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Fatores do crescimento inicial do Cristianismo no mundo “pagão”

No ano 165, durante o reinado de Marco Aurélio, uma epidemia devastadora assolou o
Império Romano. Alguns historiadores-médicos suspeitam que tenha sido a primeira
manifestação de varíola no Ocidente. No entanto, qualquer que tenha sido a doença
efetiva, foi letal. Ao longo dos quinze anos de duração da epidemia, cerca de um terço ou
um quarto da população do império morreu em consequência dela

No ano 251, uma nova e igualmente devastadora epidemia mais uma vez se alastrou pelo
império, castigando as áreas rurais tão duramente quanto as cidades. Dessa vez, deve ter
sido o sarampo. Tanto a varíola como o sarampo podem produzir maciças taxas de
mortalidade quando atingem uma população anteriormente não exposta.

As epidemias fizeram soçobrar a capacidade de explicação e de consolação do paganismo


e das filosofias helenistas. Em contrapartida, o cristianismo oferecia uma explicação
muito mais satisfatória sobre as razões pelas quais aqueles terríveis tempos haviam-se
abatido sobre a humanidade. Além disso, o cristianismo delineava uma imagem
esperançosa e até mesmo otimista em relação ao futuro.

os valores cristãos do amor e da caridade haviam sido traduzidos em normas de serviço


social e de solidariedade comunitária. Quando as catástrofes se desencadearam, os
cristãos estavam em melhores condições para enfrentá-las, o que resultou em taxas
substancialmente mais altas de sobrevivência. Isso quer dizer que, na esteira de cada
epidemia, os cristãos compunham um percentual maior da população, mesmo sem o
acréscimo de novos adeptos. Além disso, sua taxa de sobrevivência notavelmente melhor
teria sido vista como “milagre” tanto pelos cristãos como pelos pagãos, fenômeno que
deve ter influenciado a conversão

Quando destrói parcela significativa de determinada população, uma epidemia deixa


grandes contingentes de pessoas sem os vínculos interpessoais que anteriormente as
ligavam à ordem moral tradicional. Como a mortalidade aumentava durante a vigência de
cada uma dessas epidemias, grandes contingentes de pessoas, especialmente os pagãos,
teriam perdido os vínculos que antes as haviam impedido de tornar-se cristãs. Enquanto
isso, as elevadas taxas de sobrevivência das redes sociais cristãs teriam permitido aos
pagãos maior probabilidade de substituição de seus vínculos por outros, desta vez com os
cristãos. Desse modo, quantidades muito significativas de pagãos teriam mudado de redes
sociais essencialmente pagãs para outras, fundamentalmente cristãs. Em qualquer época,
tal mudança de redes sociais resultará em conversões religiosas.

Com frequência na história humana, crises produzidas por calamidades naturais ou sociais
se traduziram em crises de fé. Em geral, isso ocorre porque a calamidade cria demandas
a que a religião dominante revela-se incapaz de atender. Essa incapacidade pode ocorrer
em dois níveis. Em primeiro lugar, a religião pode não conseguir propiciar uma
explicação satisfatória sobre as razões da ocorrência da calamidade. Por outro lado, a
religião pode parecer ineficaz contra a calamidade, o que se torna verdadeiramente crítico
quando todos os meios não-religiosos também se mostram inadequados - quando o
sobrenatural subsiste como o único meio plausível de ajuda.

Em resposta a esses “fracassos” de suas crenças tradicionais, as sociedades


frequentemente desenvolvem ou adotam novas crenças religiosas.

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Como as religiões “revitalizam”? Fundamentalmente, pela efetiva mobilização das
pessoas para que empreendam ações coletivas

Para avaliar as diferenças entre pagãos e cristãos, imaginemo-nos no lugar deles, às voltas
com uma dessas terríveis epidemias. Encontramo-nos aqui em uma cidade que recende a
morte. Tudo em torno de nós, nossa família e nossos amigos, está desmoronando. Nunca
sabemos se ou quando seremos igualmente acometidos pela enfermidade. Em meio a
circunstâncias tão estarrecedoras como essas, as pessoas são levadas a se perguntar: por
quê? Por que isso está acontecendo? Por que eles e não eu? Morreremos todos? Afinal de
contas, por que o mundo existe? Que sucederá depois? Que podemos fazer?

Se somos pagãos, provavelmente já sabemos que nossos sacerdotes professam a


ignorância. Não sabem por que os deuses enviaram tal miséria - ou se, de fato, os deuses
estão envolvidos ou mesmo preocupados. Pior ainda, muitos de nossos sacerdotes
deixaram a cidade, assim como as mais altas autoridades civis e as famílias mais
abastadas, o que agrava a desordem e o sofrimento.

Uma vantagem que os cristãos tinham em relação aos pagãos era que o ensinamento de
sua fé tornava a vida significativa mesmo em meio à morte brusca e imprevista. Mesmo
um pequeno grupo que de certa forma havia sobrevivido à guerra ou à peste ou a ambas
podia achar consolação aconchegante, imediata e terapêutica na visão de uma existência
celestial para os pais e amigos que havia perdido. O cristianismo foi, portanto, um sistema
de pensamento e sentimento inteiramente adaptado a um período de tribulações em que a
adversidade, a enfermidade e a morte violenta comumente prevaleciam

Em um momento em que todas as outras crenças religiosas estavam em xeque, o


cristianismo oferecia explicação e conforto. E, o que é mais importante ainda, a doutrina
cristã proporcionava uma prescrição para a ação. Em outras palavras, o caminho cristão
era uma via de ação.

Afirmou um bispo da época: “Muitos de nossos irmãos cristãos revelaram um amor e uma
lealdade sem limites, jamais se poupando e pensando apenas no outro. Sem levar em conta
o perigo, encarregaram-se dos doentes, satisfazendo todas as suas necessidades e
prestando-lhes assistência em Cristo, e com eles partiram desta vida serenamente felizes,
pois foram infectados por outros que estavam com a doença, contaminando-se com a
enfermidade de seus semelhantes e alegremente aceitando suas dores. Muitos deles, ao
tratarem e curarem os outros, transferiram a morte alheia para si mesmos e morreram em
seu lugar. Os melhores de nossos irmãos perderam sua vida dessa maneira, grande
quantidade de presbíteros, diáconos e leigos conquistando alta condecoração, de sorte que
a morte nessa forma, o resultado de grande piedade e sólida fé, parece de todos os modos
o equivalente ao martírio.”

Stark, Rodney: O crescimento do cristianismo. Um sociólogo reconsidera a história.


São Paulo: Paulus 2006, cap.4 (trechos)