia da diluição da energia e diminuição da digestibilidade dos nutrientes não
está totalmente errada, já que um excesso de fibra indigestível poderia causar esses efeitos.

No entanto, o conceito e a importância da fibra têm sido repensados e ações


benéficas, tais como a produção dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), o acético,
propiônico, especialmente o butírico (principal fonte de energia para os colonócitos) e a
prevenção de câncer pela menor permanência de alimento no cólon passaram a ser
consideradas. Além disso, em algumas situações (como a obesidade), a redução na absorção e
digestibilidade pode ser desejável.

.3.9 Minerais

Cálcio e fósforo

O cálcio é o elemento mineral encontrado em maior quantidade nos mamíferos. Em


termos de exigências, é necessário em maiores quantidades durante o período de ativa
formação de ossos e dentes. Entretanto, ele exerce outros papéis vitais na fisiologia e no
metabolismo, embora tais ações exijam concentrações mais baixas do que aquelas requeridas
para a saúde de ossos e dentes. Esse mineral participa da coagulação do sangue, transmissão
de impulsos nervosos, excitação e contração muscular e funciona como um segundo mensageiro
para as reações intracelulares. Existem várias fontes de cálcio dietético. Produtos tais como leite
e queijo são geralmente boas fontes de cálcio e alguns vegetais, tais como brócolis e repolho,
contêm concentrações razoáveis. Em pet as fontes usadas são: carne e ossos, 10% de Ca;
ossos, 31.0% de Ca. Como a grande maioria das fontes utilizadas na alimentação animal é
pobre em cálcio, sua suplementação se faz necessária. Nesse caso, fosfato bicálcico com 22%;
81
fosfato monocálcico, com 16,4% e carbonato de cálcio com 39,4% de Ca são as fontes
escolhidas.

Por sua vez, cerca de 80% do fósforo está presente no esqueleto e 20% nos tecidos
moles, onde está envolvido em vários aspectos do metabolismo: energético (faz parte das
moléculas ATP, GTP, UDPG, etc.) de carboidratos, aminoácidos e gorduras (sistemas
enzimáticos), no equilíbrio químico do sangue, no transporte de gorduras (fosfolipídeos),
participação de produtos, ligação ao DNA-RNA.
O controle metabólico desses dois minerais está completamente interligado e é
realizado especialmente por três hormônios: paratormônio, a calcitonina e o 1,25
diidroxicolecalciferol, que é o metabólito ativo da vitamina D.
O paratormônio é um polipeptídeo de 84 aminoácidos, sendo o aminoácido 33 n-
teminal, um metabólito ativo. Possui um peso molecular de 9500 Da, é sintetizado pela
paratireóide e sua secreção é regulada em grande parte pelos níveis plasmáticos de cálcio. Sua
maior ação é sobre os ossos e rins, mas atua secundariamente na absorção intestinal de cálcio.
Dentre os seus efeitos biológicos estão incluídos estímulo aos osteoclastos, que
promovem reabsorção óssea, reaborção de cálcio e excreção de fosfato pelos túbulos renais e
estímulo para produção de 1,25 diidroxicolecalciferol (metabólito da vitamina D). Esses efeitos
são obtidos após a ligação do aminoácido terminal da molécula de paratormônio ao seu receptor,
que pertence à grande família de receptores que contém domínio transmembrana e que trabalha
a partir da ativação de proteínas G.
A calcitonina é o principal hormônio responsável pela diminuição das concentrações
plasmáticas de cálcio. Seu principal mecanismo de ação seria a diminuição da reabsorção óssea
osteoclástica, pelo aumento na concentração de cálcio citossólico que leva à contração dos
osteoclástos.
No entanto, ela pode ter alguns efeitos positivos sobre a excreção renal e efeitos
negativos sobre a absorção intestinal de cálcio. Sua secreção é estimulada por vários fatores,
mas o principal deles é a administração oral ou parenteral de cálcio. As células parafoliculares ou
células C da tireóide parecem ser o seu principal sítio de produção.
O termo vitamina D é utilizado para descrever genericamente um grupo de esteróides
derivados do anel ciclopentanoperidrofenantreno, sendo os seus dois principais membros, o
colecalciferol (vitamina D3) e ergocalciferol (vitamina D2). A vitamina D é uma forma não ativa
que após se submeter a duas reações de hidroxilação forma seu composto biologicamente ativo
com funções esteróides. Atua em conjunto com os hormônios paratireóideo e com a calcitonina 82
no controle homeostatico do cálcio e do fósforo. É absorvida pelos enterócitos e secretada para
a linfa, associada com quilomicrons.
Para a maioria dos animais é sintetizada durante radiação ultravioleta B da pele a partir
do 7-deidrocolesterol, um intermediário em uma das vias da síntese do colesterol. Produzida na
pele, é transportada para o fígado pela proteína ligada a vitamina D (DBP). No entanto, cães
parecem não realizar bem essa síntese e necessitam de uma fonte dietética de vitamina D pré-
formada.
De qualquer forma, a vitamina D produzida ou consumida via dieta chega ao intestino,
onde passa por hidroxilação na posição 25 para 25-hidroxicolecalciferol sob a ação da 25-
hidroxilase. Esta é uma enzima semelhante ao P450 que é fracamente regulada em muitos
animais, gerando níveis circulantes mais elevados de 25-hidroxicolecalciferol, tornando-o o
metabólito em maior concentração na circulação, o que facilita sua mensuração.
Do fígado, 25-OHD é transportado em DBP para o rim onde ocorre hidroxilação
secundária no carbono 1 pela 1-alfa-hidroxilase para formar o 1α, 25-diidroxicolecalciferol, sua
forma ativa. A 1-alfa-hidroxilase está localizada na mitocôndria dos túbulos proximais do rim e
pertence à classe das enzimas oxidase. A concentração de 1,25 diidroxicolecalciferol no plasma
é controlada principalmente através da atividade dessa enzima no rim, sob regulação de
feedback positivo e negativo, por meio do paratormônio (PTH) e de concentrações séricas de 1-
alfa-hidroxilase, cálcio e fósforo. O PTH liberado em resposta ao baixo cálcio sérico estimula a
atividade da 1α,-hidroxilase e diminui a de 24-hidroxilase, que gera o metabólito, 24,25
diidroxicolecalciferol (National Research Council, 2006). Há várias discussões sobre a
participação desse metabólito na mineralização dos ossos.
Enquanto alguns o classificam como inerte outros autores citam o seu papel sobre a
ossificação endocondral (Hazewinkel et al., 2002). De qualquer forma, sua ação negativa na
produção do PTH é comprovada e ela é um dos produtos de excreção do metabolismo da
vitamina D. Respostas produzidas pela 1α, 25-(OH2)D são mediadas por sua ação nos
receptores nucleares e vias não genômicas, como os canais de cálcio. Os tecidos alvo clássicos
de 1α, 25(OH)2D são aqueles que regulam o status mineral. Quando há uma diminuição no
cálcio sérico, a glândula paratireóide aumenta a secreção de PTH, a qual estimula a 1α, 25-
hidroxilase para aumentar a síntese de 1α, 25(OH)2D. Esses dois hormônios (PTH e 1α,
25(OH)2D) em combinação aumentam a reabsorção óssea e restauram a concentração sérica
de cálcio iônico. Receptores para 1α, 25(OH)2D foram encontrados nos osteoblastos mas não
nos osteoclastos; dessa forma é sugerida que a atividade osteoclástica é estimulada através dos 83
osteoblastos ou por vias de transdução de sinal não genômicas, como abertura dos canais de
cálcio.
A dissolução do osso contribui com ambos, cálcio e fósforo, para o plasma, mas um
aumento no fósforo é regulado por seu maior pool e excreção renal induzida por elevados níveis
de PTH.
A principal função dessa vitamina é estimular a absorção de cálcio através do aumento
da proteína ligante do cálcio (que mantém o cálcio em solução) e da CaATPase dentro dos
enterócitos. Assim, o transporte ativo seria totalmente dependente de vitamina D. Existem várias
proteínas ligantes do cálcio e a calbindina D9k é uma delas. Ela é uma proteína ácida, com
ponto isolelétrico de 4,8 e cuja biossíntese é totalmente d. É encontrada no intestino de
mamíferos em geral e nos intestinos e rins de ratos.
A elevação nos níveis de cálcio ativa essa proteína que atua aumentando o transporte
(de maneira análoga à hemoglobina no transporte de oxigênio). Ao se ligar ao cálcio, dá início ao
processo ativo, aumentando as concentações intracelulares do mineral. Na sua ausência, a
difusão do íon cálcio é aproximadamente 1/70 dos valores habituais.
Chun Li et al. (2001) realizaram um estudo com ratos adultos normais (com receptores
para vitamina D) e geneticamente modificados (sem receptores) e observaram que nos ratos
modificados, a porcentagem de calbindina D9k diminuiu de 50-90% em relação aos ratos
intactos, enquanto os níveis de D28k permaneceram os mesmos. Esses dados sugerem que a
síntese de calbindina D9k, mas não a de D28k, encontrada nos rins dos mamíferos, é regulada
pela ação do 1,25 diidroxicolecalciferol.
Além disso, os resultados apontam que o prejuízo na conservação renal de cálcio
pode ser o fator mais importante para o desenvolvimento de hipocalcemia no grupo com
ausência de receptores, o que indica que a calbindina D9k pode ter papel fundamental na
reabsorção tubular. A síntese da proteína D9k é o papel mais importante exercido pelo 1,25
diidroxicolecalciferol no transporte ativo de cálcio. No entanto, ela também pode atuar
modulando a entrada e a saída do mineral, através do aumento da CaATPase no interior das
células intestinais. Mas, além de promover um aumento na absorção de cálcio e fósforo pelo
trato gastrointestinal, 1,25 diidroxicolecalciferol aumentam a reabsorção óssea e os efeitos do
paratireóideo no néfron. Esse efeito permite a reabsorção tubular do cálcio.

Sódio, potássio e cloro


84

Esses elementos estão amplamente distribuídos nos fluidos e tecidos moles do


organismo, exercendo conjuntamente com íons fosfato e bicarbonato, todo o controle
homeostático orgânico, mantendo a pressão osmótica, o equilíbrio ácido-base, o controle da
passagem de nutrientes para as células e o metabolismo da água. Parte do sódio encontra-se no
esqueleto numa forma insolúvel; a maior concentração é encontrada nos fluidos extracelulares,
onde possui um metabolismo muito ativo.

A taxa de potássio é semelhante à do sódio, existindo principalmente como constituinte


celular. O cloro está distribuído no interior e no exterior da célula, sendo 15-20% de todo o cloro
orgânico na forma combinada. Grande parte do cloro é armazenada na pele e no tecido
subcutâneo.

O sódio tem um papel na regulação do equilíbrio ácido base e no volume extracelular,


devido a sua importância na regulação da pressão osmótica. Também auxilia na manutenção do
potencial elétrico em tecidos excitáveis e na geração e transmissão de impulsos nervosos.

O potássio está envolvido na regulação ácido base, na transmissão do impulso


nervoso, como um co-fator para enzimas e em funções de transporte. O cloreto, na forma de Cl-,
é o ânion mais prevalente no fluido extracelular de espécies mamíferas, constituindo mais de
dois terços dos ânions no plasma e no fluido extracelular.

Enxofre

O enxofre está amplamente distribuído no organismo animal, principalmente na forma


de compostos orgânicos, como aminoácidos sulfurados, tiamina e biotina. Na forma inorgânica,
aparece como componente da cartilagem (condroitina). Sua forma inorgânica é proveniente de
compostos orgânicos catabolizados. O íon sulfato participa de reações específicas, tais como
formação de mucopolissacarídeos sulfatados e na síntese de taurina.

Magnésio

85
O magnésio é o segundo cátion intracelular mais abundante, depois do K, e está
envolvido em mais de 300 processos metabólicos. É essencial para a fosforilação oxidativa e
para a atividade da adenosina trifosfatase (ATPase), metabolismo de DNA e RNA e síntese de
proteínas.
Ele também tem um papel vital na estabilidade de músculos e membranas das células
nervosas, adesão de células, comunicação com a matriz extracelular, regulação do canal de
cálcio em tecidos cardíacos, proliferação de linfócitos e atividades plaquetárias. É necessário
para a secreção e funcionamento de hormônios (ex. PTH) e tem um papel essencial na estrutura
mineral de ossos e dentes. Por volta de 50% do total de Mg corporal são encontrados nos ossos.
Diferente do cálcio, entretanto, o Mg dos ossos não é trocável. Uma pequena fração do
remanescente é encontrada no citoplasma de tecidos moles (ex. músculos), com somente 1% no
espaço extracelular fluido.

Selênio

O selênio pode ser encontrado, com freqüência, em associação com o enxofre em


compostos orgânicos e inorgânicos, devido a sua forma similar a esse mineral e ao telúrio
(Sechinato, 2003). Ele é um potente antioxidante, cujo papel é modular a ação da enzima
glutationa peroxidase, que funciona como um antioxidante intra-citoplasmático.

Na forma de selênio-cisteína, também funciona em duas deiodinases que são


importantes para formação e degradação de triiodotironina, a forma ativa do hormônio da
tireóide. O selênio também tem um importante papel no suporte da resposta imune, além de ser
um fator anticancerígeno.
Seu principal local de absorção é o duodeno e sua forma de administração na dieta
influencia significativamente a absorção. Posteriormente, é transportado em associação a uma
proteína plasmática e é armazenado nos tecidos, principalmente como selenocistina e
selenometionina. A concentração do elemento nos diversos órgãos varia com o consumo.

O selênio se incorpora às células vermelhas do sangue, leucócitos, mioglobina,


nucleoproteínas, miosinas e várias enzimas, que incluem o citocromo C e aldolase. A excreção 86
responde aos requerimentos tissulares. As perdas se efetuam através dos pulmões (hálito com
cheiro de alho), fezes e urina. As perdas fecais se constituem do selênio que não se absorve e
do selênio excretado através da bile, do suco pancreático e das células da mucosa intestinal. A
fonte de selênio adicionada às dietas animais é categorizada de duas formas, o selênio orgânico
e o inorgânico. Comparada com a forma inorgânica, ocorre uma deposição maior nos músculos
e órgãos quando a forma orgânica é fornecida. Em altos níveis dietéticos, o selenito de sódio, a
forma inorgânica desse mineral, teria efeito pró-oxidante, o que não é observado com forma
quelatada.

O ferro encontra-se presente em várias enzimas que atuam no transporte de elétrons


(citocromoxidases, hidroperoxidadeses), ativação de oxigênio (oxidases, oxigenases), transporte
de oxigênio (hemoglobina).

Cerca de 70% do ferro corporal encontra-se sob a forma heme, presente nas células
vermelhas do sangue e na mioglobina do músculo. Aproximadamente 20% se armazenam sob
formas lábeis no fígado, baço, medula óssea e outros tecidos, onde se encontra disponível para
a formação de hemoglobina. Os 10% restantes se encontram nos tecidos, como parte da
miosina e actomiosina muscular. Está presente ainda nas enzimas metaloporfirínicas (citocromo
C, catalase e peroxidase) e metaloflavínicas (desidrogenase, redutase, xantino oxidase e
NADH). Apenas uma pequena fração de 5 a 10% do ferro na maioria dos alimentos é de fato
absorvida sob a forma ferrosa (Fe2). Absorção é mais eficaz em condições ácidas.

A quantidade de ferro absorvida no estômago e principalmente no duodeno, é mais


expressiva do que no íleo. A xantino-oxidase da mucosa intestinal catalisa conversão do ferro do
estado ferroso ao estado férrico, facilitando sua ligação à transferrina, uma proteína específica
responsável pelo transporte do ferro através da corrente sangüínea. O ferro presente na carne é
mais bem absorvido do que o ferro presente nos cereais. As concentrações elevadas de fosfatos
inorgânicos e ácidos fítico nos cereais diminuem a absorção de ferro ao formar sais insolúveis.
Também, concentrações elevadas de outros elementos traços, com o Zn, Mn, Cu e Cd, reduzem
sua absorção.

Presumivelmente, isto se deve à competição pelos sítios de enlace de proteínas de


transporte presentes na mucosa intestinal.O controle de absorção de ferro aparentemente
depende da concentração de ferro sob a forma de ferritina nas células da mucosa intestinal. Do 87
ferro captado, somente uma pequena porção se transfere para as células do sangue; a maior
parte se retém nas células da mucosa e desta forma se transfere para a célula sangüínea
conforme sua necessidade. Nos tecidos, o ferro (forma ferrosa) está armazenado sob a forma de
ferritina. Quando a capacidade de armazenamento é excedida, o ferro é acumulado como
grânulos insolúveis de hemosiderina, dentro das mitocôndrias de alguns tecidos.

A ferritina é considerada a forma solúvel, e a hemosiderina a forma insolúvel do ferro


armazenado.Há um constante intercâmbio do ferro entre os tecidos e o plasma. A incorporação
de ferro plasmático (transferina) à ferritina nas células hepáticas depende de energia (ATP) e se
relaciona com a redução de Fe3+ da transferina a Fe2+ da ferritina. A liberação de Fe2+ da
ferritina hepática ao plasma se efetua através do catalizador xantino oxidase.O organismo retém
o ferro que absorve. O ferro liberado da degradação da hemoglobina é reciclado e utilizado na
síntese da nova hemoglobina.

O ferro excretado é constituído principalmente pelo ferro dietético que não se absorve,
pelo ferro endógeno eliminado pela bile e pelo ferro das células intestinais descamadas. A
excreção urinária ocorre somente quando a administração do ferro parenteral é superior à
capacidade do plasma em ligá-lo.

O entendimento das funções do zinco no metabolismo teve início em 1869, com


Raulin, que descobriu sua essencialidade para Aspergillus niger. Quarenta anos mais tarde,
Mazé descreveu problemas no cultivo de milho pela falta de zinco. Todd, Evehjem e Hart, em
1934, descobriram sua essencialidade para ratos, e, mais tarde, em 1955, Tucker e Salmon
descobriram problemas na pele do ser humano, decorrentes da deficiência de zinco. Em 1960,
O’Dell observou que este mineral era essencial para crianças.

Vários estudos se seguiram demonstrando que a deficiência de zinco era revertida


pela suplementação. A versatilidade das características físico-químicas do zinco constitui a base
de sua extensa participação no metabolismo de proteínas, ácidos nucleicos, carboidratos,
lipídios e, mais recentemente, tornou-se uma importante via de investigação na elucidação do
processo de controle da expressão gênica e de outros mecanismos biológicos fundamentais.

Dentre estas características, a associação estável do metal a macromoléculas,


principalmente proteínas e ácidos nucleicos, e a flexibilidade de sua esfera de coordenação,
merecem destaque. Sob esta perspectiva, mais de 300 tipos diferentes de enzimas identificadas 88
em diversas espécies vivas necessitam da coordenação de um ou mais átomos de zinco,
podendo ser classificados como fatores catalítico, co-catalítico ou estrutural. A função catalítica
pressupõe que o metal participa diretamente da catálise enzimática. Sua remoção ocasiona a
inativação da enzima. A molécula de água ligada ao zinco é um componente crítico do sítio
catalítico, pois é a partir dela que o zinco pode ser ionizado a hidróxido de zinco (como acontece
na anidrase carbônica), polarizado por uma base (como acontece na carboxipeptidase A),
gerando um nucleófilo para a catálise, ou ainda ser deslocado pelo substrato.

Na função co-catalítica, o átomo de zinco pode aumentar ou diminuir a catálise,


associando-se a outro átomo de zinco ou a um átomo de outro metal no sítio ativo da enzima e
sua remoção não condiciona a perda da atividade ou estabilidade desta. Estes íons metálicos
atuam de maneira concatenada, potencializando a catálise. Um exemplo claro deste tipo de
função pode ser visto na fosfolipase C. Esta enzima contém um primeiro átomo de zinco,
denominado catalítico, geralmente ligado a uma molécula de água e a dois resíduos de histidina
e um de glutamato, tornando-o semelhante a outros sítios catalíticos comumente encontrados.
Os átomos estruturais de zinco são necessários apenas à manutenção da estabilidade
conformacional das proteínas, pois contribuem para a estabilização da estrutura quaternária de
holoenzimas oligoméricas.

Juntamente com Fe é necessário para a síntese da hemoglobina. O cobre é essencial


para a absorção e mobilização do Fe. A cerulosplamina, enzima que contêm cobre, é necessária
para a oxidação do Fe e sua ligação com a transferrina. O cobre é componente da citocromo
oxidase que cataliza a redução de O2 para CO2 na respiração celular. Além disso, participa na
formação do tecido ósseo e conectivo através da lisiloxidase que atua na formação de
propoelastina e tropocolágeno que conferem rigidez e elasticidade à parede dos vasos. Outra
função seria a de pigmentação e queratinização dos pêlos (tirosinase). O cobre é necessário
para a integridade do SNC (deficiência de citocromo oxidase diminui síntese de mielina), na
função reprodutiva, no sistema imunológico, no metabolismo dos lipídeos, etc.

Sua deficiência provoca anemia, diarréia severa, crescimento retardado, mudança de


cor do pêlo, ataxia neonatal, infertilidade, insuficiência cardíaca, ossos fracos e quebradiços. Na
maioria das espécies, as maiores concentrações de cobre se encontram no fígado, cérebro,
coração, rim, parte pigmentada do olho, pêlo, pâncreas, músculo e em baixas concentrações na 89
tireóide, pituitária, timo, próstata, ovário e testículo.

O cobre no plasma se associa em cerca de 90% com a alfa 2-globulina como


ceruloplasmina; apenas 10% se encontram nas células vermelhas do sangue como
eritrocupreína. O cobre se absorve no estômago e principalmente no intestino delgado. O pH do
conteúdo intestinal modifica a absorção; sais de Ca diminuem a absorção de Cu ao elevar o pH.
Os minerais mercúrio, molibdênio, cádmio e zinco também prejudicam a absorção de Cu; o Hg e
o Mo, provavelmente pela formação de compostos insolúveis com o cobre; o cádmio e o zinco
por deslocarem o cobre ligado à proteína na mucosa intestinal. Algumas formas combinadas de
cobre são melhores absorvidas do que outras. O nitrato cúprico, o cloreto cúprico e o carbonato
cúprico se absorvem melhor que o óxido cuproso.

