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Acta Scientiarum.

Education
ISSN: 2178-5198
eduem@uem.br
Universidade Estadual de Maringá
Brasil

de Oliveira Gomes, Marco Antônio; Imbiriba Sousa Colares, Maria Lília


A educação em tempos de neoliberalismo: dilemas e possibilidades
Acta Scientiarum. Education, vol. 34, núm. 2, julio-diciembre, 2012, pp. 281-290
Universidade Estadual de Maringá
Paraná, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=303325733014

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Doi: 10.4025/actascieduc.v34i2.16978

A educação em tempos de neoliberalismo: dilemas e possibilidades


Marco Antônio de Oliveira Gomes1 e Maria Lília Imbiriba Sousa Colares2*
1
Departamento de Ciências da Educação, Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho, Rondônia, Brasil. 2Instituto de Ciências da Educação,
Universidade Federal do Oeste do Pará, Tv. Bugaville, 10, 68030-570, Santarém, Pará, Brasil. *Autor para correspondência. E-mail: liliacolares@ufpa.br

RESUMO. Este artigo discute os reflexos da crise do capitalismo e do processo de reestruturação produtiva
em um período histórico marcado pela hegemonia das políticas neoliberais no âmbito da educação escolar.
Neste cenário, a ofensiva do capital apresenta alternativas paliativas para a exclusão social com a difusão da
ideologia do voluntariado e do Terceiro Setor, além de propostas vinculadas ao pós-modernismo, que, na
prática, esvaziam a função social da educação e reforçam ao mesmo tempo a mercantilização do processo
escolar. No caso brasileiro, tal projeto confirma uma das características de nossa cultura política: o moderno
se constitui por meio do ‘arcaico’, recriando nossa herança histórica ao atualizar aspectos persistentes e, ao
mesmo tempo, transformando-os no contexto da globalização. Por fim, apontamos para a necessidade
urgente de proposição de novas estratégias de luta, com vistas à criação de uma sociedade emancipada, onde
será possível a existência de uma educação integral, segundo a concepção marxiana.
Palavras-chave: crise estrutural do capital, políticas neoliberais, processo de reestruturação produtiva.

Education in times of neoliberalism: dilemmas and opportunities


ABSTRACT. This paper discusses the effects of the crisis of capitalism and the productive restructuring
process in a historical period marked by the hegemony of neoliberal policies in the context of school
education. In this scenario, the offensive of capital presents palliative alternatives to social exclusion with
the spread of the ideology of volunteering and the Third Sector, and proposals related to postmodernism,
which in practice, at the same time deplete the social function of education and reinforce the
commodification of the schooling process. In Brazil, this project confirms a characteristic of our political
culture: the modern is constituted through the ‘archaic’, recreating our historical heritage while updating
persistent features and, at the same time, transforming them in the context of globalization. Finally, we
point to the urgent need to propose new struggle strategies, aiming at the creation of an emancipated
society, where it will be possible to have a comprehensive education, according to the Marxian conception.
Keywords: capital's structural crisis, neoliberal policies, productive restructuring process.

