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Artigo de Fonoaudiologia

Hábitos de sucção e má-oclusão.


Repensando esta relação
Suction Habits and Malocclusions
Reconsidering this Connection

Resumo A maioria dos trabalhos pesquisados


O estudo destina-se a identificar a têm como base teórica o conceito que de-
ocorrência dos hábitos de sucção e alte- fine forma e função como interdependen-
rações oclusais e a verificar quais as cor- tes, apesar de considerarem que cada uma
relações possíveis de serem estabelecidas delas tem suas determinantes constitucio-
Márcia Oliveira
entre os mesmos. A partir da avaliação nais, ou seja, os autores consideraram
Soligo de 164 pré-escolares, de ambos os sexos, que a função é modeladora da forma, ad-
da rede particular de ensino de Jundiaí, mitindo, porém, que algumas disfunções
São Paulo, constatou-se que os hábitos podem advir de anomalias morfológicas
de sucção de maior ocorrência são ma- congênitas.
madeira e chupeta, sendo que a incidên- O ortodontista SÁ FILHO20 (1971) afir-
cia destes decresce com o decorrer da ida- ma que a pressão muscular é a guia dire-
de e não depende de sexo. Os hábitos de triz dos dentes exercendo uma influência
sucção apresentam relação significante particular tanto antes quanto durante a
com a mordida aberta a partir dos 5 anos erupção, assim como na manutenção das
e 7 meses. Questiona-se, frente a estes relações oclusais normais e eficazes dos
dados, o status da relação entre a Fo- maxilares e dos dentes na infância ou pe-
noaudiologia e a Odontologia, na práti- ríodo de crescimento. Completa seu racio-
ca clínica. cínio dizendo que sempre que se rompe o
equilíbrio entre a língua, de um lado, e
Introdução orbiculares, de outro, teremos reflexos
O objetivo deste trabalho consiste em para as relações ósseas e dentárias.
identificar a ocorrência dos hábitos de PADOVAN13 (1976), uma das fonoau-
sucção de chupeta, mamadeira e digital diólogas pioneiras no estudo da Motrici-
em pré-escolares e em verificar quais as dade Oral no Brasil, afirma que o seu mé-
associações possíveis de serem estabele- todo terapêutico se fundamenta no fato
cidas entre esses hábitos de sucção e a de que a mesma neuro-musculatura res-
oclusão. ponsável pelas funções de respiração,

Unitermos:
Hábitos de sucção;
Fonoaudiologia;
Mordida aberta; Márcia Oliveira Soligo
Sobremordida.
Fonoaudióloga (Mestre em Distúrbios da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

