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Tópicos de Matemática Elementar: polinômios

Copyright© 2012-2016 Antonio Caminha Muniz Neto.


Direitos reservados pela Sociedade Brasileira de Matemática
Tópicos de
Sociedade Brasileira de Matemática
Presidente: Hilário Alencar
Matemática Elementar
Vice-Presidente: Paolo Piccione
Diretores:
João Xavier
Volume 6
José Espirrar
Marcela de Souza
Polinômios
Walcy Santos
Editor Executivo Antonio Caminha Muniz Neto
Hilário Alencar

k
Assessor Editorial
Tiago Costa Rocha
k
( - 1 ) i·(k)
Coleção Professor de Matemática

Comitê Editorial Í f ( X k+ n- i) ,
Abdênago Alves de Barros
Abramo Hefez (Editor-Chefe)
Djairo Guedes de Figueiredo
José Alberto Cuminato
Roberto lmbuzeiro Oliveira
Sílvia Regina Costa Lopes
1
Capa
Pablo Diego Regino
I)x k ] = -(f(l)+ J(w) + ... + J(wP-1) ).
p
Pl k
Distribuição e vendas
Sociedade Brasileira de Matemática
Estrada Dona Castorina, 110 Sala 109 - Jardim Botânico
22460-320 Rio de Janeiro RJ
Telefones: (21) 2529-5073 / 2529-5095
http://www.sbm.org.br / email:lojavirtual@sbm.org.br

ISBN 978-85-8337-101-4 2ª edição


2016
MUNIZ NETO, Antonio Caminha. Rio de Janeiro
Tópicos de Matemática Elementar:polinômios I Caminha Muniz Neto.

-2.ed. -- Rio de Janeiro: SBM, 2016.


v.6 ; 312 p. (Coleção Professor de Matemática; 29)
ISBN 978-85-8337-101-4

1. Números Complexos. 2. Polinômios. 3. Raízes de Polinômios. .!SBM


COLEÇÃO DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA
4. Fatoração de Polinômios. 1. Título.
1••
�· SBM
COLEÇÃO DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA
Logaritmos - E. L. Lima
Análise Combinatória e Probabilidade com as soluções dos exercícios -
A. C. Morgado, J. B. Pitombeira, P. C. P. Carvalho e P. Fernandez
Medida e Forma em Geometria (Comprimento, Área, Volume e Semelhança) -
E. L. Lima
Meu Professor de Matemática e outras Histórias - E. L. Lima
Coordenadas no Plano com as soluções dos exercícios - E. L. Lima com a
colaboração de P. C. P. Carvalho
Trigonometria, Números Complexos - M. P. do Carmo, A. C. Morgado e E. Wagner,
Notas Históricas de J. B. Pitombeira
Coordenadas no Espaço - E. L. Lima
Progressões e Matemática Financeira - A. C. Morgado, E. Wagner e S. C. Zani
Construções Geométricas - E. Wagner com a colaboração de J. P. Q. Carneiro.
Introdução à Geometria Espacial - P. C. P. Carvalho
Geometria Euclidiana Plana - J. L. M. Barbosa
Isometrias - E. L. Lima
A Matemática do Ensino Médio Vol. 1 - E. L. Lima, P. C. P. Carvalho, E. Wagner e
A. C. Morgado
A Matemática do Ensino Médio Vol. 2 - E. L. Lima, P. C. P. Carvalho, E. Wagner e
A. C. Morgado
A Matemática do Ensino Médio Vol. 3 - E. L. Lima, P. C. P. Carvalho, E. Wagner e
A. C. Morgado
Matemática e Ensino - E. L. Lima
Temas e Problemas - E. L. Lima, P. C. P. Carvalho, E. Wagner e A. C. Morgado
Episódios da História Antiga da Matemática - A. Aaboe
Exame de Textos: Análise de livros de Matemática - E. L. Lima
A Matemática do Ensino Media Vol. 4 - Exercicios e Soluções - E. L. Lima, P. C. P.
Carvalho, E. Wagner e A. C. Morgado
Construções Geométricas: Exercícios e Soluções - S. Lima Netto
Um Convite à Matemática - D.C de Morais Filho
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 1 - Números Reais - A. Caminha
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 2 - Geometria Euclidiana Plana - A.
Caminha
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 3 - Introdução à Análise - A. Caminha A meus filhos Gabriel e Isabela,
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 4 - Combinatória - A. Caminha na esperança de que um dia leiam este livro.
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 5 - Teoria dos Números - A. Caminha
Tópicos de Matemática Elementar - Volume 6 - Polinômios - A. Caminha
VI

Sumário

Prefácio XI

Prefácio à segunda edição XIX

1 Números Complexos 1
1.1 Definição e propriedades elementares 1
1.2 A forma polar de um número complexo 16

2 Polinômios 31
2.1 Definições e propriedades básicas 32
2.2 O algoritmo da divisão 40

3 Raízes de Polinômios 45
3.1 Raízes de polinômios . . . . . . . . 46
3.2 Raízes da unidade e contagem .. . 63
3.3 O teorema fundamental da álgebra 69
3.4 Raízes múltiplas . . . . 76

VII
VIII SUMÁRIO SUMÁRIO IX

4 Relações entre Coeficientes e Raízes 85 A Glossário 283


4.1 Polinômios em várias indeterminadas 85
4.2 Polinômios simétricos . 90
4.3 O teorema de Newton 101

5 Polinômios sobre IR 113


5.1 Alguns teoremas do Cálculo 113
5.2 As desigualdades de Newton 123
5.3 A regra de Descartes . . . 127

6 Interpolação de Polinômios 135


6.1 Bases para polinômios 136
6.2 Diferenças finitas . . . 146

7 Fatoração de Polinômios 155


7.1 Fatoração única em Q[X] . 155
7.2 Fatoração única em Z[X] . 164
7.3 Polinômios sobre Zp . . . . 168
7.4 Irredutibilidade de polinômios 178

8 Números Algébricos e Aplicações 189


8.1 Números algébricos . . . 190
8.2 Polinômios ciclotômicos. 201
8.3 Números transcendentes 209

9 Recorrências Lineares 215


9.1 Um caso particular importante. 216
9.2 Sequências, séries e continuidade em C 220
9.3 O caso geral . . . . . . . . . . . . . . . 234

10 Soluções e Sugestões 243

Referências 275
X SUMÁRIO

Prefácio

Esta coleção evoluiu a partir de sessões de treinamento para olim-


píadas de Matemática, por mim ministradas para alunos e professores
do Ensino Médio, várias vezes ao longo dos anos de 1992 a 2003 e,
mais recentemente, como orientador do Programa de Iniciação Cien-
tífica para os premiados na Olimpíada Brasileira de Matemática das
Escolas Públicas (OBMEP) e do Projeto Amílcar Cabral de coopera-
ção educacional entre Brasil e Cabo Verde.
Idealmente, planejei o texto como uma mistura entre uma iniciação
suave e essencialmente autocontida ao fascinante mundo das competi-
ções de Matemática, além de uma bibliografia auxiliar aos estudantes
e professores do secundário interessados em aprofundar seus conhe-
cimentos matemáticos. Resumidamente, seu propósito primordial é
apresentar ao leitor uma abordagem de quase todos os conteúdos ge-
ralmente constantes dos currículos do secundário, e que seja ao mesmo
tempo concisa, não excessivamente tersa, logicamente estruturada e
mais aprofundada que a usual.
Na estruturação dos livros, me ative à máxima do eminente mate-
mático húngaro-americano George Pólya, que dizia não se poder fazer

XI
XII SUMÁRIO SUMÁRIO XIII

Matemática sem sujar as mãos. Assim sendo, em vários pontos dei- tes dos livros-texto do secundário, fazem sua aparição. Numa terceira
xei a cargo do leitor a tarefa de verificar aspectos não centrais aos etapa, o texto apresenta outros métodos elementares usuais no estudo
desenvolvimentos principais, quer na forma de detalhes omitidos em da geometria, quais sejam, o método analítico de R. Descartes, a tri-
demonstrações, quer na de extensões secundárias da teoria. Nestes ca- gonometria e o uso de vetores; por sua vez, tais métodos são utilizados
sos, frequentemente referi o leitor a problemas específicos, os quais se tanto para reobter resultados anteriores de outra(s) maneira(s) quanto
encontram marcados com* e cuja análise e solução considero parte in- para deduzir novos resultados.
tegrante e essencial do texto. Colecionei ainda, em cada seção, outros De posse do traquejo algébrico construído no volume inicial e do
tantos problemas, cuidadosamente escolhidos na direção de exercitar aparato geométrico do volume dois, discorremos no volume três sobre
os resultados principais elencados ao longo da discussão, bem como aspectos elementares de funções e certos excertos de cálculo diferencial
estendê-los. Uns poucos destes problemas são quase imediatos, ao e integral e análise matemática, os quais se fazem necessários em cer-
passo que a maioria, para os quais via de regra oferto sugestões preci- tos pontos dos três volumes restantes. Prescindindo, inicialmente, das
sas, é razoavelmente difícil; no entanto, insto veementemente o leitor a noções básicas do Cálculo, elaboramos, dentre outros, as noções de
debruçar-se sobre o maior número possível deles por tempo suficiente gráfico, monotonicidade e extremos de funções, bem como examina-
para, ainda que não os resolva todos, passar a apreçiá-los como .corpo mos o problema da determinação de funções definidas implicitamente
de conhecimento adquirido. por relações algébricas. Na continuação, o conceito de função contínua.
O primeiro volume discorre sobre vários aspectos relevantes do con- é apresentado, primeiramente de forma intuitiva e, em seguida, axio-
junto dos números reais e de Álgebra Elementar, no intuito de munir mática, sendo demonstrados os principais resultados pertinentes. Em
o leitor dos requisitos necessários ao estudo dos tópicos constantes dos especial, utilizamos este conceito para estudar a convexidade de gráfi-
volumes subsequentes. Após começar com uma discussão não axiomá- cos - culminando com a demonstração da desigualdade de J. Jensen -
tica das propriedades mais elementares dos números reais, são aborda- e o problema da definição rigorosa da área sob o gráfico de uma fun-
dos, em seguida, produtos notáveis, equações e sistemas de equações, ção contínua e positiva - que, por sua vez, possibilita a apresentação
sequências elementares, indução matemática e números binomiais; o de uma construção adequada das funções logaritmo natural e expo-
texto finda com a discussão de várias desigualdades algébricas impor- nencial. O volume três termina com uma discussão das propriedades
tantes, notadamente aquela entre as médias aritmética e geométrica, mais elementares de derivadas e do teorema fundamental do cálculo,
bem como as desigualdades de Cauchy, de Chebyshev e de Abel. os quais são mais uma vez aplicados ao estudo de desigualdades, em
Dedicamos o segundo volume a uma iniciação do leitor à geometria especial da desigualdade entre as médias de potências.
Euclidiana plana, inicialmente de forma não axiomática e enfatizando O volume quatro é devotado à análise combinatória. Começamos
construções geométricas elementares. Entretanto, à medida em que o revisando as técnicas mais elementares de contagem, enfatizando as
texto evolui, o método sintético de Euclides - e, consequentemente, construções de bijeções e argumentos recursivos como estratégias bá-
demonstrações - ganha importância, principalmente com a discussão sicas. Na continuação, apresentamos um apanhado de métodos de
dos conceitos de congruência e semelhança de triângulos; a partir desse contagem um tanto mais sofisticados, como o princípio da inclusão
ponto, vários belos teoremas clássicos da geometria, usualmente ausen- exclusão e os métodos de contagem dupla, do número de classes de
XIV SUMÁRIO SUMÁRIO XV

equivalência e mediante o emprego de métricas em conjuntos finitos. exemplos discutidos e dos problemas propostos ao longo do texto, boa
A cena é então ocupada por funções geradoras, onde a teoria elementar parte dos quais oriundos de variadas competições ao redor do mundo.
de séries de potências nos permite discutir de outra maneira problemas Finalmente, números complexos e polinômios são os objetos de
antigos e introduzir problemas novos, antes inacessíveis. Terminada estudo do sexto e último volume da coleção. Para além da teoria
nossa excursão pelo mundo da contagem, enveredamos pelo estudo do correspondente usualmente estudada no secundário - como a noção
problema da existência de uma configuração especial no universo das de grau, o algoritmo da divisão e o conceito de raízes de polinômios
configurações possíveis, utilizando para tanto o princípio das gavetas -, vários são os tópicos não padrão abordados aqui. Dentre outros,
de G. L. Dirichlet - vulgo "princípio das casas dos pombos" -, um destacamos inicialmente a utilização de números complexos e polinô-
célebre teorema de R. Dilworth e a procura e análise de invariantes mios como ferramentas de contagem e a apresentação quase completa
associados a problemas algorítmicos. A última estrutura combinatória de uma das mais simples demonstrações do teorema fundamental da
que discutimos é a de um grafo, quando apresentamos os conceitos bá- álgebra. A seguir, estudamos o famoso teorema de 1. Newton sobre
sicos usuais da teoria com vistas à discussão de três teoremas clássicos polinômios simétricos e as igualmente famosas desigualdades de New-
importantes: a caracterização da existência de caminhos Eulerianos, ton, as quais estendem a desigualdade entre as médias aritmética e
o teorema de A. Cayley sobre o número de árvores rotuladas e o teo- geométrica. O próximo tema concerne os aspectos básicos da teoria
rema extremal de P. Turán sobre a existência de subgrafos completos de interpolação de polinômios, quando dispensamos especial atenção
em um grafo. aos polinômios interpoladores de J. L. Lagrange. Estes, por sua vez,
Passamos em seguida, no quinto volume, à discussão dos conceitos são utilizados para resolver sistemas lineares de Vandermonde sem o
e resultados mais elementares de teoria dos números, ressaltando-se recurso à álgebra linear, os quais, a seu turno, possibilitam o estudo
inicialmente a teoria básica do máximo divisor comum e o teorema de uma classe particular de sequências recorrentes lineares. O livro
fundamental da aritmética. Discutimos também o método da descida termina com o estudo das propriedades de fatoração de polinômios
de P. de Fermat como ferramenta para provar a inexistência de solu- com coeficientes inteiros, racionais ou pertencentes ao conjunto das
ções inteiras para certas equações diofantinas, e resolvemos também classes de congruência relativas a algum módulo primo, seguido do
a famosa equação de J. Pell. Em seguida, preparamos o terreno para estudo do conceito de número algébrico. Há, aqui, dois pontos cul-
a discussão do famoso teorema de Euler sobre congruências, constru- minantes: por um lado, uma prova mais simples do fechamento do
indo a igualmente famosa função de Euler com o auxílio da teoria mais conjunto dos números algébricos em relação às operações aritméticas
geral de funções aritméticas multiplicativas. A partir daí, o livro apre- básicas; por outro, o emprego de polinômios ciclotômicos para provar
senta formalmente o co1;ceito de congruência de números em relação a um caso particular do teorema de Dirichlet sobre primos em progres-
um certo módulo, discutindo extensivamente os resultados usualmente sões aritméticas.
constantes dos cursos introdutórios sobre o assunto, incluindo raízes Várias pessoas contribuíram ao longo dos anos, direta ou indire-
primitivas, resíduos quadráticos e o teorema de Fermat de caracteriza- tamente, para que um punhado de anotações em cadernos pudesse
ção dos inteiros que podem ser escritos como soma de dois quadrados. transformar-se nesta coleção de livros. Os ex-professores do Departa-
O grande diferencial aqui, do nosso ponto de vista, é o calibre dos mento de Matemática da Universidade Federal do Ceará, Marcondes
XVI SUMÁRIO SUMÁRIO XVII

Cavalcante França, João Marques Pereira, Guilherme Lincoln Aguiar ram várias sugestões. Os pareceristas indicados pela SBM opinaram
Ellery e Raimundo Thompson Gonçalves, ao criarem a Olimpíada Cea- decisivamente para que os livros certamente resultassem melhores que
rense de Matemática na década de 1980, motivaram centenas de jovens a versão inicial por mim submetida. O presidente da SBM, professor
cearenses, dentre os quais eu me encontrava, a estudarem mais Ma- Hilário Alencar da Silva, o antigo editor-chefe da SBM, professor Ro-
temática. Meu ex-professor do Colégio Militar de Fortaleza, Antônio berto Imbuzeiro de Oliveira, bem como o novo editor-chefe, professor
Valdenísio Bezerra, ao convidar-me, inicialmente para assistir a suas Abramo Hefez, foram sempre extremamente solícitos e atenciosos co-
aulas de treinamento para a Olimpíada Cearense de Matemática e pos- migo ao longo de todo o processo de edição. Por fim, quaisquer erros
teriormente para dar aulas consigo, iniciou-me no maravilhoso mundo ou incongruências que ainda se façam presentes, ou omissões na lista
das competições de Matemática e influenciou definitivamente minha acima, são de minha inteira responsabilidade.
escolha profissional. Os comentários de muitos de vários de ex-alunos Por fim e principalmente, gostaria de agradecer a meus pais, Anto-
contribuíram muito para o formato final de boa parte do material nio Caminha Muniz Filho e Rosemary Carvalho Caminha Muniz, e à
aqui colecionado; nesse sentido, agradeço especialmente a João Luiz minha esposa Mônica Valesca Mota Caminha Muniz. Meus pais me fi-
de Alencar Araripe Falcão, Roney Rodger Sales de Castro, Marcelo zeram compreender a importância do conhecimento desde a mais tenra
Mendes de Oliveira, Marcondes Cavalcante França. Jr., Marcelo Cruz idade, sem nunca terem medido esforços para que eu e meus irmãos
de Souza, Eduardo Cabral Balreira, Breno de Alencar Araripe Falcão, desfrutássemos o melhor ensino disponível; minha esposa brindou-me
Fabrício Siqueira Benevides, Rui Facundo Vigelis, Daniel Pinheiro So- com a harmonia e o incentivo necessários à manutenção de meu ânimo
breira, Antônia Taline de Souza Mendonça, Carlos Augusto David Ri- e humor, em longos meses de trabalho solitário nas madrugadas. Esta
beiro, Samuel Barbosa Feitosa, Davi Máximo Alexandrino Nogueira coleção de livros também é dedicada a eles.
e Yuri Gomes Lima. Vários de meus colegas professores teceram co-
mentários pertinentes, os quais foram incorporados ao texto de uma
ou outra maneira; agradeço, em especial, a Fláudio José Gonçalves,
Francisco José da Silva Jr., Onofre Campos da Silva Farias, Emanuel FORTALEZA, JANEIRO de 2012
Augusto de Souza Carneiro, Marcelo Mendes de Oliveira, Samuel Bar-
Antonio Caminha M. Neto
bosa Feitosa e Francisco Bruno de Lima Holanda. Os professores João
Lucas Barbosa e Hélio Barros deram-me a conclusão de parte destas
notas como alvo a perseguir ao me convidarem a participar do Pro-
jeto Amílcar Cabral de treinamento dos professores de Matemática da
República do Cabo Verde. Meus colegas do Departamento de Mate-
mática da Universidade Federal do Ceará, Abdênago Alves de Barros,
José Othon Dantas Lopes, José Robério Rogério e Fernanda Esther
Camillo Camargo, bem como meu orientando de iniciação científica
Itamar Sales de Oliveira Filho, leram partes do texto final e oferece-
XVIII SUMÁRIO

Prefácio à segunda edição

A segunda edição contempla uma extensa revisão do texto e dos


problemas propostos, tendo sido corrigidas várias imprecisões de lín-
gua portuguesa e de Matemática. A discussão sobre recorrências line-
ares foi ampliada, no que resultou o capítulo 9, inteiramente dedicado
a elas. Nele, a solução de recorrências lineares de coeficientes constan-
tes gerais é apresentada, sendo demonstrada com o auxílio de funções
geradoras complexas. Apesar dessa ser uma abordagem natural para
este problema, salta aos olhos não haver tratamento adequado desse
tema disponível em língua portuguesa. Há, ainda, uma nova seção
no capítulo 8, versando sobre números transcendentes. Nela, a prova
original de J. Liouville para a existência de números transcendentes é
demonstrada. Adicionei também alguns exemplos e problemas novos,
no intuito de melhor exercitar certos pontos da teoria, os quais não se
encontravam adequadamente contemplados pelos problemas propostos
à primeira edição. As sugestões e soluções aos problemas propostos
também foram revistas e reorganizadas, tendo sido colecionadas em
um capítulo separado, o capítulo 10. Adicionalmente, são apresenta-
das sugestões ou soluções a praticamente todos os problemas do livro.

XIX
XX SUMÁRIO

Gostaria de aproveitar o ensejo para agradecer à comunidade ma-


temática brasileira em geral, e a todos os leitores que me enviaram
sugestões ou correções em particular, o excelente acolhimento desfru-
tado pela primeira edição desta obra.

FORTALEZA, JULHO de 2016


CAPÍTULO 1
Antonio Caminha M. Neto

Números Complexos

É um fato óbvio que o conjunto dos números reais resulta pequeno


demais para uma descrição completa das raízes de funções polinomiais
reais; por exemplo, a função x r-+ x 2 + 1, x E IR, não as possui. Histori-
camente, afirmações simples como essa motivaram o desenvolvimento
dos números complexos, coroado pela demonstração, por Gauss, do
famoso teorema fundamental da álgebra.
Neste capítulo, concentramo-nos na construção do conjunto dos
números complexos e na discussão de suas propriedades mais elemen-
tares, postergando ao capítulo 3 a apresentação de uma demonstração
quase completa do teorema de Gauss acima referido.

1.1 Definição e propriedades elementares


Conforme visto no capítulo 1 de [10], em geral pensamos no con-
junto IR dos números reais como uma reta numerada: temos uma

1
2 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 3

reta qualquer (entidade geométrica) disposta horizontalmente, na qual Também é imediato verificar que (O, O) e (1, O) são, respectivamente,
marcamos um ponto (correspondente ao zero). A partir daí, escolhe- os elementos neutros de EB e 8, i.e., que
mos um comprimento padrão (que corresponderá à unidade) e duas
regras distintas para operar dois pontos da reta (denominadas adição (a, b) EB (O, O) = (a, b) e (a, b) 8 (1, O) = (a, b),
e multiplicação de números reais), de modo a obter um terceiro ponto
para todos a, b E lR. Podemos ainda checar (faça isto!) que vale a
como resultado. Então, chamamos os pontos da reta de números e
seguinte lei de cancelamento para 8:
verificamos que as operações definidas gozam de várias propriedades
úteis: comutatividade, associatividade etc. (a, b) 8 (e, d) = (O, O) ==? (a, b) = (O, O) ou (e, d) = (O, O).
A discussão acima suscita a seguinte pergunta natural: haveria al-
guma forma de introduzir operações com propriedades úteis para os Considere, agora, nossa reta real como sendo o eixo das abscissas
'
pontos de um plano? Mais precisamente, se considerarmos a reta real o que equivale a identificar cada real x com o ponto (x, O). Temos,
como o eixo horizontal de um plano cartesiano, haveria um modo de então, que ver se essa identificação é boa, no sentido de os resultados
definirmos operações com os pontos desse plano, generalizando as o- das operações EB e 8 coincidirem com os correspondentes das operações
perações com os pontos da reta real? A resposta é sim e o conjunto usuais de adição e multiplicação de números reais. Isto se resume a
resultante, que passamos a descrever, é o conjunto dos números com- verificarmos se
plexos.
(x, O) EB (y, O) = (x + y, O) e (x, O) 8 (y, O) = (xy, O), (1.2)
Considere o plano cartesiano, visto como o conjunto lR x lR dos
pares ordenados (a, b) de números reais. Defina em tal plano as ope- o que é imediato fazer.
1 1
rações EB e 8 por Em palavras, as expressões acima dizem que, ao identificarmos os
(a,b)EB(c,d) = (a+c,b+d), (a,b)8(c,d) = (ac-bd,ad+bc), (1.1) números reais com os pontos do eixo das abscissas e executarmos as
operações EB e 8 acima definidas, obtemos os mesmos resultados que
onde + e · denotam a adição e a multiplicação usuais de números reais.
obteríamos se, primeiro, executássemos as operações usuais de adição
Podemos verificar sem dificuldade que EB e 8 são operações asso-
e multiplicação com os números reais e, só então, identificássemos os
ciativas e comutativas e que 8 é distributiva em relação a EB, i.e., que,
resultados assim obtidos com os pontos do eixo das abscissas.
para todos a, b, e, d, e, f E JR, valem as seguintes propriedades:
Portanto, podemos considerar lR com suas operações usuais de adi-
1. Associatividade de EB e®: (a, b) EB ((e, d) EB (e,!))= ((a, b) EB ção e multiplicação como um subconjunto de lR x lR com as operações
(e, d)) EB (e,!) e (a, b) 8 ((e, d) 8 (e,!))= ((a, b) 8 (e, d)) 8 (e,!). EB e 8, definidas como em ( 1.1), e também chamar os pontos do plano
11. Comutatividade de EB e®: (a,b) EB (c,d) = (c,d) EB (a,b) e de números, mais precisamente de números complexos. Denotamos
o conjunto dos números complexos por C
(a, b) 8 (e, d) = (e, d) 8 (a, b).
No que segue, vamos obter um modo mais cômodo de represen-
m. Distributividade de 0 em relação a EB: (a, b)8((c, d)EB(e, !)) = tar os números complexos e suas operações. Para tanto, denotare-
((a, b) 8 (e, d)) EB ((a, b) 8 (e,!)) mos doravante por i o elemento (O, 1) do conjunto dos complexos e
4 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 5

O denominaremos a unidade imaginária 1 . Denotando por ~ nossa • Cálculo de (a, b) + (e, d): por definição, temos (a, b) + (e, d) =
identificação dos pontos do eixo das abscissas com os números reais e (a+c, b+d). Por outro lado, operando como usualmente fazemos
levando em conta a definição de 8, somos forçados a concluir que com números reais, obtemos

i 2 = (O, 1) 8 (O, 1) = (O· O- 1 · 1, O· 1 + 1 · O) = (-1, O) ~ -1. (1. 3) (a+bi) + (c+di) = (a+c) + (b+d)i.
Veja, ainda, que Mas, como estamos escrevendo (a+c,b+d) = (a+c) + (b+d)i,
os dois resultados coincidem.
(a, b) = (a, O) EB (O, b) = (a, O) EB ((b, O) 8 (O, 1)) ~a+ bi. (1.4)
• Cálculo de (a, b) · (e, d): por definição, temos (a, b) · (e, d) =
Doravante, denotaremos as operações EB e 8 simplesmente por + e ·, e (ac - bd, ad + bc). Operando novamente como com números
escreveremos a+ bi para denotar o número complexo (a, b), não mais reais, temos
utilizando identificações. Segue, a partir de (1.4), que
(a+ bi)(c + di) = ac +adi+ bci + bdi 2 = (ac - bd) + (ad + bc)i,
a+ bi =O{::} (a, b) = (O, O) {::}a~ b = O.
uma vez que i 2 = -1. Mas, como estamos escrevendo (ac -
Por outro lado, veja que, de acordo com a discussão acima, no conjunto bd, ad + bc) = (ac - bd) + (ad + bc)i, os resultados novamente
coincidem.
(C dos números complexos a equação

Levando em consideração as identificações feitas acima, podemos


x2 + 1 =O
escrever IR e C. Ademais, por analogia com as operações de adição
e multiplicação dos reais, também denominaremos as operações + e ·
tem o número i por raiz. Como veremos ao longo deste capítulo, esse
sobre complexos de adição e multiplicação, respectivamente.
fato é o cerne da importância dos números complexos.
Prosseguindo nosso estudo, vamos introduzir em (C outras duas
Uma boa justificativa para podermos escrever (a, b) E C como a+bi
operações, semelhantes à subtração e à divisão de números reais.
é que podemos operar com os complexos escritos na forma a+ bi como
Dados z, w E C, subtrair w dez significa obter um complexo z -w
fazemos com números reais, lembrando que i 2 = -1: os cálculos feitos
(a diferença entre z e w) tal que z = (z - w) + w. Sendo z =a+ bi e
desse modo levam aos mesmos resultados que os cálculos feitos usando
w = e + di e operando como com números reais, vê-se facilmente que
diretamente as definições das operações + e · de C. Senão, vejamos:

1 As
nomenclaturas imaginária e complexos têm origens históricas. Mais preci- z - w = (a+ bi) - (e+ di) = (a - e)+ (b - d)i.
samente, quando os primeiros matemáticos começaram a utilizar números comple-
xos ainda sem uma definição precisa do que tais números seriam, chamaram-nos Assim, sendo z a+ bi e w = e+ di, o número complexo z - w,
cor:iplexos ou imaginários exatamente pela estranheza que causara cogitar-se a definido por
existência de "números" cujos quadrados pudessem ser negativos.
z - w = (a - e)+ (b - d)i, (1.5)
6 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares

é denominado a diferença entre z e w. Denotamos JzJ = Ja 2 + b2 e denominamos JzJ o módulo dez. Quando
Para z, w E C, com w -# O, dividir z por w significa obter um z E IR, é imediato que a noção de módulo de um número complexo,
número complexo z / w (o quociente entre z e w), tal que z = (z / w) · w. definida como acima, coincide com a noção usual de módulo de um
Sendo z = a + bi e w = e + di e operando como quando fazemos número real. Note também que, em resumo,
racionalizações com números reais, obtemos imediatamente
z a + bi (a + bi) (e - di) z =a+ bi:::} JzJ 2 = zz = a 2 + b2 . (1.7)
w = c+di - (c+di)(c-di)
Olhando os pontos do plano cartesiano como o conjunto C dos
(ac + bd) +(bc - ad)i
complexos, obtemos uma representação geométrica de C conhecida
c2 + d2
como o plano complexo 2 .
ac + bd bc - ad .
---+
c2+d2 c2+d
27,,

Sendo z =a+ bi e w =e+ di, com w-# O, o número complexo z/w, Im


definido por
ac + bd
z
w c2 + d2 +
bc - ad .
c2 + d2 i, (1.6) b -----,, z /" 1
,/' 1
é o quociente entre z e w. ./' 1
Examinando o caso particular da divisão de 1 por um número ,, / 1
a
complexo não nulo, concluímos que todo complexo z -# Opossui inverso o 1 Re
1
em relação à multiplicação. Sendo z =a+ ib-# O, segue de (1.6) que 1
1
tal inverso, o qual denotaremos z- 1 ou 1/ z, é dado por
-b -----4
1 a b .
z- = a2 + b2 - a2 + b2 i.
Lembre-se de que não precisamos nos preocupar em decorar as fórmu-
las acima. É só operar como quando operamos com números reais. Figura 1.1: conjugação de números complexos.
A fim de simplificar muitos de nossos cálculos posteriores, intro-
duzimos, agora, a seguinte notação: para z = a + bi E C, denotamos
Os eixos horizontal e vertical do plano complexo são denominados,
por z O complexo z = a-bi e o denominamos o conjugado dez. Em
respectivamente, eixos real e imaginário. O eixo real é formado pelos
particular, temos z = z.
números complexos reais (i.e., os pares ordenados (x, O)~ x), ao passo
Observe ainda que, ao multiplicar z por z, obtemos como resultado
que o eixo imaginário é formado pelos números complexos da forma
o número real a 2 + b2 :
2
também chamado plano de Argand-Gauss, em homenagem aos matemáticos
z. z = (a+ bi)(a - bi) = a 2 - (bi) 2 = a 2 + b2 . Jean-Robert Argand e Johann Carl Friedrich Gauss.
8 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 9

yi, onde y E IR (i.e., os pares ordenados (O, y) = (y, O) · (O, 1) ~ yi); (a) z E IR{::} Re(z) =O{::} z = z.
tais números complexos são denominados imaginários puros.
Ainda em relação ao plano complexo, sendo z = a+ bi = (a, b),
segue de z = a - bi que z e z são simétricos em relação ao eixo
(e) zn = (zt, para todo n E Z.
real (veja a figura 1.1). Por outro lado, os números reais a e b são
respectivamente denominados a parte real e a parte imaginária de (d) lzl = 1 {::} z = l/z.
z, e denotados
a= Re(z), b = Im(z). Prova.
(a) Seja z =a+ bi. Temos
É, agora, claro que

Re(z) = z + z e Im(z) z- z z E IR {::} b = O {::} a+ bi =a- bi {::} z = z.


2 = ~· (1.8)
(b) Sendo z =a+ bi e w = e+ di, temos
O resultado a seguir traz mais algumas propriedades úteis dos nú-
meros complexos. Para o enunciado do mesmo, observamos que a z + w = (a - bi) + (e - di)
associatividade da multiplicação de números complexos garante a boa
= (a + e) - (b + d) i
definição de zn, para z E CC e n EN, como z 1 = z e
=z+w
n
z=~, e
n vezes

para n > 1. Tal definição pode ser facilmente estendida a expoentes zw = (ac - bd) + (ad + bc)i
inteiros n, pondo, para z E <C \ {O}, zº = 1 e = (ac - bd) - (ad + bc)i
= (a-bi)(c-di) = z·w.
zn = ( z -n)-1 = 1
-
z-n' A partir daí, vem
para n < O inteiro. Então, uma fácil indução permite mostrar que as z/w · w = z/w · w = z,
regras usuais de potenciação continuam válidas, a saber, que
de maneira que
(1.9) z/w = z/w.
(c) Para n = O o resultado é imediato e, para n E N, segue facilmente
para todos z,w E <C \ {O} e m,n E Z.
de (b), por indução. Para n < O inteiro, observe inicialmente que, pelo
Podemos, finalmente, enunciar e provar o resultado desejado.
item (b), temos
Lema 1.1. Se z e w são complexos não nulos quaisquer, então: 1 = I = zz- 1 = z · z- 1
'
10 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 11

de sorte que z- 1 = (z)-1; portanto, pondo u = z- 1 , a primeira parte Im


acima, juntamente com (1.9), fornece
z
1
lb-dl I
1
(d) Uma vez que (cf. (1.7)) z · z = lzl 2, concluímos que 1
r--- w

lzl = 1 {::} z · z = 1 {::} z = 1/ z. la-cl Re

Exemplo 1.2 (Espanha). Se z e w são números complexos de módulo


1 e tais que zw #- -1, mostre que r:z:
é um número real. Figura 1.2: módulo da diferença entre dois complexos.

Prova. Se a = t:z:, basta mostrarmos que a= a. Para tanto, note


que, pelo lema anterior, temos A desigualdade (1.10), a seguir, é conhecida como a desigualdade
z+w z+w triangular para números complexos.
a=
1 + zw 1 +z · w Corolário 1.4. Seu, v e z são números complexos quaisquer, então
z- + w-
1 1 w+z
- - -a
- 1 + z- 1 w- 1 - zw + 1 - · lu - vi : : ; lu - zl + lz - vi. (1.10)
D Prova. De acordo com a proposição 1.3, o corolário diz apenas que
Nosso próximo resultado dá uma interpretação geométrica bastante qualquer lado de um triângulo (possivelmente degenerado) é menor ou
útil do módulo da diferença de dois números complexos. igual que a soma dos outros dois lados, o que já sabemos ser verdadeiro
(conforme ensina a proposição 2.26 de [11]). D
Proposição 1.3. Dados z, w E C, o número real lz - wl é igual à
distância Euclidiana de z a w no plano cartesiano subjacente ao plano
complexo em questão.
Problemas - Seção 1.1
Prova. Se z = a + bi, w = c + di, então
1. Em relação às operações de adição e multiplicação de números
lz - wl = l(a - c) + (b- d)il = J(a - c) 2 + (b- d) 2.
complexos, verifique, a partir da definição, a associatividade e
Por outro lado (conforme a figura 1.2), a proposição 6.5 de [11] garante comutatividade, bem como a distributividade da multiplicação
que a distância dez a w também é dada por J(a - c) 2 + (b - d)2. D com respeito à adição. Verifique, ainda, que (O, O) e (1, O) são,
12 Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 13

respectivamente, seus elementos neutros e que vale a lei do can- 6. (Holanda.) A sequência (zk)k2'.l de números complexos é defi-
celamento para a multiplicação. nida, para k E N, por

2. * Para z, w E C, prove que:


Zk = II (1 + ~) ,
j=l ../]
(a) lzwl = lzl · lwl.
onde i é a unidade imaginária. Encontre todos os n E N tais que
(b) lz + wl 2 = lzl 2 + 2Re(zw) + lwl 2 .
n

3. * Use o item (b) do problema anterior para provar, para todos L lzk+l - zkl = 1000.
z, w E C, a validade da desigualdade lz + wl ~ lzl + lwl, a qual k=l

também é conhecida como a desigualdade triangular para


7. Dados z, w EC, sejam u e v os vetores de origem O e extremi-
números complexos. Em seguida, use essa desigualdade para:
dades respectivamente z e w. Prove que os números complexos
(a) Deduzir a validade de (1.10). z + w e z - w são, respectivamente, as extremidades dos vetores
u + v e u - v, com origem em O.
(b) Provar que llzl - lwll ~ lz - wl, para todos z, w E C.

Para o próximo problema, recorde que (de acordo com a seção 4.2
4. Para z E C, prove que lzl = 1 se, e só se, existe x E IR tal que
1-ix de (13]) uma relação de ordem (parcial) em X é uma relação
Z = l+ix'
j em X que é reflexiva, transitiva e antissimétrica; ademais, se

5. (OCM.) Sejam a e z números complexos tais que lal < 1 e az #- tivermos x j y ou y j x para todos x, y E X, a relação de
1. Se ordem j é dita total. Para exemplificar, veja que a relação j,

z-al < 1,
l1-az
definida em IR por
x j y~x ~ y,

prove que lzl < 1. é uma relação de ordem total; por outro lado, a relação j em
N, definida (veja o capítulo 1 de (14]) por

Para o próximo problema, definimos uma sequência de números x j y~x I y,


complexos como uma função f : N ---+ C. Parafraseando nossa
discussão sobre sequências de números reais, levada a cabo em é uma relação de ordem parcial que não é total.
(12], dada uma sequência f : N ---+ C, escrevemos Zn = f(n) e
nos referimos à sequência f simplesmente por (zn)n2'.1· 8. Prove que o conjunto dos números complexos não pode ser to-
talmente ordenado. Mais precisamente, prove que não existe,
Números Complexos 1.1 Definição e propriedades elementares 15
14

sobre <C, uma relação de ordem total~' a qual estende a relação (b) Mostre que as funções l 1 , 1,2 , 1, 3 : <C ~ lH1, tais que 1, 1 ( x+yi) =
(x, y, O, O), l2(x + yi) = (x, O, y, O) e 1,3 (x + yi) = (x, O, O, y),
de ordem usual em IR e satisfaz as condições
preservam operações, no sentido de que
o ~ z, w =} o ~ z + w' zw.

O próximo problema generaliza a construção do conjunto dos para todos z, w E (C e 1 :::::; j :::::; 3.
números complexos, apresentando a construção do conjunto lH1 (c) De posse dos itens (a) e (b), escrevamos, doravante, sim-
dos quatérnios (ou, ainda, números quaterniônicos) de Ha'- plesmente + e · para denotar EB e 8, respectivamente, x
milton3. para denotar (x, O, O, O) e i = (O, 1, O, O), j = (O, O, 1, O) e
k = (O, O, O, 1). Mostre que
9. Em lH1 = {(a, b, e, d); a, b, e, d, E IR}, defina operações EB e 8, de-
nominadas respectivamente adição e multiplicação, pondo, para i2 = j2 = k 2 = -1
(1.11)
a= (a,b,c,d) e /3 = (w,x,y,z) em lH1, ij = -ji = k,jk = -kj = i, ki = -ik = j
e
a EB /3 =(a+ w, b + x, e+ y, d+ z)
(a, b, e, d)= a+ bi + cj + dk.
e (d) Mostre que os resultados de (a+ bi + cj + dk) + (w +xi+
yj + zk) e (a + bi + cj + dk) · (w + xi + yj + zk) são os
a 8 /3 = (aw - bx - cy - dz, ax + bw + cz - dy, mesmos que obteríamos utilizando as propriedades usuais
ay - bz + cw + dx, az + by - ex+ dw), da adição e da multiplicação de números reais, juntamente
com as relações (1.11). A partir daí, conclua que:
onde + e · denotam as operações usuais de adição e multiplicação
de números reais. Faça os seguintes itens: 1. A operação + é comutativa, associativa e tem O como
elemento neutro.
(a) Mostre que a função l : IR~ lH1, tal que 1,(x) = (x,0,0,0) 11. A operação é associativa, distributiva em relação a +,
preserva operações, no sentido de que tem 1 como elemento neutro mas não é comutativa.
(e) Para a= a+ bi + cj + dk E lH1, sejam a= a - bi - cj - dj
1,(x) EB 1,(y) = 1,(x + y) e 1,(x) 8 1,(y) = 1,(x + y),
o conjugado de a. Mostre que, para a, f3 E lH1, temos

para todos x, y E R
a/3 = a/3.
(f) Para a= a+bi+cj+dk E lH1, seja lal = .)a2 + b2 + c2 + d2
o matemático inglês do século XIX William R. Hamilton. O conjunto
3 Após
a norma de a. Mostre que aa = lal 2 e la/31 = lall/31, para
dos quatérnios tem muitas aplicações importantes em Matemática e em Física,
todos a, /3 E JH1.
mas estas fogem ao escopo destas notas.
16 Números Complexos 1.2 A forma polar de um número complexo 17

(g) Use o resultado do item anterior para deduzir a identidade segue que
(7.9) de [14]. a b
COSO'.=----;::::== e sena= ,
(h) Conclua que, para todo a E IHI\ {O}, existe um único /3 E lHI Ja2 + b2 Ja2 + b2
tal que a/3 = 1. A partir daí, mostre que a lei do cancela-
de maneira que
mento vale em IHI, i.e., mostre que, se a, /3 E lHI forem tais
que a/3 = O, então a = O ou /3 = O. z = 1 z 1 ( cos a + i sen a) . (1.12)

10. (Japão.) Seja P um pentágono cujos lados e diagonais medem, Como sen (a + 2k1r) = sena e cos( a + 2k1r) cosa para todo
em alguma ordem, li, l2 , ... , lio- Se os números lr, l~, ... , l~ k E Z, a igualdade (1.12) ainda vale com a + 2k1r no lugar de a.
são todos racionais, prove que lio também é racional. Por essa razão, diremos doravante que os números da forma a + 2k1r,
com k E Z, são os argumentos do complexo não nulo z e que a
é o argumento principal de z. Ademais, sendo a um argumento
1.2 A forma polar de um número complexo qualquer dez, denominaremos a representação (1.12) de forma polar
Dado z =a+ bi E (C \ {O}, seja a E [O, 21r) a menor determinação, (ou trigonométrica) dez. Veja, ainda, que
em radianos, do ângulo trigonométrico entre o semieixo real positivo
e a semirreta que une O a z (veja a figura 1.3). I cosa+ i sen ai = 1, (1.13)

Im para todo a E IR. Também doravante, denotaremos o complexo cos a+


i sena simplesmente por eis a. Assim, sendo a um argumento de
z
z E <C, segue de (1.12) que

z = lzl eis a.

a o Re
O exemplo a seguir traz um uso interessante, ainda que elementar,
da noção de argumento de um número complexo.

Figura 1.3: forma polar de um número complexo. Exemplo 1.5. Dentre todos os complexos z tais que lz - 25il ~ 15,
obtenha o de menor argumento principal.

Escrevendo
Solução. Os complexos satisfazendo a condição do enunciado sao
z= 1z 1 ( a + b . z·) aqueles situados sobre o disco fechado de centro 25i e raio 15;
J a2 + b2 J a2 + b2 '
18 Números Complexos 1.2 A forma polar de um número complexo 19

Im Prova. O caso n = O é trivial. Supondo que tenhamos provado a


fórmula para n > O, mostremos sua validade para n < O. Para tanto,
seja n = -m, com m E N. Dado O E IR, segue do item (d) do lema
1.1 e de \eis O\ = 1 que

(eis 0)- 1 = eis O = cos O+ i sen O = cos O- i sen O


(1.15)
= cos(-0) + i sen (-0) = eis (-0).
o Re
Portanto, como estamos assumindo a validade de (1.14) com m no
lugar de n, segue que

zn = z-m = (\z\ eis a)-m = \z\-m( eis (ma)t 1


destes, o de menor argumento principal é aquele z E C tal que a se- = \zln eis (-ma) = lzln eis (na).
mirreta de origem Oe que passa por z tangencia tal círculo no primeiro
Para o caso n > O, façamos indução sobre n, sendo o caso n = 1
quadrante cartesiano. trivial. Supondo o resultado válido para um certo n E N, temos
Como o raio do círculo é 15, o teorema de Pitágoras, aplicado
ao triângulo retângulo de vértices 25i, z e O, nos dá \z\ = 20. Agora, zn+l = z · zn = lzl eis a· lzln eis (na)
sendo z = a+bi, temos que a é igual à altura desse triângulo retângulo = lzln+l eis a· eis (na),
relativa à hipotenusa; portanto, as relações métricas em triângulos
retângulos (proposição 4.9 de [11]) garantem que 25a = 15 · 20, de e basta mostrarmos que cisa· eis (na)= eis (n + l)a, i.e., que
onde segue que a= 12. Como \z\ = 20, temos que
(cos a + i sen a) (cos (na) + i sen (na)) = cos (n + 1) a + i sen (n + 1) a.
202 = \z\2 = ª2 + b2 = 122 + b2
Mas, esta última igualdade é imediata a partir das fórmulas trigono-
e, daí, b = 16. Logo, z = 12 + 16i. D métricas de adição de arcos (proposição 7.18 de [11]). D
A fórmula (1.14) a seguir, conhecida como a primeira fórmula O corolário a seguir fornece a interpretação geométrica usual para
de de Moivre4 , estabelece as vantagens computacionais da represen- a multiplicação de números complexos, um dos quais de módulo 1.
tação polar de números complexos. Para o caso geral, referimos ao leitor o problema 1.
Proposição 1.6 (de Moivre). Se z = \z\ cisa é um complexo não nulo Corolário 1.7. Sejam a um real dado e z E (C \ {O}. Se u é o
e n E Z, então vetor de origem O e extremidade z, então o ponto do plano complexo
(1.14) que representa (eis a) · z é a extremidade do vetor obtido mediante a
4 Após Abraham de Moivre, matemático francês do século XVIII. rotação trigonométrica5 deu pelo ângulo a (veja a figura 1.4).
20 Números Complexos 1.2 A forma polar de um número complexo 21

Im D
Dados n EN e z E (C \ {O}, entendemos por uma raiz n-ésirna
z
dez um complexo w tais que wn = z. Contrariamente ao que ocorre
z · eis a com números reais, cada complexo não nulo z tem exatamente n raízes
n-ésimas, as quais denotaremos genericamente por zyz. A fórmula
(1.16) a seguir, conhecida como a segunda fórmula de de Moivre
Re nos ensina a calculá-las. '

Proposição 1.9 (de Moivre). Se z = lzl cisa é um complexo não


nulo e n é um inteiro positivo qualquer, então há exatamente n valores
complexos distintos para a raiz n-ésima de z. Ademais, tais valores
Figura 1.4: interpretando geometricamente a multiplicação por eis a. são dados por

Prova. Sendo z = lzl eis O, temos da primeira fórmula de de Moivre


nlÍ--::::TI
V .
141 · eis (ª + n2k1r) ; O:S: k < n, k E N, (1.16)

que onde vTzT é a raiz real positiva de lzl.


z · eis a = 1 z I eis O· eis a = 1z I eis (O+ a).
Prova. Se w = reis O, então
Mas, este último complexo é exatamente a extremidade do vetor ob-
wn = z {::} (rcisor = lzl cisa
tido pela rotação deu do ângulo a, no sentido trigonométrico. D
{::} rn eis (nB) = lzl eis a
Corolário 1.8. Se z = lzl eis a e w = lwl eis ,B são complexos não
nulos quaisquer, então {::} rn = lzl e nB =a+ 2k1r, :l k E Z.

zw = lzwlcis (a+ ,B) e : = i1:1 1· eis (a - ,B).


Estas últimas duas igualdades ocorrem se, e só se, r = e O= vizT
a+2k1r 1
-n-, para a gum k '71
E /L,,
p ,
ortanto, havera tantas raízes n-ésimas
Em particular, a + ,B (resp. a - ,B) é a medida em radianos de um de z distintas quantos forem os números eis ( a+;;krr) distintos. Mas é
argumento para zw (resp. z/w). fácil ver que

Prova. Façamos a prova para ~, sendo o outro caso totalmente aná- . (ª


ClS + 2k1r) =
n
.
ClS (ª + 2(k + n)1r)
n
logo. Para tanto, basta ver que, por (1.15),
e
!._ = lzl eis a· lwl- 1 eis (-,B) = fl · eis (a - ,B). eis ( a +n2k1r) -=/=- eis ( a +n2l7r)
w lwl
5 Quer dizer, giramos u de um ângulo de medida a radianos, no sentido anti- para O :S: k < l < n, de maneira que basta considerarmos os inteiros k
horário se a > O e no sentido horário se a < O. tais que O :S: k < n. D
22 Números Complexos 1.2 A forma polar de um número complexo 23

Em que pese a fórmula acima, vale frisar que nem sempre ela se Como 1 = eis O, a segunda fórmula de de Moivre nos diz que há
constitui na melhor maneira de calcularmos as raízes de um certo precisamente n raízes n-ésimas distintas da unidade, as quais são
índice de um número complexo; isto porque nem sempre a forma tri- dadas por
gonométrica de complexo é efetivamente útil para cálculos. Veja o que . (2krr)
wk = eis ---:;;- ; O :::::; k < n, k E Z. (1.17)
ocorre no exemplo a seguir.
Denotando w = eis 2; , segue imediatamente de (1.17) e da pri-
Exemplo 1.10. Calcule as raízes quadradas de 7 + 24i. meira fórmula de de Moivre que as raízes n-ésimas da unidade são os
Solução. Se tentarmos utilizar a segunda fórmula de de Moivre, te- números complexos
1,w,". ,wn-1 (1.18)
remos de começar observando que
À guisa de fixação, vejamos dois exemplos.
7 + 24i = 25 (cos a + i sen a),
Exemplo 1.11. Dado n E N, ache, em função de n, as soluções da
i.
onde a = arctg 2 Mas, como tal arco não é um arco notável, os equação (z - ir=
zn.
cálculos trigonométricos que teremos de fazer para utilizar. a segunda
fórmula de de Moivre serão mais trabalhosos do que a utilização di- Solução. Como z = O não é raiz, a equação equivale a ( 1 - ~ = 1.r
Portanto, sendo w = eis 2; , segue da discussão acima que 1- ~ é igual
reta da definição de raiz quadrada de um número complexo. Senão,
a um dos números w, w2, ... , wn-l (note que 1 também não é raiz da
vejamos:
Seja 7 + 24i = (a + bi) 2 , com a, b E IR. Desenvolvendo (a + bi) 2 e equação dada). Como 1 - ~ = wk se, e só se, z = 1 _1wk, segue que zé
igualando em seguida as partes real e imaginária, obtemos o sistema igual a um dos números complexos

de equações 1 1 1
ª2 - b2 = 7 . 1 - w' 1 - w2 ' ... ' 1 - wn-1 .
{
ab = 12 D
Elevando a segunda equação ao quadrado e substituindo a2 = b2 + 7 Para o que segue, recordemos (conforme discussão que precede o
no resultado, chegamos à equação (b2 + 7)b2 = 144, de sorte que problema 6, página 12) que uma sequência de números complexos é
b2 = 9. Mas, como ab = 12 > O, concluímos que a e b devem ter sinais uma função f : N ---+ C, a qual será, o mais das vezes, denotada
iguais e, a partir daí, que os possíveis pares (a, b) são (a, b) = (3, 4) simplesmente por (zn)n::::1, onde Zn = f(n). Isto posto, observamos
ou (-3, -4). Logo, as raízes quadradas procuradas são os números que a demonstração da fórmula para a soma dos n primeiros termos
complexos ±(3+ 4i). D de uma PG de números reais e razão diferente de O e 1 é válida
'
Como caso particular importante da discussão sobre raízes de nú- ipsis literis, para uma PG de números complexos, i.e., uma sequência
meros complexos, dizemos que o número complexo w é uma raiz da (zn)n::::1 de complexos, tal que Zk+l = qzk para todo k 2:: 1, onde
unidade se existir um natural n tal que wn = 1. Neste caso, w é q E C \ {O, 1}. Portanto, podemos enunciar o resultado auxiliar a
denominado uma raiz n-ésima da unidade. seguir.
11
4·\
24 Números Complexos !' 1.2 A forma polar de um número complexo 25

Lema 1.12. Para z E C \ {O, 1}, temos e segue, de (1.20), que


2 n 1 zn - 1 1r 21r 31r 1
l+z+z +···+z - = - - cos 7 - cos 7 + cos 7
z-1 = -Re(w +w 2 +w 3 ) = 2.
Como corolário do lema acima, note que, se w =I 1 é uma raiz D
n-ésima da unidade, então wn = 1, de maneira que
O próximo resultado usa a segunda fórmula de de Moivre para dar
1 + w + w2 + · · · + wn-l = O. (1.19) uma bela interpretação geométrica para as raízes n-ésimas de um
Utilizaremos a fórmula acima várias vezes em nossas discussões pos- complexo não nulo.
teriores.
Proposição 1.14. Se zé um complexo não nulo e n > 2 é um natural,
Exemplo 1.13 (IMO). Use números complexos para provar que então as raízes n-ésimas de z são os vértices de um n-ágono regular
centrado na origem do plano complexo.
1r 27r 31r 1
cos- - cos- +cos- = -
7 7 7 2· Prova. Sendo a um argumento de z, segue da segunda fórmula de de
Prova. Se w = eis 2; , uma raiz sétima da unidade, então Moivre que as raízes n-ésimas de z são os complexos z0 , z1 , ... , Zn-l
tais que
Re(w + w2 + w3 ) = cos 27r + cos
7
4 1r
7
+ cos 51r
7
nfi":T ,
Zk = y 1~1 • ClS

+n2k7r) ,
21r 31r 1r
= cos 7 -cos 7 -cos 7 . para O::::; k < n.
A partir de (1.13), obtemos
Por outro lado, como wk · w7-k = 1 e lwkl = 1, segue do item (d) do
lema 1.1 que
w7-k = (wk)-1 = wk.
Portanto, w + w2 + w3 = w6 + w5 + w4 e, daí, de sorte que os pontos zk estão todos situados sobre o círculo de centro
O e raio ~ do plano complexo. Por outro lado, segue do corolário
Re(w + w2 + w3 ) = Re(w 6 + w5 + w4 ). (1.20)
1.8 que
Por fim, segue de (1.19) que Zk+1 = eis (21r) '
Zk n
w+w 2 + .. ·+w 6 = -1; para O ::::; k < n. Então, sendo uk o vetor de origem O e extremidade
daí, tomando partes reais e utilizando (1.20), obtemos zk, segue do corolário 1. 7 que o ângulo entre uk e uk+l, medido em
radianos e no sentido anti-horário, é, para O::::; k < n, igual a 2: .
2Re(w + w2 + w3 ) = Re(w + w2 + w3 ) + Re(w 6 + w5 + w4 ) = -1 A proposição decorre imediatamente desses dois fatos. D
26 Números Complexos 1.2 A forma polar de um número complexo 27

Im lm

1
. w3
Re Re

Figura 1.5: disposição geométrica de raízes quartas de -1. Figura 1.6: raízes sextas da unidade.
; 1 1

Exemplo 1.15. Na figura 1.5, representamos, no plano complexo, as Problemas - Seção 1.2
raízes quartas de -1. Observe que z1 = Jf=-Iícis i = 1J;.
1. Para r E lR \ {O}, definimos a homotetia de centro O e razão
O corolário a seguir isola uma consequência importante do resul-
r como a função Hr : C --+ C, tal que Hr(z) = rz, para todo
tado anterior. z E C. Para () E lR \ {O}, definimos a rotação de centro O
Corolário 1.16. As raízes n-ésimas da unidade se dispõem, no plano e ângulo () como a função R 0 : C \ {O} --+ C \ {O}, tal que
complexo, como os vértices do polígono regular de n lados, inscrito no Ro(z) = (cisO)z, para todo z E C \ {O}.
círculo de raio 1 centrado na origem e tendo o número 1 como um de
(a) Seja u o vetor de origem O e extremidade z. Se w = Hr(z),
seus vértices.
prove que o vetor de origem O e extremidade w é ru.
Exemplo 1.17. Na figura 1. 6, temos w = eis 2; = l+;v'3, de sorte que
(b) Se w = reis() é um complexo não nulo, prove que, para
os números complexos 1, w, ... , w5 são as raízes sextas da unidade.
todo z E C \ {O}, temos
Os números 1, w2 e w4 são as raízes cúbicas da unidade, ao passo que
os números w, w3 = -1 e w5 são as raízes cúbicas de -1. wz = Hr o Ro(z).

