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RESISTÊNCIA AO ARRANCAMENTO DE GRAMPOS COM FIBRAS DE

POLIPROPILENO

Marcelo Aldaher Magalhães

DISSERTAÇÃO SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS


PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS
NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS EM
ENGENHARIA CIVIL.

Aprovada por:

___________________________________________________________
Prof. Anna Laura Lopes da Silva Nunes, Ph. D.

__________________________________________________________
Prof. Alberto Sampaio Ferraz Jardim Sayão, Ph. D.

__________________________________________________________
Prof. Nilo César Consoli, Ph. D.

__________________________________________________________
Prof. Willy Alvarenga Lacerda, Ph. D.

RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL


SETEMBRO DE 2005
MAGALHÃES, MARCELO ALDAHER
Resistência ao Arrancamento de Gram-
pos com Fibras de Polipropileno [Rio de
Janeiro] 2005
XV, 124 p. 29,7 cm (COPPE/UFRJ,
M.Sc., Engenharia Civil, 2005)
Dissertação - Universidade Federal do
Rio de Janeiro, COPPE
1. Resistência de Grampos com Fibras
I. COPPE/UFRJ II. Título ( série )

ii
Dedico este trabalho aos
meus pais Ricardo Maurício e Astir
e aos meus irmãos Rodrigo e An-
dréa pelo amor e incentivo

iii
AGRADECIMENTOS

No momento em que o presente trabalho chega à sua etapa final não poderia deixar
de agradecer à pessoas e instituições que, de uma forma ou de outra, auxiliaram-me ou
deram sua contribuição em alguma fase do mesmo.

À Prof. Anna Laura Lopes da Silva Nunes e ao Prof. Alberto Sampaio Ferraz Jardim
Sayão pela constante dedicação, zelo e competência demonstrados ao longo da
orientação do trabalho. Meus sinceros agradecimentos pela amizade, paciência e apoio
em todos os momentos.

A todo o corpo técnico do Laboratório de Estruturas da COPPE/UFRJ, em especial


ao Júlio, pelo auxílio na moldagem e retificação dos corpos de prova. Ao Prof. Romildo
Dias Tôledo Filho por permitir que eu utilizasse a infra-estrutura do Laboratório; a
todos vocês meu muito obrigado.

Ao meu grande amigo Alexander Magno Borges pela ajuda nos ensaios de campo e
na interpretação da geologia.

Aos amigos Thiago Proto, Alexandre Saré e Fernanda Otto Springer da PUC-Rio
pela amizade e pelo inestimável auxílio nos ensaios de campo e laboratório. Com chuva
ou com sol, vocês não conheciam tempo ruim e estavam sempre prontos para me ajudar
nos experimentos. A vocês meus sinceros agradecimentos.

À Empresa SEEL (Serviços Especiais de Engenharia LTDA), e em especial ao


engenheiro Paulo Henrique Dias, por disponibilizar a área experimental para os ensaios
de campo. Por todo o suporte e instrumental necessários; pelos conselhos em toda a fase
do trabalho, sou muito grato.

À empresa Ober/S.A pelo fornecimento da fibra de polipropileno utilizada na


pesquisa.

À Capes, à FAPERJ e ao PEC/UFRJ pelo auxílio financeiro.

iv
Resumo da Dissertação apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos
necessários para a obtenção do grau de Mestre em Ciências (M.Sc.)

RESISTÊNCIA AO ARRANCAMENTO DE GRAMPOS COM FIBRAS DE


POLIPROPILENO

Marcelo Aldaher Magalhães

Setembro/2005

Orientadores: Anna Laura Lopes da Silva Nunes


Alberto Sampaio Ferraz Jardim Sayão

Programa: Engenharia Civil

Este trabalho tem por objetivo estudar a viabilidade do emprego de grampos não
convencionais, reforçados com fibras de polipropileno na técnica de contenção
conhecida como solo grampeado. Propõe-se que os grampos, convencionalmente
executados com barras de aço e nata de cimento, sejam substituídos por uma mistura de
argamassa com fibras de polipropileno, o que pode representar uma grande economia de
recursos. Para atestar esta viabilidade, foram realizados ensaios de arrancamento em
grampos moldados em cotas distintas do talude de uma obra de solo grampeado, situada
no município de Niterói, RJ. No laboratório foram executados ensaios de compressão
uniaxial e diametral em corpos de prova moldados com fibras e com nata de cimento,
para determinação dos parâmetros de resistência e de deformabilidade do material
compósito. Os ensaios de arrancamento indicaram uma resistência de pico inferior para
os grampos com fibras quando comparados aos grampos convencionais. Entretanto, os
resultados de resistência ao arrancamento associados à melhoria das propriedades
mecânicas no estado pós-pico do compósito estudado sugerem a viabilidade do uso de
grampos com fibras de polipropileno para reforço de solos.

v
Abstract of Dissertation presented to COPPE/UFRJ as a partial fulfillment of the
requirements for the degree of Master of Science (M.Sc.)

PULL-OUT STRENGTH OF NAILS WITH POLYPROPYLENE FIBRES

Marcelo Aldaher Magalhães

September/2005

Advisors: Anna Laura Lopes da Silva Nunes


Alberto Sampaio Ferraz Jardim Sayão

Department: Civil Engineering

This work aims at studying the viability of the use of unconventional nails
reinforced with polypropylene fibres as a soil reinforcement technique known as soil
nailing. It is proposed that the nails, currently executed with steel bars and cement paste,
be substituted by a mortar mixture with polypropylene fibres, which could represent a
great economy of resources. An experimental program has been carried out with field
pull-out tests on nails in different elevations of a slope in a soil nailing site in the city of
Niteroi, RJ. Laboratory uniaxial and diametral compression tests in fiber and cement
paste specimens were also carried out for the determination of strength and
deformability parameters of the composite material. The pull-out tests indicated a lower
peak resistance for the fiber nails, when compared to the conventional ones. However,
the results of pull-out strength together with the increase of the post peak mechanical
properties of the fiber – cement mixture suggest the viability of the use of the
unconventional nails with polypropylene fibres for soil reinforcement applications.

vi
SUMÁRIO

Capítulo 1: Introdução...................................................................................................1

1.1: Importância da Pesquisa..........................................................................1

1.2: Objetivo da Tese......................................................................................2

1.3: Organização da Tese................................................................................3

Capítulo 2: Revisão Bibliográfica.................................................................................5

2.1: Alguns Conceitos Básicos.......................................................................6

2.2: Solo Grampeado......................................................................................6

2.2.1: Breve Histórico do Uso da Técnica.............................................7

2.2.2: Conceito.......................................................................................9

2.2.3: Aplicações.................................................................................18

2.2.4: Vantagens e Desvantagens........................................................18

2.3: Grampo Convencional...........................................................................19

2.3.1: Características............................................................................20

2.3.2: Comportamento.........................................................................21

2.4: Concreto Reforçado com Fibra.............................................................22

2.4.1: Tipos de Fibras Disponíveis......................................................22

2.4.2: Aplicações.................................................................................27

2.4.3: Comportamento do Material Compósito...................................32

2.4.3.1: Resistência à Compressão..........................................35

2.4.3.2: Resistência à Tração...................................................40

2.4.4: Vantagens e Desvantagens........................................................41

vii
Capítulo 3: Área Experimental e Materiais Estudados............................................43

3.1: Descrição e Localização da Área de Ensaios........................................43

3.2: Grampos Estudados...............................................................................45

3.2.1: Grampo Convencional...............................................................45

3.2.2: Grampo com Fibras de Polipropileno........................................47

3.3: Execução dos Grampos.........................................................................48

3.4: Corpos de Prova de Laboratório............................................................60

Capítulo 4: Programa Experimental de Laboratório...............................................64

4.1: Ensaios de Compressão Uniaxial em Laboratório.................................64

4.1.1: Instrumentação das Amostras.....................................................64

4.1.2: Ensaios de Compressão Uniaxial................................................65

4.2: Ensaios de Compressão Diametral em Laboratório...............................68

4.3: Resultados dos Ensaios de Laboratório..................................................69

4.3.1: Análises e Resultados dos Ensaios de Compressão Uniaxial.....70

4.3.2: Análises e Resultados dos Ensaios de Compressão Diametral..76

Capítulo 5: Programa Experimental de Campo........................................................79

5.1: Ensaios de Arrancamento dos Grampos no Campo..............................79

5.2: Exumação dos Grampos no Campo......................................................84

5.3: Resultados dos Ensaios de Campo........................................................86

5.4: Resistência ao Arrancamento dos Grampos .......................................100

Capítulo 6: Conclusões e Sugestões...........................................................................108

6.1: Conclusões...........................................................................................108

6.2: Sugestões para Pesquisas Futuras........................................................110

Referências Bibliográficas..........................................................................................112

Anexo 1.........................................................................................................................115

viii
Anexo 2.........................................................................................................................119
Anexo 3.........................................................................................................................121

ix
LISTA DE FIGURAS

Capítulo 2

Figura 2.1: Técnicas de execução de túneis com revestimento rígido e flexível


(GEORIO, 2000).............................................................................................9
Figura 2.2: Etapas de execução da estrutura em solo grampeado (ABRAMENTO et al.,
1998)..............................................................................................................10
Figura 2.3: Detalhe do dreno horizontal profundo (ABRAMENTO et al., 1998)..........16
Figura 2.4: Detalhe do dreno tipo barbacã (ABRAMENTO et al., 1998).......................17
Figura 2.5: Detalhe do dreno de paramento (ABRAMENTO et al., 1998).....................17
Figura 2.6: Detalhe do grampo convencional e suas partes constituintes (ZIRLIS et al.,
1999)..............................................................................................................20
Figura 2.7: Mecanismo de transferência de carga em estruturas de solo grampeado......21
Figura 2.8: Disposição ideal entre a fibra e a fissura (VENDRUSCOLO, 2003)...........34
Figura 2.9: Influência do tempo de cura na resistência à compressão do compósito
(adapt. de HUGHES e FATTUHI, 1977) .....................................................39

Capítulo 3

Figura 3.1: Curva granulométrica da areia utilizada na argamassa do grampo com


fibras..............................................................................................................47
Figura 3.2: Detalhe das fibras de polipropileno..............................................................48
Figura 3.3: Detalhe da etapa de execução do furo para execução do grampo no
talude.............................................................................................................52
Figura 3.4: Disposição dos furos dos grampos – Bateria 1.............................................52
Figura 3.5: Disposição dos furos dos grampos – Bateria 2.............................................52
Figura 3.6: Face do talude com os furos dos grampos – Bateria 2..................................53
Figura 3.7: Misturador manual utilizado em campo........................................................54
Figura 3.8: Bomba do tipo Hidrojet utilizada para injeção dos grampos........................56
Figura 3.9: Esquema do grampo convencional...............................................................57
Figura 3.10: Disposição de centralizadores e luvas na barra do grampo
convencional...............................................................................................57
Figura 3.11: Esquema do grampo com fibras de polipropileno......................................58

x
Figura 3.12: Disposição de centralizadores e luvas na barra do grampo com
fibra............................................................................................................58
Figura 3.13: Sistema e reinjeção dos grampos................................................................59
Figura 3.14: Barras de aço com espuma, espaçadores, luvas e mangueiras de
reinjeção...................................................................................................60
Figura 3.15: Detalhe dos corpos de prova para ensaios de laboratório moldados em
campo..........................................................................................................62

Capítulo 4

Figura 4.1: Sistema utilizado para os ensaios de compressão uniaxial ..........................66


Figura 4.2: Sistema do ensaio de compressão diametral.................................................69
Figura 4.3: Curvas carga-deslocamento típicas dos corpos de prova com e sem fibras de
polipropileno..................................................................................................71
Figura 4.4: Curvas carga-deslocamento típicas das amostras com e sem fibras em
compressão diametral....................................................................................76

Capítulo 5

Figura 5.1: Esquema dos componentes para o ensaio de arrancamento dos grampos....81
Figura 5.2: Montagem típica dos ensaios de arrancamento dos grampos.......................82
Figura 5.3: Suporte do extensômetro: (a) Esquema e (b) Detalhe ..................................82
Figura 5.4: Escavação mecânica para exumação dos grampos.......................................84
Figura 5.5: Curvas carga-deslocamento dos grampos convencional e com fibras –
Bateria 1.........................................................................................................86
Figura 5.6: Vista frontal do grampo P14, no contato solo residual jovem – maduro......87
Figura 5.7: Histograma das cargas de arrancamento dos grampos – Bateria 1...............88
Figura 5.8: Curvas carga-deslocamento dos grampos convencional e com fibras –
Bateria 2.........................................................................................................90
Figura 5.9: Vista do grampo com fibras P22 após a exumação......................................91
Figura 5.10: Vista do grampo com fibras P24 após a exumação....................................91
Figura 5.11: Histograma das cargas de arrancamento dos grampos – Bateria 2.............92
Figura 5.12: Vista do grampo P21 após a exumação......................................................93
Figura 5.13: Detalhe típico do grampo ilustrando a região sem fissuras........................96

xi
Figura 5.14: Esquema do padrão de fissuração típico para os grampos com fibras........97
Figura 5.15: Detalhe da seção com fissuras do grampo P21...........................................97
Figura 5.16: Perfil dos solos em contato com os grampos – Bateria 2...........................98
Figura 5.17: Distribuição de carga no grampo de polipropileno – Hipótese 1..............102
Figura 5.18: Distribuição de carga no grampo de polipropileno – Hipótese 2..............103
Figura 5.19: Curvas típicas carga-comprimento do grampo convencional (PROTO
SILVA, 2005)...........................................................................................106
Figura 5.20: Distribuição triangular de carga em grampo com fibras...........................106
Figura 5.21: Distribuição uniforme de carga ao longo do grampo com fibras .............107

Anexo 1

Figura A 1: Mapa de locação dos furos de sondagem com identificação das áreas
utilizadas para os ensaios de arrancamento..............................................116
Figura A 2: Boletim de sondagem típico da área experimental....................................118

Anexo 2

Figura A 3: Detalhe do grampo P21..............................................................................120


Figura A 4: Detalhe do grampo P22..............................................................................120
Figura A 5: Detalhe do grampo P23..............................................................................120
Figura A 6: Detalhe do grampo P24..............................................................................120
Figura A 7: Detalhe do grampo P25..............................................................................120

Anexo 3

Figura A 8: Ensaios de compressão uniaxial em corpos de prova de cimento..............122


Figura A 9: Ensaios de compressão uniaxial em corpos de prova com fibras..............122
Figura A 10: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova de cimento..........123
Figura A 11: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova com fibras –
parte I........................................................................................................123
Figura A 12: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova com fibras –
parte II.......................................................................................................124

xii
LISTA DE TABELAS

Capítulo 3

Tabela 3.1: Características das fibras de polipropileno...................................................48


Tabela 3.2: Traços adotados para os grampos convencionais e com fibras....................54
Tabela 3.3: Seqüência específica de lançamento dos materiais dos grampos com e sem
fibras..............................................................................................................55

Capítulo 4

Tabela 4.1: Características dos corpos de prova para ensaios de compressão uniaxial..67
Tabela 4.2: Resultados dos ensaios de compressão uniaxial dos corpos de prova .........71
Tabela 4.3: Resistência à tração indireta da nata de cimento e argamassa com fibras....77

Capítulo 5

Tabela 5.1: Grampos convencionais e com fibras de polipropileno ensaiados...............80


Tabela 5.2: Resultados dos ensaios de arrancamento – Bateria 1...................................86
Tabela 5.3: Resultados dos ensaios de arrancamento – Bateria 2...................................90
Tabela 5.4: Comparação entre abertura de trinca e deslocamentos máximos dos grampos
– Bateria 2 .....................................................................................................95
Tabela 5.5: Comprimento sem fissuras na ponta dos grampos com fibras – Bateria
2..................................................................................................................96
Tabela 5.6: Resumo da exumação dos grampos da bateria 2..........................................97
Tabela 5.7: Resistência ao arrancamento dos grampos – Bateria 1...............................103
Tabela 5.8: Resistência ao arrancamento dos grampos – Bateria 2...............................104

xiii
LISTA DE SÍMBOLOS

A: Área da seção transversal do corpo de prova


D: Diâmetro do corpo de prova/furo do grampo
d: Diâmetro da fibra
E: Módulo de Elasticidade ou Módulo de Young
fa: Resistência de aderência entre a fibra e a matriz na ruptura
fck: Resistência característica à compressão do concreto
Fmáx: Carga de ruptura para os ensaios de compressão diametral
ft: Resistência à tração da fibra
Gs: Densidade real dos grãos
H: Altura do corpo de prova para o ensaio de compressão uniaxial
k: Rigidez do material
k1: Rigidez do material no estado pré-pico da curva carga-deslocamento
k2: Rigidez do material no estado pós-pico da curva carga-deslocamento
Linj.: Comprimento do trecho injetado para o grampo convencional
Lc/barra: Comprimento do trecho injetado com barra do grampo com fibras
Ls/barra: Comprimento do trecho injetado sem barra do grampo com fibras
L: Comprimento da região sem fissuras do grampo com fibras
l: Comprimento da fibra
Qsc: Taxa de carga de arrancamento por metro linear do grampo convencional
Qsf: Taxa de carga de arrancamento por metro linear para o trecho injetado sem barra do
grampo com fibras
qs: Resistência de Arrancamento
qsc: Resistência ao arrancamento para o grampo convencional
qsf: Resistência ao arrancamento para o trecho injetado sem barra do grampo com fibras
Tm: Carga de arrancamento do grampo
Tres.: Carga residual do grampo
Tg.c.: Carga de arrancamento para o grampo convencional – hipótese 1
Tconv.: Parcela de carga a ser resistida pelo trecho injetado com barra do grampo com
fibras – hipótese 2
Ts/barra: Parcela de carga a ser resistida pelo trecho injetado sem barra do grampo com
fibras − hipótese 2

xiv
t: Espessura do corpo de prova para o ensaio de compressão diametral
δm: Deslocamento do grampo correspondente à carga de ruptura
δres.: Deslocamento do grampo correspondente à carga residual
ν: Coeficiente de Poisson
σp: Resistência de pico do material (tração ou compressão)
σc/σcmáx: Resistência à compressão uniaxial
σcres.: Resistência residual para o corpo de prova no ensaio de compressão uniaxial
σt,b: Resistência à tração indireta (Ensaio Brasileiro)

xv
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO
______________________________________________________________________

1.1 – IMPORTÂNCIA DA PESQUISA

A estabilização de taludes e encostas tem sido ao longo dos anos motivo de grande
preocupação para a comunidade geotécnica. Visto que os prejuízos e perdas causados
com a deflagração de movimentos de massa, não raras vezes, são de valor incalculável,
várias metodologias de análise têm sido propostas com o objetivo de avaliar o risco
potencial dos taludes e propor soluções de contenção ou reforço.

Um sistema de contenção tem como objetivo principal fornecer ao talude uma


oposição à sua tendência natural de movimentação, a partir de uma superfície crítica de
deslizamento, assegurando deste modo sua estabilidade.

Um determinado tipo de estrutura de contenção é considerado como solução de


engenharia quando se constata ser viável técnica e economicamente. Portanto, torna-se
imperativa a adoção de técnicas que garantam as condições requeridas de estabilidade e
que, ao mesmo tempo, sejam vantajosas do ponto de vista econômico.

Com este objetivo, técnicas que prevêem o emprego de materiais alternativos têm
sido estudadas nos centros de pesquisa tendo em vista a economia de recursos advinda
da utilização de novos materiais quando comparados aos materiais convencionais.

Uma das técnicas que tem merecido grande atenção, não apenas na geotecnia, mas
também em outros ramos da engenharia, é o reforço através da inclusão de fibras
naturais ou sintéticas.

Esta técnica de reforço já vem sendo utilizada há muito tempo pela humanidade,
como por exemplo, a utilização de fibras vegetais e mantas de raízes como elementos de
reforço nos Zigurates, na Muralha da China, entre outras construções antigas. Mais
recentemente porém, a técnica ganhou novo impulso a partir do avanço da engenharia e
ciência de novos materiais poliméricos.

1
Quando inseridas no solo ou em qualquer outro material, como o concreto, as fibras
são responsáveis por uma melhoria significativa nas propriedades mecânicas destes
materiais, podendo-se citar, por exemplo, o aumento da resistência à compressão
simples, tanto de pico quanto residual, ductilidade e tenacidade do material, entre
outras.

A pesquisa, portanto, se desenvolve no sentido de verificar a viabilidade do emprego


de fibras de polipropileno em substituição às barras de aço utilizadas nos grampos
convencionais da técnica de solo grampeado.

1.2 – OBJETIVO DA TESE

Este trabalho tem como objetivo geral estudar a viabilidade de utilização de


grampos com fibras de polipropileno em substituição aos grampos convencionais para
reforço de taludes de solo e rocha. Tais grampos são formados a partir de uma mistura
de argamassa (cimento, água, areia e aditivo) reforçada com fibras de polipropileno.

Para cumprir tal objetivo, um amplo programa experimental foi elaborado para se
determinar as características de resistência e deformabilidade dos grampos não
convencionais. Este programa experimental contemplou a realização de ensaios de
campo e laboratório.

Na etapa de laboratório, foram realizados ensaios de compressão uniaxial (simples)


e compressão diametral em corpos de prova moldados com nata de cimento e argamassa
com fibras de polipropileno nas mesmas proporções dos materiais utilizados nos
grampos de campo. Esses ensaios tiveram como objetivo principal analisar e comparar o
comportamento tensão-deformação das misturas com e sem fibras, além de determinar
suas propriedades de resistência e deformabilidade.

Na etapa de campo, foram realizados ensaios de arrancamento em grampos


convencionais e com fibras moldados em uma área experimental situada em uma obra
de solo grampeado no município de Niterói, RJ, com a meta principal de se avaliar a
resistência ao arrancamento do reforço. Desta forma, a metodologia desenvolvida teve
os seguintes objetivos:

2
• Determinar e comparar a resistência ao arrancamento dos grampos
convencionais e não convencionais;
• Estudar o comportamento carga-deslocamento do grampo reforçado com
fibras de polipropileno;
• Comparar o comportamento carga-deslocamento do grampo com fibras com
o do grampo convencional;
• Estudar o mecanismo de transferência de carga ao longo do grampo
reforçado com fibras de polipropileno;
• Avaliar a influência do tipo de solo atravessado pelos grampos na
resistência de arrancamento.

1.3 – ORGANIZAÇÃO DA TESE

A pesquisa está apresentada em mais cinco capítulos além deste capítulo


introdutório (Capítulo 1), incluindo-se também as referências bibliográficas pesquisadas
e anexos que se encontram ao final deste documento.

No Capítulo 2 é feita uma revisão do estado da arte sobre o conceito da técnica de


contenção conhecida como solo grampeado, bem como das condições em que ela pode
ser aplicada, suas vantagens e desvantagens. A revisão discorre à respeito das
características geométricas dos grampos convencionais, dos materiais constituintes e do
seu comportamento. Ainda são apresentadas diversas aplicações do concreto reforçado
com fibras, comentando-se as vantagens e desvantagens do emprego deste material
compósito. Também são tecidas considerações sobre o comportamento tensão-
deformação do material compósito correspondente ao concreto reforçado com fibras de
polipropileno, dando ênfase especial às solicitações de tração.

O Capítulo 3 apresenta a descrição e localização da área experimental utilizada na


pesquisa para a realização dos ensaios de campo, além de introduzir os materiais
utilizados nos grampos convencionais e com fibras de polipropileno e a metodologia de
trabalho adotada para o desenvolvimento deste estudo tanto no campo quanto no
laboratório.

3
No Capítulo 4 são descritos os procedimentos experimentais da pesquisa para os
ensaios de laboratório. São apresentados os procedimentos empregados para a
instrumentação dos corpos de prova e os métodos de ensaios de compressão uniaxial e
diametral. Ao final do Capítulo, são apresentados e analisados os resultados dos ensaios
de laboratório executados nos corpos de prova moldados com e sem fibras de
polipropileno.

O Capítulo 5 descreve os procedimentos experimentais para os ensaios de campo.


