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FICHA TÉCNICA

Título original: A Thousand Splendid Suns


Autor: Khaled Hosseini
Copyright © 2007 by ATSS Publications, LLC
Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 2008
Tradução: Manuela Madureira
Fotografia: Corbis / VMI
Capa: Ana Espadinha
Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda.
1.a edição em papel, Lisboa, Fevereiro, 2008

Reservados todos os direitos


para Portugal à
EDITORIAL PRESENÇA
Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo
2730-132 BARCARENA
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www.presenca.pt
DEDICATÓRIA

Este livro é dedicado a Haris e Farah,


ambos nur dos meus olhos, e às mulheres do Afeganistão.
PARTE I

PARTE I
1

Mariam tinha cinco anos a primeira vez que ouviu a palavra harami.
Aconteceu numa quinta-feira. Deve ter sido, pois Mariam lem​brava-se de ter estado
inquieta e preocupada nesse dia, como só acontecia às quintas-feiras, o dia em que Jalil a
ia visitar à kolba. Para passar o tempo até ao momento em que finalmente o veria acenar-
lhe enquanto atravessava a clareira com erva pela altura do joelho, Mariam subira a uma
cadeira e tirara para baixo o serviço de chá chinês da mãe. O serviço de chá era a única
relíquia que Nana, a mãe de Mariam, possuía da sua própria mãe, falecida tinha ela dois
anos. Nana venerava cada uma das peças de porcelana azul e branca, a curva graciosa do
bojo do bule, os tentilhões e crisân​temos pintados à mão, e no açucareiro o dragão
destinado a afastar o mal.
Foi essa última peça que se escapou dos dedos de Mariam, caiu nas tábuas de madeira
do chão da kolba e se estilhaçou.
Quando Nana viu o açucareiro, o seu rosto ficou contraído, o lábio superior tremeu e os
olhos, tanto o preguiçoso como o bom, pousaram fixamente em Mariam. Parecia tão
furiosa que Mariam receou que os jinn voltassem a entrar no corpo da mãe. Mas os jinn
não vieram dessa vez. Nana agarrou Mariam pelos pulsos, puxou-a para si e atirou-lhe por
entre os dentes cerrados: — És uma pequena harami desastrada. É esta a minha
recompensa por tudo o que tenho suportado. Uma pequena harami desastrada que parte
peças de família.
Na altura, Mariam não compreendeu. Não sabia o significado daquela palavra harami,
bastardo. Nem tinha idade suficiente para se aperceber da injustiça, para ver que os
culpados são os criadores do harami e não o harami, cujo único pecado é ter nascido.
Mas, pela maneira como Nana pronunciou a palavra, Mariam calculou que ser harami era
uma coisa horrenda, odiosa, como um insecto, como as baratas que corriam pela kolba e
Nana estava constantemente a amaldiçoar e a enxotar lá para fora.
Mais tarde, quando era mais velha, Mariam compreendeu. Fora a maneira como Nana
proferira a palavra, mais cuspida do que dita, que a fizera sentir a sua verdadeira ferroada.
Compreendeu, então, o que Nana queria dizer, que um harami era uma coisa indesejada;
que ela, Mariam, era ilegítima e que nunca teria o direito legítimo de reivindicar as coisas
que as outras pessoas possuíam, coisas como amor, família, lar, aceitação.
Jalil nunca lhe chamara tal. Jalil dizia que ela era a sua pequena flor. Gostava de a
sentar ao seu colo e de lhe contar histórias, como daquela vez em que lhe dissera que
Herat, a cidade onde Mariam nascera em 1959, fora em tempos o berço da cultura persa,
lar de escritores, pintores e sufis.
— Não se podia estender uma perna sem dar um pontapé no rabo de um poeta —
comentara ele, a rir.
Jalil contara-lhe a história da rainha Gauhar Shad, que no século XV mandara erguer os
famosos minaretes como ode do seu amor a Herat. Descrevera-lhe os verdes campos de
trigo de Herat, os pomares, as vinhas prenhes de nédias uvas, os bazares da cidade, de
tectos em abóbada e sempre apinhados.
— Há lá uma árvore de pistácio — dissera Jalil um dia — e debaixo dela, Mariam jo,
está sepultado nada mais nada menos do que o grande poeta Jami. — Inclinara-se e
sussurrara: — Jami viveu há mais de quinhentos anos. A sério. Uma vez levei-te lá, ao pé
da árvore. Eras tu pequenina. Não podes lembrar-te.
Era verdade. Mariam não se lembrava. E embora tivesse vivido os primeiros quinze anos
da sua vida a meia dúzia de passos de Herat, Mariam nunca veria aquela famosa árvore.
Nunca veria os famosos minaretes de perto, e nunca colheria frutos dos pomares de Herat
nem vaguearia pelas suas searas. Mas sempre que Jalil falava assim, Mariam escutava
encantada. Admirava Jalil pelos seus vastos conhecimentos e experiência. Estremecia de
orgulho por ter um pai que sabia tais coisas.
— Que ricas mentiras! — exclamava Nana após a partida de Jalil. — Um homem rico a
contar ricas mentiras. Ele nunca te levou a ver árvore alguma. E tu não te deixes fascinar.
Ele traiu-nos, o teu pai adorado. Expulsou-nos. Expulsou-nos da sua grande casa luxuosa
como se não lhe fôssemos nada. E fê-lo alegremente.
Mariam ouvia obedientemente. Nunca se atrevera a dizer a Nana o quanto detestava que
ela falasse assim de Jalil. A verdade era que, junto dele, Mariam nunca se sentira de todo
uma harami. Durante uma ou duas horas às quintas-feiras, quando Jalil chegava para a
ver, todo sorrisos, presentes e meiguices, Mariam sentia-se merecedora de toda a beleza
e generosidade que a vida tinha para oferecer. E por isso, Mariam amava Jalil.
MESMO TENDO de o partilhar.
Jalil tinha três esposas e nove filhos, nove filhos legítimos, todos uns estranhos para
Mariam. Era um dos homens mais abastados de Herat. Possuía um cinema, que Mariam
nunca vira, mas que Jalil lhe descrevera a instâncias suas, e por isso ela sabia que a
fachada era de mosaicos de terracota azul e amarelo-torrado, que tinha balcões
compartimentados e um tecto de treliça. Portas duplas oscilantes abriam para um átrio
revestido de mosaicos onde havia posters de filmes indianos em mostruários de vidro. Às
terças-feiras, dissera um dia Jalil, as crianças recebiam gelados gratuitos no quiosque da
concessão.
Nana sorrira recatadamente ao ouvir aquilo. Esperara até ele ter saído da kolba para
dizer com uma risada amarga: — Os filhos dos estranhos recebem gelados. E tu o que
recebes, Mariam? Histórias de gelados.
Além do cinema, Jalil possuía propriedades em Karokh, pro​priedades em Farah, três
armazéns de tapetes, uma loja de roupa, e um Buick Roadmaster preto de 1956. Era um
dos homens mais bem relacionados de Herat, amigo do Presidente da Câmara e do
Governador da Província. Tinha cozinheira, motorista e três empre​gadas domésticas.
Nana fora uma dessas empregadas. Até a barriga lhe começar a crescer.
Quando isso acontecera, contara Nana, a família de Jalil ficara sem fôlego e o seu
sufoco colectivo sugara todo o ar de Herat. Os parentes das esposas juraram que seria
derramado sangue. As esposas exigiram que ele a expulsasse. O próprio pai de Nana, um
insignificante gravador de pedra na vizinha aldeia de Gul Daman, tinha-a repudiado.
Desonrado, fizera as malas e partira de camioneta para o Irão, e nunca mais fora visto
nem se ouvira falar dele.
— Às vezes — dissera Nana uma manhã, enquanto alimentava as galinhas no exterior
da kolba — gostava que o meu pai fosse o género de homem com estômago para afiar
uma das suas facas e lavar a honra. Talvez tivesse sido melhor para mim. — Atirara outra
mão cheia de sementes para a capoeira, detivera-se, e olhara para Mariam. — E também
melhor para ti, talvez. Ter-te-ia poupado o desgosto de saberes que és aquilo que és. Mas
o meu pai era um cobarde. Não teve dil, não teve coragem para tal.
Jalil tampouco tivera o dil necessário para proceder com honra. Enfrentar a família, as
esposas e os respectivos parentes, assumindo a responsabilidade por aquilo que fizera.
Em vez disso, chegara, apressadamente e à porta fechada, a um acordo que lhe
permitisse salvar a face. No dia seguinte, ordenara-lhe que fosse buscar os seus parcos
haveres aos alojamentos dos criados onde ela vivia, e mandara​-a embora.
— Sabes o que ele disse às esposas, à laia de defesa? Que eu é que o seduzi. Que a
culpa era minha. Didi? Percebes? É isto que significa ser mulher neste mundo.
Nana pousou a taça da comida das galinhas. Levantou o queixo de Mariam com um
dedo.
— Olha para mim, Mariam.
Relutantemente, Mariam obedeceu.
Nana disse: — Aprende já isto e aprende bem, minha filha: assim como a agulha de uma
bússula aponta para o Norte, também o dedo acusador de um homem encontra sempre
uma mulher. Sempre. Recorda-te disso, Mariam.
2

— Para Jalil e as esposas dele, eu era uma erva-dos-cancros. Uma artemísia. E tu


também. E nem sequer ainda eras nascida.
— O que é uma artemísia? — perguntou Mariam.
— Uma erva daninha — respondeu Nana. — Uma coisa que se arranca e deita fora.
Intimamente, Mariam franziu o sobrolho. Jalil não a tratava como uma erva daninha.
Nunca tal fizera. Mas achou prudente abafar esse protesto.
— Mas ao contrário das ervas daninhas, eu tinha de voltar a ser plantada, percebes, de
receber comida e água. Por tua causa. Foi esse o acordo que Jalil fez com a família dele.
Nana afirmou que se recusara a viver em Herat.
— Para quê? Para ficar a vê-lo passear-se pela cidade de automóvel, durante todo o
dia, com as suas esposas kinchini?
Disse que também não quisera ir instalar-se na casa do pai, agora vazia, na aldeia de
Gul Daman, situada numa íngreme colina dois quilómetros a norte de Herat. Queria ir viver
para um sítio afastado, isolado, onde a vizinhança não ficasse a olhar para a sua barriga, a
apontasse a dedo, soltasse risinhos ou, pior ainda, a agredisse com falsas amabilidades.
— E podes crer que para o teu pai foi um alívio ter-me longe da vista. Calhou-lhe à
maravilha.
Fora Muhsin, o filho mais velho de Jalil e da sua primeira esposa, Khadija, que sugerira a
clareira. Ficava nos arredores de Gul Daman. Para lá chegar, tomava-se um caminho de
terra batida, atravessado por sulcos de rodas, que subia a colina saindo da estrada
principal entre Herat e Gul Daman, ladeado por erva que chegava ao joelho e manchas de
flores brancas e amarelas. Serpenteava colina acima, con​duzindo a um campo plano onde
se erguiam diferentes espécies de choupos e o matagal crescia em magotes. Lá de cima,
para a esquerda, avistavam-se as pontas das lâminas ferrugentas do moinho de vento de
Gul Daman, e à direita era toda a cidade de Herat que se estendia lá em baixo. O caminho
terminava perpendicular a um riacho largo, pejado de trutas, que descia das montanhas
Safid-koh em redor de Gul Daman. Duzentos metros rio acima, havia um pequeno bosque
circular de salgueiros-chorões e no centro, à sombra das árvores, ficava a clareira.
Jalil fora até lá dar uma olhadela. Ao voltar, disse Nana, parecia o director de um
presídio a gabar-se das paredes limpas e soalhos reluzentes da sua prisão.
— E foi assim que o teu pai nos construiu este ninho de ratos.
NANA QUASE CHEGARA a casar, aos quinze anos. O preten​dente era um rapaz de Shindand,
um jovem vendedor de periquitos. Mariam ouvira a história da própria Nana e, embora esta
menos​prezasse o episódio, Mariam percebeu pela luz sonhadora do seu olhar que ela se
sentia feliz. Provavelmente pela única vez na sua vida, durante aqueles dias que deveriam
ter conduzido ao casamento, Nana fora genuina​mente feliz.
Enquanto Nana contava a história, Mariam, sentada ao seu colo, imaginava a mãe a
provar um vestido de noiva. Via-a montada num cavalo, sorrindo timidamente por trás do
véu do fato verde, as palmas vermelhas de hena, o cabelo com risco ao meio salpicado de
prateado, as tranças unidas com resina. Via músicos soprando a flauta shahnai e tocando
tambores dohol, os miúdos da rua a persegui-los com apupos.
Depois, uma semana antes da data do casamento, um jinn entrara no corpo de Nana.
Mariam não precisou de uma descrição. Já testemunhara isso vezes suficientes com os
seus próprios olhos: Nana tombava subitamente, o corpo tenso, rígido, os olhos revirados,
os braços e as pernas a tremer como se alguma coisa a estivesse a estrangular lá por
dentro, a espuma na boca, branca, às vezes rosada de sangue. Depois o torpor, a
desorientação assustadora, o balbuciar incoerente.
Quando as notícias chegaram a Shindand, a família do vendedor de periquitos cancelara
o casamento.
— Ficaram tão assustados como se tivessem visto um fantasma — era o comentário de
Nana.
O vestido de noiva fora guardado. Depois disso, não houvera mais pretendentes.
NA CLAREIRA, Jalil e os filhos Farhad e Muhsin tinham construído a pequena kolba onde
Mariam iria viver os primeiros quinze anos da sua vida. Ergueram-na com tijolos secos ao
sol, e unidos com lama e mancheias de palha. Tinha dois catres, uma mesa de madeira,
duas cadeiras de costas direitas, uma janela, e prateleiras pregadas às paredes, onde
Nana pusera tachos de barro e o seu querido serviço de chá chinês. Jalil levara um fogão
de ferro fundido novo para o Inverno e empilhara lenha cortada por trás da kolba. No
exterior, acrescentara um tandur para cozer pão e uma capoeira rodeada por uma cerca.
Trouxera algumas ovelhas e construíra uma gamela para lhes pôr a comida. Mandara
Farhad e Muhsin cavar um buraco fundo, uns cem metros para lá do círculo dos salgueiros,
e construir-lhe por cima uma latrina.
Jalil podia ter contratado operários para construir a kolba, disse Nana, mas não o fizera.
— Era a sua ideia de penitência.

SEGUNDO O RELATO DE NANA, quando ela dera à luz Mariam, ninguém fora dar-lhe uma
ajuda. Fora num dia húmido e encoberto, na Primavera de 1959, disse ela, o vigésimo
sexto dos quarenta anos do reinado essencialmente calmo do rei Zahir Shah. Disse que
Jalil não se dera ao trabalho de chamar um médico, nem sequer uma parteira, apesar de
saber que o jinn podia entrar no seu corpo e provocar-lhe um dos seus ataques durante o
parto. Ela estendera-se, completamente só, no chão da kolba, uma faca ao lado, o corpo
alagado de suor.
— Quando a dor se tornava mais forte, eu mordia uma almofada e gritava para dentro
dela até estar rouca. E continuava a não aparecer ninguém para me enxugar a cara ou me
dar um gole de água. E tu, Mariam jo, não tinhas pressa nenhuma. Obrigaste-me a ficar
estendida naquele chão frio e duro quase dois dias. Não comi nem dormi, limitava-me a
fazer força e a rezar para que tu saísses.
— Desculpa, Nana.
— Fui eu própria que cortei o cordão entre nós. Era para isso que tinha uma faca.
— Desculpa.
Nana fazia sempre um sorriso lento e dorido nessa altura, de recriminação prolongada
ou perdão relutante, Mariam nunca perce​bera. Não ocorrera à jovem Mariam ponderar a
injustiça de pedir desculpa pelas circunstâncias da sua vinda ao mundo.
Quando tal lhe ocorreu, por volta dos dez anos, já deixara de acreditar nesse relato do
seu nascimento. Acreditava na versão de Jalil, segundo a qual ele, embora ausente,
providenciara que Nana fosse conduzida a um hospital em Herat, onde fora assistida por
um médico. Estivera deitada numa cama verdadeira e limpa, numa sala bem iluminada. Jalil
abanara a cabeça com tristeza quando Mariam lhe falara da faca.
Mariam passou mesmo a duvidar de ter feito a mãe sofrer durante dois dias inteiros.
— Contaram-me que estava tudo acabado em menos de uma hora — dissera Jalil. —
Tu foste uma boa filha, Mariam jo. Até a nascer foste uma boa filha.
— Ele nem sequer lá estava! — atirara Nana, com desprezo. — Estava em Takht-e-
Safar, a andar a cavalo com os seus preciosos amigos.
Quando o informaram de que tinha uma nova filha, disse Nana, Jalil encolhera os
ombros, continuara a afagar a crina do cavalo, e permanecera em Takht-e-Safar durante
mais duas semanas.
— A verdade é que ele nem sequer te pegou senão quando já tinhas um mês. E mesmo
então, limitou-se a lançar-te uma olhadela, a fazer um comentário acerca da tua cara
comprida, e voltou a entregar-te a mim.
Mariam acabou por não acreditar também nessa parte da história. Sim, Jalil admitira
que estava a andar a cavalo em Takht-e-Safar, mas quando lhe deram a notícia não
encolhera os ombros. Saltara para a sela e cavalgara de volta a Herat. Erguera-a nos
braços, passara o polegar pelas suas sobrancelhas escamadas, e entoara uma canção de
embalar. Mariam não imaginava Jalil a dizer que ela tinha a cara comprida, ainda que isso
fosse verdade.
Nana dizia que fora ela a dar-lhe o nome de Mariam, porque era assim que se chamava
a sua mãe. Jalil disse que escolhera esse nome porque Mariam, a tuberosa, era uma flor
encantadora.
— A sua preferida? — perguntara Mariam.
— Bem, uma delas — anuira ele, sorrindo.
3

Uma das mais antigas recordações de Mariam era o som rangente das rodas de ferro
de um carrinho de mão a ressaltar nas pedras. O carrinho vinha uma vez por mês, cheio de
arroz, farinha, chá, açúcar, óleo para cozinhar, sabonete, pasta dentífrica. Empurravam-no
dois dos meio-irmãos de Mariam, geralmente Muhsin e Ramin, por vezes Ramin e Farhad.
Pelo caminho de terra acima, sobre pedras e calhaus, contornando buracos e arbustos, os
rapazes empurravam à vez até chegarem ao riacho. Aí, o carrinho tinha de ser despejado
e os artigos transportados à mão sobre a água. Depois os rapazes passavam o carrinho
para o outro lado e carregavam-no novamente. Seguiam-se mais duzentos metros a
empurrar, agora através de erva alta e densa, rodeando moitas de arbustos. Saltavam-lhes
rãs à passagem. Os irmãos afastavam mosquitos das faces transpiradas.
— Ele tem criados — dizia Mariam. — Podia mandar um criado.
— É a sua ideia de penitência — replicava Nana.
O som do carrinho levava Mariam e Nana a sair da kolba. Mariam recordar-se-ia
eternamente do aspecto de Nana no Dia do Abaste​cimento: uma mulher descalça, alta e
ossuda, encostada à ombreira da porta, o olho preguiçoso reduzido a uma fenda, os
braços cruzados num gesto de desafio e troça. O cabelo muito curto, iluminado pelo sol,
descoberto e por escovar. Vestia uma camisa cinzenta que lhe assentava mal, abotoada
até ao pescoço, com os bolsos cheios de pedras do tamanho de nozes.
Os rapazes sentavam-se à beira do rio e esperavam que Mariam e Nana transferissem
as rações para a kolba. Não caíam em se aproximar mais do que uns trinta metros, apesar
de Nana ter má pontaria e a maior parte das pedras aterrar muito longe dos alvos.
Enquanto levava para dentro sacas de arroz, Nana invectivava os rapazes, chamando​-lhes
nomes que Mariam não entendia. Amaldiçoava-lhes as mães, fazia-lhes caretas horríveis.
Os rapazes nunca respondiam aos insultos.
Mariam tinha pena deles. Como deviam sentir os braços e as pernas cansados de
empurrar aquela pesada carga, pensava ela, compadecida. Gostaria de ter autorização
para lhes oferecer água. Mas não dizia nada, e se eles lhe acenavam, ela não retribuía o
gesto. Uma vez, para agradar a Nana, Mariam até gritara a Muhsin que ele tinha a boca
em forma de rabo de lagarto, e ficara depois consumida de remorsos, vergonha e medo de
que eles contassem a Jalil. Nana, contudo, rira tanto, exibindo os incisivos estragados, que
Mariam pensara que ela ia ter um dos seus ataques. Mas não, cessando de rir, fitara
Mariam e dissera: — És uma boa filha.
Quando o carrinho ficava vazio, os rapazes aproximavam-se arrastando os pés e
empurravam-no. Mariam esperava até os ver desaparecer no meio da erva alta e das
flores silvestres.
— Vens?
— Sim, Nana.
— Eles riem-se de ti. A sério. Eu ouço-os.
— Vou já.
— Não acreditas em mim?
— Já cá estou.
— Sabes que eu gosto de ti, Mariam jo.

DE MANHÃ, acordavam com o balido distante das ovelhas e o som agudo de uma flauta
dos pastores de Gul Daman que levavam os seus rebanhos a pastar na erva da colina.
Mariam e Nana ordenhavam as cabras, alimentavam as galinhas, e recolhiam os ovos.
Faziam o pão juntas. Nana mostrava-lhe como fazer a massa, como acender o tandur e
atirar a massa espalmada para as suas paredes internas. Ensinava-a igualmente a
costurar, e a preparar arroz e todas as guarnições dife​rentes: guisado de shalqam com
nabo, sabzi de espinafres, couve-flor com gengibre.
Nana não ocultava a sua aversão a visitas — na realidade, às pessoas em geral — mas
abria excepções para alguns poucos escolhidos. Assim, havia o líder de Gul Daman, o
arbab da aldeia, Habib Khan, um homem barbudo, de cabeça pequena e ventre rotundo,
que aparecia mais ou menos uma vez por mês, seguido de uma criada que transportava
uma galinha, por vezes um frasco de arroz kichiri, ou um cesto de ovos pintados para
Mariam.
Depois havia uma mulher idosa, anafada, a quem Nana chamava Bibi jo, cujo defunto
marido fora gravador de pedra e amigo do seu pai. Bibi jo vinha invariavelmente
acompanhada por uma das suas seis noras e por um par de netos. Atravessava a clareira
a coxear e a bufar, e esfregava ostensivamente a anca, deixando-se cair, com um suspiro
dorido, na cadeira que Nana lhe oferecia. Também Bibi jo trazia sempre alguma coisa para
Mariam, uma caixa de doces dishlemeh, um cesto de marmelos. Para Nana, trazia em
primeiro lugar queixas acerca da sua saúde decadente, e depois mexericos de Herat e Gul
Daman, minuciosamente relatados com satisfação, enquanto a nora, sentada a seu lado,
escutava calada e obediente.
Mas o preferido de Mariam, além de Jalil, evidentemente, era o Mullah Faizullah, o idoso
professor de Corão da aldeia, o seu akhund. Vinha de Gul Daman uma ou duas vezes por
semana para ensinar a Mariam o namaz, as cinco orações diárias, e iniciá-la na recitação
do Corão, tal como ensinara Nana quando ela era garotinha. Fora o Mullah Faizullah que
ensinara Mariam a ler, olhando pacientemente por cima do seu ombro enquanto os lábios
dela articulavam as palavras em silêncio, o indicador atardando-se por baixo de cada
palavra, carregando até a unha ficar branca, como se esta conseguisse espremer dos
símbolos o seu significado. Fora o Mullah Faizullah que lhe pegara na mão, guiando-lhe o
lápis para traçar a elevação de cada alef, a curva de cada beh, os três pontos de cada
seh.
Era um ancião curvado, macilento, com um sorriso desdentado e uma barba branca até
ao umbigo. Em geral vinha sozinho à kolba, mas às vezes trazia o filho, Hamza, que era
ruivo e poucos anos mais velho do que Mariam. Quando o Mullah Faizullah aparecia,
Mariam beijava​-lhe a mão — e era como se beijasse um ramo de galhos coberto por uma
fina camada de pele — e ele dava-lhe um beijo na testa antes de entrarem para a lição do
dia. A seguir, sentavam-se ambos no exterior da kolba, a comer pinhões e a bebericar chá
verde, observando os tordos cantadores a voar de árvore em árvore. Às vezes iam dar um
passeio por entre os amieiros, pisando as folhas caídas cor de bronze ao longo do riacho
em direcção às montanhas. Enquanto deambulavam, o Mullah Faizullah ia desfiando as
contas do seu rosário tasbeh e, com a voz trémula, contava a Mariam histórias acerca de
todas as coisas que vira na sua juventude, como a da serpente com duas cabeças que
encontrara no Irão, na Ponte dos Trinta e Três Arcos, em Isfahan, ou a da melancia que
uma vez partira à entrada da Mesquita Azul, em Mazar, e cujas sementes formavam as
palavras Allah numa das metades, e Akbar na outra.
O Mullah Faizullah confessou a Mariam que, por vezes, não compreendia o significado
das palavras do Corão. Mas disse gostar dos sons encantadores que as palavras árabes
provocavam ao rolar-lhe na boca. Afirmou que o confortavam, que lhe aliviavam o coração.
— Confortar-te-ão igualmente a ti, Mariam jo — assegurou ele. — Podes invocá-las nas
horas difíceis e elas não te decepcionarão. As palavras de Deus nunca te atraiçoarão,
minha filha.
O Mullah Faizullah escutava histórias tão bem como as contava. Quando Mariam falava,
a sua atenção nunca se desviava. Acenava lentamente e sorria com ar de gratidão, como
se lhe estivesse a ser concedido um cobiçado privilégio. Era fácil contar ao Mullah Faizullah
coisas que Mariam se não atrevia a contar a Nana.
Um dia, durante um passeio, Mariam disse-lhe que gostaria de ter autorização para ir à
escola.
— Quero eu dizer, uma escola verdadeira, akhund sahib. Com salas de aula. Como os
outros filhos do meu pai.
O Mullah Faizullah estacou.
Na semana anterior, Bibi jo levara a notícia de que as filhas de Jalil, Saideh e Nahid, iam
frequentar a Escola Mehri para raparigas, em Herat. Desde então, rodopiavam na cabeça
de Mariam pensa​mentos de salas de aula e professores, imagens de cadernos pautados,
colunas de números, e canetas que faziam grossas marcas pretas. Imaginava-se numa
aula com outras raparigas da sua idade. Ansiava por assentar uma régua numa página e
traçar linhas de aspecto importante.
— É isso que tu queres? — indagou o Mullah Faizullah, fitando​-a com os seus doces
olhos aquosos, as mãos atrás das costas curvadas, a sombra do turbante projectada
sobre uma mancha de viçosos ranúnculos.
— Sim.
— E queres que eu peça autorização à tua mãe.
Mariam sorriu. Exceptuando Jalil, achava que não havia no mundo ninguém que a
compreendesse melhor do que o seu velho professor.
— Então que posso eu fazer? Deus, na sua infinita sabedoria, deu​-nos fraquezas a
todos, e de entre as minhas muitas, a maior é não ser capaz de te recusar nada, Mariam
jo — disse ele, dando-lhe uma palmadinha na face com o dedo artrítico.
Mas mais tarde, ao abordar Nana, ela deixou cair a faca com que cortava cebolas. —
Para quê?
— Se a garota quer aprender, deixa-a, minha querida. Deixa a rapariga receber uma
educação.
— Aprender? Aprender o quê, Mullah sahib? — perguntou Nana com aspereza. — O
que é que há para aprender? — Dardejou um olhar na direcção de Mariam.
Mariam baixou os olhos para as mãos.
— Que sentido faz educar uma rapariga como tu? É como polir um escarrador. E não
aprenderás nada de útil nessas escolas. Há apenas uma aptidão, apenas uma, que uma
mulher como tu e eu precisa de ter na vida, e essa não te ensinam na escola. Olha para
mim.
— Não devias falar-lhe assim, minha filha — observou o Mullah Faizullah.
— Olha para mim.
Mariam olhou.
— Apenas uma aptidão: o tahamul. Aguentar.
— Aguentar o quê, Nana?
— Ah, com isso não te preocupes — declarou Nana. — Não te vão faltar coisas.
Prosseguiu contando que as esposas de Jalil que lhe tinham chamado horrível filha de
um insignificante gravador de pedra. Que a haviam obrigado a lavar roupa ao frio, fora de
casa, até ela ter a cara dormente e as pontas dos dedos a arder.
— É a nossa sina na vida, Mariam. De mulheres como nós. Nós aguentamos. É tudo o
que temos. Compreendes? Além disso, na escola rir-se-iam de ti. De verdade. Chamavam-
te harami. Diriam as coisas mais horríveis a teu respeito. Não consinto.
Mariam baixou a cabeça.
— E não se fala mais em escola. Eu só te tenho a ti. Não quero perder-te para eles.
Olha para mim. Não se fala mais em escola.
— Sê razoável. Vá lá. Se a rapariga quer... — começou o Mullah Faizullah.
— E o senhor, akhund sahib, com o devido respeito, não devia encorajar estas suas
ideias malucas. Se realmente se preocupa com ela, então faça-lhe ver que o lugar dela é
aqui em casa, com a mãe. Lá fora não há nada para ela. Nada excepto rejeição e
sofrimento. Eu sei, akhund sahib. Eu sei.
4