2. (OCM.) Seja w um número complexo tal que w2 +w + 1 = O.


28

Calcule o valor do produto


Números Complexos '
I;
!~:;;,
~ 1.2 A forma polar de um número complexo

11. Dados n > 2 inteiro e a E IR, use números complexos para


29

calcular cada uma das somas abaixo em função de n e a:

(a) sena+ sen (2a) + sen (3a) + · · · + sen (na).


(b) sen 2a + sen 2(2a) + sen 2(3a) + · · · + sen 2(na).
3. Seja num natural múltiplo de 3. Calcule o valor de (1 + v'3it-
(1 - v'3it. 12. Dê exemplo de um conjunto infinito 7 e <C satisfazendo as se-
4. Resolva em <C o sistema de equações guintes condições:

lz1I = lz2I = lz3I = 1 (a) Para todo z E 7 existe n EN tal que zn = 1.


{ Z1 + Z2 + Z3 = Ü
(b) Para todos z, w E 7, temos zw E 7.
Z1Z2Z3 = 1
13. (Croácia.) Sejam n um natural dado e A um conjunto de n
5. Encontre, em função de n EN, as soluções da equação números complexos não nulos, tendo a seguinte propriedade: se
1
(1 + z) 2n + (1 - z) 2n =· O. quaisquer dois de seus elementos (não necessariamente distintos)
! '
forem multiplicados, obtemos outro elemento do conjunto. Ache
6. Mostre que todas as raízes da equação (z-1) 5 = 32(z+ 1) 5 estão todos os conjuntos A possíveis.
situadas sobre o círculo do plano complexo de raio Í e centro -i,
14. Seja g : <C --+ <C uma função dada e w = eis 2;. Para cada número
7. (Irlanda.) Para cada n E N, defina an = n2 + n + 1. Dado k E N, complexo dado a, prove que há uma única função f : (C --+ <C tal
prove que existem EN tal que ªk-Iak = ªm· que

8. (Romênia.) Sejam p, q E <C, com q =/=- O, tais que a equação


f(z) + f(wz + a) = g(z), V z E <C.
x 2 + px + q2 = O tem raízes de módulos iguais. Prove que ~ E lR.

9. Sejam z1, z2 e z3 números complexos não todos nulos. Prove que


z1, z2 e z3 são os vértices de um triângulo equilátero no plano
complexo se, e só se,
2 2 2
Z1 + Z2 + Z3 = Z1Z2 + Z2Z3 + Z3Z1,

10. Dado n > 2 inteiro, use números complexos para provar que
n-1 2k7r n-1 2k7r
~cos-- = I:sen-- = O.
L- n n
k=O k=O
30 Números Complexos

CAPÍTULO 2

Polinômios

De um ponto de vista mais algébrico, funções polinomiais reais po-


dem ser encaradas como polinômios de coeficientes reais. Conforme
veremos a partir deste capítulo, um tal ponto de vista resulta muitís-
simo frutífero no estudo de polinômios, não somente os de coeficientes
reais, mas também aqueles com coeficientes racionais ou, mais ge-
ralmente, complexos. Nesse sentido, em tudo o que segue, sempre
que uma propriedade for válida para polinômios com coeficientes em
um qualquer dos conjuntos numéricos (Ql, lR. e C, escreveremos sim-
plesmente IK para denotar tais conjuntos, salvo menção explícita em
contrário. Nosso propósito é, pois, desenvolver os aspectos algébricos
elementares da teoria dos polinômios sobre IK. 1
1 Para os que já estudaram um pouco de Estruturas Algébricas, frisamos que lK

poderia denotar um corpo qualquer de característica O. De fato, a restrição de lK


a (Ql, ~ ou C é meramente psicológia, tendo o intuito de tornar o mais elementar
possível a discussão subsequente.

31
------------~---- -

Polinômios 2.1 Definições e propriedades básicas 33


32

Definições e propriedades básicas i. Os elementos ai E IK são denominados os coeficientes de f.


2.1
ii. Quando ai = O omitiremos, sempre que for conveniente, o termo
Colecionamos, nesta seção, as definições e notações básicas sobre
aiXi. Em particular, como a sequência (a 0, a 1 , a 2, .. .) é quase
polinômios, as quais serão fundamentais para os desenvolvimentos sub-
toda nula, existe um inteiro n ~ O para o qual podemos escrever
sequentes da teoria.
n

Definição 2.1. Uma sequência (a 0, a 1 , a2, .. .) de elementos de IK é f(X) = Lªkxk.


dita quase toda nula se existir n ~ -1 tal que k=O

iii. Quando ai = ±1, escreveremos ±Xi em vez de (±l)Xi, para O

termo correspondente de f.
Em palavras, uma sequência (ao, a 1 , a 2, .. .) é quase toda nula se
todos os seus termos, de uma certa posição em diante, forem iguais a iv. O polinômio O = O+ OX + OX 2+ · · · é denominado o polinômio
identicamente nulo sobre IK. Sempre que não houver perigo
zero. Por exemplo, as sequências
de confusão com O E IK, denotaremos o polinômio identicamente
(O, O, O, O, O, O, ... ) e (1, 2, 3, ... , n, O, O, O, ... ) nulo sobre IK simplesmente por O.

são quase todas nulas; por outro lado, a sequência (1, O, 1, O, 1, ... ), v. Mais geralmente (e consoante ii.), dado a E IK, denotamos o po-
com l's e O's se alternando indefinidamente, não é quase toda nula. linômio a+ox +OX 2+· · · simplesmente por O: e O denominamos
o polinômio constante a; em cada caso, o contexto deixará
Definição 2.2. Um polinômio sobre ( ou com coeficientes em) IK é
claro se estamos nos referindo ao polinômio constante e igual a
uma soma formal f = f(X) do tipo a ou ao elemento a E IK.
f(X) = ªº + a1X + a2X 2 + a3X 3 + ... := L akxk, (2.1) Denotamos por IK[X] o conjunto de todos os polinômios sobre IK.
k2:0 Em particular, de posse do item v. acima, convencionamos também
onde (ao, a 1 , a 2, .. .) é uma sequência quase toda nula de elementos de que
IK e convencionamos Xº = 1 e X 1 = X no somatório acima. IK e IK[X].

Ainda em relação à definição acima, cumpre observar que X é um


Por outro lado, as inclusões (Q e IR e C fornecem as inclusões
símbolo qualquer. Em particular, X não representa uma variável e (Q[X] e IR[X] e C[X].
poderíamos, por exemplo, ter utilizado o símbolo O em seu lugar.
Assumiremos ainda que os polinômios f(X) = Lk2:o akXk e g(X) = Exemplo 2.3. Se f(X) = 1 + X - X 3 + \!'2X7, então f tJ. (Q[X]
Lk>O bkXk sobre IK são iguais se, e só se, ak = bk, para todo k ~ O. (uma vez que v'2 (f. Q) mas f E IR[X]. Já a expressão g = 1 +X+
x2 + x3 + x4 + · · · nao- e, um po l.inomio, uma vez que a sequência
Dado um polinômio f(X) = a0 + a 1X + a2X 2 + a3X 3 + · · · sobre
A •

IK, adotamos as seguintes convenções: (1, 1, 1, ... ) não é quase toda nula.
r
oe:3. cc4_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _=-P=ol=in=ô=m=1=·º=-s
1
i' 2.1 Definições e propriedades básicas 35

a soma e_º produto de f e g, denotados respectivamente por f EB g


No que segue, vamos definir sobre IK[X] operações
e f 8 g, sao os polinômios
EB : IK[X] x IK[X] ----+ IK[X] e 8 : IK[X] x IK[X] ----+ IK[X],
U EB g)(X) = L(ak + bk)Xk
k2:0
respectivamente denominadas adição e multiplicação. Para tanto,
precisamos inicialmente do seguinte resultado auxiliar. e
U 8 g)(X) = Lckxk,
Lema 2.4. Se (ak)k2:o e (bk)k2:o são sequências quase todas nulas de k2:0
elementos de OC, então também são quase todas nulas as sequências
(ak ± bk h2:o e (ck h2:o, onde Ainda que, em princípio, possa não parecer, a definição do produto
k de dois polinômios é bastante natural: a fórmula para o coeficiente ck
ck = L aibj = L aibk-i· de f 8 g é necessária se quisermos que valham a distributividade da
i+i=k i=O operação 8 em relação à operação EB, bem como a regra usual de
i,j2:0
potenciação xm 8 xn = xm+n. De fato, se tais propriedades forem
Prova. Mostremos somente que a sequência (ck) k2:0 é quase toda nula, válidas, então, calculando o produto
ficando o outro caso como exercício para o leitor (veja o problema 1).
Sejam m, n E Z+ tais que ai = O para i > n e bj = O para j > m. Se (ao+ a1X + a2X 2 + · · ·) 8 (b0 + b1X + b2 X 2 + ... )
k > m + n e i + j = k, com i, j ~ O, então i > n ou j > m, pois, do
distributivamente, obtemos
contrário, teríamos k = i + j :S n + m, o que não é o caso. Mas, como
i > n =} ai = O e j > m =} bj = O, em qualquer caso temos aibj = O, aobo = L aibj
i+j=O
de sorte que i,j2:0
Ck = L aibj = O. para coeficiente de Xº,
i+j=k
i,j2:0
o aob1 + a1bo = L aibj
i+j=l
i,j2:0
De posse do lema anterior, podemos finalmente formular as defini-
para coeficiente de X,
ções das operações de adição e multiplicação de polinômios.
1

Definição 2.5. Dados em IK[X] os polinômios


aob2 + a1 b1 + a2bo = L aibj
i+j=2
i,j2:0

para coeficiente de X 2 e assim por diante.


36 Polinômios 2.1 Definições e propriedades básicas 37

De fato, não é difícil nos convencermos (cf. problema 3) de que, deixará claro a qual operação o sinal+ se refere. Note, ainda, que urn
conforme foram definidas, as operações de adição e multiplicação de comentário análogo é válido para o sinal · de multiplicação.
1 ! polinômios sobre lK gozam das seguintes propriedades:
Observação 2.7. Todas as definições acima podem ser estendidas,
i. Comutatividade: f E9 g = g E9 f e f 0 g = g 0 f; aliás de maneira óbvia, para incluir polinômios de coeficientes inteiros.
Doravante, sempre que necessário, denotaremos o conjunto de tais
ii. Associatividade: (! E9 g) E9 h =f E9 (g E9 h) e (! 0 g) 0 h = polinômios por Z[X].
f 0 (g 0 h);
Sendo O o polinômio identicamente nulo, ternos f + O = O+ f = O
m. Distributividade: f 0 (g E9 h) = (! 0 g) E9 (! 0 h),
para todo f E JK[X], i.e, o polinômio identicamente nulo é o elemento
para todos f,g, h E JK[X]. neutro da adição de polinômios. Por outro lado, dado f E JK[X],
existe urn único polinômio g E JK[X] tal que f + g = g + f = O: de
Exemplo 2.6. Considere os polinômios de coeficientes reais f(X) =
fato, sendo f(X) =ao+ a1X + a 2X 2 +···,é imediato que
1 + X - v'2X 2 - 4X 3 e g(X) =X+ X 2, onde, como anteriormente
convencionado, omitimos os coeficientes nulos. Então g(X) = -ao - a1X - a 2 X 2 - · •.

(! EB g)(X) = 1 + 2X + (1 - v'2)X 2 - 4X 3
é esse único polinômio, o qual será, doravante, denotado por - f. As-
e sim,
(-!)(X)= -ao - a1X - a 2 X 2 - • • •
(! 0 g)(X) = (1 + X - v'2X 2 - 4X 3) 0 (X+ X 2)
= [10 (X+ X 2)] E9 [X 0 (X+ X 2)]EB e, para /, g E JK[X], podemos definir a diferença f - g entre f e g
por f - g = f + ( -g).
E9 [-v'2X 2 0 (X+ X 2)] E9 [-4X 3 0 (X+ X 2)]
Para a E lK e g(X) = bo + b1X + b2X 2 + · · · E JK[X], é imediato
= (X+ X2) E9 (X2 + X3) E9 ( -v'2X3 - v'2X4)EB verificar que
E9 ( -4X 4 - 4X 5 ) a · g = abo + ab1X + ab2X 2 + · · . ;
=X+ 2X 2 + (1 - v'2)X 3 - (v'2 + 4)X4 - 4X 5 . em particular, ternos 1 · g = g para todo g E JK[X], de maneira que
A discussão acima deixa claro que podemos relaxar nossas nota- o polinômio constante 1 é o elemento neutro da multiplicação de po-
ções, denotando, a partir de agora, as operações de adição e multipli- linômios.
cação de polinômios sirnplesrnente por + e ·. Assim, sempre que adi- Doravante, sempre que não houver perigo de confusão, escrevere-
cionarmos dois polinômios, os sinais + representarão duas operações mos sirnplesrnente f g para denotar o produto f · g, de f, g E JK[X].
diferentes: a adição de elementos de lK, efetuada sobre os coeficientes Em particular, se a E JK, então af denotará o produto de a, visto
dos polinômios ern questão, e a adição de elementos de JK[X]. No en- como polinômio constante, e f.
tanto, isto não deve causar confusão, urna vez que o contexto sempre A definição a seguir desempenhará papel central ao longo do texto.
~382.__ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __.:=..P-=-o=lin=º=Am=iº=---'

Definição 2.8. Se J(X) = a0 + a1 X + · · · + anXn E IK[X] \ {O}, ,'l


r
l:
2.1 Definições e prnpriedades básicas

e há duas possibilidades: an + bn = O ou an + bn =f O. No pri-


39

meiro caso, 8(! + g) < n = max{8f, 8g}. No segundo, 8(! + g) =


com an -=I O, dizemos que o inteiro não negativo n é o grau de f, e ~
n = max{8f,8g}. Em qualquer caso, ainda teremos 8(! + g) ::;
a
denotamos f = n (lê-se "o grau de f é igual a n"). i-
max{8f, 8g}.
Veja que só definimos grau para polinômios não identicamente nu-
los; por outro lado, 8f = O para todo polinômio constante J(X) = a, (b) Seja fg = co+c1X +c2X 2+· · ·. Se k > m+n, vimos, na prova do
com a E lK \ {O}. Doravante, sempre que nos referirmos a f E lema 2.4, que ck = O. Portanto, se mostrarmos que Cm+n -=I O, seguirá
IK[X] \ {O} escrevendo que fg-# O e 8(fg) = m+n = 8f +8g. Mas, como ai= O parai> n
e bj = O para j > m, é imediato que
f (X) = anXn + · · · + a1 X + ao

suporemos, salvo menção em contrário, que an -=I O. Nesse caso, an


Cm+n = L aibj = anbm =f O.
i+j=m+n
i,j?_O
será denominado o coeficiente líder de f. Finalmente, f será dito
mônico quando tiver coeficiente líder 1. D
A proposição a seguir estabelece duas propriedades muito impor-
tantes da noção de grau de polinômios.

Proposição 2.9. Para f,g E IK[X] \ {O}, temos:


Problemas - Seção 2.1
(a) au + g)::; max{8f,8g} se f + g -=I o.
1. * Se (ak)k?.O e (bk)k?.o são sequências quase todas nulas de ele-
(b) f g -=I O e 8(f g) = 8f + 8g. mentos de IK, mostre que a sequência (ak ± bk)k?.O também é
Prova. Sejam af = n e 8g = m, com quase toda nula.

2. Dado n EN, execute as seguintes multiplicações de polinômios:

(a) Sem -=I n, podemos supor, sem perda de generalidade, quem> n. (a) (X - l)(xn- 1 + xn- 2 +···+X+ 1).

Então (b) (X+ l)(xn- 1 - xn- 2 + · · · - X+ 1), se n for ímpar.


(c) (X+ l)(X 2 + l)(X 4 + 1) ... (X 2n + 1).
(f + g)(X) =(ao+ bo) + · · · + (an + bn)Xn + bn+1xn+1 + · · · + bmXm,

de forma que 8(! + g) = m = max{8f, 8g}. Sem= n mas f + g =f O,


3. * Mostre que as operações de adição e multiplicação de poli-
nômios são comutativas, associativas e que a multiplicação é
então
distributiva em relação à adição.
(f + g)(X) =(ao+ bo) + · · · + (an + bn)Xn
40
Polinômios
ri;;,
6
2.2 O algoritmo da divisão 41

4. * Mostre que, em K[X], não há divisores de zero. Mais preci- com ri= O ou O ~ ori < og, parai= 1, 2. Então, g(q1 - q2) = r 2 - r 1
samente, mostre que se f,g E K[X] são tais que fg = O, então e, se q1 -=/:- q2, o problema 4, página 40, garante que r 1 -=/:- r 2. Mas, pela
f = o ou g = o. proposição 2.9, temos

5. (Torneio das Cidades.) Encontre pelo menos um polinômio f, og ~ og + o(q1 - q2) = o(g(q1 - q2))
de grau 2001, tal que J(X) + J(l - X) = 1. = o(r1 - r2) ~ max{or1, or2} < og,

O que é um absurdo. Portanto, q1 = q2 e, daí, r 1 = r 2.


2.2 O algoritmo da divisão Façamos, agora, a prova da existência de polinômios q e r satisfa-
zendo as condições do enunciado. No que segue, sejam b o coeficiente
Já vimos ser possível adicionar, subtrair e multiplicar polinômios, líder e no grau de g, e consideremos o seguinte algoritmo:
sendo o resultado ainda um polinômio. E quanto à possibilidade de
uma operação de divisão para polinômios? Bem, nem sempre será Algoritmo da divisão para polinômios
possível efetuá-la; em outras palavras, dados polinômios f, g E K[X], 1. FAÇA
com g -=/:- O, nem sempre existirá h E K[X] tal que f = gh; por exemplo,
se J(X) =X+ 1 e g(X) = X 2 então um tal polinômio h não existe, • r +-- f; m +-- of; q +-- O;
pois, caso existisse, deveríamos ter • a+-- COEFICIENTE LÍDER DE r;

1 = of = o(gh) = og +oh= 2 + oh 2. ENQUANTO r -=/:- 0 OU or 2:: og FAÇA

e, daí, oh= -1, o que é um absurdo.


Apesar da discussão do parágrafo anterior, o seguinte análogo da • r(X) +-- r(X) - ab- 1 xm-ng(X);
divisão de inteiros, denominado o algoritmo da divisão para po- • q(X) +-- q(X) + ab- 1 xm-n;
linômios, ainda é válido. • m +-- or
Teorema 2.10. Se f, g E K[X], com g -=/:- O, então existem únicos • a+-- COEFICIENTE LÍDER DE r;
q, r E K[X] tais que
3. LEIA OS VALORES FINAIS DE r E DE q.
f = gq + r, com r = o ou o~ or < og. (2.2)
Provemos que o algoritmo acima realmente termina após um núme-
1

Prova. Mostremos, inicialmente, que há no máximo um par de po- ro finito de repetições do laço ENQUANTO e nos dá, ao final, polinômios
11

linômios q e r satisfazendo as condições do enunciado. Para tanto, q e r como desejado.


sejam q1 , q2, r 1 , r 2 E K[X] tais que Ser -=/:- 0 ou or 2:: og, então a instrução do laço ENQUANTO troca
r(X) pelo polinômio r(X) - ab- 1 xm-ng(X); tal polinômio, se não
for o polinômio nulo, tem grau menor que o de r, uma vez que o
2.2 O algoritmo da divisão 43
Polinômios
42

1. Fazemos as atribuições r(X) = X 4 - 2X 2 + 5X + 7; m = 4;


polinômio ab- 1xm-ng(X) tem grau m (que é o grau de r antes da
execução do laço) e coeficiente líder a (que é o coeficiente líder de r q(X) = O; a = 1.
antes da execução do laço). Assim, o algoritmo pára após um número 2. Como nem r(X) = O nem m = 4 < n = 2, trocamos r(X) por
finito de passos.
Após a primeira atribuição, temos
r(X) - ab- 1xm-ng(X) =
1
f(X) = g(X)q(X) + r(X), = X 4 - 2x 2 + sx + 7 - -x4- 2(3X 2 + 1)
3
7 2
uma vez que, no início, q(X) = O e r(X) = J(X). Suponha, por = - 3X +5X +7,
hipótese de indução, que após uma certa execução do laço ENQUANTO
tenhamos f(X) = g(X)q(X) + r(X) e que, nesse momento, r(X) =l-
m por 2, q(X) por
O e or :2:: og. Então a próxima execução ocorre e troca r(X) por 1 1
q(X) + ab-ixm-n =O+ -x4-2 = -X2
r(X) - ab- 1xm-ng(X) e q(X) por q(X) + ab- 1xm-n. Como 3 3

(2.3) e a por - 37 .

é igual a g(X)q(X) + r(X), segue da hipótese de indução que, após 3. Como ainda não temos nem r(X) = O nem m = 2 < n = 2, ·
tal execução, ainda teremos (2.3) igual a f(X). D trocamos r(X) por

Nas notações do algoritmo da divisão para polinômios, dizemos que r(X) - ab- 1xm-ng(X) =
(o valor final de) q é o quociente e (o valor final de) r é o resto da 7 7/3
= --X 2 + 5X + 7 + - X 2- 2(3X 2 + 1)
divisão de f por g. Ademais, quando r = O, dizemos que fé divisível 3 3
por g ou, ainda, que g divide f, e denotamos g I f. =5X 70
+ 9'
Observação 2.11. Como o leitor pode facilmente verificar repassando
m por 1, q(X) por
a discussão acima, o algoritmo da divisão ainda é válido para polinô-
mios em Z[X], contanto que o coeficiente líder do polinômio divisor q(X) + ab-1 xm-n = ~X2 + -7 /3 x2-2 = ~X2 - ~
seja ±l. Mais precisamente, se f, g E Z[X], onde g =1- O tem coefici- 3 3 3 9
ente líder ±1, então q e r também têm coeficientes inteiros. No que e a por 31 .
segue, usaremos esta observação sem maiores comentários.
4. Agora, ainda temos r(X) =1- O, mas m = 1 < n = 2, de modo que
Vejamos como o algoritmo da divisão se comporta num exemplo não mais voltamos para o início do loop. Simplesmente lemos
particular. Considere o problema de dividir f(X) = X 4-2X 2+5X +7
por g(X) = 3X2 + 1 em Q[X]. Iniciamos o algoritmo armazenando os r(X) = 5X + 79ü e q(X) = ~X 2 - ~-
3 9
valores b = 3 e n = 2. Ao segui-lo, temos os seguintes passos:
Polinômios
44

Podemos esquematizar o procedimento acima na tabela abaixo, ao


longo da qual você deve identificar cada uma das passagens acima:

Algoritmo da divisão para polinômios

x4 -2X 2 +5X +7 3X 2 + 1 CAPÍTULO 3


-X4 -1/3X 2 1/3X 2
-7/3X 2 +5X +7 1/3X 2 - 7/9
7/3X 2 +7/9
5X +70/9
Raízes de Polinômios

Problemas - Seção 2.2

1. Se n E N, encontre o resto da divisão do polinômio (X 2 +X+ 1t


pelo polinômio X 2 - X + 1.
Na exposição que fizemos até agora da teoria de polinômios não
2. Dados m, n E N, com m > n, encontre o resto da divisão de
tivemos, em momento algum, a intenção de substituir X por um nú-
X 2m + 1 por X 2 + 1.
n
mero. De outra forma, até o presente momento, polinômios têm sido
3. Ao dividirmos um polinômio f E Q[X] por X +2, obtemos resto para nós meramente expressões formais com as quais aprendemos a
-1; ao dividirmos f por X - 2, obtemos resto 3. Encontre o operar. Nesse sentido, a indeterminada X é um símbolo sem sig-
nificado aritmético, e observamos uma vez mais que poderíamos tê-lo
resto da divisão de f por X 2 - 4.
substituído pelo símbolo D, por exemplo, sem problema algum.
4. Um polinômio f E IR[X] deixa resto 4 quando dividido por X+ 1 Remediamos o estado de coisas descrito acima neste capítulo, onde
e resto 2X + 3 quando dividido por X 2 + 1. Obtenha o resto de introduzimos o conceito de raiz de um polinômio e de função polino-
sua divisão por (X+ l)(X 2 + 1). mial associada a um polinômio. Dentre os vários resultados impor-
tantes discutidos, destacamos a apresentação de uma demonstração
completa do teorema fundamental da álgebra. Outros pontos dignos
de nota são a discussão do critério de pesquisa de raízes racionais de
polinômios de coeficientes inteiros e a utilização de raízes da unidade
como marcadores de posição em certos problemas combinatórios.

45
46 Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 47

3 .1 Raízes de polinômios (c) Se a 1 , ... , ak forem raízes duas a duas distintas de f, então o
polinômio (X - a 1 ) ···(X - ak) divide f (X) em K[X].
Para continuar nosso estudo de polinômios, é conveniente conside-
rar a função polinomial associada a um polinômio. Prova.
(a) Segue do algoritmo da divisão a existência de polinômios q, r E
Definição 3.1. Para f(X) = anXn+· · ·+a1 X +ao E K[X], a função K[X] tais que
polinomial associada a f é a função J : K --+ K dada, para x E K,
f(X) = (X - a)q(X) + r(X),
por
com r = O ou O ~ 8r < 8(X - a) = 1. Portanto, r(X) = c, um po-
linômio constante. Por outro lado, sendo J e ij as funções polinomiais
Quando f (X) = c, note que a função polinomial associada f será respectivamente associadas a f e q, segue da igualdade acima que
a função constante ](x) = c, para todo x E K, justificando o nome
constante imputado anteriormente a um polinômio de grau O. ](a)= (a - a)ij(a) + c = e,
Definição 3.2. Seja f E K[X] um polinômio, com função polznomial i.e., f(X) = (X - a)q(X) + ](a). Assim,
associada f : K --+ K. Um elemento a E K é uma raiz de f se
](a) = O.
a é raiz de f {::} ](a) =O{::} f(X) = (X - a)q(X).

(b) Sem > 8f, então (X - a)m f f(X), uma vez que 8(X - a)m =
Por exemplo, se f(X) =X+ 1 E <C[X], é fácil ver que x = -1 é a
a
m > f. Daí e do item (a), existe um maior inteiro positivo m tal que
única raiz de f em <C. De fato, a função polinomial associada a f é
(X - a)m I J(X), digamos J(X) = (X - a)mq(X). Passando para
]:<C - t (C funções polinomiais, obtemos, a partir daí, a igualdade
X f-----7 X +1 '
](x) = (x - a)mij(x), V x E K;
de sorte que ](x) = O se, e só se, x = -1.
se ij(a) = O, seguiria de (a) que q(X) = (X - a)q1 (X), para algum
A proposição a seguir é conhecida como o teste da raiz.
polinômio q1 E K[X]. Mas aí, teríamos
Proposição 3.3. Se f E K[X] \ {O} e a E K, então:

(a) a é raiz de f se, e só se, (X - a) 1 f(X) em K[X].


contrariando a maximalidade de m.
{b) Se a for raiz de f, então existe um maior inteiro positivo m tal
que (X - a)m divide f. Ademais, sendo f(X) = (X - a)mq(X), (c) Façamos a prova deste item para o caso k = 2 (a prova do caso
com q E K[X], tem-se ij(a) -=1- O, onde ij : K --+ K é a função geral é inteiramente análoga). Como a 1 é raiz de f, pelo item (a)
polinomial associada a q. existe um polinômio g E K[X] tal que f(X) = (X - a 1 )g(X). Seja

1
3.1 Raízes de polinômios 49
48 Raízes de Polinômios

ga função polinomial associada ao polinômio g. Como a 1 # a2e a2 (note que tanto f (X) - a quanto o polinômio do segundo membro na
também é raiz de f, segue da última igualdade que igualdade acima são mônicos e têm grau n). Portanto,

e a 2 é raiz de g. Daí, novamente pelo item (a), existe um polinômio


de forma que os produtos dos números em cada linha são iguais a
h E JK[X] tal que g(X) = (X - a 2)h(X) e, assim,
(-1r- 1 a. D
f(X) = (X - a 1 )(X - a2)h(X).
D Como corolário do teste da raiz, explicitamos a seguir um algo-
ritmo bastante simples para a obtenção do quociente da divisão de
O exemplo a seguir traz uma aplicação interessante do teste .da um polinômio mônico f E JK[X] por X - a, onde a é uma raiz de
raiz. f. Tal algoritmo é conhecido na literatura como o algoritmo de
Exemplo 3.4 (União Soviética1 ). Numere as linhas e colunas de um Horner-Ruffini, e é baseado no resultado a seguir.
tabuleiro n x n de 1 a n, respectivamente de cima para baixo e da
esquerda para a direita. Dados 2n números reais distintos a 1 , ... , an, Proposição 3.5 (Horner-Ruffini). Seja
b1 , ... , bn, para 1 ::S i, j ::S n escreva o número ai + bj na casa 1 x 1
situada na linha i e na coluna j. Se os produtos dos números escritos
nas casas das colunas do tabuleiro forem todos iguais, prove que os
produtos dos números escritos nas casas das linhas do mesmo também um polinômio mônico sobre JK. Se a E lK é uma raiz de f e
serão todos iguais.
g(X) = xn-I + bn-2Xn- 2 + · · · + bo E JK[X]
Prova. Considere o polinômio

f(X) = (X+ a1)(X + a2) ... (X+ an) E JR[X]. é o quociente da divisão de f(X) por X - a, então

Sendo J a função polinomial associada a f, segue do enunciado a a+ ªn-1


existência de a E lR tal que ](b 1) = ](b 2) = · · · = ](bn) = a. Então, abn-2 + ªn-2
](bi) - a = O para 1 ::S i ::S n, de modo que, pelo teste da raiz, temos
(3.1)
bn-i-1

1A
União Soviética foi um país que existiu até 1991, quando o colapso do Comu- bo
nismo a fez dividir-se em vários países distintos, dentre os quais citamos Azerbaijão,
Bielorrússia, Estônia, Cazaquistão, Letônia, Lutiânia, Moldávia, Rússia, Ucrânia
e Uzbequistão. Prova. Por uniformidade de notação, faça bn-I = 1. Temos inicial-
50 Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 51

mente que A discussão acima pode ser resumida na tabela a seguir, na qual
n-1 colocamos os coeficientes de f (que não o coeficiente líder 1) na pri-
f(X) = (X - a)g(X) = (X - a) L bn-1-ixn-l-i meira linha e calculamos, da esquerda para a direita e a começar pelo
i=O coeficiente líder bn-1 = 1, os sucessivos coeficientes de g na segunda
n-1 n-1
~ bn-1-i xn-i ~ linha.
~ - ~ a bn-1-i xn-1-i
i=O i=O
n-1 n-2 Algoritmo de Horner-Rufinni
bn-lxn + I : bn-1-ixn-i - I : abn-1-ixn-l-i - aba
i=l i=O
n-1 n-1
xn + I : bn-1-ixn-i - I: abn-ixn-i - aba bn-1 = 1 a · 1 + ªn-1 a · bn-2 + ªn-2
"--v---"
i=l i=l bn-2 bn-3
n-1
xn + I:(bn-1-i - abn-i)xn-i - aba. Observe que cada coeficiente de g, que não o líder, é igual ao
i=l
produto do coeficiente à sua esquerda por a, somado ao coeficiente
Comparando a última expressão acima para f com aquela do enun- de f situado acima deste.
ciado, concluímos que
Exemplo 3.6. Verifique que v'2 é raiz do polinômio f(X) = X 5 -
bn-1-i - abn-i = ªn-i,
5X 4 + X 3 - 5X 2 - 6X + 30 e encontre, com o auxílio do algoritmo de
para 1 ~ i ~ n - 1. Obtemos, assim, o sistema de equações H orner-Rufinni, o quociente da divisão de f por X - v'2.

bn-1 1
Solução. Montemos a tabela do algoritmo de Horner-Rufinni pondo
bn-2 - abn-1 ªn-1 n = 5 e a4 = -5, a3 = 1, a 2 = -5, a 1 = -6, a0 = 30 na primeira
bn-3 - abn-2 ªn-2 linha. Começando com b4 = 1 na primeira casa da segunda linha,
obtemos sucessivamente b3 = v'2 · 1 - 5, b2 = v'2b 3 + 1 = 3 - 5\/'2,
bn-i-1 - abn-i ªn-i b1 = v'2b 2 - 5 = -15 + 3v'2 e b0 = v'2b 1 - 6 = -15\/'2.

b0 ab1 ª1
-
-ab0 ªº'
-51 1 1 -5 1 -6 1 30
1 v'2 · 1- 5 3 - 5v'2 -15 + 3v'2 -15v'2
o qual, por sua vez, equivale às relações do enunciado (a última equa-
ção do sistema acima pode ser desprezada, pois representa somente a Por fim, como -ab0 = -v'2( -15v'2) = 30 = a0 , segue que v'2 é
condição de compatibilidade advinda da suposição de que a seja raiz realmente raiz de f e o quociente da divisão de f por X - v'2 é
de!). D X 4 + (v'2 - 5)X 3 + (3 - 5v'2)X 2 + (-15 + 3v'2)X - 15\/'2. D
52 Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 53

Nas notações do teste da raiz, se f(X) = (X - a)mq(X), com maior natural tal que J(X) = (X - a)mq(X), para algum polinômio
ij(a) -=I= O, dizemos que m é a multiplicidade de a como raiz de f. q E K[X]. Como
Em particular, a é uma raiz simples de f se m = 1 e múltipla se 8q = 8f - m < 8f,
m > 1.
segue da hipótese de indução que q tem no máximo 8q raízes em K,
Exemplo 3.7. Sendo f(X) = X 3 - 7X 2 + 16X - 12 um polinômio contadas de acordo com suas multiplicidades. Agora, se /3 -=I= a é raiz
de coeficientes reais, temos que 2 é raiz dupla e 3 é raiz simples de f, J de J, temos
uma vez que f(X) = (X - 2)2(X - 3). i O= }(/3) = (/3 - a)mij(/3)
Mais adiante neste capítulo, estudaremos em detalhe o problema 1 e, daí, /3 é raiz de q. Portanto, o número de raízes de f é igual a m
de examinar se um polinômio f com coeficientes em K possui ou não (a multiplicidade de a) mais o número de raízes de q, e segue, por
li raízes múltiplas. Por ora, precisaremos no máximo saber o que vem a hipótese de indução, que f possui no máximo
il
ser uma tal raiz. Devemos notar, todavia, que já temos uma maneira
11:
11

1,
de saber se um elemento a E K é ou não raiz múltipla de um polinômio 1 m+8q = 8f

1
1
não nulo f: basta dividir f por (X - a) 2 (o que pode ser feito com
duas aplicações sucessivas do algoritmo de Horner-Rufinni) e verificar
1 raízes em K. D
se a divisão é exata. Teremos mais a dizer sobre isso mais adiante. f Utilizamos frequentemente o corolário acima em uma das formas
Outro corolário interessante do algoritmo da divisão é o fato de
a seguir.
um polinômio não identicamente nulo não poder ter mais raízes do
que seu grau. Observe que permitimos raízes múltiplas no resultado
a seguir. 1 Corolário 3.9. Se f(X) anXn + · · · + a X + a
= 1 0K[X] admite
E
l pelo menos n + 1 raízes distintas em K, então f é identicamente nulo,
t i. e.' an = ... = ªº = o.
Corolário 3.8. Se f E K[X] \ {O}, então f possui no máximo 8f i
raízes em K, contadas de acordo com suas multiplicidades.
Prova. Se f E K[X] \ {O}, então, pelo corolário anterior, f teria no
máximo n raízes em K. D
Prova. Façamos indução sobre o grau de f. Se 8f = O, então existe
c E K \ {O} tal que f (X) = c. Daí, a função polinomial associada j
Corolário 3.10. Sejam f(X) = anXn + · · · + a 1 X + a0 e g(X)
é a função constante xi---+ c, e segue que o número de raízes de f é O,
bmXm+· · ·+b1 X +bo polinômios sobre K, com m 2: n. Se J(x) = g(x)
igual a seu grau.
para ao menos m + 1 valores distintos x E K, então f = g, i. e, m = n
Seja, agora, f um polinômio de grau positivo e suponha a afirma- lt e ai = bi, para O ~ i ~ n.
ção do enunciado válida para todos os polinômios não nulos de graus ~
a
menores que f. Se f não tiver raízes em K, nada há a fazer. Se-
t
i Prova. Basta aplicar o corolário anterior ao polinômio f - g, notando
não, seja a E K uma raiz de f e (de acordo com o teste da raiz) mo f que a função polinomial associada a tal polinômio é f - g. D

l
54 Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 55

Se F é o conjunto das funções de JK em JK, então o último corolário Solução. Defina a sequência (un)n>o por u 0 = O e Un+l = u~ + 1,
acima garante que a aplicação para n ~ 1. Se g(X) = X, então f(u 0 ) = O = g(u 0 ) e, supondo
J(uk) = g(uk), temos também
JK[X] --+ F
(3.2)
f c---7 j ' f(uk+I) = f(u% + 1) = f(uk) 2 + 1
= g( uk) 2 + 1 = u% + 1
que associa a cada polinômio f E JK[X] sua função polinomial E F, J = g(uk+I)·
é injetiva. Em outras palavras, ele afirma que dois polinômios sobre JK
só terão funções polinomiais iguais quando eles mesmos forem iguais 2 • Portanto, por indução temos f(un) = g(un), para todo inteiro
Graças a esse fato, doravante vamos denotar por f tanto um ele- não negativo n. Mas, como os valores dos termos Un são dois a dois
mento de JK[X] (i.e., um polinômio com coeficientes em JK) quanto a distintos, concluímos que f e g coincidem em uma quantidade infinita
função polinomial associada a tal elemento. Em particular, quando de valores distintos, e segue do corolário 3.10 que f = g, i.e., f(X) =
escrevermos f(X), estaremos nos referindo ao polinômio f; quando X. D
escrevermos f (x), estaremos nos referindo ao elemento de JK, imagem
Exemplo 3.13 (Hong Kong). Sejag(X) = X 5 +X 4 +X 3 +X 2 +X+l.
de x E JK pela função polinomial associada a f. O contexto esclarecerá
Calcule resto da divisão de g(X 12 ) por g(X).
eventuais confusões.
Solução. Pelo algoritmo da divisão, existe q, r E JR[X] tais que
Observação 3.11. O corolário 3.10 garante que os coeficientes de um
polinômio f E JK[X] são determinados pelos valores f(x), com x E JK. g(X 12 ) = g(X)q(X) + r(X),
Posteriormente, estudaremos em detalhe o problema de como obter
com r = O ou O :::;; 8r :::;; 4. Tomando w = eis 2; e fazendo x = wk nas
um polinômio em JK[X] que assuma valores prescritos em um número
funções polinomiais correspondentes, com 1 :::;; k:::;; 5, obtemos
finito de elementos x E JK dados.

Os dois exemplos a seguir ilustram usos típicos dos corolários 3.9


e 3.10. para 1 :::;; k:::;; 5.
Agora, como w 12 k = eis (4k1r) = 1, temos g(w 12 k) = g(l) = 6. Por
Exemplo 3.12 (Moldávia). Obtenha todos os polinômios f E JR[X] outro lado, para 1 :::;; k :::;; 5, o lema 1.12 fornece
tais que f (O) = O e
w6k 1
g(wk) = w5k + w4k + w3k + w2k + wk + 1 = - = O.
f (x 2 + 1) = f (x) 2 + 1, Vx E R wk -1
1·;
! 2 Conformeveremos na seção 7.3, ao desenvolvermos a teoria de polinômios Assim, (3.3) se reduz a r(wk) = 6, para 1 :::;; k :::;; 5, de sorte que o
sobre Zp, onde p E Zé primo, o fato de K ser infinito nos casos presentemente sob polinômio r - 6 tem pelo menos cinco raízes distintas. Mas, como
consideração é imprescindível para a injetividade de (3.2). r - 6 = O ou 8(r - 6) :::;; 4, segue do corolário 3.8 quer - 6 = O. D
56 Raízes de Polinômios i 3.1 Raízes de polinômios 57

O corolário a seguir garante que a imagem da função polinomial (a) PI ao e q 1 ªn·


associada a um polinômio não constante é um conjunto infinito.
(b) Se f for mônico, as possíveis raízes racionais de f são inteiras.
Corolário 3.14. Se f E K[X] \ K, então a imagem Im (!) da função
polinomial associada a f é um subconjunto infinito de K. (c) (p- mq) 1 f(m), para todo m E Z. Em particular, (p-q) 1 f(l)
e (p+q) 1 f(-1).
Prova. Suponha o contrário, i.e, que Im (!) = { a 1 , ... , ak} C K.
Então, para todo x E K, teríamos f (x) E { a 1 , ... , ak}. Mas, como K Prova.
é um conjunto infinito, existiriam 1 :s; i :s; k e elementos dois a dois (a) A partir de f(~) = O, obtemos prontamente
distintos x 1 , x 2 , . • . E K tais que

e, daí,
Portanto, f(X) - ai seria um polinômio não identicamente nulo (lem- aoqn = p(-anpn-l_,,.-a1qn-l)
{
bre-se de que f é não constante) com uma infinidade de raízes distintas, ªnPn = q( -an-lPn-l - · · · - aoqn-l) .
o que é uma contradição. D
Portanto, p I aoqn e q I anpn. Mas, uma vez que p e q são primos entre
Exemplo 3.15 (Canadá). Ache todos os polinômios não constantes si, o item (a) da proposição 1.21 de [14] garante que p I a0 e q I an,
f E Q[X] que satisfazem a relação f(J(X)) = f(X)k, onde k é um como queríamos provar.
inteiro positivo dado.
(b) Imediato a partir de (a).
Solução. É fácil ver (conforme problema 1) que, para todo x E Q,
temos f(J(x)) = f(x)k. De outro modo, f(y) = yk, para todo y E (c) Como f(!) = O, temos f(m) = f(m) - f(!) ou, ainda,
Im (!). Mas, o corolário 3.14 garante que Im (!) é um subconjunto
infinito de Q, de sorte que o corolário 3.10 garante que f(X) = Xk. D

Terminamos esta seção estudando o problema de pesquisa de raí-


zes racionais de polinômios de coeficientes inteiros. O item (a) da Portanto,
proposição a seguir ·traz o resultado central, conhecido na literatura
como o critério de pesquisa de raízes racionais de polinômios de qnf(m) = qn(anmn + · · · + a1m + ao) - (anpn + · · · + a1pqn-l + aoqn)
coeficientes inteiros. = an((mqr - pn) + '' · + a1qn- 1(mq - p) = (mq - p)r,

Proposição 3.16. Sejam n > 1 inteiro, f(X) = anXn+, · ·+a1X +ao para algum r E Z, onde utilizamos o item (a) do problema 2.1.18
um polinômio de coeficientes inteiros e p e q inteiros não nulos primos de [10] na última igualdade acima. Os cálculos acima garantem que
entre si. Se f(!) = O, então: (mq - p) 1 qn f(m). A partir daí, para concluir que (mq - p) 1 f(m),
li!i Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 59
\i
,I'
58
II
: !'•
é suficiente, novamente pelo item (a) da proposição 1.21 de [14], mos- Mas, como tg 30º = ,/3, segue que
trarmos que mdc (mq - p, qn) = 1. Para tanto, basta aplicarmos o
item (b) da proposição 1.21 e o corolário 1.22 de [14] para obter (3a - a 3 ) 2 1
(1 - 3a2 ) 2 3
mdc(p,q) = 1 =} mdc(mq-p,q) = 1 =} mdc(mq-p,qn) = 1.
ou, ainda,
O resto é imediato. D 3a6 - 27a4 + 33a2 - 1 = O.
A proposição anterior pode, por vezes, ser aplicada para garantir Portanto, tg 10º é raiz do polinômio de coeficientes inteiros /(X) =
a irracionalidade de números reais. Vejamos alguns exemplos. 3X6-27X 4 +33X 2 -1, e basta mostrar que o mesmo não possui raízes

Exemplo 3.17. Prove que o número V2 + J 2 + J2 é irracional.


racionais. Para tanto, note inicialmente que, pela proposição 3.16, as
possíveis raízes racionais de f são ±1 ou ±!; entretanto, calculando
diretamente /(±1) e/(±!) concluímos que nenhum desses números é
Prova. Se a = +J2 J2 + J2, então a 2 - 2 = + J2 e, daí,.· J2 igual a O, conforme desejado. D
(a - 2) = 2 + J2. Logo, ((a - 2) - 2) = 2, de maneira que a é
2 2 2 2 2

raiz do polinômio mônico de coeficientes inteiros . Exemplo 3.19 (Iugoslávia3 ). Ache todos os racionais positivos a ::;
f(X) ((X 2 - 2) 2 - 2) 2 - 2 b ::; e tais que os números
(X 4 - 4X 2 + 2) 2 - 2. 1 1 1
a + b + e, - + - + - e abc
a b e
Portanto, se a E Q, segue dos itens (a) e (b) da proposição anterior
que a EN e a 1 /(O)= 2, de modo que a= 1 ou 2. Mas, como sejam todos inteiros.

Solução. Se f(X) = (X - a)(X - b)(X - e), então a, b e e são as


1 <a< J2 + J2+2 = 2,
raízes de f, ademais racionais. Por outro lado,
chegamos a uma contradição. D
J(X) = X 3 - (a+ b + c)X 2 + (ab + bc + ca)X - abc,
Exemplo 3.18. Prove que tg 10º é irracional.
com
Prova. Denotemos a= tg 10º. Aplicando a proposição 7.18 e oco-
rolário 7.19 de [11], obtemos sucessivamente ab + bc + ca = abc ( 1i + + ~) E Z.

Segue, então, que f E Z[X]. Mas, como fé mônico, o critério de pes-


tg 30º _ tg 20º + tg 10º
1 - tg 20º · tg 10° quisa de raízes racionais aplicado a f garante que a, b e e são inteiros.
11
Por fim, uma vez que a, b e c são positivos, as condições do enunciado
+a
1
i
!
__.1g_
1-a2 3,..., - ,..., 3
u; u; 3 Atê a década de 1990, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo,
- 2 -
i
1- 2a 1- 3a2 Macedônia, Montenegro e Sérvia compunham um único país, a Iugoslávia.
1-a2
60 Raízes de Polinômios 3.1 Raízes de polinômios 61

garantem que basta encontrarmos todos os a ~ b ~ e naturais para os 5. Existe um polinômio f E li [X], tal que f (sen x) = cos x para
t
quais i + + ~ também seja natural. Este é um problema simples, o todo real x? Justifique sua resposta.
qual será deixado ao leitor; as únicas soluções são os ternos
6. Seja a =/=- br um número complexo. Prove que o polinômio X 2 + 1
(a, b, e)= (1, 1, 1), (1, 2, 2), (3, 3, 3), (2, 4, 4) ou (2, 3, 6). divide o polinômio

f(X) =(cosa+ Xsenaf - cos(na) - sen(na)X.


