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N AT I O N A L G E O G R A P H I C .

P T | MARÇO 2021

A explora o do Planeta Vermelho,


eterno desafio para a mente humana.

N.º 240 MENSAL €4,95 (CONT.)


00240

5 603965 000006
N AT I O N A L G E O G R A P H I C MARÇO 2021

S U M Á R I O

2 30
Na capa
Conjunto de imagens
da superfície de Marte
captadas, de cima para
baixo, pelas sondas Mars
Obcecados com Marte Encarcerados injustamente Express e Viking Orbiter I.
Marte fascina a humanidade Desde 1972, cerca de duzentas IMAGEM: AGÊNCIA ESPACIAL EUROPEIA
há milhares de anos. Este mês, pessoas foram absolvidas (ESA); NASA / SERVIÇO GEOLÓGICO
se tudo correr bem, onze da pena capital nos Estados DOS ESTADOS UNIDOS

sondas e dispositivos Unidos. Oito condenados


robóticos estarão a contam a sua experiência
sobrevoar ou a percorrer no corredor da morte,
o Planeta Vermelho que onde cumpriram pena por
ainda se mostra esquivo. crimes que não cometeram.
T E XTO D E N A D I A D RA K E T E XTO D E P H I L L I P MO R R I S
F OTO G RA F I A S D E C RA I G C U T L E R F OTO G RA F I A S D E
E S P E N C E R LOW E L L M A RT I N S C H O E L L E R

SPENCER LOWELL
R E P O R TA G E N S S E C Ç Õ E S

56
A S UA F OTO

VISÕES

Uma fronteira nas montanhas EXPLORE


No fim da década de 1960, uma
pequena modificação num mapa A geologia na arte
feita num gabinete do As Larnakes de Neves I
Departamento de Estado dos
Estados Unidos desencadeou uma
E D I TO R I A L
guerra entre a Índia e o Paquistão
em pleno Caracórum. O motivo
dessa alteração era um mistério. I N ST I N TO BÁ S I C O
Até agora.
T E XTO D E F R E D D I E W I L K I N S O N
N A T E L E V I SÃO
F OTO G R A F I A S D E C O RY R I C H A R D S
P RÓX I M O N ÚM E RO

84
O incrível ciclo
das sardinhas
A sardinha tem um importante
papel cultural e económico em
Portugal, mas tem de ser gerida
como um tesouro nacional. Depois
das moratórias, das quotas e dos
períodos de defeso, a espécie
começa, aos poucos, a recuperar o
patamar de sustentabilidade.
T E XTO E F OTO G RA F I A S
D E J OÃO RO D R I G U E S

100
Antologia botânica
e fotográfica
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V I S Õ E S | A SUA FOTO

PA U L O R O C H A M O N T E I R O Na Meia Praia, um cardume de salemas torna-se momentaneamente visível no momento que


antecede a rebentação. Com persistência e aguardando pela luz certa, “obtive a composição que tinha idealizado”, diz o autor.

D I O G O N Ó B R E G A “Ia jurar que ouvi as penas a rasgar o nevoeiro denso”, descreve o autor a propósito do instante em que
avistou este gavião da Europa no Alto de Negrelos, em Vila Real. “O luar fazia adivinhar que o momento seria inesquecível.”
S É R G I O C O N C E I Ç Ã O Ao início da noite, a iluminação de Curral das Freiras, na ilha da Madeira, pinta de amarelo a paisagem.
“Foi necessária uma longa espera, porque as nuvens estavam resistentes e tive de aguardar que desaparecessem”, conta o autor.
PRESERVAR E
VALORIZAR O CAPITAL
NATURAL DE TODOS
A vulnerabilidade e improdutividade da pequena
propriedade florestal motivou um grupo de 12 proprietários
do Baixo Vouga a juntar esforços para preservar e valorizar
o capital natural daquela região. Esquecendo as estremas
e os marcos dos seus terrenos, formaram uma área florestal
agrupada para permitir a gestão integrada de um conjunto
de 15 parcelas, num total de 11 hectares, na freguesia de
Castanheira do Vouga.
Região com excelentes condições para a produção florestal,
a zona centro de Portugal é caracterizada pelo minifúndio
que dificulta a gestão, potenciando o abandono da floresta
e a sua vulnerabilidade ao fogo. Na área florestal agrupada
de Castanheira do Vouga, a gestão em escala facilita a adoção
de boas práticas de silvicultura de eucalipto, assegurando
maior rentabilidade e menores custos aos produtores,
e a salvaguarda do equilíbrio ambiental do ecossistema.
Berço de um recurso natural e renovável, as florestas
representam um fator sustentável para o planeta.
O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) afirma
que a gestão florestal que concilia a manutenção ou aumento
dos stocks de carbono florestal com a produção sustentada
de matéria-prima (madeira, fibra ou energia), representa um
claro benefício para a mitigação das alterações climáticas.
Em Castanheira do Vouga, as pessoas reconhecem o
potencial natural da sua floresta e envolvem-se na gestão
e preservação de um património que é de todos.
A propriedade conjunta ganhou caminhos e acessos para
melhor circulação de máquinas e veículos, protegeu linhas
de água, desenvolveu uma produção florestal sustentável
e assegurou o enquadramento da paisagem com a plantação
de espécies autóctones, como carvalhos, freixos,
medronheiros, castanheiros e azinheiras.

As florestas sustentáveis da The Navigator Company apoiam a


National Geographic Portugal a diminuir a sua pegada ecológica.
Fontes: “Plantations for people, planet and prosperity, 10 years of the New Generation Plantations platform 2007-2017”
| IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change Fourth Assessment Report: Climate Change 2007. Working Group
III: Mitigation of Climate Change | ICNF. Perfil Florestal de Portugal – Estatísticas oficiais 2018
publirreportagem
As florestas plantadas constituem
apenas 7% DAS REGIÕES
FLORESTADAS em todo o mundo,
mas garantem cerca de um terço
da produção global de madeira
industrial.

Cerca de 90% DA FLORESTA


NACIONAL é propriedade privada,
grande parte desta caracterizada
por parcelas inferiores ao tamanho
de um campo de futebol.
V I S Õ E S

Portugal
Dois burros da raça asinina de
Miranda, no planalto mirandês,
posam num cenário de sincelo,
um fenómeno meteorológico
que provoca o congelamento
das gotas de água em suspensão,
formando pequenos cristais de
gelo que se ramificam. O burro
de Miranda é uma raça autóc-
tone, com origem nesta região.
CLÁUDIA COSTA

N AT I O N A L G E O G R A P H I C
N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Portugal
No Mosteiro da Cartuxa
em Évora, a missa é um dos
momentos em que a comuni-
dade religiosa ali sediada se
encontra em elevação espiritual.
Após o rebate do sino, inicia-se
a oração. Para ser monge na
Cartuxa, não basta ser forte
interiormente. É necessário
estar bem consigo próprio.
SÉRGIO CONCEIÇÃO

N AT I O N A L G E O G R A P H I C
N AT I O N A L G E O G R A P H I C
N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Portugal
Erguidos para encurralar o lobo,
os fojos de paredes convergentes
só existem no Norte da Península
Ibérica e são um testemunho do
longo conflito do homem com
este carnívoro. Mesmo perante
grandes muralhas graníticas como
a do fojo do Maranho, em Arcos
de Valdevez, a resiliência do lobo
manteve a espécie viva no
nosso território.
CARLOS PONTES

N AT I O N A L G E O G R A P H I C
E X P L O R E
O S M I S T É R I O S E M A R AV I L H A S Q U E N O S RO D E I A M

N AT I O N A L G E O G R A P H I C

N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A GEOLOGIA NA ARTE
investigadora do Departamento de Geologia da Universidade de Lisboa, e
VA N DA S A N TO S ,
Guadalupe Jácome, professora na Escola Secundária Gil Eanes, em Lagos, reflectiram sobre
a dificuldade de ensinar geociências no contexto da sala de aula. Lembraram-se de chamar
a atenção para as obras de arte como recurso didáctico para explicar fenómenos difíceis de
entender como a erosão costeira, a formação de montanhas ou a diversidade de paleoam-
bientes. “Praia Grande”, um óleo de 1880 do pintor Alfredo Keil, constituiu um bom estudo
de caso de informação geológica que se pode extrair de uma pintura com mais de um século.

1. Paleoambientes deixa pináculos isolados que


Esta falésia conta uma his- acabam por desaparecer.
tória com 120 milhões de
anos que o próprio Keil 4. A areia
não imaginaria. Mais de A areia de duas praias nunca
um século depois da cria- é igual, apesar de, à pri-
ção da obra, dois geólogos meira vista, as semelhanças
identificaram trilhos de serem inegáveis. Em areias
dinossauro nesta parede, como a da Praia Grande,
que no Cretácico era o ficam provas da alteração
fundo lamacento de uma das rochas, de contributos
planície de maré. de rios, de deriva litoral
e, naturalmente, da força
2. Estratos verticais erosiva do mar.
Neste ponto da rocha,
reside um velho capítulo da 5. Blocos na base
história geológica de Sintra. da falésia
Estes estratos que se for- A erosão costeira é um pro-
maram na horizontal foram cesso longo e desigual que
empurrados e verticalizados pode desmontar uma falé-
pela ascensão do material sia maré a maré. Os blocos
magmático que deu origem documentam a desagrega-
à serra de Sintra. ção da parede rochosa cuja
base o mar vai escavando.
3. Leixões As derrocadas, frequentes
Sugerem a força da erosão e perigosas, são responsá-
costeira diferenciada que veis pelo recuo das falésias.

CORTESIA: MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA. FONTE: “PRAIA GRANDE BY ALFREDO KEIL MARÇO 2021
(1880), A DIDACTIC RESOURCE FOR TEACHING GEOSCIENCES” DE VANDA SANTOS E GUADALUPE JÁCOME
E X P L O R E | ARQUEOLOGIA

AS LARNAKES DE NEVES I
TEXTO DE MANUEL MAIA

de Castro Verde
O MU S E U DA LU C E R N A
é o fiel depositário de uma enorme
quantidade de materiais da I Idade do
Ferro (séculos V e IV a.C.) encontrados
no concelho. Todo o espólio prova que
as influências culturais dos povos que
se desenvolveram no Mediterrâneo
Oriental chegaram a este ponto do
interior ibérico.
Numa das estações arqueológicas
de Castro Verde, designada por Neves
I, foram recolhidas na década de 1980 e pediu o terreno que caberia numa
pelo autor e por Maria Maia duas peças pele de boi. A população autóctone
em que é nítida a influência das cul- aceitou a proposta e a rainha man-
turas do Mediterrâneo sobre as socie- dou cortar a pele de boi numa linha
dades desta região. Trata-se de duas muito fina que usaria para marcar a
larnakes (urnas cinerárias) de forma área ocupada pela cidade de Cartago.
aproximadamente paralelepipédica, Hoje, pensa-se que a pele de boi seria,
estando as peças sobrepostas. na realidade, um lingote de cobre.
A primeira era constituída por uma A larnax encontrada sob a anterior, Sob a urna, na rocha, uma
caixa de fabrico pouco cuidado, mas tinha também uma forma paralele- cavidade cheia de cinzas
com uma tampa que evoca a pele de pipédica, mais cuidada, com abas permitiu concluir que as duas
boi estendida. A pele de boi era a forma decoradas com volutas e no inte- larnakes eram urnas cinerárias.
dos lingotes de bronze que circulavam rior, ao centro, tinha um vaso sem
no Egeu em finais do segundo milénio fundo manufacturado, fazendo parte
antes de Cristo como moeda e pesa- da mesma peça. A forma das caixas e
vam cerca de 27,5 quilogramas. Já no a existência de cinzas neste contexto
primeiro milénio a pele de boi torna-se sugere que se tratava da sepultura dos
um símbolo do poder. Ligada à rainha chefes daquele aglomerado habitacional
Dido, que tendo fugido de Tiro aportou nas imediações de Castro Verde, que
no Norte de África, aí entrou em nego- escreveram para a posteridade uma
ciações com os habitantes desta região página memorável.

N AT I O N A L G E O G R A P H I C FOTOGRAFIAS DE ANTÓNIO CUNHA. SILHUETAS: ANYFORMS DESIGN


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M A R Ç O | EDITORIAL

O INCRÍVEL
CICLO DA
Uma história contada
por um peixe notável
SARDINHA

F OTO G R A F I A D E JOÃO RODRIGUES

N ÃO É M U I TO C O M U M E M P O RT U G A L
um ministro envolver-se directamente
nas fainas de pesca para sentir e com-
preender o engenho dos homens e das
mulheres que as praticam. Numa noite
do Verão passado, entre os vários tripu-
lantes da traineira Poema do Mar que
largou do porto de pesca de Quarteira
e saiu para o mar, contava-se Ricardo
Serrão Santos, o ministro do Mar que
quis ver in loco um problema que come-
çou por estudar na Universidade dos
Açores, onde dirigiu o Departamento
de Oceanografia e Pescas, sobre o qual
ajudou a definir legislação comunitária
no Parlamento Europeu como deputado
e que procura agora soluções capazes
de conciliar os interesses das muitas
partes interessadas.
O dilema da sardinha é uma história
cultural em primeiro lugar. Os portu-
gueses estão entre os maiores consu-
midores de peixe do mundo, com uma
média anual de mais de 57kg de peixe e santuários para preservar a espécie em A bordo do Poema do Mar,
outros recursos consumidos por pessoa. fases decisivas da sua vida, salvaguar- Ricardo Serrão Santos observa,
com inquestionável prazer, a
A sardinha é uma componente impor- dando os stocks. demonstração do mestre pes-
tante desse ritual e é-o há séculos. Dos Essas medidas conduziram ao cador de que as capturas na
costa algarvia têm revelado
mosaicos romanos de Milreu às fábricas terceiro vector desta história, bem uma recuperação dos stocks
de pescado de Tróia, passando pelas explícito para o ministro do Mar no da sardinha.
medidas pombalinas de protecção deste convés do Poema do Mar naquela noite.
recurso marinho, há uma longa relação Segundo a última edição das Estatísti-
dos habitantes deste território com o cas da Pesca do Instituto Nacional de
saboroso peixe longilíneo. Estatística, mais de 13 mil portugueses
A história, porém, também é ambien- estão empregados na pesca, depen-

ZINIO
tal. A captura continuada e em massa dendo em muitas circunstâncias da
na transição para o século XXI colocou abundância de sardinha capturada.
sob pressão as populações desta espé- Colocando a ciência ao sabor da
cie. Na década passada, soaram alarmes conservação tem sido possível conci-
nos gabinetes de cientistas: existia o liar estes interesses e os indicadores de
risco real de a sardinha se tornar uma recuperação da espécie são inegáveis.
reminiscência de outros tempos, um Será preciso gerir os stocks como uma
menu para dias especiais, dada a sofre- barragem, ora abrindo as comportas,
guidão com que o recurso estava a ser ora fechando face aos sinais de alarme.
capturado. Foram impostas quotas e O dilema é, afinal, uma lição para todas
períodos de defeso e foram definidos as áreas da vida política. — G P R
TEXTO DE NADIA DRAKE

FOTOGRAFIAS DE CRAIG CUTLER E SPENCER LOWELL

Obcecados

MARTE
por

O PLANETA VERMELHO FASCINA-NOS. APESAR


DO NOSSO CONHECIMENTO CRESCENTE, O ENIGMA
MARCIANO CONTINUA A FASCINAR OS SERES HUMANOS.

Antes e agora civilizações inteligentes,


As imagens desfocadas de veículos de exploração
Marte inspiraram histórias espacial como o Curiosity
sobre extraterrestres e (à direita) propulsionam
canais na superfície. Embora agora a demanda, em busca
nunca lá tenham existido de marcianos microbianos.

2 PERCIVAL LOWELL, ARQUIVOS DO OBSERVATÓRIO LOWELL (EM CIMA);


MOSAICO COMPOSTO POR 57 IMAGENS DA NASA/JPL/MICHAEL RAVINE, MALIN SPACE SCIENCE SYSTEMS
O B C EC A D O S P O R M A RT E 3
A Mastcam-Z
O técnico Olawale
Oluwo, da empresa
Malin Space Science
Systems, sediada em
San Diego, segura
parte do Mastcam-Z,
um conjunto de duas
câmaras com tecnolo-
gia de ampliação
instalado no veículo de
exploração espacial
Perseverance, da
NASA. A câmara
Mastcam-Z (à direita) é
testada numa sala que
simula as grandes
amplitudes térmicas
observadas na
superfície do planeta.
FOTOGRAFIAS DE CRAIG CUTLER

4 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
O B C EC A D O S P O R M A RT E 5
Existem
actualmente
oito engenhos
em rbita de
Marte ou a
explorar o seu
terreno
poeirento.
Em Fevereiro
de 2021,
quando esta
revista foi
impressa,
estava
agendado o
lan amento de
mais tr s
emiss rios
rob ticos para
o Planeta
Vermelho,
incluindo o
emblem tico
Perseverance,
da NASA.

Come ar
do Zero
Engenheiros do
Laboratório de
Propulsão a Jacto da
NASA trabalham numa
sala esterilizada para
calibrar as 23 câmaras
do Perseverance antes
do lançamento. Uma
vez que o objectivo do
veículo é procurar sinais
de vida em Marte, os
técnicos tomaram
precauções para evitar
que a máquina fosse
contaminada com
micróbios terrestres.
SPENCER LOWELL

6 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
O B C EC A D O S P O R M A RT E 7
N
Nesta noite amena de meados de
Outubro, vou a caminho do Obser-
vatório McCormick da Universi-
dade de Virgínia numa missão para
resolver um mistério antigo: o que
leva os terrestres a viverem tão
obcecados por Marte?
A cúpula do observatório está aberta, gra-
vando um crescente luminoso cor de âmbar
sobre a escuridão do Outono. No interior, um
telescópio vai ajudar-me a ver Marte tal como
os observadores o avistaram há mais de um
século. Em 1877, astrónomos ansiosos usaram
o instrumento para confirmar a descoberta
das duas minúsculas luas que orbitam Marte:
Fobos e Deimos.
Esta noite, o astrónomo Ed Murphy deslo-
cou-se de propósito ao observatório, que
estava fechado ao público devido à pandemia
em curso. A dança rodopiante das dinâmicas
orbitais posicionou Marte na sua maior e mais
brilhante posição no céu e Ed calcula que esta
seja a melhor altura para o observar na região
central do estado de Virgínia, onde a atmos-
fera turbulenta pode, por vezes, dificultar a
observação do céu nocturno.
8 N AT I O N A L G E O G R A P H I C SPENCER LOWELL
Tecnologia
vision ria
As caixas gémeas
apresentadas em cima,
no mastro do Perseve-
rance, são as câmaras
principais, que estão
posicionadas de modo
a proporcionar uma
visão omnidireccional.
As imagens de Marte
que transmitirão vão
“fazer-nos sentir como
se estivéssemos lá,”,
diz o cientista Jim Bell.
Ao contrário do olho
humano, os instrumen-
tos conseguem “ver”
em vários comprimen-
tos de onda.

O B C EC A D O S P O R M A RT E 9
Hoje sabemos que não existem enormes ci-
Deslizando nas
profundezas catrizes de engenharia ziguezagueando sobre a
Muitas das primeiras superfície vermelha do planeta. O interesse hu-
missões em Marte mano por Marte é intemporal. Há milénios que
fracassaram. Em 1997, tentamos compreender Marte, associando-o às
a missão Pathfinder
conseguiu pousar com nossas divindades, registando o seu movimento e
sucesso o seu primeiro cartografando a sua face. Introduzimos Marte na
veículo de exploração arte, na música, na literatura e no cinema. Tam-
espacial com rodas no
planeta: o Sojourner. bém lançámos mais de cinquenta engenhos até
Este robot pioneiro Marte. Muitos deles falharam. E a nossa paranóia
desempenhou um papel por Marte ainda dura.
secundário no filme
“O Marciano”, de 2015. Quando me encontrei com Ed Murphy em Ou-
tubro, havia oito sondas a orbitar Marte ou veículos
a explorar a sua superfície poeirenta. Em Março de
2021, mais três emissários robóticos vão ao encon-
tro do Planeta Vermelho, onde um veículo de ex-
ploração espacial da NASA denominado Perseve-
rance, teve a recente missão de procurar sinais de
vida. Seguiram também duas outras missões po-
tencialmente históricas da China, com a sonda ro-
bótica Tianwen-1, e dos Emirados Árabes Unidos, a
EMM-Emirates Mars Mission, com a sonda Hope.
Mas porquê? De todos os mundos que conhece-
mos, Marte não é superlativo em aspecto algum.
Não é o mais brilhante, o mais próximo, o mais pe-
queno ou o de acesso mais fácil. Não é tão miste-
rioso como Vénus. Não se encontra tão espectacu-
larmente enfeitado como Júpiter ou Saturno, com
os seus anéis. Nem sequer é o sítio mais provável
para descobrirmos vida extraterrestre. Esse regis-
to pertence às luas de oceanos gelados existentes
no sistema solar exterior.
NASA / JPL
As razões científicas para Marte ser um alvo tão
cativante são complexas e crescentes, alimenta-
das por uma cornucópia de imagens e informa-
Trepa por um escadote e instala-se na plata- ções recolhidas por todas as sondas, módulos e
forma de observação, uma estrutura de madei- veículos de exploração espacial (rovers). Marte é
ra construída em 1885, ajustando o telescópio um eterno enigma, um local que estamos sempre
gigante na direcção do vistoso ponto de luz cor prestes a conhecer, mas não compreendemos de
de laranja. Mexe num manípulo, focando o pla- verdade. “É um dos processos de descoberta mais
neta. “Se esperar por aqueles instantes em que a longos da história”, diz Kathryn Denning, antro-
atmosfera acalma, verá Marte bastante nítido… póloga da Universidade de York especializada
mas depois o planeta volta a ficar desfocado”, nos elementos humanos da exploração espacial.
diz, por detrás da sua máscara facial com dese- “É um gigantesco exercício de expectativa.”
nhos espaciais. A razão pela qual Marte penetrou na cultura po-
Trocamos de lugar. Visto através do telescópio, pular talvez seja incrivelmente simples: embora a
Marte é uma esfera cor de pêssego que vai ga- imagem que temos do planeta se tenha tornado
nhando e perdendo resolução. Com algumas he- mais nítida com o tempo, conseguimos facilmen-
sitações, vou desenhando as suas características te imaginar-nos lá, a construir um novo lar para lá
indistintas e evocando os académicos do século dos confins da Terra. “É uma tela ainda suficien-
XIX que em tempos cartografaram as suas paisa- temente em branco”, diz a especialista.
gens, alguns acreditando que a superfície indicia- Com um esboço desajeitado de Marte na mão,
va a presença de uma civilização avançada. penso nas décadas que passámos a perseguir ho-