O sulfato cúprico é mais facilmente absorvido que o sulfato cuproso. O cobre metálico
apresenta baixa absorção. O cobre absorvido liga-se à albumina plasmática para ser
transportado ao fígado, onde é armazenado e utilizado na síntese de inúmeras proteínas e
enzimas, ou liberado ao plasma como albumina cúprica e em grande quantidade como
componente da ceruloplasmina. Na medula óssea, o cobre é captado para formar a
eritrocupreína das células vermelhas do sangue. O cobre é excretado pelas fezes, via bile.
Através da célula intestinal e das secreções pancreáticas se perdem quantidades menores, e
pela urina quantidades insignificantes.

3.10 Vitaminas

Vitamina A
O termo vitamina A inclui vários compostos denominados retinal, retinol e ácido
retinóico, sendo o retinol a forma biologicamente mais ativa. No organismo cumpre funções que
afetam a visão, o crescimento, a reprodução e a manutenção do tecido epitelial. Sua origem está
nos carotenóides, sintetizados pelas células das plantas. Quando os animais consomem esses
pigmentos, uma enzima localizada na mucosa intestinal os converte em vitamina A.
Embora haja diversos carotenóides capazes de serem convertidos em vitamina, o beta
caroteno é o que possui maior potência biológica. No entanto, o gato doméstico ao contrário do 90
cão, possui deficiência da enzima que desdobra o caroteno e deve receber uma fonte de
vitamina A pré-formada na dieta. As fontes naturais de vitamina A são o óleo de fígado de peixe,
leite, o fígado e a gema de ovo.

Vitamina E

A vitamina E é o maior antioxidante lipossolúvel presente no plasma, eritrócitos e


tecidos e tem a função de eliminar os radicais livres, prevenindo a oxidação de ácidos graxos
poliinsaturados (PUFAs), nas proteínas de membrana e ácidos nucleicos.
Os tocoferois atuam como doadores de hidrogênio do grupo 6-OH para a redução de
radicais livres. As reações com radicais livres são ubiquitosas em sistemas biológicos e estão
relacionadas com o metabolismo energético, reações biossintéticas, mecanismos de defesa
natural, detoxificação e vias de sinalização intra e intercelular.

Vitamina D

O metabolismo da vitamina D foi extensamente estudado juntamente com o


metabolismo do cálcio.

Vitamina K

É constituída por um grupo de compostos denominados quinonas. A K1 está presente


na forma natural nas plantas verdes, a K2 (metaquinona) é sintetizada pelas bactérias no
intestino grosso e a K3 (metadiona) é a forma sintética mais comum. Seu papel mais conhecido é
na coagulação sanguínea. É encontrada nos vegetais e folhas verdes, mas as quantidades
sintetizadas pelas bactérias do intestino, normalmente suprem as necessidades.
Tiamina (B1), Riboflavina (B2), Niacina (B3), Ácido Pantotênico (B5) e Piridoxina
(B6)

A tiamina é componente da enzima pirofosfato de tiamina, que desempenha um papel


importante no metabolismo dos carboidratos. A sua deficiência causa disfunção do sistema
nervoso central, anorexia e perda de peso. A riboflavina recebe esta denominação pela sua cor
amarela (flavina) e por conter a ribose, um açúcar simples. 91
Atua em duas coenzimas: a flavinamonucleotídeo e a flavinaadeninadinucleotídeo, que
participam de sistemas enzimáticos do metabolismo energético. A niacina está associada à
riboflavina nos processos de oxido-redução celular. Incorpora-se a duas enzimas: a nicotinamida
adenina dinucleotídeo e a nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato.
Cães conseguem sintetizar parte de sua demanda diária de niacina a partir do
triptofano, o que não ocorre com os gatos. O ácido pantotênico faz parte da formação da
coenzima A que participa do metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas, no ciclo do ácido
cítrico. A piridoxina é formada por três compostos: piridoxina, piridoxal, piridoxamina. O piridoxal
(piridoxal fosfato) participa em numerosas reações no metabolismo de proteínas (transaminação,
desaminação e descarboxilação) e por esse motivo gatos têm uma necessidade maior dessa
vitamina, quando comparado a cães.

Cobalamina (B12)

Cobalamina, o nome utilizado para designar a família dos derivados conhecidos como
vitamina B12, é a única entre as vitaminas que é sintetizada somente por certos microrganismos.
Sempre que as cobalaminas ocorrem na natureza, são oriundas da síntese pelas bactérias ou
outros microrganismos no rúmen, intestino ou solo.
A cobalamina forma duas coenzimas, adenosilcobalamina e metilcobalamina, que
participam do funcionamento de mais de uma dúzia de sistemas enzimáticos, mas apenas dois -
o dependente de adenosilcobalamina metilmalonil CoA mutase e o dependente de
metilcobalamina metiltetrahidrofolato-homocisteína metil transferase (agora chamado metionina
sintase) - são importantes em cães e gatos.
As enzimas dependentes de adenosilcobalamina catalizam rearranjos moleculares dos
esqueletos de carbono, enquanto que as dependentes de metilcobalamina estão envolvidas na
transferência de grupos metil de uma amina terciária. Participam no metabolismo dos lipídeos,
carboidratos, na síntese de mielina e na hematopoiese.

Ácido Fólico

A presença de um fator em alimentos que previne a anemia megaloblástica e estimula 92


o crescimento animal foi descoberto na década de 1930, mas não identificado e não sintetizado
até 1946, quando recebeu o nome de ácido fólico.

Originalmente, pensou-se que o ácido fólico era o único fator necessário para o
tratamento da anemia perniciosa em humanos, mas mais tarde descobriu-se que ele era o
segundo fator envolvido. O ácido fólico (ácido pteroilmonoglutâmico) consiste de uma porção
pterina (2-amino-4 hidroxipteridina) ligada a um grupo metileno no carbono 6 do ácido p-
aminobenzoilglutâmico. Os folatos naturais ocorrem nas formas reduzidas 7,8 diidro e 5,6,7,8
tetraidro. Os folatos na natureza ocorrem como pteroiloligo-γ-L-glutamatos (PteGlun), onde n é 1-
9 ou glutamatos mais longos.

Os folatos são usados como co-fatores e servem como doadores e receptoes de


moléculas de um carbono, em uma variedade de reações envolvendo o metabolismo de
aminoácidos e nucleotídeos. Estas funções dos folatos resultam de sua habilidade em transferir
unidades de carbono para grupos como 5-metil, 5-formil, 10-formil, 5,10-metenil, 5,10-metileno e
5-forminino. A maioria das reações envolvendo os folatos acontece no citossol, mas as reações
que envolvem a transferências de unidades simples de carbono entre a serina e a glicina
ocorrem na mitocôndria. Para ser coenzimaticamente ativa, o anel pirazina, da porção pterina,
deve ser reduzido para a forma tetrahidro e a cadeia glutamato alongada pela adição de
resíduos de glutamato.

As reações envolvendo folato podem ser convenientemente agrupadas em quatro


principais categorias: metabolismo de aminoácidos, metabolismo de nucleotídeos, fonte de
unidades de um carbono e síntese de proteína mitocondrial. Na interconversão de serina a
glicina, a serinahidroximetiltransferase catalisa a transferência de formaldeído de serina para
tetraidrofolato (H4PteGlu n), para gerar glicina e 5,10 metileno - H4PteGlu n. Esta reação acontece
na mitocôndria e no citossol e é catalisada por 2 diferentes isoenzimas. Na mitocôndria, a glicina
na presença de NAD+ e H4PteGlu n é clivada, produzindo dióxido de carbono e amônia e um
carbono simples é transferido para o H4PteGlu n como 5,10 metileno H4PteGlun.

Uma via maior da utilização de carbono simples é a redução do 5,10 metileno


H4PteGlun para 5-metil H4PteGlun pela 5,10 metilenotetrahidrofolato redutase e transferência de
grupo metil para homocisteína para produzir metionina que regenera H4PteGlun. A reação de
transferência de metil é catalisada pela metionina sintetase, uma enzima cobalamina 93
dependente. A homocisteína é derivada da hidrólise de S-adenosilhomocisteína quando um
grupo metil é doado pela S-adenosilmetionina. O ácido N-formiminoglutâmico é um intermediário
no catabolismo da histidina.

A formiminotransferase catalisa a transferência do grupo formimino H4PteGlun e


glutamato. Esta reação é a base do teste clínico para a deficiência de folato. Quando o folato
está deficiente, a concentração de ácido formiminoglutâmico no plasma e na urina está
grandemente aumentada, especialmente após o aporte de histidina. O folato não está
diretamente envolvido na síntese de pirimidinas, mas é requerido para síntese de timidilato.
Moléculas com um carbono na oxidação do formaldeído são doadas pelo 5,10 metileno-
H4PteGlun para o deoxiuridina monofosfato (dUMP), que resulta na produção de deoxitimidina
monofosfato (dTMP) e a formação de dihidrofolato. Esta é somente a reação do folato, em que
os estados de oxidação mudam de tetraidro para dihidrofolato e diferem de outras reações que
envolvem não somente a transferência de um grupo hidroximetil, mas também de um hidreto.

Quando o folato não está disponível para desempenhar essas funções, há distúrbio na
síntese de DNA e anemia megalobástica. Na síntese de purina, os carbonos nas posições 2 e 8
do anel de purina são derivados do 10-formil-H4PteGlun que segue da oxidação do H4PteGlun . O
folato também participa na oxidação das moléculas de um carbono para dióxido de carbono. A
enzima 10-formil-tetrahidrofolato desidrogenase catalisa a oxidação do grupo 10 formil do
H4PteGlun. Um papel menos relatado do folato é na biossíntese de proteína na mitocôndria, que
é iniciada pela transferência especial de RNA, N-formilmetionil-tRNAf . O grupo formil para esse
RNA é doado pelo 10-formil- H4PteGlun.

Biotina
A biotina é um composto bicíclico, que tem anéis contendo grupo ureído e outros
contendo enxofre, em uma estrutura tetrahidrofeno, com um ácido valérico num dos lados da
cadeia. A biotina tem 3 átomos de carbonos assimétricos; dessa forma, há 8 esteroisômeros dos
quais apenas um, d-(+)-biotina, que ocorre naturalmente, é enzimaticamente ativo.
A biotina serve como um co-fator em quatro reações de carboxilase, em mamíferos
que catalizam a incorporação do bicarbonato como grupo carboxil nos substratos. Em sistemas
94
não mamíferos, as enzimas biotina dependentes também atuam como transcarboxilases e
descarboxilases.
Três das quatro carboxilases dos mamíferos são enzimas mitocondriais (piruvato,
propionil-CoA e metilcrotonil-CoA carboxilases) e a quarta, acetil Côa carboxilase ocorre na
mitocôndria e no citossol. A piruvato carboxilase catalisa a incorporação do bicarbonato no
piruvato, na forma de oxalacetato, que em tecidos gliconeogênicos como fígado e rim pode ser
convertido à glicose. A degradação dos aminoácidos isoleucina, metionina, treonina e valina
resultam na produção de propionil Côa, que na carboxilação (catalisada pela propionil Côa
carboxilase), é convertido para o isômero D de miltmalonil-CoA.
Após vários passos, a metilmalonil Côa é convertida a succinil CoA, que alimenta o
ciclo do ácido tricarboxílico. Metilcrotonil-CoA carboxilase, a terceira enzima carboxilase
dependente de biotina, está envolvida na degradação de leucina. E a acetil Côa carboxilase
catalisa a incorporação de bicarbonato pelo acetil CoA para formar malonil-CoA, um substrato
para o alongamento de ácidos graxos. Nas carboxilases, a biotina é ligada à apocarboxilase por
uma reação de condensação catalisada pela holocarboxilase sintetase que está presente tanto
no citossol quanto na mitocôndria. A junção ocorre via ligação amida, formada entre ε-amino
grupo de um resíduo de lisina na apocarboxilase e o grupo carboxílico ácido valérico da biotina.

Colina

Classicamente, a colina não é uma vitamina verdadeira, porque muitos animais são
capazes de sintetizá-la no fígado, através da metilação de etanolamina, usando grupo metil
doado pela S-adenosilmetionina. A metilação acontece em duas etapas e envolve duas
metiltransferases. Já que a síntese sob algumas condições é inadequada e pequenas
quantidades de colina na dieta podem prevenir certas condições patológicas, ela é
tradicionalmente incluída com as vitaminas do complexo B.
A necessidade de colina na dieta de cães foi inicialmente definida junto com as
pesquisas de insulina, quando se descobriu que a lecitina preveniu o fígado gorduroso e morte
em cães sem o pâncreas. O termo “lipotrófico” foi aplicado para a colina e outros fatores que
previnem o acúmulo de gordura no fígado. A colina é um componente integral do fosfolipídeo
fosfatidil-colina ou lecitina. O maior papel da colina é como doador de grupos metil para as
reações de metilação. Outros componentes incluindo a metionina também doam grupos metil,
mas a colina tem três grupos metil comparados com somente um da metionina. 95
Como o ácido fólico e a vitamina B12 estão envolvidos na transferência de grupos
metil, as funções dos três estão inter-relacionadas. Uma pequena fração de colina dietética é
acetilada em neurônios colinérgicos para a síntese de acetilcolina. A colina tem 3 papéis
principais: na fosfatidilcolina, como um doador de metil, e como componente da acetilcolina.
Fosfatidilcolina (lecitina) é um elemento estrutural em membranas e é componente do VLDL. Na
deficiência de colina a capacidade diminuída do fígado para sintetizar fosfatidilcolina resulta no
acúmulo de lipídeos.

Vitamina C

O ácido ascórbico tem estrutura semelhante à dos acúcares monossacarídeos e pode


ser sintetizado a partir da glicose. Somente em condições especiais sua suplementação torna-se
necessária e vantajosa.
4 NUTRIÇÃO E MANEJO ALIMENTAR DE CÃES NAS DIFERENTES FASES DA VIDA

Nos módulos anteriores estudamos os princípios da nutrição de animais de companhia,


bem como a energia, os nutrientes e as suas particularidades para cães e gatos. No entanto, é
preciso ressaltar que a nutrição e alimentação dentro de uma mesma espécie, são diferentes, 96
dependendo da etapa fisiológica na qual o animal se encontra. Assim, balancear e manejar uma
dieta para um cão ou gato filhote é distinto de fazê-lo para esses mesmos animais na fase adulta
ou na senilidade.
Falaremos sobre a nutrição e o manejo alimentar de cães e gatos neonatos, nas fases
de crescimento, manutenção, gestação, lactação e senilidade, além de ressaltarmos as
particularidades do cão atleta.

4.1 Cães e gatos neonatos

As primeiras horas de vida do cão e do gato constituem um dos períodos mais críticos
do ponto de vista nutricional. Os cuidados nas primeiras 36 horas são fundamentais para garantir
a sobrevivência dos animais nessa fase. Fisiologicamente, cães e gatos neonatos ainda são
imaturos e o parto, juntamente com as condições ambientais, pode ser estressante.
Dessa forma, minimizar as causas de estresse é o principal objetivo do manejo de
animais recém-nascidos. Dentre as principais particularidades fisiológicas nessa fase podemos
citar: o controle ineficiente da homeotermia (a variação da temperatura corpórea é bastante
grande e influenciada pelo ambiente, podendo chegar até 29,5ºC nos primeiros dias de vida, o
que é bem abaixo do observado em um animal adulto- 38,1-39,5ºC); freqüência cardíaca variável
nas primeiras semanas, quando o coração passa a exercer a função de bombeamento do
sangue, nutrição e oxigenação de tecidos (o que não ocorria no útero da mãe quando a placenta
realizava esse trabalho); freqüência respiratória variando de 15-35 movimentos por minuto;
densidade urinária mais baixa devido à reabsorção de água ineficiente, o que predispõe a
desidratação, podendo haver presença de pequenas concentrações de proteína devido ao
desenvolvimento incompleto da capacidade de reabsorção dos túbulos contorcidos; reserva
limitada de glicogênio e incapacidade da gliconeogênese em suprir as necessidades e sistema
nervoso imaturo com alterações ou ausência de alguns reflexos.
O cão é considerado neonato até 6-8 semanas e após esse período passa a ser
designado por filhote. Durante a fase neonatal, as necessidades nutricionais dos animais são
normalmente supridas por leite materno. No entanto, em algumas condições tais como morte da
mãe, incapacidade de produção de leite da cadela, mastites, cadelas recebendo medicamentos
que serão excretados pelo leite e podem prejudicar o desenvolvimento dos filhotes, ninhadas
muito grandes e animais muito menores do que o restante da ninhada, a alimentação artificial 97
deve ser adotada.
Para realizar o manejo nutricional adequado é importante que se conheça a
composição do leite da cadela e da gata. Logo após o parto, os mamíferos produzem o colostro,
que possui uma composição especial e é de vital importância na transferência da imunidade
passiva ao filhote.
A maioria dos fatores presentes são proteínas grandes e intactas que necessitam ser
absorvidas pela mucosa intestinal com o objetivo de conferir imunidade aos neonatos. Com o
avançar da idade, a possibilidade de absorção dessas proteínas em sua forma original vai se
perdendo, pois as enzimas passam a agir de forma mais eficiente, levando a hidrólise das
imunoglobulinas e eliminando a sua capacidade de proteção contra agentes infecciosos. O
período em que os anticorpos de origem materna podem ser absorvidos pela mucosa intestinal
dos recém-nascidos é curto, estendendo-se até 24 horas após o nascimento do cão ou gato.
Após esse tempo a proteção via colostro não mais ocorrerá.
No entanto, além da proteção imunológica, outras funções são conferidas ao colostro:
a nutrição (é o único alimento ingerido pelo animal nas primeiras horas de vida) e a regulação do
volume circulatório do animal; assim, uma deficiência no consumo pode levar à desidratação,
bem como o excesso pode causar diarréias osmóticas, que em casos extremos pode levar os
recém-nascidos a óbito. Dessa forma, garantir a ingestão de colostro é primordial para o bom
desenvolvimento dos animais.
Com o passar do tempo, a composição dessa primeira secreção láctea vai se alterando
devido às mudanças nas necessidades dos animais, conforme o crescimento avança. De forma
geral, o leite é uma emulsão de gordura em água, com uma suspensão de micelas de caseína
(proteína) e solução de vitaminas, minerais, carboidratos e proteínas. A caseína é uma proteína
rica em aminoácidos essenciais ao desenvolvimento do filhote e está organizada em frações nas
micelas, ligada ao cálcio e ao fósforo de forma a garantir as necessidades desses minerais
necessárias ao crescimento; as proteínas do soro incluem a alfa-lactalbumina (que faz parte da
enzima lactose sintetase, necessária à síntese de lactose), a beta-lactoglobulina (essas duas são
também sintetizadas na glândula mamária), além de imunoglobulinas, albuminas (provenientes
do soro da cadela ou gata) e uma série de enzimas como a fosfatase alcalina, as lipases e
proteases; a gordura é composta especialmente de triglicerídeos de cadeia média que possuem
uma absorção e uma digestão mais fácil, essencial para essa fase da vida; o carboidrato
presente no leite é a lactose, principal fonte de energia nesse período.
Além disso, é o componente osmótico da secreção láctea, ou seja, sua presença no 98
leite influencia na produção, pois ela atrai água para a glândula mamária. É exclusivo do leite e
sintetizado na glândula mamária, constituindo-se em um dissacarídeo composto por D-glicose e
D-galactose. Para sua utilização pelo animal é necessária a presença da enzima lactase na luz
intestinal e essa consideração é bastante importante; vitaminas e outros minerais estão
presentes no soro e são provenientes da circulação materna. A diferença na composição entre
colostro e leite da cadela está demonstrada no quadro 13.

Quadro 13- Composição em nutrientes do colostro e do leite da cadela


Colostro Leite
Proteínas (%) 4,3 7,53
Lactose (%) 4,4 3,81
Gorduras (%) 2,4 9,47
Sólidos totais (%) 12,0 22,7
Energia bruta (kcal/100g) 64,0 146,0
Fonte: Case et al. (1998)

Embora a bioquímica do leite seja semelhante em todas as espécies mamíferas, é


importante ressaltar que a composição varia muito entre elas, dependendo de suas exigências
nutricionais.
Alimentar um cão e gato com leite de vaca ou cabra in natura, não é a melhor solução
porque o leite de vaca compõe-se de aproximadamente 87,5% de água, 3,5% de gordura, 3,2%
de proteína, 4,9% de lactose e 0,7% de minerais e o de cabra possui 88% de água, 3,5% de
gordura, 3,1% de proteína, 4,6% de lactose e 0,8% de minerais. Se compararmos com a
composição do leite da cadela, logo notamos que o leite desta é mais concentrado que o das
duas espécies citadas, com maiores teores de proteína, lipídeos e minerais (sendo 0,25% só de
cálcio, contra 0,12% do leite bovino).
No entanto, o teor de lactose na secreção láctea da cadela é menor. Assim, se
fornecermos leite in natura a cãezinhos recém-nascidos, poderá ocorrer uma diarréia osmótica,
ou seja, não haverá enzima lactase suficiente para digerir a lactose no lúmen intestinal. Esse
açúcar, em excesso, atrairá água para a região luminal, levando a um quadro de diarréia
osmótica, que nos neonatos é grave, já que eles são susceptíveis a desidratação, conforme
mencionado anteriormente. 99
A composição do leite das gatas difere dos cães e possui cerca de 8,1% de proteína,
5,1% de gordura, 6,9% de lactose e 18,5% de matéria seca. Assim, a lactose do leite de vaca
para gatos recém-nascidos não é tão problemática quanto para cães. No entanto, ainda haverá a
deficiência de outros nutrientes, especialmente de proteínas.
Dessa forma, neonatos que necessitam de suporte nutricional devem ser alimentados
com o leite da própria espécie ou com sucedâneos lácteos. O leite de cadela pode ser obtido a
partir de outro animal que esteja lactando ou através de bancos de leite ou de colostro. Isto pode
ser conseguido com mais facilidade em canis, mas para o proprietário comum é mais difícil.
Dessa forma, a utilização de substitutivos do leite passa a ser a melhor alternativa. Estes podem
ser comerciais ou caseiros e ambos apresentam vantagens e desvantagens, como qualquer
alimento.
Normalmente, os sucedâneos comerciais (substitutos do leite) apresentam o leite em
pó de vaca como base, com as correções para atender as necessidades dos filhotes nessa fase,
com a inclusão de fontes de gordura, proteína (caseína), minerais e vitaminas. A seguir, a
composição de um sucedâneo comercial para gatos disponível no mercado: caseína, gordura
animal estabilizada (manteiga estabilizada com BHA, um antioxidante sintético que tem como
objetivo evitar a peroxidação lipídica), leite integral em pó, dextrose, fosfato monocálcico,
carbonato de cálcio, fibra de acácia, lecitina de soja, cloreto de sódio (sal comum), cloreto de
potássio, premix vitamínico mineral e probiótico.
A utilização desse sucedâneo exige apenas que o proprietário ou criador dilua o leite
em água quente (como um leite em pó comum para humanos) e administre as quantidades
previamente calculadas divididas em várias porções (cinco a seis) por dia. Sua composição
assemelha-se ao do leite da cadela ou gata e foram testados exaustivamente pelas empresas
que os comercializam. Também possui alguns aditivos conhecidos como funcionais tais como o
probiótico, que ajuda a modular a microflora intestinal, auxiliando na imunidade e na manutenção
da boa saúde geral do recém-nascido.
O custo pode ser o fator limitante na aquisição dessas fórmulas. Neste caso, existem
algumas alternativas caseiras; deve-se atentar para a qualidade dos ingredientes (especialmente
quanto ao aspecto sanitário) que serão utilizados. Também se utiliza leite de vaca como base,
com as devidas correções. Os inconvenientes dos sucedâneos caseiros, além da questão
sanitária, é que a variabilidade de composição de ingredientes in natura pode levar a diferenças
na composição das preparações, mesmo quando se utiliza as mesmas proporções de
ingredientes. No entanto, é uma alternativa e deve ser considerada. Abaixo, há um exemplo de 100
um sucedâneo caseiro para cães (quadro 14).