D
7. (Canadá.) Seja f um polinômio não nulo e de coeficientes intei-
ros. Se f(O) e f(l) são ímpares, prove que f não possui raízes
inteiras.
Problemas - Seção 3.1
8. (Canadá.) Prove que não existem x, y e z inteiros não nulos em
PA, tais que x 5 + y 5 = z 5 .
1. * Mostre que a definição usual de função composta de duas fun-
ções de lK em JK, quando aplicada a polinômios f, g E JK[X] de 9. Mostre que, dado n EN, existe um único polinômio4 fn tal que
graus respectivamente m e n, produz um polinômio em JK[X],
de grau mn. Denotando tal polinômio também por f o g, mostre fn(2cosfJ) = 2cos(nfJ),
ainda que a função polinomial associada ao mesmo coincide com para todo () E R Mostre ainda que:
a função composta J o g, onde J e g denotam, respectivamente,
as funções polinomiais associadas a f e g. (a) fi(X) = X, h(X) = X 2 - 1 e, para k 2:: 1 inteiro,

2. * Sejam a, b e r números racionais, onde r > O é tal que .jr é


Ík+2(X) = Xfk+1(X) - Ík(X).
irracional. Faça os seguintes itens: (b) f n é mônico, de coeficientes inteiros e grau n.
(a) Para k E N fixado, mostre que existem ak, bk E Q tais que (c) f n (z + ~) = zn + };, , para todo z E CC \ {O}.
(a± b.Jrl = ak ± bkvr· 10. Encontre todos os a E Q para os quais cos( mr) E Q.
(b) Se f E Q[X] \ {O}, prove que f(a + b.jr) = O {::} f(a -
11. (BMO.) Param E Z, prove que o polinômio
b.jr) = o.
X4 - 1994X 3 + (1993 + m)X 2 - llX + m
3. Uma das raízes do polinômio X + + X + bX - 2 é 1- J2.
4 aX 3 2

Encontre as demais raízes, sabendo que a e b são ambos racionais. não possui duas raízes inteiras distintas.
4 0s polinômios f n de que trata este problema são conhecidos na literatura como
4. Sejam dados a, b E JK, sendo a=/=- O. Para f E JK[X] \ {O}, prove os polinômios de Chebyshev, em homenagem ao matemático russo do século
que o resto da divisão de f por aX + b é igual a f (- ~). XIX Pafnuty L. Chebyshev.
62 Raízes de Polinômios 3.2 Raízes da unidade e contagem 63

12. (AIME.) Encontre todos os reais a e b tais que X 2 -X -1 divide 3.2 Raízes da unidade e contagem
ax11 + bX16 + 1.
Nesta curta seção, paramos momentaneamente a apresentação da
13. (Moldávia.) Seja n > 4 um natural dado e p um polinômio ..,.·.••_:·. teoria geral de polinômios para ilustrar o papel das raízes da unidade
mônico, de grau n e com n raízes inteiras distintas, uma das
como ferramenta de contagem. Uma vez que a aplicabilidade de ar-
quais igual a O. Calcule o número de raízes inteiras e distintas
gumentos algébricos em Combinatória é muitíssimo mais ampla do
do polinômio p(p( X)). 1
t que conseguiremos mostrar aqui, recomendamos ao leitor a excelente
14. (Áustria-Polônia.) Seja f(x) = ax 3 + bx 2 +ex+ d um polinômio referência [55] para uma abordagem abrangente.
de coeficientes inteiros e grau 3. Prove que não é possível achar 1
[ Comecemos examinando, no exemplo a seguir, como utilizar nú-
quatro primos distintos p 1 , p 2 , p 3 e p 4 para os quais Í meros complexos como marcadores.
1
Exemplo 3.20. Em um círculo há n > 1 lâmpadas igualmente espa-
15. (Canadá.) Seja p(X) = xn + an_ 1 xn- 1 + · · · + a 1X+ a0 um çadas. Inicialmente, exatamente uma delas está acesa. Uma operação
polinômio de coeficientes inteiros, e suponha que existam inteiros permitida sobre o estado das lâmpadas é escolher um divisor positivo d
distintos a, b, e e d tais que p(a) = p(b) = p(c) = p(d) = 5. Prove J_._; de n, tal que d< n, e mudar o estado de J lâmpadas igualmente espa-
que não existe inteiro m tal que p( m) = 8. l çadas, contanto que o estado inicial de todas elas seja o mesmo. Existe
uma sequência de operações que deixe todas as n lâmpadas acesas?
16. Ache todos os valores k E N tais que o polinômio X 2 +X+ 1
divide o polinômio X 2k + 1 +(X+ 1) 2k.
Prova. Não. Por contradição, suponha, sem perda de generalidade,
que o círculo é o círculo unitário do plano complexo e que as lâmpa-
Para o exemplo a seguir, lembre-se (cf. parágrafo anterior ao
problema 1.4.11 de [13]) de que um multiconjunto é uma coleção l das estão posicionadas nos pontos 1, w, ... , wn- 1 , onde w = eis 2; .
Suponha ainda (também sem perda de generalidade) que a lâmpada
{{a1,{a{2 , ... , an}} de}}eleme{n{tos não neces}s}ariamente distintos, ( inicialmente acesa está posicionada em 1.
com a 1 , a2 , ... , an = b1 , b2 , ... , bm se m = n e cada 1·.••.·.
Para k 2: O, seja ak a soma dos números complexos associados às
elemento aparecer uma mesma quantidade de vezes em cada um
lâmpadas acesas imediatamente antes da ( k + 1)-ésima operação, de
deles.
sorte que a0 = 1. Na (k + 1)-ésima operação, escolhemos lâmpadas
17. Sejam { {a1, a2, ... , an}} e {{b1, b2, ... , bn}} dois multiconjuntos posicionadas em
distintos, cada um dos quais formado por inteiros positivos. Se
1
1

prove que n é uma potência de 2.


ll para algum par (l, d) de inteiros tais que O ~ l <de d I n, com d< n.
't.

l
64 Raízes de Polinômios 3.2 Raízes da unidade e contagem 65

Mas, uma vez que wn = 1, temos urna matriz m x n). Em seguida, escreva, na casa do tabuleiro situada
à linha i e coluna j, o número complexo wi+í, onde w = eis 2p1r.
ªk+i = ak ± (wz + wl+d + wz+2d + ... + wz+(~-1)a) Calculemos, agora, a soma dos números escritos nas casas do tabu-
wz+(~-1)a. wª _ wl leiro de duas maneiras distintas (eis aqui uma contagem dupla!). Por
ak ± d = ak, um lado, tal soma é claramente igual a
w -l
e segue que ak = 1, para todo k ~ O.
Por fim, se após m operações todas as lâmpadas resultassem acesas,
teríamos
onde utilizamos o lema 1.12 na igualdade acima; por outro, como esta-
am = 1 + w + · · · + wn = o,
mos supondo ser possível cobrir o tabuleiro como pedido, os números
o que é uma contradição. D escritos no mesmo podem ser agrupados em conjuntos de p números,
Agora, dados m, n,p E N, consideremos a tarefa de construir um correspondentes às p casas horizontais ou verticais cobertas por cada
retângulo m x n utilizando peças 1 x p. Contando quadradinhos 1 x 1, peça 1 x p utilizada. Tais conjuntos de p números dão origem a somas
obtemos uma condição necessária óbvia para que a construção pro- de um dos tipos
posta seja possível: p deve dividir mn. Por outro lado, é claro que,
se p dividir m ou n, então tal construção é sempre possível: sendo,
por exemplo, m = pk, com k E N, podemos montar nosso retângulo ou
m x n justapondo k retângulos p x n, cada um dos quais construído wi+j + w(i+l)+í + · · · + w(i+p-l)+í,
empilhando n peças 1 x p. O fato interessante é que a recíproca da
discussão acima é verdadeira, i.e., só será possível montar nosso re- conforme a peça 1 x p seja respectivamente horizontal ou vertical.
tângulo se p dividir m ou n. Esse é o conteúdo do teorema a seguir, Novamente pelo lema 1.12 e pela primeira fórmula de de Moivre, cada
devido ao matemático americano David Klarner 5 . uma de tais somas é igual

·+· . . wP - 1
Teorema 3.21 (Klarner). Sejam m, n, p naturais dados. Se puder- wi 3 (1 + w + · · · + wP- 1 ) = wi+J · =O
w-l
mos cobrir um tabuleiro m x n usando peças 1 x p, sem sobras ou
superposições de peças, então p deve dividir m ou n. e, portanto, a soma de todos os números escritos no tabuleiro deve
também ser igual a O. Então, segue de (3.4) que (wn - l)(wm -1) = O
Prova. Suponha que possamos cobrir o tabuleiro como se pede e no-
ou, ainda, que
temos inicialmente que p :S max{m, n}. Particione o tabuleiro em m . 2mr . 2m1r
ClS - - = 1 OU ClS - - = 1.
linhas 1 x n e n colunas 1 x m, numerando as linhas de cima para baixo, p p
de 1 a m, e as colunas da esquerda para a direita, de 1 a n (como em Por fim, é imediato, a partir de tais igualdades, que p divide n ou
5 Cf. [36]. Contudo, a demonstração apresentada difere da original. m. D
66 Raízes de Polinômios 3.2 Raízes da unidade e contagem 67

O teorema a seguir traz urna ferramenta algébrica bastante útil em D


várias situações combinatórias, sendo conhecida corno a fórmula de
Exemplo 3.23 (Polônia). Para cada inteiro positivo n, calcule, em
multiseção.
Junção de n, o valor da soma
Teorema 3.22. Para f E C[X] \ {O}, denote por ak o coeficiente de
Xk em f. Se p é um número primo e w -=/:- 1 é uma raiz p-ésima da
unidade, então

L ak = -(f(l)
1
+ f(w) + · · · + f(wP- 1)). (3.5) Solução. Seja
Plk p
Prova. Corno f(X) = Lf2_o ajXj, ternos f(X) =(X+ 1)" = t. (~)x•
Sendo w = eis 2; , raiz cúbica da unidade, ternos 1 + w + w2 = Oe
k=O k=O j20 j20 k=O
p-1
(3.6) segue, da fórmula de rnultiseção aplicada a f, que

L (n)
= LªjLWjk.
1
j20 k=O = 3 (f(l) + J(w) + f(w 2))
k
3lk
Note agora que, se p I j, então wjk = 1 para todo k, de sorte que
I:,~;:~ wjk = p. Por outro lado, se p f j, então o itern (a) da proposição
6.3 de [14] garante que {O, j, 2j, ... , (p - l)j} é urn SCR6 módulo p.
Portanto, ainda nesse caso, ternos
p-I .k Lp-1 k wP - 1
L w3 = w = = O,
w-1
k=O k=O
Note agora que, se 3 1 n, então wn = 1 e, daí, w 2n + wn = 2; se
e (3.6) fornece
3 f n, então wn = w ou w 2 , de sorte que w 2n + wn = w 2 + w = -1.
p-1 p-1
Portanto,
Lf(wk) = L ª j Lwjk = LªPz]p
k=O j20 k=O
=p Lªpl =p Lªk·
l20
"(n)
"fu' k
= { (2n + 2(-lr)/3, se 3 I
(2n + (-lr+l)/3, se 3 f n
n
l20 plk
6 Recordeque um sistema completo de restos (abreviado SCR) módulo pé um D
conjunto {a 0 , a 1 , ... , ap-I} de números inteiros tais que, a menos de uma permu-
tação, tenhamos aj = j (modp), para O:::; j:::; p - 1.
68 Raízes de Polinômios 3.3 O teorema fundamental da álgebra 69

Problemas - Seção 3.2 4. Seja num natural dado e, para O~ k ~ 2n, seja ak o coeficiente
de Xk na expansão de f(X) = (1 + X + X 2 t. Calcule, em
1. Prove a seguinte extensão do teorema de Klarner: dados números
função de n, o valor da soma
naturais m, n, p e q tais que 1 < q ~ min {m, n, p}, podemos
particionar um tabuleiro m x n x p usando peças 1 x q se, e só
se, q dividir m, n ou p.

2. Podemos generalizar ainda mais o teorema de Klarner como se- 5. * Generalize a fórmula de multiseção do seguinte modo: dados
gue (veja [36]): dados m 1 , ... , mn EN, seja f E C[X] \ {O}, p primo ímpar e O ~ r ~ p - 1 inteiro, se w -=/:- 1
é uma raiz p-ésima da unidade, então

o conjunto das sequências (x 1 , ... , Xn) de inteiros positivos tais


que 1 ~ Xk ~ mk, para 1 ~ k ~ n. Um bloco de dimen-
L
k:r (modp)
ak = 1
p-1
LW(p-l)rj f(wí),
j=O

sões (1, ... , l,p) em A é um subconjunto de A formado por p


sequências (x 11 , ... , X1n), ... , (xp1, ... , x11n) satisfazendo a se-
onde ak denota o coeficiente de Xk em f.
guinte condição: existe 1 ~ k ~ n tal que: 6. Calcule, em função de n, o valor da soma
(a) x 1j = x 2j = ··· = Xpj, para todo 1 ~ j ~ n, j -=/:- k.
(b) (xlk, x 2k, ... , Xpk) é uma sequência de p inteiros consecuti- (~) + (~) + (;) + (~) + ....
vos.

Dizemos que o conjunto A pode ser particionado em blocos de 3.3 O teorema fundamental da álgebra
tamanho (1, ... , 1, p) se A puder ser escrito como a união dis-
Como caso particular do corolário 3.9, todo polinômio de coefici-
junta de blocos desse tipo. Prove que tal é possível se, e só se, p
entes complexos e grau n possui no máximo n raízes complexas. Por
dividir um dos números m1, ... , mn.
outro lado, o polinômio f(X) = X 2 -2 E Q[X] tem coeficientes racio-
3. (Rússia.) Desejamos particionar o conjunto dos naturais de qua- nais mas não admite raízes racionais; da mesma forma, o polinômio
tro algarismos em conjuntos de quatro números cada, de modo g(X) = X 2 + 1 E IR[X] tem coeficientes reais mas não admite raízes
que a seguinte propriedade seja satisfeita: os quatro números de reais. Em ambos os casos, o fato de tais polinômios não admitirem
cada conjunto têm os mesmos algarismos em três posições e, na raízes em Q ou IR se deve a deficiências de tais conjuntos numéricos,
posição restante, seus algarismos são consecutivos (por exemplo, no sentido de que, neles, não é possível realizarmos certas extrações
uma possibilidade para os quatro números de um conjunto po- de raízes.
deria ser 1265, 1275, 1285 e 1295). Prove que não existe uma tal Em sua tese de doutoramento, em 1799, o matemático alemão Carl
partição. F. Gauss mostrou, contrariamente aos casos examinados acima, que
70 Raízes de Polinômios ·. 3.3 O teorema fundamental da álgebra 71

todo polinômio sobre C admite raízes também em C. Esse é o conteúdo Agora, na seção 9.2 mostraremos (veja o corolário 9.20) que existe
do teorema a seguir, conhecido na literatura como o teorema fun- zo E C tal que Izo 1 ~ R e
damental da álgebra. A demonstração que apresentamos é devida ·•
lf(zo)I = min{lf(z)I; z E C, lzl ~ R}.
a Jean-Baptiste le Rond d'Alembert, matemático francês do século.
XVIII. Portanto, segue do que fizemos acima que

Teorema 3.24 (Gauss). Todo polinômio f E C[X] \ (C possui ao: · lf(zo)I = min{IJ(z)I; z E C}.
menos uma raiz complexa.
Por contradição, suponha que f(z 0 ) =/:- O e mostremos que existe
Prova. Por comodidade de notação, escrevamos f(z) = anzn + · · · + h E C tal que lf(zo+h)I < lf(zo)I. Para tanto, comecemos observando
a 1 z + a0 para denotar a função polinomial associada a f; sem perda que é imediato que existem Co, c1, ... , Cn E C, independentes de h e
de generalidade, podemos supor a0 =/:- O. tais que
Para z =/:- O, a desigualdade triangular para números complexos nos,
dá f (Zo + h) = + h) + · · · + an (Zo + hr
ao + a1 (Zo
= Co + C1h + ' · · + Cnhn;
li( z )1= 1z ln 1 ªn-1 ªn-2 . ao I
an+--+--+···+-
z z2 zn ademais, c0 = f(zo) =/:- O e Cn = an =/:- O. Tome o menor 1 ~ k ~ n, tal
> lzln (lanl _ lan-. 11 _ lan-21 _ ... _ laol) . que ck =/:- O. Então, fazendo di = ~~ para O~ j ~ n, temos
- lzl lzl 2 lzln
Portanto, para

~ 11 + dkhkl + ldk+lhk+l + ·'' + dnhnl


= 11 + dkhkl + ldkhkl Idk+l h + · · · + dn hn-kl.
dk dk
temos lan-k 1
lzlk
<~
2n '
de sorte que
Agora, estimativas análogas às que fizemos com o auxílio de (3.7), nos
permitem escolher r > Otal que lhl ~ r =} 1 d:: h + · · · + thn-kl < !·
1

Então,
lhl <r =} lf(zo + h)I < 11 + d hkl + !ld hkl
- lf(zo)I - 2
Mas, como lzl > n
2~:
1 temos
1, lanllzln > 2nlaol e, daí, IJ(z)I > k k ·

nlaol ~ laol· Seja dk = seis a e faça h = reis (:1. A primeira fórmula de de


Em resumo, denotando por R o segundo membro de (3.7), concluí- Moivre nos dá
mos que lf(zo + h) I k . 1 k
- - - < 11 + sr c1s(a + kO)I +-sr·
lzl > R =} IJ(z)I > laol = lf(O)I. lf(zo)I - 2 '
72 Raízes de Polinômios 3.3 O teorema fundamental da álgebra 73

portanto, escolhendo () E lR. de modo que a + k() = 1r (i.e., tomando Corolário 3.26. Se f(X) = anXn + · · · + a1X + a0 é um polinômio
() = 1r,/x), obtemos
de coeficientes complexos e grau n 2: 1, então, dado a E C, existem
zi, ... , Zn E (C tais que f(zk) = a, para 1 ~ k ~ n.
lf(zo + h)I
lf(zo)I
~ 11 + srk cis1rl + ~srk Prova. Aplique o corolário anterior ao polinômio g(X) = f(X) -
= ll - srkl + 21 srk a. D

1 k Voltando ao caso geral, seja f(X) = anXn + · · · + a1X + a0 um


= 1- -sr <1 polinômio não nulo com coeficientes em K. Se existirem elementos
2 '
a 1 , ... , an E K para os quais
sempre que srk < 1, i.e., O< r < {jf. Com um tal r (e, logicamente,
com oh correspondente), temos lf(zo + h)I < IJ(zo)I. D

Uma consequência imediata do teorema fundamental da álgebra é também diremos que tal expressão é a forma fatorada de f sobre K.
dada pelo corolário a seguir. Uma vez que alguns dos a/s podem aparecer repetidos, se consi-
derarmos apenas os ai distintos concluímos, após uma possível ree-
Corolário 3.25. Se f (X) = anXn + · · · + a1X + a0 é um polinômio numeração dos mesmos, que existem 1 ~ m ~ n e k1 , ... , km inteiros
de coeficientes complexos e grau n 2: 1, então existem n números positivos tais que
complexos z1, ... , Zn tais que

f(X) = an(X - z1) ... (X - Zn)· (3.8)


com k1 + · · · + km = n e a 1 , ... , am elementos dois a dois distintos de
A expressão acima é a forma fatorada do polinômio f. K

Exemplo 3.27. Dado n > 1 um natural, faça os seguintes itens:


Prova. Façamos a prova por indução sobre o grau n de f, sendo o
caso n = 1 imediato. Suponha, pois, n > 1 e o corolário válido para (a) Obtenha a forma fatorada do polinômio f(X) = xn-l + xn- 2 +
todo polinômio de coeficientes complexos e grau n - 1. ···+X+l.
Se z1 E C é uma raiz de f, o teste da raiz garante a existência de
um polinômio g, também de coeficientes complexos, tal que f(X) = (b) Se A 1 A 2 ... An é um polígono regular de n lados inscrito num
(X - z1)g(X). Note que g tem grau n - 1 e coeficiente líder an; círculo de raio 1, calcule o valor do produto A1 A2 · A1A3 · ... ·
portanto, por hipótese de indução existem z2 , ... , Zn E C tais que A1An.
g(X) = an(X - z2) ... (X - zn)· Logo, f(X) = (X - z1)g(X) Solução.
an(X - z1)(X - z2) ... (X - Zn) e nada mais há a fazer. D (a) Uma vez que
Uma variante do corolário acima é dada pelo resultado a seguir. (X - l)f(X) = (X - l)(xn-l + xn- 2 +···+X+ 1) = xn -1,
74 Raízes de Polinômios 3.3 O teorema fundamental da álgebra 75

as raízes complexas de f são precisamente as raízes n-ésimas da uni- 4. * Prove que todo polinômio de coeficientes reais e grau ímpar
dade distintas de 1. Por (1.18), tais raízes são os números complexos tem um número ímpar de raízes reais. Em particular, um tal
w, w2, ... , wn-l, onde w = eis 2; . Logo, a forma fatorada de f é polinômio sempre tem pelo menos uma raiz real.

f(X) = (X - w)(X - w2 ) ... (X - wn- 1). 5. * Sejam f E CQ[X] um polinômio de grau n e a -=/:- O uma raiz
complexa de f. Dado m E Z, prove que existem b0 , b1, ... , bn-l E
(b) Suponha, sem perda de generalidade, que o círculo de raio 1 que CQ tais que
circunscreve o polígono A 1A 2 ... An é o círculo unitário centrado na (3.9)
origem do plano complexo e que A 1 = 1 e A 2 = w, onde w = eis 2n7!".
Então, Aj = wj-l para 1 ::; j ::; n, de sorte que 6. Seja f(X) = anXn + an_ 1xn- 1 + · · · + a1X + a0 um polinômio
de coeficientes complexos e grau n 2:: 1. Se z E (C é uma raiz de
-- -- -- 2 n-1
A1A2 · A1A3 · ... · A1An = 11- wlll - w I · .. 11- w I f, prove que
= 1(1 - w)(l - w2 ) ... (1 - wn- 1)1
lzl :S max { 1, ~:I},
= IJ(l)I = n.
onde A= max{laol, la1I, ... , lan-11}.
D
7. * Seja f(X) = anXn + an_ 1xn- 1+ · · ·+ a1X + a0 um polinômio
de coeficientes inteiros tal que an 2:: 1, e k > 2 um inteiro tal que
lail :S k, para O :Si < n. Se zé uma raiz complexa de f, prove
que Re(z) < 1 + l
Problemas - Seção 3.3
8. Um polinômio f sobre (C da forma f(X) = aX 4 + bX 3 + cX 2 +
1. Prove que a fórmula que dá as raízes de uma equação do segundo bX + a, com a -=/:- O, é denominado recíproco de quarto grau.
grau ainda é válida para calcular as raízes complexas de aX 2 + Calcule suas raízes e, em seguida, formule e resolva o problema
bX + e, com a, b, e E C, sendo a-=/:- O. análogo para polinômios de grau seis.

2. * Se f E JR[X] \ {O} e z E JR, prove que f(z) = O {::}


(C \ 9. (Canadá.) Seja f um polinômio de grau n, tal que J(k) = k!i,
f(z) = O. Conclua, a partir daí, que todo polinômio não nulo para todo inteiro O ::; k ::; n. Calcule f (n + 1).
de coeficientes reais possui um número par de raízes complexas
não reais. 10. Suponha que as raízes complexas do polinômio X 3+ pX 2+ qX +
r sejam todas reais e positivas. Mostre que tais raízes são os
3. Dê um exemplo para mostrar que o resultado do problema an- comprimentos dos lados de um triângulo se, e só se, p3 - 4pq +
terior não é mais válido caso f tenha coeficientes não reais. 8r > O.
76 Raízes de Polinômios 3.4 Raízes múltiplas 77

11. Para n > 2 inteiro, prove que A proposição a seguir lista as principais propriedades básicas de
1r 21r 31r (n - 1)1r n
derivadas de polinômios.
sen - sen - sen - ... sen = --.
n n n n 2n-1 Proposição 3.29. Para !1, ... , Ík E C[X] e a1, ... , ak E C, temos:
12. Dado um inteiro positivo m, prove que:
1r 21r (m-l)1r _ ,jm
(a) (~:=1adi)'= ~:=l adI.
(a) sen 2m sen 2m ... sen ~ - 2m-l ·
1r
(b) sen 2m+l 21r
sen 2m+l ...
m1r
sen 2m+l
_
-
v'2m+ 1

(b) (n:=11i)' = ~:=11i ... 1: ... Ík·
13. (Romênia.) Encontre todos os polinômios não constantes p, de Prova.
coeficientes reais e tais que p(X 2) = p(X)p(X - 1). (a) Imediato, por indução sobre k ~ 1. (Observe que os casos iniciais
são k = 1 e k = 2.)

3.4 Raízes múltiplas (b) Considere, primeiro, dois polinômios f e g dados por

Seja f um polinômio de coeficientes complexos. No que segue,


convencionamos dizer que z E C é raiz de multiplicidade zero de f
Omitindo X quando conveniente, segue de (a) que
se z não for raiz de f. Queremos, nesta seção, encontrar um critério
que nos permita decidir se z é ou não raiz múltipla de f e, caso o
seja, calcular sua multiplicidade. Para tanto, precisamos da definição
a seguir.
Por outro lado,
Definição 3.28. Para um polinômio f (X) = anXn + · · ·+ a 1 X + a0 E
C[X], definimos a derivada f' E C[XJ de f como o polinômio
J'(X) = nanxn-l + (n - l)an-2xn- 2 + · · · + 2a2X + a1
m

se of > O. Senão, definimos f' = O.


i=O
m m
A regra para a obtenção da derivada de um polinômio é bastante
simples: a derivada de um polinômio constante é o polinômio iden- -- ~ . ·b·Xj+i-1
L.....J Jª1 i
+~ . ·b·Xj+i-1
L.....J ia]
i

Í=Ü Í=Ü
ticamente nulo; a derivada de um polinômio de grau n ~ 1 é obtida m m
apagando seu termo constante e efetuando, para 1 :s; k :s; n, a troca
de monômios i=O i=l
1

1..
78 Raízes de Polinômios 3.4 Raízes múltiplas 79

Portanto, voltando à expressão anterior para (! g )', obtemos (b} Se z for raiz de f e for raiz de multiplicidade m-1 de f', então
,,, n z é raiz de multiplicidade m de f.
i
(Jg)' = L[(aiXi)'g + aiXig']
j=O
Prova.
(a) Seja f(X) = (X - z)mg(X), com g(z) =J O. O item (b) da propo-
= (t(aiXi)') g + ( t aixi) g' sição anterior e seu corolário nos dão
J=O J=O
J'(X) ~ m(X - z)m-lg(X) + (X - z)mg'(X)
= (taixi)' g + fg' = (X - z)m- 1 [mg(X) + (X - z)g'(X)].
J=O
Portanto, sendo h(X) = mg(X)+(X-z)g'(X), temos h(z) = mg(z) =J
= f'g + fg', O e f'(X) = (X - z)m- 1 h(X). Pela definição, segue que z é raiz de
onde utilizamos novamente o item (a) na penúltima igualdade. Por multiplicidade m - 1 de f'.
fim, a extensão para k polinômios li, ... , fk é imediata por indução.
. D (b) Seja f(X) = (X -z)kg(X), com g(z) =J Oe k ~ 1. Pelo item (a), a
multiplicidade de a como raiz de f' é k- l, de modo que k-1 = m-1
Corolário 3.30. Dados g E C[X] e n E N, se f(X) = g(X)n, então e, daí, k = m. D
f'(X) = ng(X)n- 1g'(X). Em particular, se f(X) = (X - a)n, então
f'(X) = n(X - ar-
1. Corolário 3.32. Se z E (C e f E C[X] \ {O}, então z é raiz múltipla
de f se, e só se, f(z) = f'(z) = O.
Prova. Fazendo k = n e li=···= fn = g no item (b) da proposição
anterior, obtemos Prova. Imediata, a partir da proposição anterior. D
n Exemplo 3.33. Prove que, para todo inteiro positivo n, o polinômio
J'(X) = Lg(xr- 1 g'(X) = ng(xr- 1 g'(X),
x2 xn
i=l
l+X+-+ .. · + -
2! n!
O caso particular segue daí, pondo g(X) = X - a. D
não tem raízes múltiplas.
A proposição a seguir vincula a multiplicidade de uma raiz de um
polinômio às derivadas do mesmo.
~t
Prova. Seja f (X) = 1 +X+ + · · · + -:~, e suponha que f tem uma
raiz múltipla z. Então, pelo corolário anterior, temos f(z) = f'(z) = O.
Proposição 3.31. Seja f um polinômio não nulo de coeficientes com- Agora, uma vez que f(X) = f'(X) +-:~,seguiria daí que
plexos e z um complexo dado. zn
( a) Se z for raiz de multiplicidade m ~ 1 de f, então z é raiz de
o= f (z) = f' (z) + -,
n.
'
multiplicidade m - 1 de f'. i.e., z = O. Mas, como f(O) = 1 =J O, chegamos a uma contradição. D
80 Raízes de Polinômios 3.4 Raízes múltiplas 81

A fim de refinar o corolário anterior precisamos, inicialmente, ge- Agora


neralizar a definição 3.28. f(z) = · · · = J(m-l)(z) =O=* k S m

Definição 3.34. Para f E C[X] \ {O}, definimos a k-ésima derivada e


de f, denotada J(k), por
D
j(k) { f, se k = O
= (J(k-I))', se k ~ 1 Nosso propósito, no restante desta seção, é mostrar que, se f E
C[X] \ {O} tem grau n e z E C, então f é totalmente determinado
Segue da definição acima que J(l) = (!( 0 ) )' f'; daí, J( 2) = pelos valores j(k)(z), para O :S k :S n. Antes, contudo, precisamos de
(j( 1l)' = (!')', de sorte que denotamos J(2) = f". Analogamente, mais duas consequências da proposição 3.31.
sempre que conveniente, denotamos j(3) = f"', etc.
a
Se f = n e O :S k :S n, então uma fácil indução garante que Corolário 3.36. Seja f E C[X] tal que f = O ou a f :S n. Se z E (C
a J(k) S n - k; em particular, a f(n) = Oe, daí, j(n+l) = f(n+ 2 ) = · · · = é tal que f(z) = · · · = f(n)(z) = O, então f = O.
o. Prova. Se f -1- O, o corolário anterior garante que z é raiz de multi-
Corolário 3.35. Se z E (C e f E C[X] \ {O}, então z é raiz de a
plicidade pelo menos n + 1 de f. Mas, como f :S n, chegamos a uma
multiplicidade m ~ 1 de f se, e só se, contradição. D

Corolário 3.37. Sejam f, g E C[X] \ {O}, com af, ag :S n. Se existe


f(z) = · · · = j(m- 1l(z) = O e j(ml(z) -1- O.
z E (C tal que
Prova. Suponha, primeiro, que z seja raiz de multiplicidade m de f.
J(z) = g(z), ... , J(nl(z) = g(n)(z),
Repetidas aplicações do item (a) da proposição 3.31 nos dão, por um
lado, então f = g.
f(z) = · · · = f(m-ll(z) = O
Prova. Basta aplicar o corolário anterior a f - g, notando (a partir
e, por outro, que z é raiz de multiplicidade zero de f(m), 1.e., que
da definição 3.34 e por indução sobre k ~ 1) que
f(m)(z) -1- O.
Reciprocamente, suponha a condição do enunciado satisfeita e se-
jam k E N e g E C[X] tais que J(X) = (X - z)kg(X), com g(z) -1- O.
Novamente pelo item (a) da proposição 3.31, para O :S j :S k temos D
que z é raiz de multiplicidade k - j de JU). Em particular,
O resultado a seguir é conhecido como a fórmula de Taylor para
J(z) = · · · = j(k-I)(z) = O e j(kl(z) -1- O. polinômios, sendo uma consequência imediata do corolário acima.
82 Raízes de Polinômios .: 3.4 Raízes múltiplas 83

Teorema 3.38. Se z E <C e f E <C[X] \ {O} tem grau n, então Problemas - Seção 3.4
j(I)(z) f(n)(z)
f(X) = f(z) + l! (X - z) + ··· + n! (X - zr. (3.10) '. 1. Ache todos os valores inteiros de a para os quais o polinômio
Prova. Defina f(X) = X3 _:_ aX 2 + 5X - 2 possui raízes múltiplas.
f'(z) f(n)(z)
g(X) = f(z) + 11 (X - z) + ··· + n! (X - zr. 2. * Generalize parcialmente o item (a) da proposição 3.31, mos-
trando que, se f, g E <C[X] são tais que g(X) 2 1 /(X), então
Como f =/= O, segue do corolário 3.36 que ao menos um dentre os
11, n g(X) 1 f'(X).
números f(z), f'(z), ... , f(n)(z) é não nulo; portanto, g =!= O. Por ,
outro lado, é imediato verificar que, para O :::; k :::; n, temos 3. * Para z1, ... , Zn E <C, seja f(X) = (X - z1) ... (X - Zn)· Prove
(j) que, para z E <C \ {z1, ... , Zn}, temos
g(k\X) = L (J~ - (z)k)! (X - z)i-k
n

j=k
f'(z) _ n _l_
e, daí, que f(z) - ~ z-z··
J=l J
f(z) = g(z), f'(z) = g'(z), ... , j(n\z) = g(n)(z).
Mas, como f e g têm graus menores ou iguais a n, segue do corolário 4. * Generalize o problema anterior provando que, se li, ... , Ík E

anterior que f = g. D <C[X], f =li ... Ík e z E <C não é raiz de f, então


Exemplo 3.39. Seja f E JR[X] \ {O} e a E :IR tal que f(a) = O · f'(aj fl(aj fl(aj
e J(k)(a) ~ O, para todo k ~ 1. Prove que f não possui raízes no --=--+
f(z) f1(z)
.. ·+--
Ík(z)'
intervalo (a, +oo).
Prova. Pela fórmula de Taylor, temos 5. (Estados Unidos.) Para cada conjunto não vazio e finito S de
números reais, sejam a(S) e 1r(S), respectivamente, a soma e o
f'(a) f(n)(a)
f(X) = 11 (X - a)+···+ n! (X - ar, produto de seus elementos. Prove que

onde n = 8f. Mas, como f =/= O, ao menos uma das derivadas J(k)(a),
para 1 ::S k ::S n, é positiva. Assim, sendo x > a um número real e
'"""
L.....J -a(S) = n 2 + 2n -
1r(S)
( 1
1 + - + ···+ -
2 n
1) (n + 1).
0-#SCln
f(j)(a) > O, temos

f(x) = f'(a) (x - a)+ ... + f(n)(a) (x - ar 6. Prove o seguinte teorema de Gauss: se f(X) = anXn + · · · +
1! n! a1X +ao é um polinômio de grau maior que 1 e coeficientes com-
(j)
~ f .~a) (X - a)i > O. plexos, então as raízes de f' estão contidas no menor polígono
J. convexo (possivelmente degenerado) do plano complexo que tem
D as raízes de f como vértices.
84 Raízes de Polinômios

7. * Se fé um polinômio de coeficientes inteiros e grau n e a E Z,


Ü
JUl (a)
prove que - '71
j , - E u..,, para ::::; J. ::::; n.

8. Seja f um polinômio de coeficientes inteiros e p um primo que


não divide seu coeficiente líder. Sem é um natural tal que

f(m) - O(modp) e J'(m) t O(modp), CAPÍTULO 4


prove que, para todo k EN, existe mk EN tal que

Relações entre Coeficientes e Raízes

Nosso propósito neste capítulo é formalizar e provar algumas rela-


ções importantes entre as raízes de um polinômio em uma indetermi-
nada, resultados estes denominados genericamente de relações entre
coeficientes e raízes de um polinômio. Também, discutimos um im-
portante teorema de Newton sobre polinômios simétricos, o qual se
revelará de importância central para a discussão do capítulo 8.
Para o que segue, lembre-se de que lK denota Q, IR ou C.

4.1 Polinômios em várias indeterminadas


Fixado n EN, um polinômio f a n indeterminadas sobre lK é
uma soma de monômios do tipo

85
86 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.1 Polinômios em várias indeterminadas 87

onde ai 1 .. .in E K e ii, ... , in variam em Z+, sendo ai 1 ...in = O para um polinômio em K[Xi, X2, X 3 ]; escrevendo
quases todas (i.e., para todas, exceto um número finito de) sequências
(ii, ... , in) de inteiros não negativos. Nesse caso, escrevemos

f = /(Xi, X2, ... 'Xn) = L ªi1 ...inxf1... x~n. consideramos f como um polinômio em X 3 , cujos coeficientes estão
i1, .. ,,in~O em K[Xi, X2].
O grau de um polinômio f como acima é o maior valor possível para Se/, g E K[Xi, ... , Xn] são dados por
a soma ii + · · · + in, tal que ªii.,.in =/; o.
Denotamos por OC[Xi, ... , Xn] o conjunto dos polinômios a n inde-
/(Xi, X2, ... 'Xn) = L ªi1, ..inxf1... x~n
i1, ... ,in~O
terminadas sobre K. Sobre tal conjunto definimos, de maneira óbvia,
e
operações
g(Xi,X2, ... ,Xn) = L bi1 ...inxf1.. . x~n,
i1, ... ,in~O
dizemos que f e g são iguais quando ai 1...in = bi 1...in, para todas as
e
escolhas possíveis de índices ii, ... , in E Z+.
Fixados Xi, X2 ... , Xn E K, definimos o elemento /(xi, x2, ... , Xn) E
respectivamente denominadas adição e multiplicação, as quais se Kpor
reduzem às operações de adição e multiplicação sobre K[X] quando
n = 1 e continuam gozando das mesmas propriedades dessas opera- i1, ... ,in

ções. Por exemplo, se /(Xi, X 2) = X;+ XiX2 + X? e g(Xi, X2) = A proposição a seguir nos dá uma relação entre tais elementos de K e
Xf - v'2XiX2, então a noção de igualdade de polinômios em várias indeterminadas.
/(Xi, X2) + g(Xi, X2) = x; + (1 - v'2)XiX2 + Xf + xg Proposição 4.1. Sejam f,g E K[Xi, ... ,Xn]· Se Ai, ... ,An C K
são conjuntos infinitos, então
e
/(Xi,X2) · g(Xi,X2) = Xf-v'2XfX2 +xtx2 -v'2X;X?
+ x:xg- J2xixi.
Dado f E K[Xi, ... , Xn], podemos considerar f como um polinômio
Prova. Se f = g, é claro que /(xi, X2, ... , Xn) = g(xi, X2, ... , Xn),
em Xi, com coeficientes em K[Xi, ... , Xi, ... , Xn], onde usamos o cir-
para todos xi, x2, ... , Xn E K e, em particular, para Xi E Ai, x 2 E A2,
cunflexo A sobre Xi para indicar que todas as indeterminadas, menos
Xi, estão presentes. Por exemplo, seja ··., Xn E An.
Reciprocamente, suponhamos que esta última condição seja satis-
feita e provemos que f = g usando indução sobre o número n de
Relações entre Coeficientes e Raízes 4.1 Polinômios em várias indeterminadas 89
88

indeterminadas. Já temos a validade da proposição para n = 1, pelo Observação 4.2. Doravante, ao lidarmos com polinômios f em duas
corolário 3.10. Por hipótese de indução, suponha o resultado válido indeterminadas, escreveremos em geral f(X, Y) em vez de f(X1 , X 2 ).
para polinômios em n - 1 indeterminadas e escreva Uma notação análoga será usada para polinômios f em três indeter-
minadas: escreveremos f(X, Y, Z) em vez de f(X 1 , X 2 , X 3 ).

Exemplo 4.3. Escreva o polinômio (X+ Y + z)3 - (X3 + y3 + z3)


como produto de polinômios de grau 1.
1111 li com Íi, 9i E OC[X2 , ••• , Xn] para todos OS i S m, OS j S p.
Solução. Fixe Y, z E JR.*, com y =/:- z, e considere o polinômio em X
Fixados x 2 E A 2, ... , Xn E An, temos por hipótese de indução que
g(X) = f(X, Y, z) = (X+ y + z) 3 - X 3 - (y 3 + z3).

Uma vez que


para todo x 1 E A1 , i.e., que
m p f(-y, Y, z) = (-y + y + z)3 - ((-y)3 + y3 + z3) = O,
Lfi(x2,···,xn)x{ = L9i(x2,····,xn)x{,
j=O j=O temos pelo teste da raiz que o polinômio f(X, y, z) (em X) é divisível
por X - (-y) = X+ y. Analogamente, f é divisível por X+ z e, como
para todo x 1 E A1 . Como o conjunto A1 é infinito, aplicando o coro-
âg = 2, o item (c) da proposição 3.3 garante que
lário 3.10 aos polinômios
m f(X, y, z) = a(X + y)(X + z),
J(X1, X2, ... , Xn) =L fi(x2, · · ·, Xn)Xf
j=O sendo a E lR. a determinar. Avaliando a igualdade acima em O, obtemos

e p ayz = f(O, y, z) = (y + z) 3 - (y 3 + z3) = 3yz(y + z),


g(X1, X2, ... , Xn) = L 9i(x2, ... , Xn)Xf, de forma que a= 3(y + z). Logo,
j=O

concluímos que m = p e f(X, y, z) = 3(y + z)(X + y)(X + z)


(4.2)
e, daí, f(x, y, z) = 3(y+z)(x+y)(x+z), para todos x E JR. e y, z E JR.*,
com y =/:- z. Pela proposição 4.1, segue então que
para Os j s m. Mas, como os elementos X2 E A2, ... , Xn E An fixados
foram escolhidos arbitrariamente, concluímos que (4.2) é válida para
f(X, Y, Z) = 3(Y + Z)(X + Y)(X + Z).
todos x 2 E A 2, ... , Xn E An· Portanto, pela hipótese de indução segue
que Íi = gi para OS j S m, e (4.1) garante que f = g. D D
90 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.2 Polinômios simétricos 91

Problemas - Seção 4.1 Um certo conjunto de polinômios simétricos, ditos elementares,


merece especial atenção. Explicitamos tais polinômios na definição a
1. * Se f E JK[X1, ... , Xn] é não nulo, prove que existem conjuntos seguir.
infinitos A1 , ... , An C lK tais que f(x1, ... , Xn) =/:- O, para todos
X1 E A1, ... , Xn E An,
Definição 4.5. Para O ~ j ~ n, o j-ésimo polinômio simétrico
elementar em Xi, ... , Xn, denotado Sj = sj(X1, ... , Xn), é definido
2. Faça os seguintes itens: como

(a) Prove que o polinômio (X - Y) 5 + (Y - Z) 5 + (Z - X) 5 é. se j = O


divisível pelo polinômio (X - Y)(Y - Z)(Z - X). se 1 ~ j ~ n
(b) Fatore o polinômio (X - Y) 5 + (Y - Z) 5 + (Z - X) 5 . No caso n = 3, por exemplo, temos
3. Fatore o polinômio (X+ Y + Z) 5 - X 5 - Y 5 - Z 5 como produto . s0 = 1, s1 = X+ Y + Z, s2 = XY + Y Z + X Z, s3 = XY Z.
de três polinômios de grau 1 e um polinômio de grau 2.
Para um natural n qualquer, não é difícil provar que Sj é de fato
simétrico. Por outro lado, a importância dos polinômios simétricos
4.2 Polinômios simétricos elementares reside na proposição a seguir, sendo as relações (4.3) co-
nhecidas como as relações de Girard 1 entre coeficientes e raízes de
O objeto de estudo dessa seção é isolado na definição a seguir.
um polinômio.
Definição 4.4. Um polinômio f E JK[X1, ... , Xn] é simétrico quando
Proposição 4.6. Se f(X) = anXn + · · · + a 1X + a0 E JK[X] \ lK
f(X1, X2,,,,, Xn) = f(Xu(l), Xu(2), · · ·, Xu(n)), se fatora completamente sobre JK, com raízes a 1 , ... , an, então, para
1 ~ j ~ n, temos
para toda permutação a de ln.
Sj (a1,,,,,an ) -_ (-1 )i -
ªn-j
-. (4.3)
Para entender melhor a definição acima, considere os polinômios an
f,g E JK[X, Y], dados por Prova. Por simplicidade de notação, denote sj(a 1 , ... , an) simples-
mente por si(ai)· Escrevendo f(X) = an(X -a1)(X -a2) ... (X -an)
f (X, Y) = X 2 + Y 2 - XY +X+ Y e g(X, Y) = X 3 + Y 3 - X. e expandindo os parênteses, obtemos
O primeiro é simétrico mas o segundo não, uma vez que

f(Y, X) = Y2 +X 2- Y X+ Y +X= f(X, Y), Igualando os coeficientes correspondentes nessa expressão para f e
naquela do enunciado, obtemos o resultado desejado. D
mas
g(Y, X)= Y 3 +X 3- Y =/:- g(X, Y). 1 Após Albert Girard, matemático francês do século XVII.
92 Relações entre Coeficientes e Raízes 4 2 Polinômios simétricos 93
~

A fim de ilustrar o que a proposição acima diz e o que ela não todas as raízes complexas de f são reais. Mas, se ct1, ... , ctn E IR são
diz, considere as raízes complexas a, f3 e I do polinômio f(X) =::: tais raízes, as relações de Girard fornecem
X 3 - 2X 2 + 1. Pelas relações de Girard, temos n

Lªi = -ªn-1 e L
i<j
ªiªj = ªn-2·
i=l

A partir daí, temos


Porém, vale observar que tais relações não trazem informação sufici-
n
ente para calcularmos a, {3 e 1 ; de fato, ao tentarmos resolver o sistema
formado pelas igualdades acima, recaímos nas equações polinomiais . Lªl=
i=l
f(a) = O, f(f3) = O e J(r) = O. Senão, vejamos: multiplicando ambos
que nos fornece a contradição desejada. D
os membros da segunda relação por a, obtemos O

Exemplo 4.8. Sejam a, b e c números reais não nulos, tais que a+


b + c = O. Prove que
substituindo nessa igualdade f3 + 1 por 2 - a e a/31 por -1, segue que ª5 + b5 + c5
5
a 2 ( 2 - a) - 1 = O.
Prova. Se f(X) = (X-a)(X-b)(X -e), então a condição a+b+c = O
Nas notações da proposição acima, nos referimos a s j ( a 1 , ... , an) E garante que f(X) = X 3+sX -t, onde s = ab+ac+bc e t = abc. Mas,
lK como a j-ésima soma simétrica elementar das raízes de f. Sem- como f(a) = O, temos a3 = -sa + t e, analogamente, b3 = -sb + t
pre que ct1, ... , ctn estiverem subentendidos e não houver perigo de e c3 = -se+ t. Somando membro a membro essas três igualdades e
confusão com o polinômio simétrico elementar s J. = sJ.(X1, · · ·, X n ) , usando novamente a condição a+ b +e= O, obtemos
denotaremos a soma simétrica elementar sj(a 1 , ... , an) simplesmente a3 + b3 + c3 = -s(a + b +e)+ 3t = 3t.
por si.
Apresentamos, a seguir, uma série de exemplos que ilustram ava- Para manipular adequadamente a soma a5 + b5 + c5 , comece multipli-
riedade de situações em que podemos empregar as relações de Girard. cando ambos os membros das igualdades a3 = -sa + t, b3 = -sb + t e
c3 = -sc+t respectivamente por a2, b2 e c2 ; em seguida, some membro
Exemplo 4. 7. Seja f(X) = xn+an_ 1 xn- 1 +an_ 2xn- 2+. +a1 X +ao a membro os resultados para obter
um polinômio de coeficientes reais, tal que a;._ 1 < 2an_ 2. Prove que f
ª5 + b5 + c5 = -s(a3 + b3 + c3) + t(a2 + b2 + c2).
tem ao menos duas raízes complexas não reais.
Substituindo, na igualdade acima, a expressão para a3 + b3 + c3 obtida
Prova. Por contradição, suponha que a;._ 1 < 2an_ 2 mas ao menos
no parágrafo anterior e observando que
n - 1 dentre as raízes complexas de f sejam reais. Como f tem
coeficientes reais, o resultado do problema 2, página 74, garante que a2 + b2 + c2 =(a+ b + c) 2 - 2(ab + ac + bc) = -2s,
94 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.2 Polinômios simétricos 95

chegamos à igualdade Logo,

a5 + b5 + c5 = -s · 3t + t(-2s) = -5st. A=;. f (;) =;. t =t6'


2

A igualdade do enunciado é, agora, óbvia. o de sorte que A= vJ. o


Exemplo 4.9. As raízes do polinômio f(X) = X 3 - 7X 2 + 14X - 6 Exemplo 4.10 (Romênia). Sejam a, b, c e d números reais tais que
são os comprimentos dos lados de um triângulo. Calcule a área do
mesmo. a=J4-\!'5-a, b=V4+~,

1:
Solução. Sejam a, becas raízes de f e A a área do triângulo tendo
tais raízes por lados. A fórmula de Herão para a área de triângulos
c= V 4 - v'5 +c ed= V+ v'5 +
4 d.
Calcule os possíveis valores do produto abcd.
(proposição 7.30 de [11]) nos dá
Solução. Veja que a 2 = 4-\!'5-a, de sorte que (a2 -4) 2 = 5-a ou,
A2 = p(p - a)(p - b)(p - c), ainda, a4 -8a2 +a+ll = O. Analogamente, obtemos b4 -8b2 +b+ll =
O, de maneira que a e b são raízes do polinômio
onde pé o semi-perímetro do triângulo. Por outro lado, pelas relações
de Girard, temos f(X) = X 4 - 8X 2 +X+ 11.
Do mesmo modo, concluímos que c e d são raízes do polinômio X 4 -
8X 2 - X + 11 e segue, daí, que -c e -d também são raízes de f.
de maneira que Portanto, a, b, -c e -d são todos raízes de f e, se soubermos que
tais raízes são duas a duas distintas, concluiremos que elas são todas
as raízes do polinômio f; daí, as relações de Girard nos darão

Usando agora a forma fatorada de f, temos abcd = ab(-c)(-d) = 11.

Para o que falta, se tivéssemos, por exemplo, a = b, teríamos


f ( X) = (X - a) (X - b) (X - c) = X 3 - 7X 2 + 14X - 6
v'4 - \!'5-a = J4 + v'5 - a e, assim, a = 5. Mas, como 5 -/:-
e, daí, v'4 - y'5-=s, temos a -/:- b. Analogamente, provamos que c -/:- d;
por fim, como -c, -d < O < a, b, nada mais há a fazer. O
f (;) = (;-a) (;- b) (;- c) Exemplo 4.11 (Romênia). Se x 1 , x 2 , ... , Xn são reais positivos tais
que X1X2 ... Xn = 1, prove que
= G) G) + G) -
3
- 7
2
14 6
~
n 1
< 1.
1 L....tn-l+x·-
i=I J
8
96 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.2 Polinômios simétricos 97

Prova. Seja p(X) = (X+ x 1) ... (X+ Xn)· Pelo problema 3, página ·. de modo que basta mostrarmos que
83, temos
p'(x) = t 1 t (.~)
j=l J
(j - l)(n - 1r-j-l ~ (n -1r- 1 .
p(x) i=l x+xi
Afirmamos que tal desigualdade é, de fato, uma igualdade. De
para x =/:- -xi, ... , -xn. Portanto, queremos mostrar que
fato, a igualdade

l"I:'.
1;
p'(n - 1) < 1.
p(n -1) - x" = ex -1+ 1r = t, (:)ex -1)"-'
Para o que falta, para 1 ~ i ~ n, seja ai= si(x 1 , ... , xn) ai-ésima nos dá, por derivação,
soma simétrica elementar de x 1 , ... , Xn, e faça a0 = 1. Então, temos
n n-1 nxn-• = Í:(n - k) (:) (X - 1)"_,_,
p(X) = L ajxn-j e p(X) = L(n - j)ajxn-j-I, k=O
j=O j=O Avaliando as funções polinomiais correspondentes em x = n, vem que
de sorte que basta mostrar que
nn = Í:(n - k) (~) (n - 1r-k-l
n n-1
k=O
L ªi(n - 1r-j ~ L(n - j)ain - 1r-j- 1

j=O j=O = ~[(n -1) - (k-1)] (:) (n - 1)"_,_,


ou, ainda,
n-1 =É(~) (n -1r-k - Í:(k-1) (~) (n-1r-k-l_
L ªi(j - 1)(n - 1r-j-l + ªn ~ nao(n - 1r- 1 - ao(n - ir. k=O k=O
j=l Por outro lado,

Finalmente, queremos provar que


n
Lªiu-1)(n-1r-j-l ~ (n -1r- 1 . de forma que

t, G) (n-1r-·
j=l

Pela desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, temos = ~ (:)cn-1)"-·


-Í:(k
k=O
- 1) (~) (n - ir-k- 1.
98 Relações entre Coeficientes e Raízes . 4.2 Polinômios simétricos 99

Após efetuar os cancelamentos óbvios, chegamos à igualdade onde CJ varia sobre todas as n! permutações de ln. Prove que g
é um polinômio simétrico, denominado a simetrização de f, e
que g = f se f for simétrico .

4. (Croácia.) Se a, b e e são reais dois a dois distintos satisfazendo
ou, ainda, a

11:•.
t,<k- l)(~)(n -1r-•- = o. 1
o sistema de equações

a3 = 3b2 + 3c2 - 25
{ b3 = 3c2 + 3a2 - 25
Por fim, a partir daí, obtemos
c3 = 3a2 + 3b2 - 25

calcule os possíveis valores do produto abc.

que é precisamente a igualdade desejada. 5. Dados a, b, e E C, explicite, em função de a, b e e, os coeficientes


i',
!.,
de um polinômio mônico de grau três cujas raízes complexas
]i !
ir:
:: sejam os cubos das raízes complexas do polinômio X 3 + aX 2 +
bX+c.
Problemas - Seção 4.2
6. Dado o polinômio p(x) = X 3 - X 2 +X+ 1, pede-se:
1. Sejam f, g eh polinômios não nulos em K[X1 , ... , Xnl, tais que '.
f e g são simétricos e f = gh. Prove que h é simétrico. ' (a) Mostrar que p tem três raízes distintas, duas das quais são
complexas e não reais.
2. * Um polinômio f E K[X1 , ... , Xn] é denominado homogêneo
de grau k quando (b) Obter o polinômio mônico de terceiro grau cujas raízes são
os cubos das raízes de p.

7. (OBM.) Sabendo que o polinômio f (X) = X 3 + pX + q tem três


para todo t E K. Obtenha, a menos de multiplicação por cons- raízes reais distintas, prove que p < O.
tantes, todos os polinômios simétricos e homogêneos de grau 2
em JR[X, Y, Z]. 8. (Romênia.) Sejam a, b e e complexos não nulos, tais que

3. Para f E K[X1, ... , Xn], seja g E K[X1, ... , Xn] o polinômio 1 1 1


a + b+ e = - + - + - = O.
definido por a b e
1 + bn + cn
g(X1, · · ·, Xn) = I
n.
L f(Xu(l), '. · ·, Xu(n)), Se n for um inteiro positivo, mostre que an
só se, 3 f n.
= O se, e
(T
100 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 101

9. (Hong Kong.) Sejam a3, a4 , ... , a100 números reais, sendo a100 f. , (a) Dados n 2: 2 reais positivos x 1 , x 2 , ... , Xn, mostre que
O. Prove que nem todas as raízes do polinômio /
81 + 83 +···+Si
X1 * (x2 * (· ·· * Xn) · · ·) = --------
f(X) = a100X 100 + a99X 99 + · · · + a3X 3 + 3X 2 + 2X + 1
. 1 + S2 + 84 + ··· + Sp

onde i e p são, respectivamente, o maior ímpar e o maior


são reais. par menores ou iguais a n e Sj é a j-ésima soma simétrica
elementar de X1, X2, ... , Xn·
10. Considere todas as retas que encontram o gráfico da função poli- , (b) Se J(X) = (X+ x1)(X + x2) ... (X+ xn), use o resultado
1. nomial real f(x) = 2x4 +7x 3 +3x-5 em quatro pontos distintos do item (a) para mostrar que
(xi,Yi), para 1::; i::; 4. Prove que o número Hx
1 +x 2 +x3+x4 ) ;,
independe da reta considerada e calcule seu valor.

11. (Moldávia.) No plano cartesiano, um círculo intersecta a hipér- :


14. Seja n > 1 inteiro. Obtenha todas as soluções reais do sistema
bole de equação xy = 1 em quatro pontos distintos. Prove que
o produto das abscissas dos pontos de interseção é sempre igual
a 1.

12. (Canadá - adaptado.) Sejam a, b e e as raízes complexas do x1 + x2 + · · · + x~ = n


polinômio X 3 - X 2 - X - 1.
15. Seja f(X) = xn + ªn-1xn-l + · · · + a1X + 1 um polinômio de
(a) Prove que a, b e e são duas a duas distintas. coeficientes reais não negativos e raízes reais. Prove que f(x) 2:
(b) Se, para cada n EN, pusermos (x + lt, para todo real X 2: Ü.
16. (Irlanda.) Dado n E N, ache todos os polinômios J(X)
anXn + · · · + a1X + a0 satisfazendo as seguintes condições:
(a) ai E {-1, 1}, para O::; j::; n.
mostre que Sk+3 = Sk+2 + Sk+l + Sk, para todo k E N.
(b) Todas as raízes de f são reais.
(c) Conclua que Sn E Z, para todo n EN.

13. (BMO - adaptado.) Para números reais x e y tais que xy =/:- -1, 4.3 O teorema de Newton
defina
l+x+y Ainda sobre polinômios simétricos, note que f(X, Y, Z) = X 4 +
X*Y =
l+xy Y 4 + Z 4 é simétrico mas não é um dos polinômios simétricos em X,
102 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 103

Y e Z que chamamos elementares. Contudo, sendo si = si(X, Y, Z), de K[Xi, ... , Xn] da seguinte maneira: dadas duas n-uplas distin-
s 2 = s 2(X, Y, Z) e s 3 = s 3 (X, Y, Z), podemos escrever tas (ii, ... , in) e (ji, ... , Jn) de inteiros não negativos e monômios
ª(i)Xf 1 ••• X!n e b(i)Xf 1 ••• Xtn em K[Xi, ... , Xn], definimos
f(X, Y, Z) = (x2 + y2 + z2)2- 2(x2y2 + x2z2 + y2z2)
a (i) X ii1 Xin -< b(j) xi1i · · · Xin
= [ (X + Y + Z) 2 - 2(XY + X Z + Y Z)] 2 · · · n n

- 2 [(XY + XZ + YZ) 2 - 2XYZ(X + Y + Z)] ~ (4.4)


= (s~ - 2s 2 ) 2 - 2(s~ - 2sis3)
:3 l :::; k :::; n; { ~l = j'. se l < k .
1,k < )k
1'
= sf - 4s~s2 + 2s~ + 4sis3
= g (si, s2, s3)'
Neste caso, dizemos que bu)Xf1 ••• Xtn é maior do que ª(i)Xt 1 ••• x:;,,.
Em geral, nos referiremos à ordenação acima como a ordem le-
onde xicográfica dos monômios de K[Xi, ... , Xn]· Em particular, para
g(X, Y, Z) = X 4 - 4X 2 Y + 2Y 2 + 4X z. f E K[Xi, ... , Xn], seu termo líder é o monômio máximo (i.e., maior
que todos os demais) em relação à ordem lexicográfica. Note ainda
Assim, nesse caso particular, fomos capazes de expressar o polinômio
que, em K[X], tem-se 1 -< X -< X 2 -< · · ·, de modo que a noção de
simétrico f(X, Y, Z) = X 4 + Y 4 + Z 4 como um polinômio nos polinô-
termo líder em mais de uma indeterminada generaliza a noção usual
mios simétricos elementares em X, Y e Z.
em uma indeterminada, dada pelo grau de um monômio.
Conforme veremos nesta seção, tal possibilidade não é acidental.
Mais precisamente, provaremos a seguir um resultado usualmente atri- Exemplo 4.13. Se f = st1 ••. s~n, onde si E K[Xi, ... , Xn] é o
buído ao matemático e físico inglês Isaac Newton, conhecido na litera- i-ésimo polinômio simétrico elementar, então f tem termo líder
tura como o teorema fundamental dos polinômios simétricos.
No que segue, K inclui a possibilidade K = .Z. Seguimos, essenci-
almente, a exposição de [27].
De fato, uma vez que
Teorema 4.12 (Newton). Se f = f(Xi, ... , Xn) E K[Xi, ... , Xn] é
simétrico, então existe g E K[Xi, ... , Xn] tal que

f(Xi, ... , Xn) = g(si, ... , sn),


a definição de ordem lexicográfica garante que seu termo líder é
onde si, ... , sn E K[Xi, ... , Xn] são os polinômios simétricos elemen-
tares em Xi,· . . ,Xn.

