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D. A.

LEMOYNE
Copyright © 2021
D. A. LEMOYNE

dalemoynewriter@gmail.com
Copyright © 2021

Título Original: A Protegida do Mafioso

Primeira Edição 2021

Carolina do Norte - EUA

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta


publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida

por qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo

fotocópia, gravação ou outros métodos eletrônicos ou

mecânicos, sem a prévia autorização por escrito da autora,

exceto no caso de breves citações incluídas em revisões

críticas e alguns outros usos não-comerciais permitidos

pela lei de direitos autorais.

Capa: TV Design
Revisão: Dani Smith Books

Diagramação: Sire Editorial

Esse é um trabalho de ficção. Nomes, personagens,

lugares, negócios, eventos e incidentes são ou produtos da

imaginação da autora ou usados de forma fictícia. Qualquer

semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas ou

eventos reais é mera coincidência.


Atenção: temática forte. Pode conter gatilhos.

Na superfície, Yerik Vassiliev é o rei do mercado


imobiliário na Geórgia. Um cidadão respeitado e acima de

qualquer suspeita.

Na realidade, contudo, tanto as autoridades

americanas quanto aliados e inimigos sabem que o CEO

bilionário é o chefe da perigosa máfia russa nos Estados

Unidos. Um homem implacável, que vive segundo o rígido


[1]
código dos chamados bandidos dentro da lei — a elite

mafiosa de seu país natal.


Yerik não tem nada de sagrado em sua vida além da

família e quando seu primo Grigori pede, como favor

pessoal, ajuda para resgatar uma garota sequestrada, vê

seu mundo tão meticulosamente calculado entrar em

colapso.

Depois que a salva, ele não consegue mais deixar


Talassa Galanis partir. Desde o momento em que a viu, ela

se tornou sua para proteger.


Às minhas duas parceiras no crime Van Ianovack e Mari
Cardoso. Foi um prazer participar desse projeto com vocês.
Amei nossas madrugadas compartilhadas.

Carolina do Norte, janeiro de 2021.


Sumário
NOTA DA AUTORA:
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Talassa
Yerik
Grigori
Yerik
Obras da autora
Papo com a Autora
SOBRE A AUTORA
NOTA DA AUTORA:

A Protegida do Mafioso é um livro que faz parte da

trilogia “Os Reis da Máfia”, um projeto em conjunto com as

autoras Van Ianovack (A Vingança do Mafioso) e Mari

Cardoso (A Escolhida do Mafioso) e narra a história do

chefão da máfia russa nos Estados Unidos.

É a primeira vez que escrevo sobre o tema e confesso

que foi desafiador, mas estimulante também.

Dentro dessa trilogia, a história de Yerik e Talassa é um

livro único, porque meus leitores sabem que não costumo


fazer dois livros sobre o mesmo casal (a única exceção foi

Seduzida e Cativo), mas pretendo em um futuro não muito


distante dar continuidade aos outros personagens que

apareceram na presente obra: Grigori, Maxim, Dmitri e


Leonid.

Espero que apreciem o livro tanto quanto eu adorei


escrevê-lo.
Um beijo carinhoso e boa leitura.
D. A. Lemoyne
Yerik

Lobnya - Rússia

Aos quatorze anos

Quase comemoro o silêncio que se instala por

alguns segundos.
Eu não gosto de barulho de uma maneira geral e as

visitas de dedushka[2] sempre acabam assim.

— Meu filho não vai em viagem alguma com você.

Eu já disse mais de uma vez. Pare com esses convites. O

senhor não foi um pai para mim durante toda a vida e ainda

assim, eu o amo, mas não encha a cabeça das minhas

crianças de ideias. Não quero ter nada a ver com seus

negócios.

Finjo prestar atenção à comida no meu prato, mas

na verdade gostaria de me levantar. Estamos só eu, meu


pai e vovô Ruslan — o homem que só vim a conhecer há

pouco mais de dois anos. Meu pai é filho ilegítimo, mas


ironicamente, o único descendente homem direto do meu

avô. Segundo escutei mamãe falar, antes de Ruslan se


casar, era um mulherengo. Ela disse que provavelmente

em seu enterro haverá várias mulheres do seu passado


chorando sobre o caixão — o que significa que eu devo ter
tios e primos espalhados por toda a Rússia. Talvez pelo
mundo.

— Eu poderia cuidar dele.

— Agradeço, mas Yerik tem pai e mãe vivos. O seu


tipo de cuidado não é necessário.

Eu meio que sei do que papai está falando. Não sou


mais um garotinho como pensa e presto atenção nas

coisas que ele conta à minha mãe. Meu avô é o Pakhan[3],


o chefe do crime organizado em nosso país. Ele é muito

poderoso e esse é um dos motivos pelos quais meu pai


prefere manter nosso parentesco com vovô em segredo.

Sempre que conversam a respeito, ele e mamãe


falam como seria arriscado se descobrissem em nossa

cidade que somos descendentes de Ruslan Vassiliev. Por


ser filho ilegítimo, meu pai nunca usou o sobrenome

Vassiliev e acabou adotando o do seu avô materno,


Goncharov.
— Tudo bem. Apesar de achar que está errado,
você é meu filho e respeitarei sua vontade. Yerik um dia vai

crescer e poderá decidir sozinho. Ele poderia ser o meu

herdeiro. É o meu neto mais velho.

— Ele vai estudar e se tornar médico.

— Vamos ver.

O homem corpulento se levanta e vem para o meu


lado. Posso sentir sua presença. Vovô tem algo nele que
faz com que desejemos estar a sua volta. Infelizmente,
meu pai não me deixa passar tanto tempo com ele quanto

eu gostaria.

Todas as vezes em que visita nossa casa, eu quero

fazer um monte de perguntas sobre a vida fora dessa


cidade. Eu o ouvi dizer que já viajou pelo mundo inteiro e
que tem muitos negócios nos Estados Unidos.

— Yerik, dê um abraço em seu dedushka. — Meu


avô pede.
Levanto-me para abraçá-lo. Eu o admiro, mesmo
meu pai não querendo que sejamos próximos. Vejo como
os homens o olham. Ninguém encara meu avô, nem

mesmo seus guarda-costas.

— Yerik, eu sempre estarei aqui para você. — Fala,

mexendo em meu cabelo. — Você é meu sangue e se


quiser, o mundo pode ser seu.

— Pare com isso, Ruslan. — Papai diz, se alterando


não pela primeira vez na noite. Ele chama o próprio pai
pelo nome.

— Meu neto pode decidir o próprio destino. — Vovô


não recua.

Olho de um homem para o outro, dividido entre


realizar os sonhos daquele que me deu a vida e a vontade
de saber um pouco mais sobre o mundo que o meu avô
tanto fala.

Eu ainda não sabia, mas dentro de pouco tempo, o


destino decidiria por mim.
Algumas semanas depois

Choro.

É a minha primeira percepção ao acordar. Minha


mãe está chorando.

— Natalya desapareceu.

Ao ouvir o que ela diz, levanto-me depressa e visto


uma calça de moletom.

A minha irmã sumiu?

— Nós vamos encontrá-la. — Uma voz de homem


responde.
Vovô?

Olho o relógio na mesinha de cabeceira. O que ele


faz aqui a essa hora da madrugada?

Assim que chego à sala, vejo que segura mamãe


em um abraço. Algo muito sério se passou, porque ela
nunca gostou dele. E onde está o meu pai?

— O que aconteceu? — Pergunto, sentindo o

estômago revirar.

— Sua irmã foi sequestrada. — Meu avô diz com o

rosto sério e sem tentar atenuar sua resposta.

Talvez no mundo dele aquela palavra não seja nada

demais. Acho que está acostumado a lidar com coisas

assim, dado o meio em que vive, mas eu sinto minhas


pernas começarem a tremer.

Natalya, sequestrada?

— Eu preciso ir, Polina. Não posso perder tempo.


Cada minuto conta.
— Onde está papai?

— Ele foi à procura dela.

Já andando para o armário na entrada da casa para


pegar meu casaco, peço.

— Dedushka, leve-me com você.

Ele acena com a cabeça, concordando e minha mãe

não reage, o que me mostra o quanto está apavorada.

Dias depois

Olho para todo o sangue espalhado. O sangue do


inimigo. Honrei a morte da minha irmã com as minhas

próprias mãos.
Agora acabou.

A vida que eu conheci até aqui não me interessa

mais.

Nem mesmo meus pais protestaram quando eu

disse que partiria com vovô. Daqui por diante, sou Yerik
Vassiliev, o herdeiro do Pakhan.

O garoto que existia até ver o que fizeram com a


irmã, desapareceu. Um homem sem alma surgiu em seu

lugar.
Capítulo 1

TALASSA

Atenas — Grécia

Dezoito anos depois

— Um leão ou um vaso de flores? Não.

Definitivamente é um coelho.

— O que você está resmungando aí?

Sinto minhas bochechas esquentarem enquanto

olho na direção da menina que acaba de falar comigo. Ela

deve ter a minha idade, dezesseis, mas parece ser bem

mais velha.

Talvez tenha dezessete. Papai disse que todas as


meninas que ganharam bolsas de estudos do doutor
Leandros Argyros têm por volta de dezesseis ou dezessete

anos, apesar dessa parecer uma adulta.

Ela está usando maquiagem e é bonita como uma

atriz de cinema.

— Você não sabe falar? Estou escutando-a

resmungar há alguns minutos.

— Sei sim. Eu sinto muito.

— Então, o que diabos foi aquilo sobre leões e

coelhos?

Dou de ombros, sem jeito.

— Eu estava observando as nuvens. Gosto de tentar


adivinhar quais figuras elas formam.

— Meu Deus, você é tão infantil. Acha que tem cinco

anos de idade ainda? Acabamos de chegar a Atenas e


vamos finalmente poder viver. Estudar também, claro, mas

principalmente conhecer novos lugares.


Ela é estranha. Quero dizer, está falando comigo
como se já me conhecesse há muito tempo e sequer disse

o próprio nome.

Decido contornar sua maneira rude.

— Boa tarde, eu sou Talassa Galanis. — Falo,

oferecendo a mão para cumprimentá-la.

Ela me olha por um tempo e enfim a aperta, mas é

um toque leve, quase como se achasse que eu tenho


algum vírus que pode contaminá-la.

— Lara Nomikos. De qual ilha você é?

— Pletánya. [4]

— Está explicado esse seu jeito bicho-do-mato.


Vamos rezar para que consiga ao menos interagir com as
pessoas. Quer um conselho, Talassa? Perca esse ar de

criança. Tenho certeza de que grandes oportunidades virão


para nós nos próximos meses.
— Certo. — Respondo e volto-me para a janela,
encerrando a conversa.

Não quero começar meu primeiro dia longe de casa


arrumando inimizade, mas essa menina não sabe nada
sobre mim, deve ter pouco mais do que a minha idade e,

no entanto, fala como se fosse muito experiente.

Ela, porém, não parece disposta a se dar por


vencida e cutucando meu braço de leve com seu ombro,

finaliza.

— Não se preocupe. Eu a ajudarei a ser mais

esperta.

Não sei se entendo muito bem o que ela está

dizendo.

— O que isso significa?

— Significa que ficarei de olho para que não se meta


em encrenca.
Eu tenho vontade de rir porque ela é quem parece a
imagem da encrenca. Apesar disso, aceno com a cabeça,
começando a simpatizar com o jeito direto de Lara.

— O fato de eu ter feito a viagem em silêncio não


quer dizer que sou burra. Só estava prestando atenção à

paisagem.

— Eu não disse que você é burra, mas inocente. Ser

esperta não tem nada a ver com inteligência, Talassa, mas


sim, fazer o que é necessário para sobreviver. Atenas não
é a sua ilha. Há pessoas boas e ruins espalhadas. Mas não
se preocupe, eu tomarei conta de você. Considere hoje
como o seu dia de sorte, menina. Você acaba de ganhar a

mim como amiga.

Deus, o ego dela é tão grande que sorrio.

— É, acho que sou uma sortuda mesmo.


— Ah, graças a Deus! Finalmente chegamos! —
Lara exclama quando a van para.

Um homem de jaqueta de couro e que já estava em


pé do lado de fora, abre as portas e nos manda descer.
Somos sete meninas, mas eles disseram que haveria mais
no colégio interno em que estudaremos.

Olho para fora e não vejo nenhum prédio ou casa


em volta. Na verdade, parece mais um terreno baldio.

Tenho uma sensação estranha, mas não sei explicar o que


é. Algo como um desconforto.

Antes que eu possa pensar com clareza, uma outra

van para ao lado da que saímos. Dessa vez, há pelo


menos uns cinco homens dentro e nenhum deles parece
com um funcionário de colégio e sim, do tipo que a minha

mãe me ensinou a evitar.

Eles nos mandam entrar no novo veículo, mas

antes, um exige.

— Documentos e celulares.

O quê? Eu não posso entregar meus documentos e

principalmente, meu celular. Prometi ligar para mamãe

assim que chegasse.

Como se estivesse adivinhando o que estou

pensando, Lara segura minha mão e aperta. Quando olho


para ela, faz um movimento quase imperceptível de “não”

com a cabeça, mas claro o suficiente para que eu entenda


que não devo abrir a boca.

Nesse momento, eu lembro do que ela falou há


algumas horas e sinto uma conexão entre nós. A intuição

me diz que o que quer que esteja acontecendo, ela saberá

lidar com a situação melhor do que eu.


— Por que devemos entregar os celulares? — Uma

das meninas pergunta.

O cara que nos pediu os aparelhos para à sua frente

— muito perto — e sorri.

Seu sorriso faz meu estômago revirar.

Ele não a toca e nem nada. Ao invés disso, estende

a mão, encarando-a.

Dessa vez, a garota não hesita.

Olho novamente para Lara e ela também está me


encarando, mas de um jeito estranho.

E então eu compreendo.

Medo.

Ela está apavorada. Sua pele dourada subitamente

pálida e a mão que segura a minha, trêmula.

— Entregue. — Seus lábios se movem sem que saia

som algum.
Nervosa, tateio dentro da bolsa em busca do celular
e de minha carteira, sem ter a menor ideia de que um

pesadelo estava prestes a começar.

Em algum lugar na península balcânica — Europa

Dias depois

Eu odeio a escuridão. Desde pequena, mamãe

sempre deixava uma réstia de luz quando eu ia dormir.

Agora, eu estou aqui no escuro. Sozinha.


Não há uma cama. Uma mulher entra de tempos em

tempos com água e um pouco de comida e a cada vez que


a porta se abre, um arrepio de medo atravessa meu corpo.

A incerteza é o pior de tudo. E o silêncio. Eu não gosto do

silêncio tampouco.

Em casa estou sempre cantando ou batendo papo

com a mamãe. Mesmo quando ia ao armazém na ilha,


conversava com todos pelas ruas. Eu gosto de ouvir as

pessoas. Não precisa ser nenhuma conversa muito


interessante e nem nada. A interação me faz bem.

Estou tentando manter a calma, mas já faz algumas


horas que eu não paro de tremer.

A porta se abre novamente agora, mas não é a


mesma mulher que se aproxima porque a pessoa chama

meu nome.

Eu não respondo. Estou apavorada.

— Talassa, sou eu, Lara.


— Lara?

— Shhhh, fale baixo. Você não tem ideia do que

precisei fazer para poder vir vê-la.

Pela primeira vez desde que acordei naquele quarto,

tenho coragem de me levantar. A última coisa que me


lembro, é de estarmos comendo em uma cozinha suja e

então, mais nada.

— Lara, onde estamos?

Eu mal consigo enxergá-la. Não há qualquer entrada


de luz depois que ela fechou a porta.

— Eu ainda não sei onde, mas sei o porquê de

estarmos aqui e você precisa prestar muita atenção no que

eu vou dizer. Prometa isso para mim.

Meu corpo agora chacoalha de nervoso e não

consigo falar.

— Talassa, nós temos pouco tempo, prometa que

vai fazer o que eu mandar.


Ela põe seus braços à minha volta e quando

percebe meu corpo tremendo, me aperta contra si.

— Eu tenho um plano. Essas pessoas que nos

trouxeram não têm nada a ver com colégio ou algo do tipo.


Vou explicar tudo, mas você precisa me dar sua palavra de

que vai fazer tudo o que eu disser. Pode confiar em mim.

Eu juro por Deus. Vamos conseguir um jeito de sair daqui,


mas primeiro precisamos sobreviver.

— Sobreviver?

— Sim, sobreviver. Nós não estamos mais na

Grécia, Talassa. As outras meninas já se foram também.


Só restamos nós duas, os guardas e a mulher. Antes de

tentarmos fugir, temos que pensar com calma em como


agir e para isso, precisamos estar juntas e vivas. Eu

consegui algumas informações, mas você tem que

obedecer a tudo o que eu disser. Já descobri uma maneira


de nos livrarmos de um destino pior.

— Tudo bem. — Eu me forço a responder.


Capítulo 2

TALASSA

Albânia — Europa

Dois dias depois

A mulher que me alimenta diz alguma coisa, mas eu

não entendo sua língua. Eu sei falar inglês, além do grego.

Aprendi quando passei a ajudar nas tarefas na mansão dos

Argyros[5]. A esposa do doutor Leandros, Cynthia, é inglesa

e todos os empregados lá precisavam saber inglês, de

modo que acabei tomando algumas lições por minha conta

mesmo. Como sou muito curiosa, passei a procurar vídeos

aula, o que enriqueceu bastante o meu vocabulário.


Um turista americano que esteve uma vez em nossa

ilha disse inclusive que a minha pronúncia é bem clara.

Acho que eu tenho facilidade para idiomas. Em uma das

aulas online que assisti, um professor falou que algumas

pessoas aprendem a língua “de ouvido” e talvez seja esse

o meu caso. Ainda assim, não faço ideia de qual seja o

idioma dessa senhora.

Ela coloca o prato de comida e a água na minha

frente e a seguir me mostra uma toalha. Acho que eu

entendo. Ela quer que eu tome um banho.

Olho para a refeição que trouxe. A aparência é


estranha como sempre, mas ao contrário dos primeiros

dias, agora eu tenho me alimentado. Lara já veio me ver


mais duas vezes e disse que eu preciso me manter forte.

Ela também me aconselhou a pensar em coisas boas


quando estiver triste. Nos lugares que conheceremos

juntas quando sairmos daqui.


O estranho é que toda vez que sinto medo, não é
mais em meus pais que penso, mas nela. Lara passou a

ser a boia que me permite ficar com a cabeça fora da água.


De madrugada, quando o pânico ameaça me engolir, eu

relembro de suas palavras: nós vamos sair daqui, mas


precisamos antes, sobreviver.

— Eu vou a algum lugar? — falo com ela pela

primeira vez, mesmo achando que não entenderá. Tento


manter a voz calma e distante, assim como Lara me

instruiu.

Na verdade, não preciso de uma resposta. Eu já

sabia que alguém viria me buscar porque minha amiga me


avisou. Só não tínhamos certeza de quando. O plano de

Lara era justamente esse: que eles nos levassem embora


daqui, no entanto, para sairmos em definitivo, livres, eu vou
precisar ser uma boa atriz.

Nossa única chance será se eu for a escolhida, caso


contrário, ambas estaremos em maus lençóis.
Ao invés de falar novamente, a mulher aponta para
o banheiro.

Meu coração está muito acelerado. Com todo o


terror que passei esses últimos dias, ao menos eu estava
sozinha, mas no momento em que atravessar aquela porta,

nada mais será garantido. Lara me explicou qual deverá


ser o nosso destino caso eu não seja selecionada como a
companhia solicitada.

A mulher deixou um vestido em cima da cama. Ele é


bonito, o tecido macio, o que parece um absurdo. Eles me
puseram em um quarto frio e me alimentaram muito mal
esses últimos dias e agora, por eu ter sido pré-escolhida,
ganho banho e roupa.

Uma parte de mim grita que eu deveria fugir, mas


duas coisas me impedem: a primeira, é que não posso
partir sem Lara.

Ela confiou em mim e mesmo que eu conseguisse


escapar — o que talvez seja quase impossível — nunca a

deixaria para trás. O segundo motivo que me faz ter medo


de tentar ir embora desse lugar, foi o que Lara me disse
que acha que fizeram com a menina que questionou um
dos homens sobre o porquê de ter que entregar o celular.
Meu estômago se revira enquanto relembro suas palavras.

É como estar dentro de um pesadelo e ficar


esperando acordar, mas sei que isso não é um sonho. Já

se passaram muitos dias e nada mudou. Nós fomos


sequestradas.

Será que a minha mãe estranhou eu não ter ligado?


Chamou a polícia?
Quando meu pai falou sobre a bolsa de estudos
oferecida pelo doutor Argyros, eu não fiquei entusiasmada

e acho que ela também não.

Eu nunca tive vontade de viajar. Gostava da ilha e


queria somente poder fazer algo para melhorar a vida dos

moradores. Sonhava em me tornar professora. Meu pai, no


entanto, tinha grandes planos para mim. Ele dizia que ao
contrário dele e de mamãe, eu conquistaria o mundo. O
que acho que nunca entendeu, é que minhas ambições

eram simples.

Eu disse isso a ele, mas papai, como todos os

ilhéus, temia o doutor Argyros, então eu não tive qualquer


escolha a não ser seguir suas ordens quando me falou que
eu viria estudar em Atenas.

Olho para os itens que a senhora deixou para que


eu usasse. Além da roupa e sapato, há também uma
escova de cabelo e maquiagem, apesar de não ter um
espelho.
Ligo o chuveiro e mesmo sem esperar a água
esquentar completamente, entro. Preciso acordar do

desânimo no qual meu corpo esteve preso todos esses


dias ou não conseguirei cumprir o que combinei com Lara.

Eles me levaram para outra casa. A pessoa que veio

me buscar não era mais um daqueles homens mal


encarados que encontramos quando saímos da van, mas

um senhor mais velho.

Assim como a mulher que cuidou de mim antes, ele

não falou comigo e enquanto eu aguardava que desse a

partida no carro, pensei novamente se não deveria tentar


fugir. Ainda que eu soubesse que estaria quebrando o

pacto com Lara, talvez nossa chance fosse maior se uma


de nós avisasse às autoridades.

Infelizmente, não precisei ficar me debatendo em


dúvida por muito tempo. Poucos minutos depois que eu

entrei no carro, dois dos homens de aspecto assustador

abriram as portas do passageiro e cada um tomou assento


ao meu lado.

E assim, meus planos foram sufocados antes de

qualquer tentativa.
Eu não estou acostumada a lugares muito
espaçosos. Nossa casa na ilha é bem pequena, de apenas

dois quartos e agora eles me trouxeram para um castelo de


verdade.

Enquanto espero que venham falar comigo, me


contorço sem parar na cadeira em que fui ordenada a me

sentar. Por mais que tente me concentrar no que Lara

revelou, a incerteza está me matando.

Nós vamos conseguir fugir. Nós vamos conseguir

fugir.

Repito essa frase em minha cabeça como uma

oração, incessantemente.

O teto da sala é alto como o de um museu. Há

quadros que parecem ser caros, mas a mistura de estilos é


bem estranha. Eu gostava de assistir vídeos sobre

decoração no YouTube, imaginando que um dia poderia


deixar a minha casa do jeito que eu queria. Agora, ficaria

satisfeita em estar em meu quarto minúsculo, sabendo que


no dia seguinte eu veria os meus pais. Minha mãe,

principalmente.

Escuto um ruído do lado de fora da porta e meu

coração dispara.

Não sou normalmente medrosa, pelo contrário, mas

esse é um sentimento constante desde que acordei


naquele quarto escuro.

A maçaneta gira e eu prendo a respiração. Como


Lara me instruiu, baixo a cabeça e observo minhas mãos.

Tímida e submissa, Talassa. — Em minha


imaginação, ouço o eco de sua voz.

Eu posso fazer isso. A parte da submissão nem é


tão difícil, a da timidez, normalmente seria porque sempre

fui de fazer amizade muito fácil, mas depois de tudo o que


aconteceu nesses dias, ficar calada não será um sacrifício.

Ouço os passos e sei que há várias pessoas


entrando.
Olho por entre meus cílios, sem mover a cabeça
para cima e tento esconder o choque quando noto um

rapaz, provavelmente da mesma idade que eu, se

aproximar em uma cadeira de rodas. Não é ele estar em


uma cadeira de rodas o que me espanta, mas porque

destoa dos outros homens que caminham ao seu lado. Eu


tenho certeza de que como eu, também é um adolescente

e acho que nem mesmo Lara sabia disso — que o filho do

homem seria tão jovem.

O garoto tem um rosto limpo e veste roupas

elegantes. O cabelo é bem cortado e seus traços são


bonitos, apesar do aspecto frágil e pele pálida. Sei que

como os observo, eles também estão me olhando de volta.

Espero estar representando meu papel tão bem

quanto Lara e eu treinamos. Uso o vestido branco, florido e


sem mangas que eles enviaram. Meus cabelos compridos

estão soltos e escovados. Talvez me encontre um pouco


mais arrumada do que fico normalmente, mas fora isso,

essa aqui sou eu.

Ameaço levantar quando o rapaz chega mais perto,

mas ele faz que não com a cabeça e torno a me sentar.

— Você fala inglês? — Pergunta.

Balanço a cabeça concordando. Ao contrário do

meu, seu sotaque é carregado.

— Responda em voz alta.

— Falo, sim.

— Todas as vezes que eu fizer uma pergunta, você

me responde com palavras, fui claro?

— Sim.

— E para você eu sou senhor. Você deve sempre

usar isso ao fim de cada frase.

Ouço as risadas dos homens e mais pressinto do

que vejo o mais velho mover a cabeça em aprovação.

— Sim, senhor.
— Melhor. Qual é o seu nome?

— Talassa.

— Quantos anos você tem?

Penso por um instante se deveria mentir e dizer que


tenho menos, mas provavelmente ele já sabe a minha

idade real.

— Dezesseis.

— Erga o rosto. Eu quero ver você.

Há arrogância em sua voz. Eu tive contato o

suficiente com o doutor Argyros e sua família para entender


que aquele garoto é rico. Do tipo que sabe que o mundo

deve obedecê-lo.

Faço o que ele me mandou, focando exclusivamente


nele, apesar de perceber pela minha visão periférica que

há vários outros homens na sala.

O que se parece com ele e acredito que seja seu

pai, tem algo de maligno em seu rosto. Uma crueldade que


me causa um estremecimento. Também não gosto da

maneira como ele olha para mim.

O jovem vira para trás e diz alguma coisa para os


homens. A língua parece ser a mesma que a mulher que

cuidava de mim na outra casa falava. A seguir, ele torna a

falar em inglês e acho que é porque quer que eu entenda.

— É essa aqui, pai. Ela é bonita e pode conversar

comigo, ao contrário das outras. Minha escolha já foi feita.


Agora vocês podem nos deixar a sós.

O homem que agora tenho certeza ser o pai do

adolescente se aproxima e aperta seu ombro.

Quando todos se vão, penso que eu deveria suspirar

aliviada porque o plano de Lara correu como nós

desejávamos, mas ao contrário, estou com muita raiva por

esse moleque me tratar como se eu fosse um objeto.

Talvez isso seja uma coisa boa — a raiva, quero dizer.

Agora que finalmente posso encarar meus sequestradores,


isso me dará forças para lutar.
— Eu vou ficar aqui? — Finjo estar calma, o que não

poderia estar mais longe da verdade.

— Não aqui, mas comigo. Para onde quer que eu

vá. — O rapaz responde. — Não vai falar nada?

— Eu não sei o que eu posso falar. — Tento manter

a calma, mas interiormente estou gritando de horror.

— Você está autorizada a responder.

— Por que estou aqui?

Acho que ele não estava esperando a pergunta, mas

mesmo assim, não hesita.

— Meu pai comprou você para mim.

Tomo algumas respirações para controlar meu

temperamento, mas mesmo sabendo que combinei com

Lara ser obediente, não consigo esconder a indignação.

— Pessoas não podem ser compradas. Coisas são


compradas.

Ele me encara em silêncio, o rosto fechado.


— Então, você é uma coisa. — Diz com arrogância.

Aperto as mãos na lateral do corpo e faço uma

última tentativa.

— Se vou ficar você, eu preciso avisar a minha mãe.

Ele joga a cabeça para trás e ri.

— Acredite, seus pais não estão nem um pouco

preocupados com o seu paradeiro.

— Não diga isso. Eles devem estar apavorados.

Meu autocontrole começa a ruir.

— Como poderiam estar com medo do seu destino,

se foram eles mesmos que a venderam?

— O quê?

— Foi seu pai quem negociou sua vinda, Talassa.


Capítulo 3

YERIK

Geórgia — Estados Unidos

Três anos depois

— Não, eu não quero saber. Não há negociação

para prorrogarmos o prazo. Não. Ou paga o que nos deve

antes ou pode comprar o que precisa em outro lugar.

A pressão na minha cabeça aumenta a cada fodido

argumento que ouço do imbecil.

— Sem mais prazos. Hoje até o meio-dia. Caso o

pagamento não seja efetuado, você sabe o que

acontecerá.
Desligo o celular descartável, agradecido por aquele

puto não estar na minha frente.

O dia promete ser um inferno. Oito horas da manhã

e o mundo já está desabando.

Não tomo duas respirações e um dos outros

celulares começa a tocar. Por mais tentador que seja não

atender, não consigo ignorá-lo. Eu sempre estarei

disponível para a família.

— O que você quer?

— Eu preciso de um favor. — Grigori, um dos primos

que ganhei de presente por conta dos diversos casos


amorosos de dedushka, fala assim que eu atendo.

— Mais um?

— Sim, quero que você descubra se uma mulher,


uma garota na verdade, ainda está viva. Seu nome é

Talassa Galanis. Passarei tudo o que tenho sobre ela.


Esfrego a mão no rosto repetidas vezes, intuindo
que não importa qual a razão dele estar me pedindo aquilo,

não será uma coisa pequena.

— Se ela desapareceu, o nome é irrelevante.


Preciso de uma fotografia.

— Eu tenho urgência. Vou mandar daqui mesmo.

— Não. Onde você está?

— Na Grécia.

— Alguém irá encontrá-lo quando voltar aos Estados


Unidos.

Dias depois
A porta abre sem qualquer batida e antes mesmo

que a pessoa se mostre, sei de quem se trata. Só Grigori

se arriscaria a entrar em meu escritório sem ser anunciado.

Ele não me cumprimenta. Ficamos nos encarando

como sempre acontece. Nenhum de nós acredita ou


precisa de palavras e, no entanto, sabemos que
morreríamos um pelo outro.

— Eu disse que mandaria alguém encontrá-lo.

— Eu não podia esperar. O olhar da mãe da garota

tem me assombrado.

— Não resgato pessoas e nem sou a porra de uma

associação beneficente. Por que eu me envolveria em algo


do tipo?

A semana poderia ficar pior do que isso? Depois de

ter um carregamento de armas interceptado e perder cerca


de dois milhões, Grigori resolve vir pessoalmente me trazer
mais dor de cabeça.
Olho para o homem que é sem medo de errar uma
das pessoas em quem mais confio no mundo, mas que
também tem como esporte favorito me criar problemas.

— Alguma pista de quem a levou?

— Por alto. Eu andei pesquisando e tenho quase


certeza de que foram os albaneses.

— Esqueça. Provavelmente ela nem está mais viva.

— A mãe acha que está.

Aquilo me atinge mesmo contra minha vontade.


Quando Natalya foi morta, minha mãe disse que sabia.

Todos os dias enquanto meu avô revirava a Rússia do

avesso em busca da minha irmã, mat ’[6] afirmava que ela


não voltaria para nós. Intuição materna, revelou anos mais
tarde.

— Você tem ideia do que está me pedindo? Isso


poderia iniciar uma guerra. Não que aqueles filhos da puta

não mereçam sofrer. Eu já venho tendo problemas com


eles há meses, mas se estão com a garota e dependendo
de quão valiosa ele seja para eles, podemos dar início à

porra do apocalipse.

Ele não fala nada, esperando que eu despeje toda a


minha raiva. Grigori é a única pessoa com quem deixo

minha real natureza vir à tona. Nem mesmo perto de


dedushka eu demonstro o que estou sentindo, mas talvez
por seu temperamento ser ainda mais fechado do que o
meu, me permito ser eu mesmo ao seu lado.

Sua indiferença sempre me irritou, apesar de ser


uma boa coisa esse tipo de equilíbrio entre nós dois:

enquanto tenho o sangue quente, Grigori é gelado.

— Já não basta a limpeza que fiz para Lykaios[7]?

Ele não diz nada. Sei que é leal ao homem que é


conhecido no mundo todo como o imperador da tecnologia.

Grigori trabalha para o grego há mais de uma década, mas


pretendo mudar isso em breve. Não é um segredo que
serei o próximo Pakhan e quero meu primo ao meu lado,
como meu Sovietnik[8]. Não há ninguém mais qualificado

que Grigori para o cargo de conselheiro.

Meu primo atualmente oscila entre os dois mundos,


tanto o meu quanto o do lado da lei. O que é inteligente,

mas também pode ser perigoso.

Normalmente eu não falaria sobre favores ou ações

do passado, mas dessa vez quero algo em troca. É do meu


interesse que ele lembre que já está me devendo.

— Você sabe que o irmão do Sheik [9] está à procura


dele? — Continuo a jogar.

— O homem era um estuprador. A Terra é um lugar


melhor, agora que ele já não pode mais machucar

mulheres.

— E o que você é? Um super-herói combatendo o

crime pelo mundo?

Ele dá de ombros porque nós dois sabemos que

ambos não estamos nem perto de sermos heróis.


— Naquele caso, foi pessoal. Ele estava atrás da

mulher de Odin.

Esfrego a mão pelo rosto, irritado.

— Isso é passado. Já está resolvido e ninguém

jamais encontrará qualquer traço do maldito, mas o que

você quer que eu inicie agora é muito maior. Por que ela é
tão importante?

Ao invés de me responder, ele tira algo de dentro do


bolso e me mostra.

Estico a mão e vejo que é uma fotografia.

— É ela? — Pergunto ainda sem olhar para a foto.

Ele acena com a cabeça, até que finalmente diz.

— Aí a menina está com a idade de Natalya, Yerik.


Ela foi vendida aos dezesseis anos.

Em segundos, meu sangue se transforma em gelo.


Grigori sabe que atingiu o meu nervo mais sensível porque

mesmo depois de muito tempo passado e ainda que a


morte da minha irmã tenha sido honrada através da tortura
dos seus assassinos, eu jamais conseguirei esquecer ao

que a reduziram.

— Não faça essa porra de jogo comigo e nem

coloque Natalya na história. Não quero me envolver. Como


essa aí, existem milhares de garotas que foram vendidas

pelo mundo inteiro. A menina não é problema meu.

Devolvo a foto sem olhar, decidido a me manter à

parte daquela merda.

— Não, não é. E nem meu, mas estive com seus

pais. Com sua mãe, principalmente e juro por Deus que a

mulher está morta em vida. Sei que as chances de que a


encontremos é pequena, mas eu quero tentar. Se você não

me ajudar, irei atrás sozinho.

— Você será morto em vinte e quatro horas. As

coisas mudaram. Os albaneses atuam como um bando de


desordeiros e não respeitam qualquer hierarquia. Não há
um código a ser seguido ali. São pequenos grupos de

imbecis, cada um se achando o rei de alguma merda.

— Eu dei a minha palavra à mãe dela. Só preciso de

uma resposta.

Recolho a mão e finalmente me obrigo a observar a

menina que provavelmente nem está mais nesse planeta.


Elas não costumam durar mais do que poucos anos.

Raramente alguma chega à idade adulta.

Assim que meus olhos encontram os da garota,

tenho vontade de desviar.

Jesus, ela é uma criança. Uma menininha mesmo.

Ele disse dezesseis, mas aqui parece estar entrando na


adolescência. Cabelo castanho longo e cheio, olhos do tom

de uma bala de caramelo e rosto cheio de sardas. Apesar

disso, já dava sinais da mulher linda que se tornaria.

Ela não sorri. Tem uma expressão sonhadora, mas

um tanto ausente e me pergunto se, na possibilidade


remota de que a localizemos, sobrou algo daquela criança.
Eu acho que não.

O passado, que mantenho trancado, de repente

arromba portas e tenta voltar para a minha vida.

Meus dentes trincam e eu aperto o papel,

concentrado na garota que em um mundo ideal, deveria


estar aproveitando sua juventude.

— Há quantos anos ela desapareceu?

— Três.

— Talvez haja uma chance de que tenha

sobrevivido. Ela é muito bonita. Não a descartariam tão


cedo.

Ele concorda com a cabeça.

— Apesar disso, essa menina aqui da foto,

independente da aparência que tenha agora, não existe


mais.

— Eu sei e sei também que o que estou pedindo é


muito, mas não consigo esquecer o olhar da mãe dela. Não
foi só ela que desapareceu. Nesse grupo que levaram

Talassa, havia pelo menos mais uma dúzia.

— Conte-me o que aconteceu.

— Havia um grego…

— Havia?

— Sim, o desgraçado pagou suas dívidas pelas

mãos dos pais das meninas. A essa altura deve estar


ardendo no inferno. — Por fim, puxa uma cadeira e se

senta à minha frente. — O bastardo era dono da ilha em

que essa menina morava.

— Leandros Argyros.

Ele não parece surpreso que eu saiba de quem

estamos falando. Grigori me conhece. Eu investigo não só

todos a minha volta, mas quem fica perto da minha família


também.

— Sim. A ilha da qual era dono não possuía um


colégio em que as meninas pudessem cursar o segundo
grau. Aliás, percebi que várias ilhas pequenas no entorno
daquela são assim. Ele então propunha aos ilhéus dar uma

bolsa de estudos em Atenas, com direito à acomodação e

a perspectiva de que pudessem cursar uma universidade


no futuro.

— Mas era tudo mentira. — Declaro o óbvio.

Ele novamente assente com a cabeça.

Porra, alguns pais são ingênuos ao extremo. Se há

uma verdade sobre a vida, é que se algo parece bom


demais para ser real, é porque geralmente é uma

armadilha.

— Uma fodida mentira. Só um meio para que ele

tivesse acesso às garotinhas. Nós não temos certeza

porque os infelizes não deixaram rastros, mas acredito que

ela tenha sido traficada. Há rumores de uma ligação de


Argyros com tráfico humano.

Volto a olhar a fotografia.


— Ela pode estar em qualquer parte do mundo.

— Eu sei. E pode nem estar mais em lugar algum,

mas eu preciso ter certeza. Estou pedindo como um favor


pessoal.

Quando vê que eu ainda não me decidi, ele

continua.

— Você não é indiferente. Não pode ser. Não depois


do seu passado.

— Eu já avisei para não trazer minha irmã para a

história, caralho.

— Não estou querendo reabrir feridas, mas nós dois


sabemos como aquilo o marcou.

— Eu superei. Pessoas morrem todos os dias.

— Superou porra nenhuma. Se fosse assim, não

teria iniciado uma luta com o avô ao se recusar a lucrar


com prostituição e tráfico de garotas.
— Não quero lidar com humanos. É muito

trabalhoso. Armas rendem mais.

— Continue dizendo isso a si mesmo, mas ambos

sabemos que o que o impede de usar mulheres para o

comércio foi o que aconteceu com Natalya.

— Vamos deixar algo bem claro: você é meu primo.

Sangue do meu sangue, mas não tente me chantagear

trazendo minha história para a conversa.

Ando até a janela do edifício de mais de cem

andares, onde fica a sede do meu escritório em Atlanta.

— Eu não posso prometer encontrá-la ou trazê-la de

volta, mas irei procurá-la, com uma condição.

Volto-me para encará-lo.

— Que condição?

— Se eu a localizar, independente do que resulte

essa busca, você vem para a Organização em definitivo.


Capítulo 4

YERIK

Geórgia — Estados Unidos

Duas semanas depois

— Eu não vou falar sobre isso agora, Pakhan.

— Desde quando você me chama assim, quando

estamos só nós dois?

— No momento em que você começar a me tratar


como um maldito empregado, eu passarei a agir como um.

— E querer que você se case e me dê

descendentes é tratá-lo como a um empregado?


— Se eu tiver que escolher uma daquelas bonecas

que você chama de opções, é sim.

— São boas moças de família. Além do mais, você

tem se divertido bastante antes e poderá continuar a fazê-

lo após o casamento, desde que seja discreto. Uma delas

será somente a oficial.

— Não, obrigado. Na hora em que escolher minha

mulher, não pretendo continuar distribuindo minha semente

pelo mundo.

Sei que ele não dará a mínima para o que estou

dizendo. Não é a primeira vez que temos essa discussão


ou que sou pressionado para me casar.

— Se eu não tivesse distribuído minha semente pelo


mundo, você não existiria.

— E quem sairia perdendo? — Eu estou muito puto


e quero encerrar a conversa, mas para minha surpresa, ele
ri.
— Você não poderia ser mais parecido comigo nem
se tentasse, filho. — Do mesmo jeito que a risada

começou, ela termina. — Mas sabe que terá que se decidir


em breve. Não me resta muito tempo nesse vale de

lágrimas que é o nosso planeta. Quando você estiver


ocupando meu lugar, precisará de uma boa esposa ao seu
lado e também de filhos que possam dar continuidade aos

negócios da família.

Sei que ele tem razão e também que mais cedo ou

mais tarde terei que dar início à verificação das opções,


mas ao meu modo e não em uma porra de uma lista. O

futuro da Organização depende de mim e isso significa que


devo dar o exemplo, obedecendo as regras não escritas,

mas posso escolher minha mulher sozinho.

Inspiro, de saco cheio. Essa é a parte não tão boa


de ser o chefe.

— Eu vou pensar a respeito.


— Quer que enviemos outros nomes? As meninas
do ano passado, hoje são mulheres e dariam ótimas

esposas.

— Não, obrigado. A lista que me foi entregue é mais


do que suficiente. — Minto, para que ele pare de falar.

— Quando você vem para casa? — Muda de


assunto, talvez percebendo que estou no meu limite.

Eu sei que ele ficaria ofendido se eu colocasse em


voz alta, mas cada vez mais considero os Estados Unidos
como meu verdadeiro lar. Depois que meus pais faleceram

em um acidente de trem há cinco anos, os únicos motivos


para visitar a Rússia têm sido negócios, sejam eles
contratos ou para rever o Pakhan. Meu avô se encontra
com a saúde debilitada e tem evitado sair da velha pátria.

— Eu não posso ir no momento, mas em breve.


Dias depois

— Nada ainda?

— Mais ou menos. — Maxim, meu segundo no


comando e em confiança depois de Grigori, responde.

— Como seria isso?

— Temos uma pista. De acordo com as informações

que você me passou, ela desapareceu há três anos, certo?


O velho grego estava negociando não só com os
albaneses, mas também com o nosso próprio povo na
época.

— Eu sei, mas ela não foi enviada para a Rússia.


— Como pode ter tanta certeza?

— Porque eu já ordenei que fosse procurada lá.


Ninguém seria louco de me esconder algo assim.

Ele não discute porque ambos sabemos que tenho


razão.

— O grupo em que essa menina estava não foi o


primeiro carregamento que o grego enviou para fora do
país. Ao que consta, há pelo menos uma centena dessas
garotas aí fora. Muitas, tenho certeza de que não estão
mais entre nós. Talvez nem mesmo essa Talassa esteja.

— Eu sei, mas disse a Grigori que teríamos uma


conclusão sobre o que aconteceu a ela e pretendo cumprir

a promessa.

— Certo. Eu disse que havia uma pista. Então,

vamos lá. — Ele pega algo no bolso. — Se ela fazia parte


do grupo passado aos albaneses naquele meio de ano,
então talvez isso facilite muito as coisas.
— Por quê?

— Conseguimos informações interessantes. Houve


uma encomenda especial naquele verão. A entrega deveria
ser feita diretamente no castelo.

— Castelo?

— Sim. Diretamente ao chefe. Gjergj Bardha[10].

— Não sei como estar nas mãos daquele filho da

puta possa ser melhor destino. Não consigo enxergar


facilidade por esse caminho, como você afirmou.

— Ela poderia estar em várias mãos de outros como


ele, simultaneamente. Então, de onde vejo, é um destino

melhor sim.

O rosto inocente aparece, sem pedir licença, na

minha cabeça.

— Verifique isso o mais rápido possível. Preciso de

uma resposta até o fim dessa semana. Essa merda já está

se arrastando há um tempo e não tolero assuntos


inacabados. Mais uma coisa. Consiga tudo sobre sua vida

anterior. Dela e da família.

— Como o quê, por exemplo?

— Tudo. Até mesmo a porra de um espirro que ela

tenha dado ao nascer. Sobre esse castelo, pegue alguém

de dentro. Não só quem conheça a rotina deles, mas que


esteja há tempo suficiente para já ter visto a garota por lá.

Quando ele sai, abro a gaveta da minha mesa e


pego novamente a foto dela.

Há alguma coisa em seus olhos que me faz verificar


a imagem todo fodido dia. Como em um chamado

silencioso, Talassa não me permite deixar essa merda


esquecida. Se a informação que Maxim me deu for

verdade, o problema será maior do que pensei.

Caso ela tivesse sido simplesmente vendida, seria

fácil negociá-la. Essas garotas são, para eles, nada mais

do que mercadoria e como todo produto, têm um preço.


Mas se está servindo ao chefe, a situação muda
totalmente. Além do fato de que ela não podia estar em
pior companhia. Gjergj é lendário por não ter qualquer

respeito pelo sexo feminino.

Montenegro — Europa

Uma semana depois

— Vocês estão assinando minha sentença de morte.

Se descobrirem que eu estive aqui, acabou a minha vida.

Seu inglês é uma merda, mas o medo é um idioma

universal.
Ao invés de responder, eu o encaro. Nós dois

sabemos que ele não tem com o que se preocupar. De


qualquer modo, não sairá daqui vivo. O idiota deveria intuir

que no momento em que se envolveu com os albaneses,

sua contagem regressiva começou. Fosse pelos inimigos,


fosse pelo seu próprio povo.

Eu não havia planejado viajar, mas tive que vir para


a Europa. Seria arriscado demais levar um convidado para

os Estados Unidos.

— Podemos pensar juntos em que tipo de morte

deseja, então. Se nos der o que queremos, talvez eu seja


bom para você. — Maxim explica.

Um lampejo de medo passa pelos olhos do homem.


Gjergj é um imbecil por manter alguém tão fraco a sua

volta. Ele precisou de somente algumas horas de incentivo

para começar a soltar tudo.

— Não sei muito mais do que eu disse. A menina

pertence ao filho do homem. Eles vivem como se fossem


marido e mulher e ninguém a toca, além do rapaz.

De fora, alguém poderia confundir aquilo com uma

conversa amigável, não fosse o nariz quebrado do nosso


hóspede.

Maxim se aproxima do albanês. Estamos só nós três


nesse porão. Apesar de não haver qualquer arma em suas

mãos, um homem teria que ser muito estúpido para não


perceber a ameaça implícita em sua postura.

Sua voz é baixa e as sentenças saem lentamente.


No entanto, isso assusta mais seus adversários do que se

usasse de ameaças.

— Sabe, você está começando a me cansar. Eu vou

dar mais um minuto, e então começarei a pensar em meios

divertidos para passarmos o resto da noite. — Meu homem


sentencia.

— Explique essa parte da menina pertencer ao filho


do seu chefe.
É a primeira vez que eu falo e posso ver suas

pupilas dilatarem. Até agora, ele não havia olhado


diretamente para mim, mas apesar de demonstrar medo,

foi criado para entender que deve mostrar respeito ao

chefe, seja ele da nacionalidade que for.

— O garoto é doente. Algum tipo de doença grave

que fez com que ele parasse de andar. O que eu sei é que
não tem muito tempo de vida e pediu uma esposa de

presente de aniversário há alguns anos. Então, ele ganhou

uma.

Eu já sabia sobre a doença, claro. Atualmente,


conheço a fundo todos os familiares de Gjergj. Nunca havia

me inteirado de sua vida pessoal porque não se fez

necessário. Não negociamos com os albaneses, mas como


eles têm nos causado problemas ultimamente, já estavam

em nossa mira mesmo antes do meu primo me pedir ajuda

para encontrar a menina.


Olho para o lixo humano à minha frente. Quero
tentar voar para os Estados Unidos ainda hoje, mas antes

preciso da confirmação de que Talassa é a tal garota

encomendada para ser a esposa do filho de Gjergj.

Pego a fotografia dela e sacudo no seu rosto. O

homem estremece.

Para quem vive de um negócio tão arriscado, Gjergj

não protege as próprias costas. Ele deveria se cercar de


pessoas mais leais e não um covarde que canta como um

passarinho depois de algumas horas de brincadeira.

— É ela?

Ele move a cabeça como se dissesse que não, mas

a seguir volta a olhar para a imagem.

— Talvez. Ela se parecia com essa menina quando

chegou, mas já é uma adulta agora.

— Qual exatamente é o papel dela?


— Como eu disse, ela pertence ao garoto. Ninguém

a incomoda, nem mesmo o chefe. E todo mundo sabe que

ele gostaria.

Apesar do olho inchado e o rosto deformado, ele

sorri.

— Não duvido que já tenha tentado, mas o rapaz

não é burro. Ele conhece o próprio pai e não a deixa sair

do quarto para nada. — A próxima informação me


surpreende. — De qualquer modo, eles não moram mais

no castelo. Não permanentemente. Aleksander precisou se

mudar para os Estados Unidos para fazer os tratamentos

médicos.

— E ela foi levada junto?

— Que opção teria? Eu só não sei por que insistem

tanto, gastando dinheiro com hospitais. Ele já está morto

em vida.

Isso bate com o relatório. O único filho de Gjergj

sofre com uma doença degenerativa rara.


— Quem fica em volta dela?

— Muitos homens, mas ninguém se aproxima.

Enquanto o garoto viver, ela estará segura.

Começo a andar e vejo o pânico em seu rosto. Ele


percebe que a nossa conversa acabou e que não tem mais

qualquer utilidade para mim.

— A garota é estúpida.

Em segundos, consegue meu interesse de volta.

— O quê?

— Ela é estúpida. Todos sabem. No início, o chefe

achava que fingia, mas agora, depois de alguns anos, ela é


invisível para nós, porque é burra como uma porta. Tudo o

que tem é a beleza. — Ele confunde meu silêncio com não

estar entendendo sua explicação e parece frustrado

enquanto continua. — Lenta. Ela é lenta. Não entende

nada do que falamos.


O que ele não faz ideia, é que eu investiguei
Talassa. Tenho todo o seu histórico. Suas notas eram

excelentes. Não há nada de lento na menina e agora eu sei

que ela conseguiu uma maneira de se manter viva. A

garota é uma lutadora passiva.

Começo a me afastar outra vez, mas sua voz me


para novamente. O homem agora não disfarça o desespero

e tenho certeza de que me entregaria até mesmo o

endereço da própria mãe para ter uma chance de escapar,

mas ele sabe que não há como fugir ao seu destino.

— Há uma garota muito próxima a ela. Lara. Ela

serve ao chefe. Essa sim é muito esperta. Talvez o

interesse mais. Elas são unidas e sua menina até mesmo

já conseguiu levá-la para os Estados Unidos uma vez.

A informação é útil, mas o que me prende no que ele


falou é outra coisa.

Sua menina.
Em algum nível dentro de mim, sei que aquilo é

verdade. Há uma voz que me diz que estou trilhando um

caminho sem volta.


Capítulo 5

TALASSA

Nova Iorque — Estados Unidos

Dias atuais

“Está na hora.”

A mensagem, que eu sei que vem de Lara,

apareceu em meu quarto.

Uma frase simples que faz meu estômago revirar.

Eu sabia que esse momento viria em breve. É para

isso que tenho me preparado desde que fomos

sequestradas. Entretanto, quando finalmente preciso

colocar minha fuga em ação, estou novamente apavorada


como quando despertei depois das drogas que me deram

no primeiro dia.

Eu não tenho motivo para duvidar das instruções

dela. Se estou viva agora, devo tudo à Lara.

Criada em meu mundo protegido na ilha, eu jamais

teria a engenhosidade de pensar em uma saída.

Provavelmente agiria como todas as outras: me rebelado

no início até que eles me quebrassem e em seguida,

também encontraria o mesmo destino.

Lara não é só inteligente, mas uma expert na arte da

manipulação e eu me tornei uma aluna aplicada. Tenho


fingido há tanto tempo, que não sei se há ainda algo de

real em mim.

Eu aprendi a representar. É engraçado que pouco

antes do meu sequestro, minha mãe disse que tudo o que


eu pensava ficava estampado em meu rosto. Não mais.

Agora, as pessoas só veem o que eu permito.


Eu sabia, mais por intuição do que por experiência,
que a minha única chance de passar por isso sem ser

vendida novamente seria fazer o rapaz se afeiçoar a mim.

Ele nunca foi um homem delicado ou doce, mas eu


aprendi a amansá-lo, dizendo o que ele desejava ouvir.

Ganhei sua confiança ao ponto de enfrentar o pai várias


vezes por minha causa.

O homem que passou a se autodenominar meu


marido é arrogante, pode ser frio e até cruel às vezes, mas

me protege desde que decidiu que eu pertencia a ele.

Quanto ao pai, ali sim está o verdadeiro monstro.

Não gosto do jeito que ele me olha. Eu sei o que há

naqueles olhos. Os outros homens que trabalham aqui me


olham do mesmo modo.

Cobiça. Desejo.

Eles sabem.
Todos eles sabem que apesar de ocupar o lugar de
uma esposa, eu sou intocada. Dentre todos, o que mais

temo é o pai de Aleksander. Perto dele, eu me esforço

ainda mais para fazer o papel de estúpida. No começo, os


homens pareciam não acreditar muito, mas com o passar
do tempo, eles começaram a relaxar ao meu redor ao
ponto de falarem sobre seus negócios.

Eu acumulo tantas informações que quase posso


me considerar um membro de sua organização criminosa.
Sei quem eles são e o que fazem. Memorizei quantos

carregamentos de drogas e seres humanos chegam a cada


semana no Porto. Conheço os nomes de seus principais
clientes e também de algumas autoridades em sua folha de
pagamento.

Se desconfiassem de tudo o que tenho guardado,


não duvido que estaria morta. Mas além do pavor de que

descubram que venho mentindo por anos, o que me faz ter


pressa em me preparar para fugir agora, é a convicção de
que no momento em que não houver mais a barreira do
filho se interpondo entre nós, Gjergj virá para cima de mim.

Aperto o papel em meus dedos.

Suas palavras têm um peso maior do que qualquer


um adivinharia. Elas significam que o tempo de Aleksander
na Terra acabou. Não há mais nada a ser feito. Ele morrerá
em breve.

Uma parte de mim, a covarde, gostaria que a


mensagem não fosse verdade, mas pelos motivos errados.

Não tem nada a ver com lamentar sua morte. Eu


não duvido nem por um segundo que se a situação fosse
outra, se ele não estivesse confinado a uma cadeira de

rodas ou seu cérebro entrando em colapso, seria tão ou


mais cruel do que seu pai.

Se Lara me enviou o bilhete, é porque conseguiu

acesso ao resultado dos exames. A doença dele teve uma


escalada nos últimos dois meses e essa mensagem é
somente a confirmação de que não há mais nada a ser
feito.

Olho para o rapaz adormecido no quarto que


compartilhamos. Ele está ainda mais magro e frágil do que
quando o conheci e a menina que eu fui um dia, a pura,

ingênua garota de uma pequena ilha da Grécia, se


compadeceria de seu estado.

Só que aquela garota não existe mais. Meus


dezenove anos são somente um número.

No lugar da antiga Talassa, há uma mulher que se

tornou especialista na própria sobrevivência. Hoje, eu


posso ser praticamente quem eu quiser.

A companheira agradável do meu quase marido. Fiel


e obediente. Doce e divertida.

A menina burra, com um vocabulário limitado para o


pai dele e seus funcionários. Superficial e que não
consegue entender uma conversa mais profunda.
E finalmente, dentro da minha cabeça, posso ser eu
mesma.

Aquela que talvez nem sequer Lara conheça.

A que não se permite sentir.

Compaixão, remorso, dor, carinho.

Não deixo nada vir à tona. Desligo minha mente e


não faço planos além dos que envolvem nossa fuga.

Nenhum futuro, romance, família ou filhos.

Meu único foco é manter a mim e a Lara vivas.

Cada uma a seu modo, conseguimos chegar até

aqui, mas agora sei que não temos muito tempo. Eu


preciso correr se quiser escapar.

Eu fiz tudo direito. Segui todos os conselhos dela


para poder atravessar os últimos três anos. Eu sorri, fingi e

menti tantas vezes, que já não me reconheço mais quando

me olho no espelho.
Capítulo 6

YERIK

Geórgia — dois dias depois

— Onde você está?

— Por que o interesse?

Apesar de ser Maxim do outro lado da linha, a

desconfiança está em meu DNA.

— Aconteceu um imprevisto. É sobre a garota.

Estou tentado para caralho a dizer que vou esperar

até amanhã, mas meu senso de dever não me permite.

— Encontre-me no clube em meia hora.


Le Crépuscule Nightclub

O motorista para nos fundos do meu clube. Aguardo

enquanto fazem a varredura habitual na rua, apesar de ter

certeza de que a primeira equipe já verificou o local.

Em meu meio, precaução nunca é demais e meus


seguranças não dão qualquer chance ao azar. Apesar de

não estarmos na Rússia, não há dúvida de que um atirador


de elite poderia tentar a sorte comigo nessa ou em

qualquer outra noite. Ando com um alvo nas costas.


Qualquer membro da Organização sabe que tem um.
Após longos minutos nos quais a minha paciência é
testada, a porta do carro se abre e rapidamente sou

escoltado para dentro.

Essa é uma entrada privativa. Somente eu e meus


homens temos acesso. Nenhum cliente chega perto daqui,

mas depois de alguns passos no corredor, me deparo com


um dos meus últimos equívocos.

Cindy.

Uma das dançarinas e também a prova viva de que

misturar negócios e prazer é uma ideia de merda.

Foi só por uma noite — mas uma que eu gostaria de


apagar.

Eu estava no vácuo entre uma amante e outra e me


deixei levar pelo momento. Não me envolvo com mulheres

que trabalham para mim — em qualquer nível — e há uma


razão para isso. Você não tem como se livrar delas no dia

seguinte.
Como para confirmar minha teoria, a mulher se
aproxima. Os quadris rebolantes em dissonância com a

raiva no olhar.

Como é mesmo aquele ditado? O Inferno não


conhece fúria como a de uma mulher rejeitada.

Eu tive uma única interação com ela após aquela


noite e achei que havíamos esclarecido as coisas, mas
pelo visto, não. Antes que ela consiga chegar mais perto,

no entanto, meus guarda-costas a param.

— Você será um problema para mim? — Pergunto

antes que eles a afastem totalmente.

— Não se preocupe com isso. — O chefe da

segurança responde.

— Não. Solte-a. Eu quero ouvir o que ela tem a dizer


porque será sua única chance. Teremos um problema aqui,

Cindy?
Até então, eu a havia evitado, acreditando que ela
seria inteligente o suficiente para perceber que não é uma
boa coisa forçar o que quer que seja comigo. Não sou o

tipo de homem que hesita quando deseja algo. Se não fui


pegar, é porque não me interessa. Simples assim.

Vejo pelo movimento de sua garganta que talvez


pela primeira vez ela tenha entendido onde está se
metendo.

— Nã-não.

