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Poetas contemporâneos

ESCRITA|EDUCAÇÃO APRECIAÇÃO CRÍTICA

1. A expressão “Olhai os lírios do campo” é amplamente conhecida.


1.1. Lê a informação seguinte, a fim de identificares o contexto que deu origem a esta expressão.

Olhai os lírios do campo


A expressão “Olhai os lírios do campo” foi proferida por Jesus Cristo durante
o “Sermão da Montanha” (reproduzido nos evangelhos de São Mateus
e São Marcos). Trata-se de uma expressão que remete para a necessidade
de viver a vida sem aspirar à riqueza/acumulação de bens.
Texto original: Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem
os lírios do campo: não trabalham nem fiam! […] Ora, se Deus veste
assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo,
como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?”

Bíblia Sagrada (6.ª edição, revista e corrigida sob a direção de Herculano Alves).
Lisboa/Fátima: Difusora Bíblica, p. 1576.

2. Lê o poema “Balada apócrifa”.

Balada apócrifa1
Olhai os lírios do campo
meninas de saia rodada
íris de teias de aranha
desvendam o mar nas searas

5 Olhai os lírios de pedra


em copos de limonada
Os soldados em manobras
têm noite por espingarda
Os soldados em manobras Colhei os lírios do corpo
enterram a sombra caiada meninas de saia travada
2
(Bebei os lírios de água 0
JORGE, Luiza Neto, Op. cit., p. 46.
1 com grandes bicos de aves)
0

Sofreram sempre derrota


deixaram mãos enforcadas 1. apócrifa: não autêntica ou cuja autenticidade não foi
sem lençóis com clarins provada; diz-se dos escritos que a Igreja Católica não
reconhece como pertencentes ao cânone bíblico.
grades de pernas doadas

Olhai os lírios do tempo


1
5 meninas virgens por dentro

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3. Indica se as afirmações seguintes são verdadeiras ou falsas, fundamentando as verdadeiras e


corrigindo as falsas.
a. O título do poema remete para o diálogo intertextual com o texto bíblico.
b. A expressão “olhai os lírios do campo” é reiterada, mantendo o seu sentido ao longo do poema.
c. No início do poema representa-se uma realidade positiva, conotada com a juventude, a esperança e
o amor.
d. No final do poema, representa-se a finitude da vida desperdiçada pela guerra.
e. As estrofes apresentam um ritmo cadenciado, que sugere um tom melancólico, em consonância
com a mensagem expressa pelo poema.

4. Aprofunda o teu conhecimento sobre o poema “Balada apócrifa”, completando o texto com as
palavras indicadas.
• defesa • liberdade • subversão
• guerra • sociedade • vida

Num país onde em nome da __ a. __ da integridade nacional se pedia o corpo e a __ b. __ aos


homens, e a família (e a igreja) resguardava o corpo das “meninas de saia rodada”, no poema
“Balada apócrifa”, Luiza Neto Jorge propõe a __ c. __ da divisa dos militares (“a vida pela pátria”), e
consequentemente da __ d. __ por eles administrada, com o oferecimento dos corpos das meninas aos
soldados. Este oferecimento constituía de facto uma afirmação dupla de subversão: da sexualidade,
reprimida pela __ e. __ , e da morte que a guerra trazia, subvertendo assim de duas maneiras distintas,
mas complementares, o que quotidianamente interditava a vida e a __ f. __ dos jovens e de todos os
homens e mulheres deste tempo […].

RIBEIRO, Margarida; VECCHI, Roberto. “Versos e gritos: memória poética da guerra colonial”,
Abril – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 5, n.° 9,
novembro de 2012, p. 35 [Com supressões].

4.1. Identifica as duas ordens sociais repressoras aludidas no poema “Balada apócrifa”.

LEITURA|ORALIDADE EXPOSIÇÃO SOBRE UM TEMA RETOMA

1. Faz uma pesquisa sobre a Guerra Colonial Portuguesa, informando-te sobre os seguintes
aspetos:
• contexto político-social que lhe deu origem;
• cronologia dos principais acontecimentos;
• consequências políticas, económicas e socias;
• representação nas diversas formas de arte (cinema, literatura, artes plásticas).

2. Com base na informação pesquisada, prepara e apresenta uma exposição oral sobre a Guerra
Colonial Portuguesa.

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SOLUÇÕES|SUGESTÕESMETODOLÓGICAS

“Balada apócrifa” (p. 84)


Educação Literária
3. a. V – A palavra “apócrifa”, presente no título, remete para o texto bíblico, sugerindo a subversão deste (na medida em
que a a Igreja Católica não o reconhecerá como pertencente ao cânone bíblico). b. F – A expressão é transformada,
adquirindo novos sentidos, progressivamente mais negativos – se no início remetem para a vida, a juventude e a promessa
de felicidade/ amor, no final remetem para a morte precoce (vv. 1, 5, 9, 15, 19). c. V – A realidade positiva, conotada com a
esperança e o amor é sugerida quer na referência aos lírios, quer na interpelação das “meninas da saia rodada” (v. 2) e nas
metáforas de liberdade/ sonho e prosperidade (“desvendam o mar nas searas”, v. 4). d. V – A finitude da vida desperdiçada
pela guerra é sugerida no facto de se pedir que os lírios sejam colhidos dos corpos dos soldados mortos. e. V – O ritmo
cadenciado é sugerido pela métrica regular (com predomínio da redondilha maior) e pela repetição de sons nasais
(“campo”, “meninas”, “desvendam”, “mar”…); o ritmo e o tom contribuem para a construção e um ambiente tenso/pesado,
de denúncia dos horrores da guerra.

4. a. defesa. b. vida. c. subversão. d. guerra. e. sociedade. f. liberdade.


4.1. Ordem política (oferta do corpo do soldado morto em defesa da pátria) e ordem sexual (representada pelo tabu da
castidade, impeditivo da entrega do corpo virgem das “meninas de saia travada”). (Nota: Resposta baseada em Farias, S.
(2007). Poesia 61: Os Sítios Sitiados De Luiza Neto Jorge”, in Graphos. Vol. 9, n.º 2, p. 145).

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