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RAYMUNDO NEGRÃO TORRES

Nos "PORÕES" DA DITADURA


Fatos que a esquerda finge ignorar
e a falácia do militarismo no Brasil

Editora Expressão e Cultura


1 998
Nos "PORÕES" DA DITADURA
Fatos que a esquerda finge ignorar
e a falácia do militarismo no Brasil
Nos "Porões" da Ditadura
Copyright © 1 998 by Raymundo Negrão Torres

Todos os direitos desta edição estão reservados à


Editora EXPRESSÃO E CULTURA - Exped Ltda.
Estrada dos Bandeirantes, 1.700 - Bloco E
22710-113 - Jacarepaguá - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (021) 445-0333 - Fax: (021) 455-0996

Capa: Luciana Mello


Monika Mayer

Catalogação na fonte
Departamento N acional do Livro

T 69 3 p
Torres, Raymundo Negrão.
Nos porões da ditadura fatos que esquerda finge ignorar e a
falácia do militarismo no Brasil I Raymundo Negrão Torres. - Rio de
Janeiro: Expressão e Cultura, 1998.
214 p.; 14x21 cm.

ISBN 85-208-0240-0

Inclui bibliografia e índice.

1. Brasil - História - 1964-1985. 1. Título.

CDD-981.06
SUMÁRIO

PREFÁ CIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
APRESENTAÇ ÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
A MARCHA DA INSENSATEZ 23
POR QUE JANGO CAIU? 29
O DIA SEGUINTE 37
MARIGHELLA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
ASSASSINATO A SANGUE FRIO 45
O CARTÃ O DE VISITAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
DESMANTELANDO O MR-8 . . . 53
ESPERANDO CÍ CERO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
O QUE É ISTO, COMPANHEIRO? . 63
ABANDONADO . . . . 68
EXECUÇÃ O SUM ÁRIA . 70
A FUGA DO CARDIM . 73
AS MULHERES NA LUTA ARMADA . 77
ENCONTRO COM ROSA . 77
O BEB Ê DE M ÍRIAM 80
A TESE DE ANA COLLING 82
A CARTA 84
OS DESAPARECIDOS 89
REFLEXÕES . . . . . . . . . . 95
DEPOIMENTO M ÉDICI . . 99
DEPOIMENTO GEISEL . . . . 103
PACTO DE SILÊNCIO . . . . . 115
6 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

VOLTA AOS QUARTÉ IS . . . . . . . . . . . . . . . .


. 121
OS FILHOTES DA DITADURA . 127
Í É
UM H BRIDO F RTIL . . . . . . . . . . . . .
. 131
APRECIAÇÕES SOBRE UM DEBATE . 137
O CAMINHO DE VOLTA . . 143
O MILAGRE BRASILEIRO 151
A LUZ DA LANTERNA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
OS QUATRO PECADOS CAPITAIS . . . . . . . . . . . . . 163
.

OS NOVOS CAMINHOS DA REVOLUÇ ÃO BRASILEIRA . 179


Ã
O FORO DE S O PAULO . . . 184 .

O BRASIL E A NOVA ORDEM MUNDIAL . . . . . . . 187


AS FORÇAS ARMADAS NO LIMIAR DO III MILÊNIO . 193
O MILITARISMO NO BRASIL . . . . . . . . . 197
. . . . . . . .

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁ FICAS . . . . . . 211


PREFÁCIO

O General Raimundo Negrão Torres e u o conheci maj or,


em 1 956, quando ele servia no Quartel-General do Comando Militar
da Amazônia, em cujo efetivo fui incluído ao fim do meu curso na
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Já era ele um oficial
destacado entre seus pares.
Tornamo-nos amigos desde então. Sem prejuízo de nossa
atividade profissional, escrevemos, sob pseudônimos, crônicas para
a imprensa diária de Belém do Pará. Já ele mostrava inclinação para
as letras, que hoje fazem com que pertença a associações literárias
do Paraná.
Ao fim daquele ano, Negrão, aprovado em concurso para in­
gresso na ECEME, seguiu para o Rio de Janeiro. Não servimos juntos,
a partir de então, mas de longe em longe eu tomava conhecimento de
seus êxitos na vida castrense.
Em 1 964, sem mantermos contato, tomamos posição igual
à quase totalidade dos oficiais das Forças Armadas, no momento em
que nos parecia estar o Presidente João Goulart se afastando do jura­
mento de cumprir a Constituição. Esperávamos um golpe de Estado,
chefiado pelo próprio Presidente, para instalar uma República tipo
sindicalista, ou, em ligação estreita com Carlos Prestes, a edificação
de uma República Democrática e Popular, no estilo dos satélites eu­
ropeus da URSS. Esta última hipótese, dela temos agora a confirma­
ção, a partir da revelação feita pelo então embaixador soviético Fomim.
8 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Disse bem o ex-Presidente Ernesto Geisel que o 3 1 de Março


de 1 964 foi "um movimento político, militar e popular". De fato, só os
néscios contestam isso. Político foi, pois o Congresso cm peso dele
participou ativamente. Popular, provam-no as Marchas com Deus e
pela Liberdade, encabeçadas pelas mulheres que levaram massa popu­
lar às ruas, apoiadas pelo clero maciçamente. A grande imprensa, espe­
cialmente do Rio e de São Paulo, retratando a opinião pública, bradava
"Basta!" e "Chega!" nos editoriais, reclamando a deposição de um Pre­
sidente fraco manipulado desastradamente pela esquerda. Os milita­
res, fomos arrastados à ação de força, praticamente sem o disparo de
uma só arma. Somente Prestes, que freqüentava Jango, se enganava
com o clima político de 1 964. Mandava informes a Moscou totalmente
equivocados, uma das causas de seu declínio de Secretário-Geral do
PCB. A leitura de memórias de esquerdistas da época confirma o 3 1 de
Março de 1 964 como resultado de consenso político, popular e militar.
Do mesmo modo, a guerrilha promovida pelas funções de­
sunidas da esquerda comunista não teve êxito porque lhe faltou apoio
pop ular. O resto é desculpa esfarrapada, que os vencidos, hoje domi­
nando a mídia, procuram desfigurar.
Na luta contra a insurreição, a participação de Negrão, já na
alta hierarquia militar, foi mais presente do que a minha, que se res­
tringiu ao campo cabível a um ministro de pasta civil. Não mantínha­
mos correspondência na época, muito menos contato pessoal. Só ago­
ra, por este livro corajoso e honesto, tomo conhecimento da sua atu­
ação na área de contra-insurreição. Correta. Patriótica. Não se escon­
de no manto da hipocrisia que fez com que alguns dos militares, hoj e,
procurem passar por bons-moços. Certamente, não tinham a força da
convicção do que faziam, para evitar que entregássemos o poder a
comunistas como Marighella e Lamarca.
PREFÁCIO 9

Minha amizade com Negrão tem sido inalterada ao longo do


tempo, o que não nos impediu de ter, de onde em onde, posições
diferentes. Por isso mesmo essa amizade é sólida, pois resiste às di­
vergências de pensamento, não no gênero, mas no grau e na espécie.
Este livro é um testemunho que tardava, sobretudo porque
as atuais autoridades militares preferem manter o passado em silên­
cio, como se dele fossem réus e não patriotas forçados a cumprir com
risco da própria vida o j uramento de defender as instituições, contra
a expansão do marxismo-leninismo.
A história contemporânea brasileira enriquece-se com os
relatos feitos pelo General Raimundo Negrão Torres, com a virtude
de não faltar à verdade, cujas conseqüências assume dignamente.

J arbas Passarinho
APRESENTAÇÃO

"Nosso IÍnico dever parei co111

a histó1ia é reescrevê-la. "

Oscar Wilde

Uma das preocupações mais visíveis e explícitas da esquer­


da brasileira foi escrever, e muito, sobre as circunstâncias de seus
sucessivos fracassos nas tentativas de assalto ao Poder, realizadas a
partir de 1935. Um longo processo de autocrítica extravasou em li­
vros, depoimentos, entrevistas e em toda a sorte de manifestações
feitas pelos próprios personagens ou por escribas simpatizantes ou
engajados. Ainda no exílio - que foi voluntário ou conseqüência de
banimento em troca de embaixadores seqüestrados - e aproveitan­
do-se do apoio de governos comunistas e da esquerda internacional,
os fracassados de 64 e os derrotados na luta armada do final dos anos
60 e início da década de 70 desfilaram suas versões e suas falácias
que ganharam destaque e credibilidade por não ter havido da parte
dos governos pós-64 o necessário empenho em apresentar, em sua
verdadeira dimensão, os lances e os acontecimentos que marcaram a
mais longa e mais séria tentativa de implantar no Brasil uma ditadura
de inspiração marxista-leninista. Na vastíssima bibliografia referida
por Luís Mir em seu alentado livro A revolução impossível, constam
mais de 50 publicações de comunistas ou elementos da esquerda,
vindas a lume a partir de 1964. Ainda hoje, jornalistas ressentidos,
12 Nos "PoaóEs" DA D ITADURA

como Carlos Chagas, Elio Gáspari, Vilas Boas Correia e outros, vez
por outra, tentam rescrever ao seu talante a história daqueles anos, e
o fazem confiando na curta memória dos leitores.
Esse esforço da esquerda em seus diversos matizes teve re­
centemente a colaboração de uma equipe da Fundação Getulio Vargas,
que em 1 992, por intermédio do Centro de Pesquisa e Documenta­
ção de História Contemporânea do Brasil, da mesma Fundação, ini­
ciou um projeto sobre "a memória militar recente do País". A inten­
tada pesquisa, segundo seus coordenadores e executores, contou com
o apoio financeira da FINEP ao projeto que recebeu o rótulo de " 1 964
e o regime militar", do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), da
Universidade da Flórida e de um tal North-South Center. Teriam sido
ouvidos "cerca de 20 oficiais que haviam ocupado importantes posi­
ções no interior do regime militar, principalmente nos órgãos de in­
formação e repressão", que foram editadas (sic) e publicadas em três
livros, em 1 994/95: Visões do golpe - a memória militar sobre 1964; Os
anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão e A volta aos quartéis: a
memória militar sobre a abertura. Em 1 997, a mesma equipe publicou o
depoimento do ex-Presidente Ernesto Geisel, colhido entre j ulho de
1 993 e maio de 1 995, com a expressa condição de só ser publicado
após sua morte, ocorrida em setembro de 1 996. O livro foi um grande
sucesso editorial, figurando por várias semanas entre os mais vendidos.
A preocupação de todo historiador sério deve ser coletar e
registrar fatos sobre o passado e, muitas vezes, descobrir fatos novos.
Ele sabe que toda informação que ele possui é ora incompleta, ora
parcialmente incorreta, muitas vezes preconceituosa, e requer cuida­
doso escrutínio.
A busca do fato histórico tem em vista reunir elementos
para uma correta e imparcial interpretação histórica. Esse processo
de interpretação engloba todos os aspectos de inquirição histórica,
começando pela seleção do objeto de investigação, porque a própria
escolha de um evento determinado, de uma sociedade ou instituição,
APRESENTAÇÃO 13

constitui em si mesma um ato de j ulgamento. Uma vez escolhido esse


objeto, essa escolha passa a orientar as linhas mestras da pesquisa
histórica. O historiador deve respeitar os fatos, evitar as idéias pre­
concebidas e preconceituosas, eliminar, na medida do possível, os
erros de j ulgamento pessoais, de forma a criar uma convincente e
intelectualmente satisfatória interpretação.
Exceto pela circunstância especial e aleatória na qual o his­
toriador registra eventos que ele mesmo presenciou, os fatos históri­
cos somente podem ser conhecidos através de fontes intermediárias.
Isto inclui o testemunho de pessoas vivas, registros pessoais, como
memórias, correspondência, literatura de ficç ão, documentos
institucionais etc. Todas essas são fontes que fornecem informações
e evidências das quais o historiador retira fatos históricos. Todavia a
relação entre evidências e fatos raramente é simples e direta. Evidên­
cias podem ser deformadas ou defeituosas. Historiadores, por isso,
devem examiná-las com olhos críticos e cuidadosos.
Que essas idéias elementares e básicas de historiografia não
sejám seguidas nas obras dos militantes encharcados de ideologia e
preconceitos é aceitável, mas vê-los totalmente abandonadas pelos
pesquisadores de uma entidade respeitável como a Fundação Getu­
lio Vargas tisna de parcialidade os resultados do projeto que se trai a
partir dos próprios títulos das obras que produziu. Em capítulos des­
te livro analisaremos mais a fundo o resultado do que os tais pesqui­
,,
sadores chamaram "a memória militar recente do País .

***

O Presidente Castello Branco, segundo os que com ele con­


viveram de perto, costumava dizer que a Revolução não precisava
j ustificar seus atos e de nenhum DIP getuliano. Mais tarde, no gover­
no Costa e Silva, foi criada a Assessoria Especial de Relações Públi­
cas (AERP), que viria, já no governo Médici, a ganhar relevo e reali­
zar um bom trabalho de divulgação dos atos do governo. Coincidindo
14 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

com uma fase de euforia econômica, foi esse o período de maior acei­
tação dos atos revolucionários, e de comprovado apoio popular, ape­
sar de ter sido a fase de maior virulência da luta armada subversiva,
que fracassou, em grande parte, por falta de men sagens com
credibilidade e de aceitação popular.
O governo Geisel desmontou a AERP devido a maus resul­
tados, e quando a quis reviver1, as dificuldades advindas da reversão
do quadro econômico tornaram quase inócuos os esforços de difusão
dos atos do governo, mesmo os que poderiam ter boa aceitação. A
preocupação dominante com a distensão política e o verdadeiro des­
caso pelo combate à corrupção completaram o quadro de desacertos,
que culminou com o desastrado encaminhamento da sucessão de
Figueiredo, dando asas ao revanchismo e conferindo desenvoltura às
forças de esquerda, anistiadas, realentadas e reagrupadas no partido
de oposição.
Ficou, assim, ao gosto dos derrotados na luta armada contar
a história de seu malogro e da maneira que melhor servisse aos seus
desígnios de enxovalhar o regime que firmemente lhes negara o cami­
nho para o poder. E contando com o apoio da mídia internacional,
fortemente influenciada por marxistas e simpatizantes do regime
moscovita, por inocentes úteis e gente desinformada sobre o que
realmente se passava no Brasil, montaram uma verdadeira central de
difamação contra o governo brasileiro, exemplarmente representada
pelo Front Brasilienne d'Informacion (FBI) , chefiada por Márcio
Moreira Alves e financiada por Miguel Arraes e seus aliados argeli­
nos. Contaram, também, internamente, com o apoio da oposição não
marxista, a quem passou a interessar a desmoralização do regime.
Um episódio significativo da atitude da imprensa estrangei­
ra a respeito do Brasil foi o da entrevista de Carlos Lacerda no aero­
porto de Orly, em Paris, nos primeiros dias de abril de 1 964. As per­
guntas capciosas e irônicas dos jornalistas foram respondidas com
extremo sarcasmo pelo combativo político, uma das mais importan-
APRESENTAÇÃO 15

tes lideranças civis do movimento que depôs o Sr. João Goulart. É


curioso e muito esclarecedor que apenas alguns dias depois do movi­
mento militar no Brasil um dos jornalistas tenha perguntado ao então
governador da Guanabara sobre a ocorrência de torturas no Brasil. 2
Era o primeiro sinal da orquestração que depois se formaria a respei­
to do assunto, sempre muito bem explorado por dissidentes, exilados
e banidos, muitas vezes para explicar fraquezas e delações.
O silêncio dos vencedores justificava-se, ao tempo da guer­
rilha do Araguaia, pela preocupação de não permitir internacionali­
zar a guerra interna e o conflito político, como era desejo dos
contestadores e subversivos, ávidos do apoio público e do reconheci­
mento internacional por parte de seus financiadores e mentores de
Moscou, Pequim, Argel e Havana, para um pretenso governo rebelde
cm uma área supostamente liberada. Posteriormente, a idéia da anis­
tia - conforme a tradição política brasileira -, dentro de um esfor­
ço de reconciliação nacional e de nova tentativa de redemocratização,
fez baixar sobre aqueles fatos o silêncio oficial. E esse silêncio foi
apresentado pela esquerda revanchista como resultado de um pacto
de silêncio, de demonstração de medo ou confissão de culpa, e que
serviu para a consolidação de uma verdadeira mitologia a serviço da
batalha da propaganda, travada aqui e lá fora, e em todos os meios de
comunicação social, e, até agora, nitidamente vencida pelos derrota­
dos de ontem.
Esse processo ganhou novo impulso com a eleição para a
Presidência da República de um antigo militante de esquerda. Embo­
ra renegando suas idéias e eleito graças a um arranjo político com o
partido onde se abriga grande parte da liderança civil de sustentação
da "ditadura'', juntamente com Fernando Henrique Cardoso subiu a
rampa do Palácio do Planalto uma verdadeira nomenklatura de esquer­
da, onde se misturam marxistas arrependidos e revanchistas notórios.
E a bandeira, nunca abaixada, dos desaparecidos e das vítimas inocentes
da ditadura passou a contar com o eficiente apoio de gente muito bem
16 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

situada no governo pós-marxista de FHC. Do próprio gabinete do


ministro da Justiça passou a vir o incentivo a antigos terroristas e
guerrilheiros, hoje possuidores de mandatos eletivos, e a velhos gru­
pos de ativistas do Congresso e das diversas "comissões" e "frentes"
que nunca aceitaram a Lei da Anistia votada pelo Congresso, como
ponto de partida daquele grande e necessário acordo de pacificação e

reconciliação nacional.
Com o apoio dos remanescentes das "patrulhas ideológi­
cas" e da grande mídia, sempre ávida na conquista de novos espaços,
novos mercados e de maiores lucros, cresceram os esforços e as ativi­
dades dos interessados na eternização das contradições e disputas
que marcaram de sangue esse período recente de nossa história. E
como sempre, tais esforços são dissimulados e encobertos por engo­
das altruístas e por uma simulação de busca da verdade, que passou
a ser chamada de "resgate da história dos anos de chumbo", de que é
exemplo a tal pesquisa do CPDOC da FGV, já mencionada. E os
"porões da ditadura", ficção propagandística muito bem constr uída e
aceita, passam a supostamente ser vasculhados. Uma frenética e sus­
peita busca a ossadas e a "escondidas" evidências da liquidação físi­
ca dos dissidentes merece o apoio de um poderoso e hegemônico
grupo dos meios de comunicação; o mesmo que, tendo enriquecido à
sombra do autoritarismo e dos desmandos que agora denuncia, passa
a usar, em lugar dos dólares do grupo Time-Life, o dinheiro amealhado
no apoio à ditadura, como moeda de troca na conquista dos grandes
índices dos ibopes. O afrontoso desrespeito à Lei da Anistia e as cla­
ras provocações e ofensas às Forças Armadas e a seus antigos chefes
passam a constituir-se num exercício diário de desenvoltos agentes a
serviço agora não se sabe de que interesses. Forja-se uma lei para
indenizar familiares de pretensos desaparecidos, onerando o contri­
buinte com o pagamento de prêmios a traidores e desertores.
APRESENTAÇÃO 17

Repete-se com o adido militar em Londres a farsa armada


contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Com duas significa­
tivas diferenças: em 1 985, embora no governo dúbio de José Sarney,
o ministro Leônidas - condestável da Nova República - viu-se
compelido a prestigiar e defender o nosso adido no Uruguai que ter­
minou normalmente sua missão, ao passo que o coronel Avólio ficou
"pendurado na brocha" e terminou, melancolicamente, seu tempo de
aditância numa sala do "Forte Apache" em Brasília, como se ainda
estivesse j unto à corte de Saint James. A outra diferença é que o coro­
nel U stra, após ter seu nome considerado para a promoção, apesar da
atitude mesquinha de alguns membros do Alto Comando, e passado à
reserva, saiu em campo, viseira erguida e de lança em riste, na defesa
de sua dignidade e de seu passado. Publicou, com sacrifício de seus
recursos pessoais, um livro desmascarando a farsa e sua principal
vedete, a então deputada Bete Mendes, e colocando a nu os lances da
luta armada em São Paulo. Reptou sua acusadora a provar as menti­
ras de que se servira e que apresentara com o largo e costumeiro
apoio de jornais, revistas e entrevistadores de televisão. A resposta
foi o silêncio e uma pá de cal sobre o livro embaraçoso que nunca foi
desmentido ou contestado publicamente. As únicas respostas são as
ameaças anônimas que até hoje fazem ao militar e à sua família.
Aliás essa técnica do silêncio, muito usada pela esquerda
em seus esquemas de Agit-prop, repetir-se-ia com o livro Camaradas,
publicado em 1 993 pelo jornalista William Waack, no qual, com base
nos arquivos do Comintern, recentemente abertos, e da Gestapo ale­
mã, fica demonstrada de forma cabal a sujeição dos comunistas brasi­
leiros - especialmente o "Cavaleiro da Esperança", Luiz Carlos Pres­
tes - aos agentes moscovitas na montagem e no desencadeamento da
fracassada intentona de 1 935. É a sórdida história do uso do "ouro de
Moscou" para implantar o comunismo no Brasil, contada com todas as
18 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

letras e documentada de forma irretorquível. O mesmo manto de si­


lêncio parece ter sido jogado sobre o livro de Luís Mir, a que acima
me referi, apesar das incoerências e tolices que repete. 3
Em muitas partes este livro serve-se de episódios já narra­
dos pelo coronel U stra em seu corajoso Rompendo o silêncio, e que, com
o conhecimento e a permissão do autor, utilizei em crônicas que há
tempos venho publicando nas páginas da Gazeta do Povo, de Curitiba.
É� a maneira que encontrei para recordar e difundir aqueles episódios,
hoje totalmente falseados, esquecidos ou omitidos capciosamente.
Nos últimos tempos, duas contribuições valiosas ao resgate
verdadeiro e honesto da memória das últimas décadas de nossa histó­
ria vieram à luz: os livros A lanterna na popa do ex-ministro Roberto
Campos, e Um híbrido fértil, relato autobiográfico do coronel da reser­
va e também ex-ministro Jarbas Passarinho. É o depoimento corajoso
e coerente de dois homens profundamente engajados no esforço de
reconstr ução nacional empreendido a partir de 1964 e que viveram
os bastidores do poder nesses anos que a esquerda insiste em chamar
"anos de chumbo", mas que, na realidade, tornaram-se pesados e
dolorosos pela ensandecida atuação de muitos dos que hoje preten­
dem assumir a posição de juízes. O livro da Fundação Getulio Vargas
Editora contendo o depoimento póstumo do ex-Presidente Ernesto
Geiscl é também uma importante contribuição, apesar da forma pela
qual o ex-Presidente resolveu deixar seu testemunho. Sobre esses li­
vros teço alguns comentários mais adiante.
Este livro, o sexto que escrevo e publico, é também mais um
esforço nessa batalha de esclarecimento e de defesa das Forças Arma­
das e da atuação dos militares na história do Brasil. É , ainda, a minha
homenagem aos homens e às mulheres da lei e da ordem que lutaram,
sacrificaram-se e morreram para defender a democracia e a liberdade
ameaçadas por maus brasileiros a serviço de uma ideologia enganadora
e perversa, treinados no exterior e a soldo de patrões alienígenas.
APRESENTAÇÃO 19

O título que escolhi merece uma explicação. O Marechal


Castello Branco, em palestra após a guerra, disse porque a FEB to­
mou como emblema uma cobra fumando. Contou o marechal que,
antes de a Força seguir para os campos de batalha, a maledicência
dos "quinta-coluna" espalhava que "era mais fácil uma cobra fumar
do que a FEB embarcar". Lá na I tália, vendo gente morrer e matan­
do alemães, os "pracinhas" resolveram, em represália, tomar a cobra
fumante como emblema. Similar mente, a esquerda adotou vários
clichês em sua campanha de descrédito contra as Forças Ar madas:
"anos de chumbo", "porões da ditadura", "exército de ocupação" etc.
Foi exatamente um deles que escolhi para identificar a obra que mos­
tra visões ignoradas dos tais "porões", expressão inclusive surpreen­
dentemente encampada por memorialistas e depoentes com atuação
em andares autoritários muito superiores.
A guerrilha rural ou urbana é modalidade de guerra não con­
vencional que fez suas próprias regras, dentro da estratégia comunis­
ta da Guerra Revolucionária, com a qual conseguiram apossar-se de
muitos países. Um dos alvos dessa guerra - eficientemente utilizada
como um dos instrumentos soviéticos da "Guerra Fria"- foi o Bra­
sil, como ficou cabalmente comprovado pela abertura dos arquivos
moscovitas da KGB e pelos depoimentos e confissões de seus agen­
tes na farta literatura a que acima me referi. Para combatê-las as For­
ças Armadas, especialmente o Exército, tiveram que adotar proces­
sos também não convencionais, descaracterizando seus homens,
infiltrando-se nas organizações subversivas, para poder chegar aos
porões da clandestinidade, de onde nos moviam sua luta armada sem
quartel, proclamada e ensinada por Marighella e seus mentores cuba­
nos. Muitos dos episódios dessa guerra suja, baseada, essencialmen­
te, na informação e na contra-informação, tiveram que ser planeja­
dos e comandados de "porões" de sigilo e travados adotando práticas
inusitadas. Em tais ambientes, onde necessariamente teria de haver
uma grande descentralização e autonomia operacional, a precarieda-
20 Nos "PoRóEs" DA D ITADURA

de dos controles e os excessos eram inevitáveis e muitas vezes a vio­


lência da resposta, pela própria natureza da luta, subia à altura da
violência empregada pelos guerilheiros, desenvoltos nessa guerra em
que eles mesmos faziam as regras. Achar, hoje, que tal guerra poderia
ter sido conduzida e vencida com "punhos de renda e luvas de peli­
ca" é uma abstração de quem não viveu o dia-a-dia de tais momentos
e não sentiu na pele as agruras de ter que ganhá-la em nome do futuro
democrático da Nação. Procurei exemplificar alguns episódios signi­
ficativos, baseado no depoimento de quem os viveu e em minha
própria experiência, embora pequena e obtida em locais onde ela foi
de menor intensidade e risco. Ao relatar tais fatos, todos verídicos,
utilizei os codinomes das pessoas envolvidas, visto que seus atos cri­
minosos, ou não foram assim considerados pela Justiça Militar, ou
acham-se cobertos pela Lei da Anistia, e a grande maioria não os
assumiu publicamente.
Por outro lado, um dos aspectos mais utilizados pelos que se
empenham em denegrir e enxovalhar as Forças Armadas é tentar
mostrar a existência de um alegado "militarismo brasileiro". Por essa
razão incluí neste livro o ensaio que esbocei a partir do texto de pa­
lestra que proferi no Centro de Letras do Paraná, em agosto de 1 995.
Este livro é principalmente a defesa do movimento de 1 964
e dos governos que se sucederam, instituídos sob a responsabilidade
das Forças Armadas, através de suas lideranças, cujas ações regis­
tram um saldo altamente positivo. Mas a seriedade e a sinceridade
desse esforço impõem que se fale também no que considero erros
cometidos e objetivos não alcançados ou apenas parcialmente con­
cretizados, dentro da proposta de reconstrução e renovação nacio­
nal. Desses erros, destaco os que costumo chamar de "os quatro pe­
cados capitais" e que têm a ver com a timidez na privatização das
estatais, a falta de empenho na reforma da educação, a ausência de
uma ampla reforma do Judiciário e o malogro no combate à corrupção.
APRESENTAÇÃO 21

Como fiz em dois dos livros já publicados, dediquei algum


espaço a assuntos como a inserção do Brasil no mundo globalizado e
a problemas nacionais, alguns dos quais continuam a desafiar a capa­
cidade do governo e das elites deste país. Pode parecer estranho que
em um livro que trata de luta política e de problemas militares surjam
matérias de fundo econômico ou de política internacional. Mas, na
realidade muitos dos problemas ainda hoje enfrentados decorrem do
desprezo e abandono que os revanchistas fizeram questão de fazer
cair sobre iniciativas e medidas sadias dos governos presididos pelos
generais. O próprio sucesso econômico, que foi chamado "o milagre
brasileiro", foi muitas vezes negado e até ridicularizado.

Curitiba, 3 1 de março de 1 998

NOTAS

1 - Primeiro, designando para o cargo um civil incompetente e depois colocando como


Secretário de Imprensa o coronel Toledo Camargo, ex-adj unto da AERP do governo
Médici, que embora fosse um militar muito bem qualificado viu-se a braços com as
dificuldades oriundas da personalidade do Presidente e da própria conjuntura.
2 - I...a11tema 11a popa, página 834.
3 - O livro é tão devastador que a inserção de certas tolices parece ser a maneira de
convalidar as aparentes ligações do autor com a esquerda.
A MARCHA DA INSENSATEZ

A contra-revolução desencadeada em 3 1 de março de 1964


foi o resultado de uma cadeia de eventos que balizaram os rumos de
mais uma tentativa dos comunistas para assaltar o poder e cujo obje­
tivo principal seria a neutralização da maior força anticomunista que
o país sempre teve: o Exército Brasileiro. Essa verdadeira marcha da
insensatez para a implantação de um regime totalitário bolchevista
no Brasil pode ser acompanhada e resumida pelos seguintes marcos
históricos:

1953
- No dia 5 de março, morre Stalin.

1954
- Durante o IV Congresso do PCB é decidida a criação do
Exército de Libertação Nacional.

1956
- Falando perante o XX Congresso do PCUS, em fevereiro
de 56, Kruschev denuncia os crimes do stalinismo e estabelece como
novos rumos para o movimento comunista internacional o caminho
pacífico e a coexistência pacífica.
- Tentativa de assalto ao quartel de Moncada, por Fidel Cas­
tro e seus seguidores, em 26 de j ulho.
24 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

1957
- Em julho, visita de Francisco Julião à URSS.

1959
- Tomada do poder por Fidel Castro, em 1 ºde janeiro, depois
de dois anos de luta guerrilheira.

1960
- Em março, visita do candidato Jânio Quadros a Cuba, acom­
panhado de numerosa comitiva, com representantes de todos os par­
tidos que o apoiavam e inúmeros jornalistas. Entre esses, estava um
j ornalista comunista, Clodomir de Morais, que levava a incumbência
de fazer chegar aos dirigentes cubanos mensagem do Comitê Central
do PCB, assinada por Prestes, pedindo que Fidel Castro interrompes­
se o áspero debate público que vinha mantendo com o Marechal
Teixeira Lott, candidato apoiado pelo PCB.

1961
- Ano do início da ajuda econômica da União Soviética a
Cuba. Em 20 de janeiro toma posse como Presidente dos Estados
Unidos John Fitzgerald Kennedy.
- Ainda em janeiro, Julião renova a visita à URSS; na comi­
tiva estava incluído um ministro do TFR, Aguiar Dias.
- Nos primeiros dias de seu regime, Fidel Castro mandou
fuzilar cerca de 600 oficiais e suboficiais do Exército de Fulgêncio
Batista. Quantos oficiais brasileiros iriam para o paredon se eles tives­
sem tido sucesso aqui?
- Em 1 ºde maio desse ano Fidel tira a máscara que enganara
os americanos e declara que sua revolução era socialista. Mas só no
fim desse mesmo ano é que confessa ser comunista.
A MARCHA DA 1 NSENSATEZ 25

- Em j ulho, nova delegação vai a Havana, para as comemo­


rações do aniversário do assalto ao quartel de Mancada, com 85 par­
ticipantes, entre eles 1 3 militantes das Ligas Camponesas de J ulião
que receberiam adestramento militar em Cuba.
- Com Goulart em viagem à China, J ânio renuncia em
25 de agosto.
- No dia 7 de setembro, João Goulart assume o governo, sob
um sistema parlamentarista.
- Em outubro, os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande
do Sul, e Mauro Borges, de Goiás, criam a Frente de Libertação Nacional.

1962
- Uma delegação do PCB, enviada à China, encontra-se com
Mao Tse-tung e recebe do dirigente chinês o conselho: "Guerrilha,
acima de tudo!"
- Brizola tenta explorar os frutos de sua popularidade nos
quartéis resultante de sua atuação em 1961, na Campanha da Legali­
dade, principalmente no aliciamento dos sargentos, e mantém entre­
vistas com os generais Jair Dantas Ribeiro, comandante do lll Exérci­
to (Porto Alegre), e Osvino Alves, comandante do I Exército (Rio de
Janeiro) , para articular um golpe, apoiado por oficiais nacionalistas,
com o fechamento do Congresso e, se preciso, a derrubada do pró­
prio Jango. Receoso do radicalismo de Brizola, Prestes também con­
ferencia com Osvino.
- Campanha de Brizola para substituir Carvalho Pinto como
ministro da Fazenda e ficar com "a chave do cofre".
- Como parte das articulações, com vistas a pressionar o
Congresso em favor da realização do plebiscito, o General Jair Dantas
Ribeiro, Comandante do III Exército, envia telegrama ao ministro do
Exército, no qual capciosamente afirma:
26 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

Face à intransigência do Parlamento e à iminência da reunião do


Gabinete, tendo em vista as primeiras manifestações de desespero que se veriji­
cam no territón·o onde está sediado o III Exército, cumpre-me informar a V Ex.
que me encontro sem condições para assumir a responsabilidade do mmprimento
das missões de garantir a ordem.
Após a realização do plebiscito, e dentro do esquema imagi­
nado, o General Jair é nomeado ministro do Exército.

1963
- É realizado em Niterói o Encontro de Solidariedade a Cuba,
em 28 de março.
- Em setembro explode uma rebelião dos sargentos em
Brasília, a pretexto de garantir a elegibilidade dos graduados. Na mes­
ma época, o Exército é alertado e apreende em um navio um grande
carregamento de armas, oriundo da Europa Oriental e que se desti­
nava ao Nordeste.
- Em 22 de novembro, Kennedy é assassinado.

1964
- Dois coronéis comunistas da Secretaria do Conselho de
Segurança Nacional eram informantes de Prestes, que em programa
de TY, no dia 3 de janeiro, declara que o melhor candidato nas elei­
ções de 65 seria João Goulart, indício claro de golpe.
- Em 1 O de janeiro, Prestes embarca para Moscou, onde re­
cebe honras de chefe de Estado e mantém entrevistas com Kr uschev,
a quem garante que a revolução brasileira estava em marcha, e recebe
dele a promessa de apoio.
- No dia 13 de março é realizado o Comício da Central do
Brasil, no qual são anunciados: Governo Popular e Constituinte,
com reeleição de Goulart. Um dos cartazes exibidos pedia "Armas
para o Povo!". Em seu discurso, Brizola prega a dissolução do Congres­
so e a instituição de assembléias de operários, camponeses e sargentos.
A MARCHA DA INSENSATEZ 27

- Dias depois do comício, Oswaldo Pacheco da Silva -


comunista e presidente da Confederação Geral dos Trabalhadores -
confirma a Prestes que fora convidado pelo presidente para, com sua
central, apoiar um golpe contra a direita, para o que o governo forne­
ceria as armas para os trabalhadores.
- Em 1 9 de março, dias depois de o jornal Última Hora ha­
ver publicado uma fotografia da imagem de N.S. Aparecida com a
cara do Pelé, realiza-se em São Paulo a última e a mais importante
das marchas denominadas "da Família, com Deus pela Liberdade".
- Em 22 de março realiza-se o último encontro de Brizola
com Goulart. Este pede a seu cunhado que pare com a agitação que
ameaça desestabilizar seu governo e recebe dele um apelo para que
assuma o comando popular e parta para a revolução. No dia seguinte
o j ornal do PCB, Novos Rumos, publica o programa da Frente Popular,
que era o mesmo do comício da Central e da mensagem ao Congresso.
- Em 23 de março, início da rebeldia dos marinheiros da
Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB),
que no dia seguinte, amotinados, reúnem-se na sede do Sindicato dos
Metalúrgicos, no Rio de Janeiro. O ministro da Marinha, Silvio Mota,
exonera o comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, Cândido
Aragão, e demite-se. Goulart reconduz Aragão - o chamado '1\lmi­
rante do Povo" - a seu cargo, e no dia 27 nomeia ministro um
notório esquerdista, Almirante Paulo Mário Rodrigues, conhecido na
Marinha como "Almirante Vermelho".
- Em 26 de março, em reunião de comunistas em Salvador,
Marighella declara: "O Partido precisa se preparar, pois está em vias
de assumir o poder".
- Ainda em março, dias antes da queda de Goulart, o PC do
B enviava pessoal para ser treinado na China para a luta de guerrilhas.
- Na noite de 30 de março é realizado um comício de sar­
gentos do Exército na sede do Automóvel Clube, no Rio de Janeiro,
com a presença de Goulart, que embora aconselhado por Tancredo
28 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Neves a não fazê-lo, comparece e pronuncia inflamado discurso de


incitamento à indisciplina, enquanto a platéia gritava excitada: "Manda
brasa, Presidente." Foi a gota d'água ...
- Em 31 de março tem início em Minas Gerais o movimen­
to das colunas rebeldes para pôr fim à marcha da insensatez.
POR QUE JANGO CAIU?

A Folha de São Paulo publicou no dia 25 de agosto de 1996


- Dia do Soldado, por coincidência -, em um dos seus cadernos
dominicais, a transcrição de um debate promovido pelo jornal para
discutir o regime de 1964. A matéria vinha sob duas chamadas signi­
ficativas: "Passado incômodo" e ''Anos de chumbo". 1
U m dos debatedores - figura ultimamente muito encontra­
diça nesses eventos - foi o escritor Marcelo Rubens Paiva, de 36
anos, filho do ex-deputado Rubens Paiva, o mais notório dos desapa­
recidos. Em certo ponto, logo no início do debate, o jovem Paiva
assim se expressou: "o golpe militar não foi apenas militar. Foi um
movimento com o apoio da sociedade civil. E creio que 64 é um dos
momentos mais tristes da história brasileira porque se rompeu com
urna série de reformas de que hoje nós sentimos falta, especialmente
a reforma agrária. Se eu pudesse voltar atrás, se não tivesse havido o
movimento militar de 64, o Brasil seria um país muito melhor em
termos de justiça social e em termos de consolidação democrática ...
Ali o Brasil perdeu o rumo da história."
Em 1964, esse jovem senhor tinha apenas quatro anos, logo
não tinha idade para entender o que se passava. Seu discurso é confu­
so: se acredita realmente em Democracia, como achar que a socieda­
de estava errada e que os rumos do país seriam melhores se guiados
por minoria de agitadores? Deve ter crescido ouvindo esse "conto da
carochinha" sobre o "golpe militar" e o Brasil de Jango, sem nunca
ter-se indagado por que houve o apoio da sociedade, se era para mu-
30 Nos "PoRõEs" DA DITADU RA

dar para pior o rumo da história? Com o eficiente trabalho da esquer­


da, não é de admirar que muitos dos j ovens de hoje possam pensar
assim. Esse fato levou-me a desenterrar do meio de meus papéis ve­
lhos de 33 anos a síntese de um trabalho apresentado como instru­
ção, em maio de 1 964, aos subtenentes e sargentos do quartel onde
eu servia, sobre os motivos que justificaram o clamor popular para a
derrubada do Presidente João Goulart, dando-lhes uma visão do es­
tágio da Guerra Revolucionária comunista, então em curso no Brasil.
Esse trabalho de esclarecimento era muito necessário porque, nos
antecedentes que levaram à reação das Forças Armadas, uma das
razões mais sérias e um dos momentos mais perigosos foi o intenso
trabalho de aliciamento dos subtenentes, sargentos e cabos em todos
os pontos do território nacional, de que resultaram, como exemplos
visíveis, a rebelião dos sargentos da Aeronáutica em Brasília, a revol­
ta dos marinheiros no Rio de Janeiro e a reunião do próprio J ango
com os sargentos do Exército, no Automóvel Clube, na noite de 30
de março, passos finais no caminho da insensatez, como vimos no
capítulo anterior.
Em Curitiba h o uve também um inten s o trab alh o de
aliciamento desse pessoal, com dois focos mais destacados: o CPOR
e o Estabelecimento de Subsistência. No primeiro, o próprio coman­
dante conduzia o processo, como presidente do Diretório Municipal
do PTB - uma das escoras de J ango - o que, por si só, já era um
indício alarmante, além do fato de ter saído do CPOR um subtenente
como candidato a vereador, em franco desafio à lei de inelegibilidade
das praças , uma das bandeiras então levantadas para justificar a agi­
tação. Apesar disso, faltou-lhes aqui uma liderança decidida, confor­
me declarou nos primeiros dias de abril um dos envolvidos, hoje um
alto empresário do setor de transportes no Paraná.2 Mais alarmante
ainda, era o fato de que tudo isso era visto com a maior naturalidade
pelo então comandante da Região Militar, General Justino Alves Bas-
Poa QuE }ANGO CAIU ? 31

tos, alinhado naquela altura com um dos conspiradores, o futuro minis­


tro do Exército, General Jair Dantas Ribeiro. Mais tarde, após promm�­

do, Justino viria a ser o grande comandante revolucionário no Nordeste.