Ela não me encara agora, mas no momento sou eu

quem não quer deixar para lá.

— Se eu a vir em meu caminho novamente sem que

tenha sido solicitada a sua presença, você está fora.

— Eu não posso perder meu emprego, chefe.

— Se está tão preocupada com ele, mantenha-se


longe dos meus olhos.
Sacudo a cabeça, não pela primeira vez arrependido
da minha fraqueza. Prefiro amantes fixas a fodas de uma

noite, apesar de sempre deixar claro que não estou


buscando nada além de sexo. Não tenho tempo para
coordenar carência de qualquer tipo, mas pelo que tive de
experiência até aqui, a maioria das mulheres sempre
guarda a esperança de ser aquela que irá me mudar. Estão

todas erradas.

Mesmo que eu discuta ocasionalmente com meu

avô sobre a escolha de uma noiva, quando ela se der, será


puramente na base impessoal. Amor não faz parte do meu
mundo.

Quando entro na sala com Maxim, meus outros dois


homens de confiança estão à minha espera. Não preciso
que qualquer um deles diga algo para ter certeza de que
não é um problema único o que resolveremos aqui.

— Falem o pior primeiro. — Lato, assim que me


sento atrás da minha mesa.
Maxim faz um gesto com a mão, pedindo que não
comecem ainda, e em seguida procede com uma segunda

varredura pela sala à procura de escutas. Quando parece


ficar satisfeito, responde.

— Não há menos pior, mas vamos lá. O rapaz


morreu. Temos alguém dentro da casa em Nova Iorque e
sabemos por fonte segura que após o enterro, sua

protegida estará em apuros.

— Ela não é minha nada. — Rosno e ele sorri.

— Que seja. Se quisermos tirá-la de lá, temos que

aproveitar a ocasião. Durante o velório será perfeito.

Depois disso, não sabemos sequer se eles a manterão nos


Estados Unidos.

— Faça-o.

— Certo e para onde a levamos depois?

Eu já havia pensando nisso. Ela precisará ficar

escondida por um tempo. Se eu a resgatar e simplesmente


enviar de volta para a Grécia, ela será morta em pouco

tempo.

— Leve-a para minha casa nas montanhas, no

Tennessee.

Ele ergue uma sobrancelha, espantado.

— Você está me dizendo para colocá-la em um lugar

que ninguém tem conhecimento além de nós e seu avô?

— Estou usando linguagem codificada?

— Não, tudo bem. Será feito, mas preciso deixar a


minha opinião. Ela é um risco desnecessário. Sei que não

podemos mandá-la para seu país ainda, mas você não


deveria se envolver em um nível tão pessoal. Se quer

saber o que eu penso, você não deveria se envolver de

maneira alguma, mas não duvido que o fará assim mesmo.

Ignorando completamente o que ele disse,

determino.
— Assim que ela chegar lá, me avise. Reforce a
segurança como se fosse de mim que estivesse cuidando e

providencie para que tenha tudo o que precisa.

Ele acena com a cabeça.

— Será uma ação rápida. A menina deve ser pega


logo após chegar à igreja para o funeral. Como nós, eles

são católicos ortodoxos e não muçulmanos.

Sei que a informação que está me passando não é

em vão. Se eles fossem muçulmanos, haveria uma chance


de que Talassa não fosse autorizada a comparecer ao

funeral, já que usualmente apenas os homens têm esse

direito.

— Faça o que for necessário. — Digo e então,

lembro de algo que o albanês revelou. — A garota com


quem ela tem amizade, a que está no castelo ainda,

coordene as ações. Tire-a de lá e garanta sua segurança


também.

— Devo levá-la para as montanhas?


— Não. Mantenha-a na Europa. Eu preciso de

algumas informações da minha hóspede antes que ela


comece a se sentir confortável.

— Como o que, por exemplo?

— Isso é assunto meu.

Por mais que confie nele, nunca abro pensamentos

sem restrições. Se há algo que meu avô me ensinou, é que

o único lugar seguro para um plano é o nosso próprio


cérebro.

— E quanto ao segundo assunto?

Já começo a me levantar. É quase madrugada e eu

só quero chegar em casa. Preciso descansar minha mente.

— Você não vai gostar.

— O que há?

— Acho que temos um traidor próximo ao Pakhan.

Em segundos estou desperto novamente.


— Do que diabos você está falando? Quem teria
coragem de se arriscar desse jeito? Nem mesmo os

guarda-costas sabem o posicionamento exato das câmeras

na casa do Papa[11]. — Falo.

Grigori trabalhar para o às da tecnologia[12] é uma

enorme sorte. Nossas propriedades são praticamente


fortalezas. Mas o fator humano é sempre uma surpresa.

Ninguém consegue fechar portas quando a ameaça vem

de dentro.

— A mando de quem seria?

— Se eu pudesse chutar, de um dos avtoritet[13].

Aquilo não me surpreende. Não confio


particularmente em quaisquer dos capitães.

— Reforce a segurança do Pakhan. Coloque alguém


de confiança cuidando pessoalmente de suas refeições

também. Qualquer coisa vinda de fora deve ser


inspecionada, até mesmo um maldito alfinete.
— Ele já foi avisado. — Dmitri diz.

— Sim, mas está cansado e pode se descuidar.

Minha mão vai para a pulseira de couro que

pertenceu à minha irmã e que uso em meu pulso direito. É


um gesto automático toda vez que surge uma ameaça em

relação a um membro da minha família. Uma lembrança de


que a qualquer momento, um deles pode ser tirado de mim.

— Faça o que for necessário. Eu irei a Moscou essa


semana ainda.

— Não acho que seja seguro no momento.

Abro a porta para sair.

— Viver não é seguro.


No dia seguinte

O telefonema que eu estava esperando finalmente

chega.

— Nossos homens estão posicionados. Aguardamos

somente uma brecha.

— Tire-a de lá. Não espere o velório chegar ao fim.

— Temos algumas informações extra. Você vai se

divertir quando souber. Sua menina não tem nada de boba

como os albaneses pensavam.

Ignoro a informação. Eu já sabia que ela estava


fingindo.

— E quanto a outra garota?

— Já está feito, mas você precisa saber que a


amiga de Talassa não é uma hóspede cooperativa.

Não dou a mínima. Para mim, a outra mulher é

apenas um efeito colateral no resgate da grega.


— Assim que estiver com ela, me avise.
Capítulo 7

TALASSA

Nova Iorque

Depois de colocar o vestido negro o mais rápido que

eu consigo e prender o cabelo em um rabo de cavalo


baixo, pego o dinheiro enviado por Lara e escondo por

dentro do sutiã.

Adrenalina bombeia em todo o meu corpo. Eu achei

que não era mais capaz de sentir nada, mas estou

apavorada. Por mim e por Lara. De alguma maneira, morar


nos Estados Unidos me dá a ilusão de que me encontro

relativamente mais segura do que ela, mas eu sei que isso

é só a minha mente criando mecanismos de autodefesa.

Nenhuma de nós está protegida realmente.


Passei a noite ao lado do corpo de Aleksander.

Embora não tenha qualquer sentimento por ele, ainda

assim é triste ver alguém tão jovem partir sem ter vivido

praticamente nada. Ele era apenas dois anos mais velho

do que eu. Sua doença foi diagnosticada no início da

adolescência.

Por outro lado, não sou hipócrita e não direi que

lamento sua morte. Como poderia, se ela significa a minha

liberdade? Ele, juntamente com o monstro que chamava de

pai, roubou anos da minha vida e uma parte da minha

alma.

Eu aprendi a suportar para não enlouquecer, mas

muitas vezes pensei em mandar tudo para o inferno e


simplesmente sucumbir ao meu destino. Somente pensar

em Lara e a certeza de que não era somente com a minha


vida que eu estaria jogando, me fez permanecer focada.

Nós ficávamos trancados no quarto. Ele criou uma


relação de dependência comigo. Não gostava nem mesmo
que o pai viesse nos visitar. Era uma prisão não só para o
meu corpo, como para a minha mente também. A única

coisa que não tirou de mim foram os livros. Aleksander era


inteligente e tentei aprender o que pude com ele. Não tinha

acesso à internet ou a um telefone celular. Não saíamos de


casa para nada que não fossem consultas médicas em
clínicas privadas em que ele era o único paciente do dia.

Assim, os livros foram meus melhores amigos.


Ficção ou não ficção, aprendi um pouco de tudo. Os de não

ficção me ensinaram sobre estratégias. Um particularmente


me marcou: A Arte da Guerra, do general chinês Sun Tzu.

Dele tirei uma importante lição.

Conheça seus pontos fortes.

O meu, sem dúvida, é a resiliência. Sou

emocionalmente elástica. Ou pelo menos fui até agora, já


que não tenho dúvida de que das meninas sequestradas,

de uma maneira deformada, sou a sortuda do grupo.


Os romances me ajudaram a entender mais sobre a
alma humana. Suas vaidades e fraquezas. No fim, tudo se

resume a dar a alguém o que ele deseja. Amor, dinheiro ou

atenção. Só que você não precisa realmente doar algo.


Basta deixar que pensem que o possuem.

Desconfio que Aleksander sabia há muito tempo que


eu estava representando e que não havia nada de errado
com a minha capacidade intelectual, mas acho que quando
se deu conta disso, ele já havia desistido de lutar. Pouco se
importava com qual seria o meu destino após sua partida.

Por mais de uma vez ele disse que me amava, mas


eu nunca caí na armadilha de acreditar. Quem ama não

prende, ameaça, restringe.

Não acho que em sua passagem pela Terra,

Aleksander tenha aprendido o que é amor. Talvez para ele,


eu era uma espécie de animalzinho de estimação. Um
filhote que podia chamar de seu. Alguém a quem não
permitia ter vontade própria.
De qualquer modo, o amor não me interessa. Eu
não acredito nele. Uma vez eu pensei que meus pais me
amavam e ambos me traíram.

Nos primeiros dias de cativeiro, eu chorei. Chorava


em silêncio não só pela prisão a qual fui submetida, mas

principalmente, pela deslealdade de papai e mamãe. Com


o tempo, aprendi a empurrar a dor para um lugar escuro e
hoje, eu mal penso neles.

Uma batida na porta me desperta dos meus


devaneios. Passo tanto tempo em silêncio que algumas
vezes tenho dificuldade para distinguir entre fantasia e
realidade. Antes que eu possa autorizar a pessoa a entrar,

um dos guarda-costas a abre e isso me mostra que todos


eles sabem que meus privilégios acabaram. Quando
Aleksander estava vivo, ninguém se atreveria a invadir
minha privacidade.

Coloco minha habitual expressão apática no rosto e


olho, pelo que espero ser a última vez, para o cárcere em
que habitei nos últimos três anos.

Saint Nicholas Igreja Ortodoxa Albanesa

Conto mentalmente os passos até a saída. Eu sei o


que tenho que fazer e também que não haverá outra
chance.

Pedi para ir ao banheiro e apenas um segurança me


acompanhou. Quando fingi passar mal e mandei que
chamasse o pai de Aleksander, o homem pareceu

inicialmente em dúvida, mas eu chorei, como se sentisse


dor, então ele fez o que lhe solicitei.
Estou tremendo enquanto caminho apressada. Dez
passos mais. Quase lá. A liberdade está ao alcance das

minhas mãos. Tão perto agora.

Pela primeira vez, piso em uma calçada nos Estados

Unidos sem alguém me escoltando, mas não me permito


aproveitar a sensação. Tiro os sapatos de salto e com eles
nas mãos, começo a correr. Para meu total pavor, pela

minha visão periférica, percebo um carro me


acompanhando. O ritmo do meu coração se altera de uma

maneira perigosa e o pânico inunda a minha mente. Se


eles me pegarem, estarei morta.

Nem tento mais disfarçar que estou fugindo. Viro


uma esquina e somente quando penso que escapei, outro

carro intercepta meu caminho. Dois homens de cabeça

raspada saem e qualquer ilusão que eu tivesse quanto a


conseguir de volta a minha liberdade, chega ao fim.
Minutos depois

Estou muito perto de quebrar. Minha mente não está


conseguindo lidar com o que aconteceu.

Não outra vez. Sei que não terei forças para passar
por tudo novamente.

Eu quase consegui. Faltou muito pouco. Apesar de


não estar certa do que faria quando fugisse, isso nunca me

impediria de tentar. Essa parte do plano era meio perdida

entre nós. A única coisa que eu e Lara tínhamos certeza, é


de que ficaríamos separadas por um tempo. Por isso ela

me enviou o dinheiro. Eu não sei como ela conseguiu, mas


no dia seguinte ao bilhete, algumas centenas de dólares,
assim como uma identidade falsa, apareceram em minha

gaveta de calcinhas. Lara tem conexões mesmo com os


funcionários de confiança do pai de Aleksander. De algum

modo, ela conseguiu se transformar em uma espécie de

rainha informal para o monstro.

Eles sabem de nossa amizade, mas não fazem ideia

de que somos os dois lados da mesma moeda. Mais


unidas do que irmãs seriam e agora, eu preciso dar um

jeito de avisá-la que fui pega novamente.

Lara é a única família que me resta. Quando

Aleksander disse que fui negociada pelo meu pai, eu não


acreditei, mas então, ele me mostrou provas. Papai

recebendo muito dinheiro do doutor Leandros. E então eu

soube que não havia mais nada para mim na Grécia.


Nunca voltarei para aqueles traidores.

Observo a minha volta. Estou na parte traseira de


uma van e apesar de não terem me amordaçado ou
amarrado, seus olhares são suficientes para me manter

passiva.

Após anos como prisioneira, sei como me

comportar. Qualquer embate físico seria estupidez, então


só me resta continuar jogando.

— Quem são vocês?

Eles não são homens de Gjergj. Suas peles são

claras, assim como os olhos. E há também as tatuagens.


Eu conheço as tatuagens dos albaneses. Essas são

diferentes.

Eles mantêm silêncio e eu tento outra vez.

— Pegaram a pessoa errada. Eu só quero ir para


casa.

Imponho uma voz inocente, chorosa e aguardo para


ver se funciona, mas quando penso que talvez tenha

alguma chance de que tudo realmente não tenha passado


de um engano, um homem que eu ainda não havia visto,
abre a divisória da parte da frente da van.

— Fique quieta. Você está exatamente onde


deveria, Talassa.

Russos.

O sotaque não deixa dúvidas. Aprendi o básico da

língua. Há um russo que sempre vem se encontrar com


Gjergj aqui em Nova Iorque.

Um calafrio atravessa meu corpo.

Acreditei que acordaria livre amanhã de manhã, mas


agora sei que acabo de sair de um inferno para entrar em

outro.

E dessa vez, sem Lara.


Capítulo 8
YERIK

Moscou - Rússia

Inquietude.

Eu desconheço essa sensação. Minha vida é toda

baseada em estratégias. Sei o que quero e minha mente

trabalha em linha reta em prol de achar o caminho para

conseguir. Mas hoje, não pude esperar o dia clarear para

voltar aos Estados Unidos. Havia uma necessidade

pulsante de encontrar a garota que se tornou um enigma

para mim.

Precisei vir a Moscou e conferir a ameaça ao meu

avô. Ruslan anda cansado e isso pode, em algum nível,

gerar descuidos perigosos.


Reunimos todos os seus capitães. O Pakhan, assim

como eu, gosta de olho no olho e eu precisava verificar

pessoalmente se há algum traidor entre nós.

Sou um bom leitor de pessoas, mas principalmente,

tenho um faro excepcional para o medo. Não é a primeira

vez que sofremos uma ameaça. Longe disso. Em todas as


outras, no entanto, precisei de poucos dias para descobrir

de onde partia. Dessa vez, o problema não parece de tão

fácil solução e começo a considerar que talvez haja mais

do que um dos capitães envolvidos.

O problema é que os homens da Irmandade são


especialistas em mentir e por hora, tudo o que pudemos

fazer foi aumentar a segurança em torno do meu avô. Ele


se recusa a sair da Rússia, assim, providenciei para que a

vigilância sobre a elite da Organização seja mais acurada.


Eu não tenho dúvida de que, quem quer que esteja

tramando apressar o fim do Pakhan, é alguém com poder


dentro da Irmandade.
Mal me acomodo no avião e meu celular toca.

Dmitri.

— Tudo feito.

— Onde ela está?

— Onde você ordenou, mas há algo que deve saber.

Nova Iorque se transformou em uma maldita fogueira.


Gjergj acionou uma busca por ela, o que só confirma sua

intuição. Em algum nível, a menina não é apenas mais uma


para eles.

— Estou indo para aí.


Gatlinburg - Tennessee

No dia seguinte

A mansão escondida no meio das montanhas do


Tennessee encontra-se quase totalmente às escuras. Após
a verificação habitual, desabilito o alarme com a certeza de

que Dmitri está me observando pelas câmeras.

Ando até o escritório e sem cumprimentá-lo,


pergunto.

— Em qual quarto ela está?

— No terceiro andar.

Sei por que a colocou ali. Seria impossível fugir.

— Desligue as câmeras dos aposentos dela.

O canto de sua boca se levanta.

— Como sabe que a estava observando?

— Porque você é um maldito pervertido.


Ele não nega. Há alguma coisa obscura nas
preferências do homem.

— Tem certeza de que deseja que eu as desligue?

— Ela não é uma prisioneira.

— Não, somente uma convidada involuntária.

— Desligue. Não haverá um segundo aviso.

Seu sorriso aumenta como se uma questão


engraçada passasse por sua cabeça, mas ele faz o que eu
mando.

— Tudo bem. Ela não é divertida de se olhar, de


qualquer modo.

— O que isso significa?

— Que sua menina parece um soldado. Após a

chegada, ela se sentou na poltrona do quarto e não se


levantou mais, nem mesmo para dormir. Pela manhã,
estava enroscada como uma gatinha no sofá, o que
significa que não usou a cama. Também provou muito
pouco do que lhe foi dado como refeição ou líquidos. Juro
que ela encheria de orgulho qualquer general do exército.

De uma maneira inexplicável aquilo me incomoda.


Se eu estivesse na mesma situação, minha reação
provavelmente seria muito parecida, caso não houvesse a

possibilidade de escapar.

Penso na menina da fotografia e no que talvez ela

tenha se transformado agora.

— Como ela está? Parece saudável?

— Totalmente. E é deslumbrante, apesar de


fechada.

— Ela não perguntou quem eram vocês?

— Somente no início. Depois, aceitou passivamente


que a trouxéssemos.

— Providenciaram roupas? Ela tem o que precisa?

— Como determinou, chefe.


— Mande alguém até lá. Eu a quero na biblioteca
em trinta minutos.

Eu sou um animal de terno e gravata.

Essa seria a melhor definição que daria a mim


mesmo.

Meus instintos são apurados assim como os


sentidos. Percebo ruídos e cheiros, por mais sutis que

sejam, então eu sei o exato momento em que Talassa entra

na biblioteca. Estou de costas, olhando para a noite de


primavera lá fora. Uma floresta resume toda a paisagem,

mas o que poderia ser monótono para algumas pessoas,


acalma meu interior sempre em ebulição.
Quando se aproxima, o vidro me deixa ver seu

reflexo e, de forma inesperada, o sangue em minhas veias


se transforma em lava.

Lembro do que Dmitri a chamou.

Kóchetchka[14].

É como se parece. Mistura de menina e mulher.

Uma coisinha preciosa.

Viro-me para observá-la, mas ela não está olhando

para mim. Sua postura é submissa.

O cabelo longo e escuro alcança a cintura. Os

braços frágeis estão descobertos, revelando uma pele

clara, mas não translúcida. O olhar baixo me permite


observar os cílios longos deitados em suas bochechas. As

mãos pequenas, de dedos longos, estão cruzadas à frente


do corpo.

— Talassa.
Ao comando, ela ergue o rosto e como aconteceu
quando vi a fotografia, a intensidade daqueles olhos

castanhos me atinge em cheio.

— Senhor?

— Yerik. — Digo e ando em sua direção.

— Posso chamá-lo pelo primeiro nome?

Não é a conversa que eu supunha que teríamos.

Ao trazê-la para cá contra sua vontade, esperava


que se rebelasse, me agredisse verbalmente disparando

perguntas sobre a razão de estar aqui. Ao invés disso, ela


é a imagem da serenidade.

Foi assim que sobreviveu aos albaneses? É uma


submissa?

Ao mesmo tempo que a ideia me excita, incomoda.


A garota é um quebra-cabeça.

— Não precisa usar o senhor antes. — Escolho um


tom cortês, o que não é o meu normal. Minha intuição diz
que ela está acostumada com a brutalidade e não com o

respeito.

Como para confirmar, um brilho quase imperceptível

atravessa o seu olhar, nublando parcialmente a


passividade anterior.

Posso ver as engrenagens do seu cérebro girando.


Tentando me decifrar tanto quanto desejo desvendá-la.

— Você está confortável? Vejo que as roupas


serviram.

A minha intenção era somente continuar a conversa


enganosamente amigável, mas como se fossem

autocomandados, meus olhos percorrem a figura esguia.

— Kóchetchka. — Solto, antes que consiga me

conter.

— Por que está me chamando de gatinha? — Ela

soa verdadeiramente confusa, mas a seguir parece se dar


conta de que a peguei em sua atuação.
— Você fala russo?

Um forte rubor cobre as bochechas e pescoço.

Ela sabe que ainda que por um curto espaço de

tempo, deixou o disfarce cair.

— Somente algumas palavras.

Aceno com a cabeça, fingindo acreditar.

Talvez esse resgate signifique muito mais do que um

simples favor para Grigori, no fim das contas. Se a minha


percepção estiver correta, eu acabo de ganhar um

presente inesperado. Talassa pode ser um instrumento


importante em meu caminho para eliminar os albaneses de

uma vez por todas do meu caminho.

— Eu soube que não tem comido direito.

— Não quis ofender sua hospitalidade. —


Responde, como se ter sido colocada à força dentro de um

veículo não fosse nada demais.

A menina parece ter gelo correndo nas veias.


— Não me sinto ofendido. — Rebato, fazendo seu

jogo. — Apenas preocupado com o seu bem-estar.

E ali está novamente.

Um lampejo de raiva nos olhos cor de uísque. Ele


desaparece tão rápido quanto surgiu. A expressão

tornando-se impassível novamente.

— O senhor já fez alguma refeição? Se não, ficaria

feliz em preparar algo para nós dois.

Encaro-a em silêncio por alguns segundos.

Ela foi petulante ao assumir que comeria comigo.

Eu esperava muitas coisas ao trazê-la para cá.


Encontrar uma vítima ou talvez, uma mulher quebrada,

além de qualquer chance de recuperação. De qualquer

modo, a menina ter sobrevivido por tanto tempo sem ter


sido revendida, despertou minha curiosidade. O que com

toda certeza eu não contava, é que seu jeito dissimulado


me divertiria.
Fazendo um gesto com a mão, aponto o caminho. O
cansaço desaparecendo completamente do meu corpo. Eu

sou fascinado por um desafio e Talassa é, sem sombra de

dúvidas, o ser humano mais estimulante que encontrei nos


últimos tempos.
Capítulo 9

TALASSA

Enquanto me movo pela cozinha, ele me observa o

tempo todo.

O homem, Yerik, não é fácil de se ler.

Lara usa a expressão “ cara de jogador de pôquer”.

Não há nada em seu rosto que denuncie o que ele

está pensando.

Normalmente, não poder compreender as intenções

de alguém me deixaria extremamente desconfortável, mas

com ele não. É excitante.

Ele é diferente de qualquer um com quem eu tenha

convivido nos últimos anos. Estou falando especificamente

dos monstros que me sequestraram, porque a parte da


minha infância e adolescência em que lidei com os

moradores da ilha, não conta. Os ilhéus de onde nasci

eram, ao menos na superfície, inofensivos. Apesar de que

há muito tempo eu aprendi que as aparências enganam.

Meu pai é a maior prova disso. Um sorriso pode esconder

uma alma podre.

Observo de soslaio o russo.

Olhos azuis são claros como duas piscinas. Tentei

não focar neles, mas não consegui. O homem destila

intensidade e demanda obediência. Embora boa parte da

minha vida, a obediência que eu ofereci tenha sido fingida,


no caso dele, especificamente, preciso tomar muito

cuidado. Há qualquer coisa ali que me faz desejar ceder ao


seu comando silencioso e isso, na minha situação, é

extremamente perigoso.

Ainda não consegui chegar a uma conclusão sobre

o que estou fazendo aqui, apesar de saber que ele não é


um cidadão regular ou mesmo um bom samaritano, cujos
empregados cruzaram comigo casualmente na rua. Eles
sabiam o meu nome e não tenho dúvida de que estavam ali

para me pegar.

A mando de quem?

Eu sei que as pessoas que me mantiveram em

cativeiro todos esses anos fazem parte da máfia albanesa.


Eu lembro de todas as conversas que ouvi.

Ingênua como era, antigamente se alguém me


falasse sobre máfia, eu visualizaria em minha mente o filme

O Poderoso Chefão.

A versão caricata do mafioso tradicional e chefe de


família. O charme do homem mau, mas protetor com os

seus. Quase uma poesia, como um conto de fadas obscuro


envolvendo homens honrados, apesar de se encontrarem

do outro lado da lei. Após três anos em poder de mafiosos


da vida real, no entanto, posso afirmar que não há qualquer

charme envolvendo a máfia.


Pelo menos em relação aos albaneses, o negócio
principal gira em torno do tráfico humano, especialmente

envolvendo a exploração de mulheres e crianças para fins

sexuais, além do tráfico de drogas. E ainda há muito mais.

Lembro-me de algumas garotas da minha escola na

ilha. A maioria tinha uma queda pelos meninos maus —


claro, na época, nós não sabíamos o que era ser mau de
verdade, mas falo daqueles cujo comportamento fugia dos
padrões. Os bad boys.

Reparei que até mesmo nos livros de amor que li, há


uma tentativa de romantização do homem que maltrata a
mulher, justificando seu comportamento por sofrimentos do

passado. O que talvez muitas pessoas não entendam e


aprendi em primeira mão, é que a maldade não precisa de
um motivo para acontecer. Sim, ela pode nascer de um
trauma sofrido, mas se você passar o mal adiante,

espelhando o comportamento do seu algoz, isso é uma


escolha. Ninguém o obriga a espancar sua mulher ou seus
filhos. Estuprar, sequestrar, roubar são comportamentos
voluntários e depois que compreendi isso, perdi a fé nos
seres humanos.

Eles não precisam de uma razão para nos


machucar. O mal existe em si mesmo. O que Lara me

contou, histórias reais que muitas vezes presenciou, que o


diga.

Yerik falou que eu podia ficar à vontade para mexer


no que quisesse na cozinha, mas não acredito que
qualquer um possa realmente relaxar em sua presença,
apesar de que nesse exato momento eu não sinto medo.

O que ele me desperta, é algo desconhecido para


mim. Como sempre, entrei no papel de submissa sem
cérebro, mas bastaram alguns minutos ao seu lado e uma

estranha excitação se espalhou pelo meu corpo, como


quando chegamos muito perto do fogo, tão próximos que
sabemos que se esticarmos a mão, aquilo causará dor,
mas ao mesmo tempo, não conseguimos nos impedir de
fazer isso.

Ele é muito bonito. Acho que o homem mais bonito


que eu já encontrei pessoalmente. Sua estrutura é enorme.
Ombros largos e um corpo sólido e tenho certeza, por

baixo do terno, musculoso.

O pensamento faz minhas bochechas esquentarem

e esquecida de que não estou sozinha, sacudo a cabeça


de um lado para o outro.

Eu nunca antes me deixei abalar pela aparência de

um homem, porque no fim, tudo não passa disso —


aparência. Mas há algo nele, que faz meu corpo responder
de forma descontrolada.

Depois de verificar o freezer, escolho uma lasanha


congelada, mesmo não tendo certeza de que será
suficiente para alimentá-lo. Ele deve requerer uma

quantidade razoável de comida para poder manter a


energia.
Quase dou de ombros. Eu não estou com fome, de
qualquer modo. Minha cabeça está cheia tentando

processar minha situação atual — e encontrar uma saída


— então sei que mal poderei tocar na refeição.

Enquanto tento abrir a embalagem do congelado, os


dedos erram algumas vezes, espelhando meu nervosismo
e eu me amaldiçoo em silêncio. Não posso lhe dar a

chance de me ler, mas não é uma tarefa fácil representar


comportamentos ensaiados na presença dele.

A bendita embalagem não cede e para meu


espanto, em poucos passos, ele está atrás de mim. A mão

se sobrepõe à minha e seu toque é sutil, apesar da


diferença física entre nós. Meu sangue bombeia

ferozmente dentro do corpo. Eu nunca tive intimidade com

um homem. Tenho certeza de que era o que Aleksander


planejava, mas não esteve saudável o suficiente para isso,

então tudo o que sei na prática sobre o contato entre


homem e mulher tem a ver somente com uns poucos

beijos.

Assim, eu me assusto ao notar minha pele se

arrepiar ao ser tocada pelo russo.

— Você deve puxar aqui.

Eu sinto o calor de seu corpo às minhas costas,

mesmo por trás do tecido do terno. Os braços formando

uma muralha em volta de mim.

Ao invés de me concentrar no que ele está me

ensinando, caio no erro de olhar para trás.

A barba loira cobre seu queixo e parte da face e o


cabelo, abundante e mais longo do que seria convencional

para um homem que exala tanto poder, faz um contraste

impressionante com as roupas caras.

Eu não tento fugir do seu toque.

Ele não me causa repugnância como o de

Aleksander ou os indesejados do seu pai, Gjergj.


Eu me sinto bem ao tê-lo tão próximo.

— Não sou muito boa na cozinha. Se ficarei como

sua hóspede, vou precisar ser treinada. — Falo, me


obrigando a entrar novamente no papel de submissa.

Estamos somente nos encarando agora.

Sua mão ainda está sobre a minha e olho fascinada

para o rosto másculo.

A boca é carnuda e está entreaberta, como se


considerando o que me responder.

Finalmente parece se decidir.

— Você quer ser treinada, menina?

Há algo na pergunta que faz meu coração disparar.

Em minha curta vida, a única emoção que conheço em

relação aos homens é o medo, a apreensão. Nenhum


deles jamais me excitou.

Aqui com o lindo russo, eu não me sinto apenas


atraída, ele está impedindo que eu pense com clareza e
me ouço, imprudentemente, dizendo.

— Eu aprendo rápido.

Droga. Não era para ter saído assim.

É a segunda vez no espaço de alguns minutos que

ele faz a minha guarda baixar. Eu já escorreguei quando


mostrei que entendi que ele me chamou de gatinha,

deixando-o saber que eu compreendia seu idioma natal e

agora, ao dizer que posso aprender, acabo de jogar meu


papel de garota estúpida para o inferno.

Suas mãos apertam sutilmente os meus dedos


ainda presos aos seus, mas sei que nenhum de nós dois

está mais concentrado na embalagem. Quando seu rosto


se move um pouco na minha direção, fico tentada a fechar

os olhos, quase ansiando pelo contato da boca bonita, mas

ao invés disso, ele desvia e sussurra em minha orelha.

— Vamos ver.
Capítulo 10
YERIK

Ela come em silêncio. Os movimentos impecáveis,

em uma performance perfeita de boa menina.

Talvez alguma parte dela ainda seja, mas há muito

mais por dentro de Talassa do que ela deixa vir à

superfície.

Sei o suficiente sobre a alma humana para ter

certeza de que se eu a empurrar diretamente, ela se

fechará cada vez mais. Não, preciso do elemento surpresa,

como quando sem nem mesmo ter certeza do porquê, me

aproximei dela na cozinha com o pretexto de ajudá-la.

Pretexto é uma boa palavra aqui, já que desde que


cheguei, queria uma desculpa para sentir sua pele. O doce
aroma dos seus cabelos me deixou um pouco embriagado,

me fazendo esquecer quem ela era e o que exatamente

está fazendo aqui.

Eu me pergunto se tem medo de mim. Pela lógica,

deveria, mas a menina parece ser feita de aço.

Ela me atrai e isso não estava nos meus planos.

Não que já não tenha feito isso antes — seduzir para

conseguir informações, usar para atingir um objetivo —

mas apesar da beleza dela me tirar o fôlego, a ideia era me

apresentar como um mentor, alguém em quem pudesse

confiar. Um contraponto em relação às pessoas que a


mantiveram longe de sua família todos esses anos.

Tudo isso saltou para uma esfera secundária no


momento em que a toquei. Sou um homem com uma libido

saudável e preciso de sexo em uma base regular, mas o


desejo que estar perto dela me despertou, a necessidade

de sentir aquela pele suave sob meus dedos, me pegou


desprevenido.
Ela mal prova a comida, o garfo mais brincando no
prato do que exercendo sua função.

Finalmente, desisto da guerra silenciosa.

— Você não vai me perguntar por que eu a trouxe


para cá?

— Eu pensei que fosse sua hóspede. — Há uma


pontada muito sutil de ironia na resposta e eu não deixo

passar.

— Você quer estar aqui?

Ela solta o garfo e me encara.

— Há muito tempo o que eu quero deixou de ter


importância.

— Responda.

— Não faz diferença. Aqui, cujo estado eu nem sei


qual é....

— Tennessee.
— Certo. Aqui no Tennessee ou em Nova Iorque, em
qualquer dos dois lugares eu não sou livre.

Não a contradigo.

— E o que você faria com a liberdade se a tivesse


de volta?

Estou mesmo interessado na resposta. Ela foi

levada quando ainda era uma criança. Quais seriam seus


planos agora?

— Estudar, talvez.

Resolvo fazer uma aposta mais alta.

— Reencontrar Lara? — Jogo e observo.

Seu peito sobe e desce em respirações curtas.


Posso pressentir seu nervosismo fluindo em ondas.

O albanês disse que ela tinha uma forte ligação com


a garota, mas vai muito além disso. Na viagem de volta
para os Estados Unidos, Maxim me colocou a par de tudo
pelo telefone.
Elas planejavam fugir. Mesmo que eu não a tivesse
trazido, havia uma chance de que a essa altura, Talassa já
não estivesse mais em poder dos filhos da puta albaneses.

Só que apesar de se acharem muito espertas, ambas não


passam de garotinhas. Elas não faziam ideia de como seria
fácil para eles reencontrá-las.

Mesmo sob a minha proteção, se não a tivéssemos


tirado de Nova Iorque, ela correria riscos. Tanto nós quanto
eles, temos diversos setores das autoridades em nossa

folha de pagamento.

— O que sabe sobre ela?

— Tudo. — Respondo com honestidade e completo.


— Assim como sobre você.

— Lara está bem? — Pergunta, não demonstrando


surpresa com a minha declaração.

— Sim, ela está sob os meus cuidados também.


Apesar de ainda tentar manter a calma, noto sua
suposta frieza estalar.

— O que estou fazendo aqui, Yerik? — Finalmente


entrega um pouco de vulnerabilidade.

É a primeira vez que ela diz o meu nome e eu gosto


de vê-lo escorrer daquela boca tentadora.

— Você está sob a minha proteção agora.

— Por quê?

— Alguém me pediu para resgatá-la.

— Você não parece o tipo que aceita ordens.

Escondo um sorriso. Ela é abusada quando não está


fingindo. Será que percebe que sua armadura está
rachando?

— Eu não recebo ordens. Foi um favor.

— E por que alguém pediria isso depois de todos

esses anos? Além do mais, eu teria conseguido sozinha. —


Há raiva em sua voz agora.
— Então você estava tentando escapar?

Suas bochechas ficam rubras.

— Você sabe que sim.

— Como eu poderia saber?

— Você disse que sabe tudo ao meu respeito.

— Talvez. Mas na hipótese remota de que seu plano

tivesse dado certo, eles a encontrariam e a levariam de


volta.

Ela estremece e fecha os olhos por um breve


momento, mas ainda não se dá por vencida.

— E com você minhas chances são melhores?

Ao invés de responder, me pego pensando por que

ela não questionou sobre quem me pediu para salvá-la.

— Você gostaria de voltar para casa?

Ela aperta os lábios e eu sei que está se contendo.

Será que houve algo espontâneo em seu comportamento

desde que começamos a conversar?


— Eu não tenho mais uma casa para onde voltar.

— E seus pais?

Sacode a cabeça de um lado para o outro, mas não


responde.

— Posso falar com Lara?

— Eventualmente sim, mas não é seguro no

momento.

Ela não grita ou me enfrenta. Abaixa os olhos para o

prato novamente, apesar de toda a sua postura estar


rígida.

— Você mandaria um recado a ela? Diria que estou


bem?

— Vocês são muito próximas?

— Ela é a minha família. Você perguntou sobre

casa. Minha casa será onde Lara estiver.

Suas palavras me atingem em cheio.


Essa menina teve sua vida roubada e ainda assim
possui mais do que eu. Eu tenho família, mas não poderia

chamar nenhum deles de casa. Em meu universo, não há


espaço para qualquer fraqueza e depender

emocionalmente de alguém é a maior de todas.

— Você tem pais vivos. — Falo, desviando do

assunto incômodo e ao mesmo tempo, tentando entender o

motivo de, apesar da mãe ter implorado ajuda a Grigori, a


menina parecer desligada deles.

— Isso não tem qualquer importância agora. — A


sentença soa repleta de desprezo e faço uma nota mental

para investigar a questão mais a fundo. — Eu o ofenderia


se dissesse que gostaria de me deitar?

Não quero liberá-la ainda, mas talvez tenha sido


demais para um primeiro contato.

— Você pode ir.


— Ela está comigo.

— Vou avisar à mãe. — Grigori responde do outro

lado da linha.

— Não.

— Como assim não?

— Há algo de errado com essa história.

— Errado como?

— Coloque-se no lugar dela. Depois de tantos anos,


quais seriam as primeiras pessoas que você gostaria de

encontrar?

— A família.
— Para ela, é indiferente. Não empurrei o bastante,
mas acho que não se importa em revê-los. Eu preciso que

você investigue isso.

— Não é problema nosso. Não somos conselheiros

familiares. Nosso trabalho termina aqui. Eu prometi que a

encontraria e está feito.

— Não é tão simples.

— O que isso significa?

— Além dessa lacuna do porquê ela não querer


rever a família, preciso mantê-la comigo por um tempo.

Talvez a garota saiba de coisas que me interessam.

— Você está falando sério? Está pensando em usá-

la contra os albaneses?

— Eu garantirei que ela não corra riscos.

— Ela já passou pelo inferno.

— Talassa é forte. — Me irrita para caralho que me


questionem, então mudo o assunto para encerrar a
conversa. — Faça o que estou dizendo. Descubra por que

ela não quer voltar para a Grécia. Não poderia ir agora, de


qualquer modo, porque os albaneses estão à sua caça,

mas não gosto de pontas soltas.

— Eu imaginei que iriam atrás. Deixá-la viva seria

um risco desnecessário.

— Outra coisa. Eu preciso que você vá encontrar

alguém. Uma amiga dela.

— Não tenho tempo para esse tipo de coisa.

— Arrume. Seu trabalho com Lykaios está acabado.


Já passou da hora de assumir seu papel na Organização.

Ele não responde, mas sei que honrará o nosso


trato.

— Grigori, estou falando sério. Preciso que você vá


verificar a amiga dela.

— Por que eu?


— Porque a menina, Lara, é imprevisível e também
importante para Talassa.

— Certo. Mande alguém me passar as instruções.


Capítulo 11

YERIK

No dia seguinte

Ela acordou antes de mim. Será que é um hábito ou

já está estudando uma maneira de escapar? Porque eu

não tenho dúvida de que tentará.

Ela não me perguntou qualquer detalhe além do que

conversamos, o que me diz que sua mente já está

chegando sozinha às conclusões.

Seus contrastes me mantêm preso.

Em um momento, ela posa de garota tímida, uma

inocente jovem de quase vinte anos conformada com o

próprio destino. Mas lá no fundo, eu enxergo uma rebelde.


Admiro a mulher inteligente que fez o que julgou

necessário para sobreviver.

Apesar disso, não confio nela.

Alguém capaz de ludibriar Gjergj por tantos anos,

não deve ser subestimado. Não que ele seja um gênio,

mas o bastardo é um depravado e me admira que a tivesse

ao alcance das mãos e conseguisse se conter.

Talvez por respeito ao garoto.

Uma última vontade a alguém que ele sabia que não

viveria muito.

E agora, quando pensou que finalmente a possuiria,


eu a tirei de lá.

Deve ter sido difícil olhar uma mulher como Talassa


e não poder tê-la. Isso seria tentador para um homem
normal, mas Gjergj é um completo doente.

Sinto o cheiro de comida e desço à sua procura. Eu


dispensei Dmitri e agora, além do sistema de segurança na
casa, somente os guarda-costas lá fora a protegem de
estranhos.

Apesar de ter certeza de que não seria necessário


— essa casa é tão segura quanto um forte — eu preciso
dar o exemplo e seguir o protocolo.

Encontro-a olhando para fora da pequena janela


acima da pia. Sua beleza me atinge de maneira ainda mais

impactante na luz da manhã.

Ela está de perfil e considerando que quando foi

trazida vinha de um velório, suponho que esse vestido


também faz parte do guarda-roupas que mandei
providenciar. De uma maneira primitiva, me agrada saber

que fui eu quem a vestiu, figurativamente falando.

O vestido, assim como o de ontem, é sem mangas,

a saia parando um pouco acima dos joelhos. Ele é claro e a


faz parecer pura. Eu não estou acostumado a ter mulheres

como Talassa a minha volta. Sem qualquer maquiagem, o


cabelo solto quase exigindo minhas mãos nele. Os seios
são pequenos, mas ela tem curvas nos lugares certos.

Limpo a garganta para afastar a imagem dela nua


em minha cama. A cortina castanha espalhada, o corpo
perfeito pedindo para ser saboreado pela minha língua e

pau.

— Eu preparei o nosso café da manhã.

Ela ainda não me olha, parecendo concentrada na


paisagem lá fora.

— Não há como fugir daqui a pé. Você sucumbiria


aos elementos da floresta. — Devolvo, para que saiba que
não me engana.

— Eu não tentaria. — Mente. — Não gosto de


espaços abertos.

— Agorafobia. Esse é o nome do pavor de lugares


abertos.
Essa é sem dúvida a conversa mais louca que já tive
na vida. Como passei de imaginá-la nua para tentar lhe
avisar o quão estúpido seria planejar uma possível fuga e a

seguir, tratar de fobias?

— Eu sei. Conheço esse nome. Já estudei sobre

fobias. Estudei sobre quase tudo. — Revela, parecendo


optar por manter a guarda baixa, por hora.

Ando até onde está e segurando-a pelos ombros, a


viro para mim. Sua pele queima meus dedos e aquele calor
me agrada.

— Fale-me sobre isso.

— Sobre o quê? — Disfarça.

Acho que representar para ela é um hábito.

— Você disse que estudou sobre tudo. Conte-me.

— Por quê?

— Porque eu quero entender sua mente.

— Você já não o faz?


— Ainda não.

— Talvez nunca consiga.

— Talvez eu não pare de tentar.

Seus olhos estão no meu peito e não é isso o que


preciso. Quero aquelas duas balas de caramelo focadas

em mim, então levanto seu queixo.

— Você não deve manter a cabeça baixa comigo.

— Isso significa que nós dois somos iguais? —


Pergunta com ousadia.

— Qual é o ponto nessa questão?

— Se sou livre como você, deixe-me ir.

— Eles a matarão. Acho que eu não preciso lhe


dizer com qual tipo de comércio lidam e nem que você é

uma sortuda.

— Sortuda?

Imediatamente percebo que apertei o botão certo.


Não quero que ela jogue comigo como faz com todos.
Eu a encaro em silêncio, observando se deixará a
raiva vir.

— Eu sou sortuda? — Repete, parecendo a ponto


de explodir.

— Você viveu três anos entre eles, sabe


perfeitamente que o seu destino poderia ter sido muito pior.

Será que ela realmente faz ideia do que escapou?

Talvez não entenda a real dimensão do que significaria ser

vendida a cada mês para um bordel diferente.

— Um destino menos pior. — Fala, a voz cheia de

escárnio.

— Isso mesmo!

Minha resposta parece irritá-la, porque se afasta de

mim e acende o fogão. Sei que está tentando se acalmar.

— Você gosta de ovos e bacon? Eu também fiz um

bolo.
A armadura está de volta. A garota que não sente.

Inatingível.

Ela é uma farsa, mas por hora, vou deixar passar.

— Quer dar uma volta depois do café da manhã?

— Você não irá embora?

Dou de ombros.

— Hoje é sábado.

— Oh!

— O que há?

— Não me ligo muito em dias da semana. Todos

eram iguais.

— Como contava o tempo, então?

— Livros concluídos. Às vezes eu virava a noite


lendo.

— Eu tenho uma biblioteca relativamente grande


aqui.
Ela acena com a cabeça e continua servindo os
ovos.

— Pensei que havia dito que gostava de livros. —


Empurro, quando ela não me dá qualquer pista do que está

pensando.

— Eu gosto.

— Mas….

— Mas nada. Você mandou o recado à Lara? —


Muda completamente o rumo da conversa.

— Sim, ela sabe que você está bem. Agora não fuja
da pergunta.

— Do que adiantaria eu falar?

— Tente.

— Para no fim você fazer o que quer?

— Talvez. — Sorrio e seus olhos enviam chamas


mortais.

— Leve-me com você.


— Comigo? — Repito como um idiota.

Um forte rubor se espalha por seu rosto.

— Não quis dizer para sua casa. Para sua cidade.

— Não seria seguro.

— Eu não acredito nisso.

Sinto a raiva tomar conta.

— Você está me chamando de mentiroso?

— Não, apenas que não acho que algum perigo


poderia se aproximar com você por perto.

— Não me confunda com um herói, Talassa. —


Aviso, olhando em seus olhos.

— Você me salvou.

— Porque dei minha palavra a alguém.

— Eu sei. Não imaginei que seria por mim. Como

poderia? Ninguém sabia que eu estava naquela casa.


— Mesmo que eu soubesse, você não era problema
meu. Não tenho por hábito me meter nos negócios alheios.

Ela empalidece, mas isso dura poucos segundos


somente. A seguir, a indiferença habitual está de volta.

— Achei os ingredientes para um bolo de chocolate.


Espero que aprecie.

E assim, ela encerra a conversa.

Andamos pelo terreno pedregoso. O dia está


agradável, não muito quente e eu gosto de como o sol

reflete nos cabelos dela, criando nuances douradas.

— Você está muito quieta.


— Eu sou calada. Não havia muito com quem

conversar nos últimos três anos.

— E o rapaz?

— O que você sabe dele?

— Que a comprou. — Não tento atenuar as


palavras. Seria um desrespeito a ela. Ambos sabemos que

foi exatamente o que aconteceu.

— Quando ele não estava com muita dor,

conversávamos. — Enfim responde à pergunta anterior.

— Vocês se davam bem?

— Eu me adaptei. Não havia escolha.

— Você falou em estudar quando tiver sua liberdade

de volta. O que mais?

— No que importam meus planos para você?

Paro de andar e cruzo os braços.

— Não seja desrespeitosa, menina. — Falo, sério.

De novo aquele rubor.


Talassa é como um camaleão, mudando suas cores
a cada passo.

— Eu não quis desrespeitá-lo. Estou agradecida por


ter salvado Lara. Eu acho que ainda não havia

demonstrado isso.

Para minha surpresa, ela fica na ponta dos pés e me

dá um beijo no rosto. Não é um carinho apressado. Ela

toma seu tempo e eu sinto o calor da boca úmida contra a


minha pele.

Quando tenta se afastar, eu a puxo pela cintura fina.

Uma das mãos repousando em sua anca.

Uma veia pulsa em sua garganta e ela mal respira.

Eu a trago para mais perto, o corpo macio moldando-se ao

meu. Abaixo para falar em seu ouvido.

— Vou assumir que você não tem ideia do que está


fazendo e nem com quem.
Ela não responde. Ao invés disso, aproxima a face.

Posso sentir o calor da sua respiração. Os olhos

concentrados em minha boca.

— Talassa, eu não sou aquele adolescente com

quem você vivia.

Ela estremece em meus braços, os olhos voltando a

me fitar.

— Eu sei.

— O que você quer?

— Agradecer.

— Eu não preciso da sua gratidão. — A solto. Ela

está mentindo e nós dois sabemos disso.

— Eu não sei como explicar.

Estudo seu rosto. O olhar está um pouco perdido,


como se estivesse frustrada.

— Não sabe explicar o quê?


— Você perguntou o que eu desejo. Sentir você me

segurando assim. Eu gosto da maneira como você me

segura e eu nunca suportei isso antes.

Sinto meu corpo endurecido pela tensão.

— E o que mais? Se não consegue dizer, mostre-

me.

Minha própria respiração agora está ruidosa. Uma

fome despertada que eu não me lembro de já ter sentido


antes.

— O quê?

É a minha vez de focar na boca sexy. As mãos

trazendo-a de volta. Não tenho dúvidas de que ela pode


sentir o quanto a desejo.

Ela alcança meu rosto. A ponta dos dedos tocando

minha barba. Ensaia se aproximar e torna a se afastar de

mim.

— Você não sabe o que fazer, mas quer?


— Sim, Yerik.

Seguro sua nuca e corro a língua pelo seu lábio

inferior.

— Ahhhhh…

O gemido delicioso é seguido de um aperto em


meus ombros.

Mordo-a de leve e sua cabeça inclina para trás.

Segundos depois vem para mim, tomando a iniciativa,

repetindo minhas ações anteriores.

E então, ela finalmente se entrega. Como se

estivesse morrendo de fome e a minha boca fosse seu

alimento favorito.
Capítulo 12

TALASSA

Consumida.

É a sensação quando seus dedos enroscam em

meu cabelo. A boca me tomando sem deixar espaço para

fuga.

Ter o poder de dizer o que eu quero, tocar alguém

por escolha e não por ser considerada um objeto nas mãos

de um homem é inigualável.

No início, o que ele disse era verdade, claro.

Quando beijei sua bochecha, eu estava jogando.

Colocando em prática a sedução inocente que Lara me

ensinou.
Só que no momento em que senti sua pele contra os

meus lábios, meu interior se agitou. A maneira calculada,

pesando cada gesto ou palavra na qual tenho vivido nos

últimos três anos, completamente esquecida.

Eu me transformei em fogo em suas mãos. O

coração batendo tão descompassado que temi que ele


pudesse escutar.

Ao contrário das vezes em que fui beijada antes, o

dele não é desajeitado. Enquanto seus dedos acariciam

meu cabelo, seu corpo inteiro se comunica com o meu.

Cada músculo demonstrando seu desejo.

Yerik me assusta e excita ao mesmo tempo, mas

essa apreensão não tem a ver com o medo. Eu sei muito


sobre sentir medo. Nunca relaxar ao dormir e ficar atenta

aos menores ruídos. Não é disso que se trata, mas da


resposta da minha pele quando ele me toca.

Eu não conheço nada sobre ele e ainda sim, confio


que parará se eu pedir.
Quão estupido isso pode ser, após tudo o que
passei?

Sobrecarregada, tento me afastar, mas não permite.

— Ainda não.

A língua quente torna a me invadir, causando uma

febre tão intensa que uma espécie de dor se instala no


meio das minhas coxas. Eu me entrego, ansiosa e

excitada. Desejando e pensando em fugir. Precisando de


mais dele e sabendo que deveria empurrá-lo para longe.

Antes que eu entenda o que está fazendo, ele anda

comigo e só quando sinto a aspereza contra a pele é que


percebo que estou, agora, imprensada entre seu corpo e

uma árvore.

— Boca gostosa. — Murmura e eu gemo em

resposta. — Use sua língua também. Eu quero sentir você


me lambendo.

— Oh, meu Deus…


Seus quadris se movem, me deixando senti-lo. Ele
está duro e saber que sou eu quem faz isso com esse

homem poderoso, me rouba qualquer contenção. Separo

as coxas um pouquinho e ele rosna em resposta, como se


estivesse satisfeito. A pegada aumentando a intensidade.

Em um único beijo, Yerik me transformou em um ser


mole e ardente.

— Porra, você é tão receptiva, menina.

Uma de suas mãos desce da minha cintura e pousa


em meu bumbum como uma garra.

Ele está se esfregando contra mim e eu não sei por


quanto tempo mais conseguirei me manter em pé.

De repente, para de me tocar e se afasta.


Automaticamente, eu o puxo de volta. Abro os olhos e vejo
o que talvez seja sua ideia de sorriso, um erguer

imperceptível do canto direito de sua boca. Aquilo me


chateia.
Eu baixei a guarda e ele está rindo de mim.

Solto-o e cruzo os braços na frente do meu corpo.

Ele torna a vir para perto, mas não me toca. Uma

mão de cada lado da árvore.

— Shhhhhh, minha gatinha selvagem. Está vindo


alguém.

Como para confirmar, ouvimos uma tosse.

Eu morro de vergonha e sem parar para pensar,


escondo meu rosto em seu peito.

Quando sinto seus braços à minha volta outra vez,


quase suspiro de alívio por saber que ele está entre mim e
quem quer que esteja chegando. Ficar presa no abraço de
Yerik é o mesmo que estar protegida em um abrigo.

— Chefe, eu não queria interrompê-lo, mas Leonid


acaba de chegar e disse que é urgente. — A voz do

homem soa constrangida e hesitante.


Yerik vira o corpo na direção do interlocutor,
escondendo-me de olhares curiosos.

— Diga que o encontrarei em minutos.

Sei que o homem ainda não se mexeu porque não


escuto seus passos se afastando.

— E não me interrompa mais, a não ser em uma


situação de vida ou morte.

— Sim, senhor.

Estamos frente a frente outra vez.

Mantenho os olhos fechados e puxo respirações


profundas tentando diminuir o ritmo dos meus batimentos
cardíacos.

Ele não fala nada e quando acho que já estou


recuperada o suficiente, volto a encará-lo.

As duas janelas azuis me investigam e eu não


consigo decifrá-las.

Tentando reassumir o controle de mim mesma, digo.


— Não devemos entrar?

— Foi por gratidão? — Ele me atira de volta.

Eu sei do que está falando e gostaria muito de dizer

que sim. Voltar para o conforto da minha concha, mas daí


eu posso nunca mais voltar a sentir isso. Eu deveria correr,
mas não quero, então, sacudo a cabeça de um lado para o

outro.

Seu rosto agora está sem expressão e nem de longe

lembra o homem quente e passional de alguns minutos


atrás.

— Vamos.

Ele aponta o caminho e não tenta mais me tocar.

Ando devagar querendo demonstrar segurança, mas

as pernas parecem espaguetes.

Na entrada da casa, digo sem olhá-lo.

— Eu vou descansar.
Começo a me afastar, mas ele agarra meu braço e

me pega de volta. Enquanto me observa em silêncio, a


expectativa traz frio para minha barriga.

Eu não tenho a menor ideia do que ele vai fazer.

Sua cabeça se inclina para mim e eu fecho os olhos,

esperando um beijo, mas então sinto seu nariz roçar o meu


pescoço. Ele está respirando o meu cheiro como um

animal memorizando o odor de sua presa e não sei explicar


a razão, acho aquilo mais sensual do que se ele estivesse

me tocando diretamente.

— Eu a verei mais tarde.

Sem saber o que dizer, sigo para o meu quarto.


Algum tempo depois, uma batida me põe em alerta.

Depois da troca intensa de beijos, meu corpo

implorou por descanso e sucumbi a um sono pesado.

Sento-me na cama assustada, sem conseguir me

lembrar onde me encontro. Olho em volta e me acalmo


quando percebo que não é mais na casa de Gjergj. No

momento, estou segura.

Relativamente.

— Pode entrar. — Respondo, ainda incerta.

Quando a porta abre, Yerik ocupa quase toda a


abertura da entrada. Eu me sinto pequena e vulnerável e

não gosto de parecer assim. Lutei por todos esses anos

para não ser uma vítima.

— Estava dormindo?

Aceno com a cabeça.


Ele faz seu caminho até onde estou e sem pedir

licença, se senta na cama.

— Tenho que voltar para Atlanta.

— Eu posso falar com Lara?

— Ainda não, mas eu mandei alguém pessoalmente


cuidar dela. Sua amiga está em segurança.

Eu quero acreditar nele, mas não posso. Lara é a


responsável pela minha sanidade mental por todos esses

anos e somente a ideia de que lhe tenha acontecido algo

me põe doente. Apesar disso, não imploro por sua


permissão para ouvir a voz da minha amiga ou para que

ele me leve consigo. Se ele quisesse que eu fosse, teria


me chamado.

— Um dos meus homens de confiança ficará dentro


da casa com você.

Um suor frio escorre pela minha coluna, o medo se


espalhando pela simples possibilidade de ficar sozinha com
um estranho. É irracional, eu sei, porque no fim das contas,
Yerik também é um estranho, mas inexplicavelmente

mesmo ele dizendo que não é meu herói, meu coração

pensa diferente. Minha intuição me diz que ele não me


machucaria.

Como se conseguisse ler meus pensamentos, fala.

— Eu vou voltar. Não tente fugir. Seria estupidez.

Sua voz não se altera ao dizer aquilo. Ele não

parece zangado também. Acho que é somente o seu jeito.


Não há nada de suave no homem.

— Para onde eu iria?

É a pura verdade. Apesar deles não terem me

tomado o dinheiro ou o documento que Lara me deu, pude


perceber pela caminhada com Yerik mais cedo que só há

uma densa floresta ao redor da casa.

— Você vai ser boazinha, então?


Algo me diz que ele está me provocando e mordo o

lábio sem saber qual é a resposta certa.

— Você pode ser má quando estivermos só nós

dois. — Ele faz a sentença soar tão carregada de


intimidade que minha pulsação acelera. — Mas para o

momento, eu preciso que confie em mim. Sei que você e

sua amiga ansiavam para serem livres, mas não daria


certo, menina. Quando as apanhassem, seria pior.

Meu estômago revira de medo.

Eu acredito nele.

— E você pode me prometer que não me pegarão

novamente? Porque eu prefiro morrer a voltar para lá.

Ele segura minha mão e leva aos lábios.

— Nunca. Eles jamais colocarão as mãos em você.

— E nem em Lara.

Ele assente, permitindo assim que eu volte a

respirar.
— E nem em Lara. — Repete.
Capítulo 13

YERIK

— É ela a menina que Dmitri resgatou?

— Desligue a porra das câmeras. O que diabos há

de errado com vocês?

— Por onde eu começo? A lista é grande. Além do

mais, você não tem como negar que ela é uma delícia de

se olhar.

— Não me faça mudar de ideia e mandar sua bunda

feia de volta para a Europa.

— Mal-humorado, chefe?

Olho para o filho da puta que também vem a ser um

dos meus melhores amigos.


Leonid é enganosamente o mais agradável de todos

nós. Ele é o coringa da Irmandade. Conversa mansa,

amigável em um primeiro momento, mas tão letal quanto

uma cobra krait malasiana[15] e também um dos melhores

atiradores da Organização.

— Vamos precisar rever a porra do seu papel?

— Com medo de perdê-la para o meu charme?

— Não acho que ela preferiria um idiota.

Ele sorri e dá de ombros.

— Nunca se sabe.

— Fique de olho nela. Não só sobre ameaças


externas, mas em uma possível tentativa de fuga também.

Não tenho certeza ainda se posso confiar que pensará com


clareza sobre a própria segurança.

— Eu sei. Dmitri e Maxim me colocaram a par de


tudo.
Seu tom já mudou completamente. O homem é
escorregadio, adaptando-se à situação conforme a

demanda.

