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30/04/2020 O apóstolo do individualismo - Revista Cult

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O apóstolo do individualismo

Em entrevistas e palestras, Faulkner defendeu uma fidelidade ao indivíduo que está na raiz do
caráter multifacetado de suas personagens e em sua recusa a fazer da literatura um
instrumento político
Um demônio fez William Faulkner virar escritor. Um demônio interior, que lhe
inspirava a necessidade de escrever, arrebatava-o e o mantinha até o final ligado no
conto ou no romance que estivesse produzindo. Segundo o próprio Faulkner: “Esse
demônio é inato. É possível que você tenha de cultivá-lo, acalentá-lo, alimentá-lo,
regá-lo e fazê-lo crescer, mas não creio que se possa adquirir esse demônio.” Não que
excluísse a possibilidade de alguém vir a se tornar um escritor sem o demônio estar
por trás da opção, mas, a seu ver, “é mais fácil e você terá mais sorte se possuir esse
demônio desde o início”.

Isso, claro, valia para os escritores de ficção. Para aqueles escritores que trabalham
com os sentimentos, e não com as idéias. Essa diferenciação, feita por ele inúmeras
vezes em suas entrevistas, não implicava hierarquias. O demônio, a seu ver, seria
prejudicial a um escritor que procurasse desenvolver idéias, pois o tornaria
negligente, pouco cuidadoso. Para esse tipo de escritor, mais que um demônio, ele
acreditava serem necessárias a erudição, a disciplina e a prática.

Mas Faulkner era um escritor do outro tipo, um escritor dos sentimentos. Dizia não
ter tido instrução e dizia não confiar nas idéias. Se perguntado quanto a seu projeto de
retratar a civilização sulista americana, ele simplesmente negava os termos em que a
pergunta lhe era colocada: “Somente tentei descrever os seres, isso é a única coisa que
importa para mim. Nada mais do que o coração humano, e não as idéias.” Ou, quando

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questionado se o instrumento mais importante do homem era o espírito ou o coração,


respondia: “Não tenho muita confiança no espírito. É aqui [apontando para o coração]
que se acha a verdade. Cedo ou tarde o espírito nos abandona, mas o coração não.”

Esse interesse pelo coração humano tem raízes antigas em sua vida. Algumas,
meramente factuais. Entre essas ele aponta, por exemplo, as viagens que fazia com
um tio político nas épocas de eleição, quando, por força da campanha, ouvia todo o
tipo de pessoa falando sobre suas vidas, suas dificuldades, suas profissões etc. Outras,
no entanto, dizem respeito a sua percepção do mundo. Faulkner era um verdadeiro
apóstolo do individualismo. E as diferenças entre os homens, para ele, se evidenciam
sobretudo no campo dos sentimentos. As idéias parecem-lhe tender à aglutinação, à
uniformização, ao desaparecimento das diferenças na medida em que, por exemplo, se
tornam hegemônicas numa sociedade.

Faulkner era, também, um otimista. Acreditava no progresso espiritual e material da


humanidade. Acreditava que caminhávamos para uma “bondade final”. Tinha, claro,
dúvidas se nossa espécie iria ter tempo suficiente para atingi-la (talvez as ameaças
nucleares da época da Guerra Fria lhe incutissem a ressalva); mas acreditava que o
homem não tinha opção: era progredir ou morrer. Tal progresso, porém, não se dava
de forma organizada. Era na luta contra seu próprio coração, contra o coração de seus
semelhantes e seu ambiente que o progresso dos indivíduos se efetuaria. Sua
concepção de progresso, portanto, tinha algo de caótico. Nada ficava de fora desse
suposto movimento contínuo de aprimoramento espiritual, nem mesmo os fanáticos
político-ideológicos manipuladores das massas. “Tudo isso faz parte do germe que
levará à imortalidade do homem”, dizia Faulkner. “Essa gente, esses malucos,
também são necessários.”

O homem encontraria sua salvação sozinho, em seu interior, numa concepção


individual de religião e de Deus. Por isso Faulkner descartava qualquer espécie de
associação, qualquer sentimento de pertença a um determinado grupo, classe, igreja
ou organização. Eram todos instâncias anuladoras da individualidade. Ele atuava como
escritor segundo suas crenças, ou seja, focalizando as pessoas, nada mais, e
desacreditando qualquer literatura que se pretendesse um instrumento político. Para
ele, “quando alguém começa a tratar da injustiça da sociedade, ele deixa de ser, em
primeiro lugar, um romancista e se torna um polemista ou um propagandista. O autor
de romances de imaginação não é nada disso. Ele se utiliza da injustiça da sociedade,
da desumanidade das pessoas como de qualquer outra ferramenta, com o intuito de
contar sua história, que consiste em descrever seres humanos, e não a injustiça ou a
desumanidade das pessoas, mas as próprias pessoas com suas aspirações, seus
esforços e as situações bizarras, cômicas ou trágicas com que se deparam”. Qualquer
mensagem em um romance, afora a apreciação das individualidades em movimento,
era para ele uma simples ferramenta de trabalho, como a retórica ou a pontuação, e
não a essência da obra.