Um retrato fiel do que se passava naquela época apareceu
pouco depois em um interessante artigo da revista Seleções do Reader's
Dig.est, sob o sugestivo título ''A nação que se salvou a si mesma",
cujos fatos são plenamente confirmados por insuspeitos relatos que
têm vindo a público ultimamente.
A primeira indagação a ser feita era: estaria na época, de fato,
o Brasil submetido a um processo de Guerra Revolucionária e, portan­
to, sob nova ameaça comunista? Ou tratou-se apenas de invencionices
de "gorilas golpistas", a serviço dos interesses americanos e de seu
empedernido militarismo, como afirma até hoje a esquerda?
Para responder satisfatoriamente a tal pergunta é necessário
verificarmos a conjuntura mundial. O mundo vivia o impasse nuclear,
com a paridade atômica e a Guerra Fria. Cuba tornara-se um satélite
soviético, espetado no flanco americano e um tranpolim para a ex­
portação da revolução para o resto da América Latina.
Lenin, muitos anos antes, anunciara a busca do predomínio
mundial do comunismo, dizendo: "A União Soviética assumirá ime­
diatamente a pesada responsabilidade de levar a revolução a todo o
mundo, conduzindo a humanidade para o comunismo." Como?
Na década de 30, financiando e apoiando com seus agentes
a tentativa de comunização de países onde a situação interna parecia
favorável, como desastradamente tentaram no Brasil em 1 935. Mais
tarde e após a Segunda Guerra Mundial, variando a estratégia comu­
nista, utilizando ora os movimentos nacionalistas e anticolonialistas,
ora a coexistência pacífica, para conseguir a destr uição do sistema
capitalista, dentro dos métodos e processos da guerra revolucionária.
Como o mesmo Lenin também declarara: "iremos fazer com que os
capitalistas nos vendam a corda com que serão enforcados!"
32 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Aqui mais perto, Che Guevara propunha-se a transformar


os Andes em uma imensa Sierra Maestra. Ali encontrou seu túmulo.
As div'ergências sino-soviéticas, após as denúncias dos crimes do
stalinismo por Kruschev, criaram um novo pólo de apoio à revolução
mundial e uma dicotomia no enfoque operacional, com a difusão da
linha maoísta do "foquismo" e da coluna guerrilheira na tomada vio­
lenta do poder, com a qual Prestes - um firme caudatário de Mos­
cou - nunca esteve de acordo.
Diante desse quadro, seria possível imaginar que o Brasil,
por sua extensão, posição, valor e potencial no quadro mundial e no
hemisfério deixaria de ser um alvo importante na estratégia soviética
de donúnio? A resposta inevitável é Não! E aí estavam as viagens de
Prestes a Moscou, ele que já fora o instrumento na fracassada tenta­
tiva de comunização do Brasil em 1 935, a extensa e intensa peregri­
nação dos dirigentes do PCB a Cuba, à China e até à Coréia do Norte,
o ostensivo apoio de Fidel Castro a Julião e às suas Ligas Campone­
sas, que se acreditava poderiam incendiar o Nordeste. E daí decorre
o alto interesse dos americanos pela política interna brasileira, que
parecia em marcha batida para a comunização.
A pergunta seguinte seria: existiriam no Brasil as condições
propícias ao sucesso de um tal processo revolucionário?
Para podermos responder a esta pergunta é neces sário
relembrar, ainda que sucintamente, a conceituação, componentes,
obj etivos e condições que favoreciam o desencadeamento de um pro­
cesso de guerra revolucionária.
A guerra revolucionária comunista centrava-se no marxis­
mo-leninismo como idéia-força, mas admitia a utilização, quando
necessário, das ideologias intermediárias - subterfúgios para con­
tornar as dificuldades de aceitação, de pronto, do marxismo em algumas
sociedades - representadas pelas chamadas frentes e linhas auxiliares.
PoR QuE jANGO CAIU? 33

Alguns desses componentes essenciais eram cada vez mais


visíveis, em decorrência das ações do governo Goulart, principalmente
após a retomada da plenitude dos poderes presidenciais que lhe fo­
ram restituídos pelo plebiscito de j aneiro de 63, depois do fracasso da
curta experiência parlamentarista. Era intensa a infiltração comunis­
ta no governo, nos sindicatos e nas próprias Forças Armadas, a tal
ponto de Prestes haver declarado eufórico: ''Já temos o governo, fal­
ta-nos o Poder!"\ impressão otimista que transmitiria aos dirigentes
soviéticos em sua visita a Moscou em janeiro de 1964.
O apoio militar a qualquer tentativa revolucionária contava
com alguns dos remanescentes de 35 e com os militares comunistas
ou nacionalistas mobilizados na reação brizolista à tentativa de im­
pedir a posse de Jango. Generais em altos postos, como Osvino Ferreira
Alves (1 Exército) e J air Dantas Ribeiro (UI Exército), confabulavam
com representantes de Prestes e com Brizola. A organização dos
ativistas e das frentes de apoio ia num crescendo assustador; eram os
Grupos dos Onze e as Ligas Camponesas, na área rural, a Frente de
Mobilização Popular, a Frente Parlamentar Nacionalista, a Confede­
ração Geral dos Trabalhadores (CGT), o Pacto de Unidade e Ação
(PUA) , a Aliança Operário-estudantil-camponesa, além das entida­
des tradicionais, infiltradas ou dominadas, como a UNE, a OAB,
a ABI etc.
A guerra psicológica desenvolvia-se intensamente, visando
desacreditar a forma de governo, a Constituição e o Congresso, exci­
tar as massas contra os "privilégios e os espoliadores", exacerbar a
luta de classes, desmoralizar os atos do governo considerados de "con­
ciliação", criar novos padrões de j ulgamento (inelegibilidade dos sar­
gentos, voto dos cabos e soldados, excessivo rigor da disciplina na
Marinha etc.) , ampliar as dificuldades econômicas através de greves,
inflação, anarquia e demagogia salarial, e, ao mesmo tempo, excitar o
34 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

nacionalismo levantando a bandeira da ameaça de intervenção eco­


nômica e militar dos americanos etc., e, finalmente, explorar e exage­
rar as diferenças entre os muito ricos e os muito pobres.
No item sabotagem, a ordem era prej udicar as fontes de pro­
dução, insuflando a greve política, com ou sem motivos, e embora
ainda não houvesse a guerrilha, o terrorismo psicológico seletivo já
era praticado, procurando intimidar ministros com ameaças de de­
missão, desmoralizando autoridades e transferindo de guarnição ofi­
ciais sabidamente anticomunistas.
A te o ria da guerra revol uc ionári a e n s i nava q u e s e u
desencadeamento e sucesso dependiam d e certas condições, a saber:
minoria atuante, contradições internas, liderança ativa, ineficiência
ou despreparo das Forças Ar madas, ideologia adequada, área geográ­
fica favorável e apoio da população.
Dessas condições, uma que naquela época não aparecia com
muita nitidez era a existência de uma liderança ativa e eficiente. A
liderança política era difusa entre um Presidente hesitante, seu cu­
nhado, que contra ele conspirava, e Prestes, de quem Havana des­
confiava. Por outro lado, o barulho dos a tivistas dava a impressão de
apoio popular. Embora minoria, eram atuantes os quadros do PCB e
seus simpatizantes, infiltrados em outros partidos, e a linha auxiliar
representada pelas entidades acima mencionadas. Muitas das contra­
dições da sociedade daquela época ainda se fazem presentes nos dias
de hoje: subdesenvolvi mento, desigualdades regionai s e sociais,
corrupção e venalidade.
A eficiência das Forças Ar madas era prej udicada pela insu­
ficiência de pessoal e material, escassez de recursos, falta de uma
clara diretriz para o preparo e a profissionalização, infiltração comu­
nista, ten tativas de quebra da hierarquia, politi zação facciosa e
carreirismo de alguns chefes, exemplificado no já citado telegrama do
General Jair Dantas Ribeiro, então comandante do III Exército, com­
prometido com o esquema do plebiscito e indicado como futuro mi-
POR QUE JANGO CAIU? 35

nistro de Jango. Os chamados "generais do Povo" faziam proselitismo


abertamente, mas seu prestígio era duvidoso. A maioria da oficialida­
de era legalista, mas anticomunista.
Na busca de uma ideologia intermediária ou de uma idéia­
força adequada às condições brasileiras, os subversivos daquela épo­
ca defrontavam-se com as dificulades decorrentes de nossos hábitos
políticos, de nossas diferenças regionais, dos interesses regionalistas
e de peculiaridades culturais. O espectro ideológico (e que ainda hoje
caracteriza as esquerdas brasileiras, inclusive o PT) incluía o marxis­
mo-leninismo, o socialismo, o esquerdismo, o reformismo, o trabalhismo,
o sindicalismo, o nacionalismo e até o desenvolvimentismo. As ideolo­
gias intermediárias mais usadas eram a das reformas de base e o nacio­
nalismo, que influenciava boa parte dos militares.
Uma das condições mais importantes para o sucesso da guer­
ra revolucionária em qualquer país não estava presente em 1 964: o
apoio da população. Apoio fundamental, que viria a faltar também,
tempos depois, na fase crítica da luta armada e só de forma parcial
conseguida pelo longo trabalho empreendido pelo PC do B nas fases
de implantação da guerrilha do Araguaia.
Naquela exposição, propusemos ainda a seguinte pergunta:
por que perdeu o comunismo internacional tão boa oportunidade de
apossar-se do maior país da América Latina? Existiam as necessárias
condições? Foram exploradas? Quais as causas do fracasso?
Em 1 964, as respostas - que depois seriam buscadas intensa­
mente pela própria esquerda - seriam: a falta de uma liderança
aglutinadora, competente e confiável, a falta do apoio popular, a ilusão
de um pretenso dispositivo sindical-militar e a coesão e o espírito demo­
crático das Forças Armadas. A liderança, como vimos, era dividida entre
o radicalismo de Brizola - em quem os comunistas não confiavam - e
as hesitações de Jango cm apoiar a tomada violenta do poder, receando
ser engolido pelo impetuoso cunhado ou derrubado pelos vermelhos.
36 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Imaginar que a continuação desse quadro, que nos levaria


fatalmente a um autoritarismo de esquerda com predomínio comu­
nista, poderia ser benéfico para o povo brasileiro é desmentido de
maneira cabal pelos resultados do chamado socialismo real, pesadelo
de que só agora vem acordando a Europa Oriental e que continua
fazendo de Cuba uma nódoa de escravidão e atraso. As propaladas
re formas - esquematizadas em um plano elaborado por Celso Fur­
tado, ministro de Jango, e que não resistiu a três meses de desgoverno
- passaram a ser reclamadas "na lei ou na marra", como pretexto
para justificar o fechamento do Congresso e o assalto ao poder que as
Forças Armadas impediram . Dizer que Jango foi derrubado pelos que
se opunham a tais reformas é prova de ignorância ou prática de
grossa mistificação.
Diante desse quadro, podemos concl uir que o lapso de
.filturologia retrospectiva do jovem Marcelo Paiva só pode ser atribuído a
alguém que escreve muito, mas observa e lê muito pouco. Não leu,
por exemplo, o já citado livro do jornalista de origem espanhola Luís
Mir - A revolução impossível-, publicado em 1 994, e que retrata em
cores vivas o quadro da ameaça comunista que levou à reação popu­
lar, à qual aderiram as Forças Ar madas brasileiras.

NOTAS

1 - Ver o capítulo 19: "Apreciações sobre um debate."


2 - Trata-se do então sargento \'V'a lmor \'V'eiss.
3 - Tal frase teria sido dita a Miguel Arraes, então governador de Pernambuco, e revela
que Prestes tinha consciência de que o Governo é apenas uma parte do poder nacional,
como componente da expressão política desse mesmo poder.
O DIA SEGUINTE

O movimento cívico-militar que derrubou Jango foi vitorio­


so de forma incruenta e com rapidez espantosa. A expectativa, inclu­
sive internacional, de uma guerra civil frustrou-se felizmente. A frota
naval que viria "mostrar a bandeira" e demonstrar o apoio americano
aos anticomunistas, nem saiu de sua base no Caribe. O alardeado dis­
positivo sindical-militar de apoio ao presidente, simplesmente não
existia. Essa constatação acabou paralisando os poucos elementos dis­
postos à reação.
Começava, então, a fase mais difícil da regeneração e recons­
trução do edifício nacional, deixado quase em cacos pela ação solerte
do peleguismo e da demagogia.
O "grande mudo" falara mais uma vez e desta vez diante do
verdadeiro clamor da sociedade, alarmada com os rumos do país, açoita­
do pela grave crise política e institucional descrita no capítulo anterior.
Rumos tão graves e funestos que soa ridícula a acusação, até hoje sus­
tentada pela esquerda, de que a derrubada de Jango foi comandada de
Washington, preocupada com a sovietização da grande nação sul-ame­
ricana, fiel da balança nesta parte do continente. 1 Os próprios senti­
mentos de autodefesa da sociedade desencadearam os mecanismos de
rejeição e que, por circunstâncias da conj untura internacional, tam­
bém coincidiam com os interesses americanos em sua estratégia glo­
bal da Guerra Fria.
38 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Mas se a tarefa de depor Jango fora relativamente fácil, pela


unanimidade das diversas correntes em torno do denominador co­
mum da luta contra o comunismo - que assustara a burguesia nacio­
nal -, a obra de reorganização começaria esbarrando nas ambições
políticas colocadas por trás de cada adesão civil. E aí logo esboçaram­
se os desvios e as divergências que iriam dificultar a busca de soluções
nos longos anos por vir e que hoje são chamados de "anos de chum­
bo" pelos derrotados da época.
A escolha de Castello Branco para a chefia do governo fora
correta, mas o processo de sua eleição levaria ao erro de autolimitar a
ação revolucionária, concordando com um curto mandato para o pre­
siden te, aceitando a estrutura política viciada e podre representada
pelo vice Alkimin, e deixando de promover drástica reforma no Judi­
ciário. Logo essas indecisões ficariam patentes e exigiriam novas e su­
cessivas medidas parceladas, tomadas sob a pressão dos acontecimen­
tos e dos interes ses personalistas, numa série infindável de casuísmos,
como passaram a chamá-las, não sem certa dose de razão, os adversá­
rios do sistema.
Pela primeira vez, desde a proclamação da República, as For­
ças Armadas haviam resolvido assumir as responsabilidades de gover­
no. Castello as queria de curta duração e, democrata e legalista, após
uma acelerada fase corretiva e reformista que mudaria a face do país,
encetou a reconstitucionalização do Estado brasileiro, fazendo votar e
promulgando nova e mais adequada Carta Constitucional, mas foi sur­
preendido pela ação de radicais e oportunistas, que lhe impuseram um
sucessor que, despreparado e sem visão do real alcance das medidas,
não deu seguimento ao programa modernizador de Castello Branco.
Ainda hoje pagamos por isso.2
As indecisões, as vaidades e os desentendimentos patentes e visí­
veis no dispositivo revolucionário durante o processo da sucessão de Castello
deram alento à agitação subversiva e contestatária, que refluíra após a derro­
ta de 64, mas que começava a reorganizar-se, mais insidiosa e mais agressiva.
o DIA SEGUINTE 39

O mundo veria o explodir do inconfor mismo de uma gera­


�·ào atormentada por perplexidades existenciais. Logo os reflexos dos
d1ienlit e dos bogotazo chegariam ao Brasil, assoprados pelos interesses
da subversão comunista e da Guerra Fria. Os compromi ssos demo­
cr;iticos de restauração institucional, assumidos pelo movimento de
março de 64, seriam atropelados pela ação violenta de uma parte im­
portante da esquerda que, insuflada e apoiada materialmente por Pe­
quim, Argel e Havana, adota a guerrilha e o terrorismo. Es tava prepa­
rado o cenário para a entrada em cena dos personagens cujas ações
muito sangue e aflições iriam cus tar, desaguando no retrocesso
incontornável e necessário do AI-5 .

***

As palavras acima - reproduzidas de meu livro Jv1eninos, ett


também vi, publicado em 1 989 - e escritas por quem nunca participou
ou teve acesso aos meandros superiores do Poder, poderiam parecer
pretensiosas ou meras opiniões pessoais. Sem qualquer surpresa, as
encontro validadas em inúmeras passagens do livro-depoimento do
ex-Presidente Geisel. Se não, vejamos:
- Eleição de Castello
"O fato é que havia rivalidade entre os governadores, todos
com suas ambições. ( ... ) Escolhido Castello, era necessário assegurar
sua eleição pelo Congresso, pelo restante do período governamental,
fórmula prevista inclusive para dar-lhe o cunho de legalidade. E aí, para
assegurar a maioria, foi necessário o entendimento com o PSD. Líde­
res desse partido, o levaram para uma conversa com o J uscelino. O
que resultou dessas conversações foi a escolha de Alkimin para vice­
Presidente" (pág. 1 67) . ( .) Só que o Castello pensou que pudesse
" . .

resolver tudo em pouco tempo e a realidade mostrou que isso não era
viável"(pág. 1 73) . (O grifo é nosso.)
40 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

- Prorrogação do mandato
"Nós achávamos que devia haver a prorrogação porque o
manda to dele, para completar o período do Jango, era muito reduzido
e insuficiente para realizar o que achávamos que ele tinha que fazer"
(pág. 1 78) .
- Falta de um proj eto
"Nós não íamos muito longe em nossos projetos. Acháva­
mos que com o tempo se acertavam as coisas e, evidentemente, have­
ria eleição ao fim do mandato" (págs. 1 79 e 200) .
Dispenso-me de maiores comentários, mas é inacreditável
que os mesmos homens que haviam quebrado a normalidade consti­
tucional, depondo, com carradas de razão, um presidente que estava
levando o país ao caos, ficassem preocupados em aparentar um "cu­
nho de legalidade" para atos que se esperava fossem revolucionários e
fossem buscar essa pseudolegalidade em fontes políticas tão espúrias.
É o que poderíamos chamar "o susto do poder". Aí começaram a ser
plantadas as sementes do Al-5.

NOTAS

1 - Marcos Sá Corrêa, 1 964 - visto e comentado pela Casa Branca, 1 976.


2 - O despreparo e a insegurança ficariam patentes no pedido de Costa e Silva para
a organização de um "cursinho" sobre economia, de que viria a ser encarregado o
então secretário da Fazenda de São Paulo, o economista Del fim N eto, e que assim
faria sua entrada no cenário nacional. Os tecnocratas da nova equipe, entre eles Reis
Veloso, jogaram às urtigas boa parte do planejamento esboçado pela dupla Bulhões­
Campos, como é exausitivamente mostrado em A lanterna na popa.
MARIGHELLA

Em julho de 1 967 - cinco meses depois da posse do Pre­


sidente Costa e Silva -, Carlos Marighella, convencido de que a li­
nha preconizada por Moscou de coexistência pacífica e de tomada
do poder através do trabalho de aliciamento das massas - que era a
posição adotada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) - não
levaria a nada, resolveu optar pelo caminho da violência revolucio­
nária, desafiar o "Partidão" e seguir para Cuba, onde já estivera inú­
meras vezes, a mando de Prestes. Criticado por isso, já em agosto do
mesmo ano rompia definitivamente com o Partido. Na mesma data, em
carta, deu total apoio às decisões de Havana, escrevendo, textualmente:
"No Brasil há forças revolucionárias convencidas de que o
dever de todo revolucionário é fazer a revolução. São estas forças
que se preparam em meu país e que j amais me condenariam como fez
o Comitê Central, só porque empreendi uma viagem a Cuba e me
solidarizei com a Organização Latino-americana de Solidariedade
(OLAS) e com a revolução cubana."
Em carta de agosto de 1 967, dias após haver rompido com o
PCB, escreve ele, anunciando a criação da Ação Libertadora Nacional:
"A experiência da revolução cubana ensinou, comprovando
o acerto da teoria marxista-leninista, que a única maneira de resolver
os problemas do povo é a conquista do poder pela violência das mas­
sas, a destruição do aparelho burocrático e militar do Estado e a sua
substituição pelo povo armado."
Assim, pela negativa de Marighella em aceitar a "via pacífica",
42 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

mandada adotar por Moscou, surgia no Brasil uma organização


terrori sta das mais atuantes e sanguinárias: a Ação Libertadora
Nacional (ALN) . Para melhor orientar sua organização, Marighella
publicou e difundiu em junho de 1 969 o Minimanual do guerrilheiro
urbano que viria a ser a "bíblia" das Brigadas Vermelhas italianas e do
Baadcr Meinhoff da Alemanha. Nesse manual pode-se ler:
"No Brasil, o volume de ações violentas praticadas pelos
guerrilheiros urbanos, incluindo mortes, explosões, captura de armas,
assaltos a bancos etc., já representa algo de ponderável para não deixar
margem a qualquer dúvida sobre os reais propósitos dos revolucionários.
O justiçamento do espião da CIA, militar norte-americano que veio
da guerra do Vietname, Charles Chandler, de tiras e policiais-militares
que têm sido mortos em choques sangrentos com os guerrilheiros
urbanos, tudo isto atesta que estamos em plena guerra revolucionária
e que a guerra só pode ser feita através de meios violentos."
E em outro trecho prescreve:
"Em primeiro lugar, o guerrilheiro urbano precisa usar a
violência revolucionária para identificar-se com as causas populares
e assim conseguir uma base popular. Rejeitando a chamada solução
política, o guerrilheiro urbano deve tornar-se mais agressivo e violento,
valendo-se incansavelmente da sabotagem, terrorismo, expropriações,
assaltos, seqüestros e execuções, aumentando a situação desastrosa
na qual o governo tem de agir."
Mais adiante, no mesmo manual, prevê:
"O Governo não tem alternativa exceto intensi ficar a
repressão. As batidas policiais, buscas em residências, prisão de
pessoas inocentes tornam a vida na cidade insuportável. O sentimento
geral é de que o governo é injusto, incapaz de solucionar problemas e recorre
pura e simplesmente à liquidação jisica de seus opositores. A situação política
transforma-se em situação militar, na qual os militares parecem cada vez
mais responsáveis por erros e violência." (Os grifos são nossos.)
Ao contrário do que tenta fazer crer hoje a esquerda, a simples
MARIGHELLA 43

leitura dos trechos acima permite ver que se tratava de uma guerra
onde os mi1 itantes eram terroristas e não apenas "jovens universitários
idealistas que apanhavam da polícia porque discordavam da ditadura".
Uma guerra onde os militantes eram enquadrados por organizações
muito bem-estruturadas que recebiam do exterior treinamento, armas,
munições e dinheiro. Uma guerra suja e sem quartel, como a queria
M arighella, e que não foi desencadeada apenas em resposta ao
endurecimento do regime com o AI-5, como alguns desmemoriados
tentam agora fazer crer. Muito antes, como salienta o líder da violência,
o terrorismo ensandecido já fazia suas vítimas. Vítimas, inclusive,

feitas como vingança pela morte de Che Guevara na Bolívia em 8 de


outubro de 1 967, que, além do assassinato do capitão Chandler, em
12 de outubro de 68 - de que Marighella se vangloria acima -,
registrou o do major alemão Eduard von Tilo \Vesternahagem, aluno
de uma escola do Exército brasileiro, no Rio de Janeiro, e confundido
com o capitão boliviano Gary Prado, apontado como o responsável
pela morte de Guevara.
Para atingir o nível de violência desejado por Marighella, o
manual ensinava como treinar em quintais de casas, explodir pontes
e ferrovias, levantar dinheiro com o resgate de seqüestros e com
expropriações em bancos, como planejar a liquidação física de policiais
graduados e altas patentes militares, lidar com espiões e informantes
que deviam ser sumariamente executados, enfim, "matar com
naturalidade, pois esta é a única razão de ser de um guerrilheiro
urban o " , rezava a cartilha re s umida em 48 p ági nas de texto
condensado, em tipo miúdo, como é usual nas grandes peçonhas.
Não foi por outro motivo que Marighella morreu de modo
violento, vítima da guerra que ele mesmo declarara à Nação, conforme
narrou o Jornal do Brasil em sua edição de 06/ 1 1 /69:
"Atraído a uma cilada por dois padres presos pela polícia e
usados como isca, o ex-deputado comunista Carlos Marighella morreu
metralhado pelo DOPS ontem à noite na esquina das alamedas Lorena
44 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

e C a s a B ranca, q u a n d o u s av a uma p e ruca c a s ta n h a . D u as


investigadoras participaram da diligência, fingindo-se de namoradas
de outros policiais que vigiavam o local do encontro e uma delas,
Estela de Barros Borges, foi mortalmente ferida na cabeça durante o
tiroteio que os dois acompanhantes de Marighella travaram com os
agentes do DOPS. O plano começou com a prisão dos frades
franciscanos Ivo e Fernando, que após confessarem pertencer ao grupo
Marighella, concordaram em marcar um encontro com o ex-deputado
na alameda Casa Branca. Marighella não foi apanhado vivo porque
seu esquema de segurança, também muito bem armado, reagiu
imediatamente, obrigando os policiais a atirar com as metralhadoras."
Hoje o Erário é obrigado a indenizar as famílias de terroristas
como Marighella, graças à decisão de uma comissão espúria que
desconsidera os fatos para fazer prevalecer sua desfaçatez ideológica. 1

NOTAS

1 - Fonte: livro Rompendo o .riléncio.


ASSAS SINATO A SANGUE FRIO

Acreditando piamente no conselho de Marighella de que "O


dever de todo revolucionário é fazer a revolução e criar dois, três,
muitos vietnames", e dentro da orientação de seus mentores cubanos
e chineses, que insistiam que só com a disseminação dos "focos guer­

rilheiros" seria possível evoluir para o Exército Revolucionário que


assaltaria as cidades, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de­
cidiu criar uma área de treinamento de guerrilha no vale da Ribeira.
Na mesma época ou pouco antes, o MR-8 imaginara montar o seu
pequeno "vietname" no oeste do Paraná, nas proximidades do Par­
que Nacional do Iguaçu. 1
Dessa vez, o local escolhido fo i uma região muito pobre,
úmida, de vegetação cerrada e difícil acesso na altura do quilômetro
260 da BR- 1 1 6, que liga São Paulo a Curitiba.
Em janeiro de 1 970, a VPR começou a deslocar seus mili­
tantes, visando os futuros focos de guerrilha. Veio gente do Rio de
Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Sob o comando de um desertor,
o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, no começo de abril já esta­
vam na área 1 9 militantes, divididos em duas bases. Mas, já nessa
época, desenhava-se o fracasso da empreitada com a prisão no Rio de
Janeiro de dois integrantes da VPR que, não se sabe porque, tinham
todas as informações sobre a área de treinamento em organização.
Percebendo a chegada dos primeiros contingentes do Exér­
cito, Lamarca inicia a desmobilização de seu pessoal e com um pe­
queno grupo interna-se na mata. Dois homens, mandados para um
46 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

reconhecimento, acabam presos e não regressam. Diante disso e re­


duzido a apenas sete homens, Lamarca resolve furar o cerco.
Conseguem carona em um caminhão que ia na direção da
localidade de Eldorado, mas na entrada da cidade defrontam-se com
uma barreira da Polícia Militar de São Paulo (PMSP). Os soldados,
inexperientes, não adotam as medidas de segurança necessárias e são
surpreendidos; vários deles ficam feridos, alguns com gravidade.
Lamarca e seu grupo prosseguem na fuga em direção a Sete Barras,
quando percebem que em sua direção vem uma patrulha da PMSP,
utilizando Uma camioneta e um caminhão. Apesar da inferioridade
numérica, mas sabendo-se superiormente armados, pois possuíam
fuzis automáticos FAL - dos roubados por Lamarca de seu quartel
em São Paulo - enquanto os policiais usavam velhos fuzis Mauser
modelo 1 908, de repetição, os guerrilheiros resolveram enfrentar a
patrulha armando-lhe uma emboscada. Os homens da PM foram atin­
gidos ainda dentro dos veículos, sofrendo muitas perdas e ficando
com vários feridos.
No auge do tiroteio, o comandante da patrulha, tenente
Alberto Mendes J únior, num gesto heróico para salvar seus homens
da morte certa, propõe entregar-se como refém em troca da vida de
seus subordinados. Lamarca aceitou, e o combate terminou. O trato
acertado foi o seguinte: o tenente deixaria seus homens que não esta­
vam feridos em poder dos guerrilheiros como garantia de que não os
denunciaria, enquanto levava os feridos para serem atendidos na lo­
calidade próxima. Assim foi feito, e o tenente regressou como combi­
nado. Lamarca libertou o restante da patrulha após desarmá-los e
levou o tenente como refém, planej ando usá-lo para facilitar sua fuga.
Mas os dias seguintes mostraram que o prisioneiro era um estorvo: a
comida era pouca e tinham que vigiá-lo. No dia 1 0 de maio, Lamarca
tomou a decisão de eliminar o tenente. Não poderiam fuzilá-lo, pois
ASSASSINATO A SANGUE FRIO 47

os tiros certamente seriam ouvidos pelas forças de cerca Resolveram


matá-lo a coronhadas e enterrá-lo ali mesma
No livro A esquerda armada no Brasil, (autor Antônio Caso,
prêmio Testemunho 1 973 Casa de Las Américas, Havana, Cuba) é
-

transcrito um depoimento em que Lamarca mente ao dizer que o te­


nente fora fuzilado e seu corpo jogado no rio Ribeira. Um dos assas­
sinos, preso tempos depois, contou a verdade e indicou o local do
sepultamento. O corpo do tenente Mendes foi exumado em setembro
de 1 970, autopsiado, identificado e sepultado com honras militares.
De seus assassinos, dois foram presos, j ulgados e condena­
dos à morte. A pena foi depois comutada para prisão perpétua e a
seguir para 30 anos. Anistiados, foram postos em liberdade cm 1 979.
Um terceiro não foi a j ulgamento por ter morrido em dezembro de
1 970, ao resistir à prisão num combate de rua em São Paulo. O "juiz"
que presidiu o "tribunal" que j ulgou e condenou o tenente foi o mes­
mo que comandou o pelotão de execução: Carlos Lamarca, que, anos
mais tarde, no sertão da Bahia, foi cercado de novo e, embora arma­
do, não teve nova oportunidade de matar mais ninguém. Hoje é nome
de rua no Rio de Janeiro, personagem de livro e de filme de ficção
política, deixou pensão de coronel para seus herdeiros, a quem o povo
brasileiro, graças ao eficiente trabalho de um dos "acólitos" do Car­
deal Arns - Sr. José Gregori - e ao beneplácito do Sr. Fernando
Henrique Cardoso, e do então ministro da Justiça, pagou uma indeniza­
ção - em valor que um trabalhador de salário-mínimo levaria uma
vida inteira para ganhar - como pedido de desculpas por não ter dado
a ele o direito de transformar este país em um enorme Vietname 2...

NOTAS

1 - Ver capítulos 6 e 7.
2 - Fonte: Rompendo o silê11cio.
O CARTÃO DE VISITAS

Parecia ser um acidente nor mal de trânsito. Assim certa­


mente pensou o guarda ao aproximar-se da pequena aglomeração que
se formara em torno do jipe que abalroara um outro carro. Os dois
ocupantes do jipe, muito jovens e nervosos, pareciam estar com pressa
de solucionar o incidente e não regatearam o preço exigido pelo pre­
j udicado. A aproximação do policial pareceu inquietá-los ainda mais,
e o guarda resolveu abordá-los, j ulgando tratar-se de delinqüentes
comuns. Pediu os documentos e um dos rapazes apresentou uma car­
teira que o identificava como agenciador de madeira para a Compa­
nhia Nacional de Navegação Costeira, expedida em Niterói. Cada
vez mais desconfiado, o policial, com grande presença de espírito,
indagou qual o preço de determinada madeira. Enquanto o interroga­
do, surpreso, gaguejava uma resposta, seu companheiro, em pânico,
fugia em desabalada carreira pelas ruas de Cascavel.
O policial deu voz de prisão ao moço louro que usava seu
verdadeiro nome (AP) e conduzia no jipe mochila com farta docu­
mentação que o apontava como membro de uma organização sub­
versiva não identificada. Entre os papéis apreendidos havia um mi­
nucioso diário de atividades que permitiu saber que havia uma séria e
insuspeitada ameaça naquela área. O grupo guerrilheiro de fora -
possivelmente Niterói - adquirira nas proximidades de Cascavel um
sítio onde, fazendo-se passar por agricultores, estava estabelecendo
uma área de apoio para treinamento de guerrilha.
50 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

A nossa falta de preparo para enfrentar tal tipo de ameaça


era compensada pelo relativo amadorismo inicial dos subversivos,
cuja presença na área poderia ter sido percebida e identificada muito
antes, tivesse o delegado de Cascavel - um major da Polícia Militar
- demonstrado o mesmo interesse e perspicácia de seu subordinado
ao lidar com o incidente do jipe. De fato, os moradores da redondeza,
intrigados com aqueles novos sitiantes que tinham hábitos muito es­
tranhos - dormiam o dia todo e costumavam praticar tiro ao alvo -
procuraram o delegado, mas viram suas suspeitas serem recebidas
com total desinteresse.
Entre os papéis em poder do preso, despertou atenção um
cartão de visitas de um cidadão residente em Londrina e que no inter­
rogatório em Cascavel - no qual AP alegou ter recebido maus tratos
- foi apontado como chefe da célula a que pertencia o moço louro.
O cidadão - um pacato comerciante - foi preso e recambiado para
Curitiba. Contava uma história bem diferente: conhecia o moço e era
amigo de seu pai, que morava em Niterói; fora procurado pelo rapaz
em Londrina, alegando falta de dinheiro para retornar. Hospedou-o
em sua casa, comprou-lhe passagem e ao levá-lo à Rodoviária deu­
lhe seu cartão. AP, depois de três dias mantendo sua história, final­
mente e sem lhe ter sido tocado um fio de cabelo, resolveu revelar a
verdade, que coincidia com o que alegava o comerciante. Agora, cer­
tamente, dirá que também foi torturado pelo Exército ...
Não sei o que pensará hoje o cidadão, preso injustamente
por uma denúncia falsa de um aprendiz de guerrilheiro que, tempos
depois e já condenado, foi banido em troca da liberdade do embaixa­
dor da Suíça. A única coisa que pude fazer na época foi colocá-lo
frente a frente com seu acusador e perguntar-lhe se sabia por que fora
preso. Ante a resposta negativa, num impulso de que não me arrepen­
do, disse ao moço louro:
- Agora, seu patife, você vai contar ao amigo de seu pai
porque ele ficou preso e incomunicável durante estes dias.
0 CARTÃO DE VISITAS 51

Sem dar mostras de nenhum arrependimento, o sujeitinho


reconheceu que mentira e o comerciante foi mandado embora, com
nossas sinceras, mas inúteis, desculpas. Coisas dos "porões" ...
DESMANTELANDO O MR-8

Algum tempo depois dos eventos narrados no capítulo an­


terior, no Centro de Informações da Marinha (Cenimar), no Rio de
Janeiro, um oficial dava um pulo de sua cadeira. Perdida num canto
de uma página do jornal, lá estava uma notícia vinda de Curitiba que
dava conta da prisão pela Polícia Federal de quatro suspeitos de não
declarado delito. Pelos nomes o oficial viu tratar-se de quatro dos
integrantes já identificados de uma organização comunista, recente­
mente descoberta, o MR-8.
A prisão se devera a mero acaso e à ação de um motorista de
Guarapuava, no Paraná. Os quatro homens o haviam contratado para
levá-los a Cascavel. Durante a viagem, o motorista achou estranhos
os modos de seus passageiros, que falando aos sussurros e usando
palavreado esquisito pareciam nervosos e muito apressados. Pensou
que fossem criminosos comuns. Ao pararem para almoçar na cidade
paranaense de Laranjeiras do Sul, o motorista, com uma desculpa
qualquer, foi à delegacia de policia e relatou o que ocorria, e suas
suspeitas. Os quatro homens foram presos e assim iniciou-se o
desmantelamento do MR-8 no Paraná, ao qual, aí o soubemos, per­
tenciam os ocupantes do jipe do incidente de Cascavel.

***

Certa tarde, acabara de chegar em casa, vindo do quartel, e


logo o telefone toca, fato a que já me habituara naqueles tempos de
combate aos terroristas. Era o encarregado de uma diligência em an-
54 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

<lamento nas operações de desmantelamento do MR-8 que fazíamos


em conj unto com o pessoal do Cenimar, do Rio, de onde era originá­
rio aquele grupo empenhado na luta armada. Haviam prendido na
rua um indivíduo que revelara a e xistência de um aparelho em um
apartamento em pleno centro de Curitiba e do qual ele possuía a cha­
ve. Solicitavam minha autorização para invadir o apartamento sem
demora, sob pena de perder-se a oportunidade de efetuar novas pri­
sões e neutralizar aquele local dissimulado de apoio à subversão. Não
tínhamos um mandato. E se se a informação fosse falsa? E se tratasse
de uma residência de alguém que nada tinha a ver com o MR-8? Es­
sas possibilidades existiam e o preso poderia estar procurando ganhar
tempo e nos desorientar. Resolvi assumir a responsabilidade e - em
nome do meu comandante - dei a permissão. De há muito firmara-se
em mim a convicção de que a garantia constitucional da inviolabilidade
do domicílio, por ser este o refúgio legítimo do cidadão, não se aplica­
va àqueles valhacoutos de guerrilheiros. Dei ciência ao meu superior
imediato da minha decisão e a vi aprovada.
Duas horas depois, toca de novo o telefone e ouço do outro
lado da linha a voz angustiada do oficial:
- Chefe, deu "galho"! - e ele me descreve o que se passa­
ra, pedindo minha orientação. Um agente policial, de posse da chave
do apartamento, abriu cautelosamente a porta, já de arma em punho.
Percebeu sentado em uma escrivaninha frente à porta um jovem de
seus 1 8 anos. Surpreso, o rapaz, que escrevia à máquina, pára seu
trabalho e procura apanhar algo em uma das gavetas - uma arma
sem dúvida. O policial atira, a bala ricocheteia na máquina, enquanto
o jovem empunha um revólver, mas recebe um tiro que o atinge no
pescoço e o derruba. Julgado quase morto, é levado às pressas ao
hospital civil de pronto-socorro. Uma jovem portuguesa é também
presa no apartamento. O incidente ameaça o sigilo da operação. Aos
curiosos que se aglomeraram à saída do prédio é dito que se tratava
de uma operação antidrogas, mas logo os repórteres que fazem a co-
DESMANTELANDO o MR-8 55

bertura dos eventos policiais nos hospitais estarão lá e será muito


difícil evitar sua divulgação, o que, fatalmente, alertaria os demais
integrantes da organização subversiva.
N ão há tempo a perder, e parto para o hospital. No caminho
procuro colocar as idéias em ordem e pensar no que fazer naquelas
circunstâncias. Continuávamos sem estrutura para enfrentar uma guer­
rilha urbana como aquela, cheia de imprevistos. Felizmente o jovem
tivera muita sorte e nós também: milagrosamente a bala não atingira
nenhum vaso ou órgão vital e o moço, que apenas perdera algum
sangue, estava fora de perigo e forte o suficiente para tentar agredir
um dos policiais que o custodiavam. Chamei o interno de plantão,
identifiquei-me e disse-lhe que pela necessidade do sigilo iríamos re­
colher todos os documentos relativos ao caso e evacuar o ferido para
o hospital militar, onde ele teria atendimento médico e iria ficar sob
custódia. Solicitei que ele e seus auxiliares esquecessem o caso e ne­
nhum comentário fizessem sobre o ocorrido.
Tínhamos que manter presa e incomunicável a portuguesa,
e a solução foi recolhê-la a um pequeno quarto no último andar de
nosso hospital, cujo diretor, alarmado, não cessava de reclamar pelas
novas funções de uma de suas dependências. Horas depois, fui fazer
uma visita à presa. Encontrei uma jovem de cabelos escuros, rosto
largo, feições duras e cara de poucos amigos. Ao ver-me, indagou
com seu sotaque d' além-mar e um perceptível brilho de ódio nos olhos:
- Q u e fi ze ram com o Fulano? Vo c ê s o matara m ,
seus assassinos!
Tenho certeza que, se pudesse, teria pulado no meu pesco­
ço e me esganado. Era bem mais velha que o secundarista seu amásio.
Tentei aquietá-la, dizendo calmamente:
- Seu amigo tem mais sorte que j uízo. Ele está bem, aqui
mesmo neste hospital.
- Mentira! - Foi a resposta irada. - Vocês o mataram,
assassinos!
56 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

Não lhe dei nova resposta. Aquilo era o resultado da doutri­


nação que incutia na mente dos militantes a convicção de que os
agentes da lei eram bandidos sádicos que tinham prazer em matar.
Mandei que fechassem a porta e a deixei com sua dúvida e seu ódio,
igual ao de tantos jovens recrutados pela subversão, capazes de ma­
tar e destruir, na tentativa vã de implantar um regime bolchevista em
nosso país. Ó dio que o governo Fernando Henrique está recompen­
sando com gordas indenizações pagas pelo povo brasileiro.
Não sei por onde andará a portuguesinha, e nem seu nome.
Talvez ande por aí, sendo entrevistada por alguma pesquisadora e
contando como foi "seviciada e estuprada" por seus carcereiros.

***

A confortável e ampla casa no meio de um aprazível terreno


da rua Alferes Poli, no centro de Curitiba, alugada recentemente pelo
caixeiro viaj ante, parecia a morada típica de uma família de classe
média, onde duas crianças, freqüentemente, enchiam o jardim com
suas correrias e seus brinquedos. No entanto, essa fachada encobria o
esconderijo de Fyatt, codinome de um dos líderes do MR-8. Identifi­
cado o morador, uma operação para prendê-lo foi montada.
Um agente, utilizando um pretexto qualquer, bateu na casa
procurando pelo chefe da família. A mulher, aparentemente sem nada
suspeitar, o atendeu e disse que seu marido estava viajando e que não
sabia quando ele voltaria. Nesse momento, uma das crianças, de uns
cinco anos, na sua inocência, ajudou-nos e entregou o pai dizendo
que ele só voltaria no domingo. Era verdade, e contou-me depois o
encarregado da operação o quanto o tocara aquele detalh e amargo,
quando a alegria ingênua de uma criança acabara, involuntariamente,
servindo a um fim tão desagradável.
As crianças e sua mãe foram retiradas da casa por medida de
segurança e precaução e no domingo seguinte Fyatt, ao regressar, em
vez da família, encontrou em casa agentes da DOPS que o prende-
DESMANTELANDO o MR-8 57

ram. Com ele foram apreendidos mais de 60 milhões de cruzeiros em


dinheiro, parte dos bilhões roubados do Banco do Brasil pelo "Bom
Burguês" e que, além de financiar o MR-8, foram engordar a conta na
Suíça do antigo e esperto gerente.
E SPERANDO CÍCERO

O órgão de informações ficara sabendo que o líder de uma


das facções mais violentas e radicais engaj adas na luta armada e in­
sistentemente procurado pernoitaria em um apartamento bem no cen­
tro de Curitiba, em uma próxima passagem pela capital do Paraná. A
informação viera de São Paulo e indicava uma determinada noite
para a vinda de Cícero, codinome do terrorista.
Uma operação para tentar prendê-lo foi montada e exigia a
confirmação do esquema de apoio denunciado. Para isso o encarre­
gado da operação chegou à portaria do edifício numa das áreas mais
movimentadas da cidade. Eram quase sete horas da noite. A campai­
nha do interfone foi acionada em meio a uma grande expectativa, uma
vez, duas vezes. Silêncio angustiante. Finalmente alguém atendeu:
- Pronto! Quem é?
- Aqui é o Cícero - foi dito, conforme a senha que teria
sido combinada.
Nova pausa. Há uma certa impaciência e nervosismo entre
os policiais. E se Cícero já houvesse chegado? Finalmente, a resposta
pelo interfone soou tranqüila:
- Sim, já abro. Era a confir mação do esquema. Rapida­
mente os agentes entram e logo estão à porta do apartamento indica­
do. Nova expectativa e nova identificação. A porta é aberta e o apar­
tamento invadido. Lá dentro um jovem casal tem dificuldade para
entender o que está ocorrendo. O rapaz, um engenheiro, funcionário da
Universidade, e a moça, estudante de Medicina, parecem muito surpresos.
60 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

Uma busca é dada no local e nad a é e n co n trado. Fica evi­


dente que os dois não conheciam Cicero e, provavelmente, não sabiam
de quem se tratava, mas têm de s e r presos e interrogados. A esposa,
como em outras ocasiões, teve tam b ém de ser colocada num peque­
no c u bíc u lo no hospital militar, por falta de outro local de custódia.

O marido foi mandado p:-ua uma pris�to im p rovisa d a, a cargo da PE.


Eu estava i nclinado a ac1 editar que o casal, aparentemente, não fazia
parte do esquema subversivo. A imp o r tânci a do personagem e a ne­
cessidade de sua segurança impunham que poucos soubessem a ver­
dadeira identidade do viajante. Mantivemos durante alguns dias agen­
tes oc up a ndo o a p artam ento à es p era de Cícero, um dos codinomes
u sad o s pelo chefr terrorista.
No dia seguinte à dilj��ência, frij visitar o preso. Queria ouvi­
lo e rc ntar ajui z ar melhor seu real envnlvimcnto. Encontrei um ho­

mem ab atido e , ao mes m o t empo, r e vo l tado. Conversei com ele


longamente. Dei-l h e notícias de sua espos��- Disse-me que eu era a
primeira p es soa q l:' '� o tratava com dignidade. Quis s ab er o que ocor­
rera e o pres o revelou que sua revolta d evia s e principalmente ao fato
-

de, ao chegar à prisão, ter sido d e spoj ado de suas roupas e assim
m a n ti do por a lg um tempo. Fiz-lhe ver q ue !1 suspeita de pertencer a
um dos grupos terrorista!; mais vi olemos do país exigia que lhe fos­
sem aplicadas medidas especiais de segurança, até que a situação fos­
se mais bem e sclarecida, inclusive tendo em vista a preocupação de
seus carcereiros em �vitar a repeti ção de:.: incic�.,"!nte havido com outro
preso que tentara enforcar-se com uma peça de roupa. Ele pareceu
entender a situação.
A inocência da j ovem foi logo constatada e ela, a seguir,
libertada. Cícero foi aguardado durante alguns dias, mas não apare­
ceu. �ais tarde ficou-se sabendo que , ; dono do apartamento tinha
um irm ão em São Pauio que era membro da organização suhver�i va
chefiada por Cícero. A pedido do irmão, o e ngenh ei ro concordara cm
ESPERANDO Cf CERO 61

hospedar em seu apartamento uma pessoa amiga que estaria de passagem


por Curitiba. E sem nada suspeitar, ele estava concordando em abrigar por
uma noite em sua casa nada mais, nada menos, que Carlos Marighella.

