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Design para inovação social: um olhar a partir da

filosofia de Paulo Freire


Design for social innovation: a look from Paulo Freire's
philosophy
MAZZAROTTO, Marco; Dr.; UTFPR e Grupo Design & Opressão

Resumo
O presente ensaio teve como objetivo apresentar reflexões sobre o design para
inovação social a partir da filosofia de Paulo Freire. Essas reflexões se deram a
partir de aspectos ontológicos e epistemológicos, ligados respectivamente aos
eixos design e realidade e design e conhecimento da filosofia do design. Como
resultado, as reflexões inserem o design para o inovação social em uma realidade
pautada pela contradição entre opressores e oprimidos, de modo que sua ação
precisa se posicionar entre um desse pólos antagônicos, compactuando com a
manutenção das opressões ou lutando coletivamente com os oprimidos pelo sua
libertação.
Palavras-chave: filosofia do design, opressão, inovação social.

Abstract
This essay aimed to present reflections on design for social innovation based on
the philosophy of Paulo Freire. These reflections took place from ontological and
epistemological aspects, respectively linked to the axes design and reality and
design and knowledge from the philosophy of design. As a result, the reflections
insert the design for social innovation in a reality guided by the contradiction
between oppressors and oppressed, so that their action needs to be positioned
between one of these opposing poles, granting the maintenance of oppression or
fighting collectively with the oppressed for their freedom.
Keywords: philosophy of design, oppression, social innovation.

1.Introdução
O presente ensaio tem como objetivo refletir sobre o design para inovação
social a partir de aspectos filosóficos presentes na obra de Paulo Freire. Para
isso, as reflexões se dão a partir dos eixos para uma filosofia do Design propostos
por Beccari, Portugal e Padovani (2017), especialmente os eixos design e
realidade e design e conhecimento, relacionados, respectivamente, com os ramos
filosóficos da ontologia e epistemologia.

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Na ontologia freiriana, a vocação de homens e mulheres é “ser mais”, seres
livres para viver para si e desenvolverem suas potencialidades, vocação essa que
é negada pelos processos de opressão, que desumanizam e tornam as pessoas
em “ser menos”. Entender essa vocação ontológica coloca os processos de
inovação social em um disputa política na qual é necessário tomar um partido:
projetar para manter ou para combater a opressão, assumindo esse combate
também como sua vocação ontológica.

Já a epistemologia de Freire aponta a construção coletiva do conhecimento


como a única forma libertadora e alinha vocação humana de “ser mais”. Mais do
que reforçar a importância da participação no processo de design para inovação
social, essa defesa radical do diálogo implica na quebra de qualquer hierarquia
que coloque designers especializados como protagonistas do processo. No
design para inovação social, tanto designers especialistas e demais participantes
aprendem e criam livremente.

Ambos aspectos serão debatidos em maior profundidade ao longo deste


ensaio. Antes, porém, é relevante apresentar no tópico a seguir as definições de
filosofia do design que guiam esta reflexão.

2.Filosofia do Design
A discussão apresentada neste ensaio está relacionada com a abordagem
para uma filosofia do design conforme defendida por Beccari, Portugal e Padovani
(2017). Longe de buscar uma instrumentalização ou apresentar um método de
aplicação prática da filosofia no campo do design, os autores defendem a
configuração de seis eixos que podem ser explorados como frameworks
reflexivos. Ou seja, não se trata de um modelo analítico unificado pronto para ser
aplicado sistematicamente, mas sim de possíveis perspectivas por meio das quais
reflexões no campo do design podem assumir um caráter filosófico.

Os seis eixos propostos tomam como base os cinco ramos tradicionais da


filosofia: lógica, estética, ética, epistemologia e ontologia, acrescidos de mais uma
categoria relacionada aos estudos culturais. São eles:

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1. Design e linguagem: relacionado com o ramo da lógica, o design é
encarado como um articulador de significados, abordando, por exemplo,
questões relacionadas a uma gramática visual e sistemas de significação dos
objetos.

2. Design e sensibilidades: relacionado com o ramo da estética, o design


é encarado como um articulador de afetos, abordando, por exemplo, questões
ligadas à percepção da beleza, à apreciação sensível e aos afetos envolvidos
na criação de artefatos.