Mariam adorava ter visitas na kolba. O arbab da aldeia com os seus presentes, Bibi jo
com a sua anca dorida e intermináveis mexericos e, é claro, o Mullah Faizullah. Mas não
havia ninguém, absolutamente ninguém, que Mariam mais ansiasse por ver do que Jalil.
A ansiedade instalava-se nas noites de terça-feira. Mariam dormia mal, receando que
qualquer complicação de negócios impedisse Jalil de vir na quinta, e que tivesse de
esperar mais uma semana inteira para o ver. Às quartas andava lá fora de um lado para o
outro, em volta da kolba, atirava distraidamente a comida às galinhas para dentro da
cerca. Dava passeios sem rumo, arrancando pétalas a flores e dando palmadas aos
mosquitos que lhe picavam os braços. Finalmente, às quintas-feiras, só conseguia sentar-
se encostada a uma parede, de olhos pregados no riacho, e esperar. Se Jalil se atrasava,
a pouco e pouco sentia invadi-la um terrível pavor. Os joelhos cediam e tinha de ir
estender-se em qualquer lado.
Depois Nana chamava-a. — Eis o teu pai. Em todo o seu esplendor.
Mariam erguia-se vivamente quando o avistava a saltar de pedra em pedra pelo riacho,
todo sorrisos e acenos calorosos. Sabia que Nana a observava, sondando a sua reacção,
e precisava sempre de fazer um esforço para permanecer à entrada da porta, para
esperar, para o ver dirigir-se lentamente para ela, em vez de correr ao seu encontro. Re​-
freava-se e, pacientemente, observava-o a caminhar por entra a erva alta, o casaco do
fato ao ombro, a gravata vermelha soerguida pela brisa.
Quando Jalil entrava na clareira, atirava o casaco para o tandur e abria os braços.
Mariam começava a andar e depois finalmente corria para ele, e ele apanhava-a por baixo
dos braços e atirava-a ao ar. Mariam soltava gritos agudos.
Suspensa no ar, via o rosto de Jalil erguido por baixo dela, o seu sorriso rasgado um
pouco torcido, o seu bico de viúvo, a fenda do seu queixo — o lugar ideal para a ponta do
seu dedo mindinho — os seus dentes, os mais brancos numa cidade de molares
estragados. Gostava do seu bigode aparado, e gostava do facto de, independente​mente
do tempo, ele usar sempre fato completo nas suas visitas — castanho-escuro, a sua cor
preferida, com o triângulo branco de um lenço no bolso do casaco — e também botões de
punho, e uma gravata, em geral vermelha, que trazia semiaberta. Mariam via igualmente o
seu próprio reflexo nos olhos castanhos de Jalil: os cabelos soltos ao vento, a cara
afogueada de excitação, e o céu como fundo.
Nana dizia que, um desses dias, ele não conseguiria apanhá-la e que ela, Mariam, lhe
escaparia por entre os dedos, cairia ao chão e partiria um osso. Mas Mariam não
acreditava que Jalil a deixasse cair. Acreditava que aterraria sempre sã e salva nas mãos
limpas, de unhas bem tratadas, do pai.
Sentavam-se no exterior da kolba, à sombra, e Nana servia-lhes chá. Jalil e ela
cumprimentavam-se com um sorriso constrangido e um aceno de cabeça. Jalil nunca
mencionava as pedras nem os insultos atirados por Nana.
Embora arengasse muito contra Jalil quando ele lá não estava, Nana mostrava-se
submissa e delicada durante as suas visitas. Tinha sempre o cabelo lavado. Escovava os
dentes e vestia para ele o seu melhor hijab. Sentava-se calada numa cadeira do lado
oposto, com as mãos cruzadas no colo. Não olhava directamente para ele e nunca
empregava linguagem grosseira. Quando se ria, tapava a boca com o punho para ocultar o
dente estragado.
Nana perguntava-lhe como iam os negócios. E também as esposas. Quando lhe disse
ter sabido, por Bibi jo, que a sua esposa mais nova, Nargis, esperava o terceiro filho, Jalil
sorrira cortesmente e confirmara com um aceno.
— Bem. Deve estar feliz — disse Nana. — Quantos tem já? Dez, não é, mashallah?
Dez?
Jalil disse que sim, dez.
— Onze, se contarmos com Mariam, é claro.
Mais tarde, depois de Jalil regressar a casa, Mariam e Nana tiveram uma pequena
discussão por causa disso. Mariam disse que ela lhe pregara uma rasteira.
Após o chá com Nana, Mariam e Jalil iam sempre pescar para o riacho. Ele mostrava-
lhe como lançar a linha, como enrolar o carretel para puxar a truta. Ensinou-lhe a maneira
correcta de amanhar o peixe, de o limpar, de separar a espinha da carne com um único
movimento. Enquanto esperavam que o peixe mordesse, fazia-lhe desenhos, mostrando-lhe
como delinear um elefante com um só traço, sem levantar a caneta do papel. Ensinava-lhe
versos. Cantavam juntos:
Lili, lili chafariz de passarinho
Erguido no meio de um caminho,
Peixinho pulou na borda, beberricou,
escorregou, e na água tombou.

Jalil trazia recortes do jornal de Herat, Ittifaq-i Islam, e lia-os para ela. Ele era a ligação
de Mariam com o mundo, a prova de que existia lá fora alguma coisa para além da kolba,
para além de Gul Daman e também de Herat, um mundo de presidentes com nomes impro​-
nun​ciáveis, de comboios, de museus, de futebol e foguetes que descreviam órbitas em
volta da terra e aterravam na lua; e todas as quintas-feiras, Jalil trazia com ele para a
kolba um pedaço desse mundo.
Foi ele que, no Verão de 1973, tinha Mariam catorze anos, lhe contou que o Rei Zahir
Shah, depois de reinar em Cabul durante quarenta anos, tinha sido derrubado por um golpe
de estado.
— Foi feito pelo primo dele, Daoud Khan, enquanto o rei estava em Itália, para receber
tratamento médico. Lembras-te de Daoud Khan, não é verdade? Falei-te dele. Era
primeiro-ministro em Cabul quando tu nasceste. Seja como for, o Afeganistão já não é uma
monarquia, Mariam. Agora é uma república, percebes, e Daoud Khan é o presidente.
Correm rumores de que os socialistas em Cabul o ajudaram a tomar o poder. Não que ele
próprio seja socialista, atenção, mas que eles o ajudaram. Pelo menos é o que corre.
Mariam perguntou-lhe o que era um socialista, e Jalil começou a explicar, mas ela mal o
escutava.
— Estás a ouvir?
— Estou.
Viu-a a olhar para o volume no bolso lateral do casaco. — Ah. Claro. Bem, aqui está
então. Sem mais delongas...
Tirou do bolso uma pequena caixa e deu-lha. De vez em quando fazia aquilo; levava-lhe
pequenos presentes. Uma bracelete de cor​nalina uma vez, uma gargantilha com contas de
lápis-lazuli de outra. Nesse dia, Mariam abriu a caixa e encontrou um berloque em forma de
folha, da qual pendiam minúsculas moedas com luas e estrelas gravadas.
— Experimenta-o, Mariam jo.
Ela assim fez. — O que é que achas?
Jalil sorriu, radiante. — Acho que pareces uma rainha.
Após a sua partida, Nana viu o berloque ao pescoço de Mariam.
— Quinquilharia de ciganos — comentou ela. — Já os vi a faze​rem disso. Fundem as
moedas que as pessoas lhes atiram e fazem quinquilharias. Estou para ver se o teu
precioso pai te traz ouro da próxima vez. Estou para ver.
Chegada a hora de Jalil partir, Mariam ficava sempre à entrada e via-o sair da clareira,
desanimada com o pensamento da semana que, como um imenso objecto inamovível, se
interpunha entre ela e a sua próxima visita. Mariam sustinha sempre a respiração enquanto
o via partir. Sustinha a respiração e, mentalmente, contava os segundos. Fingia que, por
cada segundo sem respirar, Deus lhe concederia mais um dia com Jalil.
À noite, deitada no seu catre, Mariam perguntava a si mesma como seria a casa dele
em Herat. Perguntava-se como seria viver com ele, vê-lo diariamente. Imaginava-se a
estender-lhe uma toalha enquanto ele se barbeava, e a dizer-lhe que se cortara. Preparar-
lhe-ia chá. Coseria os botões que lhe caíssem. Passeariam juntos por Herat, no bazar de
tecto abobadado onde Jalil afirmava poder encontrar-se tudo o que se desejasse.
Andariam no carro dele e as pessoas apontariam e diriam, «Lá vai Jalil Khan com a filha.»
Ele mostrar-lhe-ia a famosa árvore debaixo da qual estava enterrado um poeta.
Um dia, em breve, decidiu Mariam, contaria essas coisas a Jalil. E quando ele a ouvisse,
quando percebesse como ela sentia a sua falta sempre que ele se ausentava, certamente
a levaria consigo. Levá-la-ia para Herat, para viver na sua casa, exactamente como os
seus outros filhos.
5

— Eu sei o que quero — disse Mariam a Jalil.


Estava-se na Primavera de 1974, o ano em que Mariam fazia quinze anos.
Encontravam-se os três sentados no exterior da kolba, numa sombra projectada pelos
salgueiros, em cadeiras articuladas dispostas em triângulo.
— Nos meus anos. Sei o que quero.
— Sabes? — indagou Jalil, sorrindo encorajadoramente.
Duas semanas antes, instado por Mariam, Jalil deixara escapar que o seu cinema exibia
um filme americano. Era um género de filme especial, aquilo a que ele chamava desenhos
animados. Todo o filme era uma série de desenhos, explicara ele, milhares, de maneira
que, depois de passados para a película e projectados num ecrã, tinha​-se a ilusão de que
os bonecos se moviam. Jalil dissera que o filme contava a história de um velho fabricante
de brinquedos, sem filhos, que se sentia só e desejava ardentemente um filho. Assim,
esculpia uma marioneta, que por magia adquiria vida. Mariam pedira para saber o resto, e
Jalil dissera que o velho e a sua marioneta tinham as mais incríveis aventuras, e que havia
um lugar chamado Ilha da Diversão, onde os rapazes maus se transformavam em burros.
No fim, a mario​neta e o pai até eram engolidos por uma baleia. Mariam falara
pormenorizadamente do filme ao Mullah Faizullah.
— Quero que me leves ao teu cinema — dizia agora Mariam. — Quero ver os desenhos
animados. Quero ver o rapaz-marioneta.
Mariam sentiu a alteração de atmosfera provocada pelas suas palavras. Os pais
mexeram-se nas cadeiras. Viu-os trocarem olhares.
— Isso não é uma boa ideia — declarou Nana. A voz era calma, com o tom controlado e
cortez que usava na presença de Jalil, mas Mariam sentia-lhe o olhar duro e acusador.
Jalil mudou de posição na cadeira. Tossiu, pigarreou.
— Sabes — começou ele — a qualidade do filme não é grande coisa. Nem o som. E o
projector tem andado a funcionar mal. Talvez a tua mãe tenha razão. Talvez seja melhor
pensares noutro presente, Mariam jo.
— Aneh — disse Nana. — Vês? O teu pai concorda.

MAS MAIS TARDE, junto ao riacho, Mariam pediu-lhe: — Le​ve-me.


— Olha, fazemos assim — respondeu Jalil. — Eu mando alguém buscar-te para ir
contigo. Certifico-me de que te arranjam um bom lugar e todas as guloseimas que
quiseres.
— Nay. Quere que sejas tu a levar-me.
— Mariam jo...
— E quero que convides também os meus irmãos e irmãs. Quero conhecê-los. Quero
que vamos todos, juntos. É isso que eu quero.
Jalil suspirou. Olhava para longe, na direcção das montanhas.
Mariam lembrou-se de ele lhe ter dito que no ecrã um rosto humano parecia do tamanho
de uma casa, que quando os carros chocavam lá em cima, quase se sentia o metal a
enterrar-se nos ossos. Imaginou-se sentada no balcão reservado, a lamber um gelado,
junto dos irmãos e de Jalil. — É isso que eu quero — repetiu ela.
Jalil fitava-a com ar desamparado.
— Amanhã. Ao meio-dia. Venho ter contigo aqui mesmo. Está bem? Amanhã?
— Anda cá — disse ele. Agachou-se, puxou-a para si e abraçou-a durante muito, muito
tempo.
A PRINCÍPIO, Nana andou de um lado para o outro na kolba, abrindo e fechando os
punhos.
— De todas as filhas que eu podia ter tido, porque é que Deus me deu uma ingrata
como tu? Depois de tudo o que eu aguentei por tua causa! Como te atreves? Como te
atreves a abandonar-me assim, minha pequena harami traiçoeira!
Depois troçou.
— Que rapariga estúpida! Pensas que tens alguma importância para ele, que és
desejada na casa dele? Pensas que te considera uma filha? Que te vai receber lá? Deixa-
me dizer-te uma coisa. O coração de um homem é perverso, perverso, Mariam. Não é
como o ventre de uma mãe. Não sangra, não se dilata para te arranjar lugar. Eu sou a
única a amar-te. Eu sou tudo o que tu tens neste mundo, Mariam, e quando eu partir não
terás nada. Nada. Tu não és nada!
Depois tentou causar remorsos.
— Se te fores embora eu morro. O jinn virá e terei um dos meus ataques. Verás, engulo
a língua e morro. Não me abandones, Mariam jo. Fica, por favor. Se te fores embora eu
morro.
Mariam continuou calada.
— Tu sabes que eu te amo, Mariam jo.
Mariam disse que ia dar um passeio.
Se ficasse, receava poder dizer coisas que a magoassem: que sabia que o jinn era uma
mentira; que Jalil lhe contara que aquilo que Nana tinha era uma doença com nome, e que
havia comprimidos que a fariam melhorar. Poderia perguntar a Nana porque se recusava a
ir ao médico de Jalil, como ele insistira, e porque não tomava os comprimidos que ele lhe
comprara. Se conseguisse articular tudo isso, poderia dizer a Nana que estava cansada de
ser um instrumento, de ouvir mentiras, de lhe ser cobrada a própria existência, de ser
usada. Que estava farta de ouvir Nana distorcer a realidade das suas vidas e de a
transformar a ela, Mariam, em mais um dos seus agravos contra o mundo.
Tu tens medo, Nana, poderia ela ter dito. Tens medo de que eu possa encontrar a
felicidade que tu nunca alcançaste. E não queres que eu seja feliz. Não queres que eu
tenha uma vida boa. Quem tem um coração perverso és tu.

HAVIA UM PONTO DE OBSERVAÇÃO, na orla da clareira, para onde Mariam gostava de ir.
Estava lá sentada agora, na erva seca e quente. Avistava-se dali Herat, estendida a seus
pés como o tabuleiro de jogos de uma criança: o Jardim das Mulheres a norte da cidade; o
Bazar Char-suq e as ruínas da velha cidadela de Alexandre Magno para sul. Distinguia os
minaretes ao longe, como dedos poeirentos de gigantes, e as ruas que imaginava
apinhadas de pessoas, carroças, mulas. Contemplou as andorinhas que descreviam
círculos por cima da sua cabeça, baixando de vez em quando rapidamente. Invejava
aquelas aves. Tinham estado em Herat. Tinham voado sobre as suas mesquitas e os seus
bazares. Talvez tivessem mesmo pousado nos muros da casa de Jalil, nos degraus da
entrada do seu cinema.
Apanhou dez seixos e alinhou-os verticalmente, em três colunas. Era um jogo a que se
dedicava ocasionalmente, em segredo, quando Nana não estava a ver. Pôs quatro seixos
na primeira coluna, para os filhos de Khadija, três para os de Afsoon, e três na terceira
para os de Nargi. Depois acrescentou uma quarta coluna. Um solitário undécimo seixo.
NA MANHÃ SEGUINTE, Mariam envergou uma túnica bege que lhe chegava aos joelhos,
calças de algodão, e cobriu os cabelos com um hijab verde. Afligiu-se um pouco com o
facto de o hijab ser verde e não condizer com a túnica, mas teria de ir assim mesmo: a
branca tinha buracos de traças.
Viu as horas. O relógio era velho, de corda manual, com números verdes num mostrador
verde-menta, um presente do Mullah Faizullah. Eram nove horas. Perguntou-se onde
estaria Nana. Pensou em ir lá fora procurá-la, mas receava o confronto, os olhares
melindrados. Nana acusá-la-ia de traição. Troçaria das suas ambições erradas.
Sentou-se. Esforçou-se por passar o tempo desenhando repetidas vezes um elefante,
com um só traço, como Jalil lhe ensinara. Sentia​-se hirta de tanto estar sentada, mas não
queria deitar-se com medo de amarrotar o fato.
Quando os ponteiros indicaram finalmente as onze e meia, Mariam meteu no bolso os
onze seixos e saiu. A caminho do riacho, avistou Nana sentada numa cadeira, à sombra,
sob a copa frondosa de um salgueiro-chorão. Não percebeu se Nana a vira ou não.
Junto ao riacho, Mariam aguardou no lugar onde haviam combi​nado no dia anterior. No
céu, passavam algumas nuvens cinzentas, em forma de couve-flor. Jalil ensinara-lhe que as
nuvens cinzentas tinham essa cor por serem tão densas que a parte de cima absorvia a luz
do sol e projectava a sua própria sombra para a base. É isso que tu vês, Mariam jo,
dissera ele, as suas barrigas escuras.
Decorreu algum tempo.
Mariam voltou à kolba. Dessa vez, contornou o perímetro ocidental da clareira, para não
ter de passar por Nana. Consultou o relógio. Era quase uma hora.
Ele é um homem de negócios, pensou Mariam. Surgiu-lhe qualquer coisa.
Regressou ao riacho e esperou mais um bom bocado. Lá em cima os melros
descreviam largos círculos, mergulhando depois algures na erva. Viu uma lagarta deslocar-
se lentamente pela base de um cardo ainda por desabrochar.
Esperou até sentir formigueiros nas pernas. Dessa vez, não voltou para a kolba. Enrolou
as calças até aos joelhos, atravessou o riacho e, pela primeira vez na vida, desceu a colina
rumo a Herat.
NANA ENGANARA-SE igualmente a respeito de Herat. Nin​guém a apontou a dedo. Ninguém
se riu dela. Mariam caminhou ao longo de avenidas ladeadas por ciprestes, ruidosas,
apinhadas, por entre um fluxo contínuo de peões, ciclistas, e garis puxados por mulas, e
ninguém lhe atirou uma pedra. Ninguém lhe chamou harami. Quase ninguém olhou para ela.
Ali, inesperadamente, maravilhosamente, ela era uma pessoa vulgar.
Deteve-se um bocado junto a um lago oval, no centro de um grande parque onde se
cruzavam carreiros de cascalho. Encantada, correu os dedos pelos belos cavalos de
mármore que se erguiam na borda do lago fitando a água com olhos opacos. Espiou um
grupo de rapazes que punham a velejar barcos de papel. Via flores por toda a parte,
tulipas, lírios, petúnias, as pétalas banhadas de sol. As pessoas andavam pelos carreiros,
sentavam-se nos bancos e bebe​ricavam chá.
Mariam mal conseguia acreditar que se encontrava em Herat. O coração martelava-lhe
no peito com a excitação. Desejou que o Mullah Faizullah a pudesse ver. Que ousada ele a
acharia! Que corajosa! Rendeu-se à nova vida que a aguardava nessa cidade, uma vida
com um pai, com irmãs e irmãos, uma vida em que ela amaria e seria amada, sem
reservas, sem dias marcados, sem vergonha.
Alegremente, voltou à rua larga e movimentada perto do parque. Passou por velhos
vendilhões com rostos de pergaminho, sentados à sombra de planeras, que a fitavam
impassíveis por trás de pirâmides de cerejas e montes de uvas. Garotos descalços
corriam atrás dos automóveis e autocarros agitando sacos com marmelos. Mariam deteve-
se numa esquina e ficou a observar os transeuntes, incapaz de compreender como podiam
mostrar-se tão indiferentes às maravilhas que os rodeavam.
Após um bocado, conseguiu arranjar coragem para perguntar ao idoso proprietário de
um gari puxado por um cavalo se sabia onde morava Jalil, o dono do cinema. O ancião
tinha bochechas e usava um chapan de riscas multicolores. — Não és de Herat, pois não?
— disse ele em tom cordial. — Toda a gente sabe onde mora Jalil Khan.
— É capaz de me indicar?
Ele desembrulhou um caramelo e indagou: — Estás sozinha?
— Estou.
— Sobe. Eu levo-te.
— Não posso pagar. Não tenho dinheiro nenhum.
Ele ofereceu-lhe o caramelo e disse que há duas horas não fazia um serviço, portanto já
estava a pensar em recolher. A casa de Jalil ficava​-lhe em caminho.
Mariam subiu para o gari. Foram calados, lado a lado. Pelo caminho, viu ervanárias, e
cubículos com a frente aberta, onde as pessoas compravam laranjas e peras, livros, xales
e até falcões. Havia crianças a jogar ao berlinde em círculos traçados na terra. No exterior
das casas de chá, em estrados de madeira cobertos de tapetes, os homens bebiam chá e
fumavam tabaco de narguilés.
O velho virou para uma rua larga, bordejada de coníferas, e ao chegar a meio mandou o
cavalo estacar.
— É aqui. Parece que tens sorte, dokhtar jo. Está ali o carro dele.
Mariam saltou para o chão. O velho sorriu-lhe e prosseguiu o seu caminho.

MARIAM NUNCA TINHA tocado num automóvel. Passou os dedos pelo tejadilho do carro de
Jalil, que era preto, reluzente, com rodas faiscantes em que ela viu reflectida uma versão
achatada e alargada de si própria. Os estofos eram de pele branca. Por trás do volante
avistou painéis redondos com ponteiros.
Por instantes, Mariam ouviu mentalmente a voz de Nana, a troçar, a despejar um balde
de água fria no arreigado clarão das suas esperanças. Com as pernas trémulas,
aproximou-se dos portões da casa. Apoiou as mãos nos muros. Eram tão altos, tão
agoirentos, os muros de Jalil. Tinha de torcer o pescoço para ver os topos dos ciprestes
do jardim espreitarem por cima deles. As copas das árvores oscilaram à brisa e ela
imaginou que estavam a acenar-lhe as boas-vindas. Acalmou, tentando controlar as ondas
de desânimo que a percor​riam. O portão foi aberto por uma mulher jovem, descalça. Tinha
uma tatuagem debaixo do lábio inferior.
— Vim para ver Jalil Khan. Sou Mariam. A filha dele.
Pelo rosto da rapariga perpassou uma expressão de perplexidade. Depois, um
relâmpago de reconhecimento. Havia agora um leve sorriso nos seus lábios, e mostrava
um ar animado, de antecipação. — Espera aqui — disse ela rapidamente.
Fechou a porta.
Decorreram alguns minutos. Depois apareceu um homem. Era alto e de ombros largos,
de olhos sonolentos e rosto sereno.
— Eu sou o motorista de Jalil Khan — disse ele, com uma certa simpatia.
— O seu quê?
— O seu motorista. Jalil Khan não está.
— Mas aquilo é o carro dele — observou Mariam.
— Ausentou-se por causa de negócios urgentes.
— Quando é que volta?
— Não disse.
Mariam declarou que esperaria.
O homem fechou o portão. Mariam sentou-se e encostou os joelhos ao peito. A tarde ia
já avançada e ela começava a ficar com fome. Comeu o caramelo oferecido pelo condutor
do gari. Um bocado depois, o motorista voltou a aparecer.
— Agora deves ir para casa — disse ele. — Daqui a menos de uma hora será escuro.
— Estou habituada ao escuro.
— E também fará frio. Por que não me deixas levar-te a casa de carro? Eu digo-lhe que
tu cá estiveste.
Mariam limitou-se a olhá-lo.
— Então levo-te para um hotel. Dormirás lá confortavelmente. E de manhã veremos o
que se pode fazer.
— Deixe-me entrar em casa.
— Recebi ordens para não te deixar entrar. Olha, ninguém sabe quando é que ele volta.
Pode demorar dias.
Mariam cruzou os braços.
O motorista suspirou e fitou-a com um olhar de benévola re​preensão.
Ao longo dos anos, Mariam teria muitas ocasiões para pensar que a sua vida poderia ter
sido diferente se tivesse deixado o motorista levá-la de volta à kolba. Mas não deixara.
Passou a noite à porta da casa de Jalil. Viu o céu escurecer, as sombras engolirem as
fachadas das casas vizinhas. A rapariga tatuada levou-lhe pão e um prato de arroz, que
Mariam afirmou não querer. A rapariga deixou-o ficar perto dela. De vez em quando,
Mariam ouvia passos na rua, portas a abrirem-se, cumprimentos abafados. Acenderam-se
luzes eléctricas e as janelas brilhavam vagamente. Ladravam cães. Quando não conseguiu
resistir mais à fome, comeu o prato de arroz e acabou o pão. Depois ficou a escutar os
grilos dos jardins. Lá no alto, as nuvens deslizavam sobre uma pálida lua.
De manhã foi acordada com um abanão. Mariam viu que durante a noite alguém a
tapara com um cobertor.
Era o motorista que lhe abanava o ombro.
— Agora já chega. Fizeste uma cena. Bas. É hora de partir.
Mariam sentou-se e esfregou os olhos. Sentia as costas e o pescoço doridos. — Eu vou
esperar por ele.
— Olha para mim — ordenou o homem. — Jalil Khan diz que eu tenho de te levar de
volta agora. Imediatamente. Compreendes? É Jalil Khan quem o diz.
Abriu a porta de trás do automóvel. — Bia. Anda — insistiu ele, suavemente.
— Eu quero vê-lo — repetiu Mariam. Sentiu os olhos marejados de lágrimas.
O motorista suspirou. — Deixa-me levar-te a casa. Anda lá, dokhtar jo.
Mariam ergueu-se e encaminhou-se para ele. Mas depois, no último momento, mudou
de rumo e correu para o portão. Sentiu os dedos do motorista tentando agarrá-la pelo
ombro. Sacudiu-o e irrompeu pelo portão aberto.
Na mão-cheia de segundos que esteve no jardim de Jalil, os seus olhos registaram uma
estrutura de vidro reluzente cheia de plantas, videiras enroscando-se em latadas de
madeira, um lago com peixinhos, rodeado de blocos de pedra cinzenta, árvores de fruto, e
moitas de flores garridas por toda a parte. O seu olhar passou por cima de todas essas
coisas antes de descobrir uma cara, numa janela do andar superior, do lado oposto do
jardim. A cara surgiu apenas um instante, um relâmpago, mas foi o suficiente. O suficiente
para Mariam ver os olhos arregalarem-se, a boca abrir-se. Depois desapareceram. Surgiu
um punho que puxou freneticamente um cordão. As cortinas cerraram-se.
Depois um par de mãos enterrou-se sob as suas axilas erguendo-a do chão. Mariam
esperneou. Os seixos caíram-lhe do bolso. Continuou a espernear e a chorar enquanto era
levada para o automóvel e depositada na pele fria do banco da retaguarda.
ENQUANTO GUIAVA, o motorista foi falando em surdina, em tom de consolação. Mariam não
o ouvia. Durante todo o percurso, aos solavancos no banco, ela chorou. Eram lágrimas de
desgosto, de cólera, de desilusão. Mas eram principalmente lágrimas de uma profunda
vergonha pela forma idiota como se entregara a Jalil, como se angustiara com o que vestir,
com o hijab a destoar, fazendo a pé todo o caminho até ali, recusando partir, dormindo na
rua como um cão vadio. E sentia vergonha por ter desprezado os olhares doridos da mãe,
os seus olhos inchados. De Nana, que a avisara, que tivera razão em tudo.
Mariam não conseguia deixar de pensar na cara avistada na janela do andar de cima.
Ele tinha-a deixado dormir na rua. Na rua. Es​tendeu-se, ainda a chorar. Não se sentou, não
queria ser vista. Imaginou que, nessa manhã, Herat inteira sabia que se cobrira de opróbio.
Desejou que o Mullah Faizullah ali estivesse, para poder pousar a cabeça no colo dele e
deixar que a confortasse.
Ao fim de certo tempo, a estrada tornou-se mais acidentada e o nariz do carro começou
a apontar para cima. Entraram no caminho que subia a colina fazendo a ligação entre Herat
e Gul Daman.
O que ia ela dizer a Nana?, perguntou-se Mariam. Como pedir-lhe desculpa? Como
podia sequer encarar Nana, agora?
O carro parou e o motorista ajudou-a a sair. — Eu vou contigo — disse ele.
Deixou-se conduzir até ao outro lado da estrada e colina acima. Ao longo do caminho
cresciam melífagos e asclépias. As abelhas zumbiam sobre cintilantes flores silvestres. O
motorista pegou-lhe na mão e ajudou-a a atravessar o riacho. Depois largou-a e começou
a dizer que os Ventos dos Cento e Vinte Dias, por que Herat era famosa, não tardariam a
soprar desde metade da manhã até ao crepúsculo, e que os mosquitos-pólvora entrariam
num frenesim de alimentação. Mas, de súbito, postou-se diante dela, tentando tapar-lhe os
olhos, empurrando-a para o caminho por onde viera, e exclamando: — Volta para trás!
Não. Não olhes agora. Vira-te! Volta para trás!
Mas não fora suficientemente rápido. Mariam vira. Uma rajada de vento afastara, como
uma cortina, os ramos pendentes do salgueiro​-chorão, e Mariam avistara de relance o que
estava debaixo da árvore: a cadeira de costas direitas, derrubada. A corda pendurada num
ramo alto. E Nana a baloiçar na extremidade.
6

