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Ciências & Cognição 2004; Vol 02: 42-49 <http://www.cienciasecognicao.

org/> © Ciências & Cognição


Submetido 22 de Julho de 2004| Aceito em 30 de Julho de 2004 | ISSN 1806-5821 - Publicado on line 31 de Julho de 2004

Artigo Científico

Desenvolvimento sustentado e consciência ambiental: natureza,


sociedade e racionalidade

Bernardo Elias Correa Soaresa,  , Marli Albuquerque Navarroa e Aldo Pacheco Ferreirab
a
Núcleo de Biossegurança, Vice-Presidência de Serviços de Referência e Ambiente, Fundação
Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil; bDepartamento de Saneamento e Saúde Ambiental, Escola
Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

Resumo
Apesar do enfoque integrado, hoje praticado, entre condições e conhecimentos sócio-econômicos e
ambientais, o papel desempenhado por essa integração nem sempre é reconhecido por projetos que
envolvam impactos estratégicos sobre o ambiente, nem figuram seriamente no contencioso das
políticas públicas, principalmente dos países em desenvolvimento. É necessária, pois, uma abordagem
epistemológica que reconheça a responsabilidade coletiva sobre as crises ambientais globais,
indicando-se a necessidade de consideração de uma ética ambiental nos programas coletivos de
sensibilização ecológica. Por outro lado, os padrões ideológicos e tecnológicos, importados dos países
centrais, não permitem a utilização adequada do potencial ambiental de cada região, o que pode levar
à deterioração dos ecossistemas. Além da gestão racional e ecológica dos recursos, ambientais, os
autores concluem que é preciso uma reeducação ecológico-ambiental, que respeite os critérios de
interdisciplinaridade científica, os ditames de sobrevivência do planeta, bem como as perspectivas
diferenciadas da cultura, do ser e do pensar humanos. © Ciências & Cognição 2004; Vol. 02: 42-49.

Palavras-chave: Biodiversidade; Cognição; Desenvolvimento sustentável; Educação


ambiental; Políticas públicas.

Abstract
Despite the integrated approach often applied nowadays among social, economic and environmental
conditions, the role played by such joint knowledge may not always be recognized by projects
involving strategic environmental applications and may not be placed within public policies in
developing countries. An epistemological view that considers a collective responsibility over global
environmental crisis is therefore demanded, indicating the need for an environmental ethics within
global ecological consciousness programmes. On the other hand, ideologic and technologic standards
taken from central countries do not allow a clear use of each region´s resources or environmental
potential, decaying ecossystems. A rational management of such resources is required to set up an
environmental re-education that respects interdisciplinary scientific criteria, planet survival rules as
well as cultural and human thought perspectives. © Ciências & Cognição 2004; Vol. 02: 42-49.

Key-words: Biodiversity; Cognition; Sustainable Development; Environmental

 – Bernardo Elias Correa Soares é Biomédico, Doutor em Saúde Pública, Pesquisador Senior do Núcleo de
Biossegurança, Vice-Presidência de Serviços de Referência e Ambiente, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro,
Brasil. Endereço para contato: E-mail: bernardo@fiocruz.br.

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Education; Public Policies.