3. Design e valores: relacionado com o ramo da ética, o design é


encarado como um articulador de valores, abordando, por exemplo, valores
morais e éticos que guiam o processo de design.

4. Design e conhecimento: relacionado com o ramo da epistemologia, o


design é encarado como uma forma de saber/conhecer, abordando, por
exemplo, questões ligadas aos modos de conhecer do designer e às relações
entre o saber científico e o saber específico do design,

5. Design e realidade: relacionado com o ramo da ontologia, o design é


encarado como um articulador de realidades, abordando, por exemplo,
questões ligadas à possibilidade de intervir na realidade por meio do design.

6. Design e cultura: esse eixo não deriva dos ramos tradicionais da


filosofia, mas sim da tradição já presente no design de reflexões das suas
relações socioculturais.

Neste ensaio, a reflexão se dará a partir do eixo design e realidade – ligado


aos aspectos filosóficos da ontologia – e do eixo design e conhecimento – ligado
aos aspectos epistemológicos.

No eixo design e realidade, a reflexão está relacionada com a defesa de


Freire (1970) da vocação ontológica humana para “ser mais”, seres livres para si.
E como nossa ações devem se pautar por essa busca, em uma luta pela
superação de uma realidade opressora, que desumaniza, priva liberdades e reduz

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muitos a “ser menos”. Como essa ontologia freiriana pode contribuir para
reflexões sobre o papel do design para inovação social em intervir na realidade?

Já no eixo design e conhecimento, a reflexão está relacionada com as


formas como Freire (1970, 2013) enxerga duas possibilidades antagônicas de
conhecer e aprender sobre o mundo. A primeira é a forma opressora, que se dá
pela prescrição e transmissão de conhecimento de um sujeito que sabe para
outro que é ignorante, que passa a ter sua visão de mundo definida pelo olhar do
opressor. Ou a forma emancipadora, que busca uma construção crítica e coletiva
dos conhecimentos, quebrando hierarquias epistêmicas, considerando todos os
sujeitos como capazes de produzir conhecimento e suas próprias visões de
mundo. Como essa epistemologia freiriana pode contribuir pode contribuir para
reflexões sobre a forma de agir e de se produzir do design para inovação social?

Ambas perguntas feitas aqui serão abordadas no decorrer deste ensaio.


Antes, porém, se faz importante apresentar em maiores detalhes os conceitos de
inovação social considerados neste trabalho. Este é o tema do próximo tópico.

3. Design para inovação social


A concepção de inovação social adotada neste ensaio envolve o
entendimento das transformações sociais que ocorrem na busca por satisfazer
desejos e necessidade humanas, e que não ocorrem em função do mercado e da
geração de lucro, mas sim para aumentar o acesso à direitos, reduzir
desigualdades sócio-econômicas e empoderar as pessoas envolvidas, que
passam a ser agentes e protagonistas destas transformações.

Como defende Manzini (2008), a inovação social refere-se às mudanças no


modo como comunidades agem para resolver seus problemas, envolvendo
processos de organização "de baixo para cima”, ou seja, nos quais são as
próprias pessoas envolvidas que guiam a transformação, que não pode ser
imposta de “cima para baixo” por agentes externos. Ainda segundo o autor, essas
transformações são mais guiadas por mudanças de comportamento do que por
mudanças de tecnologia ou mercado.

De forma complementar, Silva e Almeida (2015) apontam:

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A inovação social aparece, neste âmbito, com uma dimensão normativa
que importa considerar, expressa na sua relação com a promoção da
inclusão social. Apresenta, neste sentido, dinâmicas de governação de
baixo para cima (bottom-up) e processos de empoderamento (capacity-
building) que advêm de transformações ao nível das relações de poder,
das formas de governação e de participação política, bem como de
aprendizagem social (e organizacional), e transcende, em larga medida,
o domínio das relações de tipo económico (embora sobre estas também
possa incidir). (ALVES DA SILVA e ALMEIDA, 2015, p. 38)

De forma mais sintética, Murray, Caulier-Grice e Mulgan (2010) apud Alves


da Silva e Almeida (2015) sumarizam a inovação social como novas ideias –
sejam elas produtos, serviços ou modelos de ação – que satisfazem
necessidades e geram novas relações sociais, beneficiando a sociedade ao
mesmo tempo que potencialização sua capacidade de ação.