10 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
menzinhos verdes, micróbios e colónias humanas
Imagens do alto
e na maneira como a febre por Marte regressou
As imagens recolhidas
após cada contratempo. Em simultâneo, conhe- pelos veículos de
ço muitos cientistas prontos a conduzir os nossos exploração espacial
sonhos – e os nossos robots – para outros destinos contribuem para o
progresso da ciência e
convidativos do Sistema Solar. Enquanto os cien- aumentam a simpatia
tistas gerem recursos limitados e uma concorrên- humana pelos robots. Em
cia crescente, não consigo deixar de pensar se al- 2014, o Opportunity
enviou este auto-retrato,
gum dia perderemos o fascínio por Marte. composto por várias
imagens. Mostrava os
olharam para cima
D E S D E Q U E A S C I V I L I Z AÇ Õ E S painéis solares do veículo
cobertos de poeira, que
pela primeira vez, os seres humanos acompanham bloqueia a luz solar.
Marte e documentam o seu percurso caprichoso
pelos céus. Ao verem esta “estrela errante” a cruzar
o céu, no terceiro milénio antes de Cristo, os sumé-
rios repararam na sua cor agoirenta e associaram-
-nos à divindade malevolente Nergal, deus da
pestilência e da guerra. O seu movimento e brilho
variáveis prenunciavam a morte de reis e cavalos
ou o destino de culturas agrícolas e das batalhas.
As culturas aborígenes também repararam na
sua cor, descrevendo-a como algo que fora quei-
mado em chamas ou associando-a a Kogolongo,
a catatua-negra-de-cauda-vermelha. Os maias
traçaram cuidadosamente a posição do objecto
em relação às estrelas, relacionando os seus mo-
vimentos com a mudança das estações terrestres.
Os gregos associaram-no a Ares, o seu deus da
guerra, que os romanos refundiram como Marte.
“Sempre houve apenas um planeta Marte, mas
houve muitos Martes culturais diferentes em
jogo”, diz Kathryn Denning.
IMAGEM DE MOSAICO DA NASA/JPL/UNIVERSIDADE DE CORNELL /UNIVERSIDADE
Em meados do século XIX, os telescópios já ti- ESTADUAL DO ARIZONA

nham transformado Marte de figura mitológica


em mundo. À medida que a sua imagem ganha-
va mais focagem, Marte tornou-se um planeta do de dezenas de canais, que ele pintou de azul.
com clima, terrenos inconstantes e calotas de Schiaparelli encheu o mapa de pormenores e,
gelo como a Terra. “Assim que tivemos oportu- em vez de se conformar com as convenções de
nidade de ver Marte através de um telescópio, nomenclatura da sua época, designou as carac-
começámos a descobrir o mundo em mudança”, terísticas exóticas da sua versão do planeta com
conta Nathalie Cabrol, do Instituto SETI, que topónimos das mitologias mediterrâneas.
estuda Marte há décadas. Com o progresso dos “Assumiu uma posição incrivelmente arroja-
instrumentos, este local dinâmico poderia ser da”, diz Maria Lane, especialista em geografia
estudado e cartografado. histórica da Universidade do Novo México. “Era
Durante a época vitoriana, os astrónomos es- como se estivesse a dizer que vira tantas diferen-
boçaram a superfície marciana e apresentaram ças face ao que os outros tinham visto que nem
os seus desenhos como factos, embora os capri- conseguia usar os mesmos nomes.”
chos e preconceitos dos cartógrafos influencias- Em função disso, acrescenta Maria Lane, o
sem o produto final. Em 1877, um desses mapas mapa de Schiaparelli tornou-se uma autoridade
atraiu atenção internacional. Tal como fora instantânea. A opinião científica e popular decre-
desenhado pelo astrónomo italiano Giovanni tou que se tratava de uma representação poderosa
Schiaparelli, Marte tinha uma topografia com da verdade. Seguiram-se três décadas de imagina-
contornos bem definidos, com ilhas irrompen- ção sem restrições. (Continua na pg. 20)
O B C EC A D O S P O R M A RT E 11
PERSEVERANÇA DA CIÊNCIA
A pandemia instalou-se quando a NASA preparava
UMA VISTA NÍTIDA
A Mastcam-Z avalia a
o lançamento do mais recente veículo de exploração de Marte. geologia e a atmosfera
O Perseverance superou o seu primeiro desafio quando de Marte. As Navcams
foi lançado em Julho de 2020 e chegada prevista para Fevereiro permitem o comando do
de 2021. A missão do veículo foi planeada para durar, veículo a partir da Terra.
no mínimo, um ano marciano: 687 dias, segundo o cálculo
do tempo que os seres humanos usam na Terra.
SuperCam

LABORAT RIO DISTANTE


Mastcam-Z
As amplitudes térmicas diárias e o terreno dificultam
Navcams
as condições de trabalho. Para sobreviver, a carroça-
ria do veículo é baseada na de veículos passados,
mas com nova configuração das rodas, maior
capacidade de processamento e braços mais fortes.

MOXIE: O Oxigenador
No futuro, as visitas humanas poderão ser
possíveis se esta tecnologia produzir MEDA para análise
moléculas de oxigénio a partir da atmosfera atmosférica
rica em dióxido de carbono de Marte.
Sistema
Absorve Separação Resultado de recolha
CO2 por calor e O2
electricidade

RIMFAX MOXIE

Expele
CO

43 tubos
de
amostras

RIMFAX: O Revelador
Ondas de radar com um
Armazenamento
máximo de dez metros de
profundidade revelam o que O braço transfere os tubos
se encontra sob a superfície. de amostragem para a
A modelação 3D ajuda carroçaria do veículo.
a identificar ocorrências No interior, os tubos são
verificados, selados e
de gelo ou água.
transferidos para a zona
de armazenamento.

COLHEITA
E REGRESSO
Deslizando a uma velocidade
máxima de 152 metros por
As amostras,
hora, o veículo de 1.025
depositadas num
quilogramas recolhe amostras local da superfície,
de rochas na cratera Jezero aguardarão
para exame posterior em a recolha, que
laboratório na Terra. se realizará anos
mais tarde.

R E C O L H A E M 2 02 1-2 0 23 D EPÓ S I TO

12 N CANALES;
MANUEL A T I O NPATRICIA
A L G HEALY.
E O GARTE:
R A PBRUCE
H I CMORSER. FONTES: NASA/JPL; NASA
Painel solar Lâminas de fibra TE R R A
de carbono

VOO DE TESTE
O Ingenuity, um pequeno Veículo
helicóptero, comprova reentra
que os veículos são capazes na Terra
2031
de voar na atmosfera
rarefeita de Marte.
Ingenuity

A cápsula de
regresso separar-se-á
T U B O DE do veículo orbital
A MO S T R A E M para entrar na
T AM AN H O R E A L atmosfera terrestre.

Digitalizador a laser
Os lasers da SuperCam
TRANSMISSÃO
DE DADOS FEIXE
vaporizam a rocha e
DE LASER transmitem informação Engenho
sobre a sua composi- de volta
COLHEITA DE ção química. à Terra
AMOSTRAS
Um torreão rotativo num
SHERLOC: O Prospector
braço flexível contém
Câmaras e lasers com tecnologia
instrumentos para analisar de ampliação detectam e
rochas em busca de vestígios cartografam os minerais que podem
de vida passada e uma ser amostras úteis para colheita. Cápsula
broca para colher amostras. de
retorno

WATSON
Câmara
amplificadora

PIXL Perfuração SHERLOC

Scanner Engenho
laser UV para sair
da órbita
de Marte

Amostra O foguetão instala-se


rochosa na baixa órbita e
coloca o contentor
Broca de perfuração
de amostras no
PIXL: O Detector Cilindros de rocha Earth Return Orbiter,
Trabalhando sólida e material da que o levará de
à noite, a fluorescên- superfície são recolhidos regresso a casa.
cia de raios X tem em tubos esterilizados.
capacidade para
detectar vestígios
químicos de
potenciais fósseis. Tubo de
amostra

Engenho
para o
regresso
à Terra
Engenho para
Alimentado a energia recuperação Um braço do módulo
solar, o Sample Fetch transferirá os tubos
Rover da Agência Espacial para um contentor
Europeia, recolherá que será enviado
os tubos cheios e para a órbita do
transportá-los-á até planeta no Mars
um módulo da NASA. Ascent Vehicle.

R E C UPER AÇ ÃO EM 2 0 28 R E E N V IO

O B C EC A D O S P O R M A RT E 13
MARCAS DE UM PASSADO COM ÁGUA
Recriações de canais construídos por extraterrestres revelaram-se uma fantasia, mas
Marte tem de facto características geológicas como canais fluviais e deltas que indiciam
uma história com humidade. Agora, volvidos mais de 40 anos de exploração, os cientistas
têm um conhecimento mais profundo da superfície do planeta e de que partes da paisagem
foram transformadas por águas correntes há cerca de 3.500 milhões de anos.

Sistema de
drenagem de Jezero 300°
HE EQU
A NT A Lunae
AD
OR
Oceano ancestral
Vale de X ER R Este mapa distende
Planum
entrada DESTAQUE, 0° T os hemisférios norte
33 Viking 1

27
EM BAIXO


Vale de entrada (EUA) Chegada e sul de Marte a partir
20 Julho, 1976 do equador para
Vale de Mars
CRATERA
descarga Pathfinder T E M P E 30°N mostrar o planeta
JEZERO (EUA) Chegada inteiro e as suas zonas
Antigo lago 4 Julho, 1997 T E R R A húmidas e secas na
Zona de chegada proporção certa.
do Perseverance Possível extensão
60°
de um antigo oceano

A R A B I A

240
Phoenix

°
(EUA) Chegada
25 Maio, 2008
Pólo Norte
Olympus
Mons
T E R

60° Viking 2
(EUA) Chegada
R A

3 Set., 1976
MAPA,
30° EM CIMA °
210

Beagle 2 30°N Mars Science


T E R R

(RU) Chegada, perda de Laboratory–Curiosity


contacto 25 Dez., 2003 (EUA) Chegada
Syrtis 6 Agosto, 2012
Mars InSight E l
Major (EUA) Chegada ysium
P
150° l a n i
A

60° Planum 90° 26 Nov., 2018 180°


EQUADOR ti
0° a
S A

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B

T Y R R H E N A Hesperia Mars Exploration


A

A
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Rover-A, Spirit
E

Planum
TERRA 30°S
(EUA) Chegada
4 Jan., 2004
Eridania 210
E

30° Planitia °
A

Hellas Planitia
R
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RA
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Mars 2 ER
(URSS) Despenhou-se HEI T
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27 Nov., 1971 Mars 3
CI

60°
(URSS)
A

Deep Space 2 Probes Chegada, perda


RR

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(EUA) Despenhou-se de contacto


TE

3 Dez., 1999 R 2 Dez., 1971


E
num
Australe T
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Pla Mars Polar Lander


lanu

Pólo Sul (EUA) Despenhou-se


3 Dez., 1999
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0° A O
°
240
E

A
60° R
R

Mars Exploration R R
Rover-B, A Argyre T E
Opportunity Planitia
(EUA) Chegada Mars 6 Missões de superfície
25 Jan., 2004 (URSS) Despenhou-se em Marte
m
12 Março, 1974 nu Engenho bem-sucedido
Pla

ExoMars Schiaparelli
MARGARITIFER 30°S Outro
lis

(ESA) Despenhou-se
RA
So

19 Out., 2016 3 TER


30 I S 0°
° VALLES M A R I N E R 27 Antigo lago
EQ
UA
14 N AT I O N A L G E O G R A P H I C D OR
300° PROJECÇÃO TRANSVERSAL MOLLWEIDE
MARCAS DE FLUXO
Os antigos deltas fluviais de Marte formaram-se tal como se formam na Terra. Águas
rápidas encontram-se com águas paradas, depositando pedaços de areia, minerais e
sedimentos provenientes da erosão do vale em redor. Os cientistas esperam que os
sedimentos recolhidos na cratera Jezero possam conter vestígios de vida que tenham
sido descarregados na bacia.

COLISAO
COSMICA
Um meteorito deu
origem à cratera Rebord
o
Jezero, com 45
quilómetros de
diâmetro, há cerca de Cratera de impacte
quatro mil milhões de
anos. Com o tempo, a
cratera encheu-se de
detritos vulcânicos

ENCHIMENTO
DA CRATERA
Cerca de 500
Vale de
milhões de anos incisão
mais tarde, durante
a fase húmida de
Marte, dois canais
de água romperam a
borda da cratera,
criando um lago no
interior da bacia.

ACUMULACAO
DE MINERAIS
A água em
movimento continuou
a depositar materiais
na margem da bacia,
formando um delta
delineado por Água
sedimentos vindos
de longe e arrastados
até ali.

SECAGEM
Antiga linha
DE MARTE costeira
A água em estado
líquido e grande parte
do gelo desapareceram
do Planeta Vermelho
há 3.500 milhões de Zona de
anos, deixando um Delta chegada
leito de lago seco em
Jezero. O delta remanes-
cente encolheu ao
longo do tempo, devido
à erosão eólica.

MATTHEW W. CHWASTYK E MANUEL CANALES; ALEXANDER STEGMAIER.


ARTE DA CRONOLOGIA DA CRATERA: MATTHEW TWOMBLY
FONTES: CENTRO DE INVESTIGAÇÃO EM ASTROGEOLOGIA USGS; NASA; TIMOTHY A. GOUDGE,
UNIVERSIDADE DO TEXAS; BRIONY HORGAN, UNIVERSIDADE PURDUE
O B C EC A D O S P O R M A RT E 15
-210
0

-2300

O
D
0
0
00

-220

0
-2100 -2

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0

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0
0
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-2

-190
O -18

0
D 00
-19
00

R
O
B

0
80
-1
-18

Intervalo de contorno: 10 metros


E

00
-1700

1 km
R

Elevações estimadas em referência a


uma esfera com um raio de 3.390 quilómetros.*

MATTHEW W. CHWASTYK; ALEXANDER STEGMAIER. FONTES: CENTRO DE INVESTIGAÇÃO


EM ASTROGEOLOGIA USGS; NASA; TIMOTHY A. GOUDGE, UNIVERSIDADE DO TEXAS;
BRIONY HORGAN, UNIVERSIDADE PURDUE

* PERANTE A AUSÊNCIA DE NÍVEIS DO MAR, AS ALTITUDES EM MARTE SÃO CALIBRADAS EM FUNÇÃO DA ALTITUDE ONDE
PODERIA EXISTIR ÁGUA EM ESTADO LÍQUIDO, SÓLIDO OU GASOSO. ESTA ELEVAÇÃO À SUPERFÍCIE DO PLANETA É
16 N A T I O N A L G E O G R A P H I C
DESIGNADA COMO ZERO E OS LOCAIS ABAIXO DELA SÃO APRESENTADOS COM NÚMEROS NEGATIVOS.
00
-22

LAGOS DE TEMPOS ANTIGOS


Os geólogos estão a procurar
0
30

padrões deixados por antigas


-2

massas de água nas rochas e -2500 -2500


minerais. A erosão das margens
de um lago deixa areias e
socalcos esculpidos pelas ondas,
enquanto certas argilas e
minerais hidratados só podem
formar-se, ou depositar-se, se
houver presença de água.

ir
a

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a cos 50
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-2500

-2
40 D e p ó s i t o s
0
SUBINDO PELO DELTA
O Perseverance utilizará os
seus instrumentos científicos
para sondar os mistérios da
formação do delta na cratera
Crat er a
Jezero e para determinar se
B el va
existem micróbios fossiliza-
dos presos nas suas camadas
de sedimentos.
a l u v i a i s

0
-250

00
-26

RUMO ÀS PLANÍCIES
Deverá pousar na superfície
plana do fundo da cratera,
subindo em seguida pelos
canais do delta até ao vale
fluvial e avançando depois
para as planícies.

Zo
-2600

na
de
ch
eg
ad
a d
o Pers
evera
nce
O B C EC A D O S P O R M A RT E 17
QUENTE E H MIDO
Um clima mais quente, mais próximo da temperatura
média de 140C da Terra, teria permitido a existência de
água corrente e até de chuva. As tempestades poderiam
limpar a maior parte da poeira da atmosfera, criando céus
mais azuis. A paisagem rochosa de Marte não poderá ter
servido de suporte a qualquer tipo de vegetação.

FRIO E COM GELO


Temperaturas mais frias do que as da Antárctida mante-
riam a água da superfície congelada, com gelo e neve a
grandes altitudes. Lava e vapor poderiam aquecer
algumas zonas durante breves períodos. No passado,
Marte talvez se apresentasse mais acinzentado: o ferro
oxidado de hoje confere um tom avermelhado ao seu solo.

18 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
HORIZONTES ANCESTRAIS
Em 2003, um veículo de exploração espacial encontrou provas de que, em tempos, a
água fluiu sobre Marte, mas as condições climáticas ancestrais do Planeta Vermelho
continuam a ser tema de debate. Os modelos sugerem dois extremos que poderão ter
permitido a existência de alguma matéria líquida à superfície, aqui ilustrada. Os cientis-
tas suspeitam que em Marte talvez ocorressem ciclos alternados dos dois estados.

MANUEL CANALES E MATTHEW W. CHWASTYK; ALEXANDER STEGMAIER. ARTE: ANTOINE COLLIGNON


O B C E C AUNIVERSIDADE
FONTES: ASHLEY PALUMBO, UNIVERSIDADE DE BROWN; ROBIN WORDSWORTH, D O S P O RDEM 19
A R T E NASA
HARVARD;
Terminado esse período, seria perfeitamente
compreensível que qualquer indivíduo razoável
acreditasse que marcianos inteligentes tinham
construído uma rede de canais cobrindo o pla-
neta. Muito desse fervor pode ser directamente
associado a Percival Lowell, um aristocrata extra-
vagante com uma enorme obsessão por Marte.

C OM E RC I A N T E A B A S TA D O de Boston e antigo aluno


da Universidade de Harvard, Lowell tinha mais do
que um interesse passageiro pela astronomia e era
um leitor ávido de artigos científicos e populares.
Parcialmente inspirado pelos mapas de Schiaparelli
e acreditando que os canais marcianos tinham sido
esculpidos por tecnologia extraterrestre, Lowell
apressou-se a construir um observatório no alto de
uma colina antes do Outono de 1894, quando Marte
se aproximaria bastante da Terra e a sua face ple-
namente iluminada seria ideal para observar esses
alegados canais.
Com a ajuda de alguns amigos e da fortuna da
família, o Observatório Lowell surgiu nesse ano
junto de Flagstaff, no estado do Arizona, numa
elevação íngreme baptizada de Mars Hill (Monte
de Marte) pelos autóctones. A partir dali, entre as
coníferas, o astrónomo estudou diligentemente o
Planeta Vermelho, aguardando noite após noite
que aquele mundo brilhante ganhasse nitidez.
Com base nas suas observações e desenhos, acre-
ditou que poderia confirmar os mapas de Schia-
parelli e anunciou a detecção de mais 116 canais.
“Quanto mais olhamos, mais começamos a ver
linhas rectas”, diz Nathalie Cabrol. “Porque é isso
CRAIG CUTLER
que o cérebro humano faz.”
Segundo a estimativa de Lowell, os construto-
res dos canais marcianos eram seres suprema-
mente inteligentes capazes de obras de enge- a nível mundial. A fotografia planetária acabou
nharia à escala planetária. Estariam porventura por substituir a cartografia como “verdade”, diz
numa corrida com o intuito de sobreviver a alte- Maria Lane. Quando as pessoas conseguiram ver
rações climáticas devastadoras, que os obrigaram com os seus próprios olhos que as fotografias e os
a construir canais desde os pólos até ao equador. mapas de Marte não coincidiam, deixaram de re-
Lowell publicou as suas observações e a sua con- conhecer autoridade aos mapas de Lowell.
vicção foi contagiante. Até Nikola Tesla, o pionei- Apesar disso, na transição para o século XX,
ro da electricidade, cujas discussões com o inven- Marte tornara-se um vizinho familiar com pai-
tor rival Thomas Edison se tornaram famosas, foi sagens mutáveis e a promessa persistente de ser
apanhado por este entusiasmo e relatou a detec- habitado. A vaga de observações seguinte revelou
ção de sinais de rádio vindos de Marte no início que, sazonalmente, as calotas polares de Marte
do século XX. aumentavam e encolhiam, libertando uma escu-
No entanto, a história de Lowell começou a ridão que alastrava em direcção ao equador. Al-
desmoronar-se em 1907, em parte devido a um guns cientistas das décadas de 1950 acharam que
projecto que o próprio financiara. Nesse ano, os essas zonas sombreadas tinham de ser vegetação
astrónomos captaram milhares de fotografias de que florescia e voltava a morrer e publicaram es-
Marte através de um telescópio e partilharam-nas sas hipóteses em revistas científicas relevantes.

20 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Comando
a dist ncia
Angela Magee, da
Malin Space Science
Systems, dá instruções
a uma câmara do
Curiosity, que pousou
em Marte em 2012. Por
enquanto, a superfície
de Marte é um local
que os seres humanos
só podem explorar
à distância.
Os cientistas têm de
programar sequências
de comando para que
os engenhos robóticos
possam circular
ou evitar
determinados perigos.

Todo este fervor científico alimentou a ficção es- desilusão. Contudo, a ideia de vida em Marte não
peculativa, desde “A Guerra dos Mundos” de H.G. demorou muito a regressar à imaginação humana.
Wells e a série “Barsoom”, de Edgar Rice Burrou-
ghs, às “Crónicas Marcianas” de Ray Bradbury. o isolamento da pandemia
N U M C E RT O S E N T I D O ,
“Na época que precedeu a nossa exploração de COVID-19 deu-me uma ideia de como serão os
efectiva de Marte, antes da década de 1960, havia dias úteis para um cientista que estude Marte.
muita imaginação”, resume Andy Weir, autor do Costumo viajar muito, sujando os meus cadernos
romance “O Marciano”. “Um autor de ficção cien- de apontamentos enquanto persigo histórias em
tífica diria: não sei nada sobre Marte, por isso pos- desertos, florestas insuportavelmente quentes e
so dizer o que quiser sobre Marte.” gelo marinho. Actualmente, os exploradores de
Em 1965, a sonda Mariner 4 da NASA passou Marte passam o tempo a tentar compreender um
junto do Planeta Vermelho. Captou as primeiras sítio que só ganha nitidez através de uma lente ou
imagens de grande plano da superfície marciana no ecrã de computador. Não vão, em breve, enfiar
a preto e branco, transformando o rico espaço de uma luva no seu solo alienígena ou limpar a poeira
recreio da cultura pop numa paisagem cheia de das viseiras que lhes cobrem o rosto. Os veículos
grão e crateras. Quando finalmente a avistámos, de exploração espacial telecomandados fazem esse
a esterilidade árida do planeta foi uma tremenda trabalho por eles.