Para a prova do teorema anterior, precisamos introduzir alguns i.e.,


conceitos preliminares. Inicialmente, vamos ordenar os monômios
104 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 105

De posse do conceito de ordem lexicográfica, a chave para a prova a(a)Xf 1 ••• X~n em relação à ordem lexicográfica, um número finito de
do teorema de Newton se encontra no seguinte resultado auxiliar. repetições do algoritmo acima nos dá f-g = l(s 1 , ... , sn), para algum
polinômio l E OC[X1, ... , Xn]· Assim, o mesmo ocorre com f. D
Lema 4.14. Se f E OC[X1, ... , Xn] é simétrico e ª(a)Xf 1 ••• X~n é
seu termo líder, então Vale frisar que o teorema de Newton é, primordialmente, um te-
orema de existência. De fato, é possível provar que, para polinômios
simétricos em geral; o algoritmo descrito na prova do teorema de New-
Prova. Se a 1 é o maior expoente que comparece em algum monômio
ton não termina em tempo polinomial (i.e., mesmo com o auxílio de
de f, então, como f é simétrico, existe em f um monômio contendo
um computador não conseguimos, para um polinômio simétrico gené-
Xf 1 • Se ª(i)Xi 1 •.• X~n é um monômio de f tal que i1 < a1, segue da
rico em n indeterminadas, expressá-lo, em tempo finito, como um po-
definição da ordem lexicográfica que tal monômio não é o termo líder .
linômio nos polinômios simétricos elementares em n indeterminadas).
de f. Portanto, o termo líder contém Xf 1 •
Todavia, mostraremos, no exemplo a seguir que a mera existência as-
Agora, dentre todos os monômios de f contendo Xf1 , selecione
segurada pelo teorema de Newton pode ser bastante útil. Para outra
um com expoente máximo em alguma das indeterminadas X 2 , ••• , Xn,
aplicação interessante, veja a seção 8.1.
digamos expoente a 2 . Novamente por ser f simétrico, existe um tal
monômio de f contendo Xf 1 Xf 2 • Ademais, pela escolha de a 1 temos Exemplo 4.15 (Miklós Schweitzer). Seja f E Z[X] um polinômio
a 1 2: a 2. Por outro lado, se ª(i)Xf 1 X~2 ••• X~n é monômio de f tal não constante e w = eis 2; , onde n > 1 é um inteiro. Prove que
que i 2 < a 2 , então, novamente pela definição de ordem lexicográfica,
tal monômio não é o termo líder de f, de modo que o termo líder de f f(w)f(w 2) ... J(wn-l) E Z.
contém Xf 1 Xf 2 • Por fim, repetindo esse argumento mais n - 2 vezes,
obtemos o resultado desejado. D Prova. Considere o polinômio g E Z[X1, ... , Xn-i] dado por

Podemos, finalmente, apresentar a prova do teorema de Newton.

Prova do teorema 4.12. Tome f E OC[X1, ... ,Xn] simétrico, com


Se cr é uma permutação de In-I, então
termo líder ª(a)Xf 1 ••• X~n. Pelo lema anterior, temos a 1 2: · · · 2: ªn·
Por outro lado, pelo exemplo 4.13, o polinômio simétrico
{cr(l),cr(2), ... ,cr(n-1)} = {1,2, ... ,n-1}

e, daí,
também tem termo líder ª(a)Xf 1 •.• X~n, de modo que o polinômio si-
métrico f - g tem termo líder ª(f3)Xf 1 ••• X~n, com ª(f3)Xf 1 ••• X~n -< g(Xu(l), · · ·, Xu(n-I)) = f(Xu(I))f(Xu(2)) · · · f(Xu(n-I))
ª(a)Xf 1 ••• X~n na ordem lexicográfica. Mas, como OC[X1, ... , Xn] con- = f(X1)f(X2) ... f(Xn-1)
tém somente um número finito de monômios mônicos e menores que = g(X1, ... , Xn-1).
106 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 107

Assim, g é simétrico e o teorema de Newton garante a existência Lema 4.16 (Horner-Rufinni). Seja
de um polinômio h E Z[X1, ... , Xn-1] tal que g(X1, ... , Xn-1) -
f(X) = xn - s1xn-i + · · · + (-1r- 1sn-1X + (-ltsn
h(s1, ... , Bn-1), i.e.,
um polinômio não constante sobre C. Se z é uma raiz complexa de f
e
onde Sj é o j-ésimo polinômio simétrico elementar em X1, ... , Xn-l· g(X) = xn-i + b1xn- 2 + · · · + bn-1
Substituindo Xi por wi na igualdade acima, obtemos
é o quociente da divisão de f(X) por X - z, então
f (w)f (w 2) ... f (wn-l) = h(s1 (w, ... , wn-l ), ... , Bn-1(w, ... , wn-l ));
portanto, a fim de mostrar que f(w)f(w 2 ) •.. f(wn- 1) E Z, é suficiente
(:
i '.('1•' '
,,,
mostrar que siw, ... , wn-l) E Z, para 1 :::; j :::; n - 1.
Para o que falta, basta observar que (4.5)
xn - 1 = (X - l)(X -w)(X - w 2) ... (X - wn- 1)
= (X - l)(xn-i + xn- 2 +···+X+ 1), Zn-1 - S1Zn-2 + · · · + (- l)n...:..1 Bn-1

de sorte que Prova. Nas notações do enunciado, as recorrências (3.1) se escrevem


xn-l + xn- 2 +···+X+ 1 = (X - w)(X - w2 ) ... (X - wn- 1)
n-1
-- "(-l)j
L.....J s1·(W,W 2 , ... ,Wn-l)xn-1-j .
j=O

Assim, temos que


s1·(w, w2 , ... , wn-1) -_ (-l)j Eu...,,
,. ,.,

conforme desejado. D
Resolvendo o sistema linear acima sucessivamente para b2 , ... , bn-I,
A discussão que antecede o exemplo anterior sugere que, quando obtemos uma a uma as relações do enunciado. D
quisermos expressar efetivamente um dado polinômio simétrico como
As relações contidas na proposição a seguir nos fornecerão recor-
um polinômio nos polinômios simétricos elementares, teremos, via de
rências para expressar o polinômio simétrico
regra, de recorrer a argumentos ad hoc. Nesse sentido, terminamos
esta seção discutindo um exemplo relevante, para o qual precisamos
da seguinte consequência do algoritmo de Horner-Rufinni. As identi-
dades (4.5) a seguir são conhecidas como as identidades de Horner- como um polinômio nos polinômios simétricos elementares em X 1 , X 2 ,
Ruffini. ... , Xn. As fórmulas dos itens (a) e (b) a seguir são respectivamente
108 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 109

denominadas primeira e segunda identidades de Jacobi 2 . Para uma Por outro lado, para z E CC \ {z1 , ... , zn}, segue do problema 3,
outra prova das mesmas, veja o problema 2, página 242. página 83, que
f'(z) = f(z) + ... + f(z) .
Proposição 4.17 (Jacobi). Para Z1, ... 'Zn E e, se Si= si(z1, ... 'Zn) Z - Z1 Z - Zn
é ai-ésima soma simétrica elementar de z1 , ... , Zn e O"k = zf+· · ·+z~, Sendo Í} E C[X] tal que f(X) = (X - Zj)i}(X), digamos
então:

(a) O"n+k = I:7= 1(-l)j-lSjO"n+k-j, para k 2:: l.


segue que
n n
(b) Sk+1 kii E;~i(-l)í- 1sk+1-jO"j, para 1::; k::; n -1.
=
J'(z) = L i}(z) = L(zn-l + b1jZn- 2 + · · · + bn-1,j)
Prova. j=l j=l
(a) Seja
= nzn-l + (t
J=l
b1j) zn- 2 + · · · + (t
J=l
bn-1,j) .
f(X) = (X - z1) ... (X - zn) = Xn - s1Xn-l + ·: · + (-lts~. (4.6)
Mas, como a igualdade acima é válida para todo z E CC \ {z1 , ... , Zn},
Como zi é raiz de f, temos segue do corolário 3.10 que

f'(X) = nxn-t + (t. b,;) xn-, + · · · + (t. bn-1,;) . (4.8)


para 1 ::; i ::; n e, daí, •
Por fim, igualando os coeficientes correspondentes em (4.7) e (4.8)
.
z~+n
i
- s1z~+n-l
i
+ · · · + (-l)n-ls n-1 z~+l + (-l)nsn z~ =
i i
O• e substituindo as identidades (4.5), obtemos
n
Somando as igualdades acima para 1 ::; i ::; n, obtemos (-lt+l(n - k - l)sk+l = L bk+l,j
j=l
n
= ~(
L.....J Zjk+l
· - S1Zjk + · · · + (- l)k+l Sk+l )
igualdade equivalente à do enunciado. j=l
= ªk+i - s1ak + · · · + (-1t+1nsk+1,
(b) Segue de (4.6) que de maneira que

J'(X) = nxn-l - (n- l)s1xn- 2 + · · · + (-1r- 1sn-1· (4.7)


2 Após o matemático alemão do século XIX Carl G. J. Jacobi. D
110 Relações entre Coeficientes e Raízes 4.3 O teorema de Newton 111

O corolário a seguir também é devido a Jacobi. 4. Sejam m EN, w = cos ! + i sen ! e z1 , ... , Zn números comple-
Corolário 4.18 (Jacobi). Para cada inteiro k ~ 1, sejam sk o k-ési- xos tais que
mo polinômio simétrico elementar em X1 , ... , Xn e <J"k = Xf+· · +X~.
f(X) = (X - z1)(X - z2) ... (X - zn)
Então:
(a} <J"n+k = I:7= 1 (-l)i-lsj<J"n+k-j, para k ~ 1. é um polinômio de coeficientes inteiros.

(b} sk+l = kll I:7~t(-l)i- 1 sk+1-j<J"j, para 1::::; k::::; n-1. (a) Se g(X) . TI::~ 1 f(wiX), prove que

Prova. Avaliando ambos os membros de (a) e (b) em z1, ... , Zn E g(X) = (Xm - zf) ... (Xm - z;:1').
(C obtemos, pela proposição anterior, igualdades verdadeiras. Como
(C é um conjunto infinito, a proposição 4.1 garante a igualdade dos (b) Use as identidades de Jacobi para mostrar que o polinômio
polinômios correspondentes. D g do item (a) tem coeficientes inteiros.

(c) Conclua que, se z E C é raiz de um polinômio não nulo f


de coeficientes inteiros, então existe um polinômio não nulo
Problemas - Seção 4.3 h, também de coeficientes inteiros, tal que zm é raiz de h.

1. Se f E Z[X] é um polinômio mônico, de grau n ~ 1 e raízes 5. (OBM.)


complexas z1, ... , Zn, prove que zt z~
+ · · · + E Z, para todo (a) Se n EN, prove que há somente um número finito de po-
k ~ 1 inteiro.
linômios mônicos, de grau n e coeficientes inteiros, tais que
2. Se a 1, ... , an, b1, ... , bn são números complexos tais que todas as suas raízes complexas têm módulo 1.
k + · · · + ank = bk1 + · · · + bkn, (b) Seja f E Z[X] \ Z um polinômio mônico, tal que todas as
ª1
suas raízes complexas têm módulo 1. Prove que todas as
para 1 ::::; k ::::; n, mostre que {a1, ... , an} = {b1, ... , bn}· raízes complexas de f são raízes da unidade.
3. (Japão - àdaptado.) Sejam n, k EN, com 2::::; k::::; n, e a 1 , ... , ak
números reais tais que

a1+ · · · + ak n
a~+···+ a~ n
112 Relações entre Coeficientes e Raízes •

CAPÍTULO 5

Polinômios sobre :IR

Neste capítulo, revisitamos alguns dos teoremas clássicos do Cál-


culo, estudados em [12), para polinômios de coeficientes reais, tendo
como ferramenta principal o teorema fundamental da álgebra. Como
aplicação dos mesmos, provaremos as desigualdades de Newton, as
quais generalizam a desigualdade entre as médias aritmética e geomé- I·:.
trica de n números reais positivos, e a regra de Descartes, que relaciona il
1

1,1
o número de raízes positivas de um polinômio de coeficientes reais ·ao 11
li
!'I
número de trocas de sinal de seus coeficientes não nulos. i:

5.1 Alguns teoremas do Cálculo


Nosso primeiro resultado dá uma condição suficiente para a exis-
tência de raízes reais num intervalo. Para a prova do mesmo, precisa-
mos do seguinte resultado auxiliar.
114 5.1 Alguns teoremas do Cálculo 115

Lema 5.1. Se f E R[X] \ {O} é mônico e não tem raízes reais, então Teorema 5.2 (Bolzano). Se f E R[X] e a < b são reais tais que
existem polinômios 9, h E R[X] tais que f = 9 2 + h2 • Em particular,··. J(a)J(b) < O, então existe e E (a, b) tal que f(c) = O.
J(x) > O para todo x E R.
Prova. Supondo, sem perda de generalidade, que fé mônico e f(a) <
Prova. Pelo problema 2, página 74, existem números complexos não O< J(b), segue da última parte do lema anterior que f tem ao menos
reais z1 , ... , zk tais que uma raiz real. Sejam, pois, a1 ::; · · · ::; ak as raízes reais de f, repetidas
k
de acordo com suas multiplicidades. Se 9 E ~[X] é tal que
f(X) = II (X - Zj)(X - Zj)·
f(X) = 9(X)(X - a1) ... (X - ak),
j=l

Agora, se Zj = ai + ibi, com ai, bi E R, então então 9 é mônico e não possui raízes reais, de sorte que, novamente
pelo lema anterior, 9(x) > O para todo x E R.
(X - zi)(X - zi) = (X - ai - ibi)(X - ai+ ibi) Por contradição, suponha que não há raiz de f no intervalo (a, b)
= (X - ai)2 - (ibi)2 e considere três casos separadamente:
= (X - ai)2 + bJ,
(i.) ak < a: temos
a soma dos quadrados de dois polinômios de coeficientes reais (um t
deles constante). J(a) = 9(a)(a - a1) ... (a - ak) > O,
Basta, agora, aplicar várias vezes um argumento similar à identi- ·
dade de Euler (7.7) de [14]: para 9 1 , 92, h 1 , h2 E R[X], temos uma contradição.

(ii.) b < a 1 : segue de f(b) > O que

Para o que falta, segue da primeira parte que

f(x) = 9(x) 2 + h(x) 2 ~ O, e, daí, k é par (uma vez que 9(b) > O e b - ai < O, para 1 ::; i ::; k).
Por outro lado, segue de f(a) < O que
para todo x E ~; mas, como f não tem raízes reais, a desigualdade
acima deve ser estrita, para todo x E R. D 9(a)(a- a1) ... (a - ak) < O
O resultado a seguir é o teorema do valor intermediário para poli-
e, daí, k é ímpar (uma vez que 9(a) > O e a - ai < O, para 1 ::; i::; k).
nômios, sendo conhecido na literatura como o teorema de Bolzano 1.
Portanto, chegamos a umá contradição.
1 Após Bernhard Bolzano, matemático alemão do século XIX.
116
.
Polinômios sobre lR
'
5.1 Alguns teoremas do Cálculo 117

(iii.) a1 < a < b < a1+1, para algum 1 ~ l < k: chegamos a um Assim, temos f (un) = g( un) para todo inteiro n ~ 1. Mas, como
absurdo de modo análogo ao item anterior. (Por exemplo,

O< f(a) =
.._,.,,. ~~--~~--·--~~----~~--
g(a) (a - a1) ... (a - ai) (a - a1+1) ... (a - ak)
>O ....... >0 <0 · para todo n ~ 1, segue do corolário 3.10 que f = g. D

implica k - l par.) No que segue, estabelecemos para polinômios o teorema do valor


D médio de Lagrange2 .
Exemplo 5.3 (Moldávia). Sejam f, g E JR[X], cada um dos quais
Teorema 5.4 (Lagrange). Sejam f E JR[X] \ {O} e a< b reais dados.
possuindo ao menos uma raiz real.
Então existe a < e < b tal que
(a) Prove que existe a E lR tal que f(a) 2 = g(a)2.
J'(c) = J(b) - J(a).
{b) Se f(l +X+ g(X)2) = g(l +X+ J(X)2), mostre que f = g. b-a
Prova. Prova. Provemos primeiro que, se f(a) = f(b) = O, então existe a<
(a) Sejam a e (3 raízes de f e g, respectivamente. Podemos supor, sem e< b tal que f'(c) = O. Podemos supor, sem perda de generalidade,
perda de generalidade, que a~ (3. Se g(a) = O ou J(f3) = O, nada há que f não tem outras raízes no intervalo (a, b). De fato, se f possuir
a fazer. Senão, temos uma infinidade de raízes em (a, b), temos f = O, pelo corolário 3.9;
se f possuir um número finito de raízes em (a, b), digamos a 1 < a2 <
J(a)2 - g(a)2 = -g(a)2 < O e f(f3)2 - g(f3)2 = f(f3)2 > O,
· · · < ak, trocamos b por a 1 .
de sorte que o teorema de Bolzano, aplicado ao polinômio J(X) 2 - Se existissem a < e < d < b tais que f(c)f(d) < O, o teorema de
g(X)2, garante a existência de a E (a, (3) tal que J(a) 2 - g(a) 2 = O. Bolzano garantiria a existência de uma raiz de f no intervalo (a, b), o
que é um absurdo. Portanto, f tem sinal constante em (a, b). Supo-
(b) Sendo a E lR como no item (a), defina uma sequência (un)n:2:1 nha, sem perda de generalidade, que J(x) > O para x E (a, b), e sejam
pondo u 0 = a e, para cada n ~ 1, Un+l = 1 + Un + g(un)2. Pelo item respectivamente k e l as multiplicidades de a e b como raízes de f.
(a), temos f(u 1) = g(u 1). Suponha, por hipótese de indução, que Então, existe g E JR[X] tal que
f(uk) = g(uk), para um certo inteiro k ~ 1. Então, nossas hipóteses
garantem que f(X) = (X - at(x - b) 1g(X),

J(uk+i) = f(l + uk + g(uk)2) com g(a), g(b) -1- O. Agora,


= g(l + Uk + f(uk)2)
a< e< b =* J(c) >O=* (e - at(c - b) 1g(c) >O=* (-1) 1g(c) > O.
= g(l + Uk + g( Uk)2)
2 Após Joseph Louis Lagrange, matemático franco-italiano do século XVIII.
= g(uk+i)·
118 Polinômios sobre ~ 5.1 Alguns teoremas do Cálculo 119

Consideremos o caso em que l é par (o caso em que l é ímpar é Corolário 5.5 (Rôlle). Se f E R[X] \ {O} e a < b são reais tais que
análogo), de sorte que g(c) > O, para todo e E (a, b). Se g(a) < O, J(a) = f(b) = O, então existe a< e< b tal que f'(c) = O.
o teorema de Bolzano garantiria a existência de a < d < ª1b
tal que
Ilustramos a utilização do teorema de Rôlle no exemplo a seguir.
g(d) = O, de modo que f(d) = O, o que, por sua vez, é um absurdo.
Logo, g(a) > O e, analogamente, g(b) > O. Então, temos Exemplo 5.6. Seja f(X) =ao+ a1X + · · · + ªn-1xn- 1 + anXn um
polinômio de coeficientes reais, tal que
J'(X) = k(X - at- 1(X - b) 1g(X) + l(X - a)k(X - b}1- 1g(X)
+ (X - at(X - b}1g'(X) -ªº + -a1 + ... + -ªn-1 + -ªn- = o.
1 2 n n+l
= (X - at- 1(X - b}1- 1h(X),
Prove que f possui pelo menos uma raiz no intervalo (O, 1).
li,; onde
' j ·1''.,·,,' l,1
Prova. É imediato que f = g', onde
!
h(X) = (k(X - b) + l(X - a))g(X) + (X - a)(X - b)g'(X).
g(X) = aoX + a1 x2 + ... + ªn-1 xn + ~xn+i.
Basta, pois, então mostrarmos que existe e E ( a, b) tal que· h( e) = 2 n n+ 1
O. Mas, como Mas, como g(O) = g(l) = O, o teorema de Rôlle garante a existência
h(a)h(b) = -kl(a - b) 2 g(a)g(b) < O, de a E (O, 1) tal que f(a) = g'(a) = O. D

o teorema de Bolzano liquida a questão. Uma consequência importante do teorema do valor médio é o es-
Para o caso geral, seja tudo da primeira variação (i.e., crescimento ou decrescimento) de po-
linômios, conforme ensina o corolário a seguir.
fi(X) = f(X) - J(a) - (f(b) - f(a)) (X - a).
b-a Corolário 5. 7. Sejam f E R[X] \ {O} e I e R um intervalo.

Como fi(a) = J1 (b) = O, o que fizemos acima garante a existência de (a) Se f'(x) > O para todo x E J, então f é crescente em I.
e E (a, b) tal que Jf(c) = O. Por fim, resta observar que
(b) Se f'(x) < O para todo x E J, então f é decrescente em I.

Prova. Façamos a prova do item (a), sendo a prova do item (b) aná-
loga. Para a < b em I, o teorema do valor médio garante a existência
D de e E ( a, b) (e, portanto, e E J) tal que
Conforme frisamos em [12], o caso f(a) = f(b) = O do teorema
J(b) - f(a) = J'(c) > O.
anterior precedeu a versão geral de Lagrange, tendo sido provado pelo b-a
matemático francês do século XVII Michel Rôlle e sendo conhecido na
literatura como o teorema de Rôlle. Em particular, f(b) > f(a). D
120 Polinômios sobre lR. 5.1 Alguns teoremas do Cálculo 121

Exemplo 5.8. Prove que, para todo inteiro positivo n, o polinômio 2. * Prove, para polinômios de coeficientes reais e com os métodos
x2 xn desta seção, o teorema de permanência do sinal: se f E
l+X+-+···+-
2! n! R[X] é tal que f(a) > O para algum a E R, então existe r > O
tem no máximo uma raiz real. tal que f(x) > O para todo x E (a - r, a+ r).

Prova. Sendo fn = 1 +X+ ~t + · · · + :~, mostremos que (i) fn não 3. * Dado f E R[X] \R, sejam a E R e r > Otais que
tem raízes reais se n é par, e (ii) fn tem exatamente uma raiz real se
n é ímpar. f(a) = min{f(x); x E (a - r, a+ r)}.
Prove que f'(a) = O.
(i) Supondo n par, temos limlxl-t+oo fn(x) = +oo. Portanto, segue
do teorema de Weierstrass (o teorema 4.31 de [12]) a existência de · 4. Seja f(X) = X 5 -2X4 + 2. Prove que f possui exatamente três
x 0 E R tal que fn assume seu valor mínimo em x 0. Suponha, por con- raízes reais.
tradição, que fn(x 0 ) ~ O. Então, pelo resultado do problema 3, temos
5. * Dado f E R[X] \ R com coeficiente líder positivo, prove que
f~(xo) = O e, como fn(xo) = f~(xo) + xn n~, segue que O 2: Ín ( Xo )· = ~-
xn
existe n 0 E N tal que
Como n é par, a única maneira de não termos uma contradição a par-
5t-.
tir dessa última relação é que seja O = fn(x 0 ) = n. Mas aí, deveria u > v >no::::} f(u) > f(v) > O.
ser fn(O) = O, o que é um absurdo.
6. Prove que não existe polinômio f E Z[X], tal que f(n) seja
(ii) Supondo n ímpar, segue do problema 4, página 75, que fn tem um primo para todo inteiro não negativo n.
número ímpar de raízes reais; por outro lado, segue do exemplo 3.33 ·
7. (Leningrado3 .) Decida se existem quatro números reais distintos
que f n não tem raízes múltiplas. Suponha, então, que .fn tem pelo
a, b, e e d tais que, para quaisquer dois deles, x e y digamos,
menos três raízes reais distintas, digamos a < b < e. Então, o teorema
tenhamos
do valor médio garante a existência de a E (a, b) e /3 E (b, e) tais que
x10 + xg y + ... + xyg + y10 = 1.
f~(a) = f~(/3) = O. Mas, como f~ = fn-1 e n-1 é par, o caso anterior
nos fornece uma contradição. D 8. Os reais positivos a 1, a 2, a3 e a4 são tais que a1 ~ a2 ~ a3 ~ a4
e a 1 a2 a3 a4 = 1. Se À é uma raiz real do polinômio

Problemas - Seção 5.1

1. Se f EZ[X] é um polinômio não constante e m é um inteiro prove que À > a2.


positivo tal que m > 1 + Re( z), para toda raiz complexa z de f,
3 A cidade russa de São Petesburgo mudou seu nome para Leningrado durante
prove que IJ(m)I > 1. a existência da União Soviética.
122 Polinômios sobre lR 5.2 As desigualdades de Newton 123

9. (Leningrado.) Sejam a, b, e, d e e números reais tais que O (a) Adicionavam ao polinômio sua derivada.
polinômio aX 2 + (e - b)X + (e - d) = O tem uma raiz real maior (b) Subtraíam do polinômio sua derivada.
que 1. Prove que o polinômio aX 4 + bX 3 + cX 2 + dX + e = O
tem ao menos uma raiz real. Ao final da aula, o polinômio inicial apareceu novamente no qua-
dro negro. Prove que ao menos um dos alunos cometeu um erro.
10. (Áustria-Polônia.) Dados números reais a 1 , ... , an, prove que
n
~ a·a· >O 15. (OIM.) São dados números reais a 1 , a2, ... , an, tais que O <
LJ_i_J
·· 1 i + j - ' a1 < a2 < · · · < ªn· Se f : lR \{-ai, ... , -an} -+ lR é a função
i,J=
tal que
com igualdade se, e só se, a 1 = · · · = an = O. n
f(x) = ~ ; ,
LJ a·
11. Seja J(X) = X 3 - 3X + 1. Calcule o número de raízes reais j=l
X
J

distintas do polinômio f (! (X)).


para x =/=- -a 1 , ... , -an, prove que o conjunto {x E JR; J(x) 2: 1}
12. (Suécia.) Seja f E JR[X] um polinômio de grau n. Se J(x) 2: O pode ser escrito como a união de n intervalos limitados, dois a
para todo x E JR, mostre que dois disjuntos e cuja soma de comprimentos é igual a a 1 + a 2 +
.. ·+an.
f(x) + J'(x) + J"(x) + · · · + j(n)(x) 2: O,
para todo x E lR.
5.2 As desigualdades de Newton
13. Dois matemáticos A e B disputam o seguinte jogo: é dado um
polinômio de grau par maior ou igual a 4, Nesta seção, apresentamos um conjunto de desigualdades que re-
fina a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica (provada
f(X) = X 2n + a2n-1X 2n-I + · · · + a1X + 1, na seção 7.2 de [10]). Para tanto, precisamos inicialmente do resultado
onde a1, ... , a2n-1 são números reais não especificados. Os joga- auxiliar a seguir.
dores, começando por A, alternam-se especificando os coeficien-
tes de f, até que festeja completamente determinado. No final, Lema 5.9. Se f E JR[X] \ {O} tem k raízes reais, então f' tem pelo
A ganha se nenhuma raiz de f for real e B ganha caso contrário. menos k - 1 raízes reais. Em particular, se todas as raízes de f forem
Encontre uma. estratégia ganhadora para B. reais, então todas as raízes de f' também serão reais.

14. No começo de uma aula, o professor escreveu no quadro negro Prova. Podemos supor k > 1. Sejam a 1 < · · · < a1 as raízes reais dis-
um polinômio de grau 3. A partir daí, os alunos, um por vez, tintas de f, com multiplicidades respectivamente iguais a m 1 , ... , m 1,
vinham ao quadro e perfaziam uma das seguintes operações com de tal modo que m 1 + · · · + m 1 = k. Então, já vimos na proposição
o polinômio deixado pelo aluno anterior: 3.31 que cada ai é raiz de multiplicidade mi - 1 de f'. Por outro lado,
124 Polinômios sobre lR 5.2 As desigualdades de Newton 125

pelo teorema de Rôlle, entre ai e ai+l há pelo menos mais uma raiz O lema anterior garante a existência de n-1 reais positivos b1 , ... , bn-l
real de f', de modo que contabilizamos ao menos tais que
J'(X) = n(X + b1) ... (X+ bn-1),
(m 1 - 1) + .. · + (mz - 1) + (l - 1) = k - 1
de modo que
raízes reais para f'. O resto é imediato. D
Para o que segue, dados n > 1 reais positivos a 1 , a 2 , ... , an e
~J'(X) = xn- 1 + (n ~ 1)H1(bj)xn-2 + ··· + (~ = ~)Hn-1(bj)·

111
O ::; i ::; n, denotaremos simplesmente por Si (aj) a i-ésima soma Por outro lado, f(X) = I:~=o (7)Hi(aj)xn-i fornece
simétrica elementar de a 1 , ... , an e por Hi (aj) a média aritmética das
(7) parcelas que compõem Si(aj), i.e.,

H,(a;) ~ (7 r S,(a;)

O teorema a seguir é frequentemente creditado. a Isaac Newton.


e segue, daí, que
Teorema 5.10. Nas notações acima, para 1 ::; i < n temos
Hi(a1, ... , an) = Hi(b1, ... , bn-1),

para O ::; i ::; n - 1. Pela hipótese de indução, para 1 ::; i ::; n - 2


ocorrendo a igualdade para algum i se, e só se, a 1 = a2 = · · · = an. temos

Prova. Façamos indução sobre o número n > 1 de reais positivos. H;(aj) = H;(bj) 2: Hl_ 1(bj)Hf+ 1(bj) = Hl_ 1(aj)Hf+ 1(aj)· (5.1)
Para n = 2, queremos mostrar que Hf (a 1, a 2) 2: H 0 (a 1 , a 2)H2(a 1, a 2) Resta somente provar que H;,_ 1 (aj) 2: Hn_ 2 (aj)Hn(aj) ou, ainda,
ou, ainda, que que
( ª1 +
2
ª2) 2 2: ª1ª2·
[(n: J t, a, 1
â, . . a{ >
Mas isto é apenas a desigualdade entre as médias aritmética e geomé-
trica, na qual a igualdade ocorre se e só se a 1 = a 2 .
Suponha, por hipótese de indução, que as desigualdades de Newton
são válidas para n - 1 reais positivos quaisquer, ocorrendo a igualdade
> [
Sendo P
(n: 2r ta, · â, .â; · · ·ªnl [(:fa, a.] .
= a 1 ... an, provar a desigualdade acima equivale a provar
em uma qualquer delas se e só se os n - 1 números forem todos iguais. que
Agora, consideremos n 2: 3 reais positivos a 1 , a2 , ... , an, e seja 2
1 n P) 2P P
J(X) = (X+ a1) ... (X+ an)·
(
;L~ i=l i
L
2: n(n-1) i<j a·a·
i J
126 Polinômios sobre lR. 5.3 A regra de Descartes 127

ou, ainda, que Corolário 5.11 (McLaurin). Para n > 1 reais positivos a 1 , a 2 , .•. , an,
2 temos
n 1 1
(n-1) (
~ -)
~ a·
i=l i
~2n~-.
~
i<j a·a·
i J
H1(ai) ~ JH2(aj) ~ 1H3(aj) ~ · · · ~ ~Hn(aj),
Fazendo ai = ;i , queremos mostrar que com igualdade em ao menos uma de tais desigualdades se, e só se,
todos os ai forem iguais.
Prova. Escreva Hi para Hi(ai)· As desigualdades de Newton nos
dão Hf ~ HoH2 = H2 e H? ~ H1H3. Logo, Ht ~ H? ~ H 1H 3, de
modo que H't ~ H3 e, daí, H? ~ H 1H 3 ~ H! 13 H 3 = Hi/ 3. Assim,
H1 >
-
H1/2 > Hl/3.
2 - 3
Suponha que já mostramos que
> H1/2
H1_ 2
> Hl/3
- 3
> ... >
- -
Hl/k
k ,

para algum k < n. Então,


k-1
2 ~

Hk ~ Hk-1Hk+1 ~ Hk k Hk+I,
2-( k-1) l!!±.!
o que nos dá Hk k ~ Hk+l ou, ainda, Hk k ~ Hk+l· Essa última
desigualdade equivale a Ht 1k ~ Ht(~+I).
onde a última desigualdade é simplesmente a desigualdade entre as Para a igualdade, suponha que Ht/k = Ht(~+I). Então, temos
médias quadrática e aritmética dos a/s (veja o problema 7.3.3 de [10] Hf = Hk-lHk+l pois, do contrário, teríamos
k-1
ou, ainda, o teorema 6.63 de [12]). 2 ~

Hk > Hk-1Hk+1 ~ Hk k Hk+I,


Quanto à igualdade, se H;,_ 1 (aj) = Hn(ai)Hn_ 2(aj), então, pelo
2-( k-1) l!!±.!
que fizemos acima, temos a 1 = · · · = an e, daí, a 1 = · · · = ªn· de sorte que Hk k > Hk+l ou, ainda, Hk k > Hk+I, o que é uma
Por outro lado, se Hf(ai) = Hi_ 1(ai)Hi+I(ai) para algum 1 :::;; i :::;; contradição. Assim, a condição para igualdade nas desigualdades de
n - 2, éntão (5.1) nos dá Hf (bj) = Hi-i(bi)Hi+I(bi)· A condição de Newton nos dá a1 = · · · = ªn· D
igualdade na hipótese de indução garante, agora, que b1 = · · · = bn-I
e, a partir daí, é imediato que a 1 = · · · = ªn· D
5.3 A regra de Descartes
O corolário a seguir, usualmente imputado ao matemático escocês
do século XVIII Colin McLaurin, traz o refinamento prometido da O resultado principal desta seção relaciona o número de raízes posi-
desigualdade entre as médias. tivas de um polinômio de coeficientes reais ao número de mudanças de
Polinômios sobre IR 5.3 A regra de Descartes 129
128
Lema 5.14. Seja g um polinômio não constante de coeficientes reais
sinal de seus coeficientes não nulos. Dentre os resultados demonstra-
e c ~ O ~m real dado. Se J(X) = (X - c)g(X), então V(f) - V(g) é
dos anteriormente neste capítulo, sua prova utiliza somente o teorema
um inteiro positivo ímpar.
de Bolzano e, portanto, poderia ter sido dada logo após o mesmo;
contudo, adiamos sua discussão a fim de privilegiar a exposição dos Prova. Façamos indução sobre og.
resultados mais básicos, apresentados anteriormente.
Comecemos com o lema combinatório abaixo, o qual pode ser fa- (a) og = 1:2 é claro que podemos supor g mônico. Se g(X) = X, então
cilmente demonstrado, por indução por exemplo. f(X) = X - cX, de modo que V(f) - V(g) = 1. Suponha, agora,
g(X) = X - a, onde a> O. Então, f(X) = X 2 - (a+ c)X + ca, de
Lema 5.12. Em relação ao alfabeto { +, -}, sejam A o conjunto das modo que V(f)-V(g) = 2-1 = 1. O caso g(X) = X +a onde a> o
palavras finitas com sinais inicial e final distintos e B o conjunto das é igualmente fácil: f(X) = X 2 + (a - c)X - ca e, co~o -ca < o'.
l1\,:i palavras finitas com sinais inicial e final iguais. Para cada palavra · seg~e d~ lema ~ ..12 que V(f) é ímpar. Portanto, V(f) - V(g) = V(f),
I''''
finita a, seja v( a) o número de pares de sinais consecutivos e distintos um mteiro positivo ímpar.
em a. Então:
(b) Suponha o resultado válido para todo polinômio g tal que f)g < n
(a) a E A~ v(a) - l(mod 2).
onde n > 1 é inteiro, e tome um polinômio g de grau n. Dado u~
(b) a B ~ v(a) - O(mod 2). polinômio qualquer h, denotaremos, sempre que necessário por a e
E .
(3h respectivamente ' h
o coeficiente líder de h e o coeficiente do termo de
Precisamos, agora, da definição a seguir. h de menor grau. Assim,

Definição 5.13. Seja


com r 2:: s. Há três casos a considerar:

• Todos os coeficientes de g são positivos: supondo novamente (e


um polinômio não constante de coeficientes reais, com kn > kn-1 >
sem perda de generalidade) g mônico, seja g(X) = xn + ... +
· · · > k1 > k0 2:: O e aj #- O para O ~ j ~ n. Defina a sequência
aXl, com l < n. Então,
VJ = (an, O:n-1, ... , 0:1, ao) pondo, para cada inteiro O~ j ~ n,
f(X) = (X - c)g(X) = xn+i + ... - caXz '
. _ { +,
ªJ -
se aj > O
.
- se a·<Ü com ca < O; pelo lema 5.12 concluímos que V(f) é ímpar e, daí,
' J
que V(!) - V (g) = V(!) é positivo e ímpar.
A variação de f, denotada V(f), é o número de pares de sinais con-
• Existem polinômios u e v tais que g = u + v, com
secutivos distintos em v1 .
u(X) = auXr + · · · + f3uX8, v(X) = avXP + ... + f3vXq,
Para nossos propósitos, o resultado a seguir é crucial.
130 5.3 A regra de Descartes 131

com n = r 2'.: s, p 2'.: q e p + 1 < s. Então, • g(X) = anXn + an_ 1 xn- 1 + · · · + akXk, com an, . .. , ak i= Oe
nem todos positivos: escreva
(X - c)g(X) = (X - c)u(X) + (X - c)v(X)
= (auxr+l + ... - cf3uX 8 ) g = 9o - 91 + · · · + (-1 )t9t,
+ (avXP+l + · · · - cf3vXª), tal que cada gi = aiXki + · · · + /3iX 1i (ki 2'.: li) tem todos os
uma vez que p + 1 < s. Distingamos, agora, dois subcasos: coeficientes positivos e, parai< t, li= ki+l + 1. Então V(g) = t
avf3u > O e avf3u < O. No primeiro deles, temos V(g) = V(u) + e
V(v). Porém, (-cf3u)av < O, de modo que, por (5.2),
(X - c)g = (X - c)go - (X - c)g1 + · · · + (-ll(X - c)gt
V(!) = V((X - c)g) = V((X - c)u) + V((X - c)v) + 1. = (X - c)(aoXkº + · · · + /30 X 10 )
Pela hipótese de indução (em princípio u tem grau r = n; con- - (X - c)(a1Xk1 + · · · + /31Xli) + · · ·
tudo, s > 1 implica que podemos aplicar a hipótese de indução '. + (-l)t(X - c)(atXkt + · · · + f3tX 1t)
a w(X) = auxr-s + · · · + f3u, uma vez u(X) = X 8 w(X).), segue = a 0 Xko+l + · · · - (a1 + c/3o)X10 + · · · + (a2 + c/31)Xli
que + · · · - (a3 + c/32)X12 + · · · + (-l)t(at + cf3t-1)X1t - i
V(!) 2'.: (1 + V(u)) + (1 + V(v)) + 1 > V(g) + 1 + ... + (-l)t+lC/3tXlt.
e, módulo 2, Assim, pelo lema 5.12, há um número ímpar (e, daí, pelo menos
um) de pares de coeficientes consecutivos de sinais contrários em
V(!) - (1 + V(u)) + (1 + V(v)) + 1 _ V(g) + 1.
cada um dos t + 1 intervalos com reticências acima, de forma que
No segundo subcaso, avf3u < O, temos
V(!)= V((X - c)g) 2'.: t + 1 = V(g) + 1;
V(g) = V(u) + V(v) + 1 segue também da observação acim que, módulo 2,
e, por (5.2),
V(!)= V((X - c)g) _ t + 1 = V(g) + 1.
V(!)= V((X - c)g) = V((X - c)u) + V((X - c)v).
D
Usando novamente a hipótese de indução, obtemos
De posse do lema anterior, podemos enunciar e provar o resultado
V(!) 2'.: (1 + V(u)) + (1 + V(v)) = V(g) +1 do teorema a seguir, o qual é conhecido como a regra de Descartes4
e, módulo 2, para polinômios de coeficientes reais.
4 Após René Descartes, matemático e filósofo francês do século XVII, conhecido
V(!)= (1 + V(u)) + (1 + V(v)) = V(g) + 1. como o pai da Geometria Analítica.
132 5.3 A regra de Descartes 133

Teorema 5.15. Seja f um polinômio não constante de coeficientes Corolário 5.16. Se f é um polinômio não constante de coeficientes
reais. Se R+(f) denota o número de raízes positivas de f, então reais e R_(J) é o número de raízes negativas de f, então V(f (-X))-
V(f) - R+U) é um inteiro par e não negativo. R-U) é par e não negativo.
Prova. Façamos indução sobre o grau de f. Prova. Imediata, a partir do teorema 5.15, juntamente com o fato de
Se &f = 1 suponhamos, sem perda de generalidade, que f é que a E R_(J) se, e só se, -a E R+(f). D
mônico. Se J(X) = X ou J(X) = X + a, com a > O, então
V(f) - R+(f) = O - O = O. Se J(X) = X - a, com a > O, en- Exemplo 5.17. Sejam ao, a1, ... , ªn-l reais não negativos e não todos
tão V(f) - R+U) = 1-1 = O. nulos. Calcule o número de raízes positivas do polinômio
Suponha, agora, o teorema válido para todo polinômio de grau
X n - ªn-1 xn-1 - · · · - a1 X - ao.
menor que n, onde n > 1 é inteiro, e seja
Solução. Se f denota o polinômio do enunciado, a regra de Descartes
garante que V(f) -R+(f) é não negativo e par. Mas, como V(f) = 1,
um polinômio de grau n. Há dois casos a considerar: é imediato que R+ (!) = 1. D

• R+(f) = O: nesse caso, basta mostrar que V(f) é par. Como


f (O) = a0 e f (x) tem o sinal de an para todo real x suficiente-
mente grande (por uma estimativa análoga àquela que precede Problemas - Seção 5.3
3. 7)), o fato de que R+ (!) = O garante, via teorema de Bolzano,
que anao > O; daí, o lema 5.12 garante que V(f) é par. 1. Para cada n E N, seja an uma raiz real positiva do polinômio
xn - xn-l - xn- 2 - • • • - X - 1. Mostre que, para todo tal n,
• R+U) > O: tomando uma raiz positiva e de f, existe um po- temos
1 1
linômio não constante g tal que f(X) = (X - c)g(X). O lema 2- - - -< an -< 2 - -
2n-l 2n.
5.14 garante a existência de um inteiro ímpar e positivo J, tal
que 2. (Leningrado.) O polinômio de terceiro grau e coeficientes reais
aX 3 + bX 2 + cX + d tem três raízes reais distintas. Calcule o
V(f) - R+(f) = (V(g) + I) - (R+(g) + 1) número de raízes reais do polinômio
= (V(g) - R+(g)) + (I - 1).
4(aX 3 + bX 2 + cX + d)(3aX + b) - (3aX 2 + 2bX + c)2.
Como, pela hipótese de indução, V(g) - R+(g) é par e não ne-
gativo, segue que V(f) - R+(f) é também par e não negativo.

D
134 Polinômios sobre lR

CAPÍTULO 6
! i I': .
li,I
k
li'
Interpolação de Polinômios

O corolário 3.10 garante que há, no máximo, um polinômio de grau


n que assume valores predeterminados em n + 1 valores complexos
distintos da variável. O que não sabemos ainda é se um tal polinômio
realmente existe. Por exemplo, há um polinômio f de coeficientes
racionais, grau 3 e satisfazendo as condições f(ü) = 1, f(l) = 2,
f(2) = 3 e f(3) = O? Estudaremos, aqui, técnicas que possibilitam
responder essa pergunta, técnicas essas denominadas genericamente
de interpolação de polinômios. Em especial, discutiremos a classe
dos polinômios interpoladores de Lagrange, os quais serão, por sua
vez, utilizados para resolver sistemas lineares de Vandermonde sem o
recurso aos métodos da Álgebra Linear. A seu turno, o conhecimento
das soluções de um tal sistema nos possibilitará estudar, na seção 9.1,
uma classe particular importante de sequências recorrentes lineares,
estendendo parcialmente o material da seção 4.3 de [10].

135
136 Interpolação de Polinômios 6.1 Bases para polinômios 137

6.1 Bases para polinômios Essa propriedade permite, como veremos no teorema a seguir, cons-
truir polinômios que assumam valores pré-fixados em elementos dis-
Para o que segue, lembre-se de que K representa um qualquer dos tintos de K também pré-fixados; tal resultado é conhecido como o
conjuntos numéricos (Q, IR ou C. Precisamos, inicialmente, estabelecer teorema de interpolação de Lagrange.
uma convenção útil. Teorema 6.2 (Lagrange). Dados n EN e a 1 , ... , an, b1 , ... , bn E K,
com a1, ... , an dois a dois distintos, existe exatamente um polinômio
Notação 6.1. Para n E N e 1 ~ i, j ~ n, definimos o delta de
f E K[X], de grau menor que n e tal que f(ai) = bi, para 1 ~ i ~ n.
Kronecker 1 por
Mais precisamente, tal polinômio é
ô·. ={ 1, se i =j . n
iJ O, se i =f. j f(X) = L bjLj(X), (6.1)
j=l
A vantagem da notação acima vem do fato de podermos usá-la
como um marcador de posições, no seguinte sentido: dados n E N onde os Li são os polinômios interpoladores de Lagrange para o sub-
e uma sequência (b 1 , ... , bn) em K, temos conjunto { a1, ... , an} de K.
Prova. A unicidade segue do corolário 3.10. Por outro lado, tomando
n
f como em (6.1), basta mostrarmos que 8f < n e f(ai) = bi, para
I:Ôijbj = bi,
j=l 1 ~ i ~ n.
Como 8Li = n - 1 para 1 ~ j ~ n e o grau de uma soma de
para 1 ~ i ~ n. polinômios (sempre que tal soma for não nula) não ultrapassa o maior
Agora, sejam dados n EN e elementos dois a dois distintos a 1 , a 2 , dentre os graus das parcelas, é imediato que 8f < n. Para o que falta,
... , ande K. Para 1 ~ i ~ n, definimos o polinômio Li E K[X] por basta ver que
n n

Li(X) = II
l:$j:$n
X - ªi = (X -ª1) . . . (x=;,i) . . . (X -ªn) ,
a·i - a·J a·i - a 1 a·i - a·i a·i - an j=l j=l
#i D
onde o sinal '"' sobre um fator indica que o mesmo está ausente do Uma maneira equivalente de formular o resultado acima é dada
produto considerado. Tais polinômios Li são os polinômios inter- pelo corolário a seguir.
poladores de Lagrange para o conjunto {a1 , ... , an}·
Corolário 6.3. Sejam n E N e a 1 , ... , an elementos dois a dois dis-
É imediato verificar que, para todos 1 ~ i, j ~ n, tem-se tintos de K. Se f E K[X] \ {O} satisfaz 8f < n, então
n
J(X) = L f(ai)Li(X).
1 Após i=l
o matemático alemão do século XIX Leopold Kronecker.
138 Interpolação de Polinômios 6.1 Bases para polinômios 139

Prova. De fato, definindo

g(X) =
n
L J(ai)Li(X), L4(X) = II X4-J
- ! = (X - 1) (X - 2) (X - 3) (X - 5)
4-1 4-2 4-3 4-5
1$j$5
i=l #4
temos âf, âg < n e, pela demonstração do teorema anterior, g(ai) = = -~(X 4 -11X 3 + 41X 2 - 61X + 30)
f(ai), para 1 :::;; i :::;; n. Segue novamente do corolário 3.10 que g =
f. D e

Colecionamos, a seguir, dois exemplos de aplicação dos polinômios L5(X) = - ! = (X - 1) (X - 2) (X - 3) (X - 4)


II X5-J
interpoladores de Lagrange. 1$j$5
5-1 5-2 5-3 5-4
#5
Exemplo 6.4. Encontre um polinômio f E (Q[X] tal que J(l) = 12, 1 4 10X3 + 35X2 - 50X + 24).
= 24 (X -
f(2) = 2, f(3) = 1, f(4) = -6 e f(5) = 4.
Portanto, de acordo com o corolário anterior podemos tomar
Solução. Explicitemos, primeiramente, os polinômios interpoladores
de Lagrange para o conjunto {1, 2, 3, 4, 5}: f(X) = 12L1(X) + 2L2 (X) + L3 (X) - 6L 4 (X) + 4L5 (X)
19 x 4 55 x 3 + 233 x 2 775 x + 86 _
II X-j (X1-- 33) (X1-- 44) (X1-- 55) = _ _
(X - 2)
Li(X) = 1- j = 1- 2 12 3 4 6
1$j$5
#1 D
= _!_(X 4 - 14X 3 + 71X 2 - 154X + 120),
Exemplo 6.5. Seja f um polinômio mônico, de coeficientes reais e
24
grau n, e sejam xi, x2 , ... , Xn+1 inteiros dois a dois distintos. Prove

L2 (X) = II X2 -- jj = (X - 1)
2- 1
·(x2 --33) (X2 -- 44) (X2 -- 55) que existe 1 :::;; k:::;; n + 1 tal que lf(xk)I 2::: ;l.

1$j$5 Prova. Pela fórmula de interpolação de Lagrange, temos


#2

= -~(X 4 - 13X3 + 59X 2 - 107X + 60),

L3 (X) = II X- j (X - 1) (X3 -- 22) (X3 -- 44) (X3 -- 55)


3- j = 3- 1
Comparando os coeficientes líderes nos dois membros da igualdade
1$j$5
acima, obtemos
#3

= !(X4 - 12X 3 + 49X 2 - 78X + 40),


4
140 Interpolação de Polinômios 6.1 Bases para polinômios 141

Agora, se M = max{IJ(xk)I; 1 $ k $ n + 1} e Pi= ni-1- .(xj - xi) admite uma única solução em K. Em particular, se a 1 = · · · = an = O,
temos ,J '
n+l f( ) n+l n+l então X1 = · · · = Xn = Ü.
1= L ~ $Llf(~j)I $ML-l.
j=l PJ j=l IPJ I j=l IPj I Prova. Se J(X) = Co + c1X + · · · + Cn-1xn-l E K[X], então, multi-
plicando as equações do sistema respectivamente por c0 , c1 , ... , Cn-1
Mas, como E7~[ /~/ é simétrico em relação a x 1 , x 2 , .•. , Xn+i, pode-
e somando os resultados, obtemos
mos supor (após reenumerar os x/s, se necessário) que x 1 < x 2 <
· · · < Xn+I · Assim,
IPil = (xj - x1) ... (xj - Xj-1)(xj+l - Xj) ... (xn+I - xj)
Agora, fixado 1 $ i $ n, o teorema 6.2 nos permite escolher unica-
2 [(j - 1) ... 2 · 1][1 · 2 ... (n + 1 - j)]
= (j - l)!(n + 1 - j)! = :' .
C-1)
.·· = --
mente c 0 , c1, ... , Cn-1 em K (i.e., escolher !) de modo que f(a 1 ) =
f(ai) = · · · = f(an)
acima garante que deve ser
= O e f(ai) = 1. Portanto, a igualdade

De posse das estimativas acima, obtemos finalmente


n+l n+l ,
l $ M L - l $ M L ! ( . n )=2nM
i=l IPil i=l n! J - 1 n! e a arbitrariedade do 1 $ i $ n escolhido termina a demonstração. O
ou, o que é o mesmo l M > n!
- 2n· o Uma limitação dos polinômios interpoladores de Lagrange para um
A seguir, mostramos como utilizar polinômios interpoladores de subconjunto finito de K vem do fato de que, com eles, só geramos o
L_agran~e para resolver certos tipos de sistemas lineares de equações, conjuto dos polinômios de graus menores que o número de elementos
ditos sistemas de Vandermonde2 , os quais encontrarão utilidade do conjunto em questão. Remediamos essa situação com a seguinte
na seção 9 .1. definição mais geral.

Proposição 6.6 (Vandermonde). Dados elementos a 1 , a2, ... , an, Definição 6.7. Uma base para K[X] é uma sequência3 (!o, li, h, .. .)
ª1, a2, · · ·, an de K, sendo a1, a2, ... , an dois a dois distintos o de elementos de K[X] satisfazendo a seguinte condição: para todo
sistema linear de· equações ' f E K[X], existem únicos n E Z+ e a0 , ... , an E K tais que
X1 + X2 + · · · + Xn - G1
a1x1 + a2x2 +···+an x n ,..,
f(X) = aofo(X) + · · · + anfn(X).
, uc 2

a~x1 + a 2
2x2 + · · · + an2x n a3 (6.2) Exemplo 6.8. Uma maneira simples de construir uma base para K[X]
é tomar uma sequência (!0 , J1 , h, .. .) de K[X] tal que 8fi = j, para
af- 1x1 + a~- 1x2 + · · · + a~-lXn = an
~-::-~~~~~~~~-
3 Formalmente, uma sequência (IJ)i?.O em IK[X] ê uma função <I>: Z+-+ IK[X],
2 Alexandre-Theóphile Vandermonde, matemático francês do século XVIII. tal que ÍJ = <I>(j), para j ~ O.