1. Introdução outros territórios destinados à exploração


colonial predatória, como por exemplo, a
O século XX testemunhou o maior e África, a devastação ambiental de grandes
mais rápido avanço tecnológico da história da proporções remonta aos séculos XVII e
humanidade e também as maiores agressões XVIII, com a criação da economia moderna
ao meio ambiente, decorrentes de um que teve como um dos principais
desenvolvimento que não considerou os instrumentos de expansão as navegações
impactos relevantes da revolução industrial e européias e a introdução dos sistemas
a finitude dos recursos naturais. Por outro coloniais. A realidade colonial brasileira
lado, nas últimas décadas, o conceito organizou-se a partir de uma:
ecológico vem se ampliando, dentro de um
modelo de desenvolvimento que busca uma “(...) idéia-eixo que vai se perpetuar ao
relação de equilíbrio, resgatando uma nova longo de nossa história. Tal idéia tem
ética na relação do homem com a natureza por pressuposto uma ação colonizadora,
(Schramm, 1999). isto é, a ocupação dos fundos territoriais
A Conferência das Nações Unidas não explorados vai ser alçada à
Sobre o Meio Ambiente Humano, realizada condição de projeto nacional básico.
em Estocolmo de 1972, projetou (...) Tal projeto ainda localiza o povo
mundialmente a necessidade de tomadas de em seu lugar subalterno na formação
posição dos países, em especial os nacional, posto que ele é aí concebido
industrializados, frente ao modelo de como mero instrumento do processo”
desenvolvimento vigente, caracterizado pelas (Moraes: 2002).
ações econômicas que consideravam os
recursos naturais como fonte inesgotável de Aliás, é bom lembrar, que o sufixo
riqueza, levando à degradação ambiental e eiro presente em brasil eiro , é um indicador
humana. de profissão, tal como pedr eiro , jardin eiro ,
Historicamente, o capitalismo etc, e não indicador de nacionalidade.
subsidiado pela ciência e pela tecnologia A orientação geopolítica assumida
moderna consolidou processos de pelo Estado brasileiro buscou ancorar-se na
desumanização da natureza e desnaturamento manutenção e ampliação dos fundos
do homem, elaborados pelas etapas da territoriais, exercendo sobre estes ações
construção da ciência moderna, baseada no predatórias, levando ao máximo a exploração
racionalismo, confirmando externalidades e a dilapidação dos recursos naturais, através
recíprocas entre o homem e a natureza, ou da lógica dos investimentos mínimos para o
seja, o homem entendido como ser excluído alcance de máximos lucros utilizando-se da
do conceito de natureza, estando acima desta, perspectiva imediatista, ajustando também
pela superioridade de sua propriedade uma sociedade autoritária, cujas
racional, legitimando a degradação da oportunidades se abrigaram no campo da
natureza, percebida meramente como fonte negociação, descaracterizando-se, portanto,
inesgotável dos mesmos recursos, pois, como sociedade contratual, baseada na lógica
considerava-se que a natureza possuía dos direitos instituídos e do reconhecimento
mecanismos e engrenagens, tal como as da cidadania.
máquinas, que a capacitava a reproduzir-se
eternamente de maneira homogênea. “A este Estado corresponde uma
Esta visão orientou, por exemplo, o sociedade de rígida hierarquia, em que a
capitalismo mercantil responsável pelos produção repousa sobre relações
primeiros projetos de exploração do território escravistas de trabalho. E uma
brasileiro.Historicamente, no Brasil e em sociedade com escravos será sempre

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uma sociedade da vigilância e da emblemáticos na sociedade de consumo que