***

Algum tempo se passa e o caso já não era de minha alçada,


quando um dia entra em minha sala a jovem senhora. Reconheço-a e
noto-lhe o nervosismo e o extremo constrangimento. Faço-a sentar e
indago o que desejava. Muito sem jeito, ela me conta que, depois da
desocupação do apartamento pelos agentes, dera por falta de umas
jóias. Sinto um calafrio percorrer-me a espinha; agora o constrangi­
mento era meu. Como um raio assalta-me um pensamento e uma
certeza: houvera uma "bobeada" e cometêramos uma tremenda im­
prudência não lacrando na presença dos donos os ar mários e móveis
onde houvesse coisas de valor. Assegurei-lhe que tudo seria devida­
mente apurado e os responsáveis punidos, e, mais que isso, recupera­
ríamos os objetos ou lhe ressarciríamos o prejuízo. Com essa certeza,
a vi partir, e pareceu-me mais tranqüila e aliviada. Imediatamente, fiz
vir a minha presença o major comandante da PE, companheiro em
quem depositava inteira confiança. O major ficou tão chocado quan­
to eu, e mais envergonhado, pois parte do pessoal que ficara de guar­
da no apartamento era da PE. Prometeu-me apurar rápida e rigorosa­
mente o ocorrido. E assim o fez. Uma rápida sindicância foi feita e o s
responsáveis prontamente identificados: um sargento da PE e um
agente da Polícia Civil, que colaborava conosco. As jóias foram recu­
peradas e devolvidas; o sargento foi punido disciplinarmente e ex­
cluído, mas não sei o que aconteceu com o civil. Alguém poderá objetar:
um crime foi acobertado. Esse que atire sua pedra, mas continuo con­
vencido que a punição disciplinar foi mais rápida e mais eficaz que um
longo, espalhafatoso e duvidoso processo criminal. Logo apareceria um
rábula para achar e explorar as brechas da lei ou do processo. E, no fim,
não haveria punição alguma. Não é assim que quase sempre acontece?
O QUE É ISTO, COMPANHEIRO?

O episódio do seqüestro do embaixador norte-americano


ocorrido no dia 4 de setembro de 1 969 voltou a ser intensamente
explorado e debatido quando da exibição do filme sobre o fato e ba­
seado no livro escrito por um dos personagens, Fernando Gabeira.
Um feito da esquerda semelhante já havia merecido destaque com a
minissérie da TV Globo, Os anos rebeldes, esta baseada em outro livro:
o de Alfredo Sirkys, Os carbonários. Esses dois livros, ambos publica­
dos em 1 988, foram dos primeiros a vir a lume no Brasil na longa
série de escritos que a esquerda produziu contando sua versão da
história dos anos que eles mesmos contribuíram para tornarem-se
"anos de chumbo".
O filme baseado no livro de Gabeira foi considerado pelo
j ornalista Elio Gáspari - um contumaz detrator dos militares -
uma fábula, e por ele contestado e criticado em sua página dominical
reproduzida pela Gazeta do Povo de Curitiba, em 4 de maio de 1 997.
Por essa época um tal de Alberto Berquó publicou sua versão do
seqüestro, entremeada de transcrições de notas sociais da época para
tornar o livro um pouco mais grosso. Tanto esse livro como os repa­
ros do colunista, por sua vez, também incluem algumas fabulações,
dando razão a quem afirmou que todo fato tem três versões: a minha,
a tua e a verdadeira. Aqui vai a tirada do livro Rompendo o silêncio, com
o qual o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra desmascarou as fábu­
las montadas pela então deputada Bete Mendes.
64 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

O seqüestro foi uma ação conjunta da Ação Libertadora


Nacional (ALN), de Marighella e da facção dissidente do PCB -
Dissidência da Guanabara (DI) com o objetivo de dar repercussão
internacional à luta armada desencadeada contra a ditadura e desmo­
ralizar o governo. A idéia inicial foi da Dl 1 - que após essa operação
assumiria a denominação de Movimento Revolucionário 8 de Outu­
bro (1\1R-8), em homenagem à data da morte de Che Guevara, e tinha
em mira trocar o embaixador pela liberdade de alguns terroristas pre­
sos. Como o MR-8 tinha pouca experiência, procurou o apoio da ALN ,
através de seu chefe Toledo, que mandou ao Rio de Janeiro três de
seus principais militantes: Jonas, Geraldo e Sérgio, como os demais,
aqui citados por seus codinomes, em respeito à lei que os anistiou de
seus crimes. O Berquó deu o nome aos bois.
O levantamento dos hábitos do embaixador foi feito por
Honório (Gabeira) e Marta. Esta fingiu enamorar-se de um dos poli­
ciais responsáveis pela segurança do embaixador e, desse modo, con­
seguiu todos os dados necessários ao planejamento da ação. O filme,
como está na moda, mostra a guerrilheira transando com o policial
para permitir-lhe obter o que queria, o que é veementemente des­
mentido por Gaspari, em defesa da honra da jovem. Fica a dúvida,
irrelevante por sinal, se Marta dormiu ou não com o policial. O nor­
mal nesses relatos é dizer que o policial estuprou a jovem ...
Quando tudo estava pronto, Toledo deslocou-se para o Rio
de Janeiro a fim de comandar a operação, diretamente de uma casa da
rua Barão de Petrópolis, alugada algum tempo antes por Gabeira,
para ser usada como aparelho, e que foi aproveitada para esconderijo
do seqüestrado. O que teria sido um dos erros cometidos no planeja­
mento da ação terrorista.
Eram quase 1 Sh do dia escolhido quando o Sr. Elbrick, após
o almoço, ia de sua residência em Botafogo para a Embaixada, no
centro da cidade. Ao atingir o largo dos Leões, seu Cadillac foi inter­
ceptado por um Volkswagem dirigido por Waldir. Nesse momento,
0 QUE É I STO, COMPANHEIRO? 65

Jonas e Sérgio, abrindo as portas traseiras, entraram no carro. O em­


baixador foi obrigado a sentar-se no assoalho, com as mãos na nuca.
Enquanto isso, dois outros terroristas, Pedro e Geraldo, entrando pelas
portas dianteiras imobilizaram o motorista e um deles tomou-lhe o
boné e a direção do veículo, que abandonou rapidamente o local para,
uns quarteirões mais adiante, parar j unto a uma Kombi, previamente
estacionada, e para a qual devia ser transferido o Sr. Elbrick. Nesse
momento, como o diplomata parecesse resistir à troca de carro, Sér­
gio aplicou-lhe violenta coronhada na cabeça que o fez sangrar abun­
dantemente. O embaixador foi finalmente retirado do carro, jogado
no chão da Kombi e coberto com uma lona. De pronto partiram rumo
ao esconderijo, mas cometeram outro erro: deixaram livre o motoris­
ta que viu a Kombi e memorizou a placa. Essa falha permitiu que em
poucas horas a policia descobrisse onde estavam escondidos os ter­
roristas e o embaixador. A casa passou a ser vigiada e seguidos os que
dela saíam para fazer compras ou difundir as mensagens sobre o se­
qüestro. Um policial chegou a bater à porta para verificar a reação dos
terroristas e tentar certificar-se do que se passava no seu interior. Nesse
momento, Jonas obrigou o embaixador a deitar-se no chão e o imobili­
zou com uma arma apontada para sua cabeça. Havia a suspeita de que,
se a policia entrasse, o Sr. Elbrick seria morto. Por isso o aparelho não
foi invadido. Fujimori, provavelmente, teria mandado invadir...
O Governo brasileiro, embora sem negociar diretamente com
os terroristas, mas para não pôr em risco a vida do diplomata, cedeu
às imposições dos seqüestradores (que exigiam a divulgação de um
manifesto e a libertação de 1 5 presos políticos) . O embaixador Elbrick
perd oou seus seqüestradores e a "porretada" na cabeça. Certos
escribas revanchistas vivem entre as fábulas e os mitos, mas, até hoje,
o governo americano não permite a entrada do deputado Gabeira em
seu território. Lá a memória oficial ainda não o anistiou. Aqui ele é
herói do cinema ...
66 Nos "PoRõEs" DA DITADU RA

***

O episódio do seqüestro do Sr. Elbrick voltou mais uma vez


às manchetes, com a confusão provocada pela denúncia de atos ex­
plícitos de corrupção feita contra alguns prefeitos do PT por Geral­
do, ex-terrorista da ALN, um dos participantes do episódio, e pelo
fato de ocupar a presidência do partido o deputado José Dirceu, um
dos presos trocados pelo embaixador. Aliás, a denúncia vem compro­
var que a esquerda brasileira nunca foi muito transparente ao lidar
com dinheiro. A começar pelos 80 mil dólares que, antes da revolu­
ção de 30, Getulio mandou entregar a Prestes - exilado em Buenos
Aires - para aj udar na preparação do movimento e comprar armas,
e dos quais só se teve notícia de uma parte (20 mil) que o "Cavaleiro
da Esperança" levou consigo quando foi para Moscou, anos depois, e
os entregou ao Cominform (ou seria ao Comintern?) para ajudar a
preparar a fracassada intentona de 35. Muitos anos depois, o caso
repete-se com o dinheiro - alegadamente um milhão e duzentos mil
dólares - que Fidel Castro entregou a Brizola para a luta armada no
Brasil e que deu magros frutos, como a natimorta guerrilha de Caparaó
e o exército brancaleone do Jefferson Cardim. Mais tarde, com a mor­
te de Marighella, ninguém conseguiu saber o destino do dinheiro "ex­
propriado" dos bancos ou das propriedades que com ele teriam sido
compradas para apoio à luta armada. Depois, o mesmo se deu com os
bilhões roubados pelo "Bom Burguês" do Banco do Brasil e com os
dólares do cofre do Adernar de Barros, "expropriados" pela VPR, que
se evaporaram, bem como os resultantes das negociatas dos amigos
argelinos do Sr. Miguel Arraes, do Hélio Bicudo, do Márcio Moreira
Alves e o u tros, mencionados no j á citado livro d e Luís Mir,
A revolurão impossível.
O seqüestro do embaixador americano é considerado um
marco na atuação da esquerda armada no Brasil, por ter sido o pri­
meiro do gênero e servir como referência para uma série de conclu­
sões sobre aqueles eventos. Obteve relativo sucesso imediato, mas as
0 QUE É I STO, COMPANHEIRO? 67

repercussões de longo prazo foram julgadas desfavoráveis. Submeteu


o governo a uma humilhação e criou dificuldades na área militar, quase
levando à sublevação parte da tropa pára-quedista. Mas, predispôs o
governo americano contra a dissidência interna brasileira, principa1-
mente pela violência física praticada contra o Sr. Elbrick, e deixou
alarmados os outros países, que passaram a temer pela segurança de
seus representantes no Brasil. Assim, na área externa, o efeito de pro­
paganda foi negativo nos países democráticos.
Internamente, o episódio só piorou as coisas. O governo
sentiu-se fundamente desafiado e elevou seu níve] de resposta ao
tom da nova ameaça concretizada. A prontidão das forças de segu­
rança foi aumentada e o combate às ações terroristas intensificado. O
pequeno número de presos trocados é compatível com a quantidade
de detidos por razões políticas na época, e dá a medida da baixa in­
tensidade da repressão, o que desmente certas afirmações de que "des­
de abril de 64 o número de presos e torturados era alarmante". A
partir daí, sim, o número de presos e condenados só fez aumentar, e
os trocados por outros embaixadores foi muito mais elevado porque
havia muito mais gente presa. Testemunhos posteriores, da própria
esquerda, consideram, com muita razão, que o seqüestro do embaixa­
dor Elbrick - cuja cooperação da ALN foi autorizada por Toledo e
não por Marighella, que estava ausente - representou o começo do
fim da Ação Libertadora Nacional. Marighella seria morto dois meses
depois do seqüestro.
O seqüestro do Sr. Elbrick foi também objeto de muitas
indagações feitas por uns PhD do CPDOC da Fundação Getulio
Vargas que andaram entrevistando militares e cujos depoimentos fo­
ram reunidos em um livro com o título Os anos de chumbo, de que
falaremos mais adiante. O grande interesse daqueles PhD era saber
se, no episódio, os órgãos de repressão do Exército, da Marinha e da
Aeronáutica haviam "batido cabeça ou não haviam batido cabeça", numa
suposta disputa pela glória de haver resolvido o problema do seqüestro.
68 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

ABAND ONAD O

O dia mal começara naquele seis de outubro de 1 97 1 . Sharif


e Rossi saíram para cumprir a tarefa que lhes fora imposta: roubar um
carro para ser usado em outra missão. O carro estacionado em frente
ao prédio 2 1 3 da rua Artur Dias, num bairro da capital de São Paulo,
lhes pareceu presa fácil. Enganaram-se; o veículo era de propriedade
de um capitão da PM e seu motorista era um soldado; ambos reagi­
ram a tiros, e diante da inesperada resistência os terroristas tiveram
de fugir. No tiroteio o capitão perdeu um dedo da mão e o soldado
teve um ferimento na perna. Sharif - integrante de um dos agressi­
vos e atuantes Grupos Táticos Ar mados da Ação Libertadora N acio­
nal de Marighella - recebeu um tiro no pescoço e foi recolhido,
j untamente com Rossi, a um aparelho da ALN. Devido à gravidade
de seu estado e ao abandono a que foi relegado por sua organização,
o veterano de nove assaltos resolveu entregar-se às autoridades. É dele
o relato que se segue, feito alguns meses depois (09 /01 /72), extraído
do livro Rompendo o silêncio, do coronel U stra, e nunca desmentido.
"O meu estado era crítico. Logo que recebi o tiro, calculei
haver sido atingida alguma artéria importante, mas no 'aparelho' vi
que não, embora expelisse muito sangue pelo orifício feito pelo projé­
til. Expelia, sem parar, golfadas de sangue coagulado e, às vezes, o
orifício era bloqueado, impedindo-me a respiração. Sentia que o meu
caso era muito sério e a qualquer momento eu poderia morrer por
falta de respiração. Isto levava-me a concluir que eu teria de ser so­
corrido com urgência. Voltei naquela altura minhas esperanças para o
esquema médico que a ALN nos dizia haver montado. Foi tentado
um contato com a Direção. Antes porém conseguiu-se contato com
um grupo dissidente dentro da ALN. À tardinha chega ao aparelho
o QUE É I STO, COMPANHEIRO? 69

uma jovem que se dizia médica, acompanhada de um militante. Pou­


co fazem de prático; uma presença mais para constar, possivelmente para
avaliar até que ponto poderiam tomar posição diante do problema.
"No dia seguinte, de manhã, surge no 'aparelho' um ele­
mento da Direção com um médico seqüestrado. Mas, além de alguns
remédios, não traziam nenhum outro material. Não pôde fazer mais
que algumas injeções e ligar o soro no meu braço. O médico foi em­
bora às 1 1 h e o dirigente ficou mais um pouco, sem tomar nenhuma
providência acerca da segurança. O 'aparelho' já estava saturado pelo
entra-e-sai de pessoas. Havia grande possibilidade de ser detectado
pela polícia a partir de informações do médico que lá esteve. Eram,
então, dois companheiros feridos, o dono do 'aparelho' e sua mulher
e mais um aprendiz de enfermagem que corriam o risco de se verem
cercados e a ALN sem esboçar a menor preocupação, quando tinha
condições de nos deslocar para locais mais seguros. O pior de tudo é
que o dito companheiro da direção deixou o local e só marcou 'pon­
to' para três dias depois, o que importava em que a organização só
saberia de nosso estado quando o mesmo poderia ter se agravado de
maneira fatal. Isto foi o suficiente para concluirmos que a ALN havia
nos abandonado, embora procurasse fazê-lo de forma sutil, levando
um médico seqüestrado para dar uma satisfação aos quadros da orga­
nização. Além disso, via na divergência entre nós e a dita Direção o
motivo principal para abandonar-nos. Tivemos a sensação concreta
que o nosso estado crítico era aproveitado para se ver livre de nós
que a criticávamos pela conduta que dava à luta e pela falta de flexi­
bilidade diante dos problemas concretos que a guerra trazia. Isto era
agravado por agir com total falta de senso humanitário.
''A partir daí, vimos que todas as medidas deveriam ser to­
madas por nós mesmos. Foi assim que, no dia seguinte, o dono do
'aparelho' veio com um médico seu conhecido que aj udou a atenuar
um pouco meu estado, que havia piorado muito, mas que mostrou a
necessidade urgente de uma operação.
70 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

"Convenci os dois companheiros que, diante do abandono a


que eu fora relegado pela ALN, deveria ser entregue às autoridades
para que pudesse ser medicado. Eles acabaram concordando. Para
isto chamaram meu irmão, a quem fui entregue e conduzido a um
hospital. Dois dias depois fui removido para o Hospital das Clínicas e
submetido a três cirurgias e à extração da bala. Hoje encontro-me em
recuperação, e em todo esse tempo, desde que me entreguei, os ór­
gãos de repressão vêm me dando toda a assistência possível no senti­
do do meu tratamento e de minha proteção, no que a Operação Ban­
deirantes tem sido decisiva para a minha recuperação."
Sem comentários . . .

EXECUÇÃO SUMÁRIA

Aquela manhã de abril de 1 97 1 começava como tantas ou­


tras para o feirante Marcos Antônio Biancalito. Mas, pouco depois
das 9h, quando ele atendia a uma freguesa - a empregada doméstica
Geralda Raquel Felipe - a habitual tranqüilidade de uma das ruas
do Jardim Paulista: foi quebrada por um violento tiroteio; balas per­
didas para todos os lados, quebrando vidraças, uma delas atingindo o
ombro de Raquel e outra a perna do feirante. O episódio não era de
todo incomum naquela época na capital de São Paulo, quando gru­
pos terroristas trouxeram para as ruas sua guerrilha urbana. Hoje, as
"balas perdidas" nas grandes cidades são obra da bandidagem co­
mum que aprendeu, na convivência dos presídios com a guerrilha
urbana comunista, os métodos de ação que permitiram estabelecer
verdadeiras "áreas liberadas" em cidades como o Rio de Janeiro. Em
homenagem aos seus professores, um dos bandos mais atuantes ado­
tou a designação, hoje conhecida no Brasil inteiro, de Comando Ver­
melho, embora muitos não saibam a razão do nome.
o QUE É I STO, COMPANHEI RO? 71

Quando terminou o tiroteio no Jardim Paulista, um corpo


jazia estendido na rua, cercado de panfletos j ogados por seus mata­
dores. Ficou-se sabendo que havia sido feito mais um '.'J11stiçat11e11to
revolucionán"o . Três terroristas da Ação Libertadora Nacional (ALN)
"

de Carlos Marighella - codinomes Uns e outros, Big e Cláudio - e


mais três do Movimento Revolucionário Tiradentes (M RT) -
codinomes Rei, Zorro e Roque - agindo "em frente", haviam execu­
tado o presidente da Companhia Ultragaz, o brasileiro naturalizado
Henning Albert Boilesen, acusado de colaborar com o regime autori­
tário fornecendo refeições para o pessoal da Operação Bandeirantes
(OBan) .2 Fora j ulgado à revelia e, sem direito de defesa, condenado à
morte e executado, fria e covardemente.
Segundo os jornais da época, as testemunhas informaram à
Policia que o Sr. Boilesen - que há 1 5 dias dispensara sua segurança
pessoal - teve o seu Galaxie interceptado por um Volkswagen, sal­
tou do carro, tentou fugir mas foi perseguido por quatro homens que,
cerca de 1 O metros adiante, o metralharam pelas costas. Depois de
caído o Sr. Boilesen, seus assassinos aproximaram-se e ainda dispara­
ram outras rajadas de metralhadoras no corpo já inerte.
O brutal episódio teve grande repercussão e provocou enor­
me repulsa já que o assassinado era pessoa muito conhecida e ben­
quista na capital paulista. Em março de 1 963, esse brasileiro por es­
colha, nascido em Copenhague, recebera da Câmara Municipal de
São Paulo o título de Cidadão Paulistano e, mais tarde, escrevendo
sobre sua naturalização, diria que a mesma "era um ato de fé de quem
aqui se fixou, entregando-se à terra, confundindo-se com o povo, in­
tegrando-se com a família nas alegrias e nas dores, nas esperanças e
possiblidades do Brasil, oferecendo submissão incondicional às nos­
sas leis e o entusiasmo de todas as suas forças dentro de um espírito
verdadeiramente nacional e que passa a se orgulhar de nossa Histó­
ria, de nossa Bandeira, de nosso Hino e a gabar-se de nossas grandezas
pela crença inabalável que traz no coração por tudo o que é nosso".
72 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Por outro lado, esse novo desafio lançou as forças de segu­


rança em uma verdadeira caçada aos assassinos, já identificados em
ações anteriores, inclusive no roubo dos carros que foram depois aban­
donados. Já no dia seguinte registra-se um tiroteio entre a polícia e os
assassinos do industrial e um deles - Roque - é morto e, como de
praxe, recolhido ao Instituto Médico Legal onde é feito um laudo
sobre as causas da morte. 3

***

Vinte e cinco anos se passam, desde aquele dia 16 de abril


de 1 97 1 . Os intransigentes defensores dos terroristas e guerrilheiros,
hoje paladinos dos direi tos h umanos, aproveitando-se da onda
revanchista propiciada pelo governo do Sr. Fernando Henrique Car­
doso, conseguem que um órgão classista casse o registro do médico
legista que assinou o laudo de Roque, identificado agora no noticiá­
rio como um simples e pacato operário metalúrgico, cujo nome ver­
dadeiro era Joaquim Alencar de Seixas. A punição teria sido aplicada
por ser o laudo falso: a causa verdadeira da morte seriam sevícias
aplicadas e não as balas do tiroteio.
Não sabemos em que se baseou, tanto tempo depois, o con­
selho de médicos para tão peremptoriamente afirmá-lo. Segundo os
jornais, um dos indícios seriam hematomas mostrados nas fotografias
do rosto do morto. É possível que o laudo não expressasse a verdade,
no que não cremos. O mais provável é que essa morte tenha ocorrido
realmente numa troca de tiros, como tantas outras havidas na luta
armada dos anos 70, quando os terroristas reagiam a bala, em con­
frontos que hoje são apresentadas pelos revanchistas como meros
assassinatos, praticados pelo "terrorismo do Estado". Em muitos
episódios narrados neste livro fica claro que os terroristas, mesmo as
mulheres, não se entregavam sem resistência à prisão. Mas o que pa­
rece necessário é que não sejam escamoteados da opinião pública
aspectos relevantes dos fatos que levaram a mortes, como a do Sr.
0 QUE É I STO, COMPANHEIRO? 73

Boilesen, e como a do metalúrgico-guerrilheiro Roque. atentos ao


conselho de Leão XIII: ''A 1 ª lei da História é não ousar mentir; a 2ª
é não temer expressar toda a verdade."

A FUGA DO CARDIM

Jefferson Cardim de Alencar Osório. Nome com ressonân­


cias de verso alexandrino. Nominado com silhueta e feitio de um Dom
Quixote mal arrumado. Seus contemporâneos na Escola Militar o di­
ziam um amalucado, com vaga na galeria daqueles que o anedotário
da caserna dá como os fadados a se saírem muito bem e não fazerem
nada: os burros, os "coça-saco" e os aloprados4•
Lá pelos idos de 1 965- um ano depois da derrubada do
Jango Goulart - com parte do dinheiro que Fidel Castro entregara
ao Brizola para começar a fazer a revolução no Brasil, Cardim armou
seu exército brancaleone e iniciou pelo interior do Rio Grande do Sul
o que esperava viesse a ser uma nova Coluna Prestes. Como o "dita­
dor" Castello andava na ocasião lá pelas bandas de Foz do Iguaçu,
inaugurando oficialmente a grande ponte sobre o rio Paraná e come­
çando a conversar com os paraguaios sobre a construção da "faraôni­
ca" Itaipu, a guerrilha do Jefferson Cardim provocou mais preocupa­
ção do que merecia. Mas não foram longe. O nosso herói acabou
preso, não sem antes que, num entrevera, matassem um sargento da
tropa que saiu ao encalço da estropiada coluna guerrilheira.
Como era oficial superior, andou de quartel em quartel, en­
quanto aguardava j ulgamento. Em um desses "presídios" improvisa­
dos, fez amizade com o comandante. Este era um desses muitos mi­
litares sem malícia, formado na escola da lealdade, onde a transgres­
são que leva o nº 1 é "faltar à verdade", a quem Cardim reiteradamente
dizia que jamais retribuiria as considerações e o fidalgo tratamento
que recebia com a ingratidão e a ignomínia de uma fuga. Mas como,
74 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

na época, eram insondáveis os mistérios dos "porões" da luta armada


subversiva, outros, que pensavam de modo diferente, consideravam
ponto de honra resgatá-lo e estavam planejando fazer da fuga de
Cardim mais um desafio à ditadura.
Por trás da empreitada estava o major Pires Cerveira, um
cavalariano façanhudo, incluído no rol dos dados como desapareci­
dos, e cuja família tem direito a receber polpuda indenização por seus
feitos contra o regime autoritário. Um deles é a fuga do Cardim.
O plano para subtrair o preso às garras de seus carcereiros
foi bem planejado e executado. Começava pela incorporação como
recruta de um integrante do esquema. Forjaram uma falsa mudança
de domicílio e colocaram no quartel de Artilharia do Boqueirão, em
Curitiba, um elemento bem escolhido. Gaúcho desempenado, despa­
chado, desses que já na primeira semana de recruta destacam-se da
turma, são mandados trabalhar no refeitório dos oficiais ou na Reser­
va do subtenente e mesmo antes de botar a farda já parecem "praça
velha". Toda turma tem sempre um ou mais desses "caxias" ou "bate­
esporas". O resto ficaria por conta das mordomias que conseguira o
Cardim, graças ao seu bom comportamento, às suas promessas de
lealdade e ao namorico, que se dizia existir, entre a filha do coman­
dante e um filho do preso. Cardim tinha permissão para o banho de
sol diário, podia dormir até tarde sem ser incomodado pelo oficial de
dia, café na cama etc. Tudo bem diferente do aperto que passara quan­
do estivera preso em outro quartel onde o comandante, um "gorila",
o deixava trancado o dia inteiro e não queria saber de conversa. Sub­
versivo é subversivo!
Tudo estava pronto. Só faltava escolher o dia e convencer o
preso a fugir. Esta última etapa foi bem mais difícil que o esperado.
Apesar de tudo, Cardim sentia-se preso moralmente pelas promessas
que fiz era ao seu carcereiro-mór. O filho de Cardim foi o encarregado
de convencer o pai da importância de sua "atuação para o movimen­
to contra a ditadura". Seus argumentos não foram de todo convio-
o QUE É ISTO, COMPANHEIRO? 75

centes; o "velho" resistia. Veio a paulada final: "Fuj a porque sua


mulher, minha mãe, precisa e quer que você fuja!" Talvez nem fosse
verdade, mas o argumento foi decisivo e a data do resgate foi marcada.
Nada melhor que um fim de semana para se fazer alguma
coisa diferente ou proibida num quartel: "escala vermelha", não há
expediente, pouca gente por perto, o serviço fica mais relaxado, nor­
malmente só o oficial de dia e outras coisas mais. E na madrugada de
um sábado para domingo - lá pelas 4h -, Cerveira e seu grupo,
com a aj uda do soldado infiltrado, levaram Cardim para a liberdade.
Como havia autorização a respeito, o oficial de dia na passagem do
serviço não quis incomodar o coronel preso para fazer a verificação
regulamentar e o deixou "dormir" até mais de 1 1 h da manhã. Quan­
do foram levar-lhe o almoço é que deram pela coisa, mas aí o preso
de conduta irrepreensível já estava longe. E começou o "pega para
capar": IPM, confusão e, como se costumava dizer na época, saíram
como "um bando de loucos atrás de um responsável". No fim, livra­
ram a cara do co mand an te lib eral, mas o "ri faram" para a
promoção a general.
Mas, pelo jeito, não arranjaram nenhuma outra guerrilha para
o Cardim comandar. Poderia ter ficado como símbolo de uma opera­
ção de resgate, sem violência, sem seqüestro de embaixador e muito
bem executada. Mas nem isso. Acabou, ao morrer, sendo transforma­
do em uma das muitas mentiras do livro Esquerda armada no Brasil.

NOTAS

1 - Gíria para adoidado.


2 - Além dessa acusação que poderia ser estendida a i números industriais de São
Paulo, uma outra foi inventada, segundo a qual o Sr. Boi lesen assistia a supostas
"sessões de tortura". Mentira dupla.
3 - Fonte: Rompendo o .ri/éncio.
4 - Segundo Elio Gáspari, de Franklin Martins (Waldir) e não de Ga beira.
AS MULHERES NA LUTA ARMADA

ENCONTRO COM ROSA

Em certo dia do final de setembro de 1 970, o major Carlos


foi surpreendido com um chamado para ir à presença do General
Comandante do II Exército, em cujo Quartel-General (QG) era esta­
giário de Estado-Maior. O jovem major ficou preocupado: o que se­
ria? E mais preocupado ficou quando, já na presença do chefe, ficou
sabendo que fora escalado para assumir o cargo mais espinhoso da­
queles dias e que, normalmente, não deveria caber a um oficial re­
cém-chegado e provavelmente inexperiente. O general tinha seus
motivos, um dos quais o de não ter conseguido nenhum voluntário
entre os oficiais mais antigos. E Carlos partiu para o posto de sacrifício.
E o primeiro dia do major como comandante do Destaca­
mento de Operações de Informações (DOI) foi uma amostra do que
enfrentaria nos próximos quatro anos: extremamente cansativo e
estressante. Além da pesada responsabilidade de dirigir o principal
órgão operativo na luta contra o terrorismo e a guerrilha que engolfara
a capital de São Paulo, as ações iniciadas por seu antecessor de
desmantelamento da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares
(VAR-P) - lhe jogaram nas costas a responsabilidade pela custódia
de mais oito rapazes e cinco moças, presos nos dias anteriores, acusados
de pequenas ações como panfletagem, pichações, levantamentos etc.
78 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Apesar da curiosidade de conhecer aqueles jovens e da ex­


pectativa pela experiência nova, só no dia seguinte e já no começo da
noite pôde o major visitar seus "hóspedes". Primeiro conversou com
os rapazes, a maioria estudantes secundaristas. Todos tinham os seus
codinomes e muitos só vieram a conhecer-se na prisão. Raros saberiam
dizer o nome verdadeiro de seus companheiros de aventura política,
pois vários deles possuíam documento de identidade com nomes fal­
sos. Suas atividades e seus destinos eram completamente desconheci­
dos de seus familiares, pois quase todos moravam e foram presos nos
"aparelhos" (esconderijos) da organização subversiva a que pertenciam.
Enquanto subia a escada que o levaria ao 2º andar, onde
estavam as cinco moças, foi o major pensando no problema daqueles
j ovens e de suas falTI11ias. Quanta ansiedade e sofrimento para esses
pais, a partir do momento em que tomassem conhecimento da prisão
de seus filhos. De acordo com a lei, estavam implicados e deveriam
ser j ulgados; entretanto, sentia que eles ali estavam porque foram
aliciados, principalmente onde estudavam. O jovem, por seu tempe­
ramento, pela vontade de contestar e renovar, é um campo fértil para
a doutrinação política. Os exemplos vinham de fora, de outros paí­
ses, onde jovens, como os americanos, tentavam destruir os melho­
res estabelecimentos de ensino do mundo. Na geração dos Beatles
viravam moda "slogans" como " É proibido proibir!". Não era difícil
conseguir que os jovens projetassem no governo autoritário seu ódio
contra o pai dominador, a mãe omissa ou contra a universidade que
lhes fechava as portas e a cada ano produzia centenas de excedentes.
E por que isto acontecia? - perguntava-se o major. Culpa
do governo, do sistema de ensino, da família?
Ao entrar no quarto-prisão das moças, a surpresa do major
foi ainda maior. Umas meninas, nenhuma com mais de 20 anos. Pro­
curou ser amigável, conversar com elas. Quis saber seus nomes, onde
As MULHERES NA LUTA ARMADA 79

moravam, onde estudavam, a profissão dos pais e porque haviam


sido presas. Uma delas pareceu-lhe familiar; conhecia-a de algum lu­
gar. Curioso, atreveu-se a perguntar:
- Sei que a conheço, mas não posso recordar-me de onde.
- O senhor gosta de novelas? - indagou a presa.
- Claro! Qual o brasileiro que não gosta de uma boa novela?
- O senhor viu a novela Beto Roclefeller, da 1V Tupi?
- Sim, acompanhei-a quando morava no Rio - disse o major.
- O senhor se recorda da Renata? Pois eu sou a Renata.
- Não é possível! E o que é que uma artista de 1V está
fazendo aqui?
Essa era a realidade. A Renata da novela era agora a Rosa
da VAR-P! O diálogo deixou o major mais perplexo. Seguindo a lei,
esses jovens deveriam ser mandados para o DO PS e indiciados em
Inquérito Policial. A seguir, seu destino seria o Presídio Tiradentes, o
famoso ''Aparelhão". Para esses jovens e para o Brasil - pensou o
major - seria melhor a recuperação deles. No presídio, a convivên­
cia com terroristas veteranos e de alta periculosidade e a influência
do "Comando Revolucionário do Presídio" os tornaria irrecuperáveis.
Era necessário evitar que isso acontecesse. Um trabalho deveria ser
feito junto a eles e a seus pais para que os mesmos retornassem à
familia e à sociedade. O major conseguiu autorização de seus superiores
para executá-lo, e 1 8 dias depois, 1 1 daqueles jovens foram restituídos a
suas familias, às quais, reunidas, o major teve oportunidade de dizer:
"Os senhores devem dar graças a Deus por havermos pren­
dido seus filhos agora, na fase em que se encontram. Vamos devolvê­
los aos senhores, pois mostramo-lhes uma outra concepção de vida e
de liberdade, longe da subversão. Dentro de seis meses ou um ano
isso não seria mais possível, pois é bem provável que, já fanatizados,
tivessem praticado atos terroristas.
Entre esses jovens, além da atriz de TV, estava Renato, um
franzino secundarista que, como economista, ganharia prestigio e, no
futuro, exerceria altos cargos no governo. Muitos anos mais tarde,
80 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

também, a atriz, já então deputada federal, assumiria um papel mal


ensaiado e mal decorado e no qual acabou como a triste figura de
mentirosa. E como mentiu, a coitada da Rosa!1

O BEBÊ DE MÍRIAM

O chamado não era incomum; o assunto, sim. Ao chegar à


cela de Míriam o major ouviu, entre surpreso e indignado, a presa
dizer que desconfiava estar grávida. A reação do major era normal.
Embora conhecesse seus homens e confiasse neles, ficou preocupa­
do, pois sabia que uma das falsidades usadas pela esquerda era a acu­
sação de violência sexual contra presas. Mas logo Míriam fez questão
de tranqüilizá-lo:
- Não, major. Se eu estiver grávida, o filho é de meu compa­
nheiro Cláudio.
Cláudio morrera alguns dias atrás quando ele, Míriam e um
outro militante da Ação Libertadora Nacional tiveram o Volks, em
que transportavam ar mas e algumas bombas de fabricação caseira,
interceptado em uma barreira da PM no bairro do Sumaré, em São
Paulo, e reagiram a bala. Míriam, acusada da participação em vários
assaltos a lojas e supermercados, recebera um tiro na cabeça, e em
estado de choque, fora levada ao Hospital das Clínicas e operada
com sucesso. Após ter alta, Míriam foi recolhida ao DOI, onde ainda
completava sua convalescência.
As suspeitas da presa foram confirmadas pelos exames mé­
dicos e Míriam foi autorizada a entrar em contato com seus familiares
que moravam no Rio, dando-lhes a notícia que estava esperando um
filho. A partir daí, e sempre sob escolta, em face da possibilidade de
uma tentativa de resgate, Míriam era levada ao hospital para fazer o
As MULHERES NA LuTA ARMADA 81

seu pré-natal. Mas Míriam não ficaria sozinha por muito tempo. As
peripécias da luta armada em que ela se engajara iriam dar-lhe algu­
mas companheiras de prisão e diminuir a solidão de seu isolamento.
A primeira a chegar foi Joana, acusada de assaltos a super­
mercados e roubos de carro para ações armadas. Ao ser presa, reagiu
a tiros e tentou fugir pulando um muro. Levou um tiro de raspão na
cabeça e caiu de costas, ficando sem os movimentos em um dos pés.
Tratada no Hospital das Clinicas, precisava diariamente de longas
caminhadas, que fazia no próprio pátio da prisão, amparada por um
dos seus carcereiros ou por uma companheira.
Depois viriam Lila - acusada de colocar uma bomba no
Mappin -, Cristina, uma nissei que fizera curso de guerrilha em Cuba,
e Shiruca, participante de um atentado a bomba na Sears. Nos ba­
nhos de sol no pátio da prisão, enquanto ouviam música e viam o
esforço das caminhadas de Joana, havia momentos de confidências e
saudades. Míriam falava de Cláudio, Cristina da dureza do curso em
Cuba; Lila e Shir uca de s uas famílias; e Joana, de seu marido,
exilado no Chile.
Em um desses fins de semana uma surpresa. Vêem o maj or
chegar acompanhado de uma jovem mulher, esguia e sorridente. O
major lhes apresenta sua esposa Ita, que ciente da gravidez de Míriam,
insiste em conhecê-las e falar com elas. Ita oferece-lhes cigarros, mas
as presas relutam em aceitar. O diálogo é tímido e desconfiado. Logo
se despedem, mas a cena viria a repetir-se e o gelo, aos poucos, vai
sendo quebrado. Vieram as aulas de tricô para fazer o enxoval do
bebê de Míriam; depois, as de crochê, em que eram feitas blusas para
uso de todas. Às vezes Ita trazia um bolo, uma torta, salgadinhos.
Enquanto isso a barriga de Míriam ia crescendo. Mas chegou a hora
de partir. Já tinham sido interrogadas e deveriam seguir para o Presí­
dio Tiradentes. Míriam pede para ficar. No DOI tinha certeza de ser
bem tratada e poder continuar o pré-natal. Foi atendida, mas as ou­
tras teriam que ir para o presídio. Aí o major viu-se confrontado com
82 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

uma difícil decisão: as outras presas pediram para ficar fazendo com­
panhia a Míriam. E aquele homem, determinado no combate ao ter­
rorismo e à luta armada, rendeu-se ao apelo das jovens e conseguiu
de seus superiores que todas ficassem no DOI até o nascimento do
filho, ou filha, de Míriam.
E assim, durante cerca de oito meses, aqueles homens que
até hoje se procura apresentar como assassinos, estupradores, sádi­
cos torturadores, compartilharam dos cuidados na espera do bebê de
Míriam e no tratamento de Joana, cotizando-se para ajudar na com­
pra do enxoval da criança, correndo riscos e infringindo normas de
segurança para manter juntas aquelas cinco jovens que o destino co­
locara em seu difícil caminho. 1

A TESE DA ANA COLLING

A gauchinha bonita, de olhos claros, sorriso simpático, anti­


ga professora de História e hoje lecionando na Universidade Regio­
nal do Noroeste do Rio Grande do Sul, andava atrás de um assunto
para a tese de mestrado de sua especialidade. Em tempos de atuante
e agressivo feminismo, pensou no tema 111ulher, e como está na moda
o "resgate da história dos anos de chumbo", logo veio a escolha: a
111ulher 111ilitante de esquerda e a 111ulher subversiva. A bibliografia produzi­
da pela esquerda é vasta, vastíssima, mas nela a mulher não teve seu
espaço e seu papel é um tanto opaco, obscurecido pelo machismo
histórico, entranhado na política, raciocinava a candidata ao mestrado.
A professora achava-se ainda imersa nas conjecturas do ca­
minho a tomar quando lê num j ornal que os arquivos do DOPS de
seu estado tinham sido franqueados ao público para pesquisas. A
notícia aguça sua curiosidade. O que será que os militares diriam em
seus arquivos sobre as mulheres militantes?, perguntou ela aos seus
botões. Se os botões da professora falassem e fossem tão sábios e
As MULHERES NA LUTA ARMADA 83

prudentes como o marquês de Sabugosa das histórias de Monteiro


Lobato, teriam dito: "Dona Ana, a senhora. está se deixando levar
por uma idéia preconceituosa e errada. O DOPS é um órgão civil,
professora!" Mas os botões são como as flores do samba do Cartola,
não falam, e a Ana Maria Colling não foi alertada e acabou pondo
aquilo em sua tese e em seu livro, publicado com base nela: A resistên­
cia da mulher à ditadura no Brasil.
Mas antes de a tese ser escrita, muito teve de batalhar a Ana
para ter acesso às 42 caixas repletas de documentos, recolhidas de
diversos órgãos da polícia civil gaúcha. Em meio à empreitada, a Ana
conheceu uma antiga ativista da luta contra a ditadura, Lícia, e que,
como profissional do ramo, indicaria as mulheres a serem entrevista­
das para formar o perfil daquilo que a tese chamaria "a mulher sub­
versiva". Aliás, a colaboração de Llcia deve explicar muito das defor­
mações que aparecem no trabalho da simpática Ana.
E a tese de mestrado da Ana, com as facilidades que traba­
lhos dessa natureza encontram hoje j unto a certos editores, acabaria
deixando a penumbra e o esquecimento a que, normalmente, são
relegadas muitas das obras acadêmicas e vindo à luz em livro publi­
cado pela Editora Record. São 1 57 páginas em que citações socioló­
gicas e políticas de Michel Foucault, René Dreifuss, Norberto Bobbio
e outros, apreciações conhecidas e distorcidas de "brazilianistas" ame­
ricanos, como Alfred Stepan, se misturam com as fábulas do Brasil
nunca mais e as arengas do Jacob Gorender e do Zuenir Ventura.
Como uma pitada condescendente, a Ana coloca entre mais
de 70 referências bibliográficas duas editadas pela Biblioteca do Exér­
cito. Ali se vêem citados, como Pilatos no Credo, o tomo IV do famo­
so IPM nº 709 e um livro de 1 972 de Luiz Felipe Wiedmann, Brasil,
realidade e desenvolvimento.
E com tal retaguarda, o trabalho da pretendente ao mestrado
tenta traçar um retrato do Brasil dos tempos da ditadura - entre 68
e 74 - que nada tem de original, posto que é uma repetição de equí-
84 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

vocos, meias-verdades, erros históricos e o monótono realejo dos es­


tupros e da tortura bestial, indiscriminada e institucionalizada, tudo
isso temperado com digressões e citações eruditas, em um estilo até
bem agradável de ser lido.
Lamentavelmente o trabalho da Ana não consegue retratar
convenientemente a participação das mulheres na luta armada, que
foi importante e significativa, não só do lado da contestação como do
lado da lei, onde ficaram registrados grande exemplos de dedicação e
sacrifício, umas no cumprimento do dever funcional e outras alicia­
das para derrubar uma ditadura e implantar outra: a ditadura do pro­
letariado. Aqui mesmo neste livro - particularmente nos dois capí­
tulos anteriores - constam referências à participação de mulheres
que, em sua maioria, já constaram de livros publicados. Se a Ana
tivesse recorrido a eles, veria, entre outra coisas, que o clichê que
construíram da "puta comunista" pode ser a exceção, mas não a regra
do conceito das mulheres pelos encarregados do combate à subversão.
Sua tese e seu livro ficaram num horizonte muito restrito e
pouco abrangente, talvez pelas limitações do campo onde pesquisou
e da preocupação com o cientificismo e a erudição de uma tese
de mestrado.
Em compensação, o trabalho da Ana apresentou um retrato
completo, minucioso e preciso de todas as organizações subversivas
e suas ramificações, que existiram e atuaram naquela fase em todo o
país, baseado, sem dúvida, nos documentos do DOPS que pôde con­
sultar, o que mostra a eficiência do trabalho de informações dos ór­
gãos de segurança que integravam o aparato legal.

