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Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39, e185833, 1-15.

https://doi.org/10.1590/1982-3703003185833 Artigo

Psicologia Ambiental e Recursos em Sustentabilidade:


Revisão Integrativa

Igor Schutz dos Santos1 Maíra Longhinotti Felippe1


1
Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil. 1
Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil.
Ariane Kuhnen1
1
Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil.

Resumo: O objetivo deste estudo foi examinar, por meio de revisão integrativa de artigos
empíricos, a produção científica relacionando a Psicologia Ambiental (variáveis de
comportamento/cognição) e sustentabilidade, considerando diferentes recursos. Para efeitos
deste estudo, foram analisados os artigos que abordam um recurso único. A busca foi realizada
nos periódicos Environment and Behavior, Journal of Environmental Psychology e Psyecology,
reconhecidos pela relevância internacional em produção científica no campo da Psicologia
Ambiental. Foram selecionados 24 artigos, publicados entre os anos de 2012 e 2016, a partir dos
critérios de inclusão pré-estabelecidos. Os anos com maior número de publicação foram 2014
(n = 8) e 2015 (n = 8). A maioria dos artigos se refere a estudos realizados na Europa, apenas
um trata de pesquisa no Brasil. Os recursos abordados nos estudos abrangeram transporte,
produtos, água, energia elétrica, sacola plástica e pastagem natural. Os resultados revisados
demonstram que há uma diversidade de conceitos na mediação entre comportamentos/
cognições e diferentes recursos, indicando a relevância destas abordagens para a promoção de
sustentabilidade. Sugere-se caminhos para pesquisa e intervenção nas relações sustentáveis
entre pessoas e recursos disponíveis em seus meios.
Palavras-chave: Psicologia Ambiental, Desenvolvimento sustentável, Recursos, Produção científica.

Environmental Psychology and Sustainability Resources:


Integrative Review

Abstract: The objective of this study was to examine, through an integrative review of empirical
articles, the scientific production on the relation between Environmental Psychology (behavior/
cognition variables) and sustainability considering different resources. For that purpose, this
analysis considered articles approaching a unique resource. Search was conducted in three
journals with international relevance in the scientific production of Environmental Psychology:
Environment and Behavior, Journal of Environmental Psychology and Psyecology. Following
pre-established inclusion criteria, results included 24 articles published from 2012 and 2016.
Years with higher number of publications were 2014 (n = 8) and 2015 (n = 8). The articles found
refer mostly to studies conducted in Europe; only one article is a research from Brazil. Resources
included transportation, products, water, energy, plastic bag, and natural grassland. Results
indicate that there is a diversity of concepts mediating behaviors/cognitions and different
resources, which reveals the relevance of these approaches to the promotion of sustainability.
Research and intervention paths are suggested to sustainable relations between people and
resources available in their surroundings.
Keywords: Environmental Psychology, Sustainable development, Resources, Scientific production.

Disponível em www.scielo.br/pcp
Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39, e185833, 1-15.

Psicología Ambiental y Recursos de Sostenibilidad:


Revisión Integradora

Resumen: El objetivo de este estudio fue examinar, por medio de una revisión integradora de
artículos empíricos, la producción científica que relaciona la Psicología Ambiental (variables
de comportamiento/cognición) y la sostenibilidad, considerando diferentes recursos. Para los
propósitos de este estudio, se analizaron artículos que abordan un solo recurso. La búsqueda
fue realizada en los periódicos Environment and Behavior, Journal of Environmental Psychology
y Psyecology, reconocidos por la relevancia internacional en producción científica en el campo
de la Psicología Ambiental. Se seleccionaron 24 artículos, publicados entre los años 2012 y 2016,
basados en criterios de inclusión preestablecidos. Los años con el mayor número de publicaciones
fueron 2014 (n = 8) y 2015 (n = 8). La mayoría de los artículos se refiere a estudios realizados
en Europa, sólo uno trata de investigación en Brasil. Los recursos abordados en los estudios
incluyeron transporte, productos, agua, energía eléctrica, bolsas de plástico y pastoreo natural.
Los resultados revisados d​​ emuestran que hay una diversidad de conceptos en la mediación entre
comportamientos/cogniciones y diferentes recursos, indicando la relevancia de estos enfoques
para la promoción de la sostenibilidad. Se sugieren caminos para la investigación e intervención
en las relaciones sostenibles entre personas y recursos disponibles en sus medios.
Palabras clave: Psicología Ambiental, Desarrollo sostenible, Recursos, Producción científica.

Introdução No Brasil, a Constituição Federal de 1988 incluiu


Equilibrar a produção de riqueza com justa dis- em seu capítulo VI dispositivos referentes ao Meio
tribuição, considerando o uso racional dos recursos Ambiente. Entre eles, o artigo 225 que o considera
– finitos, lembre-se – entre diferentes atores da socie- essencial à qualidade de vida. Imputou-se, assim, a
dade parece ser um dos requisitos essenciais a uma responsabilidade ao poder público e à coletividade,
noção de desenvolvimento. Ao sucesso dessa visão congruente com o relatório da Comissão Brundtland,
integrativa de ordenamento da sociedade atribui-se de defender e preservar o Meio Ambiente para as
a característica de sustentável. Este termo, cuja defi- gerações presentes e futuras (Constituição da Repú-
nição vem evoluindo ao longo das últimas décadas, blica Federativa do Brasil de 1988).
foi destaque na produção da Comissão Mundial sobre A agenda mundial que lançou as bases do desen-
Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como volvimento sustentável considerou, em especial, a
Comissão Brundtland. Tratado em um documento preservação de recursos naturais e o envolvimento
intitulado Nosso Futuro Comum, de 1987, o desen- de todos os setores da sociedade. São premissas que
volvimento sustentável foi caracterizado como aquele orientam a atuação de diferentes organizações, de
que “satisfaz as necessidades do presente, sem com- órgãos governamentais a empresas privadas. Em nível
prometer a capacidade das gerações futuras de suprir microssocial, aponta-se a necessidade de aprofundar
suas próprias necessidades” (http://www.un.org/ a compreensão da sustentabilidade nas relações da
documents/ga/res/42/ares42-187.htm, recuperado vida cotidiana, com referência aos diferentes recur-
em 01 de agosto de 2017). sos naturais. Tal conhecimento é particularmente
Durante a ECO-92, a Conferência sobre Meio relevante para compreender a dinâmica de vida nos
Ambiente e Desenvolvimento consolidou o termo meios urbanos, com foco nos cidadãos, considerando
desenvolvimento sustentável e definiu os aspectos cru- a relação de interdependência entre as pessoas e os
ciais que o envolvem: a) os padrões de produção, em locais em que vivem.
especial o de produtos com componentes tóxicos; b) as No contexto científico, o uso do termo susten-
fontes alternativas de energia; c) o transporte público e tabilidade em pesquisas revela tanto diferenças
qualidade do ar; e d) a crescente escassez de água. quanto limitações, o que se entende como próprio