Sepultaram Nana num canto do cemitério de Gul Daman. Mariam manteve-se ao lado de
Bibi jo, com as mulheres, e o Mullah Faizullah recitou orações junto à campa enquanto os
homens desciam para a terra o corpo amortalhado de Nana.
Depois, Jalil acompanhou Mariam à kolba onde, perante os aldeões que os tinham
seguido, se mostrou extremamente solícito com Mariam. Reuniu algumas das suas coisas
e meteu-as numa mala. Sentou-se ao lado dela no catre, onde ela se estendera, e abanou-
lhe o rosto. Afagou-lhe a testa e, arvorando uma expressão pesarosa, per​guntou se ela
precisava de alguma coisa, qualquer coisa — disse-o assim mesmo, duas vezes.
— Quero o Mullah Faizullah — respondeu Mariam.
— Com certeza. Ele está lá fora. Vou chamá-lo.
E foi quando a figura curvada e frágil do Mullah Faizullah apareceu à entrada da kolba
que Mariam chorou pela primeira vez nesse dia.
— Oh Mariam jo.
Sentou-se junto dela e envolveu-lhe a cara com as mãos. — Vá, chora, Mariam jo. Vá.
Não tenhas vergonha. Mas lembra-te do que diz o Corão, minha filha: «Bendito Aquele em
Cuja mão está o reino, Aquele que tem poder sobre todas as coisas, Que criou a morte e
a vida para te pôr à prova.» O Corão diz a verdade, minha filha. Por trás de cada prova e
de cada desgosto que Deus nos faz suportar, há uma razão.
Mas Mariam não conseguia achar consolo nas palavras de Deus. Não nesse dia. Não
nessa altura. A única coisa que conseguia era ouvir Nana a dizer, Se te fores embora eu
morro. Morro. Só conseguia chorar, chorar e deixar cair as lágrimas na pele manchada e
fina como papel de carta das mãos do Mullah Faizullah.
NA VIAGEM para sua casa, Jalil sentou-se no banco de trás com Mariam, e passou-lhe o
braço por cima dos ombros.
— Podes ficar comigo, Mariam jo — disse ele. — Já mandei arranjar um quarto para ti.
É no andar de cima. Acho que vais gostar. Dá para o jardim.
Pela primeira vez, Mariam escutava-o pelos ouvidos de Nana. Ouvia agora distintamente
a insinceridade que estivera sempre subjacente nas suas palavras, as garantias ocas,
falsas. Não foi capaz de olhar para ele.
O carro parou diante da casa de Jalil, e o motorista abriu-lhes a porta e levou a mala de
Mariam. Jalil, pousando-lhe as palmas das mãos nos ombros, conduziu-a através dos
mesmos portões fora dos quais, dois dias antes, Mariam dormira no passeio à espera
dele. Dois dias antes — quando Mariam pensava não haver no mundo nada que mais
desejasse do que passear naquele jardim com Jalil — e parecia​-lhe agora ter sido numa
outra existência. Como era possível que a sua vida tivesse dado uma reviravolta completa
tão depressa?, perguntou-se Mariam. Manteve os olhos baixos, fixos nos pés que
percorriam um caminho de pedra cinzenta. Apercebeu-se da presença de pessoas no
jardim, a mur​murarem, a afastarem-se quando eles passavam. Sentiu sobre si o peso de
olhares que a observavam das janelas do andar de cima.
Dentro de casa, Mariam conservou-se igualmente de cabeça baixa. Caminhou sobre
uma carpete castanha com um repetitivo padrão octogonal azul e amarelo, e viu pelo canto
do olho as bases de mármore de estátuas, as partes inferiores de vasos, as franjas de
tapeçarias vivamente coloridas penduradas nas paredes. Acompanhou Jalil por uma
escadaria ampla, coberta por uma passadeira igual, fixada na base de cada degrau. No
topo das escadas Jalil conduziu-a para a esquerda, ao longo de mais um comprido
corredor atapetado. Estacou diante de uma das portas, abriu-a e deixou-a entrar.
— Às vezes, as tuas irmãs Niloufar e Atieh brincam aqui — disse Jalil —, mas usamo-lo
principalmente como quarto de hóspedes. Aqui ficarás bem instalada, penso eu. É bonito,
não é?
O quarto tinha uma cama com uma colcha verde às flores, feita de tecido aos favos. As
cortinas, afastadas para revelar o jardim lá em baixo, condiziam com a colcha. Ao lado da
cama havia uma cómoda com três gavetas e uma jarra de flores em cima. Ao longo das
paredes viam-se prateleiras com fotografias emolduradas de gente que Mariam não
conhecia. Numa das prateleiras, viu uma colecção de bonecas de madeira idênticas,
dispostas em fila, por ordem decrescente de ta​manhos.
Jalil seguiu-lhe o olhar. — São matrioskas. Comprei-as em Moscovo. Podes brincar com
elas, se quiseres, ninguém se importará.
Mariam sentou-se na cama.
— Queres alguma coisa? — perguntou Jalil.
Mariam estendeu-se. Cerrou os olhos. Após um bocado, ouviu-o fechar a porta
suavemente.
A NÃO SER QUANDO precisava de usar a casa de banho ao fundo do corredor, Mariam
permanecia no quarto. A rapariga da tatuagem, a que lhe abrira o portão, trazia-lhe as
refeições num tabuleiro: kabob de cordeiro, sabzi, sopa de aush. Grande parte voltava
intacta. Jalil aparecia várias vezes por dia, sentava-se na cama ao lado dela, per​guntava-
lhe se estava bem.
— Podias comer lá em baixo connosco — disse ele, mas sem grande convicção.
Compreendeu demasiado depressa quando Mariam afirmou preferir comer sozinha.
Da janela, Mariam observava impassível aquilo sobre que se interrogara e que ansiara
ver durante a maior parte da sua vida: as idas e vindas do quotidiano de Jalil. Criados
saíam e entravam apressados pelos portões. Havia sempre um jardineiro a aparar os
arbustos, a regar as plantas da estufa. Automóveis com longos tejadilhos polidos
estacionavam na rua. Deles emergiam homens de fato completo, de chapans e chapéus de
astrakan, mulheres de hijabs, crianças impe​cavelmente penteadas. E observando Jalil a
apertar as mãos daqueles estranhos, vendo-o cruzar as palmas sobre o peito e baixar a
cabeça às suas esposas, Mariam compreendeu que Nana falara verdade. Ela não
pertencia ali.
Mas onde é que eu pertenço? O que vou fazer agora?
Eu sou tudo o que tu tens neste mundo, Mariam, e quando eu partir não terás nada.
Nada. Tu não és nada!
Como o vento a bater nos salgueiros em redor da kolba, rajadas de uma angústia
inexprimível percorriam constantemente Mariam.
No segundo dia que passava em casa de Jalil, entrou no quarto uma garota.
— Venho buscar uma coisa — disse ela.
Mariam sentou-se na cama, cruzou as pernas e puxou a colcha para o colo.
A garota atravessou rapidamente o quarto e abriu a porta do armário. Tirou de lá uma
caixa cinzenta quadrada.
— Sabes o que é isto? — perguntou ela. Abriu a caixa. — Chama​-se gramofone.
Gramo. Fone. Toca discos. Sabes?, música. Um gramofone.
— Tu és a Niloufar. Tens oito anos.
A garota sorriu. Tinha o sorriso de Jalil, a sua covinha no queixo. — Como é que sabes?
Mariam encolheu os ombros. Não disse àquela rapariga que um dia dera o nome dela a
um seixo.
— Queres ouvir uma canção?
Mariam encolheu novamente os ombros.
Niloufar ligou a ficha do gramofone. Tirou um pequeno disco de uma bolsa sob a tampa
da caixa. Colocou-o e baixou a agulha. A música começou a tocar.
Usarei como papel uma pétala,
E escrever-te-ei a mais doce carta,
Tu és o sultão do meu coração,
O sultão do meu coração.

— Conheces?
— Não.
— É de um filme iraniano. Vi-o no cinema do meu pai. Ei, queres ver uma coisa?
Antes que Mariam pudesse responder, Niloufar assentara as palmas das mãos e a testa
no chão. Fez força nas solas dos pés e ficou de cabeça para baixo, apoiada em três
pontos, um dos quais a cabeça.
— És capaz de fazer isto? — indagou ela em voz rouca.
— Não.
Niloufar deixou cair as pernas e puxou a blusa para baixo. — Eu podia ensinar-te —
ofereceu ela, afastando o cabelo da testa con​gestionada. — Então quanto tempo é que
vais ficar aqui?
— Não sei.
— A minha mãe diz que tu não és verdadeiramente minha irmã, como tu dizes.
— Eu nunca disse isso — mentiu Mariam.
— Ela diz que tu disseste. Não me interessa. Quer dizer, não me importo, se disseste
mesmo, ou se és minha irmã. Não me importo.
Mariam deitou-se. — Agora estou cansada.
— A minha mãe diz que um jinn fez a tua mãe enforcar-se.
— Já podes parar isso — disse Mariam, virando-se de lado. — Quer dizer, a música.
Bibi jo foi igualmente visitá-la nesse dia. Chovia quando chegou. Deixou cair o amplo
corpo na cadeira ao lado da cama, e fez uma careta.
— Esta chuva, Mariam jo, é um horror para as minhas articulações. Um horror, digo-te
eu. Espero... Oh, anda cá, criança. Vem à Bibi jo. Não chores. Pronto. Coitadinha. Tch.
Coitadinha.
Nessa noite, Mariam demorou muito tempo a adormecer. Ficou estendida, a olhar para o
céu, ouvindo os passos lá em baixo, as vozes abafadas pelas paredes e os lençóis de
água que fustigavam as janelas. Dormitou, por fim, e acordou sobressaltada com o som de
gritos. Vozes lá em baixo, ásperas e coléricas. Não conseguiu perceber as palavras.
Alguém bateu uma porta.
Na manhã seguinte, apareceu o Mullah Faizullah. Ao ver o amigo à porta, a barba
branca e o cordial sorriso desdentado, Mariam sentiu de novo a ferroada das lágrimas ao
canto dos olhos. Passou as pernas por cima da cama e correu para ele. Beijou-lhe a mão,
como sempre, e ele deu-lhe um beijo na testa. Mariam ofereceu-lhe uma cadeira.
Ele mostrou-lhe o Corão que levara consigo, e abriu-o. — Achei que não havia razão
para alterarmos a nossa rotina, hã?
— Sabe que eu já não preciso de lições, Mullah sahib. Há muitos anos que me ensinou
todos os surrah e todos os ayat do Corão.
O Mullah sorriu e ergueu as mãos, rendido. — Então eu confesso. Fui desmascarado.
Mas ocorrem-me desculpas piores para te visitar.
— Sabe que não precisa de desculpas. O sahib não.
— É simpático dizeres isso, Mariam jo.
Passou-lhe o seu Corão. Tal como ele a ensinara, ela beijou-o três vezes, tocando na
testa entre cada beijo, e devolveu-lho.
— Como estás tu, minha filha?
— Não consigo deixar... — começou Mariam. Mas teve de parar, pois sentia-se como
se tivesse uma pedra alojada na garganta. — Não consigo deixar de pensar naquilo que
ela me disse, antes de eu sair. Ela...
— Nay, nay, nay — O Mullah Faizullah pousou-lhe a mão no joelho. — A tua mãe, que
Allah lhe perdoe, era uma mulher perturbada e infeliz, Mariam jo. Fez uma coisa terrível a
ela própria. A ela própria, a ti, e também a Allah. Ele perdoar-lhe-á, pois é misericordioso,
mas Allah ficou triste com o seu acto. Não aprova que se tire uma vida, seja de outrem
seja a nossa, pois Ele diz que a vida é sagrada. Sabes... — aproximou mais a cadeira e
pegou na mão de Mariam entre as suas. — Sabes, eu conheci a tua mãe antes de tu teres
nascido, quando ela era pequena, e digo-te que já então ela era infeliz. A semente daquilo
que ela fez estava plantada há muito, receio bem. O que eu quero dizer é que tu não tens
culpa disto. Não tens culpa nenhuma, minha filha.
— Eu não devia tê-la deixado. Devia ter...
— Pára com isso. Tais pensamentos não são bons, Mariam jo. Estás a ouvir, minha
filha? Não são bons. Destruir-te-ão. Não tiveste culpa. Não tiveste culpa. Não.
Mariam fungou e anuiu, mas, por mais que o desejasse arden​temente, não conseguia
acreditar nele.

UMA TARDE, uma semana depois, ouviu uma pancada na porta e uma mulher alta entrou.
Tinha pele branca, cabelo ruivo e dedos longos.
— Eu sou Afsoon — disse ela. — A mãe de Niloufar. Por que não te lavas, Mariam, e
vens até lá abaixo?
Mariam declarou que preferia permanecer no quarto.
— Não, na fahmidi, não compreendes. Tens de ir lá abaixo. Precisamos de falar
contigo. É importante.
7

Sentaram-se em frente dela, Jalil e as suas esposas, a uma comprida mesa castanho-
escura. Entre eles, no centro da mesa, havia uma jarra de cristal com cravinas recém-
colhidas e uma ânfora de água perlada de transpiração. Afsoon, a mulher ruiva que se
apresentara como mãe de Niloufar, estava sentada à direita de Jalil. As outras duas,
Khadija e Nargis, à sua esquerda. Todas as esposas usavam um diáfano lenço preto, não
na cabeça, mas em volta do pescoço, como se fora uma reflexão tardia. Mariam, não
crendo que usassem preto por causa de Nana, imaginou que fora sugestão de uma delas,
ou talvez de Jalil, antes de a terem chamado.
Afsoon deitou água da ânfora e colocou o copo diante de Mariam, num suporte de
tecido aos quadrados. — Ainda é Primavera e já está quente — comentou ela, abanando-
se com a mão.
— Tens-te sentido confortável? — perguntou Nargis, que possuía um queixo pequeno e
cabelo preto encaracolado. — Nós esperamos que te tenhas sentido confortável. Esta...
provação... deve ser muito dura para ti. Muito difícil.
As outras duas acenaram, concordando. Mariam viu as suas sobrancelhas depiladas, os
leves sorrisos tolerantes que lhe concediam. Sentia um zumbido desagradável na cabeça.
A garganta ardia-lhe. Bebeu um gole de água.
Através da ampla janela atrás de Jalil, Mariam avistou uma fila de pereiras em flor. Na
parede ao lado da janela havia um armário de madeira escura. Dentro, um relógio e uma
fotografia emoldurada de Jalil e três rapazes jovens a segurarem um peixe. O sol fazia
cintilar as escamas do peixe. Jalil e os rapazes riam.
— Bem — começou Afsoon. — Eu, ou melhor, nós, chamámos​-te aqui porque temos
muito boas notícias a dar-te.
Mariam ergueu os olhos.
Interceptou uma rápida troca de olhares entre as mulheres, por cima da cabeça de Jalil,
que se afundara na cadeira, fitando a ânfora sem a ver. Foi Khadija, que parecia a mais
velha das três, que voltou a fitar Mariam, e ela teve a impressão de que também essa
tarefa havia sido discutida e acordada antes de a terem chamado.
— Tens um pretendente — disse Khadija.
Foi como um soco no estômago de Mariam. — Um quê? — perguntou ela entre lábios
subitamente insensíveis.
— Um khastegar. Um pretendente. Chama-se Rashid — continuou Khadija. — É amigo
de um conhecido de negócios do teu pai. É um pastune, originário de Kandahar, mas vive
em Cabul, na zona de Deh-Mazang, numa casa de dois andares de que é proprietário.
Afsoon ia acenando. — E fala farsi, como nós, como tu. Por isso não terás de aprender
pashto.
Miriam sentia o peito apertado. A sala parecia girar de um lado para o outro e o chão
oscilava debaixo dos seus pés.
— É fabricante de sapatos — dizia agora Khadija. — Mas não é um muchi vulgar, de
beira da estrada, não, não. Ele possui a sua própria loja e é um dos mais procurados
sapateiros de Cabul. Faz sapatos para diplomatas, membros da família do presidente,
essa classe de gente. Portanto, como vês, não lhe será difícil cuidar de ti.
Mariam fixou os olhos em Jalil, o coração aos saltos no peito. — Isto é verdade? O que
ela está a dizer, é verdade?
Mas Jalil não olhou para ela. Continuou a morder o canto do lábio inferior e a fixar a
ânfora.
— Agora, ele é um bocadinho mais velho do que tu — interveio Afsoon. — Mas não terá
mais de... quarenta anos. Quarenta e cinco no máximo. Não achas, Nargis?
— Sim. Mas já vi raparigas de nove anos serem casadas com homens vinte anos mais
velhos do que o teu pretendente, Mariam. Todos nós vimos. Quantos anos tens tu, quinze?
É a idade perfeita para uma rapariga casar. — Houve acenos entusiásticos. Mas não
escapou a Mariam que ninguém mencionou as suas meias-irmãs, Saideh ou Nahid, ambas
da mesma idade dela, ambas a estudar na Escola Mehri de Herat, ambas a planear
frequentar a Universidade de Cabul. Para elas, quinze anos, não era, evidentemente, a
idade perfeita para casar.
— E além disso — prosseguiu Nargis —, também ele sofreu uma grande perda na vida.
Soubemos que a esposa morreu ao dar à luz há dez anos. E depois, há três anos, o filho
morreu afogado num lago.
— Sim, é muito triste. Ele tem andado à procura de uma esposa nestes últimos anos,
mas não encontrou ninguém adequado.
— Não quero — disse Mariam. Olhou para Jalil. — Não quero isto. Não me obrigues. —
Detestava o tom choramingas e suplicante da sua voz, mas não conseguia controlar-se.
— Ora, sê razoável, Mariam — disse uma das esposas. Mariam já não seguia quem
dizia o quê. Continuou a olhar para Jalil, esperando que ele falasse, que dissesse que nada
daquilo era verdade.
— Não podes passar o resto da tua vida aqui.
— Não queres ter família tua?
— Sim. Um lar, filhos teus?
— A vida continua.
— É verdade que seria preferível casares com uma pessoa de cá, um tajique, mas
Rashid é abastado e está interessado em ti. Tem uma casa e trabalho. E isso é o que
realmente interessa, não é? E Cabul é uma cidade linda e excitante. Podes não voltar a ter
uma oportu​nidade tão boa.
Mariam voltou a sua atenção para as esposas.
— Vou viver com o Mullah Faizullah — disse. — Ele recebe-me. Sei que o fará.
— Isso não é solução — declarou Khadija. — Ele está velho e tão... — Procurou as
palavras certas, e então Mariam percebeu que ela realmente queria era dizer, Ele está tão
perto. Compreendeu o que elas pretendiam fazer. Podes não voltar a ter uma
oportunidade tão boa. E elas também não. Tinham-se sentido desonradas com o seu
nascimento, e esta era a oportunidade de apagar, de uma vez por todas, o último vestígio
do escandaloso erro do marido. Mandavam-na para longe porque era a encarnação viva da
vergonha delas.
— Ele está tão velho e tão fraco — concluiu finalmente Khadija. — E o que farás quando
ele desaparecer? Serás um fardo para a família dele.
Como és agora para nós. Mariam quase viu as palavras sufocadas saírem da boca de
Khadija, como o bafo da respiração num dia frio.
Mariam imaginou-se em Cabul, uma cidade grande, estranha, apinhada, que, segundo
lhe dissera um dia Jalil, ficava seiscentos e cinquenta quilómetros a leste de Herat.
Seiscentos e cinquenta quilómetros. Nunca se afastara da kolba mais do que os dois
quilómetros percorridos até casa de Jalil. Imaginou-se a viver lá, em Cabul, no outro
extremo dessa distância inimaginável, a viver na casa de um estranho, onde teria de
suportar os seus humores e exigências. Teria de fazer limpezas para esse homem, Rashid,
de cozinhar para ele, de lhe lavar a roupa. E haveria também outros deveres: Nana
contara-lhe o que os maridos faziam às esposas. Era principalmente a ideia de tais
intimidades, que imaginava como dolorosos actos de perversidade, que a enchia de terror
e a cobria de suores.
Virou-se de novo para Jalil. — Diz-lhes. Diz-lhes que não as deixarás fazer-me isto.
— Na realidade, o teu pai já deu a sua resposta a Rashid — disse Afsoon. — Rashid
está cá, em Herat, deslocou-se de Cabul até aqui. Faremos a nikka amanhã de manhã e
depois há uma camioneta que parte para Cabul ao meio-dia.
— Diz-lhes! — gritou Mariam.
As mulheres tinham-se calado. Mariam pressentiu que também elas o observavam.
Esperavam. O silêncio invadiu a sala. Jalil conti​nuava a dar voltas à sua aliança, com uma
expressão magoada e impotente na face. Dentro do armário o relógio prosseguia o seu
tique-taque incessante.
— Jalil jo? — incitou por fim uma das mulheres.
Os olhos de Jalil ergueram-se lentamente, encontraram os de Mariam, detiveram-se um
instante e voltaram a baixar. Abriu a boca, mas emitiu apenas um único gemido penoso.
— Diz alguma coisa — pediu Mariam.
E então Jalil falou, em voz baixa e desamparada. — Raios, Mariam, não me faças isto.
— Como se fosse a ele que estavam a fazer alguma coisa.
Àquelas palavras, Mariam sentiu a tensão desaparecer da sala.
Enquanto as esposas de Jalil encetavam uma nova série de garantias, mais animadas
agora, Mariam fixava a mesa. Os seus olhos seguiram a forma elegante das pernas, as
curvas sinuosas dos cantos, o brilho da superfície polida, castanho-escura. Reparou que,
de cada vez que respirava, a superfície turvava-se e ela desaparecia da mesa de seu pai.
Afsoon escoltou-a até ao quarto lá de cima. Quando a mulher fechou a porta, Mariam
ouviu o ruído de uma chave a girar na fechadura.
8

De manhã, Mariam recebeu uma túnica verde-escura, de mangas compridas, para usar
por cima de calças de algodão. Afsoon deu-lhe um hijab verde e umas sandálias
condizentes.
Conduziram-na à sala da comprida mesa castanha, em cujo centro havia hoje uma taça
com bolos de amêndoa glaceados, um Corão, um véu verde, e um espelho. Sentados à
mesa estavam dois homens que Mariam nunca vira — testemunhas, presumivelmente — e
um mullah desconhecido.
Jalil acompanhou-a à sua cadeira. Vestia um fato castanho-claro com uma gravata
vermelha. O cabelo fora lavado. Quando lhe puxou a cadeira, tentou sorrir
encorajadoramente. Desta vez, Khadija e Afsoon sentaram-se do mesmo lado que Mariam.
O mullah fez um gesto em direcção ao véu, e Nargis, antes de se sentar, colocou-o na
cabeça de Mariam, que olhava para as mãos.
— Podes chamá-lo agora — disse Jalil para alguém.
Mariam sentiu-lhe o cheiro ainda antes de o ver. Colónia forte, adocicada, não a suave
de Jalil, mesclada com fumo de cigarro. O odor invadiu-lhe as narinas. Através do véu, pelo
canto do olho, viu um homem alto, de ventre rotundo e ombros largos, um pouco curvado,
que parara à entrada. A estatura dele quase lhe provocou uma exclamação e teve de
baixar o olhar, com o coração a martelar-lhe. Sentiu-o hesitar à porta, e depois o seu
avançar lento, pesado, através da sala. Em cima da mesa, a taça dos doces tilintou ao
ritmo dos seus passos. Com um grunhido abafado, deixou-se cair numa cadeira ao lado
dela. Respirava ruidosamente.
O mullah deu-lhes as boas-vindas e disse que aquela não seria uma nikka tradicional.
— Fui informado de que Rashid agha tem bilhetes para a camioneta que parte para
Cabul daqui a pouco. Assim, dado o tempo de que dispomos, saltaremos alguns dos
passos tradicionais para acelerar o processo.
O mullah lançou algumas bênçãos e proferiu algumas palavras acerca da importância
do casamento. Perguntou a Jalil se tinha alguma objecção àquela união e Jalil abanou a
cabeça. Depois o mullah perguntou a Rashid se desejava realmente estabelecer um
contrato de casamento com Mariam. Rashid disse, «Sim». A voz áspera, ríspida, recordou
a Mariam o som de folhas de Outono mortas esmagadas pelos seus pés.
— E tu, Mariam jan, aceitas este homem como teu esposo?
Mariam permaneceu calada. Houve pigarreares vários.
— Aceita — disse uma voz feminina da extremidade da mesa.
— Na realidade — observou o mullah — é ela própria que tem de responder. E deve
esperar até eu perguntar três vezes. Isso de​monstra que é ele que a procura, e não o
contrário.
Fez a pergunta mais duas vezes. Vendo que Mariam não respondia, perguntou
novamente, dessa vez com mais força. Mariam sentia Jalil a agitar-se na cadeira a seu
lado, pressentia pés que se cruzavam e descruzavam por baixo da mesa. Houve mais
pigarros. Uma mão pequena e branca estendeu-se e limpou uma partícula de pó da mesa.
— Mariam — sussurrou Jalil.
— Sim — disse ela em voz trémula.
Foi passado um espelho para debaixo do véu. Mariam viu primeiro a sua própria cara,
as sobrancelhas informes e direitas, o cabelo liso, os olhos, de um verde sombrio, e tão
juntos que quase poderia parecer estrábica. A pele era áspera, de aspecto baço e
manchado. Achou a testa demasiado grande, o queixo demasiado estreito, os lábios
demasiado finos. A impressão geral era de um rosto comprido, triangular, com algo de
sabujo. E contudo, Mariam viu que, estranhamente, o todo dessas partes banais contribuía
para uma cara que, não sendo bonita, também não desagradava ao olhar.
No espelho, Mariam avistou pela primeira vez Rashid: o rosto grande, quadrado,
sanguíneo; o nariz adunco; as faces avermelhadas que davam uma impressão de
jovialidade astuta; os olhos húmidos congestionados; os dentes encavalitados, com os dois
da frente unidos como um telhado de duas águas; o cabelo a começar tão em baixo que
mal se viam dois dedos de testa acima das sobrancelhas cerradas; a muralha de cabelo
grisalho, espesso, áspero.
Os seus olhares cruzaram-se brevemente no espelho e desviaram-se.
Esta é a cara do meu marido, pensou Mariam.
Trocaram as finas alianças de ouro que Rashid tirou do bolso do casaco. Tinha as unhas
de um castanho-amarelado, como o interior de uma maçã apodrecida, e as pontas de
algumas erguiam-se, retorcidas. As mãos de Mariam tremiam quando tentou enfiar a
aliança no dedo de Rashid e ele teve de a ajudar. A aliança dela estava um pouco
apertada, mas Rashid não se acanhou de a obrigar a passar os nós dos dedos.
— Pronto — disse ele.
— É um bonito anel — comentou uma das esposas. — Encan​tador, Mariam.
— Agora só falta assinar o contrato — disse o mullah.
Mariam assinou o seu nome — o mim, o reh, o ya, e novamente o mim — ciente de
todos os olhares pousados na sua mão. Quando voltasse a assinar o seu nome num
documento, decorridos vinte e sete anos, seria novamente na presença de um mullah.
— Sois agora marido e mulher — declarou o mullah. — Tabrik. Parabéns.

