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FANZINE

Samizdat
POESIA – CONTO – LITERATURAGENS

Sua distância da dor das pessoas define sua distância de Deus. – S. Reachers
Todos os anos, em janeiro e setembro, vou até a 34ª Delegacia Policial, em
Editorial Bangu. Nunca há informações sobre o caso; mas não desisto, sou mãe, sou a
Mas o que afinal é samizdat? Samizdat era uma prática dos tempos da União persistência. Um dia o caso se esclarecerá... Ser mãe é não ter opção.
Soviética destinada a evitar a censura imposta pelos governos comunistas. Na delegacia os policiais mudam, mas não o destrato. Devem aprender na
Mediante essa prática, indivíduos e grupos de pessoas copiavam (muitas vezes à academia, se é que isso existe. Ou desaparecidos há muitos, e eles já não se
mão) e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam importam. Quem sabe é a velha norma pátria, a reação à cor de nossas peles,
sido proibidos pelo governo. O poeta russo Vladimir Bukovsky assim definia a que define a saudação, seja sorriso, seja disparo, que se colhe?
prática: “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por Nos olhares arredios, de desinteressados a cínicos, percebo que querem,
isso”. Assim, pelo caráter artesanal e mesmo libertário da prática de samizdat, anseiam por dizer, ainda que num jato de vômito: “Seu filho está morto, dona.
nos ocorreu nomear assim esse nosso humilde fanzine. Pare de nos aporrinhar”. Mas não dizem. E que diferença faria? Sem corpo não
Todos os textos aqui publicados são de Sammis Reachers, mas você é livre e há evidências, e eu mantenho minha esperança como quem zela pela própria
mesmo incentivado a compartilhá-los da forma que achar melhor: Xérox, honra, como quem guarda uma cidadela.
Whatsapp, redes sociais e até em cartazes colados no muro. Quando faço café pela manhã, oito anos, meu Deus!, ainda me pego distraída,
Leia mais de meus textos (e baixe meus e-books gratuitos) em: colocando pó suficiente para dois cafés. Um dia talvez ele entrará por aquela
Recanto das Letras: recantodasletras.com.br/autores/reachers porta, e poderá estar sujo, fedido, esfarrapado; pode vir sozinho ou já com uma
O Poema Sem Fim – www.opoemasemfim.blogspot.com família, com um neto. Eu vou esperar. Um dia depois do outro.
Azul Caudal – www.azulcaudal.blogspot.com Num sábado em maio, na véspera do Dia das Mães, fui a uma reunião de mães
Poesia Evangélica (DIVERSOS AUTORES) – www.poesiaevanglica.blogspot.com de desaparecidos. Lá ganhei um livrete de informações sobre a Ong que
Mar Ocidental (DIVERSOS AUTORES) – www.marocidental.blogspot.com promovia o encontro, e no livrinho havia muitas frases sobre o que é ser mãe.
Muitas delas tão bonitas que cheguei a decorar, e vou bordar num pano de prato
para deixar na cozinha.
Como quem guarda uma cidadela
Em meio a tantas frases bonitas, uma ali me perturbou. Achei triste, mas depois
Fiz o bolo preferido dele, chocolate com recheio de chantilly. Todo ano eu faço entendi, alguma coisa em mim entendeu. E aquilo foi estranho, aquela frase me
seu bolo. Meu bebê. Que Deus cuide de você, meu anjinho! deu força, me amamentou. A frase é de uma pessoa chamada Maeterlink, não
Acordei cedo pra limpar o quarto dele. Avisei à dona Eurásia que não trabalharia; sei se homem ou mulher pois dela nunca ouvi falar: “As mulheres jamais se
ela, cada vez mais velhinha e dependente, me pareceu entristecida ao telefone, cansam de ser mães: embalariam até a Morte, se ela viesse dormir em seus
mas entendeu. Sempre entende, desde o primeiro ano. Troquei a roupa de joelhos.”
cama, passei pano no chão. Peguei pra lavar o velho boné da Porto da Pedra, É difícil de entender. E, ainda assim, é isso.
onde ele era ritmista. Não era muito do samba, mas dizia que participava em Com o tempo uma mãe sozinha como eu, “viúva de pai e filho”, a quem o mundo
memória do pai, um dos fundadores da escola, com quem só conviveu até os lá fora tanto fez para apequenar, sem perceber vai ficando tão maior que a
sete anos, que a cachaça o levou. morte que quando dá por si já não a teme; vai cabendo nela que a morte não
Hoje é o Dia Onze de Agosto, o principal dia da vida, o principal dia desse mundo pode lhe arrancar o estado de mãe. Mesmo doído, o coração se agiganta, passa
morno. O dia do meu meninão. São oito anos que choro este dia, comemoro, me por sobre a morte e suas aparências como um trator.
esparramo por dentro. Há oito anos que meu único filho, Godrigo, saiu de casa Vivo ou morto, meu filho é eterno. Tudo se resume a uma medida de distância.
para se divertir. Iria a um baile funk, uma desgraça de baile funk, mas ele gostava. Uma mãe é tão maior que a morte que chego a sentir verdadeira piedade dos
O baile era do outro lado da Baía, na Vila Kennedy. Tanto baile aqui nos bairros que não me entendem, dos que meneiam a cabeça quando me veem passar;
de São Gonçalo, na Covanca, no Salgueiro... Foi sozinho, que meu menino era sinto mesmo uma profunda pena desses que sentem essa tão rasa pena de mim.
assim, tinha seus defeitos, mas não era de andar de patota. Sammis Reachers
Publicado originalmente em minha coluna no Jornal Daki. Leia outros textos em:
www.jornaldaki.com.br/blog/categories/sammis-reachers