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Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019). Psicologia Ambiental e Recursos em Sustentabilidade.

da evolução do conhecimento e da sociedade. No grandes dimensões podem ser consideradas: social,


uso corriqueiro, demonstrar sustentabilidade ou ser econômica e ambiental (Schmuck & Schultz, 2002).
“sustentável” parece indicar algo confortante, ine- Revisando a produção de estudos sobre aspec-
rentemente positivo e inquestionável. Dessa forma tos psicológicos em relação à natureza, Schultz (2002)
consta na qualificação de diferentes contextos, como avalia que, para alcançar o desenvolvimento susten-
a economia, finanças, política e meio ambiente. Não tável, uma conexão psicológica com natureza seria
raro, a sustentabilidade de um interfere negativa- necessária. Não obstante, há sempre uma dimensão
mente na de outro. Ainda assim, a possível confusão do benefício individual a se considerar quando se
causada por usos antagonísticos do termo pode ser pensa em Comportamentos pró-ambientais, porém o
vista não como prejuízo, mas como vantagem (Uzzell autor é direto: a qualidade da vida humana diminui-
e Räthzel, 2009). ria sem a natureza (Schultz, 2002). Reconhecer que a
Para o desenvolvimento de conhecimentos sobre integração entre pessoas e natureza é uma condição
a inter-relação entre pessoas e ambientes, a Psico- para o desenvolvimento sustentável demonstra ser,
logia Ambiental (PA) tem envolvido os modos como também, um caminho de pesquisa.
os aspectos social e físico do ambiente influenciam Por conta das vantagens apresentadas, a susten-
o comportamento das pessoas, tanto como as ações tabilidade se apresenta como uma das maiores influ-
das pessoas afetam os seus entornos (Corral-Verdugo, ências potenciais e futuras em PA (Pinheiro, 2003;
Wiesenfeld, 2003). Em atenção ao tema, Pinheiro
2005). A partir da elaboração de conceitos como Com-
(2005) considera que a sustentabilidade cumpre uma
portamento pró-ambiental e Comportamento sus-
função de “fundo”, em uma noção gestáltica, para os
tentável, entende-se que há necessidade de aprofun-
estudos pessoa-ambiente, a uma “figura” já estabe-
damento da compreensão sobre fatores atitudinais e
lecida. Junta-se o fato de que a própria sustentabi-
comportamentais relacionados à sustentabilidade.
lidade não habita a nenhuma disciplina específica,
Conquanto essa relação ser inquestionável a
servindo de convergência entre a PA e outros campos
muitos estudiosos, a PA não atingiu um nível de
de conhecimento. A referida convergência não ocor-
desenvolvimento teórico em torno de uma Psicolo-
reria apenas entre campos e áreas distintas de conhe-
gia Ambiental da Sustentabilidade, conforme afirma
cimento. O foco em sustentabilidade pode promover
Gifford (2007). O autor remete ao fato de ser uma
uma aproximação dentro da própria Psicologia, como
disciplina jovem, se comparada a outras, caracteri-
a Psicologia Comunitária (Wiesenfeld, 2003) e a Social
zando um desafio para esse desenvolvimento. Inclui
(Pinheiro, 2005).
aí o fato de a maioria dos psicólogos ambientais
Compreender como os cidadãos pensam, suas
não apresentar, em suas abordagens, as referências
motivações e seus objetivos são aspectos essenciais
sobre o nível de análise empregado na definição da para que a humanidade possa avançar em direção
“ciência da sustentabilidade”. Observa, também, ao sonho da sustentabilidade (Gifford, 2007). Con-
uma falta de estudos da PA sobre as consequên- cepções mais amplas do termo têm sido desenvol-
cias para a humanidade da destruição do habitat e vidas, para além daquelas do relatório da Comissão
redução da fauna e flora, o que considera central à Brundtland. Tais esforços apontam, inclusive, para
sustentabilidade. Por fim, considera necessário que o estabelecimento de uma subdisciplina especí-
se determine o que é um conhecimento ecológico fica em PA, denominada Psicologia da Conservação
realmente preciso, que eventualmente pode se dife- (Gifford, 2007).
renciar do que leigos – e até mesmo profissionais – Delineiam-se, portanto, algumas tarefas para os
acreditam ser verdadeiro (Gifford, 2007). psicólogos ambientais. Através de seus estudos, podem
Ainda que estes desafios sejam apontados, há aproximar a PA das políticas públicas em três frentes:
um percurso demonstrando que estudiosos em PA a) educar o público quando apropriado e necessário;
têm empregado esforços para o estabelecimento de b) usar a vasta experiência da Psicologia em geral para
uma Psicologia da Sustentabilidade. Em algumas das reunir informações da população, por meio de questio-
publicações que partem dessa perspectiva se encon- nários e pesquisas, que deem suporte às políticas; e c)
tram as bases contextuais e relacionais de compre- mediar a relação entre cidadãos e agentes executores
ensão. Para definir que sustentabilidade é essa, três de políticas públicas (Gifford, 2007).

