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Giovanni Alves

As Contradições
Metabólicas do
Capital
Colapso Ecológico,
Envelhecimento e
Extinção Humana
2a. Edição Revista e Ampliada
MARÇO DE 2020, EDIÇÃO Nº 9

Projeto Editorial Praxis


As Contradições Metabólicas
do Capital

Colapso ecológico, envelhecimento


e extinção humana

2ª edição – Revista e Ampliada

Canal 6 Editora
Bauru/SP
Projeto Editorial Praxis

As contradições metabólicas do capital

Copyright@2020 Giovanni Alves

Arte Capa: Giovanni Alves

Imagem: Composição, Piet Mondrian, 1916

O autor desta obra detém todos os direitos autorais registrados perante


a lei. Em caso de cópia, plágio e/ou reprodução completa e/ou parcial
indevida sem autorização, os direitos do mesmo serão reavidos perante
a justiça.

“Lei no. 9610, de 19 de fevereiro de 1998”.


Sumário

Introdução
A Fratura Metabólica do Capital

Capítulo 1
Processo Civilizatório e Escassez Social

Capítulo 2
As Contradições Fundamentais do Capitalismo

Capítulo 3
As Contradições Metabólicas do Capital

Anexo 1
Crise Estrutural do Capital, Barbárie Social e
Catastrofe Ecológica

Anexo 2
O Que é a Relação-Capital

Anexo 3
O Que é a Relação-Valor

Referencias
Prefácio à Segunda Edição (2020)

Na segunda edição revista e ampliada que se


publica meses após o livro em ebook, foram feitas
importantes alterações que tornaram mais claras e
objetivas nossas hipóteses de trabalho. Em primeiro
lugar, salientamos que as contradições metabólicas
dizem respeito às “fraturas” entre capital e natureza,
distinguindo – o que é importante – a natureza
externa e a natureza interna. Portanto, a relação-
capital acoplada à relação-valor (esclarecemos nos
Anexos o que cada conceito significa), devastam a
natureza num duplo sentido: a natureza exterior no
sentido exposto por vários autores que discutem
o o colapso ecológico; e a natureza interna do
homem, o corpo e mente do trabalho vivo e da
força de trabalho no sentido da crise sanitária
permanente por conta da irrupção de doenças
físicas e doenças mentais no homem que trabalha.
As contradições metabólicas do capital se
irrompem num período histórico determinado, isto
é, nas condições históricas da crise estrutural do
capitalismo global no século XXI, imbricando-se com
ela no sentido da interrelação entre as contradições
5
metabólicas e as contradições fundamentais do
capitalismo (o que discutimos no Capítulo 3).
Em segundo lugar, salientamos que as
contradições metabólicas do capital tornam-
se contradições perigosas na medida em que se
desenvolvem no período histórico de manifestação
do novo metabolismo demográfico do capital
caracterizado pelo envelhecimento populacional global.
Na medida em que o colapso ecológico e a crise
sanitária permanente ocorrem num período de crise
do capitalismo global e de envelhecimento da força
de trabalho global, abrem contradições superiores
que expõem o sentido verdadeiro da relação-capital
acoplada à relação-valor: a escassez social. Utilizamos
o conceito de “escassez social” a partir de um modo
de produção caracterizado por criar a miséria no meio
da abundância, isto é, uma profunda contradição
entre as possibilidades de desenvolvimento
material e seus resultados sociais.É assim que o
capitalismo como modo de produção funciona.
Na medida em que a força de trabalho envelhece
e adoece por conta da precarização das condições de
reprodução social dada pela precariedade salarial, o
sistema capitalismo expõe sua incapacidade de lidar
com a velhice e a saúde coletiva das pessoas que vivem
do trabalho. O capital como contradição viva expõe
contradições fundamentais do capitalismo, salientadas
no Capítulo 2, e as contradições metabólicas que
compõem a crise estrutural do capital. Deste
modo, salientamos no decorrer do pequeno livro, a
6
imbricação entre colapso ecológico, envelhecimento
e extinção humana como sendo possibilidades
concretas dadas pelos riscos existenciais expostos
pelo capital em sua etapa de crise estrutural.
É preciso fazer análises totalizantes e
totalizadoras capazes de entender a complexidade
do nosso tempo histórico cujo fardo caracteriza-
se pelo conjunto de contradições fundamentais
e contradições emergentes no plano das relações
sociais de produção e do desenvolvimento das
forças produtivas no seio das relações orgânicas
entre o homem e a natureza no século XXI.
Os anexos deste pequeno livro contribuem para
esclarecer conceitos e repor a problemáticas num
plano geral. Por exemplo, o Anexo 1 é a publicação
de um artigo escrito há mais de dez anos quando
utilizamos pela primeira vez na nossa reflexão, o
conceito de catástrofe ecológica. Em linhas gerais,
naquela época (2008), estava claro para nós que
um outro tipo específico de contradição histórica
de fundo (as contradições metabólicas) – embora
não tínhamos formulado tal como fizemos neste
livro. Não se colocava no horizonte a problemática
do envelhecimento demográfico ou mesmo a
saliência da degradação da natureza interna do
homem e não apenas a devastação da natureza
externa destacada pela luta do ecosocialismo.
Enfim, no decorrer do tempo, foi clareando-se

7
as determinações complexas daquilo que temos
considerado como a crise estrutural do capital.
Os anexos 2 e 3 expõem o significado dos
conceitos relação-capital e relação-valor, categorias
indispensáveis para entendermos nosso tempo
histórica. Nossa hipótese central diz que as
contradições metabólicas do capital na medida em
que se precipitam sobre as contradições fundamentais
do capitalismo expõem a incapacidade da relação-
capital acoplada à relação-valor de enfrentar o novo
metabolismo demográfico e o colapso ecológico no
século XXI. É importante discernirmos o significado
das categorias relação-capital e relação-valor para que
possamos fazer a devida critica histórico-radical.

Marília, 2 de novembro de 2020

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Introdução

A fratura metabólica do capital

N osso objetivo é salientar dois fenomenos


históricos emergentes do século XXI:
o colapso ecológico e a nova demografia do capital
caracterizada pelo envelhecimento populacional. Eles
são expressões supremas daquilo que denominamos
“contradições metabólicas” do capital. Eles expõem
a “falha metabólica” entre o capital e a natureza.
A devastação ambiental e a precariedade de vida
das pessoas mais velhas e idosas que trabalham,
demonstram a completa incompatibilidade entre o
desenvolvimento histórico do capital (relação-valor) e
a natureza - tanto a natureza externa, isto é, o meio-
ambiente; quanto a natureza interna, o desenvolvimento
do corpo e mente do trabalho vivo envelhecido.
Na medida em que ocorre a devastação ambiental
e, ao mesmo tempo, a devastação do trabalho vivo
envelhecido imerso na nova precariedade salarial,
manifesta-se de forma explicita, a escassez social e
as contradições metabólicas do capital. Ao devastar
a natureza, o capital se configura como um “risco
existencial” da humanidade no século XXI (Ord,
9
Giovanni Alves

2020). Para superar o capital, precisamos efetivamente


alterar não apenas o modo de produção da vida
social (o capitalismo enquanto relação-valor), mas
também o modo de controle do metabolismo
social (a relação-capital propriamente dita). Logo
abaixo temos uma expressão algébrica para expor
a tese que defendemos sobre a fratura metabólica
entre capital e natureza e seus desdobramentos
no plano da reprodução social do trabalho vivo.

Onde:
K é o capital.
“>” fraturado por um traço vertical é a fratura
metabólica entre capital e natureza.
N é a natureza que pode ser caracterizada como
natureza externa (e) e natureza interna (i). Por um lado,
a fratura metabólica entre capital (K) e natureza externa
(e) se explicita com o colapso ecológico que presenciamos
no começo do século XXI. Por outro lado, a fratura
metabólica entre capital (K) e natureza interna (i), isto
é, o corpo e mente do trabalho vivo, manifesta-se com
o debilitamento fisico e mental da força de trabalho
e do trabalho vivo. Nas condições históricas do novo
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As Contradições Metabólicas do Capital

metabolismo demográfico no século XXI, caracterizado


pelo envelhecimento populacional (nMDem), deve-se
aumentar as doencias fisicas e mentais do proletariado
envelhecido (o gerontariado), exposto às condições
precárias de existencia social da força de trabalho.
A fratura metabólica do capital nas condições
históricas da nova demografia do envelhecimento
populacional deve conduzir a humanidade à crise
sanitária permanente. A precariedade da vida e
do trabalho do gerontariado na etapa superior do
processo civilizatório do capital é o que denominamos
“escassez social” (o que iremos tratar no Capítulo 1).

O envelhecimento da força de trabalho


Apesar da população humana continuar crescendo
no século XXI, ela deve crescer numa menor velocidade.
Ao mesmo tempo, a população humana global está
se tornando mais velha e idosa. O envelhecimento
populacional não se deve ao aumento da expectativa
de vida e da longevidade humana, mas sim, à queda da
taxa de fertilidade (é isto que caracteriza o que alguns
autores denominam Segunda Transição Demográfica)1.
A modernização do capital e a crise do
capitalismo global alteraram efetivamente o regime de
fertilidade da força de trabalho. Os casais decidiram
ter poucos (ou nenhum) filhos. O novo metabolismo
demográfico no século XXI deve ter impacto no

1 
VAN DE KAA, Dirk J. “Demographic Transitions” In: Yi, Zeng
(ed.) Demography: v.1, EOLSS Publishers Co Ltd (January 3, 2009)
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Giovanni Alves

crescimento do PIB das economias capitalistas e


nos desdobramentos do mundo do trabalho com
a ampliação do gerontariado, a nova camada social
do proletariado na era da crise do capitalismo global.
O gerontariado é constituído pelo contingente
de trabalhadores “mais velhos” e idosos” altamente
escolarizados, incluindo neles, a fração do precariado
“mais velho”. Por exemplo, diz a CBS News que o número
de bebês nascidos nos EUA atingiu o nível mais baixo
em mais de três décadas no ano passado, promovendo
o atual “escassez de bebês” do país. Especialistas
dizem que a pandemia de coronavírus provavelmente
reduzirá ainda mais os números. Os Centros de
Controle e Prevenção de Doenças (CDC´s) divulgaram
dados preliminares na quarta-feira, indicando que as
mulheres estadunidenses devem ter uma média de
aproximadamente 1,71 filhos ao longo da vida. Isso
significa que, mais uma vez, os norte-americanos não
estão tendo bebês suficientes para substituir as gerações
anteriores. Com base em uma revisão de mais de 99%
de todas as certidões de nascimento, 3,75 milhões de
bebês nasceram nos EUA no ano passado, uma queda
de cerca de 1% em relação a 2018 e o menor número
desde 1985. Os nascimentos nos EUA caíram todos
os anos desde 2007, exceto em um ligeiro aumento
em 2014, disse o CDC.2. A queda da taxa de fertilidade

2
“U.S. births fall to a 35-year low”, CBS News. Disponivel em:
https://www.cbsnews.com/news/us-births-fall-record-35-year-
-low. Acesso em 07/07/2020).
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As Contradições Metabólicas do Capital

é uma realidade global e não apenas dos EUA. É a


“escassez de bebes” que faz com que as sociedades
humanas envelheçam tendo em vista que aumenta
o contingente de “mais velhos” e idosos. Trata-se do
novo metabolismo demográfico do capital no século
XXI. Isto deve acirrar as contradições metabólicas do
capital, expondo a sua incapacidade de enfrentar a
problemática histórica do envelhecimento humano.
Na era do gerontariado torna-se cada vez mais
inaceitável para o capital, “sustentar” improdutivos e
inúteis. É o que verificamos com as políticas de desmonte
da previdência social pública e a imposição do trabalho
estranhado para toda vida. Este é um importante
aspecto da precarização estrutural do trabalho, sendo
manifestação do movimento estrutural da relação-
valor que reduz tempo de vida a tempo de trabalho. Na
verdade, o gerontariado está condenado a trabalhar até a
morte. Existe um vínculo sutil entre o desenvolvimento
da “escassez social” do capital e a necropolítica
adotada pelas forças políticas de extrema-direita que
protagonizam a politicidade do capital no século XXI.
O envelhecimento como processo biológico
faz parte da evolução do organismo vivo que nasce,
cresce, envelhece e morre. O verdadeiro problema
não é o envelhecimento humano em si como
fenomeno natural do organismo vivo, mas sim, o
envelhecimento humano nas condições históricas
da nova precariedade salarial, expondo assim, a
fratura entre capital e natureza interna do homem
que trabalha (a natureza interior do homem se
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Giovanni Alves

manifesta enquanto capacidade fisica e espiritual da


força de trabalho que efetua a troca metabólica com a
natureza exterior por meio do processo de trabalho).
Devido o processo civilizatório do capital, tivemos
no decorrer do século XX, o aumento da expectativa
de vida ao nascer. A expectativa de vida é a medida
de quanto tempo se espera que uma pessoa viva. A
expectativa de vida varia em todo o mundo e envolve
muitos fatores, como dieta, gênero e meio ambiente.
À medida que os cuidados médicos melhoraram ao
longo dos anos, a expectativa de vida aumentou em
todo o mundo. A introdução de cuidados médicos,
como vacinas, melhorou significativamente a
vida de milhões de pessoas em todo o mundo. É
indiscutivel que se vive hoje mais do que no passado.
Entretanto, como constataram Cardona e Bishai3,
a velocidade de evolução ascendente da expectativa de
vida diminuiu desde a década de 1950.Os pesquisadores
examinaram dados de expectativa de vida de 139 países
e, para cada um, calcularam o ganho de expectativa de
vida decenal - o ganho de um determinado ano para
a década seguinte - durante o período 1950-2009.
Para a amostra total, o ganho decenal médio começou
com impressionantes 9,7 anos durante a década de
1950, mas reduziu-se mais ou menos continuamente

3 
CARDONA, Carolina; BISHAI, David. “The slowing pace of
life expectancy gains since 1950”. BMC Public Health. 17 Janu-
ary 2018. In: https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/
articles/10.1186/s12889-018-5058-9. Acesso em: 25/10/2020.
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As Contradições Metabólicas do Capital

até chegar a 1,9 ano durante a década de 2000 (o


estudo não quebrou os dados por país ou região).
Cardona e Bishai estratificaram os países da
amostra por expectativa de vida e descobriram que os
países com maior expectativa de vida - com expectativa
de pelo menos 71 anos ao nascer - diminuíram de um
ganho decenal médio de 4,8 anos na década de 1950 para
2,4 anos em 2000-2010. No entanto, houve um declínio
ainda mais acentuado nos países na estratificação mais
baixa da longevidade, com expectativa de vida menor
do que 51 anos ao nascer. Para os países desta categoria,
a mudança decenal média na expectativa de vida caiu
continuamente, de um ganho promissor de 7,4 anos
na década de 1950, para uma perda preocupante de 6,8
anos na década de 2000. Em outras palavras, os países
de vida média mais curta passaram de grandes ganhos
para declínios acentuados na expectativa de vida.
De acordo com a OMS (Organização Mundial
da Saúde) no estudo “Envelhecimento e Capacidade
de Trabalho” (de 1993)4, a partir dos 46 anos de
idade, o homem apresenta fragilidades organicas
que podem ser controladas e atenuadas de acordo
com o estilo de vida e com a classe social. Com o
aumento da idade do organismo humano, altera-se
a capacidade funcional do trabalho vivo sendo isto
o que se entende por envelhecimento humano. Mas

4 
Aging and Working Capacity, WHO Technical ReportSeries
835, Report of a WHO Study Group. World Health Organiza-
tion, Geneva, 1993.
15
Giovanni Alves

o envelhecimento não é só um processo biológico,


mas sim um processo sociometabólico regulado pelas
relações sociais de trabalho e produção da vida. Não
apenas o estilo de vida, mas o pertencimento de
classe social e o modo de trabalho podem acelerar o
processo biológico do envelhecimento ou a degradação
das capacidades funcionais da força de trabalho.
A precariedade das condições de existencia social
do trabalho vivo contribui para o envelhecimento
humano no sentido da perda de qualidade de vida
e debilitamento da capacidade funcional da força
de trabalho. Embora se viva mais, o aumento da
precariedade social da força de trabalho no seu ciclo
de vida, faz com que a juventude e as pessoas adultas
envelheçam com celeridade, expondo fragilidades
fisicas e mentais que devem cobrar um alto preço
quando estiverem mais velhos e idosos. O último
relatório do Estudo sobre a Carga Global de Doenças,
Lesões e Fatores de Risco (GBD)5 em 2019 levantou
questões incômodas sobre a direção que a saúde
global tomou no século XXI. Diz o GBD que desde
1990, as pessoas estão vivendo mais - mas vivem
pior. Como salientamos acima, o capitalismo alongou
a quantidade de anos de vida ou a expectativa de vida
ao nascer. Entretanto, piorou a qualidade de vida dos

“Global age-sex-specific fertility, mortality, healthy life


5 

expectancy (HALE), and population estimates in 204


countries and territories, 1950–2019: a comprehensive demo-
graphic analysis for the Global Burden of Disease Study
2019”, Global Health Metrics, Lancet 2020; 396: 1160–203.
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As Contradições Metabólicas do Capital

“mais velhos” e idosos. Desde a década de 1990, a


década de ascensão do capitalismo global, ocorreu o
aumento da concentração de renda e da desigualdade
social com o crescimento da precariedade salarial. Com
uma população global que envelhece rapidamente,
as demandas de serviços de saúde para lidar com
adoecimentos incapacitantes e doenças crônicas
aumentaram de forma significativa. De acordo com o
estudo, a pressão alta, acúmulo de açúcar no sangue,
índice de massa corporal elevado (obesidade) e o uso
de tabaco tornaram-se os principais contribuintes para
problemas crescentes de saúde em grande parte da
América Latina, Ásia, EUA e Europa,. As diferenças
mais marcantes, entretanto, estão na África Subsaariana.
Por lá, os fatores mais relevantes são desnutrição, falta de
saneamento básico, poluição e sexo desprotegido. Com
respeito a América Latina, diz o estudo, as pessoas estão
vivendo mais em geral. Entretanto, a região enfrenta
um aumento preocupante na incidência de doenças
crônicas (as doenças não-transmissíveis passaram
de 48% em 1990 para 70,5% em 2019). Os maiores
contribuintes para a diminuição da taxa de perda de
saúde na região nos últimos 30 anos foram diabetes,
doença cardíaca isquêmica e doença renal crônica.
O modo de produção capitalista não é apenas
um modo de produção social da vida, mas um modo
de produção do envelhecimento e morte da força de
trabalho tendo em vista a pobreza e a precariedade
salarial que tem aumentado desde 1990. O capital
envelhece o trabalho vivo ao degradar o corpo e a mente
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Giovanni Alves

do homem pelo trabalho estranhado. Na medida em


que se expande e intensifica o trabalho estranhado e a
precariedade social da população envelhecida, percebe-
se de forma contundente a desefetivação humana pela
relação-valor e relação-capital. Ao mesmo tempo que
o capital degrada a força de trabalho, ele estigmatiza
os mais velhos e idosos. O capitalismo em sua fase
de crise estrutural tem dificuldades de lidar com as
pessoas mais velhas e idosas tendo em vista a lógica
do produtivismo consagrado pela sociedade neoliberal.
Ao criar a superpopulação relativa, o capital aumentou
a descartabilidade da força de trabalho, com as
pessoas mais velhas e idosas sendo consideradas
“improdutivas”, tornando-se um fardo social.

“Envelhecimento Ativo” e Mais Trabalho


Em abril de 2002 foi realizado a Segunda
Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre
Envelhecimento, em Madri, Espanha. Foi lançado
o Projeto de Política de Saúde visando promover
“um envelhecimento saudável e ativo”. O desafio
do dito “envelhecimento ativo” é fazer com que a
velhice tenha uma qualidade de vida que permita
à força de trabalho tornar-se mais produtiva
apesar da idade longeva. Entretanto, a politica do
envelhecimento ativo entra em contradição com a
lógica do produtivismo que caracteriza o mundo
do trabalho na sociedade neoliberal. O consumo
da força de trabalho pela nova precariedade salarial
do capital tornou-se mais intenso, condenando as
18
As Contradições Metabólicas do Capital

pessoas mais velhas e idosos ao risco de doenças


fisicas e mentais que afetam a médio e longo
prazo, a capacidade funcional da força de trabalho.
Ao condenar os mais velhos e idosos a uma
vida de pobreza e desamparo social, o capitalismo
global expõem a lógica da escassez social do capital:
a riqueza social não se traduz em bem-estar para
mais velhos e idosos. A partir da década de 1990, o
marxismo ecológico recuperou a crítica marxiana da
relação capital e natureza a partir do conceito de “fenda
metabólica” (Foster e Clark, 2020; Burkett, 2014).
Entretanto, falta-nos ampliar as derivações radicais
do conceito de “fenda metabólica” na perspectiva
do desenvolvimento humano como sendo outra
natureza que é parte intrínseca do ecossistema
natural propriamente dito. É importante o surgimento
de uma gerontologia socialista que ressignifique o
conceito de envelhecimento humano nas condições
históricas da “crise demográfica” do século XXI e faça
o mesmo que a ecologia radical, reconhecendo que
capital e modo de produção capitalista são incapazes
de lidar com um mundo social constituído por um
proletariado mais velho e idoso (o gerontariado).
O sociometabolismo do envelhecimento do
trabalho vivo deve expor a profunda incapacidade da
relação-capital (e da relação-valor) em lidar com o novo
metabolismo demográfico no século XXI. A fratura
metabólica entre capital e natureza interna (o corpo-
mente do trabalho vivo por conta de sua fragilização
orgânica e degradação cognitiva) deve assumir uma
19
Giovanni Alves

nova densidade histórica com o envelhecimento


populacional e o surgimento do gerontariado
(o proletariado envelhecido do século XXI).
A camada social do gerontariado tende a se
ampliar no século XXI confrontando com seus
carecimentos radicais, o capital como relação-valor.
Por “carecimentos radicais” entendemos todos os
carecimentos que nao podem ser satisfeitos dentro
dos limites da sociedade capitalista. O capital é
incapaz de propiciar um vida plena de sentido para
amplas camadas sociais do proletariado envelhecido.
A ideologia do “envelhecimento ativo” apenas
repõem a necessidade do capital em transformar
mais velhos e idosos em força de trabalho
produtiva, reduzindo o tempo de vida a tempo de
trabalho. Portanto, os carecimentos radicais do
gerontariado são fatores de superação da relação-
valor na medida em que são incompativeis com o
desenvolvimento do sistema capitalista (Heller, 1978).
Ao mesmo modo que é incapaz de lidar com o
trabalho envelhecido, o capital é incapaz de lidar com a
natureza externa (vide o o colapso ecológico), sendo tais
incapacidade endogenas do capital como relação-valor,
expressões das contradições metabólicas do capital. A
ampliação do gerontariado expressa a precarização do
trabalho vivo envelhecido, devastado não apenas
nas suas condições de trabalho e produção, mas nas
condições de reprodução social da qual faz parte a
biosfera. A falta de respeito e cuidado com as pessoas

20
As Contradições Metabólicas do Capital

mais velhas e idosas é uma forma de devastação


humana tanto quanto a devastação ambiental.
O organismo vivo do homem, o corpo e
mente do trabalho vivo do homem que trabalha
é, tanto quanto a biosfera, um legado da natureza
viva degradado historicamente pelo capital.
No decorrer do século XXI, o capital expõe suas
fraturas metabólicas, tanto com a natureza externa
(colapso ecológico), quanto com a natureza interna
do trabalho vivo (a crise sanitária permanente). A
problemática da saúde humana se repõe amplamente
e de modo radical como emergência histórica.

O Colapso Ecológico
Enquanto o novo metabolismo demográfico do
capital e a ampliação do gerontariado expõem a
fratura metabólica entre capital e natureza interior do
trabalho vivo, presenciamos cada vez mais, a fratura
metabólica entre capital e natureza externa que diz
respeito ao colapso ecológico. O colapso ecológico
decorrente da falha metabólica entre capital e natureza
externa representa a degradação do meio-ambiente
natural pelo capital. O mais grave é a ruptura de
certos equilibrios ecológicos globais, constitutivos
da biosfera, devido à destruição parcial de alguns
dos elementos que a compõem (cf. a destruiçào da
camada de ozônio) que provocam o aquecimento
global e a mudança climática. Ao mesmo tempo,
como elementos derivados do colapso ecológico, o

21
Giovanni Alves

aparecimento de pandemias e o retorno endemico


de doenças infecciosas (Foster, 2005, Wallace, 2020)).
No elevado patamar do processo civilizatório,
capital e natureza externa da qual o homem faz parte,
são pólos contraditoriamente antagônicos. Torna-
se mais evidente na etapa de crise estrutural do
capitalismo global, o enfraquecimento dos recursos
naturais devido a sua pilhagem e dilapidação pelo
capital; a poluição dos elementos naturais (ar,
água, solo) pelos dejetos e resíduos da produção
industrial não controlados ou não reciclados;
particularmente, a multiplicação das catástrofes
ecológicas com repercussões cada vez mais amplas
no espaço e no tempo; o empobrecimento da flora
e da fauna devido à exterminaçào de milhares
de espécies; desestabilização ou destruição de
ecossistemas, e até mesmo de certos ambientes
naturais, tais como o mar ou a floresta (Bihr, 1993).
A distopia do capital no século XXI pode ser
representada por um vasto mundo de força de trabalho
pobre, envelhecida e precária, imersa no modo de vida
just-in-time. Diante da vida reduzida - tempo de vida
reduzido a tempo de trabalho estranhado (labor)- o
proletariado envelhecido está sob constante ameaça
de problemas de saúde fisica e mental (a degradação
da saúde mental com a disseminação dos transtornos
mentais, ansiedade e depressão) (Alves, 2014). O
colapso ambiental ao lado do novo metabolismo
demográfico do capital expõe como desafio supremo

22
As Contradições Metabólicas do Capital

o cuidado com a saúde humana. A escassez social deve


tornar-se uma caracteristicas das sociedades capitalistas.
Enquanto o processo civilizatório, isto é,
a redução das barreiras naturais por conta do
desenvolvimento tecnológico-científico, caracteriza
o século XXI, manifesta-se de forma extrema com
a ampliação do gerontariado e o aprofundamento
das desigualdades sociais e a concentração de
renda, aquilo que denominamos “escassez social”.
Com a “explosão” das contradições vivas do
capital, intensifica-se a crise humana e a barbarie social
na medida em que se afirma o tecnocapitalismo, isto
é o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho
social que devem adquirir expressão máxima com a
dita Indústria 4.0 e a ampliação da fábrica automática,
robótica, Inteligência Artificial e a Internet das coisas,
etc. O capital deve manifestar de forma extrema
as contradições da relação-valor tratadas como
contradições fundamentais do modo de produção
capitalista; mas, ao mesmo tempo, deve explicitar por
meio de suas contradições metabólicas, o capital como
“produção destrutiva” (Mészáros, 2011), produção
destrutivo de suas próprias condições de reprodução
social (a natureza exterior e o trabalho vivo). É nesse
sentido que, tendo em vista a emergência histórica
que vivemos, torna-se importante expor não apenas
as contradições fundamentais do modo de produção
capitalista - que trataremos no Capítulo 2 - , mas
aquilo que denominamos contradições metabólicas do
capital que dizem espeito à fratura metabólica entre
23
Giovanni Alves

o capital e a natureza externa e interna. Vivemos um


tempo histórico em que as contradiçoes fundamentais
do capitalismo se precipitam sobre as contradições
metabólicas do capital que, inter-relacionadas e
imbricadas umas às outras, se tornam “limites como
barreiras” que o capital não consegue ultrapassar,
inaugurando assim, a temporalidade histórica de
crise de civilização ou crise estrutural do capital.