O amor, o dinheiro e a morte  são os três temas fundamentais para qualquer história,
que se repetem eternamente, dizia Faulkner. E a maneira como os personagens
reagem e vivem os dilemas por eles colocados, essa é infinitamente variável, é a casa
de força de toda obra de ficção. O escritor precisa ser atento às pessoas, sem julgá-las,
simplesmente aprendendo por que elas fazem o que fazem:

“Para mim, todo comportamento humano é imprevisível e, considerando a fragilidade


do homem e o universo em processo de desmoronamento no qual se agita, tudo é
irracional. Ele não pode ser muito razoável, porque o universo não é muito razoável,
ao que me parece. Creio que escritor algum gostaria de instituir-se como juiz. Se
começasse a julgar os seres que descreve, quaisquer que sejam os deuses que lhe

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permitem fazer alguma coisa, fazer o que gosta, poderiam tomar-lhe de volta o seu
dom. (…) O escritor se interessa por todas as condições humanas, sem absolutamente
julgá-las. É o movimento, é a vida, pois a única alternativa é o nada, a morte. E então,
para o escritor, tudo o que o homem faz está certo, pois é o movimento. Se não fizesse
isso, não faria nada no lugar.”

A observação seria, portanto, uma das fontes básicas de todo escritor de ficção. Mas
para Faulkner há ainda outras duas: a imaginação e a experiência. Segundo ele, é
natural que todo escritor, ao começar, escreva sua própria autobiografia, “porque ele
descobriu o mundo e descobriu que o mundo tem importância suficiente, é
suficientemente emocionante, suficientemente trágico para que ele o ponha no papel,
(…) e porque nesse momento tudo o que ele conhece é o que aconteceu consigo
mesmo, pois ainda não desenvolveu suas faculdades de percepção para penetrar na
alma dos indivíduos”. Mas à medida que o escritor se desenvolve, seu poder de
observação aumenta, sua compreensão dos personagens se aprofunda, sua experiência
se amplia, e ele pode, então, dar mais asas à imaginação, pois ela terá lastro. Por fim,
numa terceira etapa, as três fontes do escritor se fundiriam de modo que ele não mais
conseguisse identificar o que tirou de uma ou de outra.

Nesse momento de maturidade, o escritor vê e ouve tudo o que põe no papel. Ele ouve
o dialeto usado por seu personagem e não pensa num discurso para depois traduzi-lo
no dialeto pretendido. Nesse momento, ele aprende com seus personagens, pois os
concebeu de modo sincero, atendo-se às verdades fundamentais da conduta humana.

À luz dessa filosofia de trabalho, não é difícil entender por que os personagens de
Faulkner são multifacetados. Alguns chegam a inverter seus sinais; positivos em um
livro, em outro livro revelam toda sua perversidade. Ou vice-versa. Tal estratégia de
composição literária não visa anular a individualidade do personagem em prol dos
desígnios do autor, muito pelo contrário. É em si a afirmação dessa individualidade.

Assim como o personagem faulkneriano tem várias facetas, tem também, dentro de si,
vários tempos. “O futuro de um homem faz parte desse homem”, dizia Faulkner. O
passado e o presente, claro, já estão no pacote. Uma explicação para a fusão temporal
que Faulkner promove em suas narrativas está na crença mística de que não existe
era. “O tempo é; e, se não houver nada que se pareça com era, então não haverá nada
que se pareça com será; o tempo não é um estado fixo.”

Se o presente não é seqüência do passado, nem o futuro do presente, a estrutura da


narrativa dos livros é portanto subjetiva, e não cronológica. “É como a arrumação de
uma vitrine”, dizia Faulkner. “É preciso uma certa dose de dis cernimento e de gosto
para dispor os objetos nos lugares onde produzirão o melhor efeito.”

Disso ele entendia.

Rodrigo Lacerda
escritor, autor de Tripé, O mistério do leão rampante (ambos pela Ateliê Editorial) e A
dinâmica das larvas (Nova Fronteira). Traduziu, com Newton Goldman, o romance Palmeiras
selvagens, de Faulkner, que acaba de ser lançado pela Cosac & Naify (na qual é um dos
editores). As citações aqui reproduzidas foram tiradas do livro Faulkner à l´Université
(Gallimard, Paris, 1964). Entre 1957 e 1958, Faulkner esteve na Universidade de Virgínia como
escritor residente, onde concedeu entrevistas e ministrou palestras, posteriormente reunidas
no volume acima citado

D E I X E O S E U CO M E N TÁ R I O
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