A CARTA

O maj or Carlos, em meio a tantas e complicadas atribui­


ções, já nem se lembrava mais de Helena, uma das moças presas como
militante da VAR-Palmares e que aj udara a devolver ao seio da famí-
As MULHERES NA LUTA ARMADA 85

lia há cerca de um ano. Agora o episódio lhe era relembrado pela


carta que recebeu do pai de Helena, que, em um documento pungen­
te e agradecido, assim falava:
"São Paulo, 02 de agosto de 1 97 1 (. . .)
"Como posso agradecer-lhe? Creio que jamais poderei trans­
mitir-lhe todo meu reconhecimento. Somente outros pais que, como
eu, viveram o drama de ter um filho ou filha, ainda criança, maldosa,
implacável e friamente aliciados pelos sequazes da subversão é que
poderão compreender-me.
"Que acontece a um pai quando certa noite abre a porta de
sua casa e vê diante de si desconhecidos que vêm prender sua filha?
É um pesadelo ou realidade? E por que tão sinistra realidade? É real­
mente minha filha que procuram? Mas ainda há pouco ela era uma
criança, frágil, de grandes olhos curiosos, tentando as primeiras le­
tras, conseguindo as primeiras notas, lutando com incrível força de
vontade para vencer todos os obstáculos e ser a primeira da classe. É
mesmo minha filha que procuram?
"Mas ela sempre teve tanto senso de responsabilidade e
mostrava acreditar que só o trabalho e o es forço ajudam a vencer na
vida! Quanto fervor em tudo que dizia! Quanto brilho em seus olhos
curiosos! E, ultimamente, quanta renúncia a novas roupas, a um sa­
pato novo, ao cabeleireiro, à manicura, às diversões mais comuns. É
mesmo a minha filhinha que procuram?
"Hoje, passado quase um ano daqueles tenebrosos dias de
setembro, posso pensar mais calma e confiantemente. E quanta coi­
sa, afinal, compreendo! Como minha pobre filha foi enganada! U tili­
zaram todo o seu senso de responsabilidade, toda a s ua persistência e
força de vontade, toda a sua crença e todo o seu fervor para fazê-la
acreditar que o caminho da subversão era o único para ajudar todos nós,
todo o Brasil, para o nosso país ser grande, desenvolvido e respeitado.
86 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

"Tenho diante de mim dois retratos de minha filha: um do


ano passado e outro bem recente; um dos tempos tumultuados em
que estava sendo iludida e outro em que ela, agora livre, aproveita
com toda a s ua sinceridade a maravilhosa oportunidade que lhe de­
ram. A menina inflamada, de cabelos mal cuidados, rebelde e revol­
tada, foi substituída por uma jovem madura, adulta, tranqüila, de ca­
belos cuidados e unhas pintadas, embora sem exageros, e que voltou
ao antigo namorado e pretende ficar noiva nos próximos meses. Como
sempre, confiante, responsável e persistente.
"E agora compreendo como existe mais de um caminho para
a busca da verdade; agora entendo o valor da tolerância. Esses dois
retratos de minha filha, que tenho diante dos olhos, contam toda essa
história. A grande oportunidade que lhe foi concedida está sendo
aproveitada em todos os sentidos, durante todos os segundos. Após a
libertação, ela completou o restante do curso colegial, fez um mês de
intensivo e logo na primeira tentativa foi aprovada no exame vestibu­
lar da USP. O crédito de confiança que concederam à minha filha
está sendo integralmente correspondido. Aguardaremos j untos o pro­
nunciamento da Justiça. Enfrentaremos j untos, eu e ela, o j ulgamen­
to com serenidade. Eu estarei ao lado de minha filha em qualquer
circunstância, pois é muito possível que tudo isso tenha sido causado
por mim e apenas por mim. É muito possível que eu não tenha sido o
pai a que me propus nesses 20 anos de casado. Talvez se eu estivesse
mais presente, mais atuante, tudo tivesse sido diferente. É possível.
Não quero eximir-me de qualquer responsabilidade. Direi apenas que,
de todas as funções do mundo, a mais difícil é a de pai.
"Vivemos numa selva de asfalto onde a luta pela própria
vida é travada em todos os cantos, 24 horas por dia. E quase nada
sobra para podermos olhar o horizonte. Mas tudo passará, se Deus
. .

assim o quiser.
As MULHERES NA LuTA ARMADA 87

"Muito obrigado, pois, caro major, pela infatigável assistên­


cia dispensada à minha filha e a todos os meninos e meninas envolvj­
dos no episódio. Tenho certeza de estar falando não apenas em meu
nome, mas no de todos os outros pais. Recebemos uma nova oportu­
nidade e estamos tudo fazendo para honrá-la.
C.S."

O major guardou a carta e jamais a divulgou. Na época, sua


divulgação poderia pôr em risco a vida do signatário, tornando-o alvo
de uma vindita por parte dos aliciadores de Helena. Mas Carlos tam­
bém fez questão do sigilo, por entendê-la como uma confidência de
um coração de pai. Só muito tempo mais tarde, quando viu-se acos­
sado pelos criminosos que combatera, é que resolveu tornar público
documento tão pessoal. 1

NOTAS

1 - Fonte: Rompendo o silêncio.


O S DESAPARECIDOS

É compreensível e humano o empenho com que os familia­


res de dissidentes políticos que se envolveram na luta armada, nos
seqüestros, na guerrilha urbana e rural procuram saber o destino que
eles tiveram e, se mortos, onde se encontram seus restos mortais. São
feridas pessoais dolorosas, mantidas abertas pela incerteza e, muitas
vezes, pelo desconhecimento dos episódios em que se envolveram e
do fim que tiveram. São seqüelas políticas de um processo que, legal
e j uridicamente, estaria encerrado com a anistia, mas que, no plano
familiar e pessoal, nenhuma anistia conseguirá resolver. E essas feri­
das são mantidas vivas e mais dolorosas pela ação pseudo-humanitá­
ria de grupos políticos interessados na eternização das contradições e
dos engodas que levaram aqueles jovens ao sacrifício e suas famílias
a esse sofrimento.
Com a eleição de Fernando Henrique Cardoso e a subida ao
governo, pela via democrática, de muitos que, no passado, militaram
em organizações que combateram o regime pós-64, é natural que os
ativistas que mantêm acesa essa questão dos "desaparecidos" procu­
rem cobrar de antigos integrantes da Ação Popular e da sua dissidên­
cia, a Ação Popular Marxista-leninista, hoje em posições de mando, o
que consideram uma reparação pela morte daqueles companheiros
de luta política.
Não era de esperar nada diferente de pessoas, grupos e enti­
dades que se obstinam em viver à sombra dessa bandeira revanchista,
que lhes rende dividendos políticos, fartos espaços nos meios de co-
90 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

municação e agora vai render algum dinheiro. Ocorre que essa perti­
naz campanha vale-se de artifícios e meias-verdades, mistificando e
tentando passar às novas gerações uma imagem totalmente falsa dos
acontecimentos daqueles dias tormentosos. Valem-se, inclusive, do
silêncio que a Lei da Anistia parece impor às autoridades militares,
para criar uma verdadeira mitologia, desmentida pelos próprios de­
poimentos aparecidos em dezenas de livros publicados pela esquerda
brasileira. Estão ganhando a guerra da propaganda, em que são mes­
tres, graças ao fato de a história daquela guerra sem quartel estar
sendo contada pelos perdedores.
A verdade é que dissidentes políticos, inconformados com
o regime implantado em 1 964, resolveram derrubá-lo pelas armas.
Nada melhor para ilustrar a natureza da guerra deflagrada pelos co­
munistas, muitos deles treinados no exterior e pagos por governos
estrangeiros, do que o que transcrevemos no Capítulo 4 deste livro,
em que tratamos de Marighella, o ideólogo do terror.
Como de seu dever, as !-'orças Armadas recolheram e ergueram a
"luva" assim jogada à face da Nação e da sociedade e passaram a combater
com energia a insólita ameaça. E muitas mortes passaram a ocorrer em
ambos os lados. Muitos foram os inocentes que tombaram vítimas da vio­
lência entre os guerrilheiros e a repressão. A organização subversiva valia­
se da clandestinidade e impunha rigida descaracterização de seus comba­
tentes, cuja verdadeira identidade era desconhecida - por razões de segu­
rança - dos próprios membros de suas células. Portavam identidades legí­
timas obtidas com nomes falsos, usavam codinomes e seus familiares igno­
ravam, na maioria dos casos, suas atividades e seus destinos. Quando abati­
dos nos combates com as forças da lei, mesmo que sua verdadeira identi­
dade fosse conhecida, tinham de ser enterrados com a identidade legal que
passaram a possuir. Muitos sobreviventes jamais readquiriram seu verda­
deiro nome, embora alguns tenham tentado fazê-lo até judicialmente. Na
verdade, muitos dos desaparecidos de hoje já haviam voluntariamente
optado por essa situação ao aderirem à luta armada que deflagraram.
Os DESAPAREcrnos 91

O súbito e inesperado aparecimento de um "desaparecido"


identifica uma situação que a esquerda finge ignorar. Não seria de
admirar se entre os considerados desaparecidos estivessem indivíduos
que voluntariamente resolveram abandonar as atividades subversi­
vas subterrâneas, mas, com medo de represálias ou mediante acordo
com os agentes da repressão, tiveram que assumir nova identidade e
mudar-se para outros pontos do território nacional, muitas vezes com
o apoio e a cobertura oficiais. Tais pessoas dificilmente vão aparecer,
pois o anonimato lhes é mais conveniente. Não são poucos os que
tudo fazem para esquecer as experiências frustrantes e dolorosas vi­
vidas no passado.
Por outro lado, muitos dos mortos nos confrontos têm seus
túmulos perdidos em meio à selva que procuraram usar para sua ten­
tativa fracassada de guerrilha no Araguaia, cujas principais peripécias
foram contadas em reportagens do j ornalista Fernando Portela,
aparecidas nos primeiros dias de 1 979, no vespertino paulista Jornal
da Tarde. Foram sete reportagens publicadas entre 1 3 e 20 de janeiro
daquele ano, logo após a revogação do AI-5. Pela primeira vez o as­
sunto era abordado na imprensa e de forma tão ampla, já sem as peias
da censura que apenas em uma ocasião, por descuido ou de caso pen­
sado, permitira uma reportagem do Estadào, dada a público em se­
tembro de 1 972. Sobre o trabalho, seu autor assim se manifestou
na introdução:
"O texto que segue é o resultado de uma montagem, uma
colagem de dezenas de depoimentos sobre uma guerra de guerrilhas
ocorrida no Brasil, na região do rio Araguaia, sul do estado do Pará e
norte do estado de Goiás. Naquela região, o processo da guerrilha foi
iniciado em 1 967 e eliminado em janeiro de 1 975, com a derrota total
dos guerrilheiros comunistas. Para reconstituir a guerrilha, viajei por
várias capitais brasileiras; estive no interior de alguns estados, princi­
palmente na região do baixo Araguaia, onde foi colhida a maior parte
dos depoimentos.
92 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

"Durante todo o trabalho de coleta de infor mações, usei um


critério de confrontação: quase tudo o que me foi dito em São Paulo,
por exemplo, e repetido no sul do Pará, mereceu crédito. As informa­
ções que não coincidiam foram simplesmente postas de lado. Porque,
além de informar o leitor, a grande preocupação desta reportagem é a de dar
subsídios à História do Brasil A guerrilha do Araguaia, até onde posso ava­
liar, está correndo o risco de se tran.iformar em lenda. E o 1úco será cada vez
maior, enquanto o governo insistir em não dar a sua versão, mantendo um
silêncio que já perdeu o sentido, quatro anos depois de a guerrilha ter sido
derrotada pelas Forças Armadas." (O destaque e o grifo são nossos)
Trata-se, como se vê, de um trabalho de fôlego, da maior
credibilidade e de certa forma profético. A lenda está aí, construída
pelos derrotados e pela parte da mídia que sempre os apoiou, materia­
lizada, inicialmente, na "Lista do Gregori", e, depois, no projeto dos
"desaparecidos", agora transformado em lei. Parece que informações
preciosas, como as do jornalista do jornal da Tarde, foram simples­
mente ignoradas no intuito de confundir a opinião pública, criando
uma verdadeira mitologia dos "desaparecidos", e que irá sangrar os
cofres do Tesouro Nacional, tão carente de recursos para a saúde e
para a educação. Resta a esperança que, nos processos de habilitação
às indenizações previstas na lei, alguém se lembre de recorrer ao
esclarecedor, mas esquecido trabalho do j ornalista Portela. 1
No intuito de aj udar eventuais pesquisadores e também tra­
zer à luz alguns dados sobre episódios muito pouco conhecidos, trans­
crevo trechos das reportagens que têm a ver com a lista dos supostos
desaparecidos:
"( . ) num dia qualquer de abril de 1 97 4 ...
. .

O negro, que mais parece um mendigo, é Osvaldo Orlando


Costa, o mineiro Osvaldão, o comandante Osvaldão. Ele, como sua
guerrilha está no fim ... os companheiros estão quase todos mortos, ele
febril de muitas malárias e com centenas de homens no seu encalço.
Assim, foi muito fácil aproximar-se do comandante guerrilheiro na-
Os DESAPARECIDOS 93

quele campo de milho. Logo depois é alvej ado por tiros de espingar­
da. Isto jamais poderia acontecer, pois Osvaldão se fizera lenda e por
isso era imortal, protegido de todos os espíritos da mata. Mas ali está
ele, morto, aos 37 anos... Não há dúvida." (Os destaques são nossos)
Osvaldão é um dos integrantes da lista de desaparecidos.

"( . . .) E em 1 970, ano da eleição de Allende no Chile, da


vitória do Brasil na Copa do México e do desenfreado terrorismo do
capitão Lamarca em São Paulo, 63 guerrilheiros do PC do B foram
formados dentro da selva por três comandantes: Osvaldão, Paulo
Rodrigues e o médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho."
" (...) E no caso do Araguaia, Osvaldão não era o único a
distribuir heroísmo; Dina Monteiro, a Dina Baiana, geóloga, uns 30
anos. Sua personalidade era tão forte que seu marido, também guerri­
lheiro, era o Antônio da Dina. A Tuca enfermeira, Flavio e Amauri,
que se estabeleceram com uma farmácia; o casal Idalicio e Walquíria,
mineiros, ela tocando violão em todas as festas, assim como a flauta
de José Humberto Bronca, um ex-funcionário da Varig... "
"( . ..) ainda em maio os presos de Xambioá assistiram a ce­
nas mais dramáticas: a chegada de um tenente pára-quedista todo
sujo de sangue e gritando muito. Minutos depois, chegava o corpo do
guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, cearense, 25 anos, do destaca­
mento de Gamcleiro, comandado por Osvaldão. Mais ou menos nes­
sa época, morre também o sociólogo-guerrilheiro Kleber Gomes. . . "
Na lista não há nenhuma Dina Monteiro, mas o Antônio da
Dina é certamente Antônio Carlos Monteiro Teixeira . ldalicio,
Walquíria, J osé Humberto e Bergson são nomes de "desaparecidos".
Na lista há um Kleber, não Gomes, mas Lemos.
"( . .) Foi através dessas sessões que o PC do B pôde reconhecer alguns

de seus mortos. Em Brasília, no quartel do PIC, foram exibidas fotos do velho


comunista Francisco Chaves, Maria Lúcia Petit, Idalicio e Ciro Flavio. O pri­
meiro comandante guerrilheiro morto é Joào Carlos Haas Sobrinho, num cho-
94 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

que com pára-quedistas. Ainda estamos no final de 1973. Outros guerrilheiros


importantes começam a morrer: Elenira, foào, Amaury, Louriva/, Sue!J. . . A
morte de Sue!J, uma nissei paulistana, foi uma perda especialmente sentida pelo
grupo( ... ) " (Os grifos e os destaques não são do autor da reportagem.) .
Aí estão diversos nomes claramente identificados na lista
do J osé Gregori, como Francisco Manoel Chaves, Maria Lúcia Petit
da Silva, Ciro Flavio Salazar, João Carlos Haas Sobrinho. Outros fa­
cilmente identificáveis: Idalicio é Idalisio Soares Aranha Filho; Elenira
é Helenira Rezende de Souza Nazareth; a nissei Suely é Suely Yumiko
Kamayana. Considerar essa gente como desaparecida é um truque
ideológico que vai custar um bom dinheiro ao já esfolado contribuin­
te brasileiro.
Se são vilões ou heróis, é questão que, em nome da reconci­
liação nacional, a Lei da Anistia, votada pelo Congresso em 1 979
pretendeu fosse esquecida, mas que alguns - que os elegeram como
falsos heróis da democracia - desejam que nunca se apague.
Curiosamente, em nosso modo de ver, há um detalhe que
deixa muito mal o ex-guerrilheiro do Araguaia e hoje deputado fede­
ral do PT, José Genoíno: se, como querem fazer crer alguns órgãos da
imprensa - especialmente O Globo -, havia por parte dos órgãos da
repressão o interesse de eliminar todas as evidências humanas da guer­
rilha, matando e fazendo desaparecer os prisioneiros, por que Genoíno
foi poupado? Seria um colaborador?

NOTAS

1 - Sabe-se hoje que in formações como as do jornalista e muitas outras foram simples­
mente ignoradas pela Comissão encarregada de examinar os pedidos das famílias dos
ditos desaparecidos e que o Sr. PHC sacramentou o assalto ao Erário.
REFLEXÕES

Só quem participou, d e uma forma ou d e outra, do combate


à subversão, ao terrorismo e à guerrilha pode faz er idéia do que aque­
la luta sem quartel e sem regras representou em dramas de consciên­
cia, em decisões dolorosas e, muitas vezes, em momentos de depres­
são ou de surda raiva por sentir-se impotente para modificar ou reme­
diar situações. Participei desse combate, embora modestamente, e
descrevi diversos episódios dessa participação em meus livros anterio­
res, e os revisei e consolidei no presente livro.
No cumprimento de missões e no desempenho de tarefas,
dentro do que considerava ser meu dever, assumi alguns poucos ris­
cos pessoais e dei muitas ordens. Em uma conjuntura excepcional
como aquela, sempre tive consciência da enorme responsabilidade
que recaía sobre os ombros de todos aqueles que agiam num quadro
de medidas discricionárias e com limitações das franquias legais, de­
sej áveis, mas de eficácia mais do que duvidosa naquele ambiente de
guerra entre "porões". Ainda hoje, não tenho nenhuma dúvida que
sem essa excepcionalidade a contenção da arremetida subversiva da
luta armada teria sido muito mais custosa em vidas e muito mais
longa, e estaríamos enfrentando as mesmas dificuldades e dilemas
que ainda hoje atormentam muitos dos nossos vizinhos, principal­
mente peruanos e colombianos. Excluídos os danos de ordem pesso­
al e familiar - esses, lamentáveis e irreparáveis - não tenho dúvida
em afirmar que o preço em vidas pago pela Nação brasileira foi pe­
queno e compensado pela erradicação definitiva dos focos de luta
96 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

armada em nosso país, fato que muitos parecem não compreender.


Alguns desses danos estão sendo unilateralmente compensados com
indenizações pecuniárias e com reabilitações políticas de nítido sen­
tido revanchista, promovidas pelos membros esquerdistas do gover­
no do Sr. Fernando Henrique, com certeza mal inspiradas naquelas
permitidas por Kruschev após a denúncia dos crimes do stalinismo.
Naquelas ocasiões, muitas e muitas vezes, ocorria-me lem­
brar do velho brocardo que diz: "Se queres conhecer o vilão, põe-lhe
na mão o bastão". Além disso, sempre reconheci o quanto de verdade
e experiência havia na ponderação atribuída ao vice-Presidente Pedro
Aleixo ao manifestar-se contra a edição do AI-5 e rebater a acusação
de que parecia não confiar no Presidente Costa e Silva: "Eu confio
no Presidente; o meu receio é do guarda da esquina." Como é próprio
da natureza humana, tivemos alguns "guardas da esquina" que ajuda­
ram a construir o mito da tortura institucionalizada.
No cumprimento de algumas tarefas que executei, vi-me na
contingência de dar ordens e autorizar medidas cujo amparo legal
decorria de um mandato revolucionário e de uma situação de neces­
sidade, e não o teria feito, fossem outras as circunstâncias. Mas em
nenhuma delas desatendi ou permiti que alguém sob minhas ordens
desatendesse aos princípios de respeito à dignidade humana. Sempre
ponderei se os valores a serem preservados eram superiores aos arra­
nhões nos limites da legalidade que poderiam ser cometidos, pois só
em situações especiais os fins podem j ustificar os meios. N ão me
arrependo de nada do que fiz, e em iguais circunstâncias, com as
lições aprendidas, o faria de novo, e o faria melhor.
Certa feita, na invasão de um aparelho do MR-8, contada
em um dos capítulos deste livro, um agente de polícia teve que atirar
num rapaz que tentava pegar uma arma que estava ao alcance de sua
mão. O ferimento, felizmente, não foi sério. Pouco depois, verifiquei
que a autoridade policial, a quem o agente era funcionalmente subor­
dinado, estava preocupada com o ocorrido e cogitando de iniciar pro-
REFLEXÕES 97

cedimento legal por ter havido lesão corporal. Como julguei que esta­
va perfeitamente caracterizada a ação de legítima defesa, interferi e
argumentei para que não o fizesse, e fui atendido. Dei o aval de mi­
nha palavra, mas reconheço que, em outras circunstâncias, poderiam
ocorrer abusos. Mas era um risco que tínhamos que correr para apoiar
aqueles que arriscavam suas vidas no combate à guerrilha urbana e
ao terrorismo. Não me admiraria se o baleado aparecesse hoje para
reclamar uma reparação pecuniária pelo ferimento. Por muito menos
o Lula está recebendo uma polpuda pensão!
Nunca tive dúvidas de que merece o maior acatamento, como
direito individual inalienável, o preceito que diz que o lar é o refúgio
inviolável do cidadão, mas não hesitei em autorizar que um arremedo
de lar fosse invadido para prender elementos que ali se acoitavam,
guardando as aparências de um recinto familiar, para tramar contra a
ordem pública e planejar atos criminosos que poderiam pôr cm risco
vidas inocentes. Vivi situações embaraçosas ao verificar erros come­
tidos, involuntários ou decorrentes de circunstâncias de que já não
tínhamos mais o controle. Porém jamais acobertamos ou permitimos
abusos, sob o inaceitável argumento de que estávamos cumprindo
ordens ou de que "guerra é guerra".
Em certa ocasião, fui solicitado a conseguir do reitor de um
seminário de Curitiba autorização para vasculharmos o quarto e o
armário de um dos seminaristas, suspeito de envolvimento com a
subversão como integrante da rede de apoio, o que na época não era
incomum. Era uma situação muito delicada. Embora os relatos feitos
pela esquerda tratem de pintar sempre como atrabiliária e grosseira a
ação repressiva, na verdade estávamos convencidos da importância
de não agravar as enormes dificuldades de nossa ação, por natureza
antipática, com procedimentos descorteses ou de violência gratuita.
Conversei calma e amigavelmente com o reitor e mostrei-lhe a im­
portância de sua colaboração, inclusive para livrar o futuro religioso
98 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

de uma suspeita que, ao final, mostrou-se improcedente. Se o semi­


narista era realmente do esquema, não guardava nenhuma prova dis­
so no seminário, aparentemente o lugar mais seguro para fazê-lo.
Para encerrar estas reflexões sobre coisas desse passado cheio
de lances inusitados, penso valer a pena mencionar curioso episódio
acontecido nos primeiros dias de abril de 1 964, quando, como era de
esperar naquelas circunstâncias, surgiram alguns lances de caça às
bruxas. Certo dia, fui procurado por conhecido médico de Curitiba
que me entregou uma relação de comunistas. Algo surpreso, agradeci
a colaboração, e o prestimoso "agente" retirou-se de meu gabinete na
2ª Seção do Quartel-General. Ao ler a tal lista deparei com o nome de
um oficial do próprio Estado-Maior da Região Militar. N ão pude dei­
xar de rir; parecia brincadeira, e alguém estaria dando um "trote" em
nosso doutor. De imediato, rasguei o papel e o joguei no lixo; aquela
circunstância de incluir pessoa absolutamente inocente o desqualificava
inteiramente, mesmo como mero informe.
No dia seguinte, entra em meu gabinete, esbaforido e lívi­
do, o denunciante da véspera. Ouço-o dizer aflito:
- Major, naquela lista que ontem lhe entreguei, houve um
lamentável engano. Foi incluído o nome do tenente-coronel Fulano.
Me desculpe, major! Pode devolver-me a lista para que eu a altere?
Resolvi fazer uma pequena "maldade" com o atrapalhado
colaborador e, ao mesmo tempo, dar-lhe uma lição. Falei muito sério:
- Doutor, sua lista foi registrada e já esta sendo examinada.
Só há um modo de o senhor desfazer a denúncia. Sente-se ali naquela
mesa e escreva uma declaração dizendo que a inclusão do nome do
oficial foi um lamentável engano e que o mesmo não é comunista.
Sem titubear o nosso pobre homem escreveu o que lhe disse­
ra numa folha timbrada que lhe estendi. Suando em bicas e visivelmen­
te vexado, o médico, repetindo suas desculpas, retirou-se. Da mesma
forma que o outro, da denúncia, esse novo papel foi em pedacinhos
para o lixo, lixo que sempre vem à tona em ocasiões como essa. O mal
de todas as revoluções e contra-revoluções. Coisas de "porões".
DEPOIMENTO MÉDICI

Em março de 1 993, o engenheiro Roberto Nogueira Médici


prestou um depoimento a uma doutora em Ciência Política e a um
PhD em Sociologia do Centro de Pesquisa e Documentação da Fun­
dação Getulio Vargas sobre o governo de seu pai, Emílio Médici.
Dois anos depois esse depoimento foi transformado em livro e torna­
do público pelo depoente. Os pesquisadores da FGV colhiam ele­
mentos para trabalhos que viriam a ser depois publicados sobre o
chamado regime militar. Pelos títulos desses trabalhos (2 1 anos de regi­
me militar / 1994), Visões do golpe, Os anos de chumbo e A volta aos quartéis
/ 1994 / 95]) e pela maneira visivelmente tendenciosa na formulação
de certas perguntas ao entrevistado, pode-se concluir que a atitude
mental dos pesquisadores não seria necessariamente isenta ou impar­
cial na apreciação de fatos ainda tão recentes e controversos. E o
depoimento, que poderia dar excelente contribuição à verdade histó­
rica, deixa a desejar, principalmente pelo desempenho do depoente.
O Dr. Roberto, um professor universitário e um técnico, dá a impres­
são de certa desinformação, surpreendente em quem passou cinco
anos em posição excepcional junto ao presidente da República e, em
nossa opinião, pouco contribuiu para traçar a biografia de seu pai,
que declara preferir deixar para um historiador profissional. Não pa­
rece razoável que tenha sido tolhido pela necessidade de silenciar
sobre alguns dos assuntos perguntados por razões de Estado. Quem
se dispõe a um depoimento para a história tem obrigação de falar a
verdade, e toda a verdade. Achamos que perdeu uma excelente opor-
100 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

tunidade. Outros depoimentos, agora publicados por ex-ministros de


seu pai e pelo ex-presidente Geisel, resgatam melhor a imagem do
presidente mais visado pela esquerda e o mais injustiçado entre todos
os do regime autoritário.
O depoimento, em seu conj unto, é mais um libelo contra os
que teriam traído a confiança do General Médici do que a defesa de
sua ação de governo, e deixa a impressão que, apesar de filho de um
militar de carreira, o Dr. Médici pouco conhecia da profissão de seu
pai, e é muito reticente ou vago em assuntos que um assessor de alto
nível não poderia ignorar ou não saber avaliar. Faz generalizações
sobre o período Castcllo Branco e inclui, a nosso ver injustamente, o
primeiro presidente do ciclo revolucionário em seu patente ódio à
tríade Geisel-Golbery-Figueiredo.
Logo no início do depoimento, ao ser indagado que outras
pessoas, além do General Fontoura, consideraria como melhores fon­
tes sobre o período governamental de seu pai, consegue surpreenden­
temente lembrar-se apenas do Dr. Leitão de Abreu, por sinal já morto
àquela época. Certamente, por razões pessoais que só a ele perten­
cem, leais e atuantes ministros que acompanharam o presidente Médici
em todo o governo - como o coronel Passarinho - não mereceram
a justiça de serem lembrados.
Em alguns pontos o depoente é contraditório, como ao afir­
mar que seu pai integrava um movimento liderado pelo General Cos­
ta e Silva para impedir o fechamento do Congresso por j ango Goulart,
para, logo em seguida, esquivando-se a outra pergunta, confessar des­
conhecer os "meandros desse movimento". Por outro lado, e fora do
conte xto do depoimento, avança afirmações algo temerárias, como a
da infiltração nazista (?) no seio do Exército antes da guerra e de que,
não fora a atuação de Oswaldo Aranha, o Brasil teria se aliado ao
Eixo, opinião sem apoio em fatos ou depoimentos de personalidades
contemporâneas dos eventos.
DEPOIMENTO MÉDICI 101

Ao responder sobre o pensamento de seu pai a respeito da


sucessão do presidente Castello, atribui ao General Médici um ponto
de vista totalmente desmentido pelos acontecimentos que se segui­
ram e demonstra um lapso de memória imperdoável. Segundo o de­
poente, o General Médici teria considerado um erro a prorrogação do
mandato de Castello, pois alienara o apoio da liderança civil à Revo­
lução de 64 e impedira uma solução também civil para a sucessão do
primeiro presidente militar. Para quem adotou firmemente a solução
Costa e Silva, que sabidamente não era a preferida de Castello, pare­
ce uma mudança de opinião muito rápida e radical. A prevenção do
depoente contra Castello vai ao ponto de, erradamente, atribuir-lhe a
cassação de Carlos Lacerda. Diante disso, não será temerário afirmar
que, em muitos pontos, o Dr. Médici parece atribuir a seu pai suas
próprias idéias e opiniões.
No final do depoimento, inclui a escolha de Geisel entre os
três maiores erros da história moderna do Brasil. Os outros dois seriam
a mudança da capital para Brasília e a reforma universitária de Castello
Branco (sic). Volta a criticar acerbamente o governo Geisel, especial­
mente o acordo nuclear e a Ferrovia do Aço. Ao mesmo tempo, apre­
senta como grandes obras do governo de seu pai a Transamazônica e
a Perimetral Norte, descontinuadas, segundo ele, por Geisel. Esse
fecho do depoimento nos dá a nítida impressão que, toldado pelo
ressentimento contra os que teriam traído seu pai, o julgamento do
Dr. Roberto Médici a respeito de fatos da história recente do Brasil é
contraditório, confuso e bastante discutível, se examinado à luz de
outras fontes, dos acontecimentos que se seguiram e da ponderável
opinião de outros participantes dos eventos por ele mencionados.
Quanto à escolha de Geisel, é um ponto de vista pessoal que
respeitamos e que, visto a posteriori e louvado em resultados, poderia
ser apoiado por respeitáveis argumentos. Valeria a pena confrontá-lo
com o depoimento Geisel, abordado no capítulo seguinte.
102 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

Quanto à mudança da capital para Brasília, dá a impressão


de querer culpar a vassoura pela existência do lixo e parece não lem­
b rar- s e da opinião de seu p ai - p ublicamente mani festada e
corretíssima, em nosso modo de ver -, ao dizer que a mudança da
capital fora um grande erro tático, mas um grande sucesso estratégi­
co. O Dr. Médici deve esquecer a geopolítica do Golbery e ater-se a
trabalhos mais sérios e muito anteriores, como os de Mário Travassos,
a respeito da importância de Brasília para o alargamento de nosso
ecúmeno. Nesse aspecto o Dr. Médici afina-se com Geisel.
Com relação à criticada reforma universitária - que teria
sido feita no governo Castello Branco e apontada como responsável
pela situação de descalabro do ensino universitário que nos aflige até
hoje - é a respeitável opinião de um laureado professor universitá­
rio, mas impossível de ser confirmada face aos acontecimentos pos­
teriores, e não é comprovada por outras fontes e outros depoimentos
de participantes dos governos pós-64, inclusive o ministro da Educa­
ção do governo Médici, J arbas Passarinho. A primeira lei que se po­
deria considerar de Diretrizes e Bases da Educação é de dezembro de
1 96 1 - governo João Goulart. A lei seguinte é a 5. 540, de 1 968
(governo Costa e Silva) que foi modificada pela de número 5.692, de
1 97 1 , no governo Médici. N ão teria sido a oportunidade do professor
Médici, como conhecedor dos problemas da educação, com acesso
direto à última instância do poder na época, já que assessor e filho do
Presidente, ter agido para sanar os graves erros que agora aponta?
Um fato marcante no governo Castello na área da educação
foi o chamado Relatório Meira Mattos, uma avaliação e um diagnós­
tico desse importante setor, coordenado pelo coronel que lhe deu o
nome e que provocou muita celeuma. Mas, ao que se saiba, não hou­
ve reforma do ensino universitário durante o governo Castello Branco.
DEPOIMENTO GEISEL

A mesma equipe da Fundação Getulio Vargas que tem pro­


duzido vários livros sobre o chamado regime militar publicou, em
1 997, o depoimento prestado, entre j ulho de 1 993 e maio de 1 995,
pelo ex-Presidente Ernesto Geisel, há pouco falecido.
Trata-se de uma das mais importantes figuras dos chamados
anos de chumbo - que tão afanosamente a dita equipe tem procura­
do devassar - e cujo depoimento poderia revelar fielmente seu pen­
samento, já que o memorialista teve oportunidade de rever, revisar e
corrigir o resultado de suas entrevistas, agora vindas a público com
grande sucesso editorial. O depoimento Geisel é muito interessante,
mesmo naquilo em que o ex-Presidente foi intencionalmente vago,
evasivo, lacônico e procurou ou esconder ou dizer pela metade. Po­
deria ser mais esclarecedor, já que se tratava de um documento a ser
divulgado postumamente. O uso de expressões indesejáveis, do tipo
"como dizem as más línguas", e certas imprecisões fatuais não che­
gam a comprometer o conjunto do que o ex-Presidente quis deixar
como seu depoimento para a história. No livro cm tela, ainda que de
forma atenuada, é possível perceber nas perguntas formuladas a evi­
dente parcialidade dos entrevistadores, patente nos outros livros pu­
blicados. Mas, em suma, para quem conviveu com Geisel, a leitura
do livro deve ter sido a confirmação do feitio, do jeito e da persona­
lidade do quarto presidente do "ciclo militar" que tanto tem interes­
sado nos últimos tempos o CPDOC da FGV.
104 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Conheci Ernesto Geisel ao chegar a Curitiba, no começo de


1 962, egresso da ECEME. Ele era o comandante da AD/ 5 e respon­
deu pelo comando da RM em várias oportunidades (pág. 1 43). 1 Fui
seu oficial de Estado-Maior durante algum tempo e tive contatos bem
próximos com o futuro presidente que registrei em meu primeiro li­
vro, Meninos, eu também vi! (pág. 94/95). Contatos que me permitiram
formar sobre ele um juízo pessoal que em muito pouco se modificou
com o passar do tempo, sobre o homem, o militar, o chefe e o estadis­
ta. Hoje, à distância e à luz dos fatos e de seu depoimento para a
História, posso atrever-me a mais estas apreciações.
Ernesto Geisel era um homem atilado, muito inteligente,
estudioso e firme em suas convicções pessoais. Franco e direto, tinha
algumas vezes uma forma rude de manifestar-se. Na juventude fora,
como confessa, um revolucionário, formado nos ideais do tenentismo,
de onde certamente lhe vieram as convicções nacionalistas e a crença
na importância da intervenção do Estado no domínio econômico,
que ele considerava insubstituível em países subdesenvolvidos,
como o Brasil.
Militar oriundo de modesta família de imigrantes, pôde ter
no Brasil a carreira brilhante que possivelmente lhe teria sido negada,
por razões sociais ou de casta, em seu país de origem. Circunstância
que, por outro lado, confirma constatação já tantas vezes registrada,
de ter sido a carreira militar, ao longo do tempo, uma das poucas vias
de rápida ascensão social no Brasil, independentemente de origem
familiar e social, raça e convicção religiosa. A origem familiar e racial
de Geisel explicam seu prussianismo autoritário, uma auto-suficiên­
cia muitas vezes sarcástica, que às vezes beirava o rempli, e um inva­
riável rigor no j ulgamento dos outros.
Com tais atributos e significativas qualidades de estadista,
nada mais natural que seu nome aparecesse entre aqueles indicados
para ocupar altos cargos e, no devido tempo, ser incluído no rodízio
quando da "troca da guarda" dos governantes do regime pós-64.
DEPOIMENTO GEISEL 105

Muitas são as razões levantadas para explicar a escolha de


Geisel como sucessor de Médici, mas, em meu entender, mais do que
a alegada influência do irmão Orlando, o lobf?y palaciano comandado
por Figueiredo e as maquinações de bastidores de Golbery, seu ver­
dadeiro alter tgo, foram as qualidades pessoais de Geisel que levaram
seu antecessor a decidir-se pelo homem a quem retirara da penumbra
de um tribunal militar e entregara a presidência da Petrobrás. O que
Médici certamente não teria alcançado era a profunda ligação e ver­
dadeira reverência intelectual de Geisel pelo "bruxo" Golbery, que o
livro mostra exuberantemente, indicando circunstâncias que eram
evidentes demais para serem ignoradas, tais como a presença de Hei­
tor de Aquino na assessoria de Geisel na Petrobrás. A garantia que
teria sido dada por Figueiredo a Médici que Golbery não seria figura
de proa num futuro governo Geisel encobriria segredo de polichinelo
(pág. 433) .2
Esguiano, sempre defendeu uma postura nacionalista e alti­
va do Brasil, consubstanciada no chamado "pragmatismo responsá­
vel" em política externa que adotou em seu governo. Mais que isso,
esguiano convicto, acreditava plenamente nas virtudes e nas benesses
do planejamento e organizou e dirigiu sua equipe de governo dentro
da concepção de um verdadeiro Estado-Maior, o que levava alguns a
dizerem que Geisel não tinha ministros mas apenas assessores. N un­
ca abdicou de seu papel de responsável final pelas decisões - como
o faz todo bom comandante - e nunca hesitou no uso de seus pode­
res revolucionários. Como todas as pessoas de seu temperamento, era
exigente com os auxiliares, mas parece que gostava de ter alguns
sabujos ao pé de si. Competência indiscutível e plenamente reconhe­
cida e louvada, só a de Golbery, campeão absoluto de referências no
índice onomástico e remissivo do livro...
E das quase 500 páginas d o livro é possível retirar elemen­
tos que nos podem aj udar a compreender muitas coisas da história
recente do país, período que a esquerda e seus embuçados porta-
106 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

vozes resolveram apelidar de "anos de chumbo". É possível inferir


do extenso testemunho de um dos seus atores mais importantes as
razões de certas medidas ou da falta delas, que geraram perplexida­
des, que se traduziram em inconformismos, não necessariamente de
natureza política, mas que foram jogados pelo ex-Presidente na vala
comum rotulada como "linha dura". São aspectos e assuntos vários,
alguns simples e outros bastante intrincados, e que abordaremos, tanto
quanto possível, na seqüência em que aparecem no livro.

Brasília
Da visão do Brasil, esboçada por Geisel, a faceta mais sur­
preendente e mais destorcida, em nosso ver, é a referente a Brasília.
Como tantos críticos, o ex-Presidente parece não ter conseguido se­
parar o verdadeiro e importante significado geopolítico da mudança
da capital para o planalto central - já brilhantemente estudado e
ressaltado na década de 30 por Mário Travassos, em seus livros -
das vicissitudes, dos erros e dos desvios que envolveram e, de certo
modo, caracterizaram o modus faciendi da obra. Imagina a empreitada
no reino do "dever ser" e esquece lições e exemplos, de que seu de­
poimento está cheio, ao sugerir que antes fosse construída uma infra­
estrutura de transporte e de produção de materiais, ao pé da obra,
para, aí então, pensar no início da construção. Solução teórica que
nos teria conservado "a arranhar o litoral como caranguejos". O pre­
sidente, criador e continuador de tantos "Pólos" de eficácia duvidosa
e defensor da desconcentração industrial, parece esquecer tudo isso
ao considerar a mudança da capital um colossal erro de Juscelino,
deslembrado ter sido Brasília o maior pólo indutor de desenvolvi­
mento e desconcentrador deste país, curiosamente plantado sobre o
histórico meridiano de Tordesilhas.
DEPOIMENTO GEISEL 107

Corrup ção
Profliga a roubalheira havida com a construção acelerada
de Brasília, mas em todo o livro é condescendente com os demais
corruptos e crítico sarcástico dos que exigiam o combate à corrupção,
ao que parece, colocados no mesmo saco da "linha dura" com os tais
inconformados dos "bolsões radicais". Condescendência descrente
revelada na página 1 693, ao afirmar: "Não adiantou passar 1 0 ou 1 5,
20 anos lutando contra a corrupção. Foi uma luta praticamente inó­
cua." Afirmação equivocada, pois na realidade foi uma luta perdida
pela omissão e conivência dos altos escalões da República, e que
parece decorrer de nunca ter o ex-Presidente se apercebido, real e
totalmente, dos problemas enfrentados no combate à corrupção. Chega
a ser espantoso que um homem que desempenhou tão elevadas fun­
ções tenha chegado ao fim da vida sem distinguir a Comissão de In­
vestigação Sumária (a CIS do General Taurino e do almirante Bosisio)
- de seu tempo de Chefe da Casa Militar de Castello e dos IPM
"malucos", de que fala tão mal - da Comissão Geral de Investigações
(CGI) - resultante do AI-5, de que seu ministro da Justiça, Armando
Falcão, foi um dos inoperantes presidentes - e que acabou transfor­
mando-se em uma das vergonhas do movimento de 64, contribuindo
para que as ladroeiras - a que se refere Geisel em tantas passagens
de seu depoimento - ficassem impunes (págs. 1 68/ 1 69/ 1 74/ 1 75),
conforme expomos em outra parte deste livro.

Tortura
Trechos do depoimento Geisel sobre a tortura e comentários:
"O que constatamos é que houve torturas nos primeiros dias
da Revolução. Um dos que foram seviciados foi um ex-sargento co­
munista Gregório Bezerra." (pág. 1 85)
108 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

A afirmação, resultado de constatação feita pelo então chefe


da Casa Militar de Castello, deixa sem resposta várias perguntas: que
sevícias foram praticadas, quem seviciou? Foi tomada alguma provi­
dência para punir o responsável? Já naquele tempo era considerado, no
núnimo, transgressão disciplinar "maltratar preso sob sua guarda"!

"Houve a morte de um líder da OBAN, um empresário que


dirigia uma companhia de distribuição de gás, que foi assassinado.
Era um radical contra os comunistas." (pág 2 1 5)
''A organização que funcionou em São Paulo, a OBAN, foi
obra dos empresários paulistas."
Aqui o memorialista parece confirmar o que disse em outro
ponto, ao confessar-se desinformado por estar voltado para suas fun­
ções na Petrobras (pág. 227). Repete, equivocadamente, uma tese da
esquerda, que acusava o Sr. Boilesen até de ser participante de supos­
tas sessões de torturas. A OBAN - cujo organizador e coordenador
foi o tenente-coronel de Engenharia Waldyr Coelho - contou com o
apoio material dos empresários paulistas, os mesmos que foram
arregimentados pelo Golbery antes de 1 964 para organizar o IPES
(pág. 1 50) .