Introdução a ampla investida colonialista e uma quantidade de


investimentos de capitais no exterior: foram as
Neste trabalho, partimos do reconhecimento que
estratégias encontradas para alargar a taxa de lucro. As
o capitalismo do final do século XX e começo do
colônias na África e Ásia, além da ampliação de
século XXI passou por uma série de transformações
mercados pelo domínio imperialista foram as
que nos leva a considerar que vivenciamos uma nova
alternativas encontradas pelo capital. No entanto, a
fase. No entanto, tais mudanças não implicam em
disputa acirrada resultou na carnificina da Primeira
afirmar que a essência do capitalismo tenha sofrido
Guerra Mundial.
alterações significativas a ponto de considerarmos
De qualquer modo, é válida a seguinte observação:
que o caráter predatório inerente ao sistema tenha
sido abolido. as crises que ocorreram no sistema capitalista tendiam,
A incapacidade civilizatória do capitalismo e suas e ainda possuem tendência, à internacionalização, isto
constantes convulsões não são recentes. A crise que é, não se tratava, ou se trata, de uma crise localizada,
presenciamos atualmente não é mais do que uma mas no conjunto de países capitalistas.
repetição, se é que podemos falar de repetição em Nesse sentido, exemplos não faltam. A crise
história, das crises que ocorreram no passado, norte-americana de 1929 envolveu consigo
evidentemente com outras tonalidades, mas com praticamente todo o mundo capitalista: uma das
efeitos igualmente devastadores. marcas da crise de 1929 foi sua amplitude, uma vez
A ‘depressão’ econômica do século XIX, entre 1873 que a economia capitalista encontrava-se, e ainda
e 1895, por exemplo, ocorreu concomitantemente com encontra-se, em alto grau de interdependência.
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A alternativa encontrada para superação do colapso que avançou a apropriação privada dos bens
econômico foi o chamado keynesianismo, que se coletivos, tais como a terra, a educação, a saúde,
consolidou de fato, após a Segunda Guerra Mundial. entre outros. Como observou István Mészáros, em
Eram os ‘anos de ouro do capitalismo’ que, diga-se O desafio e o fardo do tempo histórico,
de passagem, não foram reluzentes para todos. [...] o reino do capital aproxima-se de seus limites
O crescimento acelerado no pós-guerra entrou em absolutos como resultado de sua crescente
uma fase crítica, sobretudo no início da década de 70 incapacidade de eliminar suas contradições internas,
do milênio passado. A crise do petróleo combinada criando uma crise estrutural global do capital
com a redução do crescimento econômico e (MÉSZÁROS, 2007, p. 15).
crescimento inflacionário contribuíram para a Diante do panorama de reestruturação de
ascensão da ideologia neoliberal que já se encontrava acumulação do capital, em maior ou menor grau,
em gestação. foram afetadas todas as categorias de trabalhadores, e
O colapso no padrão de acumulação não só os situados na produção industrial, mas
fordista/taylorista levou o capital a procurar também os chamados ‘trabalhadores intelectuais’,
estratégias de recuperação das taxas de lucro através incluindo os professores e outros assalariados. Dessa
das propostas neoliberais, que enxergavam no forma, o capitalismo voltou-se crescentemente nas
Estado, e em suas políticas sociais, o grande vilão da últimas décadas para o setor educacional, visto como
economia. Os intelectuais comprometidos com as estratégico na legitimação da ordem, além de ser
bandeiras desfraldadas do neoliberalismo declaravam entendida como mais uma esfera que deve ser
que as despesas do Estado com políticas públicas e o regulada pelas ‘necessidades do mercado’.
poder dos sindicatos destruíam os níveis necessários
de lucro das empresas. A agenda pós-moderna e a educação: ainda é legítimo
Assim sendo, como tentativa de gerenciar a sua aspirar a uma fundamentação racional para ela?
crise estrutural, foi iniciado o processo de
reestruturação do capital e de seu sistema jurídico e Partindo de uma resposta afirmativa, não é possível
ideológico de dominação. A alternativa apontada advertirmos que uma observação mais atenta nos leva a
estaria no suposto ‘Estado-mínimo’, ou seja, a perceber como parcela expressiva do debate
ausência do poder público para as questões sociais, contemporâneo no âmbito da educação questiona, de
mas forte o suficiente para controlar os gastos alguma forma, o tema da modernidade e da herança
públicos e enfraquecer os sindicatos, ao mesmo iluminista e, não raramente, respostas são dadas em
tempo em que se buscava a desregulamentação dos uma perspectiva de educação ‘pós’ moderna.
direitos trabalhistas, além da desmontagem do setor No cenário da crise do capitalismo contem-
produtivo estatal. porâneo, o ‘pós-modernismo’ configurou-se em uma
Dentro do ponto de vista neoliberal, a expressão ideológica das transformações que ocorreram
estabilidade monetária deveria ser o objetivo no âmbito da produção. Configura-se, segundo Wood
e Foster (1999), de determinadas balizas que formam
principal de qualquer governo. Assim, a realização
um rol de bandeiras, a qual é composta por uma vasta
de reformas fiscais, entendida como redução dos
gama de tendências intelectuais e políticas que
impostos sobre o capital, era condição fundamental
surgiram em anos recentes.
para incentivar a retomada econômica. Nesse
Podemos conferir que pelo menos num aspecto
sentido, a alternativa do capitalismo para sua crise
todos os pós-modernos aderem: vivemos uma crise
estrutural do capital acarretou um processo de de ‘certezas’. Circunstância em que o conhecimento
substituição do modelo industrial fordista e do é sistematicamente colocado à prova, ao mesmo
modelo político-econômico keynesiano pelo regime tempo em que se afirma o relativismo das verdades
de acumulação flexível, fortalecendo em grande historicamente construídas pela modernidade. Dessa
parte o capital financeiro e especulativo em um forma, o discurso híbrido do ‘pós-modernismo’
momento de desmoronamento das experiências do protesta contra as noções clássicas de razão, verdade,