Quadro 14 - Fórmula de um sucedâneo caseiro do leite para filhotes de cães


Ingredientes Quantidade

Gema de ovo 100 gramas (4 gemas)

Leite integral 610 ml

Creme de leite 175 gramas (3 colheres de sopa)

Água 100 ml

Suplemento mineral vitamínico para cães em 10 gramas


crescimento

Carbonato de cálcio 5 gramas

Fonte: Saad et al. (2004).

Há outras fontes de proteína e gordura disponíveis para a elaboração de sucedâneos:


a manteiga pode substituir o creme de leite (no entanto ela é de difícil homogeneização), o leite
de coco pode substituir o creme de leite, a gema de ovo é uma boa fonte de proteína e gordura,
mas deve-se tomar cuidado com a relação invertida Ca:P (0,20% de Ca e 0,80% P, 1:4),
lembrando-se de corrigir o cálcio; a casca de ovo tostada pode ser usada como fonte de
carbonato de cálcio. O sucedâneo caseiro deve ser guardado em geladeira, não mais que um
dia; ao ser fornecido, deve ser aquecido a aproximadamente 37ºC.
Uma vez que se define qual alimento será administrado, deve-se determinar a
quantidade que os animais devem receber. Segundo o National Research Council (2006), os
cães neonatos necessitam de cerca de 25 kcal/100 g peso vivo e os gatos de 20-25 kcal/100 g
de peso vivo. O leite natural de cadela tem cerca de 1450 kcal/litro e o de gata 1300 kcal/kg,
devendo os sucedâneos possuírem densidade energética próxima a essa; se a densidade for
menos que 1000 kcal por dia, é necessária uma ingestão muito alta para suprir as necessidades,
e um consumo em excesso pode levar à sobrecarga dos rins que ainda estão em formação. Por
outro lado, densidades energéticas muito maiores diminuem a quantidade a ser consumida, o
que pode levar a alterações digestivas Assim, um cão que pesa 150 g tem uma necessidade 101
energética de 37,5 kcal (25+12,5). Se ele for receber um sucedâneo de 1450 kcal deve consumir
cerca de 26 ml diários (37,5/1450 = 26).
O método de alimentação também é extremamente importante. E há duas maneiras
possíveis: a utilização de mamadeiras e seringas ou a alimentação forçada via sonda. O primeiro
deve ser feito com o animal na posição vertical e a cabeça inclinada para cima e para frente,
com o objetivo de reduzir os riscos de aspiração do conteúdo que poderia levar à pneumonia.
Quando se adota esse método, normalmente o animal pára de ingerir espontaneamente o
alimento quando o estômago está cheio, mas é preciso que se façam os cálculos da quantidade
exata que o cão ou gato deve consumir para evitar sobrecarga ou subalimentação. A sonda
nasogástrica pode ser utilizada quando o neonato não ingere o sucedâneo da maneira anterior e
tem a vantagem de evitar a ocorrência de pneumonia por aspiração. Mas é um método que exige
conhecimento e que é invasivo devendo contar com o auxílio de um profissional.
Para avaliar se o neonato está recebendo a alimentação adequada, a melhor forma é
acompanhar o seu desenvolvimento ponderal. As curvas de crescimento são dependentes de
raça, mas em geral cães apresentam um incremento ponderal diário da ordem de 10% do peso
até a segunda semana de vida (considerando-se um decréscimo nos três primeiros dias devido à
restrição alimentar) e de 7% a partir da terceira semana de vida. Já os gatos, têm um ganho de
peso de 7% de seu peso diário até quinze dias, 5% de seu peso de 16-21 dias e 3% de 22 a 35
dias. Para acompanhar se os recém-nascidos estão se desenvolvendo bem, são necessárias
pesagens diárias durante as primeiras semanas de desenvolvimento e de três a quatro pesagens
nas últimas semanas.
As cadelas amamentam seus filhotes, em geral, por até seis semanas. O oferecimento
de alimento sólido a eles pode começar com 2½ semanas de idade nos mais precoces, mas o
ideal é iniciar a partir da quarta semana de lactação. Nessa idade, a quantidade e o conteúdo de
nutrientes do leite começam a não ser mais apropriados. É possível desmamar os filhotes a
qualquer estágio da lactação, mas isto não é recomendável porque efeitos indesejáveis sobre o
comportamento deles podem ocorrer, levando ao aparecimento de distúrbios comportamentais
mais tarde. Por sua vez, os gatos devem ser amamentados em geral por 7-9 semanas,
dependendo do tamanho da ninhada. A adição de alimento sólido pode começar com 2½ e deve
ser introduzido, no máximo, na quarta semana de lactação.
Para iniciar a desmama, por volta da quarta semana se faz o fornecimento de alimento
sólido. Para tanto, pode-se utilizar papinhas pré-desmame comerciais, ou utilizar o próprio
alimento comercial para filhotes umedecido, formando uma papa. A transição do leite para essa 102
dieta semi-sólida deve ser realizada gradualmente de forma que após o desmame os cães e
gatos possam se alimentar sozinhos. Não se deve esquecer que o fornecimento de água nessa
etapa também é importante e deve ser em torno de 5-6 vezes a matéria seca ingerida.

4.2 Filhotes em crescimento

Considerações iniciais
A fase de crescimento é uma das mais exigentes e importantes do ponto de vista
fisiológico e nutricional. O manejo adequado dos filhotes é fundamental para o bom
desenvolvimento e a boa saúde dos cães adultos e os primeiros seis meses, período em que a
taxa de crescimento é mais rápida, é crucial nesse processo.
O crescimento esquelético é influenciado grandemente por diversos fatores, tais como
potencial genético do indivíduo (raça e sexo), o meio ambiente e a alimentação.
Os cães, dentre todas as espécies de mamíferos, são os que mais apresentam
variedade racial, especialmente quanto ao tamanho. As diferenças no peso corpóreo podem
chegar a mais de 100 vezes quando se compara o Chihuahua de um quilo com um São 103
Bernardo de 100 quilos, por exemplo. As grandes variações raciais fazem com que as taxas de
crescimento sejam diferenciadas, havendo um crescimento explosivo de raças grandes e
gigantes em relação ao peso inicial, nos primeiros seis meses (atingindo cerca de 60-65% do
peso adulto em raças gigantes e grandes, respectivamente). Esse crescimento se prolonga até
aproximadamente os 18 meses. Por sua vez, as raças pequenas e médias costumam atingir o
seu peso maduro por volta dos 10-12 meses. Essas diferenças marcantes no desenvolvimento
dos cães exigem manejos nutricionais diferenciados, dependendo do porte do animal.
Por sua vez, os gatos, nascem com aproximadamente 100-120 g e com cerca de dois
meses pesam 500g. Após o desmame seguem crescendo até alcançar o peso adulto por volta
de 8-12 meses. Diferentemente dos cães, em felinos a variedade racial não é grande, sendo
atualmente reconhecidas um pouco mais de 60 raças. Estas, não possuem grande amplitude no
peso corporal, sendo que as maiores raças pesam um pouco mais de 10 kg e os pesos médios
variam de 2-7 kg.
De qualquer forma, energia e alguns nutrientes como proteína e cálcio são críticos no
período de crescimento e as necessidades, nessa fase, excedem a de qualquer outra, com
exceção da lactação. As exigências energéticas aumentam especialmente durante a fase de
rápido desenvolvimento que se prolonga até aproximadamente seis meses de idade. Com a
diminuição dessa velocidade as exigências vão diminuindo até que o crescimento se complete e
as necessidades do animal sejam as de manutenção. As proteínas são utilizadas na formação
de novos tecidos e devem ser de alta qualidade e digestibilidade para que sejam fornecidos
todos os aminoácidos essenciais. O cálcio, por sua vez, é extremamente importante para o
crescimento e desenvolvimento ósseo.
A adoção de um programa nutricional rigoroso é essencial para que se evite a
subalimentação ou a superalimentação. A subalimentação pode acontecer na parcela dos
animais que se alimentam de restos de comida (que é bem diferente de dieta caseira, conforme
veremos no módulo IV). No entanto, com o grande avanço nos conhecimentos e a grande
disponibilidade de alimentos no mercado de nutrição de animais de companhia, a
superalimentação é uma realidade. Com a finalidade de proporcionar uma dieta de qualidade e
que resulte no bom desenvolvimento e na saúde de seus animais, muitos proprietários oferecem
a eles alimentos comerciais associados a suplementos nutricionais. Apesar da boa intenção,
esta prática ao invés de proporcionar melhor nutrição e melhoria à saúde, pode induzir a
prejuízos futuros e devido às variações no crescimento, os animais de raças grandes e gigantes
são os mais predispostos à ocorrência de doenças ósseas e articulares. 104

O crescimento

O tecido ósseo é o primeiro a se desenvolver durante o crescimento e desempenha


importantes funções no organismo, como armazenamento de minerais, hematopoiese,
locomoção (sistema de alavancas com músculos e articulações), proteção e sustentação dos
sistemas corporais. As células constituintes do sistema esquelético são os osteoblastos,
osteócitos e osteoclastos. Os osteoblastos sintetizam a matriz colagenosa, diferenciando-se em
osteócitos, após a mineralização; os osteoclastos são responsáveis pelo remodelamento do
osso.
O crescimento ósseo ocorre principalmente por ossificação endocondral (figura 19),
porém, de forma secundária, há também crescimento aposicional. Em termos gerais, a
cartilagem é inicialmente sintetizada pelos condrócitos e é removida para ser então substituída
pelo osso. O aparelho de crescimento engloba a região que inclui a cartilagem epifisária e o osso
esponjoso (trabecular) subjacente da metáfise. Essa região pode ser dividida em zonas
arbitrárias, designando a progressão dos eventos nesse tipo de formação. Na região anterior à
epífise, os condrócitos formam a matriz cartilaginosa e subseqüentemente começam a se
multiplicar e a formar colunas separadas umas das outras, por faixas horizontais de cartilagem.
Na direção vertical, as células são separadas por uma fina cápsula de matriz. À medida que o
crescimento ocorre, as células mais velhas da cartilagem hipertrofiam-se e incorporam reservas
de glicogênio.
Através da atuação desses condrócitos hipertróficos, a matriz intersticial da zona de
calcificação provisória torna-se mineralizada. Essa cartilagem calcificada fornece continuidade
estrutural entre a cartilagem epifisária e o osso trabecular adjacente, na região metafisária.
Depois, ocorre a penetração de vasos sangüíneos e de tecido conjuntivo na zona de cartilagem
calcificada. O material intersticial não calcificado é removido, e as colunas verticais de cartilagem
calcificada permanecem. Acompanhando a invasão do tecido conjuntivo estão as células
osteoprogenitoras, que se diferenciam em osteoblastos maduros. Tais células participam da
formação do osso sobre os remanescentes da cartilagem calcificada, apoiando-se na zona
esponjosa primária. À medida que o osso continua a crescer, a esponjosa primária sofre
modificação pela remoção da matriz calcificada e substituição pelo osso na forma de espículas
ósseas, as trabéculas da metáfise. As extremidades inferiores das trabéculas, na parte média da
metáfise, estão continuamente sendo reabsorvidas pelos osteoclastos, que são relativamente 105
numerosos na região. Porém, as trabéculas metafisárias, que estão localizadas na periferia e
nas adjacências da diáfise cortical, incorporam-se à diáfise, à medida que o crescimento
continua.

Figura 19- Esquema de ossificação endocondral. Fonte: Silveira (2005).

Posteriormente há o desenvolvimento da massa muscular, que com o passar do tempo


se sobressai em relação à massa óssea.
Todo esse processo está sob a influência hormonal, dentre os quais se destacam o
paratormônio, a calcitonina, a vitamina D (envolvidos principalmente na biodinâmica de cálcio e
fósforo) e o hormônio de crescimento.
O paratormônio é um polipeptídeo de 84 aminoácidos, sendo o aminoácido 33 n-
terminal um metabólito ativo. Possui um peso molecular de 9500 Da, é sintetizado pela
paratireóide e sua secreção é regulada em grande parte pelos níveis plasmáticos de cálcio. Sua
maior ação é sobre os ossos e rins, mas atua secundariamente na absorção intestinal de cálcio. 106
Dentre os seus efeitos biológicos estão incluídos o estímulo aos osteoclastos, que promovem
reabsorção óssea, reabsorção de cálcio e excreção de fosfato pelos túbulos renais e estímulo
para produção de 1,25 diidroxicolecalciferol (metabólito da vitamina D). Esses efeitos são obtidos
após a ligação do aminoácido terminal da molécula de paratormônio ao seu receptor, que
pertence à grande família de receptores que contém domínio transmembrana e que trabalha a
partir da ativação de proteínas G.
A calcitonina é o principal hormônio responsável pela diminuição das concentrações
plasmáticas de cálcio. Seu principal mecanismo de ação seria a diminuição da reabsorção óssea
osteoclástica, pelo aumento na concentração de cálcio citosólico que leva à contração dos
osteoclastos. No entanto, ela pode ter alguns efeitos positivos sobre a excreção renal e efeitos
negativos sobre a absorção intestinal de cálcio. Sua secreção é estimulada por vários fatores,
mas o principal deles é a administração oral ou parenteral de cálcio. As células parafoliculares ou
células C da tireóide parecem ser o seu principal sítio de produção. De acordo com a sua
estrutura primária, a calcitonina pode ser dividida em três grupos: (1) artiodactil (suína, bovina e
ovina), (2) o grupo de calcitonina dos humanos e ratos e (3) teleoste (salmão). Com 28, 31 e 29
aminoácidos em comum, respectivamente.
O uso de métodos de biologia molecular permitiu a análise da freqüência da calcitonina
canina e revelou que ela possui 24,25 e 24 aminoácidos em comum com a calcitonina suína,
bovina e ovina, respectivamente e homologia de 56% com a de humano e a de rato. Em
comparação com a calcitonina de outras espécies, a canina tem baixo potencial biológico, mais
provavelmente atribuído à estrutura alfa-helicoidal na região dos aminoácidos 8-22. A baixa
potência biológica da calcitonina pode explicar porque são necessárias grandes quantidades de
cálcio para causar alterações esqueléticas em cães jovens.
A vitamina D é uma forma não ativa que após se submeter a duas reações de
hidroxilação forma seu composto biologicamente ativo (1,25 diidroxicolecalciferol) com funções
esteróides (figura 20). Atua em conjunto com os hormônios paratireóideo e com a calcitonina no
controle homeostático do cálcio e do fósforo. Assim, os tecidos alvo clássicos de 1, 25(OH)2D
são aqueles que regulam o status mineral. Quando há uma diminuição no cálcio sérico, a
glândula paratireóide aumenta a secreção de PTH, a qual estimula a 1α, 25-hidroxilase para
aumentar a síntese de 1α, 25(OH)2D. Esses dois hormônios (PTH e 1α, 25(OH)2D em
combinação aumentam a reabsorção óssea e restauram a concentração sérica de cálcio iônico.
Receptores para 1α, 25(OH)2D foram encontrados nos osteoblastos mas não nos osteoclastos.
Dessa forma é sugerida que a atividade osteoclástica é estimulada através dos osteoblastos ou 107
por vias de transdução de sinal não genômicas como abertura dos canais de cálcio. A dissolução
do osso contribui com ambos, cálcio e fósforo para o plasma, mas um aumento no fósforo é
regulado por seu maior pool e excreção renal induzida por elevados níveis de PTH.

Figura 20- Influências hormonais e minerais no metabolismo da vitamina D. Adaptado de Hazewinkel et al. (2002).

O hormônio de crescimento (GH) é liberado pela hipófise de modo pulsátil e atua sobre
os órgãos alvo (osso, cartilagem, músculo, rins e fígado) de modo direto e indireto, através das
somatomedinas. O disco epifisário é extremamente sensível ao GH e sua secreção aumenta a
atividade mitótica com proeminente atividade osteoblástica. Embora o GH possua meia vida
curta, as somatomedinas têm uma meia vida maior. Esse hormônio está envolvido na grande
variedade de tamanhos e formas (diferentes raças) encontradas na espécie canina. Segundo
Favier et al. (2001) as diferenças entre o peso corpóreo entre animais médios e gigantes estão
associados com diferenças na liberação de GH em animais jovens e não a diferenças na
concentração de IGF-I ou IGF-2 circulantes.
Tanto em Dogue alemão quanto em Beagle há um período de hipersomatotropismo
juvenil. A relativa longa permanência desta liberação em cães de raças gigantes pode ser o
atraso na maturação dos mecanismos que inibem a secreção de GH. Assim, as diferenças entre
os tamanhos estariam relacionadas ao tempo mais prolongado de secreção do hormônio de 108
crescimento nas raças grandes e gigantes.
Devido à ação desse hormônio temos diferentes tamanhos raciais e distintas curvas de
crescimento (figura 21). Assim, cães de raças pequenas e médias completam o seu
desenvolvimento mais precocemente, mas o seu peso final não aumenta tanto em relação ao
seu peso de nascimento, quando comparados com os animais de maior porte. Por esse motivo,
a nutrição entre as raças maiores e menores deve ser diferenciada e as conseqüências de uma
má nutrição normalmente são mais sérias nos animais gigantes.

Figura 21- Curva média de crescimento de doze raças de cães. Mastife Inglês (-X-), São Bernardo (●), Irish
Wolfhound (----), Dogue Alemão (▲), Terra Nova (+), Labrador Retrivier ( ), Beagle (■), Springer Spaniel Inglês (■
■ ■), Cocker Spaniel Inglês (■■), Schnauzer miniatura (●●●), Cairn Terrier (-X), Papilon (----). Fonte: Hawthorne et
al. (2004).
Além da curva de crescimento, a capacidade do sistema digestório de animais de
raças grandes e gigantes é diferenciada. O tamanho relativo do trato gastrointestinal de cães de
grande porte é menor do que nos pequenos sendo que o intestino equivale a cerca de 3-4% do
peso corporal nos primeiros e 6-7% nos outros. No entanto, o tempo de trânsito é maior nas
raças grandes (cerca de 43,2 x 22,9 horas), sendo que a permanência no cólon representa cerca
de 80-90% do período total. Isso estimula o desenvolvimento da microflora intestinal com a
produção de ácidos graxos voláteis que aumentam a osmolaridade e reduzem a absorção de 109
água, gerando fezes mais moles.
É extremamente importante também ressaltar que o consumo de alimento por quilo de
peso vivo diminui à medida que o tamanho do cão aumenta. Enquanto um poodle miniatura de
35 semanas consome cerca de 34,4 g de alimento/kg de peso vivo, um dogue alemão com a
mesma idade ingere cerca de 18,6 g.

4.3 Necessidades energéticas e de nutrientes

As exigências energéticas são extremamente importantes nessa fase. Embora a


deficiência de energia possa levar ao retardo de crescimento, impedindo a máxima expressão do
potencial genético do animal, o excesso pode ser tão ou mais prejudicial, especialmente nos
cães de raças maiores. A edição atual do National Research Council trabalha num modelo
fatorial em que se consideram as necessidades de manutenção somadas às exigências de
crescimento, estas baseadas em um modelo matemático não linear.
Esses modelos matemáticos, desenvolvidos empiricamente para relacionar peso e
idade, têm-se mostrado adequados para descrever a curva de crescimento, permitindo que
conjuntos de informações em séries de peso por idade, sejam condensados num pequeno
número de parâmetros, facilitando a interpretação e o entendimento do fenômeno. No momento,
as exigências energéticas de um indivíduo não podem ser mais que uma suposição e podem
facilmente variar em relação às reais exigências, em até 50%. As novas fórmulas do NRC (2006)
para filhotes de cães e gatos estão demonstradas nos quadros 15 e 16.
Quadro 15 - Energia metabolizável diária para cães em crescimento após desmamea,b

EM (kcal) = Energia de manutenção x 3,2 x [e(-0,87p)-0,1]


EM(kcal)= 130 x PVa 0,75 x 3,2 x [e(-0,87p)-0,1]
Onde: p= PVa/PVm
PVa = peso do filhote no momento da avaliação (kg)
PVm= expectativa de peso adulto (kg)
110
e= base de log natural ≈ 2,718
Exemplo: Filhote de labrador com 16 semanas de idade, 17 kg e expectativa de peso
adulto de 25 kg.
EM (kcal)= 130 x 17 0,75 x 3,2x [e(-0,87 x 17/35)-0,1 = 1934 kcal/dia
a Esta tabela se refere as necessidades de cães filhotes após o desmame. Cães neonatos necessitam de

aproximadamente 25 kcal/100 g (Kienzle et al., 1985). b As exigências energéticas de manutenção de cães inativos,
tais como cães de companhia sem acesso ou estímulo ao exercício podem ser 10-20% mais baixas, e as de animais
muito ativos como os Dogue alemães, em canis, podem ser maiores. Fonte: NRC (2006).

