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Onde o Inverno o Encontra
J.R. Ward
©

# 1 A autora de best - sellers do New York Times, JR Ward, está


esquentando as coisas neste inverno com um romance de férias com
alguns de seus mais icônicos irmãos Black Dagger.

Quando Trez perdeu sua amada para uma morte trágica (The Shadows, Black
Dagger Brotherhood # 13), sua alma foi esmagada e seu destino parecia relegado
ao sofrimento. Mas quando ele conhece uma fêmea misteriosa, ele se convence de
que seu verdadeiro amor foi reencarnado. Ele está certo? Ou sua dor criou uma
ilusão desastrosa?

Therese veio a Caldwell para escapar de uma brecha com sua linhagem. A
revelação de que ela foi adotada e não nasceu em sua família abala os
fundamentos de sua identidade e está determinada a fazê-la por conta própria. Sua
atração por Trez não é o que ela está procurando, exceto a sensual Shadow prova
ser inegável.

O destino proporcionou a um viúvo em luto uma segunda chance ... ou Trez está
muito cego pelo passado para ver o presente como ele realmente é? Neste livro
sensual e arrebatador, cheio de temas de redenção e autodescoberta, duas almas
perdidas se encontram em uma encruzilhada onde o coração é a única bússola em
que se pode confiar ... mas que pode exigir uma coragem que nenhum deles possui.

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Glossário de Termos e
Nomes Próprios

Ahstrux Nohtrum (n.) Guarda particular com licença para


matar, cujo posto é concedido a ele ou ela pelo Rei.
Ahvenge (v.) Cometer um ato de retribuição mortal,
realizado geralmente por um homem amado.
Irmandade da Adaga Negra [Black Dagger Brotherhood]
(pr. n.) Guerreiros vampiros altamente treinados que protegem
sua espécie contra a Sociedade Lesser. Como resultado da
seleção genética de sua raça, os Irmãos possuem uma imensa
força física e mental, assim como uma rápida capacidade de se
curar. A maior parte deles não são irmãos de sangue, e são
introduzidos na Irmandade por nomeação pelos Irmãos.
Agressivos, auto-suficientes e reservados por natureza, vivem
separados do resto dos civis, mantendo pouco contato com os
membros de outras classes, exceto quando precisam se
alimentar. Eles são temas de lendas e objeto de reverência
dentro do mundo dos vampiros. Podem ser mortos apenas pela
mais séria das feridas, por exemplo, um disparo ou punhalada no
coração, etc.
Escravo de sangue [blood slave] (n.) Macho ou fêmea
vampiro que foi subjugado para cobrir as necessidades de
sangue de outro vampiro. A prática de manter escravos de
sangue foi recentemente declarada ilegal.

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As Escolhidas [the Chosen] (pr. n.) Fêmeas vampiras que
foram criadas para servir a Virgem Escriba. São consideradas
membros da aristocracia, embora sejam um tanto mais
espiritualmente do que temporalmente focadas. Têm pouca ou
nenhuma interação com os machos, porém podem emparelhar-
se com Irmãos por ordem da Virgem Escriba para propagar sua
classe. Algumas possuem o dom de prever o futuro. No passado,
eram usadas para cobrir as necessidades de sangue dos
membros não emparelhados da Irmandade, e essa prática foi
reinstalada pelos Irmãos.
Chrih (n.) Símbolo de morte honrosa na Antiga Língua.
Cohntehst (n.) Conflito entre dois machos competindo pelo
direito de ser o companheiro de uma fêmea.
Dhunhd (pr. n.) Inferno.
Doggen (n.) Membros da classe servente do mundo
vampírico. Os Doggens têm antigas e conservadoras tradições
sobre como servir a seus superiores, segundo a um código
formal de vestimenta e comportamento. Eles são capazes de sair
durante o dia, mas envelhecem relativamente rápido. A
expectativa de vida é de aproximadamente quinhentos anos.
Ehros (pr. s.) Uma Escolhida treinada nos assuntos das artes
sexuais.
Exhile Dhoble (pr. n.) O gêmeo malvado ou amaldiçoado,
aquele nasce em segundo lugar.
O Fade [The Fade] (n.) Reino atemporal onde os mortos se
reúnem com seus entes queridos e passam a eternidade.

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Primeira Família [First Family] (n.) O rei e a rainha dos
vampiros, e quaisquer filhos que possam ter.
Ghardian (n.) Guardião de um indivíduo. Há vários níveis de
ghardians, com o mais poderoso sendo o sehcluded de uma
fêmea.
Glymera (n.) O núcleo social da aristocracia,
aproximadamente o equivalente a corte no período da regência
na Inglaterra.
Hellren (n.) Vampiro macho que se emparelhou com uma
fêmea. Os machos podem ter mais de uma fêmea como
companheira.
Leahdyre (n.) Uma pessoa de poder e influência.
Leelan (n.) Um termo carinhoso livremente traduzido como
—querido (a)—.
Sociedade Lesser [Lessening Society] (pr. n.) Ordem de
assassinos reunidos pelo Omega com o propósito de erradicar a
espécie dos vampiros.
Lesser (n.) Humanos sem alma que se dedicam a exterminar
vampiros, como membros da Sociedade Lessening. Os Lessers
devem ser transpassados por uma punhalada no peito para
serem mortos. Não comem ou bebem e são impotentes. Com o
passar do tempo, seus cabelos, pele e íris perdem a pigmentação
até que se tornam loiros pálidos e com os olhos claros. Cheiram
a talco de bebê. Introduzidos na Sociedade pelo Ômega, eles
retêm um jarro de cerâmica onde consequentemente seu
coração é colocado depois de ser removido.

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Lewlhen (n.) Presente.
Lheage (n.) Um termo de respeito utilizado por um
submisso sexual para se referir a sua dominante.
Lhenihan (pr.n) Uma fera mística famosa por suas proezas
sexuais. No jargão moderno, refere-se ao macho de tamanho
sobrenatural e vigor sexual.
Lys (n.) Ferramenta de tortura usada para remover os olhos.
Mahmen (n.) Mãe. Usado tanto como um identificador
quanto um termo de afeição.
Mhis (n.) O disfarce de um dado ambiente físico; a criação
de um campo de ilusão.
Nalla (n., f.) ou Nallum (n., m.) Amada (o).
Período de necessidade [needing period] (n.) Período de
fertilidade das fêmeas vampiras, geralmente com duração de
dois dias e acompanhado de um forte e ardente desejo sexual.
Acontece aproximadamente cinco anos após a transição de uma
fêmea e, posteriormente uma vez a cada dez anos. Todos os
machos respondem em algum grau se estiverem perto de uma
fêmea em seu período. Pode ser um momento perigoso com
conflitos e brigas surgindo entre machos competindo,
particularmente se a fêmea não é emparelhada.
Newling (n.) Uma virgem.
O Ômega [The Omega] (Pr. n.) Ser místico e malévolo que
quer exterminar a raça vampírica devido ao ressentimento que

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tem em relação à Virgem Escriba. Existe em um reino atemporal
e possui extensivos poderes, embora não o poder de criação.
Phearsom (adj.) Termo referente a potencia dos órgãos
sexuais do macho. A tradução literal seria algo como “digno de
penetrar uma fêmea”.
Princeps (n.) O mais alto nível da aristocracia vampírica,
superado apenas pelos membros da Primeira Família ou pelas
Escolhidas da Virgem Escriba. É um título que se deve ter por
nascimento, não pode ser concedido.
Pyrocant (n.) Refere-se a uma fraqueza crítica em um
indivíduo. A fraqueza pode ser interna, como um vício, ou
externa, como um amante.
Rahlman (n.) Salvador.
Rythe (n.) Forma ritual de lavar a honra, oferecida pelo
ofensor ao ofendido. Se aceito, o ofendido escolhe uma arma e
ataca o ofensor, que se apresenta perante ele sem se defender
do ataque.
A Virgem Escriba [The Virgin Scribe] (pr.n) Força mística
que aconselha o rei como guardiã dos registros vampíricos e
concedente de privilégios. Existe em um reino atemporal e
possui grandes poderes. Capaz de um único ato de criação, que
usou para trazer os vampiros à existência.
Sehclusion (n.) Status conferido pelo rei a uma fêmea da
aristocracia como resultado de uma petição pela família da
fêmea. Coloca a fêmea debaixo da autoridade exclusiva de seu
ghardian, tipicamente o macho mais velho da família. Seu

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ghardian tem então o direito legal de determinar toda sua forma
de vida, restringindo à vontade qualquer e toda interação que
ela tenha com o mundo.
Shellan (n.) Vampira que se emparelhou com um macho.
Fêmeas geralmente não tomam de um companheiro devido à
natureza altamente territorial dos machos vinculados.
Symphath (n.) Subespécie do mundo vampírico
caracterizada pela habilidade e desejo de manipular as emoções
dos demais (com o propósito de uma troca de energia), entre
outras peculiaridades. Historicamente, tem sido descriminados
e durante certas épocas, caçados pelos vampiros. Eles estão
próximos à extinção.
A Tumba [the Tomb] (Pr. N.) Cripta sagrada da Irmandade
da Adaga Negra. Utilizada como local cerimonial assim como
instalação de armazenamento para os jarros dos lessers. As
cerimônias realizadas ali incluem: iniciações, funerais e ações
disciplinares contra os Irmãos. Ninguém pode entrar, exceto os
membros da Irmandade, a Virgem Escriba ou os candidatos à
iniciação.
Trahyner (n.) Palavra usada entre machos de mútuo
respeito e afeição. Traduzido livremente como “querido amigo”.
Transição [Transition] (n.) Momento crítico na vida dos
vampiros quando ele ou ela se transforma em adulto. A partir
daí, precisa beber sangue do sexo oposto para sobreviver e não
suporta a luz do sol. Geralmente, ocorre por volta dos vinte e
cinco anos. Alguns vampiros não sobrevivem à transição,
machos em particular. Antes da mudança, os vampiros são

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fisicamente frágeis, inaptos ou indiferentes ao sexo e incapazes
de se desmaterializar.
Vampiro [vampire] (n.) Membro de uma espécie distinta da
Homo sapiens. Vampiros devem beber o sangue do sexo oposto
para sobreviver. O sangue humano os mantém vivos, embora a
força não dure muito tempo. Depois de suas transições, o que
ocorre entre os vinte anos, eles são incapazes de se expor a luz
do sol e devem se alimentar diretamente da veia regularmente.
Os vampiros não podem “converter” humanos através de uma
mordida ou transfusão de sangue, embora em raras ocasiões
possam reproduzir-se com membros de outras espécies. Podem
desmaterializar-se à vontade, porém devem se acalmar e se
concentrar para fazê-lo e não podem carregar nada pesado com
eles. São capazes de extrair as lembranças de um humano,
contanto que tais as lembranças sejam de curto prazo. Alguns
vampiros são capazes de ler mentes. A estimativa de vida é
superior a mil anos, ou em alguns casos ainda maior.
Wahlker (n.) Um indivíduo que morreu e voltou à vida do
Fade. A eles é concedido um grande respeito a são reverenciados
por suas tribulações.
Whard (n.) Equivalente a padrinho ou madrinha de um
indivíduo.

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Capítulo 1

Raul Julia—nenhuma relação com o grande ator falecido—


viu seu primeiro anjo em uma noite fria em Caldwell no meio
de uma tempestade de neve em dezembro.

E foi tudo por causa de um BMW.

Ele havia parado no cruzamento da Main com a Décima,


seu longo casaco de lã abotoado até o pescoço, o cachecol
enfiado no peito, os dedos dos pés frios, mesmo em suas botas.
Os flocos de neve, que começaram sua dança na hora do
almoço no ar do inverno, logo ganharam tanto peso que não
conseguiam mais formar arabescos sobre as correntes de

Raúl Rafael Carlos Juliá y Arcelay (San Juan, 9 de março de 1940 — Manhasset, 24 de outubro de 1994) foi
um ator porto-riquenho radicado nos Estados Unidos.

Um arabesco é uma elaborada combinação de formas geométricas frequentemente semelhantes às formas


de plantas. Os arabescos são elementos da arte Islâmica. A escolha das formas geométricas e a maneira como devem ser
usadas e formatadas é fruto da visão Islâmica do mundo.

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vento. Eles também estavam com pressa agora, desperdiçando
sua liberdade com pressa de chegar ao chão, não percebendo
que a queda era a melhor parte de suas vidas e que, uma vez
terminada a descida, seriam pisoteados, esmagados e jogados
em pilhas sujas como se fossem degenerados em vez de
milagres flutuantes.

De um-em-um-milhão para o incômodo da superlotação


que tinha de ser tratada pelos caminhões de obras públicas de
Caldwell.

Era uma coisa triste, realmente. Um pouco como crianças


se transformando em adultos.

Enquanto Raul ficou naquela esquina, preso no lugar por


uma palma vermelha de “não cruze” que brilhou em sua
direção, ele ficou tão cansado das rajadas frias no rosto dele
que se virou e colocou as costas para o semáforo. Devido as
modificações feitas para os deficientes visuais, um som iria
alertá-lo quando fosse hora de ir, mas assim também o tráfego,
que era lento e se arrastava, como se os carros não gostassem

Sinal vermelho do semáforo para pedestres

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tanto do tempo quanto ele. Em melhores condições, ele teria
ido para frente no meio-fio e procurado com olhos de águia
por qualquer oportunidade de atravessar a rua de forma
imprudente—ele nasceu no Brooklyn antes de Giuliani
limpar os cinco distritos por um curto período de tempo, então
ele era um especialista em ler padrões de tráfego—mas no
inverno, as regras mudavam. Tração nas quatro rodas não
significava parar nas quatro rodas, e o potencial de
derrapagem adicionava um elemento perigoso a todas às
possibilidades disponíveis.

E Raul era o tipo de pessoa que tinha muito pelo que


viver. Especialmente está noite.

Em seu bolso, ele tinha uma pequena caixa preta, forrada


de couro por fora, acolchoada em veludo por dentro. Ele havia
se casado com sua Ivelisse trinta e dois anos atrás, e mesmo
que seu aniversário fosse só em abril, e embora não fosse um
aniversário especial, como vinte e cinco ou trinta ou mesmo

Rudolph William Louis Giuliani KBE (Nova Iorque, 28 de maio de 1944) é um político e advogado
americano, descendente de imigrantes italianos da região da Toscana, ex-chefe do governo municipal da sua cidade natal (de
1 de janeiro de 1994 a 1 de janeiro de 2002). Tornou-se famoso por implementar uma política de "tolerância zero" contra
criminosos, o que diminuiu as taxas de criminalidade da cidade.

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cinquenta anos, ele havia passado por uma joalheria no
almoço e parou. A janela estava cheia de peças de ouro e
platina que eram utilizáveis, luzes brilhantes embutidas na
moldura para fazer brilhar os diamantes. Havia muitos anéis
de noivado, em preparação para a temporada de pedidos—em
oposição à temporada de dizer sim-aceito, que, segundo sua
filha mais nova, Alondra, era em junho—mas também havia
várias cruzes.

Por mais bonito que fosse o show, Raul continuou,


determinado a retornar em tempo para o seu trabalho como
atuário em uma companhia de seguros. Caminhando pela
neve com os outros que ousavam se aventurar ao meio-dia, ele
pensara nas cruzes, embora não em uma delas em particular,
mas sim todas elas em grupo. Elas foram relegadas a um
aglomerado lá em baixo, à direita, uma congregação de talvez
dez, todos elas ofuscadas por esses anéis. Por alguma razão,
ele não conseguia parar de pensar nelas, até o ponto onde
começou a tornar-se paranoico de que algo ruim ia acontecer.
Mesmo a sua carga de trabalho normal, que muitas vezes era

Atuário é o termo que designa o profissional especialista em avaliar e administrar riscos. O atuário deve ter formação
académica em Ciências atuariais ou Atuariado, ter conhecimentos em matemática, estatística, direito, economia e finanças, para
agir no mercado económico-financeiro na promoção de pesquisas e estabelecimento de planos principalmente na área de
seguros, previdência complementar aberta ou fechada, ou fundos de pensões e sendo capaz de analisar concomitantemente as
mudanças financeiras e sociais no mundo.

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demais, não conseguia distraí-lo da preocupação.

Talvez fosse um sinal. Talvez fosse um presságio.

Ele tinha esses tipos de pensamentos muito, no entanto.


Então, novamente, ele analisava as taxas de mortalidade das
pessoas para ganhar a vida, realizando as avaliações de risco
em que os cálculos de seguros de vida premium eram baseados
e depois de fazer isso por vinte anos, você faz um pouco no
automático. Cada verruga em seu corpo era um melanoma ,
por exemplo. Cada salto de seu coração era um infarto do
miocárdio iminente. Oh, e a dor de cabeça que ele teve quando
ficou preso no trânsito indo para o trabalho, esta manhã, foi
definitivamente o precursor de um derrame.

Apesar de que colocando assim, talvez fosse tudo um


pouco louco. Talvez ele precisasse tirar umas férias.

Ainda assim, logo que terminou seu dia de trabalho, um


pouco depois das cinco, ele vestiu o casaco, despediu-se de

O melanoma ocorre quando as células produtoras dos pigmentos que dão cor à pele
tornam-se cancerígenas. Os sintomas podem incluir um novo nódulo anormal ou uma mudança em uma pinta existente. Os
melanomas podem ocorrer em qualquer parte do corpo. O tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, medicamentos
ou, em alguns casos, quimioterapia.

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seus colegas de trabalho, e saiu apressado do edifício. Em vez
de ir para o estacionamento ao ar livre a seis quadras para
frente, no entanto, ele voltou para a joalheria. Ele achou que
como estava frio, talvez estivesse fechada—mas ele deveria
saber melhor. Era a época de Natal, afinal, e enquanto ele
abria caminho para a loja, o comércio estreito e relativamente
pequeno estava lotado de pessoas. Ele teve que esperar por uns
bons quinze minutos antes de uma vendedora reparar nele, e
quando tudo que recebeu da vendedora foi um dar de ombros
para ele, como se ela não pudesse prometer que seria capaz de
atendê-lo antes o Ano Novo, ele olhou seu relógio e debateu
se deveria sair.

A menina finalmente o atendeu, e ela tinha uma


expressão quase atormentada e exausta, como se ela tivesse
tido uma longa fila de fechamentos tardios como esse, e não
tivesse nada para olhar para frente, exceto mais do mesmo.
Ele decidiu que ela tinha que ter a idade de Alondra, e ela
tinha um diamante de bom tamanho em seu dedo anelar, sem
dúvida, algo que ela tinha ajudado seu noivo a obter um
desconto na loja. Seus olhos demonstravam cansaço, mas ela
fez um esforço para sorrir, e isso, mais do que o tempo que
tinha levado para caminhar até a loja, ou o tempo que tinha

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passado esperando, ou mesmo que ele ainda estava pensando
se deveria comprar, foi o que o fez ficar.

Quando terminou a transação—depois que ela lhe dera


um bom desconto—ele tinha lhe desejado felicidades com
suas núpcias. Ela realmente sorriu e falou sobre o homem com
quem ia se casar, o planejamento do casamento, o vestido. Era
um dilúvio que ele podia dizer que ela tinha que ficar lá dentro
enquanto trabalhava, e sua alegria, sua juventude e todas as
coisas que ainda estavam por vir, as boas e as ruins, fizeram
seus olhos arderem com lágrimas.

Tinha sido um alívio sair para fora e ser capaz de culpar o


frio por toda essa água.

E agora ele estava ali, neste cruzamento, com uma cruz


cheia de diamantes que sua Ivelisse ia matá-lo, por ter
comprado para ela, pois estava de coração partido.

Alondra estaria fazendo vinte e três anos em janeiro. E a


cruz não era sobre nenhum aniversário de casamento
aleatório, mesmo que ele tenha dito a si mesmo que era,
mesmo que ele acreditasse que era—porque, de outro modo,
ele comprou a coisa para comemorar a morte de sua filha há

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quatro anos em uma noite de neve exatamente como esta, na
parte de trás de um carro sendo conduzido rápido demais no
gelo, por sua melhor amiga, que tinha sobrevivido.

O que seria um tanto mórbido, não?

Enquanto ele considerava o acidente que levara um


presente tão precioso dele, e de sua esposa e de outras crianças,
ele refletiu que havia uma série de coisas perigosas que
poderiam ser previstas na vida. Se você assumiu muitos riscos
com sua saúde, seu corpo, suas finanças e seus hábitos, você
era, estatisticamente falando, passível de ser pego em uma
situação de seu próprio projeto que saiu mal. Ele sabia disso.
Estudou isso, ele tendia isso, ele entendeu isso do ponto de
vista abrangente, objetivo que era quase ser como um deus.
No entanto, nada disso importava quando seu primo
Fernando tinha batido em sua porta da frente à uma da
manhã, naquela noite nevada de dezembro. No instante em
que Raul abriu a porta e viu o chapéu de DPC sendo
removido daquela cabeça, ele soube.

Ele e Ivelisse tiveram três filhos, e muitas pessoas,

DPC: Departamento de Policia Civil.

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principalmente entre os mais velhos, se sentiam compelidos a
apontar após a morte que pelo menos ainda restavam dois.
Como se isso apagasse a dor ou a diminuísse em dois terços.
Ele queria se enfurecer com a insensibilidade deles, gritar em
seus rostos, arrancar seus cabelos. Ele amava os dois filhos
sobreviventes, tanto quanto amava Alondra, mas a vida deles
não compensava a perda dela. Os caprichos do acaso haviam
se transformado em tragédia naquela noite, a combinação de
um pé de chumbo e um pouco de gelo preto, juntamente com
o fato de Alondra, por algum motivo, não ter colocado o cinto
de segurança no banco traseiro, levando exatamente ao
fenômeno que Raul avaliava todos os dias da semana das nove
às cinco.

A morte havia levado um dos seus próprios, e por um


longo tempo, ele tinha ficado aterrorizado pela culpa. Que de
alguma forma, por causa da natureza de seu trabalho, ele fez
de sua família um para-raios, e Deus o estava fazendo pagar
por tentar assumir um papel que nenhum ser humano deveria
cortejar.

Sua fé o tinha sustentado através, no entanto. Sua crença


de que havia uma fonte gentil e benevolente de quem todas as

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coisas fluíram o ajudou a se absolver da culpa promovida pelas
primeiras e mais irracionais fases de sua dor.

A perda não ficou mais fácil de suportar com o tempo. Ao


pensar na filha caçula, doeu tanto quanto no momento em que
Fernando abriu a boca e compartilhou a triste notícia que Raul
já havia adivinhado. Só que ele também pensava em outras
coisas agora.

Tal como a BMW.

Ele estava de costas para a direção que ele queria ir, seu
corpo inclinado contra o vento, as mãos sem luvas
amontoadas em bolsos do casaco de lã, quando o mais belo
cupê M850i xDrive que já tinha visto estava parado no
semáforo da décima.

Foi um alívio para distrair sua mente e emoções longe de


sua filha perdida, pois sabia que quando ele desse a sua Ivelisse
a cruz hoje à noite—ele não ia esperar até a manhã de Natal,
porque, se houvesse algo que a morte de Alondra havia lhe

E a versão de luxo da nova linha da BMW M850i xDrive Série 8 Coupé ou cupê um belíssimo
modelo de duas portas e estilo esportivo.

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ensinado, foi que os mortais não devem esperar por coisas
importantes—haveria muitas lágrimas e muita saudade
agridoce de sua filha. Então ele precisava reforçar suas forças.
Além disso, seria difícil voltar para casa na escuridão da neve,
se seus olhos estivessem inchados de tanto chorar no frio.

A BMW era uma bênção para ele, uma distração


conveniente apenas quando ele precisava de uma. E a razão
que funcionou tão bem foi porque não era apenas um cupê
esportivo de luxo. Era o carro dos seus sonhos. Era o cupê
esportivo de luxo. Elegante e refinado, com um motor potente
e assentos confortáveis, ele mesmo sentou-se em um uma vez
em uma concessionária no ano passado. Com um preço inicial
de US $ 111.900, estava fora do seu alcance financeiro—e
continuaria assim. Engraçado como a idade mudou as coisas.
Quando você estava no final da adolescência e estava olhando
a Road & Track , podia acreditar que os carros que eram muito
caros para a sua carteira eram uma decepção temporária, algo
em que você avançou nos anos, a educação em que estava

Road & Track é uma revista automobilística de propriedade da Hearst Magazines que é
publicado mensalmente. Os escritórios editoriais estão localizados em Ann Arbor, Michigan, Estados Unidos.

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focado e os planos que você estava fazendo, seriam suficientes
para o impossível se tornando possível através de muito
trabalho duro e dedicação.

Esse otimismo ganancioso não estava em lugar algum


quando você tinha pouco mais de cinquenta anos e tinha dois
filhos na faculdade, uma hipoteca para terminar de pagar e
uma esposa que você gostava de cuidar como ela merecia. O
impossível ficou impossível. Talvez, se eles não tivessem
filhos, ele poderia ter pensado em comprar um usado. Mas ele
não trocaria nenhuma de suas três bênçãos, mesmo com a dor
da que ele havia perdido, pelo gosto de um carro.

Embora fosse o carro que era. O proprietário atrás do


volante tinha escolhido uma pintura carbono-preto metálica e
as rodas de aro 20’ também preta. Era difícil ver o interior para
determinar as opções de acabamento, mas Raul estava
disposto a apostar que o homem havia customizado o máximo
possível, o que, segundo o site da BMW, prolongaria o tempo
de construção por seis a oito semanas.

Raul sabia de tudo isso, porque ele tinha prospectado um


para si mesmo on-line apenas um par de meses atrás. No seu
caso, era apenas um sonho com o qual ele poderia mexer, uma

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fantasia que quase podia tocar enquanto trabalhava seu mouse
ao redor e clicava em coisas que adicionavam milhares de
dólares para que o preço de compra do carro ficasse ainda
mais estratosférico. Esse não foi o caso para o homem por trás
do volante. Quem quer que fosse, ele tinha o dinheiro para
pagar o carro, e Raul sentiu uma pontada de inveja—bem
como alguma curiosidade sobre quem tinha pago por ele.

Inclinando-se um pouco para frente, ele apertou os olhos.


Pelo que ele podia ver do motorista, o carro dos sonhos de
Raul era uma realidade para um afro-americano incrivelmente
bonito, com cerca de trinta anos. O cara tinha um rosto
perfeitamente equilibrado, com um queixo forte, maçãs do
rosto altas e olhos profundos. Seu cabelo cortado foi perfeito,
a parte inferior completamente raspada, a parte superior
deixada crescer apenas na medida em que escureceu seu
crânio. Não havia muito para ver de suas roupas, mas ele não
estava usando uma jaqueta ou um casaco. Ele usava apenas
uma camisa, uma que parecia cair como se fosse seda, e um
botão do punho brilhava sob as luzes da rua.

Ele poderia ter sido um atleta, mas ele parecia ser um


homem de negócios. Quem sabia sua verdadeira profissão, e

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realmente, o que importava? Qualquer que fosse o trabalho ou
de onde viesse o dinheiro, obviamente havia o suficiente para
comprar a BMW e muito mais.

Pena que o homem não parecia nem um pouco feliz.

Raul só pôde balançar a cabeça. Gente rica. Nunca


apreciavam o que eles tinham, seria sua definição de inferno,
não era: estar sentado em uma mesa cheia de comida, mas
morrendo de fome, não importa o quanto você comeu ...

Sem aviso prévio, a coisa mais estranha aconteceu, e Raul


estreitou os olhos ainda mais, prestando atenção, pois era o
tipo de coisa que ele gostaria de contar a Ivelisse assim que
chegasse em casa: entre um piscar de olhos e no próximo, o
interior do carro ficou impregnado de um brilho verde-
peridoto .

No início, Raul supôs que era da tela do celular, algo que


o motorista, frustrado por ter até três minutos antes de
continuar seu progresso para a frente interrompido por um

(peridoto bruto) (lapidados) Peridoto, crisólita ou crisólito é uma variedade de forsterite,


uma das formas da olivina, utilizada em ourivesaria como gema. É geralmente verde-esmeralda ou verde-claro, podendo
contudo, apresentar variantes de coloração amarelo-esverdeado, verde-acastanhado ou castanho.

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sinal vermelho, havia criado verificando seu e-mail. Exceto
que não, não havia telefone. Sem iPad. Sem laptop. Talvez
tenha sido um reflexo do movimento verde, quando o
semáforo mudou—não, não houve mudança lá em cima.
Confuso, Raul considerou a possibilidade de que ele estava
vendo coisas.

Foi quando ele percebeu a figura parada em frente à


BMW.

A neve se movia ao redor do que parecia ser um homem,


a julgar pelo tamanho do tronco, as trajetórias de vôo dos
flocos reorientadas pelas três dimensões de altura, peso e, pelo
menos em teoria, mortalidade. O problema era ... Raul podia
ver através da figura os edifícios do outro lado da rua. Tudo
era visível, desde a esquina do cruzamento, até as portas do
saguão do banco, até o emaranhado de pedestres que se
aproximavam da faixa de pedestres.

Raul esfregou os olhos, embora não tenha mudado nada


o que parecia estar diante dele, e foi aí que os pneus do BMW
começaram a girar. Quando a luz finalmente virou verde,
todos os quatro pneus de perfil baixo abruptamente rodaram
em vão, e não apenas na moda rabo de peixe de sair de forma

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desleixada, mas como se não tivesse indo a lugar nenhum. O
que não fazia sentido pois a M850 tinha xDrive. Tração nas
quatro rodas.

O poderoso motor acelerou. E acelerou novamente.

Lá dentro, atrás do volante, Raul podia ver o motorista


segurar o volante com mais força e inclinar-se no pára-brisa
como se, em sua mente, estivesse disposto a que o carro
poderoso se movesse para frente.

E ainda os pneus giraram e a aparição fantasmagórica


bloqueou o caminho. — Com licença, amigo, —alguém disse
a ele.

Num reflexo nascido de morador da cidade a vida inteira,


Raul se afastou sem olhar, assumindo que ele tinha espaço de
sobra na calçada para apoiar os pés. Mas ele não tinha. Seu pé
pousou na beira de um meio-fio escorregadio de neve e seu
corpo balançou fora de equilíbrio ...

Assim como um caminhão semi-reboque que tentava


parar no sinal vermelho de sua faixa perdeu o controle e

O Semirreboque é o termo comumente utilizado no segmento do transporte rodoviário para designar o equipamento
que transporta cargas por vias rodoviárias, tracionado por um caminhão-trator do tipo cavalo mecânico.

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atravessou o cruzamento, dispersando os pedestres que
começaram a atravessar, passando pela BMW que estava
preso e vindo direto para Raul.

Quando seus olhos se viraram, olhou diretamente para a


grade que se aproximava e sabia, sem sombra de dúvida, que
ele ia morrer. Seu corpo ia ser impactado a uma velocidade
suficiente para fazer extensos danos internos, e, dada a linha
avançada de sua trajetória, seu crânio seria rachado.

Embora não houvesse esperança, ele tirou as mãos dos


bolsos do casaco, e a cruz na caixa veio com a mão e voou
livre, seus esforços para salvar-se muito pequenos, muito
tarde.

Seu primeiro pensamento foi em Alondra. Ele mal podia


esperar para vê-la.

Seu segundo foi em sua Ivelisse e suas outras duas


meninas. Elas ficariam de coração partido. Eles mal tinha se
recuperado da primeira tragédia da familía—como iriam
passar pela morte dele também, especialmente por ser tão
aleatório, tão azarado ... e em outra noite escorregadia e com
neve.

31
A terceira era que isso era tão injusto. Ele levara uma vida
justa. Ele amara a esposa e a honrara. Ele apreciara seus filhos.
Ele trabalhou duro e foi honesto e fez o seu melhor para fazer
aos outros, como gostaria que eles fizessem com ele. Como
isso pôde acontecer ...

O tempo parou.

Era a melhor maneira de descrever o indescritível.

Tudo simplesmente parou onde estava: o excesso de


velocidade, sua queda, os pedestres correndo para sair do
caminho, os pneus derrapando da BMW. Tudo apenas ... parou.

Exceto a neve.

A neve ainda caía, aterrissando com graça sem peso no


que agora era um quadro de caos. E a figura à frente da BMW,
a transparente, a figura lá-mas-não-lá, virou a cabeça e olhou
para Raul. O rosto do homem era tão bonito que lágrimas
surgiram nos olhos de Raul, juntando-se à neve, caindo,
caindo, no chão que ele nunca encontraria porque seria
varrido pela grade do caminhão. E foi então que Raul viu toda
a verdade.

32
O homem não era homem e também não era fantasma.
Ele era um anjo, com longos cabelos loiros e pretos que
lambiam ao redor dele como se estivesse brincando na neve, e
asas, grande e espessas, cintilantes, asas cor de arco-íris que se
levantaram de trás de seus ombros. E ele tinha uma aura
também. O brilho sobre ele, a luz celestial que emana de sua
forma, era exatamente como as imagens sempre retratavam, e
aquela gloriosa iluminação era evidência de que a vida após a
morte era real e quem estava encarregado do universo era
realmente um Deus benevolente, na verdade, um que enviou
servos da terra que haviam sido criados, para cuidar dos
mortais frágeis que não eram erros do cosmos, nenhum
acidente de elétrons e nêutrons e prótons colidindo em um
vasto vazio frio, mas uma escolha consciente feita com amor.

Assim, Raul foi salvo da morte.

Ele chorou abertamente quando o anjo estendeu a mão


para ele, uma mão amável e gentil, para corrigir sua queda,
corrigir seu caminho e resgatar sua vida. O contato foi feito e
desfeito, pois, embora houvesse distância entre eles, Raul
sentiu o toque, e era quente, era mãe e pai, era o de um ser
superior, certificando-se de que uma criança não se

33
machucasse pela sua ausência boba de atenção.

Ao sentir seu corpo endireitar-se e voltar para a calçada,


ele foi inundado de alívio e gratidão. Esse momento
improvável de libertação agora confirmava a fé que o levara
pela morte de tantos, e especialmente de sua Alondra. Sim, ele
pensou com alegria, sua amada filha, levada muito cedo,
estava em uma eternidade segura e feliz, e ele a veria
novamente, e a reunião seria tão exultante que qualquer
sofrimento na terra abaixo seria como a queda da neve,
passando rapidamente e de pouca importância.

O anjo sorriu para ele.

Na cabeça de Raul, ele ouviu uma voz profunda e cheia


de autoridade: “Não se preocupe não, meu amigo. Há bons
anos pela frente para você, e quando for chamado para
casa, será recebido por aquele que mais sente falta.”.

E então o anjo desapareceu e o mundo retomou seu


tempo.

O caminhão passou zunindo, buzinando, ondas de neve


saíam do caminho enquanto passava pelo cruzamento. Os
pedestres xingaram e gritaram, agitando os punhos, batendo

34
os pés. As rodas da BMW ganharam força e cruzaram o que
seria um caminho de morte e destruição.

Raul bateu em algo atrás dele. Um prédio. Um edifício de


granito. Outro banco, ele supôs com um pensamento sombrio.

— Ei, você está bem, meu homem? —Perguntou alguém.


— Jesus Cristo, você quase passou dessa para melhor.

Raul disse algo de volta. Ou pelo menos ele pensou que


sim. Tudo o que ele podia ter certeza era que havia uma
camada de gelo em suas bochechas, suas lágrimas
cristalizando com o frio, o vento, o inverno. Ele foi para
escová-los fora do rosto.

Sua caixinha de couro, aquela com a cruz que sua


adorável esposa iria gritar com ele por trazer para casa, estava
contra a palma da mão. Mesmo que ele a tenha visto sair do
seu poder no segundo antes de quase morrer.

Um milagre, ele pensou quando ele olhou para ela.

Ele havia recebido um milagre de Natal. Bem a tempo.

— “Jesus Christ, you nearly bought the farm.” – o termo remete a uma expressão de susto quanto a quase morte. “Quase
abotoou o terno de madeira.” “Quase foi dessa para melhor.”

35
Capítulo 2

— Puta merda! —Trez gritou quando um caminhão semi-


reboque do tamanho de um prédio passou pelo para-choque
dianteiro de seu BMW novinho em folha.

Passando rente a ele. Como ... quase descascando o capô


do maldito carro.

Enquanto sua tração nas quatro rodas forçava os pneus de


neve fortemente preparados, ele pisava abruptamente no
acelerador, mas os pneus giraram sem sair do lugar. E um
pedestre tinha escorregado e de repente se endireitou no
caminho do caminhão, Trez decidiu que a definição de hora
exata foi exatamente o que aconteceu. Se ele tivesse
conseguido sair quando a luz se acendeu, se o pedestre não se
contivesse exatamente no momento, ambos estariam
arquivando seus documentos de finalização esta noite.

36
O que foi meio irônico.

Porque cerca de uma fração de segundo antes da quase-


catástrofe acontecer, Trez estava debatendo se deveria ou não
apenas dirigir. E não apenas através do cruzamento.

Depois de ter passado duas décadas em Caldwell,


observando com seus olhos de Sombra, o modo como
algumas gerações de humanos construíram a cidade, ele sabia
exatamente onde essa rua em particular nessa seção específica
da cidade terminava.

No Rio Hudson .

Portanto, se ele acelerasse e continuasse em um percurso


direto e ininterrupto até o fim da rua, ele poderia dar um pulo
ao estilo Velozes e Furiosos do aterro de concreto sob uma das
duas pontes de Caldie . O BMW não duraria muito tempo em
queda livre, o elegante carro havia sido construído para voar
no asfalto, não literalmente, e logo, ele e todo esse caro aço,

O rio Hudson é um curso de água que corta o estado de Nova Iorque,


nos Estados Unidos, e que ao fim de seu trajeto forma o limite interestadual entre Nova Iorque e Nova Jersey. Seu estuário
está localizado na cidade de Nova Iorque. É um rio muito escuro.
Caldie e como chamam a cidade de Caldwel.

37
couro e plástico afundariam nas águas frias e lentas do
Hudson.

Quando seus olhos brilharam na cor de peridoto pela


ideia, seu cérebro imaginou como seria. A princípio, a água se
infiltraria através de costuras e respiradouros, um
gotejamento, não uma corrente. Mas isso mudaria à medida
que ele usaria a última energia do sistema elétrico para baixar
as janelas. Depois disso, ele se sentaria e esperaria o
afogamento ocorrer, provavelmente com as mãos ainda no
volante, talvez não, o cinto de segurança permanecendo
puxado sobre o peito, as roupas umedecendo e depois
agarrando-se ao corpo quente com o toque úmido do cadáver
que ele logo se tornaria.

Não iria lutar. Iria manter os olhos abertos. Imaginou-se


sentindo uma calma que estava desaparecida, desde que toda
a luz em seu mundo se apagara naquele quarto de hospital a
cerca de trinta e dois quilômetros, e a alguma distância
subterrânea, longe de onde ele próprio morreria. Ele ficaria tão
aliviado. No instante em que a água atingiu sua garganta,
passou pela boca, nariz e ouvidos, enquanto a temperatura do
corpo tentava se recuperar da submersão gelada e não

38
conservava qualquer calor, mesmo quando o suprimento de ar
diminuía para o que estava em seu interior seus pulmões e
nada mais, ele estaria em paz.

A agonia da morte, quando ela viesse—e ela viria, pois seu


corpo estava, como todo mundo, evolutivamente adaptado
para a sobrevivência, a mente consciente responsável apenas até
um ponto terrível, após isso a função autônoma assumiria o
controle e as coisas deram errado—o golpearia no assento do
carro, jogando a cabeça para frente e para trás, a boca se
abrindo e puxando a água como reflexo, como uma esperança
desesperada de que seus pulmões estivessem apenas sendo
negados oxigênio como ao contrário de não haver nenhum
disponível para eles. Ele não tinha ilusões de que seria fácil.
Sofreria a asfixia, queimando dentro de seu corpo, talvez até
algum pânico de último momento chutasse seu travessão
mortal pela parte de lagarto em seu cérebro.

Mas então tudo acabaria. Terminou. Todo o infeliz


acidente biológico de sua vida espanou, no lixo, sobre e para
fora.

Um vazio e nada mais. Que era herético.

39
Como um Sombra, ele tinha sido criado em um sistema
de crenças um pouco diferente dos vampiros comuns. Seu
povo, uma extensão evolutiva dentro das espécies com presas,
confiava muito nas estrelas do céu, nas tradições do s’Hisbe,
uma variante do que era aceito como o modo de vida após a
morte. Os princípios básicos, no entanto, eram os mesmos
para ambos. Era como protestantes e católicos—a mesma
linguagem essencial, mas dialetos diferentes—e, como tal, a
espécie dele também tinha a teoria de que, depois que você
morreu, você subiu ao Fade e viveria a eternidade com seus
entes queridos sob os benevolentes auspícios da Virgem
Escriba. Supondo que você não tivesse sido um idiota na terra.
Se você fosse um idiota, seria relegado a Dhunhd, também
conhecido como Inferno, que era onde o Ômega e seus
asseclas ficavam. De qualquer forma, a sua conduta ao longo
de suas noites mortais determinariam o seu CEP final, e
havia algo após o seu último suspiro para esperar—ou temer—
dependendo do seu valor.

Era uma teoria correta, e uma construção que ele


entendia, à sua maneira, também estava do lado humano das

Código postal

40
coisas. Nem Fade ou Dhunhd, talvez, não a Virgem Escriba ou
o Ômega, exatamente, mas sim outros sistemas de crenças
semelhantes que cobriam tanto como você tratou a si mesmo
e aos outros, enquanto você era mortal, e também
considerando o que aconteceu com você após a sua bobina,
por assim dizer, foi estourada. Islamismo, Judaísmo,
Cristianismo, Budismo, Hinduísmo, e inúmeras outras
religiões, eram todos os esforços para dar mais uma visão pós-
morte do que apenas um caixão e uma sepultura. Ou uma pira.

Ele sabia sobre piras. Deus, ele tinha feito uma.

O que ele não sabia mais, no entanto, no que não


acreditava mais, era todo o resto dessas coisas. Nunca tinha
sido particularmente espiritual, mas, cara, você não sabia o
quanto tinha sido até não ser mais.

Em absoluto.

De qualquer forma, antes de toda essa coisa de caminhão /


cruzamento / quase destruição, ele havia considerado que não
era exatamente um pecado, mas sim uma ideia muito, muito
não tão boa. Supondo que você fosse um crente. No
vocabulário de vampiros e Sombras, se você tomou sua

41
própria vida, foi isso. Nada de Fade para você, filho da puta.
Agora, ninguém tinha sido capaz de fornecer-lhe uma boa
explicação sobre quais eram as repercussões alternativas—
com certeza, você sabia que você estava com as portas
fechadas em toda a coisa de ir para o Fade. Mas onde você
acabou? Dhunhd? Comida de verme? Quem sabia. No
entanto, todos e seu tio eram muito claros sobre o fato de que
você não chegaria perto das pessoas que você ama nos
próximos bilhões de anos.

Aparentemente, a mensagem é: se você tirou a própria


vida, bem, então, para o inferno com você, se você não apreciou
o presente que lhe foi dado no nascimento.

Sim, como se toda essa coisa de respiração / batimento


cardíaco tivesse sido a porra de um prêmio, nesses anos ele
estava de pé e andando com uma alegria tão maldita. Ele
estava destinado a um acasalamento sem amor desde a noite
em que nasceu, foi responsável pelo sofrimento sem sentido
de seus pais, assistiu a um amigo querido ser torturado por um
boceta psicótico por uns bons vinte anos—isso foi divertido—
foi um cafetão, um traficante de drogas, e um executor.

Um verdadeiro desperdício de uma vida de merda.

42
E então a cereja do sundae de sua vida de merda—que ele
havia automedicado com um vício em sexo extraordinário,
muito obrigado—tinha sido superado pela coisa mais
importante. Ele conheceu a fêmea de seus sonhos, apaixonou-
se ... e, depois do que pareceu vinte minutos de felicidade, teve
que segurar sua mão enquanto ela morria de uma doença
devastadora bem na frente dele.

Honestamente, ele não tinha nascido sob uma má estrela,


ele nasceu sob uma que o chutou nas bolas tão forte, e depois
as tossiu nas mãos.

Então agora ele estava aqui, neste BMW que ele acabara
de comprar, nesta noite de neve, durante a maldita temporada
humana da porra de alegria, contemplando o suicídio—
apenas para ter O MALDITO ACIDENTE QUE PODERIA
TER ACABADO BEM PARA ELE. QUE LHE FOI
NEGADO—POR UM CONJUNTO DE PNEUS QUE
TINHAM FUNCIONADO MUITO BEM EM TODOS OS
OUTROS CRUZAMENTOS FODIDOS QUE ELE JÁ
TINHA PASSADO.

Para não colocar um ponto muito fino nas coisas.

43
Mas FFS , ele nem sequer teve a chance de morrer de tal
forma que ele poderia acabar com esta besteira E não se
deparar com a verdade que o suicídio não leva você,
literalmente, a lugar nenhum.

Não que ele acreditasse mais na vida após a morte. Não


importa o que ele pensou que tinha visto depois que Selena
morreu.

Se havia algo que os últimos três meses lhe ensinaram, foi


que a morte era uma parada difícil. Especialmente se você
tinha sido o único deixado para trás.

Bem, Trez pensou, enquanto acelerava na neve, pelo menos


ainda havia a opção do aterro.

Havia isso pelo que esperar.

FFS significa "For Fuck's Sake" que seria algo como "por deus, po**a"

44
Capítulo 3

Seu amante das sombras veio a ela, mais uma vez através
da densa escuridão do sonho, seu corpo nu puxando livre
do éter, tomando forma diante dela. Alto e forte, com
ombros largos e pernas longas, ele era a fantasia que se
tornou realidade no reino do subconsciente, a
representação dos anseios secretos que lhe eram tão
queridos que estavam em sua alma.

Levantando os braços, ela estendeu a mão dela, e ele


veio a ela sem qualquer súplica, cobrindo-a com sua carne
dura e quente tão prontamente, era como se ele precisasse
dela tanto quanto ela dele. Sua boca, familiar e um choque
ao mesmo tempo, tomou seus lábios, drogando-a com
beijos, sua língua, seu cheiro. Suas mãos, grandes e

45
masculinas, apertando seus seios e sua cintura, descendo
... cada vez mais baixo.

Enquanto ela gemia, ela chamou pelo seu nome sem


palavras. Seus pensamentos eram conhecidos por ele, e
ela disse a ele através da magia que a envolvia que ela
precisava saber seu nome, sua ligação, sua definição. Não
havia separação quando era assim, sem ele e ela, sem
começo nem fim. Um todo.

Era sempre uma reunião quando ele vinha para ela.


Sempre o fechamento de um loop.

Sempre um retorno à casa da qual fora expulsa.

Mas ele sempre a deixava. Ele nunca ficou. E era muito


cedo, a partida, não importava quanto tempo eles tiveram
juntos.

Se ela soubesse o nome dele, no entanto ... ele seria


real. Ele ficaria com ela através do despertar que era o
ladrão dele. Ele estaria ao lado dela e não dentro dela. O
nome dele mudaria tudo ...

46
Seus corpos se encaixaram, a fechadura e a chave, a
pergunta respondida, a razão apresentada para o que havia
sido ilógico.

A ferida cicatrizou.

Mais apertado, ela o agarrou. Mais forte, ela o puxou


para ela. Fortemente, ela se concentrou em cada mudança
de seu corpo, cada penetração de seu sexo, cada onda de
prazer.

Sempre a despedida.

Não importa quanto tempo ele estivesse com ela, ele


estava sempre a ponto de deixá-la para trás, levando
consigo parte de seu coração, o apego a uma maldição
tanto quanto a união era uma bênção. Ele era o perfeito
luar eclipsado pela cobertura de nuvens, ele era a noite de
verão interrompida pela tempestade violenta, ele era o
calor que explodiu antes da chegada do brutal e
entorpecente do inverno.

Ele foi o último suspiro doce antes de se afogar.


Lágrimas, agora. Lágrimas arrancadas dela.

47
Fique comigo, ela implorou. Só desta vez. Não vá.

Pela primeira vez, em todos os anos que ela o conhecia,


ele parou e olhou em seus olhos. Sua mão tremia quando
ele tirou os longos cachos escuros do rosto dela. Quando
ele não respondeu, seu silêncio disse o suficiente. Disse
tudo.

Não havia divisão entre nunca e eternamente para eles.


Havia o espaço entre o conhecido e o desconhecido, entre
o finito e o infinito, a prova de que o amor era o laço que
amarrava, mas era um fio defeituoso, que nada mudava
quando a morte criou a distância.

Em seu silêncio, seu coração se partiu. Novamente …

… sempre.

48
Therese, filha de sangue de diabos vai saber quem, enfiou a
mão na bolsa barata e empurrou a carteira, um pacote de
lenços de papel, seu ChapStick e uma escova de cabelo. A
mudança sacudiu no fundo e deu-lhe uma breve esperança,
mas suas chaves ainda estavam faltando.

Deus, ela estava exausta e não tinha tempo para isso.


Aquele maldito sonho a manteve acordada enquanto dormia,
as lágrimas secas em seu rosto quando acordou, algo que a
deixava realmente doente, muito obrigada. Quantos anos
fazia que seu subconsciente tossia tudo isso?

Desde que ela se lembrava. E mesmo antes da coisa ruim


que tinha acontecido com sua família ...

Do outro lado do corredor, um grito abafado e o estrondo


de um abajur quebrado—ou talvez fosse pratos de novo?—
trouxe sua cabeça para cima. A porta do seu apartamento de
um quarto era do tamanho padrão em termos de altura e

ChapStick é uma marca comercial de protetor labial fabricada pela Pfizer Consumer Healthcare e
usada em muitos países do mundo. Destina-se a ajudar a tratar e prevenir os lábios rachados, daí o nome. Muitas variedades
também incluem filtro solar para evitar queimaduras solares.

49
largura, mas não parecia suficientemente grossa. Embora
considerando quem mais morava nessa pensão? Ela precisaria
de um com um metro de profundidade e talvez feito de algo
que resistisse a um incêndio.

Voltando para sua busca pelas chaves. Elas


definitivamente não estavam em sua bolsa, estava atrasada
para o trabalho, cortesia desse sonho, ela não tinha ouvido o
alarme. Mas ela tinha que encontrá-las. E vamos lá, havia
apenas vinte e oito metros quadrados para cobrir, no máximo.
E isso incluía o banheiro e a cozinha galley . Além disso, ela
era uma pessoa desagradável que limpava a si mesma com
uma disciplina que beirava a obsessão. Ela poderia fazer isso.

Enquanto ela levantava as almofadas do sofá desgastado,


verificava todos os balcões novamente, e sacudia os cobertores
em sua cama murphy , ela se recusou a olhar para o relógio.

Uma cozinha Galley é uma cozinha com duas unidades paralelas que formam um corredor central.

Uma cama Murphy é uma cama embutida na parade ou retrátil.

50
Ela não precisava de confirmação de que estava atrasada,
atrasada, atrasada. Ela deveria estar no Restaurante Sal’s para
atender suas mesas, há cerca de uma hora, e ela não podia
perder o emprego.

Talvez ela precisasse tomar um pouco de Ambien ou


algo assim. Deixando seu perene sofrimento pelo sonho de
lado, esta pensão era uma gritaria vinte e quatro horas por dia.
Se um dos inquilinos não estava gritando com alguém com
quem vivia, ou com alguém do outro lado do corredor, então
eles estavam queimando comida em seu fogão, jogando coisas
que quebravam, ou pisando duro com sapatos de concreto.

Fechando os olhos, ela deixou os cobertores cair para trás


para descansar no colchão fino—em seguida, teve de procurar
em cada canto tudo de novo. A pensão era um lixo, e pior, era
perigosa—embora, pelo menos, isso tivesse melhorado na
última semana. Aquele traficante assustador no corredor a
evitava como se ela fosse contagiosa, e considerando as
doenças que podia sentir que já estavam em sua corrente
sanguínea? Isto estava dizendo algo.

AMBIEN® (zolpidem tratamento) Zolpidem é um fármaco hipnótico, do grupo das imidazopiridinas, não-
benzodiazepínico, de rápida ação e de curta meia-vida. É utilizado para o tratamento a curto prazo da insônia.

51
— Chaves …

Outro barulho, desta vez acima dela, fez seu coração bater
forte. Ela realmente deveria ter seguido a oferta de uma
realocação. Mas ela não queria ser o caso de caridade de
ninguém e, mesmo com o emprego de garçonete, ainda não
havia economizado muito. Ela teria que encontrar um
emprego melhor ou puxar algumas gorjetas melhores.

Quando seu telefone queimador começou a tocar, ela


xingou e debateu seriamente se deixava seu gerente, Enzo, ir
para o correio de voz. Não poderia ser mais ninguém. O
aparelho era apenas para coisas na área de trabalho. O outro
telefone, o que ela usara quando estava com sua família, nem
estava ligado.

A lembrança de quão pouco ela tinha, e quão pequena era


sua margem de sobrevivência, a empurrou de volta para a
bolsa. Agarrando o aparelho, ela limpou sua garganta.

— Oi, —ela respondeu alegremente. — Eu sinto muito,


sim, sim, eu sei. Sim. Tudo certo. Claro. Não, não, eu estou

Telefone queimador ou um queimador: Um telefone celular pré-pago, geralmente, é um telefone barato, usado
temporariamente e descartado (semanalmente) (mensalmente) para evitar deixar rastros se você está se escondendo de
alguém ou ser pego em atividades ilegais.

52
chegando. Tenho certeza. Obrigada.

Terminando a ligação, ela engoliu em seco e se sentiu


tonta. A sensação de que as coisas estavam ficando longe dela,
e não apenas de suas chaves, a fez sentir como se estivesse em
um carro fora de controle, derrapando no gelo, indo para um
acidente do qual ela não ia escapar. Nada disso estava
funcionando. Não essas horríveis condições de vida. Não essa
nova vida que começara em Caldwell. E agora, quase não o
trabalho que ela precisava.

Ao contrário dos humanos, vampiros não tinham uma


rede de segurança. Não havia segurança social para a espécie.
Nenhum Medicare /Medicaid . Nenhuma instituição de
caridade organizada. Se ela não conseguisse se manter
sozinha, iria parar nas ruas porque não havia volta para
Michigan , onde ela tinha sido criada, nem retornar ao redil

Medicare é o nome do sistema de seguros de saúde gerido pelo governo dos Estados Unidos da América
e destinado às pessoas de idade igual ou maior que 65 anos ou que verifiquem certos critérios de rendimento.

Medicaid é um programa de saúde social dos Estados Unidos para famílias e indivíduos de baixa renda e
recursos limitados.

Michigan é um estado no centro-oeste dos EUA que faz fronteira com 4 dos Grandes Lagos
da América do Norte. Ele contém mais de 11 mil lagos internos, espalhados pelas duas penínsulas: inferior e superior. A maior
cidade do estado, Detroit, é famosa por ser a sede do setor automotivo dos EUA, o que inspirou os murais de Diego Rivera no
Detroit Institute of Arts. Também em Detroit, fica a Hitsville U.S.A., a sede original da gravadora Motown.

53
porque não havia linhagem para ela lá. Aquelas pessoas eram
estranhas se passando por mahmen, pai e irmão, e somente por
um acidente que facilmente não poderia ter acontecido que
Therese soube a verdade.

Sim, você acha que seu abandono quando criança e


subsequente adoção poderia ter sido mencionado em uma das
milhares de Primeiras Refeições que todos eles
compartilharam. Talvez as Últimas Refeições. Talvez as
reuniões familiares onde as escolhas foram discutidas e
votadas. Ou as noites do festival? Mas ... não. Nada. O fato de
ela não ter nascido para sua família era um segredo de estado
para todos, exceto para quem mais importava.

Quando outra onda de tontura a atingiu, ela foi até a


geladeira do tamanho do dormitório para tomar um gole de
suco de maçã e ...

Encontrei as chaves.

— Filha da puta, —ela murmurou enquanto as pegava de


dentro da caixa de gelo.

Os pedaços de dentes de metal estavam frios na palma da


mão, e as lágrimas vieram aos seus olhos quando ela fechou a

54
mão em torno deles.

Como vampira, ela poderia trancar a fechadura da porta


frágil de seu apartamento apenas com sua mente. Não era um
problema. Ela não precisava de uma chave para isso, e Deus
sabia que as outras pessoas no edifício estavam muito
distraídas com seus próprios dramas e vícios para perceber que
sua porta trancava sozinha. Mas havia mais no ciclo sem
adornos do que o que ela recebeu quando assinou os papéis
para essas quatro paredes e um teto.

Abrindo a mão, ela olhou para a outra chave. O de cobre.


Aquela que abriu as fechaduras de cobre da frente e de trás da
casa em que crescera.

Membros da espécie não conseguiam manipular as


fechaduras de cobre com suas mentes. Elas eram, portanto, a
primeira linha de segurança quando você tinha uma casa cheia
de pessoas e coisas que você queria proteger. Pessoas e coisas
que eram suas. Que você cuidou, proveu e vigiou.

Ela tinha tentado dar a chave maldita muitas vezes. Ela


tinha tirado fora do anel. Jogado no saco de lixo que ela usava

55
para o lixo da cozinha. Colocou na bolsa Hannaford
pendurada na parte de trás da porta do banheiro. Até colocou
a coisa sobre uma lixeira municipal aberta no parque, bem
como a lixeira atrás do restaurante.

Cada vez que ela disse a si mesma para deixa-la ir, deixa-
la cair, acabar com isso ... no último minuto, a mão dela se
recusou a liberar. Como diabos poderia um símbolo de tudo o
que a traiu ser seu talismã? Não fazia nenhum sentido.

Ainda assim, ela não teve sucesso discutindo com suas


emoções até o momento.

Agarrando sua bolsa, ela correu para a porta, saiu e


trancou as coisas. Enquanto ela avançava para as escadas, ela
manteve a cabeça baixa, as mãos nos bolsos e o braço apertado
na bolsa. Os cheiros eram terríveis. Cigarros velhos, drogas
que ela não conhecia os nomes, mas ainda assim
reconhecidos, e carne podre, que também poderia ter sido
pedaço de pele humana.

Seus pés eram rápidos enquanto ela entrava na escada, e

Hanna Ford é uma loja virtual de bolsas de diversas marcas feita para você que é apaixonada por
bolsas.

56
ela se moveu nos degraus. Se um macho humano tentasse
agredi-la, ela poderia se defender em uma luta, embora ela
quase não tivesse sido treinada para qualquer tipo de conflito
físico. Mas isso só funcionaria se ele não tivesse uma arma.
Uma faca? Uma pistola? Ela iria encontrar-se em muitos
problemas.

No final, ela abriu uma porta de saída de incêndio e entrou


no átrio sujo. Alguém a chamou, mas não era o nome dela que
eles usavam, e ela não respondeu ao termo rude. Era um alívio
sair lá fora, e isso dizia algo, considerando que estava frio
como o Ártico e nevando.

Contornando a lateral do prédio, ela tirou a neve do rosto


e tentou ignorar o som de sirenes e o som de alguém gritando
ao longe. Havia também um som perturbador e repetitivo, o
tipo de coisa que ela rezava não era uma cabeça entrando em
uma parede dura.

Fechando os olhos, ela pensou em seu amante das


sombras e tudo se foi. A lembrança dele a fazia se sentir tão
segura como se ele estivesse realmente com ela—e, no
entanto, como sempre, quando ela estava completamente
acordada, ela não conseguia imaginar nada sobre ele. Nem

57
seu rosto, nem seu corpo, nem seu perfume ... apenas sua
existência era conhecida por sua mente consciente, nem
nenhum dos detalhes que ela viu com tanta clareza quando
estava dormindo.

Se eu só soubesse o nome dele. Disse a si mesma. Isso mudaria


tudo.

Era isso que estava em sua mente quando ela se


desmaterializou, e foi um alívio se espalhar para um grupo
solto de moléculas fantasmas e mudar para um local mais
seguro. Quando ele retomou sua forma corporal atrás do
restaurante de Salvatore, soltou o fôlego que estava segurando
e avançou na neve profunda com cerca de um trinta
centimetros de altura. O estacionamento estava quase vazio,
apenas carros de funcionários lotados na entrada traseira do
edifício, e um arado tentava se manter à frente da tempestade,
empurrando mais do que descia do céu em pilhas nas bordas.

Seria uma noite tranquila por causa do tempo, e foi


provavelmente por isso que sua ausência foi notada, mas
relativamente bem tolerada. O período de experiência não ia
durar muito tempo, no entanto. Ela já tinha chegado tarde
uma vez antes porque ela dormiu demais.

58
Seres humanos estúpidos. Sempre batendo ao redor e
acima dela. Sonho louco. Isso não a deixaria em paz.

Na entrada para a porta de trás, tirou sua parca, na


esperança de que de alguma forma pudesse fazê-la parecer
menos atrasada do que ela estava. O que era ridículo. Abrindo
caminho para o corredor de concreto sem adornos, ela tirou a
maior parte da neve das botas e depois correu para o vestiário
dos funcionários. Tirando o casaco, jogando-o e a sua bolsa
no armário.

— Você está bem?

Ela virou-se ao som da voz masculina. Emile Davise era


um homem humano de um metro e oitenta e cinco, com
cabelos loiros, olhos azuis e um sorriso gentil. Desde o início,
ele mostrou-lhe as coisas com muita paciência—mesmo que
ele não tivesse ideia de com o que ele estava lidando, ou para
quem ele estava trabalhando. O Sal’s era de propriedade de
um vampiro, embora os seres humanos fossem empregados.
Membros da espécie mantinham-se muito discretos, no
entanto.

— Oh, Deus, Emile. —Ela sentou-se e desamarrou as

59
botas. — Eu dormi além do meu alarme novamente. Eles vão
me demitir.

— Eles não vão. Eu vou me demitir se eles fizerem. —Ele


estendeu o meio avental dobrado. — Eu deixei suas mesas
prontas.

Ela parou o que estava fazendo e olhou para cima. —


Emile.

— Eu tive tempo extra. —Ele jogou o avental. — Vamos


lá, o serviço está começando. Temos duas mesas cheias,
acredite ou não.

Therese se apressou na mudança de sapato, trocando suas


botas pesadas por sapatos pretos de serviço, e então ela pegou
o que ele deu a ela, dobrando e amarrando o avental em volta
da cintura e colocando tudo em perfeita harmonia com sua
gravata borboleta formal, camisa ajustada branca, calças
pretas, e a sobreposição das peças deixando tudo suave e
ordenado.

— Como estou? —Perguntou ela na hora.

Quando houve uma pausa, olhou para o humano. Suas

60
pálpebras estavam abaixadas e um rubor caíra em suas
bochechas.

Emile pigarreou. — Você é linda.

Therese abriu a boca para minimizar tudo—o momento,


a atração que ele estava sentindo, a pergunta sutil que estava
em seu olhar, mas que ainda não saíra de sua boca—mas, em
seguida, ela congelou.

Uma sombra apareceu por trás do homem.

O pulso de Therese acelerou, seu corpo respondendo


rapidamente. E quando a mudança em sua atenção foi notada,
Emile girou.

— Oh, olá, Sr. Latimer. —O homem humano disse. — Eu


estava ... er, eu estava de saída.

Emile olhou para ela, e havia pesar no rosto dele. Como


se ele soubesse de coisas que gostaria que não soubesse. —
Vejo você no outro piso, Therese.

— Obrigada, Emile.

Depois que o humano saiu, ela olhou para cima, nos olhos
de um homem que ela não conseguira tirar da cabeça. Trez

61
Latimer era mais do que um vampiro. Ele era um Sombra, sua
pele escura e olhos negros integram à venerável herança dos
s'Hisbe, seus ombros pesados e pernas longas poderosas o tipo
de coisa que você nunca viu, exceto em guerreiros.

Ele era extraordinário. De todas as maneiras.

E ele estava olhando para ela com um tipo de intensidade


que ela nunca havia entendido, mas certamente não podia
questionar. Desde o momento em que a viu pela primeira vez,
ele parecia cativado—o que não fazia nenhum sentido.
Therese era uma fêmea do meio do caminho, nem bonita nem
feia, nem gorda nem magra, nem brilhante nem estúpida.

No entanto, para este incrível espécime do sexo


masculino, ela parecia ser de interesse incomum.

Tinha que haver uma razão. Mas a auto-preservação ditou


que ela não iria mais longe com ele. Deus sabia que ela tinha
o suficiente em seu prato já.

— Oi. —Ela disse suavemente. — Eu me perguntei se


você estaria aqui esta noite.

62
Capítulo 4

E eu me perguntei se você estaria morta, Trez pensou consigo


mesmo.

Mas isso não era o tipo de iniciação de conversa que


queria ter com ela. Por um lado, como um vampiro, Therese
não teria sido estúpida como ele e dirigido um carro através
da tempestade. Ela teria se desmaterializado aqui. Por outro
lado, ela não era sua responsabilidade. Sério. Não, realmente,
ela não era.

E da mesma forma ele não era a maldição dela.

Só porque esta fêmea e sua amada Selena pareciam tão


completamente semelhante não lhe dava o direito de
comportar-se como se Therese fosse sua amada shellan. Então,
se ela estava atrasada para o trabalho em uma noite de neve,

63
ou se ela não aparecia, ou se chegasse cedo ou na hora, nada
disso era problema dele, culpa dele ou preocupação. E pelo
amor de Deus, essa paranóia que ele estava balançando em
relação à segurança dela era irritante.

Vamos lá, nem todas as fêmeas que ele conheceu ou


entrou em contato iam morrer com ele. Se isso fosse verdade,
na Irmandade da Adaga Negra seriam todos viúvos agora.

Trez amaldiçoou e desviou o olhar. Olhou para trás. Não


tentou re-memorizar aquilo que nunca havia deixado sua
mente.

— Sim, eu estou aqui, —ouviu-se dizer.

— Você está bem?

Não. Nem mesmo perto. — Eu estava preocupado com você.

Sim, wow. Essa conversa animada que ele havia dado a si


mesmo realmente travou, não foi.

— Isso é muito gentil da tua parte.

— O tempo está ruim para sair hoje à noite. —Sua voz


soou estranha a seus próprios ouvidos. Tensa e baixa. — Por
causa da neve.

64
Além disso, há aquela zona de desastre em que você está vivendo,
martelou em sua cabeça. E Deus, ele realmente tinha que calar
a boca aqui. Ele estava apenas cavando um buraco do qual
não conseguiria sair.

— Oh, eu estou bem. —Ela fez um movimento de


desprezo com a mão. — Eu sei me cuidar.

Em seguida: silêncio tenso.

Enquanto o silêncio persistia, Trez percebeu que estava


olhando, mas seus olhos se recusaram a ir a qualquer outro
lugar. Toda vez que ele via essa fêmea, ele se via
compulsivamente verificando cada detalhe sobre como ela
era. Para ver se ele havia interpretado algo errado sobre ela. E
a coisa mais complicada era que ele não conseguia decidir se
queria que sua percepção fosse certa ou errada—embora não
era como se ele tivesse votado sobre isso.

A semelhança era impressionante e o reconectou a tudo o


que havia perdido, melhor do que uma fotografia porque
havia movimento, melhor que uma memória porque havia
conversas, melhor que uma fantasia porque era real. Os
cabelos longos, escuros e encaracolados de Therese, que foram

65
arrumados para trás e enrolados em um coque apertado por
exigências do uniforme, eram a cor e a textura precisas de sua
Escolhida. E os olhos pálidos da fêmea, perfeitamente
definidos em seu rosto perfeito, eram tão parecidos com os de
Selena que ele teve que se forçar a não chorar. E os lábios dela
...

Bem, eles eram como os de sua fêmea, também, e não


apenas em termos de forma. E maldito seja, ele não deveria
saber como se sentiam.

Ele não deveria tê-la beijado por impulso daquela vez, e


ele não deveria ter feito esse esforço todo para vê-la, e ele não
deveria ter vindo aqui esta noite em uma falsa pretensão só
para poder ficar na frente dela e ser pego nessa rede
novamente. Ela não era a sua shellan morta voltando à vida.
Ela era uma fêmea jovem, contratada por seu irmão, para
trabalhar aqui neste restaurante. Uma estranha. Que por acaso
se parecia com o amor de sua vida.

— Entããããão, sim, —disse ela lentamente. — Estou bem.

Suas sobrancelhas levantadas e ela se inclinou para frente,


como se estivesse tentando ajudá-lo com a conversa. Ou talvez

66
queria saber se ele tinha tido um derrame.

— Bom. —Trez assentiu. — Eu fico feliz.

Quando ela olhou em volta, como se ela tivesse que


começar a trabalhar, ele sabia que ia perder a sua chance.

— Escute, você chegou a pensar mais sobre aquela casa


que eu posso alugar para você? A qual falamos?

Os olhos dela voltaram para os dele. Quando ela não


respondeu imediatamente, ele sentiu o instinto protetor sair e
tentou argumentar. Ele não foi longe, no entanto. Sua
necessidade de garantir a segurança dela era como um touro
aventureiro, e vamos lá, como se ele esperasse que algo com
quatro cascos batendo e com problemas de controle da raiva
falasse inglês? Ouvisse a razão? Ele teria mais sorte tentando
convencer a si mesmo que ela não se parecia com Selena—e
até onde ele tinha chegado com isso?

Essa coisa toda era uma bagunça. E ele não podia deixa-
la bem o suficiente sozinha.

— Eu pensei que era um apartamento, —disse ela com


uma careta.

67
— Não, era uma casa.

— Você é muito gentil. Mas eu lhe disse na semana


passada que eu reconsiderei e eu vou ficar onde estou por
enquanto.

— Eu sei. —Ok, ele estava mantendo a voz nivelada. Isto


era incrível. — Mas é um bom negócio. Um ainda melhor do
que o outro. Assim como eu disse, você pode pagar o que você
é capaz agora, e quando você ganhar mais, você pode até
mesmo pagar mais tarde.

— Eu realmente aprecio isso ... —Ela alisou o cabelo que


ela tinha puxado para trás. — Mas eu não quero confiar em
você.

Ele estendeu a mão, pare tudo! Em nomeeeee do amoooooorrr.


Ou, do ponto de vista dela, pare! Pelo amor, por favor, porra pare
com esse jogo do aluguel.

— Eu não espero nada em troca, —disse ele. — Só para


deixar tudo muito claro. Isso não é algo obscuro.

Quando os olhos dela mergulharam na boca dele, ele


sabia exatamente o que ela estava pensando, e meu Deus, ele

68
tentou manter a linha com sua libido. Ele não deveria ter
planejado isso para que ficassem sozinhos juntos, e não apenas
porque ela trabalhava para iAm. Ele não estava em posição de
tomar qualquer fêmea. Ele estava com o peito tão cheio em
luto, tão firme quanto uma cadeira de duas pernas, e com a
mesma probabilidade de acabar no rio Hudson a ponto de
chegar em casa em segurança no final de qualquer noite.

Colocando as coisas assim? Ele era pior do que um prêmio


de consolação. Ele era uma vara de dinamite acesa, que
certamente causaria danos e destruição em sua vida.

E isso foi antes que alguém chegasse a parte sobre ele se


sentir desleal a uma fêmea morta por sequer pensar assim. Por
Selena, ele deveria ser um monge pelo resto de suas noites.
Sem dúvida, o fato de parecerem iguais era a única razão pela
qual ele era capaz de pensar sexualmente. Mas ainda assim.

— Você disse que iria pensar, —ele pressionou. —


Quando estávamos juntos no restaurante. Você disse que
pensaria a respeito.

— Eu sei que eu fiz. —Sua expressão ficou tensa. — E eu


não tive a intenção de brincar com você. É apenas, que quanto

69
mais eu penso nisso, mais eu me sinto desconfortável sobre
tirar proveito de suas conexões.

— Eu posso te levar depois do trabalho para ver o lugar.


Você pode dar um passo de cada vez.

Trez sentiu uma presença no corredor, e ele olhou em sua


direção. Aquele homem humano loiro estava de volta,
inclinando-se ao virar da esquina. Verificando Therese.

As presas de Trez formigavam enquanto desciam.

— Ela já esta indo. —Ele cortou o homem.

Quando o cara recuou como se alguém estivesse


apontando uma arma para sua cabeça, Trez ficou
desapontado pelos motivos errados. Ele queria mostrar suas
presas e assobiar para o bastardo intrometido. Depois, talvez
pegar uma faca da coleção da cozinha e dar ao filho da puta
um corte de cabelo. Começando com os pés e tornozelos, e
depois subindo.

Como se isso ajudasse nessa situação? Cadáveres eram


inconvenientes, quando eram criados em público. Além disso,
Olá, partes do corpo no tapete, provavelmente não iriam

70
ajudar o seu caso com Therese.

— Eu tenho que ir. —Ela ofereceu um sorriso de


desculpas. — Eu estava atrasada hoje à noite, e todo mundo
me cobriu.

Todo mundo? Trez pensou consigo mesmo. Ou um cara em


particular.

Enquanto seu coração caia e seu estômago revirava, ele


sacudiu a cabeça. Para si mesmo.

— Olha, se você está preocupada com ... você sabe,


privacidade. Tudo bem. É tanto faz. Não vou me intrometer
na sua vida.

Diabos era o que era. Mas, desde quando ele estava em


posição de criticar suas escolhas? Se ela quisesse transar com
esse humano que o filho da puta andasse manco e precisasse
de uma bolsa IV para líquidos, então não havia nada que ele
pudesse fazer sobre isso.

Bem, exceto ir para o trabalho com essa faca. Embora as


chances eram, se ela realmente gostasse daquele filho da puta
com a porra do cabelo de linho, ela ia ficar um pouco ofendida

71
se uma lápide fosse trazida para a equação. Oh, Deus, ele
precisava sair de disso.

Therese colocou a mão em seu braço, e juro por Deus, ele


sentiu o contato percorrer todo seu corpo.