chamado ‘socialismo real’ que, sem dúvida, auxiliou objetividade, o conceito de progresso, emancipação
na difusão – entre muitos intelectuais – da ideia de universal ou as grandes narrativas. Além disso,
que o liberalismo e a economia de mercado poderíamos identificar como temas recorrentes ao
venceram em termos absolutos e teriam se discurso ‘pós-moderno’ a atitude cética ao marxismo
transformado em modelo permanente e categórico e à possibilidade de o capitalismo ser superado por
de organização da vida humana. uma sociedade que lhe seja superior. Em oposição
Neste cenário, a opressão da força de trabalho aos pilares do pensamento iluminista, compreende o
aumentou significativamente na mesma velocidade mundo como imprevisível e instável. Dessa forma,
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dentro da perspectiva exposta, é natural que o pós- Tais acontecimentos ganharam força na década
modernismo não se organize como uma visão de 1960, com a ocupação da Tchecoslováquia pelo
coerente e organizada do mundo. exército soviético em 1968 e, notadamente, com as
O pensamento pós-moderno significou a revoltas estudantis deste mesmo ano na França e em
consolidação no âmbito da ideologia dos interesses outros países do mundo. Essas experiências, além do
burgueses, na medida em que afirma a desmoronamento do chamado ‘socialismo real’
impossibilidade do conhecimento objetivo e a proporcionaram o avanço das ideias neoliberais e
superação da ordem social existente, substituindo a colocaram na defensiva muitos intelectuais de
luta de classes pela lógica do contentamento das esquerda que tinham como modelo o comunismo
múltiplas identidades que compõe o mosaico social. soviético.
Por isso, em nosso entendimento, a bandeira do Neste cenário de desencantamento com a
individualismo, do fragmentário, das questões das história, ganha espaço a defesa da diversidade sobre a
especificidades foram encampadas pelos pós- igualdade. No entanto, aí reside aquilo que
modernistas, uma vez que se colocam em defesa das entendemos ser uma das contradições das bandeiras
minorias, esquecendo-se do conceito de classes. Em pós-modernas: aceita como inevitável a ordem
outras palavras, por representar o movimento estabelecida, ou ainda, não oferece alternativas
ideológico da nova fase de acumulação de capital, o razoáveis, mas rejeita os projetos alicerçados na razão
discurso pós-moderno relega à categoria de mitos e objetividade. Criticam os males da ‘modernidade’,
eurocêntricos totalitários os conceitos que fundaram mas não enxergam o caráter predatório do
e orientaram a ciência: as ideias de racionalidade e capitalismo.
universalidade, privilegiando, assim, a subjetividade Diante dessas incongruências, a grande questão
fragmentada e dilacerada. colocada por muitos pensadores pós-modernos podem
Cabe enfatizar que, além das transformações no ser sintetizadas nas seguintes indagações: por que o
âmbito da produção, colaboraram para a ofensiva ideal emancipador da razão se transformou em
ideológica pós-moderna as experiências dos regimes barbárie? O domínio da ciência não implicava
totalitários e as guerras mundiais, entendidos não necessariamente na garantia de civilização e progresso?
como produto de relações econômicas marcadas Em nosso entendimento, ao renunciar à
pelo ímpeto imperialista, mas como consequência da possibilidade de um conhecimento objetivo e de
‘modernidade’. Descrentes com o curso da história e superação da ordem existente, os pós-modernos
sem perspectivas de mudanças sociais, uma vez que destruíram aquilo que se transformou em uma de
o chamado socialismo real apresentava sinais de suas bandeiras prediletas: a defesa da diversidade e da
desgaste, muitos enveredaram pelos tortuosos pluralidade. Afinal, como libertar as minorias se a
caminhos de negação da possibilidade de um essência do regime é marcada pela exclusão de
conhecimento objetivo. muitos? Em outras palavras, caíram em uma posição
No entanto, tal movimento não nasceu da vontade análoga àquela apontada por Marx em relação à luta
individual de atores políticos que negaram um projeto dos judeus pela emancipação política1.
universal. Antes de tudo, foi processo cujas origens Para além das questões levantadas, podemos
podem ser associadas à incapacidade do capitalismo em refletir sobre os impasses políticos que a noção de
um sujeito fragmentado acarreta: impede a
prover minimante as necessidades da maioria, bem
compreensão da noção de classe social, ao mesmo
como a crise do chamado ‘socialismo real’. A respeito
tempo em que impede a constituição de laços de
da crise do bloco soviético, vejamos os apontamentos solidariedade de segmentos que poderiam, por sua
de Hobsbawm (1995, p. 386-387): condição de classe, organizarem-se na luta contra o
O desmoronamento político do bloco soviético capital. Nesse sentido, a fragmentação das lutas em
começou com a morte de Stálin, em 1953, mas torno de identidades múltiplas ou de questões
sobretudo com os ataques oficiais à era stalinista em regionais desvinculadas das relações macro arrefece
geral, e, mais cautelosamente, ao próprio Stálin, no o poder de pressão e favorece a hegemonia burguesa.
XX Congresso do PCUS, em 1956. Embora visando Portanto, é dentro deste cenário histórico que
uma platéia soviética muitíssimo restrita – os devemos compreender as propostas hegemônicas
comunistas estrangeiros foram excluídos do discurso
presentes na educação escolar, que contribuem para
secreto de Kruschev –, logo se espalhou a notícia de
que o monólito soviético rachara. Em poucos meses,
a ‘fragmentação’ dos conteúdos, com um evidente
uma liderança comunista reformista na Polônia foi
pacificamente aceita por Moscou (na certa com ajuda
1
Em A questão judaica, Marx (2002, p. 13) considera egoísmo dos judeus pedir
uma emancipação política especial, quando, como alemães, “[...] deveriam
ou o conselho dos chineses), e uma revolução trabalhar pela emancipação política da Alemanha e, como homens, lutar pela
estourou na Hungria. libertação da humanidade”. Nesse egoísmo, reside a incoerência dos judeus de
considerar penosa a opressão particular, mas compactuar com a opressão geral.

