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O HOMEM RENA SCENT ISTA

pOr Eu$enio Garin

1. Largamente utilizada, a expressiio U m tanto £i m bra• a «homtm ul› ltcinisci-


mento» aparece na Literatura e na
das de um periodo histbrico muito preci5o, O Rcna scimcnto, sif uadc
meados do século xlV e finais do SCCUIO XVI, e q«c icvc
cidades-estado italianas, de onde se propag ou depois For toda a Europa, «›irio sc
nessa época tivessem circulado em numero rclcvantc tipos c cxciTlpIarcs
humminJs com caracteristicas especiais, dotes e atitudes
sando, com o decorrer dos tempos, das cidades italian as para outr‹›s pal.acs ctir‹›-
pens, e propagando-se a outras terras, essas figuras humana. c c›iai caracicri ii-
cas foram-se naturalmente modificando e por vcze.s mcsmo dc umzi forn›°« r›iullo
sensivel. Assim, a difusao no exterior
Renascimento italiano contlnuaria a verificar-se ainda por muito tempo, assu-
mindo atitudes diversas, para lâ dos limitcs cronoldgicos habituais, durantc todo
o século xViJ.
Sublinhe-se, porém, de imediato que, desdc as origcns do kcnascimcnto, ii
ideia do «renascer», do nascer para uma vida nova, acompanhou como inn pro-
grama e um mito varios aspectos do prbprio movimcnto. A idci'a be true uma
nova era e novos tempos tinham nascido circuJa insistcntcmcntc rio séciik› xv, dc
tal forma que alguns historiadores, em anos nio muito rcmoto.s, a focuin com
insisténcia, chegando mesmo a considers-la como uma caractcr lstica Jistim iv1 dc
todo esse periodo 2. Se taI conclusño é muito discutivcJ, dcvc po im t ct-.sc prc-
sente que aquilo que renasce, que se rcafirma, que sc cxalta, mo é apenas, ntin
é sobretudo, o mundo dos valores antigos, clâssicos, grcgos c romari‹is, u ‹)uc se
regressa progressivamente. O despertar cultural, que caractcriza dcsdc ‹› iiifci‹i o
Renascimento é sobretudo uma afirmapao rcno ada do homem, dos valence
humanos no5 vârios dominios: desdc as artes â vida diâria, Nuo c p‹ir aca,sti tjuc
aquilo que mais impressiona nos escritores c nos historiadorc.;, dcsdc as ‹iri2cns,
é essa preocupapao com os homens, com o scu mundo, com a sun activi Jade rite
mundo. Se a célebre frase de Jacob Burckhardt — cxtrafda, a1ius, dc Micliclct —
segundo a qual «a civilizatao do Rcnascimcnto é a primcira a âcscnhi ir c u

Acerca do conceito de «homem do Renascimento», consuJte-sc o cxtcnio lratudo de A gnei I IcJ-


ler, A Reneszdnsz Ember, Budapeste, 1967.
2 Para as teses defendidas por H. Wcisinger (1944-45) t, cm 90rte. For l’'r a» C‹› flrm»«. o/.
W. K. Ferguso n, The Rev aissance in Historical Thoughf, Cambridge, 1948.

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• p. p qtsjo iiil;ilo3a «llOlTlCm d8 Idade
‹ie icr prescribe qtic, aceitc a periodi-
dt›s problciiias que se apresen tam
tit ilizaQ IO YES yrcssoes, sao completa-
ilclI115 dC tUd O, niuito, as coordenad as espa-
‹aractcr isticas culturais precisas de um
oteticam ente, no piano das actividades

proprian lCiiie dito, o «grande»