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Avaliando esta última, outras disciplinas apre- Método


sentam um percurso mais longo e produtivo na cons- Para o cumprimento do objetivo proposto, foi
trução de conhecimento em torno da sustentabili- realizada uma busca de artigos científicos em bases
dade e da construção de políticas sociais. Amadurecer de dados de periódicos disponíveis on-line entre os
essa trajetória também na PA significa considerar meses de maio e julho de 2017. Os descritores pes-
uma necessidade crescente do contexto comunitário quisados foram: “environmental psychology” AND
nos estudos (Wiesenfeld, 2003), que mudem o foco “sustainab*”, sendo o primeiro em qualquer campo
da preocupação ambiental para o comprometimento dos artigos o segundo apenas nas palavras-chave (ou
ambiental (Pinheiro, 2005). assunto), título e resumo.
A resposta efetiva e esperada frente à exigên- Os periódicos pesquisados são reconhecidos pela
cia de conservação do ambiente pode ser definida relevância internacional de publicação da produção
como a Competência Pró-Ambiental (CPA). Uma científica no campo da PA. O periódico Environment
aproximação desse conceito ao de sustentabilidade and Behavior abrange perspectivas interdisciplina-
se dá por meio de pesquisas básicas e aplicadas, res que examinam a relação entre o comportamento
articulando esse objeto de estudo às ações de edu- humano e o ambiente natural e construído. O Jour-
cação ambiental (Corral-Verdugo, Varela-Romero, & nal of Environmental Psychology inclui uma gama de
González-Lomeli, 2004), ações essas já mencionadas perspectivas interessadas no estudo das transações
como desafio aos psicólogos ambientais. Quando e inter-relações entre as pessoas e seus entornos. Já
integradas ao contexto observado, as ações de edu- o Psyecology apresenta estudos multidisciplinares na
cação ambiental têm o caráter de aumentar o poder relação entre as pessoas e seus ambientes, publicados
da população, tanto em controle quanto em influên- tanto em inglês quanto em espanhol.
cia, sobre suas condições de vida. A análise se deu a partir dos dados disponibiliza-
Visto que os Comportamentos pró-ambientais dos nas bases de dados, como título, resumo e pala-
integram o conceito de CPA, alguns estudos apontam vras-chave. Foram incluídos na busca todos os estudos
uma linha de pesquisa a ser desenvolvida: a motiva- publicados nos últimos cinco anos, entre 2012 e 2016,
ção das pessoas para tais comportamentos. Ao consi- totalizando inicialmente 108 artigos. Excluíram-se
derar que problemas ambientais são questões sociais, dos resultados encontrados: a) estudos duplicados
ou seja, causadas por comportamento humano e que nas bases de dados; b) estudos de delineamento teó-
afetam as vidas humanas, Pellettier, Lavergne e Sharp rico e revisões integrativas ou sistemáticas; c) livros ou
(2008) tratam desse tema na edição especial da revista capítulos de revistas; d) dissertações e teses; e) estu-
Canadian Psychology, com foco no papel da Psicolo- dos cujo tema não envolvesse diretamente a sustenta-
gia em abordagens interdisciplinares para a sustenta- bilidade e/ou desenvolvimento sustentável.
bilidade. Se as pessoas e seus comportamentos fazem Sobre este último critério, mantiveram-se os
parte do problema, a Psicologia pode estabelecer seu resultados cujas variáveis estudadas relacionem
lugar em tornar as pessoas parte da solução (Pellettier, aspectos comportamentais ou cognitivos e a sus-
Lavergne & Sharp, 2008). tentabilidade e/ou desenvolvimento sustentável.
Os estudos relacionando aspectos comporta- Igualmente, mantiveram-se os artigos que relacio-
mentais e atitudinais em contextos de Sustentabili- navam variáveis tendo, como pano de fundo, a sus-
dade e Desenvolvimento Sustentável têm aumentado tentabilidade e/ou desenvolvimento sustentável.
ao longo dos últimos anos. Considera-se importante Também foram contemplados os estudos empíricos
resgatar o percurso traçado nesse período recente com relação entre conceitos, amparados pela noção
para conhecer em que medida a ciência têm avançado de sustentabilidade e/ou desenvolvimento susten-
nesses domínios. Esse exame também contribui para tável. Assim, artigos cujas relações entre variáveis
a caracterização da própria PA (Pinheiro, 2003). Dessa sugerissem apenas uma provável decorrência para
forma, o presente trabalho objetiva fazer uma revisão a sustentabilidade e/ou desenvolvimento sustentá-
integrativa da produção científica cuja abordagem vel foram excluídos.
indique a interação entre PA (variáveis de comporta- Os artigos foram identificados a partir dos recur-
mento/cognição) e sustentabilidade, considerando sos abordados. Recursos referem-se a elementos físi-
diferentes recursos. cos, naturais ou não, inseridos na mediação entre

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comportamento e ambiente em contexto de pro- Psyecology também aparece em língua espanhola,


moção ou impactos para sustentabilidade. Consi- visto ser este um periódico bilíngue. Pelo critério de
derou-se os recursos ambientais descritos no artigo repetição foram mantidos nos resultados apenas as
3º, Inciso V, da Política Nacional do Meio Ambiente, versões em língua inglesa.
como “a atmosfera, as águas interiores, superficiais e A distribuição das publicações ao longo dos últi-
subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o mos cinco anos indica, conforme demonstrado na
subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora” Tabela 2, que a maior parte das publicações data de
(Lei n. 6.938, 1981). 2014 e 2015, com 33,3% cada.
Após as exclusões, os artigos foram divididos de Os artigos foram agrupados em seis categorias
acordo com a presença de recursos para a proposição de análise, em ordem decrescente, de acordo com a
dos estudos, sendo: 1) Estudos concentrados em ape- natureza dos recursos encontrados e pode ser verifi-
nas um recurso; 2) Estudos concentrados em diversos cado na Tabela 3. Observa-se que há uma predomi-
recursos; e 3) Não especificado: nenhum recurso espe- nância da produção científica acerca do Transporte
cificado no estudo mediando a relação entre compor- (37,5%), indicando a análise dos comportamentos de
tamento e ambiente em direção à sustentabilidade. deslocamento e escolhas de meios de transporte em
Para efeitos da presente revisão, foram analisados diferentes contextos. Há também uma quantidade
apenas os artigos que tratam de um recurso único, (25,0%) considerável de artigos tratando de diferen-
visto que em grande parte dos artigos dos demais o tes Produtos, evidenciando a relação entre consumo
foco estava na relação entre conceitos. Assim, foram e sustentabilidade.
identificados 24 artigos que contemplam os critérios Considerando a ordem apresentada na Tabela 3,
da revisão proposta. Os resultados de acordo com os os artigos encontrados são descritos na Tabela 4, com
periódicos se encontram na Tabela 1. o número de sujeitos (N) e idades da amostra de pes-
quisa e os países em que foram realizadas. Artigos
Resultados com base em mais de um estudo apresentam as infor-
Todas as publicações encontradas estão publica- mações para cada um deles. Informações não dispo-
das em língua inglesa. O artigo oriundo do periódico níveis são assinaladas com N/D.