' 1
142 Interpolação de Polinômios 6.1 Bases para polinômios 143

j 2::: O. Para mostrar que um tal sequência é realmente uma base para de que aG) = k, para todo k E Z+. Quanto a (ii), basta mostrarmos
OC:[X], temos de provar as duas afirmações a seguir: que, para todo n E Z+, existem a0 , a 1, ... , an E OC: tais que

(i) Se a0 , a 1, ... , an e b0 , b1, ... , bn são elementos de OC: tais que (6.3)

Sem apelar diretamente para o resultado do exemplo supracitado, fa-


çamos indução sobre n 2::: O. Para n = O e n = 1, a validez de (6.3)
então ai = bi, para O :::::; i :::::; n. segue da definição de polinômio binomial. Suponha agora que, para
um certo k E N, existam a0 , a 1, ... , ak E OC: satisfazendo (6.3) quando
(ii) Para todo f E IK[X], existem n EN e a0 , a1, ... , an E OC:, tais que n = k. Então,

f(X) = aofo(X) + aif1(X) + · · · + anfn(X). (6.4)


Deixamos ao leitor a verificação de que a validade das afirmações dos
itens (i) e (ii) acima é realmente equivalente ao fato de que tal sequên- e, para terminar, basta ver que
cia de polinômios é uma base ( veja o problema 1).
( ~) X = -;, X (X - 1) ... (X - j + 1) (X - j + j)
J J.
Como caso particular do exemplo acima, note que a sequência
1
= --:,X(X - 1) ... (X - j + l)(X - j)
(1,x,x 2 ,x3 , ... ) J.

é uma base para IK[X] (como, aliás, já sabíamos).


+ ~1X(X - 1) ... (X - j + 1)
J.
No que segue, construímos, a partir dos números binomiais, uma
base bastante útil para IK[X]. Para tanto, precisamos da definição a = (j + 1) (j : 1) + j ( ~).
segmr. Ainda que o conceito de base de polinômios, conforme formulado
Definição 6.9. Para k E Z+, definimos o k-ésimo polinômio bi- nesta seção, não se aplique ao conjunto dos polinômios de coeficientes
nomial (~) por (~) = 1, (~) = X e, para k > 1, inteiros, uma rápida revisão da discussão acima estabelece o seguinte
resultado mais geral.
(~) = t,x(x -1) ... (X - k + 1). Proposição 6.10. Se f E IK[X] \ {O} é um polinômio de grau n, então
existem únicos a0 , a 1, ... , an E OC: tais que
Como aplicação do exemplo 6.8, afirmamos que a sequência dos
polinômios binomiais é uma base para IK[X]. Para tanto, basta mos-
trarmos que as condições dos itens (i) e (ii) são satisfeitas. A verifica-
ção da validade da condição (i) segue, como no exemplo 6.8, do fato Ademais, se f E Z[X], então podemos tomar a0 , a 1, ... , an E Z.
144 Interpolação de Polinômios,. 6.1 Bases para polinômios 145

Prova. É suficiente provar que os coeficientes a0 , a 1 , ... , an em (6.3) (uma vez que (J)(k) = O se j > k). Agora, aplicando o lema 2.12 de
são inteiros. Argumentando novamente por indução, suponha que tal
[13], concluímos que
afirmação é verdadeira quando n = k. Então, os cálculos subsequentes -
a (6.4) fornecem

para O:::;; k:::;; n. Mas, uma vez que (1)(x) E Z para todo x E Z (veja
O problema 2), segue de (6.5) que f(x) E Z, para todo x E Z. D

Problemas - Seção 6.1

com ª-1 = ak+l = O. Portanto, ai E Z, para O :::;; j :::;; k + 1, de forma 1. * Termine a discussão do exemplo 6.8.
que j(ai-l + ai) E Z, para O :::;; j :::;; k + 1, completando o passo de
indução. D
2. * Para k E Z+, prove que (1)(x) E Z, para todo x E Z.

3. (Estados Unidos.) Seja f um polinômio de grau n, tal que J(k) =


Vejamos um exemplo interessante de aplicação das ideias discutidas (nt1)- 1 para O :::;; k :::;; n. Calcule f (n + 1).
acima.
4. (Canadá.) Seja f um polinômio de grau n, tal que f(k) = k!l
Exemplo 6.11. Seja f E JR[X] um polinômio de grau n e suponha para todo inteiro O :::;; k :::;; n. Calcule f (n + 1).
que J(O), f(l), ... , f(n) sejam inteiros. Prove que f(x) é inteiro para
todo inteiro x. 5. Seja n um natural dado.

Prova. Pela proposição acima, existem a0 , a 1 , ... , an E lR tais que (a) Mostre que O, -1, -2, ... , -n são raízes do polinômio

(6.5) f(X) = t(-l)i(~)x(X+l) ... (x+J) ... (X+n)-n!.


j=O J

Portanto, para O :::;; k :::;; n fixado, temos (b) Conclua, a partir de (a), que, para todo k EN, tem-se

f(k) = t ª i (~) (k) = t (~)ai


n
~(-l)J
.(n)j
1 n!
k+j = k(k+l) ... (k+n)"
j=O J j=O J
146 Interpolação de Polinômios 6.2 Diferenças finitas 147

(c) Use o item (b) para calcular, em função de n, o valor da Definição 6.12. Sejam h um número real e f: lR-+ lR uma função
soma dada. Para k 2:: O inteiro, definimos a k-ésima diferença finita de
I: k(k + 1) ... (k + n)"
k2::l
1 f com incremento h. como a função D.~f : lR -+ JR, dada por:
(a} D.if =f.
6. Dados números reais dois a dois distintos a, b, c e d, resolva O
sistema de equações (b} (b.if)(x) = (D.hf)(x) = f(x + h) - f(x), para todo x E JR.

ax1 + a2x2 + a 3 x3 + a4x4 1 (c} D.~f = D.h(D.~- 1!), se k 2:: 2.


bx1 + b2x2 + b3 x3 + b4x4 1 A fim de que tal definição tenha utilidade, precisamos das propri-
CX1 + c 2 X2 + C3 X3 + C4 X4 1 edades de D.~f contidas na proposição a seguir.
dx1 + d2x2 + d3 x3 + d4x4 1
Proposição 6.13. Nas notações da definição anterior, dados h E lR
7. (Estados Unidos.) Sejam n > 3 inteiro e p, Po, Pi, ... , Pn- 2 ,
e f, g : lR -+ JR, temos que:
polinômios tais que (a) Se f é constante, então D.hf = O.
n-2
(b) Se a e b são constantes reais, então D.h (af + bg) = aD.hf + bD.hg.
LXipi(Xn) = (xn-i + xn- 2 +···+X+ l)p(X).
i
,:1 , , li
·I:,,
j=O (c) D.h(f g) = (b.hf)(g + D.hg) + f D.h9·
;!, Prove que X - 1 divide Pi(X), para O :Si :S n - 2. (d} D.~f = D.~- 1(b.hf), para todo k EN.
8. (Leningrado.) Uma sequência finita a 1 , a2, ... , an é p-balanceada (e) Se k 2:: O e x E JR, então
se todas as somas da forma
k

(b.~f)(x) - ~(-1); G)t(x+ (k- j)h).


forem, para k = 1, 2, ... , p, iguais entre si. Prove que, se n = 50
e a sequência (aih~i 90 for p-balanceada para p = 3, 5, 7, 11, Prova.
13 e 17, então todos os seus termos são iguais a zero. (a) Para x E JR, temos D.hf(x) = f(x + h) - f(x) = O, uma vez que f
é constante.
1
1
':I 6.2 Diferenças finitas (b) Para x E JR, temos

•'!' Outra técnica de interpolação útil, mas um tanto mais elaborada, (b.h(af + bg))(x) = (af + bg)(x + h) - (af + bg)(x)
é a das diferenças finitas. Esboçamos os rudimentos da mesma nesta = a(f(x + h) - f(x)) + b(g(x + h) - g(x))
seção. = a(b.hf)(x) + b(D.hg)(x).
148 Interpolação de Polinômios 6.2 Diferenças finitas 149

(c) Façamos indução sobre k 2:: 1, sendo o caso k = 1 imediato. Su- item (c) da definição 6.12 (desta feita à função ô.hf, no lugar de!),
ponha, por hipótese de indução, que a fórmula valha para um certo obtemos
k EN. Para k + 1, temos: ô.~+lf = ô.'fi(ô.~f) = ô.h(ô.~-l(ô.hf)) = ô.~(ô.hf).
J(x + (k + l)h) = f(x + kh) + (ô.1f)(x + kh) (e) Façamos indução sobre k 2:: O. Se k = O ex E JR, então

= f(x +kh) + ~
k
G) (Á~-;(,:l!.f))(x) t,(-1); G)f(x) = (-l)ºG)f(x) = f(x) = (,:lif)(x).
k k
=~ G) (À~-; J)(x) +~ G) (Á~+H f)(x)
Suponhamos, agora, que a fórmula valha quando k = l 2:: O, e
provemos sua validade para k = l + 1. Para x E JR, aplicando sucessi-

= t G) (À!-; f)(x) + (,:l~+l J)(x)


vamente o item (c) da definição 6.12 e a hipótese de indução, obtemos
(ô. 1+1 f)(x) = ô.h(ô.~f)(x) = (ô.~f)(x + h) - (ô.~f)(x)

+ ~ G)
k
(Á~-(i-1) f)(x). ·
= t.(-1); G) f(x +h + (l - j)h)

Agora, executando uma troca de índices na última soma acima e uti-


l
- ~(-1) ·(l)
3 j f(x + (l - j)h)
lizando a relação de Stifel, obtemos f(x + (k + l)h) sucessivamente
f(x + (l + l)h)

(e: e~
igual a =

t G) + +te: 1)
(À:-; f)(x) (,:l~+l f)(x) (,:lH f)(x)
+ t.(-1); 1) - 1)) f(x + (l+ 1- j)h)

= (,:l:+1 f)(x) +t (G) +e; + 1)) (Át+l)-(j+l) f)(x) (Áincx)


- t.(-1);G)1cx + (l - j)h)
~(-l)i (l : 1) f(x + (l + 1- j)h)
1

= I:
k+l ( k ~ 1) (ô.~+1-j f)(x). =

j=O J

(d) Façamos indução sobre k 2:: 1, sendo o caso k = 1 imediato a


partir da definição 6.12. Suponha, por hipótese de indução, o resultado
- t.(-1/ e~ 1)f(x + (l + 1- j)h)

verdadeiro quando k = l 2:: 1. Para k = l +1, aplicando sucessivamente l


- ~(-1) 3. j(l)
f(x + (l - j)h),
a o item (c) da definição 6.12, a hipótese de indução e novamente o
150 Interpolação de Polinômios 6.2 Diferenças finitas 151

onde utilizamos a relação de Stifel (6.2) de [10] na penúltima igualdade si, ao passo que as l-ésimas diferenças, com l > k, são todas iguais
acima. Portanto, a zero.

t,!+1 f(x) = t{-1); e: 1)1<x + (l + 1- j)h) - {-1)1+1 f(x)


Prova. Para x E IR, temos

(!J.hf)(x) = f(x + h) - f(x),

n·'''"'
'ii-;i'1·
+ t{-li G) f(x + (l - j)h) e este é o valor do polinômio !J.hf(X) := f(X +h)- f(X) para X= x.
Agora, observe que !J.hf(X) tem grau k -1. Portanto, argumentando
,1'
li ,I)-1)
l 1 ·(l) f(x + (l - j)h)
.
por indução sobre o grau de um polinômio, segue do item (d) da
proposição anterior que !J.~f = 1J.t-
1(/J.hf) tem grau O, de sorte que é

e:
J! j=O J
i:l,1
constante. Logo, !J.~f(X) = O para l > k. D
:11 '
:!
= t{-1); 1)t<x + (l + 1- j)h) Conforme ficará patente nos dois exemplos a seguir, a principal
utilidade das fórmulas para diferenças finitas discutidas acima é o fato
+ L(-1)
l 1·(l) f(x + (l - j)h)
. de as mesmas nos permitirem calcular diretamente o valor que um
j=O J polinômio assume em um ponto que não os de interpolação, caso tais

- ~(-1) ·(l) f(x +


pontos de interpolação sejam os termos de uma progressão aritmética.
l 3 j (l - j)h)
Exemplo 6.15. Seja f E lR[X] um polinômio de grau m 2:: 1, tal que

= t{-1); e: 1)1<x + (l + 1- j)h)


f(j) = ri para O:::; j :::; m, onde r é um real positivo dado. Calcule os
possíveis valores de f (m + 1).

Solução. Ponha h = 1 e escreva !J.k f para denotar !J.tf. O item (e)


D
da proposição 6.13 garante que
Dentre as propriedades de diferenças finitas elencadas na proposi-
ção acima, a que encontra uso mais frequente em problemas de inter-
polação é a do item (e), principalmente quando combinada com o pró-
1:,• f(x) =
k
~{-1); G) f(x + k - j)

ximo resultado. Note que a proposição anterior se refere a diferenças


finitas de funções em geral, ao passo que o que segue é especificamente
para todo x E R Mas, uma vez que af = m, a proposição anterior
nos dá, então,
relacionado a diferenças finitas de polinômios.

Proposição 6.14. As k-ésimas diferenças finitas, com incremento


h, de um polinômio de coeficientes reais e grau k são todas iguais entre
ri
11 i,I

152 Interpolação de Polinômios 6.2 Diferenças finitas 153

Portanto, Para o que falta, note inicialmente que 997 é primo (utilize o crivo
de Eratóstenes, por exemplo). Portanto, o pequeno teorema de Fermat
m+l ( )
/(m+l) = ~{-l)i+' m;l /{m+l-j) garante que 2996 1 (mod 997), de sorte que

21992 = (2 996 )2 - 1 (mod 997).


A partir daí, é imediato que

= rm+l - I:(-l)j (m ~ l)rm+l-j f(1994) = 21994 - 2 =22 - 2 - 2 (mod 997).


j=O J
= rm+l - (r - l)m+1, Assim, temos o sistema linear de congruências

onde utilizamos a fórmula de expansão binomial de (r - l)m+l na !(1994) O(mod2)


{
última igualdade acima. D !(1994) - 2 (mod 997)
'1 1 1

A solução do próximo exemplo utiliza livremehte alguns concei- o qual possui, pelo teorema chinês dos restos, uma única solução,
tos e resultados básicos de Teoria dos Números, os quais podem ser módulo 2 · 997 = 1994. Mas, como 2 é claramente uma solução, segue
encontrados em [14]. que
!(1994) - 2 (mod 1994).
Exemplo 6.16. Seja f um polinômio de grau 1992, tal que f(j) = 2i
para 1 ~ i ~ 1993. Calcule o resto da divisão de f (1994) por 1994. D
Solução. Combinando o item (e) da proposição 6.13 com a proposi-
ção 6.14, e escrevendo novamente l::1k f para denotar l::1tf, temos
1993
O= t. 1993 /(1) = ~(-1)' ( 19 t) /{1994- j). Problemas - Seção 6.2

1. Prove que, para todo polinômio f E IR[X], temos


Portanto,

/{1994) = 1993 (
~(-l)i+l 1~93
)
21994-j
f(x + kh) = ~
k

G) (L'.~-; f)(x),

1993 para todos h, x E IR e todo k 2:: O.


= (19:3) 2'"' _ 2 ~ ( -1 )' (1~93) 21993-j
2. (Canadá.) Seja f um polinômio de grau n, tal que f(k) = k!l
= 21994 - 2(2 - 1)1993 = 21994 - 2. para todo inteiro O ~ k ~ n. Calcule f (n + 1).
154 Interpolação de Polinômios

3. (Estados Unidos.) Seja f um polinômio de coeficientes reais e


grau n, tal que J(k) = (nt1)- 1 , para O S k S n. Calcule os
possíveis valores de f(n + 1).

4. Um polinômio f, de grau 990, é tal que J(k) = Fk para 992 S


k:::;; 1982, onde Fk é o k-ésimo número de Fibonacci. Prove que
f (1983) = F19s3 - 1.
CAPÍTULO 7
,•,tf i:·. 5. Seja f um polinômio de coeficientes reais, tal que:
(a) f(l) > f(O) > O.
(b) f(2) > 2f(l) - f(O). Fatoração de Polinômios
(c) f(3) > 3f(2) - 3f(l) + f(O).
(d) J(n + 4) > 4f(n + 3) - 6f(n + 2) + 4f(n + 1) - J(n) para
todo n EN.

Prove que J(n) > O, para todo n EN.


O algoritmo da divisão para polinômios fornece uma noção de divi-
sibilidade em IK[X] quando IK = Q, li ou <C, a qual goza de proprieda-
des análogas àquelas da noção correspondente para números inteiros.
É, então, natural perguntar se, assim como em Z, temos em IK[X]
polinômios primos, os quais forneçam algum tipo de fatoração única,
com propriedades similares às da fatoração única de inteiros. Nosso
propósito neste capítulo é fornecer respostas precisas a tais questões,
as quais encompassarão também polinômios com coeficientes em Zp
(p primo). Referimos o leitor à introdução do capítulo 1 de [10] ou,
mais geralmente, ao capítulo 1 de [14), para uma revisão dos conceitos
correspondentes em Z.

7.1 Fatoração única em (Q[X]


Ao longo desta seção, IK denota Q, li ou <C.

155
r 1 .····.1··
;·, '
. '
i:
156 Fatoração de Polinômios 7.1 Fatoração única em Q[X] 157

Dizemos que dois polinômios f, g E IK[X] \ {O} são associados ( a) S = dlK[X]. Em particular, d I f, g em IK[X].
(em IK[X]) se existir a E lK \ {O} tal que f = ag. Por exemplo, os
(b) Todo polinômio em IK[X] \ {O} que divide f e g também divide
polinômios de coeficientes reais
d.
1
f(X) = 4X 2 - 2X + 1 e g(X) = 2\/'2X 2 - v'2X + v2 Ademais, tal polinômio d é único, a menos de associação.

são associados em IR[X], uma vez que f = \129 e v2 E IR\ {O}. Prova.
Se f, g E IK[X] \ {O} são dados, dizemos que um polinômio p E (a) Se d E S \ {O} é tal que
IK[X] \ {O} é um divisor comum de f e g quando p I f, g. Note que
ad = min{ ah; h E S \{O}},
f e g sempre têm divisores comuns: os polinômios constantes e não
nulos sobre IK, por exemplo. afirmamos inicialmente que S = dlK[X]. De fato, sendo d= a0 f +b0 g,
com a0 , b0 E IK[X], e c E IK[X], então
Definição 7.1. Dados f, g E IK[X] \ {O}, dizemos que d E IK[X] \ {O} é
um máximo divisor comum de f e g, e denotamos d= mdc (!, g), cd = (cao)f + (cbo)g E S,
se as duas condições a seguir forem satisfeitas:
i.e., dlK[X] e S. Reciprocamente, tome h E S, digamos h = af + bg,
(a) d I f, g em IK[X]. com a, b E IK[X]. Pelo algoritmo da divisão, temos h = dq + r, com
(b) Se d' E IK[X] \ {O} divide f e g em IK[X], então d' 1 d em IK[X]. q, r E IK[X] e r = O ou O ::; ar < ad. Mas, se r # O, então ar < ad e

O próximo resultado, também conhecido como o teorema de Bé- r = h - dq = (af + bg) - (aof + bog )q
zout1 para polinômios, garante a existência de um mdc para dois = (a - aoq)f + (b - boq)g E S,
polinômios não nulos sobre IK, o qual é único a menos de associação
uma contradição à minimalidade do grau de d em S. Logo, r = O e,
(i.e., a menos de multiplicação por elementos não nulos de IK). Para daí, h = dq E dlK[X].
o enunciado do mesmo, dado f E IK[X] denotamos por fIK[X] o con-
Para a segunda parte do item (a), basta ver que f, g E S = dlK[X],
junto dos múltiplos de f em IK[X], i.e.,
de forma que, em particular, f e g são múltiplos de d em IK[X].
flK[X] = {af; a E IK[X]}.
(b) Seja d1 E IK[X] \ {O} um polinômio que divide f e g, digamos
Teorema 7.2. Sejam f, g E IK[X] \ {O}. Se f = dif1 e g = d191, com f1, 91 E IK[X]. Se a, b E IK[X], então
S = {af + bg; a,b E IK[X]}, af + bg = (af1 + bg1)d1 E d1IK[X].
então existe um polinômio d E IK[X] \ {O} satisfazendo as seguintes
Mas, como af +bg é um elemento genérico do conjunto S, segue então
condições: que
1 Após 'Etienne Bézout, matemático francês do século XVIII. d E dlK[X] =Se d1IK[X];
158 Fatoração de Polinômios 7.1 Fatoração única em Q[X] 159

em particular, d é um múltiplo de d1 , conforme desejado. de sorte que âb < âf.


,r D

.J A última afirmação é deixada como exercício para o leitor (veja O A definição a seguir é central para o restante deste capítulo .
1
1 problema 1). O
:
:~··
1
i.
Definição 7.5. Um polinômio p E K[X] \ K é irredutível sobre
'!.]
• 1 Graças à parte de unicidade do teorema de Bézout, doravante con- ][{ se p não puder ser escrito como produto de dois polinômios não
vencionamos que o mdc de dois polinômios não nulos sobre K é sem- constantes e com coeficientes em K. Um polinômio p E K[X] \ K que
pre mônico. Por outro lado, continuando a paráfrase com a noção de não é irredutível é dito redutível sobre K.
mdc em Z, dizemos que dois polinômios f, g E K[X] \ {O} são primos·
entre si, ou relativamente primos, quando mdc (!, g) = 1. Isto Em geral, é útil refrasear a condição de irredutibilidade contrapo-
posto, temos a seguinte consequência do teorema anterior. sitivamente; assim, um polinômio p E K[X] \ K é irredutível se, e só
se, a seguinte condição for satisfeita:
Corolário 7.3. Se f, g E K[X] \ {O}, então f e g são primos entre si.
se, e só se, existem polinômios a, b E K[X] tais que af + bg = 1. p = gh, com g, h E K[X] ==} g E K ou h E K. (7.1)
Prova. Se mdc (!, g) = 1, a existência de a, b E .K[X] como no enun-
ciado segue do teorema de Bézout. Reciprocamente, se d= mdc (!, g) A fim de dar um sentido mais concreto ao conceito de polinômio
e existem a, b E K[X] tais que af + bg = 1, então, novamente pelo irredutível, vejamos dois exemplos simples.
teorema de Bézout, temos que 1 E dK[X], i.e., d é um divisor do Exemplo 7.6. É imediato, a partir de (7.1), que todo polinômio p E
polinômio constante 1. Mas, uma vez que d é mônico, segue que K[X] de grau 1 é irredutível; de fato, sendo p = gh, com g, h E K[X],
d= 1. o segue da proposição 2.9 que âg+âh = âp = 1 e, daí, âg = O ou âh = O,
Corolário 7.4. Sejam f, g E K[X] \ {O} primos entre si eh E K[X] \ í.e., g ou h é constante. Por outro lado, pelo teorema fundamental
{O} tal que âh < â(f g). Então, existem a, b E K[X] tais que a= O ou da álgebra (o teorema 3.24), os polinômios irredutíveis em C[X] são
âa < âg, b = O ou âb < âf e af + bg = h. precisamente aqueles de grau 1.
Prova. Pelo corolário anterior, existem a 1 , b1 E K[X] tais que aif + Exemplo 7. 7. Se p E JR[X] é irredutível sobre JR, então âp = 1 ou 2.
b1g = 1. Daí, fazendo a2 = a1h e b2 = b1h, temos a2f + b2g = h. De fato, de acordo com o problema 2, página 74, um número complexo
Agora, pelo algoritmo da divisão, temos a2 = gq + a, com a = O ou z é raiz de p se, e só se, z também o for. Consideremos, pois, dois
O~ âa < âg. Assim,
casos separadamente:
h ~ (gq + a)f + b2g = af + (qf + b2)g
( a) âp 2:: 3 e p tem pelo menos uma raíz real, a digamos: pelo teste
e, fazendo b = qf + b2, temos h = af + bg, com a= O ou âa < âg.
da raíz (proposição 3.3) temos p(X) = (X - a)h(X), para algum
Por fim, como bg = h - af, se b #- O, temos
h E JR[X] de grau 2, e p é redutível sobre JR.
âb + âg = â(bg) = â(h - aí) ~ âh < â(f g) = âf + âg,
160 Fatoração de Polinômios 7.1 Fatoração única em Q[X] 161

(b) 8p 2': 3 e p tem duas raízes não reais conjugadas, digamos z e z: Como p 1 (f g), segue da igualdade acima e do problema 4 que p I g,
novamente pelo teste da raiz, temos p(X) = (X -z)(X -z)h(X), para conforme desejado. D
algum polinômio h E C[X] de grau pelo menos 1. Mas, se z =a+ bi
e g(X) = (X - z)(X - z), então No que segue, mostraremos que todo polinômio f E Q[X] \ Q
pode ser escrito unicamente, a menos de associação, como o produto
g(X) = (X - a - bi)(X - a+ bi) = (X - a) 2 + b2 E II[X]. de um número finito de polinômios irredutíveis. Mais precisamente,
mostraremos que:
Portanto, aplicando o algoritmo da divisão à divisão de p por g, con-
cluímos que h E II[X]. Assim, p = gh, com g, h E II[X] \ II, e p é (i) Existem polinômios irredutíveis p 1 , ... ,Pk E Q[X] \ Q tais que
redutível sobre II.
f = P1 .. ·Pk·
Graças ao exemplo acima, doravante consideraremos a noção de ir-
(ii) Se q1 , ... , q1 E Q[X] \ Q são também irredutíveis e tais que f =
redutibilidade de polinômios somente para polinômios sobre Q. Nesse
q1 ... q1, então k = l e, a menos de uma reordenação, Pi e qi são
sentido, um argumento análogo ao do item (a) do último exemplo
associados em Q[X].
acima permite concluir que, se p E Q[X] tem grau 2 ou 3, então p é
irredutível sobre Q se, e só se, não tiver raízes em (Q (veja o problema Comecemos examinando a parte de existência.
3).
Voltando ao conceito geral de polinômio irredutível, note que, se Proposição 7.9. Todo polinômio f E Q[X] \ Q pode ser escrito como
p E Q[X] \ Q é irredutível, então os únicos divisores de p (em Q[X]) produto de um número finito de polinômios irredutíveis sobre Q.
são os polinômios constantes e aqueles associados a p. Temos, pois, o
seguinte resultado importante. Prova. Façamos indução sobre 8f, sendo o caso 8f = 1 imediato
(já vimos que, nesse caso, f é irredutível). Por hipótese de indução,
Proposição 7.8. Seja p E Q[X] \ Q irredutível. Se !1, ... , Ík E Q[X] \ suponha o resultado verdadeiro para todo polinômio em Q[X] \ Q de
{O} são tais que p I fi ... Ík, então existe 1 : : :; i :::::; k tal que p I Íi· grau menor que n, e tome f E Q[X] \ Q tal que af = n. Se f for
Prova. Por indução, basta mostrarmos que, se p I f g, com f, g E irredutível, nada há a fazer. Senão, podemos escrever f = gh, com
Q[X] \ {O}, então p I f ou p I g. Se p f f, afirmamos inicialmente que g, h E Q[X]\Q. Logo, 8g, 8h < n, e a hipótese de indução garante que
mdc (f,p) = 1; de fato, se d= mdc (f,p), então d I p, de forma que g e h podem ambos ser escritos como produtos de um número finito de
d E Q ou d é associado a p em Q[X]. Mas, se d for associado a p, polinômios irredutíveis sobre Q, digamos g = P1 ... Pi eh = Pi+l ... Pk·
então segue de d I f que p I f, o que é uma contradição. Logo, d E (Q Então f = gh = P1 ... PiPi+l ... Pk, um produto finito de polinômios
e, daí, d= 1. irredutíveis sobre Q. D
Agora, pelo corolário 7.3, existem polinomios a, b E Q[X] tais que
O próximo resultado garante a validade da parte de unicidade (a
af + bp = 1, de sorte que
menos de associação) da representação de um polinômio não constante
a(f g) + (bg)p = g. sobre Q como produto de polinômios irredutíveis.
162 Fatoração de Polinômios Fatoração única em Q[X] 163

Proposição 7.10. Se Pi, ... ,Pk, q1, ... , qz E Q[X] \ Q são irredutí- Problemas - Seção 7 .1
veis e tais que p 1 ... Pk = Q1 ... qz, então k = l e, a menos de uma
reordenação, Pi e Qi são associados sobre Q.
1. * Complete a prova do teorema 7.2.
Prova. Se k = 1, temos p 1 = q1 ... qz, e a irredutibilidade de p 1 2. Sejam f, g E Q[X] \ Q polinômios tais que
garante que l = 1. Analogamente, l = 1 ::::} k = 1. Suponha, pois,
k, l > 1; como Pk I q1 ... qz, a proposição 7.8 garante a existência de
1 ::;; j ::;; l tal que Pk I qj. Suponha, sem perda de generalidade, j = l. onde Pi, ... ,Pk, Q1, ... , Ql e r 1 , ... , rm são polinômios mônicos e
Como qz é irredutível e Pk ~ Q, a única possibilidade é que Pk e q1 irredutíveis, dois a dois não associados, e ai, a~, (3j, f3; E N.
sejam associados, digamos Pk = uq1, com u E Q \ {O}. Então Prove que
mdc (!, g) = p]1 .. ·Pl/,
com 'Yi = min{ ai, [3i}, para 1 ::;; i::;; k.
com q~ = Qi para 1 ::;; i < l - 2 e qf- 1 = uq1_ 1 , todos irredutíveis sobre
Q.
3. * Se p EQ[X] é um polinômio de grau 2 ou 3, prove que p é
irredutível sobre Q se, e só se, p não tiver raízes em Q.
Por indução sobre max{k, l}, temos k-l = l-l e, a menos de uma
reordenação, Pi associado a q~ para 1 ::;; i ::;; l - 1. Portanto, a menos 4. * Se J, g, h E Q[X] \ {O} são tais que f I g, h, prove que f divide ·
de uma reordenação, Pi e Qi são também associados sobre Q. D ag + bh, para todos a, b E Q[X].
Resumimos as duas proposições acima dizendo que, em Q[X], te- 5. Se f E JR[X] \ lR tem grau maior que 1, prove que f pode ser
mos fatoração única. Assim como em Z, se f E Q[X] \ Q é tal que escrito, de maneira única a menos de associação, como produto
de um número finito de polinômios irredutíveis sobre R
f = P1 · · ·Pk,
6. O objetivo deste problema é estabelecer a existência de decom-
com p 1 , ... ,Pk E Q[X] \ Q irredutíveis, então, reunindo os fatores Pi
posições de quocientes de polinômios em frações parciais. Para
iguais a menos de associação, obtemos
tanto, sejam dados f, g E K[X] \ {O}.
(7.2) (a) Se 8 f < og e g = gf 1 ••• g~k é a fatoração canônica de
g em polinômios irredutíveis de K[X], prove que existem
com q1 , ... , qz E Q[X]\Q irredutíveis e dois a dois não associados, e a 1 ,
... , a 1 EN. A expressão (7.2) (também única a menos de associação) polinômios J1 , ... , Ík em K[X], tais que Íi = O ou ofi <
é a fatoração canônica de f em Q[X], e q1 , ... , qz são os fatores o(g;j), para 1 ::;; j ::;; k, e
irredutíveis de f em Q[X]. k
t
g
= L 1j"
j=l gj
164 Fatoração de Polinômios 7.2 Fatoração única em Z[X] 165

(b) Se 9 é irredutível sobre K e k 2: 1 é inteiro, prove que A importância do conceito de conteúdo de um polinômio de coe-
existem polinômios q, r 1 , ... , rk E K[X], com rj = O ou ficientes inteiros reside no papel chave que o mesmo desempenha no
arj < 89, tais que estudo de polinômios irredutíveis sobre Z, a começar pela definição
dos mesmos. •
k
f ~r-
k = q+ L.....J --2. Definição 7.13. 2 Um polinômio p E Z[X] \ Z é irredutível sobre
9 j=l 9J
Z se p for primitivo e não puder ser escrito como produto de dois
polinômios não constantes em Z[X]. Um polinômio primitivo p E
7.2 Fatoração única em Z[X] Z[X] \ Z que não é irredutível é dito redutível sobre Z.

Estudamos, na seção anterior, o problema de fatoração única para Novamente, é útil refrasear a condição de irredutibilidade de poli-
polinômios com coeficientes racionais. Nesta seção, estendemos a aná- nômios de coeficientes inteiros contrapositivamente, de modo que um
lise de tal problema a polinômios com coeficientes inteiros. Nesse polinômio primitivo p E Z[X] \ Z é irredutível se, e só se, a seguinte
sentido, a definição a seguir se revelará crucial. condição for satisfeita:

Definição 7.11. Se f E Z[X] \ {O}, o conteúdo e(!) de f é o mdc p = 9h, com 9, h E Z[X] =} 9 = ±1 ou h = ±1. (7.3)
de seus coeficientes não nulos. Se e(!) = 1, dizemos que f é um
polinômio primitivo em Z[X]. A proposição a seguir é conhecida como o lema de Gauss.

Por simplicidade de notação, se f Proposição 7.14 (Gauss). Para f, 9 E Z[X] \ Z, temos que:
Z[X] \ {O}, denotamos (a) c(f 9) = c(f)c(9). Em particular, f9 é primitivo se, e só se, f e
e(!) = mdc (ao, ... , an)· 9 o forem 3 .

(b) Se f é primitivo, então f é irredutível em Z[X] se, e só se, o


O lema a seguir, cuja prova deixamos ao leitor (veja o problema
1), estabelece duas propriedades úteis do conceito de conteúdo de um
for em Q[X].
polinômio de coeficientes inteiros. (c) Se f e 9 forem primitivos e associados em Q[X], então f = ±9.
Lema 7.12. Prova.
(a) Se f E Z[X] \ {O} e a E Z \ {O}, então c(af) = lal · e(!). Em (a) Pelo lema 7.12, se f = c(f)f1 e 9 = c(9)9 1, então f 1,91 E Z[X] são
particular, existe 9 E Z[X] \ {O} primitivo tal que f = c(J)9. primitivos e f 9 = c(f)c(9)f191, de modo que c(f9) = c(f)c(9)c(J1g1).
2 Apesar da definição que adotamos aqui para polinômios em Z[X] irredutí-
(b) Se f E Q[X] \ {O}, então, a menos de multiplicação por -1, veis ser ligeiramente mais restritiva que a usualmente encontrada na literatura
existem únicos a, b E Z\ {O} primos entre si e 9 E Z[X] primitivo (conforme [28], por exemplo), ela será suficiente para nossos propósitos.
tais que f = (a/b)9. 3 Para uma outra prova, veja o problema 7, página 178.
166 Fatoração de Polinômios 7.2 Fatoração única em Z[X] 167

Portanto, basta mostrarmos que f 191 é primitivo, ou, o que é o mesmo, Podemos, finalmente, enunciar e provar um celebrado resultado de
que Gauss, o qual se constitui, para polinômios de coeficientes inteiros, no
' 1 f, 9 primitivos {:} f 9 primitivo. análogo das proposições 7.9 e 7.10.
Se f não for primitivo, existe p E Z primo tal que p divide todos os Teorema 7.15 (Gauss). Todo polinômio primitivo f E Z[X] \ Z pode
coeficientes de f. Então, p divide todos os coeficientes de f 9, e f 9 não ser escrito como produto de um número finito de polinômios irredutí-
é primitivo. Analogamente, se 9 não for primitivo, então f 9 também veis em Z[X]. Ademais, tal maneira de escrever f é única a menos de
não é primitivo. uma reordenação dos fatores e de multiplicação de alguns dos mesmos
Reciprocamente, suponha que J(X) , amXm + · · · + a1X + ao e por -1.
9(X) = bnXn + · · · + b1X + b0 são primitivos mas f9 não o é. Tome
p E Z primo tal que p divide todos os coeficientes de f 9, e sejam. Prova. Mostremos primeiramente a existência da fatoração em irre-
k, l 2:: O os menores índices tais que p f ak, bz (tais k e l existem, uma dutíveis: vendo f como polinômio em (Q[X], segue da proposição 7.9
vez que f e 9 são primitivos). Denotando por ck+l o coeficiente de a existência de polinômios irredutíveis p 1 , ... ,Pk E (Q[X] \ (Q tais que
Xk+l em f9, segue que f ..:_ P1 .. ·Pk· Escreva Pi= (adbi)qi, com ai, bi E Z \ {O} relativamente
primos e Qi E Z[X] \ Z primitivo. Como Qi também é obviamente
Ck+l = ·· '+ ak-2bl+2 + ªk-lbl+l + akbl + ak+lbl-1 + ak+2bl-2 + ... · irredutível em Q[X], segue do item (b) do lema de Gauss que Qi é.
Agora, como p I ck+l e p I a0 , ... , ªk-1, bo, ... , bz-1, a igualdade acima irredutível em Z[X]. Sendo a = a 1 ... ak e b = b1 ... bk, temos então
garante que p I akbl, o que é uma. contradição. que
f = (a/b)q1 ... Qk·
(b) A implicação ~) é clara. Reciprocamente, tome f E Z[X] \ Z
Mas, como q1 , ... , Qk são todos primitivos, o item (a) do lema de Gauss
primitivo e suponha que f é redutível em Q[X], digamos f = 9h, com
garante que q1 ... Qk também é primitivo. Assim, tomando conteúdos
9, h E Q[X] \ (Q. Pelo lema 7.12, podemos tomar a, b, c, d E Z\ {O} tai&
na igualdade acima, obtemos
que 9 = (a/b)9 1 eh= (c/d)h 1 , com 91 , h 1 E Z[X] primitivos. Então,
bdf = b9 · dh = a91 · ch1 = ac91h1.
Mas, como 91 h 1 é primitivo pelo item (a), tomando conteúdos na igual- Portanto, segue que a/b = ±1 e, daí, f = q1 ... Qk, um produto de
dade acima obtemos lbdl · c(f) = lacl. Logo, : = ±c(f) E Z, e segue polinômios irredutíveis de Z[X].
novamente da igualdade acima que f = ±c(f)91 h 1 , i.e., fé redutível A prova da parte de unicidade do enunciado é essencialmente idên-
emZ[X]. tica à prova da proposição 7.10, uma vez que provemos o seguinte: se
p, f, 9 E Z[X] \ Z são tais que p é irredutível e p I f 9 em Z[X], então
(c) Se f = (a/b)9, com a, b E Z \ {O}, então bf = a9 e, tomando p I f ou p 19 em Z[X]. Para tanto, note inicialmente (novamente pelo
conteúdos, obtemos lbl · c(f) = lal · c(9). Mas, uma vez que c(f) = 1 item (b) do lema de Gauss) que p também é irredutível em (Q[X] e,
e c(9) = 1, segue que lal = lbl, de sorte que a/b = ±1. D assim sendo, já sabemos que p I f ou p 1 9 em Q[X]. Se p I f em (Q[X]
168 Fatoração de Polinômios 7.3 Polinômios sobre Zp 169

(o outro caso é análogo), existe li E Q[X] tal que f = liP· Tomando aqueles das seções 3.3 e 6.2 e do capítulo 5) são válidos ipsis literis
a, b E Z tais que li= (a/b)h, com Í2 E Z[X] \ Z primitivo, temos para Zp[X]. Aproveitamos também para deduzir, com o auxílio de
polinômios sobre Zp, alguns resultados de teoria dos números e com-
bf = bf1P = af2p.
binatória não acessíveis pelos métodos de que dispomos até o presente
Agora, p e Í2 primitivos implica (uma vez mais pelo item (a) do lema momento. Em particular, demonstramos a existência de raízes pri-
de Gauss) em Í2P primitivo e, tomando conteúdos na igualdade acima, mitivas módulo p, completando, assim, a discussão da seção 7.2 de
obtemos lbl · c(f) = lal · c(f2p) = lal. Portanto, a/b = ±e(!) E Z, de [14].
maneira que fi E Z[X] e p I f em Z[X]. D Dado /(X)= anxn+· · ·+a1X +ao E Z[X], denote por f E Zp[X]
o polinômio
(7.4)
onde a0 , a1 , ... , "an denotam, respectivamente, as classes de congruên-
Problemas - Seção 7.2 cia de a0 , a 1 , ... , an, módulo p.
A correspondência f r-+ f define uma aplicação
1. * Prove o lema 7.12.
1rP: Z[X]
2. * Seja f E Z[X] um polinômio mônico e não constante. Se fé
f
redutível sobre Q, prove que existem polinômios mônicos e não
constantes g, h E Z[X], tais que f = gh. a qual é obviamente sobrejetiva, sendo denominada a projeção de
Z[X] sobre Zp[X]. Para f, g E Z[X], é imediato verificar que

7.3 Polinômios sobre Zp f (X) = g(X) em Zp[X]


t
Vimos, à seção 6.2 de [14], que, para p primo, o conjunto Zp das :3h E Z[X]; f(X) = g(X) + ph(X) em Z[X].
classes de congruência módulo p pode ser munido com operações de
Equivalentemente, denotando
adição, subtração, multiplicação e divisão bastante similares às suas
análogas em C. Tal semelhança faz com que praticamente todos os pZ[X] = {ph; h E Z[X]},
conceitos e resultados sobre polinômios estudados até o momento con-
tinuem válidos no conjunto Zp[X] dos polinômios com coeficientes em temos
Zp. f = O{:} f E pZ[X].
Nosso propósito aqui é comentar explicitamente algumas seme- Estendemos as operações de adição e multiplicação de Zp a ope-
lhanças e diferenças entre polinômios sobre Zp e sobre K, com K = Q, rações homônimas+,· : Zp[X] x Zp[X] --+ Zp[X] pondo, para/, g E
R ou C, deixando ao leitor a tarefa de checar que todos os demais Z[X],
resultados e definições para K[X] apresentados no texto (exceto por 1+ g = f + g e f ·g = fg.
170 Fatoração de Polinômios 7.3 Polinômios sobre Zp 171

Deixamos a cargo do leitor a verificação da boa definição da adição e Prova. Seja (de acordo com o exemplo 5.12 de [10))
da multiplicação de Zp[X], a qual pode ser feita de maneira análoga
à verificação da boa definição das operações de Zp ( de acordo com a
seção 6.2 de [14); veja também o problema 1, página 177). a representação binária de n, onde O ~ a0 < a 1 < · · · < ªk· Pelo
Assim como em Z[X] 1 dizemos que um polinômio f E Zp[X) \ {Õ} exemplo 7.16, temos em Z 2 [X) que
como em (7.4) tem grau n se <in-=/=- Õ, i.e., se p f ªn· Mais geralmente,
se f E Z[X] \pZ[X], então]-=/=- Õ e 8f ~ 8f. (X+ It =(X+ I)2ªk (X+ I)2ªk-1 ... (X+ I)2ª0
(7.5)
Os dois exemplos a seguir utilizam a multiplicação de polinômios = (X2ªk + I)(X2ªk-1 + I) ... (X2ª0 + I).
em Zp [X) para provar propriedades interessantes de números binomi-
Sendo S o conjunto dos números formados a partir de somas de
ais.
potências distintas de 2, escolhidas dentre as potências 2ªk, 2ªk-i, ... ,
Exemplo 7.16. Se p é um número primo e k é um inteiro positivo, 2ª1 e 2ªº, temos pelo princípio fundamental da contagem e pela unici-
prove que (~k) é múltiplo de p, para 1 ~ j < pk. dade da representação binária de naturais, que ISI = 2k+1; por outro
Prova. Pelo exemplo 1.41 de [14), já sabemos que (X+ I)P =XP+ I lado, efetuando os produtos da última expressão de (7.5), obtemos
em Zp[X). Por hipótese de indução, suponha que, para algum l EN, (X+It=Lxm, (7.6)
tenhamos provado que mES

uma soma com exatamente 2k+1 parcelas. Mas, uma vez que a fórmula
de expansão binomial fornece
em Zp[X). Então, aplicando sucessivamente o caso inicial e a hipótese
de indução, obtemos
(7.7)
(X+ I/+1 =(XP+ Ii = (XPi +I = XPl+l + I.
comparando as expressões (7.6) e (7.7), concluímos que exatamente
Por outro lado, também temos
2k+1 dentre os números binomiais da forma (;) (os quais compõem a
n-ésima linha do triângulo de Pascal) são tais que (;) -=/=- Õ, i.e., são
~~ffi. D
de modo que, para 1 ~ j < pk, temos (~k) = Õ; daí, p divide o número Para definir a função polinomial associada a um polinômio f E
binomial (~k). D Zp[X] temos que ter alguns cuidados. Note inicialmente que, se f E
Z[X] e a, b E Z são tais que a = b (modp), então o item (e) da
Exemplo 7.17 (Romênia). Prove que o número de coeficientes bino- proposição 5.6 de [14) garante que
miais ímpares na n-ésima linha do triângulo de Pascal é uma potência
de 2. f(a) f(b) (modp);
172 Fatoração de Polinômios 7.3 Polinômios sobre Zp 173

por outro lado, se f = g em Zp[X], vimos acima que existe h E Z[X] Proposição 7.19. Em Zp[X], temos
tal que f(X) = g(X) + ph(X). Portanto, para a E Z, temos
XP- 1 - I = (X - I)(X - 2) ... (X - (p-1)).
f(a) = g(a) + ph(a) g(a) (modp).
Prova. Como I, 2, ... , p - 1 são raízes de xp-I _ I em Zp (novamente
Dado f E Zp[X], os comentários acima permitem definir a função pelo pequeno teorema de Fermat), o item (c) da proposição 3.3 ga-
polinomial associada f : Zp --+ Zp pondo, para a E Z, rante que xp-l - I é divisível em Zp[X] pelo polinômio (X - I)(X -
2) ... (X - (p - 1)). Mas, como ambos tais polinômios são mônicos e
!(a) = g(a), (7.8)
têm grau p - 1, segue que
onde g E Z[X] é qualquer polinômio tal que f = g. Obviamente, a
xp-i - I = (X - I) (X - 2) ... (X - (p - 1)).
imagem de f é um conjunto finito, uma vez que o próprio Zp o é. .
Doravante, sempre que não houver perigo de confusão, escreveremos D
(7.8) simplesmente como
Em Zp[X], as definições e resultados da seção 7.1 mantém-se com-
](a) = f(a). pletamente. Em particular, podemos enunciar o seguinte teorema,
cuja prova é totalmente análoga às provas das proposições 7.9 e 7.10.
O exemplo a seguir mostra que, contrariamente ao que ocorre com
polinômios sobre (Q, lR. ou C, a função polinomial associada a um Teorema 7.20. Se p E Z é primo, então todo polinômio f E Zp[X] \
polinômio não nulo em Zp[X] pode ser identicamente nula. Em parti- Zp pode ser escrito, de maneira única a menos de reordenação e asso-
cular, não é mais válido que dois polinômios sobre Zp só terão funções ciação, como produto de um número finito de polinômios irredutíveis
polinomiais iguais quando forem eles mesmos iguais. sobre Zp[X].
Exemplo 7.18. O polinômio f(X) = XP - X E Zp[X] é claramente Como primeira aplicação do resultado acima, provamos, a seguir,
um elemento não nulo de Zp[X]. Por outro lado, denotando por f : a existência de raízes primitivas módulo p. 4 Para o enunciado e prova
ZP--+ ZP a função polinomial associada ao mesmo, temos pelo pequeno do mesmo, sugerimos ao leitor rever o material da seção 7.2 de [14].
teorema de Fermat (veja {14]) que
Teorema 7.21. Se p é um primo ímpar e d é um divisor positivo de
](a) = aP - a= aP - a = õ, p - 1, então a congruência

para todo a E Zp. Assim, f é a função identicamente nula. xp-I - 1 - O(modp) (7.9)
Sejam dados f E Z[X] e a E Z. Como na seção 3.1, dizemos que tem exatamente r.p(d) raízes de ordem d, duas a duas incongruentes
a E Zp é uma raiz de f se f(a) = Õ. Uma rápida inspeção da prova módulo p. Em particular, p possui raízes primitivas.
do teste da raiz mostra que o mesmo continua válido em Zp[X]. Em 4 Para comodidade do leitor, recordamos que um inteiro a, não divisível por um
particular, obtemos, a partir do exemplo acima, o seguinte resultado primo p, é denominado uma raiz primitiva módulo p se p - 1 for o menor inteiro
importante. positivo k satisfazendo a congruência ak = 1 (modp).
174 Fatoração de Polinômios 7.3 Polinômios sobre Zp 175

Prova. Para d divisor positivo de p - 1, seja N(d) o número de raí- portanto,


zes da congruência (7.9), com ordem d e duas a duas incongruentes,
módulo p. Uma vez que as raízes da congruência (7.9) são os inteiros #{O :S k :S d - 1; ordp(ak) =d}=
1, 2, ... ,p- l e (pela proposição 7.2 de [14]) cada um de tais números =#{O:::;; k:::;; d-1; mdc(d,k) = 1}
. tem ordem igual a um divisor de p - 1, concluímos que = cp(d) .

L N(d) =p-1. Assim, N(d) = O ou cp(d) e, em qualquer caso, temos N(d) :S cp(d),
O<dl(p-1) conforme desejado.
Para o que falta, basta notar que N(p - 1) = cp(p - 1), ou seja,
Portanto, se mostrarmos que N(d) :S cp(d), seguirá da proposição 3.11 há exatamente cp(p - 1) inteiros, dois a dois incongruentes, módulo
de [14] que p, e com ordem p - 1 = cp(p), módulo p; de outro modo, há exata-
mente cp(p-1) raízes primitivas, módulo p, duas a duas incongruentes,
p- l = L N(d):::;; L cp(d) =p- l módulo p (veja que este resultado concorda com a proposição 7.8 de
O<dl(p-1) O<dl(p-1) [14]). D

e, daí, que N(d) = cp(d), para todo divisor positivo d de p - 1. Terminamos esta seção exibindo mais uma aplicação da teoria de
Seja, então, d um divisor positivo de p - 1. Se N(d) = O, é claro polinômios sobre Zp à Teoria dos Números.
que N(d) :::;; cp(d). Senão, seja a um inteiro de ordem d, módulo p;
então, as classes I, a, ... , a:J,- 1 E Zp são raízes duas a duas distintas Exemplo 7.22 (Miklós-Schweitzer). Se p > 3 é um primo tal que
do polinômio Xd - I E Zp[XJ. Por outro lado, o corolário 3.8 garante p = 3 (mod4), prove que
que tal polinômio possui no máximo d raízes em Zp, de sorte que suas
raízes são exatamente I, a, ... , a:J,- 1 . Portanto, se a E Z for uma
II (x 2 + y2 ) _ 1 (modp).
l~x/y~p;l
raiz de ordem d de (7.9), então a E ZP é raiz de Xd - I E Zp[X], de
sorte que a E {I, a, ... ,a;d-l }. Assim, as raízes de ordem d de (7.9) Prova. Em tudo o que segue, salvo menção em contrário os índices
são exatamente os elementos de ordem d do conjunto {1, a, ... , ad-l} dos produtórios apresentados variam de 1 a P; 1.
e, daí, Se P denota o produto do primeiro membro, então
N(d) = #{O :S k :S d - 1; ordp(ak) = d}.

O item (c) da proposição 7.5 de [14] conta o número de elementos do


segundo membro acima: como ordp(a) = d, temos
176 Fatoração de Polinômios 7.3 Polinômios sobre Zp 177

Agora, para 1 ::; k ::; P; 1, denote por ck o inverso de k, módulo p. Agora, observe que
Módulo p, tem-se
f(X 2 ) = (X-a)(X-a 2 ) ... (X-a~)(X +a)(X +a 2 ) ... (X +a9).
Para 1 ::; i,j ::; P; 1 , se ai= -ai (modp), então a 2i a 2i (modp), e
segue de a ser uma raiz primitiva, módulo p, que 2i = 2j ou, ainda,
De fato, a primeira congruência é imediata e, para a segunda, basta i = j; mas, assim sendo, teríamos ai -ai (modp), o que é um
observar que { (ckx )2; 1 ::; x ::; P; 1 } é um conjunto de P; 1 resíduos qua- absurdo. Então, o conjunto { ±a, ±a , .•• , ±a9} é um SCI5 , módulo
2

dráticos dois a dois incongruentes, módulo p; portanto, {(ckx)2; 1 ~ p, de sorte que coincide, módulo p, com {1, 2, ... ,P - 1}. Portanto,
<2
x - p-l} = {x 2 · 1 < x < p-l} módulo p.
' - -2' denotando por] E Zp[X] a imagem de f pela projeção de Z[X] sobre
Segue então que, módulo p, Zp[X], temos

2
l'.::.!
2
2 2
.1 . 2 . .. . . (- 2- 1) 2P = 1 . 2 . .. . . (- 2- 1)2 (II (x + 1))
p- 2 2 p- 2 E.::!
2

e, daí,
](X2 ) = (X - I)(X - 2) ... (X - p- 1) = XP- 1 - I

ou, ainda,
-
f (X) = x-2 - 1.
p-1 -

p-1

29 P - (Il(x + 1))-
2 2
Mas, como p 3 (mod4), segue que
Q = -1(-I) = -(-I)9 - I = 2,
Sejam a uma raiz primitiva, módulo p, e Q = f1(x 2 + 1). Uma vez
que {a 2\ 1 ::; k ::; P; 1 } é um conjunto de P; 1 resíduos quadráticos i.e., Q = 2 (modp).
dois a dois incongruentes, módulo p, temos {a 2 \ 1 ::; k ::; P; 1 } = Por fim, substituindo essa informação em (7.10), obtemos a con-
{x2 ; 1::; x::; P; 1 }, módulo p, de sorte que gruência 29 P - 29 (modp) e, a partir dela, P 1 (modp). D
t',,\' .;,·,:

(7.10)

A fim de calcular o resíduo de Q, módulo p, seja f E Z[X] definido Problemas - Seção 7.3
por 1. * Fixado um primo p, verifique a boa definição das operações
de adição e de multiplicação de Zp[X]. Mostre também que
de maneira que tais operações são associativas e comutativas, possuem elementos
neutros respectivamente iguais a Õ e I e que a multiplicação é
p-1
Q (-1)-
2 f(-1) _ -f(-l) (modp) distributiva em relação à adição.
5Recorde que um sistema completo de invertíveis (abreviamos SCI), módulo p,
(aqui, utilizamos o fato de que p =3 (mod4) na segunda congruência ê um conjunto {a 1 , a 2 , •.. , ap-l de inteiros tais que, a menos de uma permutação,
acima). =
temos ªi j (modp).
178 Fatoração de Polinômios Z.4 Irredutibilidade de polinômios 179

2. * Se f E Z[X] e a E Z é raiz de f, prove que a E Zp é raiz de seja, escrever um polinômio dado f (digamos em Z[X]) como produto
f E Zp[X]. Em particular, conclua que, se a1, ... , ak E Zp são de dois outros g e h e, resolvendo ó sistema de equações resultante
as raízes de f, então existe 1 ~ j ~ k tal que a - ªi (modp). nos coeficientes de g e h, obter uma fatoração para f ou chegar a
uma contradição. A seguir, exemplificamos tal procedimento (veja,
3. Ache, se houver, as raízes em Z 3 do polinômio X 2 - 2X + I E também, os problemas 1 e 2).
Z3[X].
Exemplo 7.23. Prove que f(X) = X 4 +10X 3 +5X +1993 é irredutível
4. Fatore X2 + 3 em Z1[X]. sobre Q.

