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“Pastorais” e Movimentos: um exame de consciência em todos os níveis,


sem reservas

Fábio G. Durante
     Quem, recentemente convertido – ou até aquelas senhoras com seus já cabelos brancos --
nunca foi interpelado pela tão corriqueira pergunta: “Você é católico? Mas... do que você participa?”. Para o
indagante, uma breve resposta de que “sim, sou católico”, não é suficiente. Fica no ar um vazio. Fica um
quê de incompleto, de ausência. 
     E de fato, talvez essa ausência na mentalidade dos “católicos a seu modo” seja até
compreensível, pois esta é a única possibilidade de vida
apresentada a um católico neste período de belas flores da primavera conciliar. Afinal, como é
possível ser católico e não “participar”? Se até
na Santa Missa existe necessidade de "participar", o que dizer então do dia-a-dia da “comunidade”? 
     Esse desejo de "participação" -- tal como é geralmente entendido -- na Santa Missa me é cada
dia mais incompreensível. Teimo em ler os santos Evangelhos e não encontrar nada neles que me mostrem
que, durante o Sacríficio de Nosso Senhor no Calvário, Nossa Senhora e São João "participavam", no
sentido atual que se dá a essa palavra, ativamente. Ao contrário, os únicos que vejo "participando", inclusive
com gritaria – o que os aproxima muito dos carismáticos em suas missas -- são os algozes de Nosso
Senhor. 
     Por conseguinte, muitos fiéis acostumados a esta exigência, simplesmente não conseguem levar
uma vida católica sem o peso da "participação" em algum movimento ou “pastoral”. Para eles, uma vida
católica simples, a freqüencia aos sacramentos, já não são suficientes. Seria necessário algo mais. 
     Temos a presença substancial de Nosso Senhor na hóstia consagrada, mas ainda se insiste em
dizer que isso é insuficiente. Uma vida de oração, penitência, prática das virtudes, observância dos
mandamentos, ainda necessitaria de um complemento: a tal "participação". Em muitos casos, todas as
obrigações de um católico são transformadas em ações coadjuvantes aos trabalhos nas famigeradas
"pastorais". O adágio: “primeiro a obrigação, depois a devoção”, tornou-se “primeiro a pastoral, depois, se
possível, as obrigações de um católico para com Deus”. Tudo virou "pastoral". Mas, quase sem pastores...
Prova disso são os grupos carismáticos ou as reuniões de pastorais que ocorrem em horários similares ao
das missas.  Contra esta atual mentalidade está o Santo Padre Bento XVI, que em 1990, então Cardeal
Joseph Ratzinger, disse:

“Está disseminada hoje, aqui e ali, mesmo em ambientes eclesiásticos elevados, a idéia de que
uma pessoa é tanto mais cristã quanto mais está empenhada em atividades eclesiais. A pessoa é
levada a uma espécie de terapia eclesiástica da atividade, do ter o que fazer: procura-se assinalar um
comitê para cada um ou, em todo caso, ao menos um grande compromisso dentro da Igreja. De certa
forma, pensa-se, deve haver sempre uma atividade eclesial, deve-se falar da Igreja, deve-se fazer
alguma coisa por ela ou nela. Mas um espelho que reflete apenas a si mesmo não é mais um espelho. Uma
janela que, em vez de permitir um olhar livre para o horizonte distante, se interpõe como uma tela entre o
observador e o mundo, perdeu o seu sentido. Pode acontecer que alguém exerça ininterruptamente
atividades associativas, eclesiais, e todavia não seja realmente um cristão. Pode acontecer, em vez
disso, que algum outro viva simplesmente apenas da Palavra e do Sacramento e pratique o amor
que provém da fé, sem nunca ter comparecido a comitês eclesiásticos, sem nunca ter-se ocupado
das novidades da política eclesiástica, sem ter feito parte de Sínodos e sem ter votado neles, e
todavia é um verdadeiro cristão. Não é de uma Igreja mais humana que precisamos, mas de uma
Igreja mais divina; só então ela será também verdadeiramente humana... Quanto mais aparatos
construímos, ainda que sejam os mais modernos, menos espaço há para o Espírito, menos espaço para o
Senhor, menos liberdade há. Eu penso que deveríamos, deste ponto de vista, começar na Igreja um exame
de consciência em todos os níveis, sem reservas”. (Cardeal Joseph Ratzinger, conf. Cardeal Silvano
Piovanelli em Captar o essencial com clareza, 30 Giorni, nº 12, ano XIX - destaques nossos)

     De fato, um exame de consciência em todos os níveis, sem reservas, faz-se mais do que
necessário. 
     Muitas das "pastorais" ou movimentos atuais não são mais do que pequenos clubes que se
distinguem ou por classe social, ou por interesses secundários que não passam de vaidades ou banalidades
diante da vida que deve levar um católico. Isso quando não difundem erros gravíssimos entre os fiéis
"participantes".
     Prova maior disso é o Caminho Neocatecumenal, recentemente advertido pelo Santo Padre, por,
dentre outros abusos gravíssimos, viverem apartados da Igreja como se fossem “os escolhidos”.
     Esta é a tendência – e conseqüência lógica – para a vida da Igreja, caso não haja este “exame
de consciência em todos os níveis, sem reservas”, como pediu o então Cardeal Joseph Ratzinger.
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    Para citar este texto:


Fábio G. Durante - "“Pastorais” e Movimentos: um exame de consciência em todos os níveis,
sem reservas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=pastorais&lang=bra
Online, 28/11/2006 às 17:09h