''Acusam muito o governo pela tortura. Não sei se houve,


mas é provável que tenha existido, principalmente em São Paulo. (. . .)
É muito difícil para alguém como eu, que não participou nem viveu
diretamente essas ações, fazer um julgamento do que foi realizado.
Por outro lado, parece-me que, quando se está envolvido diretamente
no problema da subversão, em plena luta, não se consegue, na gene­
ralidade dos casos, limitar a própria ação. (.. .) (págs. 224/225)
As acusações de tortura nunca foram dirigidas ao governo.
Especialmente na época do depoimento, as acusações visavam atin­
gir as Forças Ar madas, principalmente o Exército, representado pelos
DOI-CODI, os grandes operadores dos tais "porões", expressão sutpre-
DEPOIMENTO GEISEL 109

endentemente omitida pelos entrevistadores no depoimento Geisel, tal­


vez por não ser do agrado do ex-Presidente. Parece não ter a opinião
expressa acima quando exonerou sumariamente o General Ednardo.

"Acho que a tortura em certos casos torna-se necessária para


obter confissões. (. ) O inglês, no seu serviço secreto, realiza com
..

discrição. E o nosso pessoal, inexperiente e extrovertido, faz (sic) aber­


tamente. Não justifico a tortura, mas reconheço que há circunstânci­
as em que o indivíduo é impelido a praticar a tortura para obter deter­
minadas confissões e, assim, evitar mal maior!" (pág. 225)
As declarações de Geisel referentes à tortura são pouco cla­
ras, contraditórias e acrescentaram um item polêmico com a confis­
são da página 225. A opção de fazer seu depoimento histórico na
forma apresentada o tornou obscuro e ininteligível em muitos pon­
tos, pois caminhou a reboque do viés ideológico dos entrevistadores,
com suas perguntas capciosas e de fins predeterminados. No trecho
acima, ao colocar o verbo no presente, ensej a a interpretação que a
tortura ainda ocorria no Exército em 1 995.

"Não posso avaliar exatamente, porque nem sei o que o CIE


fez. Não critico a atuação do Orlando. Como já disse, naqueJa época
eu estava inteiramente voltado para a Petrobras. Não conhecia o que
estava acontecendo." ( . .) "A criação do CIE, ligado ao ministro, era
.

uma maneira de subtrair as ações ao controle da presidência da Repú­


blica, (que deveria controlá-las) tendo como órgão informativo e de
acompanhamento dessas questões o SNI ."(pág. 227)

Outro ponto em que o ex-presidente é obscuro e ambíguo.


Parece ignorar ou querer silenciar sobre um aspecto relevante do pro­
blema do comba te à subversão. No governo Médici, foi baixada pelo
presidente uma diretriz governamental para orientar as ações naquele
combate, tendo em vista o agravamento da ameaça à segurança inter-
110 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

na, cuja responsabilidade foi delegada basicamente força terrestre e a


seu comandante, o ministro. Daí a necessidade e a importância do
CIE e da criação e ativação dos CODI e de seus elementos operativos,
os DOI. Esse detalhe pareceu escapar também a muitos dos outros
entrevistados pela equipe da FGV.

"Eu acho que houve (a tortura) . Não todo o tempo. (. . . ) um


caso foi o problema de São Paulo. Ele (General Ednardo) ia passar o
fim de semana fazendo vida social e os subordinados dele, majores,
faziam o que bem queriam." (pág. 224/225)
"(...) nos fins de semana ele (Ednardo) saía da capital, ia para
uma fazenda, e as coisas no comando ficavam abandonadas." (pág: 370)
"( ...) e deixava o (II) Exército à matraca." (pág. 375)
O ex-presidente faz um julgamento muito severo do coman­
dante que ele destituiu, deixando para a posteridade uma imagem de
um general "boa praça" mas omisso, ausente e incompetente. Se a
situação no Comando do II Exército era a descrita acima, a substitui­
ção deveria ter sido feita muito antes. Um Grande Comando que ne­
cessita da presença permanente do quatro estrelas para não ficar "à
matroca" (sic) ou entregue a majores alucinados e irresponsáveis é
uma calamidade. Que faziam o general-chefe do EM, o coronel
subchefe do EM, o coronel chefe da 2ª Seção, para ficar só nesses?

"(. . .) Quando resolvi mandar abrir o inquérito e o Ednardo


opôs algumas dificuldades, vi que havia problemas(...) " (pág. 370)
Geisel, não só mandou abrir um IPM, como escolheu o en­
carregado, um homem de sua inteira confiança, o General Cerqueira
Lima, circunstância que esqueceu de mencionar.

"Não me recordo dessa reunião. É possível que eu tenha


dito isso (Agora a esquerda tem um herói - Herzog) . De fato cria­
ram um herói. Pegaram uma pessoa relativamente sem importância e
DEPOIMENTO GEISEL 111

a transformaram num herói para a esquerda. Era uma vítima e a víti­


ma sempre é importante." (pág. 372)
Num fim de semana ele (Ednardo) não estava em São Paulo
e mataram esse operário." (págs. 375/376) (O grifo é nosso.)
Observação absolutamente correta e que descarta a falácia
da morte de Herzog sob tortura. Torturar para obter informações de
um mero integrante de uma célula do Partidão na revista Visão que já
havia contado tudo em depoimento espontâneo e de próprio punho e
que ia ser posto em liberdade, sem sequer ser indiciado em inquérito?
O que também é aplicável ao novo herói, criado com a ajuda de Geisel
que, afoitamente, afirma em seu depoimento que o operário foi mor­
to. Sem necessidade de inquérito nenhum, ao que parece.

Pe quenos rep aros


O depoimento Geisel apresenta algumas outras lacunas ou
falhas que, em parte, podem ser explicadas pelo alegado alheamento
do ex-presidente ao que se passava, devido ao seu trabalho, primeiro
no STM e depois na Petrobras. Nada relevante e alguns lapsos talvez
de memória ou descuido da revisão. Mas, de outra parte, há certas
incoerências e algumas pequenas confissões bem interessantes. Vej a­
mos, com a citação das páginas.
Págs. 1 1 1 / 1 1 4 - Resumo histórico da participação dos
militares na política. Entre alguns outros discutíveis pontos de vista,
uma "revisão histórica" no resultado da batalha do Passo do Rosário!
Pág. 1 68 -
À pergunta: Os senhores achavam que iam ficar no
poder 20 anos? - respondeu: Não. Foi um erro ter-se ficado tanto tempo. "
Não obstante, como presidente aumentou o mandato para seis anos,
embora continuasse a atribuir à "linha dura" parte da culpa por
esse alongamento.
112 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Pág. 1 70 - Castello foi o E-3 da DIE/FEB e não chefe do


Estado-Maior.
Pág. 200 - Confessa no livro haver dito a Castello Branco:
O Costa e Silva, na primeira d�ficuldade séria que tiver, vai dermbar tudo isso
(a legislação deixada por Castello) e se tornar ditador. E acrescentou: E
foi o que aconteceu. Na primeira oportunidade ele baixou o Al-5. No entan­
to, foi Geisel o presidente que mais aplicou o AI-5.
Pág. 207 /209 - Episódio Márcio Moreira Alves. Confessan­
do-se inteiramente alheio ao que ocorria, pois achava-se no STM no
Rio, comete lapsos, ignora fatos e emite opiniões sobre a gênese do
AI-5 que comprovam que realmente estava mal-informado. O menor
deles é confundir licença para processo com pedido de cassação.
Pág. 386 - Admite ter concordado com a indicação de "um
pobre de espírito"- Enoc Reis - para o governo do Amazonas.
Coisa previsível, já que o proponente era também um indigente inte­
lectual, bem situado junto à cúpula do governo.
Págs. 41 2/41 3 - Escolha do sucessor. Confessa a participa­
ção já sabida do Golbery (de quem Figueiredo seria "cria" - pág.
432), mas revela que o Heitor Aquino (quem diria?) era também um
"cardeal" nesse "conclave" e admite que nunca chegou a cogitar de
outro nome, mas não quis confirmar desde quando a escolha estava
feita, coisa que os generais Frota e Hugo Abreu estavam cansados de
saber, mas tiveram a ingenuidade de achar que poderiam modificar
tal decisão.
Págs. 43 1 /435 - A decepção com o Figueiredo presidente.
Primeiro, na escolha do governador biônico de São Paulo; depois,
pelo mau caráter de amigos que levou para o governo e, finalmente,
pelo desinteresse após o enfarte. Para mim é história mal contada.
Figueiredo sempre foi leal e amigo de seus amigos, embora alguns
desses fossem incompetentes e aproveitadores. Por outro lado, não
acredito que depois de tantos anos um homem com a acuidade de
Geisel, e contando com o conhecimento que o "bruxo" Golbery ti-
DEPOIMENTO GEISEL 113

nha das pessoas do grupo palaciano, não conhecesse o candidato que


escolhera para dar continuidade ao esquema que haviam montado
com o pacote de abril de 77. O que aconteceu é que esse homem não
tinha nem gosto, nem jeito, nem paciência para a coisa, e fugiu-lhes
ao controle; Golbery imaginava continuar a ser a eminência parda do
sistema que conduziria a distensão. Quando viu que não era mais,
aproveitou a confusão da bomba do Rio Centro e saiu como demo­
crata de quatro costados.
Pág. 461 A referência a um movimento separatista apare­
-

cido no Rio Grande do Sul, autodenominado "República dos Pampas",


é feita de forma totalmente errônea, inclusive envolvendo o Paraná,
que nada teve a ver com as alucinações de um maníaco nazista lá do Sul.

Vistas retrospectivamente e com a vantagem de saber o que


aconteceu, é fácil criticar as idéias e as ações de Geisel como estadis­
ta e algumas decisões de seu governo. Mas, por outro lado, o tempo
por vir é que será o juiz final de algumas dessas idéias e ações que são
clara e firmemente defendidas no depoimento do ex-presidente. Em
tempos de globalização e de grandes interrogações nos r umos da eco­
nomia mundial, será temerário julgar se a visão de Brasil defendida
por Ernesto Geisel e sua ótica da preponderância do papel do Esta­
do, de sua repulsa à contrafação do modernismo e das ilusórias van­
tagens do Mercosul estavam corretas ou não.

NOTAS

1 - Ernesto Geirel.
2 - Op cit.
3 - Op cit.
PACTO DE SILÊNCIO

Os dois capítulos anteriores nos dão a medida das dificu�da­


des para fazer, com isenção e imparcialidade, o tal resgate histórico
dos chamados "anos de chumbo", tão reclamado pela esquerda. Como
ali foi mencionado, os pesquisadores da FGV, pelas perguntas e pela
maneira como encaminharam as entrevistas, não tinham essas quali­
dades, o que foi possível verificar, mais extensamente, nos três livros
que foram publicados com o respaldo do CPDOC daquela institui­
ção e com dinheiro do FINEP, para um projeto intitulado 1964 e o
regime militar. Isto é plenamente verificado, especialmente em Os anos
de chumbo - a memória militar sobre a repressão. Foram entrevistados 1 2
militares, apenas do Exército e da Aeronáutica, uma vez que, segun­
do os pesquisadores, ex-integrantes do Centro de Informações da
Marinha (Cenimar) não quiseram colaborar.
No livro acima citado, tais depoimentos são precedidos de
uma introdução que põe a nu a parcialidade e a forma tendenciosa
como foi conduzida a tal pesquisa, pois nitidamente procura influen­
ciar o leitor, dentro da postura ideológica dos entrevistadores, que
fizeram questão de deixar bem claro que "não respaldam nem endos­
sam as declarações dos depoentes" e que só certos trechos foram
selecionados, pois apenas parte do material colhido estava sendo apre- .
sentado, naturalmente a critério dos organizadores. N em precisavam
dizê-lo, pois que, ao tentar "abrir a caixa-preta do regime militar", ou
romper um pseudo ''pacto de silêncio sobre um passado que se configu­
ra como algo que não deve ser remexido. . . pois nada de edificante
116 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

sobre ele pode ser construido a partir de velhos temas, como a re­
pressão", fingem ignorar que houve uma anistia política e que Anistia
significa perdão e convite ao esquecimento.
Avançam afirmações gratuitas, como a de que "no imediato
pós-64, e antes mesmo do início da luta armada, a violência policial e
militar durante as prisões e nos presídios já era algo alar mante". Sem
nenhuma originalidade, repetem, 30 anos depois, o que já insinuava
em pergunta feita a Carlos Lacerda, em Orly, nos primeiros dias de
abril 1 964, um jornalista francês que entrevistava o político brasilei­
ro, esquecidos que, cinco anos depois, em setembro de 69, o embai­
xador Elbrick foi trocado por apenas 1 5 presos políticos. E já, a priori,
decretam que as Forças Armadas adotaram a tortura como prática
corriqueira e fazem tabula rasa do fato que em 64 houve não um gol­
pe, mas um contragolpe, e que a repressão foi uma resposta à luta
armada e que esta não começou, como querem fazer crer, em 68, mas
em 65, com a guerrilha do Jefferson Cardim, seguida, em 66, pelo
atentado no aeroporto de Guararapes, preparado contra Costa e Silva
e que resultou nas mortes de um jornalista e de um almi rante e
ferimentos graves em várias pessoas.
Do que se contém no livro, ressalta que o grande interesse
da pesquisa era tentar confirmar algumas teses preconcebidas, sobre
as quais os entrevistadores são olimpicamente repetitivos, a saber:
- a prática generalizada e institucionalizada da tortura e a
responsabilidade dos chefes militares no acobertamento dessa tortura;
- a desnecessidade do envolvimento das Forças Armadas
na repressão às atividades subversivas, trabalho para a polícia;
- o papel repressivo do SNI e dos Centros de Informações
das Forças Armadas e a atuação dos Centros de Operações de Defe­
sa Interna (CODI) e dos Destacamentos de Operações de Informa­
ções (DOI) ;
- o uso abusivo da cadeia de informações que, muitas ve­
zes, teria ultrapassado a cadeia de comando e agido por conta própria;
p ACTO DE SILÊNCIO 117

- o desprestígio dos militares resultante do longo período


de exceção e da demora na "volta aos quartéis".
Um dos ângulos mais interessantes do livro é que ele serviu
para revelar ou confirmar facetas pessoais de certos entrevistados
que, embora personagens bem situados j unto às engrenagens do po­
der discricionário de que o governo teve de investir-se para enfrentar
o desafio, pretendem cobrir-se com a roupagem simpática de liberais,
aos quais repugnariam os excessos que admitem ter havido, dos quais,
na realidade, teriam sido cúmplices - pelo menos indiretos -, pos­
to que, fingindo-se cegos e surdos, não hesitaram em desfrutar as
benesses e as vantagens do aulicismo e das posições privilegiadas.
Um deles fala em exercício do "dever militar".
Alguns depoentes, embora tendo atingido altos postos e
desempenhado funções de relevo, parecem deslembrados e claudicam
em aspectos de doutrina e conhecimento militar, cometem enganos
fatuais quanto ao desenrolar de alguns acontecimentos, equívocos
que revelam ou lapsos de memória, ou falta de preparo para enfrentar
as perguntas, ou mesmo descuido na revisão do que haviam dito, se é
que o fizeram.
Alguma gabolice e a exibição de pequenas vaidades, expli­
cáveis pelo desejo de aproveitar aqueles " 1 5 minutos de notorieda­
de". E não faltaram os que posaram de intrépidos e convictos demo­
cratas, cercados de "gorilas" por todos os lados, tentando "mudar a
cara da ditadura". Confirmam o que alguém já disse alhures: muitas
vezes, falta de memória é, na verdade, falta de caráter.
Causa estranheza que alguns deles, homens tão bem qualifi­
cados, não soubessem ou não dissessem certas coisas, como:
- que os casos de corrupção, a partir de 1 969, eram da
competência da Comissão Geral de Investigações (CGI);
- qual a quantidade do armamento que o Lamarca roubou;
- que, muito antes do seqüestro do embaixador americano,
inúmeros atos de terrorismo já tinham acontecido;
118 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

- que uma vez criado o DOI/II Exército, a OBAN deixou


de existir.
Lamentavelmente, alguns chefes já falecidos, e que não po­
dem mais se defender, foram postos no pelourinho e acusados
soezmente. Um dos depoentes - que em 64 era considerado "país
verde"1 - só muito tarde descobre que o presidente Médici, do qual
fora importante assessor, não passava de "um capitão de Cavalaria".
Um dos mais cáusticos críticos é uma figura palaciana de
proa que sempre supriu sua mediocridade intelectual com a habilida­
de para insinuar-se junto aos chefes que, ao que parece, sempre se
deixaram enganar, do que não escapou o próprio presidente Castello
Branco. No auge da luta armada, encontrou um bom refúgio na fron­
teira amazônica, região de que tinha fama de ser um grande conhece­
dor, graças ao estágio que fez em Belém, para onde foi mandado de­
pois do curso de Estado-Maior, prebenda que, entre tantas e inegá­
veis virtudes, tem o grave defeito de fazer alguns acreditarem na his­
tória da "peneira"2: botou o "kolinos"3 no braço, vira sábio.
Mas há, também, depoimentos firmes e esclarecedores, como
os dos generais Fiúza, Coelho Neto e Leônidas Pires Gonçalves. E
fica uma indagação final: tentaram entrevistar outros notórios e des­
tacados participantes, como os generais Bandeira, Newton Cruz,
Otávio Medeiros, Ibiapina, Sebastião Castro - para só citar uns pou­
cos? Ou eles se recusaram, por já adivinharem no que ia dar?
Mas a ridícula falácia de um pretenso "pacto de silêncio" é
totalmente desmoralizada pelo livro, aqui tantas vezes citado, do co­
ronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, publicado em 1 987, e cujo útu­
lo é significativamente Rompendo o silêncio.
A maioria das observações feitas neste capítulo e no que se
segue podem ser aplicadas à mais recente obra "revisionista": o livro
do jornalista Hélio Contreiras - Militares-Confissões, publicado no
início de 1 998, pela Editora Mauad.
PACTO DE SILÊNCIO 119

NOTAS

1 No jargão militar: neutro ou em cima do muro.


-

2 Reunião em que os diplomandos faziam a entrega simbólica do objeto que tem


-

mais "furos"- no jargão da Escola, igual a erro, falha -, significando que a partir dali
não erram mais.
3 "kolinos"- apelido dado ao distintivo do curso por sua semelhança com o antigo
-

emblema do dentifrício.
VOLTA AOS QUARTÉIS

Uma mentira, repetida mil vezes, acaba sendo aceita como


verdade, doutrinava o mago da propaganda hitlerista. Os comunistas
brasileiros têm sido mestres em utilizá-lo. Usam também uma outra
técnica de aliciamento, mais sutil, mas de grande efeito, e cujo resul­
tado foi denominado por um pensador católico brasileiro de "baldea­
ção ideológica inadvertida"1 • Esta última não é exclusividade de nos­
sas esquerdas, mas empregada largamente pela mídia, principalmente
em sua propaganda comercial. Passamos a adotar, sem querer e sem
pensar, uma série de ditos e de slogans com que nos bombardeia a
televisão nos anúncios, nas novelas, nos programas da Xuxa, do
Faustão, do Sílvio Santos ou do Gugu Liberato.
Assim vem acontecendo há anos, com a repetição de falácias
e mentiras sobre os chamados "anos de chumbo", expressão já de si
um exemplo do que estamos falando. Outro exemplo é a tal "volta aos
quartéis", largamente empregada para respaldar a mentira de que todo
o Exército ou um efetivo enorme esteve fora deles na caça aos comu­
nistas "comedores de criancinhas", mostrando o que o falecido Nel­
son Rodrigues queria dizer quando ironizava: "se a versão contraria
os fatos, pior para os fatos". Falácias a que têm aderido algumas im­
portantes e ilustres figuras daquela época, ao se disporem a cola­
borar no rompimento do inventado "pacto do silêncio".
A necessidade da volta aos quartéis, eis a versão transfor­
mada em palavra de ordem. Vamos aos fatos, dando a palavra a um
antigo comandante de DOI, em livro que publicou:
122 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

"No auge do combate à subversão, foram ativados 1 0 desta­


camentos. Destes, o de maior efetivo era o do II Exército, em São
Paulo, que tinha cerca de 250 integrantes. Destes, apenas 40 eram do
Exército. Considerando que todos os DOI tivessem efetivo igual ao
de S. Paulo - o que não ocorria -, o efetivo total do Exército em­
penhado no combate ao terrorismo seria de cerca de 400 homens. Se
a esses acrescentarmos uns 50 do CIE em Brasília, teremos que, para
um efetivo total do Exército, n::i época, de 1 50 mil homens, estive­
ram fora dos quartéis, nessas operações tipo polícia, 0,3% do efetivo
da Força, um número irrisório."2
Isto desmente várias coisas. A primeira, é que o Exército
passou a fazer o papel da Polícia; e a segunda, é a afirmação do gene­
ral Fiúza em seu depoimento aos pesqui s::idores da FGV "que se usou
um martelo-pilão para matar um::i mosca".-� Ou o nosso general foi na
onda ou quis considerar ridícula a ameaça vermelha. Na realidade, a
maioria das Forças Armadas continuaram nos seus quartéis, a fazer o
que sempre fizeram: perseverar no trabalho, estóicos face às servi­
dões e preparando-se para os momentos de grandeza que às vezes
nunca chegam, como o definiu Alfred de Vigny, e que o Vandré e
outros que o repetem acham que "é viver sem razão".
Essa onda, aproveitada por gente mal-informada, em deter­
minado momento, chegou a sensibilizar o então sen::idor Roberto
Campos, que lá pelos idos de 1 988, em artigo publicado nos jornais,
lamentava que os militares brasileiros não tivessem voltado aos quar­
téis na época do "milagre" de que o Dr. Roberto foi um dos compe­
tentes artífices. E essa questão do momento oportuno da saída dos
militares do cenário pol ítico é hoje um permanente exercício de
"futurologia às avessas", em que tantos se empenham ao analisar esse
passado tão recente e ainda tão controvertido. Um dos últimos a la­
mentar a demora da volta aos quartéis foi o ex-presidente Geisel, em
VOLTA AOS QUARTÉIS 123

seu depoimento, transformado em livro póstumo. Parece, pois, cabí­


vel e necessário especular sobre a controvérsia que é explorada pela
esquerda em seu realejo sobre os "anos de chumbo".
Sou, de longa data, um grande admirador dos talentos do
hoje deputado pelo Rio de J aneiro e um leitor assíduo e atento de
seus escritos, nos quais ele, corajosamente como sempre, defende
suas idéias e os inegáveis acertos do regime instaurado em 1 964. Não
faria, pois, a injustiça de atribuir-lhe o que ele mesmo chama de odium
theologicum os militares, virulento em certas áreas ressentidas, em al­
guns jornalistas e escribas e em muitos políticos desmemoriados, es­
pecialmente do PMDB na Nova República, e agora do PSDB, que
teimam em explicar os fracassos e as frustrações de seus partidos
como ainda frutos do autoritarismo e da ditadura, depois de tantos
anos decorridos.
Naquele artigo, o então senador Campos tratava do desen­
gajamento político dos militares chilenos e aproveitava para lamen­
tar que os militares brasileiros não tenham aproveitado aquela opor­
tunidade de euforia econômica para fazer o mesmo, ou seja, voltar
aos quartéis.
Opinião que me parecia muito discutível (vej a-se que o
Pinochet era até há pouco o comandante do Exército chileno) e me
levou a reler antigos escritos do doutor Campos, reunidos em livro
publicado nos idos de 1 97 5, sob o título A nova economia brasileira.
Das duas, uma: ou o autor mudou de idéia ou sua análise daquela
época não fazia jus a seus méritos. Fico com a primeira hipótese, pois
concordo que naquela fase dos anos 70 "seria difícil institucionalizar
a estabilidade - já tentada, sem sucesso, pelo Presidente Castello -
em meio a uma contestação anti-sistêmica que se manifestava de for­
ma violenta na guerrilha revolucionária e no terrorismo urbano", quando
- dizia o autor - "seria ingenuidade imaginar que a simples
descompressão política restauraria prontamente a lealdade ao siste­
ma, evitando o relapso na anarquia ou o risco da recompressão". Além
124 Nos "PORÕES" DA D ITADURA

dis s o, j á que "naquele contexto h i s tórico, um certo grau de


autoritarismo parecia inevitável na fase final de modernização"­
expressões do autor -, o governo de civis que sucedesse a Médici
precisaria desse ingrediente para realizar o difícil ajustamento à crise
do petróleo que o regime militar - na opinião do Dr. Roberto - rea­
lizou "através de um programa de substituição de importações, mal
estruturado e mal financiado, com três subprodutos indesejáveis: a
aceleração inflacionária, o endividamento externo e a proliferação de
empresas estatais". (Os destaques são nossos.)
Neste ponto, o economista e o professor pareceram dar lu­
gar ao político de palanque que usa a meia-verdade para justificar sua
tese. O ex-ministro sabia que, "na aliança tácita entre militares e
tecnocratas... que permitiu a gradual sedimentação de uma doutrina
de desenvolvimento e segurança"- como diz no citado livro -
embora o poder político efetivo tivesse ficado com os primeiros, fo­
ram sempre os tecnocratas civis que conduziram - e quase sempre
muito bem - a política econômico-financeira dos governos pós-64.
Os militares, em geral, ficaram com os ônus dos maus resultados ou
com as constatações melancólicas, como a do Presidente Médici, em
plena fase do "milagre", ao afirmar desalentado "que a economia vai
muito bem, mas o povo nem tanto".
Apreciando a "surra" que a inflação deu nos condutores da
política econômica, a verdadeira fúria empreguista que se abateu so­
bre a maioria dos estados com a eleição direta, a partir de 82, e a
despudorada partilha de benesses em que se esmerou a Nova Repú­
blica do Sarney e do Dr. Ulysses, a "volta aos quartéis" seria um "aprés­
moi-le-deluge", antecipando de alguns anos aquelas loucuras, as pa­
jelanças do tipo Plano Cruzado e as trapalhadas do jovem Collor e do
Itamar, o que, mesmo na opinião de um economista competente, soa
como pilhéria do mais puro humor negro.
Seria o caso só da volta aos quartéis ou também da necessi­
dade da volta de alguns economis�as para a escola?
VOLTA AOS QUARTÉIS 125

Só no início do governo Geisel, jugulada a ameaça da luta


armada, pôde-se pensar na "volta aos quartéis", com o projeto de
distensão que deveria ser lenta gradual e segura, mas que sofreu as
turbulências conhecidas e com os resultados sabidos. O resto é falta
de memória ou coisa pior...
NOTAS

1 Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Ed. Vera Cruz, 1 966.


-

2 Ro111pmdo o .rilé11cio, pág. 1 26.


-

3 O.r a110.r dr chumbo, pá�. 7 5.


-
OS FILHOTES DA DITADURA

O ilustre General Octávio Costa, em seu depoimento publi­


cado no livro Os anos de chumbo - tantas vezes já citado - declarou
textualmente:
"( . ..) os frutos da ditadura no campo político não são so­
mente o vazio da via política, mas também a safra de demagogos e de
líderes populares sem substância. Com o movimento militar de 64,
aconteceu pior. Durante 20 anos contribuímos para a castração das lideran­
ças políticas, destruímos as que havia. Outras não foram criadas e voltaram
alguns dos velhos demagogos . . . J ânio Quadros ... Leonel Brizola ... Não
se vê - só com raríssimas exceções - um grande homem de valor
que se arrisque na vida política. Apesar dos cuidados do Castello
para não criar uma nova oligarquia militar.. . foi isso o que aconteceu.
Os únicos fatos novos, do ponto de vista político, depois de 64, são a
consolidação do movimento sindical e o surgimento do Partido dos
Trabalhadores, que deve agradecer aos erros dos militares no poder
tudo o que hoje é. Queiramos ou não, o PT é hoje a grande força de
renovação política da vida nacionaL" 1 (Os grifos são nossos.)
Eis aí, endossada e repetida por um brilhante militar da re­
serva e escritor, uma das mais freqüentes acusações feitas contra a
"ditadura militar", a que o general prestou relevantes serviços. A des­
peito do brilho intelectual de Octávio Costa, eis aí mais uma falácia
que não resiste a um exame mais cuidadoso.
128 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Quais as brilhantes lideranças existentes em 1 964 que o gene­


ral lamenta terem sido destruídas? Quais as castradas e não apenas
cassadas? As comunistas que o Jacob Gorender diz que foram devasta­
das? Liberdade literária de um magnífico escritor ou falta de reflexão?
Por outro lado, o Brizola tem apodado muitos dos seus ad­
versários como "filhotes da ditadura", como o fez com Fernando Collor
de Melo em um debate na TV antes da eleição de 1 989. E que só não
incluiu o J ayme Lerner porque esse era, até há pouco, "um estranho
no ninho" do PDT
Em 1 964 criou-se um divisor de águas. De um lado ficaram
as lideranças responsáveis pelo descalabro que levou à intervenção
militar. De outro alinharam-se as que apoiaram "o grande mudo". As
primeiras foram afastadas e as outras foram-se afastando quando os
rumos do movimento começaram a desiludi-las em suas ambições
políticas. E aí, segundo Octávio Costa, fez-se um vácuo que só foi
preenchido com a volta dos velhos demagogos ou com a nova e bri­
lhante realidade do PT.
Apenas para argumentar, desprezemos os "híbridos"2 que
devem ser os novos "oligarcas militares" a que faz referência o gene­
ral em sua crítica. De onde vieram, como e quando surgiram os ho­
mens que o Brizola costuma chamar de "filhotes da ditadura"? Os
líderes sindicais e as lideranças que fazem do PT a elogiada força
renovadora foram criados pela Nova República do Sarney ou vieram
de outro planeta?
Quanto aos juízos de valor sobre a qualidade dos homens
públicos da geração pós-64, aí entramos no reino do dever ser. Acre­
dito que grande parte da liderança afastada em 64, ou destruída como
quer o general, não passaria pelo seu exigente crivo. Além disso, o
general, como ex-comandante do Centro de Estudos de Pessoal e um
expert no assunto, sabe que o estofo dos grandes líderes já nasce com
Os FILHOTES DA DITADURA 129

eles, não é feito em laboratório ou estufa e, muitas vezes, são as con­


dições adversas que fazem reluzir as qualidades dos verdadeiros che­
fes, sej am eles civis ou militares.
O afastamento da classe política do núcleo decisório nos
governos pós-64 e sua substituição pelos tecnocratas não impediu a
sobrevivência ou o surgimento do político subserviente e aproveitador
que sempre existiu. Tentativas de criar lideranças tipo "chapa bran­
ca" seriam piores que o apregoado vácuo que ter-se-ia criado nos
anos do autoritarismo. E erros de avaliação foram cometidos, e o
General Octávio sabe disso. Não lhe teria sido estranha a conjura
palaciana que fez do Sr. Leon Peres governador biônico do Paraná,
com os resultados que o Presidente Médici resolveu encobrir.
Mas foram exatamente as restrições impostas pela "demo­
cracia relativa" - como a chamou Geisel - que permitiram uma
emulação e uma cristalização das qualidades que passaram a ser ne­
cessárias ao político da oposição não subversiva. Foi esse processo
que permitiu à oposição ir, progressivamente, ocupando maiores es­
paços políticos à medida que se desenhava a normalização institucional
e acentuavam-se os erros do regime. O próprio sistema autoritário, a
partir de um certo ponto, passou a admitir o livre jogo político com
uma chamada "oposição confiável", e muitos dos tecnocratas torna­
ram-se políticos e estão dando sua contribuição no Congresso. Ape­
sar de "relativa", a democracia dos generais permitiu canais de mani­
festação política. Vácuo, realmente, existiu no Estado Novo getuliano,
com o Congresso fechado e todos os meios de manifestação popular
interrompidos.
O esvaziamento do papel de algumas das velhas raposas da
política, observado no atual panorama nacional ou regional, é fruto
da consolidação de lideranças surgidas ainda nos chamados "anos de
chumbo", como um resultado, talvez não intencional, das condições
políticas criadas pela contestação armada. E isso é verificável na
maioria dos estados. Em outros regimes, realmente totalitários, como
130 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

o que o PT da admiração do General Octávio certamente criaria, a


regra é mandar os oponentes para o paredón ou para campos de con­
centração. Negá-lo é tentar tapar o sol com a peneira.

NOTAS

1 Pág. 280, op. cit. Os grifos são nossos.


-

2 Expressão criada por Roberto Campos para designar os políticos oriundos da


-

carreira militar e que tiveram a sanção das urnas e bom desempenho em funções civis.
Citava especialmente Ney Braga, Costa Cavalcanti e Jarbas Passarinho.
UM HÍBRIDO FÉRTIL

Em 1 955, quando encontrei pela primeira vez o major Jarbas


Passarinho, ele já era nome muito conhecido no Exército. Deixara
fama na Escola Militar do Realengo como presidente da Sociedade
Acadêmica e excelente orador. Era também escritor de estilo escorreito
e mordaz; ficaram famosas no Exército suas "Cartas ao Quincas",
publicadas regularmente na Revista do Clube Militar. Inteligente e ati­
lado, era, e é até hoje, um grande debatedor. Polemista e irônico, nos­
sos primeiros contatos de serviço não foram amenos, e chegamos a
ter um diálogo um tanto veemente, prudentemente interrompido com
a entrada na sala de um superior. Realizava ele, àquele tempo, meri­
tório trabalho de planejamento do emprego nas fronteiras dos recur­
sos repassados pela extinta Superintendência do Plano de Valoriza­
ção Econômica da Amazônia (SPVEA) , possivelmente o único di­
nheiro bem empregado durante a e xistência da antecessora da SUDAM.
À s vezes, como dizia um outro major - João Perboyre -, o Jarbas
descuidava-se e jogava sobre nós o peso de seu talento e de sua inteligên­
cia, depois largamente utilizados nos rumos novos que acabou tomando.
Essa trajetória foi retratada em livro autobiográfico com o
título Um híbrido fértil, publicado em 1 996 e a que fiz referência na
introdução deste livro. Trata-se do depoimento de quem participou
ativamente dos eventos desenrolados nos "anos de chumbo". E não
como mero figurante. Antes pelo contrário, exerceu os mais altos car­
gos no sistema político, dominante a partir de 1 964. Por isso seu de­
poimento reveste-se da maior importância. Jarbas Passarinho foi tes-
132 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

temunha ocular da história, e ao dispor-se a dar seu depoimento o faz


com a coragem dos que não temem ouvir contestações e contraditas.
É o risco que correm os que fogem da covardia implícita nas memó­
rias póstumas. E o ex-governador do Pará e ex-ministro de três gover­
nos da fase autoritária pós-64 o assume por inteiro, coerente com sua
postura de nunca haver renegado sua participação em eventos de que
muitos hoje parecem envergonhar-se. Apenas confessa que, embora
sem mentir, não se sentiu ainda em condições de dizer toda a verda­
de. Um dia o fará.
Sou amigo de Passarinho desdee aqueles tempos em que,
ambos majores, servimos juntos no Quartel-General da 8ª Região
Militar em Belém; eu "manga-lisa"1 e ele recém-saído da Escola de
Estado-Maior, depois de um brilhante curso. Esta circunstância, lon­
ge de desquali ficar-me para apreciar o livro de meu amigo, confere­
me o direito e impõe-me o dever de fazê-lo com a lealdade e franque­
za que sempre marcou nosso relacionamento, jamais tisnado por tro­
ca de favores ou elogios gratuitos, mas regado por gestos recíprocos
de cooperação e crítica construtiva.
Sobre o livro, começaria dizendo que tem magnífica apre­
sentação gráfica, colocando-se, assim, à altura do texto que, na reali­
dade, é o que importa. Levei alguma vantagem sobre o leitor comum
por já conhecer muitas passagens dele, apresentadas em livro anterior
- Na planície - e por nossa longa troca de opiniões por carta. Em
meu j ulgamento, Um híbrido fértil é, ao lado do Lanterna na popa do
deputado Roberto Campos, o mais completo e confiável repositório
de informações para o historiador que, no futuro, quiser escrever com
isenção a verdadeira história brasileira destes últimos 50 anos, no
que fico de pleno acordo com a parte final do prefácio do escritor
Antônio Paim. Considerando seus livros anteriores e a extensa cola­
boração em jornais que qualificam os méritos intelectuais do autor,
não precisaria dizer que o livro é de leitura fácil e agradável e que,
não obstante suas 600 páginas - que poderiam assustar o leitor -
UM HfBRIDO FÉRTIL 133

tem o poder de prendê-lo ao estilo simples do memorialista. É um


relato direto e sucinto. Sobre o texto, atrever-me-ia a fazer umas pou­
cas observações.
A primeira, é que notei falta de uma explicação sobre o títu­
lo que o autor preferiu ao anteriormente cogitado - No planalto. Tal­
vez tenha sido proposital, deixando que o leitor o descubra. Eu o
soube lendo um comentário sobre o livro. A expressão híbrido foi in­
ventada pelo ex-ministro Roberto Campos quando da sucessão de
Castello Branco, ocasião em que vários deles para ela foram cogita­
dos, tendo em vista a preferência do presidente por uma solução civil
e as dificuldades de sua aceitação por certos setores militares.
A segunda, é a falta de menção ao episódio do discurso fú­
nebre do então coronel Bizarria Mamede no enterro do General
Canrobert, e cuja tentativa de punição pelo ministro Lott foi o esto­
pim da crise de novembro de 55.
Em terceiro lugar, esperava encontrar alguma coisa sobre a
tal portaria da demarcação das reservas índígenas que, como se sabe,
colocou o ministro da Justiça do governo Collor no pelourinho do pes­
soal verde-oliva, principalmente por incompreensão e desinformação.
Em minha opinião, as colocações feitas sobre o assunto, no programa
Roda Viva da TVE, de que participou Passarinho pouco depois do
lançamento do livro, d everiam e s tar nele, pois for am mui to
esclarecedoras.
Finalmente, não me posso furtar a uma observação sobre o
capítulo referente à tortura. Concordo e aplaudo a veemente defesa
do Presidente Médici - cujo nome eu teria proposto para um dos
campos de instrução da 3ª RM2, se lá tivesse ficado mais algum tem­
po - mas acho que aquela expressão usada pelo ministro Orlando
Geisel de que não deveríamos "quebrar a cadeia"3 pode dar a impres­
são ao leitor desavisado que o interesse era pegar vivo o subversivo
para torturá-lo ou matá-lo. Respeito a declarada ojeriza do autor, em
seus tempos na ativa, pelos trabalhos de 2ª Seção (Infor mações) . Par-
134 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

ticipei deles naquela época. Estávamos inteiramente desaparelhados


em pessoal e material para enfrentar a "guerra suja", daí muitos dos
erros cometidos. Mas se tivéssemos tentado enfrentá-la "com luvas
de pelica", o preço pago cm sangue por nossos companheiros e pelas
forças auxiliares e policiais teria sido inaceitável. Dei inúmeras or­
dens que sabia sem o estrito amparo legal - e as comentei em pági­
nas anteriores - mas nenh uma que levas se ao desprezo pela
incolumidade dos presos e todas em busca de um valor maior, que
era o combate aos que queriam fazer deste país um fantoche comu­
nista. Essa era a postura dominante entre os encarregados do comba­
te à subversão comunista.
Daí decorrem outras considerações, já agora tomando por base
a participação de Jarbas Passarinho no programa Roda Viva, uma "are­
na" que a TV Educativa prepara com tanto esmero para "massacrar"
determinados entrevistados, colocando-os à mercê de perguntadores e
jornalistas nem sempre bem intencionados e quase sempre esquerdis­
tas. A participação era conseqüência do lançamento de Um híbridofélttZ
Gostaria de destacar três pontos específicos do muito e difícil que ali
foi proposto ao entrevistado.
Em primeiro lugar, sobre a pergunta: Era possível e�frentar a
luta armada dentro das estlitas regras do chamado estado democrático de direi­
to? A resposta de Passarinho foi que seria preferível. Concordo: pre­
ferível, mas impossível, e isso fica bem claro às páginas 309 e 329 do
livro que, ao que me pareceu, nenhum dos entrevistadores tinha lido.
Neste ponto, reporto-me ao que escrevi linhas acima, para
acrescentar que, apesar do endurecimento do regime, as organiza­
ções subversivas souberam aproveitar-se de muitas das franquias
mantidas em vigor e dos ônus que as antipáticas medidas repressivas
indispensáveis traziam junto à população. Aliás souberam explorar
muito bem essa importante característica da Guerra Revolucionária.
Países europeus que enfrentaram e ainda enfrentam o problema do
terrorismo sempre tiveram uma legislação tão ou mais severa do que
UM HíBRIDO FÉRTIL 135

a que veio após o AI-5. Será que o Congresso daria ao governo os


instrumentos necessários a esse combate desigual, como as que há
algum tempo atrás o G-74 debateu e que foram chamadas de "a nova
Bíblia contra o terror"? Não tenho dúvidas que não as daria. O episó­
dio Márcio Moreira Alves é emblemático.
Aliás, uma das franquias mantidas era o processo pela J usti­
ça Militar; público, com amplo direito de defesa e que propiciou o
surgimento da falácia da tortura generalizada. Nos julgamentos de
todos os réus, dadas as dificuldades da prova testemunhal pelo receio
d a s t e s te m u n h a s de rep resálias - e xempli fi c a d a s co m " o
j ustiçamento" d e próprios companheiros - era fácil aos advogados
fazerem com que seus constituintes declarassem que as confissões na
fase do inquérito tinham sido obtidas mediante tortura, embora essas
confissões fossem feitas, na maioria das vezes, por escrito, em decla­
rações de próprio punho (DPP) .
Outro ponto interessante da entrevista é o referente à tecla
que a esquerda sempre bate sobre o desejado (por ela) pedido de
desculpas, como já foi feito em outros países. Um dos jornalistas ba­
seou sua pergunta numa falsidade: a de que a autocrítica feita pela
esquerda sobre seu fracasso e os diversos depoimentos de antigos
guerrilheiros e terroristas, dados em livros, seja um pedido de descul­
pas. O tremendo esforço que fazem, com o apoio da mídia, para inde­
nizar as famílias e exaltar os feitos dessa gente é prova de que não se
arrependeram e tentam fazer acreditar que, combatendo a ditadura,
estavam promovendo o retorno à democracia, que, na realidade, iriam
atraiçoar. Terrorista houve que, réu de crime de sangue, declarou não
estar arrependido e que o faria novamente.
Finalmente, uma última observação, sobre o capítulo estati­
zação que também veio a baila. A entrevista é muito movimentada e,
às vezes, tumultuada. Num desses momentos - ao que pareceu, sem
que o entrevistado o percebesse - alguém afirmou que as grandes
estatais e a estatização eram obra dos governos dos generais. É outra
136 Nos "PORÕES" DA D ITADURA

falácia, muitas vezes repetida. Se verificarmos as datas de criação


delas, veremos que são anteriores a março de 64 e só a N uclebrás é
posterior. O que houve foi a constituição das grandes holdings, reorga­
nizando os sistemas de comunicações e de eletricidade - quase fali­
dos - incorporando empresas já existentes, inclusive estaduais mal­
administradas. O grande pecado foi o governo, principalmente o de
Geisel e após o fim do "milagre", ter concordado com a absorção de
empresas privadas falidas, ficando o Tesouro ou os bancos oficiais
com os ônus e seus ricos donos com os bônus. Volto ao assunto mais
adiante quando tratar da privatização.