— Eu sei que isso não faz muito sentido, mas eu realmente


quero fazer isso por conta própria, —disse ela. — Pensei
realmente na sua oferta, e não deveria ter aproveitado a
chance sem considerar as implicações. Seria tão fácil confiar
em você, mas preciso estar em meus próprios pés. É por isso
que eu vim para Caldwell, e eu não vou comprometer isso.

Trez cobriu a mão dela com a sua. — Eu não terei uma


chave, eu prometo. Eu não vou ser capaz de entrar lá—não é
nada assim. Será o seu lugar particular, para você fazer ... o
que quer que seja.

O fato de ter vontade de vomitar parecia um triste


comentário sobre onde estava. O desespero foi, literalmente,
nauseante.

— Isto não é sobre você, —disse ela. — Ou qualquer outra


pessoa. Quero cuidar de mim. Aprendi da maneira mais difícil
que é melhor não confiar em outras pessoas e, se não começar

72
a ser independente agora, quando isso acontecerá?

— Esse buraco no qual você está agora não é seguro.

— Eu realmente aprecio a sua preocupação, —seus olhos


estavam luminosos quando ela olhou para ele. — Mas é um
não-obrigado. E não quero mais falar sobre isso.

Retirando a mão da dele, ela deu um tapinha no braço


dele, de um jeito clássico de apenas um amigo, e depois passou
por ele. Quando ela passou tão perto de seu corpo, ele fechou
os olhos e respirou o perfume dela. Então ele se virou e a
observou ir. Ela ia trabalhar com aquele humano loiro a noite
toda, e Trez estava disposto a apostar que eles
compartilhariam piadas internas, e o bastardo se ofereceria
para levá-la para casa no final do turno. Até onde as coisas
iriam nesse ponto?

Quando o desejo de matar ressurgiu, Trez argumentou


com sua bioquímica. Ele não estava se ligando a ela, maldita
seja. Isso foi loucura.

Isso tudo foi loucura. Ele era todo louco.

Recostando-se na parede fria, ele respirou fundo e tentou

73
ignorar os cheiros da cozinha, os sons das pessoas
conversando no prédio, o uivo baixo da tempestade lá fora.
Ele não conseguia controlar seus pensamentos ou seu corpo
quando estava perto daquela dessa fêmea, e todos os tipos de
conexão dando errado. Portanto, a solução mais fácil era não
vir aqui. Não a ver. Estabelcer limites altos e largos e
acessórios com arame farpado.

E ainda assim ele continuou atirando-se neste desafio de


sua própria invenção. Até o ponto onde essa fêmea, que não
tinha pedido nada disso, e nem sequer sabia da missa a
metade, tinha sido a única a colocar os sinais de “Não
Ultrapasse”.

Foi muito fodido.

Forçando-se a se mexer, Trez manteve as coisas devagar


enquanto descia em direção à cozinha para não alcançá-la. A
última coisa que ele precisava era adicionar perseguição à sua
lista de opções de carreira. Como se cafetão e traficante de
drogas não foram suficientes em seu LinkedIn ?

LinkedIn é uma rede social de negócios fundada em dezembro de 2002 e lançada em 5 de maio de 2003.

74
A parte de trás da casa era utilitária, nada além de paredes
de concreto pintadas e espaços úteis como o escritório da iAm,
o vestiário e a sala de descanso dos funcionários. E então havia
a própria cozinha. Quando Trez emergiu no espaço enorme,
ele piscou com o brilho das luzes brilhantes e do aço
inoxidável. Tudo estava impecável, bem organizado e, devido
ao mau tempo, nada como o viveiro de atividades que
geralmente circulava ao redor dos fogões, fornos, balcões de
preparação e área de preparação.

— Que diabos? —ele murmurou.

Algo estava queimando no fogão, e onde estava seu


irmão? Onde estavam o sous chef ?

— iAm? —Ele gritou quando ele foi até a boca do fogão


de dezesseis queimadores e tirou uma panela do molho do
fogo. — iAm?

— Aqui, eu estou aqui. —Seu irmão veio correndo para


fora da despensa, um saco de nove quilos de farinha em uma
mão, uma bandeja de ovos na outra. — Olá, como vai?

Um sous-chef de cuisine é um chef que é "o segundo em comando em uma cozinha; a pessoa que se classifica depois do
chef executivo". Consequentemente, o sous-chef detém muita responsabilidade na cozinha, o que pode levar à promoção de
se tornar o chef executivo.

75
— Eu estou bem. —Sim, simplesmente fantástico. Eu fui
atualizado no status de suicida para auto-irritante. Próxima parada:
Lunático. — Onde está todo mundo?

— A maioria deles não pode vir por causa da tempestade.


— iAm colocou o saco sobre o balcão. — Acabei de enviar
Enzo para casa, junto com meus outros dois chefs. Eu estou
cuidando das coisas sozinho está noite.

— O que quer que esteja lá dentro estava queimando. —


Trez apontou para a panela. — Tirei do fogo.

— Obrigado.

Em vez de ir para verificar o que estava acontecendo com


o molho, iAm colocou sua bandeja de ovos para baixo como
se quisesse começar o que quer que ele pretendesse fazer.
Exceto que ele parecia perder o foco, apoiando as duas mãos
no balcão e abaixando a cabeça.

Trez franziu a testa.

— O que está acontecendo? O que há de errado?

— Nada.

— Você tem certeza disso? —Trez olhou para a panela. —

76
Quando foi a última vez que você queimou alguma coisa?

Houve apenas um batimento cardíaco de uma pausa, o


tipo de coisa que quase ninguém notaria. E então os olhos
negros de iAm olharam para cima e ele pareceu perfeitamente
normal, perfeitamente calmo, quando ele mentiu:

— Estou bem. Mesmo.

E adivinha, dois poderiam jogar este jogo, pensou Trez.

I
— sso é besteira. Estou fora daqui.

Quando as palavras foram empurradas para fora de uma


boca com raiva e com batom, Therese olhou através do posto
de abastecimento de água. Liza, uma fêmea humana, era um
dos seis servidores que supostamente deveria estar a postos,
tinha decidido, evidentemente, abandonar o navio e estava

Server em inglês – refere-se uma pessoa ou coisa que fornece um serviço ou mercadoria, em particular. Aqui no
restaurante, refere-se ao serviço como servidor de mesa, sendo o termo comumente usado de garçom ou garçonete.

77
determinada que todos não só soubessem que ela estava
saindo, mas também que estivessem cientes de que ela não
aprovava o tempo.

Como se alguém dentro do Sal’s estivesse no comando do


botão de nevasca e tinha negligentemente trazido a
tempestade.

— Porra de neve. —Liza alcançou ao redor das suas


costas e puxou os laços em seu meio avental. — Eu tenho
aluguel para pagar. Há duas mesas cheias, e nenhuma delas
está na minha área de qualquer maneira. Eu juro que a porra
do hostess me odeia.

Therese desviou o olhar. O drama de Liza era algo que


ela tinha aprendido a ficar longe, embora Deus saiba que era
uma grande piscina para se cair.

— Talvez mais clientes entrem. —Emile se inclinou ao


redor da caixa de gelo e das pilhas de recipientes de recarga de
plástico. — É cedo.

— Eu não estou esperando por isso. —Liza enrolou o

Hostess é o nome dado às recepcionistas e anfitriãs de estabelecimentos ou eventos, como: casamentos, aniversários,
bodas, entre outros. ... Além de recepcionar os clientes e/ou convidados, as hostess executam as seguintes tarefas: Fidelização
dos clientes – no caso das baladas e restaurantes.

78
avental e colocou as mãos nos quadris. — O que você vai
fazer?

Therese começou a cuidar de seus negócios, pegando um


dos jarros, abrindo o tanque de gelo e pegando algumas pedras
para dentro. Liza não estava falando com ela. Liza nunca
falava com ela. A mulher não poderia ter deixado sua
antipatia por ela mais óbvia se tivesse tatuado sua testa com
“Recue, Garota Nova, Ele é Meu!”.

— Eu vou ficar aqui, —disse ele. — Eu preciso do


dinheiro desse expediente.

— Como é que eu vou chegar em casa?

Teresa empurrou-se a partir da caixa de gelo para o


distribuidor de água, empurrando a boca do jarro contra a
alavanca. A corrente de água fria que saiu foi constante, mas
pequena. Ela desejou que a maldita máquina jorrasse como
xixi de um cavalo de corrida para que ela não tivesse que ouvir
isso.

— Eu não sei, —Emile deu de ombros. — Chame um


Uber?

79
— Você é minha carona, Emile.

OK. Então tudo que Therese podia ouvir em sua cabeça


era Faye Dunaway rangendo fora, “sem mais cabideeeeeeees
de arames”!

— E eu vou ficar aqui.

Therese sentiu a picada do olhar da mulher na parte de


trás do pescoço com tanta intensidade que teve que rolar os
ombros para liberar um pouco de tensão.

— Isso é besteira, —disse Liza. — E é melhor você me ligar


para se certificar de que eu cheguei em casa em segurança.

Com isso, ela bufou e foi, só quando estava claro que ela
tinha ido que Therese olhou para cima.

— Você sabe, se você quiser ir, eu posso lidar com ...

— Não, —Emile sacudiu a cabeça bruscamente. — Ela


precisa fazer suas próprias coisas. Não sei o que está

Dorothy Faye Dunaway é uma atriz norte-americana, uma das grandes estrelas do cinema
nos anos 1960 e 70 e ganhou o Oscar de melhor atriz da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de 1976 por Rede de
Intrigas. E interpretou Bonnie, no filme Bonnie & Clyde.

80
acontecendo com ela nas últimas semanas ou duas.

Você não percebeu que ela gostaria de me esfaquear com um


garfo? Therese pensou. E cada expediente que ela negava a
oportunidade, ela fica ainda mais irritada?

Emile olhou.

— Nós não estamos namorando. Só para você saber. Ela


mora duas ruas de distância do meu apartamento e eu lhe dou
carona. É só isso aí.

Teresa se afastou da máquina de água. — Ela não me


incomoda.

O sorriso de Emile ficou aliviado. — Isso é bom. Isso é


realmente bom.

Para quebrar o contato visual, Therese deu um par de


passos a mais e fez um movimento para avaliar a sala de jantar
principal. Havia cerca de vinte mesas de vários tamanhos e
configurações, e assim como Liza tinha relatado, apenas duas
foram preenchidas, uma por um casal humano, e quatro
homens, e outra por um macho da espécie. O bar, que tinha
banquetas, estava totalmente vazio, e o outro salão da frente,

81
que era o território de Liza, estava vazio.

E então Therese percebeu algo.

— Espere, somos os únicos garçons aqui?

Houve o som de gelo se chocando dentro de um


recipiente.

— Agora que Liza se foi, sim, eu acho que nós somos. O


hostess se foi também.

Therese sentiu o homem humano olhando para ela, e ela


queria dizer para ele parar. Não porque ele estava sendo
ofensivo ou invasivo e não porque ela se sentia ameaçada. Era
porque ela não sentia absolutamente nada—e também porque
ele só pensava que sabia quem ela era. Os humanos
assumiram que os vampiros eram um mito do Halloween, e
esse segredo precisava ser mantido. Mais do que isso, ela não
estava procurando nenhum tipo de relacionamento, nem
mesmo namoro casual ou amigos-com-benefícios.

Se ela ia se envolver com alguém—o que ela não faria—


seria com aquele Sombra.

Pare. Ela pensou. Apenas droga pare com isso.

82
— Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito.

Therese se sacudiu e se concentrou em Emile. Seu lindo


rosto estava ferido, sua pele pálida. O que ela disse?

— Olha, eu não ... —Ele colocou o recipiente de água no


balcão. — Eu não quero deixar as coisas estranhas entre nós.

— O que?

Enquanto ele estava ali, parecendo abatido, ela xingou em


voz baixa. Ela deve ter falado aquilo em voz alta. Ela colocou
a mão em seu ombro.

— Oh meu Deus. Não, não. Eu estava falando para mim


mesma. Isso não era dirigido a você. Eu sinto muito.

Quando sua expressão aliviou e ele começou a sorrir, ela


quase foi procurar Liza e sugerir que ela seja a única a
trabalhar com o cara. Que diabos estava acontecendo hoje à
noite? Parecia haver problemas acontecendo em toda parte ela
se virava, mesmo que ela não tenha deixado cair as bandejas
ou derramado vinho em nenhum cliente.

Ainda assim, pensou. Ela não tinha feito uma

83
hidropisia ainda. A noite ainda estava começando.

Antes que ela pudesse encontrar uma maneira de evitar


educadamente os avanços do homem—embora se ele tivesse
um flash de suas presas e depois ela se desmaterializasse bem
na frente dele, com certeza isso resolveria as coisas—Emile
sorriu como se as perspectivas da noite tivessem acabado de
melhorar muito.

Ele acenou com a cabeça para fora da sala de jantar.

— Você vê aquele cara loiro?

Aliviada por ter algo mais em que se concentrar, Therese


olhou em direção à lareira.

— Sim?

— Você serve sua mesa. Ele dá boas gorjetas.

— Eu não quero tirar vantagem de …

— Não, pegue-o. E não se preocupe, eu vou lidar com


todos os outros que chegarem. Eu vou fazer isso.

Hidropisia: acúmulo anormal de líquido em qualquer cavidade ou tecido do corpo.

84
— Isso não parece justo.

— Confie em mim, —Emile disse secamente. — Você vai


precisar de tempo extra com ele. Mesmo que ele coma
sozinho.

Capítulo 5

E ainda as águas frias do Rio Hudson acenavam.


Quando Trez estacionou o carro em seu espaço reservado
atrás do shAdoWs, ele desligou o motor e ficou sentado do
lado de fora do clube, observando os flocos de neve enchendo
o pára-brisa que não eram mais varrido pelos limpadores.
Quando se deu conta de que ele havia desligado as coisas com

85
as lâminas no meio do caminho, ele ligou o sistema elétrico e
os trouxe de volta ao seu devido lugar, todas enfiadas sob a
borda do capô, um par de gêmeos colocados na cama. Era
bom colocar alguma coisa, qualquer coisa, em alinhamento, e
o melhor que ele tinha para trabalhar naquele departamento
eram os limpadores do carro?

Bem, os pobres não podem escolher e toda essa merda.

Ele deveria ir para dentro. Ver se alguém apareceu para


trabalhar ou para beber e fazer sexo.

Checar tudo com Xhex.

Ele ficou onde estava.

Enquanto isso, a neve continuou a cair, as pesadas


congregações de flocos individuais fazendo-o pensar nas
pessoas que saltam de aviões e se unindo na descida, braços
unidos e corpos próximos. Os impactos das formações
cristalinas eram completamente silenciosos, e essa era uma
das coisas que ele adorava na versão de inverno de uma
tempestade. Ao contrário do que acontecia nos meses mais
quentes, não havia chiado quando as coisas caiam e pousavam
sobre objetos e pessoas, nenhum gotejamento fora das calhas

86
e telhados, nenhum salpico de sapateado em para-brisas.

Silêncio. Silêncio absoluto.

Engraçado, agora ele odiava que a neve caísse ali.


Olhando para as partes que foram cerrando fileiras, como se o
seu carro, seu clube, toda a Caldwell, fosse um quebra-cabeça,
a tempestade estava preenchendo com peças, os buracos
fechando, os cantos concluídos, a borda externa já feita, ele
descobriu que ele não conseguia respirar.

Quando ele tinha estado no leito de morte de sua rainha,


na clínica da Irmandade, havia máquinas de monitoramento
ligadas ao seu corpo quando ele falhou. Como ele tinha
odiado isso. Os alarmes haviam sido uma contagem regressiva
para a extinção dela e, quando disparavam a intervalos cada
vez mais próximos, ele queria levar um taco de beisebol para
eles—ou talvez uma bola de demolição. Mas foi pior quando
eles foram desligados. O silêncio foi horrível. Por outro lado,
a equipe médica só monitorava os pacientes quando havia
algo para acompanhar. Algum tipo de mudança que eles
poderiam observar e neutralizar. Alguma correção de curso
que poderia ser realizada.

87
Quando as escalas apontaram irrevogavelmente à morte,
não havia mais nada para vigiar.

Depois que as máquinas médicas foram desligadas, ele


entrou e se tornou o monitor de Selena. Ele ficou ao lado dela
e tentou cuidar dela. Como ela havia sido paralisada da cabeça
aos pés, no final pela Prisão, ele havia criado um sistema de
comunicação onde ela piscava uma vez para não, duas vezes
para sim.

Era estranho as coisas que ele lembrava depois, e esse


sistema era um deles. Ele havia sugerido uma piscada para não
porque ele estava mais preocupado em entender o que não
estava funcionando para ela.

88
Ele se sentiu como se tivesse de escolher qual resposta
seria mais importante, mais crítica, seus sim ou não, porque
no final ela tinha tão pouca força que ele queria poupar-lhe
qualquer esforço, se pudesse. Um por não. Dois para sim. Mas
como se isso realmente importasse?

Esperar a morte ocorrer lhe proporcionou uma nova faceta


de tortura. Depois do que foi uma eternidade e uma fração de
segundo, chegou o silêncio final. Não havia mais a respiração
dela. Não mais batimentos do seu coração. Não havia mais as
piscadas.

Acabou.

Voltando ao congelante presente, Trez exalou quando as


últimas vagas em seu para-brisa foram preenchidas, um
branco na frente dele agora, a visão da parte traseira de seu
clube obscurecida. Ele achava que o interior do carro

89
provavelmente estava quase congelando, mas não sentia nada.
Sua mente estava muito longe no passado, seu corpo deixado
para trás aqui no tempo atual, a conexão entre os dois cortada
mais uma vez.

Os momentos finais da vida de Selena foram algo que ele


reviveu mil vezes desde que eles realmente ocorreram. A
repetição constante era como uma nova parte dele, um
segundo tronco, outro braço, outra perna. Ele não conseguia
decidir se a necessidade evidentemente compulsiva de voltar a
cabeceira daquela sala de exames, aquele momento em que
sua vida terminou e o levou junto com ela do planeta, estava
enraizada em seu cérebro ou em seu coração. Ele também se
perguntou qual era o propósito de revivê-lo. Ele pensou que,
se revisasse o final o suficiente em sua mente, o final mudaria?
Que de alguma forma, se ele voltasse repetidamente a esses
momentos, poderia obter um resultado diferente, como se
talvez a realidade iria esquecer? Ou talvez como se o passado
fosse um disco LP da velha escola e a agulha pulasse no lugar
certo e retomasse a música do outro lado, como se nada
estivesse errado.

Pronto! Ela estava viva. E ele também.

90
Ok ... ele realmente precisava ir para dentro antes que ele
se transformasse em um picolé.

Em vez disso, a repetição interminável recomeçou e,


como sempre, as vistas, os cheiros, os sons eclipsaram o
mundo que estava diante dele, com certeza como se eles
tivessem chamado seu nome em um comando que ele tinha
que seguir. O Centro de Treinamento da Irmandade tinha
uma área clínica, dedicada a ajudar os combatentes e
membros da família em tudo, desde cortes a concussões,
nascimento a ossos quebrados. Eles nunca lidaram com um
caso de Prisão antes de Selena. Por outro lado, a doença não
era apenas muito rara, era encontrada apenas entre as
Escolhidas, aquelas fêmeaes sagradas que serviam à Virgem
Escriba. Selena sabia muito bem que tinha isso e viu duas de
suas irmãs morrerem por serem transformadas em pedra
figurativa . Ela também sabia que era terminal e não havia
nada para ser feito. Seu corpo entraria em um estado rígido
de paralisia incompatível com a vida.

São estatuas de pedras ‘esculturas’ de formas humanas.

91
Ela estava sem tempo muito antes de ele a conhecer.

Havia um monte de coisas sobre sua vida que ele mudaria.


Conhecê-la não era uma delas, no entanto, mesmo com toda
a dor que havia trazido.

No final de tudo, quando ele estava sentado ao lado dela


e segurando sua mão, ele se lembrava de pensar que teria
trocado de lugar com ela em um piscar de olhos. Ele sempre
quis ser o único a sofrer em vez dela, e depois que ela se foi?
Ele percebeu que seu desejo havia sido atendido. Sua agonia
acabou—ou porque a merda do Fade realmente existia ou
porque ela estava simplesmente morta.

E o dele era permanente.

Então ele conseguiu o que pediu.

Esfregando os olhos, ele tentou sair da zona de sucção.


Ele falhou. Ele sempre falhava. Ele não sabia por que ele se
dava ao trabalho de lutar contra isso, além do fato de que cada
vez que ele voltava para esse momento em sua vida, na dela,
doia cada bocado tanto quanto quando tinha acontecido.

Ele podia imaginar a sala de exame como ele estivesse de

92
pé lá, a mesa no centro, as prateleiras de aço inoxidável, a
cadeira que tinham lhe dado. Após o pessoal médico tirar os
monitores fora, ele perguntou se sua rainha se era hora, se ela
estava pronta para ir, se precisava de ajuda. Ela tinha piscado
duas vezes em tudo isso. Sim. Ainda assim, ele teve que
perguntar novamente, apenas para ter certeza. Era o tipo de
coisa que ele precisava fazer direito. Quando ele tinha certeza
do que ela queria, o Dr. Manello tinham feito o dever com as
seringas, dando-lhe os medicamentos que a aliviariam quando
a morte chegasse e a reivindicasse. Trez não entendia então, e
não conseguia entender agora, o que era para ter todas as suas
faculdades mentais intactas, mas estar trancado em seu corpo,
incapaz de se mover, incapaz de se comunicar, incapaz de
fazer qualquer coisa além de esperar que a sua respiração e sua
frequência cardíaca diminuísse ... e depois parasse. O mais
aterrorizante era que a versão da paralisia de Selena não era
como a de um tetraplégico, onde a pessoa não sentia nada.
Com a Prisão, a doença bastarda que era, todos os seus nervos
funcionavam de maneira adequada e contínua. Ela sentiu
tudo, toda a dor, toda a asfixia, todas as repercussões das
falhas dos órgãos.

Antes que as coisas piorassem, eles conversaram sobre o

93
que ela queria. Sua rainha havia dito que quando chegasse a
hora, ela queria ajuda. Ela queria as drogas que trariam o fim
um pouco mais rápido e fácil. Ele se certificou de que ela os
recebesse.

E então ele segurou a mão dela enquanto seu irmão


segurava a dele e repetiu várias vezes: “Eu te amo para
sempre”.

De novo e de novo e de novo.

Ele soube o instante em que sua alma deixou seu


hospedeiro corporal e quebrado. Ele ainda não tinha idéia de
como sabia, mas sentiu isso em suas entranhas. E tão rápido
como a partida de sua essência, havia chegado a ele uma dor
paralisante e devastadora, como nunca havia sentido antes.

Selena tinha vindo visitá-lo uma vez desde então. Ou pelo


menos seu cérebro cuspiu uma ilusão muito boa dela, uma que
basicamente lhe disse tudo o que ele queria saber sobre ela
após a morte dela. E ele supôs que tinha conseguido uma
medida de paz temporária com isso. Mas não era o mesmo
que tê-la de volta. Nada era o mesmo.

E ela não voltou para ele. Foi assim que ele perdeu a fé na

94
vida após a morte.

Certamente, se ela estivesse em algum lugar do universo,


e ela pudesse vir vê-lo uma vez, ela iria fazê-lo novamente. Sua
shellan não o abandonaria em seu sofrimento. De jeito
nenhum.

Portanto, não restava mais nada dela.

Olhar fixamente para o pára-brisa coberto de neve do


BMW e não poder ver nada do outro lado o fez pensar em
Therese. Ele não tinha nenhum motivo real para ir ao
restaurante está noite. Ele não tinha motivos para tentar ver
essa fêmea, nunca—especialmente agora que ela havia
traçado uma linha tão firme sobre não sair daquela pensão. Eu
precisava deixá-la sozinha.

As semelhanças físicas amplificadas pela dor não não


faziam um relacionamento.

E, além disso, a dor era como a neve neste carro.


Cegando-o ao que estava ao seu redor, deixando-o frio e cego
para as verdades que ele estava vivendo. Ele estava
começando essa jornada de dor, a morte ainda era tão fresca e
não havia rampas de saída fáceis da estrada em ele estava. Pelo

95
que Mary tinha lhe dito, ele só precisava prosseguir com a
crença e compreensão que tudo ia ficar, se não melhor, pelo
menos, mais facilmente tolerável.

Não que ele achasse “mais facilmente tolerável” algo para


se esperar. Ele não encontrou nada para seguir em frente.

E perseguir a garçonete não contava como otimismo. Era


uma compulsão que beirava a ser psicótico.

Ele precisava cortar essa merda.

De volta ao Sal’s, Therese cruzou a sala de jantar principal


com um jarro em uma mão e um guardanapo de damasco na
outra. Quando ela se aproximou do vampiro macho que
estava sentado sozinho em frente à lareira, ele olhou para
cima, e ela quase tropeçou no tapete.

O que era esperado quando alguém viu um unicórnio.


Fora da natureza. Prestes a jantar sozinho em uma mesa para

96
quatro.

O macho era tão extraordinariamente bonito que seus


olhos tinham problemas para processar a visão completa de
seus traços faciais. Sua cor. Seu corpo incrivelmente grande.
Ele tinha cabelos loiros que eram grossos e pareciam naturais,
não coloridos. Suas maçãs do rosto eram altas e duras,
equilibradas pelo corte contundente de seu queixo. E ela se
recusava a olhar para os lábios dele, sua visão periférica lhe
fornecia o suficiente para ter uma idéia de como eles eram,
como se ela tivesse uma visão completa deles, seria como
olhar para uma bunda nua espetacular.

— Oi, meu nome é Therese. —Como sua voz guinchou,


ela limpou sua garganta. — Eu serei sua garçonete esta noite.

Ela se inclinou sobre a mesa dele, colocou o guardanapo


dobrado na borda do copo d'água e inclinou a jarra para que
um dilúvio de gelo e água caísse. O gerente, Enzo, exigiu que
todos os garçons e garçonetes fizessem o truque do
guardanapo, e no início, ela achava que era incrivelmente
pretensioso. Um par de água derramada depois, no entanto, e
ela estava agradecida pelo escudo que a protegia da água
espirrando.

97
— Está esperando que outras pessoas se juntem a você?
—Disse ela enquanto se endireitava. — Talvez um coquetel
para você passar o tempo …

Therese congelou e parou de falar. Seu único cliente da


noite a encarava com olhos arregalados, como se alguém
tivesse lhe dado um tapa no rosto incrível com um peixe frio.

Ela olhou por cima do ombro no caso da polícia vir pegar


de volta um pouco da sua beleza por ele ter violado a ordem
natural da vida. Ou talvez tenha sido um demogordon de
Stranger Things . Não, ninguém estava atrás dela. Talvez
houvesse algo errado com o uniforme dela? Ela olhou para si
mesma para ter certeza de que tudo estava no lugar certo
ainda, não que qualquer tipo de roupa desalojada pudesse
explicar a expressão de choque que ele estava mostrando.

Voltando a focar no cliente, ela segurou a jarra mais perto


do corpo. — Há algo de errado?

Demogorgon é a criatura do jogo Dungeons & Dragons (RPG de fantasia) que Will e seus amigos
combatem no início de Stranger Things. No primeiro episódio, é dado um indício bem claro do destino terrível que Will vai
enfrentar.

Stranger Things é uma série de televisão americana de ficção científica e terror criada, escrita e dirigida
pelos irmãos Matt e Ross Duffer. Os irmãos Duffer, Shawn Levy e Dan Cohen são os produtores executivos

98
O macho se sacudiu. Desviou o olhar. Olhou para trás. E
continuou a olhar.

Ok, então esse cara pode render uma boa gorjeta, ela
pensou, mas ele ia fazê-la ganhar o dinheiro extra apenas por
essa atitude estranha ...

— Sinto muito, —disse o macho o que era, é claro, uma


voz maravilhosamente rica e profunda. — Você apenas—
você me lembra alguém que eu conheço.

— Oh?

Não havia razão para se preparar para algum tipo de


cantada estranha. Por um lado, ele era extraordinário demais
para precisar de uma. Ela tinha certeza que ele podia espirrar
e fêmeaes e fêmeas viriam correndo apenas na chance externa
de que ele precisasse de um lenço. Por outro lado, pelo jeito
que ele parecia, você poderia rolar todas as supermodelos de
Dovima a Gigi Hadid em uma visão única e incandescente

Dorothy Virginia Margaret Juba, profissionalmente conhecida como Dovima, era uma modelo americana na década
de 1950.

Jelena Noura "Gigi" Hadid (nascida em 23 de abril de 1995) é uma modelo americana. Ela assinou com a IMG
Models em 2013. Em novembro de 2014, Hadid fez sua estréia no ranking das 50 melhores modelos no Models.com. Em 2016,
ela foi nomeada Modelo Internacional do Ano pelo British Fashion Council. Ao longo de quatro anos, Hadid fez 35 aparições
em capas de revistas internacionais da Vogue.

99
da feminilidade, e um cara como ele provavelmente só
apresentaria um oi-e-como-você-está.

O macho piscou algumas vezes.

— Sim, desculpe. É estranho.

— Bem, há um monte de fêmeaes por aí com longos


cabelos escuros?

— Sim. —De repente, ele sorriu, como se estivesse


determinado a mudar a primeira impressão estranha. — Eu
sou Rhage.

Como ele estendeu a mão, Therese olhou para ele. Então,


o pensamento das gorjetas e seu desejo de sair da casa horrível
que morava por seus próprios méritos, ela pensou: que diabos.

Sacudindo a mão que ele ofereceu, ela disse:

— Therese.

— Você trabalha aqui há muito tempo? —Ele perguntou


quando soltaram as mãos.

— Só um pouco.

— Você é de Caldwell?

100
— Não. Mudei-me para cá recentemente.

— Onde está sua família?

— Em casa, —ela limpou a garganta. — Então, você está


esperando por mais algumas pessoas? Ou irá comer sozinho?

O macho incrível sacudiu a cabeça. — Na verdade, eu


estou esperando a minha shellan.

Okay, wow, pensou Therese. Duas pessoas bonitas ao seu


nível nesta sala de jantar? Eles poderiam colapsar a gravidade
e sugar todos no restaurante, talvez toda essa parte da cidade,
para um buraco negro cheio de roupas de Tom Ford e
vestidos de Stella McCartney .

— Bem, você gostaria de um coquetel enquanto espera?

— Só água vai ser …

Thomas Carlyle "Tom" Ford (nascido em 27 de agosto de 1961 em Austin, Texas) é um estilista,
diretor, roteirista e produtor de cinema estado-unidense. Ford é bem-conhecido na indústria da moda por sua revitalização
da Gucci, que hoje é uma das marcas mais influentes do mundo. Relaciona-se, há mais de duas décadas, com o jornalista
Richard Buckley, ex-editor da revista Vogue, com quem é casado atualmente. Em 2005, Ford lançou sua própria marca "Tom
Ford". Ele dirigiu dois elogiados filmes, A Single Man (2009) e Nocturnal Animals (2016), o quais foram indicados ao Oscar.

Stella Nina McCartney OBE (Londres, 13 de Setembro de 1971) é uma estilista britânica, filha do ex-Beatle Paul
McCartney e da fotógrafa norte-americana Linda McCartney.

101
Seus olhos incrivelmente azuis dispararam para o lado, e
o sorriso que apareceu em seu rosto transformou o que havia
sido lindo em algo que desafiava qualquer descrição com
qualquer número infinito de palavras. E não foi apenas o rosto
dele que foi afetado. Seu grande corpo se levantou como se
estivesse operando de forma independente e sem o seu
conhecimento, seus joelhos colidindo com a borda da mesa,
sacudindo os copos, jogando a água que acabara de ser
servida.

Therese ergueu o corpo para cima quando ela se virou


para ver como sua shellan parecia. Sem dúvida, a fêmea ia ser
o tipo de coisa que faria outras formas de vida baseadas em
carbono da persuasão ovariana parecessem se trancar em uma
sala no escuro sem absolutamente nenhum espelho e três mil
kilos de Chocolate da Hershey ...

Therese recuou. A que tinha entrado no salão de jantar, e


estava tirando um casaco bastante prático de lã, era ... de
aparência normal. Tipo, não é atraente, mas não é
maravilhoso. A fêmea era pequena, com cabelos castanhos

Milton Snavely Hershey foi um confeiteiro americano e filantropo. Ele fundou a The Hershey Company.

102
sensivelmente cortados e tinha um rosto aberto e sem
maquiagem que, mesmo sem saber nada sobre ela, fez Therese
ter a sensação que poderia contar a ela tudo e qualquer coisa.

E ela não era uma vampira. Ela parecia meio humana, e


ainda havia algo mais acontecendo, embora fosse difícil
entender exatamente o que era.

Dando um passo para trás, Therese observou o belo macho


caminhar para frente e envolver sua companheira em seus
braços enormes. Enquanto ele enrolava seu corpo ao redor dela,
você juraria que eles haviam sido separados por uma década de
guerra.

— Eu senti sua falta, —disse o macho.

— Eu só vi você uma hora atrás, —a shellan murmurou


com uma risada.

— Eu sei. Tem sido um inferno.

Therese baixou os olhos por respeito quando os dois


disseram coisas fofas um para o outro e se sentaram à mesa.
O macho pegou a mão de sua shellan e apenas olhou através
dos copos, da porcelana, e dos talheres. Ficou claro que ele

103
não sabia onde estavam e não se importava, porque onde quer
que ela estava era a sua casa. E seu amor transformou aquela
fêmea calma e atraente em algo ainda mais bonito do que ele
era.

Therese observou-os por um momento, impressionada


com o que o amor pode fazer. Como poderia transformar.
Como poderia conectar. Como poderia elevar até aqueles com
a melhor aparência e os corações mais puros.

Ela nunca tinha pensado muito sobre acasalamentos.


Relacionamentos ao longo da vida. Machos, em particular. E
não porque ela era uma cínica . Ela estava muito ocupada
vivendo a vida para criar fantasias sobre seu futuro. Agora,
porém, ela tinha a sensação de estar encarando um milagre.

E a única coisa que veio à sua mente?

Aquele Sombra.

O que não fazia nenhum sentido ...

O cinismo (em grego antigo: κυνισμός kynismós, em latim cinicus) foi uma corrente filosófica fundada por Antístenes,
discípulo de Sócrates e como tal praticada pelos cínicos (em grego antigo: Κυνικοί, latim: Cynici). Para os cínicos, o propósito
da vida era viver na virtude, de acordo com a natureza. O primeiro filósofo a definir o cinismo foi Antístenes, ex-aluno de
Sócrates no final do século V a.C. Ele foi seguido por Diógenes de Sinope que levou o cinismo aos seus extremos lógicos e
passou a ser visto como o arquétipo de filósofo cínico, sua autarkeia (auto-suficiência) e a apatheia perante as vicissitudes da
vida eram os ideais do cinismo.

104
Abruptamente, ela se tornou consciente de que a shellan
dele estava olhando para ela com exatamente a mesma
surpresa que o Sr. Perfeito tinha.

Therese olhou de um lado para o outro entre eles. Então


ela levantou a mão em meio a um cumprimento.

— Um oi. Eu sou Therese, eu serei sua garçonete?

A shellan piscou algumas vezes.

— Claro que você é. Quero dizer, obrigado.

— Posso começar servindo a você um coquetel? —Você


precisa ver meu ID para saber que não sou uma pessoa desaparecida?
— Ou talvez o menu?

O sorriso da fêmea estava triste por um motivo que


Therese não conseguiu entender.

— Eu adoraria um copo de vinho branco. E como é


mesmo seu nome?

105
Capítulo 6

O shAdoWs era como todos os clubes na América. Você

tinha cantos escuros, lasers aleatórios, música em expansão e


muita bebida. O sexo e as drogas eram BYO , e na maior parte
do tempo, Trez deixava sua clientela sozinha nessas frentes.
Havia duas razões para isso: uma, quanto menos você os
incomodava, mais frequentemente voltavam e deixavam seu
dinheiro, e duas, ele realmente não dava a mínima—e isso tinha
sido verdade bem antes de ele ter amado e perdido sua rainha.

Olhando para a multidão agitada de seu escritório no


segundo andar, ele os observou através do tipo de vidro de
mão única que os psicólogos usavam para monitorar as
entrevistas de pessoas loucas. E isso fazia sentido. Os homens

BYOB ou BYO é um inicialismo e acrônimo referente ao álcool que significa "traga sua própria garrafa" ou "traga sua
própria bebida". Também significa frases semelhantes, como "traga sua própria cerveja" ou, quando relevante, "traga sua
própria bebida". Nesse caso: “traga sua própria droga”.

106
e fêmeaes abaixo, pilhados com estimulantes e, esfregando-se
uns aos outros, não eram pessoas que buscavam o normal, e
foi por isso que eles vieram para seu estabelecimento. A
maioria era jovem, mas todos estavam fora da faculdade se
alguma vez tivessem ido para uma, o requisito de idade de 21
anos para beber em Nova York que eliminando os alunos das
classes mais baixas. A maioria tinha empregos de baixo nível,
aqueles acima do servil, mas não muito. A maioria era de
locatários em grupos de dois e três. A maioria tinha DSTs
ou ia pegá-las assim que pularem na piscina de aventura de
uma noite na pista de dança.

Todos eles estavam desesperados por uma pausa do


estresse em suas vidas.

Sim, porque não havia nada como fugir dos seus erros
cometendo novos.

Trez deveria saber. Depois de suas duas décadas sendo


um executor em Caldwell, nada havia mudado, apenas os
rostos desses corpos jovens e talvez parte da política. E,

As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) são causadas por vários tipos de agentes. São transmitidas, principalmente,
por contato sexual sem o uso de camisinha, com uma pessoa que esteja infectada e, geralmente, se manifestam por meio de
feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas.

107
durante muito tempo, ele esteve lá com eles, e não apenas em
termos de segurança ou vendas de sexo ou drogas. Ele também
tinha participado das fêmeaes e das fêmeas. Foi uma distração
agradável, seja para as profissionais do sexo para quem ele
proporcionou um ambiente seguro ou para as fêmeaes que
vieram dançar e ver o que podiam ganhar. Ele sempre foi uma
coisa certa, e não apenas no clube. Em todo lugar. Ele fez sexo
com agentes imobiliárias, advogadas, contadoras fiscais,
personal trainers, paisagistas, lavadeiras, mecânicas,
cabeleireiras ...

E apesar desse histórico, ao olhar para a multidão, ele não


viu nada de interessante. Havia muitas fêmeaes bonitas lá
embaixo, a maioria delas meio vestidas e quadris articulados,
com vontade escrita por todas elas. Mas para ele eram outras
espécies, e não apenas porque eram principalmente humanas.
Ele não faria mais sexo com elas, como faria com um
lobisomem ou uma caixa de correio.

Deixar de lado seu vício em sexo tinha sido fácil. Deixar


de lado o que tinha tomado o seu lugar, sua Selena, era
impossível.

Lá embaixo, o padrão aleatório da multidão de moagem

108
mudou abruptamente e encontrou uma coesão que raramente
acontecia, corpos se juntando para abrir caminho. Alguém
tinha entrado no clube e estava andando pelo meio das
pessoas—e quem quer que fosse, as pessoas estavam saindo
do seu caminho com pressa, se separando como o Mar
Vermelho dos Fuckboys e o Casual Lays .

Trez reconheceu a figura imediatamente. Além disso,


como qualquer outra pessoa na costa leste do país, ele usava
um casaco de zibelina até o chão, e carregava uma bengala que
servia de arma? Rehvenge estava de volta ao seu elemento,
passeando pelo clube como se fosse dono, seu Mohawk e

De acordo com a etimologia da palavra fuckboy, de fuck (para ter relações sexuais) e menino (como menino), são
pessoas que procuram "se relacionar" com uma única tarefa: sexo.

Eles usam a marca de batatas Lay de forma coloquial: uma batata frita crocante e saborosa, ideal
para compartilhar ...

O casaco foi feito com pele de zibelina e tem efeito metálico — o que não significa que tenha
perdido a sua textura. A zibelina é encontrada nas florestas da Rússia e da Sibéria. O preço final ainda não está completamente

definido, já que pode variar conforme as exigências da cliente. A zibelina (nome científico: Martes zibellina) é de
uma espécie de marta castanho-escura da Europa setentrional e partes do Norte da Ásia, um dos mais valiosos animais
produtores de pele. Em algumas classificações, a zibelina é classificada dentro do género Mustela.

Cabelo de corte moicano

109
seus olhos de ametista, nada que nenhum dos clubbers já
tivesse visto antes, a aura de não-foda-comigo, exatamente o
tipo de coisa que seus instintos de sobrevivência reconheciam
como uma pista para o skidoo .

Trez recuou da parede de vidro e foi até a porta do


escritório. Quando ele saiu e desceu as escadas, ele não
conseguia pensar por que seu antigo chefe estava fazendo um
“estou de volta”, especialmente em um clube. Rehv havia
encenado sua própria morte há alguns anos em uma explosão
espetacular, apagando a identidade que cultivara como
traficante de drogas e dono do clube no local. Por que a
ressurreição?

No chão, Trez contornou a base da escada enquanto Rehv


atravessava a última massa de pessoas.

— Fantástico vê-lo aqui. —Trez murmurou enquanto eles

Clubber, termo em inglês, atribuído a pessoas que frequentam danceterias, que foram comuns nos
anos 90, ajudou a elevar o Techno ao mainstream e a movimentar a vida noturna pelas grandes metrópoles. Conhecidos por
seus vestuários peculiares e atitudes positivas.

Ski-Doo é uma marca comercial de snowmobile fabricada pela Bombardier Recreational Products. A marca
pessoal de snowmobile da Ski-Doo é tão icônica, especialmente no Canadá, que foi listada em 7º lugar na lista The Greatest
Canadian Invention da CBC em 2007.

110
se encontraram face a face.

Rehvenge não era apenas um vampiro comum. Ele era


um symphath, e não apenas um Joe Schmoe . Ele era o rei do
território, governante de uma subespécie que fazia os
sociopatas parecerem educadores focados na família. Então,
sim, ele era tão perigoso quanto parecia.

— Meu homem. —Disse Rehv enquanto se abraçavam,


batendo as palmas nas costas.

— O que te traz para o centro das atenções?

Rehvenge olhou em volta.

— Apenas verificando o lugar.

— Besteira.

O sorriso que veio sobre aquele rosto ligeiramente


maligno era duro. — Eu não sou bem-vindo aqui?

— Você sabe que não é o caso. —Trez acenou com a cabeça

Joe Shmoe (também escrito Joe Schmoe e Joe Schmo e "Yo Hschmo"), que significa 'Joe Anybody', ou ninguém em particular, é uma das
ficcionais mais comumente usados nomes em Inglês Americano. A adição de um "Shm" ao início de uma palavra visa diminuir, negar ou descartar
um argumento (por exemplo, "chuva, mantenha-se, temos um jogo para jogar"). Também pode indicar que o falante está sendo irônico ou
sarcástico. Esse processo foi adaptado em inglês a partir do uso do prefixo "schm" em iídiche para descartar algo; como em "Fantasia,
schmancy". (Negando assim a afirmação de que algo é chique). Enquanto " schmo Alguns linguistas pensavam que" ("schmoo", "schmoe") era
um recorte de" schmuck "ídiche, uma etimologia apoiada pelo Oxford English Dictionary, que a derivação não é universalmente aceita.

111
para a multidão, a maioria dos quais estava conferindo o
symphath com fascínio mal disfarçado—e só Deus sabia quantos
telefones que estavam discretamente esgueirando fotos ou um
vídeo. — Você está obtendo muitas visualizações, só isso. A
análise de custo-benefício geralmente não existe para você.

— Eles não se lembrarão de mim.

— Não com sua ajuda, eles não vão.

— Eu vou lidar com isso. —Rehv acenou com a cabeça


para as escadas dos fundos. — Você tem tempo para falar?

— Depende do assunto.

— Bom, eu agradeço por você ter tempo.

Rehv passou por ele, como qualquer conversa que Trez


provavelmente desejasse evitar tivesse sido agendada no
calendário social com um Sharpie .

Ótimo. Fodidamente fantástico.

Enquanto Trez seguia o líder, ele se lembrava do jeito que

A Sharpie é uma empresa fabricante de canetas com sede em Downers Grove, Illinois, Estados Unidos,
foi fundada em 1957, atualmente de propriedade da Newell Brands.

112
as coisas tinham sido, Rehv no comando, Trez e iAm
trabalhando para manter o filho da puta vivo enquanto ele
fazia seus negócios sujos com a Princesa. Por falar em coisas
feias. Deus, naquelas noites horríveis, Rehv subindo até
aquela cabana na floresta com sacolas de rubis compradas
com o dinheiro que ganhava com a venda de drogas e, o
macho entregando aquelas pedras preciosas antes de ter que
dar seu próprio corpo para aquela maldita cadela. Trez sempre
o seguiu no éter, ficando escondido, para que depois que fosse
feito, ele pudesse pegar Rehv do chão sujo e ajudá-lo a voltar
para casa. O macho sempre esteve tão doente, o contato com
aquela princesa o deixou doente, e não apenas porque ele
desprezava a fêmea e se odiava ainda mais por fazer o que
precisava. Ela tinha sido veneno para ele. Literalmente.

Instantaneamente, Trez pensou em iAm, mentindo entre


dentes sobre estar bem.

Talvez fosse bom que Rehv tivesse chegado. Talvez o


symphath soubesse o que diabos estava acontecendo com seu
irmão. iAm sempre foi o tranquilo, e ele encontrar seu amor
por maichen não tinha afrouxado seus lábios. Mas Rehv era
conhecido por tirar as coisas do cara—quer iAm gostasse ou

113
não. Esse era o problema dos symphaths. Esconder algo deles
era um jogo perdido.

De volta ao escritório, Trez se sentiu um pouco estranho


sentado atrás da mesa. Por tanto tempo, Rehv foi o
responsável. No entanto, ele parecia perfeitamente confortável
em estar do lado subordinado das coisas.

— Então. —Disse seu ex-chefe. — Como você está?

Trez estreitou os olhos.

— Isto não é sobre iAm?

— iAm? Por que, o que está acontecendo com ele?

— Então você não veio por causa dele.

Quando Rehv balançou a cabeça lentamente e não foi


mais longe, Trez quis xingar.

— Tudo bem, então vamos jogar o jogo de fixar a cauda


no intrometido. Quem te colocou nisso? Foi meu irmão?

Talvez fosse por isso que iAm estivesse distraído no


restaurante.

E, enquanto Trez se divertia com uma imagem de si

114
mesmo no semáforo, contemplando o suicídio no carro novo
que não tinha feito nada para elevar seu humor, ele se recusou
a pensar que seu irmão poderia ter motivos para se preocupar.
Afinal, a vida de Trez era dele para destruir, droga. Ninguém
mais era bem-vindo naquela mesa.

Quando Rehv balançou a cabeça novamente, Trez


considerou outros prováveis denunciantes.

— Oh, então foi Mary, hein. Quero dizer, ela é a terapeuta


residente, embora eu não tenha estado perto dela o
suficiente—espere, foi Xhex? Sério?

Ele teria assumido que sua chefe de segurança era muito


dura para puxar reforços se ela estivesse preocupada com ele.
Ela era mais do tipo de dar na cara dele e não se mover. Mas
ele estava tão mal que até ela ficou assustada com a ideia de
falar com ele ...

— Não, foi Beth, —Trez bateu em sua coxa. — Foi por


causa da noite de cinema na semana passada. Ela queria que
eu fosse e me perguntou duas vezes. Eu não apareci e ela
parecia preocupada. Ou talvez fosse mais como chateada.

— Beth está chateada com você?

115
Então não foi ela.

— A Rainha não disse nada para mim. Não sei se ela está
preocupada ou não.

Trez desviou o olhar, revendo mentalmente o elenco de


personagens da casa. Bem, merda. As únicas pessoas que ele
podia descartar eram os doggen. Fritz e sua equipe nunca
seriam tão presunçosos a ponto de sugerir uma mudança de
guarda-roupa a alguém a quem serviam, e muito menos
formar um consenso sobre a estabilidade mental de uma
pessoa. Ou falta dela.

— Olhe. —Ele trincou fora. — Você vai continuar com


isso? Sem ofensa, mas tenho negócios para cuidar.

Na verdade não, o clube funcionava sozinho. Ele teve que


jogar quais cartas ele tinha, no entanto.

À medida que o silêncio se estendia, Trez fez um


inventário de seu antigo chefe. Os olhos roxos de Rehv eram
totalmente nivelados, a cor lembrando Trez do GTO de

Carro Gto Antigo V8 Pontiac

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Rhage. E entre aquele corpo enorme, e toda aquela pele, a
cadeira que normalmente era perfeitamente grande o
suficiente para qualquer um que se sentou nela parecia um
móvel de uma casa de bonecas. Pior, quando o rei dos
symphaths ficou sentado ali, batendo a bengala entre os
joelhos, o terno branco e a camisa branca como se tivesse
usado a tempestade dentro de casa, o macho parecia contente
em sair no mau tempo. Até agosto.

— O quê? —Trez sentou-se à frente e brincou com dois


relatórios de contas a pagar. — Podemos acabar logo com
isso.

— Ehlena mandou dizer oi.

— E você veio até aqui para me dizer?

— Bem, nem tudo tem que ser por mensagens de texto.


Você já ouviu falar sobre as preocupações com a privacidade?
Smartphones são maus.

— Foda-se, —disse Trez em uma voz exausta. — Sem


ofensa.

Rehv se levantou e caminhou até a parede de vidro, o

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casaco de zibelina arrastando atrás dele, a bengala brilhante
piscando nas luzes fracas de cima. Enquanto Trez observava
seu velho amigo, ele percebeu que tinha sido muito tempo
desde que ele tinha saído com o homem. Ambas as vidas
mudaram tanto, embora apenas Rehv esteja melhor.

— Você sabe que ainda estou usando dopamina , certo?


—Rehv disse enquanto ele angulava sua visão para baixo em
direção à pista de dança.

Trez girou a cadeira para poder encarar o macho. — Eu


realmente não tinha pensado sobre isso de uma forma ou de
outra. Estive muito ocupado interpretando como seria me afogar, ele
acrescentou a si mesmo. A merda fica tão agitada durante a
temporada de Natal humana, você não sabe.

Mas, como ele considerava seu ex-chefe, ele supôs que o


cara ainda estivesse no molho, por assim dizer. Sabe-se que os
symphaths envolvem coisas como as emoções de outras
pessoas, e nunca de um jeito bom, nunca de uma forma
terapêutica e solidária, mais como uma maneira de empurrar-

A dopamina é um neurotransmissor monoaminérgico, da família das catecolaminas e das feniletilaminas que


desempenha vários papéis importantes no cérebro e no corpo. Os receptores de dopamina são subdivididos em D1, D2, D3,
D4, e D5 de acordo com localização no cérebro e função. Ela é conhecida como o neurotransmissor do prazer. Sua função
principal é ativar os circuitos de recompensa do cérebro, mas também desempenha outras funções menos conhecidas. A
dopamina age tanto ativando quanto inibindo a atividade cerebral em função do lugar em que é liberada.

118
você-fora-do-seu-limite. Eles eram uma subespécie para quem
você não queria mostrar sua fraqueza, embora o preconceito
ao qual eles tinham sido submetidos não tinha sido certo,
também.

Quando Rehv tinha que estar mais no mundo, ele tinha


tomado dopamina como uma maneira de se regular para que
seu lado ruim permanecesse em sigilo e sua verdadeira
identidade permanecesse escondida. Tinha sido a única
maneira de ele parecer que era o mesmo que todos os outros.
E depois que ele foi acasalado? Aparentemente, ele continuou
usando as coisas.

Trez deu de ombros. — Acho que estou um pouco


surpreso que você ainda está usando. Quero dizer, todo
mundo sabe o que você é. Todo mundo que importa, sabe.

E mais do que isso, ele forjou uma aliança política com


Wrath. Ele estava super seguro.

— É mais profundo do que suprimir a minha identidade.


— Rehv murmurou. — Meus instintos são muito mais
controláveis agora, é verdade. Meu amor por Ehlena é
responsável por isso. Assim como o meu relacionamento com

119
Wrath e a Irmandade. Eu sou o que sou, no entanto, e se eu
vou viver a minha vida mais plena com a minha shellan e
aliados, quero poder me concentrar em outras coisas além de
apenas reduzir meu lado difícil.

— Okay.

Trez apertou os molares. Ele não tinha idéia de onde isso


estava indo, e o fato de ele realmente não se importar parecia
mais uma coisa a acrescentar à sua longa lista de perdas. Ele e
Rehv passaram por muita coisa para ele empurrar o cara para
fora, especialmente porque Trez não conseguia se lembrar de
quando eles se sentaram juntos pela última vez. No entanto, o
luto mudou suas prioridades.

Então pensou nele sentado em seu BMW, lá fora, no frio,


enterrado na neve.

— Então, eu estava conversando com minha Ehlena, —


continuou Rehv, — sobre algumas opções farmacêuticas para
você.

Trez deu um pulo para a frente. — Desculpe?

— Eu queria ver se você poderia obter alguma ajuda. —

120
Os olhos de ametista Rehv giraram. — Para ver se você pode
encontrar algum alívio, como eu tenho.

Uma raiva irracional enrolado no intestino de Trez.

— Eu não sou um symphath.

— Você está sofrendo.

— A porra da minha shellan morreu. Você acha que eu


deveria estar em festa?

— Eu sei onde você está indo, —Rehv disse calmamente.

— Trabalhar aqui todas as noites. Sim. Então …

— Em sua mente, —Rehv tocou o centro de seu peito. —


Symphath, lembra? Eu posso ler sua grade. Você está piorando
e não melhor ...

Trez ficou de pé e foi para a saída, abrindo a porta. — Eu


tenho que voltar ao trabalho. Obrigado pela visita. Diga a
Ehlena oi ...

A porta se fechou com força, a maçaneta arrancada de sua


mão, as luzes piscando por todo o escritório.

Com uma voz baixa e maligna, Rehv disse: — Sente-se,

121
porra. Essa conversa não é uma via de mão dupla.

Trez girou ao seu redor. Seu ex-chefe, um de seus


melhores amigos, foi aparecendo ao lado da mesa, com os
olhos roxos piscando, o enorme volume de seu corpo parecia
ter ficado ainda maior. Era um lembrete de que, embora o
grande bastardo fosse um macho feliz e acasalado, Rehv ainda
era o tipo de força que você não queria atravessar.

— Eu sei para onde você está indo, —disse Rehv com


aquela voz symphath. — Descer pelo rio. Eu sei o que você
pensa quando está ao volante do seu carro. Eu posso ver sua
grade emocional entrando em colapso e estou muito ciente do
seu repentino gosto pela porra de água fria.

Bem, Trez pensou. Colocando as coisas assim, o que ele poderia


dizer? Disneyland?

Rehv apontou sua bengala para Trez.

— Você acha que eu tenho algum interesse em viver o


resto das minhas noites em arrependimento depois de tudo
que eu tive e perdi e não fazer nada? Huh? Você acha que é um
fardo que eu quero amarrar e carregar comigo até morrer?

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Trez xingou e andou de um lado para o outro. Em sua
segunda viagem ao banheiro, ele se viu desejando que seu
escritório fosse grande como um campo de futebol.

— À luz do modo como uso a dopamina, —continuou


Rehv, — fui até Ehlena e perguntei se havia algo que pudesse
ajudá-lo. Um antidepressivo. Ou o que estou tomando. Eu não
sei, porra. Eu não sei como isso funciona. Ela disse que você
deveria falar com ela e Jane ...

— Não! —Trez colocou as mãos na cabeça e rezou para


não ter outra de suas enxaquecas. Segurar a vontade de gritar
era um gatilho infernal. — Eu não vou usar algum tipo de
droga.

— ... para ver quais são suas opções, —Rehv ergueu a voz,
falando diretamente sobre os protestos. — E fazer uma
avaliação. Elas podem ser capazes de ajudá-lo.

Trez sentou-se no sofá porque não confiava em si mesmo


para não tentar empurrar Rehv através do vidro atrás da mesa.
Então, novamente, não havia possibilidade dele fazer um
ataque furtivo. Aquele symphath filho da puta sem dúvida
sabia que ele havia mudado de suicida para homicida, e havia

123
apenas mais uma sacola de moléculas à base de carbono na
sala para direcionar esse impulso.

— Ouça-me, —disse Rehv com uma voz mais suave. —


Todas aquelas noites que eu tive que ir até aquela cabana, você
estava comigo. Você estava lá. Você me protegeu e salvou
minha vida muitas vezes para contar.

— Eu te devia, —Trez rebateu amargamente. — Eu


estava pagando minha dívida.

— Isso não era tudo o que havia nisso. E não minta só


porque você está chateado comigo por apontar em sua merda.
Eu posso ler sua grade.

— Por favor, pare de dizer isso.

— É a verdade.

— Eu sei que e é por isso que eu não quero ouvir isso, —


Trez o olhou, — eu entendo que você pensa que está
ajudando, e obrigado por isso. Mas eu só quero um pouco de
privacidade, okay?

— Então você pode se matar em paz?

— É minha vida para tirar, —disse ele grosseiramente. —

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Você tem sua própria vida e é uma boa vida. Você vai superar
isso.

As sobrancelhas de Rehv levantaram com força.

— Como você está superando Selena tão bem? Como está


aquela festa que você está dando, para emprestar sua frase?

— Ela era minha shellan. Eu era apenas um amigo para


você.

— Besteira. Você é minha família. Você é o irmão de


sangue de iAm. E você também é da família de um monte de
gente que sofreria como o inferno se algo acontecesse com
você. E corte a merda com o passado tenso, idiota. Você ainda
está respirando—pelo menos até eu lhe dar algum sentido em
você.

Trez sustentou aquele olhar púrpura, que estava tão


zangado quanto ele próprio estava se sentindo, e como ele
considerava onde ambos estavam, ele estava realmente feliz
por não terem tirado suas armas. Ainda.

Exceto então que ele riu ... ou Jesus, talvez fosse mais uma
risadinha.

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E a leviandade veio de Deus só sabia onde. Em algum
lugar ainda mais profundo que sua dor, ele supôs. Mas, como
o som totalmente inapropriado surgiu em sua garganta, ele
não teve a menor chance no inferno de mantê-lo dentro.

— Você tem uma grande habilidade com intervenções, —


disse Trez, enquanto tentava tossir para ser sério novamente.
— Quero dizer, existe a versão amorosa, e há a versão
symphath. Você acabou de me chamar de idiota enquanto tenta
não me dar um tiro na cabeça?

O sorriso de Rehv foi lento.

— Eu nunca prometi ser bom em coisas interpessoais.

— Deixe-me dizer, você é péssimo nisso. Acredito que


você também acabou de me ameaçar com lesões corporais.

— Eu teria enviado Mary, que é uma profissional, mas


você teria dado um abraço nela e depois saído fora.

— Verdade.

— Então você tem que lidar comigo. Sinto muito, mas


não.

Trez olhou para suas mãos quando seu humor mudou

126
longe de qualquer leviandade. Mas pelo menos ele não voltou
para a raiva.

— Então minha grade não parece boa, hein. Não sei por
que eu tenho que perguntar. Estou vivendo isso.

— Eu não quero que você faça algo estúpido. Isso é tudo.

— Você sabe o que é loucura ... mesmo com tudo isso? Com
tudo o que aconteceu depois que minha Selena morreu? Não me
arrependo de estar com ela. Mesmo que ela se foi e dói como o
inferno ... e não há fim à vista? Não me arrependo de nada.

Rehv se aproximou e sentou-se no sofá.

— Escute, não sei mais como ajudar. Essa é a razão pela


qual eu vim. Eu não quero que você pense que é um fracasso
se você tomar alguns remédios. Olhe para mim. Sou o garoto
propaganda de uma vida melhor através da química.

Trez sacudiu a cabeça para trás e para frente. — Eu


simplesmente não me importo. Sobre qualquer coisa
realmente.

Rehv estendeu a mão e Trez sentiu o peso da mão pesada


do macho em seu ombro. — Mas eu me importo. E é por isso

127
que estou aqui.

Capítulo 7

Três costelas de carne bovina. Cortes completos, não as


coisas de princesa. Dois pratos de osso buco . Um prato de
pappardelle com porco e um pedido de scarpariello de

O Ossobuco é um prato tradicional italiano da região da Lombardia, em especial da cidade de Milão. O nome
deste chambão de vitela à italiana significa literalmente "Osso buraco". A explicação desta designação é simples: no norte da
Itália o chambão de vitela é cortado em rodelas juntamente com os ossos.

Pappardelle é um tipo de massa cortada em tiras largas, similar a um fettuccine mais largo, geralmente
servido com molho à base de carne. O nome deriva do verbo “pappare” que em italiano significa engolir. A massa fresca tem
13 mm de largura e é feita com farinha, ovo e sal. É originário da região da Toscana.

Prato feito com frango, batatas e legumes refogados. A palavra scarpariello deriva de "scarparo", ou seja,
sapateiro, ou "pequeno sapateiro" em napolitano, um comércio que muitos realizavam naquela época em Nápoles. Uma
receita muito rápida, criada para permitir que os sapateiros preparassem um prato de massa mesmo com pouco tempo
disponível.

128
frango. Sete acompanhamentos diferentes, incluindo
rollatini , risoto e polenta—bem como um prato único e
desconexo de ervilhas que o macho havia explicado eram para
as fibras.

Embora nessa teoria, Therese tenha decidido, enquanto


calculava a conta, a pequena tigela lateral era uma gota em um
balde, nada que faria alguma diferença no cólon do sujeito.

De pé na caixa registradora automatizada, ela percebeu


que não havia feito os aperitivos. Certo, então o macho tomou
a sopa de minestrone . Uma salada caprese —mais fibra lá, na
verdade. A variedade de antipasto e os crostini . Espere,

Rollatini é um prato de estilo italiano que geralmente é feito com fatias finas de berinjela, que são
polvilhadas com farinha de trigo ou levemente à milanesa e cobertas com ricota e muitas vezes outros queijos e temperos,
depois enroladas e assadas.

Minestrone é uma sopa italiana composta por uma grande variedade de legumes cortados e, quase sempre,
arroz ou macarrão. Os ingredientes mais usados são tomate, feijão, cebola, cenoura, aipo e batata. Não existe uma receita
específica para o minestrone, que pode ser feito com quaisquer legumes que estejam em época.

A salada Caprese é uma salada italiana simples, feita de mussarela fresca fatiada, tomate e manjericão,
temperada com sal e azeite de oliva, ocasionalmente emparelhada com rúcula. Geralmente é organizado em um prato na
prática do restaurante.

Antepasto significa "antes da refeição" é o conjunto de iguarias servidas antes da refeição. É tradicionalmente
o primeiro prato na gastronomia italiana formal e inclui carnes curadas, azeitonas, alho assado, pepperoncini, cogumelos,
anchovas, corações de alcachofra, queijos diferentes e peperone.

Crostini é um aperitivo italiano que consiste em pequenas fatias de pão grelhado ou torrado e coberturas. As
coberturas podem incluir uma variedade de queijos, carnes e vegetais diferentes, ou podem ser apresentadas mais simplesmente
com uma escova de azeite e ervas ou um molho.

129
também a bruschetta . Isso foi tudo? Ela tinha certeza. E a
sobremesa? Ele teve o tiramisu , cannoli , tartufo e
profiteroles .

— Acho que foi tudo. —Ela disse para si mesma. —


Agora, ela tinha ...

— Não se preocupe com isso.

Therese saltou e olhou por cima do ombro. Quando ela

Bruschetta é um antepasto italiano feito à base de pão, que é tostado em grelha com azeite e
depois esfregado com alho. Há diversas variações.

O tiramisù [tiramiˈsu] (em vêneto, tirame-sú ; em italiano, tirami su, de tira + mi + su: "levanta-me" ou
"puxa-me para cima", assim chamado por ser muito energético) é uma sobremesa tipicamente italiana, possivelmente
originária da cidade de Treviso, na região do Vêneto, e que consiste em camadas de biscoitos de champagne, também
chamados de biscoitos tipo inglês ou palitos a la reine (ítem este que pode ser substituído por pão de ló) embebidas em café
(confeiteiros/as profissionais geralmente dão preferência ao uso do café solúvel, tipo Nescafé, por ele permitir maior precisão
no controle da receita) entremeadas por um creme à base de queijo mascarpone, creme de leite fresco, ovos, açúcar, vinho
do tipo Marsala e polvilhadas com cacau em pó e café. Mas a receita original comporta muitas variações.

Cannoli é uma sobremesa proveniente da Sicília, que consiste em uma massa doce frita, em formato de
tubo, recheada com um creme de ricota. Os cannoli são bem populares na cozinha italiana, Estados Unidos e entre
descendentes de italianos do Sul da Itália.

Tartufo é uma sobremesa italiana de sorvete proveniente de Pizzo, Calabria. Geralmente é composto por
dois ou mais sabores de sorvete, geralmente com calda de frutas ou frutas congeladas - geralmente framboesa, morango ou
cereja - no centro.

Profiterole é uma sobremesa feita com uma massa açucarada recheada com cremes, sorvetes e
caldas de acordo com a preferência do consumidor. O doce é bastante popular na França, país no qual foi considerado uma
iguaria real em meados do século XVI.

130
viu quem era, ela quase deixou cair o bloco de pedidos.

— Oh, Chef. —Ela inclinou a cabeça. Em seguida, curvou-


se totalmente. — Sinto muito, Chef.

Ela não tinha ideia porque diabos estava se desculpando.


Mas ela estivera atrasada e precisava desse emprego, e mesmo
que o chefe da casa administrasse os garçons—quando uma
tempestade não o mandava para casa no início do
expediente—esse era o grande chefe, o homem responsável.
iAm irmão de sangue de Trez. O homem sorriu um pouco,
mas a expressão não durou mais do que um batimento
cardíaco em seu belo rosto escuro. Ela tinha a sensação de que
ele não gostava dela, mas ele nunca foi mau, e ela nem tinha
certeza se era pessoal. Ele era uma presença silenciosa na
cozinha, ao contrário dos tipos estereotipados de máster-chef
que trovejavam, com o rosto vermelho e gritando—e, de
alguma forma, o silêncio era mais poderoso, mais
intimidador.

— Eles são cortesia. —Disse ele enquanto acenava para a


sala de jantar, para o casal que Therese estava servindo
durante as duas horas que o hellren levara para fazer parte do
clube dos pratos limpos.

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Com uma rápida onda de compostura, ela escondeu sua
decepção, aquela gorjeta que ela esperava ansiosa acabou por
fazer poof.

— Claro. Certamente, Chef.

— Você pode sair depois que eles terminarem.

— Oh. Okay. Obrigado, Chef.

iAm fez uma pausa, e ela se preparou para um comando


para não vir na noite seguinte ou em qualquer outra noite
seguinte. Porque ela se atrasara duas vezes. E porque ... o que
mais ela fez de errado em qualquer turno em que já esteve, em
qualquer posição que já ocupou, voltando ao momento de seu
nascimento.

Não que isso tenha sido uma catástrofe. Em absoluto.

— Ouça, —disse ele, — sobre o meu irmão …

Therese estava ciente de que seu coração parou e sua


respiração ficou presa na garganta.

— Sim?

— Ele é ...

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— Ele é o quê?

Por alguma razão, ela queria saber o que havia a seguir


com um foco obstinado que se aproximava do vício.

Exceto que iAm sacudiu a cabeça.

— Esqueça o que eu disse. Apenas termine aqui e vá para


casa.

Antes que ela pudesse se conter, ela estendeu a mão e


tocou o braço dele.

— Você pode me dizer. Seja o que for.

— Não é minha história, e isso é apenas parte do


problema.

iAm se virou e voltou para a cozinha. E enquanto ela o


observava ir, ela queria persegui-lo e fazê-lo falar com ela. Mas
esse não era o lugar dela, e não porque ela era apenas uma
garçonete. Você não se metia entre irmãos. Ela viveu isso em
primeira mão com o próprio irmão.

Para não escorregar pela ladeira de arrependimento e


recriminação, ela cancelou a transação da registradora, enfiou
seu bloco de pedido em seu meio avental, e dirigiu-se para a

133
única mesa ocupada. Ela não tinha certeza de onde Emile
estava. O casal que ele estava atendendo já tinha ido embora,
que era o que acontecia quando você acabava de comer uma
entrada, e uma sobremesa. Ao contrário de quatro pratos
principais, dezessete entradas e todo o menu de sobremesas.

Quando ela chegou à mesa, o homem loiro e a fêmea


humana olharam para ela com expectativa.

— O Chef tem o prazer de dar-lhes como cortesia a sua


refeição, —disse Therese. — Com os melhores cumprimentos.

O macho sacudiu a cabeça. — iAm não tem que fazer isso.


Onde ele está?

— Eu acredito que o chef está na cozinha. Gostaria que eu


o chamasse para você?

— Não, está tudo bem. Ele provavelmente está


trabalhando.

— Há mais alguma coisa que eu possa conseguir para


vocês dois?

— Estamos tão cheios. Até mesmo ele. —A fêmea sorriu,


e inclinou a cabeça. — Diga-me, de onde você é?

134
— Michigan.

— Então você está acostumada com os invernos longos e


frios. —Disse o macho.

— Sim, eu estou.

— E o que a trouxe a Caldwell? —A shellan perguntou.

Therese encolheu os ombros através da dor que


atravessou seu peito. — Eu senti que precisava de uma
realocação.

— Caldwell é um lugar maravilhoso para se viver, —a


fêmea sorriu. — Você conhece alguém aqui?

— Na verdade não. Mas tudo bem. Estou apenas me


estabelecendo ainda.

— Bem, lembre-se de ser gentil consigo mesma. As


transições são difíceis, mesmo quando elas são emocionantes.

Foi quando ela olhou nos olhos da fêmea que ela


entendeu a atração do macho. Ela entendeu totalmente. Havia
algo incrivelmente sábio e bondoso sobre a shellan, uma
profundidade de conhecimento e compreensão que
transcendia o físico e a fez resplandecente.

135
— Eu faço o que posso, —Therese se ouviu murmurar. —
De qualquer forma, tenham cuidado nessa tempestade,
mesmo que você não esteja dirigindo.

— Obrigada. Você também.

O macho indicou a mesa com a palma larga. — E


obrigado por trabalhar tão duro para nós.

— Meu prazer. Cuidem-se.

Therese deixou o par se sentindo derrotada. Seus salários


por hora eram baixos, como era de se esperar. As gorjetas
eram onde estava o dinheiro. Mas seu humor repentinamente
triste era mais do que a falta de gorjeta. A idéia de voltar para
aquela pensão a fez querer chorar, embora a culpa fosse dela
mesma, não era. Ela teve outra opção. Apenas esperando por
ela.

Exceto que ela recusou. Por orgulho. E pelo fato de que


qualquer coisa que tivesse a ver com Trez era complicado
mesmo que parecesse simples.

A atração dela era o problema.

Se escondendo atrás do bar, ela pensou que esperaria o

136
casal sair, limparia suas xícaras de café e copos de água, e
então se arrastaria de volta para o buraco do inferno. Yay.
Excitação.

Ela passou um tempo tirando alguns jarros dos armários


sob o distribuidor de água, limpando ao redor da bancada,
limpando a superfície da caixa registradora. O silêncio do
restaurante parecia cercá-la, segui-la, ficar por perto, um
stalker que se escondia nas sombras. E com seus instintos
disparando sem motivo, seus olhos percorreram o bar vazio
atrás dela, a recepção estava vazia, a outra, a sala de jantar
estava completamente vazia.

Inquieta. Tão inquieta e ansiosa por nenhuma justificativa


que ela poderia pensar.

Será que ela queria voltar para a pensão? Não. Ela queria
ser normal em torno daquele Sombra? Sim. Ela se perguntou
o que o irmão de Trez ia dizer? Absolutamente.

Mas nada disso explicava seu persistente senso de


preocupação:

Stalker é uma palavra inglesa que significa "perseguidor". É aplicada a alguém que importuna de forma insistente e
obsessiva uma outra pessoa que, em muitos casos, é uma celebridade. A perseguição persistente pode levar a ataques e
agressões.

137
— O Chef disse que eu poderia ir agora.

Therese tentou esconder seu salto de surpresa.

— Oh, Emile. Sim, eu também. Bem, assim que eles


sairem.

Ela se inclinou para fora do bar. O casal ainda estava lá.


O macho tinha alcançado outro lado da mesa e pego a mão de
sua shellan. Ele estava olhando em seus olhos, seu rosto
extasiado, um sorriso suave em seus lábios perfeitos.

— Eles estão realmente apaixonados, —disse Emile.

— Eles estão, —Therese esfregou um ponto sensível no


centro do peito, sobre o coração. — É bom de ver.

Na verdade, não era. Os dois a lembraram de seus pais, e


isso não era algo que ela queria pensar. Mas seu cérebro se
recusou a ser desviado, as memórias de sua mahmen e seu pai
de mãos dadas, sentando-se perto, falando em voz baixa,
entrando em sua mente e assumindo o controle. Eles estavam
tão presentes para seus filhos, tão envolvidos, mas sempre
houve a sensação de que eles tinham um relacionamento
especial e particular—e que essa conexão era a verdadeira base

138
da família.

Therese tinha se sentido tão segura nos pontos cardeais


que os quatro tinham formado: hellren, shellan, filho e filha.

E então tudo isso mudou.

Os laços que ela assumira serem concretos acabaram não


sendo mais substanciais do que confetes. Pelo menos para ela.
Os outros três estavam bem, mas então nenhuma de suas
identidades havia sido deliberadamente escondida deles,
nenhuma de suas fundações tinha rachaduras.

A confiança era a base do amor. Sem ele, você não tinha


nada além de uma ilusão—uma ilusão agradável, era verdade,
uma ilusão que parecia agradável e constante. Mas quando
você pensou que a mentira era real?

Descobrir a natureza bidimensional de sua existência foi


arrasador.

— Therese?

Sacudindo-se de volta em foco, ela olhou para Emile.