Com base no apresentando até aqui, e como também apontam Martinelli et


al (2003), a inovação social caracteriza-se por três tipos de resultados, que são
atingidos pela ação coletiva em detrimento da ação individual: contribuir com a
satisfação de necessidade humanas, aumentar o acesso a direitos e potencializar
as capacidades humanas.

Como esses aspectos do design para inovação social podem ser


problematizamos a partir da filosofia freiriana são os temas abordados a seguir.

4.Um olhar freiriano à partir do eixo design e realidade


Ao refletir sobre a nossa existência como humanidade, Freire (1970)
aponta que a reflexão sobre o que nos faz humanos é uma questão central de
certa forma sempre presente em nossa história. Pensar sobre nossa
humanização implica também em reconhecer a existência do seu oposto, a
desumanização, não apenas como possibilidade, mas, infelizmente, como
realidade histórica.

Humanização e desumanização, ambas possibilidades, mas apenas a


primeira como nossa vocação ontológica, como razão que guia nossa existência.
"Vocação negada, mas também afirmada na própria negação. Vocação negada

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na injustiça, na exploração, na opressão, na violência dos opressores. Mas
afirmada no anseio de liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela
recuperação de sua humanidade roubada" (FREIRE, 1970)

Humanização que nos reconhece como seres inacabados e em constante


busca para “ser mais”, seres que possam viver para si e não para outros, seres
históricos, autobiográficos, livres para se transformar e se desenvolver justamente
em função da nossa incompletude. Ou, como coloca Fiori (1970), que possam
transpor a percepção da vida como biologia para da vida como biografia, não
apenas vivendo, mas aprendendo a escrever a própria vida como autor, como
testemunha de sua própria história.

Como aponta Hessmann (2018), a condição indispensável colocada por


Freire para que essa humanização possa ocorrer é a liberdade. Liberdade
compreendida no seu sentido positivo como prática coletiva mediante a qual os
indivíduos podem desenvolver suas potencialidades. Se a liberdade é um dos
traços distintivos do que nos faz humanos, a sua ausência é justamente o que nos
desumaniza, nos violenta, nos oprime, nos reduzindo a “ser menos” ao impedir o
desenvolvimento de nossas potências,

A desumanização não é nossa vocação ontológica, mas sim uma realidade


histórica que ocorre a partir da violência sofrida por grupos sociais oprimidos por
grupos sociais opressores. Opressão entendida por Hessmann (2018) como tudo
que nos desumaniza, na medida que destitui nossa liberdade. Nossa vocação
ontológica para “ser mais” é, portanto, historicamente negada pela existência da
contradição entre opressores e oprimidos, em um conflito em que ambos se
desumanizam. Opressores que perdem sua humanidade porque dependem da
perda da humanidade dos oprimidos para ser.

Nesse conflito, superar a contradição entre opressores e oprimidos passa a


ser condição necessária para recuperar nossa vocação ontológica, nossa razão
de ser. Superação, que segundo Freire, só pode ocorrer através da luta dos
oprimidos na busca por restaurar a humanidade de ambos:

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Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem
igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de
oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido
no uso da opressão. (FREIRE, 1970)

É importante notar como essa processo de superação da opressão não


pode, segundo Freire, ocorrer sem o engajamento na luta pela conquista dessa
liberdade:

A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma


permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável
de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta
por ela precisamente porque não a tem. Não é também a liberdade um
ponto ideal, fora dos homens, ao qual inclusive eles se alienam. Não é
ideia que se faça mito. É condição indispensável ao movimento de busca
em que estão inscritos os homens como seres inconclusos. (FREIRE,
1970)

O que Freire nos coloca, portanto, é uma obrigação em fazer uma escolha,
em tomar um partido, escolha essa que pode restaurar nossa vocação ontológica
ou continuar a nos desviar dela. Escolher o lado do opressor é perpetuar, seja de
forma intencional ou por omissão, a nossa desumanização, ao manter um status
quo que nega à determinados grupos sociais sua liberdade. Escolher o lado do
oprimido é engajar-se na luta para superar essa contradição, restaurando a
humanidade tanto de oprimidos quanto de opressores, que passam a ser sujeitos
em busca constante por sua liberdade.