24
1
Processo Civilizatório e Escassez Social

“Toda a aventura humana, pelo menos até aqui,


é uma luta obstinada contra a escassez”
(Jean-Paul Sartre)

O escritor norte-americano Jack London (1876-


1916) no conto “A Lei da Vida”, publicado no
começo do século XX (1901), expos uma problemática
humana que tornar-se-ia, um século depois, deveras
candente com a ascensão (e crise) do neoliberalismo:
a problemática do envelhecimento humano no século
XXI. Como sustentar com dignidade e sentido de vida,
homens e mulheres “mais velhos” que não conseguem
ser produtivos para o capital? Não se trata apenas do
problema de financiamento da Previdência Pública e
da Seguridade Social, mas da expansão de uma força
de trabalho global envelhecida que exige aumento
dos investimentos públicos nos serviços de saúde
e educação. Não deixa de ser paradoxal que, sob
o neoliberalismo, quando a lógica dos mercados
25
Giovanni Alves

se impõe, o processo civilizatório do capital e as


necessidades da vida social, exigem cada vez mais,
a presença do fundo público e do Estado social.
A problemática dos trabalhadores “mais velhos”
e dos idosos aposentados e pensionistas, é o que
denominamos de a problemática do gerontariado,
a camada social do precariado envelhecido no
contexto histórico do novo padrão demográfico do
capitalismo global. O envelhecimento populacional
é a principal característica do metabolismo
demográfico do século XXI, sendo ele resultado,
não do crescimento da expectativa de vida e do
aumento da longevidade humana, mas sim, do
novo padrão de fertilidade nas economias globais.
No conto “A Lei da Vida”1, Jack London
mostrou a indiferença da natureza para com a morte
irremediável que se aproximava de um homem velho2.
Abandonado na neve por sua tribo de caçadores e
coletores, o velho Koskoosh, quase cego e coxo, ficou
ao lado de uma fogueira com apenas um punhado
1
LONDON, Jack. “The Law of Life”. In: Selected north-
land tales. Oxford: Oxford University Press, 1996
2 
No plano da estética, o estilo naturalista de Jack London
expressou a lei da economia política do capital que, des-
de sempre, dominou com sua força material, os Estados
Unidos da América. A concorrência e a lei do “mais forte”,
aparecem para os sujeitos como leis naturais. Ao extrair do
espírito do capitalismo nos EUA, o tema de suas novelas e
contos, Jack London elevou-se como autor universal tendo
em vista que o século XX foi o século de hegemonia mun-
dial do americanismo e do culto do empreendedorismo.
26
As Contradições Metabólicas do Capital

de gravetos para evitar que congelasse na neve: “A


medida da sua vida era um punhado de gravetos”3.
O velho pai orgulhou-se da coragem do filho, chefe
da tribo, que deixou partir a tribo, deixando o pai
para trás. O velho Koskoosh teve que ser abandonado
pela sua tribo pois era demasiadamente velho e não
pode prosseguir na caminhada: “Quando a idade
avançava, o coelho tornava-se pesado e vagaroso
e não mais podia escapulir dos seus inimigos.” Era
o costume da tradição, abandonar à morte os velhos
improdutivos, homens e mulheres que não possuíam

3 
Num informe de 13 de setembro de 2018, o FMI orde-
nou que é “preciso limitar os direitos adquiridos a quem
recebe pensões, em particular a quem recebe pensões mais
altas”. Nesta reportagem, o FMI não indicou o que entende
por “pensões mais altas”. Em Portugal, as aposentadorias
médias rondam, grosso modo, os 400 euros (o que seria o
limiar da linha da pobreza). Ao reduzir as pensões públicas
à medida do “valor da vida” dos velhos “improdutivos”, o
FMI, como instituição que representa os interesses do capi-
tal financeiro, tem como objetivo, reduzir o gasto público
dos Estados para garantir o pagamento da dívida pública
aos bancos. Ao inviabilizarem o pagamento de aposenta-
dorias dignas e ao desmontarem a previdência pública e
a seguridade social, as políticas neoliberais apoiadas pelo
FMI, criam mercado para os negócios da previdência pri-
vada. O valor irrisório dos vencimentos dos aposentados,
quase no limite da pobreza, é a verdadeira “medida” da vida
dos idosos na ótica do capital. “FMI quer travar pensões
mais altas”. Expresso, Lisboa, 12 set. 2018. Disponível
em: https://expresso.pt/economia/2018-09-12-FMI-
-quer-travar-pensoes-mais-altas. Acesso em 11. Mar. 2020.
27
Giovanni Alves

saúde e capacidade funcional para enfrentar o fardo da


vida primitiva que exigia vida nômade e enfrentamento
das agruras da natureza, incapazes de acompanhar a
tribo de caçadores e coletores. Num inverno, Koskoosh
abandonara o pai num lugar distante do Klondike4.
Enfim, Koskoosh perdeu a força física, agilidade e saúde
necessária para enfrentar a demanda da luta pela vida.
O conto de Jack London diz respeito a uma etapa
primitiva do desenvolvimento histórico da relação do
homem com a natureza. A relação do homem com a
natureza é mediada pelo grau de desenvolvimento das
forças produtivas. O nível baixo de desenvolvimento
da produtividade do trabalho obrigou a tribo de
Koskoosh a dobrar-se às tarefas da natureza. O conceito
de “forças produtivas” abrange os meios de produção
e a força de trabalho, compreendendo, deste modo,
fenómenos históricos tais como o desenvolvimento
da ciência e a sua aplicabilidade tecnológica, as
modificações organizacionais do processo de trabalho,
a descoberta e exploração de novas fontes de energia e
a educação da classe trabalhadora. As tribos nômades
de caçadores e coletores estavam sob o domínio
da “escassez primitiva”, uma situação extrema da
escassez que possuía como elemento causal, o nível
primitivo de desenvolvimento das forças produtivas
do trabalho social. A tribo de Koskoosh vivia na
etapa da barbárie histórica (comunismo primitivo).

Região de Yukon, noroeste do Canadá, a leste da fronteira


4 

com o Alasca.
28
As Contradições Metabólicas do Capital

A lei da vida descrita por Jack London, não era


uma tragédia de injustiça social, mas sim, o drama
humano da “escassez primitiva” nas comunidades,
onde a natureza não se importava com o “indivíduo”.
A rigor, nem havia o “indivíduo” propriamente dito,
tendo em vista que indivíduo e individualidade foram
criações da modernidade do capital. O que havia
efetivamente era o membro da comunidade tribal.
Como refletiu o velho Koskossoh: “[A natureza]
estabelecia uma tarefa para a vida e impunha-lhe uma
lei. A tarefa era a perpetuação da espécie, a lei da morte”.
O ciclo interminável da vida e da morte
representava a ordem da natureza, e naquele estágio
primitivo de desenvolvimento da espécie humana, a
comunidade tribal era apenas sua extensão. Apesar do
cumprimento da lei da natureza, “a vida continuava
para ele [Koskoosh] um bem muito caro”. Mesmo os
animais mais velhos não se rendem a seus predadores.
A lei da morte (a lei do “mais forte” e a seleção natural)
não se impunha sem luta pelo bem mais caro: a vida.
Entretanto, os animais não são capazes de atribuírem
valor à vida. O que eles têm é mero instinto de
sobrevivência. No que diz respeito ao velho Koskoosh,
verificava-se o conflito entre a vida como valor social e
a vida como processo natural. Jack London descreveu a
cena final do velho Koskoosh, abandonado e solitário,
cercado por uma roda de animais selvagens salivando
e uivando: “Por que [Koskoosh] se apegaria ele à vida?”.
E conclui: “Que importava, no fim de contas? Não era
esta a lei da vida?”: a lei da vida nas comunidades da
29
Giovanni Alves

escassez primitiva. De acordo com Georg Lukács (2007),


o processo civilizatório pode ser considerado como
sendo o constante “recuo dos limites naturais”. Deve ser
salientado que o processo civilizatório é o “recuo” e não
a “supressão” dos limites naturais, tendo em vista que a
natureza externa (e interna), o ser orgânico (e inorgânico)
a partir do qual evoluiu o ser social, é um limite
humano ineliminável. Como observou Marx (1985),
o homem vive da natureza, significa: a natureza é o seu
corpo, com o qual tem que permanecer em constante
processo para não morrer. Que a vida física e mental do
homem está interligada com a natureza não tem outro
sentido senão que a natureza está interligada consigo
mesma, pois o homem é uma parte da natureza.” (Marx,
2004: 155)

É por meio do processo civilizatório que o


homem supera a “escassez primitiva”, caracterizada
pelo isolamento da espécie e seu mutismo com relação
ao gênero humano. Apropriando-se dos termos
lukácsianos, podemos dizer que, na escassez
primitiva, o homem é um “ser em-si”: ele está
agrupado socialmente, mas o incipiente recuo dos
limites naturais ainda não explicitou o ser “para-si”
do gênero humano. Na medida em que ocorre o
recuo lento e desigual, mas constante dos limites
naturais, afirma-se o processo civilizatório, visto
por Lukács como sendo “a explicitação do ser-para-si
do gênero humano” (Lukács, 1978). Mas o processo
civilizatório do capital diz respeito a um longo processo
histórico desigual e contraditório. Apesar dos recuos dos
30
As Contradições Metabólicas do Capital

limites naturais com a progressiva superação da escassez


primitiva, o capital repõe no decorrer do processo
histórico, novas formas de escassez histórica: o que
denominamos “escassez social”. O progresso científico-
tecnológico, ocorrido a partir da Primeira Revolução
Industrial no começo do século XIX, abriu um campo
candente de explicitação possível do ser “para-si”
do gênero humano. Para a perspectiva ontológica
de Lukács, trabalho e linguagem como “fenômenos
originários”, dão início à odisseia do ser social. Graças
a eles, passamos do ser biológico para o ser social. Essas
atividades conscientes puseram um fim ao isolamento
da espécie: agora os homens se agrupam socialmente, os
indivíduos se ligam ao gênero humano e rompem com
o mutismo. Podemos falar então em ser social; ou, como
diz Lukács, “o ser-em-si” do gênero humano. Inicia-se,
assim, o processo civilizatório e esse processo é visto
como “a explicitação do ser-para-si do gênero humano”.
Esta passagem do “em-si” (da pré-história da
humanidade) ao “para-si” (a sociedade emancipada),
só se efetiva num segundo momento, quando, enfim, o
indivíduo se realizar conscientemente como membro
do gênero humano. A passagem do “em-si” para o
“para-si” do gênero humano é um largo processo
histórico desigual e contraditório que se intensificou
com a modernidade do capital e o capitalismo da grande
indústria. O desenvolvimento da modernidade do
capital, a partir da grande indústria, aumentou de
modo significativo, a produtividade do trabalho
social e criou a possibilidade efetiva da “utopia
31
Giovanni Alves

concreta” (Bloch, 2005); e da emancipação humana


da escassez histórica dada pelo inimaginável “recuo
dos limites naturais”. Como observou Marx (1983), as
relações sociais capitalistas de produção impedem que
ocorra a plena realização das promessas do processo
civilizatório do capital. Pelo contrário, ao invés da
escassez histórica ser negada pelo recuo dos limites
naturais, o capital fez com que a promessa civilizatória
se intervertesse em barbárie social com a afirmação
da escassez num patamar elevado da história humana
(o que denominamos “escassez social”). No caso da
força de trabalho como mercadoria, o fenômeno da
“escassez social” se manifesta, por exemplo, por meio
da produção ampliada da redundância quantitativa
do trabalho vivo (a superpopulação relativa),
tornando-o supérfluo, descartável e obsoleto em
relação às necessidades da acumulação do capital. É o
que explica o aumento do desemprego em massa e a
ampliação da “nova precariedade salarial”. Por “nova
precariedade salarial” entendemos as mais diversas
formas de contratação flexível de natureza precária;
os novos métodos de gestão de inspiração toyotista;
e a utilização de novas tecnologias informacionais
nos locais de trabalho reestruturados) (Alves, 2013).
A nova precariedade salarial caracteriza o mundo do
trabalho no século XXI, sendo a forma salarial do
novo regime de acumulação flexível (Harvey, 1992).
O capitalismo utiliza de modo recorrente, métodos
de produção que visam aumentar a produtividade
social do trabalho de forma crescente, desqualificando
32
As Contradições Metabólicas do Capital

sistematicamente o trabalho vivo até transformá-lo


num mero supervisor da operação da maquinaria. O
emprego crescente da máquina torna a presença da força
de trabalho cada vez mais redundante e dispensável.
Enquanto a produção social cresce exponencialmente
por conta do alavancamento das forças produtivas
pela utilização das máquinas, o valor da força de
trabalho, deixado por si só, de acordo com o mercado,
é depreciado em relação à produção social total.
Embora no decorrer do século XX, o desenvolvimento
da ciência e sua aplicabilidade tecnológica tenha se
vinculado objetivamente à acumulação do capital, o
desenvolvimento das forças produtivas (a urbanização,
as conquistas da ciência da medicina, a expansão dos
sistemas de saúde e saneamento básico e a elevação
da escolaridade dos trabalhadores) e, como parte de
si, a luta de classes e o Estado social, representaram
efetivamente o recuo dos limites naturais, contribuindo,
deste modo, para o aumento da expectativa de
vida e da longevidade das populações humanas.
Por um lado, o processo civilizatório do
capital representa o recuo dos limites naturais e a
superação da primeira forma da escassez histórica:
a escassez primitiva; e, por outro lado, na medida
em que é processo civilizatório “do capital”, significa
a reposição histórica da escassez na abundância
(a “escassez social”). Esta é a candente dialética
histórica entre abundância e escassez que se manifesta
com vigor no século XXI. O desenvolvimento do
modo de produção capitalista (ou o movimento
33
Giovanni Alves

do capital e da relação-valor), abriu a possibilidade


de libertar a vida humana e suas necessidades das
limitações impostas pela natureza. Como observaram
Beluzzo e Galipolo (2019) a partir de Marx,
A indústria moderna, essa formidável máquina de
eliminação da escassez oferece aos homens e mulheres,
a ‘realidade possível’ da satisfação dos carecimentos e da
libertação de todas as opressões pelo outro. Mas na marcha
de sua realidade real, o capitalismo os aprisiona nas cadeias
das relações de produção, estruturas técnico-econômicas
e formas de convivência que agem sobre o destino dos
protagonistas da vida social como forças naturais que
destroem a natureza, fora do controle da ação humana
(Belluzo e Galípolo, 2019, p. 65).

O elevado desenvolvimento das forças produtivas


expressos no progresso científico-tecnológico e na
subordinação do processo da vida social ao General
Intellect (o conhecimento social transformado numa
força de produção) ocorreu em oposição ao
trabalho vivo, tornando-o redundante, dispensável
e obsoleto. O processo de trabalho não está mais
submetido à habilidade da força de trabalho viva, mas
sim à aplicação tecnológica da ciência. Por isso, deixado
por si só, o movimento do capital tende a transformar
o processo da vida social de acordo com seu critério
produtivista, exacerbando a produção progressiva da
superpopulação relativa (o aumento das ocupações
precárias nas cadeias de sucção de mais-valor).
No século XXI, o novo e precário mundo do
trabalho do comércio e dos serviços é constituído

34
As Contradições Metabólicas do Capital

não apenas por trabalhadores jovens e adultos, mas


principalmente por trabalhadores “mais velhos”
e trabalhadores idosos pobres, tendo em vista o
envelhecimento populacional. A “escassez social”
significa que o capitalismo não é apenas um modo de
produção da vida social, mas cada vez mais, um modo
de produção social do envelhecimento da força de
trabalho como trabalho vivo. Nesse caso, “envelhecer”
não significa ser parte de uma coorte etária acima
de 60 anos, mas na perspectiva do capital, tornar-se,
redundante, descartável e obsoleto; e com respeito
à saúde física e mental (cognitiva), sem capacidade
de trabalho, independentemente da idade. Como
observou Yuval Noah Harari (2018), a descartabilidade/
obsoletização do trabalho vivo pelo capital deve
criar no século XXI, a nova classe dos “inúteis”:
[...] [com a Inteligência Artificial] apesar do
aparecimento de muitos novos empregos humanos,
poderíamos assim mesmo testemunhar o surgimento
de uma nova classe de ‘inúteis’. Poderíamos de fato,
ficar com o que há de pior nos dois mundos, sofrendo
ao mesmo tempo de altos níveis de desemprego e de
escassez de trabalho especializado. Muita gente poderia
compartilhar do destino não dos condutores de carroça
do século XIX - que passaram a ser taxistas - , mas dos
cavalos do século XIX, que foram progressivamente
expulsos do mercado de trabalho (Harari, 2018: p.136)

E mais adiante observou:


Consequentemente, a criação de novos empregos e
o retreinamento de pessoas para ocupá-los serão um
processo recorrente. A revolução da Inteligência Artificial
35
Giovanni Alves

não será um único divisor de águas após o qual o mercado


de trabalho vai se acomodar num novo equilíbrio. Será,
sim, uma torrente de rupturas cada vez maiores. Já hoje
poucos empregados esperam permanecer no mesmo
emprego por toda a vida. Em 2050 não apenas a ideia
de “um emprego para a vida inteira”, mas até mesmo a
ideia de “uma profissão para a vida inteira” parecerão
antidiluvianas. Mesmo se fosse possível inventar novos
empregos e retreinar a força de trabalho constantemente,
cabe a nos perguntar se um humano mediano terá a
energia e a resistência necessárias para uma vida de tantas
mudanças. Mudanças são sempre estressantes, e o mundo
frenético do início do século XXI gerou uma epidemia
global de estresse. (Harari, 2018: p.136)

E concluiu:
“Uma classe ‘inútil’ pode surgir em 2050 devido não
apenas à falta absoluta de emprego ou de educação
adequada, mas também devido à falta de energia
mental.” (Harari, 2018: 136).

É no cenário de afirmação histórica da “escassez


social” no século XXI que deve se manifestar o
envelhecimento da força de trabalho. O crescimento
da coorte etária de trabalhadores “mais velhos” de
45 a 60 anos ou idosos (aqueles mais de 60 anos),
não se trata efetivamente de mero problema de
cunho biológico ou demográfico, mas sim, de
um problema socio-histórico que diz respeito à
precariedade da vida das pessoas que trabalham.
O mundo do “mais trabalho” envelhece o homem
na medida em que o tempo de vida se reduz a
tempo de trabalho. Por trabalho deve-se entender
36
As Contradições Metabólicas do Capital

o “trabalho estranhado”, isto é, o trabalho capitalista


que danifica a vida do trabalho vivo e que representa
a “desefetivação” do ser genérico do homem”.
A idéia de “desefetivação” do trabalhador está
em Karl Marx (1985) quando ele discutiu o trabalho
estranhado [Entfremdung Arbeit] do proletário da
Primeira Revolução Industrial: “A realização efetiva
do trabalho tanto aparece como desefetivação
[entwirklicht], que o trabalhador é desefetivado a
ponto de morrer de fome.” (Marx, 2004: p.128). Em
alemão, o verbo entwirklichen, significa literalmente
“privado de realidade e/ou de efetividade”. A perda
da capacidade de trabalho por conta do adoecimento
físico ou mental; ou ainda, a redundância,
descartabilidade e obsoletização da força de trabalho,
são expressões da desefetivação da pessoa humana
que trabalha. A ampliação do trabalho estranhado,
a atividade laboral que danifica (e consome) a
vida, representa efetivamente o envelhecimento
do trabalho vivo, sendo ela expressão suprema da
escassez social no século XXI. Tal envelhecimento do
trabalho vivo não se calcula em anos, meses ou dias
(tempo cronológico), mas em “tempo disponível” para
si e para os outros, que se reduz com a dominância
da produção destrutiva do capital (Mészáros, 2011).
A “produção destrutiva” de que fala Mészáros,
se expressa de muitas maneiras: na precarização do
trabalho (camuflada, muitas vezes, ideologicamente, sob
o rótulo enganador de “flexibilização”); na degradação
e colapso ambiental; na obsolescência planejada com
37
Giovanni Alves

mercadorias sendo produzidas para, num curtíssimo


espaço de tempo, se tornarem obsoletas, a fim de serem
substituídas por novas mercadorias; e no “complexo
militar-industrial”, setor chave da economia mundial,
onde as mercadorias – artefatos bélicos etc. – se
destroem no ato imediato do seu consumo (Mészáros,
2011). Na perspectiva demográfica, na medida em
que ocorre o envelhecimento populacional (com o
crescimento da parcela de trabalhadores “mais velhos”
e idosos, sendo a maior parte deles com alto nível de
escolaridade), deve-se ampliar no século XXI o que
denominamos “gerontariado”. Ele se compõe pela
camada do proletariado de média e alta qualificação,
trabalhadores adultos “mais velhos” e idosos,
expostos à “precarização da vida” (Linhart, 2014).
Mas, para além da demarcação etária, pode-
se considerar o “gerontariado” como sendo o
“precariado envelhecido” pela exposição contínua e
recorrente no seu ciclo de vida à nova precariedade
salarial. Nesse caso, o envelhecimento da juventude
e do adulto precário torna-se a realidade social no
século XXI. Vejamos, por exemplo, o caso do Reino
Unido. A primeira geração do precariado – aqueles que
Holker e Malik (2013) intitularam the Jilget Generation,
devem envelhecer nas próximas décadas num mundo
capitalista demarcado pela crescente desigualdade
social e pelo aumento da concentração da riqueza. Os
filhos da era Thatcher devem ser a primeira geração
dos países capitalistas centrais em que os filhos devem

38
As Contradições Metabólicas do Capital

viver pior que os pais5 (nada indica que a geração


seguinte possa ser diferente). Ao mesmo tempo, a
produção de riqueza vai adquirir um patamar
exponencialmente elevado com o desenvolvimento
da Quarta Revolução Industrial, Inteligência Artificial,
robótica, Internet das coisas etc. que devem elevar a
produtividade social do trabalho e, por conseguinte, a
taxa de exploração por meio da extração de mais-valia
relativa. Desde o começo da década de 1980, o declínio
do sindicalismo e dos partidos comunistas e socialistas,
instituições históricas de defesa do mundo do trabalho,
contribuíram para as dificuldades do proletariado

5 
Em 29. Set. 2016, a principal manchete do jornal britânico The
Independent registrou o seguinte: “Os filhos da era Thatcher”
[1979-1990] têm a metade da riqueza da geração anterior”. A
informação se baseava em um estudo do Institute of Fiscal
Studies. As cifras apresentadas correspondiam à sociedade
britânica, mas a tendência pode ser extrapolada para a maior
parte da União Européia. Diz a reportagem: “As pessoas nas-
cidas na década de oitenta [os millennials] são a primeira
geração desde o pós-guerra que chega aos 30 anos com ren-
da menor que as nascidas na década anterior”. Na reportagem
“Quando os filhos vivem pior que os pais” do jornal El País, de
10.Mar.2017, observou-se o seguinte: “Esta marcha-à-ré é pró-
pria das gerações mais jovens, embora não só delas. Amplos
setores sociais sentem que muitas das vigas mestras nas quais
suas vidas se apoiavam se encheram de fissuras: o emprego
estável desaparece, a renda de toda uma vida trabalhando já
não está garantida –e talvez não possam receber aposentado-
rias públicas ou privadas–, os pequenos negócios familiares
correm o risco de quebrar, o valor das casas caiu, as qualifica-
ções profissionais pelas quais tanto se empenharam caducam.”
39
Giovanni Alves

contrarestar o movimento voraz do capital global. A


elevação da taxa de exploração operou como um dos
principais movimentos contratendenciais à queda da
lucratividade que tem caracterizado o capitalismo global.
Mesmo assim, desde meados da década de 1970, a taxa
de lucratividade não tem conseguido elevar-se acima
ou mesmo igualar-se à lucratividade do capitalismo
da golden age (1945-1975) (Roberts, 2016).

Gráfico 1
Participação do Trabalho na Renda Nacional
(EUA: 1899-2009)

Desigualdade social e concentração de renda


Nos EUA, o país capitalista mais desenvolvido do
mercado mundial, as tendências de desenvolvimento
do capital que tratamos até aqui, manifestam-se de
forma mais plena. É nele que iremos buscar exemplos
para demonstrar algumas hipóteses de trabalho. O
período histórico após a Segunda Guerra Mundial
(golden age) (1945-1975), caracterizou-se por um
salto de produtividade social do trabalho que permitiu
40
As Contradições Metabólicas do Capital

naquela etapa histórica do capitalismo tardio, por um


lado, o aumento dos salários reais, o que significou,
a elevação do padrão de vida para a maior parte do
mundo do trabalho organizado. Por outro lado, o salto
de produtividade do trabalho significou a redução do
“salário relativo”. A partir da crise de lucratividade em
meados da década de 1970, o capital, por conta da
supremacia da sua posição relativa acumulada na golden
age, reestruturou a posição relativa do trabalho “para
baixo”. Apesar do aumento da produtividade social
por conta do novo salto tecnológico que ocorreu com
o capitalismo global, a crise de lucratividade exigiu
do capital o aumento da taxa de exploração, o que
rebaixou ou estagnou os salários reais nas últimas
décadas. A ofensiva do capital significou a perda
da participação do trabalho na renda nacional dos
países do capitalismo centrais, uma vez que a renda
da propriedade (lucros, alugueis, juros) cresceu
mais rapidamente que a dos salários. Foi a redução
do salário relativo ocorrida no capitalismo da golden age
que permitiu a partir da década de 1970, com a crise de
lucratividade, um novo salto qualitativo do capital nas
décadas seguintes, visando recuperar a lucratividade (o
ofensiva neoliberal fez parte da investida do capital na
reestruturação de sua posição relativa). Foi a partir daí
que se manifestou o gap entre produtividade e salário real.

Salário relativo e nova precariedade salarial


A categoria de “salário relativo” tem sido pouco
utilizada pelos analistas sociais para explicar o gap
41
Giovanni Alves

entre produtividade e salário real, ocorrido nas últimas


décadas (1980-2020) nos países do capitalismo central.
Em “Trabalho Assalariado e Capital”, Karl Marx
desenvolveu o conceito de “salário relativo”. Disse ele:
O salário real pode permanecer o mesmo, pode até
subir, e não obstante o salário relativo pode baixar [...].
Embora o operário, [com a subida do salário real – GA],
disponha duma soma maior de mercadorias do que antes
[...], o seu salário contudo, diminuiu em relação com o
ganho do capitalista. O lucro do capitalista [...] [significa
que] por uma soma menor de valores de troca que paga ao
operário, o operário produz uma soma maior de valores
de troca do que anteriormente. A quota-parte do capital
subiu em relação à quota-parte do trabalho. A repartição
da riqueza social entre capital e trabalho tornou-se ainda
mais desigual. O capitalista comanda com o mesmo capital
uma quantidade maior de trabalho. O poder da classe dos
capitalistas sobre a classe operária cresceu, a posição social
do operário piorou, foi empurrada um degrau mais para
baixo da do capitalista” [o grifo é nosso] (Marx, 1987).

Como observou Rosdolsky, o que foi dito


até agora não constitui nada de novo, uma vez
que raciocínios semelhantes já são encontrados
em David Ricardo e Antoine Élisée Cherbuliez
e outros. Mas o que é fundamental é a ênfase
especial que Marx colocou na categoria de
salário relativo, bem como as amplas conclusões
teóricas e práticas que ele tirou (Rosdolsky, 2001).
O “salário relativo” é a categoria da economia
política do capital capaz de expor a dimensão da
“escassez social” como elemento fundamental

42
As Contradições Metabólicas do Capital

da lógica do desenvolvimento capitalista sob o


primado da mais-valia relativa. Mesmo quando o
salário real aumenta e melhora o padrão de vida do
trabalho organizado, a posição relativa do capital
diante do trabalho se fortalece. Existe uma “lei
tendencial de queda do salário relativo” (como
denominou Rosa Luxemburg) em virtude do qual,
cada vez mais se amplia a “distância recíproca”
entre a classe trabalhadora e a classe capitalista,
que é o que mais importa, e cujas consequências
só podem ser superados, portanto, através de
uma transformação socialista da sociedade.
O “salário relativo” se distingue da categoria
“salário real” na medida em que expõe a relação social
estruturalmente desigual entre capital e trabalho, que
não se resolve meramente, por exemplo, com o aumento
do salário real e a melhoria das condições de “escravidão
assalariada” (o aumento do padrão de vida e consumo)
ocorrida no capitalismo da golden age. Pelo contrário,
pode-se ter (e foi o que ocorreu)aumento de salário
real, mas redução do salário relativo. A categoria de
“salário relativo” tornou-se importante no século XX
quando se impôs a produção da mais-valia relativa,
a produção em massa e a sociedade de consumo.
Apesar do trabalhador poder consumir mais e ter uma
quantidade maior de mercadorias do que anteriormente,
inclusive tendo um aumento de salário real, seu “salário
relativo” diminuiu em relação ao lucro do capitalista.
A parte do capital “em relação à parte do trabalho”
aumentou. A distribuição da riqueza social entre capital
43
Giovanni Alves

e trabalho tornou-se ainda mais desigual, embora a


social-democracia tenha dito o contrário. Na verdade,
o poder da classe capitalista sobre a classe trabalhadora
aumentou, um “poder completamente invisível, uma
ação simplesmente mecânica da concorrência e da
produção de mercadorias” deixou aos trabalhadores
uma porção cada vez menor, em termos relativos, da
riqueza social produzida. Nesse caso, a ação sindical
nada pode fazer diretamente. No limite, o poder sindical
e o poder político só podem cuidar do “atentado visível
dos capitalistas contra os trabalhadores”, ou seja, só
podem reagir às reduções de salários reais, que diminui
o padrão de vida da classe operária. (Rosdolsky, 2001).
Mesmo quando não tinha elaborado ainda a crítica
da economia política, Karl Marx percebeu a natureza
do novo modo de produção que se desenvolvia como
capitalismo industrial. A escassez em meio a abundância
foi um tema candente das reflexões marxianas
desde a sua juventude. Por exemplo, em 1844, ainda
sem dominar a crítica da economia política, Marx
observou nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”:
“O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais
riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta
em poder e extensão” (Marx, 2004: p.132). Nesse
caso, não se trata da pauperização absoluta, mas sim
daquilo que a redução do “salário relativo” representa:
a repartição da riqueza social entre capital e trabalho
tende a tornar-se mais desigual, na medida em que
aumenta a produção da riqueza capitalista. Deste modo,
trata-se de uma “lei tendencial”. Como observou Rosa
44
As Contradições Metabólicas do Capital

Luxembourg com respeito à redução do “salário relativo”,


tal “lei tendencial” pode se manifestar, mais ou menos,
de acordo com a luta de classes. O fato de a lei histórica
ser tendencial, não significa que a luta de classes possa
abolir a sua efetividade, mas apenas determinar a
forma de sua manifestação contingente. A idéia da
“escassez em meio a abundância ou a idéia da pobreza
em meio à riqueza abundante das mercadorias,
sempre foi um traço saliente do desenvolvimento do
modo de produção capitalista. Por exemplo, eis como
Marx e Engels (1983) caracterizaram [em 1848] a
crise capitalista como sendo crises de superprodução:
[...] a sociedade burguesa moderna que desencadeou
meios tão poderosos de produção e de intercâmbio,
assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as
forças subterrâneas que invocara [...]Nas crises irrompe uma
epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas
as épocas anteriores — a epidemia da sobreprodução. A
sociedade vê-se de repente retransportada a um estado
de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma
guerra de aniquilação universal lhe cortou todos os meios de
subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E
por quê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados
meios de vida, demasiada indústria, demasiado comércio.
[...] As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas
para conterem a riqueza por elas gerada. E como triunfa a
burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada
de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela
conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda
de antigos mercados” (Marx e Engels, 1983: p.129)

Anos depois, a 14 de Abril de 1856, no discurso no


Aniversário do The People’s Paper, proferido em Londres,
45
Giovanni Alves

Marx voltou a salientar a “contradição viva” do capital


que repõem a escassez na abundância. Disse ele:
Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário.
Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder
de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à
fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza
transformam-se, por estranho e misterioso encantamento,
em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser
comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo
que a humanidade domina a natureza, o homem parece
tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia.
Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a
não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso
engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças
materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora
da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre
a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e
a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os
poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da
nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para
ser controvertido” [o grifo é nosso] (Marx e Engels, s/d: p.96).