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esvaziamento do trabalho pedagógico na escola. Vejamos os apontamentos de Pablo Gentili:


Assim, bandeiras do ‘professor facilitador’, ‘professor
A crise capitalista dos anos de 1970 marcará o início
reflexivo’, ‘afetividade’, ‘motivação’, ‘aprender a de uma profunda desarticulação dessa promessa
aprender’, ‘empregabilidade’, ‘qualidade total na integradora em todos os sentidos. No que se refere à
educação’, alguns dos quais presentes nos discursos sua dimensão econômica, questão que nos preocupa
empresariais, foram incorporadas ou assimiladas por aqui, o processo tem sido, no mínimo, paradoxal.
inúmeros intelectuais da educação, como Com efeito, a ruptura da promessa da escola como
instrumentos de um conjunto de políticas entidade integradora começou a se desencadear de
supostamente destinadas a reduzir os riscos sociais uma forma definida nos anos de 1980, justamente
num contexto de revalorização do papel econômico
gerados pelo avanço das políticas neoliberais. Trata-
de educação, da proliferação de discursos que
se, em outras palavras, de uma concepção
começaram a enfatizar a importância produtiva dos
educacional caracterizada pelo ‘pragmatismo conhecimentos (inclusive a configuração de uma
neoliberal’ e pelas premissas pós-modernas. Vejamos verdadeira ‘Sociedade do Conhecimento’ na
os apontamentos de Maria Denise Guedes: Terceira Revolução Industrial) e de uma crescente
ênfase oficial nos aportes supostamente
A partir da década de 1990, organismos
fundamentais que as instituições escolares deviam
internacionais como o Banco Mundial, BIRD, FMI,
realizar para a competitividade das economias na era
OMC e regionais como a UNESCO, UNICEF,
da globalização.
CEPAL, passaram a divulgar por meio de
Em sua dimensão especificamente econômica, essa
conferências internacionais, as diretrizes
promessa estava associada (pelo menos na teoria) à
educacionais que os países periféricos do sistema
possibilidade de expandir e universalizar os direitos
capitalista deveriam seguir, ou seja, a ‘nova’ função
econômicos e sociais que acompanhavam a
da educação para o século XXI: formar para as
construção do Welfare State nos países capitalistas
competências do mundo do trabalho. Nesse sentido,
industrializados, processo que, nas nações
defendem que a educação precisa ser reformada para
periféricas, traduziu-se com uma peculiaridade
acompanhar as mudanças tecnológicas da chamada
própria na ‘construção do Estado em torno da
sociedade do conhecimento, visando à formação de
questão social, mas não na constituição de cidadãos’
um “novo homem”, apto a adaptar-se às demandas
(GENTILI, 2002, p. 49, grifo do autor).
de um mercado que está sempre a exigir novos
conhecimentos, saberes evolutivos que mudam em Se é efetivamente assim, então é muito difícil
uma velocidade vertiginosa. ‘Do ponto de vista das
supor que esse projeto neoliberal e o discurso pós-
teorias pedagógicas, essas diretrizes postulam a
passagem de um ensino centrado em conhecimentos moderno não tenham influência no pensamento
científicos a um ensino centrado no desenvolvimento educacional, bem como na configuração das políticas
das competências verificáveis na prática e em situações do Estado no âmbito da educação. Não por acaso, tal
específicas’ (GUEDES, 2007, p. 2, grifo nosso). influência é verificada também nos PCNs:
Cabe ainda ressaltar que este projeto neoliberal Desde a construção dos primeiros computadores, na
avançou muito com as duas eleições de Fernando metade do século XX, novas relações entre
Henrique Cardoso, que representou a vitória das conhecimento e trabalho começaram a ser
forças que fizeram implementar inúmeras reformas, delineadas. Um de seus efeitos é a exigência de um
além de desfigurar os avanços sociais obtidos com a reequacionamento do papel da educação no mundo
contemporâneo, que coloca para a escola um
Constituição de 1988.
horizonte mais amplo e diversificado do que aquele
Hoje, presenciamos o enfraquecimento do
que, até poucas décadas atrás, orientava a concepção
movimento sindical ao mesmo tempo em que e construção dos projetos educacionais. Não basta
ocorre a ofensiva contra a legislação trabalhista, em visar à capacitação dos estudantes para as futuras
razão do barateamento da força de trabalho no habilitações em termos de especializações
‘mercado livre’. As inovações tecnológicas em tradicionais, mas antes se trata de ter em vista a
conjunto com a abertura econômica iniciada durante formação dos estudantes em termos de sua
o Governo Collor (1990-1992) limitaram a oferta de capacitação para a aquisição e o desenvolvimento de
empregos, o que, sem dúvida, representou um recuo novas competências, em função de novos saberes
que se produzem e demandam um novo tipo de
das forças comprometidas com os trabalhadores.
profissional, preparado para poder lidar com novas
Cabe acrescentar ainda, neste cenário sombrio, os
tecnologias e linguagens, capaz de responder a novos
dois governos de Fernando Henrique (1995-2002), ritmos e processos. Essas novas relações entre
que foram a expressão do poder do grande capital, conhecimento e trabalho exigem capacidade de
em especial, do capital especulativo financeiro iniciativa e inovação e, mais do que nunca, ‘aprender
(sobretudo internacional) predominante hoje a aprender’. Isso coloca novas demandas para a escola
claramente sobre o capital industrial. (BRASIL, 1997, p. 34).