Renascimento, com a Idade Média: abrange pouco
mais de dois c nfio se confunde com fenomenos
medievais, em coino as vârias rcnascen pas a partir
da época caro- e diferentes, embora e.xistam certas
analogias e Petrarca, porém, as niudanpas de uma
sensibili-
dads e dc• unia culture s3o j5 evidences e p rocuram, e encontram, relapño com
acontv•cimentos de profunda ressonancia, muito para das fronteira5 nacionais

e dos limited dos fenonienos literârios. Por isso, a oposivño entre vida activa e
vida contemplative, thao cara a Coluccio Salutati, que utiliza ate a habitual forma
retiirica dos discursos duplices, nño é decerto inédita, mas situa-se jâ em pleno
naquela exaltapño da vida activa, mundana, politics, «civil», «empenhada»
— Palais Atena nasceIido armada da cabepa de Zeus — destinada a converter-se,
nfio niuitos decénios depois, nunla nioda dos mais requintados circulos intelec-
tuais toscanos. A contestap3o da doapño constantiniana nño comepa decerto em
I'alla (basta pensar-se em Nicolau de Cusa), mas Lorenzo Valla ja nao pertence
propriamente ñ Idade hlédia, nño é «homem da Idade Media». Pelas suas lutas
politicas e teologicas, pelo elogio da voluptas epicurista, pela sua dialéctica e as
suas «elegfincias», sera devidamente exaltado, compendiado e publicado como o
mestre dos tempos novos, pelo seu grande «discipulo», o prlncipe dos humanistas
da Europa, Emsmo de Roterdño. E precisamente da obra de critica ao Novo Tes-
tamento de Valla, de que for o primeiro editor mal a encontrou, que Erasmo
— que, em muitas coisas, foi deveras o que se aproximou mais de Valla — tirara
a principal inspira pao para os seus famosos trabalhos blblicos.
O Renascimento durou, portanto, cerca de dois séculos e meio; local de nasCl-
mento, sobretudo de algumas cida des- de Italia. Sño estas as coorden adas
estado
onde se deve procurar, e situar, embora com caracteristicas bem definidas, 0
homem dO ou seja, uma serie de figuras, que nas suas acti idades
Renascimento,
espccificas pé em prâtica, de modo analogo, caracteri sticas novas: o artista,
em
que nfio é artifice de Obras de arte originals, mas que através da sua acti-
apenas
vldade altera a sua posipao social, intervém na vida da cidade, especializa o
suas COIT1 OS O\tt£OS; o hu manista, o notario, o jurista, que se tornarn
re1a§oes

Ond
ncer Ren•sc alude, mas que é importante, cf. E. Panofsk y, Re ntI iss«nce
inilWestern
qll e aqui Art,
s‹
Stockholm , 1960,muito
e o que eu pr6prio afirmei em Rinascite e
r › ROiTla-Bari 1976, pp. 3H7.

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Renosvimeiiio»,

filosof in do homem, q
o esbo‹;o de unia no* nrdagc4in nft‹›

pa$âo de uma sociedade, tic urns *' liiean singular tie


zto›e formas c especificar 0c» de tl08
tistes c nas escolas dcs hun anistn , hludam. c por Hazes tmnsformnx -sc,
e que dc

l'l1l\Il1Sl I tt 0 e*l I"ftlj)1O

do homem erudiio
pao de uma nova filosotio do interesse pela histbria dos homens
corren4‹› c risc‹› ‹tc cm I' itidlr — a ela•

homem em rela9ao ao homCm, tfpice do Rennsciincnio, rndi«•-••, yor‹anto,


numa nova conce ño do h Elem to mtlndo. 0s ltnlinntis, oliscrva cfc, «foram
os primeiros europeus que revelaram unto iendencin decisive porn dcscrevcr
txacia- mcnte o homem hist6rico nos seus traros r nns suas qunlidades ii tcrinrcs c
oxtc• riores e que se comportamm em fun9âo dessn tendtncia». Nño se
liinitoram «$ descri9ao do lado moral dos homens e dos povos, lnmbtNl o
homem exterior I objecto de observa9ilo» atenta e miniiciosa. Por isso insists
dcmoradamente no oiftar arfñfico com que, em documentos do iodos os
gtneros, mesmo os nials impensados, vemos perfilar-se indivlduos e tipos.