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deglutição, sucção e mastigação, tam- podem ser vistos isoladamente, prin- que nas com oclusão clinicamente nor-
bém o é pela mímica expressiva, pela cipalmente sem considerarmos os fa- mal (3,85%).
definição da morfogênese das arcadas tores genéticos e que os mesmos não ALTMANN1 (1983) considera que a
dentárias e pela fala. Assim, estando costumam causar danos definitivos se deglutição atípica envolve todas as
uma função desviada é bem provável abandonados até os 3 anos de idade, alterações musculares e funcionais
que haja incidências patológicas nas porém, após essa idade, eles normal- dos órgãos fonoarticulatórios, sendo
outras funções dependentes dos mes- mente agravam as más-oclusões ine- que os hábitos orais, assim como a
mos músculos e mesmos impulsos ner- rentes aos padrões faciais herdados e respiração bucal e as alterações na
vosos. também podem propiciar dificuldades fala, são fatores etiológicos de más
Em um trabalho mais recentemen- de relacionamentos entre pais e filhos, oclusões. A autora afirma ser impos-
te publicado (1995), a mesma autora14 bem como sociais. sível a manutenção do alinhamento
reafirma suas posições, ao apontar que PIZARRO, HONORATO 19 (1981) dentário caso haja pressões atípicas
as funções, quando adequadamente consideram que há um equilíbrio en- de qualquer ordem.
desenvolvidas, e a manutenção dos tre as forças intra e extrabucais em GUEDES 5 (1985) aponta que os
padrões corretos influenciam benefi- repouso, e quando se instalam os hábitos mais comuns entre as crian-
camente a forma dos arcos dentais. maus hábitos orais, rompe-se esse ças são a sucção de dedo ou chupeta
SEGOVIA 21 (1988) afirma estar equilíbrio e se produzem diversos e que esses seriam causadores de más
convencida que por meio das funções graus de transtornos dentomaxilares. oclusões, mais freqüentemente da
e das atividades neuromusculares da Consideram que o uso de mamadei- mordida aberta, e das deglutições
cavidade bucal se provocam modifica- ras com bicos inadequados, o uso pro- atípicas.
ções estruturais e morfogenéticas dos longado da chupeta e a sucção digi- SILVA FILHO et al.24 (1986), SILVA
elementos neuromusculares do órgão tal podem ser causadores ou agravan- FILHO et al 25 (1986) consideram os
da mastigação e que, portanto, é im- tes de más-oclusões. Pesquisando 79 hábitos bucais deletérios, em especi-
periosa a necessidade de um trabalho crianças de 5 anos encontraram 81,1% al a sucção digital e de chupeta, como
conjunto entre a Fonoaudiologia e a (64) de portadores de maus hábitos. fatores etiológicos da má-oclusão.
Odontologia. Dessas observações, concluíram que Ressaltam, entretanto, que tais hábi-
Segundo MARCHESAN13,14 (1989 e há uma alta incidência de maus há- tos até a idade de 3 anos a 3 anos e
1993), o equilíbrio do sistema estoma- bitos orais em pré-escolares e uma meio são considerados plenamente
tognático só é possível quando há predominância no sexo masculino; a normais, fazendo parte do desenvol-
equilíbrio entre todas as partes que associação entre dois ou mais hábi- vimento emocional da criança, não
compõem o sistema, em especial ossos tos é o habitual; a respiração bucal trazendo conseqüências prejudiciais
e músculos, o que justifica o trabalho (31,4%) e a deglutição atípica (27,3%) permanentes para a oclusão, pois até
integrado entre a Fonoaudiologia e a são os maus hábitos predominantes; essa idade há uma forte tendência
Ortodontia. o uso de chupeta, mamadeira, resfri- para a auto-correção da má-oclusão,
Partindo da premissa que a função ados freqüentes e hipertrofia de apesar dessa correção espontânea ser
modela a forma, pode-se constatar que amígdalas são as características mais dependente de vários outros fatores,
a maioria dos autores considera os há- freqüentes; as seqüelas mais comu- tais como a competência da muscu-
bitos orais como fatores etiológicos das mente encontradas foram a mordida latura perioral e o padrão respirató-
más-oclusões. aberta anterior, a compressão maxi- rio.
GRABER6 (1974), no entanto, afir- lar lateral e palato alto; os maus há- GALVÃO4 (1986) considera os hábi-
ma que não há dúvida que os hábitos bitos de interposição (dedo, p.ex.) tos orais viciosos, em especial a suc-
orais e a respiração bucal estão asso- apresentaram como seqüelas ção digital, sucção de lábios e/ou lín-
ciados às más-oclusões, mas questio- diastemas e más-oclusões focais. gua, onicofagia e uso prolongado e/
na se esses são fatores etiológicos das OLIVEIRA et al.12 (1983) avaliaram ou errôneo da chupeta e mamadeira,
más-oclusões ou se simplesmente são 790 crianças de 3 a 6 anos, a fim de como fatores etiológicos extrínsecos
fatores relacionados a elas. verificar a prevalência dos hábitos de relevantes da má-oclusão.
O autor afirma, ainda, que esse sucção e as possíveis correlações com PINHEIRO18 (1987) considera que
problema se deve ao fato da maior a oclusão. Concluíram que a incidên- os hábitos bucais deletérios, bem como
parte dos conhecimentos da Ortodon- cia dos hábitos diminui com a idade, a respiração bucal, podem ocasionar
tia se basear no raciocínio sobre fatos que há uma prevalência para o sexo alterações na morfogênese das arca-
clínicos. Tem-se um efeito e tenta-se feminino e que a prevalência de hábi- das dentárias devido ao desequilíbrio
raciocinar sobre qual seria o agente tos de sucção para ambos os sexos foi das pressões de língua, lábios e boche-
causal mais provável. Conclui seu pa- mais elevada no grupo de crianças por- chas.
recer afirmando que os hábitos não tadoras de más-oclusões (55,84%) do VALENTE, MUSSOLINO28 (1989),