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A defesa de uma educação baseada nas Como se vê, a essência destrutiva do capital
competências tem origem no discurso empresarial, denunciada por Marx e Engels, no Manifesto
cujo objetivo maior é a reprodução do capital por Comunista, continua extremamente atual. Por isso,
meio da exploração brutal da força de trabalho. Na não devemos estranhar os efeitos desse sistema
verdade, entendemos que a burguesia, como classe excludente, pesadelo de milhares de trabalhadores,
social hegemônica, ainda que defenda publicamente que adota procedimentos ‘técnicos’, revelando-se
a expansão da educação escolar, nunca se preocupou muitas vezes criminosos, através da contínua
por uma igualitária ampliação das potencialidades subversão da produção, concentrando nas poucas
humanas para todos a partir do conhecimento. Por mãos o capital.
isso, verificamos atualmente um discurso que Assim – e esse é um dos grandes exemplos -, a
defende a valorização do ‘conhecimento dos alunos’ defesa do ‘Estado mínimo’, ou melhor, mínimo para
e sua ‘realidade social’. Dessa forma, vivenciamos as questões sociais, que legitima a ação privada na
um momento histórico de hegemonia de um projeto resolução das desigualdades sociais e a admissão da
que representa um recuo em termos de exaustão dos Estados nacionais em sua incumbência
responsabilidade estatal pela implantação de um de mediar – pelo exercício da política – as crescentes
sistema nacional de educação pública e de ampla tensões sociais oriundas dos efeitos perversos do
capitalismo global, levaram as grandes corporações a
democratização da educação, legitimado, como uma
redescobrir o espaço da filantropia como
resposta conservadora que despolitiza e esvazia o
instrumento de altos dividendos de suas respectivas
papel da educação escolar.
imagens pública e social.
No campo da organização da educação básica,
por exemplo, que deveria ser encarada como um As apelativas e seqüenciais campanhas de ‘adote uma
direito social de todos, é cada vez mais associada a escola’, ‘amigo da escola’, ‘padrinho da escola’ e,
agora, do ‘voluntariado’, explicitam a substituição de
ideia de um serviço prestado e adquirido no
políticas efetivas por campanhas filantrópicas. Passa-
mercado ou na filantropia. Chega-se ao ponto de se se a imagem e instaura-se uma efetiva materialidade
considerar que os serviços públicos, em campos de que a educação fundamental e média não
como a educação, devem ser orientados por atuações necessitam de profissionais qualificados, mas de
precisas determinadas a evitar explosões sociais, e professores substitutos e de voluntários
não uma obrigação do Estado. Levando em conta as (FRIGOTTO, 1995, p. 59, grifos do autor).
escolas mantidas pelo Estado, apenas a atitude Dito de outra forma, na prática o Estado, sob
generalizada nos leva a chamá-la de pública, já que hegemonia da burguesia, se descompromete cada dia
constitui somente um eufemismo para o termo mais com a esfera social e entre elas, a educação,
‘estatal’, ou a declaração de uma intenção cada vez deixando de garantir o atendimento aos
mais difícil de ser concretizada. trabalhadores, sob o pretexto da ineficiência e a
Não por acaso, a lógica do capital transforma incapacidade do funcionamento de um Estado
tudo em mercadoria, bens e serviços, incluindo o inchado, sufocado por atuar em diferentes frentes e
próprio trabalhador. As reformas neoliberais em tendo que afiançar tantos serviços sociais. Para fins
curso apenas reforçam algo que já estava presente na dessa constatação, nunca será demais lembrar que as
essência do capitalismo. Senão, vejamos: ladainhas das soluções fúteis, denunciadas por
A burguesia, quando conquistou o poder, destruiu Frigotto, não atacam as desgraças acumuladas pelas
todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou políticas neoliberais que sequer a visam. E isso não
sem compunção todos os diversos laços feudais que acontecerá jamais por concessão espontânea dos
prendiam o homem a seus ‘superiores nacionais’ e grupos no poder2.
não deixou entre o homem e o homem outro
vínculo que não o do frio ‘pagamento em dinheiro’. [...] Não há dúvida de que podemos pensar na escola
Afogou a sagrada reverência da exaltação religiosa, do como instituição que pode contribuir para a
entusiasmo cavalheiresco, da melancolia sentimental transformação social. Mas uma coisa é falar de suas
do burguês filisteu nas águas geladas do cálculo potencialidades... uma coisa é falar ‘em tese’, falar
egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor daquilo que a escola poderia ser. Uma coisa é
de troca e, no lugar de um sem-número de expressar a crença de que, na medida em que
liberdades legítimas e duramente conquistadas, consiga, na forma e no conteúdo, levar as camadas
colocou a liberdade única, sem escrúpulos, do trabalhadoras a se apropriarem de um saber
comércio. Numa palavra, no lugar da exploração
velada por ilusões políticas e religiosas, colocou a 2
Quando fazemos referência aos grupos dominantes, é importante reconhecer
exploração seca, direta, despudorada, aberta (MARX; que esses segmentos não são homogêneos em relação aos interesses, mas
possuem interesses convergentes quando contrapostos aos interesses dos