Quadro 16- Energia metabolizável diária para gatos em crescimento após desmame

EM (kcal) = Energia de manutenção x 6,7 x [e(-0,189p)-0,66]


EM(kcal)= 100 x PVa 0,67 x 6,7 x [e(-0,189p )-0,66]
Onde: p= PVa/PVm
PVa = peso do filhote no momento da avaliação (kg)
PVm= expectativa de peso adulto (kg)
e = base de log natural ≈ 2,718
Exemplo: Filhote de gato com 1 kg e expectativa de peso adulto de 4 kg.
EM (kcal)= 100 x 1 0,67 x 6,7 x [e(-0,189 x 1/4 )-0,66] = 198 kcal/dia
Fonte: NRC (2006).

Deve-se ter em mente que a alimentação na fase de crescimento deve ser controlada
com o objetivo de evitar o desenvolvimento de obesidade juvenil, mais difícil de ser tratada. Além
disso, o excesso de energia nos cães grandes tem sido associado a uma série de doenças
esqueléticas, tais como osteocondrites,osteocondroses e displasias. Num estudo realizado por
Kealy et al. (2000) com 48 cães das raças Labrador Retriever divididos em dois grupos, o
controle (com alimentação restrita em 25%) e o grupo ad libitum, constatou-se que a prevalência
e a severidade da osteoartrite em diversas articulações foram menores nos cães com restrição
alimentar do que em cães do grupo controle.
Dämmrich (1991) também concluiu que a superalimentação é um dos fatores mais
importantes no desenvolvimento das osteocondroses, já que o excesso de ingestão de alimentos
pode promover um aumento da massa muscular e peso maior do que as superfícies articulares 111
são capazes de suportar. A supernutrição (administração à vontade) pode promover um aumento
na velocidade de crescimento e a combinação entre crescimento esquelético rápido e
desenvolvimento muscular proeminente leva à concentração de forças biomecânicas na
superfície articular, onde elas são estruturalmente fracas. Assim, nos cães grandes, de
crescimento rápido, esta combinação aumenta não só o desenvolvimento da doença, mas
também o agravamento da severidade de lesões presentes.
As necessidades protéicas nessa fase são mais elevadas que a de animais adultos,
porque além de suprir as exigências de manutenção, requerem proteínas para o
desenvolvimento de tecidos associados ao crescimento. Estas devem ser de alta digestibilidade
e elevado valor biológico. Sua relação com a energia é importante devido ao intenso anabolismo,
sendo necessário que ela corresponda, no mínimo, a 22% da energia metabolizável em cães e
26,25% em gatos, ou seja, da energia fornecida ao animal por carboidratos, lipídeos e vitaminas
essa é a porcentagem mínima que cabe à proteína.
Segundo a AAFCO (2007) deve-se fornecer no mínimo 22% de proteína na matéria
seca de dieta contendo 3500 kcal para cães e 30% na matéria seca de dieta contendo 4000 kcal
para gatos em crescimento. Quanto aos aminoácidos, as exigências mínimas para cães filhotes
são arginina, 0,62%; histidina, 0,22%; isoleucina, 0,45%; leucina, 0,72%; lisina, 0,77%;
metionina-cisteína, 0,53%; fenilalanina-tirosina, 0,89%; treonina, 0,58%; triptofano, 0,20%; valina,
0,48%. Para gatos, as concentrações mínimas são arginina, 1,25%; histidina, 0,31%; isoleucina,
0,52%; leucina, 1,25%; lisina, 1,20%; metionina-cisteína, 1,10%; metionina, 0,62%; fenilalanina-
tirosina, 0,88%; fenilalanina, 0,42%; taurina (alimento extrusado), 0,10%; taurina (alimento
enlatado), 0,20%; treonina, 0,73%; triptofano, 0,25%; valina, 0,62%.
Quantidades dietéticas de gorduras totais exigidas para o crescimento de animais são
maiores do que aquelas requeridas para a mantença de adultos, mas menores do que o
conteúdo de gordura do leite canino. Assim, as necessidades para o crescimento encontram-se
provavelmente entre os perfis de nutrientes do leite e do necessário para a mantença. Para cães,
recomenda-se cerca 8,5% da matéria seca (MS) (18% EM) em gordura.
Para ácidos graxos, uma estimativa de ingestão de ácido linoléico (LA) de 1,3% da MS
e de 0,08% da MS de ácido linolênico (ALA) seria adequada, com relação LA:ALA de 16,3. Para
o ácido docosahexaenóico (DHA), a ingestão adequada parece ser entre 0,03 a 0,05% da MS.
Já para eicosapentaenóico (EPA) as exigências são menores e não devem exceder mais que
0,03% da MS. A AAFCO (2007) recomenda um mínimo de 8% de gordura e de 1% de ácido 112
linoléico.
Para gatos, o NRC recomenda 9% de gordura total, 0,55% de ácido linoléico, 0,02% de
alfa-linolênico, 0,02% de araquidônico, 0,01% de docosahexaenóico e 0,01% de
eicosapentaenóico por quilo de dieta contendo 4000 kcal/kg. Os perfis da AAFCO indicam 9,0%
de gordura, 0,5% de ácido linoléico e 0,02% de ácido araquidônico por quilo de dieta contendo
4000 kcal. Não há indicações para DHA e EPA nas tabelas da AAFCO.
Segundo o NRC (2006), as necessidades de cálcio para cães após o desmame são de
1,2% na matéria seca de dieta contendo 4000 kcal/kg, com nível máximo de 1,8%. Quanto à
AAFCO (2007), é de 1,0% na matéria seca de dieta contendo 3500 Kcal, com um limite máximo
de 2,5%. Para o fósforo, as recomendações são de 1,0%, segundo o NRC (2006) e 0,8%,
segundo a AAFCO, sendo que a AAFCO estabelece um limite máximo de 1,6%. Ainda segundo
a AAFCO, a relação cálcio e fósforo, mínima, deve ser de 1:1, com máximo de 2:1. Já gatos
necessitam de 0,8% e 1,0% de cálcio na matéria seca de dieta contendo 4000 kcal/kg, segundo
o NRC (2006) e a AAFCO (2007), respectivamente. Para o fósforo, as recomendações são de
0,72% segundo o NRC (2006) e 0,8%, segundo a AAFCO. Não há níveis máximos estabelecidos
para felinos em nenhum dos dois boletins.
O cálcio e o fósforo são minerais importantes durante a fase de crescimento. Para
permitir um crescimento ótimo dos ossos, a sua ingestão deve ser cuidadosamente controlada,
particularmente nos cães de raças grandes e gigantes. O intervalo de tempo mais crítico situa-se
entre o desmame e cinco meses. Um teor inadequado nessa fase prejudica o crescimento ósseo
e aumenta o risco de distúrbios do crescimento (Martin, 2004). A relação cálcio-fósforo também é
extremamente importante. Dietas com alta concentração de fósforo causam mudanças
bioquímicas que incluem a diminuição do fósforo plasmático, o aumento da fosfatase alcalina e
da hidroxiprolina urinária total, nefrocalcinose, diminuição do cálcio urinário e redução da
densidade óssea no fêmur (Schaafsma e Visser, 1980).
Diversos autores têm relatado a influência de altos níveis desse mineral. Numa extensa
revisão realizada pelo National Research Council há uma listagem de trabalhos clássicos.
Hedhammar et al. (1974) citados por National Research Council (2006) descrevem que se
alimentando à vontade, por um ano, filhotes de Dogue Alemão com dietas contendo 20,4g de
Ca/Kg (5,2g por 1.000Kcal de EM) desenvolveram-se mudanças clinicas e patológicas
esqueléticas incluindo osteocondrose, diminuição do turnover dos ossos e aumento do índice de
minerais, comparado a animais alimentados de forma restrita. Hazenwinkel et al. (1985), citados 113
por National Research Council (2006), verificaram que dieta contendo 33g de Ca/Kg na base da
MS causou osteocondrose, curvatura do osso rádio e retardo no crescimento.
Hazewinkel et al. (1991) demonstraram diminuição da porcentagem da absorção
intestinal de Ca, aumento da absorção de Ca total, diminuição das taxas de turnover dos ossos e
uma mudança similar patológica em Dogue Alemão em crescimento, alimentado com dietas
contendo 8,9g de Ca por 1.000Kcal de EM, 33g de Ca/Kg de dieta com 3.700Kcal de EM/Kg na
base da MS. Nap et al. (1993) alimentando filhotes de Poodle Miniatura com dietas similares,
causou mudanças metabólicas parecidas com as alterações vistas em cães de raças gigantes;
no entanto, não foram observadas anormalidades esqueléticas significativas.
Goodman et al. (1998), citados por National Research Council (2006), e Lauten e
Goodman (1998), citados por National Research Council (2006), também relataram
conformações inadequadas e lesões esqueléticas em filhotes de Dogue Alemão alimentados
com dietas contendo 6,8g de Ca por 1.000Kcal de EM. Já Slater et al. (1992), encontraram que
dietas com concentrações de Ca > que 3,6g por 1.000Kcal de EM estão associadas ao aumento
do risco de osteocondrites. Assim, os excessos de cálcio dietético têm mostrado ser causa de
anormalidades ósseas em cães em crescimento. No entanto, esses efeitos parecem restritos a
filhotes de raças grandes e gigantes.
Quanto às doenças carenciais, o hiperparatireoidimso nutricional secundário foi um
problema significativo em filhotes de cães, até o último terço do século XX. Nesta patologia,
níveis reduzidos de cálcio causados pela baixa biodisponibilidade ou redução na absorção
intestinal, muitas vezes aliada a concentrações normais a elevadas de fósforo, ativam o PTH a
realizar a reabsorção osteoclástica óssea, reabsorção renal de cálcio e excreção de fosfato com
produção mais ativa da vitamina D. Com a intensa reabsorção, más formações esqueléticas com
predisposição a fratura são observadas e em alguns casos, podem ser fatais. Atualmente esse
quadro é menos comum em clínicas veterinárias, mas não podemos esquecê-lo, pois sabemos
que ainda há uma parcela relativamente grande da população canina e felina que não tem
acesso a dietas balanceadas.
Duas vitaminas exercem efeitos importantes sobre o esqueleto, A e D. A vitamina A
parece estar associada à atividade de osteoclastos e de osteoblastos na cartilagem epitelial e à
divisão e manutenção das membranas celulares mediante a síntese de glicoproteínas. Ela
estaria envolvida nos processos de regeneração e sua deficiência pode causar herniação,
distorção e degeneração de nervos, por alterações na passagem dos nervos pelos ossos. A 114
vitamina D foi extensamente revisada no módulo anterior e seu papel estaria associado à
absorção ativa do cálcio, a partir da participação na síntese da proteína ligante de cálcio (a
calbindina).
Do ponto de vista nutricional, a fase de crescimento é uma das mais críticas e as
medidas adotadas durante esta etapa se refletirão no desempenho e na conformação do animal
adulto. O fornecimento de dieta equilibrada e de manejo adequado é fundamental para a
obtenção de resultados positivos e manutenção da saúde do filhote.
Muito tem sido discutido sobre o fornecimento de energia, proteína e cálcio, já que
esses elementos são pontos de destaque na nutrição durante essa fase. O fornecimento de
alimentações controladas, baseadas nas necessidades energéticas dos animais parece ser uma
medida importante para evitar a aceleração da taxa de crescimento e o sobrepeso que podem
ter conseqüências graves, com o aparecimento de uma série de doenças ósseas.
A proteína é necessária para o bom desenvolvimento; quantidades superiores às
recomendadas pela AAFCO não parecem ter efeitos deletérios sobre o esqueleto. Fontes de
elevado valor biológico e alta digestibilidade são essenciais para proporcionar o crescimento
adequado aos filhotes. Dentre todos os pontos críticos, o cálcio é o mais preocupante. Além das
quantidades presentes nos alimentos comerciais, a suplementação realizada por muitos
proprietários e criadores, predispõe a distúrbios esqueléticos graves em animais de raças
grandes e gigantes. Cabe ao profissional da nutrição de pequenos animais orientar proprietários,
criadores e colegas, que maximizar a taxa de crescimento não é proporcionar o desenvolvimento
adequado e saudável. E de que excessos podem ser tão ou mais prejudiciais do que a própria
deficiência.
Em relação ao manejo alimentar, é importante ressaltar que a alimentação deve ser
controlada nesta fase, especialmente para cães de raças grandes e gigantes que devem receber
a quantidade necessária para suprir as suas necessidades, em duas ou mais refeições diárias.
4.4 Animais em reprodução, gestação e lactação

A seleção dos animais para cruzamento deve incluir o controle de qualquer defeito ou
anomalia que possa ser transmitida geneticamente. Todos os animais devem ser submetidos a
uma avaliação concreta de seu temperamento, estrutura e saúde, antes de serem admitidos num
programa de reprodução. Diversas provas de funcionalidade e morfologia corporal podem ser
utilizadas para avaliá-los e compará-los, a fim de estabelecer os padrões de cruzamento. Uma 115
vez escolhido o cão ou o gato que será utilizado como reprodutor, deve-se fazer um exame físico
completo, incluindo exames coproparasitológicos, com desverminação e aplicação de vacinas
necessárias. Assim, antes do cruzamento, os animais devem estar em excelente estado físico e
adequadas condições de saúde.

Os cuidados com a alimentação de animais reprodutores devem começar antes


mesmo da cobertura. Eles precisam apresentar peso compatível com a raça e escore de
condição corporal entre 4 e 5 na escala de 1 a 9 (Tabela 1). Subalimentação, desnutrição ou
obesidade apresentarão impacto negativo sobre a função reprodutiva.
Tabela 1 – Sistema de Escore de Condição Corporal

116

Fonte: National Research Council (2006)


Em relação às necessidades energéticas, pode-se dizer que as exigências de
manutenção constituem a maior parte, variando de 60-90% e os ligados à cópula e à
gametogênese variam entre 3,5-5,0%. Assim, a atividade reprodutiva não justifica a adoção de
níveis energéticos muito elevados, pois as necessidades praticamente mantêm-se inalteradas.
Ao contrário, essa prática pode levar ao excesso de peso que afeta diretamente as gônadas e a
habilidade de copular dos animais, além de ser causa de envelhecimento precoce.
117
Em fêmeas, a obesidade pode aumentar a concentração plasmática da leptina, que é
secretada pelos adipócitos, e interferir no metabolismo da insulina, alterando a fisiologia
neuroendócrina. Além disso, o acúmulo de tecido adiposo nos ovários provoca uma redução
funcional direta na produção de hormônios e gametas. No entanto, um aumento na ingestão de
alimentos na fase do proestro poderia ser responsável por um incremento na taxa de ovulação,
mediado pela ação da insulina. No entanto, esse efeito flushing conhecido em outras espécies,
precisa ser mais bem avaliado em cadelas.

Por outro lado, a restrição inadequada pode culminar em deficiências para as


atividades metabólicas e para a síntese de hormônios esteroidais, normalmente sinalizados pela
baixa insulinemia e diminuição da produção dos hormônios sexuais. A hipoinsulinemia suprime o
estímulo à ovulação e a baixa concentração de esteróides leva à produção de opióides
endógenos, como o neuropeptídeo Y que inibe o estímulo noradrenérgico na modulação
neuronal de GnRH e supressão da pulsatilidade de LH.

Na gestação, as necessidades energéticas não são maiores que a de manutenção, até


o terço final que ocorre por volta do quadragésimo dia, quando os filhotes começam a ganhar
mais peso e necessitam de mais energia para a construção tecidual. Segundo o NRC (2006), em
cadelas as necessidades seriam de 26 kcal/kg PV da cadela, mais a energia de manutenção.
Assim, usando a média das exigências energéticas de um cão de canil (130 kcal/kg PV0,75) como
ponto de partida, as exigências energéticas de uma cadela gestante aumentam em
aproximadamente 130% ou 160%, considerando-se animais de 5 e 60 kg, respectivamente e
conforme demonstrado no quadro 17.
Quadro 17- Necessidades energéticas de cadelas no terço final de gestação

Cálculo das necessidades energéticas para cadela de 5 kg a partir do 40º dia de


gestação

Energia para a manutenção da cadela =130 x 50,75 = 434 kcal/dia


118
Energia adicional para crescimento dos filhotes = 26 x 5 = 130 kcal/dia

Exigências = Emanutenção + Energia gestação =434+ 130 = 564 kcal/dia= aumento de


30%

Cálculo das necessidades energéticas para cadela de 60 kg a partir do 40º dia de


gestação

Energia para a manutenção da cadela =130 x 600,75 = 2803 kcal/dia

Energia adicional para crescimento dos filhotes = 26 x60 = 1560 kcal/dia

Exigências = Emanutenção + Energia gestação =2802+ 1560 = 4363 kcal/dia= aumento


de 56%

Fonte: Feliciano et al. (2008).

Em gatas, a situação é diferente. Elas tendem a perder peso durante a lactação,


independentemente da sua dieta. Para uma performance reprodutiva satisfatória, o ganho de
peso corpóreo na prenhez deve incluir o ganho tecidual na preparação para lactação, incluindo
fetal, placentário e as renovações. Uma dieta para aumentar 40 a 50% do peso (cerca de 140
Kcal/Kg de PV0,67) é indicada a partir da segunda semana de gestação. Na gestação, a boa
nutrição é o principal fator intra-uterino responsável não só pela garantia do bom
desenvolvimento fetal, como também pela expressão do genoma e das conseqüências ao longo
da vida dos fetos.

A lactação é uma das fases mais exigentes do ponto de vista nutricional e as


necessidades energéticas nessa fase são altas e limitantes. Para os cálculos é necessário
considerar a produção de leite e o número de filhotes. Normalmente, a cadela produz cerca de
8% do seu peso vivo em leite, havendo aumento de cerca de 1% do peso vivo da cadela por 119
filhote na produção, quando a ninhada possui de um a quatro cães e 0,5% do peso vivo quando
o número de filhotes varia de cinco a oito. Acima de oito, o aumento na produção de leite não é
significativo. Além disso, o estágio de lactação precisa ser observado e, expressa como
porcentagem média diária de leite produzido, a produção é a seguinte: 75% na primeira semana,
95% na segunda, 110% na terceira e 120% na quarta.

Considerando esses fatores e determinando-se a partir da composição do leite que o


conteúdo de energia bruta é de cerca de 1,45 kcal/g e que a eficiência na produção é de
aproximadamente 60%, pode-se determinar pelo método fatorial que a necessidade energética
das cadelas em lactação é: Energia para mantença (normalmente as cadelas cuidando de uma
ninhada são consideradas moderadamente ativas) = 145x PV0,75+ PV (24m+12n) x L, onde PV=
peso vivo da cadela, m= 1 a 4 filhotes, n= 5 a 8 filhotes e L é a semana de lactação, conforme
demonstrado no quadro 18.

Quadro 18- Necessidades energéticas de cadelas em lactação

Energia para a manutenção da cadela em lactação (Emantenção)=145 x PV0,75

Energia necessária para a produção de leite (Eprodleite) = PV x (24n + 12m) x L

Exigências energéticas para lactação (Elactação) = Emanutenção+Eprodleite

Onde=

PV= peso vivo da cadela em kg


n= número de filhotes entre 1 e 4

m = número de filhotes entre 5 e 8 (< 5 filhotes m=0)

L= fator de correção para semana de lactação: semana 1- 0,75; semana 2- 0,95, semana
3- 1,1; semana 4- 1,2.

Exemplo: 120

Cadela de 22 kg, 6 filhotes, terceira semana de lactação

Ematuenção= 145 x 220,75= 145x 10,16= 1473 kcal

Eprodleite = 22 x (24x4 +12 x 2) x 1,1= 2904 kcal

Elactação= 1473+2904 = 4377 kcal/dia

Fonte: Feliciano et al. (2008).

Já a gata, produz cerca de 1,5-8% de seu peso vivo no pico de lactação, sendo que
aquelas com um ou dois filhotes normalmente produzem abaixo de 2% do peso vivo, as com 3-4
filhotes têm a produção de leite entre 5-6% e um máximo de 8% foi observado em gatas com 6
filhotes. Estima-se que essa produção esteja distribuída da seguinte forma: 85% na primeira
semana, 95% na segunda, 100% na terceira e na quarta, e 85,75 e 60% nas semanas 5,6 e 7,
respectivamente.

O cálculo das necessidades segue o mesmo princípio que o de cadelas e é baseado


no conteúdo de energia gasto para produção de leite e somado às exigências de manutenção
(100Kcal/Kg de PV0,67). O conteúdo de energia do leite das gatas aumenta gradualmente durante
a lactação de cerca de 1 para 1,3 kcal/g. Para o cálculo fatorial da energia líquida para a
produção de leite, as mudanças semanais do conteúdo energético e da produção, bem como os
efeitos do tamanho da ninhada na produção foram consideradas. As perdas foram calculadas
separadamente para ninhadas pequenas (1-2 gatos), médias (3-4 gatos) e grandes (mais que 4
gatos) em cada semana de lactação. Estimou-se a utilização da energia metabolizável para
produção em cerca de 60 %.