O B C EC A D O S P O R M A RT E 21
Ondas estranhas

2015
As dunas enrugam a
paisagem numa panorâmica
composta por imagens
captadas pelo Curiosity.
As dunas parecem escuras
por causa das sombras
matinais e da cor dos
minerais presentes na areia.
MOSAICO COMPOSTO POR 14 IMAGENS DA
NASA/JPL/MALIN SPACE SCIENCE SYSTEMS

Imensid o
rochosa

2016
Esta panorâmica de
360 graus capta
a aparência estranha-
mente terrestre de
uma tarde em Marte,
na cratera Gale, o local
onde o Curiosity pousou.
MOSAICO COMPOSTO POR 138 IMAGENS
DA NASA/JPL/MALIN SPACE
SCIENCE SYSTEMS

Nitidez crescente

2019
A equipa do Curiosity criou
esta panorâmica de alta
resolução da encosta do
monte Sharp, situado no
interior da cratera Gale,
juntando mais de mil
imagens captadas ao longo
de quatro dias.
MOSAICO COMPOSTO POR 1.139 IMAGENS DA
NASA/JPL/MALIN SPACE SCIENCE SYSTEMS

22 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
O B C EC A D O S P O R M A RT E 23
Numa manhã de Outubro, acedi a uma video- e revitalizou o interesse em descobrir se poderia,
conferência para conversar com Nathalie Cabrol, em tempos, ter existido vida em Marte ou, com
do Instituto SETI. Ela tinha uma imagem de Mar- sorte, se ainda existiria. “Acho fascinante que
te como pano de fundo. Era um panorama amplo, ainda estejamos a lidar com temas que seriam
com picos escuros cobertos de rochedos erguen- familiares a Percival Lowell”, diz Rich Zurek,
do-se entre planícies cor de ferrugem e cumeeiras cientista-chefe do Gabinete para o Programa de
distantes. Pareceu-me apropriada para uma cien- Marte do Laboratório de Propulsão a Jacto (JPL)
tista que passou décadas a mergulhar, indirecta- da NASA. “Só que… sem canais.”
mente, nas paisagens marcianas. Depois da Mariner 9, a NASA apressou-se a
Depois, Nathalie mudou de cenário. Vejo mar- enviar uma missão mais ambiciosa. Em 1976,
cas de pneus, carrinhas e um conjunto de tendas os seres humanos foram finalmente capazes de
cor de laranja no primeiro plano. Em vez de olhar olhar para o Planeta Vermelho ao nível dos olhos,
para Marte, estou a ver uma imagem de um dos quando os dois veículos Viking pousaram no he-
acampamentos de Nathalie no Altiplano chileno. misfério norte. Por essa altura, os cientistas já sa-
Durante décadas, ela esquadrinhou este deserto biam que não havia um coberto vegetal sazonal
situado a grande altitude em busca de ambientes em Marte: aquelas sombras móveis deviam-se a
semelhantes aos de Marte, procurando vida em tempestades de poeira causadas por poeira vulcâ-
picos vulcânicos e lagos de altitude e tentando nica. Também sabiam que a água já não fluía em
imaginar como um engenho robótico poderá, um abundância sobre a superfície.
dia, realizar a mesma tarefa, a dezenas de milhões Em contrapartida, não sabiam se os solos do
de quilómetros de distância. planeta eram desprovidos de vida e pelo menos
Nathalie Cabrol e outros cientistas contempo- um astrónomo – Carl Sagan – não estava pronto
râneos que centram as suas atenções em Marte para abandonar completamente a ideia de até
têm uma dívida para com a Mariner 9, a primeira existirem formas de vida ainda maiores. Para o
sonda que orbitou Marte em 1971. De início, não caso de os marcianos serem nocturnos, “duran-
conseguia ver devido a uma tempestade de poei- te muito tempo, tivemos o plano de instalar uma
ra que cobria o planeta. “Marte ainda tentou, até lâmpada de altíssima intensidade na Viking para
ao último minuto, manter uma aura de mistério”, podermos tirar fotografias de noite”, recorda Gen-
diz Nathalie. Quando a poeira assentou, a câmara try Lee, autor de ficção científica e engenheiro
espiou os cumes dos gigantescos montes Tharsis, chefe do JPL. Para desilusão de Sagan, a equipa
um trio de vulcões que só parece pequeno compa- decidiu remover a lâmpada de ambos os veículos.
rado com o seu vizinho monte Olimpo. A oriente As experiências das Viking não encontraram
ficava o enorme Valles Marineris, um vale de rifte micróbios marcianos, nem pegadas na areia. Em
que se assemelha ao Grande Canyon do Arizona, vez disso, descobriram indícios de percolados no
mas nove vezes mais comprido. solo: compostos capazes de destruir moléculas
Entre milhares de fotografias captadas pela orgânicas e com potencial para apagar quaisquer
Mariner 9, os cientistas viram vales antigos escul- vestígios de vida baseada em carbono.
pidos por rios, planícies aluviais, canais e deltas. A missão enviou imagens de planícies cober-
Também identificaram vestígios químicos de tas de rochas que poderiam ter sido captadas em
gelo de água. Tudo isto eram sinais de que o mo- qualquer local árido da Terra. Novas paisagens
vimento da água esculpira, em tempos, as paisa- continuaram a chegar, à medida que a NASA
gens exóticas de Marte. pousava veículo atrás de veículo sobre a super-
“Há provas geológicas esmagadoras de que o fície do planeta: Pathfinder em 1997, depois os
clima era muito diferente do que é hoje”, diz Ram- gémeos Spirit e Opportunity em 2004, seguidos
ses Ramirez, do Instituto de Ciências da Vida na pelo Curiosity em 2012. Agora, quando vemos as
Terra de Tóquio. Esse entendimento mudou o marcas deixadas pelos veículos de exploração
rumo da exploração de Marte. “Foi muito mais espacial no solo ou vemos os auto-retratos dos
profundo do que todo o folclore que poderíamos robots que os mostram empoleirados à beira de
ter em mente”, diz Nathalie Cabrol. “Assim come- uma cratera colorida, conseguimos mais facil-
çou outra aventura: a científica.” mente imaginar-nos a seguir o seu rasto.
A noção de que, no passado, Marte poderia “Depois de pousarmos, há toda uma evocação
ter sido um lugar parecido com a Terra desenca- do que significa ser humano neste sítio”, diz a an-
deou várias questões sobre a evolução planetária tropóloga Lisa Messeri, da Universidade de Yale.

24 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
$28 mil milhões

ORÇAMENTO CÓSMICO
Terá alguma vez existido vida no Planeta Vermelho? E poderão
Marte 2020
os seres humanos sobreviver lá agora? Satisfazer a nossa
curiosidade exige tempo e recursos. No entanto, missão após O Perseverance tem um chassis
parecido com o do Curiosity,
missão, com investimentos cada vez maiores, as agências
mas conta com instrumentos
espaciais estão a usar os sucessos e os fracassos do passado mais complexos, incluindo o
como apoios para os próximos grandes saltos. primeiro helicóptero de Marte.

InSight
MUDANDO DE ENFOQUE
Desde a década de 1960 que o orçamento para a ciência Mars Atmosphere and
planetária da NASA reflecte prioridades para lá da Lua. Volatile Evolution Mission
A quota de Marte aumentou, mas o investimento total 21 mil
O veículo de Laboratório
no planeta desde então tem sido inferior a 2% da despesa de Ciência milhões
exploração espacial
total da NASA. (Curiosity)
Curiosity descobre

1960 70 80 90 2000 10 2020


minerais com
carbono e mede os
$3,5 mil milhões
100%
níveis de radiação.
INVESTIGAÇÃO/
OUTRA

MARTE
PLANETAS Phoenix
EXTERIORES Mars Lander
PEQUENOS
OBJECTOS Mars
Reconnaissance
LUA Orbiter

Descobre-se que Marte Mars Exploration


teve um passado Rovers - Spirit e
0 quente e húmido. Opportunity

VÉNUS MERCÚRIO
Mars Odyssey
$1,6 mil milhões
14 mil milhões
MPL/MCO
Mars Pathfinder A tecnologia utilizada
Mars Global Surveyor nas câmaras da Sojourner
possibilita a captura de
Mars Observer imagens panorâmicas com
$1,7 mil
milhões 26.200 um telemóvel inteligente.

Uma de cerca
Viking 1 e 2

$7,1 mil
Durante a
década de 1980,
assistiu-se a
milhões de dólares
de 50 mil imagens
da Viking deu milhões uma pausa na
EM MISSOES A MARTE
É um desafio alcançar Marte. Os soviéticos
exploração, após
origem a teorias
sobre a existência
as missões Viking. viram quase todas as suas missões
de um rosto em fracassar. Mais recentemente, missões
Marte. Era apenas da Rússia, do Japão e da China falharam.
A Índia e a Agência Espacial Europeia têm 7 mil
um planalto.
milhões
veículos activos na órbita de Marte e a
taxa de sucesso da NASA é superior a 70%.
OS CUSTOS INCLUEM OS LANÇAMENTOS E FORAM AJUSTADOS
SEGUNDO A INFLAÇÃO PARA VALORES, EM DÓLARES, DE 2019.

Objectivo de cada missão


Voar nas Pousar Orbitar Deslocar-se
imediações
Símbolos não preenchidos representam
missões falhadas
Mariner 8 e 9 A Mariner 9, primeira sonda a orbitar
Missão
$1,3 mil milhões outro planeta, enviou-nos imagens de
desfiladeiros, vulcões e luas.
Mariner 6 e 7

$1,3 mil milhões Orçamento

Lançamento Fim
Mariner 3 e 4
Falhanço $1,1 mil milhões
1960 70 80 90 2000 10 2020

O B C E CPLANETÁRIA
MANUEL CANALES; PATRICIA HEALY. FONTE: NASA; PLANETARY SCIENCE BUDGET DATASET, COMPILADOS POR CASEY DREIER PARA A SOCIEDADE ADOS P O R M A RT E 25
de automóvel de Istambul,
A C E RC A D E O I TO H O R A S
Campo
o lago Salda, no Sudoeste da Turquia, é um refúgio de testes
local. Rochas vulcânicas escuras rolam até à areia marciano
branca e brilhante que orla as suas margens. Águas Não é fácil controlar
límpidas, em tons de água-marinha, tornam-se um veículo de
exploração espacial em
azul-escuras junto do centro do lago, onde o fundo Marte. Na Terra, os
atinge 200 metros de profundidade. É uma quase cientistas aproveitam
perfeita analogia contemporânea da cratera Jezero, locais parecidos com os
terrenos marcianos
o local onde o Perseverance, da NASA, planeia pro- para descobrirem
curar sinais de vida ancestral. “Os habitantes locais vários problemas nos
chamam-lhe as Maldivas da Turquia”, diz Brad Gar- seus procedimentos.
Em Fevereiro de 2020,
czynski, aluno de pós-graduação em ciência plane- um leito de lago seco
tária da Universidade de Purdue. “Podemos no Nevada desempe-
imaginar-nos como um pequeno micróbio a bron- nhou o papel de Marte
enquanto os investiga-
zear-se nas margens de Jezero.” dores Raymond Francis
Jezero encontra-se agora seca, mas o terreno (em pé) e Marshall
esculpido sugere que em tempos conteve um Trautman, do JPL,
usavam operadores de
grande e profundo lago de cratera alimentado por câmara telecomanda-
rios de águas correntes. Há mais de 3.500 milhões dos para testar
de anos, é provável que a água corresse para Jeze- equipamento conce-
bido para o
ro vinda de norte e de oeste, depositando cama- Perseverance.
das de sedimentos em deltas em forma de leque
junto das paredes da cratera. Com o tempo, a
cratera alagou, mas acabou por libertar água por
uma fenda situada a leste.
A partir das suas órbitas, as sondas identifica-
ram argilas e carbonatos junto dos deltas de Je-
zero, cuja formação teria exigido água. As areias
brancas do lago Salda são constituídas por car-
bonatos fragmentados chamados microbialitos,
estruturas rochosas que aprisionam compostos
orgânicos. Na Terra, este processo forma estru-
turas em camadas que preservam as mais antigas
provas de vida microbiana terrestre, remontando
há 3.500 milhões de anos. Os cientistas esperam
que os carbonatos de Jezero tenham feito o mes-
mo e tenham aprisionado algo daquilo que outro- dam a identificar as rochas mais promissoras.
ra habitou o lago ou as suas margens ancestrais. O veículo guarda essas amostras, que ficarão em
“É uma das razões pelas quais nos sentimos Marte a aguardar boleia para casa numa futura
entusiasmados com a cratera Jezero”, diz Briony nave espacial. Quando chegarem aos laboratórios
Horgan, cientista planetário da Universidade de da Terra, os cientistas lerão os registos do clima
Purdue. É também por isso que Brad está a expe- ancestral de Marte em busca de sinais de vida.
rimentar um veículo de exploração de Marte na Talvez as câmaras do Perseverance sejam as pri-
Turquia: procura os locais mais prováveis para a meiras a vislumbrar provas de fósseis marcianos.
preservação de bioassinaturas e tenta descobrir
como o Perseverance as veria. Para tal, recolheu Marte conseguiu ensinar
Q UA N TO M A I S N ÃO S E JA ,
cerca de 40 quilogramas de amostras no lago Sal- à humanidade que somos frequentemente vítimas
da e levou-as para casa de avião. do nosso desejo de encontrar vida à sua superfície.
À semelhança de Brad Garczynski, o Perse- Desde os canais, à vegetação e à possibilidade bas-
verance recolhe rochas para uma viagem de re- tante discutida de haver vestígios de fósseis em
gresso, embora apenas 450 gramas, no máximo. meteoritos de Marte, o Planeta Vermelho tem repe-
As suas câmaras incorporadas (que vêem Mar- tidamente gorado as nossas expectativas com rea-
te em diferentes comprimentos de onda) aju- lidades desoladoras e estéreis.

26 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
SAM MOLLEUR, NASA / JPL

No entanto, aquelas paisagens ancestrais ain- vida em Marte? Provavelmente, não, admite Da-
da lá estão, conservando um registo da infância vid Grinspoon, cientista do Instituto de Ciências
do planeta e de uma época em que a vida poderá Planetárias. “É muito difícil matar essa ideia de
ter prosperado numa fase ligeiramente mais hú- que Marte está, de alguma maneira, a esconder-
mida, envolta numa atmosfera mais densa. -nos vida”, diz. “É uma ideia muito persistente.”
“Sabemos que não há canais, sabemos que Num certo sentido, essa obstinação é, pos-
não há uma pirâmide em Marte, nem vida ex- sivelmente, a manifestação mais flagrante do
traterrestre”, acrescenta a especialista. Mas se nosso desejo de companhia, uma ânsia de co-
descobrirmos que efectivamente existiu alguma munhão, uma necessidade de percebermos se
química prebiótica sobre a superfície marciana, estamos ou não sozinhos no universo. Os seres
poderemos aprender algo sobre a forma como humanos, na sua maioria, precisam de outros
a vida evolui em quaisquer costas rochosas, in- seres humanos para sobreviver e talvez essa ne-
cluindo a nossa. cessidade de companhia também se aplique a
E se o Perseverance não encontrar provas de uma escala planetária.
fósseis marcianos, nem sequer sinais de locais “Não somos uma espécie solitária”, diz Andy
como Jezero terem sido habitados? Consegui- Weir. “Ao nível macroscópico, nós – os seres hu-
remos algum dia desistir da ideia de encontrar manos – não queremos estar sozinhos.” j

O B C EC A D O S P O R M A RT E 27
MARTE
Década de 1570
“Marte e Vénus
Unidos pelo Amor”
Uma união de opostos:
Cupido serve-se de um
nó de amor especial
para prender o deus
romano Marte à deusa
Vénus, numa pintura
de Paolo Veronese.

1898 – “Guerra dos


Mundos”
1906 – Canais
Uma testemunha
de Lowell
relata a batalha épica
Quando desenhou
entre marcianos e
mapas (em cima) ,
terrestres no hoje
Percival Lowell
famoso romance de
acreditava que
H.G. Wells.
Marte era um planeta
CHRONICLE/ALAMY
STOCK PHOTO
moribundo coberto
de canais de irrigação.
PINTURA DE PAOLO VERONESE (PAOLO ARQUIVOS DO
CALIARI), MUSEU METROPOLITANO DE ARTE, OBSERVATÓRIO LOWELL
JOHN STEWART KENNEDY FUND, 1910

1967 – A visão 1965 – Mariner 4


de Sagan Quando sobrevoou
A pedido da National Marte, esta sonda
Geographic, Carl captou imagens de
Sagan imaginou um planeta parecido
marcianos resistentes com a Lua: esbura-
à radiação e cado por crateras e
protegidos por estéril, sem sinais de
cápsulas envidraça- vida extraterrestre.
das, alimentando-se NASA
com legumes.

PINTURA POR DOUGLAS S. CHAFFEE, COLECÇÃO


DE IMAGENS DA NATIONAL GEOGRAPHIC

1976 – As Vikings de Marte


A missão Viking, da NASA,
1996 – “Marte
incluiu dois veículos orbitais
Ataca!”
e dois módulos, os primeiros
O filme troça dos
a captar imagens de alta
filmes de ficção
resolução de Marte a partir
científica da década
da sua superfície desolada.
de 1950. Os marcianos
NASA
assassinos aterroriza-
ram a Terra até serem
derrotados por uma
canção.
PICTORIAL PRESS LTD/ALAMY
STOCK PHOTO

28 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
FASCINA-NOS
1918 – “Uma 1939 “O Homem
Viagem a Marte” de Marte”
Este filme mudo Desenhado por
dinamarquês Frank R. Paul,
concentrava-se nos este marciano é
supostos habitantes telepata e consegue
de Marte – neste retrair os olhos e o
caso, vegetarianos nariz para impedi-
bondosos. -los de congelar.
PICTORIAL PRESS LTD/ALAMY CHRONICLE/ALAMY
STOCK PHOTO STOCK PHOTO

1951 – “Voo
para Marte”
Neste drama, os
1954 – A cores cientistas chegam a
O astrónomo E.C. Marte e descobrem um
Slipher captou esta planeta povoado por
imagem na África do uma raça moribunda,
Sul e publicou o seu parecida com os seres
“Photographic Story humanos – que pode
of Mars (1905-1961)” estar a planear uma
em 1962. invasão da Terra.
E.C. SLIPHER, ARQUIVOS DO PICTORIAL PRESS LTD/ALAMY
OBSERVATÓRIO LOWELL STOCK PHOTO

2019 – Starship
2015 – “O Marciano” Se Elon Musk,
No conto futurista de Andy da SpaceX, concretizar o
Weir, o astronauta Mark seu projecto, uma versão
Watney é abandonado do veículo de lança-
em Marte quando os mento semelhante ao
seus companheiros desta imagem, que
pensam, erroneamente, falhou um teste de
que ele está morto. aterragem em Fevereiro,
irá um dia enviar seres
humanos à Lua,
a Marte e mais além.
LOREN ELLIOTT, GETTY IMAGENS

GENRE FILMS/INTERNATIONAL TRADERS/MID ATLANTIC


FILMS/20TH CENTURY/ALBUM, ALAMY STOCK PHOTO
O B C EC A D O S P O R M A RT E 29
Desde 1973,
mais de 8.700
pessoas foram
condenadas
à morte nos
EUA. Mais de
1.500 foram
executadas.
Dessas,

182 permaneceram no corredor da morte, embora estivessem INOCENTES

Eis algumas histórias sobre erros judiciais.


TEXTO DE PHILLIP MORRIS | FOTO G RA F I A S D E MARTIN SCHOELLER
Albert Burrell,
13 anos no corredor
da morte

INOCENTES 31
Derrick
Jamison
CONDENADO
NA COMARCA DE
H A M I LT O N , O H I O

20 ANOS NA PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 2005
Derrick Jamison foi
detido em 1984 por
roubo e homicídio de um
empregado de bar de
Cincinnati. Foi conde-
nado com base no falso
depoimento de um dos
verdadeiros autores do
crime, que testemunhou
a troco de uma redução
da pena. A sua execução
esteve agendada por seis
vezes, mas houve sempre
adiamentos, o último dos
quais 90 minutos antes
da hora prevista. Em
2000, um juiz ordenou
novo julgamento. A sua
condenação foi anulada
e as acusações retiradas.
Derrick tem 60 anos,
dá formação sobre
as falhas do sistema de
justiça dos EUA e enco-
raja alterações legais.

PÁ G I N A S A N T E R I O R E S

Albert
Burrell
UNION, LOUISIANA

13 ANOS NA PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 2001
Albert tem 66 anos e
chegou a estar a 17 dias
da data marcada para a
sua execução no Loui-
siana, antes de os advo-
gados lhe conseguirem
um adiamento em 1996.
A condenação foi anu-
lada. Foi-lhe concedido
um novo julgamento
depois de um juiz deci-
dir que a acusação indu-
zira o júri em erro e não
disponibilizara provas
de inocência. Depois de
o Estado concluir que
nenhuma prova credível
o ligava aos homicídios,
Burrell foi posto em
liberdade.

NÚMEROS ARRENDONDADOS AO ANO MAIS PRÓXIMO, NÃO INCLUINDO O TEMPO DE PRISÃO CUMPRIDO A AGUARDAR SENTENÇA .
INOCENTES 33
Ron
Keine
COMARCA DE
B E R N A L I L LO,
N OVO M É X I C O

2 ANOS DE PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 1976
Ron Keine, ao centro
(73 anos), foi um dos
quatro homens con-
denados à morte pelo
rapto, violação e homicí-
dio de um estudante da
Universidade do Novo
México em 1974. O jor-
nal “The Detroit News”
apurou que a acusação
forçara o depoimento
de uma testemunha, que
mais tarde se retractou,
revertendo o depoi-
mento. Ron foi libertado
depois de se provar que
a arma do crime con-
duzia a um vagabundo
que confessou o homi-
cídio. Um procurador foi
expulso da Ordem e três
detectives foram despe-
didos da polícia devido
aos seus actos.
INOCENTES 35
Ronnie Bridgeman.
K WA M E C H A M AVA - S E E N TÃ O
Foi declarado culpado devido ao depoimento de
um rapaz de 13 anos, que testemunhou tê-lo visto e
a outro jovem agredirem o vendedor numa esquina.

Um homem de
Não foram apresentadas mais provas que associas-
sem Ronnie ao homicídio. Ele não tinha antece-
dentes criminais. Outra testemunha contou que

63 anos, chamado Ronnie não estava na rua quando Harold Franks foi
assassinado. No entanto, poucos meses após a sua

Kwame Ajamu, detenção, ele foi condenado à morte.


Trinta e nove anos mais tarde soube-se que o

vive a pouca
rapaz que testemunhou contra ele tentou retrac-
tar-se, mas os agentes da polícia de Cleveland
disseram ao rapaz que, se alterasse a sua história,

distância de deteriam os seus pais e acusá-los-iam de perjúrio,


de acordo com o depoimento mais tarde apresen-

minha casa, tado em tribunal. Kwame saiu em liberdade con-


dicional em 2003, depois de passar 27 anos na pri-

num subúrbio
são, mas o estado de Ohio só o declarou inocente
do homicídio 12 anos mais tarde, quando o falso
testemunho do rapaz e a má conduta da polícia

de Cleveland. foram revelados no decurso de uma audição em


tribunal relacionada com o processo.

Em 1975, foi Entrevistei Kwame Ajamu e outros indivíduos


com antecedentes socioeconómicos muito díspa-

condenado
res, mas partilhando um fardo comum: uma sen-
tença de morte proferida depois de serem conde-
nados por crimes que não cometeram.

à morte pelo A sua vida diária no corredor da morte é tão


desanimadora, aterradora e confusa como o peso

homicídio de que carregaram por saberem que tinham sido


condenados e eram inocentes. O stress pós-trau-

Harold Franks, um
mático sofrido por um indivíduo erradamente
condenado, aguardando a execução pelo Estado,
não se dissipa só porque o Estado o liberta, lhe

vendedor da zona pede desculpas ou lhe concede uma indemniza-


ção financeira – o que muitas vezes não acontece.

oriental da cidade. A lição retirada deste caso é tão flagrante como


um relâmpago intenso: um homem ou uma mu-

Kwame tinha
lher condenados à morte, apesar de inocentes,
são a testemunha perfeita contra aquilo que mui-
tos consideram a imoralidade da pena capital.

17 anos quando foi É uma lição dolorosa para um país que executa
pessoas a um ritmo quase sem paralelo no mun-

condenado. do e onde factores como a etnia do arguido ou da


vítima, o baixo nível de rendimentos ou a incapa-
cidade para contrariar os argumentos de polícias
ou procuradores podem pôr o arguido em risco
acrescido de uma condenação errada. A etnia é
uma variável particularmente forte: em Abril de
2020, os negros representavam mais de 41% dos
condenados no corredor da morte, apesar de ape-
nas constituírem 13,4% da população dos EUA.

36 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Kwame Actualmente com 63
anos, Kwame Ajamu,
Embora também fosse
adolescente, Ronnie foi
que o depoimento ori-
ginal fora falso. Esse
Ajamu que adoptou o novo
nome enquanto estava
condenado à morte. Em
1978, a sua sentença foi
depoimento contribuiu
para a absolvição de
C OM A RC A D E na prisão, abandonando comutada para prisão três pessoas: Kwame,
C U YA H O G A , O H I O o de Ronnie Bridge- perpétua. Saiu em liber- o seu irmão Wiley Bri-
man, foi condenado dade condicional em dgeman e o seu amigo
em 1975 pelo homicídio 2003, mas viveu na som- Ricky Jackson. Kwame
27 ANOS DE PRISÃO, de um vendedor, com bra da sua condenação. e Ricky foram liberta-
2 NO CORREDOR DA MORTE; base no depoimento Em 2014, a testemunha dos, depois de cumpri-
ABSOLVIDO EM 2014 de um rapaz de 13 anos. declarou em tribunal rem 39 anos de prisão.