O estado da “barbárie em meio à demasiada


civilização” é a expressão daquilo que denominamos
“escassez social”. Isto é um traço distintivo do modo
de produção capitalista que desde a crise capitalista
de meados da década de 1970, foi reposto por meio
do capitalismo global. No capitalismo da golden
age, a redução do “salário relativo” não deixou de
existir, mas foi oculta pelo aumento do salário real
(o fetichismo da forma-salário). Entretanto, com a
crise de lucratividade do capitalismo na década de
1970, a redução do “salário relativo” e a “escassez
46
As Contradições Metabólicas do Capital

social” manifestaram-se de modo pleno com a


estagnação dos salários reais e a ampliação do gap
entre produtividade e salários reais. A adoção de
políticas neoliberais numa época de “salto mortal”
da produtividade do trabalho fez com que, em termos
relativos, a posição social do trabalho piorasse em
relação à posição social do capital; isto é, a “distância
recíproca” entre a classe trabalhadora e a classe
capitalista aumentou de forma inédita – numa etapa
histórica elevada do processo civilizatório do capital.
A “escassez social” adquiriu no século XXI
o caráter de emergência histórica do capital,
explicitando por meio dela, elementos do que
denominamos contradições metabólicas do capital,
isto é, contradições da relação sociometabólica do
homem com a natureza. A contradição entre capital
e envelhecimento populacional do mundo do trabalho
(o novo padrão demográfico de desenvolvimento
humano no século XXI), fez emergir a crise sanitária
permanente expõe com a plena efetividade, a
problemática da “escassez social”. O gap entre
remuneração salarial e produtividade social do
trabalho é expressão do fenômeno da “escassez social”.
Vejamos o caso dos EUA, centro dinâmico
do sistema mundial do capital e núcleo orgânico
do capitalismo global: de 1948 a 1973, na medida
em que a economia norte-americana cresceu,
capital e trabalho melhoraram, em termos relativos,
sua posição social. O gráfico abaixo mostra que o
pagamento de salários e benefícios de trabalhadores
47
Giovanni Alves

aumentaram em conjunto com a produtividade


(o que os trabalhadores produzem por hora).
Gráfico 2
Produtividade e Salário nos EUA

Notas: Os dados referem-se à remuneração (salários e benefícios) de trabalhadores da


produção/não-supervisores do setor privado e à produtividade líquida da economia
total (“produtividade líquida” é o crescimento da produção de bens e serviços menos
a depreciação por hora trabalhada). Fonte: Bureau of Labor Statistics (BLS)
Apud “The Productivity–Pay Gap”. Economic Policy Institute. Disponível
em: https://www.epi.org/productivity-pay-gap/. Acesso em: 13/03/2020.

À medida que a economia norte-americana se


expandia e tornava-se mais eficiente, os trabalhadores se
beneficiavam por meio de melhores salários. Na década
de 1970 isso começou a mudar. Como podemos
verificar, desde 1979, a remuneração salarial e a
produtividade passam a divergir. A produtividade
cresceu 6x mais do que o salário desde 1979. Os
salários e os benefícios permaneceram relativamente
estagnados durante a década de 1970 e parte da década
de 1980, mas voltaram a crescer levemente – em termos
reais - na última metade da década de 1980 e décadas
de 1990 e 2000. De 1979 a 2018, a produtividade
líquida aumentou 69,6%, enquanto o salário por hora
48
As Contradições Metabólicas do Capital

dos trabalhadores nos EUA estagnou, aumentando


apenas 11,6% em 39 anos (após o ajuste pela inflação).
Isso significa que, embora os trabalhadores
norte-americanos estejam trabalhando mais do
que nunca, de maneira mais produtiva, a maior
parcela da riqueza social produzida pelo trabalho
foi apropriado pelas empresas à título de lucros e
dividendos do capital. A tendência de redução do
“salário relativo” se afirmou historicamente, na medida
em que ocorreu nas últimas três décadas, um aumento
exponencial da produtividade que não se expressou
em crescimento substancial dos salários para a
grande maioria dos trabalhadores norte-americanos.
Enquanto o salário real estagnou, o “salário
relativo” teve uma queda significativa. É o que explica
os dados que mostram o aumento exacerbado da
desigualdade social nos EUA nas últimas duas décadas.
Em essência, o aumento da desigualdade impediu
que o crescimento salarial em potencial se traduzisse
em crescimento salarial real para a maioria dos
trabalhadores. O resultado foi estagnação salarial.
A perda da participação do trabalho no produto
social, é um indício expressivo da redução do “salário
relativo” cuja queda ocorreu, principalmente a partir da
década de 1970, pari pasu com o incremento exponencial
das inovações técnicas na produção e do aumento da
produtividade do trabalho. Isto é o resultado histórico da
nova ofensiva do capital contra o Welfare State (direitos
sociais, trabalhistas previdenciários), ocorridos com o
capitalismo global. Nos EUA, a disseminação da nova
49
Giovanni Alves

precariedade salarial que privilegiou a expansão dos


bad jobs em detrimento dos good jobs, deu maior
visibilidade à “escassez social” (Kalleberg, 2011) e
contribuiu para o aumento da desigualdade social
e da concentração de riqueza nas últimas décadas.
Trata-se de um fato histórico indiscutível constatado
por analistas sociais. Por exemplo, em 2011 observou-
se que a desigualdade de renda nos países da OCDE
está em seu nível mais alto nos últimos meio século6.
Em 2017, o editor de economia do jornal The
Guardian, Larry Elliot observou que “a proporção
entre os 10% inferiores e os 10% superiores aumentou
de 1: 7 para 1: 9 em 25 anos. Os oito bilionários
mais ricos do mundo controlam a mesma riqueza
entre eles que a metade mais pobre da população
do mundo”. 7 A Oxfam disse que era “muito grotesco”
que um punhado de homens ricos chefiados pelo
fundador da Microsoft Bill Gates, valha US$ 426 bilhões,
equivalente à riqueza de 3,6 bilhões de pessoas. Em
2018, a desigualdade de renda nos EUA, um dos países
capitalistas mais desenvolvidos, atingiu o nível mais

6 
GURRÍA, Angel. Press Release for Divided We Stand: Why
Inequality Keeps Rising. OECD. December 5, 2011. Disponível
em: https://www.oecd.org/social/dividedwestandwhyine-
qualitykeepsrisingspeech.htm. Acesso em 16.06.2020.
7
ELLIOT, Larry. “World’s eight richest people have
same wealth as poorest 50%”. The Guardian, 16 jan
2017. Disponível em: https://www.theguardian.com/
global-development/2017/jan/16/worlds-eight-richest-people-
have-same-wealth-as-poorest-50. Acesso em 16.06.2020.
50
As Contradições Metabólicas do Capital

alto já registrado pelo Census Bureau: “A desigualdade


de renda nos Estados Unidos é a mais alta desde que
o censo começou a rastreá-lo, mostram dados”. Pouco
mais de um ano depois, o mesmo editor de economia
do The Guardian (Larry Elliot), voltou a destacar:
A organização Oxfam pediu ações para combater o
crescente fosso entre ricos e pobres ao lançar um novo
relatório que mostra que 42 pessoas possuem tanta
riqueza quanto os 3,7 bilhões que compõem a metade
mais pobre da população do mundo8.

A desigualdade social e a concentração de renda


crescente são apenas expressões candentes da “escassez
social” que tem caracterizado a acumulação de capital
nas condições históricas do capitalismo global. Tais
tendências de desenvolvimento do capitalismo global (a
nova precariedade salarial, o aumento da desigualdade
social e a concentração de renda), devem tornar-
se ainda mais preocupantes nas condições históricas
de envelhecimento populacional do século XXI.

8
ELLIOT, Larry. “Inequality gap widens as 42 peo-
ple hold same wealth as 3.7bn poorest”. The Guardian,
22 jan 2018. Disponível em: https://www.theguardian.
com/inequality/2018/jan/22/inequality-gap-widens-
as-42-people-hold-same-wealth-as-37bn-poorest#:~:-
text=Inequality%20gap%20widens%20as%2042%20
people%20hold%20same%20wealth%20as%203.7bn%20
poorest,-This%20article%20is&text=The%20devel-
opment%20charity%20Oxfam%20has,half%20of%20
the%20world’s%20population. Acesso em 16.06. 2020.
51
Giovanni Alves

Gráfico 3
Parcela da Renda dos 1% Mais Ricos
(1975-2015)

Fonte: World Wealth and Income Database

O Processo Civilizatório do Capital como


“Contradição Viva”
O processo civilizatório do capital compreende
três tendências evolutivas do ser social, processos
históricos desiguais e, de qualquer modo, movimentos
efetivos da ontologia do ser social, “independentes
da vontade e do saber que serviram de fundamento
às posições teleológicas dos homens” (Lukács, 1978).
Tais processos histórico-societais se sobrepõem, de
modo contraditório, à evolução do capital. A expressão
“processo civilizatório do capital” é em si mesma,

52
As Contradições Metabólicas do Capital

contraditória, pois o movimento do capital como valor


em processo contém si, elementos de barbárie social.
O devir humano dos homens
Lukács salientou a tendência constante no sentido de
diminuir o tempo de trabalho socialmente necessário à
reprodução dos homens. Nessa formulação, ele destacou
a “reprodução dos homens” porque é disso que se trata
o processo civilizatório: o devir humano dos homens.
O desenvolvimento da força produtiva com
a diminuição do tempo de trabalho socialmen-
te necessário para a produção dos valores de uso,
criaram efetivamente as condições materiais para
o surgimento da sociedade de consumo de mas-
sa e para o desenvolvimento de novas tecnologias
de transporte, comunicação e informação; e ain-
da, tecnologias da saúde e aprimoramento das
condições sanitárias, e aumento da habilidade
da força de trabalho por conta da educação, ele-
vando, deste modo, o padrão de vida social com
impactos na redução do nível de mortalidade,
principalmente nos países capitalistas desenvolvi-
dos (Moreda, Reher e Gimeno, 2015). Para Marx,
a força produtiva do trabalho é determinada por
meio de circunstancias diversas, entre outras pelo
grau médio de habilidade dos trabalhadores, o nível
de desenvolvimento da ciência e sua aplicabilidade
tecnológica, a combinação social do processo de

53
Giovanni Alves

produção, o volume e a eficácia dos meios de produção


e as condições naturais (Marx, 2013).

O desenvolvimento das forças produtivas (a


elevação do nível educacional da classe trabalhadora,
o desenvolvimento da ciência e das tecnologias de
saúde e cuidados sanitários) explica a primeira
“transição demográfica” ocorrida no século
XX nas sociedades capitalistas desenvolvida. A
“modernização” das sociedades ocidentais foi
a forma histórica de irrupção do movimento de
“recuo dos limites naturais” que caracterizou o
processo civilizatório do capital. O desenvolvimento
das forças produtivas criou as condições materiais
necessárias para o desenvolvimento social.
Não podemos deixar de reconhecer, num
nivel mais concreto, a importância da luta de
classes, a presença das instituições defensivas
do trabalho (sindicatos de massa e os partido
políticos trabalhistas, socialistas e comunistas);
e o papel do Estado social (fundo público) no
tarefa histórica decisiva de socialização dos
frutos do desenvolvimento das forças produtivas
(o que se verificou até meados da década de
1970). Foi como resultado do desenvolvimento
social nas condições de ascensão histórica do
capital que ocorreu o aumento da expectativa de
vida nas sociedades capitalistas. As objetivações
do progresso da medicina, serviços e cuidados
de saúde, condições sanitárias, aumento da
escolaridade e educação, foram efetivamente
54
As Contradições Metabólicas do Capital

distribuídas por meio de políticas de saúde


pública para a maioria da população, tornando-
se assim, conquistas civilizatórias no século XX.
Entretanto, em meados da década de 1970,
tivemos a grande crise do capitalismo tardio e o
desenvolvimento do capitalismo global. Ocorreu o
desmonte progressivo do Estado social e o aumento
da desigualdade social nos países capitalistas centrais.
A instauração da “nova precariedade salarial”
no começo do século XXI explicitou a perda
dos ganhos da expectativa da vida ocorridos no
século passado. A hegemonia neoliberal no seio do
capitalismo global teve impacto no desenvolvimento
das forças produtivas, estagnando ganhos
civilizatórios. O que se alterou com o capitalismo global
foram as condições políticas que permitiam a socialização
dos resultados do desenvolvimento das forças produtivas,
transformando-os em conquistas civilizatórias. Nas
condições de decadência histórica do capital por
conta de sua crise estrutural, observamos a interversão
das forças produtivas em forças destrutivas do capital.
A nova precariedade salarial com a redução
drástica do salário relativo; o aumento da desigualdade
social e da concentração de renda num cenário histórico
de crise estrutural do capitalismo global, ameaçam
irremediavelmente as conquistas civilizatórias num
cenário histórico de envelhecimento populacional
por conta da queda da taxa de fertilidade. A queda
(ou estagnação) da expectativa de vida nas camadas

55
Giovanni Alves

sociais expostas às mudanças estruturais do capitalismo


global foi salientado por Case e Deaton (2020):
A expectativa de vida nos Estados Unidos caiu recentemente por
três anos consecutivos - uma reversão não vista desde 1918 ou em
qualquer outro país rico nos tempos modernos. Nas últimas duas
décadas, as mortes de desespero (deaths of despair) por suicídio,
overdose de drogas e alcoolismo aumentaram dramaticamente, e
agora reivindicam centenas de milhares de vidas americanas a
cada ano - e ainda estão subindo” (Case e Deanton, 2020: p. 35).

Há 20 anos, Richard Levins observou tal


contradição no próprio desenvolvimento do
padrão epidemiológico. A longa citação justifica-
se pela importância (e atualidade) da observação
de Richard Levins feita em 2000. Diz ele:
Quando observamos as mudanças nos padrões de saúde ao
longo do século passado, temos motivos de comemoração e de
consternação. A expectativa de vida humana aumentou cerca de
trinta anos desde o início do século XX e a incidência de algumas
das doenças mortais clássicas declinou e quase desapareceu. A
varíola presumivelmente foi erradicada; a hanseníase é muito
rara; e a poliomielite quase desapareceu da maioria das regiões
do mundo. As tecnologias científicas avançaram ao ponto em que
podemos fornecer diagnósticos muito sofisticados, distinguindo
entre tipos de germes muito semelhantes entre si. [...] Mas a
crescente diferença entre ricos e pobres fez com que muitos
avanços técnicos se tornassem irrelevantes para a maioria das
pessoas do mundo. As autoridades de saúde pública foram
pegas de surpresa pelo surgimento de novas doenças e pelo
reaparecimento de doenças que se acredita serem erradicadas. Na
década de 1970, era comum ouvir que as doenças infecciosas como
área de pesquisa estavam morrendo. Em princípio, a infecção havia
sido abolida; os problemas de saúde do futuro seriam doenças
degenerativas, problemas de envelhecimento e doenças crônicas.
Agora sabemos que este foi um erro monumental. A saúde pública
foi pega de surpresa pelo retorno da malária, cólera, tuberculose,
dengue e outras doenças clássicas. Mas também ficou surpreso
com o surgimento de doenças infecciosas aparentemente novas:

56
As Contradições Metabólicas do Capital

a mais ameaçadora das quais é a AIDS, mas também a doença


de Legionnaire, o vírus Ebola, a síndrome do choque tóxico, a
tuberculose resistente a múltiplas drogas e muitas outras. Não
apenas as doenças infecciosas não estavam saindo, mas as doenças
antigas voltaram com maior virulência e surgiram totalmente
novas”. 9

A reprodução cada vez mais social das sociedades humanas


Lukács observou que o processo civilizatório do
capital significa que a reprodução social tornou-se
cada vez mais nitidamente social. É nesse sentido que
se coloca o pleno significado de processo civilizatório
como “recuo constante dos limites naturais” que,
utilizando as chaves de crítica da economia política e
da relação de valor (Marx, 2011), ocorreu por conta
do desenvolvimento do capital constante (capital fixo
e capital circulante) e do capital variável. A vida social
não pode desvincular-se inteiramente da sua base em
processos naturais (o homem é parte da natureza, o
que significa que os limites naturais podem recuar, mas
nunca serem eliminados); e, por outro lado, tanto no
plano quantitativo quanto no qualitativo, tem diminuído
constantemente, o papel do elemento puramente natural,
quer na produção, quer nos produtos e hábitos sociais.
Por exemplo, basta pensar em aspectos naturais
como a nutrição ou a sexualidade, que acolhem
em si, com intensidade cada vez maior, momentos
sociais, pelos quais são constante e essencialmente
transformados. Deste modo, as novas tecnologias e

9
Levins, Richards. “Is Capitalism a Disease? The Crisis in
U.S. Public Health”, Monthly Review 52 no.4: 8-33 S, 2000)
57
Giovanni Alves

os insumos de produção e consumo cada vez mais


“industrializados”, alteram a natureza do “trabalho
morto” e explicitam a proeminência do capital constante
na composição orgânica do capital como sendo
expressão da objetivação das capacidades humanas.
Na linguagem filosófica do jovem Marx, o trabalho
morto enquanto objeto de trabalho é a “objetivação
da vida genérica do homem” (Marx, 2004). Diz ele:
É precisamente ao trabalhar o mundo objetivo que o
homem primeiro se prova de maneira efetiva como
um ser genérico. Esta produção é a sua vida genérica
operativa. Por ela a natureza aparece como a sua obra e
a sua realidade efetiva. O objeto do trabalho é, portanto,
a objetivação da vida genérica do homem: ao se duplicar
não só intelectualmente tal como na consciência, mas
operativa, efetivamente e portanto ao se intuir a si mesmo
num mundo criado por ele. Por conseguinte, ao arrancar
do homem o objeto da sua produção, o trabalho alienado
lhe arranca a sua vida genérica, a sua objetividade genérica
efetivamente real e transforma a sua vantagem ante o
animal na desvantagem de lhe ser tirado o seu corpo
inorgânico, a natureza” (Marx, 2004).

Ao mesmo tempo, o capital variável (o trabalho


vivo) incorporou progressivamente na sua capacidade
física e mental, habilidades técnico-comportamentais
adquiridas no processo social de educação da força
de trabalho. O processo civilizatório do capital, como
salientamos acima, é radicalmente contraditório. O
desenvolvimento da força produtiva do trabalho por
meio do aumento do capital constante (capital fixo
e capital circulante) numa intensidade superior ao
58
As Contradições Metabólicas do Capital

aumento do capital variável (“trabalho vivo”), alterou


historicamente a composição orgânica do capital. No
plano estrutural da relação-valor, os efeitos cumulativos
no plano histórico tornaram-se deveras problemáticos
para o capital, com profundos rebatimentos sociais
no processo de desenvolvimento capitalista e no
próprio processo civilizatório. É o trabalho vivo
como força de trabalho que produz mais-valor.
Na medida em que aumentou de intensidade
o “trabalho morto” ou “trabalho objetivado” como
momento de desenvolvimento da ciência e sua
aplicabilidade tecnológica, reduziu-se, em termos
relativos no plano da produção, o quantum da exploração
da força de trabalho por unidade de capital. A exploração
da força de trabalho é a fonte do mais-valor (existe um
debate candente entre marxistas sobre a validade da
teoria de valor, um debate necessário na medida em
que possui repercussões teórico-politicas decisivas
sobre a natureza das contradições do capitalismo
global em sua etapa de crise estrutural (Roberts, 2016;
Carchedi, 2018; Heinrich, 2015; e Harvey, 2017).
O sistema da economia do capital baseia-se
na supremacia do valor e não do valor de uso. Em
decorrência do processo civilizatório e da necessidade
da reprodução social, ampliou-se a produção
de valores de uso. A maior parte das atividades
preparatórias de serviços (como educação, P&D e
saúde, por exemplo) são atividades de reprodução da
força de trabalho e reprodução social necessárias à

59
Giovanni Alves

produção do capital como totalidade social, sendo elas


em sua maior parte, financiadas pelo fundo público.
Diz Lukács:
O trabalho chama à vida, produtos sociais de ordem mais
elevada. Talvez a mais importante dessas diferenciações seja
a crescente autonomização das atividades preparatórias,
ou seja, a separação – sempre relativa - que, no próprio
trabalho concreto, tem lugar entre o conhecimento, por um
lado, e, por outro, as finalidades e os meios. A matemática,
a geometria, a física, a química etc., eram originariamente
partes, momentos desse processo preparatório do trabalho.
Pouco a pouco, elas cresceram até se tornarem campos
autônomos de conhecimento, sem, porém, perderem
inteiramente essa respectiva função originária. Quanto
mais universais e autônomas se tornam essas ciências,
tanto mais universal e perfeito torna-se por sua vez o
trabalho; quanto mais elas crescem, se intensificam etc.,
tanto maior se torna a influência dos conhecimentos assim
obtidos sobre as finalidades e os meios de efetivação do
trabalho (Lukács, 1978).

No plano da relação-valor, são atividades


“improdutivas” que operam como “anti-valor”. Por
exemplo, o envelhecimento da força de trabalho
exige aumento do investimento público em educação
e saúde, contabilizados pela relação de valor como
“improdutivos”. Nesse caso, o processo civilizatório
do capital encontra seus limites estruturais, expondo
assim, o processo de envelhecimento do trabalho
vivo, não apenas como processo biológico natural
da senescência ou decrepitude física e mental do
organismo vivo; ou ainda como um fato demográfico

60
As Contradições Metabólicas do Capital

de coortes de idades populacionais; mas em si e para


si, como um fenômeno sociometabolico do processo
civilizatório do capital excessivamente contraditório.
Tal desenvolvimento histórico expõe as determinações
da produção social do capital como sendo a
produção das “pessoas sem valor” (Piqueras, 2018).
A interdependência das economias nacionais
Como tendência evolutiva da civilização do capital
temos o aprofundamento da interdependência
das economias nacionais. A expansão do mercado
mundial ocorrida no ciclo histórico após a
Segunda Guerra Mundial e a globalização são
expressões do processo civilizatório do capital:
o desenvolvimento econômico cria ligações quantitativas
e qualitativas cada vez mais intensas entre as sociedades
singulares originariamente pequenas e autônomas, as quais
no início – de modo objetivo e real - compunham o gênero
humano. […] O predomínio econômico do mercado mundial,
que hoje [em 1968] se afirma cada vez mais fortemente,
mostra que a humanidade já se unificou, pelo menos no
sentido econômico geral. É verdade que tal unificação existe
apenas como ser e ativação de princípios econômicos reais
de unidade. Ela se realiza concretamente num mundo onde
essa integração abre para a vida dos homens e dos povos os
mais graves e ásperos conflitos (por exemplo: a questão dos
negros nos Estados Unidos) (Lukács, 1978).

Com o capitalismo global, o fim da URSS e a


inserção da China no mercado mundial, o mundo
tornou-se um só, constituindo o globo. Temos a
presença de tendências de desenvolvimento do

61
Giovanni Alves

novo metabolismo global tais como, por exemplo,


o novo metabolismo demográfico da civilização do
capital, que tem no envelhecimento populacional,
a sua principal característica. O colapso
ecológico é outra tendência de desenvolvimento
do metabolismo global do capital no século
XXI. Assim, o envelhecimento populacional é
um fenômeno global tal como, por exemplo,
a disseminação de pandemias e o cataclisma
climático devido ao aquecimento global. Com
o capitalismo global expõe-se em termos objetivos o
globalismo (Ianni, 1996) como sendo o novo modo
de exposição do metabolismo social do capital que
coloca imensos desafios à civilização humana ainda
organizada em termos do particularismo nacional.
A percepção e entendimento de Lukács das
tendências evolutivas do ser social como processo
civilizatório a partir do constante recuo dos
limites naturais, não significou absolutamente
um processo evolucionista, mas evolucionário:
Tudo isso é o produto das séries causais que surgem
no conjunto da sociedade. O processo em si não tem
uma finalidade. Seu desenvolvimento no sentido
de níveis superiores, por isso, contém a ativação de
contradições de tipo cada vez mais elevado, cada vez
mais fundamental (Lukács, 1978).

A idéia de progresso para o último Lukács


significa “uma síntese das atividades humanas, mas
não o aperfeiçoamento no sentido de uma teleologia
qualquer”. No plano civilizatório, o desenvolvimento
62
As Contradições Metabólicas do Capital

da força produtiva representado pelo constante “recuo


dos limites naturais”, diz o filosofo húngaro, “destrói
continuamente os resultados primitivos que, embora
belos, são economicamente limitados”. E observou:
No início, o escravismo constitui um progresso em relação
ao canibalismo; hoje, a generalização da alienação dos
homens é um sintoma do fato de que o desenvolvimento
econômico está para revolucionar a relação do homem
com o trabalho [o grifo é nosso] (Lukács, 1978: p.12)

O progresso econômico para Lukács não


é linear, nem muito menos, perene: “[...] o
progresso econômico objetivo aparece sempre
sob a forma de novos conflitos sociais”. E diz:
Assim surgem, a partir da comunidade primitiva dos
homens, antinomias aparentemente insolúveis, isto é, as
oposições de classe; de modo que até mesmo as piores
formas de inumanidade são o resultado desse progresso
(Lukács, 1978).

Com o capitalismo global, a afirmação histórica da


“escassez social” significou a frustração irremediável das
possibilidades objetivas de desenvolvimento humano
e a irrealização efetiva das promessas contidas nas
condições materiais abertas pelo processo civilizatório
. (o aumento da produtividade social do trabalho).

Escassez social e estranhamento


O que denominamos “escassez social” e suas
manifestações históricas (a nova precariedade salarial, a
desigualdade social e a concentração de renda) expõem

63
Giovanni Alves

historicamente o fenômeno do “estranhamento”


na etapa histórica elevada do processo civilizatório.
Eis como Lukács (2013) nos apresenta, em termos
singelos, o problema do estranhamento (Entfremdung):
O desenvolvimento das forças produtivas é
necessariamente também o desenvolvimento da
capacidade humana, mas – e aqui emerge praticamente
o problema do estranhamento – o desenvolvimento
da capacidade humana não produz obrigatoriamente
o [desenvolvimento] da personalidade humana. Ao
contrário: justamente potencializando capacidades
singulares, pode desfigurar, aviltar, etc., a personalidade
do homem (Lukács, 2013: p.256)

O que Marx salientou como sendo o


“desenvolvimento das forças produtivas”, Lukács
traduziu como sendo o “constante recuo dos limites
naturais” (o “processo civilizatório”). Diz Marx que
numa certa etapa, o desenvolvimento das forças
produtivas materiais da sociedade entra em contradição
com as relações sociais de produção capitalista: “Ocorre
então uma época de revolução social” (Marx, 1983).
Lukács identificou que tal progresso
econômico objetivo, que ele denomina como sendo
o desenvolvimento das forças produtivas, “aparece
sob a forma de novos conflitos sociais”, reconhecida
por ele como “oposições de classe”. Esta leitura é o
cerne essencial da perspectiva histórico-materialista
de Marx e Engels. A ampliação histórica feita por
Lukács visando interpretar o processo civilizatório

64
As Contradições Metabólicas do Capital

como ontologia do ser social – desde a comunidade


primitiva, possui respaldo na colocação final de Marx:
Nas suas grandes linhas, os modos de produção
asiático, antigo, feudal e, modernamente, o burguês
pode ser designado como épocas progressivas da
formação económica e social. As relações de produção
burguesas são a última forma antagónica do processo
social da produção, antagónica não no sentido de
antagonismo individual, mas de um antagonismo que
decorre das condições sociais da vida dos indivíduos;
mas as forças produtivas que se desenvolvem no seio
da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as
condições materiais para a resolução deste antagonismo.
Com esta formação social encerra-se, por isso, a
pré-história da sociedade humana” (Marx, 1983).
O desenvolvimento das forças produtivas
ocorrido nos quase trezentos anos de capitalismo
industrial, representou o desenvolvimento da
capacidade humana com o aumento da produtividade
do trabalho humano e o domínio do espaço-tempo
e das forças naturais. O progresso da ciência e da
tecnologia é um dado inquestionável da civilização do
capital. Este é o sentido instrumental do conceito de
desenvolvimento das forças produtivas. Por outro lado,
o desenvolvimento das forças produtivas representou
o desenvolvimento de habilidades humano-sociais e
a expansão do processo de individuação capazes de
promover o devir humano dos homens. Por exemplo,
surgiram novos modos de cooperação e divisão do
trabalho que significam novos modos de organizar
65
Giovanni Alves

habilidades sócio-humanas capazes de impulsionar


as forças produtivas do trabalho social, que são forças
produtivas do capital. Por isso, hoje em dia, os gestores do
capital sabem que o incremento das forças produtivas do
trabalho social implica não apenas investir em tecnologia
(hardware ou software), mas em gestão/manipulação
de habilidades/subjetividades humanas (humanware).
Com o desenvolvimento da Quarta
Revolução Industrial, temos o advento daquilo que
denominamos “terceira forma de produção do capital”
(a maquinofatura), caracterizada pela “integração”
homem-máquina (Inteligência Artificial, automação
e robótica, etc). Depois de revolucionar a força de
trabalho (manufatura) e as máquinas (grande indústria),
o capital promove a integração homem-máquina
como sendo a última fronteira da colonização da
natureza visando a produção de mais-valor (Alves,
2013). Entretanto, o capital como “contradição viva”,
operou uma inversão/perversão do desenvolvimento
das forças produtivas como desenvolvimento da
capacidade humana. É nesse momento que o problema
do estranhamento se põe no âmago da “contradição
viva” do capital. O “destino comum” do proletariado
global é confrontar a contradição perversa entre
capacidades humanas objetivamente efetivadas no
plano da base técnica e científica; e subjetivamente (e
socialmente) desefetivadas no sentido da apropriação
prático-sensível delas pelos homens que trabalham.
Esse desenvolvimento de (in)capacidades compõe
a contradição fulcral entre as possibilidades objetivas
66
As Contradições Metabólicas do Capital

postas (uma objetividade que é subjetivamente


mediada); e a desrealização humana efetivada
no interior do sociometabolismo do capital. Tal
contradição histórica provoca hoje – mais do que
nunca – a insatisfação e inquietação das pessoas
que pertencem à totalidade viva do trabalho.
Torna-se cada vez mais claro que o
desenvolvimento da capacidade humana sob o capital
não produz obrigatoriamente, o desenvolvimento da
personalidade humana. O desenvolvimento de homens
e mulheres como sujeitos humanos ou o devir humano
dos homens, não depende em si, do desenvolvimento
científico-tecnológico. Pelo contrário, o desenvolvimento
das capacidades humanas, tanto capacidades técnicas
intervertidas em (in)capacidades tecnológicas, quanto
capacidades de formação intervertidas em manipulação
deformativas sob o mundo social do capital, tendem a
desfigurar, aviltar, etc., a personalidade do homem que
trabalha. A desfiguração e o aviltamento da personalidade
humana ocorrem na medida em que o desenvolvimento
das capacidades humanas potencializa, não as
capacidades humano-genéricas, mas as capacidades
singulares do homem que trabalha. Potencializa-se,
deste modo, a formação de personalidades imersas
em particularismos. Tanto os aparatos tecnológicos
que organizam o espaço-tempo da produção e a
reprodução do capital, quanto os recursos de gestão/
manipulação da subjetividade do homem que trabalha,
contribuem para a (de)formação da personalidade

67
Giovanni Alves

humana através do cultivo de capacidades singulares


(ou particularistas) das individualidades humanas.
Quadro 1
Tendências do Processo Civilizatório
(Recuo dos limites naturais)

Diminuição do tempo de trabalho socialmente necessário à


reprodução dos homens

Reprodução cada vez mais nitidamente social

Aprofundamento da interdependência
das economias nacionais

Muitos dos recursos tecnológicos, sejam


os gadgets hightechs ou mesmo os equipamentos
urbanísticos que organizam nosso estilo de vida
burguês, contribuem para a formação de capacidades
singulares ou disposições egoístico-particularistas dos
indivíduos. O melhor exemplo é o privilegiamento dos
automóveis em detrimento de transportes coletivos
nos centros urbanos e a organização dos espaços
urbanísticos em função dessa capacidade singular de
locomoção espacial. Outro dado desta formação de
capacidades singulares como modo de deformação
do ser genérico do homem é a degradação de espaços
públicos e formas de sociabilidades coletivas. Lukács
expõe a implicação perversa do sociometabolismo

68
da barbárie (Alves, 2011) que descapacita o homem
como ser genérico, potencializando suas capacidades
singulares, deformando-o como ser social no interior
de uma sociedade cada vez mais social no sentido
objetivo. Esta potencializaç ã o de capacidades
singulares em detrimento em capacidades humano-
genéricas explicita-se na própria corrosão do ideal
de coletividade como espaço de desenvolvimento
de individualidades sociais. O problema do
“estranhamento” que se manifesta com a afirmação
histórica da escassez social, é a problemática crucial
da classe social do trabalho, sendo a contradição
lancinante do processo civilizatório do capital
que encontra sua expressão na “escassez social”.

