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Características da igreja do futuro

Antonio Carlos Barro

Compromisso com o Reino de Deus

Está será a principal marca de uma igreja verdadeiramente cristã.  Ela deve subscrever total e
fielmente os valores e as éticas do reino de Deus. As lideranças das igrejas devem perder o medo e a timidez
e de uma vez para sempre assumir que a igreja é sinal do reino na terra. Que através da igreja Deus quer
manifestar e visibilizar o futuro.

Não será mais possível e tolerável que os cristãos continuem a ignorar as características do reino,
dividindo a vida em duas áreas completamente distintas: o secular e o sagrado. Nós temos orientações
seguras e precisas nas Escrituras de que Deus não nos olha em dois momentos, ou seja, quando estamos
atarefados com alguma atividade espiritual e quando estamos ocupados com algo que não é espiritual.   Se
tomarmos, por exemplo, a vida profissional do cristão, nós encontramos a seguinte orientação: “ Tudo quanto
fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens ” (Cl. 3:23). Entendemos
aqui, que Deus sacraliza todas as profissões. Que a sua presença no nosso ambiente de trabalho é a maior
força motivadora para evidenciarmos os valores do reino. Tendo esta consciência, será mais difícil para o
cristão sonegar os impostos, burlar a vigilância do patrão, roubar, matar o tempo ou mentir.

Eu creio que tem chegado o momento em que os próprios cristãos já estão cansados de viverem vidas
desgastadas.  A eles foram prometidas vidas abundantes, plenas do Espírito, conforto espiritual. Todavia, o
que vemos são cristãos totalmente desistimulados, enfrentando o dia a dia com muito pesar e desgosto.  
Suas vidas são, muitas vezes, testemunhos claros de que alguma coisa está errada, mas eles não sabem
como solucionar estas questões.

Os próprios líderes das igrejas somente apresentam respostas formais e profissionais, porque na
maioria das vezes, eles mesmos estão vivendo frustrações interiores. A igreja do futuro terá que assumir com
muita coragem e ousadia que ela é o sinal do reino na terra.  A ela não cabe outra alternativa.  Quando isto
começar a acontecer, então os cristãos experimentarão as alegrias da nova vida.

Compromisso com a Sociedade

Nós temos visto nos últimos dias uma incontida alegria causada pelo crescimento da igreja no Brasil. 
Chegamos a ponto de não sabermos exatamente o quanto somos no Brasil.  Alguns afirmam que já somos
20% da população.  Se isto é verdade, louvado seja Deus. O crescimento da igreja, não importando aqui o
percentual exato, tem que ser visto também de uma outra dimensão: quanto mais a igreja cresce mais a
sociedade espera dela.

Estou querendo dizer que enquanto a igreja tem um número reduzido de membros em relação à
população, esta população não sabe o que pensa e prega esta igreja, todavia, a partir do momento em que a
igreja cresce, a sociedade começa a descobrir qual é o propósito e mensagem da igreja. A sociedade vai
descobrir que a igreja não foi chamada para ter somente atividades limitadas ao templo ou a vida dos seus
membros, ou que a igreja não foi chamada somente para levar almas para o céu.  A sociedade perceberá
que à igreja cabe também o papel de transformadora do mundo e seus valores, cabe o papel de auxiliar nos
problemas sociais, políticos e econômicos que afligem o nosso povo. 

Está chegando, portanto o momento em que a própria sociedade já sabe qual é a missão da igreja.   E
em sabendo, ela começa a questionar quando é que a igreja vai colocar em prática os ensinos de Jesus. A
igreja do futuro tem que ser necessariamente a igreja participativa nas soluções e problemas da nossa
sociedade.  Ela não pode mais continuar enterrando a cabeça na areia alheia a tudo que se passa ao seu
redor.

Pluralidade de Ministérios

A Reforma Cristã bem que tentou e só conseguiu em parte fazer com que todos os cristãos fossem
vistos como sacerdotes de Deus.  A realidade hoje, e para tristeza nossa, é que a igreja continua sendo um
reduto dos pastores e alguns líderes.  Graças a Deus que entre estes, muitos exercem uma liderança sadia e
honesta, mas de uma maneira geral, o que vemos ainda em nossas igrejas é um cerceamento quanto ao
exercício dos dons e ministérios do povo de Deus. Existe um temor por parte da liderança de “soltar as
rédeas” e permitir que cada cristão seja feliz realizando algo para o reino de Deus.

Estudar sobre os dons espirituais quase que não motiva mais os cristãos, porque eles sabem que
quase nada irá mudar na vida de suas igrejas, que no fim do estudo eles continuarão a fazer exatamente o
fazem agora, ou seja: nada.  Que apresentarão soluções e idéias aos pastores e elas não serão apreciadas.

Não será mais possível que esta nova igreja que está surgindo continue a evidenciar tal quadro.   O
povo quer agora participar da vida da igreja.  Ele quer um culto alegre e dinâmico, onde ele não é passivo,
mas ativo no expressar a sua gratidão a Deus. 