violência . Mais ainda, onde vigora o se traduz como democrática, pois
escravismo os preceitos liberais da teoricamente, todo esse poder ter está ao
cidadania e da soberania popular não alcance dos ricos e dos pobres.
conseguem enraizar-se, gerando formas A complexidade da questão ambiental
de identidades negativas (por colocou para o mundo contemporâneo o
diferenciação e exclusão). Em vez da debate que hoje presenciamos, ou seja, os
igualdade perante a lei, a diferença vem investimentos das nações no sentido de
ao centro como critério de estruturação valorizar o paradigma ambiental que tira a
social. Isto é, a vigência de relações natureza de uma posição de passividade e
escravistas acaba marcando a inércia, concebendo o meio ambiente como
estruturação de toda a sociabilidade expressão de criatividade, diversidade e
reinante, mesmo as relações entre os depositário da inter-relação de todos os seres,
não-escravos. Neste universo visando à boa sobrevivência e qualidade de
desenvolve-se o compadrio como vida, visando a construção de uma ética
relação básica, instituição de claro perfil ambiental, entendida como a conscientização
patrimonial e diferenciador. O ambiental que exige a intervenção das
mandonismo local e a formação das ciências com apelo preponderante para
redes clientelísticas têm seu fundamento valores de preservação, assim como a
no favor e na ação pessoalizada, campos interseção de preocupações que devem
interditados aos escravos, logo abranger a saúde, a educação, a qualidade de
diferenciadores da condição restrita de vida, o direito, a política e cultura nos
cidadão.” (Moraes: 2002). desafios presentes de uma da perspectiva
sustentável, que por sua vez requer uma
A construção da base da sociedade articulação precisa com valores de justiça
brasileira é exemplar para refletirmos sobre a social, como a democracia, os direitos
profunda relação entre ambiente, humanos, a satisfação de necessidades
desigualdade, violência, não só em termos humanas básicas.
concretos, mas, sobretudo no plano da
subjetividade, dos valores e da mentalidade, 2. Temas relevantes na atualidade dos
fatores que obviamente orientam as ações da debates
sociedade. A relação campo e cidade, as
desigualdades sociais, a consolidação de uma Os impactos ecológicos, na vida
sociedade excludente estão associadas à cotidiana das sociedades, têm sido grandes,
corrupção ambiental, cujo resulto visível está afetando a qualidade de vida das pessoas,
nas favelas, na devastação ambiental, nas além de semear interrogações e críticas aos
cidades problemáticas, nos refugiados modelos de desenvolvimento sócio-
ambientais, na violência urbana, no econômicos adotados até então. Tencionando
desemprego, na perda de valores associados resolver esses impasses, tivemos a
ao trabalho e a construção de benefícios oportunidade de presenciar reuniões de
coletivos, na falta de credibilidade que é grande importância temática, como a Cúpula
público, no abandono de crianças e Mundial para o Desenvolvimento Sustentável,
adolescentes, fatores que configuram a busca a Rio + 10, na África do Sul – em 2002. Nesta
de sobrevivências imediatas e dos valores reedição do evento, pela primeira vez, as
descartáveis, descartáveis tais como os empresas multinacionais estiveram fortemente
produtos expostos nas vitrines, produtos que presentes, exercendo práticas lobistas,
consomem uma enorme variedade de recursos juntamente com as ONGs, ainda que com
extraídos da natureza, que não são oferecidos menores recursos, diminuindo o esforço de
como necessidades, mas como fetiche, como Kofi Annan que tentou relançar as cinco
substitutos de egos, que se tornaram propostas prioritárias: água, energia, saúde,

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agricultura e biodiversidade. A dimensão inequivocamente, apesar de se constituírem


proposta pelo encontro não correspondeu às em novas tecnologias, poderão, no futuro,
expectativas de sua intenção original, ou seja, representar alternativas eficientes e sem
que de encarar os imensos desafios da nenhum risco para a saúde humana e coletiva.
sustentabilidade. No entanto, para além das decisões técnicas e
Considerando o ponto de vista da planejadas somente pela perspectiva
história do planeta, Doblhoff-Dier and Collins administrativa e econômica, temos
(2001) afirmaram que a Terra, conheceu praticamente uma visão unânime de que as
mudanças hidrográficas, climáticas e variáveis ambientais devem ser consideradas
biológicas, que diferiram dos episódios sobre qualquer perspectiva de projetos de
anteriores de mudança global, em virtude de desenvolvimento. Nessa perspectiva, surgiu a
que o fator modificante desta vez é idéia, hoje corrente e seriamente estudada, do
eminentemente humano. Os momentos desenvolvimento “sustentável”.
anteriores de mudanças climáticas na história
do planeta não tiveram como causa a ação 3. Desenvolvimento Sustentável
humana. O que temos hoje, como exemplo, é
a destruição da camada de ozônio, atribuída A necessidade de conciliar
ao acúmulo de clorofluorcarbonetos (CFCs) desenvolvimento econômico e preservação
na estratosfera, originado em nossas ambiental, duas questões antes tratadas
atividades industriais poluentes; o aumento separadamente levaram à formação do
das taxas de dióxido de carbono na atmosfera, conceito de desenvolvimento sustentável, que
motivado pelo uso crescente de combustíveis surge como alternativa para a comunidade
fósseis e pela eliminação da cobertura internacional. A consciência de que é
florestal, como também a perda da necessário tratar com racionalidade os
diversidade biológica (extinção de espécies e recursos naturais, uma vez que estes podem se
de seus habitats), em razão da derrubada esgotar mobiliza a sociedade no sentido de se
crescente de áreas tropicais de florestas organizar para que o desenvolvimento
úmidas para fins de exploração agrícola não econômico não seja predatório, mas sim,
planejada e predatória. “sustentável”. Tal aspecto é lembrado por
Por outro lado, o crescente aumento Leff (2001), ao afirmar que “a questão
das liberações ambientais de organismos ambiental não é ideologicamente neutra nem
geneticamente modificados – OGMs, em distante dos problemas sociais e interesses
diversas regiões do planeta, indica, ainda, a econômicos”. Nesse sentido, as estratégias de
necessidade de mão-de-obra qualificada para ação política sobre os processos ecológicos
atividades de vigilância e avaliação de riscos. vinculam-se as ações práticas de
Atualmente, a preocupação mundial com a desenvolvimento social, sendo relevante nesse
biodiversidade pede maior compromisso dos processo, a compreensão da manifestação da
cientistas na luta pela preservação dos subjetividade humana, ou seja, a conformação
recursos naturais e pelo planejamento de de novos valores e na construção de novas
programas ligados às questões sociais interpretações da relação homem e natureza,
(Soares, 1997). A diversidade de ecossistemas buscando como base novos padrões
requer, também, cuidadosa análise caso a caso cognitivos.
para as solicitações de liberação ambiental de
OGMs ou de outros produtos derivados da 4. O crescimento da consciência ambiental:
biotecnologia (Hood, 2002). Nesse sentido, é novos padrões cognitivos
possível dizer-se que, em futuro próximo,
diante das cautelas adotadas no processo de O conceito de ambiente, ao
pesquisa dos OGMs, evoluiremos da imagem contemplar com relevância o homem, deve
caricatural que muitas vezes desfrutam, junto ser entendido como sendo também uma
à opinião pública, para uma percepção de que, categoria sociológica, “relativa a uma