INOCENTES 37
Nas últimas três décadas, grupos como o Projec- violava a proibição, determinada pela Constitui-
to Innocence ajudaram a esclarecer até que ponto ção, de castigos cruéis e incomuns – o país execu-
o sistema de justiça norte-americano pode ser pe- tou 22 pessoas condenadas por crimes cometidos
rigosamente falível, sobretudo em casos de pena antes de completarem 18 anos de idade, segundo
de morte. Testes de DNA e inquéritos à conduta o Centro de Informação sobre a Pena de Morte (ou
de agentes da polícia, procuradores e advogados DPIC na sigla anglófona).
de defesa oficiosos contribuíram para libertar 182 A decisão do Supremo Tribunal foi tomada à re-
pessoas do corredor da morte desde 1972. Em De- velia de uma história de execução de menores ini-
zembro de 2020, tinham sido absolvidas mais de ciada muito antes de os Estados Unidos da Amé-
2.700 pessoas condenadas desde 1989. rica sequer existirem. O primeiro caso conhecido
Os antigos reclusos do corredor da morte que de um menor executado nas colónias britânicas
entrevistei são associados da organização Wit- aconteceu em 1642, na Colónia de Plymouth,
ness to Innocence (WTI). Sediada em Filadélfia onde Thomas Granger, de 17 anos, foi enforcado
desde 2005, a WTI é uma organização sem fins lu- pelo crime de sodomia com animais domésticos.
crativos dirigida por antigos reclusos, entretanto Nos primeiros tempos do país, crianças ainda
absolvidos, cujo principal objectivo consiste em mais novas foram condenadas à mais dura pena
zelar para que a pena de morte seja abolida nos judicial. Em 1786, Hannah Ocuish, de 12 anos,
EUA, modificando a percepção pública. uma rapariga nativa-americana, foi enforcada em
Nos últimos 15 anos, a intervenção da WTI jun- New London, Connecticut, acusada de homicídio.
to do Congresso dos EUA, dos parlamentos esta- Durante a maior parte dos duzentos anos que se
duais, dos assessores de políticas públicas e da co- seguiram, o factor etário foi ignorado na aplicação
munidade académica contribuiu para a abolição das sentenças. Menores e adultos eram julgados,
da pena de morte em vários estados, embora esta condenados e executados tendo em conta os seus
continue a ter vigência legal em 28, a nível federal crimes e não a maturidade. Até ao século XX, os
e nas forças armadas dos EUA. Em 2020, foram registos criminais disponíveis não mencionam re-
executadas 17 pessoas, dez das quais pela admi- gularmente a idade dos executados. Em 1987, ano
nistração federal. Foi a primeira vez que o número em que o Supremo Tribunal dos EUA concordou,
de reclusos executados pela administração fede- pela primeira vez, em ponderar a constitucionali-
ral ultrapassou o valor da totalidade dos estados. dade da pena de morte para menores, já tinham
sido documentadas 287 execuções de menores.
de Ohio quando tinha
“ F U I R A P TA D O P E LO E S TA D O Em 1978, quando o Supremo Tribunal decidiu que
17 anos”, resumiu Kwame Ajamu, no início da nossa a lei do Ohio sobre a pena de morte violava a proi-
conversa no meu quintal. Hoje, ele preside ao con- bição de castigos cruéis ao abrigo da Oitava Emen-
selho de administração da WTI. “Era uma criança da, bem como o requisito da igualdade de protec-
quando me mandaram para a prisão para ser exe- ção ao abrigo da lei, determinado pela Décima
cutado”, disse-me. “Não percebia o que me estava a Quarta Emenda, a sentença de morte de Kwame
acontecer, nem como era possível que acontecesse. Ajamu foi comutada para prisão perpétua. Mesmo
No princípio, implorei a Deus que tivesse misericór- assim, ele ficou atrás das grades durante mais um
dia de mim, mas rapidamente me apercebi de que quarto de século até ser libertado. Só viria a ser
não haveria misericórdia.” absolvido em 2014, depois de um repórter de uma
No dia em que chegou ao Estabelecimento Cor- revista de Cleveland e o Projecto Ohio Innocence
reccional do Sul do Ohio, Kwame foi conduzido a terem ajudado a desmontar a mentira que o em-
uma ala cheia de homens condenados. No corre- purrara para o corredor da morte.
dor da morte, ao fundo, estava uma sala onde fora “Há um amplo leque de falhas que podem pro-
instalada a cadeira eléctrica do Ohio. Antes de o vocar condenações erradas em casos de pena ca-
levarem à cela, os guardas fizeram questão de pas- pital”, disse Michael Radelet, sociólogo da Univer-
sar com ele por essa sala. “Um dos guardas quis sidade do Colorado. “Os agentes da polícia podem
que eu visse a cadeira”, recorda. “Nunca hei-de obter uma confissão à força ou, de qualquer outra
esquecer-me das suas palavras: ‘É ali que vais ter maneira, falsa. A acusação também pode supri-
o teu encontro escaldante’.” mir provas de inocência. Por vezes, testemunhas
Desde o dia em que Kwame Ajamu foi condena- oculares fazem identificações bem-intenciona-
do até 2005 – ano em que o Supremo Tribunal Fe- das, mas erradas. A falha mais frequente é o per-
deral dos EUA decidiu que a execução de menores júrio, cometido por testemunhas da acusação.”

38 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Poucos opositores da pena capital resumem tão
frontalmente a sua posição contra as execuções
OS NEGROS CONSTITUEM
sob tutela do Estado como a irmã Helen Prejean, MAIS DE 41% DOS
co-fundadora da WTI e autora do livro “Dead Man
Walking”, o campeão de vendas que inspirou o fil- CONDENADOS NO
me de 1995 com o título “A Última Caminhada”,
protagonizado por Susan Sarandon e Sean Penn.
CORREDOR DA MORTE,
A freira sem papas na língua descreveu a ma- MAS APENAS 13,4% DA
neira como a sua atitude face à pena de morte se
tornou pessoal, ao fazer-lhe recordar o medo que POPULAÇÃO DOS EUA.
sentira de uma experiência dentária bastante roti-
neira há alguns anos. “Eu ia desvitalizar um dente
numa segunda-feira de manhã,” contou-me. “Du-
rante a semana anterior à desvitalização, sonhei
com ela. Quanto mais se aproximava o dia da con-
sulta, mais nervosa eu ficava.” Na sequência de uma dispensa honrosa, per-
Ela prosseguiu: “Agora imagine como será viver maneceu no Arizona e foi trabalhar para o Serviço
antecipadamente o dia para que está marcada a Postal dos EUA, emprego que tencionava manter
sua morte. Dos seis indivíduos que até hoje acom- até se reformar. Essa carreira de sonho e a sua vida
panhei ao longo do corredor da morte, todos con- foram abruptamente estilhaçados em Dezembro
tavam o mesmo pesadelo: os guardas arrastam- de 1991, quando Kim Ancona, de 36 anos e gerente
-nos para fora das celas, eles gritam a pedir ajuda de um bar, foi encontrada esfaqueada na casa de
e resistem e, por fim, acordam e apercebem-se de banho masculina de um estabelecimento comer-
que ainda se encontram na cela. Percebem que é cial de Phoenix frequentado por Ray Krone.
só um sonho. Mas sabem que, um dia, os guardas A polícia centrou de imediato a sua atenção em
vão mesmo chegar para vir buscá-los e que já não Ray como suspeito depois de saber que ele tinha
será um sonho. É essa a tortura. É uma tortura dado boleia a Kim poucos dias antes. Um dia após
que, até hoje, o Supremo Tribunal se recusa a re- a descoberta do cadáver, Ray Krone recebeu or-
conhecer como violação da proibição constitucio- dens para fornecer uma amostra de sangue, saliva
nal dos castigos cruéis e incomuns.” e cabelo. Foi igualmente feito um molde dentário
Mais de 70% dos países do mundo aboliram a seu. No dia seguinte, foi detido e acusado de ho-
pena de morte, ou na lei ou na prática, segundo micídio qualificado.
o DPIC. Dos locais onde a Amnistia Internacional Segundo os investigadores, os dentes desali-
documentou execuções recentes, os EUA foram nhados de Ray correspondiam a marcas de mor-
um entre apenas 13 países onde ocorreram execu- dedura no corpo da vítima. Pouco depois, as re-
ções em cada um dos últimos cinco anos. portagens jornalísticas troçavam de Ray Krone,
O apoio dos norte-americanos à pena capital chamando-lhe o homicida do “dente torto”. Tal
tem vindo a diminuir desde 1996, ano em que 78% como no caso de Kwame Ajamu, não havia provas
defendiam a pena de morte para indivíduos con- forenses que o associassem ao crime. O estudo de
denados por homicídio. Em 2018, esse apoio des- DNA era então uma ciência relativamente jovem
cera para 54%, segundo o Pew Research Center. e nem a saliva nem o sangue recolhidos no local
do crime foram submetidos a qualquer exame.
ser condenado à morte, a sua
A N T E S D E R AY K RO N E Outros testes, mais simples, ao sangue, à saliva e
vida não tinha quaisquer semelhanças com a de ao cabelo revelaram-se inconclusivos. Existiam
Kwame Ajamu. Natural de Dover, na Pensilvânia, provas de inocência, mas estas foram ignoradas,
Ray era o mais velho de três filhos e um rapaz típico como o facto de as pegadas em redor do cadáver
de uma aldeia norte-americana. Criado como lute- da vítima não coincidirem com a dimensão dos
rano, cantava no coro da igreja, foi escuteiro e, na pés de Ray, nem com quaisquer dos seus sapatos.
adolescência, era conhecido como um miúdo bas- Baseando-se em pouco mais do que o depoi-
tante esperto, com tendência para pregar partidas. mento de um perito dentário, que testemunhou
Fez um pré-alistamento na Força Aérea quando fre- que as marcas de mordedura no corpo da vítima
quentava o ensino secundário e, depois de concluir coincidiam com os dentes desalinhados, um júri
o 12.º ano, prestou serviço militar durante seis anos. declarou Ray culpado. Foi condenado à morte.

INOCENTES 39
MAIS DE 70% Ray originalmente. Desta feita, porém, o juiz que
proferiu a sentença decidiu que a prisão perpétua
DA TOTALIDADE era mais adequada.

DOS PAÍSES A mãe e o padrasto de Ray recusaram-se a de-


sistir da convicção de que o filho era inocente.

REJEITARAM Hipotecaram a casa e contrataram um advogado


para analisar as provas recolhidas no decurso da
A PENA investigação original. Apesar das objecções le-

DE MORTE. vantadas pelo procurador, um juiz aprovou um


requerimento apresentado pelo advogado da fa-
mília no sentido de as amostras de DNA serem
examinadas por um laboratório independente.
Em Abril de 2002, os resultados dos exames
de DNA demonstraram a inocência de Ray Kro-
ne. Um homem chamado Kenneth Phillips, que
“Ficamos devastados ao ver que tudo aquilo vivia a menos de um quilómetro de distância do
em que sempre acreditámos e defendemos nos é bar onde Kim fora assassinada, deixara o seu DNA
retirado e sem justa causa”, contou Ray. “Eu era nas roupas que esta vestira. Phillips foi facilmen-
tão ingénuo. Não acreditava que isto me pudesse te encontrado: já estava na prisão por ter agredido
mesmo acontecer. Tinha prestado serviço militar sexualmente e asfixiado uma menina de 7 anos.
ao meu país. Trabalhei para os correios. Não era Libertado da prisão quatro dias depois de os
perfeito, mas nunca me metera em sarilhos. Nun- resultados dos testes de DNA serem anunciados,
ca me fora passada uma multa de estacionamen- Ray tornou-se o centésimo homem nos Estados
to, mas ali estava eu, no corredor da morte. Foi Unidos a ser condenado à morte, desde 1973, e
então que me apercebi de que, se aquilo me podia posteriormente absolvido e libertado.
acontecer, poderia acontecer a qualquer pessoa.”
O Gabinete do Procurador da Comarca de Ma- não era nenhum menino do coro.
G A RY D R I N K A R D
ricopa gastou mais de 50 mil dólares na acusa- Já tivera os seus problemas com as forças da lei
ção, baseada na teoria da marca de mordedura, quando Dalton Pace, um negociante de sucata, foi
enquanto o perito dentário consultado pelo de- assaltado e assassinado em Decatur, no estado do
fensor oficioso de Ray Krone recebeu 1.500 dóla- Alabama, em Agosto de 1993.
res. Esta discrepância na utilização dos recursos Duas semanas mais tarde, a polícia deteve Gary,
disponibilizados a procuradores e advogados de então com 37 anos, quando Beverly Robinson,
defesa em casos de pena capital gera resultados meia-irmã de Gary, e Rex Segars, companheiro
previsíveis para os arguidos manietados por re- desta, fizeram um acordo com a polícia que im-
presentação jurídica mal financiada e ineficaz. plicava Gary no homicídio. Alvo de acusações de
Em 1995, Ray Krone conseguiu um novo julga- roubo não ligadas a este crime, o casal concordou
mento, quando um tribunal de recurso decidiu em cooperar com a polícia e testemunhar que este
que os procuradores tinham ocultado indevida- lhes contara ter matado Pace.
mente um vídeo da prova da mordedura até à Quando conversei com Gary, este falava ain-
véspera do julgamento. Voltou a ser considerado da com o arrastado sotaque do Sul. Só se exaltou
culpado. Os procuradores recorreram aos mes- quando lhe pedi que descrevesse o tempo no cor-
mos peritos dentários que tinham condenado redor da morte. (Continua na pg. 46)

Randal Depois de a mulher de


Randal Padgett, Cathy,
que o sangue recolhido
no local do crime não
culpado, o mesmo juiz
condenou-o à morte.
Padgett ter sido apunhalada em
Agosto de 1990, a polí-
correspondia ao de Ran-
dal. Quando tomaram
Três anos mais tarde, o
Tribunal de Recurso Cri-
COMARCA DE cia acusou-o de homicí- conhecimento disso, os minal do Alabama orde-
MARSHALL, ALABAMA dio. O casal separara-se e advogados de defesa nou novo julgamento,
Randall, avicultor, namo- requereram a anulação invocando má conduta
rava com outra mulher. do julgamento, mas o da acusação. Hoje com
5 ANOS NA PRISÃO, No seu julgamento, em requerimento foi inde- 70 anos, Randal foi decla-
TODOS NO CORREDOR DA MORTE; 1992, a acusação não ferido pelo juiz. Depois rado inocente e saiu
ABSOLVIDO EM 1997 informou a defesa de de Randal ser declarado em liberdade.

40 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Sabrina Durante o seu julga-
mento em 1990, Sabrina
ter confirmado que as
lesões do menino eram
o Supremo Tribunal do
Mississippi ordenou
Smith Smith (Sabrina Butler
em solteira), hoje com
compatíveis com os
esforços da mãe para
novo julgamento, que
resultou na sua absolvi-
COMARCA DE 50 anos, foi acusada do reanimá-lo quando dei- ção. Sabrina foi uma de
LOWNDE S, MIS SÍS SIPI homicídio do filho bebé, xou de respirar. Sabrina apenas duas mulheres
Walter. Tinha apenas 18 Butler também não foi norte-americanas absol-
anos. Os advogados ofi- chamada a depor para vidas no corredor da
5 ANOS NA PRISÃO, ciosos não chamaram a corroborar a declaração morte: a outra é Debra
METADE NO CORREDOR DA MORTE; depor quaisquer teste- de inocência. Invocando Milke do Arizona, que
ABSOLVIDA EM 1995 munhas, que poderiam má conduta da acusação, passou 25 anos na prisão.

42 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Kirk
Bloodsworth
COMARCA DE
B A LT I M O R E , M A RY L A N D

9 ANOS NA PRISÃO,
2 NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 1993
Em 1993, Kirk tornou-se
a primeira pessoa nos
EUA absolvida do cor-
redor da morte graças a
testes de DNA. Fora con-
denado em 1984 pela vio-
lação e homicídio de uma
menina de 9 anos, depois
de cinco testemunhas o
situarem perto do local
do crime. Foi condenado
à morte. Nove anos mais
tarde, o exame ao DNA
de provas armazenadas
provou a sua inocência:
foi necessária mais uma
década até o verdadeiro
homicida ser identificado
e acusado. Kirk tem hoje
60 anos..

Juan
Meléndez
COMARCA DE POLK,
F LO R I DA

17 ANOS NA PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 2002
Juan aprendeu a falar
inglês durante o tempo
em que esteve no cor-
redor da morte da Flo-
rida. Enquanto narra a
história da sua absolvi-
ção, recorda o número de
anos, meses e dias que
ali passou. Embora não
existissem provas que o
associassem ao homicí-
dio cometido em 1983, só
foi absolvido depois de
surgir uma transcrição da
confissão do verdadeiro
homicida. A transcrição
encontrava-se disponí-
vel há muito tempo, mas a
acusação não a partilhara
com a defesa. O juiz anu-
lou a condenação. Depois
da sua libertação, Juan
soube que a mãe poupara
dinheiro para enviar o
corpo do filho, após a exe-
cução, para Porto Rico, seu
local de nascimento.

INOCENTES 43
44 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Shujaa
Graham
COMARCA DE SAN
J OAQ U I N , C A L I F Ó R N I A

11 ANOS NA PRISÃO,
5 NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 1981
Graham, à direita, hoje
com 69 anos, e o seu
filho Jabari, exibindo
uma tatuagem do pai,
foi um adolescente
problemático que pas-
sou parte da adoles-
cência em centros de
correcção juvenis. Já
se encontrava numa
prisão para adultos
quando foi condenado
pelo homicídio de um
guarda prisional na
Califórnia, em 1973. O
Supremo Tribunal Esta-
dual anulou a condena-
ção em 1979, depois de
ter sido revelado que
a acusação excluíra sis-
tematicamente jurados
negros. Foi absolvido
num novo julgamento,
em 1981. Hoje, é um
conferencista activo em
debates sobre pena de
morte e justiça racial.
“Pensei que me iam matar”, disse. E esse pare- Em 1993, Kirk Bloodsworth foi o primeiro in-
cia ser mesmo o plano. Recorrendo ao depoimen- divíduo libertado do corredor da morte graças a
to das testemunhas principais, os procuradores provas de DNA. Fora detido em 1984 e acusado
manipularam a alegada confissão, ao mesmo da violação e homicídio de Dawn Hamilton, uma
tempo que influenciavam o júri com referências menina de 9 anos, no estado de Maryland. A po-
à alegada participação de Gary nesses roubos an- lícia recebeu um alerta contra Kirk, que acabara
teriores. Os advogados de defesa oficiosos, sem de se mudar para aquela zona, quando um delator
qualquer experiência em processos de pena de anónimo o identificou depois de ver um desenho
morte e pouca em matéria de direito penal, per- policial do suspeito na televisão.
maneceram quase sempre mudos. Não fizeram Na verdade, Kirk tinha poucas semelhanças
grandes tentativas para apresentar provas em prol com o suspeito mostrado no esboço policial. Não
da inocência do seu cliente. Gary foi declarado havia qualquer prova física que o ligasse ao crime.
culpado em 1995 e condenado à morte. Passaria Não tinha antecedentes criminais. Mesmo assim,
quase seis anos no corredor da morte. foi considerado culpado e condenado à pena de
Em 2000, o Supremo Tribunal do Alabama morte praticamente com base no depoimento de
ordenou a realização de um novo julgamento, cinco testemunhas, incluindo duas crianças de 8
devido ao facto de a acusação ter aduzido os an- e 10 anos, que afirmaram tê-lo visto perto do local
tecedentes criminais de Gary Drinkard. “A prova do crime. A existência de erro na identificação por
de maus actos anteriormente praticados pelo ar- testemunhas é um factor de influência em muitas
guido … é geralmente inadmissível. Essas provas condenações erradas, segundo o DPIC.
são prejudiciais por poderem levar o júri a inferir “Gaseiem-no e dêem-lhe cabo do canastro”, re-
que, como o arguido cometeu crimes no passado, corda-se Kirk de ter ouvido depois de ser conde-
há mais probabilidade de ter cometido o crime de nado. Durante esse tempo, interrogava-se sobre
que é acusado”, escreveu o tribunal, ao conceder a como era possível ter sido condenado à morte por
realização de um novo julgamento. um crime hediondo que não cometera.
O caso de Gary Drinkard chamara a atenção Cerca de dois anos mais tarde, foi-lhe concedi-
do Southern Center for Human Rights, uma or- do um segundo julgamento por ter sido demons-
ganização que combate a pena de morte. A insti- trado, em sede de recurso, que a acusação oculta-
tuição disponibilizou-lhe representação jurídica. ra à sua defesa provas que poderiam inocentá-lo,
No novo julgamento, em 2001, os seus advogados nomeadamente que a polícia identificara outro
apresentaram provas de que Gary padecia de uma suspeito, mas não seguira essa pista. Mais uma
lesão nas costas e se encontrava fortemente me- vez, Kirk foi considerado culpado. A sentença foi
dicado na altura do homicídio. Os advogados ar- dada por um juiz diferente, que condenou Kirk a
gumentaram que ele estava em casa, de baixa por prisão perpétua e não à morte.
acidente de trabalho, quando Pace foi assassina- “Houve dias em que perdi a esperança. Pensei
do. Gary foi absolvido. que ia passar o resto da vida na prisão. Um dia,
“Eu não era contra a pena de morte até o Estado li um exemplar do livro de Joseph Wambaugh”,
tentar matar-me”, resumiu Gary. conta. Nesse livro de 1989, “The Blooding” [sem
tradução portuguesa], descreve-se a emergente
nos
R E G I S TA R A M - S E M A I S D E 2 .7 0 0 A B S O LV I Ç Õ E S ciência dos exames de DNA e a maneira como as
EUA desde 1989, primeiro ano em que o DNA se entidades responsáveis pela aplicação da lei a ti-
tornou um factor de ponderação, de acordo com o nham utilizado pela primeira vez para ilibar sus-
Registo Nacional de Absolvições. peitos e resolver um caso de violação e homicídio.

Gary A polícia deteve Gary,


hoje com 62 anos, duas
testemunharam que
Gary matara o sucateiro.
novo julgamento, por-
que a acusação referira
Drinkard semanas depois de um
negociante de sucata
Os defensores oficio-
sos não apresentaram
o cadastro criminal de
Gary durante as sessões.
COMARCA DE MORGAN ser assassinado no Ala- provas a favor da sua Nesse segundo julga-
bama, em Agosto de inocência. Foi conde- mento, foram apresenta-
1993. A troco de absol- nado à morte em 1995. das provas de que ele se
6 ANOS DE PRISÃO, TODOS vições por acusações Em 2000, o Supremo encontrava em casa com
NO CORREDOR DA MORTE; de roubo, a meia-irmã Tribunal do Alabama uma lesão na noite do
ABSOLVIDO EM 2001 e o companheiro desta ordenou a realização de homicídio. Foi libertado.

46 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
2.555
Em 1972, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que
a pena de morte violava a proibição, pela Oitava
Emenda constitucional, de castigos cruéis e inco-
muns. Vinte e dois estados aboliram-na: outros

PESSOAS ENCONTRAM-SE NO promulgaram leis compatíveis com as decisões do


tribunal. Na actualidade, há reclusos no corredor

CORREDOR DA MORTE NOS EUA da morte em 28 estados, bem como em instalações


federais e das forças armadas dos EUA.

S I T UAÇ ÃO DA P E N A D E MO RT E P O R E STA D O
Cada ponto representa uma pessoa no corredor da morte.