Eu não queria ir embora agora, mas Leonid chegou


com a notícia de que tenho um convidado me esperando

em Atlanta. Uma surpresa repentina.

Eles capturaram um dos soldados que vivia dentro

da casa em Nova Iorque. Alguém que não somente é da


confiança de Gjergj, mas que esteve perto de Talassa

durante todo o tempo em que ela foi mantida cativa.

Eu preciso lhe arrancar informações. Quero saber o


que pretendem fazer quanto à fuga dela, mas também

sobre nossa mercadoria desaparecida. Tive a confirmação


de que foram os bastardos que explodiram um de nossos

navios que faria uma entrega de armas na América Central.

— Você voltará para cá, eu suponho. Quanto tempo

pretende ficar por aqui? A segurança da casa tem uma


limitação. Não deve se manter por muitos dias na mesma
localização.

Ele tem razão, mas não encontro uma solução


imediata para o dilema.

— Ainda não sei. Preciso analisar as possibilidades.


Não posso simplesmente soltá-la no mundo.

— Não pode ou não quer?

Ando para a porta e quando a alcanço, volto-me

para encará-lo.

— Não ligue a porra das câmeras no quarto dela.


Não puxe assunto ou a incomode se ela não tomar a

iniciativa. Estarei de volta o mais rápido possível.

— E se ela quiser falar com você?

— Ela não vai pedir.

Já a conheço o suficiente para entender que nunca


implorará por nada. Somos muito mais parecidos do que
gosto de admitir.
Atlanta — Geórgia

— Há quanto tempo ele está aí?

Maxim olha o relógio com indiferença.

— Quase trinta e cinco horas.

— Por que não fui avisado antes?

Ele dá de ombros.

— De que adiantaria? De qualquer modo, ele


precisava ser amaciado ou não iria cooperar.
É uma forma suave de se expressar. O método que
ele está usando, a privação de sono, é mais eficaz do que

o espancamento. Depois de um dia e meio, não só os


músculos como também seu cérebro já começa a entrar
em fadiga. Confusão mental, raciocínio lento, aumento da
pressão arterial são alguns dos efeitos de se permanecer
tanto tempo sem dormir.

A CIA usa a técnica de privação de sono por cento e


oitenta horas, o que equivaleria a sete dias e meio, como

mecanismo de interrogatório. O declínio mental é


progressivo, e em determinado momento, o interrogado
poderá se tornar psicótico, ter alucinações e perda de
funções cognitivas básicas.

— Fale-me sobre ele.

O homem me encara assustado. Ele está pendurado


pelos braços, a alguns centímetros do chão.

— Terceiro no comando de Gjergj. Trabalham juntos


há mais de uma década. Um animal tão ou mais sádico do
que o próprio chefe.

— Qual é a sua área de atuação? Drogas ou as


garotinhas?

— Ambos, mas sua preferência são as crianças, não


importa o sexo. Ele não só as vende. Gosta de ter seu
tempo com elas.

Meu estômago revira à menção aos menores.

A prostituição é uma área cinzenta em nossos


negócios, mas eu pretendo aboli-la quando me tornar o

Pakhan. Atualmente, ainda que não estejamos

explicitamente operando no comércio sexual, há nas


boates pertencentes à Organização, mulheres que desejam

trabalhar como acompanhantes de luxo. A demanda na


Europa é grande e nunca falta mão de obra.

Aqui nos Estados Unidos, sob o meu comando, as


meninas não fazem. Se mantêm acertos com clientes,

agem por conta própria. Desde que não tragam suas

merdas para os clubes, olhamos para o outro lado. A única


regra é que esses clientes têm que ser membros da

Irmandade. Não podemos correr o risco de que elas se


tornem informantes de outras organizações.

Tudo engloba, no entanto, sexo entre adultos. Ainda


que meu avô seja da velha guarda e tenhamos conflitos

sobre não oficializarmos o comércio sexual, sobre crianças

ele sempre seguiu um rígido código. No comando de


Ruslan, jamais houve tráfico de mulheres ou negociação de

menores.

Mas isso não significa que eu e ele não nos

desalinhemos em muitos pontos.

Se por um lado o Pakhan concorda comigo com

relação ao comércio de pessoas, o mesmo não se pode


dizer sobre a prostituição. Ele acha que estamos

desperdiçando dinheiro e sei que alguns capitães da

Organização concordam com Ruslan. É por isso que


nomearei novos quando chegar ao poder.

— Ele já falou alguma coisa?


— Sobre as armas, sim. Um fraco. Nem me deu
trabalho, mas quanto à sua menina, nada ainda.

Ando alguns passos até o homem. Ele deve ter


cerca de uns cinquenta anos, mas nunca se sabe quando

se trata dos albaneses. Os fodidos levam uma vida de


merda, tornando impossível determinar suas idades.

Encaro-o, tentando imaginar quantas meninas como


Talassa ele já destruiu e uma raiva cega se espalha dentro

de mim como um veneno letal.

— Preciso me apresentar?

Ele guarda silêncio.

— Eu poderia dizer que é uma honra recebê-lo em

nosso lar, mas nós dois sabemos que honra e albaneses


não podem constar de uma mesma frase. Nas próximas

horas eu e você nos tornaremos bons amigos. Dependerá


das suas respostas no que essa amizade se transformará

no fim da noite.
No dia seguinte

— Você vai ficar me devendo tanto. — Grigori rosna,

assim que atendo seu telefonema.

— Além do que você já me deve? Mas só pra

esclarecer, do que estamos falando exatamente?

— Da louca que você me pediu para tomar conta.

— Lara?

— A menina é maluca, eu juro por Deus. Não dá


para entender como alguém tão bonita por fora pode ser

completamente insana.

— Insana em que nível?


— Ela é uma jogadora. Tentou todos os truques
comigo: sedução, fazer a ingênua, o papel de frágil e

finalmente, quando viu que não estava tendo êxito em

nenhum dos métodos, ela tentou me matar.

Contra meu melhor esforço, um sorriso se forma.

Deve ter sido um espetáculo de se ver, já que pela

foto de Lara que me foi enviada, vi que ao contrário de


Talassa, que é alta, a menina mal deve ter um metro e

sessenta de altura. Enquanto Grigori, como eu, gira em

torno de um e noventa.

Tento juntar a imagem que ele está me descrevendo

à sua figura frágil e aquilo simplesmente não bate.

— Mantenha-a sob controle.

— Por quanto tempo?

— Eu não sei ainda. Terei que mudar os planos.


Descobrimos algo aqui. Eles estão atrás de ambas.
Pediram apoio a alguns grupos gregos, inclusive. Talvez

seja melhor movê-la. Uma ilha seria o ideal.

— Essa porra está se transformando em uma

maldita avalanche.

— Você está reclamando? Quem me trouxe o

problema, para início de conversa?

Ele ignora a pergunta.

— O que está fazendo com Talassa ainda?

— Eu não posso simplesmente deixá-la livre. Você


sabe o que aconteceria.

— Mas não precisa mantê-la tão perto de você.

Claro que ele está certo. Eu poderia proteger

Talassa à distância, mas como não tenho resposta para


aquilo, decido atacar outro problema.

— E quanto aos pais?

— A situação não é tão simples como eu imaginava.

Não consegui encontrar qualquer pista. Mandei alguém


investigar os pais de outras meninas desaparecidas para
saber se obtiveram algum tipo de vantagem financeira ou

se tratava apenas da mera concessão de uma bolsa de

estudos. Não tenho nada de concreto no momento.

— Faça o que for necessário para tirar essa história

a limpo. Ela não quer ir para casa e eu preciso ter a


confirmação do porquê.

— Lara perguntou sobre a amiga.

— Talassa também, mas eu não posso deixar que


se comuniquem.

— E enquanto isso ela ficará com você?

— Sim. Eu não a deixarei sozinha até ter certeza de

que está segura.


Capítulo 14
TALASSA

— Não precisa ter medo. — O homem diz, assim

que eu entro na cozinha. — Se não fosse seguro para você

que eu estivesse aqui, Yerik jamais consentiria minha

presença.

Ele sorri enquanto fala, mas há muito tempo deixei

de me enganar por sorrisos.

Evitei ao máximo sair do quarto, mas estou

morrendo de fome. Nos anos em que fiquei em poder dos

albaneses, até mesmo isso eu aprendi a controlar —

minhas necessidades básicas — mas agora é como se

uma porta tivesse sido aberta. A intimidade recém criada

com Yerik me fez um pouco mais confiante para arriscar.


Estamos a cerca de seis metros um do outro e não

consigo decidir se continuo andando ou volto para o quarto,

enquanto encaro o homem em silêncio.

Ele tem o cabelo ruivo e assim como Yerik, usa

barba. Seus olhos parecem claros de onde estou, mas não

posso ter certeza porque são pequenos, amendoados e


avaliadores. O sorriso se mantém, mas ele não alcança o

olhar.

Sei que da mesma forma que o analiso, ele devolve

o favor. O outro homem, o que me trouxe para cá no dia

em que saí do velório e que ouvi Yerik chamar de Dmitri,


não tinha nada de simpático e ainda assim, eu o achei mais

fácil de se lidar do que esse agora.

Não gosto de sorrisos. Eu recebi poucos nesses

últimos anos e não sei muito bem como agir quando


alguém sorri para mim.

— Talassa, não é?
— Você sabe meu nome. Todos aqui sabem. Então
por que pergunta?

Não me importo de estar sendo rude. Se ele acha


que sou uma idiota, vai precisar fazer melhor do que aquilo.

— Tem razão. Eu sei tudo sobre você.

— Não vai conseguir me assustar. — Respondo e


me forço a ficar no lugar quando ele se levanta, apesar do

seu tamanho me deixar nervosa.

— Por que eu iria querer assustá-la?

— Eu não sei, mas não perca seu tempo.

Ele vira a cabeça de lado, pensando.

— Você é divertida, Talassa. Pensei que seriam dias

entediantes, mas acho que me enganei.

— Yerik voltará hoje?

— Quem sabe? Ninguém além dele mesmo conhece

o próprio roteiro.
Ele estica a mão para me cumprimentar, mas eu
ainda não sei se é uma boa ideia qualquer contato com o

homem. Por fim, tomo uma decisão, oferecendo minha

mão também, no que eu espero, seja um aperto firme.

— Bem-vinda a bordo, Talassa. Eu sou Leonid.

— Leonid, ainda não tenho certeza se é um prazer


conhecê-lo, mas sobre o que você disse a respeito de
saber tudo da minha vida, aposto que já tem idade

suficiente para compreender que ninguém conhece o outro


realmente, a não ser que a pessoa o permita entrar.

Ele abre a boca, parecendo desconcertado, mas


antes que possa dizer algo mais, eu ando até a geladeira.
Depois do primeiro contato cercado de desconfiança

de ambos os lados, ele devora em silêncio a omelete que


preparei.

Fiquei espantada com a quantidade de ovos que ele


quis na dele — oito.

Como alguém que come tal qual estivesse fazendo a


última refeição no corredor da morte pode não ter um
grama de gordura extra no corpo?

Levanto a cabeça e vejo que ele já terminou e me


observa. Na casa de Aleksander, eu costumava tentar ser
invisível porque temia que, até mesmo erguer a vista, fosse
interpretado de forma equivocada por aqueles homens

horríveis, mas não noto nada de ameaçador em seu olhar


no momento.

— Então você e Yerik trabalham juntos? — Testo,


tentando descobrir alguma coisa.
— Pode-se dizer que sim.

— Em qual setor?

— Variado.

É como uma dança em torno de uma mesa. Eu


tentando alcançá-lo para obter algumas respostas e ele

saindo pela tangente.

— Não pode citar um?

— Ele não lhe contou?

— Nós… huh... não tivemos tempo de conversar


sobre o assunto.

Um sorriso malicioso se espalha nele e sinto minhas


bochechas arderem.

— Você já terminou?

Levanto e começo a recolher os pratos.

— Quando vivia na casa, o que fazia para se


divertir?

Estou de costas, colocando a louça na lavadora.


— Qualquer coisa que não dependesse de alguém
para me ensinar.

— Por exemplo?

— Ler, na maior parte do tempo, mas eu também


gostava de jogar xadrez sozinha.

— Xadrez, sério? Online? — Ele fala e em seguida


parece constrangido pela primeira vez na noite. — Foi uma

pergunta estúpida. Esqueça o que eu disse.

Dou de ombros.

— Eles nunca me deixariam chegar perto de internet


ou até mesmo de um celular. Era o jogo físico mesmo. Eu

jogava sozinha.

— Tem um tabuleiro na biblioteca. Que tal uma

partida?

Levo alguns segundos antes de responder.

Eu gostaria. Nunca joguei contra alguém, mas minha


cautela natural em relação aos homens está me deixando
em dúvida.

— Você eventualmente precisará aprender a confiar

em nós. — Ele diz como se adivinhasse o que estou

pensando.

— Uma partida. — Respondo, ignorando sua

declaração.

Jogamos por horas. Cada um de nós ganhou uma

partida e pela primeira vez em anos, eu me sinto cansada e


com sono. Estou me preparando para me levantar, quando

ele solta do nada.

— Sem acesso à tecnologia então?


— Hein?

Durante o jogo, ele me fez perguntas aleatórias e

por incrível que pareça, eu respondi com honestidade a


todas. Só não falei sobre Lara. Apesar de ter certeza de

que a essa altura, eles sabem tudo a respeito dela


também, não ouvirão da minha boca.

— Não. Nenhuma tecnologia.

— Então você não sabe mexer em nada? Redes

sociais, jogos?

— Eu sabia... há três anos. — Respondo com

cuidado e subitamente desperta. — Suponho que mudou


muita coisa na internet e com os celulares de lá para cá.

Novamente uso um tom de voz doce. Se eu tiver


acesso a um celular, talvez possa fazer algumas pesquisas

para uma possível rota de fuga no futuro.

— Nem tanto. — Responde, de um jeito casual.


— Eu acho que nem sei mais a aparência de um

celular.

Para meu espanto, ele começa a gargalhar. Dessa

vez, percebo que é para valer, porque ruguinhas se formam


em torno dos olhos.

— Boa tentativa, linda, mas você morava em Nova


Iorque e não em uma ilha deserta. Mesmo que não a

deixassem usar um, é claro que você via celulares o tempo

todo.

Levanto muito chateada que o meu plano bobo para

o enrolar não tenha dado certo.

— Obrigada pela companhia. Vou dormir. Boa noite.

Não espero que ele se despeça e começo a

caminhar para a porta.

— Não tem nada a ver com aliená-la do mundo.

— O quê?
— Yerik não permitir que acesse um celular não tem
nada a ver com o que você vivia com os albaneses, mas

com sua segurança. Se eles a encontrarem, Talassa e se

não a matarem, você desejará estar morta.

Meu coração começa a bater muito rápido, uma

onda de pânico me inundando.

Olho para a noite lá fora tentando imaginar se nesse


exato momento há alguém vindo atrás de mim.

— Yerik me deu sua palavra de que não aconteceria.


Disse que não permitiria que me levassem.

Ele me olha por alguns segundos.

— Então você deveria acreditar nele.


Capítulo 15
Yerik

Dois dias depois

— Eu quero que você venha a um jantar em

Moscou.

— Não é um bom momento. — Respondo, dentro do

helicóptero, a caminho do Tennessee. Não tenho dúvida de

que há algo a mais por trás daquele convite.

Ele está de volta com os planos do casamento.

— Nunca é um bom momento. Meu tempo na Terra

está se esgotando. Não partirei sem garantir nossa

descendência.

— Nossa descendência está mais do que garantida.

Você não tem só a mim de neto. Na verdade, com a


quantidade de filhos que fez, poderia sem medo de errar,

povoar uma pequena cidade só com seus descendentes.

— Não deveria falar assim com seu Pakhan. —

Apesar das palavras, ele está rindo.

— Eu pensei que estivesse falando com o meu avô.

— Você não poderá adiar a decisão de encontrar

uma noiva indefinidamente.

— Não vai gostar da minha resposta, se eu a der

agora, então não tente me empurrar.

— Há alguém no momento?

Um sinal de alerta liga em minha mente. Se ele está


me perguntando aquilo, talvez saiba que Talassa encontra-

se sob minha proteção. Ruslan não é de fazer perguntas


no vácuo.

Ele nunca me questionou sobre minha vida pessoal

— especificamente meu envolvimento com mulheres —


antes, então sei que está desconfiado de algo.
Jamais mantive uma mulher tão próxima. Minhas
amantes, mesmo as fixas, eram somente encontros

noturnos. Em minha vida não há espaço para namorar e


uma vez que ainda não estava disposto a me casar, não

havia por que desfilar de braços dados com alguém.

— Isso não é da sua conta. — Respondo com


cautela.

— É sim. Você não pode agir como se não tivesse


responsabilidades. Além do que, sabe que estar com uma

mulher que não seja sua aos olhos da Organização,


implicaria riscos para ela. Mesmo entre os nossos, não

seria tão respeitada.

Ele tem razão. Eu tenho inimigos em todas as


partes. Fora da Irmandade, não há muito o que ser feito a

não ser os cuidados quase obsessivos que todos têm com


a família. Já dentro da Organização, uma esposa é

intocável. Qualquer coisa feita contra ela, equivaleria a uma


sentença de morte.
— Ninguém mexerá com uma mulher minha, seja
ela esposa ou não.

— O que há de especial nessa?

— Quem falou sobre ela?

— Você esquece de quem eu sou?

— Às vezes gostaria de esquecer.

— E então, quem é a garota?

— Como sabe que é uma garota?

— Eu sei mais do que você pensa.

— Eu o respeito, Ruslan, mas fora da Organização,


não tente interferir na minha vida.

— Não há diferença entre sua vida fora e dentro da


Organização.

— Você está enganado.

Ele suspira parecendo cansado de nossa troca.


Somos dois.
— Venha ao jantar ao menos. — Insiste. — Tatiana
é linda. Sei que se for lhe dada uma oportunidade, você
ficará encantado.

Suas palavras só confirmam o que eu já imaginava:


que ele realmente acredita que me empurrará uma esposa

goela abaixo. Entendo que na minha posição, um


casamento não envolve necessariamente romance, mas
não permitirei que decidam a minha vida.

— Façamos um acordo. Se você vier, eu concedo o


que deseja. Vou me mudar para um lugar mais seguro, por
hora.

— Sairá de Moscou?

— Sim.

— Não diga mais nada sobre a mudança.

Estamos em uma linha segura, mas ainda assim,


cautela nunca é demais.

— E então, quanto ao jantar?


O que é um simples jantar em troca de mantê-lo
vivo?

— Quando?

— Daqui a pouco menos de um mês. Eu aviso.

— Um jantar e sem qualquer promessa. Não vou me

casar com uma mulher por causa de um arranjo. Isso é


arcaico. Eu posso escolher minha própria esposa.

— Mantenha-se seguro. Você e Grigori são tudo o

que me resta. — Ele diz, ignorando meu aviso.

— Suas outras vinte e três netas não ficariam muito

felizes em ouvir isso.


Estou ansioso enquanto completo os poucos passos
até a entrada da casa. O dia nem amanheceu, mas não

quis esperar para vê-la.

Setenta e duas horas. Somente três dias e meu

corpo berra pela necessidade de tocá-la.

As duas últimas noites com o albanês foram um

inferno, mas no fim, eu acabei descobrindo muito mais do


que imaginava.

O problema de Talassa ganhou outra dimensão. Os


planos terão que ser refeitos.

Desligo o sistema de segurança e não me assusto


quando, assim que entro, dou de cara com Leonid. O

homem parece uma sombra, sempre se esgueirando


silenciosamente.

— Como ela está?

— É comovente perceber que você sentiu minha

falta.
Tiro o blazer e enrolo as mangas da camisa. Não

respondo a sua provocação. Ao invés disso, sigo até o bar


e me sirvo de uma dose de uísque.

— Foi tão ruim assim?

Sei por que ele está perguntando. Não tenho o

hábito de beber. Não gosto de nada que nuble os meus


sentidos.

— A morte dele? Não. Um pouco do lixo do mundo


foi recolhido. Ele não passava de um pedófilo sujo.

— Acho que vou precisar de uma bebida também.


— Avisa.

Enquanto olho-o despejar o líquido em um copo sem

gelo, penso no passado do homem que conheço desde os

meus quinze anos. Eu sei a razão dele ter ódio de


pedófilos. Eu estava ao seu lado quando matou o próprio

padrasto.

— Fale-me sobre o navio primeiro. — Pede.


— Foram eles, como já sabíamos, mas roubaram as
armas antes de explodirem a embarcação. E há mais

planejado.

— Os filhos da puta só podem ser loucos.

— Eles vivem para o hoje. Lucro imediato. Não


pensam a longo prazo.

— E o que vamos fazer?

— Matá-los, mas não antes de lhes dar uma lição.


Não somos só nós que estamos querendo suas cabeças.

Eles interceptaram uma entrega de drogas de Juan

Angel[16].

— É, definitivamente eles estão fora de controle.

Ninguém em sã consciência roubaria a mercadoria do Anjo


da Morte. Amadores fodidos. E ainda chamam esses

merdas de máfia albanesa. São um bando de arruaceiros

sem qualquer comando, isso sim.


Movo a cabeça em concordância. São realmente

estúpidos, mas enquanto estavam mantendo suas merdas


longe dos meus negócios, para mim era indiferente.

Entretanto, eles não têm a menor ideia do que fizeram ao

roubarem nossa carga. Eu não vou parar até eliminar um


por um. Só preciso da confirmação de algo que o homem

revelou ontem — que há membros da Organização


envolvidos.

— É por isso que ela está aqui? Não só para a


própria proteção, mas para ser usada? — Ele quase repete

a pergunta de Grigori.

Fico tentado a confirmar, o problema é que muita

coisa mudou desde que falei com meu primo. Não só no

que diz respeito às informações que obtive em relação ao


que ela passou na mão dos albaneses, mas porque decidi

que preciso de mais tempo com Talassa. E isso não tem


nada a ver com somente protegê-la.
— Não. Eu não vou negar que provavelmente tem
informações que me interessam, mas não foi por isso que a

trouxe para cá e não é por isso que ela ficará por tempo

indeterminado.

— Por que então?

— Não há explicação lógica ou única para sua

pergunta, mas a mais simples é que me sinto responsável


por sua vida.

— Você a trouxe aqui antes de sequer vê-la


pessoalmente, então sinto muito, mas não compro essa

desculpa. Existem muitas meninas traficadas ao redor do

mundo, então por que Talassa é especial?

— Sua história é muito fodida. Eu sei o que

acontece a essas mulheres, mas nunca me envolvi de


perto. Quando Grigori me mostrou sua foto, eu não pude

ignorar. E agora... não quero deixá-la ir ainda.

Deito o copo vazio em cima da mesa de centro.


— Ela é muito inteligente. Ganhou de mim no xadrez

ontem. — Ele muda de assunto, para meu alívio.

— Deve ter sido uma senhora porrada no seu ego.

Leonid foi um campeão infantil de xadrez com


apenas treze anos.

— Não é tão ruim perder para uma mulher linda.

Não compro a provocação. Não tenho qualquer


dúvida de que os meus quatro homens de confiança já

desconfiam de que há algo acontecendo entre nós e que

Talassa é mais do que uma hóspede aqui desde então.

— Fale-me sobre o albanês. — Pede.

— Gjergj parece que está deixando de lado o

comércio de escravas brancas por algo mais lucrativo.

Posso ver por sua expressão de nojo.

— O que poderia ser pior do que isso?

— Bebês.

— O quê?
— Essas meninas que estavam no grupo de Talassa
e muitas outras depois delas não foram pegas para

prostituição como eu pensei inicialmente. Eles as

escolheram a dedo, através de históricos médicos. Servem


como barrigas de aluguel à força. Mal dão à luz e são

inseminadas novamente. Eles recebem encomendas


específicas. Uma loira de olhos azuis, uma morena de

olhos verdes e assim por diante, para que o bebê não

destoe do resto da família.

— Isso é doentio de mais maneiras do que consigo

explicar.

Leonid parece genuinamente abalado, o que não é


pouca coisa. Desde muito novos, presenciamos merdas.

Ao contrário de mim que cresci em uma família normal até

os quatorze anos, no entanto, todos os outros quatro

homens do meu círculo mais próximo viveram um pesadelo

praticamente a partir do nascimento.

Cada um de nós é danificado à própria maneira.


— E o que mais?

— Se o que ele contou for verdade e acredito que

seja, o que Talassa viu e ouviu naquela casa a põe no olho


do furacão. Ela não é somente uma mulher bonita que o

bastardo queria abusar. Ela guarda segredos valiosos.

— Você sabe que ela está quebrada, não é?

— Em que sentido?

Ele sacode a cabeça.

— Não há como calcular os danos que lhe causaram

ao longo dos anos, mas um aleijado emocional reconhece

o outro. A menina é uma atriz em noventa e nove por cento


do tempo.

Penso em suas reações comigo há alguns dias.

— Ela ainda tem recuperação.

— Mas para que você a recuperaria? Para quebrá-la

de novo depois, quando a mandar embora?

Levanto e começo a subir as escadas.


Quando se trata de Talassa, nunca tenho uma

reposta.
Capítulo 16
Yerik

Se algum dia eu puder experimentar a sensação de

estar em paz, deve ser muito parecido com o que estou

sentindo ao observá-la dormir.

Depois de tomar um banho, segui para o seu quarto.

Não quis esperá-la acordar.

Sou bom em controlar meus desejos. Estou longe de

ser considerado um homem impulsivo, mas o que me

trouxe até aqui, ao invés de descansar por algumas horas,

que é o que eu deveria ter feito, foi a necessidade de senti-


la.

Em Atlanta, eu empurrei para o fundo da mente o

que aconteceu antes de eu partir. Eu precisava me

concentrar no que deveria ser feito e manter Talassa em


meus pensamentos durante dias de tortura parecia

simplesmente errado.

Depois do que descobri, no entanto, a vontade de

protegê-la triplicou, mas para isso, eu terei que tomar uma

decisão.

Lembro do que Ruslan falou. Ele disse que a mulher

que estiver comigo corre riscos mesmo entre os membros

da Organização, mas o dano seria maior se eu a

mantivesse oculta. Não acho que haja um homem vivo

corajoso o bastante para tentar pegar o que é meu. Nem

mesmo os malditos italianos.

Olho os cabelos espalhados na brancura da fronha.

Até em seu sono, ela é arisca. Os lençóis puxados até o


pescoço, provavelmente fruto dos anos de medo. Não

consigo imaginar o que deve ter sido ficar tanto tempo em


cativeiro. Sim, porque não importa o nome que o filho de

Gjergj a chamasse: namorada, esposa, companheira. No


fim de tudo, ela estava ali contra sua vontade.
Talassa é tão delicada que me lembra uma bailarina,
mas não há nada de frágil na menina que foi forçada a virar

uma mulher para sobreviver.

Sua inteligência e o raciocínio rápido me instigam


demais. Só isso já me faria virar a cabeça para olhá-la mais

de perto. Mas então, há também o desejo louco que ela me


desperta. Quando a beijei durante a caminhada, esqueci

completamente de onde estávamos. Além de ser deliciosa,


sua entrega me pôs louco.

Depois de tudo o que passou, eu achei que ela seria


mais cautelosa, mas se doou, confiando, me deixando

tocá-la. Talassa tenta ser durona, mas é suave para


caralho.

Ela se move e uma mecha de cabelo cobre o rosto.

Ergo a mão para afastá-lo e seus olhos se abrem. E ali


está. De novo aquela sensação de ser tragado para as

poças de calda de caramelo.


Não parece assustada, mas também não tenho
certeza se sabe direito o que está acontecendo.

Ao invés de afastar a mão, acaricio sua face.

É como ter o mais delicado dos tecidos sob os


dedos. A pele quente, aveludada.

— Você voltou. — Diz e me surpreendendo, retira

uma das mãos de debaixo do lençol e sobrepõe à minha.

— Eu disse que voltaria.

— Não costumo acreditar nas pessoas.

— E em mim?

— Estou tentando.

O que eu estou pedindo? Alguém como Talassa não


se encaixa no meu mundo. Ela deveria retomar sua vida na

pequena ilha. Recuperar todos os anos que perdeu. Se eu


fosse um homem melhor, sairia agora mesmo do quarto,
mas não quero.

— Abaixe o lençol.
— Por quê? — Apesar da pergunta, ela não
demonstra medo.

— Eu quero ver você.

— Você já estava me olhando antes. — Fala,


desviando do meu pedido. — Por quanto tempo?

— Eu não sei. Eu só quis ficar.

— Não me importo que você fique. Eu me sinto


segura com você aqui.

A confissão sai meio estrangulada e eu me pergunto


o quão é difícil para ela admitir aquilo.

— Desça o lençol, baby.

Ela faz o que pedi e fico hipnotizado quando noto


um shorts curto e uma camiseta que mostra parte do
abdômen. Os bicos dos seios estão duros e apontam no
tecido.

— Você só quer olhar? — Ela pergunta, corajosa.

— Não.
— O que, então?

Estico a mão para ela, que hesita somente poucos


segundos antes de a aceitar.

Está de joelhos na cama agora e a puxo para


montar no meu colo. Ela engasga quando a desço sobre
mim e seus olhos desviam.

— Sentiu minha falta?

Ela concorda com a cabeça. Minhas mãos estão

pousadas em suas ancas, ajustando-se às curvas suaves


de sua bunda.

— Onde você estava?

— Resolvendo problemas.

— Em que você trabalha? Leonid não quis me dizer.

— No setor imobiliário.

Ela ergue uma sobrancelha e sei que não acredita.

— E no que mais?
— Não me pergunte o que eu não posso responder,
Talassa.

Corro o nariz pelo seu pescoço e ela geme.

Meu pau imediatamente responde, duro como aço e


ela chega para trás, me olhando espantada.

Eu não me mexo, deixando-a decidir o que quer.


Não costumo me manter passivo, mas nunca estive com

alguém como ela. Nem no que diz respeito à juventude ou

com uma bagagem tão pesada.

Solto seus quadris e me deito na cama. Os

cotovelos apoiados, sem desviar do seu olhar. As mãos


pequenas vêm para o meu abdômen, enquanto ela sobe

um pouco mais pelo meu corpo, encaixando-se sobre a


minha ereção.

— Você está excitado como naquele dia.

As palavras saem de uma maneira inocente, como

se estivesse surpresa, o que me confunde.


— Eu quero você. — Confirmo.

Ela morde o lábio.

— E o que seria de verdade esse querer? Naquele


dia, quando nós nos beijamos, foi o meu primeiro beijo para

valer.

— O quê? Como assim, primeiro beijo para valer?

Você era... você estava em uma espécie de casamento,

certo?

Seu rosto cora e ela dá de ombros.

— Ele nunca... ele não podia...

— Talassa, você é intocada?

Retiro seu corpo de cima do meu e me levanto da

cama.

Ela abaixa a cabeça.

— Sim.

Eu não sei se ela consegue ver que estou surpreso


para caralho.
Não sou hipócrita e nem vou fingir que depois do
que aconteceu há dois dias, eu não estava louco para tê-la,

só que pensei que estava lidando com alguém jovem, mas


experiente. O que me foi dito era que ela vivia como uma

espécie de esposa e esposas não se mantêm virgens por

tantos anos.

— Como pode? Por que não aconteceu?

Ela se afasta, encostando-se na cabeceira da cama.

— Aleksander queria um troféu. Não conseguiria


fazer nada comigo. Ele só me beijava e mesmo assim,

parecia muito irritado depois. Acho que usava tantas

drogas para dor, que não podia sentir. — Sua voz soa
monótona, como se estivesse cansada. — Eu perdi tudo.

Minha liberdade, o direito de estudar, de ter uma amiga, a


minha inocência, menos a virgindade. Não é irônico? Eu

sou pura. Danificada, mas pura. Ou usando suas palavras,

intocada.
Ela cospe essa última parte como se estivesse me

dando uma ferroada.

A entrega que demonstrou quando eu cheguei,

desapareceu. Ela é novamente a garota que não precisa


de alguém.

— Eu não sou um homem bom. Sou mais parecido


com aqueles que a levaram do que você imagina.

Seus olhos se arregalam, mas ela permanece no


mesmo lugar.

— Você vende ou compra meninas? Rouba suas


vidas?

— Não. Eu nunca machucaria uma criança ou


mulher, mas isso não faz de mim uma boa pessoa. Não

crie qualquer fantasia a meu respeito.

— Todas as ilusões se foram, Yerik. A minha

tendência é sempre pensar o pior dos outros. Há muito


pouco que você pode me dizer que me chocaria.
Lembro do homem que matei algumas horas atrás e
sacudo a cabeça.

— Você não faz a menor ideia do que está falando.

— Pode ser que tenha razão, mas sei o que estou

sentindo. Eu vivi com medo por mais de três anos e com


você não é assim.

Ela fica de pé, mostrando-se.

— Eu não erguia a vista do chão. Não queria que

qualquer homem dentro daquela casa me notasse, mas eu


gosto do que eu vejo nos seus olhos.

Poucas pessoas nesse planeta, homem ou mulher,

teriam coragem de me enfrentar dessa maneira, mas ela,

por não fazer ideia de quem sou, está vindo para cima e
me deixando louco de tesão.

— E o que você vê nos meus olhos, menina?

Ela cora, mas não recua.

— Você me acha bonita.


— Precisa que eu diga isso? Você sabe que é.

— Eu não sei. Não me vejo mais desse modo. No


começo, acreditava que quando reconquistasse minha

liberdade, tudo seria como antes. Eu poderia ser feliz


novamente, mas isso é impossível porque eu não sou a

mesma pessoa que saiu de casa há alguns anos. Aquela

vida já não me interessa mais.

— Você está confusa. É normal depois de tudo o

que passou, eu acho.

— Talvez, mas ao seu lado esqueço por um tempo o

que eles me fizeram. Eu me permito desejar um homem


sem sentir medo de que vá me machucar.
Capítulo 17
Yerik

Não é sua declaração o que me atinge porque eu

não acredito em palavras.

Talassa aprendeu a fingir e ocultar o que sente. O

que mexe com algo dentro do meu peito é perceber o

quanto ela está se entregando em minhas mãos, deixando

suas barreiras irem por terra.

— Eu gostaria de dizer que você não precisa ter

medo de mim, mas não posso.

— Você não me machucaria. — Afirma e não se

move.

— Como eles, não.


— De que jeito, então?

Dou um passo para mais perto.

— Eu posso feri-la de mais maneiras do que você


imagina.

— Meu corpo?

— Não.

— Então não há mais nada que você possa quebrar.

— Ela olha para o chão. — Não há qualquer pedaço meu

além do corpo, que possa ser destruído.

Seguro seu rosto com as duas mãos.

— Você é um bebê ainda.

— Não. Sou uma mulher. Só não sei fazer sexo,


mas você despertou uma necessidade que eu nem sabia

que existia. Eu gostei do jeito que me tocou.

— De que jeito?

— Os beijos, principalmente. E de sentir sua

respiração acelerada. Eu o ouvi gemer, então acho que foi


gostoso para você também.

— Puta que o pariu, Talassa.

Eu a pego no colo e levo de volta para a cama.

Minha mão pousa na cintura nua.

— Eu não sei fazer suave.

— Durante o sexo?

— Em tudo. Na vida. Você é inocente demais para


mim.

— Eu não quero mais ser inocente. Quero viver.

— Você viverá. Terá muito tempo para isso. Dou

minha palavra que receberá sua vida de volta.

— E se eu quiser começar a viver agora mesmo,


aqui com você? E se eu quiser que me ensine?

— Você vai me matar se continuar dizendo coisas


assim.

— Por quê?
Puxo-a para cima do meu corpo, colocando-a sobre
meu pau.

— Oh!

Movo-a de leve, friccionando seu centro na minha


ereção e suas unhas fincam em meus braços. Seguro-a
pela nuca, trazendo sua boca próximo à minha. Não quero
assustá-la e tento manter algum controle, mas estou louco
de desejo também.

Chupo sua língua, sugando como quero fazer com


seu clitóris. Ela move timidamente a dela, testando o que

gosta.

— Linda para caralho. — Rosno quando afasta o

rosto para recuperar o fôlego. Minha menina está em


chamas, ofegante e ansiosa.

Passo o polegar pelos lábios. Ela abre a boca e eu

faço com que chupe meu dedo. Ao mesmo tempo, coloco a


mão por dentro do shorts e aperto a carne dura. Posso
sentir o contorno da calcinha e deslizo o dedo na costura
da sua bunda. Ela não me para, mas quando avanço para
o calor do seu sexo, congela.

— Você pode me dizer se não quiser que eu


continue. — Aviso e ela faz que não com a cabeça.

Trago-a sobre mim e mordisco os lábios inchados


pelos meus beijos. Ela é a porra da imagem da perfeição.

— Não. Eu só... você disse que não sabe ser suave,


mas...

Ergo seu queixo.

— Mas?

— Pode não ser tudo hoje? O sexo completo, quero


dizer.

Por um instante, fico em dúvida. Nem quando eu era


adolescente eu parava só nas carícias, mas ao olhar para o
rosto puro, decido que mesmo que eu tenha um AVC, não

permitirei que sinta medo outra vez.

— Vamos tentar algo. — Proponho.


Ela não faz ideia de que é um aprendizado para mim
também. Desde que perdi a virgindade, aos quinze anos,

as preliminares sempre se resumiram a sexo oral mútuo.


Toques sutis, carícias singelas, beijos fora de uma foda —
nada disso existe em meu mundo.

— Eu vou gostar? — Pergunta.

Mordo seu pescoço.

— Você me dirá se estiver gostando.

Inverto nossas posições, ficando por cima dela.


Beijo a pele exposta da barriga, subindo as mãos,
aproximando os dedos dos seios. Ela prende o fôlego e
fecha os olhos.

— Não. Olhos abertos. Eu quero vê-la.

Toco de leve os seus peitos. Ela crava os dentinhos


na boca e as pernas se afastam, me acomodando.

— Levante os braços. — Comando.


Pegar leve é um esforço infernal, mas ela me
mostrará que está comigo a cada passo. Ela já viveu

forçada por tempo demais. Se quiser ser minha, terá que


aprender a encarar os próprios desejos.

Puxo a camiseta e agora está nua da cintura para


cima. Ela desvia o olhar.

Roço o dedo em um mamilo e a vejo estremecer,


arqueando-se para frente. Agarro cada pontinho cor de

rosa entre o polegar e o indicador e ela geme. Seu suspiro

de prazer traz uma necessidade quase dolorosa de me


afundar em seu corpo.

— Eu vou chupar você.

Tomo um peito na boca, mamando, querendo


consumir sua pele, marcar seu gosto na língua.

— Oh, meu Deus…

Mordo de leve, esticando o montinho duro e ela grita

e se remexe, erguendo os quadris, se esfregando no meu


pau.

— Rebole. — Mando, segurando sua bunda com

uma das mãos e roçando minha ereção no meio de suas

coxas.

Ela me puxa pelo cabelo, mantendo minha boca em

seu peito. Eu rodo a língua, provocando a rigidez da carne.

Os movimentos dos quadris aumentam, eu enfio a

mão no seu shorts, roçando-a de leve por cima da calcinha.


Ela está muito molhada e conto até dez mentalmente para

me acalmar. Começo a esfregar na altura do clitóris e ela


morde meu ombro. Em seguida, segura a mão com que a

toco, pressionando-a mais. Para provocá-la, escorrego o

dedo médio na lateral da lingerie, e só com a ponta, subo e


desço por sua fenda.

Ela para outra vez e me olha.

— Muito? — Pergunto, mas não interrompo a

carícia.
Suas bochechas estão em brasas e a despeito do
rosto denotar dúvida, os quadris se movem, pedindo por

mais.

— O que você vai fazer?

— Eu quero que goze nos meus dedos.

Dessa vez, ela toma a iniciativa de me beijar,

puxando-me para baixo, devorando a minha boca com a


mesma ganância que tenho dela.

— Eu quero mais.

— Eu vou dar mais, gostosa. Nós só estamos


começando. — Belisco seu clitóris e ela quase urra. — Vai

gozar nos meus dedos e depois na minha língua, sentada

no meu rosto.

Não diminuo o ataque ao seu ponto do prazer,

enquanto insiro o dedo médio de leve em sua abertura.


Entro e saio algumas vezes, só até a metade, mas na

última, ela me prende dentro do seu corpo, gritando.


— Meu Deus do Céu! — Meus dedos estão

ensopados e suas pernas tremem em movimentos


involuntários.

Estou louco só de observar suas reações e muito


perto do meu limite. Ergo-me para tirar seu shorts e

calcinha de uma vez só. Ela não protesta.

— Você é linda para caralho.

Não sei se ela me escutou, ainda perdida na nuvem


do orgasmo.

— Amplie mais as coxas. Eu quero vê-la.

Levanto-me para tirar minha camisa. Não vou até o

fim, como prometi, mas quero sentir nossas peles unidas.

Mal abro a primeira casa e há uma batida na porta.

— Yerik, precisamos tirá-la daqui. Temos motivos

para acreditar que a segurança foi comprometida.

Custo um pouco a entender as palavras de Leonid,

envolto pela beleza da mulher deliciosa esperando por


mim. Segundos depois, no entanto, a visão dela sendo
levada para longe, machucada e indefesa, faz com que

meus instintos tomem a frente, os pensamentos

subitamente organizados.

— Talassa, nós precisamos sair. Agora.

— Yerik? O que está acontecendo? — Pergunta,

sentando-se na cama, confusa.

— Temos que ir embora. Eu prometi que ninguém a

levaria e não pretendo quebrar essa promessa.

— Só me diga o que aconteceu.

— Vista-se. Não leve nada. Providenciarei o que

necessitar depois.

Ela continua parada na cama.

Não tenho ideia de qual é a real situação, então a


pego no colo e levo até o banheiro.

— Depressa, baby. Preciso de você obediente,


agora. Eu a encontrarei lá embaixo em cinco minutos.
O rosto transparece desapontamento, mas sua vida

é mais importante do que qualquer outra coisa.

— Cinco minutos. — Repito, saindo do aposento.

Vou até meu quarto, visto um jeans e pego a minha


arma. Desço as escadas em alerta. Não chamo por Leonid.

Se houver mais alguém na casa, o elemento surpresa será


fundamental.

Entro na cozinha o mais silenciosamente possível e


o encontro ao telefone.

— Sim, já estamos indo. — Ele me vê. — Esperando


por ela, somente.

— Se vierem, deixem que entrem. Diga a Maxim que


mande mais alguns homens para cá. Quando os

capturarem, me avise. Quero todos vivos. — Falo.

Ele repete minhas instruções a seu interlocutor e

desliga sem se despedir.


— Não sabemos quem são, apenas que teremos
convidados em breve. — Informa.

— À procura de Talassa?

— Não temos certeza ainda, mas de qualquer forma,

essa casa já era, Yerik. Terá que se desfazer dela. Não


importa se são os albaneses. O fato é que voltar para cá a

partir de agora está fora de cogitação.

— Eles devem ser interrogados somente por Maxim,

você ou Dmitri. Além de vocês e Grigori, não confio em


ninguém.

Concorda com a cabeça.

— Onde ela está?

— Aqui. — Talassa aparece com um vestido leve e

rabo de cavalo, parecendo jovem e vulnerável.

— Venha. — Chamo e estico a mão para ela. —

Você deve fazer tudo o que dissermos.


— Não. Eu farei tudo o que você mandar. É somente

em você que eu confio. — Responde, sem diminuir o tom

de voz e não parecendo preocupada que Leonid esteja

ouvindo.

A declaração traz ainda mais responsabilidade e

faço um pacto comigo mesmo que não a desapontarei.


Capítulo 18

Talassa

Atlanta - Geórgia

Bato o pé no piso do helicóptero sem parar, nervosa,

enquanto sobrevoamos a cidade que Yerik me explicou que


ficarei. Atlanta, capital do estado da Geórgia, e também

onde se localiza sua residência principal.

Ele me levará para sua casa? Eu não tenho certeza

e não perguntei porque não quis parecer carente,


dependente dele.

Estou me sentindo agitada e apreensiva, tudo ao

mesmo tempo. Olho a vista lá embaixo e penso em como


tudo mudou em um curto período de tempo. Eu ainda não

sou livre, mas também não sou mais uma escrava.

Depois que fomos interrompidos, ele quase não

falou, no entanto, manteve-se ao meu lado o tempo todo.

Sinto-o mover a perna e encostá-la na minha.

Relaxo instantaneamente. Foi intencional? Talvez. Eu só

sei que a presença de Yerik é tão poderosa, que um

simples contato me acalma.

Nós tivemos que sair às pressas, porque Leonid

realmente parecia estar levando a ameaça a sério. Foi

como cair de um precipício. Em um segundo, eu me sentia


feminina, desejada, protegida. No momento seguinte,

precisava fugir de novo.

Eu devo ser mesmo muito tola porque bastaram uns

poucos dias para que eu voltasse a confiar em alguém.

Ou talvez seja ele. O homem sombrio, mas que me


faz acreditar em suas promessas, o responsável por eu

conseguir me sentir quase normal.


— O que há? — Pergunta, segurando meu queixo
para encará-lo.

— E se houver alguém me esperando nesse lugar


que estamos indo?

Ele balança a cabeça de um lado para o outro e os

lábios quase não se mexem ao dizer: não aqui.

Eu entendo que ele não quer falar na frente do piloto

e fico calada, virando o rosto novamente para a paisagem.

Ele me surpreende ao colocar a mão na minha coxa


e agora eu sei que está me tocando porque quer. Recosto

a cabeça em seu ombro e ele enrijece. Sem jeito, me


afasto, mas a mão enorme vem para o meu rosto me

fazendo deitar outra vez. Fecho os olhos e pouco tempo


depois, caio em um sono leve.
Desperto assustada quando sinto o aparelho

encostar no solo.

— Calma. É só o pouso. — Yerik diz.

Estamos literalmente no topo do mundo. O


helicóptero aterrissou no alto de um edifício. Eu não quero
demonstrar o quanto estou excitada com a nova

experiência, mas não consigo. Sinto um frio na barriga


sobre um futuro que eu não faço ideia de qual seja, mas
que certamente não é mais ficar prisioneira de um homem
depravado ou seu filho egoísta.
Tento absorver a paisagem ao redor, mas só consigo
enxergar o alto de outros edifícios.

Yerik desce e sem me dar tempo para pensar, solta


meu cinto e me pega no colo, me deixando no chão em
seguida.

É como estar na torre de um castelo e ando até o


parapeito para olhar a cidade lá embaixo.

O piloto se afastou discretamente, suponho que para


nos dar privacidade.

— Eu vou poder passear nas ruas? — Pergunto, me


virando para encará-lo.

— Você não é uma prisioneira, mas teremos que ser


cautelosos por hora. Mais tarde conversaremos a respeito
com calma.

— Se eu não sou uma prisioneira, o que há para


conversar?
Sinto meu temperamento aflorar e desvio o rosto
para longe dele antes que eu diga algo mais que vá me

arrepender. Ele não me permite fugir, me segurando pela


nuca. Seus lábios estão comprimidos em uma linha fina.

— Você terá que ganhar a minha confiança. Não a

tirei deles apenas para vê-la ser morta.

Empalideço com a brutalidade de suas palavras,

mas também porque, no fundo, sei que não está tentando


me assustar. Há uma grande chance daquilo realmente
acontecer caso eles me apanhem outra vez.

— Por que você me trouxe justo para sua cidade? —


Pergunto, tentando diminuir um pouco sua carranca. Não
sou boa em me desculpar, mas admito que agi como uma
criança e estou envergonhada. — Quando conversamos no

outro dia e lhe pedi isso, você não me deu qualquer


resposta. Então do nada, decide me trazer para sua casa?
— Sinto minhas bochechas esquentarem, mas pergunto
assim mesmo. — Foi por causa do... huh…. — Abaixo a
voz e olho para o outro lado. — Por causa do que nós
fizemos?

Não responde e me obrigo a enfrentá-lo. A


curiosidade vencendo o embaraço.

Ele se aproxima e me segura pela cintura.

— Está me perguntado se eu decidi trazê-la para


poder provar você a hora que eu quiser? Chupar, lamber,

morder cada pedaço seu?

Não sei se ele está falando aquilo para me chocar,

ainda zangado com o meu comportamento de há pouco,

mas o que acontece é exatamente o oposto. O meio das


minhas pernas encharca e aperto as coxas, tentando

conter o desejo.

Parece que adivinha o que está acontecendo porque

sua língua toca o lóbulo da minha orelha.

— Minha menina gosta que eu fale sujo?


Não tenho uma resposta para aquilo, mas meu

corpo pelo visto, sim, porque como se fosse


autocomandado, os seios colam em seu peito duro.

— Talassa, não comece algo que você não deseja ir


até o fim. Eu não teria qualquer problema em comê-la aqui,

para que qualquer um pudesse ver.

— Você está tentando me assustar?

— Não, mostrando quem eu sou.

Dou um passo para trás antes que minha recém

descoberta imprudência tome o controle.

Ele me encara, parecendo pronto a me caçar, mas


depois coloca a mão na parte baixa das minhas costas, me

guiando para um elevador.

Quando as portas se abrem, não há um corredor

como nos prédios. Saímos diretamente em uma sala

ampla. Tudo muito branco — o que é um contraste com o


homem de temperamento obscuro — e com pé direito[17]
alto.

— Descanse um pouco. Eu interrompi seu sono hoje


pela manhã.

Quando ele termina de falar, nos encaramos, acho


que ambos lembrando o que aconteceu no Tennessee.

— Você não vai me mostrar a casa primeiro? —


Pergunto, para disfarçar o calor que incendeia meu corpo.

— Só o quarto. Eu tenho uma reunião agora, mas


fique à vontade para explorar.

Quando recomeçamos a andar, tomo um susto ao


notar que além de Leonid e Dmitri, que eu nem sabia que

estariam aqui, já que o ruivo ficou para trás quando saímos


da casa nas montanhas, há um outro homem. Ele parece

muito confortável, sentado em uma poltrona, então assumo

que seja alguém bem próximo de Yerik também. Seu rosto


é quase entediado, sem qualquer expressão. É impossível
dizer se ele irá cumprimentar alguém ou está prestes a

matá-lo.

Logo que eles me levaram ao Tennessee, eu estava

com muito medo. Lá em Nova Iorque, eu vivia em meio ao


mal conhecido, mas sobre aqueles homens, não fazia ideia

de quem eram ou o que queriam de mim. Aos poucos, no

entanto, fui relaxando e baixando a guarda. Não só porque


aprendi a confiar em Yerik, mas os outros deixaram de me

causar desconforto. Esse, contudo, me olha como se não


aprovasse minha presença aqui.

Tanto Leonid quanto Dmitri levantam quando me


veem, mas enquanto o primeiro para perto de mim,

oferecendo um sorriso, o outro somente me encara.

Eles formam um grupo estranho, mas ao mesmo

tempo complementar. Cada um sombrio ao seu próprio

modo.

— A paisagem ficou mais bonita de repente. —

Leonid solta e eu me aproximo de Yerik. Acho esquisito que


ele tenha dito aquilo. Quando estávamos sozinhos na casa,
em nenhum momento tentou flertar comigo, mas agora é

como se tentasse provocar uma reação.

A mão em minhas costas aumenta o aperto e eu

olho para ele.

— Cuidado. — Yerik avisa a Leonid.

Nem mesmo quando ficou zangado comigo seu


rosto esteve tão frio. É um contraste grande em

comparação à maneira que me trata e apesar de todos os


avisos que me deu, não quero pensar nele como alguém

cruel. Decido me manter à margem do que quer que esteja

acontecendo entre os dois.

— Pode me mostrar o meu quarto? — Peço a Yerik.

Ele ainda não se move e começo a ficar nervosa.

Sem pensar, entro na sua frente, de costas para o


resto do grupo e coloco a mão em seu rosto.
— Gostaria de descansar. Lembra do que me disse?

Eu dormi muito pouco.

Ele pisca, o maxilar ainda cerrado, mas finalmente

me olha. Não consigo decifrar o que há por trás da maneira


como me encara, mas depois de alguns segundos, um

pouco da frieza se vai.

Ele envolve minha cintura com um braço e saímos

da sala sem olhar para trás.


Capítulo 19
Yerik
Horas depois

— Foram os albaneses que vieram atrás de nós nas

montanhas?

— Sim. Capturamos três deles e mais tarde os…

interrogaremos. Talvez se continuarem agindo sem

qualquer planejamento, tudo o que precisamos fazer é

sentar e esperar. Eles são tão estúpidos que morrerão

sozinhos. — Leonid fala, em uma tentativa de piada.

Estamos reunidos há quase duas horas,

organizando um contra-ataque.

— Eles não terão tempo. Como eu disse antes, se

não formos nós, acabarão nas mãos de Juan Angel ou dos


italianos. Tanto quanto eu gostaria de assisti-los serem

dizimados, não posso deixar para lá. Suas ações exigem

uma retaliação ou nos tornaremos um alvo para todos

aqueles que desejarem o que é nosso.

— O que você quer fazer? — Dmitri pergunta.

— Para começar, explodam o principal armazém

onde eles mantêm as mercadorias. Foquem na cocaína

que é mais valiosa. Se for possível, um dos laboratórios de

sintetização das drogas também. Eles precisam entender

que estou falando sério, mas além disso, temos que enviar

um recado para quem estiver pensando em atravessar o


nosso caminho.

— O armazém em troca do nosso navio e o


laboratório como bônus? — Maxim questiona.

— Sim, mas não pararemos por aí. Eu quero a


cabeça de todo o primeiro escalão. Não poupem ninguém,

mas não matem Gjergj. Tragam-no para mim.


— Isso não é sobre as armas somente, é pessoal.
— Maxim pondera. — Não acho que seja uma boa coisa

misturar nossos problemas com os albaneses com seu


desejo por vingança por causa da sua mulher. — Acredito

que ele esteja esperando que eu o desminta sobre sua


referência à Talassa, mas fico em silêncio. — Você está
querendo fazê-lo pagar por tê-la mantido prisioneira. Pode

acabar intercruzando caminhos e transformando um


simples acerto de contas em uma guerra.

— E qual é o problema? Não seria a primeira vez


que mataríamos rivais. — Dmitri se intromete.

— Mantê-la é estupidez. — Maxim fala novamente.


— Nem sabemos se podemos confiar nela, para início de

conversa. Ao que me consta, ela poderia repassar as


informações que obtiver aqui para qualquer outra
organização. Temos inimigos em tantas frentes que não

saberíamos nem de onde viria o ataque.


— Eu nunca atraiçoaria quem me ajudou. — Talassa
diz para todos, mas depois vem até onde estou e se

ajoelha. — Mas principalmente, eu não trairia sua

confiança em mim.

Não a vimos entrando e percebo a tensão tomar

conta dos outros homens.

Meu primeiro pensamento, é que ela não combina


conosco. Principalmente agora que trocou o vestido por um

shorts e um top de malha, parecendo mais doce e inocente


do que nunca.

Todos os presentes estão cem por cento


concentrados nela.

Estudo o rosto perfeito, tentando afastar o quanto


ela me afeta, analisando-a como faria a um inimigo. Ela me
olha diretamente nos olhos, sem piscar, as mãos pousadas
em minhas coxas e completamente alheia ao resto do
grupo.
— Não vou pedir que acredite em mim. Também não
sou boa em confiar nas pessoas, como já deve ter
percebido, mas darei uma prova de que estou falando a

verdade.

Ela tenta se levantar, mas eu não permito.

— Não quero me meter nos negócios de vocês, mas


posso contar algo que talvez o interesse. — Continua.

Ainda mantenho o rosto impassível, sem deixar


transparecer como estou acelerado com sua declaração.

— Como o que, por exemplo?

— Você percebeu naquele dia que eu entendo


russo. Eu não tinha muito o que fazer quando estive presa
lá, então estudava um pouco de tudo, principalmente
línguas. Tenho facilidade com idiomas. E em… hum…
guardar informações. — Ela pausa, como que para me

permitir absorver a revelação. — Eu ouvia conversas. A


rotatividade naquela casa era alta e acho que com o
tempo, eles esqueceram que eu estava lá. Era mais um
móvel a decorar os ambientes.

Não há qualquer emoção quando diz aquilo. Como


se ser tratada como um objeto não a afetasse, mas eu a
desvendo mais um pouco a cada dia e sei que há dor por

baixo da indiferença.

E raiva. Muita raiva.

Sei o que é odiar em silêncio.

— Muitos homens poderosos frequentavam a casa


de Gjergj e talvez dois deles sejam importantes para vocês.
Vou contar o que sei, mas preciso de algo em troca.

— Você não está em posição de negociar. — Maxim


fala.

Ela olha para trás, o queixo erguido.

— Não estou falando com você, mas com seu

Pakhan. — Responde, ousada e ao mesmo tempo nos


deixando saber que compreende quem somos.
Agora todos prestamos muita atenção nela.

Por mais que a ideia seja desagradável, Maxim tem


razão. Preciso ter certeza se posso confiar em Talassa,
senão estaria arriscando não somente a minha vida, como

comprometendo toda a Organização.

— Você me diz algo que sabe e depois eu escuto

sobre o tal favor que deseja. Não prometo ajudá-la quanto


a isso, mas deixarei que me explique sobre seu pedido.

Ela ensaia se levantar novamente e dessa vez eu a


deixo ir.

Há poltronas livres, mas isso a manteria próxima a


pelo menos um de nós, então ela se senta no chão, mas

em uma posição em que permite olhar todos.

— Havia dois russos que estiveram na casa

algumas vezes. Pelo que pude entender, eles eram de


Seattle, mas tinham interesse em controlar essa costa do

país. Falaram em dominar os Estados Unidos… além de

outras coisas…
Imediatamente, gelo se espalha no ambiente. Um

silêncio denso atingindo o grupo.

Talassa mantém os joelhos dobrados junto ao

tronco, abraçando-os e me pergunto se está com medo.

Eu não estava esperando que ela dissesse aquilo.

Mesmo que tenhamos descoberto um vazamento entre os


nossos, achei que me passaria informações sobre as

armas ou outras negociações.

— Você pode nos dar nomes? — Leonid pergunta.

Ela balança a cabeça de um lado para o outro,


negando, olhando diretamente para mim. Desde que

entrou, não desviou os olhos. É como se me mostrasse


que não está mais escondendo nada.

— Não, mas posso descrevê-los. Um deles, o mais


velho, tem uma barriga avantajada, apesar de não ser

gordo. Sempre estava de terno e parecia alguém poderoso.

Ele me causava arrepios. — Revela. Não sei se percebe


que está baixando as defesas, admitindo seus medos. —
Havia também um outro homem. Esse segundo tinha uma
marca de nascença rosada na lateral da testa, em formato

de um mapa. Nunca se referiram ao homem mais velho por


outro nome que não fosse Chefe, mas esse mais novo eles

chamavam de Piloto.

Maxim se levanta, mas eu o paro com um gesto.

Não há qualquer dúvida de que ela está falando a verdade.

Piloto é a alcunha de Dima Abramov, um ladrão de carros


que ganhou fama quando adolescente por precisar de

menos de dois minutos para conseguir roubar qualquer

automóvel. E o homem mais velho de quem ela falou só


pode ser seu chefe, Oleg Chaban, o atual conselheiro do

Pakhan.

— Puta que o pariu! — Dmitri berra, mas ela nem

pisca, ainda me encarando.