3. No entanto, se mantém bem firme a distin9do entm nova filosofia do


homem, histñria dos homens e esboco de novos tipos humonos, Burckhardt
capta hem o significado revelador do florescimento de biogrnfins c
nutobiografias e real a com razño o éxito txcepcional que no Renoscimento
obtivcram as grandes COlRtâneas biogrâficas da Antiguidadc clâssica,
constantemente lidos, mas tam- bém divulgadas em tmdupiies destinadas a
leitores de culture e con‹1isâo modes-
- Lé-se Plutarco com os seus hcrdis, mas tnmbtm Di6genes L ércio com os
SCuS sâbios, ao mesmo tempo que se fazem edigdes ilustradas, de caracterfsticas
>anifestamente populates, de adapta9oes e comptndios em lfngua vulgar, mesmo
s› â• +..’storietas e mâximas de filhsofos gregos.
&f outras palavras, a atenpao filos6fica em relat$o ao homem em geral
nas histhrias dos homens c. sobretudo, no mem6ria delcs
prbprios, sua vida terrena, no tempo presents: «O homem,
justamentt, do
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Renascinicnto.» Os arqtiivos de alp•uniaS Cid.ades est5o cheios de me!oârias;
tjditad@S ti •lI1CtlilS, ni.i.s nitrites out rms perniancccin manuscritas, e exist em
inscridos nuina d e ci a pa
daquele pobre carpinte iro
tenlio oficino, porq ll e
nai3
hospital e aprende a medi-
c1r e ii.”\‹› iQtI4 S. I rio». Ou o dc An tonio Ji B.1lduccio, «doente e aieijado», com
tint rancho de tilhos aprendizcs, ou que andam na escola para «aprend er a ler»,
ñ excep 3o de h.aldticcio junior que «mo faz nada, é muito pequeno, tern sets
anos». c cont a ni3c .a seu cargo, «de setenta e dois anos e sofrendo de gota, que
nño sc pode levantar porqiie é doenie e nfio pode andar: est a enferma e passa mal
e da traballio a toda a cente da casa». Por sorte, acrescenta Antonio, «eu e os
menu filhos ›.arñes est.amos end casa de Bartolomeo di Nicholaio, fabrican te de
eopos e nieu sogro e nño lhe pa o renda, e estamos a trabalhar com ele».
Assiin até uiiia declarat-3o de rendimentos — e ha tantas! — se converte em
esbo9o de uiiia p3gina auiobioprafica on tali’ez no desenlio de um perfil. Para
nño falar dat epistolas, em latini ou em linpua vulear, simples e eruditas, de
crian9as e de mulheres, que se tornam um género cada vez mais divulgado, retra-
tando a vida do dia-a-dia, e converIendo-se constantemente em auto-apresenta-
Who ou end confronto de personalidades.
No seu extenso trubalho, intitulado precisamente O Homeitt do Renascimento,
editado end Budapeste em 1967, A3nes Heller, aluna de Lukacs, afirma que o
Renas- cimenio foi «a época das grundes biografias», ou melhor, a época das
autobiogra- fias. E isso, acrescenta ela, porque muitas figuras excepcionais iam
aparecendo numa sociedade que se construia, se transformava e se relatava a si
propria. A um momento estdtico — continue Heller — sucedera um
momento dinamico. O homem novo, o homem modemo, era um homem que se ia
fazendo, construindo,
e que estava conscience disso. Era, precisamente, «o homem do Renascimento».
4. Se se continua prudentemente a manter a distinpño entre uma filosofia do
homem, que 5e vat tornando cada vez mais subtil e profunda, e uma histsria de
homens, que se transformam de acordo com novos modelos num momento cri-
tico da sociedade, também é db to que uma reflexao tedrica acerca do homem, da
sua natureza e do seu destine, do seu sentir, das suas funpoes e das suas activida-
des, das suas relapoes nño apenas com a sociedade terrena, mas também com a
Igreja e com Deus, contribui necessariamente para a sua mudanpa e para a
mudan9a da sociedade em que vive. A medida que as fun9oes mudam, mudam os
x'ârios tipos humanos. Basta reflectir um instante no peso crescente que em algu-
mas cidades-estado adquirem, no 5éculo xV, certos «intelectuais», notdrios, reto-
ricos, «humanistas» e logo, em fundo, se perfilam as figuras dos chanceleres, dos
secretârios, dos oradores (embai.xadores), em toda a sua variedade, na sua evolu-
Rao e transformapao, nas suas intervenpñes, nas suas funpfies.
Para nao falar nos arquitectos, na sua import ancia nas cidades que, no Renas-
cimento, se v;io transformando. Quando Filarete (Antonio Averlino, por alcunha
o «Filareie») dedica o seu tratado, que nao é sd de politica mas também de arqui-
tectura, primeiro ao duque de Nlilao, Francesco I Sforza, depois a Piero di
Cosimo o Velho, poe em destaque uma relap3o muito precisa entre o senhor e o
técnico que projecta e discute, de igual para igual, a noma cidade, em todas as