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racionalidade social, configurada por notabilizou o seu programa de estudos


comportamentos, valores e saberes, como ambientais (PNUMA, 2003), cuja importância
também por novos potenciais produtivos” vem sendo acolhida inclusive pelas classes
(Leff, 2001: 224), e não apenas como empresariais dos países em desenvolvimento.
categoria biológica. Falar em uma consciência A posição pró-ativa de industriais em relação
ambiental implica na busca e na consolidação à questão ambiental é, entretanto, fato recente.
de novos valores na forma de ver e viver no Conforme Gomes (1998), no entanto, é
mundo, a partir da complexidade ambiental, recente também o impacto causado pela
que possibilita a construção de novos padrões atividade industrial humana no ambiente
cognitivos na relação homem/natureza, ou global. Para o autor, a empresa, que até há um
seja, na produção de processos cognitivos que século mantinha um interesse quase
reconheçam a interdependência e o insignificante em relação à natureza, o que
inacabamento de qualquer ação, de propunha uma visão irresponsável de
(des)construir e (re)construir o pensamento a desenvolvimento, evoluiu para uma nova
partir da ciência, da cultura e da tecnologia, a postura, em que empresários e executivos não
fim de mover o processo criativo humano se colocam mais em oposição sistemática aos
para gerir novas possibilidades diante dos movimentos e organizações não
fenômenos da vida e da sobrevivência a partir governamentais que defendam, porventura, o
da sinergia existente no tecido social, meio ambiente. Introduziu-se, então, na
ambiental e tecnológico. (Leff, 2001) maioria das empresas, uma visão nova, de
O mundo atual nos apresenta a gerenciamento dos recursos naturais e de
soberania da ciência e da tecnologia através exame atento dos projetos em relação a seus
dos avanços científicos jamais registrados futuros impactos ambientais.
anteriormente pela história da humanidade. A Percebe-se uma mudança na maneira
ciência e a tecnologia confirmaram benefícios de empresários e industriais enxergarem a
para o homem, mas também possibilitou questão ambiental, compreendendo a
comprometimentos negativos relativos ao perspectiva de que os problemas ambientais
ambiente social e natural. Esses efeitos globais são, agora, de responsabilidade não
colocaram em pauta a necessidade de uma mais de unidades isoladas (instituições,
reapropriação subjetiva do conhecimento. A empresas, comunidades científicas ou
inserção das novas tecnologias da informação governos), mas sim de toda a sociedade.
e comunicação nos processos educativos, Nesse contexto, Christiansen e Sandoe (2000)
assim como o estímulo a percepção crítica do concordam em que é inegável a influência da
que é oferecido como novas tecnologias, questão ambiental no mundo dos
poderá induzir que, o homem enquanto sujeito empreendimentos, a tal ponto que as empresas
se reaproprie do conhecimento para promover que compreenderem tal realidade irão obter
suas escolhas na perspectiva da construção do vantagens estratégicas. Não se ignora,
pensamento, considerando a convivência com tampouco, a dificuldade de se incluir
novos valores, culturas e saberes, baseados conceitos novos de gestão ambiental em
em princípios éticos, conformando o qualquer organização, mas também não
conhecimento baseado na prática da “ podem ser ignoradas as pressões impostas
constante a “re-flexão” do conhecimento. pelo mercado e pela sociedade como um todo.
A consciência ambiental é estruturada, na Cortina (1998), por sua vez, apresenta
atualidade, sobre fatos reais e confiáveis: a abordagem sintética sobre o relacionamento
existência do chamado “efeito-estufa”, por entre economia e meio ambiente. Argumenta
exemplo, confirmada por meteorologistas e ser difícil, para não dizer impossível, proteger
cientistas renomados, assim como outros o meio ambiente sem o uso de instrumentos
problemas ecológicos de natureza global, vem econômicos. Afirma, ainda, que o meio
sendo enfocados por organismos de ambiente sempre fora abordado de maneira
credibilidade internacional como a ONU, que subordinada e suplementar nos estudos