ENGELS, 1998, p. 7, grifo do autor). trabalhadores.

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historicamente acumulado e desenvolver a enfoque, da expansão desorganizada que o sistema


consciência crítica, a escola pode concorrer para a educacional vem sofrendo nos últimos anos. Trata-
transformação social; outra coisa bem diferente é se essencialmente de uma crise de qualidade
considerar que a escola que aí está esteja cumprindo
decorrente da falta de produtividade que caracteriza
essa função. Infelizmente essa escola é sim
as práticas pedagógicas e a gestão administrativa da
reprodutora de certa ideologia dominante... é sim
negadora dos valores dominados e mera grande maioria dos estabelecimentos escolares
chanceladora da injustiça social, na medida em que mantidos pelo Estado.
recoloca as pessoas nos lugares reservados pelas Nesse cenário, a retórica neoliberal sintetizou
relações que se dão no âmbito da estrutura suas propostas sobre a educação na palavra
econômica (PARO, 2008, p. 10, grifo do autor). qualidade. Proferida como se fosse uma expressão
Por isso, parece haver pouca probabilidade de o mágica que concebesse uma ideia definitiva, do tipo
Estado empregar esforços para a democratização do panaceia para todos os problemas sociais: a
conhecimento sistematizado. Neste sentido, diante excelência do ensino, professores competentes e
dessa conjuntura de crise e mudanças derivadas das ‘reflexivos’ implicando necessariamente na inserção
transformações no mundo da produção, as políticas dos alunos no mundo do trabalho e alavancando o
do Estado, na área social, acentuam as marcas da desenvolvimento econômico. Ora, essa associação
omissão e inoperância, com explícita impotência na entre cultura escolar e ethos empresarial
universalização do acesso aos direitos transformou-se em uma espécie de salvo conduto
constitucionais, que não passam de letra morta para o crescimento da educação como um grande
diante da avalanche liberal. Em outras palavras, negócio. Veja o exemplo da matéria publicada na
vivenciamos um risco de grave regressão de direitos Revista Exame, de 16/2/2011, com o sugestivo título:
sociais. ‘Educação empreendedora: como a sala de aula pode
transformar os negócios’.
Dessa forma, as elites econômicas definem o
nível de ensino obrigatório: a escola básica. O ensino Quando decidiu abrir seu próprio negócio, a
médio e o superior serão organizados segundo as farmacêutica e bioquímica Vanessa Vilela só tinha a
exigências do mercado, situando-o “[...] como o formação técnica para tirar a Kapeh, empresa de
cosméticos a base de café, do papel. Depois de
definidor fundamental das relações humanas, sob a
participar de um curso intensivo de
ideia de que a igualdade e a democracia são empreendedorismo, o Empretec, Vanessa foi eleita
elementos nocivos à eficiência econômica”. uma das dez melhores empreendedoras do mundo,
(FRIGOTTO, 1995, p. 84) Em outras palavras, o segundo a ONU. A educação potencializa os novos
sistema educacional deve se ajustar às demandas de negócios e a Kapeh é prova disso. Hoje, exporta seus
seu público, que pagará o preço determinado pelas sabonetes e hidratantes, fatura mais de 1 milhão de
leis de mercado. Contudo, a livre concorrência, em reais e emprega, direta e indiretamente, 150 pessoas
(EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA, 2011, p. 43).
uma sociedade de classes, não passa de uma farsa. Os
filhos de diferentes classes estudam em escolas Dito de outra forma, o discurso neoliberal é
separadas: segregação educacional. A desigualdade marcado pelo tecnicismo: valoriza-se a competência
brutal não é outra coisa senão fruto das relações como sinônimo de autoridade, a eficácia e a
capitalistas de produção. eficiência associadas ao aumento do ritmo e da
Assim, até onde podemos perceber, o ‘canto da produtividade do trabalho. Assim, a solução dos
sereia’ neoliberal tem como pressuposto tácito que o problemas sociais, políticos e econômicos passariam
ajuste imposto pelo capital financeiro e especulativo necessariamente pela gerência adequada e eficiente,
é algo irreversível, cabendo aos indivíduos traduzido na expressão ‘qualidade total’ que, diga-se
adequarem-se aos novos tempos. Nesse sentido, é de passagem, não passa de mais uma promessa
importante enfatizar que na perspectiva neoliberal os falaciosa daqueles que controlam política e
sistemas educacionais enfrentam, hoje, uma economicamente os meios de produção e que
profunda crise de eficiência, eficácia e produtividade, buscam, ao mesmo tempo, despolitizar as questões
mais do que uma crise de quantidade, sociais.
universalização e extensão. Para os intelectuais Nesse sentido, reportamo-nos ao texto de
comprometidos com a ordem, a expansão da rede Ricardo Antunes:
escolar, durante a segunda metade do século Como o capital não pode se reproduzir sem alguma
passado, aconteceu de forma apressada sem que tal forma de interação entre trabalho vivo e trabalho
aumento tenha garantido uma distribuição morto, ambos necessários para a produção das
competente dos serviços oferecidos. A crise das mercadorias, sejam elas materiais ou imateriais,
instituições escolares é produto, conforme este eleva-se a produtividade do trabalho ao limite,

