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Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Stricto Sensu em Comunicação
Dissertação de Mestrado

TECNOLOGIAS SOCIAIS: PROCESSOS COMUNICATIVOS
EM AUTOPOIESE

Autora: Nathália Kneipp Sena
Orientador: Prof. Dr. João José Azevedo Curvello

Brasília - DF
2010

NATHÁLIA KNEIPP SENA

TECNOLOGIAS SOCIAIS: PROCESSOS COMUNICATIVOS
EM AUTOPOIESE

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação stricto sensu em comunicação da
Universidade Católica de Brasília, como requisito
parcial para obtenção do Título de Mestre em
Comunicação.
Orientador: Prof. Dr. João José Azevedo Curvello

BRASÍLIA
2010

Ficha elaborada pela Biblioteca de Pós-Graduação da UCB

Para Paco Garcia

AGRADECIMENTOS
Ao meu marido, Paco, cujo incentivo foi vital para que eu começasse e concluísse este
trabalho.
Aos meus queridos pais, Maria do Carmo e Jader, pelas oportunidades que favoreceram
esse percurso; à minha irmã, Valéria; aos meus familiares e amigos.
Aos professores doutores da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade
Católica de Brasília (UCB): João Curvello, pela valiosa orientação; Luiz Iasbeck; Liliane
Machado; Roberval Marinho; Elen Geraldes; Márcia Flausino; Florence Dravet e Cosette
Castro, por todas as contribuições. À Fátima Medeiros, bibliotecária supervisora da
UCB, por sua disponibilidade e conhecimento. Aos meus colegas de curso, pelo
incentivo recíproco.
Ao professor doutor Márcio Simeone Henriques, por seus comentários como integrante
da banca examinadora deste trabalho.
A todos que dedicaram tempo e atenção ao preenchimento das questões do pré-teste e,
posteriormente, ao questionário da pesquisa on-line.
Ao José Roberto, ao José Bill, e às Oliveiras, de Planaltina, que me receberam em sua
cidade, em companhia de Delena Sastre Cantallops.
Ao Joe e à Clevane, por serem contra-hegemônicos ao promover a construção de
capital social na nossa cidade e pelo belo exemplo de engenharia aplicada na Fazenda
Malunga, orgulho dos que amam e respeitam a natureza no Planalto Central, bem como
torcem pela perpetuação da agricultura orgânica, reduto de tecnologias sociais.
Aos meus companheiros de sala no MCT: Virgínia, Marcus, Lidiane, Rosa, Marcelo, Leo,
Ana Cláudia, Simone, Flávia, Emily, Eliane, Elaine, Bárbara, Adélia, Liz, Bira, Didi, Dodô,
Maria, Leilinay, Delena, Vanuza, Edinalva, Geane, Márcia e Fernando, pela boa
companhia nesses tempos.
Aos colegas da Secretaria de C&T para Inclusão Social, da Coordenadoria Geral de
Recursos Humanos e do universo maior do Ministério da Ciência e Tecnologia,
instituição que me apoiou.
À Irma Passoni e equipe do ITS, pelo intercâmbio dos últimos anos.
A Jac Depczyk, pela generosidade ao permitir o uso de um de seus trabalhos como
ilustração, encontrada junto à epígrafe desta dissertação.
Aos autores que constam nas referências bibliográficas desta dissertação, pelas
respostas aos e-mails que lhes enviei: DeMoll; Douthwaite; Freitag; Kirkpatrick; Knopff;
Léquin; Martins; Passoni, e Subramaniam. Aos quatro últimos agradeço também pelas
indicações de leitura.
Ao CDS-UnB, pela oportunidade de participar do ―Ciclo Feenberg‖.
À Margaret de Palermo, pela revisão do texto.

Arte: Jac Depczyk
www.jacdepczyk.com

―A mente está nas relações‖.
George Bateson

RESUMO

SENA, Nathália Kneipp. Tecnologias sociais: processos comunicativos em
autopoiese. 2010. 200 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Brasília,
Brasília, 2010.

A autora destaca a ideia de que a rede, ou o movimento, ou ainda o fórum de
tecnologia social busca estabelecer-se via ―ação comunicativa‖. Esse conceito
pertence à visão humanista de Jürgen Habermas e é citado nesta dissertação como
um facilitador do processo comunicativo gerado pela dinâmica do ―desenvolvimento
local participativo‖. No entanto, tais iniciativas podem recair em contextos nos quais
a comunicação é improvável, pois outras ideias já se encontram em autopoiese. Isso
ocorre sob a proteção de fronteiras semânticas e ideológicas apoiadas na
diversidade de percepções dos diferentes sistemas. Tal abordagem reflete alguns
aspectos da teoria sistêmico-funcional de Niklas Luhmann. Com o objetivo de
conhecer os diversos significados atribuídos às tecnologias sociais, apresentam-se a
leitura de uma parcela da literatura disponível sobre esse tema, os resultados de
uma enquete realizada via Internet com a participação de 251 respondentes, além
de três exemplos de empreendimentos de tecnologias sociais localizados em
Brasília (DF). A pluralidade de opiniões sobre tecnologia social, nas várias situações
em que esse termo é enunciado, surge como elemento enriquecedor e motivador de
um debate dos mais antigos e, ao mesmo tempo, dos mais atuais sobre a
multiplicidade de perspectivas e relações possíveis, em construção, entre ciência,
tecnologia, poder, cidadania ativa, inclusão e transformação social. Tais conteúdos
permitem que cada pessoa vislumbre as próprias expectativas de cenários futuros
para as tecnologias sociais, com novo sentido que se atribui à comunicação: não só
o de dar e receber informação, mas perceber o que acontece consigo mesmo em
contato com novas ideias, posicionamentos e atitudes.

Palavras-chave: Tecnologia social. Comunicação. Autopoiese. Ciência.
Transformação social.

RESUMEN

SENA, Nathália Kneipp. Tecnologías sociales: procesos de comunicación en
autopoyesis. 2010. 200 p. Disertación (Máster) - Universidad Católica de Brasilia,
Brasilia, Brasil, 2010.

La autora destaca la idea de que la red o el movimiento o aun el foro de tecnología
social intenta establecerse por medio de la "acción comunicativa". Ese concepto
pertenece a la visión humanista de Jürgen Habermas y se cita en esta disertación
como un facilitador del proceso de comunicación generado por la dinámica del
"desarrollo local participativo". Sin embargo, ese tipo de iniciativa puede llevar a
contextos donde la comunicación es poco probable debido a otras ideas que ya
están en autopoyesis. Eso ocurre bajo la protección de fronteras semánticas y
ideológicas y de la diversidad de percepciones de sistemas diferentes. Ese enfoque
se presenta en la teoría sistémica-funcional de Niklas Luhmann. Con el objetivo de
conocer los varios significados atribuidos a las tecnologías sociales, se presentan el
examen de una parte de la literatura disponible sobre ese tema, los resultados de
una encuesta de opinión en línea con 251 participantes, así como observaciones
sobre dos proyectos y una empresa que trabajan con tecnologías sociales en
Brasilia (DF), Brasil. La pluralidad de puntos de vista acerca de la tecnología social
en las diversas situaciones en que ese término aparece es un elemento
enriquecedor y motivador para una discusión que es de las más antiguas y al mismo
tiempo de las más recientes sobre la multiplicidad de perspectivas y las posibles
relaciones en construcción entre ciencia, tecnología, poder, ciudadanía activa,
inclusión y transformación social. Dichos contenidos permiten a la gente tejer sus
propias expectativas acerca de los escenarios futuros para las tecnologías sociales
con un nuevo propósito que se adjunta a la comunicación que no sólo tiene por
objeto la transferencia de información, sino también para percibir lo que nos sucede
cuando estamos en contacto con nuevas ideas, posiciones y actitudes.

Palabras clave: Tecnología Social. Comunicación. Autopoyesis. Ciencia.
Transformación social.

ABSTRACT

SENA, Nathália Kneipp. Social technologies: communication processes in
autopoiesis. 2010. 200 p. Dissertation (M.A.) – Catholic University of Brasilia,
Brasilia, Brazil, 2010.

The author emphasizes the idea that social technology network, movement or forum
seeks to establish itself through "communicative action" – a concept that is found in
the Jürgen Habermas' humanistic view and is quoted in this dissertation as a
facilitator for the communication process set in motion by the dynamic forces of
"participatory local development‖. However, such initiatives may lead to contexts in
which communication is unlikely because other ideas are already in autopoiesis and
under the protection of semantic and ideological barriers often backed up with
restrictions imposed by the diversity of perceptions from different systems. Such an
approach is seen in the Niklas Luhmann's systemic-functional theory. The
examination of part of the literature available on that subject, the results of an online
survey conducted among 251 respondents, and notes on three social technology
initiatives being developed in Brasilia (DF), Brazil are presented in the hope of
portraying the various meanings associated with social technologies. The plurality of
significations coming from the many contexts in which that term is enunciated is an
enriching and motivating element for further discussion on the multiplicity of
perspectives and possible relations currently under construction among science,
technology, power, active citizenship, inclusion, and social transformation. Such
contents enable people to catch a glimpse of their own expectations on future
scenarios featuring social technologies with a new purpose being added up to the
role of communication which not only aims to transfer information but also to see
through what happens to us when exposed to new ideas, positions, and attitudes.

Keywords: Social
transformation.

technology.

Communication.

Autopoiesis.

Science.

Social

LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Análise de conteúdo ………………………………………………………………

24

Figura 2 – Quatro contextos diferenciados em que os sentidos associados
às tecnologias sociais se apresentam distintos…………………………………

27

Figura 3 – Livro ―Introdução à tecnologia‖, escrito em 1777, por Johann
Beckmann……………………………………………………………………………

31

Figura 4 – Cartaz da empresa Social Technologies exposto na reunião da
WFS em 2008 e banners publicitários de alguns de seus trabalhos de
prospecção….………………………………………………………………………..

35

Figura 5 – Capa de um dos artigos de Subramaniam na revista itmagz.com…

37

Figura 6 – Passo-a-passo na elaboração social de um artefato em termos
construtivistas…………………………………………………………………………

54

Figura 7 – Modelos de bicicletas que competiram entre si até se chegar aos
tipos que prevaleceram………………………………………………………………

55

Figura 8 – Esboço de ―bola de neve‖, com os elementos cujos processos
comunicativos podem estar diretamente associados à disseminação de
ideias e uma linguagem que contribuiu para o fortalecimento de uma rede de
tecnologias sociais no Brasil………………………………………………………..

57

Figura 9 – Pesquisa realizada na base Scielo, em 2009, para encontrar
trabalhos que abordem a questão da(s) tecnologia(s) social(is)……………...

62

Figura 10 – Conceitos de tecnologia social, diagramados de forma a ressaltar
os elementos que os constituem…………….……………………………………

63

Figura 11 – Resultados ―numéricos‖ da busca por ―tecnologia(s) social(is)‖ no
Google e Google Acadêmico, em 2009……………………………………………

64

Figura 12 – Algumas expressões selecionadas na dissertação de Brandão
(2001), acrescidas de outras mais recentes, sobre a busca de sentido
valorativo das tecnologias…………………………………………………………..

66

Figura 13 – Foto da apresentação de Flávio Cruvinel Brandão na 2ª
Conferência Internacional de Tecnologia Social em 2009 ................................

67

Figura 14 – Elementos que contribuem, na atualidade, para que um calçado
tenha alto teor de conhecimento agregado…………..……………………………

68

Figura 15 – Andrew Feenberg, professor da Escola de Tecnologia da
Comunicação Simon Fraser, do Canadá………..………………………….........

72

Figura 16 – Representação do esquema proposto por Feenberg para
analisar as quatro visões de C&T com suas diferenciações calcadas em

valores e participação/engajamento……………………………………….............

73

Figura 17 – Inter-relacionamento estreito entre sociedade e tecnologia em um
processo de construção coletiva das relações com uma perspectiva holística…..

75

Figura 18 – Exemplos de redes de baixa e alta densidade….…………..……..

76

Figura 19 – Conceito de tecnologia social, acrescido de princípios que lhe
dão sustentação………………………………………………………………………

77

Figura 20 – Tipos de relações que vinculam as pessoas em rede……………..

78

Figura 21 – Conceito de Desenvolvimento Local Participativo (DLP), presente
nas ações que envolvem tecnologias sociais……………………………………..

79

Figura 22 – Correntes do pensamento crítico e sistêmico sobre emancipação

81

Figura 23 – O casal Joe e Clevane Valle, visão aérea da Fazenda,
embalagens com couve e alface higienizadas, alguns dos produtos
comercializados pela Malunga………………………..………………………….…

82

Figura 24 – PAIS em exibição na AgroBrasília 2009……...……………………..

83

Figura 25 – Capa do livro organizado por Renato Dagnino……………………..

85

Figura 26 – No Facebook, na seção dedicada às (boas) causas, há
possibilidades de cooperar com campanhas estabelecidas em diversas redes
sociais………………………………………………………………………………….

93

Figura 27 – Uma das páginas do blog de Dalton Martins revela como o
―poder‖ está sendo pensado em relação à atuação em rede, em interface
com um pensamento sistêmico…………………………………………………….

97

Figura 28 – Dados estatísticos sobre questões relacionadas à segurança
alimentar………………………………………………………………………………

99

Figura 29 – Divisão da sociedade no paradigma da intersubjetividade de
Habermas …………………………………………………………………………..

104

Figura 30 – Entendimento do que é considerado sistema social para
Luhmann………………………………………………………………………………

111

Figura 31 – Frase de conversa ocorrida durante seminário em que C,T&I,
sob a ótica da inclusão social, estiveram em debate………………………….

113

Figura 32 ―Nuvem de palavras‖ com os principais significados associados
às tecnologias sociais………………………………………………..……………...

121

Figura 33 – Representação dos Executores do Sistema Nacional de Ciência,
Tecnologia e Inovação……………………………………………………………….

126

Figura 34 – Chaveiro das Oliveiras, ao mesmo tempo, adereço decorativo
para a porta de casa…………………………………………………...…………….

126

Figura 35 – Minhocasa, um kit para gerenciar restos de comida, podas de
jardim e até papéis que podem virar alimento para plantas……………………..

127

Figura 36 – Poltrona feita com pneus reciclados…………………………..…….

127

Figura 37 – Meios de comunicação entre os integrantes da rede de
tecnologias sociais……………………………………………………………………

132

Figura 38 – Interface do Espaço Aberto de Conhecimento da RTS……………

133

Figura 39 – Imagens ilustrativas de redes centralizadas, descentralizadas e
distribuídas…………………………………………………………………………….

134

Figura 40 – José Bill e José Roberto Melo Machado, do Projeto Quintais
Sustentáveis, em Planaltina, DF……………………………………………………

138

Figura 41 – Egídia Gomes de Oliveira e as filhas Vanusa e Cleonice. À
direita, bijuterias e chaveiro feitos pelas Oliveiras………………………………..

140

Figura 42 – Foto do vídeo amador, feito pela autora, disponível no YouTube,
com os flashes da oficina de agroecologia de abril de 2009 na Fazenda
Malunga………………………………………………………………………………..

141

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico I – Localização geográfica dos participantes da pesquisa………………. 120
Gráfico II – Senioridade do grupo de atores que interage com o tema das TSs,
se antes ou depois de 2003…………………………………………………………..

122

Gráfico III – Filiação partidária dos respondentes ……………..………………….. 123
Gráfico IV – Perfil dos participantes……………..………………………………………….

125

Gráfico V – Sentidos associados às tecnologias sociais………………………….

128

Gráfico VI – Aceitação majoritária do conceito de tecnologia social……………….

129

Gráfico VII – Relações mantidas entre os membros da rede de tecnologias
sociais. ………………………………………………………………………………….

131

Gráfico VIII – Percepção de uma rede distribuída de comunicação entre os
participantes da pesquisa…………………………………………………………….. 134
Gráfico IX – Percepção afirmativa de estar em comunicação com os
participantes da rede………………………………………………………………….. 135
Gráfico X – Valores predominam na visão de futuro sobre as tecnologias…….

136

Gráfico XI – Relevância das tecnologias sociais para temas selecionados no
portfólio de atuação do MCT, especialmente da Secis……………………………

137

QUADRO
Quadro I – Portfólio de atuação da Secis em 2009………………………………………

115

SUMÁRIO

1 APRESENTAÇÃO…………………………………………………………………

18

1.2 INTRODUÇÃO……………………………………………………………………

19

1.2.1 Justificativa…………………………….……………………………………… 20
1.2.2 Problema e hipóteses .…………..…………………………………………..

21

1.2.3 Objetivos ………………….……………………………………..…………….

22

1.2.3.1 Objetivo geral………………………………………………………………...

22

1.2.3.2 Objetivos específicos……………………………………………………….

22

1.3 METODOLOGIA………………………………………………………………….

22

1.3.1 Descrição do processo……………………………………………………...

22

1.3.1.1 Pesquisa qualitativa…………………………………………………………

23

1.3.1.2 Pesquisa quantitativa……………………………………………………….

28

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA……………………………………………………...

30

2.1 ―TECNOLOGIA‖ EM SEMIOSE………………………………………………...

30

2.2 TECNOLOGIA COMO SINÔNIMO DE COMUNICAÇÃO E ESTUDO DA
TÉCNICA………………………………………………………………………………

30

2.3 ORIGEM E USO DA EXPRESSÃO ―TECNOLOGIA SOCIAL‖ FORA DO
BRASIL………………………………………………………………………………..

32

2.3.1 Contexto europeu…………………………………………………………….

32

2.3.2 Estudos do futuro…………………………………………………………….

35

2.3.3 Folk technology………………………………………………………………

37

2.3.4 Engenharia social……………………………………………………………

41

2.3.5 Outros sentidos………..…………………………………………………….

45

2.4 DIFERENCIAÇÕES DE POSICIONAMENTO AO SE ANALISAREM
CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE…………………………………………

47

2.4.1 Poder, instrumentalismo, determinismo, substantivismo e

construcionismo……………………………………………………………………

48

2.4.2 História social de um artefato, o exemplo construcionista da
bicicleta……………………………………………………………………………….

53

2.4.3 Sociogramas e tecnogramas………………………………………………

56

2.5 ORIGEM E USO DA EXPRESSÃO ―TECNOLOGIA SOCIAL‖ NO BRASIL

57

2.5.1 CT&S – temática que se mantém e ganha força no transcorrer das
últimas décadas…………………………………………………………………….

57

2.5.2 Referências sobre o tema…………………………………………………..

61

2.5.2.1 Tecnologias apropriadas……………………………………………………

66

2.5.2.2 O ―sequestro semântico da inovação‖……………………………………

69

2.5.2.3 O debate sobre a teoria crítica com a participação de Feenberg …….

71

2.5.2.3.1 Paradoxos da tecnologia………………………………………………..

74

3 TECNOLOGIAS SOCIAIS EM REDE: VISÃO SISTÊMICA AO SE
BUSCAREM COMUNICAÇÃO, PARTICIPAÇÃO, EMANCIPAÇÃO E
INCLUSÃO SOCIAL…………………………………………………………………

76

3.1 OS SEMELHANTES INTERAGEM…………………………………………….

77

3.2 EXCLUSÃO, INCLUSÃO E SUAS NUANÇAS……………………………….

80

3.3 BUSCAR A EMANCIPAÇÃO DE QUEM E EM RELAÇÃO A QUÊ?............

81

3.4 A FAZENDA MALUNGA, REDUTO DE TECNOLOGIAS SOCIAIS, SOB A
ÓTICA SISTÊMICA E DE REDE …………………………………………………..

82

4 TECNOLOGIAS SOCIAIS EM INTERFACE COM O PODER DAS
ORGANIZAÇÕES EM REDE……………………………………………………….

87

4.1 O ÍMPETO DE DOMINAR A NATUREZA, A TÉCNICA, AS VERSÕES DA
HISTÓRIA……………………………………………………………………………..

87

4.2 RELAÇÕES DE FORÇA E CANALIZAÇÃO DA POTÊNCIA……………….

89

4.3 REDE DE PODERES……………………………………………………………

91

4.4 GOVERNANÇA: NEM TUDO QUE BRILHA É OURO………………………

94

4.5 TECNOLOGIAS SOCIAIS E CONTRA-HEGEMONIA……………………….

96

4.6 A FOME DE PODER E O PODER DA FOME………………………………...

98

5 AÇÃO COMUNICATIVA E AUTOPOIESE: CONTRIBUIÇÕES DE
HABERMAS E LUHMANN………………………………………………...............

102

5.1 HABERMAS, O CONVITE À PARTICIPAÇÃO E AS TECNOLOGIAS
SOCIAIS……………………………………………………………………………….

104

5.2 LUHMANN, SEU UNIVERSO DE SISTEMAS COMUNICACIONAIS
AUTOPOIÉTICOS E AS TECNOLOGIAS SOCIAIS……………………………..

109

6 ANÁLISE DAS RESPOSTAS OBTIDAS COM O QUESTIONÁRIO E COM
A OBSERVAÇÃO DE INICIATIVAS……………………………………………….

119

6.1 LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA…

120

6.2 VISUALIZAÇÃO DAS IDEIAS MAIS FREQUENTEMENTE ASSOCIADAS
ÀS TECNOLOGIAS SOCIAIS……………………………………………………….

121

6.3 SENIORIDADE DA REDE DE TECNOLOGIAS SOCIAIS…………………

122

6.4 CONTRA-HEGEMONIA E POLITIZAÇÃO SEM FILIAÇÃO PARTIDÁRIA..

123

6.5 PERFIL DOS RESPONDENTES DO QUESTIONÁRIO…………………….

125

6.6 OS SENTIDOS ASSOCIADOS ÀS TECNOLOGIAS SOCIAIS…………….

128

6.7 POSICIONAMENTO EM RELAÇÃO AO CONCEITO DE TECNOLOGIA
SOCIAL………………………………………………………………………………..

129

6.8 ATORES EM RELAÇÃO COM OS PARTICIPANTES DA PESQUISA……

131

6.9 MEIOS DE COMUNICAÇÃO ENTRE OS MEMBROS DA REDE…………

132

6.10 REDE DISTRIBUÍDA…………………………………………………………..

134

6.11 PROCESSO COMUNICATIVO……………………………………………….

135

6.12 VALORES PREDOMINAM NO FUTURO DAS TECNOLOGIAS…………

136

6.13 O FUTURO DAS TSs: POSSÍVEIS CAMPOS DE DESTAQUE….………

137

6.14 TRÊS INICIATIVAS QUE SE BENEFICIAM DE TSs NO DISTRITO
FEDERAL……………………………………………………………………………… 138
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS……………………………………………………….

145

REFERÊNCIAS……………………………………………………………………….

152

ANEXO A – Mensagem-convite endereçada aos participantes da pesquisa….

169

ANEXO B – Questionário de pesquisa e respostas obtidas…………………….. 170
ANEXO C – Roteiro de observação estruturada………………………………….

194

ANEXO D – As principais bancadas no Congresso (2003)……………………..

195

18

1 APRESENTAÇÃO
O tema deste trabalho é a tecnologia social (TS) como processo
comunicativo. Problematizamos esse tema ao supor que, embora as TSs surjam em
contextos que prezem pela ―ação comunicativa‖1 (HABERMAS, 1999), existe uma
improbabilidade de a comunicação ocorrer, pois cada ator resguarda suas fronteiras
de sentido, buscando homofilia, ―princípio de que o contato entre pessoas com
características similares ocorre em maior freqüência do que entre pessoas com
baixa similaridade‖ (MCPHEARSON, SMITH-LOVIN & COOK, 2001 apud ROSSONI;
GRAEML, 2009, p. 230).
Pensamos que está em curso uma dinâmica de polissemia, atribuição de
vários sentidos a um termo, inerente às TSs. Coexistência de complexa rede de
significados, posicionamentos, processos cognitivos associados a essa expressão.
Cada qual tem ideias preconcebidas, delimitadoras e mantenedoras de fronteiras de
sentidos, que a um só tempo separam e aproximam grupos de atores, sistemas.
Nosso intuito será o de procurar identificar quais sentidos são atribuídos às
tecnologias sociais e quais ideias-chaves e lugares de fala os diferenciam.
Tecnologia social em sua ―definição mais comum‖, no dizer de Renato
Dagnino (DAGNINO, 2010), equivale à ―tecnologia para a inclusão social‖. Embora
muitas pessoas desconheçam esse termo, ou prefiram não utilizá-lo devido à sua
ambiguidade ou redundância (toda tecnologia surge em sociedades, logo, é social),
quando se trata de associar ciência e tecnologia (C&T) à qualidade de vida das
populações, há recorrência aos muitos sentidos que são atribuídos à tecnologia
social. Seja aquele da premência de aproximar os problemas à capacidade e
vontade de solucioná-los, seja ao se buscar um novo design ou engenharia social
promotores de empoderamento dos excluídos, ou, tão-somente, trazer o vetor
―participação‖ e ―sustentabilidade‖ para os debates da C&T,

com pensamento

crítico, criatividade para imaginar alternativas e planejamento de ações viáveis.

1

―[…] por ação comunicativa entendo uma interação simbolicamente mediada. Orienta-se de acordo
com normas intersubjetivamente vigentes que definem expectativas recíprocas de comportamento e
que têm que ser entendidas e reconhecidas por, ao menos, dois sujeitos agentes.‖ (HABERMAS,
1999, p. 68)

19

A dissertação está dividida em sete capítulos. No primeiro, apresenta-se o
porquê da escolha do tema e a forma como se estruturou o trabalho, quais técnicas
e métodos optou-se por utilizar, bem como se expressa uma primeira demarcação
de sentidos, encontrados em dois livros sobre tecnologias sociais, apontados como
referências essenciais aos que querem realizar pesquisas sobre TSs no Brasil. No
segundo capítulo, é descrito o resultado da pesquisa bibliográfica com uma
apreensão da diversidade de sentidos com que a palavra ―tecnologia‖ e a expressão
―tecnologia social‖ foram e continuam a ser utilizadas em diferentes países e
contextos históricos, terminando com a abordagem sobre os entendimentos e a
linguagem que os brasileiros têm construído em relação ao tema, elucidando
também qual é o ideário que Andrew Feenberg2 apresentou em suas palestras,
realizadas em Brasília. No terceiro capítulo, abordam-se as tecnologias sociais em
rede com uma visão sistêmica ao se buscarem comunicação, participação,
emancipação e inclusão social, com a menção ao exemplo da Fazenda Malunga,
uma das iniciativas observadas. No quarto capítulo, analisam-se as tecnologias
sociais em interface com o poder das organizações em rede. No quinto capítulo,
discorre-se sobre as contribuições que Luhmann e Habermas podem oferecer à
compreensão do processo comunicativo na construção de sentido para o que são
tecnologias sociais. O sexto capítulo explicita o que se obteve como respostas ao
questionário da pesquisa quantitativa, com o complemento da observação de outras
duas iniciativas que envolvem tecnologias sociais em Brasília: os quintais
sustentáveis e o artesanato que utiliza garrafas pet como matéria-prima, além da
Fazenda Malunga, mencionada também no capítulo 3.

As considerações finais

correspondem ao sétimo capítulo.
1.2 INTRODUÇÃO
O tema da minha pesquisa no Mestrado em Comunicação é um substantivo
adjetivado, tecnologia social3, com um enfoque ou mesmo significados que
2

Andrew Feenberg é um filósofo canadense que tem atuado, a convite dos brasileiros, como
facilitador para a compreensão das correntes mundiais de filosofia, sociologia, história, política e
gestão científica e tecnológica. Aborda-se o conteúdo de suas palestras no Brasil no capítulo 2, a
partir do item 2.5.
3
São ―técnicas e metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a
população e apropriadas por elas, que representam soluções para inclusão social e melhoria das
condições de vida desses grupos‖. O conceito está em construção, e nos capítulos 1 e 2 buscar-se-á
traçar um sociograma e redes de sentidos que ampliam os muitos significados que esse termo evoca
em diferentes contextos históricos e sociais.

20

aproximam esse termo da noção de processo comunicacional. Ambos (tecnologia
social e processo comunicacional) estariam, hipoteticamente, indissociados.
Semiose4 e autopoiese5 serão conceitos portadores de ―novas interlocuções‖
para o universo dos debates sobre tecnologias sociais. Acompanharão as análises
dessa pesquisa. A isso deve-se a escolha do título ―tecnologias sociais em
autopoiese‖ e da ilustração, feita por Jac Depczyk, conjugada à epígrafe, alusão à
multiplicidade de significados (significados que se separam de outros significados),
processos cognitivos os mais diferenciados e a comunicação como processo básico
de autopoiese (autoprodução) dos

sentidos e, por conseguinte, dos sistemas

sociais.
O conceito de autopoiese que se adota vem da obra de Niklas Luhmann, em que
esse autor sugere que a sociedade está dividida em sistemas sociais e essa divisão
significa que os grupos têm perspectivas distintas que não se refletem mutuamente.
Já a palavra semiose está sendo utilizada como sinônimo de produção dinâmica de
sentido, o que corresponde à essência do que encontramos na revisão bibliográfica.
Ao consultar a literatura sobre tecnologias sociais, vê-se que o conceito de TS
não pode estar dissociado de uma teoria crítica, como aquela descrita por Andrew
Feenberg, ao sugerir nova visão de tecnologia como ―campo de luta social, uma
espécie de parlamento das coisas, onde concorrem as alternativas civilizatórias‖.
(FEENBERG, 2010, p. 76).
1.2.1 Justificativa
Existe uma premência, em dimensão planetária, de se provocarem mudanças de
atitudes e o desenvolvimento de novas relações interpessoais e com o meio;
promover e perpetuar as chances de construir qualidade de vida para um número
crescente de pessoas; tentar reduzir a velocidade galopante com que se destrói o
meio ambiente e seus habitantes. As tecnologias, com quaisquer predicados que
lhes sejam adicionados nos mais diversos contextos, mantêm um papel de
interferência crescente nos sistemas sociais. Falar sobre tecnologias sociais é
buscar um questionamento sobre como está ocorrendo a relação entre ciência e
4

Palavra utilizada como sinônimo de processo dinâmico de produção de sentido.
No sentido de que as instituições, as redes, as organizações são culturas e culturas são sistemas
autopoiéticos, que se autoproduzem, com os seus respectivos mind sets (estados mentais), sua
cognição, o que será abordado em detalhe no capítulo 5.
5

21

sociedade e sobre opções e escolhas tecnológicas em interface com as
necessidades das populações e de sua cultura.
Nota-se que, por uma necessidade de resguardo de fronteiras entre os diversos
atores que têm nas TSs um universo de interseção de suas ações e reflexões, o
conceito é percebido e enunciado de maneiras diferenciadas, ora com predomínio
do encanto, ora com o reviver do desencanto com os avanços tecnológicos.
Ademais, a temática das tecnologias sociais ainda não é pervasiva e se mantém
restrita a alguns círculos acadêmicos, da sociedade civil organizada, de instituições
públicas e privadas, sem a possibilidade de espraiar todo seu potencial de promover
debates e mudanças significativas para a realidade social brasileira e de outros
países com perfil e culturas congêneres.
É desejável que os pesquisadores brasileiros de diferentes áreas façam uma
leitura sobre esse tema e busquem promover o diálogo com seus textos e práticas,
enriquecendo o debate. A cada dia, multiplicam-se as inter-relações e insights que
as tecnologias sociais proporcionam. Podem ser estudadas sob o olhar da
sociologia, comunicação, história, economia, psicologia social, biologia, agricultura,
arquitetura, engenharia, informática, engenharia de alimentos e nutrição e muitas
outras áreas. A sua proximidade com as soluções existentes para problemas do
quotidiano das mais diversas comunidades em diferentes contextos de vida faz com
que o tema esteja na pauta da academia, das associações e organizações não
governamentais (ONGs), dos governos, e de todas as redes que estejam pensando
em melhoria da qualidade de vida das pessoas. O texto que se inicia é uma dessas
interlocuções, na área de Comunicação.
1.2.2 Problema e hipóteses

Conforme mencionado na apresentação, nosso problema de pesquisa consiste
em responder à pergunta ―como se processa a construção de sentido da expressão
tecnologias sociais entre os diferentes sujeitos sociais?‖ Concebemos, a partir dessa
enunciação do problema de pesquisa, as seguintes hipóteses:

22

A rede de tecnologia social6 tenta se estabelecer via ação comunicativa,
mas recai em contextos em que a comunicação é improvável devido ao
resguardo de fronteiras semânticas e diversidade de percepções por parte
dos diferentes atores que integram a rede.

A polissemia do termo ―tecnologia social‖ contribui para o desenvolvimento
das TSs porque amplia os campos de atuação.

O futuro das tecnologias sociais está indissociado de uma perspectiva
construtivista de agendas locais para C,T&I, pois as TSs são contrahegemônicas em relação a uma visão neutra, instrumental e determinista
da tecnologia.

1.2.3 Objetivos
1.2.3.1 Objetivo geral
Conhecer o processo de construção de sentido relacionado às tecnologias
sociais e quais ideias-chave os diferenciam.
1.2.3.2 Objetivos específicos
Estudar como se deu e continua a acontecer a construção do processo
comunicativo sobre as tecnologias sociais.
Identificar os elementos de diferenciação e estabelecimento de sentido entre
os sistemas sociais que coexistem no universo das tecnologias sociais.
Conhecer os principais debates da atualidade sobre esse tema, inseridos nos
questionamentos entre as relações cogitadas entre ciência, tecnologia e sociedade.
1.3 METODOLOGIA

1.3.1 Descrição do processo
Nossa pesquisa foi quantitativa e qualitativa, embasada em uma análise
documental, pesquisa de opinião feita por meio de um questionário, preenchido via
6

Sempre que nos referirmos à Rede de Tecnologia Social (RTS), instituição, usaremos maiúsculas.
Ao nos referirmos à rede de tecnologias sociais, com minúsculas, estamos tratando de grupos de
redes que se interessam por essa temática, também denominados fórum ou movimento, e já
interagem há décadas, conforme descrito em detalhe no capítulo 2.

23

Internet, além da observação de três empreendimentos de tecnologia social no
Distrito Federal: confecção de bijuterias e acessórios com a reciclagem de garrafas
pets; quintais produtivos, ambos em Planaltina; e a Fazenda Malunga, todos
localizados no Distrito Federal.
1.3.1.1 Pesquisa qualitativa
O primeiro passo na elaboração deste trabalho equivaleu à realização da revisão
bibliográfica, realizada no Google, Google Acadêmico, Scientific Electronic Library
On-Line (Scielo), Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD),
Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo (USP),
bases Cambridge e ScienceDirect.
O segundo passo correspondeu à leitura e seleção dos conteúdos para elaborar
uma descrição dos sentidos que estão sendo atribuídos à expressão ―tecnologia(s)
social(is)‖, que foram os termos de busca. Visto a diversidade de sentido com que o
termo é empregado fora do Brasil, essa análise compreenderá um capítulo
específico, com uma espécie de trajetória de significados e, posteriormente, o
detalhamento de como tecnologias sociais estão sendo percebidas e tratadas no
Brasil, bem como o cenário mais amplo das discussões que envolvem ciência,
tecnologia e sociedade (CT&S).
Escolhemos os livros Tecnologia social: uma estratégia para o desenvolvimento
(REDE DE TECNOLOGIA SOCIAL, 2004) e Tecnologia social: ferramenta para
construir outra sociedade, obra organizada por Renato Dagnino em 2009, para
serem as fontes primeiras dessa análise sobre sentidos diferenciados que circulam
entre os atores, ―provedores‖ do desenho de uma rede semântica que evidenciará
as diferentes percepções dos atores governamentais, das organizações nãogovernamentais, pesquisadores da academia e patrocinadores da rede de
tecnologias sociais. Essa escolha foi feita em 2009, por serem, à época, os
principais textos de referência sobre o tema. Contudo, não nos ateremos,
exclusivamente, a essas obras para as análises que constam neste trabalho, pois
em 2010 houve rica produção acadêmica sobre o tema e tentar-se-á, conforme
nossas possibilidades, abarcar alguns conteúdos desses textos nesta pesquisa.

24

Inicialmente, nesses dois livros consultados e em outras obras recuperadas na
pesquisa bibliográfica, procurou-se realizar uma análise de conteúdo, em sua forma
de estruturação mais básica, buscando uma orientação para o desenho da pesquisa,
conforme ilustrado na figura 1.

Figura 1: Análise de conteúdo – responder às questões relativas a um contexto de textos.
Fonte: KRIPPENDORFF, 2004, p. 83

Para Krippendorff (2004), os textos adquirem relevância (significados, conteúdos,
qualidades simbólicas e interpretações) nos contextos em que são utilizados. Faz a
ressalva de que um contexto sempre é a construção de alguém, espelhando o meio
conceitual de produção de um texto, a situação na qual ele tem um papel a
desempenhar. ―O contexto especifica o universo em que os textos podem ser
relacionados às questões de pesquisa de quem faz a análise de conteúdo. Esse
universo é sempre um entre muitos possíveis‖7 (KRIPPENDORFF, 2004, p. 33).
O caminho da análise de discurso nos conduziria a um questionamento sobre
―como esses textos significam‖ (ORLANDI, 2007, p. 17), o que para o princípio da
pesquisa nos pareceu uma tarefa avançada em relação à etapa exploratória inicial
deste trabalho. Buscou-se, portanto, identificar nos textos selecionados as unidades
ou segmentos de textos que ajudassem a responder à pergunta da pesquisa
formulada em consonância com nossa primeira hipótese: existe uma diferenciação
de percepções entre os atores que interagem com o tema desta pesquisa, expressa

7

Tradução da autora. Texto no original: ―The context specifies the world in which texts can be related
to the analyst´s research questions. This world is always one of many.‖

25

em fronteiras semânticas por eles enunciadas? Usamos diagramas para evidenciar
esses trechos. São as unidades de texto selecionadas que representam uma
diferenciação de enunciados e percepções. A partir desses recortes, inferimos que a
existência de tal diversidade está presente nos textos analisados, o que pode
favorecer a improbabilidade da comunicação ocorrer, e foi a partir dessa inferência
que construímos os passos subsequentes da pesquisa, prevendo maior abrangência
na exploração de sentidos associados a essa expressão no capítulo correspondente
à revisão bibliográfica.
Nesse primeiro recorte, conforme expresso na figura 2, a seguir, foram
selecionadas unidades de texto que revelaram a prevalência de um sentido de
―simplicidade‖

e

―engenhosidade‖,

em

um

contexto

governamental;

maior

abrangência e um pensar sistêmico ficaram delimitados entre as ONGs; um texto
próximo da teoria crítica da tecnologia, contendo uma oposição entre ―tecnologias
capitalistas ou convencionais (TCs)‖ e tecnologias sociais predomina na Academia;
e as ideias de ―franquia‖, ―grande escala‖, ―empreendedorismo‖, ―responsabilidade
social‖ sobressaem no discurso da Fundação Banco do Brasil, ator de destaque
nesse ecossistema. O texto do ―coletivo‖, que amalgama esse todo, construído em
conjunto (em fóruns, movimentos e redes), é mais abrangente e inclui as palavras
―técnicas‖, ―processos‖ e ―metodologias‖, frisando o objetivo da ―inclusão

e

transformação social‖.
Destacam-se, a seguir, os trechos obtidos com essa análise de conteúdos
preliminar e que nos conduziram a essa primeira percepção, ponto de partida para a
formulação de um percurso de pesquisa, problematização, formulação de hipóteses
e construção do processo de investigação. Identificaram-se quatro contextos em que
há diferenciações nas percepções predominantes associadas às tecnologias sociais.

