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Uma Ciência ao Gosto da Religião: Darwin nos EUA

Conferencista: Prof. Dr. Norman Roland Madarasz

IIIa Jornada de iniciação ciêntifica


CERIMÔNIA DE ABERTURA
Dia 25 de outubro de 2005

Norman Madarasz
Professor Visitante (Bolsista CAPES)
Programa de pós-graduação em filosofia
normanmadarasz@yahoo.ca
norman@ugf.br

(Artigo não publicado, por favor não citar.)

Na discussão a seguir será contestada a tentativa de camuflar a filosofia subjacente tanto


à atividade científica quanto à fé religiosa. Falei “filosofia”. Deveria ter dito: a
metafísica, ou mesmo o modelo teológico. Por isso, devemos entender o título desta
conferência como um enunciado filosófico, ou ao menos uma proposição a partir da
filosofia.

Assim, o assunto da nossa discussão é a filosofia subjacente à teoria do “design


inteligente”, ou como também está traduzida em português do Portugal, “desígnio
inteligente.” A minha pergunta será a seguinte: o que a filosofia tem a ver com um debate
que, de toda aparência, se situa na encruzilhada entre ciência, religião e política? Não se
trata de uma pergunta retórica, não estou fingindo como os filósofos, às vezes, gostam de
fazer. É uma pergunta sincera que aponta para um dado concreto, isto é, o fato de que a
filosofia tem sido mantida fora do debate.

Dada sua ausência dos meios de comunicação e dos textos especializados tratando do
assunto, a filosofia não deve ter muito a dizer sobre a teoria de desígnio inteligente. Em
todo caso, ela não tem sido chamada para discuti-la. Mas o debate tem tudo a ver com a
reinvindicação “teórica” do design inteligente, (o D.I.). Pois o DI avança um argumento
sobre a origem dos seres humanos como criados por um ser supremo, embora que esse
mesmo não seja nomeado. O que difere da doutrina do criacionismo puro e simples,
doutrina que considera que Deus é o criador de todas as formas da vida no cosmo, é que o
DI pretende ser baseada em normas científicas. O debate visa assim determinar se as
conclusões são, com efeito, ciência ou não.

Ora, este tipo de investigação define precisamente a disciplina filosófica chamada


epistemologia. Embora compartilha tarefas com as ciências senso stricto, a
reinvindicação “teórica” do design inteligente apresenta um aspecto que ultrapassa uma
investigação meramente intra-teórica, como deu para constatar no Jornal do Brasil, no
último dia 28 de setembro. Aí, a demanda de ser ensinada ao lado da teoria da evolução
darwiniana nas aulas de ciência, se tornou, em Dover no estado de Pennsylvania, um caso

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de justiça estadual e nacional, e da política internacional por estar acontecendo na
sociedade talvez a mais científicamente avançada do mundo. Porque e como a ciência
está sendo solicitada para compartilhar seu espaço, e até sua verba ?

Cabe à investigação filosófica olhar para a história a fim de aprofundar seu


questionamento:

Por várias décadas, um conflito reinou entre a Igreja Católica e uma nova ciência, ou uma
subseção desta ciência, a biologia evolucionária. Este ramo da biologia, que passou a ser
melhor conhecido como darwinismo, a partir de seu maior pesquisador, o inglês Charles
Darwin (1809-1882), avançava a hipótese de que o ser humano não foi criado como tal
ex nihilo, a partir de nada, e ainda menos pela vontade de Deus. Muito pelo contrário, os
seres humanos decorreriam de um processo complexo ocorrido num espaço de milhares
de milhões de anos (4,6 para ser mais exato), em vez dos 6 até 10 mil previamente
estimados.

Ainda mais, a natureza dos humanos não seria distinta da dos outros seres vivos do
planeta Terra, na medida em que cada um é um ponto temporário resultando de uma série
de mutações orgânicas em função de acontecimentos de longo ou curto prazo, tanto
orgânicos quanto inorgânicos, de seleção e de adaptação. Estes acontecimentos são, de
toda aparência, sem finalidade ou sem fim, e estão submetidos a uma diversidade de
causas e de eventos diversos e, sobretudo, imprevisíveis, que conferem a evolução das
espécies uma contingência básica.