Autorizado pelo Estado Estado com pena de morte As penas federais aplicam-se Federal Militar
Indivíduo no 1.604 mas sem execuções nos 54 4
a todos os estados e territó-
corredor últimos 10 anos
Moratória imposta rios: a pena de morte militar
da morte
pelo governador (1972) Ano da abolição raramente é aplicada.
892 ou moratória

Wash. (2018) Idaho 8 Mont. 2 D.N. Minn. (1911) Ind. Ohio 140 N.I. Verm. Maine (1887)
(1973) 8 (2004) (1964)
Oreg. 30 (2011) Wis. (1853) Mass. (1984)
Wyo.* D.S. 1 N.H. 1 (2019)**
Mich. (1846) Conn. (2012)

Iowa (1965) R.I. (1984)


Calif. 722 (2019) Nev. 73 Utah 7 Nebr. 12 Pens. 140 (2015)
Ill. (2011) N.J. (2007)
Ky. 28
Del. (2016)
Colo. Kans. 10 Mo. 21
(2020) Tenn. 50 Mar. (2013)
Ariz. 116
N. Méx. Virg. O. Va. 3 D.C. (1981)
(2009) (1965)
Okla. 45 Ark. 30 Miss. Ala. 172 C.N. 141
40

Tex.
210
Louis. 69 Geo.
44 C.S.
37
Alasca
(1957)
Hawai
(1957) Flor. 337

N ÚM E RO D E S E N T E N Ç A S
D E MO RT E P O R E T N I A
A partir de 1972, a pena de morte foi aplicada mais de 9.550 vezes. Negro Latino
O mesmo arguido pode ser condenado à morte várias vezes por
crimes diferentes, por vezes em estados diferentes. Branco Outro

350 Sentenças

300

250

200

150

100

50

1972 ’75 ’80 ’85 ’90 ’95 2000 ’05 ’10 ’15 ’20

*NO WYOMING, NÃO HÁ SENTENÇAS DE MORTE DESDE 1982. EM 2020, O GOVERNADOR PONDEROU UMA MORATÓRIA.
**O ESTADO DE NEW HAMPSHIRE ABOLIU A PENA DE MORTE EM 2019. O DECRETO DE REVOGAÇÃO NÃO FOI APLICÁVEL AO
ÚNICO RECLUSO QUE AINDA SE ENCONTRAVA NO CORREDOR DA MORTE DO ESTADO.
†CRÊ-SE QUE FORAM LEVADAS A CABO MILHARES DE EXECUÇÕES NA CHINA, EMBORA NÃO SEJAM PUBLICAMENTE RECONHECIDAS.

DADOS DE 15 DE DEZEMBRO DE 2020. INCLUEM APENAS OS INDIVÍDUOS CONDENADOS À MORTE DEPOIS DE 1972.
CHRISTINE FELLENZ; KELSEY NOWAKOWSKI. FONTES: AMNISTIA INTERNACIONAL; CENTRO DE INFORMAÇÃO SOBRE A PENA DE MORTE (DPIC)
EXECUÇÕES
NO PLANETA
A Amnistia Internacional
registou 657 execuções
concretizadas por 20 países
em 2019. A China†, o Irão,
a Arábia Saudita, o Iraque, o
Egipto, e os EUA encabeçam
a lista, por essa ordem.

Pena de morte
Pena de morte sem aplicação
(sem execuções nos últimos 10 anos)
Aplicada em crimes excepcionais ou militares
Sem pena de morte

Kirk perguntou a si mesmo se essa ciência se- Sabrina tentou reanimá-lo. Passados vários minutos
ria, de alguma maneira, capaz de limpar o seu sem êxito, conduziu-o rapidamente a um hospital
nome. Quando perguntou se era possível recorrer em Columbus, no estado do Mississippi, onde ele
ao exame do DNA para provar que não estivera foi declarado morto à chegada. Menos de 24 horas
no local do crime, foi-lhe dito que essa prova fora mais tarde, era acusada de homicídio.
inadvertidamente destruída. Não era verdade. Walter apresentava lesões internas graves
A prova foi mais tarde encontrada no armazém quando morreu. Sabrina contou aos agentes da
do tribunal. Os procuradores, seguros do seu caso, polícia que as lesões deveriam ter sido causadas
aceitaram disponibilizar os artigos. pelos esforços de reanimação. A polícia duvidou
Uma vez examinados os artigos, foi detectada da história e, após várias horas de interrogatório
a presença de DNA viável e não pertencia a Kirk sem a presença de um advogado, ela assinou um
Bloodsworth. Foi libertado e, seis meses mais depoimento em que afirmava ter batido na bar-
tarde, o governador de Maryland concedeu-lhe a riga do bebé porque não parava de chorar. Onze
absolvição plena. Seria precisa quase uma déca- meses mais tarde, Sabrina foi considerada cul-
da até o verdadeiro homicida ser pronunciado. pada e condenada à pena de morte.
O DNA pertencia a um homem chamado Kimber- A equipa de defesa de Sabrina Butler não
ly Shay Ruffner, que fora libertado da prisão duas apresentou quaisquer testemunhas. Um perito
semanas antes do homicídio da menina. Ruffner médico poderia ter testemunhado que as lesões
confessou-se culpado do homicídio da menina de Walter eram compatíveis com a reanima-
Hamilton e foi condenado a prisão perpétua. ção desajeitada de uma mãe desesperada. Um
Kirk é agora director executivo da WTI e mili- vizinho chamado como testemunha durante
tante contra a pena de morte. O Decreto da Pro- um julgamento posterior poderia ter prestado
tecção da Inocência, promulgado por George W. um depoimento útil sobre as tentativas feitas
Bush em 2004, criou o Programa Kirk Bloodswor- por Sabrina para salvar a vida do filho. Em vez
th de Subsídio aos Testes de DNA Pós-Condena- disso, os advogados de defesa oficiosos, nomea-
ção para ajudar a custear a realização de testes de dos pelo tribunal, um dos quais especializado
DNA após a condenação. em lei do divórcio, não convocaram testemu-
“Eu era pobre e chegara a Baltimore 30 dias antes nhas nem chamaram Sabrina a depor em defesa
de ser preso”, afirma Kirk. “Quando conto a minha do seu caso.
história e explico a facilidade com que um indiví- “Ali estava eu, uma miúda negra numa sala cheia
duo pode ser injustamente condenado, isso leva a de adultos brancos”, recordou Sabrina Butler, hoje
repensar a maneira como o sistema de justiça cri- Sabrina Smith. “Eu não compreendia a sequência
minal funciona. Não é precisa muita imaginação do julgamento. Tudo o que os meus advogados me
para acreditar que inocentes foram executados.” disseram foi que ficasse sossegada e olhasse para
o júri. Quando me apercebi de que a minha defesa
SABRINA BUTLER descobriu que Walter, o seu filho não iria chamar testemunhas que me ajudassem a
de 9 meses, parara de respirar pouco antes da meia- provar a minha inocência, percebi que a minha
-noite de 11 de Abril de 1989. Mãe solteira de 18 anos, vida tinha acabado.” (Continua na pg. 54)

INOCENTES 49
Joaquín José Joaquín José Martínez,
de 49 anos, foi o único
que se realizasse um
novo julgamento, invo-
revertendo os seus
depoimentos. Em 2001,
Martínez europeu absolvido do
corredor da morte nos
cando os esforços da
acusação para influenciar
Joaquín foi absolvido.
Vive agora em Espa-
COMARCA DE EUA. Considerado cul- preconceituosamente os nha, fazendo campanha
HILLSBOROUGH, FLORIDA pado em 1995 pelo homi- jurados e as declarações contra a pena de morte.
cídio de duas pessoas na impróprias da polícia Quando estava no cor-
Florida, foi condenado à durante o julgamento. redor da morte, o papa
4 ANOS NA PRISÃO, morte. O Supremo Tribu- No novo julgamento, João Paulo II apelou
TODOS NO CORREDOR DA MORTE; nal da Florida anulou as várias testemunhas da para que a sua vida
ABSOLVIDO EM 2001 condenações e ordenou acusação retractaram-se, fosse poupada.

50 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Perry
Cobb
COMARCA DE COOK,
ILLINOIS

7 ANOS NA PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 1987
Perry (hoje com 79
anos) foi julgado cinco
vezes por dois homicí-
dios cometidos em Chi-
cago, em 1977. Os dois
primeiros julgamentos
terminaram sem decisão
unânime do júri. Num
terceiro julgamento, foi
condenado à morte. O
Supremo Tribunal do Illi-
nois anulou a condena-
ção, afirmando que Perry
e outro arguido tinham
sido privados de um jul-
gamento justo. O quarto
julgamento terminou
sem decisão unânime e,
no quinto julgamento,
Perry foi absolvido.
Em 2000, foi-lhe conce-
dida a absolvição.

Damon
Thibodeaux
JEFFERSON, LOUISIANA

15 ANOS NA PRISÃO,
TODOS NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 2012
Damon (hoje com 46 anos)
foi condenado pela vio-
lação e homicídio de uma
prima de 14 anos, depois
de ter confessado durante
um longo interrogatório
policial e sofrendo de pri-
vação do sono. Retractou-
-se posteriormente mas
foi condenado, apesar de
contradições entre a sua
confissão e os factos do
crime. Já estava há dez
anos no corredor da morte
quando o procurador de
Jefferson, em colaboração
com os seus advogados e
com o Projecto Innocence,
reabriu o processo e orde-
nou testes de DNA. Des-
cobriu-se que a rapariga
não fora alvo de agressões
sexuais e que o DNA reco-
lhido no local do crime
não era seu. A confissão
foi descartada.

INOCENTES 51
Ray
Krone
COMARCA DE
M A R I C O PA , A R I ZO N A

10 ANOS NA PRISÃO,
4 NO CORREDOR DA MORTE;
ABSOLVIDO EM 2002
Em Abril de 2002 Ray
(hoje com 64 anos) tor-
nou-se conhecido como
o centésimo homem
absolvido do corredor
da morte. Fora conde-
nado pelo homicídio
da gerente de um bar,
de 36 anos, assassinada
na casa de banho de
um estabelecimento
de Phoenix. Ray dera-
-lhe boleia para uma
festa dias antes. O DNA
encontrado no local do
crime não foi examinado.
A acusação baseou-
-se numa prova fraca:
uma marca de morde-
dura. Uma vez subme-
tido o DNA como prova
no novo julgamento, Ray
foi ilibado. O verdadeiro
homicida identificado
pelo DNA encontrava-se
já na prisão, por agredir
sexualmente e asfixiar
uma menina de 7 anos.
INOCENTES 53
Herman Herman (hoje com 48
anos) foi condenado
corredor da morte antes
de o Supremo Tribunal
estado que apresenta o
número mais elevado de
Lindsey em 2006 pelo roubo e
homicídio de um homem
da Florida anular as acu-
sações e absolvê-lo. O
pessoas absolvidas do
corredor da morte do
B R O WA R D, F LO R I DA
em Fort Lauderdale, em tribunal invocou ausência país. Dedica-se à pesca
1994. Não havia provas de provas e admoestou (aqui, com o enteado)
3 ANOS NA PRISÃO, que o ligassem ao caso. os procuradores por con- e aconselha jovens sobre
2 NO CORREDOR DA MORTE; Mesmo assim, Lind- duta indevida. Herman a maneira de evitarem
ABSOLVIDO EM 2009 sey passou dois anos no ainda vive na Florida, más decisões.

A condenação e a sentença de Sabrina foram versitário de 26 anos em Albuquerque. Segundo


anuladas em Agosto de 1992, depois de o Supre- o testemunho de uma empregada de limpeza de
mo Tribunal do Missíssipi decidir que o procura- um motel, o grupo violou-a e, em seguida, ela viu
dor fizera comentários impróprios sobre o facto o grupo matar o estudante no mesmo motel.
de ela não ter prestado depoimento em tribunal. O problema desta história deveria ter sido ime-
Foi ordenado um novo julgamento. diatamente constatado. Os motociclistas não se
O segundo julgamento, com melhores advoga- encontravam em Albuquerque quando William
dos, trabalhando pro bono, resultou numa absol- Velten, Jr., o estudante, foi assassinado. Estavam
vição. Um vizinho confirmou as tentativas deses- numa festa em Los Angeles e tinham uma multa
peradas feitas por Sabrina para reanimar o filho. de trânsito que o provava. Mais tarde, a empregada
Um perito médico testemunhou que as lesões da de limpeza retractou-se, revertendo a sua versão.
criança poderiam ter resultado desses esforços. Em Setembro de 1975, um vagabundo, Kerry
Foram também apresentadas provas de que Wal- Rodney Lee, confessou o homicídio de Velten,
ter tinha uma doença renal preexistente que terá possivelmente por se sentir culpado ao saber que
contribuído para a morte súbita. Sabrina saiu em cinco homens estavam no corredor da morte de-
liberdade depois de cinco anos na prisão, a pri- vido ao seu crime. A arma utilizada para matar
meira metade dos quais no corredor da morte. Velten correspondia a uma arma roubada ao pai
da namorada de Lee. Com base nesta prova, Ron e
que deixa perplexos os absolvidos e
U M A Q U E S TÃO os seus amigos motociclistas obtiveram um novo
o público em geral é a seguinte: existe uma fórmula julgamento e o procurador decidiu não pronun-
coerente para indemnizar as pessoas erradamente ciá-los pelo crime. Lee foi condenado pelo homi-
condenadas, em especial as sentenciadas à morte? cídio de Velten em Maio de 1978.
Na verdade, não existe. Um pequeno número de “Quando estava no corredor da morte, eu sabia
absolvidos recebeu milhões de euros de indemni- que era inocente, mas mesmo assim cheguei a
zação, dependendo das leis do estado que os conde- estar a nove dias da minha primeira data de exe-
nou, mas muitos receberam pouco ou nada. cução”, afirmou Ron, hoje com 73 anos. “Eu não
Poucos absolvidos do corredor da morte acom- tinha voz. Por isso, quando fui libertado, decidi
panham tanto a questão da indemnização como que passaria a vida a ser um espinho” cravado no
Ron Keine, que vive na região sudeste do Michi- flanco do sistema de justiça criminal.
gan. Ron resolveu dedicar parte da sua vida a con- Ron fundou várias pequenas empresas de su-
tribuir para a causa das pessoas condenadas por cesso após a sua absolvição e tem apresentado
erro judicial, que muitas vezes são reintegradas depoimentos no parlamento estadual para abo-
na sociedade com fracas capacidades de sobrevi- lir a pena de morte. Tendo recebido apenas uma
vência. Nem sempre foi tão bondoso na sua vida. indemnização de 2.200 dólares da comarca que o
Tendo crescido em Detroit, Ron pertencia a um pôs no corredor da morte, tem exigido a criação
bando de rufias. Antes dos 16 anos, já fora baleado de um sistema de indemnização para outros con-
e esfaqueado. Aos 21 anos, ele e o seu melhor ami- denados erradamente condenados à morte.
go decidiram atravessar o país numa carrinha. “Quando saem do corredor da morte, as pessoas
A longa festa rodoviária corria conforme os pla- sentem-se inúteis”, afirmou. “Sentem que não va-
nos quando, em 1974, ele e mais quatro motoci- lem nada. Não têm auto-estima e, normalmente,
clistas foram detidos no Oklahoma e extraditados saem com menos de vinte cêntimos no bolso. Nós
para o Novo México, onde foram pronunciados tentamos ajudá-los a encontrar os recursos de que
pelo homicídio e mutilação de um estudante uni- precisam para sobreviver.” j

54 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
UMA MINÚSCULA
A LT E R AÇ ÃO N O M A PA
DE UM ORGANISMO
G OV E R NA M E N TA L N O RT E -
-A M E R I C A N O P Ô S A Í N D I A
E O PAQ U I STÃO E M G U E R R A
N O C A M P O D E B ATA L H A
M A I S E L E VA D O D O M U N D O.
A IDENTIDADE DO AUTOR
D E S S A A LT E R AÇ ÃO E R A
DESCONHECIDA.
AT É AG O R A .

U M A F R O N T E I R A

56 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
N A S M O N TA N H A S

TEXTO DE FREDDIE WILKINSON


F OTO G R A F I A S D E C O RY R I C H A R D S
U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 57
58 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Soldados paquistaneses
descarregam um
helicóptero Mi-17 no
posto administrativo de
Paiju. Os aprovisionamen-
tos essenciais incluem
barris de combustível,
barras de aço para
construção e ovos
frescos. Para as tropas
posicionadas nos dois
lados da cordilheira de
Saltoro, os helicópteros
são “anjos descidos
do céu”, na versão
de um oficial.

PÁ G I N A S A N T E R I O R E S

Soldados da Brigada 62
do exército do Paquistão
descansam sob as Torres
Trango, na ponta do
glaciar Baltoro. “É um
terreno difícil”, diz um
deles. “Mas temos de
defender cada centíme-
tro da nossa pátria.”

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 59
O
O major Abdul Bilal, do Grupo de Serviços Especiais do Exérci-
to do Paquistão, acocorou-se com a sua equipa sob um aflora-
mento rochoso, nas profundezas da cordilheira de Caracórum.
Naquele dia 30 de Abril de 1989, um nevão puxado pelo vento
foi cercando 11 homens que se esforçavam por respirar o ar ra-
refeito a mais de seis quilómetros e meio acima do nível do mar.
À primeira vista, poderiam parecer montanhistas, não fossem
os casacos brancos de camuflagem que traziam vestidos e as
armas automáticas a tiracolo.
Qualquer montanhista sentiria inveja deste ponto elevado
de onde se usufruía de uma panorâmica das montanhas mais
colossais do mundo. O volumoso K2, o segundo ponto mais alto
da Terra, pairava acima do horizonte, 80 quilómetros a noroes- As cordas garantem a
te. No entanto, a maioria dos picos gelados permanecia sem segurança das equipas,
durante a travessia de
nome e por escalar, identificados nos mapas apenas por núme- alguns terrenos.
ros correspondentes à sua altitude. Soldados paquistaneses
Uma ascensão até esta posição, identificada como 22.158, amarram-se uns aos
outros para diminuir as
tê-los-ia obrigado a trepar uma vertente de rocha e gelo devas- probabilidades de se
tada por detritos de avalanchas. Quatro homens já tinham mor- perderem enquanto
rido enquanto tentavam fazê-lo. A equipa do major Bilal fora atravessam o glaciar
Gyong. Muitas fendas
transportada de helicóptero. Um a um, os homens desceram, são conhecidas pelo
pendurados em cordas, enquanto os helicópteros se esforça- nome de soldados que
vam por manter-se estáveis, pairando na atmosfera rarefeita morreram nas suas
profundezas.
com temperaturas negativas. Largada cerca de 450 metros
abaixo do cume, a equipa passou uma semana a reparar cordas
e a empreender missões de reconhecimento do terreno para se Nota do Editor:
A National Geographic
preparar para este momento decisivo. pediu ao exército
Alguns homens sugeriram que todos os soldados ficassem indiano que autorizasse
ligados por cordas de segurança. “Se nos ligarmos uns aos ou- a nossa visita ao glaciar
de Siachen, controlado
tros com cordas e um de nós for atingido, vamos todos parar pela Índia. O exército
lá abaixo”, contrapôs o major. “Usem crampons, mas nada de recusou.

60 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
cordas.” Procederam então a uma última verifica- “Não éramos assassinos gratuitos”, conta Bilal
ção para garantir que as peças móveis das armas três décadas mais tarde, ao lembrar a história na
não tinham congelado. Em seguida, pouco antes sua casa de Rawalpindi. “Só queríamos preservar
do pôr do Sol, com o vento a uivar atrás das suas o nosso território. Estávamos dispostos a defen-
costas, Bilal conduziu a equipa em fila indiana, dê-lo a todo o custo… Era o nosso dever patrióti-
subindo por uma cumeeira em direcção ao topo. co.” Ele tem a certeza de que os indianos dispara-
De repente, os rostos escuros, tisnados pelo sol, ram primeiro. Bilal e os seus homens devolveram
de duas sentinelas indianas espreitaram do alto os tiros. Um dos indianos caiu no solo.
de um muro de neve erigido num posto de obser- Os paquistaneses pararam de disparar e Bilal
vação improvisado. O major Bilal falou com elas dirigiu-se ao outro indiano. “Vai-te embora… Não
em urdu: “Estão rodeados por soldados do exérci- te vamos aprisionar nem te abateremos pelas cos-
to do Paquistão. Pousem as armas.” tas.” O major viu-o afastar-se lentamente, esfor-
Os dois indianos agacharam-se atrás do muro çando-se por respirar, até desaparecer na neblina.
de neve. O major prosseguiu: “O exército indiano Poucos repararam no incidente fora do Paquis-
vai custar-vos a vida!” Depois, ouviu a cadência tão e da Índia. Contudo, a Batalha do Pico 22.158
inconfundível dos dois cliques de uma AK-47 a possui uma distinção macabra: é o teatro de guer-
preparar-se para disparar. ra mais alto do mundo com mortos registados.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 61
D U R A N T E T R Ê S D É C A D A S , A Í N D I A E O PA Q U I S TÃ O E N V I A R A M J O V E N S
S O L DA D O S PA R A E ST E A M B I E N T E I N Ó S P I T O PA R A G UA R DA R E M

Vinte e oito anos mais tarde, eu e o fotógrafo


Cory Richards caminhávamos desajeitadamente
sobre a neve, coberta de marcas de botas, vindos O GEÓGRAFO
de um heliporto a cerca de sete quilómetros do lo-
cal onde decorreu aquele recontro. Como monta- No dia 27 de Junho de 1968, 21 anos antes de o
nhistas profissionais, já tínhamos escalado picos major Bilal conduzir a sua equipa ao cume do
em Caracórum e sabíamos os esforços e capacida- pico 22.158, foi enviado o Aerograma A-1245 ao
des necessários para sobreviver ali. Gabinete do Geógrafo, uma unidade pouco co-
Ao longo de mais de três décadas, a Índia e o nhecida instalada no Departamento de Estado
Paquistão têm posicionado jovens soldados nes- dos EUA, na Rua C NW, na cidade de Washin-
te ambiente inóspito, onde permanecem meses a gton. A comunicação foi parar à secretária de
fio, guardando zonas distantes e desabitadas. Os Robert D. Hodgson, um geógrafo-assistente de
observadores começaram a referir-se a este con- 45 anos.
fronto como conflito do glaciar de Siachen, devi- Assinada pelo encarregado de negócios da em-
do ao monumental manto de gelo que domina a baixada norte-americana em Nova Deli, a carta
paisagem onde se encontram as contestadas fron- começava da seguinte forma: “Em diversas oca-
teiras entre o Paquistão, a Índia e a China. siões… o governo da Índia apresentou os seus
Desde 1984, os dois contendores sofreram protestos formais à embaixada devido aos mapas
milhares de baixas. Um cessar-fogo foi acor- do governo dos EUA que foram distribuídos na
dado em 2003, mas dezenas de soldados ainda Índia, descrevendo a situação em Caxemira como
morrem todos os anos no local devido a desliza- ‘em disputa’, ou de alguma forma separada do res-
mentos de terras, avalanchas, desastres de heli- to da Índia.” No final, havia um pedido de orienta-
cóptero, doença de altitude e embolismos, entre ção quanto à forma de representar as fronteiras da
outras causas. No entanto, todos os anos sol- Índia nos mapas norte-americanos.
dados indianos e paquistaneses voluntariam- Para a Índia e o Paquistão, países nascidos do
-se alegremente para prestar serviço militar no derramamento de sangue que acompanhou a
local. “É considerado uma medalha de honra”, Partição (o termo para a dissolução e subdivisão
admitiu um oficial paquistanês. da Índia Britânica), os mapas eram uma questão
Livros, notícias e artigos académicos têm sido de identidade nacional. Para Hodgson e outros
escritos sobre o conflito e os autores comentam funcionários do Gabinete do Geógrafo, em con-
frequentemente o absurdo de existirem exérci- trapartida, tratava-se de uma tarefa profissional.
tos em combate sobre um território tão inútil. Todos os anos, o governo dos EUA publicava
E reconhecem que os dois inimigos teimosos, milhares de mapas. Era porventura o maior edi-
cegos pelo ódio, farão tudo o que puderem para tor de mapas do mundo. A responsabilidade de
se oporem um ao outro. representar as fronteiras políticas internacionais
No entanto, as circunstâncias que levaram as recaía sobre o Gabinete do Geógrafo.
duas partes a começar os combates nunca foram Devido a esta missão, o gabinete exercia con-
completamente explicadas. Passei quatro anos siderável influência sobre ramos poderosos do
a seguir um rasto de documentos recentemen- país, incluindo o Departamento da Defesa e a
te tornados acessíveis ao público e a entrevistar CIA. O gabinete detinha a derradeira autorida-
funcionários públicos, académicos e militares na de de representar o alinhamento das fronteiras
Índia, no Paquistão e nos Estados Unidos, numa políticas do mundo no que dizia respeito às
tentativa de desvendar o mistério obscuro, mas políticas oficiais norte-americanas e, por sua
importante, da saga de Siachen. Agora, eu e Cory vez, ajudou a moldar a forma como os outros
viemos ao Paquistão para verificarmos, em pri- países viam os EUA. Isso também implicava
meira mão, as consequências daquilo que pode que, entre as cerca de 325 fronteiras terrestres
acontecer devido ao simples acto de desenhar reconhecidas pelos EUA, as dúvidas cartográfi-
uma linha num mapa. cas mais difíceis recaíssem sobre os ombros de

62 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
UM TERRITÓRIO B R AV I O E D E S A B I TA D O .

