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I Seminário Nacional – Urbanismo, Espaço e Tempo

Temática: Cidade, Pandemia e Cotidiano


Resumo expandido

A formação socioespacial e a COVID-19

Cristina Assis Parada


Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: cristina.parada@usp.br
Heitor Faria Rodrigues
Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: heitor.rodrigues@usp.br

RESUMO
Tendo como referência a discussão sobre a formação socioespacial, é importante a apreensão do espaço geográfico
não como palco ou mero reflexo de outras forças estruturantes, mas como instância social, possuindo uma inércia
dinâmica, conforme as proposições da teoria de Milton Santos. Como recurso de análise para a compreensão da
propagação da COVID-19 no Brasil, a representação cartográfica deve não apenas conter a localização dos casos, mas
sim atrelar-se ao entendimento das dinâmicas espaciais, propondo assim uma geografia da saúde. Dessa maneira,
apresentamos uma discussão sobre dois recentes artigos, que utilizam o recurso cartográfico para a análise da
pandemia no território brasileiro. Com propósitos distintos, estes dois trabalhos consideram o espaço geográfico de
maneira dinâmica. Para além, propomos que essas cartografias sejam apreendidas através do conceito de formação
socioespacial. A formação socioespacial brasileira enseja uma distribuição específica da doença no território,
enfatizando suas desigualdades. 1

Palavras chaves: Formação socioespacial; Geografia da saúde; Cartografia; COVID-19.

Introdução

O objetivo desta proposta de ensaio é propor uma análise da distribuição desigual da pandemia de
COVID-19 no território brasileiro, à luz da teoria de Milton Santos do conceito de formação socioespacial,
tendo em vista o espaço como instância da sociedade (SANTOS, 1977; SANTOS, 2012). O modo de produção
capitalista engendra um processo de desenvolvimento desigual em diferentes escalas (SANTOS, 2012).
Essas desigualdades, portanto, não podem ser concebidas como a-históricas e naturais. A relação deste
modo de produção e o território ensejou a formação típica da sociedade brasileira. O mercado capitalista
aproveita-se de estruturas coloniais pretéritas presentes neste território, intensificando os privilégios e a
exclusão da maioria, permitindo, em um paradoxo, o crescimento e desenvolvimento capitalista, ao lado
de uma extrema desigualdade presente nesta sociedade (FERNANDES, 1975). Como o espaço é a história a
um só tempo – convergindo passado, presente e futuro -, o modo de produção vigente expressa-se na
combinação desses diferentes tempos no espaço, sendo a formação socioespacial, portanto, a concretude
necessária ao modo de produção em diferentes territórios (SANTOS, 1977; SANTOS, 2012).

Revista Políticas Públicas e Cidades – ISSN: 2359-1552


Volume 1, Número 1, 2020.
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A partir da categoria espaço-tempo e sua articulação com a distribuição espacial da pandemia no
território brasileiro, analisaremos as propostas de cartografias produzidas por BARROZO ET AL (2020) e
GUIMARÃES ET AL (2020). As propostas desenvolvidas por estes autores não encerram o debate apenas em
sua base cartográfica. Desta maneira, apresentaremos as importantes contribuições do desenvolvimento
da cartografia e sua relação com a Geografia da Saúde para superação de uma visão restrita ao
mapeamento da relação saúde-doença.

Cartografia e COVID-19

As técnicas cartográficas são de grande valia para compreensão dos padrões de distribuição, mas
ao assumirmos o espaço como instância da sociedade, o estrito procedimento metodológico de
mapeamento não consegue, sozinho, apreender os conteúdos do espaço geográfico. A escala cartográfica
pode representar a relação entre objetos e áreas, mas não expressa, por si só, a escala geográfica, a qual
contempla um recorte da realidade (ROJAS, 2006). Portanto, as contribuições do campo da Geografia da
Saúde nos auxiliam a analisar os mapas elaborados dentro da escala geográfica proposta e do conceito da
formação socioespacial brasileira. 2

Conforme proposto, trazemos como elementos desta cartografia atrelada à Geografia da Saúde, os
dois exemplos de BARROZO ET AL (2020) e GUIMARÃES ET AL (2020). BARROZO ET AL (2020) realiza um
mapeamento de clusters de casos de COVID-19, com o objetivo de identificar áreas de alto risco de
transmissão da doença, devido a seu agrupamento. Esse mapeamento, conforme BARROZO ET AL (2020)
tem o potencial de auxiliar as tomadas de decisão para contenção e elaboração de políticas relacionadas à
COVID-19.

BORGES ET AL (2020) propõe uma abordagem em que a produção cartográfica da dispersão da


COVID-19 é ponto de partida para a construção de uma análise. Dessa maneira, enfatiza a contribuição de
geógrafos clássicos para a compreensão da dinâmica espacial da doença e não apenas sua localização. A
organização territorial brasileira acarreta configurações específicas de temporalidades, dispersão e
intensidade dos casos da doença, dada as diferenças econômicas regionais, a hierarquia urbana e a rede de
transportes.