Resgatando a pergunta feita anteriormente neste ensaio: Como essa


ontologia freiriana pode contribuir para reflexões sobre o papel do design para
inovação social? O que vemos são contribuições que ajudam a problematizar e
dar propósito a essas práticas de design.

Inovação social são as transformações sociais que buscam satisfazer


necessidades humanas, aumentando o acesso à direitos e empoderando os
participantes. Olhar para essa definição de forma isolada da realidade descrita por
Freire pode apontar para algo naturalmente sempre bom e benéfico para a
humanidade. Por outro lado, olhar para essa definição a partir da contradição

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entre opressores e oprimidos obrigatoriamente nos faz refletir: Satisfazer as
necessidade de quem? Aumentar os direitos de qual grupo social? Empoderar
quais indivíduos? Opressores ou oprimidos?

Da mesma forma como Freire, como educador, entendeu que essa


contradição impõe à educação a necessidade de escolher entre ser opressora ou
libertadora, a mesma escolha se apresenta ao design para inovação social. Não é
possível, portanto, existir um design para inovação social neutro, alheio a essas
questões e a esses conflitos. Acreditar em uma neutralidade é manter a
contradição entre opressores e oprimidos, favorecendo a manutenção dos
processos de desumanização e o desvio a nossa vocação ontológica de ser mais.

Um design para inovação social libertador é aquele que se posiciona a


partir da luta dos oprimidos, em busca por transformações sociais que considerem
as suas necessidades, aumentando seus acessos à direitos e que potencialize as
suas capacidades de luta contra a opressão. Um design para inovação social que
auxilie na luta pela liberdade de ser para si, restaurando a vocação ontológica de
ser mais.

Como Freire (1970) coloca, a luta por essa superação deve partir dos
próprios oprimidos, já que aos opressores interessa apenas a manutenção do
status quo. Nesse sentido, o entendimento da inovação social como um processo
de “baixo para cima” e que empodera os participantes está em pleno alinhamento
com a visão freiriana, já que permite aos grupos oprimidos se tornarem
protagonistas e sujeitos ativos do processo de design e de transformação de suas
própria realidades sociais.

Reconhecer isso coloca aos designers envolvidos, principalmente àqueles


oriundos de grupos sociais externos aos grupos oprimidos, aceitar que não são
protagonistas do processo e que não é sua missão salvar os oprimidos.
Entendimento este que está em acordo com proposições de design para inovação
social feitas, por exemplo, por Souza (2017) e Gaudio (2017). Para a primeira, o
papel do designer é de ser um mediador ou facilitador do processo, transferindo
aos demais envolvidos o protagonismo e auxiliando no seu fortalecimento. Para a
segunda, o papel do designer é “infraestruturar" espaços abertos, horizontais e

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participativos, que permitam inovações constantes pela própria comunidade,
garantindo a assim a sustentabilidade destas transformações.

Olhar o design para inovação social a partir de Paulo Freire nos impõem a
reflexão sobre o porquê e o para quem fazemos design. Um design alinhado com
a manutenção de uma realidade opressora, ou, de forma oposta, engajado na luta
com os oprimidos em busca da superação da opressão. Sendo que apenas a
última é opção que respeita nossa vocação ontológica de “ser mais”. Como afirma
Freire (1970), "aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos –
libertar-se a si e aos opressores”.

5. Um olhar freiriano à partir do eixo design e conhecimento


Para Freire, a epistemologia, ou seja, as formas de conhecer, são
profundamente influenciadas pela mesma contradição histórica entre opressores
e oprimidos. Neste conflito, novamente surgem duas visões antagônicas de
produzir conhecimento, ambas viáveis historicamente, mas apenas uma alinhada
com a vocação ontológica de “ser mais” e com a prática da liberdade.