— E o que eles foram fazer lá? — Pergunto, sem

mostrar o quanto me abalou sua revelação.


— Não direi mais nada até que me dê sua palavra

de que ouvirá o que tenho a dizer sobre uma garota.

Ergo uma sobrancelha. Ela não para de me

surpreender. Achei que o favor envolveria a si própria ou a


Lara.

— Você a tem. — Concedo.

— Há um homem, um colombiano chamado

Gerónimo Pérez. — Ela começa. Claro que eu sei quem é


o bastardo, mas não demonstro qualquer reconhecimento.

— Ele tem um acordo com os albaneses. Na verdade,

tinha, porque da última conversa que ouvi, não conseguiu


cumprir o combinado. Gjergj havia pedido como garantia a

enteada desse homem. Não sei muito sobre a garota,

apenas que seu nome é Alma[18]. — Ela balança o corpo

para frente e para trás, aumentando o aperto em torno das

próprias pernas. Mostrando tanta vulnerabilidade que sinto


vontade de expulsar os outros homens e lhe jurar que não

precisa mais ter medo. — Mas eu sei o que eles planejam


fazer com ela. Gjergj disse ao padrasto que a devolveria
assim que o que o homem lhe deve fosse pago, mas isso

não acontecerá. Eles pretendem vendê-la.

— Continue. O que você está exatamente me

pedindo?

— Deixe-me avisá-la ou então mande que alguém o

faça. Ela precisa se esconder.

— Vou considerar tudo o que me contou e tomar

uma decisão.

— A garota não tem muito tempo. Um aviso. É tudo

o que estou pedindo, Yerik. Assim, ela ao menos terá uma


chance. Saberá o que está vindo em seu caminho, ao

contrário de mim.

Ninguém mais fala, mas conhecendo meus homens,

sei que todos pensam a mesma coisa. Gjergj precisa

morrer. Não porque acreditemos que não existam centenas


iguais a ele pelo mundo, mas porque o bastardo está

ficando fora de controle.


— Analisarei seu pedido. Agora, você precisa me

contar tudo o que sabe sobre os russos que viu em Nova


Iorque.

— Tudo bem.
Capítulo 20

Yerik

— Puta que o pariu! Seis idiomas, sério? — Leonid

parece conversar consigo mesmo, após Talassa sair.

Ela nos contou que pode compreender e falar meia


dúzia de línguas e se a situação não fosse tão séria, a cara

deles seria engraçada.

— Não é só isso. Ela aprendeu sozinha. — Maxim

sacode a cabeça. — E aquele imbecil achando que a

garota era lenta. Foi esse o termo que usou, não é?

Eles ainda estão atordoados com a sagacidade de

Talassa. Eu não. Ela parece ter desistido das máscaras, ou

de uma delas, ao menos — a de garota pouco capaz de

aprender.
Eu nunca comprei aquela história.

Claro que me surpreendeu que compreendesse

tantos idiomas, principalmente o nosso e também como

guardou detalhes importantes das conversas que ouviu,

mas eu nunca tive dúvidas sobre sua inteligência. Ela não

sobreviveu por sorte. Planejou e esperou. É assim que os


fortes superam adversários às vezes até mais capazes:

aprendendo tudo ao seu respeito e a seguir, vencendo-os

em seus próprios jogos.

— O que vamos fazer em relação a ela? Talassa

não tem a menor ideia, mas fez de si mesma uma bomba-


relógio. — Dmitri coloca em voz alta o que todos nós

estamos pensando. — Você sabe que se a pegarem, não


há maneira de a deixarem viva.

Agarro a pulseira de couro em meu punho, girando-a


sem parar, mas dessa vez, ela não é suficiente para me

deixar calmo, então me levanto e vou até a parede de vidro


que me mostra uma Atlanta ao crepúsculo.
— Se antes você já não pretendia deixá-la ir, agora
é que não há a menor chance mesmo. Enquanto Gjergj

estiver respirando, haverá um preço sobre a menina.

— Ela não irá a lugar algum por enquanto. — Não é


um assunto que eu precise pensar a respeito. No instante

em que sair pela porta da minha casa, estará morta. —


Reforcem a segurança do Pakhan também. Eu quero o

passado de todos os funcionários que o servem virado do


avesso.

— Eles já foram verificados.

— Façam de novo e diminuam o número de pessoas


que trabalham diretamente com ele. Convoquem os

melhores para protegerem o meu avô.

— Nós precisamos mais do que a elite. Com todo o

respeito, o Pakhan é teimoso e não para em casa. Além


dos riscos que seu cargo atrai, a saúde dele também nos

dá motivos para preocupações.


Eu sei que o que Maxim está expondo não é nada
além da verdade, o problema é convencer Ruslan a ser

menos orgulhoso. Na cabeça dele, ainda vive na velha

guarda, onde havia respeito em relação à elite da


Organização. Na realidade, porém, atualmente em Moscou,
garotos de doze anos podem acertar uma bala na sua
cabeça na calada da noite e aceitar um par de tênis como

pagamento.

Claro que a Organização ainda detém o poder sobre


a vida e a morte em nosso país natal e em várias partes do

mundo, mas a cada ano surgem pequenas gangues de


ruas, moleques sem qualquer perspectiva de futuro que
matariam a troco de nada.

Não há muito o que fazer em relação ao meu avô


além das precauções que sempre adotamos. Fora isso,
precisamos ir atrás de Oleg. É primordial que ele não

desconfie de nada. Duvido que esteja atuando sozinho e


agora mesmo pode haver na Rússia alguns de seus
cúmplices somente aguardando ordens para pôr um fim à
existência do Pakhan.

— Alguém deve vigiar os pais de Talassa também.


Apesar de não ter certeza se merecem, vou lhes dar o
benefício da dúvida. Se os albaneses conseguirem chegar

até seus pais, podem usá-los para chantageá-la.

— E quanto à doida da amiga dela? Grigori está a

ponto de afogá-la naquela ilha.

— Ele conseguirá lidar com a garota, tenho certeza.


Ponha-o a par do que descobrimos.

— Ele não é totalmente da Irmandade. Seu primo


não decide o que quer.

— Agora ele é e deve ser informado de tudo.

— E quanto à nossa preocupação principal,


Talassa?

— Ela estará comigo. Se eu não puder protegê-la,


ninguém mais poderá, mas caso surja algum imprevisto,
você deverá se tornar sua sombra, Leonid. Se eu não
estiver presente, cuide dela como se fosse de mim.

— Se a mantiver aqui, estará colocando um alvo em


suas próprias costas também.

— Eu ando com um alvo em minhas costas desde


os quatorze anos.

Dias depois

Subo as escadas para encontrá-la, apesar de estar


com a cabeça sobrecarregada de informações.
Eu praticamente não a vi nos últimos três dias,
voltando para casa somente quando já adormecera. Além

de estarmos no encalço de Oleg, precisei avisar meu avô


sobre a possibilidade de traição por parte do seu
conselheiro. Ruslan não pareceu chocado, o que me fez
desconfiar de que já sabia sobre aquilo. Não seria a
primeira vez que alguém da linha de frente traria um chefe.

Ele quer a confirmação sobre o envolvimento de


Oleg com os albaneses o mais rapidamente possível e em

caso positivo, que sua punição seja exemplar.

Nós russos temos muita criatividade ao nos

vingarmos, mas nesse caso particularmente, não se trata


apenas de castigar um membro desleal ao nosso código,

mas de mostrar a todos dentro da Organização que a

traição cobrará um preço alto.

Chego à porta do seu quarto e hesito antes de bater.

Há sempre um dos meus homens de confiança na casa


com ela, além dos seguranças. Eles me mantêm informado
de até mesmo um espirro seu, mas o problema é que não

há muito o que ser relatado.

Talassa se condicionou a não precisar de quase

nada e por minha vez, não estou acostumado a ter


hóspedes. Quero pôr à sua disposição tudo o que deseja,

até mesmo algo banal, mas não sei do que as mulheres

gostam ou precisam.

Ela quase não tem saído do quarto, a não ser para


fazer as refeições, voltando a se refugiar em seguida.

Pensei no que me pediu sobre a tal garota, Alma.


Investiguei por alto e pelo menos na superfície, a mulher é

realmente uma inocente que somente deu azar de ter

algum laço com o infeliz do colombiano, então decidi ajudá-


la. Dmitri descobriu que há uma funcionária na residência

de Gerónimo Pérez que é muito próxima à garota.

Chegaremos até a mulher para que possa alertar sua


patroa de que há uma ameaça iminente.
Será que Talassa tem alguma ideia da importância
do que nos contou? Um décimo das informações que ela

acumula já seria suficiente para colocar sua cabeça a


prêmio.

Finalmente bato na porta, imaginando que a essa


hora já a encontrarei dormindo, mas a vejo de pé em frente

à janela.

— Talassa.

Ela não se vira.

— Hey. — Ando devagar até onde está e quando

permanece sem se voltar, duas certezas me batem


imediatamente.

Ela confia em mim o suficiente para me dar as


costas, quando geralmente é tensa ao redor das pessoas.

A segunda, é que há algo muito errado para que esteja


evitando me enfrentar. Sua coragem parece inesgotável. A

admiração por ela cresce quanto mais tempo convivemos.


São poucas pessoas, homem ou mulher, que

atravessariam o que viveu e continuariam lutando.

Seguro-a pelos ombros e quando ainda assim não

se move, tranco os braços ao seu redor. Ela fica rígida por


poucos segundos, mas logo depois descansa a cabeça em

meu peito.

— O que há de errado?

— Minha vida acabou, não é?

Dou a volta para ficar à sua frente.

— De onde veio isso?

— Até agora eu não havia parado para pensar no


que estou envolvida. Eu e Lara nos concentramos em fugir

e nem mesmo ela imagina o tanto de informações que eu

guardo. Como poderia? Seria impossível, já que nossa


comunicação era muito precária. Até hoje eu não entendo

como conseguia me enviar recados sem que o monstro


descobrisse.
— Como assim?

Ela parece tão quebrada que sinto uma necessidade

desconhecida de fazê-la se sentir bem. Pegando-a no colo,


levo à cama e nos deitamos lado a lado.

— Ela era amante do monstro. A principal delas e


conseguiu se manter na… huh… função por todos esses

anos. Uma vez até mesmo a levou para Nova Iorque. Não
que fossem um casal ou qualquer coisa do tipo. Ele sempre

a tratou como lixo, assim como a todas as mulheres de sua

vida, mas ao menos, Lara tinha uma residência fixa.


Apesar de que sei que ela jamais me contou tudo o que

passava para sobreviver. Lara é a mulher mais forte que eu

conheço.

— Você é muito forte também.

Ela dá um sorriso autodepreciativo e vira a cabeça

para o outro lado.

— Não se esconda de mim.


— É um hábito.

— Comigo você não precisa se esconder.

Não responde e sei que não acredita.

— Yerik, vai parecer absurdo o que eu vou falar, mas

a minha vida perto da que eu acredito que Lara levou, foi


um paraíso.

— Concordo e discordo. Cada uma de vocês viveu


no inferno à sua maneira. Danos aqui — toco sua têmpora

— podem marcar tanto quanto os do corpo.

— Como pode saber disso?

— Sou especialista em ferir pessoas, quebrá-las


fisicamente. — Digo, sem tentar atenuar a verdade. — Mas

é quando a mente desiste que não há mais o que ser feito.

É a hora que sei que venci. Geralmente o cérebro sucumbe


bem antes do corpo.

Ela não tenta se afastar de mim, ainda que fosse


prudente fazê-lo. Ao mesmo tempo, não tenho força de
vontade o bastante para mandá-la para longe.

— Essas pessoas que você machuca… por que

razão faz isso?

— Porque esse é o meu mundo. — Deito-me de

costas na cama, olhando o teto. — Você sabe o que eu


sou. Sabia desde o começo.

— Desde o começo, não. Primeiro achei que vocês


eram como Gjergj, mas então fui levada para as

montanhas e não tentaram me machucar, assim, eu decidi


fazer o que aprendi. Jogar conforme meu adversário fosse

mostrando suas cartas.

Merda, sua inteligência me excita demais.

— Quem a ensinou a ser assim?

— Lara. Desde o começo, ela não perdeu tempo e


elaborou um plano. Não sei o que teria sido de mim, sem a

orientação dela.
Trago-a para perto, descansando uma mão em seu

quadril.

— Eles me disseram que você não lutou quando a


pegaram na saída do velório. Por quê?

— De que adiantaria? Eu jamais conseguiria fugir.

Eram muitos e bem mais fortes. Na minha cabeça, lutar

terminaria comigo morta ou coisa pior….

Faço uma careta porque sei do que ela está falando.

Quando planejamos retirá-la dos albaneses, nem parei

para pensar como seria fodido sair de um cativeiro para

outro.

— Eu não permitiria que a machucassem.

— Agora sei disso, mas quando fui ao seu encontro

naquele primeiro dia, eu estava apavorada.

— Você finge bem.

Ela dá de ombros.

— Muitos anos praticando.


— E lá na casa de Nova Iorque, por que nunca

tentou fugir?

— Como sabe que nunca tentei?

— Porque eles não a deixariam ficar nos Estados


Unidos se tivesse tentado. Não tenho dúvidas de que seria

punida.

— Eu sonhei em fugir muitas vezes, mas não

arrisquei por causa de Lara. Mesmo que houvesse a


possibilidade remota de que a minha fuga desse certo, eu

não a deixaria para trás. Eles a matariam para tentar

conseguir informações sobre mim e sei que ela nunca me

entregaria.

Não posso me imaginar em uma ligação tão forte


com outro ser humano. Claro que tenho apreço pelos meus

familiares. Meu avô e Grigori, principalmente, mas o amor

que ela demonstra pela amiga é algo que eu não consigo

entender.

—Vocês se conheceram no cativeiro?


— Não, dentro da van que nos pegou.

Ela narra de forma impessoal, como se falasse da

vida de outra pessoa.

— Eu não gostei muito dela a primeira vez que falou

comigo. Ela era despachada e atrevida. O meu oposto. E


ela riu de mim.

— Por quê?

— Eu não vou revelar isso. É embaraçoso.

— Fale. Será o nosso segredo.

— Eu era muito boba, sabe? Nasci em uma ilha

pequena e podia contar nos dedos de uma mão quantas

vezes fui à Atenas. Imatura para dezesseis anos, eu acho.

Então eu estava olhando pela janela da van e tentando ver


feições e bichos nas nuvens. Quando contei isso a ela,

debochou.

Sou atingido por lembranças que não permito virem

à tona. Recordações de uma existência onde ainda havia


algo de humano em mim.

— Minha irmã costumava brincar assim e eu ria dela


também.

— Viu só? Eu não passava de uma garotinha. — Ela

sorri. — Onde está sua irmã? Você é russo ou filho de

russos nascido nos Estados Unidos?

— Sou russo.

— E quanto à sua família?

— Meus pais e irmã estão mortos.

— Eu sinto muito.

Ela se deita no meu peito, as mãos pequenas

segurando meus ombros. Nunca estive em uma situação

tão íntima com uma mulher.

Foder não é ter intimidade. É uma necessidade que

meu corpo clama de tempos em tempos. Mas percebo que

há algo se construindo entre nós e eu não quero que acabe

ainda.
— Fique.

Ela torna a erguer a cabeça, o olhar confuso.

— Eu já estou aqui. Você disse que eu não podia ir


embora por minha própria segurança.

— É verdade. Não há lugar em que estará mais

protegida do que ao meu lado. Para fazerem algo com

você, teriam que fazer comigo antes e eu não sou um


homem, sou uma Organização inteira.

— Então eu acho que não estou compreendendo.

Se estarei protegida aqui, por que está me oferecendo uma

saída?

— Depois do que conversamos agora, eu percebi

que não lhe dei uma escolha. Estou dando-a, então. Não

sou um homem bom. Eu tenho sangue em minhas mãos e

provavelmente continuarei assim até o dia da minha morte,

mas não quero me tornar para você o que Gjergj foi.

— Se eu disser que quero ir embora, você permitirá?


— Sim. Eu vou mover céus e terras para mantê-la

segura. Não a prenderei contra sua vontade.

Seus braços enlaçam o meu pescoço.

— Até tudo isso acabar, eu vou ficar.


Capítulo 21
Talassa

— Aquelas informações que dei a vocês… elas

foram importantes, não é? Quem era aquele homem, Oleg?

Ele cobre os olhos com um dos braços.

— Ele não é alguém que você deva ou precise

conhecer.

— Sei que não confia em mim ainda, mas eu jamais

o trairia porque isso significaria colocar sua vida em risco.

Eu o protegerei, tanto quanto você me protege.

Ele me puxa e me dá um beijo diferente de todos os

outros. Lento, me consumindo aos pouquinhos.


— Não tem nada a ver com confiar, baby. — Fala,

quando nos afastamos. — Mas ao fato de que, no que diz

respeito aos meus negócios, quanto menos você souber,

melhor.

— Você sabe da minha vida inteira e eu não sei

quase nada a seu respeito.

Ele suspira, parecendo irritado e eu me levanto.

— Aonde você vai?

— Tomar um banho. Eu estou cansada.

Tento não mostrar o quanto me atinge que a mesma

fé que depositei nele não seja recíproca, mas não consigo.


O problema é que ocultar minhas emoções de Yerik se

tornou impossível depois do que vivemos.

— Vem aqui.

Ele estica a mão, mas eu não me movo.

— Talassa.

— Eu não estou feliz com você agora.


Ele sorri, o que me deixa mais zangada. Viro-lhe as
costas e começo a caminhar para o banheiro, mas não dou

nem dois passos, e ele me abraça por trás. Não é um


abraço que me paralisa, mas um em que eu quero estar.

— Você pode me pedir para soltá-la, se for o que

quer.

— Eu não quero. — Estou cansada de ser uma atriz

o tempo todo. Não vou mentir sobre nós dois.

Ele me vira e me pega no colo. Prendo as pernas

em volta da sua cintura.

— Manter alguns segredos é uma forma que tenho


de protegê-la. Você nem deveria saber das coisas que já

tem conhecimento.

— Por que não?

— Porque o mundo em que vivo e no qual você foi


obrigada a estar nesses últimos anos, não é lugar para

alguém tão doce.


— Você está me dizendo que sou boa demais para
você?

— Estou.

— Então por que me pediu para ficar?

— Justamente porque não sou um bom homem. Eu


quero você.

— Para fazer sexo?

— Deus, você não deve perguntar coisas assim tão


diretamente. — Ele morde meu queixo — Mas por uma
questão de honestidade, sim, eu quero muito fazer sexo
com você. Em todos os cantos dessa casa. — Agora

mordisca meu pescoço. — E provar cada pedaço seu.

— Quem está falando sujo agora?

— Eu não sou um príncipe encantado, Talassa. Essa


é a minha versão suave.

— Não pedi que fizesse isso.

— Eu sei, mas é que nunca toquei algo tão precioso.


Tremo junto a seu corpo e me forço a voltar a
respirar.

Ele sabe que não tenho experiência, mas não


preciso agir como uma idiota completa. Estou nervosa, mas
muito excitada pela beleza e também escuridão, que vejo

nele. Yerik não transpira maldade como Aleksander e o pai,


mas indiferença pelo mundo e é delicioso ser o alvo do seu
interesse.

— Eu me sinto preciosa com você.

Ele me leva de volta para a cama, mas parece não

ter pressa alguma.

Depois que me deita nela, fica parado, somente me

olhando e eu gostaria de ser mais experiente para entender


o que aquilo significa. Eu sei que me quer. Senti sua
excitação enquanto estive em seu colo, mas percebo
também um cuidado que eu não estava esperando. Será

que é por que sou virgem?


Ainda estou totalmente vestida, mas ele desabotoa a
própria camisa e eu quase me sento para olhá-lo. Estou

muito curiosa sobre seu corpo. No quarto, nas montanhas,


ele me deixou totalmente nua, mas eu não cheguei a ver
qualquer parte dos músculos que senti sob meus dedos
porque fomos interrompidos.

As tatuagens vão surgindo conforme cada botão é


aberto. É como observar um mapa.

Não consigo mais ficar no lugar e me levanto da


cama, parando à sua frente. Ele paralisa os movimentos.

— Eu só quero olhar. Você é tão bonito.

— Só olhar mesmo?

Sinto o rosto pegar fogo, mas não vou mentir.

— Não, quero tocar você também. — Abaixo o rosto


para que não note o quanto estou envergonhada. Yerik
deve ser muito vivido e não faço ideia do que estou
pedindo. Eu nem sei o que dá prazer a um homem.
Ainda sem encará-lo, digo.

— Mas… eu preciso que você me ensine.

— Tire a roupa. Acho justo que estejamos em pé de

igualdade. — Manda, depois de se livrar da própria camisa.

Vem na ponta da minha língua dizer que estive em

desvantagem lá no Tennessee quando fiquei nua e ele não,


mas não há qualquer lucro em confrontá-lo. Ainda mais se

o prêmio por ser uma menina obediente for tocar seu corpo

do jeito que eu quiser.

Puxo o vestido por cima da cabeça e ele acompanha

minha ação com um olhar esfomeado, enquanto faz um


som parecido com um grunhido, quando atesta que não

uso um sutiã.

Ele ergue uma mão como se fosse me tocar. Eu

mantenho o olhar em seu peito, mas faço que não com a


cabeça.

— Minha vez.
— Você é uma garotinha muito abusada.

Não respondo. Ao invés disso, pouso a mão em seu

peito musculoso, no local em que há uma Madonna[19]

tatuada.

— Você pode me dizer o significado delas?

— Algumas sim.

— Essa?

— Ela pode representar tanto a minha lealdade à

Organização quanto que eu acredito que a mãe de Deus


me manterá protegido de todo o mal.

— E por qual das razões você a fez?

— Definitivamente, pela minha lealdade à

Organização.

Ela está localizada sobre seu coração e eu me

aproximo e deixo um beijo ali. Ele enrijece, mas não me


para.
Dou a volta pelo seu corpo e sobre seu ombro direito
há outra de um olho aberto. Preciso ficar na ponta dos pés

para observá-la melhor.

— E esse olho, qual o significado?

— Que estou sempre vigilante em relação aos meus


inimigos.

Passo os braços em volta de sua cintura.

— Você parece inatingível, Yerik. Quem teria


coragem de enfrentá-lo?

Ele sobrepõe seus braços aos meus.

— Eu sou um homem. Sangro igual a qualquer um.

Puxa-me para a frente do seu corpo.

— Acabou a exploração? Obteve o suficiente?

— Não, mas não faço ideia do que fazer daqui por

diante.

Minhas palavras parecem desencadear algo nele.

Uma das mãos segura minha nuca, me puxando para sua


boca. A outra, toca um dos meus seios e é o que basta

para me fazer contorcer de desejo.

— Minha virgem sensível.

— Você não se importa por eu não ter experiência?

Estamos na cama agora, e ele me fez montá-lo.


Antes de responder, mordisca um dos meus seios e eu saio

de órbita, remexendo sobre seu corpo.

— Eu nunca estive com uma virgem.

Não sei se aquilo é uma coisa boa ou ruim, então ao


invés de deixar a insegurança me agarrar de vez, me

inclino para ter acesso à sua boca.

Seguro seu rosto, meus dedos percorrendo a

mandíbula quadrada.

Eu me sinto quente e necessitada, apesar de nem

saber direito do que preciso, mas ele parece que sim. De


leve, a mão toca minha calcinha. Eu gemo e me movimento

mais rápido sobre seu sexo, ansiando pelo atrito.


— Está me enlouquecendo a maneira como seu
corpo reage a cada toque.

— Não posso evitar. Tudo o que você está fazendo é


tão gostoso.

Meus mamilos estão rígidos, a pele arrepiada.


Chego para mais perto e roço meu peito no dele,

mostrando o que faz comigo.

Ele inverte nossas posições e tira minha calcinha.

Eu mal tenho tempo de entender o que está acontecendo e


ele já está sobre mim.

A mão somente repousa em minha barriga. Não há


nenhuma outra parte que ele esteja tocando agora, mas

mesmo assim, eu o sinto em todos os lugares.

Esse toque sutil não é o suficiente e por instinto,

afasto as coxas, em um convite. Ele está concentrado em

meus olhos, observando minhas reações com uma


expressão predatória, mas percebe o que eu fiz, porque o

canto de sua boca ergue em um fantasma de um sorriso.


Lentamente, a mão desliza, parando sobre os meus

pelos. O polegar circula o meu clitóris e eu quase me


levanto pelo choque que percorre meu corpo. Ergo a

cabeça e lambo sua boca, mas ele quer mais e me beija

até que eu não consiga lembrar de quem sou. Ao mesmo


tempo, seus dedos separam meus lábios, empurrando um

deles em minha fenda. Fico tensa, mas não quero que ele

pare porque ainda que a invasão seja uma doce agonia, a


carícia em meu ponto sensível está me fazendo carente

por tudo o que ele me faz sentir.

O dedo adentra um pouco mais e quando percebo,

meus quadris se movem em círculos.

Ele está me beijando agora e a língua em minha

boca acompanha a coreografia do dedo em meu sexo,


dentro e fora.

Arranho o abdômen duro e desço a mão até seu


cinto, necessitando mais dele.
Yerik não me para, mas se afasta para me olhar,
enquanto abro sua calça. O rosto está tenso e timidamente,

roço de leve sua rigidez através do tecido da cueca boxer.

Ele me deixa brincar assim por alguns segundos somente.

— Há roupa demais entre nós dois. — Diz, se

levantando.
Capítulo 22

Yerik

Até mesmo me afastar dela para me tirar o resto da

roupa é uma espécie de agonia. Um desejo como nunca

outro que senti, me impelindo a possuir seu corpo vezes

sem fim.

Seus olhos em mim não ajudam. Talassa é linda e

agora que deixou de lado seu disfarce, é tão transparente

que sua inocência quase me traz dor.

— Não deveria ser comigo. — Falo, mas apesar da

declaração, imaginar outro homem tomando-a me

enlouquece.

— Só poderia ser com você. Eu não confiaria em

mais ninguém.
Assim que estou completamente nu, seus olhos se

arregalam ao focarem no meu pau e acho que

inconscientemente, a mão acaricia um mamilo.

Movo-me para o meio das suas pernas, afastando-

as amplas. O aroma do seu tesão é a porra do melhor

perfume do mundo. Beijo uma coxa e outra, mordendo a


pele de seda. Passo a língua de sua abertura até o clitóris

e minha menina deliciosa grita e implora.

Chupo seu centro encharcado, sedento, bebendo

seu desejo, fodendo seu interior intocado com a língua e

dedo.

Ela agarra os lençóis, murmurando palavras

incoerentes e provavelmente isso mostra o quão imbecil


sou, mas saber que só a minha boca tocou essa boceta

doce, quase me faz urrar de tesão. Sei que está perto de


gozar porque ela não consegue controlar suas reações, as

pernas vindo para os meus ombros, entregando tudo o que


estou exigindo.
Lambo seu clitóris, fodo-a de leve com o dedo e
seus músculos internos contraem, no momento em que ela

me entrega seu orgasmo.

Bebo tudo, estou faminto e por mais que a devore,


não é suficiente, então pego sua mão e envolvo meu pau

com ela, movendo-a para cima e para baixo. É uma


masturbação suave para os meus padrões, mas tento me

manter focado em não a assustar.

Ela se apoia em um cotovelo para olhar, parecendo

já recuperada do orgasmo. Seu voyeurismo inocente faz


com que uma gota de pré-sêmem escorra. Eu a recolho e

paro o dedo em frente a sua boca. Ela chupa sem hesitar.


É como se já soubesse instintivamente o que fazer.

Levanto-me para pegar um preservativo na carteira

e rasgo a embalagem de qualquer jeito, desenrolando-o


apressado, ansiando em estar nela.

— Abra as pernas para mim. Diga o quanto você


quer isso.
Masturbo meu pau, observando sua reação.

— Estou louca para senti-lo em mim. Não sei se

pode ficar melhor do que já foi, mas eu quero você dentro


de mim, Yerik.

Faço meu pau friccionar seu clitóris e ela geme.

— Por favor.

— Você sabe o que está pedindo?

— Eu sei o que eu quero.

Coloco só a cabeça em sua fenda e baixo o olhar,

para ver minha ereção separando sua carne rosa e virgem.


A necessidade de me afundar inteiro nela deixa meu corpo
duro de tensão, mas não farei com que sua primeira vez
doa além do que o necessário.

Empurro mais um pouco e ela me suga para dentro


de si, me entregando gemidos cheios de luxúria.

— Você está me matando, baby.

— Eu quero mais. — Pede, choramingando.


Com um braço apoiado de cada lado do seu corpo,
como sua boca e começo a movimentar os quadris.

Ela está queimando sob mim, implorando, mordendo


meu peito. Uma febre desesperada tomando conta de nós
dois.

Impulsiono uma, duas vezes e então, estou todo


nela. Completamente confinado em seu lugar secreto.

Talassa me aprisiona de mais maneiras do que conseguiria


entender. A certeza de que é aqui que quero estar me
atingindo em cheio.

Seu grito de dor me faz mal. Eu não estava


brincando quando disse que nunca transei com uma virgem
e tento sair para acalmá-la.

— Não. — Pede.

— Eu acho que deveria.

— Não, só espere um pouco.


Estou tentando ser sensível, mas a fodida verdade é
que não há um só neurônio em meu cérebro funcionando.

Tenho certeza de que todo o sangue do meu corpo está


nesse momento irrigando o meu pau. Aos poucos, sinto-a
se dilatando para me acomodar, seus músculos pulsando a
minha volta, apertando e soltando. Estou enlouquecendo
de tesão.

— Baby, eu preciso sair ou me mover.

Ela abre aqueles olhos lindos e tão confiantes, olhos


que a cada dia me convidam mais para o seu mundo.

— Faça.

— Eu não quero machucá-la.

— Eu confio em você. Ensine-me.

Beijo-a e desço uma mão entre nós para massagear


seu clitóris. Suas pernas se fecham em torno da minha
cintura, o que me dá o sinal para meter mais fundo. Saio e
entro nela tentando calcular um ritmo que não lhe cause
muita dor e juro que se eu não tiver um infarto, tamanha
contenção que estou me impondo, terei a certeza de que

não sofro do coração.

— Diga que a dor está passando, pelo amor de

Deus!

Para o meu alívio, ela sorri.

— Você já me fez sua mulher. Mostre-me como

posso ser o que você precisa.

Não falo em voz alta que ela não tem que mudar

nada para ser o que eu preciso, tentando afastar essa

confusão louca de tesão e carinho que ela me faz sentir.

Testo acelerar os movimentos e ela não foge.

A sensações dos nossos corpos molhados de suor é

erótica para caralho e quando a percebo mais relaxada, a

fodo mais duro e rápido. Ela grita, pedindo por mais, cada
batida da minha pélvis indo ao encontro das suas coxas

quentes e meladas.
— Eu vou chupar você a noite inteira. — Prometo.

— O que você quiser. Só não pare.

Seus olhos estão fechados e sinto os espasmos


ficarem mais constantes, enquanto ela me puxa e morde.

Em sua inocência, Talassa é selvagem. Gostosa para

caralho.

— Vou gozar de novo.

— Vai sim. Dessa vez enquanto eu como você.

Apertando meu pau, molhando a nós dois.

Posso sentir sua tensão aumentando.

— Vem mais forte. Estou com tanto tesão.

— Caralho, Talassa. Não se diz algo assim para um

homem morrendo de fome.

Ela aperta e solta meu pau dentro do seu corpo,

erguendo-se para me encontrar no meio do caminho sem


qualquer contenção. Coloco seu seio quase todo na boca e

parece que ligo o gatilho que faltava. Ela me puxa pelo


cabelo, gemendo e pedindo. Jurando fazer o que eu quiser,
desde que acabe com sua agonia. Meto mais algumas

vezes, duro, cavando fundo, tentando prolongar o quanto


posso a doce tortura, mas quando ela abre os olhos, me

encarando como se eu fosse seu tudo, aceito a derrota.

Massageio seu clitóris, desejando arrastá-la comigo para a


espiral de prazer.

— Goze. — Sussurro em seu ouvido e minha


menina obedece, gritando meu nome.

Segundos depois, meu orgasmo se forma como uma


avalanche — urgente e incontido.

Movimento-me mais algumas vezes e a sensação é


de estar drogado, em uma viagem infinita.
— Com fome? — Ela abre um olho, deitada em meu

peito.

— Não de comida. — Falo e vejo suas bochechas

corarem. — Você está? — Devolvo a pergunta.

Ela descansou por algumas horas, depois que

transamos mais uma vez.

Eu me obriguei a parar. Poderia continuar dentro do


seu corpo a noite inteira, mas intuí que devia estar dolorida.

Na segunda vez, eu não queria que acabasse. Não


havia mais a urgência de fazê-la minha, mas um desejo de

conhecer e marcar cada pedaço seu, aprender sobre suas

reações, até mesmo um pequeno suspiro, um gemido.

Minhas sessões de sexo costumam ser longas, mas

o que aconteceu entre nós dois foi um passo além. Há uma


ânsia desconhecida que me empurra ao seu encontro. Um

desejo saciado, mas insaciável, porque a fome não passa.


E o calor. Eu nunca me senti abrigado no corpo de uma
mulher, mas Talassa me faz querer ficar nela sem prazo.

A forma como se mostrou sedenta para aprender


não ajudou nem um pouco o meu desequilíbrio.

Eu não entendi por que uma vez terminado, não quis


me afastar como sempre acontece. Ao invés disso, a

peguei no colo e levei para o meu quarto, com a certeza de


que é lá que ela deve ficar a partir de agora. Em minha

cama, em meus braços.

— Fome não, mas estou com vontade de tomar

sorvete. — Finalmente responde, com uma carinha levada.

Tento lembrar se tenho sorvete no freezer, mas não

faço a menor ideia. Eu quase não como em casa e agora

devo lembrar de dizer à empregada que vem três vezes por


semana e se encarrega das compras, que ponha à sua

disposição tudo o que ela gosta.

— Eu não perguntei o que você costuma comer. Foi

uma falha.
— Está preocupado com a minha alimentação por

que eu sou sua hóspede? — Provoca, sorrindo. Nós dois


sabemos que o papel de anfitrião se encaixa tão bem em

mim quanto uma sapatilha de balé o faria.

— Não. Porque você é minha e eu cuido do que é

meu.

Ela não diz nada, os olhos viajando pelo meu rosto,

talvez tentando entender o significado do que eu falei. Não

há nada estabelecido entre nós. Nem rótulos para o que


temos e nem prazos, mas se existe uma maldita certeza, é

que nesse instante ela é minha mulher.

— Já que está se oferecendo, eu ficaria feliz de ter

kombucha[20] de gengibre no café da manhã.

— Não faço ideia do que você esteja falando, mas

se tem gengibre no meio não deve ser bom.

Ela gargalha e balança a cabeça.


— Kombucha é um tipo de chá fermentado. Faz bem
para a saúde.

— E tem que ser de gengibre?

— Na verdade, existe vários sabores, mas gengibre

é o meu favorito.

— E o que mais você gosta?

— Não sou chata com comida. Eu… acabei me

adaptando.

— Não quero que se adapte simplesmente. Comigo

você terá o que desejar.

— Isso é estranho, sabia?

— O quê?

— Poder expressar minhas vontades.

É difícil me colocar em seu lugar. Desde muito cedo

fui dono do meu destino. Minha única obrigação depois que

fui morar com Ruslan, era ser leal à Organização.


— Não prometo que direi sim a tudo, principalmente

se envolver sua segurança, mas quero que você recupere

o que perdeu.

Seus olhos brilham, animados.

— Eu não sei nem por onde começar.

— Pelo simples. Diga-me do que você mais sentiu

falta.

— Coisas bobas. O sorvete, por exemplo, era um

item raro, mas havia uma cozinheira com quem tive uma

espécie de amizade e ela incluía na lista para mim

escondido.

— Essa mulher sabia que você estava lá contra sua

vontade?

Antes que ela diga algo, eu já sei a resposta.

Funcionários que trabalham para organizações como as


nossas são escolhidos a dedo e entendem que serão

punidos em caso de traição.


— Acho que sim. Eu acredito que todos sabiam,

mas simplesmente ignoravam porque não era problema

deles.

— Vamos fazer um trato. Aos poucos, você terá tudo

o que lhe foi tirado de volta, mas você terá que me


obedecer.

— Parece uma proposta conflitante. Você me dá a

liberdade de recuperar minha vida com uma mão e a seguir

puxa a corda com a outra.

— Apenas porque eu sei o que acontecerá se a

pegarem. Eu a procurarei em todos os cantos, Talassa,

mas até que eu a encontre, nada os impedirá de machucá-

la.

— Tudo bem, eu não quis parecer ingrata. O que

posso fazer então que não poria minha segurança em

risco?

Tento pensar em algo, mas sou uma merda no que


diz respeito a desejos femininos.
— Roupas. — Finalmente me decido e ao ver seu
olhar espantado, mas brilhando, acho que acertei e mais

confiante, continuo. — Vou mandar uma… eu não sei como

são chamadas, mas há uma mulher que cuida da escolha

das minhas roupas. Uma das minhas secretárias

providenciará tudo.

— Personal shopper[21]? Um tipo de estilista, eu

acho. — Ela diz, sorrindo, mas a seguir, seu rosto torna a

cair. — Eu não preciso de roupas. Não irei a lugar algum,

de qualquer modo.

Deus, as mulheres são complicadas.

— Vou pensar em algum programa para nós dois,

desde que não ponha em risco sua segurança. — Levanto-

me, coloco a cueca boxer e a puxo para os meus braços.

— Agora vamos à caça do seu sorvete.


Capítulo 23

Talassa
Quatro dias depois

Desço, ainda não muito acostumada a andar sem

medo pela casa. Quero dizer, eu sei que posso, mas é

esquisito não ter olhos me vigiando o tempo todo, apesar


de que desde que cheguei, há sempre seguranças no

apartamento e também uma rotina de varredura pelos

cômodos duas vezes ao dia.

De qualquer modo, eu me sinto livre, embora seja


uma liberdade relativa. Não há lugar para onde eu possa ir.

Ouço vozes na biblioteca e ando até lá.

Provavelmente os homens de Yerik estão reunidos. Eu

meio que já me acostumei com eles e também suas


esquisitices — suas paranoias com segurança, além de

outras excentricidades.

Maxim, por exemplo, é maníaco por limpeza. Se

estamos comendo e um grão de pão cai sobre a mesa, ele

sai do seu lugar para recolhê-lo. Na minha cabeça, isso

não combina nem um pouco com a imagem de um


mafioso. E certamente, não com a dele, particularmente,

que parece ainda mais frio do que os outros.

Estou me afeiçoando aos amigos, funcionários,

associados — nem sei como chamá-los — de Yerik e já

consigo relaxar ao seu redor. Eles não me tratam com


condescendência e às vezes me fazem perguntas sobre o

passado. Eu me sinto respeitada e em meio a iguais.

Leonid me testa sempre que possível, soltando

frases em russo, aleatoriamente. Quando eu não só


compreendo, como respondo, os outros riem dele e seu

bom humor acaba. Acho que ainda não me perdoou por


vencê-lo no xadrez lá no Tennessee.
Paro na porta do aposento e percebo que além de
Yerik, Dmitri, Leonid e Maxim, estão falando com alguém

ao telefone, no viva-voz.

— Não acho que devamos ficar em um mesmo lugar


por muito tempo. A melhor chance de protegê-la aqui será

se eu movê-la de tempos em tempos. — A voz do outro


lado diz.

— Mesmo na ilha? — Yerik pergunta.

— A única vantagem de estarmos em uma ilha é

que ela só poderia fugir a nado.

— Pode apostar que tentarei. Eu não confio em


você. — Uma voz de mulher intervém.

Meu coração bate muito depressa.

— Lara? — Pergunto, me aproximando do aparelho

sem pedir licença. Todos os homens congelam. — Lara,


fale comigo.

— Talassa?
A emoção me atinge. Há mais de um ano eu não
escuto sua voz, nossa comunicação se limitando aos

bilhetes que trocávamos por meio de suas engenhosas

manobras.

— Hey, nunca ouviu falar em privacidade, garota? —

A voz do homem nos interrompe. Apesar de soar irritado,


não há ameaça em seu tom.

— Tente me impedir de falar com ela, russo.

— Meu Deus do céu! É você mesmo! — Repito sem


parar. Ajoelho perto do aparelho e ensaio tocá-lo, como se

assim pudesse estar mais próxima da minha amiga.

— Sim, sou eu, Talassa. Diga-me que está bem.

— Eu estou. Não se preocupe comigo.

— Isso é impossível.

— Lara, nós conseguimos e em breve estaremos

juntas.
Há silêncio do outro lado da linha, até que
finalmente responde.

— Promete?

Não hesito.

— Sim, você tem a minha palavra. Sei que está


chateada, mas mesmo que tudo não tenha saído

exatamente como planejamos, ainda assim, estamos fora.

— Você confia neles?

— Confio. Entendo que esteja zangada por causa da


maneira como a pegaram, mas precisa cooperar daqui por

diante. Diga-me que você também está bem.

— Tão bem quanto eu poderia estar ao lado de um


maníaco por controle.

Eu quase rio de alívio. Se ela está brigando, está


bem sim.

— E você? Tem algo para me contar? Um leão ou


um vaso de flores?
Sinto todos os olhos em mim, mas só me importo
com um par deles. Sem desviar dos mares azuis,

respondo.

— Definitivamente um coelho.

Esse é o nosso código para dizer que estou segura.


Uma memória que só nós duas compartilhamos do dia em
que nos conhecemos.

— O que vai acontecer? Não gosto de deixar nossas


vidas nas mãos de estranhos. — Fala.

— Eu também não. — Respondo com sinceridade.


— Mas preciso que você me ouça. Não podemos sair
nesse momento. Seria suicídio. Não lutamos tanto para

que eles nos peguem de volta em seguida.

— Chega, vocês estão há muito tempo no telefone.

É arriscado. — O homem que deve estar ao lado dela diz.

— Sai para lá. Eu não falo com ela há um século.


— Tudo bem, Lara. Ele provavelmente está certo.
Concentre-se no fato de que acabou.

— Acabou mesmo, Talassa? Porque não aguento


passar por tudo novamente. Eu cheguei ao meu limite.

Sua voz demonstra uma vulnerabilidade que nunca


deixou transparecer antes e sei que chegou o momento em

que devo ser forte por nós duas.

— Eu prometo, Lara.

Depois de falar com ela, precisei ficar um pouco


sozinha. Estou sobrecarregada. Por vontade, eu gostaria

de vê-la, mas Yerik explicou que as chances de nos


encontrarem diminuiriam se estivéssemos separadas e
pela primeira vez em muito tempo, permiti

espontaneamente que alguém decidisse minha vida por


mim.

Olho para o espaço ao ar livre do lado de fora do


quarto, que vai dar diretamente na piscina da cobertura. O

dia está bonito, mas eu quase não saio do apartamento.

Hoje, no entanto, me sinto mais corajosa, talvez por ter


escutado a voz da pessoa mais importante da minha vida e

ter certeza de que ela está bem.

Abro a porta e completo os passos até a água.

Abaixo-me e a testo. Nunca nadei em um lugar que não


fosse o mar. Na minha ilha, eu costumava ir à praia sempre

que conseguia, mas jamais tive acesso a uma piscina.

Sei que os homens ainda estão lá embaixo. Eles

têm se reunido com frequência, planejando, eu acho.

Geralmente, mais no fim da tarde. Algumas reuniões, no


entanto, não são feitas aqui. Para minha surpresa, descobri

que o cargo que Yerik ocupa de CEO de um conglomerado


imobiliário é legítimo, embora eu desconfie que seja uma
maneira que eles usam para justificar a entrada de dinheiro

de outras negociações ilegais.

Nas últimas três noites, ele chegou de madrugada e

com o semblante carregado. Entra e vai direito para o


chuveiro, sem me tocar, sem sequer me dar um beijo.

Quando ele sai do banheiro, tenho o meu homem de volta.

Ontem eu lhe perguntei o porquê da mudança de


comportamento depois do banho e respondeu que não

quer me contaminar com a podridão do seu próprio mundo.

Eu me sinto dividida sobre isso, porque desse modo,

ele não está comigo por inteiro, mas por outro lado, não sei
se conseguiria lidar com a realidade em que vive.

Não tenho ideia de qual seja o negócio principal de


sua Organização, porém, em mais de uma conversa, ele

me garantiu que não tem qualquer relação com tráfico

humano. Se fosse o caso, eu não estaria mais aqui. Já é


muito para a minha cabeça aceitar o fato de que sou a
namorada de um mafioso e a longo prazo, não sei como

isso funcionará.

Viro-me e olho para a porta. O único acesso à

piscina é pelo quarto que estou compartilhando com Yerik,


então fico muito tentada a dar um mergulho. Eu já tenho

biquíni, mas não quero perder tempo indo trocá-lo. Será

que alguém viria aqui além dele? Acho que não. Os


rapazes nunca estiveram no segundo andar e os

seguranças sobem apenas para a varredura de escutas


habitual e ela já foi feita há cerca de duas horas.

O edifício em que estou é o mais alto no entorno.


Ninguém poderia me ver, então, uma ideia começa a tomar

forma.

Sem pensar muito, desço o shorts e logo em

seguida, puxo a camiseta. Estou só de calcinha e sutiã

agora e antes que eu perca a coragem, mergulho.

O choque da água fria com a quentura da minha

pele me causa arrepios e eu começo a nadar para tentar


me aquecer.

Não sei quanto tempo fico assim. Sempre gostei de

água e essa foi apenas uma das coisas que me foram


tiradas. Minha mãe dizia que quando eu era pequena, abria

mão até de comer para poder nadar.

Quando meus braços começam a ficar pesados do

excesso de exercício, decido parar, mas assim que vou dar


impulso para levantar, vejo Yerik caminhando para mim.

Meu pulso acelera quando noto a maneira como me


observa.

Depois de alguns dias, aprendi a reconhecer seus


olhares. Eles não escondem o quanto me deseja. Comigo

não é diferente. Quanto mais tempo passamos juntos, mais

eu quero ficar. Não é só o sexo, apesar da nossa atração


física ser avassaladora. É ele. Sua intensidade me

consome.

Meus pensamentos às vezes ficam confusos,

embaralhados. Uma luta moral se desenvolvendo dentro de


mim. Eu sei que ele não é bom e o que faz é errado, mas

ao mesmo tempo, não me imagino indo para longe.

Ele não me prometeu nada, mas sinto que há algo

entre nós além do sexo delicioso. Percebo a diferença do


Yerik membro da Organização, implacável e possivelmente

cruel com seus inimigos e o homem que até agora, só fez

me proteger e adorar.

Seus olhos de um azul gelo, no momento são puro

fogo e perco o fôlego quando, sem falar nada, ele começa


a desabotoar a camisa.

Meu gigante loiro e tatuado, se livra da roupa


rapidamente. Segundos depois ele mergulha e está em

mim, prendendo-me contra a borda da piscina.

— Eu tenho minha própria sereia.

— As sereias têm um canto irresistível. Elas podem

levá-lo para o fundo do mar.


— Eu não me importo. Já estou afogado em você,
baby.

Ele me ergue, segurando minha bunda e fecho as


pernas em volta da cintura estreita.

A boca busca a minha e em uma fração de segundo,


estamos em chamas.

— Eu quero você. — Entrego.

Coloco a mão entre nós dois e toco sua ereção.

Uma necessidade incontrolável para senti-lo.

Yerik é um dominador, mas dessa vez, me deixa

tomar a frente.

— Olhe para mim. — Comanda, apesar disso. —

Você quer que eu a coma? Quer meu pau? Faça isso

olhando nos meus olhos. Deixe-me ver o quanto é minha.

Desço sua boxer e o masturbo de leve, mas ele

ainda não se move. Eu me acostumei com sua posse e ter


que ser eu a tomar a iniciativa está me excitando e

frustrando, tudo ao mesmo tempo.

— Eu quero montar você. — Peço, sem qualquer


filtro. — Mas preciso que me mostre como.

— Você quer que eu a controle. Admita.

Com a outra mão, puxo minha calcinha para o lado,

permitindo que nossos sexos rocem, sem, no entanto,


deixá-lo entrar. Eu também posso jogar esse jogo.

— Admitir o quê? Que eu amo como você se

encaixa em mim? O quanto eu me sinto perfeitamente

preenchida com meu homem, meu primeiro, possuindo


meu corpo?

Como esperava, seu controle estala e adoro que

seja eu a fazer isso com ele.

Já sem qualquer traço de provocação, rasga minha


calcinha.

— Segure-se.
Não há mais humor em sua voz, mas um desejo

escuro, intenso, que traz borboletas para o meu estômago.

— Diga novamente. — Fala e posso sentir seu sexo

alinhado ao meu, forçando passagem.

— Você é meu homem. Meu primeiro. O único.

Ele me invade e para, me completando, enquanto

aperto seus ombros ainda tentando ajustar o encaixe.

— Você não sabe o que está fazendo comigo,


Talassa.

— Não sei mesmo, mas eu não quero que acabe.


Ainda estamos deitados do lado de fora. Molhados,
saciados.

Quando me abraça desse jeito, todos os meus

medos desaparecem e eles não são poucos. O principal, é

de nunca mais me reencontrar. Eu vivo em um limbo entre

o meu passado simplório e a vida na qual fui jogada contra


a minha vontade.

Mas nesse instante, aqui com ele, é como se eu

atravessasse um vácuo temporal. Uma realidade paralela

em que não preciso pensar em todas as pessoas que já me


machucaram, incluindo meus pais.

Nesse novo pedaço de vida, do meu passado, só há

espaço para Lara.

— Por que resolveu nadar?

— Preciso me acostumar com o mundo real outra

vez, Yerik. Fazer coisas que eram comuns para mim

antigamente, mas que me foram tiradas.


— Nadar foi uma delas?

— Sim, é bobo, não é? Mas eu nasci em uma ilha.


Posso não ser uma sereia, mas garanto que tenho algum

parentesco com peixes.

— E o que mais você quer resgatar dos seus hábitos

do passado?

— Eu não sei muito bem. Mal havia começado a

viver quando eles me pegaram.

— Mas quais eram seus sonhos?

— Ser professora. Eu adoro… adorava crianças.

Uma de suas mãos acaricia o meu cabelo, enquanto

a outra aperta meu corpo contra si.

— Ainda quer isso?

Há algo diferente em sua voz e eu ergo a cabeça

para encará-lo, mas como sempre, não tenho ideia do que

está pensando.
— Não. Eu acho que não conseguiria mais morar

em uma ilha. Passar os últimos anos trancada aumentou

muito minha vontade de viver, mudou minhas perspectivas.

— Você falou sobre ser professora. E quanto a se


casar, já pensou sobre isso?

— Claro, acho que é o sonho da maioria das

meninas. Casar e encher a casa de crianças. Amar… —

Engasgo com o que estava prestes a dizer e me levanto,


morrendo de vergonha de que ele interprete minhas

palavras como uma cobrança. — É melhor entrarmos. Está

esfriando.
Capítulo 24

Yerik

Semanas depois

— Você não pode voltar atrás agora, nós tínhamos

um acordo! — Meu avô grita do outro lado da linha.

— Não devo sair daqui nesse momento.

— O que está havendo? Além da mulher com quem

vive, é claro. Sei que a levou para o seu apartamento.

— Quanto aos problemas envolvendo nossos

negócios, sabe que não podemos discutir por telefone. No

que diz respeito à minha namorada, não é da sua conta.


— Essa linha é segura. — Ele está certo, mas eu

quero mesmo encerrar essa porra de conversa. — Você

prometeu que jantaria com Tatiana. — Continua, ignorando

meu silêncio.

— Errado. Eu disse que iria a um jantar porque você

sairia de Moscou em troca. Não há nada que me interesse


em Tatiana ou qualquer outra.

— Essa sua namorada é russa?

Fico muito, muito tentado a mandá-lo para o inferno,

mas apesar de ser chato para caralho em oitenta por cento

de tempo, ele ainda é o meu avô.

— Por que eu desconfio que você já sabe a

resposta?

— Porque eu sei mesmo. Ela é grega. Não há

qualquer vantagem em se casar com alguém daquele país.


O que está passando pela sua cabeça?
— Que esse telefonema já durou além do
necessário. Quando concordei em ir ao tal jantar, ainda que

não me sentisse especialmente entusiasmado, foi porque


você não me deixou alternativa. Eu queria tirá-lo daí.

— Eu me mudarei temporariamente, desde que você

venha e conheça a minha escolhida.

— Sua escolhida? Atualize-se. Nós vivemos no

século vinte e um, eu não preciso de alianças através do


casamento.

— Por que você está sendo tão teimoso?

— Porque é da minha vida que estamos falando.


Você teve diversas amantes e espalhou filhos pelos quatro

cantos do mundo, mas no fim, encontrou a mulher pela


qual se apaixonou e não se casou por causa de um maldito

acordo.

— A situação agora mudou. Precisamos expandir.


— Chega. Essa discussão não nos levará a lugar
algum e a minha resposta ainda é não. — Respiro fundo,

tentando voltar ao meu modo controlado normal. — Eu

realmente gostaria que você viesse para cá. Permanecer


em Moscou pode ser arriscado.

— Estou investigando também. Eu sei me cuidar.

— Não estou pedindo como seu neto. — Minto


parcialmente. — Mas como o sucessor do meu Pakhan.

Há um silêncio denso do outro lado, mas sei que


como eu, Ruslan precisa funcionar em seu próprio tempo.

— Eu vou pensar. — Finalmente responde.


Dias depois

— Temos a confirmação em relação a Oleg? —


Pergunto a Dmitri.

Estou reunido com ele e Leonid, em meu escritório.

— Ainda não, mas decidimos tentar algo.

— Como o quê?

— Ir atrás de Dimas, o braço direito do conselheiro.


Levá-lo para se hospedar uns dias na fazenda.

Fazenda é uma maneira de falar. Na verdade, se


trata de uma imensa propriedade na Virgínia para a qual
conduzimos alguns convidados de honra. Aqueles que
possuem informações valiosas e não são muito abertos a

colaborar espontaneamente.

— Por que tanto trabalho? Podemos cuidar do filho

da puta aqui mesmo em Atlanta, em um dos armazéns. —


Leonid sugere.
— Não. Dimas é o homem de confiança do
conselheiro do Pakhan. — Determino. — Se fizermos algo

contra ele abertamente, Oleg perceberá que estamos em


seu encalço. Nossas ações não devem visar apenas a
segurança do meu avô, mas proteger a Organização como
um todo. Pelo que Talassa contou, Oleg passou
informações importantes para os albaneses e não duvido

que esteja negociando também com os cartéis mexicanos


e colombianos.

— Por que diabos faria isso?

— Ele não me aceita como futuro líder. Eu já

desconfiava há tempos de algumas de suas ações, mas


achei que seu alvo seria somente eu. Não imaginei que se
voltaria contra Ruslan.

— Sabe que nunca gostei do bastardo. — Dmitri


fala. — Não tolero puxa-sacos e sua subserviência em
relação ao seu avô me deixava em alerta.
— Sim, a mim também, mas o Pakhan acredita que
é inatingível, baseado em suas ideias românticas sobre

honra. Só que honra não é um artigo que se vá ao


supermercado comprar. Ou ela existe em você ou não.
Oleg passaria por cima de qualquer um em nome do poder.

— Você acha que foi assim que os albaneses


souberam da rota de entrega das armas? Que de algum

modo, ele negociou aquela operação?

— Eu não duvidaria. A data coincide com a época

em que Talassa contou que o viu lá. E não acho que parará
por aí. Se ele vendeu aquela rota para nossos

concorrentes, provavelmente precisaremos refazer todos


os planos de entrega. Não há como sabermos quais outras

informações foram compartilhadas. — Concluo.

— Vamos cuidar disso. Sobre Dimas, será uma ação

rápida. Ele possui uma casa nos arredores de Portland em

que costuma ir aos fins de semana. — Dmitri explica.


— Não acho uma boa ideia atacar o lobo em seu

covil. — Leonid se levanta, parecendo pronto para a ação.


Se há algo capaz de deixá-lo acelerado é a ideia de caçar

um traidor. — Não esqueça de que o homem é tão treinado

quanto nós mesmos.

— Nem chegaremos perto de sua casa. Nós o

interceptaremos no meio do caminho.

— Tudo bem. Mantenha-me informado. Não temos


muito tempo. — Dispenso-os.

Chego em casa mais cedo do que o habitual.


A chuva cai torrencialmente lá fora. Há cerca de
meia hora, enquanto estava sentado no septuagésimo

andar da sede da minha empresa, observando a água


escorrer pela vidraça, me bateu uma urgência quase

sufocante de estar com ela.

Os momentos passados ao lado de Talassa são os

melhores que já experimentei. Não é só pelo desejo por

seu corpo espetacular que não diminui, há um mundo de


descobertas a cada dia.

Ela é de uma complexidade viciante. Inteligente e


atrevida uma hora, suave e inocente na seguinte.

A menina sagaz, que aprendeu sozinha meia dúzia


de idiomas e a que me pede para contar sobre as viagens

que já fiz, os lugares que já visitei. Como se parece a Torre


Eiffel vista de perto.

Depois dela, passei a prestar atenção aos detalhes.


Meus dias sempre foram um meio para atingir um fim:

vencer sempre e em qualquer área. Mas agora, seu


entusiasmo me desperta a vontade de viver também —

com ela — e de devolver o que lhe foi tirado. Não é fácil


descobrir seus desejos. Acho que ainda levará um bom

tempo para que se sinta totalmente segura e revele o que

quer.

Apesar do que estamos compartilhando parecer

quase perfeito — tanto quanto poderia ser com toda a


merda que nos cerca — uma voz no fundo da minha mente

me diz que aquela quietude, a forma de aceitar


passivamente estar em uma gaiola de ouro, não é normal.

Eu nunca temi nada. Sempre soube que o mundo


em que vivo pode desaparecer de uma hora para outra.

Basta que um dos meus guarda-costas vacile, que eu me

distraia um minuto mais cedo ou mais tarde em um local,


que a verificação da segurança não seja feita

adequadamente e a minha existência chegará ao fim.

Já fui alvo de algumas tentativas de assassinato e

gosto de pensar que me mantenho atento, tanto em


relação aos inimigos, quanto aos amigos, mas sei que as
apostas são contra mim. As chances de alguém do alto

escalão da Organização ter uma vida longa são pequenas

e já aceitei isso como parte do pacote. Agora, no entanto,


eu quero mais tempo para ela. Mais tempo para nós dois.

Uma sensação incômoda, estrangeira me assola a


todo instante, na forma de um aviso silencioso. Eu preciso

fazer alguma coisa para lhe devolver a vontade de viver.


Dar um objetivo em que ela possa acreditar, mas o

problema é que não faço ideia do que seria.

Com qualquer outra mulher, presentes bastariam —

mas Talassa não é qualquer uma. Nas últimas semanas, eu

já lhe trouxe joias, casacos de pele, livros. Ela sorri,


agradece, mas não há um brilho real em seus olhos. Esse,

eu só encontro no momento em que estou dentro dela.


Quando minha mulher deixa cair todas as barreiras.

Quando ela exige e entrega tudo.


Tiro o terno e a gravata e escuto o barulho da chuva

açoitando as janelas.

A casa está silenciosa e começo a subir as escadas

para encontrar a dona dos meus pensamentos. A cada


degrau vencido, a necessidade de tê-la em meus braços

faz meu coração — um que eu nem sabia que ainda existia

— disparar.