São descritas as metodologias adotadas para a execução dos ensaios de arrancamento e
para a exumação dos grampos. Ao final do Capítulo, são apresentados e analisados os
resultados obtidos dos ensaios de arrancamento dos grampos no campo, incluindo-se as
análises resultantes da exumação. Os comportamentos de resistência e deformabilidade
dos grampos convencionais e com fibras são discutidos e comparados.

No Capítulo 6 são apresentadas as conclusões da pesquisa e as sugestões para


futuros trabalhos a serem desenvolvidos neste tema.

Finalmente, este documento ainda apresenta 3 anexos; o primeiro com a planta da


área de ensaios de campo e boletins de sondagem, o segundo ilustrando o padrão de
fissuração apresentado pelos grampos não convencionais moldados na segunda bateria
de ensaios de campo e o terceiro com os resultados dos ensaios de compressão uniaxial
e diametral executados em laboratório.

4
CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
______________________________________________________________________

Neste capítulo é feita uma revisão da bibliografia que trata dos assuntos de interesse
da presente pesquisa. Ele se encontra dividido em três partes principais. Na primeira
parte, são introduzidos alguns conceitos básicos que possibilitam uma melhor
compreensão do trabalho.

A segunda parte inicia-se com um breve histórico sobre o surgimento dos sistemas
de contenção do tipo solo grampeado como alternativa frente aos sistemas
convencionais de contenção de taludes e encostas, relatando-se casos de obras no Brasil
e no exterior. Os conceitos e condições relacionados com a técnica, além das vantagens
e desvantagens, são apresentados de forma resumida.

É feita também menção especial aos elementos de reforço utilizados em obras


convencionais em solo grampeado. Descrevem-se os aspectos do grampo, tais como sua
geometria, os materiais que o compõem e o comportamento deste elemento frente às
solicitações do maciço.

Na terceira parte da revisão é apresentada uma breve definição de materiais


compósitos à base de cimento reforçados com fibras (pastas de cimento, argamassas e
concretos). São apresentados os vários tipos de fibras existentes no mercado com suas
principais características e propriedades de engenharia. Casos onde as fibras são
utilizadas como reforço para o concreto são relatados, mostrando a grande variedade de
aplicações deste material compósito na prática da Engenharia Civil.

Por fim, são apresentados resultados de ensaios realizados em laboratório por


diversos pesquisadores que contribuem para uma maior compreensão do
comportamento tensão-deformação do material compósito, principalmente sob
solicitações de compressão e tração. Também são reportadas as vantagens e
desvantagens advindas do uso deste material.

5
2.1 – ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS

O melhor entendimento desta pesquisa exige a apresentação de alguns conceitos


básicos, tais como:

Material Compósito: É o material resultante da combinação de dois ou mais


materiais diferentes, cujo objetivo é criar um material com melhores propriedades em
comparação aos demais materiais constituintes. Resulta disso que as propriedades deste
material não são encontradas em nenhum dos materiais que lhe deram origem.

Material Compósito Fibroso: É aquele material compósito onde um dos materiais


constituintes tem a forma de fibra (filamentos onde uma das dimensões é muito superior
às demais). O material compósito é constituído de dois componentes principais: a matriz
que ocupa a maior parte do volume total do compósito, e o reforço. No presente
trabalho, a matriz é representada pela argamassa (cimento, água, areia e aditivo),
enquanto as fibras de polipropileno são os elementos de reforço.

Resistência de Pico (σp): É a tensão normal (de compressão ou tração)


correspondente à carga de ruptura do material.

Resistência ao Arrancamento (qs): É a resistência que se desenvolve no contato


entre o grampo e o solo circundante, devido ao atrito lateral e à adesão.

Módulo de Elasticidade ou Módulo de Young (E): Relação entre a variação de


tensão normal e a deformação longitudinal correspondente.

2.2 – SOLO GRAMPEADO

Neste item é feito um resumo geral sobre o avanço da utilização de sistemas de


contenção em solo grampeado no Brasil e no mundo.

São também apresentadas considerações sobre os procedimentos executivos


correntemente adotados na construção de estruturas em solo grampeado, suas condições
de aplicação, vantagens e desvantagens inerentes à técnica.

6
2.2.1 – BREVE HISTÓRICO DO USO DA TÉCNICA

A necessidade de promover a rápida estabilização de taludes teve sua origem nas


escavações para exploração de minérios (ABRAMENTO et al., 1998). A partir da
década de 50, houve um grande crescimento no emprego de ancoragens curtas para a
estabilização de túneis na Europa.

Em 1945 foi desenvolvido o método NATM (New Austrian Tunneling Method) para
avanço de escavações de túneis em maciços rochosos. Sob efeito do peso e tensões
confinantes do maciço, uma cavidade apresenta deformações, as quais são responsáveis
pela conseqüente redução de seu diâmetro. Na circunvizinhança desta cavidade e no
interior do maciço, desenvolve-se uma zona de plastificação do material.

A estabilização desta cavidade é obtida através da aplicação de um revestimento


flexível de concreto projetado, tela metálica e da inserção de elementos de reforço
metálicos (chumbadores) curtos e radiais no interior da zona plástica formada pela
abertura da escavação. Este revestimento é aplicado tão logo a escavação seja concluída.

O revestimento assim executado fica, portanto, sujeito a cargas mais reduzidas, uma
vez que o procedimento construtivo oferece maior liberdade ao maciço para se deformar
até que os elementos de reforço sejam instalados.

O método ganhou a aceitação dos profissionais e evoluiu para a aplicação em um


túnel executado em maciço composto por uma camada de xisto grafítico argiloso (Túnel
Massemberg), em 1964. Seguiram-se aplicações em solos pouco competentes,
substituindo pesados escoramentos de madeira por finas camadas de concreto projetado
e chumbadores (ABRAMENTO et al., 1998).

Em 1970, Lizzi apresentou um sistema de contenção que visava estabilizar maciços


de solo. Esta técnica contempla a utilização de chumbadores longos e não protendidos,
executados com várias inclinações e fixados a vigas de concreto armado.

Em 1972, na França, a ontenção foi utilizada pela primeira vez com o nome de sol
cloué. A empresa Bouygues, em consórcio com a empresa Soletanche, aplicou a técnica

7
de solo grampeado para um talude ferroviário próximo à cidade de Versailles. Os
maciços constituídos por arenitos apresentavam inclinações da ordem de 70o.

Várias obras foram executadas e a técnica se popularizou entre as soluções para fins
de estabilização de taludes e escavações. Até o ano de 1986, cerca de 12.000 m2 haviam
sido estabilizados. Diversos programas de pesquisa foram desenvolvidos na França,
como os grupos CERMES da École National de Ponts et Chaussées e CEBTP (Centre
d'Études et de Recherches du Bâtiment et des Travaux Public), além de um programa
nacional de estudos denominado Programme Clouterre.

Na Alemanha Ocidental o desenvolvimento da técnica iniciou-se no ano de 1975 em


associação da empresa Karl Bauer AG com a Universidade Karlsruhe e o Ministério de
Pesquisa e Tecnologia. Esta associação consistiu em um programa que durou 4 anos e
que teve por finalidade estudar 8 modelos experimentais em escala real.

Nos Estados Unidos, o sistema foi empregado pela primeira vez em 1976 nas
escavações para construção de um Hospital em Portland, Oregon. Cerca de 10.000 m2
de contenções em solo grampeado com alturas de até 18 m haviam sido executadas
anteriormente no Canadá (ABRAMENTO et al., 1998).

Um programa de pesquisas conduzido na Universidade da Califórnia (SHEN, 1981)


teve como objetivo estudar o comportamento de estruturas grampeadas a partir da
análise de resultados de ensaios em modelos instrumentados e em escala real.

Até o final da década de 70, engenheiros realizaram seus trabalhos de forma


independente sem que houvesse troca de informações entre eles. Em 1979, entretanto,
graças à realização de um simpósio sobre a técnica de solo grampeado em Paris, abriu-
se espaço para o intercâmbio de idéias entre os profissionais, propiciando um grande
desenvolvimento da compreensão dos mecanismos físicos envolvidos e grande impulso
foi dado à adoção do grampeamento como solução de estabilização.

No Brasil, muitas obras permanentes em solo grampeado já foram executadas. Em


1966, a empresa suíça radicada no Brasil "Ródio Perfurações e Consolidações" aplicou

8
concreto projetado e tela metálica com grampos para estabilizar taludes na área de
reservatório da Barragem de Xavantes (ABRAMENTO et al., 1998).

Em 1970, a empresa SABESP utilizou o reforço com chumbadores curtos, concreto


projetado e tela metálica nos emboques de um dos túneis do Sistema Cantareira de
abastecimento de água para a cidade de São Paulo. A partir de 1972, foram aplicadas
contenções com chumbadores, perfurados e injetados com calda de cimento ou
simplesmente cravados, e reticulados de microestacas nos túneis e taludes da Rodovia
dos Imigrantes.

2.2.2 – CONCEITO

O solo grampeado é uma técnica bastante prática e eficiente para promover a


estabilização de taludes e escavações através do reforço do solo in situ. Pode ser
utilizada tanto provisoriamente como de forma permanente para o reforço de maciços.

Seu conceito é semelhante ao da técnica de execução de túneis com suporte flexível


(NATM), a qual permite a deformação do terreno (Figura 2.1), em contraposição ao
modo tradicional de execução de túneis, onde as deformações do maciço são
restringidas pela aplicação de um revestimento mais rígido (ORTIGÃO et al., 1993).

Figura 2.1: Técnicas de execução de túneis com revestimento rígido e flexível


(GEORIO, 2000).

9
Este sistema de contenção é composto por elementos de reforço constituídos por
inclusões semi-rígidas (chumbadores) em um maciço de solo/rocha em corte em
associação à aplicação de um revestimento na face do talude, o qual pode ser, por
exemplo, o concreto projetado armado. Como qualquer sistema de contenção, conta
ainda com um sistema de drenagem superficial e profunda.

Os chumbadores têm a função de promover a estabilização geral do maciço,


enquanto o revestimento de concreto projetado é responsável por garantir a estabilidade
local, junto à face da estrutura (ZIRLIS et al., 1999).

A drenagem sendo superficial e profunda, se encarrega de promover tanto a


estabilização pontual, junto ao paramento da estrutura, quanto a estabilização geral do
maciço.

O procedimento de execução de grampeamento é simples consistindo de três etapas


principais: escavação prévia de uma faixa de talude até determinada altura, execução
dos grampos e jateamento da face com concreto projetado (Figura 2.2).

Figura 2.2 Etapas de execução da estrutura em solo grampeado (ABRAMENTO et al.,


1998).

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A altura máxima a escavar em cada etapa depende da resistência do material a ser
escavado e da inclinação da face acabada da estrutura. Segue-se daí a execução da
primeira linha de grampos e posterior revestimento da face com concreto projetado. No
caso de taludes já escavados ou encostas naturais, pode-se trabalhar de forma
descendente ou ascendente, conforme a conveniência (KOCHEN, 2003).

Simultaneamente ao avanço dos trabalhos, executa-se a drenagem com drenos sub-


horizontais profundos (DHP), drenagem junto ao paramento da estrutura (dreno de
paramento), drenos pontuais e superficiais junto à face da estrutura (drenos do tipo
barbacã), canaletas e descidas d'água de concreto armado.

Os elementos de reforço são usualmente moldados in loco através das atividades de


perfuração do talude com equipamento mecânico ou manual, até se atingir o
comprimento dos grampos e fixação de haste metálica com injeção de calda de cimento
sob pressão (ZIRLIS et al., 1999).

Segundo ABRAMENTO et al. (1998), os grampos podem também ser instalados


através de cravação de barras ou tubos de aço utilizando marteletes pneumáticos ou de
forma manual. Entretanto esta técnica é de uso menos corrente no Brasil. O processo de
instalação dos grampos por cravação é rápido, porém a resistência no contato solo-
grampo é baixa, sendo encontrados valores típicos da ordem de 30 a 40 kPa, em solos
arenosos (GEORIO, 2000). O processo de execução por cravação ainda tem seu
emprego limitado quando há a ocorrência de pedregulhos bem como solos muito
competentes como os saprolitos de granito e gnaisse.

A técnica de uso mais corrente na prática da execução do solo grampeado é a


instalação de barras metálicas dentro de perfurações feitas no talude a ser reforçado. Ela
é semelhante à execução de ancoragens de barra, onde se perfura o terreno com
diâmetros de furo variando entre 50 a 100 mm, seguindo-se de introdução de uma barra
de aço e injeção de nata de cimento com pressões baixas, inferiores a 100 kPa. As
perfurações são normalmente executadas por equipamentos leves, pesando menos de 10
kN. Tais equipamentos são, portanto, de fácil manuseio, instalação e operação em
qualquer talude.

11
Como fluido de perfuração e limpeza do furo, podem ser utilizados água, ar ou
lama, tendo-se também a opção dos trados helicoidais contínuos. O sistema mais
comumente utilizado tem sido aquele onde a água é o fluido de perfuração.

Dependendo da profundidade do furo, diâmetro e da área de trabalho, pode-se optar


por perfuratrizes do tipo sonda, crawlair, wagon drill, ou até mesmo perfuratrizes
manuais. Quando se deseja alta produtividade dos trabalhos no canteiro, são utilizadas
esteiras de perfuração do tipo crawlair, cujo peso varia entre 20 e 40 kN.

A escolha do método de perfuração deve ser tal que garanta a estabilidade da


cavidade formada até a inserção da barra e preenchimento com calda de cimento
(ABRAMENTO et al., 1998).

O projetista tem a opção de usar lama bentonítica como fluido de estabilização da


cavidade. Porém, caso seja empregada, deve-se assegurar que a lama seja removida por
completo através da introdução da calda de cimento para evitar que haja um decréscimo
no valor da resistência lateral unitária por conta da presença da lama.

Uma vez concluída a etapa de perfuração, segue-se a instalação dos elementos de


reforço (grampos) sub-horizontais, com inclinações sempre abaixo da horizontal e
variando entre 5o a 30o (ZIRLIS et al., 1999).

Os grampos podem ter barras de aço, de fibras de vidro resinadas ou similares.


Usualmente são utilizadas barras de aço comuns na construção civil. Como os
elementos de reforço não devem perder suas características de resistência ao longo do
tempo, um tratamento anticorrosivo adequado, composto por aplicação de resinas
epóxicas, ou proteção eletrolítica, e posterior injeção de calda de cimento, faz-se
necessário. No caso de barras de fibra, este tratamento pode ser dispensado.

Ao serem inseridas no talude, as barras devem contar com dispositivos


centralizadores que garantam um recobrimento constante e contínuo, visto que as barras
devem ficar imersas na calda de cimento utilizada para preencher o interior das
perfurações.

12
As barras que constituem os elementos de reforço são geralmente dobradas a 90o em
sua extremidade, podendo alternativamente receber placa metálica, rosca e porca, se
uma carga inicial for aplicada. Neste caso, deve-se prever um trecho não aderido ao
solo, denominado trecho livre (ABRAMENTO et al., 1998).

Para o caso onde se executa a cravação de hastes metálicas, considera-se


desnecessária a aplicação de proteção contra a corrosão, devendo-se trabalhar, portanto,
com uma espessura de aço adicional. Se o elemento cravado for tubular, é possível
proceder uma injeção posterior, desde que ele seja cravado com ponteiras.

Em seguida à etapa de instalação das barras, é feita uma primeira injeção de calda de
cimento para dentro da perfuração, a qual recebe o nome de "bainha". PITTA et al.
(2003) comentam que o fator água/cimento para esta mistura varia em torno de 0,50 a
0,70. ZIRLIS et al. (1999) definem a bainha como sendo a fase inicial de injeção onde
se pretende recompor a cavidade escavada.

A calda pode ser otimizada com o uso de aditivos, como os expansores de calda de
cimento, que evitam a retração, garantindo o preenchimento total e contínuo da
cavidade. GEORIO (2000) afirma que o valor do atrito lateral unitário obtido através
desta adição atinge valores razoavelmente elevados em solos compactos ou rijos.

Qualquer fluido cimentante pode ser utilizado, sendo típicas as injeções com calda
de cimento ou resinas. Em casos de contenção em maciços de solo é comum a utilização
de caldas com elevado teor de cimento, ficando as resinas para o caso de reforço de
materiais rochosos.

Para instalação dos grampos, pode-se realizar a injeção de calda de cimento após a
introdução da barra no talude. Como alternativa, primeiramente é feito o preenchimento
do furo com material cimentante e em seguida, a barra é inserida.

Com o auxílio de tubulação acessória, cuja extremidade é posicionada na parte


inferior da perfuração, procede-se a injeção de baixo para cima, com o objetivo de
preencher totalmente a cavidade.

13
Em casos, onde se deseja um aumento na aderência lateral solo-calda é feita uma
segunda injeção (reinjeção) após um período de tempo total mínimo de 12 horas da fase
de injeção inicial (ZIRLIS et al., 1999).

Esta reinjeção é realizada com a calda sob pressão por meio de tubo de injeção
perdido, fixado junto ao chumbador. Nesta fase de reinjeção, é possível controlar a
quantidade de calda de cimento injetada, medindo-se a pressão de injeção e o volume de
calda injetado (PITTA et al., 2003).

A tubulação de injeção perdida constitui-se de tubo de polietileno de 8 a 10 mm de


diâmetro com válvulas de injeção instaladas entre 30 e 50 cm, até 1,5 m da boca do
furo. ABRAMENTO et al. (1998) destacam que a injeção além de promover uma maior
ancoragem do chumbador, ainda trata o maciço através do preenchimento das fissuras.

O paramento da estrutura de contenção em solo grampeado recebe um revestimento


composto por uma camada de concreto projetado ao longo de toda a altura do talude a
ser reforçado. Em taludes com inclinações mais suaves (da ordem de 45o) pode-se
adotar o revestimento vegetal.

Este revestimento em concreto projetado é a solução mais indicada em casos de fácil


acesso, onde os equipamentos necessários à sua execução podem ser transportados sem
qualquer dificuldade.

A armação da face, caso seja revestida por concreto projetado, pode ser feita com
armação convencional, tela eletrossoldada de aço ou fibras (ZIRLIS et al., 1999).

Segundo ABRAMENTO et al. (1998) é necessário garantir o recobrimento desta


armação e cuidados especiais durante a fase de projeção têm de ser observados a fim de
que haja ao final desta fase uma boa ligação entre o concreto e a armadura. O concreto
ainda deve ser bem compactado, especialmente se a armação já tiver sido colocada,
evitando que a mesma funcione como anteparo.

Uma forma alternativa de execução da face em concreto projetado, que tem


merecido muito destaque nos últimos anos, é a utilização de concreto reforçado com

14
fibras. Tais concretos constituem-se em materiais mais homogêneos com maior
resistência à tração, ductilidade e resistência à corrosão.

A utilização de concreto reforçado com fibras para compor a face dos taludes
apresenta as seguintes vantagens: rapidez de execução devido à eliminação da etapa de
colocação da tela, redução de volume de concreto projetado devido à redução nas perdas
por reflexão e melhor controle sobre a espessura da camada (GEORIO, 2000).

Segundo ABRAMENTO et al. (1998), testes realizados na Barragem CHESF e de


Miranda indicaram que o emprego de concreto reforçado com fibras metálicas
constituiu-se em solução mais prática e econômica, em comparação com a armação com
tela, e que as características do concreto são melhoradas nos aspectos de resistência à
tração e de permeabilidade.

O concreto que irá compor a face do talude é pressurizado por meio de equipamento
especial. O concreto contém, em sua composição, areia média, pedrisco, cimento e água
e desta forma é conduzido por mangotes até o bico de projeção.

O jateamento do concreto pode ser feito de duas maneiras: via seca ou via úmida.
Segundo ZIRLIS et al. (1999), a diferença básica entre os dois métodos está no preparo
e condução dos materiais componentes do concreto. Na via seca, os componentes
sólidos do concreto são misturados sem adição de água. A adição de água (umidificação
do concreto) se dá junto ao bico de projeção, instantes antes da aplicação. Na via úmida,
o concreto é misturado com todos os seus componentes e deste modo é conduzido
através dos mangotes até o local de aplicação.

O jateamento por via seca é mais usado nas obras devido à sua maior praticidade,
não havendo, entretanto, qualquer objeção à utilização do jateamento por via úmida.

ABRAMENTO et al. (1998) afirmam que a elevada energia que a mistura fica
submetida por ocasião de sua projeção promove boas condições de compactação do
concreto colaborando para sua alta resistência, bem como para o adensamento da capa
superficial do solo.

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Com relação à drenagem destas estruturas, a boa prática recomenda a execução de
sistemas de drenagem profunda e de superfície.

No caso de drenagem profunda, em geral são utilizados drenos sub-horizontais


profundos (DHP), formados por tubos plásticos drenantes com diâmetros de 38,1 mm a
50 mm inseridos em perfurações de diâmetros da ordem de 63,5 mm a 100 mm. São
drenos lineares embutidos no maciço, cujos comprimentos se situam geralmente em
torno de 6 até 18 m (Figura 2.3).

Figura 2.3: Detalhe do dreno horizontal profundo (ABRAMENTO et al., 1998).

No caso de drenagem de subsuperfície, utiliza-se drenos do tipo barbacã e drenos de


paramento. O dreno do tipo barbacã é o resultado da escavação de uma cavidade de
40x40x40 cm, preenchida com material drenante (brita ou areia), tendo como saída um
tubo de PVC com inclinação descendente e revestido por um filme de nylon ou camada
de geotêxtil no trecho em contato direto com o material drenante (Figura 2.4). Estes
tubos têm a função de coletar água proveniente da parte posterior do paramento e
conduzi-la para fora do maciço, sendo responsáveis por uma drenagem mais pontual.

O dreno de paramento, localizado no tardoz do muro e disposto ao longo de toda a


altura da estrutura (do pé à crista do muro), é composto por calha plástica ondulada
revestida por manta geotêxtil numa escavação de 10x30 cm que aflora na canaleta de
pé. Trata-se de um dreno linear e é considerado como opção mais eficiente e
recomendável para projeto, segundo ZIRLIS et al. (1999). A Figura 2.5 mostra um
detalhe do dreno de paramento.

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Figura 2.4: Detalhe do dreno tipo barbacã (ABRAMENTO et al., 1998).

Figura 2.5: Detalhe do dreno de paramento (ABRAMENTO et al., 1998).

Finalizando o sistema de drenagem da estrutura, são executadas canaletas de pé e de


crista, bem como descidas d'água. Estes dispositivos são moldados in loco e revestidos
por concreto projetado.

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2.2.3 – APLICAÇÕES

A contenção em solo grampeado pode ser aplicável a taludes ou escavações muito


íngremes, até verticais, formando um maciço estável. Esta solução encontra aplicação
em praticamente todos os tipos de terreno.

Para que esta técnica possa ser aplicada com sucesso, é necessário que o material a
ser escavado e reforçado com grampos apresente uma resistência ao cisalhamento não
drenada de no mínimo 10 kPa (ORTIGÃO e PALMEIRA, 1992). Os autores
argumentam que uma resistência ao cisalhamento desta ordem de grandeza pode ser
observada na maioria dos solos arenosos e argilosos, até mesmo em areias úmidas.
Apesar destes solos não possuírem uma cimentação natural, pode-se contar com este
valor de resistência devido às tensões de sucção (coesão aparente) que se desenvolvem
formando um arranjo mais estável por conta do efeito de capilaridade.

Apenas em taludes formados por camadas de areias secas e sem cimentação natural,
bem como por solos argilosos de baixa consistência (argilas muito moles a moles), este
tipo de contenção não se configura como uma solução tecnicamente viável.

2.2.4 – VANTAGENS E DESVANTAGENS

A técnica de contenção em solo grampeado apresenta vantagens econômicas tanto


no que se refere ao escoramento de escavações quanto na estabilização de taludes
naturais.