Hodgson e dos seus colegas geógrafos. A resolu- Infelizmente para Robert Hodgson, o conjunto
ção destes dilemas exigia o rigor de um topógra- de problemas geopolíticos e fronteiriços surgidos
fo e a abordagem metódica de um investigador. sob a forma do Aerograma A-1245 representava
A expressão utilizada para definir esta tarefa é um dos mais difíceis do mundo, um “pesadelo
“recuperar fronteiras”, explica Dave Linthicum, cartográfico”, nas palavras de outro geógrafo. Tra-
que se reformou recentemente após mais de três tava-se da disputa sobre Caxemira.
décadas de trabalho como cartógrafo para a CIA
e para o Gabinete do Geógrafo. “Não andamos a quando
D E P O I S DA S E G U N DA G U E R R A M U N D I A L ,
traçar linhas ao sabor da nossa imaginação. An- os britânicos renunciaram ao controlo anterior-
damos a recuperar as fronteiras nos locais onde mente detido sobre o subcontinente indiano, toma-
estas foram marcadas em 1870, em 1910, ou seja lá ram a decisão de dividir a região em dois Estados
quando for, naqueles mapas e traçados antigos.” baseados nas duas religiões dominantes: a Índia
Hoje, Dave e os seus contemporâneos passam para os hindus e o Paquistão para os muçulmanos.
boa parte do seu tempo a examinar imagens de Comissões nomeadas pelo vice-rei britânico,
alta definição captadas por satélite. Em compa- Louis Mountbatten, e constituídas por represen-
ração, Robert Hodgson, antigo fuzileiro, iniciou a tantes dos dois partidos políticos mais influentes,
sua carreira a “caçar mapas” para o Departamento o Congresso Nacional Indiano e a Liga Muçulma-
de Estado enquanto esteve destacado na Alema- na, foram convocadas para determinar as novas
nha entre 1951 e 1957. A caça de mapas significa- fronteiras. A tarefa era impossível tendo em conta
va andar de um lado para o outro de automóvel, que milénios de sobreposição de culturas e impé-
revolvendo arquivos cheios de mapas bafientos e rios legaram à Ásia Austral populações mistas de
verificando, fisicamente, a localização de cidades hindus, muçulmanos e sikhs.
e marcos geográficos. Ao bater da meia-noite do dia 15 de Agosto de
Nos primeiros tempos da guerra fria, um 1947, a Índia e o Paquistão conquistaram a inde-
erro cartográfico poderia ter consequências ca- pendência. A violência eclodiu quando milhões
taclísmicas: aviões norte-americanos podiam de pessoas assustadas tentaram transpor as novas
ser enviados para bombardear a cidade errada fronteiras para se juntarem aos praticantes da sua
ou até o país errado, se a localização no mapa religião. O conflito mais sangrento aconteceu no
estivesse apenas alguns quilómetros desviada Punjab, o coração agrícola do subcontinente. No
ou se o topónimo fosse escrito de forma ligeira- meio do caos, o número de mortos poderá ter sido
mente diferente. superior a dois milhões de pessoas.
Dave Linthicum percebe bem a facilidade com Nos termos do plano de Mountbatten, um reino
que se pode cometer um erro. Há uma década foi montanhoso a norte do Punjab, oficialmente co-
incumbido de traçar a fronteira entre a Nicarágua nhecido como Principado de Jammu e Caxemira,
e a Costa Rica, acompanhando o rio San Juan até tinha um dilema próprio para resolver. Embora a
ao mar das Caraíbas. Marcou a fronteira ao longo população fosse esmagadoramente muçulmana,
de uma antiga via fluvial, e não do curso actual do Caxemira era governada por um marajá hindu e
rio, atribuindo erroneamente alguns quilómetros foi-lhe dada a possibilidade de escolher o país ao
quadrados de uma ilha à Nicarágua. O Google qual se juntaria. Semanas após a independência,
Maps adoptou a sua fronteira e, pouco depois, a porém, milícias de homens das tribos pashtun,
Nicarágua enviou soldados para ocupar a ilha. com o apoio do incipiente exército do Paquistão,
“Às vezes, quando trabalhava com os meus começaram a avançar em direcção ao palácio do
colegas, inquiríamo-nos sobre o motivo pelo marajá em Srinagar para reclamar Caxemira para
qual estávamos a perder tanto tempo com este o Paquistão. O marajá entrou em pânico e assinou
minúsculo [segmento de fronteira] e depois, um Instrumento de Adesão à Índia. A Índia reagiu
duas semanas mais tarde, aquele sítio minús- com o envio de transportes aéreos e travou as mi-
culo passava a ser muito relevante ou extrema- lícias. Semanas mais tarde, os novos países esta-
mente importante”, diz Dave. vam em guerra. (Continua na pg. 74)

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 63
Soldados paquistaneses
limpam as suas
espingardas G3A3
e comem bananas
durante uma sessão
de treino na carreira de
tiro de Sarfaranga, nos
arredores de Skardu.

64 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 65
66 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Uma partida de
críquete dá ânimo
e actividade aos
homens do Regimento
do Punjab do exército
do Paquistão em Gora I,
um posto administra-
tivo a quase 4.200
metros de altitude,
junto do glaciar Baltoro.
O Masherbrum, um
pico com 7.821 metros
que faz parte de
uma subcordilheira
de Caracórum, reluz
ao fundo, sob um
manto de neve e gelo.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 67
68 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Soldados paquistaneses
recebem instruções
sobre o manuseamento
de uma peça de
artilharia antiaérea
de 37mm. Embora as
hostilidades terminas-
sem em 2003, milhares
de soldados permane-
cem na região, prontos
a intervir. “Se retirarmos,
eles vêm”, resume um
soldado referindo-se
ao exército indiano.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 69
ÁSIA
PAQUISTÃO ÍNDIA

FRONTEIRAS EM DISPUTA
Quando a Índia Britânica foi dividida na Índia e no Paquistão em 1947, a
soberania dos dois países sobre Jammu e Caxemira não ficou definida
com clareza. Desde então, ambos os países têm reivindicado o terreno
glaciar montanhoso. A disputa sobre as fronteiras criou um problema
geopolítico no campo de batalha mais elevado do planeta.

TA J IQ UI STÃO

A F EGA N I STÃO C H I N A
UCHE C O MONTAN
INDOC HAS KUN
LUN
R
Fronteira GILGIT- D
reivindicada BALTISTÃO . Glaciar
C Siachen
pela Índia Gilgit A
R
A
PAQUISTÃO
Fronteira
Linha de fronteira C
C
reivindicada
contemporânea Ó pela Índia
R
U Linha de Hodgson
A Skardu M
Sh

do AKSAI CHIN
yo

In
Nu
k

CAXEMIRA X
bra

AD
E
AZ

Muzaffarabad Linha de controlo M Leh


Abbottabad I
Srinagar R A
JAMMU LADAKH
Islamabad E CAXEMIRA In
do
H

Fronteira
Indefinida
reivindicada
pelo Paquistão
I

Caxemira
Tanto a Índia como o Jammu
M

Paquistão reivindicam
Caxemira: a Índia administra
apenas a zona a sul da Linha
A

Fronteira
de Controlo; o Paquistão
controla a zona noroeste de L reivindicada
pela China
Caxemira. A China controla
A
Í N D I A
partes da zona oriental de
Amritsar
Caxemira, que conquistou à
Índia numa guerra travada
I
em 1962.
Shimla
A

50 km Chandigarh

Linha de controlo Fronteira contemporânea Linha de Hodgson

A Índia e o Paquistão acordaram Esta linha aproximada Robert Hodgson, funcionário do


uma linha de cessar-fogo em representa a frente militarizada Departamento de Estado dos
Caxemira em 1949, que foi a entre a Índia e o Paquistão, EUA, reconfigurou o mapa para
base para a Linha de Controlo a norte da Linha de Controlo. concluir a linha em 1968. Segundo
definida em 1972. A linha acaba Os mapas da National a sua linha, a zona de Siachen
no glaciar de Siachen, deixando Geographic usam esta linha estava controlada pelo Paquis-
um espaço aberto junto da de facto, pois é a que melhor tão. A Índia rejeita esta versão e
fronteira com a China. reflecte a realidade no terreno. ocupa o glaciar desde 1984.

70 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
K2
8.611m

Concordia
Gora II 4.600m

r Ba l t o r o
Gora I i a
Tor Gla c
r es T
ra n g o Urdukas
Masherbrum
7.821m

Base de Askole Paiju


21km 3.385m
ld u
Br a
Rio

LUTA POR UMA POSIÇÃO DE VANTAGEM


A Índia e o Paquistão criaram postos avançados e bases ao longo da cordilheira de Saltoro
e nos vales abaixo, sobretudo junto de passagens essenciais para o acesso ao glaciar de
Siachen, controlado pelos indianos. Estas posições militares rivais (juntamente com os
heliportos, trilhos, rotas de snowmobile e artilharia usadas para as abastecer e defender)
são visíveis em imagens de satélite de acesso livre.

Posição militar: Paquistão Índia

Combate Passagem Estrada

Em busca da frente
A análise de imagens de satélite das últimas duas décadas realizada pela National Geographic encontrou provas
de mais de uma centena de eventuais posições militares nesta zona intensamente disputada. As imagens mostram
três posições provavelmente utilizadas pelas forças indianas e uma usada pelo exército paquistanês.

1 Posição indiana próxima de Sia La (2005) 2 Posição paquistanesa perto do glaciar Kondus (2015)
5.910m 4.100m

Peças de artilharia,
Um conjunto de apontadas a posições
pequenas estruturas indianas,
enterradas em mais acima
neve profunda

100 m 100 m

3 Posição indiana perto de Bilafond La (2018) 4 Base indiana em Dzingrulma (2018)


5.560m 3.536m
Rastos de motos de
neve em direcção
a mais postos

Heliporto com espaço


Heliporto
para pelo menos dez
helicópteros na base
de Dzingrulma

100 m 100 m

RILEY D. CHAMPINE; SCOTT ELDER. RECONSTITUIÇÃO DIGITAL DO TERRENO: STEPHEN TYSON O MAPA CONTINUA NAS PÁGINAS SEGUINTES
FONTES: DAVE LINTHICUM; HARISH KAPADIA, SIACHEN GLACIER: THE BATTLE OF ROSES; MAXAR
TECHNOLOGIES; PLANET LABS INC.; GOOGLE; MICROSOFT; © OPENSTREETMAP CONTRIBUTORS U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 71
Tecnologia de topo
Gasherbrum I A campanha da Índia para
8.080m
conservar a vantagem no glaciar
Singhi Kangri é perigosa e cara, exigindo
Sia Kangri Indira Col 7.207m
5.840m helicópteros e motos de
Sela de
Conway neve. Alguns soldados têm de
empreender uma subida de quase

G l a c i a
Sia La 24 dias para chegar ao posto.
Baltoro Kangri 5.578m
7.302m
C r Shehr
S i Glaciar Teram
1 Ghent Kangri la cie
r
a c h
A Ghent G
e n

r
cie
Glaciar
R Lolofond

la
Sherpi Kangri G Bilafond La
Pe a k 3 6
5.450m
A Saltoro Kangri 1984
G on

c 1987
K

d u iar
la

7.741m
s
2 C
O
C 3
Gl
K a a c iar R Ó
ber
i D
. R
Dificuldades em altitude
S U
Avalanchas, doença de altitude,
ventos de 200 km/h e temperatu- A Glaciar
L T
Bilafond
M
O
ras de -55º C, muito mais
mortíferos do que os combates, R O
são responsáveis por quase 90%
das mortes. Os soldados têm de
mudar frequentemente de posto.
ik

nd
Glaciar Ch u m

P A Q U
afo
Karmanding

Bile
I S Vale d
T Ã
Lachhit
Ponto do deslizamento
de terras de 2012

O
Dumsum Base de Goma
3.277m

Sehat

Protegendo os vales
O Paquistão detém mais posições a
menor altitude, que são menos
exigentes e podem ser abastecidas
Posição militar: Paquistão Índia pelas estradas. As forças defendem
os seus vales com artilharia
Combate Passagem Estrada apontada às cordilheiras ocupadas
pelos indianos, mais acima.

CRÓNICA DO CONFLITO
1947–1949 1971 1984
Partição e primeira guerra De novo em guerra A Índia segue em frente
Pouco depois da Partição da Índia Outra guerra, travada em 1971, A Índia transporta soldados de
e da fundação do Paquistão em 1947, resulta na fundação do Bangladesh, helicóptero até passagens importan-
os dois novos países entram em mas o estatuto de Caxemira continua tes para prevenir a ocupação
guerra pelo antigo Principado de por determinar. Em finais de 1970, paquistanesa do glaciar. Após alguns
Jammu e Caxemira. Uma linha de a Índia inicia expedições de combates, são enviados soldados
cessar-fogo incompleta é traçada montanhismo para reforçar as suas para criar uma frente militar ao longo
dois anos mais tarde. pretensões sobre o glaciar de Siachen. da cordilheira de Saltoro.

72 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Fronteira reivindicada pela Índia

Passagem de Caracórum
5.575m

O custo da guerra Glaciar Rimo


As estimativas do número de mortos de
ambos os países divergem entre 2.500
até um máximo de 5.000. A Índia é quem
mais gasta para manter as suas posições: Rimo
cerca de 830 mil euros por dia. 7.385m l Rimo
Glaciar Su

n
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Base de Dzingrulma
5.685m
4
3.536m

1989 Rio
Nub
Combate do Gyong Kangri ra
Pico 22.158

Gyong

Glaciar G
yon
g

Gharkun
6.620m
Impacte ambiental
Décadas de uso transformaram
glaciares outrora prístinos em
Chulung La
5.547m lixeiras com resíduos e dejectos
humanos. Os resíduos aqui
G l a c i a r 1999
C h u l ung deixados podem ser arrastados
para o rio Indo.

NJ9842
A linha de controlo negociada
em 1972 termina neste ponto.
As posições militares para sul
não estão representadas.

A ESCALA VARIA NESTA PERSPECTIVA


A DISTÂNCIA ENTRE NJ9842 E INDIRA COL

Linha de N É DE 76 QUILÓMETROS

controlo

1987–1989 2003 2012


As maiores batalhas Declaração de cessar-fogo Desmoronamento mortal
Em 1987, a Índia captura um posto A Índia e o Paquistão acordam um Um deslizamento de terras arrasa um
paquistanês com vista para Bilafond cessar-fogo informal em toda a região acampamento do exército paquistanês
La, um acesso ao glaciar de Siachen. de Caxemira. As violações são comuns no vale de Bilafond, matando os 140
Dois anos mais tarde, o Paquistão na Linha de Controlo, mas não há homens que nele se encontravam.
conquista um cume junto do glaciar combates significativos na cordilheira Do lado indiano, onde há mais neve,
Chumik: o campo de batalha a maior de Saltoro desde uma batalha travada as avalanchas são frequentes, incluindo
altitude onde se registaram mortes. em 1999 junto de Chulung La. uma que matou dez soldados em 2016.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 73
PA R A O I N F L U E N T E G A B I N E T E D O G E Ó G R A F O D O S E U A , O S P R O B L E M A S
GEOP OLÍTICOS E FRONTEIRIÇOS DE CAXEMIRA ERAM UM

Depois de a poeira assentar, os exércitos rivais de falar com os gregos e dizer-lhes, com toda a
permaneceram frente a frente ao longo de uma sinceridade, que a sua posição era insustentável e
linha de cessar-fogo que serpenteava por uma depois dizer o mesmo aos turcos. Ele apresentava
região montanhosa no centro de Caxemira. Após a situação tal como existia.”
um tratado mediado pelas Nações Unidas, em Havia, porém, outro grande problema com a li-
1949, equipas de topógrafos militares da Índia e nha de cessar-fogo de Caxemira: ela não separava
do Paquistão, sob supervisão da ONU, foram en- por completo a Índia e o Paquistão. Em vez disso,
carregadas de traçar a linha de cessar-fogo. De- num ponto de coordenadas, designado NJ9842
pois, em 1962, as forças chinesas conquistaram durante o processo de demarcação, a linha parava
Aksai Chin, uma região desértica situada a gran- abruptamente a quase 60 quilómetros da fron-
de altitude no canto oriental de Caxemira, atrapa- teira com a China. Esta linha sem fim é única na
lhando ainda mais a questão das fronteiras. geografia mundial.
Quando o aerograma enviado por Weathers- A equipa de topógrafos teve boas razões para
by foi recebido, em 1968, Robert Hodgson viu-se não avançar. Aquele derradeiro troço de 60 quiló-
a braços com um problema complicado: como metros atravessava o coração montanhoso do Ca-
deveriam os EUA representar nos seus mapas a racórum. Não havia ali populações permanentes
situação confusa? Se aceitasse as reivindicações para proteger, conhecimento de recursos naturais
dos funcionários públicos indianos, Caxemira para explorar, nem acessos fáceis para construir
pertenceria à Índia na sua totalidade. Se seguis- infra-estruturas militares. Em vez de apresentar
se a Resolução 47 da ONU, como defendia o Pa- uma linha definitiva, o tratado final fornecia ape-
quistão, Caxemira era uma entidade separada, a nas uma orientação vaga da terra além de NJ9842:
aguardar a realização de um referendo público “… dali para norte até aos glaciares.”
para decidir a qual país se juntaria. Caso decidisse Com efeito, havia muitos glaciares a norte de
reproduzir a situação realmente vivida no terre- NJ9842, mas de todos o maior – e estrategicamen-
no, Caxemira seria partida em duas, sob a jurisdi- te mais importante – era o Siachen, um enorme
ção efectiva dos exércitos da Índia e do Paquistão, e serpenteante rio de gelo que atravessa a região
com um pequeno recanto controlado pela China. oriental de Caracórum. “Na época, era uma es-
pécie de espaço em branco no mapa”, diz Dave
os diplomatas
AO LO N G O DA D É C A DA D E 1 9 6 0, Linthicum. “Em 1949, a ideia de que este terreno
indianos protestaram contra a representação de merecia ser disputado teria sido considerada ab-
Caxemira nos mapas norte-americanos, como um surda por todas as partes envolvidas.”
território ocupado ou separado do resto da Índia. Durante o Verão tórrido de 1968, enquanto os
“A posição correcta é que a totalidade do estado de EUA se debatiam com a guerra do Vietname e a
Jammu e Caxemira faz, legalmente, parte da Índia, agitação política interna, Robert Hodgson con-
com o Paquistão e a China numa ocupação ilegal sultou outros gabinetes do Departamento de Es-
de áreas a oeste e a norte da linha de cessar-fogo”, tado para decidir a forma de representar a linha
referia uma reclamação apresentada em 1966. de cessar-fogo, incluindo a questão incómoda do
Após a Partição, os EUA e o Paquistão torna- espaço vazio com cerca de sessenta quilómetros.
ram-se aliados na guerra fria. Poderá ter pare- No dia 17 de Setembro, quase três meses depois
cido que os EUA favoreciam o Paquistão nesta de receber o aerograma de Weathersby, Robert
contestação. Contudo, nenhuns documentos redigiu a sua resposta numa carta que permane-
descobertos até à data revelam que tais conside- ceu confidencial até 2014. “Há muito que o De-
rações políticas tivessem influenciado o Gabinete partamento reconhece as dificuldades associadas
do Geógrafo. Em 1968, Robert Hodgson já se en- à elaboração de um mapa com as fronteiras in-
volvera em muitas questões sensíveis relativas a ternacionais da Índia que não ofenda o governo
fronteiras. “Ele tinha uma certa reputação”, con- anfitrião e, ao mesmo tempo, não comprometa as
tou Bob Smith, contratado pelo primeiro para posições políticas assumidas pela América”, refe-
integrar o gabinete em 1975. “Hodgson era capaz ria a introdução.

74 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
“ P E S A D E L O C A R T O G R Á F I C O ” .

Em seguida, com secura e autoridade, o espe-


cialista apresentava as suas próprias directrizes
para representar a linha de cessar-fogo de 1948 O MONTANHISTA
em todos os mapas oficiais dos EUA. Depois,
acrescentou: “Por fim, a linha de cessar-fogo deve No Verão após o meu casamento, eu e a minha
ser prolongada até à passagem de Caracórum para mulher viajámos até à Índia para realizarmos as
que ambos os Estados fiquem ‘fechados’.” Numa primeiras ascensões no vale de Nubra, nas ime-
única frase, Hodgson criou uma linha recta que diações da zona militarizada do exército india-
atravessava montanhas cobertas de neve e deser- no em redor de Siachen. À semelhança de todos
to de altitude, rumo a nordeste, para ligar NJ9842 os outros montanhistas que já vieram a este lo-
à passagem de Caracórum, um antigo ramal da cal nos últimos 40 anos, seguíamos as pegadas
Rota da Seda situado na fronteira com a China. de Bull Kumar.
Desconhece-se a razão que levou Hodgson a Com cerca de 1,65 metros de altura, sobran-
agir assim: não deu quaisquer explicações na sua celhas cinzentas hirsutas e uma gargalhada
carta e não foram encontrados quaisquer aponta- profunda e gutural, Narinder “Bull” Kumar,
mentos sobre a decisão. No entanto, ele deve ter de 87 anos, acumulou muitas aventuras na
ponderado razões práticas evidentes. sua famosa carreira militar. Embora perdesse
Em 1963, o Paquistão e a China tinham assi- quatro dedos dos pés devido a queimaduras
nado um acordo bilateral estabelecendo a deli- de gelo, liderou várias expedições ambiciosas
mitação sudeste da sua fronteira partilhada de ao longo das décadas de 1960 e 1970, incluin-
Caxemira na passagem de Caracórum e, por isso, do uma tentativa de ascensão ao monte Eve-
muitos observadores presumiram que esse seria o reste. De caminho, subiu ao posto de coronel
ponto final lógico para uma fronteira entre a Índia do exército indiano e tornou-se uma espécie
e o Paquistão. Contudo, uma vez que a Índia não de celebridade, tendo conhecido a primeira-
tivera nada que ver com o tratado, este “era inváli- -ministra Indira Gandhi e travado amizade
do”, afirma Dave Linthicum. com Tenzing Norgay, que, segundo Edmund
Dave suspeita que o desejo do cartógrafo de re- Hillary, foi a primeira pessoa a alcançar o
solver a ambiguidade poderá ter representado um cume do Evereste.
papel na decisão. “Algumas pessoas padecem de Antes da morte de Kumar, em Dezembro do
síndrome de completude ou obsessão pela com- ano passado, visitei-o em Deli para saber mais
pletude e precisam de preencher as lacunas.” Se sobre o seu encontro com dois aventureiros ale-
ambos os países ficassem “fechados” pela linha mães que o abordaram em 1977 com um plano
de cessar-fogo, como Robert Hodgson escreveu, para fazer a primeira descida do rio Nubra, uma
a linha teria de chegar à China para formar uma torrente leitosa que corre a partir de Siachen.
fronteira completa e a passagem de Caracórum Kumar escreveria mais tarde, nas suas memó-
seria o ponto mais identificável da divisão. rias, que quando um dos alemães desdobrou um
No entanto, o cartógrafo também parece ter mapa para lhe explicar o seu plano, “os meus
percebido que o seu ajuste fronteiriço seria po- olhos ficaram colados ao mapa”. Ele perguntou
lémico. Numa carta enviada à CIA, pediu a má- ao alemão onde tinha obtido o mapa e este dis-
xima discrição. “Preferíamos que a mudança se-lhe que era um mapa norte-americano, usa-
ocorresse de forma gradual para podermos re- do em todo o mundo.
duzir ao mínimo possível as complicações inter- Kumar não comentou, mas não tardou a aper-
nacionais”, escreveu. ceber-se do problema flagrante: “A linha de con-
“Afinal, ele deveria ter pensado no óbvio”, disse trolo, que se chamava então Linha de Cessar-fo-
Dave Linthicum. “Sucessivos mapas seriam, em go e terminava no ponto NJ9842, fora maliciosa,
breve, publicados e muitos deles disponibilizados inadvertida ou deliberadamente [alterada].”
ao público, mostrando precisamente todas as pro- Foi assim que “Bull” Kumar descobriu a linha
vas visuais do texto da nova política.” de Hodgson.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 75
Um trilho bem mantido
dá acesso a um pátio
de oração rochoso no
posto de Gora I.
“Nunca falamos com
as nossas famílias sobre
as dificuldades”, diz
um soldado. “Dizemos
apenas que estamos
felizes e a aproveitar
a vida.”