Tabela 1. Resultados encontrados por periódico.


Artigos encontrados
Periódico Endereço Após
Inicial
exclusões
Environment and Behavior http://journals.sagepub.com/ 22 2
Journal of Environmental Psychology http://www.sciencedirect.com/ 75 21
Psyecology http://www.tandfonline.com/ 11 1
Total 108 24

Tabela 2. Publicações por ano.


Número de artigos
Ano de publicação
Frequência Porcentagem
2012 3 12,5
2013 2 8,3
2014 8 33,3
2015 8 33,3
2016 3 12,5
Total 24 100

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Tabela 3. Recursos.
Número de artigos
Recurso
Frequência Porcentagem
Transporte 9 37,5
Produtos 6 25
Água 3 12,5
Energia elétrica 3 12,5
Sacola plástica 2 8,3
Pastagem natural 1 4,2
Total 24 100

Tabela 4. Artigos encontrados.


Amostra
Referência País
N Idade (em anos)
Kormos, Gifford e Brown (2015) 81 18 a 63 (M = 31,59) Canadá
Long, Harré e Atkinson (2015) 934 12 a 19 (M = 14,70) Nova Zelândia
Passafaro et al. (2014) 387 18 a 83 (M = 41,06) Itália
Noppers, Keizer, Bockarjova e Steg, (2015) 2.974 M = 47,00 Holanda
A) 171 A) 20 a 87 (M = 41,5)
Hahnel, Ortmann, Korcaj e Spada (2014) Alemanha
B) 100 B) 20 a 67 (M = 41,6)
Lind, Nordfjærn, Jørgensen e Rundmo (2015) 1.043 18 a 74 (M = 41,40) Noruega
Murtagh, Gatersleben e Uzzell (2012) 299 23 a 69 (M = 40,19) Inglaterra
Pedersen, Kristensson e Friman (2012) 84 78% entre 15 e 34 Suécia
Huijts, Molin e Wee (2014) 1.214 M = 48,00 Holanda
A) 185 A) 18 a 81 (M = 34,28) A) França
Magnier e Schoormans (2015)
B) 119 B) 19 a 59 (M = 42,37) B) Holanda
Tate, Stewart e Daly (2014) 80 M = 25,56 Inglaterra
A) 536 A) 18 a 86 (M = 43,70)
B) 580 B) 20 a 60 (M = 40,50)
Gorissen e Weijters (2016) Bélgica
C) 219 C) M = 21,40
D) 477 D) 19 a 70 (M = 37,20)
Hanss e Böhm (2013) 145 18 a 70 (M = 38,00) Noruega
A) 122 A) M = 23,50
Demarque, Charalambides, Hilton e Waroquier (2015) França
B) 27 B) M = 21,60
Muiños, Suárez, Hess e Hernández (2015) 1.113 18 a 89 (M = 43,84) Espanha
Linden (2013) 41 N/D Holanda
A) 171 A) 17 a 30 (M = 19,00)
Neel, Sadalla, Berlin, Ledlow e Neufeld (2014) B) 373 B) 18 a 29 (M = 19,50) EUA
C) 53 C) 18 a 75 (M = 33,50)
Lute, Attari e Sherman (2015) 1.008 M = 33,00 EUA
A) 6.507 A) 18 a 98 (M = 48,00)
Milfont e Sibley (2012) B) 377 B) 18 a 89 (M = 52,68) Nova Zelândia
C) N/D C) N/D
A) 153 A) 17 a 36 (M = 20,00)
Spence, Leygue, Bedwell e O’Malley (2014) Reino Unido
B) 102 B) 18 a 21 (M = 18,00)
Murtagh, Gatersleben, Cowen e Uzzell (2015) N/D N/D N/D
Thomas, Poortinga e Sautkina (2016) 17.636 M = 46,30 Reino Unido
A) 457 A) N/D
Jakovcevic et al. (2014) Argentina
B) 189 B) 8 a 87 (M = 46,44)
Borges & Lansink (2016) 199 M = 56,00 Brasil

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Discussão para predição da satisfação com o transporte. O uso