Após um longo trabalho de exame, verificação, refutação e inclusive várias alterações, as


hipóteses avançadas por Darwin foram aprovadas pela comunidade científica
internacional. Desta forma, a teoria do darwinismo se tornou um paradigma, segundo o
termo do famoso historiador das ciências, Thomas Kuhn. Seguiu-se sua entrada nas
faculdades norte-americanas e depois nas escolas de ensino médio, estabelecendo-se o
consenso de que os seres humanos descendem de uma outra espécie, cujo antecessor nós,
enquanto espécie, compartilhamos com os chimpanzés. Além disso, como nosso
conhecimento do tempo se complicou, pôde-se sustentar, no caso da evolução das
espécies, que as mutações não ocorrem de maneira linear e contínua, mas por saltos,
atingindo pontos de “equilíbrio pontuado”, como propuseram, numa sofisticação da
teoria, Steven J. Gould, o falecido professor de Harvard, e Niles Eldredge, professor da
City University of New York. (Gould; Eldredge, 1972, 1993)

Certo, a história fica bem esquelética, até mesmo enganadora, deste jeito. Por que, pouco
depois de publicar seus resultados sistematizados, os pesquisadores trabalhando nesta
disciplina se vêem confrontados à oposição de várias vertentes religiosas. Nos EUA foi
somente após seu despertar cultural e científico, certamente impulsionado pelo
lançamento do Sputnik pela União Soviética nos meados dos anos 1950, como observou
recentemente Jerry Coyne da Universidade de Chicago, e a iniciação do programa
espacial norte-americano, que o darwinismo alargou seu domínio. (Coyne, 2005) De
maneira irônica, aquele período de supremacia norte-americana nas ciências foi

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caraterizado em 1987 por Allan Bloom, também professor na Universidade de Chicago,
como o de um “fechamento” da mente norte-america. (Bloom, 1987)

Bloom se referia às ciências humanas em particular, mas atacava uma devoção dada a
crítica de origem política e econômica das verdades e dos valores aceitados na sociedade
norte-americana, o que não deixou a ciência, transformada então em pensamento
“oficial” do país, quieta. Desta mesma época de revisionismo se localisa o resurgimento
da oposição à teoria de Darwin, agora vinda mais das diversas confessões evangélicas do
que do catolicismo de antes. Uma posição que hoje exprime-se até nossas paragens, aqui
no estado do Rio de Janeiro, com o veto total, em 3 de novembro de 2003, pela
Governadora Rosinha Mateus Garotinho da derrubada do projeto de lei 1840/00, e sua
declaração em maio de 2004 de ser criacionista e a favor de seu ensino nos escolas
públicas. (Giumbelli/Carneiro, 2004)

Mas, para marcar meu respeito para aqueles dentre vocês que compartilham a posição da
Governadora, seja de maneira explícita ou latente, uma posição que tem a ver tanto com a
fé quanto com a política, gostaria de tentar convencê-los do papel importante que a
filosofia deve ter neste debate. Pois, afinal, não se trata tanto de opor a ciência à religião
quanto de denunciar a carência de um ensino filosófico capaz de determinar criticamente
no que consiste pensar, e pensar científicamente. Além do fato que o debate pode se
tornar numa crise social, particularmente no que tange a suspensão de opinões pessoais, e
ainda mais, “religiosas”, num âmbito de pesquisa livre. De qualquer jeito, manterei a
palavra “religião” entre aspas nesta minha intervenção. Farei isso para sublinhar que com
a palavra “religião” transportada dentro de uma discussão universitária, devemos
entender sua vertente pública, muito além da crença pessoal e íntima, ou seja, sua
vertente teológica.

Pois então, o que a filosofia tem a ver com um debate eminamente político, e um pouco
menos, científico e religioso?

Primeiro, a ciência. Penso que um enunciado que faz consenso hoje em dia consiste em
afirmar que a filosofia deu nascimento a ciência em toda sua pluralidade. Na verdade, a
idéia de ciência não é mais antiga do que a filosofia e, sobretudo, como podemos
constatar com maior clareza no presente, ela não é por natureza “única” e ainda menos
organizada por essência em uma hierarquia. A ciência são as ciências, o que a
organização das jornadas na UGF mostra com convicção. Elas se distinguem em função
de sua referencialidade e seus campos de aplicação. Podemos afirmar ainda que “a”
ciência é nada mais que uma tentativa de seqüestrar a pluralidade dos saberes sob a
dominação de um grupo de ciências, as chamadas “exatas”.