5. Mostre que o polinômio f (X) = X 3 -15X 2 + lOX - 84 não tem Prova. Pelo lema de Gauss, é suficiente mostrar que f não pode ser
raízes racionais. escrito como produto de dois polinômios não constantes e de coefi-
cientes inteiros. Para tanto, observe inicialmente que 1993 é primo
6. * Se p E Zé primo e f E Z[X], prove que J(XP) = J(X)P. (pelo critério de Eratóstenes, por exemplo);_ portanto, pelo critério de
7. * Use a projeção 1r : Z -+ Zp para provar que, se f, g E Z[X] \ Z pesquisa de raízes inteiras, as possíveis raízes inteiras de f são ±1 ou
são polinômios primitivos (conforme a definição 7.11), então fg ±1993, e uma verificação direta garante que f não possui raízes in-
também o é. teiras. Resta, pois, descartarmos a possibilidade de fatoração de f na
forma
8. * Seja p 2:: 3 primo e, para 1 ~ j ~ p-1, seja sj(l, 2, ... ,p-1) f(X) = (X 2 + aX + b)(X 2 + cX + d),
a j-ésima soma simétrica elementar dos números 1, 2, ... , p - 1.
com a, b, e, d E Z. Se tal ocorrer, então, desenvolvendo o produto do
Prove que:
segundo membro e igualando os coeficientes obtidos aos corresponden-
(a) Para 1 :$ j~ p- 2, temos sj(l, 2, ... ,P - 1) - O(modp). tes do primeiro membro, ~btemos o sistema de equações

(b) sp_ 1 (1, 2, ... ,P - 1) - -1 (modp). a+c=lO


ac+b+d=O
9. * Se a, f! e e são as raízes complexas do polinômio X 3 -3X 2 + 1, ad+bc=5
mostre que, para todo n E N, a soma an + bn + cn é inteira e
bd = 1993
deixa resto 1 quando dividida por 17.
A quarta equação, juntamente com a primalidade de 1993 e a sime-
tria da fatoração de f, nos fornecem as possibilidades essencialmente
7.4 Irredutibilidade de polinômios distintas (b, d) = (1, 1993) ou (-1, -1993). Portanto, a primeira e a
terceira equações fornecem um dos sistemas de equações
Até o momento, não temos à disposição modo algum de.determinar
se um dado polinômio é ou não irredutível. É claro que, em exemplos a+c=lO a+c= 10
{ ou { .
práticos, pode-se, às vezes, utilizar para tal fim o método direto, qual ' a+ 1993c = 5 a+ 1993c= -5
180 Fatoração de Polinômios 7.4 Irredutibilidade de polinômios 181

Por fim, é imediato verificar que nenhum de tais sistemas possui solu- Exemplo 7.25. Seja p E Z primo e k EN tais que p 5(mod6) e
ções inteiras. D kp+ 1 é primo. Prove que f(X) = X +pX +pX +kp+ 1 é irredutível
3 2

emZ[X].
Conforme atestam os cálculos executados no exemplo acima, a ve-
rificação, pelo método direto, de que um polinômio f E (Q[X] dado Prova. Projetando em Zp[X], temos
é irredutível sobre (Q esbarra em dificuldades computacionais consi-
](X) = X 3 +I = (X+ T)(X 2 - X+ I).
deráveis, mesmo no caso em que f tem coeficientes inteiros e grau
pequeno. Faz-se, pois, necessário desenvolvermos técnicas apropriadas Afirmamos inicialmente que - I é a única raiz de f em Zp. De
ao tratamento de questões ligadas à irredutibilidade de polinômios. fato, se ](a) = O, então a3 = -I e, daí, a3 = -1 (modp); assim,
Nesse sentido, comecemos com o seguinte resultado. a6 _ 1 (mod p), de maneira que

Proposição 7.24. Sejam f E Z[X] primitivo e mônico e p E Z primo. ordp(a) J mdc (6,p - 1) = 2,

(a) Se f E Zp[X] é irredutível em Zp[X], então f é. irredutível em i.e., ordp(a) = 1 ou 2. Mas, como ordp(a) = 1 ==> a = I, o qual
Z[X]. não é raiz de], devemos ter ordp(a) = 2. Então, a 2 1 (modp) e
a "t=- 1 (modp), de sorte que a - -1 (modp) ou, ainda, a= -I.
{b) Se J(X) (X - a)f1 (X), com ] 1 E Zp[X] irredutível, então Segue da afirmação acima que X 2 - X+ I não tem raízes em Zp [X]
ou f é irredutível em Z[X] ou f tem uma raiz a E Z tal que e, portanto, é irredutível em Zp[X]. A proposição anterior assegura,
a - a (modp). então, que ou f é irredutível em Z[X] ou f tem uma raiz a E Z tal
que a - -1 (modp). Mas, pelo critério de pesquisa de raízes racionais
Prova. (proposição 3.16), uma raiz a de f deve dividir kp + 1, que é primo,
(a) Por contraposição, suponha f(X) = g(X)h(X), com g, h E Z[X] \ de forma que a = -1 ou a = -( kp + 1). Testando tais possibilidades,
Z mônicos. Então, ](X)= g(X)h(X), com ãg = 8g e 8h = 8h. obtemos uma contradição. D

(b) Suponha f redutível, digamos J(X) = g(X)h(X), com g, h E Observação 7.26. Fixado p E N, estabeleceremos na seção 8.2 a
Z[X] \ Z mônicos. Então, ãg = 8g, 8h = 8h e existência. de infinitos k E Z tais que kp + 1 seja primo.

O teorema a seguir e, mais precisamente, seu corolário, o critério


(X - a)f1 (X) = g(X)h(X).
de Eisenstein, se constitui em poderoso aliado na tarefa de garantir
Mas, uma vez que ] 1 é irredutível em Zp[X], segue do teorema 7.20 a irredutibilidade de certos polinômios.
que g ou h deve ser associado a X - a e, daí, que 8g = 1 ou 8h = 1. Teorema 7.27 (Eisenstein). Seja f(X) = anXn + · · · + a 1 X + a0
Suponha, sem perda de generalidade, que 8g = 1. Então, g(X) = um polinômio de grau n 2: 1 e com coeficientes inteiros. Sejam ainda
X - a e g (logo, f) tem uma raiz a E Z. Por fim, é claro que a = a. O p E Z primo e 1 ::; k < n inteiro tais que:
1

182 Fatoração de Polinômios 7.4 Irredutibilidade de polinômios 183

(a) p I ao,al,···,ªk· Exemplo 7.29. Se p E Z é primo e f E Z[X] é o polinômio definido


por
(b) p2 fao epfan. f(X) = xp-l + xp- 2 + ... + x + 1, (7.11)
Se f = gh, com g, h E Z[X], então ao menos um dentre g eh tem então f é irredutível sobre (Q.
grau maior ou igual a k + 1.
Prova. Observando, inicialmente, que f(X) = g(X)h(X) se, e só se,
Prova. Se f(X) = g(X)h(X), com g(X) = brXr + · · · + b0 e h(X) =
f(X + 1) = g(X +l)h(X + 1), concluímos ser suficiente provar que
c8 X 8 + · · · + co polinômios em Z[X], então an = brcs e ao = boc0 .
f(X + 1) é irredutível em Q[X]. Mas, como (X - l)f(X) = XP - 1,
Portanto,
temos
'*
P f an P f brCs =* p f br e p f C8 ,
de maneira que, em Zp[X], temos ](X) = g(X)h(X), com ãg = âg = Xf(X + 1) =(X+ l)P - 1
r e âh = âh = s. Ademais, se X I g(X) e X I h(X) em Zp[X],
então p I bo e p I Co em Z, de sorte que p2 1 b0 c0 = a0 , o que é um ,
= XP + (f) XP- + ... + ~ ~ l) X
1

absurdo. Portanto, em Zp[X], o polinômio X divide no máximo um


e, daí,
dos polinômios g ou h, e segue de ,
g(X)h(X) = J(X) = cinXn + · · · + ak+1Xk+1
f(X + 1) = xp-l + (f)xp- + · ·· + (P ~
2
1).

= (anxn-k-1 + ... + ªk+1)Xk+1 Agora, lembre-se (conforme exemplo 1.41 de [14]) de que p 1 (f), para
1 :S k :S p - 1, de modo que podemos aplicar o critério de Eisenstein
que Xk+ 1 1 g(X) ou Xk+ 1 i h(X). Logo, r ~ k + 1 ou s ~ k + 1. D
com o primo p para concluir pela irredutibilidade de f(X + 1) em
Corolário 7.28 (Eisenstein). Seja f(X) = anXn+· · ·+a1X +ao um ({]~. D
polinômio de grau n ~ 1 e com coeficientes inteiros. Se existe p E Z
Em que pese a teoria desenvolvida acima, frequentemente estabe-
primo tal que p I ao, a1, ... , ªn-1, p2 f ao e p f an, então f é irredutível
lecemos a irredutibilidade de um certo polinômio por intermédio de
em (Q[X].
métodos ad hoc. Vejamos alguns exemplos.
Prova. Pelo teorema anterior, se f(X) = g(X)h(X), com g, h E
Z[X], então âg ~ n ou âh ~ n, de maneira que h ou g é constante. Exemplo 7.30 (Romênia). Seja f E Z[X] um polinômio mônico de
Assim, f não pode ser escrito como o produto de dois polinômios não grau n ~ 1, tal que f(O) = 1. Se f tiver pelo menos n - 1 raízes
constantes de coeficientes inteiros, e segue do lema de Gauss que f é complexas de módulo menor que 1, prove que f será irredutível em
irredutível em (Q[X]. D (Q[X].
Colecionamos, no exemplo a seguir, uma aplicação clássica do co- Prova. Pelo lema de Gauss, basta mostrar que f é irredutível em
rolário acima, a qual será reobtida, por outros métodos e em maior Z[X]. Suponha, pois, f = gh, com g, h E Z[X] \ Z. Sem perda de
1 generalidade, na seção 8.2. generalidade, podemos supor g e h mônicos. De g(O)h(O) = 1, temos
1
184 Fatoração de Polinômios 7.4 Irredutibilidade de polinômios 185

g(O), h(O) = ±1. Por outro lado, pelas relações de Girard (vide a
Prova. Pelo lema de Gauss, basta mostrar que f não pode ser escrito
proposição 4.6), o módulo do produto das raízes complexas de fé igual
como produto de dois polinômios não constantes e de coeficientes intei-
a 1, de modo que, pelas hipóteses do enunciado, f tem exatamente uma
ros. Suponha, por contradição, que fosse f = gh, com g e h polinômios
raiz complexa de módulo maior que 1. Portanto, um dos polinômios g mônicos, de coeficientes inteiros e não constantes. Como
ou h, digamos g, tem somente raízes complexas de módulo menor que
1. Mas, uma vez que g é mônico e lg(O)I = 1, temos, novamente pelas
relações de Girard, que o módulo do produto das raízes de g é igual a
1, o que é uma contradição. D e g(ai), h(ai) E Z, deve ser g(ai) = 1 e h(ai) = -1, ou vice-versa; em
qualquer caso, temos g(ai) + h(ai) = O. Agora, defina li = g + h.
Observação 7.31. Polinômios f E Z[X] satisfazendo as condições Como g e h são mônicos, li não é identicamente nulo. Então,
do lema acima podem ser facilmente construídos. Por exemplo, seja
f (X) = anXn + an_ 1xn- 1 + · · · + a1X + ao E Z[X] tal que ali:::; max{ag, ah}< af = n,

a
de maneira que li admite, no máximo, li < n raízes distintas. Mas,
como li(ai) = O para 1:::; i:::; n, chegamos a uma contradição. D
Se lzl = 1, então

lf(z) - ªn-1Zn-ll = lanZn + ªn-2Zn- 2 + · · · + a1z + aol


:::; lanl + lan-21 + · · · + la1I + laol Problemas - Seção 7.4
< lan-11 = lan-1Zn-ll·
1. Use o método direto, descrito no início desta seção, para provar
Em particular, f não se anula sobre o círculo lzl = 1 do plano com-
que o polinômo X 4 - X 2 + 1 é irredutível em Z[XJ.
plexo, e um teorema da teoria de funções analíticas f : (C --+ C ( o
teorema de Rouché - veja a seção Vl.4 de f50}, por exemplo) garante 2. * Também com o auxílio do método direto, mostre que o poli-
que f possui exatamente n - 1 raízes complexas de módulo menor que nômio f(X) = X 5 - X4 - 4X 3 + 4X 2 + 2 é irredutível sobre
1. Q.

Exemplo 7.32. Sejam n > 1 um inteiro ímpar e a 1 , ... , an inteiros 3. Um polinômio de coeficientes reais é dito positivamente redutí-
dados, dois a dois distintos. Prove que o polinômio vel se puder ser expresso como produto de dois polinômios não
constantes, cujos coeficientes não nulos são reais positivos. Seja
f(X) = (X - a1)(X - a2) ... (X - an) - 1
f um polinômio de coeficientes reais tal que, para algum n E N,
o polinômio f(Xn) é positivamente redutível. Mostre que f é
é irredutível em Q[X].
positivamente redutível.
186 Fatoração de Polinômios 7.4 Irredutibilidade de polinômios 187

4. Sejam n > 1 inteiro e a 1, ... , an inteiros positivos dados, dois a 9. (Romênia.) Seja f(X) = anXn+· · ·+a1X +ao um polinômio não
dois distintos. Prove que o polinômio constante de coeficientes inteiros. Se Iao I > Ia1 I+ Ia2 I+ · · · + 1an I
i I e v'faoT< ../íaJ
+ 1, prove que f não pode ser escrito como
J(X) = (X - a1)(X - a2) ... (X - an) + 1 o produto de dois polinômios não constantes e de coeficientes
inteiros.
é redutível em Q[X] somente nos seguintes casos:
10. (Romênia.) Seja N = A1UA2U· · ·UAk uma partição do conjunto
ti''';; ' (a) f(X) = (X - a)(X - a - 2) + 1. dos números naturais em k conjuntos não vazios. Dado m EN,
.. ~1fo ~. ·,
prove que existe 1 :S j :S k tal que podemos construir infinitos
l! (b) f(X) = (X - a)(X - a - l)(X - a - 2)(X - a - 3) + 1.
polinômios f satisfazendo as seguintes condições:
5. Sejam p um primo ímpar, f(X) = 2XP-l - 1 e g(X) = (X - (a) 8f = m.
l)(X -2) ... (X -p+l). Prove que ao menos um dos polinômios
(b) Os coeficientes de f pertencem ao conjunto Ai.
f(X) - g(X) ou J(X) - g(X) +pé irredutível em Z[X].
(c) f não pode ser escrito como o produto de dois polinômios
6. (IMO.) Prove que o polinômio de coeficientes inteiros xn + não constantes de coeficientes inteiros.
5xn- 1 + 3 é irredutível em Z[X].
11. * Sejam f um polinômio de coeficientes inteiros e grau n, e z1,
7. Sejam p E Z primo e f(X) = a2n+1X 2n+1 + · · · + anXn + · · · + ... , Zn as raízes complexas de f.
a 1 X + a0 um polinômio de coeficientes inteiros satisfazendo as (a) Se Re(zi) < O para 1 :Si :S n, prove que todos os coeficien-
seguintes condições: tes de f têm um mesmo sinal.

· (a) p 2 ao, a1, ... , ªn·


1
(b) Prove o teorema de Pólya-Szegõ 6 : suponha que existe
m E Z tal que f(m) é primo, f(m-1) =I- Oem> !+Re(zi),
(b) PI an+l, an+2, · · ·, a2n· para 1 :S i :S n. Então, f não pode ser escrito como produto
(c) p3 I ao ep{a2n+1· de dois polinômios não constantes e de coeficientes inteiros.

Mostre que f não pode ser escrito como o produto de dois po- 12. (BMO.) Sejam n > 1 inteiro e ao, a1, ... , ªn-1, an naturais tais
linômios não constantes e de coeficientes inteiros. que an =I- O e O :S ai :S 9, para O :S i :S n. Se f (10) é primo,
prove que f é irredutível sobre Z.
8. (Romênia.) Seja p E Z um número primo. Se f(X) = anXn +
an_ 1xn- 1+· · ·+a1X +ao é um polinômio de coeficientes inteiros,
com laol = p e tal que lanl + lan-11 + · · · + la1I < p, prove que f
6 Após os matemáticos húngaros do século XX George Pólya e Gábor Szegõ.
é irredutível sobre Q.
188 Fatoração de Polinômios

CAPÍTULO 8

Nú meros Algébricos e Aplicações

Neste capítulo, invertemos o ponto de vista adotado no capítulo


3. Mais precisamente, fixamos um número complexo z e examina-
mos o conjunto dos polinômios f E C[X] tais que f(z) = O. Como
subproduto de nossa discussão, damos uma prova distinta da apresen-
tada em [26] para o fechamento, em relação às operações aritméticas
usuais, do conjunto dos números complexos que são raízes de polinô-
mios não nulos e de coeficientes racionais. Por outro lado, a análise
do caso em que z E (C é uma raiz ri-ésima da unidade nos leva ao
estudo dos polinômios ciclotômicos e permite dar uma prova parcial
de um famoso teorema de Dirichlet sobre a infinitude de primos em
progressões aritméticas.

189
190 Números Algébricos e Aplicações 8.1 Números algébricos 191
!.1

8.1 Números algébricos Definição 8.2. Dado a algébrico sobre (Q, um polinômio Pa E (Q[X] \
{O}, mônico, de grau mínimo e tendo a por raiz é denominado um
Um número complexo a é dito algébrico sobre (Q se existir um polinômio minimal de a.
polinômio f E (Q[X] \ {O} tal que f(a) = O. Um número complexo
que não é algébrico sobre (Q é dito transcendente sobre (Q. A proposição a seguir e seus corolários colecionam as propriedades
É possível provar (e o faremos na seção 8.3) que nem todo número mais importantes de polinômios minimais de números algébricos.
complexo é algébrico, i.e., que o conjunto dos números transcendentes
Proposição 8.3. Se a é algébrico sobre (Q e Pa é um polinômio mi-
é não vazio. Por outro lado, é claro que todo racional r, sendo raiz do
nimal de a, então:
polinômio X - r E (Q[X] \ {O}, é algébrico sobre (Q. Colecionamos, a
seguir, alguns exemplos menos triviais de números algébricos sobre (Q. {a) Pa é irredutível sobre (Q.

Exemplo 8.1. Sejam r E (Q~ e n EN. Se w é uma raiz n-ésima da {b) Se f E (Q[X] é tal que f(a) = O, então Pa I f em (Q[X].
unidade, então y'rw é algébrico sobre (Q, uma vez que tal número é
raiz do polinômio não nulo de coeficientes racionais X"" - r. Em particular, Pa é unicamente determinado por a.

Prova.
Poderíamos definir, aliás de modo óbvio, o que se entende por um
(a) Se fosse Pa = f g, com f e g não constantes e de coeficientes racio-
número complexo a ser algébrico sobre R Contudo, esse não é um
nais, então f e g teriam graus menores que o grau de Pa e ao menos
conceito interessante, uma vez que todo complexo é algébrico sobre JR.
um deles teria a por raiz, uma contradição à minimalidade do grau de
De fato, dado um complexo não real a = a + ib, temos que a é raiz
Pa· Logo, Pa é irredutível sobre (Q.
do polinômio não nulo

f(X) = (X - (a+ bi))(X - (a - bi)) (b) Pelo algoritmo da divisão, existem polinômios q, r E (Q[X] tais que

= X2 - 2aX + (a 2 + b2 ) E JR[X]. f(X) = Pa(X)q(X) + r(X),


Por essa razão, sempre que considerarmos um número algébrico sobre com r = O ou O::; &r < OPa· Ser=/:- O, então
(Q, diremos simplesmente que se trata de um número algébrico.
Se um complexo a for algébrico, o conjunto r(a) = f(a) - Pa(a)q(a) = O,

Aa = {f E (Q[X] \ {O}; f(a) = O} com &r < &pa, novamente contradizendo a minimalidade do grau de
Pa· Logo, r = O e, daí, Pa I f em (Q[X].
é, por definição, não vazio. Então, também é não vazio o conjunto Por fim, se Pa e qª são polinômios minimais de a, segue do item
de inteiros não negativos {&J; f E Aa}, de modo que existe Pa E Aa (b) que Pa I Qa e Qa I Pa em (Q[X]. Mas, como Pa e Qa são ambos
mônico e de grau mínimo. Temos, pois, a definição a seguir. mônicos, temos Pa = Qa· D
192 Números Algébricos e Aplicações 8.1 Números algébricos 193

Graças à proposição anterior, dado a E C algébrico, podemos nos Por outro lado, como estamos supondo que o polinômio g o f tam-
referir a Pa como o polinômio minimal de a. bém tem a por raiz, a proposição 8.3 garante que g divide g o f em
Q[X], digamos (g o f)(X) = g(X)u(X), para algum u(X) E Q[X].
Corolário 8.4. Se a E C é algébrico e f E Q[X] \ {O} é um polinômio Por fim, suponha que tenhamos provado que g(J(k) (a)) = O para
mônico, irredutível e tal que f(a) = O, então f = p0 • algum k ~ 1. Então

Prova. Pela proposição anterior, Pa divide f em Q[X]. Mas, como f g(Jk+ 1 (a)) = (g o f)(fk(a)) = g(fk(a))u(fk(a)) = O,
é irredutível, deve existir um racional não nulo e tal que f = cp0 • Por
e nada mais há a fazer. D
fim, como f e Pa são mônicos, devemos ter e = 1. D
O exemplo 7.29, em conjunção com o corolário 8.4, garante imedi-
Corolário 8.5. Se f E Q[X] \ Q é irredutível, então f não possui. atamente que, se p é primo e w = eis 2p1r, então o polinômio minimal
raízes múltiplas. de w é
Pw(X) = xp-l + XP- 2 +···+X+ 1.
Prova. Podemos supor, sem perda de generalidade, que fé mônico.
Se algum a E C fosse raiz múltipla de f, então a proposiçãb 3.31 O próximo exemplo utiliza este fato para dar uma bela prova alterna-
garantiria que a também seria raiz da derivada f' de f. Mas, como tiva do exemplo 6.4 de [14], devida ao matemático búlgaro N. Nikolov.
f E Q[X] \ {O} é mônico e irredutível, o corolário 8.4 garantiria que f Exemplo 8.7 (IMO). Seja pum primo ímpar. Calcule quantos sub-
é o polinômio minimal de a. Portanto, teríamos, pela proposição 8.3, conjuntos de p elementos do conjunto {l, 2, ... , 2p} são tais que a
que f I f' em Q[X], contradizendo a desigualdade âf > âf'. D soma de seus elementos é divisível por p.
Colecionamos, agora, alguns exemplos de aplicação da proposição Solução. Se w = eis ~, então wP = 1 e segue, daí, que
8.3 e de seus corolários. p p
(XP -1) 2 = Il(X -wi) Il(X -wi)
Exemplo 8.6. Sejam f um polinômio não constante de coeficientes j=l j=l
racionais e a um número real tal que a 3 - 3a = f(a) 3 - 3f(a) = -1. p 2p
Prove que, para todo inteiro positivo n, tem-se = Il(X -wi) II (X -wi)
j=l j=p+l
2p

= Il(X -wi).
onde j(n) denota a composição de f consigo mesmo, n vezes. j=l

Prova. Se g(X) = X 3 - 3X + 1, então âg = 3 e, pelo critério de Calculando o coeficiente de XP em ambos os membros da igualdade
pesquisa de raízes racionais (a proposição 3.16), g não tem raízes ra- acima e lembrando que pé ímpar, concluímos que
cionais. Portanto, pelo problema 3, página 163, g é irredutível sobre 2= (8.1)
Q. Daí, o corolário 8.4 garante que g é o polinômio minimal de a.
194 Números Algébricos e Aplicações 8.1 Números algébricos 195

onde a soma acima se estende a todos os subconjuntos de p elementos, Exemplo 8.8 (Romênia). Seja f E Z[X] um polinômio mônico, de
{j1 , ... ,jp}, de I2p = {1, 2, ... , 2p}. grau ímpar maior que 1 e irredutível sobre Q. Suponha ainda que:
Por outro lado, se, para O ~ k ~ p-1, denotarmos por ck o número
(a) f(O) é livre de quadrados.
de conjuntos de p elementos {j1 , ... , }p} C I2p, tais que }1 + · · · + )p ==
k (modp), então wP = 1 garante que o segundo membro de (8.1) é (b) As raízes complexas de f têm módulo maior ou igual a 1.
igual a E1:~ ckwk, de sorte que
Prove que o polinômio F E Z[X], dado por F(X) =J(X 3 ), também é
p-1
irredutível sobre Q.
LCkWk = 2.
k=O Prova. Por contradição, suponha que F é redutível sobre Q. Então,
Segue do que fizemos acima que w é raiz do polinômio de coefici-· segue do problema 2, página 168, a existência de polinômios g, h E
entes inteiros f(X) = E1:~ ckXk - 2. Note ainda que Cp-1 # O, uma Z[X], mônicos, não constantes e tais que F = gh. Como 8F = 38f e
vez que o conjunto 8f é ímpar, segue que 8F também é ímpar. Portanto, o problema 4,
página 75, garante que F admite uma raiz real a.
p-lp+l.
{ 1,p-1,2,p- 2,3,p- 3, ... , -2-, }
-2-, 2p- l Podemos supor, sem perda de generalidade, que a é raiz de g e que
g é irredutível sobre Q. De fato, se a for raiz de g mas g for redutível
tem p elementos e a soma dos mesmos é congruente a p - 1, módulo sobre Q, basta tomar o fator mônico e irredutível de g que tem a por
p. Portanto, 8f = p - 1. raiz, utilizando em seguida o resultado do problema 2, página 168,
Mas, como o polinômio minimal de w é Pw(X) = XP- 1 +· · ·+X +1, para concluir que tal fator irredutível tem coeficientes inteiros.
o item (b) da proposição 8.3 garante que f é um múltiplo inteiro de Nas condições do parágrafo anterior, sabemos que g é o polinômio
Pw, digamos f = CPw, com e E N. Em particular, comparando os minimal de a sobre Q. Agora, se w é uma raiz cúbica de 1, com w # 1,
coeficientes de ambos os membros dessa igualdade, concluímos que então

c0 - 2 = c1 = · · · = Cp-1 = e. O= F(a) = f(a 3 ) = f((aw)3) = F(aw) = g(aw)h(aw).


A fim de calcular o valor de e, note que Co + c 1 + · · · + cp-1 é igual Temos, pois, de distinguir dois casos:
ao número de subconjuntos de p elementos de I 2p, de maneira que
(i) g(aw) = O: como (pelo problema 2, página 74) as raízes não reais
pc + 2 = Co + C1 + ···+ .
Cp-1 = (2p)
p · de um polinômio de coeficientes reais ocorrem aos pares complexo-
complexo conjugado, temos que aw = aw 2 também é raiz de g. Agora,
Logo,
agrupando na expressão de g os monômios com expoentes das formas
c0 = e+ 2 = ~ ( (;) - 2) + 2. 3k, 3k + 1 e 3k + 2, podemos escrever

D (8.2)
196 Números Algébricos e Aplicações 8.1 Números algébricos 197

com a, b e e de coeficientes inteiros. Logo, Multiplicando a primeira dessas igualdades por w e subtraindo a
segunda do resultado, obtemos
a(ci) + ab(o?) + a 2 c(ci) = g(a) = O,
a(a 3 ) - a 2 c(a 3 ) = O.
a(a 3 ) + awb(a 3 ) + a:2w2c(a:3 ) = g(aw) = O,

e Mas, como g é o polinômio minimal de a sobre (Q, invocando nova-


a( o:3 ) + aw 2 b( a 3 ) + a:2wc( a:3 ) = g( aw 2 ) = O. mente a proposição 8.3, concluímos que g divide a(X 3 ) - X 2 c(X 3 ) em
Q[X] e, logo, em Z[X] (pela observação 2.11, uma vez que g E Z[X] e
Considerando as três igualdades acima como um sistema linear de
é mônico). Fazendo X= O, concluímos que g(O) deve dividir a(O) em
equações em a(o: 3 ), b(o: 3 ) e c(a 3 ), não é difícil mostrar que a(a 3 ) ===
Z. Sendo a(O) = g(O)m, com m E Z, segue que
b(a 3 ) = c(a3 ) = O. Assim, sendo p o polinômio minimal de a 3 sobre.
(Q, segue da proposição 8.3 que p divide a, b e e em (Q[X] e, portanto f(O) = g(O)h(O) = g(O)a(O) = g(0)2m.
(novamente pelo problema 2, página 74), em Z[X]. Segue de (8.2) que
Uma vez que f(O) é livre de quadrados, segue que g(O) = ±1.
p(X 3 ) divide g(X). Mas, como g é mônico e irredutível, concluímos
Portanto, sendo z1, ... , Zk as raízes complexas de g, segue das relações
que g(X) = p(X 3 ). Agora, sendo g um polinômio em X\ segue
de Girard que
novamente de (8.2) que b, e = O e, daí, que
(8.3)
f(X 3 ) = F(X) = g(X)h(X) = a(X 3 )h(X). Por outro lado, como
Tal igualdade, por sua vez, implica que h também deve ser um po-
linômio em X 3 , digamos h(X) = l(X 3 ), com l E Z[X]. Finalmente,
temos f(X 3 ) = a(X 3 )l(X3 ) e, daí, f = gl, com 89, 8l 2 1. Mas isto segue do item (b) do enunciado que lzJI 2 1 e, portanto, lzil 2 1,
contraria a irredutibilidade de f. para 1 ::; j ::; k. Coligindo tal informação com (8.3), concluímos que
lzil = 1, para 1 ::; j ::; k. Em particular, !ai = 1 e, sendo a real,
(ii) h(aw) O: como no item (i), concluímos que h(aw 2 )
= = O. Seja, devemos ter a= ±1, de sorte que a: 3 = ±1. Mas, como fé irredutível
ainda como acima, sobre (Q e f(a 3 ) = O, terímos f(X) = X± 1, contrariando o fato de
que af > 1. D

O restante desta seção é destinado a apresentar uma demonstração


com a, b .e e de coeficientes inteiros. Então, de que o conjunto dos números complexos algébricos é fechado para
as operações de adição, subtração, multiplicação e divisão (por um
divisor algébrico não nulo). Começamos com o seguinte resultado.
e Teorema 8.9. Se a, /3 E C \ {O} são algébricos, então a+ /3 também
o é.
Números Algébricos e Aplicações 8.1 Números algébricos 199
198

Prova. Sejam a = a 1 , ... , am as raízes complexas de Pa e (3 == onde s1, ... , Sm E (Q[X1, ... , Xm] são os polinômios simétricos elemen-
(31 , ... , f3n aquelas de Pf3, de modo que tares em X1, ... , Xm. Em particular,
m n
p0 (X) = II(X - ai) e p13(X) = II(X - f3j)·
i=l j=l uma vez que
Defina
m n m
f(X, X1, .. ,, Xm) = II II(X - xi - f3j) = IIp13(X - Xi)
Assim, se h(X) = f(X, a1, ... , am), então, por um lado,
i=l j=l i=l
mn-1 mn-1
= xmn + L Ík(X1, ·,, ,Xm)Xk, h(X) = xmn + L Ík(a1,,,,, am)Xk E Q[XJ
k=O k=O
para certos polinômios fo, ... , Ímn-1 E Q[X1, ... , Xm] (uma vez que e, por outro,
Pf3 E (Q[X]). m m n
Se a é uma permutação de Im, então
m m
h(X) = IIP13(X - ai)= II II
(X - ai - f3i)·
i=l i=l j=l
f(X,Xcr(l),". ,Xcr(m)) = IIp13(X -Xcr(i)) = IIp13(X - Xi)
i=l i=l Logo, h é um polinômio não nulo de coeficientes racionais tal que
~ '
h( a + /3) = O, o que garante que a + f3 é algébrico. D

ou, ainda, Observação 8.10. Suponha que Pa,Pf3 E Z[XJ. Então, nas no-
mn-1 mn-1 tações da demonstração acima, temos s1(ai), ... , sm(ai) E Z, e
xmn + L Ík(Xu(l),,,,, Xcr(m))Xk = xmn + L fk(X1,,, ·, Xm)Xk. Ík E Z[X1, ... , Xml, para O ~ k ~ mn - 1. Portanto, segue nova-
k=O k=O mente do teorema de Newton que gk E Z[X1, ... , Xm] e, daí, que
Portanto, temos

Ík(Xcr(i), ·, ·, Xcr(m)) = Ík(X1, · · ·, Xm),


para O ~ k ~ mn - 1. Portanto, h E Z[X] e segue do problema 4 que
para todos O ~ k ·~ mn - 1 e a, de sorte que Ík é um polinômio Pa+f3 E Z[X].
simétrico em X 1 , ... , Xm, para O~ k ~ mn - 1.
O teorema de Newton 4.12 garante, então, a existência de um Para mostrar que o conjunto dos números algébricos é fechado para
produtos e quocientes, precisamos do seguinte resultado auxiliar.
polinômio gk E Q[X1, ... , Xm] tal que

Ík(X1,,,,, Xm) = gk(s1, · ·,, Sm), Lema 8.11. Se a#- O é algébrico, então a- 1 e a 2 também o são.
200 Números Algébricos e Aplicações 8.2 Polinômios ciclotômicos 201

1 Prova. Seja /(X)= anXn + ªn-1xn- 1 + · · · + a1X + a0 E (Q[X] \ Q Problemas - Seção 8.1
'''
tal que ao =/= O e f(a) = O. Então, g(X) = a 0 Xn + a 1xn- 1 + · · · +
! ''
i
an_ 1X + an é um polinômio não constante de coeficientes racionais, e ~
1. * Se ré um racional não nulo e a =/= O é um complexo algébrico,
é imediato verificar que g( a- 1) = O. prove diretamente (i.e., sem recorrer ao teorema 8.12) que ra
Para a 2 , observe que existem polinômios u e v de coeficientes ra- também é algébrico.
cionais, não ambos nulos e tais que 2. Dado n EN, prove que cos 21r é um número algébrico.
, n

f(X) = u(X 2) + Xv(X 2). 3. Sejam p primo e n EN. Prove que o polinômio minimal de -f:(fJ
é f (X) = xn - p.
Sendo h(X) = u(X) 2 - X v(X) 2, temos h E Q[XJ \ {O} e
4. * Seja a E (C algébrico.
Se existe f E Z[X] \ Z mônico e tal que
h(a 2) = u(a 2)2 - a 2v(a2)2
J(a) = O, prove que Pa E Z[XJ.
= (u(a 2 ) - av(a 2))(u(a 2) + av(a 2))
= (u(a 2 ) - av(a 2))f(a) = O. 5. (a) Sejam a, b e e inteiros positivos. Prove que:
(i) y'a + vb + ye é raiz de um polinômio mônico e de
D coeficientes inteiros.
Teorema 8.12. Se a, f3 E C\ {O} são algébricos, então af3 e J também (ii) Se y'a+ vb+ ye (j_ Z, então y'a+ vb+ Jc é irracional.
o são. (b) Generalize os itens (i) e (ii) para vb1 + vb2 + · · · + vbn,
onde b1 , b2, ... , bn são inteiros positivos.
Prova. Pelo lema anterior, a 2 e {3 2 são algébricos. Mas, como já
sabemos que a+ f3 é algébrico, segue novamente do lema anterior que 6. (OBM.) Prove que o polinômio J(X) = X 5 -X4 -4X 3 +4X 2 +2
(a + {3) 2 também o é. Agora, uma vez que não admite raízes da forma {fr, onde ré um racional e n > 1 é
um natural.

7. Dê uma prova análoga à do teorema 8.9 para mostrar que af3 é


duas aplicações do teorema 8.9, juntamente com o resultado do pro- algébrico sempre que a e f3 o são.
blema 1, garantem que af3 é algébrico.
Para o que falta,, observe que = a ·J com !, !
algébrico (pelo
8.2 Polinômios ciclotômicos
lema anterior). Portanto, a primeira parte acima garante que j é
algébrico. D
A teoria de polinômios sobre Zp, p primo, nos permite apresentar
algumas das propriedades elementares de uma classe muito importante
de polinômios, conhecidos como ciclotômicos. Como subproduto do
202 Números Algébricos e Aplicações 8.2 Polinômios ciclotômicos 203

estudo que faremos aqui, mostraremos que os polinômios ciclotômi- Agora, como cada inteiro 1 ~ m ~ n pode ser escrito de modo único
cos são exatamente os polinômios minimais das raízes complexas da como m = dk, com o < d I n e (k, ~n
= 1 (tal d é d = (m, n)), a
unidade. última soma acima é claramente igual a
Sendo n um natural e Wn = eis 2: , consideraremos, no que se- n
gue, as raízes n-ésimas da unidade da forma w~, com 1 ~ k ~ n e II(X - wfi) = xn - 1.
mdc (k, n) = 1. Tais raízes são ditas primitivas, e é imediato que j=l

há exatamente cp( n) de tais raízes, onde cp : N --+ N é a função de


(b) Façamos indução sobre n EN, notando inicialmente que 1> 1 (X) =
Euler. Dados m, n E N, sempre que não houver perigo de confusão
X -1 E Z[X], por definição. Seja, agora, n > 1 natural e suponha, por
denotaremos seu mdc escrevendo simplesmente (m, n).
hipótese de indução, que 1>m E Z[X], para todo inteiro 1 ~ m < n.
Definição 8.13. Para n E N, o n-ésimo polinômio ciclotômico Se
é o polinômio g(X) = II 1>d(X),
1>n(X) = II (X - w~). (8.4)
l<d<n
dln
l<k<n
(k-:-nF=1 temos que g E Z[X] e, pelo item (a), xn - 1 = 1>n(X)g(X). Mas,
como g é mônico (pois já sabemos que cada 1>m o é), segue da obser-
Segue da definição acima que 1>n é momco e 81>n = cp(n). A
vação 2.11 que 1>n E Z[X].
proposição a seguir coleciona outras propriedades elementares de 1>n.

Proposição 8.14. Para n EN, temos: (e) Novamente por indução, temos primeiramente

(a) xn - 1 = I1o<dln 1>d(X).

(b) 1>n E Z[X]. de modo que 1> 2 (X) = X + 1 e 1> 2 (0) = 1. Seja, agora, n > 1 e
suponha, por hipótese de indução, que 1>m(O) = 1 para todo inteiro
(e) 1>n(O) = 1, para n > 1. 2 ~ m < n. Então, nas notações da prova de (b), temos

Prova. g(O) = 1>1(0) II 1>d(O) = (-1) II 1>d(O) = -1,


(a) Observe inicialmente que l<d<n l<d<n
dln dln

II 1>d(X) = II 1>njd(X) = II II (X - W~jd) e segue de xn - 1 = 1>n(X)g(X) que


O<dln O<dln O<dln l~k~n/d
(k,n/d)=l
-1 = 1>n(O)g(O) = -1>n(O),
= II II (X - w~k).
O<dln 19~n/d como desejado. D
(k,n/d)=l
204 Números Algébricos e Aplicações 8.2 Polinômios ciclotômicos 205

Corolário 8.15. Se p é primo, então Para o próximo resultado, lembre-se de que, se w é uma raiz n-é-
sima da unidade, então a proposição 8.3 garante que seu polinômio
<I>p(X) = xp-l + xp- 2 + ... + x + 1.
minimal Pw divide xn - 1 em Q[X]. Em particular, segue do problema
Prova. O item (a) da proposição anterior garante que 4, página 201, que Pw E Z[X].
Proposição 8.17. Sejam n, p E N tais que p é primo e p f n. Se w é
uma raiz n-ésima da unidade, então Pw(X) = PwP(X).
de sorte que
Prova. Seja ( = wP. Como w e ( são ambos raízes de xn - 1, o item
(b) da proposição 8.3 garante que Pw(X) e Pç(X) dividem xn - l. Por
contradição, suponha que Pw(X) # Pc;(X). Então, a irredutibilidade
o de tais polinômios garante, via teorema 7.15, que Pw(X)pc;(X) divide
xn - 1 em Z[X], digamos
O exemplo 7.29 mostrou que <I>P é irredutível sobre (Ql, de sorte
que <I>P é o polinômio minimal de wP. No que segue, nosso objetivo xn - 1 = Pw(X)pc;(X)u(X). (8.5)
é generalizar este fato, provando que, para todo n E N, o polinômio
minimal Pwn de Wn coincide com o n-ésimo polinômio ciclotômico <I>n. Se g(X) = Pç(XP), então
Precisamos, inicialmente, do seguinte resultado auxiliar.
g(w) = Pc;(wP) = Pc;(() = o
Lema 8.16. Sejam f, g E Z[X] e p E N um número primo. Se
e, daí, Pw divide g em Z[X]. Seja v E Z[X] tal que Pw(X)v(X) = g(X).
g E Zp[X] \ Zp e g
2 17 em Zp[X], então g I f' em Zp[X].
Em Zp[X], temos pelo problema 6, página 178, que
Prova. Se h E Z[X] é tal que f(X) = g(X)2"Fi(X) em Zp[X], sabemos
que existe um polinômio l E Z[X] tal que
e o teorema 7.20 garante a existência de um polinômio mônico e irre-
f(X) = g(X) 2 h(X) + pl(X)
dutível h E Zp[X] tal que h(X) 1 Pw(X),Pc;(X) em Zp[X]. Segue de
em Z[X]. Derivando ambos os membros dessa igualdade, obtemos (8.5) que h(X) 2 1 (Xn - I) em Zp[X], e o lema anterior garante que
h(X) nxn-l em Zp[X]. Mas, como h é mônico e n # O, aplicando no-
1

J'(X) = 2g(X)g'(X)h(X) + g(X) 2 h'(X) + pl'(X) vamente o teorema 7.20 obtemos 1 ::S: l ::S: n-1 tal que h(X) = xt em
Zp[X]. Logo, h(X) f (Xn-I) em Zp[X], o que é uma contradição. D
em Z[X] e, daí,
Chegamos finalmente ao resultado desejado.
f'(X) = g(X)(2 g'(X)h(X) + g(X)h'(X))
Teorema 8.18. Se Wn = eis 2; , então Pwn <I>n. Em particular,
i!
! D <I>n E Z[X] é irredutível sobre Q[X].
206 Números Algébricos e Aplicações 8.2 Polinômios ciclotômicos 207

Prova. Tome k E N tal que k > 1 e mdc (k, n) = 1, e seja k === a = ynpI ... Pk temos, módulo a, que
PI ... pz, com PI, ... , pz primos que não dividem n. Repetidas aplica-
<I>n(a) <I>n(O) = 1 (moda).
ções da proposição anterior nos dão
Seja, então, <I>n(a) = aq + 1 = ynpI ... pkq + 1. Se p for um fator
primo de <I>n(a), temos p =/:.PI, ... ,Pk e mdc (p, n) = l. Portanto, se
provarmos que p _ 1 (mod n), seguirá que pé um primo em nossa PA,
Em particular, os cp(n) números w!, com 1 ::; k::; n e mdc (k, n) = 1,
são raízes distintas de Pwn, de maneira que diferente de PI, ... , Pk.
Para o que falta, note que mdc (p, a) = 1, de modo que podemos
considerar t := ordp(a). Como p 1 <I>n(a) e <I>n(a) 1 (an - 1) (pois
<I>n(X) 1 (Xn - 1) em Z[X]), vem que an 1 (modp) e, daí, t I n.
Mas, como <I>n é mônico de coeficientes inteiros e tem Wn por raiz, a Se mostrarmos que t = n, seguirá das propriedades da ordem e de
definição de polinômio minimal garante que Pwn = <I>n· D ap-I - 1 (modp) que n 1 (p - 1) ou, o que é o mesmo, p _ 1 (mod n).
Se e E {a,a + p}, segue de at _ 1 (modp) que ct 1 (modp).
Terminamos esta seção provando um caso particular do teorema
Suponha, por contradição, que t < n. A proposição 8.14, juntamente
de Dirichlet sobre primos em progressões aritméticas. Esse teorema
com o fato de que t I n, nos dá
afirma que uma progressão aritmética não constante e infinita de nú-
meros naturais contém uma infinidade de números primos, contanto
que sua razão e seu primeiro termo sejam relativamente primos. Em O<dln O<d<n
dln
que pese o teorema de Dirichlet ser uma generalização natural do te-
orema de Euclides da infinitude dos primos (este último provado na = <I>n(c)h(c) IJ <I>d(c)
O<dlt
seção 1.3 de (14]), as provas conhecidas desse resultado estão fora do
alcance da maior parte dos currículos de graduação em Matemática. = <I>n(c)h(c)(ct - 1),
Todavia, a teoria de polinômios ciclotômicos desenvolvida acima nos onde h E Z[X] é um polinômio apropriado. Mas, como e a (modp),
permite apresentar uma demonstração elementar do teorema de Di- segue que
richlet, no caso particular em que o primeiro termo da progressão é <I>n(c) - <I>n(a) O(modp),
igual a 1.
de maneira que
Teorema 8.19 (Dirichlet). Se n EN, então a PA l, 1 +n, 1 + 2n, ...
cn - 1 = <I>n(c)h(c)(ct - 1) - O(modp2 ).
contém infinitos números primos.
Por outro lado,
Prova. Sejam PI, ... ,Pk primos quaisquer e <I>n o n-ésimo polinô-
mio ciclotômico. Como <I>n é mônico, escolhendo um inteiro y su-
ficientemente grande, temos <I>n(ynpI .. ·Pk) > 1. Agora, fazendo
1

!' !

: 1
li' l!
208 Números Algébricos e Aplicações 8.3 Números transcendentes 209

e (pelos cálculos acima) tanto (a+pt-1 quanto an-1 são múltiplos de 8. Sejam a, b E Z tais que, para cada n E N, existe um inteiro e
p 2 . Portanto, olhando a última igualdade acima módulo p 2 , concluímos para o qual n 1 (c 2 +ac+b). Prove que a equação x 2 +ax+b = O
que tem raízes inteiras.

o que é um absurdo. D
8.3 Números transcendentes
Para uma discussão autocontida da prova do caso geral, sugerimos
ao leitor as referências [37] ou [51). Como foi dito no início da seção 8.1, números transcendentes são
precisamente os números complexos que não são raízes de polinômio
não nulo algum com coeficientes racionais. Contudo, até esse ponto
nem mesmo sabemos se tais números existem.
Problemas - Seção 8.2
Uma maneira possível de estabelecer a existência de números trans-
1. Sendo p primo e k natural, calcule explicitamente o polinômio cendentes (mesmo reais) é começar mostrando que o conjunto A dos
<I>pk· números algébricos (reais) é enumerável, i.e., que seus elementos po-
dem ser listados como os termos de uma sequência (xn)n~l, de modo
2. Se n > 1 é um inteiro par, mostre que <I>2n(X) = <I> 2n(-X). que A= {x 1 ,x 2 ,x 3 , ... }; então, mostra-se que o conjunto lR não é
enumerável, de forma que lR \ A é necessariamente não vazio. Não
3. Se m e n são naturais distintos, prove que <I>m e <I>n não têm
seguiremos esse caminho aqui, uma vez que ele requeriria que desen-
fatores não constantes comuns em C[X].
volvêssemos os resultados básicos sobre conjuntos enumeráveis, bem
4. Se n > 1 é natural e d é o produto dos fatores primos distintos como que estabelecêssemos a não enumerabilidade do conjunto dos
de n, mostre que reais, e isso nos desviaria bastante do fio condutor deste volume. Para
<I>n(X) = <I>d (xnfd). o leitor interessado, sugerimos [26] ou (39).
Em vez de seguir a estratégia delineada no parágrafo anterior, apre-
. t o { 1, 21 , 31 , 41 , . . . } cont,em vanas
5. O conJun , . progressoes
- an"t me't"1- sentamos a construção (explícita) do primeiro número transcendente
cas. Prove que, dado k > 2 inteiro, esse conjunto contém uma descoberto, devida ao matemático francês do século XIX J. Liouville.
progressão de k termos que não está contida em uma progressão Nossa apresentação segue o maravilhoso clássico (19).
de k + 1 termos do conjunto.
Para o que segue, dizemos que um número algébrico a tem grau
6. Sejam a, n EN, sendo a> 1 e n ímpar. Prove que a congruência n se seu polinômio minimal Pa tem grau n; em particular, se n > 1,
!
! xn - a (modp) tem solução para uma infinidade de primos p. então é claro que a é irracional. . Precisamos introduzir mais uma
1
' nomenclatura: dizemos que uma propriedade P(k), dependente de um
11
'i' 7. Seja a EN não quadrado perfeito. Prove que há infinitos primos natural k, é verdadeira para todo k suficientemente grande se existe
1.,
:1 p tais que a não é resíduo quadrático, módulo p. k0 E N tal que P(k) é verdadeira sempre que k > k0 ; ademais, se
'I
210 Números Algébricos e Aplicações 8.3 Números transcendentes 211

k
um valor específico de k0 for irrelevante no contexto sob discussão, Como ak --+ a, temos lak - ai < 1 para todo k » 1. Utilizando
escreveremos simplesmente que P(k) é verdadeira para todo k » 1. a desigualdade triangular, concluímos que
Estamos finalmente em posição de enunciar e provar o teorema de
Liouville. (8.8)
Teorema 8.20 (Liouville). Seja a E C um número algébrico de grau
para todo k » 1 e, daí, (8. 7) e (8.8) fornecem
n > 1. Se (Pk)k?.l e (qk)k?.l são sequências de inteiros não nulos tais
.
que 1Imk---++oo Pk t-
qk = a, en ao

la_Pkl
qk
> _1
q~+l'
(8.6)
1:.(~·~1 = t.
n
la;l(la,IH + la,l;-,lal + · · · + lalH)

para todo k » 1. : : ; L lail ( (1 + lal)j-l + (1 + lal)1- 2lal + · · · + lalj-l)


j=l
Prova. Seja ak = Pk.
qk
Como ak ~ a, temos que qk ~ +oo. Como n

a é algébrico de grau n > 1, existe f E Z[X] \ {O} de grau n e tal que < LJlail((l + la1)1- 1 ,
f(a) = O, digamos, j=l
f(X) = anXn + · · · + a1X + a0 , para todo k » 1, onde
com a0,a1, ... ,an E Z. n

Agora, observemos que e== I:j1aj1((1 + 1a1f-1


j=l
depende somente de a, e não de k.
1
n Então, para todo k » 1 (escolhido de forma tal que lak - ai < 1),
temos
j=l
1 n . .
::::; I
~ 1ªi 1 · 1a{ - aJ 1,
ak-a I · "'"""" k
j=l Agora, uma vez que qk --+ +oo, temos lak - ai < 1 e qk > C para
onde utilizamos a desigualdade triangular na última passagem acima. todo k » 1, de forma que -01 > _1._
qk
e, portanto,

I 1
Portanto, um pouco de álgebra elementar fornece
1 !
1 !
a - Pk 1
- > -lf(ak)I,
fk(a_ka) 1
: : ; Ln lail. ia{
1 - ail1
'i !
qk qk
I a

j=l ak-a
n (8.7) para todo k » 1.
= L lail ·lati+ a{-2a + ... +ai-li· Como passo final, observe que se f(ak) = O, então teríamos f(X) =
j=l (X - ak)g(X) para algum g E Z[X] \ {O} de grau n-1. Como a=/= ak
213
212 Números Algébricos e Aplicações 8.3 Números transcendentes

(pois a é irracional), concluímos que a seria raiz de g contrad· d para todo k » 1. Por outro,
f t d 1. A • 1zen O O
,

a O o po mom10 minimial de a ter grau n · Logo , f( ªk ) .../..


r 0 e, assim.
la - akl = ""°" a·
LJ l~il <
1
10(k+I)I · 9, 999 ... = 1
10(k+I)l-l'
j>k
1/(ak)I =an(::)n +···+a1 (::) +ao
1 Portanto, para k » 1 teríamos
= qk lanPk + · · · + a1pkqk-l + a0 qkl
1 1
>__!_ 10(k+l)l-l > (10kl) n+I
- qk
e, daí, (k + 1)! - 1 < k!(n + 1). Contudo, essa última desigualdade
Finalmente, combinando essa última desigualdade com a ant .
a ela, obtemos (8.6). enor equivale a
D· k!(k - n) < 1,
- O exemplo a seguir, também devido a Liouville, traz uma aplica- que é falsa para k 2:: n + 1.
çaodengenhosa do teorema anterior à construça-o , de n·u'meros . t rans- Finalmente, uma vez que a hipótese de que a é algébrico leva
cen e~tes. Para u~a apreciação adequada do mesmo, o leitor precisa a uma contradição, não temos alternativa além de concluir que a é
p~~smr uma relativa familiaridade com manipulações aritméticas de transcendente. D·
senes convergentes, no nível do capítulo 3 de [12].
Terminamos recordando que, em [12], mostramos que os números
Exemplo
, 8.21
l (Liouville). Se ª1 ' a2 ' a3 ' ... E {1 , 2, 3, · · · , 9} , en t-ao o e e 1r são irracionais. Contudo, métodos mais refinados de Análise real
numero rea permitem mostrar que tais números são transcendentes. Ambos tais
ª1 a2 a3
a= - + 1031 + . . . .
- +1021
1011 fatos foram estabelecidos ainda no século XIX, sendo devidos ao ma-
temático francês C. Hermite e ao matemático alemão F. Lindemann,
é trancendente.
respectivamente. Para o leitor interessado, recomendamos [26].
Prova.
. . Suponha . . que a fosse algébrico , de grau n > 1 ('""'
'-" e, c1arament e Exemplo 8.22. Admitindo a transcendência dos números e e 1r, os
irracional - veJa o problema 1). Para k 2:: 1, seja
teoremas 8.9 e 8.12 permitem justificar a transcendência de vários
k números complexos. Por exemplo, o número 1r + v'2 é transcendente,
ªk = L
.