A seguir, os artigos são apresentados de acordo de técnicas de desfocagem específicas, não genéri-
com os recursos em que foram agrupados. cas, aumenta o relato de possível satisfação com o
transporte público. Superando as resistências iniciais
– indesejáveis do ponto de vista do desenvolvimento
Transporte sustentável – através de reflexão sobre as atividades
O transporte foi o recurso mais presente nos
diárias no momento, usuários de carro passam a ter
resultados (n = 9), dentre os quais se inserem estudos
mais consciência de suas escolhas de transporte e de
abordando aspectos comportamentais, motivacio-
como a mudança para o transporte coletivo pode não
nais e de satisfação quanto ao uso de automóvel, carro
ser, necessariamente, negativa.
elétrico, bicicleta, transporte coletivo, mistura de dife-
A influência de amigos também determina a
rentes modalidades de transporte (multimodal) e
escolha do tipo de deslocamento – caminhada, carro,
aceitação de tecnologia alternativa em combustível. ônibus e bicicleta. O estudo de Long et al. (2015) com
Os resultados encontrados indicam que, para a adolescentes parte de uma pesquisa mais ampla em
adoção de alternativas de deslocamento, o padrão de sustentabilidade, partiu do agrupamento de compor-
uso de outras pessoas demonstra ser uma forte influ- tamentos e dos mecanismos de contágio presentes
ência na transição do transporte com veículo individu- nas redes sociais de adolescentes, moradores próxi-
alizado para meios coletivos e/ou menos poluentes. mos a uma escola pública. Foi identificado um alto
Nessa perspectiva, em estudo sobre a redução grau de agrupamento no comportamento de trans-
do uso de carro, Kormos et al. (2014) partiram do porte e possível contágio social, particularmente para
conceito de normas sociais para a realização de um o uso de bicicleta. Essa modalidade foi tema de outro
experimento de campo longitudinal. Avaliaram a estudo (Passafaro et al., 2014) que examinou o com-
hipótese de que pessoas que apresentam uma condi- portamento sustentável de uso de bicicleta por meio
ção de norma social alta – aquelas a quem foi dito que de um modelo de direção ao objetivo. Com base nesse
outras pessoas reduziram o uso de veículo – reduzi- modelo, avaliou-se os fatores psicossociais de natu-
riam o uso de veículo privado em maior grau se com- reza cognitiva, afetiva, normativa e comportamen-
paradas àquelas que apresentam condição de norma tal, além do comportamento prévio, para predição
social baixa. Tal redução, aliada ao uso de modos do desejo de uso de bicicleta no deslocamento diá-
coletivos de deslocamento, é definida como com- rio em uma cidade grande. Assim como foi identifi-
portamento sustentável de transporte. Os resultados cado em outros estudos, o comportamento prévio é
apontaram para uma influência da norma social na um preditor direto de tal desejo, junto com as emo-
mudança de comportamento e redução de uso de ções positivas antecipadas. Os resultados, segundo os
veículo privado, em especial para o deslocamento autores, podem servir de subsídios para administra-
diário, ainda que tal mudança tenha sido largamente dores públicos planejarem intervenções destinadas
mais influenciada pelo comportamento prévio. Em ao aumento do uso de bicicleta nas cidades, conside-
consonância com outros estudos, as crenças de nor- rando o papel decisivo das emoções.
mas sociais apresentam correlação positiva com o Alternativas ao veículo individual tradicional
Comportamento pró-ambiental. também são possíveis através de novas tecnolo-
Usuários de carro são mais morosos para ado- gias, como o uso de carro elétrico. A abordagem de
ção de transporte público. Esse tipo de escolha pode Noppers et al. (2015) trata da diferença entre “early
esbarrar nos registros negativos que se tem acerca de adopters”, consumidores caracterizados como for-
outros meios de deslocamento. Através de um fenô- madores de opinião e que procuram as vantagens
meno conhecido como ilusão de foco, as pessoas ten- da adoção de uma nova tecnologia, e “late adopters”,
dem a superestimar um aspecto de um evento em um grupo que pessoas mais céticas, que adotam uma
determinado contexto (uma pessoa, atualmente usu- nova tecnologia apenas quando ela já está no mer-
ária de transporte individual, que foca na lembrança cado há algum tempo. O primeiro grupo se mostrou
do atraso de ônibus em alguma ocasião, por exemplo). mais interessado no carro elétrico, sinalizou mais
Baseados em tais considerações, Pedersen et al. (2012) atributos positivos deste veículo e apresentou mais
avaliaram as implicações de técnicas de desfocagem intenção em comprá-lo. Conclui-se que o marketing

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focado em atributos simbólicos dessa tecnologia A forma de apresentação dos produtos foi objeto
tende a ser mais efetivo para sua adoção. de estudo de alguns dos artigos, relacionando valores
Já Hahnel et al. (2014) realizaram dois estudos e atitudes a escolhas ambientais de consumidores.
investigando os efeitos da ativação de valores ambien- Em dois estudos, Magnier e Schoormans (2015) ava-
tais na disposição de consumidores em pagar por veí- liaram as condições em que consumidores percebem
culos elétricos. Os resultados indicam que a ativação e confiam em diferentes elementos de embalagens
desses valores motiva consumidores a agir de acordo ecológicas sustentáveis, considerando a influência
com seus valores pró-ambientais. A compra de produ- de tais elementos para a intenção de compra. A pre-
tos sustentáveis, chamados produtos “verdes”, é per- ocupação ambiental foi um elemento importante de
cebida como um meio de agir de maneira congruente análise. Os resultados mostraram alta probabilidade
com seus valores. Ainda que uma situação de compra de que consumidores com alta e baixa preocupação
envolva uma gama ampla de estímulos, os resulta- ambiental prefiram e acreditem em uma alternativa
dos indicam caminhos para que o comportamento quando o produto tem uma aparência ecológica e
de consumo possa ocorrer de maneira mais coerente quando ele é apoiado por uma propaganda textual
com recursos que mitiguem o impacto ambiental, ligada ao meio ambiente. Em outro artigo, Demar-
seja de sua produção ou uso. que et al. (2015) investigaram o impacto de normas
Novas tecnologias de transporte sustentável descritivas – a percepção da prevalência de um com-
requerem estruturas específicas, como é o caso dos portamento, ou seja, o que a maioria das pessoas
postos de combustível de hidrogênio. Em pesquisa faz – como incentivo de compra de mantimentos em
sobre a instalação dessa estrutura (Huijts, Molin, & meio virtual. Os resultados dos experimentos des-
Wee, 2014), tanto com pessoas que a aceitam quanto crevem uma forma específica de consumo sustentá-
a rejeitam, concluiu-se que o afeto é um forte deter- vel. As pessoas adicionam mais ecoprodutos as suas
minante da norma pessoal. cestas de compra na presença de uma afirmação,
Estudos sobre as influências nas escolhas por junto aos produtos, de que a maioria dos consumi-
diferentes modais de transporte também foram iden- dores comprou naquele ambiente pelo menos um
tificados na presente revisão. Fatores psicológicos, item ecológico.
como normas de crenças e valores, e situacionais Partindo da constatação que as embalagens cau-
explicam a escolha de pessoas por determinados tipos sam significativo impacto na produção de resíduos
de transporte (Lind et al., 2015). Essa dimensão moral sólidos em diferentes países, Tate et al. (2014) concluí-
tem implicações na mudança de comportamento, ram que a exposição a uma mensagem pró-ambiental
visto que há forças contrárias a escolhas mais susten- aumentou as escolhas hipotéticas de produtos soltos
táveis de transporte. Uma importante força de resis- em comparação a produtos embalados. Além disso,
tência a mudança pesquisada (Murtagh et al., 2012) observaram que a mudança de comportamento para
se trata da ameaça à identidade. Com base na teoria um padrão de consumo sustentável foi mediada pela
de processamento da identidade, sugere-se que as avaliação automática de objetos que servem de ins-
campanhas que encorajem um comportamento mais trumento para o alvo/objetivo ambiental. Mecanis-
sustentável das pessoas levem em conta o princípio mos semelhantes foram pesquisados para a compra
da autoeficácia. Por este princípio, entende-se que as de doces sustentáveis (Hanss & Böhm, 2013), em que
pessoas precisam se sentir no controle de suas vidas intervenções para o reforço da crença de autoeficácia
em seus contextos. Para as escolhas de deslocamento,
não resultaram em aumento do consumo sustentável,
a autoeficácia é mais efetiva que a mudança forçada,
ainda que ao final do estudo os participantes tendes-
como a que é feita por força de legislação.
sem mais a comprar doces sustentáveis (com infor-
mações sobre atributos ambientais) em comparação
Produtos ao início. Porém, sugere-se que o conhecimento sobre
Estudos envolvendo diferentes tipos de produtos os atributos sustentáveis de um produto, com seu
(n = 6) revelam a relação tanto com a natureza susten- sistema de produção e comercialização, pode ser um
tável de objetos disponíveis para compra quanto com fator decisivo na compra desse produto em compara-
o padrão de consumo. ção com aqueles não sustentáveis.

