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SERVIÇO BÍBLICO LATINO-AMERICANO

Semana de 29 de outubro a 4 de novembro de 2006


30ª Semana do Tempo Comum
CICLO B – ANO PAR

Domingo, 29 de outubro de 2006


30º Domingo do Tempo Comum

Santos do Dia: Abraão de Rostov (abade), Ana de Constantinopla (viúva, eremita),


Baldo de Sens (eremita), Colmano de Kilmacduagh (bispo), Elfleda de Ramsey
(abadessa), Ermelinda de Meldaert (virgem), Estêvão de Caiazzo (bispo), Eusébia de
Bérgamo (virgem, mártir), Germano, Rufo, Ismio, Ismidon e Joire (monges de
Talloires), Jacinto, Quinto, Feliciano e Lúcio (mártires), João de Autun (bispo),
Kennera da Escócia (virgem, mártir), Maximiliano de Lorch (bispo, mártir), Narciso de
Jerusalém (bispo), ! Sigolino de Stavelot (abade), Teodoro de Viena (abade), Terêncio
de Metz (bispo), Zenóbio de Antioquia (mártir).

Primeira leitura: Jeremias 31, 7-9


Os cegos e aleijados, suplicantes, eu os receberei.
Salmo responsorial: 125, 1-6
Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
Segunda leitura: Hebreus 5, 1-6
Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de
Melquisedec.
Cerezo Barredo
Evangelho: Marcos 10, 46-52
Mestre, que eu veja!

O profeta Jeremias, nos capítulos dedicados a consolar o povo, põe nos lábios de Javé
uma exclamação alegre do retorno dos cativos da Babilônia. O mesmo Javé tomará
sobre si a tarefa de reunir e ajudar os que são incapazes por si sós de voltar para sua
terra: os coxos, os cegos... categorias sociais que pouco contam para a sociedade
(naquela época), mas que são motivo de preocupação divina.

Com imagens como esta, os profetas procuram manter a idéia de que os critérios de
Deus são muito diferentes dos critérios dos homens. Nós julgamos que a sociedade
progride graças aos “grandes”, mas na mente de Deus, as coisas não se passam assim.
Por isso, ele olhou para um povo sem nome, sem direitos, sem liberdade: uma massa de
escravos no Egito. Ele lhes deu nome e, além disso, deu-lhes a liberdade e um projeto
de justiça para que o fosse realizando ao longo da vida.

Israel, mais do que nenhum outro povo, sabe e conhece como terminam as ações dos
“grandes”. Ao acabar o período de domínio babilônico, os critérios de Deus continuam
imutáveis: seus olhos estão fixos nos que não contam para nada nem para ninguém.
Israel prossegue sendo sua preocupação porque está de novo entre os mais humilhados
da terra; neste contexto, têm grande sentido de consolo as palavras de Jeremias. Deus se
ocupa com os mais fracos, os inválidos, e dessa maneira é que Israel deveria ter
procedido ao longo de sua história.
A segunda leitura, tirada da Carta aos Hebreus, continua ressaltando a dimensão
intercessora do sumo sacerdócio de Jesus; esta dita dimensão, em Jesus, tem um sentido
de plenitude, pois não tem as limitações que tinha o sumo sacerdote judeu.

O evangelho de Marcos que lemos neste domingo deve ser entendido à luz da
experiência dos discípulos que Marcos estabelece para toda a sua obra e mais
imediatamente devemos ligá-lo com a passagem do domingo anterior em que os filhos
de Zebedeu pediam a Jesus os dois postos mais importantes de seu reino. Aquilo suscita
uma resposta de Jesus que desqualifica o entendimento de seus discípulos: Não sabeis o
que pedis (10, 38) e Marcos complementa essa ignorância com a imagem da cegueira.

A passagem deste domingo não é no sentido estrito um relato de milagre. Não se trata
de somar milagres, realizados por Jesus para atrair crentes ou suscitar conversões
conforme deduzem certas interpretações que evitam descobrir todo o sentido que
passagens como esta escondem por dentro. Embora haja uma “cura”, não há que enviá-
la imediatamente para a “lista de milagres”; o relato está fundamentado em expressões e
imagens carregadas de simbolismo que exigem, como ficou dito, uma atenta verificação
do conjunto do evangelho de Marcos e dos detalhes imediatos em que está inserida a
seção.