_J
10il
= p
_k_
10kl' posto que, se fosse algébrico, teríamos
J=l
1í = (1r + v'2) - v'2,
com Pk EN. Então, por um lado, segue do teorema de Liouville que
também algébrico, por ser uma diferença entre dois números algébri-
la- akl > 1
(10k1r+l' cos.
214 Números Algébricos e Aplicações

Problemas - Seção 8.3

1. Prove que o númbero a do Exemplo 8.21 é irracional (esse fato


foi utilizado na discussão do exemplo).

2. Assumindo a transcendência de e e de 1r, prove diretamente (i.e.,


sem apelar para o teorema 8.9) que os números 1r + J2 e e+ .J3 CAPÍTULO 9
também são transcendentes.

3. Se a E C é transcendente e n EN, prove que y'a e an também


são transcendentes.

Recorrências Lineares

Neste capítulo final, completamos o trabalho iniciado na seção 4.3


de [10], mostrando como resolver uma recorrência linear de coeficientes
constantes e ordem qualquer. Precisamos, inicialmente, de duas defi-
nições, as quais se revelarão centrais para tudo o que segue.
Definição 9.1. Uma sequência (an)n2'.l é dita recorrente linear, se
existirem um inteiro positivo k e números complexos u 0 , ... , uk-I, nem
todos nulos, tais que

(9.1)
!
1'
~
1

para todo n 1.
O natural k é denominado a ordem da recorrência linear e a equa-
ção (9.1) é a relação de recorrência ou, simplesmente, a recorrên-
cia satisfeita pela sequência. Neste caso, (an)n2'.l é também denomi-
nada uma recorrência linear de ordem k.

215
216 Recorrências Lineares 9.1 Um caso particular importante 217

Dados a1, ... , ak E C, é imediato verificar que há exatamente uma onde x 1 , ... , Xk é a solução do sistema de Vandermonde
sequência (an)n2'.l satisfazendo (9.1) e tal que ªi = ai, para 1 :::; j:::; k.
Portanto, uma recorrência linear de ordem k fica totalmente deter- X1 + X2 + · · · + Xk
minada quando conhecemos a relação de recorrência linear por ela zix1 + Z2X2 + · · · + ZkXk
satisfeita e os valores de seus k primeiros termos. Z~X1 + Z~X2 + · · · + Z~Xk (9.3)

Definição 9.2. Seja (an)n2'.l uma sequência satisfazendo a recorrência


linear
an+k = Uk-lan+k-1 + · · · + Uoan, Prova. Como z1 , z2 , .•• , Zk são dois a dois distintos, a proposição 6.6
garante a existência de uma única solução x 1 , x 2, ... , xk do sistema
para n 2: 1, onde uo, ... , uk-l são números complexos dados, nem
(9.3). Podemos, pois, definir a sequência (bn)n2'.l pondo
todos nulos. O polinômio característico de (an)n2'.l é o polinômio
f E C[X] dado por bn = n-1
Z1 X1 + Z2n-1 X2 + · · · + Zkn-1 Xk, w
V n >
_ 1.
"(9.2) Então, para 1 :::; j :::; k, o sistema (9.3) fornece

9.1 Um caso particular importante


Por outro lado, sendo f o polinômio característico de (an)n2'.I, segue
Discutimos, inicialmente, o caso em que as raízes do polinômio
da definição dos bi 's que
característico da recorrência são duas a duas distintas; apesar da li-
mitação envolvida, este caso é bem mais simples que o caso geral e bn+k - Uk-lbn+k-1 - """ - Uobn =
encontra muitas aplicações interessantes. O resultado de interesse é o k k k
conteúdo do teorema a seguir. """'zi:i,+k-lx · - uk -L.....tJ 2
1 """'zi:i,+k- x · - · · · - u 0 """'zi:i- 1x ·
L.....!J J J L.....!J J
j=l j=l j=l
k
Teorema 9.3. Seja (an)n2'.1 uma sequência satisfazendo, para todo
n 2: 1, a relação de recorrência L z7- 1xi(zj - Uk-1zJ- 1 - · · · - uo)
j=l
k

L z7- 1xif(zi) = O.
j=l
onde uo, ... , uk-1 são números complexos dados, nem todos nulos.
Se as raízes complexas z1 , z 2, ... , zk do polinômio característico de Portanto, a sequência (bn)n2'.l satisfaz a mesma recorrência linear
(an)n2'.1 são todas distintas e ªi = ªi para 1 :::; j :::; k, então que (an)n2'.l e seus k primeiros termos coincidem, respectivamente, com
os k primeiros termos da sequência (an)n2'.l· Logo, uma fácil indução
garante que an = bn para todo n 2: 1, conforme desejado. D
218 Recorrências Lineares 9.1 Um caso particular importante 219

O exemplo a seguir mostra que não necessariamente precisamos co- o teorema 9.3 garante a existência de constantes reais A, B, C e D
nhecer explicitamente as raízes do polinômio característico para apli- tais que
car o resultado do teorema anterior a fim de obter informações rele- Xn = Aan-l + Bbn-l + Ccn-l + D, Y n 2:: l. (9.5)
vantes acerca do comportamento de uma dada recorrência linear. Para sabermos o que ocorre quando n ---+ +oo, note inicialmente
que g(-l)g(O) = -1 < O e, assim, o teorema de Bolzano 5.2 garante
Exemplo 9.4 (Crux). Seja A 1 A 2 A 3 A 4 o quadrado de vértices A1 =
que -1 < a < O. Portanto, as relações (9.4) fornecem
(O, 1), A2 = (1, 1), A3 = (1, O) e A 4 = (O, O). Para cada n 2:: 1,
seja An+4 o ponto médio do segmento AnAn+l · Prove que, quando 1 = a(b + c) + bc = a(-1 - a)+ bb,
n ---+ +oo, a sequência de pontos An converge para um ponto A e
de modo que lbl 2 = a(a + 1) + 1 < 1. Mas, como lbl = lei, segue que
calcule as coordenadas de tal ponto.
lbl = lei < 1. Então, a relação (9.5), juntamente com o resultado do
Prova. Para cada n 2:: 1, seja An(xn, Yn)· A condição do enunciado, exemplo 9.8, garante que
juntamente com a fórmula para as coordenadas do ponto médio de um lim Xn = D.
segmento (veja o corolário 6.2 de [11]), garante que n--++oo
A fim de calcular o valor de D, recorde que X1 = X4 = O e X2 =
2Xn+4 = Xn+1 + Xn, Y n 2:: 1, x 3 = 1. Portanto, fazendo sucessivamente n = 1, 2, 3 e 4 em (9.5),
obtemos o sistema linear
valendo uma recorrência análoga para a sequência (Yn)n::::i·
A+B+C+D 1
O polinômio característico da recorrência acima é
Aa+Bb+Ce+Dd o
f(X) = 2X4 - X - 1 = (X - l)g(X), Aa2 + Bb2 + Cc2 + Dd2 o
Aa3 + Bb3 + Ce3 + Dd3 1
onde g(X) = 2X 3 + 2X 2 + 2X + 1. Se a, b e c são as raízes complexas Multiplicando as três últimas equações por 2 e somando membro a
de g, segue das relações de Girard que membro as quatro igualdades resultantes, chegamos a
a+b+c= -1 e ab+ac+bc= 1. (9.4) Ag(a) + Bg(b) + Cg(e) + 7D = 3.
Portanto, Mas, uma vez que a, b e e são as raízes de g, segue que 7D = 3 ou,
:

! ainda, D=~·
i
'. 'i a2 + b2 + c2 =(a+ b + c)2- 2(ab + ac + bc) = (-1)2- 2 · 1 = -1 < O, De modo análogo, provamos que limn--++oo Yn = ~ e, assim,

de sorte que, pelo exemplo 4.7 e problema 2, página 74, podemos


supor que a é real e b e c são complexos não reais, conjugados. Em
particular, a, b e c são dois a dois distintos e, como 1 não é raiz de g, D
220 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em C 221

Problemas - Seção 9.1 Exemplo 9.5. Para todos a E (C e R > O o disco aberto D(a; R) é
um conjunto aberto e o disco fechado D( a; R) é um conjunto fechado.
1. Seja A 1 A2A3 o triângulo do plano cartesiano de vértices A1 (0, O),
A 2 (1, O) e A3 (!,O). Para cada n 2: 1, seja An+3 o baricentro do Prova. Escolhido arbitrariamente z E D(a; R), seja r = R - lz - ai.
triângulo AnAn+1An+2· Se An(Xn, Yn), mostre que Xn ---+ 1~ e Então, r > O e afirmamos que D(z; r) C D(a; R) (veja a figura 9.1), o
Yn---+1 quando n---+ +oo. que será suficiente para garantir que D(a; R) é aberto.

2. Se a é a maior raiz positiva do polinômio X 3 - 3X 2 + 1, mostre


que os números la 1788 J e la 1988 J são, ambos, múltiplos de 17.

9.2 Sequências, séries e continuidade em CC


Nesta seção, estendemos algumas definições e resultados dos capí-
tulos 3 e 4 de [12] a funções com valores complexos. Observamos que
o material aqui apresentado (mais precisamente, o teorema 9.19) foi
utilizado na prova do teorema fundamental da álgebra, na seção 3.3,
e será de fundamental importância para a discussão do material da
seção 9.3.
Dados a E C e R > O, denotamos por D(a; R) o disco aberto de
Figura 9.1: todo disco aberto é um conjunto aberto.
centro a e raio R, i.e., o subconjunto de (C dado por

D(a; R) = {z E C; lz - ai < R}. Para o que falta, tome w E D(z; r). Pela desigualdade triangular,
Analogamente, o disco fechado de centro a e raio R é o subconjunto temos
D(a; R) de C, dado por
lw - ai = l(w - z) + (z - a)I ::; lw - zl + lz - ai
D(a; R) = {z E C; lz - ai ::; R}. ::; r + lz - ai = R
1
ii
ti
Um conjunto U C (C é aberto se, para todo a E U, existir R > O e, daí, w E D(a; R). Mas, como tal sucede com todo w E D(z; r),
I: tal que D(a; R) e U. Um conjunto F e (C é fechado se Fc = C\F for concluímos que D(z; r) e D(a; R), conforme desejado.
1:
aberto. É imediato que 0 e (C são subconjuntos abertos de (C (no caso
1

Para a segunda parte, é suficiente mostrar que U = (C \ D(a; R) é


de 0, não há como a condição exigida pela definição não ser satisfeita, aberto. Para tanto, tome z E U e seja r = lz - ai - R. Então, r > O
uma vez que não existe z E 0); portanto, (C = C\0 e 0 = C\C também e, como no primeiro caso, mostramos facilmente que w E D(z; r) =?-
são fechados. Colecionamos, a seguir, um exemplo menos trivial. w EU, de sorte D(z; r) e U. Logo, Ué, realmente, aberto. D
222 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em (C 223

Voltemo-nos, agora, às sequências de números complexos, Prova.


<lendo, às mesmas, o conceito de convergência. (a) Se z -=J. w, então E= lz - wl > O. Mas, como ! ainda é positivo e
Zn--+ z e Zn --+ w, existem naturais n1 e n2 tais que lzn - zl < ! para
Definição 9.6. Dizemos que uma sequência (zn)n~I em <C converge
n > n1 e IZn - w 1 < ! para n > n2. Portanto, tomando um índice
para um limite z E <C, e denotamos Zn --+ z ou limn-++oo Zn = z, se a
n > n 1 , n 2 e aplicando a desigualdade triangular, obtemos
seguinte condição for satisfeita:
lz - wl = l(z - Zn) + (zn - w)I :=::; lz - Znl + lzn - wl
',!E > O, :l no E N; n > no =} Zn - z 1 <
1 E. E E
< 2 + 2 =E= lz - wl,
Heuristicamente, o cumprimento da condição estipulada pela de-
finição acima significa que, à medida que n --+ +oo, os termos Zn se o que é uma contradição. Logo, z = w.
aproximam cada vez mais de z. Realmente, a definição dada estipula
que a sequência (zn)n~I converge para z E <C se, dado arbitrariamente (b) Dado E> O, a convergência de (zn)n~I para z garante a existência
um raio E > O, existir um índice n 0 E N tal que os termos Zn, para de no EN tal que lzn - zl < E, para n > no. Agora, como n1 < n2 <
n > n 0 , pertençam todos ao disco aberto D(z; e). n 3 < · · ·, existe k 0 E N tal que k > k 0 =} nk > n 0 . Portanto, para
Para o que segue, definimos uma subsequência (znk)k~ 1 de uma tais valores de k, temos lznk - zl < E, de sorte que (znk)k~I também
sequência (zn)n~I como a sequência obtida pela restrição de (zn)n~I converge para z. D
a um subconjunto infinito { n 1 < n 2 < n 3 < · · · } de índices; de um Graças ao item (a) do lema anterior, se uma sequência (zn)n~I em
ponto de vista mais rigoroso, (znk)k~I é a sequência f o g : N --+ <C, (C converge para z E <C, diremos, doravante, que zé o limite de (zn)n>I·
onde f : N --+ <C e g : N --+ N são dadas por J(n) = Zn, para todo Para os propósitos destas notas, um dos exemplos mais importan-
n EN, e g(k) = nk, para todo k EN. tes de sequência convergente é o isolado a seguir. A esse respeito, veja
O resultado a seguir encerra duas propriedades fundamentais do também o problema 2.
conceito de convergência de sequências de números complexos. O item
(a) do mesmo garante que os termos de uma sequência convergente não Exemplo 9.8. Se lzl < 1 e Zn = zn, para todo n ~ 1, então (zn)n>I
podem se aproximar de dois limites distintos. converge para O.

Lema 9. 7. Seja (zn)n>I uma sequência em <C. Prova. Inicialmente, observe que lzn - OI = lznl = lzln. Agora, se
(an)n~I é a sequência de números reais dada por an = lzln, para n ~ 1,
(a) Se Zn--+ z e Zn--+ w, então z = w. então o exemplo 3.3 de [12] garante que an--+ O. Portanto, dado E> O,
existe n 0 E N tal que O ::::; an < E, para n > no. Assim, para n > no,
(b) Se (znk)k~I é uma subsequência de (zn)n>I e Zn --+ z, então
temos lzn - OI = an < E, de sorte que Zn--+ O. D
Znk --+ z.
Dada uma sequência (zn)n~I de números complexos, podemos es-
crever Zn = Xn + iyn, para todo n ~ 1, com Xn, Yn E IR. O próximo
224 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em <C 225

resultado relaciona a convergência da sequência (zn)n2':l em (C com as Se (zn)n2':l é urna sequência convergente em C, então (zn)n2':l é de
convergências das sequências (xn)n2:1 e (Yn)n2:1 em IR. Cauchy. De fato, se Zn --+ z e E > O é dado, então existe n 0 E N tal
que fzn - zf < ~' para todo n > no. Portanto, param, n > n 0 , segue
Lema 9.9. Seja (zn)n2:1 uma sequência de números complexos, com da desigualdade triangular para números complexos que
Zn = Xn + iyn, para todo n 2: 1, onde Xn, Yn E IR. Então, (zn)n>i E E
converge em C se, e só se, (xn)n2:1 e (Yn)n2:1 convergem em IR. Ad~- lzm - z n f <
_ fz m - zf + lz - zn f < 2 + -2 =
_ - E.

mais, se Xn --+ a e Yn --+ b, para certos a, b E IR, então Zn --+ z, onde


Reciprocamente, ternos o seguinte resultado.
z =a+ ib.
Proposição 9.11. (C é completo. Mais precisamente, se (zn)n>l é
Prova. Suponha, primeiramente, que Zn --+ z, onde z =a+ ib, com
uma sequência de Cauchy em C, então (zn)n2:i converge.
a, b E IR, e seja dado E > O. Corno
Prova. Seja Zn = Xn +iYn, com (xn)n2:1 e (Yn)n2:1 sequências de núme-
ros reais. Dado E > O, torne n 0 E N corno na definição de sequência de
Cauchy. Corno fxm - Xnl ~ fzm - Znf, segue que (xn)n2:1 é de Cauchy
ternos fxn - af, fYn - bf < E se fzn - zf < E. Mas, corno Zn--+ z, existe
em IR. Portanto, o teorema 3.16 de [12] garante que (xn)n2':l é con-
no E N tal que n > no =} fzn - zf < E. Então, para cada um de
vergente, para x E IR, digamos. Analogamente, existe y E IR tal que
tais n, ternos realmente que xn - af, fYn - bf < E, o que estabelece as
f
Yn--+ y. Portanto, sendo z = x+iy, segue do lema 9.9 que Zn --+ z. D
convergências desejadas.
Reciprocamente, suponha que Xn --+ a e Yn --+ b, e seja dado E > O. Corno no caso real (tratado no capítulo 3 de [12]), dada urna
Corno sequência (zn)n2:1 de números complexos, definimos a série 1 Lk2':l zk
corno sendo a sequência (sn)n2:1, tal que sn = E;=l Zk, para todo
n EN. Também corno lá, dizemos que sn é a n-ésima soma parcial
da série, e que a série converge se existir o limite s := lirnn-++oo sn;
teremos fzn - zf < E se fxn - af, fYn - bf < f Mas, corno Xn --+ a
adernais, nesse caso dizemos que sé a soma da série em questão. Em
e Yn --+ b, existem n1, n2 E N tais que n > n1 =} fxn - af < ~ e
símbolos, escrevemos
n > n2 =} fYn - bf < f Se no= rnax{n1,n2}, então, para n > n 0 ,
n
ternos fxn - af, fYn - bf < ~ e, daí, fzn - zf < E, o que estabelece a
~ Zk lirn ~ Zk,
= n-Hoo6
convergência desejada. D 6
k2':1 k=l
Precisamos, agora, da definição a seguir. caso o limite do segundo membro exista.
Definição 9.10. Uma sequência (zn)n2':l em (C é de Cauchy se, dado
Ilustramos, a seguir, o exemplo de urna série convergente que será
E > O, existir n 0 E N tal que
de importância fundamental na próxima seção.
1 Por vezes, consideraremos uma sequência (zn)n>o de números complexos e a

m, n > no =} fzm - Znf < E. série correspondente Ek~o Zk·


,I,'

226 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em C 227

Exemplo 9.12. Se a E C\ {O}, mostre que, para z E D(O; 11), temos! Proposição 9.13. Em C, toda série absolutamente convergente é con-
vergente.

Antes de continuar, precisamos entender o que vem a ser uma


função contínua definida e tomando valores em um subconjunto de C.
Prova. Pelo lema 1.12, a n-ésima soma parcial da série do enunciado
é Definição 9.14. Dado um subconjunto não vazio X de C, dizemos
n 1 ( )n+l 1 (azr+l
"'(azt = - az que uma função f : X -+ C é contínua se a seguinte condição for
L...,; 1 - az 1- az 1- az
k=O satisfeita: para toda sequência (zn)n~I de pontos de X, se Zn -+ z,
!
Agora, para z E D(O; 1 1), temos lazl < 1, de sorte que, pelo exemplo com z E X, então f(zn)-+ f(z).
9.8, temos (azr-+ O quando n-+ +oo. Portanto, segue da igualdade
!
acima que, para z E D(O; 1 1), A proposição a seguir nos permitirá construir um exemplo de fun-
ção contínua de nosso interesse.
n 1 (azr+l· 1
"'(azt = lim "'(azt = - lim - · - Proposição 9.15. Se f, g : X -+ C são funções contínuas, então
L...,; n--++oo L...,; 1 - az n--++oo 1 - az 1 - az .
k~O k=O f + g, fg: X-+ C também são contínuas.
D
Prova. Seja dada uma sequência (zn)n~I em X, tal que Zn-+ z, com
Também de fundamental importância é o conceito de série abso- z E X. Observe inicialmente que, pela desigualdade triangular para
lutamente convergente, i.e., uma série Lk~o ak tal que a série real números complexos,
Lk>O lakl converge. Para n E N, sejam sn = L~=l ak e tn = L~=l lakl,
de ~rte que a sequência (tn)n~I converge. A desigualdade triangular l(f + g)(zn) - (! + g)(z)I = l(f(zn) - f(z)) + (g(zn) - g(z)I
para números complexos fornece, para m > n inteiros, ~ lf(zn) - f(z)I + lg(zn) - g(z)I.
m m
lsm~snl = L ak ~ L lakl =tm-tn. Agora, dado E> O, como f(zn) -+ f(z) e g(zn) -+ g(z), existe n 0 EN
tal que
k=n+l k=n+l
é

Agora, vimos no capítulo 3 de [12) que, como (tn)n~I converge, temos


n >no=} lf(zn) - f(z)I, lg(zn) - g(z)I < 2.
(tn)n~l de Cauchy; portanto, dado E > O, existe ko E N tal que m > Portanto, também para n > n 0 , segue dos cálculos acima que
n > ko =} tm - tn < E. Logo, também temos lsm - snl < E para
é é
m > n > k 0 , de sorte que (sn)n~o também é de Cauchy. Como vimos l(f + g)(zn) - (! + g)(z)I ~ 2 + 2 = E

na proposição 9.11 que toda sequência de Cauchy em (C é convergente,


o argumento acima prova o resultado a seguir. e, daí, (! + g)(zn) -+ (! + g)(z).
228 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em C 229

Para f g, e aplicando duas vezes a desigualdade triangular para contínua. Agora, aplicando várias vezes a primeira parte da proposição
números complexos, obtemos anterior, concluímos que a soma de tais funções, quando k varia de O a
n, também é contínua. Mas tal soma é, precisamente, a função f. D
l(f g)(zn) - (f g)(z)I = lf(zn)g(zn) - f(z)g(z)I
:::; lf(zn) - f(z)llg(zn)I + lf(z)llg(zn) - g(z)I
:::; lf(zn) - f(z)llg(zn) - g(z)I
Voltemo-nos, agora, á discussão de séries de potências em CC. Uma
+ lf(zn) - f(z)llg(z)I + lf(z)llg(zn) - g(z)I. série de potências em CC é uma série da forma 1:\:::::o akzk, onde
Como antes, dado E > O, tome n 0 E N tal que n > n 0 implique (an)n:::::o é uma sequência dada de números complexos.
Admita que a sequência ( -elía,Jh:::::o é limitada, digamos v1a,J < l,
lf(zn) - f(z)I < min { /%, 3(lg(z;I + l)} para todo k ~ O e algum l > O. Então, lakzkl :::; (lz)k para k ~ O, de
sorte que, pelo exemplo 9.12, a série Lk>o lakzkl converge em D(O; R),
e f.
lg(zn) - g(z)I < min { li, 3(lf(z;I + l)}. onde R = A proposição anterior g;rante, então, que a série de
potências Lk:::::o akzk converge em D(O; R). Abreviaremos a situação
descrita até aqui dizendo que D(O; R) é um disco de convergência para
Então, para n > n 0 , segue dos cálculos acima que
a série de potências em questão. Nosso próximo resultado garante que

l(f g)(zn) - (f g)(z)I :::; li· li+ 3(lg(z;I + 1) · lg(z)I


E
a função f: D(O; R) -+ CC assim definida é contínua. Por uniformidade
de notação, convencionamos que Lk:::::o akzk = a0 para z = O.

+ lf(z)I · 3(lf(z)I + 1)
E E E Proposição 9.17. Se D(O; R) é um disco de convergência para a série
<-+-+-=E
3 3 3 de potências Lk>o akzk, então a função f : D(O; R) -+ CC, dada para
e, daí, (f g)(zn)-+ (f g)(z). D z E D(O; R) por f (z) = Lk:::::o akzk, é contínua.

Exemplo 9.16. Dados n EN e ao, a1, ... , ªn-l, an E CC, com an -=/:- O,
a função polinomial f : CC -+ CC, tal que Prova. Sejam z, w E D(O; R) tais que lw - zl < HR - lzl). Então,
lwl < r, onde r = !(R + lzl) e, para k EN,

para z E CC, é contínua. lwk - zkl = lw - zl lwk-l + wk-2z + ... + wzk-2 + zk-ll
Prova. Evidentemente, as funções constantes e a função z M z são :::; lw - zl(lwlk-l + lwlk- 2lzl + · · · + lwllzlk- 2+ lzlk-l)
contínuas. Portanto, aplicando várias vezes a segunda parte da propo- :::; lw - zl(rk-l + rk-2. r + ... + r. rk-2 + rk-1)
sição anterior, concluímos que, para O :::; k :::; n, a função z M akzk é = krk-llw - zl.
230 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em C 231

Portanto, mantida a restrição acima sobre w, segue do problema 4 que Corolário 9.18. Sejam Í:k>o akzk e Í:k>O bkzk séries de potências
convergentes no disco aberto- D(O; R). s;
Í:k>o akzk = Ek>o bkzk,
lf(w) - f(z)I Lªkwk - Lªkzk = Lªk(wk - zk) para todo z E D(O; R), então ak = bk, para todo-k ~ O. -
k20 k20 k20
Prova. Avaliando a igualdade Ek 2o akzk = Ek 2o bkzk para z = O,
Lªk(wk - zk) ::; L iakllwk - zkl obtemos a0 = b0. Então, cancelando a0 = b0 em ambos os mem-
bros da igualdade Í:k>O akzk = Í:k>O bkzk, obtemos Í:::k>l akzk =
k21 k21

: ; ~ (L k21
klaklrk) lw - zl.
Í:::k>l bkzk, para z E D(O; R) e, daí, E~>l akzk-l = Í:::k>l bk~k-l, para
z E -D(O; R) \ {O}. Mas, como ambos os-membros da última igualdade
definem funções contínuas em D(O; R), concluímos que Ek>l akzk-l =
Ek 21 bkzk-l, para z E D(O; R). Então, avaliando essa última igual-
Agora, fixe um real e tal que 1 < e < ~ (tal é possível, uma vez
dade em z = O, obtemos a 1 = b1 . Prosseguindo dessa maneira, mos-
ti.
que r < R). Como {/i'a,;f < para k ~ O e 1;/k -+ 1 (de acordo com o
tramos indutivamente que ak = bk, para todo k ~ O. D
exemplo 3.12 de [12]), existe k0 EN tal que {lkía,J < fz, para k > k0.
D~, . Terminamos esta seção com um resultado que estende, para fun-
L klakirk < L (~) k ==e< +oo, ções contínuas f: D(a; R) -+ C, o teorema 3.14 de [12].
k2ko k2ko
Teorema 9.19 (Weierstrass). Se f : D(a; R) -+ C é uma função
uma vez que O< ~ < 1. Fazendo C' = E!: 1 klaklrk, segue que contínua, então existem Zm e ZM em D(a; R), tais que

lf(w) - f(z)I ::; ~ (tklaklrk) lw -


k=l
zl +~ (Lk>ko
klaklrk) lw - zl
e
lf(zm)I = min{lf(z)I; z E D(a; R)}

C' C
::; -lw - zl
r
+ -lw
r
- zl. lf(zM)I = max{lf(z)I; z E D(a; R)}.

Em resumo, mostramos que Prova. Seja (zn)n 21 uma sequência em D(a; R) tal que

1 J(zn)-+ sup{jf(z)I; z E D(a; R)}


lw - zl < 2(R- lzl) =* IJ(w) - f(z)I < Alw - zl,
(aqui, em princípio não excluímos a possibilidade de que tal sup seja
para alguma constante positiva A. Mas, sendo esse o caso, o problema
+oo). Ponha Zn = Xn + iyn, com Xn, Yn E R Como lznl ::; R para
7 mostra que Zn-+ z =* f(zn) -+ f(z), e a arbitrariedade dez garante
todo n ~ 1, temos IXn 1, 1Yn 1 ::; R, para todo n ~ 1. Pelo teorema
a continuidade de f. D
4.31 de [12], podemos tomar um subconjunto infinito N1 e N, tal que
O corolário a seguir mostra que, se uma função f : D(O; R) -+ C (xn)nENi converge para um certo x E R Daí, podemos tomar um
for dada por uma série de potências, então tal série é única. segundo subconjunto infinito N2 e N1 , tal que (Yn)nEN 2 converge para
232 Recorrências Lineares 9.2 Sequências, séries e continuidade em C 233

um certo y E R Mas, como (xn)nEl"b é uma subsequência de (xn)nENu Para o próximo problema, dizemos que uma sequência de núme-
temos que (xn)nEN2 ainda converge para x. ros complexos é divergente se não for convergente.
Fazendo ZM = x+iy, segue do lema 9.9 que (zn)nEN2 converge para
ZM, Portanto, segue do problema 1 que lzMI ::; R, i.e., ZM E D(a; R). 2. Se lzl > 1 e Zn = zn, para todo n 2: 1, mostre que a sequência
Invocando agora a continuidade de f, temos que (zn)n~l é divergente.

f(zM) = n--++oo
lim f(zn) = sup{l/(z)I; z E D(a; R)}. 3. * Se (zn)n~l e (wn)n~l são sequências em C, convergindo respec-
nEN2 tivamente para z e w, prove que:

Em particular, sup{l/(z)I; z E D(a; R)} = max{l/(z)I; z E D(a; R)}. (a) Se a E C, então azn--+ az.
A prova da primeira parte do teorema é análoga e será deixada
(b) Zn ± Wn --+ Z ± W.
como exercício para o leitor. D
(c) ZnWn--+ ZW.
Corolário 9.20. Se f : C --+ C é uma função polinomial, então, dado
R > O, existem Zm e ZM em D(a; R), tais que
(d) Se Wn,W # O, então Zn/Wn--+ z/w.

1/(zm)I = min{l/(z)I; z E D(a; R)}


4. * Se a, b E C e Lk~l zk e Lk~l wk são séries convergentes de
números complexos, mostre que Lk~ 1(azk+bwk) também é con-
e vergente, com
lf(zM)I = max{l/(z)I; z E D(a; R)}.

Prova. O exemplo 9.16 e o problema 6 garantem que 1/1 : C --+


[O, +oo) é uma função contínua. Portanto, também é contínua a fun-
ção 1/1 : D(a; R) --+ [O, +oo). Basta, agora, aplicar o teorema de 5. * Se 0 # X e Y e C e f: Y--+ C é uma função contínua, prove
Weierstrass. D que /1x : X --+ C também é contínua.

6. * Se 0 # X e C e f: X--+ C é uma função contínua, prove que


1/1 : X--+ [O, +oo) também é contínua.
Problemas - Seção 9.2 7. * Seja 0 # X e C e f : X --+ C uma função satisfazendo a
seguinte condição: para z E X, existem A, B > O (em princípio
1. * Se (zn)n~1 é uma sequência em C convergindo para z E C,
dependendo de z), tais que
prove que (zn)n~l é limitada, i.e., que existe M > O tal que
lznl < M, para todo n 2: 1. Ademais, se lznl ::; R, para todo
w E X, lw - zl < B => lf(w) - f(z)I < Alw - zl.
n 2: 1, mostre que lzl :SR.
Mostre que f é contínua.

i i
234 Recorrências Lineares 9.3 O caso geral 235

8. * Se a E <C \ {O} em EN, mostre que, para z E D(O; 1~1), temos para 1 S n < m, com m > k, então

+ · · · + U1am-k+l + Uoam-kl
1
(1 - az)m
= L (n +m m
-1
- 1) az
n n
·
laml = luk-Iªm-1
S luk-tllam-11 + · · · + lu1llam-k+1I + luollam-kl
n2'.0
S luk-1IRm-l + · · · + lu1IRm-k+l + luolRm-k
= Rm-k(luk-1IRk-I + · · · + lu1IR + luol).
9.3 O caso geral
Portanto, se g(X) = Xk - luk-1IXk-I - · · · - lu1IX - luol e Ro > O
De posse do material da seção anterior, podemos finalmente nos for tal que g(R) > O para R > Ro, então, para cada um de tais R's,
voltar à discussão do caso geral de (9.1), i.e., aquele em que as raízes temos pelos cálculos acima que
complexas do polinômio característico (9.2) não são necessariamente
distintas. Para tanto, nos valeremos da teoria de funções geradoras laml S Rm-k(luk-1IRk-I + · · · + lu1IR + luol)
(discutida no capítulo 3 de [13]), adequadamente estendida a séries de s Rm-k. Rk = Rm.
potências sobre C.
Basta, pois, escolhermos, de início, Ro > O tal que la1I, ... , lakl S Ro
O resultado fundamental é dado pelo teorema a seguir.
e g(R) > O, para todo R > R 0.
Teorema 9.21. Seja (an)n 21 uma sequência satisfazendo, para n 2: 1, Agora, fixe R > R 0 e seja
a recorrência linear F(z) = LªnZn.
n21
Como lanl S Rn para n 2: 1, o teste da comparação garante a con-
onde u 0, ... , uk-I são números complexos dados, com u 0 =/:- O. Sejam vergência de F no disco aberto D(O; i)
do plano complexo. Sejam
z1 , ... , z1 as raízes duas a duas distintas do polinômio característico f(X) = Xk - uk_ 1xk-I - · · · - u 1X - u 0 o polinômio característico
(9.2) de (an)n2 1, com multiplicidades respectivamente iguais a m 1 , ... , de (an)n21 e h(X) = -uoXk -u1xk-l _ ... -Uk-lx + 1 seu recíproco
mz. Então, para n 2: 1 temos (âh = k, uma vez que u 0 =/:- O). Para z E D(O; Ji), temos

h(z)F(z) = -(f j=O


UjZk-j) (Lanzn) + LªnZn
n21 n21
onde p 1 , ... ,Pz E <C[X] são polinômios de graus menores ou iguais a k-1
m 1 - 1, ... , mz - 1, respectivamente, os quais são totalmente deter- = - L L Ujanzn+k-j + L anzn
1
minados pelos valores de a 1 , ... , ak. j=O n21 n21
k-1
Prova. Afirmamos, inicialmente, que existe uma constante R 0 > O = - L L Ujªn-k+jZn + L anZn.
tal que lanl S Rn, para todos n 2: 1 e R > Ro. De fato, se lanl S Rn j=O n2'.k-j+l n21
236 Recorrências Lineares 9.3 O caso geral 237

Para j 2'.: 2, escreva segue de (9.1) que

k-1 -f L Ujan-k+jZn +L anZn = L (- f Ujan-k+j + an) Zn

L Ujan-k+jZn L Ujan-k+jZn + L Ujan-k+jZn j=2 n2::k n2::k n2::k j=2

n2::k-j+l n=k-j+l n2::k


(-f j=2
Ujaj + ak)
.
Zk + L (- f
n2::k+l j=2
Ujan-k+j + an) Zn

e analogamente para I:n2::l anzn. Obtemos


-(-f j=2
Ujaj + ak) zk + L (
n2::k+l
Uoan-k + u1an-k+1) zn.

h(z)F(z) L Uoan-kZn - L U1an-k+1Zn


Portanto,
n2::k+l n2::k
h(z)F(z) L Uoan-kZn - L U1an-k+1Zn

-f ( f Ujan-k+jZn + L Ujan:.....k+jZn) ·
n2::k+l n2::k

j=2
k-1
n=k-j+l n2::k
+ (- fj=2
Ujaj + ak) zk + L
n2::k+l
(uoan-k + u1an-k+1) zn
+ LªnZn + LªnZn k-1 k-1 k-1
n=l n2::k
-L L Ujan-k+jZn + LªnZn
L L
t
= - Uoan-kZn - U1ªn-k+1Zn j~n=k~+l n=l
n2::k+l
k-1
-L L
j=2 n2::k
Ujªn-k+jZn
n2::k

+L
n2::k
anzn
(ª• - u;a;) z• - t n=t+l u;a..-k+;Z" + ~ a,.z",
de sorte que
k-1 k-1 k-1
-L L Ujan-k+jZn + LªnZn. h(z)F(z) = zp(z)

j=2 n=k-j+l n=l para z E D(O; i), onde p E C[X] é um polinômio não nulo, de grau
ap::; k - 1.
Como h(O) = 1 =!= O, aumentando R, se necessário, podemos supor
Mas, como que h(z) =!= O para z E D(O; ~). Por outro lado, como

k-1 k-1
LL Ujan-k+jZn = LL Ujan-k+jZn'
temos
j=2 n2::k n2::k j=2
238 Recorrências Lineares 9.3 O caso geral 239

de sorte que Uma vez que an é o coeficiente de zn na série que define F, segue
F(z) = zp(z) (9.6) da última igualdade acima e do corolário 9.18 que
(1 - z1z)m 1 ••• (1 - zzz)mi'

para z E D(O; fi)·


Agora, observe que
_
an -
~ ~ d. (n +n.ni- -1
~ ~ Jnj
2) z.1
"!'_ 1
j=l nj=l .1

Portanto, aplicando à igualdade (9.6) a fórmula de decomposição em


=;; l mj

(n?:.; l)! (n + n; - 2){n + n; - 3) ... (n + l)nz;- 1


frações parciais (conforme o problema 6, página 163), concluímos pela l

existência, para 1 :S j :S l e 1 :S ni :S mi, de constantes djnj , unica- = LPi(n - l)zy- 1 ,


mente determinadas pelos coeficientes de p (e, portanto, por a 1 , a 2 , j=l

... , ak e uo, ui, ... , Uk-i), tais que


onde
l d·
F(z) = z "°' nj=l
~~
j=l
"°' (1-z·z
mj

Jnj ) . ,
.1
n1
(9.7)
p;(X) = ~ (n::; l)! (X+ n; - l){X + n; - 2) ... (X+ l)z;- 1

para z E D(O; fi)· = Cj,mj-lxmrl + · · · + Cj1X + Cjo,


Mas, ser= min{-h, 1; 11 , ••• , 1;z1 }, então o resultado do problema 8,
página 234, garante que um polinômio de grau menor ou igual a mi - 1. D

__
1_ =
(1-z·z)nj
"°' (n+nj
~ n·-1
- l)z"!'zn
3 '
A fim de apresentar uma aplicação relevante do teorema anterior,
.1 n~O .1 precisamos da seguinte definição.
para 1 :S j :S l, 1 :S ni :S mi e z E D(O; r). Portanto, segue de (9.7)
Definição 9.22. Sejam dados uma sequência (an)n~l e um inteiro
que, para lzl < r,
m > 1. Dizemos que (an)n~l é uma

(a) PA de ordem 1 se (an)n~l for uma PA.

(b) PA de ordem m se a sequência (bn)n~l for uma PA de ordem


m - 1, onde bn = an+l - an, para n 2:: 1.
11 1
O lema a seguir caracteriza PA's de ordem m por meio de uma
recorrência linear que generaliza a recorrência satisfeita pelas PA's
ordinárias.
240 Recorrências Lineares 9.3 O caso geral 241

Lema 9.23. Uma sequência (an)n:2'.:l é uma PA de ordem m se, e só Reciprocamente, seja (an)n:2:: 1 uma sequência para a qual vale (9.8).
se, Se m = 1, então ªn+2 - 2an+l + an = O para n 2 1, de sorte que
(an)n:2::i é uma PA. Por hipótese de indução, suponha que a validade
( m+l)
O an+m+l - (m+l)
l an+m + · · · + (-1 )m+l(m+l)
m + l an = O, de (9.8) para m = k - 1 acarreta que (an)n:2::1 é uma PA de ordem
(9.8) k - 1. Considere, então, uma sequência (an)n:2::1 que satisfaz (9.8) para
para todo n 2 1. m = k, i.e., tal que

Prova. Inicialmente, seja (an)n:2::1 uma PA de ordem m. Sem = 1, (k; 1 )an+k+l - .(k; 1)an+k + · · · + (-ll+l (:: ~)an = O,
então (an)n:2'.:l é uma PA e (9.8) se reduz a an+2 - 2an+l + an = O para
para n 2 1. Então, utilizando a relação de Stifel, juntamente com
n 2 1, relação que sabemos ser sempre satisfeita por uma PA. Por
as igualdades (k't 1) = (~) e (!!~) = (!), reobtemos sucessivamente as
hipótese de indução, suponha que (9.8) é válida quando m = k - 1.
relações (9.11), (9.10) e (9.9), para n 2 1. Portanto, segue da hipótese
Para m = k, a sequência (bn)n:2::1, dada por bn = ªn+i - an é, por
de indução que a sequência (bn)n:2'.:l é uma PA de ordem k-1, de sorte
definição, uma PA de ordem k - 1. Portanto, segue da hipótese de
que, por definição, (an)n:2::1 é uma PA de ordem k. D
indução que
Podemos, finalmente, apresentar a aplicação prometida do teorema
9.21.
Exemplo 9.24. Se (an)n:2'.:l é uma PA de ordem m, então (9.8) vale
para todo n 2 1, ou, ainda,
para todo n 2 1, de sorte que o polinômio característico de (an)n:2::1 é

(~) (an+k+l - an+k) - (~) (an+k - an+k-1) + ···


(9.10)
f(X) = (m; l)xm+i _ (m t l)xm + ... + (-l)m+l (:: ~)
= (X - l)m+l.
· · · + (-ll (:) (an+l - an) = O,
Pelo teorema 9.21, existem constantes ao, ai, ... , am tais que
para todo n 2 1. Mas, isso é o mesmo que
an =ao+ a1(n - 1) + · · · + am(n - l)m,
para todo n 2 1. Avaliando a relação acima para n = 1, obtemos
ªº n
= a1; avaliando-a para = 2, ... ' m + 1, obtemos a i , . . . ' am
·. Ii como soluções do sistema linear de equações
a1 +a2 + · · · + am
2a1 + 22a2 + · · · + 2mam
A partir daí, a relação (9.8) para m = k segue da relação de Stifel,
.
Juntamente com o fato de que (k)
O =
(k+l)
0 k -- (k+l)
e (k) k+l ·
242 Recorrências Lineares

Observe que o fato de um tal sistema linear de equações sempre admitir


uma única solução é uma decorrência imediata do teorema 9. 21.

Problemas - Seção 9.3


CAPÍTULO 10
1. Seja k um natural dado e (an)n~l uma sequência tal que
1
an = 2(an-k + an+k),
para todo natural n > k. Use o teorema 9.21 para mostrar que
Soluções e Sugestões
k
an = L)Aj + (n - l)Bj)wi-1.,
j=l

para todo n ~ 1, onde w = eis 2; .

2. Prove as identidades da proposição 4.17 com o uso de funções


geradoras. Seção 1.1
2 Para o item (b), escreva lz + wl 2 = (z + w)(z + w) e use o resultado
do item (b) do lema 1.1, juntamente com 1.8.

3. Para o item (a), aplique a desigualdade lz + wl ::S lzl + lwl, com u- z


no lugar de z e z - v no lugar de w. Para o item (b), observe que a

ri
,. ~·li
desigualdadeemquestãoéequivalentea-lz-wl ::S lzl-lwl ::S lz-wl;
·~:;,
1
em seguida, para obter a desigualdade lzl - lwl ::S lz - wl, aplique a
i
I' desigualdade lz + wl ::S lzl + lwl, escrevendo z - w no lugar dez.
11

,1
!
4. Se z tem a forma do enunciado, use o item (a) do problema 2 para

concluir que lzl = 1. Reciprocamente, suponha que lzl = 1. Imponha
que z = t;t;, com w E C, para obter w = i t;:!; em seguida, use os
1

1, itens (b) e (d) do lema 1.1, juntamente com o fato de que lzl = 1,
1
para concluir que w E R
11
I'!
lJ 243
244 Soluções e Sugestões 245

5. Desenvolva ambos os membros da desigualdade lz - al 2 < 11 - azl 2, deduza que Im(a)Im(b) é racional; analogamente, Im(a)Im(c) tam-
utilizando o resultado do item (b) do problema 2. bém é racional. Agora, como (novamente pelo problema 2) lb- cl 2 =
lbl 2 + lcl 2 - 2Re(bc), basta mostrarmos que Re(bc) é racional. Para
6. Note inicialmente que Zk+l = Zk ( 1 + k). Em seguida, calcule
tanto, veja que
lzkl em função de k utilizando produtos telescópicos. Por fim, veja
que Zk+l - Zk -- -3.ki_
v'k+i. Re(bc) = Re(b)Re(c) + Im(b)Im(c),
7. Revise a definição de adição e subtração de vetores, no capítulo 8 de de sorte que basta mostrarmos que Im(b)Im(c) é racional. Para o que
[11]. falta, escreva

8. Suponha que uma tal ordem total exista e chegue a uma contradição. I (b)I ( ) = Im(a)Im(b) · Im(a)Im(c)
m me Im(a)2 .
9. As verificações dos itens (a) a (e) são longas, mas elementares. Quanto
ao item (f), a primeira parte é imediata a partir da definição da mul-
tiplicação em lHI; para a segunda parte, basta utilizar a igualdade
Seção 1.2
la,81 2 = a,Ba,B, juntamente com o resultado do item (e). O item (g)
segue da segunda parte de (f). Finalmente, se a E lHI \ {O}, então 1. Adapte, ao presente caso, a prova do corolário 1. 7.
a · ~ = 1; daí, se a,B = O e a =/:- O, então
2. Comece observando que w + t = -1 e w3k = 1, w3k+l = w e w3k+ 2 = ·
w2, para todo k E Z.
o= 1:i2 (a,B) = c:i2ª) ,B = 1 · ,B = ,8.
3. Ponha 1 ± y'3i em forma polar e use a primeira fórmula de de Moivre.
= 1, então a,8- a~ = Oou, ainda, a (,a - 1:i2 ) = O;
Por fim, se a,B
4. Conjugue a segunda equação para obter z1 + z2 + z3 = O. Em seguida,
mas, como a =/:- O, segue que ,B = ~ (aqui, escrevemos a - ,B para use a primeira equação e o item (d) do lema 1.1 para concluir que
denotar a+ (-,8), onde -,8 = (-w) + (-x)i + (-y)j + (-z)k se
1.. + 1.. + 1.. = O e, daí, que z1z2 + z1z3 + z2z3 = O. Por fim, observe
Zl Z2 Z3
,B=w+xi+yj+zk).
que Ü = z1(z1z2 + Z1Z3 + z2z3) = z?(z2 + Z3) + 1 = -zr + 1, valendo
10. No plano complexo, sejam a, b, e, d e e os números associados aos identidades análogas para z2 e z3.
vértices de P e suponha, sem perda de generalidade, que l10 = lb-cl,
5. Adapte, ao presente caso, a solução do exemplo 1.11. Para tanto,
Em seguida, use um argumento geométrico para mostrar que podemos
supor que d = O e e = 1. Em seguida, observe que as condições do
comece mostrando que a equação dada equivale a ( t:: rn = -1.
enunciado equivalem a que lal 2, lbl 2, lcl 2, la - 11 2, lb - 11 2, lc - 11 2, 6. Adapte, ao presente caso, a solução do exemplo 1.11, consoante a
la - bl 2 e la - cl 2 sejam todos racionais. Conclua, com o auxílio do sugestão dada ao problema anterior.
problema 2, que Re(a), Re(b), Re(c), Re(ab) e Re(ac) são racionais
7. Escreva an = (n - w)(n - w2), com w = eis 2;. Em seguida, recorde
e, também, que Im(a) 2 = lal 2 - Re(a) 2 é racional. Como
que l+w+w 2 = O, de maneira que (k- l-w)(k-w 2) = (k+w 2)(k-
Re(ab) = Re(a)Re(b) - Im(a)Im(b) w2) = k 2 -w e, analogamente, (k-l-w 2)(k-w) = (k+w)(k-w) =
= Re(a)Re(b) + Im(a)Im(b), k2 -w2.
246 Soluções e Sugestões 247

8. Pondo w 2 = p 2 - 4q2, use a fórmula de Báskara para mostrar que 5. Se g(X) = f(X) +!,então g(X) + g(l - X)= O ou, ainda, g(X) =
as raízes têm módulos iguais se, e só se, Re(pw) = O; em seguida, ºº
-g(l - X). Fazendo g(X) = (X - a) 2 1, devemos ter (X - a) 2 1 = ºº
T substitua p = reis a, q = seis f3 e w = t eis 'Y em w 2 = p 2 - 4q2, com
.
ºº
-(1 - X - a) 2 1 = (X+ a - 1) 2001 . Basta, pois, escolher a de tal
. 1
r, s, t E lR+, e conclua que ia - f31 é um múltiplo inteiro de 1r. forma que a= 1 - a, 1.e., a= 2 .

9. Fazendo z2 = z; + z1 e Z3 = z; + z1, mostre que podemos supor z1 = O;


1
em seguida, fazendo zi = wz; e zl = wz;, mostre que podemos supor
1
Z2'-1
- . Seção 2.2
1

10. Se w = eis 2;, use a primeira fórmula de de Moivre para calcular as


1. Comece escrevendo X 2 +X+ 1 = (X 2 - X+ 1) + 2X.
partes real e imaginária do primeiro membro de (1.19).

11. Para o item (a), adapte a sugestão dada ao problema anterior. Faça 2. Comece observando que
o mesmo quanto ao item (b), utilizando também a fórmula sen 2 x = x2m -1 = (X2m-1 + l)(X2m-1 -1)
!(1 - cos(2x)).
= (X2m-l + l)(X2m-2 + l)(X2m-2 - 1) = •. • '
12. Para k E N fixado, o conjunto das raízes n-ésimas da unidade é um
subconjunto finito de C satisfazendo as condições (a) e (b). de sorte que X 2n + 1 divide X 2m - 1.

13. Comece utilizando a finitude de A para mostrar que todos os seus 3. Escreva f(X) =(X+ 2)q1(X) - 1 = (X - 2)q2(X) + 3, com q1, q2 E
elementos são raízes da unidade. Em seguida, se z E A e zk = 1 para Q[X]. Em seguida, se q1(X) = (X - 2)q(X) + r, então f(X) =
algum natural k, mostre que k I n. (X 2 -4)q(X) +(X+ 2)r -1. Use a parte de unicidade do algoritmo
da divisão para concluir que r = 1.
14. Opere duas vezes a substituição z t-+ wz+a na condição do enunciado.
4. Escreva f(X) =(X+ l)(X 2 + l)q(X) + (aX 2 + bX + e), para certos
a, b, e E lR. Em seguida, mostre que os restos das divisões de aX 2 +
bX + e por X + 1 e X 2 + 1 são respectivamente iguais aos polinômios
Seção 2.1 a - b + e e bX + (e - a).
2. Para o item (c), lembre-se de que, de acordo com o exemplo 5.12
de [10], todo número natural pode ser escrito, de maneira única a
menos de uma reordenação, como uma soma de potências de 2, com
expoentes inteiros não negativos e dois a dois distintos.
Seção 3.1

4. Por contraposição, mostre que se f,g E K[X] \ {O}, então fg #- O. 1. Inicialmente, mostre que é suficiente considerar o caso em que f é da
Para tanto, escreva f(X) = I::,k aiXi e g(X) = I:"J=l bjXi, com forma f(X) = axn, para algum a E K \ {O}, e g não é constante.
.i ak, bl #- O, e examine o coeficiente de Xk+l em f g. Para o que falta, use o corolário 3.14 .
. 1'

li,
' !

