Você está na página 1de 9

A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NA IMPRENSA

FEMININA - A ADEQUAÇÃO E SUAS RELAÇÕES COM O AMOR

MARIA APARECIDA LIMA DE FREITAS

Resumo: Este trabalho discute a não só a construção da identidade feminina, como também
masculina, mais especificamente a construção da identidade de gênero produzida pela imprensa
feminina para adolescentes. São exemplos da imprensa feminina para adolescentes, no Brasil, as
revitas Capricho, Atrevida e Todateen, todas produtos midiáticos de veiculação nacional. As
imagens e textos das publicações de revista transmitem formas de ser e pensar aos adolescentes. Há
quem pense que influencia somente adolescentes (meninas), mas as imagens e textos falam aos
adolescentes, mesmo que indiretamente, e até às famílias, pois são discursos reproduzidos
sucessivamente, e de forma cultural.
Palavras-Chave: Gênero, criança, adolescente, imprensa feminina.

Abstract: This paper discusses not only the construction of the female, but also male identity, more
specifically, the construction of gender identity produced by the female press for teenagers.
Examples of women's press for teenagers in Brazil's Capricho, cheeky and Todateen revitas, all
products of national media placement. The images and text of journal publications convey ways of
being and thinking to teens. Some people think that only affects teenagers (girls), but the images
and texts speak to teens, eghven if indirectly, and even families because speeches are played in
succession, and culturally.
Key-words: Gender, Children,

Através dos estudos de gênero, imprensa feminina e jornalismo de revista, percebe-se que
através da análise de alguns textos e imagens está clara a capacidade que as revistas têm de educar
seus leitores através das suas publicações. Nestes conteúdos, implícitos ou explícitos, estão
presentes variados padrões, entre eles o estereótipo de que o jovem é belo, tem cabelos bonitos,
corpo em forma, e além disso de que sua personalidade é moderna, está na moda. É possível que o
adolescente não esteja neste padrão se sinta excluído de um estereótipo que não é legítimo, mas

0
criado pelos meios de comunicação.
Quanto a imprensa feminina, afinal, os periódicos para adolescentes se originaram da
imprensa feminina, pode-se dizer que seu objetivo vai além de apenas orientar e entreter. Apesar de
estas serem funções que frequentemente estas associadas ao veículo impresso. Esta imprensa que
começou no Brasil já há cerca de 180 anos tem peculiaridades que vão além do entretenimento, e
intrigam: de um lado há a reportagem sobre vocações - histórias como: para que ser uma grande
executiva se você pode ser ciclista? -, de outro, como perder peso para conquistar o “paquera”.
Dulcília Buitoni (2009) escreve que esta imprensa é marcada por rótulos. É provável que
seja de alguns destes rótulos que este veículo não consiga se desassociar, isto pode ser percebido
através da própria história da imprensa no Brasil. Após 1827, quando o “Espelho Diamantino”
começou a circular no país, jovens mulheres jornalistas na redação pediam anonimato para
trabalhar, e o veículo sofria com críticas pesadas.
A mulher na imprensa feminina não era vista como uma cidadã crítica ou racional, como se
percebe nesta frase: “pretender manter as mulheres emrat um estado de estupidez (…) pouco acima
dos animais domésticos seria uma empresa tão injusta como prejudicial ao bem da humanidade.”
(CAMARGO, 2000, p. 157).
Algumas mudanças que aconteceram após a vinda da família real para o Brasil, no século
XIX, e a passagem da sede do governo de Salvador para o Rio de Janeiro, propiciaram a
modernização da imprensa, que passou a ser sustentada pela publicidade. Estas mudanças exigiram
maior participação da mulher na vida social, e com a chegada da “Revista Feminina”, periódico de
grande representatividade da época, se iniciaram os primeiros sinais de segmentação.
E está aí uma palavra que define o veículo revista e a imprensa: segmentação. É na revista
segmentada que de fato se conhece o leitor, e, conforme Salzo (2003) se sabe exatamente com quem
se fala, por isso o leitor é tratado por “você”. E assim é estabelecido o vínculo emocional que existe
entre a revista e seu público.
O interesse em fazer o TCC sobre o tema, veio logo após a faculdade de História, quando li
uma reportagem em uma revista para o público jovem feminino. Após análise de algumas matérias
percebi que era muito evidente a necessidade de adequação feminina - e também masculina - com
base em relações afetivas (ter um namorado), adequação física (corpo em forma, magro), e outros
exemplos que serão citados ao longo do trabalho. Há autores que escrevem que é preciso estar claro
para a criança e para o adolescente que o sucesso não depende do corpo, mas de uma união de
fatores.
Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu entorno. Mais do que um
conjunto de músculos, ossos, vísceras, reflexos e sensações, o corpo é a roupa e os
acessórios que o adornam, as intervenções que nele se operam, a imagem que dele se