RASHID AGUARDAVA na camioneta multicolorida. Do sítio em que se encontrava com Jalil,


junto ao pára-choques da retaguarda, Mariam não conseguia vê-lo, apenas o fumo do seu
cigarro escapando​-se pela janela aberta. Em volta deles, apertavam-se mãos e faziam-se
despedidas. As pessoas beijavam o Corão e passavam-lhe por baixo. Garotos descalços
saltitavam entre os viajantes, caras invisíveis atrás dos tabuleiros com pastilhas elásticas e
cigarros.
Jalil empenhava-se em dizer-lhe que Cabul era tão bela que Babur, o imperador mongol,
pedira para aí ser sepultado. Mariam sabia que, a seguir, ele passaria a falar dos jardins
de Cabul, das lojas, das árvores e do ar, e em breve ela partiria na camioneta e ele
caminharia a seu lado, acenando alegremente, incólume, poupado.
Mariam não conseguiu permitir isso.
— Eu adorava-te — disse ela.
Jalil interrompeu-se a meio de uma frase. Cruzou e descruzou os braços. Passou entre
eles dois um jovem casal indiano, a mulher a embalar um garoto, o marido a arrastar uma
mala. Jalil pareceu agra​decer a interrupção. Eles desculparam-se e ele sorriu-lhes
delicada​mente.
— Às quintas-feiras esperava-te, sentada, durante horas. Ficava doente só de pensar
que pudesses não aparecer.
— É uma longa viagem. Devias comer qualquer coisa. — Ofe​receu-se para lhe ir
comprar pão e queijo de cabra.
— Passava o tempo a pensar em ti. Costumava rezar para que vivesses até aos cem
anos. Não sabia. Não sabia que tinhas vergonha de mim.
Jalil baixou os olhos e, como uma criança demasiado grande, começou a esburacar
qualquer coisa com a ponta do sapato.
— Tinhas vergonha de mim.
— Eu vou visitar-te — balbuciou ele. — Vou a Cabul ver-te. Nós...
— Não. Não. — disse ela. — Não venhas. Eu não te receberei. Não venhas. Não quero
mais ouvir falar de ti. Nunca. Nunca.
Ele lançou-lhe um olhar magoado.
— Entre ti e eu, acaba tudo aqui. Despede-te.
— Não partas assim — pediu ele em voz sumida.
— Nem sequer tiveram a decência de me dar tempo para me despedir do Mullah
Faizullah.
Voltou-se e dirigiu-se para o lado da camioneta. Sentiu que a seguia. Ao chegar às
portas hidráulicas, ouviu-o atrás de si.
— Mariam jo.
Ela subiu os degraus, e embora avistasse Jalil pelo canto do olho, caminhando a par
dela, não olhou pela janela. Dirigiu-se pela coxia até ao fundo, onde Rashid se encontrava
sentado com a mala dela entre os pés. Não se virou para fitar Jalil quando ele comprimiu
as palmas das mãos contra o vidro, quando tamborilou insistentemente com os nós dos
dedos. Quando a camioneta deu um solavanco em frente, Mariam não se virou para o ver
trotar ao longo dela. E quando a camioneta se afastou, não olhou para trás para o ver
diminuir, para o ver desaparecer na nuvem de pó e escape.
Rashid, que ocupava o lugar da janela e o do meio, pousou a mão pesada na sua.
— Pronto, rapariga. Pronto. Pronto — disse ele. Espreitava pela janela enquanto falava,
como se alguma coisa mais interessante lhe tivesse chamado a atenção.
9

Era já fim de tarde quando, no dia seguinte, chegaram a casa de Rashid.


— Estamos na zona de Deh-Mazang — elucidou ele já no passeio, diante da casa.
Segurava a mala dela numa das mãos e com a outra ia fazendo girar a chave no portão de
madeira da entrada. — Na parte sul e ocidental da cidade. A dois passos do jardim
zoológico e também da universidade.
Mariam acenou. Já aprendera que, embora conseguisse compre​endê-lo, tinha de
prestar muita atenção quando ele falava. Não estava habituada ao dialeto farsi de Cabul,
nem ao sotaque subjacente de pashto, a linguagem da sua Kandahar natal. Ele, por outro
lado, parecia não ter dificuldade em compreender o farsi de Herat falado por ela.
Deitou uma rápida vista de olhos à rua estreita, não asfaltada, em que ficava situada a
casa de Rashid. As casas ali eram adossadas umas às outras e tinham pequenos pátios
murados à frente, a separá-las da rua. A maior parte possuía telhados chatos e eram
feitas de tijolos queimados, outras de lama da mesma cor pardacenta das montanhas que
cercavam a cidade. Entre os passeios de ambos os lados e a rua havia sarjetas inundadas
de uma água lamacenta. Mariam avistou pequenos montes de lixo, cobertos de moscas,
espalhados aqui e além. A casa de Rashid tinha dois pisos e Mariam viu que, em tempos,
estivera pintada de azul.
Quando Rashid abriu o portão, Mariam encontrou-se num pequeno pátio desleixado,
onde cresciam teimosamente pequenos tufos de erva amarela. Viu uma latrina exterior à
direita, num pátio lateral, e à esquerda, um poço com uma bomba manual, e um renque de
árvores jovens, moribundas. Junto ao poço havia um barracão para ferramentas, com uma
bicicleta encostada ao muro.
— O teu pai disse-me que gostas de pescar — comentou Rashid, enquanto
atravessavam o pátio em direcção à casa. Mariam reparou que não havia pátio nas
traseiras. — Há vales a norte da cidade. Rios com imenso peixe. Talvez um dia te leve lá.
Abriu a porta e deixou-a entrar.
A casa de Rashid era muito mais pequena do que a de Jalil, mas comparada com a
kolba de Mariam e Nana, era uma mansão. No rés​-do-chão havia um corredor, uma sala e
uma cozinha, onde ele lhe mostrou tachos e frigideiras, uma panela de pressão e um ishtop
a querosene. A sala tinha um sofá de pele verde-pistáscio, com um rasgão de lado
grosseiramente cosido. As paredes estavam nuas. Havia uma mesa, duas cadeiras de
bambu, duas cadeiras articuladas e, ao canto, um fogão de ferro fundido preto.
Mariam parou no meio da sala, olhando em volta. Na kolba, podia tocar o tecto com as
pontas dos dedos. Podia estar deitada no seu catre e saber a hora do dia pelo ângulo da
luz do sol que entrava pela janela. Sabia até onde a porta abria sem que as dobradiças
rangessem. Conhecia todas as lascas e fendas de cada uma das trinta tábuas do soalho.
Agora, todas essas coisas familiares haviam desaparecido. Nana estava morta, e ela
estava ali, numa cidade estranha, separada da vida que conhecera por vales e cadeias de
montanhas com picos cobertos de neve e desertos enormes. Estava na casa de um
estranho, com todas aquelas divisões diferentes que cheiravam a tabaco, armários des​-
conhecidos cheios de utensílios desconhecidos, pesadas cortinas verde​-escuro, e um tecto
que ela sabia não conseguir alcançar. O espaço sufocava Mariam. Sentiu-se invadir por
uma imensa saudade, de Nana, do Mullah Faizullah, da sua antiga vida.
Começou a chorar.
— Porquê esse choro? — indagou Rashid em tom irritado. Meteu a mão no bolso das
calças, abriu os dedos cerrados de Mariam e enfiou​-lhe um lenço na palma. Acendeu um
cigarro e encostou-se à parede, observando Mariam a levar o lenço aos olhos.
— Acabou?
Mariam acenou com a cabeça.
— De certeza?
— Sim.
Então ele pegou-lhe no cotovelo e levou-a até à janela da sala.
— Esta janela dá para norte — elucidou, batendo no vidro com a unha retorcida do
indicador. — Aquele mesmo à nossa frente, é o Monte Asmai, vês?, e à esquerda fica o
Monte Ali Abad. A universi​dade fica nesse sopé. Por trás de nós, para leste, não
consegues ver daqui, está o Monte Shir Darwaza, de onde todos os dias, ao meio-dia,
disparam um canhão. Agora acaba com o choro. Estou a falar a sério.
Mariam enxugou os olhos.
— É uma coisa que não consigo suportar — observou ele, de cenho franzido —, o som
de uma mulher a chorar. Lamento. Não tenho paciência para tal.
— Quero ir para casa — disse Mariam.
Rashid suspirou com ar irritado. Uma golfada do seu hálito a tabaco atingiu Mariam na
cara. — Não vou tomar isso como uma coisa pessoal. Desta vez.
Segurou-lhe de novo o cotovelo e conduziu-a ao andar de cima.
Aí havia um corredor fracamente iluminado e dois quartos. A porta do maior estava
escancarada. Para lá dela, Mariam viu que, tal como no resto da casa, também no quarto
o mobiliário era escasso: uma cama ao canto, com uma colcha castanha, uma almofada,
um guarda​-roupa, uma cómoda. As paredes estavam nuas, com excepção de um pequeno
espelho. Rashid fechou a porta.
— Este é o meu quarto.
Disse-lhe que podia ficar com o quarto de hóspedes. — Espero que não te importes.
Estou habituado a dormir sozinho.
Mariam não lhe confessou como ficara aliviada, pelo menos a respeito daquilo.
O quarto destinado a Mariam era muito mais pequeno do que aquele onde ficara em
casa de Jalil. Tinha uma cama, uma velha cómoda castanho-acinzentado, um pequeno
guarda-roupa. A janela dava para o pátio, e para lá dele, para a rua. Rashid pousou a mala
dela a um canto.
Mariam sentou-se na cama.
— Tu não reparaste — comentou ele. Estava de pé à entrada da porta, um pouco
curvado para caber. — Olha para o parapeito. Sabes o que são? Pu-las aí antes de partir
para Herat.
Só então Mariam viu no parapeito um cesto, de cujos lados emergiam tuberosas
brancas.
— Gostas delas? Agradam-te?
— Sim.
— Então podes agradecer-me.
— Obrigada. Desculpa. Tahsakor...
— Estás a tremer. Talvez eu te assuste. Assusto-te? Tens medo de mim?
Mariam não olhava para ele, mas detectou naquelas perguntas um tom matreiro,
divertido, como que uma provocação. Abanou rapidamente a cabeça, consciente de que
aquela era a primeira mentira do seu casamento.
— Não? Então está bem. Melhor para ti. Bom, agora é esta a tua casa. Vais gostar
disto. Verás. Disse-te que temos electricidade? A maior parte dos dias e todas as noites?
Fez menção de sair. À porta, deteve-se, puxou uma longa fumaça, franzindo os olhos
por causa do fumo. Mariam achou que ele ia dizer qualquer coisa. Mas não. Fechou a
porta e deixou-a sozinha com a sua mala e as suas flores.
10

Nos primeiros dias, Mariam quase não saiu do quarto. Todas as manhãs, o grito distante
do azan acordava-a para a oração, e depois voltava a enfiar-se na cama. Continuava
deitada quando ouvia Rashid a lavar-se na casa de banho, e quando ele ia até ao seu
quarto ver como ela estava antes de sair para a loja. Da janela, observava-o no pátio a
prender o almoço na cesta da bicicleta, que depois levava à mão até à rua. Via-o afastar-
se a pedalar, até a figura maciça, de ombros largos, desaparecer na esquina ao fundo da
rua.
Durante a maior parte do dia, Mariam permanecia na cama, sentindo-se desamparada,
à deriva. Às vezes ia até lá abaixo, à cozinha, passava as mãos pelo balcão pegajoso,
manchado de gordura, e pelas cortinas de plástico florido que cheiravam a comida
queimada. Abria as gavetas mal ajustadas, e olhava para as colheres e facas desempar​-
ceiradas, o passador e as espátulas de madeira falhadas, esses instru​mentos futuros da
sua nova vida. Tudo lhe recordava a devastação que a atingira, fazendo-a sentir-se
desenraizada, deslocada, como uma intrusa na vida de outrem.
Na kolba, o seu apetite era previsível. Ali, o seu estômago rara​mente pedia alimento. Às
vezes levava um prato com restos de arroz e um pedaço de pão para junto da janela da
sala. Daí avistava os telhados das casas da rua que tinham apenas um piso. Via
igualmente os seus pátios, as mulheres a lavar e estender roupa e a ralhar com as
crianças, galinhas a debicar no pó, as pás e enxadas, as vacas amarradas às árvores.
Recordou com nostalgia as noites de Verão em que ela e Nana dormiam no telhado
plano da kolba, contemplando a lua que brilhava sobre Gul Daman, a noite tão quente que
as camisas se lhes colavam ao peito como uma folha molhada a uma janela. Tinha
saudades das leituras das tardes de Inverno com o Mullah Faizullah, ouvindo o clique dos
pingentes de gelo a tombar das árvores para o telhado, os corvos a grasnar lá fora nos
ramos pesados de neve.
Sozinha em casa, Mariam andava incessantemente de um lado para o outro, da cozinha
para a sala, escada acima e escada abaixo. Acabava sempre no quarto, a rezar as suas
orações ou sentada na cama, nauseada e com saudades da mãe e da sua casa.
Mas era quando o Sol tombava a ocidente que a ansiedade de Mariam realmente atingia
o auge. Os dentes batiam-lhe ao pensar na noite, altura em que Rashid poderia, por fim,
decidir fazer o que os maridos faziam às esposas. Ficava estendida na cama, com os
nervos em franja, enquanto ele comia sozinho lá em baixo.
Rashid parava sempre no quarto dela e espreitava.
— Não podes estar já a dormir. São só sete horas. Estás acordada? Responde-me.
Anda lá.
Insistia até Mariam responder do escuro: — Estou aqui.
Ele deixava-se escorregar e sentava-se à entrada da porta. Da cama, ela via-lhe o
corpo entroncado, as pernas compridas, o fumo a erguer​-se em círculos em redor do perfil
de nariz adunco, a ponta incandes​cente do cigarro que ia aumentando e diminuindo de
brilho.
Contava-lhe o seu dia. Um par de mocassins que fizera por medida para o vice-Ministro
dos Negócios Estrangeiros que, disse Rashid, só a ele comprava sapatos. Uma
encomenda de sandálias de um diplomata polaco e da esposa. Falou-lhe das superstições
que as pessoas tinham acerca dos sapatos: pousá-los em cima da cama era um convite a
morte na família, se a pessoa avançasse primeiro com o pé esquerdo, haveria discussão.
— A menos que seja feito inadvertidamente a uma sexta-feira — continuou ele. — E
sabias que é considerado mau agoiro atar os sapa​tos um ao outro e pendurá-los num
prego?
Pessoalmente, Rashid não acreditava em nada disso. Em sua opinião, as superstições
eram principalmente uma preocupação feminina.
Contava-lhe coisas que ouvira nas ruas, como o facto de o presi​dente americano,
Richard Nixon, se ter demitido por causa de um escândalo.
Mariam, que nunca ouvira falar em Nixon, nem no escândalo que o obrigara a demitir-se,
não respondia. Aguardava, ansiosa, que Rashid acabasse de falar, esmagasse o cigarro e
se despedisse. Só quando o ouvia atravessar o corredor e abrir e fechar a porta do quarto
dele, só então o punho de ferro que lhe comprimia as entranhas a libertava.
Depois, uma noite, ele esmagou o cigarro e, em vez de se despedir, encostou-se à
ombreira da porta.
— Chegas alguma vez a desfazer essa coisa? — indagou, fazendo um gesto de cabeça
na direcção da mala dela. Cruzou os braços. — Calculei que precisasses de algum tempo.
Mas isto é absurdo. Já passou uma semana e... Bem, então a partir de amanhã de manhã,
espero que comeces a comportar-te como uma esposa. Fahamidi? Está entendido?
Mariam começou a bater os dentes.
— Quero uma resposta.
— Sim.
— Bom — comentou ele. — O que é que tu pensavas? Que isto é um hotel? Que eu sou
algum estalajadeiro? Pois não... Oh. Oh. La illah u ilillah. O que é que eu disse a respeito
de choros, Mariam? O que é que eu te disse a respeito de choros?
NA MANHÃ SEGUINTE, depois de Rashid ter partido para o trabalho, Mariam tirou a roupa da
mala e arrumou-a na cómoda. Foi buscar um balde de água ao poço e, com um pedaço de
pano, lavou as janelas do seu quarto e as da sala. Varreu os soalhos, tirou as teias de
aranha que esvoaçavam nos cantos do tecto. Abriu as janelas para arejar a casa.
Pôs três chávenas de lentilhas de molho num tacho, foi buscar uma faca e cortou
cenouras e duas batatas, deixando-as também de molho. Procurou farinha e descobriu-a
ao fundo de um dos armários, atrás de uma fileira de frascos de especiarias sujos.
Preparou massa de pão, batendo-a como Nana lhe ensinara, comprimindo-a com a palma
da mão, dobrando a extremidade oposta, virando-a e voltando a apertar. Depois de a
enfarinhar, embrulhou-a num pano húmido, pôs um hijab e saiu rumo ao tandur comum.
Rashid tinha-lhe indicado onde era, ao fundo da rua, à esquerda e depois logo à direita,
mas Mariam só precisava de seguir o fluxo de mulheres e crianças que se dirigiam para o
mesmo lado. As crianças, que corriam atrás das mães ou à frente delas, vestiam camisas
muito remendadas, calças que pareciam demasiado grandes ou demasiado pequenas,
sandálias com tiras esfiapadas que oscilavam de um lado para o outro. Empurravam velhos
pneus de bicicleta com remendos.
As mães deslocavam-se em grupos de três ou quatro, algumas de burca, outras não.
Mariam ouvia-lhes a tagarelice aguda, as risadas em espiral. Caminhava de cabeça baixa,
e ia apanhando fragmentos das suas brincadeiras, que pareciam ter sempre algo a ver
com as doenças dos filhos ou a indolência e ingratidão dos maridos.
Como se as refeições se preparassem sozinhas.
Wallah o billah, nunca um momento de descanso!
E ele disse-me, juro que é verdade, palavra, ele disse-me que...
Aquela conversa interminável, em tom lamentoso mas estranha​mente jovial, vogava por
ali em círculo. Continuava rua abaixo, virava a esquina, até à fila para o tandur. Maridos
que jogavam. Maridos que mimavam as mães e não gastavam uma rupia com elas, as
esposas. Mariam perguntava-se como podiam tantas mulheres ter a mesma sorte
miserável, terem casado, todas elas, com homens tão horríveis. Ou seria aquilo um jogo
de esposas que ela não conhecia, um ritual diário, como demolhar o arroz ou preparar a
massa para o pão? Esperariam que ela se lhes juntasse em breve?
Na fila para o tandur, Mariam apercebeu-se de que lhe lançavam olhares de viés, ouviu
sussurros. Sentiu as mãos começarem a transpirar. Imaginou que todas sabiam que ela
era uma harami, uma fonte de vergonha para o seu pai e a sua família. Todas sabiam que
ela traíra a mãe e se cobrira de opróbio.
Enxugou a transpiração acima do lábio superior com uma ponta do hijab e tentou
controlar os nervos.
Durante alguns minutos tudo correu bem.
Depois, alguém lhe bateu no ombro. Mariam virou-se e viu uma mulher rechonchuda, de
tez pálida, que, como ela, usava um hijab. Tinha o cabelo preto curto e rijo, e uma cara
bem humorada quase perfeitamente redonda. Os lábios eram muito mais cheios do que os
de Mariam, o inferior levemente descaído, como que repuxado pelo grande sinal escuro
que crescia logo abaixo da sua borda. Possuía gran​des olhos esverdeados que brilhavam
para Mariam com uma expressão amistosa.
— És a nova esposa de Rashid jan, não és? — indagou a mulher, com um largo sorriso.
— A que veio de Herat. És tão nova! Mariam jan, não é? Eu chamo-me Fariba. Moro na
tua rua, cinco casas para a esquerda, a da porta verde. Este é o meu filho Nur.
O rapaz a seu lado exibia um rosto delicado e alegre, e cabelo rijo como o da mãe. Um
tufo de densos cabelos pretos espreitava do lóbulo da sua orelha esquerda, e os olhos
tinham um brilho travesso e afoito. Levantou a mão. — Salaam Khala jan.
— Nur tem dez anos. Tenho outro rapaz mais velho, Ahmad.
— Que tem treze — disse Nur.
— Treze a caminho dos quarenta — riu-se Fariba. — O meu marido chama-se Hakim. É
professor aqui em Deh-Mazang. Podias aparecer lá por casa, tomamos uma chávena...
E então, de repente, como que encorajadas, as outras mulheres empurraram Fariba e
formaram um círculo em redor de Mariam com uma rapidez impressionante.
— Então tu és a jovem noiva de Rashid jan...
— Que tal te parece Cabul?
— Eu já estive em Herat. Tenho lá uma prima.
— Queres ter primeiro um rapaz ou uma rapariga?
— Os minaretes! Oh, que beleza! Que cidade maravilhosa!
— Um rapaz é melhor, Mariam jan, perpetuam o nome de família...
— Bah! Os rapazes casam e desandam. As raparigas ficam e tomam conta de nós
quando somos velhas.
— Ouvimos dizer que ias chegar.
— Tem gémeos! Um de cada! Assim ficam todos felizes!
Mariam recuou. Tinha a respiração acelerada. Sentia zumbidos nos ouvidos, o pulso
latejava, os olhos dardejavam de uma cara a outra. Recuou novamente, mas não havia
para onde ir — estava no meio de um círculo. Avistou Fariba, que franzia a testa,
percebendo que ela se achava aflita.
— Deixam-na em paz! — dizia Fariba. — Afastem-se, deixem-na em paz! Estão a
assustá-la!
Mariam apertou a massa contra o peito e abriu caminho por entre a multidão que a
cercava.
— Onde vais tu, hamshira?
Ela empurrou até conseguir libertar-se e depois precipitou-se rua acima. Só ao chegar
ao cruzamento é que viu que correra para o lado errado. Deu meia-volta e partiu de novo
na direcção oposta, de cabeça baixa; tropeçou, esfolando com força o joelho, mas
levantou-se e passou como um raio pelas mulheres.
— O que é que te deu?
— Estás a sangrar, hamshira!
Mariam virou uma esquina e depois outra. Encontrou a rua certa, mas de repente não
conseguiu lembrar-se qual era a casa de Rashid. Correu rua acima e rua abaixo, ofegante,
quase em lágrimas, e começou a experimentar portões às cegas. Alguns estavam
trancados, outros abriam-se revelando-lhe pátios desconhecidos, cães a ladrar, e galinhas
assustadas. Imaginou Rashid a chegar e a encontrá-la ainda assim à procura da casa, com
o joelho a sangrar, perdida na sua própria rua. Então começou realmente a chorar.
Empurrou portões, balbu​ciando preces desesperadas, a cara molhada de lágrimas, até
que um se abriu e ela avistou, aliviada, a latrina, o poço com a sua bomba manual, o
barracão das ferramentas. Bateu com o portão atrás de si e correu o ferrolho. Depois
tombou de gatas, junto ao muro e vomitou. Quando acabou, rastejou para longe, e sentou-
se encostada a uma parede com as pernas estendidas. Nunca na vida se sentira tão só.
NESSA NOITE, AO VOLTARpara casa, Rashid trazia um saco de papel castanho. Mariam
sentiu-se desapontada por ele não ter reparado nas janelas lavadas, nos soalhos varridos,
na ausência de teias de aranha. Mas pareceu satisfeito ao ver o prato para o seu jantar
pousado numa sofrah limpa, estendida no chão da sala.
— Preparei daal — anunciou Mariam.
— Óptimo. Estou cheio de fome.
Ela despejou-lhe água da aftawa para ele lavar as mãos. Enquanto Rashid as enxugava
a uma toalha, Mariam colocou-lhe em frente uma tijela com o daal fumegante e um prato
de arroz branco solto. Era a primeira refeição que cozinhava para ele, e Mariam desejou
ter estado em melhores condições; quando a preparara ainda se sentia abalada pelo
incidente no tandur, e afligira-se durante todo o dia com a consistência e a cor do daal,
preocupada em que ele pudesse achar gengibre a mais ou açafrão a menos.
Rashid mergulhou a colher no daal dourado.
Mariam oscilou um pouco. E se ele ficasse desapontado ou zangado? E se ele
empurrasse o prato com desagrado?
— Cuidado — conseguiu ela articular. — Está quente.
Ele uniu os lábios e soprou, e depois levou a colher à boca.
— Está bom — comentou ele. — Um bocadinho insonso, mas bom. Talvez mesmo
melhor do que bom.
Aliviada, Mariam ficou a vê-lo comer. Uma onda de orgulho apanhou-a desprevenida.
Saíra-se bem — Talvez mesmo melhor do que bom — e surpreendeu-a o frémito de
prazer que o pequeno cumprimento dele lhe provocara. Os acontecimentos desagradáveis
do dia desvaneceram-se um pouco.
— Amanhã é sexta-feira — disse Rashid. — O que achas se eu te for mostrar a cidade?
— Cabul?
— Não, Calcutá.
Mariam pestanejou.
— Estou a brincar. Cabul, é claro. O que havia de ser? — Enfiou a mão no saco de
papel castanho. — Mas primeiro quero dizer-te uma coisa.
Tirou do saco uma burca azul céu. Quando ele lhe pegou, os metros de tecido dobrado
derramaram-se sobre os seus joelhos. Ele enrolou a burca e fitou Mariam.
— Eu tenho clientes, Mariam, que levam as esposas à minha loja. As mulheres
aparecem de rosto descoberto, falam directamente comigo, olham-me nos olhos sem
vergonha. Usam maquilhagem e saias que lhes deixam os joelhos à mostra. Às vezes,
chegam mesmo a pôr-me os pés à frente, essas mulheres, para tirar medidas, e os
maridos ficam ali a ver. Consentem. Não se importam que um estranho toque nos pés nus
das suas esposas! Acham que isso é serem homens modernos, intelectuais, suponho que
devido à educação que receberam. Não vêem que estão a destruir os seus próprios nang
e namus, a honra e o orgulho.
Abanou a cabeça.
— Na sua maioria, vivem nas zonas mais ricas de Cabul. Vou levar​-te lá. Vais ver. Mas
também os há aqui, mesmo neste nosso bairro, Mariam, esses homens moles. Há um
professor que vive ao fundo da rua, chamado Hakim, e vejo constantemente a esposa dele,
Fariba, a andar sozinha pelas ruas apenas com um lenço na cabeça. Com toda a
franqueza, embaraça-me ver um homem perder o controlo sobre a sua esposa.
Fixou em Mariam um olhar duro.
— Mas eu pertenço a uma raça de homens diferente, Mariam. Na minha terra, um olhar
errado, uma palavra imprópria, e derrama-se sangue. Na minha terra, a cara de uma
mulher é apenas para o marido. Quero que te lembres disso. Compreendes?
Mariam acenou afirmativamente. Quando ele lhe estendeu o saco, ela aceitou-o.
O prazer que sentira antes pela aprovação dos seus cozinhados evaporara-se. Em seu
lugar ficara uma sensação de retraimento. A vontade daquele homem parecia a Mariam tão
opressora e inamovível como os montes Safid-koh que se agigantavam sobre Gul Daman.
Rashid estendeu-lhe o saco de papel. — Então estamos entendidos. Agora, dá-me mais
um bocado desse daal.
11