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após pesquisa realizada com 120 fatores que podem causar distúrbios Os aspectos pesquisados foram:
crianças de 2 a 6 anos, encontraram articulatórios. • presença ou não de hábitos orais
33,33% das crianças com hábitos de LINO8 (1993) afirma que os hábi- tais como chupeta, mamadeira, e suc-
sucção de chupeta e 7,5% com hábitos tos são fatores etiológicos das más o- ção digital, por meio de observação di-
de sucção digital. Verificaram, tam- clusões e sugere que sejam retirados o reta, questionamento da criança e dos
bém, que a freqüência de sobressaliên- mais cedo possível, como manobra pais;
cia diminui com a idade, enquanto que ortodôntica preventiva. • a oclusão: normoclusão, mordi-
as sobremordidas profundas - severas KHARBANDA et al.7 (1994) estuda- da aberta, cruzada, sobremordida e
- aumentam com a idade. Observaram ram 1608 crianças de 5 a 7 anos a fim sobressaliência, por meio de exame clí-
que há pouca ocorrência de mordidas de verificar o quanto os fatores nico.
topo-a-topo (3,33%) e que a ocorrên- ambientais influenciam o desenvolvi- Não foram utilizados instrumentos
cia de mordida aberta anterior também mento da oclusão. Seus estudos apon- para medição da oclusão, e os parâ-
é pequena (23,32% do total), diminu- taram para uma casuística de 18,4% de metros adotados na avaliação foram
indo com a idade (29,99% na faixa más-oclusões e concluíram que os fa- semelhantes aos utilizados na prática
etária dos 2 aos 4 anos e 16,66% dos 4 tores morfogenéticos são os que mais clínica diária, tendo sido assim defi-
aos 6 anos). Afirmam que os hábitos afetam a oclusão; dentre os fatores nidos:
diminuem com a idade e que, prova- extrínsecos, os maus hábitos são os • mordida aberta anterior: quan-
velmente, o fato de terem verificado mais nocivos. do os dentes incisivos superiores não
uma diminuição das mordidas abertas MOURA11 (1994), após pesquisar trespassam e nem tocam os inferiores,
anteriores se deve à diminuição des- 288 crianças de 3 a 7 anos, concluiu no sentido vertical;
tes. que não há relação direta entre ce- • mordida aberta lateral: quando
ESTRIPEAUT et al.3 (1989) afirmam ceio anterior e mordida aberta ante- os dentes laterais não se tocam no sen-
que o hábito de sucção do polegar as- rior, bem como não há relação direta tido vertical;
sim como outros hábitos não saudá- entre mordida aberta anterior e há- • mordida topo a topo: quando os
veis mostram significante relação com bitos orais. dentes anteriores estão posicionados
o problema da má-oclusão na denta- UMBERGER, REENEN27 (1995) pu- um sobre os outros, sem que haja tres-
dura permanente e que, caso esses há- blicaram um artigo de revisão sobre passe vertical;
bitos sejam abandonados por volta dos a sucção digital no qual demonstram • sobremordida: quando o trespas-
4 anos, há uma forte tendência à que esse é um hábito que, ao persis- se vertical dos dentes anteriores ultra-
auto-correção. tir após os 5 anos de idade, aumenta passa um terço da dimensão vertical
SCHWARTZ, SCHWARTZ22 (1992) as probabilidades de uma série de dos incisivos inferiores;
afirmam que o desequilíbrio oclusal problemas associados, sendo a má • sobressaliência: quando os den-
nem sempre é resultado de um deter- oclusão o problema orgânico mais tes anteriores estão afastados, no eixo
minado fator etiológico. Em alguns freqüente. horizontal, por mais de dois milíme-
casos há predisposição ou anomalia tros, ou seja, estão visivelmente afas-
congênita e os hábitos apenas auxili- Metodologia tados;
am a desencadear uma alteração oclu- A pesquisa foi realizada em uma • mordida cruzada: quando os
sal. pré-escola da cidade de Jundiaí, São dentes inferiores contêm os superiores,
BIGENZAHN et al.2 (1992) realiza- Paulo. ou seja, os superiores estão por dentro
ram uma pesquisa com 103 indivíduos
de 3 a 30 anos, portadores de distúr-
bios articulatórios, e observaram que TABELA 1
Distribuição das crianças segundo os motivos pelos
37% deles haviam tido hábitos até os quais foram eliminadas da amostra inicial.
3 anos de idade, 14% haviam tido há- DESCRIÇÃO CRIANÇAS %
bitos até os 6 anos e 71% tiveram há- Amostra inicial 291 100,0
bitos de sucção nocivos. Observaram, Não autorizadas 8 2,75
ainda, que 79% dos avaliados apresen- Crianças em tratamento (fono e/ou orto) 9 3,09
taram mordida aberta anterior e 36% Não quiseram participar 6 2,06
apresentaram mordida cruzada. Con- Haviam participado do projeto piloto 4 1,37
cluíram que a persistência dos hábi- Faltaram nos dias da avaliação 7 2,4
tos orais após os 3 anos de idade con- Questionário incompleto ou não respondido 73 25,08
tribui para o desenvolvimento de al- Distúrbio severo de fala e linguagem 3 1,03
terações oclusais e disfunções orofa- Idade inferior a 3 anos e 6 meses 17 5,84
ciais e que esses são dois dos muitos Amostra final 164 56,35