Quando finalmente alcanço nosso quarto, nada me

prepara para o que me espera. Talassa está do lado de


fora, embaixo da chuva inclemente. Em pé, vestindo

somente uma camisola, os cabelos longos e soltos, como


uma deusa das águas. A despeito da tempestade, não

parece incomodada. Os braços estão abertos, como que

dando as boas-vindas à vida.

Tiro os sapatos, carteira e abro a porta que me

levará até ela. Sei que me vê. Não se move, mas sorri.
Esperando por mim, confiante, certa de que irei ao seu

encontro.
— Você vai se resfriar. — Digo a primeira coisa
idiota que vem à minha mente porque algo que eu não

consigo nomear, trava a minha garganta.

— E você vai destruir suas roupas, Pakhan.

Ela às vezes me chama assim para provocar. Claro


que sabe o significado do termo dentro da Organização,

mas quando o usa, é com seu jeito faceiro, sexy, o sorriso

enviesado que acelera minha pulsação.

Eu estico a mão para ela, incerto sobre se devo


tocá-la. Parece tão livre, feliz.

Observo o movimento dos seus quadris enquanto


caminha para mim e quando estamos frente a frente, trago-

a para o meu colo.

— Você já tomou banho de chuva, Yerik?

Ela está tão excitada que me pergunto se não tem

febre.
— Não que eu me lembre. Ou pelo menos, não de

forma intencional.

— Eu adoro a chuva. Água de uma maneira geral.


Ela é o meu elemento. — Suas pernas estão trancadas em

volta da minha cintura e as mãos, segurando meu rosto. —

Mas amo o toque da chuva em minha pele e estar na sua

casa com você me proporcionou isso de volta.

Suas palavras me abalam tanto, que ando até uma


espreguiçadeira e me sento. O que diz vai na contramão do

que vim pensando — que de algum modo, tenho que

compensá-la pelo tempo que lhe foi roubado.

— Eu ainda não fiz nada, mas vou devolver sua vida


como prometi.

— Fez sim. Muito mais do que você poderia supor.

Não posso andar pelas ruas porque alguém ainda poderia

estar lá fora esperando para me machucar, mas não sinto

medo o tempo todo como antes.

— Mas ainda sente?


— Algumas vezes. — Confessa e desvia o olhar. —

Não quero falar sobre isso. Prefiro beijar você.


Capítulo 25

Talassa

Uma semana depois

Ele enviou um spa completo para o apartamento. Foi

esquisito porque mesmo que as mulheres parecessem


inofensivas, os guarda-costas as revistaram — e às suas

bolsas — e Leonid ficou de plantão na porta do quarto

como se a qualquer momento eu pudesse ser atacada

pelas duas senhoras orientais de olhares bondosos.

A suíte de Yerik tem uma banheira e tanto, então

elas me prepararam um banho de espuma e depois recebi

massagem corporal completa com óleos essenciais.


Em seguida, uma fez minhas unhas dos pés e mãos

e também ganhei um novo corte de cabelo. Nada muito

radical, na verdade. Foram aparados alguns centímetros

apenas.

No fim da tarde, a mesma personal shopper que me

serviu há algumas semanas, da loja de departamentos


Bloomingdale’s, chegou com vários vestidos em seus

braços para que eu escolhesse. Eu não entendi nada. Já

tenho roupas mais do que suficientes para quem não sai de

casa, mas quando comecei a experimentá-los, quase

enlouqueci. Era um mais bonito do que o outro e eu não

conseguia me decidir. Por fim, escolhi uma cor de rosa


envelhecido que segundo a mulher, caiu muito bem com o
tom dos meus olhos e cabelos. Ela também trouxe

sandálias e optei por uma de salto médio, preta.

Notei que a toda hora a mulher falava ao celular e

eu podia sentir sua tensão, como se estivesse ansiosa para


fazer tudo certo.
Na última vez em que o aparelho tocou, ela me
disse que deixaria todos os vestidos, assim como as

sandálias combinando, então eu tive certeza de que a


pessoa do outro lado da linha, assustando a pobre moça,

era o meu namorado.

Eu me senti mimada como uma princesa e quando


pensei que nada poderia ficar melhor do que aquilo, Yerik

me mandou uma mensagem por Leonid pedindo para eu


usar um dos vestidos novos, porque essa noite nós

jantaremos juntos. Não é algo incomum. Ele até mesmo já


mandou um chef de um restaurante famoso aqui em

Atlanta enviar uma refeição completa para nós dois. Só que


hoje ele deu a entender como se fôssemos sair, o que eu

acho bem improvável.

De qualquer modo, não quero bancar a ingrata,


então, após descansar por meia hora, começo a me

aprontar.
Depois do dia em que ficou abraçado comigo na
chuva, ele tem sido ainda mais cuidadoso, atento até a

menor das minhas necessidades. Também perguntou

sobre meus pais, mas ainda não estou pronta para revelar
a traição deles, então desviei do assunto. Acho que
percebeu a manobra, mas deixou passar.

Não tenho a ilusão de que ele é perfeito e acho que


mais cedo ou mais tarde chegará o momento em que
conhecerei seu outro lado. Mesmo intuindo que não faria
nada contra mim, não duvido de que o Yerik mafioso não é

nem um pouco parecido com o homem em cujo os braços


eu adormeço noite após noite.

Essa semana, ele me deu uma notícia maravilhosa.


Mandou que avisassem à Alma, a enteada do infame
colombiano, que ela corria perigo. Fico mais tranquila em
saber que outra garota não padecerá nas mãos de Gjergj

como eu e Lara sofremos.


Olho para o estojo de maquiagem em cima da
bancada do banheiro e não tenho certeza do que fazer. A
personal shopper me ensinou como não usar em excesso,

mas ainda assim, me sinto insegura. Decido passar um


pouco de rímel e apenas um gloss clarinho nos lábios.
Entro no closet para dar uma última olhada no espelho,
mas quando me volto, Yerik está parado na porta do

quarto.

Mesmo após semanas juntos, eu fico tímida sempre

que se aproxima. Sua masculinidade é muito evidente.


Yerik possui uma mistura de força e aspereza que me
atraem demais.

Nervosa, me escondo atrás do papel de garota fútil e


dou um giro de trezentos e sessenta graus, deixando que
ele confira o resultado dos seus presentes.

— Gostou? — Pergunto, colocando frivolidade em


meu tom quando na verdade estou muito ansiosa. Ele é
meu primeiro namorado e não é um homem qualquer, mas
um cara de trinta e quatro anos e que já deve ter saído com
mulheres sofisticadas.

Droga de pensamento inconveniente. Está


atrapalhando minha noite de sonhos.

Ele ainda não fala nada e envergonhada, eu olho


para o chão. Somente quando sinto sua mão erguendo
meu queixo, me acalmo um pouco. Seu toque é sutil, mas

são seus olhos que me mantêm cativa.

Yerik me olha o tempo todo. Se estamos na sala e


eu me levanto para pegar um livro, seu olhar me segue,

como se não conseguisse se controlar. Quando fazemos


amor, ele me olha e murmura palavras em russo que às
vezes eu gostaria de não entender, por medo de acreditar
nelas.

Eu quero acreditar nelas.

E então, a verdade me atinge crua e sem aviso.


Estou apaixonada pelo homem que é meu captor,
mas também, o meu salvador.

Pelo mafioso que eu tenho certeza, não poupa seus


inimigos, mas que também vem a ser aquele que fez do

seu abraço, o único lugar no mundo em que eu me sinto


segura.

— Você não tem como ficar mais linda do que já é.


Não precisa de qualquer dessas coisas. — Diz, tocando o

vestido de tecido suave. — Mas eu não quero que lhe falte

nada.

Eu gostaria de poder dizer o que estou sentindo

nesse exato momento, mas não sou tão corajosa assim,


então, ao invés disso, fico na ponta dos pés e ofereço

meus lábios.

A mão alcança minha nuca, o polegar pressionando

uma veia pulsante em meu pescoço. Eu estremeço de


desejo e saudade.
— Sei que não está me mantendo presa. Eu confio

em você. No momento, eu tenho tudo o que preciso. —


Confesso, olhando para o meu homem.

A boca se abaixa para me encontrar, mas não posso


esperar para senti-lo e agarrando as abas do seu terno, me

entrego em um beijo molhado e carente. Quando sua

língua me possui como ele faz todas as noites com seu


corpo, me desmancho.

Para minha decepção, se afasta.

— Tanto quanto eu gostaria de ficar trancado aqui


com você, temos um jantar nos esperando, linda.

— Há alguém lá embaixo? Você solicitou um chef


para preparar nossa refeição?

O canto de sua boca levanta e isso é o mais próximo


que ele sempre chega de sorrir.

— Não, nós vamos sair. Um restaurante de verdade


com a minha garota.
Fico muda de espanto. Dessa vez, não há qualquer
chance de disfarçar meu entusiasmo e salto para o seu

colo, totalmente esquecida do vestido caro ou dos sapatos


que devem ter custado uma fortuna.

Depois de mais de três anos de cativeiro, eu


finalmente vou começar a viver.

Restaurante Sky Lounge — Atlanta

Minhas pernas estão bambas enquanto subimos no

elevador para o topo do edifício. Yerik me disse que


mandou fechar o restaurante exclusivamente para nós. Sei
que ele foi contra todas as suas regras de segurança ao

me tirar de casa hoje, mas estou feliz demais para me


preocupar com riscos. Aproveitarei essa noite até o último

instante.

Sair de casa não foi uma operação fácil. São muitos

carros e guarda-costas, tanta coisa a ser verificada que

levamos pelo menos meia hora, mas no fim de tudo, estou


aqui.

Ele disse que a vista do restaurante é linda e sinto


borboletas dando saltos em minha barriga de tanta

ansiedade.

Meu namorado aperta minha mão, acho que para

que eu o olhe.

— Você sabe que posso sentir sua agitação?

— Não consigo evitar. — Passo os braços em volta

do seu pescoço. — Estou me sentindo uma princesa de

conto de fadas.
— Você não é uma princesa, é a minha rainha.

Busco qualquer traço de humor em seu rosto, mas

então, lembro de quem ele é. Yerik não faz piadas ou diz


qualquer coisa aleatoriamente.

Engulo em seco, emotiva como não me permiti estar


em anos, mas antes que eu possa responder, a porta do

elevador se abre.

Não é a fila de garçons o que me espanta ou até

mesmo o luxo da mesa posta ao fundo, mas o fato de que


Leonid, Maxim e Dmitri estão me esperando também.

E ainda há mais.

Um dos garçons segura um bolo com velinha e tudo.

Há tanto tempo não comemoro meu aniversário, que

empurrei a data para o mesmo quarto escuro onde guardo

as lembranças da vida que me foi tirada.

Estou muda, acho que até um pouco catatônica,

mas me forço a dar um passo para frente.


— Feliz aniversário, garotinha. — Leonid fala, mas

então ouço uma voz, aquela pela qual anseio mais do que
tudo, saindo de um celular.

— Hey, eu deveria ter sido a primeira a fazer isso!


Sério, eu não sei qual de vocês é o mais insuportável.

Lara.

Quando Dmitri me mostra o telefone, ela não é mais

só a recordação que memorizei e a qual eu visito todos os


dias. Ela está comigo. Quero dizer, sua imagem está,

através de uma chamada de vídeo.

Pego o celular, muda e emocionada.

Enquanto Maxim faz um gesto para que os


funcionários se afastem, sinto a mão de Yerik na parte

baixa das minhas costas, me guiando.

— O rabugento aqui disse que eu não posso

demorar, mas eu queria muito falar com você.

— Foi você quem armou isso tudo?


— Bem que eu queria, mas não. Culpe seu russo aí.

— Eu não sei o que dizer.

— Não precisa dizer nada, Talassa. Feliz

aniversário, meu amor. Aproveite sua noite. Só se tem vinte

anos uma vez.

— Eu te amo, Lara. — De repente, todas as

palavras que não me permiti dizer ao longo dos anos em


que nos conhecemos jorram da minha boca. — Nunca

conseguirei dizer o quanto, mas não esqueça disso.

Sinto meus olhos cheios de lágrimas, mas ainda não

consigo chorar na frente de estranhos, então aperto-os por


um instante para contê-las.

— Você não precisa dizer. Eu sei. Agora vá viver.

Nos veremos em breve.

E assim, ela termina a chamada.

Fico olhando a tela por um tempo, mas me volto

para Yerik quando sinto suas mãos em meus ombros.


— Feliz aniversário, baby. Eu não vou entregar seu

presente agora. Prefiro esperar para quando estivermos só

nós dois.
Capítulo 26

Yerik

Ela toda brilha.

Talassa não parou de sorrir e isso é algo tão raro

que eu quase não toquei na comida.

Quando Grigori me telefonou hoje pela manhã

irritado para caralho dizendo que a amiga dela exigia falar


comigo, eu quase disse não. O problema é que Lara é a

ponte para entender o que minha menina não me mostra

sobre si mesma, então ainda que sem um pingo de

vontade de interagir com a outra garota, atendi.

Ela queria falar sobre o aniversário. O primeiro que

Talassa passaria longe do cativeiro em três anos. A


impertinente disse que eu deveria providenciar para que

minha mulher tivesse uma noite divertida.

Não se pode negar que apesar de ser uma mala,

Lara é corajosa. O que ela não fazia ideia, é de que eu não

precisaria que ninguém me informasse da data.

Eu sei tudo sobre Talassa. As únicas coisas que

desconheço, são seus pensamentos.

Minha aniversariante não imagina o que eu precisei

movimentar para trazê-la aqui em segurança. Enquanto

Gjergj não estiver morto e a célula de sua organização nos

Estados Unidos, exterminada, eu não posso me dar ao luxo


de correr riscos.

A quem estou querendo enganar? Mesmo com o


desgraçado fora de combate, a vigília sobre ela ainda

precisará ser intensa apenas pelo fato de estar comigo.

— Obrigada. — Diz com um aperto em minha perna


por debaixo da mesa.
— Eu sei que não é um aniversário ideal, comigo e
os caras somente, mas foi o melhor que pude oferecer no

momento.

Ela me surpreende ao se levantar de sua cadeira e


se sentar no meu colo. Segurando meu rosto, me beija na

frente de todos.

— É perfeito. Não sabe o que significou para mim

você ter organizado essa festa e eu ainda poder falar com


Lara.

Sempre fui um homem discreto com as minhas


mulheres, mas acabo de dar um foda-se às regras.

Esquecido de quem está à nossa volta, puxo-a pela

nuca para um beijo mais profundo. Quando nos


separamos, ela custa a abrir os olhos, mas quando o faz,

há um brilho ali que eu vou trabalhar muito duro para


manter.

— Eu vou trazê-la para você em breve. Tem minha


palavra.
— Pelo amor de Deus, arrumem um quarto. —
Dmitri fala, mal-humorado.

— Respeite minha mulher, idiota.

Leonid ri, mas Maxim me olha de um jeito estranho.

— Eu não quero ser estraga-prazeres,


aniversariante, mas devemos ir.

Ela responde perto da minha orelha.

— Tudo bem. Podemos terminar nossa


comemoração em casa.
Estamos no saguão do edifício em que se localiza o
restaurante. O lugar está totalmente desocupado a essa
hora. Eu a mantenho em meus braços, enquanto

aguardamos que a varredura habitual por bombas ou


rastreadores seja feita no carro que nos levará.

A temperatura caiu e tirei o blazer do terno para


colocar sobre os ombros dela. O vestido fino não é
suficiente para aquecê-la. Ele marca como uma segunda
pele o corpo da minha mulher, me convidando a tirá-lo. Mal

posso esperar chegar em casa.

Eu disse aos rapazes que podiam ir embora, mas


decidiram ficar até que partíssemos e Leonid — o

inconveniente — se ofereceu para nos acompanhar e


ajudar a verificar o apartamento quando chegássemos.

Estou com os braços em volta da cintura dela sob o


pretexto de aquecê-la e o guarda-costas, a poucos passos
de nós.
Talassa parece relaxada e feliz, então não me
espanta quando solta uma risada. Quando a encaro, ela

olha por trás de mim, e, sem que precise me virar, sei que
algo está errado.

Tudo se passa em um ritmo alucinante. Em um

momento, a tenho segura comigo, no seguinte, o guarda-


costas se joga sobre nós dois, ao mesmo tempo em que
um som seco e inconfundível de um silenciador me alerta
de que fomos alvejados.

Cubro-a com o meu corpo, tateando a arma presa


no coldre em meu tornozelo. Antes que eu possa mirar,

porém, acabou.

— Vamos tirá-la daqui. — Maxim diz.

Ainda deitados no chão, sinto os tremores que a


atravessam. Desconfio que esteja em choque.

— Não abra os olhos, baby. Seja uma boa menina e


não olhe.
— Yerik?

— Shhhh… vai ficar tudo bem, amor.

Levanto e a pego no colo enquanto todos os meus

homens fazem uma barricada para que cheguemos ao


carro.

Não preciso dar instruções. Eles sabem o que deve


ser feito. Eu não quero o miserável morto. Eu mesmo

arrancarei sua cabeça.

Eu verifiquei cada pedaço do seu corpo para ter


certeza de que não estava ferida, mas aparentemente o

guarda-costas agiu muito rápido.


Talassa não para de tremer durante todo o caminho

e enquanto a aperto junto ao peito, sinto uma fisgada no


braço esquerdo.

— Merda!

Ela abre os olhos e se afasta um pouquinho.

— O que aconteceu? Oh, meu Deus! Você está

sangrando.

— Está tudo bem. Foi de raspão e não é a primeira

vez, como você sabe. Eu vou chamar um médico.

Ela já viu cicatrizes de facadas em meu tronco e

braços que nem mesmo as tatuagens conseguiram


encobrir.

— Devíamos ir a um hospital.

— Não há necessidade. Vai ficar tudo bem.

Ela não parece acreditar, mas não fala mais nada.

Mando uma mensagem para o clínico geral que


trabalha exclusivamente para a Organização, não porque
esteja preocupado comigo mesmo, mas porque desconfio
de que ela precisará tomar algo para conseguir dormir hoje.

Mesmo com a queimação incômoda, mantenho-a


em meu colo. Ela está desperta agora, parecendo ainda

mais assustada.

— Linda, eu quero que você me conte o que se

lembra.

— Eu sou uma idiota.

— Nada disso. Hoje é o seu aniversário e apesar da

noite ter sido finalizada de uma maneira fodida, eu a proíbo

de se culpar.

— Você poderia ter morrido.

— Nós dois poderíamos, e, no entanto, estamos

aqui. Agora eu preciso da minha menina inteligente e de

memória excepcional. Diga-me o que aconteceu.

— Uma criança.

— Uma criança? Do que está falando?


— Quando você estava abraçado comigo, alguém

parecido com uma criança se aproximou. Não era muito


alto, mas não posso ter certeza. Seu rosto estava nas

sombras, mas parecia sorrir. Em seguida, rodopiou e… eu

não lembro de mais nada. — Ela fecha os olhos, como se


estivesse tentando pegar mais algum detalhe. — Acho que

depois, alguém nos jogou no chão.

Antes que eu possa perguntar mais, meu telefone

toca.

— Estão com ele? — Pergunto, assim que atendo.

— Sim. Já foi movido e estará à sua espera.


O médico acaba de sair e depois de examiná-la e
me garantir que não a machuquei quando caí sobre ela,

passou um calmante para que pudesse descansar.

Eu pedi que ele me esperasse lá embaixo e me

deitei com minha mulher. Enquanto sua cabeça está

enterrada em meu peito e percebo a respiração suavizar


conforme a medicação vai fazendo efeito, eu me culpo pelo

fodido erro que poderia ter custado as nossas vidas.

Deveria ter previsto que algo assim poderia

acontecer.

Eles a estão vigiando, eu tenho certeza, mas não é

só isso. O atirador conseguiu entrar no prédio, o que me


diz que ele sabia detalhes da nossa ida ao restaurante.

O ódio que sinto nesse momento faz as veias sob a


minha pele pularem.

Quem quer que tenha planejado o atentado —


sejam os albaneses ou o maldito Oleg — está com os dias

contados.
Capítulo 27

Yerik

Além dos guarda-costas de sempre, convoquei mais

meia dúzia de homens de confiança.

Depois que o médico atestou que meu ferimento foi

superficial, pedi que Dmitri ficasse de vigilância no

apartamento. A possibilidade de que Talassa acorde é

remota, mas não quero que se assuste, se for o caso,

então será uma boa coisa ver um rosto conhecido.

Enquanto chegamos ao armazém para onde o filho

da puta foi levado, não há qualquer dúvida em minha

mente de que o maldito atirador não verá outro nascer do

sol.
— Descobriram de quem partiu a ordem para o

atentado?

Eu sei que eles já devem ter feito algum

interrogatório preliminar com o homem capturado.

— Dos albaneses. Eles a querem morta. Não há

mais interesse em pegá-la de volta. — Maxim diz.

— Como eles descobriram que ela estava comigo?

Ele dá de ombros.

— Quem sabe? Não fomos exatamente discretos ao


levá-la no dia do funeral de Aleksander.

Maxim está certo. Talvez pudéssemos ter sido mais


cuidadosos. O problema é que a janela de tempo de que

dispúnhamos era muito restrita. Na verdade, eles


pensaram que teriam que invadir o funeral, caso a fuga que
ela planejava desse errado.

— Isso significa também que eles estão mais


próximos do que imaginávamos. — Digo. — Não estamos
lidando com um traidor qualquer, mas com alguém que
convivo no dia a dia, já que chegaram até mesmo à casa

do Tennessee. Não é só com Oleg que temos que nos


preocupar. Há mais gente trabalhando internamente contra

nós. Agora precisamos descobrir se vieram por ordem


direta dos albaneses ou através do próprio conselheiro.

— Faz diferença? Vindo diretamente de Oleg ou

não, de qualquer maneira, não duvido que o dedo dele


esteja no meio. Pense comigo. Ele poderia ter literalmente

matado dois coelhos com uma cajadada só.

Maxim diz aquilo com sua impessoalidade habitual,

mas pensar em minha Talassa ferida ou coisa pior desperta


a loucura que habita em mim desde o dia em que minha

irmã foi assassinada. Uma fúria incontrolável.

Penso na felicidade dela durante toda a noite e isso


só aumenta meu desejo por vingança.

— O que você quer fazer? — Leonid questiona.


— Primeiro, saber como ele chegou tão perto da
minha mulher.

Se o guarda-costas não tivesse agido rápido, essa


noite poderia ter um desfecho diferente.

— Concordo com Yerik. O ataque veio de dentro.


Quantos sabiam do jantar? — Se Maxim está perguntando
aquilo, é porque provavelmente já suspeita de alguém.

— Mantive tudo oculto. — Respondo. — As ordens


para que a festa fosse organizada só foram dadas às
vésperas.

— A quem?

Penso na mulher que é a minha secretária principal


e trabalha comigo há pelo menos cinco anos. Ela também
é russa e até onde sabemos, completamente leal à
Organização.

— Nancy, mas ela não sabia muito. Apenas que era


uma comemoração. Eu não confio em ninguém além de
nós. Ela não tinha sequer ideia de que o jantar envolveria
uma mulher.

— Não seria difícil de adivinhar. Bolo, flores, luz de


velas.

— De qualquer modo, verifiquem-na. — Comando.

— E quanto às mulheres do salão de beleza? A

vendedora que trouxe as roupas?

Eu também já havia pensado naquilo, mas acho

improvável. Da mesma forma que a festa, a escolha de


quem passaria o dia cuidando de Talassa foi
propositadamente feita quase em cima da hora.

— Passem um pente fino. Levantem todos os


tapetes. Não deve haver um grama de informação que não
seja averiguado. Também avisem a Grigori que Lara virá
para os Estados Unidos em breve e reforcem a segurança

dos pais de Talassa. Agora que os miseráveis falharam,


atingir sua família seria a maneira ideal de puni-la.
— A captura do braço direito de Oleg ocorrerá em
breve. Vamos ver o que Dimas tem para nos dizer.

— Não contem muito com isso. Ele saberá no


momento em que o apanharem, que não importa o que
faça, não sairá da fazenda vivo. — Digo.

Dimas está há tempo suficiente dentro da


Organização para intuir que uma vez que comecemos a

desconfiar dele, a chance de que saia disso limpo é quase


inexistente.

— Eu posso ser muito persuasivo. — Maxim diz,

com um sorriso frio. — Como está seu braço?

— Não foi nada. É com ela que eu estou

preocupado.

— Talassa é feita de aço.

— Não é. Ela é apenas uma menina que acaba de


completar vinte anos.
— Não a subestime. Não caia no mesmo erro que
os albaneses. A aparência dela pode enganar, mas sua

garota é muito forte.

Penso no que ele diz.

Forte sim, mas não inquebrável e muito menos


imortal. Só há uma maneira de garantir que tenha uma boa

vida. Eu vou varrer da porra do mapa mundi, qualquer


sombra de ameaça que paire sobre ela.

Piso no depósito escuro e úmido. O homem está


amarrado, a alguns metros de mim, mas tudo o que

consigo enxergar é o rosto assustado de Talassa.

— Tragam o kit cirúrgico e depois podem ir. Quero

ficar sozinho com ele.


— Sério, não tem graça interrogar os albaneses. —

Leonid diz enquanto saio do velho armazém, a voz


denotando tédio.

É verdade. Eles cedem muito fácil. Os homens da


nossa Organização estão acostumados à dor e sabem que

a punição por se tornarem traidores será ainda pior do que


o mais cruel dos inimigos seria capaz de lhes infligir.

Olho mais uma vez para o local onde está o homem


morto. Depois de tudo, quando consegui o que queria dele,

usei a mesma arma com a qual ele tentou assassiná-la

para pôr um fim à sua vida miserável. Uma questão de


justiça poética: morrer pelo mesmo meio que a execução

dela foi ordenada.


Quando o vi, entendi por que Talassa o confundiu
com uma criança. Era de baixa estatura. Talvez cerca de

um metro e meio, mas apesar disso, o rosto mostrava


alguém por volta de quarenta anos.

— Qual de vocês irá comandar a operação contra


Dimas? — Pergunto, já quase esquecido do corpo que

acabamos de deixar.

— Dmitri.

— Assim que ele estiver na Virgínia, quero ser


avisado. Chegou a hora de começar a aparar as pontas

soltas. A linha do tempo entre capturá-lo e matar Oleg tem

que ser curta. Não podemos dar a chance de que ele fuja.

— O que o Pakhan pensa a respeito de irmos atrás

do seu conselheiro?

— Ruslan não tolera traidores. No momento em que


Oleg se aliou aos albaneses pelas costas do meu avô, ele

assinou a própria sentença de morte.


— E quanto a Gjergj? Ele não vai parar.

— Nem eu. O maldito pode não saber, mas cada


minuto que ele respirar de hoje em diante, será um tempo

emprestado. Ele vai pagar por tudo o que fez à Talassa e à


Lara.

— Uma explosão? Podíamos fazer algo grandioso e


que ficaria na memória dos nossos inimigos por muitos

anos.

— Não. Seria uma morte misericordiosa demais. Eu

e Gjergj teremos nosso tempo.

— Apanhá-lo será um pouco mais complexo.

— Ele não pode se esconder para sempre.

A vantagem de se ter um inimigo que anda em meio

aos ratos, é que eles não possuem qualquer noção de


lealdade e entregam uns aos outros se devidamente

incentivados. Gjergj conseguiu irritar diversas


organizações. Não será difícil caçá-lo.
Passo quase uma hora embaixo do chuveiro.

Em um dia normal, já não me considero digno dela,


mas hoje particularmente, ao ter o sangue do atirador nas

mãos, a sensação é de estar mais imundo do que nunca.

Eu queria apagar o que aconteceu depois que

terminou seu jantar de aniversário. Pela primeira vez em

minha vida, tentei fazer algo bom e isso quase resultou em


sua morte.

Meus pensamentos giram ininterruptamente sobre o


que fazer daqui por diante. Mantê-la comigo é perigoso,

enviá-la para longe, mais ainda.


Não, eu nunca teria paz se entregasse sua

segurança nas mãos de outra pessoa.

Paro na porta do banheiro observando o corpo frágil

deitado em meio a uma bagunça de edredom e


travesseiros. Talassa é inquieta durante o sono, suas

pernas me montam, os braços se espalham, o exato

oposto de mim, que durmo sem me mover.

Nunca fiquei a noite inteira com uma mulher em

meus trinta e quatro anos, tanto por não confiar em alguém


ao ponto de relaxar durante o sono, quanto por não sentir

qualquer ligação após o ato sexual que me fizesse desejar


permanecer. Desde que transamos a primeira vez, no

entanto, eu não consigo ir para longe.

E agora, olhando daqui, parece certo para caralho

vê-la deitada em minha cama.

Enquanto me aproximo, lembro de algo que Dmitri

disse no primeiro dia que fui encontrá-la no Tennessee: que


ela permaneceu o tempo todo em que a observou, em uma
postura tão rígida quanto a de um soldado.

Não há nada parecido com um soldado na imagem


da deusa sexy a poucos passos de mim, o que me diz que

aos poucos está aprendendo a relaxar.

Sento-me na cama, lutando contra o desejo de tocá-

la. Quero que durma depois do que passou hoje, mas ao

mesmo tempo, preciso senti-la junto a mim.

Empurro as cobertas e me posiciono atrás dela,


abraçando-a. Mesmo em seu estado inconsciente, sua mão

me segura de forma automática, aconchegando-se mais.

— Você voltou. — Sussurra.

— Eu não quis acordá-la.

— Eu despertei logo depois que saiu. Estava tensa


demais para que o remédio fizesse efeito, eu acho.

— Pedi que lhe desse algo leve. Só para relaxar

mesmo.
Ela gira em meus braços.

— Onde você estava?

Eu poderia mentir, mas não quero.

— Você sabe onde eu estava.

— Você o pegou?

Porra, essa definitivamente não era a maneira que


eu esperava passar a madrugada do seu aniversário.

Aperto os olhos por um instante. Eu daria qualquer coisa

para não precisar responder a aquilo.

— Sim. Ele está morto e quem o contratou também


estará em breve.

— Gjergj?

— Acreditamos que sim. — Revelo parcialmente.

Ela agora parece totalmente alerta.

— Você disse que me daria meu presente de

aniversário quando chegássemos em casa.


Merda, eu sou um namorado horrível em todos os

sentidos. Faço menção de me levantar para pegar a caixa

que deixei guardada no closet, mas ela me para.

— Não vá.

— Seu presente…

— Oh… eu não estava cobrando um. Na verdade,

eu tenho um pedido.

— Qualquer coisa, baby.

Nenhum desejo que ela tenha será grande demais

para que eu o satisfaça. Talassa merece uma

compensação depois da noite infernal.

— Eu quero aulas de defesa pessoal.

Levo alguns segundos para entender o que está

dizendo, mas ela não acabou ainda.

— E também preciso que me ensine a atirar.


Capítulo 28
Talassa

Sinto-o se movimentar e logo após, a lâmpada do


abajur ilumina o quarto. Eu pisco algumas vezes até me

acostumar com a claridade súbita e quando consigo por fim

encará-lo, percebo que há um vinco se formando entre as

sobrancelhas.

— De onde veio isso?

— Como está seu braço? — Desvio, ao invés de

responder.

— Foi superficial. Nada que eu já não tenha


passado antes.
Um estremecimento percorre meu corpo só de

imaginar que ele poderia não estar mais aqui comigo.

Toco o local machucado. Apesar da ferida evidente,

não há qualquer curativo. Lembra mais uma mistura de

queimadura com arranhão do que um tiro.

Sem conseguir lidar mesmo com uma pequena

distância entre nós, monto em seu colo.

— Eu fiquei apavorada.

— Eu sei… — Ele começa, mas eu o interrompo.

— Não, você não sabe. Eu voltei a sentir.

— Como assim, linda?

— Você me fez voltar a sentir, Yerik. Eu passei os


últimos três anos empurrando todas as emoções para um

lugar desabitado dentro de mim. Eu não me permitia ter


pena — de mim mesma ou dos outros — nem me alegrar,

mesmo quando Aleksander, do seu jeito distorcido, tentava


fazer algo para me agradar, porque eu sabia que aquela
era uma felicidade artificial, temporária. Uma migalha que
estava me sendo oferecida pelas mãos do meu captor. Mas

de todos os sentimentos que eu me proibi ter, o principal foi


o medo.

— Talassa…

— Eu sabia que no momento em que eu vacilasse e


permitisse que o medo se instalasse dentro de mim, o jogo

estaria terminado. Eles venceriam. Depois de um tempo,


eu achei que nunca conseguiria ter uma emoção real, mas

então eu encontrei você.

Abaixo a cabeça para beijá-lo. Não estou mais


preocupada em me resguardar ou usar qualquer máscara.

— Nossa relação me fez entender como me


enganei. Eu ainda sinto. Eles não mataram isso. Todos os

dias você me desperta e me apresenta a uma variedade de


emoções. Até agora, estava tudo bem porque sempre eram

boas coisas, mas quando aquele homem atirou em nós, eu


senti medo.
Ele me tranca em um abraço de urso.

— Baby, você não tem ideia de como eu lamento

que tenha passado por aquilo.

— Não, Yerik. Você não entendeu. Eu senti medo


por você antes de pensar que eu também poderia estar
morta. — Seguro seu rosto e não desvio o olhar. — Então
percebi que não quero mais ser uma vítima. Tenho que
aprender a me defender. Não sei se terei alguma chance

caso eles tentem me levar, mas não irei pacificamente


como da primeira vez.

— Eu não acho que seja uma boa ideia.

— Por que não?

— Você não pertence a esse mundo.

Sinto como se tivesse recebido um soco na boca do


estômago e tento sair do seu colo.

— Não. — Diz, com uma mão de cada lado das


minhas ancas.
— Você vai me mandar para longe? — Meu coração
acelera somente com a possibilidade, mas volto a usar a
expressão neutra que treinei por anos.

— Eu deveria, mas não posso.

Ele nos gira, me prendendo sob seu corpo.

— Isso é mentira. Eu posso, mas não quero. Você é

minha. Ninguém jamais tocará em um fio de cabelo seu.

— Mas eu não desejo ser cuidada somente. Quero

ser aquela que pode protegê-lo se for o caso.

— De jeito nenhum. Você tem que me prometer que

haja o que houver, protegerá a si mesma antes de qualquer


um.

— Não. Eu não vou viver como uma covarde.

Posso ver pelo trincar do seu maxilar o quanto a


minha resposta o irritou, mas não estou disposta a ceder.

— Talassa, não é um bom momento para me


empurrar. A noite de hoje foi a porra de um pesadelo.
— Eu não sou um dos seus homens. Até agora
aceitei tudo o que você decidiu, mas não ficarei como uma

princesa em um castelo enquanto aqueles monstros


continuam vivendo suas vidas normalmente.

— Você não tem a mais fodida ideia do que está

falando. Não sabe o que eles fariam se a pegassem. Acha


que sofreu durante os três anos que passou com o
bastardo do filho de Gjergj? Aquilo pareceria o paraíso
perto do que devem ter planejado para você.

Sei que há muita verdade no que ele diz, mas


também que está tentando me chocar, de uma certa

maneira. Não deixarei que me assuste.

Ao invés de enfrentar sua ira, tento uma estrada


alternativa. Deixo as mãos deslizarem por suas costas e

consigo perceber a tensão que domina seu corpo. Pela


primeira vez desde que estamos juntos como um casal,
seu olhar em mim está endurecido. É como me aproximar
de uma fera, sabendo que há uma chance enorme de ser
devorada.

Sinto seus músculos, assim como as cicatrizes que


já pude notar em outras ocasiões, sob meus dedos. Ele

nunca falou delas, mas sei que foram adquiridas


principalmente em sua adolescência. Os rapazes já
deixaram escapar uma vez que antigamente Yerik não

fugia e até mesmo ansiava por um confronto físico.

Alcanço o cós da boxer e corro as unhas ali. Apesar

da expressão furiosa não ter se aplacado nem um pouco,


sinto-o endurecer contra mim. Apenas minha lingerie e sua

cueca nos separam.

Abro mais as coxas e ao mesmo tempo em que ergo

os quadris, o puxo pela bunda, praticamente obrigando-o a


reconhecer minha excitação.

— O que está fazendo?

A voz sai rouca de desejo.


— Mostrando a você.

— Mostrando?

— Sim, mostrando o quanto sou sua. Ninguém vai


me machucar porque eu sou sua.

O brilho em seus olhos aumenta e eu não sei


interpretar se é raiva ou desejo. Provavelmente um pouco

de cada e estou um tanto trêmula de expectativa, a intuição

berrando que eu não deveria provocar alguém como ele.

— Você acha que sabe jogar?

Sim, ainda há muita raiva em sua voz, mas antes

que eu tenha tempo de me arrepender do que fiz, meus


pensamentos se embaralham porque ele coloca a mão

dentro da minha calcinha, tocando meu clitóris.

— Responda. Você acha que pode jogar comigo?

O polegar atormenta meu ponto mais sensível,


enquanto seu dedo médio me invade. Eu o sugo para

dentro do meu corpo, aprisionando-o onde eu preciso.


Desejando que ele fique em mim para sempre. Logo, um
segundo faz companhia e quando ele inicia movimentos de

vai e vem, meus quadris se movem em círculos.

Luto para manter algum controle, tentando me

lembrar que eu deveria estar seduzindo-o para que faça o


que quero e não o contrário, mas meus planos se

desintegram rapidamente quando ele alcança o ponto

dentro de mim que me leva às estrelas. O exato lugar em


que meus pensamentos se transformam em borrões

confusos.

Não há mais espaço para o mal ou preocupação

com quem possa tentar nos machucar.

Só a nossa cama, nosso mundo, nossos corpos

conectados.

— Sim, se há uma maldita certeza, é de que você é

minha.

Esse não é o meu amante amoroso falando, mas o

homem que todos temem e que até agora não havia se


mostrado inteiramente a mim.

Algo do que eu disse parece ter ligado um botão


nele e tanto quanto estou assustada por conhecer esse seu

outro lado, quero que o que temos seja real. Para isso,
preciso do meu mafioso sem disfarces.

— Eu sou. Ninguém vai me tocar. — Repito, em


parte porque acredito, em parte rezando para que seja

verdade.

Seus dedos se movimentam com mais rudeza

agora, causando até mesmo uma pitada de dor. Sinto meu

orgasmo se aproximando com a força de um mar revolto.

Em meio à atmosfera de luxúria, ele para de me


tocar e eu me sinto vazia. Segundos depois a calcinha é

rasgada. Nem consigo entender o que está acontecendo e

então, ele está todo dentro de mim, sua respiração pesada.

Yerik é grande e espesso. Eu perco o fôlego com a

urgência de sua posse, mas seu dedo volta a brincar com


meu clitóris e aos poucos, me ajusto, ansiosa por mais.
— Diga outra vez.

Está me olhando sério. Um desejo cru, livrando-o de

qualquer moderação.

Eu embarco em sua insanidade. Oferecendo,

pedindo.

— Sou sua mulher. Ninguém vai me levar para longe

de você.

Ele empurra dentro de mim em uma dança

constante, confirmando a cada estocada, a verdade das


minhas palavras.

— Minha.

— Sim… oh, Deus, sim, Yerik!

Não há espaço para um amor lento ou cuidadoso.

Não é disso que precisamos no momento. Talvez ambos


simultaneamente lembrando do risco que corremos de

perder o que começa a ser construído entre nós.


Ele agarra meu bumbum com ambas as mãos, em

uma pegada firme, quase cruel e eu amo a maneira


incontida com que me deseja.

— Mais. Não se segure. — Peço.

— Eu não posso perder você.

Não acho que ele saiba realmente o que está

dizendo. Eu não me importo. Se tudo o que tivermos for um

curto tempo juntos, ainda assim terá valido a pena.

— Você não vai me perder.

Sua boca desce sobre um mamilo e ele alterna

dentadas suaves com sucções. Sinto a tensão do meu

orgasmo interrompido sendo reconstruída, selvagem e


volumosa.

O encontro é profundo, pélvis e pelos roçando, cada


parte precisando do mínimo contato que seja.

— Sua. — Murmuro pela última vez, antes que o


orgasmo me atinja, me deixando entregue em suas mãos.
— Pode apostar nisso. — Ele ruge, me inundando.

Ele não falou nada depois que gozamos. Eu estaria

bem com isso, não fosse seus olhos em mim o tempo todo.
Eu daria qualquer coisa para saber o que está pensando,

mas perdi a coragem de perguntar, por fim consciente da

minha falta de experiência e talvez, incapacidade de lidar

com alguém como Yerik.

Não é como se eu me escondesse dele antes,

quando fazíamos amor. Era tão honesta quanto conseguia

ser. Essa madrugada, porém, foi um divisor de águas. Sinto

que nós dois deixamos vir à tona nossa real natureza.


Sem saber como agir, me levanto. Quem sabe uma

ducha clareie minhas ideias.

Não chego a dar dois passos para dentro do


banheiro, no entanto, e o sinto atrás de mim. Nos

encaramos através do espelho. Ambos nus, o contraste de

tamanho entre nossos corpos me excitando outra vez.

Quando penso que não falará nada, ele afasta o

cabelo do meu ombro, beijando a curva do pescoço. Eu me


recosto em seu peito, enquanto com a outra mão, ele me

puxa ainda mais para si.

— Você tem ideia do que me pediu?

— Sim. Eu quero que me ensine a me defender e

com isso, aprenderei também a controlar meu medo.

Enquanto eles conseguirem me fazer temê-los, terão poder

sobre mim.

Ele me gira e suas mãos vêm para o meu rosto. Os


polegares movendo-se em círculos sobre as minhas

bochechas.
— E quanto ao resto? Você falou por impulso?

— Em nenhuma das vezes. Eu quis dizer

exatamente aquilo. Sou sua, Yerik.


Capítulo 29

Talassa

No dia seguinte

— Você ainda não se levantou. — Falo, depois de

um bocejo, ainda de olhos fechados. Sinto o calor da sua

pele em mim.

Estou morrendo de sono. Nós passamos o resto da

madrugada em claro e meus músculos estão doloridos de

uma maneira deliciosa. Viro o rosto para esconder um

sorriso, ao lembrar do que aconteceu, mas de repente,

surge também a memória do início da noite.


— Seu segurança foi atingido? — Pergunto,

voltando-me para ele, subitamente em alerta.

— Bom dia. — Diz e me puxa para um beijo longo.

Quando nos separamos, o mini ataque de pânico

que me acometeu, já está um pouco sob controle.

— Não. Ele é um soldado treinado. Todos os

guarda-costas da Organização são, mas é muito cedo para

falarmos daquela merda. Além do mais, eu não lhe dei seu

presente.

— Você me deu um monte de presentes ontem.

Mandou as mulheres do spa cuidarem de mim, as roupas,


os sapatos, o jantar. Mas o melhor de todos, você me

deixou falar com Lara.

Ele me entrega algo muito próximo a um sorriso.

— Você a ama, não é?

— Sim, muito.

— E quanto aos seus pais?


— Eu não me importo com eles. Não mais.

— Por quê?

— Não quero falar sobre isso.

— Eu preciso saber.

— Que diferença faz para você se me dou ou não

com meus pais?

— Quero conhecê-la melhor.

— E se eu quiser saber mais a seu respeito

também?

— Contanto que não tenha a ver com a

Organização, pode perguntar o que quiser.

— Ainda tem algum parente vivo?

— Sim, muitos primos pelo mundo, mas o único com

quem tenho um vínculo real é o homem que está com Lara


na ilha. Grigori.

— Aquele cara mal-humorado é seu primo?

— Sim, ele é.
— Bom.

— O que isso significa?

— Lara pode ser um pouco… geniosa às vezes,

sabendo que ele é seu parente, fico mais tranquila. Ele


nunca faria mal à minha amiga.

— Primeiro você precisa saber que Grigori é um dos

homens mais honrados que eu conheço, ele nunca


abusaria de uma mulher. Segundo, eu jamais deixaria Lara
com alguém que pudesse machucá-la novamente.

— Tudo bem. — Respondo, sem jeito.

Eu não quis ofendê-lo, mas não posso deixar de me

preocupar pelo bem-estar dela quando estou sendo tão


mimada aqui.

— Agora responda à minha pergunta sobre seus


pais.

Eu me afasto dele na cama, recostando na


cabeceira. Meu problema com meus pais não é algo que
eu deseje compartilhar, mas é justo que queira saber,
depois de ter me salvado.

— Eles me venderam. — Falo, tentando aparentar


indiferença.

— O quê? — Posso ver por sua expressão que o


surpreendi, mas Yerik como eu, é um mestre em não
demonstrar o que está pensando. — Como pode ter

certeza?

Sua voz agora soa enganosamente calma, mas eu


acredito que não esteja se sentindo assim realmente.

— Eu vi as provas. Aleksander me mostrou um


vídeo do meu pai recebendo muito dinheiro do doutor

Leandros. Ele chegou a tirá-lo de uma bolsa de papel e


contar.

— Leandros. O maldito grego que comandava o

esquema.
Não me espanto com o que ele diz. Quem mais
poderia ter intermediado o negócio com os albaneses além

do doutor Leandros Argyros?

— Sim, ele mesmo. Lara descobriu que a maioria


das meninas era levada para trabalhar como escravas

brancas, mas parece que com relação à nossa… entrega,


o pedido foi diferente. O filho do chefe queria viver um
relacionamento real antes de morrer.

— Tão real quanto pode ser manter uma mulher em


um cativeiro. Espero que o filho da puta esteja ardendo no
inferno.

Não me importo com o que ele diz. Vivi três anos ao


lado de Aleksander. Ele podia não ser fisicamente abusivo
comigo e o fato de ter me isolado acabou por me proteger

inclusive do próprio pai, mas isso não significa que não


tenha sido um monstro também.

Cheguei a ficar um mês inteiro sem ver a luz solar,


as janelas constantemente trancadas. Ele também
determinava o que eu podia ou não comer. Acho que
tentava compensar sua fraqueza física sendo

especialmente cruel comigo.

Fecho os olhos, tentando afastar as lembranças.

Sinto que Yerik quer me puxar para ele, me consolar, mas


como que intuindo que preciso de espaço, me deixa ficar
distante.

— Você acreditou nas imagens?

— Como poderia não acreditar? Doutor Leandros


não tinha motivo para dar tanto dinheiro ao meu pai, Yerik.

— Sacudo a cabeça com raiva de mim mesma enquanto

falo. — Desde o começo, papai insistiu para que eu fosse


estudar em Atenas. Desse modo que eles me enganaram,

sabia? Uma bolsa de estudo. Eu nem queria, mas nem eu


e nem minha mãe contrariávamos as ordens do meu pai.

Essa foi a forma como fomos criadas. Para obedecermos

aos nossos maridos.

— Eu não a quero submissa.


Não respondo. Como explicar para ele que adoro

seu controle, sem que me considere fraca?

— Eu gostaria de verificar essa história.

— Você está me pedindo autorização? — Pergunto,

incrédula.

— Mais ou menos. Eu o faria de qualquer modo,

mas não quero que aconteça pelas suas costas.

Fico um tanto chocada. Pelo que conheci dele até

aqui, Yerik não é o tipo de homem que dá satisfação a

quem quer que seja. Depois de anos tendo que me


submeter a todas as decisões que aqueles dois monstros

tomaram sobre a minha vida, tê-lo me tratando como uma


igual me faz bem.

— Obrigada.

— Por quê?

— Por não passar por cima de mim como um trator.

Há um motivo real para eu não querer voltar para casa,


esteja alguém à minha caça ou não.

— Eu poderia dizer a você que eles são seus pais

acima de qualquer coisa, mas não farei. Já vi merda o


suficiente no mundo para não duvidar de algo parecido

com o que você me contou.

Ele estica a mão, me deixando decidir se quero ir

para perto.

Eu vou. Não consigo manter distância. É uma

espécie de compulsão.

— Chega de falar de coisas tristes. Pronta para o

seu presente de aniversário?

Ele parece tão entusiasmado, que como em um

passe de mágica, minha melancolia se dissolve tão rápido


quanto se instalou.

— O que é?

Yerik segura meu cabelo e me beija.

— Minha menina curiosa.


Ao invés de responder, permito que o calor do seu

abraço afaste as recordações ruins.

— Tudo bem? — Pergunta, já sabendo da resposta.

— Sim. — Minto. — Agora, onde está minha

surpresa?

Ele vai até o closet e me entrega uma caixa. Não é

muito grande, mas tenho certeza de que também não é um

estojo de joias, o que me traz alívio. Ele já me deu diversas


e não me sinto bem recebendo presentes tão caros.

Fico olhando para o embrulho em minhas mãos sem


fazer a menor ideia do que seja. Não é pesado.

Puxo o laço de fita cor de rosa e sei que ele


acompanha cada movimento meu.

Quando por fim chego a uma caixa menor, olho das


minhas mãos para ele sem entender bem o que aquilo

significa.

— Um celular.
Ele sorri — dessa vez um sorriso verdadeiro — e
torna a se sentar ao meu lado na cama.

— Não um celular qualquer. Grigori trabalhou até

pouco tempo com um homem[22] que dentre outras coisas,

projeta equipamentos de segurança para a CIA. O que tem

em suas mãos é um aparelho igual ao que uso para falar


com o meu avô. É extremamente seguro. Lara recebeu um

igual. Agora você poderá conversar com ela todos os dias,


até que eu a traga em definitivo para os Estados Unidos.

Estou tão abalada tentando processar o que ele


acaba de dizer que não consigo encará-lo.

— Eu vou poder conversar com ela. — Repito.

— Sim, baby. Sei que não é muito. Mesmo com toda

a segurança, não seria aconselhável acessar a internet,


mas você poderá falar com a sua amiga.

— Obrigada.
Não consigo dizer nada além disso, a garganta

travada pela emoção. Para qualquer outra pessoa, pode


não parecer grande coisa ouvir a voz de uma amiga ao

telefone, mas durante o tempo em que fui mantida em

cativeiro, Lara foi minha sanidade.

Ele levanta meu queixo.

— Isso não foi nada, Talassa. Eu disse que

devolveria a vida que lhe roubaram e farei.

— Eu não duvido disso.

Abraço-o e suas mãos passeiam pelas minhas


costas em um toque quase hipnotizante, me dando a

certeza de que é aqui que eu quero estar.


Capítulo 30

Yerik

Dois dias depois

— Terei que fazer uma viagem curta. Um par de

dias, provavelmente. — Digo, saindo do closet com a


gravata pendurada em torno do pescoço.

Ela acaba de encerrar uma ligação com Lara, o

sorriso mais radiante do que o sol. Tem sido assim desde

que lhe dei o telefone. É como se tivesse renascido.


Desconfio que a Talassa do passado fosse uma menina

naturalmente alegre, porque mesmo hoje, ela consegue

encontrar razão para sorrir nas coisas mais simples.


Grigori me disse que a outra garota também parece

mais calma desde que começou a conversar com a amiga.

Eles agora estão nos Alpes suíços e posso estar

enganado, mas acho que meu primo começa a apreciar as

férias forçadas.

— Oh! — A boca linda abre em resposta ao meu


aviso, o sorriso morrendo.

Ela não me diz nada, mas posso ver a decepção em

seu rosto.

Não tenho como explicar a razão da minha partida.

Quanto menos Talassa souber sobre as atividades dentro


da Organização, mais segura estará.

— E quanto ao que conversamos no dia do meu


aniversário? — Ela se recupera rápido.

Suspiro e passo a mão no rosto. Sei que não


desistirá da ideia.
— Eu falei com Leonid. Ele é o melhor atirador que
conheço e combinamos que a levará uma vez por semana

ao clube de tiros. Não há qualquer risco porque o local


pertence a nós, mas por via das dúvidas, mandei que fosse

esvaziado nos horários em que você treinará.

Ela mantém a expressão neutra, só que eu já a


conheço e sei que por dentro está vibrando. Percebe que

venceu essa batalha.

Nós mudamos depois do que houve na madrugada

do seu aniversário. Por incrível que pareça, não acho que


seja por causa da tentativa de assassinato que sofremos,

mas o que aconteceu depois. Um elo mais forte do que a


atração sexual foi consolidado ali. Até então, eu vinha

evitando pensar no que Talassa significava em minha vida.


Sou experiente o bastante para compreender que nossa
ligação não é nem de longe parecida com qualquer coisa

que eu já tenha vivido, mas não havia me permitido me


aprofundar em considerações.
Após aquela noite, no entanto, decidi encarar o fato
de que não quero que vá embora. Sei que é arriscado

mantê-la como namorada aos olhos do meu mundo, mas

dessa forma, estará mais protegida também, por mais


incoerente que isso soe.

Eu considerei os pedidos que me fez por todos os


ângulos e no fim, cheguei à conclusão de que estava certa.
Ainda que, somente a ideia de vê-la em meio a um embate
físico com alguém me enlouqueça, é preferível que saiba
alguma coisa sobre armas e autodefesa. Mesmo que em

um mundo ideal, os fodidos albaneses não estivessem


atrás dela, somente o fato de ser minha já a poria em risco.

— E quanto à segunda parte do meu pedido?

Ninguém pode acusá-la de não ser persistente

quando quer algo.

Completo os passos até onde está e coloco uma


mecha do seu cabelo atrás da orelha.
— Sobre as aulas de defesa pessoal, eu mesmo
farei isso. Não quero você rolando no chão com outro
macho.

Espero para ver como reagirá. Eu gostaria de dizer


que falei aquilo brincando, mas seria mentira. Não me

agrada imaginar as mãos de outro homem em minha


mulher.

Ao invés de comprar meu desafio, ela muda


completamente o rumo da conversa.

— Eu pensei em ir a um médico.

— Médico? Você está doente?

Suas bochechas ficam em chamas e ela desvia o


olhar.

— Não.

Interrompo o nó que estava fazendo na gravata e

seguro-a pela cintura.

— O que há de errado, então?


— Nada de errado, mas eu preciso ir a um
ginecologista.

O rubor agora se espalha pelo pescoço e colo.


Apesar de não conhecer o universo feminino,
principalmente no que se refere a ginecologistas e outras

peculiaridades, não entendo por que ela está tão


constrangida. Achei que já havíamos ultrapassado essas
barreiras depois de semanas juntos.

Tento o meu melhor para não soar como um babaca


insensível.

— Ginecologista. Certo, mas por que agora?

Ela tenta fugir do meu aperto, mas não permito.

— Talassa, fale comigo.

— Nós… huh… naquele dia de madrugada e


também há algumas semanas, na piscina…

Puta merda! Nós não usamos proteção. Como pude


ser tão irresponsável?
Pego-a no colo e ando até a cama.

— Sinto muito, baby. Eu deveria ter me lembrado,


mas não precisa ficar preocupada. Nunca transei sem
preservativo antes de você.

Ela me dá um olhar assassino e sai do meu colo.

O que eu fiz agora?

Espera. Porra! Será?

Observo o corpo esbelto e meu olhar segue

diretamente para seu ventre.

— Você acha que pode… você pensa…

Pela primeira vez que eu lembre, não consigo formar


uma fodida oração.

— Não. Acho que não. Quero dizer, seria muito azar,


mas de qualquer forma, tenho que procurar um médico. Se

vamos continuar esquecendo — pontua a última palavra —

devo começar a usar anticoncepcional.


— É por isso que está brava? Sei que foi culpa

minha, mas… — Passo a mão pela nuca, sem saber o que


dizer para tranquilizá-la. — Eu a levarei ao médico quando

voltar.

— Não. Basta que um dos rapazes me acompanhe.

— Por que você está tão louca comigo? Além do


risco de gravidez, sei que está preocupada por sua saúde,

mas eu dou minha palavra que sempre usei…

— Pare.

— Com o quê?

— De ficar repetindo que sempre usou


preservativos.

— Mas é verdade.

Ela sai pisando duro e entra no banheiro, mas

quando tenta fechar a porta, eu coloco o pé para impedi-la.

— O que diabos está acontecendo com você?

— Deixe-me.
— Não.

— Eu não quero conversar.

— Não vou sair enquanto não falar comigo.

Ela está de costas para mim e tento pegar mais leve


dessa vez. Passo os braços em volta de sua cintura e seu

cheiro imediatamente entorpece meus sentidos.

— Hey, eu sinto muito. — Começo mais uma vez.

— Pelo quê?

Não sei o que responder. Não transei com ela sem

preservativo de propósito, mas quando se trata de Talassa,


minha racionalidade vai para o inferno. Só que não sou um

mentiroso, então não vou dizer que me arrependo de ter


gozado dentro dela porque só de pensar nisso me deixa

duro novamente.

— Por tê-la irritado. — Desvio e vou o mais próximo

da verdade que consigo. — Mas para que fique um pouco


mais tranquila, mostrarei meus exames. Eu os faço a cada

mês.

— Eu acredito em você. Tenho certeza de que com

suas diversas amantes você não correria riscos.

E então, como se um relâmpago iluminasse tudo, eu

entendo.

— Você está com ciúmes. — Digo em voz alta o que

estou pensando e sinto-a enrijecer em meus braços.

— De jeito nenhum.

— Mentirosa. — Falo, agora mais convicto do que

nunca.

Ela tira minhas mãos do seu corpo e quando se

volta, não há mais raiva ali, mas determinação — em me

matar, provavelmente.

— Como você se sentiria se eu jogasse na sua cara


meus ex-amantes?
— Você não teve nenhum antes de mim. —
Respondo como um idiota, talvez descobrindo uma veia

suicida, a julgar pelo olhar que ela me lança.

— Porque não tive oportunidade.

— O que você quer dizer com isso?

— Que se eu fosse livre, poderia estar

experimentando por aí, como você.

Fecho os punhos em minhas laterais.

— Eu não estou experimentando por aí. Estou com

você. Somente com você.

— Eu não sou experiente.

— E é isso o que quer? Ganhar experiência? —


Estou me sentindo volátil, meu temperamento na borda e

dou um passo para trás enquanto espero o que ela


responderá.

Como se entendesse e apreciasse minha agonia,


ela demora bons segundos para falar.
— Não é isso o que todos os homens esperam?

Uma mulher experiente que os satisfaça?

Novamente não há como responder sem mentir.

Realmente sempre preferi minhas mulheres com mais


vivência. O problema é que com ela as regras

simplesmente não se aplicam.

— Não precisa dizer nada. — Fala e tenta sair do

banheiro, mas eu não deixo. — Solte-me.

— O que você quer? — Com uma mão seguro seu

braço e com a outra, o rosto, mantendo-a no lugar.

Seu peito sobe e desce em respirações curtas, mas

os olhos ainda soltam fagulhas.

— O que você quer de mim, Talassa? — Deixo meu

polegar percorrer os lábios carnudos e o desejo


rapidamente se sobrepõe à raiva.

Em poucos segundos, a atmosfera se torna


carregada de tesão.
Ela segura meu dedo entre os lábios. Em seguida,
chupa a ponta e geme.

— Aprender. — Sua voz muda, saindo como o


ronronar de uma gatinha.

— Aprender o que, baby?

— A ser tudo o que você precisa.

Esse seria o momento em que eu deveria dizer que

ela já é, que nenhuma mulher chamou minha atenção

desde que estivemos juntos da primeira vez, mas agora


estou louco para descobrir até onde essa briga nos levará.

Ela baixa o olhar para a frente da minha calça e


sinto a pulsação em seu pescoço acelerar. Faço meu dedo

entrar mais um pouco em sua boca.