Dentre as principais vantagens deste sistema de contenção podem ser destacadas as


seguintes:

• Economia entre 10 e 50% com relação aos sistemas de contenção


atirantados;
• Maior velocidade de execução da estrutura;
• Uso de equipamentos de execução de pequeno porte com acesso a áreas
reduzidas, densamente ocupadas e instáveis;

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• Facilidade de adaptação a geometrias distintas, acomodando-se à forma do
maciço existente, o que contribui para a redução do volume das escavações e
maior estabilidade da obra;
• Mobilização da carga dos grampos para deslocamentos relativamente
pequenos;
• Avanço contínuo dos trabalhos, não necessitando de paralisações para
aguardar cura, ensaios e protensão das ancoragens (comuns em cortinas
ancoradas);
• Face estruturalmente mais leve devido ao baixo nível de carga suportado
pelos grampos quando comparado ao sistema de cortina atirantada;
• Possibilidade de ajuste do projeto, mesmo após iniciadas as escavações;
• Emprego para taludes verticais, caso não haja restrição de movimentações na
crista.

Dentre as desvantagens e/ou limitações da técnica, podem ser citadas as seguintes:

• As escavações são limitadas pelo espaçamento entre duas linhas de


grampos, necessitando para tal que o talude permaneça estável por algumas
horas até a execução dos serviços. Neste caso, é suficiente que o solo tenha
alguma coesão ou cimentação;
• Uso não recomendado para maciços com pacotes de solos moles ou solos
não coesivos sem cimentação natural ou no estado seco devido à baixa
resistência ao cisalhamento;
• Não é aconselhável no caso de solos permeáveis, onde é detectado nível
d'água. Nestes casos poderão ocorrer freqüentes instabilizações localizadas,
dificultando a execução da face em concreto projetado.

2.3 – GRAMPO CONVENCIONAL

Neste item estão resumidas as informações da literatura sobre grampos


convencionais. São apresentados os aspectos relativos à geometria dos grampos, aos
materiais constituintes e por fim ao comportamento de um grampo frente às solicitações
de campo.

19
2.3.1 – CARACTERÍSTICAS

Os grampos convencionais, ou seja, os executados com maior freqüência no Brasil,


são constituídos de monobarras de aço com seção cilíndrica. Em casos especiais, são
usadas micro-estacas ou barras sintéticas, em seções com formato cilíndrico ou
retangular.

A barra de aço tem usualmente diâmetros compreendidos na faixa de 10 a 25 mm.


Ela é em geral dobrada na extremidade a 90o (para diâmetros até 20 mm) com
comprimentos de dobra de cerca de 20 cm. Centralizadores são dispostos ao longo de
seu comprimento para garantir seu recobrimento, com espaçamento usual de 2 metros.

Quando o diâmetro da barra for maior que 20 mm, não é usual dobrá-la, recorrendo-
se portanto, a um sistema de placa e porca.

Adjacentes à barra e fixados à mesma, são instalados tubos de injeção, com


diâmetros de 10 a 15 mm, providos de válvulas a cada 50 cm. Uma ilustração do
grampo convencional mostrando seus materiais constituintes é apresentada na Figura
2.6.

Figura 2.6: Detalhe do grampo convencional e suas partes constituintes (ZIRLIS et al.,
1999).

Segundo ZIRLIS et al. (1999), a calda de cimento utilizada para injeção da bainha e
posterior reinjeção é constituída por uma mistura de cimento e água dispostos de
maneira a satisfazer um fator água/cimento em peso aproximadamente igual a 0,50.

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Aditivos plastificantes podem ser utilizados com o objetivo de produzir misturas que
apresentem uma trabalhabilidade adequada com redução do fator água/cimento.

2.3.2 – COMPORTAMENTO

O grampo, uma vez instalado no talude a ser reforçado, tem como função “costurar”
a zona potencialmente instável (zona ativa), delimitada pela superfície crítica de
deslizamento, e a zona estável (zona passiva), onde o material não apresenta
movimentações significativas.

Os elementos de reforço em estruturas de solo grampeado ficam submetidos a


tensões de tração que se desenvolvem ao longo de todo o comprimento do reforço
(Figura 2.7), atingindo o seu valor máximo no ponto de interseção do grampo com a
superfície potencial de deslizamento.

Figura 2.7: Mecanismo de transferência de carga em estruturas de solo grampeado.

Os grampos também são projetados para suportar esforços do tipo flexão composta.
No caso de estruturas de solo grampeado, as solicitações a que os grampos ficam
submetidos no campo são de natureza trativa e de cisalhamento.

GEORIO (2000) indica que, o valor da resistência no contato entre o solo e o


grampo tem papel fundamental no comportamento do elemento de reforço. Este valor
pode ser estimado na fase preliminar da obra, através de correlações empíricas. Uma
vez já tendo sido instalados os reforços, o atrito solo-grampo pode ser medido através
da realização de ensaios de arrancamento.

21
2.4 – CONCRETO REFORÇADO COM FIBRA

Dentre os vários materiais compósitos fibrosos desenvolvidos ao longo dos anos


podem-se destacar os materiais compósitos à base de cimento.

Dentro deste grupo, estão as pastas de cimento, argamassas e concretos reforçados


com fibras. As pastas de cimento reforçadas com fibras são definidas como sendo um
material resultante da combinação de cimento, água e fibras.

Os materiais, cujo estudo do comportamento se torna mais relevante para a presente


pesquisa, são as argamassas e concretos reforçados com fibras.

Denomina-se Concreto Reforçado com Fibra (CRF) o material compósito fibroso,


onde a matriz é constituída por uma mistura de cimento, água e agregados graúdo e
miúdo (pedra britada e areia) e o elemento de reforço é constituído por fibras
descontínuas (BENTUR e MINDESS, 1990). Já as argamassas reforçadas com fibras
são uma mistura dos mesmos materiais citados anteriormente, porém sem a presença do
agregado graúdo.

2.4.1 – TIPOS DE FIBRAS DISPONÍVEIS

Existe atualmente no mercado uma grande variedade de fibras que podem ser
utilizadas para reforço de materiais compósitos. Elas diferem entre si pela composição
física e química, propriedades mecânicas e resistência quando expostas a meios
agressivos (VENDRUSCOLO, 2003).

Estas fibras podem ser divididas em quatro grandes grupos: naturais, poliméricas,
minerais e metálicas.

Fibras Naturais

Os primeiros tipos de fibras empregados em obras de terra de que se tem registro


são as fibras naturais. Dentre os materiais utilizados na confecção de fibras naturais
podem ser citados: bambu, juta, capim elefante, malva, coco, piaçava, sisal, linho,
celulose e cana de açúcar. Algumas destas fibras podem atingir grandes resistências,

22
como as fibras de bambu, cuja resistência geralmente supera valores de 100 MPa e com
módulo de elasticidade situado entre 10 e 25 GPa.

A durabilidade dos compósitos formados com fibras vegetais constitui-se em um


grande problema, devido à degradação natural provocada pela ação de fungos e
microorganismos (VENDRUSCOLO, 2003).

A exposição destas fibras a ambientes alcalinos é responsável por sua rápida


deterioração, podendo-se citar como exemplo a utilização de fibras vegetais em
materiais cimentados com cimento Portland comum.

Fibras Poliméricas

As fibras poliméricas são aquelas cujo emprego para fins de reforço de solos talvez
seja o mais promissor. Os polímeros, dependendo de sua estrutura química, apresentam
comportamentos diferentes, dando origem a diferentes tipos de fibras.

A utilização deste tipo de fibra como reforço de materiais de construção é recente.


Dos diferentes tipos de fibras que fazem parte deste grupo podem ser destacadas as
fibras de polipropileno, polietileno, poliéster e poliamida (nylon). As principais
características e propriedades de engenharia observadas para estas fibras são descritas
resumidamente a seguir:

(i) Fibras de Polipropileno:

São constituídas de um tipo de material polimérico denominado termoplástico. Este


material adquire uma consistência plástica com o aumento da temperatura. Possuem
grande flexibilidade e tenacidade em função de sua constituição.

No que se refere ao seu comportamento mecânico, estas fibras apresentam módulo


de elasticidade variando em torno de 8 GPa, sendo consideradas, portanto, fibras de
baixo módulo em comparação com fibras de outra natureza.

23
As fibras de polipropileno possuem resistência à tração de aproximadamente 400
MPa e elevada resistência ao ataque de substâncias químicas e álcalis. Fibras de
polipropileno foram utilizadas para reforço da matriz cimentante na presente pesquisa.

(ii) Fibras de Polietileno:

As fibras de polietileno apresentam baixo módulo de elasticidade e, assim como as


de polipropileno, são fracamente aderidas à matriz cimentante e possuem alta resistência
ao ataque dos álcalis. Podem ser encontradas no mercado sob a forma de
monofilamentos picados ou malhas contínuas.

A durabilidade destas fibras é alta, mas elas apresentam maiores deformações de


fluência, o que limita a sua utilização em compósitos fibrosos fissurados submetidos a
tensões permanentes e de valor elevado.

O polietileno de alta densidade (PEAD) foi desenvolvido para minimizar a baixa


aderência com a matriz e aumentar o módulo de elasticidade.

(iii) Fibras de Poliéster:

O poliéster é um polímero que apresenta valores altos de densidade, rigidez e


resistência, conferindo tais características às fibras feitas deste material. Estas fibras
possuem aspecto muito similar às fibras de polipropileno e podem ser utilizadas para as
mesmas aplicações.

O poliéster mais comum é o polietileno tereftalato (PET) empregado em larga escala


na produção de garrafas plásticas.

(iv) Fibras de Poliamida (Kevlar):

Polímeros contendo longas cadeias de moléculas geralmente possuem baixas


resistência e rigidez, dado que suas moléculas são espiraladas e dobradas. Contudo, se
estas moléculas forem espichadas e reforçadas durante o processo de manufatura, altas

24
resistências e módulos de elasticidade podem ser alcançados, como é o caso das fibras
do tipo Kevlar.

Existe no mercado a fibra Kevlar 29, cuja resistência à tração é da ordem de 3 GPa e
módulo de elasticidade intermediário de aproximadamente 64 GPa. Há também a fibra
Kevlar 49, que apresenta a mesma resistência mecânica e módulo de elasticidade mais
elevado (300 GPa).

Fibras Minerais

A família das fibras minerais é composta por fibras de carbono, vidro e amianto,
cujas características mais relevantes são descritas a seguir.

(i) Fibras de Carbono:

São materiais cujas propriedades são função da resistência das ligações entre os
átomos de carbono e do peso atômico reduzido dos mesmos. As fibras de carbono têm
diâmetros variando na ordem de 5 a 10 µm e são formadas por agrupamentos que
chegam a conter até 20.000 filamentos. Estas fibras podem ser divididas em duas
categorias principais: fibras de alta resistência e fibras de alta rigidez. As fibras de alta
resistência possuem resistência à tração de aproximadamente 2,4 GPa e módulo de
elasticidade de 240 GPa, enquanto as fibras de alta rigidez apresentam resistência à
tração da ordem de 2,1 GPa e módulo de elasticidade de 420 GPa.

(ii) Fibras de Vidro:

As fibras de vidro são geralmente confeccionadas na forma de “cachos”, ou seja,


fios compostos de centenas de filamentos individuais e justapostos. O diâmetro destes
filamentos individuais é da ordem de 10 µm. Cerca de 99% das fibras de vidro são
produzidas a partir do vidro do tipo E, que é susceptível ao ataque dos álcalis presentes
no cimento Portland. Uma fibra especial resistente à ação dos álcalis, denominada
comercialmente de “Cem-Fil” vem sendo desenvolvida para o uso em pastas cimentadas
(VENDRUSCOLO, 2003).

25
(iii) Fibras de Amianto:

Esta fibra apresenta ótimas características mecânicas, se comparadas às demais


fibras disponíveis no mercado, com resistência à tração média da ordem de 1 GPa e
módulos de elasticidade em torno de 160 GPa. Além disso, aderem satisfatoriamente
quando imersas em matriz de cimento.

Seu diâmetro é muito pequeno, da ordem de 1 µm. Sua utilização na construção


civil, entretanto, é proibida em muitos países, porque, ao ser cortada, esta fibra libera
partículas muito pequenas que danificam os alvéolos pulmonares, se aspiradas pelo
homem.

Além disso, o comportamento frágil e a baixa resistência à cargas de impacto


limitam o uso deste material na prática da engenharia civil.

Fibras Metálicas

Dentre a família das fibras metálicas, as mais comuns são as fibras de aço. Seu
formato pode ser bastante variável, com o objetivo de aumentar a aderência com a
matriz cimentante.

Estas fibras têm sido utilizadas em um número considerável de pesquisas, como


forma de melhorar as propriedades mecânicas dos materiais de construção.

A resistência à tração da fibra metálica é da ordem de 1,1 GPa e o módulo de


elasticidade é igual a 200 GPa (VENDRUSCOLO, 2003).

As fibras utilizadas na construção civil apresentam um fator de forma (relação l/d)


variando na faixa de 30 a 50, comprimentos da ordem de 0,1 a 7,6 cm e diâmetros entre
0,1 a 0,9 mm. O mecanismo de ruptura de um compósito reforçado por fibra metálica é
geralmente associado ao arrancamento destas fibras e não ao rompimento das mesmas.

Dependendo do meio onde se inserem, estas fibras podem apresentar problemas de


corrosão. Uma técnica desenvolvida para minimizar este problema é o banho de níquel.

26
2.4.2 - APLICAÇÕES

O concreto reforçado com fibras pode ser utilizado em diversos tipos de obras,
destacando-se o reforço de base de fundações superficiais, reforço de pavimentos
industriais e revestimento de túneis e concreto projetado de face de talude.

Reforço de Base de Fundações Superficiais

A técnica de melhoramento de solos para a aplicação como base para fundações


superficiais tem sido difundida e utilizada em todo o mundo. A estabilização de solos
tem sido muito utilizada na Suécia nos últimos anos com o objetivo de fornecer uma
redução no nível de recalques sofridos pelo elemento de fundação e um aumento de
resistência do solo (VENDRUSCOLO, 2003).

Para exemplificar o emprego da técnica de melhoramento de solos para base de


fundações superficiais, pode-se citar o caso da Escola de Engenharia de São Carlos,
onde uma camada superficial de solo foi removida, pois a mesma não apresentava
condições satisfatórias de capacidade de suporte. Após sua remoção, ela foi novamente
recolocada em camadas compactadas. VENDRUSCOLO (2003) cita que, após a
compactação, a capacidade de suporte aumentou de 100 a 200% em relação à
capacidade de suporte do solo natural.

O reforço de base de fundações superficiais com a inclusão de fibras foi estudado


por CASAGRANDE (2001). Ela pesquisou a influência da adição de fibras em uma
camada superficial de solo compactado através de uma série de ensaios de placa.

Pode-se concluir que a camada compactada e reforçada com fibras apresentou um


comportamento mais rígido e mais resistente, se comparado com a camada sem reforço.
Segundo CASAGRANDE et al. (2002), foi observada uma banda de cisalhamento
vertical abaixo da borda da placa na camada de solo compactado sem reforço. Para
CONSOLI et al. (2002), as fibras permitem uma redistribuição das tensões atuantes em
uma área maior, aumentando assim a capacidade de suporte.

27
Reforço de Pavimentos Industriais

Pavimentos industriais reforçados com fibras de aço têm sido intensamente


executados no Brasil (FOÁ e ASSIS, 2002).

Algumas vantagens de seu emprego, quando comparado com o uso de telas


metálicas soldadas, são listadas a seguir:

• Inexistência da etapa de colocação das telas, reduzindo-se o número total de


operários necessários para a execução do pavimento;
• Redução de espaço na obra, uma vez que não é preciso dispor de área que
sirva de estocagem para a armadura;
• Inexistência de espaçadores, necessários no emprego de telas metálicas;
• Reforço de toda a espessura de concreto do pavimento;
• Corte das juntas de dilatação do pavimento sem a necessidade de se dispor
de barras de transferência pré-instaladas;
• Reforço das bordas das juntas de dilatação, minimizando o efeito de
lascamento destas regiões;
• Maior facilidade de acesso ao local de concretagem, podendo-se chegar ao
local de lançamento do concreto com o caminhão betoneira, o que é
impossível quando se utilizam telas metálicas;
• Não apresentam restrições quanto à mecanização da execução do pavimento.

Esta tecnologia de execução e reforço de pavimentos, contudo, apresenta algumas


desvantagens e limitações, segundo FOÁ e ASSIS (2002). Quando a fissuração do
pavimento é reduzida pela adição de fibras ao concreto, pode ocorrer empenamento por
retração diferencial. Além disso, após a etapa de acabamento superficial, algumas fibras
tendem a ficar na superfície da placa, o que aumenta os riscos de corrosão e o
aparecimento de pontos de ferrugem em detrimento do aspecto estético da obra.

28
Revestimento de Túneis

Dentro da área de revestimento de túneis, um dos grandes avanços alcançados nos


últimos anos tem sido o emprego de materiais compósitos fibrosos constituídos por
concreto reforçado com fibras de aço (FOÁ e ASSIS, 2002).

Esta técnica apresenta inúmeras vantagens, se comparada com o reforço com tela
metálica:

• Aplicação imediata à escavação, diminuindo o risco de acidentes por conta


do desprendimento de material do maciço;
• Maior velocidade de execução da obra devido à eliminação das fases de
instalação de cambota e tela metálica;
• Maior homogeneidade da estrutura de revestimento;
• Redução da permeabilidade do material;
• Redução da ocorrência de vazamentos localizados;
• Redução do nível de fissuração do revestimento primário de concreto
projetado, o qual sofre grandes deformações por conta das deformações do
material recém escavado;
• Aumento da durabilidade do revestimento devido à redução da fissuração;
• Menor reflexão do concreto projetado devido à ausência da tela e das
irregularidades das cambotas metálicas;
• Redução do consumo de aço devido à eliminação das cambotas e dos riscos
de acidentes associados a sua instalação.

Concreto Projetado para Revestimento de Taludes

O concreto projetado reforçado com fibras para aplicação em revestimento de face


de taludes em solo grampeado é uma tecnologia relativamente recente.

Em contraste com o modo convencional de revestimento de taludes, o concreto


projetado reforçado com fibras de aço apresenta uma série de vantagens, tais como uma

29
menor reflexão do concreto devido à ausência de tela metálica e uma maior
homogeneidade do material.

Ao contrário dos países desenvolvidos, que já fazem uso da fibra de aço como
reforço do concreto projetado, mesmo sem haver um consenso geral tanto a nível de
projeto quanto a nível de controle, não havia desde o início da década de 90, registro de
sua aplicação no Brasil.

Um dos fatores que inibiu tal utilização, segundo FOÁ e ASSIS (2002), foi um
comportamento mais conservador adotado pelos projetistas e construtores brasileiros.
Isto se deve porque a construção de túneis pelo método NATM foi feita em São Paulo,
onde o solo exige um baixo período de tempo para que o revestimento primário
apresente resistência suficiente para suportar os deslocamentos do maciço. Deste modo,
os construtores exigiam que a fibra apresentasse uma certa equivalência à tela metálica,
como elemento de reforço.

Outro fator que restringe a aplicação de fibras no Brasil está no fato de ser recente o
seu uso como elemento de reforço para peças moldadas por concreto. As fibras
nacionais eram basicamente subprodutos. Elas produziam baixo desempenho pós-
fissuração ou dificultavam a mistura e a aplicação, provocando entupimentos nos
equipamentos.

A função do reforço com fibra de aço é oferecer ao concreto projetado maior


ductilidade e menor possibilidade de ocorrência de ruptura do tipo frágil. O concreto
reforçado com fibras de aço passa a se comportar como um material pseudo-dúctil, ou
seja, ele é capaz de suportar um nível adequado de tensão residual mesmo após sua
fissuração.

Vale dizer que é necessário haver uma grande compatibilidade entre a fibra e a
matriz para que se possa esperar uma durabilidade satisfatória do conjunto. Isto não
ocorre no caso do reforço de matrizes cimentíceas com fibras de vidro, devido à sua
deterioração por parte dos álcalis presentes no cimento.

30
Além das fibras de aço, também são aplicadas fibras de origem vegetal, como a
palha, sisal, casca de coco e celulose. Estas fibras, porém, têm sua durabilidade
comprometida quando aplicadas em meios alcalinos, como é o caso de matrizes
cimentíceas.

Um compósito que tem sido muito aplicado nos últimos anos, inclusive no Brasil,
são as argamassas e concretos reforçados com fibras sintéticas (polipropileno e nylon).

Uma grande melhoria no que diz respeito ao controle de fissuração por retração
plástica foi verificado em compósitos reforçados com fibras desta natureza para
argamassas de reparo, onde o baixo módulo de elasticidade das fibras é suficiente para
inibir a propagação das fissuras.

Outras Aplicações

Segundo FOÁ e ASSIS (2002), a utilização de concretos reforçados com fibras é


viável em casos de obras onde as estruturas estão muito sujeitas a esforços dinâmicos,
podendo-se citar como exemplo, o caso de estruturas alocadas em regiões sujeitas a
ação de abalos sísmicos e até mesmo estruturas sujeitas ao fenômeno de fadiga por
esforço cíclico.

A vantagem do emprego de materiais compósitos fibrosos nestes casos é que o


reforço com fibras tende a minimizar os danos causados pelos esforços de natureza
cíclica e diminuir a fissuração da estrutura, resultando em uma maior vida útil da obra.

Na área militar, é grande o potencial deste material para a construção. Ressalta-se a


importância da utilização de materiais que ofereçam resistência elevada ao impacto de
projéteis. O concreto reforçado com fibras tem todas as condições para proporcionar um
desempenho superior se comparado ao concreto armado.

Um outro campo de aplicação importante para os concretos reforçados com fibras é


o da indústria de pré-moldados. Isto se deve à maior velocidade de produção das peças
por conta da eliminação da fase de instalação da armadura nas formas previamente ao
lançamento do concreto.

31
2.4.3 – COMPORTAMENTO DO MATERIAL COMPÓSITO

As fibras utilizadas para reforço de matrizes cimentíceas agem tanto no sentido


reforçar o compósito em relação a carregamentos que induzem tensões de tração
(retração restringida, tração direta ou flexão e cisalhamento) quanto no sentido de
aumentar a ductilidade e a tenacidade destas matrizes.

As fibras atuam controlando a abertura e o espaçamento entre as fissuras,


distribuindo assim as tensões de maneira mais uniforme dentro da matriz. Taylor (1994)
afirma que as fibras não impedem a formação de fissuras dentro da matriz, mas
contribuem para aumentar a resistência à tração do compósito através do controle da
propagação das mesmas (VENDRUSCOLO, 2003).

As fibras ainda mantém as interfaces das fissuras juntas, atuando principalmente


após a fissuração da matriz, aumentando a ductilidade do compósito. As fibras que
atravessam as fissuras promovem um aumento de resistência, de deformabilidade e de
tenacidade nos compósitos.

Para que uma fibra possa ser considerada adequada para reforço de um material
compósito, algumas características devem ser consideradas relevantes: a fibra deve ser
quimicamente neutra e não deteriorável, não deve sofrer ataque de fungos, bactérias ou
álcalis, além de apresentar características físicas e mecânicas adequadas.

Segundo VENDRUSCOLO (2003), os principais fatores ligados ao desempenho dos


materiais compósitos reforçados com fibras são:

• Teor de fibra: Um alto teor de fibras confere ao compósito maior resistência


no estado pós-pico e menor dimensão das fissuras, desde que as fibras
possam absorver as cargas adicionais causadas pelo surgimento das fissuras;
• Rigidez da fibra: Um alto valor de módulo de elasticidade causaria um
efeito semelhante ao teor de fibra, mas o que se verifica é que, quanto maior
o valor do módulo, maior a probabilidade de haver uma ruptura do
compósito por arrancamento das fibras;

32
• Aderência entre a fibra e a matriz: A aderência entre a matriz e o reforço é
o fator fundamental que governa as características de resistência, deformação
e modo de ruptura de uma grande variedade de materiais compósitos à base
de cimento. Uma alta aderência provoca a redução no tamanho das fissuras e
amplia a distribuição destas fissuras pelo compósito;
• Resistência da fibra: Com o aumento da resistência das fibras, aumenta
também a ductilidade dos compósitos, desde que não ocorra o rompimento
das ligações de aderência fibra/matriz. A resistência da fibra depende na
prática das características pós-fissuração desejadas para o material, bem
como do teor de fibra e da aderência fibra/matriz;
• Deformabilidade da fibra: A ductilidade do compósito pode ser aumentada
através da utilização de fibras que apresentam maior deformação até a
ruptura. Isto se deve ao fato de compósitos reforçados com fibras com alto
grau de deformabilidade consumirem energia sob a forma de alongamento da
fibra;
• Compatibilidade entre a fibra e a matriz: A compatibilidade física e
química entre a fibra e a matriz é muito importante. A curto prazo, as fibras
que absorvem água podem provocar perda de trabalhabilidade do concreto e
provocar variações de volume que, por sua vez, podem comprometer a
aderência com a matriz. A longo prazo, observa-se que alguns tipos de fibras
poliméricas não possuem estabilidade química frente à presença de álcalis
nos materiais constituídos por cimento Portland. Neste caso, pode ocorrer
uma rápida deterioração da fibra com perda significativa de suas
propriedades;
• Comprimento da fibra: Quanto menor o comprimento das fibras, maior é a
possibilidade de elas serem arrancadas, devido a um menor comprimento de
ancoragem na matriz. Para garantir um melhor desempenho da fibra, o
comprimento deve ser suficiente para que, a partir de uma dada tensão de
cisalhamento aplicada à fibra, possa ser gerada uma tensão de tração igual à
resistência à tração da fibra.