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dos inferiores. Pode ocorrer no seg- Achados e Discussão tos de sucção até os 6 anos de idade.
mento anterior, lateral (uni ou bila- Na TAB.2 é apresentada a fre- Dessas 94 crianças com hábitos
teralmente) ou apenas em alguns qüência de ocorrência dos hábitos de sucção pode-se notar que 67
elementos. em cada faixa etária, isolados e as- (40,85% do total) apresentavam pelo
As crianças foram observadas du- sociados entre si. As associações que menos um dos hábitos citados. Iso-
rante atividades de classe, avaliadas não estão demonstradas não ocorre- lados ou associados entre si, os há-
individualmente e, os pais respon- ram. bitos de sucção encontram-se distri-
deram a um questionário a fim de Quanto aos hábitos de sucção - buídos da seguinte forma: 3,65% de
que obtivéssemos todas as informa- TAB. 2 – verificou-se 94 crianças sucção digital (6), 20,73% de sucção
ções necessárias a respeito dos há- (57,31%) com hábitos de sucção de de chupeta (34) e 50% de sucção de
bitos da criança. chupeta, dedo e mamadeira, um de- mamadeira (82). Essa distribuição é
O presente estudo iniciou com les ou combinados. Esses dados di- diferente da citada por VALENTE,
291 crianças, sendo que 257 foram ferem dos encontrados por MUSSOLINO 28 (1989) após
efetivamente avaliadas. Destas, 93 PIZARRO, HONORATO 19 (1981), os pesquisarem 120 crianças de 2 a 6
foram eliminadas. Assim, 164 fize- quais pesquisaram 79 crianças de 5 anos. Os autores referem a ocorrên-
ram parte do corpo a ser analisado anos e referem uma ocorrência de cia de 7,5% de sucção digital e 33,33%
estatisticamente (TAB.1). 81,1% de hábitos orais. Essa diferen- de sucção de chupeta.
Essas 164 crianças foram dividi- ça pode ser justificada pelo fato Na TAB. 3, procurou-se verificar se
das por idade em três grupos, com desses autores terem considerado havia diferença entre os grupos se-
intervalos de 12 meses, como segue: como maus hábitos orais os hábitos gundo os cada um dos hábitos de suc-
• Grupo I - 3 anos e 6 meses a 4 de sucção, a respiração bucal e a de- ção (chupeta, mamadeira e digital).
anos e 6 meses: 51 (25 do sexo fe- glutição atípica e nesse trabalho Pela análise da TAB. 3, pode-se
minino e 26 do masculino). estes foram considerados isolada- notar que a incidência de hábitos de
• Grupo II - 4 anos e 7 meses a 5 mente. sucção decresce com o decorrer da
anos e 6 meses: 47 (25 do sexo fe- Esses números também diferem idade, como afirmam OLIVEIRA et
minino e 22 do masculino). dos achados de BIGENZAHN et al. 2 al.12 (1983) e VALENTE, MUSSOLINO
• Grupo III - 5 anos e 7 meses a 6 (1992) os quais referem ter verifica- 28 (1989).
anos e 7 meses: 66 (31 do sexo fe- do 71% de ocorrência de hábitos de Assim, pela análise desses resul-
minino e 35 do masculino). sucção, numa população de 103 in- tados - TAB. 2 e 3 - pode-se afirmar
A metodologia estatística seguiu divíduos de 3 a 30 anos, sendo que que a incidência de hábitos decresce
uma análise descritiva tradicional e 14% deles haviam apresentado hábi- a medida que a idade das crianças au-
a aplicação de testes específicos para
verificação dos objetivos.
Segundo SIEGUEL23 (1975), o tes- TABELA 2
te indicado para esse estudo é o de Freqüência de ocorrência dos hábitos em cada faixa etária,
qui-quadrado, que permite verificar isolados e associados entre si.
grupo I grupo II grupo III
relações entre variáveis de nature-
Hábitos nº % nº % nº %
za qualitativa e cuja apresentação
ausentes 09 17,60 20 42,60 41 62,20
é feita na forma de freqüências. O
chupeta 01 2,00 04 8,50 03 4,50
nível de significância utilizado foi
mamadeira 20 39,20 19 40,40 16 24,20
de 5%. Em alguns casos foi utiliza-
sucção digital 03 5,90 - - 01 1,50
da a correção de Yates.
chupeta e mamadeira 17 33,30 04 8,50 04 6,10
Quando a freqüência total foi
mamadeira e sucção digital - - - - 01 1,50
muito pequena e o teste de qui-qua-
chupeta, mamadeira e suc. digital 01 2,00 - - - -
drado perdeu eficiência, utilizou-se
Total 51 100 47 100 66 100
o teste de Fisher, melhor indicado
nesses casos.
TABELA 3
Freqüência de ocorrência e distribuição dos hábitos de sucção de chupeta, mamadeira e digital segundo a faixa etária.
grupo I grupo II grupo III Total
Hábitos Presente Ausente Presente Ausente Presente Ausente Presente
chupeta 19 32 8 39 7 59 34
mamadeira 38 13 23 24 21 45 82
sucção digital 4 47 - 47 2 64 6