Pouco depois, Kumar reuniu-se com o tenen- que instruam as vossas tropas a retirar para trás
te-general M.L. Chibber, à época director de da Linha de Controlo a sul da linha que une o Pon-
operações militares da Índia. “O Paquistão está to NJ9842 e a passagem de Caracórum NE 7410
a ocupar milhares de quilómetros quadrados de imediatamente. Dei instruções às minhas tropas
terra por sua conta e nós não sabemos de nada!”, para mostrarem o máximo de contenção. Mas
anunciou. Pouco depois, Kumar e Chibber des- quaisquer atrasos na desocupação do território
cobriram mais provas no “American Alpine Jour- criarão uma situação grave.”
nal”: uma equipa japonesa de montanhismo, O exército do Paquistão reivindicava agora a
acompanhada por um capitão do exército paquis- linha de Hodgson como fronteira. Por essa altu-
tanês, visitara a região superior de Siachen dois ra, já a linha fora incluída em dezenas de mapas
verões antes. Kumar ofereceu-se para conduzir impressos por diversas agências do governo nor-
uma patrulha disfarçada de expedição de mon- te-americano. A influência silenciosa do Gabinete
tanhismo para reunir informações. Seguiram-se do Geógrafo era tal que a fronteira por si defini-
outras patrulhas indianas em finais da década de da chegara aos editores comerciais. No início de
1970 e no início da década de 1980. Durante esse 1981, apareceu no “National Geographic Atlas of
período, o Paquistão autorizou várias expedições the World” como uma minúscula linha pontilha-
de montanhismo ao glaciar. Em Agosto de 1983, da com cerca de dois centímetros de comprimen-
o exército paquistanês enviou uma carta de pro- to. Aliás, a National Geographic só deixou de mos-
testo formal ao seu homólogo indiano: “Pedimos trar a linha na edição de 2020 do atlas.

76 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
a linha da frente na batalha pelo glaciar de Sia-
chen e moldou o arquipélago de postos avança-
dos militares que actualmente define o impasse.
Os relatos das linhas da frente do conflito de Sia-
chen são muitas vezes embelezados por noções
românticas de patriotismo, mas passar semanas
ou meses a grande altitude nada tem de român-
tico. A cerca de 5.500 metros acima do nível do
mar, o organismo humano, carente de oxigénio,
começa a entrar em insuficiência. É uma questão
de tempo até a morte se tornar inevitável.
No entanto, em Siachen e nos glaciares em re-
dor, os dois exércitos ocupam mais de cem postos
permanentes a grande altitude. A manutenção
destes acampamentos exige um esforço logístico
estrondoso: é como planear mais de cem expedi-
ções de montanhismo em simultâneo e mantê-las
continuamente.
Em 2011, Cory Richards acampou junto de um
dos postos avançados paquistaneses, durante
uma expedição de Inverno ao Gasherbrum II. Ali
encontrou os destroços congelados de um heli-
cóptero que se despenhou e um pelotão de solda-
dos curiosos vivendo em acampamentos esparta-
nos. “Tínhamos Internet, por isso eles vinham ter
connosco e bebíamos chá juntos,”, diz.
Foi, em parte, esse encontro que nos levou a pe-
dir ao governo do Paquistão que nos deixasse do-
cumentar a vida na fronteira de Siachen. Ao longo
dos anos, outros jornalistas têm percorrido este
trilho e tornou-se claro que o exército do Paquis-
tão tinha um guião bem ensaiado para os visitan-
tes quando nos sentámos para assistir à primeira
de várias sessões de esclarecimento realizadas ao
No entanto, Robert Hodgson não viveu tempo longo da nossa visita a algumas bases.
suficiente para assistir ao recrudescimento das “Contra todas as adversidades, os defensores
tensões causado pela sua linha. Em Dezembro de do K2 ocupam as posições militares mais altas de
1979, meses após a publicação da notícia da expe- qualquer parte do mundo”, disse-nos um capitão
dição de Kumar, Hodgson, que fora promovido a da Brigada 62. “Seria uma boa referência para in-
director do Gabinete do Geógrafo, morreu de ata- cluírem na vossa reportagem.”
que cardíaco. Tinha 56 anos. A partir do seu quartel-general, na cidade de
Skardu, a linha de abastecimento da Brigada 62
serpenteia pelo vale de Braldu acima até à passa-
gem de Conway, a quase seis mil metros de alti-
tude. A última metade da viagem só é possível a
O SOLDADO pé ou de helicóptero. O exército fez-nos caminhar
para nos ambientarmos.
No dia 13 de Abril de 1984, o exército indiano lan- O trilho parece fácil no mapa: um vale amplo
çou a Operação Meghdoot. Recorrendo a helicóp- e quase sem árvores, rasgado por campos de pe-
teros, o exército destacou um pelotão de soldados dregulhos e riachos de águas borbulhantes. “Para
para ocupar Bilafond La. Não tardou a ocupar si, é divertimento, mas nós fazemos isto todos
duas outras. Com estas acções, a Índia passou a os dias,” disse-me um soldado na primeira ma-
controlar a cordilheira de Saltoro, que se tornaria nhã de caminhada. (Continua na pg. 82)

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 77
78 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Soldados atravessam
um vale glaciar lateral
a caminho de Gayari,
onde um campo de
gelo semelhante soltou
uma avalancha acima do
quartel-general de um
batalhão paquistanês
em 2012. O gelo engoliu
o acampamento,
matando 140 pessoas.

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 79
80 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Quatro homens alistados
no exército mantêm
o posto de Urdukas,
empoleirado no glaciar
Baltoro, a 4.000 metros.
Os soldados debatem-se
com o tédio, mas o
exército do Paquistão
orgulha-se da sua
disciplina. “Se nos
mandarem escalar uma
montanha, avançamos”,
diz um oficial. Os postos
administrativos
encontram-se junto de
linhas de abastecimento
logístico, enquanto
os postos de observação
se situam nas linhas
da frente, ou nas suas
imediações, com
vista para o inimigo.
U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 81
“ T E M O S D E LU TA R C O N T R A A N AT U R E Z A AQ U I E A N AT U R E Z A
É I M P R E V I S Í V E L”, D I S S E , P E S A R O S A M E N T E , O M É D I C O .

Quando chegámos a um acampamento conheci- vermelha. Avisamos: ‘Por favor, pare de fazer o
do como Paiju, sentíamos as articulações rígidas que está a fazer. As nossas armas estão prontas
e os pés doridos. para disparar.’ Em resposta, eles levantam uma
As condições de vida no local eram relativa- bandeira branca para dizer ‘OK, vamos parar.’”
mente confortáveis. Um gerador e algumas ante- Caso contrário, cada dia é medido em cigarros e
nas de satélite permitem uma ligação não fiável chávenas de chá, jogos de voleibol ou críquete,
ao mundo exterior. Nas instalações dos oficiais, orações e tarefas mundanas.
havia um emaranhado de fios desajeitadamente Tanto a Índia como o Paquistão aprenderam
ligado a um pequeno televisor para permitir ses- como tratar dos seus soldados neste ambien-
sões nocturnas de entretenimento. te, ao longo de 35 anos de guerra na montanha.
“Usamo-la para ver filmes motivacionais”, dis- Os médicos do exército consideram que o envene-
se-nos um homem. namento por monóxido de carbono e os embolis-
“Como o ‘Rambo’?”, perguntou Cory, a brincar. mos são males comuns, causados pelo facto de os
“Sim, exactamente”, respondeu o homem, com soldados passarem demasiado tempo sedentários
uma expressão séria. em postos soterrados por neve. Agora, os soldados
Noutros postos, a vida não é tão fácil. O minús- são obrigados a praticar exercício diariamente.
culo posto avançado de Urdukas, constituído por “Cada POP [Procedimento Operacional Padrão]
três iglôs prefabricados de esferovite, encarrapi- foi escrito com sangue”, disse um coronel.
tados sobre uma espectacular plataforma a cerca Antes de virem para aqui, muitos soldados que
de 4.000 metros, é ocupado apenas por quatro ho- conhecemos tinham travado combate em zonas
mens. “É muito aborrecido”, sussurrou um solda- tribais na fronteira com o Afeganistão, no âmbito
do a outro enquanto comíamos roti e um guisado do esforço do governo paquistanês para contra-
de galinha fibrosa. “Não há telemóveis, nem fil- riar o terrorismo islâmico. “Aqui, temos de lutar
mes.” Durante o Inverno, Urdukas recebe apenas contra a natureza e a natureza é imprevisível”,
quatro horas e meia de luz solar por dia. O acam- disse, pesarosamente, o médico. “Os seres huma-
pamento está rodeado por centenas de bidões de nos são mais fáceis.”
querosene – essencial para a vida dos soldados,
fornecendo-lhes combustível para cozinhar e pro- mais de um ano depois de a
N O O U TO N O D E 1 98 5,
porcionando-lhes aquecimento. No interior de Índia tomar posse de Siachen e 17 anos após a publi-
cada abrigo, tudo está coberto de fuligem. Aqui as cação da linha de Hodgson, um diplomata indiano
únicas extravagâncias são o naswar (uma varieda- enviou um pedido oficial. Esse pedido acabou por
de básica de tabaco de mascar) e o ludo, um jogo chegar à secretária do geógrafo do Departamento
paquistanês de tabuleiro. “Quando há oficiais, é de Estado, George Demko, que, tal como Robert
mais confortável”, resumiu um soldado. Hodgson, fora fuzileiro e servira na Coreia.
No dia seguinte, encontrámos uma dezena de Passado mais de um ano, George fez uma ac-
soldados a descer, após o fim da patrulha de três tualização nas directrizes cartográficas, declaran-
semanas. Vinham com um ar festivo. Conversei do que o Gabinete do Geógrafo revira a represen-
com um capitão simpático, médico, enquanto ele tação da fronteira entre a Índia e o Paquistão nos
fumava um cigarro. “Correu tudo bem”, disse. “Ti- mapas norte-americanos e encontrara “uma in-
vemos de evacuar três homens com edema cere- coerência na representação e na categorização da
bral de grande altitude, mas isso é normal.” fronteira pelas diversas agências de produção [de
Até 2003, os dois exércitos trocaram regular- mapas].” Com vista a corrigir esta representação,
mente entre si fogo de barragem de artilharia e escreveu: “A Linha de Cessar-Fogo não será pro-
disparos de franco-atiradores, mas o cessar-fogo longada até à passagem de Caracórum como nas
acordado nesse ano deixou pouco que fazer aos antigas práticas cartográficas.” A linha de Hodg-
soldados. “É como um jogo de futebol”, disse ou- son foi apagada. Embora fosse retirada dos mapas
tro capitão sobre a vida na linha da frente. “Geral- dos EUA, o Gabinete do Geógrafo não explicou se-
mente, fazemos avisos levantando uma bandeira quer a razão pela qual ela alguma vez aparecera.

82 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
“ O S S E R E S H U M A N O S S Ã O M A I S FÁ C E I S . ”

Alguns anos após a correcção de George de uma base de artilharia situada a dois quiló-
Demko, Robert Wirsing, um académico da Uni- metros e meio de distância, registou-se um es-
versidade da Carolina do Sul que acompanhara trondoso som de derrocada.
de perto o conflito de Siachen, começou a fazer “Foi inimaginável”, contou o major-general
perguntas sobre a linha que outrora figurara nos Saqib Mehmood Malik. Cento e quarenta ho-
mapas norte-americanos e depois desaparecera. mens alojados numa dezena de edifícios fica-
Tendo descoberto, através de um general indiano, ram sepultados debaixo de mais de 30 metros
que o governo da Índia pedira uma explicação e de rocha, gelo e neve. Passaram-se meses até o
não obtivera resposta, enviou cartas ao Departa- primeiro corpo ser encontrado.
mento de Estado e à Agência Cartográfica da De- Eu e Cory abrimos caminho pelo campo de de-
fesa, inquirindo-os sobre as suas origens. tritos ainda perigosamente instável. Sinais toscos,
Em 1992, o sucessor de Demko, William Wood, feitos de pedaços tortos de telhado, assinalavam a
respondeu. “Nunca houve uma directriz dos EUA localização prévia de casernas – cada um pintado
para mostrar uma fronteira de qualquer tipo fe- com o número de cadáveres ali recuperados. Fi-
chando a lacuna existente entre NJ 9842 e a fron- quei a pensar: terão estas pessoas morrido devido
teira da China”, escreveu. Wirsing não insistiu. ao erro de um geógrafo?
A linha de Hodgson “representou definitiva-
mente um papel na guerra que se seguiu. Não a
causou, mas foi, decididamente, um factor”, diz
Dave Linthicum. Foi ele que descobriu o aerogra-
O RESCALDO ma de Hodgson enterrado nos registos do Depar-
tamento de Estado. Durante anos, Dave manteve
Os funcionários públicos paquistaneses jamais uma fotografia de Robert Hodgson afixada no seu
aceitaram levar-nos, a mim e a Cory, a qualquer gabinete, como “lembrete para não fazer estrago”
local perto da linha da frente de onde pudéssemos e “ser responsável”, diz.
vislumbrar o ponto NJ9842. Não sei ao certo o que Robert Wirsing concorda que a linha repre-
eu esperava ver que não pudesse distinguir am- sentou um papel no conflito, mas acrescenta:
pliando a imagem do Google Earth. É apenas uma “Não tenho razões para pensar que alguém te-
designação criada por seres humanos, um ponto nha deliberadamente decidido entregar este ter-
solitário numa cumeeira glaciar com um acampa- ritório ao Paquistão.” Diz também não ter razão
mento do exército da Índia nas imediações. para acreditar que venham a ser brevemente ne-
Em vez disso, os funcionários ofereceram-se gociados quaisquer acordos de paz. Os últimos
para nos mostrar outro ponto. Subimos para os acontecimentos, incluindo a violência contínua
jipes e percorremos, aos solavancos, uma estrada em Caxemira e as tensões fronteiriças entre a Ín-
de terra batida até ao cavernoso vale de Bilafond. dia e a China, tornam improvável a resolução do
Directamente acima de nós, cumes de granito problema nos próximos tempos.
brilhantes reluziam sob o sol da manhã, embo- Wirsing não concorda que a disputa seja irra-
ra o solo do vale permanecesse obscurecido por cional. “Não atribuo grande parte daquilo que se
sombras profundas. Parámos na margem de um passa entre a Índia e o Paquistão às emoções…
grande campo coberto de pedregulhos. Acho que os países estão lá por boas razões, até
Neste local, pouco antes das 2h30 da madruga- mesmo estratégicas… tendo em conta a fragilida-
da de 7 de Abril de 2012, o exército do Paquistão de das fronteiras naquela região.”
sofreu a sua pior derrota no conflito de Siachen, Com efeito, enquanto a humanidade se esforçar
embora o sucedido nada tivesse que ver com os por dividir o nosso planeta em polígonos bem de-
indianos. Um enorme volume de terras despren- lineados, algumas dessas linhas estão destinadas
dera-se e desmoronara-se sobre o acampamento a ser contestadas e homens como Abdul Bilal e
que servia de quartel-general a um batalhão. De “Bull” Kumar serão destacados para combater por
acordo com o testemunho prestado por soldados elas. A geografia dita os seus próprios termos. j

U M A F R O N T E I R A N A S M O N TA N H A S 83
84
O CICLO INCRÍVEL DA

SARDINHA
PORTUGUESA
A sardinha tem um importante papel cultural
e económico em Portugal, mas tem de
ser gerida como um tesouro nacional.

T E XTO E FOTO G RA F I A S D E JOÃO RODRIGUES

De aspecto translúcido e
vulnerável, uma larva de
sardinha, com escassos
dias de idade, nada junto
da superfície da água em
busca de alimento.

85
A frota de pesca do cerco
portuguesa com cerca
de 130 embarcações
é responsável por 98%
das capturas de sardinha,
deixando a restante per-
centagem para métodos
como a arte xávega
e as redes de emalhar.
88 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Aterrorizadas, milhares
de sardinhas tentam
escapar de um abraço
mortal cada vez mais
apertado.

HARPIAS 89
Nos arredores de
Lisboa, as portas
dos casebres de
uma aldeia abrem-
-se face ao som de
burros carregados
e ofegantes.
Junto deles, almocreves esvaziam cestas, enchendo
de alegria os lares por onde passam. De repente, o
eco da palavra “Acabou!” gera revolta em dezenas
de rostos. Em Oeiras, a carta de um mensageiro
A sonda da traineira
destinada ao palácio pombalino enche de ansiedade Mário Luís identificara
o espírito de Sebastião José de Carvalho e Melo. um cardume de cara-
À luz das velas de um castiçal, entre as linhas de um paus de várias tone-
ladas, que prometia
prenúncio pesaroso, pode ler-se a informação de que garantir o sustento dos
mais uma quantidade avultada de sardinha salgada pescadores naquela
e prensada acabara de atravessar a fronteira pelas semana. No entanto, a
tripulação foi surpreen-
mãos de contrabandistas com ligações a Espanha. dida por sardinhas no
Provavelmente cansado de episódios como este seu lugar. Descartadas
que, além de afectarem os cofres do país, traziam de imediato, foram pou-
padas por estarem no
mais fome à população, e movido por pensamentos período de defeso.
monopolistas, o marquês de Pombal decide fundar
a Companhia Geral das Reais Pescas do Reino do
Algarve, no dia 15 de Janeiro de 1773. Inicia-se uma
nova era na relação das comunidades litorais com
os recursos do mar e sobretudo com a sardinha.
Um conjunto especial de elementos oceanográfi-
cos faz da costa continental portuguesa uma gigante
metrópole selvagem, densamente povoada por vida
marinha. A baixa temperatura, a salinidade elevada,

90 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
a disponibilidade de oxigénio e a abundância de período romano. Os tanques de salga e de prensa de
nutrientes permitem que estas águas fervilhem de sardinha em Tróia são alguns dos melhores exemplos.
fitoplâncton e zooplâncton, as presas predilectas Estas técnicas de conservação ligadas umbilicalmente
de diversos peixes pelágicos. Da superfície até cem à existência de sal permitiram o aumento da disponi-
metros de profundidade, vastos cardumes de sardi- bilidade de um recurso natural valioso que, ainda hoje,
nhas dominam a plataforma continental, ultrapas- se encontra muito presente na cultura gastronómica
sando por vezes o incrível peso de dez toneladas e o e popular dos actuais descendentes dessas culturas.
equivalente à área de um campo de futebol. “A abundância deste peixe, a extensa linha de
Se abundância significa realeza, a sardinha é indis- costa e a tradicional afinidade para as artes de pesca
cutivelmente a rainha do mar português. Uma sobe- criaram em Portugal condições favoráveis ao con-
rana magnetizante de civilizações que habitaram sumo generalizado deste alimento”, afirma Álvaro
este território desde os tempos dos fenícios. Garrido, em frente do seu computador, durante a
De acordo com o especialista em História das Pescas nossa conversa digital. Prova disso é a sua presença
e Economia do Mar da Universidade de Coimbra, assídua na mesa dos portugueses. Uma tradição que
Álvaro Garrido, existem registos ancestrais arqueo- se estende à literatura, música, pintura ou mesmo
lógicos em Portugal que evocam métodos milenares artes decorativas, fazendo da sardinha uma peça
de captura e conserva de sardinha, especialmente do valiosa do património cultural português.

SARDINHAS 91
Como todos os tesouros, também a sardinha translúcidas de cinco milímetros e aspecto vulne-
precisa de ser cuidada e protegida. No entanto, a rável. Entre a perseguição de presas e fintas a peixes
turbulência das últimas décadas fez soar os alarmes e aves marinhas, passam por um período de meta-
da comunidade científica. Segundo o presidente do morfose de quarenta dias para se transformarem em
Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), juvenis já com o aspecto típico que conhecemos da
Miguel Miranda, a captura e o consumo excessivo sardinha. De corpo alongado e subcilíndrico como
deste animal, aliado aos seus ciclos de abundância um submarino e escamas no dorso e no ventre que
irregulares, podem ameaçar a imagem de fartura a relembram uma cota de malha, este animal forma
que tanto estamos habituados durante importantes densas nuvens de prata que ocupam uma posição
celebrações, como as festas dos Santos Populares. decisiva na teia alimentar do oceano.
Atingem o estado adulto entre o primeiro e o
ao largo do cabo de São
C I N C O M I L H A S N ÁU T I C A S segundo ano de existência, altura em que se repro-
Vicente, a noite quente de ventos calmos e o céu duzem pela primeira vez. Embora consigam viver
estrelado não são motivos para aligeirar a expres- 14 anos e atinjam 27 centímetros de comprimento,
são focada de Fábio Mateus, um jovem pescador, na costa portuguesa são mais comuns as sardinhas
mestre da traineira Flor de Burgau. Embarquei na jovens com um máximo de 7 anos e 22 centímetros.
sua companhia com o objectivo de documentar Classificada como pouco preocupante pela União
possíveis evidências da recuperação da população Mundial para a Conservação da Natureza, esta
de sardinha da costa portuguesa. Uma hipótese espécie precisa, porém, de continuar a nadar pela
que Fábio Mateus, tal como a maioria do sector vida se quiser manter este estatuto.
piscatório, defende vigorosamente. “É verdade que O segredo que faz da sardinha um maná tão
passámos por tempos de crise, mas agora o mar precioso da celebrada dieta mediterrânea é a sua
está cheio de sardinha”, conta o mestre, enquanto gordura que vai muito além do paladar aprazível.
manobra a embarcação. A ausência de peixe a bordo Rica em ácidos gordos polinsaturados de cadeia
parece destoar destas palavras. longa do tipo ómega 3, nomeadamente o EPA e o
Escassos minutos antes de o Sol espreitar no DHA, que se acumulam no músculo e em redor das
horizonte, a viagem que dura desde as duas horas vísceras, representa uma fonte de benefícios para
da madrugada parecia destinada ao fracasso. De aqueles que a consomem.
súbito, uma mancha vermelha no monitor do sonar Apesar de estudos recentes da Associação Ame-
instala a agitação a bordo. O toque de uma buzina ricana de Cardiologia terem desmitificado a sua
espalhafatosa desperta a tripulação de seis homens suposta eficácia contra doenças cardiovasculares,
que dormitavam debaixo do convés e que pronta- a lista de atributos terapêuticos destes agentes pro-
mente se fazem às redes. motores de bem-estar mantém-se robusta e reco-
A nuvem de gaivotas em alvoroço e os jactos de mendável. Da redução do colesterol e da pressão
água provocados pelo respiração de um grupo de arterial ao reforço do sistema imunitário, passando
golfinhos-roazes são o meu sinal de confirmação pela prevenção de doenças crónicas como a doença
para entrar na água. Sustendo a respiração e de inflamatória do intestino e a artrite reumatóide,
câmara na mão, mergulho nas profundezas de um estes ácidos desempenham ainda funções funda-
duelo entre o homem e a natureza. É a admirável mentais no nosso cérebro. A redução do risco de
pesca por arte de cerco. doenças psiquiátricas como a esquizofrenia, e de
Desde a sua génese que a sardinha está destinada doenças neurodegenerativas como o Alzheimer,
a um ciclo de vida desafiante, marcado por uma luta estão entre os exemplos mais importantes. Face
constante pela sobrevivência. A sua reprodução rea- a tamanha dádiva da natureza, é legítimo afirmar
liza-se em grande escala: as fêmeas geram cerca de que comer sardinha é o equivalente a tomar com-
vinte mil ovos por postura e essa estratégia tem sido primidos de saúde.
eficaz ao longo de milhares de anos de evolução.
Para a sardinha-europeia (Sardina pilchardus), APÓS DESENHAR uma circunferência a todo o vapor,
tudo começa no interior de um ovo com cerca de deixando para trás um rasto de rede gigantesco com
1,5 milímetros de diâmetro que, juntamente com trezentos metros de comprimento por noventa de
outros milhões, flutua ao sabor das correntes marí- altura, a traineira volta ao ponto de partida onde
timas do Outono e do Inverno. Após cinco dias a chata, o seu barco de apoio, aguarda para fechar
num jogo de sorte com o apetite de predadores, a armadilha. É uma dança de precisão e de gesos
os resistentes eclodem para dar origem a larvas mil vezes repetidos por gerações de pescadores.