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intensificando os mecanismos de extração do sobre- relações, transformando a escola e o professor em


trabalho em tempo cada vez menor, através da prestadores de serviços; e quem aprende no cliente,
ampliação do trabalho morto corporificado no e a educação num produto a ser produzido com alta
maquinário tecnocientífico traços estes são
ou baixa qualidade. Veja-se atualmente no Brasil o
constitutivos do processo de liofilização organizativa
reforço do privatismo por meio dos sistemas de
da ‘empresa enxuta’ como sugestivamente
denominou o sociólogo espanhol Juan J. Castillo. avaliação de ensino que instigam a concorrência
Aqui vale uma similitude e superfluidade da entre as escolas como uma forma de ‘superação’ das
produção em geral, presente, por exemplo, na dificuldades. O sistema de ‘Provão’ no ensino
questão da chamada ‘qualidade total’. Como pude superior carrega também o mesmo princípio, de
desenvolver mais longamente em Os sentidos do gerar concorrência e estabelecer um ‘ranking’ das
trabalho, na presente fase de intensificação da taxa de instituições mais produtivas.
utilização decrescente do valor de uso das Outro exemplo de fortalecimento do privatismo
mercadorias, a falácia da qualidade torna-se evidente:
na educação, que poderíamos elencar é a atual
quanto mais ‘qualidade total’ os alegam ter, menor é
configuração da educação superior brasileira – que já
o seu tempo de vida útil dos produtos, visando
aumentar a velocidade do ciclo reprodutivo do teve como desenho organizacional a universidade
capital, faz com que a ‘qualidade total’ seja, na maior com preponderância de instituições públicas – que
parte das vezes, o invólucro, a aparência ou o oferece uma multiplicidade de contornos
aprimoramento do supérfluo, uma vez que os organizacionais e de oferta de cursos em institutos
produtos devem durar cada vez menos para que isolados. Essa nova caracterização da educação
tenham uma reposição ágil no mercado. [...] superior no Brasil foi fruto de políticas educacionais
‘Quanto mais ‘qualidade’ as mercadorias aparentam que buscavam beneficiar grupos privados. Políticas
(e aqui novamente a aparência faz a diferença),
recomendadas, com grande amplitude, pelas ideias
menor tempo de duração elas devem efetivamente
de ‘privatização, publicização e terceirização’ que
conter. Desperdício, superfluidade e destrutividade
acabam sendo os seus traços determinantes’ foram utilizadas como referências para nortear a
(ANTUNES, 2002, p. 36-38, grifo nosso). delimitação do Estado, especialmente na ocasião
correspondente aos dois mandatos de Fernando
Diante deste cenário, a educação também foi Henrique Cardoso. A grande expansão da esfera
‘contaminada’ pelo mesmo discurso falacioso de privada na educação superior brasileira neste
‘qualidade total’ presente nos meios empresariais, período, conjugada com o aumento do desemprego
justamente porque o projeto hegemônico no campo e achatamento salarial, gerou um aumento
da educação só pode ser compreendido em todas expressivo de inadimplência e vagas ociosas nas
suas dimensões quando visto como parte das instituições privadas de educação superior. Este fato,
relações que compõem a totalidade. associado à busca dos cursos superiores pelas
Assim sendo, vamos aqui problematizar algumas camadas de baixa renda, estimulada pela ampla
proposições neoliberais no campo da educação, propaganda da educação como principal fator de
como a defesa do ensino privado como sinônimo de promoção social, fundamentou a proposta do MEC
excelência de qualidade. O discurso hegemônico é
de estatização de vagas nas instituições privadas, em
pródigo em defender a tese da superioridade das
troca da renúncia fiscal. Como uma intervenção de
escolas privadas em relação às escolas mantidas pelo
salvamento para o setor privado, apesar de
Estado em razão das primeiras não desperdiçarem
recursos e utilizarem, ao menos supostamente, mascarado por um discurso demagógico de
formas de gestão qualitativamente superiores. ‘democratizar’ o acesso ao ensino superior, como é o
No entanto, como um discurso ideológico não caso do ProUni, no governo de Luís Inácio Lula da
leva em conta as diferenças sociais existentes entre as Silva.
escolas públicas e a ‘privada’, assim como os Neste contexto, é possível observar o curso de
interesses e objetivos envolvidos na configuração um projeto de reforma da educação superior que
escolar de cada segmento. Em outras palavras, a ideia deixa abertamente especificado duas estratégias:
de qualidade traz em seu interior uma perspectiva isentar o Estado no financiamento das universidades
puramente empírica que reduz os problemas públicas, criando formas para que estas captem
pedagógicos e educacionais a simples questões recursos junto ao ‘mercado’ e indicar mecanismos
administrativas, esvaziando os campos social e que permitam a transferência de verbas públicas
político do debate educacional, transformando os direta ou indiretamente para as instituições de
problemas da educação em problemas de mercado e ensino superior privadas. Conforme esta perspectiva,
de técnicas de gerenciamento. o ensino privado contrabalancearia as dificuldades
Diante disso, a concorrência no mercado do setor público para absorver a demanda educativa,
acarretou para muitas escolas uma mudança nas suas especialmente no nível superior do sistema.
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Neste sentido, a retórica neoliberal recorre reordenamento da própria sociedade. A tentativa de