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Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019). Psicologia Ambiental e Recursos em Sustentabilidade.

A cadeia envolvida na produção determina a zido por Linden (2013), objetivou uma compreensão
pegada ecológica de um item, podendo ser medida, sociopsicológica de como reduzir o consumo de água
por exemplo, pela emissão de carbono. Consumido- em garrafa, partindo do pressuposto que esse tipo de
res podem cair em uma ilusão da pegada negativa dos produto gera uma quantidade impactante de resíduos
produtos que compram (Gorissen & Weijters, 2016). que acabam, em grande parte, não reciclados. Com-
Assim, observando as escolhas em diferentes com- parando os resultados para indivíduos que apresen-
binações de alimentos, os autores identificaram que tam alto e baixo consumo de água em garrafa, obser-
consumidores tendem a relatar uma estimativa baixa vou-se inicialmente que os impactos ambientais não
da pegada de uma refeição completa, quando ela con- diferem para ambos os grupos e são um ponto peri-
tém um prato verde (como uma maçã orgânica), em férico, não central, na decisão de compra de água em
comparação à refeição que não contém tal produto. As garrafa. As questões financeiras também não causa-
implicações recaem sobre a forma como são arranja- ram grande impacto nesta decisão. Foi a combinação
das as marcas nas embalagens e o que elas significam. da ativação de norma social e informação persuasiva
Esta manipulação, inicialmente dedicada a facilitar a eliciou, de maneira significativa, a intenção de com-
escolha, pode levar a erros de avaliação de consumo pra desse produto.
sustentável que aumentam os impactos ambientais. No segundo, a conservação de água foi tema de
O paradoxo se refere ao aumento de consumo para artigo desenvolvido por Neel et al. (2014). Examinando
reduzir a pegada. o valor autorrepresentacional de alto e baixo uso de
Analisando características pessoais e padrões de água, os autores procuraram investigar a hipótese de
consumo, Muiños et al. (2015) avaliaram a extensão em que pessoas inferem as diferenças de status, persona-
que a frugalidade pode ser considerar um comporta- lidade e características demográficas de um morador
mento que combina a restrição voluntária e o uso de com base no paisagismo adotado em sua residência.
recursos disponíveis, sem focar exclusivamente nos Como resultados, inicialmente confirmou-se que
aspectos monetários. Os autores buscaram, também, o tipo de paisagismo adotado é carregado de valor
identificar a relação entre o comportamento frugal e o autorrepresentacionais, comunica algo do morador
bem-estar. Os resultados evidenciam que a frugalidade e não é apenas por razões estéticas. Indica-se que a
é um mecanismo positivo de motivação das pessoas a autorrepresentação pode se constituir uma barreira
manter controle sobre seu consumo de produtos, além para um paisagismo com menor impacto ambiental
de serviços. Esse efeito vai além do papel de outros ele- no consumo de água.
mentos geralmente associados a austeridade, como Já no terceiro estudo (Lute et al., 2015) o tema
a privação ou falta de produtos. Apesar disso, o com- conservação também é central, porém em relação ao
portamento de restrição aparenta ser moderado pelo uso residencial de água para fins de descarga. Reali-
nível de renda do participante. Os achados indicam a zou-se quantificação do comportamento de descarga
necessidade de incorporar, na análise psicossocial, a por moradores após urinar, identificando-se barreiras
comparação entre ecoeficiência e decrescimento como para a diminuição deste comportamento de acordo
estratégia de oferta de garantias razoáveis para a sus- com diversas influências. Os resultados indicaram
tentabilidade ecológica e social quatro principais barreiras para reduzir a descarga:
nojo, hábito, normas sociais e motivação pró-ambien-
Água tal insuficiente. Para superação do nojo, as estratégias
A análise de artigos nessa categoria (n = 3) partiu incluem a dissociação por meio de processos como a
de uma diferenciação desse recurso em relação aos comunicação adequada, que desmistifica as crenças
anteriores, especificamente os Produtos. Ainda que os de contaminação. Em relação ao hábito, os autores
artigos encontrados abordem relações de consumo, destacam que ele é igualmente intuitivo como o nojo,
destacar a água como um recurso específico vai ao necessitando torna-lo mais cognitivo para que infor-
encontro de seu reconhecimento como um dos mais mações sobre conservação de água possam causar
importantes recursos naturais atuais. algum impacto. Sobre normas sociais, entende-se que
Na relação de pessoas com a água, os três artigos indivíduos dão descarga também para evitar desa-
abordam a redução do consumo por meio de com- grado a outros. Os mesmos mecanismos podem ser-
portamentos, mudança e valores. O primeiro, produ- vir para a diminuição deste comportamento, ou seja,

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Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39, e185833, 1-15.