— Sugue. — Comando, enquanto sinto sua mão


esfregando meu pau por cima da roupa. — Assim mesmo.

Não pare de chupar. Agora, desça o zíper.


Libero seu braço para que possa me tocar. Ela

desfaz o cinto, os movimentos atrapalhados, ansiosos, o

que só aumenta minha lascívia.

Quando a mão pequena circunda minha ereção,

fecho os olhos por um instante.

Mordo o lóbulo de sua orelha, sentindo a carne

macia.

— O que você quer? — Repito a pergunta.

Ao invés de responder, a boca gulosa agora chupa o

meu dedo inteiro. Meu pau incha ainda mais em sua mão.

Ela ajoelha e desce minha calça e boxer.

Eu tenho um avião à minha espera, mas foda-se o

mundo.

Arremesso a gravata longe e desabotoo a camisa.

Chuto os sapatos.

A situação é totalmente inusitada. Eu sou aquele

que costuma despir, nunca abrindo mão do controle, mas


se o que preciso para mostrar que é ela quem eu quero, é

deixá-la tomar a frente no momento, permitirei.

O pensamento ainda está pela metade quando sinto

a língua quente lambendo toda minha extensão. Ela para

na cabeça, sugando como fez com meu dedo há pouco e


não sei se de maneira calculada, olha para mim.

Merda.

É a porra do paraíso vê-la em seus joelhos me


saboreando como se estivesse devorando um banquete.

Acaricio seu cabelo, inicialmente em uma espécie de

massagem, incentivando-a a continuar, mas não demora

muito e a urgência se instala.

— Abra mais a boca. Não use os dentes. — Puta

merda, só a instruir já me deixa fora de controle porque eu

sei que é a primeira vez que ela faz isso.

Pego sua mão e com a minha por cima, coloco em

volta do meu pau, iniciando uma masturbação constante


que acompanha o ritmo dos seus lábios. Seus olhos em
mim estão me matando. Não é só o tesão de estar sendo

chupado por uma mulher linda, mas por ela ser a minha

mulher.

Ela pausa um instante e afasta minha mão.

— Eu acho que já entendi.

Sua inocência e entrega quase me derrubam.

— Vem cá. — Eu me abaixo e a pego no colo. Na

cama, deixo-a nua. — Eu preciso provar você também.

Quando a encaixo sobre meu rosto, sentada ao

contrário. Ela parece encabulada, mas ao primeiro contato

da minha língua, rebola sem vergonha alguma e retoma o

que estava fazendo.

Cada vez que a boca de veludo desliza, eu mordisco

seu clitóris. Suas pernas tremem de desejo enquanto goza.

Parecendo determinada a me carregar para sua loucura, a


garganta relaxa me deixando entrar. É uma delícia, mas

hoje, eu preciso de mais do que sua boca.

Quero seu olhar enquanto a fodo. Quero me enterrar

no fundo do seu corpo, preenchendo cada espaço.

Ergo-a e a sento no meu colo. Ela parece um pouco

atordoada pelo orgasmo, mas não dou tempo para pensar,

fazendo com que desça completamente. Nós dois


prendemos a respiração e eu sinto sua pele arrepiada sob

meus dedos. Estou profundamente nela.

— Não importa o antes.

— Eu fico louca em imaginá-lo com outra mulher.

— Eu só quero você. — Repito porque não consigo

explicar o que ela significa para mim. — Só você. Ninguém

além de você.

— Yerik…

Desacelero os movimentos, fazendo-a descer

devagar agora. Olhos nos olhos, mãos que não deixam de


se tocar por um segundo. Uma necessidade de conexão

que chega a trazer uma certa angústia, porque não parece

o suficiente.

— Você me sente em você, baby? É aqui que eu


quero estar.

— No meu corpo?

— Sempre. Mas também aqui. — Beijo sua têmpora.


— Ocupando seus pensamentos. Não há do que ter

ciúmes. É só você.
Capítulo 31

Yerik

A Fazenda — em algum lugar na Virgínia

No dia seguinte

— Estou falando a verdade, chefe. Não tenho motivo

para protegê-lo. Minha lealdade pertence à Organização.

Confira com seu avô. — Dimas pausa para respirar, o rosto

molhado em uma mistura de suor e sangue. — Foi ele

quem mandou que eu me tornasse a sombra de Oleg para

me inserir entre os albaneses.


Olho para o homem aterrorizado. Sei o bastante da

alma humana para identificar o exato momento em que o

medo se instala de forma tão definitiva, que não há senso

de honra que consiga vencê-lo.

E não tenho dúvidas de que Dimas sente medo.

Ele está certo em senti-lo, claro, porque apesar de

não ser um traidor, não acredito que tenha mais qualquer

utilidade para nós.

Sou eu a interrogá-lo, mas poderiam ser os italianos,

os albaneses e tenho certeza de que com cada um deles, o

homem abriria o jogo da mesma maneira.

Estou parcial sobre o que descobri. Se por um lado,

é bom que meu avô ainda esteja no jogo o suficiente para


lidar sozinho com traições, por outro, demorou muito a

tomar uma atitude, uma vez confirmada a infidelidade de


seu conselheiro.

— E quanto às minhas armas? — Pergunto, já

cansado de sua subserviência.


— Foi Oleg quem entregou tudo. Fazia parte do
acordo com os albaneses. Ele lhes disse a rota e também

quantos homens estariam protegendo a carga.

— Quem tomou o navio?

— Mercenários. Piratas da América Central, mas já

foram todos mortos. Tanto Oleg quanto Gjergj preferiram


não deixar pontas soltas.

— E o atirador?

Já voltei a esse ponto três vezes e cheguei à


conclusão de que não houve a mão de Oleg ali e sim uma

ação isolada dos albaneses, o que no fim é ainda pior,


porque quer dizer que temos duas células traidoras no

meio de nós. Uma atuando ao comando do conselheiro e


outra, independente, vendida a Gjergj.

— Eu não sei nada sobre isso, eu juro, mas não


acho que tenha sido Oleg. Não é a maneira que ele atua. O

risco de ser descoberto seria grande demais.


Um movimento à esquerda me chama a atenção. É
Maxim, tranquilamente recostado em uma das paredes. Os

braços cruzados como se estivesse assistindo um filme

sem graça. Ele faz um meneio imperceptível de cabeça e


sei que quer falar comigo.

— Ele está dizendo a verdade. — Diz, assim que


estamos fora.

— Eu sei. Acho que acabamos por aqui.

— Talvez não.

Porra, devo estar ficando velho para esse tipo de


merda. A única coisa que eu quero é ir para casa e
encontrar minha mulher, mas não consigo fugir às

responsabilidades. Nada garante que ele não esteja


trabalhando para os dois lados e enganando meu avô
também.

— O que mais eu poderia querer dele?

— Usá-lo como isca. Ele está ansioso para agradar.


— Dimas não é confiável. Trabalhou com o
conselheiro por vários anos, mas o traiu sem piscar a um
pedido do meu avô.

— Ao pedido do Pakhan, não se esqueça disso.


Quem você conhece na face da Terra que ousaria ir contra

Ruslan?

— Isso é certo, mas ainda assim, Dimas é uma

aposta arriscada. Ele pode simplesmente fugir.

— Não se fizermos o que estou pensando.

— Que seria?

— Implante de GPS sem que saiba. O enviaremos


de volta para o conselheiro por uma ou duas semanas. Ele
conseguirá chegar mais perto do bastardo do que qualquer
outra pessoa e também eliminá-lo, a nosso pedido, se for o
caso. Uma morte limpa, sem estardalhaço. Oleg é

atualmente mais perigoso para a Organização e para seu


avô, particularmente, do que os albaneses.
— Tudo bem. Faça, mas se ele não cumprir sua
tarefa dentro do prazo, mate-o.

Atlanta

Três dias depois

— Leonid me disse que você está indo muito bem.

— Eu gostei de atirar.

Sacudo a cabeça sem acreditar que a mulher de

estrutura frágil é na verdade, uma fera com uma arma na


mão. Leonid contou que teve que praticamente arrancá-la
do clube de tiros depois de duas horas de treino.

Estamos no tatame da academia que tenho no


apartamento. Apesar de já ter voltado da Virgínia há dois

dias, a fome que senti no tempo em que passei longe não


passou.

Nos falamos todas as noites pelo celular. Ela me


contou as novidades sobre os ensinamentos de Leonid e

também alguns planos para o futuro. Incrivelmente, Talassa

pareceu mais aberta ao telefone do que quando estamos


frente a frente.

Mas foi o que me pediu na véspera do dia que


retornei que me atingiu: que eu conferisse a participação

dos seus pais em seu sequestro. Minha menina ainda


guarda esperança de que não tenha sido traída por sua

família.

Eu não sei o que pensar. O que Grigori me contou,

que a mãe dela parecia morta em vida, não bate com o


vídeo que Talassa assistiu do pai recebendo dinheiro,

então tomei uma decisão. Mandarei que alguém busque o


homem para que me encontre em Atenas. Eu quero olhar

em seus olhos e ver se ele teria coragem de negociar a

própria filha. Eu saberei se estiver mentindo.

— Você não está prestando atenção no que estou

falando. — Reclama, fazendo beicinho.

— Você me distrai, baby. — Confesso porque é a


pura verdade.

Comecei a passar para ela os princípios básicos do


jiu-jitsu e como poderia se defender de um oponente com o

dobro do seu tamanho e massa corporal.

Talassa é muito disciplinada e se manteve focada às

instruções. Já eu, tive dificuldade de me concentrar ao

sentir o corpo delicioso roçando em mim, depois de passar


dias longe. Não importa que tenhamos transado

praticamente na hora em que entrei no apartamento e


também uma hora antes do treino começar. Meu desejo por
ela simplesmente não diminui.

E agora, enquanto está sentada em meu tronco


vestida em um quimono cor de rosa, descabelada e suada,

linda para caralho, meu pau torna mais difícil o trabalho de


me deixar ser um namorado legal.

— E quanto ao ginecologista, conseguiu encontrar


algum de que gostasse? — Pergunto, me esforçando para

desviar a mente do tema sexo, mas o tiro sai pela culatra

porque imaginá-la em uma mesa, nua e de pernas abertas


não é exatamente uma forma de me esfriar.

Novamente suas bochechas ficam vermelhas e


nessa hora eu me dou conta de como ela é menina ainda.

— Sim. Não foi muito fácil, mas Leonid conseguiu


um nome com uma ex-namorada dele. Parece que é um

médico que atende as esposas dos membros da


Organização.
Duvido muito que tenha sido ex-namorada, porque

até onde eu sei, Leonid nunca passou mais do que uma ou


duas noites com a mesma mulher, mas não acho que ela

gostará de ouvir isso.

— Pensei em pedir que ele se informasse com sua

secretária. Nancy, não é? Com certeza ela saberia me

indicar algum, mas tanto Leonid quanto Dmitri disseram


não. Por quê?

Analiso se devo falar a verdade. Não quero chocá-


la, mas também não desejo mais segredos do que o

necessário entre nós.

— Porque há uma chance de ter sido ela quem deu

a dica de onde estávamos no dia do seu aniversário.

— Oh! — Ela fica pálida e minhas mãos vão para

seus quadris, tentando acalmá-la. — Você a despediu?

Eu não posso revelar que não despedimos traidores,

então contorno da melhor forma possível.


— Não, estamos tirando a história a limpo primeiro.

A verdade é que Nancy está sendo vigiada vinte e

quatro horas por dia e hoje pela manhã chegou uma


indicação de que talvez não seja ela, mas o marido, o

informante. Como ele conseguiu descobrir sobre a festa de

Talassa, no entanto, ainda é um mistério.

— Eles não queriam que ela me sugerisse um


médico porque alguém poderia tentar me matar

novamente, não é?

— Sim. Eles receberam ordens minhas para mantê-

la em segurança e as seguiram à risca.

Ela apoia ambas as mãos no meu peito.

— Eu não estou zangada por você ter feito isso.

— Não?

— Não. Sei que só o fez para me proteger.

— Eu a protegerei de qualquer um que tente


machucá-la.
Até mesmo dos seus pais. — Mas isso, eu guardo

para mim.

— Não vou discutir sobre esse assunto. Você já

cedeu com relação às aulas de tiro e também estamos aqui


lutando. — Ela me dá um sorriso torto.

Fico aliviado. Nunca fugi de uma boa briga, mas não


é o que desejo com ela. Quando Talassa está irritada

comigo, o mundo parece mais fodido do que de costume e

meu humor, que já não é grande coisa, vira uma merda


total.

— Você não vai reclamar por que, no fundo, é uma


menina boazinha? — Provoco, esperando o revirar de

olhos malcriado.

— Não, porque eu tenho outros planos em mente.

Alguma coisa me diz que não gostarei deles.

— O que é?
— Leonid me contou que você é dono de diversas
boates pelo país, mas que existe somente uma aqui em

Atlanta. Eu quero conhecê-la.

Filho da puta. Eu vou matar Leonid.

No dia seguinte

Depois de executar outra operação de guerra,

estamos prontos para sair. Antes, no entanto, fiz uma

ligação rápida para Grigori e pedi que ele marcasse um

encontro com o pai dela para daqui a três dias, em Atenas.


Vou esclarecer essa merda de uma vez por todas.
Enquanto ela entra no carro, observo suas pernas

absurdamente longas no vestido. Eu fiquei muito tentado a

negar levá-la, mas quando me disse que nunca esteve em

uma boate, não consegui dizer não.

Le Crépuscule é segura. A frequência muito restrita,

limitando-se a membros da Organização ou políticos com

quem temos ligações e, de uma certa forma, será bom que

nos vejam juntos. Nunca apareci em público com uma


mulher e será uma maneira bem explícita de dar um recado

tanto aos membros da Irmandade quanto a todas as outras

organizações que, qualquer coisa feita contra ela, será

tomada como uma declaração de guerra.


Capítulo 32

Yerik

Le Crépuscule Nightclub

— Já capturamos alguns albaneses. Matamos

quase todos, mas como você havia dito que daríamos um


tratamento especial ao primeiro escalão, levamos o irmão

caçula de Gjergj, o idiota do Behar, para a fazenda. Reza a

lenda que Romano Carlucci[23] está louco para colocar as


mãos nele. Algo relativo a um acerto de contas no passado

do italiano. — Maxim diz.

— E o que temos com isso?

— Romano domina a Filadélfia atualmente e

recebemos informações que Gjergj está escondido lá .


Poderíamos propor uma troca. Ele caça e nos entrega o

líder dos albaneses e mandamos Behar de presente.

— Um acordo com os italianos? Não sei.

— Uma trégua temporária. Troca de mercadorias.

Cada um de vocês consegue o que quer e todos terminam

felizes.

Penso no que ele está dizendo. Por mais que me

desagrade entrar em qualquer tipo de ajuste com os

italianos, a segurança de Talassa depende de que o

maldito albanês saia do nosso caminho.

—Tudo bem, está autorizado a coordenar o acordo,


mas coloque um prazo. Se eles não nos entregarem

Gjergj , Behar será morto. Agora, fale-me sobre os


prejuízos materiais. Explodiremos o armazém amanhã?

— Sim e horas mais tarde, o laboratório onde


processam a droga, como você mandou. É para deixá-los
saber que o ataque partiu de nós? Com a quantidade de
organizações querendo um pedaço dos filhos da puta, não
seria difícil nos mantermos nos bastidores. — Pondera.

— Não. Tenha certeza de que descobrirão que


fomos nós. Não vamos ficar com a mercadoria. Faço
questão que saibam que foi tudo destruído. Que todos os

líderes desses filhos da puta na Europa entendam que


estou pouco me fodendo para o prejuízo que lhes dei e que

farei quantas vezes eu quiser, simplesmente porque posso.


Perder aquelas armas foi a porra de uma dor de cabeça,

mas destruir sua carga mensal e explodir o principal


laboratório de drogas, vai chamá-los para a dança. Se eles

queriam provar algum ponto, agora terão que ir até o fim


porque eu não vou parar.

Ele acena com a cabeça, mas posso quase ler o que


está pensando. Maxim é o mais analítico dentre os meus
homens e não tenho dúvidas de que se pergunta se o meu

ódio em relação aos albaneses tem a ver com Talassa.


Eu quero e preciso mandar um recado para aqueles
bastardos depois que roubaram nossas armas, mas muito

do que estou fazendo é por vingança também.

Cada coisa que ela me conta a que era submetida


por ele e principalmente, por aquele pirralho mimado, que o

diabo o guarde no inferno, me faz querer cortar a garganta


de um por um. Talassa não foi fisicamente violentada, mas
eles modificaram sua personalidade e talvez de uma
maneira irreversível.

Algumas mudanças, podem ter sido positivas.

É observadora e vê além do que as pessoas querem


mostrar. Tem bons instintos e se mantém alerta com
Maxim, inclusive. Ele está muito próximo ao que a medicina
considera como um sociopata.

Além de mim e Lara, Talassa não confia em


ninguém. Somente há poucos dias, passou a interagir com
meus homens, principalmente com Leonid. Talvez por

causa das aulas de tiro.


Apesar de conversarem, acho que consegue
perceber que sua aparência descontraída é uma fachada.
É esperta e compreendeu que aquele calor humano que

ele demonstra, tem exatamente dois centímetros de


profundidade. O homem possui um bloco de gelo no lugar
do coração. E é justamente ele quem lhe faz companhia
nesse exato momento.

A intenção ao trazê-la hoje, era ficar exclusivamente


ao seu lado, mostrando um pouco do meu mundo. Mas

assim que chegamos ao nightclub, Maxim disse que


precisávamos tratar de um problema inadiável.

— E quanto a Oleg, o que temos dele? Dimas está

fazendo o que lhe ordenamos?

— Sim, mas sabe que precisamos ser discretos.

Temos que descobrir quem mais está envolvido. Não


podemos investigar o conselheiro do Pakhan abertamente,
a menos que você esteja disposto a iniciar uma guerra.
Outro efeito colateral é que pareceríamos fracos perante
nossos inimigos. Se não pudermos controlar nem mesmo
os nossos homens, como daremos conta das organizações

rivais? E por falar em inimigos, quase ia me esquecendo.


Tenho novidades sobre Nancy.

— Por que eu acho que essa novidade encerrará o

trabalho dela na Organização?

Ele dá de ombros.

— Porque provavelmente o fará. Foi realmente o


marido quem entregou as informações relativas ao
aniversário de Talassa. Ele já está morto, no entanto, não

podemos confiar mais nela, apesar de ter certeza de que é


inocente.

— Tudo bem. — Concordo, indo direto ao ponto que


me interessa. — Como ele obteve a informação?

— Já trabalhava como espião para os albaneses há


algum tempo. Tantos os e-mails dela quanto o celular foram
clonados.
— Não tem problema, ela não tinha acesso à nada
importante. Então fora isso, está limpa?

— Completamente.

— Despeça-a.

— Já está feito.

— Temos essa porta fechada, então.

— É o que parece.

— Conversei com meu avô sobre o porquê dele não

ter revelado que já sabia da traição de Oleg. — Mudo meu


foco.

— E o que ele respondeu?

— Que estava tudo sob controle.

Balanço a cabeça, irritado ao lembrar.

— Falando em avô, ele meio que anda dizendo por


aí que você irá a um jantar para conhecer sua futura noiva,

Tatiana Sidorov.
— Esse jantar já aconteceu e eu faltei. Somente nos

sonhos dele me unirei a uma mulher por causa de alianças


políticas. Não acredito que as pessoas precisam estar

apaixonadas para se casarem, mas tem que haver um

mínimo de compatibilidade se pretendem ficar juntas o


resto da vida.

— Você será pressionado. A partir do momento em


que Ruslan morrer, a Organização cobrará uma mulher e

filhos.

— O que você está pensando?

— O que acha? Que já tem o que precisa ao

alcance das mãos.

— Virou conselheiro matrimonial?

— Não, mas talvez eu esteja enxergando a situação


melhor do que você.

— Em que sentido?

— Há quantos anos nos conhecemos?


— Tempo demais, aparentemente. Só isso
justificaria você ficar enchendo meu saco com supostos

noivados.

— Você está louco pela garota, Yerik.

Mantenho o silêncio. Minha história com Talassa não


é da conta de ninguém.

— Tudo bem, continue trabalhando sua negação,


mas eu sei o que vejo.

— E o que vê?

— Chegará a hora dela partir e não conseguirá


deixá-la ir. Vocês estão apaixonados. Quando foi que

passou mais do que uma quinzena com uma mulher? E

agora ela mora na sua casa. Um lugar em que nem mesmo


o alto escalão da Organização tem acesso.

Eu não desminto o que ele está dizendo. Sei que há


algo tomando forma entre nós. Quando me dei conta disso,

tentei dar dois passos para trás, mas é como conter um


vazamento sem as ferramentas necessárias. Se torna fora

de controle.

Não, a verdade é que eu não quero usar porra de

ferramenta alguma. Estou viciado nela.

Não sou um homem carinhoso, atencioso ou nada

do que as mulheres costumam apreciar, mas com ela, eu


me desdobro para tentar fazer com que sorria, porque cada

vez que a vejo feliz, eu quero eternizar o fodido momento.

E isso é somente minha parte racional falando,

porque se for falar do meu corpo, estou perdido.

Nunca estive com alguém tão compatível

sexualmente. Com ela não são fodas e gozo apenas, é a


paz que me dá, só em poder segurá-la depois. O direito de

chamá-la de minha e ser digno de sua confiança.

Só que eu sei que mais cedo ou mais tarde,

acabarei por machucá-la. Talassa é boa demais para o

meu mundo.
— Ela não aguentaria.

— O quê?

— Se eu quisesse mantê-la em uma base

permanente, ela não conseguiria lidar com o que fazemos.

— Então você já considerou um compromisso de

verdade.

— Estou apenas dando continuidade aos seus

argumentos. Não fui eu quem começou com essa história

de noivado.

Ele me olha com ceticismo.

— Foda-se! Sim, já considerei. Nós nos damos bem.

Ela é linda e inteligente.

— E você está apaixonado… — Ele completa.

— Não tem nada a ver com amor. Seria por uma


questão prática. A única coisa que foge aos meus planos é

sua bondade. Talassa não faz ideia de quem somos


realmente.
— Você a está subestimando. Perto dos homens

que a mantiveram presa, somos um grupo de lordes


ingleses. Não digo que deveria simplesmente propor

imediatamente, mas deixe-a vislumbrar um pouco mais de

quem você é. Não decida por ela. Já viveu tempo demais


sem que a deixassem escolher. Mostre seus defeitos e não

somente o cavalheiro em uma armadura brilhante que ela

imagina que seja.

— Eu, um cavalheiro? Essa sua comparação é

patética.

— Ela o vê como seu herói.

— Pode ser que esteja confundindo as coisas,

então. Talvez ambos estejamos.

Ele joga a cabeça para trás e ri.

— Não pensei que viveria para ver o dia em que o

poderoso futuro Pakhan se sentiria inseguro sobre os

sentimentos de uma mulher.


— Chega. Eu preciso pensar e não é com você
enchendo meu saco que conseguirei isso.

— Se você for escolhê-la realmente para esposa,


não pode deixar passar muito tempo até tomar essa

decisão. Sabe perfeitamente que, mesmo dentro da

Organização, a proteção dela só será completa se ela for


sua.

— Ela já é minha.

— Não basta que nós saibamos. Se quer mantê-la


intocável, o mundo todo precisa enxergar isso também.

Estou irritado e prestes a sair quando Leonid


praticamente invade o escritório.

— Yerik, é melhor você vir comigo.

Tanto eu quanto Maxim nos pomos em alerta em


segundos.

— O que diabos está acontecendo? — Começo a

tirar a arma do coldre, mas ele me para.


— Talvez um balde de pipoca seja melhor.

— Fale de uma vez, porra.

— Sua menina grega é um espetáculo de se ver.

Cindy entrou em seu caminho e… — Ele faz uma pausa

dramática. — Bem, por que contar se podemos assistir?


Capítulo 33

Talassa

Le Crépuscule Nightclub

— Eu entendi o que você falou.

Olho para a mulher que parece tão natural quanto

uma Barbie, com vontade de esganá-la.

— Você não parece latina. Como compreende


espanhol? — Debocha.

— Sou grega, mas entendo seu idioma natal.

— E o que vai fazer a respeito?


— Cindy, afaste-se. — Leonid se intromete.

— Não, esse assunto é meu. — Quase rosno para

ele. — Trabalhar em uma boate faz de você uma

prostituta? — Pergunto à loira oxigenada.

— O que você disse?

— Exatamente o que ouviu. Trabalhar em uma boate

como dançarina exótica faz de você uma prostituta?

— Claro que não.

— Então pode me explicar como ser a namorada de


Yerik poderia me dar tal rótulo?

— Namorada? — Ela gargalha e eu sinto vontade de


tirar aquele sorriso à tapas. — Ele não namora, garotinha.

Você não sabe o que está falando. Quer um conselho?


Volte para o jardim de infância de onde saiu.

Noto que um pequeno grupo se forma à nossa volta

e vagamente percebo que a música parou.


— Talassa, não perca seu tempo. — Agora é Dmitri
quem tenta intervir. Leonid não está mais por perto como

se manteve desde que cheguei.

— Deixe comigo. Posso dar conta dela. —


Respondo com desejo por sangue. — Em que ponto meu

relacionamento com o seu patrão é da sua conta? — Volto


minha atenção à mulher de corpo espetacular.

— Em nenhum, bonitinha. Leve isso apenas como


um aviso de alguém que já nadou por aquelas águas.

Sinto meu rosto esquentar enquanto ouço algumas


risadas dos homens que nos cercam.

Levo somente alguns segundos para processar o

que ela disse, mas a seguir, minha raiva volta com força
total.

— O que quer que tenha acontecido entre vocês,


tenho certeza de que acabou. Se o conhecesse bem,

saberia que caso Yerik a quisesse, você estaria com ele.


— E quem disse que não estou?

De tudo o que ela falou, foi aquilo que atingiu um

nervo exposto. Por mais que eu diga a mim mesma que ele
não me trairia, já que isso simplesmente não se encaixa
com quem ele é, o bichinho do ciúme se espalha em minha

corrente sanguínea.

— O que está acontecendo aqui?

Ouvir sua voz no exato momento em que estou


decidida a esfolar a mulher que diz que possui o que
considero como meu, não ajuda.

Viro-me para encarar o pivô da discussão. Por uns


segundos, nós dois não falamos e me pergunto se ele está

percebendo o quanto estou louca. Porque definitivamente


estou e também disposta a torná-lo o alvo da minha ira.

Ele se aproxima e segura meu rosto com ambas as

mãos.

— Hey, o que há de errado, baby?


O silêncio dentro da boate é absoluto e não duvido
que todos os olhos estão em nós.

O problema é que agora que chegou, o mundo


deixou de existir. As palavras da outra mulher, esvaziadas
diante do que enxergo nos olhos dele.

A loira pode espernear o quanto quiser. Ele é meu.

— Tire-me daqui. — Peço.

Ele passa o braço em volta do meu ombro, me

virando por um corredor, mas de repente para e se volta.

— Você foi avisada. — Fala para a mulher que sei

se chamar Cindy. — Está fora. Dmitri, acerte o pagamento


dela. A partir de hoje, sua entrada aqui é proibida.
— Eu sinto muito…

— Não fale nada. — Assim que ele fecha a porta do

que eu acredito que seja seu escritório, eu o empurro


contra ela. — Eu quero você. Agora.

Eu me atrapalho abrindo seu cinto e beijando sua


boca, a mão ansiosa em torno da semi ereção. Acho que
de uma maneira louca, minha raiva o excitou.

— Talassa…

Cravo os dentes em seu lábio inferior com tanta

força que sinto o gosto ferroso de sangue em minha língua.

— Foda-me. Eu preciso de você dentro de mim.

Como se um interruptor fosse acionado, ele sobe


meu vestido, o rosto agora sério. Em segundos, minha
calcinha está em farrapos. É só o tempo dele me erguer,

seu sexo alinhado com o meu e então, eu me sinto


completa.
— Porra, você fica uma delícia com ciúmes, baby.

Em resposta, abro sua camisa, arrancando alguns


botões pelo caminho e mordo seu peito.

— Mais forte.

— Mais forte o quê? — Ele me provoca.

— Você sabe.

— Não sei. Diga.

Começa a propositadamente desacelerar o ritmo e

não é isso o que eu preciso no momento. Apoiada em seus


ombros, giro os quadris fazendo-o gemer. No entanto, o

autocontrole dele é fora do comum e continua entrando em

mim lento e profundo.

— Mais forte o que, minha gata selvagem? Perdeu a

coragem?

— Eu quero duro. Quero acordar amanhã ainda o

sentindo em mim. Mostre-me o quanto você é meu.


— Peça. Diga que quer que eu a coma. Que está

louca para me sentir abrindo você. Que gosta de me sentir


inchado dentro do seu corpo.

— Sim, Yerik. Sempre, por favor.

Ele anda comigo e chega até uma mesa. Em

seguida, me gira e põe de frente para ela.

— Desça as alças do vestido.

Sua voz sai rouca, grossa.

Ao mesmo tempo, força a mão em minhas costas,


quase me deitando na mesa. A outra vem para o meu

quadril enquanto volta a deslizar em mim.

Como prometeu, ele me toma profundamente e mal

tenho tempo de recuperar o fôlego, seu ritmo se torna


quase impiedoso.

— Era isso o que queria?

— Ahhhh….
— Responda. — O dedo belisca meu mamilo, me
fazendo quase saltar da mesa. — É assim que você gosta?

Não tenho como negar.

— Sim. Assim mesmo. Com você, sempre com

você.

— Só comigo, Talassa.

— Diga o mesmo. — Exijo, ao invés de entregar o

que ele quer.

— Você ainda não sabe? — A velocidade de sua

posse poderia ser dolorosa, se eu não estivesse tão


molhada. — Não entendeu que eu não quero outra?

— Como eu poderia entender? Não tive mais


ninguém. Eu não sei jogar.

Sem que eu planeje, minha voz sai como um


choramingo. De repente, me sinto vulnerável, sem defesa

diante da enormidade do que ele me desperta.


Ele me ergue, as costas colando em seu peito, a

boca em minha orelha.

— Mais ninguém.

Sua mão toca meu rosto, barriga, seios. Ele parece

estar em toda parte.

— Só você. — Repete vezes sem fim, como fez em

nosso quarto há alguns dias.

Meu coração bate muito depressa.

Eu sei que não deveria ser ele o meu primeiro amor,


mas deixou de ser uma escolha. Yerik é meu tanto quanto

sou dele.
— Quantas mais aqui na boate?

Estou meio sonolenta e embora a raiva já tenha

desaparecido, o ciúme ainda permanece.

— Ninguém.

Ergo o rosto para encará-lo. Ele nem pisca.

— Aquela mulher, Cindy… foi uma falha.

Fecho os olhos tentando me acalmar, mas meu

sangue grego atrapalha.

— Não é isso o que as pessoas costumam dizer dos

relacionamentos que dão errado?

— Não houve relacionamento algum. Apenas uma

noite e você não faz ideia do quanto eu me arrependo.

— Por quê?

— Nunca fiquei com alguém que trabalhasse para

mim. Eu estava sozinho e com vontade de transar e foi


isso.

— Deus, vocês homens são inacreditáveis.


Tento me levantar, mas ele não deixa.

— Decida se você quer a verdade ou não.

— Quero a verdade. Sempre a verdade, mas isso

não me impede de desejar matar essas mulheres se


jogando em você. — Confesso, muito chateada. — Graças

a Deus que eu não tenho porte de arma, mas não se


esqueça de que agora eu sei atirar.

Ele me dá um tapa na bunda, mas está sorrindo.

— Você é um perigo, menina.

— Sou um amor, desde que não mexam no que é

meu.
Capítulo 34

Talassa

— E então, como estão as coisas aí? — Lara

pergunta assim que atendo.

Fico em silêncio por alguns instantes, ainda sem


graça da cena de ciúmes da qual fui protagonista ontem.

— Talassa?

— Eu quis matar uma das dançarinas da boate dele.

A gargalhada do outro lado me acalma um pouco.

— Deus, eu daria qualquer coisa para assistir isso.

Quero todos os detalhes.

Conto rapidamente sobre a cena e como eu entendi

quando a loira oxigenada me chamou de prostituta em

espanhol.
— Não fazia ideia de que era uma mulher ciumenta.

— Nem eu, mas ela me jogou na cara que havia

dormido com ele.

A risada cessa e ela fala naquele tom de irmã mais

velha que sempre usa comigo.

— Talassa, você me disse que o cara tem trinta e

quatro anos. Não pode esperar que sua vida até a

conhecer fosse a de um monge. O jeito como ele agirá

daqui por diante é o que conta.

— Eu sei, mas ciúme não é algo racional.

— É para valer então? Você gosta dele?

Nós já conversamos sobre isso e no início, ela não

levou muito bem o fato de eu estar envolvida com Yerik.


Custei um bocado a convencê-la de que ele ou qualquer
um dos homens que o cercam não tem nada a ver com os

albaneses. Nunca os vi desrespeitar uma mulher. Nem


mesmo Cindy.
Quando finalmente pareceu aceitar nossa relação,
aconteceu o incidente no dia do meu aniversário e ela ficou

novamente preocupada.

— Um pouco mais do que gostar. — Respondo.

— Porra, você está apaixonada!

— Fale baixo. Não quero que Grigori a ouça. —


Imploro.

— Fique tranquila, ele foi lá fora cortar umas achas


de lenha. Talvez eu o tenha irritado há alguns minutos.

Sei que eles estão em um chalé na Suíça. Ontem

Yerik me disse que se tudo der certo, em poucos dias ele


trará Lara para os Estados Unidos.

— Você não deveria provocá-lo.

— Não faço de propósito.

— Sim, tenho certeza de que você faz.

— Tudo bem, às vezes faço. O homem parece


inabalável. Você verá quando o conhecer. Não dá um
sorriso. Não faz piadas. Ele é um saco. Além de ser
neurótico com segurança. Outro dia fui correr e quando

voltei ele parecia prestes a me matar. Porra, nós estamos

literalmente no meio da nada. Quem poderia vir me fazer


mal aqui? O Pé Grande?

Sacudo a cabeça rindo, tentando criar uma imagem


mental de Grigori, mas não consigo. De qualquer modo, se
ele é tão controlado quanto ela diz, isso faz do homem o
exato oposto de Lara.

— Tem algo que eu quero perguntar. — Enfim crio


coragem para falar o que preciso.

— O que há de errado?

— Não sei se errado é o termo adequado. Algo mais


como um esquecimento. Nós.... huh.... transamos sem
proteção.

— Puta merda!
Seu grito do outro lado é tão agudo que parece
penetrar o meu cérebro.

— Quantas vezes?

— Duas… — Lembro de ontem. — Três.

— Eu não estou acreditando nisso! Onde vocês


estavam com a porra da cabeça? E o irresponsável do seu

namorado russo, por que não se precaveu?

— Hey, foi uma ação em conjunto. A

responsabilidade é tão dele quanto minha.

— Mas ele é mais velho.

— Eu não sou um bebê, Lara.

— Não, você pode ter acabado de fazer um.

— Se essa é a sua ideia de piada, não tem graça

alguma.

— Você falou com ele sobre isso?

— Sim. Tenho ginecologista marcado, inclusive.


Quero começar a tomar a pílula logo.
— E o que ele disse sobre terem esquecido de usar
preservativo?

— Se desculpou, falou que não tinha qualquer


doença porque nunca antes deixou de usar.

Não conto a ela a parte que surtei de ciúmes por


conta de suas amantes do passado e nem que a briga
resultou em um sexo quente e suado logo após.

— Mas não ficou apavorado com a possibilidade de


gravidez?

Tento lembrar da nossa conversa.

— Não. Pareceu mais chateado por não ter me


protegido.

Ela fica atipicamente muda.

— Lara?

— Estou pensando.

— Percebi, mas esse seu silêncio está me pondo


nervosa.
— Os homens geralmente ficam apavorados com a
ideia de gravidez, Talassa.

— Não acho que seja uma possibilidade real. Foram


poucas vezes sem o preservativo.

— Acredite, é uma possibilidade real. Basta um


descuido.

— Agora você me deixou tensa. O que eu faço?

Compro um teste?

— Notou algum sintoma?

— Não sei, mas não menstruei esse mês. Ai, meu


Deus!

— Calma.

— O que devo fazer?

— Que dia é a sua consulta?

— Depois de amanhã, mas não conseguirei esperar


até lá. Também não posso sair de casa sozinha e não
quero pedir a Yerik, muito menos a um dos rapazes para

que comprem um teste.

— Eu poderia pedir ao Grigori que providenciasse

com alguém de confiança e mandasse entregar aí.

— Não. Por favor, não fale com ele. Por mais que eu

esteja apavorada e com vergonha de pedir a Yerik, se


estou desconfiada, ele deverá ser a primeira pessoa a

saber. Se eu pedisse a um dos seus homens, me sentiria


como se estivesse sendo desleal.

— Tem certeza de que pode confiar nele? Quero


dizer, sei que me contou que não pirou nem nada sobre a

falta de preservativo e a possibilidade de gravidez, mas

nunca esqueça de quem ele é.

— Às vezes, eu me esqueço sim. É inevitável,

porque Yerik é maravilhoso comigo.

— Se é assim, seja honesta, então. Eu sou meio

paranoica. Foram anos vivendo sem confiar em ninguém


além de você. Acho que será uma longa caminhada até
que eu possa relaxar, mas você não é danificada como eu,
Talassa. Não deixe que aqueles miseráveis a vençam. Se

sua intuição diz para acreditar no seu homem, siga-a.

— Você não é danificada. Odeio quando fala assim.

É a pessoa mais forte que eu conheço. — Eu fico arrasada


por saber que a amiga que eu amo pensa tão pouco de si

mesma. — Quanto a Yerik, você está certa. Já vivemos na

mentira tempo demais. Eu vou pedir a ele que traga um


teste de gravidez essa noite. — Digo, mais relaxada, até

que lembro de algo. — Ah, espera. Hoje será impossível.

Yerik fará uma viagem rápida à Europa. Ele me avisou que


ficará no máximo três dias por lá. Terei que aguardar para

conversar com o ginecologista mesmo.

— Tudo bem. Até porque, se tiver acontecido, não

há mais nada a ser feito.

— Não fale isso. Estou começando a ficar enjoada

de tanta agonia.
— Calma. Nós já passamos por coisa pior.

Estaremos juntas nisso também.

— Ter um filho dele não é o mesmo que engravidar

de um cara regular.

— Eu sei, mas pirar não vai mudar nada, Talassa.

Ela tem razão, claro, mas entre teoria e prática, há

uma longa distância.

— Lara, eu quase ia me esquecendo. Eu tomei uma

decisão.

— Nossa, você soou tão séria agora. Do que se

trata?

— Meus pais.

O silêncio se instala do outro lado da linha.

— O que tem eles?

— Yerik me disse que gostaria de conferir a história

sobre terem me vendido. Eu falei que tudo bem. Que ele

poderia verificar.
— Talvez você devesse fazer isso sim. — Diz, para
meu espanto. Lara sempre foi solidária à minha raiva por

eles. Sua reação não faz sentido.

— Por que essa mudança?

— Talvez as coisas não tenham sido como


imaginamos. — Fala vagamente.

— Você descobriu algo?

— Sim, mas eu... prefiro conversar com você

pessoalmente. Grigori disse que falta pouco agora.

Não quero desligar. Sua voz soa estranha e gostaria


que me contasse o que há de errado, mas ela não me

deixa alternativa, se despedindo logo em seguida.

— Eu tenho que ir. Ainda não tomei o café da manhã.


Capítulo 35

Yerik

Grécia — dois dias depois

No meio da sala do meu apartamento em Atenas,

observo o homem de estatura baixa que se aproxima. Sua

aparência é a de alguém que trabalhou a vida inteira ao ar

livre. A pele, curtida pelo sol.

Darius Galanis. O pai de Talassa.

Li todo o relatório sobre ele quando a investiguei,

muito antes que fosse minha.


Ela é sua única filha e seu nascimento, tardio

comparado ao tempo que tinham de casados, já que sei

que ambos se conheceram ainda jovens. Darius tem

cinquenta anos e a esposa, Isadora, um pouco menos.

Seu olhar em mim é desconfiado, enquanto

mantenho a expressão neutra.

O homem parece pacato, mas não me engana

porque sei do que é capaz. Grigori me contou o que ele e

os outros pais das meninas negociadas fizeram a Leandros

Argyros.

Como encontrou o corpo no mar, a polícia definiu a


causa da morte como afogamento, mas descobrimos que

os ilhéus torturaram o bilionário grego por dias.

E é justamente aí que a história de sua participação

na negociação de Talassa não se encaixa.

Será que foi a vingança de um pai ou o remorso o


que o moveu?
— Você fala inglês?

— Sim, senhor.

— Sente-se. — Comando, apontando uma poltrona

e ainda sem me apresentar.

Estudo seu rosto atentamente. Ele não parece com

medo, mas confuso, apesar de saber o motivo de estar


aqui. Grigori o avisou que desejávamos falar sobre Talassa.

— Quem é o senhor?

— Ainda não decidi se tem o direito de me conhecer.


Sente-se. — Repito e dessa vez ele obedece. — Você

sabe que sua esposa fez um pedido ao meu primo?

— Sim. Eu gostaria de dizer que ela não deveria ter

incomodado o doutor Grigori, mas não posso. Nenhum de


nós jamais vai desistir de encontrar Talassa.

Não me deixo levar por suas palavras.

— Conte-me a história toda.

— Seu primo não lhe explicou?


— Quero ouvir de você, Darius.

Suas mãos estão agarradas aos braços da cadeira.

Os nós dos dedos, brancos.

— A culpa foi minha.

Em segundos, estou em alerta e meu sangue se


transforma em gelo nas veias.

— Como poderia ter sido culpa sua? — Pergunto em


um tom neutro.

— Eu trabalhava para o maldito. Leandros Argyros,


satanás encarnado. Nossa ilha é pequena e sem estrutura.
Minha Talassa… ela era especial, sempre foi. Inteligente

demais. Aprendeu a ler com a ajuda da mãe, mesmo antes


de ir para a escola. — Ele sacode a cabeça. — Não queria
que ela acabasse como eu e minha Isadora. Praticamente
escravizados em um lugar perdido no mar Egeu.

— Alguma vez sua filha disse que queria partir?


— Não. Ela era feliz com pouco. Os sonhos eram
meus. O senhor não imagina como me arrependo. Quando
o desgraçado se ofereceu para custear seus estudos aqui

em Atenas, achei que aquela era uma resposta de Deus às


minhas orações. A oportunidade que a minha filha
precisava para brilhar.

— Então você simplesmente a obrigou a aceitar?

— Praticamente. Ela e a mãe choraram por uma


semana inteira até se conformarem, mas minha esposa
acabou concordando que seria um melhor destino para
nossa Talassa do que ter sua vida predestinada por conta
das nossas condições financeiras.

Observo-o sem me comover com sua história. Já


lidei com mentirosos. Algumas pessoas conseguem fingir

emoções com a mesma facilidade com que respiram.

— E o que aconteceu depois?

— Ela desapareceu.
— O que seu ex-patrão disse a respeito?

— Que Talassa fugiu, mas nós nunca acreditamos


naquilo. Conhecíamos a nossa filha. Ela nunca deixaria de
dar notícias por vontade própria.

— Chegaram a procurar a polícia?

— Sim. Contatamos as autoridades, mas


rapidamente descobrimos que elas também estavam nas
mãos do doutor Leandros. Ninguém fez nada. Não houve
sequer um artigo nos jornais gregos a respeito do sumiço
das meninas. E eram muitas. A imprensa justificou que se

a polícia não fizesse um boletim do desaparecimento...


involuntário, acho que foi essa a palavra que usaram, eles
não poderiam noticiar nada. Claro que a polícia não tomou
uma atitude. Até hoje eles afirmam que Talassa foi embora

porque quis.

— Darius, eu preciso dizer que o que está me

contando parece estranho demais para ser verdade.


Estou apenas testando-o. De fato, é mais comum do
que se imagina. Mulheres traficadas ao redor do mundo

geralmente provêm de famílias humildes.

A cor se esvai do seu rosto.

— O que o senhor está tentando insinuar?

— Não estou tentando insinuar nada, mas afirmando


que sei que você vendeu a sua filha.

Ele se levanta. Toda a subserviência que mostrou


até agora, transformada em uma máscara de fúria.

— Como tem coragem de me dizer uma coisa


dessas? Que tipo de pessoa é você?

Em seu estado de aparente indignação, ele esquece


o tratamento respeitoso.

Cruzo os braços em meu peito sem ao menos piscar


após sua explosão.

— Eu tenho um vídeo. — Blefo, lembrando do que


Talassa me contou ter visto.
— Vídeo? Eu não estou entendendo. Vídeo de quê?

Da minha Talassa?

— Não, Darius. Um vídeo seu recebendo dinheiro

pela venda dela.

— Só pode estar louco. Eu nunca negociaria minha

filha. Tudo o que eu quis foi que ela tivesse a oportunidade


de um futuro melhor. — Agora, anda de um lado para o

outro. — Como pode me chamar aqui, me deixar ter


esperança de que finalmente havia algo de concreto sobre

a minha garotinha e em seguida me acusar de vendê-la?

— Há uma filmagem em que você recebe um pacote

de dinheiro do seu ex-patrão. Vai negar isso?

— Não sei do que está falando. E que dinheiro é

esse? — Ele pausa, como se procurando na memória

qualquer coisa que remetesse à minha acusação. — A


única vez que recebi dinheiro das mãos do velho demônio

foi para fazer o pagamento mensal dos ilhéus. Quem


costumava ser o responsável por isso era Aristeu, o chefe
dos jardineiros, mas seu câncer havia piorado, então
aquele satanás pediu que eu distribuísse o salário dos

moradores naquele mês.

O que ele está me contando faz sentido, além de

nada em sua postura demonstrar medo. O que vejo ali é


culpa, mas se pudesse fazer uma aposta, ela deriva do fato

de, em nome da ambição, ter confiado em Argyros.

— Você pode ir, nossa conversa acabou.

— Há alguma pista sobre ela?

— Ainda estou investigando. Você será avisado se

descobrirmos algo.

Antes de tomar qualquer atitude, preciso falar com

Talassa. Por mais que eu acredite no que ele diz, só ela


poderá decidir se quer ou não os pais de volta em sua vida.
Grécia

— Acabei de falar com o pai dela. — Aviso, assim

que Grigori atende o telefone.

— E a que conclusão chegou?

— Ele está dizendo a verdade. O homem não teve


qualquer participação na venda da filha.

— Mas e o tal vídeo que Talassa contou que


assistiu?

— Ela era muito ingênua quando a levaram.


Provavelmente foi uma armação.
— É, ninguém pode acusar os albaneses de
jogarem limpo, mas eu só gostaria de entender a razão de

se darem ao trabalho de fazer o tal vídeo.

— Isso talvez não consigamos descobrir nunca.

— Eu preciso falar com ele. — Ouço a voz de Lara


ao fundo.

— Lara, quando você irá aprender a não escutar a


conversa alheia?

— Alheia uma ova, vocês estão falando da minha


amiga. É sério, russo, eu preciso falar com ele.

— Você ouviu?

— Sim, pode passar para ela.

Ouço-o lhe dando algumas instruções, antes dela

me cumprimentar.

— Yerik… huh…. oi.

— O que você quer, Lara? — Ela pode ser a melhor

amiga de Talassa, mas é irritante para caralho.


— Falar sobre o tal vídeo.

— O que sabe sobre ele?

— Você estava certo. Foi tudo uma armação.

— Porra, e você deixou que a sua amiga passasse

anos odiando os pais?

— Não, espera. Não é bem assim.

— Não é bem assim? Talassa acha que você a


protegia.

— Você não sabe de droga nenhuma. Não tem ideia


do que nós duas passamos. O que eu tive que fazer para

nos manter respirando.

— Lara, me entregue o telefone. — Ouço Grigori

pedir.

— Não, deixe que ela continue. — Falo. Algo me diz

que essa será a única chance de descobrir o que


realmente aconteceu a elas. — Nada justifica você ter
mentido para sua amiga. — Jogo, agora intencionalmente
esperando por uma reação.

— Eu não menti. Só soube que o vídeo era uma


fraude dois meses antes de Aleksander morrer. Gjergj se

gabou de que se soubesse que era tão estúpida, não

precisava ter providenciado a armação, pois ela não lhes


causaria problemas de qualquer modo. Nós os fizemos

acreditar que Talassa tinha dificuldade com a


aprendizagem. Fazia parte da nossa estratégia para

mantê-la segura. — Ela pausa, tomando fôlego. — Mas eu

ouvi uma conversa em que o monstro revelou o que faria


com ela quando o filho morresse. Sabíamos que não
levaria muito tempo porque sua última chance de

tratamento falhou. Naquele momento, percebi que

precisávamos pôr em prática nosso plano de fuga. Talassa

nunca aguentaria o que eu passei.

Ela parece um pouco mais calma, agora que


desabafou e apesar de me sentir culpado, eu preciso
saber. Então deixo que continue.

— Você não entende porque não a conheceu antes

do cativeiro. Ela era uma criança. Pura e muito inocente.


Se eu contasse que os pais a amavam, que nunca a

traíram, ela quebraria, mesmo depois de todos aqueles

anos. Acho que o que a impediu de desistir foi saber que

ninguém viria em seu socorro. Então sim, eu omiti a

verdade por um par de meses e não me arrependo. Faria


tudo novamente se o que estivesse em jogo fosse a

proteção da minha amiga.

— Mas por que eles fizeram o tal vídeo? —

Pergunto, moderando o tom agora.

— Eles queriam lhe tirar qualquer esperança,

convencendo-a de que foi vendida pelos pais.

— Por quê?

— Talassa, eu e o resto das meninas daquele grupo,


havíamos sido pré-selecionadas para ocupar o cargo de

companheira de Aleksander. Desde o começo, nunca


consideraram nos usar de outra forma, mas o rapaz era

doente. Precisava de uma parceira cooperativa, não uma

garota revoltada.

A história é tão inacreditável que só pode ser

verdadeira.

— O vídeo foi filmado depois que ela foi escolhida.

Talassa já havia concordado em seguir as minhas

orientações até conseguirmos um jeito de fugir daqueles

monstros, mas assistir o pai recebendo dinheiro do homem


envolvido em seu sequestro foi o que a convenceu de que

só tínhamos uma a outra.

— Então está me dizendo que se fosse você a

escolhida, eles também fariam um vídeo para que

pensasse que seus pais a entregaram?

— Não, no meu caso eles não precisariam armar

nada. Talassa veio de uma família amorosa, mas eu sabia

que a minha jamais moveria um dedo para me socorrer.


— Lara, por que você não se esforçou para ser a
selecionada e ficar com Aleksander nos Estados Unidos?

Presumo que teria sido mais… fácil.

— Porque ela ainda tinha um coração e alma para

serem salvos. Eu não.


Capítulo 36

Talassa

Atlanta — no dia seguinte

Esses dias distantes de Yerik foram necessários.

Com ele aqui, eu não consigo planejar. É tentador passar o


tempo todo sonhando acordada, mas perigoso também

porque posso criar uma armadilha em minha cabeça. Não

quero imaginar nós dois como um para sempre. Eu o amo,

isso é certo, mas não sei se o que ele sente por mim é algo
além de atração física.

Por mais intenso que seja o nosso relacionamento,

tenho que começar a pensar no futuro, então, tomei uma

decisão: quando tudo isso acabar, me inscreverei em um


colégio para cursar o segundo grau. Eu nunca cheguei a

fazê-lo e preciso começar a finalizar as partes da minha

vida que foram interrompidas. Depois, se tudo seguir o

rumo que espero, mais adiante entrarei para uma

universidade.

Quando era mais nova, minha alternativa ao sonho


de ser professora seria me tornar uma assistente social,

mas sendo realista, sei que não há mais qualquer

possibilidade disso acontecer.

Eu ainda não me permiti abrir a porta de tudo o que

vivi e lidar com outros seres humanos fragilizados também,


provavelmente não é uma boa ideia.

Sem poder usar a internet, pedi a Leonid, que


ultimamente mais parece a minha sombra, para que me

trouxesse jornais e revistas de cursos universitários. É, já


estou sonhando lá na frente.

Quero analisar as opções. Tenho facilidade para


línguas, então quem sabe possa me tornar uma intérprete?
Sim, esses planos não incluem Yerik, mas como
nunca conversamos sobre um relacionamento a longo

prazo, acho que as minhas decisões não devem ficar


dependendo dele.

Lara me disse outro dia que não quer mais estudar.

Pensa em sair pelo mundo com uma mochila nas costas.


Conhecer os lugares que sempre sonhou.

Ela não falou nada sobre irmos juntas. Talvez


porque desconfie que desejamos coisas diferentes. Ou

talvez porque nós duas precisemos viver um pouco os


próprios caminhos. Eu a entendo e não fico magoada

porque sinto o mesmo.

A única coisa que às vezes me deixa um pouco


insegura é que no momento em que Gjergj não for mais

uma ameaça, eu poderei partir. Não haverá qualquer razão


para que eu continue morando com Yerik.

Estarei sozinha no mundo.


Não sei nem quais são os primeiros passos que terei
que dar. Yerik disse que minha entrada nos Estados Unidos

se deu pelos meios legais. Os albaneses conseguiram um

visto de estudante, apesar de eu nunca ter chegado à


milhas de um colégio. O visto foi renovado uma vez, mas
está prestes a expirar. Yerik providenciou junto aos seus
advogados para que a minha documentação fosse emitida,

porque no momento, eu não tenho sequer carteira de


identidade.

Ele possui conexões dentro do departamento de

imigração americano e atestou que cheguei aqui com meu


passaporte grego, constando meu nome real.

Eu já sabia disso porque ao contrário das outras


meninas traficadas para o país, eu deveria posar de
companheira de Aleksander, logo, precisariam manter a
farsa. Até porque, aonde eu iria sem dinheiro ou

documentos? A única coisa que possuía era a roupa que


usava no dia e minhas lingeries. Eu não tinha sequer
acesso ao resto.

Chega, Talassa. Não pense mais nisso. Acabou.

Eu tenho tentado esse exercício diariamente.


Quando as memórias retornam, eu as empurro de volta,
mas às vezes sinto uma pressão no peito. É como se eu
estivesse prestes a explodir a qualquer momento. Tenho

medo de que isso aconteça quando eu estiver sozinha.


Quando Lara for viver a vida dela e o que eu e Yerik temos
chegar ao fim.

Esses pensamentos, que não importa o que eu faça,


volta e meia invadem a minha mente, têm me deixado
ansiosa demais.

— Cheguei, grega.

Leonid.

Ele me chama assim como uma tentativa de me


irritar, desde o incidente na boate.
Os rapazes têm vindo me checar na ausência de
Yerik, mas acho que Leonid foi especialmente designado

para ficar aqui comigo, embora muitas vezes nem


estejamos no mesmo cômodo. Não gosto mais de pessoas
o tempo todo à minha volta. Eu mudei. Aprecio o silêncio
agora.

Nesse ponto, eu e Yerik somos parecidos. Em várias


ocasiões, estamos juntos, abraçados, mas sem precisar
conversar. Às vezes, penso que ele me entende mais do

que eu mesma sou capaz.

Ouço passos subindo as escadas. Ele nunca vem ao

meu quarto, mas sabe que a essa hora estou lendo na sala
do segundo andar.

— Você está pensando em voltar a estudar? —

Pergunta, sem me dar um oi.

Seus braços estão carregados dos jornais e revistas

que pedi.

— Sim.
Ele me lança um olhar estranho.

— Quando?

— Quando tudo acabar e eu for embora daqui.

— Yerik sabe dos seus planos?

— Nós nunca conversamos sobre o… huh… futuro.

— Não acha que deveriam, antes de tomar qualquer

decisão?

— Eu não estou tomando uma decisão, apenas

verificando possibilidades.

— Sei…

— O que isso significa?

— Que apesar de não entender nada de


relacionamentos, acho que um casal deve conversar sobre

essas merdas.

— Deus, você é tão grosso.

— Não fui que chamei a Cindy de prostituta, grega.


— Eu não a chamei de prostituta. Só fiz uma

pergunta.

— Porra, foi muito divertido de assistir. Pena que o

estraga-prazeres do Yerik chegou bem na hora. — Ele olha


o relógio. — Ele deve estar aterrissando agora mesmo.

— Tudo bem.

— Você é diferente.

— Diferente como?

— As mulheres geralmente se jogam em cima dele.

Aperto os punhos, para segurar a irritação. Ele

continua.

— Para você parece que tanto faz.

— Só porque não ligo para ele de cinco em cinco

minutos não significa que não sinto saudade.

— Você sente? — Ele ergue uma sobrancelha,

rindo.
— Não é da sua conta. — Arremesso uma almofada
em sua direção. — Agora, me dê minhas revistas.

— Aqui estão. — Ele coloca a pilha ao meu lado. —


Como sou um cara muito legal, comprei também uma de

fofocas. Acho que vocês garotas curtem essas porcarias.

— Duas coisas equivocadas nessa sua afirmação

machista: você não é um cara legal e nem todas as


mulheres acompanham as últimas fofocas.

Apesar do que falo, deixo de lado todo o material


sobre estudo e vou direto para a revista de celebridades.

Ouço sua risada, enquanto ele desce a escada.

— Vou pegar coca-cola para nós dois e em seguida

você poderá me contar quem traiu quem em Hollywood.

Passo as páginas e descubro que uma herdeira,

Martina Oviedo[24], que aparentemente vem de uma família


bem conhecida aqui nos Estados Unidos, acaba de romper

o noivado com um príncipe italiano.


Deus, quem teria coragem de fazer algo assim? É

como viver um conto de fadas na vida real!

Passo mais páginas e vejo uma bolsa maravilhosa,

mas só pela cara de quem a está usando, sei que deve ser
caríssima.

A mulher é linda e tem um ar arrogante.

Loira e com os olhos azuis mais brilhantes que já vi.

Começo a ler a reportagem.

Tatiana Sidorov.

Será que é russa? Ucraniana? O sobrenome parece

russo.

E então, de repente, eu congelo.

Minutos mais tarde, ainda tento entender o que me

fez ler aquela reportagem inteira e a única resposta é que,

talvez por estar convivendo em um universo em que todos


são russos, a nacionalidade da mulher despertou o meu

interesse.
Saio do apartamento me sentindo sufocada.
Caminho até a piscina e me sento em uma das

espreguiçadeiras.

Deixei Leonid sozinho na outra sala com os dois

refrigerantes na mão. A revista aberta na página que fez o

meu mundo ruir.

Tenho que descobrir como seguir de agora em


diante. Não posso mais ficar aqui. Ele me enganou.

Eu não tranquei a porta do quarto.

Não vou negar que fiquei tentada, mas em seguida

me lembrei de que estou na casa dele e não ao contrário.


Então, quando vejo Yerik vir até mim, eu não lhe viro

as costas como sinto vontade de fazer.

— Talassa, você tem algo a me dizer?

Ele parece inabalável como sempre, enquanto eu


estou quebrando.

Puxo algumas respirações para me acalmar. A

mágoa rapidamente se transformando em raiva.

— Deixe-me ir para perto de Lara.

Faço o meu melhor para manter a voz firme. O


problema é que agora ele já me conhece bem demais para

enxergar como estou me sentindo.

Uma idiota completa.

Uma estúpida apaixonada por um homem


comprometido.