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menta e que os hábitos de sucção de TAB. 4 – verificou-se uma ocorrên- não se pode deixar de associar esses
mamadeira e chupeta, sozinhos ou cia muito acentuada de dados às mudanças dos hábitos ali-
associados, são os que persistem por sobremordida profunda (67 - mentares supra citados.
um período maior. 40,85%) e sobressaliência (59 - Outra questão também levantada
Os dados desse trabalho podem 35,98%), seguidas pela mordida por esses achados foi o porquê encon-
ser confirmados pela observação da aberta (31 - 17,68%), pela mordida trou-se tantos trabalhos sobre mordi-
prática clínica fonoaudiológica onde cruzada (17 - 10,36%) e mordida da aberta e poucos sobre sobremordida
tem-se observado um aumento sig- topo-a-topo (12 - 7,32%). e sobressaliência, se essas últimas
nificativo, tanto do número de cri- Tais números concordam com o ocorrem com muito mais freqüência.
anças como do tempo de uso da ma- trabalho de VALENTE, MUSSOLINO28 Acreditamos que a explicação para
madeira sob diversas alegações, des- (1989) que, após pesquisarem 120 tal fato esteja na prática clínica, tanto
de “complemento alimentar” acom- crianças de 2 a 6 anos, verificaram fonoaudiológica como na odontoló-
panhada de queixas sobre as dificul- que a incidência de sobremordida gica, pois é ela que tem nos instiga-
dades de aceitação de alimentos mais profunda (39 - 32,49%) e de sobres- do à pesquisa.
sólidos; como “complementos emo- saliência (71 - 59,16%) é maior que Como é muito mais comum sermos
cionais” com a assumida declaração a incidência de mordida aberta (28 - procurados por pacientes com mordi-
dos pais, principalmente daqueles 23,32%). da aberta, até porque essa alteração é
que se ausentam por todo o dia, de Por outro lado, estes achados dis- muito mais visível e socialmente tida
que é “gostoso” dar mamadeira para cordam do trabalho de KHARBANDA et como “feia” - esteticamente indeseja-
a criança antes de dormir ou que a al.7 (1994). Após avaliarem 1608 crian- da, nossa necessidade em solucionar
criança se sente mais segura com o ças de 5 a 7 anos, os autores afirmam esse problema acaba por direcionar
uso dela; e também como “elemento ter encontrado 18,4% de más-oclusões, nossa “curiosidade científica”. Quan-
facilitador e agilizador” das tarefas não apresentando os tipos de más-oclu- do, como aconteceu nessa pesquisa,
diárias que são sobrecarregadas de sões encontradas. encontramos dados “diferentes dos
afazeres e que não permitem que se Esses dados conduzem ainda ao esperados” devemos nos preocupar
dispenda um tempo maior para que questionamento sobre o que seria não em verificar se esses estão corre-
a criança se alimente. Enfim, os fo- normal ou não. A casuística encon- tos mas sim, em verificar se nossa vi-
noaudiólogos, e acredita-se que os trada leva-nos a supor que essas al- são não está “viciada” na patologia e
odontopediatras também, tem se terações seriam inerentes ao desen- se nós não estamos nos esquecendo de
confrontado freqüentemente com volvimento craniofacial das crian- considerar a imensa população que se
pais cada vez menos disponíveis, os ças, não devendo portanto serem encontra fora das clínicas fonoaudio-
quais acreditam que uma boa dose consideradas alterações, como afir- lógicas e/ou odontológicas.
de leite é o suficiente para suprir as m a m VA L E N T E , M U SS O L I N O 2 8 Na TAB. 5, procurou-se verificar se
carências nutricionais e emocionais (1989), mas os dados não são con- há diferença entre os sexos, segundo
de seus filhos. clusivos o bastante para que possa- os principais hábitos de sucção (chu-
Quanto às alterações oclusais - mos fazer tal afirmação. Também peta, mamadeira e digital) para cada
um dos grupos.
Estatisticamente para os três gru-
TABELA 4 pos, os valores observados são meno-
Freqüência de ocorrência e distribuição das alterações oclusais por faixa etária. res que o Valor Crítico, não havendo,
Tipos de oclusão grupo I grupo II grupo III Total % portanto, relação significante, ou
Mordida Aberta 16 6 9 31 18,90 seja, a maior ou menor presença de
Mordida Cruzada 6 4 7 17 10,36 chupeta, mamadeira e sucção digital
Sobremordida Profunda 21 21 25 67 40,85 independe do sexo nos grupos I, II e
Topo a topo 2 3 7 12 7,32 III, fato que conduziu as demais aná-
Sobressaliência 19 21 19 59 35,98 lises que foram realizadas sem consi-
derar a variável sexo.
PIZARRO, HONORATO 19 (1981)
TABELA 5 afirmam que há predominância de
Distribuição das crianças analisadas segundo presença de hábitos, sexo e faixa etária.
Grupo I Grupo II Grupo III Total
hábitos para o sexo masculino, e OLI-
Hábitos masc. fem. masc. fem. masc. fem. masc. fem. VEIRA et al.12 (1983) afirmam que a
chupeta 10 9 1 7 5 2 16 18 prevalência se apresenta para o sexo
mamadeira 20 18 14 9 8 13 42 40 feminino. Os dados aqui verificados
sucção digital 2 2 - - - 2 2 4 discordam de ambos.