33
Para que se tenha uma compreensão real do comportamento mecânico de
compósitos reforçados com fibras, há que se considerar também o diâmetro, o qual
influencia a capacidade da fibra em resistir às tensões de cisalhamento e tração.

A Figura 2.8 apresenta a disposição ideal da fibra em relação à fissura, onde fica
clara a importância da relação entre o comprimento da fibra e o diâmetro (l/d).

Figura 2.8: Disposição ideal entre a fibra e a fissura (VENDRUSCOLO, 2003).

A relação l/d é proporcional ao quociente entre a resistência à tração da fibra (ft) e a


resistência de aderência entre a fibra e a matriz na ruptura (fa). Se a fibra possui alta
resistência à tração, como as fibras de aço por exemplo, então a resistência de aderência
entre a fibra e a matriz deve ser alta para impedir o arrancamento das fibras antes que a
resistência à tração seja totalmente mobilizada. Isto indica que fibras com alta relação
l/d devem ser utilizadas.

O desempenho dos materiais compósitos reforçados com fibras é controlado


principalmente pelo teor e pelo comprimento da fibra, pelas propriedades físicas da
fibra e da matriz e pela aderência entre as duas fases. Ainda é observado que a
orientação da fibra em relação ao plano de ruptura e a sua distribuição pela matriz
exercem influência no desempenho do material compósito. Quando a fibra se posiciona
paralelamente ao plano de ruptura não é verificado efeito algum de reforço. Por outro
lado, uma fibra que se encontra em posição perpendicular ao plano de ruptura tem seu
efeito de reforço maximizado.

34
Para cada tipo e aplicação de fibra existe um teor que promove um maior acréscimo
nas propriedades desejadas para o compósito. Um dos fatores que contribui para um
bom desempenho do material compósito fibroso é o número de fibras por metro cúbico
de concreto. Este número varia muito em função do diâmetro e da densidade da fibra.

2.4.3.1 – RESISTÊNCIA À COMPRESSÃO

Segundo SPECHT et al. (2002), a adição de fibras em um compósito do tipo solo-


cimento resulta em um material com melhores características de resistência e
ductilidade. Além disto, o aumento na resistência é uma função direta do teor de fibra
até um certo nível, a partir do qual o reforço se torna menos efetivo.

Ensaios de compressão triaxial realizados em amostras de solo-cimento


demonstraram que o modo de ruptura destes compósitos é dependente do nível de
confinamento. Até um determinado nível de tensão confinante, chamada de tensão
crítica, a ruptura do compósito ocorre por deslizamento da fibra em relação à matriz.
Para valores de tensão confinante acima da tensão crítica, a ruptura é governada pela
resistência da fibra.

SPECHT et al. (2002) estudaram a influência do reforço com fibras de polipropileno


nas propriedades de resistência e deformabilidade de um material compósito constituído
de um solo cimentado artificialmente.

Foram realizados ensaios de compressão não confinada (compressão uniaxial) e


compressão diametral, com o objetivo de avaliar a influência da inserção de dois tipos
diferentes de fibras: uma fibra do tipo extensível (mais deformável) em forma de
filamentos e uma fibra do tipo inextensível (menos deformável) fibrilada e formada por
filamentos unidos.

A utilização de fibras de caráter extensível (fibras mais flexíveis) para reforço em


materiais compósitos à base de cimento promove um aumento na deformação de ruptura
do compósito, exercendo assim, um efeito muito importante no comportamento pós-
pico do material.

35
Os reforços com fibras deformáveis (fibras de polipropileno) apresentam
comportamento distinto em relação às fibras rígidas. As fibras mais flexíveis têm
módulo de elasticidade menor se comparada à matriz e, nestes casos, elas não rompem.
Apesar de conferir algum ganho de resistência, o reforço com fibras desta natureza tem
como principal função aumentar a ductilidade do material compósito (MONTARDO et
al., 2001).

No que concerne ao comportamento tensão-deformação, pode-se dizer que a adição


de fibras mais deformáveis conduz a uma mudança no modo de ruptura de matrizes
cimentíceas. O comportamento, que antes era do tipo frágil, passa a ser dúctil com a
inclusão deste tipo de fibras.

SPECHT et al. (2002) ainda relatam que é preciso pouca deformação para mobilizar
a resistência da fibra extensível. Também concluíram que a fibra do tipo inextensível
(fibras mais rígidas) contribui para um incremento na resistência de pico do material e
uma redução no nível de deformações do compósito até a ruptura. Quanto à tenacidade,
foi constatado um ligeiro aumento na capacidade de absorção de energia proporcional
ao comprimento da fibra.

De forma análoga ao que foi verificado quando da utilização de fibras extensíveis,


as fibras mais rígidas também promovem uma redução no índice de fragilidade de
materiais compósitos, sendo que esta redução é bem menor e não é suficiente para
provocar uma mudança no comportamento tensão-deformação do material compósito.
Esta redução é maior para maiores comprimentos de fibra.

De acordo com DONATO et al. (2004), com a ruptura da matriz cimentada, grande
parte das cargas passam a ser resistidas pelas fibras, reduzindo drasticamente a queda de
resistência pós-pico conferindo, conseqüentemente, um caráter mais dúctil ao
comportamento tensão-deformação do material compósito.

Em contraposição aos elementos de reforço de natureza extensível, as fibras mais


rígidas apresentam módulo de elasticidade maior que o da matriz. Sendo assim, elas
podem ou não romper, quando solicitadas, dependendo da resistência à tração.

36
MONTARDO et al. (2001) relatam que compósitos reforçados com fibras mais
rígidas podem apresentar ganhos de resistência mecânica, porém podem ocorrer
rupturas catastróficas.

SHEWBRIDGE e SITAR (1990) afirmam que quanto maior for o módulo de


elasticidade das fibras, maior será a probabilidade delas serem arrancadas da matriz,
aumentando a possibilidade de rupturas catastróficas.

MONTARDO et al. (2001), estudando o comportamento mecânico de materiais


compósitos à base de cimento reforçados com fibras, buscaram estabelecer uma
correlação com as propriedades dos materiais constituintes (fibra e matriz). Foi
realizada uma campanha experimental com ensaios triaxiais drenados para avaliar o
efeito da porcentagem de cimento, porcentagem de fibra, comprimento de fibra e tensão
confinante nas propriedades do compósito constituído por uma matriz de areia fina,
cimento Portland e diversos tipos de fibras.

Foi também estudado o efeito da natureza da fibra na resposta mecânica do material


compósito através de corpos de prova reforçados com três tipos de fibras: poliéster,
polipropileno e vidro. Os autores concluíram que a natureza das fibras e da matriz é
fundamental para o aumento da resistência de ruptura.

Ensaios realizados em matrizes reforçadas por fibras de polipropileno demonstraram


que houve um decréscimo na resistência, tanto mais acentuado quanto maior o
comprimento de fibra. Apesar disto, os autores afirmam que de maneira geral, ocorre
um acréscimo de resistência de pico para maiores comprimentos de fibra em relação ao
material sem fibras.

O aumento na resistência à compressão de materiais compósitos reforçados com


fibras de polipropileno é mais expressivo para matrizes com granulometria mais fina
(DONATO et al., 2004).

LI e MAALEJ (1996) afirmam que a introdução de fibras para reforço de materiais


compósitos à base de cimento causa um aumento na tenacidade. Este aumento é muito
mais significativo do que o aumento nas propriedades de resistência.

37
À medida que a matriz começa a fissurar com o aumento do carregamento, as fibras
que atravessam as fissuras, unindo os dois lados da mesma, funcionam como pontes
transferindo as tensões de um lado a outro (BANTHIA e SHENG, 1996).

Segundo HUGHES e FATTUHI (1977), a resistência à compressão e a ductilidade


de compósitos com matriz cimentícea sofrem ambas um acréscimo a partir da inclusão
de fibras de aço curtas e uniformemente distribuídas ao longo da mistura. Os autores
atribuíram tal acréscimo a vários fatores como: o comprimento e o teor das fibras, o tipo
e a resistência da matriz e a orientação das fibras em relação à direção do carregamento.

HUGUES e FATTUHI (1977) realizaram ensaios de compressão em corpos de


prova prismáticos de dimensões iguais a 100 x 100 x 300 mm e cúbicos com 102 mm de
aresta em concretos contendo cimento, água, agregado miúdo e agregado graúdo
(1,0:0,5:2,5:1,5). As fibras de polipropileno utilizadas nesta mistura foram adicionadas
respeitando um teor de fibra em volume igual a 1,5%. Foram usadas fibras com título de
12.000 denier e comprimento de 51 mm e fibras com título de 1.500 denier e
comprimento de 53 mm. O título é a propriedade da fibra que informa o seu peso por
uma determinada unidade de comprimento de fibra. No caso em questão, o título de 1
denier equivale dizer que uma fibra que tenha um comprimento igual a 9.000 m,
apresenta um peso de 1 gf.

Valores de resistência à compressão variando em torno de 30 a 32 MPa foram


encontrados para concretos reforçados com as fibras de polipropileno de 51 mm de
comprimento. Concretos moldados com as fibras de 53 mm de comprimento
apresentaram valores de resistência da ordem de 36 a 38 MPa, mostrando a influência
do comprimento das fibras na resposta mecânica do material compósito.

Também foram ensaiados corpos de prova com diferentes idades a fim de se avaliar
a influência do tempo de cura no comportamento tensão-deformação do material. A
Figura 2.9 ilustra os resultados obtidos para amostras reforçadas com fibras de
polipropileno de 51 mm de comprimento e título de 12.000 denier para 30, 90 e 190 dias
de cura (HUGHES e FATTUHI, 1977). Os resultados mostram que, quanto maior for o
tempo decorrido desde a moldagem do corpo de prova até o instante do ensaio (tempo
de cura), maior é a resistência de pico do compósito e o índice de fragilidade.

38
Figura 2.9: Influência do tempo de cura na resistência à compressão do compósito
(adapt. de HUGHES e FATTUHI, 1977).

Segundo HUGHES e FATTUHI (1977), se as forças de atrito existentes entre as


superfícies do corpo de prova sob compressão uniaxial e a peça de topo da máquina
forem minimizadas, então é possível ocorrer a ruptura do corpo de prova por expansão
lateral. O concreto começa a fissurar antes de atingir a carga de pico. Uma vez que a
carga de pico foi atingida, as fissuras passam a se ligar umas às outras (coalescência),
reduzindo a resistência do material. Se fibras de aço, por exemplo, estiverem dispostas
perpendicularmente em relação ao eixo do carregamento, então a redução observada no
nível de deformações laterais pode ser explicada pela rigidez da fibra. Por isso, verifica-
se um acréscimo na resistência do compósito à abertura de fissuras.

Dois fatores controlam esta resistência: o teor de fibras presente no compósito e a


eficiência da fibra em manter juntas as paredes das fissuras. Fibras distribuídas de
maneira aleatória pela matriz do compósito são menos eficazes neste sentido, enquanto
fibras dispostas paralelamente à direção do carregamento oferecem resistências menores
devido ao empenamento das fibras.

Com relação ao reforço do concreto por fibras de polipropileno, pode-se concluir


que a adição deste tipo de fibra acarreta em um decréscimo na resistência à compressão,
mas aumenta a ductilidade do concreto.

39
2.4.3.2 – RESISTÊNCIA À TRAÇÃO

Em um compósito, as fibras contribuem para impedir a propagação de fissuras


dentro da matriz, podendo contribuir para o aumento da resistência à tração.

SPECHT et al. (2002) realizaram uma série de ensaios de compressão diametral


(Ensaio Brasileiro) em amostras de solo-cimento reforçado com fibras de polipropileno
aleatoriamente distribuídas. O objetivo destes ensaios era avaliar a influência da
porcentagem de cimento, do comprimento de fibra e da porcentagem da fibra na
resistência à tração do compósito.

Os autores concluíram que tanto o aumento no teor de cimento, quanto o produto


entre a porcentagem de fibra e o comprimento de fibra promovem um aumento de
resistência à tração do material. Porém, o aumento do comprimento de fibra promove
um redução da resistência.

Ensaios utilizando dois tipos de fibras de polipropileno (extensíveis e inextensíveis)


demonstraram um decréscimo na resistência à tração. Este decréscimo se mostrou mais
acentuado para as matrizes reforçadas com fibras do tipo extensível (mais flexíveis).

Em matrizes cimentíceas reforçadas com fibras, a resistência à tração dos elementos


fibrosos só será mobilizada se houver deformação da matriz circundante. A parcela de
resistência à tração mobilizada pela fibra depende, portanto, da magnitude das
deformações da matriz e da rigidez do reforço.

Desta forma, fibras mais rígidas desenvolvem maior resistência à tração para
menores níveis de deformação. Isto leva, conseqüentemente a um aumento na
resistência à tração do compósito.

SPECHT et al. (2002) citam que fibras mais flexíveis não são solicitadas a baixas
deformações devido à perda de aderência que surge com a quebra de nódulos de
cimentação entre a fibra e a matriz. Esta quebra promove uma redução na resistência à
tração do compósito, que é tanto maior quanto maior for o teor de fibra utilizado.

40
DONATO et al. (2004), através dos resultados de ensaios de compressão diametral
em amostras de concreto compactado com rolo (CCR) reforçadas e não reforçadas com
fibras de polipropileno, concluíram que a adição de fibras (teor de 0,5% em peso)
produz um incremento da ordem de 50% na resistência à tração do material.

2.4.4 – VANTAGENS E DESVANTAGENS

Em resumo, dentre as vantagens referentes à utilização de fibras genéricas para


reforço de matrizes cimentíceas, em comparação ao concreto convencional, podem ser
citadas:

• As fibras promovem um aumento nas resistências à compressão e à tração de solos


artificialmente cimentados;
• As fibras contribuem para uma mudança no comportamento tensão-deformação de
matrizes cimentíceas, com o aumento da ductilidade, beneficiando o material no seu
estado pós-fissuração;
• As fibras inibem a amplitude das fissuras associadas ao material compósito,
acarretando um aumento da tenacidade;
• As fibras controlam a propagação das fissuras dentro da matriz do compósito;
• O reforço com fibras provoca um aumento das resistências à fadiga, às cargas de
impacto e dinâmicas;

A utilização específica de fibras de polipropileno como reforço de materiais


compósitos também apresenta uma série de vantagens, tais como:

• Possuem alta resistência aos álcalis presentes no cimento e são de baixo custo;
• Proporcionam uma ampla distribuição das fissuras ao longo da matriz, sugerindo
uma maior distribuição das tensões;
• Minimizam a fissuração que ocorre no estado plástico do concreto e nas primeiras
horas de endurecimento;
• Restringem as fissuras causadas por retração plástica do concreto, ou sua freqüência
e tamanho são reduzidos;
• Controlam a abertura de fissuras que venham a surgir dentro da matriz;

41
• Diminuem a incidência de fissuras de assentamento dos componentes sólidos
durante o fenômeno de exsudação do concreto;
• Aumentam a resistência à abrasão pelo controle da exsudação do concreto;
• Reduzem a reflexão do concreto projetado devido ao aumento da coesão.

De forma geral, o uso de fibras de polipropileno com maior capacidade de


elongação (fibras poliméricas, por exemplo) tem apresentado melhores resultados se
comparados à utilização de fibras de maior rigidez tais como as de aço.

Como desvantagens da utilização de fibras de polipropileno como reforço de


materiais à base de cimento podem-se citar:

• Alta sensibilidade à luz solar e oxigênio;


• Baixo módulo de elasticidade;
• Fraca aderência com a matriz.

42
CAPÍTULO 3 – ÁREA EXPERIMENTAL E MATERIAIS ESTUDADOS
______________________________________________________________________

Neste capítulo são apresentadas as características da área utilizada para a realização


dos ensaios de arrancamento. São descritos também os procedimentos adotados na
execução de uma estrutura de contenção em solo grampeado no talude usado para a
realização da campanha experimental de campo.

Segue-se um relato das condições geológico-geotécnicas do local, apresentando os


tipos de materiais encontrados a partir das investigações geotécnicas no terreno
atravessado pelos grampos.

Em seguida, tem-se uma descrição dos materiais utilizados para confeccionar os


grampos convencionais e com fibras e moldar os corpos de prova, destacando as
principais propriedades de interesse para um maior entendimento do comportamento
destes materiais em campo e em laboratório.

Finalizando o capítulo, apresenta-se uma descrição pormenorizada das atividades


necessárias para a realização de toda a campanha experimental de campo e de
laboratório.

3.1 – DESCRIÇÃO E LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ENSAIOS

A área experimental que serviu para a execução dos ensaios de campo está
localizada no município de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma obra
para a implantação de um edifício residencial de apartamentos no bairro da Boa
Viagem.

A obra consiste no corte de talude natural até atingir-se a conformação indicada em


projeto e na execução de uma estrutura de contenção do tipo solo grampeado. Estas
atividades antecedem a construção do edifício residencial.

Para executar este tipo de contenção, foi prevista a instalação de grampos com
barras de aço de diâmetro igual a 22 mm em furos de 75 mm de diâmetro, a execução

43
do paramento da estrutura em concreto projetado com fck igual a 20 MPa, a construção
de sistema de drenagem composto por canaletas de concreto armado e por drenos do
tipo barbacã, e, por fim, a implantação de sistema de proteção superficial contra erosão
próximo à crista do talude.

A estrutura de contenção foi construída segundo os procedimentos consagrados no


meio técnico. Tais procedimentos consistem na escavação prévia do talude até uma
determinada altura, na instalação de grampos constituídos por monobarras de aço
inseridas em furos feitos no talude e, por fim, no preenchimento do furo de perfuração
por calda de cimento (mistura de cimento e água), conforme SAYÃO et al. (2005).

O Morro do Palácio, área utilizada para a realização dos ensaios de campo na


presente pesquisa, é formado por encostas com mais de 25 m de altura, com inclinações
naturais variando entre 30o e 45o, que mergulham em direção à Praia das Flexas e da
Boa Viagem, próximo ao local onde foi construído o Museu de Arte Contemporânea
(MAC) de Niterói.

Essas encostas apresentam espessa camada de solo residual areno-argiloso,


sobrejacente a uma camada de saprolito/rocha alterada extremamente friável, muito
quartzosa e de granulometria grosseira, com fragmentos de feldspatos ainda
preservados.

A geologia desta área é marcada pela grande diversidade das rochas dentro de uma
faixa estreita de terreno, causada por um sistema de falhamentos de direção NE-SW,
intercalando gnaisse facoidal e kinzigito. A zona é extremamente fraturada, permitindo
assim uma intensa atividade intrusiva, com a formação de inúmeros diques de diabásio e
veios pegmatíticos que cortam as rochas em direções NE-SW e E-W preferencialmente
(GOMES SILVA, 2005).

A alteração das rochas com essa configuração geológico-estrutural produziu solos


de coesão moderada e com várias descontinuidades, que facilitam o desenvolvimento de
processos erosivos e o colapso por tombamento das partes mais íngremes destas
encostas.

44
O local escolhido para a realização dos ensaios de campo é marcado pela presença
de encosta com altura superior a 30 m e inclinação média da ordem de 30o. Ela
apresenta trechos subverticais (ravinamentos), revestidos por vegetação do tipo rasteira
e arbustiva, de pequeno a médio porte.

As sondagens geotécnicas detectaram a presença de bloco de rocha (matacão) muito


alterado e superficial, sendo provável a existência de outros dentro da matriz de solo. Na
parte baixa da encosta encontra-se uma camada de solo residual jovem com superfície
mais degradada por conta da ação pluvial. Não foram encontradas trincas e/ou
abatimentos no terreno nem nas vias de circulação adjacentes.

As sondagens, cujos boletins são apresentados ao final deste documento no Anexo


1, acusaram nos furos SP-01, SP-02, SP-04 e SP-07 a presença de uma camada
superficial de aterro de espessura variando em torno de 0,20 a 0,40 m, seguida de uma
camada de solo residual de gnaisse. O solo residual é constituído por misturas silto-
argilosas ou argilo-siltosas, às vezes com a presença de pedregulhos, de coloração
variável, desde o branco até o marrom escuro. Esta camada de solo residual apresentou
NSPT praticamente crescente com a profundidade, e com valores variando entre 20 e
120. O mapa com a locação dos furos de sondagem no canteiro também se encontra no
Anexo 1.

3.2 – GRAMPOS ESTUDADOS

Neste item são apresentados os materiais utilizados durante a pesquisa para a


elaboração dos grampos convencionais e dos grampos com fibras de polipropileno.

3.2.1 – GRAMPO CONVENCIONAL

O grampo convencional consiste da barra metálica que é inserida no furo do maciço


de solo e, posteriormente, sofre a injeção da calda de cimento ao longo de todo
comprimento.

O cimento utilizado na mistura para preenchimento dos furos dos grampos do tipo
convencional é o cimento Portland do tipo CP-II-E-32RS (cimento composto com

45
escória e resistente aos sulfatos) da marca NASSAU. Este cimento tem peso específico
da ordem de 12,0 kN/m3 e é comercializado no mercado em sacos de 50 kg.

A água utilizada nas misturas para os grampos convencionais foi obtida no próprio
canteiro e retirada de uma das caixas d’água que serviam à obra.

Foi utilizado na mistura um aditivo plastificante para reduzir o consumo de água na


mistura, e, conseqüentemente, o fator água/cimento da mesma, além de garantir uma
trabalhabilidade adequada. O produto utilizado foi o aditivo CEMIX da marca Vedacit
Impermeabilizantes.

Este produto, tal como a água, já vinha sendo utilizado na obra e por isto foi
selecionado para moldar os grampos convencionais, bem como preparar as misturas da
etapa de reinjeção.

Segundo informações contidas no catálogo do fabricante, este produto caracteriza-se


como um aditivo plastificante/redutor de água para concreto. O aditivo tem peso
específico de 11,9 kN/m3, coloração marrom escura, dosagem recomendada em torno de
0,2 a 0,3% sobre o peso de cimento seco e pode ser comercializado em embalagens de
20 e 230 kg.

As barras de aço dos grampos moldados em campo são barras de aço CA75
nervuradas, de diâmetro externo nominal igual a 22 mm (7/8”) da marca INCOTEP.
Conforme informações do fabricante, as barras de aço possuem as seguintes
propriedades: seção efetiva de 314 mm2, tensão limite de escoamento do aço igual a 660
MPa, tensão limite de resistência igual a 800 MPa e cargas de escoamento e ruptura
iguais a 207 e 251 kN, respectivamente.

No caso dos ensaios de arrancamento dos grampos do tipo convencional, o


comprimento das barras de aço é igual a 4,80 m.

46
3.2.2 – GRAMPO COM FIBRAS DE POLIPROPILENO

O grampo não convencional corresponde a um compósito fibroso moldado com


argamassa de cimento e fibras de polipropileno, em substituição à barra de aço.

O cimento, água e aditivo utilizados na confecção do grampo com fibras de


polipropileno são os mesmos das misturas de injeção e reinjeção dos grampos
convencionais. As misturas se diferem pela adição de fibras de polipropileno e areia.

A areia utilizada na produção da argamassa dos grampos com fibras de


polipropileno corresponde ao material passante na peneira com abertura de malha #
3/8”.