Alinhada à visão opressora, se encontra a ideia de conhecimento como


algo produzido por alguém em posição privilegiada para isso e transmitido através
de comunicados para alguém que é ignorante e nada sabe. Essa forma de
conhecer se pauta por uma "edução bancária" (FREIRE, 1970), baseada em
depósitos de informação, que anulam o poder criador dos educandos e estimulam
sua ingenuidade. Uma educação que portanto serve ao opressor, já que impede
que o oprimido desenvolva senso crítico e desvele o sistema opressor no qual se
encontra. Uma educação pautada não pela comunicação, não pelo diálogo
libertador, mas sim pela prescrição que impõem a vontade do opressor sob o
oprimido:

Um do elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a


prescrição. Toda prescrição é a imposição da opção de uma consciência
a outra. Daí o sentido alienador das prescrições que transformam a
consciência recebedora no que vimos chamando de consciência
hospedeira da consciência opressora. Por isto, o comportamento dos

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oprimidos é um comportamento prescrito. Faz-se à base de pautas
estranhas a eles – as pautas dos opressores. (FREIRE, 1970)

Um forma distorcida de conhecer o mundo, na qual a única margem de


ação para quem não está na posição privilegiada de criar conhecimento é recebê-
lo através de depósitos, sendo colecionadores ou fichadores das coisas que
arquivam. Porém, os grandes arquivados acabam sendo as próprias pessoas,
pois:

…fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser. Educador e


educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da
educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só
existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente,
permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os
outros. Busca esperançosa também. (FREIRE, 1970)

Para Freire essa visão epistemológica opressora não pode nem ser
considerada uma forma possível de conhecimento, já que este só pode existir a
partir da construção dialógica, na comunicação compartilhada entre os sujeitos,
jamais isolado em apenas um deles, passível de ser transmitida para o outro.
Como Freire (2013) aponta, não pode haver pensamento isolado, pois não há
homem isolado. Todo ato de pensar exige um sujeito que pensa, um objeto
pensado, que mediatiza o primeiro sujeito do segundo e a comunicação entre
ambos. Sem a relação comunicativa entre sujeitos cognoscentes em torno do
objeto cognoscível desapareceria o ato cognoscitivo.

Oposta a esse visão opressora e distorcida, Freire defende que o


verdadeiro ato de conhecer só de dá pela construção coletiva e dialógica. "Educar
e educar-se, na prática da liberdade, não é estender algo desde a 'sede do saber'
até a 'sede da ignorância' para 'salvar', com este saber, os que habitam nesta”
(FREIRE, 2013). Pelo contrário, a educação libertadora, alinhada a vocação
ontológica do “ser mais”, ocorre justamente a partir da superação desta
contradição entre alguém que sabe e que é completamente ignorante, superação
que só é possível pelo diálogo, que rompe a dicotomia entre educador e
educando.

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Nessa visão libertadora do ato de conhecer, a superação desta dicotomia
gera um termo novo, não mais educador, não mais educando, mais educador-
educando e educando-educador. Nesse espaço livre e participativo, ambos são
sujeitos responsáveis pela produção do conhecimento, ambos aprendem, ambos
ensinam, pois "agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se
educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo
mundo” (FREIRE, 1970).

Novamente, retomamos nossa pergunta inicial: Como essa epistemologia


freiriana pode contribuir para reflexões a cerda do design para inovação social?

Uma primeira reflexão possível é a valorização da importância do


entendimento da inovação social como uma ação coletiva, em detrimento da
individual, e que ainda por cima empodere os indivíduos, aumentando suas
capacidades de agir coletivamente. Mas não uma ação coletiva prescrita, imposta,
pelo contrário, uma ação construída pelo diálogo e participação horizontal de
todas as pessoas. A inovação social, para ser libertadora, não pode apenas estar
comprometida pela luta contra as opressões, ela precisa necessariamente
também utilizar de formas não opressoras de agir. Essa forma não opressora só
pode ocorrer através do diálogo que promova a liberdade, não da prescrição,
mesmo que “bem intencionada” e preocupada com o oprimido.

Neste cenário, o diálogo e a construção coletiva podem ser mediados por


estratégias de design participativo, tão em voga atualmente (Moraes e Rosa ,
2012; Vianna et al, 2014; Stickdorn et al, 2020l; Ideo, 2020). Uma participação,
porém, que seja radicalmente horizontal, que quebre a hierarquia que coloca
designers em uma posição privilegiada para decidir sobre o que é certo ou errado
durante o processo de design. Pelo contrário, estão lá para aprender tanto quanto
os demais participantes, se tornam designers-participantes. Um diálogo que
supere qualquer a arrogância do especialista em design, dando lugar a humildade
e a abertura para os conhecimentos dos demais participantes. Uma quebra de
hierarquia que também tire qualquer limitação das outras pessoas que participam
do projeto, que não estão lá só para serem consultadas em momentos específicos

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ou validar ideias preconcebidas, elas participam do início ao fim do processo, de
forma ativa, crítica, criadora e transformadora, são participantes-designers.

