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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO

DESLOCAMENTOS LUSO-PAISAGÍSTICOS: GEOGRAFIA,


MEMÓRIA E SAUDADE NO CINEMA DE MIGUEL GOMES
Plano de Estudo para o Mestrado em Comunicação

Linha de pesquisa: Estética e Culturas da Imagem e do Som

Palavras-chave: cinema e memória, temporalidades da imagem, imaginário, paisagem,


geografia, espaço, experiência estética

Recife, outubro de 2020


1) INTRODUÇÃO

Diante de uma pluralidade de elementos e características presentes na filmografia de


Miguel Gomes (Lisboa, 1972), pode-se apontar um fator que salta aos olhos e se destaca em
relação aos demais: o deslocamento, e não apenas o da câmera, passeando pelos espaços e
topografias de paisagens portuguesas, mas o do próprio realizador, e de como ele coloca seus
personagens em constante trânsito; todos em busca de algo, por vezes na esfera interna, das
subjetividades próprias e particulares, mas também no âmbito externo, na investigação da
geografia de um bairro, cidade, distrito, país, continente. Mesmo na sua estreia em longas, com
A Cara Que Mereces (2004), onde as andanças do protagonista não alcançam distâncias físicas
longínquas, há um senso de deslocamento e fuga para uma casa de campo que fará daquele
espaço uma possibilidade de viagem interna, introspectiva e reflexiva deveras importante. Já
em Tabu (2011), um lapso espaço-temporal é estabelecido entre Europa e África, e a memória
aqui, impressa em um preto e branco granulado, faz os protagonistas pensarem suas posições
no mundo, na sociedade, nas relações com os demais. Há sempre uma menção à geografia, ao
espaço físico, mas como símbolos de um mapeamento também emotivo, sensorial e nostálgico,
na cadência da saudade, da memória.

2) JUSTIFICATIVA

Este projeto intenta explorar os diferentes elementos que perpassam os filmes do


cineasta português Miguel Gomes, principalmente por meio do prisma luso da paisagem,
deslocamento, identidade e memória, dentro de um contexto multicultural inserido no espaço
geográfico de Portugal; tendo aqui o marcador da nacionalidade como fator de relevância, mas
não limitante, para tentar entender as complexidades contemporâneas desse universo ao seu
redor. Além disso, este estudo pretende pensar sobre a forma que o seu cinema coloca essas
questões entre o território português e o mundo, por meio de personagens ambulantes e
transeuntes, em um ambiente globalizante e pós-colonial. Outro elemento fundamental para o
interesse na pesquisa aqui proposta é a riqueza plural e multifatorial no cinema de Miguel
Gomes. Dentro da sua filmografia é possível encontrar fortes traços de diversas áreas, como o
apreço pela literatura e a influência desta nas suas narrativas; a música e sua capacidade
sintetizadora e potente de se manifestar; os problemas sociais e pertinentes de uma realidade
atual; e ainda uma abordagem visual e sonora inovadoras, múltiplas e complexas, alcançando
diferentes gêneros e propondo inusitadas soluções imagéticas para traduzir de forma mais
intensa possível as suas afetividades, paixões e reflexões. Além disso, a pesquisa busca refletir

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sobre o modo como o deslocamento entre os campos ficcional e do documentário acontece na
filmografia aqui estudada. Há, dessa forma, um alinhamento direto e objetivo entre as questões
suscitadas pelo cinema de Miguel Gomes e aquilo que a linha de pesquisa Estética e Culturas
da Imagem e do Som propõe buscar e oferecer.

3) FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Pode-se observar, a princípio, uma tendência muito particular no cinema de Miguel


Gomes; é como se ele estivesse em movimento constante, deslocando-se pelas mais diversas
áreas, e possuísse um olhar quase que panorâmico dos ambientes por onde atravessa. Sendo
assim, há uma evidente marca em seu trabalho que referencia e remete a um certo cinema de
viagem, de percursos. Ao tratar de obras e narrativas em trânsito, no seu artigo Gêneses do
gênero road movie, Samuel Paiva elenca e destrincha vários denominadores comuns presentes
neste tipo de produção. “A viagem, se pode ser considerada como um dado precursor do que
hoje convencionamos chamar de road movie, está relacionada historicamente tanto ao campo
do documentário como ao da ficção, podendo, em alguns casos, reunir ambos” (PAIVA, 2011,
p.41). Essa (re)união dos dois universos, tanto da ficção como do registro documental,
transborda e se espalha nos cruzamentos e vias que o cinema de Gomes adota como um de seus
caminhos.