Esta areia possui um peso específico de 18,3 kN/m3 e densidade real dos grãos Gs
média igual a 2,63. A areia apresenta granulometria de média a grossa e é isenta de
finos, mica e matéria orgânica. Estas propriedades foram obtidas a partir de ensaios de
caracterização realizados segundo a norma brasileira NBR 7181/84 da ABNT nas
dependências do Laboratório de Geotecnia da COPPE/UFRJ. A Figura 3.1 apresenta a
curva granulométrica da areia utilizada nas misturas.

Figura 3.1: Curva granulométrica da areia utilizada na argamassa do grampo com fibras.

47
As fibras de polipropileno utilizadas nesta pesquisa foram fornecidas pela empresa
Ober S.A. São fibras com cerca de 30 mm de comprimento e 0,018 mm de diâmetro
nominal (Figura 3.2). A Tabela 3.1 resume as propriedades das fibras de polipropileno.

Figura 3.2: Detalhe das fibras de polipropileno.

Tabela 3.1 – Características das fibras de polipropileno.

Característica Unidade Valor


Comprimento (m) 0,03
Diâmetro (* 10-5 m) 1,8
Título (denier) 2,8
Carga de Ruptura (* 10-5 kN) 3,5
Resistência à Tração (MPa) 138,3
Alongamento na Ruptura (%) 70,0

3.3 – EXECUÇÃO DOS GRAMPOS

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas principais: etapa de campo e de


laboratório.

A etapa de campo foi desenvolvida anteriormente à de laboratório e consistiu de


uma série de ensaios de arrancamento realizados em duas baterias, ou seja, dois grupos
de ensaios que foram executados em cotas diferentes do talude, a saber: cota 31 m (9 m
acima do nível da rua) para a bateria 1 e cota 22 m (nível da rua) para a bateria 2.

48
Estes ensaios tiveram por objetivo determinar e comparar as cargas de arrancamento
de grampos convencionais e com fibras moldados in situ para cada bateria, bem como
estudar o comportamento da resistência ao arrancamento qs em função dos
deslocamentos. Além disso, procurou-se também avaliar a distribuição de tensões ao
longo dos grampos através da investigação do padrão de fissuramento observado na
exumação dos grampos, após os ensaios de arrancamento.

Para cumprir tais objetivos, esta fase de campo compreendeu a execução das
seguintes atividades para cada bateria de ensaios de arrancamento:

• Escolha e preparação do local para a inserção dos grampos e definição dos


espaçamentos e altura dos furos;
• Locação e marcação dos furos a serem feitos;
• Perfuração dos taludes nos locais definidos e demarcados até a profundidade
de 4,0 m;
• Vedação dos furos feitos na etapa anterior até a moldagem dos grampos;
• Confecção in loco da mistura reforçada com fibras de polipropileno a ser
inserida dentro dos furos dos grampos não convencionais;
• Moldagem dos grampos reforçados com fibras de polipropileno;
• Confecção da mistura a ser usada na injeção da bainha para os grampos
convencionais e na reinjeção para os grampos convencionais e não
convencionais;
• Moldagem dos grampos convencionais;
• Reinjeção para os grampos convencionais e não convencionais;
• Ensaios de arrancamento dos grampos convencionais e não convencionais
moldados anteriormente;
• Exumação dos grampos ensaiados.

Neste item são tratadas apenas as etapas que antecederam os ensaios de


arrancamento propriamente ditos, ou seja, a descrição das atividades até a injeção e
reinjeção dos grampos no campo. No Capítulo 5, são descritas as atividades
correspondentes ao ensaio de arrancamento e a exumação dos grampos.

49
A idéia inicial para a presente pesquisa era a de estudar a viabilidade do emprego de
grampos não convencionais reforçados com fibras de aço, de polipropileno e de bambu.
A utilização de reforço dos grampos com fibras de bambu foi descartada logo de início
devido à fibra confeccionada a partir deste material não se encontrar disponível no
mercado. O custo destas fibras não seria, portanto, competitivo se comparado às outras
fibras citadas.

Antes das duas baterias de ensaios de arrancamento que são analisadas nesta
dissertação, procedeu-se uma bateria preliminar de ensaios que foi feita durante a fase
inicial dos trabalhos da obra. O objetivo destes ensaios preliminares, realizados em uma
elevação mais próxima à crista do talude foi estudar o comportamento de grampos não
convencionais quando inseridos em material de natureza mais terrosa, já que as
investigações geotécnicas realizadas no local acusaram a presença de camadas de solos
residuais jovens (saprolitos) de gnaisse e maduros mais próximos à crista do talude,
conforme apresentado no item 3.1. Além disto, esta bateria preliminar de ensaios
objetivou avaliar as técnicas de mistura e injeção da calda de cimento com fibras de
polipropileno e de aço.

Esta bateria preliminar contemplou a execução de ensaios de arrancamento em


quatro grampos, sendo 2 reforçados com fibras de polipropileno e 2 com fibras
metálicas. Os furos foram feitos de modo que os grampos ficassem dispostos em uma
mesma linha, espaçados de 1,0 m. Os grampos foram moldados com inúmeras
dificuldades, alternando-se grampos reforçados com fibras de aço e de polipropileno.

Infelizmente, os resultados desta bateria preliminar foram limitados. O processo de


mistura dos componentes das argamassas com fibras metálicas e com fibras de
polipropileno foi difícil. Houve problemas operacionais, com acumulação de ambas as
fibras na base do misturador e as injeções dos grampos ficaram comprometidas. Os
ensaios de arrancamento dos dois tipos de grampos indicaram uma resistência muito
reduzida. Além disto, constatou-se que os equipamentos de injeção disponíveis no
canteiro de obras eram inadequados para a mistura com fibras metálicas. Portanto, para
resguardar a integridade dos equipamentos, abandonou-se o emprego das fibras de aço,
priorizando a utilização das fibras de polipropileno.

50
Outras duas baterias de ensaio com grampos com fibras de polipropileno foram
então programadas em cotas inferiores, mais próximas ao nível da rua. Para estas duas
novas baterias, segue-se a descrição das atividades de campo que possibilitaram a
execução dos ensaios.

Primeiramente, procurou-se definir os melhores locais para se proceder os ensaios e


arrancamento, de maneira a minimizar a heterogeneidade do solo e a interferência da
movimentação de trabalhadores e equipamentos na obra. Baseando-se nestas premissas,
os locais para a realização dos ensaios nas duas baterias foram escolhidos levando-se
em conta a natureza dos materiais que seriam atravessados pelos grampos e o próprio
lay-out da obra.

O local escolhido para a realização dos ensaios da primeira bateria foi uma face
lateral do talude a ser reforçado. Para a segunda bateria de ensaios, o local escolhido foi
um talude remanescente da escavação que vinha sendo feita na face frontal do talude e
distante do paramento da estrutura em solo grampeado. Com isto, portanto, também não
houve qualquer interferência dos ensaios nos trabalhos pertinentes à obra.

Optou-se por trabalhar com um comprimento de grampo igual a 4,0 m e diâmetro do


furo igual a 75 mm, idêntico aos furos dos grampos convencionais utilizados na obra.

O espaçamento entre os furos foi definido de forma a evitar qualquer interferência


de um grampo na resposta de outro durante os ensaios de arrancamento. O espaçamento
entre as paredes dos furos foi igual a 750 mm.

A altura dos furos em relação à base dos taludes nas bancadas onde os grampos
seriam inseridos foi escolhida igual a 1 m, de maneira a facilitar a montagem e execução
dos ensaios de arrancamento.

A perfuração foi feita com perfuratriz elétrica (marca BOSCH e tipo


BOSCHHAMMER GBH11DE 220V) até uma profundidade de 4,0 m. O ângulo de
inclinação das perfurações foi igual a 10o. A Figura 3.3 mostra esta etapa de perfuração.

51
Figura 3.3: Detalhe da etapa de execução do furo para execução do grampo no talude.

Em cada bateria de ensaio, foram executadas seis perfurações ao todo, sendo que
todos os furos se encontravam à mesma altura e dispostos em linha. As Figuras 3.4 e 3.5
mostram esquematicamente a disposição de cada um dos grampos para as baterias 1 e 2,
respectivamente. A Figura 3.6 ilustra a face do talude preparado para a execução dos
grampos da bateria 2.

Figura 3.4: Disposição dos furos dos grampos – Bateria 1.

Figura 3.5: Disposição dos furos dos grampos – Bateria 2.

52
Figura 3.6: Face do talude com os furos dos grampos – Bateria 2.

À medida que o furo era executado, o material recolhido na perfuração era analisado
a fim de que se pudesse classificar o tipo de solo circunvizinho aos grampos.

Após a etapa de perfuração em cada bateria de ensaios, as extremidades dos furos


eram vedadas temporariamente, visando apenas a proteção contra a penetração de
quaisquer materiais. Seguia-se, então, a etapa de moldagem dos grampos, a qual se
dividiu em duas atividades: elaboração das misturas e moldagem propriamente dita.

Em primeiro lugar, procedeu-se a mistura utilizada nos grampos não convencionais


(cimento, água, areia, aditivo e fibra). Esta mistura foi feita na própria obra utilizando-
se um misturador manual (Figura 3.7) com capacidade de 0,2 m3 e observando-se a
dosagem (traço) específica dos materiais componentes da mistura e a seqüência
específica de lançamento dos materiais no misturador. A mistura do grampo
convencional, constituída por cimento, água e aditivo, também foi preparada com o
mesmo misturador manual.

53
Figura 3.7: Misturador manual utilizado em campo.

Os traços adotados para as misturas sem fibras (grampo convencional) e com fibras
de polipropileno estão resumidos na Tabela 3.2.

Tabela 3.2: Traços adotados para os grampos convencionais e com fibras.

Traços dos Grampos


Material
Com Fibras Convencional
Cimento 1 1
Água 0,65 0,65
Areia 0,10 -
Fibra 0,005 -
Aditivo 0,006 0,006

Além do traço ótimo da mistura com fibras, nesta pesquisa também estudou-se a
seqüência mais adequada para lançamento dos materiais no misturador manual.

54
Ressalta-se que o lançamento indiscriminado pode resultar em misturas heterogêneas
com concentração de fibras no fundo do misturador. Esta seqüência é apresentada na
Tabela 3.3, com a porcentagem lançada em relação à quantidade total de cada material
do grampo com fibras.

A porcentagem apresentada na Tabela 3.3 de cada material para os grampos com e


sem fibras de polipropileno refere-se à porcentagem lançada de cada material em
determinada etapa de colocação dos materiais dentro do misturador em relação à
quantidade total de material utilizada na moldagem.

Tabela 3.3: Seqüência específica de lançamento dos materiais dos grampos com e sem
fibras.
% em Relação ao total de
Quantidade Cada
Etapa Material Unidade Material
Grampos Grampos
Polipropileno Convencional Polipropileno Convencional
1 Água m 3
0,045 0,095 34,6 97,4
2 Cimento sacos 2 3 50,0 100,0
3 Areia kg 7 - 35,0 -
4 Água m 3
0,040 - 30,8 -
5 Fibra kg 0,400 - 40,0 -
6 Areia kg 7 - 35,0 -
7 Cimento sacos 1 - 25,0 -
8 Água m 3
0,040 - 30,8 -
9 Cimento sacos 1 - 25,0 -
Água c/
10 m3 0,005 0,0025 3,9 2,6
aditivo
11 Fibra kg 0,300 - 30,0 -
12 Areia kg 6 - 30,0 -
13 Fibra kg 0,300 - 30,0 -

Após esta etapa, tanto a argamassa reforçada com fibras de polipropileno quanto a
calda de cimento eram injetadas nos furos com o auxílio de um sistema contendo uma
bomba do tipo Hidrojet e um conjunto de tubos de PVC com diâmetro externo
ligeiramente inferior ao diâmetro do furo. Um detalhe da bomba usada na injeção das
misturas feitas na obra é apresentado na Figura 3.8.

55
Figura 3.8: Bomba do tipo Hidrojet utilizada para injeção dos grampos.

A injeção dos grampos em campo cumpriu a seguinte ordem:

1. Injeção da mistura reforçada com as fibras de polipropileno nos furos dos


grampos não convencionais;
2. Injeção da calda de cimento com aditivo redutor nos furos dos grampos
convencionais;
3. Reinjeção dos furos após um período de 1 h decorrente da injeção dos
grampos, com a mistura de cimento, água e aditivo.

No caso do grampo convencional, após a injeção da nata de cimento no furo, a barra


de aço era inserida dentro do mesmo. Esta barra tem o comprimento total de 4,80 m.

Para garantir o cobrimento da barra de aço do grampo convencional, evitando assim


o contato com a parede do furo, foram colocados dois centralizadores ao longo de seu
comprimento, os quais foram fixados à barra por meio de arame.

56
Além destes, a barra também contou com a presença de duas luvas para garantir a
mesma configuração adotada para o trecho com barra do grampo com fibras. As Figuras
3.9 e 3.10 ilustram o grampo convencional e o detalhe de posicionamento dos
espaçadores e luvas no trecho injetado, respectivamente.

Figura 3.9: Esquema do grampo convencional.

Figura 3.10: Disposição de centralizadores e luvas na barra do grampo convencional.

Desta forma, os grampos convencionais podem ser divididos em dois trechos, a


saber:

1. Trecho Livre: Caracterizado pela presença de espuma isolante, com


comprimento igual a 50 cm e trecho para fixação do macaco com
comprimento igual a 80 cm (Figura 3.9);
2. Trecho Injetado: Correspondente ao comprimento de 3,50 m com nata de
cimento, em contato com o solo.

O ensaio de arrancamento do grampo com fibras exigiu um dispositivo que


permitisse a instalação do macaco hidráulico e célula de carga. Este dispositivo
consistiu de um trecho de barra de aço de 2,30 m de comprimento, o qual era inserido
no furo do grampo com fibras. Esta barra é a responsável pela transmissão das forças de
arrancamento para o comprimento injetado com fibras de polipropileno.

Para garantir a aderência da barra com a mistura de cimento, foram introduzidos


elementos de encunhamento (centralizadores e luvas) espaçados de 20 cm no trecho
correspondente ao comprimento ancorado, de forma similar à do grampo convencional.

57
As Figuras 3.11 e 3.12 ilustram o esquema do grampo com fibras e o detalhe do
comprimento ancorado, respectivamente.

Figura 3.11: Esquema do grampo com fibras de polipropileno.

Figura 3.12: Disposição de centralizadores e luvas na barra do grampo com fibra.

Desta forma, os grampos com fibras podem ser divididos em partes, de acordo com
a presença de alguns de seus componentes (espuma e barra de aço). O grampo de
polipropileno foi assim dividido:

1. Trecho Livre: Trecho correspondente à presença de espuma, que isola o


grampo do solo, com comprimento de 50 cm e trecho para fixação do
macaco com 80 cm de comprimento (Figura 3.11);
2. Trecho Injetado com Barra: Parte caracterizada pela presença de barra de aço
embutida dentro da matriz de cimento com fibras de polipropileno e sem o
isolamento da espuma, com comprimento igual a 1,00 m;
3. Trecho Injetado sem Barra: Trecho do grampo caracterizado pela ausência
de barra de aço, consistindo apenas do material compósito fibroso, o qual
ocupa toda a seção do furo, com comprimento igual a 2,50 m.

Após a moldagem dos grampos, aguardava-se cerca de 1 h e aí então procedia-se


uma segunda injeção por meio de um conjunto formado pela bomba de injeção.
Alternativamente uma bomba e um misturador duplo acoplado elétrico modelo SBI 60H
da marca SONDEQ podem ser usados. Este equipamento é indicado para injeção de
natas de cimento em tirantes e grampos e permite pressões de até 10 MPa. A Figura
3.13 ilustra o sistema completo empregado para a reinjeção dos grampos com fibras e
convencional.

58
Figura 3.13: Sistema e reinjeção dos grampos.

Esta reinjeção utiliza apenas nata de cimento, isto é, cimento, água e aditivo nas
proporções iguais a 1:0,5:0,003, respectivamente. A reinjeção foi feita com o auxílio de
mangueiras de diâmetro igual a 10 mm, as quais eram fixadas às barras de aço. Depois
que a mangueira era presa à barra, abriam-se pequenos orifícios, os quais eram vedados
com fita crepe, ao longo das mesmas por onde extravazaria a nata de cimento para o
interior da perfuração. A Figura 3.14 mostra um detalhe das barras de aço com as
mangueiras de reinjeção, prontas para serem instaladas nos furos.

O objetivo desta reinjeção é preencher os vazios que possam ter se formado após a
primeira fase de injeção e aumentar o contato nata de cimento – solo, aumentando
conseqüentemente, a resistência ao arrancamento.

59
Figura 3.14: Barras de aço com espuma, espaçadores, luvas e mangueiras de reinjeção.

3.4 – CORPOS DE PROVA DE LABORATÓRIO

A etapa de laboratório consistiu de uma série de ensaios de compressão uniaxial


(compressão não confinada) instrumentados e não instrumentados, bem como ensaios
de compressão diametral (Ensaio Brasileiro) realizados em corpos de prova moldados
com e sem a presença de fibras de polipropileno. Para cumprir tal etapa, as seguintes
atividades foram desenvolvidas:

• Pesagem, separação e acondicionamento dos materiais constituintes das


misturas com e sem fibras de polipropileno;
• Confecção das misturas reforçadas e não reforçadas com fibras de
polipropileno;
• Moldagem e armazenamento dos corpos de prova;
• Corte dos corpos de prova para a obtenção das amostras para os ensaios de
compressão diametral;
• Preparação das superfícies e colagem da instrumentação para medição das
deformações axial e radial dos corpos de prova dos ensaios de compressão
uniaxial;
• Execução dos ensaios de compressão uniaxial e diametral.

Neste item serão apresentados apenas os procedimentos que antecederam os ensaios


de laboratório propriamente ditos, desde a pesagem dos materiais constituintes das
misturas até a sua moldagem e armazenamento. No capítulo seguinte, descrevem-se as

60
atividades que compreendem a preparação das superfícies laterais dos corpos de prova
para a colagem dos strain gages e os ensaios de compressão uniaxial e diametral.

Inicialmente, os corpos de prova foram moldados em campo com o objetivo de que


se pudesse trabalhar em laboratório com misturas que tivessem em sua composição os
mesmos materiais que foram utilizados para moldar os grampos de arrancamento.

Para tal, após a injeção das misturas para o interior das perfurações no canteiro, a
mistura remanescente que ainda se encontrava no misturador manual era despejada em
moldes de PVC, cortados em dimensões pré-estabelecidas, até preenchê-los por
completo. Os moldes de PVC foram cortados com a ajuda de equipamento elétrico de
corte tipo serra. Após serem cortados nas alturas especificadas, os moldes eram cortados
longitudinalmente, a fim de deixar um rasgo que facilitasse sua abertura durante o
desmolde.

Em seguida, eram amarrados com o auxílio de arame recozido no sentido de se


fechar o rasgo. Por fim eram agrupados e assentados sobre plataformas de madeira que
serviam de fundo para os moldes.

Os moldes para os ensaios de compressão uniaxial apresentaram dimensões iguais a


50 mm de diâmetro por 100 mm de altura (relação H/D=2), enquanto os moldes para os
ensaios de compressão diametral tiveram dimensões de 50 mm de diâmetro por 30 mm
de altura (relação D/t=1,67). Um detalhe dos corpos de prova moldados in situ é
apresentado na Figura 3.15.

Foram também moldados três corpos de prova (dois reforçados com fibras e um
convencional) com 150 mm de diâmetro e 300 mm de altura (relação H/D=2), com o
intuito de se verificar a influência das dimensões (efeito de escala) na resistência
mecânica do material compósito fibroso e da nata de cimento.

61
Figura 3.15: Detalhe dos corpos de prova para ensaios de laboratório moldados em
campo.

Devido à exposição destes corpos de prova à insolação, a retração foi elevada desde
o momento da moldagem no campo até a chegada ao laboratório, fato que inviabilizou
sua utilização para os ensaios. Além disso, a superfície destes corpos de prova se
mostrou muito irregular, o que exigiria um trabalho de retificação adicional para deixá-
los em condições de ensaio.

Devido a estes problemas, decidiu-se então fazer uma nova moldagem agora em
condições controladas em laboratório.

Primeiramente, os materiais constituintes das misturas com fibras (cimento, água,


areia, aditivo e fibra) e sem fibras (cimento, água e aditivo) foram pesados seguindo-se
as mesmas proporções em peso em comparação com os grampos moldados no campo.
Os materiais utilizados para a preparação das misturas em laboratório também foram
rigorosamente os mesmos utilizados em campo. A seqüência de lançamento dos
materiais para o preparo da mistura foi a mesma realizada na etapa de campo.

62
A mistura dos materiais foi realizada com o auxílio de um misturador elétrico, por
um período de tempo total de 2 minutos no intuito de assegurar que as fibras (no caso
das misturas com fibra) se espalhassem por todo o volume da mistura, e assim, pudesse
ser garantida a sua homogeneidade. Em seguida, procedeu-se à moldagem dos corpos de
prova.

Logo após a moldagem, os corpos de prova foram colocados sobre uma mesa
vibratória e submetidos à vibração por 1 minuto. Em seguida, foram armazenados em
câmara úmida para minimizar os efeitos de retração ao final do período de cura.

Ainda assim, como poderá ser visto mais adiante no Capítulo 4, os corpos de prova
apresentaram alguma retração. Como esta retração foi observada tanto nos corpos de
prova com fibra quanto nos corpos de prova sem a presença do reforço fibroso, ela pode
ser atribuída ao tipo e qualidade do cimento utilizado.

Foram moldados ao todo dez corpos de prova com a mistura sem fibras (cimento,
água e aditivo), sendo que quatro seriam cortados em discos para os ensaios de
compressão uniaxial. Para os corpos de prova moldados com a mistura reforçada por
fibras (cimento, água, areia, aditivo e fibra), foram moldados ao todo 19 corpos de
prova, sendo 14 para os ensaios de compressão uniaxial e o restante a ser cortado em
discos para os ensaios diametrais.

Após o período de cura de 7 dias, procedeu-se ao corte e à retificação dos corpos de


prova moldados com a finalidade de obter os corpos de prova dos ensaios de tração
indireta (Ensaio Brasileiro). Estes corpos de prova apresentaram dimensões iguais a 50
mm de diâmetro e 25 mm de altura, satisfazendo portanto, uma relação D/t igual a 2,0
(NUNES, 1989).

Foram cortados ao todo dois corpos de prova moldados a partir da mistura sem
fibras e cinco corpos de prova para a mistura com fibras. Como a altura era de, no
mínimo, 79 mm após a cura, foi possível obter três corpos de prova para os ensaios de
compressão diametral (25 mm de altura) de cada amostra de compressão uniaxial,
perfazendo um total de seis corpos de prova constituídos com a mistura sem fibras e
quinze corpos de prova formados a partir das misturas com fibras de polipropileno.

63
CAPÍTULO 4 – PROGRAMA EXPERIMENTAL DE LABORATÓRIO
______________________________________________________________________

Este capítulo apresenta a preparação e a execução dos ensaios de compressão


uniaxial e diametral em laboratório. Em seguida, são apresentados e discutidos os
resultados dos ensaios de laboratório.

A campanha experimental de laboratório teve como objetivo caracterizar o material


compósito utilizado na moldagem dos grampos no campo e os resultados obtidos
compreendem, de maneira geral, as resistências à compressão uniaxial (sc) e à tração

indireta (st,b). Estes valores de resistência são analisados e comparados com àqueles

observados para os corpos de prova moldados com nata de cimento.

Além das resistências à compressão e à tração, são apresentados também os valores


de resistência residual, rigidez nos estados pré e pós-pico de ensaio, bem como o
módulo de elasticidade (E) para as misturas com e sem fibras.

4.1 – ENSAIOS DE COMPRESSÃO UNIAXIAL EM LABORATÓRIO

Neste item, são apresentados os procedimentos que resultaram na campanha de


ensaios laboratoriais, desde a preparação das superfícies dos corpos de prova para a
colagem dos extensômetros de resistência elétrica (strain gages) até o ensaio
propriamente dito. Foram executados 14 ensaios de compressão uniaxial (compressão
não confinada) instrumentados e não instrumentados.