26

Figura 2: Quatro contextos diferenciados em que os sentidos associados às tecnologias
sociais apresentam-se distintos (continua).

27

Figura 2: (Conclusão) Quatro contextos diferenciados em que os sentidos associados às
tecnologias sociais apresentam-se distintos.

28

Essas diferenças nos enunciados serviram como orientação para a concepção do
questionário de pesquisa, que foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade
Católica de Brasília (UCB) em junho de 2010. Elaborou-se também um roteiro de
observação para a visita realizada a três iniciativas nas vizinhanças de Brasília que
usam tecnologias sociais (Anexo C).
1.3.1.2 Pesquisa quantitativa
Na parte quantitativa, fez-se uma pesquisa de opinião incidental ou instantânea,
em que se administrou um questionário uma só vez para ―haver um instantâneo da
população no que tange às características estudadas‖ (LAVILLE E DIONNE, 1999,
p. 149), uma fotografia de processo, tal e qual ele se deu nesse momento da
história, no Brasil.
Entre as decisões tomadas para a seleção do grupo de participantes da
pesquisa, houve uma escolha sobre qual seria o tipo de amostra que se deveria
adotar, dado que os atores que formam a rede, movimento ou fórum de tecnologias
sociais, em seu sentido amplo, estão dispersos em todo o território nacional, e até
mesmo em outros países, o que exclui o uso de uma amostra probabilista que desse
a todos os elementos dessa população a oportunidade conhecida e não nula de
participar. Optou-se, portanto, por uma amostra típica, em que as pessoas foram
convidadas a preencher um questionário que permaneceu abrigado no site
SurveyMonkey entre 23 de julho e 8 de setembro de 2010.
Procurou-se focar um universo de respondentes que já estivessem em interação
com o tema das tecnologias sociais. Dessa maneira, nossa população correspondeu
a uma parcela de membros da Rede de Tecnologia Social (RTS), e-mails que
obtivemos e copiamos a partir do site dessa instituição; o grupo de colaboradores da
Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis) do Ministério da
Ciência e Tecnologia, e dos alunos do curso ―A Teoria Crítica da Tecnologia, de
Andrew Feenberg: Racionalização Democrática, Poder e Tecnologia‖, realizado na
Universidade de Brasília (UnB) em abril e maio de 2010. Foram enviados 919 emails, com uma carta de apresentação e convite (Anexo A) para que esses
destinatários acessassem, voluntariamente, o link do questionário de pesquisa
(Anexo B). Destes, 232 e-mails foram rejeitados pelos servidores de destino,
havendo mensagens de ―usuário desconhecido‖ ou ―caixa de correio cheia‖. Logo, a

29

população correspondeu ao conjunto dos 687 e-mails enviados e que não
apresentaram mensagem de rejeição do servidor. A amostra foi de 251 indivíduos
que efetivamente acessaram o link e responderam, ao menos, à primeira questão, o
que será detalhado no capítulo destinado à análise das respostas obtidas, e que
também está retratado no Anexo B, com os dados brutos que incluem as perguntas
e respostas da forma como foram formatadas pelo coletor do questionário no site
SurveyMonkey. Com esse número de acessos, obteve-se o percentual de
participação de 36%, o que corresponde a um nível de confiança de 95% e uma
margem de erro de 4,93%8.
Escolhemos

utilizar

os

recursos

do

site

SurveyMonkey

(http://www.surveymonkey.com/), uma ferramenta profissional para a formulação de
questionários de pesquisa on-line e tabulação das respostas obtidas, com a
condição de que, para cada respondente, houvesse a correspondência de apenas
um número de IP. Isso significa que não foi possível a múltiplos respondentes utilizar
o mesmo computador para preencher o questionário on-line. Garantiu-se o
anonimato a todos aqueles que participaram voluntariamente.

8

Fizemos esse cálculo com o ―sample calculator‖, da Creative Research Systems, disponível em:
http://www.surveysystem.com/sscalc.htm, acesso em 10 de setembro de 2010.

30

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1 ―TECNOLOGIA‖ EM SEMIOSE
Na primeira etapa deste estudo − aquela equivalente à pesquisa bibliográfica
−, é preciso mapear as trajetórias discursivas e de sentido que esse termo assume
em diferentes momentos, contextos e culturas. Tal exercício torna-se, naturalmente,
um trabalho semiótico, em que as trajetórias discursivas identificadas nas
referências bibliográficas consultadas são indicações para os próximos passos da
investigação, como destaca o semioticista e professor da UCB Luiz Carlos Iasbeck:
Trabalhar semioticamente um objeto de pesquisa significa relacioná-lo com
o maior e mais significativo número e natureza de possibilidades que ele
comporta, buscando compreendê-lo em movimento, dinâmico e operante,
ainda que tais relações possam, eventualmente, estabelecer paradoxos
incontornáveis. (IASBECK, 2006, p. 203)

A seguir, procuraremos mapear a evolução de sentido da palavra ―tecnologia‖,
até chegar à tecnologia adjetivada de social, que, como todo símbolo, é:
[...] uma coisa viva, num sentido muito estrito que não é apenas figura de
retórica. O corpo de um símbolo transforma-se lentamente, mas seu
significado cresce inevitavelmente, incorpora novos elementos e livra-se de
elementos velhos. (PEIRCE, 1999, p. 40).

Nesta investigação, pertinente à revisão bibliográfica, busca-se abordar,
portanto, um mapeamento dessa dinâmica de incorporar e livrar-se de alguns
elementos. Para Peirce, a palavra ―significado‖ diz respeito a ―denotar o interpretante
declarado de um símbolo‖. E a semiose seria o processo em que

"todo signo

interpreta outro signo" (ECO, 2004, p. 23). A ver alguns discursos sobre a palavra
tecnologia.

2.2 TECNOLOGIA COMO SINÔNIMO DE COMUNICAÇÃO E ESTUDO DA
TÉCNICA
Consultando a pesquisa sobre a semântica do termo ―tecnologia‖ feita por
Léquin (2009), professor da Universidade de Tecnologia de Belfort-Montbéliard
(UTBM), vê-se que a palavra nasce com um sentido atrelado a processos
comunicacionais.

31

Desde os sofistas gregos até o século 17, a palavra tecnologia designava a
―técnica do discurso‖, a arte da oratória ―que permite triunfar sobre os adversários,
na ágora (praça central) das cidades gregas ou nas
salas de audiência dos tribunais‖. Signo indicativo de
que aquilo que era considerado nobre coincidia com
o domínio da palavra, capacidade intelectual, em
oposição aos trabalhos mundanos da produção.
No século 18, com o apogeu da mecanização
inerente à Revolução Industrial, a palavra passa a
designar, literalmente, o estudo da técnica 9. Em
1770, graças a Johann Beckmann (1739 - 1811),
professor

de

economia

da

Universidade

de

Göttingen, esse termo designa nova disciplina
Figura 3: Livro Introdução à
tecnologia, escrito em 1777
por Johann Beckmann.
Fonte: LAMARD; LÉQUIN,
2008

universitária, criada na Alemanha: ―a tecnologia explica
completamente, metodicamente e distintamente todos os
trabalhos com as suas consequências e suas razões de

ser‖, conforme define o próprio Beckmann. A figura 3 traz reprodução da capa do
livro de Beckmann. Na França, um papel similar ao de Beckmann foi exercido por
Louis-Sébastien Lenormand (1757 – 1837), que tentou enriquecer a educação
técnica com um viés de popularização da tecnologia, no ―intuito de aperfeiçoar as
operações tecnológicas e as ferramentas‖ (MERTENS, 2002). Credita-se a esse
físico a invenção do paraquedas, por ele próprio testado. Em seu atestado de óbito
constava que seu ofício era o de ―professor de tecnologia‖.
Um século mais tarde, Karl Marx propõe a introdução do ensino da tecnologia
nas escolas do povo. Nos Estados Unidos, entre 1829 (Jacob Bigelow – Elements of
Technology) e 1861 (ano de criação do Massachusetts Institute of Technology –
MIT), a palavra passa a ser empregada no plural, sem se referir a uma disciplina e
com o sentido de técnicas de ponta, em oposição a técnicas tradicionais, que
passaram a ser desacreditadas como ―rotineiras‖. Tal significado perdura até os
nossos dias com o sentido que atribuímos às ―novas tecnologias‖.

(LAMARD;

LÉQUIN, 2008, p. 7)
9

Na Wikipédia (2010), em vez de l´étude de la technique aparece study of trades, o que pode indicar,
ou não, uma diferença semântica ao se traduzir do alemão para o francês e para o inglês.

32

No século 20, ainda seguindo o fio da meada de Léquin, é tempo de ver
renascer uma tecnologia que se coloca o objetivo da compreensão global da técnica
e da sociedade, com Marcel Mauss, André Leroi-Gourhan, ao se deter em alguns
nomes franceses, e extenso grupo de pesquisadores, nomeados nos trabalhos de
Bijker, Kirkpatrick, Schroeder, Feenberg, Hess, entre muitos outros.
O desenvolvimento tecnológico em grande escala, no século 21, tornou-se o
desafio da atualidade, ao se ter consciência de que a técnica está onipresente na
sociedade, na vida dos homens e que nós vivemos no mundo do artificial, como bem
o comprova um exemplo de proeza da biotecnologia no século passado, o da
fabricação da maçã amarela (golden apple), segundo narrativa de Léquin sobre um
testemunho dos anos 50:
Na Califórnia, percorria hectares repletos de macieiras.
― Eu fabrico maçãs, dizia meu companheiro, como outros fazem gomas de
mascar. É necessário que o objeto seja vistoso e agrade aos olhos. Após
uma enquete realizada pelos serviços do Dr. Gallup [...], faço a maçã
amarela.
― E, pergunto, qual é o sabor das suas maçãs?
― Na realidade, têm um sabor-padrão. Os meus técnicos captaram os
sabores de todas as maçãs do mundo [...], antes de realizarem uma operação
de síntese.
― E qual é o cheiro?
― Nenhum. Nada. Impusemos que fosse assim. Isso nos permite jogar, a
cada ano, no mercado mundial, 750 mil maçãs sem sabor, conveniente a
todos os gostos, suprimindo, assim, a dificuldade de escolha e o cansaço
10
nervoso que é inerente a esse processo de decisão.‖ (LÉQUIN, 2009, p. 25)

2.3 ORIGEM E USO DA EXPRESSÃO ―TECNOLOGIA SOCIAL‖ FORA DO BRASIL
2.3.1 Contexto europeu
Na França, o termo ―tecnologia social‖ é cunhado por engenheiros, ao
conceber a sociologia como tecnologia social. Está relacionado a um profissional da
Escola Politécnica, Jean Coutrot (1895 – 1941), interessado em desenvolver um
10

Tradução da autora. Texto original: ― ─En Californie, je parcourais des hectares de pommiers.
─ Je fabrique de la pomme, disait mon compagnon, comme d´autres font de la gomme à mastiquer. Il
faut d´abord que l‘objet plaise à l´oeil: après une enquête menée par les services du Dr Gallup […] je
fais de la pomme jaune.
─ Et, dis-je, quelle est la saveur de vos pommes?
─ De même, j´ai une saveur standard. Mes techniciens ont capté les saveurs de toutes les pommes
du monde […] avant de réaliser une operation de synthèse.
─ Et qu´est ce que cela sentait?
─ Rien. Ce rien, nous l´avons imposé, il nous permet de jeter chaque année sur le marché mondial
750 000 pommes sans saveur allant à tous les gouts, supprimant l´embarras du choix de la fatigue
nerveuse qui en résultait.‖

33

―humanismo econômico‖ por meio de um ―pensar coletivo‖. Coutrot destacou-se
como fundador do Centro de Estudos dos Problemas Humanos, em 1937
(WIKIPEDIA, 2010), instituição pluridisciplinar que chegou a congregar 300
pesquisadores, entre os quais pôde contar com a colaboração de Alexis Carrel
(prêmio Nobel em medicina); Aldous Huxley (membro do comitê executivo); Jean
Stoetzel (pesquisas de opinião); Jean Merlet (habitação); Jean Sutter (nutrição);
François Perroux (economia); Robert Gessain, Paul Vincent, Jean Bourgeois-Pichat
(demografia), entre outros. Segundo Henry (2004), entre as opções defendidas por
Coutrot encontra-se o posicionamento de ignorar as análises fundadas sobre os
estudos dos fatos sociais (portanto, contrário à sociologia de Émile Durkheim, ao
rechaçar a historicização e determinação social dos feitos), preferindo uma
abordagem exclusivamente centrada na pessoa humana, com o que Coutrot
denomina ―um suplemento de alma‖:
[…] para reencontrar a ‗pessoa‘ sob a armadura esmagadora da técnica e
da máquina, as ciências devem se dedicar, primeiramente, ao estudo do
espírito e não mais àquele da matéria: ‗é preciso parar a técnica até que a
11
ciência do homem tenha avançado em seu atraso‘
(COUTROT apud
HENRY, 2004, p. 54)

Ao estabelecer para cada problema uma lista de fatores que os determinavam
e tentar colocar cada indivíduo ―no lugar que lhe pertence‖, exercer controle, Coutrot
despontou como o tecnocrata que reduziu as ciências sociais a uma metodologia e
encorajava mensurar tudo o que fosse mensurável. La mesure des différences entre
les genres (A medida da diferença entre os gêneros) é um texto dessa época,
selecionado por Henry como uma das relíquias incluídas em seu trabalho, e denota
as representações associadas ―ao lugar que pertencia‖ às mulheres naquele
contexto social, com discurso cuidadosamente tecido com uma retórica científica e
multidisciplinar.
Ainda no contexto europeu, a expressão tecnologia social reaparece em título
de um livro de Habermas e Luhmann (1971) – Teoria da sociedade ou tecnologia
social — qual a contribuição da teoria sistêmica? –, menção encontrada em nota de
rodapé em um texto de Freitag e Rouanet (1993). Posteriormente, reencontra-se
Tradução da autora. Texto original: ―(...) pour retrouver la ‗personne‘ sous l‘armure écrasante de la
technique et de la machine, les sciences doivent s‘attacher désormais à l‘étude de l‘esprit et non plus
à celle de la matière : ‗il faut stopper la technique jusqu‘à ce que la science de l‘homme ait repris son
retard‘.‖
11

34

menção a esse trabalho na Apresentação de João Pissarra (LUHMANN, 1992) e no
Foreword de Eva Knodt (LUHMANN, 1995). Pissarra contextualiza a publicação do
livro pelos autores, relembrando que ambos se tornaram amigos quando eram
alunos de Talcott Parsons, em Harvard, e realizaram nessa obra o início de um dos
mais célebres debates entre posicionamentos completamente opostos, Luhmann
com explícita recusa em ver qualquer sentido na versão progressista do pensamento
europeu, ―uma crítica radical à tradição emancipatória herdeira do humanismo das
Luzes, que ele considera totalmente desajustada à realidade complexa das
sociedades desenvolvidas‖ (LUHMANN, 1992, p. 7). Habermas, por sua vez, acusa
Luhmann de ser ―tecnocrático e funcionalista e de menosprezar qualquer
possibilidade de crítica e política emancipatória‖ (KNODT, 1995, p. xiv). O livro deu
origem a uma série de publicações intitulada Theorie-Diskussion, com a colaboração
de renomados cientistas sociais.
Eva Knodt menciona que o livro foi muito bem recebido, vendendo mais de 35
mil cópias em poucos anos. A polaridade entre Frankfurt e Bielefeld foi enquadrada
em termos políticos, como uma oposição entre a Nova Esquerda e o que era
percebido como tendências neoconservadoras na Alemanha, o ―contrailuminismo‖ .
Embora nos anos 1970 Luhmann tenha sido muito atacado pela esquerda, na
metade dos anos 80 houve variações para o que Knodt denomina ―uma segunda
fase‖, com as propostas de ―uma mudança de paradigma para a Sociologia‖,
expressa com a publicação de ―Sistemas Sociais‖ em 1984. Em sua ―terceira fase‖,
Luhmann desperta interesse ainda maior com o ―discurso do construtivismo radical‖,
termo cunhado originalmente pelo psicólogo Ernst von Glaserfeld.
Sem tradução para uma língua que possamos ler, a curiosidade e a busca de
entendimento sobre o que estava em discussão nesse livro – se os autores deram
alguma continuidade ao debate do grupo de Coutrot, se atribuem a esse autor o uso
dessa expressão ou se seria um sinônimo, outra forma de se referir ao conceito de
―teoria da sociedade‖ – foi parcialmente saciada ao encontrarmos, no penúltimo mês
de nossa pesquisa, o texto de Santos (2005) que comenta como se deu a crítica
mútua entre Habermas e Luhmann. Esse autor atribuirá à crítica feita por Habermas
à teoria de sistemas de Luhmann a expressão depreciativa ―tecnologia do social‖:

35

[…] é muito fácil ―criticar‖ globalmente a Systemtheorie como uma
―tecnologia social‖ (Sozialtechnologie) ao serviço do Mal, que, na
perspectiva da moral da escola de Frankfurt, tem por nome ‗razão
instrumental‘ [..] (SANTOS, 2005, p. 134).

Santos faz a defesa de Luhmann contra as acusações de que seu trabalho refletiria
as metáforas do ―instrumental‖ e da ―tecnologia do social‖ como herança da visão
mecanicista do mundo, na linha do tecnicismo de Helmut Schelski, sociólogo alemão
que foi orientador de Luhmann nos anos 1960.

2.3.2 Estudos do futuro
Quem se dedica a pensar o futuro usa a
expressão ―tecnologia social‖ em diversos contextos
e com diferentes significados. Em 2008, por
exemplo, no encontro da World Future Society
(WFS) em Washington (DC)12, um grande cartaz no
hall de entrada para as palestras chamava a
atenção (figura 4) por apresentar a expressão
―Social Technologies‖, como título.
Os

futuristas

(ALIGICA

e

HERRITT, 2009) empregam o termo
como

sinônimo

procedimento
Figura 4 – Cartaz da empresa Social
Technologies, exposto na reunião da WFS em
2008 e banners publicitários de alguns de seus
trabalhos de prospecção.
Fonte: www.socialtechnologies.com

ou

de

instituição,

metodologia,

ao

relembrarem os trabalhos do alemão
Olaf Helmer, que escreveu o livro ―Social
Technology‖ (WIKIPEDIA, 2010), em
1966, juntamente com Bernice Brown e

13

Theodore Gordon , em consultoria para a Rand Corporation. A esses autores
atribui-se a concepção do Método Delphi14. No caso do cartaz, a Social

12

Um relato sobre esse encontro da WFS está disponível em:

http://www.scribd.com/doc/17295117/World-Future-Society-2008?secret_password=155xqksw69kac8sor4lo
13

Palestrante no encontro da WFS em 2008, quando apresentou o relatório ―2008, State of the
Future‖, enquanto integrante da equipe do Projeto do Milênio, informações disponíveis em:
<http://www.millennium-project.org/millennium/sof2008.html> . Acesso em 10 jun. 2010.
14
Um grupo da Universidade Federal do Paraná publicou uma cartilha sobre o que é esse método:
OLIVEIRA, Joelma de Souza Passos et al. Introdução ao Método Delphi. Curitiba: Mundo Material,

36

Technologies é uma empresa de pesquisa e consultoria, especializada na integração
dos portfólios de foresight, estratégia e inovação. Tem escritórios em Washington
DC; Londres, Tel Aviv e Xangai e investiga temas como os que aparecem na figura
4: ―o futuro dos homens americanos‖, ―o futuro da felicidade‖, entre outros.
Não somos os primeiros a fazer a descoberta dessa inter-relação. Quando o
Instituto de Tecnologia Social, por intermédio de Martina Rillo Otero – então
responsável pelo subprojeto Mapeamento Nacional de Tecnologias Sociais
produzidas e/ou utilizadas pelas ONGs –, narrou como procedeu em sua pesquisa
bibliográfica, reveladora de ―21 organizações e 26 textos‖ (INSTITUTO DE
TECNOLOGIA SOCIAL, 2004, p. 125), houve menção ao artigo de um dos mais
célebres pensadores desse grupo, Joseph Coates15. Eis um trecho que descreve o
entendimento desse autor sobre tecnologias sociais naquela época:
Há uma forte resistência por parte de servidores públicos, membros do
Congresso dos Estados Unidos, empresas e até no círculo acadêmico em
reconhecer e assentir que muito do que ocorre na sociedade, por meio da
criação e do desenvolvimento institucionais, das inovações nas práticas
institucionais e mecanismos para criar, gerir, financiar e manipular
16
instituições são tecnologias sociais. (COATES, 2001, p. 2)

Deve-se aos futuristas a inclusão de social technologies na Wikipédia. O
verbete foi inserido com a menção de que o primeiro uso dessa expressão se
encontra no trabalho de Olaf Helmer, em 1966, e entre os significados consta: ―No
uso corrente, tecnologia é tecnologia com propósito social, mas originalmente queria
dizer a aplicação das ciências sociais com vários propósitos, especialmente a
seleção e uso de especialistas para a tomada de decisão‖. (WIKIPEDIA, 2010).

2008. 16 p. Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/13927856/Introducao-ao-Metodo-Delphi>.
Acesso em: 02 mar. 2010.
15
http://josephcoates.com/
16
Tradução da autora. Texto original: ―There has been a consistent resistance on the part of public
officials, the U.S. Congress, business, and even academics to recognizing and acknowledging that
much of what occurs in society by way of institutional practices, and mechanisms for creating,
managing, funding and manipulating technology, are themselves social technologies.‖

37

2.3.3 Folk technology
A partir de janeiro de 2008,
Venkata

Subramaniam

começou

a

escrever uma coluna mensal sob a
rubrica

Folk

indiana
inspirado,

Technology

itmagz.com,
enquanto

na

revista

sentindo-se
gerente

de

informações e análise da IBM em Nova
Deli, em escrever sobre esse tema para
uma audiência maior, além da academia.
Manifesta seu interesse em analisar as
tecnologias que estão ―causando um Figura 5 – Capa de um dos artigos de
impacto na vida das pessoas‖, como Subramaniam na revista itmagz.com. Imagem
parece ser o caso dos jovens da figura 5.

utilizada com autorização do autor.

No Brasil, folk technology seria sinônimo de tecnologia social.
Nesse caso da Índia, em particular, existe proximidade especialmente com o
portfólio brasileiro da Inclusão Digital. Com certa diferença nas abordagens entre
brasileiros do movimento de tecnologia social e aquelas que vemos em testemunhos
de indianos que não têm os mesmos questionamentos do movimento brasileiro em
relação ao sistema capitalista, o que será explicitado quando se abordarem as TSs
no Brasil.
Subramaniam aponta a Revolução Verde como momento de virada para o
seu país e, embora aposte na Revolução das Tecnologias de Informação e
Comunicação (TICs), ressalta que os efeitos só se fazem sentir no topo da pirâmide
e conclui:
Precisamos lançar as bases para as tecnologias do amanhã que
aumentarão o nosso Produto Interno Bruto (PIB), da mesma forma que a
Revolução Verde fez há décadas. Precisamos de tecnologistas e
empreendedores que possam pensar de maneira suficientemente inovadora
17
para disseminar incubadoras que possam mudar esse jogo. ‖
(SUBRAMANIAM, 2008, p. 35)

17

Tradução da autora. Texto original: ―We need to lay the foundation for tomorrow‘s technologies that
will take our gross domestic product (GDP) up just the way the green revolution did many decades
ago. We need technologists and entrepreneurs who can think innovatively enough to spawn gamechanging start-ups in India‖.

38

A revista inglesa The Economist, em sua edição de janeiro de 2010 (WORTH,
2010), antecipou a divulgação dos resultados da pesquisa feita por Aparajita
Goyal18, do Banco Mundial, sobre as vantagens de um sistema de informação online com acesso direto para os produtores rurais de Madhya Pradesh, estado da
Índia Central. Nessa localidade, os agricultores vendem sua produção de soja para
terceiros, em sessões públicas regulamentadas pelo governo, o que se chama
mandis, sistema elaborado com o intuito de proteger os produtores de intermediários
inescrupulosos. Os intermediários, por sua vez, vendem a soja para companhias
processadoras de alimentos. Em consequência de terem acesso à informação
privilegiada sobre as variações do preço desses produtos nas diferentes regiões, os
atravessadores negociavam preço bem aquém do valor de mercado com os
agricultores.
Uma das empresas processadoras de alimentos, ITC Limited, decidiu instalar
em outubro de 2000 uma rede de quiosques com acesso à Internet, denominados echoupal (choupal em híndi quer dizer ―local de encontro na vila‖). No final de 2004,
havia 1.704 quiosques, que informavam os preços mínimos e máximos para a venda
da soja em 60 mandis, valores atualizados diariamente, com a disponibilidade de
outras informações de interesse para esses agricultores que passaram a poder
realizar a venda de seus produtos diretamente às empresas interessadas. Goyal
demonstra que os quiosques foram pagos com o que a empresa economizou em
intermediações, e os agricultores obtiveram preços mais vantajosos que os
praticados anteriormente.
Esse exemplo de folk19 technology remete-nos a um questionamento sobre o
Simple Inexpensive Mobile Computer (Simputer)20, o computador popular indiano,
comentário que surgiu em um fórum de discussão sobre esse artefato e foi citado
por Mark Warschauer:
Por que um ‗trabalhador rural pobre e analfabeto‘, no meio do mato, precisa
de um computador? Só porque você pode produzir esse computador barato,
em massa e para as massas, não significa, necessariamente, que qualquer

18

“Direct Access to Farmers, and Rural Market Performance in Central India‖, por Aparajita Goyal.
http://www.aeaweb.org/forthcoming/output/accepted_APP.php. Acesso em: 29 jan. 2010.
19
Folk como adjetivo tem entre os significados possíveis ―aquela originada entre as pessoas
comuns‖, nesse caso, em vez de originada seria tecnologia disseminada, ou tecnologia social
―reaplicada‖, como preferem os brasileiros.
20
Computador simples, barato, móvel, ―Simputador‖, traduzido literalmente para o português.

39

um das massas precise de um ou, até mesmo, queira ter um.
(WARSCHAUER, 2003, p. 68)

21

As respostas de indianos apontaram o exemplo dos e-choupals (segundo
Subramaniam, beneficiam 4 milhões de agricultores indianos), com o fato de que na
India 68 mil mulheres se tornaram ―telefonistas‖ (operators) de celulares em suas
vilas (o uso do aparato não é individual e sim comunitário, com intermediação,
interação entre as pessoas dessas localidades), e a diversidade relacionada à
abrangência familiar, ―o computador pode ser útil a qualquer parente ou membro da
rede do agricultor ‗analfabeto e pobre‘‖, respondeu um participante do fórum. As
interações com a tecnologia têm desfechos imprevisíveis, e ao contar com as
interações bem-sucedidas, os defensores do leapfrogging22 advogam a aceleração
ou saltos nos estágios de desenvolvimento, no caso das telecomunicações, o uso de
tecnologias disruptivas sem fio (wireless) em países que não têm o mesmo tipo de
infraestrutura que o bloco dos desenvolvidos.
A provocação do comentário envolvendo alfabetização ―para o meio
eletrônico‖ e educação remete ao litteracy divide (alfabetização como divisor),
correlacionada ao digital divide (divisão digital), e o que está em jogo não é só a
habilidade de:
[…] decodificar ou codificar texto, mas também a atividade social de
exercitar controle; como outras formas de alfabetização, subentende-se não
só a habilidade de ler a palavra mas ler o mundo e, em certo sentido,
23
escrever e reescrever o mundo
(FREIRE e MACEDO, 1987 apud
WARSCHAUER, 2003, p. 118)

A alfabetização tecnológica é outro divisor de águas que pode separar os
residentes dos países em desenvolvimento dos países desenvolvidos, quando está
em questão outro siginificado atribuído a folk technology, como ocorre em uma
iniciativa da AS22024, junto a grupo de artistas de uma ONG de Providence, capital
21

Esse comentário, mencionado por Warschauer, foi encontrado em um fórum cujos arquivos estão
disponíveis em: http://slashdot.org/articles/01/05/02/1822219.shtml. Tradução da autora. Texto
original: ―Why does the ‗poor illiterate farmer‘ out in the fields need a computer? Just because you can
mass-produce an inexpensive computer for the masses, doesn´t necessarily mean that everyone in
the masses actually needs one. Or wants one for that matter.‖
22
A palavra foi introduzida por Schumpeter, inicialmente associada à teoria do desenvolvimento, com
um significado de ―criatividade destrutiva‖ (WIKIPEDIA, 2010).
23
Tradução da autora. Texto original: ―(…) decoding and encoding text but also the social activity of
exercising control. Like other forms of literacy, it entails not only reading the word but also reading the
world and, in a sense, writing and rewriting the world‖.
24
Disponível em: http://as220.org/front/ Acesso em: 27 jan. 2010.

40

do menor estado americano, Rhode Island. Para essa coletividade, folk technology é
sinônimo de:
[…] libertar os meios de produção de processos industriais que reforçam as
desigualdades sociais e são desnecessários, bem como divulgar a ideia da
folk technology como uma alternativa para a tecnologia feita para o
25
consumo de massa pelas grandes corporações (MARCELO, 2008, p. 1)

Em 2008, essa ONG pegou empréstimo de US$1,6 milhão com a Prefeitura
de Rhode Island, em um projeto que irá lhe custar US$12 milhões, para ampliar o
espaço do laboratório que pertence à comunidade. Trabalha com tecnologia de
design e fabricação. O parceiro nessa empreitada é o Massachusetts Institute of
Technology (MIT), de quem a ONG comprou as tecnologias de design e fabricação
para permitir o acesso a qualquer um que queira experimentar os softwares e
hardwares de robustez industrial: ―para sair de uma ideia, gerar um modelo no
computador e construir rapidamente um protótipo‖.
A ideia original é do Fab Lab26 do Center for Bits and Atoms (CBA) do MIT
que busca fazer com que o cidadão comum (ordinary people) não só aprenda sobre
ciência e engenharia, mas também seja capaz de desenhar máquinas e fazer
mensurações que sejam relevantes para melhorar a sua própria qualidade de vida.
Surgiu de uma disciplina intitulada How to make (almost) anything [como fazer
(quase) qualquer coisa].
Outros projetos que estão sendo desenvolvidos pelo Fab Labs incluem
turbinas movidas a energia solar e eólica, computadores para rede sem disco duro,
instrumentação analítica para a agricultra e saúde, entre muitos. A perspectiva é a
de inverter o processo de invenção e inovação e possibilitar, a quem se interessar,
que esta seja feita de baixo pra cima (bottom up), como explica Neil Gershenfeld do
CBA, ao apresentar o Fab Lab da Noruega (vídeo disponível on-line27).
Um terceiro sentido associado à folk technology é aquele em que o adjetivo
folk denota ancestralidade no uso e conhecimento de tecnologias cujas origens

25

Tradução da autora. Texto original: ―The AS220 Labs, according to its Web site, is ‗interested in
freeing the means of fabrication from wasteful, inequitable industrial processes and promulgating the
idea of ‗folk technology‘ as an alternative to corporate consumer technology.‖
26
Fab(rication) Lab(oratories) http://fab.cba.mit.edu/. Para conhecer o tipo de hardware e software
que estão sendo usados, visite: http://fab.cba.mit.edu/content/tools/ Acesso em maio de 2010.
27
Disponível em: http://www.principalvoices.com/2007/technology.innovation/video/neil.gershenfeld/.
Acesso em maio de 2010.

41

podem ser até mesmo desconhecidas e estão em harmonia com o meio ambiente,
sendo passadas de geração em geração, como é o caso do barco okibani na ilha
Okinawa, no Japão. Nesse exemplo, Hidenobu (2006) conceitua folk technology
como ―uma tecnologia tradicional que é bem-sucedida em certa área ao fazer uso de
ferramentas do dia a dia. Seu uso foi aprovado na natureza, na cultura e pela
sociedade de determinada região, o que corresponde aos três fatores ambientais
que permitem comprovar que se trata de folk technology‖, descreve em seu resumo.
2.3.4 Engenharia social
Um texto que reaparece nas buscas em diferentes bases é o

de Rainer

Knopff (1989), alemão-canadense, professor de ciência política na Universidade de
Calgary, notório por seus estudos sobre a influência das decisões judiciais na
formulação das políticas públicas canadenses, integrante da Escola de Calgary.
Nos capítulos 7 e 8 de seu livro ―Direitos humanos e tecnologia social: a
guerra contra a discriminação‖, Knopff trata a questão da ação afirmativa como
tecnologia social:
A tecnologia social construtivista tenta fazer com que a sociedade se
conforme com os objetivos preconcebidos racionalmente. Para atingir a
meta dos resultados de igualdade, a nova guerra contra a discriminação faz
uso tanto da estratégia conformista quanto da acomodação; tenta mudar os
grupos que estão em desvantagem para adequarem-se à sociedade, e
28
também mudar a sociedade para agradar a esses grupos. (KNOPFF,
1989, p. 142)

Para o autor, a guerra contra a discriminação promoveria a igualdade social
às custas do menosprezo à liberdade individual ou privada. ―Tanto a ação
afirmativa quanto a proibição da discriminação sistemática são recursos da
tecnologia social construtivista e correspondem aos interesses da ‗democracia
guardiã‘‖29 (p. 142) (conceito que ele opõe ao de democracia liberal).

Tradução da autora. Texto original: ―Constructivist social technology attempts to make society
conform to rationally pre-conceived goals. To achieve the goal of equal results, the new war on
discrimination makes use of both conformist and accommodationist strategies; it attempts either to
change disadvantaged groups to suit society or to change society to suit the groups‖.
29
In any case, both affirmative action and the prohibition of systemic discrimination are devices of
constructivist social technology and further the interests of ‗guardian democracy‘‖.
28

42

Quando comenta as ideias de Shulamith Firestone, feminista ―radical‖
canadense, em relação às tecnologias que libertariam as mulheres de seu ―destino
biológico‖, Knopff menciona que:
[…] o avanço apropriado das tecnologias sociais ― creches, novas
condições e expectativas em relação ao trabalho, reformulação nos papéis
atribuídos a homens e mulheres, etc. ― fará com que não mais seja
30
necessário o confinamento das mulheres à esfera doméstica (KNOPFF,
1989, p.135).

Questionado se teria consultado os trabalhos de Coutrot ou Luhmann, Knopff
esclareceu que seguiu o percurso do filósofo canadense George Grant sobre
tecnologia e preferiu utilizar o termo ―tecnologia social‖ em vez de ―engenharia
social‖, pois considerou o entendimento desse estudioso sobre tecnologia mais
aprofundado e mais adequado para suas análises.
Mesmo que tenha feito essa opção, tecnologia social é empregada com
ampla afinidade em relação ao ideário da engenharia social 31, aquela que segundo
o jornalista e historiador britânico Paul Johnson seria a tendência predominante do
século 20. ―Engenharia social significa organizar e canalizar

forças sociais e

ambientais para criar uma alta probabilidade de que uma ação social efetiva irá
ocorrer.‖32 (PODGÓRECKI; ALEXANDER; SHIELDS, 1996, p. 1)
Eis uma entre muitas definições, encontrada no livro editado por Podgórecki,
Alexander e Shields. Nessa obra, a Lei Marcial de Jaruzelski na Polônia; a
construção do mito soviético; a campanha antifumo canadense (que os autores
chamam de ―duelo sociotécnico‖ entre a indústria do tabaco e os atores do lobby
antitabagismo); o planejamento para enfrentar as consequências de terremotos33;
30

―(…) moreover, with appropriate advances in social technology – daycare, reformed job
expectations and conditions, sex role reform, etc. – they need not be confined to the domestic sphere
(…)‖.
31
Essa expressão tem sido usada com frequência e com sentido bem distinto do que selecionamos
neste trabalho, no contexto da tecnologia da informação (TI), ao se falar em segurança de rede de
computadores para descrever a invasão de um hacker, que se dá via interação humana, em que
alguém é enganado e levado a quebrar os protocolos de segurança que resguardam o seu
computador ou a sua rede, ou seja, TI usada para a fraude. Exemplos disponíveis em:
http://searchsecurity.techtarget.com/sDefinition/0,,sid14_gci531120,00.html Acesso em: 2 mar. 2010.
32
―Social engineering means arranging and channelling environmental and social forces to create a
high probability that effective social action will occur.‖
33
Esse texto, de autoria de Alexander Jablonski, compara os terremotos ocorridos na Armênia em
1988 e o de Loma Pietra, na Califórnia, em 1989. Torna-se muito atual em relação aos que se
registraram no Haiti e no Chile, e serve como instigação para uma análise que pudesse trazer o tema
das tecnologias sociais para essa esfera de reflexão.