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Para os próximos passos do estudo, TABELA 6
das TAB. de 6 a 9, a variável denomi- Hábitos X Mordida Aberta
Distribuição das crianças analisadas segundo presença e
nada hábitos será utilizada para todas ausência de hábitos e mordida aberta.
as associações apresentadas, conside- Hábito
rando como presente em todas aquelas Mordida Aberta Ausente Presente Total
crianças que apresentaram um ou mais Ausente 66 67 133
hábitos de sucção (chupeta, mamadei- Presente 4 27 31
ra ou digital). Total 70 94 164
Pela análise das TAB. 6 e 7 pode-se
verificar que há relação significante en- TABELA 7
tre hábito e mordida aberta para o to- Distribuição das crianças analisadas segundo presença e ausência de
hábitos e mordida aberta, por faixas etárias.
tal de crianças avaliadas e para as do
Hábitos
grupo III e, portanto, pode-se concluir Grupo I Grupo II Grupo III
que quem não tem hábito tem tendên- Mord. Aberta Aus. Pres. Total Aus. Pres. Total Aus. Pres. Total
cia a não ter a mordida aberta, e quem Ausente 9 26 35 18 23 41 39 18 57
tem mordida aberta geralmente ainda Presente - 16 16 2 4 6 2 7 9
tem hábito. Total 9 42 51 20 27 47 41 25 66
Para os grupos I e II, verifica-se que
os Valores Observados são menores que TABELA 8
o Valor Crítico e, portanto, não há rela- Hábitos X Sobremordida
ção significante entre hábitos e mordi- Distribuição das crianças analisadas segundo presença e
ausência de hábitos e sobremordida.
da aberta para esses grupos. Hábito
Pela análise das TAB. 8 e 9 nota-se Sobremordida Ausente Presente Total
que há relação significante entre hábi- Ausente 26 59 85
to e sobremordida para o total de cri- Presente 44 35 79
anças avaliadas e para o Grupo III. A Total 70 94 164
presença de hábito está associada à au-
sência de sobremordida, e a ausência TABELA 9
de hábito está associada à presença de Distribuição das crianças analisadas segundo presença e
ausência de hábitos e sobremordida, por faixas etárias.
sobremordida.
Hábitos
Na análise por faixa etária (TAB. 9), Grupo I Grupo II Grupo III
novamente encontra-se que não há re- Sobremordida Aus. Pres. Total Aus. Pres. Total Aus. Pres. Total
lação significante entre hábito e sobre- Ausente 3 25 28 8 15 23 15 19 34
mordida para os Grupos I e II. Presente 6 17 23 12 12 24 26 6 32
Assim, quanto à associação mais Total 9 42 51 20 27 47 41 25 66
freqüentemente citada na literatura,
hábitos e mordida aberta - TAB. 6 e 7 –
verificou-se que isto só se comprova no uma variação entre estes autores quan- fonoaudiológica e odontológica, pois
grupo III, à partir dos 5 anos e 7 meses, to as idades de abandono do hábito de há raciocínios viciosos que não se con-
o que nos leva a concluir que os hábi- sucção - entre os 3 e os 4 anos. O tra- firmam, bem como de repensarmos o
tos de sucção não acarretam maiores balho de UMBERGER, REENEN27 (1995) status da relação entre essas duas áre-
danos se abandonados até por volta dos concorda com a idade de 5 anos aqui as de conhecimento.
5 anos. proposta. MOURA11 (1994) discorda des- Portanto este trabalho não tem a
Este raciocínio acaba confirmado se e dos demais trabalhos afirmando pretensão de propor novos parâmetros
pela associação inversa, hábitos e so- que não há relação entre os hábitos de mas sim, de instigar o raciocínio clíni-
bremordida, também para o grupo III, sucção e a mordida aberta. co que muitas vezes se protege em pa-
onde a presença de sobremordida esta râmetros errôneos por serem determi-
associada à ausência de hábitos de suc- Conclusão nistas.
ção. Através da análise de algumas das Não podemos mais simplificar ab-
Achados semelhantes são citados associações possíveis entre os hábitos surdamente nossa prática clínica a um
por GRABER 6 (1974), PIZARRO, de sucção e alterações oclusais, pode- jogo de exclusões e associações do tipo
HONORATO19 (1981), SILVA FILHO et mos verificar que há necessidade de re- “hábito X corresponde a anomalia Y” e
al.24 (1986), SILVA FILHO et al.25 (1986), pensarmos alguns dos parâmetros que vice-versa.
ESTRIPEAUT et al.3 (1989), havendo vêm norteando a prática clínica Os trabalhos de GRABER6 (1974)