suas estruiuras, revelando ao mesmo tempo a interdepende ncia entre o edificio e
o servivo a que se destina. E ja sem falar na arquitectura militar.
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Est*mos, é certo, numa
época de rapidas alt pg
e S nas activ idad
h»• cRs exercem c nas formas de as exerCer. Pene ctuC Os
es
d»• mOdos de combater, nas repercu se-
ssoes se a Fenas, quanto
que
as novas armas c as novas mñqui nas tern, as no i’as tCCnic
as da 8rte da guerra,
O u t ro, nas tropas, desde Os CO fldOtlie ri por um lado, na arquitect ur e, por
aos a
ob serva9 oes argutas e Slibtis de me rce nar ios. Citam-Se freq uenteme nte
Guicci
no szculo Xv, e niio SO devido ardini acerca da mudan
pa radical da guerra
a lRt
conseq
te, defesas e,
as uentemen F0d tl9ao dO «furor das Mudam
artilharias».
as, acima de tudo,
mudam as prop rias a rq uitectu das cidades.
M mudam as tropas e o mOdoras
de recrutar h
OS omens, e os prd-
]3flOS homens que vño combater. M «os engenh os dOS homens», diz Goic-
udam
ciardi ni que, na Histâria de Itâlia, anotava: «Como as defesas, come aram a
ag ut Também
ar-se os engenhos dos m
os soldado S houdam aterr
mens,. A orizados Com a ferocidade dos
cerca
ataques.»Prato, em 1512, escreve um cronis ta: dos mercenarios espanhois no
«os CFUeiS barbaros e infiéis.»
saque de
Agora sño os
Lansquenetes que saqueiam Roma. Sao as caras horriveis, que
durante tanto tempo
povoaram desenhos e estampas, muitas delas m utiladas,
de saqueadores e tortura-
dores que sentem prazer em massacrar. Sao os assassinos, por crueldade e cupi-
dez, que tantas pdginas de Erasmo, que fez deles personagen s constantes
enchem
de uma Europa completamen te devastad a pelas («nao ha canto da Terra
guerras
que nao tenha estado cheio de desgra9as de latrocinios, epidemics, con-
infernais,
flitos e guerras»). Também eles sao «homens do Renascimento», soldados do
Renascimento, como ontem Pippo Spano e amanhñ Francesco Ferrurci. E
mulhe- res do Renascimento sao, nao sS as maes devotadas como Alessandra
Macinghi Strozzi, que vivia apenas para o comércio e para os filhos, ou as
eruditas Noga- rola e Cassandra Fedele, Alessandra Scala com as suas «palidas
violetas», Battista Montefeltro, ou mesmo Margarida de Navarra. Mulheres do
Renascimento sño, com as suas «colegas», Tulia de Aragio, prostituta filha de
prostituta, autora das pdginas requintadas de Diâlogos da Infinidade do Amor, e
Veronica Franco, com as suas cartas e as suas rimas, que, em Veneza, em Santa
Maria Formosa, se «entregava», por intermédio de sua mae, por «dois escudos», e
que prometia nas Terceiras Rimas
«certas intimidades em mim ocultas Z vos revelarei de infinita dopura». Para nño
falar da Nanna e da Pippa, e das outras hero(nas dos Dtas, de Aretino, que, com
tao amarga e desencantada competéncia, discutem acerca das técnicas da sua pro-
fissao, do pagamento e dos incidentes do oficio.
Por isso, talvez seja nessa reflexño autobiografica, nesse repensar, nessa
mem6ria e nesse confronto social — em suma, no nivel cultural adquirido — que
reside a caracteristica distintiva e a diferenpa especifica da cortesñ do
Renascimento (on, pelo menos, de algumas cortesas célebres do Renascimento): de
Veronica Franco a Tulia de Aragao a Gasparina Stampa, que podiam ser
recordadas pelos seus escri- tos ao lado de Veronica Gambara e de Vittoria
Colonna. Nño é por acaso que em
finais do século XVI Montaigne admirara «a elegancia principesca» (vestements de
princesses) das muitas prostitutas que encontrou em Italia, enquanto Veronica
Franco, profissional bastante modesta, parece ter mantido contactos «liter5rios»
nao so com o cardeal Luigi d’Este, mas também com Henrique Ill, de Franca.
5. Com tudo isto, o leitor, taI como nao encontrara sob o titulo O Hoitiein do
Renascimento nada que se assemelhe a obra historico-filosdf ic a hombnima de
Agnes Heller, também nño encontra ra o perfil d0 flOVO «soldado da fortune» ou
o da prostitu ta profissional, com todas
as contradicoes de uma época que estâ a
mud Encontra ra, porém, quase na totalidade, as figuras que uma literatura
ar.
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t tit8Rgmtlfi JhA)H c‹ini‹i tlplcns de uma tpoca: Rquelas em que os tempos «novos»
«spriiiilrani fc›riiin1iiicnte tie sons novidodcs on que, pelo menos, nos habituâmo s
a izr Hull.‹stiliiivliiieiiic ligntliis ao Renascimento, desde os tltulos dos textos lite-