4.1.1 – INSTRUMENTAÇÃO DAS AMOSTRAS

Um total de 6 corpos de prova com e sem fibras foi instrumentado com strain gages
para medição das deformações nas direções axial e radial nos ensaios de compressão
uniaxial.

64
Primeiramente, era necessário preparar a superfície do corpo de prova antes da
colagem do strain gage. Com este objetivo as seguintes atividades foram realizadas:

1. Limpar a superfície com solvente, aplicando o produto em uma região


maior que a ocupada pelo extensômetro;
2. Secar a superfície com material adequado (gaze ou algodão). A secagem
foi repetida até que a gase ou algodão não apresentasse sinais de
impurezas;
3. Lixar a superfície (quando necessário), de modo a obter uma superfície
plana, praticamente livre de rugosidade que possa interferir no
desempenho do extensômetro;
4. Marcar os eixos de referência para a colagem do strain gage;
5. Retirar o strain gage de sua embalagem com a ajuda de uma pinça,
colocando-o sobre um vidro limpo; com o auxílio de uma fita adesiva
transparente, transportar e posicionar o strain gage no local de colagem,
tomando os cuidados necessários para que o mesmo ficasse alinhado em
relação aos eixos de referência marcados anteriormente;
6. Proceder a colagem do strain gage no corpo de prova. Para tal, uma vez
que o strain gage já se encontra na posição requerida, descolar a fita
adesiva até que o strain gage esteja separado da superfície do corpo de
prova. Aplicar a cola do tipo cianoacrilato, pressionando o conjunto até
a secagem;
7. Instalar os fios conectores dos strain gages e fazer ligação em ponte
completa de Wheatstone externa ao corpo de prova.

4.1.2 – ENSAIOS DE COMPRESSÃO UNIAXIAL

Os ensaios de compressão uniaxial foram realizados em prensa do Laboratório de


Estruturas da COPPE/UFRJ, munida de sistema próprio para aquisição de dados onde
eram registrados os valores da carga aplicada, bem como dos deslocamentos da
plataforma de suporte do corpo de prova. A Figura 4.1 mostra o sistema utilizado para a
execução dos ensaios de compressão uniaxial.

65
Figura 4.1: Sistema utilizado para os ensaios de compressão uniaxial.

Os ensaios dos corpos de prova moldados a partir das misturas com e sem fibras
foram precedidos por um ensaio de calibração, executado em um corpo de prova de
alumínio de dimensões iguais a 38,9mm de diâmetro e 77,8mm de altura (relação
H/D=2). Este corpo de prova foi instrumentado com quatro strain gages (dois na direção
axial e dois na direção radial). O objetivo deste ensaio era servir de calibração para os
demais.

Os ensaios de compressão uniaxial foram executados em 6 corpos de prova


instrumentados e 8 não instrumentados com mistura de cimento (CC) e cimento e fibra
(CF). A Tabela 4.1 apresenta as características dos corpos de prova ensaiados, moldados
com diâmetro de 50 mm e altura inicial de 100 mm, exceto para as amostras CF9 e
CF10. Estes corpos de prova foram preparados com 150 mm de diâmetro e 300 mm de
altura com o objetivo de identificar algum efeito de escala. Devido à retração durante a
cura e a posterior retificação das extremidades, os corpos de prova apresentaram relação
H/D final variando entre 1,58 a 1,87.

66
Tabela 4.1: Características dos corpos de prova para ensaios de compressão uniaxial.

Altura
CP Final H/D ∆H Retração Observação
(mm) (mm) (%)
CC1 79 1,58 21 21,0 Não Instr.
CC2 83 1,66 17 17,0 Não Instr.
CC3 84 1,68 16 16,0 Instr.
CC4 83 1,66 17 17,0 Instr.
CF1 86 1,72 14 14,0 Instr.
CF2 84 1,68 16 16,0 Não Instr.
CF3 91 1,82 9 9,0 Instr.
CF4 86 1,72 14 14,0 Não Instr.
CF5 88 1,76 12 12,0 Instr.
CF6 86 1,72 14 14,0 Instr.
CF7 86 1,72 14 14,0 Não Instr.
CF8 87 1,74 13 13,0 Não Instr.
CF9 280 1,87 20 6,7 Não Instr.
CF10 270 1,80 30 10,0 Não Instr.
Obs.:
CC: nata de cimento Instr.: Instrumentado
CF: argamassa com fibras Não Instr.: Não Instrumentado

Para os ensaios de compressão instrumentados, além dos resultados obtidos a partir


dos arquivos de saída de dados da máquina (força aplicada pela prensa e deslocamento
da plataforma de suporte do corpo de prova), contou-se também com a instrumentação
dos strain gages instalados nas posições axial e radial para as medidas das deformações
respectivas.

O monitoramento das deformações axial e radial e a tensão aplicada possibilitaria o


cálculo dos parâmetros de elasticidade (módulo de elasticidade E e coeficiente de
Poisson ν) para as misturas com e sem fibras.

Os ensaios foram realizados com taxa de carregamento de 0,1 mm/min, permitindo


o monitoramento do comportamento pré e pós-pico dos corpos de prova.

67
4.2 – ENSAIOS DE COMPRESSÃO DIAMETRAL EM LABORATÓRIO

Os ensaios de compressão diametral (Ensaio Brasileiro) tiveram como objetivo


determinar e comparar as cargas de ruptura e as respectivas resistências à tração dos
corpos de prova moldados a partir das misturas com e sem fibras de polipropileno.

Como já citado no capítulo anterior, os corpos de prova para os ensaios de


compressão diametral apresentaram dimensões de 50 mm de diâmetro e 25 mm de
altura, satisfazendo portanto, uma relação H/D igual a 0,50. Os ensaios foram realizados
utilizando-se a mesma prensa usada nos ensaios de compressão uniaxial.

Utilizou-se mordentes curvos de aço, responsáveis pela transferência mais


uniformemente distribuída do carregamento ao longo da área lateral do corpo de prova
(NUNES, 1989).

Foram ensaiados 15 corpos de prova moldados com a mistura com fibras (TF1 ao
TF15) e 6 corpos de prova constituídos pela mistura de cimento, água e aditivo sem
fibras (TC1 ao TC6).

Todos os ensaios foram conduzidos com velocidade carregamento controlada por


taxa de deslocamento igual a 0,5 mm/min, exceto para os ensaios TF4 e TF5 (corpos de
prova com fibra), onde a velocidade foi igual a 0,2 mm/min. Estes ensaios permitiram a
verificação do possível efeito da velocidade sobre a carga de fratura primária do disco.
Uma vez comprovada esta influência, todos os ensaios foram executados com taxa de
carregamento constante e igual a 0,5 mm/min, conforme sugerido por NUNES (1989).
Um detalhe do ensaio de compressão diametral mostrando a prensa utilizada, os
mordentes e o corpo de prova pode ser visualizado na Figura 4.2.

68
Figura 4.2: Sistema do ensaio de compressão diametral.

4.3 – RESULTADOS DOS ENSAIOS DE LABORATÓRIO

Neste item são apresentados e discutidos os resultados obtidos da campanha


experimental que foi realizada no laboratório.

São apresentados e comparados os valores obtidos de resistência à compressão a 14


dias para os corpos de prova moldados com nata de cimento e argamassa reforçada com
fibras de polipropileno.

É feita uma análise do comportamento tensão-deformação das misturas estudadas.


Considerações sobre o modo de ruptura são baseadas no cálculo dos valores de rigidez k
dos corpos de prova para os estados pré e pós-pico das curvas carga-deslocamento
obtidas a partir dos ensaios de compressão uniaxial.

Os módulos de elasticidade e as rigidezes dos compósitos reforçados e não


reforçados com fibras de polipropileno são apresentados e comparados entre si.

69
Também são apresentados e discutidos os resultados de resistência à tração indireta
σt,b obtidos a partir de uma série de ensaios de compressão diametral (Ensaio Brasileiro)
realizados para os corpos de prova com e sem fibras.

4.3.1 – ANÁLISES E RESULTADOS DOS ENSAIOS DE COMPRESSÃO


UNIAXIAL

Os ensaios de compressão uniaxial foram realizados em corpos de prova moldados


com e sem fibras de polipropileno. O objetivo desta série de ensaios foi caracterizar as
misturas utilizadas na moldagem dos grampos convencionais e com fibras no campo.

A determinação das propriedades do material compósito estudado é de suma


importância, pois visa esclarecer melhor alguns aspectos relacionados ao
comportamento deste material quando submetido a solicitações de interesse para o caso
em estudo, dando subsídios para verificar a viabilidade técnica do seu emprego em
aplicações de engenharia.

Propriedades como resistência à compressão a 14 dias σcmáx, resistência residual


σcres, rigidez nos estados pré e pós-pico k1 e k2 e módulo de elasticidade E foram
determinadas. A Tabela 4.2 mostra um resumo dos resultados dos ensaios de
compressão uniaxial dos corpos de prova com e sem fibras de polipropileno. A Figura
4.3 apresenta as curvas típicas de carga-deslocamento para amostras com e sem fibras.

O Anexo 3 apresenta todas as curvas carga-deslocamento obtidas dos ensaios de


compressão uniaxial realizados em corpos de prova não instrumentados (CC1, CF2,
CF4, CF7 e CF8), bem como curvas carga-deslocamento obtidas dos ensaios em corpos
de prova instrumentados (CC3, CC4, CF1, CF3, CF5 e CF6).

70
60

50
Argamassa com
Fibras

40
Carga (kN )

30

20

N ata de
C imento
10

0
0.000 0.500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500

D e s locame nto do Pis tão (mm)

Figura 4.3: Curvas carga-deslocamento típicas dos corpos de prova com e sem fibras de
polipropileno.

Tabela 4.2: Resultados dos ensaios de compressão uniaxial dos corpos de prova.

Material CP σcmáx σcres k1 k2 E


(MPa) (MPa) (MN/m) (MN/m) (GPa)
CC1 11,10 7,02 77,91 11,81 3,13
Nata CC2 11,11 ND ND ND ND
de Cimento CC3 9,64 7,01 41,42 4,31 1,77
CC4 10,96 8,17 49,56 6,30 2,10
CF1 12,44 9,84 69,44 2,58 3,04
CF2 13,18 9,14 72,46 1,90 3,10
CF3 31,92 15,45 128,33 11,56 5,95
Argamassa CF4 12,89 9,30 49,62 4,97 2,17
c/ fibras CF5 14,10 10,37 64,77 2,73 2,90
CF6 13,03 9,36 70,82 1,39 3,10
CF7 23,96 15,77 96,38 8,28 4,22
CF8 26,39 16,6 108,13 11,12 4,79
CF9 26,99 ND ND ND ND
CF10 25,30 ND ND ND ND
Obs.: ND: Não Disponível

71
Pode-se visualizar através da Tabela 4.2, que a resistência à compressão uniaxial dos
corpos de prova é influenciada pela presença das fibras. Os valores de resistência dos
corpos de prova moldados com nata de cimento se mostraram muito próximos entre si e
variaram entre 9,64 e 11,11 MPa. O valor médio de resistência para este material é igual
a 10,70 MPa.

Analisando–se os corpos de prova moldados com fibras, pode-se constatar valores


variando entre 12,44 e 31,92 MPa. Evidencia-se neste caso a presença de 2 grupos de
amostras, um com resistências à compressão da ordem de 12 MPa (próxima do valor
obtido para as amostras de nata de cimento) e outro com resistências da ordem de 20
MPa. Uma possível explicação para esta dispersão refere-se a um procedimento
inadequado de preparação das amostras, que resultou em corpos de prova com reduzido
teor de fibras.

O valor médio de resistência à compressão uniaxial dos corpos de prova de


argamassa com fibras de polipropileno foi adotado igual a 18,70 MPa. Comparando-se
este valor com o valor médio obtido através dos ensaios realizados em corpos de prova
moldados com nata de cimento, observa-se que houve um ganho de resistência de
aproximadamente 75% para os compósitos com fibras.

A resistência residual dos corpos de prova foi adotada igual ao valor correspondente
a 50% do deslocamento total medido no estado pós-pico. A Tabela 4.2 apresenta os
valores calculados.

Os valores de resistência residual dos corpos de prova de nata de cimento variaram


entre 7,01 a 8,17 MPa, não havendo grande dispersão entre eles. O valor médio de
resistência residual é igual a 7,40 MPa, o que representa uma redução de cerca de 31%
da resistência à compressão máxima.

Os deslocamentos do atuador da prensa de testes nestes ensaios até a condição de


pico variaram entre 1,25 e 2,95 mm. Pode-se verificar também que os deslocamentos
totais atingidos até a condição residual se situaram entre 1,87 e 4,43 mm (Anexo 3).

72
Analisando os corpos de prova com fibras, pode-se observar da Tabela 4.2 que os
valores de resistência residual foram superiores aos encontrados para os corpos de prova
de nata de cimento. Estes valores variaram entre 9,14 e 16,60 MPa. O valor médio de
resistência residual é igual a 9,60 MPa. O cálculo deste valor médio desconsiderou os
valores encontrados para os corpos de prova CF3, CF7 e CF8.

Comparando-se os corpos de prova com fibras e os corpos de prova de nata de


cimento, pode-se concluir que ocorreu um ganho de resistência residual de 29,7% para
os compósitos reforçados com fibras. Estes resultados vêm confirmar o efeito das fibras
na melhoria das características pós-pico dos materiais compósitos.

Em termos de deslocamento do atuador da máquina de testes até o pico, os valores


variaram entre 0,58 e 0,85 mm. Os deslocamentos correspondentes à condição residual
variaram entre 0,87 e 1,27 mm (Anexo 3).

Comparando estes resultados com os apresentados pelos corpos de prova de nata de


cimento, pode-se observar que os deslocamentos necessários para mobilizar as cargas de
pico e residual foram ambos mais baixos.

De maneira geral, os resultados dos ensaios de compressão uniaxial demonstraram


que o comportamento tensão-deformação dos corpos de prova com fibras é
caracterizado por valores mais elevados de resistências de pico e residual, enquanto são
necessários deslocamentos menores para se atingir estas duas condições (pico e
residual).

Observa-se das curvas carga-deslocamento dos corpos de prova com fibras (Figura
4.3 e Anexo 3), que, de maneira geral, após ter sido atingida a condição de resistência
de pico, há uma queda significativa de resistência com a deformação do corpo de prova,
sem que um patamar de estabilização da carga/tensão com os
deslocamentos/deformações seja atingido.

73
Em relação à rigidez do material, a Tabela 4.2 apresenta os valores calculados para
os corpos de prova com e sem fibras de polipropileno. Estes valores foram determinados
a partir das curvas carga-deslocamento considerando os estados pré-pico (k1) e pós-pico
(k2).

A rigidez no estado pré-pico para os corpos de prova moldados de nata de cimento


variou entre 41,4 e 77,9 MN/m, com valor médio de 45,5 MN/m. O cálculo deste valor
médio desconsiderou o valor de rigidez encontrado para o corpo de prova CC1 por este
apresentar uma grande diferença em relação aos demais.

Analisando–se os corpos de prova com fibras, verifica-se que o valor de rigidez


variou entre 49,6 x 103 e 128,3 MN/m, com valor médio igual a 65,4 MN/m,
desconsiderando-se os valores dos corpos de prova CF3, CF7 e CF8.

Comparando os resultados obtidos dos corpos de prova com e sem fibras, pode-se
concluir que as misturas com fibras de polipropileno são mais rígidas em relação à nata
de cimento no estado pré-pico. Isto significa dizer que, nos estágios iniciais de carga
antes da ruptura do material, o material compósito fibroso apresenta uma deformação
menor em relação à calda de cimento para um mesmo intervalo de tensão aplicado ao
corpo de prova.

Em média, a rigidez calculada no estado pré-pico para os corpos de prova com


fibras é 69,5% maior que a das amostras de nata de cimento.

Análises feitas para a condição pós-pico dos materiais ensaiados demonstraram que
o valor de rigidez encontrado para a nata de cimento se situou entre 4,3 e 11,8 MN/m,
com valor médio de 5,3 MN/m, desconsiderando-se o valor de CC1.

A rigidez pós-pico calculada para os corpos de prova com fibras variou entre 1,4 e
11,6 MN/m. A exemplo do que foi observado para o estado pré-pico, também ocorreu
grande dispersão nos resultados obtidos para o material compósito fibroso. O valor
médio calculado para este material é igual a 2,7 MN/m, desconsiderando-se os corpos
de prova CF3, CF7 e CF8.

74
Comparando as rigidezes pós-pico calculadas para as duas misturas, pode-se
concluir que a argamassa com fibras de polipropileno apresentou valores cerca de 51%
inferiores aos dos corpos de prova de nata de cimento.

A menor rigidez pós-pico da mistura com fibras novamente confirma o papel das
fibras em conferir à matriz reforçada uma maior ductilidade e melhorar as
características de comportamento pós-pico do material.

Os módulos de elasticidade apresentados na Tabela 4.2 foram calculados a partir dos


valores de rigidez pré-pico dos materiais, através da seguinte expressão:

E = (k1 x H)/A (5.1)

onde: E: Módulo de elasticidade;


k1: Rigidez pré-pico;
A: Área da seção transversal do corpo de prova;
H: Altura do corpo de prova.

O módulo de elasticidade e o coeficiente de Poisson poderiam ser determinados


através da instrumentação dos corpos de prova. Porém, alguns strain gages foram
perdidos durante os ensaios de compressão uniaxial o que impossibilitou a medição das
deformações axiais e radiais em todos os corpos de prova pretendidos.

Os valores de módulo de elasticidade variaram entre 1,77 e 3,13 GPa para os corpos
de prova de nata de cimento e 2,17 e 5,95 GPa para as misturas com fibras de
polipropileno.

O valor médio para os corpos de prova de nata de cimento é igual a 2,62 GPa. Este
valor foi obtido desconsiderando o corpo de prova CC3. O valor médio do módulo de
elasticidade da mistura com fibras é igual a 3,53 GPa, desconsiderando os valores dos
corpos de prova CF3 e CF4.

75
Comparando os valores obtidos, pode-se observar um acréscimo no valor do módulo
de elasticidade das misturas com fibras. Em média, o módulo de elasticidade para estes
compósitos foi cerca de 35% maior que o dos corpos de prova de nata de cimento.

4.3.2 – ANÁLISES E RESULTADOS DOS ENSAIOS DE COMPRESSÃO


DIAMETRAL

A Figura 4.4 mostra as curvas carga-deslocamento típicas dos corpos de prova com
e sem fibras. O Anexo 3 apresenta todos os resultados obtidos dos ensaios de
compressão diametral.

A Tabela 4.3 apresenta os resultados de resistência à tração indireta σt,b obtidos dos
ensaios de compressão diametral executados nos corpos de prova com nata de cimento e
com argamassa com fibras.

3.50

3.00
Argamassa
com Fibras
2.50

2.00
Carga (kN )

N ata de
C imento
1.50

1.00

0.50

0.00
0.600 0.800 1.000 1.200 1.400 1.600 1.800 2.000

D e s locame nto do Pis tão (mm)

Figura 4.4: Curvas carga-deslocamento típicas das amostras com e sem fibras em
compressão diametral.

76
Tabela 4.3: Resistência à tração indireta da nata de cimento e argamassa com fibras.

CP Fmáx σt,b
(kN) (MPa)
TC1 1,113 0,57
TC2 1,916 0,98
TC3 3,186 1,62
TC4 1,384 0,71
TC5 2,005 1,02
TC6 2,345 1,19
TF1 3,319 1,69
TF2 2,309 1,18
TF3 2,538 1,29
TF4 3,198 1,63
TF5 2,600 1,32
TF6 3,353 1,71
TF7 1,066 0,54
TF8 3,120 1,59
TF9 2,359 1,20
TF10 2,777 1,42
TF11 1,753 0,89
TF12 4,864 2,48
TF13 1,731 0,88
TF14 2,736 1,39
TF15 2,994 1,53

Os valores de resistência à tração para os corpos de prova de nata de cimento


variaram entre 0,57 e 1,62 MPa com valor médio de 0,89 MPa.

Os valores de resistência à tração dos corpos de prova com fibras variaram entre
0,54 e 2,48 MPa, com valor médio de 1,36 MPa. Os cálculos dos valores médios
desconsideraram os valores máximo e mínimo obtidos.

Comparando os valores obtidos para os dois tipos de amostras, conclui-se que a


argamassa com fibras tem resistência à tração cerca de 53% superior à apresentada pela
nata de cimento.

77
Estes resultados confirmam a eficiência das fibras em conferir maior resistência à
tração às matrizes cimentíceas.

78
CAPÍTULO 5 – PROGRAMA EXPERIMENTAL DE CAMPO
______________________________________________________________________

Este capítulo apresenta uma descrição pormenorizada dos procedimentos executivos


que antecederam os ensaios de arrancamento no campo, bem como apresenta a maneira
como foram conduzidos estes ensaios e a etapa posterior que envolveu a exumação dos
grampos ensaiados.

Em seguida, são analisadas e comparadas as cargas de arrancamento e as


resistências por atrito lateral unitário qs, além dos deslocamentos nas cabeças dos
grampos para cada bateria de ensaio. O comportamento mecânico dos grampos com
fibras é comparado ao apresentado pelo grampo convencional em cada bateria,
procurando esclarecer as diferenças entre os dois tipos de grampos estudados.

Considerações são feitas em relação à distribuição do carregamento da barra de aço


para o sistema solo/compósito ao longo do comprimento do grampo. Estas
considerações resultaram na proposição de duas formas de distribuição da carga ao
longo do grampo, as quais são comparadas entre si e com os resultados de ensaios de
arrancamento instrumentados em grampos convencionais.

As características observadas através da exumação dos grampos convencional e com


fibras são analisadas considerando os tipos de solo e estruturas geológicas vizinhas aos
grampos. Nesta etapa de análise, o padrão de fissuração dos grampos é apresentado,
ressaltando-se o número de fissuras observadas em cada um dos trechos em que os
grampos foram divididos (trechos livre, injetado com barra e injetado sem barra).

Segue-se uma comparação entre os resultados obtidos nas duas baterias de ensaio,
com o objetivo de quantificar a influência do material atravessado na resistência ao
arrancamento dos grampos ensaiados.

5.1 – ENSAIOS DE ARRANCAMENTO DOS GRAMPOS NO CAMPO

A etapa de campo consistiu de ensaios de arrancamento que foram realizados em


duas baterias, conforme já comentado no capítulo anterior.

79
Cada bateria contou com um total de seis grampos, sendo que em cada uma delas,
um grampo era do tipo convencional e os demais eram reforçados com as fibras de
polipropileno. A Tabela 5.1 resume os grampos ensaiados em cada bateria e a respectiva
convenção adotada para denominação dos grampos.

Tabela 5.1: Grampos convencionais e com fibras de polipropileno ensaiados

Bateria Grampo Bateria Grampo


P11 P21
P12 P22
P13 P23
1 2
P14 P24
P15 P25
C11 C22
P: grampo com fibra de polipropileno
C: grampo convencional

A preparação e o acerto das superfícies dos taludes para se proceder à instalação dos
grampos foi feita com o auxílio de ferramentas como picaretas e enxadas. O objetivo
desta atividade era o de deixar as superfícies planas e retas o tanto quanto fosse
possível, a fim de que elas pudessem servir de apoio para as placas de reação do sistema
de arrancamento do grampo.

Depois de concluída a etapa de moldagem dos grampos não convencionais e do


grampo convencional para cada bateria, e após um período de cura de 7 dias, os
grampos já se encontravam prontos para serem ensaiados.

Na bateria 1, entretanto, um grampo não convencional (grampo P12) e o grampo


convencional da mesma bateria (grampo C11) foram moldados anteriormente aos
demais grampos. Estes grampos foram moldados três semanas antes dos demais,
completando assim no dia do ensaio, um período de cura de 21 dias ao invés de apenas
7 dias. Tanto os grampos não convencionais P11, P13, P14 e P15 pertencentes à
primeira bateria de ensaios, quanto todos os grampos da segunda bateria foram
moldados e ensaiados com um período de tempo total de cura de 7 dias.