— Sinto muito?

139
— O quê?

— Posso lhe dar uma carona para casa?

Therese lembrou-se de Liza esperneando ao redor e


exigindo tudo o que Emile recusou a fornecer.

— Oh, isso não é necessário. Obrigado mesmo assim.

— Então você tem uma carona? —Emile hesitou. — Não


que eu esteja tentando bisbilhotar.

— Eu só vou desma … —Ela parou. Nope, não estou


falando de fantasmas. Ela esqueceu que o cara era humano?
— Sim, eu vou pegar uma carona.

— Ok, claro. —Ele assentiu e depois olhou para ela com


expectativa. — Claro.

— É apenas o meu irmão, —a mentira doeu. Porque


buscá-la em uma noite de neve, era exatamente o tipo de coisa
que Gareth faria. — Ele é assim.

Ela esfregou o centro do peito novamente. Quando a


solidão a invadiu como uma mortalha, ela respirou fundo. Ela
sempre fora do tipo independente, encontrando seu próprio
caminho na escola, no trabalho, na vida, mas a coisa era, não

140
tinha apreciado o quanto sua família importava para ela,
quanto de uma base que tinha sido, que tipo de abrigar aqueles
outros três lhe ofereceram.

— Na realidade, —ela se ouviu dizer: — Eu gostaria de


uma carona.

Emile sorriu. — Bem. Fantástico.

Quando ela percebeu o que tinha feito, mais uma vez,


uma decisão precipitada ela deveria ter pensado melhor, ela
engoliu uma maldição. — Exceto, espere, eu nem perguntei
onde você morava. Estou no centro. Talvez isso esteja
realmente fora do seu ...

— Não, é perfeito. É simplesmente perfeito.

A imagem dele levando-a para casa passando pela Liza


onde quer que seja, e a outra garçonete correndo para a rua e
sinalizando para que ela pudesse jogar uma cadeira através do
para-brisa, não foi um pensamento bem-vindo. E havia a
esperança nos olhos de Emile. Ele estava tentando ser legal,
mas a resposta que ele tinha obtido o emocionou. Enquanto
isso, ele era apenas um curativo para sua tristeza, por todas as
coisas que ela estava perdendo ... e muito menos complicada

141
do que o Sombra que comandava todos os seus sentidos
sempre que ele estava em um raio de trinta metros dela.

Verificando seu casal novamente, ela ficou infinitamente


aliviada por eles terem saído.

— Eu só vou arrumar minha mesa.

— Aqui, deixe-me ajudar ...

— Não. —Ela sorriu para tirar o ferrão de sua voz. — Eu


vou fazer isso rapidamente e depois te encontro no vestiário?

— Certo. Vou bater os nossos cartões.

— Obrigado.

Ela pegou uma das bandejas e seu suporte dobrável e


caminhou até a mesa. Enquanto ela passava por todos os
lugares vazios, os copos virados para a borda das toalhas de
mesa, os guardanapos cobrindo os carregadores, os talheres
tão precisamente arrumados, seu sentimento de tristeza
tornou-se tão avassalador que seus olhos se encheram de
lágrimas.

Tinha que ser a tempestade. Algo na mudança da leitura


do barômetro, a pressão atmosférica, o vento, afetando seu

142
humor, arrastando-a para baixo. Sim. Era isso que estava
acontecendo.

Lançando o suporte, ela colocou a bandeja em cima e


começou a limpar ...

Com uma carranca, ela se inclinou para o prato em que o


tiramisu estava. Estava inclinado para o lado, como se tivesse
guardando um guardanapo embaixo.

Exceto o que ela encontrou embaixo da coisa não era o


guardanapo.

— Oh ... meu Deus. —Ela respirou.

Não, não era um guardanapo. Era um maço de dinheiro,


dobrado ao meio. Ela pegou o maço, espalhando as notas de
cem dólares. Dez delas.

Ela levantou a cabeça e olhou em volta. Então ela correu


pela sala de jantar vazia até a entrada da frente. Abrindo as
coisas, ela desceu as escadas da ante-sala e atravessou a porta
externa. A fúria da tempestade rasgou seu corpo com garras
geladas, e ela teve que recuperar o equilíbrio, estendendo a
mão para um dos suportes do toldo.

143
Não havia esperança de encontrá-los. O casal se foi há
muito tempo.

Voltando ao calor e à quietude do restaurante, ela olhou


para o dinheiro na mão. Se você somasse o quanto o casal
havia comido, provavelmente mil dólares estavam bem
próximos do que a conta tinha sido, se você incluísse impostos
e uma gorjeta de 25 ou 30%. O casal tinha sido cortesia e eles
deram a ela o que teriam gasto de qualquer maneira. Um
milagre de Natal de estranhos perfeitos.

Com esse dinheiro? Ela poderia fazer o depósito de


segurança sozinha. Esse era um presente que esse casal não
podia compreender, e lágrimas de gratidão entraram em seus
olhos, ameaçando transbordar.

Demorou um pouco para que ela pudesse voltar atrás e


entrar novamente no restaurante.

144
O carro de Emile tinha tração nas quatro rodas. Também era
bem parecido com a categoria de um batedor, mas o Subaru
Outback parecia apoiar as alegações de seu fabricante de que
um odômetro com cento e sessenta mil quilômetros não era
apenas aprovado para cães, que não era grande coisa.

Therese passou o tempo olhando pela janela dela e


olhando para as lojas que estavam passando. Já fazia um
tempo desde que ela tinha estado em qualquer tipo de veículo,
e ela tinha esquecido o quanto ela gostava de apenas sentar e
assistir o que estava ao lado da estrada. Gareth gostava de
passear de carro e ela era a companheira regular de seu irmão.

Embora ... a última vez que ela esteve em um carro tinha


sido com Trez. A BMW dele. Depois que ele perdeu a
consciência brevemente e teve que ser levado para ser
examinado.

Em um acordo mútuo, eles abandonaram a missão, e ela


nunca lhe perguntou se ele estava bem. Ela apenas assumiu ...

Subaru Outback

145
E ele a tinha beijado, então.

— Você está quente o suficiente?

Assustada com a voz ao lado dela, ela olhou para Emile.

— Oh, sim, muito obrigada.

— Aqui estão os controles, —ele apontou para os ... bem,


controles. — No caso de você querer mudar algo.

— Obrigada.

Determinada a parar de pensar sobre aquela Sombra, ela


tentou encontrar algo para dizer. Engraçado como quando
você muda o ambiente, você muda a vibração. Ela nunca tinha
tido um problema para falar com Emile quando eles estavam
no trabalho. Agora, fora do restaurante e só com ele, as coisas
eram estranhas.

— A neve está parando, —disse ela enquanto se inclinava


para o para-brisa. — Já era hora.

— Sim, era.

Ótimo, eles estavam cobrindo o tempo. Próximo


parada—esportes? Sim, essa era a última coisa que ela queria

146
falar. Durante a temporada de basquete da NCAA , ela e
Gareth sempre ficavam colados à TV, assistindo os espartanos
jogarem. Nunca duvide do Izzo , eles sempre disseram.

Ela não tinha assistido nem mesmo um jogo desde que ela
tinha se afastado.

— Então, —Emile disse. — Que tipo de música você


gosta?

O som de seu celular tocando poupou-a de fazer esse tipo


de conversa fiada. Embora, enquanto ele enfiava a mão no
casaco e tirava seu telefone, ela imaginou que poderia muito
bem ter uma resposta pronta.

— Liza ... —Ele parou quando ele foi cortado. — Espere,


eu não consigo ouvir você por causa do barulho. O que?

Therese olhou. O som da voz da fêmea humana estava

O Torneio de Basquete Masculino da NCAA Divisão I de 2020 foi um torneio de eliminação única
planejado de 68 equipes para determinar o campeão nacional de basquete universitário da Divisão I da Associação Atlética
Colegiada Nacional da I para a temporada 2019-20.

Tom Izzo ( / ɪ z oʊ / , pronúncia italiana: [ittso] ); Nascido em 30 de janeiro de 1955), é um


treinador de basquete americano que é o treinador da Michigan State University desde 1995. Em 4 de abril de 2016, Izzo foi eleito
para o Hall da Fama do Naismith Basketball

147
gritando para fora do telefone, todos os tipos de sílabas se
entrelaçando, a ponto de nem mesmo a audição de vampiro
de Therese poder decifrar o que se dizia.

— Okay, okay ... —Emile ergueu a mão como se a fêmea


pudesse vê-lo. — Desacelere. Não, não, acabei de sair do
trabalho. Estou dando ... —Ele hesitou e olhou para Therese.

Sim, só havia uma resposta a isso. Ela balançou a cabeça.

— Estou dando a Therese uma carona para casa, —ele


murmurou.

Três, dois ... um. Boom!

Tanto o volume quanto a velocidade das palavras


triplicaram e Therese colocou a cabeça nas mãos. Enquanto
isso, Emile estava lutando contra uma corrente muito mais
forte do que poderia evitar se afogar.

— Mas isso foi no meio do meu turno, Liza. Você


decidiu sair por conta própria, e eu precisava do ...

Quando houve finalmente uma pausa na outra


extremidade, Emile saltou com:

148
— Eu não acho que isso é uma conversa produtiva.
Você está bêbada, e eu estou desligando, —ele ficou em
silêncio novamente, mas agora ele franziu a testa e se
endireitou no assento. — Eu sinto muito ... o que você
acabou de dizer? Quem é esse? Ele fez o quê?

Therese franziu a testa, e tentou ouvir o que estava sendo


dito. Ela tinha certeza de que a fêmea estava chorando, mas
parecia o tipo de embriaguez chorosa, mais álcool que emoção
sincera.

— Estou indo agora mesmo, —disse Emile enquanto


pisava no acelerador. — Fique onde está. Não, eu vou. Não,
quero ter as duas mãos no volante. As estradas estão
escorregadias. Eu quero estar seguro.

Ele encerrou a ligação e depois olhou para o telefone


como se desejasse que muitas coisas fossem diferentes em sua
vida.

— Você não tem que me levar, —disse Therese. — Se ela


está em apuros, vá para onde quer que ela esteja e eu vou para
casa.

149
Emile olhou novamente.

— Eu juro, eu disse a ela que estava acabado entre nós.


Quero dizer, eu gosto de você. Eu acho que isso é óbvio, —ele
corou nas luzes fracas do painel. — No entanto, estou
achando ... que não é para isso que está indo do seu lado

— Não é por causa da Liza. Eu só ...

— Eu sei. Você está interessada em outra pessoa. E dada


a maneira como o irmão do nosso chefe olhou para mim hoje
à noite? Quando ele estava falando com você? Tenho certeza
de que é mútuo ...

— Não é assim entre nós. —Oh, Deus, parecia totalmente


estranho "nós" ela e Trez Latimer, mesmo que isso estivesse
no contexto de uma negação de relacionamento. — Sério.
Quero dizer, não estou totalmente pronta para qualquer tipo
de coisa com ninguém.

Emile deu de ombros e se concentrou novamente na


estrada à frente. Quando uma luz triste entrou em seus olhos,
ele deu de ombros. — Quando isso acontece, não tenho
certeza se importa se você quer ou não.

150
Therese colocou a mão em seu ombro. — Eu sinto muito.

O homem riu em uma pequena explosão.

— Sabe, eu acredito nisso. E isso só me faz gostar mais de


você, —ele estendeu a mão novamente. — Mas eu não vou
exagerar. Eu entendo e respeito o seu ponto.

— Obrigado. Eu gostaria que houvesse algo que eu


pudesse fazer para ajudar.

Emile colocou as duas mãos no volante. Então ele fez um


som de clique com os dentes. — Você sabe, na verdade, existe.

— Qualquer coisa, —disse Therese. — Diga o que é. E é


seu.

— Venha comigo para conversar com Liza. Talvez se ela


ouvir da sua própria boca que não há nada entre você e eu e
nenhuma possibilidade de que algo aconteça, ela pelo menos
relaxe no trabalho, —ele olhou incisivamente. — E isso
também ajudará você.

Therese assentiu devagar. — Eu vejo o seu ponto. Estou


dentro.

151
Capítulo 8

E foi assim que Therese acabou entrando em um clube que


era tão escuro quanto o interior de um chapéu, mais alto que
um concerto e mais cego do que um show de fogos de artifício
no dia quatro de julho . Eles deixaram o Subaru em um
estacionamento ao ar livre não muito longe do local em que
se chamava—shAdoWs, ela pensou que a placa do lado de
fora dizia?—e andaram os dois quarteirões até a fila de espera.
Aconteceu que Emile conhecia o segurança de seu emprego
anterior, então eles entraram direto, embora não fosse um
prêmio para ela.

Corpos. Girando. Em toda parte. Lasers disparando pela

O Dia da Independência dos Estados Unidos (em inglês: Independence Day of The Fourth of July) é um feriado nacional
que celebra o dia 4 de julho nos Estados Unidos. Esse dia marca a Declaração de Independência de 1776, ano em que as Treze
Colônias declararam a separação formal do Império Britânico. O Dia da Independência é o feriado mais festejado dos Estados
Unidos e têm forte influência sobre a cultura americana em geral, tendo sido retratado nos mais diversos veículos de mídia.
O Dia da Independência é igualmente o dia nacional dos Estados Unidos.

152
multidão como flechas roxas e cada uma caindo em seus
olhos. Ah, e em algum lugar havia uma máquina de fumaça.

Além disso, querido Deus, a música. Batendo. Batendo.


Tremendo os molares. Como essas pessoas suportaram isso?

— Ela te disse onde estava? —Therese gritou sobre o


barulho. Quando Emile declamou um “quê”? Ela se inclinou
em direção a sua orelha — Onde ela está aqui dentro?

— Eu não sei, —Emile gritou de volta. Então, ele deu de


ombros e apontou em alguma direção. — Aqui?

Teresa fez o sinal universal de Por que não? Porque era


mais fácil do que tentar ser ouvido sobre a música. E então ela
teve mais problemas. Indo para onde ele apontou
aleatoriamente acabou sendo mais difícil do que se
comunicar. Havia tantos seres humanos no chão,
empurrando, se encostando, dançando, escorregando, caindo.
Era como se as estradas escorregadias da tempestade tivessem
entrado e houvesse trezentos motoristas bêbados atravessando
as ruas de Caldwell.

Falando nisso, como era possível que nenhuma dessas


pessoas tivesse ficado em casa por causa da tempestade?

153
Parecia que o clima severo os inspirou da maneira oposta, sem
que se comprometessem a ser encontrados em qualquer lugar.

Por outro lado, ela realmente achou que boas escolhas


estavam no topo da lista de tarefas de alguém aqui?

Ela estava olhando em volta, tentando localizar o


penteado da namorada de Emile, enquanto ao mesmo tempo
foi deixada para trás, quando a briga começou.

No começo, ela não percebeu o empurrão porque estava


sendo atingida por todos os tipos de ombros e cotovelos, mas
um corpo bateu nela e a derrubou: um momento, ela estava de
pé e andando; no próximo, estava em sentada em sua bunda.

Depois disso, havia uma debandada de botas e estiletes a


centímetros do rosto, das mãos e dos órgãos internos.

Foi incrível a rapidez com que você podia se mover


quando não queria se machucar. Quando a multidão subiu e
se retirou como um cardume de peixes, todos aqueles
humanos girando juntos como se fossem coreografados, ela
pulou ...

Só para ser derrubada novamente, desta vez por um

154
homem humano que não apenas a colocou de volta na pista
de dança, mas também a usou como uma almofada, seu peso
pesado pousando em cima dela. Quando a respiração foi
arrancada de seus pulmões, ela se cansou. Plantando as
palmas das mãos nos ombros dele, ela o empurrou para fora
dela, fazendo-o voar para a multidão, como torradas de uma
torradeira.

Therese não mexeu com a tentativa vertical número dois.


Ela se levantou e ficou agachada, os braços à sua frente, os
olhos abertos, procurando o próximo golpe.

Foi quando ela viu o verdadeiro problema. Dois homens


humanos estavam presos por suas gargantas, e parecia que
seus pertences haviam se envolvido—e não para separá-los.
Haviam brigas em torno do conflito central, em torno do
combate que agitou ainda mais a multidão.

Enquanto isso, Emile não estava em lugar nenhum para


ser visto, especialmente quando outro desses lasers roxos
pregou Therese bem no olho, o impacto era como ter Três
Patetas cutucando seus olhos.

A autora faz uma referência ao antigo seriado dos Três Patetas, que enfiavam os dedos nos olhos uns dos outros.

155
Xingando, ela levantou a mão ...

O tiro foi inconfundível, mesmo com a música, um pop


alto e quente! Que cortava os graves e os agudo. Então houve
gritos, estridentes e penetrantes.

Em câmera lenta, Therese voltou-se para o som e levantou


os braços para se proteger. Embora seu olho direito estivesse
inutilmente cego, ela conseguiu focalizar o esquerdo, e foi
quando ela viu o cano da arma apontar em sua direção.

O verdadeiro alvo era um homem humano que tropeçara


em seu caminho, mas não era como se esse pequeno detalhe
fosse importante para a bala.

Houve um lampejo na ponta da arma, e Therese saltou


para o lado, fazendo o Super-Homem na investida, braços
para frente, corpo no ar, os pés apontados. Ela até virou a
cabeça para rastrear aquele cano de arma, só para ter certeza
de que estava fora de alcance.

Então ela viu o homem levar um tiro.

O impacto puxou seu torso para o lado, quando a bala de


chumbo entrou na carne do ombro dele, ela gritou para ele se

156
abaixar—o que era estúpido. O atirador estava se
aproximando da vítima e estava prestes a ...

A salvação veio pela direita, e quem quer que fosse sabia


o que estavam fazendo. De alguma forma, eles conseguiram
controlar a arma e levar o atirador ao chão ao mesmo tempo.
Era um em um milhão, a menos que, é claro, eles tivessem
sido treinados para fazê-lo.

Therese bateu forte no chão, seus dentes batendo juntos,


os calcanhares de suas mãos derrapando na madeira. Um de
seus joelhos se abriu com dor, assim como o cotovelo
esquerdo, e ela estava preocupado que tivesse levado um tiro.

Rolando, ela se enrolou em uma bola enquanto os pés de


pisoteamento que ela tinha tentado evitar em primeiro lugar
vieram no que parecia ser uma frota de milhares, o tamanho
da multidão geometricamente aumentando agora que ela
estava à mercê de seu pânico. Se ela ficasse assim, iria se
machucar seriamente, supondo que ainda não estivesse, então
se forçou a subir, ficando de quatro e correndo o mais rápido
que podia no que esperava ser uma linha reta. Ela manteve a
cabeça baixa para protegê-la o máximo possível, e ela rezou
para que ela pudesse apenas sair do caminho ...

157
Sem aviso, seu corpo levitou.

Ela estava no chão, remando com as mãos e os pés como


se estivesse em águas agitadas, e então estava no ar, nada
debaixo dela.

Seu primeiro pensamento foi que alguém a usou como


uma bola de futebol e a chutou. Mas não. Braços estavam em
volta da cintura dela—ou um braço estava em volta da cintura
dela.

Olhando para frente, ela viu o outro do par empurrando


para a frente, como um daqueles aríetes que as equipes da
SWAT arrombam as portas e, caramba, ele estava
trabalhando, limpando o caminho, tirando ela e seu salvador
do campo. Determinada a não ser descartada, ela agarrou-se
ao torso de quem a estava carregando, embrulhando um
abraço apertado em torno do que acabou por ser um corpo
duro.

Depois de algumas dezenas de metros, eles estavam fora


do caos e longe do pânico, mas quem quer que fosse não

158
parou. Eles pareciam querer correr contra a parede preta ...

Uma porta escondida se abriu quase como de um


personagem de desenho animado através do drywall, e então
eles estavam em um corredor bem iluminado.

O alçapão bateu atrás dele.

Girando a cabeça ... ela olhou para o rosto duro de Trez


Latimer.

Trez estava respirando tão forte, sua visão estava fazendo um


exame de xadrez sobre ele, embora a óptica visual não fosse o
resultado do esforço. Ele teve um medo de merda, enquanto
tentava levar Therese em segurança.

Ele estava em seu escritório, tentando não pensar nela,


quando viu a briga entre dois grupos competindo pela atenção
de uma fêmea que era uma coisa certa de qualquer maneira.
Os homens começaram o empurra-e-empurra, e então, é claro,

159
seus amigos se envolveram, a testosterona assumindo o
controle e escalando tudo. De uma forma bastante entediada,
ele estava indo para chamar Xhex e sua equipe, mas ela já
estava indo nessa direção, alertada pela equipe no chão, e ele
estava mais do que feliz em ficar à margem.

Exceto que, a partir de sua posição no alto, ele tinha visto


um rosto familiar na multidão, o flash de um laser iluminando
o que só poderia ser Therese.

Sem perder um segundo, ele se desmaterializou através do


vidro, um sexto sentido de destruição iminente exigindo ações
furiosas.

E então o tiroteio começou.

— Você está machucada? —Ele perguntou enquanto a


deitava no chão frio de concreto da passagem usada para
trazer bebidas para o bar durante o horário comercial.

— É você ... —ela disse surpresa. — O que você está


fazendo aqui?

Lá fora, no clube propriamente dito, a música foi cortada


abruptamente, as vozes e os gritos da multidão tomando o

160
lugar das batidas.

— Eu sou dono deste lugar, —ele olhou para ela. — Você


está machucada?

— Eu não sei, —ela levantou a parte superior do corpo e


olhou para si mesma. — Acho que não. Eu não sinto o cheiro
de sangue.

— Nem eu.

Therese flexionou os braços. Pernas flexionados. Virou as


mãos e avaliou os cotovelos. — Eu estou bem.

Eeeeeeee foi quando um caso de tontura pegou o volante


de Trez, seu corpo tecendo mesmo que ele estivesse ajoelhado.
Para evitar passar o inferno para a fêmea—porque, uma, ele
não queria esmagá-la logo depois que tentara salvá-la de ser
esmagada, e duas, ele tinha feito a rotina de desmaio com ela
uma vez, então realmente, ele preferia manter as coisas frescas
e interessantes e manter a porra da consciência—ele mudou
para um lado e sentou-se em sua bunda. Quando os dois
ficaram parados e ofegantes, ele ouviu o som de sirenes e o
barulho dos pés.

161
— Você precisa ir lá fora? —Ela perguntou enquanto se
focava na parede do corredor.

Ele ficou momentaneamente distraído olhando-a por si


mesmo. Seu cabelo, anteriormente tão arrumado naquele
coque, tinha uma auréola de cachos escapados, e havia um
alto rubor nas bochechas, que a fazia parecer especialmente
adorável, apesar de todo o drama. Ela também parecia não
estar sangrando.

#bônus

Porra. Sua frequência cardíaca nunca iria diminuir. O que


ela disse? Oh, certo.

— Xhex está cuidando disso. —O que foi uma coisa boa,


pois ele não tinha certeza se poderia se levantar para sair de
qualquer maneira. — Você se saiu muito bem—saindo do
caminho, quero dizer.

— Eu estava bem até que eu não conseguia ficar em pé.


—Ela esfregou os olhos. — Eu quase levei um tiro.

— Eu sei.

Quando eles se calaram, ele estava muito ciente de que ela

162
estava repetindo a quase falta exatamente como ele. A ideia
de que algo assim poderia acontecer tão rápido …

— Aconteceu tão rápido. —Disse ela.

— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa.

Havia outra fatia de silêncio, e então eles se entreolharam.

Mais tarde, quando repetisse o próximo choque da noite,


tentaria se lembrar de quem procurou quem primeiro. Ela?
Ele? Ele não se lembrava. Não conseguia se lembrar.

Como se isso importasse?

Tudo o que ele sabia com certeza era que eles estavam
sentados lado a lado ... e então não estavam. Eles estavam nos
braços um do outro, e suas bocas estavam fundidas, uma
paixão desesperada liberada, a adrenalina em suas correntes
sanguíneas alimentando uma expressão física do pânico e o
alívio inesperado que ambos sentiram.

Os lábios de Therese se moveram contra os dele, e sua


língua encontrou a dele com o mesmo tipo de calor que ele
estava sentindo em suas veias. Quando as mãos dela se uniram
na parte de trás do pescoço dele, ela arqueou até ele, os seios

163
pressionando o peito dele, o peso do corpo agora no colo dele.
O beijo foi duro, e ele disse a si mesmo que precisava
desacelerar, mas esse aviso não significava nada para ele. Ele
não sabia de nada, exceto o gosto dela, a sensação dela, a
sensação de que o que seu cérebro lhe dizia estar errado era
realmente a coisa mais certa que ele tinha desde a morte de
Selena.

Porque era Selena.

O beijo, o toque, a paixão que engrossou seu sangue e seu


pênis ... era sua companheira. Ele já esteve aqui antes, já havia
feito isso antes ...

Ele lamentou a perda dessa mesma conexão. E seu


retorno foi uma bênção que o exterminou.

Bem, não completamente fora. Ele manteve presença de


espírito suficiente para trancar a porta pela qual eles entraram.
A última coisa que ele precisava era que um de seus funcionários
usasse a passagem escondida como uma fuga do DPC , que
sem dúvida estava chegando ao clube neste momento.

DPC: Departamente de Policia Civil (Chicago).

164
Impulsionado por uma necessidade motriz, Trez varreu a
palma da mão até o quadril dela. Então ele a trouxe de volta,
sob os braços erguidos, sobre a jaqueta dela. Ele percebeu as
curvas através do preenchimento, mas não foi suficiente. Não
é o suficiente. Encontrando a abertura entre as metades, ele
passou a mão gananciosa por baixo e ...

Quando ele segurou seu seio através da blusa fina de seu


uniforme de garçom, ela gritou em sua boca, seu corpo
rolando contra o torso dele, suas pernas agitando no concreto.

Ele precisava dela nua. Agora.

Ele precisava de seu próprio corpo nu. Agora ...

Bang! Bang! Bang!

Os dois se separaram e ele olhou em direção ao alçapão.


Pelo menos não foram tiros. E tinha havido um padrão.

Ele também sabia quem era.

A voz de Xhex foi irônica.

165
— Afirmativo. —Trez sabia o que a próxima pergunta ia
ser. — Eu não preciso de ajuda. Nós estamos—estou bem.

—Enquanto Xhex falava, ele podia imaginar sua


chefe de segurança balançando a cabeça.

— Obrigado.

Trez fechou os olhos e amaldiçoou. Em seguida, ele se


concentrou em Therese ...

Ela estava olhando para ele com olhos arregalados e


confusos, os dedos descansando levemente em sua boca.

— Você está bem? —Ele perguntou. — Você está


machucada?

166
Capítulo 9

Therese não conseguia se concentrar no que Trez estava


dizendo a ela.

Ela estava de volta a quando estavam se beijando, com as


mãos em seu corpo, sua boca na dela, sua língua penetrando-
a. Não tinha sido como o rápido beijo que tinham
compartilhado antes. Aquele tinha sido uma surpresa. Um
impulso. Algo que foi e se afastou rapidamente de ambas as
partes.

Mas o que acabara de acontecer? Por um lado, se eles não


tivessem sido interrompidos, não teria parado até se acabar.
Por outro ... não era a primeira vez que ela o sentia contra ela.
Ela reconheceu seus lábios, suas mãos, seu cheiro.

Porque ele tinha vindo a ela em seus sonhos.

167
Este Sombra era de alguma forma ... seu amante das
sombras. Exceto como isso era possível?

— Você tem certeza que está bem? —Os olhos de Trez


estavam preocupados, e ele afastou uma mecha de seu cabelo
para trás de seu rosto. — Será que precisamos obter ajuda
médica para você?

Estendendo a mão, ela acariciou seu rosto com


admiração. Talvez ela estivesse errada, no entanto. Talvez ...

— Beije-me novamente, —ela respirou.

Enquanto ele hesitava, ela estava vagamente consciente


de que eles dificilmente estavam em um local privado. E não
era um bom momento, principalmente porque vozes urgentes
brigavam do lado de fora do clube. Além disso, ela não tinha
certeza de onde sua cabeça tinha ido depois de todo aquele
drama com a arma.

Exceto que ela não se importava com nada disso.

Ela tinha fome de se reconectar com a boca dele, seu


corpo, sua ... alma. Uma fome tão profunda dentro dela, que
ela não conseguia entender ou determinar sua origem. Sim,

168
ele era um homem deslumbrante. E havia atração de ambos
os lados. E tanto faz, tanto faz, tanto faz.

Mas este laço entre eles era algo muito mais forte do que
tudo isso.

— Eu preciso de você, —ela disse em uma voz que ela


nunca tinha ouvido sair de si mesma antes.

Os olhos negros de Trez brilharam em peridoto, e ele não


fez perguntas, não fez nenhum comentário. Em vez disso, ele
colocou os lábios nos dela com uma paixão punitiva, o calor
queimando entre eles, marcando-a, marcando-os.

Gemendo em sua boca, ela rolou no chão implacável de


concreto e o puxou em cima dela. E para ter certeza de que ela
era muito clara sobre onde ela o queria, ela separou as pernas
e ele se encaixou perfeitamente entre elas, seu peso pesado a
esmagando no chão duro, não que ela se importasse com o
protesto de sua coluna.

— Não pare, —ela implorou, — mais rápido. Eu preciso


de você …

Suas mãos estavam desleixadas quando ela puxou a

169
camisa de seda da calça e acariciou sua caixa torácica e depois
desceu pelas costas. Sem ela ter que perguntar, ele começou a
montá-la através de suas roupas, sua pélvis empurrando, sua
ereção gigantesca esfregando-a em um lugar que doía por ele.

Era como em seus sonhos, os dois trancados a sete chaves,


seus corpos assumindo o controle, suas mentes liberadas.
Nessa penumbra, nesse lugar desconhecido, a distinção entre
o que era real e o que lhe ocorrera durante o sono ficou
embaçada, até que ela não teve certeza se estava no sonho ou
aqui neste clube. No que ela estava claro como cristal?

No macho com quem ela estava fazendo amor.

Ah, e o fato de ela não querer que isso acabasse. Nunca.

Interrompendo o beijo, Trez rolou e a trouxe para seus


quadris. Então ele olhou para ela em choque e admiração—e
pura, autêntica luxúria. Ele estava respirando forte, e seus
olhos, enquanto eles se fixavam nos dela, estavam focados e
estranhamente abalados.

Ele também sentiu, ela pensou.

— Eu te conheço, —ela sussurrou. — E eu queria você

170
por tanto tempo.

Meu Deus, o que ela estava dizendo ...?

— Sim ... —ele respirou. — Sim.

Trez parecia ceder em sua própria pele, e ela podia jurar


que um brilho de lágrimas fez seu olhar luminoso. Então seu
corpo começou a tremer.

— Eu tenho que ... —ele limpou a garganta. — Eu tenho


que ... estar em você.

— Eu preciso de você.

Curvando-se para ele, ela pressionou a boca na dele, e


então continuou, quando ela se levantou e as mãos dele foram
para as calças. Com igual pressa, ela cuidou de seu lado das
coisas, abrindo seu próprio cinto, rasgando seu próprio zíper.
Puxando, puxando, era como se alguma outra força tivesse
tomado conta de seu corpo, mas era uma força que vinha de
dentro dela.

Não era nada estranho. Nada que a alarmasse.

Uma energia estava se movendo através dela, conectando-


a a ele, ampliando sua necessidade por ele, e somente a ele.

171
Como se tivessem sido separados e isso fosse uma reunião
em vez de uma primeira vez.

Com impaciência, ela tirou uma das botas e depois


arrastou as calças para baixo. Foi estranho manobrar suas
roupas, mas ela não se importou. Ele também não. Eles
estavam indo a uma velocidade vertiginosa, o sexo dela pronto
e aberto para ele, sua excitação dura e desesperada ...

Assim que ela estava livre de suas restrições, ele se


levantou e ela se sentou ...

Os dois gritaram. E então ela não se lembrou de detalhes,


e absolutamente tudo sobre o estiramento, o preenchimento,
o sexo que rugiu para a vida. Enquanto ela o montava, ela
estava completamente presente e fora de si, seu corpo se
movendo por conta própria, seguindo um ritmo em que eles
caíam juntos.

— Oh, Deus. —Ele gemeu enquanto tentava recapturar a


boca dela.

Isso era impossível. Mais rápido, mais rápido, ela subindo


e descendo, ele empurrando para cima, as liberações que
estavam encontrando eram como forças imparáveis da

172
natureza.

Quando um orgasmo luminoso rompeu através dela,


emanando para fora de seu núcleo, Therese engasgou e então
gemeu. Ela tentou continuar, mas ela não conseguia mover-se
para nada mais. Mas estava tudo bem. Trez continuou
bombeando.

Mesmo quando ele começou a enchê-la.

O ajuste era o mesmo.


Quando Trez começou a ter seu orgasmo e depois
continuou, seu pau soltando jatos no corpo da fêmea em cima
dele, ele estava completamente sobrecarregado pelo fato de
que Therese não apenas parecia com sua shellan, ela sentiu o
mesmo também. O corpo dela era o mesmo. A maneira como
seus sexos travavam e seguravam ... Foi tudo a mesma coisa.
Ela ainda tinha o mesmo gosto.

173
Era a rainha dele.

E ela sabia disso também. De alguma forma, ela tinha


feito a conexão também.

Fechando os olhos, ele absorveu as sensações,


reabastecendo seus espaços vazios com eles, sua solidão
dolorida apagada, o frio no qual ele havia sido preso pela
carne, caindo na torrente de calor. Com cada crista de prazer
e cada impulso pulsante, ele se curava ... e quando o desespero
finalmente começou a diminuir, seu primeiro pensamento foi
que ele só queria seguir em frente. Ele queria que os dois se
despissem completamente. Ele queria a pele dela na dele. Ele
queria colocar a boca sobre ela.

Exceto então que ele percebeu onde eles estavam. Suas


calças para baixo. Ainda unidos.

Trez olhou para o rosto acima do seu. A fêmea dele era


quase bonita demais para se olhar, seu cabelo escuro solto e
curvado, a sua ligação perdida, os lábios vermelhos pelos
beijos, o rosto corado e brilhante. Ela era a coisa mais
resplandecente que ele já tinha visto.

— Você voltou, —ele sussurrou.

174
— Eu não saí, —ela se abaixou e o beijou suavemente. —
Estou aqui.

— Sim, você está, —ele tomou uma de suas mãos e


colocou-a em seu coração. — Você sempre esteve aqui.

Therese parecia momentaneamente confusa, mas a


expressão não durou muito. — Eu devo estar louca. Como eu
sinto que te conheço? Como se tivessemos feito isso antes ...

— Porque nós fizemos.

— Em meus sonhos, certo? —Ela sorriu lentamente. —


Nos meus sonhos.

— Eu vou até você? —Disse ele, seu coração começando


a vibrar — Você me vê quando você esta dormindo?

Quando ele esperou ela responder, teve a sensação de que


estava à beira de uma grande revelação, algo que explicaria
tudo—a aparência dela, a maneira como ela se sentia, o fato
de que ele não sentia nenhuma culpa pelo que eles tinham
acabado de fazer.

Porque ele não se sentia como se tivesse sido desleal em


tudo. Porque tinha sido sua rainha.

175
Seus olhos procuraram o rosto. — Foi absolutamente
você. Nos meus sonhos. Você é quem me procurou como uma
sombra.

— Sim, fui eu. Isso eu fiz, —ele não sabia o que ela estava
dizendo, mas isso fazia sentido ... ao mesmo tempo que não
fazia sentido.

— Conte-me sobre o sonho.

— Sempre começa da mesma forma. Estou deitada em


uma cama em um quarto, onde nunca estive antes. Eu não
reconheço qualquer coisa em torno de mim, e toda vez que
tenho o sonho, eu não me lembro onde eu estou. Há uma
única vela na mesa de cabeceira, e uma brisa suave e quente a
apaga. A porta se abre, e uma figura está lá. Eu não tenho
medo, no entanto, mesmo que eu não consigo ver o rosto. —
Com os dedos trêmulos, ela traçou as sobrancelhas, as
bochechas, o queixo. — É você, no entanto. Você vem até
mim ... e fazemos amor. Somente quando estamos juntos é
que a sala se torna familiar. É rústico e antigo, e eu estou
segura ... com você.

— Você sempre estará segura comigo.

176
— Eu acredito em você …

Bang! Bang! Bang!

Trez torceu a cabeça para o lado. — Xhex! Eu te disse ...

Merda.

— Hey, Big Rob. —Ele colocou o dedo indicador nos


lábios e shhh para ela ficar quieta. — O que está acontecendo?

Não me diga, merda.

— O que você precisa?

Blá blá blá. Algo sobre caixas de bebidas.

— Ouça, Big Rob, —ele disse — Eu estarei fora em um


minuto. Eu estou ajudando alguém. A polícia ainda está aí?

— Basta ficar com a Alex, ok? —Alex é o nome que Xhex


usava no mundo humano.

177
OK. OK. Certo. Certo.

Enquanto isso, Therese o estava desmontando, seu pênis


ainda ereto batendo na parte inferior da barriga, a mudança de
temperatura ao longo de sua haste e na cabeça um choque
realmente desagradável. Para piorar a situação, sua fêmea era
eficiente em se vestir, o que era bom, considerando que
alguém poderia ser capaz de entrar pelo outro caminho, mas
também uma decepção porque duh.

Ainda assim, eles não poderiam ficar aqui para sempre,


poderiam?

Claro, eles poderiam, uma voz sugeriu em sua cabeça


enquanto ela se levantou e fechou a calça. Eles absolutamente
podiam. Para sempre ...

Therese olhou em volta. E amaldiçoou.

— Mais tarde, Big Rob. —Disse ele enquanto ele se


levantava e colocava as calças no lugar. Virando-se para
Therese, ele perguntou:

— O que há de errado?

178
— Minha bolsa. —Ela girou a si mesma em um círculo,
como se a coisa pudesse estar no chão. — Eu acho—sim, perdi
minha bolsa quando estava tentando me afastar da briga.

— Nós vamos encontrá-la. —Quando ela olhou para a


porta que entrou, ele sacudiu a cabeça. — Não, vamos para o
outro lado.

Ele não estava prestes a sair da parte de trás para uma


multidão de seus agentes de segurança, a polícia humana, e
todos os que estivessem detidos e algemados—com ela. Ela
estava radiante na forma de uma fêmea que tinha acabado de
ser adequadamente atendida por seu macho, e ele não apenas
não estava com pressa de compartilhar essa visão gloriosa com
ninguém, como também não queria que as pessoas a
julgassem.

Sua reputação o precedia, especialmente com sua equipe


e as meninas que trabalhavam com ele. Todos sabiam a
maneira como ele tinha sido, e nunca iriam acreditar que ele
não tinha reiniciado o seu modo fêmeaengo.

Trez pegou a mão dela. — Me siga.

Quando ela foi até ele, ele parou e olhou para seu rosto.

179
Sua fêmea sorriu de maneira tímida, secreta. — Eu ... ah ...

Trez se viu sorrindo para ela. Então ele lhe deu um beijo
rápido naquela boca. — Sim. —Ele sussurrou. — Eu me sinto
da mesma forma.

Capítulo 10

Therese ficou perto de Trez enquanto eles iam rapidamente


pelo corredor. Parte dela ainda estava de volta ao sexo que
tinham feito, revivendo os momentos que tinham sido muito
rápidos, mas vívidos o suficiente para durar uma vida inteira.
A outra parte dela estava em pânico por causa da bolsa.

Todo o dinheiro da gorjeta. Dez centenas em dinheiro.

180
Quais eram as chances de que, mesmo que encontrasse a
bolsa, alguma dessas notas não tivesse sido roubada?
Nenhuma. Mas essa não era a única coisa que estava lá que
ela odiaria perder.

Ela tentou recordar a sequência de eventos. Chegando


com Emile, perdendo-o na multidão quando a briga começou,
e então ...

— Não me lembro onde a deixei cair. —Ela balançou a


cabeça enquanto eles andavam. — Estou tentando pensar ...

Abruptamente, Trez parou na frente de absolutamente


nada—exceto que então um painel deslizou para trás. Quando
ele baixou a mão dela e virou-se para o lado para espremer seu
corpo grande através da saída relativamente estreita, ela teve
a sensação de que ele não queria ser visto segurando-a. Por
quê, no entanto?

Exceto que talvez ela estivesse apenas sendo paranoica, e


isso não era compreensível? Ela quase foi baleada, tinha
perdido a bolsa, e cobrindo tudo isso fez amor naquele
corredor com um macho que ela estava convencida de que
tinha visto em seus sonhos. Como se as coisas estivessem indo

181
para qualquer lugar perto do normal hoje à noite?

Um bar, ela pensou enquanto emergia no clube


propriamente dito. Eles estavam atrás do balcão de um bar,
perto das garrafas de bebidas e das prateleiras empilhadas de
copos.

As luzes estavam acesas no enorme espaço do armazém,


e quando seus olhos se ajustaram, ela teve uma visão clara dos
médicos trabalhando em um homem que estava caído no
chão—e não estava indo bem. O paciente estava irritado e
fisicamente combativo, golpeando as mãos com luvas de
nitrilo que estavam tentando diagnosticá-lo e tratá-lo.
Enquanto isso, em um canto oposto, a polícia humana tinha
alguém sob custódia, o cara algemado também discutindo.
Havia outras duas pessoas que pareciam estar feridas, embora
não criticamente— e não havia cadáveres debaixo dos lençóis.

Como isso era possível, ela não fazia ideia.

Havia também um número de homens usando polos onde


estava escrito "Funcionário", bem como ...

Oh, meu Deus, pensou Therese. Esse era o salvador que


derrubou o atirador.

182
Com todo o caos, ela assumiu que a figura na regata
cavada tinha sido um homem, mas não era esse o caso. A
fêmea tinha um corte de cabelo curto, além de um amplo
conjunto de ombros e braços bem musculosos—e esses
detalhes, juntamente com o olhar ainda mais duro em seu
rosto, levaram a algumas conclusões precipitadas.

— Como é a sua bolsa? —Trez perguntou enquanto


mantinha um tampo aberto no balcão.

Therese passou por ele. — Não tem nada de especial. É


uma imitação da Coach . É marrom. Com alguma
padronização em preto.

— Deixe-me perguntar a Xhex. Se ainda estiver aqui, deve


ter sido recolhida. Quando acontecem grandes brigas, sempre
caem carteiras, bolsas, relógios, outras coisas—apenas
algumas são legais.

Camiseta muscular ou estilo nadador, como também é chamado

A Coach IP Holdings LLC é uma empresa americana especializada em acessórios de


luxo, como bolsas.

183
— Então, isso acontece muito? Céus.

— Não a parte do tiroteio. —Ele ergueu a mão quando


eles começaram a andar pelo chão arranhado. — Ei, Xhex?

A fêmea olhou. E olhou novamente.

— Na verdade, por que você não fica aqui, —Trez


murmurou.

Antes que Therese pudesse perguntar por que, a fêmea


caminhou até eles, suas botas pesadas fazendo um som alto na
caverna aberta do clube, como um esquadrão de homens em
marcha. Quando ela parou, seus olhos cinza-escuros se
fixaram em Therese com tanta franqueza, era como se
estivesse sendo interrogada.

Therese olhou ao redor. E deu um passo para trás.

— Quem é você? —A fêmea perguntou a ela.

Ou exigiu. Depende de como você o toma.

— Não importa, —Trez disse firmemente. — Nada disso


importa. Estamos à procura de sua bolsa. É uma …

Ele olhou para ela pedindo apoio para descrever a bolsa,

184
Therese completou,

— … uma imitação da Coach. Marrom e preta. E eu sou


Therese. Prazer em conhecê-la.

Ela estendeu a mão e encontrou aquele olhar de frente. As


tensões eram indubitavelmente altas devido ao tiroteio e a
fêmea deveria trabalhar no clube de alguma forma. Mas
droga. E não, Therese não seria intimidada.

— Xhex, —anunciou a fêmea. — É bom conhecê-la.

Quando a fêmea aceitou a palma da mão que tinha sido


oferecida, o aperto foi curto e muito forte. E ainda assim esses
olhos não se mexeram. No entanto, não havia hostilidade,
exatamente. Também não havia possessividade em Trez.
Mas, ainda assim.

— Existe algum problema? —Therese disse. — E não


quero dizer isso de uma maneira desagradável. É apenas que
isso parece ... —Ela acenou entre eles. — Um pouco intenso.

— Peço desculpas. Vamos ver se conseguimos encontrar


sua bolsa.

Nesse ponto ... absolutamente nada aconteceu. A fêmea

185
apenas ficou ali, aqueles olhos permanecendo fixados nela.

— Xhex, posso falar com você um minuto? —Trez disse


firmemente. — Em particular.

Ele pegou o braço da fêmea em um aperto, mas ela


balançou a cabeça.

— Você não precisa me dizer nada. Eu entendo.

Quando Therese franziu a testa, a fêmea durona sorriu


levemente.

— Por aqui, pode ser que esteja nos Achados e Perdidos.

Trez disse algo baixinho quando todos começaram a


andar, mas não havia razão para se envolver no que estava
acontecendo entre os dois. Talvez eles fossem ex? Ou ...
Talvez fossem amantes?

Uma lança de dor atravessou o peito de Therese com a


idéia, mas vamos lá. Apesar do fato de que ela e Trez tinha
acabado de fazer sexo—e ela estava convencida de que ele era
seu amante das sombra—sua vida amorosa real pessoalmente
e não lunática não era da conta dela. E, quando uma onda de
exaustão rolou através dela, ela decidiu que só precisava pegar

186
a bolsa de volta e ir para casa. Tinha sido uma noite muito,
muito longa …

Não.

O retumbante negativo veio tão alto e claro, que foi como


ser batido no ombro, e Therese até olhou para trás. A
princípio, ela se perguntou por que alguma parte interna dela
discordava do fato de que a combinação de se preocupar em
perder o único emprego que ela tinha, ganhando uma gorjeta
de mil dólares, estabelecendo limites com um colega de
trabalho, ficar no meio de um tiroteio, fazer sexo com o irmão
incrível de seu chefe e perder mil dólares foi suficiente para se
qualificar para uma longa e fodida noite.

Exceto que ela olhou para o perfil de Trez. Sua expressão


era tensa, as sobrancelhas abaixadas, os lábios finos. Ele
estava olhando para a nuca quase raspada da outra fêmea, e
Therese teve a sensação de que ele estava tendo algum tipo de
conversa com ela em sua mente.

Uma que talvez tivesse um monte de palavrões nele ...

Não, a voz repetiu.

187
E foi aí que o significado ficou claro. De alguma forma,
ele e esta poderosa fêmea com o cabelo curto e os olhos
cinzentos escuros não eram amantes. Nunca foram amantes.
Nunca seriam amantes.

A convicção era tão sólida quanto incompreensível—e


possivelmente irrelevante. O fato de ele e Therese terem
acabado de fazer sexo, compartilhando o que para ela era um
ato íntimo que ela não tomou de ânimo leve, não mudou a
realidade de que eles eram apenas conhecidos. Claro, seus
corpos se fundiram por um tempo curto e intenso. Sim, ela
estava convencida, por algum motivo louco, de ter sonhado
com ele. Mas na luz fria de—ele olhou para o teto—bem, na
luz fria dessas lâmpadas fluorescentes, nada disso significava
que suas vidas estavam mais próximas do que estavam no
começo da noite.

Com uma mudança rápida, a fêmea—Xhex era o nome


da fêmea, se ela entendeu corretamente—olhou por cima do
ombro enquanto abria caminho pela pista de dança, ficando
longe dos médicos, da polícia e dos grupos de humanos dando
declarações.

— As coisas recuperadas estão aqui atrás, —anunciou ela.

188
— Em uma das minhas salas de trabalho. A polícia queria
selar tudo. Tratar isso como uma cena de crime. Tirar provas
e fotos. Mas não vamos permitir isso, é claro.

— Oh. —Disse Therese. Porque ela sentiu que deveria


dizer algo, e a única coisa que a ocorria a ela era: Puta merda,
vocês trabalham aqui todas as noites?

Trez balançou a cabeça como se ele lesse a mente dela.


Ou talvez sua expressão não fosse tão composta como ela
pensava que era.

— Como eu disse, —ele murmurou. — Isso não acontece


tão frequentemente.

Uma vez é suficiente para mim, Therese pensou.

— Aqui, —disse Xhex quando ela abriu uma porta.

Therese entrou e ficou surpresa ao se encontrar no que


parecia uma sala de interrogatório: havia uma ampla mesa de
metal com quatro cadeiras ao redor, e nada além de abafadores
de ruído, preenchimento semelhante a casca de ovo nas
paredes—e espere, aquelas cadeiras foram parafusadas no
chão? Ela se sacudiu de volta ao foco. Na superfície da mesa,

189
havia uma desordem de todos os tipos de pertences pessoais,
roupas, óculos, joias ...

— Minha bolsa. —Ela disse enquanto se inclinava sobre


as coisas. Mas ela parou antes de tocar em qualquer coisa. —
Está tudo bem se eu pegá-la?

Os olhos dessa fêmea estavam nela novamente, mesmo


antes de fazer sua pergunta.

— Sim. Fique a vontade.

Therese agarrou sua bolsa e abriu-a. Não havia nada


dentro.

Fechando os olhos, ela amaldiçoou. O dinheiro da


gorjeta. O telefone pré-pago. Mas mais do que tudo ... as
chaves que ela tentara tanto encontrar no começo da noite.

A chave de seus pais.

Mesmo quando ela disse a si mesma que ela não deveria


se preocupar, ela fez.

— Sua carteira se foi? —Trez disse quando ele olhou para


dentro da bolsa e viu absolutamente nada. — Oh ... merda.

190
— Está tudo bem. As chaves eram a única coisa que
realmente importavam. Mas eu vou sentir falta do dinheiro da
gorjeta, com certeza. —Ela olhou para ele. — Isso ia me
ajudar a me mudar, na verdade.

— Pensei que você tivesse dito que não tinha dinheiro?

— Bem, esse membro loiro da espécie entrou no


restaurante com sua shellan. Ele comeu como ... Quero dizer,
quase todo o cardápio, e depois que seu irmão deu o jantar de
cortesia, ele me deixou essa gorjeta enorme. Está tudo bem,
no entanto. Quero dizer ... o que eu vou fazer?

Xhex acenou com a cabeça.

— O dinheiro está provavelmente muito longe agora.


Escute, eu tenho que voltar para apagar memórias. Vejo vocês
mais tarde.

Com um aceno de cabeça, a fêmea saiu, e a porta se


fechou atrás dela. Deixada com Trez e os Achados e Perdidos,
Therese respirou fundo. E de novo.

Por um momento breve, ela considerou perguntar se


poderia ir e limpar a pista de dança no caso de ela conseguir

191
localizar as chaves. Então, ela olhou para a mesa. Haviam
vários molhos de chave espalhados entre o lixo que tinha sido
perdido, mas nenhum deles era o dela.

— Bem, —disse ela, e não pode ir mais longe.

— Eu realmente sinto muito.

Ela achou que era era difícil saber pelo que ele estava se
desculpando—o sexo, mesmo que tivesse sido incrível? A
estranha conexão, mesmo que parecesse tão real? O tiroteio,
apesar de ela não ter sido ferida e não ter sido culpa dele—ela
reconheceu que sua cabeça estava em um emaranhado total,
sendo que a única cura para esta doença, era dormir.

Supondo que ela seria capaz de dormir hoje, e não apenas


por causa de seus vizinhos barulhentos.

— Então, eu vou voltar para casa agora, —ela não


conseguiu encontrar os olhos dele e teve que forçar um sorriso.
— Obrigado por tudo …

— Estou feliz que você veio me ver. Foi inesperado—eu


gostaria de ter sabido que você estava vindo.

— Eu … ah—eu não sabia que esse era o seu clube, na

192
verdade. Emile e eu viemos aqui para acalmar a namorada
dele.

As sobrancelhas de Trez se levantaram.

— Emile. Tem uma namorada?

Bem, se não era uma notícia feliz, Trez pensou. Para aquele
garçom. Porque se o humano filho da puta estava
comprometido? Isso ia melhorar drasticamente suas chances de
ver seu próximo aniversário.

— Sim, ele está namorando uma mulher com quem


trabalho. —Therese alisou o cabelo que estava fluindo sobre
seus ombros. — Parece que perdi meu prendedor de cabelo
também, —ela balançou a cabeça. — De qualquer forma, sim,
ele está com a temida Liza—embora para ser justa, tenho certeza
que a mãe da garota provavelmente a ama.

— Ela está te dando problemas?

193
Ela é um problema que posso resolver para você, ele pensou para
si mesmo.

— Não, não como você está pensando. Ela é apenas


ciumenta.

— Ela tem motivos para estar? —Talvez o otimismo dele


tenha sido exagerado.

— Não. —Aqueles olhos, aqueles belos olhos pálidos


dela, se ergueram e se fixaram em seu olhar. — Não há razão
para ela se preocupar comigo. Não do meu lado, pelo menos.
E eu deixei isso claro para Emile.

Trez tentou manter seu sorriso para si mesmo. Falhou


miseravelmente.

— Bom.

Quando Therese corou, ela voltou a olhar para os objetos


pessoais que tinham sido jogados sobre a mesa. — Sim, então
o plano era que ele e eu viéssemos conversar com ela. Acalmá-
la. Ela estava bêbada e ... tanto faz. Não é problema meu.

Ele estava mais do que feliz em mudar de assunto.

— Então você ia se mudar? Graças a essa gorjeta?

194
E P.S., havia apenas um homem loiro que Trez poderia
pensar que iria comer tanto que uma gorjeta de um depósito
de segurança seria justificada.

— Sim, eu ia perguntar sobre o aluguel.

— Ainda está disponível, —ele correu para apontar.

— E eu estou quebrada de novo, —Therese respirou


derrotada, mas não se afundou em nenhum tipo de pobre de
mim. — É apenas um revés, no entanto. Um atraso. Vai
acontecer.

Ela colocou a bolsa na mesa e enfiou a mão lá dentro para


abrir o zíper de um bolso escondido. Tirando um celular que
não estava ligado, ela balançou a cabeça.

— Pelo menos eles não conseguiram isso. Talvez porque


está morto. Ou eles apenas não viram.

— Você está sem bateria? Gostaria de carregá-lo no meu


escritório?

— Nah, esse é meu antigo. Eu não o ligo.

Quando ela olhou para a porta, ele se sentiu como eles


estavam conversando no restaurante. Havia algo sobre ela

195
partir que sempre o deixava nervoso—como se, talvez, ele
nunca a visse novamente.

Como se, talvez, ele a perdesse permanentemente.


Novamente.

Esta é minha rainha, ele pensou para si mesmo. De volta


para mim ... por algum tipo de milagre.

— Estou feliz por ser o seu sonho, —ele disse suavemente.

Os olhos de sua fêmea voltaram-se para os seus e ela abriu


a boca para dizer alguma coisa. Em seguida, fechou.

Quando o silêncio se estendeu entre eles, ele sabia o que


ela queria. E ele queria dar a ela. Por horas. Por noites inteiras
e dias.

Trazendo seu corpo para mais perto, ele colocou o braço


em volta pequena curva das costas dela e a puxou contra seu
músculo duro. Ele estava ereto novamente. Novamente
desesperado. Mas não havia nenhuma possibilidade de fazer
qualquer coisa sobre isso. Havia muita coisa acontecendo do
outro lado da porta e, em seguida, havia Xhex e toda sua
merda symphath.

196
Trez abaixou a boca, mas parou com apenas dois
centímetros entre eles.

— Eu quero estar em você de novo.

O suspiro dela era tão lindo quanto ela era.

— Quando?

Agora! Porra agora! Sua libido rugiu.


AGORAAGORAAGORA ...

— Amanhã ao anoitecer. Eu vou até você na pensão.

— Eu tenho que trabalhar.

— Você pode se atrasar.

Therese sacudiu a cabeça.

— Eu não posso.

— Então, depois que o seu expediente acabar. Eu vou


buscá-la.

— Okay. —Ela estendeu a mão para sua nuca e apertou


os seios contra seu peito.

— É um encontro.

197
— E eu vou encontrar uma privacidade adequada para
nós.

— Eu não sei onde isso vai dar, —ela sussurrou.

— Sim, você sabe. E eu também.

Eles estavam conversando rapidamente, suas frases


colidindo umas com as outras, como se ela estivesse
preocupada que eles perderiam o futuro da mesma maneira
que ele.

Trez selou a boca dela com um beijo que a levou de volta


para quando eles estavam unidos, tão acelerados, tão
apressados, tão cru no chão da passagem escondida. E a
próxima coisa que ele sabia, é que a colocou no canto da mesa,
a porcaria de outras pessoas batendo no chão enquanto suas
mãos iam a lugares que os colocariam rapidamente em uma
situação comprometedora.

Lugares com zíperes.

Trez amaldiçoou seus lábios.

— Eu preciso parar antes que eu não possa.

— Eu também. Isso é loucura.

198
Conseguir que seu corpo prestasse atenção aos comandos
não foi a coisa mais fácil que ele já fez, mas ele finalmente
conseguiu se afastar. A reviravolta que ele teve que puxar era
mais como colocar um dois-por-quatro em um saco de
farinha—e a maneira como ela olhou para ele enquanto ele
estava se tocando não o ajudou a se refrescar nem um pouco.

— Vejo você amanhã à noite, —disse ele com uma voz


gutural.

— Sim. —Ela manteve os olhos na excitação dele. — Você


irá.

199
Capítulo 11

Xhex estava apagando mais uma lembrança humana quando


viu a porta da sala de interrogatório abrir e Trez e aquela
fêmea sairem. Não era preciso ser uma symphath para saber o
que estava em ambas as mentes. Por um lado, Trez tinha um
poste na frente de suas calças. Por outro lado, aquela fêmea—
Therese—estava olhando para ele entre seus cílios, como se
ela estivesse se lembrando de algo que os dois tinham feito, e
não como na leitura do jornal.

Mais como Netflix e Chilling —sem o Netflix ou o frio.

No entanto, era improvável que esse tipo de coisa tivesse


acontecido naquela sala agora. Por um lado, eles não estavam
sozinhos há muito tempo, e Xhex estava disposta a apostar

Siginifica resfriamento e congelamento.

200
que seu chefe trabalhava rápido com as fêmeaes, mas não tão
rápido. Por outro lado, eles estavam carregando os aromas um
do outro quando ela se encontrou com eles quando eles saíram
da passagem escondida.

Portanto, já tinha sido um negócio feito.

Embora essa nem fosse a parte interessante.

Estreitando os olhos, Xhex focou na fêmea—e não apenas


porque ela era a imagem viva da falecida Selena.

Sim. Ela não estava errada. Therese tinha uma grade


extremamente incomum.

Como uma symphath, Xhex foi capaz de ler as emoções de


outras pessoas, sentindo mudanças de sentimentos e
orientações internas ao longo de um padrão de grade
tridimensional, os altos e baixos traçados ao longo de eixos.
Todo mundo tinha uma superestrutura. Doggen, vampiros
comuns, Sombras—até mesmo symphaths, embora a maioria
dos tipos de Xhex e Rehv pudessem esconder suas estruturas
de outras subespécies. O que era impossível—ou deveria ter
sido impossível—era para um indivíduo ter duas grades. De
fato, Xhex nunca tinha visto algo assim ...

201
Até que ela conheceu John Matthew, seu hellren.

Ele tinha o que era uma grade padrão, assim como todos
os outros, mas havia algo por trás disso, uma superestrutura
sombra. Era como uma imagem espelhada da grade principal,
e as emoções sempre foram traçadas da mesma forma em
ambos, os dois trabalhando não em conjunto, mas de forma
idêntica.

Até esta noite, Xhex não tinha ideia do que significava.


Pelo menos não com certeza.

Ela tinha suas suspeitas, no entanto, aquelas que eram


particulares e pessoais demais para que ela compartilhasse
com qualquer pessoa, exceto John, mas também aquelas que
eram demais para que ela compartilhasse com ele. A verdade
era que ela tinha começado a se perguntar se John estava mais
conectado com o seu pai, Darius, que apenas em uma base
pai/filho. Exceto que isso era impossível, certo?
Reencarnação não acontecia.

Realmente. Ele não ...

Sim, exceto que outra forma alguém iria conciliar uma


cópia idêntica da shellan morta de Trez—que tinha uma grade

202
assim?

— Eu não quero ouvir isso, okay.

Ao som da voz concisa do macho, ela não se deu ao


trabalho de desviar os olhos da fêmea que estava saindo do
clube.

— Onde você a conheceu?

— Eu não estou falando sobre ela.

— Ela se parece com Selena.

— Realmente, —ele reclamou. — Eu não tinha notado. E


eu não vou ...

— Acho que ela é Selena.

Quando ele congelou onde estava, ela quis dar um tapa


em si mesma. O cara estava arrasado pela dor e, portanto,
preparado para fazer coisas que não eram do seu interesse para
uma fêmea que se parecia com isso. Apesar da questão da
grade. Ou talvez por causa disso.

Xhex sacudiu a cabeça.

— Eu não quis dizer isso …

203
— O que você vê? —Ele demandou. Ele a segurou pelo
braço com força. — Xhex, o que você sabe?

A sensação de que estavam sendo observados a fez olhar


em volta—e sim, lá estava. No canto mais distante do clube,
uma sombra densa que não pode ser explicada por objetos que
bloqueiam a luz. Mas não era o Ômega. Não era mau. Não
era nem mesmo uma sombra.

Era uma ilusão de ótica levantada para que alguém de pé


atrás dela não fosse visto. E ela tinha um palpite de quem era.

E por que ele estava aqui.

Uma sensação abrupta de paz tomou conta dela.

— O que você vê? —Trez colocou o rosto no seu. —


Conte-me.

A forma como a voz do macho quebrou, o desespero em


seu rosto, o olhar doloroso em seus olhos, fizeram Xhex
abraçá-lo abruptamente. Como não poderia? Seu sofrimento
tinha sido indescritível, mas o fim estava à vista. Ela sabia
disso sem dúvida.

Segurando-o perto, Xhex disse em seu ouvido: — Vai ficar

204
tudo bem.

— O que é isso?

Como ela recuou de seu velho amigo, de seu querido


amigo, ela estendeu a mão para seu rosto.

— Tudo está como deveria estar.

— O que isso significa?

Xhex olhou para o macho. Colocando a mão no coração


dele, ela se abriu para ler completamente sua grade. Era o tipo
de coisa que ela não tinha sido capaz de fazer antes, e não
porque ele a trancou. Ela o amava como um irmão, e a perda
dele era tão dolorosa que se aproximar demais de suas
emoções, do jeito dela, era uma agonia.

Como colocar todo o corpo em uma grelha em brasa ...

Respirando fundo entre os dentes, Xhex tremeu. Sua dor


era um maremoto que picou sua própria medula, e ela teve
que preparar-se para absorver a enormidade do mesmo. Mas
ela devia isso a ele.

Antes de falar, seus olhos saltaram para aquele canto do


clube, para a sombra que estava presente, mas não podia

205
existir tecnicamente.

— Você sabe o que você sente aqui? —Ela sussurrou


enquanto esfregava sobre seu coração.

— O que?

— Aqui, —ela pressionou. — Aqui no seu âmago. —


Quando ele começou a balançar a cabeça, ela falou sobre suas
perguntas, seu desespero. — Me escute. Você pode confiar
nisso. Você entende o quê eu estou dizendo? Você pode
confiar no que está aqui.

Trez engoliu em seco. Quando os olhos dele foram para o


telhado, ela sabia que ele não estava olhando para nada. Ele
estava tentando impedir que as lágrimas caíssem, aqui neste
lugar público, com tantos humanos e funcionários por perto.

— Como você sabe em que eu posso confiar? —Perguntou


ele sem encontrar os olhos dela.

— Não tenho uma boa resposta para isso, e não porque


estou escondendo algo de você. Eu apenas sei ... você pode ter
fé em si mesmo. Mesmo que pareça ... impossível.

Houve um longo momento de quietude e silêncio, mesmo

206
quando os outros membros do clube se movimentavam,
conversavam e até gritavam. Mas ela deu a ele todo o tempo
que ele precisava para avaliar sua aura e expressão. E ela
soube o momento em que ele acreditou no que ela estava
tentando lhe dizer sem realmente lhe contar: os braços de seu
velho amigo atiraram-se em torno dela e a puxaram firmemente,
a força que ele colocou no abraço quase a esmagando.

— Obrigado. —Ele resmungou.

Os olhos de Xhex voltaram para aquele canto distante,


para aquela sombra inexplicável que foi criada pela magia.

— Não me agradeça. Não é coisa minha.

Com uma maldição rápida, Trez recuou e arrumou sua


camisa de seda. Como se ele estivesse tentando arrumar suas
emoções.

— Eu, hum ... sim, bem, —disse ele, — se você me der


licença, vou para o meu escritório, onde não vou perder tudo
por toda a porra.

— Bom plano. —Xhex sorriu para ele. — Eu vou lidar


com tudo aqui em baixo.

207
— Você sempre faz.

Trez apertou o ombro dela e então ele atravessou a pista


de dança vazia, uma figura alta com um corpo poderoso e uma
dor de coração terrível que, inesperadamente, foi aliviada por
um milagre.

Sem aviso, a inquietação a percorreu, e ela cruzou os


braços sobre o peito. Ela fez a coisa certa? Ela disse a coisa certa?

Big Rob, seu segundo no comando, aproximou-se dela.

— Ei, você tem um minuto? Aquele policial quer falar


com você.

— Um segundo. Segure-o no lugar.

Afastando-se de seu segurança, ela caminhou até a


sombra e depois girou para trás, de costas para o canto, como
se estivesse medindo de alguma forma a pista de dança.

Em voz calma, ela disse: — Por que não posso contar a


ele? Eu não entendo. Se você deu esse presente a ele, ele não
deveria saber que ela voltou?

Xhex esperou. E pouco antes de desistir, uma resposta


desencarnada entrou em seu cérebro diretamente, ignorando

208
seus canais auditivos.

Ele está no meio de seu destino agora. Não há atalhos,


mesmo quando há presentes.

Ela se virou e olhou para a escuridão densa.

— E o John. John é o mesmo que ela, John é …

Isso foi antes do meu tempo. Não tenho posição para


reorganizar os arranjos do meu antecessor.

— Então é real?

A sombra desapareceu, mas ao sair, ela sentiu um calor


tomar conta dela. Balançando a cabeça, ela teve que sorrir.

Lassiter trabalhando magia, e anotando nomes. O melhor


que ele pôde. Isso quase faz você esquecer o gosto dele em
programas de TV.

209
Trez não teve um colapso, como se viu. Em vez disso, ele
ficou em seu escritório até que todos, incluindo Xhex,
tivessem ido embora. Então, perto do amanhecer, ele desceu
para o clube propriamente dito e ficou no enorme espaço
vazio. Lentamente, ele girou em círculo, observando o bar, a
cabine de som, as salas de interrogatório, os banheiros onde a
merda acontecia, as escadas para sua área privada.

Ele comprou o antigo armazém para o clube, arrancou os


compartimentos internos, e pintou todo o vidro velho dos
blocos de janelas que cercavam a parte superior do espaço. Ele
também construiu seu escritório, bem como o vestiário para
as garotas que trabalhavam para ele, e aqueles que eram
homens solteiros, mas nunca foram usados dessa maneira,
com os ralos no meio do chão e a mangueira que fica atrás dos
banheiros.

Ele nunca tinha pensado realmente nos seus negócios


como sujos. Ele tinha estado nisso pelo dinheiro. Mas a ideia
de Selena estar aqui? E quase levar um tiro?

210
Levantando a mão, ele a colocou em seu coração,
exatamente onde Xhex colocara a sua. Você pode confiar no que
está aqui.

Sim, ele pensou. SIM.

Suas orações, suas desesperadas orações enviadas para o


éter fino, porque ele não acreditava em nada espiritual, nem
mesmo nas estrelas distantes, foram atendidas. Xhex provou
isso hoje à noite.

Xhex provou isso hoje à noite.

Ela lhe disse, esta noite, tudo o que ele queria ouvir.

Com uma nova onda de gratidão e alívio, ele imaginou


Selena em sua nova encarnação. Lembrando-se deles estarem
juntos. Lembrou a sensação de seu núcleo, o sabor de seus
lábios, até mesmo os sons que ela fazia.

Sua shellan estava de volta com ele.

Sua alegria era tão grande que ele não podia contê-la
melhor do que lidara com sua dor, suas emoções
transbordando. Superando. Ultrapassando. Exceto que agora,
ele não se importava. Ele pegou o telefone e ligou para o

211
contato de seu irmão. Ele precisava contar ao iAm, ele
precisava contar aos irmãos, ele precisava ...

Um flash no chão chamou sua atenção.

Franzindo a testa, ele se aproximou e se abaixou. O


molho de chaves não era nada incomum, exatamente o tipo
de coisa que poderia ser encontrada em qualquer noite da
semana depois que as luzes se acendiam. Havia algo fora da
norma, no entanto. O anel sem adorno possuía, além de uma
chave de prata de distinção irrelevante, uma de cobre. O metal
macio era velho, totalmente desprovido do brilho suave e
dourado de cobre fresco. Então era de uma casa de vampiros.

Trazendo a coisa para o nariz, ele respirou fundo—e


pegou o cheiro familiar de sua fêmea. Eram dela. Elas tinham
caído da bolsa quando o dinheiro tinha sido levado.

Esfregando o deslizamento de cobre entre o polegar e o


dedo indicador, ele pensou em sua Selena reencarnada. Do
fato de que ela não o reconheceu pessoalmente, mesmo que
ela o conhecesse de seus sonhos, o conhecia pela sensação de
seu corpo no dela, dentro dela.

Esta chave, que se aqueceu ao seu toque, não estava na

212
porta do apartamento dela naquela porra de pensão horrível.
Era para outra casa—um lar. De onde ela tinha,
evidentemente, vindo.

Exceto ... como isso funcionava? Como ela, como


Escolhida, veio de qualquer lugar que não o Santuário?

Por mais que sua alma estivesse cantando, e tão


fervorosamente quanto ele queria proclamar ao mundo que
sua rainha havia retornado a ele, seu lado lógico não
conseguia quadrar o passado que ela tivera sem ele. Ela estava
passando por sua transição. Bem, através dela. Então, como
isso tinha acontecido? Como sua Selena morreu tão
recentemente, e ainda assim foi devolvida a ele no corpo de
uma fêmea madura?

Não havia como conciliar as duas linhas do tempo. Não


há como fazer essa equação somar, subtrair, multiplicar ou
dividir. E ainda assim Xhex não o enganaria. De maneira
nenhuma. Embora ela fosse uma symphath, a história provou
que ele podia confiar nela, e ela tinha confirmado claramente
o que ele sabia o tempo todo, o que o havia cativado—e dado
que o que ele sentia agora era infinitamente melhor do que o
sofrimento? Ele pegaria e correria com ele. Afinal, não era

213
disso que se tratava a fé?

Você acreditria no que sua alma lhe dissesse, mesmo que


a mente falível lutasse com as implicações.

Paz. Tudo o que ele queria era paz. E se ele tivesse que
parar de questionar e acreditar para ficar aqui nesse alívio?
Então ele estava naquele trem, droga.

Olhando para o contato de seu irmão na tela de seu


celular, parecia errado não compartilhar isso com iAm. O
outro macho sofreu tanto quanto ele. Talvez tenha sido por
isso que o pobre coitado deixou o molho queimar no fogão
esta noite. Ele estava recém-acasalado, com uma fêmea que
amava com tudo nele, mas tinha um caso perdido como
parente de sangue mais próximo.

A última coisa que a iAm precisava era de um telefonema


maluco daquele caso perdido que estava cheio de lágrimas
felizes, proclamações de reencarnação e sugestões de que eles
tinham um encontro duplo. Isso era especialmente verdade,
uma vez que a fala do rapaz em sua mais nova garçonete era
que a fêmea não era de fato a Selena. Para iAm, ela era
Therese. De Michigan. Que veio para Caldwell para começar

214
uma nova vida independente de qualquer família que ela tenha
deixado para trás.

Qualquer notícia ao contrário não iria cair bem.

E iAm não era o único que não precisava de uma conversa


como essa. Trez não estava interessado em alguém falando
com ele sobre essa felicidade. Tentando provar que ele estava
errado. Tentando "raciocinar" com ele.

Ele era passível de besteira, e não de uma maneira insana.


De maneira combativa.

— Foda-se.

Enquanto olhava para o telefone, ele encontrou tanta


ironia no fato de que suas boas notícias o alienaram tanto
quanto suas más notícias. Ele tinha um segredo que sabia que
não podia compartilhar, e isso o deixou sozinho.

Talvez o mesmo acontecia com a dona desta chave, ele pensou


para si mesmo.

Sua fêmea o tinha visto em seus sonhos ... mas,


novamente, ela não o reconheceu na vida real.

Antes de ficar frustrado com toda a situação, ele

215
deliberadamente se lembrou do jeito que se sentiu quando
estava na frente daquela pira funerária, aquelas chamas
consumindo os restos mortais de sua rainha. Quantas vezes,
durante a queima, e depois quando tudo era brasa e cinza—
inferno, mesmo antes disso, quando sua fêmea estava à beira
da morte, persistente, sofrendo ... quantas vezes ele implorara
por um destino diferente? Prometia todo tipo de coisa, dentro
e fora de seu controle, para que ela voltasse, para que sua vida
voltasse ao normal, para que eles tivessem anos, décadas,
séculos pela frente.

E nada disso lhes fora concedidos. O que tinha sido muito


curto, e muito trágico.

E se esse fosse o destino que ele pediu para ser entregue a


ele? E se ... esta era a única maneira de acontecer, a única
maneira pela qual suas preces poderiam ser respondidas?

A reunião com sua rainha concedida.

Mas só ele sabendo disso.

— Eu aceito. —disse ele em voz alta enquanto desligava


seu telefone. — Eu vou tomar essa merda cem vezes durante a
semana, e mil vezes em todos os domingos.