43

os processos envolvendo a restituição de posse de terras indígenas das tribos
canadenses Gitksan e Wet´suwet´en34 e o ―infoglut‖35 estão entre os exemplos de
numerosos fracassos que marcaram a engenharia social do século 20, pois ―a
matéria-prima que os engenheiros sociais usam – os seres humanos – é
resistente‖, ironizam os autores.
Podgórecki é o ―fundador da sociotécnica‖ (―ciência social prática para estudar
a engenharia social‖). John Cove fará um contraponto em seu texto sobre
―sociotécnica e valores‖, ao dizer que a incompatibilidade de valores é inerente a
empreendimentos sociotécnicos, o que fora tema de reflexão de Max Weber. No
texto de Cove também aparece a menção ao fato de os acadêmicos definirem
―problema social‖ de diferentes maneiras, e ele faz sua escolha:
um problema social é uma condição adversa que afeta uma sociedade ou
grupo e sobre a qual as pessoas sentem que algo pode ser feito a respeito
36
via ação social coletiva.
(HENSHEL E HENSHEL, 1983 apud
PODGÓRECKI; ALEXANDER; SHIELDS, 1996, p. 133)

Jon Alexander e Joachim Schmidt afirmam categoricamente que ―todo
engenheiro social é um moralista‖ e que a ―engenharia social é um termo tabu para
os americanos que o associam às ditaduras‖. Especialmente a Lenin, Stálin e Hitler
― considerados, pelos autores, engenheiros sociais europeus utópicos ― e ao
que ocorreu no século passado na Ásia, principalmente na China e no Camboja,
África e Oriente Médio.
Consideram o marxismo a maior inspiração da engenharia social, produto do
que sucedeu na França no século 18 e na Europa no século 19. Embora se
suponha que seja um fenômeno que ocorra de cima pra baixo (top down), por ter
surgido em Estados totalitários, com frequência acontece de baixo pra cima
(bottom up), como é o caso de movimentos sociais que buscam mudanças, a

34

Essa narrativa é feita pelo antropólogo John Cove, na terceira parte do livro, dedicada a estudos
empíricos. Narra o que se passou quando uma organização indígena canadense contratou a
consultoria de antropólogos para atuarem em um processo de restituição de terras aos índios, em
que se constatou haver ―sistemas de valores incompatíveis‖ (p. 153) entre os projetos do Estado e
aqueles do Conselho Tribal Gitksan – Wet´suwet´en.
35
Sobrecarga de informação, contexto de hiperinformação.
36
Texto no original:“[…] a social problem is an adverse condition affecting a society group, about
which people feel something can be done through collective social action.‖

44

exemplo do que se verifica no movimento pelas tecnologias sociais no Brasil. A
despeito de a expressão ser tabu para os americanos, os autores afirmam que:
[…] hoje os Estados Unidos estão nos liderando em um novo mundo da
engenharia social inovadora, baseada em alta tecnologia e psicologia
motivacional. De um lado ficou o velho ímpeto utópico modernizador que
esmoreceu e, de outro lado, encontra-se uma força subterrânea
37
vigorosamente ascendente, ao nos conduzir ao novo mundo pós-moderno .
(PODGÓRECKI; ALEXANDER; SHIELDS, 1996, p. 3)

Entre os autores que analisaram o conceito de engenharia social com uma
crítica ao seu portfólio totalitário, estão Karl Popper, com A pobreza do
historicismo, uma polêmica contra a ideia de que o futuro seja previsível, portanto
abarca os futuristas que já nos anos 1960 falavam em tecnologia social com uma
visão de engenharia de futuro; Friedrich von Hayek, que ganhou o prêmio Nobel de
Economia com uma crítica ao planejamento central; e outros diálogos são
realizados por George Orwell com A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949) e
Hanna Arendt com A origem do totalitarismo em 1951.
A

pesquisadora

da

Universidade

Federal

Fluminense

(UFF)

Célia

Kerstenetzky (2007) conduz uma análise sobre as diferenças de visão entre Hayek
e Popper, com o questionamento: acaso o conhecimento social limitado inibe a
intervenção governamental ou a requer? Dedica-se a esclarecer a evolução dos
conceitos de engenharia social e tecnologia social, este último uma alternativa para
amenizar a rejeição de Hayek à noção de ―engenharia social‖, termo ao qual
Popper adicionou o predicado de piecemeal, com o sentido de aceitar essa
proposta, desde que se dê gradualmente.
Tecnologia social é conhecimento sobre o mundo social que reconhece
seus próprios limites. É, portanto, o conhecimento que originado na
conjectura (do efeito previsível de causas particulares), só faz crescer com a
prática e com a crítica. É essencialmente prático, mas também um pouco
38
teórico, visto que a teoria ajuda a selecionar os problemas.
(POPPER,
1997 apud KERSTENETZKY, 2007, p. 45)

37

Tradução da autora. Texto original: ―Today the United States is leading us all into a new world of
innovative social engineering based upon high technology and motivational psychology. Thus we see
two disparate forms. One is the old utopian modernizing impulse now subsiding. The other is a
subterranean force freshly ascendant, leading us into a new postmodern world.‖
38
Tradução da autora. Texto original: ―To begin with, social technology is knowledge of the social
world that recognizes its own limits. It is, in other words, knowledge that, originating in conjecture (of
the predictable effects to particular causes), only increases with practice and criticism. It is mainly
practical, though also a bit theoretical, as theory helps to select problems.‖

45

Como fenômeno de comunicação social de massa, há um exemplo fornecido
no trabalho de Alexander e Schmidt no contexto da engenharia social: ocorreu na
China em 1989, em um encontro de cúpula entre China e Rússia, em Beijing,
quando foram discutidas as relações entre ambos os países. A presença de 1.200
jornalistas

estrangeiros,

transmitindo

suas

reportagens

via

satélite

instantaneamente, resultou na transformação de um movimento local pelos direitos
civis em uma cruzada de massa. Mil estudantes fizeram uma greve de fome na
Praça Tiananmen em Beijing, em alguns dias eram milhões de chineses na capital, e
em outras 33 cidades houve protestos:
A presença de massa crítica devida à alta concentração da mídia colocou
em marcha uma reação espontânea e prolongada em uma dinâmica de
engenharia social. Ninguém havia planejado isso, nem haveria como
controlar. O mundo inteiro estava assistindo. Para os chineses, estar no
39
centro das atenções da audiência global era uma novidade.
(PODGÓRECKI; ALEXANDER; SHIELDS, 1996, p. 8)

2.3.5 Outros sentidos
Ao visitarmos as bases Cambridge e Science Direct com a mesma estratégia de
busca utilizada na Scielo e no Google, com a expressão em inglês, são milhares de
registros do termo tecnologia social, com significados diferentes. Na Islândia, por
exemplo, Eggertsson (2009) fala de tecnologia social em oposição à tecnologia
física, ao abordar questões relacionadas à biotecnologia, área do conhecimento que
permitiu alterar a cor alusiva ao pecado original nas macieiras da Califórnia
(conforme mencionado anteriormente no item 2.2).
Tecnologia física diz respeito à aplicação da ciência física com propósitos
práticos e o termo tecnologia social refere-se à aplicação da ciência social
para fins práticos. Nessa visão, toda a produção – seja conhecimento,
mecanismos sociais, produtos ou serviços – envolve a aplicação conjunta
40
de tecnologias físicas e sociais. (EGGERTSSON, 2009, pág. 139)

As italianas Merito e Bonnacorsi (2007) observam a mesma segmentação
entre tecnologias físicas e sociais desse autor, ao analisarem tratamentos
39

Tradução da autora. Texto original: ―A critical mass of concentrated media had set into spontaneous
motion a sustained reaction of social engineering dynamics. No one had planned it and none could
control it. The whole world was watching. For the first time the Chinese, having an involved audience
was a new experience.‖
40
Tradução da autora. Texto original: ―Physical technology refers to the application of physical
science for practical purposes, and the term social technology refers to the application of social
science for practical purposes‖.

46

disponíveis para a Aids. Na Dinamarca, Andreasen (1988) cita as Conferências para
o Desenvolvimento de Consenso (CDCs) como tecnologia social poderosa, capaz de
influenciar as decisões que vão além da escolha de quais tecnologias devem ser
utilizadas pela área de saúde em diversos países. Abordagem construtivista que
prevê a análise e seleção das tecnologias em voga, disponíveis, bem como
apresenta uma institucionalização da interação social que ocorre nos CDCs, com os
grupos sociais participantes (o sociograma, no dizer de Bruno Latour) predefinidos.
Na Escola de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Hong Kong,
Leung (2006) chama os ―torpedos‖ (SMS), enviados por celulares, de tecnologia
social, ressaltando seu uso crescente entre os estudantes do segundo grau. Os
wikis (COLE, 2009) e as comunidades virtuais (SPAULDING, 2009)

também

recebem essa denominação. A própria Internet, como um todo, é chamada de
tecnologia social por Sproull e Faraj (1997). Esses autores apresentam:
[…] uma visão alternativa das pessoas na Internet como seres sociais que
estão em busca de afiliação, apoio e afirmação. Dessa perspectiva, a rede é
uma tecnologia social que permite às pessoas com interesses em comum
acharem-se, encontrarem-se e manterem-se conectadas com o passar do
41
tempo. (SPROULL; FARAJ, 1997, p. 35)

No contexto religioso, encontra-se uma resenha do livro

Practising

Protestants: Histories of Christian Life in America 1630 – 1965 (MAFFLY-KIPP,
Laurie F.; SCHMIDT, Leigh Eric e VALERI, Mark , 2006) em que Johnson (2007)
comenta a percepção de Catherine Bell e Pierre Bourdieu de que as práticas
religiosas e rituais seriam fundamentalmente ―tecnologias sociais de controle e de
disciplina‖.
Buscamos selecionar alguns sentidos do termo tecnologia social, mas
estamos cientes de que o capítulo de revisão bibliográfica permanece em aberto
para constantes atualizações, pois a expressão está em processo de semiose, seja
no Brasil ou no exterior, em uma espiral como a da ilustração que acompanha a
epígrafe, em um polilóquio contínuo.

41

Tradução da autora. Texto original: ―[…] an alternative view of people on the net as social beings
who are looking for affiliation, support, and affirmation. From this perspective, the net is a social
technology that allows people with common interests to find each other, gather, and sustain
connections over time.‖

47

2.4 DIFERENCIAÇÕES DE POSICIONAMENTO AO SE ANALISAREM CIÊNCIA,
TECNOLOGIA E SOCIEDADE
Seguindo o caminho trilhado por Kirkpatrick (2008), sociólogo que está
construindo um pensamento contemporâneo sobre a relação entre tecnologia e
teoria social, as ideias pertinentes à filosofia da tecnologia, teorias e exemplos da
sociologia podem ser divididos em três correntes: perspectiva feminista, tradição
marxista e da teoria crítica, e vertente socioconstrucionista.
A abordagem feminista, que correlaciona ―gênero‖ e ―hegemonia‖, sugere que
o preconceito formal (formal biais) é uma conseqüência de que o design da
tecnologia é moldado por interesses de gênero. Kirkpatrick cita os estudos de
Cynthia Cockburn e Susan Ormrod, coautoras do livro Gender and technology in the
making, no qual dão o exemplo do micro-ondas, artefato que promoveu o encontro
da engenharia masculina com uma tecnologia sempre associada ao papel tradicional
das mulheres, o de serem responsáveis pela tarefa de cozinhar. As autoras
feministas procuram demonstrar que no universo da tecnologia industrial, as
máquinas eram moldadas pelos interesses masculinos e capitalistas. Nesse
processo, a própria masculinidade foi representada por meio de uma relação da
técnica com uma certa masculinidade industrial, concebida com a noção de força
física e o ideal capitalista de eficiência, o que se correlaciona com a ideia de
Feenberg de que o desenvolvimento tecnológico acontece sob um horizonte repleto
de valores sociais.
Kirkpatrick sugere que as leituras tradicionais do signo ―tecnologia‖, oriundas
da teoria crítica, que tem em Marx, Habermas e Feenberg alguns de seus portavozes, deveriam se libertar em relação à suspeição direcionada às tecnologias,
especialmente no que se refere ao processo de pensar as atitudes que as tornam
possíveis. Destaca o valor de novos estudos que estão surgindo, como os de
fomento às teorias feministas e da economia política, trabalhos que permitem deixar
para trás as preocupações românticas sobre a tecnologia, como se esta fosse
apenas um segmento dos esforços das pessoas, e buscam situá-la dentro de um
contexto de crítica normativa à organização social humana.
Para analisar a construção cultural da tecnologia, esse autor cita, por
exemplo, a invenção da escova de dentes, artefato tecnológico que surgiu na China,

48

no século 16, quando eram feitas com pelos de porco encravados em cabos de
madeira. A evolução das escovas de dentes, mudanças no design, material e
técnica, no sentido que lhe atribuímos hoje, vai além de questões relacionadas à
saúde pública, o que certamente influenciou na sua permanência e aprimoramento
em todos esses séculos. ―A tecnologia só pode ser usada e fazer parte da trama da
vida para os seres humanos porque foi investida de sentido para eles‖
(KIRKPATRICK, 2008, p. 2), comenta esse autor. Exemplifica essa observação com
a menção a técnicas benéficas que foram destruídas (como o sistema de vídeo
Betamax, o carro elétrico e, no caso da China do século 14, toda uma frota de
navios que superavam, e muito, a qualidade técnica dos navios que deixaram a
Europa cem anos após esse feito). A esses exemplos, Warschauer (2003)
acrescenta o dos tipos móveis para a impressão de caracteres, que viabilizaram a
imprensa escrita, ―inventados na China, 400 anos antes de sua aparição na Europa,
porém pouco utilizados na Ásia‖ (CARTER, 1925 apud WARSCHAUER, 2003, p.
204). Kirkpatrick também menciona técnicas maléficas que foram mantidas,

por

exemplo, o consumo de radium e seus componentes para tratar dor de cabeça em
1920, o que resultava na morte dos que consumiam esse produto.
2.4.1 Poder, instrumentalismo, determinismo, substantivismo e construcionismo
Kirkpartrick aponta que a tecnologia está envolvida na mediação e
reconfiguração do poder social. Essa abordagem permeia todo o seu trabalho;
expressa, inclusive, no título escolhido: Tecnologia e poder social. Para falar sobre
cultura e sentido, cita os trabalhos de Don Ihde e Albert Borghmann, ambos nutridos
na fonte do pensamento de Martin Heidegger, filósofo alemão, que foi ―provocado‖ a
pensar sobre a técnica após a leitura do livro Les Travailleurs, de Ernst Jűnger.
Percebia a técnica intensificada como sinônimo de dominação total e planetária do
trabalhador, da qual não haveria possibilidade de escapar. Para Heidegger, a
chegada da técnica é vista como ―obscurecimento do mundo‖ e ―devastação‖:
Sem qualquer apreciação moral atribuída a essas expressões, tão-somente
à constatação do reinado do niilismo: a devastação corresponde à vontade
incondicionada que a técnica impõe em escala planetária de tudo reduzir a
algo de disponível até que haja o aniquilamento. A época da técnica é, por

49

conseguinte aquela do maior esquecimento do mundo, aquela da conclusão
42
da metafísica. (SAATDJIAN, 2009, p. 63).

Da filosofia sobre a ciência e tecnologia, Idhe e Borghmann trabalham dois
conceitos importantes: ―transparência‖ (transparency) e ―incorporação ou amálgama‖
(embodiment). Idhe defende que a interpretação da tecnologia pertence à
hermenêutica, o que o coloca a meio caminho entre substantivistas e
construcionistas, conceitos tratados a seguir. Em termos heideggerianos, é preciso
encontrar o que é revelado pela tecnologia via investigação fenomenológica. Para
esse autor, nós fazemos com que a tecnologia desapareça, ou torne-se
transparente, quando ela é incorporada nas ações rotineiras do dia a dia. Isso é
descrito como o processo de incorporação, pois quando a tecnologia se torna
transparente, ela parece ser a extensão do nosso corpo, similar ao que McLuhan
(1989) enunciou a respeito dos meios de comunicação surgidos na Modernidade.
Exemplificam com a utilização de uma bicicleta, que se ―torna transparente‖,
incorporada, quando seu condutor não racionaliza que está pedalando e se
equilibrando em duas rodas. O processo de transparência cessa no momento em
que há um defeito no artefato, como um pneu furado, que passa a não mais
funcionar como era esperado, surgindo, então, uma abordagem técnica sobre o que
está errado com o objeto em questão.
Heidegger renega a visão instrumentalista, antropológica, de que a tecnologia
envolveria

uma

manipulação

intencional

do

mundo

físico,

para

alcançar

determinados fins. Ele concebe uma visão própria, que leva em consideração o que
chama de princípio fenomenológico da prioridade da experiência.
As únicas coisas que existem para nós, como objetos de possível
experiência, não são dadas a partir daquilo que nos é ‗exterior‘, mas
ativamente reveladas por nós mesmos, por intermédio de nossa inter-relação
com o mundo. Modos diferentes de interação com o mundo estão associados
43
com experiências diferenciadas. (KIRKPATRICK, 2008, pág. 18)

Tradução da autora. Texto original: ―Heidegger parlera d´‘obscurcissement du monde‘ et de
‗dévastation‘. Aucune appréciation morale ici, mais plutôt le constat du règne du nihilisme la
dévastation correspond à la volonté inconditionnée qu´impose la technique à l´échelle planetaire de
tout réduire à quelque chose de disponible jusqu´à l´anéantissement. L´époque technique est ainsi
celle du plus grand oubli du monde, celle de l´achèvement de la métaphysique‖.
43
Tradução da autora. Texto original: ―The only things that exist for us, as objects of possible
experience, are not given from outside, so to speak, but actively revealed by us in and through our
intercourse with the world. Different modes of interaction with the world are associated with different
experiences.‖
42

50

Heidegger julgava que se nós pudéssemos sentir ―techne‖ como os gregos a
sentiam, se nós pudéssemos viver no mundo deles, poderíamos perceber que algo
bem diferente acontecia à época.

Techne seria sinônimo de revelação, não de

manufaturar, fazer e manipular; ela não ameaçava outras maneiras de compreender
por insistir na ausência de um propósito. A visão substantivista critica a tecnologia
moderna por destituir outras maneiras de apreender o mundo (aquelas não-técnicas)
de sua legitimidade, pelo julgamento restrito à eficácia de se alcançarem resultados.
Para Heidegger, a tecnologia é sempre um elemento integral do mundo e antecede
nossas ações, está amalgamada ao resto do ambiente físico que nos cerca, é em
seu trabalho que são gestados os conceitos de transparência e incorporação,
anteriormente citados.
Andrew Feenberg é um dos porta-vozes de nova teoria crítica da tecnologia,
abordagem em que desaprova a tecnologia moderna por limitar o que podemos
dizer, ―de tal forma que só concebemos o mundo em termos do que o faz utilizável e
consumível‖, observação pertinente ao substantivismo de Heidegger. Esteve no
princípio de 2009 em Brasília, como palestrante na 2ª Conferência Internacional
sobre Tecnologias Sociais, e em abril de 2010 foi palestrante no curso de Teoria
Crítica da Tecnologia na Universidade de Brasília. É ex-aluno de Herbert Marcuse,
notório integrante da Escola de Frankfurt, que por sua vez é um dos quatro
estudantes judeus que tiveram Heidegger como professor (além de Marcuse,
Hannah Arendt, Hans Jonas, Karl Löwith, todos seguiram a carreira de filósofos
sociais) (FEENBERG, 2005). Assim como Adorno e Horkheimer, Marcuse associava
a tecnologia a uma ―violência que se apropriava da posição original dos objetos no
mundo e os desnudava para demonstrar a sua inutilidade para a sociedade‖:
[...] a intensificação do progresso parece estar ligada a uma intensificação
da ausência de liberdade. Por todo o mundo da civilização industrial, o
domínio do homem pelo homem está a crescer em âmbito e eficiência. E
essa ameaça tampouco se apresenta como uma transitória regressão
incidental na via do progresso. Os campos de concentração, a exterminação
em massa, as guerras mundiais e as bombas atômicas não são ‗recaídas
no barbarismo‘, mas a irreprimida implementação das conquistas da ciência
moderna, da tecnologia e dominação. E a mais eficaz subjugação e
destruição do homem pelo homem se estende no cimo da civilização,
quando as realizações materiais e intelectuais da humanidade parecem
permitir a criação de um mundo verdadeiramente livre.‖ (MARCUSE, 1975,
p. 28)

51

Adorno e Horkheimer diziam que ―a modernidade capitalista liberta a
tecnologia para garantir os seus ganhos de produção, mas o resultado é uma
sociedade na qual as considerações de valor e significado são ameaçadas pelo
instrumentalismo‖. Outro frankfurtiano, Jűrgen Habermas, compreendia a tecnologia
como fruto da ação instrumental, ―ação estratégica‖, a qual opõe à ―ação
comunicativa‖, o que será abordado no capítulo 5.
Schroeder (2007), que ousa ser uma voz dissonante desse debate ao
questionar ―quem tem medo da objetividade e do determinismo?‖, ao falar dessa
maneira ―internalista de pensar C&T‖, ele a traduz como a visão daqueles que
afirmam que vivemos em uma sociedade da informação ou do conhecimento ou que
C&T revolucionaram a sociedade em que vivemos. Para Schroeder, é uma visão
que está fora de moda entre os pesquisadores, embora seja pervasiva na sociedade
como um todo e seja apresentada em ―escritos populares sobre C&T‖. Schroeder
adota a definição de ciência de Ian Hacking: ―intervenção e representação‖.
É dito que a ciência tem dois propósitos: teoria e experimento. Teorias tentam
dizer como é o mundo. Experimento e subseqüente tecnologia mudam o
mundo. Nós representamos e intervimos. Representamos para intervir, e
intervimos sob a luz das representações. A maior parte do debate sobre
realismo científico na atualidade é expresso em termos de teoria,
representação e verdade. As discussões são iluminadoras mas não
conclusivas. Isso se deve, parcialmente, ao fato de estarem tão embebidas em
uma obstinação metafísica. Suspeito que não possa haver argumento a favor
44
ou contra o realismo no nível da representação. (HACKING, 1983, p. 31)

E apresenta a própria definição de tecnologia: ―refinamento e manipulação‖,
considerando ambas como definições realistas que ―postulam que o mundo e o
conhecimento são separados, como o são os artefatos e o meio ambiente que eles
moldam, o que faz com que seja a principal tarefa das ciências sociais analisar como
os dois lados se entrosam.‖ (SCHROEDER, 2007, p. 2)
Em seu livro, Schroeder surpreende em relação ao pensar dominante, o de
defesa do construcionismo ─ que esse autor aponta até mesmo como uma ortodoxia

44

Tradução da autora. Texto original: ―Science is said to have two aims: theory and experiment.
Theories try to say how the world is. Experiment and subsequent technology change the world. We
represent and we intervene. We represent in order to intervene, and we intervene in the light of
representations. Most of today´s debate about scientific realism is couched in terms of theory,
representation, and truth. The discussions are illuminating but not decisive. This is partly because they
are so infected with intractable metaphysics I suspect there can be no final argument for or against
realism at the level of representation.‖

52

entre os pesquisadores ─ ao argumentar que, para se compreender a relação entre
ciência, tecnologia e mudança social, é essencial compreender que em aspectos
cruciais a ciência está separada da cultura e da sociedade. O carro, o telefone e a
televisão são três exemplos citados pelo autor ao observar como a tecnologia tornase cultura a partir do momento em que é traduzida no uso quotidiano.
Embora seus argumentos sejam construídos para provocar novo olhar sobre
a polarização do debate entre construcionismo e determinismo, essa ideia de que
C&T causam mudanças indiscriminadas na sociedade, é bom lembrar que esse
conceito não pertence à divisão proposta inicialmente por Kirkpatrick em seu
trabalho. Schroeder, que não fala de substantivismo, tem pontos de interseção com
Heidegger, autor ausente em suas referências, ao mencionar o ―desencanto‖: o lado
social da ciência, seguindo Max Weber, é sinônimo de desencanto. E ―a tecnologia
estende esse desencanto para o mundo social ao criar uma prisão de relações
mediadas por artefatos.‖ Dada essa afinidade com Heidegger, optamos por incluí-lo
como uma espécie de parêntesis em meio à sequência de Kirkpatrick que estamos
seguindo.
A teoria crítica de Andrew Feenberg em relação à tecnologia tem por base a
combinação de uma abordagem pragmática e fenomenológica em relação à
hermenêutica da tecnologia que incorpora tanto uma dimensão instrumental, quanto
os aspectos sociais. Para Feenberg (1991) existe a possibilidade de interferência em
relação às escolhas tecnológicas, um redesenho:
Os seres humanos devem se submeter à dura lógica das máquinas, ou a tecnologia
pode ser redesenhada para melhor servir aos seus criadores? […] Se a tecnologia é
neutra, os seus imensos e comumente perturbadores impactos sociais e ambientais
são efeitos colaterais acidentais do progresso. Os debates atuais estão polarizados em
torno da questão se esses efeitos colaterais negativos superam os benefícios. Os que
advogam por maior progresso clamam a ‗razão‘ como aliada, enquanto seus
adversários defendem a ‗humanidade‘
e a ‗natureza‘ contra as máquinas e
organizações sociais mecanicistas. O palco está armado para um embate a favor e
45
contra a tecnologia.‖
(FEENBERG, 1991, p. 5)

45

Tradução da autora. Texto original: ―Must human beings submit to the harsh logic of machinery, or
can technology be fundamentally redesigned to better serve its creators? This is the ultimate question
on which the future of industrial civilization depends. It is not primarily a technical question but
concerns a fundamental issue in social philosophy, the neutrality of technology and the related theory
of technological determinism. If technology is neutral, then its immense and often disturbing social and
environmental impacts are accidental side effects of progress. Much current debate polarizes around
the question of whether these side effects outweigh the benefits. The advocates of further progress

53

Se a visão substantivista define a tecnologia como algo em que a cultura
moderna está incorporada (embedded), e por meio da qual os cidadãos modernos
são ―jogados‖ em uma perspectiva pré-enquadrada (enframed) do mundo, os
construcionistas advogam o oposto. Para esses, a tecnologia estaria incorporada na
cultura, ativamente moldada pelos atores sociais que as abastecem de significados
e as ―moldam‖ para que reflitam os desejos e interesses de formas (nãotecnológicas) da vida coletiva. Consideram que as descobertas, categorias, artefatos
ou instituições têm uma história social. Eles atribuem um sentido particularmente
forte ao papel da linguagem em fazer com que os fatos sejam o que são. O fator
decisivo na construção dos fatos e artefatos é a representação por meio de agentes
sociais na linguagem. Essa abordagem tem um papel importante no aparecimento
do termo ―tecnologias sociais‖ no Brasil, o que será abordado posteriormente.
Ian Hacking, em seu livro The Social Construction of What?, relata:
[…] construcionistas defendem que as classificações não são determinadas
pelo que o mundo é, mas são formas convenientes para representá-lo.
Sustêm que o mundo não vem convenientemente embrulhado em fatos. Os
46
fatos são as consequências das maneiras como representamos o mundo.
(HACKING, 1999, p. 33)

Aplicada à tecnologia, a posição construcionista envolve a identificação dos
fatores sociais relacionados à criação e ao uso de uma tecnologia. Além disso, foca
em como a linguagem utilizada pelas pessoas para entenderem o que estão fazendo
em relação ao artefato tem a função de elucidar como este se desenvolve,
determinando qual o papel que vem a desempenhar nas atividades humanas.
2.4.2 História social de um artefato, o exemplo construcionista da bicicleta
O modelo clássico que ilustra a visão construcionista ao se narrar a história social de
um artefato diz respeito à bicicleta, exemplo fornecido por Bijker e Pinch (1997).

claim "reason" as their ally while the adversaries defend "humanity" against machines and mechanistic
social organizations. The stage is set for a struggle for and against technology.‖
46
Tradução nossa. Texto original: ―constructionists tend to maintain that classifications are not
determined by how the world is, but are convenient ways in which to represent it. They maintain that
the world does not come conveniently wrapped up in facts. Facts are the consequences of ways in
which we represent the world.‖

54

Esses autores abordam em seu trabalho as três áreas dos estudos sobre ciência e
tecnologia: sociologia da ciência; relação entre ciência e tecnologia e estudos sobre
tecnologia.

Figura 6 – Passo a passo na elaboração social de um artefato em termos construtivistas, segundo
a descrição encontrada no texto de Bjiker e Pinch (1997); ilustração produzida pela autora.

Enquanto Kirkpatrick usa o termo ―construcionista‖

(constructionist), por

preferir uma diferenciação em relação ao movimento artístico construtivista, esses
autores irão fazer referência a uma visão social ―construtivista‖ (constructivist), à qual
Schroeder acrescenta a opção de se dizer ―modelagem social‖ (social shaping)
como sinônimo, que é a parte do trabalho que nos interessa resgatar.
A representação de como se deu a evolução do processo decisório sobre o
design da bicicleta que deveria prevalecer, conforme as etapas de seleção
anteriormente expressas (figura 6), são esquematizadas por Bijker e Pinch, e as
ilustramos na figura 7. De acordo com esses autores, as linhas pontilhadas indicam
propostas que fracassaram, e as que estão à esquerda, são as opções que
prevaleceram.

55

Bijker e Pinch abordam quais foram os grupos sociais que influenciaram o
desenvolvimento do modelo de bicicleta denominado penny farthing em meio às
concorrentes (facile, xtraordinary, star e club safety), entre os quais estariam as
mulheres, beneficiadas pela roda da frente maior por usarem vestidos longos no final
do século 19; aliadas aos que usavam a bicicleta com intuito esportivo, que
gostavam da roda dianteira maior para amortecer a passagem por lombadas e para
ganhar maior velocidade. Os aspectos de segurança foram incluídos para satisfazer
os usuários idosos e turistas que usavam esse meio de locomoção. Com a chegada
dos pneus com câmera de ar e uma pressão incessante para o uso esportivo do
artefato, houve mudanças que fizeram com que o design que se estabeleceu
(rhetorical closure, sinônimo de desaparecimento dos problemas ou lock-in, na teoria
de Feenberg, ponto que fecha uma decisão sobre o padrão tecnológico que

Figura 7 – Modelos de bicicletas que competiram entre si até se chegar aos tipos que prevaleceram.
Montagem feita pela pesquisadora com fotos de domínio público.

56

prevalecerá daquele momento em diante sem perspectiva de retrocesso) até os dias
atuais fosse o de ambas as rodas com o mesmo tamanho.
2.4.3 Sociogramas e tecnogramas
Bruno Latour (1987) considera a abordagem construcionista algo idealista e
propõe um passo à frente, com uma ―sociologia da associação‖. Argumenta que
cada tecnologia reúne o desenho de um ―sociograma‖ de alianças com interesses
sociais sobre uma configuração específica de elementos técnicos, aos quais ele
denomina ―tecnograma‖. Ambos os conceitos, na leitura de Feenberg (2002), seriam
as duas faces da mesma moeda, em que uma configuração técnica em particular
refletiria a influência específica de uma rede de atores. A isso se atrelaria o fato de
que cada definição de tecnologia só pode ser encontrada na interseção dos dois
sistemas.
Bruno Latour e Michel Callon, formuladores da Teoria Ator-Rede (ANT), são
adeptos do ―construtivismo radical‖. Consideram que uma rede é formada tanto por
elementos humanos quanto não humanos e todos devem ser considerados ao se
descobrir que cada ator é, na verdade, uma rede, constituída pelas pessoas com
quem se relaciona e, também, por animais e objetos, como livros, mesa, telefone,
computador, sala etc.
[…] agentes sociais não estão nunca localizados em corpos e somente em
corpos, mas, ao contrário, um ator é uma rede de certos padrões de
relações heterogêneas, ou um efeito produzido por tal rede. O argumento é
que pensar, agir, escrever, amar, ganhar dinheiro – todos atributos que nós
normalmente encontramos nos seres humanos, são produzidos em redes
que passam através do corpo e se ramificam tanto para dentro, como para
além dele. Daí o termo ator-rede – um ator é também, e sempre, uma
47
rede. (LAW, 1992, p. 4)

Há quem considere o ideário de Latour uma espécie de devaneio, por não se
propor a construir um discurso alinhado ao da sociologia da tecnologia que diria
respeito ao funcionamento dos artefatos, do ponto de vista técnico; à análise social
visando entender a interpretação que os indivíduos atribuem a determinado item; e
uma crítica normativa que avaliaria os usos atuais da tecnologia em relação àqueles
47

Tradução da autora. Texto original: ―social agents are never located in bodies and bodies alone, but
rather that an actor is a patterned network of heterogeneous relations, or an effect produced by such a
network. The argument is that thinking, acting, writing, loving, earning – all the attributes that we
normally ascribe to human beings, are generated in networks that pass through and ramify both within
and beyond the body. Hence the term, actor-network – an actor is also, always, a network‖.

57

que permanecem no campo das possibilidades. Para Latour, o foco da teoria atorrede está na codificação das relações entre redes sociais em um discurso
explanatório e interpretativo.
2.5 ORIGEM E USO DA EXPRESSÃO ―TECNOLOGIA SOCIAL‖ NO BRASIL
Como processo comunicacional, a
rede de tecnologia social brasileira,
ou mesmo latino-americana, pode
ser mais bem explicitada com a
perspectiva
tentativa

de

relações,

de

Latour,

codificação
acrescidas

uma
das
de

significados.
Para compreender o uso
Figura 8 – Esboço de ―bola de neve‖, com os elementos
cujos processos comunicativos podem estar diretamente
associados à disseminação de ideas e uma linguagem que
contribuiu para o fortalecimento de uma rede de
tecnologias sociais no Brasil.

do

termo

tecnologia

social,

conforme é empregado no Brasil
nos últimos anos, é possível

elaborar o rascunho de uma espécie de sociograma (figura 8), com alguns
elementos impulsionadores do que certamente se transformou em ―bola de neve‖,
metáfora usada por esse autor para dizer que as inter-relações em rede estão em
constante expansão. É preciso fazer a ressalva que essa história é contada de
maneiras diferenciadas, e as referências bibliográficas, os testemunhos coletados e
a possibilidade de estarmos presentes em alguns desses fóruns conduziram-nos a
essas escolhas.
2.5.1 CT&S – temática que se mantém e ganha força no transcorrer das últimas
décadas
A localização no tempo e espaço da gestação da rede de tecnologia social é
incerta, e neste capítulo encontra-se explicitação de várias fontes de ―polinização‖ e
semiose do termo, ideias e linguagem que acompanham essa rede, fórum,
movimento. Há, por exemplo, um respondente a nosso questionário de pesquisa que
aponta a conclusão de seu mestrado sobre tecnologias sociais em 1986. Antes dele,

58

Renato Dagnino escolhera como tema de sua dissertação de mestrado, em 1978, as
tecnologias apropriadas, com o título – Tecnologia apropriada: uma alternativa?
Antes disso, as atividades de extensão universitária, iniciadas nos anos 1950
e 1960, evoluíram e ganharam novas tonalidades na década de 80, aproximando-se
de um ideário que Hess (1997) chama de Estudos de Ciência, Tecnologia e
Sociedade, ou somente ―CT&S‖, no Brasil, com o ―S‖, de sociedade, trazendo à baila
a preocupação com assuntos referentes à justiça social bem como crescente multi e
interdisciplinaridade nos processos comunicacionais de ―unidades que iam além de
organizações formais, como laboratórios, disciplinas, departamentos e organizações
de pesquisa‖. Busca-se maior proximidade entre o problema de pesquisa e o
―problema social‖, conforme mencionado no item 2.3.4 desta dissertação. A
expressão ―invisible college‖, atribuída a Robert Boyle, no século 17, mantém-se em
processo de semiose e foi ressignificada em 1972, quando Diana Crane a utilizou
com o sentido de ―redes de comunicação‖, ―círculo social‖, ―grupo de solidariedade‖
(HESS, 1997, p. 73). Coincidentemente, um dos respondentes ao questionário desta
pesquisa disse que o movimento pelas TSs é algo que começou como ―movimento
invisível‖.
O fortalecimento da Sociedade civil, principalmente nos setores
comprometidos com as classes populares, em que oposição ao
enfraquecimento da sociedade política, ocorrido na década de 80, em
especial nos seus últimos anos, possibilita pensar a elaboração de uma
nova concepção de Universidade, baseada na redefinição das práticas de
Ensino, Pesquisa e Extensão até então vigentes. Do assistencialismo
passou-se ao questionamento das ações desenvolvidas pela extensão; de
função inerente à Universidade, a Extensão começou a ser percebidas
como um processo que articula o ensino e a pesquisa, que organiza,
assessorando, os movimentos sociais que estavam surgindo. (BRASIL,
2010)

Almeida (2010) relaciona a contribuição da extensão universitária ao
desenvolvimento de tecnologias sociais com vários ciclos virtuosos, desde o
destaque ao acesso de grupos populacionais às políticas públicas, até a renovação
dos conteúdos em sala de aula e aproximação da pesquisa com a ―descoberta da
realidade, dos problemas da população e das respostas aos problemas para a
imediata apropriação dos resultados‖. Há também uma inter-relação com a
percepção de Joseph Coates, que correlaciona tecnologia social à importância de
novas institucionalidades: ―quebrar resistências, modificar arranjos institucionais,

59

valorizar nichos e iniciativas emancipadoras são condições necessárias para a
profícua relação universidade-comunidade‖ (ALMEIDA, 2010, p. 15).

Localizou-se no Relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre
as Dimensões e Causas do Atraso Tecnológico Brasileiro (BRASIL, 1992) uma boa
oportunidade para imiscuir-se entre os doutos da discussão sobre C,T&I no país,
como ocorria nos anos 1990. Essa CPMI, ao contrário das atuais, não tratou de
crimes de lesa-pátria. Dedicou-se a inquirir 100 pessoas com atuação de destaque e
conhecimento aprofundado em diversos setores – naval, aeronáutico, aeroespacial,
eletrônico, automobilístico, de telecomunicações, agroindustrial, químico, energético,
mineral, educacional, de biotecnologia, entre outros. Pode-se observar correlações
com o Centro de Estudos dos Problemas Humanos de Jean Coutrot (mencionado
anteriormente, no item 2.3.1), pois são fóruns que surgem em momentos de crise
nacional e buscam, na intelligentsia do país (abordagem top-down), a capacidade de
gerar propostas para uma reengenharia que fomente o desenvolvimento econômico
e social, à época de Coutrot também chamada de tecnologia social.
Se fizermos os conteúdos dessa CPMI dialogar com discursos da atualidade,
é notável, por exemplo, a sincronicidade de certas abordagens, como a de José
Walter Bautista, em 1991, analisando as alternativas energéticas do país nessa
CPMI, como se constata no trecho a seguir:
[...] essa energia (referindo-se à energia solar) que incide sobre o continente
brasileiro é equivalente, por dia, à energia produzida por 300 mil Itaipus
funcionando 24 horas por dia. Como um país, com essa exuberância
energética, pode viver uma crise energética e montar uma dívida externa
por causa dessa crise? [...] Então, a perspectiva industrial, qualquer
perspectiva de desenvolvimento não é absolutamente viável sem um
parâmetro crucial, que é a questão energética. Sem energia não há
indústria, não há agricultura, não há transporte, não há vida, nem do ser
humano nem da ameba. (BRASIL,1994, p. 112)

E ecoam, em estreita relação, no ideário da palestra de João Nildo Vianna, professor
do Centro Desenvolvimento Sustentável da UnB e pesquisador associado da
Faculdade de Tecnologia da UnB, com pesquisas na área de energia em
comunidades agroextrativistas e indígenas na Amazônia . Vianna discorreu sobre a
qualidade da matriz energética brasileira, no Ciclo Feenberg48, forma abreviada de
48

Disponível em: http://www.unbcds.pro.br/omts/index.html Acesso em maio de 2010.