observar ou ter conhecimento de que outras pessoas vadores, portas automáticas e iluminação –, inves-
dão menos descarga para proteger o ambiente pode tigou-se se tais tecnologias voltadas para a redução
exercer influência significativa. No caso das motiva- do consumo de energia podem enfraquecer o Com-
ções para conservação da água, seu aumento pode portamento pró-ambiental. Através do controle de
significar que indivíduos não considerem sua ação diversas variáveis ambientas nos experimentos reali-
uma simples “gota no oceano”, valendo, em nome da zados, os resultados mostram que de fato a automa-
conservação ambiental, o esforço e “sacrifício”. ção de ambientes tende a impactar o comportamento,
diminuindo a conservação. Relaciona-se, portanto, à
diminuição do senso de responsabilidade pessoal.
Energia elétrica
Os impactos de estudos semelhantes devem levar em
Assim como nas produções encontradas sobre a
consideração esse efeito, uma vez que a crença de
água, os artigos (n = 3) que tratam da relação susten-
indivíduos de que a tecnologia pode “tomar as rédeas”
tável com energia elétrica abordam a redução do con-
da conservação pode impactar em outros efeitos de
sumo e conservação, sendo classificados em separado.
valores e normas estudados em comportamentos vol-
Três estudos descritos no artigo de Milfont e
tados para um mundo mais sustentável.
Sibley (2012) examinaram a associação entre os
cinco grandes fatores de personalidade (Big Five) e o
engajamento ambiental. A análise se deu tanto nível Sacolas plásticas
em individual quanto nacional, a partir do autorre- Os artigos encontrados (n = 2) acerca das saco-
lato de comportamentos dos participantes em rela- las plásticas em supermercado tratam do compor-
ção à conservação de energia. Entre os fatores de tamento de uso. A investigação longitudinal de Tho-
personalidade, socialização, realização e abertura à mas et al. (2016) trata do efeito spillover (transborde
experiência foram os traços mais fortemente ligados comportamental). Assim, o objetivo foi investigar
ao engajamento ambiental. se a cobrança por uso de sacola plástica, resultando
Por sua vez, o artigo de Spence et al. (2014) repor- em um comportamento pró-ambiental de diminui-
tou dois estudos, cujos objetivos envolvem examinar ção do uso de sacolas, pode transbordar para outros
a) o impacto psicológico do engajamento em redu- comportamentos sustentáveis. Identificou-se que a
ção de energia quando comunicado em termos de cobrança fez aumentar o reúso de sacolas plásticas.
custo e emissão de CO2 e b) o impacto relativo nas Levar a própria sacola para as compras ocorreu simul-
intenções comportamentais. Procurou-se entender taneamente a outros seis comportamentos: fechar a
como as pessoas se motivam a agir sustentavelmente. torneira durante escovação dos dentes, vestir roupas
Observou-se que as questões financeiras envolvendo mais quentes em ambientes fechados ao invés de
a conservação de energia não são de grande impacto, aumentar o aquecimento, comprar produtos de papel
conforme estudos semelhantes. Entretanto, conside- reciclado, usar o transporte público, caminhar ou
rar a economia ao longo do tempo pode se tornar um pedalar em distâncias curtas e compartilhar o carro.
forte ímpeto para a conservação de energia. Efeitos Contudo, ainda que se aponte para a conclusão de
de transborde comportamental (spillover) também que o aumento da frequência de um comportamento
foram identificados para alguns participantes. Este pró-ambiental está associado a aumentos de outros,
efeito se refere às situações em que uma intervenção essa não é uma relação causal.
almejada para aumentar um comportamento leva a Estudando as razões principais de apoio ou opo-
um aumento ou diminuição de outro comportamento sição de consumidores em relação à cobrança por
não objetivado inicialmente. Aliar o custo da energia sacolas plásticas de supermercado, Jakovcevic et al.
a mensagens com enquadre ambiental indica uma (2014) analisaram, em dois estudos, a relação entre
base eficaz para intervenções no campo da redução a implantação de políticas que se relacionam com a
de consumo de energia. motivação para atitudes “verdes”. Fatores compor-
Considerando que sistemas automatizados tamentais e motivacionais explicaram as mudanças
podem ser um fator impactante no comportamento encontradas entre consumidores de diferentes loca-
humano cotidiano, a perspectiva da tecnologia tam- lidades em uma região metropolitana, concluindo-se
bém esteve presente em um dos estudos encontrados que a cobrança pelo uso da sacola plástica para o
(Murtagh et al., 2015). A partir de três domínios – ele- aumento de sacolas próprias entre tais consumidores.

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Na relação entre estes e as políticas, os fatores finan- comportamento pró-ambiental, um dos conceitos
ceiros se relacionaram com oposição e os ambientais mais frequentemente encontrados é o de compor-
com apoio, concluindo-se que o incentivo financeiro tamento sustentável.
pode ativar a motivação ambiental para mudanças O conjunto de artigos que aborda o recurso trans-
comportamentais duradouras. porte inclui o comportamento sustentável como uma
variável definida a partir das características dos dife-
rentes modais de transporte urbanos utilizados elas
Pastagem natural
pessoas. Ou seja, quando um modal de deslocamento
Neste recurso específico, um artigo foi encon-
é definido como sustentável, sua adoção, uso ou esco-
trado com a relação entre questões comportamentais
lha é, consequentemente, definida como comporta-
e de sustentabilidade para a criação de gado. Partindo
mento sustentável. Igualmente, são caracterizados
da teoria do comportamento planejado (theory of
alguns impactos negativos de determinados modais
planned behavior –  TPB), cuja aplicação encontrada
no ambiente, como a emissão de gases de efeito estufa
em literatura científica tem sido relacionada à com-
e o os problemas de mobilidade urbana. Inclui-se
preensão de comportamentos e atitudes sustentáveis,
ainda o estudo sobre o uso do hidrogênio como uma
Borges e Lansink (2016) objetivaram determinar os
nova tecnologia de combustível. Os fatores de acei-
efeitos de três construtos – atitude, norma subjetiva
tação ou rejeição das estruturas que dão suporte ao
e controle comportamental percebido – na intenção
uso desse combustível alternativo são amparados por
de criadores de gado, oriundos da região brasileira dos
uma noção de diminuição de uso de combustíveis
Pampas, para o uso de pasto natural melhorado. Con-
fósseis, caracterizados pelos autores como prejudi-
forme os autores, esse tipo de pasto é definido como
ciais ao meio ambiente.
uma inovação em que ao menos uma das seguintes
Os artigos que tratam de produtos e de pasta-
práticas são aplicadas: uso de fertilizantes e introdu-
gem natural também atribuem ao comportamento
ção de novas espécies de forragem.
a qualidade de sustentável a partir de diferentes
Os resultados mostraram que a teoria do com-
relações de consumo e uso, baseando-se em carac-
portamento planejado é adequada para explicar a
terísticas ditas sustentáveis dos produtos utilizados.
intenção dos fazendeiros em adotar o tipo de pasto
Nesta categoria de artigos agrupados estão apre-
sustentável citado, melhorando a pastagem natural
sentadas, de forma diretas, noções de sustentabili-
da região. A norma subjetiva, ou seja, a pressão social
dade ligadas aos impactos de tais objetos no meio
para desempenhar um comportamento, teve grande
ambiente. Tais noções, além de demonstrar uma
efeito no público pesquisado, sugerindo-se ações de
visão integrativa entre fatores sociais, econômicas e
agências governamentais para políticas que apoiem a
ambientais, permeiam três tempos distintos: a pro-
melhoria das condições dos referidos ambientes.
dução, o consumo ou uso (comportamentos) pro-
priamente dito e sua consequência, como a geração
Considerações finais e o descarte de resíduos.
As contribuições dos artigos revisados foram Uma concepção de sustentabilidade ligada aos
caracterizadas através das variáveis de comporta- impactos produzidos no meio ambiente também
mentos, atitudes, motivações e emoções que relacio- se verifica nos comportamentos ligados ao uso de
nam a PA a noções de sustentabilidade. As diferenças energia, abordados nos artigos revisados. São englo-
na definição e localização da sustentabilidade como bados fatores como a emissão de gás-carbônico na
aspecto relevante em cada estudo são congruentes atmosfera e as mudanças climáticas, consequência de
com a própria heterogeneidade desse conceito. Por- padrões já estabelecidos de uso de energia elétrica.
tanto, ainda que não proponham novas definições, os Neste domínio, a mitigação do uso de energia
estudos revisados contribuem para o avanço da carac- demonstra ser um caminho de intervenção. Assim
terização da sustentabilidade como pano de fundo foram abordadas a adoção de comportamentos pró-
das interações pessoa-ambiente. -ambientais e estratégias de mudança de comporta-
No que concerne aos conceitos pesquisados, mentos de já estabelecidos de desresponsabilização,
os resultados apontam para um alinhamento àque- com potencial consequência para a adoção de com-
les tradicionalmente abordados em PA. Além do portamentos ambientalmente amigáveis em outros