constantemente aos discursos supostamente ‘novos’ aportá-lo, desde já, enseja a perspectiva da
sobre a interdependência entre a educação e a emergência do novo ainda no velho, contaminando a
escola com referências político-sociais alternativas às
formação de um cidadão adaptado às necessidades da
existentes. As ligações do ensino com o trabalho e
sociedade, sobre a compatibilidade entre a
com os problemas da vida cotidiana introduzem na
competição econômica e a harmonia social, entre a escola fatos significativos e polêmicos de variados
eficiência econômica e a solidariedade, entre o tipos: éticos, políticos, culturais, técnicos, etc. Pela
consumo exacerbado e a caridade social, entre o capacidade de envolvimento e de crítica contida
sucesso do indivíduo e a segurança social. nestes debates, a aplicação deste princípio educativo,
É por essa razão que se deve promover o ainda que limitada pelas condições existentes,
processo de ‘desnaturalização’ da forma social contém a possibilidade de sua irradiação para além
presente, denominada burguesa. Isto supõe um dos muros escolares, tornando viva a explícita a
função da escola como mediadora da práxis social
intenso trabalho de educação, de organização e
(MACHADO, 1989, p. 160).
elaboração de uma proposta superior à hegemonia
estabelecida. Ainda segundo Gramsci (1982, p. 7) Nesse processo, há que se pensar, dialeticamente,
“Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer portanto, numa síntese que contemple uma proposta
então; mas nem todos os homens desempenham na de educação pública em que o educador tenha como
sociedade a função de intelectuais”. Isto porque meta a superação da ordem e não a sua adequação ao
mesmo o trabalho mais simples determina um certo status quo. Em outras palavras, se nos dispusermos a
grau de preparação intelectual. Além disso, todos estudar e agir estratégica e taticamente na luta de
têm uma consciência moral e uma concepção de classes, enquanto intelectuais orgânicos e militantes
mundo, pois: comprometidos com a superação da ordem,
devemos nos perguntar o que significa na atual
Não existe atividade humana da qual se possa excluir
toda intervenção intelectual, não se pode separar o conjuntura a luta concreta contra o sistema
homo faber do homo sapiens. Em suma, todo homem, capitalista. Como mantém sua sobrevida? Devemos
fora de sua profissão, desenvolve uma atividade nos perguntar como agir com base nas
intelectual qualquer, ou seja, é um ‘filósofo’, um reivindicações imediatas, mediatas e históricas das
artista, um homem de gosto, participa de uma classes trabalhadoras da cidade e do campo. Nesse
concepção de mundo, possui uma moral, contribui sentido, nosso desafio é de pensar no embrião de
assim para manter ou para modificar uma concepção uma escola unitária, que articule o ensino técnico-
de mundo, isto é, para promover novas maneiras de
científico ao saber humanista. Em nosso
pensar (GRAMSCI, 1982, p. 7-8, grifo do autor)
entendimento, o que os fatos demonstram é que se
Isso posto, é fundamental o processo de educação acentua a tendência à destruição das forças
das massas para que estas possam se inserir de modo produtivas e está cada vez mais presente e premente
ativo e consciente na vida política. Para Gramsci, a à humanidade, diante do avanço da barbárie, a
escola constituiu-se em uma agência na sociedade necessidade histórica da construção do socialismo.
civil de formação de intelectuais. Sua proposta está Sobre esse último aspecto, a educação é, sem
centrada na preparação de intelectuais de novo tipo, dúvida, importante. Não é certamente a panaceia
organicamente ligados às classes subalternas, para para todos os problemas sociais como desejam
que possam influir no processo da hegemonia civil, alguns. Mas certamente devemos lembrar o papel da
educando e formando os ‘simples’, ou seja, educação como parte do processo da formação da
elaborando e tornando coerentes os problemas que hegemonia cultural nas sociedades capitalistas
as massas populares apresentam em sua atividade burguesas, além das possibilidades de educação
prática para, assim, constituir um novo ‘bloco formal e informal como lugares de construção da
cultural e social’. consciência de classe, contra-hegemônica anterior a
Consequentemente, esse processo de formação do qualquer ruptura revolucionária. Nesse sentido, a
superação das pedagogias burguesas e suas
‘novo homem’ ocorrerá pelo trabalho, entendido como
respectivas propostas no âmbito da educação escolar
práxis social historicamente determinada através das
devem ser encaradas como parte de um amplo
relações que estabelecem entre si e a natureza. Por
processo de luta pela superação radical do
conseguinte, a aplicação desse princípio educacional no
capitalismo. Segundo Florestan Fernandes,
âmbito da educação escolar implica na relação dialética
entre estes dois elementos. Se a massa dos trabalhadores quiser desempenhar
tarefas práticas específicas e criadoras, ela tem de se
A aplicação deste princípio com todas as suas apossar primeiro de certas palavras-chaves (que não
conseqüências educativas pressupõe, portanto, o podem ser compartilhadas com outras classes, que
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não estão empenhadas ou que não podem realizar ponto de se negar a possibilidade de confrontos e
aquelas tarefas sem se destruírem ou se prejudicarem rupturas com as classes dominantes e proprietárias.
irremediavelmente). Em seguida, deve calibrá-las Historicamente, a contraviolência dos setores
cuidadosamente, porque o sentido daquelas palavras
marginalizados nada mais tem sido que a resposta à
terá de se confundir, inexoravelmente, com o
sistemática violência perpetrada pela ordem
sentido das ações coletivas envolvidas pelas
mencionadas tarefas históricas (FERNANDES, econômica dominante.
1984, p. 9-10). Diante das relações materiais que se apresentam
amplamente favoráveis ao capital, resta-nos o
Considerações finais imperativo ético de refletirmos sobre a conquista de
espaços que se coloquem a serviço da luta pela
Tal qual como Josep Fontana, não cremos na superação da ordem. Do ponto de vista prático,
ruptura inexorável da ordem pelas ‘leis da história’. trata-se de lutar pela conquista de trincheiras no
No entanto, as derrotas do passado não invalidam a combate ao rebaixamento do ensino das camadas
necessidade de construção de uma nova sociedade. populares. Em outras palavras, é importante
Torna-se cada vez mais urgente a denúncia de todas fortalecer um projeto contra-hegemônico. Projeto
as formas de opressão. Não é possível reformar o que esteja a serviço da ‘classe que vive do trabalho’,
capitalismo, ou seja, não existem caminhos mas não do mercado e do lucro das instituições
conciliatórios com o capital. Ainda que o mundo da empresariais. Portanto, não podemos assumir uma
produção tenha passado por inúmeras perspectiva derrotista e perder a noção da dimensão
transformações nos últimos anos, a essência transformadora da história. Entendemos que é
predatória e anticivilizatória do capitalismo continua possível uma superação qualitativa do atual nível de
a mesma observada por Marx e Engels no século desenvolvimento da humanidade, bem como o
XIX. O mundo explode em contradições. A vitória estímulo. Em outras palavras, a emancipação do
do mercado levou a pontos jamais vistos o processo homem é uma possibilidade, bem como a barbárie.
de desumanização, a miséria de milhares e a A história é um jogo aberto. Só nos resta jogar.
concentração de capitais nas mãos de poucos.
A prosperidade prometida pelos intelectuais Referências
comprometidos com a manutenção da ordem não
passou de um engodo. O ímpeto de destruição, até ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a
mesmo nos países que atingiram maior estabilidade afirmação e a negação do trabalho. 2. ed. São Paulo:
Boitempo, 2002.
social, tende a crescer. Seriam os processos e as
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental.
reformas educacionais que buscam ‘valorizar’ o
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‘saber do educando’, ou ainda, a ‘cultura popular’ em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.
uma contribuição efetiva da educação para as lutas pdf>. Acesso em: 14 out. 2010.
contra a hegemonia do capital? EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA: como a sala de aula
Não se trata aqui de rejeitar a ‘cultura popular’ pode transformar os negócios. Revista Exame, São
em suas diferentes manifestações, mas de Paulo: Abril, n. 3, 16 fev., 2011.
proporcionar ao educando o conhecimento FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil:
sistematizado e historicamente construído. Torna-se ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro:
necessário e urgente uma educação que explique a Guanabara, 1984.
realidade, que apreenda as relações fundamentais da FRIGOTTO, G. Os delírios da razão: crise do capital e
sociedade, na sua organização e nos seus conflitos e metamorfose conceitual no campo educacional. In:
contradições. A superação da sociedade burguesa não GENTILI, P. (Org.). Pedagogia da exclusão.
Petrópolis: Vozes, 1995. p. 77-108.
prescinde do conhecimento produzido
historicamente pela burguesia. Nesse sentido, a GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da
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escola pode ser uma trincheira importante na luta
GENTILI, P. Três teses sobre a relação trabalho e
dos trabalhadores pela superação da ordem.
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Assim, entendemos que a história não persegue SAVIANI, D.; SANFELICE, J. L. (Org.). Capitalismo,
uma meta estabelecida, ela é um produto da ação dos trabalho e educação. Campinas: Autores Associados,
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dadas pelas correlações de forças na luta de classes. GUEDES, M. D. Educação e formação humana: a
Dessa forma, se o socialismo deve ser concebido contribuição do pensamento de Marx para a análise da
como o resultado da intervenção política dos função da educação na sociedade capitalista
trabalhadores em busca da ruptura da ordem contemporânea, 2007. Disponível em: <http://www.
burguesa, esse processo não deve ser mistificado a unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/c

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