NOTAS

1 Oficial sem o curso de Es tado-Maior, na gíria militar.


-

2 Da q ual o A. foi comandante em 1 985 /87.


-

3 - A expressão "não quebrar a cadeia" traduz uma das preocupações dominantes n a


resposta à luta armada. A clandestinidade e a fragmentação em células tornava a s
informações dos subversivos presos de extrema importância para o desmantelamento
das organizaçôes atuantes. O terrorista morto era menos um combatente, mas de
pouca valia na busca de informações. Esse, certamente, foi o sentido da afirmação feita
em resposta à observação do Presidente Médici, de que deveriam entrar nos aparelhos
atirando para não termos tantas baixas do nosso lado.
4 - Grupo das sete nações mai s ricas do mundo.
APRECIAÇÕES SOBRE UM DEBATE

Já mencionamos em capítulo anterior1 que, no dia 25 de agos­


to de 1 996 - Dia do Soldado - a Folha de São Paulo publicou um
caderno em que transcrevia um debate promovido na redação daque­
le matutino e do qual participaram o coronel Jarbas Passarinho, o Sr.
Jacob Gorender, o escritor Antônio Paim e o j ovem escritor Marcelo
Rubens Paiva.
Essa transcrição insere-se na inumerável lista do que se tem
escrito sobre os chamados "anos de chumbo", e o debate deveria ser
mais um capítulo daquilo que é quase moda chamar de resgate histó­
rico daqueles anos. O debate promovido pela Folha, colocando frente
a frente quatro pessoas de passados e cabedais tão díspares, preten­
deu contribuir para esse tal resgate que nunca será isento quando
feito por preconceituosos ou ressentidos, como já na introdução pode­
se ver na posição do jornalista J osias de Souza, que o mediou; esse
escriba, tanto nessa introdução como em outros artigos publicados,
não esconde sua má vontade com os militares.
Um dos tópicos interessantes do debate é a acusação ou
queixa de que as Forças Armadas devem explicações à historiografia
nacional ou, como disse o jovem Marcelo, "o Exército deve a nós
uma explicação completa de como as coisas se passaram", sem o que
- disse o meu amigo J arbas - "a história estará sendo escrita pelos
vencidos". Tenho minhas dúvidas. Acredito que a posição oficial das
Forças Ar madas - embora não explicitada publicamente - é de
respeito ao silêncio imposto pela anistia. Além disso, quem garantiria
138 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

que essa explicação seria aceita bona fide pelos muitos que ainda hoje
cevam-se na paixão e no ódio ideológico do revanchismo. O Exército
tem aberto seus arquivos a estudiosos de fatos mais antigos e a própria
Biblioteca do Exército publicou livros críticos sobre a atuação dos mi­
litares no passado, como Os soldados salvadores, publicado em 1 988.
O debate forneceu vários exemplos das vicissitudes a que
estariam sujeitos tais relatos, quando fossem apreciados por pessoas
como a que disse que a Operação Bandeirantes era uma organização
paramilitar.2 O livro do coronel Ustra - Rompendo o silêncio - basea­
do, em muitos pontos, em pesquisas de jornais da época e documen­
tos da própria esquerda, nunca foi desmentido, mas legado a um mui­
to conveniente esquecimento.
Ainda sobre a p ossível aceitação de um depoimento o ficial
ou oficioso, temos outro exemplo significativo: a chamada "Opera­
ção Brother Sam".3 De que valeram o depoimento do embaixador
americano na época, Lincoln Gordon, em entrevista a Paulo Sotero,
publicada em O Estado de S. Paulo em 3 1 /03/94, ou o testemunho do
General Vernon Walters, adido militar americano em 64, em seu livro
Missões silenciosas ou o do ex-embaixador Roberto Campos, às páginas
54 7 / 551 de seu Lanterna na popa? Para a esquerda, o que vale são as
versões, como as de Luís Mir em seu livro '.:4 revolução impossível "4, ou
a do an tropólogo D arci Rib eiro, em seu delirante liv ro A os
francos e barrancos.
Além disso, é cínica a acusação de que foram os americanos
os mentores do movimento de 64 e que eles interviriam militarmente
no Brasil se houvesse uma guerra civil. O objetivo dos comunistas,
pregando criar no Brasil vários "vietnames", era exatamente esse: in­
ternacionalizar a disputa, pois contavam com a participação soviéti­
ca, por intermédio de seu satélite cubano.
APRECIAÇÕES SOBRE UM DEBATE 139

Vejamos outro ponto. O jovem Marcelo Paiva - figura pre­


sente em todos esses eventos - nascido em 1 960, demonstra que
até hoje não conhece o que se passava no Brasil ao tempo de sua
infância. A extrapolação que tenta fazer, ao imaginar como seria nosso
país não tivesse havido o contragolpe de 64, é superficial, quase infantil.5
Ao ler certas apreciações sobre a luta armada, reencontrei­
me com meus tempos de aluno da Escola de Estado-Maior, quando
nos estudos de História Militar refazíamos pela metodologia dos anos
60 os Estudos de Situação de Napoleão para concluir sobre os erros
que o conduziram a Waterloo. Em meu modo de ver, é um esforço
inútil querer teorizar sobre uma situação de fato, concreta e especial.
Estão ·querendo travar de novo um tipo de guerra - que um general
francês da Indochina definiu como "uma guerra abstrata contra um
inimigo invisível'' - através de hipóteses e suposições. O romance
do jovem Marcelo é prova disso e do que nem a inteligência do meu
colega Erasmo Dias conseguirá salvar.
Para concluir, gostaria de fazer algumas observações sobre
outros participantes. O escritor Antônio Paim, prefaciador do livro
do Passarinho - ao que parece posto lá por ser "de direita" - acho
que não foi de muita ajuda para o coronel. Mas, do pouco que falou,
uma coisa não entendi: "Foi um erro dos liberais terem apoiado 64."
Até o jovem Marcelo admitiu que o movimento militar de 64 teve o
apoio da sociedade civil. Foi importante e até decisiva a ação de algu­
mas das lideranças civis. Mas todas elas seguiam a postura política
que Castello apelidou de "vivandeirismo". Esse apoio, em última ins­
tância, revelava um interesse e uma ambição política lançados para o
futuro, evidentes por trás de cada adesão civil. Até o Dr. Ulysses
estava nesse bloco. E esse apoio foi sendo retirado à medida que os
rumos da "Redentora" contrariavam tais ambições. Na hora dos "anti",
houve quase unanimidade. Na hora dos "pró", cada um desses libe­
rais queria "puxar a brasa para a sua sardinha". Outra afir mação do
Sr. Paim, que não tem base, é a de que "a Revolução não fez as refor-
140 Nos " Po RõE s " DA DITADURA

mas políticas". A preocupação do Presidente Castello com a norma­


lização institucional traduziu-se na elaboração de uma nova Carta -
base da organização politica de um país - e o Dr. Roberto Campos
já escreveu e j ustificou, em várias ocasiões, que a Constituição de 67
foi a melhor que já tivemos. Só que os eventos que vieram depois
levaram o barco para outros r umos, com a contestação armada, a
descontinuidade no esforço modernizador e a entrega do poder ao
desgoverno da Nova República. Essa acusação tem muito a ver com
outra, que abordamos no Capítulo 1 7, sobre a apregoada "castração"
das lideranças políticas.
Da participação do Sr. Gorender ficou-me a impressão de
alguém que, embora intimamente convencido dos erros do passado,
j ulga-se na obrigação de apegar-se a algumas posições para salvar as
aparências. É visivelmente um ressentido. Destaco três pontos: a "de­
vastação" inicial da esquerda pela repressão, o elogio à modernização
conservadora feita pelos civis e a idéia da negação da anistia para os
supostos torturadores.
Se por devastação ele quer dizer desarticulação, entendo. E
não podia ser diferente. No Paraná os comunistas estavam tão confian­
tes que não tinham o mínimo resguardo para sua atuação. Lembro­
me de um documento apreendido com o nome dos politicos que ha­
viam recebido doações em dinheiro do PCB; nomes por extenso, com
todas as letras, um deles o senador Nelson Maculan. De fato, já ti­
nham o governo, faltava-lhes o Poder.
A admissão do sucesso econômico soou-me como uma alfi­
netada final nos milicos. O pouco de bom que foi feito, o foi por
civis, pois os militares só sabem destruir. A parte relativa à anistia
parcial é restrição mental comum nos ideologicamente intoxicados.
A anistia não deveria ser "geral e irrestrita"?
APRECIAÇÕES SOBRE UM DEBATE 141

NOTAS

1 Capítulo 2 - "Por que J ango caiu?"


-

2 A organização e os obj etivos da OBan - que foi substituída pelo DOI - estão
-

claramente expostos no livro Rompendo o silêncio. Tratava-se de uma estrutura destinada


à coordenação dos elementos de di ferentes origens que participavam do combate à
luta armada em São Paulo. Nada tinha de paramilitar, pois cada segmento continuava
com suas caracteásticas próprias. A visível intenção é compará-la aos atuais grupos de
extermínio de bandidos, que são rotulados de "paramilitares".
3 - "Brother Sam" é o codinome de planejamento de uma operação dos norte­
americanos realizada no início de 1 964 e tendo em vista a situação brasileira, em face
dos exemplos anteriores da tomada do poder pelos comunistas na China e em Cuba.
Era o que se _costuma chamar de operação de "mostra da bandeira", e não previa tropa
de desembarque, mas apenas eventual apoio logístico.
4 Luís Mir chega ao ridículo de escrever que o responsável pela designação de Castello
-

para assumir a Presidência foi do adido americano Coronel Vernon \Valters.


5 Ver Capítulo 2, "Por que Jango caiu?"
-
O CAMINHO DE VOLTA

"Bota a cerveja no gelo que eu estou voltando", gritava a


cantora Simone com seu sotaque nordestino. Era uma das contribui­
ções da esquerda musical capitaneada pelo Chico Buarque e que iria
tornar-se o hino oficial da Anistia.
Mas, por detrás disso havia o permanente e grande esforço
da esquerda para j ustificar e explicar as derrotas, quando não negá­
las. A primeira, de 35, depois a surpreendente reviravolta de 64, quando
a tomada do poder estava à vista e parecia ao alcance da mão, e,
finalmente, a da luta ar mada, com a guerrilha urbana da ALN de
Marighella e a rural do Araguaia do PC do B. Embora para uso exter­
no elas nunca fossem confessadas e sempre disfarçadas pela desculpa
do divisionismo e pelas cediças denúncias da violência da repressão,
da tortura generalizada ou da influência dos americanos, no âmbito
interno elas continuavam sendo motivo de estudos e autocríticas,
principalmente por aqueles que se encontravam em Havana, a matriz
e nutriz dos fracassos de Che Guevara na Bolívia, da queda de Allende
no Chile e do que ocorrera no Brasil.
No caso da recente luta armada brasileira, apesar da presen­
ça inibidora e intimidante de Clara Charf1 , todos os dedos acusadores
apontavam para Marighella e Câmara Ferreira, embora os cubanos
não aceitassem e vetassem essas conclusões, malgrado o próprio Fidel
haver, em dado momento, confessado sua parcela de culpa.
144 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

Em meio a tantos debates, tantas reflexões e penitências, a


perspectiva de um futuro rumo começava a tomar corpo: a volta ao
ninho antigo, o velho PCB prestista, na busca de uma almej ada
reunificação das hostes, divididas por tantos rachas e sub-rachas, reto­
mando o caminho da coexistência pacífica e do trabalho de massas,
dentro da orientação soviética dada por Kruschev, após a denúncia
dos crimes do stalinismo feita em 1 956, no XX Congresso do PCUS.
Baixar e ensarilhar as armas, e procurar a ação política legal, estavam
nas cogitações. Havia até a surpreendente sugestão de negociar com
o governo Geisel, propondo a redemocratização, o fim do AI/ 5 e
uma anistia política, idéia que viria a ser traduzida na iniciativa, dada
como pessoal, de Glauber Rocha, regressando ao Brasil e tendo uma
conversa, inimaginável tempos atrás, com o soturno e maquiavélico
bruxo Golbery, para apresentar-lhe uma proposta de pacificação e
trégua entre a esquerda e o regime contestado. Era o início do cami­
nho de volta e da tentativa de reconciliação nacional, concretizada,
mais adiante, na Lei da Anistia, de 30 agosto de 1 979, já no governo
Figueiredo, o do "prendo e arrebento", escolhido por Geisel para con­
duzir o difícil processo de abertura que se desejava lenta, gradual e
segura, mas que resultaria desastrada e infeliz.
E assim tem início o processo de rearrumação e rearticulação
das difusas e dispersas lideranças de esquerda. Processo que, a par da
tentativa de neutralizar a influência de Miguel Arraes, veria a sur­
preendente ressurreição de Leonel Brizola, saído de seu cômodo e
seguro refúgio uruguaio para tornar-se o representante da Internacio­
nal Socialista, realentada pela Revolução dos Cravos em Portugal, e
com o ostensivo apoio de lideres como Mário Soares, Olof Palme e
Willy Brandt. Não sem antes mudar-se para a terra de Tio Sam e
receber contrito a absolvição dos americanos, cada vez mais preocu­
pados, como sempre, com os reflexos em sua política interna dos
o CAMINHO DE VoLTA 145

desgastantes efeitos de seu alegado apoio às ditaduras militares lati­


no-americanas e das acusações de direto envolvimento na queda de
Allende.
Quase que sem surpresa, verifica-se, em maio de 1 980, a
decapitação de Luís Carlos Prestes, cujas razões foram assim explicadas
ao líder comunista, Hércules Corrêa, por um dirigente moscovita,
segundo Luís Mir em A revolução impossível (pág. 692) :
"Prestes está muito velho. Além disso, cometeu erros, não
muitos, mas sérios e graves. Nos informou, antes de 64, que o Brasil
marchava para a Revolução, rumo ao socialismo, com a participação
ampla dos militares. Isso não aconteceu. Ou melhor, aconteceu o
reverso. Prestes se tornou o dirigente comunista que mais deixou cair
documentos nas mãos da polícia ... Nós, soviéticos, achamos, por tudo
isso, que Prestes deve sair da secretaria-geral."
As verdadeiras intenções da "ditadura" com a anistia pas­
sam pelo teste do retorno de dois terroristas condenados a longas
penas. Nada lhes acontece e a longa lista das manifestações de boas
intenções registra, um ano depois, novo e importante passo, com o
encontro na Granja do Torto entre o Presidente Figueiredo e Giocondo
Dias, o novo secretário-geral do PCB. Entre as baforadas do cachim­
bo da paz, foi acertado que em troca do apoio à abertura política,
cessaria a perseguição aos comunistas e haveria a legalização do par­
tido. Apenas parte do acordo foi cumprido; a legalização dos partidos
comunistas só sairia alguns anos depois; os comunistas passaram a
defender mais que uma abertura, um arrombamento; e a anistia só va­
leu para os derrotados, pois as facções radicais jamais se j ulgaram
comprometidas com ela, que deveria, na retórica da propaganda, ser
geral e irrestrita, para eles!
A distensão lenta e segura, como a imaginara Geisel, parecia
ir muito bem com a normalização institucional e a redemocratização.
Mas, a partir de 1 983, na reorganização partidária - que incluía até
um partido da chamada oposição confiável, o Partido Popular, de
146 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Tancredo Neves -, vários grupos recusaram-se a aceitar a pacifica­


ção e a legalização. Diziam eles que ela significaria uma capitulação
ao Estado burguês, e demonstrando não haverem renunciado ao utó­
pico sonho da tomada do poder pela força, preferiram continuar na
clandestinidade. Esta per manência na sombra é, na realidade e prin­
cipalmente, maneira dissimulada de encobrir sua fragilidade e divi­
são, compensada por uma agressiva e agitada militância que os faz
parecer maiores e mais fortes. Necessitando de uma fachada legal, a
maioria desses grupos foi abrigar-se no PT, que assim transformou-se
em um barulhento e desunido saco de gatos, de amplo espectro, que
inclui desde trotsquistas até espertos sociais-democratas, forma de
continuar a receber auxílio da social-democracia européia, muito ape­
gada a rótulos e nomes. Os rapazes do MR-8 foram constituir a massa
de manobra e vanguarda do quercismo no PMDB. Alguns trocaram o
marxismo pela nova ideologia do verde, mas continuariam a transitar
pelos "porões" do inconformismo, de onde iniciariam uma nova guer­
ra, tão suja quanto a anterior. Ao invés da larga e promissora estrada
da reconciliação e do mútuo esquecimento - semelhante àquela que
Castello Branco oferecera, 20 anos antes, na proposta de normaliza­
ção institucional com a Carta de 67 e sem sangue -, preferem os
caminhos tortuosos do ódio e do revanchismo, pela derrota que nun­
ca puderam esquecer. Levantam como bandeiras as perdidas ossadas
de muitos supostos desaparecidos e tentam apresentar aos moços,
como paradigmas, as sinistras figuras dos seus falsos heróis, aspergin­
do sobre eles, insensatamente, as j ustas e sentidas lágrimas de mães e
parentes dos jovens que aliciaram e levaram à morte, em inglória luta
em nome de um ideal falacioso e antidemocrático.
Grande parte das dificuldades políticas de hoje é herança
desse inconformismo e dessa falta de adaptação de nossas esquerdas
ao jogo democrático, ao qual nunca aderiram real e sinceramente.
Um exemplo dessa inadaptação deu-o, anos atrás, o deputado Florestan
o CAMINHO DE VoLTA 147

Fernandes, um dos ideólogos do PT, em entrevista à Folha de São Pau­


lo nas vésperas da promulgação da "Constituição-Primavera". Assim
se expressou, na oportunidade, aquele constituinte:
"Devido à reação, o pêndulo (do Poder) balançou contra a
democracia, contra a Nação e anulou todas as rupturas que deveriam
ser desencadeadas pela Assembléia Nacional Constituinte e, depois,
pela própria Constituição, mas abriu múltiplos caminhos e contém
uma promessa clara de que, nos próximos anos, as refor mas estr utu­
rais serão soltas. O nó da conciliação foi desatado e a luta de classes
não ficará mais contida pelo despotismo da ordem e a suposição não
fixa a guerra civil para depois de amanhã. Os de debaixo poderão
empregar a violência para atingir seus fins, o que pode ser uma pro­
messa de revolução, sequer dentro da ordem."
Previsões que estão sendo confirmadas no dia-a-dia pelo cres­
cente clima de baderna, denunciado pelo Sr. Fernando Henrique Car­
doso quando lhe convém. É o ideário do movimento dos sem-terra.

***

Um dos grande "guias" desse caminho de volta acabou sen­


do o deputado Ulysses Guimarães, uma das maiores fraudes políticas
deste país, que nunca precisou exilar-se e cuja morte foi pranteada
em prosa e verso. Nesse velório cívico, uma das poucas vozes sensa­
tas foi, mais uma vez, a do deputado Roberto Campos.
Nós, brasileiros, temos especial encantamento pelo cultivo
de certa mitologia sobre os homens públicos e isto, quase sempre,
nos leva a deixar de enxergar a diferença entre o mito e a realidade,
principalmente quando a foice da Parca, implacável e inesperada,
acrescenta emoção ao julgamento de figuras tragicamente desapare­
cidas e que, de pronto, são destinadas às glórias dos altares da reve­
rência nacional, como também aconteceu com o antropólogo Darcy
Ribeiro e, mais rentemente, com Sérgio Mota e Luís Eduardo Maga­
lhães. E nesses climas emocionais os panegíricos gerais e totais nos
148 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

fazem ver o quanto de razão tinha o falecido N elson Rodrigues quan­


do com seu realismo cru e irreverente muitas vezes dizia que "toda
unanimidade é burra".
Mas o deputado Roberto Campos, ex-senador, ex-ministro e
ex-quase-tudo neste país, fugiu do louvaminhas geral, e embora com
a habilidade de velho diplomata e a prudente condescendência ao
falar de alguém que não mais se pode defender, pintou na época um
retrato póstumo breve e realista do pranteado político que escapou,
por pouco, de ter o seu ainda desaparecido cadáver explorado, nas
eleições que se seguiram à sua morte, pelo partido de que tantos anos
foi presidente e festejado "guru". Ainda assim, no entanto, pôde-se
ler nas entrelinhas e por trás das figuras habilmente construídas -
em que é mestre o antigo seminarista - as ressalvas que estão longe
de confirmar a imagem irretocável que se pretendeu vender à opinião
pública em diversas ocasiões e, principalmente, depois do infausto
desastre aéreo que nos privou das frases do Dr. Ulys ses e deixou a
turma do "poire" sem o seu líder.
Pois, se "Navegar é preciso", na brilhante análise do Dr.
Roberto Campos não se ficava nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Ficava-se sabendo que o Dr. Ulysses era considerado "um dínamo
político, mas perigosamente desinformado em economia, capaz de ir
na conversa do primeiro esquerdista que o chamasse de progressista
e lhe sussurrasse slogans socializantes". Que considerava valor supre­
mo a relevância política, perseguida em seus 1 1 mandatos parlamen­
tares, em contraposição à magra experiência executiva de uma rápida
passagem pelo Ministério da Indústria e do Comércio na fracassada e
fugaz tentativa parlamentarista após a renúncia do Sr. Jânio Quadros.
Dessa passagem por um ministério na conturbada fase que levou à
derrubada de Jango Goulart, fica-se sem saber afinal o que de impor­
tante fez o Dr. Ulysses. Do longuíssimo exercício dos mandatos par­
lamentares, nenhuma lei, nenhum projeto que marcasse e nada que
fizesse mossa ao regime pós-64 e o ameaçasse com a cassação impos-
o CAMINHO DE VOLTA 149

ta a tantos. Ao que parece, só quando já se prenunciavam os rumos


da distensão prometida por Geisel surgiria o consentido anticandidato
que, mais do que ameaçá-la, coonestaria a eleição indireta. Daí para a
frente, a crise do petróleo, o fim do "milagre", as contradições da
política governamental colocariam o autoritarismo na defensiva e
abririam espaço para o avanço da oposição ao regime, do que o Dr.
Ulysses acabaria colhendo os maiores dividendos e os maiores crédi­
tos, embora os resultados para o povo não correspondessem ao alar­
de que se fez e que ainda se faz.
E o Sr. Diretas acabaria por ceder o lugar ao Tancredo, com
S arney de contrapeso, na busca frenética e in útil de fór mulas
salvacionistas, cuja última e mais lamentável foi a da Constituinte,
transformada em mais uma fábrica de utopias, no dizer do mesmo
Roberto Campos. Agarrou-se a ela o Dr. Ulysses, como garantido tram­
polim rumo ao Planalto, tendo, de um lado, os economistas do PMDB
e seus "choques" e, de outro, os nacional-populistas, com suas reser­
vas de mercado, monopólios estatais e a demagogia trabalhista da
CUT. Mas a Constituição-cidadã, virando "Constituição-besteirol", e
o rotundo fracasso da Nova República sepultaram o sonho presiden­
cial do Dr. Ulysses, embora, a duras penas, os paulistas ainda lhe
dessem novo mandato de deputado, com o qual iria transmudar-se
em "caixeiro viajante" do parlamentarismo.
'�gora é tarde demais. Caíram as sombras e os ventos são
frios", como disse o deputado Roberto Campos ao concluir seu arti­
go, um retrato sem retoque do velho político que durante anos foi a
mais esperta "raposa" da política nacional e cujo corpo o mar resolveu
subtrair às galas das exéquias de estrondo, num caminho sem volta.

NOTAS

1 - Companheira de Carlos Marighella e considerada pelos cubanos sua viúva oficial.


O MILAGRE BRASILEIRO

Um dos principais obstáculos encontrado pelos subversivos


em sua tentativa de, pelas armas, derrubar a "ditadura militar" foi a
falta de apoio da população. E na raiz desse fato estava o bem-estar
econômico proporcionado pelo chamado milagre brasileiro que per­
mitiu, em determinados instantes, que o Presidente Médici registras­
se em São Paulo elevadíssimos índices de popularidade. Parece, as­
sim, interessante relembrar alguma coisa sobre esse fenômeno que
Collor atabalhoadamente tentou ressuscitar e, na busca do qual, o
nosso novo Fernando mandou jogar no lixo o que outrora escrevera.
Os primeiros anos da década de 60 mostravam um quadro
desolador, ao contrário do que acredita o Marcelo Paiva. Uma teste­
munha idônea1 assim o descreveu:
"( . . .) uma inflação violenta, reprimida pelo controle de pre­
ços; um balanço de pagamentos deficitário, com taxas cambiais
supervalorizadas e o desmantelamento do crédito externo; um siste­
ma fiscal obsoleto, gerando déficits orçamentários crônicos, mas com
múltiplos mecanismos de evasão e sonegação ; reaj ustes salariais
desordenados, incentivados pelo próprio Governo Federal, com in­
flação de custos e mutilação da capacidade de poupança; um merca­
do financeiro decadente . " E por aí afora.
. .

Após uma etapa de quatro difíceis anos de recuperação, vie­


ram os resultados que os analistas internacionais passaram a chamar
de "milagre brasileiro". Na realidade, o suposto milagre nada mais foi
152 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

do que o corolário de medidas corajosas e eficazes, cujos aspectos


fundamentais o ex-ministro Mário Henrique Simonsen - no livro A
nova economia brasileira, publicado em 1 975 - assim sumariou:
- "a especificação do desenvolvimento econômico como
objetivo nacional prioritário, num quadro político estável, atento à
continuidade de princípios e onde as decisões econômicas eram isen­
tas de inj unções eleitorais;
- uma política hábil de redução gradual do ritmo inflacio­
nário, que procurou conciliar o combate à inflação e às distorções por
ela provocadas, com a sustentação de altas taxas de crescimento do
produto real;
- uma notável imaginação reformista, que criou as insti­
tuições tipicamente brasileiras da correção monetária, da taxa flexí­
vel de câmbio, da fórmula de política salarial, do FGTS e do PIS;
- um esforço excepcional de formação de recursos humanos."
Assim, a dura e indispensável tarefa de construir fundações
para uma futura fase de crescimento deu, como resultado, o substan-
cial declínio da taxa de inflação, a recuperação do crédito externo e
do balanço de pagamentos e a consecução de grandes reformas es­
truturais e institucionais, em favor do desenvolvimento, extensa e
minuciosamente explanados por um dos responsáveis, o ex-ministro
Roberto Campos, em seu livro A lanterna na popa.
Então, em plena arrancada para a "decolagem do desenvol­
vimento", de que nos fala Walt Rostow, fomos atropelados pelo pri­
meiro e grande choque do petróleo. A maioria dos brasileiros ignora
como e por que cresceu tanto nossa dívida externa. Muitos dos espe­
cialistas sabem, mas fingem não saber. Vale, pois, relembrar alguns
aspectos, relacionados com a crise do petróleo dos anos 70.
Em 1 973, para uma dívida externa de pouco mais de 1 2
bilhões de dólares, tínhamos 6 bilhões de reservas. Com a crise, em
apenas cinco anos, nós acumulamos 50 bilhões de dólares de dívidas.
Com uma agressiva política de exportações e a relativa estabilidade
0 MILAGRE BRASILEIRO 153

dos preços do petróleo, já em 1 977 conseguia-se um equilíbrio na


balança comercial, embora o petróleo tivesse passado a representar
30% do valor de nossas importações, em comparação com apenas
8% em 1 972. "Na realidade, era como se os países exportadores de
petróleo tivessem decretado um imposto a ser pago pelo resto do
mundo. Para nós representou uma amputação de cerca de 4% do nos­
so PIB", explicava o ministro Delfim.
Quando o Brasil estava prestes a absorver o 1 º choque, so­
breveio o 2º, que fez o petróleo triplicar de preço e passar a represen­
tar 47% do valor do que comprávamos lá fora. Isto fazia uma diferen­
ça enorme e respondeu em grande parte pelo crescimento de nossa
dívida externa. Como diz Roberto Campos: a nossa dívida é uma
"petro-dívida".
Mas não foi só isso. Para aumentar nosso constrangimento,
os credores, no intuito de ajustarem suas próprias economias à crise
do petróleo, elevaram abusivamente os j uros internacionais, de tal
forma que o serviço da nossa dívida, que em 1 973 era de 2,6 bilhões
de dólares, passou a ser quatro vezes maior em 1 979. Pagamos, na­
quela época, até 20% de j uros ao ano! Ao mesmo tempo, o ajuste
recessivo das economias dos países ricos fazia-se à custa do avilta­
mento do preço das co111111odities, fonte principal de nossas receitas de
exportação, o que nos custou, em poucos anos, perdas relativas de
mai s' de 40 bilhões de dólares!
Parece, assim, muito instrutivo rever o que foi feito para
enfrentar aquela situação dramática e que pôs em xeque o "milagre
econômico brasileiro". A opção, que se punha para o governo de en­
tão, era escolher um, entre dois caminhos disponíveis: reduzir o in­
vestimento ou reduzir o consumo. A primeira alternativa era conside­
rada socialmente inaceitável para a Nação, por suas conseqüências
de estagnação, retrocesso e o desemprego para milhões de pessoas. A
segunda foi assim apreciada, seis anos depois, por Delfim Neto, mi­
nistro do Planejamento do Governo Figueiredo:
154 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

"Nós nos encontrávamos numa situação muito peculiar em


1 974; tínhamos começado o processo de distensão política, no qual
era previsível que as reivindicações iam-se exacerbar. E foi exata­
mente o que aconteceu. A primeira coisa que se perdeu foi a política
salarial. E o que significa perder tal política? Significa que as reivin­
dicações por acréscimos de salários cresceram muito mais depressa do
que aquilo que podia ser satisfeito com o que havia sobrado de recursos."
E a escolha do Governo Geisel foi por não cortar nem o
consumo nem os investimentos, recorrendo, para estes últimos, ao
endividamento externo. Assim foram contratados e feitos os pólos
petroquímicas, o programa siderúrgico, ltaipu, Tucuruí, e iniciados a
Ferrovia do Aço e o programa nuclear para a produção de energia
elétrica. Os objetivos eram, de certa forma, conflitantes e os resulta­
dos previsíveis: uma inflação alta e o agravamento da crise no balan­
ço de pagamentos. E nesse quadro difícil avultaram como causas dos
desequilíbrios: o excesso de gastos do Governo, três anos de frustra­
ções nas safras agrícolas e uma grande desordem salarial - principal­
mente nas estatais -, tudo isso tendo como pano de fundo a eleva­
ção dos preços do petróleo importado, de que nos tornáramos extre­
mamente dependentes.
E as estratégias montadas, no início dos anos 80, para ten­
tar reverter essa grave situação e fazer o país voltar a crescer - im­
posição ineludível, face à nossa elevada taxa de aumento populacional
e de concentração urbana -, tinham três objetivos fundamentais:
- superação do problema do balanço de pagamentos e da
dívida externa;
- aumento da produção doméstica de energia e
- redução do nível da inflação.
Hoje sabemos que essas metas não puderam ser cabalmente
atingidas e que a política de energia alternativa, com o Pro-álcool, se,
de um lado, aliviou o peso do petróleo nas contas externas, foi um
terrível foco inflacionário. E a desejada e necessária distensão políti-
0 MILAGRE BRASILEIRO 155

ca, condicionante fundamental nas decisões tomadas, acabou dando


armas à oposição que, colocando o Governo na defensiva e exacer­
bando as contradições da sociedade em crise, dificultou o encami­
nhamento das soluções, já então partidas de um sistema à míngua de
pronto e ágil poder decisório e de credibilidade pública.
Assim, a transição política, exercitada ao longo de toda uma
década, foi, especialmente com a "Nova República" do PMDB, um
frustrante exercício de negação de todos os pressupostos que haviam
servido de rumo à fase, infelizmente transitória e curta, do "milagre".
Agora, tentamos retraçar os rumos no governo pós-marxista do Sr.
Fernando Henrique Cardoso, o que poderá ser mais bem apreciado
no capítulo seguinte.

NOTAS

1 Economista Mario Henrique Simonsen em A nova economia brasileira, Capítulo 1.


-
A LUZ DA LANTERNA

Em entrevistas, aulas, discursos e falas à televisão e aos jor­


nais o Presidente Fernando Henrique dá inequívocas demonstrações
de estar convencido que o caminho da estabilidade, do desenvolvi­
mento e da tão ambicionada j ustiça social não é a estrada fácil pro­
metida pelos demagogos, mas um caminho semeado de dificuldades
e impasses. Ao encaminhar-se para o fim de seu primeiro mandato, o
nosso presidente parece cada vez mais afastar-se das falaciosas teses
da esquerda, ter esquecido o revanchismo econômico que impediu
fossem aproveitadas muitas das medidas que nos levaram à promis­
sora experiência do "milagre brasileiro", e aproximar-se do reformismo
modernizador de Castello Branco, lamentavelmente descontinuado
mesmo nos governos dos generais seus sucessores.
A comparação poderá parecer espantosa e muitos com ela
não concordarão, mas aqueles que, com isenção e conhecimento de
causa, fizerem uma cuidadosa análise do caminho percorrido nestes
últimos 30 anos concluirão que muitas das dificuldades enfrentadas e
ainda por enfrentar pelo atual governo têm as mesmas origens e ci­
fram-se nos mesmos dilemas que vêm marcando nossos ziguezagues
nessa caminhada em busca do desenvolvimento econômico e social,
alternando épocas de enganadora euforia desenvolvimentista - como
nos anos de JK - com períodos depressivos - como os do início
dos anos 60 e a década de 80 - perdidos em meio a opções muitas
vezes incompletas ou contraditórias. A própria possibilidade do alon-
158 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

gamento do período de governo, com a reeleição arduamente perse­


guida pelo atual presidente, parece ser uma envergonhada concessão
ao "casuísmo autoritário", adotando um mandato de seis anos.
Hoje, o melhor roteiro para essa análise retroativa será a
leitura atenta - diria mesmo um estudo - do livro do ex-ministro e
atual deputado Roberto Campos, publicado em 1 994, a que faço re­
ferência em inúmeras partes deste livro e que é, como reconhece o
autor em seu epílogo, menos o relato de uma vida e mais o retrospecto
de um período da história do Brasil. Como os contestadores, que re­
correram à luta armada, diziam-se reformadores sociais e econômi­
cos, parece-nos instrutivo, para eles e para seus defensores, um pas­
seio à luz da lanterna do Dr. Campos, o combatido "Bob Fields".
Ao justificar o título do livro
- A lanterna na popa
- o ex­
ministro do governo Castello Branco serve-se dos versos do poeta
Samuel Taylor Coleridge que dizem que "a paixão cega nossos olhos
e a luz que a experiência nos dá é de uma lanterna na popa que ilumi­
na apenas as ondas que deixamos para trás". Todavia a leitura do
livro permitirá às mentes não turvadas pela paixão ideológica do
revanchismo estéril perceber que o autor exercitou sua modéstia e
que, na realidade, as luzes projetadas pela larga e sábia experiência de
Roberto Campos não são as de uma lanterna de popa, mas as de um
brilhante farol capaz de iluminar o caminho de nossos atuais e futu­
ros governantes, com sua coerência e acuidade.
À claridade dessa luz será possível ver uma certa simetria
entre a obra do primeiro presidente do ciclo revolucionário e o esfor­
ço reformista, ainda que vacilante, do atual mandatário da Nação.
Verificar que o melhor fruto da estabilização não será esta, em si
mesma, mas, principalmente, tentar, como bem assinala o autor, fa­
zer o capitalismo funcionar. Que, muitas vezes, a contenção salarial,
ainda que inicialmente dolorosa, busca restaurar a capacidade de in­
vestir e, em conseqüência, aumentar a oferta de emprego e diminuir a
A Luz DA LANTERNA 159

pobreza, objetivo atingido muito mais rapidamente pela absorção da


mão-de-obra excedente do que pela redistribuição direta da renda
por acréscimos de salários meramente nominais.
Para apoiar suas teses, o autor relata suas observações so­
bre o desempenho dos chamados "tigres asiáticos", que ele visitou
no início do ano de 1 964, quando pôde verificar que Cingapura ainda
vivia atrelada à pobreza da Malásia - de quem ainda não se separara
-, que Hong Kong era apenas um medíocre entreposto comercial,
superpovoado e sem recursos naturais, que a Coréia do Sul era um
país devastado pela guerra e que Taipei, capital de Formosa, não pas­
sava de uma sórdida favela. Pouco depois, o Brasil iniciava o lustro
do que foi chamado por observadores estrangeiros "o milagre brasi­
leiro" de que nos ocupamos no capítulo anterior. A partir de 1 973 os
caminhos se invertem. Enquanto o "tigres" atenuavam a pobreza rural
pela reforma agrária, realizavam um elogiável esforço educacional e
de planejamento familiar e optavam por indústrias intensivas de mão­
de-obra para exportação, nós esquecíamos o Estatuto da Terra, desde­
nhávamos do planejamento familiar, combatíamos e inviabilizávamos
os financiamentos e as melhorias do ensino prometidos pelo acordo
MEC-USAID, nos aj ustávamos mal às crises do petróleo, iniciáva­
mos a longa série de frustrados choques de estabilização heterodoxos
e nos enredávamos nas complicações da Lei de Informática e na es­
tulta fantasia da Constituição-coragem do Dr. Ulysses. Além de tudo,
incorporávamos ao nosso festival de equívocos as atitudes viciadas
que Roberto Campos aponta com precisão: o imediatismo do produ­
tor, ávido em transferir custos e descuidado na busca do aumento da
produtividade; o fatalismo do consumidor, conformado com a infla­
ção e descrente da poupança; o comodismo do governo, mais eficaz
para gastar do que para arrecadar e propenso a ampliar sua área de
atuação sem a correspondente capacidade de gestão; e, finalmente, o
160 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

oportunismo dos políticos, sempre dispostos a aproveitar a populari­


dade das obras sem querer enfrentar o desgaste das medidas para
aumentar recursos.
De 1 954 até hoje - excluído o Plano Real - tivemos 1 0
tentativas de estabilização econômica e de combate à inflação, a saber:
- Plano Gudin - entre setembro de 54 a abril de 55, no
governo Café Filho;
- Plano Lucas Lopes - 1 958/59 - governo JK, que cul­
minou no rompimento com o FMI e em bancarrota cambial;
- Plano Mariani - apenas iniciado e já frustrado pela re­
núncia de J ânio Quadros;
- Plano do governo parlamentarista de Tancredo Neves -
durou três meses;
- Plano trienal de Celso Furtado - embora falasse em re­
forma bancária, fiscal, agrária e administrativa, era medíocre em seu
instrumental, e não durou seis meses, engolido pelas contradições de
J ango Goulart e sua sonhada República Sindicalista;
- As fracassadas tentativas heterodoxas após 1 985: Cruza­
do (1 986), Bresser (1 987), Verão (1 989), Collor 1 e Collor 2, que, em
vez da estabilidade e da apregoada justiça social, resultaram em queda
do salário real, alto nível de desemprego, queda da participação dos
salários na renda real, inflação galopante e prolongada estagnação.
Em viés oposto, temos a bem-sucedida ação do governo de
Castello Branco, que reverteu a tendência inflacionária e preparou o
terreno para o futuro, com as importantes reformas estruturais -
fiscal, bancária, administrativa, do mercado de capitais, habitacional,
agrária etc. -, com planejamentos setoriais de infra-estrutura em
transporte, eletricidade, aço, silos e armazéns e um Plano Decenal
indicativo de estratégias para o desenvolvimento a longo prazo.
"Fez a si mesmo e pagou a promessa de trazer a Nação ao
reencontro com a verdade que, como sal na ferida, dói mas não deixa
A Luz DA LANTERNA 161

apodrecer. Não usou o poder com prepotência, transformando o que


poderia ser apenas uma quartelada latino-americana numa revolução
modernizante", diz de Castello Branco o autor de A lanterna na popa .

Ao comparar o que acima está dito com trêfcgas aprecia­


ções sobre Castello Branco, emitidas por alguns penitentes, gcnuflexos
no ·"confessionário" do Hélio Contreiras em seu livro Militares -
Confissões, fico pensando a quanto vai a ignorância, por falta de leitu­
ra, de certa gente.
OS QUATRO PECADOS CAPITAI S

Os adversários do sistema implantado a partir de 1 964 cos­


tumam atribuir a ele todas as mazelas de que ainda padece nosso
país. Evidentemente, não têm razão. Mas temos de convir que, em
alguns aspectos, eles a têm. Em meu modo de ver, seria naquilo que
costumo chamar de os quatro pecados capitais, sobre os quais tecerei
as considerações a seguir.

Privatização

Até 1 979 ninguém sabia a quantas andávamos no verdadei­


ro cipoal das empresas do governo, e o déficit das estatais era cada
vez maior. Ai criaram a Secretaria de Controle das Empresas Estatais
(SEST) . Um levantamento feito deu um susto: havia 596 empresas,
algumas meras subsidiárias de outras. E era por aí que começava o
truque para criar ou aumentar salários de "marajás".
Por exemplo: uma grande siderúrgica precisa de projetos,
logo cria-se uma empresa de projetos, com presidente, diretor-finan­
ceiro, diretor-administrativo, relações públicas, secretárias, uma bela
sede, automóveis etc. E assim, por um fenômeno de auto-multiplica­
ção, a estatização aumenta e o organismo público se fragmenta, e
desse modo aumentam-se os empregos e as mordomias. E pelo mes­
mo caminho, o Departamento de Propaganda vira uma empresa de
propaganda; o órgão que cuida das casas dos operários vira uma em-
164 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

presa imobiliária, com diretores e tudo mais. E não se pense que isso
aí é ficção. 1 Aconteceu no duro, e se não ficar de olho, acontece de
novo, qualquer que seja o partido no governo.
Uma outra via de estatização, pela qual os burocratas e os
"capitalistas só do lucro" sempre tiveram especial predileção, é a
encampação pelo governo - quer dizer, pelo povo que paga a conta
- de empresas falidas de donos ricos. Por aí estatizou-se muita coisa
e se comprou muito "nabo em saco".
Uma das primeiras descobertas da SEST foi interessante e
muito ilustrativa. Um certo burocrata, de especiais talentos, foi en­
carregado de vender um prédio da União no Rio de Janeiro, em 1 955
(!) , e não vendeu. No meio daquela barafunda, durante mais de 20
anos ele pôde, através de uma empresa que ele mesmo organizara,
receber os aluguéis, cuidar do prédio; tudo direitinho, escriturado.
Não roubou nada. Não! Estava tudo "nos conformes"; só que, ven­
der o prédio ele não vendeu, porque achou aquilo uma loucura ... Ain­
da mais que iria acabar com o seu tranqüilo emprego na Cidade Mara­
vilhosa e seu bom salário ...
Como esse burocrata, quase todo presidente o u alto funcio­
nário de empresa estatal - devidamente escorado pelos políticos
que têm bases eleitorais na área - não tem nenhum interesse em que
a empresa seja vendida, e o processo torna-se delicado e extrema­
mente moroso. A primeira coisa que se espalha, assim que sai o edital,
é que "estão querendo vender uma empresa do povo a preço de bana­
na. Deve haver negociata por trás disso etc. etc.". E assim, lá se vão
seis meses, no mínimo.
Outro exemplo marcante é do tempo em que quiseram, pela
primeira vez, vender a Acesita, uma das há pouco reprivatizadas. A
empresa tinha virado um fracasso. O Banco do Brasil a absorveu, por
conta das dívidas, e ela continuou a produzir aço especial ao dobro
do preço internacional. Na época, o ministro do Planejamento pro­
pôs que o Governo engolisse de uma vez por todas o prejuízo, aj us-
Os QuATRo PEcAnos CAPITAIS 165

tasse o valor de venda ao valor real de mercado - e não ao elevado


valor de tudo o que nela estava investido - e passasse adiante a
,,
empresa. Mas era aí que "a porca torcia o rabo . A empresa havia
comprado muito mais máquinas do que precisava, investira em terre­
nos desnecessários, fizera prédios com vidro rayban, mezaninos e au­
ditórios suntuosos, refeitório para diretoria, um clube para emprega­
dos com piscinas e quadras de tênis etc.; montara um fundo de pen­
são que dava prejuízo de dezenas de milhões, por ano. Ora, quem a
fosse comprar não ia querer pagar por essa parafernália dispendiosa e
inútil. Mas esse inchaço era parte integrante do patrimônio contábil
da empresa e tinha de entrar na avaliação que, assim, ficava inteira­
mente em desproporção com a renda ou lucro realmente gerado pela
empresa. E aí, quem seria louco de mandar vender pelo valor de mer­
cado? Logo viriam o Genoíno, o Lula, a CUT, a CGT, o PC do B, a
CNBB, a OAB, todos a bradar "que estão dilapidando o patrimônio
,,
público . Resultado: não se vende e o povo continua a arcar com o
prej uízo e a pagar a conta. E dali a dias o presidente da empresa vem
dizer que precisa de uns 20 ou 30 milhões de dólares para tapar o bura­
co do déficit, senão haverá o problema social do desemprego etc.2
E esse panorama, com pequenas variações e raras e honro­
sas exceções, é o mesmo para a maioria das empresas da União, dos
estados ou até dos municípios. É só mudar o nome e alguns detalhes.
E aí vem o curioso da acusação: a ditadura estatizou, mas quando o
governo quer vender, a esquerda, com o PT e a CUT à frente, "vira
bicho" . . .