216
Capítulo 12

Na noite seguinte, Trez pulou a escadaria pomposa da

mansão da Irmandade. Enquanto ele descia os degraus de


carpete vermelho e dignos de um czar, ele ficou feliz por
ninguém estar pendurado na coluna de mármore do saguão
multicolorido: mesmo que ele estivesse assobiando, quase
pulando, e sujeito a fazer high-five com qualquer um, ele não
queria que ninguém o pegasse de bom humor.

Na verdade, seu corpo estava saltitante e flutuante, uma


boia em marés suaves, e seus pés eram todos Fred Astaire ,

O High Five é um gesto, ou cumprimento presente em diversas culturas, muito comum nos Estados Unidos,
que ocorre quando duas pessoas tocam suas mãos no alto simbolizando parceria, amizade e vitória. O famoso ‘toca aqui’.

Fred Astaire foi um dançarino, cantor, ator, coreógrafo e apresentador de televisão estadunidense,
considerado o dançarino mais influente na história do cinema. Sua carreira no palco e subsequente no cinema e na televisão
durou um total de 76 anos.

217
leves e ágeis. Então, novamente, o incrível peso que estava
sentado em sua caixa torácica, parecendo um elefante, tinha
desaparecido. Em sua ausência, ele poderia respirar pela
primeira vez desde a morte de Selena—e ei, outro bônus, seu
coração não estava sangrando no peito mais, também.

E era engraçado. Mesmo que ele estivesse tão ciente de


quão mal ele estava—porque, olá, ele estava com tanta dor, ele
não tinha escolha a não ser reconhecer o equivalente a uma
falência de órgãos graves como seu dano—ele, no entanto,
tinha uma nova perspectiva sobre seus estados mentais e
emocionais.

Até a remoção da dor acontecer, ele não entendia as


profundezas dela. Além disso, olha só, ele estava realmente
ansioso por algo.

Por alguém.

Era disso que Rehv estava falando quando o cara tinha vindo
e pressionado a coisa da droga? Porque se uma pessoa puder
obter esse efeito tomando uma pílula a cada 24 horas? Cara,
aceite a merda toda. Ele simplesmente não achou que fosse assim
tão simples.

218
Não, esse otimismo, esse retorno a uma normalidade que ele
nunca realmente teve, foi ao mesmo tempo complicado e
simples. Em breve, ele iria ver sua shellan, na forma em que ela
retornara a ele como. E o que você sabe, isso resolveu muitos dos
problemas dele—e os que ele criou? Bem, ele passou o dia todo
deitado na cama e pensando sobre eles.

Yup, ele estava mais do que confortável em gerenciá-los.

Quando ele bateu no chão de mosaico, ele parou e olhou


para os sons alegres que se derramavam pelo arco da sala de
jantar. Havia risos e conversas, e a batida macia da prata esterlina
na porcelana e o ocasional raspar das pernas da cadeira quando
alguém se levantava ou se sentava. Ele podia imaginar as pessoas
lá dentro. Via seus rostos, seus sorrisos, seus corpos naqueles
assentos esculpidos à mão. Trinta deles, incluindo os criados.

Ele tinha evitado as refeições, não porque ele não gostava


de estar naquela sala grande, mas porque ele amava as pessoas
lá dentro. E era difícil, quando você estava em um lugar
escuro, e ter que estar em torno daqueles que não estavam.
Você não quer trazer ninguém para baixo, mas você também
não poderia fingir a felicidade. Com a mudança de humor, ele
estava tentado a ir para a sala de jantar, abraçar cada um deles,

219
em seguida, sentar-se em um lugar vago. E pegar a carne
assada que ele podia sentir o cheiro, e iria pedir desculpas por
colocá-los todos através da situação que ele tinha criado—
porque ele sabia que os Irmãos e as suas shellans, os outros
lutadores, mesmo Fritz e sua equipe, tinham se preocupado
com ele. E então ele iria se juntar as conversas e risadas.

Exceto que ... não. Ele não podia fazer isso. Esse humor
ressuscitado—naturalmente—que ele estava ostentando era
como fazer rinoplastia . Todo mundo ia notar, e não havia
explicação, nem para a tripulação mais próxima e querida.

Seria melhor fazer uma reentrada gradual.

Sim, era assim que isso tinha que ser. Especialmente se ele
começasse a trazer Selena em sua nova encarnação ao redor
dos Irmãos. Graças a Deus pelo menos Xhex sabia o que
estava fazendo e poderia ajudar a enquadrar as apresentações.

Respirando fundo, ele foi para a porta do vestíbulo, e


lembrou-se que ele saber a verdade era suficiente. A realidade

Rinoplastia é uma cirurgia realizada na estrutura nasal para melhorar a estética ou a respiração do
indivíduo. Serve para correção de deformidades traumáticas ou naturais e ainda para corrigir disfunções. Muitas vezes é
associada a uma mentoplastia, para o resultado harmonizar as formas do rosto.

220
não se tornaria mais real só porque ele atraiu outras pessoas
para ela—não havia nenhum tipo de requisito de ocupação
para yup-isso-está-acontecendo. Além disso, se alguém desafiasse
suas boas notícias? Ele seria capaz de ficar na defensiva como
uma 40 milímetros ...

Trez estava prestes a abrir primeira porta do vestíbulo


quando algo na sala de bilhar chamou sua atenção.

Atrás da fila de mesas de sinuca, no chão, algumas dúzias


de páginas foram colocadas em frente de um ventilador. Tinha
que haver pelo menos vinte ou mais, e elas estavam marcadas
com respingos de vermelho brilhante e verde. Inspirando, ele
sentiu o cheiro de tinta, mas não do tipo fedorento de óleo. Foi
doce e ...

— Bitty? —Disse ele.

A pequena, que estava esticada em sua barriga e cercada


por recipientes abertos de tinta guache, olhou para cima e
sorriu.

O calibre .40 S&W (10 × 22 mm Smith & Wesson) é um cartucho para pistolas cujo peso varia de 105 a 200
grãos (6,8 a 13,0 g).[1] Foi desenvolvido especialmente para a Polícia Federal Norte Americana, o FBI e é o calibre preferido das
polícias brasileiras.

221
— Oi, tio Trez.

Caminhando até a filha de Rhage e de Mary, ele se


agachou.

— Uau, isso é um trabalho e tanto.

— Estou fazendo cartões de Natal para todo mundo. —


Ela lavou o pincel em um copo cheio de água turva. — É uma
tradição humana.

— Eu ouvi falar.

Ao inspecionar o trabalho dela, ele pensou em seu começo


difícil na vida. Ela tinha perdido tanto, foi tão ferida. Mas
agora ela estava do outro lado disso, tendo sido adotada por
um pai e uma mahmen que a amavam acima de tudo. Ela teve
um bom final, e foi bom sentir que ele estava participando
disso.

Seu lindo rosto suave tornou-se muito sério.

— Minha mãe e tia Beth me disseram tudo sobre como os


humanos fazem isso. Você ganha os cartões das pessoas que
ama nesta época do ano e então todos os colocam em sua
lareira para que possam olhar para eles todas as noites.

222
Economizei o dinheiro da minha mesada, e fui ao
Hannaford's com meu pai, mas nenhum dos cartões à venda
realmente se encaixava em qualquer um de nós.

Trez sorriu. — Bem, vampiros e tudo mais. Algumas


coisas não se traduzem também. Mas eu sei que prefiro obter
um cartão feito a mão por você do que um comprado na loja.
—Ele colocou a palma da mão para cima. — Não que eu
esteja tomando como certo que eu esteja na sua lista.

— Mas você está, tio Trez. Claro que você está. —Exceto
então que seus olhos ficaram tristes. — Quero dizer, vocês
dois estão.

— iAm? —Trez acenou com a cabeça. — Você sabe, é


mais eficiente nos dar um a dois.

— Não. Ele recebe um separado, —ela hesitou. Então ela


sentou-se e inclinou-se através de suas obras-primas. Pegando
um, ela ofereceu a ele. — Aqui, esse é para você. Me desculpe
se não é ... bom.

Hannaford é uma cadeia de supermercados com sede em Scarborough, Maine. Fundada em


Portland, Maine, em 1883, a Hannaford opera lojas na Nova Inglaterra e Nova York. A cadeia agora faz parte do grupo Ahold
Delhaize, com sede na Holanda.

223
Sem sequer olhar para a obra de arte, Trez franziu a testa
e colocou a mão em seu ombro minúsculo.

— Bitty. Como posso não amar o que você me fez?

Ela apenas indicou o cartão, então ele se concentrou nele.

Quando ele pegou o que ela havia feito para ele, sua mão
começou a tremer levemente. A folha 8½ por 11 foi dividida
em duas, claramente com a intenção de que fosse dobrada ao
meio para leitura. Virando-o, ele piscou com força. Havia um
par de figuras retratadas, e eles estavam de mãos dadas, uma
estrela de ouro acima de onde estavam ligadas. À direita, o
maior do par tinha pele escura, cabelo super curto, um suéter
verde e calças vermelhas. À esquerda, o menor do par estava
usando uma blusa vermelha e uma saia verde, e tinha cabelos
longos e escuros. Mas em vez de serem cor de carne, os braços,
pernas e rosto da fêmea eram prateados.

— Eu queria que Selena estivesse no seu cartão. —Bitty


estendeu a mão em sua coleção e puxou outra folha. — Então
eu a fiz como se fosse igual a minha mahmen. Vê? E meu irmão
mais novo. Eles são todos prata porque eles não estão aqui na

Tamanho de papel Carta ou A4 – Folha de sulfite

224
terra, mas eles ainda estão conosco.

Trez pegou o cartão que tinha feito para sua mahmen.


Havia uma figura como a que representava Selena, de pele
prateada com um vestido vermelho e verde, e em seus braços,
em um cobertor vermelho e verde, estava um bebê de rosto
prateado. Ao lado do casal, retratado com pele cor de carne,
era como Bitty se via, magra e de calças vermelhas e uma
camisa verde. Bitty não estava sorrindo, mas ela estava
segurando a mão de sua mahmen.

— Eu tenho outro cartão, no entanto. —Bitty trouxe uma


terceira folha. — Eu tenho este, também.

No terceiro, havia três figuras em primeiro plano, uma


enormeeeee de cabelos loiros e roupas pretas com um cachecol
vermelho e verde, uma pequena que tinha cabelos castanhos
curtos e calças verdes e uma camisa vermelha, e então a
mesma representação de Bitty que estava no cartão de sua
mahmen. Neste cartão, Bitty estava sorrindo. Todos estavam
sorrindo.

Rhage estava de pé com os braços grandes sobre os


ombros de Mary e Bitty, e as duas fêmeas estavam de mãos

225
dadas em seu torso. Sobre suas cabeças, havia outra estrela
dourada, bem como duas figuras prateadas em túnicas
brancas, seus braços estendidos, sorrisos em seus rostos,
trilhas de seu voo feito em brilhos que caíram como neve do
céu para formar a linha do solo que a pequena família estava
em pé.

— Essa é a minha mahmen e meu irmão. —A menina


apontou. — Lá em cima.

— Observando do Fade. —Ele olhou para Bitty. — Eu


acho que todos eles são realmente muito bonitos.

Bitty pegou os dois cartões que ela tinha feito para si


mesma de volta e testou a tinta suavemente com a ponta do
dedo.

— Está seco. —Ela cuidadosamente dobrou o pedaço de


papel pelo centro. — Veja, é assim que eles devem parecer.

Ela repetiu a rotina de dobrar e achatar com o outro e


depois alinhou o par. Sentada de volta em seus calcanhares,
ela franziu a testa.

— Não sei se eu deveria ter feito um para mahmen e

226
Charlie separadamente. —Ela olhou para cima. — Eu ia ter
um irmão, você vê. Ele veio até mim em um sonho. Então eu
sei que ele teria sido um menino se ele vivesse, e ele não tinha
um nome, então eu o nomeei de Charlie. Pelo menos na
minha própria cabeça.

Bitty tocou em ambos os cartões, ligando-os como se as


figuras fossem ligadas por mãos e braços. — Parecia errado
não fazer um cartão para eles. Mas era um cartão triste. Então
... —Ela apontou para o outro. — Então eu fiz este, e eu
percebi que eu poderia colocar todos nós nele. E este é um
cartão feliz, mesmo que eles não estejam conosco. Porque eles
na verdade, estão conosco.

Os olhos profundos da menina de 13 anos trancaram nos


dele por conta própria. — Quando fui fazer seu cartão, pensei
em colocar Selena acima de você, mas ... senti que ela estava
na mesma linha. Ao seu lado.

Arrepios correram pela parte de trás do pescoço. — Você


não tem ideia de como você está certa. Posso ficar com isso?

— Deixe-me dobrá-lo para que fique certo.

— Claro, —ele murmurou quando ele devolveu sua obra

227
de arte.

Bitty alinhou os cantos com precisão e, então, com o


cuidado de rivalizar com o de um neurocirurgião, puxou as
pontas dos dedos para baixo, criando um vinco perfeito. Ela
fez como se fosse dar a ele, mas depois pegou o cartão de volta.

— Era para eu escrever algo no interior. Mas eu não tenho


as canetas para escrever nada nele. Elas estão no meu quarto.
Eu não esperava ter que escrever neles ainda.

Trez olhou para a figura de prata e a imagem de si mesmo.

— Você sabe, ele foi feito com amor e eu amo o que você
pintou. Então, eu não tenho certeza de que ele precisa de
palavras.

— Ok, você pode tê-lo desse jeito então.

Quando ele aceitou o presente, a menina jogou os braços


ao redor dele e apertou. Com um nó na garganta, Trez
devolveu o abraço levemente. Ela era uma coisinha pequena,
mas seu coração e espírito eram ferozes. Ela tinha mais do que
provado isso.

— Obrigado, Bitty. Vou guardar isso como um tesouro

228
para sempre.

— Eu te amo, tio Trez, —Bitty se afastou do abraço. — E


eu não quero que você fique mais triste.

— Estou melhor agora, —ele sussurrou. — De verdade.

O som de alguém se aproximando fez Trez levantar a


cabeça. Rhage estava vindo para a sala de bilhar, uma perna
de peru em uma mão, um milkshake de chocolate que estava
pela metade na outra. O Irmão sorriu.

— Ei, Trez, o que está fazendo? —Ele olhou para Bitty. —


E você jovenzinha, é hora de jantar. Eu lhe dei dez minutos
extras, mas isso se transformou em vinte. Você sempre pode
voltar aqui assim que terminar.

— Okay, papai, —ela disse enquanto se levantava.

— Uau, olha para os seus cartões. —Hollywood


murmurou enquanto olhava para os papéis. — Eles estão
lindos.

— Ela fez um para mim. —Trez estendeu o seu quando


se levantou. — Não é perfeito?

Uma sombra de tristeza cruzou os olhos azul cor das

229
Bahamas de Rhage. — Sim. Ele é … é perfeito. Simplesmente
perfeito.

Rhage sorriu para sua filha.

— Bom trabalho.

— Você acha que George vai pisar neles? —Perguntou


Bitty.

— Não, ele fica com seu mestre. E quanto a Boo—bem,


esse gato faz suas próprias coisas. Mas acho que você está
praticamente em uma zona livre de patas aqui.

— Eu não quero que eles peguem tinta em suas patas e


lambam. E se isso os deixar doentes?

— Você é uma garotinha muito atenciosa, Bits.

— Eu vou encontrar a mamãe, —ela acenou. — Tchau,


tio Trez. Estou feliz que você gostou do cartão.

— Eu amei! —Ele gritou enquanto ela pulava pelo chão


do mosaico, seu longo cabelo moreno sinalizando atrás de
suas costas. — Obrigado de novo!

Quando estavam sozinhos, Rhage limpou sua garganta.

230
— Ouça, se isso for, você sabe, muito difícil para você guardar,
você pode jogá-lo …

— Não. —Trez recuou. — Eu estou mantendo o cartão.


Eu o amei. Ela é uma artista talentosa, e este é o meu cartão
favorito. Sempre.

Enquanto Hollywood parecia duvidar e tentava escondê-


lo mordendo um pedaço daquela perna de peru, Trez trocou
de assunto.

— Ei, por acaso você esteve no Sal’s ontem à noite? —


Perguntou ele.

— Sim. —Hollywood tomou um gole refrescante do


milkshake, batendo novamente no palito. Depois que ele
engoliu, ele sorriu. — Seu irmão é um abençoado de um bom
cozinheiro, você sabe disso. E, na verdade ...

Quando o Irmão não terminou, Trez tinha a sensação de


onde o macho tinha ido em sua cabeça.

— O quê? —Mesmo sabendo. — Você pode me dizer.


Está tudo bem.

231
Na hora certa, Therese pensou quando ela se reformulou nas
sombras dos cantos distantes do restaurante. Vamos ouvir por
chegar na hora.

Pulando sobre um banco de neve de baixo nível, ela bateu


na parte da passarela e foi para a entrada dos funcionários.
Abrindo a porta, ela ...

Parou no lugar.

O escritório do iAm estava no final do corredor de


concreto raso, e ela não podia ver ele pela porta aberta por
todas as pessoas amontoadas ombro a ombro na frente dele.
Eles estavam todos de costas para ela, e suas vozes estavam
sobrepostas. Estava todo mundo que trabalhava no
restaurante, desde os garçons e os bartenders, até os sous chefs
e o gerente. Que diabos estava acontecendo?

Andando, ela bateu no ombro do confeiteiro.

232
— O que está acontecendo ...?

— Você está viva! —Ele gritou.

A próxima coisa que ela sentiu, era que ele estava dando-
lhe um abraço duro que cheirava a açúcar derretido e
morangos.

A equipe girou ao redor, e então todos estavam


conversando novamente, suas vozes altas e turvas, choque e
alívio brigando em seus rostos enquanto a olhavam como se
estivessem procurando por vazamentos da variedade arterial.

A próxima coisa foi que ela estava sendo arrastada por


todos eles, direto para o escritório de iAm. Emile tinha
grandes rodelas vermelhas em volta dos olhos enquanto estava
ao lado do chefe. Ele parecia horrível, como se não tivesse
dormido por uma semana.

— Você está viva, —disse ele, assim como o confeiteiro.

O abraço de Emile não cheirava a bolinho com frutas


vermelhas. Ele estava usando algum tipo de colônia, mas não
era algo que ele tinha colocado fresco naquela noite. Estava
impregnado nas roupas dele.

233
— Eu liguei o dia todo, —ele explicou. — Algo aconteceu
naquele clube shAdoWs ontem à noite e tivemos que sair sem
você …

Estremecendo, ele parou de falar e trouxe a mão para a


testa como se tivesse uma dor de cabeça repentina. O que era
característico quando um humano tinha suas memórias
apagadas e substituídas por alguma outra versão dos eventos
do que o que realmente tinha acontecido. No máximo,
algumas partes e pedaços eram mantidas, mas quando a
pessoa tentasse sondar além da história que tinham sido
colocada em suas mentes, eles tipicamente sentiam dor em sua
massa cinzenta.

— Liza e eu estávamos preocupados, —ele murmurou. —


E quando eu não pude falar com você, eu entrei em pânico.

Uau, então Trez e Xhex realmente cuidaram de tudo. Mas


ela também não tinha visto nada no noticiário.

— Estou bem. Mas obrigado por se preocupar comigo.

iAm, que estava sentado atrás de sua mesa bagunçada,


limpou sua garganta.

234
— Ok, pessoal. Que tal todos nós—menos Therese—
voltarmos para o trabalho?

— Estou feliz que você está bem, —disse Emile.

— Obrigado—ei, escute, eu perdi meu telefone ontem à


noite. Foi por isso que não respondi quando ligou. Eu não
estava evitando você ou algo assim, e a última coisa que quero
é criar um problema.

— Contanto que você esteja bem, —ele colocou a mão no


ombro dela. — É só com isso que me importo.

Depois que todos saíram, Therese exalou em frustração e


voltou-se para seu chefe.

— Estou com problemas ou algo assim?

— Não. —Ele balançou a cabeça. — Mas o que aconteceu


ontem à noite?

Ela deu de ombros.

— Foi um tiroteio entre humanos. Nada a ver conosco.

— No clube do meu irmão?

— Sim. Emile e eu fomos lá para ... —ela parou. — Isso

235
não é importante. Enfim, eu acho que tudo foi ... cuidado ...
do lado humano das coisas. Assim como eles disseram que
seria.

Agora iAm estava esfregando a cabeça como se doesse.


Então ele murmurou algo em sua respiração e olhou através
da mesa. Quando ele não disse nada, ela sentiu como se ele
estivesse tentando falar com os olhos. No entanto, não houve
chance de fazer perguntas. A porta externa se abriu atrás de
Therese e ...

Quando uma explosão de ar de inverno ártico disparou


para o corredor, ela não conseguia manter o sorriso fora de seu
rosto. E não esqueça do rubor que percorreu seu corpo.

Trez era maior, melhor, mais sexy, mais inteligente, mais


apto, mais atraente—cada mais que você podia usar em todos
os adjetivos que já haviam sido usados para descrever um
macho de valor. Mesmo que ela o tivesse visto há meras
dezoito horas, a ausência tinha ido mais longe do que fazer
seu coração crescer mais afeiçoado. Isso o transformou em
uma fantasia viva e respiratória.

E do lado dele? Ele sorriu de volta para ela. E sorriu. E

236
sorriu.

Ok, ela realmente precisava de outro telefone descartável.


Para que pudessem falar um com o outro durante o dia. Ela se
perguntou se ele tinha tentado ligar para ela—mas então
lembrou que ele estava com ela quando ela descobriu que seu
celular tinha sumido ...

— Permita-me interromper este momento, —disse iAm


bruscamente.

Ela e Trez focaram sua atenção como se um sargento os


tivesse ameaçado prendê-los por insubordinação.

— Por que você não me disse o que tinha acontecido no


clube? —IAm exigiu. Mas ele levantou uma mão. — Espere,
não responda isso. Estou feliz que ela está bem.

— Eu não estava em perigo real, —disse Therese.

Diabos, havia pelo menos um metro entre o cano da arma


e seu rosto. Talvez quatro.

Sem problemas.

iAm sentou-se para a frente e puxou uma pasta através da


mesa. Abrindo-o, o dedo dele desceu o formulário que ela

237
tinha preenchido quando ela tinha sido contratada pela
primeira vez.

— Você nunca nos deu suas informações de contato de


emergência, —ele parou em cima de um espaço que ela tinha
deixado. — Eu tenho que saber com quem entrar em contato
se algo acontecer com você aqui no trabalho. Se você for ferida
em um acidente. Se você não aparecer para trabalhar.

Therese abriu a boca. Fechou.

— Eu, —disse Trez. — Ligue para mim.

Ela olhou em sua direção. Ela tinha ficado tão


impressionada com sua presença, que ela nem tinha notado o
que ele estava vestindo. Mas droga ... o macho transformou
uma camisa de seda branca e um conjunto de finas calças
pretas em uma obra-prima. Ele nunca usava um casaco?

Enquanto ela se preocupava com ele pegando um


resfriado que poderia se transformar em pneumonia que o
colocaria em suporte de vida, Therese recuou um pouco. Era
impossível não notar o quão longe ela evoluiu em tão pouco
tempo. Apenas 24 horas antes, ela tinha sido toda sobre agora-
não-é-um-bom-tempo-para-um-relacionamento e fazer-as-coisas-com-

238
minhas-próprias-mãos. Agora? Ela era totalmente sobre este
macho, aquela rara conexão sexual que eles compartilharam
lançando-a para a frente em uma linha do tempo de
intimidade tão rápido que ela provavelmente deveria estar
usando uma cinta no pescoço da chicotada.

Mas ela não podia discutir com o que se sentia.

Nem queria.

Ela tinha sido sem raízes, e de repente não estava mais. E


a mudança foi boa demais para discutir.

— Sim, —ela murmurou enquanto olhava para o irmão de


seu chefe. — Se você pudesse entrar em contato com Trez, isso
seria ótimo.

239
Capítulo 13

Quer falar sobre um ovo frito com raiva? Trez pensou.


Atrás daquela mesa dele, iAm estava tão zangado, que
você poderia ter quebrado uma gema na testa dele, e teria um
ovo mexido sem nenhum problema.

Trez olhou para Selena—não, ele disse a si mesmo, ele


tinha que lembrar de se referir a ela como Therese, pelo menos
em público.

— Você nos daria licença por um segundo?

— Sim, claro, —disse ela. — Claro.

Claramente, ela tinha pego a vibração. Então, novamente,


você tinha que ter uma definição completamente diferente de
tudo bem para entender o que estava acontecendo com o iAm.

240
— Vou preparar minhas mesas, —ela murmurou antes de
passar por Trez.

— Eu vou encontrá-la antes de ir trabalhar, —disse ele.

Quando ela olhou por cima do ombro, seu sorriso era


como a luz do sol, e dado o longo inverno em que ele
estivera—e ele não estava pensando em termos de
calendário—ele absorveu o aquecimento como se tivesse sido
congelado por todo o corpo.

Depois que ela desapareceu na esquina, ele fechou a porta


do escritório do irmão e recostou-se nela. — Então, qual é o
problema?

iAm fechou a pasta sem adicionar nada ao formulário em


que ele enfiou o dedo indicador como um dardo.

— O que você está fazendo? Seriamente.

— Bem, no momento, estou segurando esta porta. Há um


minuto, eu estava no meu carro. E depois, estarei no meu clube.
—Ele esboçou um meio sorriso. — Você quer que eu escreva
isso para você? Desenhe um diagram …

— O que você está fazendo com essa fêmea? —iAm

241
surtou. — E pare com os jogos.

Trez cruzou os braços sobre o peito e disse a si mesmo


para se acalmar. Não havia razão para lutar.

— Ah. Então você precisa de uma aula de anatomia …

— Isso é sério, porra! —iAm bateu com o punho na mesa,


fazendo uma máquina calculadora saltar como se a coisa
tivesse sido assustada. — Você não está em condições de se
prender ...

— Desculpe-me? —Trez sentiu as pontas de suas presas


formigando. — Agora você é um psiquiatra?

— Ela não é Selena! —iAm ficou de pé, a jaqueta de chef ,


que ele ainda não abotoara, abrindo. — E você sabe que ela
não é, e você está apenas usando ela ...

Deixando de lado o ato feliz—Trez desnudou suas presas.

O dólmã (do turco dólman: "túnica"[1]) é uma espécie de túnica militar muito
ornamentada. No Brasil, essa vestimenta passou a ser usada após a Proclamação da República, procurando-se dar uma nova
imagem aos uniformes militares. Juntamente com a toque blanche, é tradicionalmente utilizado por Chefs Cozinheiros e Mestres
Confeiteiros e Padeiros por tradição herdada de Auguste Escoffier, o "Imperador dos Chefs" e codificador da Gastronomia. De
acordo com o Dicionário Aurélio brasileiro O Dólmã (Casaco curto e justo, usado pelos militares) é um substantivo masculino
portanto devemos chamá-lo de O Dólmã ou um Dólmã.

242
— Você não sabe o que eu estou fazendo com ela ...

— Você é o único que trouxe à tona a anatomia. Ou agora


você vai tentar me convencer que vocês só estão de mãos
dadas juntos?

Trez deu um passo à frente e plantou as palmas das mãos


na superfície da mesa. Inclinando-se para a frente, ele olhou
diretamente para os olhos de seu irmão.

— Não é da sua conta.

— Ela é minha funcionária. Você é essencialmente um


proprietário aqui. É uma violação do nosso RH …

Jogando a cabeça para trás, Trez riu.

— Você está vindo para isso com um ângulo de recursos


humanos? Sério?

— Bem, eu tentei o mais óbvio, que ela não é sua fêmea


morta, e eu não cheguei a lugar nenhum. As leis humanas que
protegem os funcionários de serem assediados sexualmente
por seus chefes são tudo o que me restou.

Quando Trez inalou bruscamente, ele tinha a ideia de que


estava muito feliz que esta explosão não tivesse acontecido

243
mais cedo além do que neste exato momento. Sem tudo o que
Xhex havia dito a ele? Sem a esperança e o otimismo que ele
agora tinha em seu coração? Ele poderia ter feito algo de que
realmente se arrependeria.

Como pegar esta mesa e jogá-la em seu irmão.

— Você só quer que eu seja infeliz? —Disse ele


asperamente.

— O quê? —iAm balançou a cabeça como se não tivesse


ouvido direito. — Você ainda está brincando comigo?

— Você quer que eu sofra, —Trez endireitou. — Você


prefere isso do que me ver ser feliz? Aliviado? Vivendo
novamente? Isso faz você se sentir melhor sobre sua própria
vida, mesmo que a minha esteja na merda?

Os olhos de iAm estreitaram.

— Eu não posso acreditar que essa merda saiu de sua


boca.

— Tudo bem, então qual é a outra explicação para essa


besteira que você está falando? Porque essa é a única
conclusão que faz algum sentido para mim.

244
O dedo de iAm apontou através do ar tenso, pontuando
sílabas faladas com raiva. — Você usou e descartou centenas
e centenas de fêmeas e fêmeas humanas ao longo de sua vida.
Eu sei disso porque eu estive à margem. Assistindo. Eu as vi
fazendo fila atrás de você, aparecendo à nossa porta, vagando
dentro e fora de nossos clubes, procurando por você, e isso
mesmo depois de tirar suas memórias, se você se lembra de
fazê-lo. E o que vejo agora …

— Tudo isso mudou …

— … você está fazendo a mesma coisa com uma fêmea


que não tem ninguém por perto para apoiá-la depois que você
seguir em frente.

— … agora que minha shellan está de volta.

iAm recuou. Então abaixou a cabeça tristemente. —


Então você acha isso.

— Não, eu não.

Trez queria socar a parede enquanto lutava para manter


sua verdade por dentro. O que ele queria gritar no topo de seus
pulmões era que ele sabia que sua shellan estava de volta.

245
Xingando em sua respiração, ele murmurou:

— Tanto faz. Não precisamos falar disso.

— Você realmente acha que é ela?

Trez recuou e inclinou-se contra a porta novamente.


Recruzando os braços, ele encolheu os ombros.

— Ei, você deve estar aliviado que eu não estou usando


ela. Pelo menos você pode tirar isso da sua lista de pecados.

iAm balançou a cabeça.

— Ela não é Selena.

— Fale com Xhex. —Trez bateu o polegar sobre o ombro.


— Vá falar com minha chefe de segurança. Ela sabe a verdade.
Ela me disse a verdade. Ela é minha melhor amiga e nunca
mentiria para mim.

iAm fechou os olhos e esfregou-os enquanto ele se sentava


de volta na cadeira. Quando ele falou novamente, sua voz
estava exausta. — Ela é uma symphath.

— Não comece com isso, —disse Trez com pressa


desagradável. — Você não sabe merda nenhuma sobre o que

246
ela é. E, além disso, ela sempre ficou ao meu lado. Ela sempre
foi boa para mim. Ela não é má, e você sabe disso. Você
conhece ela.

— Concordo, —iAm olhou para cima. — Ela sempre


esteve a sua volta. Portanto, não parece certo para você que
ela deu-lhe a informação que você queria ouvir apenas para
fazer você se sentir melhor? Eu não sei exatamente o que ela
disse, mas ela sabe o quão desesperado você esteve. Quão
perto da borda. Quão perto de ... certas coisas. Você não acha
que talvez ela possa ter manipulado você por todas as razões
certas?

Trez desencostou-se da porta e agarrou a maçaneta.

— Eu estou indo embora. Antes que isso fique ainda mais


feio.

— Só porque uma mentira faz você se sentir bem não


significa que é verdade, e só porque Xhex tem boas intenções
não significa que mentir para você é certo. E eu vou te dizer
isso agora—Therese é a única que vai se machucar. O que
acontece quando você perceber que ela não é, na verdade,
Selena? Você vai perder essa conexão com ela num piscar de

247
olhos. Você está apaixonado por alguém que não está aqui, e
usuando-a como remédio para uma horrível realidade como
um substituto sexual, é inconcebível, não importa o quanto
isso alivie sua dor.

Eeeeeeee era por isso que eu precisava manter a reencarnação em


segredo, Trez pensou.

— Você não tem ideia do que está falando. —Ele abriu a


porta. — Falo com você mais tarde.

Como ... talvez em uma década.

Ou mil anos, ele pensou quando saiu.

De volta à estação de água. Liza e Emile. Therese arrumou


um jarro para encher para poder ir à sua primeira mesa da
noite. E o que você sabe, Liza estava com raiva, Emile estava
se desculpando, e Therese estava preocupada em conseguir
gorjetas suficientes para sair daquela pensão. Era exatamente

248
como tinha sido na noite anterior.

No entanto, tudo foi completamente diferente.

Desde que ela esteve com Trez naquela passagem


escondida, o mundo se reorienteou, todos os móveis
metafóricos mudando oito centimetros de um lado, dois
centímetros de outro, os novos espaços entre os sofás e
cadeiras exigindo uma nova avaliação de uma sala familiar.

E o que você sabe, ela gostou mais do novo arranjo.


Muito, muito melhor ...

Enquanto Trez e seu irmão não se tratassem muito mal,


ela pensou enquanto caminhava para uma mesa com quatro
fêmeaes humanas. Ele e o irmão estavam muito tensos quando
ela deixou o escritório. Espero que tenham limpado o ar ... em
vez de explodir a metade de trás do restaurante para cima.

— Oi, —ela disse às fêmeas humanas, — meu nome é


Therese, eu serei sua garçonete. Posso oferecer-lhes para
começar uma taça de vinho ou alguns coquetéis?

Quando ela derramou a água, iniciou uma pequena


conversa com seus clientes, e tirou os pedidos de bebida do

249
quarteto de amigas antigas do ensino médio, e ficou olhando
para o bar, e não porque estava curiosa para saber se Liza e
Emile haviam elevado suas discussões e relacionamento a um
nível mais alto. A espera a estava deixando impaciente, e ela
teve um pensamento, na parte de trás de sua cabeça, que ela
estava muito emocionalmente envolvida, pois ela não
conseguia ficar cinco ou dez minutos sem ver Trez.

Tente discutir com sentimentos, no entanto.

Ela estava de volta ao posto de abastecimento de água,


depois de entregar as bebidas e dar às senhoras a chance de
examinar o cardápio, quando sentiu um cheiro que percorreu
todo seu corpo.

— Hey, —Trez sussurrou em seu ouvido. — Você tem um


minuto?

Quando ela se virou e sorriu para ele, ela percebeu que


estava preocupada que ele tivesse ido embora sem se despedir.
Ou dizendo qualquer coisa. E, novamente, isso foi um pouco
demais. Se ela mantivesse as coisas desesperadas, era
suscetível de afastá-lo.

Ninguém queria ser a dependência de outra pessoa.

250
— Absolutamente. Eu tenho tempo. —Especialmente
porque ela podia sentir a tensão sob sua expressão sorridente.
— Você está bem?

— Eu estou agora.

Houve um momento de silêncio, e ela sabia que ele estava


beijando-a em sua mente—e o que você sabe, na dela, ela o
estava beijando de volta. E aqui estava a coisa. O fato de ele
parecer tão perdido para o que estava acontecendo quanto ela
a fez se sentir mais segura na atração louca.

Sozinha, ela estava perdida. Com ele? Eles estavam em


uma jornada inebriante.

— Venha aqui por um rápido segundo, —disse ele.

Eles voltaram para o corredor que levava aos banheiros


dos clientes, e ele tirou algo do bolso.

— Essas são suas chaves? —Ele perguntou.

Quando ele estendeu a mão, ela não podia acreditar.

— Sim! Oh, meu Deus, como é que você conseguiu


encontrá-las?

251
Tomando o molho de chaves, ela destacou a chave de
cobre da casa de seus pais. Ou melhor, a casa dela ... o que
quer que eles fossem.

— Eu as vi no chão. Antes do meu serviço de zeladoria


entrar na parte da manhã.

Colocando as chaves em seu coração, ela disse a si mesma


que elas não deveriam importar. — Muito obrigada. Você não
tem idéia de quanto isso significa para mim.

— E eu tenho outra coisa. —Ele colocou a mão no bolso


de trás da calça e tirou um maço de dinheiro. — Isso tem que
ser devolvido para você também.

Quando ela engasgou com a visão das dez notas de cem


dólares, ela ficou momentaneamente animada. Mas então ela
estreitou os olhos.

— Trez. Eu acredito que você encontrou as chaves no


chão. Isso? Você certamente não encontrou.

Ele levantou seu dedo indicador.

— Antes de jogar seu monte de areia em mim, eu preciso


te avisar que o cara que comeu aqui na noite anterior é um

252
amigo meu. Quando eu disse a ele o que aconteceu com a
gorjeta, ele insistiu que eu trouxesse isso para você. E … —
Quando ela foi para interromper, ele manteve o dedo. —
Como eu não sabia o quanto ele te deixou, você pode contar
o dinheiro você mesma e você saberá que são realmente dele.
Você nunca me disse o quão grande era a gorjeta. Só você e
ele sabem disso.

Colocando as mãos nos quadris, ela balançou a cabeça.

— Eu não posso aceitar ...

— Conte isso, —ele a deixou com o dinheiro. — Vá em


frente. Você vai ver isso ...

— Não. —Ela alisou as mãos nos cabelos, a ansiedade


latente fez com que ela se mexesse. — Eu acredito que venha
daquele macho. Mas perder o dinheiro foi culpa minha, não
dele. Ele não precisa compensar o fato de que eu o perdi.

— Você estava em um tiroteio. —Rebateu Trez. — Não


foi sua culpa. E você não perdeu, o dinheiro foi roubado.

— Então, é a minha má sorte. Não dele. —Ela estendeu a


mão e fechou a mão sobre a dele nas notas. — Leve isso de

253
volta e agradeça a ele. Eu realmente aprecio a gentileza. Mas
eu vou continuar trabalhando aqui, e assim que eu puder,
solucionarei meu próprio problema com a situação da
habitação.

— Você mudaria de ideia se eu te dissesse que o cara não


dá a minima para o dinheiro?

— Não. —Ela sorriu para ele. — Mas eu realmente


aprecio você tentando cuidar de mim. E sério, por favor,
agradeça a ele por mim.

Trez murmurou algumas coisas baixinho. Mas ele


guardou o dinheiro. E, por um lado, ela provavelmente estava
doida por recusar os Benjamins . Se o macho fosse tão rico
quanto Trez estava sugerindo, eles claramente não sentiriam
falta—enquanto do lado dela? Mudaria tremendamente as
coisas.

Mas ela não podia fazer isso.

— Estou muito grata, —disse ela. — E por você também.

As notas de cem dólares são representadas pelo ex-presidente americano Benjamim


Franklin.

254
Ainda posso te ver no final desta noite?

O rubor que ela sentiu quando ele entrou pela porta dos
fundos do restaurante retornou.

— Sim.

Trez olhou para ela por um longo tempo.

— Eu vou busca-la depois do seu expediente. Eu só vou


relaxar lá fora no meu carro até que você saia.

— Mal posso esperar, —ela sussurrou.

Enquanto eles estavam juntos em completa quietude, ela


sabia onde ele estava em sua mente. Ela também estava lá.
Sim, foi loucura. Sim, foi intenso. Sim, tudo começou com a
adrenalina ontem à noite após o drama no clube. Mas quando
um desejo era tão forte?

Você para de perguntar de onde veio isso. E cede.

— Eu também não posso esperar. —Ele ecoou antes de se


afastar.

Graças a Deus isso não é unilateral, Therese pensou enquanto


o observava partir.

255
Capítulo 14

Havia todos os tipos de razões para desejar que a noite


acabasse, mas, para Trez, a principal era ela finalmente sair de
seu turno no restaurante a qualquer momento. Não que ele
estivesse contando os minutos.

Ok, tudo bem. Ele estava contando-os desde que a deixou.

E ele tinha vindo mais cedo. Dado que esta era uma noite
média, sem feriado e sem nevasca, o serviço de jantar no Sal’s
tendia a parar por volta das 10h30, no máximo. Os garçons
geralmente estavam fora rapidamente depois disso. Então,
sim, ele apareceu às 22h17 e estacionou nas sombras, fora do
alcance da câmera de segurança pela porta dos fundos.

Ele não estava querendo uma nova briga com iAm. Não.
Ambos disseram suas verdades, e não havia como voltar atrás

256
das linhas que haviam sido traçadas. Além disso, ele estava
estritamente no trem feliz agora, e qualquer um que tivesse um
problema com isso, incluindo seu parente de sangue, deveria
recuar.

Enquanto Trez esperava, vendo sair cada cliente que


emergiu bem alimentado e saciado no frio, ele não podia
deixar de contrastar este lugar com o que ele ficou durante a
tempestade na noite anterior, aquele onde ele tinha desligado
o motor e permaneceu nas temperaturas geladas, o neve
cobrindo seu carro, fechando-o, mantendo-o trancado e
frígido.

Ainda estava frio. Mas desta vez, ele manteve o motor


ligado, e ouviu o The Heat no SiriusXM , e ele correu a mão
em torno do volante estático, sensibilizando as pontas dos
dedos.

Porque ele os queria prontos para tocar em lugares


macios. Lugares ternos. Lugares molhados.

Reorganizando-se em seu assento, ele teve que segurar o

O ritmo bate fogo no The Heat! E á música que está queimando nas paradas, ou em breve será o próximo nome nas
paradas.
Sirius XM Holdings é um empresa estadunidense que fornece radiodifusão via satélite e que é formada
por duas companhias que operam nos Estados Unidos, Sirius Satellite Radio e XM Satellite Radio.

257
Scotty , sua maldita ereção. Ele não podia pular nela no
segundo em que ela entrou no carro, pelo amor de Deus.

Eles tinham dez minutos de carro até seu destino, pelo


menos.

Depois disso, o salto poderia começar, assumindo que ela


o teria ...

A porta dos funcónarios se abriu e ele se empurrou para a


frente, como se ele pudesse se aproximar dela desde já. Exceto
que ... não era ela. Era aquele homem humano, Emile, e com
ele estava uma garçonete que falava dois quilômetros por
minuto.

Eles não pareciam particularmente entusiasmados por


estarem juntos, mas no que diz respeito a Trez eles eram o
casal perfeito. Total marca registrada. A Bela e a Fera, Solo e
Leia , Sheldon e Amy . Inferno, volte até Bogart e Bacall .

Nome que ele deu ao seu pau kkkk

Han Solo e a Princesa Leia da Saga Star Wars

Casal da série The Big Bang Theory

Casal de atores americanos famosos nos anos 40 e 50 por formarem um casal quente dentro e fora das
telas. Lauren Bacall e Humphrey Bogart.

258
— Vá em frente e se case, —ele murmurou para o para-
brisas enquanto eles iam para um velho Subaru. — Desejo-lhe
muuuuuuuuiiitooosss anos de felicidade.

Abruptamente, algum instinto chamou sua atenção de volta


para o restaurante, e lá estava sua fêmea, saindo para à noite, a
parka dela solta—como se ela confiasse que ele teria um carro
quente esperando por ela—seus cabelos em um coque torcido,
um pouco de batom na boca.

Ela havia se preparado para ele, e ele sorriu para o


pensamento. Porque era doce e totalmente desnecessário. Ele
a aceitaria como ela viesse. Inferno, especialmente se ela
estivesse vindo.

Abrindo a porta, ele não notou o frio nem um pouco.

— Bem aqui.

Sua cabeça virou, e no brilho das luzes de segurança, sua


felicidade era tão aparente quanto o sol do meio-dia.

— Olá, —ela disse enquanto caminhava até o carro dele.


— Como está a sua noite ...

Ele pretendia dar a ela a chance de terminar sua frase.

259
Seus braços tinham uma ideia diferente. Ele a levantou contra
ele e a beijou profundamente. E o que você sabe, ela se curvou
em seu corpo e o beijou de volta.

Com um gemido, ele inclinou-a para trás, segurando seu


peso, embalando-a, enquanto perdia a noção de tudo: o clima
de inverno. A hora da noite. O fato de que qualquer um que
trabalhasse lá poderia sair a qualquer momento—os chefs, o
barman, os outros funcionários.

Trez recuou.

— Vamos a algum lugar mais privado.

— Sim, —ela disse.

Caminhando até o lado do passageiro, ele abriu a porta dela


e deu-lhe o braço. Quando ela se estabeleceu no assento, ele a
fechou, e bateu alto no para-choque dianteiro. Ele não tinha
vergonha de ser visto com ela. Nem um pouco. Mas ele se
preocupou com as consequências de ela ser pega com ele. Ele
não queria nenhuma fofoca no local de trabalho dela—e depois
havia a merda estúpida da política de RH do iAm.

À medida que as coisas progrediam entre eles, ele poderia

260
ter que ajudá-la a encontrar outro emprego ... algo que não
apenas lhe pagasse mais, mas que usasse alguns de seus
talentos—quaisquer que fossem. Como Escolhida, ela havia
sido isolada durante toda a sua vida no Santuário até Phury
libertar a classe sagrada de fêmeas da Virgem Escriba. Ela
estava, sem dúvida, ainda aprendendo sobre si mesma e o que
ela gostava de fazer e no que ela era boa.

Talvez ela desejasse ir para a escola?

Deslizando atrás do volante, ele sorriu para ela.

— Eu vou nos levar em uma pequena viagem no campo,


está tudo bem?

— Estou pronta para qualquer coisa.

— Não é longe. —Ele apertou o acelerador, os pneus de


tração nas quatro rodas agarraram e eles dispararam para a
frente através do estacionamento. — E é muito particular.

Quanto mais longe ele ficava longe da porta de trás do


restaurante, mais relaxado ele se tornava.

— Então, como foi o seu turno? —Ele perguntou quando


ele parou na estrada principal.

261
— Muito bom. Eu ganhei mais de duzentos em gorjetas.

— Bom. —Ele esperou por um carro passar. E então viu


outro se aproximando. — Muitos humanos saindo em uma
noite fria.

— A propósito, obrigada, —disse ela. — Por entender


sobre o seu amigo e a gorjeta.

— Eu não quero fazer nada que faça você se sentir


desconfortável.

— Eu agradeço por isso.

Com a barra limpa, ele pegou a direita e foi pela estrada.

— Portanto, não estamos indo para o clube? —Perguntou


ela. — Não que eu me importe. É um ... lugar intenso.

Trez riu.

— Essa é uma palavra para ele. E eu sei que não é sua


vibe.

— Sinto muito.

— Eu não sinto. —Ele estendeu a mão e pegou a mão


dela, dando-lhe um aperto. — Você gosta de espaços

262
tranquilos.

— Bem, lugares mais tranquilos que um clube, com


certeza. —Ela deixou cabeça cair no assento e olhou para ele.
— E ...

— E o quê?

Ela apenas balançou a cabeça. Então ela levantou a mão


dele e beijou os nós dos dedos.

— E a sua noite? Como estão as coisas no seu trabalho?

— Ninguém levou um tiro, pelo menos que eu saiba.

— Então você não estava no clube? —Abruptamente ela


se torceu e virou mais em direção a ele. — Não que eu esteja
checando você. Só para deixar isso perfeitamente claro ...

— Você pode colocar um chip de rastreamento na minha


cabeça, se quiser. Isso não me incomoda. Mas nah, eu só tinha
algumas coisas para arrumar fora de lá.

Enquanto continuavam, passaram por shoppings de lojas.


Um parque de escritórios. Um supermercado, posto de

263
gasolina, uma instalação DMV e um complexo imobiliário.
Depois disso, o zoneamento tornou-se residencial, e os bairros
eram modestos, mas arrumados, as casas alegremente
iluminadas para a estação com muitas cordas de luz nos
beirais, e Papai Noel inflável nos pátios e árvores de Natal nas
janelas e sacadas.

— Este é um carro bonito, —comentou ela.

— Comprei-o por um capricho, —ele esfregou o polegar


na parte interna do pulso dela. — Eu tinha um diferente que
era muito mais prático. Mas eu realmente gosto de dirigir,
sabe? Isso acalma minha mente. Eu percebo que eu poderia
me desmaterializar para os lugares muito mais rápido, mas às
vezes, é bom sair pelas estradas.

— Eu não poderia concordar mais. Você se importa se eu


ligar o rádio?

— Fique a vontade.

Enquanto ela passava por seus favoritos, suas


sobrancelhas subiram quando ela continuou, pulando as

Instalação de Gás Natural Veicular (DMV)

264
estações de R&B e hip-hop que ele salvou e entrando nos
anos 70 em 7.

— Você gosta de Led Zeppelin ? —Perguntou ela.

— É o que está tocando?

— Ten Years Gone . É uma das melhores dele, —ela


aumentou o volume. — Eu amo essa música.

As palavras ricochetearam pelo interior e, enquanto ele as


ouvia, algo ondulou no centro de seu peito. Enquanto isso, ela
cantava todas as letras que sabia de cor, e seu tom era perfeito.

A sensação de ser esticado de maneiras desconfortáveis


fez com que ele se contorcesse em seu assento, seus músculos
apertando até o ponto em que ele tinha que conscientemente
afrouxar as coisas ou ele não seria capaz de dirigir direito.

Assim que a música acabou, ele voltou ao volume.

Rhythm and blues ou R&B é um termo comercial introduzido nos Estados Unidos no final da década de 1940 pela revista
Billboard.

Led Zeppelin foi uma banda britânica de rock formada em Londres, em 1968. Consistia no guitarrista
Jimmy Page, no vocalista Robert Plant, no baixista e tecladista John Paul Jones e no baterista John Bonham.
Ten Years Gone - Led Zeppelin - https://www.youtube.com/watch?v=DBzuYNK95sM

265
— Eu não sabia que você poderia cantar, —ele também
pensou que ela gostava do seu tipo de música. Desde quando
ele a levou para Storytown. — Você teve aulas?

Ela riu.

— Oh, eu não tenho esse tipo de voz. Espere, como aulas


de canto, certo?

— Sim. Quando você aprendeu a cantar?

— Eu acho que eu sempre soube. É natural. Mas eu sou


uma cantora de chuveiro, não um tipo que pertence ao palco.
Você pode imaginar?

Trez forçou uma risada quando ele encontrou-se


internamente discutindo com suas declarações. Ela nunca
tinha cantado, e certamente não para Robert Plant , e é claro
que ela nunca tinha tido aulas. Antes de Phury tornar-se
Primale, ela não tinha permissão para estar fora do Santuário,
e depois, toda Escolhida estavam ocupadas o suficiente apenas

Robert Anthony Plant, é um músico, cantor, e compositor britânico mais conhecido por seu trabalho
como vocalista da banda de rock Led Zeppelin.

266
se acostumando à vida deste lado. As aulas de canto estavam
loooonge na lista de coisas a fazer.

Embora ela tivesse tocado o piano, ele supôs.

Ainda assim, quando ela conheceu todas as palavras dessa


música? Talvez ela tivesse ouvido recentemente. Talvez ela
fosse realmente rápida em aprender letras de músicas—em vez
de ouvi-las desde que a coisa foi lançada. Nos anos setenta.

Trez se mudou em seu assento—e desta vez, não foi por


causa de qualquer problema de excitação.

Enquanto isso, sua fêmea olhou através das janelas do


carro. — Sabe, nunca vi essa parte da cidade antes.

— É muito bom. Realmente seguro.

— Então, novamente, eu não consegui ir na maioria dos


lugares em Caldwell.

Sim, ele tomou um fôlego profundo e pensou. Isso mexeu


com o passado dela. Veja?

Abruptamente, ele tinha uma imagem de uma quadra de


tênis, versões dele mesmo em lados opostos da rede, a bola
proverbial que ela fez sobre seu passado.

267
Mantendo suas maldições para si mesmo, ele fez uma
curva. Depois outra. Então mais uma. À medida que se
aprofundavam em um bairro, ele viu que nem todas as casas
estavam arrumadas para o Natal. Havia exibições de
Hanukkah , os menorahs mostrando duas velas, e também
casas que estavam exibindo símbolos kwanzaa em
preparação para os últimos sete dias do ano.

Acompanhando as diferentes expressões da temporada,


fez com que se sentisse um pouco melhor sobre a raça
humana, que tantas tradições espirituais pudessem existir
juntas e celebrar de acordo com suas próprias práticas durante
a mesma temporada. Geralmente ele via apenas os lados ruins
do Homo sapiens, a intolerância, a injustiça e a brutalidade—
o que aconteceu quando você vivia como um segredo à vista
de todos eles. Era bom que os vampiros pudessem ser

Chanucá ou Hanucá é uma festa judaica, também conhecido como o Festival das luzes.
"Chanucá" é uma palavra hebraica que significa "dedicação" ou "inauguração". A primeira noite de Chanucá começa após o
pôr do sol do 24º dia do mês judaico de Kislev e a festa é comemorada por oito dias
Menorá, é um candelabro de sete braços, e um dos principais e mais difundidos símbolos do Judaísmo.

O Kwanzaa é uma celebração afro-americana que tem início no dia 26 de Dezembro e fim em
1 de Janeiro de cada ano. É comemorada principalmente nos Estados Unidos. O Kwanzaa envolve a reflexão sobre sete
princípios básicos: a valorização da comunidade, das crianças e da Vida.

268
facilmente confundidos com seus gostos, mas ninguém com
um conjunto de presas na mandíbula superior se esquecia de
que, se os humanos descobrissem a verdade, era mais provável
que as coisas fossem mal do que bem para as espécies.

Então, sim, ele tendia a prestar atenção em suas ações


ruins, como muitos vampiros faziam.

Mas passar por essas casas? Ele podia vê-los sobre outra
luz—e também o fez se sentir melhor sobre o que ele tinha
feito.

— Aqui estamos, —disse ele com uma onda de triunfo.

Therese sentou-se para a frente para olhar. A casa em que


Trez estava parado era um Cape Cod cinza e branca, com

Uma casa de Cape Cod é um edifício baixo, amplo e único, com um telhado inclinado de duas
águas, uma grande chaminé central e muito pouca ornamentação.

269
persianas pretas brilhantes, uma porta da frente vermelha
brilhante, e janelas alegres que se projetavam na linha do
telhado que pareciam olhos amigáveis. Lanternas de
carruagem de metal brilhavam em ambos os lados da entrada,
e havia uma luz em um suporte no meio de uma passarela para
uma entrada. Havia também uma garagem anexa, uma
entrada de carros pequena que havia sido lavrada e arbustos
montados com cordas de luzes brancas, claramente para que
a propriedade se encaixasse no resto do bairro.

— É aqui que você mora? —Perguntou ela.

— Você parece tão surpresa, —ele desligou o carro. — Eu


não sou tão ruim, sou?

— Oh, Deus, não. Quero dizer ... imaginei você vivendo


em um apartamento em um arranha-céu no centro da cidade.

Trez sorriu com o que parecia ser uma satisfação curiosa.

— Isso é porque eu já morei. Vamos lá, vamos entrar.

Therese saiu do carro e não conseguiu desviar o olhar da


bela foto da doce casa que se deitou em seu quintal coberto de
neve, com as luzes brilhando e até mesmo ...

270
— Há fogo aceso lá dentro? —Ela apontou para a
chaminé de tijolos. — Há fumaça.

— Eu acendi para nós, —ele pegou sua mão e levou-a até


a entrada. — Deixe-me mostrar a você por dentro.

Do seu bolso, ele pegou uma chave de cobre e a colocou


na fechadura da frente. Quando ele girou a trava, ela franziu
a testa.

— Você alguma vez já usou um casaco? —Perguntou ela.

Ele olhou para si mesmo como se estivesse surpreso por


não ter um.

— Você sabe ... Eu deveria … não deveria.

— Está tudo bem. Você fica bonito com ou sem agasalhos.

Instantaneamente, ele ficou sério e se concentrou na boca


dela. — Que tal sem nada?

— Ainda melhor.

Ambos estavam sorrindo novamente quando ele abriu a


porta, e como ele a deixou entrar primeiro, seu único
pensamento era que eles precisavam terminar o que ambos

271
tinham começado em suas mentes horas atrás. Exceto quando
ele acendeu as luzes, ela ofegou.

O interior da casa foi feito em cinza claro suave e branco,


com piso de pinho da cor de mel. Os tapetes estavam
espalhados com cuidado entre móveis almofadados e detalhes
cuidadosamente dispostos, e através de uma arcada, ela viu
uma cozinha com utensílios de aço inoxidável e balcões de
granito cinza.

Seus pés começaram a andar antes que ela estivesse


consciente de querer explorar. Antes que ela percebesse, no
entanto, estava olhando pela cozinha, descendo um corredor
para encontrar um escritório e um banheiro pequeno, e de pé
na base da escada se perguntando o que havia lá em cima.

— Há também dois quartos e uma sala comum no


subsolo, —disse ele. — Você pode subir, se quiser.

Therese assentiu e pôs a mão no corrimão envernizado.


Não houve degraus rangendo quando ela subiu, e quando ela
chegou ao topo, ela fez uma curva e percebeu onde o fogo
estava.

A suíte master ocupava todo o andar superior, e a cama

272
sozinha teria feito ela nunca querer sair. Tinha um dossel de
gaze branca fina que pendia sobre o tapete cinza claro. O
edredom em cima do colchão era grande como uma nuvem e
provavelmente duas vezes mais macio, e havia tantos
travesseiros, que a extensão queen-size tinha pouco espaço
nela.

— O que você acha? —Trez perguntou atrás dela.

Ela se concentrou no fogo que estava silenciosamente


crepitando.

— Isso é um tapete de pele?

— Pele falsa, mas sim.

— Há quanto tempo você está aqui?

— Não muito tempo.

Therese olhou por cima do ombro.

— Está tudo bem para eu colocar minha bolsa no chão?

— Você pode fazer o que quiser aqui, —ele sorriu. —


Pense nisso como seu próprio lugar.

Ela se inclinou para o lado e colocou a bolsa no chão ao

273
lado do estribo. Então ela olhou para os pés.

— Oh, Deus, eu sujei tudo? Eu tenho neve …

— Fritz adora todas as oportunidades de limpar. Confie


em mim.

— Fritz?

— Ele é o mordomo da Irmandade. Ele cuida desta casa.

— Você está ligado à Irmandade? —Ela tentou manter sua


expressão como uma garota super fã o mais limpa quanto
possível. Mas a Irmandade? — A Irmandade da Adaga Negra?

Embora vamos lá, como se houvesse outra?

Trez cruzou os braços sobre o peito enorme e apoiou o


ombro na parede. Cruzando os tornozelos, ele deu a ela um
olhar remoto.

— Desculpe, —ela sorriu. — Eu não quero me intrometer.

— Ah não. Está bem. Eu sou apenas ... eu não tenho


certeza de como explicar.

— Bem, pessoas como eu não costumam cruzar caminhos


com pessoas como eles. —Therese indicou os céus acima. — E

274
eu sou tão grata que a Virgem Escriba forneceu-os à raça. Eles
salvaram tantas vidas.

— Isto é muito verdadeiro.

Therese se voltou para o fogo. — Isso é lindo. As chamas,


quero dizer. Elas também são muito quentes.

Ela tirou sua parka grossa, na altura da coxa, descascando


o peso leve de seu torso e deixando-o cair no tapete. Então ela
chutou as botas. Ela ficou aliviada por não encontrar marcas de
pegadas ou manchas de sal nos degraus, não importando o que
ele disse sobre um mordomo cuidando de sua casa.

— Eu só quero ter certeza de que eu não vou destruir este


tapete bonito, —ela murmurou.

Afastando-se dele, ela caminhou até a lareira. Os troncos


estavam queimando baixo e devagar, e enquanto ela pensava
na natureza do calor, ela alcançou o coque que havia refeito no
banheiro do restaurante antes de sair para o carro de Trez. Os
grampos saíram tão bem que era como se quisessem trabalhar
com ela, e quando ela sentiu uma liberação de tensão em sua
cabeça e na parte de trás do pescoço, ela suspirou. O peso de
seus cabelos caiu, caiu, caiu sobre seus ombros, chegando a um

275
pouco acima da cintura. Ela estava pensando em cortar tudo, e
ir com algo até o queixo e fácil.

Agora, ela estava feliz por ter resistido ao impulso.

Ainda de costas para ele, ela puxou as pontas da camisa


de trabalho e começou a desabotoar a coisa de cima para
baixo. Quando ela soltou todas as presilhas, ela separou as
duas metades e deixou o algodão cair do torso.

O suspiro abafado de onde Trez estava de pé deu-lhe a


confiança para continuar. Suas calças eram fáceis de remover
e, quando as chutou para o lado, ela se perguntou até onde
estava disposta a ir. Por outro lado, com apenas sua calcinha
e sutiã? Não era como se houvesse muito mais para remover.

E dadas as especiarias escuras que emanavam atrás dela?


Ela não era exatamente péssima em se despir.

Seu sutiã tinha um fecho nas costas, então ela torceu as


mãos entre as omoplatas e desconectou-o. Quando a ligação
foi liberada, seus seios se sentiam instantaneamente mais
cheios e pesados de forma sexual, seus mamilos brincavam
enquanto ela desviava a roupa íntima simples e útil.

276
Therese estava prestes a se virar quando ela olhou para
algo que quase estragou tudo: ela estava praticamente nua ...
exceto por meias pretas que ela comprou na Target . Sim,
porque nada era mais sexy e sensual como uma fêmea de
calcinha e meias pretas nos tornozelos.

Ela teve que rir quando as tirou com as pontas dos dedos,
um ... então o outro.

Depois disso, ela olhou por cima do ombro nu e ...

O corpo de Trez era tudo menos relaxado quando ele se


inclinou contra aquela parede. Suas coxas estavam
contorcendo a lã fina de suas calças, e seus peitorais estavam
tremendo sobre seu botão de seda para baixo. Mas era o que
estava acontecendo atrás do zíper que realmente a
impressionou ...

As batidas na porta da frente eram muito altas, ecoando


até a escada aberta.

A Target Corporation Inc, mais conhecida como Target, é uma rede de lojas de varejo
dos Estados Unidos, fundada em 1902 por George Draper Dayton sediada em Minneapolis no estado de Minnesota. É a
segunda maior rede de lojas de departamento nos Estados Unidos, atrás do Walmart.

277
Com um guincho, ela bateu as palmas das mãos sobre os
seios, mesmo que não houvesse chance de alguém vê-la.

— Meu Deus, diga que você não tem um colega de quarto.

Trez já havia se endireitado, e ela ficou um pouco


alarmada quando puxou uma arma de algum lugar.

— Você fica aqui. Não importa o que você ouvir, não


desça até que eu te chame.

Ela abriu a boca para dizer a ele para se acalmar com as


coisas de macho. Mas então ela decidiu que a situação
provavelmente não exigia uma fêmea destreinada,
principalmente nua, adicionada à mistura.

Se bem que ela já tinha um tiroteio no curriculo.

Enquanto se perguntava exatamente no que sua vida se


transformara, Therese assentiu. — Seja cuidadoso.

Trez não respondeu a isso. Ele já estava dobrando a


esquina e descendo as escadas com a arma na sua frente ... e
uma expressão de quem ia matar alguém em seu rosto.

Ao ouvi-lo fechar a porta no final da escada e trancá-la,


ela se perguntou exatamente como ele estava conectado à

278
Irmandade. Tinha a sensação de que não eram apenas amigos
ou companheiros de bebida.

Ele não estava nem um pouco assustado.

Tão claramente, ele estava bem familiarizado com


conflitos da variedade mortal.

Capítulo 15

Trez certificou-se que a porta do andar de cima estava

trancada antes de se mover contra o intruso. Ele não estava


arriscando a vida de sua fêmea por nada, e isso incluía até
mesmo a dele. Ao pegar o telefone, ele ligou para o número
do V.

279
Um toque. Dois toques ...

Enquanto esperava por uma resposta, havia outra série de


batidas—e ele estava ciente de que tudo isso era culpa dele:
seu carro estava bem ali na entrada. Quem quer que fosse, sabia
que alguém estava aqui, e se eles estavam procurando por
ele—se fosse um cafetão descontente, um traficante irritado,
ou algum cara ligado à Máfia com algo duro sobre o que tinha
acontecido no clube—então ele os levou até esta porta.

E isso era desleixado.

Ele não podia mais usar aquela BMW se sua fêmea


estivesse por perto ...

Quando a ligação foi para a caixa postal, alguém clicou


em sua outra linha. Pegando o telefone da orelha dele, ele
franziu a testa. Aceitou a ligação.

— Fritz? —Disse ele.

A voz alegre do doggen veio em dois lugares: em seu


ouvido, e do outro lado da porta.

280
— Saudações, sire ! Por favor, desculpe a interrupção, eu
estava me esforçando para chegar a sua casa antes de sua chegada.
Mas eu tive que ir a dois lugares para comprar a carne adequada.

Trez piscou. — Sinto muito, o que?

— Carne, senhor. —Houve uma pausa. — Perdoe-me, mas


posso entrar no local com seus mantimentos?

Tremendo, Trez deu dois passos à frente e abriu a porta


da frente. Lá, do outro lado, estava o antigo mordomo
segurando quatro sacolas de papel pelas alças. Aquele rosto
enrugado sorriu.

— Você parece bem, senhor! E não demorarei muito.

Fritz rapidamente foi para a cozinha, imperturbável no


mínimo pelo fato de que Trez tinha uma arma na mão e estava
considerando a ideia de atirar pela porta.

Balançando a cabeça, Trez refletiu que havia benefícios


para os funcionários que estavam com os Irmãos há muito
tempo. A não ser que uma bomba H explodisse na sala, pouco

Sire: Tratamento que se dava aos soberanos da França quando se lhes falava ou escrevia. Título de senhores feudais e de
outras personagens. Que significa, Meu Senhor ou simplesmente Senhor.

281
os incomodava.

Trez lentamente fechou a porta.

— Você não precisava fazer isso.

Foi o mais perto que ele podia chegar do que realmente


queria dizer.

O que era algo semelhante de que ELA ESTAVA


PRESTES A VIRAR NA FRENTE DO FOGO, FRITZ.
VIRAR. NA FRENTE DO FOGO! VOCÊ ACHA QUE EU
ME IMPORTO COM COMIDA AGORA?!?!?!

Inferno, nessa nota, alguém poderia vir e pegar pelo


menos uma das pernas—talvez ambas—e ele não discutiria
com o roubo da parte do corpo, desde que conseguisse quem
quer que fosse fora da porra desta casa. E ele teria ligado no
andar de cima e relatado que estava tudo bem, mas não queria
que sua fêmea se sentisse comprometida.

— Ouça, Fritz. —Ele disse enquanto caminhava pela


cozinha. — Está tudo bem. Eu posso guardar tudo.

É claro que isso seria depois que ele subisse as escadas e


verificasse o fogo—ou melhor, a fêmea quase nua em frente à

282
referida combustão.

— Mas o leite precisa ser refrigerado, —Fritz votou e


abriu a porta da GE . — E a carne. E o sorvete.

Okay, então Trez não se importava se o leite coalhava, a


carne estragava, e que o sorvete derretesse fora do recipiente.

— Como eu estava dizendo, —Fritz continuou


alegremente: — Eu tive que ir em duas lojas. As grandes
ofertas de carnes do Hannaford não eram do meu agrado.
Liguei para o meu açougueiro.

Pelo menos o doggen estava trabalhando rápido, indo e


voltando para a geladeira, os armários, aquelas sacolas.

— Espere, é quase meia-noite, —disse Trez. — Você


acordou o cara? Estou assumindo que seu açougueiro é
humano.

General Electric é um conglomerado multinacional de Nova York e sediado em Boston, Massachusetts, Estados Unidos.
(e a geladeira)

Hannaford é uma cadeia de supermercados com sede em Scarborough, Maine. Fundada


em Portland, Maine, em 1883, a Hannaford opera lojas na Nova Inglaterra e Nova York. A cadeia agora faz parte do grupo
Ahold Delhaize, com sede na Holanda.

283
— Oh, você o conhece. Vinnie Giuffrida fornece ao
restaurante Sal's, também.

— Sim, Vinnie, você definitivamente poderia acordá-lo.


iAm jura por ele.

— Na verdade, ele cuida de nós. —Com triunfo, o


mordomo pegou um embrulho embrulhado em papel e, em
seguida, colocou-o na geladeira. — E agora eu terminei aqui.

Exceto que Fritz começou a dobrar as sacolas de papel.


Como se fossem folhas de origami. E ele estava tentando
recriar os Estados Unidos continentais de apenas um deles.

— Está tudo bem, Fritz. Eu vou fazer isso ...

Trez fechou a boca com força quando o mordomo recuou


como se alguém tivesse amaldiçoado na frente de sua avó.

— Desculpe. —Trez colocou as palmas das mãos para a


frente. — Eu, ah, você está indo muito bem. Isso é ótimo.
Tudo isso é incrivelmente … ótimo.

Mais uma vez, pelo menos Fritz foi rápido, mas ainda
assim, o segundo em que a última sacola foi dobrada, Trez
queria levar o mordomo para fora da porta da frente. Mas se

284
sugerir que o doggen precisava de ajuda era um problema, tocar
o macho na verdade faria com que todo esse movimento-de-
avançar-de-volta-para-a-porta-da-frente chegasse a um impasse.
Fundamentados em suas tradições antigas, a espécie de Fritz
não conseguia lidar com qualquer tipo de reconhecimento,
louvor ou contato físico de seus mestres.

Era como ter uma granada de mão com um esfregão por


perto: muito útil, mas você estava extremamente ciente de se o
pino estava onde precisava estar.

— Então, obrigado, Fritz …

Um som estranho—parte baque, parte um ruido surdo—


emanou fora da parte de trás da casa, chamando a atenção
para as portas de vidro deslizantes do outro lado da mesa da
cozinha. Através do vidro, as luzes de segurança acendem e
iluminam o deck traseiro.

— Eu acho que é melhor você ir, —disse Trez em voz


baixa. — No caso de eu ter que lidar com alguma coisa.

Fritz se curvou. — Sim, senhor.

E assim o doggen tinha ido embora. O que, novamente, era

285
a boa notícia quando se tratava do macho. Fritz estava
acostumado com os tipos de emergências que deixaram balas
e facas nas pessoas. Ele podia brincar com sacolas de papel,
mas quando a merda bateu no ventilador, ele sabia quando
partir.

Quando Trez puxou sua arma novamente, ele não


percebeu que a tinha guardado no coldre novamente—e
apagou as luzes exteriores com sua mente.

Os vizinhos humanos não precisavam vê-lo fazendo sua


arte por toda parte.

Movendo-se através da cozinha escura, ele encostou-a na


parede perto das portas deslizantes e se concentrou no quintal
...

Congelando no lugar, ele deu uma segunda olhada.

— O que ... —Batendo com o punho na alça da porta


deslizante, ele destrancou a coisa e empurrou-a de volta em
seu trilho. — Você está bem?

Saindo na neve no deck, ele enfiou a arma na cintura e


correu para sua fêmea, que, por razões que ele não conseguia

286
entender, estava deitada de costas na neve.

E rindo.

Trez se ajoelhou e olhou para cima. A janela do banheiro


no andar de cima estava aberta.

— Você pulou? —Ele disse. O que era uma pergunta


ridícula. Como se ela tivesse caído de um conjunto fechado e
duplo de Pella ? — Quero dizer por que? O que …

— Eu pensei que você precisava de ajuda. —Ela disse


rindo. — Eu sinto muito. Eu apenas—não sei o que pensei que
faria, mas não ouvi nada como batidas e golpes, então fiquei
com medo de que você estivesse machucado.

Sua fêmea levantou a cabeça e indicou seu corpo


completamente vestido.

— Coloquei tudo de volta, fui ao banheiro—estava tão


nervosa, que não conseguia me acalmar para me
desmaterializar. Abri a janela, pulei e entrei em pânico no ar

A Pella Corporation é uma empresa privada de fabricação de janelas e portas, com sede
em Pella, Iowa, e com operações de fabricação e vendas em vários locais nos Estados Unidos.

287
porque a neve não seria fofa o suficiente. O bom é que eu
consegui me virar ou eu teria caído de cara …

As luzes se acenderam no quintal ao lado, e um homem


de cuecas e um roupão de flanela abriu sua própria porta
deslizante das janelas para fora na neve fofa em seu próprio
deck.

— Você está bem aí? —Disse ele.

Atrás dele, dentro de sua cozinha, um cão do tamanho de


uma almofada estava latindo em uma série de uivos de alarme
alto que fizeram Trez questionar por quanto tempo aquelas
lâminas de vidro sobreviveriam sem quebrar.

— Estamos bem, —disse a fêmea de Trez com um sorriso.


— Mas obrigado por perguntar.

Quando o humano pareceu desconfiado e abriu a boca—


sem dúvida para perguntar se o 9-1-1 precisava ser chamado—
Trez perdeu a paciência com tudo e todos. Chegando à mente
do homem, ele jogou um remendo nas memórias de qualquer
coisa estranha, relacionada a visões estranhas, virou um
monte de interruptores relegando tudo à interpretação
errônea, e enviou Tony Soprano de volta em sua casa de dois

288
andares com seu cachorrinho e qualquer outra coisa que sua
esposa estava esperando por ele lá em cima na cama deles.

— Eu odeio os subúrbios, —Trez murmurou enquanto se


levantava e estendia a mão para sua fêmea. — Eu realmente
odeio.

Ela aceitou a ajuda dele e tirou a neve da parte de trás da


calça. — Bem, talvez você devesse se mudar? Embora esta seja
uma ótima casa.

Com um grunhido, ele examinou sua mobilidade.

— Tem certeza que está bem? Precisamos de um médico?

Golpeando uma mão, ela escovou a preocupação de lado.


— Oh, Deus, eu estou perfeitamente bem. Eu venho saltando
de janelas para a neve desde sempre.

— Você vem?

— Antes de minha transição, eu costumava esgueirar-me


para fora do segundo andar da minha casa com meu irmão
durante o dia enquanto os nossos pais … —Ela parou, colocou
as mãos nos quadris, como se ela estivesse olhando ao redor
... — Bom, de qualquer forma. Já fiz isso antes.