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econômicos, o que foi modificado por nova


configuração paradigmática, em que a É possível valorar e quantificar os
economia passaria a ser integrada e não recursos ambientais? É possível formar uma
conflitiva em relação às questões ecológicas. nova linhagem de gestores ambientais, que
Avalia, ainda, que os choques do petróleo, aglutinem vários campos de conhecimento e
nos anos 70 do século passado, e os acidentes sejam capazes de responder às questões que a
nucleares, radioativos e de vazamento de nova consciência do sistema global-ecológico
combustíveis fósseis, que expuseram a suscitam neste Terceiro Milênio?
evidência de perigos à sobrevivência dos Partindo-se do princípio de que os
ecossistemas, além da possibilidade de conceitos econômicos e ecológicos
esgotamento de recursos naturais escassos, tradicionais não são satisfatórios para
produziram transformações importantes nos ultrapassar tais questionamentos (Marques,
conceitos estritamente econômicos, 1999), a coexistência de teorias econômicas
principalmente os afetos à questão do diferentes, concebidas ao longo da história
crescimento. Enfatiza, também que, em dos países capitalistas ocidentais, pautou-se
nossos dias, desde as teorias ortodoxas de pela inclusão das variáveis ambientais nas
economia (liberais, neoliberais e múltiplas e mais importantes teorias.
neoclássicas), passando pelas teorias Observando-se as novas proposições para o
keynesianas e neokeynesianas e chegando às relacionamento entre economia/meio
heterodoxas, como a marxista, coexistem e ambiente/gestão ambiental, constata-se que
são interpenetradas pelos novos conceitos existe uma convergência no sentido de se
oriundos da “economia ambiental”, que valorizar as intenções e tentativas de
procura embutir nos processos econômicos os valoração dos recursos naturais, uma vez que
ciclos biofísicos do planeta. Assim, a as preocupações ecológicas são
economia ambiental, recentemente formada, fundamentadas em fatos inegáveis – como
apresenta elementos das teorias que a vimos – já disseminados, comprovados pela
precederam, incorporando elementos de ciência e adotados pela sociedade como sinais
outras áreas de conhecimento, como a inequívocos da necessidade de adoção do
biologia e a ecologia. Enfim, ressalta o autor novo paradigma.
que as respostas dadas pela economia É necessário esclarecer que esses
neoclássica, dominante no mundo ocidental níveis de exigência ainda não são totalmente
até como uma espécie de “pensamento praticados no Brasil, onde existem sérias
único”, não são suficientes para resolverem os pendências sociais e econômicas a serem
problemas universais de escassez de recursos, resolvidas, sobretudo as desigualdades de
mudanças climáticas globais, perdas rendas, o que não induz à incorporação
significativas na camada de ozônio, extinção completa pelo desenvolvimento econômico e
de espécies essenciais ao equilíbrio ecológico, social das variáveis ambientais, ainda
efeito-estufa, etc. contaminadas por uma visão um pouco
Hoje, o trinômio econômico-social- atrasada de preservacionismo, tal como
ambiental constitui a base do praticada pelos governos federal e estaduais,
desenvolvimento sustentável e as decisões nos idos dos anos 60 do século passado.
empresariais devem ser avaliadas à luz dos No entanto, vale dizer que, para um
impactos ambientais, fazendo parte da país em desenvolvimento, um estatuto de
estratégia corporativa da gestão ambiental em proteção ambiental e a avaliação ambiental
um conjunto de atividades e ações integradas como fórmula estratégica não são luxos, mas
dentro de um complexo paradigma ecológico parte de um projeto de sustentação da vida
(Fiocruz, 1998; Ferreira, 2000). humana, melhoria social e de qualidade de
vida para muitos segmentos de população
5. Gestão empresarial e meio ambiente no desassistidos.
Brasil