69
2
As Contradições Fundamentais
do Capitalismo

“A esperança está latente nas contradições”


Bertold Brecht

D istinguimos duas categorias de contradições


do capital: (1) as contradições fundamentais
do modo de produção capitalista; e (2) as
contradições metabólicas que dizem respeito às
contradições entre capital e natureza (natureza
externa ou biosfera; e natureza interna ou corpo
e mente do sujeito que trabalha). As contradições
metabólicas funcionam como “vetores heurísticos”
que expõem as miséria do processo de acumulação
de mais-valor e as “fraturas metabólicas” que corroem
a base de reprodução social do sistema do capital.
Por exemplo, as contradições metabólicas
expõem a incapacidade do capitalismo em lidar
com a problemática do envelhecimento decorrente
do novo metabolismo demográfico, explicitando a
lógica da escassez social; e desvelam efetivamente
o colapso ecológico, expondo a nu a natureza
70
As Contradições Metabólicas do Capital

devastadora do capital e o caráter da produção


destrutiva do capital (Mészáros, 2011) com respeito
à natureza externa (meio-ambiente); e à natureza
interna do homem (corpo e mente do trabalho vivo).
As contradições metabólicas inter-relacionadas
(e imbricadas) com as contradições fundamentais
do capital, explicam hoje a lógica da necropolítica da
extrema-direita que utiliza o Estado para formular
políticas da morte, isto é, escolher quem deve viver e
quem deve morrer: os pobres e velhos improdutivos
(Mbembe, 2018). A estratégia de governos – como,
por exemplo, do Brasil, EUA e Reino Unido e outros
durante a pandêmica do novo coronavírus em 2020,
expôs a necropolitica do capital. Não se trata apenas
do uso ilegítimo da força, o extermínio nas favelas, nas
periferias das grandes cidades brasileiras, nos rincões
do país, por exemplo, mas o profundo desmonte
de políticas de proteção social, sistemas de saúde
pública e espoliação de direitos previdenciários e
trabalhistas nas condições históricas do despertar das
contradições metabólicas do capital. No século XXI
exacerba-se a natureza do capital como “contradição
viva” pois, se por um lado observamos a redução
dos limites naturais pelo processo civilizatório do
capital (tal como salientamos no capítulo anterior);
por outro lado, as sociedades capitalistas tornaram-se
“sociedades das pessoas sem valor” (Piqueras, 2018).
É a “fenda metabólica” entre capital e natureza que
afeta a perspectiva de reprodução social da homem

71
Giovanni Alves

tal como nós o conhecemos, manifestando-se a


problemática da exterminismo ou extinção humana.
Há algumas décadas, a possibilidade do
exterminismo ou de extinção humana, vinculava-
se, por exemplo, à ameaça nuclear (Thompson,
1982); ou ainda, à crise (ou colapso) ambiental
(Marques, 2015). Atualmente, a possibilidade do
exterminismo ou de extinção humana decorre não de
uma ameaça em particular, mas sim, da conjugação
do todo complexo de contradições metabólicas sobre
as quais se precipitam, por sua vez, as “contradições
fundamentais” do modo de produção capitalista.
É nesse sentido que a verdadeira ameaça à
sobrevivência humana na Terra é o próprio capital
como modo estranhado de regulação sociometabólico
e o conjunto de contradições metabólicas e contradições
fundamentais do modo de produção capitalista
(Mészáros, 2011). As contradições metabólicas não
apenas se imbricam com as contradições fundamentais
do capital, mas se inter-relacionam entre si, constituindo
o todo complexo da crise estrutural do capital. Assim,
cada crise se imbrica uma com outra ao mesmo
tempo em que as contradições fundamentais do
modo de produção capitalista se precipitam sobre
o todo complexo das contradições metabólicas do
capital. A crise estrutural do capital é a verdadeira
expressão da alienação universal do capital como
um todo, isto é, do capital como modo de controle

72
As Contradições Metabólicas do Capital

estranhado do sociometabolismo “acoplado”


ao modo de produção capitalista (Alves, 2018).

As Contradições Fundamentais do Capitalismo


Iremos indicar as oito contradições fundamentais do
modo de produção capitalista consideradas como sendo
elementos estruturais do movimento da produção
(e reprodução) ampliada do capital como relação-
valor. Elas constituem a “pletora” de contradições
impulsionadas pelo movimento da acumulação
do capital. Na medicina, “pletora” diz respeito ao
aumento de volume de sangue no organismo, que
provoca inturgescência vascular. Na Botânica, trata-
se da produção anormal e excessiva de seiva que
provoca produção anormal e excessiva de folhas. A
idéia de “pletora” de contradições do capital expressa
em termos metafórico, o movimento do valor em
processo de valorização como sendo caracterizado
pelo “excesso”. A melhor expressão do capital como
movimento do “excesso” é a crise de superprodução,
a contradição da acumulação capitalista que conduz à
superprodução de mercadorias, ao mesmo tempo que
corrói a base da procura solvente, a demanda efetiva.
As contradições fundamentais dizem respeito
às contradições dos determinantes fundamentais do
ser social do capital que na perspectiva histórico-
materialista dizem respeito à base econômica.
Entretanto, tais “determinações econômicas” não

73
Giovanni Alves

existem fora do “complexo historicamente mutável de


mediações específicas, incluindo as mais espirituais”.
É o que observou István Mészáros:
[...] o significado ontológico da economia só faz sentido se
formos capazes de apreender sua idéia de “interação complexa”
nos mais variados campos da atividade humana. Desse modo,
as várias manifestações institucionais e intelectuais da vida
humana não são simplesmente ‘construídas sobre’ uma base
econômica, mas também estruturam ativamente essa base
econômica, através de uma estrutura própria imensamente
intrincada e relativamente autônoma.” (Mészáros, 2016)

Podemos discriminar de modo esquemático, as


oito contradições fundamentais do modo de produção
capitalista como sendo: (1) a contradição primordial
entre valor de uso e valor de troca no seio da forma-
mercadoria; depois, (2) a contradição da acumulação
capitalista que conduz à superprodução de mercadorias,
ao mesmo tempo que corrói a base da procura solvente
(demanda efetiva); (3) a contradição entre ampliação
das necessidades e carecimentos sociais e os limites
estruturais da forma-mercadoria; (4) a contradição
entre a produção cada vez mais socializada e a
apropriação privada cada vez mais concentrada; (5)
a contradição entre a crescente racionalização intra-
empresa e o aumento da irracionalidade social;
(6) a contradição entre a concorrência, que leva ao
aumento da produtividade do capital; e o aumento da
composição orgânica do capital, elevando a pressão pela
queda da taxa média de lucro; (7) a contradição entre
o desenvolvimento da forma material (a base técnica
da produção social); e os limites da forma social do

74
As Contradições Metabólicas do Capital

capital (Alves, 2018); e finalmente, (8) a contradição


entre o desenvolvimento das forças produtivas e da
capacidade humana na redução das barreiras naturais;
e a degradação da personalidade humana (o que
Lukács denominou “estranhamento”, representando
a interversão da força produtiva do capital em
“produção destrutiva” do processo civilizatório)
(Lukács, 2013; Meszáros, 2002). Qual o o significada
de cada uma das contradições fundamentais
do capitalismo como modo de produção?
Em primeiro lugar, a superprodução de
mercadoria existe apenas em comparação com a
procura solvente, mas não em comparação com as
necessidades reais da sociedade (CONTRADIÇÃO 2).
Como observou Mészáros,
‘Oferta e procura’, ‘produção e consumo’ são categorias
econômicas par excellence, mas somente na superfície.
Um exame mais cuidadoso revela que nenhuma delas
faz qualquer sentido, seja qual for, sem a categoria
historicamente mutável das ‘necessidades humanas’, que
não pode ser explicada, de modo plausível, em termos de
determinações econômicas unilaterais [o grifo é nosso]
(Mészáros, 2016).

Durante as crises capitalistas, as massas


trabalhadoras sentem a privação particularmente aguda
dos produtos mais essenciais e suas necessidades são
satisfeitas em condições piores do que em qualquer
outra época. Por exemplo, massas de milhões
passam fome porque foi produzido demasiado
trigo. Os trabalhadores são privados dos meios

75
Giovanni Alves

de vida precisamente porque produziram estes


meios de vida em quantidade demasiada àquem da
capacidade aquisitiva das massas. Tal é a escandalosa
contradição do modo de produção capitalista, no
qual, segundo as palavras do socialista utópico
francês Fourier, “a abundância torna-se fonte
de indigência e privações”. No plano espiritual,
a irracionalidade social que se dissemina pela
sociedade burguesa tardia, é expressão ideológica
da anarquia da produção capitalista de mercadorias.
Nos modos de produção pré-capitalistas,
as comoções da vida da economia ocorriam
frequentemente. Mas eram provocadas por calamidades
naturais ou sociais: inundações, secas, guerras sangrentas
ou epidemias que devastavam as vezes, países inteiros,
e condenavam as populações a fome e ao perecimento.
A distinção radical entre as comoções da vida social
provocadas pelas crises dos modos de produção pré-
capitalistas e as comoções sociais provocadas pelas
crises capitalistas e suas “contradições fundamentais”,
reside em que naquelas, a fome e a miséria eram
consequência do desenvolvimento insuficiente da
produção e portanto, da escassez aguda de produtos.
Enquanto isso, no capitalismo, as comoções
da vida social são geradas pela superprodução
de mercadorias, isto é, pelo “excesso” relativo de
mercadorias produzidas em relação à procura
solvente (ou demanda efetiva) capaz de dar lucro
ao capitalista. Desde que nasceu como modo
capitalista de produção, a crise com sua dimensão
76
As Contradições Metabólicas do Capital

irracional, faz parte da acumulação de mais-valor.


A produção e a circulação mercantil simples
encerravam em termos lógico-ontológicos, a
possibilidade das crises à contradição entre
valor de uso e valor de troca ( CONTRADIÇÃO 1).
Entretanto, as crises só se tornaram inevitáveis
no capitalismo, quando contraditoriamente, a
produção adquiriu um caráter cada vez mais social,
isto é, quando o produto do trabalho socializado
de muitos milhares e milhões de trabalhadores
assalariados, destinou-se a apropriação privada
dos capitalistas ( CONTRADIÇÃO 4 ). No plano da
aparência, tal contradição é a contradição crucial
do sistema irracional do capitalismo como modo
de produção: a contradição entre o caráter social
da produção e a forma privada de apropriação
capitalista dos resultados da produção cada vez mais
socializada. É esta contradição aparente que constitui o
fundamento ontológico das crises de superprodução/
subconsumo da economia capitalista. Ela ex-põe
no plano da aparência, o movimento essencial da
acumulação do capital dada pelo aumento da taxa de
lucro por meio da exploração da força de trabalho.
Na medida em que se desenvolve a concorrência
no mercado mundial, aumenta-se o investimento em
capital constante (C) em detrimento do investimento
em capital variável (V). Os capitalistas promovem
reestruturações tecnológico-organizacionais visando a
racionalização do processo produtivo. A racionalização
do processo produtivo significa a “liofilização” do
77
Giovanni Alves

processo de trabalho intervertido em processo de


produção do capital (“liofilização” é uma tecnologia
de secagem que significa a remoção da água através
da sublimação, isto é, a mudança do estado sólido
para o estado gasoso, sem passar pelo estado líquido).
A “liofilização” do processo de trabalho capitalista
que produz mais-valor, significa produzir mais com
menos força de trabalho (reduz-se assim, o valor por
unidade do produto-mercadoria). Ao mesmo tempo,
a lógica do capital liofilizado – enxugado de força
de trabalho – é que explica a ânsia de vender mais
para poder realizar, numa escala decrescente, o valor
reduzido de cada unidade de produto-mercadoria.
Por um lado, deve-se ampliar os mercados e criar
novos mercados para a realização do mais-valor
(consumismo). Por outro lado, afirma-se a taxa
decrescente do valor de uso das mercadorias (incluindo
a força de trabalho), isto é, a obsolescência planejada
(Mészáros, 2002). A liofilização do capital e o salto da
produtividade do trabalho expõe a CONTRADIÇÃO 5
(a contradição entre a crescente racionalização intra-
empresa e o aumento da irracionalidade social).
A irracionalidade estrutural do capital se manifesta
como oposição entre a organização da produção nas
empresas por separado e a anarquia da produção no
conjunto da sociedade. Em cada local de trabalho, a
organização do trabalho e do processo de produção
subordinado à racionalidade instrumental da vontade
do empresário ou gestor de produção, conduz à
intensificação do processo de racionalização que tem
78
As Contradições Metabólicas do Capital

caracterizado o desenvolvimento da administração


das empresas no século XX (a lógica do toyotismo é
a expressão máxima da racionalidade intra-empresa e
a irracionalidade social no século XXI) (Alves, 2011).
Deste modo, temos o aumento da superpopulação
relativa do capital (exército industrial de reserva,
isto é, a força de trabalho desempregada ou sub-
empregada), ao mesmo tempo que aumenta a
composição orgânica do capital (C/V), pressionando
para baixo, a taxa média de lucro, dando origem às
crises do modo de produção capitalista (contradição 6).
A CONTRADIÇÃO 7 é aquela entre o desenvolvimento
da forma material (a base técnica da produção social);
e os limites da forma social do capital. Desse modo, ao
desenvolver-se como valor em processo, o capital “nega”
a si próprio no plano da forma-valor, tendo em vista que,
ao “enxugar” força de trabalho na esfera da produção
do capital, reduz a sua base de extração de mais-valor.
No plano da aparência, a crise de lucratividade aparece
como crise de superprodução e crise de subconsumo. No
sistema irracional do capital, a inevitabilidade das crises
radica-se no próprio sistema de economia capitalista.
Na sociedade burguesa em conjunto, como
resultado do domínio da propriedade privada dos
meios de produção, reina a anarquia da produção, que
exclui o desenvolvimento planificado da economia
do trabalho e da organização da produção. Por isso,
são inevitavelmente violadas as condições complexas
que se fazem necessárias para a realização do produto
social na reprodução ampliada capitalista. Estas
79
Giovanni Alves

violações se acumulam gradualmente enquanto


não irrompe a crise, momento em que o processo
de realização chega a um completo transtorno.
A irracionalidade do modo de produção capitalista
expressa-se nas formas ideológicas que se originam
da lógica cultural da sociedade burguesa tardia. O
desenvolvimento capitalista não é apenas um modo
de acumulação de capital como mais-valor, mas um
modo de acumulação do capital como “contradição
viva”. Na medida em que se acumulam as contradições
da relação-valor, a ofensiva do capital como sistema
de regulação sociometabólico no plano do mercado
global, manifesta-se por meio da construção da
macroestrutura ideológica e cultural capaz de repor
a hegemonia social da classe dominante do capital.
Por exemplo, a ideologia do pós-modernismo foi
considerada por Fredric Jameson (1992) como sendo
a ideologia do capitalismo tardio, possuindo uma
homologia estrutural, no plano do pensamento, com
a dinâmica da valorização fictícia descolada do mundo
real. Desde meados da década de 1970, a ideologia do pós-
modernismo opera o movimento de reação ideológica
e cultural à crise do capitalismo mundial representada
no projeto fordista-keynesiano de celebração da alta
modernidade. Por exemplo, em “O Pós-Moderno”
(edição original de 1979), François Lyotard
caracterizou a nova era histórica do capital em crise
como sendo a “pós-modernidade” onde ocorreria a
morte das “grandes narrativas” totalizantes, fundadas
na crença no progresso e nos ideais iluministas de
80
As Contradições Metabólicas do Capital

igualdade, liberdade e fraternidade (Lyotard, 1988).


O ethos do pós-modernismo percorreu a década de
1980 tornando-se a ideologia predominante da nova
condição sociocultural e estética prevalecente no auge
do capitalismo global após a queda do Muro de Berlim
(1989), o colapso da União Soviética (1992) e a “crise
das ideologias” nas sociedades ocidentais no final
do século XX. O pós-modernismo como ideologia
sociocultural desarmou o espírito humano para a crítica
radical do mundo social do capital. Tendo em vista
que a lógica da valorização fictícia é um movimento
de deslocamento de contradições, ela oculta as
contradições “primitivas” da forma-mercadoria, isto
é, a contradição originária entre valor de uso e valor
de troca. Ao dissolver a referência à Razão histórica
como uma garantia de possibilidade de compreensão
do mundo por meio de esquemas totalizantes, a
ideologia do pós-modernismo disseminada a partir
da transição para o capitalismo global (1975-1991),
celebrou o reino da indeterminação e do relativismo
cognitivo, paralisando a práxis sócio-histórica..

A lei de tendência da queda da taxa de lucro


Tal como as contradições metabólicas que
caracterizam a relação do capital com a natureza
se imbricam com as contradições fundamentais
do capitalismo, existe também, ao mesmo tempo,
um imbricamente complexo entre as próprias
contradições fundamentais do modo de produção

81
Giovanni Alves

capitalista, que se imbricam entre si, constituindo


a totalidade complexa de produção do capital.
Além de estar amplamente intrincado entre
si, o todo complexo das contradições capitalistas
fundamentais é estruturalmente hierarquizado
como é próprio da natureza da realidade histórica.
David Harvey (2016) apresentou 17 contradições
do capitalismo discriminadas do seguinte modo:
contradições fundamentais, contradições mutáveis e
contradições perigosas. Entretanto, não existe hierarquia
entre elas, apesar das adjetivações (fundamentas,
mutáveis e perigosas). Enfim, Harvey não admite
uma “determinação estruturante” do todo complexo
das contradições fundamentais do capitalismo. O
complexo de interações que constitui a economia
política do capital, aparecem como determinações
aleatoriamente “sobredeterminadas” (o conceito de
“sobredeterminação em Althusser também dissolve
o significado ontológico da economia levando à
aquilo que ele denomina de “materialismo aleatório”)
(Althusser, 1979). Consideramos a CONTRADIÇÃO 6, a
mais importante contradição fundamental do capitalismo.
Ela diz respeito à contradição entre a concorrência
como espírito efusivo da produção capitalista; e a
lucratividade como fulcro essencial da acumulação de
mais-valor. Podemos denomina-la a “determinação
estruturante” das contradições fundamentais do
capitalismo no sentido de que explica e expõe, em
última instância, a natureza das crises fundamentais
do capitalismo. No quadro da metodologia dialética,
82
As Contradições Metabólicas do Capital

a “determinação estruturante” é uma “determinação


determinada” do complexo da economia do capital.
A “determinação estruturante” não se coloca acima
da interação complexa que ocorre no seio das
contradições fundamentais; ou entre as contradições
fundamentais e as contradições metabólicas:
Embora os fundamentos econômicos da sociedade capi-
talista constituam os ‘determinantes fundamentais’ do ser
social de suas classes, eles são também ao mesmo tempo,
‘determinações determinadas’ (Mészáros, 2008).

O filósofo húngaro ressaltou a importância


da idéia de “interação complexa” nos mais variados
campos da atividade humana. As várias manifestações
institucionais e intelectuais da vida humana, o complexo
historicamente mutável de mediações, incluindo as mais
“espirituais”, não são simplesmente “construídas sobre”
a base da economia, mas estruturam ativamente essa
base econômica através de “uma estrutura própria,
imensamente intrincada e relativamente autónoma”.
Na visão de Marx, diz Mészáros,
os deuses são, originariamente, não a causa, mas o efeito do
erro do entendimento humano. Mais tarde essa relação se
transforma em ação recíproca. Como consequência, uma
vez que crenças desse tipo - ou mesmo de qualquer outro -
são aceitas pelo homem, elas trazem consigo repercussões
múltiplas para a totalidade da vida humana, incluindo o fato
económico de alocar recursos escassos para a construção
de catedrais, para a manutenção áa Igreja e do clero crê.
O mesmo ocorre com a consciência, em todas as suas
formas e manifestações, que têm uma estrutura própria
relativamente autónoma, determinando, assim, de forma

83
Giovanni Alves

recíproca, as estruturas económicas da sociedade, ao


mesmo tempo que são tambem determinadas pela
última (Mészáros, 2008).

Ao mesmo tempo em que temos a operação


da “determinação estruturante” sobre as demais
“determinações determinadas” do sistema, temos
a “interação complexa” entre as “determinações
determinadas” que compõem a totalidade das
contradições fundamentais e as contradições metabólicas
do capital. Por exemplo, a “interação complexa” entre
metabolismo demográfico e movimento da lei do valor;
ou ainda, metabolismo ecológico e crise de lucratividade
e subconsumo; ou ainda, crise de lucratividade/
hipertrofia da esfera financeira e crise sanitária, etc.
A CONTRADIÇÃO 6 representa a base mais
desenvolvida da pletora de contradições fundamentais
do modo de produção capitalista. A crise do sistema
é o momento de manifestação (ou explicitação)
de suas contradições fundamentais. É com o
aprofundamento da crise estrutural do capital no
sentido de crise de lucratividade, que as contradições
fundamentais do capitalismo se precipitam sobre as
contradições metabólicas do capital.Marx observou
que a exacerbação da concorrência conduz ao aumento
da produtividade do capital e por conseguinte, ao
aumento da composição orgânica do capital, elevando
contraditoriamente, ao mesmo tempo, a pressão pela
queda da taxa média de lucro (Michael Roberts observou
que as três leis de movimento do modo de produção
capitalista são a lei do valor, a lei da acumulação e a
84
As Contradições Metabólicas do Capital

lei de tendência de queda da taxa de lucro) (Roberts,


2018). Existe uma linha de continuidade plena no
interior de descontinuidades contingentes, entre
valor, acumulação e crise capitalista (Shaik, 2006).

CONTRADIÇÕES FUNDAMENTAIS DO CAPITALISMO

valor de uso <> valor de troca

superprodução <> demanda efetiva

necessidades sociais <> forma-mercadoria

produção social <> apropriação privada

racionalização intra-empresa <> irracionalidade social

concorrencia/produtividade do trabalho <>


aumento da composição orgânica do capital <>
queda da taxa média de lucro

processo civilizatório <> deformação da personalidade humana

forma material (base técnica) <> forma social (valor)

Como lei de tendência, a lei de queda da taxa


de lucro, “a lei mais importante da economia política
moderna” (Marx), põe em movimento, um complexo

85
Giovanni Alves

de contratendencias históricas que deslocam e


retardam, mas não abolem, o percurso de queda
da taxa de lucro nas economias capitalistas. Por
exemplo, a totalidade concreta da nova etapa do
capitalismo global foi produto histórico da operação
complexa do movimento de contratendencias à lei de
tendência de queda da taxa de lucro que se manifestou
com vigor na grande crise de 1973-1975) (Alves,
2018). O debate sobre a teoria da crise capitalista é
uma das principais controvérsias do marxismo no
século XXI. É a lei tendencial de queda da taxa de
lucro subjacente à CONTRADIÇÃO 6 (a “determinação
estruturante” das “contradições fundamentais” do
capitalismo) que explica efetivamente, em última
instância, as crises capitalistas. Diferentemente de
David Harvey (2013) e Michael Heinrich (2004),
Michale Roberts (2016) e Andrew Kliman (2012),
entre outros, afirmam que a lei de queda tendencial
da taxa de lucro é a lei mais importante para entender
as crises capitalistas (Libman e Hubman, 2018).
Nos Grundrisse (1857-1858), Marx foi categórico
em afirmar a importância da determinação
do movimento tendencial de queda da taxa de
lucro para explicar a crise do sistema capitalista:
Em todos os sentidos, [a lei da queda da taxa de lucro]
é a lei mais importante da economia política moderna
e a mais essencial para compreender as relações mais
complicadas. Do ponto de vista histórico, é a lei mais
importante [...] Para além de certo ponto, o desenvolvimento
das forças produtivas devém um obstáculo para o capital;
ou seja, a relação de capital devém um obstáculo para [o]
86
As Contradições Metabólicas do Capital

desenvolvimento das forças produtivas do trabalho. Ao


atingir esse ponto, o capital, i.e., o trabalho assalariado, entra
na mesma relação com o desenvolvimento da riqueza social
e das forças produtivas que o sistema das corporações, a
servidão, a escravidão e, como grilhão, é necessariamente
removido. A última figura servil que assume a atividade
humana, a do trabalho assalariado, de um lado, a do capital,
de outro, é com isso esfolada, e essa própria esfoladura é
o resultado do modo de produção correspondente ao
capital; [...] A crescente inadequação do desenvolvimento
produtivo da sociedade às suas relações de produção
anteriores manifesta-se em contradições agudas, crises,
crises, convulsões. A destruição violenta de capital, não
por circunstâncias externas a ele, mas como condição de
sua autoconservação, é a forma mais contundente em que o
capital é aconselhado a se retirar e ceder espaço a um estado
superior de produção social (Marx, 2011).

Em 1858, Marx não tinha ainda formulado,


de modo completo e acabada, a teoria das crises
capitalistas. Ele nunca conseguiu (e nem poderia)
deixar acabada e pronta a teoria das crises capitalistas.
Isto estava além de seu tempo histórico. Karl Marx
foi um homem genial, mas não poderia ir além de
seu tempo histórico. Marx viveu na pré-história
do capitalismo monopolista (a forma histórica do
capitalismo industrial no interior da qual iriam se
explicitar de forma mais acabada, a natureza do sistema
do capital). A afirmação do princípio explicativo da
lei da queda da taxa de lucro foi só o primeiríssimo
passo para elucidar a natureza complexa da crise
capitalista, que exigiria como pressuposto para o
seu desvelamento teórico mais desenvolvido, uma
87
Giovanni Alves

teoria da moeda e do crédito, ou ainda, a percepção


dialética mais complexa da relação entre produção,
circulação e consumo; ou ainda, uma teoria do Estado
e do mercado mundial mais desenvolvida (o que
não poderia ter sido elaborado antes do século XX).