289
Ela não queria que ele visse sua expressão. Não quando
ela falou sobre sua família, de qualquer modo.

— Vamos lá, —disse ele com exaustão. — Vamos voltar


para dentro onde está quente.

Enquanto caminhavam de volta pela varanda, Trez não


conseguia afastar a sensação de que o clima tinha sido
quebrado.

E ele não sabia como obtê-lo de volta.

Therese entrou na casa se sentindo tola e um pouco triste.


Enquanto batia as botas no tapete dentro da porta deslizante,
ela odiava pensar no irmão e nos bons momentos que tiveram
juntos—então para escapar de tudo isso, ela repetiu seu
brilhante plano de fuga do segundo andar ... e começou a rir
novamente. Abaixando a cabeça e tentando se recompor, ela
foi até lá e ficou na frente de quatro sacolas de papel da

290
Hannaford cuidadosamente dobrados.

— Espere, —ela disse. — Mantimentos? Era quem estava


na porta?

Ela tinha pulado de uma janela por uma entrega de


comida? Ele desceu as escadas todo num movimento de 007
... para uma entrega de comida?

— Sim, —disse Trez enquanto fechava a porta deslizante.

Batendo a mão sobre sua boca, o absurdo de tudo isso


atingiu seu sino tão forte, que ela quase soltou um bufo. E
quando ela jurou se controlar—porque ele claramente não
estava de bom humor—ela realmente desejava que ela tivesse
uma pequena risada, como uma daquelas fêmeas que
conseguia expressar oh, isso é engraçado de uma maneira
melódica, bonita. Mas não. Nem perto. Ela grunhia.
Gargalhou. Um búfalo de água cruzado com um escapamento
de um tanque do exército.

Reeeeealmente coisas adoráveis.

E dado que Trez não parecia divertido quando ele fechou


a porta deslizante e verificou duas vezes sua trava, ela estava

291
ainda mais determinada do que o habitual a colocar um fim
nisso. Mas diabos. Desde ontem à noite, ela sentiu que sua
vida estava em um liquidificador, tudo voando muito rápido e
fora de controle, girando ao redor, girando, zunindo, tudo
junto. E considerando que ela tinha ficado 95% nua na frente
dele, ele tinha sacado uma arma, e ela acabou pulando de uma
janela da casa para um banco de neve?

Só por que alguém estava entregando comida?

Trancando seus molares, ela disse a si mesma para crescer ...

O barulho que subia em sua garganta não era nada que ela
pudesse conter, e Trez olhou bruscamente. Como se ele
estivesse preocupado que ela tivesse uma embolia pulmonar.

— Sinto muito, —ela murmurou. — Mas isso é muito


engraçado.

— Sim, é, —ele sorriu, mas perdeu a subida dos lábios


quando se virou. — Ei, você gostaria de comer alguma coisa?

Therese o viu abrir a geladeira e se curvar para olhar para


dentro. Quando ele ficou lá, ela sabia que ele não estava
verificando todas as coisas lá dentro. Seus olhos tinham nada

292
além de um litro de leite desnatado, um pote de manteiga sem
sal, e envoltório de um açougueiro de algum tipo de carne ou
ave a ser considerada.

— Trez, —ela disse, ficando séria. — O que há de errado?

— Nada, —ele fechou a porta e foi até o armário. — Veja.


Raisin Bran .

Therese tirou o casaco e caminhou na direção dele.


Colocando a mão em seu braço, ela esperou até que seus olhos
finalmente viraram em sua direção.

— Fale comigo.

Ele fechou o armário e deu um passo atrás, fora de


alcance. Sua expressão era tão intensa, ela estava preocupada
que ele fosse embora ou algo assim—ou mandou que ela fosse
embora. E com certeza, ele começou a andar para trás.

— Ouça, —disse ela. — Se você quiser que eu lhe dê um


pouco de privacidade, apenas me diga. Mas se eu ficar, vamos

O farelo de passas é um cereal de café da manhã que contém passas e farelo de trigo. O farelo de passas é
fabricado por várias empresas sob uma variedade de nomes de marcas, incluindo o conhecido popularmente Raisin Bran da
Kellogg, o Total Raisin Bran da General Mills e o Raisin Bran dos pós-cereais.

293
falar o que quer que esteja acontecendo. Eu não vou ficar em
torno neste silêncio durante toda a noite.

Trez parou e olhou, surpresa queimando. Então ele


xingou. — Eu sinto muito. Acho que todo o drama está me
afetando, e isso não tem nada a ver com você. E não, eu não
quero que você vá.

— Bem, pense dessa maneira. Pelo menos você colocou


sua arma fora nos últimos cinco minutos. —Quando ele riu
um pouco, ela tomou isso como um bom sinal e sorriu para
ele. — Estou com fome. E você?

— Eu comi no clube quando dois dos meus seguranças


pegaram pizza. Você gostaria de qualquer coisa?

— Eu vou querer um pouco desse cereal, se você não se


importa.

— Deixe-me colocar para você.

Therese tinha a sensação de que ele precisava de algo para


fazer, então ela estacionou na pequena mesa. E quando ele lhe
deu uma tigela e uma colher, a caixa de cereal não aberta, e o
leite, ela gostou de vê-lo se mover. Seu corpo era tão forte e

294
pesado, mas ele era leve sobre seus pés, não pesado e
desajeitado.

Agora, se ela pudesse leva-lo a falar com ela sobre o que realmente
estava em sua mente?

Porque, sem ofensa, ele não estava preocupado com o


drama. Isso foi apenas uma desculpa que ele estava usando
para se esconder atrás.

Quando se sentou em frente a ela, ela abriu a caixa e


serviu-se de um bom valor de duas porções. Então ela olhou
ao redor, levantou-se e foi até a pia. Havia um rolo de toalhas
de papel em um suporte ao lado da torneira e ela puxou uma
seção livre. De volta à mesa, ela alisou o pedaço quadrado.

— Ok, eu sei que isso é estranho, —disse ela. — Mas é o


que é.

Quando Trez inclinou a cabeça para um lado, ela


começou a pegar as passas do cereal para fora da bacia e
coloca-las na toalha de papel. Usando a colher como ajuda,
ela vasculhou os flocos, e começou a fazer avaliações
cuidadosas.

295
— Posso perguntar o que você está fazendo?

Therese olhou para cima. — Uma passa por colher. Esse


é o equilíbrio correto, não muito doce, não tão amargo. Eles
exageram com as frutas secas.

— Eu acho que eu nunca pensei sobre isso assim.

— Cereal é um negócio sério, Trez, —ela balançou a


colher. — É a mesma coisa com sundaes. Você precisa obter
a combinação certa de caramelo com sorvete por colher. É
sobre cada entrega para a boca.

— E quanto ao chantilly?

— Em um sundae? —Quando ele acenou Therese recuou


no mero pensamento. — Não, não, não. Sem nozes, sem
chantilly, sem cereja. Isso é tudo uma distração. É importante
focar suas papilas gustativas.

— E pizza?

— Só queijo, crosta pesada, molho leve.

— Sanduíches.

Abrindo a parte de cima do leite, ela derramou um nível

296
adequado.

— Duas fatias de carne, sem queijo, leve na maionese.

— Sem alface ou tomate?

— Veja como as nozes, chantilly e cerejas.

— Desnecessário.

— Sim.

Ela tirou uma colher do leite.

— Vê? Proporção perfeita. E você precisa começar antes


do material se misturar. Caso contrário, as coisas ficam
confusas.

Trez voltou para sua cadeira.

— Você é muito precisa sobre sua comida.

Ela pensou em seu apartamento de merda, onde tudo


tinha seu lugar. O quarto dela em casa. A bolsa, as roupas, os
sapatos.

— Praticamente sobre tudo, na verdade. É a engenheira


em mim. —Como as sobrancelhas dele subiram novamente,

297
ela concordou. — Eu tenho um mestrado em engenharia civil.
Escola online, obviamente. Eu estava esperando—bem, isso
não importa agora.

— Você estava esperando o quê?

Therese moveu o cereal ao redor com sua colher. —


Acontece que não há muitos empregos para vampiros que
desejam construir obras públicas.

— Eu nunca considerei o que os engenheiros civis fazem.

— Pontes, túneis, manutenção de ambientes naturais e


construídos. Coisas em grande escala. Quando eu era
pequena, adorava trabalhar na terra. Eu estava sempre
construindo coisas. Meu pai ... —Enquanto ela deixava a
deriva, esfregou o centro do peito e mudou de assunto. — Só
para que sejamos claros, não vou me desculpar com ninguém
por ser garçonete. Trabalho é trabalho. Você faz o melhor que
pode, e não importa o que seja.

Pegando o leite, ela derrubou a caixa sobre a tigela.

— A porcentagem de leite está baixa, —explicou ela ao


senti-lo olhando para ela.

298
Como se ele nunca a tivesse visto antes.

Capítulo 16

Enquanto iAm estava sentado atrás de sua mesa em seu


escritório no restaurante, ele deveria estar contabilizando
recibos. Colocando os pedidos de carne e bebidas para a
próxima semana. Planejando o menu.

Falhou, não conseguia se concentrar.

Que inferno de horas seria agora? Ele pensou quando ele foi
verificar o relógio digital no telefone fixo.

Meia-noite.

Recostando-se na cadeira, ele esticou os braços e girou

299
ambos os ombros. Quando isso não fez absolutamente nada
para aliviar a tensão subindo pelo pescoço e prendendo-o na
parte de trás da cabeça, ele tentou praticar yoga no escritório,
agarrando a borda da mesa e puxando-a. Enquanto seus
antebraços se amarravam com músculos e veias, ele refletia
que, como chef, ele nunca usava um relógio. Ou pulseiras de
qualquer tipo. Ou anéis. Ele precisava ter os dedos e os pulsos
livres de qualquer emaranhado, coisas que poderiam ser
difíceis de limpar, coisas que poderiam quebrar ou estar no
caminho, obstáculos de qualquer tipo.

Por outro lado, com Trez como seu irmão, ele tinha tanta
bagagem existencial para carregar, que era uma maravilha
poder suportar o peso de seus sapatos e roupas.

— Droga, —ele murmurou quando ele soltou seu aperto.

Aquela briga entre eles tinha sido ruim, mas vinha desde
o momento em que Therese fora contratada. E ele deveria ter
pensado melhor antes de trazê-la. Claro, o fato de que ela
parecia com Selena não era culpa dela, mas isso não
significava que ele era obrigado a empregá-la. Ele deveria tê-
la encaminhado para outro emprego. Com sua rede de
contatos no cenário gastronômico de Caldwell, ele deveria ter

300
...

Quem diabos ele estava enganando. Trez ainda estaria em


mau estado. Exceto que a discussão teria sido sobre suicídio,
não uma fêmea.

E é claro que ele queria ver seu maldito irmão feliz. O


macho estava falando sério sobre essa merda? O que ele não
queria era Trez se enganando e usando outra pessoa—e iAm
o largou com essa mensagem, direta. Ainda assim, ele
provavelmente poderia ter se saído muito melhor e agora ele
expulsou o macho. Como se ele não soubesse que Trez estava
lá fora por uma boa meia hora hoje à noite? Esperando em um
carro fora do alcance das câmeras de segurança. No frio.

Para a garçonete sair.

Sem dúvida, para que ele pudesse levá-la.

E P.S., ele realmente não pensou que Therese seria a


pessoa mais machucada quando as coisas derem errado. Trez
seria. O macho não iria sobreviver a outra decepção
esmagadora, mas iAm não queria colocar isso em palavras.
Para começar, foi muito doloroso. Por outro, ele não queria
dar ideias ao cara.

301
FFS , todas as noites do iAm foram preparadas para o
telefonema de que Trez estava morto. Como se aquela
instabilidade precisasse de um romance condenado com um
doppelganger adicionado a ele? Ele sabia exatamente onde
seu irmão estava com a cabeça. E com o coração. E se Trez
decidisse sair em paz, ele se certificaria de que outra pessoa
encontrasse o corpo—ele estaria determinado a poupar esse
trauma. Então, como resultado, sempre que o celular do iAm
disparava, ele sentia um tiro no peito—e nem é preciso dizer
que isso havia lhe dado um novo ódio pelos operadores de
telemarketing.

Gemendo, ele tentou estender os braços sobre a cabeça.


De certa forma, essa agitação sobre o que seu irmão estava
fazendo, onde estava, com quem estava ... era apenas uma
continuação do modo como sempre havia sido entre os dois.
Trez estava sempre fugindo de seu destino de acasalar a rainha
do S'Hisbe—e iAm sempre correndo atrás dele. Alguém tinha

FFS significa "For Fuck's Sake" que seria algo como "por deus, po**a"
O nome Doppelgänger se originou da fusão das palavras alemãs doppel (significa "duplo", "réplica" ou "duplicata") e
gänger ("andante", "caminhante" ou "aquele que vai"). O conceito de ‘Doppelgänger’ surge no romance Siebenkäs (1796) de
Jean Paul Friderish Richter em que o autor refere "pessoas que se vêm a si próprias", associado à mitologia germânica, é
entendido como o nosso fantasma, é a expressão do nosso outro eu, é o nosso lado oculto, o inconsciente em confronto com
o consciente, é uma fragmentação do eu, podendo ou não ter uma conotação negativa, contudo, não é o mesmo que duplo
ou sósia, embora existam pontos de convergência.

302
que proteger o macho. Guardar suas costas. Certificar-se de
que ele não se auto-destruiu completamente.

Além disso, havia a realidade de que Trez era tudo o que


ele tinha neste mundo. Com seus pais e a tribo deixados para
trás, o que mais havia?

Ocorre então, o baralho do destino tinha sido


embaralhado e descobriu-se que os sacerdotes estavam
errados. Foi ele quem acasalou a rainha—um destino que ele
tinha sido oh, muito feliz por viver de acordo com o que
aconteceu. E você pensaria que com esse fardo tirado, tudo
estaria tranquilo. Não. Em vez de seu irmão ser libertado do
fardo da dor, Trez foi tomado pela agonia mais pesada que
havia.

A morte de Selena tinha sido tão fodidamente injusta.

Talvez estivesse tudo nas estrelas, no entanto. De acordo


com a tradição do s'Hisbe, a astrologia determinou tudo, e
ficou claro que Trez havia nascido sob um alinhamento de
presságio triste. Na época em que Selena apareceu em cena,
iAm havia suspeitado a princípio, mas depois, com o passar
do tempo, ele tinha tanta certeza de que as coisas finalmente

303
iriam mudar. Que a era ruim acabou. Que a segunda fase, a
melhor parte, agora poderia começar ...

Os instintos do iAm dispararam, o macho ligado nele


superando até os medos por seus parentes de sangue.

Levantando-se, ele estava prestes a contornar a mesa


quando sua fêmea se materializou entre os batentes da porta
do escritório.

Por um momento, embora ele a tivesse visto apenas na


noite anterior, ele teve que beber tudo sobre sua companheira.
maichen era alta e majestosa, sua pele escura realçada por
um conjunto espetacular de túnicas de fio de ouro, seus
cabelos caindo pelas costas em centenas de tranças amarradas
com contas douradas. Seus olhos eram gentis e preocupados
enquanto procuravam os dele, e suas mãos foram para sua
barriga.

O coração de iAm bateu com terror.

— O que eles disseram. Os sacerdotes?

maichen – significa uma criada na cultura dos s'Hisbe (dos Sombras). Não me recordo nos livros anteriores do nome
dela verdadeiro. Mas como ela mesmo disse no livro 13 dos Sombras, ela se identifica mais como esse sendo o nome dela de
verdade.

304
— Ela é muito saudável.

— Ela? —Ele respirou.

O sorriso de maichen era gentil e conhecido quando ela


veio a ele, movendo-se quando ele foi incapaz de fazer.

— Ela. Nossa próxima rainha, nascida de nós. Como as


estrelas tinham previsto.

Uma filha. Ele ia ser o pai de uma filha. Uma princesa que
seria rainha algum dia, como previsto pelos céus. Pelas
tradições. Pela graça do destino.

Envolvendo os braços em volta de sua companheira, iAm


segurou a maichen perto e respirou seu belo perfume. Mas
então ele ficou tonto. Antes que ele pudesse pensar em se
sentar, seu corpo tomou a decisão por ele. De repente, ele caiu
dos pés, com a cadeira pegando seu peso e segurando-a,
quando ele não podia mais.

— Uma garotinha, —disse ele com as duas mãos no rosto.


E então ele sentou-se ereto. — Evocêcomoestá?

As palavras saíram tão rápido que ele ia repeti-las, mas


sua companheira apenas entrou entre seus joelhos e acariciou

305
seus ombros.

— Estou bem. Estou perfeitamente bem. Eu juro a você.

Eeeeeeee isso deixa o mundo andando em outro círculo.


Ele estava totalmente tonto, mesmo estando sentado—era
como se seu corpo soubesse que havia outra onda em seu
horizonte.

— Você precisa ir ver a Doc Jane, —ele murmurou


enquanto ele virou a cabeça para colocar a orelha em sua
barriga inferior através do manto real. — Eu acredito na
medicina convencional, e eu não posso arriscar você ou ...
nossa filha.

Filha. Eles estavam tendo uma filha. Desde que tudo


corresse bem.

— Eu vou ver a sua curandeira, —maichen passou as


pontas dos dedos sobre o crânio dele, da maneira que ele
gostava. — Nós vamos juntos.

— Sim. Por favor.

Enquanto iAm segurava o corpo quente e forte de sua


fêmea, ele se sentia como um covarde por não se levantar

306
adequadamente ou sentá-la em seu colo. A noite tinha sido
difícil, no entanto. Ele nunca pensou que iria se acasalar.
Nunca pensou que filhos estivessem em seu futuro. E aqui esse
futuro incrível estava chegando para ele ... com a discórdia em
torno de Trez, o inevitável caçador de más notícias.

— Você o viu hoje à noite? —Perguntou maichen.

Ela sempre pareceu saber para onde a mente dele ia. E só


havia um "ele" em seu mundo. Nenhum nome foi necessário.

— Ele veio aqui.

— Como ele está?

— O mesmo, —ele balançou a cabeça. — Pior, na


verdade. E isso foi antes de entrarmos nisso.

— Você contou a Trez? —maichen perguntou enquanto


colocava a mão na barriga. — Sobre ...

— Eu não consegui. Eu só ... —ele olhou para a


companheira. — Como posso? É muito cruel. Ele perdeu
tudo, e agora eu não tenho só você, mas uma filha. É demais.
E por favor, não leve isso do jeito errado.

307
Enquanto ela o olhava tristemente, ele refletiu que,
quando você acasalava alguém, assumia as lutas juntos. Mas
cara, ele desejava que o inferno não tivesse trazido essa merda
para a porta dela.

— Eu sei exatamente o que você quer dizer, —disse ela.

Fechando os olhos, ele respirou fundo e sabia por que


tinha sido tão duro com seu irmão antes. Ele queria
compartilhar suas boas novas com a outra pessoa mais
importante em sua vida. Mas com as coisas como sempre
foram—e do jeito que sempre seriam—ele não tinha parentes
reais. Ele nunca teve seus próprios parentes. Ele tinha uma
responsabilidade, um suportado por amor, mas um peso igual.
Ele tinha uma preocupação constante, um buraco no
estômago ... uma maldição graças a um destino que era seu,
mesmo que não fosse.

Uma vez, apenas uma vez, ele gostaria de ter o


relacionamento fluindo na outra direção. No caminho dele.
Ele queria obter algum apoio e preocupação, em vez de
constantemente dar.

Mas vamos lá, quão egoísta ele foi? Não era como se Trez

308
tivesse se oferecido para qualquer uma dessas porcarias, e
culpar o macho pela realidade era um movimento idiota.
Como se quando suas almas estavam negociando para descer
ao planeta para uma vida útil, Trez realmente tivesse olhado
sobre a história do Dia Feliz e decidiu: Naaaaah, eu prefiro estar
na seção de me lambam.

Claro que não. E iAm precisava ser mais solidário.

— Devo um pedido de desculpas ao meu irmão, —disse


ele em derrota.

Sentado em frente à sua fêmea, Trez estava mexido em sua


cabeça, mas calmo por fora. Pelo menos ele pensou que estava
calmo. Sem calcanhares batendo, dedos tamborilando ... ou
contrações das sobrancelhas ou boca pelo que ele poderia
dizer.

Então as coisas estavam melhorando. E diabos, não só

309
houve 10 ou 15 minutos desde que alguém disparou uma
arma, como também houve uma pausa de pessoas pulando
das janelas. Se eles mantiverem essa tendência, ele poderia até
dormir durante o dia.

Viva.

— Você realmente não mora aqui, não é? —Sua fêmea


disse enquanto continuava consumindo seu cereal uma-passa-
por-colher-de-sopa.

Por uma fração de segundo, ele tentou configurar uma


mentira em sua cabeça. Algo sobre se mudar em breve. Ou de
ter acabado de se mudar. Experimentando o lugar para se
mudar. Mas ele estava cansado, e todo aquele edifício de
ficção parecia muito trabalho. Além disso, sua fêmea era
inteligente, e não foi preciso um gênio para notar a falta de
objetos pessoais.

Ou o total de falta de roupas no armário ou no escritório


do andar de cima, se ela verificou.

— Quero dizer … —ela apontou para a cozinha e saiu


para a sala de estar com sua colher. — Sem objetos pessoais,
sem fotografias. Sem bagunça.

310
Bingo.

E ainda assim: — Eu sou muito organizado, no entanto.


Pergunte ao meu irmão. Ele e eu moramos juntos por anos.

Ela mexeu o leite, a colher procurando flocos encharcados


que se recusavam a ser encurralados.

— Então esta é a casa que você quer que eu alugue, huh?

— Você gosta. Você mesmo disse.

— E eu já sei como tirar minhas roupas no quarto.

Trez sentiu um tiro de luxúria atravessá-lo. Aquela visão


de seu traseiro, sua coluna, seus ombros ... com a provocação
de que assim que ela se virasse, ele iria ver seus seios? Ele
estava prestes a vir.

Mas então as compras chegaram. Cara, se nunca mais


ouvisse outra batida na porta em sua vida de merda, seria
muito cedo.

— O que há de errado? —Perguntou ela enquanto


inclinava a tigela e ficava mais séria sobre a navegação no final
do cereal. — Quero dizer, eu posso …

311
— Eu realmente quero fazer sexo com você.

Os olhos dela se voltaram para os dele e,


instantaneamente, a química estava de volta—e ele saudou o
fluxo de excitação. Ele não estava mentindo, ele queria estar
dentro dela. Mas havia outra peça nisso. Ele precisava das
dúvidas, dos medos e da tristeza que estavam fervendo logo
abaixo de sua superfície para calar a boca. Ele não queria
pensar em sua discussão com o iAm. Ele não queria pensar
nela naquele clube de idiotas na noite passada, alguns com
uma arma e um tesão por uma fêmea que não queria que ele
atirasse merda porque seu ego foi chutado nas hey-bolas. E ele
não queria pensar que sua fêmea era tão imprudente a ponto
de voar livre de uma janela do segundo andar.

E havia outras coisas. Coisas que ele realmente, realmente


não podia suportar olhar. O sexo, no entanto, eclipsaria todo
esse brilho.

E às vezes era necessário sombra quando o calor estava


ligado.

— Bem, então, —disse ela quando se levantou e levou a


tigela para a pia. — Talvez precisemos tentar de novo?

312
Trez exalou longa e lentamente, e concentrou-se naquelas
calças pretas dela, na camisa branca, nos cabelos que eram tão
grossos, encaracolados e brilhantes enquanto corriam abaixo
por seus ombros.

— Sim, —ele disse com um rosnado. — Vamos fazer isso.

E assim que Deus o ajudasse, se alguém—ou qualquer


coisa—os interrompesse desta vez, ele resolveria o problema
com um punho. Ou talvez um pé de cabra.

O corpo de Trez levantou-se da cadeira e foi até ela como


se fosse chamado, e a tensão que o tinha agarrado nele se
esvaiu como se nunca tivesse existido. Quando ela o alcançou,
ele a alcançou, suas bocas se encontrando, o beijo tão natural
e fácil como todo o resto tinha sido instável e desigual apenas
momentos antes. Lambendo-a, ele saboreava a sensação de
seus seios contra o peito, os quadris sob as mãos, a boca se
movendo com a dele. Ela era tudo o que ele precisava, tudo o
que ele sabia, e ele queria estar aqui novamente. Ele nunca
quis sair daqui.

Essa era a fêmea dele. Ela era Selena, de volta para ele.
Não importa o que iAm pensasse ou dissesse, ou quão louco

313
era, ou todos os impossíveis e dúvidas, Trez só precisava dessa
conexão para provar a realidade que seu coração já sabia com
certeza.

Assim que ele começou a tirar a camisa dela da cintura,


ele notou a janela sobre a pia. Sem as persianas fechadas, eram
capazes de serem vistos por todo o bairro—se não aqui,
porque ele estava a cerca de um segundo e meio de colocá-la
na mesa em frente daquela porta deslizante e colocar sua
língua em todos os tipos de lugares além de sua boca.

— Lá em cima? —Disse ele contra os lábios dela. — Antes


de eu …

— Sim, —ela murmurou.

Quebrando o beijo, ele pegou sua mão e ambos correram


até a escada. E, logo que chegou ao topo, ele fechou a porta
da escada e desligou as luzes com a sua mente e, em seguida,
ele a puxou para o quente, trepidante brilho da lareira. Suas
bocas se encontraram novamente, e ele a colocou no tapete
macio, demorando-se com a descida.

Ou melhor, obrigando-se a fazer isso.

314
Ele queria arrancar as calças dela com suas presas. Rasgar
sua calcinha para baixo de suas coxas. Montá-la como um
animal. Então ele queria vira-la e levá-la por trás. E depois
disso? Ele queria todas as posições fisicamente possíveis, por
todo o chão do quarto, cama, banheiro …

— Ah, merda, —ele virou a cabeça em direção a uma


corrente de ar frio que não tinha notado antes. — Desculpe,
deixe-me fechar isso.

Os vampiros podiam manipular muitas coisas com suas


mentes, mas não em uma casa que havia sido protegida por
Vishous. O Irmão teria acobredo aquelas fechaduras para que
ninguém pudesse usar seus poderes mentais para entrar se as
persianas de ilusão estivessem para cima.

Sua fêmea puxou sua camisa.

— Eu vou descer.

— É apenas operação manual, —ele beijou os lábios dela


rápido. — Não vá a lugar nenhum.

— Você não tem que se preocupar com isso. Confie em


mim.

315
Saltando aos seus pés, Trez arrancou como se houvesse
uma vítima de afogamento na maldita banheira. E quando ele
bateu o peitoril de volta no lugar, tudo o que ele conseguia
pensar era em voltar ...

Do canto de seu olho, ele avistou seu reflexo no espelho


que correu através da parede acima das duas pias. Ele parou,
apesar de preferir ter continuado, porra—e não só porque sua
fêmea estava esperando por ele.

Seus olhos estavam arregalados. Seu rosto estava


vermelho e pálido ao mesmo tempo. Sua respiração estava
muito pesada.

Trez odiava tudo sobre si mesmo naquele momento. E a


única coisa que ele mais desprezava era sua vida. iAm estava
certo. Ele estava fora de controle, caindo em algo que ele não
tinha capacidade emocional para ...

Está bem, ele articulou para a imagem em frente de si


mesmo. Estou bem. Nós estamos bem. Está tudo bem.

Com uma determinação nascida do desespero, ele desviou


o olhar. Então ele se afastou. Ao entrar novamente no quarto,
ele …

316
Okay! Ele parou de novo. Mas pelo menos desta vez foi
por um bom motivo. Uma boa razão. Uma reaaaaaalmente
fodidamente boa.

— Eu pensei que tentaríamos isso mais uma vez, —disse


sua fêmea, arrastando as palavras na frente do fogo.

Ela estava deitada exatamente onde ele a tinha deixado,


naquele tapete, diante da lareira—mas ela tinha tirado a
roupa. Toda ela. E ela estava esparramada com o tipo de
abandono que faria um macho perder a noção do tempo: sua
cabeça estava para trás, seus cabelos se espalhando ao redor
dela, seu pescoço uma linha graciosa do queixo perfeito até as
clavículas ... e seus seios foram acariciados pela luz do fogo, seus
mamilos eretos e rosados, inchaços e cheios.

Trez lambeu os lábios. E continuou olhando. Seu


estômago era um leve movimento para os quadris, e a fenda
de seu sexo estava aninhada entre as coxas que ele estava
desesperado para separar. Suas pernas eram longas e
graciosas—e dada a maneira como se debatiam?

Se o cheiro dela já não estava deixando claro que ela


estava pronta para recebê-lo, a expectativa na forma como elas

317
se esfregavam era uma grande dica.

— Você só deve usar a luz do fogo, —ele gemeu enquanto


sua mão ia para sua excitação latejante.

Capítulo 17

Tão exposta quanto Therese estava, tão nua e vulnerável


quanto ela estava, ela não sentia nada além de liberdade. Não
havia constrangimento, ansiedade, nenhuma preocupação de
que ela era menos que perfeita ou nada menos do que o que
Trez iria querer. E foi quando ela soube o quanto confiava
nele.

Quando ele começou a avançar, ela levantou a mão.

318
— Espere.

Ele parou imediatamente. E para recompensá-lo, ela


sensualmente rolou de bruços. Apoiando a cabeça no braço,
ela moveu uma das pernas sobre a outra ... depois girou os
quadris, mostrando a bunda na direção dele.

— Porra ... —ele respirou.

— Eu pensei que você deveria ver as costas também.

— Tão perfeita quanto a frente, deixe-me dizer-lhe.

— Talvez você gostaria de se juntar a mim? E eu não estou


falando apenas na horizontal.

Trez pegou a dica, arrancando a camisa de seda da cintura


de suas calças apertadas. Então, embora mesmo que fosse,
sem dúvida, cara, ele rasgou-a em duas metades, botões
voando livre e piscando como estrelas caindo. Santo ... céu.
Sim, o que estava por baixo totalmente não decepcionou. Ele
tinha um estômago duro e com nervuras, um conjunto rígido
e pesado de peitorais, e uma grande extensão de ombros largos
e duros. Oh, e fale sobre luz do fogo. Sua pele escura era suave
através de seus músculos, e a luz se deslocava inquietamente

319
sobre as cristas e cavidades do seu tronco. Mas ele tinha
escarificações no peito e abdômen—ela não reconheceria o
que simbolizavam, mas assumiria que era uma tradição dos
Sombras.

E ele era um lutador. Isso estava absolutamente em seu


passado em algum lugar, de alguma forma.

Antes que ela pudesse implorar, os dedos de Trez foram


para o cinto dele, e habilmente soltou a fivela H de ouro. Com
um show lento e sexy, ele puxou a alça de couro para fora dos
passadores e a jogou de lado. Então ele liberou o botão e
deslizou o zíper.

Quando ele soltou tudo, as calças caíram rapidamente ...


no comando. Muito no comando. Totalmente e
completamente ... sob comando.

Enquanto Therese se concentrava em sua ereção, seu


comprimento e circunferência incríveis seriam intimidadores
se ela não soubesse que seu ajuste era perfeito para ela. Nela.

Trez riu com um som gutural quando ele tirou os sapatos


e saiu das calças.

320
— Você continua me olhando assim e eu vou vir agora
mesmo.

— Então venha. Eu quero assistir.

— Você quer?

Therese deslizou para trás e bateu no tapete ao lado dela.


— Venha. Aqui.

Seu sorriso era vulcânico, suas pálpebras baixando para


meio mastro enquanto sua palma segurava seu eixo. Com um
silvo, suas presas se fecharam sobre o lábio inferior e,
enquanto caminhava para a frente, ele se acariciou de uma
maneira preguiçosa que era tudo menos preguiçoso.

Abaixando-se no chão, ele colocou a cabeça ao lado da


dela, suas longas pernas se esticando.

— Estou fazendo isso direito? —Ele falou


demoradamente.

Sua mão subiu e desceu, parando na cabeça, apertando. E


enquanto ela o observava, ela deixou as pontas dos dedos
fazerem cócegas nos mamilos.

— Eu acho que você precisa fazê-lo mais rápido.

321
— Sério? — Ele se inclinou e roçou os lábios dela com os
dele. — Assim?

Quando ele se acariciou com mais velocidade, ela sentiu


seu corpo derreter no pêlo falso debaixo dela. Em contraste
com o primeiro acoplamento, essa privacidade—bem, agora
que as compras haviam sido entregues—e todo o tempo
delicioso à frente deles diminuiu sua cobiça. Eles tinham o
resto da noite.

E talvez o dia, também. Embora ela não quisesse pensar


assim. Tudo estava tão bom neste momento. Ela queria ficar
aqui para sempre.

— Mais rápido, —ela sussurrou perto de sua boca.

O ronronar que subiu em sua garganta a fez vibrar dentro


de sua própria pele, e ela tocou seu peito ... seu braço, que
estava esculpido com músculos contraídos ... seu estômago,
que tinha cortes profundos sob sua pele. Quando a mão dela
se moveu para baixo, ele arqueou ao toque dela, os quadris
ondulando, a mão em pausa.

— Eu quero ajudá-lo, —disse ela.

322
Trez deixou cair o controle sobre seu pênis como se a
coisa tivesse queimado a palma da mão. — Assuma o
controle. Faça o que quiser de mim …

— Eu vou, —ela sorriu enquanto se empurrava para cima,


seus seios pesados balançando balançando enquanto se
reposicionava de quatro.

Colocando a mão aonde estava a que ele removeu, ela


devolveu aperto ao seu eixo, e trabalhou as coisas para cima e
para baixo guiando seu pulso.

— É isso. Bom macho.

Trez pareceu momentaneamente desapontado por ter


voltado à auto-propulsão, por assim dizer. Mas ela sabia o que
estava fazendo.

Bem ... na verdade, ela nunca tinha feito nada parecido


com o que estava prestes a acontecer antes. Mas com ele? Com
o seu amante das sombras feito de carne? Ela estava desinibida
de uma maneira que não apenas nunca fora, mas também
nunca poderia ter imaginado que poderia ser.

— Continue, —ela sussurrou. — Meu amante.

323
Quando ele gemeu e arqueou novamente, seu magnífico
corpo tão despertado, tão poderoso na luz do fogo, ela plantou
um conjunto de mãos/pés no lado distante de suas coxas.

Então ela se inclinou para baixo, trazendo seu rosto perto


da ponta de sua ereção.

— Eu quero que você termine ... —ela disse com uma voz
rouca.

Enquanto seus olhos brilhavam e piscavam com uma


misteriosa luz peridótica, ela abriu a boca.

Você sabe, só para que ficasse claro para ele o que ela
queria.

Trez se perdeu. Totalmente rasgado-fora-do-seu-núcleo, fora de


sua mente, o bom senso, perdeu-se.

O orgasmo saiu dele e entrou em sua fêmea, e a visão de

324
onde acabou era tão erótica, que suas pálpebras se fecharam.
O que era exatamente o que ele não queria. Ele queria assistir,
ele queria ver ...

— Oh, foda! —Ele gritou quando suas pálpebras se


abriram novamente.

O aperto quente e úmido que deslizou na ponta de sua


excitação significou uma e apenas uma coisa—sim, oh, Deus,
sim, ela estava engolindo-o, seus lábios se esticando para
acomodar o tamanho dele, seus olhos brilhando enquanto
olhavam seu corpo para dentro dele. Ele poderia tê-la
observado para sempre, mas o prazer era grande demais, o
erotismo demais, a conexão muito perto—e considerando que
havia a possibilidade de ambos os globos oculares explodirem
de suas órbitas e assustar a merda fora dela, provavelmente era
melhor que ele enjaulasse seus olhos.

Apertando suas pálpebras, ele rosnou, ele resistiu, ele


estava vindo novamente—em sua boca, sua mão trabalhando
nele, suas bolas chutando parte dele dentro dela com ciclos
cada vez maiores. Mais apertado, mais rápido, drenando-o ...

Antes que não restasse nada, ele entrou em ação,

325
rolando-a e abrindo caminho entre as pernas dela com os
quadris.

— Sinto muito, —ele resmungou.

— Por que?

Enquanto ela sorria, ele tomou a boca dela com a sua e


penetrou profundamente em seu sexo.

— Eu não sei.

Essa foi a última coisa que eles disseram por um tempo.


Ele pretendia ir devagar, com calma, sem pressa. Ele não
conseguiu. Seu corpo assumiu o controle e ele bateu nela, seus
golpes tão poderosos que ele a empurrou junto com o tapete,
os dois se movendo pelo chão.

Ele a fodeu todo o caminho até o canto, arrastando-os


para as prateleiras. O que teve seus benefícios.

Estendendo a mão, ele bateu os livros de sua formação,


espalhando-os com o braço. Eles aterrissaram com um pulo,
abrindo as páginas, enquanto ele se preparava e a fodia cada
vez mais forte.

— Sim, —sua fêmea rosnou quando ela arqueou debaixo

326
dele.

De repente, ele cheirou sangue, dele, não dela—ou teria


parado e se preocupado que a machucou. Mas não, ela tinha
arranhado as costas dele com as unhas curtas, e ele não tinha
notado.

Ele estava feliz que ela o tivesse feito. Ele queria que ela o
marcasse, lhe desse feridas, o fizesse dela da forma como
quisesse.

— Mais forte, —ela exigiu.

Agarrando-se à vertical de uma prateleira, ele realmente


colocou a parte pequena de suas costas nele, empurrando um
de seus joelhos para cima, empurrando sua perna em uma
posição diferente, inclinando sua pelve em um berço que ele
poderia cavar fundo, cavar todo o caminho para sua base,
entrar ... em sua alma.

Seus sexos batiam um no outro. O suor cobriu seu rosto e


alcançou seus olhos. Um som foi arrancado de seu peito.

Trez continuou ...

Até que ele perdeu abruptamente o ritmo por algum

327
motivo desconhecido.

Depois disso, sem aviso ... ele perdeu o prazer, também.

Isso não era suor em seus olhos.

Eram lágrimas.

Capítulo 18

Therese estava tão envolvida com o sexo, tão encantada, tão


perdida por seus próprios orgasmos, que seu corpo foi
reduzido e elevado por turnos, sua carne convertida em um
sistema elétrico com uma sobrecarga que parecia torná-la mais
forte do que fraca. E, por sua parte, Trez, parecia ter energia
de sobra, seus orgasmos pareciam não ter fim. Quanto mais

328
ele exigia, mais ele lhe dava.

Exceto que tudo mudou.

No início, houve uma virada quando ele perdeu seus


impulsos. Então uma curva quando ele começou a
desacelerar. Finalmente, uma paralisação.

Assim como ela estava abrindo os olhos, algo atingiu suas


bochechas—e com a visão ela ouviu. Havia um som vindo
dele, saindo dele.

Não de prazer, mas de dor.

Acima dela, as feições de Trez estavam contorcidas em


agonia, lágrimas rolavam dele, agonia parecia perfurá-lo
como se estivesse sendo esfaqueado.

Assustada por ele, ela agarrou seus braços superiores.

— Trez?

Com um som horrível, ele empurrou-se para fora dela,


aterrissando em um monte, estatelado. Ele estava tossindo,
sufocando, e enquanto se arrastava de quatro, parecia não ter
idéia de onde estava ou para onde estava indo. Ele era um
animal mortalmente ferido, arrastando o que restou de sua

329
força vital para um lugar para morrer—e desabou. Não muito
longe de onde eles estavam, ele caiu no chão e se enrolou em
uma bola, dobrando os joelhos contra o peito, os braços
tensos.

Ele era um homem adulto que balançava como uma


criança.

— Trez, —ela disse quando foi até ele. — O que está


acontecendo?

Quando ela tocou o ombro, ele vacilou. Mas ele abriu seus
trágicos olhos vermelhos.

— Venha aqui, —ela sussurrou. — Deixe-me abraçá-lo.

Ela não sabia se ele a deixaria, mas ele não resistiu quando
ela o reuniu. Havia tanto dele que ela não poderia abraçá-lo—
então ela se agarrou ao que podia. Embalando-o, ela fechou
os olhos e tomou o sofrimento dele para si mesma.

Ela não tinha ideia de qual era a causa. Mas enquanto ele
tremia contra ela, a única coisa que passou por sua mente foi
que ela não o estava deixando. Nunca. Ela ia ficar ao lado
dele, onde quer que isso levasse qualquer um deles. Porque

330
esse tipo de dor?

Houve uma perda terrível por trás disso.

Ela sabia disso porque havia sentido ecos da mesma


tristeza. Ela também sabia que esse era o tipo de coisa que
você mantinha escondida de todos ao seu redor—mantem
escondido, na maioria das vezes, mesmo de si mesmo. Era o
tipo de perda que mudava a cor do céu noturno, e a sensação
do chão sob seus pés, e os cheiros que entravam em seu nariz.
Isso era uma dor na nova vida.

Como se, você estava vivendo de uma maneira, e então ...


Tudo mudou. Você mudou. O mundo mudou. E nunca mais
foi a mesmo.

— Está tudo bem, —ela sussurrou enquanto seus próprios


olhos se encheram de lágrimas. — Eu tenho você ... e não vou
deixar você ir ...

Algum tempo depois—poderia ter sido horas—ela o


sentiu se acalmando. E quando ele tomou uma respiração
esfarrapada, ela sentiu seu exalar em seu ombro, e a súbita
quietude dele a assustou mais do que o choro. Ela não tinha
certeza do que viria depois disso.

331
— Eu preciso ... —sua voz não era nada mais do que uma
raspagem. — Banheiro.

— Okay, sim, é claro.

Soltando seu corpo, ela se afastou dele, enquanto ele se


arrastava para fora do tapete, baixava a cabeça e tropeçava
fora de vista. Quando a porta se fechou, ela não ficou surpresa.

O som da água era esperado. Ela imaginou-o lavando seu


rosto com algo gelado, e olhando para si mesmo no espelho
enquanto ele tentava reatar com o presente. Ela sabia como
era isso. Quando você era sugado de volta para o passado,
contra sua vontade, revisitando cenas que você queria evitar.
Uma vez que o passado conseguisse um estrangulamento em
você, era como uma âncora com mãos agarradas, arrastando-
o para baixo, para baixo, para baixo, até que você não possa
respirar e você não sabia mais onde estava a superfície.

Quando sentiu um arrepio, ela não sabia se era por suas


próprias emoções ou se estava nua e que o fogo não passava
de brasas agora. Estendendo a mão, ela puxou o tapete de lã
em volta dos ombros e olhou para as cinzas o que restou dos
troncos que haviam queimado tão brilhantemente. Agora,

332
não restava quase nada da madeira, os corpos devorados, os
pequenos núcleos retorcidos pendurados juntos por hábito e
não por estrutura.

Seus olhos ainda estavam no último do fogo quando a


porta do banheiro reabriu.

Ela se virou rápido.

Trez tinha amarrado uma toalha em torno de sua cintura,


e havia um brilho em seu rosto como se ele tivesse realmente
se lavado com água. Seus olhos ainda estavam vermelhos. E
eles ainda não se encontraram com os dela.

Enquanto ele estava naquela porta, ele olhou para o


espaço como se estivesse esperando por algum tipo de
sugestão.

— Fale-me sobre ela, —disse Therese baixinho.

333
Trez ouviu as palavras ditas a ele de longe, muito longe, e ele
olhou para o som. A visão de sua fêmea, ali, no chão, o macio
tapete branco acondicionado em torno de seus ombros nus,
seu cabelo lindo escuro emaranhado e enrolado em volta dela,
levou um momento para absorver.

No banheiro, apoiado sobre a pia, depois de ter lavado o


rosto com água fria, ele abaixou a cabeça e debateu se ia ou
não vomitar. Então ele olhou brevemente para a janela que ela
usara tão bem antes e se perguntou se seguir o exemplo dela
poderia não ser uma boa ideia.

Certamente parecia mais fácil do que explicar-se.

Exceto que ele a deixara aqui, e não importava o quanto


pular para cidade parecesse um plano digno de consideração,
ele não faria isso com ela.

Ela merecia uma explicação.

E com certeza, enquanto ele estava aqui como um zumbi,


ela tinha acabado de pedir-lhe uma.

Para se dar um pouco mais de tempo—mesmo que ele


pudesse ter usado um ano ou mais, talvez dezoito meses, de

334
preferência—ele foi lá e sentou-se no ponta da cama.
Apoiando os cotovelos nos joelhos, ela percebeu que estava
fazendo uma pose clássica do The Thinker .

Talvez ajudasse.

Não. Não ajudou. As palavras continuaram a falhar com


ele.

Especialmente porque, quando ele finalmente olhou para


ela, era Selena olhando de volta para ele.

— Sinto muito, —disse ele com uma voz que não soava
como a dele.

— Está tudo bem, —ela balançou a cabeça. — O que


quero dizer é ... seja o que for, eu entendo.

Ele não tinha tanta certeza disso.

— Trez, —disse ela, — eu quero que você saiba que você


pode me dizer qualquer coisa.

O Pensador é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin.
Retrata um homem em meditação soberba, lutando com uma poderosa força interna.

335
Foi quando ele olhou nos olhos dela que ele percebeu ... é
claro que ele poderia se explicar. Ela havia sido separada dele
também. Ela o havia perdido ... também.

Sua fêmea realmente entenderia ...

Por uma fração de segundo, seu cérebro se prendeu a esses


detalhes sobre o passado dela—aquele que não incluía a
Escolhida, a Virgem Escriba, as coisas que ele sabia sobre ela.
A parte que envolvia coisas como Michigan, Led Zeppelin e
Raisin Bran.

No entanto, ele estava muito cansado para ir longe demais


com tudo isso.

Mudando-se para o lado dela, ele ajoelhou-se no tapete.


Quando ele estendeu a mão e acariciou o rosto dela, ele
pensou que a amava tanto, e que era impossível não
pronunciar essas palavras. Dizer essas sílabas. Libertar a
revelação que não era segredo, e nada a temer ...

— Eu perdi meus pais, —disse ela. — E além do mais, eu


os perdi mesmo que eles ainda estejam vivos.

Suas palavras não faziam sentido, então ele as reproduziu

336
em sua mente. E então ele fez de novo. Apesar das
consequências entorpecidas de tê-la perdido, ele voltou ao
refrão de que as Escolhidas não tinham pais. Elas tinham um
pai no Primale, e então uma fêmea que as deu à luz, mesmo
quando sua mahmen era a Virgem Escriba que serviriam.
Como Selena poderia ...

— Eu descobri sobre tudo isso quando eles decidiram se


mudar. —Sua fêmea puxou o tapete mais perto de si mesma,
e seus olhos se afastaram. — Eu estava ajudando eles a fazer
as malas, entende. Eles estavam saindo da casa em que
morávamos fora de Ann Arbor . A casa em que cresci. O lugar
onde eles me criaram ... e o macho que eu pensei que era meu
irmão de sangue. Os papéis sobre minha adoção estavam em
uma caixa.

Trez tentou acompanhar o que ela estava lhe


comunicando, mas era como traduzir um idioma que estava
apenas parcialmente relacionado aos que ele conhecia.

Ann Arbor é uma cidade localizada no estado americano de Michigan,


no Condado de Washtenaw. A sua área é de 27,7 km², sua população é de 114 024 habitantes sendo que 36.892 são estudantes
da universidade ou da faculdade, e sua densidade populacional é de 1 629,9 hab/km².

337
— Uma caixa? —Ele repetiu.

— Eles estavam se mudando para um lugar mais quente.


Michigan é tão frio no inverno, e minha mahmen—a fêmea que
me criou, quero dizer—tem um problema cardíaco. Eu estava
arrumando suas coisas, e eu achei a caixa de sapatos em cima
da prateleira superior em seu armário. Eu não tinha a intenção
de ser curiosa, mas achei que eram sapatos chiques que ela
nunca usava porque ela era assim. —A sombra de um sorriso
inclinou os lábios de sua fêmea em apenas um lado. — Ela
raramente comprava nada para si, mas quando o fazia, algo
como uma bolsa ou um casaco, ela nunca usava-os porque era
o 'bom'. Ela guardava coisas assim para ocasiões especiais que
nunca vieram.

Houve um silêncio. — A caixa caiu das minhas mãos


quando eu estava trazendo-a para baixo. O que estava dentro
se espalhou por todos os lugares. Não eram sapatos. Era
papelada. Sobre mim

Ele se forçou a se envolver com o que ela estava


revelando. — Eles nunca te disseram ...

— Não, eles não fizeram. E eu lembro de ler os

338
documentos como ... cinco vezes. Eu não conseguia entender
o que eles estavam dizendo. E então ... eu não conseguia
entender que eles eram sobre mim, —ela apontou para si
mesma. — Eu. Quero dizer, certamente ... eles tinham que ser
sobre outra pessoa.

Quando suas sobrancelhas se apertaram, parecia que ela


ainda estava tentando aceitar as notícias.

— Aquilo mudou tudo instantaneamente para mim, —ela


limpou a garganta. — Um momento, e todos os momentos
que antecederam a ele, eu era uma filha. E, em seguida,
simplesmente ... eu era uma estranha.

— Foi como uma morte, então, —disse ele.

Ela olhou para ele.

— Sim. Exatamente. Você entende.

Na verdade, não. Não ... Mesmo.

Pelo menos quando se tratava de detalhes. A dor dela, por


outro lado? Sim, ele reconheceu isso pelo que era e não queria
isso para ela. Nunca.

— Eu morri, —disse ela. — Quem eu pensei que eu era, a

339
quem eu pensei que pertencia, e em tudo, morreu. E um
fantasma foi deixado no meu lugar. —Ela escovou o rosto
como se esperasse que as lágrimas estivessem lá. Como se
tivesse havido lágrimas antes. Mas não havia nenhuma. —
Um fantasma ainda está no meu lugar. E é por isso que estou
aqui em Caldwell.

— Você perguntou aos seus ... as pessoas que te criaram


sobre isso?

— Levei os papéis para a sala e coloquei na mesa de café


na frente da minha ma—a fêmea que me criou.

Trez imaginou a cena, evocando sem detalhes específicos


sobre a casa, os cômodos, a caixa ou a outra fêmea, alguma
aproximação do confronto. E enquanto isso, a outra metade
dele estava protestando contra a tentativa. A história em si.

Isso não fazia parte da história deles.

No entanto, ele não podia negar que aquilo fazia parte


dela.

Tentando conciliar as duas versões de sua vida o distraiu


e, com força de vontade, ele se forçou a se concentrar no que

340
ela estava dizendo.

No meio de seu colapso, ela o honrara, e ele faria o


mesmo por ela. Foi a única coisa decente a fazer. Mais tarde
... ele poderia tentar resolver tudo.

Embora quanta sorte ele ia ter com isso?

— Ela congelou, —sua fêmea murmurou. — E foi a


expressão que atingiu seu rosto que me disse que era tudo real.
Eu disse a ela ... algo como: 'Bem, isso foi inesperado'. Então
meu irmão e eu tivemos um confronto na frente dela e do meu
pai. Ela não falou muito. Ela apenas se sentou no sofá,
enquanto o macho que me criou e o macho que eu tinha sido
criada ao lado conversaram muito. Eles não conseguiram
entender a minha constentação. Eles não entenderam que era
uma violação da minha história. Isso faz sentido? Tentei
explicar a traição a eles. A dor. A raiva. As coisas ficaram
ainda mais aquecidas e eu fui embora. Eu só tinha que ir ...
meu irmão e eu estávamos na garganta um do outro e ela
estava triste e foi um desastre.

— E então você veio para Caldwell.

— Assim que saí de casa, percebi que não tinha para onde

341
ir. Com quem eu poderia ficar? Meus primos? Eles não eram
meus primos, —ela balançou a cabeça. — Meu povo não era
meu povo. Meu próprio irmão sabia, e eu não—então até onde
o segredo foi? Quem mais sabia? Quem sabia o tempo todo?
Era como estar despida e todo mundo vendo menos você.
Mentiras que são fundamentais doem fundamentalmente.
Imagine se entre um segundo e o outro... todas as pessoas em
sua vida foram substituídas por atores. Ou talvez seja mais ...
os pais que eu assumi serem reais estavam sendo interpretados
por atores, —ela deu de ombros. — Talvez outra pessoa teria
reagido diferente ...

Trez cortou. — Não importa o que outra pessoa teria


sentido. É você.

— Isso é o que eu tentei dizer ao meu irmão. Ele estava


muito ocupado protegendo-os para me ouvir. E você sabe,
perdê-lo foi tão difícil quanto perder ... bem, o que eu pensava
como sendo meus pais. —Ela balançou a cabeça — Quero
dizer, as famílias dizem a verdade, certo? Eles são as únicas
pessoas em nossas vidas que podem realmente fazer isso
mesmo quando não queremos ouvir isso. Porque o sangue nos
deixa presos a eles.

342
Ele pensou em iAm e sentiu-se desconfortável. — Sim,
mas eles também podem errar.

Trez tinha que dizer isso. Por si mesmo. Ele tinha que
acreditar que ... Destino, ele nem sabia mais no que acreditar.
Ele estava tão deprimido, seus pensamentos totalmente
desarticulados, seu corpo fraco, sua cabeça começando a doer.

Pensou em iAm e sentiu-se desconfortável.

Enquanto isso, ela também não estava tendo uma ótima


noite. Com uma maldição, ela colocou a própria cabeça nas
mãos e estremeceu.

— Eu a machuquei. Essa é a coisa. Minha ma—aquela


fêmea—parecia arruinada quando eu saí pela porta. E quando
eu me desmaterializei no meu apartamento e arrumei algumas
coisas, me culpei. Como se fosse minha escolha, apesar de
tudo? Eu entendi a decisão dela de ficar calada. Não o
contrário.

Quando houve uma longa pausa, ele sentiu que tinha que
dizer alguma coisa. Fazer alguma coisa. Mas ele não parecia
formar algo coerente para sua boca falar.

343
Agarrando-se ao pouco que tinha, ele murmurou:

— Por que você escolheu Caldwell?

Ela franziu a testa. E então olhou para ele mais uma vez.
— Sabe, é engraçado ... não tenho uma boa resposta para isso.
Lembro-me de muitas coisas sobre tudo isso com precisão
insuportável. Mas quanto ao que me trouxe aqui? Isso ... eu
não sei. Acho que fui chamada para Caldwell.

Capítulo 19

Therese tentou flexionar seu cérebro cansado e acessar a


informação sobre exatamente por que ela tinha acabado onde
ela estava. Mas não havia nada. Sem contexto para Caldwell.

344
Sem contatos aqui. Nenhuma razão para ir para o leste, em
vez do sul ou oeste.

Porque Deus sabia que era mais difícil chegar mais ao


norte, a menos que ela quisesse pousar no Canadá . O que,
certo, era um lugar muito bom, mas uma mudança de moeda
e parcialmente de idioma? Ela já teve o suficiente para lidar.

Mas por que essa cidade em particular? E por que com


tanta determinação inquestionável? Era como se Caldwell
tivesse surgido em sua mente como um destino como se
tivesse sido implantado lá por outra fonte—e, no momento em
que ela saiu de casa, ter alguma direção, qualquer direção, era
melhor do que nenhuma.

— Então sim, —ela concluiu. — É por isso que eu


entendo onde você está. Mesmo que eu não saiba os detalhes.

Durante o período de silêncio que se seguiu, foi a

O Canadá é um país norte-americano que se estende desde os EUA, no


sul, até o Círculo Polar Ártico, no norte. Entre suas grandes cidades estão a gigantesca Toronto; Vancouver, centro
cinematográfico da costa oeste; Montreal e Québec City, que falam francês; e a capital, Ottawa. As vastas regiões de natureza
selvagem do Canadá compreendem o Parque Nacional de Banff, repleto de lagos nas Montanhas Rochosas. Abriga também
as Cataratas do Niágara, um famoso conjunto de enormes cachoeiras.

345
oportunidade de Trez dar seu salto de fé. Mas ele permaneceu
quieto enquanto se sentava no chão. E foi interessante, em
outra época de sua vida, antes que ela tivesse tido sua própria
reformulação terrível das coisas, ela poderia ter se sentido
excluída. Era difícil, porém, quando suas emoções eram
fortes, para conectar-se a si mesmo, muito menos a alguém.

Com um triste exalar, ela refletiu que a noite nesta casa


não tinha começado como ela esperava. E também não estava
terminando tão bem.

— Você está bem? —Perguntou ela.

Quando ele assentiu, ela quis perguntar novamente. E de


novo. Até que ela pudesse espiar em sua mente e saber sua
verdade—e não apenas os detalhes da fêmea que tinha ficado
entre eles. Ela também queria conhecer o resto do passado
dele, tudo de bom e de ruim. Ela não ia conseguir isso, no
entanto. E era provável que ele não soubesse a resposta para a
questão de saber se ele estava bem.

Uma coisa que ela tinha certeza era que era uma fêmea.
Ela sabia que tão certo quanto podia vê-lo sentado diante dela,
no chão ao lado da cama, aquela toalha em torno de sua

346
cintura, seus pés descalços estavam plantados em linha reta
para a frente, como se ele ainda estivesse pensando em descer
a escada. Inferno, ele provavelmente considerou a janela do
banheiro que ela usara enquanto ele estava lá. Ela estava feliz
por ele ter decidido ficar, no entanto, mesmo que ela tivesse
sido a única fazendo a narrativa, e ele que ouvia. Quando ela
pretendia que fosse o contrário.

Therese limpou sua garganta.

— Acho que é melhor eu ir.

— Você acha que poderíamos ir para a cama ...

Ambos falaram ao mesmo tempo, e ambos pararam ao


mesmo tempo. E então eles fizeram de novo.

— Sim, eu gostaria disso ...

— Eu entendo totalmente se você quiser ir ...

Ela levantou a mão.

— Eu gostaria de ficar.

Levantando-se, ela se sentiu um pouco estranha, com um


tapete enrolado ao seu redor, a exibição de sua pele, a pele

347
falsa do tapete era macia contra sua pele. Mas ela também não
se sentia confortável por estar nua. Ela não se arrependeu do
sexo que eles tiveram—de maneira alguma. Ela só não queria
que ele pensasse que ela estava levando as coisas em uma
direção sexual. Ele parecia exausto. E, francamente, ela
também.

— Eu já volto, —ela murmurou.

No banheiro, ela foi tentada pelo chuveiro. Ela não queria


que ele pensasse que estava lavando-o dela, no entanto ...

Parando essa linha de pensamento, ela sabia que não


poderia se preocupar com ele assim. Ela queria tomar um
banho porque havia trabalhado em um turno no restaurante e
acabara de compartilhar com ele a coisa mais pessoal de sua
vida. Ela precisava de um minuto para se recompor.

E não havia lugar melhor para fazê-lo do que debaixo de


água quente.

De volta à porta, ela se afastou.

— Eu vou tomar ...

Ele tinha ido embora.

348
As roupas dele ainda estavam onde tinham sido deixadas
no chão. E lá embaixo ... sim, ela o ouviu se movendo. Um
momento depois, um cheiro subiu a escada.

Torrada. Ele estava fazendo algumas torradas.

Parecia que os dois estavam tentando se redimir em suas


próprias maneiras.

Fechando a porta, ela ligou o chuveiro e sim, uau, fale


sobre pressão da água. Quando ela colocou a mão no jato, as
coisas que saíam pareciam como um jateador de areia.
Perfeito. Apenas ... perfeito.

Quando ela colocou o roupão de tapete de lado, ela entrou


debaixo do chuveiro e exalou mais do que apenas o oxigênio.
O estresse escapou dela, particularmente quando ela inclinou
a cabeça para trás e sentiu a água mergulhar em seus cabelos.
Havia xampu em uma pedra cortada na parede, além de
condicionador e sabonete corporal.

Caramba, isso era como estar em um hotel.

Ela usou tudo. Tudo. Ela até lavou duas vezes só porque

349
gostava do cheiro do Biolage , fosse o que fosse. Depois que
ela terminou com a coisa da limpeza, ela recuou no box e
fechou os olhos, deixando a água bater na cabeça, e fluir para
baixo de seu cabelo, e cair sobre os ombros, as costas, as
pernas e os pés.

Antes que a água quente do aquecedor acabasse—caso ele


quisesse tomar banho também—ela desligou tudo e pisou no
tapete do banho. As toalhas penduradas na haste em frente a
ela eram macias e brancas, e quando ela tirou uma e colocou
no nariz, respirou fundo e sentiu um perfume delicado de
flores do campo.

Grande diferença das coisas ásperas e finas que ela tinha


na pensão. A toalha de banho que ela comprou na
HomeGoods já estava em suas últimas pernas. Então,
novamente, por $1,99 em promoção? O que poderia se

Era uma marca de salão pioneira, não apenas usando ingredientes botânicos, mas
acreditando no poder da natureza para o bem-estar de estilistas e clientes. Biolage é reconhecida mundialmente como líder
no campo de tratamento capilar profissional.

A HomeGoods é uma cadeia americana de lojas de artigos para o lar com desconto, fundada
em 1992. Embora tenha começado como uma pequena cadeia, centenas de locais agora estão espalhados pelos Estados
Unidos.

350
esperar.

Depois que ela se secou, ela fez uma tentativa e abriu um


par de gavetas sob o par de pias. Sim. Escovas de dentes
novíssimas em todos os tamanhos e configurações de escova
que a Oral-B já havia pensado. Além de sete ou oito marcas e
tipos diferentes de creme dental.

Inacreditável. Quem conseguiu esta casa valeu a pena


cada centavo. Além disso, eles trouxeram mantimentos.
Mesmo quando não tinham pedido nada.

Enquanto Therese escovava os dentes, ela queria ficar. Ela


realmente queria—e não apenas por esta noite. Ela queria
viver em um lugar agradável como este, com toalhas limpas e
docemente perfumadas, e armários que eram estocados por
um doggen atencioso, e tapetes que eram aspirados por outra
pessoa. Ela queria uma internet que não pagasse, prateleiras
que não precisasse limpar e louça que fosse limpa.

Mais do que tudo, porém, ela queria acordar ao lado de


Trez todas as noites. E tomar café em frente a ele naquela
mesinha. E ir de carro com ele para o trabalho dela no
restaurante. Ela queria mensagens de texto dele durante todo

351
o turno, apenas pequenas coisas, um meme, um gif estúpido,
uma história rápida sobre um louco em seu clube. Então ela
queria que ele a pegasse e a levasse de volta para cá, os dois
conversando sobre como o trabalho tinha sido.

Quando eles chegaram em casa, ela queria compartilhar a


preparação da comida com ele. Ela queria cortar legumes em
uma tábua de madeira enquanto ele assava bifes no forno. Ela
queria pão fresco que cheirasse bem, e uma refeição com estilo
de família com pratos na mesa. Ela queria que mais histórias
fossem trocadas, de notícias humanas ou de grupos de mídia
social de vampiros ou algo que ele ouviu no clube de um dos
seguranças.

Depois limpar tudo. Então fazer amor aqui em cima.

Então, novamente, e novamente, até que os anos se


tornaram décadas e as décadas séculos. Até a morte—em um
longo, longo e incalculável tempo depois—os se separasse.

Depois disso ... o Fade. Pela eternidade. Lado a lado.

— Deus, o que eu estou pensando, —ela murmurou para


si mesma.

352
Mas sim, tudo bem, se ela fosse honesta, ela queria a
versão mortal de felizes para sempre na terra com ele e depois
a mística do outro lado. E se houvesse crianças? Ótimo. E se
não houvesse, ótimo.

Se eles estavam juntos era tudo o que importava.

Quando essas fantasias selvagens passaram por sua


mente, ela olhou-se no espelho sobre as pias, uma sensação
estranha ondulando através de sua consciência sobre ir mais
fundo. Muito, muito mais profundo.

Era como se ela tivesse pensado essas coisas antes, e não


porque ela estava em um relacionamento com outra pessoa.

Era ele. Por alguma razão ... sempre tinha sido ele.

Trez parecia, esta noite, pelo menos, ser seu amante


fantasma e seu destino, tudo embrulhado em um. — E eu sei
que isso é loucura. —Disse ela enquanto ela puxava a toalha
em torno de si mesma.

Apagando as luzes com a mente, ela queria se afastar de


seu reflexo. Ela não fez isso. Ela não podia.

Esse estranho sentimento de conexão com Trez, de se

353
relacionar com ele, de estar fadada a estar com ele, recusou-se
a ir embora—e ela não queria voltar lá até colocá-lo em um
contexto mais razoável. Ela tinha aprendido há muito tempo
que os sentimentos românticos eram poderosos—mas isso não
significa que eles eram permanentes. E considerando o sexo
que tiveram? Seguido por seu colapso emocional e seu
SuperSoul Sunday compartilhando coisas?

Parafraseando a Oprah .

Era melhor lembrar que qualquer coisa que seu cérebro


tossisse agora era o resultado de todas as endorfinas que
haviam sido liberadas ...

Pelo canto do olho, ela pegou um lampejo de algo no


quintal coberto de neve. Franzindo a testa, ela se aproximou e
olhou através do vidro de dois painéis de onde ela tinha
pulado.

Super Soul Sunday é um talk show de auto-ajuda diurno americano, apresentado por Oprah
Winfrey, que é transmitido pela rede Oprah Winfrey. O Super Soul Sunday estreou em 16 de outubro de 2011.

Oprah Winfrey é uma apresentadora de televisão, atriz e empresária norte-americana,


vencedora de múltiplos prêmios Emmy por seu programa The Oprah Winfrey Show, o talk show com maior audiência da
história da televisão norte-americana.

354
Bem ao lado de seu bagunçado local de pouso, havia um
brilho lá fora, e não como o tipo de câmera de segurança. Era
mais como uma fosforescência residual, uma sombra
persistente da cor do arco-íris, como se algo ...

— O quê. Que. Por ... Porrdrogacoisa .

Em sua mente, ela fez todo o caminho para “foda”. Nesse


belo banheiro, no entanto, com a toalha macia e perfumada
ao redor dela e o xampu e condicionador que alguém pagara
por perfumar seus cabelos úmidos, ela queria manter a
maldição no mínimo, mesmo que estivesse sozinha.

E mesmo se fosse justificado.

E mesmo que ela não tivesse certeza de que


"Porrdrogacoisa" fosse uma palavra ou o que significaria se
fosse.

Mas algum tipo de f—alguma coisa ou outra era


justificada ... porque logo sob o brilho estranho e dissipador
havia uma marca na neve. Uma grande marca com dois
triângulos de cada lado.

Em inglês Fudgeknuckles é um 'juramento picado' para a palavra f.

355
Como se alguém tivesse se deitado ao lado de onde ela
havia caído e fez um anjo movendo os braços e as pernas para
cima e para trás.

Para enviar uma mensagem a ela.

Abruptamente, os pêlos de sua nuca formigaram e


arrepios subiram em seus braços. Balançando a cabeça, ela
torceu as cortinas das venezianas para baixo para que ela não
pudesse ver—e quem tivesse feito isso não podia ver dentro.

Embora esse brilho? Ela estava disposta a apostar que as


regras normais não se aplicavam. Supondo que isso não fosse
tudo fruto de sua mente não confiável.

Determinada a colocar isso, e muito mais, para trás, ela


saiu do banheiro.

Trez estava na cama de costas, os ombros nus emergindo


do edredom que havia sido puxado quase até as clavículas.
Seus olhos estavam fechados e sua respiração era irregular, a
mão que ele deixara para fora das cobertas tremendo, suas
pálpebras tremulando como se estivesse sonhando.

E não em coisas agradáveis.

356
Ficando onde ela estava, ela o observou por um tempo. Se
ele não tivesse pedido explicitamente para ela ficar, ela o teria
deixado. Ela tinha a sensação de que ele não dormia há algum
tempo, e certamente um bom dia de repouso poderia oferecer-
lhe mais do que qualquer coisa que ela poderia quando se
tratava de ajuda. Mas ela não queria ir, e não só porque não
queria que ele ficasse sozinho.

Aproximando-se da cama, ela levantou o edredom e


deslizou entre os lençóis, largando a toalha úmida no chão.
Virando-se para encará-lo, ela estava prestes a fechar os olhos
quando ele rolou em sua direção. Com um gemido, seus
braços se esticaram e a puxaram para seu corpo quente e vital,
e quando o contato foi feito, o suspiro irregular que ele soltou
durante o sono partiu seu coração ... e a fez inteira ao mesmo
tempo.

Ele precisava dela.

E de alguma forma, ela sentiu que precisava dele tanto


quanto.

Quando Therese fechou os olhos, sentiu uma paz tomar


conta dela. E era algo que ela não questionou.

357
Este estranho parecia ser o destino de muitas maneiras.

Especialmente quando ela pensou sobre sua escolha


aleatória para vir para Caldwell quando ela deixou sua família.
Era quase como se encontrar com ele tinha sido a razão.

Capítulo 20

Trez acordou com um sussurro-silencioso, o zumbido das


persianas de ilusão deslizando sobre todo o vidro da pequena
casa. Por uma fração de segundo, ele sabia exatamente onde
estava. Ele estava com sua Selena, e eles estavam em sua cama
de casal acasalado, e todo o pesadelo de sua morte e a pira e
as consequências?

Nada que valha a pena se preocupar. Apenas o éter tossiu

358
por seu subconsciente, um pesadelo gerado por seus medos
mais profundos, um arroto de terror em seu cérebro.

Liberando o fôlego, ele fechou os olhos arenosos e se


aproximou ainda mais de sua shellan. Enquanto dormia, sua
cabeça encontrou o lugar que sempre encontrava no peito
dele, e o braço dela o envolveu, e sua mão encontrou o
amassado na lateral do quadril. Finalmente, as pontas dos
dedos acalmaram o contorno da pélvis, assim como sempre
fizeram.

Seus olhos se abriram novamente.

Curiosamente, a irritação leve de seus olhos foi o que


trouxe tudo de volta. Eles estavam inchados e ásperos porque
ele chorou na frente dela. Depois de se perdeu enquanto
faziam sexo. E então ele não explicou sua explosão para ela.

— Merda, —ele falou para a escuridão.

Como a recalibração ocorreu, a realidade levantando a


cabeça feia mais uma vez, a ansiedade agitou os dois pedaços
de torrada que ele comeu enquanto ela tomava banho, e ele
teve que se sentar para que ele não enjoasse. Com cuidado, ele
se afastou dela, empurrou seu torso mais alto sobre os

359
travesseiros e ficou feliz quando ela se reorganizou em seu
colo.

O fato de ela estar dormido tranquilizou-o.

Tantas coisas entre eles eram complicadas, mas a maneira


como ela o procurou em seu descanso era simples.

Olhando para a lareira, não havia nada brilhando lá


agora, nenhum sinal de calor ou iluminação sobrando ...

A luz perfurou as persianas de ilusão, emanando da casa


ao lado.

— O que o …

Enquanto ele falava, sua fêmea mexeu e levantou a


cabeça.

— O que há de errado?

Quando ele estava prestes a se atirar contra ela para


protegê-la da luz do sol, o som de uma porta da garagem se
levantando e de um carro não saindo para sair, mas dirigindo
para ficar, o deixou totalmente confuso.

— Oh, merd … o que? —Ela disse enquanto se sentava

360
todo o caminho para cima. — Dormimos demais.

— O quê? —Então ele olhou para o relógio digital no


banco de cama. — Oh ... são seis horas. Da noite.

Ou um pouco antes, como era o caso.

Sendo este o estado de Nova York, e o horário de verão


tendo terminado em novembro, as coisas ficavam bastante
escuras para os vampiros por volta das seis. Às vezes mesmo
mais cedo. Inferno, uma grande parte do tempo em dezembro,
você poderia ir ao ar livre quase às cinco horas.

Jogando as cobertas, ela pulou da cama.

— Eu vou me atrasar outra vez, estou quase perdendo o


maldito emprego …

— É segunda-feira. O restaurante está fechado.

Enquanto ela balançava em torno dele, ele fez o seu


melhor para não notar a forma como seus seios perfeitos se
estabeleceram do movimento. Ou como o cabelo dela cobria
os ombros e muito das costas. Ou o comprimento de suas
lindas pernas.

Ele olhou nos olhos dela. Ao encontrá-los, ele se recusou

361
a ficar excitado.

Tudo bem, tudo bem. Sua mente se recusou a ir lá. A ereção


dele, por outro lado? Oops.

Olhando para baixo, ele se certificou de estar coberto.

— Segunda-feira? —Disse ela.

— Sim, segunda-feira. Eu juro. —Ei, ela tinha acertado


na hora da noite, e ele estava pregando a coisa do dia da
semana. Deixando eles quites. — A tempestade de neve foi
sábado e essa é a nossa noite mais movimentada no clube.
Ontem à noite, domingo, eu não tinha que me preocupar com
uma grande multidão, e foi por isso que eu tive tempo de
brigar com meu irmão.

— Brigar com ele?

Trez balançou a cabeça.

— Não importa.

O rosto dela registrou a pitada de carranca. Mas então ela


olhou para si mesma surpresa.

— Oh, eu não sei o que fazer. Olá. Desculpe, não estou

362
no meu melhor traje de aniversário .

Apesar de todas as coisas não ditas entre eles, ele teve que
abrir um sorriso.

— Você está seriamente se desculpando comigo por estar


nua?

— Bem, é um pouco demais, —ela cobriu os seios com o


braço e seu sexo com a mão. — Quero dizer …

— Você é simplesmente perfeita, na verdade. —Trez


brincava com a borda do edredom. — Escute, eu preciso pedir
desculpas sobre o que aconteceu ontem à noite. Eu não tive a
intenção de trazer todo aquele drama.

Ela se aproximou da cama. Voltou. Enfiou o edredom


debaixo dos braços enquanto ela se aninhava ao lado dele.
Quando ela olhou para cima, seu rosto estava calmo e aberto,
e ele ficou feliz. Ele não queria um monte de simpatia ou
coisas de bebê carente. Mas ele também não queria ser julgado
pelo tipo de coisa que ele não tinha absolutamente nenhum
controle.

E uma expressão que quer dizer, estar nu.