1
produz, as máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se incorporam, os
silêncios que por ele falam, os vestígios que nele se exibem, a educação de seus
gestos... enfim, é um sem limite de possibilidades sempre reinventadas, sempre à
descoberta e a serem descobertas. O corpo é o que dele se diz, isto é, o corpo é
construído, também, pela linguagem. Ou seja, a linguagem não apenas reflete o que
existe. Ela própria cria o existente e, com relação ao corpo, a linguagem tem o poder
de nomeá-lo, classificá-lo, definir-lhe normalidades e anormalidades, instituir, por
exemplo, o que é considerado um corpo belo, feminino, jovem e saudável.
(GOELLNER; FIGUEIRA, 2009, p. 2)

Uma das matérias analisadas chamada “Teste: Qual seu tipo de namorado” 1, parece ser
inofensiva. Porém, as opções de resposta orientam o adolescente a responder: “O garoto dos meus
sonhos precisa ser...”, etc, e, etc, escrever aqui

HISTÓRIA DA REVISTA CAPRICHO

Conforme o site da Abril, da revista Capricho:

“A capricho foi criada em 1952 por Victor Civita. Ela foi o primeiro título da Editora Abril e a
primeira revista feminina do Brasil. Nos seus primeiros 30 anos, a Capricho foi uma revista de
fotonovelas – histórias de amor contadas com fotos, em formato de histórias em quadrinhos. Em
1982, a revista, que era mensal, volta o seu foco para as leitoras mais jovens (de 15 a 29 anos). A
fotonovela desaparece e dá lugar a mais serviços de moda. Em 1985, adota o slogan “A revista da
Gatinha” e se firma como uma revista para adolescentes. A capa era sempre fotografada com
modelos.
Durante a década de 90, sair na capa da Capricho era o sonho de todas as modelos em início de
carreira. Muitas delas ficaram muito famosas, como a Ana Paulo Arósio, Luana Piovani e Gisele
Bundchen. Em 1996, a Capricho vira quinzenal. Em vez de modelos, as capas passam a trazer os
ídolos das leitoras. Em 2006, a revista passa por uma nova mudança gráfica e editorial (até mesmo
o logotipo é modificado), para ficar mais moderna e atraente. O site passa a trazer conteúdos
exclusivos para a internet e aumenta a possibilidade de interação com as leitoras. A Capricho é hoje
uma marca presente em vários aspectos da vida da adolescente brasileira. Está na revista, no site, no
celular, em produtos licenciados, games e eventos. Sempre buscando explicar o mundo de um jeito
simples e divertido e oferecendo os serviços mais relevantes para as meninas de 13 a 17 anos.”

E conforme a Wikipédia, “A Capricho é uma revista brasileira publicada quinzenalmente


pela Editora Abril e direcionada ao público adolescente feminino. Era de formato pequeno, com