Ans pt\t›Iicti.x, ‹›t›t•th ie lJ‹›i :iIcll‹› c ‹tc Vcrrocchio; s3o a that d b ^ o pr(n-
clpe, ta aii1c:il ‹ie rriiñi'rt‹i/cfu), ti «cortes8o»; silo «as idaS dot excelsos
arqiiiiwl ›s. ;›iiiloir.‹ c csciiltorcs», que rcalpnni a import ilncia do prfncipe e do
t8lndofflfDi, dt1 C:lI‘tlP;ll 0 dO «c‹›ricsso», do ai i isia e do fildsofo, do mercador e
dt› b:iii‹jiiciixi c inc. mite dt› iiiiigt› c do astrdlopo.
Nt›t.it‘-seal .sent tlilritl.i :i :itisc•ncia dc iilgumns figuras tip› a- 6 o caso da figura
do cliniic<lei‘ liiiiilanistii ciii x'ili‘iiis rcpiiblicas italianas, figura two caracterfstica, quer
IU inNcnie pollticii, t}ticr ii.i verltiitc cultural, pars n5o full da CmSCent impOr-

quCdti.x inst i‘iiiiiciiit›s’ «miiiricos» que homens como Leonardo Brunt conseguiram
impnr nii l'iini;›a. l'tii oul ro lado, os liiaiores, os Saltitati e os B uoJ. of B l0cio-
lit\i. os i-‹›.x'clii c ox f3occmt›ri .xJo, en ccrto scntido, rccuperados a I modo todos
1xs hmm:ini›tas, est jiiristns. Us iiitelcctuais dc qualquer nfvel, que se misturam de
vdrins torture i\ vida polftica mas fortes dos novos senhores, em redor dos grandes
da Igrej:i, nas chancel.irias das ultimos republicas. Silo, alternadamente, advoga-
dos c eortcs3os, ao servipo oii colabomdores de prfncipes e de cardeais. Sao eles
que •xplorain sistem:itieanientc as antigas bibliotecas conventuais e edificam as
noma:, enqiisnto v:to di(tindindo os manifestos da nova cultura através de textos
littrârios dc ram beleza, onde se misturam as notfcias da recupera9ao dos antigos
cmntrontodas coin a vida dos modernos. Sfio eles que lan9am as bases da futura
filolopia. Sao eles que organiznm de uma forma mais on menos informal as novas

. escolns psru s educa9ilo de damas nobres como Battista Malatesta, para as quais
ntt uni «liuninnistn» ctlebre como o chanceler de Florenpa, Leonardo Brunt, pode

