Você está na página 1de 4

ENSAIO (/ENSAIO/)

Como reduzir os impactos

psicológicos da pandemia FOTO: SAM THOMAS/GETTY IMAGES

Eslen Delanogare
12 de Janeiro de 2021

Dados mostram que a crise sanitária está deixando sequelas na saúde


mental da população mundial. Existem algumas técnicas, baseadas em
evidências, que podem aumentar a nossa resiliência

O medo se tornou algo muito presente após o surgimento do novo coronavírus.


Embora muitas pessoas julguem essa emoção como sendo necessariamente ruim, ela é
uma resposta adaptativa importante para nossa sobrevivência e, sem ela, não
olharíamos para os dois lados antes de atravessar a rua. Entretanto, precisamos ficar
atentos e atentas, pois respostas anormais ao medo podem resultar em um quadro de
ansiedade clínica, por vezes acompanhado de depressão.

Ainda é cedo para saber com precisão o real impacto da covid-19 na saúde mental da
população mundial. As estimativas, porém, já indicam um cenário desfavorável. Dados
de um resumo de políticas sobre a pandemia emitido pela ONU (Organização das
Nações Unidas) em maio de 2020 mostraram que houve aumento do sofrimento
psicológico (https://www.paho.org/bra/index.php?
option=com_content&view=article&id=6170:onu-destaca-necessidade-urgente-de-
aumentar-investimentos-em-servicos-de-saude-mental-durante-a-pandemia-de-covid-
19&Itemid=839) em vários locais do mundo. No Brasil, uma pesquisa mostrou que
ansiedade (81,9%), depressão (68%), raiva (64,5%), sintomas somáticos (62,6%) e
problemas de sono (55,3%) foram os sintomas psiquiátricos mais comuns
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022395620309870) na população
ouvida. Esperançosamente, esse número não é 100%.

Se fizermos o exercício de imaginar nossa saúde mental como uma linha ondulada
flutuando entre eixos X e Y, podemos encarar o surgimento da covid-19 como um
desafio capaz de gerar uma queda significativa do nosso bem-estar. Curiosamente,
como observado nos dados acima, algumas pessoas não são psicologicamente afetadas
pela pandemia, isto é, são mais resilientes a ela.
Em termos psicológicos, dizemos que uma pessoa é resiliente quando não apresenta
emoções e sentimentos significativamente negativos, mesmo quando exposto a
situações adversas (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1885202/) . As bases
neurobiológicas da resiliência ainda não são completamente entendidas, mas um
grande avanço na área foi feito em 2019, quando Alexandra M. Rodman e colegas
publicaram um artigo mostrando que técnicas psicoterapêuticas levam ao maior
recrutamento de áreas frontais do cérebro e, consequentemente, à redução da
atividade de áreas envolvidas com o processamento das emoções.

Esse fenômeno foi proposto como um marcador neurobiológico


(https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0006322319313332) da
resiliência. Ainda não sabemos com exatidão os efeitos da psicoterapia no cérebro,
mas estudos como esse demonstram que, muito provavelmente, a psicoterapia
cognitiva aumenta a atividade de áreas frontais
(https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6120051/) (mais racionais) para
modular áreas emocionais. A racionalização permite, por exemplo, interpretar o medo
de maneira proporcional ao evento que o gera. Isso é particularmente importante se
lembrarmos que a ansiedade clínica é uma resposta anormal ao medo.

Infelizmente, muitas pessoas não conseguem ter acesso à psicoterapia particular,


restando apenas o sistema público, cujo atendimento está limitado devido ao risco de
contaminação viral durante a pandemia. Nesse sentido, existem algumas técnicas
baseadas em evidências científicas que podem ser realizadas em casa, sem custos
adicionais, e mostram-se eficazes em aumentar nossa capacidade de racionalização e,
por conseguinte, nossa resiliência psicológica.

Uma delas é a meditação mindfulness (/expresso/2017/04/15/O-que-é-‘mindfulness’.-E-


quais-os-benefícios-de-sua-introdução-na-saúde-pública) , ou atenção plena, que tem
como objetivo direcionar a atenção ao aqui e ao agora, sem julgamentos. Para isso,
existem diversos áudios e vídeos gratuitos, disponíveis na internet, que “guiam” a
atenção de quem está praticando a técnica, de modo que a pessoa consiga prestar
atenção apenas no presente. De fato, estudos em neurociência cognitiva mostram que
a melhora emocional em praticantes de mindfulness é associada a uma maior ativação
de áreas frontais (mais racionais) do cérebro — apontando fortemente para um
arcabouço neurobiológico que explicaria os efeitos benéficos dessa prática meditativa.
Dica: experimente meditar cinco minutos todos os dias.

Outra técnica é a reavaliação cognitiva.