1 Disponível em: http://capricho.abril.com.br/testes/qual-seu-tipo-namorado-677146.shtml

2
fotonovelas na época chamadas de “Cinenovela”. Além da cinenovela, a revista apresentava
histórias de amor desenhadas em quadrinhos, porém em novembro de 1952 numa decisão pessoal,
Victor Civita aumenta o formato da revista, passando a editá-la mensalmente. Aparecem também
outros tópicos como moda, beleza, comportamento, contos e variedades. A revista sofre grande
mudança editorial, muda o formato, o logotipo e a periodicidade (voltando a ser quinzenal). As
fotonovelas passam a circular como encarte e a revista passa a dar prioridade a moda, beleza e
comportamento, ao gosto de seu novo público (jovens de 15 a 25), mas em outubro de 1989 a
revista passa por novas modificações, desde a parte gráfica até em seu público: adolescentes de 12
a 19 anos.
Outro fator que influencia fortemente o elo que existe entre a revista e o jovem é uma
palavra muito usada quando se fala em periódico impresso: segmentação. É na revista segmentada
que de fato se conhece o leitor, e, conforme Salzo (2003) se sabe exatamente com quem se fala, por
isso o leitor é tratado por “você”. E assim é estabelecido o vínculo emocional que existe entre a
revista e seu público.
Após a análise de algumas matérias e enquetes como essa percebi que é muito evidente a
necessidade de adequação da jovem feminina - e também do jovem - com base nas relações
afetivas. Outra reportagem analisada chamada “Para superar término de namoro, garota
'beyonceriza' ex-namorado”2, a mensagem transmitida ao adolescente é que para superar o término
de um relacionamento a jovem necessitaria ridicularizar o ex-namorado, e não que o término
cicatrizaria naturalmente, com o tempo, como outros relacionamentos. Além disso, a reportagem
presume (em certos momentos, claramente), que os relacionamentos do adolescente interferem em
sua vida pessoal. Esta hipótese está baseada em vários fatores, entre eles, na dependência
econômica que a mulher teve em relação ao homem historicamente, ou seja, em valores
tradicionais. Mas o amor tradicional é o amor de hoje? Esta pergunta intriga ao mesmo tempo que já
parece haver uma resposta: não é, ele está em contínua mudança.
Estas analises me levaram a observar que a revista constrói novas afirmações, novas
identidades no tempo presente se fundamentando nas identidades tradicionais. O que chama atenção
em textos como o mencionado, é que possivelmente ali está sendo estabelecido o seguinte padrão:
para que a trajetória de vida humana seja satisfatória socialmente, a jovem precisa casar e ter filhos,
o jovem precisa namorar, e a criança ser um potencial namorador. Mas nem todos os indivíduos,
seja em todos os períodos de sua vida, irão alcançar esse “sucesso”.
Ainda sobre as reportagens citadas, eu devo dizer o que ela me comunica: “você pode até

2 Disponível em: http://capricho.abril.com.br/vida-real/superar-termino-namoro-garota-beyonceriza-ex-namorado-


792989.shtml?ref=lista

3
pode ficar sem namorado, afinal, caso aconteça você tem potencial de ter outro”. Aí então milhares
de leitores se limitam em troca do amor esperado. Mas ele realmente era esperado, naquele
momento e por aquela pessoa? Até que ponto, como, e de que forma esta foi uma necessidade
criada? E aí aparecem relatos e depoimentos das leitoras que sentiram isso na pele, como na
seguinte afirmação: “Eu era muito mandona, mas com o tempo mudei pois vi que assim ficaria
sempre sozinha”.
É importante saber como o leitor se sente ao ler reportagens como esta, e assim será possível
compreender também o que o amor significa para este leitor (uma das formas de alcançar este
objetivo é através de um estudo de recepção). É possível que ele se sinta ameaçado de perder o
afeto do colega, ou de um parceiro (ou qualquer chance de obtê-lo) se não seguir certos padrões que
podem não corresponder a necessidades reais, mas sim construções imaginadas como necessidades
reais, pela mídia.
É frequente nas reportagens da imprensa feminina entrevistas com personalidades – homens
e mulheres – que afirmam se sentirem pressionados por padrões sociais que os conduzem
casamento. Mas é preciso compreender que esses padrões talvez não sejam fiéis aos
relacionamentos contemporâneos, diferentes do que há poucos anos atrás, e em contínua
transformação, como escreve Del Priore (2006, p. 8):
(…) Como vê o leitor, assim como outros imperativos – comer ou beber, por exemplo –, o
amor e suas práticas estão inscritos em nossa natureza mais profunda. Cada cultura reserva-
lhe um espaço privilegiado em seu sistema, representando-o à sua maneira. Há quem diga
até que ele é uma invenção do Ociente. E o amor não muda só no espaço, mas no tempo
também. O de ontem não é o mesmo de hoje. Isso porque, diferentemente dos tubarões, o
amor e as formas de amar se transformam ao longo dos séculos.

Para chegar a este objetivo é importante compreender a representação do amor nos dias
atuais, apesar da complexidade desta representação, como reflete a citação de Bauman (2004, p. 6):
(…) homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido
abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando
pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de
aflição, desesperados por “relacionar-se” e, no entanto, desconfiados da condição de “estar
ligado” em particular de estar ligado “permanentemente” para não dizer eternamente, pois
temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos
nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam
para – sim, seu palpite está certo – relacionar-se...