E a imagem simbolizadora que acaba marcada, funcionando quase como uma


intermediária entre os lugares visitados e o olhar de Gomes, é a de uma miríade paisagística.
Segundo o autor Martin Lefebvre, a experiência de vivenciar uma paisagem pode acontecer de
diferentes formas, e ele levanta essas possibilidades, principalmente quando se pergunta sobre
a paisagem ser parte do mundo em que vivemos ou simplesmente uma cena para qual olhamos,
distanciados. (LEFEBVRE, 2011). A paisagem observada por Gomes é visualmente colocada
em suas produções a partir de diversos caminhos, tanto introspectivos como externos, tendo no
seu país de origem um lugar essencial e central em suas investigações narrativas. Assim, com
os pés fincados em Portugal e o coração, olhos e ouvidos abertos para o mundo, as influências
e transnacionalidades características do existir contemporâneo vão adentrar e frutificar os
sentimentos e cinema de Gomes. Como diz Denilson Lopes, em seu livro No coração do
mundo: paisagens transculturais, quando fala de multiculturalismo e globalização, “o desafio
está não só em ir além de marcas nacionais, mas de marcas continentais”. (LOPES, 2012, p.23).
Essa marca da identidade atrelada a uma nação de origem é importante, não de forma
aprisionada ou limitada, mas sim por uma perspectiva potente e de expressão agregadora neste

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ambiente múltiplo. Ainda na questão, diga-se, nacional, Andréa França tensiona e aprofunda
termos e questões sobre a universalização geográfica dos países:

Ao invés de “globalização”, termo cuja associação imediata é com economia e


mercado mundial, optamos por internacionalização devido à sua imediata tensão com
a noção de nação. “Inter” é o que se dá como espaço intermediário, de contaminação,
de concomitância, de fronteira, isto é, aquilo que é um entre dois (“internação”).
(FRANÇA, 2002, p.66)

Nesse sentido, um conceito interessante e muito trabalhado por Denilson Lopes é o do


entrelugar (ele grifa sem o hífen), constituído originalmente no trabalho de Silviano Santiago,
e das ambiguidades e complexidades todas surgidas a partir deste viés, que sugere um caminho
do meio, entre coisas. (LOPES, 2012). De fato, a filmografia de Gomes abrange uma profusão
de elementos que acabam por caracterizá-la como antropofágica, tendo no transcontinental
Tabu – o longa se desenvolve entre Europa e África – e na trilogia As Mil e Uma Noites (2015)
essa confluência borrada de fronteiras, nações e origens. Dentro do contexto da geografia
desses espaços, Alessandra Brandão, em seus estudos sobre e a partir da América Latina,
levanta questões e ideias acerca desta região que podem ser reapropriadas e pensadas pelo
prisma do cinema de Gomes, quando ela afirma que, “(...) chama a nossa atenção esse cinema
povoado de sujeitos que erram e se (des)encontram, em filmes que nos comovem e explodem
em imagens des/reterritorializadas.” (BRANDÃO, 2012, p. 75). A comoção apontada pela
autora parte muito das paisagens, mas também dos sujeitos que viajam por estes lugares, sendo
eles responsáveis por uma conexão que se estabelece entre o espectador e estas histórias dentro
dos filmes. Há, então, um mapeamento geográfico, mas principalmente emotivo desses
territórios, onde o sentimento de se sentir estrangeiro acaba se tornando recorrente em um
contexto transnacional e multicultural. Segundo Giuliana Bruno:

O espaço cinematográfico se move não apenas através do tempo e espaço ou


desenvolvimento narrativo, mas através do espaço interno. O filme se move e,
fundamentalmente, nos “move”, com sua capacidade de representar afetos e, por sua
vez, afetar. (BRUNO, 2005, p. 23, tradução nossa)

Existe uma melancolia, introspecção e afeto no cotidiano dos personagens do cinema


de Miguel Gomes que representam justamente essa sensação de deslocamento no tempo e
espaço. Ressaltando a condição da memória e nostalgia como prismas de uma sensação de
saudade do passado, Ângela Prysthon diz, “podemos pensar nessa articulação insistente da
nostalgia como a projeção do passado para frente, como um paradoxo espaço temporal que
condensa passado e futuro, memória e desejo, nostalgia e utopia” (PRYSTHON, 2013, p. 30).
Assim, como moradores de uma região do interior de Portugal que interpretam a si próprios no
metalinguístico Aquele Querido Mês de Agosto (2008), a necessidade de investigação

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particular na procura por uma reinvenção é ponto recorrente nas tramas de Gomes. “Pois um
acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o
acontecimento rememorado é sem limites, pois é apenas uma chave para tudo o que veio antes
e depois”. (BENJAMIN, 1985, p.38). Atravessamentos oriundos da viagem, da paisagem, da
memória e, então, da saudade.