6.Conclusões
Para Freire, a liberdade é a condição indispensável que nos faz humanos,
em busca por contemplar nossa vocação ontológica de “ser mais”. Negar essa
liberdade, é negar também a própria humanidade, gerando a violência da
opressão e da desumanização. Mesmo não sendo nossa vocação, a existência da
opressão é realidade histórica, e reconhecer essa existência é o primeiro passo
para superá-la.

Em uma realidade na qual a contradição histórica entre opressores e


oprimidos ainda persiste, a questão que se coloca para o design para inovação
social é de qual lado ele pretende estar. Do lado do opressor, compactuando com
a manutenção do status quo e dos sistemas de opressão. Ou do lado do oprimido,
na sua luta pela libertação e humanização de ambos, restaurando nossa vocação
ontológica de "ser mais”.

Decorrente dessa contradição, a epistemologia de Freire também


reconhece duas formas antagônicas de conhecer o mundo e essa realidade. A
primeira, opressora, pautada na prescrição de conhecimentos que mantém os
oprimidos aderidos às pautas do opressor. E a oposta, libertadora, pautada no
diálogo e na construção coletiva dos conhecimentos, superado hierarquias entre
quem sabe e quem não.

Olhar para o design para inovação social a partir dessa perspectiva reforça
a importância das ações coletivas em detrimento das individuais, ações essas que
podem ser mediadas pelo design participativo. Mas uma participação que seja
radical, realmente horizontal, onde não haja a dicotomia entre designers e não-
designer, mas sim a construção coletiva envolvendo designers-participantes e
participantes-designers.

Concluindo, a ontologia freiriana aponta "para quem" e “por que" projetar:


para o oprimido, na busca por sua libertação. Enquanto sua epistemologia nos

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coloca questões sobre "como" deve ser essa busca pela libertação: dialógica,
humilde, horizontal e participativa.

7.Referências
ALVES DA SILVA, Ana; ALMEIDA, Joana. Palcos de inovação social: atores em
movimento(s). In: Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade
do Porto, Vol. XXX, 2015, p.35-54.

BECCARI, Marcos; PORTUGAL, Daniel B. E PADOVANI, Stephania. Seis eixos


para uma filosofia do design. In: Estudos em Design. v.25, n.1, 2017, p. 13-32.

DALAQUA, Gustavo H. O que é opressão?. In: ABREU, J. M.; PADILHA, P. R.


(Org.). Aprenda a dizer a sua palavra. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2020, p.
81-88.

EAD FREIRIANA. Curso ‘Paulo Freire em tempos de fake news’ - Edição


2020. Videoaula 9.2 – Paulo Freire: um método ou uma filosofia? Ministrado por
Oscar Jara Holliday. São Paulo: Instituto Paulo Freire, abr. 2020.

FIORI, Ernani Maria. Aprenda a dizer sua palavra. In: FREIRE, Paulo. Pedagogia
do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

GAUDIO, Chiara Del. Os desafios para o design no âmbito social e as


perspectivas futuras: o conceito de infraestruturação e a redefinição do papel do
designer. In: Ecovisões projetuais: pesquisas em design e sustentabilidade
no Brasil. São Paulo: Blucher, 2017.

MORAES, Anamaria de; ROSA, José G. S. Design participativo. Rio de janeiro:


Rio Books, 2012.

STICKDORN, Marc; et al. Isto é design de serviço na prática. Porto Alegre:


Bookman, 2020.

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VIANNA, Maurício et al. Design thinking: inovação em negócios. Rio de
Janeiro: MJV, Press 2014.

SOUZA, Cyntia Santos Malaguti de. Design para inovação social e


sustentabilidade: estratégia, escopo de projeto e protagonismo. In: Ecovisões
projetuais: pesquisas em design e sustentabilidade no Brasil. São Paulo:
Blucher, 2017.

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