60

fazer referência ao curso ―A Teoria Crítica da Tecnologia, de Andrew Feenberg:
Racionalização Democrática, Poder e Tecnologia‖, realizado na UnB em abril e maio
de 2010. Nildo explicitou nessa ocasião os dados que fazem da escolha pela energia
nuclear uma opção ―politicamente insustentável e sem competitividade econômica‖.
Sua fala coincidiu com o momento em que 120 mil manifestantes alemães uniram os
braços em uma corrente pacífica ligando as cidades de Brunsbuettel e Kruemmel,
cortando Hamburgo, no norte do país, ao se oporem às decisões do governo em seu
portfólio favorável à manutenção de uso da energia nuclear (ROHAN; SENGER, 2010),
uma iniciativa construtivista (bottom-up), e que está na gênese de todo discurso
sobre tecnologias sociais no Brasil e em outros países: a pressão pelo ―redesenho‖,
inter-relação aventada por Feenberg, ou ―adequação sociotécnica‖, no dizer de
Dagnino.
Da mesma forma que Latour, com o seu ―Ciência em Ação‖ propõe que é
necessário seguir cientistas e engenheiros sociedade afora, para se desvendar a
bola de neve dos movimentos e mudanças gerados por esses profissionais, no caso
das tecnologias sociais, seria preciso seguir esses atores, os bastidores por onde
circularam e as relações construídas e nutridas para se desenhar o sociograma
daqueles que, a partir da década de 80, já manifestavam afinidades com o tema,
hoje chamado tecnologias sociais, e se mantiveram nesse caminho.
No caso do Instituto de Tecnologia Social (ITS), sua gerente executiva, Irma
Passoni, foi a relatora da CPMI sobre as Dimensões e Causas do Atraso
Tecnológico Brasileiro. O ITS mantém-se protagonista na construção de um fórum
nacional das ONGs que conversam e atuam em interface com as tecnologias
sociais, com ampla produção bibliográfica e textos didáticos voltados à
popularização do tema (PASSONI, 2007). Além da participação na Conferência
Nacional de C&T, em 2001, houve dois seminários, organizados por essa instituição,
com o apoio da Academia Brasileira de Ciência (ABC) e do MCT, com o tema ―Papel
e inserção do terceiro setor na construção e desenvolvimento da ciência, tecnologia
e inovação‖. Ambos os encontros têm o relato dos conteúdos das discussões em
arquivos de acesso público na Infoteca do ITS. O primeiro seminário ocorreu na
capital do país, em 2002; e o segundo foi realizado em São Paulo, em 2003, com a
participação de 40 e 100 ONGs, respectivamente. Frutos desses encontros são a
construção de um conceito para tecnologia social, o Centro Brasileiro de Referência

61

em Tecnologia Social (CBRTS), o Diretório da Pesquisa Privada (DPP), a
Declaração das ONGs: Ciência e Tecnologia com Inclusão Social, entre outros feitos
que propagaram ainda mais uma rede de tecnologia social, em seu sentido amplo,
igualmente denominada ―fórum‖ ou ―movimento‖.
A Fundação Banco do Brasil é outra liderança com senioridade e ampla
atuação na mobilização, divulgação e disseminação das tecnologias sociais,
partícipe de ambos os fóruns anteriormente citados, com inserção em escala
nacional, mantendo um banco de tecnologias sociais e uma premiação que
anualmente consagra os empreedimentos de sucesso:
Contribuir para a inclusão e transformação social, por meio de ações que
visam a sustentabilidade das comunidades envolvidas. Esse é o propósito
da Fundação Banco do Brasil, que atua na identificação, reconhecimento e
investimento de Tecnologias Sociais, isto é, produtos, técnicas ou
metodologias reaplicáveis, desenvolvidos na interação com a comunidade e
que representem efetivas soluções de transformação social. (FUNDAÇÃO
BANCO DO BRASIL, 2010)

Em 2003, foram gestadas a Rede de Tecnologias Sociais (RTS)49 e a
Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis) do MCT, novos
arranjos institucionais que perpetuam, multiplicam e ressignificam os conteúdos dos
fóruns anteriormente mencionados, destacando-se à época da criação de ambas,
além dos atores já referidos, a inserção de novos elementos e relações, como foi o
caso da participação da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão
Estratégica da Presidência da República (Secom – PR) e do Serviço Brasileiro de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
2.5.2 Referências sobre o tema
Conforme ressaltado no item 2.3.1, lembremos que Martina Rillo reportou
haver encontrado ―21 organizações e 26 textos‖ em seu levantamento bibliográfico,
há seis anos. Esse cenário de referências sobre o tema encontra-se em expansão,
com número crescente de textos que abordam essa temática e servem para elucidar
como está se desenvolvendo a história e o interesse pelas TSs no Brasil. Ao
pesquisar sobre tecnologia social na base da Scielo (figura 9), os resultados obtidos
foram os seguintes:

49

Quando a RTS foi criada, reunia 30 instituições. Em 2010, são mais de mil membros associados.

62

Base

Termo da busca

Resultado

Artigos selecionados

Scielo (Brasil)

tecnologia social

142

35

Scielo (Brasil)

―tecnologia social‖

2

Contidos na busca anterior

Scielo (Brasil)

―tecnologias sociais‖

2

Não estavam incluídos nos

consultada

resultados anteriores
Figura 9 – Pesquisa realizada na base Scielo, em 2009, para encontrar trabalhos que abordem a
questão da(s) tecnologia(s) social(is).

Desses, apenas um dos artigos (RODRIGUES; BARBIERI, 2008) traz o
ideário recente que contextualiza a construção de um conceito de tecnologia social
como o que foi elaborado, inicialmente, em rede, pelo Instituto de Tecnologia Social
em parceria com as ONGs, Fundação Banco do Brasil, Academia Brasileira de
Ciência (ABC) e Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). O conceito de tecnologia
social, construído coletivamente, apresenta algumas nuanças de diferenciação nos
consensos enunciados, com o passar do tempo e realização de novos fóruns. A
seguir, dispomos quatro exemplos de variação de enunciação.
Na figura 10, o discurso da Academia, inspirado na teoria crítica, de
resistência ao capitalismo e a seus valores, não está explícito nesses enunciados,
mesmo que haja menção à ―inclusão e transformação social‖. Franquia (reaplicação)
e responsabilidade social estão presentes em interseção com o discurso do governo
que preza pela ―simplicidade‖ das tecnologias, com certo ―agravante ideológico‖, ao
dizer que as tecnologias sociais destinam-se aos mais carentes, em substituição à
palavra ―comunidade‖ (que não é seletiva em relação à classe social), o que pode ter
várias interpretações, inclusive a da vontade de controle, de barrar o acesso das
―populações mais carentes‖ às tecnologias das classes A, B e C.
No caso dos quesitos de sustentabilidade, a atividade de lidar com o lixo, por
exemplo, no Brasil, tem a predominância do ―passe de mágica‖, observado por
Marcondes: ―a relação das pessoas com o lixo é mágica. Colocam-se os resíduos
em um saquinho na calçada e ‗puf‘, ele desaparece‖ (MARCONDES, 2010, p. 39).
Ao distinguir TS ―para os mais carentes‖, a economia, o discernimento, trabalho e
até sacrifícios que uma consciência e um agir ambientalmente responsável

63

Figura 10 – Conceitos de tecnologia social, diagramados de forma a ressaltar os elementos que os
constituem.

requerem ficariam como incumbência das populações mais carentes, enquanto, no
topo da pirâmide, o paraíso da produção nociva ao meio e o consumo desenfreado
da

throw-away

society

(TOFFLER,

1970),

ficaria

preservado,

sem

os

questionamentos do ―pensar globalmente, mas agir localmente‖, mantendo-se a
relação mágica da produção e ―sumiço‖ do lixo. O mesmo raciocínio se aplica a
países desenvolvidos que advogam por medidas de contenção da poluição fora de
seus territórios, mas não assinam termos de compromisso nos quais esteja em jogo
a própria participação na construção da sustentabilidade.

64

Figura 11 Resultados ―numéricos‖ da busca por ―tecnologia(s) social(is)‖ no Google e
Google Acadêmico, em 2009.

As publicações do ITS, MCT, Fundação Banco do Brasil, Rede de Tecnologia
Social, bem como as de Brandão (2001 e 2004), Dagnino (2004 e 2009) e Rocha
Neto (2007), que são marcos referenciais ao se buscar pensar esse ―movimento‖,
foram encontradas nos links oferecidos no Google, ao se usar a mesma estratégia
de busca da Scielo, em 2009, como se pode visualizar na figura 11.
Outro reduto de massa crítica sobre TSs, mais recente, é o Observatório do
Movimento pela Tecnologia Social na América Latina50, que tem uma linha de
pesquisa dentro do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade
de Brasília (UnB) – ―Ciência, Tecnologia e Inovação para a Sustentabilidade‖,
aprovada em outubro de 2007, pela diretoria do CDS. Os objetivos do Observatório

50

Thomas e Fressoli (2009), em trabalho publicado na coletânea organizada por Dagnino,
mencionam o propósito de desenvolver uma metodologia de estudos de casos relacionados às
tecnologias sociais no Brasil, Uruguai e Argentina. Andrés Randazzo, da Sanut, instituição que tem
por missão a erradicação da desnutrição infantil em áreas rurais no México, participou, assim como
Thomas, da 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social, em Brasília, 2009.

65

encontram-se listados em uma ―Carta Transparência‖, de maio de 200951, disponível
on-line e que sintetizamos, grosso modo, como fomento ao debate sobre
democratização da tecnologia como fundamento para sociedades sustentáveis,
lembrando que ―sustentabilidade‖ foi o conceito-chave da 4ª Conferência Nacional
de Ciência, Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI), onde circulou a publicaçao mais
recente sobre o tema Tecnologia Social e Desenvolvimento Sustentável (REDE DE
TECNOLOGIA SOCIAL, 2010).
Na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) encontraramse resultados que aproximam o tema da preocupação ao meio ambiente, mais
especificamente quanto à gestão dos resíduos sólidos, como é o caso do trabalho
de Luciana Lopes (2006), bem como no uso e tratamento dos recursos hídricos,
novos materiais para habitações ―populares‖, novas tecnologias para a saúde
humana, área em que merece destaque o case dos fitoterápicos que passaram a ser
reconhecidos e utilizados pelo Sistema Único de Saúde (CARVALHO, 2009),
interseção com o terceiro sentido de folk technology anteriormente descrito,
utilização de saberes ancestrais que estão em harmonia com o meio.
O acaso, ao pesquisar no Banco de Teses e Dissertações da Área de
Comunicação da USP, conduziu-nos ao trabalho de Sílvia Salgado (2005), que, da
mesma forma que o relatório da CPMI das causas e dimensões do atraso
tecnológico brasileiro, não utiliza a expressão ―tecnologia(s) social(is)‖ em momento
algum, porém faz todo um resgate de processos comunicativos como instrumentos
de gestão e participação cidadã em uma esfera municipal de governo. É o que Mayo
e Moore (2001) denominam ―o Estado mútuo‖, descrevendo como as comunidades
locais podem participar na elaboração e gestão de políticas públicas. A tese de
Salgado, ao narrar o caso da Rede de Comunicação de Experiências Municipais
(Recem), explicita que entre 1987 e 1990, o desenvolvimento local participativo já
dava muito o que falar sobre gestão local; consórcios intermunicipais, poder local e
cidadania

talvez

ainda

não

fossem

denominados

―desenvolvimento

local

participativo‖, mas já havia a predisposição para inquirir como se dá a comunicação
sob a perspectiva de aproximação entre Estado e sociedade nas comunidades
estudadas.
51

Disponível em: http://professores.cds.unb.br/omts/conteudo_arquivo/060509_18B536.pdf. Acesso
em: 4 jun. 2010.

66

2.5.2.1 Tecnologias apropriadas

Figura 12 – Algumas expressões selecionadas na dissertação de Brandão (2001), acrescidas de
outras mais recentes, sobre a busca de sentido valorativo das tecnologias. Ilustração da autora.

O movimento das tecnologias apropriadas (TAs) é apontado como o berço
das tecnologias sociais no Brasil, com uma correção imprescindível ao se falar sobre
esse tema, pois tecnologia não é mais algo de que devemos nos apropriar ou tentar
reproduzir de forma acrítica, e sim um processo comunicativo e de construção
conjunta de soluções para os problemas das comunidades, a busca por uma
―adequação sociotécnica‖, no dizer de Renato Dagnino em sua palestra no Ciclo
Feenberg e em seus artigos. A figura 12, com uma seleção de termos encontrados
na dissertação de mestrado de Brandão (2001), explicita essa busca por novos
sentidos associados à tecnologia com o passar do tempo, e demonstra o predomínio
da preocupação com valores ao se adjetivar tecnologia.

67

Figura 13 – Flávio Cruvinel Brandão apresenta os conteúdos de seu trabalho na 2ª
Conferência Internacional de Tecnologia Social em 2009. Rodrigo Fonseca é o
terceiro participante à direita. Foto da autora.

Brandão (figura 13) menciona que ―a bibiliografia sobre as TAs reconhece a
sua origem, em termos explícitos e organizados, nos pensamentos e práticas de
reformadores hindus do século 19‖. (BRANDÃO, 2001, p. 29). Talvez isso esteja na
origem de um texto mais recente que menciona que o conceito (de tecnologia social)
―tem a sua origem na Índia de Mahatma Ghandi, líder que acreditava na adaptação
das tecnologias à realidade local e pregava a autonomia das comunidades a partir
de atividades já dominadas pelo conhecimento popular‖ (BRASIL, 2010). Brandão
menciona que, no mundo ocidental, a introdução das tecnologias apropriadas ficou a
cargo de Ernst Friedrich Schumacher52, que lançou o conceito de tecnologia
intermediária (não a ―tecnologia de baixo nível‖, perpetuadora da pobreza das
populações mais carentes, nem a tecnologia sofisticada e moderna do Ocidente).
Schumacher constatou que não havia um meio termo entre ―tecnologias de baixo e
alto teor‖. Menciona a necessidade de se ter ―sapatos confortáveis‖, por exemplo. Na
figura 14, buscamos explicitar como esse ―alto teor‖ está traduzido em quesitos de
competitividade na indústria calçadista da atualidade (UFRJ e UNICAMP, 2009),
com o contraponto do inusitado sucesso das Havaianas brasileiras que, em vez do
conjunto de ―altos teores‖, ganhou ascendência com diferenciação de modelos,

52

Autor de Small is beautiful: economics as if people mattered. New York: Perennial Library, Harper &
Row, 1973.

68

Figura 14 – Ilustração da autora, com os elementos que contribuem, na atualidade, para que
um calçado tenha alto teor de conhecimento agregado. Incluímos o case das Havaianas, que
representa um desdobramento inusitado de sucesso na indústria de calçados brasileira.

mudança da embalagem e forma de distribuição, bem como marketing e presença
constante na mídia53.
Vale notar que em relação à economia solidária, que em 2007 já contava com
22 mil empreendimentos econômicos solidários no Brasil, a expressão ―tecnologia
apropriada‖ continua a ser a escolhida entre as muitas opções existentes (como as
que aparecem na figura 12), com ressignificação em relação a seu sentido original:
A Plataforma da Economia Solidária, ao enfatizar a necessidade de
‗desenvolvimento e acesso às tecnologias apropriadas à Economia
Solidária‘, qualifica as tecnologias apropriadas como aquelas que
‗respeitando a cultura e os saberes locais, agrega-lhes maior valor e garante
a melhoria das condições de trabalho, de saúde e de sustentabilidade
ambiental dos empreendimentos‘. (SILVA E FARIA, 2010, p. 66)

Para Ivan Rocha Neto, o conceito de ―tecnologia apropriada‖ não deve ser
confundido com a noção de ―tecnologia social‖. Pondera que o primeiro tem sido
usado ―em oposição à tecnologia de ponta, ou que tem por base os avanços
científicos mais recentes‖, fazendo a ressalva:
Nada contra esta distinção, que se consolidou na literatura, mas todas as
tecnologias precisam ser apropriadas, no sentido de sua adequação ética,
social, econômica e política, independentemente de seus graus de
sofisticação. (ROCHA NETO, 2007, p. 3)

Na atualidade, constatou-se nas referências consultadas um diferencial na
percepção de alguns autores indianos54, em relação a brasileiros, pois os primeiros,
53

Informações obtidas na palestra de Rui Porto, diretor de comunicação e mídia da São Paulo
Alpargatas, no 2º Seminário Internacional de Comportamento e Consumo, realizado no Rio de
Janeiro em 2007.
54
Faz-se tal menção relacionada aos autores citados em relação a um dos sentidos de folk
technology. Porém, há movimentos na Índia que estão em correlação a uma crítica da pegada

69

ao abordarem as folk technologies, não o fazem com uma visão anticapitalista, e sim
de crença no milagre da ―multiplicação da riqueza‖, aumento da produção e
consumo de bens e serviços como força motriz para maior e melhor distribuição de
riqueza e conhecimento. Conforme enunciado por Subramaniam, aumento do PIB e
o exemplo da Revolução Verde são as orientações para reprodução do sucesso.
Contraste em relação às vozes brasileiras, ou latino-americanas, que
advogam pela tecnologia social com um olhar crítico e diferenciado, quando está em
debate o modelo capitalista de produção e consumo de bens e serviços,
especialmente o que denominam jobless growth economy, economia do crescimento
com muito desemprego. Dowbor (2005) é um dos porta-vozes da crítica ao Eldorado
do PIB – ―irracionalidade econômica, social e ambiental‖ – analisando que há muitos
recursos, pessoas e solos subutilizados no país. Ciente da observação de Castells
(2010) – ―uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz que uma mensagem
positiva‖ –, Dowbor tem em seus trabalhos ampla gama de exemplos de ciclos
virtuosos em que o diferencial, promotor da virada do jogo, fica a cargo da
comunicação e mobilização com a estrutura de uma base de informações e
articulações para o desenvolvimento local.
Por essas e muitas outras razões, o discurso da geração de emprego e renda,
com a perspectiva da economia solidária, sobressai quando se fala em tecnologia
social no Brasil.
2.5.2.2 O ―sequestro semântico da inovação‖
Outro aspecto que apresenta considerável diferenciação de sentido na
comunicação entre os atores que interagem com o tema das TSs é o que cada um
quer dizer quando usa a mesma palavra – ―inovação‖ – em diferentes contextos.
humana (human footprint), deixada pelo modelo capitalista, como ocorreu com a Declaração de
Plachimada, resultado de uma manifestação de 2 mil camponeses de Mehdiganj, Índia, que
defenderam o fechamento da planta da Coca-ola nessa localidade. Questionavam qual deveria ser o
melhor uso das reservas hídricas da região; como enfrentar a perspectiva de estiagem causada pelo
aumento do consumo de água, resultado das ações dessa empresa; e quem são os donos das águas
do planeta (MEYER; KIRBY, 2010). Esse feito serve como exemplo da preocupação com a
sustentabilidade e denota como as lideranças estão lidando com a crescente transparência dos atos
das empresas, as ―externalidades‖, termo utilizado por economistas para indicar o que Feenberg
aponta, na visão instrumental da tecnologia, como o discurso dos ―efeitos colaterais‖, resultados
nefastos das operações dos que fazem negócios em um mundo de C&T globalizadas, mas ainda com
muitas exclusões de beneficiários dos ―progressos‖ do ―desenvolvimento‖. É um movimento que
expôs a inadequação sociotécnica do empreendimento da Coca Cola entre os camponeses dessa
localidade na Índia, os quais se uniram e se manifestaram a favor de um redesenho. Plachimada
Declaration: <http://www.blueplanetproject.net/Movement/documents/P_Declaration.pdf> Acesso em:
12 mai. 2010.

70

Quando Silvia Picchioni (2003) narrou que um pedreiro de São Paulo, que
construía piscinas nessa cidade, regressou a sua terra natal, no Nordeste, e
começou a construir e ensinar a fazer cisternas, isso representou uma inovação para
a comunidade em que se reinseriu. Nesse caso, a palavra ―inovação‖ tem um
sentido distinto do que é usado na Academia, o que leva Dias e Novaes (2009) a
aventarem que houve um sequestro semântico desse termo nos fóruns sobre TSs.
Tal façanha gerou um complemento para diferenciá-la daquela que já tem dono na
economia da inovação: ―inovação social‖, que esses autores julgam poder ser
utilizado como um termo equivalente para ―tecnologia social‖. A ―outra‖, a inovação
tecnológica, seria contrária à proposta da TS:
O conceito de inovação remete, fundamentalmente, à criação ou melhoria
de um produto, processo ou forma de organização (produtiva,
administrativa, etc.) com uma motivação necessariamente comercial.
Quando uma novidade é criada sem essa finalidade ela é tida como uma
invenção. Nessa distinção, aparentemente inócua, encontra-se o aspecto
que, de fato, define a inovação no sentido estrito. (DIAS e NOVAES, 2009,
p. 58)

No campo das premiações, os territórios foram logo demarcados, separados,
e em 2005 surgiu o Prêmio Finep de Inovação, que instituiu a categoria ―Inovação
Social‖, em que premia instituições científicas e tecnológicas públicas ou privadas,
cooperativas e ONGs por projetos inovadores que atendam aos requisitos das
tecnologias sociais.
Ainda no âmbito da fala de Picchioni, existe outro universo para uso da
palavra inovação que diz respeito ao arranjo institucional inédito que fez surgir a
Articulação do Semi-Árido (ASA), uma coalizão de mais de 750 entidades e
organizações da sociedade civil de 11 Estados – Igrejas Católica e Evangélica,
ONGs de desenvolvimento e ambientalistas, associações de trabalhadores rurais e
urbanos, associações comunitárias, sindicatos e federações de trabalhadores rurais,
movimentos sociais, organismos de cooperação nacionais e internacionais, públicos
e privados.
Dias e Novaes também se posicionam contrários à inclusão da palavra
―metodologias‖ no conceito, pois acreditam que muitas vezes elas não abrangem
elementos que possam ser entendidos como tecnologias. Acrescentam que a
―excessiva flexibilidade do conceito‖ prejudica o avanço e foco das discussões sobre
o tema. Adotam o conceito de tecnologia expresso por Dagnino, Brandão e Novaes:

71

[…] tecnologia engloba desde o desenvolvimento de uma máquina
(hardware) até as formas de compreender o processo produtivo e a
concepção de sistemas de processamento de informação (software),
passando pelas tecnologias de gestão – organização ou governo – das
instituições públicas e privadas (orgware). (DAGNINO; BRANDÃO;
NOVAES, 2004, p. 34)

2.5.2.3 O debate sobre a teoria crítica com a participação de Feenberg
Robert Merton, sociólogo americano, liderou uma corrente de pensamento
nos anos 1970, com a defesa de que em países democráticos a ciência é e deveria
permanecer uma instituição relativamente autônoma. Que deveria estar livre do
controle direto do Estado, da Igreja, do capital privado, ou outras partes
―interessadas‖ que não deveriam se tornar ―patrões da ciência‖ (HESS, 1997, p. 57) .
Há, também, filósofos que isentam a ciência de responsabilidade social:
[...] o termo responsabilidade não responde aos questionamentos técnicos
— ‗quem é obrigado a responder o quê?‘ (...) ‗de que meios aquele que
deve responder a essa questão dispõe para estabelecer o seu
posicionamento?‘. Sem respostas a esses questionamentos, o grande tema
da responsabilidade, tanto a da ciência como a dos cientistas, permanece
55
assunto para dissertações morais. Sem interesse.
(STENGERS E
BENSAUDE-VINCENT, 2003, p. 350)

Esse posicionamento, de resguardo da adequação empírica como prérequisito exclusivo na validação da P&D, recebeu contestações que partiram das
próprias comunidades científicas, com o acréscimo de grupos militantes da
população que manifestam-se argumentando que ―a ciência deve ser dos cidadãos‖,
o que tornou a controvérsia uma norma no meio científico – e fora dele também.
Segundo o professor do Centro Interuniversitário de Pesquisa sobre a Ciência
e Tecnologia da Universidade de Québec em Montreal (Canadá) Yves Gingras, a
eclosão desse movimento é atribuída justamente à palavra de maior reincidência em
nossa pesquisa sobre as tecnologias sociais: sustentabilidade. O processo
começa, a seu ver, com a publicação, nos anos 1960, do livro Silent Spring, da
bióloga americana Rachel Carson, que colocava em questão o uso dos pesticidas e
outros componentes químicos nocivos ao meio ambiente, obra que veio a se tornar a
―bíblia dos ambientalistas‖ (FORGET, 2006, p. 63).

55

Tradução da autora. Texto original:‖[…] le terme ‗responsabilité‘ ne répond pas à la question
technique: ‗Qui est contraint de répondre de quoi?‘, et avec les corrélats pratiques de cette définition:
‗de quels moyens celui qui doit répondre dispose-t-il pour tenir cette position?‘ Sans réponses à ces
questions, le grand thème de la responsabilité, de la science ou des scientifiques, restera matière à
dissertations morales. Sans intérêt.‖

72

Resultados de pesquisas e maravilhas
tecnológicas dignas de contestação dentro e
fora da Academia têm eco na seleção de
conteúdos que estão no debate sobre a teoria
crítica da tecnologia no Brasil, atualmente
recebendo a colaboração do filósofo canadense
Andrew Feenberg (figura 15).

O pensamento

crítico construído na Universidade Estadual de
Campinas e
Figura 15 – Andrew Feenberg, professor
da Escola de Tecnologia da Comunicação
Simon Fraser, do Canadá. Participou da 2ª
Conferência Internacional de Tecnologia
Social, em 2009, e foi palestrante no curso
– ―A Teoria Crítica da Tecnologia, de
Andrew
Feenberg:
Racionalização
Democrática,
Poder
e
Tecnologia‖,
realizado na UnB em abril e maio de 2010.
Foto da autora.

também

na

Universidade de

Brasília, a primeira sob a coordenação de
Renato

Dagnino,

coordenação

de

e

a

Ricardo

segunda
Neder,

com

a

oferece

contribuições para que esse tema seja tratado
de forma indissociada de uma visão crítica do
modelo capitalista que engendra as tecnologias
capitalistas

ou

convencionais

(TCs).

Para

Dagnino, pensar tecnologia social é procurar uma conceituação que esteja em
sintonia com os princípios da economia solidária. Esse autor identifica a origem da
expressão ―tecnologia social‖ no Brasil como uma forma abreviada de ―tecnologia
para a inclusão social‖.
As vindas de Feenberg a Brasília em abril de 2009 e 2010 marcaram o intuito
de ambas as universidades, juntamente com a Rede de Tecnologia Social e
parceiros, de incentivar a reflexão sobre tecnologias sociais à luz da teoria crítica.
Foi a equipe da RTS que introduziu esse termo no vocabulário do filósofo
canadense, que até então o desconhecia.
Da

mesma

forma

que

buscamos

sintetizar

as

diferenciações

de

posicionamento ao se analisarem ciência, tecnologia e sociedade, com menções à
divisão proposta por Kirkpatrick (tradição marxista e da teoria crítica; perspectiva
feminista e vertente socioconstrucionista) e de Schroeder (determinismo científico e
tecnológico e construtivismo social ou construtivismo cultural), as discussões no
Brasil também estão, no âmbito acadêmico, com passagem obrigatória por essas
diferenciações proporcionadas pela filosofia da ciênca e sociologia da ciência.
Feenberg propõe um esquema (figura 16), resgatado em nossas anotações sobre

73

suas palestras na UnB, e a partir
dessa ilustração buscamos trazer
algumas

ideias

do

pensamento

desse filósofo, de ambas as vindas a
Brasília, resumidas a seguir:
Conforme
figura

16,

o

representado

na

instrumentalismo

representa a tecnologia com o véu
da neutralidade e sem orientação
para

valores:

quisermos‖.

―fazemos

Meios

independentes,

e

como

o

que Figura 16 – Representação do esquema proposto

fins

são com as suas diferenciações calcadas em valores e
ilustra participação/engajamento.

por Feenberg para analisar as quatro visões de C&T

Feenberg ao citar a argumentação
da Associação Nacional de Rifles dos EUA: ―as armas não matam as pessoas, são
as pessoas que matam as pessoas56‖. Apolítico, o instrumentalismo serviria à
espécie humana como um todo, sem controvérsias, o que resulta na idade dos
desastres ambientais, cujas consequências são tidas como ―efeitos colaterais‖,
como é o caso da visão instrumentalista sobre o aquecimento global.
O determinismo espelha o posicionamento trazido com a teoria da
modernização, e o próprio Marx deixava transparecer seu entusiasmo com os
progressos da tecnologia, ao dizer: ―alemães, olhem para a Inglaterra e verão o
seu futuro‖. Na visão determinista existe um só caminho, que é o da eficiência, o
qual se constrói pelo poder exercido sobre a natureza, esplendor das teorias
tecnocráticas.
O substantivismo tem a tecnologia sob a ótica de valores e da autonomia.
Heidegger defendia a incorporação não só de fatos, mas de valores, que seriam
desenvolvidos via lógica interna e não só pelo valor de uso. ―As ferramentas que
usamos nos moldam; estamos dentro da máquina‖, pontua Feenberg ao relembrar
esse autor. A tecnologia perde sua especificidade em relação a diferentes
universos culturais, ocorrem substituições da tradição e dos rituais, a produção de

56

Essa frase também é dita pelo ―diabo‖, personagem interpretado por Max von Sydow no filme
―Needful Things‖, baseado no livro de Stephen King, de 1993.

74

alimentos deixa de ser um empreendimento familiar, de fazenda, para se tornar
industrial: Feenberg aponta o MacDonalds com a nova função de ―refueling
operation‖. Todas essas mudanças, para um filósofo essencialista como
Heidegger, são sinônimo de declínio, queda, processo de derrocada que uma vez
iniciado não permite retorno, daí sua consagrada máxima: ―só Deus pode nos
salvar‖. Feenberg ironiza ao dizer que as prateleiras repletas de livros de autoajuda
são ―manuais de operação para o melhor funcionamento do equipamento
humano‖, mas diz que a teoria crítica, formulada a partir de Marcuse e Foucault,
consegue oferecer propostas mais esperançosas, pois a perspectiva histórica é
incluída, há nuanças sobre controle social e democracia que permitem vislumbrar a
possibilidade de uma repolitização das abordagens relacionadas a escolhas
tecnológicas, e o desdobrar da história traz respostas a Heidegger: ―não
precisamos de um Deus e sim de um movimento‖. Lembra o exemplo de como a
Aids não era prioridade na esfera de pesquisa médica, e passou a ser pela
pressão exercida pelos pacientes. No contexto francês, o Minitel57 é citado como
típica iniciativa construtivista, pois surgiu com uma função e foi totalmente
reconfigurado pelo uso que as pessoas fizeram de seus recursos. O próprio
movimento ambientalista é mencionado por esse filósofo como fazer construtivista
que busca colocar em evidência que a tecnologia deve ser guiada por valores e
permanecer controlável pelos interesses das comunidades.
2.5.2.3.1 Paradoxos da tecnologia
Na 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social, a palestra de
Feenberg foi sobre ―os cinco paradoxos da tecnologia‖ em relação às políticas de
desenvolvimento. Iniciou seu raciocínio com um questionamento de Heidegger: ―Os
pássaros voam porque têm asas ou têm asas porque voam?‖ Tal imagem serviu
para expressar o ―paradoxo da parte e do todo‖. ―Os pássaros usam as asas da
mesma maneira que usamos as ferramentas? Não, eles usam as asas do mesmo
jeito que usamos a linguagem‖. Nesse sentido, aproximou o conceito de tecnologia

57

O Teletel é um sistema público de videotexto, iniciativa que fracassou em muitos países, mas foi
bem-sucedido na França, onde houve a distribuição de milhões de terminais gratuitos, denominados
minitels, com o intuito de que todos os usuários do sistema telefônico possuíssem o seu e qualquer
um estaria apto a acessar o guia nacional do serviço telefônico por esse meio. Com o tempo,
transformou-se em uma espécie de ―mercado livre‖ de serviços on-line e fascinou os franceses pela
possibilidade de comunicação simultânea entre os usuários.

75

ao da inter-relação entre animais e seus nichos. ―Nicho e animal pertencem a um
todo indissociado‖, mediante uma abordagem holística.
Citou o exemplo da China, onde a importação do modelo de transporte com
crescente produção de automóveis irá gerar o caos, pois nem tudo serve para todos
os contextos, destacando a dificuldade em se ver o que é mais evidente. Isso
corresponde ao ―paradoxo do óbvio‖: ―o peixe não sabe que está molhado‖, ironizou.
O ―paradoxo da origem‖ corresponde à noção de que a tecnologia parece ter sempre
existido. É explicada por sua função, o que embaça a visão de seu nicho e, por trás
de tudo que é racional, reside uma história esquecida. Aspectos correlatos à ideia
falaciosa de a tecnologia ser algo universal.
O ―paradoxo da ação‖ reporta-se à ilusão de que a ação técnica poderia ser
não-newtoniana, fugindo à terceira lei de Newton. ―A poluição retorna para
assombrar o poluidor; a nossa identidade é determinada pelo que fazemos‖. O
significado é alterado pela tecnologia. Além do exemplo das mudanças do clima,
mencionou a ―tecnologização‖ de certos aspectos da reprodução humana sob a ótica
do paradoxo da ação. O ―paradoxo do valor e do fato‖ tem sua essência na crença
de que os valores são os fatos do futuro.
―Os valores expressam aspectos da realidade, e ao traduzi-los em
especificações as interações entre grupos se tornam mais frequentes‖. Usou uma
ilustração do artista holandês Maurits Cornelis
Escher (figura 17), de 1948, em que duas mãos
se desenham mutuamente e servem como
analogia para mostrar o quão interligadas estão
a sociedade e a tecnologia em um processo de
construção em comum, invocando certo efeito
bumerangue (what goes around comes around).
―Os grupos sociais se formam em mundos Figura 17 – Inter-relacionamento estreito
tecnológicos e o que fazemos com a natureza é entre sociedade e tecnologia em um
o que fazemos para nós mesmos‖, observou.

processo de construção coletiva das
relações com uma perspectiva holística.

76

3 TECNOLOGIAS SOCIAIS EM REDE: VISÃO SISTÊMICA AO SE BUSCAREM
COMUNICAÇÃO, PARTICIPAÇÃO, EMANCIPAÇÃO E INCLUSÃO SOCIAL
Quiséramos que o universo das tecnologias
sociais

brasileiras

mapeamento

de

nos
rede

permitisse
semelhante

fazer

um

ao

dos

camponeses da Colômbia (DOUTHWAITE et al.,
2006) que aparecem na foto ao lado, na figura 18.
Esse exemplo encontra-se no trabalho de BenderdeMoll (2008), ao analisar as redes sociais e as
muitas maneiras existentes para ilustrá-las. Mostra
como os integrantes de uma oficina de trabalho
usaram lã colorida para representar os diferentes
―caminhos da comunicação‖ pelos quais cada
pessoa foi convidada a participar do encontro.
Iniciamos o texto com o verbo querer no
pretérito- mais-que-perfeito, por haver crescente
adensamento da rede de tecnologias sociais58 no
país, com vínculos estabelecidos em função dos
valores que aproximam as pessoas (figura 19). Para

Figura 18: Exemplos de redes
de baixa e alta densidade. As
imagens foram incluídas com a
autorização
de ambos
os
autores.

buscar esses nós, as interseções, as coparticipações e as imbricações entre os
atores, seria preciso bem mais que um projeto individual de pesquisa, especialmente
se considerássemos, de acordo com a Teoria Ator-Rede (ANT), humanos e não
humanos como ―híbridos‖ (―objetos híbridos são objetos comuns ou coisas que
parecem ser unitárias, reais, livres de controvérsias, mas na prática refletem uma
variedade de enquadramentos históricos experiências específicas relacionados a
certos atores ou sociedades no passado‖), o que requer um processo de ―tradução‖
(―criação de redes entre objetos sociais e naturais‖) (LATOUR 1993 apud FORSYTH,
2003, p. 87) .

58

Não se trata exclusivamente da Rede de Tecnologias Sociais (RTS), lançada em 14 de abril de
2005, atualmente com mais de mil instituições filiadas, e sim de referência a um ―movimento‖ ou
fórum que a antecede e que colaborou para a sua aparição, conforme descrito no capítulo 2.

77

Portanto,
estará

na

o

foco

deste

capítulo

das

questões

investigação

relacionadas

às

motivações

para

se

estabelecerem os vínculos, a comunicação
e a participação dos atores envolvidos com
as tecnologias sociais que interagem em
rede. Isso será feito em uma perspectiva
inspirada na literatura que aborda a análise
de redes e as organizações com uma visão
sistêmica. Tal interpretação se dá sob a
ótica de uma visão crítica da emancipação
e inclusão social, enquanto motivadoras
dos

vínculos

entre

esses

atores,

desembocando em um exemplo local, de Figura 19 – Reproduz-se, mais uma vez, o conceito
de tecnologia social, acrescido de princípios que lhe

Brasília: a Fazenda Malunga ― vitrine de dão sustentação.
uma organização que utiliza e promove as Fonte: ITS, 2007
tecnologias

sociais

com

uma

visão

sistêmica, em rede, experiência de um
ciclo virtuoso.
3.1 OS SEMELHANTES INTERAGEM
O subtítulo representa outra maneira de dizer: ―birds of a feather flock
together (pássaros da mesma espécie se aglomeram)‖. Essa expressão é alusiva à
conclusão dos trabalhos realizados nas ciências sociais ao se falar sobre homofilia,
―princípio de que o contato entre pessoas com características similares ocorre em
maior freqüência do que entre pessoas com baixa similaridade‖ (MCPHEARSON,
SMITH-LOVIN & COOK, 2001 apud ROSSONI; GRAEML, 2009, p. 230).

78

A homofilia é a porta de
entrada

para

um

questionamento subjacente ao
dos canais da comunicação,
expressos pelos fios de lã do
grupo

colombiano,

interessou

à

e

que

pesquisadora

francesa Claire Bidart (2009): o
que vincula as pessoas em
rede? Por qual ou quais motivos
Figura 20 – Tipos de relações que vinculam as pessoas
em rede, segundo Degenne (2009), ilustração da autora.

elas

se

relacionam?

Bidart

apresentou respostas a essas
questões ao estudar a rede de

relacionamentos de um grupo de jovens, entrevistados desde os 12 anos, em
intervalos de três em três anos. Conclui seu trabalho com as palavras de Joel, um
dos participantes:
Yo prefiero tener un entorno más reducido, pero a nivel sentimental más
intenso, más auténtico, antes que tener decenas de amigos, del tipo de ir a
las discotecas y decir hola a la mitad de la sala sin por lo tanto conocerlos
realmente y hacer como si fueran todos mis amigos mientras que no los
conozco realmente. (BIDART, 2009, p. 200)

As relações precisam de confiança para que se estabeleçam as interações
(DEGENNE, 2009). Para esse autor, existem quatro tipos de interações (dispostas,
de forma resumida, na figura 20, anteriormente): as interações autônomas, a
confrontação, as interações definidas por uma organização e as interações
correlativas. Quando as interações não se tornam autônomas, em uma relação fixa,
existem boas probabilidades de que tomem as outras três formas e que não se
passe facilmente a uma relação na qual as interações sejam autônomas. O autor
exemplifica a situação com o que ocorre entre médico e paciente que podem ter
intercâmbios em suas relações pessoais, mas reencontram seus respectivos papéis
(interação correlativa) durante uma consulta; o mesmo acontece entre professor e
aluno no contexto da instituição de ensino. Esse autor considera fundamental o
questionamento: ―quem dispõe do poder de definir as condições em que se
desenvolverá uma interação?‖

79

Em relação ao universo
de

interação

tecnologias

na

rede

sociais,

das

pode-se

supor que a homofilia seja uma
característica basilar, de gênese
e manutenção das associações,
com poder para, se não definir,
ao

menos

incitar

o
Figura 21 – Reproduz-se, acima, o conceito de

desenvolvimento das interações. Desenvolvimento Local Participativo (DLP), presente
Nesse universo, prima-se pela nas ações que envolvem tecnologias sociais no Brasil.
participação

e

cooperação

(economia solidária) e incentiva-se a colocação de grupos (em situação de exclusão
ou não) em situação interacional com vistas à emancipação dos indivíduos nos seus
diversos contextos de vida. Presume-se que as ações em prol da inclusão social
sejam um elemento motivador para o estabelecimento e manutenção de vínculos
entre os atores.
Com a metodologia do desenvolvimento local participativo (ITS, 2008), figura
21, dá-se o passo inicial do processo comunicativo, a primeira tentativa de
confrontação ou negociação em que os atores definem as regras da interação. Com
o desenvolvimento da Secretaria de Inclusão Social no Ministério da Ciência e
Tecnologia (MCT) e de um marco legal associado às TSs ― como o Projeto de Lei
das Tecnologias Sociais (ROLLEMBERG; ERUNDINA, 2008) ―, existem as
interações definidas pelas organizações, institucionalidades que permeiam essas
iniciativas, seja por parcerias governamentais ou com a iniciativa privada. Há
interações correlativas, pois em rede a noção de troca está associada à de
complementaridade59. E existe a possibilidade de surgirem as relações autônomas,
aquelas que podem ter maior duração, independentemente das mudanças de
contextos políticos, sociais, econômicos, de localização no território, entre outras.
59

Gilberto Fujimoto (Sesc – RJ), em sua apresentação sobre o ―Papel das redes para o
desenvolvimento sustentável‖, na 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social, realizada em
abril de 2009, em Brasília, frisou que ―rede é comunicação‖, e que nos encontros realizados em sua
comunidade as pessoas enunciam o que procuram e o que têm a oferecer (uma comunicação sobre
a possibilidade de interação correlativa). Uma visão geral sobre alguns dos conteúdos da Conferência
está disponível em:
<http://cqv2009.blogspot.com/search/label/2a%20Confer%C3%AAncia%20Internacional%20de%20T
ecnologia%20Social > Acesso em maio de 2010.