92 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Sardinhasem números
EM 2015
AsFORAM
penas doTRANSACCIONADAS
disco EM LOTA 13.729 TONELADAS
Cecos pilóricos Bexiga gasosa Rim

facial abrem-se
de sardinha,
a quantidade
em 13.690 toneladas no continente,
das quais
redor das orelhas para
melhorar amais baixa desde que há registos estatísticos
GIGANTES
FURTIVOS
audição.
sistemáticos por espécie, sendo o preço médio das transacções
em lota o mais elevado dos últimos vinte anos (2,19€/kg).

As harpias são Coração


as águias Fígado Estômago Gordura Intestino Gónada
mais pesadas. Estes
VARIAÇÃO DAS CAPTURAS / EVOLUÇÃO DO VALOR EM LOTA predadores dedetopo
Limites capturado
de sardinha
dossel florestal podem
impostos em Portugal continental,
Capturas -10 t Preço em lota - Euros/kg
voar velozmente
no quadro dasentre
medidasade gestão
90 folhagem densa e capturam
80 2,8
presas do tamanho de
70 2,4
60
preguiças e macacos com
2,0
50 as suas enormes garras.
1,6
40
1,2
30
20 0,8
10 0,4
0 0
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020

Entre 1995 e 2015 as descargas Nos últimos quatro anos (2012-2015), O preço médio da sardinha quase triplicou face
Asas curtas e
de sardinha
largas variaram a um ritmo
ajudam-nas a quantidade média descarregada foi 65,6% inferior ao preço médio registado no período 1995-2011,
médio
a navegardeem
anual -8,5%.
espa- à média descarregada no período anterior. mas decresceu nos dois últimos anos
ços apertados.

A ARTE DA PESCA DE CERCO


É o método de pesca dominante na costa portuguesa. O peixe é envolvido pelos lados e por
Faz recurso a uma parede de rede longa e alta, baixo, ficando sem fuga pela parte inferior
que cerca as sardinhas e reduz as suas vias da rede, mesmo em águas profundas. Em vários pontos da costa,
a arte de cerco requer uma
da maioria das espécies pelágicas.A cauda com- embarcação de apoio, que facilita
A caça de presas de
prida funciona a acçãogrande
da traineiraporte
principal.
pode ser
como leme, arriscada. Por vezes, as
garantindo a preguiças e os macacos
manobrabilidade. lutam com as harpias
e podem matá-las.

Não se conhecem ainda


as migrações da sardinha,
mas há movimentos sazonais
ao longo da costa e a caminho
Entre 300 e 800 m da costa norte de Espanha
quando atingem maior dimensão.
Entre 60 e 150 m
As pernas funcionam como Número de peixes
aríetes durante os ataques. (milhares)
Os tendões das patas
retesam-se, contraindo
as garras à volta das presas 150 000
Dinâmicos e em movimento
constante, os cardumes antes de levantar voo.
de sardinha podem agregar-se
DISTRIBUIÇÃO NA COSTA PORTUGUESA
na coluna de água em
100 metros quadrados, com A espécie distribui-se ao longo da plataforma 100 000
uma massa de 10 toneladas. continental até profundidades de cem metros.
A sua abundância reduz de Norte para Sul.
Os juvenis e adultos jovens concentram-se em
A garra de uma fêmea de
zonas mais costeiras e produtivas (até cerca de 50 000
harpia pode ser maior do
50m de profundidade), próximo das embocaduras
que a garra de um urso-
Fonte: Dados recolhidos na campanha acústica PELAGO05, Primavera de 2005. dos rios e rias, sobretudo
-pardo.na(Ambas
costa noroeste entre
mostradas
Instituto Nacional de Estatística (INE). o Porto e a Figueira da Foz e na
em tamanho real.)região de Lisboa.
Dados de distribuição e arte de pesca: Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Morfologia da sardinha: baseado em ilustração de Diana Marques para o Museu de Portimão. FERNANDO G. BAPTISTA
0 E CHRISTINA SHINTANI;
Ilustração de Anyforms Design. MESA SCHUMACHER
FONTES: EVERTON
MIRANDA; UICN
À tona da água, bóias amarelas garridas assina-
lam a sua localização. “Arreia!”, gritam os homens
de oleado e botins de borracha, enquanto atiram
cabos de uma embarcação para a outra. Ao puxar
a retenida, um cabo guia costurado no fundo
da rede fecha o engenho piscatório, formando a
bolsa que ditará a sentença para os seres marinhos
aprisionados.
Abaixo da superfície, o cenário é de guerra. O som
dos motores que me assalta os ouvidos e faz vibrar o
coração acompanha a explosão de alcatrazes que ras-
gam a coluna de água como torpedos. Aterrorizadas,
milhares de sardinhas disparam velozmente em todas
as direções, durante um abraço mortal cada vez mais
apertado. Em menos de uma hora a captura termina.
Rumo à lota de Sagres, os sorrisos, a boa disposi-
ção e três mil quilogramas de pescado iluminavam
o caminho. “Então, tinha razão ou não?”, pergunta
Fábio em tom de provocação amigável.
Alguns minutos mais tarde, de humor alterado,
o mestre revela a sua maior preocupação: a pressão
legislativa. “Ao preço reduzido a que se encontra a Apesar das melhorias
sardinha, se o governo não aumentar a quota consi- necessárias na parte do
deravelmente, não sei até quando vamos aguentar.” cultivo larvar, a sardinha
tem demonstrado aos
A histórica e estreita ligação económica que Portu- investigadores ser uma
gal tem com o mar e a crescente preocupação com a espécie que se repro-
saúde dos seus recursos pesqueiros levou a que o país, duz e desenvolve sau-
davelmente através do
em 1902, integrasse o Conselho Internacional para consumo de ração de
a Exploração do Mar (ICES, na sigla internacional). aquicultura. As imagens
Trata-se de uma organização intergovernamental documentam a Estação-
-Piloto de Piscicultura
de ciências marinhas com o objectivo de fomentar de Olhão, dirigida por
o uso sustentável dos oceanos. No entanto, os dados Pedro Pousão.
científicos reunidos nas últimas décadas demonstram
que Portugal tem vivido distante dessa meta, nomea-
damente no caso do stock ibero-atlântico de sardinha
partilhado com Espanha. Na realidade, as populações
desta espécie são caracterizadas por grandes variações como um produto sustentável e uma óptima escolha
de abundância amplamente dependentes de factores ambiental. Paralelamente, as campanhas de marketing
ambientais e, por isso, seria injusto afirmar que a pesca agressivo que elevaram a fama da sardinha não pou-
é a grande razão por trás do seu declínio. No entanto, param um stock que se encontrava à beira do colapso.
o seu contributo também não é desdenhável. Apesar dos esforços do governo português para
De acordo com os dados do ICES fornecidos sobre- proteger este capital natural através da implemen-
tudo pelo IPMA, mas também pelos institutos de inves- tação de quotas e de períodos de defeso durante a
tigação espanhóis, a perda de biomassa em apenas estação de reprodução e recrutamento, o declínio
31 anos foi colossal. De uma população que, em 1984, não abrandou. Ciente disso e pressionado por uma
era constituía por cerca de um milhão e duzentas mediação mais preocupada da Comissão Europeia, o
mil toneladas, restavam apenas cento e treze mil em governo português tomou em 2019 medidas drásticas
2015: cerca de um décimo do que era há três décadas. sem precedentes, limitando a quota da captura de
Associado aos valores mínimos atingidos ao longo sardinha a nove mil toneladas.
do tempo, registaram-se factores como o aumento do A decisão foi fortemente contestada pelas comuni-
esforço de pesca e a certificação precipitada por parte dades piscatória e indústria conserveira, que temiam
do Conselho de Gestão Marinha (MSC) que rotulou a pelo seu futuro. No entanto, no mesmo ano, o stock
sardinha portuguesa, capturada por pesca do cerco, deu os primeiros sinais de recuperação.

94 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
SARDINHAS 95
Um carapau juvenil
(Trachurus trachurus),
espécie com potencial
para salvar a sardinha
(se funcionar como
captura de substituição
em algumas alturas do
ano), nada sincronizado
com uma alforreca, refu-
giando-se no seu interior
durante a aproximação
do fotógrafo.
O S O L H O S AT E N TO S D O M I N I S T RO D O M A R , Ricardo
Serrão Santos, aguardavam com entusiasmo os
frutos do primeiro lance do Poema do Mar. A bordo
desta traineira monumental a escassas milhas da
cidade de Olhão, o ministro foi convidado pelo mes-
tre Albino Santos para observar as provas empíricas
que o sector defende. “Actualmente, os pescadores
estão bem informados e sensíveis ao tema e são os
maiores interessados em que tenhamos mananciais
de sardinha saudáveis e produtivos. Temos de ser
cautelosos na gestão, mas para isso, é necessário
envolver todo o sector no processo de avaliação e
aconselhamento para assegurarmos uma pesca com
futuro e estabilidade”, explica o ministro, debruçado
no varandim da embarcação.
De acordo com o decisor político, que aguarda por
indicadores robustos da recuperação da sardinha,
provenientes das pescarias que se encontram a
decorrer este ano, assim como das campanhas de
monitorização dos cruzeiros científicos, tudo indica
que o recurso se encontra mais saudável e em franca
recuperação. “A partir do momento em que seja
provado que o stock se encontra pelo menos num
nível de média produtividade, será possível aliviar
as medidas restritivas”, afirma o meu interlocutor. A A Conserveira do Sul
(na imagem), assim
conversa é interrompida por toneladas de sardinhas como as 19 restantes
saltitantes que transbordam de caixas térmicas e que operam em
fazem a festa dos homens à popa. Portugal, são obrigadas a
importar sardinha devido
Quatro meses mais tarde, a campanha de moni- à quebra acentuada das
torização IBERAS, conduzida pelo IPMA e pelo capturas. Mesmo quando
Instituto Espanhol de Oceanografia durante o ano existe em lota, a percen-
tagem de importação
de 2020, anunciava a boa nova: uma biomassa de ronda 20 a 30%.
recrutamento com cerca de cem mil toneladas. São
os melhores valores dos últimos 15 anos. Consti-
tuem um motivo de alegria, mas não uma razão
para baixar a guarda, segundo Gonçalo Carva-
lho, diretor da organização não governamental a surgir na equação através de estudos pioneiros a
ambiental, Sciaena. De acordo com este biólogo nível mundial, realizados pela Estação-Piloto de
marinho especialista em política de pescas, o pas- Piscicultura de Olhão, promete ser um dos trunfos
sado mostrou repetidamente as consequências mais importantes. Apesar de se tratar de um tipo
dramáticas das medidas de conservação levianas de pescado que causa desconfiança à maioria dos
e pouco preventivas. consumidores que não querem abdicar do sabor da
É necessário que Portugal continue focado na sardinha fresca selvagem, poderá vir a ser uma exce-
protecção deste recurso através de limites de pesca lente vantagem para a indústria conserveira, uma
para que volte aos números estáveis de outrora, vez que os seus métodos de processamento e utiliza-
beneficiando assim a economia e sociedade que ção de temperos tornam a diferença imperceptível.
dele dependem, mas também apostando em alter- Em tempos de adversidade, os portugueses
nativas de forma a aliviar a pressão nas vítimas do sempre mostraram capacidade de adaptação. Na
costume para que acabem os anos angustiantes maioria dos casos, a cooperação foi a chave certa.
vividos no limbo. Se a comunidade, a indústria, a política e a ciência
Segundo os especialistas, a dedicação a espécies continuarem de mãos dadas, um dia será possível
abundantes como o carapau e a cavala poderá ser voltarmos a ver a rainha do mar lusitano erguida
a solução. Além disso, a aquacultura que começa no seu merecido trono. j

98 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
SARDINHAS 99
N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

ANTOLOGIA
BOTÂNICA
ESPÉCIMES COLHIDOS AO LONGO
DE MAIS DE TRÊS SÉCULOS SÃO
C U I DA D O S A M E N T E P R E S E RVA D O S
NUM HERBÁRIO DE LONDRES.

T E X TO D E DANIEL STONE
FOTOGRAFIAS DE
NICK KNIGHT

100 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Uma Gloriosa superba,
colhida em Inglaterra
em 1954 (à esquerda),
e uma Angelica cyclocarpa
do Nepal, colhida
em 1975, mostram a
beleza perene das plantas
bem preservadas.

A N TO LO G I A B OTÂ N I C A 101
N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

Há muito que as trepadeiras de maracujazeiro são valorizadas em jardins com climas temperados.
Actualmente guardado no Museu de História Natural de Londres, este espécime foi cultivado
em Nova Iorque em 1972.

102 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Em sentido horário, a partir do topo, à esquerda: erva-do-calhau da ilha de Man, colhida em 1895, uma
orquídea trazida da Colômbia em 1885, algas castanhas conhecidas como caudas-de-pavão, colhidas em
Inglaterra em 1930, e uma camélia cultivada em Inglaterra em 1979.

A N TO LO G I A B OTÂ N I C A 103
N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

Em 1982, naturalistas trouxeram para Inglaterra amostras de brownea rosa-de-monte,


uma árvore da floresta húmida do Panamá. Partes desta planta eram utilizadas
para fins medicinais.

104 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Uma qualidade diferenciadora da Anemone hortensis é a sua variação de cor. Estas plantas herbáceas têm
pétalas vermelhas, brancas, cor-de-rosa ou cor de malva. Os seus centros assumem frequentemente um
tom roxo uniforme.

A N TO LO G I A B OTÂ N I C A 105
N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

A HISTÓRIA
N E S T E M U S E U, P L A N TA S D E TO D O O M U N D O T Ê M S I D O
C O L E C C I O N A D A S , P R E S E R VA D A S E A G O R A F O T O G R A F A D A S .

O HERBÁRIO do Museu de História Natural de Lon- pécimes visualmente apelativos. Segundo a sua
dres tem uma das maiores colecções de plantas do estimativa, ele e a sua mulher viram milhares de
mundo. Espécimes reunidos ao longo de mais de amostras, castanhas e aborrecidas, até encon-
três séculos foram secos e depois colados a folhas trarem exemplares mais vibrantes.
de papel em grandes álbuns. Cada um está guar- Nick fotografou centenas de espécimes num
dado numa gaveta própria, em sala climatizada. estúdio minúsculo que construiu no próprio
Muitas amostras são relíquias de um mundo museu. Depois, durante o processo de edição,
que já não existe, trazidas por cientistas famo- removeu as anotações originais, escritas à mão,
sos como Carol Lineu. No auge do Império Britâ- e outros pormenores administrativos, levando
nico, as plantas eram recolhidas para fins cientí- as plantas a “flutuar” no espaço de cada ima-
ficos, médicos e económicos. gem. Tudo o que ficou à vista foi a mais bela arte
Durante vários anos, o fotógrafo Nick Knight da natureza, que cresceu no passado e foi capta-
folheou as páginas do herbário em busca de es- da para a posteridade. j

Um biólogo recolheu ramos deste elegante arbusto


no Belize em 1966.

106 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
E X P L O R E | INSTINTO BÁSICO

O RARO CASO DA TARTARUGA


QUE RESPIRA PELA CLOACA
F OTO G R A F I A D E JOEL SARTORE

vendiam-se crias de tartaruga em


N A S D É C A DA S D E 1 9 6 0 E 1 9 7 0 , PENTEADO PUNK
lojas australianas. Durante muitos anos, o especialista em répteis Chris van Wyk opôs-se à
John Cann não conseguiu apurar a espécie ou a origem desta proposta de 2006 do governo
de Queensland de construir
tartaruga, até ver uma no seu habitat, o rio Mary, em Queensland. uma barragem no rio Mary
Essa foi a primeira de muitas descobertas intrigantes sobre a Elusor para não alterar um habitat
macrurus, a tartaruga do rio Mary, classificada como ameaçada. prístino. Para sensibilizar a opi-
nião pública, o fotógrafo ama-
É uma das maiores tartarugas de água doce da Austrália, pois dor captou animais em risco,
chega a pesar oito quilogramas e a carapaça pode ter 43 centíme- incluindo a tartaruga do rio
Mary, cujo “penteado” com-
tros de comprimento. Supõe-se que terá divergido há cerca de 40 posto por algas é estimulado
milhões de anos e é a única espécie deste género. Pode viver até aos pelos longos períodos que o
100 anos e não se reproduz até aos 20 anos. Quando finalmente o animal passa debaixo de água.
Fotografias da “tartaruga
faz, o macho usa uma parte da cauda multifuncional que também punk” (em cima) tornaram-
é utilizada para eliminar desperdícios... e respirar. As estruturas -se virais e ainda hoje surgem
nas pesquisas na Internet.
branquiais da cauda permitem que a tartaruga fique submersa Funcionaram na luta contra o
dois dias e meio sem vir à superfície. plano de instalação da barra-
gem, que o governo renegou
“A capacidade de respirar pela cloaca atrai muita atenção”, diz a em 2009. É uma prova de que
conservadora Marilyn Connell, coordenadora do projecto de conser- “a fotografia pode mudar o
vação de tartarugas do rio Mary. Marilyn está focada em preservar a mundo”, diz Chris. — P E

espécie, cuja população é maioritariamente constituída por adultos,


pois os predadores eliminam ovos e crias. Na época de reprodução
(Outubro a Dezembro), os membros do projecto percorrem as margens
do rio para proteger os ninhos para que a tartaruga “possa continuar
a viver, acasalar e prosperar”. — PAT R I C I A E D M O N D S

ESTE EXEMPLAR FOI FOTOGRAFADO NO SANTUÁRIO DE COALAS DE LONE PINA, QUEENSLAND, AUSTRÁLIA. NO TOPO: CHRIS VAN WYK
N AT I O N A L G E O G R A P H I C | NA TELEVISÃO

Europa Vista
de Cima 2
E S T R E I A : 1 D E M A R Ç O, 2 2 H 1 0
TO DA S A S S E G U N DA S - F E I R A S

Em Março, regressa ao canal National Geographic


a segunda temporada da série “Europa Vista de
Cima”. Habituámo-nos a contemplar os monu-
mentos e os marcos paisagísticos mais impres-
Alasca: a Nova Geração sionantes do Velho Continente a partir do solo,
E S T R E I A : 1 2 D E M A R Ç O, À S 2 2 H 1 0 mas, do ar, a perspectiva muda radicalmente.
A série constitui um interessante ponto de par-
O Alasca faz parte do DNA da National tida para perceber como a tradição, a engenha-
Geographic. Foi ali que se realizou a primeira ria e a natureza moldaram o continente europeu
edição financiada por esta sociedade científica e como as populações mantêm as tradições vivas,
no século XIX. Regressamos ao maior estado
norte-americano nesta série que documenta
adaptando-se à geografia. Em seis episódios,
processos de sobrevivência em climas adversos visitamos a Turquia, a Finlândia, França, a Sué-
e quase despojados de população. cia, a Hungria e a Grécia.

Apocalipse: Hitler Nove meses após o início da Segunda Guerra


Mundial, o exército alemão marchou para
Invade o Oeste ocidente, invadindo a Bélgica, a Holanda e a
França. A invasão da Grã-Bretanha parecia
18 E 2 5 D E M ARÇO, À S 2 3H iminente. Entre 1940 e 1941, a guerra quase sorriu
ao exército comandado por Adolf Hitler.

NATIONAL GEOGRAPHIC (NO TOPO E AO CENTRO);


NATIONAL ARCHIVE AND RECORD ADMINISTRATION (EM BAIXO)
Snake Stunts
D E 8 A 1 4 D E M A RÇ O, A PA RT I R DA S 1 7 H

Para alguns, são animais repelentes, mas as cobras


desempenham um papel importante nos ecossis-
temas do planeta, controlando roedores e pragas.
São também um prodígio da evolução, demons-
trando sagazmente que um dos ramos da árvore
da vida evoluiu sem necessidade de patas. Assu-

Asia’s Wild Secrets mindo a sua missão de aumentar a conscienciali-


zação, o apoio e a compreensão destas criaturas,
E S T R E I A : 2 1 D E M A R Ç O, À S 1 7 H o Nat Geo Wild dedica uma semana de programa-
ção a estes magníficos répteis e à sua diversidade.
Em três episódios desta série contamos a história Estima-se que existam mais de três mil espécies
da Ásia indomável, onde cada criatura tem uma de cobras no planeta, uma estatística eloquente
história de sobrevivência e adaptação, desde os
sobre a diversidade deste grupo. Ao longo da mara-
leopardos-da-neve que caminham nos Himalaia
aos abutres que voam sobre o planalto do tona televisiva, não perca “World Deadliest Snakes”,
Tibete, não esquecendo os formidáveis tigres “Killer Snakes”, “Snakes in the City: Lady and the
que se adaptaram admiravelmente à monção. Mamba” e “Ultimate Viper: Fear the Fang”.

Dr. K’s Exotic No consultório de Susan Kelleher, só há uma regra:


cães e gatos não entram. Conhecida como “Dr. K”,
Animals esta veterinária trata todos os animais exóticos em
Deerfield Beach, na Florida (EUA). Estreia este mês a
ESTREIA: 15 DE quinta temporada da série, com episódios novos às
M A R Ç O, À S 1 7 H segundas-feiras.

EARTH TOUCH LIMITED (NO TOPO); NATURAL HISTORY NEW ZEALAND LTD. (AO CENTRO)
E NATIONAL GEOGRAPHIC (EM BAIXO)
P R Ó X I M O N Ú M E R O | ABRIL 2021

O lince-ibérico de O custo do ar Insectos no interior A genialidade de


volta a Portugal contaminado da Amazónia Aretha Franklin
É uma história de A poluição atmosférica, Uma equipa de entomólo- Tal como Einstein
sucesso de conservação mesmo em baixos gos penetrou na selva ultrapassou os limites
e de ciência, apoiada níveis, é nociva para a amazónica para levar a da ciência e Picasso
num notável programa saúde. Anualmente, cabo uma experiência: criou uma nova forma
de reprodução em milhões de pessoas tornar visíveis as centenas de arte, Aretha Franklin
cativeiro e de reintro- morrem devido a ela, de espécies de insectos levou a música para
dução em habitat. mas estas mortes que vivem muitos metros profundidades nunca
O lince voltou! podem ser evitadas. acima do solo. antes alcançadas.

N AT I O N A L G E O G R A P H I C RICARDO LOURENÇO
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