88
3
As Contradições Metabólicas
do Capital

D e acordo com a perspectiva ontológica


de Lukács (1978), o desenvolvimento
histórico do processo civilizatório do capital ativou
“contradições de tipo cada vez mais elevadas, cada vez
mais fundamentais”, que podem ser “aparentemente
insolúveis”. Podemos dizer que tais contradições de
tipo mais elevado são as contradições metabólicas
que se distinguiriam das contradições fundamentais
do modo de produção capitalista indicadas acima.
Na medida em que são contradições metabólicas,
elas dizem respeito à relação do homem com a
natureza, isto é, a natureza externa e a natureza
interna, que implica as relações do homem com o
homem e as relações do homem consigo mesmo
(corpo e mente) - a partir das “mediações de
segunda ordem” do capital (Mészáros, 2006).
As contradições metabólicas implicam a relação
dialética entre o ser social e o ser orgânico mediadas
pelo todo complexo do capital. É como ser orgânico
– e não apenas como ser social – que o homem está
89
Giovanni Alves

sendo provocado pela relação-valor ou pelo modo de


produção capitalista (Marques, 2015; Foster, 2015).
Podemos considerar como contradições
metabólicas do capital, as contradições históricas
entre o capital e a (1) natureza externa (florestas, rios
e mares ou ainda, o clima, isto é, o meio-ambiente
natural propriamente dito); e a contradição entre
o capital e a (2) natureza interna do homem, isto é,
o equilibrio entre corpo e mente (a saúde fisica e a
saúde mental do sujeito que trabalha), incluindo o
processo natural de senescência e envelhecimento da
força de trabalho e do trabalho vivo. Tais contradições
metabólicas são fraturas operadas pelo capital no
corpo orgânco do homem. Como observou Marx
(1985), o homem vive da natureza, o que significa:
a natureza é o seu corpo, com o qual tem que permanecer
em constante processo para não morrer. Que a vida física
e mental do homem está interligada com a natureza não
tem outro sentido senão que a natureza está interligada
consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza
(Marx, 2004).

As contradições metabólicas do capital se


precipitam sobre as contradições fundamentais do
modo de produção capitalista, explicitando-se, por um
lado, como fratura metabólica entre capital e natureza
externa (o colapso ecológico); e por outro lado, como
fratura metabólica entre capital e natureza interna
(a crise sanitária permanente) na medida em que as
fraturas metabólicas se expõem nas condiçõs históricas
e sociodemográficas do envelhecimento da população

90
As Contradições Metabólicas do Capital

global no século XXI. Portanto, como salientamos na


Introdução, as “fraturas metabólicas” entre o capital e a
natureza (externa e interna) tornam-se “contradições
perigosas” na medida em que ocorrem no tempo
histórico do envelhecimento humano global e nas
condições de crise estrutural do capitalismo global.
A “fratura metabólica” é a desconexão ou
o desequilíbrio da interação metabólica entre a
humanidade e o resto da natureza - incluindo
seu próprio corpo (e mente) orgânico - derivada
da produção capitalista e da crescente divisão
entre a cidade e o campo. John Bellamy Foster
desenvolveu o conceito de “fratura metabólica”
(metabolic rift) a partir das reflexões de Karl Marx
sobre capitalismo e agricultura, onde ele - Marx
- apresentou de uma maneira sólida e científica, o
intercâmbio complexo e dinâmico entre os seres
humanos e a natureza, resultado do trabalho
(Foster, 2005; 2020). Diferenciando-se dos que
atribuíram a Marx uma indiferença pela natureza,
Foster encontrou na teoria da “fratura metabólica”,
a evidência da perspectiva ecológica de Marx. A
teoria da “fratura metabólica” permite desenvolver
uma crítica da degradação ambiental que
antecipou grande parte do pensamento ecológico
atual, incluindo as questões de sustentabilidade.
Entretanto, desdobramos as contradições
metabólicas do capital para além da crise ecológica
(a “fratura metabólica” entre capital e natureza
externa), e consideramos também como “fratura

91
Giovanni Alves

metabólica”, o desequilibrio da interação metabólica


entre capital e a saúde humana - fisica e mental - que
se expressa na crise sanitária permanente (epidemias,
pandemias e surtos de adoecimento mental). Colapso
ecológico e crise sanitária permanente adquirem
dimensão de emergencia histórica na medida em que
correm na era da desvalorização da força de trabalho
humana envelhecida. Na verdade, as “contradições
metabólicas” do capital se inter-relacionam de modo
complexo; e compõem, ao lado das contradições
fundamentais do capitalismo (salientadas
acima), o cenário da crise estrutural do capital.
Nas condições históricas do capitalismo global,
as contradições metabólicas se manifestam de forma
global, possuindo uma dinâmica histórico-geográfica
bastante específica (o movimento da cumulatividade
e longa temporalidade histórica). Na medida em que
expressam fenômenos complexos, as contradições
metabólicas adquirem o caráter de emergência
histórica no sentido de serem manifestações da
complexidade (Folloni, 2016). A mudança climática
por conta do aquecimento global, é um elemento não-
diruptivo da crise ecológica. Ela provoca alterações
do clima da Terra que afetam a produção agrícola,
degradando as condições de vida das populações
proletárias pobres e envelhecidas do mundo do
trabalho nas metrópoles. A disseminação de
problemas de saúde física e mental da força de trabalho
envelhecida global é outro elemento não-diruptivo
que expõem a “fratura metabílica” provocada pelo

92
As Contradições Metabólicas do Capital

capital no trabalho vivo. Tal agudização da alienação


e auto-alienação do trabalho vivo, encontra seu caráter
catastrófico na precariedade dos sistemas públicos
de saúde e de assistência social. Temos salientado
como uma manifestação histórica emergencial o
envelhecimento populacional e da força de trabalho
global no século XXI, que conjugado com os outros
elementos das contradições metabólicas do capital (o
colapso ecológico e a degradação da saúde humana),
constitui um elemento não-diruptivo que expõem
a crise de civilização do capital ou a crise humana.
Por um lado, a necropolitica é o modo de
explicitação da política anti-humana do capital face às suas
contradições metabólicas num cenário de crise estrutural
do capitalismo global (Alves, 2018). Por outro lado, o
novo metabolismo demográfico do capital no século
XXI - o envelhecimento populacional - deve explicitar
a nova camada social do proletariado: o gerontariado,
a camada social do proletariado constituído pelo
precariado envelhecido, o contingente de trabalhadores
“mais velhos” e trabalhadores idosos precarizados
nos seus direitos trabalhistas e previdenciários.

Contradições metabólicas e crise estrutural do capital


As contradições metabólicas expõem o limite do
capital ou seu antagonismo estrutural com o trabalho
vivo e seu ecossistema. É por isso que podemos
caracterizar a crise estrutural do capital como sendo a
forma historico no interior da qual o capital opera seu
limite irremediável que, na fase elevada do processo
93
Giovanni Alves

civilizatório, adquire uma feição catastrófica.No plano


do movimento da acumulação do capital no século XXI,
coloca-se a seguinte questão: de que maneira o capital
deve se adaptar para “conciliar” as disparidades entre
o seu processo de acumulação, que é necessariamente
exponencial, e as condições que podem limitar a
capacidade de crescimento exponencial do capital,
tais como, por exemplo, as mudanças demográficas e
o colapso ecológico que caracterizam o século XXI?
Ao discutir o que ele denominou de “contradições
perigosas”, David Harvey (2013) começou discutindo
o problema do crescimento exponencial (onde tratou
ligeiramente das mudanças demograficas); e depois,
discutiu a relação do capital com a natureza (crise
ecológica); e, por fim, o que ele denominou “revolta da
natureza humana (a alienação universal)”. Interessa-nos
verificar como ele aborda o problema do crescimento
exponencial do capital, pois ele é a raiz da contradição
entre o capital e o ecossistema humano, incluindo o
colapso ambiental e o novo metabolismo demográfico
caracterizado pelo envelhecimento da força de trabalho.
Ao tratar do crescimento exponencial, Harvey
salientou que as mudança demográfica colocam
dificuldades estruturais para o movimento da
acumulação do capital no século XXI. Diz ele que,
para que o padrão de vida possa se sustentar, a
economia tem de crescer pelo menos a taxas iguais à
da população. Portanto, existe uma relação entre as
trajetórias demográficas e a dinâmica da acumulação
do capital. Com o envelhecimento populacional no

94
As Contradições Metabólicas do Capital

século XXI, a população mundial deve se estabilizar


durante este século, atingindo um máximo de 12
bilhões de pessoas (ou talvez menos, em torno de
10 bilhões) até o fim do século e, a partir de então,
provavelmente mantenha uma taxa estável de
crescimento zero. No futuro, a acumulação de capital
terá de se apoiar cada vez menos no crescimento
demográfico para se manter ou impulsionar
seu crescimento exponencial; e as dinâmicas de
produção, consumo e realização do capital terão,
de acordo com Harvey, de se ajustar às novas
condições demográficas. É impossivel imaginar que a
acumulação de capital possa abandonar o crescimento
exponencial dos últimos dois séculos, culminando
numa economia estável de crescimento zero. Diz ele:
O capital é a busca de lucros. Para todos os capitalistas,
realizar lucro positivo é ter mais valor no fim do dia do que
tinha no início. Isso significa uma expansão da produção
total do trabalho social. Sem essa expansão, o capital não
existe. O crescimento zero define uma condição de crise
para o capital. Quando se prolonga, um crescimento zero
como o que predominou em grande parte do mundo na
década de 1930 é uma sentença de morte para o capitalismo
(Harvey, 2016).

Pode-se dizer que existe uma barreira demográfica,


ou limite interno do capital, que deve se impor à
acumulação de capital no século XXI. Deste modo, o
envelhecimento da força de trabalho que caracteriza o
novo metabolismo demográfico do capital, é um limite
como barreira para o capital em sua sanha de crescimento

95
Giovanni Alves

exponencial. Portanto, o processo de desenvolvimento


da relação-valor produz uma sociedade do trabalho vivo
envelhecido que tende a tornar-se a médio e longo prazo,
um fardo para o capital. A discussão da crise enquanto
dialética entre as barreiras (Schranke) ou o limite
(Grenze) do capital; ou ainda, da crise enquanto dialética
da finitude e infinitude (a partir de Ruy Fausto, 1987), é
importante para expormos a natureza endógena, isto é, a
natureza íntrinseca ao próprio desenvolvimento interno
do sistema, do colapso ecológico e da crise sanitária
permanente no contexto histórico do envelhecimento
humano na sociedade das “pessoas sem valor”.

Contradições metabólicas como limites internos


do capital
As contradições metabólicas não são dadas desde o início
do modo de produção capitalista, embora pertençam
hoje à sua interioridade. A rigor, nos modos de produção
pré-capitalistas não havia a “fratura metabólica” entre o
homem e a natureza (externa e interna). A interioridade
dos elementos metabólicos enquanto pressuposições
da produção do capital, consistia precisamente – de
inicio - numa exterioridade. A natureza externa e
a natureza interna do homem (o corpo e mente do
organismo humano e sua população com seu regime de
fecundidade), caracterizavam outros modos de produção
pré-capitalistas, não nascendo do desenvolvimento do
capital, embora tenham estado lá desde o início como
pressuposição do modo de produção. Esta presença
imediata é “exterioridade”, o que permite chamá-los,
96
As Contradições Metabólicas do Capital

num primeiro momento, de barreiras (Schranke) e


não de limites (Grenze). Como salientou Ruy Fausto
(1987), o limite do capital é o ponto além do qual é
impossivel a conservação do sistema, mas se pode dizer
também que a autoconservação do sistema é seu limite.
O capital no seu desenvolvimento histórico,
subsumiu seus elementos metabólicos pressupostos:
a natureza externa e interna do homem. Enquanto
barreiras externas postas, a produção do capital os
in-corporou em si e para si, e portanto, ultrapassou-os
na medida em que ocorreu a produção (e reprodução)
da natureza externa e interna do homem à sua
imagem e semelhança (a natureza do capital). Abriu-
se deste modo, a “fratura metabólica” entre capital e
natureza. No início, o capitalismo não tem barreiras
internas, mas tem limites imanentes que compõem as
suas contradições fundamentais e que coincidem com
a natureza do capital, e com as suas determinações
essenciais e fundamentais. Como dissemos, de inicio,
os elementos metabólicos da natureza indicados acima
são barreiras externas. Diz Fausto citando Marx:
(...) o capital” (...) derruba “todas as barreiras que freiam
o desenvolvimento das forças produtivas, a ampliação
das necessidades, a multiplicidade da produção” (...).
Em parte, já são limites postos como barreiras, mas o
capital os ultrapassa. As barreiras se repõem, entretanto,
e seu movimento aparece como um mau infinito. Mas
chegando a um certo ponto, o sistema entra em crise.
Isto significa que num certo ponto (que se pode chamar
de limite), os limites internos do capital se transformam

97
Giovanni Alves

em barreiras que ele não pode mais ultrapassar (Fausto,


1987).

As barreiras externas (os elementos metabólicos)


são incorporadas de início pelo capital, sendo
ultrapassados como limites postos como barreiras que
o capital ultrapassa. Entretanto, na medida em que se
desenvolve a relação-valor ou o modo de produção
capitalista propriamente dito, a natureza do capital – a
natureza externa e interna à sua imagem e semelhança
- se repõe como barreiras internas (que se pode chamar
de limite). Como salienta Fausto, os limites internos
do capital se transformam em barreiras que ele não
pode ultrapassar. Esta é a fase de desenvolvimento das
contradições metabólicas que compõem, ao lado das
contradições fundamentais, a crise estrutural do capital.
Num primeiro momento, os elementos
metabólicos da natureza externa e interna, são
“exterioridades” que não são imediatamente inerentes
ao capital. Depois, na medida em que ocorre o
desenvolvimento do sistema, eles são incorporados
e tornam-se limites postos como barreiras, sendo
ultrapassados, convertendo-se na natureza do capital,
demarcada por fissuras metabólicas. Na medida em
que se tornam barreiras internas e se implicam
com as contradições fundamentais do capitalismo,
tornam-se com elas, um todo complexo, postos como
limites internos do capital, isto é, “barreiras que ele
[o capital] não pode mais ultrapassar”. Como nos
lembra Ruy Fausto, o limite do capital é o ponto em
que a expansão do sistema não é mais possível. A
98
As Contradições Metabólicas do Capital

exposição da dialética da crise do sistema é apresentada


sob forma temporalizada, delineando-se no tempo, o
processo que conduz à negação do sistema. Interessa ao
filósofo brasileiro, tematizar a lei tendencial do capital
em que o tempo não é cíclico, mas opera com passagens
da quantidade à qualidade e saltos ontológicos que
implicam no movimento de corrupção do sistema.

O que caracteriza a modalidade neste nível é a


passagem do necessário ao impossível na medida em
que a necessidade do sistema se interverte em sua
impossibilidade (Oliveira, 2004). Ao incorporar, de
inicio, as “barreiras externas” (a natureza) como limite
visando ultrapassa-las, o capital só os ultrapassou
(darüber weg) idealmente (ideel), nao significando
que ele de forma alguma, as tenha vencido realmente
(real); e como cada uma dessas barreiras contradiz a
determinação do capital, sua produção se move em
contradições que são constantemente vencidas, mas
igualmente constantemente postas. A subsunção
“real” da natureza (externa e interna), incluindo o
trabalho vivo, ou a produção da natureza do capital,
não significou o ultrapassamento real da natureza
enquanto barreira posta como limite pelo capital, mas
sim apenas, seu ultrapassamento ideal. Engendra-
se no movimento do capital diante da natureza,

99
Giovanni Alves

um “mau infinito”, utilizando a lógica dialética


de Hegel (conforme Ruy Fausto), pois a natureza
não foi suprimida (aufgehohen), mas sim anulada,
pois as barreiras externas postas (incorporadas)
como barreiras internas, foram ultrapassadas e
vencidas apenas idealmente, mas não realmente.
Fausto remete ao conceito do “ideal” (ideel)
em Hegel (2016). Nesse caso, o capital é aqui o
infinito que operou a primeira negação do finito
(negação que é justamente ideal e não real); e
na qual por isso mesmo, o finito deve emergir de
novo – nesse caso como contradição metabólica
que irrompe sobre as contradições fundamentais.
Nas condições da crise estrutural do capital,
as contradições fundamentais do capitalismo se
precipitam (hinausstreibt) sobre as contradições
metabólicas do capital que se tornam limites
como barreiras que ele não pode ultrapassá-las.
Entretanto, pode-se dizer também que o
limite é a auto-expansão, onde a auto-expansão
nas condições do capitalismo propriamente dito,
é o desenvolvimento das forças produtivas, um
desenvolvimento que é potencialmente infinito. Diz
Ruy Fausto, citando os Grundrisse de Karl Marx:
Enquanto o desenvolvimento das forças produtivas aparece
como infinito: ‘(...) constata-se que (...) o desenvolvimento
das forças produtivas suscitado pelo próprio capital no seu
desenvolvimento histórico, chegando a um certo ponto,
suprime (hebt auf) a autovalorização do capital em lugar
de pô-la. Para além de certo ponto, o desenvolvimento das
forças produtivas se torna uma barreira para o capital; assim,
100
As Contradições Metabólicas do Capital

a relação-capital se torna uma barreira ao desenvolvimento


das forças produtivas do trabalho (Fausto, 1987).

No processo histórico do capital onde se


desenvolvem suas contradições fundamentais e
contradições metabólicas, há uma dialética do finito e do
infinito. O limite é, pois, aqui, um infinito.Esse infinito
potencial se manifesta no interior do movimento do
capital como limite (isto é, “barreira que ele não consegue
ultrapassar”); e assim, como finitude (a queda tendencial
da taxa de lucro, exposta por Marx no Livro 3 do
Capital) (Marx, 2017). De início, o capital transforma os
limites em barreiras para poder ultrapassá-las (foi o que
ele fez com a natureza externa e interna do homem ao
incorporá-las como sua própria natureza). Disse Marx:
(...) o próprio desenvolvimento da força produtiva (...)
[é] a barreira para o desenvolvimento da sua [do capital,
RF] força produtiva.(Marx, 2011).

O capital é uma “contradição viva” na medida


em que ele e todas as suas condições aparecem como
finitude e sua auto-expansão desenvolve contradições
fundamentais e metabólicas que limites internos postos
como barreiras que ele não consegue ultrapassá-las.
Ruy Fausto diz que o capital é produtivo, isto é, ele é
uma relação essencial para o desenvolvimento das
forças produtivas sociais. Entretanto, ele só deixa de ser
quando o desenvolvimento das forças produtivas, elas
mesmas, encontram uma barreira no próprio capital:
A universalidade à qual aspira irresistivelmente o capital,
encontra barreiras na sua própria natureza, as quais num

101
Giovanni Alves

certo grau de seu desenvolvimento, fazem reconhecer ele


próprio como a maior barreira a esta tendência, e por isso
através dele mesmo o impulsionam à sua abolição (Fausto,
1987).

Ruy Fausto destaca dois movimentos lógicos de


“negação” operados pelo desenvolvimento do capital:
primeiro, o infinito potencial do desenvolvimento das
forças produtivas, na qual está incorporado a natureza,
aparece como finitude para o capital. Ao mesmo tempo,
a finitude do capital e todos os seus limites postos como
barreiras (que ele não consegue ultrapassar), aparece
representando o crescimento das forças produtivas
para além do capital. Diz Fausto: “Essa infinitude, que é
finitude para o capital nas condições do capital, ultrapassa
o capital”. Há assim, de acordo com ele, interversão no
contrário de cada um dos termos: o que aparecia como
finito se atualiza como infinito (da segunda negação);
e o infinito (da primeira negação) se revela finito na
medida em que expõe – como temos salientado aqui –
as contradições fundamentais e metabólicas do capital.
E Ruy Fausto conclui:
A crise do capitalismo é a emergência da identidade no
interior de uma forma cuja identidade só pode ser a da
não-identidade” (Fausto, 1987).

Isto é, a natureza produzida pelo capital que se


afirma como identidade entre Capital e Natureza
(indústria) faz emergir uma forma histórica cuja
identidade só pode ser a da não-identidade entre
Natureza e Capital, expondo assim, o que denominamos
contradições metabólicas do capital. Esta é a lógica
102
As Contradições Metabólicas do Capital

dialética que compõe o movimento do sistema do


capital que incorpora barreiras externas (os pressupostos
metabólicos) como “barreiras internas” que lhe
são específicas na medida em que se compõe com a
natureza do capital e suas contradições fundamentais.
A discussão das contradições fundamentais do
capital deve se articular com o entendimento de suas
contradições metabólicas que se tornaram – em si e
para si – elementos compositivos do limite do capital.
Disse Marx:
Ele [o capital] põe conforme a sua natureza, uma
barreira para o trabalho e a criação de valor, a qual
está em contradição com a sua tendência a se ampliar
desmesuradamente. E como ele põe uma barreira que lhe
é específica e ao mesmo tempo se precipita (hinaustreibt)
por outro lado sobre toda barreira, ele é a contradição viva”
[grifos de Marx) (Marx, 2011)

Quando Ruy Fausto a partir de Marx fala de


possibilidade da crise, como verificamos acima, trata-
se de possibilidade abstrata, ou seja, da forma abstrata
da crise sem conteúdo algum. Nossa hipótese é que o
caminho da possibilidade para a efetividade da crise
estrutural do capital se revela quando as contradições
fundamentais se precipitam (hinausstreibt) sobre
as contradições metabólicas que se tornam “limites
como barreiras” que ele não pode ultrapassá-las.
A problemática da contradição se radica
em determinadas relações reais. Por exemplo, a
problemática do colapso ecológico e da mudança
demográfica se põe no interior da questão do

103
Giovanni Alves

crescimento exponencial do capital (Harvey, 2016),


tendo em vista o limite dado pelo ecossistema
humano e pelo próprio metabolismo demográfico
da força de trabalho, a única capaz de produzir o
mais-valor. Deste modo se coloca a importância
para o desenvolvimento do sistema da lógica do
limite (lógica do ser) da dialética do finito e do
infinito num horizonte quantitativo (Oliveira, 2004).
No plano das contradições fundamentais
do modo de produção capitalista, o processo de
valorização como um movimento desmedido,
põe sempre de novo um limite que serve de
medida para a criação do valor em cada circuito
subsequente. Mas, na medida em que é limite
quantitativo, emerge como uma barreira a ser
permanentemente ultrapassada pelo próprio
impulso infinito de autovalorização (o crescimento
exponencial salientado por David Harvey, 2016).
A crise surge, porém, quando o limite com que
o capital se confronta não é mais um limite externo
como barreira a ser superada, mas um limite interno
ao próprio capital, manifestação de sua autonegação
e que constituiu o fundamento da crise, elemento
fundamental para compreender seu modo de atuar.
O novo metabolismo demográfico e o colapso
ecológico com que o capital se defronta no século
XXI não constitui um limite externo como barreira
a ser superada. Ele diz respeito a um ecossistema
humano e um regime demográfico adequado à nova
etapa de desenvolvimento do sistema (o capitalismo

104
As Contradições Metabólicas do Capital

global), que se manifestam como limites interno ao


próprio capital. É deste modo que as contradições
metabólicas se implicam com as contradições
fundamentais do capitalismo e elas se precipitam
(hinausstreibt) sobre as contradições metabólicas,
expondo as contradições metabólicas (por exemplo,
as mudanças demográficas) – como “limites como
barreiras” que o capital não pode ultrapassá-las.
Esta é a manifestação de sua “autonegação” e
que constituiu o fundamento da crise, elemento
fundamental para compreender seu modo de atuar.

As adaptações insustentáveis do capital


O que se coloca como problemática é: como
a acumulação do capital pode mudar seu
funcionamento para se adaptar ao que parece
ser uma situação crítica e assim se reproduzir?
Esta questão foi levantada por David Har-
vey (2013) logo depois de fazer uma breve
referencia às mudanças demográficas no século
XXI que devem colocar limites como barreiras
à acumulação do capital e ao crescimento expo-
nencial no sentido da produção de mais-valor.
Harvey (2013) procurou responder tal
questão observando que, diante de suas barreiras, o
capital deve operar uma série de adaptações já em
andamento para evitar as dificuldades de acumulação
tendo em vista as mudanças demográficas. O
capital deve, de acordo com ele, operar “adaptações
comportamentais” que podem remodelar a dinâmica
105
Giovanni Alves

acumulativa do capital e, ao mesmo tempo, preservar


sua “essência necessária” de crescimento exponencial
no século XXI. Ele salientou quatro adaptações
estruturais: (1) a forma-dinheiro impulsionando
acumulações sem limites; (2) a destruição e
desvalorização do capital; (3) a privatização dos
ativos públicos; e (4) a criação de novos mercados
e novos cercamentos de bens comuns (de terra
e água a direitos de propriedade intelectual).
Mas Har ve y ress a ltou t amb ém as
transformações radicais na natureza, na forma, no
estilo e no volume do consumo final. Ele observou
que o capital tem sistematicamente encurtado
a vida útil dos bens de consumo, produzindo
mercadorias que não duram, forçando uma
“obsolescência programada” e às vezes instantânea,
criando rapidamente novas linhas de produtos
(como tem acontecido ultimamente com os
aparelhos eletrônicos), acelerando a rotatividade pela
mobilização da moda e da propaganda para enfatizar
o valor da novidade e a falta de elegância do velho).
Foi isto que o filosofo István Mészáros denominou de
“aumento da taxa de utilização decrescente do valor de
uso” (Mészáros, 2011). O movimento da produção e do
consumo de espetáculos tornou-se uma forma efêmera
de mercadoria que é consumida instantaneamente.
The last but not the least, Harvey salientou
outra “adaptação comportamental” do capital diante
de seu limite: a utilização do capital fictício, isto é,

106
As Contradições Metabólicas do Capital

investir o capital excedente não na produção, mas na


compra de ativos (inclusive títulos de dívida). Diz ele:
As contradições, longe de conter os excessos umas das
outras, como aconteceu algumas vezes no passado, serão
muito mais propensas a explodir e contagiar umas às outras
sob a pressão crescente de um crescimento exponencial
necessário. Os valores de uso estarão fadados a ser uma
consideração cada vez mais trivial num cenário de explosão
de considerações sobre o valor de troca provocada pelas
febres especulativas. Disso devem resultar alguns resultados
bastante surpreendentes (Harvey, 2013).

Caso não haja superações das contradições


expostas, elas devem se reproduzir de forma ampliada,
operando deslocamentos geográficos administradas
pelo Estado por meio dos seus vários mecanismos.
Harvey não deixa de reconhecer que existe um limite
para o capital: a produção do mais-valor. É o que
ele identificou como sendo o limite do crescimento
exponencial. Pode-se dizer que o capital é obrigado a
operar por meio da produção – sob pena de arruinar-
se numa crise estrutural. A utilização hipertrofiada da
forma-dinheiro ou do capital fictício representam formas
falsas de superação dos limite exposto pela lei do valor.
É importante dizer que David Harvey discorda
que a lei tendencial da queda de lucro exposta por
Marx no volume 3 de “O Capital”, seja a causalidade
essencial da crise estrutural do capital (Harvey, 2013).
Entretanto, ele não deixa de reconhecer que o capital
encontrou no século XXI, o seu próprio limite tendo
em vista as mudanças tecnológicas e demográficas

107
Giovanni Alves

operadas pelo próprio capital. Pode-se dizer que é


isto que explica as crises financeiras que expõem
dificuldades de fundo da acumulação do capital
produtivo, apesar da operação feita pelas políticas
dos bancos centrais aliadas à classe rentista do capital.
Concluindo, podemos dizer que a questão
social da fratura metabólica entre capital e natureza é
a seguinte: o que fazer com a superpopulação relativa
envelhecida e adoecida produzida pela nova dinâmica de
acumulação do capital em sua etapa de crise estrutural?
Como diria Marx (1978), “Hic Rhodus, hic salta”!1

1
  “Aqui está Rodes, salta aqui!” - Esta frase é tirada de
uma das fábulas de Esopo: Um fanfarrâo gabava-se de ter
testemunhas para provar que havia certa feita, executa-
do um notável salto em Rodes, tendo recebido a seguinte
resposta: “Para que citar testemunhas se é verdade? Aqui
está Rodes. Salta aqui!” Em outras palavras: Mostra aqui
mesmo, na prática, o que és capaz de fazer! (Marx, 1978)
108
ANEXO 1

Crise estrutural do capital, barbárie


social e catastrofe ecológica1

O alarme da crise estrutural do ecossistema


ameaçado pelas alterações climáticas foi
dado pelo “Relatório de Desenvolvimento Humano
2007/2008”, do PNUD - Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, que se intitula
“Combater as Alterações Climáticas: Solidariedade
humana num mundo dividido”. Ele apresenta
uma abordagem contundente à ameaça que o
aquecimento global representa para a humanidade.
Coloca-se a perspectiva da catastrofe ecológica
global. O documento argumenta que o mundo está
a ser arrastado até um “ponto sem retorno”, o qual
poderá conduzir os países e os cidadãos mais pobres
do mundo a “uma irreversível queda em espiral,
precipitando centenas de milhões de pessoas
para condições de subnutrição, escassez de água,
ameaças ecológicas e de perda de meios de subsistência”.
Diz o Coordenador do PNUD, Kemal Dervi:
Em última análise, as alterações climáticas constituem
uma ameaça à humanidade no seu todo. Todavia, são

1  Texto originalmente publicado no livro de Giovanni Alves,


“A condição de proletariedade: A Precariedade do Traba-
lho no Capitalismo Global” (Projeto editorial Praxis, 2008)
109
Giovanni Alves

os pobres, cidadãos sem responsabilidade pela dívida


ecológica que estamos a acumular, que enfrentam os
custos humanos mais graves e imediatos. (PNUD, 2007)

O Relatório apresenta evidências acerca dos


mecanismos através dos quais os impactos ecológicos
das alterações climáticas poderão afectar os trabalhadores
mais pobres. Nas sociedades divididas em classe, a
catastrofe ecológica, num primeiro momento, será
seletiva em seus efeitos terriveis. Ela atingirá, de
imediato, a ampla parcela da população trabalhadora
mais pobre. Concentrando-se nos 2,6 bilhões de
pessoas que sobrevivem com menos de US$2 por
dia, os autores do Relatório alertam para o fato de as
forças disparadas pelo aquecimento global poderem
travar e posteriormente fazer retroceder o progresso
atingido ao longo de gerações. Entre as ameaças ao
desenvolvimento humano identificadas em “Combater
as Alterações Climáticas”, constam as que se seguem:
O colapso dos sistemas agrícolas, em virtude das
secas e aumento de temperaturas, além das chuvas mais
irregulares, deixarão mais de 600 milhões de pessoas
ameaçadas de subnutrição. As áreas semi­áridas da
África Subsariana, onde se registam alguns dos mais
elevados níveis de pobreza no mundo, enfrentam
o perigo de potenciais perdas de produtividade em
cerca de 26% em 2060. Mais de 1,8 bilhões de
pessoas enfrentarão problemas ocasionados
pela falta de água em 2080, com vastas áreas do
Sul da Ásia e Norte da China enfrentando uma
grave crise ecológica como resultado do recuo
110
As Contradições Metabólicas do Capital

glacial e das alterações das épocas de chuva.