— Não.

A resposta curta e arrogante tem o poder de trazer

meu temperamento para a borda.


— Por quê? — Pergunto, enquanto me levanto. —
Quer prolongar sua despedida de solteiro, Pakhan?

Ele dá dois passos e me alcança. A mão segura


meu rosto, me fazendo encará-lo.

De forma infantil, fecho os olhos. Não quero que ele


me veja chorar. Eu passei o inferno e não chorei durante os

últimos anos, não farei isso agora.

— Olhe para mim, Talassa.

Eu faço, mesmo sendo a última coisa que desejo.

— Eu só deixarei passar o que disse porque você é

uma mulher. Se fosse um homem, já estaria morto a essa


altura, mas não fale comigo assim outra vez. Eu exijo o

mesmo respeito que ofereço.

— Você me respeita? Acho que não. Quem respeita


não engana.

Para meu desespero, as lágrimas represadas há

anos estão prestes a cair.


— Eu nunca a enganei, porra!

— Havia uma fotografia na revista de uma mulher

com um homem idoso. Ele afirmava estar de braços dados


com a futura esposa do seu neto, o CEO Yerik Vassiliev!

Mesmo com raiva, relembrar a reportagem me faz

pensar que há algo mais ali que me incomoda, mas

nervosa como estou, não consigo atinar o que é.

Ele ainda me segura e embora seu aperto não

esteja me machucando, gostaria de ir para longe.

— Eu vou fazer uma pergunta a você. Uma única e

isso vai determinar como será o nosso futuro.

Seu rosto agora parece esculpido em gelo. Não

consigo ler qualquer emoção.

— Você acredita em mim quando digo que nunca a

enganei?
Capítulo 37

Yerik

Eu pensei que já tivesse vivido todos os tipos de

merda até aqui. Superei a morte da minha irmã e anos

mais tarde, a dos meus pais. Assim, minha família próxima,

aqueles que realmente me conheciam, já não existe mais.

Caí em uma sensação de segurança confortável,

achando que nada mais seria capaz de me atingir de

verdade, mas agora, enquanto espero para que decida se

confia ou não em mim, todos os meus nervos saltam sob a

pele.

Eu me conheço o suficiente para saber que, por

mais que eu esteja louco por ela, não ficarei com uma
mulher que me considera um mentiroso.
Nunca precisei provar nada a alguém. Minha palavra

sempre bastou. Talassa não está só duvidando de mim,

mas de nós dois, mesmo depois de tudo o que aconteceu.

Eu a solto e dou um passo para trás. Não porque

temo machucá-la, mas porque seus olhos mais uma vez

me afogam e não posso recuar no que eu falei.

Sei que há uma grande diferença de idade entre

nós, mas desde que começamos a nos relacionar, não lhe

dei motivos para que pensasse que a estou traindo.

— O que importa no que eu acredito? Ambos

sabemos que não há qualquer futuro para nós dois.

Eu não sei de nada disso. Na minha cabeça, você já

é minha mulher.

— Responda à pergunta, Talassa. Você acredita

quando digo que nunca a enganei?

Ela está abraçando o próprio corpo, fragilizada,


todas as máscaras arrancadas.
Lembro do que Lara contou, mas principalmente,
vim da Grécia pensando no que ela não disse. Ambas

foram levadas de casa quando eram duas garotinhas. Não


tiveram chance de viver. Estou sendo um filho da puta

egoísta querendo mantê-la comigo? Porque eu já decidi


que é isso o que desejo.

Cheguei morrendo de saudade. Determinado a jogar

as dúvidas sobre ela não pertencer ao meu mundo para o


inferno. Pedir que aceitasse ser minha esposa. E então,

como se o destino estivesse me dando um aviso, surgiu a


maldita reportagem e em um passe de mágica, toda a

confiança que construímos nesses meses virou pó.

O silêncio dela me impele a falar.

— Não preciso mais de uma resposta.

Talvez, o melhor no momento seja nos afastarmos


um pouco. Minha cabeça está fervendo e a dela também e

se continuar aqui, a chance de que tudo exploda de vez é


maior. Tomo ainda mais distância, mesmo que o que eu
deseje seja trazê-la para os meus braços e mostrar que
nós dois somos certos juntos. Ela ainda se mantém

impassível, então continuo:

— Vou para o meu outro apartamento. Quero que


você fique morando aqui até que seja seguro sair. Só

voltarei quando estiver pronta para conversar.

Jamais desacelerei em relação a algo que eu


quisesse, mas por ela, abrirei uma exceção.

Na entrada da porta envidraçada, paro mais uma


vez.

— Sei que está com raiva de mim, mas prometa que


não se colocará em risco por conta disso. Vou lhe dar

espaço como prometi, mas não se exponha. Se acontecer


algo a você, eu incendiarei o estado da Geórgia, a porra do
país inteiro até encontrar quem a machucou.

— Por que você faria isso?

Sacudo a cabeça e volto a andar.


— Boa noite, Talassa.

— Por que você faria isso? — Ela pergunta outra


vez.

— Se você não descobriu até agora, talvez não


esteja pronta para a resposta.

— Não me trate como uma criança. Eu sou sua

mulher.

Congelo com as suas palavras.

— Tem certeza? — Volto a encará-la.

— Você sempre disse… você falou… — Ela


gagueja, se atrapalha, mas ou me dá o que eu quero ou
retomarei o meu caminho.

Mantenho as mãos nos bolsos da calça do terno


para não ceder à tentação de puxá-la para mim.

— Por que seu avô diria que você está noivo se não
fosse verdade?
— As razões dele não me interessam, Talassa. Isso
é sobre nós dois. Nosso relacionamento. O quanto sou

louco por você. Eu não desejo outra em minha cama ou em


minha vida. Ainda que isso faça de mim um monstro, eu
não quero que você vá embora. — Não planejei perder o
controle, mas toda a minha frieza desaparece quando
estou com ela. — Mas se não confia em mim, então acho

que essa conversa é um adeus.

Ela se aproxima, mas ainda parece hesitar.

— Eu sou sua mulher.

Porra, ela tem a capacidade de me enlouquecer de


mais maneiras do que eu gostaria. Ao mesmo tempo que
estou puto por minha palavra parecer não ser o suficiente,
é como uma facada no coração vê-la tão vulnerável.

— Eu sei disso. Não há uma gota de sangue no meu


corpo que não saiba que você é minha, Talassa. A questão

é: você sabe?
Ela dá mais um passo, colando a testa no meu
abdômen.

As mãos ainda não me tocam, no entanto.

— Eu tenho medo de não ser o que você precisa.


Nem mesmo sei o que é isso que temos, mas eu não quero
ir embora.

Passo os braços pelo corpo delicado, trazendo-a

para tão perto quanto é humanamente possível.

— Se fosse embora, eu iria atrás. Teria que me

convencer de que não me quer. — A fodida angústia da

quase separação joga para o alto minha prudência


habitual. — Eu nunca mentiria para você. Talvez chegue o

momento em que tenha que omitir com o intuito de


protegê-la, mas nunca mentirei.

— Eu fiquei tão magoada.

Ela está chorando e meu coração se contrai como

se alguém o estivesse apertando. Não faço ideia de como


consertar isso, então trabalho com a única ferramenta que

disponho — a minha honra.

Soltando-a, tiro a parte de cima do terno, a camisa e

a calça.

Ainda estamos do lado de fora do quarto, mas não

dou a mínima.

Ela me encara como se eu tivesse enlouquecido e

talvez eu tenha realmente.

— O que você está fazendo?

— Uma vez, você me perguntou sobre as minhas

tatuagens. Eu não disse sobre todas na ocasião, mas está


vendo essas estrelas em meus joelhos?

Ela concorda com a cabeça.

— Elas significam que nunca me ajoelharei para

ninguém. Que eu não me curvo a outro ser humano.

Eu me aproximo dela e me coloco em um joelho a

seus pés.
— Estou me curvando a você. Não posso ser
chamado de príncipe ou herói, mas sou seu. Case-se

comigo.

— Eu sou quebrada. Há pedaços de mim que não

podem mais ser colados.

— Eu também sou, mas quero você. De qualquer

jeito. Quebrada, inteira, feliz, triste. Eu quero você.

Ela se ajoelha também.

— Eu aceito. Estou com medo de fazer tudo errado,

mas aceito ser sua esposa.

— Antes mesmo de encontrá-la, esses seus olhos

de chocolate me chamavam.

— Você acredita em destino?

— Acredito, sim. Sei que estávamos destinados. —


Levanto e a pego no colo. — Vamos lá para dentro. Está

esfriando.
Sento-me na poltrona do nosso quarto ainda

segurando-a. Ela passou os braços em volta do meu


pescoço, como se estivesse com vergonha de que eu a

visse chorar.

— Sobre a reportagem, meu avô tem me

pressionado para escolher uma noiva. — Começo. — É

comum homens da minha posição dentro da Organização


se casarem por alianças políticas. Casamentos arranjados.

— Isso é inacreditável. Não estamos na idade


média.

— Sim e jamais me submeteria a isso. Ele sabe


sobre você e talvez a reportagem tenha sido mais uma

tentativa de me pressionar.

— E ele vai desistir assim tão fácil?

— É a minha vida e não tenho dúvidas de que meu

avô já percebeu que nada me fará mudar de ideia. É

somente teimoso demais para admitir a derrota.


Ela me dá um beijo, antes de falar.

— Quando aquela mulher… Cindy, disse que havia

dormido contigo, eu fiquei louca de ciúmes. — Ela não me


encara. — Logo depois, eu entendi que aquilo foi somente

sexo, mas assim que vi essa moça na revista, me senti

simplória e inadequada. Pela primeira vez me dei conta de


quem você é. De como nossas origens são diferentes.

— Nossas origens não significam nada, Talassa.

Não para mim. Não é essa a minha preocupação.

— Então, o quê?

— O fato de você não ter vivido sua juventude. A


vida que a esperaria lá fora quando tudo isso chegar ao fim

seria muito diferente da que eu tenho a oferecer.

— Isso tudo chegará ao fim algum dia?

— Sim, eu prometo. Não falta muito agora para que


se torne livre de ameaças… a dos albaneses, ao menos.

— O que isso significa?


— Você sabe quem e o que eu sou. Tenho muitos

inimigos. Quando nos casarmos, sua liberdade não será


total. Não poderá sair nas ruas como uma pessoa comum.

Haverá seguranças na sua cola a cada passo, vinte e

quatro horas por dia.

— Eu não me sinto presa em nosso relacionamento,

por mais louco que isso pareça. Eu sei o que é estar presa.
Quanto a ter uma constante vigilância em mim, é um alívio.

Eu tenho medo de voltar a viver normalmente. Acho que

jamais conseguirei não olhar por cima do ombro ou


relaxarei.

— Está me dizendo que não se importa em ser

monitorada?

— Sim, estou, mas não significa que aceitarei ficar

trancada, enfeitando sua casa como uma boneca.

— Nossa casa. E acho que devemos conversar

sobre uma coisa de cada vez. Há muito mais a ser dito,

principalmente sobre a minha viagem, mas não hoje. Eu a


pedi em casamento, mas sequer lhe dei um anel. Eu
pretendia fazer tudo direito e prometo que terá um, mas

agora, quero sua pele em mim.


Capítulo 38

Yerik

No dia seguinte

— Eu estava na Grécia.

— O quê?

Ela acaba de acordar e observa enquanto me visto.

Talvez eu esteja despejando muita coisa de uma vez só,


mas depois de todas as merdas que aconteceram ontem,

não quero mais segredos entre nós.

— Fui me encontrar com o seu pai.


— Como? Por que não me disse?

Sento-me na beira da cama.

— Você pediu que eu conferisse a história do seu


sequestro e eu fiz, mas eu não tinha certeza do que

resultaria a conversa. — Lembro do que Maxim me disse,

sobre deixá-la ver quem eu sou realmente. — Se ele a

tivesse vendido de fato, estaria morto agora.

— Você o…. ele está…?

— Não.

Posso ver a ansiedade se espalhando dentro dela.

— Eu não compreendo.

Não há como dizer o que preciso de uma maneira


suave.

— Foi tudo uma armação. Seus pais não a


negociaram. Ele a enviou para o que havia prometido:

somente estudar.
Ela tenta se levantar, mas eu a pego pelos quadris e
monto em meu colo.

— Não fuja. Divida o que está sentindo comigo.

— Eu não sei o que pensar. Eu passei todo esse


tempo odiando os dois. Oh, meu Deus!

Dessa vez ela não chora, mas está tremendo.

Eu acaricio suas costas. Nunca consolei alguém

antes, espero estar fazendo tudo direito.

— Eu conversei com Darius. Não sou o tipo de


homem que confia com facilidade, Talassa, mas sei que

seu pai está falando a verdade.

Chegou a hora de esclarecer parte de suas dúvidas.

Não falarei nada sobre Lara. Elas terão que resolver seus
problemas sozinhas.

— Quando eu a resgatei, foi a pedido da sua mãe.

Não, na verdade, foi a pedido do meu primo, Grigori. Ele


conheceu seus pais… bem, essa é uma longa história. O
que precisa saber é que eles tentaram encontrá-la, mas os
recursos que dispunham eram limitados.

— Por que você não me contou que mamãe foi


quem pediu que me salvasse?

— Era essa a minha intenção, mas houve dois


motivos que me seguraram. O primeiro é puramente
egoísta. — Não sinto orgulho do que vou revelar agora,
mas se quero mantê-la, preciso colocar as cartas na mesa.

— Eu pensei que você poderia me entregar informações


sobre os albaneses, uma vez que morou lá por tanto
tempo. Assim, seria uma boa jogada tê-la por perto por um
período maior.

Ela não parece chocada, mas decepcionada.

— Você queria me usar. Eu lhe daria as informações


de qualquer modo se me perguntasse. Eu o fiz, não foi?
Não devia qualquer lealdade àquele miserável do Gjergj.
Eu o mataria, se pudesse.

Seguro seu rosto, encarando-a.


Quero saber se disse aquilo no calor do momento.

Ela não desvia o olhar. E então, completa:

— Você não tem ideia do que Lara passou. Ela

nunca me contou os detalhes, mas eu ouvia as conversas


que eles achavam que eu não entendia. Não estou
brincando. O odeio o suficiente para matá-lo.

— Ele vai morrer, mas não quero que seja por suas
mãos.

— Por quê? Eu gostaria de fazê-lo sofrer e tenho


certeza de que Lara também.

— Porque se vocês fizerem isso, ele vencerá. Terá


modificado sua essência. Eu o farei pagar. Já estou além
do perdão perante Deus.

— Não fale assim.

— Sobre minha ideia inicial de usá-la. — Continuo,

tirando o foco da conversa do assunto que não estou


disposto a discutir. — A única coisa que posso dizer é que
esse é o meu mundo. As pessoas são como peças em um
tabuleiro de xadrez. Mas desde a primeira vez em que a

segurei em meus braços, não era mais sobre conseguir


informações. Não havia qualquer outro interesse que não
fosse você.

— Tudo bem. Eu acredito em sua palavra.

Sua cabeça repousa em meu peito.

— O que você quer fazer com relação aos seus


pais?

— Primeiro falar com eles ao telefone. Não estou


pronta para encontrá-los ainda.

— Providenciarei para que um aparelho igual ao que


usamos lhes seja entregue.

— Eles não correriam risco? Não quero que aqueles


homens machuquem a minha família.

— Tenho guarda-costas cuidando da segurança dos


seus pais.
— Como? Desde quando?

— Desde sempre. Eu sabia que os albaneses


tentariam uma retaliação. Que melhor maneira de atingi-la
do que matando seus pais?

— Mas por que você fez isso?

— Porque mesmo depois de você ter dito que


assistiu ao vídeo, eu não tinha certeza da autenticidade

dele. Meu primo contou que sua mãe não pareceu estar

fingindo, mas apesar disso, não tenho muita fé na alma


humana, então decidi verificar por minha conta.

— Tudo bem. Entregue o telefone a eles. Eu ligarei.


— Diz, mas parece muito ansiosa.

— O que está pensando?

— Eu quero falar com a minha mãe primeiro, se eu

puder escolher.

— Baby, você só fará o que quiser e quando quiser.


Mais tarde naquele dia

— O que você vai dizer ao seu avô?

— Nada que eu já não tenha falado antes: que nós


estamos juntos.

— Acha que ele desistirá de tentar casá-lo com a


russa?

— Farei com que desista.

— Como?

— Contarei que já tenho uma noiva.

Suas bochechas ficam vermelhas.


— É estranho passar de quase terminar ontem para
ser sua noiva. — Balança a cabeça. — Só depois que a

mágoa bateu, mas em um primeiro momento, eu quis dar


uns tapas naquela loira.

Jogo a cabeça para trás em uma gargalhada.

— Minha mulher é ciumenta.

— Eu sou grega. Não se esqueça disso. Tenho


sangue quente. — Apesar da tentativa de ameaça, ela está

sorrindo também. — Falando em ser grega, isso não seria


um problema? Porque aquela mulher é russa, não é?

— Sim. Todas as candidatas à esposa que Ruslan


selecionou para mim são russas.

— Quem?

— Ruslan, meu avô.

Ela fica pálida e se senta na cama.

— Hey, o que há?


— Eu sabia que havia algo que eu precisava

lembrar.

— Do que você está falando?

— Quando li a reportagem, ligou um alerta em mim,

mas eu estava tão zangada, que não consegui relacionar.

Agora sei o que é. O nome do seu avô. Que dia é hoje?

— Talassa, o que está acontecendo?

— Você precisa avisá-lo. Não sei os detalhes, mas

eu tenho certeza do que ouvi. Esse homem, Ruslan, seu

avô. Ele recebe uma homenagem em Moscou?

— Sim, ele é um patrono das artes. Todo ano, dia

três de novembro, às vésperas do Dia Nacional da


Unidade, ele discursa em um museu que ajudou. O lugar

só é conhecido pelos homens de confiança do Pakhan. Por


quê?

Na verdade, vários membros da Organização doam


milhares de dólares anualmente para assistência social e
artes. É uma boa forma de manter uma fachada de
legalidade.

— Porque eles planejam matá-lo.

— Como assim, você já sabia? E quando pretendia

me contar? Não é como uma ida ao parque, Ruslan, mas


da sua vida que estamos falando.

Ele ignora completamente minha raiva, o que só


piora meu estado de espírito.

— Você disse que descobriu através dela?

Não sinto vontade de incluir Talassa em qualquer

conversa com ele, mas aproveitarei para resolver de uma


vez por todas essa porra sobre sua declaração do meu

noivado com Tatiana.

— Sim. Como também me avisou da traição de

Oleg, de uma certa maneira.

— Como ela descobriu?

— Ela fala vários idiomas. Russo, inclusive.

— Uma mulher inteligente…

— Não seja condescendente. Você não está falando

de qualquer uma, mas da minha futura esposa.

— Eu já esperava por isso. — Responde, sem

aparentar surpresa.

— Esperava, como?

— Porque eu o conheço. Pode ter dado a desculpa

que quiser a si mesmo, mas sei que só a levaria para sua

casa se ela fosse alguém importante.

— E ainda assim deu aquela declaração à revista?


— Se não ia se casar com Tatiana ou qualquer uma
das minhas escolhidas, precisava que tomasse uma atitude

em relação à grega.

— Ela tem nome.

— Eu sei. Talassa. A deusa grega que era a


personificação feminina do mar. Então, você finalmente

ficou noivo? Meus parabéns.

Eu não esperava por aquilo. Nem o fato dele já

saber sobre o plano para assassiná-lo no dia do evento e


muito menos que viesse me cumprimentar pelo casamento.

— Sabe o que é pior? Você não tem a decência de


se mostrar envergonhado.

— Por que razão? Por dar um empurrão no meu

neto, para que pedisse à mulher pela qual está apaixonado

em casamento? Eu também fui teimoso assim com a minha


Íris.
Eu sei que quando sua mulher morreu — a

verdadeira, não as diversas amantes, incluindo a minha

avó — sua alegria de viver se foi junto com ela. Ele às

vezes divaga sobre o passado, principalmente da época


em que ela ainda vivia. Apesar de ser solidário à sua dor,

foi o que ele disse no início o que me prendeu.

A mulher pela qual está apaixonado.

Então é isso o que eu sinto? Parece tão pouco para


descrever a forma meteórica como ela passou a ser o

centro da minha vida.

— Você ainda está aí?

— Sim, estou.

— Quando será o casamento?

— Nós não acertamos os detalhes ainda. Eu preciso

fechar algumas portas antes de oficializar nossa relação.

— Os malditos albaneses.

— Sim.
— Estou voando para os Estados Unidos dentro de

duas semanas para conhecê-la. Acha que é tempo o

suficiente?

— Espero que seja mais do que suficiente.

— Tudo bem. Mantenha-me informado.

— Ruslan?

— Sim?

— Quando você teve certeza de que amava sua

Íris?

— Você ainda tem dúvidas sobre o que sente por

sua noiva?

— Não. Eu sei que é ela. Não me imagino passando

o resto dos meus dias com outra, eu só não consigo dar

um nome a isso.

— Filho, você acaba de definir o amor.


Capítulo 39

Talassa

No dia seguinte

— Quando você pretende ligar para os seus pais?

Fico olhando para Yerik, sem conseguir dizer nada.

— Linda, o que está acontecendo?

Vou espontaneamente para seus braços e escondo


o rosto em seu peito.

— Estou com medo.

— Medo do quê?
— De que eles não me reconheçam mais como sua

filha.

— Como assim? Talassa, ninguém esquece um

filho.

— Não estou falando de terem deixado de me amar,

Yerik, mas nós perdemos a conexão. — Respiro fundo. —

Eu passei muito tempo os desprezando. E se eu não

conseguir mais me aproximar deles emocionalmente como

antes?

— Baby, se ainda não se sente pronta para ter essa

conversa, deixe-me saber e avisarei à sua mãe. Tenho


certeza de que ela compreenderá, mas se quer um

conselho, ligue. Quanto mais adiar, mais difícil será.

Ele fica em silêncio e sei que quer me dizer algo,

mas não sabe como.

— Eu o decepcionei?
— Não. Você não precisa esconder o que é ou o que
está sentindo comigo, Talassa. Mas há algo que eu li a

respeito de sua… situação e gostaria de conversar.

— Minha situação? Eu não estou entendendo.

Pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele

parece pisar em ovos em uma conversa.

— Por todo esse período em que está comigo, você

age como se o que passou não a tivesse atingido


profundamente, mas nós dois sabemos que isso não é

verdade. — Ele pausa. — Deus, eu sou uma merda


tentando ajudar.

— Não, fale. Eu quero ouvir o que tem a me dizer.

— Eu pesquisei sobre mulheres que sofrem abusos


psicológicos por um período prolongado, como no seu

caso. Por mais que eu sempre vá estar aqui para você,


talvez isso não seja suficiente.
— Você está sugerindo que eu procure um
psicólogo?

— Eu não sei. Talvez. Não entendo dessas coisas,


mas não quero que guarde tudo para você e já que não
parece confortável em compartilhar comigo, eu pensei que

talvez…

— Se não conto nada do meu passado, não é


porque não confie em você, mas por não querer me

lembrar. Talvez você tenha razão e eu busque ajuda algum


dia, mas não estou pronta ainda.

— Mesmo que não procurar ajuda afete sua relação


com seus pais?

— Você acha que afetaria?

— Não sei. Eu não sou o tipo de homem que se


arrepende de algo que tenha feito e até conhecê-la, nunca

me preocupei se minhas atitudes feririam alguém, mas


você não é assim. Sua essência é boa e eu não quero que
se mantenha longe de sua família por algo que não foi
culpa de nenhum de vocês.

— Por que você se preocupa?

— Porque família é importante. Eu me afastei dos


meus pais por circunstâncias do passado. Quando a minha
irmã morreu, houve uma ruptura. Na verdade, quase que
pelo mesmo motivo que você teme agora: eu não poderia

ser o filho que eles esperavam que fosse. Só que hoje eu


vejo que talvez isso não tivesse importância. Eles me
amariam de qualquer jeito. Não tenho como consertar a
relação com a minha família porque estão todos mortos,
mas você, sim.

— Obrigada por se preocupar comigo. Eu vou


pensar a respeito. Ainda me sinto muito insegura. —

Confesso. — O que eles sabem… huh… o que pensam de


nós dois?

Assim que mandou entregar o telefone para os


meus pais, ele disse que ligou e os avisou que eu havia
sido encontrada e estava sob sua proteção, mas não me
explicou em detalhes essa conversa, então não faço ideia

do que mamãe e papai estão pensando.

— Nada. Eu não contei sobre nosso relacionamento,


primeiro porque achei que deveria ser você a lhes dizer,

mas principalmente porque não é o tipo de conversa para


se ter por telefone. Quando os encontrarmos, daremos
juntos a notícia sobre o casamento.

Ele me presenteou com um enorme anel de


diamante, mas apesar de ser lindo, é somente um símbolo.
O que eu sinto é o que conta.

— Obrigada.

— Pelo quê?

— Por respeitar meu tempo e me deixar decidir. Eu

ficaria muito sem jeito se tivesse que falar pela primeira vez
com minha mãe em anos e ela já soubesse que estou
noiva. Antes de sair de casa, eu nunca havia namorado.
— Não me importo que os outros saibam, desde que
você se lembre de que é minha.

Beijo sua boca, passando a língua em seu lábio


inferior e aquilo rapidamente me deixa ligada. Eu ando

muito sensível. Com vontade de transar nas horas mais


loucas, como agora, por exemplo, após uma conversa tão
séria e quando ele já estava prestes a sair.

— Eu sei disso. Sou sua porque quero ser.

Ele adora ouvir isso e a intenção era mesmo


provocá-lo.

Como esperava, me deita na cama, a mão por baixo


da camisola, fazendo um caminho lento e torturante até a

lateral da minha calcinha.

— E o quanto você gosta de ser minha?

Estou me esforçando para entender a pergunta,


enquanto sinto seu dedo acariciar o centro das minhas

coxas, sem, no entanto, tocar onde eu quero.


Remexo-me, tentando me ajustar e ele ri. Desistindo

de esperar, abro seu cinto, descendo a calça e boxer do


jeito que consigo.

— Com pressa?

— Preciso de você em mim. Por favor.

Vejo seu maxilar trincar e assim eu sei que ele

estava se controlando, mas tão louco de desejo quanto eu.

— Porra, Talassa, sabe que me deixa louco quando

pede para ser comida.

Ele tenta se afastar para tirar minha calcinha, mas

eu não permito.

— Não, assim mesmo. Vem aqui. — Imploro,

puxando-o pela bunda.

Grito quando ele entra em mim e prendo as coxas

em volta da sua cintura.

— Jesus Cristo, como é possível ficar sempre

melhor, linda?
Ele rasga minha calcinha e depois a camisola para
conseguir mais acesso. A boca faminta capturando um

mamilo.

Meus seios estão doloridos e começo a acreditar

que a possibilidade de gravidez seja real.

— Ahhhhhh….

— Tão doce. Eu nunca consigo ter o suficiente de


você.

Nosso ato sexual é sempre intenso, beirando o

doloroso. O desejo de ambos nos impulsionando para um

prazer sem limite.

— Olhe para mim. Nunca deixe de olhar para mim

cada vez que eu estiver dentro de você.

— Eu não conseguiria desviar, nem se eu tentasse.

— Porque você é minha.

— Sim. Oh, Deus!


Seu dedo massageia meu clitóris, alternando toques

leves e outros mais ásperos. Muito rápido, ele me carrega


para nosso próprio universo, me arrastando para uma

nuvem de prazer. Só então se permite alcançar o próprio

orgasmo.

— Vou gozar dentro de você. — Avisa e logo em

seguida, sinto-o me encher, seu calor líquido se


espalhando em meu interior.

— Eu acho que isso não fará mais diferença agora.


— Digo, segundos depois. Ele ainda me segura, mantendo-

se dentro de mim.

Levanta a cabeça, procurando a confirmação do que

acabei de dizer.

— Tem certeza?

— Ainda não, mas há uma grande chance, sim.

Ele recomeça a se mover e para meu espanto, sinto-


o endurecer, a sombra de um sorriso repleto de orgulho
masculino se desenhando.

— Minha. — Repete, enquanto recomeça a nossa

dança.

Dois dias depois

— Lara? Eu preciso falar com você. É sobre meus


pais.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sim.
A voz de minha amiga soa derrotada, o que foge

totalmente do seu jeito de ser.

Irritadiça, brigona, otimista, mas nunca derrotada.

— O que aconteceu? Grigori fez alguma coisa?

— Não. — Ela suspira. — Você quer me falar sobre


o vídeo do seu pai, não é?

— Sim. Como sabe?

— Porque eu conversei com Yerik há alguns dias.

Ele me contou que esteve na Grécia.

— Lara, você falou comigo a semana toda. Por que

não me disse que sabia que o vídeo era falso?

— Eu estava criando coragem.

— Coragem para quê?

— Não queria estragar sua alegria e também fiquei


com vergonha.

— Não estou entendendo nada.


Contei que Yerik me pediu em casamento. Depois
de me fazer um mini interrogatório sobre se eu sabia onde

estava me metendo, ela finalmente disse que estava feliz

por mim. Só que não parece nem um pouco feliz agora.

— Eu tenho uma coisa para revelar, mas sinto medo

de que você me odeie depois.

— Lara, eu nunca poderia odiá-la. Você sempre será

uma irmã para mim.

— Eu menti para você, Talassa. Eu ia esperar para


contar tudo quando nos encontrássemos, mas não consigo

mais guardar isso. Nem tenho dormido direito.

— O que aconteceu?

— Eu já sabia que o vídeo do seu pai era falso antes

mesmo de Aleksander morrer.

— Como? Por que não me disse a verdade, então?

— Eu ouvi uma conversa de Gjergj. E quanto ao

porquê, achei que aquilo a enfraqueceria. Que sua cabeça


poderia entrar em parafuso e começasse a sentir pena de

si mesma. Desde o início, você perdeu as esperanças de

que seus pais a resgatassem. Aquilo foi sua força. Nós

tínhamos que lutar juntas para sair dali. Não havia mais
ninguém que pudesse nos salvar além de nós mesmas.

Absorvo o que diz, tentando encontrar uma parte de

mim que se sinta traída por sua omissão, mas não consigo.

Eu sei que Lara é uma das pessoas que mais se importa


comigo.

— Fale alguma coisa.

— Eu a perdoo.

— Não mereço seu perdão. Amigos não mentem

uns para os outros.

— Em um mundo perfeito, talvez, mas nós vivíamos

em meio a monstros. Você fez o que julgou ser certo. Não

direi que não estou abalada. Achei que nós éramos


absolutamente honestas uma com a outra, mas não sinto

raiva. Eu te amo, Lara. Gostaria que estivesse aqui comigo.


Ela demora um pouco para responder e acho que

está chorando.

— Grigori disse que me levará. É uma questão de

dias até que todos os nossos problemas estejam… huh…

resolvidos.

Ambas sabemos o que aquilo significa.

Até que Gjergj esteja morto.

— Eu tenho que ir. — Não quero desligar ainda, mas


preciso ficar um pouco sozinha. — Nos falamos amanhã,

tudo bem?

— Sim, tudo bem. — Responde.

No momento em que encerro o telefonema, tomo

uma decisão. Estou cansada de fugir do que me machuca.

Está na hora de começar a crescer.

Tremendo, aperto a tecla de discagem rápida que

corresponde ao número dos meus pais. Chama apenas


duas vezes antes que ela atenda.
— Mamãe, sou eu.
Capítulo 40

Talassa

— Talassa?

— Mamãe, sou eu sim.

Eu tenho me programado há dias para manter a

calma. Disse a mim mesma que sou uma adulta agora e

não mais a garotinha que foi sequestrada há quatro anos,

no entanto, na hora que a ouço chamar meu nome, tudo

está perdido.

Um choro convulsivo toma conta de mim e preciso


me sentar porque perco as forças das pernas.

Como se fosse um reflexo meu, escuto seu pranto

contido.

Ela sempre foi assim.


Sofria em silêncio, sonhava para si mesma.

É um traço que temos em comum — ou tínhamos,

até o meu pesadelo começar.

Meu pai é um homem duro, frio. Já minha mãe, é

suave como seda, apesar da vida sacrificada que sempre

levou.

— Eu sinto muito. Não era pra ser assim. — Falo,

tentando acalmar a nós duas.

— Eu sabia que a veria novamente.

— Sabia?

— Sim. Mesmo quando todos diziam para que


perdesse a esperança de reencontrá-la, eu sabia que ainda

estava viva.

— Continue falando. Eu preciso ouvir.

— O quê?

— Que sentiram minha falta. Que sou importante


para vocês.
— Importante? Filha, você é o meu mundo inteiro.
Não se passou um dia em que eu não pensasse e rezasse

pela sua volta.

— Eles mentiram. — Digo entre soluços, me


sentindo novamente uma criança. — Disseram que vocês

não me queriam mais.

— Talassa, eu não sei muito sobre o que aconteceu,

aquele homem que esteve com seu pai em Atenas não nos
deu detalhes, mas você precisa acreditar que nunca

faríamos algo assim. Se o seu pai errou, foi sonhando com


um futuro melhor para a única filha.

Pelo canto do olho, vejo Yerik entrar no quarto. Eu

havia combinado esperá-lo para telefonar, mas ou fazia de


uma vez ou perderia a coragem.

Ao me ver chorando seu rosto se transforma em


uma máscara de ira.

— Quem é?
Faço que não com a cabeça, ao mesmo tempo em
que estico a mão para ele.

— Eu acredito na senhora.

— Quando eu poderei vê-la? Onde você está?

— Com ele. — Respondo simplesmente e sei que


ela compreende.

— Vocês estão juntos? — Não há crítica em sua


voz, apenas preocupação.

— Sim, mamãe. Eu explicarei tudo com calma. Eu


só queria ouvir sua voz.

Ele me pega no colo, me mantendo apertada contra


seu corpo.

— Eu queria pedir.... agora que a senhora sabe que


está tudo bem, que tenha um pouco de paciência. Yerik
conseguirá dar um jeito para que nos encontremos em

segurança. Não quero colocá-la em risco.

— Você quer dizer... que ainda corre perigo?


— Não, mamãe. Não é comigo que estou
preocupada. Estou protegida aqui e vocês também estarão,
se me ouvirem. Yerik pôs homens para cuidarem de vocês

aí na ilha. Essas pessoas que me levaram são vingativas.


Por favor, não se exponham. Peça para o meu pai não
fazer nada também. As autoridades não irão ajudar. Meu
namorado já tem tudo sob controle.

— Nós podemos nos falar amanhã novamente


então?

— Sim, podemos nos falar todos os dias até nos


reencontrarmos.

— Seu pai... ele gostaria de ouvir sua voz também.


Não está aqui no momento, mas tenho certeza de que
deseja muito conversar com você.

— Podem me ligar amanhã.

Um silêncio constrangido se instala entre nós. Ao


mesmo tempo que sabemos tanto uma da outra, há um
abismo de anos de ausência nos separando.
— Talassa?

— Sim, mamãe?

— Eu amo você, filha. Nada mudou. Você sempre

será a minha garotinha.

— Eu também te amo, mãe. — Digo, antes de

desligar.

Largo o telefone em cima da cama e passo os


braços em volta do pescoço dele. Não sei por quanto

tempo fico chorando, mas Yerik não me solta e nem


afrouxa o aperto.

— Você é tão forte, baby. Minha menina corajosa.


— Fala, acariciando meus cabelos.

— Não sou. Eu não deveria ter chorado.

— Não há nada de errado em chorar.

— Você não chora. Quero ser assim também.

— Talvez eu só tenha desaprendido, mas isso não


significa que eu não sinta.
— Sinta o quê?

— Esse amor louco por você. Medo de perdê-la ou


de estar sendo egoísta ao arrastá-la para o meu mundo.

— Você não me arrastou. Talvez as circunstâncias


tenham trabalhado para que eu conhecesse uma vida
diferente da que eu imaginava, mas permanecer ao seu

lado é uma escolha. Eu quero ficar.

— Meu avô me disse outro dia que desde o começo,

sabia que eu estava apaixonado, mas não acho que amor


seja uma palavra forte o suficiente para explicar o que você

significa para mim.

— Você pode não ter muito treinamento nisso de se

declarar, mas é bom com as palavras, Pakhan. Se já não


tivesse conquistado meu coração, eu me renderia agora.

Ele se deita na cama e me puxa para cima do seu


corpo.
— Tudo faz parte de um plano para prendê-la

comigo para sempre. Romance, presentes e muito sexo. —


Diz, meio sorrindo, meio falando sério. — Como você está

se sentindo?

— Estou bem agora. É só muita emoção para lidar

de uma vez só depois de tantos anos reprimindo, sabe? —

Levanto a cabeça para olhá-lo. — Espera, ainda é muito


cedo para você estar em casa. Aconteceu alguma coisa?

— Pensei... hum... agendei uma consulta com um

obstetra. Acho que já passou da hora de confirmar se está

mesmo grávida. Eu vim buscá-la, mas se não estiver


disposta, remarcamos para um outro dia.

— Veio para casa só para isso? Eu pensei que


algum dos rapazes me acompanharia.

— De jeito nenhum. É nosso filho. Vamos fazer isso


juntos.

— Eu te amo, Yerik. Você consegue fazer com que


eu o ame mais a cada dia.
Duas horas depois

— Teremos a confirmação amanhã. O resultado do

exame de sangue não demora mais do que um dia, mas


todos os sintomas indicam uma gravidez.

Ele segura a minha mão enquanto o médico


continua a falar. Tento aparentar calma, mas estou muito

nervosa. Até chegarmos aqui, a possibilidade de estar


grávida não havia me assustado, mas agora milhões de

dúvidas inundam a minha mente de uma vez só.

A voz do médico parece vir de muito longe.


Eu me viro para observar meu futuro marido. O perfil

forte e o nariz um pouco torto, que ele me disse já ter sido


quebrado mais de uma vez em brigas quando era

adolescente. O cabelo cheio e desarrumado. Os ombros

retos, que ostentam uma postura sempre alerta.

O médico não tem ideia, mas Yerik não só está

prestando atenção às suas explicações relacionadas à


minha gestação, ele o está estudando, verificando o quanto

é competente para cuidar de mim e de nosso filho.

Eu já aprendi muito sobre o meu noivo e sei que não

dá um passo sem criar uma estratégia antes. São poucas


as pessoas dignas de sua confiança. Ele precisa controlar

tudo.

O que para algumas mulheres poderia incomodar,

para mim traz segurança porque o seu controle não obriga,

não sufoca, não machuca. É uma garantia de que não


importa de onde parta a ameaça, ele me protegerá.
Depois que começamos o nosso relacionamento, eu
consegui voltar a dormir a noite inteira.

Nos três anos que passei em poder dos albaneses,


eu jamais relaxava. Mesmo na presença de Aleksander,

sabia que se algum daqueles homens tentasse me fazer

mal, eu não teria a menor chance de me defender.

Como se percebesse que me perdi em


pensamentos, ele olha para mim. A mão enorme apertando

minha perna, provavelmente notando o quanto estou

assustada.

Não é medo da gravidez em si, mas de não

conseguir ser uma boa mãe.

— Acho que acabamos aqui, doutor. — Ele diz ao

médico, tomando a decisão de encerrar a consulta. — A


que horas sairá o resultado amanhã?

— Acredito que antes do almoço já teremos a


confirmação.
— Não vamos para casa?

— Não. Há algo que desejo lhe mostrar, mas primeiro


quero que me diga por que estava tão pensativa lá dentro.

Olho para fora da janela, enquanto o motorista dirige

pelas ruas de Atlanta.

— Converse comigo, Talassa. — Ele insiste.

— Se eu estiver mesmo grávida, você acha que serei

uma boa mãe?

— Você acha que serei um bom pai? — Ele me devolve,

ao invés de responder.
— Também está inseguro?

— Linda, é o nosso primeiro filho. Nenhum de nós sabe

o que fazer com um bebê, então é claro que estou

preocupado. Mas apesar disso, não duvido nem por um


instante que tudo dará certo. Estamos juntos nisso.

Recosto-me em seu ombro, permitindo que o calor do

seu corpo me acalme.

— Às vezes eu me sinto como uma idosa. Minha cabeça

não é a de uma garota de vinte anos, sabe? A necessidade


de aprender a sobreviver, me amadureceu mais depressa

do que seria normal. Por outro lado, há situações em que

ainda me sinto uma criança.

— Como o que, por exemplo?

— Você foi meu primeiro tudo. Só não me deu o primeiro

beijo, mas fora isso, foi o único relacionamento real que

tive.
Ele fica em silêncio e quando levanto a cabeça para

olhá-lo, seu rosto está fechado. Eu sei a razão.

— Não eram beijos espontâneos. Eu estava ali contra a

minha vontade. Agora, sou sua porque quero ser. Nunca

esqueça disso.

— Desculpe-me por agir como um idiota, mas pensar

que foi mantida prisioneira por tantos anos é mais do que a


minha mente consegue lidar.

— Então não tem nada a ver com ciúmes? — Provoco,

tentando diminuir seu mau humor.

Ele abaixa e morde meu lábio inferior.

— Tem tudo a ver com ciúmes também.


Capítulo 41

Yerik

Vassiliev Empreendimentos Imobiliários

— Por que você me trouxe aqui?

— Para conversarmos sobre o futuro e também

porque essa é a parte… legítima da minha vida

profissional.

Estamos no alto do arranha-céu no qual se localiza


a sede das minhas empresas. Enquanto ela anda pela

sala, aproveito para admirá-la.

— Eu gosto desse lugar.


— Gosta?

— Sim, mas colocaria uns porta-retratos para trazer

um pouco mais de calor ao ambiente.

— Eu sou russo. Gosto de tudo muito frio. —

Provoco.

— Você gosta de mim. Eu sou grega e muito

esquentada.

— Não tenho como negar. Nem que você é

esquentada e nem que gosto muito de você.

Ando até ela e a prendo em meus braços.

— Obrigada por isso. Não aguento mais ficar


trancada em casa. Até um passeio simples me anima.

— Terá sua liberdade de volta em breve, mas nós já

conversamos sobre os cuidados que deverão ser tomados.


Pensei em marcarmos o casamento para logo depois que

você reencontrar seus pais. Analisei e acho que


deveríamos ligar juntos para eles e falar sobre o noivado.
Preparar o terreno para que não sejam pegos de surpresa,
afinal, quanto mais cedo nossa relação for legitimada aos

olhos do mundo, mais protegida você estará.

— Tudo bem. Não acho que meus pais irão se opor.


Quanto ao que disse sobre a minha segurança, não sou

uma rebelde, Yerik. Quando falo em liberdade, quero dizer


ir a um restaurante, museu, coisas bobas assim.

— Estudar?

— Claro, eu já havia contado sobre isso, lembra?

Mas agora com o bebê, talvez tenha que esperar.

— Talvez não. Poderia concluir o segundo grau


online mesmo. Em seguida, planejaremos o próximo passo.

Mesmo se estiver grávida, diversos colégios de prestígio do


país oferecem excelentes cursos não-presenciais.

— E sobre a minha documentação?

— Já está quase tudo pronto. Seria necessário para

o casamento, de qualquer modo. E assim que você for


legalmente minha, entrarei com um pedido de Green Card.
Eu sou naturalizado americano, tenho dupla cidadania,

então será mais fácil regularizar sua situação.

— Tomara que dê tudo certo. Então está pensando


em um casamento só no civil?

— Do jeito que você quiser. No entanto, se fizermos


uma grande festa, isso demandará maiores cuidados com
a segurança.

— Não, quero algo simples. Só os rapazes, meus


pais e Lara. Você já sabe quando ela virá?

Sorrio.

— Daqui a dois dias.

— Meu Deus! E você só me conta isso agora? —

Ela pula em meus braços. — Melhor presente de


casamento que eu poderia receber.

— Esse ainda não é seu presente de casamento.


— Para mim, é. Com você, Lara e meus pais aqui,
meu mundo estará completo.

— Você sentirá falta deles? Quero dizer, nós


ficaremos nos Estados Unidos, praticamente do outro lado
do mundo.

— Mas poderemos visitá-los, não é?

— Sim, mas não é a mesma coisa que morarmos


perto.

— Eles podem vir ficar um tempo conosco?

— Sim, providenciarei um lugar para instalá-los,

assim como a Lara.

— Pensei que ela ficaria no nosso apartamento.

— Não vou mentir, acho sua amiga irritante, mas por


você, até suportaria sua presença. Quando sugeri isso, no
entanto, ela falou que preferia ficar em outro lugar e

apenas visitá-la.

— Lara não mencionou nada disso.


— Talassa, tudo o que Lara precisar, você tem carta
branca para providenciar. Não acho que ela aceitará

favores de mim, mas com você é diferente, então qualquer


coisa que achar necessário — médicos, roupas, estudo —
ela poderá ter.

— Ela anda estranha, mais distante.

— As pessoas não são iguais. Reagem de maneira

diferente a uma mesma situação. Talvez ela só precise de


um tempo para alinhar a própria mente.

— Ela também terá seus documentos, certo?

— Sim, já foram enviados. Passaporte com um visto


de estudante, inclusive.

— Obrigada. Ela é muito importante para mim.

— Eu sei.

Fico em dúvida sobre se devo contar a ela o pedido

que Lara fez a Grigori, mas decido que deixarei que elas
mesmo se acertem.
— Quanto à sua documentação, conversei com
nosso advogado hoje e ele acha mais seguro trazer seus

pais para cá do que você ir à Grécia antes do casamento.


Porque se sair, pode ser que não consiga voltar tão rápido
por conta do seu visto.

— Mas meus pais nunca viajaram. Eles sequer têm


passaporte.

— Terei alguém organizando tudo e quanto à

viagem, eles virão em meu avião particular com todo o

conforto.

Ela abre e fecha a boca, até conseguir formar uma

frase.

— Você tem um avião?

— Sim, não gosto de voos comerciais.

— Desculpe se estou agindo como uma idiota, mas


é que na maior parte do tempo eu esqueço quem você é.
— Seu homem? Como pode esquecer disso? —

Brinco, mordendo sua orelha.

— Estou falando sério.

— Eu também. Antes de qualquer coisa, sou seu.

Ela me abraça e parece um pouco mais calma.

— Você pensa em trabalhar quando terminar seus

estudos? — Pergunto com cautela.

— Eu nunca planejei isso. Antes eu não… huh…

tinha qualquer perspectiva de futuro. O que eu faria se


decidisse por uma profissão? Estou tão perdida. Nunca tive

um emprego.

— Nós temos um ótimo programa de trainee aqui.

Seria muito bom se um dia pudesse vir trabalhar comigo.

Ela dá dois passos para trás e me encara.

— Você está falando sério?

— Estou sim.
— Oh, meu Deus! Agora é que estou mesmo
empolgada para voltar a estudar.

Eu já havia pensado nisso. Por mais que goste da


ideia de Talassa em casa, protegida e cuidando dos nossos

filhos, todo mundo precisa de um objetivo na vida. Ela é


inteligente demais e merece uma chance de andar com as

próprias pernas.

— Se eu estiver grávida mesmo…

— Você está.

— Como sabe?

— Porque eu quero que esteja.

Ela revira os olhos.

— Certo, Pakhan. Mas como eu estava dizendo,

assumindo que eu esteja grávida, terei que me organizar


não só em relação aos estudos, como também para depois

que o bebê nascer.


— Colocarei tantos funcionários quanto precisar

para auxiliá-la.

— Sim, porque eu vou ter uma carreira. — Repete

com o sorriso mais lindo da porra do mundo inteiro. A


felicidade dela é a minha também.

— É isso aí. — Digo, puxando-a de volta para os


meus braços. — Não tenho dúvidas que você se sairá bem.

Tenho outra novidade. Pode acessar a internet a partir de

hoje.

Logo cedo, finalmente recebi a notícia de que

Romano já está com Gjergj em seu poder. A troca dele por


Behar será feita hoje à noite, o que significa que amanhã

de manhã, já estaremos com o maldito albanês na fazenda.

— Como? O que mudou?

Fico em dúvida sobre o que responder, mas opto

pela verdade.

— Nós o pegamos.
— Gjergj?

— Sim. Ainda não temos tudo… finalizado, mas já

não há nada que ele ou aqueles que o cercavam possam


fazer para prejudicá-la.

Ela anda até uma poltrona e se senta.

— Lara já sabe?

— Acredito que não. Grigori preferiu manter

segredo. Ela é instável, como você deve saber.

— Por que Grigori se importa?

— Não tenho certeza, mas acho que há algo


acontecendo entre os dois.

— Ela não me contou nada.

— Não sei o que dizer, homens não fazem

confidências sobre relacionamentos.

— Não tem importância. Amanhã nós duas


conversaremos. — Pausa, parecendo sem jeito. — Yerik,

se ela me perguntar, não vou mentir sobre Gjergj. Lara


merece saber que o miserável não poderá mais machucá-

la.

— Tudo bem, desde que a convença a não fazer

besteiras.

— Eu vou tentar. — Responde, parecendo não ter

certeza. — E assim que voltarmos para casa hoje,


começarei a pesquisar colégios online.

— Não vai não. Quando chegarmos em casa, vou


tirar sua roupa e passar muito tempo dentro de você.

Suas bochechas coram, mas ela não recua.

— Por que precisamos esperar chegar em casa?


Na manhã seguinte

— Então está confirmado mesmo? Precisaremos


voltar? Sim, tudo bem. Falarei com ela.

É real. Nós fizemos isso.

Há uma vida, um fruto de nós dois a caminho.

Eu não tinha ideia de que a perspectiva de ter um

filho me faria sentir completo. E eu sei que é porque é com

ela. Com a mulher que desejo passar o resto dos meus


dias.

Saio do banheiro e vejo que ainda dorme. O médico

disse que esse é um dos sintomas mais comuns na

gravidez. Sono excessivo.

Eu me aproximo da cama e puxo o lençol. Ela está


nua e linda.

Minha.
Depois da nossa sessão de sexo no escritório,

continuamos aqui em casa. Mesmo exausto, eu quis ficar o

resto da noite apenas segurando-a.

Talassa derrubou todos os meus muros. Ela se

tornou a minha vida e agora, trará meu filho ao mundo.

Qualquer cara regular estaria fazendo planos de

comprar uma casa maior ou até mesmo os arranjos

necessários para a chegada do bebê.

Eu não sou um cara regular.

No momento, sou um homem obcecado em proteger

minha família e para isso, vou cortar todas as pontas


soltas.

A hora de Gjergj morrer chegou.


Horas depois

— Yerik, precisamos conversar. — Maxim diz assim

que atendo.

— O que aconteceu? Algo deu errado sobre a

entrega de Gjergj?

— Não, seu convidado está na fazenda. Também já

mandamos Behar para Romano. Quem diria que nós e os

italianos trabalharíamos lado a lado?

— Não exagere, foi uma situação única.


— Não penso assim. Tenho uma ideia para um
acordo futuro, inclusive envolvendo Juan Angel, mas

deixemos para tratar disso mais para a frente.

— Se não é sobre os albaneses, então o que há de

tão urgente?

— Venha para o escritório. Não posso contar por

telefone.

— Certo. Vejo-o em uma hora.

— Está tudo bem? — Talassa pergunta.

Minha mulher saiu do banheiro com uma toalha em

volta do corpo. O cabelo molhado e a pele ainda úmida.

Minha tentação particular.

Pensei que ela ficaria ansiosa novamente com a


confirmação da gravidez, mas acho que os planos para o

futuro que fizemos ontem a acalmaram.

— Não sei. Maxim pediu para me encontrar.


— E você acha que não se trata de uma boa notícia,

certo?

— Exato.

— Venha, vamos tomar café da manhã primeiro. O

que quer que tenha acontecido, eles podem esperar. Se

fosse tão urgente assim, já estariam aqui, não acha? —

Pergunta, vindo para perto e se sentando no meu colo.

Ela está certa e mesmo que eu não sinta fome

porque não costumo comer nada pela manhã, entendo seu

ponto. Talassa deseja uma rotina normal. Talvez eu nunca

consiga ser o homem dos seus sonhos, mas os pequenos


detalhes que a agradam posso dar conta.

— Como está se sentindo depois de falar com sua

mãe ontem?

— Eu gostaria de dizer que meu coração ficou mais


leve, mas não é verdade. Por dentro, ainda sou uma

confusão. É difícil passar anos achando que minha família


me abandonou e, de repente, tê-los de volta em minha

vida.

— Baby, eu nunca deixaria que se aproximassem se

não tivesse certeza de que não tiveram qualquer


participação no que aconteceu a você.

— Eu sei. Quando começará a organizar suas

vindas?

— Já mandei os advogados agilizarem o processo,

mas acho que deveria avisá-los também. Explique o

porquê de não poder sair dos Estados Unidos agora.

— Tudo bem, falarei com eles daqui a pouco. A que

horas Lara chegará?

— À tarde, eu acho. Ligue para ela. Quem sabe não

consegue acalmá-la? Meu primo me disse que está mais

agitada do que o normal. Ele acha que sua amiga está....

não sei se deprimida é a palavra certa. Talvez cansada.


Talassa, por que Lara não pergunta pelos pais?
— Como assim?

— Grigori falou que ela não fala sobre eles. Seria

natural que quisesse reencontrá-los. Você tinha um motivo

para não querer rever os seus, mas e ela?

— Eu não tenho certeza, mas acho que a família de

Lara não era como a minha. Quero dizer, desconfio que

não se importam com o que tenha acontecido a ela. Ao

longo dos anos que nos conhecemos, Lara nunca falou

deles, como se não existissem.

— Quer que eu mande investigar?

— Não. Todo mundo tem direito a guardar segredos.


Mais tarde naquela manhã

— Alguém matou Oleg e Dimas. — É a primeira

coisa que Maxim diz quando entro no escritório.

— O quê?

— O conselheiro e Dimas estão mortos.

— Quando?

— Não temos certeza. Não sobrou muito de

qualquer um dos dois.

— E como sabem que são eles, então?

— Nosso patologista confirmou através das arcadas

dentárias. Só para o caso da velha serpente estar tentando

forjar a própria morte. São eles mesmo.

— Não duvido que Oleg faria algo assim. Como os

encontrou?
— O GPS que implantamos em Dimas, mas não

acho que quem fez isso tentou esconder. Se eu pudesse

dar um palpite, o Piloto foi morto como um efeito colateral,


mas o ataque era contra o conselheiro.

— Acha que foi o meu avô?

Ele dá de ombros.

— A possibilidade é grande, porque quem quer que

os tenha eliminado, quis que servissem como exemplo.

Não foi uma morte bonita.

— A morte nunca é bonita. — Comento, indiferente.

— Verifique se foi um trabalho interno. Alguém de dentro


da Organização.

— Já está sendo investigado, mas Oleg não era

exatamente querido. Claramente sua morte foi planejada

para ser vista como uma punição, então eu apostaria


minhas fichas no Pakhan.

— Sim, também acho, mas quero ter certeza.


— O que mais está o preocupando? — Pergunta.

— Precisaria escrever uma enciclopédia para

detalhar todas as minhas preocupações, mas no momento,

a volta de Lara para os Estados Unidos.

Não contarei sobre a gravidez de Talassa ainda.

Combinamos em manter segredo e revelar pessoalmente

para as pessoas mais importantes de nossas vidas. Meu

avô, Lara e os pais dela.

— E quanto a Gjergj, quando você voará para a

Virgínia?

— Grigori me pediu para esperá-lo. Ele quer

participar e faz questão de que o albanês não tenha uma


morte rápida.

— Por que isso? Seu primo está envolvido com a

amiga de Talassa?

— Quem sabe? De qualquer modo, dei minha


palavra que ele estaria junto quando fosse encontrar
Gjergj.

— Chegarei aos Estados Unidos antes do planejado.

— Meu avô diz ao telefone.

— Por quê?

— Não quero esperar para conhecer sua futura

esposa.

— Não acho que o contrário seja verdadeiro.

É a segunda vez que nos falamos hoje, eu tentei

descobrir se partiu dele a ordem para matar Oleg, mas

desviou da pergunta somente dizendo que o mundo não é


um lugar seguro para traidores — o que me fez ter certeza

de que sim, foi Ruslan quem o executou.

Não que eu dê a mínima, mas preciso saber o que

está acontecendo com os meus homens ou as coisas

fugiriam do controle. No fim, ele me poupou trabalho. Será

menos uma porta para fechar.

— Quando virá?

— Em uma semana, no máximo.

— Eu preciso avisá-la. Não sei se concordará em

encontrá-lo. Não a forçarei se ela não quiser.

— Ela é inteligente. Claro que desejará me

conhecer. Nem que seja para estudar o inimigo.

Sinto meu sangue gelar.

— Você será um inimigo para a minha mulher?

— Não, mas ela ainda não sabe disso.

Porra, ele é irritante.


— Não foi só para falar da viagem que você ligou.

Desde quando me dá satisfação de sua vida?

— Você tem razão. Não foi.

— Sem jogos, avô.

— Sobre a pergunta que me fez mais cedo: não há

mais perigo para minha vida ou riscos para sua futura

liderança dentro da Organização. Só Oleg poderia nos


causar problemas. Todos agora estão de acordo com o fato

de que você assumirá o meu lugar.


Capítulo 42

Talassa

No dia seguinte

Já fiz de tudo para me distrair e não consigo.

O celular dela está desligado.

Sei disso porque já tentei umas dez vezes.

Eu nem sei o que direi quando a vir. Lara conhece

mais da minha alma atualmente do que os meus pais.

Ouço passos na escada e quando ergo a cabeça,

Maxim aparece.

O homem é definitivamente estranho.


Sempre se mostrou distante e já até me questionei

se não tinha algo contra mim, mas de uns tempos para cá,

ele é aquele que está constantemente me verificando.

Comentei isso com Yerik e perguntei se a ordem partiu

dele. Meu noivo disse que não. Que Maxim cria as próprias

regras em sua cabeça e as segue à risca. Aparentemente,

então, tomou para si a tarefa de conferir meu bem-estar.

— Você tem visita.

Em um segundo estou de pé.

— Visita?

— Sim. Está curiosa para saber quem é?

Apesar da ansiedade para rever minha amiga, não

resisto em provocá-lo.

— Você está brincando com jogos de adivinhação,


Maxim? Porque isso é um pouco fofo, sabe? O problema é

que pode arruinar sua reputação.


Na mesma hora seu rosto retorna à indiferença
habitual, mas eu não compro sua atuação.

— Você é uma bruxinha, Talassa.

— Tudo bem, vou me comportar. Prometo.

— Venha comigo. — Diz oferecendo a mão, mas eu

passo direto e começo a descer as escadas correndo.

— Pare. Não deveria fazer isso. — Fala, passando à

minha frente.

Eu congelo, encarando-o.

Ele sabe.

Como diabos pode saber se não contamos a


ninguém?

— Estou grávida e não com problema nas pernas.

— Jogo, só para ter certeza.

Alguma coisa em seu olhar me faz querer engolir as

palavras de volta, mas antes que qualquer um de nós fale,


noto Lara parada na sala, no andar de baixo.
— Talassa, por que não me contou que já teve a
confirmação da gravidez? — Pergunta, parecendo muito

chateada.

Sei que deveria começar a me explicar. Dizer que


preferi revelar pessoalmente, mas quando enfim estou em

frente à minha melhor amiga, tudo o que consigo fazer é


chorar.

Nenhuma de nós se move e após sua explosão

inicial, ela parece esquecida da pergunta, enquanto anda


até mim.

