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Joana Rangel de Sousa

Subt 3
N.57040

Exercício escrito de Direitos Fundamentais

Imagine a seguinte situação:


O artigo xxx do Código do Processo Civil admite o direito de remição do cônjuge do executado em
caso de venda judicial em sede executiva da casa de morada família num processo de execução fiscal.
Antónia deduziu impugnação judicial contra o ato do órgão de execução fiscal que indeferiu o pedido
de reconhecimento do direito de remir na aquisição do imóvel vendido na execução fiscal, a correr
termos no Serviço de Finanças competente, na qual é executado Bruno, pedido que fundara no
disposto no artigo xxxx do Código de Processo Civil e no facto de a peticionante viver em
circunstâncias análogas às dos cônjuges com o executado.
O tribunal não atende o pedido de Antónia alegando que o preceito em causa apenas se aplica ao
cônjuge do executado.
Antónia invocou a inconstitucionalidade do referido artigo nos termos aplicados pelo tribunal e
recorre com esse fundamento da decisão do tribunal.
Comente a seguinte situação à luz da matéria dos princípios estruturantes dada em aulas práticas?

A questão que cumpre apreciar é a de saber se é legalmente admissível a aplicação do artigo XXX do CPC
aos casos de venda em sede executiva da casa de morada de um agregado de pessoas que vive em união de
facto em condições análogas às dos cônjuges.
Nomeadamente tendo em conta uma possível violação do princípio da igualdade, artigo 13/1 CRP, assim
como do artigo 67 da CRP, que consagra o direito à família.

Primeiro que tudo, cumpre perceber o que é o direito de remição do cônjuge do executado em caso de venda
judicial em sede executiva da casa de morada família num processo de execução fiscal.

O direito de remissão está consagrado no artigo 912 do CPC que estipula que «Ao cônjuge que não esteja
separado judicialmente de pessoas e bens e aos descendentes ou ascendentes do executado é reconhecido o
direito de remir todos os bens adjudicados ou vendidos, ou parte deles, pelo preço por que tiver sido feita a
adjudicação ou a venda».

Ou seja como explica Alberto Reis o direito de remição representa, assim, o poder conferido a certas pessoas
da família do executado de resgatarem os bens coercivamente vendidos, assegurando “à família do
executado a faculdade de adquirir, tanto por tanto, os bens vendidos ou adjudicados no processo de
execução.”

Uma vez que o preceito legal exclui os unidos de facto, cabe agora averiguar tendo em conta os princípios
estruturantes se esta distinção é justificável e se pode considerar os “unidos de facto” como abrangidos pelo
conceito de família.

O 36.º, n.º 1 CRP consagra o “direito de constituir família e de contrair casamento”.


Castro Mendes in “Estudos sobre a Constituição”, 1.º Vol., pág. 372., considerara que o conceito de família
não se resume ao casamento mas decorre também de outras relações fora do matrimónio, como seja a família
resultante da união de facto. No mesmo sentido Gomes Canotilho e Vital Moreira in “Constituição da
República Portuguesa Anotada”, 1.º Vol., pág. 352 - “Não existe um conceito constitucionalmente definido
de família, sendo ele, por exemplo, um conceito relativamente aberto, cuja densificação normativo-
constitucional comportada alguma elasticidade.”

O Tribunal Constitucional tem vindo a adoptar esta posição, aceitando que a definição de família presente
nos artigos 36.º e 67.º da CRP consagra o reconhecimento constitucional de uma realidade mais ampla do
que aquela que resulta do casamento, isto é, que a família constitucionalmente protegida não assenta
necessariamente no casamento.

Tendo esta orientação em conta poderemos estar perante uma violação do princípio da igualdade.
Para Melo Alexandrino o princípio da igualdade é o principal eixo estruturante do sistema de direitos
fundamentais e um dos mais complexos problemas do Direito Constitucional. Reis Novais associada-o ao
princípio da dignidade da pessoa humana, sendo que o artigo 13.º/1 apresenta um enunciado geral.

Na linha de Dworkin o princípio da igualdade não garante a todos o mesmo tratamento, não é esse o sentido
normativo do comando constitucional, antes que se deva assegurar que todos são tratados como iguais e com
justiça. É porque todos têm igual dignidade da pessoa humana que devem ser tratados como igual.

Todavia este princípio pode ser restringido - artigo 18/3 CRP, pois como refere Reis Novais esta
identificação entre a exigência da observação do princípio da igualdade nas restrições aos Direitos
Fundamentais e a exigência de generalidade e abstração das leis restritivas não é absoluta.

Temos que olhar para a solução restritiva individual avaliando se é arbitrária e se se justifica por razões de
igualdade, tendo que ser fundada em razões ponderosas, incluindo as de busca ou garantia de igualdade
material.
Esta solução tem que ser sujeita a um controlo agravado e especialmente atento às questões de igualdade, de
descriminação e de arbítrio.

O número 2 do artigo 13 vem dar um catálogo de situações em que, à partida, se presume que não há
fundamento material suficiente:

“Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de
qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções
políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”

São as chamadas categorias suspeitas porque qualquer diferenciação em função de um destes é presumida de
violar o princípio da igualdade.
(É possível eventualmente provar o contrário, mas isso implica sempre um ónus da prova que é muito difícil
de cumprir).

In casu considero que estamos perante uma categoria suspeita, sendo que quem não contraiu matrimónio é
discriminado sem qualquer motivo aparente pelo artigo XXX do CPC.

Citando o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 8 de Setembro de 2010


“Neste enquadramento, afigura-se-nos que está vedado ao legislador ordinário optar pela protecção da
família fundada no casamento em detrimento da família resultante da união de facto, a menos que exista um
motivo razoável e objectivamente fundado que justifique essa diferenciação e que tenha apoio explícito em
valores constitucionais positivos.”

Assim decorre do princípio da igualdade, assim como do princípio constitucional de protecção da família o
dever de não desproteger, sem uma justificação razoável, qualquer família quer se funde no casamento quer
não.

Concluído, o artigo XXX do CPC na minha óptica é inconstitucional por violar o princípio da igualdade.

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