363
— Não vou perguntar o que aconteceu, —disse ela. — Só
saiba, que, quando, e se, você estiver afim de falar estarei
sempre pronta para falar sobre isso, eu estou aqui por você.

— Obrigado.

Eles sentaram-se em silêncio por um tempo. Então,


quando ele não suportou o silêncio, ele disse:

— Então, quais são seus planos hoje à noite?

— Nada demais. Acho que vou voltar para casa …

— Você poderia ficar aqui. Poderíamos mover suas coisas


e ...

— Deus, eu gostaria de poder aceitar tudo sobre isso.

— Você poderia.

Ela acenou para o banheiro.

— Você precisa tentar esse chuveiro. A pressão da água é


insana.

— Você não respondeu minha pergunta.

— Você fez uma? —Ela olhou de novo e exalou. —

364
Desculpe. Estou sendo evasiva, não estou? E você é muito
doce. Eu vou vir vê-lo aqui, no entanto.

Ele tinha uma compulsão para pegar a mão dela. Então


ele fez.

— Por favor. Mude-se para cá e eu …

Quando ela apertou a palma da mão, ele parou de falar.

— Você se lembra o que eu … se lembra de tudo o que eu


te disse ontem à noite? —Disse ela.

— Cada palavra. Você quer que eu repita?

— Não, mas obrigada por ouvir, —ela respirou fundo. —


Então, o negócio é o seguinte. Sabe qual foi a segunda pior
coisa da minha vida, depois de descobrir que mentiram para
mim? O segundo pior momento ... foi quando eu decidi deixá-
los. Não foram as mentiras ou a coisa da ruptura da família.
Foi o fato de eu não saber como fazer isso. Eu não sabia como
cuidar de mim mesma. Eu tinha 700 dólares em meu nome,
um telefone que meus pais pagavam, um apartamento que
dividia com meu irmão—eu não tinha meu próprio carro, meu
próprio espaço. Até meu trabalho? Meu pai arrumou para

365
mim. Eu estava fazendo coisas de TI para o amigo mais velho
dele. Eu não tinha nada que fosse meu e nenhuma habilidade
para cuidar de mim mesma porque minha família tinha feito
tudo por mim. Ou melhor ... aquelas pessoas com quem cresci
fizeram tudo por mim. Nunca tive tanto medo na minha vida
enquanto enchi uma mochila com algumas roupas e saí do
meu apartamento. Para onde ir. Não fazia ideia do que eu ia
fazer comigo mesma. Eu estava vazia. De cabeça vazia, de
coração vazio ... perdida no mundo. —Ela apertou a mão dele
de novo. — E eu nunca, nunca mais quero passar por isso.
Nunca mais.

Quando seus olhos se encontraram com o dele, ela estava


muito séria.

— Eu amo essa casa, —continuou ela. — Eu adoraria


visitá-lo aqui. Mas vou garantir que eu não confie em mais
ninguém porque essa é a única maneira de garantir que
ninguém vai me colocar nessa posição de novo. Eu vou fazer
isso por conta própria. Ouça, eu não sei onde, isso entre nós,
está indo, mas confie em mim. Você não quer um peso morto
no pescoço. Você quer alguém que seja um parceiro, não um
problema que precisa ser resolvido.

366
— Você não é um problema. —Pelo menos ... não no
sentido de que ela estava falando.

— E eu vou manter assim. —Os olhos dela estavam


mortalmente sérios quando eles se encontraram. — Eu tenho
que fazer isso. Eu tenho que provar a mim mesma que posso
ser forte.

Estendendo a mão para o rosto dela, ele acariciou sua


bochecha com as costas de seus dedos.

— OK. Eu respeito isso.

— Obrigada.

Trez teve um impulso para beijá-la, mas ela chegou a ele


primeiro. Ela inclinou-se para a frente e pressionou os lábios
contra os dele.

Eles ficaram perto por um tempo. E então ele se sentiu


compelido por sua honestidade, sua abertura. Ou talvez tenha
sido mais como por se sentir culpado.

— Sinto muito, —ele sussurrou.

— Pelo que?

367
— Por ser um caso tão difícil.

— Você não é um caso difícil. Está claro que você ... tem
algo em seu passado que vai fundo e é muito doloroso. E eu
odeio isso por você. —Ela deu de ombros. — Mas você não
tem obrigação de compartilhá-lo ou qualquer outra coisa
comigo ou qualquer outra pessoa. Eu só quero as partes de
você que você quiser voluntariamente me dar. Esses são os
presentes que eu quero, e eu posso ser muito paciente com
você.

Trez ficou tão impressionado com sua calma e certeza,


sua força e gentileza, que ele se inclinou e beijou-a.

— Você é ... incrível.

E ele estava tão grato pelo espaço que ela estava dando a
ele. O único problema era ... ele não achava que o tempo ia
aliviar sua reticência. Parecia estranho contar a ela uma
história em que ela era a heroína, uma história de amor e perda
que ela mesma tinha vivido—mesmo que, no momento, ela
não parecesse conscientemente lembrar de nada. Ainda assim,
ela tinha estado lá na sua morte, ela havia sofrido e …

Oh, merda, ele falou pra si próprio.

368
A verdadeira razão pela qual ele não queria contar a ela
tudo era porque ele queria que ela acreditasse que era verdade,
e se ele colocasse tudo sobre a mesa, sua fêmea tinha a
capacidade—como ninguém mais—de explodir tudo. iAm
poderia falar em teoria. As pessoas ao seu redor podiam se
preocupar com ele. A razão poderia jogar partidas
intermináveis contra a esperança em sua cabeça.

Mas Selena ... esta fêmea ao lado dele ... segurava o


verdadeiro detonador.

Quando uma dor aguda como um tiro passou pela cabeça


dele, com certeza como se uma flecha tivesse penetrado seu
lobo frontal, ele pensou em sua determinação depois que Xhex
tinha falado com ele. Sua defensiva quando ele lutou com
iAm. Sua certeza quando ele e sua fêmea estavam fazendo
sexo ontem à noite que ela era, de fato, Selena e ele se
reunindo, a ruptura que tinha vindo com sua morte precoce, a
vida não tanto renovada como retomada.

Sim, e então ele rachou ao meio. Então, era exatamente


como essa merda estava funcionando para ele.

Ele se sentiu dividido em dois por razões que ele não

369
podia suportar olhar muito de perto.

E se o iAm estivesse certo? E Xhex tinha sido gentil ao


invés de dizer a verdade naquela noite do tiroteio?

Therese traçou o rosto de seu amante com os olhos, as

características tão perfeitas para ela, tão sensual, tão


masculinas, tão ... convincente. Essas íris pretas, a pele escura,
a forma da cabeça.

— Às vezes eu sinto ... —ela sussurrou.

— O quê? —Trez acariciou o cabelo para trás. — Diga-


me.

— Às vezes sinto que já te conhecia.

— Você já conhecia, —ele murmurou.

Therese riu com pressa.

370
— Destino, hein.

— Sim. —Ele estava tão mortalmente sério que ela foi


levada de costas. — Eu acredito no destino. Você não?

Deixando de lado as fantasias sobre um futuro com ele,


essa pergunta a fez estremecer. Ela tinha nascido de alguém
que a tinha abandonado. Colocaram-na em uma porta, e a
deixaram lá no frio, para morrer. Então, mesmo quando o
destino reuniu ela e este macho, quando se tratava de
discussões sobre o destino, ela estava perturbada. Ela deveria
ter morrido por negligência quando criança? Ou foi algo que
aconteceu, mas agora parecia temporário, que ela deveria ter
conseguido? Seguindo essa teoria, e se os destinos das pessoas
fossem doados como pedaços pelo correio, alguns dos quais,
pela lei do acaso, inevitavelmente foram mal entregues.
Destruídos. Entregues no endereço errado.

Ela recebeu os pais de outra pessoa por engano? Será que


alguém tinha os dela? E sobre vir aqui e conhecer Trez …

Ok, ela realmente não queria pensar agora, ela decidiu. E ao


que se sabia, Trez também não parecia querer também—
especialmente quando ele passou os dedos pelos cabelos dela

371
novamente e sua mão permaneceu no ombro dela.

Sorrindo, ela aliviou-se contra os travesseiros e correu a


ponta dos dedos sobre sua própria veia jugular. Então ela
arqueou, desejo surgindo dentro de seu núcleo.

— Não quero falar mais, —disse ela.

Instantaneamente, seu cheiro queimou, especiarias


escuras enchendo seus sentidos.

— Agora, eu quero outra coisa de você, —disse ela.

— E eu quero dar-lhe alguma coisa.

Com olhos famintos, Trez moveu seu próprio corpo para


que eles ficassem cara a cara no travesseiro.

— Eu estou com fome.

— Eu também.

— Tome de mim em primeiro lugar, —ele disse quando


ele segurou a parte de trás do pescoço dela e pediu a ela que
fosse para sua própria garganta. — Tome de mim primeiro, —
disse ele enquanto envolvia a parte de trás do pescoço dela e a
instigou a ir a sua própria garganta. — Tome de mim para que

372
eu possa dar força a você.

Ela teve um momento de pausa. Mas então seus próprios


instintos tomaram conta.

Aninhando-se no lado de sua garganta, ela passou a presa


afiada sobre a veia que ele estava oferecendo a ela. Ela tinha
um pensamento de que queria ir devagar, mas a fome
arranhou em seu intestino, um lembrete de que tinha muito
tempo desde que ela tinha feito isso. Desde que ela se cuidou
dessa maneira.

E tinha sido ainda mais tempo desde que havia um


componente sexual para ela.

Lambendo o pescoço dele, ela estendeu o corpo e


descobriu que ele estava duro novamente por ela. Pronto para
ela. Faminto por ela.

Com um movimento, ela voltou e depois enfiou suas


presas na garganta dele—enquanto, ao mesmo tempo,
começava a acariciá-lo entre as pernas dele.

— Oh, porra! —Ele latiu quando ele rolou de costas e


puxou-a em cima.

373
Jogando uma perna sobre seus quadris, Therese sentou-se
na sua ereção e empalou-se nele. Ao fazê-lo, ela começou a
sugar sua veia, atraindo-o para si mesma. Ela não ousou
começar a se mover, no entanto. Ela não queria machucá-lo,
e como o vinho escuro que ela engoliu esquentou seu
estômago, ficou impressionada, ela foi atingida com uma
ganância tão grande, que ela estava preocupada que se ela
montasse com força nele rasgaria sua garganta.

Mas se o objetivo era trazer-lhe uma liberação, não


parecia importar que ela não estivesse se movendo.

Trez começou a vir sem qualquer atrito, as sucções em sua


jugular o suficiente para mandá-lo para o limite. E ela estava
feliz. Ela estava tão feliz.

Ele conhecera tanta dor.

Quando ele estava com ela, ela queria que ele lhe desse o
prazer que merecia.

E talvez até ... o amor.

374
Capítulo 21

— Não, é melhor eu voltar. Pelo menos por um tempo.


Enquanto sua fêmea falava da pia da cozinha, Trez olhou
para seu telefone. Eram quase oito agora. Eles tinham vindo
aqui cerca de vinte minutos atrás, vestidos com o que eles
estavam vestindo na noite anterior, onde ela tinha tido outra
tigela de passas cuidadosamente distribuídas com farelo, e ele
tinha feito outro conjunto de fatias de torradas.

Ambos tinham leite. Em copos.

Verdadeiros festeiros duros, grandes apostadores.

Embora lá em cima, naquela cama grande? Eles não


tinham nada para se envergonhar quando se tratava de se
divertir.

375
— Você conseguiu outro telefone? —Ele perguntou. —
Quero dizer, nos cinco minutos que você teve para si mesma
desde que você perdeu o seu outro, é claro.

— Não, —ela sorriu enquanto colocava sua tigela na lava-


louça. Então ela apontou para dentro da máquina. — Então
você tem dois itens aqui. Nesse ritmo, você terá que liga-lá em
fevereiro.

— Posso leva-la para conseguir outro telefone? —Ele


levantou as mãos. — Você pagaria, eu juro. É que poderíamos
passar pela loja Verizon a caminho do seu apartamento.

— Oh, era apenas um descartável, e eu posso chegar em


casa. —Ela se virou e inclinou-se para trás contra o balcão. —
Eu posso me desmaterializar diretamente no meu
apartamento. Eu sei o layout e deixei a janela meio aberta.

Trez tentou manter um grunhido para si mesmo. — Eu


ainda posso levá-la de volta.

— Eu sei que você pode.

A Verizon Communications Inc. é uma holding estadunidense especializada em telecomunicações. Tem mais de 200
milhões de clientes espalhados por todo o mundo e é parceira da Hyette Communications, uma empresa multinacional com
origem nos EUA.

376
— Olha, eu não estou sendo um pé no saco de propósito.
—Nah, era apenas um dom que ele tinha. — Mas você deveria
ter um telefone, e não porque você é uma fêmea ou algo
assim—ei, e se iAm precisar de você no restaurante? Enzo.
Para alterar turnos.

Em caso de dúvida, jogar o carta do trabalho, ele pensou.

— É segunda-feira, lembre-se, —as palpebras dos seus


olhos se abaixaram. — Foi por isso que nós conseguimos ficar
na cama por um pouco mais ...

— Sim, nós ficamos, —Trez ronronou. Ele não podia


ajudá-lo. — E você sabe, eu não percebi o quanto eu gostava
do início da semana de trabalho até agora.

Houve um longo momento. Durante o qual ele teve a


sensação de que ela estava considerando a ideia de uma
mudança de altitude—ou seja, para o segundo andar, de volta
para aquela cama. E ele seria um "sim" nisso, com certeza.

Mas então ela olhou para o lado com as bochechas


rosadas.

— Você é quente demais para mim.

377
— Não, você é.

Ambos riram. Então ela balançou a cabeça.

— Você sabe, você provavelmente está certo.

Trez deliberadamente colocou os dedos na marca da


mordida que ela tinha lambido e fechado.

— Sobre o quê? O fato de que você pode tomar a minha


veia quando quiser?

— Eu preciso retribuir o favor, a propósito, —ela


desenhou. — Você não se alimentou de mim. Nós distraímos.
No melhor sentido da palavra.

— E eu ainda estaria indo vindo em você agora, se eu


pudesse.

Sua fêmea soltou um latirdo e depois um ronco. Depois


disso, ela prendeu as duas mãos sobre a boca.

— Agora por que você faz isso? —Perguntou ele. — Você


não precisa fazer silêncio nesta casa.

— Eu tenho a pior risada do mundo.

Trez pensou no tempo que passaram juntos no Grande

378
Acampamento de Rehv, no lago perto da Montanha
Saddleback , os dois amontoados em uma velha cama de
dossel vitoriana, uma colcha caseira puxada até seus queixos,
conversando tranquilamente, sussurros de amor e um
vislumbre da eternidade, unindo-os, se eles tivessem feito sexo
ou não.

Ele tinha contado piadas bobas. E ela ria.

Momentos roubados ... em uma linha do tempo que tinha


sido muito curta.

— Eu amo sua risada, —disse ele.

— Você não tem que ser charmoso. —Ela andou até onde
ele estava sentado à mesa e colocou os braços ao redor de seus
ombros. — Você me tem já.

Trez pôs as mãos nos quadris.

— E eu quero ficar com você.

Saddleback Mountain é uma montanha localizada em Sandy River


Plantation, Franklin County, Maine, perto da cidade turística de Rangeley. Saddleback é uma das montanhas mais altas do
estado do Maine e uma das quatorze com mais de 2.000 pés de destaque topográfico. A montanha é o local da estação de
esqui de Saddleback.

379
Seus lindos olhos piscaram. — Eu acredito que você quer.

— E por que não? —Deus, era tudo o que ele queria fazer.
— Por que ninguém iria.

Sua fêmea acariciou seu rosto. Então, com uma voz


rouca, ela sussurrou: — Essa não é uma pergunta retórica para
alguém que foi abandonada no seu nascimento por sua
mahmen e pai biológicos.

Trez a abraçou. Ele nunca tinha pensado nas Escolhidas


assim, mas ele supunha que era verdade. Elas não tinham pais
verdadeiros. Elas foram criadas para servir, não tiveram
escolha no assunto—apesar de seu nome—e esperavam que
superassem se não gostassem de seu papel na espécie. Não
havia amor. Só havia dever.

— Sinto muito, —disse ele com emoção.

Eles se abraçaram por muito tempo. E ele disse a ela que


a amava em sua mente porque ele perdeu brevemente a voz.

Quando ela recuou, ela limpou a garganta.

— Onde estávamos?

— Onde eu quero estar, —ele murmurou.

380
Ela sorriu.

— Oh, certo. Meu telefone. Enzo e iAm. Você tem um


ponto—e eu não sei porque eu estou sendo tão teimosa sobre
a obtenção de um novo celular. Não vou pagar muito por ele,
e ainda assim me ressinto como o inferno por ter que gastar
um centavo para substituir a coisa. E isso é estúpido.

— Então vamos para a Verizon, —ele bateu palmas em


triunfo. — É isso aí!

— Caramba—eu tenho outro telefone. —Ela foi até a


bolsa, aquela que ela tinha perdido no clube. Abrindo o topo,
ela olhou para dentro e olhou para cima novamente. — Sabe,
está realmente vazio aqui sem uma carteira. Graças a Deus
não sou humana com carteira de motorista para perder ou
uma identidade para roubar, hein?

Sua fêmea abriu a bolsa. Abriu o zíper do bolso. E retirou


um telefone celular.

Enquanto segurava na mão, ela olhou para a coisa,


parecendo se refamiliarizar com sua própria posse.

— Eu não ligo isso desde que eu saí. Mas está sem bateria,

381
aposto que sim—sem bateria.

— Acho que tenho um carregador.

Ele se levantou e começou a procurar nas gavetas.

— Fritz sempre coloca de tudo nas casas que ele cuida—


deve ter algum kit para isso. De que marca ele é?

— Um Samsung. —Ela se aproximou e olhou para os


vários fios pretos enrolados, todos prontos para usar, a
embalagem removida. — Galaxy. Mas não o super novo.

— Graças a Deus não é um iqualquer coisa .

— Por quê?

— Vishous não gosta deles. E dado que ele fez o sistema


de segurança na casa, ele nunca teria deixado nada para isso
em qualquer gaveta. Ele teria verificado para ter certeza.

— Isso é um Irmão? —Ela perguntou. — Vishous, eu


quero dizer?

E o Iphone, Vishous não gosta deles.

382
— Você se lembra dele, —disse ele com distração quando
começou a tentar várias opções na parte de baixo do telefone
dela.

— Oh, ele estava no clube na noite anterior?

— Deixa comigo. Esse encaixa. —Esticando o plugue


AC/DC para a parede, ele foi para …

— Espere, —disse ela enquanto o detinha.

Quando Therese pôs a mão no braço de Trez, seu coração


estava batendo forte. Mas vamos lá, ela disse a si mesma. Era
uma loucura não usar o telefone antigo. Se ela estava tentando
economizar dinheiro para sair daquela casa, comprar outro
celular era um desperdício se isso era perfeitamente utilizável.

Adaptadores

383
— Desculpe, —ela disse. — Eu só estou sendo esquisita.

— Você tem medo deles terem te ligando? —Sua voz era


baixa. — Seus pais, quero dizer.

— Não. Sim. Quero dizer, se o fizessem, está tudo bem.

A carga inicial fez-se rapidamente, e enquanto ela


esperava, ela se viu desejando não ser tão fraca. Ela também
tentou decidir o que seria mais difícil. Se tivessem telefonado
... ou se não tivessem.

— Hora de ligá-lo … —ela murmurou.

Iniciando a unidade, ela esperou que a coisa iniciasse, e


então ...

Não havia razão para digitar a senha dela. Suas


notificações piscaram na tela imediatamente. E tudo o que ela
podia fazer era olhar para elas.

— Meu irmão, —ela se ouviu dizer. — Ele é, ah, ele tem


ligado.

— Recentemente?

— Sete vezes. E sim ... três noites atrás foi a última vez.

384
— Você vai ligar para ele de volta?

Therese balançou a cabeça, mas não em resposta à


pergunta. Ela estava tentando se concentrar através de suas
emoções para lembrar qual era a senha dela. Sua data de
nascimento—sim, ela usou isso como senha porque ficou tão
doente e cansada de lembrar combinações de palavras e
números. Colocando os números, ela entrou no telefone.

Seus olhos lacrimejaram quando ela olhou através de


tudo. Havia mensagens, telefonemas perdidos, outras
mensagens de correio de voz—não apenas de seu irmão.

Era toda evidência tangível de que sua antiga vida


continuara sem ela. E o fato de nenhuma das comunicações,
exceto as ligações de Gareth, terem sido recentes a fez sentir
como se tivesse morrido e testemunhar as pessoas seguirem
em frente. Primos, amigos, contatos profissionais. Todos eles
pararam de procurá-la depois de um curto período de tempo.
Seu irmão tinha persistido, no entanto.

Não textos, também. Só chamadas.

Ele gostava de escrever. Ou tinha pelo menos. A única vez


que ele ligou para ela foi para emergências: acidentes, carro ou

385
pessoa. Doenças, embora em vampiros fossem raros.
Problemas domésticos que eram confusos, quando canos
estouravam ou fusíveis elétricos que estavam soltando fumaça
pela casa.

Ou mortes.

Engraçado, Therese tinha ouvido as pessoas falarem sobre


momentos inspiradores antes, e ela sempre os imaginou no
contexto da história. A história era importante, e envolvia
muitas pessoas—e às vezes toda a raça: como os ataques
alguns verões atrás. A eleição democrática de Wrath, filho da
Wrath. O nascimento do filho de Wrath, Wrath. Todos esses
eventos foram inspiradores, pois foram origens de grande
mudança e os tipos de coisas que definiram uma determinada
geração.

A vida da maioria dos indivíduos, por outro lado, eram


anedótas ao invés de históricas. Os prós e contras da vida de
uma pessoa importavam apenas para eles, com pequenas
extensões em famílias e amigos. Raramente havia um período
ou expansão que envolvia grandes números. Raramente as
coisas seriam tão profundas que o fôlego seria tirado de você
e você se lembraria exatamente onde estava quando algo

386
aconteceu ou foi dito a você.

Raramente você se lembra da mudança, e não em termos


de esquerda ou direita. Em vez disso, como uma geleira.

Enquanto Therese segurava seu telefone antigo em sua


mão e olhava para o número de mensagens de voz que seu
irmão havia deixado, ela sentiu seu coração se mover. Ou
talvez fosse mais ... como se tivesse reabrindo.

Até que ela ouvisse as mensagens, ela nem saberia se


havia algum problema. Mas o fato de que poderia haver? Ou
poderia ter havido? E ela não sabia? E ela não estava ... lá?

Isso estava errado. E toda a questão de quem deu à luz


não importou nem um pouco.

A próxima coisa que Therese percebeu, era que ela estava


caminhando para a mesa porque sentar de repente parecia
uma boa ideia. Só que ela não conseguiu. O cabo do telefone
não chegou tão longe da parede.

— Aqui, eu vou seguir você, —disse Trez, desconectando


o carregador.

Havia pouca bateria de reserva, então ela se perguntou,

387
quando se sentou, se o celular não iria falhar. Mas não foi.
Trez foi rápido em obter outra tomada.

Segurando o aparelho em suas mãos, ela olhou para a tela


um pouco mais. — Espero que eles estejam bem.

Claro, ela poderia descobrir se eles tinham ou não deixado


mensagens loucas. Olá. Exceto que ela ainda estava lutando
com o furacão no centro de seu peito. Ela deveria sentir raiva
e ressentimento, dor e traição—como tinha desde o momento
em que deixou todos eles. Ela tinha suas razões para todas
essas emoções negativas, e ela tinha o direito de estar naquele
espaço. Ela tinha sido enganada pelos três conspirando com
uma fraude que aparentemente tinham dado como certo, que
nunca seria exposta.

Estar com raiva estava de bom tamanho.

Agora, porém, em vez de insistir na justa indignação que a


sustentara, tudo em que ela conseguia pensar era nos olhos
daquela fêmea, aquela fêmea que chamava de mahmen: eles
estavam tão desolados quanto Therese se sentia sob sua fúria.

— Ok, chega de ignorar tudo, —ela murmurou.

388
Ela ligou para a mensagem de voz mais recente e rezou—
rezou—que fosse seu irmão reclamando novamente por ela ter
ido embora.

Sua voz, saindo de seu telefone, foi um choque, estranho e


familiar:

Bem, parece que você não vai fazer a cortesia


comum de retornar nenhuma das minhas ligações.
Essa é sua decisão. Espero que você possa viver com
isso. Vamos levá-la para Caldwell para ser tratada na
clínica. Dizem que ela ainda tem algum tempo, mas é
limitado, então se vamos movê-la, tem que ser agora
enquanto ela tem a força para seguir na estrada.
Espero que esteja orgulhosa dessa besteira que está
puxando. É a única coisa da sua família que você tem.

Quando a mensagem de voz acabou, o coração de Therese


batia tão forte que não podia ouvir nada e o pânico inundou suas
veias com a picada e a combustão da gasolina.

— Eu tenho que ir, —disse ela. — Eu tenho que ir ... ver a


minha mahmen.

389
Saltando aos seus pés, ela ...

Ela imediatamente percebeu que não sabia onde ficava a


clínica de Caldwell. E, dada a sua tontura, a desmaterialização
não aconteceria mesmo que ela tivesse um endereço.

— Sente-se, —Trez levou-a de volta para o banco. — Você


está muito pálida.

A respiração de Therese estava bombeando dentro e fora


dela, rápido, mas não o suficiente em seus pulmões.

— Isto é minha culpa. Isso é tudo minha culpa.

— Espere. Ele não disse por que ela …

Ela olhou fixamente para o rosto de Trez.

— Ela sempre teve um problema cardíaco. Foi por isso que


eles estavam se mudando. O frio dos invernos estava ficando
demais para ela. Mas o que sempre foi ainda mais perigoso?
Estresse, —ela agarrou seu antebraço. — Querida Virgem
Escriba, eu matei ela.

390
Capítulo 22

Trez levou sua fêmea através do rio Hudson, para o outro


lado de Caldwell. Havers, o médico da raça, havia realocado
sua instalação de tratamento para uma floresta ali após os
ataques, e embora Trez não tivesse ido à clínica desde que fora
aberta, ele sabia onde estava. E ele foi capaz de fazer um bom
tempo. A noite estava clara e muito fria, então não havia neve
caindo para se preocupar, e as ruas e rodovias tinham sido
aradas e salgadas bem.

Uma coisa boa sobre ter que lidar com um inverno duro a
cada doze meses era que a cidade era muito eficiente sobre
limpeza de tempestades e manutenção de estradas. Eles
tinham que ser. As empresas tinham que funcionar. As escolas
tinham que ensinar seus alunos. Os hospitais precisavam
tratar seus pacientes.

391
Se tudo parasse e ficasse assim cada vez que houvesse um
acúmulo de neve, sério? As pessoas nestas regiões estariam
dentro de casa de meados de dezembro a março.

Ele olhou para o lado dentro da BMW. Sua fêmea estava


olhando pela janela, mas ele duvidava que ela estivesse vendo
alguma coisa. Ela também não conseguia ficar parada, se
contorcendo no banco, batendo o pé, movendo-se ao redor do
cinto de segurança que cruzou no seu peito.

Refocando na estrada, ele queria voltar a ter uma conversa


sobre o tempo consigo mesmo. Mas talvez ele pudesse
misturar e pensar em esportes. O clube.

A-porra-da-física-de-partículas.

O que ele absolutamente não queria pensar era no fato de


que sua fêmea estava indo para Havers para lidar com uma
emergência familiar.

Uma emergência familiar. Como em ... um grupo de


pessoas que, embora evidentemente não se relacionassem com
ela pelo sangue, no entanto, contou como resultado de ela ter
sido criada por eles.

392
Não havia como conciliar isso com ela sendo Selena.
Não. E o fato de não ter conseguido encaixar esse padrão de
fatos na construção de sua reencarnação iluminava com uma
luz muito brilhante o número de coisas que se encaixavam,
dobravam e distorciam nas vagas de quebra-cabeças.

E o que você sabe. Havia mais peças forçadas do que as


que se encaixavam—e ele se viu desesperadamente agarrando
a história que havia construído para si mesmo. Para eles. Era
impossível ignorar a sensação de que tudo estava prestes a ser
explodido, e a única coisa que ele conseguia pensar era o
quanto ele desejava que ela não tivesse perdido sua bolsa no
caos na noite anterior. Se ela tivesse ficado com ela, teria o
dinheiro da gorjeta do Rhage. E aquele telefone queimador.

Então eles não estariam fazendo isso agora.

Em vez disso, eles estariam dirigindo para pegar suas


coisas na pensão dela, e então, enquanto ela se instalava no
simpático e pequeno Cape Cod, ele iria ao clube e trabalharia
em alguns papéis. Em um par de horas, ele voltaria para casa
para ela e eles cozinhariam aqueles bifes e assistiriam a um
filme. E fariam outras coisas no escuro.

393
Ele queria que esse fosse o plano.

Não isso.

E, porra, quão egoísta ele era por isso? Como se ele


quisesse que ela não soubesse que essa fêmea mais velha com
quem ela se importava tanto estava doente?

Mais uma coisa para ele se orgulhar de si mesmo. Ele


tinha uma fodida lista e tanto.

— Falta muito? —Perguntou ela firmemente.

— Não está muito longe.

A clínica subterrânea estava escondida entre acres de


pinheiros, e acessada através de quatro quiosques, um dos
quais estava em um celeiro atrás da antiga fazenda que servia
como uma concha para o mundo humano. As outras três
entradas e seus elevadores associados foram espalhados pela
floresta, para aqueles que conveniente poderiam se
desmaterializar. Desnecessário dizer, para eles, teria que
parecer uma situação de estacionar e andar, então ele ia trazê-
la pela estrada principal para a entrada principal.

Cerca de dez minutos depois, ele enfiou o BMW entre

394
uma minivan e uma caminhonete.

— Você está pronta?

— Sim, —disse ela quando abria a porta os quinze


centímetros que podia.

O fato de que ele não se importava se seus painéis laterais


fossem golpeados, foi algo em que ele tentou encontrar
virtude. Mas a verdade é que ele não se importava tanto com
o carro, apesar de ser bonito.

Ele a encontrou na frente da BMW e a acompanhou até


aquele celeiro. Mostraram-se para a câmera de segurança e
entraram no elevador escondido. Apertou o botão para o nível
mais baixo. Durante a descida, ambos olharam para os
pequenos números acima das portas, mesmo que não se
iluminassem porque as coisas tinham sido adaptadas ao
propósito que serviam. L a 10, todo escuro. Ele se viu
imaginando para que este elevador tinha sido originalmente
projetado. Um prédio de escritórios, ele decidiu. Ou talvez um
hotel de médio porte.

Quando as portas se abriram, ele a levou para o balcão de


registro e ficou bem atrás dela, caso ela ficasse tonta.

395
A recepcionista, que estava usando um uniforme branco
e um dos chapéus de enfermeira antigo , olhou para cima.

— Como podemos ajudar?

Ele esperou que sua fêmea falasse. Assim como a


recepcionista, embora do lado dela, ela não parecia surpresa
que estava demorando. Sem dúvida, ela estava acostumada
com pessoas em choque.

A fêmea dele limpou a garganta.

— Estou procurando Larisse, filha de sangue de Salaman.


Acredito que ela veio aqui há algumas noites. Por causa do
seu coração.

O sorriso da recepcionista foi gentil quando ela digitou no


teclado.

— Tudo bem. Sim, eu tenho ela. Qual é a sua relação com


ela? —Quando houve uma hesitação, a recepcionista disse
baixinho. — Temo que ela esteja na UTI e só a família possa
estar lá atrás.

396
— Eu, ah ... —a fêmea dele limpou a garganta. — Sou
filha dela, Therese.

Como o nome foi falado, a atenção de Trez se desviou


enquanto as instruções eram dadas para a sala—ou pelo
menos ele assumiu que era o que estava acontecendo quando
a fêmea atrás da mesa apontava em várias direções.

Therese.

Não Selena.

Therese ... um nome que tinha sido dado a uma fêmea que
tinha nascido na terra, e depois sido adotada para o que
claramente tinha sido um lar amoroso. O nome que tinha sido
respondido durante a infância, e escrito na caligrafia vacilante
de uma jovem, e depois, mais tarde, falado aos telefonemas e
foram respondidos. O nome que tinha sido vivido após a
transição.

E foi vivido até agora. Não Selena.

Quando a caminhada para onde quer que o quarto do


hospital fosse foi iniciada, Trez deu um passo ao lado da
fêmea com os cabelos longos, escuros e encaracolados. A

397
mulher que ainda usava o uniforme de funcionário do Sal’s. A
fêmea que tinha se chamado de filha de uma mahmen mortal.

Não da Virgem Escriba.

Passando por várias portas duplas, percorrendo vários


corredores, seguindo a sinalização com várias flechas, ele
colocou as mãos nos bolsos da calça e ficou maravilhado com
a capacidade do cérebro de construir a realidade.

Com concreto e vigas, gesso e pregos, ele construiu uma


crença de que, se ele fosse honesto, nunca teria se sustentado
por conta própria. Mesmo que as profetizações estelares
tivessem prometido uma bela casa para viver, desde o início,
havia falhas na fundação, materiais baratos e mão de obra de
baixa qualidade foram usados em todos os lugares.

Em última análise, nada daquilo conseguiria se sustentar,


de jeito nenhum.

Mas vamos lá, como se esse colapso fosse uma surpresa?


Ele hesitou o tempo todo, apenas sua necessidade desesperada
de acreditar em sustentar as paredes instáveis e tetos soltos e
não confiáveis do projeto em que ele se metera.

398
O fracasso o deixou incrivelmente triste. E ele pensou em
outra coisa, também.

Tão rápido. Esta ... alucinação sua ... veio e se foi tão
rápido. Inferno, se você descartasse os sintomas, a queda seria
apenas uma questão de noites.

Abruptamente, sua fêmea ...

Não, ele corrigiu a si mesmo. Therese. Esta não era a sua


Selena. Nunca tinha sido.

De repente, Therese se virou e olhou por cima do ombro.


Quando a boca dela se moveu, ele percebeu que ela estava
falando com ele.

— O que? —Disse ele.

— Estou feliz que você está aqui, —ela estendeu a mão e


pegou a mão dele. — Obrigada.

399
A unidade de terapia intensiva das extensas instalações ficava
atrás de um conjunto de portas duplas que tinham que ser
abertas internamente a partir de um posto de enfermagem.
Felizmente, havia painéis de vidro que você podia se apoiar e,
no momento em que Therese colocou o rosto em um deles,
uma fêma de uniforme ergueu os olhos de um computador
atrás de um balcão.

Houve um zumbido e algum tipo de trava foi liberada.

Therese deu um aperto de mão a Trez, depois o soltou e


entrou. No instante em que respirou fundo, odiou o cheiro
anti-séptico. E então sua audição se registrou, e ela ficou
nervosa com o silêncio. Finalmente, enquanto seus olhos
viajavam, ela ficou desconcertada com a total falta de
decoração.

Esta era a parte de importante dos negócios da operação


de saúde, se você estava aqui era porque você era um paciente
gravemente doente ou um profissional seriamente treinado.

Ou um membro da família seriamente preocupado.

Ela foi até a enfermeira no balcão.

400
— Eu sou Therese. Eu estou aqui ...

— Você é a filha de Larisse, —a fêmea de uniforme sorriu.


— A recepção ligou. Ela está no quarto 1313. Você e seu
companheiro são mais do que bem-vindos para ir lá.

Oh, Deus. Número de má sorte. Muita má sorte.

E ... hum, Trez não era seu companheiro. Mas como se ela
fosse corrigir se isso lhe permitia estar na unidade?

— Obrigada.

Enquanto ela caminhava na direção que a enfermeira a


apontou, ela olhou para Trez. Quando ele não parecia querer
seguir, ela olhou para a enfermeira, que assentiu em apoio à
presença dele.

Mas ele ainda estava onde estava e, no silêncio


constrangedor, Therese brincava nervosamente com a barra
da parka. — Você não tem que esperar aqui.

Ele olhou para um pequeno arranjo de cadeiras e mesas


laterais dentro da UTI. Obviamente, eles foram fornecidos
como uma área de descanso para os membros da família, a TV
mostrando pontuações esportivas, dois cafés semi-acabados

401
em copos de isopor deixados para trás.

— A menos que você queira, —disse ela.

— Acho que é melhor te dar uma chance de se reconectar


com eles primeiro.

Quando ela considerou os detalhes, ela viu a lógica nisso.


Ela tinha aparecido ali com um "companheiro"? Sim, essa
seria mais uma camada de complicação que essa "reunião"
não precisava.

— Eu voltarei para te buscar.

— Perfeito.

Houve uma pausa. Então ele veio para um abraço rápido.


— Você tem isso. Você pode fazer isso.

Segurando-se em seu corpo forte, ela ficou impressionada


com a importância de tê-lo com ela. Trez era como uma ponte
entre o que tinha sido antes e onde ela estava agora. Então,
mesmo que ela não o conhecesse há muito tempo, ele parecia
mais permanente do que um amigo, mais íntimo do que um
amante.

402
Família, de certa forma.

— Obrigada por estar aqui. —Ela já tinha dito isso antes.


Mas ela precisava dizer de novo. — Eu não vou demorar.

Provavelmente porque o irmão dela ia jogar sua bunda


para fora.

Separando-se dele, ela desceu o corredor e se recusou a se


permitir olhar para trás. Ela era susceptível a perder a
coragem.

O corredor era amplo o suficiente para que duas macas de


emergência com equipe médica associada e equipamento de
monitoramento corressem para a cirurgia lado a lado. Ou algo
assim. À medida que ela avançava, era impossível não pensar
em qualquer outro termo que Marcus Welby, m.D . Cenários
envolvendo corridas de vida ou morte. Ou talvez ela precisasse
ser mais atual. ER . Espere, isso foi há uma década.

Marcus Welby, M.D. é um programa de televisão de drama médico americano que foi ao ar
às terças-feiras às 22: 00-11: 00. Na ABC, de 23 de setembro de 1969 a 29 de julho de 1976.

ER (no Brasil, Plantão Médico e em Portugal, Serviço de Urgência) é um seriado de televisão


norte-americano criado pelo escritor e ex-médico Michael Crichton.

403
Bem, Grey's Anatomy .

O debate da Guia de TV era o que estava em sua mente


enquanto ela caminhava por tantos quartos, todos os quais
tinham portas de vidro fechadas, a maioria das quais tinham
cortinas fechadas para privacidade. De vez em quando, no
entanto, ela podia ver o interior, os membros da família ao
lado da cama, enclausurados em torno de um paciente muito
doente, de mãos dadas. Abraçados.

Inevitavelmente, os doentes ou moribundos foram ligados


a um monte de máquinas.

O que ela esperava, no entanto. Este nem era um piso


geral. Você não estava aqui a menos que estivesse muito,
muito doente.

O quarto 1313 ficava no final, à esquerda.

Grey's Anatomy (Brasil: A Anatomia de Grey /Portugal: Anatomia de Grey) é uma série de televisão
estadunidense de drama médico exibida no horário nobre da rede ABC. O título do seriado é uma brincadeira com Gray's
Anatomy (Anatomia de Gray), o famoso livro de anatomia de Henry Gray.

TV Guide ‘Guia de TV’ é uma revista norte-americana quinzenal, especializada na programação de televisão,
uma nos Estados Unidos e outra no Canadá. Apesar do fato dessas revistas possuírem o mesmo nome e logotipos similares,
elas fazem parte de diferentes companhias e publicam um distinto conteúdo editorial.

404
E ela teve que parar no 1311 por um minuto e recuperar o
fôlego.

Graças a Deus ela tomou a veia de Trez. Ela não teria


forças para isso de outra forma.

Limpando sua garganta na expectativa de dizer algo


coerente, ela caminhou para a frente ... e olhou através das
cortinas separadas.

Therese cobriu a boca com a mão enquanto os olhos se


encheram de lágrimas.

Sua mahmen estava tão pequena e pálida deitada em uma


cama que estava cercada por equipamentos. Os machos da
família, filho e hellren, estavam sentados ao seu lado, cada um
segurando uma das mãos na palma da mão. A disposição de
todos eles, a tristeza onipresente, a doença óbvia ... formaram
uma imagem da dor e do sofrimento, das emoções e do eterno
processo de morte, mesmo diante de tantos avanços
tecnológicos e médicos.

Do lado de fora, olhando para dentro, Teresa


cumprimentou as três pessoas que conhecia melhor no
mundo, re-apresentando-se com suas aparências, sobrepondo

405
sua visão atual através da memória composta das décadas em
que os conhecia. O pai dela parecia mais velho, muito mais
velho. Seus cabelos, que antes eram grisalhos, pontilhados de
branco, agora estavam completamente brancos, e seu rosto
estava profundamente enrugado, não linhas mais, mas vincos
em torno de sua boca e nos cantos de ambos os olhos. Ele
havia perdido muito peso, a camisa xadrez pendurada nos
ombros, as calças cáqui agrupando-se em seus pés, e talvez
isso fosse parte do envelhecimento. Mas ele também estava
exausto, com bolsas grandes sob os olhos, a pele pálida e
pastosa.

Seu irmão, por outro lado, parecia maior e mais vital.


Gareth tinha quase raspado seus cabelos, e sua garganta,
ombros e peito haviam inchado, a amplitude dele não só
muito maior do que ela lembrava, mas muito maior do que
suas roupas poderiam lidar. Seu moleton da Universidade de
Michigan estava esticando nas costuras, e seu jeans, embora
solto em sua cintura, parecia estar tendo problemas com o

A Universidade de Michigan ou do Michigan (em inglês: University


of Michigan) ou UM é uma universidade coeducacional e pública, localizada na cidade de Ann Arbor, no estado de Michigan,
nos Estados Unidos da América.

406
tamanho de suas coxas e depois nas panturrilhas.

Ele obviamente estava com raiva e tinha afogado suas


emoções na academia. E ele obviamente ainda estava
zangado. Enquanto olhava para a fêmea na cama, seus olhos
estavam estreitos, com as sobrancelhas apertadas. A expressão
parecia uma parte permanente dele, algo com o qual ele havia
nascido—exceto que ela sabia que não era verdade. Ela o
conhecia feliz. A vida uma festa. Um irmão mais velho que
agiu como um irmão mais novo.

Agora ... ele era totalmente adulto. Não havia sinal da


tagarelice e da diversão para ele, e quando ela repetiu o correio
de voz que ele havia deixado para ela em sua cabeça, ela teve
a sensação de que isso não era apenas por causa da terrível
situação com sua mahmen aqui neste hospital.

Ela tinha feito isso com ele. Ela tinha feito isso ... para
todos eles.

Olhando através do vidro, ela sentiu um aperto no


estômago. As verdadeiras profundezas do egoísmo não
podem ser avaliadas adequadamente no calor do momento.
Perdidos pela emoção, pela raiva e pela vingança, você pode

407
ficar cego para o efeito que você estava tendo sobre aqueles ao
seu redor.

Foi apenas à distância, após uma separação e


recalibração, que você pôde ver o que havia feito—e ela sabia
que sua ausência os havia mudado, talvez de forma
irrevogável.

E, da maneira mais triste, era a prova do que ela havia


questionado, do que havia rejeitado com tanta severidade.

Eles a amavam. E eles lamentaram sua perda.

Quando a condenação atingiu Therese, pai e filho


perceberam-na ... e olharam para ela.

408
Capítulo 23

Therese não conseguia respirar enquanto colocava a mão na


alavanca para abrir a porta de vidro do quarto. Ela hesitou
porque não tinha certeza se seria instruída a sair. Se o irmão
dela a jogaria fora da UTI completamente. Se o pai a rejeitaria.

Mas quando nenhum deles se moveu, como se sua


presença fosse a última coisa que esperavam, ela empurrou seu
caminho para o ...

Os cheiros eram os mesmos. Querida Virgem Escriba ... seus


cheiros eram os mesmos. Sob a picada pungente de soda
cáustica e lavagem anti-séptica, ela sentiu o cheiro de todos
eles, até mesmo sua mahmen.

Quando ela entrou, seu pai ficou em pé, sua cadeira


rangendo no chão.

409
— Therese ...?

— Pai, —ela sussurrou enquanto seus olhos se enchiam


de novas lágrimas.

Ela não sabia quem se moveu primeiro. Ela só sabia que


entre um batimento cardíaco e o outro, ela estava abraçando
seu pai e tremendo e chorando.

— Oh, você veio, —disse ele entre soluços. — Graças a


Deus, você está aqui. Eu acho que ela estava esperando por
você antes dela ...

Therese recuou.

— O que aconteceu? O que está acontecendo com ela?

No canto de seu olho, ela notou que seu irmão tinha


ficado sentado—e obviamente não tinha intenção de se
levantar tão cedo. Ele estava inclinado para trás na cadeira
dura, com os braços cruzados sobre o peito e sua mandíbula
rígida, como se estivesse rangendo seus molares.

— É a miopatia , —disse o pai dela. — O músculo

As doenças musculares (miopatia) podem ser adquiridas ou hereditárias. Os sintomas incluem fraqueza nos músculos
esqueléticos, atrofias, cãibras musculares ou mialgias e problemas funcionais nos músculos respiratórios, faríngeos, faciais ou
oculares. Cabe aos médicos identificar as miopatias tratáveis e iniciar as terapias antes que ocorram fraquezas permanentes.

410
cardíaco dela não é forte ...

Gareth cortou sem olhar para cima. — E o estresse é tão


bom para sua condição …

— Gareth, —seu pai interrompeu. — Agora não é o


momento.

— Você está certo. Ela está fodidamente atrasada.

Gareth levantou-se e saiu antes que alguém pudesse dizer


mais alguma coisa. E quando a porta se fechou atrás dele, o
pai dela fechou os olhos.

— Vamos nos concentrar em você estar aqui, sim? —Ele


disse com seu sotaque do Velho País.

— Sim, —Therese concordou. — Há tempo para


conversar ... depois.

Aproximando-se da cama, ela teve que cobrir a boca


novamente para manter suas emoções sob controle. A culpa
adoeceu seu estômago, congelando o Raisin Bran que tinha
comido, e antes de suas pernas desistirem do trabalho, ela se
sentou na cadeira de plástico que seu irmão estava aquecendo.
Estendendo a mão, ela pegou a mão de sua mahmen, e ficou

411
horrorizada com os ossos: a pele fina de papel, não havia
preenchimento na anatomia do corpo. Era como se ela estivesse
segurando um esqueleto.

— Mah-mah, —ela sussurrou. — Eu estou aqui. Eu sinto


muito ... eu deveria ter ...

Não houve resposta, é claro. Então, novamente, a fêmea


estava entubada, uma máquina respirando por ela.

— Quando isso tudo aconteceu? —Therese perguntou.


Mesmo que ela pudesse adivinhar.

Provavelmente na primeira vez que seu irmão lhe deixou


uma mensagem. Então, cerca de uma semana depois que ela
saiu.

O pai voltou a sentar-se. — A condição dela tem sido um


desafio para ... desde que ...

— Depois que eu saí, —ela olhou para o pai. — Você pode


dizer isso. Você pode ser honesto.

— Ela estava triste. É verdade.

— Eu sinto muitíssimo.

412
— Você está aqui agora. É com isso que me importo.

— Eu a coloquei aqui ...

Quando Therese começou a se emocionar novamente, seu


pai balançou a cabeça.

— Não, você não fez. Sabíamos o tempo todo que em


algum momento ela passaria para um período agudo. É assim
que o tipo de doença cardíaca dela funciona. Isso tem sido
inevitável desde que ela contraiu o vírus nos anos 70.

— Eu não ajudei. Eu deveria ter lidado ... com tudo ...


melhor.

— Bem, nenhum de nós ajudou, também, —ele esfregou


o rosto. — Eu não quero entrar nisso agora, mas ... todos nós
deveríamos ter lidado com tudo de forma diferente.
Começando há muito tempo.

Enquanto seu pai ficou em silêncio, Therese se


concentrou no rosto frágil de sua mahmen, os olhos fechados,
nas veias que apareciam sob a pele. Enquanto ela considerava
sua raiva justa, ela viu uma verdade que, com seu egoísmo, ela
tinha sido cega.

413
Ela pensou que tinha um tempo sem fim com eles. Apesar
do fato de que ela sabia sobre o problema cardíaco de sua
mahmen e a razão pela qual seus pais estavam se mudando
para um lugar mais quente, ela nunca tinha considerado a
possibilidade de que ela não seria capaz de falar com sua
mahmen novamente. Nunca, nem uma vez. E como resultado
haveria oportunidade infinita de consertar as coisas, então ela
estava totalmente inclinada a deixar a situação apodrecer.

O que foi ridículo.

No entanto, não houve pressão para consertar o buraco.


Nenhuma super explicação para limpar a dor e traição para
revelar o amor por baixo. Ela havia assumido que poderia viver
para sempre no estado de separação que ela havia criado,
justificada em sua dor e raiva—e ao fazê-lo, ela tinha
desperdiçado um presente que ela não tinha percebido que tinha
sido dado.

E agora, enquanto ela se sentava ao lado de sua mahmen


moribunda, a raiva que sentia em relação aos pais e seu irmão foi
transmutada ... e colocada sobre si mesma.

— Sinto muito, —disse ela enquanto olhava para o rosto oco

414
de sua mahmen.

— Você está aqui agora, —repetiu o pai pela terceira vez. —


Isso é tudo o que importa.

Ok, isso era tão falso.

Ela tinha aprendido a lição, no entanto. Ainda havia tempo


para fazer as pazes.

Seria uma tentativa imperfeita, no entanto, por que quem


sabia se sua mahmen poderia ouvir?

E depois havia o Gareth. Ela não tinha certeza com o quanto


tinha que trabalhar quando se tratava dele.

Não, isso era uma mentira.

Dado onde ele estava, ela tinha menos do que nada para
chegar ao seu irmão.

Sentado na sala de espera, Trez discou para o celular de Xhex

415
e colocou seu telefone na orelha. Um toque. Dois toques. Três ...

No final do corredor, um grande homem saiu de uma das


salas de pacientes com uma expressão no rosto como se
alguém tivesse acabado de arremessar um martelo sobre o
capô de seu carro. Ele era um cara de moletom e jeans, e
quando ele pegou um pacote de Marlboro do bolso de trás da
Levi' s, de alguma forma não foi uma surpresa.

Ele parecia que iria fumar um cigarro. Ou várias centenas.

— Quarto toque. Quinto ...

O macho parou na frente da enfermeira.

— Eu preciso fumar um cigarro. Tem que haver algum


lugar aqui que eu possa acender.

A fêmea atrás do balcão abriu a boca como se fosse fora


de questão, contra o regulamento. Exceto então que ela
pareceu ter pena dele. — Basta sair no corredor e descer para
a direita, —disse ela. — Ninguém deverá incomodar você.
Mas pegue isso.

Ela entregou-lhe uma garrafa de refrigerante com uma


tampa aberta. — Não suje o piso. E se alguém lhe perguntar,

416
não diga a eles que eu disse que poderia.

— Graças a Deus, —disse o macho com alívio. Então ele


se inclinou. — Há quanto tempo você tenta parar?

— Três anos, sete meses, quatro noites ... —ela checou o


relógio e se apegou secamente, — … e 23 minutos. E sim, eu
usei os colantes e tentei os chicletes, e nada supera a coisa real.

— Deus te abençoe.

Quando o macho saiu, a mensagem de voz de Xhex


entrou em ação. O que quer dizer que uma voz automatizada
anunciou seu número e instruiu quem estava ligando a deixar
uma mensagem.

Trez deligou a conexão e olhou para o telefone. Sem uma


boa razão, ele pensou sobre o quanto odiava pessoas que não
personalizavam sua mensagem de resposta. Isso o fez sentir
como se estivesse jogando o que quisesse deixar lá em uma
lata de lixo, para nunca mais ser recuperado ou respondido.
Pelo menos a chefe de segurança dele tinha uma razão para
manter a identidade dela bloqueada. Mas mesmo assim.

Embora mesmo se ela tivesse gravado algum tipo de “Ei,

417
aqui é Xhex, deixe uma mensagem”, ele não sabia o que ele
teria dito.

E, na verdade, Xhex teria mais provavelmente cuspido


algo como, "aqui é Xhex, eu não vou te dizer para deixar uma
maldita mensagem. O que diabos você acha que é isso, idiota?
Cristo, se eu tiver que te dizer o que fazer aqui, você tem mais
problemas do que eu não responder sua chamada estúpida”.

Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeep.

Enquanto ele debatia se tentaria novamente—e encontrou


progresso no fato de que pelo menos ele não estava tentando
ligar para sua amiga symphath apenas para ser tranquilizado
sobre uma ilusão que ele havia criado—ele também estava
tentado a ligar para o iAm. Mesmo assim, o que ele ia dizer a
Xhex, ele não tinha nada resolvido em sua cabeça. A vontade
de bater neles era mais um reflexo nascido dele sentindo-se tão
à deriva. Mas era isso que as pessoas faziam, certo? Quando
as coisas saíam dos trilhos, eles chamavam seus mais próximo
e o mais querido.

Talvez Rehv estivesse certo. Talvez ele precisasse tomar


os medicamentos e sair para tirar umas férias—e não em um

418
sentido de enforcamento no armário.

Ou de maneira que o levasse a se afogar no Hudson.

Quando ele se moveu para o lado e guardou seu telefone,


ele olhou para sua camisa de seda e lembrou de sua fêmea—
aquela fêmea ... Therese, ele se fez dizer em sua cabeça ...
apontando que ele não estava usando uma jaqueta. Isso o fez
perceber que ele tinha uma obra-prima para harmonizar com
as calças que colocou. Ele tinha tido tanta pressa para sair de
casa, ver aquela fêmea, que ele só se preocupou em agarrá-la
e puxá-la sobre si mesmo.

Qual era o tipo de música tema dele ultimamente, não era.


Movendo-se tão rápido, ele perdeu as peças necessárias.

Olhando para as portas duplas da unidade, ele disse a si


mesmo para ficar parado. Por um lado, a fêmea estaria
voltando em algum momento, e ela gostaria de saber onde ele
estava. Por outro ...

O que importava. O que acontecia? — Therese, —disse ele


suavemente, experimentando as sílabas.

O som do nome em seus ouvidos carregava consigo uma

419
grande quantidade de ansiedade e, com uma maldição, ele se
levantou e saiu da unidade, incapaz de ficar parado. No
corredor adiante, ele colocou as mãos nos quadris e respirou
fundo algumas vezes ...

— Você tem alguém lá, também?

Enquanto uma voz masculina falava, ele olhou para a


direita. Era o cara que passou pela estação de enfermagem,
aquele que tinha recebido permissão para fumar no DL.
Aquele que tinha a mesma coloração que Therese. Que
parecia ter saído do mesmo quarto de paciente em que ela
tinha entrado.

Trez acenou com a cabeça.

— De certa forma, sim.

— Você quer um? —O macho perguntou quando ele


estendeu um pacote de Marlboro.

— Eu não fumo, —ele passou por cima. — Mas por que


não?

— Você não fuma, ou você não quer fumar.

Trez aceitou o pacote macio e puxou um dos que fora

420
deixado de fora.

— Será que isso importa?

— Não, nem um pouco.

Pegando o isqueiro Bic vermelho que foi jogado para ele,


Trez acendeu a ponta do cigarro e exalou enquanto devolvia
o isqueiro ao seu proprietário.

— Eu estou tentando parar, —disse o macho.

— Não está indo bem, hein? —Trez virou o cigarro e


olhou para o brilho. — Eu trabalho em um clube, então eu
estou acostumado a fumaça.

— Eu pensei que Caldwell tivesse uma lei contra fumar


dentro de locais públicos. Não é para todos os lugares?

— Máquina de fumaça. Mas isso não importa. Meus


pulmões estão acostumados a todo tipo de merda de segunda
mão, —ele fixou o cara bem no olho. — Gareth, certo?

O macho franziu a testa.

— Eu conheço você?

— Estou aqui com sua ... ah ...

421
— Irmã? —O macho endireitou-se de sua inclinação na
parede.

— Therese? —Trez acenou com a cabeça e segurou o


Marlboro. — Você quer isso de volta agora?

Houve um momento de tensão enquanto aqueles olhos


amarelos subiam e desciam seu corpo. E antes que as coisas
pudessem ficar agressivas, Trez balançou a cabeça.

— Eu não tenho intenção de discutir, ok? Eu a trouxe até


aqui para que ela estivesse segura. Ela estava tão agitada. Ela
não conseguia se desmaterializar. Eu não queria que ela
pegasse um Uber para qualquer lugar sozinha, e não há opções
de transporte público deste lado do rio.

Gareth inspirou profundamente, como se ele estivesse


tentando sugar parte do mundo através de um cigarro. Mas
então ele aliviou de volta contra a parede. Trazendo a garrafa
de coca-cola que a enfermeira lhe dera, ele tirou a tampa,
batendo as cinzas na boca da garrafa—e, em seguida, ofereceu
o “cinzeiro” para ele.

Trez bateu seu próprio cigarro na boca da garrafa.

422
— Ela só viu as mensagens esta noite. Ela veio assim que
ela ouviu.

— Eu as deixei semanas atrás.

— Ela teve o telefone roubado.

— Oh.

Quando seu irmão perdeu um pouco de sua agitação, Trez


pensou que a mentira sobre o crime telefônico estava do lado
"mentira justificada" das coisas. E valia a pena.

— Quando Therese saiu partiu o coração da nossa


mahmen, —disse o macho. — Só para você saber.

— Acho que ela está ciente disso.

— E ela ainda ficou longe? Movimento elegante.

Trez franziu a testa. — Eu acho que é melhor você falar


com ela sobre isso.

— Eu pretendo …

O rosnado que surgiu e saiu da garganta de Trez foi uma


surpresa para ambos. Enquanto Gareth recuava de choque,
Trez voltou a fumar o que lhe foi dado. Merda. Ele não

423
precisava ficar todo protetor aqui. Isso não ia ajudar.

Não havia como negar o impulso, no entanto. E ele ficou


surpreso ao descobrir ... que não teve nada a ver com Selena,
também.

— Você é mais do que um amigo dela, —disse Gareth.

Depois de um momento, Trez deu de ombros.

— É complicado.

Filho da puta, ele pensou. A vida dele era um maldito status


no Facebook

424
Capítulo 24

Uma hora depois, ou talvez fosse mais do que isso, Therese


olhou novamente para o banco de monitores ao redor da
cabeceira da cama do hospital. Ela não tinha ideia do que
qualquer um dos números ou o bip significava. Ela supunha
que a falta de alarmes era um bom sinal—certamente se as
coisas estivessem tomando um rumo repentino para pior,
haveria uma espécie de cacofonia. Certo?

É assim que ela os teria projetado para funcionar.

— Quando o médico entra? —Perguntou ela.

O pai dela sentou-se mais reto em sua cadeira


desconfortável. — Todo meio-dia. Seu nome é Havers.

Therese indicou em torno da sala de alta tecnologia em


que eles estavam.

425
— Grande mudança de casa.

— Claro que é. Ela não poderia estar em melhores mãos.

Onde eles tinham vivido, o único curandeiro em um raio


de 50 milhas era um vampiro local que vinha quando era
necessário e fazia o que podia com remédios e coisas que eram
tradicionais no Velho País. Bricholt, era o nome dele. Filho de
Bricholt, o ancião.

— Como você sabia que podia trazê-la aqui? —Perguntou


ela.

— Seu irmão pesquisou online.

— Nos grupos de vampiros?

— Sim.

Eu poderia ter feito isso, ela pensou consigo mesma. Eu


deveria ter feito isso.

Olhando para sua mahmen, ela exalou.

— Você disse que ela está esperando por alguma coisa.

— Sim.

426
— Acho que sei o que é.

Voltando-se para as portas de vidro fechadas, ela não


tinha certeza se queria ir procurar o irmão e fazer as pazes. Se
a discórdia mantivesse sua mahmen no planeta, talvez ela
pudesse ter mais tempo com a fêmea.

Mas isso não era justo.

— Você vai me desculpar? —Disse ela. — Eu tenho que


ir fazer alguns arranjos com o trabalho.

— Oh, você tem um emprego?

— É só uma coisa de garçonete. Não é grande coisa.

— Trabalho é trabalho, —o pai dela sorriu ocamente. —


O propósito é ... bem. Ainda estou orgulhoso de você. Eu
sempre tive orgulho de você.

— Por quê? —Ela respirou — Tudo o que eu já fiz foi ...

— Ser minha filha. E você fez isso perfeitamente.

— Não, —ela engasgou. — Olha o que eu …

— Pare com isso.

427
Quando a jovem nela instantaneamente fechou a boca,
seu pai olhou para a cama.

— Tudo o que sempre quisemos foi que você fosse feliz.


É isso aí. Isso é tudo o que você ou seu irmão tem que fazer
para ela e para mim.

— Há muito mais, pai. Especialmente porque vocês dois


envelhecem.

— Nós podemos cuidar de nós mesmos.

O fato de ele não reconhecer que metade desse "nós" não


estaria presente por muito mais tempo partiu seu coração.

Therese levantou-se. Inclinando-se para o ouvido de sua


mahmen, ela disse:

— Eu estou indo para ir falar com Gareth. Vou fazer as


coisas direito com ele. Você não precisa se preocupar, ok? Eu
vou consertar isso.

No seu caminho para a porta, ela deu a volta e apertou o


ombro de seu pai. Ele bateu a mão em resposta.

Saindo do quarto, ela atravessou o corredor. Que Trez


não estava na área de espera não era uma preocupação. Com

428
seu sangue nela, ela podia sentir que ele estava perto no
corredor. E dado o aroma muito distante de fumaça, ela sabia
que ele estava com seu irmão.

O fato de que ela não estava nervosa com a idéia dos dois
machos conversando era um bom indicador de quanto ela
confiava em Trez.

Mas ela já sabia disso.

Acenando para a enfermeira na estação, Therese abriu um


lado das portas e olhou para a direita. Seu irmão e seu amante
estavam sentados no chão ao lado um do outro, fumando e
conversando em voz baixa.

Assim que ela saiu, ambos olharam.

— Oi, —ela disse.

Gareth desviu o olhar rápido. Mas pelo menos ele não se


levantou e saiu de novo. Ou começou a gritar.

Os olhos escuros de Trez eram graves.

— Como estão as coisas lá dentro.

— Eu acho que o mesmo que eles têm tido, certo, Gareth?

429
—Ela tomou o grunhido como um bom sinal. OKAY... talvez
fosse mais um sinal não tão ruim. Não tão ruim como poderia
ser.

— Será que eu poderia me juntar a vocês dois?

Trez pegou o telefone e checou a hora. — Ouça, eu ia


rapidamente verificar as coisas no trabalho ...

— Ah, é claro, —ela se abaixou ao lado dele. — Eu não


quero prendê-lo aqui. Mas se você falar com o iAm, por favor,
diga a ele que eu não vou por algumas noites? Não vou
embora até ...

Quando ela deixou a sentença à deriva, seu irmão olhou


para ela. E continuou olhando.

— Com certeza, —Trez pegou a mão dela. — O que posso


trazer para você?

— Comida, talvez?

— Claro. Que tipo?

— Gareth? —Ela olhou para o outro lado. — Alguma


coisa em particular?

430
Seu irmão deu uma tragada no seu cigarro e depois
exalou, enquanto balançava a cabeça.

— Vou comer qualquer coisa. O pai também.

— Entendido.

Quando Trez hesitou, ela respondeu inclinando-se


apropriadamente, fazendo um movimento para beijá-lo.

— Vejo você em pouco tempo, —disse ela enquanto seus


lábios se encontravam brevemente.

— Sim, com certeza, —ele largou a bituca de cigarro na


garrafa de refrigerante, e depois se levantou.

— Até mais tarde, Gareth.

— Até.

Therese viu seu macho ir—e estava ciente de que a


vibração mudou imediatamente. Mas pelo menos o irmão
dela não parecia muito hostil.

— Há quanto tempo vocês estão saindo? —Gareth


perguntou quando ele deixou cair a própria bituca naquela
garrafa. Antes mesmo de apagar, ele estava acendendo outro.

431
— Eles deixaram você fumar aqui?

— Não comece.

— Eu não estou. Juro, —ela suspirou. — Então, como


você está? E não muito tempo. Para responder sua pergunta
sobre a coisa do namoro.

— Então ele é o motivo pelo qual você escolheu Caldwell.

— Não, eu o conheci aqui. Seu irmão é o chef no


restaurante onde eu trabalho.

— Parece um cara legal.

— Ele é.

Antes da pausa se tornar um silêncio que crescesse muito


se tornasse constrangedor, ela respirou fundo e jogou com
tudo.

— Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito.

Os olhos amarelos de seu irmão contraíram-se, e ela


preparou-se para um argumento. Em vez disso, ele apenas
balançou a cabeça. Por um longo tempo.

Sentado ao lado dele, ela deu-lhe o espaço e o tempo que

432
precisava para resolver suas emoções. E ela apreciava que ele
não tinha feito um discurso retórico-bronca que não iria
conseguir nada além de esgotar os dois.

— Eu realmente ... —ele começou e não terminou.


Começou de novo. — Eu simplesmente não pude acreditar
que você iria nos abandonar. Você não os deixou somente ...
você me deixou, e tanto faz, eu sei que você é minha irmã, mas
você era uma amiga, também. Minha colega de quarto. Você
sabe. Tanto faz. Isso não importa.

— Você só está dizendo isso porque importa.

— Sim. Talvez, —ele deu outra tragada. — Eu preciso


parar de fumar. Graças a Deus vampiros não têm cancêr—e
não, eu absolutamente não faço isso em lugar nenhum perto
da mamãe.

— Eu nunca sequer considerei por um momento que você


fizesse.

— Estou feliz que você resolveu vir agora, mesmo que eu


quisesse gritar com você quando você entrou.

— Eu tive essa impressão.

433
— É por isso que eu deixei o quarto lá atrás. Eu não queria
piorar as coisas. Tem sido muito difícil.

— Obrigada por ligar. Eu honestamente não recebi as


mensagens.

— Eu sei. Ele disse isso.

Quando as lágrimas chegaram aos olhos de Therese, ela


olhou para a esquerda e para a direita, para cima e para
baixo—como se estivesse fazendo um exame ocular—para
que nenhuma caísse.

— Eu senti sua falta. Eu senti falta deles.

— Estavamos vazios desde que você saiu, também, —ele


bateu a ponta do cigarro no pescoço aberto da garrafa. —
Algumas pessoas são o coração de uma família.

— Essa é a mamãe.

— Não. —Gareth olhou para ela. — Essa é você. Sempre


foi você. Você nos mantém, nos mantinha organizados. Você
é ...

Limpando a garganta bruscamente, ele baixou os olhos e


depois esfregou-os com força, um por um, com os dedos de

434
sua mão livre.

— Olha, eu não posso falar sobre isso. Está me matando,


e eu tenho que ficar firme, por eles ...

— Oh, Gareth, —ela sussurrou e chegou mais perto dele.

Mas quando ela foi para lhe dar um abraço, ele colocou a
mão para cima e inclinou-se fora do abraço.

— Não. Nada disso. Eu tenho que colocar minha cabeça


no lugar.

— Eu vou te abraçar mais tarde.

— Tudo bem. Só não agora.

Therese tomou sua primeira respiração completa desde o


momento em que ela saiu da casa de seus pais.

Gareth, por outro lado, parecia ainda estar lutando com


suas emoções.

Tentando mudar de assunto, ela murmurou:

— Então você tem levantado muito peso, hein?

— Eu tenho.

435
— Como está aquela moça que você estava namorando?

Ele balançou a cabeça e manteve os olhos no cigarro.

— Ela se mudou logo depois que você saiu, todas as coisas


prontas para se acasalar comigo. Tipo, você está brincando
comigo? Minha família está implodindo e você quer falar
sobre o tema de cor de alguma recepção de tradição humana?
Foi um desastre.

— Sinto muito em ouvir isso ...

— Aqui está o que realmente me incomodou, —disse ele,


olhando para cima e olhando diretamente em seus olhos. —
Isso é o que me pegou sobre a mamãe, —ele apontou seu
isqueiro sobre o Marlboro para ela. — Você nunca deu a ela
uma chance de explicar. Você nunca recebeu a história dela.
Você estava tão ocupada gritando e ficando com raiva que ela
não teve a oportunidade de contar o seu lado da história. Além
disso, você agiu como se ela lhe devesse um pedido de
desculpas por recebê-la e lhe dar um lar e cuidar de você todos
esses anos. Foi isso que me incomodou.

— Eu fui pega de surpresa. Eu não esperava isso. Eu


pensei ... que eles eram meus pais, Gareth. Você nunca tentou

436
entender de onde eu estava vindo.

— Você não sabia que eles não eram seus pais porque eles
eram.

Therese colocou a mão em seu agora grosso antebraço.

— Você não está na minha pele, você precisa confiar em


mim sobre como isso tudo me fez sentir. Não estou dizendo
que eu lidei com as coisas bem, mas eu sei o que senti, tudo
bem.

Ele amaldiçoou. Ficou em silêncio por um tempo.

— Você está certa. Peço desculpas. E eu não me


comportei melhor também. Eu só estava preocupado com a
mahmen e preocupado com você também. Sou seu irmão mais
velho. Eu deveria cuidar de você.

— Eu preciso cuidar de mim mesma.

— Ninguém deve ficar sozinho neste mundo, Leite Azedo.

Therese começou a sorrir, lembrando como eles sempre


deram um ao outro apelidos aleatórios.

437
— Isso significa que eu posso chamá-lo de Ricola de
novo?

— Eu tenho um ainda melhor para você, —ele apontou


para o pé. — Eu deixei cair um peso sobre essa coisa uma
semana atrás. Pouco antes de sairmos para vir aqui. Dificil de
curar, então agora eu estou usando um tensor.

— Meu Deus. Estou chamando você de Dr. Scholl a


partir de agora.

O sorriso lento no rosto do irmão era tão bom de ver.

— Bom negócio. Bom negócio.

Therese inclinou-se para a frente e olhou para as portas


duplas da UTI.

— Então papai diz que ela foi entubada nas últimas duas
noites.

— Praticamente, logo depois que chegamos aqui. Nós a


admitimos em pouco tempo.

Ricola Ltd./Ricola AG é um fabricante suíço de pastilhas para tosse e balas de respiração. A sede da Ricola está localizada
em Laufen, País Basileia.
Dr. Scholl's é uma marca de calçados ortopédicos de propriedade da Bayer

438
— Você acha que ela gostaria de falar comigo? —Therese
perguntou em voz alta. — Talvez isso lhe desse uma razão
para voltar.

Gareth deu de ombros.

— Qualquer coisa. Neste momento, eu vou aceitar


qualquer coisa que eu puder. A ideia da morte separando
aqueles dois? Não suporto pensar nisso. Se ela morrer, vamos
perder o pai também.

439
Capítulo 25

O bom de ser uma noite de segunda-feira, iAm pensou, era


que sua cabeça fodida não precisava funcionar: não era
necessário coordenar suas mãos e braços, sua memória ou suas
habilidades de leitura, para que ele pudesse cozinhar comida
sobre um fogão quente. Ele poderia sentar aqui em seu
escritório e olhar para a papelada.

Claro que a coisa ruim era ... tudo o que ele estava fazendo
estava apenas sentado aqui e olhando para a papelada. —
Foda-se ... —ele disse quando ele empurrou-se para a frente e
colocando a cabeça nas palmas das mãos.

Quando houve um sinal sonoro sutil do sistema de


segurança, ele olhou para cima. A porta da equipe traseira
estava se abrindo, e ele enfiou a mão embaixo da borda da

440
mesa e colocou a palma da mão na 9mm que estava fixada lá
fora da vista ...

Ele sabia imediatamente quem era.

Então, novamente, ele reconheceria o cheiro de seu irmão


de sangue em qualquer lugar. O esboço de Trez também. iAm
retirou a mão da arma e se endireitou na cadeira. — Trez?

Estúpido. Dizer seu nome. Mas ele ficou aliviado. Toda


vez que ele via o macho, era um alívio, mais uma noite vivo.
Mais um dia, sobreviveu.

— Posso entrar? —Disse o cara enquanto a porta se


fechava atrás dele.

— Você é sempre bem-vindo em qualquer lugar que eu


estou.

— Você tem certeza sobre isso?

— Até a medula, meu irmão.

Trez avançou, e não havia raiva em seu rosto, mas


nenhuma expressão para essas características familiares,
também. Havia também uma quietude nele que era
assustador.

441
— O que aconteceu? —Perguntou iAm.

O outro macho fez uma pausa na porta por um momento.


Então ele entrou e sentou-se na cadeira do outro lado da mesa,
enrolando-se e equilibrando o queixo em seus dedos. iAm
reconheceu a pose. Então ele mesmo sentou-se.

— Diga-me quando estiver pronto, —disse iAm


calmamente.

Passou muito tempo antes de seu irmão falar, e quando as


palavras finalmente vieram, Trez correu as pontas dos dedos
para cima e para trás na beira da mesa como se estivesse
ansioso.

— O que não pode continuar não vai, —enquanto o


intestino do iAm apertava, Trez encolheu os ombros. — É
uma teoria da economia que se traduz em tantas outras coisas

— Eu sei o que é isso. Como você está aplicando a teoria


é o que me interessa.

— Não para mim, —aqueles olhos negros viraram por um


momento. — Estou bem.

442
iAm não queria discutir. Merda sabia que eles tinham
muito disso ultimamente. Mas ele não tinha certeza se essa
avaliação era verdadeira—ou se o macho era capaz de fazer
essa ligação.

Era melhor do que muitas outras opções, no entanto. —


Você quer falar sobre isso com Mary? —iAm deixou escapar.

Trez sorriu um pouco. — Tantas pessoas me perguntam


isso ultimamente. Rehv, você.