Educação

Não é de hoje o interesse dos estudiosos na avaliação do


impacto da educação e do avanço da tecnologia sobre os níveis de
desenvolvimento. Os exemplos históricos do pós-guerra, de recupe-
166 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

ração rápida de economias devastadas pelo conflito, como da Alema­


nha, J apão e Coréia do Sul, reapresentaram à consideração dos eco­
nomistas a velha lição de Adam Smith que considerava a educação
como investimento de alto retorno. Passou-se a estudar mais atenta­
mente o valor econômico da educação e, reciprocamente, a avaliar o
impacto da educação sobre o crescimento econômico, ganhando des­
v
taqu nesses estudos a constatação do círculo vicioso: deficiência
educacional-subdesenvolvimento-deficiência educacional.
Não é de hoje, também, que se diz que o Brasil gasta pouco
e gasta mal em educação, e são cada vez mais pessimistas as avalia­
ções sobre o nosso sistema de ensino, especialmente da escola públi­
ca. Avulta no meio desse quadro nebuloso e desanimador a polêmica,
mais ideológica do que pragmática, centrada na discussão: escola
pública versus escola privada. Os defensores de uma ou de outra tese
esgrimem argumentos, normalmente acomodados e moldados aos
interesses de uma ou de outra posição, quase sempre perdendo de
vista que não há soluções simplistas para problemas complexos, nem
soluções milagrosas.
A porcentagem do Produto Interno Bruto que um país pode
destinar à educação é delimitada pelo nível desse produto. E essa
limitação atinge mais fundamente os países subdesenvolvidos, pres­
sionados, quase sempre, por outras necessidades mais imediatas, de­
correntes, principalmente, do elevado ritmo do crescimento de sua
população. Um país rico pode, facilmente, destinar 200 ou 300 dóla­
res por habitante para a educação, mas isto torna-se uma impossibili­
dade absoluta para um outro que tenha uma renda per capita de, diga­
mos, a penas 500 ou 600 dólares.
No início dos anos 60, a educação havia sido relegada a 2º
plano nas prioridades do desenvolvimento brasileiro. A insuficiência
de recursos colocava nossa educação em posição muito desfavorá­
vel, mesmo em comparação com países da América Latina, da Á sia
ou da Á frica. Já naquele tempo eram apontadas mazelas de nosso
Os QuATRO PEcADos CAPITAIS 167

sistema de ensino que parecem possuir fôlego igual ao que demons­


trava até há pouco nossa histórica inflação: evasão escolar, irrealismo
dos currículos, maioria dos alunos freqüentando escolas secundárias
particulares, inacessíveis aos mais pobres, enquanto o antidemocrático
tabu do ensino gratuito nas universidades públicas já subsidiava os
filhos das classes mais abastadas, o que ocorre até hoje. E, já então,
conviviam professores mal pagos, que por isso trabalhavam pouco,
com catedráticos vitalícios que não davam aula e as deixavam por
conta dos adj untos, registrando-se, em 1 964, uma espantosa média
de um professor para 4, 7 alunos!3
A partir daquele ano, como parte do esforço de recupera­
ção nacional, foi feito um grande e frutuoso trabalho de melhoria,
qualitativa e quantitativa, da educação brasileira, elevando-a a uma
das prioridades do desenvolvimento nacional. E os alentadores avan­
ços compõem o conjunto dos resultados que alguns denominaram de
"milagre brasileiro".
Os dispêndios com educação passaram de 2,2% do PIB, em
64, para 3,8% a partir de 69. Esse resultado avulta de significação, se
lembrarmos que, entre 64 e 72, o PIB cresceu 8 1 ,5%. A relação alu­
no/professor nas universidades cresceu de 4,7 em 64 para 1 1 ,8 em
72, e a significativa expansão de vagas no ensino médio (ho je
corresponderia ao 2 º grau) processou-se predominantemente na rede
pública, invertendo a situação que, até 1 964, favorecia a escola par­
ticular, na proporção de dois para um. Finalmente, cabe mencionar a
apreciável diminuição da evasão escolar; no início da década de 60,
de cada mil alunos que ingressavam no primário, apenas 1 1 chega­
vam ao final do curso superior; em 1 974, essa proporção fora ampliada
para 4 5 por mil. 4
Lamentavelmente, os mesmos fatores que atropelaram o
"milagre" econômico brasileiro criaram para a educação óbices que
impediram novos avanços e foram, progressivamente, exacerbando
as distorções herdadas de épocas anteriores. O recrudescimento da
168 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

inflação desorganizou os planejamentos, tornando os recursos cada


vez mais incertos e escassos. A desorganização da política salarial,
além dos efeitos perversos sobre os níveis de remuneração dos pro­
fessores, incentivou reivindicações que, em muitos casos, prejudica­
ram as escalas de prioridades e aumentaram as despesas de custeio,
em detrimento da atividade-fim. A idéia salutar do ensino profissio­
_)--
nalizante muito bem exemplificado no passado pelos liceus de
artes e ofícios e pelos patronatos, e hoje pelas magníficas realidades
das poucas escolas técnicas e pelo Senac e pelo Senai - acabou
murchando por falta de recursos para o equipamento das atividades
de ensino. A abertura política, por seu turno, ensejou aos setores ide­
ologicamente arregimentados e mais organizados a formação de gru­
pos de pressão na defesa de interesses corporativistas, refratários às
medidas de saneamento que fossem intentadas, especialmente nas
universidades federais. A sociedade brasileira continuaria, indefini­
damente, a sustentar com seus impostos um sistema de ensino caro e
de eficiência cada vez mais duvidosa, onde os professores grevistas
não queriam ensinar e os alunos parece que não queriam aprender. A
desorganização e os velhos vícios acentuaram-se também nos siste­
mas estaduais, onde as novas condições do jogo político, com as elei­
ções diretas para governador, deram largas à demagogia e ao
empreguismo. Carentes de recursos, as redes escolares estaduais pas­
saram a apresentar sinais alarmantes de deterioração e decadência. E
os efeitos deploráveis da continuada inversão da pirâmide de recur­
sos - que privilegia o ensino superior em detrimento dos níveis mais
baixos - foram levando à falência e ao descrédito a escola pública
de 1 º e 2º graus. A crescente queda da qualidade do ensino de 2º grau
e a ávida busca às universidades gratuitas favoreceram a proliferação
e o sucesso econômico dos "cursinhos" de preparação para o vesti­
bular, de acesso quase vedado aos estudantes de baixa renda. E o que
não se conseguiu sem as peias da demagogi a e do s interesses
Os QuATRo PECADOS CAPITAIS 169

"franciscanos" dos que só pensam nas próximas eleições e nunca nas


próximas gerações, di ficilmente será conseguido com UNE, Andes et
caterva.

Judiciário

O Brasil é um país subdesenvolvido, ou, se quiserem, "cm


desenvolvimento". De uma forma ou de outra, a verdade é que o que
nos coloca nesse estágio é que temos instituições nacionais subde­
senvolvidas. A s sim são e agem nossas instituições políticas: o
Legislativo, os partidos e a maioria dos políticos. Assim são e agem
muitos segmentos das classes empresariais e a maioria de nossas or­
ganizações sindicais.
Mas o que torna nosso atraso ainda mais lamentável e fr us­
trante é que temos uma J ustiça igualmente subdesenvolvida. Nosso
Judiciário, como regra geral, é moroso, ineficiente, corrupto ou cor­
ruptível, em muitos casos, e não responde às exigências essenciais
que a ele impõe o funcionamento de uma democracia estável e real.
Um Poder Judiciário eficiente e eficaz deve ser um poder
corretor por excelência. Repara a impropriedade das leis, inibe a
prepotência do Executivo, dirime os conflitos e é a grande e derradei­
ra garantia do cidadão.
Historicamente, a Justiça brasileira sempre foi considerada
um poder a serviço dos ricos e das classes dominantes. Por ser onero­
sa, cara e complicada, sempre manteve-se muito distante das neces­
sidades da maioria do povo e raramente esteve a serviço dos mais
h umildes. Os obstáculos que têm impedido ou tornado extremamen­
te morosa a implantação dos j uízos de pequenas causas, ou de seus
atuais sucedâneos, são uma prova cabal disso. A maioria de nossa
gente conserva uma profunda descrença na ação do Judiciário.
170 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

Sobre nossos juízes pesa, ainda, o fardo de conviver e traba­


lhar com um sistema pouco ágil e grandemente afetado por nosso
entranhado vezo de achar que com leis se corrigem falhas morais.5
Daí decorre uma legislação extensa, redundante, complicada, minu­
ciosa, conflitante e de difícil interpretação, que faz a alegria dos rábulas,
que engordam à sombra dessas dificuldades. Somos o paraíso dos
bacharéis espertos e oportunistas, onde vicejam o jeitinho, a burla às
leis e a impunidade, pela extrema dificuldade de impedir que os ad­
vogados maliciosos e os j uízes preguiçosos ou corruptos encontrem
no verdadeiro emaranhado de nossas leis a saída salvadora para as
conveniências de seus endinheirados clientes ou protegidos. Nada
melhor para exemplificá-lo do que a verdadeira "babel" j urídico­
institucional em que vivemos, principalmente depois da promulga­
ção da famigerada Constituição-cidadã.
Da mesma forma que a história de muitas de nossas institui­
ções, é a história das oportunidades perdidas para regenerá-las ou
aperfeiçoá-las; também a crônica dos eventos de nosso J udiciário re­
gistra uma série de fracassos na busca de melhor organização e de
mais elevado desempenho por parte de nossa tão criticada Justiça.
Em 1 964, logo depois de empossado, o Presidente Castello
Branco sentiu necessidade de uma intervenção saneadora em nosso
Supremo Tribunal Federal. Mas, ao invés de, revolucionariamente,
livrá-lo dos juízes ineptos e corruptos que j ulgava ali haver - resquí­
cios da frouxidão moral da época de J uscelino e da anarquia da era
j anguista - resolveu apenas aumentar o número de seus membros,
por for ma a ter maioria confiável naquela alta Corte. Tão logo a apo­
sentadoria compulsória e a morte foram fazendo a depuração que
seus escrúpulos o impediram de realizar, Castello determinou a volta
ao número anterior de juizes. Estou convencido que foi essa histórica
e entranhada desconfiança na ação da justiça brasileira - muito mais
do que o mero intuito ou hábito de prepotência - que levou os legis-
Os QuATRO PEcAoos CAPITAIS 171

!adores do período do autoritarismo pós-64 a, sistematicamente, pres­


creverem a exclusão da apreciação j udicial dos atos revolucionários,
mesmo os de menor relevância.
Mas, paradoxalmente, deixou-se de aproveitar, naquele ins­
tante histórico, a oportunidade para uma radical reforma do J udiciá­
rio e das leis essenciais, embora houvesse clara consciência de sua
necessidade, como o declarou enfaticamente no discurso de posse o
Presidente Médici:
"Homem da lei, creio imperioso dotar o Brasil de novos có­
digos que reflitam os progressos da ciência j urídica, a atualização dos
institutos e as inquietudes de um povo em desenvolvimento."
Porém, só bem mais tarde, já no governo Geisel, quando na
realidade o objetivo mais importante era a reforma política, foi tenta­
da uma reformulação do Judiciário, mas, para sutpresa e decepção da
maioria, "a montanha pariu um rato" e iniciamos a caminhada da
redemocratização - impulsionada pelo próprio Presidente Geisel -
com muito pouco de novo, de modernizado ou de reformado, nesse
aspecto. A mais recente oportunidade perdida, tivemo-la com os pífios
resultados dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte.
E, ao que parece, continuaremos ainda por muito tempo a
arrastar esse contrapeso que dificulta sobremaneira a nossa di fícil
caminhada para fora do incômodo círculo dos subdesenvolvidos.

Corrupção : os outros "porões"

Marcos Henrique parou por instantes o trabalho, afastou da


mesa a cadeira com rodízios e espreguiçou-se longamente, num gesto
muito seu. Acendeu um cigarro e pôs-se a olhar, pensativo, para a
pilha de processos em cima da escrivaninha em desordem. Fazia isto
seguidamente nos últimos tempos. Nesses momentos, tinha a sensa-
172 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

ção de que daquele monte de papéis emanava um cheiro de coisa


podre. Claro que era apenas uma impressão, mas que se estava tor­
nando obsessiva.
Nessas ocasiões, sentia saudades de seu antigo trabalho de
promotor de j ustiça na pequena comarca do interior, que largara para
vir prestar serviço na subcomissão da CGI, criada para investigar ca­
sos de corrupção que o governo revolucionário dizia estar disposto a
apurar e punir. A profunda sensação de desalento, que às vezes sen­
tia, era maior agora, quando se dizia que o órgão ia ser desativado
como parte da distensão que o Geisel iniciara. Pensava nos longos
anos que ali passara, sempre esperançoso de que aquele ímpeto inicial,
que levara a alguns confiscos de bens por comprovadas ladroeiras,
resultasse em algo que, pelo menos, desencorajasse os desonestos
mais tímidos. Sim, porque nunca se iludira com a utópica idéia de
alguns de que se pode acabar de todo com a corrupção. Sabia muito
bem que essa erva daninha, que nasceu com o homem, é difícil de
erradicar. Apesar disso, acreditava e rendia-se aos impulsos do outro
gigante da alma humana - o Dever -, que sentia existir em seu
íntimo, fruto de um caráter bem-formado. Empenhara-se sempre a
fundo nas investigações; trabalhara sem descanso e agora estava prestes
a ver tudo aquilo ir por água abaixo e serem jogados fora tantos anos
de sacrifícios, sem hora para comer ou de ir para casa, lutando contra
a malícia, a burocracia e a inércia dos que sempre procuram fazer
corpo mole ou atrapalhar, quando se mexe com interesses poderosos
ou nos verdadeiros tabus das viciadas práticas do serviço público.
Quase sem sentir, Marcos Henrique voltava aos seus tem­
pos de estudante, quando resolvera que não seria militar como seu
pai. Não enfrentaria a vida de aperturas, de soldo modesto e de mui­
tas mudanças; de extrema sujeição e de fugazes momentos de satisfa­
ção. Iria para a Faculdade de Direito, mas não seria apenas mais um
advogado ou um mero rábula. Haveria de ser promotor de j ustiça,
Os QuATRO PEcAoos CAPITAIS 173

para botar na cadeia - assim pensava - os ladrões e os assassinos.


Não só os ladrões de galinha ou os pequenos delinqüentes, mas, prin­
cipalmente, os grandes velhacos, de quem tantas vezes ouvira seu pai
falar com incontida fúria, mas também com desalentada impotência.
Não só os assassinos dos corpos que tiram vidas, mas os assassinos
da alma, dos bons propósitos, que matam as esperanças de um país
melhor, mais decente, mais j usto e mais solidário.
Os anos de estudo, as durezas do vestibular, os tempos de
incertezas após a súbita morte de seu pai, o difícil concurso para pro­
motor e os duros tempos de aprendizado na espinhosa e ingrata tare­
fa de defensor da lei, tudo pareceu recompensado, quando, naquele
grande momento de renovação nacional, ofereceram-lhe a oportuni­
dade com que tanto sonhara, de alinhar-se aos que procurariam des­
cobrir, investigar, denunciar e punir os corruptos que se valem da
coisa pública para proveito próprio, de parentes ou de comparsas.
Não pensou duas vezes. Nem nas dificuldades, que certa­
mente encontraria, nem nos riscos que haveria de correr. Riscos e
dificuldades são próprios de quem tem por dever de ofício a promo­
ção da justiça; ainda mais naquela sua comarca, onde os problemas
de terras em uma área pioneira eram, muitas vezes, resolvidos na
base do trabuco, com a ajuda de pistoleiros ou de jagunços de alu­
guel. Atirou-se por inteiro, de corpo e alma, na empreitada que pare­
cia responder aos seus velhos e amadurecidos desejos.
Só bem mais tarde é que veria com o que iria lidar e onde
es tava se metendo. Suas dores de cabeça com os fazedores de posses,
os grileiros, os jagunços e os incendiários de fóruns das áreas pionei­
ras e conturbadas das novas fronteiras, foram substituídas pelo trato
com as façanhas mais sutis dos ladrões de alto coturno, de colarinho
e gravata, bem falantes, bem situados na vida e possuidores de ami­
gos influentes e poderosos.
174 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

Agora, estava ali, diante daquela montanha de papéis que já


estava começando a achar inúteis. Eram dezenas de denúncias, de­
poimentos, pareceres, informações do Fisco, libelos e arrazoados de
defesa, que conhecia como a palma de sua mão e nos quais reencon­
trava o dia-a-dia de seus ingentes trabalhos nos últimos cinco anos.
Algumas vezes sentira-se como um autêntico Sansão, a des­
pedaçar filisteus com sua fúria santa; era naqueles momentos em que
prometia reverdecer e renovar-se o ímpeto investigatório, corretivo e
punitivo, e parecia que alguma coisa eficaz e importante iria aconte­
cer. A cada nova mudança de chefia, animava-se, pois vassoura nova
sempre parece varrer melhor. Mas logo voltava a sentir-se um peque­
no e fraco Davi, com sua funda sem força, que apenas arranhava a
couraça dos corruptos, gigantescos Golias que pareciam rir o riso
confiante dos inatingíveis.
Quantas vezes sentira-se um "cavaleiro da triste figura", a
arremeter quixotescamente contra os moinhos de vento dos grandes
interesses e contra os gigantes negros e embuçados da corrupção,
enquanto a seu lado, montado na dócil e mansa mula do conformis­
mo, trotava algum Sancho Pança, acomodado à burocracia dos data
venia, dos longos e complicados pareceres e dos prudentes "salvo
melhor j uízo".
Quantas vezes quiseram tirá-lo dali, futricando e manobran­
do, cavilosamente, junto aos dirigentes da Procuradoria do Estado.
Quantas vezes o tentaram intimidar, com insinuações e veladas amea­
ças ao futuro de sua carreira, se permanecesse mais tempo "naquele
órgão execrado, instrumento arbitrário de um regime de exceção",
diziam. Resistiu a tudo, e foi ficando, convencido que aquilo era a
prova de que seu trabalho estava mexendo com altos interesses, bem
representados e ligados à cúpula dirigente do Estado.
Agora sentia que se estava aproximando o momento em que
teria de voltar ao ninho antigo, onde a prometida hora da forra o
esperava. Mas tinha também os seus trunfos. Sabia dos podres de
Os QUATRO PEcAnos CAPITAIS 175

muita gente, que fora afastada e que, aos poucos, estava retornando
aos postos antigos e ao jogo escuso, que Marcos Henrique ajudara a
devassar e que agora bem conhecia.
E, algum dia, ainda iria escrever sobre algumas daquelas his­
tórias, escondidas naqueles papéis, por ora amontoados em cima de
sua mesa, exemplos de fatos que bem poderiam figurar numa verda­
deira antologia da corrupção, esse monstro de mil caras. Retratos sem
retoque de ministros, governadores, j uízes, deputados, empresários,
políticos, testas-de-ferro e outros grandes e pequenos patifes que fre­
qüentam as colunas sociais, baj ulados por esses exploradores das vai­
dades mundanas que são os "Ibrains" da vida.
E haveria de tentar mostrar um pouco dessa teia intrincada
e infindável de interesses, solidários e acumpliciados, que for mam
aquilo que a maioria nem de longe conhece, e a que, vagamente, cha­
mamos Poder.

***

Fala-se muito nos "porões da ditadura". A esquerda preocu­


pou-se muito com eles. Mas durante os chamados "anos de chumbo",
houve uma outra guerra - tão importante quanto a anterior - tra­
vada em outros "porões" e que, ao contrário, foi lamentavelmente
perdida: a guerra contra a corrupção. Como na outra, muitos também
se dizem inocentes vítimas e não poucos valem-se do sigilo que cer­
cava as investigações para fazerem-se passar por perseguidos políti­
cos. Guerra de que participou, entre outros, o combativo promotor
de j ustiça Marcos Henrique Rabello de Mello, em cujo perfil inspirei­
me para fazer o retrato acima.
O combate à corrupção sempre teve grande apelo eleitoral
e popular. A vassoura do Sr. Jânio Quadros - em oposição ao "rou­
ba, mas faz" do ademarismo - valeu-lhe estrondosa vitória de mais
de seis milhões de votos, embora tenha se convertido em malogro.
176 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

A promessa do candidato Collor de um combate sem tré­


guas aos maraj ás, aos corruptos e aos ladrões dos dinheiros públicos
foi a bandeira que o ajudou a conquistar a vitória nas eleições presi­
denciais, num resultado considerado um fenômeno eleitoral, mas não
um fenômeno político. Fato que dificultou o cumprimento de muitas
das promessas do candidato. Se em um regime autoritário foi difícil
combater a corrupção, imagine-se as dificuldades para fazê-lo em um
regime presidencialista, com definições constitucionais parlamenta­
ristas, e tendo de lutar contra um Congresso marcado, em sua grande
maioria, por uma invencível vocação para o fisiologismo, para o
empreguismo, para o nepotismo e para a demagogia.
C uri o s am ente, e s s e p e r manente d e s e j o d e p u n i r o s
aproveitadores d a função pública fo i posto n a letra d e fôrma d a lei ao
tempo do governo de Juscelino Kubitschek, um dos mais atacados
pelos atos de corrupção atribuídos ao fundador de Brasília e a seus
amigos e colaboradores. Proposta por um dos líderes do partido que
mais combatia JK - a UDN - surgiu, em 1 958, a Lei Bilac Pinto,
que previa a pena de perda dos bens pelos funcionários públicos cor­
ruptos, através de processo regular na Justiça comum, já por si moro­
sa e ineficaz para suas tarefas habituais. Desafio quem possa indicar
um único caso de aplicação da citada lei.
Mais tarde essa bandeira foi levantada como um dos com­
promissos de primeira hora do movimento militar que derrubou o Sr.
João Goulart, um dos herdeiros e beneficiários do "mar de lama" que,
correndo pelos porões do Palácio do Catete, ajudou a puxar o gatilho
da ar ma com que se matou o Presidente Getulio Vargas. Mas essa
bandeira ficou enrolada até que nova crise fizesse com que os ímpe­
tos revolucionários fossem reacesos, através a edição do controverti­
do AI-5. Num dos atos complementares ao AI-5, que incorporou a
maior parte dos dispositivos da Lei Bilac Pinto, foram instituídos um
processo sumário, com direito de defesa, e um foro de exceção para o
j ulgamento dos casos de enriquecimento ilícito no exercício da fun-
Os QUATRO PECADOS CAPITAIS 177

ção pública ou nas transações com o Erário. O foro especial seria a


Comissão Geral de Investigações, então criada e presidida pelo mi­
nistro da J ustiça, no âmbito de cujo ministério ela foi incluída. Essa
malfadada decisão selou a sorte da CGI, pois, além de tudo, os gover­
nos pós-64 esmeraram-se em escolher para aquele ministério pessoas
sem o mínimo interesse ou empenho no combate à corrupção.
E assim colheu-se um dos grandes fracassos do movimento
de 64, com exemplos de impunidade e de inação, muitas vezes
acobertados e facilitados pelas próprias condições criadas pelo
autoritarismo do regime, que foi capaz de prontas e enérgicas san­
ções políticas - algumas vezes, injustas ou desnecessárias - mas
foi vencido no combate à corrupção, por escrúpulos extemporâneos, pelos
interesses e pelas influências perniciosas, criadas à sombra do poder.
Isto confirma que sempre será tarefa ingrata combater a
corrupção. No revolucionário sincero há, muitas vezes, um toque de
grandeza no seu desprendimento e idealismo, embora se possa dis­
cordar de seus métodos e de seus fins. Já o corrupto, não; age sempre
sub-repticiamente, e conta, infalivelmente, com a solidariedade e a
cumplicidade de sócios ou interesseiros. A corrupção é manifestação
que explora o lado mais sombrio da natureza humana.
A essas dificuldades, somem-se as conhecidas deficiências
de nosso Poder Judiciário, a quem cabe dar o remédio da lei aos ilíci­
tos que forem apurados. Os milhares de processos resultantes das
fraudes apuradas pela Polícia Federal amontoam-se nos juizados que
deveriam solucioná-los. As falhas processuais, as chicanas e as arti­
manhas dos advogados espertos somam-se à morosidade e à verda­
deira indolência dos trâmites de nossa complicada máquina j udiciá­
ria, onde os míseros salários dos serventuários mais facilmente os
colocam à mercê das seduções dos interessados na protelação e até
no desaparecimento dos feitos que retratam a infinidade de recursos
de que, impunemente, se serve a máfia que há anos explora a Previ­
dência Social.
178 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

De tempos em tempos surge nos jornais a notícia do trâmite


no Congresso de projetos de novas leis, mais amplas e mais drásticas,
contra os corruptos. Esquecidos, porém, de que, antes de pensar em
leis novas, seria melhor fazer cumprir as leis em vigor, nada se fala
quanto à processualística. De nada adiantarão novas leis se os cami­
nhos para a sua pronta e exemplar aplicação continuarem barrados
pelos vícios antigos do jeitinho e da malandragem que jogam por ter­
ra as melhores e as mais honestas intenções. Infelizmente, o manto
da censura e as necessidades cautelares do sigilo não permitiram o
conhecimento dos exemplos nada edificantes dos anos em que o po­
der discricionário do regime após o AI-5, com a faca e o queijo à mão,
deixou-se enganar pelos ratos que habitualmente engordam à sombra
do Poder. Alguém duvida? É só mandar procurar os arquivos da
finada CGI e ver-se-á que as apontadas traficâncias de PC Farias e
dos "anões do orçamento" são apenas mais alguns exemplos na en­
xurrada de patifarias que se cometem com os dinheiros públicos!
Participei dessa batalha perdida, como Presidente da
Subcomissão de Investigações do Paraná (Sub-CGI-PR) , entre 1 975
e 1 977. Em um livro anterior Para Col/or ler na cama
- relatei -

extensamente o resultado dessa experiência desanimadora que me


permitiu, desde há muito, dizer que o movimento de 64 fracassou
lamentavelmente no combate à corrupção.

N OTAS

1 Palestra do ministro Delfim Neto (Seplan), na Escola de Guerra Naval em 1 5/09 /82.
-

2 Idem nota anterior.


-

3 Mario Henrique Simonsen, op. cit.


-

4 Idem nota anterior.


-

5 Pandiá Calógeras, em Formação histórica do Brasil


-
O S NOVOS CAMINHOS DA
REVOLUÇÃO B RASILEIRA

Apesar do fracasso da experiência comunista em todo o


mundo, a esquerda radical brasileira não esconde seu propósito de,
um dia, ainda tomar o Poder, para realizar o que há tempos, em entre­
vista à Gazeta do Povo de Curitiba, a filha de Prestes chamou de "Re­
volução Brasileira". Consideram que a chegada ao governo da es­
querda pós-marxista pela via eleitoral com Fernando Henrique foi o
resultado de uma conciliação que aj udou a derrotar Lula - o candi­
dato indicado - e representa um estorvo à radical transformação da
sociedade. E, sempre que podem, apedrejam o presidente, um
neoliberal entreguista e um traidor de suas antigas idéias de simpati­
zante da Ação Popular.
As duas derrotas de Lula nas urnas criaram para o PT a dú­
vida de que suas facções radicais é que talvez tenham razão: a toma­
da do Poder só far-se-ia pela via leninista, explorando as contradições
ainda agudas e latentes na sociedade brasileira.
As experiências anteriores mostraram que, historicamente,
o mais importante obstáculo ao assalto comunista ao Poder são as
Forças Armadas. Daí a necessidade de neutralizá-las e desmoralizá­
las. Neutralizá-las, deixando-as à míngua de recursos, desmotivadas
e alheias aos problemas de segurança interna. As tentativas de des­
moralização nunca cessaram e fazem-se por todos os meios, princi­
palmente pela campanha insidiosa que se montou a respeito de sua
atuação no combate à luta armada, atingindo seus chefes do passado
e tentando criar a falácia de um novo Exército, descompromissado
180 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

com os erros - reais ou inventados - dos "anos de chumbo". Essa


campanh a tem apre s e n tado n o s ú l ti m o s temp o s s u ti l e z a s
maquiavélicas, como a que levou o jornalista Márcio Moreira Alves à
posição de painelista e conferencista do mais alto instituto de ensino
do Exército, o cadinho onde serão forjadas as "novas cabeças" dos
modernos generais do Povo de um Exército neodemocrata e inteira­
mente alheio à política. Em 35 os principais alvos aliciados foram os
oficiais, em 63 a tentativa visou os graduados e a próxima começará
pelos coronéis e generais.
Mas a principal estratégia será outra. Não mais a aventura
da luta armada, desafiante e aberta, mas a guerra de desgaste e de
atritos, a luta de massa dos marginalizados e dos excluídos, produzin­
do cadáveres a serem levantados como bandeiras, manobrando à som­
bra das facilidades e das franquias democráticas de uma Constituição
canhestra e conscientemente malfeita, e principalmente, utilizando
os vastos recursos da agitação e da propaganda, o dorrúnio do apara­
to sindical das corporações estatais cuja privatização será combatida
com a mais nova arma, a "guerrilha j udiciária", o largo uso de uma
agressiva e ativa militância, ajudada por simpatizantes existentes nos
meios de comunicação social e na esquerda clerical e contando com a
complacência e a cumplicidade de "novos generais do povo".
A CUT - braço sindical urbano do PT - continuará a ser
o instrumento revolucionário do partido, recorrendo à luta de clas­
ses, à desobediência civil e ao desrespeito às leis "burguesas", mas
será progressiva e convenientemente alongado para alcançar o cam­
po. Não mais com os minguados e desorganizados "Grupos dos Onze"
dos sonhos brizolistas ou com as Ligas Camponesas do Francisco
Julião, de inspiração e subvenção cubana, do início da década de 60,
mas com a imensa massa de manobra dos deslocados e desemprega­
dos pelas transformações da atividade econômica no campo. A esses
Os Novos CAMINHOS DA REvoLuçAo BRASILEIRA 181

numerosos contingentes agregar-se-ão muitos dos sem-trabalho e dos


sem-teto das cidades, que serão mandados ao campo para serem ma­
nipulados pelos profissionais da agitação.
Com os novos tempos da globalização da economia e do
choque de modernização a que vem sendo submetida a economia
brasileira, o operariado urbano - principalmente do setor privado
- começa a adquirir consciência das falácias do velho peleguismo e
das desvantagens da rigidez da legislação trabalhista paternalista her­
dada da Era Vargas. Em conseqüência, o predomínio da CUT come­
ça a ser desafiado por outras centrais sindicais. É hora, pois, de, pro­
curando manter as posições j unto às corporações estatais, transferir
para o campo o esforço de organização e arregimentação, levantando
a bandeira da reforma agrária e elevando a nível nacional o plano de
invasões como desafio ao direito de propriedade e às decisões do
Executivo e do Judiciário. Contará com a complacência e com a omis­
são de antigos aliados, encastelados em posições no governo. Os
mesmos aliados que cometem a incoerência de absolver e premiar a
violência política do passado, mas que se alarmam quando a violên­
cia ameaça desestabilizar o governo de que se servem e, como novas
vivandeiras, voltam a lembrar o poder das baionetas.
Só os ideologicamente comprometidos ou os ingênuos po­
derão achar que os sangrentos incidentes que se vem repetindo nas
áreas rurais são meras tropelias de policiais truculentos e despreparados,
como pareceu acreditar o trêfego deputado Bicudo com aquele seu
ridículo e açodado telegrama à ONU quando do incidente de Eldorado
de Carajás. Nesse confronto, documentado pela televisão, foi possí­
vel ver de quem partiu a violência e a agressão.
O estado de Direito, intensamente reclamado nos anos do
autoritarismo, firma-se no primado da lei e no respeito a ela. O blo­
queio sistemático de estradas, a invasão e depredação de proprieda­
des públicas e privadas, o desrespeito acintoso a decisões judiciais e
as tentativas Je desmoralização de autoridades constituídas são vio-
182 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

lências que maculam o império da lei e o estado de direito, bases da


vida democrática. E o governo, seja estadual ou federal, que as acei­
tar pacificamente perderá o respeito dos governados e merecerá o
repúdio da maioria silenciosa e ordeira dos cidadãos. A complacência
e a omissão são incentivos a novas violências.
Talvez seja por isso que, num dos momentos mais agudos
da rebeldia dos sem-terra, o Sr. Fernando Henrique resolveu denunciar
o que chamou de baderna e mencionou a força das baionetas, assun­
to também abordado pelo Presidente Castello Branco, em visita ao
Paraná quando fez questão de dizer: "o governante que quiser apoi­
ar-se nas baionetas, corre o risco de ser espetado por elas." O nosso
atual mandatário abordou o tema ao sentenciar que "pedras, paus e
coquetéis molotov são argumentos tão pouco válidos quanto as bai­
onetas, só que menos poderosos''. As referências às baionetas, foram
feitas em conj unturas diferentes, mas com motivações parecidas.
Castello Branco fora investido no cargo no bojo de um movimento
cívico-militar em que valeram mais os terços e a rezas das mulheres
brasileiras do que as baionetas que, felizmente, ficaram embainhadas,
porque a maioria esmagadora da sociedade já fizera sua opção contra
a baderna acobertada por um governo que se tornara refém das ma­
nobras cubano-soviéticas para comunizar o Brasil. Mas o experimen­
tado combatente da FEB sabia dos perigos e das incertezas das guar­
das pretorianas e teria de lidar com isso já no momento de sua própria
sucessão, na tentativa de reconstitucionalizar o país, ainda que ado­
tando a forma que Geisel viria a chamar, mais tarde, de "democracia
relativa". Fernando Henrique Cardoso, hoje penitente confesso e ar­
rependido de seu marxismo j uvenil, vê a autoridade de seu governo e
as regras do estado de Direito democrático, tão reclamadas nos tem­
pos do regimejàrdado, serem desafiadas pelos mesmos processos e pelo
mesmo radicalismo que inspirava as Ligas Camponesas de J ulião e os
Grupos dos Onze brizolistas, quando se queria as reformas "na lei ou
na marra".
Os Novos CAMINHOS DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA 183

O que surpreende é que só agora tenha o nosso presidente


descoberto que essa baderna tem motivação política e é coordenada
e comandada por uma central de agitação. Se tivesse prestado mais
atenção, teria há muito tempo visto que essa matriz, com raízes den­
tro de seu próprio governo, é a mesma que inspirou a lei dos desapa­
recidos, os abertos desafios à Lei da Anistia, pretendendo impugnar a
designação e a promoção de oficiais-generais e que manda emissários
à C uba, não se sabe bem para quê. Talvez saudades dos velhos tem­
pos da OLAS e do treinamento militar na ilha-presídio.
De um outro ponto, o nosso presidente - sabidamente um
homem inteligente, culto e lido - parece estar também esquecido.
Nem sempre as baionetas foram mais poderosas que as precárias ar­
mas das turbas revolucionárias ou que a habilidade maquiavélica dos
golpistas. O decidido apoio popular, num caso, ou a apatia descrente
das elites e das maiorias silenciosas e imobilistas no outro, fizeram a
diferença que a história registrou desde a Revolução Francesa, pas­
sando pelo golpe branco aplicado pelos bolchevistas em Kerenski,
pelo assalto ao Parlamento na Tchecoslováquia ou pela inoperância
dos milhares de baionetas do ditador Fulgêncio Batista, frente ao
pequeno e decidido grupo de guerrilheiros que, ao comando de Fidel,
Cienfuegos e Guevara, desceram de Sierra Maestra, com as simpatias
do povo cubano e as bênçãos imprudentes de Tio Sam, para apossar­
se de Cuba e ali implantar a mais resistente ditadura comunista.
Resta saber em que estava pensando o nosso presidente ao
lembrar-se do poder das baionetas. Alguns adversários, maldosamente,
dizem que pensava em Fujimori. O mais provável é que sejam reminis­
cências de sua origem familiar ou colaboração literária de seu culto
chefe do Gabinete Militar, qualquer delas ativada pela significativa
queda, na época, nos índices dos ibopes. Mas, de qualquer maneira, um
alerta para os eternos sonhadores por uma Revolução Brasileira.
184 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

O FORO DE SÃO PAULO

Até há bem pouco tempo, muito poucos saberiam dizer do


que se trata. Só após a realização de seu sétimo encontro é que o
assunto deixou o âmbito reservado e nebuloso das páginas do jornal
cubano Granma. Mas, na realidade, essa entidade, que só agora come­
ça a ser conhecida, foi fundada em São Paulo - daí o seu nome -
em 1 990, por convocação do PT e a pedido do Partido Comunista
Cubano. É uma reedição modificada do Comintern para a América
Latina, na coordenação de seus movimentos ditos populares. A idéia
surgiu em uma reunião em Havana de dirigentes do PT e do PCC, em
j aneiro de 1 989, conforme relata em seu livro O paraíso perdido um
dos seus idealizadores, o conhecido ativista "frei" Betto.
Naquela época já se prenunciavam a crise no leste europeu
e o colapso da União Soviética. Betto conseguira convencer Fidel a
buscar o apoio da Igreja através da esquerda clerical, não hostilizar as
Forças Armadas e atrair um jovem líder sindical que surgira no ABC
paulista dentro do clima de descompressão iniciado por Geisel e com
o apoio secreto do SNI. Fidel, que subestimara a determinação das
Forças Armadas brasileiras, concordou e recomendou uma aproxi­
mação co� os militares. Naquele ano, se Lula perdesse a eleição - a
suposição é que poderia ser para Brizola - organizar-se-ia uma enti­
dade para coordenar a ação na América Latina. Se Lula ganhasse,
nem precisaria, pois as coisas seriam comandadas de dentro do pró­
pr10 governo.
Lula perdeu, não para Brizola, mas para Collor. Este, po­
rém, com seus desatinos, deu oportunidade para a esquerda reani­
mar-se e apoiar decididamente as ações para derrubar o jovem presi­
dente. Curiosamente, um dos destacados atores desse feito - o ex­
senador Amir Lando, relator da CPI do Collor - viria a ser o chefe da
Os Novos CAMINHOS DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA 185

delegação brasileira, em janeiro de 94, ao Congresso Internacional de


Solidariedade a Cuba, uma das estratégias decididas no IV Encontro
do Foro, realizado em Havana em j ulho de 1 993.
Os II e III Encontros, respectivamente, no México em 9 1 e
na Nicarágua em 92, foram de pequena importância. Já o seguinte,
citado acima, estabeleceria os rumos de uma ação global para a Amé­
rica Latina e o Caribe, cujo cerne era o apoio ao regime cubano, em
grave crise já que desamparado da aj uda política e financeira da União
Soviética que equivalera, em 30 anos, a um verdadeiro Plano Marshall,
mas que fora desperdiçado no financiamento à revolução comunista
na Á frica e em nosso continente, pela luta armada. Entre 1 96 1 , quan­
do foi iniciada, e 1 989, a ajuda financeira carreou para Cuba cerca de
50 bilhões de dólares, em créditos e financiamentos.
Aquele apoio, no caso brasileiro, seria ostensivamente ma­
terializado pela compra, autorizada por Itamar, de 300 milhões de
dólares em medicamentos cubanos e na revoada intensa para Cuba
de autoridades do primeiro escalão do governo. Fidel faria uma pe­
quena abertura política e a pregação socialista seria temporariamente
substituída por uma forte oposição ao neoliberalismo. A implantação
do NAFTA - instr umento americano para aliviar a pressão
imigratória mexicana e o narcotráfico - seria combatida e u m dos
meios imediatos foi a rebeldia zapatista de Chiapas, logo trazida para
o âmbito internacional, onde ganharia o apoio mundial das Igrejas na
defesa dos índios mexicanos, o que neutralizou em grande medida a
ação do Exército daquele país.
A imigração latina para os Estados Unidos já era considera­
da pelo governo americano, em documento sigiloso de 1 974 (NSS­
M200 - hoje tornado público) , ameaça à segurança nacional. Den­
tro desse enfoque, no início de 1 993 - antes portanto do IV Foro -
foi realizada na Universidade de Princeton uma reunião entre os diri­
gentes do Diálogo Interamericano e figuras de destaque do FSP, entre
eles muitos candidatos presidenciais em seus países, ao qual estive-
186 Nos "PoaõEs" DA D ITADURA

ram presentes Fernando Henrique Cardoso e Lula (este levado por


aquele) e cuja finalidade era contar com o poder de mobilização das
organizações filiadas ao Foro para desenvolver estratégias tendentes
a neutralizar aquela ameaça, entre elas o controle da natalidade pela
esterilização, o aborto, a união civil entre homossexuais etc, proposi­
ções não assumidas diretamente pelo PT, mas propostas por congres­
sistas do partido.
O V Encontro foi realizado em Montevidéu, e nele foi ava­
liado o desempenho eleitoral dos candidatos, constatando-se apreciá­
vel resultado, com cerca de 25% dos sufrágios, embora nenhum can­
dida to presidencial tenha sido eleito, sendo que a maior frustração
ficou por conta da eleição de FHC, que desrespeitou a decisão do
Foro, cujo candidato era Lula, daí decorrendo o fundo desencontro
entre o atual presidente e o PT. Nessa reunião, o MST foi admitido
como membro de Foro e decidido seu uso como instrumento de adap­
tação do esquema zapatista às condições brasileiras, o que já vem
ocorrendo.
O VI Encontro foi realizado em El Salvador, e o último, o
VII, deu-se em Porto Alegre, em j ulho de 1 997, quando foi feita uma
avaliação política do movimento e a maneira de utilizar os 30 anos da
morte de Che Guevara como propaganda de que o livro de Jorge
Castanheda já se constituiu num dos tópicos.
Diante disso, pode-se entender muitas das ocorrências em
nosso país e a razão porque tantos tomam a nuvem por Juno, o que
poderá estar sendo modificado graças ao trabalho de esclarecimento
que vem desenvolvendo o advogado pauli sta José Carlos Graça
Wagner, que sustentou interessante debate na ESG com a senadora
carioca do PT, Benedita da Silva, no dia 01 /09/97, sobre os movi­
mentos ditos populares, a reforma agrária e o Foro de São Paulo.
O B RASIL E A NOVA ORDEM MUNDIAL