O que parece, no entanto, é que há uma insistência na manutenção dos laços tradicionais, e
não-aceitação de uma nova forma de amar, ou de uma forma extremamente particular e pessoal de
ser e amar. Analisar a evolução do “amor” para sociedade através da mídia (evolução no sentido de
mudança) e relacioná-la com as identidades sociais também é um dos objetivos deste trabalho.
Mas como compreender o amor de “antes” e o amor de agora, se como escreveu Mary Del

4
Priore (2006, p. 8): “O amor, dirá finalmente alguém, é um problema de vida, de ordem sensível, de
estética e poética, não de conceitos.” Este ainda é um obstáculo para este trabalho, afinal, ninguém
nos ensinou a história do amor na escola ou na faculdade, apesar de este sentimento estar aqui e ali,
presente e influente na vida e comportamento humano, ele é tratado com receio, extrema cautela,
mas a comunicação sobre ele não é observada com o mesmo cuidado. O fato de não estarmos
acostumados a voltar as atenções e refletir sobre esta comunicação, seguindo a vida como se certas
linguagens fossem absolutamente normais pode ter relação com questões históricas. Estaremos
ultrapassados no que diz respeito ao amor? O amor ser importante para o casamento é considerado
um dos mais importantes avanções históricos, como explica Del Priore (2006, p. 10):
Exatamente por causa da eficácia dessa cruzada moral contra a associação entre amor e
sexo, entre corpo e alma, diversos autores consideram que o amor romântico, tal como o
conhecemos, é um fenômeno tardio. Ele teria surgido, apenas, durante o processo de
industrialização e de urbanização que teve lugar na Europa do século XVIII. Historiadores
britânicos afirmam que “o amor como base do casamento” talvez seja a mais importante
mudança nas mentalidades, ocorrida no limiar da Idade Moderna ou, possivelmente, nos
últimos mil anos da “história ocidentral”.

Outra questão de importância é se são os padrões afetivos apresentados para adequação do


leitor, ou o leitor pautando o tema das reportagens? O amor contemporâneo nas páginas de uma
revista impressa influencia na vida de seus leitores a ponto de fazê-lo sentir necessidade de alguém?
Estudar as identidades construídas na imprensa feminina e a forma como esta identidade é
influenciada pela necessidade de adequação é importante, pois esta imprensa, ideológica, pode
formar identidades não só dos jovens. Capaz de atingir milhares de pessoas, tem discursos sobre
amizades, relacionamentos que influenciam as pessoas de forma que, para muitos, é inimaginável.
São muitas as contribuições que a pesquisa pode trazer, primeiro no sentido de proporcionar
respostas a problemas como a necessidade de um indivíduo criar necessidades para se se adequar a
padrões afetivos estabelecidos.
As revistas femininas são conhecidas por seguir um caminho marcado pela orientação e
entretenimento e são de fácil acesso: estão nas clínicas médicas, nos salões de beleza, e são
facilmente colecionáveis devido seus textos atuais e “duráveis”. Mas que não sejamos facilmente
enganados ao acreditar que uma revista feminina trata-se apenas de uma imprensa secundária: elas
também tem o papel de informar.
No entanto, das folhas artesanais ao produto industrial, a imprensa feminina tem
potencialidade para atingir metade do gênero humano. E para influir em toda a vida social.
No Brasil, milhões de mulheres – e milhares de homens – leem as páginas, suplementos e
revistas dessa imprensa, que transmite ideias, modas, costumes. Visões de mundo que
modificarão até mesmo os não leitores. (BUITONI, 2009, p. 21).

Por considerar o conteúdo deste meio de comunicação supérfluo, e sem a observaçaõ

5
devida, é possível que sejamos vítimas de linguagens e construções parciais e fortemente
ideológicas.
A pesquisa bibliográfica é de fundamental importância para que os objetivos sejam
alcançados os objetivos do trabalho. As primeiras referências foram alguns autores que tive acesso
durante o tempo de faculdade e o livro “Mulher de Papel”, de Dulcília Buitoni, que fala sobre a
representação da mulher na imprensa feminina, foi uma das leituras que inspirou este trabalho.
No entanto, para que todos os objetivos possam ser contemplados, vejo como importante a
realização de um estudo de recepção sobre os efeitos que os discursos sobre o tema causam no leitor
de revista. Este estudo pode ser realizado através de questionários ou entrevistas individuais.
Para Maingueneau (1997, p. 10), nos dias atuais a análise de discurso pode indicar qualquer
coisa – toda a produção de linguagem pode ser considerada “discurso”, mas essa análise não tem a
pretenção de dominar de forma completa o sentido dos textos.
Para que seja possível uma análise do discurso é preciso levar em conta que o discurso só
faz sentido quando são consideradas as crenças e valores dos interlocutores, assim como lugar,
tempo histórico e geográfico em que é produzido (Brandão, 2006).
Além disso, o discurso é contextualizado, interativo, se desenvolve no mínimo entre duas
pessoas, e é habitado por outras vozes.
Conforme Brandão (2006, p. 22) a formação ideológica é outro elemento fundamental para a
análise do discurso, pois o discurso é um dos lugares onde a ideologia se manifesta. E há uma
informação sobre o discurso que em muito se relaciona com a “fala” de uma revista e acredito ser
importante relacioná-las, neste momento. Benetti (2013, p. 55), afirma que o jornalismo de revista
“estabelece o que julga ser contemporâneo e adequado”, sendo válido discutir o grau de influência
sobre a necessidade de adequação que uma revista pode atingir.
O conhecimento produzido pelo jornalismo, sobre a atualidade, está ancorado no conceito
de adequação. (...) Como saber se estou ou sou adequado ao mundo em que vivo? De onde
vêm os parâmetros de normalidade que determinam essa adequação? Os parâmetros
considerados hegemônicos, supostamente consensuais são o grande conhecimento
produzido pelo jornalismo; no caso das revistas, são guias normativos de comportamento e
guias incessantemente renovados de estilo e de gosto. (BENETTI, 2013, p. 47).