80

3.2 EXCLUSÃO, INCLUSÃO E SUAS NUANÇAS
Os conceitos de exclusão e inclusão social são proeminentes no discurso das
redes que se relacionam com a temática das tecnologias sociais, sobretudo entre
seus patrocinadores. Isso se deve à declaração de valores associada a tais
iniciativas, os quesitos de cidadania e transformação social que devem permear as
ações. Em geral, exclusão e inclusão social se referem:
[…] à extensão em que indivíduos, famílias e comunidades estão aptos a
participar integralmente na sociedade e controlar seus próprios destinos,
levando-se em consideração uma variedade de fatores, como aqueles
relacionados à economia, recursos, emprego, saúde, educação, moradia,
60
recreação, cultura e engajamento cívico. (WARSCHAUER, 2003, p. 8)

Inclusão social relaciona-se não só ao fato de compartilhar recursos, mas
também a ―estar apto a participar na determinação das possibilidades de vida
individual e coletiva‖ (STEWART, 2000 apud WARSCHAUER, 2003). Estabelece
interseção com o conceito de igualdade socioeconômica, mas não é equivalente.
Existe, porém, um aspecto contraditório, conduzido sobretudo por um grupo
de pesquisa franco-brasileiro da psicologia social, que buscou elencar um conjunto
de críticas ao que vem a ser exclusão/inclusão, com um significado ―equivocado,
atrasado e desnecessário‖ (VÉRAS, 2002) ou ―conceito-bonde‖, citado pela autora
ao mencionar Morin e Castel, o qual pode abranger um leque muito amplo de
situações, o que faz com que perca o sentido. No entender de Sawaia (2002),
organizadora da coletânea que se propõe a refletir sobre o conceito e aprimorá-lo, a
exclusão passou a ser entendida como o ―descompromisso político com o sofrimento
do outro‖, em um universo de injustiça social. Cita como exemplo a análise de
Carreteiro (2002), que traz à luz como algumas pessoas aceitam o ―projeto-doença‖
para ter legitimada sua cidadania e certa condição de sobrevivência e, assim,
passam a ser incluídos no sistema de seguridade, como pertencendo ao seu
―disfuncionamento‖. Tal concepção introduz a ética e a subjetividade na análise
sociológica da desigualdade.

60

Tradução da autora. Texto original: ―They refer to the extent that individuals, families, and
communities are able to fully participate in the society and control their own destinies, taking into
account a variety of factors related to economic resources, employment, health, education, housing,
recreation, culture and civic engagement.‖

81

Não tem uma única forma e não é uma falha do sistema, devendo ser
combatida como algo que perturba a ordem social, ao contrário, esse
processo (de exclusão) é produto do funcionamento do sistema. (SAWAIA,
2002, p. 9)

Ciente da complexidade e abrangência das representações e diversidade de
opiniões relacionadas à exclusão/inclusão, para o escopo deste trabalho escolheuse o sentido de inclusão como aquele de ―estar apto a participar na determinação
das possibilidades de vida individual e coletiva‖, o que requer, para que a
comunicação, interação e relações ocorram, um conjunto de propostas que sejam
emancipatórias ou, como aparece no próprio conceito de tecnologias sociais:
vontade de ter ―compromisso com a transformação social; diálogo entre diferentes
saberes‖.
3.3 BUSCAR A EMANCIPAÇÃO DE QUEM E EM RELAÇÃO A QUÊ?
Jackson (2000), ao analisar o conceito de emancipação sob a ótica sistêmica,
relata as dúvidas que permeiam as muitas contestações sobre o que é ―emanciparse‖ e traça um panorama sobre as abordagens existentes, começando com o

Figura 22 – Resumo feito pela autora das correntes do pensamento crítico e sistêmico sobre
emancipação, a partir da proposta de BROCKLESBY; CUMMINGS.

82

questionamento sobre se a emancipação deveria ser humana/individual ou incluir
elementos não humanos e o meio ambiente. Esse autor menciona a sociologia da
mudança radical, que estabelece uma divisão entre a abordagem subjetivista
(humanismo radical) ― na qual os indivíduos estariam emancipados ao se livrarem
de uma ―falsa consciência‖ ― e a abordagem objetivista (estruturalismo radical), na
qual a emancipação torna-se possível ao haver mudanças na estrutura da
sociedade.
Existem ainda as distinções entre as abordagens modernas e pós-modernas
relativas à emancipação (ver figura 22), com a variação recaindo em quão universal
ou local a emancipação deve ser. Jackson cita três correntes: as duas primeiras,
moderna e pós-moderna, nutrem-se no pensamento de Kant, no ―ouse conhecer‖
(dare to know), e diferenciam-se na interpretação que os autores fizeram a partir da
obra de Kant e de suas próprias conclusões. A terceira está associada ao escocês
Alastair MacIntyre, que desenvolveu trabalhos sobre a ética da virtude (comunidade
moral). É com base nessas distinções que Jackson propõe três formas de
pensamento sistêmico emancipatório, que distingue como emancipação como
liberação; emancipação via racionalidade discursiva e emancipação via uso oblíquo
dos métodos sistêmicos. Far-se-á referência a seguir, somente à emancipação como
liberação.
3.4 A FAZENDA MALUNGA, REDUTO DE TECNOLOGIAS SOCIAIS, SOB A ÓTICA
SISTÊMICA E DE REDE

Figura 23 – O casal Joe e Clevane Valle, a visão aérea da Fazenda, as embalagens com couve
e alface higienizadas, alguns dos produtos comercializados pela Malunga. Fotos e montagem da
autora.

83

A Fazenda Malunga (figura 23) serve, entre muitas opções existentes no
cenário das tecnologias sociais, como uma das ―portas de entrada‖ (TRANNIN;
PEDRO, 2007) para essa rede de atores. Essa unidade de produção agroecológica
fica a 70Km do Congresso Nacional, sede do Poder Legislativo, em Brasília, Distrito
Federal, ―cidade que em agosto deste ano teve 80% dos legumes, verduras e frutas
comercializados

em

sua

Central de Abastecimento
do Distrito Federal (Ceasa)
vindos de outros estados e
até

mesmo

países,

de

como

outros
Estados

Unidos, China e Espanha‖
(VALLE, 2009). O restante
foi produzido na zona rural
do

DF.

A

fazenda

Figura 24 – PAIS em exibição na AgroBrasília 2009. Foto da
autora.

é

certificada como produtora de hortaliças orgânicas, em um sistema integrado com a
criação de gado de leite. Ano após ano, bate índices de produtividade do setor pelo
investimento em tecnologia e uma maneira muito própria de gerir e se comunicar em
―rede‖. Graças à reportagem de Pria e Santos (2009), é possível fazer uma visita online para conhecer essa propriedade.
Vale lembrar que a PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável)
(figura 24), tecnologia social premiada pela Fundação Banco do Brasil (2008), é uma
TS ―congênere‖ que reproduz, em menor escala, as virtudes do manejo integrado
em pequenas propriedades rurais e também em escolas.
A escolha por essa unidade agroecológica deve-se à identificação de um
exemplo ímpar de inter-relação e intersubjetividades comuns a um novo paradigma
da ciência:
[…] estou convicta de que não é a ciência que vai promover mudanças.
Cada um de nós, ao mudar seu paradigma, é que se construirá como um
foco de possíveis e significativas transformações‖ (VASCONCELLOS, 2005;
p. 25)

Esse nó da rede, a fazenda, é um reduto de transformações socioeconômicas
e culturais. Começou com baixa densidade, como a do grupo de campesinos da

84

Colômbia. Joe Valle, engenheiro florestal, produtor rural, ex-secretário de Inclusão
Social do MCT e eleito deputado distrital em 2010, idealizador do projeto, iniciou sua
produção com quatro canteiros de hortaliças, produtos que eram transportados de
carro e vendidos em uma das superquadras (ruas) de Brasília. Seu know-how está
sendo construído, desde então, com muita interação em rede.
A homofilia que aproxima o produtor de alimentos orgânicos com o
consumidor desses produtos é uma interação que só pôde se estabelecer na
construção de uma relação de confiança, interação correlativa que tende para
autônoma. À medida que o adensamento da rede foi crescendo, a certificação dos
produtos orgânicos – o selo do Sisorg (BRASIL, 2009) – tornou-se emblemático
desse aspecto da relação, uma forma de garantir que o diferencial daquele alimento
que chega à mesa das pessoas, sem conter defensivos agrícolas, com respeito ao
meio ambiente e a relações de trabalho dignas, prevalece em sintonia a um
pensamento sistêmico, em que o ―ouse conhecer‖ e o ―esteja apto a participar na
determinação das possibilidades da sua vida individual e coletiva‖ são instrumentos
emancipatórios que podem satisfazer às três correntes anteriormente mencionadas:
emancipação humana, coletiva e universal; autoemancipação e desenvolvimento de
práticas virtuosas.
Jackson (2000), ao tratar da emancipação como liberação, lembra o brasileiro
Paulo Freire, como ―um intelectual orgânico exemplar de nosso tempo‖. A
adjetivação de ―orgânico‖, nesse caso, pode mesmo embevecer a rede, já que
Freire sempre esteve nos valores de sua gênese, mas é alusivo a Gramsci, na luta
contra-hegemônica, quando dizia que ―cada grupo social fundamental, com papel
decisivo na produção, engendra seus próprios intelectuais, ditos ´orgânicos´,
oriundos desse grupo social‖ (WIKIPEDIA, 2010). Jackson cita um dos consagrados
insights de Freire em relação à emancipação em sua interface com a liberdade: ―A
grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos é aquela de libertarem-se, a si
próprios, e também a seus opressores‖. (FREIRE, 1970, p. 21 apud JACKSON,
2000, p. 300).
Embora sofra a crítica de que a liberação muitas vezes é sinônimo de
concordar com o teórico, com as ―respostas prontas‖, o enunciado pode ganhar
outras conotações no universo das tecnologias sociais e da ecologia da

85

sustentabilidade, no qual os opressores dos indivíduos e do meio ambiente podem
efetivamente ser libertos em função do alcance da ação comunicativa e da atuação
em rede. No caso dos pesticidas, por exemplo, um dos maiores agressores do meio
ambiente e da saúde dos seres vivos, o movimento dos orgânicos já tem organizada
uma ação em rede para que muitas dessas substâncias nocivas, hoje permitidas,
tenham seu uso proibido em lei.

Libertam a si próprios e aos opressores, que

produzem e perpetuam a agressão ao meio. Semelhante raciocínio é aplicável à
aflição da seca e das enchentes, fruto de mudanças do clima; das altas taxas de
colesterol no organismo, resultantes de uma alimentação contraindicada; do mau
gerenciamento do lixo e de sua superprodução, ancorada em comportamentos e
valores consumistas, ―a sociedade dos descartáveis e dos upgrades‖.
Há visitas semanais de grupos da comunidade que querem conhecer a
Fazenda Malunga, saber mais sobre as opções de plantas selecionadas com suas
diversas funções de cooperação com o ecossistema; o uso da homeopatia para
tratar o gado; a mandala de ervas e temperos; o núcleo produtor da compostagem; a
forma de transformar os produtos e comercializá-los; ouvir os testemunhos dos
trabalhadores não apenas sobre o que fazem, mas qual significado encontram em
sua participação naquele ecossistema; que tecnologias
são escolhidas e utilizadas etc. Os convidados também
têm

seu

momento

de

fala,

troca

de

opiniões,

estabelecimento de vínculos, evolução da rede por meio
da

ação

tradutores

comunicativa,
da

servindo

complexidade,

inclusive

aspecto

que

como
Niklas

Luhmann considera central em sua teoria dos sistemas:
Para ele, o conceito de comunicação é o
dispositivo fundamental da dinâmica evolutiva
dos sistemas sociais, uma vez que é um
processo de seleções e é pela seleção que se
opera o processo de redução da complexidade na
relação com o ambiente.
(CURVELLO e SCROFERNEKER, 2008, pg. 11)

Vive-se, ao percorrer uma unidade de produção
agroecológica, uma experiência da ―emergência‖. Não só com
o sentido de experimentar a premência de repensar decisões

Figura 25 – Capa do
livro organizado por
Renato Dagnino. Não
é à toa que são as
formigas que
aparecem na capa da
recente coletânea de
artigos sobre
tecnologias sociais.
Fonte: DAGNINO,
2009.

86

e atitudes que possam influenciar as transformações de hábitos alimentares, de
interação com o seu ecossistema, da forma como se lida com o lixo, produtos
prestigiados nas compras e que poderiam ser excluídos, enfim, conscientização que
pode ser entendida como liberação de uma ―falsa consciência‖, de ―relações de
poder‖ ou, simplesmente, um conjunto de virtudes que poderia estar mais presente
no cotidiano de todos nós.
Também diz respeito à experiência de vislumbrar a emergência, com o
sentido que Johnson (2003) lhe atribui, de perceber como surge a capacidade autoorganizadora dentro de sistemas complexos, por vezes sem que haja uma visão do
global, uma estratégia e hierarquias preestabelecidas. Se considerarmos a ANT
(actor network theory, coincidentemente, ant, em inglês, quer dizer formiga) e as
formigas como atores legítimos dentro da Teoria Ator-Rede, pode-se fazer um zoomin, via formigueiro, em um dos universos mais fascinantes da autogestão não
hierárquica, e reveladores sobre como essas parceiras atuam em seu percurso e
existência dentro da nossa rede social, promovendo a ecologia da sustentabilidade.
A lição mais significativa que a estudiosa desses insetos sociais Deborah
Gordon, citada por Johnson, sinaliza para os leigos é quanto ao alerta
comportamental que elas transmitem para quem as observa, o da necessidade de
se prestar muita atenção ao seu vizinho:
Essa pode ser a mais importante lição que as formigas nos dão e a de
maiores conseqüências. Pode-se também reformular a frase dizendo:
‗Informação local pode levar à sabedoria global‘. O principal mecanismo da
lógica do enxame é a interação entre formigas vizinhas no mesmo espaço:
formigas tropeçando umas nas outras, ou nas trilhas de feromônio de
outras, enquanto patrulham a área em volta do ninho. O acréscimo de
formigas ao sistema global irá gerar maior interação entre os vizinhos e
consequentemente permitirá à colônia resolver problemas e se ajustar com
mais eficiência. Se as formigas não topassem umas com as outras, as
colônias seriam somente um conjunto sem sentido de organismos
individuais, um enxame sem lógica. (JOHNSON, 2003, p. 58)

Esse é o diferencial da comunicação, participação e atuação em rede, na teia da
vida. O valor do desenvolvimento local participativo, na seleção de tecnologias sociais
que estão presentes ao se conhecer de perto uma unidade agroecológica ou muitos
ambientes urbanos, conta por sermos ―ao mesmo tempo produtores e produtos. Esse
princípio vale para todos os seres vivos e seus ambientes. Os grupos, as organizações
e as instituições humanas não são exceção.‖ (MARIOTTI, 2007, pg. 145).

87

4 TECNOLOGIAS SOCIAIS EM INTERFACE COM O PODER DAS ORGANIZAÇÕES EM REDE

Tecnologia, poder e linguagem constituem-se como elementos endêmicos, na
avaliação de Kirkpatrick (2008), quando os seres humanos vivem juntos em
sociedades. Para esse autor, não há experiência de tecnologia sem que ocorra uma
experiência de poder social. Ao se considerar o universo das tecnologias sociais,
torna-se pertinente indagar quais seriam suas relações com as ―malhas do poder‖,
noção desenvolvida por Foucault, a partir das observações de Karl Marx, de que ―a
sociedade é um arquipélago de poderes‖ (MARX apud FOUCAULT, 1994, p. 187).
Ou seria preferível optar por uma abordagem que leve em consideração a
contestação da dominação consentida, especialmente de uma classe social ou
nação sobre seus pares, conforme tratado no conceito de hegemonia proposto por
Gramsci? (1953, p.179) Estaria a adjetivação ―social‖ da tecnologia relacionada a
uma tecnologia de empoderamento dos excluídos e de fomento à formação de
intelectuais orgânicos?
Para vislumbrar respostas a esses questionamentos, é preciso buscar uma
retrospectiva sobre como o poder tem sido avaliado, quais autores e quais análises
aproximam-se mais do universo de interação da rede de tecnologias sociais hoje
atuante no Brasil.
4.1 O ÍMPETO DE DOMINAR A NATUREZA, A TÉCNICA, AS VERSÕES DA
HISTÓRIA
Não só os seres humanos, como também outras espécies vivenciam
experiências relacionadas à tecnologia, linguagem e poder. Os chimpanzés, por
exemplo, foram observados ao afiar pedaços de madeira que usam para espetar e
colher frutas. Organizam, inclusive, um ―estoque‖ desses espetos, sinalizando um
planejamento em relação a sua durabilidade e necessidade de uso contínuo do
artefato.
No filme ―2001, uma Odisséia no Espaço‖, dirigido por Stanley Kubrick, a cena
inicial ― que mostra os macacos manipulando restos de uma carcaça, com o close
no momento em que um animal atira osso ao espaço ― ajuda a economizar
palavras sobre um suposto elo cognitivo, ou inter-relação, entre o primitivismo

88

desses artefatos e seu amadurecimento na vanguarda do design da atualidade, grau
de aperfeiçoamento que desembocou no que existe de mais high-tech: a nave
espacial no território do Cosmo, supostamente nossa última fronteira para a
circulação do poder, símbolo de um belicismo subjacente ou latente nas conquistas
da indústria aeroespacial, o ambicionado poder de voar e todos os outros poderes
que dele derivam.
Alberto Santos Dumont foi protagonista nessa epopeia, em busca de dar asas
aos homens. O Smithsonian National Air and Space Museum, em Washington, DC,
e várias publicações norte-americanas exercitam o poder de omitir seu nome e
seus feitos para a história da aviação, e isso não ocorre por falta de espaço. A
coerção de fazer prevalecer certas versões sobre a história, em detrimento de
outras, transparece na forma de descrever os fatos, quando se consideram apenas
os irmãos Wilbur e Orville Wright como protagonistas dessa façanha (ALDRIDGE,
2002).
Em outro extremo, no tempo e espaço, a construção das pirâmides intriga
pela magnitude do ímpeto de domínio de técnicas que permitiram manipular
elementos da natureza em grande escala:
Considere-se, por exemplo, a incrível proeza de organização, planejamento
e controle exigidos para se construir a Grande Pirâmide em Gizé. Estima-se
que a sua construção envolveu o trabalho de cerca de dez mil pessoas por
um período de mais de 20 anos. A pirâmide foi erguida a partir de 2.300.000
blocos de pedra, cada um pesando 2 toneladas e meia. Esses blocos
tinham que ser extraídos das pedreiras, cortados no tamanho certo e
transportados por vários quilômetros, geralmente por navios pelo rio Nilo e
durante o período das cheias. Quando se admiram hoje essa e outras
pirâmides, são a incrível habilidade e a engenhosidade dos antigos egípcios
que chamam mais a atenção, tanto do ponto de vista estético, quanto do
organizacional. Entretanto, sob outro ponto de vista, a pirâmide é uma
metáfora da exploração humana, simbolizando como as vidas e o trabalho
pesado de milhares de pessoas foram usados para servir e glorificar uns
poucos privilegiados. (MORGAN, 1996, p. 281)

Essa leitura metafórica da pirâmide impregna a percepção de que poder
sempre esteve e estará intimamente relacionado à dominação, um sentido – ―a um
só tempo vago e maléfico‖ – que Gérard Lebrun (1995, p. 8) procurou esmiuçar ao
responder à questão: ―o que é poder?‖, ressaltando seu intuito em demonstrar o
equívoco daqueles que acreditaram que, a partir do século 19, o poder seria
liquidado.

89

Essa percepção verticalizada do poder, representada na imagem da pirâmide,
pode ser, também, inter-relacionada às análises de Pross (1974), para quem existiria
uma orientação vertical dos sistemas de valor e uma orientação horizontal dos
signos, o que conduziria à dialética do poder. Para esse autor, cada ordem política
tem a própria teoria do conhecimento e, em relação a Morgan, crê-se que Pross
apresenta uma interpretação singular sobre o que se passava em Gizé e na
construção das versões históricas que predominam:
La violencia simbólica es el poder de imponer la vigencia de un significado a
otros, por medio de la colocación de signos, es decir, por la simbolización,
con el efecto de que esas otras personas se identifiquen a sí mismas con el
significado allí afirmado. (PROSS, 1974, p. 149)

4.2 RELAÇÕES DE FORÇA E CANALIZAÇÃO DA POTÊNCIA
―Potência‖ (dunamis) designa, segundo Lebrun, uma virtualidade ou
capacidade que está em condições de exercer-se a qualquer momento e diferenciase, na distinção já estabelecida por Aristóteles, do ato (ergon) em si. Usa o exemplo
do arsenal nuclear das superpotências, capaz de exterminar todos os seres vivos, e
da capacidade que o Fundo Monetário Internacional (FMI) tem ao ditar uma política
econômica a um país que lhe é devedor. Lebrun se atém ao domínio das relações
políticas ao empregar a palavra potência – não de ―tornar-se, mas de exercer-se‖.
Nietzsche, por sua vez, não a trata exclusivamente no contexto político, por julgar
que a vontade de potência, vontade de poder, é um grande jogo universal,
onipresente:
E sabeis o que é para mim o mundo? Este mundo: uma monstruosidade de
força, sem princípio, sem fim, uma firme, bronzea grandeza de força, uma
economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou
rendimento [...] mas antes como força, ao mesmo tempo um e múltiplo [...]
eternamente mudando, eternamente recorrentes, partindo do mais simples
ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais
selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez [...] esse
meu mundo dionisíaco do eternamente criar-se a si próprio, do eternamente
destruir-se a si próprio, sem alvo, sem vontade [...] Esse mundo é o da
vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois
essa vontade de potência – e nada além disso!‖
(NIETZSCHE, Fragmento póstumo, 1885 apud SAFRANSKI, 2001, p. 268)

Ao prosseguir na trajetória de Lebrun, volta-se ao questionamento adjacente
àquele sobre a natureza do poder: o que é a política? Ele propõe a definição de
Julien Freund, que ressalta que ―a política garante pelo exercício da força, fundada

90

geralmente no direito, a segurança interna e a concórdia interna de uma unidade
política‖ (FREUND apud LEBRUN, 1995, p. 11) . Distancia ―força‖ de ―violência‖ ou
―coerção‖ ao citar a força como ―influência‖, tal como ocorre, por exemplo, quando os
partidos políticos vencem em eleições democráticas.
Outro elemento contido na noção de poder é o que Max Weber chama de
herrschaft. A tradução seria equivalente à dominação, elemento suplementar à
potência:
De que maneira as forças políticas dominantes conseguem afirmar sua
autoridade? Essa questão pertence a todos os tipos de dominação e, em
conseqüência ela vale igualmente para todas as formas de dominação
política, quer seja legalista, tradicional ou carismática. Todo
empreendimento de dominação (herrschaftsbetrieb) que demanda uma
continuidade administrativa exige, por um lado, que a atividade dos
indivíduos se oriente em função da obediência devida aos mestres, que
pretendem ser os detentores da força legítima e, por outro lado, por meio
dessa obediência ela pode dispor dos bens materiais que são, em última
instância, necessários para aplicar a força física. Ou seja, a dominação
necessita de um estado maior administrativo e de meios materiais de
61
gestão. (WEBER, 1963, p. 31)

Lebrun subestima a força do poder econômico ao afirmar que ―o
entrelaçamento dos interesses econômicos e do poder nos regimes burgueses ainda
não permite afirmar como dogma que o poder político seja apenas a sombra dos
interesses dos proprietários‖ (LEBRUN, 1995, p.109). Talcott Parsons, por sua vez,
assegura o contrário, destacando que ―o poder econômico, definido culturalmente e
moldado pela institucionalização do dinheiro, tem propriedades remarcáveis e não
compartilhadas por nenhum outro fenômeno de todo o sistema que engloba a
interação social‖62 (PARSONS, 1991, p. 84).
No contexto brasileiro, a Folha de S. Paulo publicou, em 2003 (VAZ, 2003),
uma ―radiografia‖ sobre a influência do poder econômico na esfera política (ANEXO
D) ao cruzar os dados sobre financiamento de campanhas de titulares do Poder
61

Tradução da autora. Texto original: ―De quelle manière les forces politiques dominantes s'y
prennent-elles pour affirmer leur autorité? Cette question concerne toutes les espèces de domination
et par conséquent elle vaut également pour toutes les formes de domination politique, qu'elle soit
traditionaliste, légaliste ou charismatique. Toute entreprise de domination [Herrschaftsbetrieb] qui
réclame une continuité administrative exige d'une part que l'activité des sujets s'oriente en fonction de
l'obéissance due aux maîtres qui prétendent être les détenteurs de la force légitime et d'autre part
que, moyennant cette obéissance, elle puisse disposer des biens matériels qui sont, le cas échéant,
nécessaires pour appliquer la force physique. En d'autres termes elle a besoin d'une part d'un étatmajor administratif et d'autre part de moyens matériels de gestion‖.
62
Tradução da autora. Texto original: ―Economic power, particularly as culturally defined and shaped
through the institutionalization of money, has remarkable properties not shared by any other
phenomenon of the whole system of social interaction‖.

91

Legislativo e formação de bancadas no Congresso, representativas dos lobbies das
empreiteiras; siderurgia; usineiros; saúde (indústria farmacêutica); bancos; papel e
celulose; mineração e agricultura. A influência dos partidos, ―força‖, está entrelaçada
ao Poder Executivo, com 31 ministros, entre os 37 atuais, filiados a partidos,
incluindo o presidente do Banco Central e o ministro das Relações Exteriores
(DAMÉ; LIMA, 2009). No Supremo Tribunal Federal (STF), instância maior do Poder
Judiciário, prevalece o que reza a Constituição: ―é da livre vontade do presidente da
República a indicação dos ministros‖ (PAGNAN, 2009).
Existe uma elite do poder ou várias elites do poder? O conteúdo do Anexo D
permite voltar ao diálogo entre Charles Wright Mills e Robert Alan Dahl, nos anos
1960: ―Mills sustentava que os governos dos Estados Unidos eram controlados por
uma elite de poder unitária e demograficamente restrita. Dahl defendia a existência
de muitas elites diferentes, as quais têm de operar em situações tanto de conflito
quanto de compromisso entre si‖ (WIKIPEDIA, 2009), o que o levou a desenvolver o
conceito de poliarquia em relação à democracia. Poder, para Dahl, é a ―capacidade
de agir de uma tal maneira que as outras pessoas fazem coisas que não fariam sem
essa influência‖ (DAHL apud KIRKPATRICK, 2008, p. 6).
4.3 REDE DE PODERES
Coube a Michel Foucault (1994) procurar uma abordagem que foge à figura
do Estado, enquanto reduto de poder e manipulação, resgatando as ideias de Karl
Marx ― de que a sociedade é um arquipélago de poderes diferenciados que
funcionam localmente (FOUCAULT, 1994, p. 187) ― bem como as de Pierre
Clastres, com sua antropologia política, na qual destaca a luta das sociedades ditas
―primitivas‖, sem a figura do Estado, contra o poder que lhes é externo e que,
quando permeia essas comunidades, as faz sucumbir. Portanto, as ideias de
Foucault servem para corroborar a tese de Lebrun sobre a impossibilidade de se
liquidar o poder com uma revolução:
[...] pois nem o controle nem a destruição do aparelho de Estado são
suficientes, como muitas vezes se pensa, para fazer desaparecer ou
transformar, em suas características fundamentais, a rede de poderes que
vigora em uma sociedade. (MACHADO, 2006, p. 169)

Antonio Gramsci dedicou-se também a elucidar esse caráter difuso do poder,
ao propor a noção de um Estado ampliado, composto por uma sociedade política e

92

por uma sociedade civil. Para esse autor, o aparato repressivo do Estado é
insuficiente para a promoção de uma hegemonia cultural e ético-política. Essa se
constrói por meio de uma consciência teórica herdada de modo acrítico em que a
aliança entre religião, comunicação e educação têm papel preponderante ao criar as
bases da hegemonia como domínio do poder político associado à direção intelectual
e moral (WIKIPEDIA, 2009).
Para Gramsci, a emancipação, ou contra-hegemonia, viria com a educação
popular, sob a ótica de uma pedagogia crítica, fomentando a aparição do que
denominava ―intelectuais orgânicos‖:
[…] ainda que os intelectuais hindus sejam refratários à propaganda, o papa
disse que era preciso difundir ‗a boa palavra‘ entre eles, pois uma vez
convertidos eles converteriam as massas populares (o papa conhece mais o
mecanismo de reforma cultural das massas camponesas do que muitos
laicos esquerdistas: ele sabe que não se pode conquistar uma grande
massa ‗molecularmente‘; é preciso, para acelerar o processo, conquistar os
dirigentes naturais das grandes massas, isto é, os intelectuais, ou ainda um
grupo de intelectuais de um novo tipo, daí vem a formação dos bispos
63
indígenas […] (GRAMSCI apud PIOTTE, 1970, p. 79)

Mesmo para os autores que conseguiram esmiuçar as malhas do poder,
relacioná-lo à cultura simbólica, comunicação, educação, religião e outros fatores
determinantes para suas resignificações no tempo e espaço, o conceito permanece
envolto em aura maléfica. Em Brasília,

multiplicam-se vários episódios de

corrupção, como os das acusações que pairaram sobre a cúpula do governo do
Distrito Federal, fruto da Operação Caixa de Pandora64, o que, na era digital, das
câmeras miniaturizadas, aparece não só nos jornais, mas em toda a rede com
imagem, áudio e legendas (LEITÃO, 2009), impregnando a palavra ―política‖ de um
sentido de malignidade, a própria encarnação do que há de mais repugnante, um
nome a ser evitado:

63

Tradução da autora. Texto original: ―[…] bien que les intellectuels hindous soient réfractaires à la
propagande, le pape a dit qu'il fallait surtout diffuser ‗la bonne parole‘ parmi eux, car leur conversion
entraînerait celle des masses populaires (le pape connaît le mécanisme de réforme culturelle des
masses paysannes plus que de nombreux laïcistes de gauche: il sait qu'une grande masse ne peut
pas se conquérir moléculairement; il faut, polir accélérer le processus, conquérir les dirigeants
naturels des grandes masses, c'est-à-dire les intellectuels, ou encore, former des groupes
d'intellectuels d'un nouveau type, d'où la formation d'évêques indigènes [...]
64
A Operação Caixa de Pandora foi uma ação da Polícia Federal brasileira, iniciada em 27 de
novembro de 2009, com o apoio do informante Durval Barbosa, e que alcançou grande repercussão
no noticiário nacional no final de 2009, devido às graves acusações de corrupção entre políticos do
Distrito Federal, inclusive o então governador José Roberto Arruda.

93

A maior parte das pessoas que trabalham numa organização admite, na
privacidade, que estão cercadas por formas de ‗arranjos‘, por meio dos
quais diferentes pessoas tentam ir ao encontro de interesses particulares.
Todavia, esse tipo de expediente é raramente discutido em público. A ideia
de que se espera que as organizações sejam empresas racionais nas quais
os membros procuram por objetivos comuns tende a desencorajar a
discussão sobre a motivação política. Em resumo, política é vista como um
nome a não ser pronunciado. (MORGAN, 1996, p. 146).

Em

outros

contextos,

significativas

alterações relacionadas ao juízo de valor que se
atribui a ―poder‖, como sobressaiu durante a
campanha de Barack Obama à Presidência dos
Estados Unidos, com seu lema, ―Yes, we can‖; e no
cenário da campanha de Luíz Inácio Lula da Silva
no Brasil, o ―Sem medo de ser feliz‖, o último
apontado como ―intelectual orgânico‖. Obama e sua
rede alcançaram ―3 milhões de doações individuais,
mais

de

US$500

milhões

recolhidos

on-line,

envolvendo a participação de 2 milhões de redes
sociais, com mais de 200 mil eventos presenciais
Figura 26 – No Facebook, na seção
dedicada às (boas) causas, há
possibilidades de cooperar com
campanhas
estabelecidas
em
diversas redes sociais, localmente
e globalmente. A pessoa também
pode criar a sua própria campanha
caso não encontre afinidade com
os grupos já constituídos. Acima,
alguns exemplos.

legitimidade,

em todos os Estados Unidos‖ (BLUE STATE
DIGITAL, 2008), exemplo ímpar de netweaving (a
arte de tecer redes), feito jamais presenciado na
história desse país.
A positividade de novos arranjos sociais que
tentam

promover

distribuída

do

uma

poder

―topologia
em

rede‖,

mais
com

bem
maior

fica por conta de novas percepções associadas ao pensamento

sistêmico, inerente à natureza das redes, à ―conectividade (tudo está conectado,
nada acontece de forma isolada), à ubiquidade (a conectividade acontece em todos
os lugares e é uma propriedade geral do mundo), à universalidade (as redes são
universais e suas propriedades gerais abstratas podem explicar, descrever e
analisar vasta quantidade de fenômenos) (THACKER, 2004, p. 5 apud RECUERO,
2005, p. 1)
Na Conferência Anual da World Future Society, realizada em Washington,
DC, em julho de 2008, Bill Drayton, um dos fundadores e presidente da Ashoka –

94

Inovadores para o Público –, organização sem fins lucrativos que apoia iniciativas de
empreendedorismo social, em meio à distribuição de uma reedição do livro de
Bornstein (2004), fez questão de ressaltar que ―a empatia ensina um pensar
sistêmico; a diversidade verdadeira ocorre quando as pessoas diferem no pensar‖.
No quesito do empenho individual em promover mudanças, Drayton
descreveu que, há 20 anos, a Indonésia possuía apenas uma organização
ambiental. Hoje tem mais de duas mil. Em Bangladesh, o desenvolvimento do país
fica a cargo de 20 mil ONGs, estabelecidas nos últimos 25 anos. No Canadá, o
número de associações de cidadãos cresceu mais de 50% desde 1987, chegando a
200 mil. No Brasil, em 1990, esses grupos passaram de 250 mil para 400 mil.
Seria esse o berço de um novo conceito de ―política‖? Talvez um retorno às
origens:
É útil lembrar que no seu significado original, a noção política nasce da ideia
de que, quando os interesses são divergentes, a sociedade deverá oferecer
meios de permitir aos indivíduos reconciliarem suas diferenças por meio da
consulta e negociação. Por exemplo, na Grécia antiga, Aristóteles defendia
a política como meio de reconciliar a necessidade de unidade da polis grega
(cidade-estado), com o fato de que essa polis era um ‗agregado de muitos
membros‘. A política, para ele, ofereceu meios de criar ordem na
diversidade enquanto evitava formas e regras totalitárias. (MORGAN, 1996,
p. 146).

4.4 GOVERNANÇA: NEM TUDO QUE BRILHA É OURO
O poder de decidir coletivamente é muito valorizado na atualidade da
―sociedade em rede‖. James Surowiecki, jornalista americano, é um dos que
acreditam na inteligência coletiva, opinião que deixou expressa em The Wisdom of
Crowds (A sabedoria das multidões), livro publicado em 2004, título alusivo a uma
resposta a Charles Mackay, que em 1841 dizia exatamente o contrário em seu livro
Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds (Delírios populares
extraordinários e a loucura das multidões).
Em todos os tipos de contextos, sejam na esfera transnacional ou do mundo
corporativo, e, igualmente, cada vez mais nos Estados nacionais, o poder
está distribuído, difuso, descentralizado, em suma, ele se espraia em uma
multitude de locais da sociedade civil. Falamos de ‗governança‘ para

95

65

denotar o que resulta desse exercício de poder mais complexo .
(WEINSTOCK, 2008, p. 40)

Para Leduc e Lebel (2008), o conceito de governança, gestado na utopia ou
quimera, presta-se a múltiplas interpretações, podendo ser considerado uma
―tecnologia de regulação, fenômeno de coordenação, conselho de administração
revisitado, mesa redonda para alcançar consenso, conceito filosófico e projeto
político‖. Para Gilles Paquet66, trata-se de um reduto de poder que sofre de quatro
classes de patologias: crise de fundamentos (erosão da confiança, da solidariedade,
da consciência profissional, do gosto pela colaboração e pelas parcerias); vícios de
construção (regras fiscais ―débeis‖, regras de imigração absurdas, ausência de
fóruns de negociação em uma federação); desregulamentações setoriais (na saúde,
na educação, nas quais os arranjos precários resultam em filas de espera e evasão);
boas intenções, efeitos perversos e prisões mentais (dissonâncias cognitivas,
integrismos67, obsessões pelo igualitarismo, ―quantofrenia‖68, consensos fracos etc.).
(PAQUET apud LEDUC; LEBEL, 2008, p. 39).
Aos brasileiros que assistiram de perto, na Rio-92, a uma tentativa de
exercício de governança em relação às mudanças do clima, mantêm-se vivas as
questões sobre poder tratadas neste capítulo, ao se refletir no desafio planetário de
administrar sua crise ambiental mediante uma ―centralização da autoridade‖, a ser
feita por meio de uma gestão internacional do meio ambiente, possivelmente sob a
forma de uma ―organização mundial do meio ambiente‖, segundo cogitam os
principais observadores dessa questão.

65

Tradução da autora. Texto original: ―Dans toutes sortes de contextes – par exemple, dans celui de
la sphère transnationale ou du monde corporatif, mais également de plus en plus dans celui des États
nationaux eux-mêmes –, le pouvoir est distribué, diffusé, décentralisé, bref, il est déployé dans une
multitude de sites de la société civile. On parle de gouvernance pour dénoter ce qui résulte de cet
exercice du pouvoir plus complexe.‖
66
Disponível em: http://www.gouvernance.ca/ Acesso em: 4 jul. 2010.
67
Intégrisme, em francês, designa uma vertente de opinião da Igreja Católica, particularmente a
francesa, surgida com a crise modernista, no começo do século 20, quando a corrente mais
conservadora se opôs aos partidários de uma abertura ao mundo moderno, defendendo um
catolicismo integral com a manutenção das « verdades católicas » como sempre foram ensinadas.
Fonte : http://fr.wikipedia.org/wiki/Int%C3%A9grisme
68
Quantophrénie, em francês, é considerada uma patologia que consiste em querer traduzir,
sistematicamente, os fenômenos sociais e humanos em linguagem matemática. Disponível em:
http://www.mediapart.fr/club/blog/guillaume-frasca/160210/quantophrenie Acesso em 3 jul. 2010.