As perdas de peso durante a lactação, características da gata e citadas anteriormente,


também foram consideradas nas equações elaboradas pelo NRC. A variação individual de uma
perda diária de peso de cinco (para ninhadas pequenas) a 20 gramas (ninhadas médias e
grandes) foi considerada nos cálculos fatoriais. Mais tarde, observou-se que a maioria da perda 121
tecidual foi gordura e que esta foi utilizada muito eficientemente. Um grama de perda de peso
deveria produzir de 7 a 8 Kcal de energia metabolizável. Em uma gata com 3 Kg de peso vivo,
uma perda de 20 gramas poderia ser traduzida em utilização de 50 Kcal de energia
metabolizável por Kg de peso vivo sendo utilizada dos estoques (e uma perda de 5 gramas,
cerca de 12 Kcal/Kg de PV, respectivamente). Para gatas com ninhadas com mais de 4 filhotes,
50 Kcal/Kg de PV foram subtraídos dos cálculos fatoriais; para gatas com 3 a 4 somente 40
Kcal/Kg de PV foram subtraídos e para gatas com menos que 3, subtrações menores foram
feitas porque estas gatas tendem a perder menos peso durante a lactação. Os resultados estão
demonstrados no exemplo do quadro 19.

Quadro 19- Necessidades energéticas de gatas em lactação

Cálculo das necessidades energéticas para gatas em lactação

Tamanho da ninhada Exigências energéticas

<3 Elactação = Emanutenção + 18xPVxL

3- 4 Elactação = Emanutenção + 60xPVxL

>4 Elactação = Emanutenção + 70xPVxL


Onde= PV = peso vivo; Emanutenção = 100xPV0,67 e L= fator de correção para semana de
lactação: 1ª semana: 0,9; 2ª semana: 0,9; 3ª semana: 1,2; 4ª semana: 1,2; 5ª semana: 1,1; 6ª
semana: 1,0; 7ª semana: 0,8.

Exemplo:

122
Gata de 3,5 kg, 4 filhotes, terceira semana de lactação

Elactação= 100x (3,5)0,67+ (60x3,5x1,2) = 231+252= 483 kcal/dia

Proteínas e aminoácidos são fundamentais na nutrição de animais em reprodução. O


teor protéico e sua composição de aminoácidos podem interferir na disponibilidade de
precursores e na atividade de hormônios sexuais envolvidos na liberação de GnRH,
gonadotrofinas, esteróides sexuais e outros hormônios importantes para a reprodução.

A tirosina, por exemplo, é um aminoácido importante na modulação da pulsatilidade do


LH e a arginina está relacionada com a elevação da concentração de espermatozóides no
sêmen e aumento da motilidade espermática (Mendes e Pinto, 2005). O NRC recomenda no
mínimo 20% para cadelas em terço final de gestação e lactação e 21,3% e 30% para gatas em
terço final de gestação e durante a lactação, respectivamente. Já a AAFCO (2007) postula no
mínimo 22% para cadelas e 30% para gatas em todas as fases da reprodução. Quanto aos
aminoácidos, o NRC coloca exigências mínimas de 1,0% de arginina, 0,44% de histidina, 0,71%
de isoleucina, 0,31% de metionina, 0,62% de metionina+cistina, 2% de leucina, 0,9% de lisina,
0,83% de fenilalanina, 1,23% de fenilalanina+tirosina, 1,04% de treonina, 0,12% de triptofano e
0,85% de valina por quilo de dieta contendo 4000 kcal para cadelas em reprodução.

Para gatas, as concentrações mínimas são: 1,5% de arginina, 0,43% de histidina,


0,77% de isoleucina, 0,5% de metionina, 0,9% de metionina+cistina, 1,8% de leucina, 1,1% de
lisina, 1,91% de fenilalanina+tirosina, 0,89% de treonina, 0,19% de triptofano, 1% de valina e
0,05% de taurina em gatas gestantes e 1,5% de arginina, 0,71% de histidina, 1,2% de isoleucina,
0,6% de metionina, 1,04% de metionina+cistina, 2,0% de leucina, 1,4% de lisina, 1,91% de
fenilalanina+tirosina, 1,08% de treonina, 0,19% de triptofano, 1,2% de valina e 0,05% de taurina
em gatas lactantes. Em relação às exigências de aminoácidos, a AAFCO determina tanto para
cadelas quanto para gatas, as mesmas quantidades necessárias para o crescimento.

A importância da gordura na reprodução está associada à síntese dos hormônios


esteróides, à função estrutural, além do fornecimento de energia com baixo incremento calórico, 123
transporte das vitaminas lipossolúveis e fornecimento de ácidos graxos essenciais. Os ácidos
graxos essenciais (ômegas 3 e 6) são importantes elementos estruturais das membranas
celulares, sendo necessários para a formação de novos tecidos. Na maioria dos tecidos
corporais, os níveis desses ácidos graxos não representam mais que 6%, mas no
espermatozóide e no plasma seminal do cão chegam a cerca de 60% do total de ácidos graxos
(sendo 3,2% ácido linoléico, 6,6% ácido araquidônico, 28,4% de docosapentaenóico e 3,6% de
docosahexaenóico).

A manipulação da dieta para favorecer a elevação do conteúdo de


docosapentaenóico, associada à elevada proteção antioxidante pode ser interessante. Para a
lactação, um estudo recente relata que o ácido araquidônico e o docosahexaenóico estão
presentes no leite da cadela, em quantidades similares àquelas em outros mamíferos: 1,22% e
0,7% da gordura total do leite, respectivamente.

As exigências dietéticas de gordura são maiores na reprodução, em relação à


manutenção. A AAFCO (2007) recomenda um mínimo de 8% de gordura para animais em
reprodução e 5% para animais em manutenção, o que representa um aumento de 60% nas
necessidades. Quanto aos ácidos graxos, o NRC (2006) recomenda no mínimo 1,3% de ácido
linoléico, 0,08% de alfa-linolênico e 0,05% de eicosapentaenóico+docosahexaenóico para
cadelas. Já para gatas, são necessários 0,55% de ácido linoléico, 0,02% de alfa-linolênico,
0,02% de ácido araquidônico e 0,01% de eicosapentaenóico + docosahexaenóico. A AAFCO
possui recomendações apenas de 1,0% de ácido linoléico para cães e de 0,5% de linoléico e
0,02% de araquidônico para gatos em reprodução.

Com relação aos carboidratos, embora estes não sejam dieteticamente essenciais,
deve-se considerar que há uma essencialidade metabólica de glicose. Como o feto utiliza
exclusivamente glicose como fonte energética, a presença de carboidratos é fundamental ao
bom desenvolvimento do feto durante a prenhez.

Por sua vez, vitaminas e minerais têm uma participação extremamente importante na
reprodução e por serem co-fatores metabólicos colaboram para a otimização do processo
reprodutivo e para a viabilidade pré e pós-natal dos filhotes. Durante a gestação, por exemplo,
diferentes vias metabólicas são alteradas levando a um maior consumo de oxigênio e a 124
modificações que resultam no consumo de substratos energéticos, com maior exposição ao
estresse oxidativo.

Assim, a suplementação de nutrientes com funções antioxidantes pode ser benéfica.


As necessidades mínimas de minerais para cães e gatos em reprodução, segundo a AAFCO
(2007) são: 1,0% de cálcio, 0,8% de fósforo, 0,6% de potássio, 0,3 e 0,2% de sódio, 0,45 e 0,3%
de cloro, 0,04 e 0,08% de magnésio, 80 ppm de ferro, 7,3 e 5 ppm de cobre, 1,5 e 0,35 ppm de
iodo, 120 e 75 ppm de zinco, 5 e 7,5 ppm de manganês, 0,11 e 0,1 ppm de selênio. Alguns
desses minerais, como o selênio, por sua ação antioxidante, têm sido especialmente estudados
devido aos seus efeitos especialmente sobre a qualidade espermática, manutenção da
integridade folicular e testicular, desenvolvimento folicular normal, entre outros.

Em relação às vitaminas, E, A e C também por exercerem ações antioxidantes, têm


sido particularmente estudadas. Em um trabalho realizado por Hatamoto (2004) avaliando os
efeitos do estresse e da suplementação de vitamina E sobre as características seminais de cães
da raça Rotweiller, observou-se que a vitamina E atuou sobre a porcentagem de defeitos
maiores, sobre a porcentagem de células com membrana acrossomal íntegra e sobre a
viabilidade espermática; também atenuou os efeitos negativos do estresse sobre o sêmen dos
cães.

O ácido fólico é outra vitamina importante para a reprodução, particularmente para a


gestação, pois está relacionado à síntese de purinas e pirimidinas e é essencial para a boa
divisão dos tecidos de alta replicação. Sua deficiência causa anemia megaloblástica e suas
exigências são maiores durante esse período. As exigências para cadelas em reprodução,
segundo o NRC (2006), são 5050 UI de vitamina A, 13, 8 mg de vitamina E, 30 mg de vitamina
K, 1,6 mg de tiamina, 2,25 mg de tiamina, 5,3 mg de riboflavina, 1,5 mg de piridoxina, 17 mg de
niacina, 15 mg de ácido pantotênico, 35 microgramas de cianocobalamina, 270 microgramas de
ácido fólico, 1700 mg de colina. Para gatas, o NRC recomenda 6667 microgramas de vitamina A,
7 microgramas de vitamina D, 31 mg de vitamina E, 1,0 mg de vitamina K, 6,3 mg de tiamina, 4,0
mg de riboflavina, 2,50 mg de piridoxina, 40 mg de niacina, 5,75 mg de ácido pantotênico, 22,5
microgramas de cobalamina, 750 microgramas de ácido fólico, 75 microgramas de biotina, 2550
mg de colina. A AAFCO (2007) relaciona as necessidades mínimas de vitaminas para cães em
reprodução como 5000 UI/kg de vitamina A, 500 UI/kg de vitamina D, 50 UI/kg de vitamina E, 1
125
mg/kg de tiamina, 2,2 mg/kg de tiamina, 10 mg/kg de ácido pantotênico, 11,4 mg/kg de niacina, 1
mg/kg de piridoxina, 0,18 mg/kg de ácido fólico, 0,022 mg/kg de cianocobalamina, 1200 mg/kg
de colina (concentrações na matéria seca de dieta contendo 3500 kcal).

Para gatos, as quantidades são as seguintes: 9000 UI/kg de vitamina A, 750 UI/kg de
vitamina D, 30 UI/kg de vitamina E, 0,1 mg/kg de vitamina K, 5 mg/kg de tiamina, 4 mg/kg de
riboflavina, 5 mg/kg de ácido pantotênico, 60 mg/kg de niacina, 4 mg/kg de piridoxina, 0,8 mg/kg
de ácido fólico, 0,07 mg/kg de biotina, 0,02 mg/kg de cianocobalamina, 2400 mg/kg de colina,
0,1% de taurina para alimento extrusado e 0,2% para alimento úmido.

Finalmente, deve-se considerar que a ingestão de água é extremamente importante


para animais em lactação. Varias fórmulas têm sido usadas para estimular as necessidades
diárias para a manutenção do balanço normal de água. A mais simples, é baseada somente no
peso corpóreo onde se considera a necessidade de ingestão de cerca de 50-60mL de água por
quilo de peso vivo. Outra fórmula considera que a ingestão deve ser duas ou três vezes superior
ao consumo de matéria seca. De qualquer forma, a exigência de um animal em lactação pode
chegar a ser o triplo da necessidade de manutenção, sendo indicado o fornecimento de água
limpa e fresca à vontade, para que ele regule o consumo.

Com relação ao manejo, é importante ressaltar que as dietas no período de lactação,


devem ser de alta densidade energética e nutricional, a fim de atender as exigências dos
animais, podendo ser oferecidas à vontade. Durante a gestação a alimentação deve ser
controlada, com o objetivo de evitar sobrepeso que pode prejudicar no momento do parto.
126

4.5 Animais em manutenção

A fase de manutenção é a mais fácil de se manejar do ponto de vista nutricional.


Consiste em nutrir e alimentar um animal adulto. No entanto, é fundamental considerar a raça do
animal, o sexo, o nível de atividade e o tipo de alimento que está sendo fornecido, entre outros
fatores para nutrir bem. Justamente por ser a fase mais simples de manejar, às vezes, esses
fatores são esquecidos e a ocorrência de doenças como a obesidade passa a ser freqüente.
Assim, precisamos considerar alguns pontos.

Em relação às exigências energéticas, é importante considerar que as necessidades


dos animais resultam da relação existente entre massa (peso vivo) e a superfície do corpo, pois
é ela que define o quanto de perda de calor (resultado da utilização da energia) vai ocorrer. Por
esse motivo, os modelos alométricos, ou seja, aqueles que consideram essa relação ao elevar o
peso vivo do animal a uma determinada potência, ganharam espaço na nutrição animal.
Um animal que possui 50 kg não possui o dobro das necessidades energéticas de um
animal de 25 kg. O expoente que melhor define essa relação é chamado pelos nutricionistas de
peso metabólico e foi bastante discutido em nutrição de cães e gatos. A taxa metabólica basal
(ou seja, o mínimo que os animais precisam para manutenção do funcionamento dos órgãos, é
menor do que a energia de manutenção) foi inicialmente descrita por Brody em 1934 como 70,5
x PV0,73. Para facilitar os cálculos, Kleiber, em 1961, sugeriu a equação Y= 70,0 x W 0,75.
Posteriormente, Heusner, em 1982, sugeriu que o expoente 0,67 seria mais indicado
para descrever as necessidades energéticas de cães, porque este traduzia melhor as relações
entre as diferentes raças pertencentes à mesma espécie, por serem corpos geometricamente
semelhantes, sendo intra-específico, diferente do expoente de Brody que era mais
interespecífico. No entanto, a nova edição de 2006 do NRC volta a considerar que o expoente
0,75 seja mais adequado para definir as necessidades energéticas de cães, já que diversas
raças caninas possuem os mais variados tamanhos e formas que não são geometricamente 127
semelhantes. Dessa forma, com o aumento de tamanho, os cães tornam-se relativamente mais
altos nos ombros e mais estreitos no quadril. Os órgãos e várias vísceras, incluindo o fígado e o
trato gastrointestinal, tornam-se menores com o aumento do peso, um fato que ocorre também
entre espécies ainda que não nas mesmas taxas. Além disso, o volume sangüíneo e a massa do
coração, mesmo a razão cardíaca, mudam com o tamanho do cão em taxas similares àquelas
vistas na variedade das espécies.
No entanto, é importante destacar que algumas raças, como o Dogue Alemão e o
Terra Nova, têm necessidades diferenciadas: o Terra Nova tem exigências 20% abaixo da média
das raças gigantes e o Dogue Alemão até 60% acima dela.

As equações para cães adultos em manutenção, segundo o NRC de 2006 estão


demonstradas no quadro 20.

Quadro 20- Necessidades energéticas de cães em manutenção

Média para cães em canis experimentais ou em atividade a : 130 x PV 0,75

Necessidades superiores à média

Cães de experimentais adultos jovens ou adultos jovens ativos : 140 x PV0,75

Dogue Alemães adultos experimentais ou Dogue Alemães ativos: 200 x PV0,75

Terriers adultos de laboratório ou terriers adultos ativos: 180 x PV 0,75

Necessidades inferiores à média

Cães inativos b : 95 x PV 0,75


Cães experimentais idosos, cães idosos ativos ou Terra Nova experimentais:

105 x PV 0,75

Onde:
a Cães mantidos em um ambiente doméstico com forte estímulo e ampla oportunidade de
exercício, tais como cães em casas de campo múltiplas ou em casas com grandes jardins; b 128
Cães mantidos em um ambiente doméstico com poucos estímulos e oportunidade para
exercício. Necessidades para cães idosos ou com sobrepeso podem estar sendo
superestimadas.

Para gatos, como o peso e a forma do corpo não variam tão grandemente entre as
raças, era comum utilizar-se o peso vivo como forma de definir as suas exigências energéticas.
O modelo linear era mais comum que o alométrico, já que se baseava no peso corpóreo e não
no metabólico. No entanto, o NRC propõe a utilização do expoente 0,67 (intra-específico) que
evitaria a superestimação das necessidades em animais mais pesados. No entanto, animais com
sobrepeso devem utilizar o expoente de 0,4 já que o tecido adiposo possui uma taxa metabólica
bem menor do que o muscular e conseqüentemente diminui as necessidades energéticas do
animal. Para felídeos e gatos exóticos, no entanto, recomenda-se a utilização de 0,75. As
equações para gatos adultos em manutenção estão demonstradas no quadro 21.

Quadro 21- Necessidades energéticas de gatos em manutenção

Gatos domésticos, magrosb 100 x PV0,67

Gatos domésticos, com sobrepesoc 130 x PV0,4

Gatos Exóticos 55-260Kcal x Kg PC0,75

a
Necessidades individuais de gatos podem ser menores ou subestimadas em mais de
50%; Escore de condição corporal ≤ 5 em uma escala de 9; c Escore de condição corporal > 5
b

em uma escala de 9
Quanto às necessidades de proteína, lipídeos, minerais e vitaminas, elas são menores
do que as exigidas para crescimento e reprodução. As concentrações mínimas para a
manutenção segundo a AAFCO estão demonstradas nas tabelas 2 e 3.

Tabela 2- Níveis mínimos de nutrientes em alimentos para cães (%MS)


129
Nutrientes Unidade Manutenção Máximo

Proteína Bruta % 18

arginina % 0,51

histidina % 0,18

isoleucina % 0,37

leucina % 0,59

lisina % 0,63

metionina+cistina % 0,43

fenilalanina+tirosina % 0,73

treonina % 0,48

triptofano % 0,16

Valina % 0,39

Gordura % 5

Ácido linoléico % 1

Minerais

Cálcio % 0,6

Fósforo % 0,5

Ca:P % 01:01 2,5

Potássio % 0,6 1,6

Sódio % 0,06 02:01


Cloreto % 0,09

Magnésio % 0,04 0,3

Ferroc mg/kg 80 3000

Cobred mg/kg 7,3 250

Manganês mg/kg 5

Zinco mg/kg 120 1000


130
Iodo mg/kg 1,5 50

Selênio mg/kg 0,11 2

Vitaminas e outros

Vitamina A UI/kg 5000 250000

Vitamina D UI/kg 500 5000

Vitamina E UI/kg 50 1000

Tiaminae mg/kg 1

Riboflavina mg/kg 2,2

Ácido pantotênico mg/kg 10

Niacina mg/kg 11,4

Piridoxina mg/kg 1

Ácido fólico mg/kg 0,18

Cianocobalamina mg/kg 0,022

Colina mg/kg 1200

Para dietas com densidade energética de 3500 kcal/kg


Nutrientes Unidade Manutenção Máximo

Proteína Bruta % 26

arginina % 1,04

histidina % 0,31

isoleucina % 0,52
131
leucina % 1,25

lisina % 0,83

metionina+cistina % 1,1

metionina % 0,62 1,5

fenilalanina+tirosina % 0,88

fenilalanina % 0,42

treonina % 0,73

triptofano % 0,16

Valina % 0,62
Gordurab % 9

Ácido linoléico % 0,5

Ácido araquidônico % 0,02

Minerais

Cálcio % 0,6

Fósforo % 0,5
132
Potássio % 0,6

Sódio % 0,2

Cloreto % 0,3

Magnésioc % 0,04

mg/k
Ferrod g 80

mg/k
Cobre (extrusado)e g 5

Cobre (úmido)e 5

mg/k
Manganês g 7,5

mg/k
Zinco g 75 2000

mg/k
Iodo g 0,35

mg/k
Selênio g 0,1

Vitaminas e outros

UI/k
Vitamina A g 5000 750000

UI/k
Vitamina D g 500 10000

Vitamina Ef 30
UI/k
g

Vitamina Kg 0,1

mg/k
Tiaminah g 5

mg/k
Riboflavina g 4

mg/k
133
Ácido pantotênico g 5

mg/k
Niacina g 60

mg/k
Piridoxina g 4

mg/k
Ácido fólico g 0,8

Biotinai 0,07
mg/
Cianocobalamina kg 0,02

mg/
Colinaj kg 2400

Taurina( extrusado) % 0,1

Taurina (úmido) % 0,2

Para dietas com densidade energética de 4000 kcal/kg


134

4.6 Animais atletas

Há uma classe especial de cães que embora sejam adultos não estão em manutenção
porque exercem um tipo de atividade mais intensa que os passeios diários ou as brincadeiras
com os donos. Atualmente, os cães auxiliam as pessoas em diversas atividades, seja
pastoreando rebanhos, exercendo a função de guias para cegos, guarda em residências ou
estabelecimentos comerciais, programas de terapia de pacientes em estado terminal ou em
recuperação ou ainda participando de competições, como os agility, corridas ou em países frios,