; esctc›xr run imtndo, cscolas conio as de Ferrara, de Guarino da Verona, ou como


o «essa dos jopos», cm ht4ntua, dirigida por Vittorino da Feltre, escolas de «senho-
res», mas que nño pcrnianeceni isolados e dito os seus frutos.
Neo é dcvcrto este o lugar para focar nas suas caracterfsticas, na sua evolu9ao e
nos suas rslzes, a nova culture humanistica, baseada no regresso âs grandes fon- us
pregns e latinas da gmnde ciéncia e da grande arte. Mas é certo que essa cul- turn
ttai envolic•ndo cstmtos cada vez mais vastos. Lauro Martines deu a um livro seu
sobrc as cidades-cstado da ltâlia do Renascimento o titulo feliz de fbwer and
lntopinalion. No realidade, no impulso da cultura participam «mercadores e
tscrilores», os mesnios mercadores e escritores que serviram de tema para esplén-
didos textos de Vittore Branca, e acerca de quem Christian Bea escreveu pâgi-
nas muito siigestivas. Sao estudiosos e clientes, sao livreiros e editores que num
ensaio deste livro se veem surgir em fundo entre mercadores e banqueiros.
E como esquecer que Emsmo é recebido como um amigo na casa veneziana de
Aldo Mnniizio, perio de Rialto, para acompanhar a impressao dos seus Adagio,
um gmnde !ivro que dii iilgarâ por toda a Europa a cultura humanistica renascida
em lttilia? A comidit mo era grande coisa, mas Veneza era «a mais espléndida
das cidadcs», e havio animadas convcrsas com Lascaria e Girolamo Aleandro,
gmnde helenista e futuro nuncio apostdllfiO, com helenistas eruditos e famosos

L. btartints, R›wer Italy, A. Knopf, Nova lot-


que, 4fcmznri iffori, sob a dito de Y. Branca, Rusconi,
Mil£o 1986; Ch. Ben, £es mamhands
< m J3ZJ-/434, Mouton, Ftrii-La Haye 1967.
«humanistas». Era uina «oficina» como tantas outras; o dono era Alberto Pro da
Carpi; entre os amisos, além de Erasmo, Reuchiin. Desse trabalho comum, muito
antes da chegada de Efasmo, entre 1495 e 1498, resultara a magnifica primeir il
edipao do texio grego de toda a obra de Aristoteles, em cinco in-fdlio, auténtica
obra-prima da criltura e da arse tipografica. Depois sairiam as edipoes de Petrarca
e PoJiziano. Em 1500 seria a vez de Lucrécio, cujo texto, vcrdadeiram en te
inconci- li;ive1 com a douirina cristñ, Aldo editaria de novo antes de morrer, em
l5l5, numa bela edip5o de bolso.
Centro do humanismo, com todos aqueles eruditos da Grécia e de todos os
parses da Europa, «academia» insigne e «oficina», como as dos grandes pintores,
a casa editora de Aldo surge-nos como uma espécie de santuârio dos grandes
nhumanistas», que se servem do progresso tecnologico para uma operap;io de
ñmbito europeu: psr em circulapao através da imprensa edi9oes preciosas, nao sb
de Platao e Aristdteles, mas de Poliziano e de Erasmo, e gramâticas e léxicos, e
os instrumentos mais vâlidos de acesso ao pensamento e â ciéncia antiga e
moderna.
«Oficina de humanistas» era a casa de Aldo, como fora, embora de forma
diferente, em Florenpa, a de Vespasiano de Bisticci, que forneceu de elegantes
manuscritos com iluminuras nao sd as bibliotecas dos senhores italianos mas
também a de Matias Corvino, rei da H ungria; ponto de encontro de «humanis-
tas», de «mercadores escritores» ainda fortementc ligados ao ambiente «hurna-
nistico» de inicios do século xV, as «descobertas» dos antigos, gregos e latinos.
Nño é por acaso que a primeira grande colectñnea de biografias de «homcns do
Renascimento» ji ordenadas segundo figuras precisas: pontifices, cardeais c bis-
pos; principes e condottieri; magistrados e humanisias, etc. — é obra do crudito
«papeleiro» de Bisticci. Na realidade, pelo menos na épota herbica do Renasci-
mento, «humanistas» sao em certo sentido todos os intelectuais e uma parte con-
sideraveJ dos magistrados e dos mercadorcs — sao-no ou tentam parcce-lo, ou
misturam-se com os «humanistas», cnquanto um Marsilio Ficino dedica a
Cosimo, a Piero di Cosimo, a Lorenzo e a Federico, duquc dc Urbino, o Plalño
latino. Sao eles os exemplos da validade do ideal plaibnico do povernante sabio.
E, todavia, se o humanismo pode constituir uma especic de rcfcréncia comum
para o «homem do Renascimento», também c verdade que sc intilularnm «huma-
nistas» mesmo os pequenos mestres-escola, os professores de Gramâtica e de
Retorica. Foram esses mestres que prepararam os jovens para os primelros con-
tactor com os classicos, que substituiram finalmentc os oiiclores octo medievais,
que ainda provocavam arrepios de horror a Erasmo c Rabclais. «Que tempos
aqueles — dizia Erasmo — em que com grande pompa e comentarios prolixos sc
explicavam aos rapazes os versiculos moralizantes de Jofio de Garlande.» Rabc-
lais, em pñginas inesqueciveis, apresentara simbolicamente a mudanpa radical dc
uma educacao, ainda que, na reaIidade, as coisas nao tivessem sido facets. No
Kerio de 1443, em Ferrara, a cidade onde exerceu a sua actividade um dos niaio-
res educadores do século xv, Guarino, e onde se situava a Unis'ersidadc dc
Rodolfo Agricola e dc Copernico, quem quisessc ensinar era obrigado a demois-
trar que possuia ax honae litferae (on seja, sfurlia lnuiiaiiiiatis, estudos humanisti-
COS). O tran$grcssor que contlnuassc a divulgar barbarid.adcs dcvia ser zxpulso
como uma fcra (‹ie civilate ejiciatur, ut estifrra bellua).
No entanto, a pouco c pouco, os aiictores octo, isso é, os velhos livros mcdie-
vais para os jovcns, dcsaparcccram complciamciilc da circiilap3o, dcixarain dc
ser impressos c, no século xvi, «os pcqucnos mcstrcs das tscolas elcmentarcs» j3
Rennsciiiicnio ct›nserveu nlgunias dat