O que quer dizer que a filosofia deu lugar as ciências? Sem dúvida, o enunciado é parcial.
Tentemos completá-lo: através sua história, a partir da filosofia organizaram-se vários
conjuntos de enunciados em séries, levando-los mais tarde a um afastamento do âmbito
filosófico para conquistar domínios próprios, com a tarefa de produzir verdades sobre o
domínio específico e seus elementos. Como argumenta o filósofo Alain Badiou, a
filosofia em si não produz verdades, não obstante o fato de ter a verdade como sua

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categoria central. (Badiou, 1991) A filosofia, segundo ele, analisa o surgimento da
verdade em disciplinas diversas, as condições da filosofia, e as formas de manifestação
através das quais elas se dão. Tal posição presupõe, contudo, este processo de
afastamento.

Já com Aristóteles, temos o caso excepcional de um filósofo concebendo, e até


formulando, as base das futuras ciências, tais que a psicologia, a física, a astrofísica, e a
biologia, sem contar a sua sistematização das disciplinas propriamente filosóficas. O
processo de afastamento de uma ciência da filosofia, contudo, pode ser bastante longo.
Muitas vezes depende de uma colonização pela ciência mais próxima da filosofia, isto é,
a matemática.

Assim, a física só adquiriu o status de ciência independente com a matematização de seus


enunciados de base – acrescida pelo uso da tecnologia para alargar os sentidos, com
instrumentos do tipo telescópio ou microscópio – efetuada a partir de Galileu e
completada por Descartes, Newton e Leibniz. Quando não se trata de uma matematização
dos enunciados ou de uma tecnologização dos meios, pode tratar-se de um sistema de
classificação rigorosamente estabelecido, como o que existe hoje em dia na zoologia. Ou
ainda, pode tratar-se da construção de um dispositivo clínico, prescrevendo regras de
observação e de tratamento, caso típico da psicologia e da medecina, o que Georges
Canguilhem, Michel Foucault e Ian Hacking descreveram de maneira tão brilhante.

Hoje em dia, poder-se-ia dizer que a ética está atravessando um processo tal que sua
independência da filosofia está sendo afirmada tanto por seus defensores quanto por
vários críticos. Se não há consenso sobre a utilidade de um tal afastamento, é por que a
ética é atravessada pela filosofia, sua carne é feita da filosofia, à imagem da filosofia,
apesar de demonstrar um aspecto talvez determinante para o afastamento: sua
aplicabilidade concreta às condições da vida comum. A filosofia como tal nunca
sustentará de forma inequívoca que as decisões metodológicas implicadas em sua
atividade sempre têm a vida boa como finalidade.

Muitas vezas a filosofia tem um papel de perseguidor no que diz respeito a sua parte
afastada. Quando a teologia se afastou complemente da filosofia, por exemplo, nada
parecia evidente quanto a sua capacidade de lidar sozinha com o seu objeto. Afinal, a
teologia que é propriamente a ciência de pensar a lógica da ordem divina, é uma cópia da
filosofia, com um diferencial fundamental: na sua forma mais tradicional ela está
submetida a uma instituição, a Igreja Católica Romana.

Com este último caso, o processo de afastamento que estou descrevendo enquanto
filósofo, mostrou uma dinâmica proveniente dos dois lados, cujas causas podem até vir
de fora. Cabe também sublinhar que tal afastamento da filosofia muitas vezes procede a
partir das necessidades de uma institução em formação, ou ao menos em renovação.
Quando a física se afastou da filosofia no tempo de Galileu e de Newton nos séculos XVI
e XVII, ela precisava fazê-lo por causa da associacão ainda intricada da filosofia com a
religião católica. A prisão de Galileu, a execução de Giordano Bruno, a fuga de Descartes
da França, foram todos atos cometidos pelo Santo Ofício ou provocados por suas

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ameaças contra as ciências nascentes da física e da astrofísica, atos que se traduziram em
limites impostos tanto contra o próprio pesquisador, quanto ao próprio âmbito teórico,
especialmente no que concerne à teoria heliocêntrica do cosmos.

A filosofia, por sua vez, afastou-se da teologia, pois ela mesma estava precisando se des-
institucionalizar. Ou em termos mais simples, ela procurou se libertar dos dogmas e das
doutrinas que restringiam seu campo de investigação. Um dos efeitos desta libertação da
filosofia da teologia e da religião foi o surgimento das revoluções políticas dos séculos
XVIII e XIX, e as formas democráticas de governo nas quais vivemos atualmente.