a tração de trenós. Animais que exercem esses tipos de funções precisam de nutrição
específica.
Para determinar qual o tipo de alimentação que o animal deverá receber é necessário
que primeiramente se defina qual o tipo de exercício que ele realiza. De forma geral, os
exercícios podem ser classificados em três tipos: os aeróbios ou de resistência, os anaeróbios
ou de curta duração e os mistos.
Os de curta duração exigem especialmente carboidratos como fonte de energia, pois a
duração breve impede a mobilização de ácidos graxos e oxigenação necessária para o
metabolismo aeróbio. As fibras predominantes nesse tipo de atividade são as do tipo 2B, que
apresentam contração mais rápida, maior reserva de glicogênio, maior capacidade glicolítica e
menor capacidade oxidativa. As corridas são exemplos típicos deste tipo de exercício.
Os animais submetidos a elas precisam de dietas ricas em carboidratos, de fácil
digestão, que favoreça a manutenção da glicemia e das reservas de glicogênio. As principais
fontes de energia utilizadas nas corridas são o ATP, armazenado no músculo, a creatina quinase
(necessária para a explosão e que fornece energia nos primeiros 20 segundos de atividade),
glicose e glicogênio armazenados. 135
Os exercícios de longa duração ou de resistência recrutam preferencialmente fibras
do tipo 1, que apresentam contração lenta, são especializadas em manter a contração muscular
sem fadiga e tetania por longos períodos, ideal para a resistência. Essa resistência à fadiga é
atribuída à maior densidade de mitocôndrias do tecido, o que confere uma maior capacidade
aeróbica ou oxidativa. Esse tipo de fibra apresenta também uma maior reserva lipídica, maior
irrigação capilar, menor reserva de glicogênio e menor atividade de enzimas glicolíticas.
Nesse caso, os ácidos graxos oxidados nas células musculares são derivados de
ácidos graxos livres de cadeias longas circulantes no plasma. Os ácidos graxos livres penetram
na célula por um processo de difusão; uma vez no interior, a carnitina desempenha o papel de
transporte através da membrana mitocondrial. Ao mesmo tempo, ácidos graxos livres podem ser
removidos pelo fígado, convertidos em corpos cetônicos e liberados na circulação. A oxidação de
ácidos graxos livres atua como principal fonte de energia durante exercícios prolongados de
baixa ou moderada intensidade. Exercícios de resistência (tração) são os principais exemplos de
atividades aeróbias (de longa duração).
Nos exercícios mistos, utilizam-se as rotas aeróbia e anaeróbia e as fibras
musculares predominantes são as do tipo 2 A, intermediárias, em velocidade de contração e
propriedades metabólicas. Esse tipo de fibra favorece a oxidação de lipídeos e carboidratos, mas
também a degradação de glicogênio no exercício anaeróbico. O agility é o principal exemplo
desse tipo de atividade, já que as provas exigem tanto a explosão, para ultrapassar os
obstáculos de salto, quanto a persistência no exercício que permitam completar todos os
obstáculos presentes na prova (saltos, pneu, muro/viaduto, salto em distância, túnel aberto, túnel
fechado, “slalom”, mesa, paralela, rampa A e gangorra).
Além de lipídeos e carboidratos, deve-se ter em mente que os aminoácidos podem
disponibilizar de 5 a 10% da energia oxidativa para os músculos. Seu grupo amino é transferido
para o piruvato, formando alanina, e para o glutamato, formando glutamina. Alanina e glutamina
são liberadas na corrente sangüínea, removidas pelo fígado e usadas para a síntese de glicose.
Uma vez sintetizada, esta é liberada no sangue e se torna disponível para a oxidação
intramuscular.
A maioria dos músculos apresenta uma mistura dos diferentes tipos de fibras e utilizam
os nutrientes que fornecem energia de forma diferenciada. A proporção entre elas não é
constante e o treinamento pode alterar a composição e o tamanho da fibra no mesmo músculo.
Após um curto período de tempo e treinamento, existe um aumento no volume e na densidade
das mitocôndrias, acarretando em um aumento da capacidade oxidativa da célula. Ocorre 136
também um aumento na relação entre as fibras 2A:2B e da capilaridade local, proporcionando
maior oxigenação e suprimento energético para o músculo em exercício, facilitando a retirada
dos metabólitos que levam à fadiga muscular. A fadiga é resultado da diminuição de algumas
substâncias durante o exercício (ATP e glicogênio) e acúmulo de outras (lactato e íons
hidrogênio). A transição do ácido lático derivado do músculo para o sangue é aumentada devido
à rápida circulação e presença de bicarbonato no sangue. O acúmulo de ácido lático é
tradicionalmente associado com metabolismo anaeróbico. Por outro lado, a oxidação de ácidos
graxos poupa nitrogênio muscular, especialmente após longa adaptação metabólica. Dessa
maneira, o animal que se adapta ao exercício consegue utilizar de forma mais eficiente a gordura
com economia de glicogênio e reduzido acúmulo de lactato.
A dieta para atender o cão atleta deve ser de alta densidade energética (dietas com
baixa densidade, aumentam o consumo o que leva a um maior volume no trato gastrointestinal,
indesejável para animais que se exercitam), possuir fontes de proteína de alta digestibilidade e
alto valor biológico (ovos, caseína, carnes), conter carboidratos de alta digestibilidade, utilizar
triglicerídeos de cadeia média (mecanismo de absorção diferenciado; as gorduras são fontes de
água metabólica, podendo contribuir para a hidratação do animal, além de contribuir para
aumentar a densidade energética e a palatabilidade), e suplementação de vitaminas (a A,
participa da estrutura de ligamentos, a D, importante no equilíbrio do cálcio e do fósforo, a K,
responsável pelas boas características sangüíneas, a E, um importante antioxidante que mantém
a estabilidade de membranas e as do complexo B, que participam como coenzimas no
metabolismo energético). Estão disponíveis dietas comerciais próprias para cães em atividade.
Com relação aos suplementos disponíveis para a utilização em cães atletas é
importante lembrar que antes de realizar qualquer suplementação é importante que se conheça
a dieta e o tipo de exercício ao qual o animal está sendo submetido, para avaliar se há real
necessidade da utilização destes. Atualmente, com o objetivo de obter o máximo desempenho
de seus cães, muitos proprietários e criadores têm errado pelo excesso.
Creatina, leucina e glutamina poderiam aumentar a síntese protéica e contribuir para o
aumento da massa muscular (Kreider, 1999) e a L-carnitina auxilia na oxidação de ácidos
graxos, por exemplo.

137

4.7 Animais senis

Segundo o NRC (2006) embora os termos idoso, senil e geriatra sejam freqüentemente
utilizados como sinônimos, eles têm definições distintas. A senilidade é o conjunto de eventos
que começa a ocorrer assim que o cão atinge a maturidade, tais como diminuição da atividade,
do ganho de peso e alterações comportamentais que culminam com o envelhecimento. Portanto,
está relacionado às alterações fisiológicas inerentes a esse processo. Por outro lado, a geriatria
é um termo relacionado à idade cronológica em que a partir de um determinado período os
animais são assim determinados.
Todas essas condições derivam da ocorrência de uma série de fenômenos biológicos
complexos que são definidos em conjunto como envelhecimento. Este se caracteriza pela
redução na capacidade do organismo em manter a homeostasia frente aos estresses fisiológico
interno e ambiental externo. A etiologia desse processo ainda não está completamente
elucidada, mas acredita-se que seja multifatorial e que eventos metabólicos, nutricionais,
ambientais e genéticos contribuam para a ocorrência de alterações degenerativas para a perda
de reservas e das capacidades de regeneração e adaptabilidade.
O tamanho do animal influi marcadamente nesse processo e mudanças celulares
imperceptíveis começam a ocorrer nos animais em uma fase precedente à senil e denominada
como maturidade. Os cães de raças grandes e gigantes tornam-se maduros aos 5-6 anos e
vivem em média 10; já os pequenos e médios são maduros entre 7-8 anos e tem sobrevida
média entre 13-20.
Dentre as alterações que os animais senis sofrem destaca-se a diminuição do
metabolismo basal e da atividade, da capacidade de termorregulação, da sensibilidade à sede (o
que os torna sensíveis à desidratação), da quantidade e qualidade do sono, do olfato, paladar,
visão e audição (o que conduz a diminuição no consumo voluntário de alimentos), formação de 138
tártaro que leva a doenças periodontais e agrava a tendência a diminuição na ingestão de
alimentos, redução da função hepática, da absorção intestinal e da motilidade do cólon (que leva
a constipação), da funcionalidade da maioria das glândulas endócrinas (hipófise, adrenais,
tireóide, pâncreas endócrino, o que aumenta a sensibilidade a diabetes melitus), da função renal
(em até 50%, o que conduz ao dano progressivo por sobrecarga funcional dos néfrons que ainda
funcionam, com aparecimento de poliúria, polidipsia e incontinência), neoplasias testiculares e
mamárias, endometrite e problemas reprodutivos, diminuição da massa e tônus muscular,
alterações ósseas que predispõem a fraturas e alterações articulares, incidência de bronquite
crônica e patologias respiratórias, como enfisemas com redução da capacidade respiratória e
diminuição em até 30% da eficiência cardíaca, com aumento da resistência periférica levando à
hipertensão e congestão cardíaca. Com todas essas alterações fisiológicas fica claro que a
concentração de energia e nutrientes e o manejo da dieta devem sofrer modificações para os
animais na fase de senilidade.
A redução da taxa metabólica e da atividade faz com que haja uma diminuição nas
necessidades energéticas dos cães e gatos senis. A inatividade somada à redução na taxa
metabólica leva à queda de 30-40% nas exigências. A perda de massa muscular e a maior
porcentagem de massa gorda é uma das causas da redução das necessidades energéticas. É
importante que se estimule os animais a consumirem o alimento, mas deve-se atentar para a
exigência energética a fim de evitar a ocorrência de obesidade.
Em relação à concentração de proteínas, é importante ressaltar que o fornecimento de
proteína é um dos assuntos mais discutidos na nutrição humana e de pequenos animais. As
altas concentrações desse nutriente nos alimentos comerciais e a grande prevalência de
doenças renais em animais idosos levam ao debate sobre se o seu consumo em excesso
poderia predispor à ocorrência de danos renais pela sobrecarga desse órgão, causada pelo
aumento crônico da pressão glomerular e pela hiperfiltração. Algumas correntes de
pesquisadores dizem que deve haver uma diminuição na concentração de proteínas assim que o
animal atinge a maturidade e outros defendem que essa não é a postura mais adequada, já que
o catabolismo protéico ocorre mais acentuadamente e é necessário para responder ao estresse
e às doenças comuns nessa fase. De qualquer forma, é importante que as fontes protéicas
tenham valor biológico alto e sejam de excelente digestibilidade, com o objetivo de suprir as
necessidades dos animais.
Com relação aos lipídeos, pode-se dizer que os cães geriátricos apresentam uma
menor capacidade na utilização das gorduras e uma discreta diminuição em sua concentração 139
pode ser benéfica. Dietas com menos de 20% da energia disponível vinda das gorduras são
desejáveis, embora em ocasiões especiais (tais como animais abaixo do peso) a utilização de
até 30% possa ser recomendada. Lembrar sempre que embora deva ser diminuída a gordura é
necessária, já que fornece os ácidos graxos essenciais, garante a palatabilidade às rações e é
importante para a absorção de outros nutrientes como as vitaminas lipossolúveis.
Quanto aos carboidratos, há declínio na capacidade de cães e gatos em regularem a
concentração de glicose no sangue, necessitando de um maior período pós-prandial para o
retorno aos seus níveis basais, como resultado de menor resposta da insulina aos tecidos
(National Research Council, 2006). Assim, a utilização de carboidratos com menor índice
glicêmico e de fibras solúveis e insolúveis na alimentação tem sido adotada como estratégia na
nutrição humana e de cães e gatos.
Na nutrição mineral, há diminuição na capacidade em eliminar os fosfatos e na
produção do calcitriol (vitaminaD3 ativa) responsável pela absorção intestinal de cálcio que pode
levar ao desenvolvimento de hiperparatireoidismo. Uma redução de 15-20% do teor de fósforo e
um ligeiro aumento do cálcio sem comprometer a relação cálcio fósforo é importante. O teor de
sódio também deve ser diminuído para evitar o agravamento de hipertensão secundária a
doenças renais. Outros microminerais, tais como o selênio (propriedades antioxidantes), o zinco

e o cobre são importantes para os cães senis, mas normalmente as rações comerciais possuem
níveis adequados ou superiores deles e se um cão tiver ao menos 50% com ração, não há
necessidade de suplementação.
Em relação às vitaminas, um aumento nas vitaminas do complexo B pode beneficiar os
animais geriátricos, já que o comprometimento do sistema digestivo aumenta as suas
necessidades. As vitaminas E e C têm importância como antioxidante, embora a suplementação
para a expressão dessa atividade deva ser em dosagens superiores às para a obtenção de suas
atividades fisiológicas. A vitamina A é não é um potente antioxidante, mas o seu precursor beta
caroteno sim. Isso não significa que a adição de vitamina A pré-formada não seja importante na
dieta de gatos senis. Sua participação na manutenção da integridade visual é importante, já que
como vimos, há perdas importantes de função no processo de envelhecimento.
Como manejo, mudanças súbitas na rotina diária e na dieta desses animais devem ser
evitadas; deve-se utilizar o esquema de alimentação controlada para auxiliar na manutenção do
peso ideal e fornecer um alimento facilmente digerível e de alta palatabilidade.
140
5 OS ALIMENTOS

Nos módulos anteriores estudamos os nutrientes e as necessidades nutricionais dos


animais de companhia. Agora, para fechar o curso é importante vermos a outra grande porção, a
dos alimentos. Neste módulo teremos informações a respeito de que ingredientes são
normalmente utilizados na nutrição e alimentação de cães e gatos, quais são os alimentos 141
disponíveis e o processamento pelo qual passam.

5.1 Alimentos comerciais para cães e gatos

No Brasil, a produção de alimentos industrializados para animais de estimação iniciou-


se em 1985. No entanto, apesar de ser um fenômeno recente, a sua participação entre os
diversos setores do mercado pet (medicamentos, serviços, equipamentos, acessórios e logística)
é expressiva, correspondendo a cerca de 75% do total arrecadado, conforme demonstrado na
tabela 4.

Tabela 4 – Participação do segmento de alimentos comerciais no mercado pet- ano de

Segmento 2007(U$$) %

Alimento (Pet Food) 75


3.067.511.609,49
Medicamentos Veterinários e 272.680.639,20
Produtos para Higiene, 7
Embelezamento, etc.

Serviços 13
546.080.000,00
Equipamentos e acessórios 5
215.622.000,00
Total 100,00
4.101.894.248,69
2007, em bilhões de dólares

Fonte: Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos Pet (2008) citado por Aquino et al. (2008)
E há um grande potencial para crescimento da indústria pet nacional. Isto porque o
percentual de animais que consomem alimentos industrializados no país é de apenas 45%.
Estes valores são baixos quando comparados a países europeus como Reino Unido (60%) e
França (80%). No entanto, a produção brasileira é a segunda do mundo (1,8 milhões de
toneladas com um faturamento de U$$ 3,07 bilhões) perdendo apenas para os Estados Unidos
(tabela 5). A Região Sudeste é a maior responsável por este resultado, respondendo por 52,64%
do mercado, seguida pela Sul (40,42%), Centro-Oeste (4,45%), Nordeste (1,94%) e Norte 142
(0,55%).

Tabela 5 – Produção de alimentos comerciais pela indústria brasileira - ano de 1994 a 2007.

Taxa de crescimento Valor Mercado


Anos Toneladas
anual toneladas Consumidor em U$$

1994 220.000 - 285.200.000,00

1995 380.000 72,73% 469.400.000,00

1996 420.000 10,53% 513.800.000,00

1997 550.000 30,95% 444.266.666,67

1998 750.000 36,36% 890.600.000,00

1999 950.000 26,67% 1.106.000.000,00

2000 1.000.000 5,26% 1.050.000.000,00

2001 1.172.000 17,20% 957.464.000,00

2002 1.234.000 5,29% 927.094.000,00

2003 1.295.000 4,94% 1.200.000.000,00

2004 1.425.878 10,11% 1.466.204.383,91

2005 1.562.000 9,58% 1.886.400.347,52

2006* 1.687.408 8,00% 2.037.312.374,00

2007 1.800.000 4,26% 3.070.000.000,00

Fonte: Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos Pet ANFAL PET (2006); * 2006 - valores

estimados
No entanto, em 2007 o crescimento foi de 4,26%, o que não correspondeu às
expectativas iniciais de 8%. Isso poderia ter ocorrido, em parte, pelo aumento no custo das
matérias-primas, mas especialmente devido aos altos tributos, um dos grandes desafios da
indústria de alimentos para animais de companhia no Brasil. No total, os alimentos para os
animais de companhia são taxados com 49,9% de impostos, enquanto que os insumos
agropecuários com 15,25%, e a cesta básica, 7%. Isso acontece porque estes são taxados como
supérfluos, apesar desta nutrição substituir os alimentos de consumo humano. A reivindicação 143

do setor é enquadrar os alimentos para os animais de companhia com alíquota idêntica àquela
determinada ao alimento humano, assim como é feito nos Estados Unidos (onde têm alíquotas
idênticas e não superiores a 7,5%) e na Europa (onde a maior taxa é a da Alemanha, que não
ultrapassa 18%). No entanto, mesmo frente a essa dificuldade, a estimativa é de que o mercado
reaja e cresça pelo menos 5%, o que deve representar um faturamento em torno de US$ 3,22
bilhões para Pet Food no ano de 2008.
Nos últimos anos, devido ao crescimento acelerado da indústria de alimentos
comerciais para cães e gatos, foi possível verificar a multiplicação de marcas (hoje mais de 600,
provenientes de aproximadamente 100 fabricantes). Com melhora na estética das embalagens,
comunicações de vários atributos e benefícios de ingredientes como condroprotetores,
imunomoduladores, redução do odor de fezes, redutores de tártaro, alta digestibilidade,
melhoradores da saúde de pêlos, entre outros. No entanto, a ampla diversidade de alimentos
gera no consumidor e mesmo no clínico veterinário, uma dificuldade a mais na hora de escolher
qual o melhor alimento para o animal de companhia.
Quanto ao teor de umidade, as rações podem ser classificadas em: secas, semi-
úmidas ou úmidas. Os alimentos secos ou desidratados possuem entre 6-10% de umidade, ou
seja, 90% ou mais de matéria seca. Incluem alimentos completos, além de snacks e biscoitos
utilizados como petiscos. São obtidos a partir do processo de extrusão e correspondem à maioria
do mercado de alimentos para cães e gatos (cerca de 80%). Os alimentos semi-úmidos contêm
entre 15-30% de água, possuem uma textura mais branda do que os alimentos secos e
normalmente contêm alguns antiumectantes com o objetivo de prolongar o tempo de vida de
prateleira. Por sua vez, os alimentos úmidos ou enlatados também podem ser completos ou
complementares. Entre os ingredientes comumente utilizados na sua formulação, estão as
carnes, subprodutos de peixes, cereais, proteínas vegetais processadas, etc. Possuem uma
concentração bastante elevada de gorduras o que lhes confere boa palatabilidade.
Por outro lado, a classificação dos alimentos quanto à qualidade é ainda muito
subjetiva, sendo a indústria a responsável pela segmentação atual: econômico, standard,
premium e superpremium. Contudo, muitas empresas segmentam ainda mais seus produtos,
denominando-os como high, plus ou advanced premium. Com o objetivo de uma padronização
na segmentação, a ANFAL PET, em 2007, criou o Programa PIQ PET e nele há especificações
para os fabricantes de como segmentá-los quanto à qualidade. Uma classificação, proposta por
144
Carciofi (2007), está apresentada no quadro 22.

Quadro 22- Características nutricionais de alimentos comerciais de acordo com a


segmentação comercial.

Formulação Ingredientes Digestibilidade Concentrações Relação entre


e Nutricionais Nutrientes
Palatabilidade

Super Fixa De elevado valor Alta Visam otimização Estrito controle


Premium nutricional, com da saúde. de desbalanços e
ingredientes interações.
especiais.
Benefícios
diferenciados aos
animais.

Premium Normalmente Médio a Alto Média a Alta Visam melhor Controla


apresentam atendimento das excessos e
formulação necessidades desbalanços.
fixa. nutricionais.

Standard Variável Dependente de Melhores que os Melhores que Alta Matéria


preço e econômicos os Mineral.
disponibilidade no econômicos.
mercado.
Econômi Variável De baixo Custo Baixa Aproximam-se As proteínas são
co dos limites basicamente de
mínimos ou origem vegetal,
máximos os teores de fibra
permitidos. e matéria mineral
são elevados,
enquanto que o
Extrato Etéreo é
reduzido.

Fonte: Carciofi (2007) 145

Dentre os parâmetros propostos para a avaliação da qualidade dos alimentos, estão a


digestibilidade dos nutrientes, o conteúdo de energia metabolizável obtido a partir de estudos in
vivo, a palatabilidade, a adequação nutricional para a espécie a qual se destina, formulação fixa,
qualidade microbiológica, ausência de micotoxinas, presença de alimentos funcionais que
tenham comprovação científica dos efeitos benéficos que possam produzir.

A digestibilidade é importante porque alimentos com os mesmos níveis de garantia


podem ter aproveitamento de nutrientes totalmente distintos, dependendo da qualidade de
ingredientes utilizados e do processamento pelo qual a ração passou. A ANFAL-PET (2007) em
seu guia nutricional propõe digestibilidade mínima da matéria seca e da proteína bruta de 75% e
80% para rações premium e superpremium, destinadas a cães e de 60,65,70 e 75% para
alimentos das classes econômica, standard, premium e superpremium destinados a gatos. Já
para o extrato etéreo em hidrólise ácida, os valores mínimos de digestibilidade para cães são 85-
90% para as rações premium e superpremium e em gatos de 70,75,80 e 85% para alimentos das
classes econômica, standard, premium e superpremium. Por fim, a digestibilidade mínima do
extrativo não nitrogenado (carboidrato) é de 80 e 85% para cães em alimentos premium e
superpremium e de 65,70,80, 85% para alimentos das linhas econômica, standard, premium e
superpremium formulados para felinos.

A digestibilidade influencia também o volume e a forma das fezes, assim como a


freqüência das defecações. À medida que aumenta a capacidade de digestão da dieta, o volume
fecal diminui de forma considerável. Alimentos altamente digestíveis produzem fezes sólidas e
bem formadas. Alimentos de baixa digestibilidade atravessam o intestino grosso, onde são
parcial ou totalmente fermentados pelas bactérias do cólon, produzindo gases e fezes moles
(diarréia osmótica).