Os discursos do jornalismo de revista têm características que influenciam muito todos os


outros meios de comunicação. Veja como isso acontece: Benetti (2013, p.54), aponta dois pontos
fundamentais do discurso de jornalismo de revista: o dispositivo de autoridade e o vínculo
emocional. Eles acontecem de formas distintas, mas estão ligados e podem até ser dependentes.
O dispositivo de autoridade é, obviamente fundamental a todo discurso. No jornalismo, ele
adquire função elementar, pois permite reforçar a própria credibilidade de modos
exaustivamente repetidos. Fechando ainda mais o olhar, o dispositivo de autoridade é
crucial ao jornalismo de revista porque vai pontuando, ao longo de um discurso que
costuma ser mais solto ou criativo, o compromisso com os princípios deontológicos do

6
jornalismo. (BENETTI, 2013, p. 54).

E Brandão (2006, p. 22) escreve que o discurso é “o espaço em que saber e poder se unem,
se articulam, pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito que lhe é reconhecido
socialmente”. Ou seja, não é só o que está sendo dito, mas de qual forma, com qual poder está
sendo falado.
Para que seja possível compreender o discurso, a definição de “texto” também é importante,
apesar de parecer não haver concordância com relação a sua definição, há quem o use como
sinônimo de discurso. No entanto, para Orlandi (1996, p. 21):
Na perspectiva da análise de discurso, o texto é definido pragmaticamente como a unidade
complexa de significação, consideradas as condições de sua produção. O texto se constitui,
portanto, no processo de interação. (…) A relação entre discurso e o texto é o que existe
entre o objeto teórico e o da análise. (…) Na análise do discurso, o objeto teórico é o
discurso e o objeto empírico (analítico) é o texto.

O texto jornalístico é facilmente questionado porque sabe-se que imparcialidade e objetividade pura
não existem, ao estudar discurso, todas as crenças e valores que estão na fala do enunciador se
tornam mais claras. Além disso, no jornalismo é comum o uso de opiniões. É por esse motivo que
em algumas matérias são usados adjetivos e juízos de valor, de certa forma, considerados
ultrapassados e até preconceituosos. Mas misturar opinião e informação é problema grave dos
meios de comunicação, e dessa forma, um problema social.
Apesar da opinião ser uma prática comum, não se pode fazer vistas grossas e permitir que
veículos com ampla circulação, que tem como função primordial de informar, interfiram
diretamente na opinião pública sem que haja preocupação com as linguagens utilizadas, por vezes
ambíguas, tendenciosas, opinativas e parciais. Esta preocupação é é urgente e pontual já que a
comunicação interfere na história do tempo presente, na forma de ser e pensar de homens e
mulheres.

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2004.

BENETTI, Marcia. Revista e jornalismo: conceitos e particularidades. In: TAVARES, Frederico


de Mello Brandão; SCHWAAB, Reges (Orgs.). A revista e seu jornalismo. Porto Alegre: Penso,

7
2013.

BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. São Paulo: Unicamp, 2006.

BUITONI, Dulcilia Schroeder. Revista e segmentação: dividir para reunir. In: TAVARES,
Frederico de Mello Brandão; SCHWAAB, Reges (Orgs.). A revista e seu jornalismo. Porto Alegre:
Penso, 2013.

BUITONI, Dulcília Helena Shcroeder. Mulher de Papel, a representação da mulher pela


imprensa feminina brasileira. Summus, São Paulo, 2009.

CAMARGO, Suzana. A revista no Brasil. São Paulo: Abril, 2000.

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2006.

MAINGUENAU, Dominique. Novas tendências em Análise do Discurso. São Paulo: Pontes,


1997.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso e Leitura. 3ª ed. Campinas, SP: Cortez, 1996.