Mas é também por causa desta intimidade com a ciência que a filosofia tem mantido a
capacidade de debater sobre as ciências. Coube à filosofia estabelecer que as ciências se
distinguem da teologia em sua aderência ao chamado “método”, ou seja, a observação
para isolar alguns fatos não duvidosos, a derivação de regras a partir da recorrência
destes fatos, ou a indução de princípios a partir de efeitos ou teoremas aceitos. Em várias
condições aplicativas, o método científico, cuja origem remonta a Aristóteles, demostra
um poder extraordinário para prever fenômenos estatisticamente. Por fim, não podemos
esquecer a última etapa do método científico, em muitos respeitos seu lado mais
filosófico, isto, é a formulação de conclusões sobre o comportamento de um fenomeno
tal, método acrescentado também pelas teorias da demonstração e da prova.

Porém o método se complica. Com as revoluções científicas do século XX, o ato de


“observação” teve que ser colocado entre aspas. Pois o que é a observação, se pergunta
Steven Weinberg em (Weinberg, 1993) escrito em parte supostamente contra os filósofos,
quando estamos diante de dados digitalmente reproduzidos por um computador de um
fenômeno situado fora da nossa capacidade de percebê-lo, e até mesmo de pensá-lo
enquanto forma distinta?

Como, então, nos conflitos entre ciência e religião, uma narrativa fundadora de várias
religiões, o livro da Gênesis, tão importante para o Judaismo e o Cristianismo em suas
vários vertentes, quanto para o Islã, poderia reinvindicar o título de teoria, quando só
pode ser considerado uma teoria o que demonstra os vários aspectos metológicos cuja
lista eu acabei de enumerar? Temos uma resposta afirmativa a esta pergunta, que no
início foi certamente ingênua, no famoso argumento elaborado por Paley contra Darwin,
e na frase: “existem na Natureza abundantes sinais de fabricação”, cuja metamorfose em
tempos atuais corresponde à “teoria” do design inteligente, e o postulado de um ser
criador. (Chauvin, 1997, 22)

Por outro lado, nós não podemos continuar, enquanto cientistas, fingindo nossa surpresa
diante do fato de que uma tal fabricação inteligente (estou falando da teoria agora, e não
de seu campo referencial), ou tal racionalização do que permanece, basicamente, uma
crença religiosa, seja capaz de lutar com successo para sua aceitação no campo das
ciências. É o próprio darwinismo, quando não tal ou tal outra doutrina científica, que
situa fora do ensino básico da ciência, o que a filosofia não deixa de lembrar como
fazendo parte da estrutura do pensamento científico: o espírito cético e criativo do
pesquisador. Não se trata tampouco de uma coincidência que o darwinismo, apesar de

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contar com grandes teóricos de esquerda como Gould, acima mencionado, e Richard
Lewontin, professor emerito também de Harvard, tem alimentado uma visão tão
hierarquizada do mundo quanto o darwinismo social. O papel da ciência como tal tem
muito menos a ver com a invenção de robôs ou de instrumentos automatizados, ou sua
proclamada importância para o mercado, do que com a formação do espírito crítico dos
cidadãos, para não insistir sobre uma humildade própria à postura crítica que cabe aos
pesquisadores.

As demandas dos religiosos norte-americanos e cariocas é de limitar o ensino científico.


Elas são motivadas pelos dogmas que prejudicam a imagem do homem, impondo uma
imagem só, ou seja aquela que vê-lo como ser priveligiado por deus. Observamos, como
já fez Lewontin, que os proponentes do D.I. são menos agitados pelas teorias da natureza
não humana. (Lewontin, 2005) O que está em jogo é uma luta acerca da imagem da
natureza humana. Agravando a situação, constatamos vários casos em que os próprios
cientistas avançam a noção de que existe sim uma tal “natureza” humana. Isto é, com o
método e sobretudo a técnica científica, podemos avançar que várias dimensões do
pensamento e do comportamento humano, são determinadas de maneira causal por
atividades sistêmicas acontecendo no nível dos genes.

De um ponto de vista filosófico, no que tange um programa de pesquisa que considera a


natureza humana como variável, elástica, e até construtível, seja a partir de mutações no
nível sináptico, seja no nível genético, a liberdade religiosa de cometer pecados e o
determinismo fundamental da genética (e não deixamos nos enganar com a recorrência
do uso da probabilidade no tratamento do problema) derivam da mesma fonte. Estão
parados diante de uma idealização do ser humano com respeito a sua causa original em
detrimento as inflexões de seus pensamentos e de seus atos.

A doutrina do DI tem conseguido avançar por causa de uma tendência acrítica no próprio
ensino das ciências, que evidentemente não tem nada a ver com a falta de trama religiosa
no seu método. Pelo contrário, aponta à ausência da organização filosófica do ensino e
isso desde o despertar da mente infantil.