— É porque estamos preocupados com você.

— Honestamente, não estou suicida, —assim como iAm


estava tentando esconder sua surpresa, Trez olhou para cima
e encolheu os ombros. — Eu simplesmente não estou. Não
estou dizendo que não estava ou que não serei de novo. Eu só
não estou agora. E depois da merda que passei, esse é o único
tipo de garantia que posso te dar—ou a mim mesmo, nesse
caso.

— Eu não posso suportar perder você, —iAm teve que


limpar sua garganta. — Não agora. Nem nunca.

Trez esfregou o rosto como se seus olhos o

443
incomodassem. — Sinto muito por todas as merdas que
caíram sobre Therese. Sabe, ontem à noite. E antes.

— Eu também. E eu deveria ter ...

— Você estava certo. Eu estava errado.

iAm balançou a cabeça. Mexeu com a papelada na frente


dele. Lamentou cada pedacinho do argumento—mas não
tanto quanto ele lamentou a verdade.

— Eu não quero estar certo. Não sobre nada disso.

— Foi só porque eu queria acreditar. Você sabe, que ela


estava de volta, —Trez apontou para o centro de seu peito. —
A dor aqui—quero dizer, não é tão ruim quanto era no início.
Mas o problema é que não recebo nenhum alívio dessa pressão
tóxica. Está sempre aqui. Sempre comigo. Como era o amor
por ela, a tristeza pela morte dela também. Bem aqui. Cada
segundo da noite e através de cada hora do meu sono cada
segundo durante o dia. E eu acho ... isso meio que deixa um
macho louco, sabe? —Tocando a cabeça, ele continuou, —
aqui em cima ... não está funcionando tão bem e eu não gostei
exatamente o quão mal está até agora. Mas eu acho que eu
tinha adivinhado, porém, por isso eu surtei quando você me

444
chamou das minhas ilusões.

iAm se viu, pela milionésima vez, medindo a extensão do


sofrimento de seu irmão. Sempre pareceu intransponível.
Insuportável. E agora que iAm tinha maichen? Era
incalculável. Ele não podia imaginar perder sua companheira.

— Acho que estava desesperado, —disse Trez. — Eu


desesperadamente não quero mais me sentir assim e a única
maneira que isso acontece é se Selena voltasse. E então eu me
convenci ... bem, nós já passamos por isso.

— Eu odeio isso por você, —iAm esfregou seus olhos


ardentes. — Eu realmente faço. Eu sempre fiz.

— Sim, bem. É o que é.

— O que posso fazer para ajudar?

Trez ficou em silêncio por um tempo. E então ele


balançou a cabeça. — O único que pode andar sobre essa
cama de pregos sou eu. Mas se você só estar aqui? Isso ajuda.
E isso realmente importa.

Antes que iAm pudesse responder, Trez bateu palmas em


suas coxas, um sinal claro de que a conversa tinha acabado. E

445
isso fez sentido, iAm supôs. As palavras só funcionavam até
certo ponto. O resto da distância teria que ser carregada pela
relação que sempre existia entre eles. E sempre existiria.

— Então … —disse Trez bruscamente — … o que há de


novo com você? Percebi que não pergunto isso há muito
tempo.

iAm piscou algumas vezes. Então ele abaixou os olhos.

— Oh, você sabe. O mesmo …

— Como está maichen?

Grávida. O que é fodidamente maravilhoso e aterrorizante.

— Ela é, ah, ela está bem.

— Sério?

— Oh, sim. —Pelo menos os sacerdotes disseram. Embora o que


eles sabem? — Muito bem.

Houve outra pausa.

— Então por que você está sangrando agora?

iAm franziu a testa e olhou para sua mão. Com certeza,

446
ele tinha agarrado um lápis em seu punho tão forte que ele
tinha quebrado ao meio e as partes esfarrapadas estavam
cavando em sua palma. Gotas vermelhas estavam caindo
sobre a papelada, manchando as contas. Os pagamentos. Os
horários.

— Diga-me o que está acontecendo, —disse o irmão dele


severamente.

Enquanto Trez observava seu parente mais próximo sangrar


na mesa, ele teve a real noção do que ele seu sofrimento tinha
custado ao macho desde a morte de Selena. E perto dessa
revelação, ele tinha mais uma ideia sobre como ele sempre
tomou, tomou, tomou—e embora o narcisismo sempre tenha
sido um produto da circunstância, um prêmio de porta para a
sorte de merda que ele sempre teve, como se isso importasse
quando iAm precisava de algo?

Só porque o desequilíbrio era compreensível e

447
indiscutivelmente perdoável, não significava que era uma festa
de merda.

E agora, do outro lado da mesa desordenada, o outro


macho estava olhando, preso, uma gaiola invisível trancando-
o, com os olhos baixando e provavelmente para ficar assim. E
P.S., ele ainda estava sangrando na palma da mão, e não
fazendo nada sobre isso.

— Ela está grávida, —disse Trez. — Não está.

Os olhos de iAm se arregalaram. E o silêncio foi a


resposta.

— Oh, meu Deus, —disse Trez com um sorriso crescente.


— Sério? Você vai ter um filho? Isso é incrível.

O choque do iAm com os parabéns foi aparente. E algo


que Trez adicionou à sua lista de arrependimentos. — Ei,
estou honestamente feliz por você, —ele se inclinou pela mesa
e tirou o lápis quebrado da mão do irmão. — Estou muito feliz
por vocês dois.

— Eu não queria te dizer.

Trez abriu a boca para perguntar por que, mas seriam

448
duas retóricas em alguns minutos, não seriam?

— Bem, estou feliz que você o fez, —Trez estendeu a mão


no bolso de trás e tirou seu lenço de seda. Pressionando-o para
o ferimento, ele se viu engasgando. — Isso me dá algo para
viver.

iAm respirou fundo. — Eu quero que você seja a bênção


para ela.

— É uma filha? —Trez piscou. E então encontrou-se


sorrindo novamente. — Uma filha ... e sim, eu serei a bênção
dela. Estou honrado.

— Eu não perdiria a mais ninguém além de você para


fazê-lo.

Eles ficaram ali por um tempo, enquanto a ferida selava,


e Trez ficou surpreso. Durante os momentos em que ele
segurou a mão de seu irmão na dele, cuidou da ferida e sorriu
diante da boa sorte que havia acontecido com maichen e iAm,
ele sentiu algo no centro do peito que aliviou a dor.

Isso é real, ele pensou para si mesmo. E neste momento ...

Pelo que entendi e como se fosse o padrinho.

449
este presente ... foi o primeiro pedaço de sua vida desde a
morte de sua shellan que não doeu.

Uma próxima geração, nascida do amor, nascido em


amor.

— Eu mal posso esperar para conhecer minha sobrinha,


— disse ele rapidamente.

O sorriso do iAm era curto e escondido, como era o seu


jeito. Ele sempre foi o quieto, o discreto e quem ficou à
margem. Mas como se ele tivesse tido uma escolha? Trez
sempre foi a banda marcial indo para um penhasco.

Muito barulho para qualquer outra pessoa assumir


espaço.

— E ela vai amar o seu tio, —disse iAm com uma voz
rouca.

— Eu vou ter certeza disso.

— Você não terá que se esforçar muito com isso.

Trez espiou o lenço. — Só um pouco mais, para que possa


fechar a ferida.

450
— Eu nem percebi que tinha quebrado o lápis, —então,
como se ele quisesse evitar algo mais emocional, ele
perguntou, — então ... o que te trouxe aqui? Apenas uma
conversa?

— Bem, isso e eu preciso de um pouco de comida. Para,


ah, Therese. E o pai e o irmão dela. A mahmen dela está no
Havers's na UTI. Eles precisam de sustento.

Enquanto iAm olhava bruscamente, Trez balançou a


cabeça e espiou o lenço.

— E antes que você pergunte, —ele disse, — sim, eu vou


falar com ela. Vou explicar ... tudo.

— Você poderia se apaixonar de novo, você sabe.

— Eu pensei que você não quisesse que eu estivesse com


ela.

iAm levantou seu dedo indicador. — Eu não quero que


você esteja com ela se você acha que ela é outra pessoa.

— Ela é, no entanto. Outra pessoa, isso é.

— Bem, quando estiver pronto, se estiver, talvez você


possa tentar. Se não estiver com ela, então com outra pessoa.

451
— Eu não posso pensar nisso agora.

— Eu sei e não te culpo, —iAm se levantou e flexionou a


mão. — Enquanto isso, eu vou cozinhar para ela e sua família.
E eu vou fazer para ela a melhor refeição que ela já teve.

Menos de dez minutos depois, iAm estava no fogão, sua


mão machucada enluvada, as especiarias fluindo, os molhos
fervendo. Ele estava cozinhando como o especialista que ele
era, nada desleixado ou distraído agora, e os cheiros eram o
céu. O que era ainda melhor? Enquanto Trez se sentava em
um banquinho e observava, parte da tensão o deixou.

Embora ele soubesse que voltaria assim que fosse hora de


voltar para o hospital e ver Therese novamente ...

Ei, olha só. Ele podia pensar no nome dela sem hesitar
agora.

Legal. Bom trabalho, bola na rede.

Merda, ele realmente precisava falar com ela. Mas como


se fosse apropriado com a condição da mahmen dela?

— Oh, ouça, —ele disse, — Therese vai ficar com sua


mahmen. No Havers, isso é. Até a situação ... se resolver.

452
iAm começou a cortar um pacote de folhas de manjericão
fresco. — Diga a ela para levar o tempo que ela precisar para
esse assunto triste.

— Eu vou. Mantenha a posição aberta para ela, se puder.


Ela precisa deste trabalho.

— Ela tem. Enquanto ela quiser.

Trez pensou em todas as coisas que mudaria se pudesse.


Havia tantas ... mas nenhuma delas envolvia aquela fêmea se
transformando em sua Selena. Ele viveu essa fantasia por dez
minutos, e tudo o que ele fez foi provar o ponto do irmão.

Alguém que merecia mais se machucaria. E foi tudo culpa


do Trez.

— Ela está economizando para sair da pensão onde está


hospedada. —Ele mesmo se ouviu dizer. — Ela quer fazer as
coisas sozinha.

Talvez isso seja diferente agora. Com ela se reconciliando


com sua família, talvez ela voltasse para Michigan com eles.
Certamente eles voltariam para sua cidade natal lá—não,
espere. Ela disse que os pais estavam se mudando por causa

453
da saúde de sua mahmen. No sul de algum lugar? Na Carolina
do Norte ? Na Carolina do Sul ?

Quando ele a imaginou deixando Caldwell, e ele nunca


mais a visse, seu coração doeu, mas ele não confiava na
emoção.

Ele não confiava em seu instinto para ler mais nada.

A Carolina do Norte é um estado do sudeste dos EUA com uma paisagem variada que
inclui praias do Oceano Atlântico e a cordilheira dos Apalaches. Charlotte, a maior cidade do estado, é a casa do Carolina
Panthers da NFL e abriga museus como o NASCAR Hall of Fame. O lema do estado ("First in Flight", os primeiros a voar)
homenageia os irmãos Wright, que voaram com seu primeiro avião em Kitty Hawk, nas Outer Banks, ilhas barreiras repletas
de praias bastante procuradas.

A Carolina do Sul é um estado no sudeste dos EUA conhecido pelo litoral de praias
subtropicais e pelas pantanosas Sea Islands. Charleston é uma cidade histórica da costa que é definida por casas de tons
pastel, plantações do Velho Sul e pelo Forte Sumter, onde foram disparados os primeiros tiros da Guerra de Secessão. Ao
norte, fica Grand Strand, uma faixa de praias de cerca de 60 milhas conhecida por campos de golfe e pela cidade turística de
Myrtle Beach.

454
Capítulo 26

— Mahmen, —disse Therese. — Estamos bem aqui. Estamos


bem aqui.

Havia agora três cadeiras ao redor da cabeceira. Os


funcionários tinham sido tão gentis, tão fáceis de lidar,
acomodando-os onde e quando eles pudessem dada a
natureza terrível do que eles estavam tratando. Mas,
novamente, eles não entravam nesta divisão particular da
medicina a menos que fossem uma raça especial. Aqui, na
UTI, havia mais morte do que vida, a batalha contra o Grim
Reaper foi perdida mais vezes do que vencida.

Então você tinha que ser duro sem perder sua compaixão.

O conceito de morte como uma entidade tem existido em muitas sociedades, desde o início da história.

455
Therese gentilmente acariciou a mão fria e seca de sua
mahmen e tentou não engasgar.

— Sinto muito por ter saído assim, —ela olhou para o pai.
Olhou para a direita para o irmão dela. — Sinto muito, mas
estou aqui com você agora, e Gareth e eu conversamos e papai
está aqui ... nossa família está de volta junta, Mahmen.

— Isso mesmo, nalla, —disse o pai dela.

— Eu quero entender, Mahmen, —continuou ela. — Você


tem uma história para contar, eu sei disso. E eu quero saber o
que é, de você, e eu quero que você saiba que o que quer que
seja, eu aceito. Você tinha suas razões para fazer o que fez,
mas você tem que voltar para nós para que eu possa conhece-
las de você. Você tem que ... voltar para nós para que você e
eu possamos ser como éramos.

Focando nos olhos fechados, ela não tinha ideia do que


esperar quando ficou em silêncio.

Não, isso não era exatamente verdade. Ela sabia o que


queria. Ela queria que a fêmea acordasse, começasse a respirar
sozinha e retomasse a vida. Retomasse a vida toda.
Continuasse no futuro que Therese já havia dado como certo,

456
mas não mais o faria.

Quando nada aconteceu, quando não houve resposta nem


qualquer reconhecimento, Therese respirou fundo.

— Sinto muito, Mahmen.

E ... foi assim que foi. Eles ficaram sentados assim, em


vigília, com as máquinas apitando e o pessoal indo e vindo
silenciosamente, pois Deus sabia apenas por quanto tempo.
De vez em quando, Therese repetia o que dissera de uma
forma ou de outra, ou o pai contava uma anedota—como na
época em que Gareth tentava pintar o exterior da casa como
presente de dia das mães—ou Gareth ficaria de pé e andaria
em frente à parede de vidro que dava para o resto da UTI.

Como continuou a não haver mudança, o tempo assumiu


uma qualidade surreal e elástica. Therese não conseguia
decidir se estava rastejando ... ou voando ... e isso foi porque
parecia fazer ambos ao mesmo tempo.

Então, sem aviso, o cheiro de algo absolutamente não


antisséptico no mínimo, espalhou-se pelo quarto. E um
segundo depois, Trez apareceu do outro lado do vidro, um
monte de sacolas de papel em suas mãos.

457
Therese sorriu, seu coração levantando em seu peito. E
enquanto seu pai e seu irmão olhavam para cima, ambos os
machos se levantaram e Trez se curvou por respeito.

— Isso é ... —seu pai começou.

— Sim, —disse Therese enquanto ela acariciava a mão


que segurava. — O jantar chegou, Mahmen. Queria que se
juntasse a nós. É um muito bom italiano, seu favorito.

— Eles não nos deixam comer aqui, —disse Gareth. —


Mas do lado de fora há outra área de estar. Ao lado.

— A sala de espera da família, —seu pai murmurou


enquanto avaliava Trez.

— Venha se juntar a nós, Mahmen, —Therese levantou-se


de sua cadeira e inclinou-se para a frente, suavizando o cabelo
grisalho do rosto pálido e desenhado que estava quebrando o
coração de todos. — Estaremos na sala ao lado, se você
precisar, e retornaremos em breve.

Os três saíram, e Therese levantou-se na ponta dos pés


para beijar Trez. Quando ela colocou os lábios contra os dele,
ele pareceu endurecer, mas, novamente, ele não tinha sido

458
devidamente introduzido.

— Este é meu pai, Rosengareth, o mais velho, —anunciou


ela recuando. — Pai, este é Trez.

— Um banquete e tanto que você tem aí, —disse o pai


dela enquanto ele acenava para as sacolas.

— Meu irmão fez isso especialmente para sua família. —


Trez transferiu as sacolas para uma mão e estendeu a palma
da mão da adaga. Mudando para o Idioma Antigo, ele disse:
Senhor, é um prazer estar em sua companhia.

O pai dela parecia perplexo com as maneiras. Mas então


ele parou e sacudiu o que foi oferecido.

— E eu, na sua.

— Eu contei a todos eles sobre você, —disse Therese. —


Mahmen também.

Trez pigarreou e parecia que ele queria afrouxar a gola já


desabotoada de sua camisa de seda. Simmmmmm, nada como
conhecer a família nestas circunstâncias.

— Para a sala de espera? —Disse ele, indicando uma porta

459
aberta.

— Bem, sim, —Therese pegou uma sacola dele. — Vamos


tentar comer antes que isso esfrie. E então eu vou levá-lo para
conhecer Mahmen.

A sala de espera da família não tinha porta, mas muito


espaço e muitas cadeiras para puxar uma mesa de canto.
Enquanto Therese mergulhava nas sacolas de papel, ela
reconheceu os pratos que iAm servia para seus melhores
clientes—e pensou nele ligando seu fogão apenas para eles.

— Você vai por favor agradecer ao Chef por nós? —Disse


ela enquanto ela passava pelos pratos de papel.

— Eu vou, —Trez murmurou.

Havia uma variedade de recipientes com potes de papel


alumínio, e eles comiam em estilo familiar, compartilhando as
porções de macarrão com diferentes molhos e carnes, além de
uma grande variedade de sobremesas.

— Então, Trez, —o pai perguntou entre as garfadas. — O


que você faz para viver?

460
Do outro lado da mesa de jantar improvisada, Trez quase
engasgou com o frango. Deus ... como responder isso ao pai de
alguém? Provavelmente é melhor não começar com cafetão.
Facilitador de drogas. Ex-quebra-crânio.

— Eu estou dentro do ramo do ... entretenimento.

— Ele tem um clube, —disse Therese enquanto limpava a


boca com um guardanapo de papel. — Mas é totalmente legal.

Na maioria das vezes legal, ele lembrou a si mesmo.

Okay, tudo bem. Principalmente ilegal. Mas de uma


forma decente. Não era agressivo, desde que todos seguissem
as regras. E ei, houve apenas tiroteio lá. Bem, este ano, pelo
menos—doze meses inteiros!

— Estou pensando em sair do negócio, —ele jorrou.

Ao ouvir as palavras sairem de sua boca, ele se

461
surpreendeu. Porque era verdade. Mas qual era o plano B
dele? E os viúvos recentes não foram desencorajados a tomar
grandes realocações e decisões durante os primeiros doze
meses após a morte?

Tanto faz, ele pensou.

Sentado, ele se viu começando a falar.

— Eu quero fazer algo diferente. Eu estive no mesmo ...


—Rotina. — ... negócio, você sabe, por um tempo. E eu acho
que é hora de uma mudança.

Rosen, como o pai de Therese se chamava, inclinou-se. —


No que você está pensando?

Era difícil olhar para o macho mais velho, e não porque


ele era feio. Ou malvado. Ou de alguma forma indigno. Em
vez disso, o pai de Therese era o tipo de pessoa firme, forte e
humilde que você instintivamente sabia que podia confiar em
seus impostos. Sua casa. Seus filhos e seu cachorro.

— Eu quero voltar para os estudos.

— A educação é muito importante. Eu digo aos meus


filhos o tempo todo. —Quando Therese e seu irmão

462
assentiram, o macho sorriu. — Eu nunca tive muito, mas eu
vivi uma vida honesta e consegui que ambos passassem pela
faculdade sem deixá-los com nenhuma dívida. Larisse e eu
colocamos nosso dinheiro neles, e é o melhor investimento
que poderíamos ter feito.

Veja, Trez pensou. Seus instintos sobre o cara estavam


certos.

Gareth falou. — Eu vou voltar para a faculdade, também.

— Você vai? —Therese perguntou.

— Eu vou aprender a Lei humana. Existe um programa


executivo na Universidade de Chicago. Eu acho que a raça
precisa de pessoas que entendam como esse lado das coisas
funciona.

Trez falou. — Eu acho que é uma ótima ideia. Tive que


usar alguns advogados fora da espécie para compras
imobiliárias, e foi uma dor de cabeça. Eu teria me sentido
muito melhor com um de nós. Ei, você sabe, você deveria falar
com Saxton, o advogado do Rei. Ele poderia realmente ajudá-
lo—e talvez conseguir um estágio na Casa ... hum, de
Audiência?

463
Ele parou de falar. Os três estavam olhando para ele com
olhos arregalados.

— Você esteve na Casa de Audiência? —Gareth


perguntou. — Puta merda.

— Cuidado com sua língua, filho, —Rosen murmurou. —


Ah ... você conheceu o Rei?

— Eu moro com ele.

Quando os três começaram a tossir em seus guardanapos,


Trez pensou, bem, droga!

O choque de Therese poderia ter sido cômico. Só que não


foi. Era mais um lembrete de quão pouco eles sabiam um
sobre o outro.

— Acho que não mencionei isso, hein? —Disse ele a ela.


— Não é grande coisa, no entanto.

— Não é grande coisa? —Disse ela. — Com quem você


mora—com a Primeira Família?

— Eu estou me mudando, no entanto. Para aquela casa


que eu aluguei.

464
Mais uma vez, isso era novidade para ele. Mas ei, esta foi
uma festa surpresa para todos, por assim dizer. Então ele pode
muito bem entrar na diversão.

Mas sim, ele pensou. Ele se mudaria e entregaria o clube


a Xhex. E então ele não tinha ideia do que ia fazer consigo
mesmo, além do fato de querer aprender coisas. Ele queria ...
livros didáticos para estudar, provas para fazer, e coisas em
que ele tinha que se concentrar, em vez do que havia perdido.

Certamente uma faculdade era assim? Ele nunca tinha ido


a uma formal antes. E ele era esperto. Qualquer coisa que ele
lia ele lembrava, e ele gostava de palavras no papel. Talvez ele
pudesse tirar uma página do livro proverbial de Gareth.

O que quer que ele decidisse fazer, no entanto, ele sabia


que tinha que ser um novo começo. Uma nova vida. Uma
nova ... maneira de operar.

E hey, pelo menos ele não era um suicida. E com uma


sobrinha a caminho, uma pequena casa no suburbio
agradável, e um horizonte aberto? As coisas poderiam ser
muito piores ...

Uma enfermeira apareceu entre os batentes. — Família,

465
vocês vão querer entrar no quarto de Larisse. Agora mesmo.

Quando os quatro saltaram, Trez pegou a mão de Therese


sem pensar nisso. Mas ela não ia entrar lá sem ele, isso era
certo.

Ele ia ficar ao lado dela pelo que viesse a seguir. Deus


sabia que ele tinha muita experiência com a morte.

Capítulo 27

Therese não se lembrava muito da corrida para o quarto de


sua mahmen. Mas ela sabia que tinha a mão de Trez e ficou
tão agradecida por ele estar com ela. Mesmo que ele fosse uma
nova adição à sua vida, ela precisava do apoio dele. E ele
estava lá para ela, seus olhos se encontrando quando eles

466
abriram a porta de vidro e ...

— Larisse? —Gritou o pai dela.

Oh, Deus, ela estava ...

Therese parou de tal maneira que seu irmão bateu nas


costas dela e quase a derrubou. Exceto ... espere, ela estava
vendo isso certo? Os olhos de sua mahmen estavam abertos?

— Larisse! —Disse seu pai quando ele se jogou para baixo


na cabeceira. — Meu amor!

A enfermeira sorriu. — Seus sinais vitais estão mais fortes


do que têm sido desde que ela veio até nós. Ela está de volta.
E vamos dar a ela um pouco de tempo, mas se as coisas
continuarem assim, tentaremos que ela respire sozinha.

Seu pai estava sussurrando, e sua mahmen estava olhando


nos olhos de seu hellren, a conexão, o amor entre eles, tão
tangível, era como se houvesse outra pessoa no quarto com
todos eles.

E então os olhos de sua mahmen procuraram Therese.

Lágrimas se formaram e rolaram para o travesseiro, a mão


frágil erguendo as pontas dos dedos do lençol branco.

467
Therese avançou, espelhando a expressão de seu pai.

— Eu estou bem aqui.

Aqueles lábios pálidos se moveram, mas Therese inspirou


e balançou a cabeça.

— Não tente falar. Ainda não. Basta saber que estamos


todos aqui, e nós não vamos a lugar nenhum, —ela se virou e
acenou para o irmão. Quando ele veio, ela sorriu para a
mahmen. — Vê? Todo mundo está aqui.

— Mahmen, —disse Gareth com uma voz engasgada. —


Você está de volta.

— Espere, e há mais um, —Therese estendeu a mão.


Conheça meu ... amigo ... Trez.

Houve uma pausa, enquanto Trez olhava para todos eles


de dentro do quarto. Seu rosto era distante, seus olhos opacos,
seu corpo ainda mais. Por uma fração de segundo, Therese
teve a sensação de que ele ia embora. Mas então ele prendeu
um sorriso em seu rosto e deu um passo à frente.

— Senhora, —ele disse. — É um prazer conhecê-la.

Quando ele estava ao pé da cama, sua altura imponente e

468
força incrível pareciam diminuir o quarto.

Larisse levantou a mão de novo. E acenou ligeiramente.

Therese queria abraçar Trez com toda a sua força. Sim,


esta foi uma situação totalmente embaraçosa—mas ele tinha
mais do que segurado a situação toda. Como era o jeito dele,
ela estava aprendendo.

Tudo vai ficar bem, ela pensou. Absolutamente tudo bem.

Estranho ... ela não sentiu que estava se tranquilizando


apenas sobre as coisas com a sua mahmen nessa declaração.

— Ok, pessoal, —disse a enfermeira. — Vamos fazer um


exame nela, e acho que alguma privacidade seria ideal.

Trez levantou a mão. — Eu vou sair.

— Eu vou ficar, —disse Rosen.

Gareth olhou ao redor. — Alguém ficaria ofendido se eu


voltasse e comesse? Estou morrendo de fome.

Therese sorriu, mas sentiu que tinha que forçá-lo quando


Trez recuou. Mesmo que ele ainda estivesse com eles, ela teve
a sensação de que ele havia partido.

469
— Você pode ter a minha parte, —disse ela ao irmão. —
Estou cheia.

— Bom acordo, —Gareth deu um tapinha no joelho de


sua mahmen nos lençóis. — Eu vou estar ao lado, mahmen. E
depois volto.

Larisse assinalou ligeiramente.

— Eu também, Mahmen, —Therese sorriu e acariciou o


braço fino de Larisse. — Eu já volto, também.

Houve uma rápida discussão sobre o tubo de


respiração—no qual nenhuma promessa foi feita,
considerando que o exame ainda não havia sido realizado—e
Therese saiu com Trez. Houve uma pausa quando ele e
Gareth disseram algo de um lado para o outro, e foi quando
ela soube que Trez estava saindo. Voltando para a cidade. Mas
estaria disponível por telefone se alguém precisasse dele. Os
números foram trocados entre os machos—momento em que
ela fez uma piada sobre ela ser ruim sobre responder
mensagens em crises familiares.

— Muito cedo? —Disse ela quando seu irmão deu-lhe um


olhar seco.

470
Finalmente, ela e Trez estavam sozinhos.

— Vou levá-lo até lá fora? —Ela disse.

— Só até o elevador. Você é necessária aqui.

Quando ele lhe ofereceu seu braço, ela pegou com algum
alívio, mas ela tinha certeza que era um gesto reflexivo de sua
parte. Quando passaram pelas portas de vidro dos quartos dos
pacientes, ela não olhou para nenhum deles. Ela não queria
ser lembrada de quão seria fácil perder o chão do que eles
tinham ganho tão inesperadamente com sua mahmen. E havia
outras coisas que ela não queria pensar.

Como é irônico recuperar a família dela e perdê-lo na


mesma noite.

— Trez? —Ela chamou enquanto passavam pela estação


de enfermagem e deixava a unidade.

— Sim?

Eles pararam e se viraram ao mesmo tempo.


Abruptamente, seu coração pulou algumas batidas e suas
mãos ficaram suadas.

— Eu sei que isso é estranho, —ela alisou o cabelo para

471
trás e achou que estava uma bagunça. Ou talvez não fosse o
cabelo dela que estava emaranhado e amarrado. Talvez fosse
o cérebro dela. — Quero dizer, isso ficou realmente intenso,
não é? Então, isso deve ser estranho.

Por favor, deixe ser apenas o drama estranho que está


acontecendo aqui, ela pensou.

— Não, está tudo bem. Quero dizer ... —ele balançou a


cabeça. — É ótimo que sua mahmen voltou …

— Onde você está? E seja honesto. Estou muito vacinada


para peneirar mentiras, mesmo que elas venham por bondade.

Trez abriu a boca, como se estivesse pronto para ir direto


para cima com toda a verdade. Mas então ele se separou e
andou pelo corredor. Quando as portas duplas da unidade se
abriram, ela preparou-se para a enfermeira voltar para buscá-
la com um relatório que as coisas tinham sido mal
interpretadas. Ou o que um carrinho de parada era
necessário. Mas não. Era uma enfermeira com uma carga de

O carrinho de emergência (CE) ou carrinho de parada (desfibrilador) O equipamento é uma estrutura móvel
que tem como função descarregar cargas elétricas na parede torácica (se for externo) ou nas fibras musculares do coração
(se interno) de um paciente que se encontra em quadro de arritmia cardíaca. Seu objetivo é reverter este quadro em tempo
hábil, de maneira que não haja perda ou danos em funções cardíacas e cerebrais.

472
roupas de cama.

Quando ela estava fora do alcance, Therese não podia


suportar a espera por mais tempo. Seus nervos estavam a flor
da pele, ela estava exausta, e toda incrível comida italiana do
iAm tinha formado um bloco de cimento temperado com
orégano e manjericão na boca do estômago.

— Eu sei que disse que estava disposta a ser paciente, —


disse ela. — Mas acho que posso ter exagerado sobre ter essa
virtude …

Trez parou abruptamente e olhou-a bem nos olhos.

— Minha shellan morreu. Muito mal. E recentemente.


Muito recentemente.

Therese exalou o fôlego que ela estava segurando. Ela não


gostou das notícias tristes, mas não ficou surpresa, e pelo
menos isso não era nada que ela precisava levar para o lado
pessoal.

— Eu sinto muito, —ela acenou para as portas. — Então


deve ser muito difícil ver tudo isso. Estar ao redor disso …

— Vendo seu pai reunido com sua amada? —Ele ergueu

473
a mão. — Não que eu tenha inveja dele por seu retorno.
Espero que sua mahmen se recupere completamente. Eu
realmente quero. Eu quero isso. Mas eu não tive isso … e,
ouça, eu não queria enganar você. Eu realmente não queria.

Eeeeee sugestão de ela não ser capaz de respirar


novamente. Que era o que acontecia quando você desviava o
curso para uma árvore. Ele perdeu a shellan e foi impactado
por sua mahmen e a reunião chorosa de seu pai ao lado da
cama? Isso foi trágico, mas ela poderia trabalhar com isso.
Falar com ele. Ajudar de alguma forma.

— Eu não queria enganar você. —No entanto, isso era um


sinal de saída para uma porta que ela não ia poder passar.

Trez balançou a cabeça lentamente, arrependia-se de ter


lhe dito o que ocorreu. Mas antes que ele pudesse ir mais
longe, ela o cortou.

— Está tudo bem. Eu sei que tem que ser ... muito cedo,
— ela mesma ouviu-se dizer. — Eu entendo.

Mesmo que ela não entendesse. Bem, fazia sentido que


uma perda como essa tornaria impossível se apaixonar por
outra pessoa por um tempo. Um tempo muito longo. A quem

474
ela estava enganando? O amor era o que ela queria dele.
Porque era o que ela sentia ... por ele.

Merda, ela pensou. Ela estava muito mais enrolada do que


tinha conhecimento.

Quando ela se apaixonou por ele?

Trez se aproximou e colocou as mãos nos ombros dela.


Sua voz era baixa e intensa, seus olhos negros graves, seu
corpo musculoso firme. — Eu não quero te machucar. Você
tem que saber disso. Você tem que acreditar. Eu nunca quis ...
não quero te machucar.

Então isso está realmente acontecendo, ela pensou. Eles


estavam se separando. Mesmo que ela não tivesse certeza
exatamente do por que eles tinham que terminar.

— Eu sei que você não fez isso de propósito, Trez. —Você


queria ser independente, certo? Ela disse para si mesma. — E ...
eu vou ficar bem, —ela se forçou a sorrir firmemente para ele.
— Eu vou ficar totalmente bem. Quero dizer, eu tenho certeza
disso. Eu tenho minha família e ...

— Sinto muito, —disse ele enquanto escovava o rosto dela

475
com a ponta dos dedos. — Eu não queria fazer isso aqui ou
agora. Eu não queria.

Ela pensou em quando ele chorou na noite anterior e sabia


que isso fazia tanto sentido agora. Toda essa dor ainda estava
dentro dele—trancada no momento, mas nunca muito abaixo
da superfície. Ia demorar muito, muito tempo até que ele
estivesse em condições de amar alguém, e ela não questionou
se ele se importava com ela. Ele tinha tomado a mão dela
quando eles correram para ver sua mahmen. E ele só tinha
tentado cuidar dela, com a casa, com as disposições
financeiras, com ... bem, sexualmente, é claro.

— Eu sei que você ainda deve estar apaixonado por ela.


—Therese sussurrou. — E eu sei que ela deve ter levado parte
de você com ela quando foi ao Fade. Então isso não é ... não
é sobre mim. Quero dizer …

— Não. —Ele disse. — Não é você. Juro para você.

476
Esta é a coisa certa a fazer, disse Trez a si mesmo.
Apesar da dor nos olhos de Therese, da tensão em seu
corpo, e da maneira determinada como ela estava se
mantendo digna ... era a coisa certa a se fazer.

Era sobre isso que o iAm o tinha avisado. Therese estava


carregando a dor de algo que nunca deveria ter sido iniciado.

— Você merece … —disse Trez sem muita confiança, —


… ser amada por você mesma, e só por você. Não porque você
está tomando o lugar de outra pessoa. Não porque você é uma
ferramenta para alguém tentar se salvar. Isso é tudo sobre
mim. Só porque você se parece com ela, eu nunca deveria ...

Therese franziu a testa. — O quê?

Ele tentou repetir o que estava saindo de sua boca, mas


ele foi pego em suas próprias emoções, então era difícil de
lembrar. Em vez disso, ele só queria reparar alguns dos danos
que tinha feito— mesmo que isso fosse como tentar juntar
uma sala queimada com fita adesiva e laços torcidos.

— Você é incrível, —disse ele. — Você é uma fêmea


incrível, bonita, inteligente e engraçada …

477
Ela recuou. — Não. Sobre como eu pareço. O que você
disse?

Enquanto ele traçava o rosto dela, seus cabelos, seu corpo


e seus olhos, tudo o que viu foi Selena, e ele se permitiu
permanecer na comparação uma última vez. Depois disso, era
improvável que ele e Therese voltassem a se ver porque sabia,
sem perguntar, que ela voltaria com sua família.

— Você disse que eu pareço com ela … —repetiu Therese


lentamente. — Mas eu não me pareço apenas com ela.

Quando ele não respondeu imediatamente, ela cruzou os


braços sobre o peito.

— Eu sou exatamente como ela, não é?

Respirando fundo, ele acenou com a cabeça, uma vez.

Houve uma longa pausa. E então ela se afastou um pouco


pelo corredor. Enquanto ela se afastava, ele se perguntou se
não deveria ter mentido sobre a parte da aparência. Mas isso
foi um movimento de merda. Ela merecia a verdade, e ele
merecia sua raiva.

Abruptamente, ela parou. Girou em torno dele. Voltou.

478
— Você disse que vive com o Rei, certo? —Quando ele
assentiu novamente, ela desviou o olhar. Olhou para trás. —
Então a Irmandade da Adaga Negra é sua guarda pessoal,
correto? Então aquele macho que servi—Rhage—com sua
shellan, eles te conhecem, certo? Porque eles vivem lá,
também, —ele acenou novamente, ciente de exatamente onde
isso estava indo. — Então eles a conheciam. Não é?

Quando ele acenou mais uma vez, ela começou a andar


novamente.

— E é por isso que eles fizeram toda aquela cena quando


eu fui servir sua mesa. E é por isso que seu irmão sempre foi
estranho perto de mim. É por isso que vocês dois brigaram
ontem à noite—e é por isso que Xhex, sua chefe de segurança
no clube, também olhou para mim assim. Todos viram. Todos
viram o que você viu em mim. Que era outra pessoa.

— Sim, —ele disse. — E eu sinto muito.

Ela levantou a mão.

— Pare. Só ... pare com isso agora.

— Eu não quis …

479
Com suas mãos em seus quadris, ela estreitou os olhos
nele.

— Você não quis me usar? Explique-me exatamente como


esse argumento funciona. Como você não pretendia me
substituir pela sua companheira morta quando eu
aparentemente pareço a fêmea. Explique-me como, quando
você estava me fodendo, não pensava nela o tempo todo. —
Quando ele foi dizer algo, ela falou sobre ele. — O que você
realmente precisa me dizer é como diabos você conseguiu não
me chamar com o nome dela ...

Therese parou. Depois massageou as têmporas como se


estivesse com dor de cabeça. — Você nunca usou meu nome,
na verdade. Você fez isso. Você nunca disse meu nome
quando éramos íntimos. Deus, eu nem vi. Eu nem sequer …
quando me alimentei. —Quando a cor do seu rosto sumiu ela
cobriu a boca como se estivesse doente do estômago, ele sentiu
como se tivesse sido chutado nas bolas. — Você não pegou
minha veia, mesmo estando faminto, porque você não queria
saber se meu sangue tinha um gosto diferente. Você não queria
nada para quebrar a fantasia, para lembrá-lo que eu não era
ela.

480
Enquanto Trez observava a profundidade de sua traição
afundar sobre ela, ele queria levar tudo de volta. A coisa toda,
desde aquela primeira noite, quando ele tentou levá-la para
Havers para o que eles tinham feito na passagem do clube para
tudo o que tinha acontecido na pequena casa. Ele queria
poupá-la de tudo o que ela estava sentindo agora.

Mas para fazer isso, ele teria que ter ouvido o conselho de
seu irmão.

A realidade de quão errado Trez estava, por algumas


razões muito certas, era um novo ponto baixo para ele. E
considerando de onde ele havia começado? Isso estava
dizendo alguma coisa.

Therese respirou fundo.

— Eu preciso ir agora. E eu preciso que você nunca mais


me procure. Diga ao seu irmão que estou saindo sem aviso
prévio—algo me diz que ele vai entender exatamente por quê
...

— Therese …

— Não! —Ela gritou batendo o pé.

481
Então ela bateu a mão sobre a boca novamente como se
estivesse tentando sair de um discurso ou de uma crise de
choro. Ou talvez ambos.

— Basta ir, —ela engasgou. — Caí em um buraco


profundo e preciso começar a sair agora ...

— Eu desajaria que ...

— Não, —ela rebateu. — Você não deseja nada. Você


sabia o que estava fazendo. Você sabia exatamente o que
estava fazendo comigo. Eu não dou a mínima se você está de
luto ou não. Foi errado. Isso tudo ... a coisa toda estava
errado. —Mas então, ela começou a rir de forma estranha. —
Mas ei, também é culpa minha. Eu não questionei nada. Não
perguntei por que estava me perseguindo. Eu não me protegi.
E nunca falamos sobre regras básicas, ou se estávamos em um
relacionamento ou … pelo amor de Deus, fizemos sexo
algumas vezes. Foi só isso. Então eu preciso crescer muito,
inferno!

Ela disse tudo como se estivesse tentando se lembrar dos


fatos. Como se ela estivesse reformulando as coisas—ou
tentando.

482
— Sinto muito, —ele sussurrou.

— Ok, você pode ir se ferrar com isso, —ela surtou com


ele. — É tarde demais para desculpas. E você pode sair? Pelo
amor de Deus, a única razão pela qual você está aqui é porque
você não quer se despedir de alguém que não sou eu. Você já
causou danos suficientes. Pelo menos tenha a decência de
deixar a limpeza começar. Nunca mais entre em contato
comigo.

Trez acenou com a cabeça, virou-se e caminhou pelo


corredor. Ele não tinha ideia de para onde estava indo. Mas
isso já era verdade há um bom tempo.

A única coisa de que ele tinha certeza era que havia


machucado alguém com quem realmente se importava, e a dor
que estava deixando para trás era culpa dele. Como ela
dissera, não importava quais eram suas intenções ou em que
estado ele estava, isso estava errado.

Esta foi uma nova baixa. E a única boa parte de tudo isso?
Pelo menos ele não era suicida.

Não. Ele não ia deixar-se sair fácil. A morte de Selena e a


dor que a acompanhava não foram nada que ele criou por suas

483
próprias ações. Mas seu arrependimento pelo que fez com
Therese? Isso era completamente dele, e ele teria que viver
com isso pelo resto de suas noites.

Por mais que houvessem muitas. Este seria o seu castigo.

Uma sentença de prisão perpétua e ele não ia facilitar o


caminho com um atalho sujo. Ou uma cova aquosa ...

Quando seu telefone tocou, ele agarrou o aparelho com


uma ideia estúpida de que poderia ser Therese chamando-o
desesperada. Mas ela não tinha o número dele no telefone
antigo.

E ela não ia ligar para ele. Nunca mais.

Era Xhex. Sem dúvida ela tinha visto que ele tinha
telefonado e estava ligando de volta para ele. Ele não
respondeu. Ele não tinha nada a dizer a ninguém no
momento.

Deus ... isso era tão ruim quanto quando Selena morreu, ele
pensou.

Talvez ainda pior.

484
Capítulo 28

As próximas 24 horas na UTI foram uma bênção. E uma


maldição.

Na noite seguinte, enquanto Therese entrava no quarto de


pacientes de sua mahmen com uma caneca de isopor de café
surpreendentemente bom, ela segurou o primeiro e tentou
soltar o último. E não tinha certeza de como ela se saiu bem
com qualquer um desses objetivos.

Desde que Trez se afastou quando ela lhe disse para ir, ela
estava em uma câmara frigorífica, dormente e alheia a todos.
Porque, ei, não era como se ela quisesse ser o redutor no alívio
provisório de todos na recuperação de Larisse—e, por outro
lado, seu relacionamento ter ido para o espaço não era nada
que ela tivesse interesse em explicar.

485
Ela se sentiu tão estúpida por se apressar cegamente em
algo assim. Mas tudo parecia tão bom. E ele tinha sido tão ...

Pare com isso, ela disse a si mesma.

Focando na cama do hospital, ela prendeu um sorriso.

— Boa noite, Mahmen ...

— Boa. Noite.

Therese parou exatamente onde ela estava. Piscou várias


vezes. Tentou processar o que ela estava olhando. Mas, às
vezes, nas quatro horas desde que ela, Gareth e o pai haviam
saído para dormir um pouco em um dos apartamentos para as
famílias na instação, uma grande mudança havia acontecido.

— Mahmen? Mahmen!

Therese correu para a frente, derramando o café na parte


de trás de sua mão e não se importando. Larisse estava
sentada, totalmente consciente ... e respirando por conta
própria.

— Mahmen! —Therese abandonou o frágil recipiente em


uma mesa de rodinhas, apertou a mão que ela estava
segurando por tantas horas—e ficou surpresa ao sentir que se

486
apertou de volta. — Eu sabia que eles iam tirar o tubo—mas
eles fizeram isso mais cedo?

— Sim, —aquela voz era rouca, mas era


maravilhosamente familiar. — Cedo.

— Como você está se sentindo? Você está bem? —Assim


que ela fez as perguntas, ela balançou a cabeça. Sua mahmen
ainda estava tão fraca, que ela mal conseguia levantar a cabeça
do travesseiro. — Espere, não se esforce respondendo.

— Bom. Bom. Oi ... Olá. Eu te amo. Você voltou. Estou


feliz. —Larisse estava falando rápido, como se ela sentisse a
necessidade de tirar tudo rápido. Por precaução. — E eu sinto
muito. Eu sinto muito, muito mesmo …

— Shhh. Está tudo bem, —escovando o cabelo de sua


mahmen para trás, Therese baixou-se na cadeira que havia se
tornado sua segunda casa. — Vamos apenas sentar juntas.

— Pai ... veia.

— Você pegou a veia do papai? Quando?

— A enfermeira. Foi buscá-lo. Depois do tubo sair. Mais


forte. Agora.

487
Therese sorriu lentamente. O pai dela deve ter saído e
depois voltou enquanto ela e o irmão estavam dormindo.

— Bom.

Elas ficaram em silêncio por um tempo. E então sua


mahmen parecia tentar empurrar-se mais para cima nos
travesseiros.

— Aqui, deixe-me ajudar. —Therese disse enquanto ela


cuidadosamente rearranjava o torso de sua mahmen. —
Melhor?

A mão de sua mahmen apertou com força.

— Ouça. Agora. No caso de ...

— Não diga isso. Você vai ficar bem. Você vai sair disso

— Sempre senti ... você era minha. Sempre senti … —sua


mahmen tocou o centro de seu peito magro por cima da
camisola do hospital. — Em meu coração, minha. É por isso
que ... nunca te disse ... nunca pensei que você não tinha sido
destinada a ser ... minha.

Therese piscou. E engoliu em seco.

488
— Oh ... mahmen.

— Você foi deixada ... porta. Entregue ... não faço ideia
... quem? Como? —Sua mahmen apontou para si mesma. —
Filha queria. Orei ... orei ... orei... então? Respondida.

— Mahmen, não use toda a sua força …

— Papelada para proteger. Você. Eu. Seu pai e seu irmão.


Certificando de que ninguém poderia levar ... minha filha para
longe de mim.

Quando as lágrimas chegaram aos seus olhos, Therese fez


barulhos calmantes e acariciou a mão que estava segurando
sua própria com tanta urgência.

— Está tudo bem, Mahmen. Respire fundo.

Ela olhou para os monitores. As coisas estavam mudando


nas telas. Frequência cardíaca acima. Pressão arterial alta. Ela
não tinha idéia se isso era ruim ou bom. Pelo menos não havia
alarmes?

— Estou bem aqui, —disse Therese. — E eu não vou a


lugar nenhum. Ninguém vai nos separar.

Nem ela mesma, ela insistiu em sua mente.

489
— Sim? —Disse a mahmen dela.

— Sim. Eu prometo. Eu te amo e desejo ... bem, desejo


muitas coisas. Mas estamos juntas de novo agora. Todos nós
quatro.

A ideia de que não havia um quinto a deixou triste—


mesmo que Trez não tivesse sido um membro da família, não
estivesse por perto há muito tempo, e a tivesse enganado. E o
luto dele foi frustrante como o inferno. Mas as emoções não
eram razoáveis e não podiam ser fundamentadas.

— Volta para casa? —Perguntou sua mahmen.

— Sim, eu vou. Com certeza. —Neste momento, ela


estava morrendo de vontade de sair de Caldwell. — Mas papai
disse que vocês não foram para o sul. Talvez seja para lá que
devemos ir? Gareth pode fazer sua faculdade em qualquer
lugar, ele estava dizendo.

— Bom.

A tensão diminuiu de sua mahmen, e por um momento,


Therese entrou em pânico de que era a morte que a estava
deixando relaxada. Mas então não. Foi paz.

490
— Durma, mahmen. Simplesmente descanse. Estamos
todos aqui.

Recostando-se, Therese vigiou sua mahmen, outro


monitor trabalhando em conjunto com ela, mas sem a
especificidade das outras máquinas na sala.

Uma criança deixada na porta? Realmente? Na casa de


uma família comum? Ela acreditava em sua mahmen, e Larisse
certamente parecia se lembrar sobre como tudo tinha
acontecido. Mas, caramba, foi como o enredo de uma novela
Mexicana ruim depois da escola. Como é que algo como isso
aconteceu?

O tempo passou, de novo dessa maneira estranha que


parecia acontecer aqui na UTI. Mas talvez fosse verdade em
todo o hospital. E o irmão e o pai dela voltaram. E abraços
foram compartilhados antes de Larisse tirar uma soneca.
Enquanto ela dormia, todos conversaram em voz baixa, e
Therese queria checar a história, mas não na frente de sua
mahmen. Isso pareceu desrespeitoso. Duvidoso.

E a verdade era que os detalhes não importava. Assim


como o sangue compartilhado não importava. Família era

491
muito mais que DNA.

Eventualmente, a força de Therese cedeu e ela percebeu


que tinha passado um tempo desde que ela tinha tido algo mais
do que um descanso físico. Com as pálpebras escorrendo para
baixo e seu corpo voltando a acordar, ela estava à beira de ...

— Querida? —Disse o pai dela.

Therese virou-se com tudo.

— Mahmen! Ela é ...

— Ela está muito bem, —Rosen sorriu para ela e colocou a


mão no ombro dela. — Você, no entanto, precisa dormir um
pouco. Por que você não vai para casa descansar e volta antes
do amanhecer? Ou você pode ficar no apartamento que eles nos
deram aqui?

Ela ainda não tinha contado a eles sobre a pensão, e agora


que ela estava voltando com eles, ela não sentiu a necessidade
de entrar em detalhes sobre aquele lixo. E a ideia de que ela
poderia ir lá, pegar algumas roupas, e depois voltar aqui
realmente atraiu.

— Você poderia pedir a Trez para lhe dar uma carona se

492
for …

— Não, pai, —ela se adiantou. — Eu não quero incomodá-


lo. Vou pegar roupas limpas no meu apartamento e voltar
rápido.

— Não há pressa. Você tem o seu telefone. Se algo


acontecer, ligaremos, mas as coisas estão realmente
melhorando.

Gareth acenou com a cabeça de sua cadeira. — Sim, você


precisa dormir um pouco.

— Vou pegar minha escova de dentes e voltar


imediatamente.

O pai dela deu um tapinha no ombro dela.

— Não se apresse. Acho que temos muito tempo pela frente


agora.

— Eu também.

Therese se levantou. Abraçou todo mundo e pegou seu


casaco, que ela tinha deixado no canto do chão. Atordoada, ela
saiu do quarto do paciente e da unidade ... e depois, depois de
uma breve viagem de elevador, saiu de um quiosque na floresta.

493
Estava muito frio, e ela se aconchegou em sua parka. Antes que
se desmaterializasse, no entanto, e apesar do choque do ar do
inverno em suas bochechas quentes, ela parou e olhou para o
céu.

A floresta estava dormindo ao redor dela. O mundo parecia


em repouso também. Sem sons de veados pisando sobre a mata
polvilhada da neve. Nenhum esquilo subindo nos troncos. Sem
pássaros em vôo, procurando nozes distantes e esquecidas.
Nem mesmo uma brisa, como se o vento também estivesse
exausto dos esforços anteriores.

Silêncio. Quietude.

Como o espaço.

Parada sozinha, ela se sentia sozinha, e não no sentido de


que não conseguia encontrar uma multidão de pessoas para se
perder. E esse tipo específico de isolamento a fez refletir sobre
como, não importa quantos corações foram partidos na grande
passagem do tempo, quando era o seu, era a primeira vez que
isso acontecia.

Por que, ela pensou olhando para o céu.

494
Exceto que quando ela fez a pergunta sem dizer uma
palavra, ela não tinha certeza exatamente de qual "por quê" ela
estava atrás. Por que ela conheceu Trez? Por que ela parecia a
companheiro dele? Por que ele tinha caído em um romance
turbulento com ela?

Bem, ela sabia a resposta para a última. Isso, pelo menos,


não era mistério.

E quando ela considerava os pros e contras de tudo isso,


ao reproduzir seus beijos, seus toques ... o sexo que eles
tiveram ... ela chegou a entender a verdadeira natureza de sua
dor. Não que Trez a tivesse fodido de propósito. Ele não era
um bastardo assim. Ela tinha visto o arrependimento em seu
rosto quando tudo tinha saído, e tinha sido uma emoção
honesta—não que tivesse feito qualquer coisa para fazê-la se
sentir melhor no momento.

Isso a impediu de odiá-lo, no entanto.

Não, era mais que ela não era a pessoa a ser amada assim.
Ela não tinha sido escolhida por ele. Ela acabara por ser uma
embarcação, nada além de uma concha. Um vaso de
substituição que foi trocado pelo que havia sido quebrado.

495
A triste verdade era que ela tinha sido ignorada mesmo
quando eles estavam juntos, cara a cara, pele a pele. Invisível,
embora ele a tenha visto. Éter, mesmo quando ele tocou o
corpo dela.

A dor era porque ela se sentia encontrada, quando na


realidade ela tinha sido anulada.

Isso ia doer por um tempo. Também ia colorir como ela


visse os machos. Quando ela interagisse com eles. Quando ela
fosse—ou, mais provavelmente, não fosse—confiar neles.

Parecia o auge da ironia estar devastada pela morte de


alguém que ela não conhecia e nunca tinha conhecido. No
entanto, a perda da shellan de Trez a tinha afetado.
Permanentemente.

Fechando os olhos, Therese respirou o ar frio da noite e


se acalmou. Ela não tinha certeza de que iria dar certo e
decidiu que, se não conseguisse se concentrar adequadamente,
voltaria à clínica e passaria um tempo lá.

Quando abriu os olhos novamente, ela estava de pé no


meio de seu apartamento.

496
Olhando para os móveis de baixa qualidade, ela respirou
fundo e, em vez do ar canadense claro que soprava do norte
... ela sentiu o complexo buquê de morte no nariz que parecia
emanar das paredes e pisos do apartamento.

Como se tudo tivesse sido pulverizado com o Eau da Cena


do Crime.

Destinos, ela só queria voltar para a UTI. E quem diria que


isso seria uma coisa?

Ainda assim, em vez de reunir rapidamente o que


precisava e sair dali, ela andou pelo espaço vazio, sua mente
indo a lugares que preferia que não fosse enquanto seu corpo
circulava em círculos em um lugar que ela não queria estar.
Mas veja, esse era o problema com o tempo sozinha—e a outra
razão que a fez querer voltar para sua família.

Ok, ela precisava se mover. Pegar a escova de dentes dela


e algumas coisas para o dia. Voltar para onde as pessoas em
quem ela podia confiar estavam esperando por ela.

Eau sempre esta nomeado nas embalagens ou mesmo no frasco de perfume (pelo menos
nos franceses) no caso aqui o nome do perfume que a Therese deu e Eau de Crime Scene.

497
Indo para o banheiro, ela ...

Parou na frente do espelho sobre a pia.

Inclinando-se para o vidro, ela olhou para o seu reflexo, e


não porque ela tinha esquecido como ela era. Em vez disso,
ela estava procurando o que estava olhando de volta para ela
para obter informações sobre a companheiro de Trez ... como
se o composto de seus próprios olhos e nariz, boca e queixo
lhe dissesse qualquer coisa sobre o que ele havia
compartilhado com sua shellan, o quanto eles tinham se
amado, o quão difícil tinha sido para eles se separarem pelo
destino.

Mas é claro, que não havia nada a ser colhido. E esse era
o ponto, não era?

Ela não tinha sido quem ele tinha pensado que ela era, e
essa verdade tinha saído assim que ele conheceu seus pais e
seu irmão. Depois disso, não havia mais fingimento, nenhuma
maneira de fazer a realidade desconexa se encaixar com sua
fantasia de alívio da dor.

E falando de fantasias? Ela não tinha idéia de por que ela


tinha se convencido de que ele era seu amante das sombras. A

498
este respeito, ela supôs que ela tinha feito um pouco do mesmo
que ele. Não que as implicações eram de modo algum
comparáveis. Além disso, ela provavelmente tinha feito tudo
isso. Seduzida pelo sexo, seu cérebro tinha criado uma
conexão entre ele e seus sonhos.

Afinal, ela teve o melhor sexo de sua vida com ele, então
ela colocou no único contexto que se encaixava.

O companheiro das sombras dela.

Cara, seria muito mais fácil se ela pudesse odiá-lo, ela


pensou quando ela olhou para longe de si mesma.

Enquanto ela ressurgiu com sua escova de dentes e sua


pasta de dente—porque ela não queria ficar na frente do
espelho nem o tempo suficiente para usá-las—suas orelhas de
vampiro aguçadas captaram uma discussão do outro lado do
corredor. E então havia as duas TVs de ambos os lados dela
com o som bem alto.

Então eram os negócios de costume da pensão.

Pegando seu telefone antigo, ela acionou a tela e olhou


para as notificações. Havia uma do irmão dela. Um meme

499
aleatório. Foi engraçado. Outra do pai dela, lembrando-a de ir
devagar. Dois dos primos que ouviram falar do que estava
acontecendo e atribuíram o silêncio de comunicação de
Therese à preocupação com os pais. O que tinha sido
parcialmente verdadeiro ...

A discussão do outro lado do corredor aumentou de nível,


as vozes, de um homem e de uma mulher, aumentando em
volume, subindo ao nível de gritos. Quando Therese estendeu
a mão e pegou uma muda de roupa na mochila que servia de
escritório, ela sabia que os barulhos e coisas quebrando
começariam em seguida. Era assim que as coisas seguiam, não
importa se era um casal, um grupo de colegas de quarto, ou
um andar inteiro. Muito disso era devido a bebida e as drogas,
o desespero de tantas vidas despedaçadas sendo queimadas
em qualquer direção a que foi apresentada.

Nesse respeito, ela não era diferente das outras pessoas.


Apesar de tudo, ela estava totalmente deprimida com a ideia
de nunca mais ver Trez novamente ...

Quando o cheiro de comida queimada atingiu seu nariz,


ela disse a si mesma para seguir com o programa. Ela não era
daqui—e também não era de Caldwell.

500
Então, foda-se, faça as malas para um dia a mais. Só
precisava pegar todas as suas coisas e sair desse inferno.

Agora mesmo.

A cabeça de Trez explodiu cerca de duas horas antes do


fechamento do shAdoWs.

O que, considerando o estresse que ele estava e seu


histórico de enxaquecas, era praticamente inevitável.

Incapaz de ficar sozinho em seu escritório, porque tudo o


que ele tinha feito era mentalmente bater a merda fora de si
mesmo, ele tinha ido para a pista de dança e ficado no canto,
vendo os humanos expremerem-se uns sobre os outros, e
desejando ... bem, desejando todo tipo de merda que não iria
acontecer. Ele também estava pensando em Therese. Ele não
podia tirá-la de sua mente, ao que parece, embora ele fosse ter
que superar isso. Ela não queria mais vê-lo novamente, e ele

501
não a culpava.

De pé sob os lasers, olhando na escuridão, ele não tinha


invejado as almas perdidas diante dele. Tantos homens e
mulheres eram frequentadores regulares, que costumavam
ficar bêbados, drogados e faziam escolhas ruins, e você não
fazia isso se você não tivesse suas merdas juntas. Você fazia
isso porque você estava fugindo de algo mesmo quando você
estava preso em um lugar, a vontade tóxica presa dentro de
sua pele muito para você lidar, a saída e distração das boates
eram como band-aid feito de arsênico.

Mas pelo menos eles estavam escapando de seus


problemas, ele supôs.

Foi exatamente quando esse pensamento lhe ocorreu que


ele percebeu abruptamente que os lasers haviam mudado de
raios roxos penetrantes para brilhos multicoloridos. Enquanto
se perguntava quem havia encomendado o novo show de
luzes e que tipo de equipamento deveria ter sido trazido sem a
sua aprovação, ele percebeu que estava apenas vendo os fogos
de artifício no olho direito.

Uma aura. Ele estava vendo uma aura.

502
— Filho da puta.

Olhando em volta, ele apontou para um dos funcionários


da segurança. Quando o cara apareceu, Trez disse: — Eu
tenho que ir lá em cima. Diga a Alex para fechar esta noite.

— Você está bem, Sr. Latimer? —Perguntou o humano.


— Você não parece tão bem.

— Enxaqueca. Isso acontece.

— Minha irmã as tem. Vou contar a chefe. Você precisa


de alguma coisa?

Trez balançou a cabeça. — Obrigado, cara. Só vou deitar


um pouco.

— Ok, Sr. Latimer.

Enquanto Trez caminhava até as escadas para o segundo


andar, ele ficou grato pelos vinte minutos tranquilos antes da
tempestade das dores de cabeça. Depois que o show de luzes
começou, ele teve tempo suficiente para ficar situado em
algum lugar escuro e quieto antes da dor chegar. É claro que,
como ele sabia o que estava por vir, seu coração sempre batia
com a sobrecarga de adrenalina, a resposta de fuga ou luta de

503
seu corpo sem opções reais de expressão.

Não havia nada para lutar, e quanto ao lado fugitivo das


coisas? Como em todos os lugares que você foi, lá estava você,
não era como se isso fosse ajudar.

Além disso, olá, ele ia vomitar logo, e uma corrida rápida


não seria divertida com esse sintoma.

De volta ao seu escritório, foi um alívio sair dos caminhos


de todos aqueles lasers e se afastar da música barulhenta. Ele
não perdeu tempo enquanto se fechava. Tirando os sapatos,
tirou a calça e pegou a pequena lata de lixo do banheiro.
Estendendo-se no sofá de couro, ele apoiou a cabeça com um
travesseiro, cruzou os tornozelos e colocou as mãos sobre o
peito como se fosse um cadáver. Ele ainda podia ver a aura
mesmo depois de fechar os olhos, e a assistiu passar de um
ponto para um sinal menor que ... depois do qual os ângulos
bifurcados e brilhantes se achataram e se afastaram para o lado
antes de desaparecer.

Talvez desta vez a dor de cabeça não viesse. A náusea não


o prejudicaria. A dissociação flutuante não o afastaria.

Na estranha terra de ninguém entre o prodrômico e o

504
tempo da festa, uma imagem veio a ele. Era de Therese
olhando para ele no corredor do hospital, raiva e mágoa
escurecendo seus olhos pálidos.

Ele tinha a sensação de que a memória dela ia assombrá-


lo como um fantasmaMas antes que ele pudesse insistir nisso,
um trovão de dor acendeu na metade de seu crânio, e ...

Quando ele se virou para o lado e começou a vomitar


aquele lanche que tinha feito uma hora atrás, decidiu que
merecia isso.

Em tantos níveis.

505
Capítulo 29

Era difícil saber exatamente quanto tempo Therese levou para


perceber que algo estava errado em seu prédio—e não apenas
levemente errado. Eventualmente, porém, ela parou de enfiar
coisas em sua mochila e franziu a testa. Farejou o ar. Olhou
para a porta que dava para o corredor externo.

Por um momento, ela se perguntou se não tinha perdido


a cabeça ... se talvez sua falta de sono não estivesse causando
alucinações olfativas. Mas depois de estar na pensão por tanto
tempo, ela estava bem familiarizada com todos os tipos de
cheiros de comida, sejam eles apodrecendo ou um caso de
assar demais. E isso era diferente. Isso não era ... de comida.

Indo até a porta, ela colocou a mão nos painéis, mesmo


que estivesse se sentindo como uma tola paranoica. Só porque
parte de sua vida estava derretendo, e ela estava levando seu

506
romance condenado muito a sério, não significava que seu
prédio estava fazendo o mesmo—e o que você sabe, a madeira
frágil estava à temperatura ambiente em sua palma. Estava
tudo bem.

— Vamos lá, agora, —ela murmurou para si mesma. —


Você está se perdendo.

Uma nova rodada de gritos do outro lado do corredor a


fez reorientar e respirar pelo nariz novamente. O odor
estranho era mais forte, e havia um tom doce, algo ...

Os alarmes começaram a disparar, os sons estridentes


disparando de ambas as extremidades do corredor externo.
Alarmada—agora—Therese abriu a porta e se inclinou. Do
outro lado, havia fumaça negra saindo das lacunas em torno
de uma porta fechada.

— O que está acontecendo? —Alguém perguntou.

Therese olhou para a direita. Uma mulher com um cigarro


aceso e máscara para dormir nos olhos tinha saído do
apartamento ao lado da fumaça.

— Eu não sei, —respondeu Therese.

507
Ao redor, outros inquilinos emergiram de suas unidades,
muitos deles igualmente confusos, embora se isso fosse de um
distúrbio no sono ou de uma avaliação inconclusiva sobre se
isso era real ou uma alucinação induzida por drogas, Therese
não sabia.

— Alguém ligou para 911? —Perguntou ela.

Sem aviso, uma explosão abriu a porta do corredor, o


impacto das ondas de choque lançando Therese fora de seus
pés e jogando-a de volta em seu apartamento. Quando ela
pousou, seu hálito foi arrancado de seus pulmões, mas ela
permaneceu consciente.

Então ela viu a bola de fogo que se expandiu como uma


grande besta, sua amplitude se estendendo pelo corredor em
ambas as direções.

E invadindo o apartamento dela.

508
Das profundezas do doloroso delírio de Trez, seu cérebro
tossiu uma memória que fazia a agonia da enxaqueca
parecer um corte de papel. Ele estava de volta à noite em
que enviou os restos mortais de Selena para o céu, seu
corpo físico em chamas na pira funerária que havia sido
construída por sua comunidade de amigos. Ele estava o
mais perto que podia chegar das chamas, o calor era tão
forte que a pele de seu rosto se esticou e a frente de seu
corpo assou a ponto de rachar. O fogo, que havia pegado
rapidamente, ardeu intensamente na densa escuridão da
noite, a fumaça branca ondulando nos céus ...

Foi quando ele esfregou os olhos para limpar as


lágrimas de sua alma que ele percebeu ... isso não era uma
memória.

Ele estava presente na cena real, retornando ao


passado através de algum tipo de alquimia—não, não é
mágica. Isso era um sonho. Este foi um daqueles sonhos
quando você encontrou a consciência no subconsciente de
sua mente, a liberdade de escolha parecendo se apresentar

509
em uma realidade que não era real, exceto pela maneira
como se sentia.

Por que ele não voltou para um momento feliz? Para


quando ele tinha alugado Storytown apenas para ele e
sua rainha, quando eles tinham dançado entre os faróis de
seu carro, quando ele tinha sido capaz de segurá-la contra
ele mais uma vez?

Se ele podia fingir estar em qualquer cena do


relacionamento deles, fingir sentir alguma coisa, ver
qualquer coisa, qualquer coisa, por que era o calor da pira
funerária de Selena em seu corpo dolorido, a visão de seus
restos mortais sendo consumidos, o luto aumentando para
um sofrimento agudo que o deixou sem fôlego?

Isso nunca ia acabar, esse ciclo de tristeza, perda e dor.

Trez olhou para o fogo laranja e amarelo, o monstro


pirotécnico devorando a comida que lhe era fornecida, a
madeira, o corpo, quebrando, tornando-se a fumaça que

Pelo que me parece e um parque de diversões, para mais detalhes desse lugar leiam no livro 13 Dos Sombras a partir da
pág 359 do capítulo 44 ok *-*

510
subia e as cinzas que caíam. E, enquanto o consumo
continuava, raiva e ódio tornaram-se um incêndio dentro
de seu próprio corpo, queimando-o, destruindo-o, assim
como sua amada também estava queimando, os dois se
uniram pela última vez, ambos em chamas.

Incapaz de conter a emoção, ele começou a gritar, uma


explosão de som impulsionada de seus pulmões pela
constrição de sua caixa torácica, a força tão grande que ele
sentiu as veias em seu pescoço e sua testa inchar, seus
braços e ombros se transformar em cordas de aço
retorcido, suas pernas ameaçam empurrá-lo para dentro
da pira. Ele gritou até ficar sem oxigênio e depois ele se
arrastou no ar da noite. Assim que ele tinha fôlego em seus
pulmões, ele gritou de novo. E de novo. E de novo ...

Foi durante uma inspiração que ele sentiu uma figura


parada ao lado, e ele se virou, ofegante. Quando ele
reconheceu quem era, ficou confuso.

— Lassiter? —Ele disse com voz rouca.

O corpo do anjo não passava de um esboço, apenas as

511
asas brilhantes que se levantaram sobre seu torso
pareciam ter peso e substância. Quando o vento veio de
todas as quatro direções, mechas fantasmagóricas dos
cabelos loiro e preto do macho giravam ao seu redor.

Recuperando o fôlego, Trez limpou a boca. — O que


você quer? Por que você está aqui?

O anjo não respondeu. Não parecia ouvi-lo. Lassiter


estava focado na pira, uma luz prateada sagrada irradiando
para fora de suas órbitas oculares.

Um sentimento de desassociação obrigou o olhar de


Trez de volta às chamas agitadas e seu coração começou
a bater forte. O vento estranho que rodeava ao redor do
fogo mudou o padrão do fogo, os lampejos de amarelo e
laranja se fundindo ...

Do calor pulsante da pira e da luz flamejante, o corpo


envolto em branco de Selena se elevou, a ressurreição
acontecendo com uma elevação inexorável que Trez
tremia de medo e amor combinados. Isso não estava certo.
Esse sonho ...

512
Também não era um sonho.

Ele não sabia o que era isso, mas ele não se importava.

Selena ressuscitou do abraço frio da morte e do


inferno da pira funerária, os braços erguendo-se dos
envoltórios que ele próprio havia enrolado em seu corpo
sem vida, o torso se endireitando, as pernas firmes. E agora
vieram os cabelos, as mechas longas e escuras se soltando
dos limites que abruptamente se soltaram e caíram no
inferno sob seus pés, revelando seu rosto e seus ombros.

Ela era de carne e fogo combinados, uma aparição que


o chamava sem dizer seu nome, que o capturava sem
correntes ou barras, que o segurava sem lhe pôr a mão.

— Selena? —Disse ele desesperadamente. — Selena ...

No meio do brilho violento, ele podia ver que a boca


dela estava se movendo. Ela estava falando com ele.

— Não estou te ouvindo, —ele gritou. — O que você


está dizendo?

513
Em pânico, ele tentou diminuir a distância, mas o calor
era muito grande, uma barreira que até seu amor e
necessidade por ela não podiam ajudá-lo a atravessar.

— O que você está dizendo? —Ele gritou de novo.

Quando ele não podia ouvi-la, ele se virou para Lassiter,


mas o anjo tinha ido embora. Ou talvez ele nunca tivesse
estado ali? Virando de volta para o fogo, Trez também
estava aterrorizado com Selena, que poderia ter
desaparecido. Mas não, ela estava lá, ainda gritando por
ele, ainda tentando transmitir sua mensagem pela pira e
pelo vento estranho, sua crescente frustração e medo
matando-o.

Assim quando ele pensou que iria pular lá com ela e se


juntar a ela nas chamas, mesmo que ele fosse destruído,
ela parou, agachou-se e levantou os braços como se para
se proteger de algo que estivesse caindo nela. Então a pira
funerária pareceu explodir, faíscas e calor o empurraram
para que ele também tivesse que cobrir a cabeça e se
curvar, mesmo com o desejo de entrar lá com ela …

514
Trez se levantou com um grito estrangulado, com certeza
como se sua forma física tivesse que ser libertada de qualquer
corrente que o capturasse.

Coberto de suor, ofegante como se ele tivesse corrido por


sua vida, perdido na paisagem dos sonhos em que esteve, ele
olhou em volta e tentou se situar.

O escritório dele. No clube. Exceto que não havia barulho


lá embaixo, nenhum barulho de música que indicava que as
coisas ainda estavam abertas, nenhuma conversa que diria a
ele que era logo após o fechamento e a equipe estava ...

Sua audição aguçada, tornada ainda mais sensível por


causa da dor de cabeça, captou o barulho das sirenes fora do
clube, e foi a persistência distante e silenciosa delas que o fez
perceber que tudo no shAdoWs havia sido fechado para a
noite e os funcionários tinham ido para casa.

Que horas eram, afinal?

Levantando-se, ele percebeu que ainda estava com dor de


cabeça, mas considerando o atirador de elite atrás de seu
esterno, que ali em sua matéria cinzenta era uma gota no
maldito balde. Seu telefone estava virado para baixo em sua

515
mesa, e ele o pegou, esperando ...

Mas é claro Therese não tinha ligado. Por que ela faria?

À medida que mais sirenes soaram lá fora, a partir de um


quadrante da cidade diferente do primeiro, ele colocou sua
senha no celular e entrou na seção de chamadas. Você sabe,
apenas no caso …

De repente, a imagem de Selena gritando com ele da pira,


e depois se agachando para se proteger, assumiu tudo.

Como um filme inserido em sua mente consciente, era


tudo o que ele podia ver, e tudo o que ele também podia sentir
o cheiro, também, o cheiro de madeira queimando em suas
passagens nasais até que ele espirrasse como se fosse real.

— Enxaqueca do caralho.

As dores de cabeça o fizeram ir a lugares estranhos em sua


mente de vez em quando, e alucinações olfativas não eram
incomuns, embora, pelo que Doc Jane lhe tinha dito, elas
eram geralmente precursores ao invés de sintomas ativos do
evento neurológico. Ela ainda disse que algumas pessoas
cheiravam bananas ou cheiros citricos em vez de experimentar

516
uma aura alfativa.

Quem se importava?

Enquanto outra rodada de sirenes passava e brilhava bem


na frente do clube, ele abaixou o telefone e voltou para o sofá.

Deve ter alguma merda de incêndio em algum lugar da


cidade esta noite, ele pensou enquanto se deitava e fechava os
olhos doloridos.

Todos aqueles caminhões de bombeiros, de diferentes


distritos. Parecia que um quarteirão inteiro da cidade estava
pegando fogo.

517
Capítulo 30

Quando Therese levantou a cabeça, havia chamas por toda


parte, o núcleo incandescente da explosão recuou do avanço,
deixando subsidiárias gananciosas para trás. Parte da parede
dela era fogo. O tapete estava queimando. O gesso do teto
estava se curvando com chamas. Mas nada disso comparado
com a origem da explosão.

Aquele apartamento do outro lado do corredor estava


engolido por um fogo mortal.

Tonta e desorientada, ela sentou-se e estava ciente de um


zumbido em seus ouvidos—a menos que fosse os alarmes de
incêndio? O que tinha acontecido? O que havia explodido?

Quem se importava, ela tinha que sair ...