4) OBJETIVOS

4.1. Objetivo Geral

• Entender de que forma – e como – os deslocamentos emocionais e geográficos podem se


relacionar ou revelar, não apenas pelo viés da memória, saudade e paisagem, mas também por
uma ideia de tensionamento e mistura entre as esferas do documentário e da ficção, uma ideia
de construção nômade (pessoal e coletiva) que contemple ou alcance observações e
características a respeito do cinema de Miguel Gomes e de sua ligação com o seu país e o
mundo.

4.2. Objetivos Específicos

• Investigar o interesse de Gomes nos espaços e deslocamentos geográficos dentro e fora de


Portugal.
• Refletir a partir de sua filmografia questões que digam respeito ao lugar de mundo do
realizador, por meio de suas memórias, saudades e pensamentos.
• Mapear aspectos fílmicos que contribuam para um entendimento sobre como gêneros
cinematográficos e enredos docuficcionais se estabelecem na obra de Gomes.
• Analisar a representação simbólica e metafórica dos elementos de seus filmes para a
elaboração de uma particular narrativa e como estes fatores comunicam um sentimento ou
conceito.

5) METODOLOGIA

O trabalho irá contemplar a filmografia em longa-metragem de Miguel Gomes, que até


aqui consta de seis produções – ou quatro, se considerarmos o seu As Mil e Uma Noites não
uma trilogia, mas um único filme –, e as características de cada uma de suas produções para a
criação de uma narrativa própria do realizador em tentar investigar questões de cunho pessoal
e coletivo através do seu olhar como cidadão e artista português. A metodologia ainda
consistirá em leitura da bibliografia apontada na Fundamentação Teórica, assim como textos e

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materiais posteriormente utilizados durante a trajetória da pesquisa. A captura de frames, em
uma análise fílmica aprofundada, também fará parte da construção deste estudo, em um
alinhamento robusto entre a parte teórico-textual e a colocação visual de trechos e cenas da
obra do realizador para maior compreensão e aprofundamento do tema investigado. O estudo
possui uma condição interdisciplinar por abarcar outros âmbitos de conhecimento, como a
geografia e a psicologia, aliados ao viés cinematográfico aqui proposto. O tratamento para com
os temas e questões levantados a partir da bibliografia deve ser permeado por ramificações de
outras áreas diversas, que ajudem a enriquecer e aprofundar o trabalho indicado. Assim, um
viés de extensão para com parceiros e institutos de fora do espaço acadêmico, como cineclubes,
consulado português e festivais de cinema, pode e deve ser celebrado e incentivado na tentativa
de uma discussão ampla, plural e relevante acerca da pesquisa nos mais diversos ambientes e
espaços.

6) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

BENJAMIN, Walter. Magia e ténica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BRANDÃO, Alessandra. Viagens, passagens, errâncias: notas sobre certo cinema


latinoamericano na virada do século XXI. Revista brasileira de estudos de cinema e
audiovisual (Rebeca), ano 1, n.1, p. 72-98, 2012.

BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film. London:
Verso, 2002.

FRANÇA, Andréa. Paisagens fronteiriças no cinema contemporâneo. ALCEU, v.2, n.4, p.


61- 75, 2002.

LEFEBVRE, Martin. On Landscape in Narrative Cinema. Revue canadienne d’études


cinématographiques, v. 20, n. 1, p. 61-78, 2011.

LOPES, Denilson. No coração do mundo: paisagens transculturais. Rio de Janeiro: Rocco,


2012.

PAIVA, Samuel. Gêneses do gênero road movie. Significação: Revista de Cultura


Audiovisual, v. 38, n. 36, p. 35-53, 2011.

PRYSTHON, Ângela. Cinema, cidades e memória. Cadernos de Estudos Culturais, v.5, n.10,
p. 24-42, 2013.

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