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Dessa forma, os alertas de ecologistas Diferentemente desses países, o Brasil ainda


e da comunidade científica devem ser tratados dispõe de imensas áreas a serem ocupadas,
com a máxima atenção, sob pena de o futuro bem como são díspares os nossos projetos de
reservar-nos problemas ainda mais graves. eixos de desenvolvimento e programas de
Além disso, se o desenvolvimento nacional zoneamento ecológico e econômico,
for orientado por um caminho sustentado, praticados nos estados da federação, e que
pode-se estabelecer uma forma pioneira de diferem fundamentalmente dos projetos
crescimento econômico que não ensejem os lançados por países do Primeiro Mundo.
mesmos erros cometidos pelas nações
desenvolvidas, que adiaram a preocupação 6. Considerações finais: consciência
com o meio ambiente até o limite onde este ecológica, sociedade e políticas públicas
não possa mais ser desconsiderado. No Brasil,
pode-se adotar, desde já, uma consciência de Os governos, como organizações
crescimento ambientalmente saudável, o que institucionais pesadas, raramente respondem
não significa apenas exigências e encargos, às reivindicações das sociedades, o que
ainda que estes possam existir, mas também também ocorreu no plano das questões
oportunidades novas paras empresas ecológicas. Foram mais de quarenta anos,
nacionais que consigam se adaptar à nova transcorridos, desde a década de 60 do século
mentalidade ambiental. passado, para que o organograma
Egler (2001) argumenta que é possível administrativo dos governos ocidentais
quantificar os recursos ambientais através de adotassem, sistematicamente, ministérios e
sua avaliação estratégica, que assegurem que secretarias dedicados às questões de controle
fatores ambientais e sociais sejam e fiscalização de ecossistemas e mananciais
adequadamente considerados no processo de hídricos.
tomada de decisões de desenvolvimento. Em Hoje, as questões de exaustão de
sua forma mais comum, uma Avaliação de reservas de petróleo e de água potável no
Impacto Ambiental pressupõe um mundo vêm ensejando uma série de
procedimento de avaliação inicial (screening); conferências preventivas sobre quais as novas
identificação dos aspectos econômicos, alternativas energéticas a serem usadas
sociais e ambientais significativos; preparação (termoelétrica, solar, eólica, etc), sendo que a
de Estudo de Impactos Ambientais; revisão comunidade científica vem acenando com
do estudo, preparação de relatório e pesquisas cada vez mais excitantes nos
implementação das ações pertinentes, que campos da biotecnologia, da genética, da
incluam medidas de mitigação e um sistema química fina e outras oportunidades a serem
de monitoramento, que objetivem verificar se descobertas, inclusive as mais recentes, de
as medidas foram realmente implementadas fusão dos átomos de hidrogênio.
para mitigar os efeitos negativos ambientais Os políticos, sempre sensíveis à
dos empreendimentos. Ainda segundo o opinião pública, perseguem denodadamente
autor, questões como a consideração de as percepções de suas populações sobre a
diferentes alternativas (economia de escala, problemática ecológica, que incluem questões
localidade, tempo e tecnologia) e as medidas de bem-estar e qualidade de vida. No entanto,
de mitigação de efeitos negativos sobre os a crise ambiental é acima de tudo um
ecossistemas (territórios, bacias, rios, etc) problema de conhecimento (Leff, 2000), o
podem dar uma perspectiva correta da que nos leva a repensar o ser do mundo
quantificação dos recursos naturais em jogo, complexo e entender suas vias de
principalmente se considerarmos devidamente complexificação. Esta via de compreensão da
que a natureza das intervenções feitas em complexidade ambiental emerge por meio da
território brasileiro são significativamente desnaturalização da história natural, que
diferentes, se comparadas com aquelas feitas culminou na tecnificação e economização do
em países europeus ou nos Estados Unidos. mundo, com base nas quais o ser e o pensar se