A formação socioespacial brasileira e a distribuição desigual da COVID-19

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A relação humano-natureza e a produção da natureza se dá de maneira diferenciada em cada modo
de produção (SMITH, 1988). Dessa maneira, não compreendemos a COVID-19 como manifestação natural,
assim como a manifestação desta doença no território brasileiro também não pode ser concebida como
possuindo uma distribuição natural. Antes, ela é produto e componente da estruturação e concentração
urbano desigual presente em nosso território.

Considerando o espaço como um conjunto indissociável, solidário e também contraditório de


sistemas de objetos e sistemas de ações (SANTOS, 2012), os mesmos não devem ser apreendidos
isoladamente. Os objetos condicionam a realização das ações e, em contrapartida, o sistema de ações
implica a criação de objetos novos ou sua refuncionalização. Assim, assumindo como problemática
compreender a relação dialética entre a formação socioespacial brasileira e a pandemia, devemos,
portanto, analisar seu movimento no conjunto das determinações sociais da totalidade. Neste sentido, a
distribuição dos casos de COVID-19 no território brasileiro é resultado do desenvolvimento desigual
capitalista (SMITH, 2008), presente em nossa formação socioespacial específica (SANTOS, 1977), ao passo
que também é componente do espaço geográfico, engendrando, desta maneira, novas desigualdades no
território. 3

Os resultados dos trabalhos analisados ressaltam, por meio de diferentes cartografias, a


possibilidade de diversas leituras do processo, a partir do espaço geográfico (SANTOS, 2012). Por um lado,
enfatizam a concentração de grande número de casos e mortes de COVID-19 nos grandes centros urbanos,
conforme BARROZO ET AL (2020). Por outro lado, revelam diferentes temporalidades na dispersão da
doença associadas à formação socioespacial brasileira (SANTOS, 1977). A estrutura territorial brasileira
acarreta uma distribuição da doença mais densamente presente na Região Concentrada brasileira
(BORGES ET AL, 2020). Outras regiões também apresentam maior quantidade de casos, relacionados a
eixos de transporte rodoviários importantes para a economia brasileira. Também há uma maior presença
de casos na faixa litorânea, concernente ao povoamento inicial do território. Do mesmo modo, essas
análises permitem apreendermos as desigualdades nas diferentes escalas. As metrópoles nacionais, Rio de
Janeiro e São Paulo, apesar de suas altas densidades técnico-científico-informacionais (SANTOS, 2012),
possuem áreas de alta vulnerabilidade, carentes de serviços públicos essenciais à saúde. Portanto, esta
expansão diferenciada traz a necessidade da compreensão da formação socioespacial (SANTOS, 1977),
remetendo a um território que congrega diferentes tempos.

Considerações Finais
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Esta proposta de ensaio não pretende encerrar as possibilidades de estudo da COVID-19 e suas
representações cartográficas. Sinteticamente, abordamos dois propósitos cartográficos que refletiam a
preocupação com o espaço geográfico e suas dinâmicas. No entanto, a presente análise possui lacunas a
serem ainda exploradas. Não foram realizados detalhamentos das técnicas utilizadas para a construção das
cartografias dos referidos artigos, bem como a discussão de concepções clássicas de geógrafos, que
iluminam e perpassam as construções cartográficas, como ressaltado por BORGES ET AL (2020).

O que propomos é que, a partir do conceito de espaço como instância social e da formação
socioespacial (SANTOS, 1977; SANTOS, 2012), o presente estudo busca o debate sobre a possibilidade de
uma cartografia não apenas direcionada aos estudos sobre a distribuição dos padrões de morbidade e
mortalidade de COVID-19. Para além dessa abordagem, sugere-se uma geografia da saúde também
imbuída na análise do processo socioespacial de desigualdades já instaladas, que permeiam a
compreensão destes padrões.

Referência bibliográficas

BARROZO, Ligia Vizeu; SERAFIM, Mirela Barros; MORAES, Sara Lopes; MANSUR, Giselle. Monitoramento espaço- 4
temporal das áreas de alto risco de COVID-19. Hygeia - Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, p. 417 - 425, 25 jun.
2020.
FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1975.
GUIMARAES, Raul Borges; CATÃO, Rafael de Castro; MARTINUCI, Oséias da Silva; PUGLIESI, Edmur Azevedo;
MATSUMOTO, Patricia Sayuri Silvestre. O raciocínio geográfico e as chaves de leitura da Covid-19 no território brasileiro. Estud.
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ROJAS, Luisa Iniguez. Salud y bienestar humano en la gaografía de América Latina. In: ARROYO, M.; GERAIGES LEMOS,
A; SILVEIRA, M.L. Questões territoriais na América Latina. São Paulo, USP, 2006.
SANTOS, Milton. Sociedade e espaço: a formação social como categoria e como método Boletim Paulista de Geografia,
n. 54. pp. 81-100. São Paulo, 1977.
SANTOS, Milton. A natureza do Espaço. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.
SMITH, Neil. Uneven development: nature, capital and the production of space. 3ª ed. Athens: The University of
Georgia Press, 2008.

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