Deslocamento de cerca de 332 milhões de pessoas
devido às cheias e às tempestades tropicais nas
áreas costeiras e de baixa altitude (mais de 70
milhões de bengalis, 22 milhões de vietnamitas
e 6 milhões de egípcios poderão ser afetados
pelas cheias relacionadas com o aquecimento
global). Riscos emergentes para a saúde, com uma
população adicional de 400 milhões de pessoas
tendo que enfrentar o risco de contrair malária.
Os potenciais “custos humanos” das alterações
climáticas têm sido subestimados. Segundo o Relatório
do PNUD, os choques climáticos—tais como as secas,
as cheias e as tempestades, que se tornarão mais
frequentes e intensas com as alterações climáticas -
estão já entre “os mais poderosos instigadores de
pobreza e de desigualdade” — e o aquecimento
global irá fortalecer os impactos. “Para milhões de
pessoas, estas ocorrências significam irreversíveis
níveis de pobreza e ciclos de desvantagens a
longo prazo,” esclarece o Relatório. Para além
de ameaçar vidas humanas e infligir sofrimento,
destroem bens, levam a estados de subnutrição,
e a que as crianças sejam retiradas da escola.
Os novos desafios históricos inéditos para a
espécie humana exigem capacidade de coordenação
e ação estratégica radical num ambito global. Como
observa Jared Diamond, “pela primeira vez na
história enfrentamos o risco de um colapso global”
(Diamond, 2005). O sistema mundial do capital que
111
Giovanni Alves

se caracteriza por uma pluralidade de capitais, com


todas as suas contradições, é incapaz de agir, com
celeridade necessária, e intervir de forma efetiva na
coordenação de ações estrategicas globais contra as
forças destrutivas dos interresses particularistas dos
múltiplos capitais que degradam o ecossistema do
planeta. Por isso, as Nações Unidas não conseguiram
propor efetivamente uma ação radical global
contra a perspectiva de catastrofe ecológica. Pelo
contrário, a abordagem do documento combina
uma “mitigação rigorosa”, com vista a limitar o
aumento das temperaturas no século XXI a um
nível inferior a 2 graus Celsius, e uma “cooperação
internacional” reforçada no sentido da adaptação.
O Relatório do PNUD surgiu num momento-
chave das negociações para estabelecer um acordo
multilateral para o período após 2012, o ano em que
expira os compromissos do Protocolo de Kyoto, criado
com o objetivo de limitar o crescimento das emissões
dos gases estufa responsáveis pelo aquecimento global.
O Relatório trabalhou no esteio da ação politica possivel
dada pelos constrangimentos sistemicos da ordem
mundial do capital. Os autores apelam aos países
capitalistas desenvolvidos para que mostrem líderança
na redução das emissões de gases com efeito de estufa
(colocam como meta, pelo menos, uma redução
de 80% em 2050; e em 30% em 2020, relativamente
aos níveis de 1990). O Relatório do PNUD fez
apelos aos “países em vias de desenvolvimento”
para que reduzam as emissões em 20% até 2050,
112
As Contradições Metabólicas do Capital

relativamente aos níveis de 1990. No entanto,


segundo o documento, essas reduções a ocorrer a
partir de 2020 deverão ser apoiadas por “cooperação
internacional em financiamento e transferência
de tecnologias com baixas emissões de carbono”.
Embora se reconheça a ameaça colocada pelo
aumento das emissões de carbono por parte dos
principais “países em vias de desenvolvimento”,
argumenta-se que são os governos do hemisfério
norte, núcleo orgânico e centro dinâmico do
sistema mundial do capital, que têm de iniciar as
reduções mais profundas e com a maior urgência.
Diz Kevin Watkins:
Se as pessoas do mundo em vias de desenvolvimento
tivessem produzido emissões de CO2 per capita em
quantidade semelhante à das pessoas da América do Norte,
precisaríamos da atmosfera de nove planetas para lidar
com as consequências (PNUD, 2007)..

O Relatório de Desenvolvimento Humano


argumenta que o custo envolvido na estabilização dos
gases com efeito de estufa em 450 partes por milhão,
poderia ser limitado até uma média de 1,6% do PIB
mundial até 2030: “Embora estejamos perante custos
significativos, os custos da inércia serão muito maiores,
em termos económicos, sociais e humanos,” alerta
Kemal Dervis, coordenador do PNUD. Efetivamente,
o Relatório sublinha o modo como o custo de se evitar

113
Giovanni Alves

alterações climáticas perigosas representa menos do


que dois terços da atual despesa militar mundial.
Ao atribuir um preço ao carbono, o Relatório
sugere a utilização das forças de mercado contra
as tendências persistentes que levam à catastrofe
ecológica. No fundo, trata-se da “financeirização da
natureza”. Diz o documento que o gradual aumento
das taxas atribuídas ao carbono seria uma poderosa
ferramenta para mudar as estruturas de incentivo
com que os investidores se deparam. Enfim, o sistema
do capital, incapaz de abolir o “mal”, busca torna-lo
financeiramente conversivel. Finalmente, enumera-
se outras iniciativas da “estratégia concertada” pela
redução mitigada da emissão de gases com efeito
de estufa: padrões reguladores mais fortes, apoio ao
desenvolvimento do fornecimento de energia com
baixas emissões de carbono. cooperação internacional
em transferências de tecnologia e financeiras:
Trabalhando conjuntamente e com determinação,
poderemos vencer a luta contra as alterações climáticas.
Permitir que a janela de esperança se feche representaria
um fracasso moral e político sem precedentes na história
da humanidade. (PNUD, 2007)

Entretanto, os próprios autores – num momento


de lucidez - revelam que muitas das metas estabelecidas
pelos governos dos “países desenvolvidos” ficam aquém
daquilo que seria necessário. Também se faz notar que
a maioria dos “países desenvolvidos” fracassaram, até
agora, em atingir até mesmo as mais modestas reduções—

114
As Contradições Metabólicas do Capital

atingindo em média 5% relativamente aos níveis de


1990—acordadas no âmbito do Protocolo de Kyoto.
Segundo o Relatório do PNUD, até em situações
para as quais se estabeleceram metas ambiciosas,
poucos foram os “países desenvolvidos” que
fizeram alinhar os objetivos de segurança climática
determinados com políticas energéticas concretas.
Até que ponto as conversações de Bali serão mais
eficazes que o Protocolo de Kyoto em contornar as
perspectivas de catasfrofe ecológica? Até que ponto
as grandes corporações capitalistas e os “paises ricos”
comprometidos com os interesses da ordem mundial
do capital irão se sensibilizar com a tragédia social
que irá atingir as populações trabalhadoras mais
pobres devido as alterações climáticas? Até que
ponto a adoção de novas tecnologias de energia
renovável ocorrerá num tempo hábil capaz de
contornar a perspectiva da catastrofe ecológica?
No século XXI, a crise ecológica global que se
traduz na perspectiva de alterações climaticas radicais
é mais um elemento de regressividade histórica da
ordem burguesa planetária. Embora o autor principal
do Relatório, Kevin Watkins, diga que está fazendo
“um apelo à ação, e não um conselho desesperado,”
as perspectivas hoje de degradação da Natureza do
planeta nunca fora tão ameaçadoras. A catastrofe
ecológica decorrente das alterações climáticas não
significará o fim do mundo humano, mas a constituição
paulatina de um novo ecossistema degradado para
a evolução da especie humana, além da subversão
115
Giovanni Alves

das possibilidades concretas de emancipação


social inscritas no processo civilizatorio do capital.

Capitalismo, Natureza e a “falha metabólica”


A perspectiva de catastrofe ecológica é tão-somente
a derivação do capital como modo estranhado
de controle do metabolismo social. O modo de
produção capitalista em seu desenvolvimento
histórico significou (e significa), em si e para
si, uma ameaça à Natureza – tanto a Natureza
externa ao homem, quanto à Natureza interna,
isto é, às forças naturais pertencentes a ele próprio
(corporalidade, braços e pernas, cabeça e mãos).
O trabalho estranhado e suas determinações
reflexivas (propriedade prvada e divisão
hierarquica do trabalho) significam a obliteração
irremediável da mediação, regulação e controle
do metabolismo do homem com a Natureza.
Sob o modo de produção capitalista, a apropriação
da matéria natural pelo homem não visa a constituição
de uma forma útil para sua propria vida, mas a
acumulação de valor estranhado. Para Marx, sob o
capitalismo, o homem perdeu a mediação, regulação
e controle de seu metabolismo (Stoffwechsel) com a
Natureza. Instaurou-se uma “falha [lift] irreparável” no
metabolismo entre homem e Natureza em decorrência
das relações de produção capitalistas e da separação
antagonista entre campo e cidade. O modo capitalista
de produção alterou radicalmente a condição de
reprodução de seres humanos. Constituiu o que Karl
116
As Contradições Metabólicas do Capital

Marx denominará de “falha metabólica”. Por exemplo,


em sua época, o filosófo alemão salientou a incapacidade
do capitalismo em adotar práticas agricolas racionais
sustentáveis. Ele denunciou, ao lado do economista
politico americanos Henry Carey e o quimico agricola
alemão Justus von Liebig, a degradação do solo e o
declinio da fertilidade natural em razão da destruição
do ciclo nutriente do solo que acompanha a agricultura
capitalista. Carey observava que o solo estava sendo
sistematicamente roubado dos seus nutrientes. Dizia
ele: “O homem apenas toma emprestado da terra, e
que, quando ele não paga as suas dívidas, ela faz como
qualquer outro credor, isto é, expulsa-o da sua posse”.
Ele denunciava o “sistema de espoliação” em que
as condições de reprodução do solo estavam minadas.
O problema do esgotamento do solo também estava
vinculado, segundo Liebig, à poluição das cidades com
esgoto humano e animal. Sob influência de Carey e
Liebig, Marx desenvolveria uma critica sistemática
da “exploração” (no sentido de roubo, isto é,
incapacidade de manter os meios de reprodução)
capitalista do solo. Daí as duas principais discussões
de Marx sobre a agricultura capitalista se encerrarem
com explicações de como a indústria em larga escala
e a agricultura de larga escla se conjugaram para
empobrecer o solo e o trabalhador. O conceito téorico
central que explicava isto era o conceito de “falha” na
interação metabólica entre o homem e a terra”, isto é,
“o metabolismo social prescrito pelas leis naturais da

117
Giovanni Alves

vida”, através do “roubo” ao solo dos seus elementos


constitutivos, exigindo a sua “restauração sistemática”.
O problema da alienação dos elementos
constitutivos do solo era não apenas uma “falha
irreprável”, mas fazia parte do curso natural do
desenvolvimento capitalista. (Foster, 2005). A crise
na fertilidade do solo denunciada por Marx era
tão-somente o prenúncio vindouro da colapso
ecológico que vislumbramos no século XXI. Enfim,
o sistema do capital como modo estranhado de
controle sociometabílico é incompativel com o
desenvolvimento humano-ecológico sustentável.
A categoria conceitual principal da análise teórica
de Marx é o conceito de “metabolismo” (Stoffwechsel).
A palavra alemã Stoffwechsel, implica diretamente,
nos seus elementos, uma noção de “troca material”,
subjacente à noção dos processos estruturados de
crescimento e decadência biológicos englobados
pelo termo “metabolismo”. Na sua definição de
processo de trabalho em geral (contraposta às suas
manifestações historicamente específicas), Marx
utilizou o conceito de “metabolismo” para descrever
a relação do homem com a natureza através do
trabalho. Antes, nos “Manuscritos econômicos de
1861-63”, ele diz: “O trabalho real é a apropriação da
natureza para satisfação das necessidades humanas,
atividade através da qual o metabolismo entre o
homem e a natureza é mediado”. E nos “Grundrisse”,
Marx se referiu ao conceito de “metabolismo” num
sentido mais amplo de “sistema de metabolismo social
118
As Contradições Metabólicas do Capital

geral, de relações universais, de necessidades globais


e capacidades universais...formado pela primeira
vez” sob a produção generalizada de mercadorias.
O conceito de “metabolismo” era empregado
por Marx não apenas para se referir à real interação
metabólica entre a natureza e a sociedade através
do trabalho humano, quanto num sentido mais
amplo, para descrever o conjunto complexo,
dinâmico, interdependente, das necessidades e
relações geradas e constantemente reproduzidas de
forma alienada no capitalismo (Apud Foster, 2005).
A degradação ambiental está ligado ao modo
como o metabolismo humano com a natureza – troca
material e ação regulatória – está expresso através da
organização concreta do trabalho humano. A crise
ecológica é, na perspectiva da critica do metabolismo
social do capital, não apenas a crise da Natureza externa
e de seu ecossistema, mas a crise do trabalho vivo e de
sua degradação social em virtude da exploração e
espoliação da sua corporalidade viva pelo capital.
Disse Marx:
O homem vive da natureza, isto é, a natureza é o
seu corpo, e ele precisa manter com ela um dialogo
continuado para não morrer. Dizer que a vida fisica e
mental do homem está vinculado à natureza significa
simnplesmnete dizer que a natureza está vinculada a si
mesma, pois o homem é parte da natureza. (Marx, 2004)

A crise ecológica é um importante elemento


compositivo da sindrome critica do capital, isto é, a
crise estrutural de um modo de controle estranhado do
119
Giovanni Alves

metabolismo social (o capital). A positividade da crise


ecológica é repor, com maior clareza, o significado da
verdadeira liberdade, isto é, o valor do socialismo, que
só pode consistir nisto, que o homem socializado,
os produtores associados, governem o metabolismo
humano com a natureza de modo racional,
submetendo-o ao seu próprio controle coletivo em
vez de ser dominado por ele como um poder cego;
realizando-o com um mínimo gasto de energia e em
condições mais dignas e apropriadas à sua natureza
humana. (Marx, 1996)

A crise estrutural do capital


A crise estrutural do capital, isto é, a crise de um modo
de controle estranhado do metabolismo social que se
desenvolve desde a recessão mundial de meados da
década de 1970, provocou uma inflexão significativa
na dinâmica da economia capitalista mundial. Na
medida em que a crise ecológica se manifesta sob o
capitalismo global, explicitando a contradição secular
de um modelo de crescimento perverso e alienado na
relação homem x Natureza, ela aparece como mais um
elemento compositivo da crise estrutural do capital.
Ela é resultado do processo civilizatório do capital e
da sua “falha metabólica”. Segundo Meszáros, associar
capital (ou capitalismo) à crise não é algo inédito.
Desde meados do século XIX, o sistema mundial do
capital é atingido por crises de intensidade e duração
variadas. As crises, segundo Mészáros, são o “modo
natural de existên­cia do capital”. Elas tem uma função

120
As Contradições Metabólicas do Capital

orgânica: são maneiras de progredir deste modo


de produção social, maneiras de fazê-lo sobreviver
para além de suas barreiras imediatas e, desse modo,
como observa o filosófo húngaro, fazê-lo “estender
com dinamismo cruel sua esfera de operação e
dominação”. A novidade histórica da crise estrutural que
se desenvolve há cerca de trinta anos no sistema-mundo
do capital é que ela possui três aspectos principais:
(1) A crise estrutural possui um carâter que é
universal, em lugar de restrito a uma esfera particular (por
exemplo, financeira ou comercial, ou afetando este ou
aquele ramo particular de produção, aplicando-se a este
e não àquele tipo de trabalho com sua gama específica
de habilidades e graus de produtividade etc). A crise
estrutural é a crise de um sistema de metabolismo social,
complexo e interdependente (e portanto, universal), que
vincula os seres humanos à natureza através do trabalho.
(2) O alcance da crise estrutural é verdadeiramente
global (no sentido mais literal e ameaçador do termo),
em lugar de limitado a um conjunto particular de países
(corno foram todas as principais crises no passado). O
caráter global da crise estrutural afirma a significação
plena da categoria “capitalismo global”. Além disso, a crise
ecológica que presenciamos hoje, é, pela primeira vez na
história humana uma crise verdadeiramente global, não
se restringindo a um determinado ecossistema particular.
(3) A escala de tempo da crise estrutural é extensa,
contínua, se preferir, permanente, em lugar de limitada e
cíclica, como foram todas as crises anteriores do capital.
Na verdade, as crises anteriores do capital não tinham o
121
Giovanni Alves

caráter de “crise estrutural”, sendo apenas crises restritas


a instancias particulares do sistema, mesmo que tenham
assumido dimensão mundial (como a esfera financeira,
por exemplo) com sua dinâmica ciclica. A crise estru-
tural é sistêmica e sua temportalidade, extensa e
contínua, na medida em que expressa o esgotamento
de um modo estranhado de troca material e ação regu-
latória entre o homem e a Natureza (a crise ecológica
e a crise de sociabilidade é sua manifestação crucial).
Por isso, em contraste com as erupções e os colapsos
mais espetaculares e dramáticos do passado, o modo
de se desdobrar da crise estrutural pode ser consi-
derado rastejante, desde que acrescentemos, como
observa Meszáros, a ressalva de que nem sequer as
convulsões mais veementes ou violentas poderiam ser
excluídas no que se refere ao futuro: a saber, quando
a complexa maquinaria agora ativamente empenhada
na “administração da crise” e no “deslocamento” mais
ou menos temporário das crescentes contradições
perder sua energia (de meados da década de 1970
para cá, o caminho do capitalismo global foi pavi-
mentado por uma série de pequenas crises globais
administradas pelos Bancos Centrais dos paises da
OCDE, decorrentes do estouro de “bolhas especula-
tivas”: 1987, 1994, 1997, 2000 e 2007). Diz Meszáros:
Seria extremamente tolo negar que tal maquinaria existe e é
poderosa, nem se deveria excluir ou minimizar a capacidade do
capital de somar novos instrumentos ao seu já vasto arsenal de
autodefesa contínua. Não obstante, o fato de que a maquinaria
existente esteja sendo posta em jogo com freqüência crescente
122
As Contradições Metabólicas do Capital

e com eficácia decrescente é uma medida apropriada da seve-


ridade da crise estrutural que se aprofunda. (Mészáros, 2002)

A crise estrutural do capital possui as caracteristicas


de uma “sindrome” social, isto é, de um “estado mórbi-
do” caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas
associados a uma “condição social crítica”, suscetível
de despertar reações de temor e insegurança global.
A “condição crítica” da sindrome do capital é a
convergência histórica de um conjunto de crescentes
contradições sócio-metabólicas do sistema mundial do
capital, principalmente a partir de meados da década
de 1970. A principal delas diz respeito à contradição
capital x trabalho, na medida em que é através do traba-
lho que o sociometabolismo do capital vincula os seres
humanos à natureza: a aguda elevação da produtivida-
de do trabalho em virtude do processo cumulativo do
progresso técnico, tende a explodir a materialidade do
valor-trabalho – uma “implosão” contínua e permanente
no espaço-tempo comprimido do novo tempo histórico
do capitalismo global. É por isso que o consumo de tra-
balho vivo de uma parte da força de trabalho tornou-se
irrelevante para o sistema do capital (José Nun, um dos
teóricos da CEPAL, irá chama-las de “massa marginal”
e Robert Kurz, de “sujeitos monetários sem dinheiro”).
Enfim, a crescente redundância do trabalho
vivo e da força de trabalho, que é expressão da crise
da ecologia humana, é a “ponta do iceberg” de
um sistema de metabolismo social que expõe seus
limites estruturais, demonstrando ser incapaz de
conter o processo civilizatório humano-genérico.
123
Giovanni Alves

Nos tempos da globalização neoliberal, o que


garante a reprodução social do sistema do capital
é a agudização dos fetichismos sociais, que têm no
fetichismo da mercadoria sua expressão primordial.
Ao mesmo tempo que os fetichismos sociais
contribuem para a reprodução social da “produção
destrutiva” do capital sob as condições de sua crise
estrutural , eles expõem, num sentido radical, os
dilaceramentos intrinsecos à forma-mercadoria, ou
seja, a aguda contradição entre valor de troca (valor
econômico) e valor de uso (valor humano) – outra
contradição dilacerante da “sindrome do capital”.
A intensificação e amplitude) da crise da
forma-mercadoria, sob as condições históricas
da crise estrutural do capital, deriva da crise
estrutural do trabalho abstrato, o trabalho
produtor de valor, fundamento do valor de troca.
A crise estrutural do capital não significa
incapacidade de crescimento (e expansão) da
economia capitalista. Pelo contrário, apesar da
sua crise estrutural, o capital tem apresentado
indices exuberantes de crescimento do PIB (Produto
Interno Bruto) nas fronteiras da modernização
do capital (como Índia, China e Sudeste Asiático).
Por um lado, o exuberante crescimento em
termos de PIB não se traduz necessariamente
em efetivo desenvolvimento humano. Por outro
lado, a insustentabilidade de indices mediocres de
crescimento do PIB expressa a tendencia histórica de
queda da taxa de lucro por conta da alta composição
124
As Contradições Metabólicas do Capital

orgânica do capital (o que explica a financeirização


da riqueza capitalista e a queda dos investimentos
produtivos; e como movimento contratendencial - o
aumento da taxa de exploração da força de trabalho).
Sob as “condições criticas” do capital, o
crescimento econômico só aprofunda as contradições
sociometabólicas do capital e o dilaceramento do
ecossistema natural e humano-social. A crise estrutural
do capital significa, em sua essencia, a incapacidade
da forma social do capital em conter (e realizar) as
possibilidades de desenvolvimento do ser genérico do
homem pressupostas pela nova materialidade sócio-
técnica. A perspectiva de catastrofe ecológica devido
a degradação das condições materiais de reprodução
humana é um elemento compositivo do esgotamento
histórico de um modo de controle do metabolismo
social e o o surgimento da “hominidade dessumanizada”.

O sociometabolismo da barbarie
A perspectiva de catástrofe ecológica em virtude
do aquecimento global é o ponto crucial da
nossa época histórica. A crise ecológica é
essencialmente uma crise social, no sentido pleno
da palavra, tendo em vista que ela decorre da
“falha metabólica” que explicita a alienação do
homem das condições objetivas e subjetivas da
produção da sua vida. Nessas “condições criticas”,
a reprodução social – inclusive em sua base natural

125
Giovanni Alves

- é degradada na medida em que se degradam


os nexos sociais do homem como ser genérico.
O modo de organização capitalista da
produção e do ser social, baseado na propriedade
privada e na divisão hierarquica do trabalho, não
apenas obstaculiza o desenvolvimento sócio-
humano, mas promove a regressão civilizatória,
instaurando o que podemos denominar de
barbarie social ou o sóciometabolismo da barbarie.
O sociometabolismo da barbárie se caracteriza
pela ampliação e intensificação do processo de
dessocialização por meio do desemprego em massa
e “exclusão” social e pelo processo de precarização
e institucionalização de uma nova precariedade do
trabalho, sedimentada na “cultura do medo” (Antunes,
2003; Vasopollo, 2005; Alves, 2007). A barbarie social
ou o sóciometabolismo da barbarie é a forma de
ser da aparencia do sistema essencial do capital
em sua etapa de desenvolvimento hipertardio,
onde contradições estruturais na relação homem x
homem e homem x natureza, se agudizam (de fato, a
aguda produtividade do trabalho, oculta, em si, a
socialização objetiva da produção, sob as condições
sociais de apropriação privada do produto do
trabalho social). Estes elementos contraditórios
constituem elos constrangedores ao desenvolvimento
local nas condições materiais (e objetivas) dos
individuos histórico-mundiais, colocando, masi do
que nunca, a necessidade histórica do socialismo como
sistema mundial. O que denominamos barbárie social,
126
As Contradições Metabólicas do Capital

e que se distingue de outras formas de barbárie


histórica, emerge com o fim da ascensão histórica
do capital que alterou, radical e irremediavelmente,
as condições de reprodução expandida do
sistema mundial do capital, empurrando para o
primeiro plano, como salienta Mészáros, “suas
tendências destrutivas e seu companheiro natural,
o desperdício catastrófico” (Mészáros, 2002).
No “Manifesto Comunista” de 1848, Karl Marx e
Friedrich Engels salientaram um conceito de “barbárie”
posta como determinação reflexiva da civilização do
capital - o que significava que o desenvolvimento
natural do capitalismo tendia a ser interrompido
por uma epidemia de superprodução. Dizem eles:
A sociedade vê-se de repente retransportada a um esta-
do de momentânea barbárie [...] E por que? Porque a
sociedade possui civilização em excesso. (Marx e Engels,
1998).

A barbárie histórica do capitalismo em sua fase de


ascensão era um momento necessário, “um estado de
momentânea barbárie”, caracterizada pela destruição
de parte das forças produtivas, um elemento
necessário para a continuidade da própria acumulação
de capital. Com o modo capitalista de produção, pela
primeira vez na história, o elemento de barbárie
histórica, isto é, a destruição das “forças produtivas”
(a Natureza externa e o trabalho vivo) tornou-se parte

127
Giovanni Alves

intrinseca do modo de produção (o que não ocorria


em nenhum dos modos de produção anteriores).
Marx caracterizou o capital como sendo a
“contradição viva”, tendo em vista que, se por um
lado, a sociedade burguesa, é a sociedade que se
torna cada vez mais social (o que é um elemento do
processo civilizatório) (Lukács, 2007); por outro lado,
devido as crises sistêmicas do capital, a relação-valor
(ou o capital) tende a obstaculizar com intensidade
e amplitude, o desenvolvimento do ser genérico do
homem, dessocializando-o pelo trabalho estranhado.
O estado de barbárie decorre da “civilização em
excesso”. Esta é a suprema “contradição viva” do
capital com impactos decisivos no metabolismo
social da modernidade capitalista. Na medida em
que ingressamos na fase de descenso histórico do
capital como modo estranhado de controle do
metabolismo social, tal fase histórica, caracterizada
pela intensa expansividade e incontrolabilidade
do capital, agudiza-se as “contradições vivas”
da relação-valor. Ao mesmo tempo que manifesta
a escassez social, a mundialização do capital contém
contraditoriamente elementos de “civilização em excesso”.
Entretanto, alterou-se a natureza da crise
capitalista. Ao assumir um caráter estrutural, ela
tende não apenas a acirrar as contradições sistêmicas
do capital, mas também a alterar a temporalidade
de manifestação da barbárie histórica, não
restringindo-a apenas a um “momentum” de
interregno da acumulação de capital, mas
128
As Contradições Metabólicas do Capital

tornando-a uma temporalidade cronificada de crise


do sociometabolismo estranhado. Nas “condições
criticas” da civilização do capital abre-se uma
nova etapa da luta de classes no plano histórico-
mundial. A perspectiva de catastrofe ecológica
como elemento compositivo da barbarie social expõe
outra dimensão candente da crise estrutural do
capital: a obstaculização radical da base natural de
desenvolvimento do ser generico do homem. Por
isso, mais do que nunca, coloca-se a necessidade
histórica do socialismo como novo modo de controle
social capaz de permitir o desenvolvimento humano.

129
ANEXO 2

O Que é a Relação-Capital

“A alienação da humanidade, no sentido fundamental do termo,


significa a perda de controle: sua corporificação numa força externa
que confronta os indivíduos como um poder hostil e potencialmente
destrutivo. Quando Marx analisou a alienação nos seus Manuscritos
de 1844, indicou os seus quatro principais aspectos: 1) a alienação
dos seres humanos em relação à natureza; 2) à sua própria atividade
produtiva; 3) à sua espécie, como espécie humana; e 4) de uns em
relação aos outros. Ele afirmou enfaticamente que tudo isso não é
uma “fatalidade da natureza” – como de fato são representados os
antagonismos estruturais do capital, a fim de deixá-los onde estão
– mas uma forma de auto-alienação. Dito de outra forma, não é o
feito de uma força externa todo-poderosa, natural ou metafísica,
mas o resultado de um tipo determinado de desenvolvimento
histórico que pode ser positivamente alterado pela intervenção
consciente no processo histórico para ‘transcender a auto-alienação
do trabalho’. Na fase ascensional do desenvolvimento do sistema,
o controle do metabolismo social pelo capital resultou num
antes inimaginável aumento das forças de produção. Mas o outro
lado de todo esse aumento das forças de produção é a perigosa
multiplicação das forças de destruição, a menos que prevaleça um
controle consciente de todo o processo a serviço de um projeto
humano positivo. O problema é que o capital é incompatível
com um modo alternativo de controle, não importando o quanto
sejam devastadoras as consequências da imposição de seu
próprio projeto fetichista de expansão incontrolável do capital”
Istvan MESZAROS (2002)

E ntendemos a relação-capital como sendo as


mediações de segunda ordem que caracterizam
a base sociometabólica do capitalismo como
modo de produção da vida social. Ao “acoplar-se”

130
As Contradições Metabólicas do Capital

estruturalmente com a relação-valor, a relação-capital


(ou o capital) tornou-se a mais poderosa força de
controle sociometabólico produzida pelo homem.
Como observou I. Mészaros, o capital é “a mais
poderosa – estrutura ‘totalizadora’ de controle à qual
tudo o mais, inclusive seres humanos, deve se ajustar, e
assim provar sua ‘viabilidade produtiva’, ou perecer, caso
não consiga se adaptar” (Mészáros, 2002). Enquanto
a relação-valor organiza o modo de produção de
mercadorias, o capital (ou relação-capital) é a base
sociometabólica do modo de produção capitalista.
A distinção entre relação-capital e relação-valor é
meramente heuristica e se originou do entendimento
de que existe diferenças entre capital e capitalismo1. O
capital como modo de controle do socio-metabolismo

1
A critica das experiencias revolucionarias do século XX, principalmente as expe-
riencias pós-capitalistas da URSS e de países do Leste europeu contribuiram para
a distinção de Mészáros entre “capitalismo” e “capital”. Na medida em que tais
experiencias pós-capitalistas não conseguiram, por uma série de contingencias
históricas, romper com o capital como sistema de controle sociometabólico, fra-
cassaram no intuito de construir uma nova civilização do trabalho emancipado.
Enfim, conseguiram ir além do capitalismo, mas não ir além do capital.No século
XXI vivemos a longa decadência histórica do capitalismo liberal-democrático sob
hegemonia dos EUA. Após o colapso das experiencias pós-capitalistas da URSS e
Leste Europeu (1989-1991). Entretanto, no século XXI, o capital se reconstituiu
territorialmente na China e no Sudeste Asiático projetando suas candentes con-
tradições para além do capitalismo neoliberal, com uma nova formação social
do capital comandada pelo Estado político, quiça uma experiencia “pós-capita-
lista” na era da crise estrutural do capital. Como observou Mészáros, o capital
é capaz de construir formas mutantes de seu sociometabolismo – para além do
capitalismo tal como nós o conhecemos. Na verdade, em suas últimas reflexões,
Meszáros se debruçou sobre os imperativos corretivos do capital e o Estado. A
crítica do comando do Estado reforçaria a perspectiva de salientar a necessi-
dade histórica de ir além do capital, e não apenas superar o capitalismo senil.