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encontram relacionados pelo cálculo e pela Doblhoff-Dier, O. e Collins, C. H. (2001).


planificação, pela determinação e pela Biosafety: future priorities for research in
legalidade; deste mundo dominado e health care. J. Biotechnol., 85, 227-239.
assegurado que chega a seu limite com o caos Egler, P. C. G. (2001). Perspectivas de uso no
e a incerteza. Leff (2000) assinala que: Brasil do Processo de Avaliação Ambiental
Estratégica. Parcerias Estratégicas, 11, 175-
“(...) a crise ambiental leva-nos a 190.
interrogar o conhecimento do mundo, Ferreira, M. J. L. (2000). Nova ordem
(...) corporifica um questionamento da econômica-ambiental. Gazeta Mercantil supl.
natureza e do ser no mundo, com base esp., São Paulo.
na flecha do tempo e na entropia vistas FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz (1998).
como leis da matéria e da vida, com Saúde e Ambiente no Processo de
base na morte vista como lei limite na Desenvolvimento. Projeto Fiocruz Saudável,
cultura que constitui a ordem simbólica Fundação Oswaldo Cruz.
do poder e do saber. (...) A Gomes, W. (1998). Desperdício e
complexidade ambiental inaugura uma improdutividade afligem empresas . Gazeta
nova reflexão sobre a natureza do ser, Mercantil , São Paulo.
do saber e do conhecer, sobre a Hood, E. E. (2002). From green plants to
hibridização de conhecimentos na industrial enzymes. Enzyme Microbial
interdisciplinaridade e na Technol., 30, 279-283.
transdisciplinaridade; sobre o diálogo Leff, E. (2000). Epistemologia Ambiental.
de saberes e a inserção da subjetividade, São Paulo: Ed. Cortez.
dos valores e dos interesses nas tomadas Leff, E. (2001). Saber ambienta l:
de decisão e nas estratégias de sustentabilidade, racionalidade,
apropriação da natureza.” complexidade, poder. Petrópolis: Vozes.
Marques, M. B. (1999) Em busca de um
Quando o homem procura compensar fórum para a bioética na política pública do
a sua “falta de ser” pelo conhecimento, Brasil. Cad. Saúde Públ., 12, 443-454.
procura idéias ordenadoras e absolutas sobre Moraes, A. C. R. (2002). Meio Ambiente e
si mesmo e sobre a natureza, o que faz uma Ciências Humanas. São Paulo: Ed.
obstrução de sua capacidade de escolher e HUCITEC.
respeitar a diversidade. Parece que, a PNUMA - Programa de las Naciones Unidas
princípio, as políticas públicas devem ser Para el Medio Ambiente. (2003). La ONU y
redirecionadas no sentido de respeito à la acción empresarial. Nairobi: United
biodiversidade e às diferenças, obedecendo a Nations Environment Programme.
complexidade ambiental. Schramm, F. R. (1999). A Moralidade das
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