80
Antes do ensaio de arrancamento propriamente dito, procedeu-se à montagem de
todo um aparato necessário para a sua realização. A montagem era realizada no trecho
inicial das barras de aço com comprimento igual a 80 cm (externo ao talude). Este
comprimento foi assim definido, de forma a apoiar todo o sistema de arrancamento
composto por uma placa de aço de reação, macaco hidráulico, célula de carga, placas e
duas luvas. As Figuras 5.1 e 5.2 ilustram o esquema do sistema de arrancamento
adotado e a montagem típica para os ensaios dos grampos, respectivamente.

α = 10o

Figura 5.1: Esquema dos componentes para o ensaio de arrancamento dos grampos.

O conjunto bomba-macaco utilizado para aplicar carga no grampo era da marca


Enerpac, com capacidade de carga do macaco de 600 kN. A célula de carga usada nos
ensaios tinha capacidade de carga de 200 kN.

Após a montagem do sistema de arrancamento, foi feita uma cava na região do pé


do talude de cada grampo para apoiar um suporte para o extensômetro utilizado na
medição dos deslocamentos dos grampos. Este extensômetro possui um curso de 20mm
e resolução de 0,01 mm.

Este suporte do extensômetro era formado por uma haste nervurada de aço embutida
em um bloco de concreto e munida de duas luvas para a fixação de uma placa metálica
onde o extensômetro se apóia (Figuras 5.2 e 5.3). As luvas se encontram abaixo e acima
da placa, e possibilitam subir ou descer com a placa através da haste, permitindo um
melhor ajuste do extensômetro na placa de aço de referência para as medidas de
deslocamento do grampo.

81
Figura 5.2: Montagem típica dos ensaios de arrancamento dos grampos.

(a) (b)

Figura 5.3: Suporte do extensômetro: (a) Esquema e (b) Detalhe.

82
Procurou-se ter o cuidado para que, na montagem de todo o aparato composto por
célula de carga, macaco e demais peças acessórias, ele ficasse o mais perpendicular
possível em relação ao eixo do grampo e que o extensômetro, depois de posicionado,
ficasse o mais paralelo possível em relação a este mesmo eixo.

Depois de tudo preparado para o ensaio, a célula de carga era ligada ao sistema de
aquisição de dados e o macaco era conectado à bomba. Após a estabilização do sistema
de aquisição, o valor da leitura inicial da célula de carga era anotado e começava-se
então o ensaio. Aplicava-se a carga ao grampo por meio do macaco hidráulico em
estágios com incrementos de tensão de 1 MPa. As medições de carga e deslocamentos
eram registradas através de célula de carga e extensômetro, respectivamente. Para cada
estágio de carregamento, monitorava-se a carga e deslocamento correspondentes aos
tempos de 0, 30, 60,120 e 240 s.

Durante os ensaios, observou-se algumas vezes a redução do valor da leitura da


célula de carga após ter sido aplicado o carregamento no grampo. Após os 4 min de
monitoramento, restabelecia-se o nível de carga com nova tomada de leituras.

Uma vez verificada a estabilização das leituras no sistema de aquisição de dados,


dava-se início ao novo estágio de carregamento, aumentando-se a tensão no macaco em
mais 1 MPa.

Com o término do ensaio, todo o esquema era desmontado e abria-se nova cava
abaixo do furo onde seria realizado o próximo ensaio. A partir daí, o extensômetro e seu
suporte eram posicionados e o macaco e a célula de carga eram novamente ligados à
bomba e ao sistema de aquisição de dados, respectivamente. Após a estabilização das
leituras no canal correspondente à célula de carga no sistema de aquisição de dados,
dava-se início a um novo ensaio.

Os resultados dos ensaios de arrancamento das duas baterias são apresentados no


item 5.3

83
5.2 – EXUMAÇÃO DOS GRAMPOS NO CAMPO

Na fase de exumação dos grampos, as seguintes atividades foram realizadas:

• Escavação mecânica junto ao grampo a ser exumado por meio de


retro-escavadeira;
• Escavação manual complementar por meio de ferramentas como
picaretas e cavadeiras do tipo bola próxima ao grampo;
• Inspeção visual e fotografia do grampo exumado;
• Remoção do grampo exumado do local de ensaio até um local de
armazenamento;
• Levantamento e marcação das fraturas existentes ao longo do
comprimento do grampo.

Primeiramente, era feita uma escavação mecânica com o auxílio de uma retro-
escavadeira CATTERPILLAR com capacidade de 320 litros, a fim de se obter mais
velocidade nesta atividade de escavação e descoberta dos grampos a serem exumados.

Figura 5.4: Escavação mecânica para exumação dos grampos.

84
Na primeira bateria de ensaios, só foi possível exumar o grampo P11 (grampo
reforçado com fibras de polipropileno c/ cura de 7 dias) em virtude da impossibilidade
de se escavar a face lateral do talude reforçado com os grampos definitivos da obra.

Já na segunda bateria foi possível exumar todos os seis grampos ensaiados, uma vez
que foram executados em talude provisório de escavação, situado em frente à obra.

Ressalta-se que a operação de exumação é lenta e delicada. Todas as precauções são


tomadas para que os grampos não sejam danificados.

Tão logo o grampo ficava totalmente descoberto, eram colocados marcos a cada
metro de comprimento do mesmo. Estes marcos tinham por objetivo separar o grampo
em seções, possibilitando a contagem do número de fissuras existentes em cada seção e
a conseqüente definição do trecho do grampo onde as fibras estariam sendo mais
solicitadas.

Além disso, esta divisão do grampo em partes de comprimento unitário, também


facilitou a identificação da natureza do material que era atravessado pelo grampo. Esta
divisão dos grampos em partes de comprimento unitário, mostrando a natureza do
material atravessado pelos grampos a cada metro de profundidade pode ser visualizada
no item 5.3.

Na etapa seguinte, o grampo era retirado e transportado até um local seguro, onde se
realizava novo levantamento das fissuras existentes em cada grampo, com a marcação
das distâncias entre fissuras ou entre uma determinada fissura e o início do trecho livre
do grampo (trecho envolto com a espuma).

Este levantamento possibilitou a determinação do padrão de fissuração apresentado


pelos grampos após os ensaios.

85
5.3 – RESULTADOS DOS ENSAIOS DE CAMPO

A campanha experimental de campo consistiu de duas baterias de ensaios de


arrancamento realizadas em cotas diferentes do talude. A Figura 5.5 apresenta as curvas
carga-deslocamento para os grampos ensaiados da bateria 1.

120

100

80 C11
P11
Carga (kN)

P12
60 P13
P14
40 P15

20

0
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90

Deslocamento do Extensômetro (mm)

Figura 5.5: Curvas carga-deslocamento dos grampos convencional e com fibras –


Bateria 1.

A Tabela 5.2 resume os valores das cargas das cargas de arrancamento (pico) Tm e
residual Tres obtidos a partir dos ensaios de arrancamento dos grampos.

Tabela 5.2: Resultados dos ensaios de arrancamento – Bateria 1.

Carga Deslocamento
Grampo Tm Tres. δm δres
(kN) (kN) (mm) (mm)
P11 56,5 56,5 53,8 53,8
P12 105,9 70,5 42,2 43,7
P13 46,5 46,1 70,1 81,8
P14 30,8 23,6 8,1 74,1
P15 49,7 49,7 51,1 51,1
C11 101,8 100,0 22,8 33,3

86
Na bateria 1, verifica-se que o grampo P12 apresentou a maior carga de
arrancamento (105,9 kN), enquanto o grampo P14 atingiu a menor carga (30,8 kN)
analisando-se apenas os grampos com fibras de polipropileno. Além disto, observa-se
que a curva carga-deslocamento do grampo P12 se assemelha à do grampo
convencional, ao contrário dos outros grampos (Figura 5.5).

O maior valor de carga de arrancamento verificado para o grampo P12 pode ser
explicado pelo contato da sua extremidade com o grampo P11. Este contato pôde ser
observado através da exumação do grampo P11. Na realidade, verificou-se que a
execução do furo do grampo P12 não obedeceu aos padrões de qualidade exigidos para
a realização das perfurações. Usualmente, a execução do furo é realizada com o auxílio
de um gabarito de madeira que minimiza as distorções dos ângulos de inclinação e
direção do furo. Infelizmente, o gabarito não foi utilizado durante a execução do furo
para o grampo P12, resultando em desvio inaceitável que promoveu a sua ancoragem no
grampo vizinho (P11). O valor de carga de arrancamento do grampo P12 não deve,
portanto, refletir a resistência real do sistema grampo-solo.

Por sua vez, o valor de carga de ruptura mais reduzido observado para o grampo P14
pode ser atribuído ao contato da camada de solo residual jovem com o solo residual
maduro observado justamente no local onde este grampo foi executado (Figura 5.6).

Contato entre os dois materiais

Figura 5.6: Vista frontal do grampo P14, no contato solo residual jovem – maduro.

87
O contato do grampo com materiais mais alterados pode promover uma redução no
valor da resistência ao arrancamento por unidade de comprimento do grampo (qs). Isto
explica, portanto, a baixa resistência do grampo P14 em relação aos demais grampos da
mesma bateria.

Os ensaios realizados para os grampos P13 e P15 acusaram basicamente a mesma


carga de arrancamento, cujos valores se situaram entre 46,5 kN (grampo P13) e 49,7 kN
(grampo P15). O valor de carga de arrancamento do grampo P11 (56,5 kN) pode refletir
o contato com o grampo P12.

O valor médio da carga de arrancamento alcançado para os grampos com fibras de


polipropileno nesta primeira bateria foi adotado igual a 48,1 kN, considerando os
valores dos grampos P13 e P15.

A carga de arrancamento atingida para o grampo convencional C11 foi igual a 101,8
kN. Comparando-se os valores dos grampos com fibras com o grampo convencional,
conclui-se que a carga de arrancamento média resistida pelos grampos reforçados com
fibras de polipropileno é igual a 47,2% da carga de arrancamento do grampo
convencional (Figura 5.7).

120.0

100.0

80.0
Tpico (kN)

60.0 101,8
47 2%
48 1
40.0

46,5 49,7
20.0

0.0
P13 P15 C11

Grampos - Bateria 1

Figura 5.7: Histograma das cargas de arrancamento dos grampos – Bateria 1.

88
Por sua vez, observa-se da Figura 5.5 e Tabela 5.2 que as cargas residuais variaram
entre 23,6 kN (grampo P14) e 70,5 kN (grampo P12). Os valores máximo e mínimo de
carga residual dos grampos P12 e P14 são consistentes com seus valores máximo e
mínimo de carga de arrancamento.

A carga residual média resistida pelos grampos com fibras situou-se entre 40 e 60
kN, enquanto a carga residual do grampo convencional C11 da mesma bateria foi
aproximadamente igual à de pico (100 kN).

Em termos de deslocamentos, os grampos com fibras apresentaram comportamento


muito semelhante entre si, excetuando o grampo P14. Pode-se observar da Figura 5.5 e
da Tabela 5.2 que, de maneira geral, os grampos com fibras de polipropileno suportaram
grandes deslocamentos sem queda significativa de resistência máxima.

Os deslocamentos totais registrados pelo extensômetro para os grampos P11, P12 e


P15 foram semelhantes entre si, situando-se na faixa de 50mm. Os grampos P13 e P14
mostraram deslocamentos superiores a 70mm. Isto confirma o efeito das fibras na
melhoria das propriedades mecânicas pós-ruptura do material compósito, através do
aumento da ductilidade.

Também pode ser notado que os grampos com fibras (excetuando o P14)
apresentaram em média deslocamentos de pico substancialmente maiores que o do
grampo convencional C11. Isto corrobora o comportamento mais frágil da nata de
cimento em relação à mistura com fibras de polipropileno. Além disto, sabe-se que a
barra de aço utilizada no grampo convencional é mais rígida que a nata de cimento.
Como o módulo de elasticidade do aço é mais elevado, resulta que o deslocamento total
do grampo convencional é menor que o das matrizes de cimento reforçadas com fibras
de polipropileno.

A diferença entre a resistência de pico e pós-pico é um parâmetro que pode ser


utilizado para medir a ductilidade ou fragilidade de um material. Pode-se visualizar nas
curvas carga-deslocamento da Figura 5.5, que os grampos apresentam perdas de
resistência pouco significativas, excetuando-se o grampo P12. A perda de resistência

89
mais significativa apresentada pelo grampo P12 pode ser atribuída à ruptura da ligação
como o grampo P11 durante o ensaio de arrancamento.

A Figura 5.8 apresenta as curvas carga-deslocamento dos ensaios de arrancamento


dos grampos da bateria 2. A Tabela 5.3 resume os resultados obtidos apresentando as
cargas de arrancamento (Tm) e residual (Tres), além dos deslocamentos correspondentes
ao pico (δpico) e residual (δres).

250

200

C21
150 P21
Carga (kN)

P22
P23
100 P24
P25

50

0
0 10 20 30 40 50 60 70 80

Deslocamento do Extensômetro (mm)

Figura 5.8: Curvas carga-deslocamento dos grampos convencional e com fibras –


Bateria 2.

Tabela 5.3: Resultados dos ensaios de arrancamento – Bateria 2.

Carga Deslocamento
Grampo Tm Tres. δm δres
(kN) (kN) (mm) (mm)
P21 130,6 117,3 72,8 83,7
P22 151,1 151,1 78,6 78,6
P23 112,5 110,5 15,2 28,4
P24 93,0 93,0 17,1 17,1
P25 112,8 110,3 71,9 71,9
C21 206,5 205,8 22,6 36,5

Observa-se da Figura 5.8 que as curvas carga-deslocamento dos grampos com fibras
de polipropileno são semelhantes entre si e mostram comportamento mecânico muito
distinto do apresentado pelo grampo convencional.

90
Nesta bateria, pode ser observado que os valores máximo e mínimo das cargas de
arrancamento foram atingidos para os grampos P22 e P24, respectivamente.

A carga de arrancamento do grampo P22 foi igual à 151,1 kN e pode ser atribuída à
natureza do material atravessado por este grampo. A exumação dos grampos revelou a
ocorrência de pacotes de siltes areno-argilosos derivados de rochas do tipo quartzito e
pegmatito no local onde este grampo foi executado (Figura 5.9). O grampo P22
atravessa em grande parte do seu comprimento materiais menos alterados (solo residual
jovem), os quais oferecem uma maior oposição ao arrancamento do grampo,
aumentando consequentemente a resistência.

Figura 5.9: Vista do grampo com fibras P22 após a exumação.

A carga de arrancamento do grampo P24 foi igual a 93,0 kN. Este valor também
pode ser explicado pela geologia local identificada após a exumação. Ao longo de
grande parte do comprimento do grampo encontra-se uma espessa camada de solo de
alteração de rocha (gnaisse calcissilicático), conforme ilustrado na Figura 5.10.

Material mais
alterado

Figura 5.10: Vista do grampo com fibras P24 após a exumação.

91
O produto de alteração dessas rochas são solos menos competentes de natureza
síltico-arenosa e coloração branca. Este material mais alterado reduz a adesão e o atrito
ao redor do grampo, resultando em uma menor resistência ao arrancamento.

Os grampos P21, P23 e P25 apresentaram cargas de arrancamento que variaram


num intervalo de 112,5 kN (grampo P23) a 130,6 kN (grampo P21). Os materiais
identificados a partir da exumação destes grampos mostraram-se muito semelhantes
entre si, confirmando a similaridade dos resultados obtidos.

O valor médio da carga de arrancamento para os grampos com fibras nesta bateria
foi igual a 118,7 kN. O cálculo deste valor desconsiderou os valores máximo e mínimo
dos grampos com fibras P22 e P24. A carga de arrancamento do grampo convencional
C21 foi igual a 206,5 kN.

Analisando e comparando os resultados obtidos para a bateria 2, pode-se verificar


que o valor médio da carga de arrancamento para os grampos reforçados com fibras de
polipropileno foi igual a 57,5% do valor de carga de arrancamento do grampo
convencional (Figura 5.11).
250.0

200.0

150.0
Tpico (kN)

57 5 206,5

11
100.0

130,6 112,5 112,8

50.0

0.0
P21 P23 P25 C21
Grampos - Bateria 2

Figura 5.11: Histograma das cargas de arrancamento dos grampos – Bateria 2.

92
As cargas de arrancamento dos grampos com fibras considerando toda a campanha
de ensaios de campo variaram em média entre 47% a 57% da carga resistida pelos
grampos convencionais, independente do tipo de solo. Este resultado era esperado, uma
vez que a barra de aço é um elemento mais rígido em comparação com a argamassa
reforçada com fibras.

Através da Figura 5.8 e com o auxílio da Tabela 5.3, pode-se observar que os
ensaios realizados nos grampos com fibras foram conduzidos além da condição de pico
até que se chegasse a um patamar de estabilização da carga residual.

As cargas residuais atingidas por estes grampos variaram em uma faixa de 110,3 kN
(grampo P25) a 117,3 kN (grampo P21). As diferenças entre cargas de pico e pós-pico
foram respectivamente iguais a 2,1 kN (1,83%) para o grampo P23 e 13,4 kN (10,22%)
para o grampo P21.

O grampo P21 apresentou a maior carga residual dentre todos os grampos com
fibras. Este valor é devido à maior carga de arrancamento apresentada por este grampo
em comparação aos grampos P23 e P25, bem como a qualidade dos materiais
atravessados por este grampo. A etapa de exumação mostrou a ocorrência de camadas
de um material silto-areno-argiloso no local onde este grampo foi executado (Figura
5.12). Este material é muito pouco alterado e preserva ainda as características da rocha
mãe. Desta forma, o material ofereceu uma maior oposição à tendência de arrancamento
do grampo, justificando o valor de carga de arrancamento atingido.

Figura 5.12: Vista do grampo P21 após a exumação.

93
De forma análoga às cargas de arrancamento, as cargas residuais dos grampos P21,
P23 e P25 se mostraram muito semelhantes devido à similaridade dos tipos de solos
encontrados à partir da exumação. Inclusive, as cargas residuais obtidas a partir dos
ensaios realizados nos grampos P21 e P25 também foram atingidas para deslocamentos
muito próximos e da ordem de 70mm (Figura 5.8).

Estes resultados podem atestar a vantagem do emprego de fibras de polipropileno


em grampos moldados com matrizes cimentíceas. Pode-se verificar que os grampos
sofreram grandes deslocamentos sem apresentar queda significativa da carga de
arrancamento, o que corrobora o fato de que as fibras de polipropileno contribuem para
a manutenção das cargas resistidas pelo elemento, mesmo após a ruptura da matriz.

Além disto, a presença de materiais mais resistentes e menos alterados promove um


maior atrito do grampo no solo, o que acaba contribuindo para manter o nível de
carregamento próximo da carga de pico. Isto pode explicar as baixas reduções de carga
no estado pós-pico dos grampos P23 e P25 (da ordem de 2%).

Em termos de deslocamentos de pico, verifica-se através da Tabela 5.3 e Figura 5.8


que os grampos P21, P22 e P25 apresentam valores semelhantes, da ordem de 74 mm,
enquanto os grampos P23 e P24 mostram deslocamentos muito inferiores, da ordem de
16 mm.

A similaridade dos materiais atravessados pelos grampos com fibras P21, P22 e P25
pode explicar a semelhança nos deslocamentos apresentados por estes grampos no pico.
A presença de materiais mais fracos (solos siltosos derivados de gnaisses
calcissilicáticos) nos locais onde foram executados os grampos P23 e P24 também
confirma os menores valores encontrados para estes reforços.

O deslocamento apresentado pelo grampo convencional C21 foi igual a 22,6 mm.
Como já observado na bateria 1, o grampo convencional atinge um menor nível de
deslocamento em comparação aos grampos reforçados com fibras de polipropileno,
devido à maior rigidez da barra de aço inserida dentro do sistema.

94
Durante a exumação, verificou-se também em todos os grampos exumados a
presença de uma trinca aberta na seção que delimita os trechos injetado com barra e sem
barra, distante 1,5 m da boca das perfurações.

Esta separação do grampo na junção dos dois trechos pode ser atribuída à diferença
de rigidez entre a nata de cimento com barra de aço e a argamassa reforçada com fibras
de polipropileno. A Tabela 5.4 mostra os comprimentos das trincas abertas medidos na
exumação e compara com os deslocamentos máximos medidos pelo extensômetro
durante os ensaios de arrancamento.

Tabela 5.4: Comparação entre abertura de trinca e deslocamentos máximos dos grampos
– Bateria 2.

Exumação Arrancamento
Grampo Abertura de Deslocamento
trinca (cm) total (cm)
P21 8,5 8,4
P22 8,0 7,9
P23 6,0 2,8
P24 3,0 1,7
P25 7,0 7,2

É interessante observar que os valores medidos nos ensaios de arrancamento são


diferentes dos medidos na exumação para os grampos P23 e P24. Isto dificulta ainda
mais a análise do fenômeno que pode ter ocorrido durante a solicitação dos grampos. A
dúvida mais inquietante reside na possibilidade do trecho sem barra com fibras não ter
sido solicitado.

Entretanto, a exumação dos grampos nas duas baterias demonstrou que as seções
com argamassa e fibras dos grampos com polipropileno foram solicitadas durante os
ensaios de arrancamento de campo. Esta conclusão está baseada na observação das
fissuras dos grampos identificadas após a exumação e extração dos grampos ensaiados.

95
As fissuras demonstram que durante os ensaios, a carga aplicada ao grampo excedeu
a resistência à tração da matriz que, por conseqüência, fissurou. Com a fissuração da
matriz, as fibras receberam um incremento de carga e contribuíram para garantir a
resistência à tração do grampo compósito no estado pós-pico.

Subsequente à exumação dos grampos ensaiados nesta bateria, foi realizado um


extenso trabalho de mapeamento das fissuras existentes em cada peça. Este mapeamento
permitiu observar em cada um dos grampos com fibras de polipropileno, uma região
próxima à extremidade (ponta do grampo) sem fissuras. O comprimento desta região
sem fissuras para cada grampo com fibras da bateria 2 foi medido e é apresentado na
Tabela 5.5. É interessante ressaltar que, em média, 1 m de ponta dos grampos não é
fissurado, sugerindo que não há mobilização de resistência significativa nesta região. A
Figura 5.13 ilustra um detalhe típico de grampo mostrando o fissuramento e o
comprimento da região sem fissuras L.

Tabela 5.5: Comprimento sem fissuras na ponta dos grampos com fibras – Bateria 2.

Grampo P21 P22 P23 P24 P25


L(m) 1,49 0,92 0,87 1,20 1,25

Figura 5.13: Detalhe típico do grampo ilustrando a região sem fissuras.

O padrão de fissuração, contendo o número de fissuras observadas para cada parte


em que os grampos foram divididos está apresentado na Tabela 5.6. A Figura 5.14
mostra um esquema do padrão típico de fissuração para os grampos nesta bateria,
enquanto a Figura 5.15 ilustra um trecho fissurado do grampo P21.

96
Tabela 5.6: Resumo da exumação dos grampos da bateria 2.

Comprimento Quantidade de Fissuras


Trecho Sub-trecho
(m) P21 P22 P23 P24 P25
Livre - 0,50 5 2 2 2 2
Injetado c/ barra - 1,00 1 5 2 2 3
Terço Inicial 0,83 3 2 2 1 1
Injetado s/ barra Terço Médio 0,83 1 1 5 3 2
Terço Final 0,83 0 0 0 0 0

TOTAL 4,00 10 10 11 8 8

Figura 5.14: Esquema do padrão de fissuração típico para os grampos com fibras.

Figura 5.15: Detalhe da seção com fissuras do grampo P21.

Analisando o padrão de fissuração apresentado pelo grampo P21 e comparando com


a natureza do material atravessado a cada metro de comprimento do grampo, levantada
a partir das inspeções visuais de campo, nota-se que a maior quantidade de fissuras
observadas ao longo do trecho livre do grampo (50 cm iniciais) é devida ao contato com
material mais jovem e mais preservado.

Nos outros trechos, observa-se a intercalação deste material mais intacto com o
material mais alterado e de menor resistência. Pode-se visualizar os diferentes materiais
atravessados por todos os grampos com fibras e grampo convencional da bateria 2
através da Figura 5.16.