131
Giovanni Alves

possui antecedentes históricos antes do capitalismo


e pode sobreviver para além do capitalismo.
A partir do século XVI, com o comércio mundial
e mercado mundial, inaugurou-se a moderna história
de vida do capital, ou o período de desenvolvimento
histórico do modo de produção capitalista. Recorremos
à ideia do “acoplamento estrutural” entre capital e
capitalismo, para salientar o surgimento do poderoso
sistema do capital identificado com o capitalismo
propriamente dito. O “capital” antes do capitalismo
não constituia um sistema. Na medida em que se
“acoplou” historicamente com o modo de produção
capitalista, elementos do controle sociometabolico
do capital que existiam antes do capitalismo,
incorporaram-se à forma-valor e se desenvolveram
como o sistema do capital propriamente dito.
Por um lado, existe a acepção forte do
conceito de capital, que diz respeito à era histórica
do capitalismo, principalmente do capitalismo
industrial, com o capital tornando-se sistema de
metabolismo social responsável pela valorização do
valor. Nesse sentido, o capital expressa um modo de
produção específico: o capitalismo propriamente dito.
Por outro lado, existe a acepção fraca do conceito
de capital (o “capital” entre aspas), que se refere aos
elementos de controle sociometabolico ou elementos
das mediações de segunda ordem que existiram
antes do capitalismo, sendo, deste modo, elementos
compositivos de outros modos de produção pré-
capitalistas. É nesse sentido que se diz que o “capital”
132
As Contradições Metabólicas do Capital

existiu antes do capitalismo: elementos compositivos


da mediação sociometabolico do capital existiam há
séculos, de forma embrionária, nas formações sociais
pré-capitalistas, sem compor um sistema ou possuir a
dominancia que os elementos do capital possui hoje
na etapa histórica do capitalismo. Portanto, antes
do capitalismo, o “capital” (com aspas) existia como
forma embrionária noutros modos de produção,
não assumindo portanto a forma de sistema: o
capital não era ainda o capital propriamente dito.
Apoiando-se nos “Grundrisse”, de Karl
Marx, I. Mészáros reconstituiu o longo processo
histórico de transformação das formas incipientes
de capital (capital usurário e capital comercial) nas
formas do capital dominante de hoje. Descrevendo
o capital plenamente desenvolvido, “acoplado
estruturalmente” à forma-valor, Mészáros salientou
que [com o capitalismo] “o capital não é uma simples
relação, mas um processo, em cujos vários momentos
sempre é capital.” Foi o processo histórico-social
de progressiva constituição moderna do capital
– com o capitalismo histórico -, que explicitou a
natureza incontrolável e o grau de controle que o
capital passará a exercer na produção da vida social.
Antes do século XVI, na Europa ou noutras
partes do mundo (como, por exemplo, América pré-
colombiana, África, Índia, Japão e China), elementos
mediativos do sociometabolismo do “capital”
assumiran variadas formas primitivas, arcaicas e pré-
modernas (os modos de produção pré-capitalistas).
133
Giovanni Alves

O capital como categoria histórica efetiva, tal como


se constituiu no Ocidente moderno, não estava
plenamente posto, não se tornando, ele mesmo,
fundamento da produção da vida social. Como diria
Marx nos Grundrisse, o “capital comercial é apenas
capital circulante, e capital circulante é a primeira
forma de capital; na qual ele ainda não se tornou de
modo algum o fundamento da produção. Uma forma
mais desenvolvida é o capital dinheiro, capital a
juro, dinheiro, usura, cuja aparência independente
pertence do mesmo modo a um estágio anterior.”
Portanto, antes de assumir sua forma capitalista
enquanto modo de produção, “todos os aspectos da
forma plenamente desenvolvida do capital - incluindo
a mercantilização da força de trabalho, que é o
passo mais importante para alcançar a forma mais
desenvolvida, a [forma] capitalista; e ainda o capital
comercial e capital-usurário, etc – apareceram em
algum momento na história há muito tempo, antes da
fase capitalista, em alguns casos, até milênios antes.”.
Ao assumir sua forma capitalista (relação-
valor), o capital tornou-se progressivamente o sistema
de controle estranhado do metabolismo social (o
que não existia nas formas pré-capitalistas, onde o
mercado e o dinheiro não organizavam a reprodução
social, embora fizessem parte dela). O capital
moderno foi a verdadeira invenção do Ocidente.
Portanto, I. Meszáros, depois de Marx, admitiu
que o capital possui uma fase capitalista (a era
moderna do capital); e uma fase pré-capitalista, onde
134
As Contradições Metabólicas do Capital

pode-se identificar antecedentes históricos distantes do


capital, isto é, seus elementos mediativos compuseram
o sociometabolismo de outros modos de produção
antes do capitalismo (Mészáros, 2002). Como
elementos mediativos do controle sociometabolico
do capital, que podem ser identificados como
antecedentes históricos distantes do capital,
tivemos, por exemplo, a presença do primitivo
capital monetário e capital comercial. Tais elementos
mediativos existiam noutros modos de produção
pré-capitalista, mas não dominavam a organização
sociometabolica destes modos de produção.
Tais antecedentes históricos primitivos do
capital nas formação pré-capitalistas, diziam respeito
a uma subordinação formal do trabalho ao capital
que se contrasta, por exemplo, com a subordinação
real que caracteriza a era capitalista. Em torno das
personificações arcaicas de capital monetário e
capital comercial, existia um mundo social agrário
organizado em torno de modos de produção que
preservavam ainda a auto-suficiência humana
no plano econômico (o camponês e o artesão
tinham, sob seu controle, os meios de produção,
não havendo, deste modo, a separação do produtor
das condições objetivas e subjetivas de produção).
A mais arcaica determinação do capital foram
as formas de dominação (e poder) de classe, as for-
mas arcaicas do Estado político, que depois, com o
desenvolvimento do modo de produção capita-
lista, seriam incorporadas pelo sistema do capital
135
Giovanni Alves

para reproduzi-lo numa forma adequada à tendên-


cia geral do seu desenvolvimento. As formas de
dominação originaram-se com a divisão hierárqui-
co-estrutural do trabalho, que precede historicamente
às mais embrionárias formas de manifestação do
modo de controle do capital como sistema. Com
o capital na era do capitalismo, a divisão do tra-
balho iria assumir uma forma específica adequada
ao seu desenvolvimento acoplado à relação-valor.
Nos modos de produção pré-capitalistas, os pro-
dutores (camponeses e artesãos) eram auto-suficientes
economicamente, sendo o controle essencialmente
político. Foi a perda da auto-suficiencia do trabalho
vivo, a separação entre “o caracol e sua concha (como
diria Marx), isto é, a separação do trabalhador e
seus meios de produção, ou ainda, a separação dos
produtores das condições objetivas e subjetivas de
produção social, que deu origem à alienação que carac-
teriza o trabalho estranhado (ou trabalho assalariado).
O trabalho assalariado tornou-se o elemento
fundamental (e fundante) do sistema do capital inau-
gurando efetivamente o modo de produção capitalista
propriamente dito. Com a disseminação do trabalho
assalariado pela vida social, isto é, a subordinação real
do trabalho ao capital, o capitalismo se desenvolveu
como modo de produção de mais-valor (como riqueza
abstrata), tendo como base sociometabólica, o capi-
tal como sistema de mediação de segunda ordem. A
questão fundamental para a relação-capital afirmar-se
como sistema acoplado à relação-valor, foi a separa-
136
As Contradições Metabólicas do Capital

ção entre produtores e controle da produção que deu


origem ao trabalho assalariado como forma históri-
ca de exploração da força de trabalho (ou extração
da mais-valia). O trabalho assalariado tornou-se a
base material da relação-valor. Foi o trabalho estra-
nhado [Entfremdung Arbeit] que fundou o sistema
do capital auto-expansivo e incontrolável, sistema
de controle social fetichizado, tendo em vista que
a relação-valor, que se baseia no trabalho assala-
riado, tem como segredo, o fetiche da mercadoria.
O capital ou relação-capital como sistema
de mediações de segunda ordem historicamente
determinada, nasceu como resultado da divisão social
que operou a subordinação estrutural do trabalho
ao capital. Não sendo consequência de nenhuma
determinação ontológica inalterável, esse sistema de
metabolismo social é, segundo Mészáros, o resultado
de um processo historicamente constituído, onde
prevaleceu a divisão social hierárquica que subsume
o trabalho ao capital. Deste modo, o capital na sua
acepção forte, emergiu historicamente com o novo
modo de produção capitalista, tornado-se um modo
específico de controle sociometabolico, um sistema
de controle economico, politico (e ideológico),
consumado e realizado como mediação de segunda
ordem, verdadeira força opressora sistêmica e
sistemática, responsável pela extração de mais-
valor. Ao constituir-se historicamente como modo
de produção, o capitalismo incorporou, como
condição de seu proprio desenvolvimento histórico,
137
Giovanni Alves

um conjunto de elementos mediativos do capital,


elementos ancestrais que foram redimensionados ao
serem incorporados no modo de produção capitalista.
Foi o caso, por exemplo, da dominação do poder
de classe (Estado político), a divisão do trabalho, o
mercado, o dinheiro, a família nuclear, o trabalho
como atividade exclusiva, etc. A nova razão economica
do capitalismo operou o redimensionamento qualitativo
dos antecedentes históricos do capital. Disse Meszaros:
O mesmo acontece com todas as formas de dominação
historicamente precedentes: elas se subordinam ou
são incorporadas às mediações de-segunda ordem
específicas ao sistema do capital, da família às estruturas
de controle do processo de trabalho, e com as variadas
instituições de troca discriminadora até o quadro
político de dominação de tipos muito diferentes de
sociedades.” (Mészáros, 2002).

As mediações de primeira ordem


O homem como ser social, e o próprio devir
humano dos homens, evoluiu mediados entre si, e com-
binados dentro de uma totalidade social estruturada, por
mediações primárias básicas ou sistema de mediações de
primeira ordem que constituíram o sistema de produção
e troca estabelecido. O homem-que-trabalha, ou seja,
o animal tornado homem através do trabalho (como
diria G. Lukács), não poderia constituir-se como ser
social, caso não produzisse suas condições de vida, isto
é, produzisse os meios que se preserva suas funções
vitais de reprodução (individual e societal). Como

138
As Contradições Metabólicas do Capital

observou Marx e Engels, “o primeiro pressuposto de


toda existência humana e, portanto, de toda a história, é
que os homens devem estar em condições de viver para
poder ‘fazer história’.” E mais adiante: “O primeiro ato
histórico é, portanto, a produção dos meios que per-
mitem a satisfação destas necessidades, a produção
da própria vida material [...]” (Marx e Engels, 1987).
O primeiro ato histórico, indispensável há
milhares e milhares de anos e indispensável hoje
e sempre, é a produção (e reprodução) da vida
material (para viver, dizem Marx e Engels, “é preciso
antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-
se e algumas coisas mais.” [o grifo é nosso]).
A espécie humana como é parte da natureza, deve
realizar suas necessidades elementares por meio do
constante intercâmbio com a própria natureza da qual
ele é parte. Ao contrário dos animais, cujo intercâmbio
com a natureza é sem mediações, sendo regulados por
um comportamento instintivo diretamente subordinado
à natureza, os indivíduos da espécie humana, para
sobreviverem, baseiam seu intercâmbio com a
natureza num sistema de mediações de primeira ordem.
É o trabalho como sistema de produção e
intercambio com a natureza, que permite a satisfação
das funções necessárias básicas do homem como
animal social, constituindo o sistema de mediações
de primeira ordem (mediações primárias básicas).
István Mészáros discriminou as funções vitais das
mediações primárias (mediações de primeira ordem
entre o homem e a natureza), mediações primárias
139
Giovanni Alves

do homem com a natureza, indispensáveis para a


sobrevivência dos indivíduos da espécie humana e o
desenvolvimento da autoprodução e reprodução societal:
1) A regulação da atividade biológica reprodutiva
em conjugação com os recursos existentes;
2) A regulação do processo de intercambio
comunitário com a natureza (o trabalho) e modo
de produção social da vida, capaz de produzir os
valores de uso, os instrumentos de trabalho, os
empreendimentos produtivos e o conhecimento
para a satisfação das necessidades humanas;
3) A constituição de um sistema de trocas
compatível com as necessidades humanas e sociais
requeridas naquele estágio de desenvolvimento
civilizatório, historicamente mutáveis e visando
otimizar os recursos naturais e produtivos existentes;
4) A organização, coordenação e controle da
multiplicidade de atividades humanas (materiais e
culturais), visando o atendimento de um sistema
de reprodução social cada vez mais complexo. Na
medida em que evoluiu a espécie humana, tornou-se
indispensáveis para a produção da vida social, não apenas
a satisfação das necessidades primárias do homem como
ser animal (alimentar-se, beber, vestir-se e morar), mas
o que Karlm Marx e Friedrich Engels salientaram como
sendo “algumas coisas a mais” (por exemplo, a produção
simbólica e a criação artística, filosófica e religiosa).
5) A alocação racional dos recursos materiais e
humanos disponíveis, lutando contra as formas de
escassez, por meio da utilização viável (e sustentável)
140
As Contradições Metabólicas do Capital

dos meios de produção. em sintonia com os níveis


de produtividade e os limites materiais existentes;
6) A constituição e organização de normas societais
designados para a totalidade da comunidade, em
conjunção com as demais funções de mediação primárias.

As mediações de segunda ordem do capital (ou a


relação-capital)
Nenhum dos imperativos de mediação primária
do ser social com a natureza, necessitam da
constituição de hierarquias estruturais de dominação
e subordinação que configuram o sistema de
metabolismo social das mediações de segunda ordem.
Assim, a rigor, o capital na sua forma primitiva,
surgiu historicamente com a constituição histórica
da divisão hierárquico-estrutural do trabalho ou hie-
rarquias estruturais de dominação e subordinação.2.
Na medida em que se constituiu como modo de
controle sociometabólico ou mediações de segunda
ordem, baseados em hierarquias estruturais de
dominação e subordinação, o capital sobredeterminou
e deformou os imperativos de mediação primários do
ser social.Na sua forma histórica mais desenvolvida, o
capital na etapa capitalista, tornou-se sistema em que
a determinação econômica adquiriu função fundante

2 
Na “Ideologia Alemã” de Karl Marx e Friedrich Engels (1847), atribuiram à divisão do
trabalho – e deve-se entende-la como sendo a divisão hierárquica do trabalho ou divisão
entre atividade material e atividade espiritual (o surgimento dos ideólogos ou sacerdotes,
por exemplo) - que deu origem a hierarquias estruturais de dominação e subordinação
baseada na extração de sobretrabalho de camponeses. Esta divisão do trabalho deu ori-
gem às contradições históricas e sociais que iriam caracterizar o processo civilizatório.

141
Giovanni Alves

(e fundamental), tendo em vista que baseia-se na


relação-valor que tem na exploração (ou extração
fetichizada do sobretrabalho) sua razão de ser.
O advento do sistema da “segunda ordem de
mediações” com o modo de produção capitalista
correspondeu a um período específico da história
humana que acabou por afetar profundamente
a funcionalidade das mediações de primeira
ordem ao introduzir elementos estranhados,
alienantes e fetichizantes de controle sociometabólico.
Nas sociedades pré-capitalistas, o “capital” existia
em sua forma historicamente arcaica, demarcando,
explorados e exploradores, trabalho material e
trabalho intelectual, mas não exercendo a função
reguladora exclusiva básica na ordem societal.
Na verdade, naquela época, o “capital” ainda não
tinha se constituido como sistema de metabolismo
social, embora existisse nas mediações historicamente
determinadas de controle e estruturas institucionais,
subordinando estritamente todas as funções
reprodutivas sociais à divisão hierarquica do trabalho.
Desde a sua origem histórica há milhares de
anos, o capital se constituiu como estrutura de mando
vertical, que instaurou uma divisão hierárquica
do trabalho capaz de viabilizar o novo sistema de
metabolismo social baseado nas classes sociais, Estado
e ideologia, voltado, deste modo, para a necessidade
da contínua, sistemática e crescente extração de
sobretrabalho das classes exploradas e oprimidas
(foi com o capitalismo que o trabalho subsumiu-se
142
As Contradições Metabólicas do Capital

realmente ao capital). A natureza do sobretrabalho


assumiu formas históricas (renda fundiária, corvéia ou
mais-valia no caso do modo de produção capitalismo).

Mediações Primárias do Homem com a Natureza3


(mediações de primeira ordem)

“Família”
Regulação da Atividade Biológico-Reprodutiva

“Trabalho”
(Modo de Produção da Vida Material)

“Mercado”
Sistema de Trocas Humanas e Sociais

“Cultua”
Organização, Coordenação e Controle das Atividades Humanas
(Produção Simbólica, Criação Artistica, Filosófica e Religiosa)

“Tecnologia”
Luta contra a Escassez
(Alocação Racional dos Recursos Materiais e Humanos)

“Estado”
Constituição e Organização de Normas Societais


O processo de constituição da forma capitalista do
capital foi resultado de um longo processo cumulativo,
não uniforme, de suas “formas de dominação histori-
camente precedentes”, tais como a família nuclear, o

  Entre aspas, as formas societais aproximadas das mediações sociometabólicas básicas.


3

143
Giovanni Alves

controle do processo de trabalho, as instituições de inter-


câmbio (mercado), as formas políticas de dominação
(Estado político), etc, as quais – com o capitalismo -
se “fundiram num novo sistema poderoso e coerente”.
István Mészáros utilizou-se do método dialético
de Marx que afirmou que é “o mais desenvolvido que
explica o menos desenvolvido”. Por isso, a descrição do
sistema sociometabólico do capital é feita a partir do seu
modo de produção mais desenvolvido (o capitalismo). Ao
descrever o sistema de mediações de segunda ordem,
Mészáros descreveu o capital tal como ele se
apresenta na moderna vida do capital, com o valor
de uso e as necessidades humanas completamen-
te subordinadas à reprodução do valor de troca
- no interesse da auto-realização expansiva do
capital. A auto-realização expansiva do capital tem
sido o traço mais notável do capital como sistema.
Este traço caracteristico pertence efetivamente ao
capital em sua forma histórica moderna (o capital incorpa-
rado pela relação-valor) e não ao “capital” na sua acepção
fraca, em sua forma histórica arcaica pré-capitalista.
Foi apenas com o modo de produção capitalis-
ta que se separou efetivamente valor de uso e valor de
troca e a produção do capital converteu-se em propó-
sito da humanidade, subordinando o valor de uso ao
valor de troca. Foi só com a moderna civilização do
capital, nascida a partir do século XVI que consti-
tuiu-se o sistema do capital com suas mediações
historicamente determinadas de controle e estrutu-
ras institucionais, subordinando estritamente todas
144
As Contradições Metabólicas do Capital

as funções reprodutivas sociais - das relações de


gêneros familiares à produção material, incluindo
a criação artística – ao imperativo absoluto da
expansão “expandir constantemente o valor de tro-
ca, ao qual todos os demais, desde as mais básicas
e mais íntimas necessidades dos indivíduos, até as
mais variadas atividades de produção, materiais e
culturais, devem estar estritamente subordinados”.
Essa característica de auto-realização expansiva
do capital constituiu-se num dos principais
segredos do êxito dinâmico destas mediações de
segunda ordem em sua forma histórica moderna,
uma vez que as limitações das necessidades
não podiam se constituir em obstáculos para a
expansão reprodutiva do capital. Diz Meszáros:
Naturalmente, a organização e a divisão do trabalho
eram fundamentalmente diferentes nas sociedades onde
o valor de uso e as necessidades exerciam uma função
reguladora básica“ (Mészáros, 2002).

A presença do valor de uso e as


necessidades nas sociedades pré-capitalistas
constituíam obstáculos para a plena expansão
do capital como mediação de segunda ordem.
Foi com o modo de produção capitalista e a
relação-valor incorporado a si (“acoplamento estrutu-
ral”), que o capital (ou a relação-capital) constituiu-se
como categoria histórica efetiva [wirklichkeit, em
alemão], com a vigência do sistema de media-

145
Giovanni Alves

ções de segunda ordem do capital que tem em


seu núcleo organico os seguintes elementos:
1) A separação e alienação entre o trabalha-
dor e os meios de produção (trabalho assalariado);
2) A imposição das condições objetivadas e
alienadas de produção da vida social sobre os tra-
balhadores, como um poder separado que exerce o
mando sobre eles (divisão hierarquica do trabalho);
3) A persona do capital como um valor “egoís-
ta”, com sua “subjetividade” e “pseudopersonalidade”
usurpadas pelo sistema, sendo personas voltada para o
atendimento dos imperativos expansionistas do capital;
4) A persona do trabalho, isto é, a personifi-
cação dos trabalhadores assalariados como trabalho
(força de trabalho), destinado a estabelecer em si e
para si, urna relação de dependência com o capital
historicamente dominante; essa personificação reduz
a identidade do sujeito da força de trabalho (como
mercadoria) a suas funções produtivas fragmentárias.
Cada um dos modos de “mediação de
primeira ordem” do sociometabolismo homem-na-
tureza foi alterado e subordinado aos imperativos
de reprodução do capital como sistema do meta-
bolismo social estranhado. As funções produtivas
e de controle do processo de trabalho social são,
por exemplo, radicalmente separadas entre
aqueles que produzem e aqueles que controlam.
O capital na sua forma histórica moderna,
se constituiu como o mais poderoso e abrangente
sistema de metabolismo social. Tal sistema
146
As Contradições Metabólicas do Capital

de mediação de segunda ordem da moderna


vida do capital, tem um núcleo constitutivo
formado pelo tripé capital, trabalho e Estado.

Relação-Capital
Mediações de segunda ordem entre o Homem e a Natureza

Familia patriarcal
Regulação alienada da atividade biológico-reprodutiva

Trabalho Estranhado
modo de produção regido pela exploração
Persona do trabalho como atividade exclusiva

Mercado
Sistema de trocas sociais regidos pela lei do valor

Estado político
Organização, coordenação e controle das Atividades Sociais
pelas estruturas politicas de mando vertical

Racionalidade Tecnológica
(Alocação dos recursos materiais e humanos)

Divisão hierarquica do Trabalho


A persona do capital

Ideologia e Cultura
Constituição e Organização de Normas Sociais

Estas três dimensões fundamentais do


sistema materialmente inter-relacionado do capital
(capital, trabalho e Estado) só podem ser superadas
147
Giovanni Alves

na medida em que se elimina o conjunto dos


elementos que compreende todo o sistema. Não
basta eliminar um ou até mesmo dois de seus pólos4.
Diz Meszáros:
Dada a inseparabilidade das três dimensões do sistema
do capital. que são completamente articuladas - capital,
trabalho e Estado - é inconcebível emancipar o trabalho
sem simultaneamente superar o capital e também o Estado.
Isso porque, paradoxalmente, o material fundamental que
sustenta o pilar do capital não é o Estado, mas o trabalho.
em sua contínua dependência estrutural do capital (...).
Enquanto as funções controladoras vitais do metabolismo
social não forem efetivamente tomadas e autonomamente
exercidas pelos produtores associados, ,mas permanecerem
sob a autoridade de um controle pessoal separado (isto é,
o novo tipo de personificação do capital), o trabalho como
tal continuará reproduzindo o poder do capital sobre si
mesmo» mantendo e ampliando materialmente a regência
da riqueza alienada sobre a sociedade.

O capital moderno enquanto relação (e processo) de


organização e controle estranhado e fetichizado do meta-
bolismo social, constitui urna poderosíssima estrutura a
qual todos, principalmente os seres humanos, devem se
adaptar. Esse sistema mantém domínio e primazia sobre
a totalidade dos seres sociais, sendo que suas mais pro-

4
  A experiência histórica da URSS demonstrou corno foi impossível destruir o Estado (e
também o capital) mantendo-se o sistema de metabolismo social do trabalho alienado e
heterodeterminado. O que se presenciou naquela experiência histórica foi, ao contrário,
a enorme hipertrofia estatal, uma vez que, tanto a URSS, quanto os demais países pós-ca-
pitalistas, mantiveram os elementos básicos constitutivos da divisão social hierárquica
do trabalho. A “expropriação dos expropriadores”, a eliminação “juridicopolítica” da pro-
priedade, realizada pelo sistema soviético, “deixou intacto o edifício do sistema de capital”.

148
As Contradições Metabólicas do Capital

fundas determinações estão orientadas para a expansão e


impelidas pela acumulação de mais-valor (relação-valor)
Enquanto nas formas societais anteriores ao modo
de produção capitalista - como, por exemplo, nas aglo-
merações humanas do “comunismo primitivo” na
pré-história - as formas de metabolismo social se carac-
terizavam por um alto grau de autossuficiência “no que
concerne à relação entre produção material e seu controle”,
com o desenvolvimento do sistema do capital a partir da
consolidação do capitalismo propriamente dito, quando
o capital na forma de seus antecedentes históricos primiti-
vos, “acoplou-se” estruturalmente ao modo de produção
capitalista, o capital como modo de metabolismo social tor-
nou-se sistema social expansionista e totalizante, alterando
profundamente o metabolismo societal do Ocidente.
É essa nova característica do metabolismo social na
ordem social burguesa que fez com que o sistema do capital
se tornasse mais dinâmico que a soma do conjunto de todos
os sistemas anteriores de controle do metabolismo social.
A vida moderna do capital ou o capital como sis-
tema estruturalmente acoplado à auto-valorização do
valor, demonstra ser um sistema que não tem limites para
a sua expansão (por exemplo, ao contrário dos modos
de organização societal anteriores, que buscavam em
alguma medida o atendimento das necessidades sociais).
Deste modo, o sistema de metabolismo social da vida
moderna do capital configurou-se como um sistema,
em última instância, ontologicamente incontrolável.

149
ANEXO 3

O Que é a Relação-Valor

O conceito de relação-valor é utilizado para carac-


terizar o tipo de relação social que estrutura
o modo de produção capitalista, tal como exposto
por Karl Marx na sua obra “O Capital: Crítica da
Economia Política” (1867). Enquanto a relação-ca-
pital diz respeito às mediações de segunda ordem
que caracterizou o modo de controle do sociome-
tabolismo há milenios, desde o surgimento das
sociedades de classe (incluindo o período histó-
rico do capitalismo), a relação-valor diz respeito à
estruturação histórica do modo de produção capita-
lista enquanto sociedade mercantil complexa, isto
é, uma sociedade humana regulada pela produção
de mercadorias visando a extração de mais-valor.
Na medida em que ocorria o declinio histórico
do feudalismo (século XVI-XVII), desenvolvia-se
no seio do mundo feudal (Norte da Inglaterra), um
novo modo de produção denominado capitalismo.
Na sua etapa de “acumulação primitiva”, o capitalismo
expos de forma candente, aquilo que denominamos
“acoplamento estrutural” da relação-capital com
a relação-valor (o poder do Estado criou os
150
As Contradições Metabólicas do Capital

pressupostos materiais para o desenvolvimento da


burguesia e da sociedade produtora de mercadorias).
A dita acumulação primitiva foi expressão
histórica primordial daquilo que Achile Mbembe
denominou “necropolítica” pela qual o Estado das
classes proprietárias exerceu o seu poder de soberania
criando pela violência, as condições históricas para o
desenvolvimento do novo modo de produção capitalista.
Karl Marx discutiu no capítulo 24 do Livro 1 de “O
Capital” (intitulado “A assim chamada Acumulação
Primitiva”), a expropriação do povo do campo de sua
base fundiária. Disse ele: “Na história real, a conquista,
a subjugação, o assassinio para roubar, em suma, a
violencia, desempenham o principal papel”. Eis a
verdadeira fonte do necropoder: a relação-capital. A
violência é o elemento supremo da relação-capital que
criou historicamente as bases para o desenvolvimento
do capitalismo industrial (o sistema da relação-valor).
Na medida em que se desenvolveu historicamente,
o capitalismo tornou-se expressão suprema da relação-
capital como relação de dominação e controle. Ao
ocorrer tal “acoplamento estrutural”, a relação-valor
demonstrou ser o meio histórico adequado para o pleno
desenvolvimento da “relação-capital” como relação
de poder e dominação, pois com a relação-valor, a
relação-capital como forma de controle estranhado,
tornou-se fetichizada (o que distingue a aienação
como estranhamento e a alienação como fetichismo
da mercadoria: como estranhamento, a dominação e o
controle é transparente e visivel (por exemplo, o escravo
151
Giovanni Alves

e o servo tinham percepção plena da expropriação


operada pelos senhores proprietários; enquanto , com
o capitalismo, o trabalhador assalariado não percebe
com clareza a exprpeiação do capital por meio da
extração da mais-valia. O fetichismo da mercadoria
faz com que o poder e a violência do capital operem de
modo intrasparente e sutil. No capitalismo, o “escravo
assalariado” – como denominou Lenin – é considerado
um trabalhador livre e a categoria de salário oculta a
mais-valia. Nese caso, a relação-capital encontra na
relação-valor o meio adequado superior para exercer o
necro poder. (o mesmo ocorre com a democracia e sua
forma representativa como formas de ocultação do poder
de classe). Com o capitalismo, o necropoder – elemento
da relação-capital - tornou-se o poder do Estado.
Com o processo histórico de consolidação do
capitalismo como modo de produção tivemos como
passo fundamental, a constituição do mercado mundial
em suas etapas históricas: colonialismo, imperialismo
e globalismo (do capitalismo mercantil ao capitalismo
industrial e suas etapas concorrencial e monopolista).
O conceito de “acoplamento estrutural” foi
apropriando cum grano salis por nós, da Teoria dos
Sistemas de Niklas Luhmann. O modo de produ-
ção capitalista como meio histórico, desempenhou
um papel adequado e importante para o desenvolvi-
mento do sistema da relação-capital. Diz Luhmann:
A Teoria dos Sistemas defronta-se com o problema de
como estão reguladas as relações entre sistema e meio;
uma vez que principalmente na estratégia teórica, a

152
As Contradições Metabólicas do Capital

distinção sistema/meio faz referência ao fato de que o


sistema já contém a forma meio. Em outras palavras:
nenhum sistema pode evoluir a partir de si mesmo.
Em todo processo evolutivo, a autopoiesis do sistema
se reproduz e pode sobreviver à reprodução divergente
oferecida pelas estruturas. É fácil entender que o meio
desempenha um papel muito importante nisso; sem
contar que carece de sentido perguntar o que é mais
importante, sistema ou meio, já que é precisamente esta
diferença que torna possível o sistema” [o grifo é nosso]
(Luhmann, 2009).