96

4.5 TECNOLOGIAS SOCIAIS E CONTRA-HEGEMONIA
Poder ser cidadão, buscar relações de confiança, de valor, com significado
para melhor (con)viver, trabalhar, construir, aprender a aprender, buscar ser feliz,
cooperar solidariamente na busca de soluções aos problemas, para se construir um
mundo melhor: eis um conjunto de ideias descrito por alguns como utopia e
idealismo, mas constituem alguns dos sentidos que se destacam como força motriz
para multiplicar o universo das tecnologias sociais que dependem de capital social
(confiança e solidariedade nas relações).
No dizer de uma participante da Escola de Redes, durante a última
Conferência Internacional de Redes Sociais (2010), ao comentar a importância de se
estabelecer uma relação para se sentir em rede e não simplesmente estar
conectado, ou ser mero usuário de uma delas: ―rede é a percepção do coletivo que
te permeia‖69. Essa conversa ocorreu durante uma desconferência, conceito de
espaço aberto (open space) em que não há hierarquia no formato das trocas entre
os participantes, marca registrada da Escola de Redes, exemplo de rede distribuída.
Se visitarmos uma das páginas dos Cadernos de Tecnologia Social (figura 27)
em que Dalton Martins (2009) busca refletir sobre o poder, conforme sua interação
pessoal com os conteúdos de um curso do Gaia Brasil 70, módulo de Design Social,
entramos em um universo diferenciado em relação às demais abordagens sobre o
poder.
O poder é narrado dentro de um contexto em que o ―mundo apresenta-se em
constante fluxo; o poder muda; é o movimento da interação e se manifesta na troca;
não é mais ―poder sobre‖ e sim ―poder com‖, em que se amalgamam ―tarefas
(vontade

e

determinação),

processos

(inteligência

e

bons

processos)

e

relacionamentos (amor, empatia, integração e escuta amorosa)‖. Há afinidades com
algumas percepções de Foucault, sobre a ―localização do poder‖, quando esse autor
diz que ―o poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo
que só funciona em cadeia; o poder funciona em rede‖ (FOUCAULT, 1984, p. 177)

69

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE REDES SOCIAIS. Diálogo Interno: Primeiro passo para a
criação de uma rede social. Curitiba, março de 2010. Vídeo parcial dessa conversa entre Luiz
Algarra e grupo. Disponível em: <http://qik.com/video/5417271>. Acesso em: 20 mar. 2010.
70
<http://www.gaiabrasil.net/site/>

97

Figura 27 - Uma das páginas do blog de Dalton Martins revela como o ―poder‖ está sendo pensado
em relação à atuação em rede, em interface com um pensamento sistêmico.

Rodrigo Fonseca71, analista da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep),
em suas participações nos fóruns sobre tecnologias sociais propõe trabalhar essa
rede como um movimento político, sem o qual não se promoverá o seu caráter
contra-hegemônico, engendrado pela natureza participativa e diferenciada das TSs.
À época orientando de Renato Dagnino em sua tese de doutorado, Fonseca aborda
as questões relacionadas às políticas públicas de ciência e tecnologia para o
desenvolvimento social. O pesquisador defende uma mudança na forma de se
pensar desenvolvimento, em que haja profundas alterações na agenda política de
C&T para a nação brasileira.
Um aspecto ―contra-hegemônico‖ em relação ao predomínio do saber
acadêmico,

associado ao pensamento de Foucault, trata da insurreição dos

saberes, o que advoga:
71

Rodrigo Fonseca foi um dos palestrantes da Mesa 3 – ―Das tecnologias apropriadas às tecnologias
sociais‖ – na 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social, realizada em abril de 2009 em
Brasília. Relato sobre esse evento está disponível em: < http://cqv2009.blogspot.com/2009/04/mesaiii-das-tecnologias-apropriadas-as.html> Acesso em: 5 mai. 2009.

98

[…] não tanto contra os conteúdos, os métodos e os conceitos de uma
ciência, mas de uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os
efeitos de poder centralizadores que estão ligados à instituição e ao
funcionamento de um discurso científico organizado no interior de uma
sociedade como a nossa. (FOUCAULT, 1984, p.171)

Nos contextos de prática da tecnologia social, cultivam-se valores, ―incluindo
a participação e a interação de saberes popular e acadêmico‖ (MASSAD, 2008),
como lembra Gerson Guimarães, consultor de projetos do ITS Brasil, que participou
do Programa Osasco Solidária (CAZZUNI et al., 2007), parceria de sucesso entre
governo e comunidades sob a ótica do desenvolvimento local participativo.
Essa insurreição dos saberes ou construção do DLP se insere em uma
mobilização contra-hegemônica global denominada ―Movimento Altermundista‖
(CORRÊA; BOITO JUNIOR, 2006) , contrário ao neoliberalismo e que deu origem ao
Fórum Social Mundial. Como toda contra-hegemonia, tem o sentido de ―baixo para
cima, da sociedade para a esfera política, do local para o nacional e o global‖
(CACCIA-BAVA, 2004), mantendo interseções ideológicas com a Teoria Crítica da
Tecnologia, proposta por Andrew Feenberg (2010).
4.6 A FOME DE PODER E O PODER DA FOME
Se analisarmos o exemplo das questões relacionadas à fome, desnutrição e
obesidade, os dados estatísticos (como os que aparecem na figura 28) estarrecem
pelo quanto ainda está por ser feito. É certo que, se a fome persiste no mundo, um
dos pontos cruciais diz respeito ao fato de os alimentos não estarem sendo
produzidos para nutrir as pessoas, e sim para gerar lucro.
Porém há avanços que o DLP, em parceria com os poderes públicos, tem a
oferecer. O Bolsa Família (MANZANO, 2008) e o microcrédito, citados por Marcelo
Neri da Fundação Getúlio Vargas (FGV) como tecnologias sociais cogitadas para
―exportação‖ a países com perfil similar ao do Brasil, pode ser criticado como
―esmola‖ ou ―programa comprador de votos‖ (CABRAL, 2009), mas seu poder de
dinamizar as relações socioeconômicas em redes sociais, combater a miséria, a
fome nos municípios, especialmente do Nordeste, já é um feito constantemente
reconhecido tanto no Brasil como internacionalmente (GLÜSING, 2009).

99

Não existe uma ―bancada da segurança
alimentar‖72 nas páginas da Folha de S. Paulo,
contribuindo para que aqueles que lutam
contra a fome possam se eleger deputados e
senadores, mas o fato de ter sido esse um
tema prioritário no início do Governo Lula fez
com que surgissem alguns ciclos virtuosos,
envolvendo parcerias entre o poder público,
sociedade civil e setor privado. Algumas
iniciativas puderam se tornar políticas públicas
e promover o que Erundina (2002), no início
dos debates sobre tecnologias sociais em
Brasília, vem destacando em seu trabalho
como

os

mecanismos

da

democracia

participativa, algo além da representatividade,
talvez mais próximo

da

governança

ou

―Estado mútuo‖.
Ainda sobre o exemplo da fome, foram
necessários

seis

anos

para

que,

em

novembro de 2009, a Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) 047/2003, que inclui o
Direito Humano à Alimentação entre os
direitos

sociais

da

Constituição

Federal,

finalmente fosse aprovada em primeiro turno,
pelo plenário da Câmara dos Deputados.
Esse é um exemplo de resposta àqueles que
se questionam se existe mesmo uma relação
Figura 28 - Dados estatísticos sobre
questões relacionadas à segurança
alimentar, provenientes dos trabalhos da
ActionAid, Garutti e Valle (2009).

72

entre tecnologias sociais e política, o que
ocorre via cidadania participativa.

O que ocorreria em uma situação hipotética, na qual a atividade de lobby dos que combatem a
fome pudesse angariar recursos suficientes para financiar campanhas de deputados e senadores e
alcançar representação similar àquelas que constam no Anexo D, no Congresso Nacional.

100

As tecnologias sociais cumprem uma função no desenvolvimento de uma
microfísica das soluções para os problemas locais. Os quintais produtivos
(QUEMEL, 2007), a PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável)
(FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2008), a propagação da merenda escolar
orgânica (DAROLT, 2002), em algumas cidades brasileiras, são exemplos de
iniciativas bem-sucedidas com efeito multiplicador de bons hábitos alimentares, com
repercussão na saúde das crianças e respeito ao meio ambiente. Surgidas
localmente, têm a capacidade de ―polinização criativa entre culturas‖, segundo a
―estratégia do colibri‖, descrita por Francesco Morace (MORACE, 2007), em outros
Estados, quiçá em direção ao global.
Citam-se exemplos relacionados à segurança alimentar e renda mínima, mas
o banco de TSs da Fundação Banco do Brasil73, a Infoteca do ITS, o Espaço de
Conhecimento da RTS, as publicações da Secis, entre outras fontes, reúnem
experiências em várias instâncias, como educação, saúde, meio ambiente, energia,
habitação, gestão dos recursos hídricos etc., que demonstram o poder de
transformação das TSs para diferentes contextos brasileiros.
A governança, especialmente nos municípios, tem muito a lucrar com o
portfólio da C,T&I em interface com a sociedade, com uma visão mais em sintonia
com as realidades locais, especialmente com a valorização do processo de interrelação com tecnologias para a inclusão social, pois correspondem a uma busca por
respostas às questões como as levantadas por Finquelievich no 23º Congresso da
Associação Latino-Americana de Sociologia :
Quais são as novas formas de socialização nos espaços de relação
facilitados por novas tecnologias? Quais novas fragmentações sociais se
criam? Como as pessoas narram os seus mundos tecnológicos (máquinas,
corpos reinventados, naturezas modificadas)? Como as instituições se
reorganizam a partir de novas tecnologias? [...] (FINQUELIEVICH apud
VIZER, 2004, p. 11)

Quanto às patologias, citadas por Paquet, vale a observação de Foucault:
―Toda estratégia de confronto sonha em se tornar relação de poder‖ (FOUCAULT,
1994,

p.

242).

Por

essa

razão,

o

desenvolvimento

de

capital

social,

empreendimentos solidários, uma nova maneira de integrar-se, comunicar-se, poder
73

Disponível em: http://www.tecnologiasocial.org.br/bts/ Acesso em 9 jun. 2009.

101

aprender a relacionar-se em redes sociais é tão importante para que os valores de
uma agenda de CT&I possam considerar culturas tecnológicas diferenciadas.
É nesse universo de empoderamento e convívio dos cidadãos, ao se falar de
tecnologias sociais e desenvolvimento local participativo em interface com as
relações de poder, que não subestimamos a onipresença das malhas das relações
de força, apenas julgamos pertinente lembrar que existe a possibilidade de ―construir
aquilo que poderíamos ser ao nos livrarmos dessa dupla amarra política que é a
individualização e a totalização, simultâneas, das modernas estruturas de poder‖
(FOUCAULT, 1994, p. 231).

102

5 AÇÃO COMUNICATIVA E AUTOPOIESE: CONTRIBUIÇÕES DE HABERMAS E
LUHMANN
Jürgen Habermas e Niklas Luhmann, ambos ex-alunos de Talcott Parsons,
em Harvard (EUA), nos anos 1960, têm contribuições para entendermos os
processos comunicativos que envolvem as tecnologias sociais, porque são filósofos
e sociólogos que buscaram uma imersão – ir além da superficialidade – nos
conceitos que envolvem a prática das relações públicas, esmiuçando como ocorre a
comunicação na esfera pública. Habermas com o paradigma da intersubjetividade
(imbuído da tradição crítica) e Luhmann com o paradigma sistêmico-social. Cada
qual desenvolveu sua teoria para explicar como esse fenômeno se processa e,
embora sejam díspares entre si (em relação a como percebem a estrutura da
sociedade, o papel do indivíduo nas relações sociais, a natureza da comunicação e
o papel da linguagem e a natureza da razão), acredita-se que cada uma dessas
teorias consiga ser portadora de esclarecimentos e insights para a compreensão das
interações que ocorrem entre sistemas que existem e subsistem em função da
comunicação.
Enquanto a proposta de Habermas e o paradigma da intersubjetividade são
fontes de ―concordância‖ e parecem uma forma muito sensata de descrever o que se
vê nos arranjos sociais, no outro extremo, muita cautela esteve presente na escolha
do arsenal teórico de Luhmann. Não queríamos recair no deslumbre com o
indecifrável, nem na camuflagem do incompreensível. Ao ler que ―a comunicação
não é o resultado da ação humana e sim um produto dos sistemas sociais‖, ou seja,
as pessoas não se comunicam, a comunicação se dá entre sistemas, a primeira
sensação foi de estranhamento e discordância, amenizada por outras leituras: a de
que ―um indivíduo não comunica; ele se envolve em comunicação ou torna-se parte
da comunicação‖ (WATZLAWICK, 1993, p. 64) e, na Aula de Roland Barthes, em
que ele menciona que ―a língua é simplesmente facista‖ (BARTHES, 1977, p. 55)
não porque ela

impede alguém de dizer algo, que corresponderia ao papel da

ditadura, mas porque ela obriga a pessoa falar, uma percepção de que todo
processo comunicativo, a despeito da idealização de liberdades de expressão e
―lugares ideais de fala‖, está impregnado de uma série de ―antecedentes‖ de
sentidos e temporalidades dos contextos.

103

Apesar de apontado como uma ―leitura difícil‖, Luhmann (2002) foi um dos
autores que se dedicou a abordar a questão da ―ciência incompreensível‖, texto em
que busca explicitar os porquês das dificuldades de se transcrever ou fazer uso da
linguagem para traduzir a complexidade encontrada na ciência da atualidade.
Embora com um estilo bastante enigmático, sabe seduzir seus leitores ao propor
―um vôo que deve acontecer para além das nuvens […]74‖ (LUHMANN, 1995,
Preface l), pedindo que o sujeito esteja munido, durante sua leitura, de muita
paciência, imaginação, inteligência e curiosidade para experimentar a sua teoria.
Lamenta-se que sua menção neste trabalho esteja bem aquém de sua relevância,
com um uso mais próximo de um salto ―aventureiro‖ com o paraquedas de
Lenormand (citado no item 2.2).
Embora com modestas intenções relacionadas ao pensamento luhmanniano,
somente após a leitura de Holmström (1996) e Curvello (2001), e depois de achar o
livro escrito por ambos, Habermas e Luhmann, intitulado Teoria da sociedade ou
Tecnologia social — qual a contribuição da teoria sistêmica?, julgou-se por bem
trazer as contribuições de Luhmann, especificamente sobre a ―improbilidade de a
comunicação ocorrer‖ (LUHMANN, 1992) e o conceito de autopoiese para esta
dissertação. Isso se traduziu em nossa hipótese de que a rede de tecnologia social
tenta se estabelecer via ação comunicativa, mas recai em contextos nos quais
a comunicação é improvável devido ao resguardo de fronteiras semânticas e
diversidade de percepções por parte dos diferentes atores que integram a
rede.
Já na terceira hipótese, a de que o futuro das tecnologias sociais está
indissociado de uma perspectiva construtivista de agendas locais para C,T&I, pois
as TSs são contra-hegemônicas em relação a uma visão neutra, instrumental e
determinista da tecnologia, pode-se dizer que há uma simbiose entre Habermas e
Luhmann, pois ao julgar que a prevalência do construtivismo está em curso,
estamos

nos

posicionando

com

a

crença

na

ação

comunicativa

e,

contraditoriamente, com certa aposta de que é o conflito e não o consenso que traz
e trará as mudanças ou o redesenho sociotécnico ensejado pelas tecnologias
sociais. Pode-se exemplificar com a menção feita no capítulo anterior sobre a

74

Tradução da autora. Texto original: ―our flight must take place above the clouds, and we must
reckon with a rather thick cloud cover. We must rely on our own intruments.‖

104

manifestação pacífica registrada na Alemanha contra a perpetuação do uso da
energia nuclear. Pode ser vista sob a ótica habermasiana de que é a busca de
reacoplamento entre sistema (representado por um lock-in tecnológico, com a
escolha, construção e uso de usinas nucleares para a geração de energia) e o
mundo da vida (onde residem as esperanças de busca de uma harmonia holística,
envolvendo a ascendência do discurso da sustentabilidade), bem como arena de
conflito entre sistemas que buscam resguardar suas fronteiras e estão dispostos a
lutar por elas, ainda que o meio seja uma manifestação pacífica na esfera pública,
endereçada à elite política, cúpula decisória. A seguir, buscar-se-á elucidar alguns
pontos fundamentais das teorias de Habermas e Luhmann, seguindo boa parcela da
didática de Holmström.

5.1 HABERMAS, O CONVITE À PARTICIPAÇÃO E AS TECNOLOGIAS SOCIAIS

A essência de Habermas está em seu humanismo declarado, ao ter a
humanização da sociedade como meta, o que se expressa em sua crença de que a
sociedade possa ser coordenada pelo princípio da argumentação, razão (reasoning)
alcançada pela conversa, orientada por intersubjetividades, valores, princípios
norteadores para que o diálogo possa acontecer na esfera pública.

Figura 29 – Divisão da sociedade no paradigma da intersubjetividade de Habermas, que não é um
conceito empírico e sim a expressão de diferentes racionalidades. Ilustração da autora, com base
no texto de Holmström (1996).

105

Para Holmström, ao escolher o arsenal teórico de Habermas, seria possível
estabelecer uma equivalência entre ―relações públicas‖ e as ―relações que se dão na
esfera pública‖, distinguindo-as, por exemplo, de relações privadas, como é o caso
do marketing. Por uma comunicação orientada por ―valores‖, ao usar a teoria da
intersubjetividade, é possível falar em relações públicas que sejam ―boas, legítimas,
éticas‖ e o seu oposto também:
A falta de ética ocorre quando o praticante das relações públicas age com
base na racionalidade orientada por propósitos do sistema e com um
interesse estratégico, o que ajuda a manter e até aprofundar a separação
entre as racionalidades do mundo da vida e a do sistema, contribuindo para
75
a desintegração da sociedade . (HOLMSTRÖM, 1996, p. 23)

Habermas não se dedicou a pensar uma teoria crítica da tecnologia, mas
encontra-se presente em diversas iniciativas comentadas nos capítulos anteriores,
especialmente na ―engenharia‖ das Conferências para o Desenvolvimento de
Consenso (CDCs),

no país em que Holmström76 publicou sua dissertação,

mencionadas em Andreasen (1988), que as cita como tecnologia social capaz de
influenciar as decisões que vão além da escolha de quais tecnologias devem ser
utilizadas pela área de saúde em diversos países europeus. Está no âmago da
crítica às tecnologias convencionais ou capitalistas (TCs), da visão de eficiência e
crescimento como fins em si mesmos, orientação geradora de um vazio de sentidos
que o sistema busca ―preencher‖ via ação estratégica. O ideário de Habermas
impera nas intenções e ―arquitetura‖ do desenvolvimento local participativo, arena da
ação comunicativa:
Só um processo de entendimento mútuo intersubjetivo pode levar a um
acordo que é de natureza reflexiva; só então os participantes podem saber
que eles chegaram a uma convicção comum. (HABERMAS, 2003, p. 88)

Essa proximidade também é marcante no paradigma latino-americano da
comunicação e informação (anos 70) – comprometimento com a realidade dos
chamados ―países em desenvolvimento‖ e desejo de democracia. Na esfera da ação
comunicativa, Habermas advoga por uma ―atitude performativa‖, em que os
intérpretes renunciam à posição de superioridade e confrontam-se com o
Tradução da autora. Texto original: ―It is unethical, when the public relations practioner acts on the
basis of the system´s purposive rationality and out of a strategic interest, thus helping to maintain and
deepen the divide between the lifeworld and the system´s anonymous purposive rationality – thus
contributing to society´s disintegration.‖
76
Embora essa autora faça uma opção pela teoria de Luhmann para a melhor compreensão de como
se dá o processo de comunicação na esfera pública, afirma que a tradição crítica de Habermas é a
que sempre manteve predominância na Dinamarca.
75

106

questionamento de ―como superar a dependência de sua interpretação relativamente
ao contexto‖. A resposta apresentada por esse autor indica que ―compreender o que
é dito exige a participação e não a mera observação‖ (HABERMAS, 2003, p. 44).
Na tese de doutorado da pesquisadora Silvia Salgado (2005) há contrapontos
importantes para a proximidade conceitual entre cidadania e participação que,
segundo a autora, por si mesmas, ―não significam democracias‖. Primeiramente,
Salgado relembra a origem do conceito de cidadania na moderna sociedade
ocidental, como um processo de interdependência entre os direitos políticos, civis e
sociais. Faz menção à socióloga e educadora Maria Victória Benevides, que atualiza
o conceito de participação dizendo que cidadania se resume a isso: ―participação
como indivíduo ou como grupo organizado‖, distinguindo ―cidadania passiva‖ – por
todos sermos ―cidadãos passivos garantidos por uma determinada constituição que
atribui deveres e direitos‖ – de uma ―cidadania ativa‖ – ―quando assumimos uma
responsabilidade em relação a essa participação na esfera do poder, tanto para
participar de processos decisórios, como para se organizar na reivindicação de
direitos sociais, econômicos e culturais‖ […] (BENEVIDES, 2002 apud SALGADO,
2005, p. 99).

Talvez por estar ciente do risco de que participação possa vir a ser sinônimo
de cooptação em certos contextos políticos, especialmente quando o ―convite‖ parte
do sistema, com sua racionalidade utilitária e de busca de legitimação via relações
públicas, Marilena Chauí atribui maior grau de exigência ao que o ser humano tem a
oferecer, ao observar que participação ―não é demanda popular (reunião para
reivindicar, para pressionar)‖ e ―não é proposição de realização geralmente traduzida
pelo trabalho popular coletivo (mutirão)‖:
[…] a participação de uma ação coletiva pela qual um bem para a
coletividade se realiza, não é a intervenção contínua do cotidiano, não é a
demanda, a pressão […] É intenção periódica, refletida e constante nas
decisões políticas. O direito de tomar as decisões políticas, de definir
diretrizes políticas, e torná-las práticas sociais efetivas, isso é participação.
(CHAUÍ, 1989 apud SALGADO, 2005, p. 116)

Em seu capítulo dedicado à teoria crítica, Geuss (1988) enumera em qual
sociedade a teoria tem aplicação:
a. é necessário que ―haja uma instituição social que frustre os agentes de
algum grupo social especificado, impedindo-os de realizar seus interesses
imediatamente observados;

107

b. a única razão pela qual os membros da sociedade aceitam esta
instituição e a frustração que ela acarreta é que eles consideram legítima tal
instituição;
c. os agentes na sociedade consideram legítima a instituição somente
porque eles se agarram a um sistema particular de normas (ou a uma visão
de mundo particular);
d. o sistema de normas em questão (ou a visão de mundo) contém como
uma componente essencial pelo menos um elemento adquirido pelos
membros da sociedade, somente por terem sido obrigados a formar suas
convicções em condições de coerção;
e. pessoas na sociedade pensam que apenas deveriam ser fontes de
legitimação aquelas convicções que eles poderiam ter adquirido em
condições de completa liberdade. (GEUSS, 1988, p. 124)

Esse conjunto de pressupostos pode estar subentendido na gestação da
Declaração das ONGs: Ciência e Tecnologia com Inclusão Social (ITS, 2005),
resultante da mobilização feita durante a III Conferência Nacional de C,T&I, um entre
muitos textos em que se vislumbra um alerta sobre desacoplamento entre a
racionalidade do

sistema e aquela do mundo da vida. Essa declaração busca

explicitar a inadequação do discurso e ações estratégicas do sistema, embasado
pela eficiência e crescimento que se traduzem em uma linguagem de mediação de
intersubjetividades e de legitimação do sistema que se vangloria de ―indicadores de
desenvolvimento, apenas números ou índices‖ (a quantofrenia está entre as
patologias da governança, citada no capítulo 4) e expressam ―aumento de PIB,
volume de exportações, superávit primário‖, enquanto no mundo da vida os cidadãos
carecem de sentido, buscam entendimento sobre as informações produzidas pelo
próprio sistema, no caso, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad), entre outras fontes que fornecem estatísticas e análises
socioeconômicas:
[…] 53 milhões de pessoas vivem na pobreza, 85 milhões são analfabetos
funcionais e 40% da população possui renda familiar per capita inferior a R$
5 por dia, insuficiente para garantir as necessidades básicas do ser
humano. E, mesmo possuindo a maior biodiversidade do planeta, a maior
floresta tropical, 12% das reservas de água doce do mundo, neste país a
valoração dos ativos ambientais e a relação entre meio ambiente e pobreza
não são sequer discutidas com seriedade. Questões urgentes como o
equilíbrio da configuração territorial, a moradia nos grandes centros, a
segurança pública, a reforma agrária, a discriminação racial, entre tantas
outras, há séculos clamam por soluções viáveis e eficazes. (ITS et all, 2005,
p. 3)

Essas preocupações interferem na construção de uma opinião pública
favorável ao sistema. Holmström relembra que, originalmente, a esfera pública, o

108

fórum para a formação de opinião pública, consistia em ―círculos de leitura‖, ―eventos
culturais‖, ou seja, encontros entre ―pessoas de carne e osso‖ (flesh and blood
gatherings); as Conferências Nacionais de C,T&I revivem essa possibilidade, mesmo
com transmissão via Internet, mas seu formato é criticado por serem atores que se
apresentam com um discurso autorreferenciado, mais próximo à ação estratégica.
Com a expansão dos meios de comunicação de massa, e atualmente na era
da tela-mundo (LIPOVETSKY; SERROY, 2009), a esfera pública da sociedade foi
substituída por uma multiplicidade de esferas de interação, com uma ou muitas elites
que tomam as decisões importantes na sociedade, e se pode falar de uma formação
privada da política, repleta de interesses econômicos particulares, conforme
abordado no capítulo 4. Novos contextos viabilizam o aparecimento de várias
esferas públicas, inclusive a esfera pública privada e a esfera pública dos meios de
comunicação de massa.
Habermas só aceita a necessidade da mídia simbólica no sistema. No mundo
da vida, a seu ver, a comunicação não pode ser substituída pela mídia simbólica,
pois a integração social ―deve ser baseada na comunicação do mundo da vida,
orientada para o entendimento‖, e não para a comunicação estratégica interessada
ou utilitária

do sistema, a qual Habermas sequer qualifica como comunicação.

Entende a comunicação estratégica do sistema como o campo da busca de
legitimação, no qual idoneidade, boa vontade, legitimidade e ética estão ausentes ou
cedem lugar ao discurso da eficiência e crescimento. Tais valores podem levar à
percepção de que Habermas foi e continua a ser o porta-voz da ―vida como ela
deveria ser‖, o que faz de Luhmann uma espécie de profeta da ―vida como ela é‖.
Também é importante ressaltar que Habermas acreditava na possibilidade de
reconciliação entre a racionalidade do sistema e aquela do mundo da vida, que em
uma fase pré-capitalista chegou a existir. A ação comunicativa seria uma espécie de
―divã coletivo‖ e teria o propósito de promover a emancipação, conforme
mencionado no capítulo 3, aquela dos autores da modernidade, primeira corrente do
pensamento crítico e sistêmico sobre o que é emancipar-se, centrada na
emancipação humana, coletiva e universal que se dá em relação à falsa consciência
e às relações de poder:
O interesse comunicativo se enraíza nas estruturas da ação comunicativa,
pela qual os homens se relacionam entre si, por meio de normas
lingüisticamente articuladas, e cujo objetivo é o entendimento mútuo. Ambas
as formas de conhecimento, geradas pelos respectivos interesses, servem a
um interesse mais fundamental: o da emancipação da espécie. O

109

conhecimento instrumental permite ao homem satisfazer as suas
necessidades, ajudando-o a libertar-se da natureza exterior (por meio da
produção); o conhecimento comunicativo o impele a emancipar-se de todas
as formas de repressão social (ou de seus representantes intrapsíquicos).
Ambos estão, portanto, a serviço da emancipação. Esta é, ao mesmo
tempo, um fim em si e um marco dentro do qual a teoria crítica consegue
perceber as demais ciências, e a si própria, como interessadas. (FREITAG;
ROUANET, 1993, p. 13)

A perpetuação do ideário de Habermas até os dias atuais, especialmente no
Brasil e no universo de discussão sobre as tecnologias sociais, a fé na ação
comunicativa, expressa no desenvolvimento local participativo, refletem uma
apropriação desse discurso pela ação estratégica do sistema, espécie de lobo em
pele de cordeiro; mas também a verdadeira e honesta intenção e ação de muitas
pessoas em trabalhar com esperança, com encanto e confiança diante do outro,
fazendo desse ideário a força motriz de suas vidas e campo de empreendimentos
possibilitadores de transformações nas esferas pública e privada.

5.2

LUHMANN,

SEU

UNIVERSO

DE

SISTEMAS

COMUNICACIONAIS

AUTOPOIÉTICOS E AS TECNOLOGIAS SOCIAIS
Uma primeira diferença marcante entre a teoria de Luhmann em relação à de
Habermas é que o paradigma sistêmico social não tem qualquer preocupação de
ordem moral ou humanista. Considera que a existência de uma perspectiva comum,
coletiva, de uma sociedade tão diferenciada como a atual vem de uma visão
romântica e pouco realista. Sua preocupação maior foi a de desenvolver uma teoria
que descrevesse como se dá a interação entre sistemas sociais e seus ambientes
nas mais variadas tentativas de reduzir a ―complexidade inapreensível de um mundo
socialmente contingente‖ (LUHMANN, 2005, p. 25), o que é feito via processo
comunicativo, produção de sentido e resguardo de fronteiras por parte dos sistemas.
Os conceitos abstratos formulados por Luhmann geraram milhares de páginas
de densa literatura que não é possível aclarar nesta menção que fazemos a esse
autor. Apresentar-se-á breve enunciação de ideias centrais à teoria e, embora
cientes da observação de que ―a sociologia não é ilustração aplicada, mas
clarificada; é a tentativa de obter os limites da ilustração‖ (LUHMANN, 2005, p. 22), o
que promove a abstenção de muitos autores em ousar trazer as abstrações do voo

110

da teoria luhmaniana para as inter-relações da prática, com exemplos da vida
mundana, é exatamente isso que tentaremos fazer em relação ao nosso tema.
Knodt (1995) menciona que Luhmann seguiu Humberto Maturana ao utilizar o
conceito de autopoiese. No entanto, acredita-se que algo maior ocorreu nessa
interação. Em seus trabalhos, especialmente em A Árvore do Conhecimento, não só
de Humberto Maturana mas também de Francisco Varela (1998), esses autores
dedicam um capítulo à análise dos fenômenos sociais. Nessa seção, encontra-se a
observação de que qualquer trabalho que se dedique a entender a fenomenologia
social e não considere a linha de pesquisa desses latino-americanos resultará em
uma obra defeituosa (defective).

Isso não é fruto da arrogância dos filósofos e

biólogos chilenos, mas sim da compreensão que o entendimento humano tem raízes
biológicas, e só ao tentar ―saber como sabemos‖ é possível prosseguir nesse tipo de
investigação.
O que houve nesse ―acoplamento estrutural‖ da leitura de Luhmann em
relação à obra de Maturana e Varela foi comunicação. Tanto no sentido luhmaniano,
quanto no sentido atribuído por esses autores a essa palavra, quando criticam a
metáfora do ―encanamento‖, aquela que caracteriza a comunicação como
transferência de informação (SCROFERNEKER, 2006). A mesma crítica também é
feita por Luhmann, mas esse autor envereda por um ideário diverso daquele dos
pesquisadores chilenos. Para Maturana e Varela, o fenômeno da comunicação
―depende não daquilo que é transmitido, mas o que acontece com a pessoa que o
recebe. E isso é uma questão bem diferente de ‗transmitir informação‘‖ 77
(MATURANA; VARELA, 1998, p. 196). Para Luhmann, a comunicação é a seleção
do que tem significado, no caso, para os sistemas, pois ―as pessoas não
comunicam; só a comunicação pode comunicar‖ (LUHMANN apud HOLMSTRÖM,
1996, p. 60).

Tradução da autora. Texto original: ―The phenomenon of communication depends on not what is
transmitted, but on what happens to the person who receives it. And this is a very different matter from
‗transmitting information‘‖.
77

111

Figura 30 – Entendimento do que é considerado sistema social para Luhmann. Ilustração da
autora, feita com base no texto de Holmström (1996) e Luhmann (1995).

Na teoria de Luhmann tudo é sistema ou ambiente, com exceção do mundo,
fonte de toda a complexidade.
O mundo é extremamente complexo; perante ele, é muito limitada a
extensão concreta da atenção da vivência intencional e da acção. Eis o
abismo que vale a pena transpor mediante a constituição do sentido.
(LUHMANN, 2005, p. 40)

―Entre a hipercomplexidade do mundo e a consciência humana existe uma
ampla lacuna‖, que é onde os sistemas sociais operam com a função de redução da
complexidade. Conforme tentamos resumir, ao incluir alguns aspectos da Teoria de
Sistemas, segundo Luhmann, na figura 30, fica claro que qualquer contato social é
entendido como um sistema78, porém existe uma distinção entre sistemas de
interação informal (o mais básico de todos, pode ser uma conversa entre duas
pessoas); sistemas de organizações (que não equivalem às organizações) e a
sociedade, incluindo até mesmo todas as possibilidades de contato nela existentes.
Além dos sistemas sociais, existem os sistemas psíquicos.
Embora os sistemas sociais não possam sobreviver sem os sistemas
psíquicos, ou seja, os seres humanos, os sistemas sociais não se
constituem de seres humanos. Como sistemas psíquicos, os seres
humanos sempre constituirão ambientes para os sistemas sociais.
79
(HOLMSTRÖM, 1996, p. 56)
78

Na figura 30, consta a nossa tradução. Texto original: ― […] every social contact is understood as a
system, up to and including society as the inclusion of all possible contacts.‖
79
Tradução da autora. Texto original: ―Social systems cannot survive without psychic systems, i. e.
human beings. However, social systems do not consist of human beings. As psychic systems, human

112

Os sistemas sociais são constituídos por significado (meaning), processado
via comunicação. Já os sistemas psíquicos são constituídos de significados
processados pela consciência (consciousness).
O problema central para Luhmann (1995) é a complexidade do mundo. Tenta
reduzi-la ao distinguir o que é sistema e o que é ambiente. Essa distinção é
alcançada via significado. O significado torna possível lidar com a complexidade ao
criar fronteiras que separam o sistema do seu ambiente. O significado é criado e
recriado por meio da comunicação. Isso ocorre em um processo fechado,
autorreferenciado, mas certa porção de abertura é necessária para permitir a
entrada de informação que serve como atrito ou estímulo para a comunicação
inerente ao sistema (acoplamento estrutural).
Essas percepções também estão embebidas no trabalho de Maturana e
Varela, quando analisam como se dá o processo de ontogenia (a história das
mudanças estruturais pelas quais um organismo passa no curso de sua vida, em
que cada organismo começa com uma estrutura original). É com esses autores que
se compreende a razão de o sistema (na biologia denominado ―organismo‖) ser
fechado, mas também estar aberto para poder ser compatível com seu ambiente, o
que chamam de ―adaptação‖. ―A conservação da autopoiese e a conservação da
adaptação são condições necessárias à existências dos seres vivos‖ (MATURANA;
VARELA, 1998, p. 103).
Para Luhmann, a comunicação é coordenada por meio de códigos (mídia
simbólica generalizada) ao redor da qual os sistemas são agrupados em
diferenciadas áreas funcionais da sociedade. Isso permite uma divisão do trabalho
com alto grau de especialização e complexidade em cada área funcional, mas
divide a sociedade em sistemas em que cada um enxerga a sociedade pela própria
lógica e perspectiva, e é isso que permite a diferenciação, o fechamento em um
significado específico. O ambiente não pode penetrar o sistema, apenas o influencia
estruturalmente a partir de fora.
Os sistemas estão, portanto, ―estruturalmente acoplados‖ ao ambiente. Tal
condição é alcançada via observação. Nesse caso, o sistema se contempla em
relação aos outros sistemas existentes em seu ambiente (observação de segunda
beings will always constitute the environment for social systems. This also applies to employees and
organizations‖.

113

ordem) e é compelido a demonstrar alguma consideração, das mais ―interessadas‖,
em relação aos outros sistemas. Esse é o papel das relações públicas, tema da
dissertação de Holmström.
Essa consideração funcional em relação aos outros sistemas é empreendida
com o único intuito de sobrevivência, ou seja, resguardo das fronteiras do sistema, o
que é o ponto de maior interesse para Luhmann: saber como os sistemas fazem
para manter suas fronteiras intactas. No caso da autopoiese, trata-se da produção
autorreferenciada de sentido por parte do sistema, que produz e reproduz
continuamente o sentido que lhe garante identidade, sobrevivência via delimitação
de fronteiras.
Tentando criar um exemplo em que se possa trazer a teoria para a análise do
nosso tema, selecionamos uma frase que foi pronunciada em conversa off-therecord entre Philosophy Doctors durante o Seminário sobre o papel e inserção do
terceiro setor no processo de construção e desenvolvimento da C,T&I (ITS, 2002)80,
conforme ilustrado na figura 31. Trata-se de uma interação informal, um comentário,
questionamento motivado pelos
conteúdos do seminário. Nesse
breve enunciado vale a citação
de que ―a comunicação coloca a
formação de um sistema em
movimento.

Tanto

quanto

persistir, estruturas temáticas e
conteúdos

de

significado

redundantemente

disponíveis

são formados. Uma massa de
autocrítica

emerge

[…]81‖

(LUHMANN, 1995, p. 173). A
expressão: ―a tecnologia está
disponível.
querem?‖,

80

O

que
além

‗eles‘
de

Figura 31 – Frase de conversa ocorrida durante seminário
em que C,T&I, sob a ótica da inclusão social, estiveram
em debate. Ilustração da autora.