Mariam nunca tinha usado uma burca e Rashid teve de a ajudar a vesti-la. Sentia o
capuz acolchoado pesar-lhe na cabeça e apertá-la, e era estranho ver o mundo através de
uma rede. Exercitou-se no quarto a andar com ela, mas tropeçava constantemente na
bainha. A perda de visão periférica era enervante, e desagradava-lhe a forma como o
tecido enrugado se lhe colava à boca, sufocando-a.
— Habituas-te — comentou Rashid. — Com o tempo, aposto que até vais gostar.
Apanharam um autocarro para um lugar a que Rashid chamou o Parque Shar-e-Nau,
onde as crianças se empurravam umas às outras nos baloiços e atiravam bolas de vólei
por cima de redes esfarrapadas atadas a troncos de árvores. Passearam juntos,
observando os rapazes a lançar papagaios, Mariam ao lado de Rashid, tropeçando de vez
em quando na bainha da burca. Ao almoço, Rashid levou-a a uma pe​quena casa de kebab
perto de uma mesquita a que chamou de Haji Youghoub. O chão estava pegajoso e o
ambiente era de fumo. As paredes cheiravam vagamente a carne crua e a música logari,
como Rashid a descreveu, estava demasiado alta. Os cozinheiros eram rapazes magros
que abanavam espetos com uma das mãos e com a outra enxotavam mosquitos. Mariam,
que nunca entrara num restaurante, estranhou, a princípio, estar sentada numa sala
apinhada com tantos estranhos, e ter de levantar a burca para meter pedaços de comida
na boca. Sentiu uma réstia da mesma ansiedade que lhe revolvera o estômago no dia do
tandur, mas a presença de Rashid confortava-a um pouco e ao fim de algum tempo já não
a incomo​davam tanto a música, o fumo e nem mesmo as pessoas. E a burca, percebeu
surpreendida, dava-lhe igualmente uma certa segurança. Era uma espécie de janela que só
funcionava para um dos lados. Lá dentro, ela era uma observadora, protegida dos olhares
perscrutadores de estranhos. Deixara de se afligir com a ideia de que as pessoas, com um
simples olhar, ficassem a conhecer todos os vergonhosos segredos do seu passado.
Ao longo das ruas, Rashid foi designando vários edifícios com ar de autoridade; isto é a
Embaixada Americana, disse ele, e aquilo o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Apontou
para automóveis, dos quais conhecia as marcas e o país de origem: Volgas soviéticos,
Chevrolets americanos, Opels alemães.
— Qual preferes? — perguntou ele.
Mariam hesitou, apontou para o Volga, e Rashid riu-se.
Cabul era muitíssimo mais movimentada do que o pouco que Mariam vira de Herat.
Havia menos árvores e menos garis puxados por cavalos, mas mais automóveis, edifícios
mais altos, mais sinais de trânsito e mais ruas alcatroadas. E por toda a parte ouvia o
peculiar dialeto da cidade: «Querido» era jan em vez de jo, «Irmã» tornava-se hamshira
em vez de hamshireh, e assim por diante.
Rashid comprou-lhe gelado a um vendedor ambulante. Era a primeira vez que Mariam
provava, e nunca imaginara que se pudessem pregar tais partidas ao palato. Devorou a
taça inteira, desde o pistáscio esmagado da cobertura, às minúsculas partículas de arroz
do fundo. Sentiu-se encantada com a textura fascinante e a sua doçura geral.
Prosseguiram até um sítio chamado Kocheh Morgha, Rua das Galinhas. Era um bazar
escuro e apinhado numa zona que Rashid declarou ser das mais abastadas de Cabul.
— Aqui à volta é onde habitam os diplomatas estrangeiros, os homens de negócios
ricos, membros da família real, gente desse género. Não como tu e eu.
— Não vejo galinhas nenhumas — comentou Mariam.
— Isso é a única coisa que não encontras na Rua das Galinhas — riu Rashid.
A rua era ladeada de lojas e pequenas bancas que vendiam chapéus de pele de cordeiro
e chapans multicolores. Rashid parou numa loja para observar uma adaga de prata
gravada, e noutra um velho rifle que, garantiu o proprietário, era uma relíquia da primeira
guerra contra os britânicos.
— E eu sou o Moshe Dayan — murmurou Rashid. Sorriu leve​mente, e pareceu a
Mariam que aquele sorriso se destinava apenas a ela. Era um sorriso íntimo, conjugal.
Passaram por lojas de carpetes, de artesanato, pastelarias, floristas, e lojas que
vendiam fatos de homens e vestidos de mulheres e nas quais, por trás de cortinados de
renda, Mariam viu raparigas a coser botões e a passar colarinhos. De vez em quando
Rashid cumpri​mentava um lojista conhecido, às vezes em farsi, outras em pashto.
Enquanto eles apertavam as mãos e se beijavam na face, Mariam mantinha-se afastada
alguns passos. Rashid nunca a chamou para a apresentar.
Pediu-lhe que esperasse no exterior de uma loja de rendas. — Conheço o proprietário
— elucidou ele. — Vou só entrar um minuto, dizer o meu salaam.
Mariam esperou no passeio apinhado. Observou os automóveis arrastando-se pela Rua
das Galinhas acima, esgueirando-se através da horde de vendedores ambulantes e peões,
buzinando às crianças e burros que não se moviam. Observou os mercadores de aspecto
entediado no interior das suas minúsculas bancas, a fumar ou a cuspir para escarradores
de metal, os rostos a emergirem de vez em quando das sombras para gabarem aos
transeuntes os seus tecidos e casacos pustin com golas de pele.
Mas eram as mulheres quem mais atraíam a atenção de Mariam.
As mulheres nesta parte de Cabul pertenciam a uma raça diferente das mulheres das
zonas mais pobres, como aquela onde ela e Rashid viviam, onde tantas mulheres se
cobriam inteiramente. Estas mulhe​res eram... que palavra empregara Rashid? Modernas.
Sim, mulheres afegãs modernas, casadas com homens afegãos modernos que não se
importavam de que as suas esposas andassem pelo meio de estranhos com as caras
pintadas e sem nada nas cabeças. Mariam observava-as a descer a rua, desinibidas,
umas vezes acompanhadas por um homem, outras sozinhas, outras ainda com crianças de
faces rosadas que calçavam sapatos reluzentes e relógios com correias de pele, que
levavam à mão bicicletas com guiadores altos e raios de rodas colo​ridos, ao contrário das
crianças de Deh-Mazang, que exibiam marcas de mosquitos nas faces e empurravam
velhos pneus de bicicleta com paus.
Ali, as mulheres eram todo um baloiçar de malas e um roçagar de saias. Mariam avistou
até uma a fumar ao volante de um carro. Tinham as unhas compridas, pintadas com verniz
rosa ou laranja, os lábios vermelhos como tulipas. Andavam de saltos altos e muito
depressa, como se tivessem sempre assuntos urgentes a tratar. Usavam óculos escuros e,
quando elas passavam, Mariam sentia uma baforada dos seus perfumes. Calculou que
todas possuíam estudos univer​sitários, que trabalhavam em prédios de escritórios,
sentadas às suas próprias secretárias, onde teclavam, fumavam e faziam telefonemas
importantes para pessoas importantes. Aquelas mulheres aturdiam Mariam. Levavam-na a
tomar consciência da sua própria solidão, do seu aspecto insignificante, da sua falta de
aspirações, da sua ignorância de tantas coisas.
Então Rashid tocou-lhe no ombro e entregou-lhe qualquer coisa.
— Toma.
Era um xale de seda castanho-escuro, com franjas enfeitadas com pérolas e as pontas
bordadas a fio de ouro.
— Gostas?
Mariam ergueu os olhos. E nessa altura Rashid fez uma coisa enternecedora:
pestanejou e evitou o olhar dela.
Mariam lembrou-se de Jalil, da maneira jovial e enfática como ele lhe impingia a sua
bijuteria, da alegria avassaladora que não deixava espaço para qualquer outra resposta
senão uma gratidão submissa. Nana tinha razão: os presentes de Jalil haviam sido
símbolos de uma penitência indiferente, gestos corruptos e insinceros, destinados a
satisfazê-lo a ele mais do que a ela. Aquele xale, percebeu Mariam, era um presente
verdadeiro.
— É lindo — exclamou ela.
NESSA NOITE, Rashid visitou novamente o seu quarto. Mas em vez de ficar a fumar à
entrada, atravessou-o e sentou-se na cama, junto dela. As molas gemeram e a cama
inclinou-se para o lado dele.
Teve um momento de hesitação, e depois pousou-lhe a mão no pescoço, apertando
devagar os ossos da nuca com os seus dedos grossos. O polegar deslizou, afagando a
cova acima da clavícula, depois a carne abaixo. Mariam começou a tremer. A mão dele
continuou a descer, cada vez mais, e os dedos prenderam-se no algodão da sua blusa.
— Não sou capaz — proferiu ela em voz rouca, fitando-lhe o perfil iluminado pelo luar, os
ombros largos e o peito amplo, os tufos de cabelo grisalho que se escapavam do colarinho
aberto.
A mão dele pousava agora sobre o seu seio direito, apertando-o violentamente por cima
da blusa, e ela ouvia-o a respirar com força pelo nariz.
Rashid enfiou-se debaixo da colcha a seu lado. Mariam sentiu a mão dele a desapertar
o cinto, a mexer no cordão das calças dela. As suas próprias mãos aferravam-se aos
lençóis. Ele rolou para cima dela, movendo-se e contorcendo-se, e Mariam deixou escapar
um gemido. Fechou os olhos e cerrou os dentes.
A dor foi súbita e surpreendente. Arregalou os olhos. Aspirou ar através dos dentes e
mordeu o nó do polegar. Atirou o braço livre por cima das costas de Rashid e enterrou-lhe
os dedos na camisa.
Rashid afundara o rosto na almofada e Mariam fitava o tecto por cima do ombro dele,
os olhos muito abertos, a tremer, de lábios comprimidos, sentindo no ombro o calor da sua
respiração acelerada. O ar entre eles cheirava a tabaco, a cebolas e ao cordeiro grelhado
que haviam comido antes. De vez em quando, a orelha dele roçava a face dela e Mariam
percebeu, pela sensação áspera, que ele rapava os pêlos.
Quando aquilo acabou, ele saiu de cima dela, ofegante. Passou o braço por cima da
testa. No escuro, Mariam via os ponteiros azuis do seu relógio de pulso. Ficaram assim
durante um bocado, ambos de costas, sem se olharem.
— Não há qualquer vergonha nisto, Mariam — disse ele, arras​tando um pouco as
palavras. — É o que fazem as pessoas casadas. É o que o próprio Profeta e as suas
esposas faziam. Não há vergonha.
Após alguns momentos, afastou a manta e abandonou o quarto, deixando-a com a
impressão da sua cabeça na almofada, à espera que a dor lá em baixo desaparecesse,
enquanto fitava as estrelas congeladas no firmamento e uma nuvem que ocultou a face da
lua como um véu de noiva.
12

Em 1974 o Ramadão calhou no Outono. Pela primeira vez na vida, Mariam observou
como a visão do quarto crescente da lua podia transformar uma cidade inteira, alterando-
lhe o ritmo e a disposição. Notou que se apoderava de Cabul uma quietude sonolenta. O
trânsito tornava-se mais lânguido, mais escasso, mais silencioso. As lojas esvaziavam-se.
Os restaurantes apagavam as luzes, cerravam as portas. Mariam não via fumadores nas
ruas, nem chávenas de chá fumegando em parapeitos e janelas. E ao iftar, quando o Sol
se punha a Oeste e o canhão disparava do monte Shir Darwaza, a cidade quebrava o seu
jejum, tal como Mariam, com pão e uma tâmara, saboreando pela primeira vez nos seus
quinze anos a doçura de partilhar uma expe​riência comunal.
Exceptuando meia dúzia de dias, Rashid não observava jejum. As poucas vezes em que
tal acontecia, voltava para casa maldisposto. A fome tornava-o seco, irritável, impaciente.
Uma noite, Mariam atrasou-se alguns minutos com o jantar e ele começou a comer pão
com rabanetes. Mesmo depois de ela ter pousado arroz, cordeiro e qurma de quiabo
diante dele, recusou tocar-lhes. Sem proferir uma palavra, continuou a mastigar o pão, com
as têmporas agitadas, a veia da testa cheia e colérica. Continuou a mastigar e a olhar em
frente e quando Mariam falou com ele, fitou-a sem a ver e enfiou outro pedaço de pão na
boca.
Mariam sentiu-se aliviada quando o Ramadão acabou.
Nos tempos da kolba, Jalil ia visitar Mariam e Nana no primeiro dos três dias da
celebração do Eid ul-Fitr1, que se seguia ao Ramadão. De fato completo e gravata,
chegava com presentes de Eid. Um ano oferecera-lhe um lenço de lã. Sentavam-se os três
a tomar chá, e depois Jalil desculpava-se.
— Lá vai ele celebrar o Eid com a sua verdadeira família — comentava Nana, vendo-o
atravessar o riacho e acenar.
O Mullah Faizullah também aparecia. Levava a Mariam bombons embrulhados em papel
brilhante, um cesto cheio de ovos cozidos pintados, biscoitos numa caixa de lata. Após a
sua partida, Mariam trepava a um dos salgueiros com os seus doces. Empoleirada num
ramo alto, comia os bombons do Mullah Faizullah e ia deixando cair os invólucros até eles
se acharem espalhados na base da árvore como botões prateados. Terminados os
chocolates, atirava-se aos biscoitos e, com um lápis, desenhava caras nos ovos que ele
lhe levara. Mas aquilo não lhe dava grande prazer. Mariam detestava o Eid, essa época
dedicada à hospitalidade e aos festejos, em que as famílias vestiam a sua melhor roupa e
se visitavam umas às outras. Imaginava a atmosfera crepitante de alegria de Herat, e as
pessoas animadas, de olhos brilhantes, cumulando-se de carinhos e apreço. Então abatia-
se sobre ela, como uma mortalha, um enorme desânimo que só desaparecia no fim do Eid.
Nesse ano, pela primeira vez, Mariam viu com os seus próprios olhos o Eid das suas
fantasias infantis.
Rashid levou-a a sair. Mariam nunca andara entre tanta animação. Imperturbáveis pelo
tempo frio, as famílias tinham invadido as ruas nas suas frenéticas voltas de visitas aos
parentes. Na sua rua, Mariam viu Fariba com o filho Nur, de fato completo. Fariba, de lenço
branco, caminhava ao lado de um homem de óculos, de pequena estatura e ar tímido.
Acompanhava-os igualmente o filho mais velho — Mariam conseguiu lembrar-se de que,
naquele primeiro dia no tandur, Fariba dissera que ele se chamava Ahmad. Tinha olhos
encovados, taciturnos e o rosto mais pensativo, mais solene do que o irmão mais novo, um
rosto que sugeria uma maturidade precoce, assim como o de Nur conservava uma
expressão infantil. Em volta do pescoço de Ahmad reluzia um pendente com o nome de
Allah gravado.
Fariba devia tê-la reconhecido vendo a burca que caminhava ao lado de Rashid. Acenou,
gritando: Eid Mubarak!
Do interior da burca, Mariam fez-lhe um aceno imperceptível.
— Então conheces aquela mulher, a esposa do professor — comentou Rashid.
Mariam disse que não.
— É melhor que te mantenhas longe dela. É uma bisbilhoteira barulhenta. E o marido
julga-se um intelectual muito culto. Mas é um rato. Olha para ele. Não parece um rato?
Foram até Shar-e-Nau, onde brincavam crianças de camisas novas e coletes
multicolores enfeitados com contas, comparando os seus presentes de Eid. Havia
mulheres empunhando bandejas de doces. Mariam viu lanternas festivas penduradas nas
montras das lojas, ouviu música que saía a trovejar dos altifalantes. Desconhecidos que
passa​vam por ela, diziam «Eid Mubarak».
Nessa noite foram ao Chaman, e Mariam, de pé atrás de Rashid, contemplou o fogo-
de-artifício iluminar o céu com relâmpagos de verde, rosa e amarelo. Sentia saudades de
se sentar com o Mullah Faizullah no exterior da kolba, a ver o fogo-de-artifício explodir ao
longe, sobre Herat, os súbitos jactos de cor reflectidos nos olhos doces do seu professor,
velados pelas cataratas. Mas, principalmente, sentia saudades de Nana. Mariam gostaria
que a mãe estivesse viva para ver aquilo. Para a ver a ela, no meio de tudo aquilo. Para
ver finalmente que a satisfação e a beleza não eram coisas inatingíveis. Mesmo para gente
como elas.
RECEBERAM VISITAS pelo Eid. Eram todos homens, amigos de Rashid. Quando se ouvia
bater, Mariam sabia que devia subir para o seu quarto e fechar a porta. Permanecia aí
enquanto os homens, lá em baixo, saboreavam o chá com Rashid, fumavam, conversavam.
Rashid dissera a Mariam para não descer até as visitas terem partido.
Mariam não se importava. Na verdade, sentia-se até lisonjeada. Rashid considerava
sagrado aquilo que eles possuíam em comum. A honra dela, a sua namus, era para ele
uma coisa digna de ser guardada. Sentia-se preciosa com a protecção dele. Apreciada e
plena de significado.
No terceiro e último dia do Eid, Rashid saiu para visitar alguns amigos. Mariam, que
passara a noite com uma indisposição de estômago, ferveu água e preparou uma chávena
de chá verde salpicada com cardamomo esmagado. Na sala, avaliou os resultados das
visitas da noite anterior: chávenas viradas, sementes de abóbora semimascadas enfiadas
entre almofadas, pratos com resíduos de comida. Começou a arrumar a sala, admirando a
energia com que os homens se dedicavam a ser preguiçosos.
Não tencionara entrar no quarto de Rashid. Mas as limpezas levaram-na da sala às
escadas e depois ao corredor do andar de cima e até à porta dele e, sem dar por isso,
encontrou-se pela primeira vez no seu quarto, sentada na sua cama, sentindo-se uma
intrusa.
Observou os pesados cortinados verdes, os pares de sapatos engraxa​dos e alinhados
ao longo da parede, a porta do roupeiro com a tinta cinzenta a descascar, deixando
antever uma faixa de madeira. Avistou um maço de cigarros em cima da cómoda ao lado
da cama. Enfiou um entre os lábios e postou-se em frente do pequeno espelho oval
pendurado na parede. Soprou ar para o espelho e fez o gesto de bater a cinza. Voltou a
colocá-lo no sítio. Nunca conseguiria alcançar a graciosidade natural com que fumavam as
mulheres de Cabul. Nela, aquilo parecia grosseiro, ridículo.
De consciência pesada, abriu a gaveta de cima da cómoda.
A primeira coisa que viu foi a pistola. Era preta, com coronha de madeira e cano curto.
Tratou de decorar para que lado ela estava virada antes de lhe pegar. Revolveu-a nas
mãos. Era muito mais pesada do que parecia. A coronha era macia e o cano frio.
Perturbava-a que Rashid possuísse um objecto cujo único propósito era matar outra
pessoa. Mas sem dúvida que a tinha para segurança deles. Para segurança dela.
Debaixo da arma havia várias revistas com os cantos encaracolados. Mariam abriu uma.
Sentiu-se desfalecer intimamente. A boca abriu​-se de motu próprio.
Em todas as páginas havia mulheres, belas mulheres, que não usavam camisas, nem
calças, nem meias nem cuecas. Não usavam nada. Estavam estendidas em camas no
meio de lençóis revoltos e fitavam Mariam de olhos semicerrados. Na maioria das imagens,
tinham as pernas afastadas e Mariam via claramente o sítio escuro entre elas. Em
algumas, as mulheres estavam prostradas como que — Deus lhe perdoasse o pensamento
— em sujda, para rezar. Olhavam para trás por cima do ombro com aquele mesmo olhar
de desdém entediado.
Mariam apressou-se a colocar a revista onde a encontrara. Sentia-se entorpecida.
Quem eram aquelas mulheres? Como podiam consentir que as fotografassem daquela
maneira? O estômago revoltava-se de repugnância. Era então aquilo que Rashid fazia nas
noites em que não ia ao quarto dela? Tê-lo-ia desapontado debaixo daquele aspecto? E o
que era feito de toda a sua conversa acerca de honra e propriedade, da sua desaprovação
das clientes femininas que, afinal de contas, apenas lhe mostravam os pés para tirarem
medidas para sapatos? A cara de uma mulher, dissera ele, é pertença apenas do seu
marido. Com certeza que as mulheres daquelas páginas tinham maridos, algumas deviam
ter. Pelo menos, tinham irmãos. Sendo assim, por que insistia Rashid em que ela se
cobrisse, se não se importava de olhar para as partes íntimas das esposas e das irmãs de
outros homens?
Sentou-se na cama, envergonhada e confusa. Enterrou a cara nas mãos e fechou os
olhos. Respirou fundo, até se sentir mais calma.
Lentamente, foi surgindo uma explicação. Afinal de contas, ele era um homem que vivera
sozinho durante anos antes de ela para ali ir. Tinha necessidades diferentes das suas. Para
ela, depois de todos estes meses, o seu acasalamento continuava a ser um exercício de
tolerância à dor. Por outro lado, o apetite dele era forte, beirando por vezes o violento. A
maneira como ele a derrubava, os fortes apalpões nos seios, o movimento furioso das
suas ancas. Ele era um homem. Todos aqueles anos sem mulher. Poderia ela censurá-lo
por ser como Deus o criara?
Mariam sabia que nunca lhe poderia falar daquilo. Era indizível. Mas seria imperdoável?
Bastava-lhe pensar no outro homem da sua vida. Jalil, na altura marido de três esposas e
pai de nove filhos, e a ter relações extraconjugais com Nana. O que era pior, a revista de
Rashid ou o que Jalil fizera? E, aliás, o que lhe dava direito a ela, uma aldeã, uma harami,
de fazer julgamentos?
Experimentou a gaveta de baixo da cómoda.
Foi aí que encontrou uma fotografia a preto e branco do rapaz, Yunus. Aparentava
quatro, talvez cinco anos. Vestia uma camisa às riscas com gravata-borboleta. Era um
rapazinho atraente, de nariz delgado, cabelo castanho e olhos escuros, levemente
encovados. Parecia distraído, como se algo lhe tivesse despertado a atenção no momento
em que a máquina disparara.
Por baixo encontrou outra fotografia, também a preto e branco, com um pouco mais de
grão. Representava uma mulher sentada e, por trás dela, um Rashid mais magro e mais
jovem, de cabelo preto. A mulher era bela. Não tão bela como as mulheres das revistas,
talvez, mas bela. Certamente mais bonita do que ela, Mariam. Possuía um queixo delicado
e longos cabelos negros, com risco ao meio. Maçãs do rosto salientes e uma testa suave.
Mariam viu a sua própria cara, os seus lábios finos e queixo comprido, e sentiu uma ponta
de inveja.
Ficou muito tempo a contemplar a fotografia. Havia algo de vagamente perturbador na
maneira como Rashid parecia agigantar-se sobre ela. As suas mãos nos ombros dela. O
seu sorriso deliciado, de lábios cerrados, e o rosto dela sério e taciturno. A maneira como
ela inclinava subtilmente o corpo para diante, como se tentasse libertar​-se das suas mãos.
Mariam voltou a colocar tudo onde encontrara.
Mais tarde, enquanto lavava a roupa, lamentou ter andado a vasculhar o quarto dele.
Para quê? Que coisa significativa aprendera acerca dele? Que possuía uma pistola, que
era um homem com as necessidades de um homem? E não devia ter ficado tanto tempo
especada diante da fotografia dele com a esposa. Os seus olhos tinham achado
significados naquilo que era uma posição aleatória do corpo, captada num único instante.
O que sentia agora, enquanto a corda carregada de roupa balançava pesadamente à
sua frente, era pena de Rashid. Também ele tivera uma vida dura, uma vida marcada pela
perda e pelas trágicas reviravoltas do destino. Voltou a pensar no rapaz, Yunus, que em
tempos fizera bonecos de neve naquele pátio, cujos pés haviam pisado aquelas mesmas
escadas. O lago arrebatara-o a Rashid, engolira-o, tal como o Corão conta que uma baleia
engoliu o profeta cujo nome o rapaz partilhava. Entristecia Mariam, entristecia-a
consideravelmente, imaginar Rashid impotente e em pânico, a percorrer as margens do
lago, suplicando​-lhe que devolvesse o filho a terra firme. E, pela primeira vez, sentiu
afinidades com o marido. Disse a si mesma que, ao fim e ao cabo, seriam bons
companheiros.

Literalmente «Festa do Fim do Jejum», o Eid ul-Fitr é uma festa muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadão. É
tradição realizar um grande almoço, o primeiro após um jejum diurno de um mês, e oferecer presentes às crianças. (NT)
13

No autocarro para casa, de regresso do médico, aconteceu a Mariam uma coisa


estranhíssima. Para onde quer que olhasse, via cores garridas: nos monótonos
apartamentos de cimento cinzento, nas lojas de telhado de zinco e frente aberta, na água
lamacenta a transbordar das sarjetas. Era como se um arco-íris se tivesse derretido nos
seus olhos.
Rashid tamborilava com os dedos enluvados, trauteando uma canção. Sempre que o
autocarro galgava um buraco ou dava um solavanco, a sua mão corria a proteger a barriga
dela.
— O que achas de Zalmai? — sugeriu ele. — É um bom nome pastune.
— E se for uma rapariga? — indagou Mariam.
— Eu acho que é um rapaz. Sim. Um rapaz.
Ouviu-se um murmúrio percorrer o autocarro. Alguns passageiros apontavam qualquer
coisa e outros inclinavam-se nos lugares para ver.
— Olha — indicou Rashid, batendo no vidro com o nó do dedo. Sorria. — Ali. Vês?
Mariam viu pessoas que estacavam de súbito nas ruas. Nos semáforos, emergiam
caras das janelas dos automóveis, viradas para os flocos macios que tombavam do céu. O
que teriam as primeiras neves da estação que as tornava tão fascinantes?, perguntou-se
Mariam. Seria a oportunidade de ver uma coisa ainda imaculada, intacta? De captar a
graça fugidia de uma nova estação, um início encantador, antes da neve ser pisada e
corrompida?
— Se for uma rapariga — disse Rashid —, que não vai ser, mas se for uma rapariga,
então podes escolher o nome que quiseres.
NO DIA seguinte Mariam despertou com o som de uma serra e marteladas. Embrulhou-se
num xale e dirigiu-se para o pátio varrido pela neve. O forte nevão da noite anterior
cessara e agora apenas alguns flocos dispersos rodopiavam, afagando-lhe as faces. O ar
parado cheirava a carvão aceso. Cabul estava estranhamente silenciosa, envolta num
manto branco, com penachos de fumo erguendo-se a serpentear aqui e além.
Encontrou Rashid no barracão das ferramentas, a espetar pregos numa tábua de
madeira. Ao vê-la, tirou um prego do canto da boca.
— Era para ser surpresa. Ele vai precisar de um berço. Mas não era para tu veres
senão depois de pronto.
Mariam desejou que ele não fizesse aquilo, que não acalentasse tais esperanças de que
seria um rapaz. Embora se sentisse muito feliz com aquela gravidez, a expectativa dele
pesava-lhe. No dia anterior, Rashid saíra e regressara a casa com um casaco de Inverno
de camurça, forrado interiormente de macia pele de carneiro, as mangas bordadas com
belos fios de seda vermelha e amarela. Para rapaz.
Rashid levantou uma tábua comprida e estreita. Começando a serrá-la ao meio,
declarou que as escadas o preocupavam. — Mais tarde, quando ele tiver idade para subir,
vai ter de se fazer qualquer coisa. — O fogão preocupava-o igualmente. As facas e os
garfos teriam de passar a ser guardados noutro lado, fora de alcance. — Todo o cuidado é
pouco. Os rapazes são criaturas imprudentes.
Mariam enrolou-se mais no xale para se proteger do frio.
NA MANHÃ seguinte, Rashid anunciou que queria convidar os amigos para jantar, a fim de
celebrarem. Durante toda a manhã Mariam escolheu lentilhas e demolhou arroz. Cortou
beringelas para o borani, e cozeu alhos-porros e carne picada para o aushak. Varreu o
chão, bateu as cortinas e arejou a casa, apesar da neve que recomeçara a cair. Dispôs os
colchões e almofadas ao longo das paredes da sala, e colocou em cima da mesa taças
com açúcar cristalizado e amêndoas torradas.
Ao princípio da tarde recolheu ao seu quarto, antes de chegar o primeiro homem.
Estendeu-se na cama enquanto lá em baixo os gritos, os risos e as vozes bem humoradas
começavam a aumentar. Não conseguia impedir as mãos de deslizar até ao ventre. Pensou
no que crescia lá dentro, e a felicidade invadiu-a como uma rajada de vento a escancarar
uma porta. Sentiu os olhos marejados de lágrimas.
Recordou a sua viagem de camioneta com Rashid, seiscentos e cinquenta quilómetros
desde Herat, a ocidente, perto da fronteira com o Irão, até Cabul, a oriente. Tinham
passado por cidades pequenas e cidades grandes, e por aglomerados de aldeolas que
surgiam umas atrás das outras. Tinham atravessado montanhas e desertos castigados
pelo sol, de uma província para outra. E agora estava ali, no meio da​quela paisagem
rochosa e colinas ressequidas, com uma casa sua, um marido seu, prestes a atingir uma
meta final e acarinhada: a Maternidade. Que delicioso pensar nesse bebé, o seu bebé, o
bebé deles. Que maravilha saber que o seu amor por ele se sobrepunha já a tudo aquilo
que alguma vez sentira como ser humano, saber que não teria mais necessidade de brincar
com seixos.
No andar de baixo afinava-se um harmónio. Seguiu-se o tinir de um martelo a afinar uma
tabla. Alguém aclarou a garganta. E depois, ouviram-se assobios e palmas, gritos e
canções.
Mariam afagou o ventre macio. Não é maior do que uma unha, dissera o médico.
Vou ser mãe, pensou.
— Vou ser mãe — exclamou ela. E depois começou a rir sozinha e a repetir aquilo vezes
sem conta, saboreando as palavras.
Quando pensava naquele bebé, o coração inchava-lhe dentro do peito. Inchava, inchava,
até todas as perdas, todos os desgostos, toda a solidão e auto-humilhação da sua vida se
desvanecerem. Fora para aquilo que Deus a levara até ali, através de todo o país. Sabia
isso agora. Recordou um verso do Corão que o Mullah Faizullah lhe ensinara: E Allah é o
Oriente e o Ocidente, por isso, para onde quer que te voltes, há um propósito de Allah...
Estendeu o seu tapete de oração e fez o namaz. Ao terminar, levou as mãos em concha à
cara e pediu a Deus para não deixar toda aquela felicidade escapar-lhe.
A IDEIA de ir ao hamam foi de Rashid. Mariam nunca estivera nuns banhos públicos, mas
ele disse que não havia nada melhor do que sair cá para fora e receber aquela primeira
lufada de ar frio, sentir o calor a erguer-se da pele.
No hamam das mulheres, Mariam via moverem-se formas no vapor que a rodeava,
avistava aqui uma anca, além o contorno de um ombro. As risadinhas das raparigas, os
resmungos das velhas, e o gotejar da água dos banhos ecoavam entre as paredes,
enquanto se esfregavam costas e se ensaboavam cabelos. Mariam sentou-se sozinha no
canto mais afastado, a esfregar os calcanhares com pedra-pomes, isolada por uma
parede de vapor das formas que passavam.
Então viu o sangue e começou a gritar.
O som de pés, agora, batendo nas lajes molhadas. Rostos que a espreitavam através
do vapor. Uma algaraviada de vozes.
Nessa noite, na cama, Fariba contou ao marido que quando ouvira o grito e acorrera,
encontrara a esposa de Rashid encolhida a um canto, agarrada aos joelhos, uma poça de
sangue aos pés.
— Ouviam-se bater os dentes da pobre pequena, Hakim, tanto ela tremia.
Quando Mariam a vira, disse Fariba, perguntara em voz aguda e suplicante: Isto é
normal, não é? Não é? É normal?