A relação-valor estrutura o modo de produção


capitalista, incorporando em si e para si, as
“mediações de segunda ordem” desenvolvidas
historicamente pelo capital (relação-capital). O
capitalismo foi um meio histórico muito importante
para a reprodução ampliada da relação-capital,
inclusive transformando-o num sistema global e
num modo de controle complexo capaz de ocultar
sua violência sistêmica. Enfim, a relação-capital
que existia de modo primitivo nas formações
sociais pré-capitalistas, encontrou no modo de
produção capitalista um meio adequado para si.
Temos utilizado o termo “capital” em duas
importantes acepções: primeiro, o capital diz respeito
às mediações de segunda ordem que identificamos
como sendo a relação-capital e que existiu antes e
que pode continuar existindo depois do capitalismo.
Depois, o capital pode ser identificado com o
próprio valor em movimento, o processo de auto-
valorização que diz respeito às relações sociais de
153
Giovanni Alves

produção capitalista que permitem a extração do


mais-valor e sua acumulação ampliada (o que fez
Karl Marx intitular sua obra-prima “O Capital”).
Foi na fase histórica do predominio da relação-
valor que o capital constituiu-se como sistema
global, tornando-se o “sujeito automático” da
autovalorização do valor. Nessa acepção, o capital
adquiriu forma efetiivamente plena com o modo de
produção capitalista propriamente dito. Não seria
correto, deste modo, dizer que o capital – na segunda
acepção - existia antes do capitalismo (os antecedentes
primitivos do capital não eram a rigor, a forma-capital
tal como se expós com a relação-valor, sendo apenas
formas “embrionárias” do capital propriamente dito).

O que é o valor
É importante esclarecer o significado do conceito de
valor, um dos mais importante conceito da critica da
economia política marxiana. Desmitificar o valor é o
primeiro passo para desmitificar o modo de produção
capitalista como sendo o modo de produção de
mais-valor. Na ótica marxiana, o valor é produto do
trabalho abstrato, outro importante conceito da critica
da economia politica do capitalismo. Karl Marx
descobriu o valor quando deu inicio à desmitificação
da forma-mercadoria, a célula-mater ou a forma mais
simples do organismo vivo da produção capitalista.
Ao ser resultado do trabalho abstrato, o
valor se apresenta como sendo uma relação social
de produção entre capitalistas e trabalhadores
154
As Contradições Metabólicas do Capital

assalariados, os proprietários dos meios de produção


e os proprietários da força de trabalho (a relação-
valor). Esta relação social de produção entre capital e
trabalho possui um caráter contraditório: de imediato,
na esfera luminosa do mercado, é uma relação social
caracterizada pela igualdade entre proprietários;
mas, mediatamente, na esfera oculta de produção, a
igualdade interverte-se na desigualdade, expressa na
categoria de mais-valor. A força de trabalho é uma
mercadoria ímpar pois só ela é capaz de produzir
mais do que aquilo que ela representa em termos de
valor. O que significa que o capitalista adquiriu a força
de trabalho pelo que ela vale; e ela produziu mais do
que ele pagou por ela em salário (um excedente em
termos de valor denominado mais-valor, expropriado
pelo capitalista – eis o significado de exploração).
Enfim, mesmo sendo justo, o capitalista só é capaz
de pagar um salário que representa o valor da força
de trabalho do trabalhador (o que significa que a
troca entre o capitalista e o trabalhador assalariado
– na ótica do mercado – não deixa de ser justa –
na ótica do mercado). Portanto, mesmo a luta pelo
salário justo não consegue abolir a exploração.
Para a dialética histórico-materialista, as
abstrações como a categoria de valor são resultados
de processos (e relações sociais) historicamente
determinados. Marx operou a desfetichização do
valor como categoria fundante (e fundamental) da
sociedade do mercado. Deste modo, a categoria de
valor é produto de uma forma histórica de trabalho
155
Giovanni Alves

humano: o trabalho assalariado, a categoria histórica


que se originou com a acumulação primitiva.
O trabalho assalariado tal como se apresenta
na modernidade do capital é uma construção
histórico-social do capitalismo. A categoria de valor
pressupõe uma relação-valor, uma relação social
de produção que visa a produção de mecadorias (e
mais-valor). O valor implica também um processo
de valorização do valor que encontra no processo
de trabalho a sua forma originária (a exploração da
força de trabalho, fonte do mais-valor). Pode-se dizer
também que, além do processo de trabalho, o valor,
com o desenvolvimento (e crise) do capitalismo,
encontrou outras esferas de “valorização” ficticia
(o mercado financeiro). Mas nos interessa tratar
aqui do valor substantivo (e substancial) que
se origina da exploração da força de trabalho.
Em primeiro lugar, iremos expor de modo
breve, de acordo com Karl Marx, qual a substância
do valor. Depois, mostraremos que a forma do valor
é produzida por uma determinada relação social
de produção (a relação social capitalista) que se
manifesta como trabalho abstrato e que visa a extração
de mais-valor (exploração) por meio do processo de
valorização. Deste modo, a categoria do valor pode
ser entendida como sendo composta efetivamente por
três coisas: valor como substância (trabalho abstrato),
valor como relação ou relação-valor (exploração) e
valor como processo (valorização do valor). A relação-
valor (a exploração que se deduz da capacidade da
156
As Contradições Metabólicas do Capital

força de trabalho vivo produz mais-valor e este


mais-valor ser expropriado pelos proprietários dos
meios de produção) constitui a essencia do modo
de produção capitalista como modo de produção
de mercadorias e produção de mais-valor (capital).

Valor e sua substancia


(trabalho abstrato)

Relação-valor
(exploração)

Valor como processo


(valorização do valor)

A Substancia do Valor
Iremos expor de modo brevissimo o que Marx expos
no Capítulo 1 do Livro I de “O Capital”. O objetivo de
Marx foi descobrir como funciona o modo de produção
capitalista. Ele adotou uma análise dialética que parte da
forma mais simples da sociedade burguesa: a mercadoria.
Foi desvelando o segredo da forma-mercadoria que
Marx descobriu o capital. A análise de Marx partiu da
forma imediata e fenomenica: a esfera de circulação das
mercadorias ou a esfera do mercado onde se realizam as
trocas mercantis (o reino da igualdade entre produtores
independentes ou a esfera da produção simples de
mercadorias). É importante dizer que, neste momento
da sua análise critica, Marx não está no plano
histórico no sentido de se dirigir ao tempo passado,
157
Giovanni Alves

mas ele permanece no tempo presente do capitalismo


como forma mais desenvolvida da sociedade de
mercados (o capitalismo é a sociedade do mercado).
Na sua análise crítica, Marx se utiliza do recurso
da abstração para poder operar a crítica dialética. É um
ferramental metodológico que possui um fundamento
ontológico (o capitalismo é a sociedade das abstrações,
o que significa que o recurso da abstração é deveras
adequado para acompanhar, de forma crítica, o
movimento do existente visando efetivamente negá-lo).
Disse ele:
Todo o começo é difícil — isto vale em qualquer ciência.
A compreensão do primeiro capítulo, nomeadamente da
secção que contém a análise da mercadoria, constituirá,
portanto, a maior dificuldade. Tornei o mais possível
popular aquilo que mais de perto diz respeito à análise
da substância do valor e da magnitude do valor.(1*) A
forma-valor, cuja figura acabada é a forma-dinheiro,
é muito simples e vazia de conteúdo. Não obstante, o
espírito humano, desde há mais de 2000 anos, tem em
vão procurado sondar-lhe os fundamentos, enquanto,
por outro lado, a análise de formas muito mais plenas de
conteúdo e complicadas pelo menos aproximadamente
resultou. Porquê? Porque o corpo [já] formado é mais
fácil de estudar do que a célula do corpo. Além disso, na
análise das formas económicas não podem servir nem
o microscópio nem os reagentes químicos. A força da
abstracção tem de os substituir a ambos. Para a sociedade
burguesa, porém, a forma-mercadoria do produto de
trabalho ou a forma-valor da mercadoria é a forma
económica celular. Ao não instruído a análise desta parece
perder-se em meras subtilezas. Trata-se aqui de facto de

158
As Contradições Metabólicas do Capital

subtilezas, só que, porém, do mesmo modo que delas se


trata na anatomia micrológica [o grifo é nosso].

Diante daquela imensa coleção de mercadorias


dado pelo imediato do mundo social burguês,
ele abstrai a forma-mercadoria, distinguindo
nela, como seus componentes constitutivos,
o valor de troca (ou o valor) e o valor de uso.
A riqueza das sociedades em que domina o
modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma
“imensa acumulação de mercadorias”. A análise da
mercadoria, forma elementar desta riqueza, será, por
conseguinte, o ponto de partida da nossa investigação.
A mercadoria é, antes de tudo, um objecto exterior,
uma coisa que, pelas suas propriedades, satisfaz
necessidades humanas de qualquer espécie. Que essas
necessidades tenham a sua origem no estômago ou
na fantasia, a sua natureza em nada altera a questão.2
Não se trata tão pouco aqui de saber como são
satisfeitas essas necessidades: imediatamente, se
o objecto é um meio de subsistência, [objecto de
consumo,] indirectamente, se é um meio de produção.
Neste momento de sua exposição, Marx
descobriu que o valor de troca é só a manifestação
fenômenica do valor (o que ele não tinha percebido
em 1857 no livro “Contribuição à Crítica da Economia
Política”). Portanto, a mercadoria é constituida pelo
valor de uso e valor1. Eis a constatação fundamental:

1
É importante salientar que até aqui, Marx não descobriu
nada de novo pois ele se apenas organiza e se apropria
159
Giovanni Alves

é a categoria de valor que permite as trocas de


mercadorias. É o valor que autoriza a circulação das
mercadorias e o consumo de mercadorias. Esta é
uma importante “descoberta” de Marx. É por meio
da troca de mercadorias, “autorizadas” pelo valor, que
os “produtores independentes” da sociedade burguesa
se relacionam entre si, possibilitando, deste modo, a
comparação de produtos qualitatitivamente diferentes.
Enfim, a categoria valor representa a “matéria”
do laço social na esfera do mercado. O valor é o
“sujeito” cego que conduz e organiza a sociabilidade
burguesa, promovendo o laço social dos individuos
monetários no mercado capitalista. Caso não
houvesse a categoria de valor, não haveria trocas
de mercadorias, nem muito menos, o modo de
produção capitalista que é, na sua forma imediata,
um modo de produção (e trocas) de mercadorias.
Portanto, o valor é a “chave” para a própria circulação
e consumo das mercadorias e também para a
própria “razão de ser” do capitalismo como modo
de produção de mais-valor (acumulação de capital).
Na sociedade mercantil existem trocas de
mercadorias por meio do dinheiro (o ato de consumo)
porque efetivamente as mercadorias possuem não
apenas valor de uso, mas possuem valor de troca.
Repetimos: caso os produto-mercadorias não
possuissem valor – e deste modo, não tivessem um

de conhecimentos científicos da economia política


clássica (William Petty, Adam Smith e David Ricardo).
160
As Contradições Metabólicas do Capital

valor de troca (que se manifesta num preço em


dinheiro), não seria possivel a troca social. No caso dos
produtos sem preço (ou sem valor de troca ou ainda,
valor), embora eles possam satisfazer as necessidades
do estomago ou da fantasia, não são mercadorias.
Mas surge outra questão fundamental: por que
as mercadorias se trocam ou por que elas tem valores
de troca? O que autoriza (ou permite) as trocas [entre
mercadorias]? Qual a substancia do valor que – como
vimos – é o “matéria” do laço social na sociedade burguesa?
Façamos outro movimento de abstração: os
produtos-mercadoria possuem valor de uso por
suas propriedades naturais e pela especificidade do
trabalho que as produziu. Entretanto, o que possibilita
a comparação e a troca entre produtos tão diversos em
suas propriedades qualitativas, é aquilo que lhe é comum.
A abstração é um recurso heuristico que explicita
o que é comum entre as coisas. Como vimos, o que
é comum a todas as mercadorias é o valor (todas elas
possuem valor ou valor de troca, além de valor de uso
– of course), mas perguntemos: O que existe por trás do
valor? Qual a substância do valor (e, por conseguinte,
do valor de troca), a substância que permite que todas
as mercadorias possam se comparar entre si e se trocar?.
Por exemplo:
A operação de abstração como recurso
heuristico exige que comparemos coisas que tem
algo em comum. Trata-se de um principio lógico.
Assim, por exemplo, o que torna possivel comparar
um par de sapato (que compramos numa Loja), um
161
Giovanni Alves

Ingresso (que compramos para assistir um Espetaculo


de Teatro); e um Atendimento Médico (que pagamos
num Hospital privado)? Sapatos, Espetáculos Teatral
e Atendimento Médico numa sociedade do mercado
são mercadorias, isto é, tem um preço ou valor de
troca e portanto valor. Para que possamos ter acesso
a estes produtos (alguns deles como serviços),
precisamos ter ...dinheiro na quantia do preço ou
valor de troca do produto/serviço. É importante
salientar que o dinheiro é uma mercadoria, mas
é a mercadoria das mercadorias pois é através
dele que as mercadorias se trocam no mercado. O
dinheiro é o espelho das mercadorias, pois através
dele, as mercadorias se olham e refletem o valor
contido nelas (por meio do valor de troca ou preço).
Entretanto, as mercadorias sapatos, peça teatral
e atendimento médico tem outra coisa em comum:
todas elas são produtos do trabalhos humano.
Eis outra abstração utilizada por Marx: embora
cada mercadoria seja produto de um trabalho
qualitativamente diferentes (trabalho concreto),
todas elas tem em comum serem produtos do
trabalho humano. Por exemplo, não é o trabalho
concreto que produziu o sapato que é comum a
todas as demais mercadorias, mas sim o trabalho
humano abstrato (comum a todas elas). Portanto,
o trabalho concreto que faz um par de sapatos (o
trabalho do operário da Indústria de calçados) não
é o mesmo trabalho concreto que produz uma peça
de Teatro (o trabalho dos artistas). Entretanto, TODOS
162
As Contradições Metabólicas do Capital

são trabalhos humanos que exigem um dispêndio


de energia humana (fisica e espiritual). De acordo
com Marx – que utiliza o método da abstração,
TODAS essas mercadorias são resultado de um tipo
especial de trabalho: o trabalho humano abstrato.
O trabalho abstrato é, deste modo, a substância do
valor, sendo ele que permite que a categoria de valor
– que salientamos acima - autorize a circulação
e troca das mercadorias na esfera do mercado2.
Na perspectiva do valor de uso, não tem como
comparar, por exemplo, um sapato (comprado numa
2 
Autores da economia neoclássica, a partir de 1870, na Ingla-
terra, com William Stanley Jevons, com a obra “Teoria da
Economia Política” (editada em 1871); ou na Áustria, com
Cari Menger e outros autores da Teoria Marginalista (Menger
publicou, em 1871, “Princípios de Economia Política”, dando nova
análise ao valor de troca das mercadorias); e ainda, a análise do
equilíbrio geral, tendo Léon Walras, em 1874, consolidado estas
idéias, com a edição da obra “Elementos da Economia Política
Pura”, todos eles fizeram a crítica da teoria do valor-trabalho de
Marx afirmando que podemos utilizar a partir do recurso da abs-
tração, outro elemento que é comum às mercadorias e que, deste
modo, permite a comparação entre elas: a utilidade. Portanto, para
tais autores, não é apenas o trabalho humano que é comum às
mercadorias, mas a utilidade (um produto-mercadoria, seja ele
qual for, precisa ser útil para ser produzido). Assim, o que existe
em comum àquelas mercadorias que adquirimos no mercado
é a utilidade que cada uma delas tem para nós. Deste modo, os
economistas neoclássicos defendem a teoria subjetiva do valor,
fazendo o contraponto com a teoria objetiva do valor (ou valo-
r-trabalho) defendida por Karl Marx. O conceito de utilidade
remete à dimensão psicológica dos indivíduos pois são eles que
163
Giovanni Alves

Loja), com um Ingresso (adquirido para assistir uma


peça teatral). Enquanto valores de uso, são produtos
de trabalhos concretos qualitativamente diferenciados
(um é produto do trabalho de operários da indústria
de sapatos; e o outro, é produto do trabalho da
indústria cultural). Entretanto, existe uma forma de
trabalho humano que diz respeito àquilo que não é
o valor de uso das mercadorias, e que nós abstraimos
para entender o que permite a troca das mercadorias.
Essa forma de trabalho humano que constitui aquilo
que torna possivel a troca (e a comparação) entre
mercadorias qualitativamente diferentes, é o que
Marx denomina de trabalho humano abstrato.
É o trabalho abstrato que produz o valor e por

atribuem valor-utilidade às mercadorias. A perspectiva neoclássi-


ca deve influenciar os pressupostos metodológicos da sociologia
do individualismo metodológico (Simmel e Weber, por exemplo)
e da psicanálise no começo do século XX (o sujeito individual
portador do valor-utilidade é o portador do desejo). Entretanto,
a rigor, a utilidade não permite efetivamente a comparação entre
as mercadorias porque a substancia da utilidade é insuficiente
para fundar o laço efetivamente social (como a categoria traba-
lho). Não existe utilidade abstrata e toda utilidade é efetivamente
concreta, impossibilitando, deste modo a comparação entre as
mercadorias. O trabalho humano – pelo contrário – pode ser
trabalho concreto, mas pode ser também trabalho abstrato iden-
tificado como sendo o dispêndio de energia humana (física e
espiritual). Além disso, o trabalho humano é intrinsecamente tra-
balho social ou coletivo (o contrário, por exemplo, da utilidade).
Portanto, considerar a utilidade como a abstração fundamental
que opera a troca social, é uma falácia do argumento neoclássico.
164
As Contradições Metabólicas do Capital

conseguinte, o valor de troca das mercadorias. É


o trabalho abstrato que é a substancia do valor e
está por trás dos preços dos produtos-mercadorias.
Aprofundando mais a abstração, pode-se dizer
que o trabalho humano abstrato representa em si,
o dispêndio de energia humana (fisica e espiritual)
utilizada para a produção da mercadoria. É o
trabalho abstrato que produz o valor contido em cada
mercadoria singular (inclusive o dinheiro), e que se
apresenta no valor de troca ou no preço, permitindo
deste modo a troca (ou consumo) das mercadorias.
Resumindo, diriamos que Marx opera no
plano do pensamento, o recurso da abstração para
executar a análise crítica da forma-mercadoria,
a forma mais simples da sociedade burguesa:
Primeiro, a abstração da forma-mercadoria,
identificada a partir da imensa coleção de
mercadorias que constitui o mundo social burgues.
Segundo: a abstração do valor de uso e valor de
troca como sendo os elementos compositivos das
mercadorias. E depois, Marx constata que o valor de
troca é apenas manifestação aparente da categoria valor.
Portanto, ao abstrair o valor de uso, qual a propriedade
que se mantém nos produtos-mercadorias? O valor
de troca. Mas como vimos, Marx faz a abstração
de valor de troca e valor, pois é o valor que permite
efetivamente que ocorra a troca entre mercadorias.
Terceiro: a abstração do trabalho humano
como substancia de valor – mas não o trabalho
concreto, mas sim o trabalho abstrato, substancia do
165
Giovanni Alves

valor, tão abstrata quanto ele, e que explica porque


o valor tem a natureza de operar a trocabilidade
das mercadorias. Repetindo: ao “deixarmos de
lado” o valor de uso (a utilidade) de cada produto-
mercadoria, o que fica como resto, é a propriedade
de serem resultados do trabalho humano. O trabalho
que é comum à todos os produtos-mercadoria,
não é o trabalho concreto, pois ele diz respeito ao
valor de uso presente no corpo das mercadorias
Quarta (abstração): todo trabalho humano pode
ser reduzido ao dispendio de energia fisica ou espiritual
num determinado tempo de trabalho. Portanto, o quantum
(medida) de valor contido em cada em cada mercadoria
é dado pela medida do tempo de trabalho (abstrato).
Eis a sexta e última abstração: o tempo de trabalho
que registra a medida do valor não é um tempo
concreto de trabalho, mas sim, o tempo de trabalho
socialmente necessário, um tempo abstrato de trabalho.
Caso tenhamos a mercadoria-dinheiro
podemos comprar a mercadoria-sapato (numa
Loja) e logo depois, comprar um Ingresso (para
assistir uma peça de teatro). O dinheiro é a expressão
material do valor de troca (ou valor). O dinheiro
é o “embaixador” do valor que tem como “pai”, o
trabalho abstrato. O dinheiro é “a mercadoria das
mercadorias”, mercadoria “devassa e prostituida”, que
permite ser trocado por quaisquer outros produtos-
mercadorias, não importa a qualidade (ou valor
de uso) destas mercadorias; e não importa o tipo
de trabalho humano concreta que os produziu –
166
As Contradições Metabólicas do Capital

importa-lhe apenas ser produto do trabalho abstrato,


isto é, ter um valor ou valor de troca (um preço).
Perguntemos: o que deu ao dinheiro essa
capacidade de ser trocado por quaisquer produtos
que estejam sendo oferecidos no mercado? O que deu
ao dinheiro esse poder de satisfazer as necessidades
do estomago e da fantasia? Para Marx, o que deu
ao dinheiro o poder de operar as realizações do
desejo, foi o fato objetivo dele ser o “embaixador”
(ou a representação) do valor, produzido pelo
trabalho abstrato. É o valor que outorga poder ao
dinheiro como manifestação do valor de troca.
O discernimento da substância do valor – é o
primeiro movimento do raciocinio de Marx: o valor
existe porque caso não existisse, não seria possivel a
troca (e o consumo) de mercadorias. Existem trocas
(e consumo) de mercadorias porque existe algo
que Marx denominou de valor em cada produto-
mercadoria. Entretanto, o segundo movimento do
raciocinio de Marx é: como se determina o trabalho em
geral ou o trabalho abstrato (o tipo de trabalho que
é a base do valor)? A questão da medida do valor é
importante porque o modo de produção capitalista é
o modo de produção de mais-valor cuja manifestação
fenomênica é o lucro. O conceito de mais-valor implica
tratar de quantidades, e portanto, medidas de valor.
Vimos que num primeiro momento, Marx tratou
da determinação do trabalho abstrato a partir de um
ponto de vista fisiológico. Todo trabalho humano –
seja para produzir sapatos ou para produzir peças de
167
Giovanni Alves

teatro, por exemplo - é gasto fisiologico-mental de energia


humana “sem consideração à forma de seu dispendio”
(Marx), gasto (ou desgaste) abstrato, na medida em que
nele se prescindem das qualidades concretas. Enfim,
Marx faz a redução à sua qualidade “social comum” ,
sendo a diferença entre eles simplesmente quantitativa,
estabelecida conforme o tempo de trabalho socialmente
necessário para a produção das mercadorias. Através
desta redução à sua qualidade “social comum” – o tempo
de trabalho socialmente necessário - a diferença entre
eles passa a ser simplesmente quantitativa, estabelecida
conforme o tempo de trabalho “socialmente necessário”
para a produção das mercadorias. Portanto, qual a
qualidade social comum a todas as formas de trabalho
humano? O gasto de energia humana num determinado
tempo de trabalho. Mas não se trata de um tempo de
trabalho concreto ou individualizado, afinal a produção
de mercadorias é uma produção social: trata-se de um
tempo de trabalho socialmente necessário. Deste modo,
a grandeza de cada mercadoria é medida pelo tempo
de trabalho necessário para produzi-la em condições
normais de saúde, força e laboriosidade e com o grau
médio de destreza dos trabalhadores. O tempo de
trabalho socialmente necessário é um tempo de trabalho
socialmente abstrato (e necessário) no sentido de
representar o tempo de produção daquela mercadoria
nas condições normais de saúde, força e laboriosidade.
O aumento da produtividade do trabalho
por meio do desenvolvimento tecnológico-
organizacional significou a redução férrea do
168
As Contradições Metabólicas do Capital

tempo de trabalho socialmente necessário


para a produção de mercadorias no século XX.
A comparação das quantidades de valor de
diferentes mercadorias é condição básica da troca. E a
condição básica da troca no mercado é a comparação
das quantidades de valor de diferentes mercadorias,
valor produzido por um trabalho não-diferenciado,
uniforme, simples; em resumo, a um trabalho que
seja qualitativamente o mesmo (trabalho abstrato)
e só se diferencie quantitativamente (a grandeza
do tempo de trabalho socialmente necessário).
A concorrencia é o “mecanismo” de mercado que
opera objetivamente a comparação das quantidades
de valor contidas nas mercadorias. Pela lei da
concorrencia, vence o produto-mercadoria de
menor preço ou com menor quantum de valor por
unidade (o que significa, o produto-mercadoria
produzido num menor tempo de trabalho social
igual ou acima das condições normais de saúde,
força e laboriosidade (a produtividade do trabalho).
A lei do valor impõe de modo férreo, a medida
(o tempo de trabalho médio) a partir do qual os
valores de troca devem se submeter caso queiram
permanecer no mercado. A lei do valor é a “ditadu-
ra” da medida (quantum) do mercado. Por exemplo,
um sapato produzido por um artesão em 3 dias
de trabalho, ao ser lançado no mercado, encontra
diante de si, a lei do valor que compara tal sapato
com os sapatos produzidos industrialmente em 3
horas, desvalorizando objetivamente, de imediato,
169
Giovanni Alves

o trabalho do artesão. Esta redução aparece como


uma abstração, mas é uma abstração que se realiza
todos os dias no processo de produção e reprodução
social. Disse Marx: “A resolução de todas as mercado-
rias em tempo de trabalho não é uma abstração maior
nem ao mesmo tempo menos real do que a resolução
em ar de todos os corpos orgànicos” (Marx, 1987)
A “abstração” do trabalho proposto por Marx não é
uma redução subjetiva, individual - feita pelo analista do
sistema económico em questão – mas sim, uma abstração
real que se realiza todos os dias no processo de produção
e reprodução social. O valor e sua substancia, o trabalho
abstrato, o fundamento da sociedade do mercado.
O capitalismo é a forma histórica mais desenvolvida
das sociedades mercantis, pois o mercado ou a troca
de mercadorias organiza a totalidade da vida social –
embora nem tudo é reduzido à forma-mercadoria. Toda
mercadoria é expressão do valor de uso e valor (o
valor de troca é a manifestação aparente do valor).
No capitalismo, a força de trabalho é a
mercadoria que permite o processo de valorização
pois é a única capaz de produzir mais-valor por meio
da sua exploração. A sociedade capitalista é a única
sociedade humana onde a força de trabalho opera
predominantemente como mercadoria (trabalho livre),
diferentemente das sociedades pré-capitalistas onde o
mercado não possui o poder de regulação e controle. Nas
sociedades capitalistas, a lei do valor se impõe nas trocas
de mercado porque ele próprio é que fundamenta tais
trocas entre produtores. O que permite a efetividade do
170
As Contradições Metabólicas do Capital

valor e portanto do trabalho abstrato, é a relação social de


produção capitalista (a relação-valor) como pressuposto
fundamental (e fundante) do processo de valorização do
valor (o mais-valor que se manifesta no lucro). A relação-
valor implica estruturalmente o valor; sua substância
(trabalho abstrato “com muito cuidado”, levando em
consideração as devidas diferenças qualitativas); sua
medida (tempo de trabalho socialmente necessário);
e o processo de valorização do valor (a produção do
mais-valor). A obra “O Capital: Crítica da Economia
Política”, de Karl Marx, representou a investigação
sobre a relação-valor e o complexo constituido pelo
seu movimento no interior do qual se incorporou
a relação como modo (e sistema) de controle do
metabolismo social entre o homem e a natureza.

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