Em relação à concentração de energia metabolizável, pode-se dizer que ela está


diretamente relacionada à quantidade de alimento que o animal vai ingerir. Portanto, se for muito
reduzida, pode não ser suficiente para atender as exigências energéticas e nutricionais em fases
exigentes como o crescimento e a reprodução. Os teores mínimos propostos pela ANFAL são de 146
3400 kcal/kg para cães e gatos em fase de crescimento e reprodução e de 3100 kcal/kg para
cães e 3250 kcal/kg para gatos adultos em manutenção.
Por sua vez, a palatabilidade é definida como a somatória dos aspectos sensoriais
envolvidos no interesse em ingerir determinado alimento: paladar, cheiro, textura, forma,
tamanho, sensação de mastigação e deglutição. A palatabilidade apresenta grande influência
sobre o consumo alimentar, podendo sobrepor-se à regulação pela concentração energética.
Alimentos com baixa palatabilidade, mesmo que contenham todos os nutrientes, serão rejeitados
pelo animal. Por outro lado, um alimento pode ser extremamente palatável, mas não estar
balanceado. Assim, embora a palatabilidade seja um fator importante na avaliação, nunca deve
ser utilizada como critério único de análise.
A formulação fixa se refere a uma listagem de ingredientes que não deve se alterar,
independentemente da época do ano, e permanece constante durante os sucessivos lotes do
alimento, assegurando-se que a composição da dieta será a mesma. Esta condição é, segundo
a ANFAL, obrigatória para os alimentos da categoria superpremium.
Deve-se garantir a qualidade microbiológica do alimento de forma que estes estejam
ausentes de fungos e salmonela. Além disso, as rações da categoria superpremium não podem
conter mais que 10ppb de aflatoxinas B1 e 5000 ppb de fumonisina B1+B2.
Em gatos, devido à maior probabilidade de desenvolverem urólitos por estruvita, o
controle do pH da dieta é extremamente importante, com a finalidade de evitar que isso
aconteça.
Finalizando, os ingredientes funcionais estão sendo amplamente utilizados,
especialmente nas dietas pertencentes à categoria superpremium, com o objetivo de promover a
saúde animal e aumentar a longevidade. Um alimento funcional é definido como aquele que
contém um componente, nutriente ou não, com atividade seletiva relacionada a uma ou várias
funções do organismo.
Atualmente, nos alimentos para os animais de companhia, podemos citar o uso de
prebióticos, de fosfatos (para evitar o acúmulo de cálculo dentário), de Yucca schidigera, de
zeolitas, sulfato de condroitina e glucosamina, de ácidos graxos poliinsaturados, antioxidantes
naturais (vitaminas C, E, beta caroteno, taurina e polifenóis e flavonóides), L-carnitina e minerais
quelatados como estratégias para melhorar a qualidade do alimento.
Prebióticos: Gibson e Roberfroid (1995) foram os responsáveis pela introdução do
conceito de prebiótico como ingredientes nutricionais não digeríveis que afetam beneficamente o
hospedeiro, estimulando seletivamente o crescimento e atividade de uma ou mais bactérias 147
benéficas intestinais, melhorando a saúde do animal.

Para uma substância ser classificada como prebiótico, ela não pode ser hidrolisada ou
absorvida na parte superior do trato gastrintestinal, e deve ser um substrato seletivo para um
limitado número de bactérias comensais benéficas do cólon, as quais terão crescimento e/ou
metabolismo estimulados, sendo capaz de alterar a microflora intestinal favorável e induzir
efeitos benéficos intestinais ou sistêmicos ao hospedeiro.

Dentre os prebióticos podemos citar os mananoligossacarídeos (MOS),


frutoligossacarídeos (FOS), xiloligossacarídeos (XOS), galactooligosacarídeos (GOS),
Lactosacarose e a Lactulose.

Os frutoligossacarídeos são os mais comumente utilizados com função prebiótica.


Embora eles normalmente sejam usados com o intuito de definir todos os oligossacarídeos não
digestíveis compostos por unidades de glicose e frutose, eles se referem especificamente aos de
cadeia curta, com aproximadamente 3-6 unidades de frutose unidas por ligação beta resistentes
às enzimas dos mamíferos. São obtidos a partir da hidrólise da inulina. Assim, os frutanos
alcançam o cólon e servem como substrato altamente digestível para bactérias do cólon. As
bactérias produtoras de lactato, como os Lactobacillus e Bifidobacterium, são então
selecionadas,diminuindo o pH e exercendo os efeitos benéficos sobre a saúde do hospedeiro.

Os MOS são derivados das paredes de leveduras, constituindo-se do extrato seco de


fermentação do Saccharomyces cerevisiae e apresentam a capacidade de modular o sistema
imunológico e a microflora intestinal, ligar-se a uma ampla variedade de micotoxinas e preservar
a integridade da superfície de absorção intestinal, ao bloquear a aderência das bactérias às
células epiteliais da mucosa do intestino. Além disto, é capaz de induzir a ativação dos
macrófagos saturando os receptores de manose das glicoproteínas da superfície celular, que se
projetam da superfície da membrana celular dos macrófagos. Uma vez que três ou mais lugares
tenham sido saturados, inicia-se uma reação em cadeia que dá origem à ativação dos
macrófagos e à liberação de citoquinas, com a instalação de uma resposta imunológica
adquirida. Também tem sido relatado que o MOS aumenta a imunoglobulina G e de IgA.

148

Figura 22 – Mananoligossacarídeo (MOS)

Os galactoligossacarídeos consistem de unidades de beta 1,6 galactopiranosil ligadas


e de uma ligação alfa-glicosídica ao resíduo glicopiranosil terminal e que mostra ser fermentável.
Os transgalactoligossacarídeos (TOS) são produzidos pela beta galactosidase do Aspergillus
oryzae.

A lactulose é uma forma isomérica da lactose, com uma molécula desta unida a uma
frutose pela ligação beta 1,4. Os xilo-oligossacarídeos (XOS) são oligômeros de açúcar
formados de unidades de xilose, que estão naturalmente presentes em frutas, vegetais, leites e
mel. Sua produção industrial é realizada a partir de materiais lignino celulósicos. Matérias primas
típicas para a sua produção incluem madeiras duras, bagaços, espiga de milho, entre outros. A
lactosucrose é produzida da mistura de lactose e sucrose, a partir da ação de uma enzima, a
fructofuranosidase. Os isomalto-oligossacarídeos (IMO) são produzidos a partir do amido que é
hidrolisado pela combinação da amilase e pululanase e os malto-oligossacarídeos resultantes
sofrem a ação da alfa-glucosidase. A alfa-glucosidase catalisa uma reação de transferência
convertendo a ligação alfa 1,4 dos malto-oligossacarídeos para alfa-1,6 dos isomalto-
oligossacarídeos. Os comerciais consistem de uma mistura de oligossacarídeos de diferentes
massas moleculares. Os oligossacarídeos da soja são derivados da alfa-galactosil sucrose
(rafinose, estaquiose). Eles são isolados dos grãos de soja e concentrados para formação dos
produtos comerciais.Os gluco-oligossacarídeos são sintetizados pela ação da enzima dextrano-
sucrase sobre a sucrose na presença de maltose. Os oligossacarídeos resultantes contêm
ligações alfa 1,2 tal como o oligossacarídeo seguinte: glucosil (alfa 1,2), glucosil (alfa 1,6),
glucosil (alfa 1,4), glicose. Podem ser produzidos via fermentação do Leuconostoc
mesenteroides.
149
Embora existam todas essas substâncias ditas como prebióticos, o autor responsável
pelo conceito de prebióticos que avaliou todas elas (com exceção do MOS) diz que somente a
lactosucrose, a inulina e o TOS podem ser seguramente classificados como tal, conforme
demonstra a tabela 6.

Tabela 6- Potencial prebiótico de vários oligossacarídeos

Não Potencial
Carboidrato degradabilidade Fermentação Seletividade Prebiótico

Inulina Sim sim sim sim

TOS Provável ? sim sim

Lactulose Provável ? sim sim

IMO Parcial sim promissora não

Lactosucrose sem dados sem dados promissora não

XOS sem dados sem dados promissora não

Oligossacarídeos da
soja sem dados sem dados sem dados não

GOS sem dados sem dados sem dados não

Fonte: Adaptado de Gibson et al (2004)

No entanto, de todos os citados, apenas FOS e MOS são usados em alimentos


comerciais para cães e gatos.
Fosfatos: Com a evolução da medicina veterinária e, conseqüentemente, de seu
segmento odontológico, maior atenção passou a ser dada à saúde bucal dos animais de
estimação, uma vez que sua importância sobre o estado geral da saúde foi reconhecida. A
relevância dos cuidados odontológicos sustenta-se no fator primário de comprometimento da
capacidade de alimentação dos animais, o que concorre diretamente com o ganho de peso, além
de predispor o animal a doenças sistêmicas graves. Há estudos mostrando que a média de vida
dos animais vem aumentando desde as últimas três décadas, em parte, pelo maior cuidado com 150
a saúde bucal.
Com etiologia multifatorial, a doença periodontal tem como fator determinante o
acúmulo de placa bacteriana sobre os dentes e tecidos adjacentes com posterior calcificação da
mesma, formando, então, o cálculo dentário. O acúmulo de placa e cálculo leva ao quadro de
gengivite e periodontite, caracterizando a periodontopatia ou doença periodontal.

Vários estudos têm sido conduzidos a fim de avaliar a influência nutricional sobre a
saúde bucal. Os meios dietéticos citados com maior freqüência para prevenir ou retardar o
surgimento da doença periodontal são o conteúdo nutricional, a textura e forma do alimento,
exercícios de mastigação e alimentos ou brinquedos tratados com produtos químicos.
A estratégia padrão para evitar o acúmulo de cálculo dentário envolve o emprego de
raspagem mecânica. Isso foi alcançado, basicamente, alterando-se a textura e o tamanho do
grânulo da ração, porém, exerce efeito apenas nos dentes utilizados para mastigar. Uma nova
abordagem utiliza a inclusão de fontes minerais nutricionais nos alimentos de maneira que
possam proporcionar benefícios em todas as superfícies dentárias. Os fosfatos formam
complexos solúveis com o cálcio presente na saliva, ajudando a prevenir a mineralização da
placa em cálculo. Dessa forma, agem em toda cavidade bucal, inclusive nas superfícies não
envolvidas na mastigação.
Yucca schidigera e zeólita: A Yucca schidigera é uma planta extensamente utilizada
em nutrição de cães e gatos devido ao seu efeito sobre o metabolismo do nitrogênio, que
possibilita a redução no odor das fezes dos animais. Pertence à família Agavaceae e cresce em
desertos, mais especificamente na região sudoeste dos Estados Unidos (sudoeste de Nevada e
Arizona, além do centro-sul da Califórnia) e no México (deserto da Baixa Califórnia). Eram
extensivamente utilizadas pelos índios nativos que a definiam como “árvore da vida” devido às
propriedades benéficas que possuem. Eles comiam os frutos frescos e secavam as sobras para
se alimentarem durante as épocas de escassez no inverno. Essa planta é rica em vitaminas (A,
complexo B, C) e minerais (cálcio, ferro, magnésio, manganês, fósforo, selênio e silício), mas o
princípio ativo responsável por grande parte de suas ações biológicas é a saponina esteroidal
que possui mecanismo de ação semelhante ao dos corticóides. As saponinas estão presentes
em vegetais e em alguns animais marinhos e apresentam funções antimicrobianas,
hipoglicêmicas, imunogênicas, anticarcinogênicas, entre outras.

A descoberta dos efeitos benéficos dessas substâncias é um dos acontecimentos 151


recentes mais importantes da Nutrição Animal e Humana, já que anteriormente acreditava-se
que as saponinas eram responsáveis apenas por efeitos maléficos sobre os sistemas biológicos.
A redução do consumo, a diminuição da taxa de fertilidade e da digestibilidade das proteínas são
algumas das atividades não desejáveis atribuídas às saponinas.

A maioria dos produtos comerciais à base de Yucca, são fabricados no México.


Geralmente, as plantas são colhidas nas fazendas mexicanas e levadas até às áreas de
processamento. Normalmente é aproveitada sendo mecanicamente macerada e seca para a
produção do pó ou então, o macerado sofre pressão mecânica para a obtenção do suco. A
concentração do suco pela evaporação dá origem ao extrato de Yucca, amplamente utilizado em
nutrição animal. Os produtos comumente disponíveis para uso possuem o GRAS (Generally
Recognized As Safe) concedido pelo FDA (Food and Drug Administration) americano que
garante a seguridade, permitindo também a sua utilização na indústria farmacêutica, alimentícia,
de cosméticos e bebidas. Tem sido largamente utilizada na indústria de rações para animais de
companhia, especialmente para a redução de odor de fezes devido à sua ação no metabolismo
do nitrogênio. Diversos mecanismos foram propostos com destaque para o seu potente efeito
inibidor sobre urease in vitro, inibição da urease gastrointestinal in vivo, a ligação direta com a
amônia, o estímulo do crescimento da microflora e a inibição de microorganismos selecionados.
Quanto à redução no odor das fezes, Lowe et al. (1997) observaram a diminuição de diversas
substâncias como aminas, sulfitos, ácidos graxos, ésteres, aldeídos e cetonas quando a Yucca
schidgera foi oferecida a cães da raça Beagle. Essas substâncias são importantes, pois estão
envolvidas com a caracterização e a intensidade do odor das fezes.

Adicionalmente, Giffard et al.(2001) ao avaliarem o efeito de três fontes sobre a


redução da ocorrência e do odor de flatus, observaram que a suplementação com extrato da
planta reduziu em 38% o mau cheiro, especialmente devido à diminuição da produção ou da
disponibilidade de sulfeto de hidrogênio no intestino grosso.
Já a zeólita, é um produto composto por alumínio silicato hidratado que possui uma
estrutura cristalina e uma alta capacidade de intercâmbio catiônico, aumentando a densidade do
bolo alimentar, diminuindo a velocidade de trânsito do alimento através do aparelho digestivo,
refletindo em uma melhor digestão e absorção de nutrientes. Além disso, esta capacidade de
troca iônica reduz o efeito tóxico de altas concentrações de amônio, capta o amoníaco, dióxido
de carbono, ácido sulfídrico e água presente em excesso nos processos digestivos. Também
152
estaria associado à adsorção de uma gama de micotoxinas e à redução de odores dos dejetos.
Além de retenção de 65% de aflatoxinas (B1, B2, G1 e G2), estaria associada à redução de
diarréia e apoio ao metabolismo energético. A estrutura da zeólita está demonstrada na figura
23.

Figura 23- Estrutura da zeólita. Fonte: Luz et. al. (1995) apud Maia e Assis (2008)

Sulfato de condroitina e glucosamina: A condroitina consiste num mucopolissacarídeo,


que atualmente é denominado como glicosaminoglicanas, que corresponde a um grupo que
possui estrutura polissacarídica rica em aminoaçúcares e ácido urônico. As condroitinas 4 e 6-
sulfato estão presentes no tecido cartilaginoso de várias espécies e passaram a despertar
interesse em biologia e medicina, passaram a ser hidrolisadas e a fornecer monômeros para a
síntese dos demais polissacarídeos, todos de grande importância para os tecidos de
sustentação, nas doenças articulares e no tecido ósseo. Já a glicosamina é um açúcar, um
aminomonossacarídeo sulfatado, constituinte das unidades dissacarídicas presentes nos
proteoglicanos das cartilagens articulares. Ela pode alterar o metabolismo dos condrócitos e por
esse motivo tem sido amplamente utilizada no tratamento de osteoartrites. Como o peso corporal
153
das raças grandes e gigantes é elevado e há muita pressão mecânica exercida sobre tendões,
ossos e articulações, as doenças ósteo-articulares são freqüentes. Segundo a raça e a idade do
cão, a partir dos 7 anos de idade, quase 40% dos cães de porte gigante apresentam doenças
ósteo-articulares. A incorporação desses aditivos visa estimular a regeneração da cartilagem
articular, diminuir a velocidade de degeneração da cartilagem e, portanto, prevenir ou diminuir a
incidência de doenças ósteo-articulares.

As fontes de minerais quelatados têm sido utilizadas por sua maior absorção,
favorecimento de alguns processos metabólicos, alta estabilidade e disponibilidade, ausência de
interações com outros macros ou microminerais da dieta, bem como com outros nutrientes,
como fibras e lipídeos.

A β-oxidação de ácidos graxos necessita que eles sejam transportados do citossol para
o interior da mitocôndria. A carnitina desempenha um papel como carreador no transporte, pela
aceitação de ácidos graxos ativados no lado mais externo da membrana da mitocôndria.
Quantidades adequadas de carnitina são sintetizadas a partir da peptidilisina, que é metilada a
trimetilisina, aceitando uma hidroxilação ácido ascórbico-dependente, com posterior clivagem a
partir dos peptídeos. Algumas raças de cães têm um defeito autossômico recessivo na síntese
de carnitina, que leva à deficiência. Estes cães apresentam lipofuscinose serosa (acúmulo de
lipofuscina, um pigmento característico de alteração na atividade de lisossomos) e
cardiomiopatia dilatada. A suplementação com carnitina em alguns casos leva à redução nos
sinais clínicos da doença. Por sua ação no metabolismo de lipídeos tem sido amplamente
utilizada em dietas light.
A utilização de antioxidantes naturais tem como objetivo proteger contra a peroxidação
lipídica e prevenir a oxidação em tecidos animais, aumentando a longevidade dos animais de
companhia. Além das já conhecidas ações de beta caroteno, vitaminas C e E, atualmente
descobriu-se o potencial antioxidante dos polifenóis (substâncias presentes em diversos
alimentos de origem vegetal, como maçã, uva, cebola, repolho, brócolis, chicória e alho, mas
geralmente extraídos da uva e do chá mate-verde). Sua ação como captador de radicais livres e
quelante de ferro é cerca de 20-50 vezes superior a da vitamina E. São utilizados em alguns
alimentos comerciais para cães e gatos.
As vantagens da utilização de alimentos comerciais incluem: custo variável, de acordo
com a classificação do produto, estar pronto para o consumo, dispensando maiores preparos,
produzir fezes mais consistentes e em menor volume, prevenção de placas bacterianas com uso 154
de alimentos secos, fórmulas diferenciadas para cada fase de vida do animal, fórmulas
balanceadas. Dentre as desvantagens podemos citar: difícil aceitação por alguns animais
acostumados com dietas caseiras ou com apetite melindroso, diarréias quando a mudança de
alimentação é brusca. Perda de nutrientes dependendo do tempo de conservação, rações que
trabalham com eventuais substitutivos podem apresentar digestibilidades diferentes de partida
para partida, apresentação de aditivos não nutrientes como corantes, conservantes e
antioxidantes sintéticos, ainda pouco estudados.

5.2 Ingredientes utilizados na formulação de rações comerciais

Dentre as fontes protéicas de origem vegetal normalmente utilizadas em alimentos


comerciais, estão os produtos originários da soja e do milho.

Em relação à soja, durante muito tempo e até hoje há preconceito quanto à utilização
dela e de seus subprodutos na formulação de dietas comerciais para cães. Essa postura muitas
vezes é oriunda da falta de conhecimento e de informação sobre as principais características
nutricionais do ingrediente para a espécie e os fatores nutricionais são apontados como a
principal causa de não utilização. A soja integral possui alguns fatores antinutricionais, como
inibidores de proteases (que podem levar à hiperplasia pancreática, devido à secreção
enzimática compensatória que o pâncreas realiza no sentido de suprir a falta de tripsina e
quimotripsina; diminuir a digestibilidade protéica e causar uma deficiência maior de aminoácidos
sulfurados, já que estes são a base da estrutura das proteases do suco pancreático),
hemaglutina (como a lectina, que causa ruptura das células do epitélio intestinal, levando à
diminuição da altura de vilosidades e reduzindo a absorção), lipoxigenases (que causam
peroxidação de ácidos graxos, formando radicais livres de oxigênio), ácido fítico (que
indisponibiliza minerais, como o cálcio e o fósforo) e polissacarídeos não amiláceos (como os
alfa-galactosídeos rafinose e estaquiose que podem levar à flatulência, diarréia, problemas
estomacais e diminuição da digestibilidade dos nutrientes).

No entanto, o processamento térmico utilizado na fabricação de subprodutos (como a 155


soja extrusada, a soja micronizada e o farelo de soja) e para a fabricação dos alimentos
comerciais para cães e gatos (extrusão ou autoclavagem) seriam suficientes para a inativação
de todos esses fatores. Em um experimento realizado por Sá-Fortes, com fontes protéicas,
verificou-se que a digestibilidade da matéria seca e até da proteína bruta de fontes de soja
como farelo de soja (74% de coeficiente de digestibilidade da matéria seca-CDMS- e 84% de
digestibilidade da proteína bruta-CDPB) e soja micronizada (88% de CDMS e 89% de CDPB)
podem ser maiores do que ingredientes protéicos de origem animal como farinha de vísceras de
frango.Outra fonte protéica de origem vegetal é o farelo de glúten de milho 60. É obtido após a
remoção de parte do amido, gérmen e porções fibrosas, pelo método de processamento úmido.
Caracteriza-se por alta concentração protéica, mas é deficiente em triptofano, lisina e arginina.

Quanto aos ingredientes protéicos de origem animal podem ser citados a carne,
frango, ovos, peixe e seus subprodutos. Normalmente são de composição variada e a qualidade
está relacionada com a origem das matérias-primas e do processamento utilizado. A qualidade
da matéria-prima pode ser avaliada a partir de algumas análises, tais como composição
bromatológica, presença de salmonela, peroxidação de gorduras, presença de poliaminas,
identificação de príons causadores de encefalopatias, etc. Dentre as farinhas utilizadas
encontram-se a de carne e ossos, a de peixe, a de penas e penas hidrolisadas, a de vísceras e
a de carne de frango. A farinha de carne e ossos é produzida em graxarias e frigoríficos a partir
de ossos e tecidos animais, após a desossa completa da carcaça de bovinos e suínos. Seu teor
de proteína varia de 35-55% e a recomendação da relação cálcio: fósforo, máxima, é de 2,15:1.
Por exemplo, para se acrescentar 10% de proteína à dieta por meio da farinha de carne e
ossos, adiciona-se em torno de 2,5% de Ca. Em relação à farinha de peixe (figura 24), existem
dois tipos: a integral e a residual. A residual é obtida a partir de resíduos de partes não
comestíveis. No Brasil, é produzida a partir da inclusão de peixes inteiros ou cortes rejeitados
para o consumo humano. Sua proteína varia de 52-55%. No mercado ainda existe a farinha de
peixes importada do Peru ou Chile, que são produtos integrais produzidos especificamente para
a produção animal com proteína em torno de 62%. A farinha de penas tem baixa digestibilidade
e baixo valor biológico.

156

Figura 24 – Farinha de peixe

Na tabela 7, estão demonstrados os coeficientes de digestibilidade de algumas fontes


protéicas, segundo estudos realizados por Sá-Fortes (2005).