Há uma idéia que percorre todo o evangelho de Marcos: conhece-se Jesus, seguindo-o, e
o único modo de acompanhá-lo é indo atrás dele. Agora, caminhar atrás de Jesus não é
simplesmente ir por aí, de qualquer jeito junto com os outros, como uma ovelha a mais
no rebanho; seguir a Jesus é ter os olhos muito abertos e o coração disposto, enfim
dispor-se por inteiro para sintonizar com ele para poder fazer o que ele fez. Dizer o que
ele diz, agir como ele age.

Com freqüência, Marcos retoma alguns detalhes para relembrar estas características ao
discípulo, e este relato acontecido em Jericó serve de paradigma para comparar com o
ponto em que se encontram os discípulos. Jericó é a última etapa no caminho para
Jerusalém. Os viajantes normalmente pernoitavam ali e no dia seguinte continuavam a
viagem para chegar, ainda de dia, a Betânia. Lá, descansavam felizes por terem chegado
ao final de seu destino.

Que quer dizer isto? Com a aproximação do fim, da chegada de Jesus à capital,
aumentou ainda mais a confusão dos discípulos e do povo sobre o que lhe sucederia na
Cidade santa. Jesus já tinha anunciado três vezes o que se daria com ele, mas seus
discípulos não conseguem entender; no fundo, não é que não compreendam a
materialidade das palavras de Jesus, mas sim porque não lhes passa na cabeça que o
Messias deva sofrer (cf. reação de Pedro à primeira notícia, Marcos 8, 32). Supõe-se
que o Messias, o verdadeiro, estará assistido pelo próprio Deus que o enviou, de tal
modo que basta uma ordem divina, um olhar fulminante de Deus sobre os inimigos e
todos serão exterminados.

Essa forma de conceber o messianismo de Jesus e sua chegada final leva-os a adiantar-
se, a discutir, a antever que será o maior, quem será o primeiro, quem terá os melhores
postos no reino que o Mestre inauguraria em Jerusalém, na capital. De concreto,
faltando apenas um dia para chegar à meta final da obra de Jesus, os discípulos estão
cegos, não aprenderam a ver, estão como o Bartimeu à beira do caminho.
Desta maneira, cada detalhe deste relato é uma pincelada a mais no retrato do discípulo
de Jesus que Marcos, muito a seu modo, vai compondo. Para ele, é fundamental que os
destinatários de seu escrito vivam esta experiência do cego à beira do caminho que é,
em definitivo, a mesma situação dos discípulos de Jesus.

No momento de concluir seu ministério público, Jesus é chamado “filho de Davi” por
Bartimeu, um título completamente errado, que seguramente não soa muito bem aos
ouvidos de Jesus. O povo que o segue procura fazer calar o cego; pode haver várias
razões: não distrair o Mestre em sua última jornada rumo à tomada do poder; outra
razão também muito válida: não chamar a atenção dos guardas romanos; é que em
Jericó havia uma guarnição romana e sendo aquela cidade passagem obrigatória para
chegar a Jerusalém tinham que ser muito cautelosos com o povo que se dirigia à capital;
mas outro motivo pode ser a ironia que Marcos quer ressaltar: a essa altura, não
somente Bartimeu (ele não tinha nenhuma “obrigação” de ter idéias claras sobre Jesus),
mas sim seus próprios discípulos que há tanto tempo o seguiam, todavia crêem e
sonham que o melhor título para seu Mestre é o de “filho de Davi” com a ideologia
secular que esse título encerra.

Sobre isso Jesus não diz nada, simplesmente se detém e manda chamar o cego. Pára e
chama. Como quando ia pela margem do lago da Galiléia: interrompe seu caminho e
chama alguns pescadores que estavam retirando sua rede (Mateus 4, 18); passando por
entre a multidão, detém-se e chama a um publicano (Mateus 9,9). O cego tira o manto,
dá um salto e vem até Jesus. A partir daquele momento, Bartimeu já não será mais “o
cego de Jericó”. Tirar o manto, deixá-lo de lado é abandonar um modo de vida.

O manto na cultura semita oriental era o que identificava alguém, era a exterioridade
visível da essência intangível de uma pessoa. Quando Elias pergunta a Eliseu o que
queria para si quando ele fosse arrebatado, Eliseu lhe responde: Seja-me concedida uma
porção em dobro do teu espírito. Elias acha difícil. Entretanto, –diz Elias– se me vires
quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado. No final, Eliseu ficará com o espírito
de Elias mas é porque colheu o manto que o profeta tinha deixado cair em sua partida
(cf. 2º Livro dos Reis 2, 9-14).