Isso nada mais é do que olhar com mais
positividade para uma situação negativa, OS ANOS SE PASSARAM, OS
visando influenciar os efeitos emocionais ESTUDOS AVANÇARAM, AS
por ela gerados. Por exemplo, ao ver TÉCNICAS SE MODIFICARAM,
uma imagem ou imaginar um contexto MAS OS RESULTADOS DA
TERAPIA COGNITIVA
que gere ansiedade, você pode se
CONTINUAM PROMISSORES
distanciar mentalmente dessa situação
ou imaginar que ela envolve apenas
personagens fictícios e que, portanto,
não é real ou o perigo não é iminente.
Estudos mostram que a reavaliação cognitiva parece estar relacionada com o aumento
da resiliência
(https://eerlab.berkeley.edu/pdf/papers/2011_Troy_Resilience_in_the_face_of_stress.pdf)
. Talvez, se olharmos para a pandemia como uma forma de recomeço, buscando nessa
ruptura temporal aspectos positivos para continuar nossas vidas, tenhamos melhores
chances de superar essa delicada fase.

Pessoas com ansiedade clínica tendem a exacerbar erroneamente a gravidade de


situações que geram medo e, ao mesmo tempo, pensam não ser capazes de enfrentá-
las. Uma das formas de corrigir isso é criando sinais de segurança: atribuindo a algum
objeto a sensação mental de ausência de ameaça. Até pouco tempo, não sabíamos por
qual função neurobiológica esses sinais diminuíam nossa ansiedade. Isso mudou em
2019, quando Meyer e colegas publicaram um estudo mostrando que criar sinais de
segurança é eficaz na diminuição do medo
(https://www.pnas.org/content/pnas/116/52/26970.full.pdf) frente a situações
ameaçadoras. Os pesquisadores observaram que regiões do cérebro envolvidas com
memória, como o hipocampo, aumentam a conexão com regiões frontais enquanto o
sinal de segurança está presente. Tente identificar aspectos seguros das situações no
seu dia a dia; isso permitirá que você interprete o medo de forma mais racional,
diminuindo sua ansiedade.

A atividade física — comumente indicada para pessoas com obesidade, diabetes e


hipertensão — também tem se mostrado cada vez mais eficaz em melhorar a nossa
saúde mental. De fato, evidências científicas mostram que atividade física apresenta
benefícios (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6048763/) no tratamento de
sintomas ansiosos, mesmo em pessoas com ansiedade leve
(https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17437199.2015.1022901) . Nesse sentido,
organize sua rotina para encaixar doses diárias de atividade física.

Outra ferramenta útil no controle da ansiedade é a terapia cognitiva, um método


desenvolvido entre as décadas de 1960 e 1970 pelo psiquiatra Aaron Beck, nos Estados
Unidos. Aplicando diversas técnicas, Beck observou que seus pacientes conseguiam
melhorar relativamente rápido. Na época, ficou surpreso com tamanha efetividade e
começou a ensinar essa forma de terapia para seus residentes em psiquiatria. Porém,
para convencer a comunidade acadêmica de que o tratamento realmente funcionava,
ele decidiu fazer um estudo científico controlado
(https://link.springer.com/article/10.1007/BF01173502) . Nessa pesquisa, publicada em
1977, Beck usou tratamentos diferentes para dois grupos de pacientes com depressão:
um deles recebeu só medicamentos antidepressivos (imipramina), e o outro apenas
sessões de psicoterapia. Ao final de 12 semanas, notou-se que o grupo tratado com
terapia cognitiva apresentava redução significativamente maior dos sintomas. Esse
estudo foi um marco histórico para a psicologia, pois foi uma das primeiras vezes em
que uma terapia da palavra (falada) havia se mostrado mais eficaz que um
medicamento!

Os anos se passaram, os estudos avançaram, as técnicas se modificaram, mas os


resultados continuam promissores. Em 2015, 38 anos depois do primeiro estudo de
Aaron Beck, uma revisão sistemática (https://www.bmj.com/content/351/bmj.h6019) de
vários estudos científicos sobre esse tema mostrou que não há diferenças
estatisticamente relevantes entre a terapia cognitiva (agora chamada de terapia
cognitivo-comportamental) e a segunda geração de remédios antidepressivos quanto à
eficácia no tratamento de pacientes com depressão.

Atualmente, com o distanciamento social imposto pela pandemia, muitas pessoas se


sentem receosas de fazer terapia na modalidade online, pois temem ser menos efetiva
que a presencial. Porém, há evidências científicas indicando que os dois formatos
(https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29215315/) (online e presencial) são igualmente
eficazes no tratamento do transtorno de ansiedade social, do transtorno do pânico, de
sintomas depressivos, de insônia, de fobias, etc. Para quem não tem condições de pagar
uma psicoterapia, existem opções sem custos, como os Centros de Atenção Psicossocial
(/grafico/2020/01/27/Como-é-o-acesso-à-saúde-mental-nos-municípios-brasileiros) do
SUS (Sistema Único de Saúde).

Eslen Delanogare é psicólogo, mestre e doutorando em neurociências pela UFSC


(Universidade Federal de Santa Catarina).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores


eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O
Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade
do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e
internacional. Para participar, entre em contato por meio de
ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

(https://thetrustproject.org/) SAIBA MAIS

Você também pode gostar