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Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39, e185833, 1-15.

âmbitos (spillover). Esse efeito também foi estudado alinhada às questões contemporâneas de preserva-
no caso de sacolas plásticas, recurso cujo uso remete ção do meio ambiente. Os esforços empreendidos por
à insustentabilidade causada pela alta geração de estudiosos dessa área ampliam o conhecimento sobre
resíduos plásticos e seu descarte no meio ambiente. os mecanismos de relação entre as pessoas e os recur-
Na presente revisão foram identificados outros recur- sos que geram impacto na qualidade de vida, com
sos tratando do efeito spillover, o que remete não especial atenção ao contexto urbano. Os subsídios
apenas a diferentes possibilidades de intervenção atuais e sugestões de estudos futuros apontam para
comportamental, mas a própria complexidade e inte- estratégias práticas de intervenção, o que representa
gralidade do comportamento humano. sua utilidade a profissionais que atuam com a mitiga-
O consumo se apresenta como o principal com- ção do impacto humano em seu meio.
portamento estudado nos artigos relativos à água. Destaca-se o número reduzido de recursos
O contexto de sustentabilidade se apresenta nos encontrados, divididos em apenas seis categorias,
padrões de consumo e da consequência para a con- possivelmente em decorrência dos critérios estabe-
servação ambiental. Mesmo sem definir o atributo lecidos para a presente revisão e, consequentemente,
sustentável à água, a possibilidade de que ela venha a da amostra encontrada. A escolha metodológica de
faltar nos diferentes contextos abordados demonstra priorizar a análise de artigos que abordam apenas um
um alinhamento à noção de um recurso que satisfaz recurso como variável também limitou o alcance dos
uma necessidade atual, que deve ser preservado para resultados. Consequentemente, entre as estratégias
possibilitar o uso de gerações futuras. de intervenção encontradas não foram identificadas
A presente revisão cumpre com o objetivo de algumas já consolidadas na literatura e relacionadas
avançar o conhecimento de forma sistematizada em ao objetivo da revisão. Entre elas, a educação ambien-
torno de um tema que vem ganhando cada vez mais tal, reconhecida como uma ferramenta importante
notoriedade. Observa-se que a PA demonstra estar para mudança comportamental.

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Igor Schutz dos Santos


Psicólogo. Especialista em Gestão de Recursos Humanos e Meio Ambiente. Mestrando no programa de pós-
graduação em psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis – SC. Brasil.
E-mail: igorschutz@gmail.com
http://orcid.org/0000-0001-9000-4934

Maíra Longhinotti Felippe


Arquiteta e Urbanista. Mestre em Psicologia. Doutora em Tecnologia da Arquitetura. Pesquisadora em
pós-doutorado no Laboratório de Psicologia Ambiental (LAPAM), da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), Florianópolis – SC. Brasil. 
E-mail: mairafelippe@gmail.com
http://orcid.org/0000-0002-0392-7480

Ariane Kuhnen
Psicóloga. Mestre em Sociologia Política. Doutora em Ciências Humanas. Docente no Departamento de Psicologia
e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis
– SC. Brasil. Coordenadora do Laboratório de Psicologia Ambiental (LAPAM), UFSC.
E-mail: arianekuhnen@gmail.com
http://orcid.org/0000-0001-9635-9306

Endereço para envio de correspondência:


Campus Universitário. Centro de Filosofia e Ciência Humanas. Departamento de Psicologia. Laboratório de
Psicologia Ambiental, sala 11B. Trindade. CEP: 88040- 970. Florianópolis – SC. Brasil.

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Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019). Psicologia Ambiental e Recursos em Sustentabilidade.

Recebido 26/09/2017
Reformulado 11/04/2018
Aceito 04/07/2019

Received 09/26/2017
Reformulated 04/11/2018
Approved 07/04/2019

Recibido 26/09/2017
Reformulado 11/04/2018
Aceptado 04/07/2019

Como citar: Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019).Psicologia Ambiental e Recursos em Sustentabilidade:
Revisão Integrativa. Psicologia: Ciência e Profissão, 39, 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003185833

How to cite: Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019).Environmental Psychology and Sustainability Resources:
Integrative Review. Psicologia: Ciência e Profissão, 39, 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003185833

Cómo citar: Santos, I. S.; Felippe, M. L.; Kuhnen, A. (2019).Psicología Ambiental y Recursos de Sostenibilidad:
Revisión Integradora. Psicologia: Ciência e Profissão, 39, 1-15.https://doi.org/10.1590/1982-3703003185833

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