Os jovens estão cansados de serem tratados como crianças imaturas que não sabem fazer nada ou
cumprir com as suas responsabilidades.  Tendo oportunidades, eles provarão o quanto podem fazer de bom
e útil para Deus.

A iniquidade que se comete contra a mulheres terá que chegar ao fim.  A igreja tem que se
arrepender do seu passado de dominação e opressão cometidas contra as mulheres.  Elas não podem, nesta
nova igreja, continuar debaixo de um regime machista e ignorante.  Ignorante porque não sabe que Deus
não faz acepção de pessoas, que em Cristo não há homem ou mulher, que somos todos novas criaturas do
Senhor.  Nenhuma igreja consegue existir sem o trabalho das mulheres em suas comunidades, mas a
hipocrisia dos seus líderes é tão grande que eles não admitem este fato.

A igreja do futuro é a igreja do povo de Deus.  A igreja onde a pluralidade de dons e ministérios será
enfatizada, encorajada e principalmente apreciada, pois o crente não terá mais que lutar para encontrar
espaço onde possa realizar a sua missão.

Transparência

A igreja tem sido governada por poucos e muitas vezes estes poucos governam a igreja com tanto
poder e mão de ferro que chegam a assumir o papel do Espírito Santo na condução da igreja.  Decisões são
tomadas e na maioria das vezes não se busca com orações e jejuns qual é a vontade de Deus para aquela
situação. As orações neste sentido são formais e para cumprir algum regulamento da igreja.

Nós temos percebido que este estado de coisas não permanecerá por muito tempo, porque o povo já
está começando a se cansar de ser tratado infantilmente.  Ainda que ele hoje não questione abertamente as
decisões da liderança, as pessoas conversam entre si e mostram seus desagrados quanto a esta atitude
totalitária dos líderes.  Neste sentido, a ignorância dos líderes cristãos chega a ser assustadora.  Eles não têm
consciência de que na verdade não possuem nenhum controle sobre o povo. 

A igreja não possui nenhum mecanismo para segurar o crente em seu meio.  A pessoa não pode ser
forçada a ficar em uma comunidade onde ela não é respeitada.  Os líderes devem ter sempre em mente que
existe hoje uma quantidade sem fim de igrejas evangélicas, e o que é que impede o crente de sair de uma
comunidade e freqüentar outra?  Absolutamente nada, e não há nada que se possa fazer quando isto
acontece, a não ser lamentar e lançar algum tipo de desabono para o crente que se transferiu de igreja.

A igreja do futuro deve estar aberta a ouvir os seus membros sem medo ou receios.  Quanto mais o
povo participar, mais aquela comunidade será amada e apreciada.  Os líderes não devem ter medo de
reavaliar as suas decisões.  Devem ter em mente que eles são ainda pecadores e que, portanto estão
sujeitos ao erro. 

A igreja não terá problemas em aceitar isto, mas antes ficará contente em saber que os seus líderes
são pessoas abertas ao mover do Espírito Santo.

Relativa e Absoluta
No decorrer dos anos a igreja sempre tem procurado por mecanismos de controle sobre o seu povo. 
Desenvolve-se uma quantidade sem fim de regras de conduta ou de doutrinas, que na verdade não são
doutrinas, mas preceitos humanos, para carimbar ou identificar os crentes.  Nas igrejas do Brasil o fator de
união das mesmas são as regras ou as formas.  Em uma determinada denominação todos falam em línguas e
quem não fala dela não pertence; em uma outra não se permite bater palmas; noutra todos são batizados
por imersão e assim as igrejas vão procurando guardar os seus rebanhos.  Os pastores são neuróticos e
vivem para implantar estas leis e regulamentos, vigiando para que nenhuma das suas ovelhas venha a se
desviar.

Falta para todos nós, de uma maneira geral, uma consciência clara do que é relativo e do que é
absoluto na vida cristã.  Nós confundimos os adornos da vida cristã com a essência da vida cristã.  O que é
essencial e absoluto em cada cristão é a centralidade de Cristo, “ porque aprouve a Deus que nele residisse
toda a plenitude” (Cl. 1:19).  Cristo é quem une os cristãos das várias igrejas.  Cristo é o elo de ligação. 
Cristo é a razão da nossa filiação na família de Deus. 

Tendo isto como certeza, não deveria importar para nós se um fala em línguas e o outro não, se um
levanta as mãos no louvor e outro não, se um canta hinos e o outro canta canções contemporâneas.  
Infelizmente, o que tem sido mais importante e ponto de discórdia nas igrejas e nas comunidades locais são
os adornos cristãos que nós queremos impor para os outros.  Nós julgamos os cristãos por estes adornos e
nos esquecemos totalmente da essência e do absoluto que é a centralidade de Cristo.   Muitas comunidades
estão sendo divididas por causa desta intolerância cristã.

A igreja do futuro é a igreja da qual os cristãos querem participar. Enfatizará Cristo e será aberta
quanto aos adornos da fé cristã.  Será uma comunidade de respeito entre os seus membros porque todos
estarão com os seus olhos fitos em Cristo e não nos crentes para vigiá-los com o propósito de perturbarem
as suas vidas.

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