MAIS UMA viagem de autocarro com Rashid. Novamente a nevar, mas desta vez com
força. Amontoava-se nos passeios, nos telhados, aglomerava-se em farrapos na casca de
árvores desgarradas. Mariam observou os vendedores a removerem a neve da frente das
suas lojas. Um grupo de garotos perseguia um cão preto. Acenaram alegremente ao
autocarro. Mariam virou-se para Rashid. Tinha os olhos fechados. Não ia a trautear.
Mariam encostou a cabeça e fechou também ela os olhos. Desejava descalçar as meias
frias, despir a camisola de lã húmida que lhe picava a pele. Desejava sair daquele
autocarro.
Em casa, quando se estendeu no sofá, Rashid tapou-a com uma manta, mas havia algo
de rígido, de mecânico nesse seu gesto.
— Que espécie de resposta é essa? — tinha-se ele insurgido. — Isso é o que se
espera que nos diga um mullah. Ao médico pagamos honorários, queremos uma resposta
melhor do que «é a vontade de Deus.»
Mariam encolheu os joelhos por baixo da manta e disse que ele devia ir descansar um
pouco.
— A vontade de Deus — repetiu ele, a espumar.
Ficou sentado no quarto a fumar cigarros o dia inteiro.
Mariam, estendida no sofá, as mãos enfiadas entre os joelhos, contemplava o turbilhão
de neve que rodopiava do outro lado da janela. Recordou-se de Nana ter dito um dia que
cada floco de neve era um suspiro soltado por uma mulher magoada algures no mundo.
Que todos os suspiros subiam para o céu, se reuniam em nuvens e depois se desfaziam
em minúsculos pedaços, caindo silenciosamente sobre as pessoas cá em baixo.
Em lembrança do que sofrem as mulheres como nós, dissera ela. De como
suportamos silenciosamente tudo o que nos cai em cima.
14

A dor não cessava de surpreender Mariam. Bastava-lhe lembrar-se do berço inacabado


no barracão das ferramentas, ou do casaco de camurça no guarda-roupa de Rashid para
ela se soltar. Nessas alturas o bebé ganhava vida, e ela ouvia-o, ouvia os seus resmungos
de fome, os seus gorgolejos e tagarelice. Sentia-o procurar-lhe o peito. A dor atingia-a
como uma vaga enorme, atirava-a ao ar e deixava-a cair de cabeça para baixo. Mariam
pasmava por poder sentir de forma tão devastadora a falta de uma criatura que nem
sequer chegara a ver.
Depois havia dias em que aquela aridez não lhe parecia tão inexorável. Dias em que a
mera ideia de retomar as antigas rotinas da sua vida não lhe pareciam tão extenuantes,
quando não era necessária uma enorme força de vontade para sair da cama, fazer as suas
orações, lavar a roupa, preparar as refeições de Rashid.
Mariam sentia pavor de sair. De repente, tornara-se invejosa das mulheres da vizinhança
e da sua riqueza de filhos. Algumas tinham sete ou oito e não sabiam como eram
afortunadas, abençoadas por os filhos terem florescido nos seus úteros, terem vivido para
esbracejar nos seus braços e beber o leite dos seus seios. Filhos que elas não tinham visto
desaparecer pelo ralo de uns quaisquer banhos públicos, à mistura com sangue, água de
sabão e sujidade de corpos estranhos. Mariam tinha-lhes raiva quando as ouvia queixarem-
se de filhos mal comportados e filhas preguiçosas.
Dentro da sua cabeça, uma voz tentava acalmá-la com consolações bem intencionadas
mas mal orientadas.
Terás outros, Inshallah. És jovem. Decerto terás muitas outras opor​tunidades.
Mas o desgosto de Mariam não era arbitrário ou genérico. Mariam sofria por aquele
bebé, aquele filho específico que a fizera sentir tão feliz durante um tempo.
Havia dias em que acreditava que o bebé havia sido uma bênção imerecida, e que
estava a ser punida pelo que fizera a Nana. Porque, para todos os efeitos, não era como
se tivesse sido ela a passar aquele laço em volta do pescoço da mãe? Filhas traidoras não
mereciam ser mães, e aquilo era o justo castigo. Tinha sonhos intermitentes em que o jinn
de Nana à noite lhe entrava sorrateiramente no quarto, lhe enterrava as garras no útero e
lhe roubava o seu bebé. Nesses sonhos, Nana casquinava risadas de prazer e vingança.
Noutros dias, Mariam sentia a cólera invadi-la. Fora culpa de Rashid por causas das
suas celebrações prematuras. Por causa da sua fé imprudente em que ela trazia consigo
um rapaz. Escolher nome para o bebé como ele fizera. Tomar por certa a vontade de
Deus. Culpa dele, por a ter mandado aos banhos públicos. Fora qualquer coisa ali, o
vapor, a água suja, o sabão, fora qualquer coisa ali que provocara aquilo. Não. Não era
culpa de Rashid. A culpa era dela. Ficava furiosa consigo mesma por ter dormido na
posição errada, por ter comido alimentos demasiado picantes, por não ter comido fruta
suficiente, por ter bebido demasiado chá.
Era culpa de Deus, por assim escarnecer dela. Por não lhe conceder aquilo que
concedera a tantas outras mulheres. Por ter agitado diante dela, qual suplício de Tântalo,
aquilo que sabia que lhe daria a maior das felicidades, e depois lho retirara.
Mas não adiantava, todas essas atribuições de culpas, todas essas arengas de
acusações revolvendo-se na sua cabeça. Era kofr, sacrilégio, acalentar tais pensamentos.
Allah não era vingativo. Não era um Deus mesquinho. As palavras do Mullah Faizullah
ressoaram-lhe na cabeça: Bendito Aquele em Cuja mão está o reino, Aquele que tem
poder sobre todas as coisas, que criou a morte e a vida para te pôr à prova.
Esmagada pelos remorsos, Mariam ajoelhava-se e rezava pedindo perdão por tais
pensamentos.
ENTRETANTO, desde o dia da ida aos banhos públicos, operara​-se em Rashid uma
profunda modificação. A maioria das noites, ao regressar a casa, já quase nem falava.
Comia, fumava, ia para a cama, aparecendo por vezes a meio da noite para um
acasalamento breve e, ultimamente, bastante violento. Enfadava-se com mais facilidade,
denegrindo os seus cozinhados, queixando-se de lixo no pátio ou apontando até
insignificâncias de sujidade na casa. Ocasionalmente, levava-a a dar uma volta pela cidade
às sextas-feiras, como costumava fazer, mas percorria os passeios depressa e sempre
alguns passos adiante dela, sem falar, sem ligar a Mariam que quase se via obrigada a
correr para o acompanhar. Já não ria com facilidade nessas saídas. Não lhe comprava
doces nem presentes, não parava para indicar os nomes de lugares como dantes. As
perguntas dela pareciam irritá-lo.
Uma noite, estavam sentados na sala a ouvir rádio. O Inverno aproximava-se do fim. Os
ventos gélidos que atiravam com neve à cara e faziam marejar os olhos tinham acalmado.
Flocos de neve prateada derretiam nos ramos de altos olmeiros, e daí a poucas semanas
seriam substituídos por pequenos rebentos verdes-claros. Rashid baloiçava distraidamente
o pé acompanhando o ritmo da tabla de uma canção de Hamahang, com os olhos franzidos
devido ao fumo do cigarro.
— Estás zangado comigo? — perguntou Mariam.
Rashid não respondeu. A canção terminou, e surgiram as notícias. Uma voz feminina
anunciou que o Presidente Daoud Khan reenviara para Moscovo mais um grupo de
consultores soviéticos, com o previsível desagrado do Kremlin.
— Receio que possas estar zangado comigo.
Rashid suspirou.
— Estás?
Ele desviou o olhar para Mariam. — Por que havia eu de estar zangado?
— Não sei, mas desde que o bebé...
— E tu achas que sou esse género de homem, depois de tudo o que fiz por ti?
— Não. Claro que não.
— Então pára de me chatear!
— Desculpa. Bebakhsh, Rashid. Desculpa.
Ele esmagou o cigarro e acendeu outro. Aumentou o som do rádio.
— Mas tenho andado a pensar — continuou Mariam, erguendo a voz para ser ouvida
acima da música.
Rashid suspirou novamente, mais irritado desta vez, e voltou a baixar o som. Esfregou a
testa com ar enfastiado. — O que é agora?
— Tenho andado a pensar que talvez devêssemos fazer um enterro como deve ser. Ao
bebé, quero eu dizer. Só nós, algumas orações, nada mais.
Havia algum tempo que Mariam pensava naquilo. Não queria esquecer aquele bebé. Não
lhe parecia certo não marcar aquela perda de uma maneira permanente.
— Para quê? Isso é idiota.
— Acho que me faria sentir melhor.
— Então fá-lo tu — disse ele, asperamente. — Eu já enterrei um filho. Não quero
enterrar outro. Agora, se não te importas, estou a tentar ouvir.
Subiu de novo o volume do rádio, encostou a cabeça para trás e cer​rou os olhos.
Numa manhã soalheira dessa semana, Mariam escolheu um sítio no pátio e cavou um
buraco.
— Em nome de Allah e com Allah, e em nome do enviado de Allah sobre quem caiam as
bênçãos e a paz de Allah — murmurava ela enquanto a pá mordia o solo. Meteu no buraco
o casaco de camurça que Rashid comprara para o bebé e cobriu-o de terra.
— Tu fazes o dia seguir-se à noite e Tu fazes a noite seguir-se ao dia, Tu reclamas os
vivos à morte e Tu reclamas os mortos à vida, e Tu dás amparo sem limites a quem Tu
queres.
Calcou a terra com as costas da pá. Agachou-se junto ao montículo e fechou os olhos.
Dá amparo, Allah.
Dá-me amparo.
15

ABRIL DE 1978

A 17 de Abril de 1978, o ano em que Mariam fazia dezanove anos, um homem chamado
Mir Akbar Kyber foi encontrado assassinado. Dois dias depois, houve uma enorme
manifestação em Cabul. Toda a vizinhança saiu para a rua, a discutir o caso. Da sua janela,
Mariam viu os vizinhos andarem por ali, conversando animadamente, com transístores
colados aos ouvidos. Viu Fariba, encostada ao muro da sua casa, a conversar com uma
mulher recém​-chegada a Deh-Mazang. Fariba sorria, as mãos pousadas no seu volumoso
ventre de grávida. A outra mulher, cujo nome escapava agora a Mariam, parecia mais velha
do que Fariba e tinha o cabelo de um estranho tom de púrpura. Dava a mão a um
rapazinho. Mariam sabia que o garoto se chamava Tariq porque ouvira a mulher chamá-lo
na rua.
Mariam e Rashid não se juntaram aos vizinhos. Ficaram a ouvir pela rádio, enquanto
umas dez mil pessoas saíam para as ruas de Cabul e marchavam de cima para baixo na
zona dos edifícios do governo. Rashid disse que Mir Akbar Khyber fora um comunista
proeminente, e que os seus apoiantes culpavam o governo do Presidente Daoud Khan pelo
assassínio. Não olhou para ela enquanto falava. Ultimamente, deixara de todo de a fitar e
Mariam nunca tinha a certeza se ele se lhe dirigia.
— O que é um comunista? — perguntou ela.
Rashid fungou desdenhosamente, erguendo as sobrancelhas. — Não sabes o que é um
comunista. Uma coisa tão simples. Toda a gente sabe. É do conhecimento geral. Tu não...
Bah. Não sei porque me admiro. — Depois cruzou os tornozelos sobre a mesa e
resmungou que era alguém que acreditava em Karl Marxista.
— Quem é Karl Marxista?
Rashid suspirou.
Na rádio, uma voz feminina anunciava que Taraki, o líder da ala Khalq do PDPA, o
partido comunista afegão, andava pelas ruas, fazendo discursos inflamados aos
demonstrantes.
— Quero eu dizer, o que é que eles querem? — insistiu Mariam. — Em que é que eles
acreditam, esses comunistas?
Rashid soltou uma casquinada desdenhosa e abanou a cabeça, mas Mariam julgou
detectar uma certa incerteza na maneira como ele cruzou os braços e na forma como
desviou os olhos. — Tu não sabes nada, pois não? És como uma criança. O teu cérebro
está vazio. Não contém qualquer informação.
— Eu pergunto porque...
— Chup ko. Cala-te.
Mariam obedeceu.
Não era fácil tolerar que ele lhe falasse assim, tolerar o seu desprezo, a sua troça, os
seus insultos, vê-lo cruzar-se consigo como se ela não passasse do gato da casa. Mas
após quatro anos de casamento, Mariam via claramente quanto pode tolerar uma mulher
que tem medo. E Mariam tinha medo. Vivia com receio das suas mudanças de humor, do
seu temperamento volátil, da sua insistência em transformar até mesmo conversas
vulgares em confrontações que, ocasionalmente, resolvia com murros, bofetadas e
pontapés, e que umas vezes tentava remendar com desculpas falsas e outras não.
Nesses quatro anos desde o dia nos banhos públicos, houvera mais seis ciclos de
esperanças criadas e depois frustradas, cada perda, cada colapso, cada ida ao médico
mais esmagadora do que a anterior. Rashid fora-se tornando mais remoto e ressentido a
cada desapontamento. Agora, nada do que ela fazia lhe agradava. Mariam limpava a casa,
certificava-se de que ele tinha sempre uma reserva de camisas lavadas, preparava os seus
pratos preferidos. Uma vez, desastrosamente, chegara mesmo a comprar cosméticos e
pintara-se para ele. Mas, ao chegar a casa, ele lançara-lhe um olhar e estremecera com
tal aversão que Mariam se precipitara para a casa de banho a lavar tudo, lágrimas de
vergonha misturando-se com água, sabonete, rouge, máscara.
Agora, Mariam receava o som da sua chegada a casa à noite. O ruído da chave, o
rangido da porta, eram sons que lhe faziam galopar o coração. Da cama, escutava o
clique-claque dos tacões dele, o arrastar abafado dos seus pés depois de descalçados os
sapatos. Os seus ouvidos faziam um inventário dos movimentos dele: pernas de cadeira
empurradas pelo soalho, o gemido lamentoso da cadeira de bambu quando ele se sentava,
o tinir da colher no prato, o roçagar de folhas de jornal viradas, o sorver da água. E
enquanto o coração lhe martelava no peito, a mente perguntava-se a que desculpa se
agarraria ele nessa noite. Havia sempre alguma coisa, qualquer insignificância que o
enfurecia, porque por muito que ela se esforçasse para lhe agradar, por mais que se
submetesse inteiramente aos seus desejos e exigências, nunca era suficiente. Mariam não
podia restituir-lhe o filho. Desa​pon​tara-o nesse aspecto essencial, sete vezes o
desapontara, e agora não passava de um fardo para ele. Percebia-o pela maneira como
ele a olhava, quando a olhava. Era um fardo para ele.
— O que é que vai acontecer? — perguntou ela.
Rashid deitou-lhe um longo olhar de viés. Emitiu um som algures entre um suspiro e um
resmungo, tirou as pernas de cima da mesa, e desligou o rádio. Levou-o para cima, para o
quarto dele, e fechou a porta.
A 27 DE ABRIL , a resposta à pergunta de Mariam surgiu com sons estrepitosos e
estampidos súbitos e intensos. Correu descalça para baixo, para a sala, e encontrou
Rashid já à janela, de camisola interior, cabelo revolto, as palmas das mãos contra o vidro.
Mariam dirigiu-se para a janela ao lado dele. Lá no alto, via passar aviões militares a
grande velocidade, rumo a norte e leste. Os seus rugidos ensur​decedores feriam-lhe os
ouvidos. Ao longe, ressoavam fortes estrondos e de repente ergueram-se para o céu
colunas de fumo.
— O que está a acontecer, Rashid? — perguntou ela. — O que é tudo isto?
— Sabe Deus — murmurou ele. Experimentou o rádio mas só apanhou estática.
— O que é que fazemos?
— Esperamos — respondeu Rashid, impaciente.

MAIS TARDE, Rashid continuava a tentar ouvir notícias na rádio enquanto Mariam, na
cozinha, preparava arroz com molho de espi​nafres. Recordou os tempos em que gostava
de cozinhar para Rashid, chegando mesmo a ansiar por o fazer. Agora, cozinhar era um
exercício de alta ansiedade. As qurmas estavam sempre demasiado salgadas ou
demasiado insonsas para o seu gosto, o arroz demasiado engor​durado ou demasiado
seco, o pão demasiado maçudo ou demasiado cozido. Perante os defeitos encontrados
por Rashid, passara a sofrer de uma insegurança total na cozinha.
Quando ela lhe levou o prato, tocava na rádio o hino nacional.
— Fiz sabzi — disse ela.
— Pousa-o e cala-te.
Depois de a música acabar, ouviu-se uma voz masculina. Apre​sentou-se como Abdul
Qader, Coronel da Força Aérea, e anunciou que, ao início do dia, a Quarta Divisão
Blindada dos rebeldes tinha tomado o aeroporto e cruzamentos-chave da cidade. A Rádio
Kabul, os ministérios da Comunicação e do Interior, e o edifício do Ministério dos Negócios
Estrangeiros haviam igualmente sido capturados. Cabul encontrava-se agora nas mãos do
povo, declarou ele orgulhosamente. MIGs rebeldes tinham atacado o palácio presidencial.
Haviam pene​trado tanques nas instalações e travava-se ali uma violenta batalha. As forças
leais a Daoud estavam praticamente derrotadas, disse Abdul Qader em tom tranquilizador.
Dias depois, quando os comunistas começaram a fazer execuções sumárias de pessoas
ligadas ao regime de Daoud Khan, quando começaram a correr por Cabul rumores de
olhos arrancados e órgãos genitais electrocutados na prisão de Pol-e-Charkhi, Mariam
ouviria falar do massacre perpetrado no Palácio Presidencial. Daoud Khan tinha sido
morto, mas não sem que antes os rebeldes tivessem assassinado uns vinte membros da
sua família, incluindo mulheres e crianças. Houve rumores de que ele se suicidara, de que
fora abatido no calor do combate; rumores de que fora guardado para o fim, obrigado a
assistir ao massacre da família e depois fuzilado.
Rashid subiu o som e inclinou-se mais.
— Foi instituído um conselho revolucionário das forças armadas, e o nosso watan
passará agora a ser conhecido por República Democrática do Afeganistão — disse Abdul
Qader. — A era da aristocracia, do nepotismo, e da desigualdade terminou, camaradas
hamwatans. Pusemos fim a décadas de tirania. O poder encontra-se agora nas mãos das
massas e das pessoas que amam a liberdade. Vai começar uma nova era gloriosa na
história do nosso país. Nasceu um novo Afeganistão. Garantimos-lhes que não têm nada a
temer, camaradas afegãos. O novo regime manterá o maior respeito tanto pelos princípios
islâmicos como democráticos. Este é um momento de júbilo e celebração.
Rashid desligou o rádio.
— Então isto é bom ou mau? — indagou Mariam.
— Mau para os ricos, ao que parece — respondeu Rashid. — Tal​vez bom para nós.
O pensamento de Mariam desviou-se para Jalil. Perguntou-se se os comunistas o
perseguiriam. Prendê-lo-iam? Prenderiam os seus filhos? Confiscar-lhe-iam as
propriedades e os negócios?
— Isto está quente? — perguntou Rashid, observando o arroz.
— Acabei de o tirar do tacho.
Ele resmungou e disse-lhe para lhe dar um prato.
ENQUANTO A NOITE se iluminava de súbitos clarões ver​melhos e amarelos, ao fundo da rua
Fariba, exausta, soerguia-se apoiada aos cotovelos. Tinha o cabelo pegado de
transpiração e sobre o lábio superior oscilavam gotinhas de humidade. À cabeceira da
cama, Wajma, a idosa parteira, observava o marido e os filhos de Fariba passarem o
recém-nascido em volta. Admiravam o cabelo claro do bebé, as faces rosadas e os lábios
semelhantes a botões de rosa, as nesgas de uns olhos cor de jade que se moviam atrás
das pálpebras inchadas. Trocaram sorrisos ao ouvir pela primeira vez a sua voz, um
lamento que começou como o miado de um gato e explodiu num saudável grito sonoro. Nur
disse que os olhos dela pareciam pedras preciosas. Ahmad, o membro mais religioso da
família, salmodiou o azan ao ouvido da sua irmãzinha e soprou-lhe três vezes na cara.
— Então fica Laila? — perguntou Hakim, erguendo a filha.
— Fica Laila — confirmou Fariba, com um sorriso fatigado. — Beleza Nocturna. É um
nome perfeito.
RASHID FEZ uma bola de arroz com os dedos. Meteu-a na boca e mastigou um par de
vezes, antes de fazer uma careta e a cuspir em cima da sofrah.
— O que foi? — perguntou Mariam, odiando o tom apologético da sua voz. Sentia o
pulso acelerado, a pele arrepiada.
— O que foi? — choramingou ele a imitá-la. — O que foi é que voltaste a fazer o
mesmo.
— Mas eu cozi-o mais cinco minutos do que é hábito.
— Isso é uma mentira descarada.
— Juro...
Ele sacudiu o arroz dos dedos, colérico, e afastou o prato, derra​mando molho e arroz
para a sofrah. Mariam ficou a vê-lo sair desabri​damente da sala, e depois de casa,
batendo com a porta.
Mariam ajoelhou-se no chão e esforçou-se por apanhar os grãos de arroz e voltar a pô-
los no prato, mas as mãos tremiam-lhe tanto que teve de esperar que parassem. O pavor
oprimia-lhe o peito. Tentou respirar fundo. Captou o seu débil reflexo na janela agora
escura da sala e desviou o olhar.
Depois ouviu abrir-se a porta de entrada e Rashid voltou à sala.
— Levanta-te — chamou ele. — Anda cá. Levanta-te.
Agarrou-lhe bruscamente na mão, abriu-a, e deixou cair um punhado de seixos.
— Mete isto na boca.
— O quê?
— Mete. Isto. Na boca.
— Pára com isso, Rashid, desc...
As suas mãos vigorosas agarraram-lhe o queixo. Enfiou-lhe dois dedos na boca
obrigando-a a abri-la, e depois encheu-lha à força com os seixos frios e duros. Mariam
debateu-se, tentando falar, mas ele continuava a empurrar os seixos para dentro, com o
lábio superior torcido num esgar.
— Agora mastiga — ordenou.
Com a boca cheia de terra e seixos, Mariam tentou articular uma súplica. As lágrimas
corriam-lhe pelos cantos dos olhos.
— MASTIGA! — gritou ele. Uma baforada do seu hálito a tabaco atingiu-lhe a cara.
Mariam mastigou. Sentiu qualquer coisa quebrar-se no fundo da sua boca.
— Bom — disse Rashid. As bochechas tremiam-lhe. — Agora já sabes o gosto que tem
o teu arroz. Agora já sabes o que me deste neste casamento. Má comida e mais nada.
Depois saiu, deixando Mariam a cuspir seixos, sangue e os fra​g​mentos de dois molares
partidos.
PARTE II