Do outro lado do corredor, algo emergiu da fonte do

518
incêndio. Estava pegando fogo. Ele andou e balançou os
braços, mas era feito de fogo. E estava gritando quando caiu
de joelhos e caiu de bruços no tapete gasto.

— Não! —Therese gritou quando se levantou.

Seu primeiro pensamento foi ajudar quem quer que fosse,


mas então o calor se registrou altamente, sua verticalidade
mais alta a levou a um campo de força de intenso ar quente
que estava engrossando com fumaça tóxica. Tossindo e
cobrindo a boca, ela não podia imaginar como essa pessoa
estava sofrendo e ela tinha que fazer alguma coisa. Curvando-
se e olhando ao redor, ela sabia que a capa de deslizamento
em seu sofá era sua melhor aposta, e mal-encaixada como era,
o tecido pesado saiu da superestrutura imunda por baixo sem
muito esforço. Arrastando-o para o corredor, Therese cobriu
o que acabou por ser uma mulher se contorcendo—e
desesperadamente tentou ignorar o cheiro de carne queimada
enquanto ela se abaixava e tentava fazer as chamas morrerem.

— Socorro! —Therese gritou através do calor e da


fumaça. — Eu preciso de ajuda!

Ninguém estava prestando atenção nela. Como ratos

519
escapando das águas da enchente, os humanos estavam
saindo de seus apartamentos, quase pisoteando a mulher em
chamas na pressa de chegar às escadas.

Exceto que não havia chance de salvar a mulher, de


qualquer maneira. A morte a reivindicou, o corpo embaixo da
capa ficou imóvel ...

Um rangido no alto fez Therese erguer os olhos. Chamas


lambiam a porta em frente a ela e arranhavam o teto do
corredor, corroendo o gesso e as vigas embaixo, o calor
dobrando e triplicando, quanto mais o fogo consumia, mais
poderoso ele se tornava.

Assim que ela começou a se afastar, algo se soltou e


liberou, vindo para ela. Erguendo o braço para proteger a
cabeça, ela se afastou da origem da explosão, mas não foi
muito longe com isso. Ela esbarrou em algo, alguém, e não
conseguiu sair do alcance. O peso flamejante a atingiu com
força, esmagando-a no chão ao lado do corpo sob a capa,
ainda ardendo, ainda fumegando.

Atordoada, a sensação de sobrevivência de Therese


assumiu o controle quando seu cérebro vacilou, seus braços a

520
empurrando para fora, rápido como um piscar de olhos. O
estrago já estava feito, no entanto. Suas costas doíam e um
ombro se recusava a se mover. Assustada, ela meio que se
arrastou, meio rastejou de volta para a porta do apartamento.
Telefone. Ela precisava pegar o telefone. Ela tinha que ligar
para seu irmão. Ele a ajudaria ...

Uma segunda explosão veio de outro lugar. Talvez fosse


o apartamento original, talvez outro—mas estava
definitivamente atrás dela, em vez de na frente dela.

Não havia tempo para telefone. Não havia tempo para a


bolsa.

Ela tinha que sair daqui, se quisesse viver. A dor nas


costas e o pânico da situação significavam que desmaterializar
estava fora de questão, mas ela podia muito bem usar as
pernas. Colocando a mão na parede, ela se levantou e
começou a correr—mas não fez muito progresso. Ela
tropeçou, caindo de joelhos. Quando ela tentou se levantar de
novo, ela não conseguia entender por que seu equilíbrio estava
ruim.

Não era o equilíbrio dela. O tornozelo no lado esquerdo

521
não suportava seu peso. Ela teria que usar a parede para se
firmar.

Enquanto ela se puxava para cima, ela recebeu uma


batida por trás, alguém batendo nela e enviando-a para o
tapete de novo, agora um outro humano fugindo pisou em seu
braço ruim. Gritando de dor, ela se enrrolou em uma bola,
protegendo sua cabeça e seu torso, preparando-se para mais
impactos de algum tipo de debandada. Quando nenhum veio,
ela arriscou um olhar ao redor.

A fumaça encheu o corredor e estava absorvendo o


oxigênio utilizável, o nível mortal descendo rapidamente,
deixando apenas alguns centímetros de visibilidade.

Puxando a frente da blusa, Therese cobriu o nariz e a boca


e começou a engatinhar, mas isso provou ser ineficiente. Ela
precisava das duas mãos, e esse ombro era um problema.
Abaixando a bainha da blusa, ela se moveu o mais rápido que
pôde, mantendo a cabeça baixa e tentando controlar a
respiração. O redemoinho químico nocivo acima dela a fez
tossir e seus olhos lacrimejaram tanto que era como se ela
estivesse chorando, mas ela não estava.

522
Choque. Ela estava em choque.

Totalmente desorientada, estava agradecida pelo padrão


desgastado do corredor. Ela sabia que se seguisse, chegaria às
escadas eventualmente ...

Ela chegou ao primeiro corpo cerca de dez metros depois.


Era o de um homem, e suas roupas tinham sido queimadas nas
costas e nas pernas, a pele carbonizada, o cheiro do tipo de coisa
que a fazia querer vomitar. Ele estava de bruços e sem se mexer,
e quando ela chegou à cabeça dele, ela olhou nos olhos dele.
Estavam fixos e dilatados, sem piscar porque não tinham
pálpebras, e sua boca estava aberta, os lábios descascados
dentes amarelados da dor.

Com um som estrangulado, Therese continuou,


especialmente quando um novo estrondo vibrou no chão e a
aterrorizou que todo o edifício estivesse desmoronando. Mais
rápido, ela tentou ir mais rápido. Mas não foi rápido o
suficiente. Enquanto a fumaça continuava a ficar cada vez mais
baixa, ela perdeu a visibilidade, apenas o cotovelo na parede a
conduzia, e logo seus pulmões começaram a queimar tanto que
ela tossia mais do que inalava.

523
Mais estrondos. Alguém gritando. Outro corpo que ela teve
que passar por cima. Tudo que ela sabia era que ela tinha que
continuar ou ela iria morrer.

De volta ao shAdoWs, Trez sentou-se no sofá e olhou para a


parede de observação atrás de sua mesa com uma careta. Algo
estava batendo no vidro, o som batendo repetitivo, insistente.
Irritante pra caralho no silêncio.

Levantando-se, ele se aproximou e acendeu as luzes do


painel de controle do telefone do escritório. Um por um, os
bancos de luzes fluorescente trouxeram o meio-dia para
dentro da escuridão do clube, a pista de dança negra com
todos os seus arranhões e manchas iluminadas com o tipo de
clareza que fazia seu desgaste surgir.

Ninguém estava lá embaixo. Ninguém pairando na frente


do vidro.

524
E era muito cedo para a equipe de limpeza entrar. Além
disso, os humanos não podiam levitar sem fios.

Que diabos ele tinha ouvido?

Sob sua pele, algo estava coçando para ele, e ele correu
suas unhas cegas para cima e para baixo nas costas de seus
braços. Uma sensação insuportável de adrenalina inquieta
inundou suas veias, e sem muitas opções, ele caminhou de
volta para o banheiro. Dentro da cuba de mármore preto do
banheiro, ele correu a água e a manteve espirrando no seu
rosto. Quando ele endireitou e virou-se para a toalha de mão
preta, ele olhou através da água pingando em seus olhos para
as cortinas que cobriam a janela alta e estreita. Limpando o
rosto com uma mão, ele usou a outra para torcer o apoio e
abrir a janela.

A vista que foi exposta entre as persianas inclinadas era


dos telhados longos e baixos dos edifícios entre ele e o rio.
Além deles estava aquela água. Aquela água gelada e lenta que
anteriormente havia chamado seu nome, mas que agora era
silenciosa ...

Trez franziu a testa.

525
A quantidade de fumaça flutuando pelo Hudson e
entrelaçando-se em um dos arcos da ponte era suficiente para
obscurecer o outro lado.

Enorme quantidade de fumaça. Muito dele.

O cérebro de Trez não estava funcionando muito bem, a


enxaqueca o entorpecia, aquele sonho horrível e perturbador
que tornava as coisas ainda mais lentas. E foi isso que fez com
que a conclusão em que ele chegasse fosse tão impossível
quanto irracionalmente irracional.

Mas foi apenas ... se ele triangulou a direção da qual o


vento estava levando toda aquela fumaça, e o som das sirenes
que ainda estavam chamando a noite e o brilho ao longe ...
havia apenas um lugar onde o fogo poderia ser.

Não, isso não podia estar certo, ele disse a si mesmo. Não pode
ser a pensão de Therese.

Ok, poderia ser, mas havia dezenas de edifícios, grandes


e pequenos, entre ele e ela. Pode ser qualquer um deles ...

Ela estava lá. Ele podia senti-la.

Porque ela tinha tomado a veia dele, ele sabia exatamente

526
onde ela estava ... e ela estava naquele prédio. Mas ela estava
em um incêndio?

O ritmo cardíaco de Trez triplicou, outra conclusão foi


alcançada com o tipo de certeza que os fatos não sustentavam
e seus instintos não podiam negar. Fechando os olhos, ele se
desmaterializou através de uma costura nos painéis de vidro,
viajando através do ar frio da noite através de muitos, muitos
telhados, passando por muitos, muitos edifícios, voando por
muitas, muitas ruas.

Ele se reformou com o vento gelado no telhado de um


prédio de apartamentos em frente ao incêndio, e o que seus
olhos focaram o deixou sem fôlego. Era o quarto dela. Eram
os três andares do meio. Foi na lateral em que o apartamento
de Therese estava localizado.

E ela estava lá. Porra ... ele podia senti-la.

Por uma fração de segundo, sua mente ficou fora de


controle, seus sentidos exaltados pela urgência e pânico, seu
corpo preparado para atacar, seu sangue correndo. Havia
muito o que avaliar: os dez caminhões de bombeiros que
estavam estacionados ao redor do inferno, os arcos de água

527
sendo treinados por bombeiros humanos para o incêndio, as
ambulâncias chegando, a multidão se reunindo no frio e cuidada
pelos policiais.

Mas ele não podia se dar ao luxo de ser disperso.

Examinando a frente da pensão, ele viu pessoas saindo de


uma saída no nível da rua, do outro lado do prédio. Ela não
estava entre eles, e ele sabia disso sem poder ver rostos ou
corpos claramente.

Não, ele sabia onde ela estava. E a localização dela o


aterrorizou.

Fechando os olhos, ele forçou-se a se acalmar e, em


seguida, desmaterializou-se para frente, entrando no prédio
através do último conjunto de janelas que tinham explodido
no canto esquerdo no terceiro andar. Foi uma coisa
incrivelmente estúpida e perigosa de se fazer, dado que ele
poderia ter se matado se tivesse se formado no meio de uma
cama ou um sofá. Mas ele teve sorte. Ele estava firme no
centro de uma sala de estar rasa com uma porta aberta, o
inquilino tendo claramente escapado do apartamento.

Não que ele pudesse ver muita coisa.

528
A fumaça era tão espessa que ele precisou se abaixar e,
enquanto se dirigia para a porta aberta, pegou o que era uma
camisa de beisebol para cobrir o nariz e a boca. Seu cheiro de
maconha, incorporado nas fibras sintéticas, foi rapidamente
eclipsado pelo cheiro de plástico derretido e metal fumegante,
e, malditamente, estava quente. Ele já estava suando, e tudo
que vestia era sua camisa de seda.

No corredor, ele olhou para os dois lados e viu que tudo


ia para o inferno. A fumaça caía no chão e vinha em ondas,
o calor flutuando para lá e para cá.

Ela estava por perto. Ele podia senti-la. Mas ele não
conseguia ver nada.

Ela estava por perto. Ele podia senti-la. Mas ele não podia
ver nada.

— Therese, —ele gritou.

Se ele podia senti-la, ela tinha que estar viva. Ela só ...
tinha que estar.

A água das mangueiras dos bombeiros batia do lado de


fora do edifício, criando um barulho que era impossível de

529
ouvir, e isso foi antes de você adicionar os alarmes que
estavam disparando por todo esse andar, além dos acima e
abaixo. E o fogo em si era alto, o crepitar e assobiar, o hálito
quente das chamas formando um nível de ruído de fundo que
iria abafar sua voz.

— Therese! —Ele gritou de qualquer maneira. — Therese!

No fundo de sua mente, ele sabia que ninguém poderia


sobreviver neste corredor, não sem equipamento de proteção
e um aparelho de respiração—e mesmo com esse tipo de
equipamento, seria perigoso.

— Therese!

O calor estava por toda parte, embora o fogo ainda


estivesse à sua frente, seu corpo corando, o suor escorrendo
pelo peito, debaixo dos braços, pelas costas. Quando a pele do
rosto se apertou, ele pensou na pira funerária. Do sonho que
o acordou.

Esta foi a sensação que ele teve. Exatamente a sensação


que ele teve.

Enquanto ele seguia em frente, sua mente brincou com

530
ele. Às vezes, o que estava à frente era o fogo na pensão. Às
vezes era do fogo da pira que Selena estava chamando.

De qualquer maneira, ele tinha a estranha sensação de que


estava tentando salvar suas duas fêmeas.

Capítulo 31

Therese já tinha conhecido o calor antes: noites húmidas de


agosto, quando não havia qualquer ar-condicionado ou brisa na
casa de seus pais. Febres de algum vírus ocasional ao qual os
vampiros eram suscetíveis. Lareiras que estavam
entusiasmadas demais, e também as ondas de calor associadas
à sua necessidade.

531
Nada chegou perto disso.

Enquanto estava deitada de bruços no corredor


desgastado do corredor, as mãos em concha ao redor da boca
e nariz, a cabeça enfiada contra as clavículas, a respiração
ofegante e chiada entre os períodos de tosse, ela sentiu como
se estivesse em um forno. Não havia mais suor, mesmo. Isso
parou há um tempo atrás. Ela estava estalando por fora, sua
pele estalando ... seus músculos cozinhando por dentro.

É assim que eu morro? Ela pensou. É isso?

Em Caldwell, em uma pensão de merda, em uma noite fria de


dezembro, em um incêndio?

Determinada a não ter esse destino, o que a separava de


sua família, de sua vida, dos anos futuros que ela sentia que
merecia, Therese voltou a se mexer. Mas o momento não
durou muito e ela não foi longe. Ela estava ficando sem força
e seu pensamento estava ficando confuso ...

— … ese! Therese!

O som de seu nome, repetido várias vezes acima do


temperamento bestial do fogo, fez com que ela levantasse a

532
cabeça. Mas como ela poderia estar ouvindo isso? Quem
estaria aqui por ela? Deve ser uma alucinação, um último
esforço em sua mente para ...

Uma aparição fantasmagórica apareceu diante dela,


mesclando-se da fumaça. Era uma fêmea, com cabelo escuro,
assim como o dela, um rosto ... assim como ela ... e um corpo
... assim como ela.

Esta sou eu. Therese pensou. Isto é o que eu era.

A convicção não fazia absolutamente nenhum sentido,


então ela se concentrou no estranho manto branco, e no fato
de que quem quer que fosse não era afetada pelas chamas e
pela falta de oxigênio. E ela era impossivelmente etérea. A
fêmea estava brilhando positivamente no meio da horrível
fumaça, um anjo direto do Fade.

Não ... não um anjo, pensou Therese. Ela sou eu.

Tão grande foi sua confusão e sua certeza—os dois polos


de cognição existentes no mesmo momento sobre a mesma
coisa—que por um segundo, Therese esqueceu tudo sobre o
calor mortal do fogo.

533
Oh, espere, então ela já deve ter morrido, ela decidiu. Isso deve
ser ela mesma sendo levada para o Outro Lado, sua alma
olhando para o corpo quebrado que teve que desabitar.

No momento em que esse pensamento ocorreu, uma


inundação de lembranças inundou sua mente, todas as
imagens e sons não faziam sentido, mas eram totalmente
familiares: ela viu um mundo todo branco que ficou colorido, a
grama ficou verde, as tulipas ficaram rosa, laranja e amarela,
uma borda de floresta agora verdejante, em vez de vestida com
tons de creme perolado. E havia pessoas no santuário, fêmeas
de vestes brancas, e os machos que eram guerreiros. E havia
templos e galerias de mármore branco, além de tigelas que
mostravam a história na terra abaixo, canetas de pena que
registravam os eventos em pergaminho, e uma biblioteca de
volumes encadernados em couro detalhando narrativas
coletadas e apreciadas como a história da raça.

E havia algo mais. Alguém.

Havia Trez.

Tudo de uma vez, a visão da fêmea à sua frente, a de si


mesma em uma túnica branca daquele outro lugar, foi

534
interrompida, uma enorme figura espalhando a aparição com
seu próprio corpo, sólido e muito real.

Exceto que não poderia ser. Como ele saberia que ela
estava presa aqui?

— Therese! —Ele gritou quando a viu caída no chão do


corredor.

Enquanto o enorme macho em sua frente se agachava, ela


decidiu que esse era seu último pensamento, o espasmo
cognitivo final de sua consciência: na beira de sua morte, ela
tinha conjurado não sua mahmen ou seu pai, não seu irmão ou
qualquer um de seus primos ou amigos, mas ... ele.

De alguma forma, ela não ficou surpresa.

— Oh, Deus, Therese!

Exceto que as coisas ficaram estranhas. Bem, okay, mais


estranho. As mãos que estendiam a mão para tocá-la não
pareciam algo que ela estava imaginando. Pareciam muito
reais, e ela gritou com o contato com a pele queimada.

— Eu sei que isso dói, —disse ele com suavidade, — mas


eu tenho que tirá-la daqui.

535
Enquanto a visão de Trez falava sobre o barulho do fogo,
ela ficou muito impressionada com a alucinação. Foi tão
precisa, a forma como sua voz rachou, a tosse, o fato de que
os nervos de seu corpo ficaram cheios de dor enquanto ele a
arrastava para fora do tapete e a segurava contra seu peito e se
afastou do centro do inferno.

Correndo agora. Ele estava correndo, e foi terrível, o


emaranhado de seus braços e pernas moles fazendo-a chiar em
agonia quando sua pele crua esfregava contra sua camisa, seus
músculos, seus ossos. E havia ainda menos oxigênio enquanto
estavam em pé, do que havia quando ela estava no chão.
Enquanto ela engasgava e amordaçava sua boca com a camisa
dele, ela não fazia ideia de como ele estava respirando através
do esforço. Ou como ele sabia para onde estava indo. A
fumaça estava ofuscante, não que ela pudesse ter rastreado
qualquer coisa, porque a dor estava fazendo-a entrar e sair da
consciência, seus olhos lacrimejando e depois secando ... só
para chorar gradualmente novamente.

E então houve uma pausa. E uma explosão.

Não, espere, ele estava chutando uma porta.

536
Mas não foi para a escadaria. Era para um apartamento,
e ela foi levada para o espaço.

Trez—ou o que parecia ser ele—bateu a porta atrás deles


e foi mais longe no apartamento, todo o caminho até os
fundos, para um banheiro. O ar estava mais claro agora, e ele
puxou a cortina do chuveiro com uma mão e a colocou no
ladrilho.

— Vou colocá-la para baixo agora, —disse ele.

Ele foi cuidadoso quando fez isso, mas ela gemeu de dor
assim que seu corpo foi deslocado, e assim que ela entrou em
contato com o chão duro, um ajuste de tosse saiu dela sem
parar—e tinha certeza de que vomitou. Ela não sabia. Só
estava tentando respirar, mas tudo o que ela fazia parecia
atrair fumaça, mesmo com seus olhos, pouco confiáveis como
estavam, diziam a ela que não havia ninguém na sala
apertada.

Trez se virou. Abriu a janela. Pegou um telefone.

Então ele voltou ao seu lado, inclinando-se sobre ela


enquanto falava com alguém. Tudo o que ela podia fazer era
estudar o rosto dele.

537
Ele era totalmente familiar para ela, ela percebeu em seu
delírio. Mas não apenas porque ela o conhecera no
restaurante. Ou porque ela fez sexo com ele. Ou porque ela
estava pensando nele o dia todo e a noite toda desde o
rompimento.

Era porque ela o conhecia ... de antes.

E essa convicção a fez estudá-lo ainda mais de perto—


embora o que ela viu a apavorou. A fuligem riscava a pele
escura de seu belo rosto, e parte de seu cabelo curto havia
desaparecido, chamuscada pelo calor. A gola de sua camisa
fina de seda era preta, mas não porque o tecido tinha vindo
nessa cor. A fumaça tinha infiltrado nas fibras que eram
brancas, e ela tinha um pensamento de que seus pulmões
estavam iguais, agora entupidos com partículas de fumaça.

E se ele morresse aqui também ...?

Ele estava falando com ela. Com urgência.

Quando ele pegou a mão dela, ela gemeu de dor, e ele


imediatamente parou. No estranho e surreal silêncio entre
eles, ele parecia tão aterrorizado quanto ela, e ela sabia que ele
temia que fosse tarde demais quando se tratava de salvá-la.

538
Assim como ela estava com medo, ela colocara em risco a vida
dele.

Ela queria dizer a ele que o amava. Porque ela o amava.


De uma maneira que ela não conseguia entender, a fumaça
entupida e ofuscante trouxera em suas dobras espessas e
impenetráveis uma clareza que revelava tudo: ela tinha sido
dele em um tempo anterior, e ele era dela, e eles tinham sido
separados pela morte. Depois disso, ela foi colocada na porta
da casa de seus pais e destinada a encontrá-lo aqui, em
Caldwell, algumas décadas depois, neste momento específico
aqui.

Esta foi a reunião que ele reconheceu a princípio e depois


duvidou.

E que ela agora via o que era. Um milagre de Natal.

Desesperada, ela queria lhe contar tudo isso, mas sua


força estava se esgotando rapidamente, como se, agora que
eles estavam em relativa segurança, a carga de adrenalina que
mal a mantinha viva estivesse desaparecendo e levando
consigo a função de seus órgãos vitais. O tempo estava
acabando.

539
Therese pensou em sua mahmen. O irmão dela. O pai dela.

E então ela se concentrou no rosto de Trez.

Com os últimos vestígios de sua energia, ele levantou a


mão. Quando ele entrou na linha de visão dela, sentiu um
horror momentâneo diante da anatomia nua que estava sendo
mostrada. Mas mesmo isso não importava.

Tocando a bochecha de Trez, ele sabia que ela havia


voltado para casa com ele.

— Meu amor ... —ela sussurrou. — Como eu senti sua


falta.

Trez não conseguia ouvir o que Therese estava dizendo

enquanto se inclinava sobre ela. Mas ele queria que ela


continuasse falando. Precisava que ela falasse. Ela tinha sido
terrivelmente ferida, partes inteiras de sua pele ... queimadas.
Partes de suas roupas derreteram sobre ela. Foligem cobrindo-

540
a ao ponto de onde os brancos de seus olhos brilhavam como
se retribuindo em contraste com sua pele manchada de
fumaça. Ele não tinha ideia de como ela havia sobrevivido.

Reflexivamente, ele foi pegar a mão dela novamente e


teve que parar a si mesmo. Isso a machucou demais da
primeira vez.

— Fique comigo, —ele implorou. — A ajuda está


chegando …

Os olhos dela se fixaram nos dele, e a luz atrás deles


formigou a parte de trás do pescoço dele. Então ela sorriu.
Mesmo com a dor, ela sorriu para ele e ela era linda.

— Meu amor ... —ela sussurrou. — Como eu senti sua


falta.

Enquanto ela falava as palavras, um choque frio passou


por ele—e uma visão do rosto de sua shellan sobrepôs a de
Therese, ou talvez fosse mais o fato de que a Escolhida dele
foi revelada através de Therese. Revelada a ser ... a mesma.

— Selena? —Ele engasgou.

— Sim, —ela sussurrou. — Eu não sei como ... mas sim.

541
Sem aviso, os olhos dela tremeram fechados e um som que
era mais animal do que qualquer coisa remotamente civilizada
arrancou de sua garganta. Ele se lançou para frente, como se
pudesse entrar no seu corpo morrendo e arrastar sua alma para
fora da concha queimada.

— Não!

Plantando as palmas de cada lado dela, ele estava


gritando, balbuciando, chorando. Ele tinha feito isso uma
vez—ele já tinha feito isso! Ele não estava perdendo-a
novamente ...

Alguém tocou no ombro dele, e ele desnudou as presas e


virou-se para o lado, quase mordendo-a no pulso.

Doc Jane, em vez de recuar, agarrou a frente de sua


garganta com um aperto forte. — Sou eu! Trez! Eu estou aqui!

Ele piscou, agressão e agonia lutando pelo controle,


enquanto seu cérebro defeituoso tentava puxar algum tipo de
coisa racional para fora do absurdo, que acabou de acontecer.
Isso estava acontecendo.

542
Oh, Deus ... Era possível que elas fossem as mesmas
pessoas, afinal? Mas como?

Ou ele estava apenas voltando ao trem do qual havia


descido, aquele que tinha machucado uma fêmea que ele ...
amava?

— Afaste-se, —ordenou Doc Jane. — Se você quer que


ela tenha chance de sobreviver, você precisa recuar agora.

Quando ele não se mexeu—porque ele não podia—a


médica da Irmandade colocou a mão para fora atrás dela, e
surtou:

— E você fica aí. Não preciso de ajuda. Eu tenho isso.

Trez moveu os olhos para cima e acima. Vishous,


companheiro de Jane, estava de pé ao seu lado, seus olhos de
diamante brilhando na vontade de matar de um macho
acasalado, seu enorme corpo pronto para atacar, suas presas
também desnudas. Era o que você conseguia quando tentava
morder a shellan de alguém.

— Eu vou te matar e nem me importo, —disse o Irmão.

— Vishous! Para trás …

543
Trez se afastou de Therese, levantando as palmas das
mãos como se alguém estivesse apontando uma arma
carregada para ele. — Sinto muito, apenas ajude ela! Por
favor! Não posso perdê-la de novo …

Sua voz falhou, e então ele estava entrando em colapso,


seu corpo se recusando a suportar seu peso, o que restava dele
jogando para o lado e batendo no chão duro. Mesmo quando
ele caiu, seus olhos não deixaram sua fêmea e ele teve que
deslizar seu rosto com a mão para tentar limpar sua visão.

— Apenas salve-a … —ele continuou dizendo, uma e


outra vez.

E ele não estava falando apenas sobre Selena. Era sobre


quem Therese também era. Eram as duas, uma vida única que
havia sido vivida em duas partes, em duas épocas diferentes,
mas com um amor verdadeiro.

Esta foi a solução para a equação. Desde que ela vivesse.

Graças a porra, Doc Jane estava nela. Ela tinha vindo


com uma mochila amarrada nos ombros e um tanque de
oxigênio montado em seu peito, e ela se moveu rápido,
colocando uma máscara em sua shellan e verificando um pulso

544
no pescoço. Então ela estava injetando coisas em um braço—
não, um IV. Ela estava fazendo um IV e depois injetando
coisas.

— Venha aqui, —alguém disse a ele. V. Foi V.

Trez sentiu sua posição se mover, seu torso levantado do


chão e deitado no colo de alguém. E então algo passou por seu
rosto. Ele tentou afastá-lo, mas suas mãos foram batidas sem
cerimônia.

— É oxigênio, —disse V com voz seca. — Seu pulmão


está chiando.

Ele estava?

— Eu preciso que você respire lenta e firmemente para


mim.

Trez fez o que lhe foi dito porque era mais fácil do que
discutir. Tudo o que ele realmente se importava era tentar
acompanhar o que Doc Jane estava fazendo—e o fato de que
ela ainda estava se movendo rápido era a boa e uma má
notícia. Isso significava que sua shellan ainda estava viva, mas
também significava que os ferimentos eram graves. Como se

545
ele já não soubesse disso? Querido Deus, a pele de sua fêmea
havia sido devastada pelo fogo.

Quando ele começou a tossir, quase vomitou.

Doc Jane colocou um telefone celular na orelha.

— Onde você está? Certo. ETA ? Entendi. Sim, vamos


ter que movê-la.

O corpo de Trez inflado com força. Empurrando-se para


fora do colo de V, ele empurrou a máscara de oxigênio para
sua testa. — Eu vou carregá-la. Ninguém mais.

Doc Jane terminou sua ligação e abriu a boca, sem dúvida


para discutir o inferno com ele.

— É assim que as coisas serão, —disse ele severamente.

— Não, se você quiser que ela viva, —Doc Jane abriu a


mochila de novo e ficou de pé, o tubo fino e claro correndo
entre o tanque de oxigênio e a máscara de Therese,
aterrorizante porque parecia tão frágil para seu objetivo

ETA (Estimated Time of Arrival) é uma expressão usada frequentemente em meios de transporte dos Estados Unidos,
para estimar quanto tempo falta para chegada ao seu destino. O tempo estimado de chegada é calculado com base na
estimativa de chegada direta ao destino com base na distância e velocidade.

546
crítico.

— Você segura a máscara de oxigênio no lugar e a bolsa


intravenosa. Isso é tão importante quanto o corpo dela. V,
você terá que levá-la. Não dei morfina a ela, mas não posso
correr o risco de diminuir ainda mais a respiração dela.

Quando ele abriu a boca para discutir, Doc Jane balançou


a cabeça bruscamente. — Vamos fazer isso rápido, senhores,
para que eu possa estabilizá-la adequadamente na unidade
móvel.

Trez pensou em desconsiderar tudo, mas algo naqueles


olhos verdes da floresta atravessou sua possessividade. Doc
Jane não estava dando a ele uma escolha, e não porque ela
estava brincando ou não entendia como os machos estavam
vinculados a suas companheiras. Era porque ela entendia tudo
o que importava clinicamente.

O rosto de V invadiu a linha de visão de Trez novamente.

— Eu vou levá-la para baixo em segurança. Você pode


confiar em mim.

Trez assentiu entorpecido. — Ok. Vamos fazer isso.

547
Ela lhe deu o tanque de oxigênio e um saco intravenoso
plástico, cheio de Deus, só sabia o quê.

— Coloque essa máscara de volta em si mesmo, —disse


V. — O tanque está na minha mochila, então precisamos ficar
perto.

— Eu a amo, —explicou Trez. — Mesmo que não faça


sentido.

V era conhecido por empatia no mesmo grau que se


esperaria de uma espingarda carregada. No entanto, a tristeza
e o arrependimento que transformaram seu rosto duro não
eram tanto um testemunho de uma transformação de caráter,
mas a situação de vida ou morte em que estavam.

— Eu entendi, okay? —Vishous disse suavemente. — E


você e eu vamos tirá-la daqui juntos.

Trez assentiu e ficou de pé. Ou ... tentou. O fato de ele ter


se balançado e ter que estender a mão para a parede era uma
boa indicação de que Doc Jane fizera as atribuições certas.
Para ajudar a si mesmo, ele recolocou o suprimento de
oxigênio no lugar e tomou o máximo que pôde do ar com
cheiro de plástico à força para dentro.

548
Quando V se abaixou e juntou os braços e pernas de
Therese, ela se mexeu. Mas quando ele a levantou do chão,
ela gritou de dor sob a máscara, os olhos abertos, as mãos
agarrando, as pernas chutando.

— Temos que ser rápidos, —disse V urgentemente. —


Merda!

— Eu estou bem aqui! —Trez reposicionou a máscara em


seu rosto, certificando-se de que o lacre estava apertado em
torno de seus lábios e nariz. — Estamos fazendo isso para
ajudar!

— Descendo a escada. É para a esquerda, —ordenou Doc


Jane enquanto se moviam em grupo para fora do banheiro.

— Fique conosco, —Trez gritou através de sua própria


máscara. — Estamos quase lá!

Besteira, que eles estavam quase lá. Eles tinham


incontáveis degraus, humanos mortos no caminho, e Deus,
era melhor que unidade de cirurgia móvel de Manny estivesse
onde ele disse que estaria. Onde quer que isso fosse.

— Não muito tempo! —Trez disse em voz alta.

549
Quando Doc Jane abriu a porta externa e eles reentraram
no corredor esfumaçado e quente, ele ficou o mais perto que
pôde contra Therese e continuou falando, por todo o bem que
estava fazendo. Seus olhos tinham rolado para trás em sua
cabeça, e ele se preocupou que o choque da realocação estava
matando-a.

— Estou atrás de você, —disse ele enquanto V corria com


sua preciosa carga, virando de lado através dos corredores
para caber a cabeça e as pernas de Therese.

Esquerda, Trez pensou. Eles tiveram que ir para a


esquerda.

Mais rápido, agora, através da fumaça, cujo nível subia


quando deixavam o fogo para trás, agora no peito. Agora
acima de seus ombros. Melhor visibilidade e menos calor—e
então eles estavam passando sob a placa de SAÍDA e entrando
nas escadas. Em meio aos alarmes e luzes piscando, havia
retardatários descendo, alguns com sacolas nos braços, outros
com TVs que haviam roubado ou estavam protegendo contra
roubo ou danos causados pela água. Quando o grupo de
Therese se juntou à corrida, Trez lutou para manter as pernas
em movimento. Ele não conseguia sentir nada no corpo, a

550
cabeça tonta mesmo com o oxigênio suplementar.

Ele ia desmaiar. Porra, ele ia desmaiar.

— Fique comigo, —ele repetiu. — Fique comigo ...

Ele não sabia se estava falando com Therese.

Ou com ele mesmo.

Capítulo 32

Trez não conseguiu.


Quando ele tropeçou em um degrau, e seus joelhos não
conseguiram sustentá-lo, ele se virou e estendeu a bolsa de IV
e oxigênio para Doc Jane.

551
— Pare, —ela gritou para seu hellren.

V congelou no lugar quando ela pegou tudo o que Trez


jogou para ela.

Tossindo, ele arrancou a máscara de oxigênio e piscou


contra as luzes piscando.

— Vai! Foda-se! Leve-a e vá embora!

— Estou enviando ajuda! —Doc Jane disse quando ela


virou o companheiro e removeu o tanque que alimentava a
máscara de Trez. — Estou enviando ajuda!

Quando ela deixou cair a coisa para ele, Trez se afastou


do caminho.

— Vai!

Foi um alívio vê-los continuar descendo, a cabeça


relaxada de Therese ricocheteando no cerne do cotovelo de V
enquanto o Irmão descia as escadas correndo.

Colocando sua máscara de volta no lugar, Trez não


conseguia colocar oxigênio em seus pulmões. Enquanto sua
visão vacilava, dois outros humanos—ambos homens—
desceram, com os braços carregados de eletrônicos. Eles não

552
pouparam-lhe um olhar, e ele tinha a preocupação de que eles
iriam alcançar Therese. Embora o que fariam com ela, ele não
sabia. Como se estivessem indo atrás de tanques de oxigênio?

Ele queria se mover. Ele desejava poder se mover. Ele


tentou se mover.

Mas seu corpo cedeu, a ponto de até o coração estar


diminuindo a velocidade. Foi o choque? Ele não sabia ...

Boom Boom Boom ...

Passos estrondosos. Subindo a escada. Vindo até ele.

E lá estava ele.

Tohrment, filho de Hharm. O líder sensato da Irmandade.


Aquele que cuidava de todos os outros.

Quem mais poderia ter sido? Trez se perguntou mudamente.

O Irmão estava vestido para a guerra, coberto de couro


com armas escondidas, mas nunca fora de alcance. E não
havia palavras desperdiçadas, sem saudações, quando Tohr
pegou Trez como se ele não pesasse nada além de uma
torradeira.

553
— Ela está viva, —disse Trez. Ou tentou. Ele não sabia o
que saiu da boca dele.

— Segure o tanque, —disse o Irmão.

Trez fez o melhor que pôde com isso, mas ele não parecia
fazer seus braços funcionarem direito. Penduravam como
cordas em seu torso, inúteis, inanimadas. E sua respiração
piorou quando eles desceram às escadas. Como as palavras
que ele tentara falar, nada estava funcionando bem em sua
garganta, a entrada e a saída estavam congestionadas.

No andar inferior, Tohr chutou uma porta de aço, e o frio


foi um choque, não um alívio, o ar gelado ardendo no rosto
de Trez. Quando uma grave tosse roubou sua respiração e sua
visão, pelo menos os braços de Tohr permaneceram fortes, e
as botas do Irmão fizeram um trabalho rápido sobre a neve
suja. A unidade cirúrgica móvel chegou até eles—ou pelo
menos parecia assim. Trez não sabia. Tudo o que sabia era
que de repente ele foi jogado na traseira do trailer, e Manny
Manello o pegou. Como ele estava esticado no chão de metal,
ele teve uma breve impressão de Therese na mesa de
tratamento, toda a pele com bolhas e queimada com pessoas
médicas ao seu redor, mas então havia muitas coisas dentro e

554
em seu rosto para ele ver qualquer coisa.

Abaixo de sua garganta.

Ar. Sendo ativamente forçado em seus pulmões.

Houve uma picada na parte de trás da sua mão. Um IV.

Em confusão, ele olhou para cima e viu Ehlena.

— Eu estou realmente tão ruim? —Perguntou ele.

A shellan de Rehv não parou para responder. Ou talvez ele


tenha feito outro de seus não-realmente-feitos com as palavras.
De qualquer maneira, ela estava lhe dando uma dose de
alguma coisa e, abruptamente, sua cabeça ficou um pouco
mais clara. Foi um falso reconhecimento, porém, de curta
duração e insubstancial.

Quando ele começou a perder a consciência, ele forçou


seus olhos a se concentrar em Therese.

Quando ele olhou para o rosto dela de volta naquele fogo,


ele sabia o que tinha visto: uma alma atravessando a divisão da
morte, retornando a ele. E não apenas porque ela se parecia
com a que ele havia perdido.

555
Porque ela era Selena. E Therese. Ao mesmo tempo. De
alguma forma, Xhex sabia disso. De alguma forma, ele tinha
sentido isso o tempo todo.

E mais do que isso, seu amor lhe pediu ajuda. Das


profundezas de sua enxaqueca, e do estranho sono que ele
muitas vezes tinha com essas dores de cabeça, ela tinha
chegado até ele naquela visão que era de outro reino,
implorando a ele que ela precisava ser salva.

— Ela está tendo uma parada cardíaca! —Jane gritou. —


V, coloque essas pás nela.

Oh, Deus, ele tinha chegado tarde demais, pensou com


desespero enquanto perdia o controle da atual catástrofe e
afundava profundamente em um abismo que não dava trégua
a seus medos ou tristezas.

Buraco.

556
Buraco, batida, batida ... Buraco. Em seguida, suave.
Perfeitamente suave. E, finalmente, houve um declínio
repentino, a unidade móvel inclinando-se para a frente em
suas rodas dianteiras …

Trez ofegou e empurrou na posição vertical. Desorientado


e em pânico, ele se debateu com as coisas em seu rosto ...

Tohr capturou suas mãos, o profundo dos olhos azuis do


Irmão nele.

— Não, deixe isso ligado. Você precisa dele.

Quando Trez olhou para a mesa de tratamento em pânico,


Tohr colocou seu rosto no caminho.

— Ela ainda está conosco. Eles estão apenas trabalhando


nela.

Trez tentou se levantar do chão da unidade cirúrgica


móvel, pensando que poderia ajudar—apesar do fato de que
ele não tinha treinamento médico e estava totalmente
comprometido fisicamente. Felizmente, Tohr gentilmente,
mas firmemente manteve-o onde ele estava.

— Você não quer ficar no caminho. —O Irmão balançou

557
a cabeça. — Você quer ficar aqui. E assim que pararmos,
preciso tirá-lo rápido. Okay? Vai se mover muito rápido assim
que pararmos. Nós nos entendemos?

Trez começou a hiperventilar. Mas ele acenou com a


cabeça.

E aconteceu exatamente como o Irmão disse. A descida


terminou, a unidade móvel parou, e as portas foram abertas.
Ansioso para ser mais do que um objeto inanimado, Trez
tentou arrastar-se pelas costas, mas Tohr foi quem realmente
o moveu, o Irmão o pegando e tirando-o da frente enquanto
Zsadist e Qhuinn traziam uma maca para o RV .

Com Tohr mirando a entrada do centro de treinamento,


Trez queria ver se Therese estava bem—ele sabia a resposta
para essa pergunta, no entanto, ele não—se eles estavam
tirando ela do ...

Seu cérebro não fazia sentido, seus pensamentos como


moedas de um centavo derramavam-se sobre um piso de

Veículo recreativo é o termo comumente utilizado para definir todos os veículos


equipados com espaço de convivência e amenidades encontradas em uma residência. Um veículo do gênero normalmente
inclui cozinha, banheiro e acomodações de repouso. Nesse foi acondicionada como uma ambulância.

558
madeira, girando todos os dias antes de cair em desordem
aleatória. E então a próxima coisa que ele soube foi que ele
estava em uma sala de exames, em uma mesa. Determinado a
seguir o programa, ele levantou a mão para remover
razoavelmente a máscara para que ele pudesse se comunicar
melhor.

Ele não reconheceu o antebraço ou aquilo que estava


anexado a ele. Tudo estava enegrecido pela fumaça, e ele tinha
algumas queimaduras, embora quando isso aconteceu, ele não
tivesse idéia. Olhando para cima, como se Tohr, que não
estava com ele, pudesse explicar alguma coisa, ele encontrou
o Irmão tirando a jaqueta de couro com as mãos trêmulas.

Tohr era calmo. Não como a merda toda fulminando, mas


ele estava pálido e não eram apenas suas extremidades que
tremiam. Seu corpo inteiro estava vibrando, um telefone em
silêncioso esperando para ser atendido.

Enquanto Trez lançava sua máscara, ele percebeu que


estava ligado ao Irmão por tubos finos, ele com o aparelho
respiratório, Tohr com o tanque.

— Isso deveria estar com Therese, —disse Trez com uma

559
voz áspera.

— Não, eles têm ela em um tanque grande agora.

— Ela é a minha shellan, e eu preciso começar alimentá-la


se elaprecisardeajuda …

— Shh. —Tohr colocou as palmas das mãos para fora. —


Vai ficar tudo bem. Coloque a máscara de volta até que
alguém possa verificar você.

Mesmo que Trez fosse como uma garrafa de refrigerante


com a tampa rachada, todos os tipos de palavras correndo
para sair pelo selo pequeno demais de sua boca, ele
reconheceu que se ele queria ser levado a sério, precisava se
recompor.

— Ela precisa se alimentar, —disse ele em um tom mais


uniforme. — E eu não quero que mais ninguém faça isso.

— Eles estão trabalhando nela.

— Então ela ainda não está morta e precisa de mim, —


Trez agarrou o braço do irmão. — Se isso fosse com a sua
shellan, que você poderia ajudar com sua veia, você gostaria de
ficar preso aqui?

560
O Irmão empalideceu.

— Você não está bem.

— Talvez. Mas você pode concordar por um segundo que


ela está muito pior?

Houve algumas maldições do lado do Irmão, baixas e


desagradáveis.

— Fique aqui.

Tohr colocou o tanque de oxigênio no chão ao lado da


mesa de exame e Trez voltou a respirar através da máscara,
não porque ele estava preocupado consigo mesmo, mas
porque ele estava antecipando a necessidade de dar a Selena o
melhor sangue que podia.

Quando o Irmão não voltou imediatamente, Trez ficou


ansioso. E depois aterrorizado. Ele imaginou a equipe médica
fazendo compressões torácicas e gritando demandas por mais
remédios no corpo sem vida de Therese ...

Antes de perceber que estava se movendo, seu corpo


deslizou da mesa e ficou de pé por conta própria—e como algo
não parecia certo, ele olhou para baixo. Ele perdeu um de seus

561
sapatos. Quem sabia quando ou onde?

Mancando até a porta, ele abriu e olhou para fora.

À esquerda, Tohr estava discutindo com alguém. Vishous. E


suas vozes eram baixas e intensas.

— Ele está meio morto, —sibilou V.

— O que vai doer? Ele provavelmente acha que é Selena.


Todo mundo diz que elas são parecidas …

Os dois pararam de falar e encararam Trez.

— Vamos lá, —Tohr disse. — Vou levá-lo pra dentro …

V vomitou uma bomba-F e foi pegar seu tabaco turco, o


resto de suas maldições ficando principalmente na sua
respiração.

Mas Tohr estendeu a mão, e Trez foi para o Irmão. Ligando


a palma da mão ao do outro macho, como se ele fosse uma
criança, como se precisasse de orientação—porque ele
precisava—Trez se deixou arrastar para a sala de tratamento ao
lado.

Era a mesma.

562
A mesma em que Selena havia morrido antes.

Sobre a mesa, sob o lustre médico, Therese estava deitada


sob um lençol. Tubos estavam entrando e saindo dela, fluidos
bombeados, fluidos bombeados, e havia uma série de máquinas
de monitoramento em sua cabeça. Dr. Manello e Doc Jane
estavam falando baixinho e rapidamente aos seus pés. Ehlena
estava pronta com um carrinho de parada .

Doc Jane olhou para cima.

— O que ele está fazendo aqui?

Therese gemeu sobre a mesa, e o Dr. Manello disse: — Os


batimentos cardíacos estão ficando mais fortes. Normalização
da pressão arterial.

Doc Jane olhou para sua paciente. Olhou de volta para


Trez.

— Chegue mais perto.

O carrinho de emergência (CE) ou carrinho de parada (desfibrilador) O equipamento é uma estrutura móvel
que tem como função descarregar cargas elétricas na parede torácica (se for externo) ou nas fibras musculares do coração
(se interno) de um paciente que se encontra em quadro de arritmia cardíaca. Seu objetivo é reverter este quadro em tempo
hábil, de maneira que não haja perda ou danos em funções cardíacas e cerebrais.

563
Trez mancou, e Therese virou o rosto para ele, mesmo que
seus olhos permanecessem fechados.

— Estou aqui, —disse ele.

— Frequência cardíaca estabilizando. A pressão sanguínea


continua a melhorar.

— Pegue uma cadeira para ele, —Doc Jane latiu. — Antes


que ele caia.

Quando algo bateu na parte de trás de suas pernas, Trez se


deixou despencar. Ele queria pegar a mão de sua fêmea, mas
lembrou-se de quando elas estavam no corredor, no fogo. Isso a
machucou.

— Tome de mim, —disse ele urgentemente. Trazendo o


pulso para cima, ele abriu sua própria veia com suas presas. —
Tome minha força.

Enquanto segurava as perfurações sobre sua boca, o Dr.


Manello disse algo bruscamente, como se ele não aprovasse.
Mas então uma gota de sangue caiu sobre a boca de Therese e
ela gemeu. Depois disso, seus lábios se separaram e sua cabeça
se ergueu ligeiramente.

564
Trez colocou o pulso para baixo. — Tome de mim, minha
rainha. E volte.

Ele temia que ela não fosse capaz de fazê-lo, mas então
ela se agarrou e tirou dele, mesmo em seu estado
comprometido. E enquanto ele observava seu pescoço
trabalhar enquanto ela engolia, seus olhos lacrimejaram. Ele
já tinha estado aqui antes com ela. Ele tinha feito isso antes, e
ele tinha perdido ela.

Mas não desta vez.

Desta vez ... ele tinha vencido a luta.

Therese sobreviveria, e eles ficariam juntos, e ele aceitaria


a verdade complexa de que tudo era como deveria ser, mesmo
que desafiasse a lógica e a explicação.

Mas isso era o que era o verdadeiro amor, não era? Contra
todas as possibilidades e probabilidades, duas almas poderiam
realmente encontrar uma à outra no loup do tempo e da
humanidade, e criar uma trilha para caminhar nele, de mãos
dadas, para sempre.

Isso o fez pensar em um velho provérbio:

565
“Bem-aventurados os que acreditam em tudo o
que dois corações alinhados alcançam. Porque uma
vez unidos, não importa onde o inverno os encontre,
eles sempre estarão quentes.”

Capítulo 33

Fêmea: Seus sinais vitais estão estáveis.

Macho: E a dor?

Fêmea: Ainda estou preocupada com sua respiração. Ela está


muito perto da borda.

As vozes indo-e-vindo estavam por perto, mas por trás dos


olhos fechados de Therese, ela não conseguia localizá-los

566
exatamente. Eles estavam na frente dela? Ao lado? Atrás? E o
que era esse beep? Havia um beep incessante.

Algum tipo de medo, transitório, mas persistente, a


dominou, mas como nas vozes, ela não podia indicar sua fonte.
Ela só sabia de sua existência. E o que eles estavam dizendo
sobre dor? Ela não sentia nada. Eles estavam falando de outra
pessoa?

Não, espera. Ela sentiu alguma coisa. Quando ela engoliu,


sua garganta estava dolorida.

E ela podia provar. Querido Senhor, ela poderia provar ...


havia o sabor do vinho escuro mais incrível em sua boca, e na
parte de trás de sua garganta, e profundamente dentro de seu
estômago. Era uma fonte de calor, de força, como uma lareira
alimentada com muita madeira ...

Os olhos de Therese se abriram e, quando ela ofegou, três


cabeças se inclinaram sobre ela. Um macho e uma fêmea que
ela não reconhecia—as vozes, provavelmente? Porque eles
estavam em trajes médicos—e então ...

— Trez, —ela resmungou.

567
Enquanto levantava a mão, o macho que ela queria ver
acima de tudo capturou sua palma no mais gentil dos toques.

— Estou bem aqui, —disse ele asperamente. — Estou bem


aqui com você.

Sim, ela pensou. Ele sempre esteve com ela. Mesmo assim
... bem, ele não parecia tão sexy. Seu rosto era de um vermelho
não natural, e ele tinha uma sobrancelha chamuscada, e uma
parte do cabelo estava faltando …

Algo estava pegando fogo, ela pensou. Ela podia sentir o cheiro
da fumaça.

Therese abriu a boca para dizer algo, mas abruptamente ela


se distraiu com as ataduras que corriam por seus antebraços.
Levantando a cabeça, ela olhou para o corpo. Ela foi atada com
faixas brancas da clavícula ao tornozelo.

Foi quando a dor registrou. Exceto como era possível que


cada centímetro quadrado de seu corpo doesse? E também
havia calor, não como o motor sustentador sensual da vida em
sua barriga, mas como um ardor ...

Fogo. Ela tinha estado em um incêndio. Na casa dela, na

568
pensão.

Assim como a sensação em seu corpo, a memória voltou


rapidamente, quase a deixando inconsciente, tão grande foi a
enxurrada de imagens, sons e cheiros. Ela se lembrou de tudo,
desde o cheiro de algo queimando pouco antes da explosão, até
as explosões, até as chamas e a fumaça ao longo do corredor.
Ela lembrou de tentar apagar o fogo naquela mulher com a capa
do sofá, em seguida, algo balançando para baixo sobre ela do
teto. Em seguida, o rastejamento no corredor imundo e ela
tentando chegar em segurança. Ela se lembrou de ir o mais
longe que pôde para se afastar do calor, mas não tinha sido
rápida o suficiente. Longe o suficiente.

A pele dela tinha queimado. Por todo o corpo dela.

Foi por isso que ela foi enfaixada.

E ela estava aqui neste hospital porque Trez a tinha tirado


de lá.

Therese procurou seu rosto, enquanto, a distância, os


alarmes soavam. Ainda assim, ela encontrou seus brilhantes
olhos negros.

569
— Obrigada, —ela disse. — Por me salvar.

Os médicos estavam falando rápido de novo, mas ela não


conseguia se concentrar no que eles estavam dizendo. Tudo o
que ela podia fazer era falar o que precisava para Trez. Com seu
nível de dor disparando tão alto quanto era, as sensações que
ricocheteavam em seu corpo, em seu crânio, eram tão
dominantes que ela sentiu como se estivesse gritando através de
um muro de concreto.

Mas ela tinha que deixá-lo saber.

— Minha rainha … —ele sussurrou. — Eu nunca teria


deixado você lá.

Estranho, mas parecia completamente normal ele dizer


uma coisa dessas. Minha rainha ...

Foi quando a outra metade de tudo veio a ela. A fêmea de


túnica branca emergindo da fumaça, procurando-a ... porque
era ela, de uma forma diferente, em uma vida diferente.

Abruptamente, sobre o ombro do seu Sombra, Therese viu


alguém parado no canto do quarto do hospital. No começo, ela
não tinha certeza do que estava olhando, mas então ... era ela

570
mesma. Novamente. Assim como no corredor em chamas.

Ela estava olhando para si mesma olhando para si mesma.

Enquanto Therese sorria, a fêmea—a outra versão dela—


sorria de volta.

Tudo vai ficar bem, a visão disse. Tudo está como deveria ser.

— Isso deve ajudar a dor, —disse alguém.

Therese olhou para a pessoa que falou. Assim que ela ia


perguntar o que eles haviam lhe dado, um resfriado entrou em
seu corpo, correndo através de suas veias, acalmando o disparo
raivoso de tantos nervos.

Estremecendo de alívio, ela foi capaz de se concentrar


melhor em Trez.

— Como você sabia que eu precisava de você? —Ela


respirou.

— Porque você me disse.

Therese olhou para trás para o fantasma de si mesma, ainda


pairando no canto.

— Sim, —ela sussurrou, — eu devo ter dito.

571
O fantasma dela levantou a mão e acenou ... antes de se
dissipar lentamente, como se seu trabalho estivesse feito. E
então onde ela estava de pé, outra pessoa tomou seu lugar,
como um bastão existencial tivesse sido passado e apenas um
poderia habitar o espaço. Ele era um anjo. Um anjo com asas
brilhantes, cabelos loiros e pretos, e anéis dourados em torno de
sua garganta e seus pulsos.

Parte dela queria descartar tudo isso como produto de


algumas drogas realmente boas. Mas ela sabia que isso era real.
De que outra forma um milagre como esse poderia ser
explicado? Sim, era tudo como deveria ser. Ela se foi por um tempo,
mas agora ela estava de volta onde precisava estar, com Trez.

O anjo sorriu para ela. Ela sorriu de volta para ele.

— Você pode vê-lo? —Ela sussurrou para Trez. — O anjo


...?

— Shh, não fale. Salve sua força.

Engraçado, foi o que ela tinha dito a sua mahmen.

Refocando-se em Trez, ela estudou seu rosto. — Eu sou


aquela que você perdeu. Não sei como isso é possível, mas eu

572
te perdi e agora voltei. E eu te amo.

Abruptamente, houve silêncio total ao seu redor—e não


porque ela tinha morrido. Toda a equipe médica, e as outras
pessoas na sala, congelaram onde estavam e olharam para ela,
e Trez.

— O fogo, —disse ela. — Eu me vi no fogo com uma


túnica branca. E então lá estava você.

— Eu também te vi no fogo, —ele explicou. — Você veio


até mim da pira funerária. Você ... —Com um empurrão de
cabeça, Trez olhou para o anjo. Então todos olharam para o
anjo.

Como se ele estivesse esperando pela atenção do grupo,


uma iluminação benéfica emanou do corpo do mensageiro
celestial, a grande, quente e curativa luz, envolvendo todos
eles. Então o anjo começou a rir.

— Caramba, deu certo! —Disse ele, batendo palmas e, em


seguida, boom, batendo em seus quadris. — Este é o meu
primeiro milagre, e eu arrasei a porcaria fora com isso! High
fives todos para mim. —Ele bateu no ar com as palmas das
mãos acima da cabeça. — Quero dizer, eu não tinha certeza

573
se isso iria funcionar. Depois que Selena morreu, entreguei sua
alma à casa dessas pessoas legais em Michigan. Eu a deixei na
porta em um berço—quero dizer, vamos lá, quem não ama
uma criança em uma cesta na porta no Natal? —Ele parou
como se estivesse admirando uma obra de arte. — E então,
depois de alguma dificuldade—porque, vamos lá, mesmo no
meu mundo, tinha que ter um pouco de equilíbrio—tudo deu
certo! É perfeito! Quero dizer, sério—impressionei até a mim
mesmo.

Andando até Trez, ele estendeu a palma da mão e Trez


lentamente levantou a sua. O anjo fez a palmas se baterem, e
então ele cuidadosamente fez o mesmo com Therese.

— High fives, —ele sussurrou para ela.

Então ele recuou. — Agora. Eu tenho que ir porque


Esqueceram de mim está prestes a começar. É uma maratona
de oito horas, mas se você perder a cena da pizza no começo,
não conseguirá realmente entender a motivação de Kevin.

Home Alone (Bra: Esqueceram de Mim) é um filme de comédia de Natal estadunidense


de 1990, escrito e produzido por John Hughes e dirigido por Chris Columbus. O filme é estrelado por Macaulay Culkin como
Kevin McCallister, um menino de 8 anos que é erroneamente deixado para trás quando sua família voa para Paris para suas
férias de Natal. Kevin inicialmente aprecia estar sozinho em casa, mas logo tem que lidar com dois ladrões, interpretados por
Joe Pesci e Daniel Stern. O filme também apresenta John Heard e Catherine O'Hara como os pais de Kevin.

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Além disso, olá, Fuller molha a cama, então você entende por
que Kevin tem que ir para o sótão …

O anjo parou e olhou em volta de todos os rostos


perplexos.

— Vocês estão acompanhando? —Quando não houve


resposta coletiva, ele mirou todos eles. — Tudo bem, eu sei
que você estão extasiados com a minha grandeza. Eu entendo.
Acontece o tempo todo. De qualquer forma, vocês conversam
entre si, mas ela vai ficar bem e ele vai ficar bem, e Feliz porra
de Natal. Apenas me chamem de Lassi-Noel! —Virando-se,
ele fez como se fosse atravessar a parede para desaparecer,
mas depois ele se virou e levantou o dedo indicador. —
Siiiiiiiim, então uma coisa. Receio que tenhamos que esquecer
essa pequena revelação dos bastidores agora, está bem? As
regras dizem que eu tenho que arrumar depois por mim
mesmo, para que nenhum de vocês possa saber tecnicamente
sobre os detalhes. Eu só vou deixar lá que vocês estão tão
gratos, vocês não podem se conter, e ouça—claro, se vocês
sentirem a necessidade de me comprar presentes realmente
caros e deixar debaixo da árvore? Não lutem contra isso. Eu
gosto de estampas de animais, a cor rosa—eu uso tamanho 44

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de calças e você pode esquecer as camisas porque eu não as
uso.

Abruptamente, ele ficou sério quando olhou para Trez e


Therese. Então ele sorriu, melancolicamente.

— Sou um otário pelo amor verdadeiro, o que posso dizer.


Eu só desejaria que eu pudesse resolver os problemas de todos
assim.

Com uma piscadela atraente e sexy, ele abruptamente


desapareceu ...

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Epílogo

Véspera de Ano Novo, duas semanas depois.

No andar de cima, na pequena casa de Cape Cod, Therese


saiu do chuveiro—e parou. No balcão, junto da pasta de dente
que ela compartilhava com Trez, havia um pequeno presente
embrulhado. Não era nada grande em termos de tamanho—o
que significava que tinha que ser uma joia.

Ela imediatamente olhou para a porta aberta.

— Eu pensei que tínhamos concordado, —ela gritou. —


Sem presentes!

Quando ela não conseguiu uma resposta, ela revirou os


olhos e sorriu. Enrolando uma toalha em volta de si mesma,
ela pegou a caixinha com seu laço. Havia uma etiqueta que

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dizia: "Abra-me agora." Rindo, ela segurou o presente em seu
coração. Respirou fundo. E contou suas bênçãos.

Após o incêndio na pensão, graças ao sangue de Trez e ao


excelente atendimento médico da Irmandade, ela voltou à
saúde em uma semana. O que, mesmo sendo totalmente
alimentada por seu companheiro, e tendo as incríveis
capacidades de cura de um vampiro, tinha sido mais rápido
do que se poderia esperar, dada a gravidade de seus
ferimentos.

Eles foram tão extensos. E a recuperação foi muito


dolorosa.

Além disso, se não fosse o fato de os vampiros se curarem


sem cicatrizes, desde que não estivessem expostos ao sal, ela
teria sido permanentemente desfigurada.

Então, sim, foram os sete dias mais longos de sua vida, e


ela ainda estava em fisioterapia, mas, meu Deus, poderia ter
sido muito pior.

E Trez, juntamente com seu pai e seu irmão—e sua


mahmen em espírito por causa de sua própria estadia no
hospital—estiveram lá o tempo todo. Ou melhor, Rosen e

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Gareth tinham ido e voltado entre as duas clínicas,
transportados por Fritz, o Mordomo Perfeito, como ela tinha
descoberto que ele era. E ela e sua mahmen tinham feito muitos
FaceTime .

Depois disso, ela voltou para esta maravilhosa casinha.


Para seu companheiro.

Ela olhou para a caixinha e se maravilhou com o destino.

Durante o incêndio, algo havia acontecido, algo que a


havia mudado internamente—e sua nova perspectiva não era
apenas o resultado de sua apreciação da vida muito mais
depois de um contato próximo com a morte. Não, o que quer
que fosse foi ainda mais profundo do que isso. Ela tinha
consciência de alguma outra parte de si mesma, algo que
sempre fora, ela agora reconheceu, logo abaixo de sua
superfície. Não é uma identidade separada, não. Era mais ...
como um prisma de sua identidade, outra faceta que
aprimorava as cores que ela via e as pessoas que agora

FaceTime é um software desenvolvido pela Apple capaz de realizar chamadas de


vídeo e chamadas de áudio no iOS 4 ou superior e no Mac OS X 10.6.6 ou superior, que utiliza a câmera frontal para fazer
chamadas de vídeo entre os aparelhos. Foi anunciado na WWDC de 2010.

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conhecia—especialmente Trez.

Ela estava ... totalmente em paz com ele. Como se algum


tipo de resposta tivesse sido dada a ela. E Trez sentiu o
mesmo.

De alguma forma, a discórdia, a disputa, a confusão sobre


quem ela era para ele e quem ele era para ela haviam
desaparecido. E sempre que sua mente tentava voltar à angústia,
o calor em sua alma, sua felicidade, afugentavam qualquer
dúvida. Tudo o que ela sabia, tudo que precisava saber era que
estava exatamente onde precisava estar.

Com exatamente com quem ela precisava estar.

Trez era o mesmo. Quando a alta da clínica da Irmandade


se aproximava, os dois conversaram e decidiram que iriam levar
as coisas devagar. E então eles rapidamente se mudaram para
cá juntos assim que ela foi liberada daquele hospital.

Eles não tinham olhado para trás.

Era como se eles sempre tivessem vivido juntos. E sempre


fariam.

— O que você fez, Trez, —ela murmurou enquanto tirava

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o papel de embrulho. Sim, era de fato uma caixa de jóias. Uma
pequena caixa de jóias de veludo azul.

Abrindo a tampa, ela ofegou. Dentro, havia um pingente de


ouro ... de um anjo com asas de diamante.

— Eu acho que desde que somos crentes e tudo.

Ela olhou para Trez, que havia se instalado na porta.

— Você não deveria.

— Mas eu vou, quando quiser. —Ele sorriu quando se


aproximou e pegou a corrente da embalagem. Pendurando o
anjo em volta do pescoço dela, ele sorriu para o reflexo dela no
espelho. — Além disso, não é como uma pedra enorme ou algo
assim.

— Eu não quero nada disso. Eu te disse.

— Eu estou te dando um de qualquer maneira.

— Mas eu vou voltar para o meu PhD em mais três


semanas. Isso é caro. —Quando ele apenas inclinou uma
sobrancelha para ela, ela riu, segurou o pingente para fora, e
olhou para o anjo. — Onde você conseguiu isso?

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— Uma pequena loja no centro no distrito financeiro. Eles
têm um monte de anéis de noivado lá. Talvez devêssemos ir
olhar …

Therese se afastou do espelho e colocou os braços em volta


do pescoço. — Beije-me.

— Você está tentando me distrair? Porque está


funcionando.

Mesmo tendo convidados chegando em menos de uma


hora, as mãos talentosas dele encontraram sua pele sob a toalha,
e ela prontamente se esqueceu de todas as razões pelas quais
precisava se apressar para se arrumar.

Além disso, esta poderia ser a última vez que eles estavam
sozinhos na casa.

Ela recuou. — Você tem certeza que quer que toda a minha
família se mude conosco?

— Temos dois quartos lá embaixo. E além disso, sua


mahmen precisa estar perto de Havers.

— Você é maravilhoso, sabia disso?

— Sim, eu sei, mas me diga novamente.

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Therese abriu a boca para dizer isso, mas ele a colocou no
balcão e encontrou o caminho entre as coxas dela. Houve o som
de um zíper sendo abaixado e então ela ofegou.

Toda vez que eles fizeram amor, foi uma revelação. Novo
e fresco.

— Estou tão feliz, —disse ela enquanto se arqueava em seu


macho.

— Eu também, —ele gemeu quando começou a empurrar


dentro dela.

Movendo-se juntos, seus seios contra uma de suas camisas


de seda, as coxas abertas ao redor dos quadris dele, seu cheiro
de macho vinculado em seu nariz, ela teve novamente a
sensação de que um círculo havia sido completado, e eles
estavam seguros.

Juntos.

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Todos vieram para à festa da Virada Do Ano na casa que Trez
estava ocupado comprando para Therese nos bastidores.
Todos os Irmãos. Todas as suas shellans. Os lutadores. Apenas
o Rei e o Bando de Bastardos ficaram na mansão por medida
de segurança. Mas havia todo os tipos de FaceTime
acontecendo, então ninguém se sentiu deixado de fora.

Embora graças a Deus pelo porão terminado e a TV de


tela grande, Trez pensou enquanto pegava a primeira garrafa
de champanhe da geladeira. Lassiter insistiu para que o
especial da Times Square fosse colocado, e pelo menos metade
das pessoas acabaram lá embaixo.

A outra metade estava evitando a Véspera de Ano Novo


como uma praga.

*tosse*V*tosse*

A comida tinha sido um grande sucesso ao redor, no


entanto. Trez havia encomendado o serviço de alimentação
para o evento do melhor restaurante italiano da cidade, e iAm
tinha feito mais do que entregar a comida. Todos haviam
comido a comida e, com o relógio se aproximando na meia-

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noite, era hora do Korbel .

— Você precisa de alguém para ajudar com as taças de


champanhe? —Xhex perguntou de cima da mesa da cozinha.

Os dois estavam se atualizando sobre as coisas do


shAdoWs, e ele estava quase pronto para assinar o clube para
ela. Saxton estava elaborando a papelada, e Trez estava
ansioso para surpreendê-la com o presente. E depois disso?

Bem, ele estava pensando em se juntar ao Gareth no trem


da Lei humana. E entrar no setor imobiliário.

— Claro que sim. —Disse Trez quando ele abriu a


primeira rolha.

Houve um grito da sala de estar, e ele se inclinou ao redor


do arco e acenou quando Butch e Marissa entraram pela porta
da frente. Então, ele mudou os olhos para um lugar cheio de
amor. Os pais de Therese estavam sentados juntos, de mãos

Korbel Champagne Cellars é uma vinícola sediada em Guerneville, Califórnia. Desde 1882, a Korbel
fabrica principalmente vinhos espumantes usando o processo de champenoise do método. Nesse processo, o vinho
espumante é fermentado dentro da mesma garrafa da qual é servido. A empresa é uma divisão da F. Korbel Brothers, Inc., e
também produz conhaque e vinho. A F. Korbel & Bros. É uma empresa privada pertencente e operada pela família Heck.
Brown-Forman distribui "Korbel California Champagne" amplamente nos EUA.

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dadas e sorrindo como recém-casados. Então, novamente, eles
estavam de novo juntos, de certa forma. Larisse havia se
recuperado lindamente e havia uma esperança, com uma
administração mais agressiva, de que ela tivesse muitos anos
bons e saudáveis pela frente. E ei, ela estava fazendo isso à
meia-noite, o que foi incrível considerando que ela só tinha
sido liberada na noite anterior.

Sob ordens do médico, Trez estava encerrando a festa às


00h45 em seu nome. E também porque ele e sua Therese
tinham mais uma celebração privada para fazer. Aquela
rapidinha no balcão do banheiro só despertou seu apetite.

Quando Xhex trouxe a bandeja com as taças de


champanhe, Trez começou a enchê-las ...

— Tio Trez, esse é o meu cartão!

Ele olhou para trás. Bitty estava em pé na frente da


geladeira e apontando para o cartão de Natal que ela havia
feito para ele.

— Sim. —Ele disse. — Eu te disse que amo isso.

— Bem na sua porta! —Ela pulou e puxou-o para lhe dar

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um beijo na bochecha. — Eu preciso ir encontrar tia Therese.

— Ela está jogando Mario no quarto de seu irmão lá


embaixo.

— Obrigado, —a pequena fêmea disse enquanto pulava


pela multidão.

Por uma fração de segundo, Trez olhou para a imagem


desenhada dele ao lado de sua fêmea, ela com sua pele
prateada e seu sorriso, ele segurando sua mão, uma grande
estrela dourada sobre ambos.

Era a representação mais perfeita que ele podia imaginar


de sua vida, da união entre ele e sua companheira. De alguma
forma, ele sabia a verdade por trás da impossibilidade. Ele
sabia que sua fêmea estava de volta com ele, nunca realmente
tinha deixado ele. Ele não conseguia descrever os detalhes—
de alguma forma, eles estavam fora de alcance, mas ele estava
em paz com o ponto cego.

Super Mario é uma série de videogames de plataforma japonesa e franquia de mídia criada pela
Nintendo e apresentando seu mascote, Mario. Alternativamente chamada de Super Mario Bros. ou simplesmente Mario, é a
série central da franquia Mario.

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Assim como todos os outros.

Tudo acabou por fazer ... sentido, de alguma forma.

Um quebra-cabeça concluído, sem peças faltando.

E sim, hoje, quando ele estava no centro da cidade, indo


para o clube em seu carro, ele passou por uma joalheria com
esta exibição de anéis de noivado e coisas brilhantes na janela.
Ele não entendeu por que ele se sentiu obrigado a estacionar e
andar três quarteirões no frio para ficar na frente da loja. Havia
muitos desses anéis, mas Therese não era chamativa assim.
Como ela havia dito, ela preferia que o dinheiro fosse para o
doutorado em engenharia civil.

O que ia ajudar quando ela trabalhasse com Wrath em


alguns projetos de construção. Ela só não sabia que isso ia
acontecer ainda.

Trez olhou para todas as mercadorias da joalheria, todas


as cruzes também, mas nada realmente parecia certo. Exceto
então ele tinha visto o anjo.

Perfeito, ele pensou. Mesmo que ele nunca tivesse uma


afinidade por eles antes.

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— Trez? —Xhex disse baixinho. — Você está bem?

Ele sacudiu-se de volta para o presente e sorriu para sua


velha amiga. — Eu acho que você sabe a resposta para isso.

Aqueles olhos cinzas de metal estavam quentes quando


ela sorriu de volta. — Eu sei. Eu realmente sei.

— Este vai ser um grande ano, eu posso apenas sentir isso.

— Você sabe, eu tenho que concordar com você.

À medida que os minutos ficavam mais apertados antes


da meia-noite, de alguma forma todos eles se expremeram no
porão, com os pais de Therese recebendo os melhores lugares
da casa, bem na frente da TV. Com champanhe à mão, e a bola
na Times Square começando a cair, Trez passou o braço em
torno de Therese, puxando-a com força contra ele.

A multidão começou a cantar.

— Dez, nove, oito ...

A Bola da Times Square ou Times Square Ball é um balão horário localizado na Times Square, em
Nova York. Ela fica na cobertura do One Times Square, e é uma parte importante da festa de Ano Novo na Times Square.

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Ele inclinou-se para o ouvido dela. — Eu te amo.

Ela sorriu para ele. — Eu também te amo.

— ... sete, seis, cinco ...

Olhando para a esquerda, ele sorriu para iAm e maichen,


e sua barriga que estava apenas começando a aparecer. Eles
sorriram de volta para ele.

— ... quatro, três, dois ...

Com uma voz unificada, todos na casa gritaram:

— Feliz Ano Novo!

Quando "Auld Lang Syne" começou, e os casais se


beijaram, Trez olhou nos olhos de seu único amor verdadeiro.

— Para sempre. —Disse ele.

Therese acenou com a cabeça. — Para sempre.

Eles se beijaram e, quando ele se endireitou, ele avistou


Lassiter, o Anjo Caído. O macho levantou a taça de

Auld Lang Syne: música de herança escocesa que é frequentemente usada em momentos solenes, como quando
alguém se despede, inicia ou termina uma longa jornada no tempo, um funeral, etc. Foi especialmente ligado à celebração do
Ano Novo.
https://www.youtube.com/watch?v=acxnmaVTlZA

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champanhe na direção deles com uma expressão de satisfação.
Então ele apontou para a garganta e deu o polegar para cima,
como se tivesse aprovado o presente de Trez.

— Um trabalho bem feito, de fato, —Trez murmurou


enquanto abraçava sua fêmea e agradecia todas as bênçãos
que já havia recebido.

Aconteceu que a estrela em que ele nasceu? Tinha sido


uma muito boa, depois de tudo.

Fim . .

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A única esperança de um pecador é o amor verdadeiro neste novo romance
apaixonado da série best-seller do New York Times nº 1 do JR Ward, da Black
Dagger Brotherhood.

Syn manteve seu lado agitado como mercenário em segredo da Irmandade da Adaga
Negra. Quando ele assume outro emprego, ele não apenas cruza o caminho do novo
inimigo da raça vampira, mas também o de um mestiço que corre o risco de morrer
durante a transição dela. Jo Early não tem idéia de qual é sua verdadeira natureza, e
quando um homem misterioso aparece da escuridão, ela fica dividida entre a conexão
erótica e a sensação de que algo está muito errado.

O destino ungiu Butch O'Neal como o Dhestroyer, o cumpridor da profecia que


prevê o fim do Ômega. Quando a guerra com a Sociedade Lessening vem à tona,
Butch recebe um aliado inesperado em Syn. Mas ele pode confiar no homem - ou o
guerreiro com o passado ruim é uma complicação mortal?

Com o tempo se esgotando, Jo é envolvida na luta e deve se juntar a Syn e a


Irmandade contra o verdadeiro mal. No final, o amor verdadeiro prevalecerá ... ou a
profecia estava errada o tempo todo?

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