A idéia de uma Nova Ordem Mundial, com seu apêndice


"globalização", é polêmica e geradora de controvérsias. Não obstante, é
a terceira vez neste século que os nossos amigos americanos a propõem.
A primeira, em 1 9 1 7, com os " 1 4 pontos" do presidente
Woodrow Wilson, marcando a chegada ao cenário mundial do gigan­
te que construíra sua grandeza ao abrigo das distâncias e de dois ocea­
nos. Sem vizinhos ameaçadores, pôde dar-se ao luxo de ignorar as
querelas européias e construir uma grande democracia e um respeitá­
vel poder nacional, sob o signo da teoria do "Destino Manifesto". A
segunda, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, com a
criação da ONU, e a última, surgida com a implosão da União Sovié­
tica e o fim da Guerra Fria.
A verdade é que a história contemporânea viu, na sucessão
dos últimos quatro séculos, a presença dominante em cada um deles
de um sistema de arranjos diplomáticos e políticos como forma de
solucionar ou contornar disputas e os problemas de poder.
O século XVII viu o surgimento do Estado-nação, em opo­
sição ao monolitismo do Sacro Império Romano. Foi o século domi­
nado pela política francesa de Richelieu, que elevando o interesse
nacional às dominâncias das ''Raisons d'État" ocupou a cena européia
no vácuo criado pelo enfraquecimento do papado - desafiado pela
Reforma - e pela carnificina da Guerra dos 30 Anos. A predominân­
cia francesa geraria reações do outro lado do canal da Mancha e leva-
188 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

ria a Grã-Bretanha a orientar os esforços de sua diplomacia para um


novo sistema que dominaria a política do continente europeu duran­
te 200 anos: o do Equilíbrio de Poder.
Tal foi a tônica do século XVIII até que o turbilhão da Re­
volução Francesa e das guerras napoleônicas o colocasse em xeque.
As coisas só voltariam ao seu curso anterior depois da derrota do
Grande Corso e seu confinamento definitivo em Santa Helena. O
Congresso de Viena reconcertaria a Europa e promoveria um longo
período de paz, apenas turbado pelos resíduos revolucionários que
inquietavam os aristocratas e as monarquias absolutistas.
O sistema de equilfürio de poder, agora sob a batuta habili­
dosa do príncipe de Metternich, só viria a ser perturbado na segunda
metade do século XIX, pela unificação da Alemanha sob a égide
prussiana de Bismarck e sua Realpolitik. A presença no centro da
Europa de um Estado germânico militarmente poderoso passaria a
constituir-se em fato novo que modificaria inteiramente a política
européia, já agora contando com complicadores novos, como a pre­
sença de uma Rússia imperialista e expansionista e do barril de pól­
vora balcânico, dividido entre o Império Austro-húngaro e o Império
Otomano. A humilhante derrota francesa na guerra de 70, com pesa­
das sanções econômicas e territoriais, é a vitória do realismo político
do Chanceler de Ferro, mas sepulta, de vez, a prática dos arranjos
diplomáticos na busca do equilíbrio de Poder. Os sucessores de
Bismarck não tinham nem a habilidade nem a acuidade e firmeza do
grande líder, e o mundo penetra no século XX sob a ameaça da catás­
trofe que desabaria sobre a humanidade. O malogro da política de
equilíbrio gerou duas grandes guerras e trouxe em definitivo, para a
cena mundial, os americanos do norte.
A presença americana viria sempre sob a ótica de dois con­
ceitos antagônicos: cm um, a Nação americana seria um farol para o
mundo, a iluminá-lo com sua democracia (isolacionismo); e no outro,
fazendo dos Estados Unidos um verdadeiro cruzado pelos princípios
o B RASIL E A NOVA ORDEM MUNDIAL 189

de uma nova ordem universal de democracia, livre comércio e exem­


plar respeito à lei internacional (Polícia do mundo). Ambas baseadas na
singela crença de que seria possível aplicar os princípios éticos da
conduta individual às relações internacionais, o oposto das "Razões
de Estado" de Richelieu.
O fracasso da intervenção do presidente Wilson - que queria
com seus 1 4 pontos mudar radicalmente o sistema internacional, subs­
tituindo o equilíbrio de poder pela autodeterminação, as alianças mi­
litares pela segurança coletiva e a diplomacia secreta pelos acordos
públicos - deveu-se principalmente à falta de apoio do Congresso
de seu próprio país, onde prevaleceram os isolacionistas. Os alemães
j ulgaram-se enganados e surgiu a versão da "punhalada nas costas",
argumento de que se valeria Adolf Hitler para mobilizar a opinião
pública contra os excessos punitivos do Tratado de Versalhes.
A vitória na Segunda Guerra Mundial trouxe a ilusão de se­
rem os Estados Unidos um país tão poderoso que poderia modelar o
mundo à sua imagem. Tal crença é que levou o Presidente Kennedy a
j actar-se em 1 96 1 : "A América é suficientemente poderosa para pa­
gar qualquer preço e suportar qualquer sofrimento para garantir o
triunfo da liberdade." Trinta anos depois, apesar da vitória na Guerra
Fria sem uma guerra geral, os americanos contemplam um mundo do
qual não podem fugir e, muito menos, dominá-lo; um mundo que
está distante dos ideais americanos, com um exacerbado nacionalis­
mo, intensa competição, pouca cooperação e prevalência dos interes­
ses nacionais; um mundo que exibe, de um lado, fragmentação políti­
ca, e de outro, tendência à globalização dos problemas econômicos e
sociais de desemprego, meio ambiente e explosão demográfica. Uma
Europa que, na ausência de um país suficientemente forte para ser
dominante, reexamina conceitos velhos de três séculos - tais como
Nação-estado, soberania e equilíbrio de poder - buscando uma uni­
ficação nunca tentada e prenhe de percalços. Um mundo onde certos
parâmetros de poder parecem invertidos: um Japão militarmente in-
190 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

significante, mas um gigante econômico, e uma Rússia enjaulada em


fronteiras sem precedentes históricos e forçada a repensar seu papel
sempre oscilante entre preocupações européias, asiáticas e balcânicas.
Henry Kissinger, ao estudar a proposta de uma Nova Or­
dem Mundial em seu mais recente livro - Diplomacia - publicado
nos Estados Unidos em 1 994, declara que o mundo do pós-Guerra
Fria terá cinco ou seis potências principais ao lado de um grande
número de nações de menor poder. As grandes potências seriam: Es­
tados Unidos da América, União Européia, Japão, China, Rússia e,
provavelmente, a Í ndia.
Como vimos acima, a idéia de ordenar o mundo segundo
determinada ótica não é nova, nem original. A mais recente proposta
foi feita pelo presidente americano George Bush, para quem ela se
constituiria, em essência, numa parceria entre as nações para aperfei­
çoar a democracia, aumentar a prosperidade e a paz e reduzir os gas­
tos com os ar mamentos. Logo depois, o novo presidente, Clinton,
referendaria o conceito dando-lhe a sua pitada de originalidade: "au­
mentar o número de nações democráticas alinhadas com os princí­
pios da livre empresa e do livre comércio." Nesse condomínio de
convivência democrática, a faceta econômica inevi tável seria a
globalização.
E nesse complicado mundo do século XXI, quais seriam o
papel e a posição do Brasil, por sua dimensão continental, sua posi­
ção geoestratégica e seu potencial econômico? Uma potência de se­
gunda ordem, dependente e periférica, ausente da mesa das grandes
decisões?
Um estudioso americano, Ray S. Cline, tentou sintetizar o
Poder Perceptível de uma Nação em uma fórmula muito popular al­
guns anos atrás. Segundo Cline, esse poder seria o somatório do Po­
tencial (massa crítica) , mais o Poder Econômico, mais o Poder Mili-
O B RASIL E A NovA ORDEM MUNDIAL 191

tar, tudo isso multiplicado por dois fatores fundamentais: Estratégias


de Ação (saber o que quer e querer o que pode) e Von tade Nacional
- [ pP = ( P º + pi:. + pM ) ( E A + yN ) ] .
Se procurássemos aplicar ao Brasil d e hoje a fórmula de
Cline, o resultado, provavelmente, seria tão desanimador quanto os
relatórios que nos manda a ONU e que certa imprensa compraz-se
em considerar definitivos, malgrado nossas precaríssimas estatísti­
cas. O conhecimento e as avaliações de nossas potencialidades têm
crescido substancialmente, graças aos modernos recursos tecnológicos
que esmiuçam nosso ecúmeno cada vez mais alargado. Nosso poder
econômico, apesar de todos os erros cometidos, nos coloca entre as
1 O maiores economias do planeta. Nossa Expressão Militar, em ter­
mos mundiais, paradoxalmente, decresce na medida em que outros
fatores fazem crescer nossa estatura estratégica.
Mas é no exame dos itens multiplicadores que esbarra qual­
quer perspectiva de um resultado mais alentador. Há muito tempo -
seguramente a partir do segundo choque do petróleo - parece que
os sucessivos governos viram-se perdidos entre o não saber o que
querer e o querer mais do que podiam. O ímpeto modernizador e
reformista que levou aos esperançosos tempos do "milagre brasilei­
ro" conheceria o irrealismo do 2º PND e acabaria freado pelas vicis­
situdes da conjuntura internacional. Quando esta modificou-se favo­
ravelmente, já nos encontrávamos perdidos em nossas perplexidades
internas, entregues a lideranças cansadas pelos anos de autoritarismo
ou imobilizados pelas fatalidades que nos levaram à maldição dos
vice-presidentes calamitosos. Espancado por anos de inflação galo­
pante e por mais de uma década de estagnação e retrocesso, o moral
nacional, entibiado e desalentado, passou a traduzir uma Vontade
Nacional conformista, e até derrotista.Viramos um país de cassandras.
Eis que no limiar do terceiro milênio uma reengenharia da
moeda realiza o "milagre" de um longo período de estabilidade, sob
a batuta do "bruxo" do Plano Real, levado à Presidência por uma
192 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

surpreendente combinação política capaz de colocar no mesmo pa­


lanque os fisiologistas do PFL, alguns socialistas envergonhados e os
cristãos-novos do neoliberalismo. Mas, com o presidente pós-mancis­
ta, aboleta-se no governo uma fauna não liberta de seu esquerdismo
j uvenil. Parte da esquerda julga-se traída e junta-se aos oportunistas
do Congresso para tornar mais difícil a tarefa de reformar o Estado e
de consolidar a inserção do país nos novos tempos da economia mun­
dial. Os gastos públicos não contidos aumentam a dívida interna e
elevam os juros. O aj ustamento à estabilidade faz-se com o aumento
do desemprego e com riscos para a confiabilidade do sistema finan­
ceiro, montado sob a viciosa euforia da ciranda inflacionária. E o
Moral Nacional, que recebera um alento, volta a ser erodido pelos
desconfortos das medidas impopulares mas necessárias, pelas varia­
ções da curva de popularidade do presidente e pelo revanchismo da
esquerda radical, que com o apoio da imprensa sensacionalista, na
ânsia de vender jornal, esquece a anistia e renova as afrontas aos
militares e os atritos com as Forças Armadas. E a indispensável coe­
são da frente interna, necessária para apoiar a presença do Brasil na
Nova Ordem Mundial, fica na dependência das discussões sobre
privatização, reformas do Estado, reeleição e de uma liderança firme
e corajosa que o atual mandatário parece relutante em exercer.
AS FORÇAS ARMADAS NO LIMIAR
DO III MILÊNIO

Para podermos avaliar o papel de nossas Forças Armadas


nesta mudança de século e de milênio, é fundamental nos lembrar­
mos do que vimos no capítulo precedente quando tratamos da inser­
ção do Brasil num mundo globalizado e onde se pretende construir
uma Nova Ordem, coisas às quais não podemos virar as costas
O fim da Guerra Fria, com o colapso do mundo soviético, é
o fato marcante deste fim de século, que viu também o renascer dos
nacionalismos e o reacendimento de antagonismos históricos. De outra
parte, assistimos aos esforços para a constituição de uma União Eu­
ropéia, com obj etivos tão amplos que m uitos duvidam de sua
exeqüibilidade e de seus resultados.
A fragmentação da União Soviética e o fim da bipolarização
do poder mundial acentuam as tendências para maior interdependência
entre as nações, e que recebeu o nome de globalização. Fecha-se cada
vez mais o âmbito daquilo que já foi chamado de aldeia global, graças
aos novos recursos da tecnologia e da informática, com seus reflexos
políticos, econômicos, sociais e militares. Surge em . cena uma nova
modalidade sutil e envolvente de poder: o soft-power, verdadeira arma
tornada possível pela globalização da informação, em proveito de
interesses nacionais e multinacionais, que invade os lares, via satéli­
tes e redes a cabo, conquista as mentes pelo bombardeio massificante
da propaganda, influenciando a formação de uma "opinião pública
194 Nos "PoRõEs" DA D ITADURA

mundial" que poderá ser manipulada para vários fins, inclusive o de


questionar a soberania de países a serem neutralizados para favorecer
determinados interesses ou para atingir determinados fins.
A diminuição da ameaça de um holocausto nuclear deu lu­
gar à exacerbação dos conflitos étnicos e religiosos, acompanhados
pela "globalização" dos problemas de desemprego, agressão ao meio
ambiente, terrorismo, fanatismo religioso islâmico, crime organizado,
narcotráfico, lavagem de dinheiro, contrabando, ONGs e direitos dos
povos indígenas e minorias.
Nesse cenário de tantas nuanças e de tantos antagonismos,
temos de pensar na posição e na responsabilidade do Brasil, dono de
um extenso e rico território, ainda fracamente povoado e com frontei­
ras inteiramente abertas e despoliciadas. Ajudado por uma apreciável
unidade lingüística, racial e religiosa, identidade nacional consolida­
da, uma grande população e uma promissora base econômica situada
entre as 1 O maiores do mundo, vê-se, por outro lado, o Brasil a braços
com inúmeras vulnerabilidades, que se constituem em perigosas ra­
zões de insegurança. Entre essas destacamos: disparidades regionais e
sociais, intensa e desordenada urbanização, fracos indicadores sociais,
vontade nacional instável - variando entre o narcisismo às avessas e
o ufanismo episódico - e não mobilizada para graves e cruciais pro­
blemas, além de sérias dificuldades institucionais. Destas, gostaría­
mos de destacar: gigantismo, corporativismo e ineficiência do Esta­
do, Constituição utópica e capenga, Judiciário pouco ágil e complica­
do e, finalmente, uma elite política alienada.
Nesse quadro de insegurança e grandes desafios, continuará
cabendo às Forças Armadas cumprir o que lhes impõe o artigo 1 42 da
Constituição, o que, em resumo, significa garantir a soberania e a uni­
dade nacionais, além de preservar e defender a integridade territorial
e o patrimônio da Nação. Como resultado da persistente crise que as
têm deixado à míngua de recursos, nossas Forças Armadas vêm de­
crescendo em sua capacidade operacional à medida que a estatura
As FoRÇAS ARMADAS NO LIMIAR DO III MILÊNIO 195

estratégica do país tende a crescer, gerando grande preocupação aos


responsáveis pela segurança nacional, cientes, como sempre estive­
ram, que fixar Objetivos Nacionais sem um Poder N acional que os
respaldem é mera ficção. A participação cada vez menor dos gastos
com a defesa nacional em proporção ao Produto I nterno Bruto justi­
fica essas preocupações.
Essa participação, que era de 2,7% do PIB nos anos 50, de­
cresceu para 1 ,2% nos anos 70, atingiu exíguo 0,58% em 1 990 e pare­
ce ter batido no fundo do poço em 1 993, com apenas 0,3% do PIB,
muito diferente do que supõem os trêfegos e apressados críticos de
nossos gastos militares. Entrementes, o governo, com algum estarda­
lhaço, anuncia um novo Plano de Defesa Nacional. Certamente, não
passará de uma abstração, se não houver vontade política para fazer
as necessárias reformas - inclusive do aparelho militar, com a cria­
ção do Ministério das Forças Armadas -, das quais depende o sanea­
mento das finanças públicas, único caminho que permitirá, em meio
a tantas carências, aumentar o nível de destinação de recursos e pro­
ver a sua mais judiciosa e econômica aplicação, para melhorar o apa­
relhamento e a prontidão das Forças Armadas brasileiras.
E nesse panorama da atualidade brasileira, adquirem con­
tornos mais nítidos e mais inquietantes os permanentes esforços da
esquerda em manter acesas e intermináveis as discussões sobre um
passado que só a ela interessa revolver e reviver, na ânsia louca e
impatriótica de deturpá-lo e colocá-lo a serviço de seus inconfessáveis
e obscuros desígnios. Mas, qualquer que seja o caráter que tenha sua
nova investida, acreditamos encontrará indormidas as Forças Arma­
das do Brasil, dispostas a voltarem aos "porões'' se lá for, outra vez,
o lugar indicado para cumprirem seu compromisso de defesa da Li ­
berdade e de fidelidade à Nação e a seu Povo.
O MILITARISMO NO B RASIL

"Não cora o livro de ombrear co'o sabre, nem cora o sabre


de chamá-lo irmão". Com estes versos de Castro Alves fui recebido
no Centro de Letras do Paraná. Tempos depois, aquele centro de cul­
tura concordou em abrir espaço em sua programação para permitir
que um velho soldado ocupasse sua tribuna para fazer uma reflexão
sobre o papel dos militares na evolução histórica e política de nosso
país. Aquele modesto trabalho - fruto de leituras e meditações fei­
tas nos últimos tempos - é aqui apresentado. Versa assunto vasto,
polêmico, que tem sido objeto, nas últimas décadas, de inumeráveis
escritos de pesquisadores estrangeiros - principalmente norte-ameri­
canos -, entre eles alguns dos chamados "brazilianistas". Um destes
registra com propriedade que os estudos da participação dos militares
brasileiros na vida nacional tem tido dois tipos de enfoque: um, o he­
róico, normalmente nos pós-guerras; e o outro, o polêmico, em que se
defrontam duas tendências - os detratores e os defensores - raras
vezes acompanhados pelos ambivalentes ou neutros. Com a posse do
governo de Fernando Henrique Cardoso, enxertado de pós-marxistas e
de esquerdistas de todos os matizes, acelerou-se um processo de pseudo­
revisão histórica do nosso último ciclo de autoritarismo, o que envene­
nou o debate sobre a atuação das Forças Armadas. E ao lado desse
debate, ressurgiu a discussão sobre o chamado militarismo brasileiro.
Tempos atrás, em artigo publicado em revista de circulação
nacional, declarou o coronel da reserva Jarbas Passarinho que ao lon­
go de sua vida pública sempre esforçou-se - sem muito sucesso,
198 Nos " Po RõE s " DA DITADURA

confessava - para convencer seus pares na política que os militares


não eram atrabiliários sargentões ignorantes e dizer aos seus antigos
colegas de profissão que nem todos os políticos eram impatriotas e
corruptos. Também o general Osório, confrontado com o maniqueísmo
ou a desconfiança de seus detratores, ousou afirmar que "a farda não
abafa o cidadão no peito do soldado".
O militarismo - por definição "a preponderância do ele­
mento militar na vida política e administrativa de uma nação"- sem­
pre existiu. A Guerra Fria, a luta contra o colonialismo e a comunização
de Cuba deram ênfase ao aparecimento de vários tipos de lideranças
autoritárias de militares, seja nos países descolonizados na Á frica,
seja na América Latina, onde o regime ou era claramente militarista,
como no Peru, ou híbrido, como no Brasil. A diferença pode parecer
sutil a alguns, mas a verdade é que em momento algum a chamada
ditadura brasileira dos militares pós-64 chegou pe rto do que
aconteceu no Peru.
Quem se dispuser, com isenção, a analisar os eventuais sur­
tos do que muitos denominam de militarismo no Brasil, não pode
perder de vista as características peculiares do militar brasileiro e de
nossas Forças Armadas, ao longo de nossa história. A partir daí, veri­
ficar se e quando houve aquela preponderância e de que forma ela se
manifestou, uma vez que o posicionamento das Forças Armadas, em
qualquer sociedade, é o reflexo natural da mesma sociedade, de sua
cultura, seus valores, seus arranjos políticos e sociais, do vigor ou da
debilidade das diferentes instituições nacionais, em determinada época
ou conjuntura.
Um dos aspectos mais marcantes da formação histórica de
nosso país é â permanente e intensa participação militar, ensej ada
pelas características peculiares dessa mesma formação. Essa partici­
pação pode, grosso modo, ser dividida em dois períodos distintos: o
primeiro vai do início da colonização até a guerra do Paraguai; e o
segundo estende-se do final daquele conflito até nossos dias.
0 MILITARISMO NO BRASIL 199

No período colonial, nem sempre a instituição militar, ela


mesma, mas, muitas vezes, o povo, sob liderança civil, mobilizado e
armado para as ações de defesa da terra que Portugal, à mingua de
recursos e enquanto fascinado pelo sonho das Í ndias, não foi capaz
de cabalmente realizar. Ergueram-se os fortes e plantaram-se as
feitorias; vieram as capitanias hereditárias, onde os "capitães" ajuda­
riam a colonizar e a defender a nova terra. Mas logo viriam, também,
os cobiçosos inimigos da Coroa. E com eles as lutas contra os corsá­
rios ingleses; depois os franceses, nas aventuras fracassadas das duas
Franças - a Antártica e a Equinocial. Mais tarde, os holandeses, na
longa e tenaz tentativa de apossar-se do Nordeste. Esses desafios
militares tiveram resposta em ações também militares, mas desde a
primeira hora assumem a característica, que lhes seria essencial, da
participação popular e civil em ajuda às ações dos rarefeitos efetivos
dos guerreiros de ofício. Eram os colonos a defender, de armas na
mão, as feitorias e os pequenos povoados; eram os índios, às vezes
divididos entre os mair e os perós, mas, no final, mais ararigbóias do
que cunhambebes; eram os civis, como os de Salvador, reunidos nas
Companhias de Emboscadas, ao comando do bispo dom Marcos
Teixeira, sitiando e infernizando a vida dos louros batavos e tornan­
do sua conquista insustentável. Mais tarde essa mobilização da em­
brionária nação viveria a epopéia da Insurreição Pernambucana, quan­
do os brancos de André Vidal de Negreiros, unidos aos negros de
Henrique Dias e aos índios de Poti Camarão, acabaram por expulsar
os holandeses, com a modesta ajuda da metrópole, recém-saída do
domínio espanhol e indecisa em afrontar o poderio batavo. E surgia
ali, no monte das Tabocas e em Guararapes, o braço armado do Po­
der de uma nascente Nação. Poder resultante da união do Povo, de
seu sangue e de seus sacrifícios, característica que enobrece a história
do Exército Brasileiro.
200 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Mas, enquanto o nascer da Nação, cm parto sangrento e la­


borioso, definia-se no Nordeste, de outros pólos irradiavam-se proe­
zas, militares na forma, mas civis e populares na essência. De São
Vicente e da Borda do Campo, Entradas e Bandeiras varavam os ser­
tões em busca do índio e de riquezas, plantando cidades e devassando
brenhas, ignorando linhas de fronteira e soberanias, ocupando e assi­
nalando o que viria a ser, mais tarde, chancelado pelo gênio diplomá­
tico de um brasileiro - Alexandre de Gusmão - com o uti possidetis.
De Belém partiria o capitão-mor Pedro Teixeira para a epopéia ama­
zônica. Mas o bravo pioneiro não se aprestaria apenas com tropa re­
gular. Não! Iria a Cametá e lá, com indiada de confiança, equiparia as
dezenas de canoas com que, por mais de dois anos, levou aos confins
de Tabatinga e do rio Napo os marcos da presença lusíada. E, a partir
daí, os fortes do Príncipe da Beira, São Joaquim, Marabitanas e tan­
tos outros, são as sentinelas da fronteira que nos seria legada e onde,
muitas vezes, o verde-oliva das fardas do Exército foi - e ainda é
hoje - o solitário sinal da presença soberana do Brasil.
No Sul, o largo e atrevido lance, indo colocar no Prata o
desafio da Colônia do Sacramento, seria o ponto de partida para sé­
culos de lutas e disputas na definição da linde sulina, onde os gaú­
chos sempre estiveram com as roupas de soldado por baixo das ves­
tes pampeanas e com a lança ao pé da cama.
Um escritor - Capistrano de Abreu - disse que o Brasil
foi obra do bandeirante, do jesuíta e do criador de gado. É verdade.
As bases físicas e humanas do Brasil vieram daí, mas na preservação
desse legado houve importante participação dos militares. Na fase
difícil da transição de colônia para a vida de país soberano tivemos a
felicidade de encontrar num soldado não o caudilho truculento e
ambicioso, tantas vezes encontrado nas nações hispano-americanas,
mas a verdadeira providência humana do Brasil. O que levou um
historiador a dizer: "Naquela quadra conturbada, quando os estadis­
tas mostravam-se pequenos para as grandes tarefas e pareciam repe-
0 M ILITARISMO NO BRASIL 201

lir-se o povo a seus mandatários e as províncias entre si, foi Caxias a


desambição na ganância, a ordem no caos e o sustentáculo da unida­
de nacional e do trono que a representava."
Caxias, que deixou cunhada a expressão "um soldado nunca
se revolta", seria a espada fiel que lutaria contra o separatismo, o
republicani smo, precoce e inoportuno, e contra o s exager os
desagregadores do provincianismo, exacerbados, após a abdicação de
Pedro I, na reação nativista do 7 de abril, que pôs em xeque o caráter
conservador da classe militar, tornando-a permeável, já a partir daí,
aos apelos revolucionários. A ação esclarecida, prudente, mas firme
desse soldado-estadista garantiria ao 2º Reinado um longo período de
es tabilidade política que permitiria ao Brasil enfrentar, com sucesso
ainda que com grandes sacrifícios, os desafios dos problemas exter­
nos, culminando, face à agressão de Solano Lopez, com a guerra da
Tríplice Aliança contra o Paraguai.
Esse longo, dispendioso e sangrento conflito propiciaria os
primeiros sinais do que viria a ser o progressivo abandono da susten­
tação militar à monarquia, com o crescente envolvimento dos milita­
res nas disputas políticas. As preeminentes figuras militares do Impé­
rio eram intensamente disputadas pelos partidos políticos, numa
antevisão do que muitos anos mais tarde levaria o presidente Castello
Branco a comparar o "cerco" dos políticos aos quartéis ao trabalho
das vivandeiras, figuras femininas populares nas guerras do passado.
Tal envolvimento era facilitado pela norma constitucional que facul­
tava aos militares exercerem mandatos políticos e permanecerem na
ativa, o que hoje não é mais permitido.
As dificuldades políticas que retardaram a designação do
conservador Caxias para o comando das forças em operações contra
Lopez não cessaram com a investidura do marquês, após o desastre
de Curupaiti. Em princípios de 1 868, j á reorganizadas as forças, que
Caxias encontrara em lastimável estado, e pouco antes da arrancada
que levaria à conquista de Assunção, ressente-se nosso marechal-co-
202 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

mandante da falta de apoio dos liberais e da violenta campanha que


lhe move, na Corte, a imprensa da mesma coloração partidária e, ale­
gando sua idade e seu precário estado de saúde, solicita substituição
no comando. Este incidente resultaria, seis meses depois G ulho/1 868)
e por um pretexto banal, na queda do Gabinete liberal e na dissolu­
ção da Câmara, onde era esmagadora a maioria daquele partido. É o
quanto basta para que, pouco depois, da tribuna do Senado, o grande
Zacarias - chefe do Gabinete derrubado - bradasse, com grande
ressonância na imprensa oposicionista: "Militarismo, caudilhagem!"
Após a guerra do Paraguai, as queixas pelos erros na prepa­
ração e na condução da guerra e o desapreço demonstrado pelo go­
verno aos soldados vencedores do longo e penoso conflito foram ex­
plorados para arregimentar os militare s no apoio à campanha
abolicionista e à implantação da República, cujo partido fora funda­
do exatamente no ano em que terminara a guerra contra Lopez. O
longo contato dos militares brasileiros com seus companheiros de
campanha - uruguaios e argentinos - contribuiu para inocular em
nossos oficiais idéias antiescravagistas e o germe republicano.
A intensa politização dos chefes militares, de todos os ní­
veis, atendia aos interesses dos partidos em luta, mas enfraquecia a
disciplina e minava as instituições. Em seu livro Formação histórica do
Brasil, Pandiá Calógeras assinala: '�s escolas profissionais perdiam
cada vez mais suas características e transformavam-se em institutos
de ensino cientifico comuns e em centros de propaganda filosófica e
republicana." Corolário desse estado de coisas foi a chamada Ques­
tão Militar (1 884-1 887), por trás da qual situou-se, de maneira sutil,
a figura de Júlio de Castilhos, mentor do coronel Sena Madureira, um
dos principais participantes dos acontecimentos. No seu clímax, essa
grave questão teve como um de seus encapuzados fomentadores o
próprio Rui Barbosa, redator confesso do Manifesto dos Generais
contra o Gabinete conservador. Vem a ser o que o mesmo Calógeras
o MILITARISMO NO BRASIL 203

denunciou como "a visão utilitarista das Forças Armadas pelas clas­
ses dirigentes e pelas elites civis", o que, tempos <lcpoi s, seria a tôni­
ca na Velha República.
A campanha republicana timbrava em incitar o Exército à
derrubada da Monarquia, havendo entre seus líderes civis alguns que
advogavam abertamente o estabelecimento de uma ditadura militar,
após a queda do Império. Raymundo de Magalhães Júnior, em seu
polêmico livro Rui, o homem e o mito, retrata tal estado de espírito ao
assinalar que até Rui Barbosa, mais tarde o grande defensor do civi/ismo,
não era infenso a cortejar líderes do Exército e da Armada cm certas
ocasiões, quando lhe parecia que com isso estava fortalecendo sua
própria base política. E o senador baiano viria a ser o artífice da
Constituição republicana, um verdadeiro alter ego de Deodoro e seu
todo-poderoso ministro da Fazenda, responsável pelos desatinos
do "Encilhamento".
As características da Constituição de 1 89 1 , ao mesmo tempo
federalista e presidencialista, tornam agudas as disputas entre o poder
central e as oligarquias regionais, tornando freqüentes as intervenções
armadas nos estados, com o crescente e tumultuado envolvimento das
forças federais como instrumentos das conveniências políticas dos pre­
sidentes da República na reação contra o federalismo armado dos gran­
des estados. Nessa época a Força Pública de São Paulo tinha efetivo
quase igual ao de todo o Exército.
A República herdara da Monarquia os políticos e as práticas
políticas. A política dos governadores substituiria a "política da
gangorra" dos Gabinetes do Império. As fundas feridas abertas pela
Revolução Federalista e pela revolta da Ar mada não seriam curadas
nem pela posição legalista e fiel à continuidade democrática de
Floriano Peixoto - cumprindo o calendário eleitoral, mesmo em meio
a uma sangrenta guerra civil, e do que resultaram a eleição direta em
março de 1 894 e conseqüente posse de Prudente de Moraes -, nem
pela anistia patrocinada pelo primeiro presidente civil da República.
204 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

As vicissitudes da campanha de Canudos e o conseqüente


desprestígio do Exército manteriam aceso o que costuma ser chamado
de "florianismo", mas que, na verdade, é a tradução da animosidade e
das queixas dos militares contra os parlamentares e os governos civis,
responsabilizados pela falta de recursos e pelo desaparelhamento das
Forças Armadas que incentivavam sua falta de profissionalismo e sua
politização. Tal estado de espírito só seria atenuado com a reforma
Hermes no governo Afonso Pena e com a euforia patriótica despertada
pela atuação internacional do Barão do Rio Branco e pela campanha de
Bilac e da recém-fundada Liga da Defesa Nacional, em favor do servi­
ço militar obrigatório, já em plena Primeira Grande Guerra.
A campanha civilista de Rui Barbosa, embora levando a quase
todo o território nacional, pela primeira vez, o debate sucessório, não
conseguiria impedir a eleição de Hermes da Fonseca, mas o quadriênio
de governo do marechal seria tutelado por uma eminência autoritária
civil e perturbado pelo caudilhismo irrefreável de Pinheiro Machado,
frustrando as esperanças daqueles que desejavam o fim do jogo ras­
teiro da política dos governadores, apoiada em âmbito municipal pelo
predomínio dos "coronéis", retratada por Charles Mozaré ao repro­
duzir o conselho de um velho político dado a um j ovem e indepen­
dente aspirante a um cargo eletivo:
" (. ..) se você desejar fazer sua campanha sozinho, o seu su­
frágio não será validado; seu nome não será registrado na lista de
candidatos. E, independente disso, você não obteria votos suficien­
tes para eleger-se."
Sobre o "coronel" registra Leôncio Bausbaum:
"em suas mãos estava toda a lei, a polícia, o escrivão, o j uiz,
os votos e as atas feitas nos gabinetes, de onde saíam os deputados,
os senadores e os presidentes da República."
A au sência de flexibilidade e a intransigência das eli tes
governantes e dominantes contra a integração no processo político
de novos segmentos sociais urbanos leva esses grupos a abdicar da
0 MILITARISMO NO BRASIL 205

própria legitimidade, criando as condições revolucionárias da década


de 20. As desesperadas investidas dos "tenentes" cm 1 922 e 1 924
(nas quais se incluem os episódios da Coluna Prestes) traduzem, as­
sim, não só o inconformismo militar com a eternização daqueles pro­
cessos políticos, como refletem, também, as perceptíveis mudanças
nas incipientes estruturas sociais do pós-guerra, com o crescimento
de setores urbanos e o início das tentativas de organização trabalhis­
ta e das agitações anarco-sindicais promovidas por imigrantes euro­
peus. Junho de 1 9 1 7 assinala a primeira tentativa de greve geral no
Brasil. Todavia esse tênue início de evolução de uma sociedade agrá­
ria para uma sociedade industrial e urbana deveu-se à mera transfor­
mação de alguns proprietários rurais - principalmente de São Paulo
- em donos de indústrias e, conseqüentemente, sem reflexos signifi­
cativos na estrutura do poder político.
Sobre a oficialidade, especialmente do Exército, continuam
a refletir-se as habituais posições da classe média de puritanismo,
austeridade e horror aos privilégios e à corrupção. Os "tenentes" apre­
sentam-se, por isso, como reformadores políticos idealistas, pugnan­
do por justiça social, e ferrenhos nacionalistas, face ao que conside­
ram a espoliação econômica do país pelo capital estrangeiro.
As rebeliões tenentistas esbarraram na firmeza de Epitácio
Pessoa e no esforço profissionalizante e modernizador de seu ministro
da Guerra - Pandiá Calógeras - e, mais adiante, no autoritarismo de
Artur Bernardes, mas prepararam, com seu inconformismo, o terreno
para a queda da viciada e corrupta contrafacção da "República Velha".
Mas os ideais regeneradores da Revolução de 1 930 acabariam sendo
traídos e postergados pela ambição de outro caudilho civil, Getulio
Vargas, que, a despeito da reação constitucionalista de 32, acabaria por
implantar a ditadura do Estado Novo, dissolvendo o Congresso, outor­
gando uma Constituição fascista e interrompendo, como nenhum ou­
tro regime, quaisquer canais de manifestação democrática.
206 Nos "PoRõEs" DA DITADURA

Pode-se dizer, assim, que as Forças Armadas, e principal­


mente o Exército, como instituição, por suas origens históricas e pe­
las o rigens de seus quadros , s empre estiveram profundamente
identificadas e sintonizadas com as aspirações nacionais e com o for­
talecimento soberano do Poder Nacional. Os militares são parte im­
portante das elites nacionais, sem se constituírem em uma "casta" e
sem serem elitizados, desde que seus quadros, em sua esmagadora
maioria, provinham (e ainda provêm até hoje) da classe média urba­
na. Por outro lado, ao longo do tempo, a carreira militar representou
para as classes menos favorecidas uma das raras oportunidades de
ascensão social. Por isso, os militares sempre estiveram imbuídos de
uma clara consciência dos valores democráticos e de um profundo
ímpeto modernizador. Foram eles, em muitas ocasiões, a vanguarda
de movimentos políticos e sociais e, mais recentemente, de evolução
tecnológica, como na implantação da siderurgia e das telecomunica­
ções. Recusaram-se a perseguir escravos, apoiaram a Abolição e pro­
clamaram a República. Conheceram a fase obscura e desprofis­
sionalizante da influência do Positivismo, de que a revolta contra a
vacina obrigatória e os inúmeros levantes da Escola Militar foram
episódios lamentáveis. Em contato constante nas casernas com os
segmentos mais desfavorecidos da população, assimilam e desenvol­
vem um sentimento de frustração pela incapacidade dos governantes
de reso]verem os crônicos problemas nacionais. Por isso, apoiaram
Getulio Vargas em sua proposta de revolução liberal e opuseram-se
às tentativas de assalto ao poder de bolchevistas e integralistas, o que
os acabou levando à cumplicidade com a ditadura do Estado Novo e
com a ambigüidade da política externa varguista antes da declaração
de guerra às potências do Eixo. Mas, no devido tempo, reafirmando
seu histórico compromisso democrático, a derrubaram, ao influxo dos
novos ares trazidos pela derrota do nazi-fascismo que a FEB aj udara
a conseguir com sua significativa participação no teatro de operações
da Itália.
0 MILITARISMO NO BRASIL 207

Nas profundas transformações do pós-guerra, convencidos


que o nosso crônico subdesenvolvimento não era maldição inarredável,
mas contingência contornável, com um planejamento correto e a
mobilização da vontade nacional, erigiram o Desenvolvimento, a Se­
gurança e a Democracia em objetivos nacionais permanentes, postu­
lados consolidados na doutrina e nos ensinamentos da Escola Supe­
rior de Guerra, naquilo que o esquerdismo sempre insistiu em cha­
mar, erroneamente, de "Ideologia da Segurança Nacional".
A experiência de modernização, vivida sob a égide da Carta
liberal de 1 946, gerou graves tensões econômicas e instabilidade po­
lítica pela falta de objetivos claros e de um mínimo de eficácia dos
instr umentos de ação governamental, agravados pelo multiparti­
darismo exagerado e pelo regionalismo dispersivo. Ao lado do Plano
de Metas de JK, conheceram-se duas tentativas fracassadas de esta­
bilização da moeda que desaguaram no rompimento inconseqüente
com o Fundo Monetário Internacional e na bancarrota cambial. Como
escreveu Roberto Campos no livro A nova economia brasileira, publica­
do em 1 975 pela Biblioteca do Exército:
"As melhorias de natureza econômica acentuaram o hiato
que separa, nos países em desenvolvimento, o elevado e sincero de­
sejo de resolver problemas da efetiva capacidade institucional, ins­
trumental e cultural para definir soluções. Criou- se, assim, um
descompasso entre a mobilização social e o próprio desenvolvimento
alcançado, entre as demandas e aspirações e a capacidade efetiva de
seu atendimento pelo conjunto da sociedade, induzindo à frustração
das elites e ao agravamento dos desníveis de renda entre grupos e
regiões. Por outro lado, a despeito dos importantes resultados glo­
bais, inúmeras distorções da economia começaram a aparecer no fi­
nal dos anos 50, com a aceleração da inflação e o progressivo agrava­
mento do desequilib rio das contas externas, uma herança catastrófi­
ca para o futuro."
208 Nos "PORÕES" DA D ITADURA

O agravamento do quadro das dificuldades acabaria apon­


tando para uma solução "salvadora", tão do agrado do sebastianismo
entranhado na cultura brasileira, com a consagradora eleição de J ânio
Quadros, cuja surpreendente e inesperada renúncia acabaria por en­
tregar o país a uma "explosiva e deletéria mistura de populismo
distributivista, nacionalismo excitado e ativismo marxista", como
muito bem o definiu o mesmo Roberto Campos. E o quadro, já
preocupante, tomaria cores ainda mais sombrias com a espiral infla­
cionária, a desordem social, o convite à indisciplina nos quartéis e as
nítidas ameaças de fechamento do Congresso.
Confrontada a Nação com essa situação caótica (resultado
em grande parte da substituição progressiva da liderança moderadora
de Getulio por demagogos e pelegos e do trabalho da esquerda atrela­
da aos interesses soviéticos da Guerra Fria) , situação que assustava a
classe média, procurava minar a hierarquia militar e ameaçava mer­
gul h ar o país em verdadeira convulsão s ocial, de que forças
antidemocráticas estavam procurando aproveitar-se, as Forças Ar­
madas foram convocadas pelo clamor nacional a assumir o papel de
Poder Moderador e resolveram, pela primeira vez desde a proclama­
ção da República, arcar com os ônus e as responsabilidades de gover­
no. Mas essa nova intervenção militar não teria a característica ape­
nas moderadora e rápida das demais, mas seria estabilizadora e refor­
mista. Deu-se, então, o que foi chamado de "aliança tácita entre mi­
litares e tecnocratas". Os últimos, possuidores de um cabedal de in­
formações, estudos e planos, natimortos à míngua de força política.
Os militares, possuidores da vocação reformista e revolucionária,
característica da classe média de que falei acima.
As perspectivas de resultados promissores - que constitu­
íram a base do que veio a ser considerado "o milagre brasileiro" -
induziram o presidente Castello Branco à tentativa de institucionalizar
o que foi chamado "a legitimação pela eficácia", com a Carta Consti­
tucional de 1 967.
0 MILITARISMO NO BRASIL 209

A contestação armada levou ao retrocesso político e a


descontinuidade do planejamento deixado pela dupla Bulhões-Cam­
pos - agravada pelos dois choques do petróleo - levou ao retroces­
so econômico com o abandono de muito do que fora esboçado por
Castello Branco. Erros cometidos na condução da institucionalização
política da Revolução resultaram na volta ao populismo distributivista
e à hiperexcitação nacionalista, consagrados na Carta de 1 988.
Enfeixando e finalizando este despretensioso ensaio, pode­
ríamos, à guisa de conclusão, dizer:
- as tentativas de militarização do Poder surgiram com a
República, para cuja implantação as Forças Ar madas foram aliciadas
pelas lideranças civis, manobrando à sombra de seu aparelhamento,
de sua coesão e espírito público, de suas atitudes sobranceiras e, em
muitos casos, explorando seu "espírito de corpo" e mesmo suas dis­
sensões internas;
- ao longo da vida republicana, o sentimento de responsa­
bilidade dos militares pelo regime que implantaram conduziu a elite
fardada à tendência de identificar-se com a própria Nação e procurar
assumir o papel de "salvadores" e, algumas vezes, de árbitros nas
disputas políticas, o que, no passado, fora papel do Poder Moderador.
A figura do soldado leal-servidor do Império transforma-se na figura
polêmica do soldado-salvador das instituições republicanas;
- a ilegitimidade de eleições fraudadas, o início de um pro­
cesso de industrialização, o aparecimento da componente política de
um nascente operariado urbano, o entusiasmo nacionalista desperta­
do pela campanha do serviço militar obrigatório e a eternização da
política dos governadores em detrimento da solução dos grandes pro­
blemas nacionais minam as bases da chamada República Velha e fa­
zem nascer entre os jovens oficiais o sentimento de que a eles caberá
reformar as instituições;
210 Nos "PoaõEs" DA DITADURA

- ao contrário de seus vizinhos, o Brasil é um país de caudi­


lhos civis, sendo profundamente discutível e preconceituosa a idéia de
que seus chefes militares se comportem no exercício do mando civil como
militaristas e ávidos do poder. Várias exemplos podem ser dados:
- o apoio e o empenho de Floriano Peixoto pela vitória de
Prudente de Moraes (de cuj a chapa era o candidato à vice-presiden­
te) na eleição pelo Congresso Constituinte de 1 891 ;
- a manutenção do calendário eleitoral e a entrega da Pre­
sidência na data marcada, ao mesmo político, eleito em plena revolu­
ção federalista (1 de março de 1 894);
º

- as preocupações legalistas e constitucionalistas de Dutra


(o homem do livrinho) e de Castello Branco (autolimitando seus po­
deres e preparando o retorno rápido ao estado de Direito com a Cons­
tituição de 1 967) se contrapõem ao continuísmo de Getulio Vargas e
às notórias inclinações ditatoriais de Jânio Quadros e mesmo de
Carlos Lacerda;
- o escrúpulo dos presidentes militares, evitando a alocação
de recursos às Forças Armadas em detrimento de outras necessida­
des, essenciais ao desenvolvimento nacional. A Reforma Hermes
(1 908) foi interrompida no quadriênio do marechal-presidente e só
retomada por Venceslau Braz; Geisel, com sua severa diretriz: "o
máximo de desenvolvimento com o mínimo de segurança"; e o acen­
tuado declínio do valor dos orçamentos militares em relação ao PIB,
nos governos dos generais-presidentes;
- finalmente, a ausência do "culto da personalidade", do
continuísmo e de lideranças carismáticas, tão comuns nas ditaduras,
preferindo-se o respeito à continuidade do sistema, no que foi cha­
mado de "a troca da guarda", nos governos pós-64.

(Ampliação de palestra proferida no Centro


de Letras do Paraná em agosto de 1995.)
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Editorial, 1 987.

WAACK, William. Camaradas. Companhia das Letras, 1 994.

WALTERS, Vernon A. Missões silenciosas. Bibliex, 1 986.


Esta obra foi editada em 1 998,
ano em que se comemora o 50º aniversário
de fundação do Grupo Gilberto Huber.

Impressão
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