8 tnice global.' liii que


eel, que continua a periurbar a
ñjosotla politics, corrcsponderâ a cxpcri6›aas hist6ricoS
dar a eniend6-las?
btai.‹ cm geral, u» que mcdida serao actiiâ›eis. oii aindn âlidos, mltos ou

ps inierroga Ws, os vmnflitms inicrprciati›x s, sfle niiiiios, e diflccis dc


soluclo- nor. e para eles coniergeni, faialmenic. e ml ez per vczcs
inconsclcniemtntt, upg de tOdo.s oS génetos: fdeOlOgidS, e innsnio «orgtillios»
ttaCfOCRts. SC D'Alembert. ao apresentar, em 1711, s Enriclo¿›ddia, agradecia ao
Renascimento italiano per ter dado â humanidnde •as ci£ncias J...]. as bclasmries
e o box gosio, e inñm s modelos de inigualdvel perfei9âo», ainda hd
actualmente hlsto- riadores que falam do •chamado Renascimento italiano»,
tontestando a sua exls-
ttncia e o seu valor.
Se os note ensaios aqui reunidos (e o nilmero none mo ttm tienhum stgnlfl-
cndo esotérico !). todos elaborados por especiRllstas, pretender reflectlr com
rigor o esiado actual da pesquisa. mo component necessarlaniente mrna identl•
dade de inierpretec6es gcrais. Pmpositadaniente, es vérias o 6es pteiendem p6r
en con$ronlo. e so onto discuiir. modos e iiiéiodos de entrentar os ptoble-
nsas especificos, de forma a manner eni aberio o debate num confronto
contrcto com os seres rears. De facie. passa-se constantemente do tsbo9o de
uma «flguia» tJnJ 9ara one 'i 9ue a Hisi6ria ote for outto lado, é no desva-
> nos co enconttos e encaixes, na sugest£o conttnua de
oul 3S tipos, que reemcrsnm cm toda a sua individualidade vivo mulhetei
e homens do Renascimento.

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