248 Soluções e Sugestões 249

2. Para o item (a), use a fórmula do binômio de Newton; para (b), imediato verificar que
escreva J(X) = cnXn + · · · + c1X + Co e use (a) para concluir pela
existência de racionais A e B tais que f(a ± byr) =A± Byr. Em 2cos0 · 2cos(k + 1)0 - 2cos(k0) = 2cos(k + 2)0
seguida, aplique o resultado do problema 1.3.3 de (10].
ou, o que é o mesmo,
3. Use o resultado do problema anterior para concluir que o polinômio
Ík+2(2 cos O) = 2 cos O· Ík+1 (2 cos O) - fk(2 cos O)
dado é divisível por X 2 - 2X - 1.
= 2 cos O· 2 cos(k + 1)0 - 2 cos(kO)
4. Use o algoritmo da divisão. = 2cos(k + 2)0,

5. Comece observando que, se um tal f existir, então f(y) 2 = 1 - y2, para todo O E lR. Por fim, (b) e (c) seguem imediatamente de (a),
para todo O ~ y ~ 1 e, daí, para todo y E lR. Em seguida, conclua por indução sobre n EN.
que 8 f = 1 e chegue a uma contradição.
10. Sejam m, n,p, q E Z, tais que n, q i- Oe cos(~n') = ~- Use o resultado
6. Use o teste da raiz para ±i. do problema anterior para mostrar que fn(~) = 2(-l)m e, daí, que

7. Se a fosse uma raiz inteira de f, use a condição f(O) ímpar, junta-


? é raiz de um polinômio mônico e de coeficientes inteiros. Por fim,
como?= 2cos(~1r) E [-2,2], conclua que!= 0,±! ou ±1.
mente com o critério de pesquisa de raízes racionais, para concluir que
a seria ímpar. Em seguida, mostre que se x for ímpar, então f (x) e 11. Suponha que o polinômio em questão possui uma raiz inteira, r diga-
f(l) têm paridades iguais, de sorte que f(a) seria ímpar e, portanto, mos, de sorte que
não poderíamos ter f(a) = O.
r 4 -1994r 3 + (1993 + m)r 2 - llr + m = O.
8. Sendo r a razão da PA, escreva x = y - r e z = y + r e conclua
que o polinômio X 5 -10X4 - 20X 2 - 2 tem a raiz racional x/r. Em Examinando tal igualdade módulo 2, conclua que m e r são pares.
seguida, aplique o critério de pesquisa de raízes racionais para chegar Suponha, agora, que a e b sejam raízes inteiras distintas do polinômio
a uma contradição. em questão. Então, subtraindo membro a membro as igualdades

9. Uma vez que {2 cos O; O E JR} = [-2, 2], o qual é um conjunto infinito, a 4 - 1994a3 + (1993 + m)a2 - lla + m = O
o corolário 3.10 garante que há, no máximo, um polinômio fn satis-
fazendo a condição do enunciado. Agora, para o item (a), é imediato e
verificar que fi (X) = X e (com o auxílio de um pouco de trigonome- b4 - 1994b3 + (1993 + m )b2 - llb + m = O,
tria) h(X) = X 2 - 1 satisfazem as condições do enunciado. Para o e fatorando a - b do resultado, obtenha
que falta, seja Un)n?.1 a sequência de polinômios tal que fi(X) = X,
h(X) = X 2 -1 e Ík+2(X) = Xfk+1(X) - fk(X), para k ~ 1 inteiro. (a+ b)(a2 + b2) - 1994(a2 + ab + b2) + (1993 + m)(a + b) = 11
Suponha, por hipótese de indução, que Jj(2cos0) = 2cos(j0), para
1 ~ j ~ k + 1 e todo O E JR. Com um pouco de trigonometria, é e chegue a uma contradição.
250 Soluções e Sugestões 251

12. SejaX 2 -X-1 = (X-u)(X-v). Pelo teste da raiz, basta encontrar- use as condições do enunciado para mostrar que 1 é raiz de f - g e
mos todos os a e b tais que au 17 + bu 16 + 1 = O e av 17 + bv 16 + 1 = O. que (!(X)+ g(X))(f(X) - g(X)) = f(X 2) - g(X 2).
1
Multiplicando a primeira relação por u 16 , a segunda por v 16 e sub-
!I 16 16 n n
traindo os resultados, obtenha a= u u=~ . Agora, defina Xn = uu=~
e mostre que x1 = x2 = 1 e Xn+2 = Xn+l + Xn, para todo n EN, de
sorte que a sequência (xn)n~l é a sequência de Fibonacci. Conclua,
Seção 3.2
a partir daí, que a == 987 e calcule o valor de b de modo análogo.
1. Adapte, ao presente caso, a demonstração do teorema 3.21.
13. Escreva p(X) = X(X - a2) ... (X - an), com a2, ... , an inteiros não
2. Adapte, ao presente caso, a demonstração do teorema 3.21.
nulos e dois a dois distintos. Para d E Z, mostre que p(p( d)) = O
se, e só se, d = ai para algum 1 :S i :S n ou p(d) = ai, para algum 3. Use o resultado do problema anterior.
2 :S i :S n. Neste último caso, temos d # O; ademais, escrevendo
a= ai, mostre que existe q E Z* tal que d(d- a)q = a. Conclua que 4. Aplique a fórmula de multiseção.
dq + 1 = -1 e, daí, que d = ~. Por fim, deduza, a partir daí, que 5. Argumentemos como na prova do teorema 3.22: se f (X) = Lk~O akXk
(d- a2) ... (d- an) = 2, e use o fato de ser n > 4 para chegar a·uma e S denota o segundo membro da expressão do enunciado, então
contradição.
p-1
14. Há dois casos essencialmente distintos, quais sejam, f(p1) = f(p2) = S = ! LW(p-l)rj LªkWjk
f (p3) = 3 e f (p4) = -3, ou f (p1) = f (p2) = 3 e f (p3) = f (p4) = -3. p j=O k~O
No primeiro caso, mostre que f(X) = a(X -p1)(X -p2)(X-p3)+3 p-1
e use, em seguida, a condição f(p4) = -3, juntamente com o fato de
= ! L L akw((p-l)r+k)j
p j=O k~O
os pi's serem primos e distintos, para chegar a uma contradição. No p-1
segundo caso, mostre que J(X) = a(X - P1)(X - p2)(X - q) + 3 e = ! Lªk LW(k-r)i,
calcule J(O) para concluir que q = a!~:
2 ; use, em seguida, as condições p k~O j=O
f(p3) = f(p4) = -3 para chegar a uma contradição.
onde utilizamos a relação wP = 1 na última igualdade. Agora, se
15. Use o teste da raiz para concluir que p(X) = 5 + (X -a)(X -b)(X - k = r (modp), digamos k- r = pq, então
c)(X - d)q(X), para algum polinômio q E Z[X]; em seguida, faça
p-1 p-1 p-1
x = m nas funções polinomiais correspondentes e chegue a uma con-
LW(k-r)j = L(wP)q = L lq = p;
tradição.
j=O j=O j=O
16. Se w = eis 2;, então w e w2 são raízes cúbicas da unidade e as raízes
se k t=, r (modp), então wk-r # 1 e, pelo lema 1.12, temos
de X 2 + X + 1; use tais fatos para examinar para quais k E N temos
w2k + 1 + (w + 1) 2k = O e, analogamente, para w2 no lugar de w. p-1 . w(k-r)p - 1
~ w(k-r)J = = O.
L....J wk-r - 1
17. Comece definindo f (X) = I:r=l Xªi e g(X) = I:r=l Xb;; em seguida, j=O
252 Soluções e Sugestões 253

Portanto, 9. Use a condição do enunciado para obter a forma fatorada do polinô-


mio g(X) =(X+ I)f(X) - X.

10. Mostre inicialmente que, se a, b e e são tais raízes, então a hipótese


6. Use o resultado do problema anterior. de que a, b e e são positivos garante que a, b e e são os lados de um
triângulo se, e somente se, (a+b-c)(a+c-b)(b+c-a) > O; em seguida,
substitua a + b + e = -p no primeiro membro dessa desigualdade e
use a forma fatorada (X - a)(X - b)(X - e) do polinômio.
Seção 3.3
11. Assim como no exemplo 3.27, substitua X por 1 na forma fatorada de
1. Reveja a dedução da fórmula de Báskara, em [10]. xn-1 +xn-2 +... +X+ 1. Em seguida, use um pouco de trigonometria
para mostrar que, se w = eis 2; , então II - wk 1 = 2sen k:, para
2. Conjugue ambos os membros da igualdade f(z) = O. Em seguida,
escreva f(z) = anzn + · · · + a1z + ao e use os itens (b) e (e) do lema 1 S k S n.
1.1. 12. Use o resultado do problema anterior, juntamente com a relação
3. Para f(X) = X 2 + 2iX - 1 temos que i é raiz mas -i não é raiz. sen (-rr - x) = sen x, para x E R

4. Use o corolário 3.25 e o resultado do problema 2. 13. Se z E (C for uma raiz de p, mostre que z 2 e z - 1 também o são. A
partir daí, conclua sucessivamente que lzl = 1, lz - li = 1 e z = w ou
5. Se f (X) = anXn + ªn-1xn-l + · · · + a1X + ao, com an #- O, segue de z = w, onde w = eis 2f. Por fim, use o resultado do problema 2.
f(a:) = O que a:n = - ªn-l
an
· a:n-l - · · · - ~O: -
an
ª 0 . Agora argumente
an '
por indução para provar (3.9) para m 2:: n. Para provar (3.9) para
m = -1, escreva a igualdade 0:- 1f(a:) = O em termos dos coeficientes
de f; para o caso m < O geral, use novamente indução. Seção 3.4
6. Use a desigualdade triangular para concluir que, se lzl 2:: 1, então 1. Use o resultado do corolário 3.32, nos moldes do exemplo 3.33, para
mostrar que 8a 3 - 25a 2 - I80a + 608 = O. Em seguida, conclua que
a=4.
7. Se z = a: + /3i é uma raiz complexa de f tal que a: > 2, use a 2. Escreva f(X) = g(X) 2h(X) e, em seguida, calcule f'.
desigualdade triangular, no espírito da sugestão dada ao problema
J;
anterior, para concluir que lanzn + an-1Zn-l l < k1 11:~ 1 ; mostre, a 3. Use o item (b) da proposição 3.29 para mostrar que f'(z) = '2:j=l !~1j ·
partir daí, que lzl < 1 + 1anz ; an-1 1 e, por fim, substitua z =a:+ i/3. 4. Use o item (b) da proposição 3.29 para mostrar quer
8. Para o caso de grau quatro, se z E (C é uma raiz, então z -=1- O e
a (z 2 + }2 ) +b (z + ~) +e; faça agora a mudança de variável w = z+ ~. J'(z) = t
j=l
J;(z) f(z).
Jj(z)
Para o caso de grau seis, raciocine analogamente.
254 Soluções e Sugestões 255

5. Pondo f(X) = IT~=l (1 + !Xk), mostre que f(l) = n+ 1. Em Seção 4.1


seguida, mostre que
1. Adapte, ao presente caso, a demonstração da proposição 4.1.
f (X) = 1 + L _l_xa(S)
2. Para o item (a), adapte a ideia da solução do exemplo 4.3. Para o
0-j,SCin 1r(S)
item (b), comece escrevendo
e calcule J'(l). Por fim, calcule jg} com o auxílio do problema
anterior. (X -Y) 5 +(Y-Z)5+(Z-X) 5 = (X -Y)(Y -Z)(Z-X)J(X, Y,Z),

6. Basta mostrar que, se um semiplano qualquer do plano complexo com f de grau 2; em seguida, use a igualdade -y5 + (y - z )5 + z 5 =
contiver as raízes de f, então ele também conterá as raízes de f'. -yz(y-z)f(O, y, z) para mostrar que f(O, Y, Z) = 5(Y 2 -YZ+Z2 ) e,
Por absurdo, suponha que exista uma reta r tal que um dos semi- analogamente, J(X, O, Z) = 5(X 2 -XZ + Z 2 ) e J(X, Y, O)= 5(X 2 -
planos que ela determina contém uma raiz w de f', enquanto o outro XY + Y 2 ). Por fim, mostre que
contém as raízes de f. Seja u E C de módulo 1 e tal que o vetor u J(X, Y,Z) = 5(X 2 + Y 2 + Z 2 -XY -XZ- YZ).
é perpendicular a r; se f (X) = a(X - z1) ... (X - Zn) e (} e (}j são
respectivamente os argumentos deu e de Zj - w, use o resultado do 3. Adapte a ideia da solução do exemplo 4.3 para concluir que
problema 3 para mostrar que
J(X, Y, Z) =(X+ Y)(X + Z)(Y + Z)g(X, Y, Z),
Re (t
J=l
lzi - wl- 1 cos(Oj - O)) = O. com g de grau 2. Agora, use a igualdade J(O, y, z) = yzg(O, y, z) para
mostrar que g(O, Y, Z) = Y 2 + Y Z + Z 2 e, analogamente, g(X, O, Z) =
Agora, observe que (zj - w)/u tem um argumento em (-~, ~) e use X 2 + X Z + Z 2 e g(X, Y, O) = X 2 + XY + Y 2 . Por fim, mostre que
a igualdade acima para chegar a uma contradição. g(X, Y,Z) = X 2 + Y 2 +z2 +XY +xz + YZ.
7. Se J(X) = E~=ockXk, com ck E Z, então J(X) = E~=ock(a+X -
al- Expanda a expressão do segundo membro em potências de X - a
e compare o resultado com (3.10), quando z = a.
Seção 4.2
8. Faça indução .sobre k ~ 1. Para o passo de indução, se mk EN for tal
1. Use a simetria de f e g para mostrar que, fixada uma permutação u
que f(mk) = O(modpk) e f'(mk) f=. O(modp), faça mk+l = mk+xpk,
de ln, temos h(x1, ... , Xn) = h(xa(I), ... , Xa(n)) para infinitos xi, ... ,
com x E Z a determinar. Em seguida, use a fórmula de Taylor (3.10),
Xn E K. Você precisará utilizar o resultado do problema 1, página
juntamente com o resultado do problema anterior, para mostrar que
90, bem como o resultado da proposição 4.1.

4. Fazendo a2 + b2 + c2 = k, temos a3 + 3a2 = 3k-25, de modo que a é


a partir daí, mostre que é possível escolher x de forma que f(mk+I) = raiz de J(X) = X 3 + 3X 2 + (25- 3k); analogamente, b e e são raízes
O(modpk+l). Por fim, como mk+I = mk (modp) e f' E Z[X], temos de tal polinômio. Agora, use as relações de Girard para concluir que
f'(mk+I) = J'(mk) f=. O(modp). a+ b + e = -3 e ab + ac + bc = O, de sorte que a2 + b2 + c2 = 9.
256 Soluções e Sugestões 257

5. Sendo z1, z2, z3 as raízes complexas do polinômio dado, o polinômio 13. Para o item (a), use indução; para o item (b), observe inicialmente
desejado é f(X) = (X - zf)(X - z?)(X - zi). Use as relações de que
Girard, juntamente com o resultado do exemplo 4.3, para calcular
l1
os coeficientes de f em termos dos complexos dados a, b e e. Por
'1
exemplo, sendo g(X) = X 3 + aX 2 + bX + e, temos g(X) = (X -
!'
z1)(X - z2)(X - z3) e, daí, 14. Faça indução sobre n > 1 para concluir que x1 = x2 = · · · = Xn = 1.
, !I!,
;, 1,:'
Para o passo de indução, se
zr + z? + zi = (z1 + Z2 + Z3) 3 - 3(z1 + z2)(z1 + Z3)(z2 + Z3)
!I f(X) = (X - x1)(X - x2) ···(X - Xn)
= (-a) 3 -
3(-a - z3)(-a - z2)(-a - z1)
= xn + an_ 1xn-l + · · · + a1X + ao,
= -a3 - 3g(-a) = -a3 + 3ab- 3c.
conclua que
6. Para o item (a), use os resultados do problema 2, página 74 e do
exemplo 4.7; para o item (b), use o resultado do problema anterior.
O = f (x1)+ f (x2) + · · · + f (xn)
= n + ªn-1n + ·· · + a1n + aon = nf (1).
7. Adapte o argumento do exemplo 4.7.
15. Conclua inicialmente que as raízes de f são negativas; em seguida,
8. Se f(X) = (X - a)(X - b)(X - e), então f(X) =
X 3 - p, onde use as relações de Girard e a desigualdade entre as médias aritmética ·
p = abc "1- O; argumente, agora, como na sugestão ao problema 5, e geométrica para deduzir que ªk ~ (~), para 1 :S k :S n - 1.
página 75.
16. Sendo x 1 , ... , Xn as raízes de f, use as relações de Girard para concluir
9. Aplique o resultado do exemplo 4. 7 ao polinômio g(X) = X 10 + º que I:f=1 x; x;
= 3 e I1f= 1 = 1; então, aplique a desigualdade entre
2X 99 + 3X 98 + · · · + a 98 X 2 + a 99 X + a100 ; em seguida, mostre que as as médias aritmética e geométrica para concluir que n :S 3. Por fim,
raízes de g são os inversos das raízes de f. considere separadamente cada um dos casos aos quais o problema
ficou reduzido.
10. Sendo ax + by = e a equação de uma reta satisfazendo as condições
do enunciado, substitua y = -~x- ~ na equação que define o gráfico
de f e, em seguida, use as relações de Girard para calcular o valor de
XI + X2 + X3 + X4. Seção 4.3
11. Sendo (x- a) 2 + (y-b) 2 = R 2 a equação do círculo, substitua y = i 1. Para 1 :::; k :::; n use o teorema de Newton e as relações de Girard;
na mesma, utilizando em seguida as relações de Girard para calcular para k ~ n + 1, use o item (a) da proposição 4.17.
o produto das abscissas dos pontos de interseção.
2. Use o item (b) da proposição 4.17 para provar, por indução sobrei,
12. Para o item (a), use o corolário 3.32. Para o item (b), use o fato de que as i-ésimas somas simétricas elementares de a1, ... , an e b1, ... ,
que a3 = a2 +a+ 1, e analogamente para b e e; para o item (c), use bn coincidem, para 1 :S i :S n; em seguida, compare os coeficientes
(b) e as relações de Girard. dos polinômios I17= 1 (X - ai) e I17= 1 (X - bj)·
258 Soluções e Sugestões 259

3. Use o item (b) da proposição 4.17 para provar, por indução sobre j, 5. Tome no maior que as maiores raízes reais de f e de f'. Use o te-
que Sj = (;), para 1 :::; j :::; k. orema de Bolzano, juntamente com o fato de que f(x) > O para x
suficientemente grande (conforme estimativa análoga à que precede
4. Para o item (a), fatore xm-zm sobre C e use o resultado para fatorar (3.7)) para mostrar que f(x) > O para x > no. Em seguida, use o
g sobre C. corolário 5.7 para mostrar que f(u) > f(v) para u > v > no.

5. Para o item (a), se f(X) = xn + ªn-1xn-l + · · · + a1X + a0 é 6. Tome, de acordo com o problema anterior, no E N tal que u > v >
um polinômio de coeficientes inteiros e tal que todas as suas raízes no::::} f(u) > J(v) > O. Em seguida, sem> no é um inteiro tal que
i' complexas têm módulo 1, use as relações de Girard para mostrar que f(m) = p, um número primo, mostre que J(m + p 2 ) é composto.
1
., 1 lan-kl:::; (~), para O< k:::; n. Para o item (b), sejam a1, ... ,an
7. Inicialmente, mostre que a condição do enunciado equivale a x 11 -x =
as raízes de f. Mostre, com o auxílio do teorema de Newton, que o
y 11 - y. Em seguida, prove que, para qualquer e E JR, o polinômio
polinômio Ík(X) = (X - at) ... (X - a~k) tem coeficientes inteiros,
f(x) = X 11 - X - e tem no máximo três raízes reais distintas; para
para todo k ~ 1. Em seguida, use o item (a) para garantir a existência
tanto, você precisará utilizar os resultados do corolário 5. 7 e do pro-
de naturais k < l tais que Ík = fz. Por fim, use tal igualdade para
blema 3, de maneira análoga àquela delineada na sugestão ao pro-
mostrar que ai é uma raiz da unidade, para 1 :::; i. :::; n.
blema 4.

8. Como À -::/= O, mostre que À é raiz do polinômio do enunciado se, e ·


só se, f(.X) = 1, onde J(X) = (X - a1)(X - a2)(X - a3)(X - a4).
Seção 5.1 Agora, mostre que fé decrescente em (-oo, a1), de sorte que J(O) = 1
garante que À ~ a1. Por fim, note que, se a1 :::; À :::; a2, então
1. Para cada raiz complexa não real z = a + bi de f, escreva o fator f(.X):::; o.
(X - z)(X - z) de f como na prova do lema 5.1. Em seguida, ponha
f na forma fatorada e mostre que IJ(m)I-::/= O, 1. 9. Sejam J(X) = aX 4 + bX 3 + cX 2 + dX + e e t > 1 tal que t 2 é
uma raiz real de aX 2 + (e - b)X + (e - d). Mostre que f(t)J(-t) =
2. Se a < a < /3 são as raízes de f mais próximas de a, aplique o teorema (bt 2 + d)(l - t 2 ) < O e, em seguida, use o teorema de Bolzano.
de Bolzano a intervalos do tipo (a, b) ou (b, a) contidos no intervalo
10. Faça
(a,/3).
3. Por contradição, suponha f' (a) > O (o outro caso é análogo) e aplique
o item (a) do corolário 5.7, juntamente com o resultado do problema e conclua que xg'(x) = f(x) 2 ~ O, para todo x ~ O. Em seguida, use
anterior. o corolário 5.7 para concluir que g(l) ~ g(O) = O, com igualdade se,
e só se, g for constante.
,(r
"l;
4. Aplique o teorema de Bolzano, o corolário 5. 7 e o resultado do pro-
.i·
1 '1
1 blema anterior, observando que f'(x) = O {::} x = O ou x = ie 11. Comece mostrando que f tem três raízes reais distintas a < /3 < "(,
rI::'; f(-1), J(i) <O< f(O). tais que -2 <a< -1, O< /3 < 1 e 1 < 'Y < 2. Em seguida, observe
.: !
1'1 ',
H i
260 Soluções e Sugestões 261

que J(f(x)) = O se, e só se, f(x) = a, /3 ou 'Y· Por fim, examine f' (/3) > O; se f' (/3) > O (o caso f' (a) > O é anâlogo), conclua que
as quantidades de raízes reais distintas de cada um dos polinômios o próximo polinômio escrito na lousa ou não tem raiz no intervalo
f (X) - a, f (X) - /3 e f (X) - "f. [/3, +oo) ou tem uma raiz em (/3, +oo). Se a = /3, de sorte que
f(X) = (X - a) 3 , mostre que f ± f' se enquadra no primeiro caso.
12. Seja g(x) = f(x) + f'(x) + f"(x) + · · · + j(n)(x) e suponha, por con-
tradição, que g assume valores negativos. Então, f i- O e a condição 15. Se bi = -ai para 1::; i::; n, mostre que a condição f(x) 2: 1 equivale
f (x) 2: O para x E IR garante que n é par e o coeficiente líder de J :f : ;
a ~~ O, onde q(X) = f1~=l (X - bi) e
é positivo. Portanto, limlxl----++oo f(x) = +oo, e o teorema de Wei-
erstrass (o teorema 4.31 de [121) garante a existência de x 0 E IR tal
que g assume seu valor mínimo em xo, valor este negativo. Segue do
problema 3 que g'(xo) = O. Mas, como
Mostre que p tem uma raiz x1 E (b1, +oo); em seguida, use o teorema
g'(xo) = f'(xo) + f"(xo) + · · · + JCn)(xo),
de Bolzano para mostrar que p também possui uma raiz Xi em cada
temos que um dos intervalos (bi, bi-1), para 2 ::; i ::; n. Analisando separada-
mente os casos n par e n ímpar, mostre que a soma dos comprimentos
O> g(xo) = J(xo) + g'(xo) = f(xo) 2: O, . dos intervalos-solução da inequação :f~~ ::;
O é l~~=l Xi - ~~=l bil·
Por fim, use as relações de Girard para mostrar que ~~=l Xi = O.
o que é uma contradição.

13. Mostre inicialmente que B pode jogar de forma tal que, quando falta-
rem ser escolhidos exatamente três coeficientes, ao menos dois deles
Seção 5.3
sejam coeficientes de termos xr, com r ímpar. Em seguida, após A
jogar, teremos f(X) = g(X) + aXk + bX1, sendo g um polinômio 1. Se f denota o polinômio do enunciado e g(X) = (X - l)f(X), então
completamente determinado, 1 ::; k, l ::; 2n - 1 inteiros distintos e a g(X) = xn+I - 2xn + 1. Conclua, a partir da regra de Descartes,
e b coeficientes a escolher, tais que pelo menos l é ímpar. Por fim, que g tem no mâximo duas raízes reais positivas e, daí, que f tem
como f(2) = g(2) + 2ka+ 21b e J(-1) = g(-1) + (-l)ka-b, teremos uma única raiz positiva, a qual deve ser an (alternativamente, apele
f(2) + 21J(-1) = g(2) + 219(-l) + (2k + (-l)k2 1)a, de forma que para o exemplo 5.17). Para concluir, é suficiente, pelo teorema de
·
B po d e Jogar escolhendo a = 92Ck+(-l)k
2)+ 219 (- 1)
21 .
eonc1ua que, apos- t a1 Bolzano, mostrar que f (2 - 2n1:_i) e f (2 - 2;) têm sinais contrârios.
jogada de B, teremos f (2) + 21f (-1) = O, de sorte que, pelo TVI, f Por fim, use o fato de que 1 < 2 - 2n1:_I < 2 - 2; para mostrar que é
terâ pelo menos uma raiz real, independentemente da última jogada suficiente provar que g (2 - 2n1:_i) e g ( 2 - 2;) têm sinais contrârios.
de A.
2. Se f(X) = aX 3 +bX 2 +cX +d, queremos calcular o número de raízes
14. Sem perda de generalidade, suponha que o coeficiente líder do polinô- reais de g = 2f f" - (!') 2 . Suponha, sem perda de generalidade, que
mio f, originalmente escrito na lousa, é positivo, e sejam a a menor a = 1; ademais, se a < /3 < 'Y são as raízes de f, mostre que,
e /3 a maior raiz real de f. Se a < /3, mostre que f'(a) > O ou trocando g(X) por h(X) = g(X + /3), podemos supor, sem perda
262 Soluções e Sugestões 263

de generalidade, que /3 = O e, daí, que e < O e d = O. Sob tais Seção 6.2


simplificações, um cálculo imediato fornece g(X) = 3X 4 + 4bX3 +
1. Façamos indução sobre k 2:: 1, sendo o caso k = 1 imediato. Suponha,
6cX 2 - c2 . Basta, agora, usar a regra de Descartes para concluir que
I por hipótese de indução, que a fórmula valha para um certo k E N.
'i
g tem exatamente uma raiz positiva e exatamente uma raiz negativa.
Para k + 1, temos:

f(x + (k + l)h) = f(x + kh) + (fllf)(x + kh)


k
Seção 6.1
= f(x + kh) + ~ (;) (Ll~-j (Lllf))(x)
1. Para o item (i), use o fato de que âfj = j para concluir que an =

G}L',~-i f)(x) + ~ G) (L'>!+l-j f)(x)


k k
bn; em seguida, argumente por indução. Para (ii), tome n = âf e
argumente por indução sobre n; para o passo de indução, comece = ~
escolhendo an igual ao coeficiente líder de f.

2. Para k = O e k = 1, o resultado é trivial. Para k 2:: 2, mostre que =~


k
e) ("'~-; !) (x) + (L'>~+l f)(x)
G)(x) = O se O ::; x ::; k - 1, (1)(x) = (%) se x 2:: k e (1)(x) =
+ fi
k
(-l)k(-xkl+k), se x < O. .
G}"':-(i-1) f)(x).
3. Aplique o teorema de interpolação de Lagrange.
Agora, executando uma troca de índices na última soma acima e
4. Aplique o teorema de interpolação de Lagrange.
utilizando a relação de Stifel, obtemos f(x+ (k+ l)h) sucessivamente
6. Adapte, ao presente caso, a demonstração da proposição 6.6. igual a
7. Faça w = eis 2; ; em seguida, para 1 ::; k ::; n-1 substitua x = wk nas
funções polinomiais correspondentes a p e aos Pj 's e use o resultado
da proposição 6.6.
t G) ("'~-; f)(x) + ("':+! f)(x) + ~ C: 1) ("'•-; f)(x)
= (fl~+l f)(x) + (flif)(x)
8. Para cada um dos primos p do conjunto A= {3, 5, 7, 11, 13, 17}, seja
ap o valor comum das somas ak+ªk+p+ak+ 2p+· · · quando k varia de
1 a p, e Wp = eis 2; . Se J(X) = a50X 50 + · · · + a2X 2 + a1X, aplique
+~ ( G) + C: 1)) ("'t+l}-(i+l} f)(x)

a versão geral da fórmula de multiseção (dada pelo problema 5) para


r = O, 1, ... ,P - 1, a fim de obter um sistema linear de equações do I:
= k+l ( k ~ 1) (Ll~+l-j f)(x).
tipo (6.2) nas p incógnitas f(wi), O ::; j ::; p - 1. Conclua, com o j=O J
auxílio da proposição 6.6, que a solução de tal sistema é f(l) = pap 2. Adapte, ao presente caso, as soluções dos exemplos 6.15 e 6.15.
e f(wp) = · · · = f(w~- 1 ) = O, obtendo, assim, p - 1 raízes distintas e
não nulas para f. Por fim, notando que LpEA (p - 1) = 50 e que O 3. Como âf = n, a proposição 6.14 garante que fln+l f = O, onde
também é raiz de f, conclua que f = O. escrevemos [lk para denotar Llr Portanto, segue do item (e) da
264 Soluções e Sugestões 265

proposição 6.13 que Seção 7.1


n+l 2. Inicialmente, mostre que Pi1 ••. Pkk divide ambos f e 9 em (Q[X]. Para
O = (~n+l f)(O) = L(-l)j (n ~ 1) f(n + 1 - j) o que falta, comece mostrando que, se h E (Q[X] é mônico e tal que
j=O J
h I f em rni[X]
~ , ent-ao h _- p81 8k 8~ 8f
1 ... Pk q1 ... q1 , com
O::::; uiJ: ::::; ai, para
n+l
_ '°'( l)j
- {;r_ - (n + 1) (n~i~j)
j
1 + f(n + 1)
·
1 ::::; i ::::; k, e O::::; 8: ::::; a~, para 1 ::::; i ::::; l.

3. Argumente por contraposição.


n+l
= I:(-l)j + f(n + 1), 5. Comece utilizando o corolário 3.25, juntamente com o problema 2,
j=l página 74, nos moldes do item (b) do exemplo 7.7.
de maneira que 6. Para o item (a), faça indução sobre k, utilizando o corolário 7.4 para
mostrar que existem li, Ík E JK[X] tais que tg = "'l hªk-l + 4, com
n+l { O, se n = 1 (mod2) 91 ... gk-1 gk
f (n + 1) = - ~ (-1 )J = li f1
1, se n = O(mod2) = O ou 8 < 8(9f 1 •.. 9~1:._11 ) e Ík = O ou 8 Ík < 8(9rk). Para
o item (b), comece dividindo f por 9k, obtendo f = 9kq + r, com
4. Use o item (e) da proposição 6.13 para obter a igualdade r = O ou O ::::; ar < 8(9k); em seguida, divida r por 9k-l e proceda
indutivamente.

Em seguida, utilize o lema 2.12 de [13], juntamente com o resultado


Seção 7.2
do problema 18 da seção 6.2 de [10]. 2. Como f é redutível sobre (Q, existem 91, h1 E Q[X] momcos, não
constantes e tais que f = 91h1. Tome a, b, e, d E Z \ {O} tais que
5. As condições do enunciado garantem que (~}f)(ü) > O para O< k <
4 - - mdc (a, b) = mdc (e, d) = 1 e 91 = i9, h1 = á9, com 9, h E Z[X]
3 e (~if)(n) > O para todo n E N. Mostre agora que, para todo
mônicos e não constantes. Como bdf(X) = ac9(X)h(X), tome con-
m EN, temos
teúdos e use o lema de Gauss para concluir que bd = ac.
n-1
(~i-1 f)(n) = L(~i f)(k) + (~i-1 f)(O)
k=O
Seção 7.3
e, por fim, use a fórmula acima para mostrar sucessivamente que
(~ff)(n) > O, (~tf)(n) > O, (~if)(n) > O e f(n) = (~~f)(n) > O, 2. Note primeiro que
para todo n EN.
f(a) =O::::;, f(a) =O::::;, ](a)= O.

A segunda afirmação é imediata.


266 Soluções e Sugestões 267

'
i I
5. Se a E <Q for uma possível raiz racional de f, o critério de pesquisa de 2. Pelo lema de Gauss, basta mostrarmos que f não pode ser escrito
raízes racionais garante que a E Z e a 1 84, mas ainda fornece muitas como o produto de dois polinômios não constantes de coeficientes in-
possibilidades para a; a fim de eliminar várias delas, projete f em teiros. Para tanto, observe inicialmente que, pelo critério de pesquisa
Z3[X] e em Zs[X] para concluir, com o auxílio do problema 2, que de raízes racionais, f não possui raízes racionais; portanto, se f pu-
a= O(mod3) e a= 4(mod5), de sorte que a= -6, -21 ou 84. desse ser escrito como o produto de dois polinômios não constantes
de coeficientes inteiros, deveríamos ter
6. Faça indução sobre âf; no passo de indução você terá de usar que
f(X) = (X 2 + aX + b)(X3 + cX 2 + dX + e),
P 1 ( { ) , para 1 :S k :::; p - 1.
para certos a, b, e, d, e E Z. Desenvolvendo o produto do segundo
7. Suponha que fg não é primitivo e fixe um primo p que divide todos membro acima e comparando coeficientes de mesmo grau, concluí-
os seus coeficientes. A partir da igualdade fg = fg = Õ em Zp[X], mos que deveria ser be = 2, de forma que (b,e) = (1,2), (-1,-2),
conclua que f = Õ ou g = Õ. (2, 1) ou (-2, -1). Mas, verifica-se facilmente que nenhuma dessas
possibilidades é compatível com as demais equações obtidas da com-
8. Use o resultado da proposição 7.19, juntamente com as relações de
paração dos coeficientes.
Girard.
3. Escreva f(Xn) = g(X)h(X), com g, h E ~[X] \ lR como prescrito
9. Mostre que, módulo 17, temos pelo enunciado e n > 1 (o caso n = 1 é trivial). Se g(X) = bkXk +
bk+lxk+i + · · · e h(X) = ezX1 + ez+1xz+1 + · · · , com bk, ez # O,
X 3 - 3X 2 + I = (X -4)(X - 5)(X + 6).
então, trocando g eh respectivamente por g(X) = bk + bk+lX + · · ·
e h(X) = ezXk+l + Cz+1Xk+l+l + · · · , podemos supor que g(O) # O.
Em seguida, ponha Sk = ak + bk + ck, tk = 4k + 5k + (-6)k e conclua
Sejam, pois, g(X) = bo + b1X + · · · e h(X) = ezX1 + cz+1xz+1 + · · · ,
(com o auxílio dos métodos da seção 4.2) que
com bo, ez # O. Use o fato de que f(Xn) = g(X)h(X) para mostrar
que n l l. Em seguida, cancele os termos de grau mínimo em ambos os
membros da igualdade f(Xn) = g(X)h(X) e argumente por indução
sobre âf para mostrar que g(X) = g1(Xn) e h(X) = h1(Xn), para
A partir daí, mostre que sn E Z, para todo n E N, e sn = tn (mod 17). certos 91, h1 E ~[X]\~ como prescrito pelo enunciado.

4. Pelo lema de Gauss, é suficiente examinar quando f = gh, com g e h


polinômios mônicos, não constantes e de coeficientes inteiros. Adap-
tando a ideia da prova do exemplo 7.32, temos 1 = f (O) = g(O)h(O),
Seção 7.4 de sorte que g(O) = h(O) = ±1; portanto, a1, a2, ... , an são raí-
zes duas a duas distintas do polinômio g - h. Se g - h # O, entãç:>,
1. Inicialmente, use o critério de pesquisa de raízes racionais para mos-
â(g-h) :S max{âg, âh} < âf = n, de sorte que g-h teria menos de
trar que o polinômio dado não tem raízes inteiras. Em seguida, analise
n raízes distintas. Logo, g - h = O e, daí, f = g2 ou, ainda,
a possibilidade X 4 - X 2 + 1 = (X 2 + aX + b)(X 2 + cX + d), com
a,b,c,d E Z. g(X) 2 - 1 = (X - a1) ... (X - an)·
268 Soluções e Sugestões 269

Em particular, devemos ter n = 2k, para algum k E N. Suponha, 1 ::;; j ::;; n, então
sem perda de generalidade, que
JaoJ = Ja1Zj + · · · + anz.11
g(X)-l = (X-a1) ... (X-ak) e g(X)+l = (X-ak+1) ... (X-a2k), ::;; Ja1JlzjJ + · · · + JanlJziln
::;; Ja1J + · · · + JanJ,
com a1 < a2 < · · · < ªk e ªk+l < ªk+2 < · · · < a2k· Então,
o que é um absurdo. Logo, JziJ > 1, para 1::;; j::;; n. Suponha, agora,
que f = gh, com g, h E Z[X]\Z, digamos g(X) = bo+b1X + ·+brXr
e h(X) = co + c1X + · · · + c8 X 8 • Reenumerando os Zj 's, se necessário,
e, avaliando a igualdade acima respectivamente em a1, a2, ... , ak, podemos supor que as raízes de g são z1, ... , Zr. Então, segue das
obtemos
relações de Girard que

para 1 ::;; i ::;; k. A partir daí, conclua que, se k 2:: 3, então ao menos
dois dos números ªk+l, ªk+2, ... , a2k seriam iguais, o que não ~ o Portanto, JboJ 2:: JbrJ + 1 e JcoJ ::;; JcsJ + 1, de sorte que
caso. Por fim, analise separadamente os casos k =· 1 e k = 2 para
obter os polinômios do enunciado. JaoJ = lbolJcoJ 2:: (lbrJ + l)(Jcsl + 1)
= lbrlJcsJ + lbrJ + lcsl + 1
5. Use o critério de Eisenstein, em conjunção com o resultado do item
(a) do problema 8, página 178. 2:: lbrlJcsJ + 2,vJbrllcsl + 1
= (vlbrllcsl + 1) 2
6. Use o teorema 7.27, em conjunção com o critério de pesquisa de raízes =(~+1)2.
racionais (proposição 3.16).
Assim, JiaoT 2:: JfaJ + 1, o que é um absurdo.
7. Suponha f = gh, com g, h E Z[X] \Z, e examine a igualdade J(X) =
g(X)h(X) em Zp[X]. 10. Para cada 1 ::;; i ::;; k, escolha ai E Ai; em seguida, escolha um
primo p tal que p > a1, ... , ªk· Se A= {pq; q E N e p f q}, mostre
8. Pelo lema de Gauss, basta mostrar que fé irredutível em Z[X]. Por que existe 1 ::;; j ::;; k tal que A n Aj é infinito. Por fim, aplique o
contradição, suponha que fosse f = gh, com g e h não constantes critério de Eisenstein para mostrar que todo polinômio f de grau m,
e de coeficientes inteiros e (sem perda de generalidade, uma vez que com coeficiente líder ªi e demais coeficientes em A n Aj satisfaz a
f(O) = p) g(O) = ±1. Use as relações de Girard para concluir que g, condição (c).
e então f, tem uma raiz complexa z de módulo menor ou igual a 1.
Por fim, substitua a expressão de f na igualdade f(z) = O e use as 11. Para o item (a), use um argumento àquele da prova do lema 5.1.
1

hipóteses sobre os coeficientes de f para chegar a uma contradição. Para o item (b), suponha que f = gh, com g, h E Z[X] \ Z. Então,
! '
1

segue de (a) que todos os coeficientes de g1(X) = g (X+ m - !)


9. Sejam z1, ... , Zn as raízes complexas de f. Se lzj J ::;; 1, para algum têm um mesmo sinal. Portanto, g2(X) := 91(-X) tem coeficientes
270 Soluções e Sugestões 271

não nulos e de sinais alternados, de sorte que 192 (x) 1< 191 (x) 1para 6. Pelo problema 2, página 185, fé irredutível sobre Q. Suponha, agora,
todo x > O e, daí, 9 (-x + m - !) < 9 (x + m - !), para todo x > que existam a e b inteiros primos entre si e n > 1 natural tais que
O; em particular, l9(m - 1)1 < l9(m)I. Conclua que l9(m)I ~ 2 e, f(a) = O, onde a= v'fTI.
Seja
analogamente, lh(m)I ~ 2. Por fim, use o fato de que f(m) é primo
para chegar a uma contradição. 9(X) = bXn - a= b(X - a)(X - aw) ... (X - awn-l),

12. Combine o teorema de Pólya-Szegõ, dado pelo problema anterior, com onde w = eis 2; . Pelo corolário 8.4, temos que f = Pai portanto, o
o resultado do problema 7, página 75. item (b) da proposição 8.3 garante que f divide 9 em Q[X] e, daí,
em .Z[X] (uma vez que f E .Z[X] e fé mônico). Portanto, segue do
problema 2, página 74, que existem 1 :'.S k < l :'.S n - 1 tais que

Seção 8.1
Examinando o termo independente de f, segue que -a5 = 2 e, daí,
1. Se f(X) = anXn+. · ·+a1X +ao E Q[X]\Q tem a por raiz, examine a = - ~- Mas, como h(X) = X 5 + 2 é irredutível (pelo critério de
o polinômio Eisenstein) e h(a) = O, deveríamos ter f = h, o que é um absurdo.

9 (X) = -ªnxn +-anXn-1 +···+-X+


a1 ao E Q [X ] \ Q.
rn rn-1 r 7. Se a= a1, ... , am são as raízes de Pa e (3 = f31, ... , f3n são as raízes
de PfJ, o candidato natural a analisar é
2. Pela primeira fórmula de de Moivre, temos (cos 2; + i sen 2; )n = 1.
Em seguida, desenvolva o binômio e utilize a relação fundamental h(X)= I1 (X-ai(3j)=(a1···ªmtfIPfJ(~ix).
da trigonometria para obter um polinômio não nulo, de coeficientes l<i<m i=l
1~}3:;n
racionais e tendo cos 2; por raiz.
Agora, observe que a1 ... am = ±pa(O) E Q.
3. Use o critério de Eisenstein 7.28.

4. Use primeiro o teorema de Gauss 7.15 para mostrar que existe 9 E


.Z[X] \ .Z, irredutível sobre .Z e tal que 9(a) = O. Conclua, com o Seção 8.2
auxílio do lema de Gauss 7.14 que 9 também é irredutível sobre Q e,
daí, que 9 = Pa· 1. Use o item (a) da proposição 8.14 para n = pk-l en= pk.

5. Para o item (i), aplique duas vezes a observação 8.10, juntamente com 2. Uma raiz típica de <I>2n é w = eis 2; ; , tal que 1 :'.S k :'.S 2n e
o fato de que P..,ra(X) = X - y'a ou X 2 - a, conforme y'a E N ou mdc (k, 2n) = 1. Use, agora, o fato de que -w também é dessa
./a~ N (e analogamente para P,/b e P,jc)· Para o item (ii), use (i) e forma para concluir que -w também é raiz de <I>2n· Conclua, pois,
o critério de pesquisa de raízes racionais. que <I> 2n(X) é o produto de fatores do tipo (X - w)(X + w).
272 Soluções e Sugestões 273

3. Se <I>m e <I>n tivessem um fator não constante comum em C[X], então problema garantem que a congruência x 2 = D. (mod n) tem solução,
eles seriam idênticos, como polinômios minimais de uma qualquer de para todo n E N. Se D. não for quadrado perfeito, escreva D. = af3 2 ,
suas raízes comuns. Sendo <I>m = <I>n = f, seguiria do item (a) da com a, f3 E Z e lal > l. Use, então, o resultado do problema anterior
proposição 8.14 que J2 dividiria xmn - 1, o que é um absurdo. para chegar a uma contradição.
4. Primeiramente, veja que, com n e d como no enunciado, temos <p(n) =
<p(d) · ~' de forma que o<I>n = of, onde f(X) = <I>d(xnfd). Agora,
se w = eis 2~71"' com 1 :s; k :s; d e mdc(k,d) = 1, e rJ E (C é uma Seção 8.3
raiz ~-ésima de w, mostre que rJ é uma raiz primitiva n-ésima da
unidade. Conclua, por fim, que <I>n e f têm as mesmas raízes. 1. Prove que a expansão decimal de a não é periódica.
5. Pelo teorema de Dirichlet, escolha d EN tal que 1 + kd = p, um nú- 2. Supondo que tais números fossem racionais, deduza que 1r e e seriam
.
mero pnmo. E m segmºda, cons1ºd ere a PA (p-l)!,
1 l+d l+(k-l)d
(p-l)!, ... , (p-l)! . algébricos, exibindo polinômios com coeficientes racionais que teriam
6. A versão geral do teorema de Dirichlet garante que a PA (n + 2, 2n + tais números como raízes.
2, 3n + 2, ... ) contém infinitos primos. Sendo p = kn + 2 > a um
3. Se ya fosse algébrico, então várias aplicações do teorema 8.12 garan-
qualquer deles e g uma raiz primitiva módulo p, segue do fato de
tiriam que o mesmo sucederia com ( va) = a. Se an fosse algébrico,
{g, g2 , .•. , gP- 1 } ser um SCR módulo p a existência de um inteiro
e f E (Q[X] \ {O} fosse tal que f(a) = O, construa g E (Q[X] \ {O} tal
1 :s; t :s; p - 1 tal que gi = a (mod p). Agora, aplique o teorema de
que g(a) = O.
Bézout para garantir a existência de naturais u e v tais que nu =
t + (p - l)v, de sorte que (gur = a (modp).
7. Considere, inicialmente, o caso em que a é ímpar. A condição do enun-
ciado garante a existência de naturais b e t e primos ímpares distintos Seção 9.1
q1, ... , qt para os quais a= b2 q1 ... qt; portanto, pela proposição 7.23
l. Use a relação (6.3) de [11] para estabelecer a recorrência satisfeita
de [14], basta garantirmos a existência de infinitos primos p para os
pelas sequências (xn)n=:,:1 e (Yn)n=:,:1- Em seguida, adapte a solução do
quais ( ~) ... (;) = -1. Pela lei da reciprocidade quadrática, tal
exemplo 9.4 a esse caso.
relação equivale a
2. Se f(X) = X 3 - 3X 2 + 1, comece mostrando que f tem raízes reais
ÍI (p.)
j=l q]
= (-l)l+(p;1)(8/), a > b > e, tais que - 160 < e < - 150 , 160 < b < 1~ e O < bn + cn < 1,
para todo inteiro n 2 2. Se an = an + bn + cn para n 2 1, mostre
onde s = I:;~=l qj. Aplique, agora, o teorema dos primos de Dirichlet, que a1, a2, a3 E Z e ªk+3 = 3ak+2 - ak, para k 2 1; em seguida
escolhendo p = 4kq1 ... qt + 1. conclua, a partir do que fizemos acima, que lan J = an - l. Por fim,
use a recorrência linear satisfeita pela sequência (an)n>l para mostrar
8. Faça D. = a 2 - 4b. Multiplicando ambos os membros da equação que ªk+1 7 = ak (mod 17); alternativamente, apele para o problema 9,
dada por 4 e completando quadrados, mostre que as hipóteses do página 178.
274 Soluções e Sugestões Referências 275

Seção 9.2 então


1 1 1
1. Para a segunda parte, suponha que lzl > R e faça E = lzl - R. Use a
condição de convergência para garantir a existência de n E N tal que
lzn - zl < E e deduza, daí, que lznl > R, o que é uma contradição.

2. Use o resultado do problema anterior.

3. Adapte os argumentos delineados na prova da proposição 9.15.

4. Aplique o resultado dos itens (a) e (b) do problema anterior à sequên-


cia das somas parciais de I:k 21 (azk + bwk)·
onde utilizamos o teorema das colunas do triângulo de Pascal na
6. Comece observando que, se (zn)n21 é uma sequência em X tal que última igualdade acima.
Zn--+ z, com z E X, então, pela desigualdade triangular,

IIJ(zn)l - lf(z)II ~ lf(zn) - f(z)I.


Seção 9.3
7. Veja inicialmente que, se (zn)n21 é uma sequência em X, tal que Zn--+
z, então lzn - zl < B para todo índice n suficientemente grande; daí, 2. Nas notações do enunciado da proposição 4.17, ponha J(X) = ITi=l
(1+
If (Zn) - f (z) 1 ~ AI Zn - z 1, também para todo índice n suficientemente ZjX) = I:"J=o SjXi; em seguida, calcule f' de duas maneiras distin-
grande. Agora, mostre que a convergência de (zn)n21 para z acarreta ~(~i,
tas, e.g., diretamente e com o auxílio da fórmula para dada no
a convergência de (f(zn))n21 para J(z). problema 3, página 83. Por fim, compare, nos casos k < n e k ~ n, o
coeficiente de xk-l em ambas as expressões para f'. Você precisará
8. O caso m = 1 é o conteúdo do exemplo 9.12. Param= 2 e lzl < for, utilizar o resultado do exemplo 9.12.
segue, daí, que

= L ak+lzk+l
k,l20

Por indução, se

1
(1 - az)m-l
'°' (n + m-2)
= L.....t 2 a z '
m -
n n
n20
276 Referências

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Pura e Aplicada.
282 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAPÍTULO A

Glossário.

AIME: American lnvitational Mathematics Examination.

APMO: Asian-Pacific Mathematical Olympiad.

Áustria-Polônia: Olimpíada de Matemática Austro-Polonesa.

BMO: Balkan Mathematical Olympiad.

Baltic Way: Baltic Way Mathematical Contest.

Crux: Crux Mathematicorum, periódico de problemas da Sociedade


Canadense de Matemática.

IMO: lnternational Mathematical Olympiad.

283
284 Glossário

Israel-Hungria: Competição Binacional Israel-Hungria.

Miklós-Schweitzer: The Miklós-Schweitzer Mathematics Competi-


tion (Hungria).

NMC: Nordic Mathematical Contest.


Índice Remissivo
OBM: Olimpíada Brasileira de Matemática.

OCM: Olimpíada Cearense de Matemática.

OBMU: Olimpíada Brasileira de Matemática para Universitários.


Adição de polinômios, 34 Complexo
OCS: Olimpíada de Matemática do Cone Sul. Algoritmo argumento principal de um, 17
da divisão para polinômios, 40 argumentos de um, 17
OIM: Olimpíada Ibero-americana de Matemática. de Horner-Ruffini, 49 conjugado, 6
de Horner-Rufinni, 106 forma polar de um, 17
OIMU: Olimpíada Ibero-americana de Matemática Universitária. Argumento principal de um com- forma trigonométrica de um,
plexo, 17 17
ORM: Olimpíada Rioplatense de Matemática. Argumentos de um complexo, 17 módulo de um, 7
plano, 7
Bézout
Putnam: The William Lowell Mathematics Competition (Estados raiz de um, 21
Etienne, 156
Unidos). Complexos
teorema de, 156
adição de, 5
Base, 141
Torneio das Cidades: The Tournament of the Towns, olimpíada desigualdade triangular para,
Bolzano
intermunicipal mundial de Matemática. 11, 12
Bernhard, 114
diferença de, 6
teorema de, 114
multiplicação de, 5
Chebyshev números, 3
Pafnuty, 61 quociente de, 6
polinômios de, 61 Conjugado
Coeficiente líder, 38 de um complexo, 6

285
286 ÍNDICE REMISSIVO ÍNDICE REMISSIVO 287

de um quatérnio, 15 Elemento neutro, 37 identidades de, 106 Número


Conjunto aberto, 220 algébrico, 190
Conteúdo de um polinômio, 164 Fórmula Identidades
algébrico, grau de um, 209
Convergência de uma série, 225 de de Moivre, primeira, 18 de Horner-Ruffini, 106
imaginário puro, 8
de de Moivre, segunda, 21 de Jacobi, 110
de Moivre transcendente, 190
de multiseção, 66 Indeterminada, 45
Abraham, 18 Números complexos, 3
de Taylor, 81
primeira fórmula de, 18 Jacobi Newton
Fatoração canônica, 162
segunda fórmula de, 21 Carl G. J., 108 Isaac, 102
Forma polar, 17
Derivada identidades de, 108, 110 teorema de, 102
Forma trigonométrica, 17
de um polinômio, 76 teorema de, 108 Norma de um quatérnio, 15
Função
propriedades da, 77 contínua, 227 Ordem
Kronecker
Descartes polinomial, 46, 172 de uma recorrência, 215
delta de, 136
regra de, 131 lexicográfica, 103
Gauss Leopold, 136
René, 131
Desigualdade Carl F., 69 Lagrange Pólya, George, 187
entre as médias, 126 lema de, 165 polinômios interpoladores de, Pólya-Szego, teorema de, 187
triangular, 11, 12 teorema de, 70, 83 136 PA
Desigualdades de McLaurin, 127 Girard, relações de, 91 teorema de interpolação de, 137 de ordem 1, 239
Diferença Grau, 38 Lema de Gauss, 165 de ordem m, 239
de polinômios, 37 de um número algébrico, 209 Limite de uma sequência, 222 Parte imaginária, 8
finita, 147 de um polinômio, 86 Lindemann, Ferdinand, 213 Parte real, 8
Dirichlet, teorema de, 206 propriedades do, 38 Liouville Plano complexo, 7
Disco exemplo de, 212 Polinômio
Hamilton a n indeterminadas, 85
aberto, 220 Joseph, 209
quatérnios de, 14 binomial, 142
fechado, 220 teorema de, 210
William R., 14 característico, 216
Divisor
Hermite, Charles, 213 Módulo de um complexo, 7 ciclotômico, 202
comum, 156
Homotetia, 27 McLaurin coeficiente líder de um, 38
comum, máximo, 156
centro de, 27 Colin, 126 conteúdo de um, 164
Eixo razão de, 27 desigualdades de, 127 derivada de um, 76
imaginário, 7 Horner-Ruffini Multiconjunto, 62 forma fatorada de um, 72, 73
real, 7 algoritmo de, 49, 106 Multiplicação de polinômios, 34 grau de um, 38, 86
288 ÍNDICE REMISSIVO ÍNDICE REMISSIVO 289

homogêneo, 98 Michel, 118 de potências, 229 Unidade imaginária, 4


irredutível, 159, 165 teorema de, 118 soma de uma, 225
mônico, 38 soma parcial de uma, 225 Vandermonde
Raízes, soma simétrica elementar
primitivo, 164 das, 92 SCI, 177 Alexandre-Theóphile, 140
raiz de um, 46 SCR, 66 sistema de, 140
Raiz
recíproco, 75 Sequência Variação de um polinômio, 128
n-ésima da unidade, 22
redutível, 159, 165 n-ésima de um complexo, 21 convergente, 222
simétrico, 90 da unidade, 22 divergente, 233
simétrico elementar, 91 de um polinômio, 46 limite de uma, 222
simetrização de um, 99 múltipla, 52 recorrente linear, 215
variação de um, 128 multiplicidade de uma, 52 subsequência de uma, 222
Polinômios primitiva da unidade, 202 Sistema de Vandermonde, 140
adição de, 34, 86 simples, 52 Subsequência, 222
algoritmo da divisão para, 40 teste da, 46 Szegõ, Gábor, 187
associados, 156 Raiz primitiva, 173
de Chebyshev, 61 da unidade, 202 Teorema
diferença de, 37 Recorrência de Bézout, 156
iguais, 32 linear, 215 de Bolzano, 114
igualdade de, 87 ordem de uma, 215 de Dirichlet, 206
interpoladores de Lagrange, 136 relação de, 215 de Gauss, 70, 83
multiplicação de, 34, 86 Relação de interpolação de Lagrange,
primos entre si, 158 de ordem parcial, 13 137
quociente de, 42 de ordem total, 13 de Jacobi, 108
relativamente primos, 158 Relações de Girard, 91 de Liouville, 210
Projeção sobre Zp[X], 169 Resto, 42 de Newton, 102
Rotação, 27 de Pólya-Szegõ, 187
Quatérnio
ângulo de, 27 de permanência do sinal, 121
conjugado de um, 15
centro de, 27 de Rôlle, 118
norma de um, 15
do valor médio, 117
Quatérnios, 14
Série fundamental da álgebra, 70
Quociente de polinômios, 42
absolutamente convergente, 226 fundamental dos polinômios si-
Rôlle convergência de uma, 225 métricos, 102
.!ISBM .!ISBM
(continuação dos títulos publicados) (continuação dos títulos publicados)
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Geometria · A. Caminha
Olimpíadas Brasileiras de Matemática, 1ª a 8ª - E. Mega, R. Watanabe
Avaliação Educacional · M. Rabelo
Olimpíadas Brasileiras de Matemática, 9ª a 16ª . C. Moreira, E. Motta,
Geometria Analítica · J. Delgado, K. Frensel e L. Crissaff E. Tengan, L. Amâncio, N. C. Saldanha e P. Rodrigues
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