Tabela 7- Coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca (CDMS), da


proteína (CDPB), extrato etéreo ácido (CDEEA) e de metabolização da energia bruta (CMEB) de
ingredientes protéicos para cães1

CDEE CME
Ingredientes CDMS CDPB A B

Glúten de milho 60 90,5a 92,1a 67,7d 80,6b

Farelo de soja 74,3b 83,9b 70,1d 72,8c

Soja Micronizada* 87,9a 88,7a 95,1a 95,7a


Farinha de carne e ossos 57,0d 80,1b 94,0a 77,7b

Farinha de penas hidrolizadas 64,9c 60,9c 79,6c 49,5e

Farinha de peixes 55,9d 80,4b 82,0c 72,8c

Farinha de vísceras de frango 69,0c 81,7b 89,6b 69,6d

1- Valores expressos em % da matéria seca; Médias nas colunas seguidas de letras


diferentes diferem no teste de Student Newman Kewls (5%). 157

* Micronização é o processamento da soja que utiliza raios infravermelhos que provocam


uma agitação de partículas dentro do próprio grão, com posterior laminação e moagem.

Pelos resultados observados acima se verifica que o glúten de milho e a soja


micronizada tiveram melhor digestibilidade da matéria seca e da proteína bruta, mas o glúten
apresentou o pior desempenho quanto à digestibilidade da gordura. No geral, a soja micronizada
foi o ingrediente que teve melhor aproveitamento pelo animal com relação à digestibilidade de
nutrientes.

É importante considerar que nem sempre as fontes protéicas de origem animal são as
que levam ao melhor desempenho de cães e gatos. Fontes vegetais podem ser bem utilizadas,
desde que adequadamente processadas e que sejam de boa qualidade.

Em relação aos ingredientes energéticos, os principais são o arroz e o milho. No


entanto, em algumas situações como formulação de dietas para cães e gatos obesos ou com
diabetes melittus, o sorgo e a lentilha podem ser boas alternativas devido ao índice glicêmico
mais baixo. Além disso, os óleos e gorduras são fontes de energia no alimento.

O farelo integral de arroz consiste do pericarpo eou película que cobre o grão (Oryza
sativa), estando presentes gérmen e pequena quantidade de fragmentos de cascas,
provenientes exclusivamente do processo normal de obtenção. Poderão ainda estar presentes,
em pequena participação, quirera ou arroz quebrado e, em certos casos, onde o polimento é
mais acentuado, o próprio grão de arroz finamente moído. É resultante do polimento durante o
beneficiamento do grão de arroz sem casca.
O farelo de arroz representa aproximadamente 12% do grão de arroz com casca,
porém pode variar de 5 até 14%, esse rendimento, sendo variável conforme o tipo de
processamento a que o grão é submetido e às características intrínsecas do grão tais como
variedade e tratos culturais. Possui aproximadamente 74% dos ácidos graxos insaturados, sendo
facilmente peroxidados, o que faz com que o farelo de arroz não possa ser armazenado por
longos períodos O processo de rancificação pode ser evitado pela desengorduração. Possuem
158
13% de PB, 10 a 15% de gordura e 12% de FB; tem como inconveniente elevado teor de
gordura (mais ou menos 13 %), sendo facilmente peroxidável. A peroxidação desta gordura leva
a distúrbios intestinais, além de provocar a destruição da vitamina E, da vitamina A, biotina,
metionina, etc. Em dietas para cães é recomendável que a utilização não ultrapasse 10 da ração
(farelos com baixo teor de casca). O sorgo possui em média 90 a 95% do valor nutritivo do milho
quando utilizado na alimentação de aves e suínos,. Possui menor percentagem de óleo e o teor
de proteína bruta é 1 a 2% superior ao do Milho. O revestimento externo do grão é fibroso e isto,
juntamente com a camada de aleurona, dificulta o cozimento. A digestão de seu amido ocorre
de forma mais lenta que a do amido do milho, o que levou algumas empresas a pesquisar e
patentear a utilização destas fontes em rações para cães.

A digestão lenta dos carboidratos, tanto do sorgo quanto da cevada, resultaria em


moderados níveis de glicose após as refeições. Estes níveis moderados de glicose poderiam ser
interessantes em algumas condições especiais, como no controle da diabetes ou em dietas para
o controle da obesidade, onde níveis moderados e persistentes de glicose ajudariam a inibir o
consumo e controlar a fome destes animais. O milho (Zea mays) é um dos cereais mais
importantes produzidos no mundo. Sua composição varia bastante, mas na média apresenta
8,5% de proteína, 1 a 1,5% de matéria mineral, 3,2 a 3,8% de extrato etéreo (gordura), de 1,9 a
2,5% de fibra bruta e 3933 de energia bruta. Apresenta 62% de amido, sendo 27% amilose e
73% de amilopectina, o que confere a esse ingrediente alto valor energético de forma altamente
digestível. A ervilha forrageira (Pisum sativum) é uma leguminosa não oleaginosa que apresenta
níveis de proteína bruta ao redor de 20%, além de apresentar baixos níveis de fatores
antinutricionais comparada à soja. A atividade antitripsina é de 13% do valor encontrado na soja.
As variedades de ervilha mais utilizadas na alimentação de animais não-ruminantes pertencem à
subespécie hortense, possuindo flores brancas que produzem grãos redondos, livres de tanino,
com alto teor de amido e baixa gordura e fibra.
Dentro da subespécie hortense, existem muitas variedades que apresentam variações nas
suas características nutricionais, com níveis protéicos na matéria seca, entre 18 e 28% e nos
teores e tipo de amido, apresentando alta digestibilidade da proteína e energia. Contudo, as
cultivares da subespécie arvense, de flores coloridas, possuem tanino em concentrações
capazes de reduzir a sua digestibilidade. A digestibilidade da proteína bruta de cultivares de
flores brancas apresenta valores em torno de 90%, enquanto que para as de flores coloridas os
159
valores médios são de 70%.

Processamento dos alimentos comerciais

O processamento para a produção de alimentos secos (figura 25) para cães e gatos é
a extrusão. O fluxograma de produção inclui a recepção da amostra, a sua armazenagem, a
moagem, dosagem e mistura, secagem, engorduramento, resfriamento e ensaque.

Figura 25 – Ração seca

Na recepção das matérias-primas, devem-se fazer testes para averiguar a qualidade


dos ingredientes e decidir pelo seu aceite ou rejeição. Retiram-se amostras para realização de
testes qualitativos rápidos. Cuidados com a amostragem são fundamentais, devendo-se realizá-
la em vários pontos da carga do caminhão, com o objetivo de conseguir uma amostra
representativa. Metodologias como a do NIRS (Near infrared spectroscopy), que com base em
uma calibração prévia, auxiliam na determinação do conteúdo de nutrientes de uma amostra,
sem deteriorá-la, têm sido utilizadas pelas indústrias de alimentos comerciais para analisar a
matéria-prima que recebem de fornecedores.

Posteriormente, essas amostras serão armazenadas até irem para os silos, onde serão
utilizadas. Deve-se garantir que nesta etapa o controle de umidade/temperatura, o controle de
pragas e fungos, qualidade das sacarias, estabilidade das pilhas de sacarias, controle do tempo
de armazenamento e do sistema FIFO (first in, first out), ou seja, o primeiro produto que entra na 160
área de armazenamento deverá ser necessariamente o primeiro a ser utilizado na área de
produção.

Na moagem, é importante que as partículas sejam reduzidas a ponto de garantirem


uma extrusão adequada, com gelatinização eficiente do amido. Para que isso ocorra sugere-se
que a granulometria seja inferior a 600 micras e há ingredientes que precisam de remoagem, ou
seja, duas moagens para atingir o diâmetro ideal de partículas.

Posteriormente, os ingredientes devem ser pesados de acordo com a formulação e


misturados, havendo mecanismos adequados nos silos de dosagem (para que não aconteçam
quedas da uniformidade do produto), dimensões corretas de elementos dosadores (roscas ou
válvulas), faixas de precisão e aferição periódica e misturador adequado.

O alimento então é submetido à extrusão. O verbo extrusar, deriva do latim ex (fora) e


trudere (forçar) e significa forçar através de um orifício pequeno. À medida que o alimento se
move através da extrusora, sofre a ação de alta temperatura (até 90-150 ºC) e pressão (que
varia de 30-60 atm) por pouco tempo (15-20segundos), posteriormente causando uma queda
brusca de ambos que leva a uma pressão negativa e a expansão da matéria (Harper, 1979).
Esse processo leva à alteração das características nutricionais do alimento, melhorando a
digestibilidade, textura, palatabilidade e valor nutritivo destes; o amido sofre a perda de estrutura
cristalina e a gelatinização, com conseqüente melhora de digestibilidade; a ruptura da parede
celular pode facilitar o acesso de enzimas digestivas a conteúdos anteriormente inacessíveis, o
que pode incrementar a digestibilidade da proteína, mas alguma porção de aminoácido pode
sofrer reação de Maillard (reação do grupamento amina de aminoácido lisina com açúcares
redutores, como glicose, frutose) indisponibilizando parte dele e as fibras sofrem alteração em
sua solubilidade, podendo tornar-se mais solúveis. No entanto, há perda de vitaminas, e deve-se
ajustar a fórmula para compensar essas perdas.
Após a extrusão ocorre a secagem que tem como função reduzir o teor de umidade do
alimento que sai da extrusora com 20% de água aproximadamente. O objetivo é fazer com que a
umidade seja reduzida a menos que 10%; o engorduramento (banho de óleo que aumenta a
palatabilidade do produto e onde alguns aditivos são incorporados ao alimento); e o resfriamento
que objetiva a redução na temperatura para evitar a condensação de alimento na parede dos
silos. Após todos estes procedimentos o ensaque é realizado em embalagens adequadas.
161
Na figura 26, está demonstrado o fluxograma de produção de alimento comercial seco
para animais de companhia.

Figura 26- Fluxograma do processo de produção de alimentos para cães e gatos.

Fonte: Oliveira e Oliveira (2007).

O processamento de alimento úmido (figura 27) é feito de maneira totalmente distinta.


São preparados cozinhando e misturando todos os ingredientes úmidos conjuntamente: enlata-
se e cozinha-se a mistura, ela-se e esteriliza-se a lata. A sua preparação passa por duas etapas.
Para começar, se injeta vapor durante a mistura da fórmula, seguindo-se uma fase de cozimento
sobre pressão. A temperatura e duração desta fase variam segundo o produto e o tamanho da
lata, mas normalmente as latas são submetidas a 250ºC durante sessenta minutos,
aproximadamente.

162

Figura 27- Ração úmida

No ponto de vista do processamento, existem três tipos de alimentos: em pasta, em


pedaços ou pedaços com molho e também uma combinação de pasta feita à base de pedaços.
Segundo os ingredientes utilizados, estes produtos apresentam grande variação no seu
conteúdo de nutrientes, no seu grau de digestibilidade e de disponibilidade. No entanto,
geralmente, os alimentos enlatados são palatáveis, têm grande digestibilidade e contêm uma
proporção maior de matéria seca gordurosa e protéica. A temperatura e pressão elevadas
eliminam bactérias nocivas e originam algumas perdas de nutrientes. Deve-se ajustar a fórmula
para compensá-las.

5.3 Dietas caseiras para cães e gatos

Antes de falarmos sobre dieta caseira é fundamental considerar que seu conceito é
totalmente distinto de resto de comida. Neste caso, estamos nos referindo a formulações
balanceadas, que têm como objetivo atender as necessidades nutricionais destes animais. Elas
podem ser utilizadas em diversos tipos de casos como por exemplo, alergias nutricionais,
obesidade, síndrome da má absorção, oncologia, problemas renais, ou mesmo quando o animal
é saudável mas seu proprietário quer uma alimentação personalizada e diversificada. Assim, é
importante lembrar que estas dietas devem ser elaboradas de maneira balanceada, respeitando-
se os requisitos dos animais e os objetivos a que elas se destinam.
As dietas caseiras apresentam vantagens e desvantagens quando comparadas aos
alimentos comerciais: palatabilidade e aceitabilidade elevadas, maior variedade, ingredientes
frescos e de alta qualidade, são melhores aceitas por cães de apetite melindroso, podem ser
preparadas visando objetivos específicos, como dietas hipoalergênicas (baseadas em testes de 163
sensibilidade alérgica e eliminando todos os alimentos alergênicos).

Dentre as principais desvantagens estão o custo elevado, quando comparado às


rações comerciais padrão, entretanto se assemelham ao custo dos alimentos comerciais
premium e superpremium; maior tempo gasto com o preparo; grandes variações dos teores
vitamínicos, protéicos, minerais e das gorduras, quando utilizadas fórmulas padrão ou resto de
comidas para humanos; as fórmulas aleatórias apresentam digestibilidade incerta, normalmente
utilizam-se conceitos de palatabilidade humana; as fezes são menos consistentes e em grande
volume; a consistência pastosa da comida favorece o acúmulo de resíduos nos sulcos dentários
e gengivas, resultando em placas bacterianas (tártaro); por serem mais apetecíveis podem levar
a um super consumo, causando a obesidade, tempo de conservação curto. O alimento pode ser
conservado sob refrigeração no máximo por 1 - 2 dias. Se conservado congelado (2 meses)
exige grandes espaços, principalmente dietas elaboradas para cães de raças grandes.

Em nutrição animal, deve ser aplicado o princípio da toxicologia: tudo é tóxico, até
mesmo água ou oxigênio, depende apenas da dose e via de administração. Assim, podemos
lançar mão de uma série de ingredientes na elaboração das dietas caseiras, mas é preciso
atentar para os seus limites de inclusão. Além disso, devem-se conhecer os fatores
antinutricionais que limitam o uso de alguns, como cebola, espinafre, chocolate, etc.

Nas tabelas 8, 9 e 10 estão demonstradas as composições de alguns ingredientes


pertencentes aos principais grupos.
Tabela 8 - Porcentagem de nutrientes em frutas*

Matéria Seca
U MS EM 1 EM1 PCz% FDN% EE% Ca% P% Vit A 2 Vit E
Kcal/g B%
% % Kcal IU/kg mg/kg
Maça 84,8 15,2 58 3,68 1,2 1,6 12,7 2,2 0,05 0,04 5636 54,6
Banana 74,0 26,0 92 3,54 4,0 3,1 6,6 0,7 0,02 0,08 7485 10,5 164
Uva 81,1 18,9 68 3,60 3,6 2,5 - 1,5 0,10 0,11 7937 -
Goiaba 86,1 13,9 50 3,60 5,9 4,3 - 5,9 0,14 0,18 20160 -
Manga 81,6 78,4 65 3,55 2,8 2,7 5,9 1,5 0,06 0,06 261500 65,3
Laranja 85,7 13,3 47 3,36 7,2 3,4 20,1 0,9 0,31 0,11 - 18,5
Mamão 87,9 12,1 40 3,31 4,3 4,5 - 0,7 0,17 0,14 144600 -
Pêssego 87,7 12,3 43 3,46 5,7 3,7 5,0 0,8 0,05 0,10 108100 -
Pêra 84,3 15,7 61 3,89 3,0 2,1 15,5 1,9 0,06 0,10 1274 27,4
Abacaxi 86,5 13,5 49 3,63 8,9 2,1 11,4 3,2 0,05 0,05 5185 7,4
Melancia 91,5 8,5 32 3,77 7,3 3,1 2,4 5,1 0,09 0,11 69410 -
(-) Falta de dados confiáveis

1 Valores de EM para humanos

2 Vit A = atividade da Vitamina A calculada a partir da composição de carotenóides

U = umidade; EM=Energia Metabolizável; MS= matéria seca; PB = proteína bruta; FDN + :Fibra Detergente
Neutra, EE = extrato etéreo; Ca + cálcio e P = fósforo.

Fonte: Software Animal Nutritionist apud Dierenfeld et al. (1996) apud Saad et al. (2004).
Tabela 9 - Porcentagem de nutrientes em vegetais talo/polpa e raízes /tubérculos*

Matéria Seca
U% MS EM 1 EM1 P
Cz% FDN% EE% Ca% P% Vit A 2 Vit E
Kcal/g B%
% Kcal IU/kg mg/kg
165
Talos e polpas
Couve flor 92,3 7,7 24 3,12 25,8 8,6 16,0 2,3 0,38 0,60 30 3,9
Aipo 94,7 5,3 16 3,01 12,5 16,8 17,0 2,3 0,70 0,49 45280 67,9
Acelga 78,8 21,2 81 3,81 25,5 4,1 16,0 1,9 0,12 0,51 70 6,1
Berinjela 91,6 8,4 27 3,21 16,6 8,1 13,1 3,1 0,61 0,50 4760 0,3
Pimentão verde 96,0 4,0 13 3,25 13,6 9,5 12,6 3,3 0,35 0,43 20830 37,7
Pimentão vermelho 94,0 6,0 15 2,50 15,0 - 15,0 6,7 0,15 0,42 3667 133,3
Tomate 94,2 5,8 14 2,41 16,4 10,5 31,6 3,6 0,24 0,45 155200 146,6
Raízes/tub.
Beterraba 87,3 12,7 44 3,47 11,7 8,4 11,8 1,1 0,13 0,38 1580 0,8
Cenoura 88,0 12,0 43 3,58 10,0 8,3 8,3 8,3 0,42 0,33 550000 58,3
Batata 77,0 23,0 80 3,48 9,6 4,8 2,4 0,4 0,04 0,26 - 173,9
Rabanete 94,8 5,2 17 3,27 19,2 15,4 14,3 1,9 0,58 0,60 1920 -
Batata doce 69,6 30,4 125 4,11 5,8 2,7 13,5 0,7 0,06 0,18 8800 131,6
Mandioca 68,5 31,5 120 3,81 9,8 3,4 - 1,2 0,29 0,22 320 -
Folhas
Repolho 96,5 7,5 3 3,16 16,2 9,6 14,7 2,4 0,62 0,31 146900 223,5
Alface 94,9 5,1 3 3,14 25,5 15,0 17,0 3,9 0,71 0,88 372500 58,8
Espinafre 91,6 8,4 3 2,62 30,0 15,0 21,0 3,6 1,50 0,66 785700 297,6
Brotos de alfafa 70,0 30,0 2 1,87 6,7 - - - 0,48 0,21 - -
(-) Falta de dados confiáveis

1 Valores de EM para humanos

2 Vit A = atividade da Vitamina A calculada a partir da composição de carotenóides

U = umidade; EM=Energia Metabolizável; MS= matéria seca; PB = proteína bruta; FDN + :Fibra Detergente
Neutra, EE = extrato etéreo; Ca + cálcio e P = fósforo.

Fonte: Software Animal Nutritionist apud Dierenfeld et al. (1996) apud Saad et al. (2004).
Tabela 10- Porcentagem de nutrientes em produtos de origem animal

Matéria Seca
U% MS EM 1 EM1 PB% Cz% FDN EE% Ca% P% Vit A 2 Vit E
Kcal/g %
% Kcal IU/kg mg/kg
166
Carne bovina 75,0 25,0 130 5,00 70,0 3,5 20,05 1,09 2000 25,0
2,0
Coração bovino 75,6 26,4 135 5,11 68,6 3,2 - 20,03 0,71 1136 -
5,3
Pulmão bovino 79,0 21,0 100 4,76 79,1 3,8 - 10,05 0,71 3333 14,3
6,7
Rins bovino 77,7 22,3 113 5,07 75,3 5,4 - 10,06 0,98 31390 29,2
7,9
Fígado bovino 73,6 26,4 130 4,92 75,8 4,4 - 10,04 10,3 778400 37,9
7,1
Frango (completo) 73,3 26,7 140 5,23 47,4 - - 31,75 - 23700 30,4
9,8
Ovos com casca 67,0 33,0 142 4,30 33,03 4,5 - 313,80 1,8 14200 33,3
0,3
Ovos sem casca 74,8 25,2 147 5,83 48,8 0 - 40,22 0,80 20500 63,5
3,3
Peixe alta gordura 71-73 27-29 119- 4,4-6,0 46-69 6,2-10 - 21,0-2,0 1,4- 1650- 67-129
(sardinha) 174 0-46 2,0 2160
Peixe baixa 75-80 20-25 86- 4,3-4,6 68-70 8,5- - 11,3-2,9 2-2,5 2100- 94-200
gordura (pescado) 115 10,5 8-20 3300
Carne de cavalo 70,7 29,3 145 4,95 64,5 3,3 - 20,07 1,06 2048 23,9
3,0
(-) Falta de dados confiáveis

1 Valores de EM para humanos

U = umidade; EM=Energia Metabolizável; MS= matéria seca; PB = proteína bruta; FDN + :Fibra Detergente Neutra,
EE = extrato etéreo; Ca + cálcio e P = fósforo.

st apud Dierenfeld et al. (1996) apud Saad et al. (2004).


A formulação de dietas caseiras exige a participação de um nutricionista para a
obtenção de fórmulas que sejam balanceadas e adequadas aos animais. Normalmente, a
suplementação vitamínica e mineral faz-se necessária e as proporções adequadas devem ser
definidas pelo profissional.

Em relação aos alimentos utilizados em nutrição de cães e gatos pode-se dizer que
tanto as dietas caseiras quanto as comerciais têm vantagens e desvantagens. A escolha de qual 167
a melhor opção depende do animal e também do proprietário. Questões como aceitabilidade por
parte do cão ou gato e disponibilidade do proprietário são alguns dos fatores que precisamos
considerar ao fazermos a escolha. O conceito de que a ração é a única opção para cães e gatos
foi muito difundida com o crescimento da indústria de alimentos para animais de companhia, mas
não corresponde à realidade. Em algumas situações, como nas hipersensibilidades alimentares
ou apetite caprichoso, a dieta caseira pode ser a melhor opção. Mas, ela exige tempo e
dedicação por parte do proprietário que necessitará cozinhar para o seu animal de companhia, já
que as dietas caseiras são formuladas exclusivamente para ele.

Com este módulo, concluímos o estudo dos princípios básicos de nutrição e


alimentação de cães e gatos, tendo estudado as exigências desses animais e os principais
alimentos destinados a eles. Este curso é a base para o entendimento de como a nutrição pode
afetar diretamente a saúde dos animais e como podemos usá-la para evitar doenças, bem como
no tratamento de suporte de patologias crônicas.

A mensagem mais importante é que a nutrição deve funcionar como medida de saúde
preventiva, ou seja, assim como nós, os animais são aquilo que comem e uma nutrição
adequada, desde as fases iniciais, pode evitar o retardar o aparecimento de doenças. Bem como
garantir maior longevidade e qualidade de vida aos cães e gatos.
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