O cego pois, deixando seu manto de lado, mudará de vida; lá em Jericó, todos os
“cegos” que vão atrás de Jesus terão que tirar de si o manto e vir até Jesus. Note-se que
o cego, mesmo sendo cego, não é conduzido até Jesus, é por si mesmo que chega a
Jesus. Aquele que quiser ser discípulo, apesar do dom vocacional, continua com
liberdade de chegar, de vir até Jesus. Jesus viu a situação daquele homem, que desde
então, não seria o único caso em toda a Jericó. E, contudo, interroga-o Por que ou para
que fazê-lo falar, obrigá-lo a dizer o que quer? Que queres que te faça? Idêntica à
pergunta que havia feito à mãe dos zebedeus (cf. Marcos 10, 36).

A palavra é uma das melhores maneiras de expressar a liberdade. A única coisa que
resta àquele cego é a palavra. Ao que se encontra no extremo da exclusão, à margem de
todo privilégio social, político, econômico e religioso, só a palavra pode salvá-lo. E
Jesus quer que aquele homem fique livre por sua própria palavra, que sua reintegração
na sociedade se realize por sua própria palavra. Do mesmo modo, tinha agido com a
mulher que sofria hemorragias que ficou curada somente tocando seu manto, fê-la falar
para que por meio de sua palavra recuperasse seu lugar na sociedade.
A resposta de Bartimeu, seu pedido, é também a prece de cada um que queira seguir a
Jesus: “Rabboni, meu mestre, que eu recobre a visão”. O “ofício” daquele homem foi a
vida inteira pedir esmolas à beira do caminho, mas a Jesus não lhe pede uma esmola,
mas sim a vida, recobrando sua vista ele sabe que poderá viver de novo.

Ao recobrar a vista, Bartimeu segue a Jesus. O discípulo de Jesus, na mentalidade de


Marcos, é aquele que pode ver. A ponto de terminar o trajeto missionário de Jesus, fica
para seus discípulos este grande ensinamento: não obstante tudo o que aconteceu, estão
cegos, mas podem chegar a recuperar sua vista se eles mesmos forem capazes de pedi-lo
a seu Mestre. A libertação não é algo que se impõe, é preciso saber o que é estar
cego/oprimido para poder optar por ela.

Para revisão de vida:

• Posso estabelecer um paralelo entre Bartimeu, os discípulos de Jesus e minha


própria experiência de vida? Em que tenho que empenhar-me mais para poder
“ver” melhor?

Para reunião de grupo:

• Tomar um dos três sinóticos, preferivelmente Marcos, e verificar neles o


seguimento do maior número possível de atitudes dos discípulos nas quais se
veja que não puderam captar a proposta de Jesus. Isso no fundo é o que quer
dizer-nos o evangelista com o relato do cego de Jericó. Confrontar essas
atitudes com nossa maneira de ver, pensar e agir hoje. Que luzes lançam sobre
nosso futuro esta análise e reflexão?

Para a oração dos fiéis:

• Por todos os homens e mulheres, para que em algum momento de sua vida
saibam reconhecer a cegueira em que vivem, rezemos.
• Pelas Igrejas de todo o mundo, por seus dirigentes, para que sejam os primeiros
a rezar ao Senhor da vida para que lhes devolva a visão necessária para
caminhar e conduzir o povo pelos caminhos do Evangelho, rezemos.
• Por nossas comunidades, para que nossos colaboradores no serviço que cada
um prestamos saibamos caminhar e ajudar a caminhar com olhos abertos para
a realidade, rezemos.
• Por aqueles que consagraram sua vida ao caminho do discipulado para que a
todo momento se sintam necessitados de ser curados de tantas cegueiras,
rezemos.

Oração comunitária:

Deus de amor e bondade que em Jesus te manifestaste com a Luz que nos permite ver
com clareza; faz que em todo momento nos sintamos cheios dessa Luz, para que todas
as nossas obras acrescentem a Luz que de tantos modos e por tantos caminhos
derramas sobre o mundo. Nós te pedimos isto, inspirados em Jesus, nosso Irmão
Maior, Transparência tua.

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