Essa frase foi pronunciada fora dos debates do encontro, não consta na publicação.
Tradução da autora. Texto original: ―In this way communication sets system formation in motion. As
long as it continues, thematic structures and redundantly available meaning contents are formed. A
self-critical mass emerges […]‖
81

114

corresponder a uma declaração de que o papel desse sistema psíquico, pela
manifestação de sua consciência, foi cumprido (a tecnologia está disponível pois
nós, na esfera das ciências, trabalhamos para que assim ocorresse), abrange
também um questionamento sobre que outras funções poderiam estar sendo
aventadas para aquele sistema (o que ―eles‖ querem?). Tal atrito ou busca de
redução de complexidade coloca em marcha um processo comunicativo que reflete
o sentido da expectativa de sucesso na replicação de tecnologias; ou seja, se há
tecnologias disponíveis para o saneamento básico, por exemplo, isso, por si, fará
com que haja saneamento básico para a população do país. Em contrapartida,
busca-se considerar os anseios dos sistemas circundantes, mediante a observação
do ambiente, visando o resguardo de suas fronteiras.
No contexto de sentidos sobre a condição de ―a tecnologia já existir‖ e ―o que,
além disso, estaria faltando?‖

é pertinente lembrar que essa é uma visão

fundamentada no ―Modelo Ofertista Linear‖ – conhecimento ‗ofertado‘ por uns e
‗demandado‘ por outros, como descreve Fonseca (2010), sem o envolvimento de
atores sociais:
[…] o desenvolvimento social seria obtido a partir da pesquisa científica, e o
meio acadêmico seria o locus ideal para o início daquele processo virtuoso.
Em seguida, viria o desenvolvimento tecnológico, que levaria à inovação,
que traria por conseqüência o desenvolvimento econômico e, como
decorrência ‗natural‘, o desenvolvimento social. (FONSECA, 2010, p. 74)

Recorda-se o fato de subsistir ou até mesmo prevalecer uma visão neutra,
instrumental e determinista da ciência em diferentes subsistemas do Sistema
Nacional de C,T&I, quando o ITS iniciou os questionamentos, na gestão de Ronaldo
Mota Sardenberg82, durante a II Conferência Nacional de C&T, em 2001, depois, em
2002, no primeiro seminário e, novamente em 2003, no segundo seminário:
Tendo em vista o resgate da importância da Ciência, Tecnologia e Inovação
nos últimos anos, no Brasil, e o agravamento dos problemas sociais, como
construir com as instituições públicas e privadas as soluções?‖ (ITS, 2002,
p. 3)

O sistema começou a exercitar o seu processo de observação, que envolve
recolher informações do ambiente para promover a redução da complexidade do
que estava ocorrendo. Houve uma abertura do todo para visualizar o conjunto de
sistemas que coexistem e levar em consideração o que poderia ser feito para a
82

Ronaldo Mota Sardenberg, diplomata de carreira, foi ministro da Ciência e Tecnologia no governo
de Fernando Henrique Cardoso (1999 a 2002).

115

melhor manutenção de suas fronteiras. Fruto do acoplamento estrutural entre
sistema e ambiente, surge novo arranjo institucional, um sistema de organização
que foi gestado para integrar o SNCT&I para que este pudesse permanecer com
suas fronteiras de sentido intactas. Nesse caso, pode-se aventar o papel da RTS,
que mantém vínculos de gestão com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência
e Tecnologia (Ibict) e, por conseguinte, com o MCT, congregando órgãos públicos e
privados, e a Secis, que é uma secretaria do MCT,

como produtos dessa

compatibilização e tentativa de amenizar a complexidade.
No caso da Secis, a questão ―o que eles querem?‖ foi respondida no Plano de
Ação 2007 – 2010, texto que expressa as ações de longo prazo do MCT, ao se
definirem dois eixos de ações correspondentes à popularização de C,T&I e melhoria
do ensino de ciências e tecnologias para o desenvolvimento social (conforme
expresso no quadro I). Ambos os portfólios com um conjunto de sentidos, e
respectivas fronteiras, tornaram-se uma nova constelação de sistemas ou
subsistemas, dependendo do ponto de observação.
Atuação da Secis
Popularização de C,T&I e melhoria do ensino
de ciências

Difusão de tecnologias para inclusão e
desenvolvimento social

• Apoio a projetos e eventos de
divulgação e de educação científica,
tecnológica e de inovação;
• Apoio à criação e ao desenvolvimento
de centros e museus de ciência e
tecnologia;
• Olimpíada Brasileira de Matemática
das Escolas Públicas (OBMEP);
• Conteúdos digitais multimídia para
educação científica e popularização
da C,T&I na Internet.

• Implementação e modernização de
Centros Vocacionais Tecnológicos;
• Apoio à pesquisa, à inovação e à
extensão tecnológica para o
desenvolvimento social;
• Programa Comunitário de Tecnologia e
Cidadania;
• C,T&I para o desenvolvimento regional
com enfoque em desenvolvimento local
– Arranjos Produtivos Locais (APLs);
• Apoio à pesquisa e ao desenvolvimento
aplicados à segurança alimentar e
nutricional;
• Pesquisa e desenvolvimento
agropecuário e agroindustrial para
inserção social;
• Capacitação em C,T&I para o
desenvolvimento social.

Quadro I – Portfólio de atuação da Secis em 2009.
Fonte: Site do MCT, www.mct.gov.br, acesso em 25 jul. 2010

O portfólio de atuação da Secis, expresso no quadro I, um dos redutos
administrativos e governamentais que promovem as tecnologias sociais com apoio a
projetos financiados com recursos dos Poderes Executivo e Legislativo (as emendas

116

parlamentares), estabeleceu-se por compatibilidade de justaposição aos sistemas
preexistentes que permanecem bem-sucedidos na manutenção de seus limites.
Tudo aconteceu como Luhmann descreve: há o resguardo de fronteiras e cada
sistema permanece com a produção de seu sentido, enxergando a sociedade pela
própria lógica e perspectiva.
Dimensão econômica, dimensão estratégica, dimensão social encontram-se
cada qual segmentada em seus sistemas, com a linearidade supostamente sinérgica
de suas existências. O mesmo se dá com os ―eixos‖ da política industrial e dos
objetivos estratégicos nacionais, cada qual imbuído nos sentidos do Eldorado da
―transversalidade sinérgica‖, que é inviável, na teoria de Luhmann, e ousamos dizer
que na prática também, diante da necessidade do sistema de resguardar suas
fronteiras.
Fonseca (2010) dedicou sua tese de doutorado a esmiuçar como a Política
Científica e Tecnológica para o Desenvolvimento Social (PCTDS) brasileira ―não tem
conseguido, como política-meio, produzir conhecimentos adequados à viabilização
das políticas-fim, orientadas à inclusão social‖ o que ocorre a despeito de ambas
serem ―formuladas na mesma conjuntura política‖ (FONSECA, 2010, p. 1). Uma
leitura desse texto sob a ótica luhmaniana revelaria a mesma dinâmica descrita na
teoria de sistemas, com as contribuições de Luhmann colocando na ordem de
discussão como os sistemas lutam pela autorreferência e autopoiese dos sentidos
que lhes garantem sobrevida e, para tanto, precisam resguardar suas fronteiras.
Vale lembrar a maneira como o presidente Lula faz menção às TSs – sem
usar a expressão ―tecnologia social‖ e sim ―tecnologias simples‖, optando pelo
sentido inofensivo, supostamente ―redutor de complexidade‖, da ―simplicidade‖ –, no
momento de reinstalação da mais alta esfera decisória do Sistema Nacional de
C,T&I, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT)83, tentando incentivar a
aproximação ou melhor convívio entre sistemas que propagam sentidos distintos:
Contamos com o trabalho dos senhores e senhoras integrantes do
Conselho para planejar políticas ousadas e viáveis, e afinadas com os
interesses do nosso País. Nosso objetivo comum é gerar inovação
tecnológica que agregue valor aos nossos produtos, aumentando a sua
83

O Conselho foi criado pelo Decreto nº 75.241, de 16 de janeiro de 1975, como órgão consultivo do
então Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), posteriormente denominado Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A partir de 1985 o Conselho foi reativado pelo MCT. Em
2003, o CCT foi reinstalado com o compromisso de governo de valorizar a ciência e a tecnologia,
além de investir cada vez mais em pesquisa no país.

117

competitividade nos mercados interno e externo. Ao mesmo tempo,
precisamos incentivar e difundir o uso de tecnologias simples que
cumpram papel insubstituível junto às Regiões e comunidades menos
desenvolvidas. (INOVAÇÂO TECNOLÓGICA, 2003)

Outro exemplo que pode ser útil citar, nesse contexto de revelações que a
teoria de Luhmann proporciona àqueles que não se deixam intimidar por certos
aspectos peculiares de sua linguagem, é a engenharia do discurso de Obama, em
Oslo, por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel da Paz. Aborda-se o assunto
pois incluímos a menção ao case da eleição de Obama, no capítulo 4, sob uma ótica
da virtuosidade na tecelagem de redes que o conduziram à Presidência, com o
discurso do ―Yes we can‖, ―Podemos mudar o mundo‖, eventualmente via ação
comunicativa em rede, o que requer um contraponto. Outra razão para a escolha diz
respeito ao papel da indústria bélica como a grande responsável pelo push
desenvolvimentista do que é high tech, financiadora majoritária da pesquisa e
desenvolvimento tecnológico, o que influencia as agendas de C,T&I mundo afora até
os nossos dias.
A leitura desse discurso sob a ótica da teoria de Luhmann é um exemplo
vívido de como os sistemas alimentados pela indústria bélica americana fazem
prevalecer seu sentido em um momento que deveria, supostamente, celebrar as
iniciativas de paz, expectativas reveladas inclusive na proposta de nova orientação
de governança que, supostamente, contribuiu para sua eleição. A fala começa
ponderada, até chegar a um ponto de tensão ao citar o conceito de ―guerra justa‖, do
sangue derramado pelos americanos para proteger o mundo:
Sim, os instrumentos da guerra têm um papel a desempenhar na
preservação da paz […] Pra começar, eu acredito que todas as nações –
fortes ou fracas – devem aderir aos padrões que governam o uso da força.
Eu, como qualquer chefe de Estado – me reservo o direito de agir
84
unilateralmente se for necessário defender a minha Nação.

Nesse enunciado houve uma espécie de desintegração de sentido do
discurso do sistema pacifista em plena entrega do Nobel da Paz, que não teve
nessa comunicação a autopoiese, nem perspectiva de adaptação, de que carecia
84

Tradução da autora. Texto original: ―To begin with, I believe that all nations - strong and weak alike must adhere to standards that govern the use of force. I – like any head of state – reserve the right to
act
unilaterally
if
necessary
to
defend
my
nation‖.
Discurso
disponível
em:
http://eichikawa.com/2009/12/obama-agradecio-%E2%80%9Cno-tengo-una-solucion-definitiva-de-losproblemas-de-la-guerra%E2%80%9D.html Acesso em 11 out. 2010.

118

para fazer prevalecer seu sentido via resguardo de fronteiras. Obama fez o papel do
―cavalo-de-tróia‖, infiltrado no sistema pacifista. Agiu em oposição a sua plataforma
de campanha quando, em vez de reduzir o número de soldados em países
estrangeiros, mandou 30 mil americanos para o Afeganistão (O ESTADO DE SÃO
PAULO, 2009). Prevaleceu o tom da epígrafe do filme dirigido por Andrew Niccol,
de 2005, ―O Senhor das Armas‖, que começa com Yuri Orlov, personagem
interpretado por Nicolas Cage, declarando: "há mais de 550 milhões de armas de
fogo em circulação no mundo. É uma arma para cada doze pessoas no planeta. A
única questão é: como armamos as outras onze?"
Não se faz, neste trabalho, uma apologia de ser tudo simplesmente imutável,
pois tal ideia estaria no extremo oposto do que Luhmann busca explicitar em sua
teoria. Há uma dinâmica incessantemente renovada de criação de sentidos com as
interações, mas os exemplos mostram uma visualização, proporcionada por uma
teoria, das diversas arenas de luta ferrenha por poder e sobrevivência em
sociedades capitalistas, em que a questão da responsabilidade social é tratada por
Luhmann com a percepção de que há tantas morais quanto lógicas atreladas às
funções dos sistemas.
As ideias concebidas por uma teoria crítica que aborda a necessidade de
tecnologias sociais, com toda diversidade de sentidos tratadas nesta dissertação,
têm um caminho árduo a percorrer, especialmente aquele da improbabilidade de a
comunicação ocorrer, segundo a interpretação de Luhmann. Novos sistemas
surgirão inspirados nas palavras sustentabilidade, inclusão, desenvolvimento,
inovação e redes, entre tantas outras que sobressaíram nesta pesquisa sobre TSs.
Serão portadoras de novos acoplamentos estruturais em que cada sistema tentará
se adaptar para sobreviver. Quanto a cada leitor, cabe exercitar a comunicação na
acepção de Luhmann, selecionar para si o que tem significado; e na concepção de
Maturana e Varela, ver o que vai acontecer consigo após a interação com esses
conteúdos, pois essa sim é uma regra: não saímos os mesmos das relações em que
nos envolvemos. A mente está nas relações, o que abre espaço para a visão
sistêmica do trabalho de Maturana e Varela: ―Tudo o que fazemos é uma dança
estrutural na coreografia da coexistência‖85 (MATURANA; VARELA, 1998, p. 248)

85

Tradução da autora. Texto original: ―Everything we do is a structural dance in the coreography of
coexistence‖.

119

6 ANÁLISE DAS RESPOSTAS OBTIDAS COM O QUESTIONÁRIO E COM A
OBSERVAÇÃO DE INICIATIVAS
Conforme expresso no plano de pesquisa, além de buscarmos identificar qual
é a disputa por sentidos associada ao universo das tecnologias sociais nas
referências consultadas, também foi necessário averiguar o que as pessoas têm a
dizer quando questionadas sobre quais sentidos associam às TSs, como se
percebem em relação ao processo comunicativo do qual participam e se estão em
sintonia com o conceito de TS que está sendo construído coletivamente nas últimas
décadas.
Para tanto, conforme descrito no item 1.3.1.2, realizamos uma pesquisa
quantitativa, procurando focar um universo de respondentes que já estivessem em
interação com o tema das tecnologias sociais. Dessa maneira, nossa população
correspondeu a uma parcela de membros da Rede de Tecnologia Social (RTS), emails que obtivemos e copiamos a partir do site dessa instituição; o grupo de
colaboradores da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis) do
Ministério da Ciência e Tecnologia e dos alunos do curso ―A Teoria Crítica da
Tecnologia,

de

Andrew

Feenberg:

Racionalização

Democrática,

Poder

e

Tecnologia‖, realizado na UnB em abril e maio de 2010. O questionário e as
respostas, em sua íntegra, estão disponíveis para consulta e permanecem abertos a
desdobramentos e a várias interpretações (Anexo B). A seguir, mostram-se os
resultados obtidos com as 13 perguntas formuladas, promovendo uma das muitas
interlocuções que podem estar asssociadas a essas respostas.
Ainda nesta seção, estão incluídos os relatos da observação estruturada de três
iniciativas em que as tecnologias sociais são protagonistas: a Fazenda Malunga; os
quintais sustentáveis; as bijuterias e artesanato produzidos a partir da reciclagem de
garrafas pet.

120

6.1 LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Gráfico I – Localização geográfica dos participantes da pesquisa.

Uma das surpresas que se tem ao enviar o link de um questionário de
pesquisa para os repondentes de uma enquete realizada on-line, por meio da
Internet, é o resultado sobre a adesão e a abrangência que se terá ao final do
trabalho.
O questionamento ―Em que região você trabalha?‖, correspondente à primeira
pergunta, permitiu estabelecer a localização geográfica dos participantes. Da
população

de

687

respondentes

em

potencial,

obteve-se

feedback

de

aproximadamente 36%, pois a questão foi respondida pelos 251 indivíduos que
acessaram o link – https://www.surveymonkey.com/s/38QRDWK – no site da
SurveyMonkey. Houve retorno de todas as regiões do país, além de pessoas que
declararam trabalhar na Argentina, Bélgica, França, Peru e Portugal.
Como é possível visualizar no gráfico 1, a distribuição dos participantes ficou,
em ordem crescente, com 16 acessos da Região Norte; 26 da Região Sul; 51 da
Região Nordeste;

83 da Região Sudeste e 90 da Região Centro-Oeste. Cinco

respondentes indicaram trabalhar fora do Brasil e sete pessoas informaram que
trabalham em mais de uma região do território nacional.

121

6.2 VISUALIZAÇÃO DAS IDEIAS MAIS FREQUENTEMENTE ASSOCIADAS ÀS
TECNOLOGIAS SOCIAIS
Sustentabilidade, inclusão, desenvolvimento, inovação e redes foram as cinco
palavras mais repetidamente associadas com as tecnologias sociais entre os
respondentes da pesquisa.
Na segunda pergunta – ―Qual é a primeira palavra que vem a sua mente
quando pensa em tecnologia social?‖ –, o objetivo traçado foi o de conhecer o
sentido que o entrevistado atribui ao termo, antes mesmo de ter contato com as
ideias de conceitos e percepções que estavam incluídos no questionário. Ou seja,
buscou-se colocar a questão em posição inicial para evitar certa ―contaminação‖ de
sentido, desejando que a resposta fosse fruto de uma primeira associação-livre
estabelecida pelo respondente, sintetizada em uma só palavra.

Figura 32 - ―Nuvem de palavras‖ com os principais significados associados às tecnologias sociais.
Fonte: Elaboração da autora, com a utilização do recurso de visualização de tags do site Many
Eyes.

Houve 233 respostas e apenas aquela do respondente número 140 foi
excluída por ser uma sequência aleatória de letras. Algumas pessoas não
resumiram a ideia-chave em apenas um termo, escreveram duas palavras ou
mesmo uma frase (como pode ser constatado no Anexo B). Foi preciso reduzi-las a
um só termo para construirmos uma ―nuvem de palavras‖ com as respostas obtidas,
conforme ilustração da figura 32. Nuvens de palavras são um entre os muitos
recursos de visualização da frequência com que uma palavra aparece em um
conjunto de dados. Esse recurso foi criado por Feinberg (2010), quando trabalhava

122

para a IBM86, ele o descreve como um ―brinquedo‖ para criar nuvens de palavras.
Quanto maior o tamanho da fonte da palavra, maior o número de vezes em que foi
citada. Consideramos útil a inclusão dessa figura por permitir uma fotografia do que
mais se destacou no quesito de ideias mais evocadas pelas TSs.
6.3 SENIORIDADE DA REDE DE TECNOLOGIAS SOCIAIS

Gráfico II – Senioridade do grupo de atores que interage com o tema das
TSs, se antes ou depois de 2003.

Algumas publicações dão a entender que a rede de tecnologia social
brasileira tem sua identidade e seu surgimento coincidente com a criação da
instituição homônima Rede de Tecnologia Social (RTS), fato descrito em 2003
(DAGNINO, 2009), ora com menção a 2004 ou 2005 (OTTERLOO, 2010): ―Então,
surgiu, em 2004, a ideia de criar uma rede de tecnologia social‖ (BRASIL, 2010). Na
terceira questão – ―Você considera que sua participação no grupo de atores que tem
interesse nas tecnologias sociais, assim denominadas, começou antes ou a partir de

86

Pode-se usar o recurso no site Wordle, construído por Feinberg, ou no site Many Eyes, da IBM,
onde publicamos duas visualizações do resultado desta pesquisa, que são de acesso público. Uma
delas, a tag cloud, permite, ao se passar o mouse sobre a palavra, verificar qual foi o número de
vezes em que foi mencionada. Para visualizar a nuvem de tags dessa questão, acessar:
http://manyeyes.alphaworks.ibm.com/manyeyes/visualizations/3ff1621cbc1211df80ad000255111976/
comments/4030894cbc1211df80ad000255111976

123

2003?‖ – buscou-se averiguar se ambos os fatos são considerados coincidentes no
tempo pelo grupo. Constatou-se que, entre os respondentes, 40,4%, 95 pessoas,
declararam que já estavam interagindo com essa temática antes de 2003, e 59,6%
mantiveram contato com o tema a partir desse ano. Houve 67 comentários, nos
quais algumas pessoas indicaram em que momento passaram a interagir com esse
tema.
6.4 CONTRA-HEGEMONIA E POLITIZAÇÃO SEM FILIAÇÃO PARTIDÁRIA

Gráfico III – Filiação partidária dos respondentes.

Ao incluir-se neste trabalho a hipótese de que o futuro das tecnologias sociais
está indissociado de uma perspectiva construtivista, pois as TSs são contrahegemônicas em relação a uma visão neutra, instrumental e determinista da
tecnologia, procurou-se averiguar se a contra-hegemonia, especialmente ao
identificar-se o conceito mais próximo do ideário de Gramsci, dedicado militante do
Partido Comunista Italiano, estaria próxima da desejada ―politização‖, cidadania

124

ativa, e se haveria filiação partidária dos respondentes e, em caso afirmativo, qual
seria a predominância na escolha dos partidos.
Outra razão para incluir a pergunta sobre filiação partidária diz respeito ao
fato de a Secretaria de C&T para Inclusão Social, que tem um portfólio voltado à
discussão e fortalecimento das tecnologias sociais haver sido uma novidade no
MCT, consumada com a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder.
Conforme comentado no capítulo 4, ―Tecnologias Sociais em Interface com o Poder
das Organizações em Rede‖, toda a Esplanada dos Ministérios está dividida entre
partidos políticos e o enlace entre tecnologias sociais e políticas públicas também se
faz via ação política, tanto assim que o orçamento da Secis é composto por recursos
do MCT e por emendas parlamentares.
De acordo com as respostas coletadas, 70,8% dos respondentes, 165
pessoas, disseram não ser filiados a partido político. Um deles acrescentou o
comentário de que ―a filiação partidária pressupõe um programa de ideias e de
convicções, porém com um elenco absurdamente enorme de partidos, não existem
ideias, mas interesses de voto‖. Outros dois participantes estranharam a pergunta:
―Mas que diferença isso faz para o que penso sobre tecnologias sociais?‖ ou ―Por
que a pergunta? Isso tem afinidade partidária?‖
Entre os 68 respondentes que indicaram sua filiação partidária, houve
diversidade e não hegemonia, com 11,2% (26 pessoas) do Partido dos
Trabalhadores (PT); 6,4% (15 pessoas) do Partido Socialista Brasileiro (PSB); 0,9%
(duas pessoas) do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL); 1,7% (quatro pessoas)
do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); 2,6% (seis pessoas) do Partido Verde (PV);
1,3% (três pessoas) do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB); 0,9% (duas
pessoas) do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB); 0,4% (uma
pessoa) dos Democratas (DEM); 0,9% (duas pessoas) do Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB); 0,9% (duas pessoas) do Partido Democrático Trabalhista (PDT);
0,4% (uma pessoa) do Partido Popular Socialista (PPS); 0,4% (uma pessoa) do
Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB); 0,4% (uma pessoa) do Partido
Republicano Brasileiro (PRB); 0,9% (duas pessoas) do Partido da República (PR).
Ao estabelecer uma busca de referência cruzada das respostas, no caso dos
que mencionaram ser colaboradores do MCT, predomina o PSB com 10 filiados e
um integrante do PT. Os outros 17 participantes desse grupo alegaram não ter
filiação partidária.

125

6.5 PERFIL DOS RESPONDENTES DO QUESTIONÁRIO

Gráfico IV – Perfil dos participantes.

Na questão de número 5 – ―Quais afirmações correspondem ao seu perfil?‖ –,
os participantes puderam assinalar mais de uma resposta ou usar a seção de
comentários para adicionar alguma descrição que não estivesse contemplada nas
opções listadas.
Mais da metade dos participantes (122 pessoas, 54% do total) afirmou
participar ativamente em projetos relacionados às tecnologias sociais; 87 pessoas
(38,5%) se identificaram como membros da RTS; houve 28 colaboradores do MCT
e, destes, 23 se reconheceram como trabalhadores do Sistema Nacional de CT&I
(SNCT&I). O SNCT&I engloba as universidades, os 11 Ministérios do Executivo,
agências de fomento e muitas redes temáticas de CT&I, um conjunto bem
diversificado e amplo de atores, conforme esquematizado por Elias (2009) na figura
31. Os 89 pesquisadores que participaram da pesquisa (39,4% dos respondentes)
também não parecem se identificar, em seu conjunto, como integrantes do SNCT&I.

126

Figura 33 – Representação dos Executores do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e
Inovação
Fonte: ELIAS (2009)

Apenas 24,8% dos participantes se reconheceram como ―usuários de
tecnologias sociais‖. Será que esse distanciamento de ―ser usuário de tecnologia
social‖ diz respeito às tecnologias sociais serem boas
para os outros e não para a própria pessoa, ou ainda a
consideração de que as tecnologias sociais destinam-se
às ―populações mais carentes‖, conforme enunciado
encontrado em uma publicação do governo? (BRASIL,
2010)
Ser usuário de uma tecnologia social pode
envolver um gesto tão simples quanto colocar um
chaveiro das Oliveiras (serão conhecidas a partir da
última seção, item 6.1.4) como adereço na porta de casa,
conforme visualizamos na figura 34; sensibilizar-se e agir
em relação a uma mensagem deixada ao lado do
engradado de água,

durante a 2ª Conferência

Internacional de Tecnologia Social em Brasília: ―Adote

Figura 34 – Chaveiro das
Oliveiras, ao mesmo tempo,
adereço decorativo para a
porta
de
casa.
Porta,
chaveiro e foto da autora.

127

um copo‖; ou usar o Minhocasa, uma equipe de minhocas
―da Califórnia‖, para reciclar o lixo orgânico doméstico (figura
35); inventar outros usos para objetos que se destinariam ao
lixo, como a poltrona feita com pneus (figura 36). É também
preocupar-se com a separação e destino do lixo doméstico;
preferir consumir produtos orgânicos, livres de agrotóxico;
desejar, e se puder, usar meio de transporte menos
poluente; querer, e poder, aproveitar a água da chuva entre
as fontes de água existentes em seu domicílio, fazer opções
que

estejam

em

sintonia

com

a

promoção

de

sustentabilidade, maior harmonia entre as pessoas e o meio
Figura 35 – Minhocasa, um
kit para gerenciar os restos
de comida, podas de jardim
e até papéis que podem
virar alimento para plantas.
Informações:www.minhocasa.
com

em que vivem. O Banco de Tecnologias Sociais da
Fundação Banco do Brasil, a Infoteca do ITS e o Espaço
Aberto

de

Conhecimento

da

RTS

são

fontes

de

informação para vários exemplos de como as pessoas
podem se tornar usuárias de tecnologias sociais, sem prérequisito de ―classe social‖, caso tenham interesse.

Foi justamente essa percepção de que existem muitas
pessoas que ―advogam‖ publicamente pelas tecnologias
sociais no Brasil, sem vê-las como uma alternativa possível e
existente em suas vidas, que fez com que incluíssemos entre
os questionamentos sobre quais sentidos são atribuídos às
tecnologias sociais o de ser uma ―filosofia de vida‖, um modo
de encarar a vida, fazer opções e manter relações com
humanos e não humanos com um comportamento inspirado
no humanismo e nos quesitos de uma consciência da
sustentabilidade, o que estaria próximo do ―Ouse conhecer‖,
de Kant, para um melhor agir ou, voltando à citação da
introdução: ter uma nova visão de tecnologia como ―campo
de luta social, uma espécie de parlamento das coisas, onde
concorrem
2010).

as

alternativas

civilizatórias‖

(FEENBERG,

Figura 36 – Poltrona feita
com pneus reciclados,
em exposição na Bio
Brazil Fair 2009. Foto da
autora.

128

6.6 OS SENTIDOS ASSOCIADOS ÀS TECNOLOGIAS SOCIAIS

Gráfico V – Sentidos associados às tecnologias sociais.

Em função da diversidade de palavras, ideias-chaves, que foram evocadas na
segunda questão do questionário, e com os resultados da questão 6 – apresentando
uma metade uníssona e a outra metade do círculo do gráfico V com diferentes
sentidos associados para as tecnologias sociais, entre aqueles que havíamos
identificado na leitura dos livros de Dagnino (2009) e a coletânea da RTS (2004) –,
consideramos que nossa hipótese se comprovou. A rede de tecnologia social tenta
se estabelecer via ação comunicativa, o que assegura uma metade consensual que
expressa adesão ao conceito construído coletivamente; porém a outra metade recai
em contextos em que a comunicação é improvável devido ao resguardo de fronteiras
semânticas e diversidade de percepções por parte dos diferentes atores sobre qual
sentido está mais próximo do que cada um julga ser um sentido pertinente ao se
falar sobre tecnologias sociais.
Praticamente 50% dos respondentes à questão, 110 pessoas, entendem que
tecnologia social tenha um sentido que mais se aproxima do conceito predominante,
construído pelo coletivo, de que sejam ―produtos, técnicas e/ou metodologias
reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam

129

efetivas soluções de transformação social‖. Mas vale lembrar que entre as cinco
palavras que mais se destacaram na brainstorm da questão de número 2 do
questinário – sustentabilidade, inclusão, desenvolvimento, inovação e redes –
nenhuma delas está presente nesse enunciado do conceito.
No extremo oposto, apenas uma pessoa assinalou que considera tecnologia
social como ―meio para a construção de uma sociedade socialista‖. Outro
respondente ficou propenso a marcar essa opção, mas comentou que não o fez por
ser uma visão ―tão determinista‖.
O sentido de ser ―uma filosofia de vida‖ foi assinalado por sete pessoas (3,2%
dos respondentes). ―Uma proposta de reponsabilidade social que valoriza o
empreendedorismo e a reaplicação de tecnologias de baixo custo e já testadas com
sucesso‖ teve a adesão de 36 respondentes (16,3%). ―Tecnologias que se opõem ou
se diferenciam das tecnologias convencionais ou capitalistas (TCs) e da sua lógica
de produção, configurando-se em uma proposta contra-hegemônica de organização
da sociedade civil em relação ao neoliberalismo, ao desenvolvimentismo. Privilegia a
noção de economia solidária e sustentabilidade como seus pilares‖ foi a opção
escolhida por 33 pessoas (14,9%). ―Tecnologias simples, fruto da criatividade e
engenhosidade de qualquer pessoa‖ teve 17 partidários (7,7%). ―Tecnologias que
valorizam o ‗saber popular‘ e, por vezes, o saber ancestral‖ contou com a escolha de
17 pessoas (7,7% do total).

6.7 POSICIONAMENTO EM RELAÇÃO AO CONCEITO DE TECNOLOGIA SOCIAL

Gráfico VI – Aceitação majoritária do conceito de tecnologia social.

130

De um universo de grande diferenciação de palavras e ideias associadas às
tecnologias sociais, na questão sete ocorre convergência para um sentido comum,
com 183 respondentes (83,2%), em concordância com o sentido expresso nas
publicações recentes sobre TSs: ―Tecnologia social compreende produtos, técnicas
e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e
que represente efetivas soluções de transformação social‖.
Apenas 37 pessoas (16,8%) assinalaram que não estão satisfeitas com esse
enunciado. Houve 31 comentários, entre os quais a palavra ―reaplicação‖ foi
questionada, por não ser possível reaplicar TS devido às particularidades e estrutura
de cada comunidade ou ―quem deseja modificar o ‗status quo‘ não pode se prender
ao que é reaplicável!‖. Há indicações de que, em certos aspectos, Habermas estaria
de acordo com os comentários dos participantes:
Toda solução de problemas e toda interpretação depende de uma rede de
pressupostos que é impossível de se abranger; e essa rede não pode ser
recolhida por uma análise visando o universal, por causa de seu caráter ao
mesmo tempo holístico e particular. (HABERMAS, 2003, p. 25)

Outros sentiram falta da menção aos conceitos de ―inovação‖,

―saberes

populares‖, ―melhoria da qualidade de vida‖ e ―sustentabilidade‖.
Vale notar que, em 2010, encontrou-se nova enunciação do conceito de TS,
em publicação do governo: ―Soluções de baixo custo, eficientes contra problemas
cotidianos das populações mais carentes, fáceis de manejar e, principalmente,
reaplicáveis a outras regiões que convivem com dificuldades similares‖ (BRASIL,
2010), mantendo o sentido da simplicidade, mas com uma definição de público-alvo
diferenciada dos conceitos anteriores: ―populações mais carentes‖.
Supõe-se que essa mudança comportamental em relação às questões 2 e 6
também possa se dever ao que a autora Noelle-Neumann (1984) chama de ―espiral
do silêncio‖. Na Alemanha, entre 1965 e 1972, durante as campanhas eleitorais essa
pesquisadora percebeu súbita mudança de opinião dos eleitores, na reta final do
processo de eleição. De acordo com seus estudos, focados nos meios de
comunicação de massa, ao mudar de ideia, os eleitores buscavam se aproximar das
opiniões que julgavam dominantes. O próprio método Delphi, ferramenta utilizada
pelos futuristas, em contextos ou dinâmicas de grupo que visem a obtenção de um
consenso como resultado final de um processo decisório (JACKSON, 2000, p. 216),
prevê que esse comportamento reocorra, ao promover várias rodadas de perguntas

131

e ter a expectativa de que, ao final, haja convergência nas respostas para as
―opiniões dominantes‖, com a ressalva de que, no caso do Delphi, os participantes
têm acesso às respostas dos demais participantes durante o processo e, neste
exemplo, o conceito foi apresentado como fruto do consenso de um coletivo,
previamente estabelecido, o que não é exatamente a mesma situação.

6.8 ATORES EM RELAÇÃO COM OS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Gráfico VII – Relações mantidas entre os membros da rede de tecnologias sociais.

Há uma distribuição equilibrada

entre as relações mantidas pelos

participantes e os atores mencionados no gráfico VII, mas uma peculiaridade surgiu
ao fazermos a análise cruzada dos dados.
Ao buscar-se interseção entre os que se declararam usuários de tecnologias
sociais e os que marcaram possuir relação com usuários de TSs, há, no conjunto
dos participantes, 32 pessoas que têm essas duas respostas assinaladas de forma
conjugada, o que ocorreu predominantemente com respondentes da Região

132

Sudeste, onde se encontra a maioria que se declarou usuária de TSs (26 pessoas,
no grupo de 32 usuários de TSs).
6.9 MEIOS DE COMUNICAÇÃO ENTRE OS MEMBROS DA REDE

Figura 37 – Meios de comunicação entre os integrantes da rede de tecnologias sociais.

Ficou evidenciado, no universo de respostas sobre quais meios de
comunicação são utilizados pelos participantes (figura 37), que os respondentes
estão majoritariamente inseridos na cultura da tela-mundo, com utilização dos
recursos das mídias digitais, prevalecendo a comunicação por e-mail. Isso ocorre,
pelo visto, em detrimento da comunicação impressa, com apenas 21,9% dos
participantes fazendo uso desse meio, mas sem prejuízo da interação presencial,
visto que 53% dos respondentes assinalaram que participam de encontros
presenciais; 42,5% desse grupo participa dos fóruns sobre TSs.
A utilização de sites, formadores de redes sociais, como Facebook e Twitter,
encontra-se assinalada em menor número que a comunicação impressa, contando
com apenas 19,2% dos respondentes. Também subutilizados encontram-se o

133

recurso de comunicação via blog de própria autoria (11,9%) ou de parceiros (14,6%),
skype (10%) e videoconferências (10,5%). Em contrapartida, ainda em sua
―infância‖, o Espaço Aberto de Conhecimento da RTS, também chamado ―Espaço
RTS‖ (figura 38), já tem 30,1% dos participantes da pesquisa, 66 pessoas, em seu
universo de usuários que agrega mais de 400 membros. É um ambiente concebido
para a troca de informações sobre tecnologias sociais, buscando implementar o que
Barros e Miranda (2010) consideram o papel mais importante de uma rede:
―promover a interação, compartilhar conhecimento, (re)criar conhecimento e
construir novas formas de cooperação a partir dessa dinâmica‖.

Figura 38 – Interface do Espaço Aberto de Conhecimento da RTS, com 22 temas para
compartilhamento de experiências. Fizemos uma montagem de imagens para oferecer a
visualização dos 22 temas.
Fonte: www.rts.org.br

134

6.10 REDE DISTRIBUÍDA

Figura 39 – Imagens ilustrativas de redes centralizadas, descentralizadas e distribuídas,
ilustração que acompanhou a questão de número 10 do questionário de pesquisa.

Usamos as imagens do trabalho de Baran (1964), figura 39, para ilustrar a
visualização de uma rede centralizada, descentralizada e distribuída. Nessa
questão, busca-se aferir qual seria a visão de conjunto do participante sobre como
se dá a comunicação desse coletivo, com centralização, descentralização ou de
forma distribuída. A última
alternativa prevaleceu entre
os respondentes, com 117
pessoas

(53,4%), optando

por essa resposta, a da
comunicação feita de forma
distribuída,

conforme

visualização disponível no
gráfico VIII.
Entre os comentários,
houve menção à ―pouca
divulgação

de

encontros

Gráfico VIII – Percepção de uma rede distribuída de
comunicação entre os participantes da pesquisa.

135

regionais‖, ―contatos feitos predominantemente de forma virtual e com os
animadores, sendo o contato com os usuários feito por iniciativa própria‖. Outro
respondente que optou pela representação distribuída da comunicação acrescentou
que ―a comunicação não finaliza em ponta alguma; ela circula, sai do lugar, se
movimenta em várias direções‖.
6.11 PROCESSO COMUNICATIVO

Gráfico IX – Percepção afirmativa de estar em comunicação com os participantes da rede.

Buscou-se saber se os participantes se consideram em processo de
comunicação com a rede, no sentido de que suas contribuições são consideradas e
de sentir-se em processo de diálogo com as opiniões dos outros participantes. Como
é possível visualizar no gráfico IX, 68,3% dos respondentes se consideram incluídos
e partícipes do processo de comunicação em rede; 31,7% responderam que não, e
alguns justificaram suas respostas: ―não, pois vivemos um momento muito mais
político que técnico‖; ―há pouco espaço para interação‖; ―a rede se ‗partidarizou‘ e
passou a incluir projetos que nada têm a ver com tecnologias sociais‖; ―contribuo
pouco, pois não encontro espaço‖; ―busco estar em comunicação, mas ainda não
percebo uma relação de comunicação e sim de informação em relação à rede, acho
que faltam diálogos‖.

136

6.12 VALORES PREDOMINAM NO FUTURO DAS TECNOLOGIAS
Na visão de futuro de 120 participantes da pesquisa (gráfico X), as
tecnologias serão predominantemente condicionadas por valores (55,3%).

Gráfico X – Valores predominam na visão de futuro sobre tecnologias

Esse

posicionamento

em

relação

às

diferentes

percepções

sobre

C&T:

instrumentalismo, substantivismo, determinismo e construtivismo, diz respeito à
nossa hipótese de que a esfera decisória na formulação das agendas de C&T
sofrerá crescente pressão para migrar para uma ausculta das questões locais, em
vez de seguir exclusivamente a ―importação‖ de tendências globais, envolvendo
crescente participação das comunidades.
Houve quem considerasse que as tecnologias serão autônomas (27,2%),
controladas pelo homem (23,5%) e neutras (5,5%). O entrevistado teve a
possibilidade de marcar mais de uma opção entre as respostas apresentadas.

137

6.13 O FUTURO DAS TSs: POSSÍVEIS CAMPOS DE DESTAQUE

Gráfico XI – Relevância das tecnologias sociais para temas selecionados no
portfólio de atuação do MCT, especialmente da Secis.

Inquiridos sobre quais seriam os temas mais relevantes envolvendo as
tecnologias sociais, nos próximos 15 anos, a reciclagem e aproveitamento de
resíduos sólidos ficou estabelecida como a que merece maior destaque, seguida por
fontes alternativas e renováveis de energia; agroecologia; agricultura familiar e
urbana; segurança alimentar e nutricional; inclusão digital; agenda nacional de C&T;
divulgação científica e tecnológica; tecnologias assistivas; construção civil e
confecções; artesanato e cerâmica. Isso demonstra o quão pervasivas são as
expectativas em relação à atuação do portfólio das TSs, ressaltando que não
exploramos temas novos além daqueles já contemplados em projetos e atividades
da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis) do MCT.