PARTE II
16

CABUL, PRIMAVERA DE 1987

Como acontecia na maior parte dos dias, Laila, de nove anos, levantou-se da cama
ansiosa por ver o seu amigo Tariq. Nessa manhã, contudo, sabia que não o veria.
— Vais por quanto tempo? — perguntara ela quando Tariq lhe dissera que os pais o
levavam ao sul, à cidade de Ghazni, para visitar um tio do lado do pai.
— Treze dias.
— Treze dias?
— Não é assim tanto. Estás a amuar, Laila.
— Não estou nada.
— Não vais chorar, pois não?
— Não vou nada chorar! Decerto não por tua causa. Nem morta.
Deu-lhe um pequeno pontapé na canela, não na artificial mas na verdadeira, e ele
assentou-lhe uma palmada brincalhona na nuca.
Treze dias. Quase duas semanas. E apenas ao fim de cinco dias, Laila aprendera uma
verdade fundamental acerca do tempo: tal como o acordeão em que o pai de Tariq tocava
por vezes velhas canções pastune, o tempo esticava ou encolhia, dependendo da ausência
ou da presença de Tariq.
Lá em baixo, os pais discutiam. Outra vez. Laila conhecia a rotina: a Mamã, feroz,
indomável, andava de um lado para o outro a arengar; o Babi sentado, com ar tímido e
aturdido, acenava obedientemente à espera que a tempestade passasse. Laila fechou a
porta e vestiu-se. Mas continuava a ouvi-los. Continuava a ouvi-la. Por fim uma porta bateu.
Passos pesados. A cama da Mamã rangeu alto. Parecia que, afinal, o Babi sobreviveria
para ver um novo dia.
— Laila! — chamava-a ele agora. — Vou chegar atrasado ao trabalho!
— Um minuto!
Calçou os sapatos e, em frente ao espelho, escovou rapidamente o cabelo
encaracolado que lhe caía até aos ombros. A Mamã dizia-lhe sempre que ela herdara a
cor de cabelo — bem como os olhos verde​-turquesa, de espessas pestanas, as covinhas
das faces, as maçãs de rosto salientes e o beicinho do lábio inferior, que a Mamã
partilhava — da sua bisavó, a avó da Mamã. Ela era uma pari, e deslumbrante, dizia a
Mamã. A sua beleza era falada em todo o vale. Essa beleza saltou duas gerações de
mulheres na nossa família, mas a ti não saltou com certeza, Laila. O vale a que a Mamã
se referia era o vale do Panjshir, a região tajique de língua farsi, cem quilómetros a
nordeste de Cabul. Tanto a Mamã como o Babi, que eram primos direitos, tinham nascido e
crescido no Panjshir; haviam-se mudado para Cabul em 1960, recém-casados
esperançosos e de olhos brilhantes, quando o Babi fora admitido na universidade.
Laila correu para baixo, esperando que a Mamã não saísse do quarto para mais um
assalto. Encontrou o Babi ajoelhado junto ao guarda​-vento.
— Já tinhas reparado nisto, Laila?
O rasgão da rede estava lá há semanas. Laila agachou-se ao lado dele. — Não. Deve
ser novo.
— Foi o que eu disse à tua mãe. — Parecia abalado, reduzido, como sempre que a
Mamã discutia com ele. — Ela diz que têm entrado por aqui abelhas.
Laila sentiu uma profunda compaixão. O Babi era um homem baixo, de ombros estreitos
e mãos esguias e delicadas, quase femininas. À noite, quando entrava no quarto dele, Laila
encontrava sempre o seu perfil curvado, enterrado num livro, os óculos empoleirados na
ponta do nariz. Às vezes, nem sequer reparava nela. Quando se apercebia da sua
presença, marcava a página, e fazia um discreto sorriso amistoso. O Babi sabia de cor a
maior parte dos ghazals de Rumi e de Hafez. Era capaz de falar durante horas acerca da
luta travada entre a Grã-Bretanha e a Rússia czarista pelo controlo do Afeganistão. Sabia
a diferença entre uma estalactite e uma estalagmite e podia dizer-nos que a distância entre
e Terra e o Sol era o equivalente a ir de Cabul a Ghazni um milhão e meio de vezes. Mas
se Laila precisasse de abrir à força a tampa de um frasco de doce, tinha de ir pedir à
Mamã, e isso parecia-lhe uma traição. As ferramentas vulgares confundiam o Babi. Por
sua iniciativa, as dobradiças rangentes das portas nunca eram oleadas. Os tectos
continuavam a meter água depois de ele os ter consertado. O bolor prosperava provocante
nos armários da cozinha. A Mamã dizia que, antes de ter partido com Nur para se juntarem
à jihad contra os russos, em 1980, fora Ahmad que se ocupara de todas essas coisas,
com zelo e competência.
— Mas se tiveres urgência em ler um livro — concluía ela — então Hakim é o homem
indicado.
Ainda assim, Laila não conseguia afastar o pensamento de que tempos houvera, antes
de Ahmad e Nur terem ido para a guerra contra os russos, antes de o Babi os ter deixado
ir para a guerra, em que também a Mamã achara cativante o amor do Babi pelos livros, em
que também ela achara encantadores os seus esquecimentos e ineptidão.
— Então em que dia vamos? — perguntava ele agora, sorrindo timidamente. — Quinto
dia? Ou é o sexto?
— Quero lá saber. Não estou a contar — mentiu Laila, encolhendo os ombros,
adorando-o por se ter lembrado. A Mamã não fazia a menor ideia de que Tariq partira.
— Bem, mal te dês conta já a lanterna dele está a apagar-se — disse o Babi, referindo-
se à troca de sinais que Laila e Tariq trocavam todas as noites. Faziam aquilo há tanto
tempo que já se tornara um ritual da hora de deitar, tal como lavar os dentes.
O Babi passou o dedo pelo rasgão. — Assim que tiver oportu​nidade, remendo isto. É
melhor irmos andando. — Ergueu a voz e gritou por cima do ombro. — Vamos sair, Fariba!
Eu levo a Laila à escola. Não te esqueças de a ir buscar!
Lá fora, ao trepar para o assento da bicicleta do Babi, Laila avistou um carro
estacionado no cimo da rua, em frente da casa onde o sapa​teiro Rashid vivia com a sua
esposa reclusa. Era um Benz, azul com uma larga faixa branca a todo o comprimento.
Laila distinguiu dois homens sentados no interior, um ao volante e o outro atrás.
— Quem são? — perguntou.
— Não é da nossa conta — respondeu o Babi. — Sobe lá, ou chegarás atrasada à aula.
Laila recordou outra discussão, uma vez em que a Mamã se de​bruçara sobre o Babi e
dissera, em tom afectado, Isso é que é da tua conta, não é, primo? Fazer com que nada
seja nunca da tua conta. Mesmo a ida dos teus próprios filhos para a guerra. O que eu te
supliquei. Mas tu enterraste o nariz naqueles malditos livros e deixaste partir os nossos
filhos como se fossem um par de haramis.
O Babi pedalou rua acima, com Laila atrás, abraçada à sua cintura. Ao passarem pelo
Benz azul, Laila avistou de relance o homem sentado na retaguarda: magro, cabelo
branco, com um fato castanho-escuro e o triângulo branco de um lenço a espreitar do
bolso do casaco. A única outra coisa que teve tempo de notar foi que o automóvel tinha
chapa de matrícula de Herat.
Percorreram o resto do caminho em silêncio, excepto quando o Babi travava, cauteloso,
nas curvas, e dizia: — Segura-te, Laila. Vou abrandar. Vou abrandar. Pronto.
NESSE DIA, Laila sentiu dificuldade em prestar atenção às aulas, entre a ausência de Tariq
e a discussão dos pais. Por isso, a professora apanhou-a desprevenida quando lhe
mandou citar as capitais da Roménia e de Cuba.
A professora chamava-se Shanzai, mas nas suas costas os estudantes chamavam-lhe
Khala Rangmaal, Tia Pintora, devido ao seu gesto preferido quando batia nos alunos:
primeiro na palma da mão, depois nas costas, e assim sucessivamente, como um pintor a
manejar um pincel. Khala Rangmaal era uma mulher jovem de rosto anguloso e
sobrancelhas espessas. No primeiro dia de escola informara orgulho​samente os alunos de
que era filha de um pobre camponês de Khost. Andava muito direita e usava o cabelo
negro como breu apanhado atrás, num carrapito, de maneira que quando se voltava, Laila
via-lhe os pêlos escuros na nuca. Khala Rangmaal não usava maquilhagem nem jóias. Não
cobria a cabeça e proibia as alunas de o fazer. Dizia que as mulheres e os homens eram
iguais sob todos os aspectos e que não havia razão para as mulheres se cobrirem se os
homens o não faziam.
Dizia que a União Soviética era a melhor nação do mundo, a par do Afeganistão. Tratava
bem os seus trabalhadores e entre o seu povo reinava a igualdade. Toda a gente era feliz e
amiga na União Soviética, ao contrário da América, onde os crimes faziam as pessoas
recearem sair de suas casas. E toda a gente no Afeganistão seria igualmente feliz,
afirmava ela, assim que fossem derrotados os bandidos antiprogres​sistas e retrógrados.
— Foi para isso que os nossos camaradas russos vieram para cá em 1979. Para darem
uma mão a um vizinho. Para nos ajudarem a derrotar esses brutos que querem que o
nosso país seja uma nação retrógrada e primitiva. E vocês também têm de dar uma mão,
crianças. Têm de denunciar todos os que possam saber onde se encontram esses
rebeldes. É o vosso dever. Têm de escutar e depois denunciar. Mesmo que sejam os
vossos pais, os vossos tios ou tias. Porque nenhum deles vos ama tanto como o vosso
país. Lembrem-se, o vosso país acima de tudo! Eu terei orgulho em vocês e o vosso país
também.
Na parede, por trás da secretária dela, havia um mapa da União Soviética, um mapa do
Afeganistão, e uma fotografia emoldurada do último presidente comunista, Najibullah, que,
dissera o Babi, fora outrora o chefe da odiada KHAD, a polícia secreta afegã. Havia
igualmente outras fotografias, principalmente de jovens soldados russos a apertarem as
mãos a camponeses, a plantarem macieiras pequeninas, a construírem casas, sempre a
sorrirem cordialmente.
— Bem — insistia agora Khala Rangmaal. — Estavas a sonhar acordada, Rapariga
Inqilabi?
Rapariga Revolucionária era a alcunha que ela arranjara para Laila, por ter nascido na
noite do Golpe de Estado de Abril de 1978, só que Khala Rangmaal zangava-se se alguém
da sua aula usasse a expressão «golpe de estado». O que acontecera, insistia ela, fora
uma inqilab, uma revolução, um levantamento do povo trabalhador contra a desigualdade.
Jihad era outra palavra proibida. Segundo ela, nem sequer havia guerra nas províncias,
apenas escaramuças contra agitadores incitados por pessoas a que chamava «provo​-
cadores estrangeiros.» E evidentemente que ninguém, ninguém, ousava repetir na sua
presença os rumores crescentes de que, após oito anos de luta, os russos estavam a
perder aquela guerra. Principalmente agora, que o Presidente americano, Reagan,
começara a enviar mísseis Stinger aos mujahidin para derrubar os helicópteros russos,
agora que os muçulmanos de todo o mundo se estavam a juntar à causa: egípcios,
paquistaneses, sauditas abastados que deixavam para trás os seus milhões e vinham para
o Afeganistão combater a jihad.
— Bucareste. Havana — conseguiu Laila dizer.
— E esses países são nossos amigos ou não?
— São sim, moalin sahib. São países amigos.
Khala Rangmaal anuiu com um aceno seco.

À SAÍDA DA ESCOLA,
a Mamã voltou a não aparecer como deveria. Laila acabou por ir para
casa na companhia de duas colegas, Giti e Hasina.
Giti era uma rapariga susceptível, baixa e ossuda, que usava o cabelo apanhado em
dois totós apertados por elásticos. Andava sempre de cenho franzido e com os livros
apertados ao peito, como um escudo. Hasina tinha doze anos, mais três do que Laila e
Giti, mas chumbara uma vez na terceira classe e duas na quarta. O que lhe faltava em
esperteza, era compensado com travessuras e uma língua que, no dizer de Giti, era mais
veloz do que uma máquina de costura. Fora Hasina quem inventara a alcunha de Khala
Rangmaal.
Nesse dia Hasina dava conselhos sobre como desencorajar pretendentes
desagradáveis. — É um método infalível, com garantia de resultados. Dou-vos a minha
palavra.
— Isto é estúpido. Eu sou demasiado nova para ter pretendentes! — exclamou Giti.
— Não és demasiado nova.
— Bem, ainda não apareceu ninguém a pedir a minha mão.
— Isso é porque tu tens barba, minha querida.
Giti levou rapidamente a mão ao queixo e olhou algo alarmada para Laila, que sorriu
compadecida — Giti era a pessoa com menos sentido de humor que ela já conhecera — e
abanou a cabeça, tranquilizadora.
— Bom, seja como for, querem ou não saber como agir, minhas senhoras?
— Continua lá — disse Laila.
— Feijão. Nunca menos de quatro latas. Na noite em que o lagarto desdentado vier
pedir a vossa mão. Mas uma boa sincronização, minhas senhoras, uma boa sincronização
é tudo. Têm de reprimir o fogo-de-artifício até chegar a hora de lhe servir o chá.
— Vou lembrar-me disso — comentou Laila.
— Ele também.
Laila poderia ter dito então que não precisava daquele conselho, porque o Babi não tinha
a menor intenção de a casar em breve. Embora estivesse empregado na Silo, a gigantesca
fábrica de pão de Cabul, onde trabalhava no meio da humidade e do zumbido da
maquinaria, enchendo os fornos maciços e os moinhos de grão durante todo o dia, o Babi
era um homem com educação universitária. Fora professor da universidade até os
comunistas o despedirem — pouco depois do Golpe de Estado de 1978, cerca de ano e
meio antes da invasão soviética. O Babi deixara bem claro a Laila, desde tenra idade, que
a coisa mais importante da vida dele, a seguir à sua segurança, era a sua educação.
Sei que ainda és novinha mas quero que compreendas e aprendas isto agora, dissera
ele. O casamento pode esperar, a educação não. Tu és uma rapariga muito, muito
inteligente. Falo a sério. Podes vir a ser aquilo que quiseres, Laila. É algo que sei. E sei
também que quando esta guerra acabar, o Afeganistão vai precisar tanto de vocês como
dos seus homens, talvez ainda mais. Porque uma sociedade não tem hipótese nenhuma
de progredir se as suas mulheres forem ignorantes, Laila. Hipótese nenhuma.
Mas Laila não contou a Hasina que o Babi afirmara tais coisas, nem lhe disse quanto se
sentia feliz por ter um pai assim e orgulhosa da consideração que ele lhe manifestava, nem
que estava decidida a prosseguir a sua educação tal como ele fizera. Nos últimos dois
anos, Laila recebera o awal numra, o certificado concedido anualmente ao melhor aluno de
cada ano. Mas não disse nenhuma dessas coisas a Hasina, cujo pai era um motorista de
táxi mal-humorado, e quase seguramente a casaria dentro de dois ou três anos. Hasina
contara a Laila, num dos seus raros momentos de seriedade, que já havia sido prometida a
um primo direito vinte anos mais velho do que ela, proprietário de uma loja de automóveis
em Lahore. Vi-o duas vezes, dissera Hasina. E de ambas as vezes, ele comeu com a
boca aberta.
— Feijão, meninas — prosseguia Hasina. — Lembrem-se disso. A menos, é claro... —
fez um sorriso gaiato e deu uma cotovelada a Laila —, que seja o vosso atraente jovem
príncipe coxo a bater à porta. Nesse caso...
Laila afastou vivamente o cotovelo. Ter-se-ia ofendido se qualquer outra pessoa falasse
assim de Tariq. Mas sabia que não havia maldade em Hasina. Ela era trocista, era o que
era, e a sua troça não poupava ninguém, a começar por si própria.
— Não devias falar assim das pessoas! — censurou Giti.
— De que pessoas?
— Das pessoas que ficaram deficientes por causa da guerra — elucidou Giti com
veemência, sem se aperceber da brincadeira de Hasina.
— Penso que aqui o Mullah Giti tem um fraquinho por Tariq! Eu sabia! Ah! Mas ele já
está comprometido, não sabes? Não está, Laila?
— Não tenho fraquinho nenhum! Por ninguém!
Afastaram-se de Laila e continuaram a discutir até virarem para a rua onde viviam.
Laila percorreu sozinha os últimos três quarteirões. Ao chegar à sua rua, reparou que o
Benz azul continuava estacionado no mesmo sítio, à porta da casa de Rashid e Mariam. O
homem idoso de fato castanho estava agora de pé junto ao capot, apoiado a uma bengala,
de olhos erguidos para a casa.
Nessa altura uma voz atrás de Laila chamou: — Ei, Cabelo Amarelo! Ouve lá.
Laila virou-se e foi saudada pelo cano de uma pistola.
17

A pistola era vermelha, o travão do gatilho verde-vivo. Por trás da pistola avultava o
rosto trocista de Khadim. Khadim tinha onze anos, tal como Tariq. Era alto, corpulento, e
tinha um acentuado progna​tismo inferior. O pai era talhante em Deh-Mazang, e
ocasionalmente Khadim era visto a atirar pedaços de tripas de vitela aos transeuntes. Às
vezes, se Tariq não se encontrava por perto, Khadim perseguia Laila no recreio da escola,
fitando-a maliciosa​mente e emitindo pequenos ruídos de lamúria. Uma vez, batera-lhe no
ombro e dissera: És tão linda, Cabelo Amarelo. Quero casar contigo.
Agitou a pistola. — Não te preocupes — disse ele. — Isto não se nota. Pelo menos no
teu cabelo.
— Não te atrevas! Estou a avisar-te.
— E o que é que vais fazer? — perguntou ele. — Atiçar-me o teu aleijadinho? «Oh Tariq
jan, oh vem para casa e salva-me do badmash!»
Laila começou a recuar, mas já Khadim carregava no gatilho. Jactos de água morna
atingiram repetidamente o cabelo de Laila e depois a palma da mão que ela erguera para
proteger a cara.
Então os outros rapazes saíram dos seus esconderijos, rindo às gargalhadas.
Subiu-lhe aos lábios um insulto que Laila ouvira na rua. Não o com​preendia
verdadeiramente — não conseguia perceber a logística da​quilo —, mas as palavras tinham
uma violência feroz e ela soltou-as.
— A tua mãe come pilas!
— Pelo menos não é maluca como a tua — ripostou logo Khadim, imperturbável. — Pelo
menos o meu pai não é mariquinhas! E a propósito, por que é que não cheiras as mãos?
Os outros rapazes pegaram no refrão. — Cheira as mãos! Cheira as mãos!
Laila levou as mãos ao nariz, mas mesmo antes já sabia, já sabia ao que ele se referia
quando dissera que no seu cabelo aquilo não se notaria. Soltou um grito agudo que
provocou mais vaias da parte dos rapazes.
Ela deu meia-volta e correu para casa a gemer.
TIROU ÁGUA do poço e, na casa de banho, encheu uma bacia, e des​piu a roupa quase a
arrancando do corpo. Ensaboou o cabelo, enterrando freneticamente os dedos até ao
couro cabeludo, a cho​ramingar de nojo. Passou o cabelo por água e voltou a ensaboá-lo.
Por várias vezes pensou que ia vomitar. Continuou a gemer e a tremer enquanto ia
esfregando a toalha ensaboada na cara e no pescoço até ficarem vermelhos.
Aquilo nunca teria acontecido se Tariq estivesse com ela, pensou ao vestir uma blusa e
umas calças lavadas. Khadim não se teria atrevido. E, evidentemente, também não teria
acontecido se a Mamã a tivesse ido buscar, como deveria. Às vezes, Laila perguntava-se
por que é que a Mamã se teria sequer dado ao trabalho de a ter dado à luz. As pessoas,
pensava ela, não deviam ser autorizadas a ter mais filhos se já tivessem despendido todo o
seu amor nos mais velhos. Não era justo. Teve um assomo de cólera. Dirigiu-se ao seu
quarto e atirou​-se para cima da cama.
Depois de passado o pior, atravessou o corredor e foi bater à porta do quarto da
Mamã. Quando era mais pequena, Laila costumava ficar sentada horas diante daquela
porta. Tamborilava e sussurrava repe​tidamente o nome da Mamã, como um cântico mágico
destinado a quebrar um feitiço. Mamã, Mamã, Mamã, Mamã... Mas a Mamã nunca lhe
abria a porta. Como não abriu agora. Laila fez girar a maçaneta e entrou.
ÀS VEZES, a Mamã tinha dias bons. Saltava da cama animada e de olhos brilhantes. O
lábio inferior pendente estendia-se para cima num sorriso. Tomava banho. Vestia roupa
lavada e punha máscara nas pestanas. Deixava Laila escovar-lhe o cabelo, coisa que esta
adorava, e enfiar-lhe brincos nas orelhas. Iam juntas às compras ao Mandaii Bazaar. Laila
convencia-a a jogar um Jogo da Glória. E saboreavam aparas de chocolate negro, uma
das poucas coisas cujo gosto partilhavam. A melhor parte dos dias bons da Mamã era
quando o Babi voltava para casa, e elas levantavam os olhos do tabuleiro e lhe sorriam
com os dentes castanhos. Uma lufada de satisfação percorria a sala, e Laila tinha um
vislumbre momentâneo da ternura, do romance que outrora unira os seus pais, nos tempos
em que aquela casa estava cheia, barulhenta e alegre.
Por vezes, nos seus dias bons, a Mamã fazia bolos e convidava algumas vizinhas para
tomar chá. Laila tinha autorização para lamber as tigelas enquanto a Mamã punha a mesa
com chávenas, guardanapos e com os pratos bons. Mais tarde, Laila ocupava o seu lugar
à mesa da sala e tentava interferir na conversa, enquanto as mulheres falavam
animadamente, bebiam chá e elogiavam os bolos da Mamã. Embora nunca tivesse muito a
dizer, Laila gostava de ficar sentada a ouvir, porque naquelas reuniões era-lhe oferecido
um prazer raro: ouvia a Mamã falar afectuosamente acerca do Babi.
— Que óptimo professor ele era — comentava a Mamã. — Os alunos adoravam-no. E
não só por ele não lhes bater com as réguas, como faziam outros professores.
Respeitavam-no, percebem, porque ele os respeitava. Ele era maravilhoso.
A Mamã adorava contar a história de como ela se lhe declarara.
— Eu tinha dezasseis anos, ele dezanove. As nossas famílias viviam uma ao lado da
outra no Penjshir. Oh, eu estava apaixonada por ele, hamshiras! Costumava trepar o muro
entre as nossas casas e brincáva​mos no pomar do pai dele. Hakim tinha sempre medo de
que nos apanhassem e de que o meu pai lhe desse umas boas bofetadas. «O teu pai vai
dar​-me umas boas bofetadas», passava ele o tempo a dizer. Era tão cauteloso, tão sério,
já nessa altura. E então, um dia, eu disse​-lhe assim: «Primo, como é que vai ser?
Tencionas pedir a minha mão, ou vais-me obrigar a ir khastegari até ti?» Assim tal qual.
Haviam de ver a cara dele!
A Mamã batia palmas e as mulheres, e Laila, riam.
Ouvindo a Mamã contar aquelas histórias, Laila soube que houvera um tempo em que a
Mamã falava sempre assim do Babi. Um tempo em que os pais não dormiam em quartos
separados. Laila desejava não ter perdido esses tempos.
Inevitavelmente, a história da declaração da Mamã levava-as a planear casamentos.
Quando o Afeganistão ficasse livre dos russos e os rapazes regressassem a casa,
precisariam de noivas, e assim, uma a uma, as mulheres iam nomeando as raparigas da
vizinhança que poderiam, ou não, ser adequadas para Ahmad e Nur. Laila sentia-se
sempre excluída quando a conversa rodava para os seus irmãos, como se as mulheres
estivessem a discutir um filme muito amado que apenas ela não vira. Tinha dois anos
quando Ahmad e Nur haviam saído de Cabul rumo ao Panjshir, no norte, para se juntarem
às forças do Comandante Ahmad Shah Massoud e combaterem a jihad. Laila mal se
recordava deles. Um cintilante pendente com o nome de Allah gravado ao pescoço de
Ahmad. Um tufo de pêlos pretos numa das orelhas de Nur. E era tudo.
— Que tal Azita?
— A filha do fabricante de tapetes? — dizia a Mamã, batendo na face com fingido
ultraje. — Tem um bigode mais farfalhudo do que o de Hakim!
— Há a Anahita. Constou-nos que é a melhor da aula dela em Zarghuna.
— Já viste os dentes dessa rapariga? São pedras tumulares. Esconde um cemitério
para lá dos lábios.
— Então e as irmãs Wahidi?
— Essas duas anãs? Não, não, não. Não para os meus filhos. Os meus sultões
merecem melhor.
Enquanto a conversa prosseguia, Laila deixava vaguear o pen​samento e, como sempre,
ele ia ao encontro de Tariq.
A MAMÃ correra as cortinas amareladas. Na obscuridade forçada, o quarto tinha um cheiro
acumulado: sono, roupa de cama por lavar, suor, meias sujas, perfume, os restos do
qurma da noite anterior. Laila esperou que os olhos se adaptassem antes de atravessar o
quarto, mas, mesmo assim, sentiu os pés prenderem-se em peças de roupa que juncavam
o chão.
Abriu as cortinas. Aos pés da cama havia uma velha cadeira articulada de metal.
Sentou-se e contemplou o monte imóvel sob o cobertor: a sua mãe.
As paredes do quarto da Mamã encontravam-se cobertas de fotografias de Ahmad e de
Nur. Para onde quer que Laila olhasse, sorriam-lhe dois estranhos. Aqui estava Nur a subir
para um triciclo. Ali era Ahmad, fazendo as suas orações, postado ao lado de um relógio
de sol que ele e o Babi haviam construído quando tinha doze anos. E além estavam os
dois, os seus irmãos, sentados costas com costas à sombra da velha pereira do pátio.
Debaixo da cama da Mamã, Laila via despontar o canto da caixa de sapatos de Ahmad.
De vez em quando, a Mamã mostrava-lhe o seu conteúdo: velhas páginas de jornal
amarrotadas, recortes e panfletos que Ahmad conseguira reunir de grupos rebeldes e
organizações de resistência sediadas no Paquistão. Laila recordava-se que uma das fotos
mostrava um homem com um casaco branco comprido a entregar um chupa-chupa a um
rapazinho sem pernas. A legenda dizia: As Crianças São as Vítimas Intencionais da
Campanha Soviética de Minas Terrestres. O artigo prosseguia afirmando que os russos
gostavam igualmente de esconder explosivos dentro de brinquedos de cores vivas. Se uma
criança lhe pegasse, o brinquedo explodia, arrancando-lhe os dedos ou a mão toda. O pai
não podia então ir juntar-se à jihad, pois teria de ficar em casa a cuidar do filho. Noutro
artigo da caixa de Ahmad, um jovem mujahid dizia que os russos tinham largado sobre uma
aldeia gás que queimava a pele das pessoas e as cegava. Afirmava ter visto a mãe e a
irmã correrem para o ribeiro, a tossir sangue.
— Mamã.
O monte mexeu-se ligeiramente. Soltou um gemido.
— Levanta-te, Mamã. São três horas.
Novo gemido. Uma das mãos emergiu, como um telescópio de submarino a surgir à
superfície, e voltou a cair. Dessa vez o monte moveu-se mais perceptivelmente. Depois o
roçagar de cobertores, enquanto as diversas camadas deslizavam umas sobre as outras.
Lentamente, a Mamã foi-se materializando por etapas: primeiro o cabelo desalinhado,
depois a cara branca contorcida, com os olhos fechados para se proteger da claridade,
uma das mãos a tatear a cabeceira da cama, os lençóis a deslizarem à medida que ela se
ia içando, a resmungar. Fez um esforço para erguer os olhos, contraiu​-se com a luz, e a
cabeça descaiu-lhe sobre o peito.
— Como foi a escola? — murmurou ela.
Começava sempre assim. As perguntas obrigatórias, as respostas perfunctórias. Ambas
a fingir. Parceiras sem entusiasmo, ambas, naquela velha dança estafada.
— A escola foi boa.
— Aprendeste alguma coisa?
— O costume.
— Comeste?
— Comi.
— Bom.
A Mamã voltou a erguer a cabeça, na direcção da janela. Estre​meceu e pestanejou.
Tinha o lado direito da cara encarnado e o cabelo desse lado achatado. — Estou com dor
de cabeça.
— Queres que vá buscar uma aspirina?
A Mamã massajou as têmporas. — Talvez mais tarde. O teu pai já chegou?
— Ainda são três horas.
— Oh. Pois. Já me tinhas dito. — A Mamã bocejou. — Estava a sonhar — disse ela,
com a voz apenas levemente mais alta do que o roçar da camisa de noite contra os
lençóis. — Mesmo agora, antes de tu entrares. Mas não consigo lembrar-me. Isso
acontece-te?
— Acontece a toda a gente, Mamã.
— Que coisa mais estranha.
— Devo dizer-te que, enquanto tu sonhavas, um rapaz com uma pistola de água
disparou chichi para o meu cabelo.
— Disparou o quê? O que é que disseste? Desculpa.
— Chichi. Urina.
— Mas isso é... isso é horrível. Céus. Tenho imensa pena. Coitada. Amanhã logo de
manhã vou dizer-lhe duas coisas. Ou talvez fale com a mãe dele. Sim, acho que isso será
melhor.
— Eu não te disse quem foi.
— Oh. Então quem foi?
— Não importa.
— Estás zangada.
— Devias ter ido buscar-me.
— Devia — crocitou ela. Laila não conseguiu perceber se aquilo era uma pergunta. A
Mamã começou a puxar o cabelo. O facto de os puxões da Mamã ainda não a terem
tornado careca como um ovo era para Laila um dos grandes mistérios da vida. — Então e
o... Como é que ele se chama, o teu amigo, Tariq? Sim, o que é feito dele?
— Há uma semana que cá não está.
— Oh. — A Mamã suspirou pelo nariz. — Lavaste-te?
— Sim.
— Então já estás limpa. — A Mamã virou o olhar fatigado para a janela. — Estás limpa
e está tudo bem.
Laila levantou-se. — Tenho trabalhos de casa para fazer.
— Claro que sim. Corre as cortinas antes de saíres, meu amor — disse a Mamã, com a
voz a desvanecer-se. Estava já a afundar-se sob os lençóis.
Quando estendeu a mão para as cortinas, Laila viu um automóvel passar na rua,
deixando atrás de si um rasto de pó. Era o Benz azul com chapa de matrícula de Herat,
que partia finalmente. Seguiu-o com os olhos até ele desaparecer na curva, com os limpa-
pára-brisas a reluzir ao sol.
— Amanhã não me esqueço — estava a Mamã a dizer por trás dela. — Prometo.
— Já ontem disseste isso.
— Tu não sabes, Laila.
— Não sei o quê? — Laila deu meia-volta para confrontar a mãe. — O que é que eu não
sei?
A Mamã levantou a mão e bateu no peito. — Aqui. O que vai aqui. — A mão tombou,
flácida. — Simplesmente não sabes.
18

Decorreu uma semana e nem sinal de Tariq. Depois nova semana chegou e partiu.
Para preencher o tempo, Laila consertou o guarda-vento que o Babi ainda não
conseguira arranjar. Pegou nos livros do Babi, lim​pou-lhes o pó e arrumou-os por ordem
alfabética. Foi até à Rua das Galinhas com Hasina, Giti e a mãe de Giti, Nila, que era
modista e por vezes companheira de costura da Mamã. Nessa semana, Laila começou a
acreditar que de todas as provações que uma pessoa tinha de suportar nenhuma era mais
penosa do que o simples acto de esperar.
Passou mais uma semana.
Laila viu-se presa numa teia de pensamentos horríveis.
Ele nunca mais voltaria. Os pais tinham-se mudado definitiva​mente; a viagem a Ghazni
fora um artifício. Uma artimanha de adulto para lhes poupar a eles os dois uma despedida
dolorosa.
Fora de novo apanhado por uma mina terrestre, tal como acontecera em 1981, tinha ele
cinco anos, da última vez que os pais o tinham levado para sul, a Ghazni. Acontecera
pouco depois do terceiro aniversário de Laila. Ele tivera sorte, dessa vez, em perder
apenas uma perna; sorte em ter sobrevivido.
A cabeça andava-lhe à roda com tais pensamentos.
Depois, uma noite, uma minúscula luz a piscar ao fundo da rua. Escapou-lhe dos lábios
um som semelhante a um grito sufocado. Apressou-se a ir buscar a sua lanterna debaixo
da cama, mas a luz não acendia. Bateu com ela na mão aberta, amaldiçoando as pilhas
gastas. Mas não tinha importância. Ele voltara. Laila sentou-se na beira da cama,
atordoada de alívio, e ficou a contemplar aquele olho amarelo encantador a piscar
incessantemente.