Como definiu o filósofo francês Gilles Deleuze, a filosofia se aplica à criação de


conceitos e a cortar um plano material no qual estes conceitos teriam o papel de
estabelecer, de maniera imanente, a natureza dos movimentos que formam as identidades
a partir das quais falamos de objetos, idéias e até pessoas. (Deleuze e Guattari, 1987) E
como nenhum conceito pode funcionar sozinho, fora de contexto, fora de seus modelos
ou do surgimento de um sujeito para pensá-los, o ato filosófico implica a análise de
argumentos, a justa aplicação de figuras, e em função da tradição (pois à filosofia
certamente não falta dissidências interna), uma abordagem inovadora da escrita e da
composição dissertativa. E assim a filosofia também tem a tarefa de testar os limites de
nossas sensibilidades para formular novas posições na busca sem limite de saber. Que os
resultados não caibam à filosofia mesma, mas às outras ciências, não se contrapõe em
nada à inutilidade legendária, mas irônica, do ensino da filosofia.

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Sendo criadora de ciências, depois afastadora delas, a filosofia é também uma fonte a
partir da qual aperfeiçoamos o racíocino e a investigação científica como tal.

Para terminar, e retomando o contexto da disputa entre religião, ciência e política,


tornemos nosso olhar crítico para a própria filosofia. Um dos assuntos que estudamos no
programa de pós-graduação em filosofia em associação à ética, é o chamado “retorno do
religioso”, ou das religiões, disciplina na qual eu estou concentrando uma aula vinculada
à filosofia francesa. Como tradição, a filosofia francesa sempre foi uma das mais críticas
do clericalismo. Hoje em dia, ela está sendo atravessada por conceitos que tem tanto a ver
com a filosofia quanto com a teologia ou a fé. Aí, perguntamos o que permitiu uma tal
reviravolta em comparação com o anti-clericalismo do iluminismo de Voltaire, Rousseau,
Diderot, Condorcet e Kant? A resposta é complexa e diversa, mas de qualquer maneira,
uma colonização renovada da filosofia pelo dogma religioso, na intenção de impor
limites à busca de saber, está longe de ser provável. A filosofia é tanto o lugar de
dissolução da liberdade enquanto pecado quanto o da afirmação da liberdade como
determinação do que é de ser humano, e do que se compõe a compreensão disso.

Uma tal descriçao aponta para uma grande aposta no pensamento, isto e, que a noção de
origem vinculada a crença de uma criação transcendente da vida (humana e não humana)
e do cosmo, nos engane com respeito a ser humano enquanto tal. Longe de ser alcançada
somente pela fé, a criação indica o processo de multiplicidade na geração das identidades
que, junto com a tradição austríaca-alemã, a filosofia francesa foi a principal responsável
por ter introduzido no pensamento. A multiplicidade causal é a tarefa sobre qual a
filosofia avalia argumentos e conceitos. É também a razão pela qual o que a filosofia
concebe de método adequado tem a ver sempre com uma dissolução de suas pretensões
de verdade última, para se fundamentar com a natureza no seu processo de auto-
organização e de revoluções imprevisíveis. Limites ao pensar não vão suceder diante o
movimento natural do pensamento humano de levar objeções e refutações.

Por isso, podemos filosoficamente afirmar de que uma combinação de crítica e de


criação, ensinada desde os primeiros anos da vida, fariam com que as verdades
produzidas e promovidas pelas ciências, num fundo de igualdade e de justiça social,
alcancem também a sociedade a partir da qual elas são formuladas.

REFERÊNCIAS

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BLOOM, Allan, 1987: A Cultura inculta. Ensaio sobre o declínio da cultural geral, trad.
Francisco Faia [1989], Lisboa: Europa-América.
CHAUVIN, Rémy, 1997: O Darwinismo ou o Fim de um Mito, trad. Maria José
Figueiredo, Lisboa : Instituto Piaget.
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‘desígnio inteligente’” Tradução de Claudino Caridade. Originalmente publicado em The

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(http://www.criticanarede.com/rel_intdesign.html#1)
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix, 2000: O que é a Filosofia ? São Paulo : Editora
34.
GIUMELLI, Emerson; CARNEIRO, Sandra de Sá (org.), 2004: Ensino Religioso no
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WEINBERG, Steven, 1993: Sonhos de uma teoria final, trad. Carlos Ireneu da Costa, Rio
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