138

6.14 TRÊS INICIATIVAS QUE SE BENEFICIAM DE TSs NO DISTRITO FEDERAL
Julgamos que o trabalho ficaria incompleto sem a visita a empreendimentos de
TSs em nossa vizinhança, conversar com pessoas que também optaram por ―viver
esse tema‖, fazer valer a máxima de León Tolstoï: ―Fala de tua aldeia, e falarás do
mundo inteiro‖. A escolha dos projetos foi feita pela proximidade com pessoas que
trabalham em parceria com essas iniciativas, o que viabilizou o contato. Foram
incluídos neste trabalho as três iniciativas mencionadas na introdução: a Fazenda
Malunga, que também

incluímos no capítulo 3, os quintais produtivos ou

sustentáveis e o artesanato feito com lixo reciclável.
Os ―Quintais Sustentáveis‖ originaram-se do projeto realizado inicialmente no
bairro Mestre d´Armas87, em Planaltina (DF). Posteriormente, expandiram-se para as
regiões de Instância Planaltina e Instâncias de 1 a 5. Atualmente, conta com a
participação de 60 famílias. Tem como principal objetivo gerar renda e garantir a
alimentação de famílias de baixa renda. É uma iniciativa do Instituto Novas

Figura 40 – José Bill, à esquerda, tem 90 anos, é aposentado e se dedica aos cuidados da horta em
seu quintal. José Roberto Melo Machado, à direita, coordena o Projeto Quintais Sustentáveis, em
Planaltina, DF, atua como um dos colaboradores do Instituto Novas Fronteiras da Cooperação (INFC).
Fotos da pesquisadora, tiradas em 13 de agosto de 2010.

Fronteiras da Cooperação (INFC) em parceria com o Ministério da Ciência e
Tecnologia (MCT), por intermédio da Secretaria de Ciência e Tecnologia para
Inclusão Social (Secis). É realizado em área urbana e já alcança alguns segmentos
87

Curiosidade: ―o nome Mestre D‘Armas é anterior à fundação de Planaltina. Foi dado em
homenagem a um ferreiro, mestre em conserto de armas, que viveu na região em 1790.‖ (ITS, 2008,
p.15)

139

de áreas rurais. Visa ao incentivo à economia solidária, reaproveitamento de áreas
disponíveis e da chamada água cinzenta, o que é eliminado no uso doméstico
(águas descartadas da pia, chuveiro e lavanderia), usando o sistema de irrigação
por gotejamento.
Para José Roberto Melo Machado (figura 40), mobilizador social, colaborador
do INFC e coordenador do Projeto em Planaltina, o sentido que atribui às
tecnologias sociais corresponde a ―tecnologias de fácil acesso, de baixo custo, que
qualquer pessoa possa dominar, implantáveis em qualquer lugar, e que gerem
resultados‖. Aponta como obstáculos para a realização do projeto a dificuldade de
dar continuidade às iniciativas, visto que o projeto tem duração de 8 meses e há
necessidade de assistência técnica e acompanhamento, especialmente em áreas de
consolidação das atividades. Machado defende o empoderamento dos movimentos
sociais locais, as associações, igrejas ou sindicatos para que fossem os
propagadores dessas iniciativas, quando o poder público não puder estar presente.
Ressalta que as perspectivas de expansão são promissoras, especialmente em
áreas rurais, o que sempre foi o foco primordial do INFC: a agricultura familiar e
orgânica,

permacultura,

o

trabalho

com

os

quilombolas

e

famílias

em

assentamentos. Destaca a satisfação que sente ao ver as pessoas tomarem a
iniciativa de organizar uma feira para a comercialização da produção excedente e
adquirirem novos hábitos alimentares, incentivados pelo cultivo das hortaliças.
As garrafas plásticas vazias são a matéria-prima para que Egídia Gomes de
Oliveira, suas filhas Cleonice, Gláucia, Veronice, Vanusa e Valdelice; o filho, Marcos
Paulo e a cunhada Sarah sejam os transformadores do que seria lixo em arte. As
Oliveiras impressionam pela delicadeza do design, o colorido, a técnica e a
diversidade na criatividade que gera sandálias, abajures, colares, pulseiras, brincos,
chaveiros, flores ornamentais e outras peças em criação, ainda não divulgadas.
Além das garrafas pet, usam diversas embalagens para fazer tapetes, como o que
aparece na parede, ao fundo da foto das três Oliveiras (figura 41).

140

Figura 41 – Ao centro, Egídia Gomes de
Oliveira, matriarca das Oliveiras, ladeada
das filhas Vanusa e Cleonice. À direita,
bijuterias e chaveiro feitos pelas artesãs.
Fotos da pesquisadora, tiradas em
Planaltina, 13 de agosto de 2010.

Há cinco anos, Egídia, que trabalhava como cozinheira em vários
restaurantes de Planaltina, começou a produção do artesanato com as garrafas pet,
e isso trouxe para a família nova perspectiva de trabalho e geração de renda, sem
dizer o aspecto de envolvimento no circuito da reciclagem de materiais
tradicionalmente descartados no lixo e a realização pessoal com a atividade de
criação e artesanato. ―Satisfação em ter o reconhecimento das pessoas, pois o pior
é fazer algo e não agradar‖, comentou Cleonice ao descrever as conquistas que o
artesanato lhe proporciona. ―Trabalhar por conta própria, para si mesmo‖, Egídia
complementa, entre as vantagens do novo ofício.
―No começo, a divulgação era quase inexistente, atualmente a maior
dificuldade é não ter um local próprio‖, comentam. As Oliveiras trabalham em casa e
integraram o Projeto Moda Solidária

Geração de Trabalho e Renda, parceria entre

o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da Universidade de
Brasília (UnB) e a Secis/MCT. Participaram, inclusive, do Capital Fashion Week
(CFW), em 2009, momento em que as coleções dos grupos Sebastianas, Callas e
Oliveiras mostraram bolsas, bordados e acessórios em pet. O Moda Solidária
beneficiou 100 famílias das comunidades de São Sebastião e Planaltina, no Distrito
Federal, pessoas que através de aprimoramento técnico, da inovação (em ambos os
sentidos) no processo de produção e do suporte à comercialização desenvolveram
diversos objetos, entre os quais alguns têm a previsão de serem exportados. Em sua

141

visão de futuro, Cleonice, para quem tecnologia social é sinônimo de ―progresso‖ e
―melhoria‖, vê as Oliveiras conquistarem o mercado e tornarem-se conhecidas:
―pode demorar, mas sinto que vamos conseguir‖, declara com otimismo.
A Fazenda Malunga,
cuja descrição iniciamos no
capítulo
incluir

3

e

procuramos

nessa

observação

estruturada, é um exemplo
ímpar

no

universo

das

tecnologias sociais no cenário
mundial.

Enquanto

participantes

Figura 42 – Vídeo amador, feito pela
autora, disponível no YouTube, com os
flashes da oficina de agroecologia de
abril de 2009, em que Tiago, responsável
pela certificação na Fazenda Malunga,
explica ao grupo qual é o seu papel na
equipe e como se dá a produção de
sentido em relação ao trabalho que é
feito. Para a apreciação de um vídeo
profissional, assistir à reportagem sobre
a Malunga no Globo Rural (PRIA;
SANTOS, 2009).

dos

os
dois

projetos

mencionados

anteriormente

estão

próximos

dos

mais

sentidos

atribuídos às TSs no universo da economia
solidária, com a perspectiva de geração de
emprego

e

reaplicabilidade

renda,

inclusão

de

tecnologias

social

e

simples,

acessíveis a qualquer um, a proposta de
trabalho nessa fazenda também inclui esses

sentidos bem como os demais que foram enunciados na pergunta de número 6 do
questionário de pesquisa. Além disso, abrange as cinco palavras mais presentes nas
associações propostas na questão 2, ressaltando também a interseção com os três
sentidos atribuídos às folk technologies88.
A Malunga é um empreendimento certificado inserido na economia de
mercado, com produção de 180 toneladas de verduras orgânicas por mês, e
mantém interseções com a economia solidária. Localizada em área rural, conta com
equipe de 175 funcionários que têm participação nos lucros da empresa. Para Joe
Valle, a ―ciência e tecnologia começam na casa da gente‖, e foi com essa dupla que
ele, sua esposa, Clevane Valle, e toda uma atuação em rede promoveram o
88

O nosso registro de vídeo da visita à Malunga e participação na oficina de agroecologia está
disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=rcYaXR6RQNA.

142

desenvolvimento da fazenda. Inicialmente com quatro canteiros, e hoje somando 4
mil, distribuídos em 42 hectares de horta, ali são exercitadas, reaplicadas e,
inclusive, inventadas (com o seu próprio Fabrication Lab para a produção de um
adubo específico para cada tipo de planta) o que Joe chama de ―tecnologias de
processo‖. O termo entra nesta dissertação como mais um possível sinônimo para
as tecnologias sociais, com o vetor da adaptação que se dá de dentro para fora,
presente nas inter-relações com visão sistêmica, semelhantes àquelas vivenciadas
na fazenda.
Ao descartar o uso de tecnologias convencionais ou capitalistas, em que há
predomínio de uma visão instrumental, para nutrir o solo e combater as pragas,
especialmente com o uso de adubos químicos e com os pesticidas, ou optar pela
homeopatia para tratar o gado, Joe teve de recorrer à conjugação do saber popular
e ancestral e ao conhecimento científico que, como costuma dizer, ―casam
perfeitamente bem no universo da fazenda‖. Isso se deve ao fato de a validação
desses conhecimentos só ocorrer com a opção pela via da sustentabilidade, o que
requer muita experimentação antes de se fazer uma escolha e obter sucesso com
ela. Escolhas também embasadas em uma filosofia de vida, com os pilares do
―economicamente viável e socialmente justo‖, que ele tenta divulgar ao abrir as
portas a número crescente de visitantes, a qualquer pessoa que revele interesse, até
mesmo a quem esteja produzindo com as tecnologias convencionais e queira
aprender e migrar para a agricultura orgânica.
Pode-se encontrar muito da teoria de Habermas nessa arquitetura de abertura
das oficinas promovidas na Malunga, em certa esperança de reconciliação do
mundo da vida com o tão distanciado ―sistema‖, via ação comunicativa. Oficinas ou
simplesmente encontros entre pessoas de carne e osso (flesh and blood gatherings,
no dizer de Holmström), segundo se formava opinião em outros tempos, que servem
para avivar novas relações na mente das pessoas, colocando uma ação
comunicativa em curso. Luhmann também encontra espaço nesse contexto porque
não está em questão a construção ou modificação de um consenso, já previamente
estabelecido: aquele do banimento dos agrotóxicos, pesticidas e tudo o que não
estiver em equilíbrio com uma interação saudável entre ser o ser humano e a
natureza. O ―sistema orgânico‖ tem suas fronteiras de sentido muito bem definidas
na tolerância zero com esses elementos, cuja nocividade ao meio já foi testada. A

143

comunicação que ocorre nesses encontros já não se restringe à transmissão de
informação, e sim em perceber o que irá acontecer com os visitantes em função
dessas conversas.
Há uma inter-relação com o sentido de inclusão, em que podemos mudar o
verbo ―estar‖ para ―tornar-se apto a participar na determinação das possibilidades de
vida individual e coletiva‖, o que também não é restrito, necessariamente, a
localizações de ―classe social‖. E isso torna-se perfeitamente visível em quem tem
voz nesses encontros: qualquer pessoa aberta a exercitar a ―cidadania ativa‖, o que
requer um exercício cognitivo de vislumbrar novos cenários de alternativas
civilizatórias em que cada um se localiza no mundo, em sua teia de ―emaranhados
com os artefatos‖ a sua volta. Começam a entrar em xeque algumas opções e
escolhas individuais, especialmente quando se consegue a façanha de experimentar
uma reaproximação com a natureza.
Há um convite, manifestado pelo anfitrião, para que as pessoas assumam o
compromisso de ―formar um grande tecido orgânico na nossa cidade, depois no
nosso Estado e também no nosso país‖, do local para o global. E ele tem
legitimidade para pedir essa adesão, ao enunciar a ideia-força em função do que
construiu com o seu ―yes we can‖, nos últimos 25 anos de Malunga, o que está
disponível para comprovação mediante os nossos cinco sentidos.
A vivência, a experiência e a construção da experimentação e adaptação da
agricultura orgânica permitiram que esses indivíduos começassem um processo e
permanecessem na promoção, na tecelagem de uma rede de sentidos que estão
presentes em um movimento bem mais abrangente que o escopo desta pesquisa
sobre tecnologias sociais, na busca de novas relações entre ciência, tecnologia e
sociedade.
Com efeito ―bola de neve‖, a inovação alcançada na fazenda, que faz com
que a sua produtividade cresça e apareça, não é aquela guardada a sete chaves,
muito pelo contrário, pois o interesse é que esse movimento ou filosofia de vida
associada à agricultura orgânica se multiplique, seja inclusivo e prospere, que a rede
de comunicação se dê na forma mais distribuída possível. É assim que alguma dica
de cultivo pode chegar aos Josés dos quintais sustentáveis ou acontecer o caminho
inverso, mesmo porque, apesar das distâncias geográficas, os participantes dessas

144

três iniciativas se conhecem pessoalmente e se localizam ―em rede‖, têm homofilia,
exercitam interações correlativas e autônomas .
A fazenda também recebe membros da Academia que ali realizam suas
pesquisas, aprendem com os processos adaptativos que estão em curso na
Malunga e ensinam o que suas descobertas têm a oferecer. Com a sua incursão na
vida pública, como Secretário de C&T para Inclusão Social do MCT, Joe pôde
participar na disseminação das tecnologias sociais, inclusive dos telecentros, o link
para o primeiro sentido de folk technology, abordado no capítulo 2, visando a
inclusão digital também em áreas rurais, nem sempre as primeiras contempladas
em um país onde o êxodo do campo, o distanciamento das áreas rurais, muitas
vezes adquire a conotação de ―prosperar‖.
A patir de novembro de 2010, como deputado distrital (PSB-DF), eleito por
mais de 6 mil brasilienses, politização com filiação partidária, Joe Valle terá a
oportunidade de escrever novo capítulo de uma atuação em rede que não cessa de
crescer, alimentada por um ingrediente de que Brasília sempre careceu: capital
social, relações alicerçadas na honestidade e confiança, especialmente quando o
contexto é o da política.

145

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao buscar conhecer o processo de construção de sentido relacionado às
tecnologias sociais, objetivo primordial desta pesquisa, fizemos a leitura de uma
parcela da literatura disponível sobre o tema, obtivemos informações de 251
respondentes a uma enquete realizada via Internet, e observamos três
empreendimentos de tecnologias sociais em Brasília (DF).
Desse conjunto de ações, pode-se apontar que a literatura consultada
espelha a hipótese de que há polissemia do termo ―tecnologia social‖, seja no Brasil
ou no exterior, o que resulta em contribuição para que haja diferentes campos de
atuação a expandir-se, um horizonte dos mais férteis para novas ressignificações de
possíveis relações a serem construídas entre ciência, tecnologia e sociedade, em
que o ―S‖ é portador da preocupação com a melhoria da qualidade de vida das
sociedades, mas também desponta como o ―S‖ da sustentabilidade .
Fruto da enquete realizada on-line, resulta uma diversidade de ideias
associadas ao tema com a delimitação de sentidos reincidentes, verbalizados nas
palavras ―sustentabilidade‖, ―inclusão‖, ―desenvolvimento‖, ―inovação‖ e ―redes‖.
Quando apresentados a sete afirmações que estariam associadas ao conceito de
TS, apenas a metade dos respondentes assinalou o conceito que está enunciado
como “produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na
interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de
transformação social”. Posteriormente, na terceira tentativa de questionamento
sobre a satisfação com a maneira pela qual o conceito se encontra expresso, 83,2%
dos participantes da pesquisa manifestaram anuência a essa forma de enunciá-lo.
Em dois dos três empreendimentos de TSs no Distrito Federal, constatou-se a
predominância do discurso voltado à necessidade de geração de emprego e renda,
inclusão social, embasado em preceitos de

sustentabilidade. No terceiro

empreendimento observado, houve a inclusão de maior abrangência e convívio de
sentidos atribuídos às tecnologias sociais, conforme mapeamento apresentado
nesta dissertação, entre os quais se destacam alguns:

tecnologias simples, fruto da criatividade e engenhosidade de qualquer
pessoa;

146

proposta de responsabilidade social que valoriza o empreendedorismo
e a reaplicação de tecnologias de baixo custo e já testadas com
sucesso;

filosofia de vida;

produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na
interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de
transformação social;

tecnologias que se opõem ou se diferenciam de tecnologias
convencionais ou capitalistas (TCs) e de sua lógica de produção;

valorização das noções de economia solidária e de quesitos de
sustentabilidade em seu embasamento;

tecnologias que valorizam o saber popular e ancestral;

tecnologias de processo, em que a adaptação se faz ―de dentro para
fora‖.

A ―rede‖, o ―movimento‖ ou o ―fórum‖ de tecnologia social tenta se estabelecer
via ação comunicativa, expressa na engenharia do processo comunicativo posto em
marcha pela dinâmica do desenvolvimento local participativo, mas recai em
contextos nos quais a comunicação é improvável devido ao resguardo de fronteiras
semânticas, ideológicas e diversidade de percepções por parte dos diferentes atores
que integram a rede. Comprovou-se a ampliação de sentidos encontrados e
descritos a partir da literatura consultada, bem como com as respostas das questões
2 e 6 do questionário da pesquisa. Porém, ao haver a anuência de mais de 80% dos
participantes da pesquisa em relação ao conceito construído pelo coletivo, pode-se
supor que muitas pessoas que têm ideias diferenciadas sobre o que TS significa
para elas, estão dispostas a ―ceder‖ ou ―silenciar‖ para que um consenso prevaleça.
Acredita-se que a riqueza dos sentidos associados às tecnologias sociais está
enraizada em sua ampla diversidade, em uma microfísica das soluções a partir de
problemas locais. As enunciações, embora diferenciadas, guardam afinidades, o que
não representa ―prejuízo‖ a quem estiver munido de curiosidade e tolerância para
relacionar-se com a polissemia do termo, conforme enunciado em nossa segunda
hipótese, o que pode contribuir, ainda mais, para a ampliação dos campos de
atuação. Julga-se que a construção de um único consenso possa ser redutora para
um conjunto de ações que poderiam conviver, justamente por prezarem pelo gosto

147

da ―existência de alternativas‖, não perceber tudo como algo dado e predeterminado,
um só caminho, no dizer do poeta sevilhano António Machado: ―Caminante, no hay
camino, se hace camino al andar‖. Ousar desafiar a visão neutra e instrumental da
C&T, que se recebe passivamente, como um pacote fechado e imutável – a
tecnologia convencional e um modelo de vida cujo desenho é estabelecido sem que
dele participemos criticamente –, associado a todo um conjunto de crenças e
comportamentos que o acompanha.
É possível, por exemplo, haver vários Fabrication Labs no Brasil. Não por
uma razão de imitação, porque os outros países já os têm, e sim porque o sentido
de sua criação já existe por aqui, em meio aos debates sobre TSs, o que nos faz
partícipes na comunicação desse ―sistema social‖, na visão luhmanniana, por
compartilharmos, já termos selecionado e validado tal sentido. Ao nos referirmos ao
movimento brasileiro ou latino-americano podemos usar, além da tradução literal
―social technologies‖, a expressão ―folk technologies‖ para fazer menção ao
movimento pelas TSs no Brasil, o que nos une a uma constelação bem maior de
iniciativas em escala planetária.
Acredita-se que os conteúdos trazidos por maior participação da sociedade
em relação aos temas das ciências e tecnologias transformará muitas pessoas em
usuárias de tecnologias sociais nos seus mais diversos sentidos. Esse é um ponto
importante que surgiu no decorrer da pesquisa, o fato de que muitos advogam a
favor das tecnologias sociais, mas não se consideram usuários de TSs. Não se quer
frisar a obrigatoriedade e sim a naturalidade que supúnhamos existir em ―ser usuário
de TS‖, constatação que esteve ausente em alguns resultados desta pesquisa.
A observação de que existe uma interpretação de tecnologia social como
aquela que é exclusivamente destinada aos cidadãos de baixa renda deve ser tema
de conversas. É certo que as populações de menor renda são maioria no país e têm
muito proveito a tirar da variedade de ideias, produtos, novas formas de associar-se
e encontrar soluções conjuntamente, o que está no cerne das discussões do
desenvolvimento local participativo, campo de construção de tecnologias sociais.
Porém, essa delimitação do público-alvo pode enveredar pelo mesmo caminho da
legitimação de uma visão da divisão de trabalho que estigmatiza certas funções,
profissões, produtos, estéticas, enfim, escolhas como as mais adequadas para os
mais destituídos: lidar com o lixo (dos outros), por exemplo. ―A cada qual o lugar que
lhe pertence‖, lema do tecnocrata Jean Coutrot, idealizador do Centro de Estudos

148

dos Problemas Humanos. Isso seria satisfatório para quem não vê sentido, por
exemplo, em uma gestão e responsabilidade individual na separação e
encaminhamento do lixo que cada qual produz. Aqueles que acreditam que a
mágica que faz o saquinho e as toneladas de lixo sumirem após depositá-los na
calçada da rua pode e deve continuar o seu curso.
Ao enveredar por uma ―distinção de classe‖ para as TSs, corre-se o risco de
fazer com que seja a tecnologia da inclusão social que, paradoxalmente, manterá os
―desfavorecidos‖ com a distinção de ―excluídos‖, remetendo ao comentário de
Sawaia de que os processos de exclusão pertencem ao (dis)funcionamento do
sistema. Não escolhemos nesta dissertação um conceito de inclusão que fosse
sinônimo de afiliação a um programa ―x‖ de dado governo, sinônimo de ter o nome
no cadastro, ser ―fichado‖, ou algo similar, e sim aquele de

tornar-se ―apto a

participar integralmente na sociedade e controlar o próprio destino‖, na medida do
possível e com muito mais que alfabetização.
O condomínio de luxo que usa um emissário para conduzir seus esgotos sem
qualquer tratamento a uma praia onde as pessoas se banham, o que aconteceu e
continua a acontecer em várias cidades brasileiras, carece de uma tecnologia social
com a mesma premência de uma favela que despeja seus dejetos a céu aberto.
Uma nova visão de tecnologia como

―campo de luta social, uma espécie de

parlamento das coisas, onde concorrem as alternativas civilizatórias‖, conforme a
citação de Feenberg que se encontra na Introdução.
Essa compreensão, de poder influenciar qual é o patamar civilizatório que nos
pertence e satisfaz, é fundamental para entender as muitas adjetivações que se
tenta ―casar‖ com a palavra tecnologia, e que conduziu a esse complemento do
―social‖, em tantas épocas e contextos diferenciados. Tal discussão precisa chegar,
atravessar fronteiras muito bem resguardadas, àqueles que estão conduzindo, por
exemplo, o futuro da construção civil no Brasil; a quem puder intervir para que haja
iluminação pública feita com energia solar; ao currículo das escolas e universidades;
àqueles que elaboram normas técnicas e políticas públicas; aos que estudam novos
materiais, especialmente os destinados às embalagens dos produtos de consumo de
massa e tantos outros ambientes. Enfim, que ela se torne o mais pervasiva possível
nos conteúdos de uma Agenda Nacional de C,T&I, de uma política industrial entre
muitos outros sistemas que buscam resguardar suas fronteiras em relação aos

149

questionamentos, à comunicação e requisitos que estão associados às TSs,
especialmente no que se refere ao vetor da sustentabilidade.
No que se refere à hipótese de que o futuro das tecnologias sociais esteja
indissociado de uma perspectiva construtivista de agendas locais para C,T&I, pois
as TSs são contra-hegemônicas em relação a uma visão neutra, instrumental e
determinista da tecnologia, acreditamos que isso esteja em sintonia com o exemplo
da Fazenda Malunga e com a opinião dos respondentes da pesquisa que
assinalaram que as tecnologias serão guiadas por valores. A sequência de
construção de um artefato em termos construtivistas, tal e qual descrita por Bjiker e
Pinch (Figura 6 desta dissertação), apresenta alguns aspectos análogos ao que
ocorre na fábrica de insumos da Fazenda e, em certa medida, à sequência de
produção no artesanato feito a partir do material reciclado, em que há uma
possibilidade de experimentação e de intervenção, de fazer escolhas, com a força
do poder local, bottom-up, de baixo para cima.
São as possibilidades de optar, de participar do processo decisório, que
inexistem quando se compra, por exemplo, um eletrodoméstico com tomada de três
pinos, já adaptada ao novo padrão que prevalecerá no Brasil e, cabe a nós,
consumidores, a tarefa de buscar uma adaptação de fora para dentro. Nesse caso, é
necessário procurar uma loja que venda um adaptador para poder ligar o aparelho,
visto que a indústria não se preocupou – encampou o novo design sem se preocupar
em fornecer um adaptador –

e tampouco os domicílios estão prontos para tal

mudança, feita de cima pra baixo, top-down, sem a participação popular. Não houve
escolha nessa e em muitas outras decisões de alteração de design que afetarão a
vida de todos os habitantes de um país.

Fatos como esse fazem com que os

exemplos construtivistas percam em ―escala‖ para os exemplos deterministas, como
os de Schroeder, o qual acredita que a tecnologia torna-se cultura a partir do
momento em que é traduzida no uso quotidiano.
A inclusão dos filósofos, além dos sociólogos, na arena dos debates onde se
busca compreender o cerne dos significados que a tecnologia tem na vida de cada
um de nós, é muito bem-vinda. Um bom começo, para que cada qual pudesse
avaliar como se posiciona em relação ao tema, seria mais bem expresso se
redigíssemos um diário sobre nosso emaranhado de relações cotidianas com os
artefatos que fazem parte de nossas vidas. Seria uma tentativa de tirá-los de sua
transparência, segundo a visão de Heidegger, e inquirir sobre quais sentidos lhes

150

atribuímos, o quanto compreendemos sobre seu funcionamento, razão de ser e
impacto ambiental, se são meios para construirmos relações de confiança,
emancipar-nos ou sermos simplesmente cidadãos melhores. Qual é a pegada
humana (human footprint) que estamos ajudando a construir com ciência e
tecnologia ―na casa da gente‖, onde, segundo Joe Valle, elas começam a existir e
ganhar sentido?
Caso Stengers e Bensaude-Vincent estivessem com a razão, e a questão da
responsabilidade que se quer atribuir às ciências e aos cientistas, à qual
acrescentamos a tecnologia, pertencer à esfera das dissertações morais, sem
importância, secundadas pela ironia de Alexander e Schmidt sobre o fato de todo
―engenheiro social ser um moralista‖, ainda assim precisaríamos que a filosofia nos
conduzisse aos muitos outros questionamentos e críticas que acompanham as
reflexões sobre moral e ética em diferentes contextos. Especialmente para melhor
compreensão do posicionamento de Luhmann, de que há tantas morais quanto
lógicas atreladas às funções dos sistemas. Esse é um capítulo que não escrevemos
e que talvez fosse útil para tratar de diferentes correntes filosóficas sobre o que é
ética e moral, especialmente no caso das tecnologias sociais que são enunciadas
com um conjunto de valores. Passaríamos pelo utilitarismo de Jeremy Bentham; a
moral deontológica de Emmanuel Kant, a ética da virtude de Aristóteles, o ―dilema
moral‖ de Lawrence Kohlberg, a moral da solicitude das feministas, relativismo,
comunitarismo, pós-modernismo de direita, biologização da ética (BAILLARGEON,
2008), entre tantas abordagens que podem servir a elucidar a ênfase aos valores,
tão presente no movimento em prol das tecnologias sociais no Brasil.
Apesar de identificarmos as limitações deste trabalho, acreditamos que em
relação à proposta de estudar como se deu e continua a acontecer a construção do
processo comunicativo sobre as tecnologias sociais; de identificar os elementos de
diferenciação e estabelecimento de sentido entre os sistemas sociais que coexistem
no universo das tecnologias sociais, e de conhecer os principais debates da
atualidade sobre o tema, inseridos nos questionamentos entre as relações cogitadas
entre ciência, tecnologia e sociedade, esses objetivos foram alcançados.
No que se refere aos processos comunicativos, a conjugação das visões de
Habermas e Luhmann, tão diferenciadas entre si, sobre a prática das relações
públicas, esmiuçando como ocorre a comunicação na esfera pública, ofereceu uma

151

adequação e revelações inesperadas. Com Habermas, vislumbramos que a
necessidade de se construir sentido, incessantemente, na esfera pública, é uma
força poderosa para criar adesão ao movimento das tecnologias sociais, enquanto
essa rede se mantiver com a sua razão de ser espelhada nas expectativas e
enunciações que estão próximas àquelas dos valores do mundo da vida,
especialmente com o destaque ao vetor da sustentabilidade. Com Luhmann, foi
possível aventar o quão complexas são as estruturas sociais que tornam improvável
que a comunicação ocorra em meio a uma superprodução de sentidos que estão em
disputa, buscando ―um lugar ao sol‖ e sobrevivência via resguardo de fronteiras que
podem ser semânticas, ideológicas, de poder. Em ambas as abordagens, o que é
central são as relações que se estabelecem durante tais processos comunicativos, e
que novas percepções, atitudes e ações podem surgir desses ―embates de
sentidos‖.

152

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169

ANEXO A

Mensagem-convite endereçada aos respondentes da pesquisa

Data: 23 de julho de 2010 11:27
assunto: Pesquisa - Tecnologias Sociais
enviado por: nkneippsena@gmail.com

Prezado(a) colega,

Conto com a sua colaboração na pesquisa que estou realizando sobre as
tecnologias sociais (TSs).
Sua participação é muito importante por reconhecê-lo(a) como um(a) colaborador(a)
de destaque, com atuação em rede, nesse processo comunicativo de construção de
sentido para as TSs. Além disso, sua opinião representará um incentivo aos
trabalhos de pesquisa sobre esse tema.
O link, incluído abaixo, o(a) conduzirá a um questionário com 13 perguntas em que
são abordados diversos aspectos relacionados às tecnologias sociais. Essa
pesquisa está sendo realizada por mim, aluna do curso de Mestrado em
Comunicação da Universidade Católica de Brasília (UCB).
As informações
fornecidas servirão exclusivamente para os fins desta pesquisa acadêmica e a
eventual redação de artigos científicos que dela possam resultar. A sua participação
é anônima. Não há fins comerciais associados a este trabalho.
Por favor, clique no link abaixo, ou copie essa URL no seu navegador e responda a
todas as perguntas do questionário. O link permanecerá aberto aos respondentes
até o dia 31 de agosto de 2010. Se você conhece ou trabalha com outros parceiros
que colaboram com a rede de tecnologia social, por favor, compartilhe esta
mensagem.
https://www.surveymonkey.com/s/38QRDWK
Agradeço, antecipadamente, pela sua valiosa participação.
Nathália Kneipp Sena
nkneippsena@gmail.com

170

ANEXO B
Questionário de pesquisa e respostas obtidas89
Questão 1

89

Trata-se dos dados brutos da pesquisa, tal e qual foram recuperados do site da SurveyMonkey,
sem qualquer alteração na diagramação ou adequação/correção dos textos.

171

Questão 2

172

173

174

175

176

177

Questão 3

178

179

180

Questão 4

181

182

Questão 5

183

Questão 6

184

185

Questão 7

186

187

Questão 8

188

Questão 9

189

Questão 10

190

191

Questão 11

192

193

Questão 12

Questão 13

194

ANEXO C
Roteiro de observação estruturada
Observação estruturada de três projetos ou iniciativas em que as tecnologias
sociais tenham predominância entre as atividades realizadas. As escolhas dos
projetos visitados se devem à proximidade desses empreendimentos em relação ao
perímetro urbano de Brasília e contatos preestabelecidos na Secretaria de C&T para
Inclusão Social:
a) Fazenda Malunga
b) Quintais sustentáveis (Planaltina-DF)
c) Produção de bijuterias e artesanato a partir da reciclagem de garrafas pet
A. Quadro geral de observação
1. Projeto se realiza em área

2. Natureza econômica do projeto

3. Visão de tecnologia social expressa pelo grupo ____________________
4. Número de participantes _______________________________________
5. Objetivos do grupo com o projeto________________________________
6. Principais conquistas __________________________________________
7. Obstáculos encontrados ________________________________________
8. Perspectivas _________________________________________________
Caso seja consensual a realização de um registro fotográfico por ocasião das três
visitas, solicitaremos que as pessoas fotografadas manifestem-se, por escrito,
quanto à possibilidade de uso de sua imagem. Usaremos uma declaração de
autorização de uso da imagem para esse fim.

195

ANEXO D

As principais bancadas no Congresso (2003)
Fonte: VAZ (2003)

A BANCADA DAS EMPREITEIRAS
Deputados

Doações, em R$ mil

Aluízio Nunes Ferreira (PSDB-SP)
José Carlos Martinez (PTB-PR)
Félix Mendonça (PTB-BA)
Givaldo Carimbão (PSB-AL)
Saraiva Felipe (PMDB-MG)
Luiz Piauhylino (PSDB-PE)
Alexandre Santos (PSDB-RJ)
Vander Loubet (PT-MS)
Joaquim Francisco (PFL-PE)
Marcelo Siqueira (PMDB-MG)

405
300
287
180
170
150
131
121
120
158

Senadores
César Borges (PFL-BA)
Eduardo Azeredo (PSDB-MG)
Teotonio Vilela Filho (PSDB-AL)
Marco Maciel (PFL-PE)
Hélio Costa (PMDB-MG)

400
294
209
200
158

A BANCADA DA SIDERURGIA
Deputados
Paulo Delgado (PT-MG)
Vincentinho (PT-SP)
Raul Jungmann (PMDB-PE)
José Militão (PTB-MG)
Delfim Netto (PPB-SP)
Patrus Ananias (PT-MG)
Armando Nogueira (PMDB-PE)
Onyx Dornelles Lorenzoni (PFL-RS)
Mussa Demes (PFL-PI)
Virgílio Guimarães (PT-MG)

Doações, em R$ mil
135
127
120
120
120
115
100
100
100
90

196

Senadores
Eduardo Azeredo (PSDB-MG)
Sérgio Zambiasi (PTB-RS)
Sérgio Guerra (PSDB-PE)
Cristovam Buarque (PT-DF)
Hélio Costa (PMDB-MG)

400
250
248
160
150

A BANCADA DOS USINEIROS
Deputados

Doações, em R$ mil

João Lyra (PTB-AL)
Nárcio Rodrigues (PSDB-MG)
João Caldas (PL-AL)
Anderson Adauto (PL-MG)
Givaldo Carimbão (PSB-AL)
Michel Temer (PMDB-SP)
Luiz Piauhylino (PSDB-PE)
A. C. Mendes Thame (PSDB-SP)
Maurício Malta Lessa (PSB-AL)
Ronaldo Vasconcellos (PL-MG)

518
310
282
160
50
50
50
40
40
36

Senadores
Jonas Pinheiro (PFL-MT)
Teotonio Vilela (PSDB-AL)
Hélio Costa (PMDB-MG)
Marco Maciel (PFL-PE)
Eduardo Azeredo (PSDB-MG)

256
200
100
100
50

A BANCADA DA SAÚDE
Deputados
Pauderney Avelino (PFL-AM)
Francisco Dornelles (PFL-RJ)
Walter Feldman (PSDB-SP)
Herculano Anghinetti (PPB-MG)
José Múcio Monteiro (PFL-PE)
Luis Antônio Fleury (PTB-SP)
Ronaldo Vasconcellos (PL-MG)
Mário Henringer (PDT-MG)
Bispo Rodrigues (PL-RJ)
Osmânio de Oliveira (PSDB-MG)

Doações, em R$ mil
400
111
110
100
100
100
100
69
50
46

197

Senadores
Teotonio Vilela Filho (PSDB-AL)
Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM)
Roseana Sarney (PFL-AM)
Jefferson Peres (PDT-AM)
Cristovam Buarque (PT-DF)

130
100
100
60
50

A BANCADA DOS BANCOS
Deputados
Arnaldo Madeira (PSDB-SP)
Danilo de Castro (PSDB-MG)
Gilberto Kassab (PFL-SP)
Leonardo Alcântara (PSDB-CE)
José Sarney Filho (PFL-MA)
Roberto Magalhães (PFL-PE)
Ney Lopes (PFL-RN)
Paes Landim (PFL-PI)
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR)
A. C. Mendes Thame (PSDB-SP)

Doações, em R$ mil
151
150
120
100
100
90
90
85
77
70

Senadores
Romeu Tuma (PFL-SP)
Marco Maciel (PFL-PE)
Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM)
Ramez Tebet (PMDB-MS)
Roseana Sarney (PFL-MA)

480
324
310
300
200

A BANCADA DO PAPEL E DA CELULOSE
Deputados
Fábio Souto (PFL-BA)
Armando Monteiro Neto (PMDB-PE)
José Carlos Elias (PTB-ES)
Marcus Vicente (PPB-ES)
José Carlos Araújo (PFL-BA)
João Almeida dos Santos (PSDB-BA)
Luiz Carreira (PFL-BA)
Renato Casagrande (PSB-ES)
ACM Neto (PFL-BA)

Doações, em R$ mil
200
150
120
100
100
90
80
80
75

198

Ney Lopes (PFL-RN)

69

Senadores
Gerson Camata (PMDB-ES)
Magno Malta (PL-ES)
Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA)
César Borges (PFL-BA)
Osmar Dias (PDT-PR)

250
70
50
50
18

A BANCADA DA MINERAÇÃO
Deputados

Doações, em R$ mil

Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO)
Aracely de Paula (PFL-MG)
Ronaldo Caiado (PFL-GO)
José Dirceu (PT-SP)
Jorge Khoury (PFL-BA)
Biscaia (PT-RJ)
Virgílio Guimarães (PT-MG)
Patrus Ananias (PT-MG)
Valdemar Costa Neto (PL-SP)
Vilmar Rocha (PFL-GO)

300
150
100
100
75
51
50
50
50
50

Senadores
Eduardo Azeredo (PSDB-MG)
Hélio Costa (PMDB-MG)
Aloizio Mercadante (PT-SP)
Lúcia Vânia (PSDB-GO)
Demóstenes Torres (PFL-GO)

230
100
100
50
30

A BANCADA DA AGRICULTURA
Deputados
Alex Canziani (PSDB-PR)
Nelson Marquezelli (PTB-SP)
Pedro Henry (PPB-MT)
Dilceu Sperafico (PPB-PR)
Anderson Adauto (PL-MG)
A. C. Mendes Thame (PSDB-SP)
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR)

Doações, em R$ mil
150
95
85
79
63
50
50

199

Moacir Micheletto (PMDB-PR)
Ary José Vanazzi (PT-RS)
Ricardo Fiuza (PFL-PE)

48
33
30

Senadores
Jonas Pinheiro (PFL-MT)
Osmar Dias (PDT-PR)
Marco Maciel (PFL-PE)
Valdir Raupp (PMDB-RO)

67
56
50
20

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