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e KHARBANDA et al.7 (1994) apontam de sucção podem acarretar alterações maior clareza sobre os fatores que já
com clareza que os fatores constitucio- oclusais a partir de uma determinada supomos conhecer.
nais, genéticos, não podem ser idade, nossa proposta é para que, ao Quem sabe, se deixássemos nossas
minimizados, pois algo potencialmen- invés de fecharmos rapidamente o di- clínicas e instituições e lançássemos
te etiológico para um determinado pa- agnóstico e conseqüentemente a tera- nosso olhar para a imensa população
drão morfogenético pode não o ser para pêutica em quadros patológicos previ- que está fora de nossos “domínios”, não
outro. amente estabelecidos, nós nos aperfei- nos depararíamos com outros fatores
Mais do que afirmar que os hábitos çoemos no sentido de buscarmos uma que até então não nos tenha ocorrido.

Abstract
The study relates to identify the lo, it was testified that the suction old. According to these data, the
occurrence of the suction habits and habits are more often related to status of the relation between
malocclusions and to check which nursing bottle and pacifier. Which Speech Therapy and Odontology are
a re t h e p o s s i b l e c o r r e l a t i o n means, that the incidence of those, being questioned in the clinic
established between both. From the decreases according to the age and practice.
estimation of 164 students of both doesn’t related to sex. The suction
se x and kindergarten, from the habits show a significant relation to Uniterms: Suction habits; Speech
private schools of Jundiaí, São Pau- open bite since the age of 5 years therapy; open bite, overbite.

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