97
EXUMAÇÃO DOS GRAMPOS DE POLIPROPILENO – Descrição e Ilustração
0,0 - 1,0 m 1,0 - 2,0 m 2,0 - 3,0 m 3,0 - 4,0 m

GRAMPO CONVENCIONAL

Silte areno-argiloso com Silte areno-argiloso


Silte areno-argiloso,
Silte areno-argiloso, cinza esverdeado intercalações de silte com intercalações de
cinza esverdeado
argiloso branco silte argiloso branco

GRAMPO GP21

Silte areno-argiloso, cinza Silte areno-argiloso, Silte areno-argiloso,


Silte areno-argiloso, cinza esverdeado com esverdeado com cinza esverdeado com cinza esverdeado com
intercalações de silte argiloso branco. intercalações de silte intercalações de silte intercalações de silte
argiloso branco. argiloso branco. argiloso branco.

GRAMPO GP22

Silte areno-argiloso, Silte areno-argiloso,


Silte areno-argiloso, cinza esverdeado
Silte areno-argiloso, vermelho com vermelho com
com intercalações de silte argiloso
amarelo intercalações de silte intercalações de silte
branco.
argiloso branco argiloso branco

GRAMPO GP23

Silte areno-argiloso, Silte areno-argiloso,


Silte areno-argiloso, amarelo cortado por um veio Silte areno-argiloso, vermelho com cinza esverdeado com
de 20 cm de silte argiloso branco. amarelo intercalações de intercalações de silte
silte argiloso branco argiloso branco.

GRAMPO GP24

Silte areno-argiloso,
Silte areno-argiloso, amarelo intercalado
Silte areno-argiloso, cinza esverdeado com vermelho com Silte argiloso com silte areno-
intercalações de silte argiloso branco. intercalações de silte branco argiloso, vermelho e
argiloso branco com o silte argiloso
branco

GRAMPO GP25

Silte areno-argiloso, Silte areno-argiloso, Silte areno-argiloso, cinza


cinza esverdeado com cinza esverdeado com esverdeado com
Silte areno-argiloso, cinza esverdeado
intercalações de silte intercalações de silte intercalações de silte
argiloso branco argiloso branco argiloso branco

Figura 5.16: Perfil dos solos em contato com os grampos – Bateria 2.

98
O grampo P22 apresenta um padrão de fissuração inverso ao observado para o
grampo P21, com maior concentração de fissuras ao longo do trecho injetado com barra,
enquanto os outros trechos apresentam basicamente a mesma quantidade de fissuras,
com exceção do trecho final do grampo. Isto se deve à ocorrência de um pacote de solo
silto-areno-argiloso amarelo mais resistente entre as seções de 1 e 2 m distante da boca
do furo. Nos outros trechos, nota-se a presença de um silte areno-argiloso
cinza/vermelho com veios do material menos resistente.

Para o grampo P23, nota-se que há uma grande quantidade de fissuras ao longo da
porção média do trecho injetado sem barra (terço médio), enquanto que os outros
trechos apresentaram o mesmo número de fissuras. A exumação deste grampo revelou a
ocorrência de um pacote de silte arenoso vermelho neste local. A presença de materiais
mais resistentes oferece uma maior ancoragem do grampo. À medida que este grampo
fica impedido de se deslocar por conta do maior atrito do material mais resistente,
surgem concentrações de tensões nas regiões mais rígidas, as quais são mais sujeitas ao
aparecimento de fissuras.

Os grampos P24 e P25 apresentam um padrão de fissuração bastante semelhante


entre si com basicamente o mesmo número de fissuras existentes por trecho.
Comparando o desempenho dos grampos nas duas baterias, pode-se verificar que os
grampos da bateria 2 apresentaram cargas de arrancamento (118,7 kN) superiores às
cargas dos grampos da bateria 1 (48,1 kN). Estes resultados vêm confirmar a maior
eficiência do grampo quando inserido em materiais mais competentes, como o solo
encontrado na área da bateria 2 (solo residual jovem de gnaisse).

O desenvolvimento de fissuras nos grampos com fibras de polipropileno pode ser


explicado através dos resultados dos ensaios de laboratório. Para tal, admite-se que há
formação de fissuras toda vez que a resistência à tração do material compósito for
superada. O valor médio de resistência à tração calculado a partir dos resultados dos
ensaios de tração indireta no laboratório é igual a 1,36 MPa.

Tomando-se como base para esta análise o menor valor de carga de arrancamento
por metro linear encontrado para os grampos com fibras na bateria 2, tem-se o valor de
13,6 kN/m. Calculando-se a tensão de arrancamento atuante em uma seção genérica do

99
grampo, tem-se 3,08 MPa, valor superior ao da resistência à tração média da mistura
com fibras (1,36 MPa), o que explica o surgimento de fissuras de tração nos grampos
por ocasião dos ensaios de arrancamento.

5.4 – RESISTÊNCIA AO ARRANCAMENTO DOS GRAMPOS

Uma vez obtidas as cargas de arrancamento, procedeu-se ao cálculo da resistência


ao arrancamento dos grampos por unidade de comprimento. Foram analisadas duas
hipóteses possíveis quanto à distribuição de carga por metro linear de grampo ao longo
do trecho injetado sem barra para os grampos reforçados com fibras de polipropileno, a
saber:

• Hipótese 1: Admite-se que a carga distribui-se de maneira uniforme ao


longo de todo o comprimento do grampo, exceto ao longo do trecho livre,
onde a barra de aço não possui qualquer contato com o material compósito
circundante (Figura 5.17), de forma análoga à distribuição de carga adotada
usualmente para grampos convencionais;
• Hipótese 2: Nesta hipótese, calcula-se a contribuição do trecho injetado
sem barra para resistir à carga de arrancamento, descontando-se a parcela de
carga aplicada no trecho injetado com barra de aço, adotada igual à do grampo
convencional (Figura 5.18).

A taxa de carga de arrancamento por metro linear do grampo convencional, adotada


na hipótese 1 é dada por:

Qsc = (Tgc/Linj) (5.1)

onde: Qsc: Taxa de carga de arrancamento por metro do grampo convencional;


Tgc: Carga de arrancamento máxima do grampo convencional;
Linj: Comprimento do trecho injetado.

A resistência ao arrancamento do grampo convencional, adotada na hipótese 1 é


dada por:

100
qsc = (Qsc/πD) = (Tgc/(πDLinj)) (5.2)

onde: qsc: Resistência ao arrancamento do grampo convencional;


Tgc: Carga de arrancamento máxima do grampo convencional;
D: Diâmetro do furo (grampo);
Linj: Comprimento do trecho injetado.

No caso estudado, o comprimento injetado é igual a 3,5 m, e portanto a Eq. 5.1 pode
ser expressa por:

Qsc = (Tgc/3,5) (5.3)

Para a segunda hipótese, a contribuição do trecho injetado com barra é calculada


dividindo-se a carga de arrancamento do grampo convencional pelo comprimento total
do trecho injetado de forma análoga à da hipótese 1, dada pela Eq. 5.1.

Com o valor da taxa de carga de arrancamento por metro linear para o grampo
convencional (Qsc), calcula-se a parcela de carga resistida pelo trecho injetado com
barra dos grampos com fibras de polipropileno através do produto do valor desta taxa
pelo comprimento do trecho, conforme a expressão seguinte:

Tconv. = Qsc x Lc/barra (5.4)

onde: Tconv.: Parcela de carga do trecho injetado com barra do grampo com fibras;
Lc/barra: Comprimento do trecho injetado com barra do grampo com fibras.

No caso em questão, o comprimento do trecho injetado com barra para os grampos


com fibras é igual a 1 m, ou seja, a carga resistida por este trecho é igual à taxa de
carregamento por metro linear para o grampo convencional (Tconv. = Qsc).

A carga aplicada no trecho injetado sem barra é então calculada, subtraindo-se a


carga de arrancamento do grampo com fibras pela parcela de carga resistida ao longo do
trecho injetado com barra, dada por:

101
Ts/barra = Tm – Tconv. (5.5)

onde: Ts/barra: Parcela de carga do trecho injetado sem barra do grampo com fibras;
Tm: Carga de arrancamento máxima do grampo com fibras.

Finalizando o procedimento de cálculo, a taxa de carga de arrancamento por metro


linear que se desenvolve ao longo do trecho do grampo preenchido unicamente pelo
material compósito fibroso (trecho sem barra) é obtida dividindo-se a carga resistida
neste trecho pelo seu comprimento (Ls/barra = 2,5m), através da expressão seguinte:

Qsf = (Ts/barra/Ls/barra) = (Ts/barra/2,5) (5.6)

onde: Qsf: Taxa de carga de arrancamento por metro linear para o trecho injetado
sem barra do grampo com fibras;
Ls/barra: Comprimento do trecho injetado sem barra do grampo com fibras.

Portanto, a resistência ao arrancamento do grampo com fibras de polipropileno em


função da hipótese 2 é dada por:

qsf = (Qsf/πD) = (Ts/barra/(πDLs/barra)) (5.7)

As Figuras 5.17 e 5.18 mostram o mecanismo físico de transferência de carga


envolvido em cada uma destas hipóteses. A formulação envolvida no cálculo da parcela
de carga a ser resistida pelo trecho injetado sem barra e da carga por metro linear para
este mesmo trecho, analisando os grampos com fibras, também está demonstrada.

Figura 5.17: Distribuição de carga no grampo de polipropileno - Hipótese 1.

102
Figura 5.18: Distribuição de carga no grampo de polipropileno - Hipótese 2.

A Tabela 5.7 mostra os valores da resistência ao arrancamento calculados segundo


as duas hipóteses de distribuição do carregamento para os grampos de polipropileno
moldados na bateria 1. Uma relação entre os resultados obtidos através destas hipóteses
também é apresentada.

Tabela 5.7: Resistência ao arrancamento dos grampos – Bateria 1.

Hipótese 1 Hipótese 2
Grampo
(kPa) (kPa)
P11 68,48 46,48
P12 128,42 130,40
P13 56,39 29,56
P14 37,30 2,84
P15 60,27 34,99
C11 123,46 -

Em média, a resistência ao arrancamento dos grampos com fibras desta bateria,


admitindo-se a hipótese 1, de distribuição uniforme ao longo de todo o comprimento do
grampo, foi cerca de 61,7 kPa. Este valor foi aproximadamente igual a 50% da
resistência ao arrancamento do grampo convencional C11 da mesma bateria (123,5
kPa).

Analisando–se a distribuição de carga segundo a hipótese 2, na qual a influência da


barra de aço é descontada, verifica-se que o valor médio de resistência ao arrancamento
dos grampos com fibras é igual a 37,0 kPa. Este valor representa aproximadamente 30%
da resistência ao arrancamento do grampo convencional da mesma bateria.

Em todos os ensaios com grampos de polipropileno, pode-se afirmar que o cálculo


da resistência ao arrancamento, considerando a hipótese 2, conduziu a valores mais

103
conservativos em relação àqueles calculados através da hipótese 1 de carregamento
(carga uniformemente distribuída ao longo do grampo).

Isto se deve ao fato de que o cálculo da resistência ao arrancamento do grampo,


segundo a hipótese 2, considera que a carga aplicada durante o ensaio se divide em duas
componentes: parcela resistida ao longo do trecho injetado com barra de aço e parcela
resistida ao longo do trecho preenchido unicamente pela mistura com fibras.

O valor de carga reduzido a ser resistido pelo grampo ao longo do seu trecho
injetado sem a presença da barra de aço contribui portanto, para uma transferência
menos significativa de carga ao longo deste trecho, o que muito possivelmente
representa de forma mais adequada a real resistência ao arrancamento do grampo com
fibras de polipropileno.

A Tabela 5.8 apresenta os resultados de resistência ao arrancamento obtidos através


da campanha de ensaios de arrancamento dos grampos da bateria 2.

Tabela 5.8: Resistência ao arrancamento dos grampos – Bateria 2.

Hipótese 1 Hipótese 2
Grampo
(kPa) (kPa)
P21 158,39 121,64
P22 183,21 156,36
P23 136,45 90,89
P24 112,80 57,77
P25 136,79 91,38
C21 250,36 -

O valores médios da resistência ao arrancamento dos grampos com fibras nesta


bateria foram iguais à 143,9 kPa e 101,3 kPa, considerando as hipóteses 1 e 2,
respectivamente. Este cálculo desconsiderou os valores máximo e mínimo encontrados
para cada hipótese, devido a estes se situarem fora da média dos demais valores de
resistência.

104
Fazendo uma comparação entre os valores médios de resistência ao arrancamento
calculados segundo as duas hipóteses com o valor de resistência ao arrancamento do
grampo convencional na bateria 2, conclui-se que estes valores foram iguais a 57,5% e
40,5% para as hipóteses 1 e 2, respectivamente.

Conforme o esperado, os resultados obtidos para os grampos com fibras de


polipropileno, admitindo como válida a hipótese 1, foram superiores aos encontrados a
partir da hipótese 2.

Novamente pode-se notar o caráter mais conservador envolvido no procedimento de


cálculo segundo a hipótese 2 de carregamento quando comparada à resistência calculada
a partir da hipótese 1.

PROTO SILVA (2005), através da análise do comportamento de grampos


convencionais em ensaios de arrancamento, verificou que a distribuição do
carregamento é do tipo triangular.

Ensaios realizados em grampos instrumentados, onde foram utilizados strain gages


para medição das deformações ao longo do grampo comprovaram que para uma
determinada carga aplicada, as deformações são maiores nas seções próximas à cabeça
do grampo, ou seja, na região de aplicação da carga de ensaio. À medida em que seções
mais próximas da extremidade oposta da peça são analisadas, observa-se que as
deformações diminuem até se anularem junto à extremidade do grampo. Isto se deve à
transferência de carga por atrito do grampo para o solo circundante.

A Figura 5.19 ilustra a distribuição de cargas ao longo de um grampo convencional


(com barra de aço) de 3 m de comprimento injetado durante um ensaio de
arrancamento. Foram colados um total de cinco strain gages espaçados de 50 cm ao
longo do grampo. O primeiro strain gage se situou no início do trecho injetado próximo
à cabeça do grampo, enquanto o último se localizou a 50 cm da extremidade oposta do
grampo.

105
140

120
Carga no grampo (kN)

100

80

60

40

20

0
0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0
Comprimento dos grampos (m)
Figura 5.19: Curvas típicas carga-comprimento do grampo convencional (PROTO
SILVA, 2005).

Os resultados mostraram que a carga atuante na seção próxima à aplicação de carga


é igual ao valor da carga de arrancamento. Este valor se reduz até a carga anular-se
junto à extremidade oposta do grampo (Figura 5.20).

Figura 5.20: Distribuição triangular de carga em grampo com fibras.

Por questão de simplicidade, é comum na prática de projeto, considerar que a carga


se distribui de maneira uniforme ao longo de todo o comprimento do grampo (Figura
5.21). Esta distribuição corresponde à média do carregamento triangular real.

106
Figura 5.21: Distribuição uniforme de carga ao longo do grampo com fibras.

Devido a estas razões, foi também admitido na presente pesquisa, tanto para a
hipótese 1 quanto para a hipótese 2, um carregamento uniformemente distribuído ao
longo do grampo. A hipótese 2 parece mais representativa do comportamento do
grampo com fibras, visto que elimina a influência da barra de aço para a determinação
da resistência ao arrancamento do compósito.

107
CAPÍTULO 6 – CONCLUSÕES E SUGESTÕES
______________________________________________________________________

6.1 – CONCLUSÕES

A pesquisa teve como objetivo principal avaliar a resistência ao arrancamento de


grampos não convencionais moldados com argamassa e fibras de polipropileno. Para
tanto foram realizados ensaios de laboratório para determinação das propriedades do
material compósito constituído por argamassa de cimento e fibras, além das
propriedades da nata de cimento típica do grampo convencional.

Ensaios de arrancamento no campo foram executados em 12 grampos, 10 de


argamassa com fibras de polipropileno e 2 grampos convencionais. Um total de 7
grampos foi exumado após a execução dos ensaios. Os resultados e análises dos ensaios
e exumações permitem as principais conclusões listadas a seguir.

1) Em relação aos ensaios de compressão uniaxial e diametral em laboratório: os


resultados dos ensaios de compressão uniaxial e compressão diametral indicam um
incremento de 75,0 % nas resistências à compressão e 52,8 % para a tração indireta dos
materiais com fibras, em relação aos corpos de prova moldados com nata de cimento.

Pôde-se observar também um decréscimo nos valores de rigidez calculados nos


estados de pós-pico dos materiais compósitos em relação aos corpos de prova com
cimento, corroborando o caráter mais dúctil conferido ao compósito em função da
inclusão das fibras.

O módulo de elasticidade dos compósitos reforçados com fibras de polipropileno se


mostrou superior em comparação aos observados para os corpos de prova moldados
com nata de cimento. Os valores médios obtidos para as misturas com fibras e corpos de
prova de cimento foram cerca de 3,5 GPa e 2,6 GPa, respectivamente.

2) Em relação aos ensaios de arrancamento dos grampos no campo: na bateria 1 de


ensaio, executada em transição de solo residual maduro para jovem, as cargas de
arrancamento dos grampos com fibras de polipropileno variaram entre 30,8 e 105,9 kN.

108
A carga de arrancamento do grampo convencional foi de 101,8 kN. O valor médio da
carga de arrancamento dos grampos com fibras nesta bateria é igual a 48,1 kN, cerca de
47% da carga de arrancamento do grampo convencional.

Na bateria 2, executada em solo residual jovem, as cargas de arrancamento dos


grampos com fibras variaram entre 93,0 e 151,1 kN. A carga de arrancamento do
grampo convencional foi de 206,5 kN. O valor médio de carga de arrancamento dos
grampos com fibras de polipropileno (118,7 kN) representa 57,5% da carga do grampo
convencional.

As cargas de arrancamento residuais correspondem a 33% e 10% das cargas de


arrancamento máximas para as bateria 1 e 2, respectivamente.

Os grampos com fibras de polipropileno apresentam deslocamentos totais da ordem


de 70 mm, correspondendo a 2 vezes os deslocamentos totais dos grampos
convencionais (35 mm).

Foram levantadas duas hipóteses possíveis sobre a distribuição do carregamento no


grampo com fibras: a primeira referente à distribuição uniforme do carregamento ao
longo de todo o grampo, independentemente da presença da barra de aço (Hipótese 1) e
a segunda que adota a distribuição também uniforme, mas considera o possível efeito da
barra de aço de fixação do macaco (Hipótese 2).

As resistências ao arrancamento calculadas para os grampos com fibras são


inferiores às resistências atingidas pelos grampos convencionais nas duas baterias e para
cada uma das hipóteses de distribuição do carregamento. Em média, as resistências dos
grampos com fibras, quando comparadas às resistências dos grampos convencionais,
foram iguais a 50% e 30%, na bateria 1, e 57% e 40%, na bateria 2, para as hipóteses 1 e
2, respectivamente.

A hipótese 2 de distribuição do carregamento no grampo é mais conservativa e


parece mais representativa do comportamento dos grampos com fibras de polipropileno.

109
Os grampos com fibras de polipropileno apresentaram resistências residuais
significativas, da ordem de 66% da resistência de pico, no mínimo, com grandes
deslocamentos.

Os grampos com fibras de polipropileno representam uma alternativa interessante do


ponto de vista econômico, uma vez que apresentaram resistências ao arrancamento da
ordem de praticamente 50% das observadas para os grampos convencionais, bem como
quedas pouco significativas de resistência com o aumento dos deslocamentos.

O material atravessado pelos grampos tem grande influência nas resistências ao


arrancamento tanto dos grampos convencionais quanto os com fibras. Materiais mais
competentes (bateria 2) oferecem resistência mais elevada ao arrancamento.

As fibras foram solicitadas durante os ensaios de arrancamento e isso foi verificado


através da exumação dos grampos em função do padrão de fissuramento da matriz.

O valor médio da resistência à tração para os compósitos reforçados com fibras de


polipropileno corrobora a ocorrência de fissuras nos grampos ensaiados e exumados no
campo. O menor valor de esforço de tração calculado dentre todos os grampos que
foram exumados se mostrou superior à resistência média obtida em laboratório,
confirmando a presença de fissuras em todos os grampos exumados.

6.2 – SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS

Como primeira sugestão para futuros trabalhos a serem desenvolvidos neste tema,
aponta-se a necessidade da realização de ensaios de arrancamento in situ com o auxílio
de instrumentação dos grampos via strain gages com a finalidade de conhecer melhor o
comportamento tensão-deformação no campo, e verificar a distribuição do
carregamento ao longo do grampo.

Sugere-se também a realização de ensaios de arrancamento em grampos moldados


com misturas reforçadas com outros tipos de fibra existentes no mercado. Além disso,
ensaios em materiais contendo fibras de comprimentos e teores em peso diferentes
daqueles utilizados ao longo desta pesquisa (30 mm e 0,5% em relação ao peso de

110
cimento seco) são também recomendados. Estes ensaios poderiam indicar o tipo e teores
de fibras que conduzem a um melhor desempenho dos grampos em termos de
resistência e deformabilidade.

Sugere-se também que a campanha experimental de laboratório contemple uma série


de ensaios de compressão uniaxial e diametral em corpos de prova moldados
simplesmente com argamassa, sem a presença do reforço com fibras de polipropileno.
Esta campanha se torna útil para quantificar a influência da adição de fibras de
polipropileno nas respectivas resistências à compressão e tração indireta dos
compósitos.

Sugere-se também a realização de ensaios de laboratório com a interface


solo/compósito, a fim de se obter uma melhor compreensão do comportamento do
grampo não convencional quando sujeito a ensaios de arrancamento no campo.

Estes ensaios permitem a avaliação da interação entre o material compósito fibroso e


o solo circundante através de parâmetros como adesão e coeficiente de atrito
solo/compósito, além de uma estimativa da transferência de carga para o grampo.

Sugere-se por fim, a realização de ensaios de arrancamento em solo mais


homogêneo para eliminar a grande variabilidade nos resultados obtidos de resistência e
deformabilidade, proporcionando assim, a obtenção de valores mais representativos do
comportamento do grampo não convencional no campo.

111
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114
ANEXO 1

115
116
(a)

117
(b)

Figura A.2: Boletim de sondagem típico da área experimental.

118
ANEXO 2

119
Figura A.3: Detalhe do grampo P21.

Figura A.4: Detalhe do grampo P22.

Figura A.5: Detalhe do grampo P23.

Figura A.6: Detalhe do grampo P24.

Figura A.7: Detalhe do grampo P25.

120
ANEXO 3

121
25,00

C1
C4

20,00

15,00
Carga (kN )

C3

10,00

5,00

0,00
0,500 1,000 1,500 2,000 2,500 3,000 3,500 4,000 4,500 5,000 5,500

D e s locame nto do Pistão (mm)

Figura A.8: Ensaios de compressão uniaxial em corpos de prova de cimento.

60,00

F8

50,00

F7
40,00
Carga (kN )

30,00 F5

20,00

F1
F4 F6
10,00
F2

0,00
0,000 1,000 2,000 3,000 4,000 5,000 6,000 7,000 8,000 9,000

D e s locame nto do Pis tão (mm)

Figura A9: Ensaios de compressão uniaxial em corpos de prova com fibras.

122
3,50

TC -3

3,00

2,50
TC -6

2,00
Carga (kN )

TC -2

1,50

TC -1
TC -4
1,00

TC -5

0,50

0,00
0,400 0,600 0,800 1,000 1,200 1,400 1,600 1,800 2,000 2,200

D e s locame nto do Pistão (mm)

Figura A.10: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova de cimento.

7,00

TF-3
6,00

TF-6

5,00

4,00
Carga (kN )

TF-9
3,00
TF-2
TF-1

2,00
TF-7
TF-4

1,00

0,00
0,000 0,500 1,000 1,500 2,000 2,500 3,000 3,500 4,000

D e slocame nto do Pistão (mm)

Figura A.11: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova com fibras – parte I.

123
5,00

TF-12

4,00

TF-15 TF-10
3,00
Carga (kN )

TF-14

2,00
TF-11
TF-13

1,00

0,00
1,000 2,000 3,000

D e s locame nto do Pis tão (mm)

Figura A.12: Ensaios de compressão diametral em corpos de prova com fibras – parte II.

124