— Eu não acredito que é você mesmo. — Abro os


braços e não sei por quanto tempo ficamos assim. Ambos
os corpos sacudidos por soluços.

— Desculpe, eu não quis contar por telefone. Você


vai ser tia. — Começo. — Mas não vamos atropelar as
coisas. Venha comigo. Yerik disse que prefere ficar em seu
próprio lugar, mas apenas por hoje, poderia dormir aqui?
Ela hesita e olha para trás. Somente então percebo
que além de Maxim, há um outro homem loiro na entrada
do elevador, que lembra levemente meu Yerik.

Grigori, suponho.

Seus olhos estão em Lara e a energia entre os dois


é tão intensa que quase pode ser tocada.

— Eu vou ficar. — Ela diz para mim, mas olhando-o.

Depois me solta e vai até o homem.

— Tudo bem com isso?

Pelo que Yerik havia me contado, eu esperava raiva


entre eles, mas até o menos observador dos seres
humanos perceberia que estão juntos.

— Sim. Eu terei que viajar por uns dias, de qualquer


modo.

Provavelmente será a mesma viagem que Yerik me


disse que faria. Sei que meu noivo está indo para o acerto
de contas com Gjergj. Ele falou que antes de trazer meus
pais da Grécia tudo estaria resolvido.

— Você não tem que me dar satisfação. — Lara


retruca com seu jeito briguento. Apesar disso, dá um passo
para mais perto do homem. — Eu ficarei bem. — Fala,

contradizendo seu descaso anterior.

— Não se meta em confusão. Eu não vou demorar.

— O loiro determina e a seguir vira as costas e sai.

Estamos há horas conversando e o assunto não


parece ter fim. Há tanto para ser dito. Estranhamente,
nenhuma de nós falou sobre o passado em comum ainda,
como se ambas relutássemos em trazer a dor à tona.

— E sua família? — Ela pergunta.

— Estamos nos ajustando aos poucos. Mamãe já


ligou três vezes, como se tivesse medo de que eu fosse
desaparecer novamente de uma hora para outra.

— E quanto ao seu pai?

— Falei com ele também, mas... é estranho, sabe?


Sei que me mandou para Atenas pensando em um futuro

melhor, mas quando desrespeitou minha vontade de

continuar na ilha, me entregou diretamente nas mãos


daqueles monstros. Ainda tenho dificuldade para aceitar

isso. Eu o perdoei, mas não sei se posso esquecer. Talvez


demore um tempo até que eu consiga encará-lo com o

coração livre de mágoa. Claro que eu só tenho coragem de

contar isso para você porque se Yerik sequer desconfiar


como me sinto, vai querer mantê-lo distante de mim.
— Não acho que você deva se forçar a nada. Amor

e obrigação não combinam.

— Yerik disse que talvez eu devesse procurar ajuda

de uma psicóloga.

— Porra, esse homem é mesmo doido por você. A

maioria dos caras acha que terapia é frescura.

— Ele não é a maioria dos caras. Yerik antecipa tudo

e acho que teme o fato de eu não ter pirado ainda.

— E ele tem razão em temer algo assim?

— Não sei, Lara. Quando as lembranças da época

em que estive com os albaneses retornam, eu fico mal.


Paranoica com a segurança, principalmente agora que

descobri que estou grávida. Receio que, por causa do meu

passado, me torne uma mãe superprotetora e acabe


sufocando meu filho.

— Então talvez realmente deva procurar ajuda.


— Talvez. Só que não estou pronta para contar
minha história ainda.

— Nem eu.

— Você pretende voltar para a Grécia em algum

momento, Lara?

Até agora, ela ainda não disse se quer ficar nos

Estados Unidos.

— Para a Grécia, não. — Sacode a cabeça. —


Aquele lugar nunca foi a minha casa.

— Você sabe que a ajudarei com o que for preciso,


não é?

— Sim, eu sei. Obrigada. O problema é que no


momento não tenho planos concretos.

— E Grigori?

Ela dá de ombros.

— Nós somos estranhos.

— É, isso não tenho como negar.


Em troca da gracinha, ganho dela uma cutucada

com o ombro, mas a seguir, fica séria.

— Eu confio nele. Não queria confiar, mas confio.

— Sei bem como é isso. Vivi o mesmo com Yerik.

Desde o primeiro momento, eu sabia que ao lado dele

estaria protegida.

— Você nunca se perguntou se não está

confundindo as coisas?

— Já sim, várias vezes, mas tenho certeza de que

não. Sou completamente apaixonada por ele. A vida está


me dando uma segunda chance, Lara. A nós duas, na

verdade e não posso desperdiçá-la.


Capítulo 43

Yerik

A Fazenda — Virgínia

— Tem certeza de que quer fazer isso? Posso

resolver tudo. — Pergunto ao meu primo.

— Eu preciso. Você não tem ideia dos pesadelos

que ainda a assombram.

Aceno com a cabeça, lembrando da minha vingança

contra o homem que destruiu a vida de minha irmã, duas

décadas atrás.
Matar o monstro que feriu alguém que amamos não

trará a pessoa de volta, mas ao menos nos dá a sensação

de justiça cumprida.

Uma vida por outra.

No caso de Gjergj, no entanto, ele precisaria morrer

mil mortes até expiar todos os seus pecados.

No dia seguinte

— Sua coragem sumiu, filho da puta? Ou ela só


funciona contra garotinhas?
Eu nunca vi Grigori tão descontrolado. Se não o
conhecesse bem, pensaria que fez uso de alguma

substância ilícita.

Claro que quando viemos para cá, sabíamos que


levaríamos nosso tempo com o albanês, mas depois de

pouco mais de vinte e quatro horas, não sobrou quase


nada dele e meu primo ainda não parece satisfeito.

— Vamos acabar com isso. Como você quer fazer?

Parece que ele já tinha uma resposta pronta.

— Enterrem-no vivo. Assim, antes de morrer, ainda

terá tempo para pensar em todas as meninas que arruinou.

— Será feito.

Ele anda até o homem.

— Foi tudo por Lara e Talassa. — Diz, levantando o


queixo de Gjergj, com a luva ensanguentada. — Cada

segundo que você sofreu em nossas mãos foi para pagar o


que fez a elas. Pense nisso em sua caminhada para o
inferno, seu desgraçado.

Horas depois

— Yerik? — Talassa parece ansiosa ao atender o


telefone e eu me sinto mal em lhe causar preocupação.

— Oi, linda. Já estou voltando para casa. Como


passou esses dias?
Não é fácil manter um tom casual depois do que
acabamos de fazer.

Nunca tive problemas com execuções, ainda mais


as de monstros como Gjergj, mas é surreal falar com a
minha mulher, que carrega nosso filho no ventre, com as

mãos ainda sujas de sangue.

— Bem. Eu e Lara não paramos de conversar por

nem um segundo e ontem também pedimos


hambúrgueres. Até Maxim participou da comilança, dá para
acreditar nisso?

Parece feliz e inocente, o que faz com que eu me


sinta ainda mais indigno dela.

— Fico satisfeito que vocês tenham se divertido.

Ela mantém silêncio por alguns segundos. Talassa já


aprendeu a interpretar até mesmo uma mudança em meu

tom.
— Foi tudo resolvido? — pergunta, a alegria
desaparecendo de sua voz.

— Sim. — Respondo vagamente. — Nos veremos


amanhã.

— Eu te amo.

— Eu também.

— O que está acontecendo entre você e Lara? —


Pergunto a Grigori.

— Nada concreto, por enquanto. Como poderia,

enquanto essa porta não estivesse fechada?


— Acha que ela aceitará o que você fez?

— Sim. Talvez fique zangada em um primeiro


momento, mas quando pensar com calma, entenderá.
Conversaremos e tudo ficará bem.

— Se quer um conselho, lhe dê alguns dias. Pela


primeira vez, elas terão a chance de respirar sem medo. A

maioria das meninas não sobreviveria ao que elas


atravessaram. Foram anos em poder daquele filho da puta.

— Sacudo a cabeça, tentando afastar a imagem que se

forma da minha Talassa tão vulnerável. — Só de pensar


nisso, me faz querer voltar lá e começar tudo de novo.

Nossos olhares se cruzam e sei que sente o mesmo.

— Deixou alguém vigiando o local? — Pergunta.

— Sim, e também há uma câmera que monitorará

até o último suspiro daquele fodido.

— Uma pena que eu não posso ficar lá assistindo

seu fim.
Capítulo 44

Talassa

— Acabou. — Digo para Lara depois que me

despeço de Yerik.

— Eu não estou entendendo. O que acabou?

— Gjergj está morto.

— O quê?

Ela fica branca como uma folha de papel e dá dois


passos para trás. Não é a reação que eu esperava. Nós

duas odiamos o miserável. Por que Lara parece prestes a


vomitar?
— Eles o mataram. Yerik me contou que está
voltando para casa com Grigori. Somos livres, Lara.

— Não. Oh, meu Deus, não! Ele não podia ter feito
isso comigo!

— Lara, você não está dizendo coisa com coisa.

Ela não parece me ouvir, sacudindo a cabeça de um


lado para o outro.

— Ele me traiu. Eu confiei nele e ele me traiu.

— Pelo amor de Deus, Lara, está me assustando.

A porta do meu quarto se abre de supetão e pela

primeira vez desde que estou com Yerik, Leonid entra em


meus aposentos.

— O que diabos está acontecendo aqui?

— Eu não sei. — Respondo, preocupada com a


minha amiga. — Ela não me parece bem.

Leonid anda até Lara, mas quando tenta tocá-la, ela


grita.
— Por favor, nos deixe sozinhas.

— De jeito nenhum. Você está grávida.

Nem tento desmentir. Pelo visto, todos sabem agora.

— Eu vou chamar o médico. Ela parece histérica. —


Avisa.

Faço que sim com a cabeça e quando sai, sento-me


ao lado dela no chão.

Desde sempre Lara se mostrou uma fortaleza, mas


sinto que precisa de cuidados agora.

— Hey, fale comigo. O que está acontecendo?

— Ele me prometeu, Talassa. Eu implorei e ele disse

sim.

— Sim a que, amiga?

— Que me deixaria matar Gjergj.


No fim, não foi necessário que o médico a
examinasse, apesar dele ter vindo de qualquer jeito.

Estamos deitadas no quarto que ela ocupa desde


que chegou. Ela aparenta estar mais calma, mas quase
não falou comigo após sua revelação.

— Lara. — Tento novamente. — Eu também pedi a


Yerik que me permitisse matar aquele monstro e ele disse
não.

Ela vira de lado e olha para mim.

— É diferente, Talassa. Eu não quero falar sobre


isso, mas precisava ser eu a matá-lo para ter o meu
encerramento.
— Desculpe-me, mas não vejo como isso poderia
ajudar. Não sei nada sobre seu relacionamento com

Grigori, mas não tenho dúvidas de que ele quis poupá-la.

Ela levanta e começa a andar de um lado para o


outro do quarto.

— Você falou que agora somos livres, não é? Que


toda a célula albanesa aqui nos Estados Unidos foi

aniquilada?

— Sim, Yerik me garantiu.

— Sua oferta para me dar suporte se eu


precisasse… foi para valer?

— Sabe que sim. Eu faria qualquer coisa por você,


Lara.

— Eu quero ir embora. Sumir. Ajude-me a fugir


antes que Grigori volte.
Mais tarde naquela noite

— Achei que só retornaria amanhã. — Murmuro,


meio sonolenta, enquanto sinto-o me abraçando por trás.

Os pelos de suas pernas roçam nas minhas e o


cheiro de sabonete me diz que acaba de tomar banho.

— Não pude esperar. Qualquer tempo longe de você


é excessivo.

Volto-me para olhá-lo e na penumbra, seu rosto está


mais sério do que o normal. Como se me estudasse.
— Eu te amo, linda. Você é livre novamente. — Ele

abaixa a cabeça, escondendo-a na curva do meu pescoço.


— Tão livre quanto possível sendo minha mulher, quero

dizer.

— Não importa. Estou onde eu quero, com quem eu

quero. Com o meu amor e o pai do meu filho.

Ele me beija como se eu tivesse acabado de lhe dar

um presente.

— Sei que a vida ao meu lado engloba riscos, mas

morrerei antes de deixar que alguém lhes faça mal.

— Não fale assim. Quero pensar em um futuro feliz

com a família que construiremos juntos.

Estou deitada sobre seu corpo, aninhada em seus

braços, pensando em como contar o que fiz hoje mais


cedo, quando sua próxima pergunta me deixa sem saída.

— Você explicou à Lara que agora não têm mais


com o que se preocupar?
Em segundos, meu corpo enrijece.

— Talassa?

— Acho que não vai gostar do que vou dizer.

— Como assim?

Ele nos gira e depois se estica para acender o

abajur.

A sensação de ter sido desleal a ele é horrível.

Minha garganta está travada e não posso encará-lo.

— Sinto muito, mas ela é a minha melhor amiga. A

única.

Cubro o rosto com as mãos, morrendo de vergonha.

— O que você fez?

Ele se levanta da cama e mesmo que por poucos


segundos, consigo vislumbrar a desconfiança em seu

rosto. Aquilo quase me quebra em duas.

— Não foi nada contra você. Não diretamente.

— Explique-se.
Há uma mistura de confusão, incredulidade e

desgosto em sua expressão.

— Não me olhe desse jeito. Eu te amo, Yerik. Nunca

o prejudicaria.

Como se saísse de um transe, ele volta a se

aproximar e me pega no colo.

— Claro que você não faria. Perdoe-me. São muitos

anos em meio à podridão. — Ele me beija por todo o rosto


e se afasta um pouquinho para me olhar. — Acalme-se.

Você está grávida.

— Não estou nervosa, só triste. Precisa entender

que você é o meu mundo, mas Lara também. Jamais me


negaria a ajudá-la.

— Conte-me o que aconteceu.

— Ela foi embora.

— Embora para onde, Talassa?


— Eu não posso falar. Prometi que não contaria
porque se você souber, Grigori irá atrás dela.

— Se não soubermos onde ela está, não poderemos


protegê-la, baby. Por mais que se ache durona, Lara é uma

menina. Os albaneses estão mortos, mas existem vários

outros doentes pelo mundo.

— Ela tem direito a escolher, assim como eu tive,


Yerik. Fiquei com você espontaneamente. Lara está muito

magoada com ele. Não julgarei quem está certo nessa

história, mas acho que no momento, minha amiga deseja


ficar sozinha.

— Tudo bem. Não vamos mais falar sobre isso.

— Há outra coisa. Eu precisei pegar parte daquele

dinheiro que você me deu no outro dia para uma


emergência.

— Isso não tem qualquer importância. Se você sabe


onde ela está, consiga uma maneira de lhe enviar mais.

Dou minha palavra que não interferirei.


— E quanto a Grigori?

— Não posso impedi-lo de ir atrás da mulher dele,


Talassa. Nada me deteria se eu estivesse à sua procura,

caso a situação fosse ao contrário.


Capítulo 45

Talassa

Semanas depois

— Filha, estou tão nervosa com essa viagem!

— Não fique, mamãe. Dará tudo certo.

Nossas últimas conversas têm sempre começado

assim, mas eu desconfio que por trás de sua ansiedade, há

também uma ponta de excitação porque volta e meia ela


me pergunta como é a vida aqui nos Estados Unidos.

Eu não quero deixá-la triste recordando-a de que a

maior parte do tempo que passei no país foi sem ver a luz
do sol, então tento disfarçar e fugir das perguntas.

Sei que ela não faz por mal. Talvez dentro de sua

cabeça, tenha blindado a memória de que eu não estava

estudando e sim, presa.

Eu e meu pai já conseguimos conversar com mais

naturalidade e aos poucos, ele voltou a ser o homem do

qual eu me lembrava: um tanto severo, sempre querendo

saber de cada detalhe da minha vida.

Acabei revelando à mamãe sobre o noivado e dias

depois, a gravidez, através de uma chamada de vídeo. A

documentação estava demorando mais tempo do que o


esperado para ser concluída e comecei a ficar ansiosa por

estar escondendo algo tão importante.

Ficaram surpresos, mas não chocados.

Yerik tem se esforçado para interagir com eles, mas


acho que mesmo que não fosse quem é, sua natureza é
reservada. Ele não fica confortável tornando-se íntimo das
pessoas. As únicas exceções somos eu e seus homens de
confiança, que considera como família.

Falando em família, o avô dele adiou a viagem para


os Estados Unidos. Não sei por que, mas algo me diz que
quer chegar de surpresa.

— Não consigo não ficar nervosa. — Mamãe me


puxa de volta à conversa. — Nunca andei em um avião

antes. Não é perigoso?

— Não, mamãe. Avião é o segundo meio de

transporte mais seguro que existe. Só perde para o


elevador. E vocês viajarão no jatinho de Yerik. Pode ter
certeza de que ele garantirá que o aparelho seja

inspecionado mais de uma vez.

— Seu noivo está fazendo muito por nós. Darius fica

constrangido em aceitar tanta generosidade sem ter como


retribuir de alguma maneira.

— Yerik não espera nada em troca, mãe. Ele quer


que eu seja feliz e ver vocês me fará feliz. Estou com muita
saudade.

— Falta pouco agora, meu amor. — Diz, não pela

primeira vez.

A perspectiva de ser mãe em breve, fez desaparecer


qualquer resquício de mágoa que ainda restasse pela
decisão equivocada do meu pai de me mandar para longe.

A cada telefonema, compreendo o quanto sofreram


também e me colocando em seus lugares, eu ficaria
desesperada se um filho meu desaparecesse. Só pensar
nisso já faz com que minha mão pouse automaticamente

sobre o abdômen.

Meus pais virão por um período de dois meses e

Yerik me disse ontem que nosso casamento acontecerá em


no máximo daqui a trinta dias.

Temi que ficassem aborrecidos com um casamento

logo após sua chegada, mas depois que soube que estou
grávida, meu pai falou que não devíamos esperar.
Claro que para todos nós, são muitas mudanças de
uma vez. Não só o reencontro, mas também com relação à
vida simples que meus pais levaram até hoje.

Acho que será a primeira vez em que ambos darão


uma pausa no trabalho. No universo da nossa ilha, a

palavra férias nunca existiu.

— Você está feliz? — Ela pergunta isso sempre que

estamos prestes a desligar.

— Muito, mamãe. E tudo ficará perfeito quando


vocês chegarem.

Depois que encerramos, penso em minha Lara.

Conseguimos uma maneira de nos comunicar


através de um e-mail que, Yerik me deu sua palavra, não
rastrearia. Não será assim para sempre, somente até
Grigori desistir de procurá-la. Ele esteve aqui uma única

vez desde que ela partiu, mas não fez perguntas. Acho que
é tão orgulhoso quanto o meu homem, embora não me
engane. Não duvido que ele esteja em seu rastro.
Lara está morando na Califórnia e, ao menos na
superfície, parece mais serena. Ao contrário do que havia

planejado, se matriculou em um curso de segundo grau


para adultos. As aulas são à noite e na parte da manhã ela

trabalha em uma pet shop[25]. Torço para que um dia possa


realinhar sua mente o bastante e consiga vir para perto de

mim.

De qualquer modo, seu visto de estudante não será

eterno, então mais cedo ou mais tarde, ela terá que tomar
uma decisão.

Seis dias depois


— Estou morrendo de fome. Você demorou.

— Deus, mulher, atrasei poucos minutos.

Apesar do que diz, ele está sorrindo. Yerik ama


satisfazer meus desejos e hoje, particularmente, estou
louca por uma pizza.

— Fale isso para o bebê. Esqueceu que agora tenho

companhia em minha gula?

— Como posso esquecer da razão da minha vida?

— Não diga coisas assim. Sabe como tudo me faz


chorar ultimamente.

Estou muito chata. Nunca fui emotiva, mas agora,


choro com tudo.

Quando mamãe me disse ontem ao telefone que


finalmente chegariam aos Estados Unidos essa semana,

chorei de soluçar.
Lara manda um e-mail e choro de saudade por

quase uma hora.

— Se me ouvir dizer que sou louco por você a faz

chorar, devo estar perdendo o jeito então.

— Não seja bobo. Fico emocionada porque penso

que se as coisas fossem diferentes, eu nunca teria


experimentado a felicidade. — Escondo o rosto em seu

peito enquanto falo. Acho que nunca será fácil me abrir. —


Ser uma esposa, me tornar mãe e daqui a alguns anos, se

Deus quiser, ter uma profissão, é como transformar todos

os meus sonhos em realidade.

— Mas você conseguiu e esse é só o começo das

nossas vidas, então não pense no que poderia ter sido


diferente. Acabou, baby. Você está aqui comigo. Protegida.
Capítulo 46

Talassa

No dia seguinte

Eu sabia.

Como havia intuído, ele chegou de surpresa.

Tento me manter parada enquanto vejo o homem


mais velho se aproximar.

Pelo canto do olho, observo a postura tensa de


Maxim, que chegou aqui minutos depois do idoso subir.

Provavelmente algum dos guarda-costas o avisou, já que


Yerik está viajando.
Os rapazes se tornaram protetores em relação a
mim. Já posso dizer que sinto algo próximo a amor por

todos eles e acho que é recíproco.

Eu demorei algum tempo para descer para o


primeiro andar depois que um dos seguranças me disse

que o Pakhan estava aqui.

Olho novamente para o senhor idoso. Eu não sei o

que esperava. Talvez alguém parecido com Yerik,


provavelmente, mas esse homem não podia se assemelhar

menos ao meu noivo.

Ele é uns bons vinte centímetros mais baixo e mais


encorpado também.

Encaro-o abertamente, assim como ele faz comigo.

Ainda não consigo esquecer sobre a reportagem em

que ele declarava estar de braços dados com a noiva do


neto. Não sou de perdoar fácil.
Meu temperamento anda volátil, com oscilações de
humor frequentes. Se o poderoso Pakhan acha que basta

me encarar e conseguirá me intimidar, precisa estudar um

pouco mais a meu respeito.

— Dóbraie útra.[26] — Fala ao se aproximar.

Pisco de surpresa. Não esperava que ele fosse me


dar bom dia em russo.

— Bom dia. — Respondo de volta em sua língua


natal.

— Ao menos meu neto tem bom gosto. Não se


casará com uma russa, mas me dará herdeiros bonitos.

Não compro sua ofensa calculada.

Ele está enganado comigo. Posso ter apenas vinte


anos na certidão de nascimento, mas fiz um curso intensivo
em atuação e percebo claramente que está tentando
arrancar uma reação de mim.
Homens como Ruslan precisam que você se
exponha para poder derrotá-lo.

— Sim, pelo menos isso. — Respondo docemente e


com o rosto sem demonstrar qualquer emoção.

— Você tem se cuidado? Tomado todas as


precauções para levar a gestação da minha bisneta de
maneira adequada?

Descobrimos há alguns dias que seremos pais de


uma menina.

Sinto as bochechas esquentarem. Ele é muito direto.

— Sou jovem e forte. Minha gravidez será saudável.


— Falo sem recuar ao homem que ainda não tenho certeza
se gosto, mesmo que seja uma figura fundamental na vida
do meu Yerik.

— Deve aprender a controlar esse sangue quente,


grega. Nada mais de se meter em brigas. Principalmente
por ciúmes. — Há uma pontada de humor em sua voz
agora, o que não combina nem um pouco com ele.

— Não tenho mais por que sentir ciúmes. Em breve


me tornarei a senhora Vassiliev.

— Sim, você será, mas duvido que esse


temperamento esquentado vá se acalmar. E talvez seja
justamente o que o meu neto precisa. Agora, venha aqui

dar um abraço no seu avô.

Olho para Maxim e depois dou alguns passos até


Ruslan, ainda tentando processar o que está acontecendo.

Talvez seja o fato de estar grávida que fez com que


seu coração amolecesse? Não tenho certeza. Como ele

partiu de tentar casar o neto com uma mulher de sua


escolha para me aceitar tão facilmente?

— Você é linda, mas meu neto já teve algumas


mulheres lindas em sua vida. — Diz, assim que passa os
braços em volta dos meus ombros.
À menção das mulheres do passado de Yerik, minha
irritação retorna.

— Calma, garotinha. O que conversamos agora há


pouco sobre controlar esse gênio infernal?

— Não me importo com quantas mulheres ele se


relacionou antes de mim. — Falo de queixo erguido. — Eu

sou seu futuro.

— Isso mesmo. Guarde esse pensamento com

você. Como estava dizendo, Yerik já esteve com mulheres


lindas ao seu redor, mas ele precisava de uma que fosse

forte e inteligente também. Você é o pacote completo.

Morde e faz carinho. O homem é um manipulador

nato.

Ele olha para trás.

— Maxim, deixe-nos a sós. Quero alguns minutos


para conhecer minha neta melhor.
Não acredito nem por um segundo que seja

somente isso. Eu aposto que ele já sabe mais sobre mim


do que talvez até mesmo meus pais.

Olho por cima do seu ombro e vejo que Maxim não


se moveu. Ele é leal a mim como seria ao próprio Yerik e

não me deixará a sós com o Pakhan antes que eu o libere.

— Tudo bem, Maxim. Você pode ir.

Ainda parecendo hesitar, o mais excêntrico dos


homens de Yerik finalmente nos deixa.

— Eu ia preparar um lanche. Sinto fome o tempo


todo. Aceitaria me acompanhar?

Ele me estuda por alguns segundos, antes de tornar

a passar o braço pelo meu ombro.

— O que tem de gostoso para me oferecer?


Menos de cinco minutos depois que Maxim saiu,
Yerik telefonou para saber se eu estava bem com a

presença do avô em nossa casa. Quando garanti que sim,


ele disse que voltaria mais cedo do que o planejado e que

eu o esperasse para o jantar. Em seguida, pediu para falar

com Ruslan.

— O senhor pretende ficar até o casamento?

Achamos que será em um mês, no máximo. — Pergunto,


assim que ele desliga o telefone.

— Sim, claro. Não estou mais em idade de ficar


viajando de um lado para o outro, mesmo podendo me dar

ao luxo de fazê-lo em minha própria aeronave. Meus pés


incham e aquele ar seco dentro do avião não faz bem aos
meus pulmões. Além disso, há tempos quero vir aos

Estados Unidos. Estou com saudade do cachorro-quente


de Chicago. Não existe melhor no mundo inteiro. Eu até já

pensei em levar um dos rapazes que o preparam para

Moscou, mas meu cardiologista não gostou muito da ideia.

Tento esconder um sorriso enquanto sirvo um

pedaço de bolo e chá para nós dois. Depois de meia hora


de conversa, estou começando a relaxar, quando ele joga

do nada.

— Você sabe o que a espera?

— Em relação a quê?

— Ocupar o lugar de esposa de um homem como


Yerik pode ser desafiador. Por mais que meu neto a ame e

eu sei que ele o faz, precisa ter certeza se pode lidar com a

complexidade dele.

— O senhor poderia ser mais claro?


Procuro manter a mente aberta, enquanto dou a
primeira garfada no doce.

— Apesar de poder ser contido na demonstração de


seus sentimentos, meu neto é um homem leal e dedicado

àqueles que ama, mas há uma parte dele que morreu há

alguns anos. Você o fez voltar a sentir.

Não demonstro como estou surpresa com a


revelação. Sei que Yerik perdeu a irmã e alguns anos

depois, os pais, mas nunca me contou a história toda.

— Ele me disse que é órfão de pai e mãe.

— Isso mesmo. Meu filho faleceu em um acidente


de trem com a esposa, mas não é sobre isso que estou

falando. Não foi a morte dos pais o que o modificou e sim,

o assassinato de Natalya.

Agora não consigo mais manter a fachada

indiferente e largo o garfo.

— A irmã dele foi assassinada?


— Sim.

O rosto do homem demonstra dor.

— Por sua causa? Quero dizer, não me leve a mal,

mas Yerik contou que vocês têm muitos inimigos.

— Não. Foi uma ação aleatória. Não era incomum


há duas décadas… não, na verdade até hoje, o sequestro

de meninas na Rússia para alimentar a demanda constante

de tráfico humano. Ninguém sabia que era minha neta,


porque se fosse o caso, jamais chegariam perto dela, mas

meu filho era teimoso e quis manter nosso parentesco

oculto.

Vejo que aquilo ainda o abala, mesmo tantos anos

depois.

— Eles a pegaram na volta da escola. Minha


garotinha não teve qualquer chance.

Ele segura o garfo com tanta força que os nós dos


dedos estão brancos.
— Descobrimos depois que a intenção era levá-la
para ser vendida a um bilionário que havia encomendado

meninas de no máximo doze anos. Ela estava com onze.

Assim como o irmão, Natalya era de uma beleza


avassaladora.

Meu apetite desaparece completamente. O que ele


está narrando é bem próximo do que eu mesma vivi.

— O que aconteceu? — Pergunto, mesmo incerta


sobre desejar ouvir.

— Minha Natalya era uma guerreira. Ela não aceitou

ir passivamente.

— Como eu aceitei. — Completo e olho para o meu

colo.

Ele pega minha mão por cima da mesa.

— Você fez o que achou necessário para sobreviver.

Tudo o mais pode ser trabalhado, mas ninguém nasce

novamente. Você é sua própria heroína, menina.


Eu não me considero nada nem próximo a uma

heroína. Não tenho dúvida de que meu fim poderia ter sido

outro se não fosse a orientação de Lara.

— Por favor, termine sua história.

— Ela lutou tanto que eles não tiveram alternativa a

não ser matá-la, mas antes lhe destruíram a inocência. Sua

morte foi cruel além do usual porque queriam dar um

exemplo às demais garotas.

— Vocês o pegaram?

— Claro. Um por um. Os que participaram e também

aqueles que somente eram membros da gangue e nem


mesmo estavam presentes. Não sobrou ninguém. Inclusive

o bilionário que fez a encomenda. — Há agora desprezo

em seu rosto ao narrar aquilo e eu me sinto solidária.

Mesmo sem conhecer aqueles homens, eu os odeio. —

Mas foi o chefe deles quem recebeu um tratamento

especial por parte do meu neto. Yerik tinha somente


quatorze anos e a partir dali, seu destino foi decidido.
Desde então, eu o vi viver um dia após o outro, sem um

objetivo que não fosse a Organização. Isso mudou depois

que ele a conheceu. Você conseguiu em um curto período,

resgatar senão tudo, uma boa parte do seu coração.

— Eu o amo muito.

— Eu sei disso, minha filha, mas às vezes esse

amor será posto à prova. Nossa área de atuação não é a

dos mocinhos, como você já percebeu.

— Eu não quero um mocinho. O mundo está cheio

de monstros. Mocinhos não podem me proteger deles.

— Sim, você está certa, mas foi essa a razão de o

ter escolhido?

— Não. Eu o escolhi porque ele me ensinou a

confiar. Porque com ele eu não preciso fingir ou disfarçar

quando estou sofrendo. O senhor disse que eu trouxe a

humanidade dele de volta. Seu neto me devolveu a minha

alma.
Capítulo 47

Yerik

Um mês depois

Ela parece feliz e isso é tudo o que me importa. Não

vou mentir. Ter tanta gente ao redor ao mesmo tempo me


cansa. Os únicos familiares com quem convivo são Grigori

e meu avô — e mesmo assim, esse segundo, em doses

homeopáticas.

Claro, não posso me esquecer dos meus homens de


confiança, mas a verdade é que geralmente nossa relação

é cercada de tanta merda por conta do que fazemos, que

não sobra tempo para cordialidade ou tentativas de

socialização.
Mas sei que depois de anos sem ver seus pais, ela

precisa dos dois por perto.

Olhar para a mãe de Talassa é como ver a minha

menina no futuro, talvez em uma versão mais rústica,

apesar do temperamento das duas ser completamente

distinto.

Desconfio que se tivesse seguido com sua pacata

vida na ilha grega, talvez ela se tornasse tão submissa

quanto a mãe, mas nunca saberei com certeza.

Seu pai a princípio pareceu desconfortável,

principalmente na presença do meu avô. Ambos têm


personalidades desconfiadas, assim como eu próprio e

ficaram cautelosos ao redor um do outro.

Eles não precisam se amar, de qualquer modo. Tudo

o que me interessa é ela.

Se Talassa estiver feliz, estou feliz.


Como se percebesse meu olhar queimando-a,
atravessa a sala e assim, na frente de todos, senta-se no

meu colo. Talassa não tem qualquer problema em mostrar


ao mundo o quanto somos loucos um pelo outro.

Por ser magra, já se percebe uma curva na parte

baixa do ventre e não há uma vez que eu olhe para aquele


pedaço do seu corpo e não inche de orgulho. Foda-se se

isso faz de mim um neandertal. Amo saber que nosso filho


está crescendo ali.

— Você está doido para que todos vão embora.

Penso em como responder sem chateá-la.

Meu avô tem seu próprio lugar aqui em Atlanta e

hospedei seus pais em um dos meus apartamentos


porque, apesar de ser apaixonado pela minha mulher, eu

tenho um limite. Ficar com meus sogros por dois meses


inteiros em casa para mim seria uma espécie requintada de

tortura.
— Não é tão ruim. — Falo, tentando soar
diplomático.

Ela ri, mostrando que não acredita nem por um


segundo em minha mentira.

— Falta pouco agora, amor. Amanhã, eu serei


oficialmente sua.

Esquecido de todos à minha volta, a puxo pela nuca.

— Que parte ainda não entendeu sobre já ser

minha? — Rosno em seu ouvido. — Eu não mostro isso


todas as noites quando estou dentro de você?

Ela estremece e se afasta um pouquinho.

— Sim e mal posso esperar que eles saiam. Você


sabe como me excita quando vem para cima todo alfa

assim.

— Porra, Talassa. Agora não poderei me levantar

daqui na próxima hora.

A descarada ri.
— Quem possui quem, Pakhan?

— Ele ainda não é, mas pretendo corrigir esse


problema em breve. — Meu avô aparece do nada ao nosso
lado. Juro por Deus que o homem tem a audição
privilegiada.

— Minha neta, pode me emprestar seu noivo por um


momento?

— Talvez seja melhor irem ao escritório, vovô


Ruslan. — Ela diz, saindo do meu colo e dando um beijo na
bochecha dele.

Contra todas as probabilidades, já que ambos são


provocadores natos, uma estranha camaradagem se

formou entre Talassa e o meu avô.

Conheço-o bem o bastante para perceber que a


respeita.

— E então, acha que já pode se levantar sem


passar vergonha? — Ele debocha.
— Chegou a hora de você assumir. Será seu
presente de casamento. Já tem sua família. Está pronto
para ser o novo Pakhan. Farei o anúncio antes da

cerimônia amanhã.

— Pensei que o presente havia sido a ilha caribenha

que recebemos na semana passada. — Respondo,


tentando manter a expressão neutra, mas preocupado com
a razão que o está fazendo desistir de seu posto.

— Não, aquilo era para a nossa menina. — Diz, se


referindo à Talassa. — Não seria justo trazê-la para o outro
lado do mundo sem que possa ter seu próprio paraíso
quando quiser relaxar.
— Você está bem?

— Tão bem quanto alguém da minha idade possa


estar. — Senta-se na poltrona, cruzando uma perna. —
Estou cansando, filho. Você é jovem e um excelente líder.

Já tem sido o Pakhan há muitos anos e ambos sabemos


disso. É justo que receba os privilégios do cargo e não
somente as dores de cabeça.

— Vou mudar todos os subchefes.

Nem preciso falar a respeito do conselheiro, já que


desde a morte de Oleg, meu avô não escolheu um

substituto.

— Faça o que quiser. Não interferirei em qualquer

decisão. Suponho que seu conselheiro será o meu outro


neto.

— Sim, Grigori foi desde sempre a minha escolha.

— Só por garantia, mandei investigar novamente

Leonid, Maxim e Dmitri. Sei que os desejará como seus


capitães.

Balanço a cabeça.

Ele tem a coragem de dizer que investigou os meus


homens sem demonstrar o menor constrangimento.

— Acha mesmo que eu manteria qualquer um à


minha volta, perto da minha mulher e filha, se não tivesse

certeza de quem são?

— Oleg também era muito confiável. Até que um dia,

deixou de ser.

— Tudo bem. — Falo, não querendo entrar em uma

discussão sobre lealdade. Nunca confiei em Oleg. Não


acredito em pessoas que não são capazes de externalizar

opiniões contrárias às de seus superiores.

Levanto-me, encerrando a conversa, mas quando já

estou saindo, ele me chama.

— Yerik?

— Sim, Pakhan? — Uso seu título pela última vez.


— Você encontrou uma joia naquela menina lá fora.
Espero que saiba valorizar o que tem.

Noite de núpcias — no dia seguinte

— O que você está fazendo?

Engulo em seco quando vejo minha mulher deliciosa

sair do banheiro da suíte com uma tanguinha branca e um

sutiã combinando, totalmente transparente na frente.


Mesmo a uma relativa distância, noto que seus mamilos já

estão duros.
— Seduzindo você. Estou indo bem até aqui? — Ela

para no meio do quarto, parecendo insegura.

Levanto-me para encontrá-la.

— Completamente. Não sei como você consegue

ficar mais gostosa a cada dia.

Seus peitos estão cheios por conta da gravidez e o

corpo, com mais curvas. As pernas longas que sempre me

enlouqueceram, pedindo para que eu as coloque em volta


da minha cintura.

— Você é muito dominador. — Diz, enquanto me


aproximo, provavelmente ao ver meu olhar esfomeado.

— Está reclamando?

Ela me entrega aquele olhar de feiticeira.

— Não. Eu adoro isso, mas hoje eu quero brincar.

Um sorriso lento escorrega da minha boca.

— Sou seu. — Falo e começo a desabotoar a

camisa.
Há alguma coisa sobre as minhas tatuagens que
sempre a excita. A cada vez que me vê nu, após

transarmos, ela mapeia uma a uma, querendo saber o

significado ou quando fiz. Não há muita pele em meu corpo


sem tinta, então levará um tempo até que desvende todas.

Quando a camisa está fora, seus olhos famintos


percorrem meu abdômen, o que me põe ainda mais duro.

Eu amo minha esposa — porra, isso soa bem. É a

primeira vez que me dou conta de que nossa condição

perante o mundo mudou — mas muito antes de entender


as coisas que ela me faz sentir, minha atração física por

Talassa sempre foi quase escravizante.

Não importa quantas vezes eu a coma, sempre

quero mais. Toda fodida vez é a mesma ânsia para estar

nela, como agora, por exemplo.

— E então, o que vai ser? — Provoco, para ver se


ela terá coragem de tomar a iniciativa.

— Eu não lhe dei meu presente de casamento.


— Oh, não? E o que seria? — Brinco, como se não

fizesse ideia do que está falando, quando na verdade, sei


sim.

Quero dizer, desconfio do que seja, já que meus


homens me informam de todos os seus passos. Mas até

mesmo para um homem controlador como eu, há certos

limites.

— Será uma surpresa temporária. Depois que o

bebê nascer, faço em definitivo, mas eu quis mostrar como


ficará. Eu ia fazer uma tatuagem, mas não pude por causa

da gravidez, então terá que se contentar com essa de

henna[27].

Juro por Deus que eu tento esconder o sorriso, mas

não consigo.

Claro que ela percebe e, esquentada como é, cruza


os braços, fazendo com que os peitos fiquem ainda mais

expostos na lingerie.
— Você xeretou! — Acusa. — Já sabia da minha
surpresa.

— Não precisei. Eu sou o Pakhan. Nada é feito


pelas minhas costas, mas se serve de consolo, me

aproveitei de sua ideia e fiz uma espécie de homenagem a

você.

— Eu quero ver. — Diz, lambendo os lábios.

Sua postura muda instantaneamente, a curiosidade

misturada ao desejo.

— Não sei. Talvez não mereça, por ter me feito

transar com você no escuro nas duas últimas noites.

— Porque era para ser uma surpresa. — Fala,

parecendo zangada outra vez.

Mas ela sabe usar todas as armas comigo e


mudando de tática, encurta a distância entre nós. Quando

está muito perto, a safada vira de costas, apoia as mãos na


cama, me dando uma bela visão de seu traseiro

perfeitamente arredondado.

— Talvez você precise se inclinar para… ler o meu


presente. — Fala, olhando para trás, por cima do ombro.

Seguro seus quadris, mas não preciso me abaixar.

Enxergo perfeitamente bem. Sua pele está marcada onde

começa o cós da calcinha.

Propriedade de Yerik Vassiliev

Merda. A mulher sabe como me transformar em um

primitivo.

Reclino-me e beijo a área.

— O que está fazendo? Você não irá desembrulhar

seu presente enquanto eu não ganhar o meu.

Tento me concentrar no que ela diz, mas estou com


muito tesão.
— Eu vou comer você de quatro olhando meu nome

na sua pele. — Aviso, enrolando os dedos nas laterais da

lingerie para tirá-la.

Ela bate na minha mão e se senta na cama, de

frente para mim, parecendo muito decidida a me torturar.

— Eu quero… huh… isso que você disse sobre ler

seu nome em minha pele…

— Enquanto a fodo de quatro? — Ajudo.

— Sim, mas… mostre-me o que fez em minha

homenagem.

Dou dois passos para trás, tentando adivinhar sua

reação quando a vir.

A tatuagem foi sugestão do artista, no mesmo

estúdio que ela fez e que pertence à Organização.

Apesar da dela ter sido desenhada por uma mulher,

percebo agora que aquilo foi uma espécie de piada interna


para eles.
Desabotoo a calça e seus olhos se arregalam.

— Você não teve coragem… você não fez… lá, fez?

O que era para ser um momento sexy, acaba me

fazendo gargalhar.

— Amor, sua expressão está muito engraçada.

Mas ela não está para brincadeira e um segundo

depois se ajoelha com o rosto a centímetros da minha

calça. As mãozinhas ansiosas puxando tudo de uma vez,

fazendo meu pau saltar, duro como pedra.

Ela o segura, procurando a tal homenagem e o

toque quente e aveludado me deixa insano.

— Aqui. — Aponto para uma parte depilada na

minha virilha, rouco e já desesperado por aquela boca.

Propriedade da minha grega


Ela olha para cima e sorri. Quando os lábios se

aproximam, sei que nossa noite de núpcias será um inferno

de boa.
Talassa

Um ano e meio depois

“Era uma vez uma menina de um reino muito

distante que sonhava com um príncipe encantado.”

É assim que as pessoas imaginam que deveria


começar um conto de fadas.

Ao longo da história, a mocinha é posta à prova por


uma gama de eventos desafiadores, mas mantém sua

bondade infinita e no fim, é salva por um maravilhoso


cavalheiro de armadura brilhante. Depois disso, o casal

viverá uma relação perfeita e eles serão felizes para


sempre.
Só que a minha história é real.

Nela há uma princesa — ou rainha como meu

marido prefere me chamar — que veio de um reino distante


e que teve sua vida subitamente revirada por capricho de
vilões.

Sim, porque no meu mundo, que não é aquele


protegido pelas páginas de um livro, a maldade espreita a

cada esquina.

Claro, também existe um príncipe, mas não o

encantado. Um com um lado obscuro, alguns — ou muitos


defeitos — e que carrega diversos pecados nas costas.

Não há a promessa de um felizes para sempre. Ao

invés disso, um relacionamento apaixonado em que as


vezes a princesa tem vontade de arremessar algo no

príncipe e em outras, mal consegue esperar para arrancar


suas roupas e ouvi-lo gemendo seu nome enquanto a

possui.
— Sonhando acordada? — Meu amor, salvador e
melhor amigo pergunta.

— Sempre. Acho que nunca conseguirei


amadurecer nesse sentido.

— Não mude. Eu amo tudo em você. Até os


defeitos.

— Eu não tenho defeitos.

Ele ri.

Lembra do que eu falei sobre Yerik não ser um


príncipe perfeito? Em um conto de fadas, ele deveria
concordar comigo.

— Não defeitos muito óbvios, em todo o caso. —


Completo, sorrindo de volta.

— Tudo bem, minha menina perfeita. Qual é o sonho


do dia?

— Não era um sonho. Estava pensando em nós


dois.
— Coisas boas? — Pergunta, me puxando para o
seu colo.

Estamos na varanda de nossa casa de férias. Agora,


graças ao vovô Ruslan, temos uma ilha particular. Não na
Grécia, mas no Caribe, mas ainda assim, uma ilha.

— Sim.

— Poderia compartilhar esses pensamentos?

Olho para o homem que eu amo e pai da minha

filha.

É difícil acreditar que alguém tão poderoso possa

soar inseguro às vezes, mas Yerik já me confessou que


não se sente digno de mim.

Nos primeiros meses de casamento, quando

recuperei minha liberdade graças à morte de Gjergj, não


era incomum ele ficar ansioso se eu me atrasava para
voltar depois de uma ida ao shopping ou até mesmo uma
consulta médica. Um dia, ele me confessou que temia que
eu desistisse dele e fosse embora para sempre.

Depois que Innessa nasceu — nós conseguimos


encontrar um nome para nossa filha que tem origem russa
e grega ao mesmo tempo— seus medos mudaram. Ele

despertava na madrugada para ter certeza de que ambas


estávamos seguras.

Apesar de nunca ter conversado comigo sobre toda


a história de Natalya, eu conferi em primeira mão o que o
avô dele havia me contado: que a morte de sua irmã o
modificou para sempre. Confiar para Yerik não é uma tarefa

fácil e acho que ele jamais relaxará em relação à nossa


segurança.

— Não é nada que já não saiba. — Por fim, volto ao

presente. — Você torna cada vez mais difícil sonhar. Eu


tenho a vida que desejo.

— Você é uma sedutora, menina.


— Por dizer que o meu homem me satisfaz de todas
as maneiras, Pakhan? — Sorrio e dou uma piscadinha.

Ele me dá uma palmada, em resposta à minha


provocação por tratá-lo como os membros da Organização

fazem. Só que as coisas entre mim e Yerik pegam fogo


muito rápido, então logo após, sua mão está massageando
meu bumbum e em seguida, seus dedos tateiam minha

lingerie.

— Ela está dormindo? — Pergunto, já com o corpo

aceso pelo desejo.

Em Atlanta, com meus estudos e tudo o mais,

precisamos da ajuda das babás, mas quando viajamos


para cá, queremos estar a sós com a nossa filha — ah, e

com pelo menos uma dúzia de seguranças, claro.

— Sim. E acho que não acordará mais até de

manhã — Diz, sorrindo.

Eu sei o significado daquele sorriso sexy. Ele tem

planos para nós dois.


— Mesmo? E o que faremos para ocupar o resto da

noite?

Seu sorriso aumenta.

— Eu tenho uma imaginação muito fértil, linda.


Yerik

Quatro anos depois

“Era uma vez um monstro.

Talvez não um monstro completo, daqueles que

devora crianças e agride mulheres ou idosos, mas ainda


assim, um monstro.

Esse cara sabia que jamais seria o mocinho da


história. Ele carregava uma bagagem de vida pesada

demais para conseguir qualquer tipo de redenção.

Estava conformado em ter uma existência solitária.

Nessa caminhada, seu coração jamais seria alcançado.


Um dia, uma rainha de olhos de chocolate precisou
ser salva. Mesmo sem se sentir adequado para o papel, o

monstro saiu em defesa da mulher inocente.

Sendo quem era, em um primeiro momento o


monstro pensou em usá-la para benefício próprio, mas a

rainha inverteu o jogo e o monstro passou de dominador a


dominado.

Por uma razão inexplicável, a rainha enxergou algo


no monstro que ninguém mais percebera. Um coração

inabitado. Ela decidiu que era ali que faria sua morada e
sem pedir licença, se tornou a proprietária daquele território

que, para todos os efeitos, era estéril.

A rainha foi persistente, uma verdadeira guerreira e


graças a ela, o monstro hoje tem sua própria família.

Uma a qual ele zela com um cuidado quase


obsessivo. O monstro não consegue relaxar.

Ele não tem qualquer problema com isso, no


entanto. Se o que precisa para manter sua família
protegida é permanecer em constante vigília, ele o fará.”

Enquanto observo minha esposa sorridente descer

as escadas do palco com seu diploma universitário na mão,


penso em tudo o que passamos para chegar até aqui.

Tenho cada um dos meus filhos sobre uma perna e


ambos batem palmas imitando as pessoas à nossa volta,
sem fazerem ideia da importância do dia de hoje para
minha rainha.

Ela conseguiu.

Não foi uma caminhada linear, mas sim cheia de


tropeços. Há cerca de dois anos, após o nascimento do
nosso segundo filho, chegou o momento que sempre temi,

mas que de certa forma, aguardava. Ela finalmente


encarou o que havia passado e se obrigou a pensar nos
anos em que fora psicologicamente abusada.

Não sei o que desencadeou aquilo, mas ela decidiu


que não podia mais empurrar seus medos para debaixo do
tapete e começou a fazer terapia. Eu não tinha ideia de
como ajudar, então apenas a ouvia quando sentia
necessidade de desabafar após as consultas. Às vezes, ela
queria conversar por horas, às vezes, mal falava comigo.

Aos poucos, no entanto, fomos nos ajustando e


nossas imperfeições novamente se realinharam. Talvez

não sejamos um casal de comercial de televisão. Minha


grega tem um gênio difícil e eu não fico muito atrás, mas há
amor de sobra para as reconciliações depois.

— Mamãeeeeeeeee! — Innessa grita, arrastando o


chamado ao infinito assim que vê minha mulher se
aproximar.

— Oi, amor. — Diz, dando um beijinho na cabeça da


nossa garotinha. — E então, quem quer comemorar?
Porque eu estou muito animada. — Volta-se para mim, me

dando um beijo rápido na boca.

— Eu! — Nossa filha grita e o irmão imita, excitado e

sorridente.
As babás se aproximam e pegam as crianças.
Aproveito para puxá-la para os meus braços e parabenizá-

la do jeito que eu quero — no limite que a decência


permite, em todo caso.

— Aproveite a comemoração suave com as crianças

porque eu tenho planos de passar a madrugada acordado.


— Sussurro em seu ouvido.

Ela cora — mesmo após todos esses anos — mas


sendo a provocadora que é, não perde a linha.

— Vou aguardar ansiosa, Pakhan.


Não deixem de ler os dois bônus nas próximas páginas.
Grigori

Em algum lugar nos Alpes suíços

Antes do reencontro entre Lara e Talassa em Atlanta

Mais uma vez vim ao seu quarto quando acordou


gritando.

Essa noite, no entanto, mesmo depois que Lara se


acalmou e voltou a ressonar, eu não a soltei.

Um tempo depois, despertou e achei que fosse me

mandar embora, mas então nos olhamos e a atração que


temos nos esforçado para controlar, explodiu.
Nos perdemos por horas. Famintos um pelo outro. Uma
química sexual que nunca experimentei.

Desde o começo, criamos uma espécie estranha de


relação.

Inimigos durante o dia. Cúmplices durante a madrugada,

quando seus medos mais secretos vêm à tona.

E agora, amantes.

Uma única vez tivemos uma conversa normal. Foi

quando ela me fez prometer algo que não poderei mais


cumprir.

Quando descobrir que a enganei, talvez eu a perca para


sempre.
Yerik

Vassiliev Empreendimentos Imobiliários

Passado — dois meses após o casamento de Talassa e

Yerik

Eu e meu conselheiro, Grigori, não perdemos de vista


os guarda-costas de Romano e Juan Angel. Eles estão
fazendo uma varredura na sala de reunião da sede da minha
empresa, à procura de escutas ou câmeras.

Não me sinto ofendido. Se fosse ao contrário, eu


ordenaria o mesmo.

Nenhum dos presentes espera passar uma manhã


agradável entre amigos. Tudo o que me interessa em relação
ao Anjo da Morte e ao italiano são as vantagens que podem
me oferecer.

Quando a verificação termina, nos sentamos com


nossos respectivos homens de confiança por trás.

— Se chegaram até aqui, vou assumir que a minha


proposta os interessou. Sei que esse é um acordo atípico e
espero que fique claro que se referirá somente ao objeto em
pauta. — Começo, sem qualquer sutileza. Não desejo passar

mais tempo do que o necessário ao lado de qualquer um dos


dois. — Ultimamente, nós três temos sofrido prejuízos em
relação à entrega de nossas mercadorias. Minha proposta é
que formemos uma aliança protetiva que garantirá que, a

cada vez que um de nós atravessar o território do outro, a


carga chegará ao seu destino sem percalços.
Talassa

Restaurante Lazy Betty — Atlanta — no mesmo dia

— Obrigada por aceitar o convite para o almoço.

— Eu que agradeço por me receber em sua cidade.

Para meu alívio, Anastácia, a esposa de Romano, o

italiano que nesse momento participa de uma reunião com o


meu marido, não é uma fresca como algumas das esposas

da nossa Organização. Ao contrário, assim que soube que


seu marido viria até a Geórgia para se encontrar com o meu,

pediu para entrar em contato comigo.

No começo, Yerik e seus homens ficaram


desconfiados, mas fui firme e disse que gostaria de conhecê-

la. No fim, convencemos nossos maridos de que não se


tratava de uma conspiração.

Nossa conexão foi instantânea. Anastácia é aberta e

simples.

Desde então, mantivemos contato. Nossas conversas

até aqui têm sido relativamente superficiais, mas ontem eu


recebi um telefonema que fará com que minha amizade

recente com a italiana galgue para um outro nível.

O favor que pedirei, se descoberto, poderá ter


consequências sérias para nós duas.

É um ato desesperado e que também envolve muito

risco, mas não conheço ninguém nos Estados Unidos que


não seja russo e preciso de ajuda para proteger Lara.
Depois de uma hora no restaurante, decido colocar

todas as cartas na mesa.

— Eu quero lhe pedir algo.

Ela me encara sorrindo, mas acho que percebe como


estou ansiosa, então segura minha mão por cima da mesa.

— Talassa, qual é o problema?

— Preciso que você me ajude a esconder a minha


melhor amiga.
Obras da autora
Seduzida - Muito Além da Luxúria (Livro 1 da Série
Corações Intensos)
Cativo - Segunda Chance (Livro 2 da Série
Corações Intensos)
Apaixonada - Meu Para Sempre (Livro 3 da Série
Corações Intensos)
Fora dos Limites - Sedução Proibida (Livro Único)
Sedução no Natal - Conto (Spin-off de Seduzida e
Cativo)
Imperfeita - O Segredo de Isabela (Livro 4 da Série
Corações Intensos)
Isolados - Depois que Eu Acordei (Livro 5 da Série
Corações Intensos)
O Vírus do Amor (Conto Especial do Dia dos
Namorados)
Nascido Para Ser Seu (Livro Único)
168 Horas Para Amar Você (Livro Único)
Sobre Amor e Vingança (Livro Único)
168 Horas Para o Natal (Conto de Natal - Spin-off de
168 Horas Para Amar Você)
Uma Mãe para a Filha do CEO (Livro 1 da Série
Irmãos Oviedo)
A Protegida do Mafioso (Trilogia em parceria com
Van Ianovack e Mari Cardoso)
Papo com a Autora

Espero que tenham apreciado a história de amor de

Talassa e Yerik.

Como dito no começo, esse livro foi um projeto feito

em parceria com duas colegas de profissão e amigas

queridas, Mari Cardoso e Van Ianovack.

Foi um desafio, pois até agora meus mocinhos

sempre andaram do lado certo da lei, mas amei escrevê-lo

e me aventurar no obscuro ambiente mafioso, apesar de


não o considerar um livro dark.

Após A Protegida do Mafioso, darei início a minha


nova série, Alma de Cowboy, que será intercalada com

Irmãos Oviedo, além de alguns livros únicos ao longo do


ano de 2021.
Interaja com a autora através de suas redes sociais

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SOBRE A AUTORA

D. A. Lemoyne é o pseudônimo de uma advogada e

leitora ávida desde criança.

Iniciou a carreira como escritora em 2019 com o livro

Seduzida, o primeiro da série Corações Intensos.

Sua paixão por livros começou aos oito anos de

idade quando a avó, que morava em outra cidade, a levou

para conhecer sua “biblioteca” particular, que ficava em um

quarto dos fundos do seu apartamento. Ao ver o amor


instantâneo da neta pelos livros, a senhora, que era

professora de Letras, presenteou-a com seu acervo.

Do Rio de Janeiro, Brasil, mas vivendo atualmente

na Carolina do Norte, EUA, a escritora adora um bom papo


e cozinhar para os amigos.

Seus romances são intensos e os heróis,

apaixonados. As heroínas surpreendem pela força.


Acredita no amor e ler e escrever são suas maiores
paixões.

Contato: dalemoynewriter@gmail.com

[1]
Vory v Zakone (Bandidos dentro da Lei) é uma denominação
utilizada para se referir a um grupo restrito de indivíduos mais bem
sucedidos dentro da hierarquia criminal russa.
[2]
Avô.
[3]
Pakhan, também chamado de Papa, é o chefe de uma organização
criminosa russa. Aquele que controla toda a atividade criminal.
Equivaleria ao Capo di tutti capi (chefão da máfia italiana).
[4]
Optei por criar uma ilha fictícia. No caso ela menciona uma ilha
minúscula, que vem a ser também a ilha de Leandros Argyros no livro
Sobre Amor e Vingança e que mais tarde passará a pertencer a Odin
Lykaios no mesmo livro.
[5]
A ilha na qual Talassa nasceu e cresceu pertencia a Leandros
Argyros, um bilionário grego que vinha a ser também o patrão do seu
pai.
[6]
Mãe.
[7]
Yerik se refere a um favor que ele fez para Odin Lykaios,
protagonista de Sobre Amor e Vingança.
[8]
Conselheiro, assessor e homem de confiança do Pakhan.
[9]
Esse Sheik a quem Yerik se refere e “objeto” do favor feito a Odin,
também é personagem de Sobre Amor e Vingança.
[10]
Líder da máfia albanesa nos Estados Unidos.
[11]
Outra denominação para Pakhan. Também significa chefe.
[12]
Novamente uma referência a Odin Lykaios.
[13]
Uma autoridade dentro da máfia russa. Faz parte da elite.
[14]
“Gatinha” em russo.
[15]
São cobras de hábitos noturnos, sendo especialmente agressivas
após o anoitecer. Costumam caçar e devorar outras serpentes e não se
importam de praticar o canibalismo com outras kraits.
[16]
Protagonista do livro “A Vingança do Mafioso”, da autora Van
Ianovack e terceiro livro da presente trilogia “Os Reis da Máfia”.
[17]
O espaço do teto ao chão.
[18]
Protagonista do livro “A Vingança do Mafioso”, de Van Ianovack.
[19]
É a representação artística da Virgem Maria, mãe de Jesus, em
pinturas e esculturas na arte cristã.
[20]
Kombucha é uma bebida milenar feita a partir de um chá adoçado
que, a partir da fermentação controlada, auxilia a digestão.
[21]
Personal shopper é o profissional que ajuda o cliente a fazer
compras. No caso citado, alguém que a auxiliaria a comprar roupas e
acessórios adequados ao seu estilo e idade.
[22]
Ele está novamente falando de Odin Lykaios, protagonista de Sobre
Amor e Vingança.
[23]
Protagonista do livro “A Escolhida do Mafioso” de Mari Cardoso,
livro 2 da trilogia “Os Reis da Máfia”.
[24]
A caçula da série “Irmãos Oviedo”.
[25]
Loja que vende produtos para animais de estimação ou, em alguns
casos, vende também esses animais.
[26]
“Bom dia”, em russo.
[27]
A henna é uma planta nativa do Médio Oriente. É usada para
decorar cabelo e corpo há milhares de anos.

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