NA MANHÃ SEGUINTE, a caminho da casa de Tariq, Laila viu Khadim e um grupo de amigos
dele do lado oposto da rua. Khadim estava de cócoras, e com um pau fazia desenhos na
terra. Ao vê-la, deixou cair o pau e sacudiu os dedos. Disse qualquer coisa e ouviu-se uma
gargalhada geral. Laila baixou a cabeça e passou apressada.
— O que é que tu fizeste? — exclamou ela quando Tariq lhe abriu a porta. Só então se
lembrou que o tio dele era barbeiro.
Tariq passou a mão pela cabeça recém-rapada e sorriu, descobrindo os dentes brancos
e levemente irregulares.
— Gostas?
— Parece que te vais alistar no exército.
— Queres tocar? — Baixou a cabeça.
Os minúsculos pêlos arranharam agradavelmente a palma de Laila. Tariq não era como
alguns dos outros rapazes, cujos cabelos ocultavam crânios cónicos e saliências
repelentes. A cabeça de Tariq descrevia uma curva perfeita e sem protuberâncias.
Quando ele a levantou, Laila viu que tinha as faces e a testa bron​zeadas.
— Por que é que levaram tanto tempo? — perguntou.
— O meu tio estava doente. Anda. Entra.
Percorreu à frente dela o corredor até à sala de estar. Laila gostava de tudo naquela
casa. A velha carpete puída da sala, a manta de retalhos do sofá, a desordem normal da
vida de Tariq: os bocados de tecido da mãe, as suas agulhas pregadas em carrinhos de
linhas, as revistas antigas, o estojo do acordeão ao canto à espera de que o abrissem.
— Quem é?
Era a mãe dele que perguntava da cozinha.
— A Laila — respondeu Tariq.
Ofereceu-lhe uma cadeira. A sala de estar era bem iluminada, com janelas duplas que
abriam para o pátio. No parapeito havia frascos vazios onde a mãe de Tariq punha
beringelas em salmoura e fazia compota de cenoura.
— Queres tu dizer a nossa arus, a nossa nora — anunciou o pai, entrando na sala. Era
carpinteiro, um homem magro, de cabelo branco, de sessenta e poucos anos. Tinha falhas
entre os dentes da frente, e os olhos semicerrados de quem passou a maior parte da sua
vida ao ar livre. Abriu os braços e Laila precipitou-se para eles, acolhida pelo agradável
cheiro familiar da serradura. Beijaram-se três vezes nas faces.
— Se continuas a chamar-lhe assim, ela deixa de cá vir — avisou a mãe de Tariq,
passando por eles. Transportava um tabuleiro com uma grande taça, uma concha, e quatro
taças mais pequenas. Pousou​-o em cima da mesa. — Não ligues ao velhote. — Agarrou o
rosto de Laila com as duas mãos. — É bom ver-te, minha querida. Anda, senta-te. Trouxe
de Ghazni fruta em calda.
A mesa era maciça, de uma madeira clara e sem acabamento; fora feita pelo pai de
Tariq, tal como as cadeiras. Estava coberta com uma toalha de vinil verde-musgo com
pequenos crescentes e estrelas de cor magenta. A maior parte da parede da sala achava-
se coberta de fotografias de Tariq em diversas idades. Em algumas das mais antigas, ele
tinha as duas pernas.
— Ouvi dizer que o seu irmão estava doente — Laila dirigiu-se ao pai de Tariq, enfiando
a colher na sua taça de passas, pistácios e alperces ensopados.
Ele acendia um cigarro. — Sim, mas já está bom, shokr e Khoda, graças a Deus.
— Um ataque cardíaco. Já é o segundo — elucidou a mãe de Tariq, lançando um olhar
de advertência ao marido.
O pai de Tariq expeliu o fumo e piscou o olho a Laila, e esta pensou, uma vez mais, que
os pais de Tariq podiam bem passar por seus avós. A mãe já passava dos quarenta anos
quando o tivera.
— Como está o teu pai, minha querida? — perguntou a mãe de Tariq, fitando-a por cima
da sua taça.
Desde que Laila a conhecia que a mãe de Tariq usava uma peruca; com o tempo, esta
tornara-se de um púrpura baço. Nesse dia estava descaída para a testa, e Laila avistava
os cabelos grisalhos dos lados do rosto. Havia dias em que ela a usava muito puxada para
trás. Mas, para Laila, apesar da peruca, a mãe de Tariq nunca parecia digna de pena. O
que ela via era a cara serena e confiante por baixo da peruca, os olhos inteligentes, os
modos agradáveis e calmos.
— Está bom — respondeu Laila. — Continua na Silo, claro. Está bom.
— E a tua mãe?
— Tem dias bons. E outros maus. Na mesma.
— Pois — comentou pensativamente a mãe de Tariq, baixando a colher para a taça. —
Deve ser duro, terrivelmente duro para uma mãe estar longe dos filhos.
— Ficas para almoçar? — convidou Tariq.
— Tens de ficar — secundou a mãe. — Estou a preparar shorwa.
— Não quero ser mozahem.
— Importuna? — exclamou a mãe de Tariq. — Ausentamo-nos um par de semanas e
passas a fazer cerimónia connosco?
— Está bem. Fico — disse Laila, corando e sorrindo.
— Então está decidido.
A verdade era que Laila gostava tanto de comer em casa de Tariq quanto detestava
comer em sua casa. Ali não se comia sozinho, a família juntava-se toda às refeições. Laila
gostava dos copos de plástico de cor violeta que eles usavam e do quarto de limão que
flutuava sempre no jarro de água. Gostava do hábito de iniciarem todas as refeições por
uma taça de iogurte fresco, e de espremerem laranja amarga em tudo, até nos iogurtes, e
das pequenas piadas inofensivas que largavam uns aos outros.
A conversa fluía sempre às refeições. Embora Tariq e os pais fossem de etnia pastune,
na presença de Laila falavam farsi em atenção a ela, apesar de Laila compreender mais ou
menos o seu pashto nativo, por o ter aprendido na escola. O Babi dizia que havia tensões
entre o seu povo, os tajiques, que eram uma minoria, e o povo de Tariq, os pastunes, que
eram o maior grupo étnico do Afeganistão. Os tajiques sentiram-se sempre
menosprezados, dissera o Babi. Os reis pastunes gover​naram este país durante quase
duzentos e cinquenta anos, Laila, e os tajiques uns meros nove meses, em 1929.
E tu, perguntara-lhe Laila, sentes-te menosprezado, Babi?
O Babi limpara os óculos com a ponta da camisa. Para mim, é um disparate — e um
disparate muito perigoso — toda esta conversa de eu sou tajique e tu és pastune, e ele é
hazara e ela é uzbeque. Somos todos afegãos, e apenas isso devia interessar. Mas
quando um dos grupos domina o outro durante tanto tempo... Há desprezo. Rivalidade.
Há. Sempre foi assim.
Talvez sim. Mas Laila nunca tal sentira em casa de Tariq, onde esses assuntos nunca
eram sequer discutidos. O tempo passado com a família de Tariq parecia-lhe sempre
natural, espontâneo, sem complicações provocadas por diferenças tribais ou linguísticas,
nem pelos despeitos ou ressentimentos pessoais que envenenavam o ar na sua própria
casa.
— Se fôssemos jogar às cartas? — propôs Tariq.
— Isso, vão lá para cima — concordou a mãe dele, afastando com um gesto de
desaprovação a nuvem de fumo do marido. — Eu vou continuar a preparar a shorwa.
Estenderam-se de barriga para baixo no meio do quarto de Tariq e jogaram panjpar,
revezando-se a dar. Com os pés pedalando para o ar, Tariq falou-lhe da sua viagem. Dos
pessegueiros que ajudara o tio a plantar. Da cobra de jardim que capturara.
Era naquele quarto que Laila e Tariq faziam os trabalhos de casa, erguiam castelos de
cartas, e desenhavam retratos ridículos um do outro. Se chovia, encostavam-se ao
parapeito, a beber Fanta de laranja morna, e contemplavam as grossas gotas de chuva a
deslizar pelo vidro.
— Muito bem, cá vai uma — disse Laila, baralhando. — O que é que anda à volta do
mundo mas permanece num canto?
— Espera. — Tariq soergueu-se, fazendo rodar a sua perna esquerda artificial.
Estremeceu e deitou-se de lado, apoiado no cotovelo. — Passa​-me essa almofada. —
Colocou-a debaixo da perna. — Pronto. Assim está melhor.
Laila lembrou-se da primeira vez que ele lhe mostrara o coto, tinha ela seis anos.
Carregara com um dedo na pele brilhante e retesada, logo abaixo do joelho esquerdo. O
seu dedo encontrara pequenas saliências duras, e Tariq dissera-lhe que eram pedaços de
osso que por vezes cresciam depois de uma amputação. Ela perguntara-lhe se o coto lhe
doía e ele respondera que ficava sensível ao fim do dia, porque inchava e não se ajustava
à prótese como devia ser, como um dedo num dedal. E às vezes fica irritado.
Principalmente quando está calor. Nessa altura formam-se erupções e bolhas, mas a
minha mãe tem cremes que ajudam. Não é muito mau.
Laila desfizera-se em lágrimas.
Por que é que estás a chorar? Voltara a prender a perna. Foste tu que pediste para ver,
giryanok, bebé chorão! Se soubesse que ias desatar a berrar não te teria mostrado.
— Um selo — disse Tariq.
— O quê?
— A adivinha. A resposta é um selo. Depois do almoço devíamos ir ao jardim zoológico.
— Já conhecias esta. Não conhecias?
— Não senhor.
— És um batoteiro.
— E tu és uma invejosa.
— De quê?
— Da minha esperteza masculina.
— Da tua esperteza masculina? Palavra? Diz-me lá, quem é que ganha sempre no
xadrez?
— Eu deixo-te ganhar. — Riu-se. Ambos sabiam que não era verdade.
— E quem é que chumbou a matemática? Com quem é que vens ter para te ajudar nos
trabalhos de casa de matemática apesar de estares um ano mais adiantado?
— Estaria dois anos mais adiantado se a matemática não me aborrecesse.
— E suponho que a geografia também te aborrece.
— Como é que adivinhaste? Agora, cala a boca. Então vamos ao jardim zoológico ou
não?
Laila sorriu. — Vamos.
— Boa.
— Tive saudades tuas.
Fez-se uma pausa. Depois Tariq virou-se para ela com uma careta meio sorriso, meio de
desagrado. — O que é que te deu?
Quantas vezes, perguntou-se Laila, não tinham ela, Hasina e Giti, dito aquelas mesmas
três palavras umas às outras, sem qualquer hesitação, após apenas dois ou três dias sem
se verem? Tive saudades tuas, Hasina. Oh, eu também tive saudades tuas. Na careta de
Tariq, Laila aprendeu que os rapazes diferiam das raparigas nesse aspecto. Eles não
exibiam a amizade. Não sentiam o impulso, a necessidade, daquele género de conversa.
Laila imaginava que teria acontecido o mesmo com os seus irmãos. Os rapazes,
apercebeu-se ela, tratavam a amizade da mesma maneira que o Sol: a sua existência era
indiscutível; e o seu fulgor desfrutado de preferência sem ser directamente contemplado.
— Estava a tentar irritar-te — disse ela.
Ele lançou-lhe um olhar de viés. — E conseguiste.
Mas ela achou que a careta se adoçara. E que talvez o bronzeado do rosto tivesse
ficado momentaneamente mais carregado.
LAILA NÃO tencionara contar-lhe. Na verdade, decidira que contar​-lhe seria uma péssima
ideia. Ainda alguém se magoaria, porque Tariq não seria capaz de deixar passar aquilo
impune. Mas mais tarde, já na rua, ao dirigirem-se para a paragem de autocarro, viu
novamente Khadim, encostado a um muro. Estava rodeado dos amigos, com os polegares
enfiados nas presilhas do cinto. E sorriu-lhe provocado​ramente.
Assim, ela contou a Tariq. A história saiu-lhe da boca para fora antes de poder conter-
se.
— Ele fez o quê?
Laila repetiu.
Tariq apontou para Khadim. — Aquele? Foi ele? Tens a certeza?
— Absoluta.
Tariq cerrou os dentes e murmurou qualquer coisa em pashto, que Laila não apanhou. —
Tu esperas aqui — mandou ele, já em farsi.
— Não, Tariq...
Já ele atravessava a rua.
Khadim foi o primeiro a avistá-lo. O sorriso esmoreceu, e afastou​-se do muro. Tirou os
polegares das presilhas do cinto e endireitou-se, tentando adoptar um ar de ameaça. Os
outros seguiram​-lhe o olhar.
Laila desejou não ter dito nada. E se eles se juntassem? Quantos eram eles — dez?
onze? doze? E se eles o magoassem?
Então Tariq estacou a alguns metros de Khadim e do seu bando. Seguiu-se uma instante
de ponderação, pensou Laila, talvez uma mudança de ideias, e, quando ele se curvou, ela
imaginou que ia fazer de conta que tinha o sapato desabotoado e voltar pelo mesmo
caminho. Depois as mãos dele movimentaram-se, e Laila com​preendeu.
Os outros também compreenderam quando Tariq se endireitou, equilibrado numa perna
só, quando avançou a saltitar em direcção a Khadim, e o atacou, a perna artificial
levantada bem alto sobre o ombro como se fosse uma espada.
Os rapazes desviaram-se apressadamente, deixando-lhe o caminho livre até Khadim.
Depois foi pó e punhos, pontapés e gemidos.
Khadim nunca mais voltou a incomodar Laila.
NESSA NOITE, como na maior parte das noites, Laila pôs a mesa do jantar apenas para
dois. A Mamã dissera que não tinha vontade. Quando acontecia ter apetite, levava
ostensivamente um prato para o seu quarto antes de o Babi chegar a casa. Em geral,
quando o Babi e Laila se sentavam à mesa, estava já a dormir ou estendida na cama,
acordada.
O Babi saiu da casa de banho, com o cabelo — salpicado de farinha ao entrar em casa
— já lavado e penteado para trás.
— O que é que temos hoje, Laila?
— Restos de sopa de aush.
— Boa — comentou ele, dobrando a toalha a que secara o cabelo. — Então e em que
vamos trabalhar esta noite? Somar fracções?
— Na realidade, tenho de converter fracções em números mistos.
— Ah. Certo.
Todas as noites, a seguir ao jantar, o Babi ajudava Laila a fazer os trabalhos de casa e
passava-lhe também alguns. O objectivo disso era apenas manter Laila um passo ou dois à
frente da sua turma, e não porque ele desaprovasse os trabalhos vindos da escola, apesar
da propaganda inserida no ensino. De facto, o Babi achava que a única coisa que os
comunistas tinham feito bem — ou pelo menos tentado — era, ironicamente, no campo da
educação, a vocação de onde eles o haviam expulsado. Mais especificamente, a educação
das mulheres. O governo patrocinara aulas de alfabetismo para todas as mulheres. Quase
dois terços dos alunos da Universidade de Cabul eram actualmente mulheres, dissera o
Babi, mulheres que estudavam medicina, direito, engenharia.
As coisas foram sempre difíceis para as mulheres deste país, Laila, mas elas são
provavelmente mais livres agora, sob o regime comunista, e têm mais direitos do que
alguma vez tiveram, dissera o Babi, baixando a voz, ciente da intolerância da Mamã
quanto à mais remota observação positiva acerca dos comunistas. Mas é verdade,
prosseguira o Babi, é uma boa altura para ser mulher no Afeganistão. E tu podes
beneficiar disso, Laila. É claro que a liberdade das mulheres — e aí o Babi abanara
pesarosamente a cabeça — é igualmente uma das razões pelas quais as pessoas lá por
fora pegaram em armas.
Com «lá por fora» não se referia a Cabul, que fora sempre relati​vamente liberal e
progressista. Ali em Cabul, as mulheres ensinavam na universidade, dirigiam escolas,
ocupavam lugares no governo. Não, o Babi referia-se às áreas tribais, especialmente as
regiões pastune a sul ou a leste, perto da fronteira com o Paquistão, onde raramente se
viam mulheres nas ruas e mesmo assim só de burca e acompanhadas por homens.
Referia-se às regiões onde os homens que viviam segundo as velhas leis tribais se tinham
revoltado contra os comunistas e os seus decretos para libertação da mulher, para abolir o
casamento imposto, para elevar a idade mínima com que as raparigas podiam casar para
os dezasseis anos. Aí, os homens consideravam um insulto às suas tradições de séculos,
dissera o Babi, que o governo — e ainda por cima um governo ateu — lhes dissesse que
as suas filhas tinham de sair de casa, frequentar a escola, e trabalhar lado a lado com
homens.
Deus nos livre de tal! Gostava o Babi de exclamar sarcasticamente. Depois suspirava e
dizia, Laila, minha querida, o único inimigo que um afegão não consegue derrotar é ele
próprio.
O Babi sentou-se à mesa e mergulhou o pão na sua tigela de aush.
Laila decidiu contar-lhe durante a refeição, antes de começarem com as fracções, o que
Tariq fizera a Khadim. Mas não chegou a ter oportunidade para isso, porque, nesse
instante, ouviu-se bater à porta e, do outro lado, estava um estranho que trazia notícias.
19

Preciso de falar com os teus pais, dokhtar jan — disse ele quando Laila lhe abriu a
porta. Era um homem entroncado, de rosto anguloso e pele curtida pela vida ao ar livre.
Trazia um casaco cor de batata, e na cabeça um pakol de lã castanha.
— Posso saber quem devo anunciar?
Depois a mão do Babi pousou no ombro de Laila e ele afastou-a docemente da porta.
— Por que não vais para cima, Laila? Vai lá.
Ao dirigir-se para os degraus, Laila ouviu o visitante dizer ao Babi que tinha notícias do
Panjshir. Nessa altura também a Mamã já estava na sala. Tinha uma das mãos pregada à
boca, e os seus olhos voavam do Babi para o homem do pakol.
Laila espreitou do cimo das escadas. Viu o desconhecido sentar-se com os pais.
Inclinar-se para eles. Proferir algumas palavras abafadas. E depois a cara do Babi ficou
branca, cada vez mais branca, e ele fitava as mãos, e a Mamã gritava, gritava, e
arrancava os cabelos.
NA MANHÃ SEGUINTE, o dia da fatiha, a casa foi invadida por um bando de mulheres da
vizinhança que se encarregaram das preparações para o jantar do khatm que se realizaria
após o funeral. A Mamã, com a cara inchada do pranto, permaneceu a manhã inteira
sentada no sofá, a torcer um lenço entre os dedos. Assistia-a um par de mulheres que
fungavam repetidamente e se revezavam a dar-lhe cautelosas palma​dinhas na mão, como
se ela fosse a boneca mais rara e mais frágil do mundo. A Mamã parecia nem sequer
notar a sua presença.
Laila ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe nas mãos. — Mamã.
Os olhos da Mamã fitaram-na vagamente. Pestanejou.
— Nós tomamos conta dela, Laila jan — disse uma das mulheres com ar de
importância. Laila já estivera em funerais onde vira mulheres assim, mulheres que
apreciavam tudo o que se relacionava com a morte, consoladoras oficiais que não
deixavam ninguém interferir nas suas obrigações auto-estabelecidas.
— Está tudo sob controlo. Vai fazer qualquer outra coisa, pequena. Deixa a tua mãe em
paz.
Escorraçada, Laila sentiu-se inútil. Andou de sala em sala. Vagueou um bocado pela
cozinha. Hasina, invulgarmente calada, chegou acompanhada pela mãe. Vieram igualmente
Giti e a mãe. Ao avistar Laila, Giti correu para ela, passando-lhe os braços ossudos em
volta do pescoço, num abraço longo e surpreendentemente forte. Quando se afastou, tinha
os olhos rasos de lágrimas. — Tenho tanta pena, Laila — disse ela. Laila agradeceu-lhe.
As três raparigas sentaram-se lá fora, no pátio, até uma das mulheres as encarregar da
tarefa de lavar copos e empilhar pratos na mesa.
O Babi também andava dentro e fora, desnorteado, como se procurasse alguma coisa
para fazer.
— Conservem-no longe de mim. — Foram as únicas palavras que a Mamã proferiu
durante toda a manhã.
O Babi acabou sentado sozinho no corredor, numa cadeira articula​da, com um ar
desolado e diminuído. Depois uma das mulheres disse​-lhe que ali estava no caminho. Ele
pediu desculpa e desapareceu para o seu escritório.
NESSA TARDE, os homens foram para um salão que o Babi alugara para a fatiha, em
Karteh-Seh. As mulheres reuniram-se em casa. Laila ocupou o seu lugar ao lado da Mamã,
junto à entrada da sala, onde era costume sentar-se a família do defunto. As mulheres que
vinham acompanhá-las descalçavam os sapatos à porta, cumprimentavam-se com um
aceno de cabeça ao atravessarem a sala, e sentavam-se em cadeiras articuladas
dispostas ao longo das paredes. Laila avistou Wajma, a velha parteira que a trouxera ao
mundo. Viu igualmente a mãe de Tariq, com um lenço preto por cima da sua peruca.
Acenou a Laila e dirigiu-lhe um sorriso lento e pesaroso, de lábios fechados.
Proveniente de um leitor de cassetes, uma voz masculina nasalada salmodiava versos
do Corão. Nos intervalos, as mulheres suspiravam, remexiam-se e fungavam. Havia
tossidelas abafadas, murmúrios, e, periodicamente, alguém deixava escapar um soluço
teatral, im​pregnado de mágoa.
Entrou Mariam, a esposa de Rashid, usando um hijab preto de onde se escapavam
madeixas de cabelo que lhe tombavam para a testa. Sentou-se numa cadeira no lado
oposto a Laila.
Ao lado de Laila, a Mamã continuava a baloiçar-se de trás para diante. Laila puxou a
mão dela para o colo e envolveu-a com as suas, mas a Mamã pareceu não notar.
— Queres um copo de água, Mamã? — segredou-lhe ao ouvido. — Tens sede?
Mas a Mamã não respondeu. Não fazia mais nada senão oscilar de trás para diante,
fitando fixamente a carpete com um olhar remoto e mortiço.
De vez em quando, ali sentada ao lado da Mamã, vendo os ares acabrunhados e
abatidos em redor da sala, a magnitude do desastre que se abatera sobre a sua família
impressionava Laila. As possibili​dades negadas. As esperanças frustradas.
Mas era um sentimento passageiro. Era difícil sentir, sentir real​mente, a perda da
Mamã. Era difícil congregar mágoas, lamentar as mortes de pessoas que para Laila
começavam por nunca ter estado vivas. Para ela, Ahmad e Nur tinham sido sempre como
um mito. Como personagens de uma fábula. Reis num livro de História.
Tariq é que era real, de carne e osso. Tariq, que lhe ensinava a praguejar em pashto,
que gostava de folhas de trevo salgadas, que franzia o sobrolho e emitia um gemido surdo
a mastigar, que tinha um sinal de nascença rosa-pálido, em forma de bandolim ao
contrário, logo abaixo da clavícula esquerda.
Por isso, Laila sentava-se ao lado da Mamã e pranteava obedien​temente Ahmad e Nur,
mas, no seu coração, o seu verdadeiro irmão estava vivo e de saúde.
20

Começaram então as maleitas que iriam perseguir a Mamã durante o resto dos seus
dias. Dores no peito e enxaquecas, dores nas articulações e suores nocturnos, dores
paralizantes nos ouvidos, caroços que mais ninguém sentia. O Babi levou-a a um médico,
que lhe tirou amostras de sangue e urina e lhe fez raios-X ao corpo todo, mas não
encontrou qualquer doença física.
A Mamã permanecia deitada a maior parte dos dias. Vestia de preto. Puxava os cabelos
e mordia continuamente o sinal por baixo do lábio. Quando estava acordada, Laila
encontrava-a a cambalear pela casa. Acabava sempre no quarto de Laila, como se
continuando a entrar no quarto em que os rapazes outrora haviam dormido, soltado gases
e lutado com almofadas, mais tarde ou mais cedo devesse encontrá-los. Mas a única coisa
que encontrava era a sua ausência. E Laila. Que estava agora convencida de que, para a
Mamã, as duas coisas se haviam transformado numa só.
A única tarefa que a Mamã nunca descurava eram as suas cinco orações diárias do
namaz. Terminava cada namaz de cabeça profundamente curvada, as mãos diante da
cara, de palmas para cima, murmurando uma prece para que Deus desse a vitória aos
mujahidin. Laila via-se obrigada a realizar cada vez mais trabalhos domésticos. Se não
cuidasse da casa, era normal encontrar roupa, sapatos, pacotes de arroz abertos, latas de
feijão, e pratos sujos espalhados por toda a parte. Laila lavava os vestidos da Mamã e
mudava os seus lençóis. Convencia-a por meio de lisonjas a sair da cama para tomar
banho e refeições. Era ela quem passava as camisas do Babi e lhe vincava as calças.
Cada vez mais, era ela quem cozinhava.
Por vezes, após terminar as suas tarefas, Laila enfiava-se na cama com a Mamã.
Abraçava-a, entrelaçava os dedos nos dela, enterrava a cara nos seus cabelos. A Mamã
mexia-se, murmurava qualquer coisa. Inevitavelmente, começava a contar uma história
acerca dos rapazes.
Um dia, quando se encontravam assim, a Mamã disse: — Ahmad viria a ser um líder.
Tinha o carisma necessário. Pessoas com três vezes a sua idade escutavam-no com
respeito, Laila. Era digno de ver-se. E Nur. Oh, o meu Nur. Estava sempre a fazer esboços
de edifícios e pontes. Ia ser arquitecto, sabes. Ia transformar Cabul com os seus
projectos. E agora são os dois shahid, os meus rapazes, ambos mártires.
Laila escutava, desejando que a Mamã reparasse que ela, Laila, não se tornara uma
shahid, que estava viva, ali, na cama com ela, e que tinha esperanças e um futuro próprio.
Mas Laila sabia que o seu futuro não podia competir com o passado dos irmãos. Eles
tinham-na eclipsado em vida; apagá-la-iam na morte. A Mamã era agora a conservadora
do museu das suas vidas e ela, Laila, não passava de um mero visitante. Um receptáculo
para os seus mitos. O pergaminho em que a Mamã tencionava inscrever as suas lendas.
— O mensageiro que trouxe as notícias disse que quando levaram os rapazes de volta
para o acampamento, Ahmad Shah Massoud em pessoa presidiu ao funeral. Rezou por
eles junto à campa. Os teus irmãos eram jovens tão corajosos, Laila, que o próprio
comandante Massoud em pessoa, o Leão do Panjshir, que Deus o abençoe, quis presidir
ao seu funeral.
A Mamã rolou para ficar deitada de costas. Laila deslocou-se e apoiou a cabeça no
peito dela.
— Há dias — disse a Mamã em voz rouca —, em que fico a ouvir o tique-taque do
relógio do corredor. E depois penso em todos os tique-taques, todos os minutos, todas as
horas e dias e semanas e meses e anos que me esperam. Todos sem eles. E então não
consigo respirar, como se estivesse alguém a pisar-me o coração, Laila. Fico tão
debilitada. Tão debilitada que só me apetece deixar-me cair algures.
— Gostava de poder fazer qualquer coisa — disse Laila, com sinceridade. Mas as
palavras soaram indiferentes, superficiais, como o fraco consolo de um estranho amável.
— És uma boa filha — disse a Mamã, após um profundo suspiro. — E eu não tenho sido
lá muito boa mãe para ti.
— Não digas isso.
— Oh, é verdade. Eu sei e lamento-o, meu amor.
— Mamã?
— Mm.
Laila sentou-se e fitou a Mamã. Havia agora madeixas grisalhas no seu cabelo. E sentiu-
se surpreendida ao constatar quanto emagrecera, ela que fora sempre rechonchuda. As
faces tinham um aspecto encovado. A blusa que vestia descaía-lhe nos ombros e havia um
espaço vazio entre o pescoço e a gola. Mais de uma vez Laila vira a aliança escorregar do
dedo da Mamã.
— Tenho andado para te perguntar uma coisa.
— O que é?
— Tu não... — começou Laila.
Discutira o assunto com Hasina. Por sugestão da amiga, tinham despejado o tubo de
aspirinas para a sarjeta, e escondido as facas de cozinha e os aguçados espetos de
kebab sob o tapete debaixo do sofá. Hasina encontrara uma corda no pátio. Quando o
Babi não conseguiu encontrar a navalha da barba, Laila viu-se obrigada a falar-lhe dos
seus receios. Ele deixou-se cair na borda do sofá, de mãos entre os joelhos. Esperava que
o pai a sossegasse de algum modo, mas recebeu apenas um vago olhar atónito.
— Tu não... Mamã, preocupa-me que tu...
— Pensei nisso na noite em que recebemos a notícia — disse a Mamã. — E desde
então tenho voltado a pensar nisso, não te vou mentir. Mas não. Não te preocupes, Laila.
Eu quero ver realizar-se o sonho dos meus filhos. Quero ver o dia em que os russos voltem
para casa desacreditados, o dia em que os mujahidin entrem em Cabul vitoriosos. Quero
cá estar quando isso acontecer, quando o Afeganistão for livre, para que os rapazes o
vejam igualmente. Eles verão através dos meus olhos.
A Mamã adormeceu rapidamente, deixando Laila presa a emoções contraditórias:
tranquilizada pelo facto de a Mamã tencionar continuar a viver, magoada por não ser ela a
razão para tal. Ela nunca deixaria a sua marca no coração da Mamã como acontecera com
os irmãos, porque o coração da Mamã era semelhante a uma praia pálida onde as
pegadas de Laila seriam eternamente apagadas sob as ondas da sua mágoa, que
inchavam e rebentavam, inchavam e rebentavam.
21

O motorista encostou o táxi para deixar passar mais um longo comboio de jipes e carros
blindados soviéticos. Tariq esticou-se do lugar da frente, por cima do condutor, e gritou:
Pajalusta! Pajalusta!
Um jipe apitou e Tariq assobiou em resposta, com um largo sorriso e acenando
alegremente. — Armas maravilhosas! — gritou ele. — Jipes fabulosos! Exército fabuloso!
É uma pena que estejam a perder com um bando de camponeses armados de fundas!
O comboio passou. O condutor voltou a embrenhar-se na estrada.
— Falta muito? — perguntou Laila.
— Uma hora, no máximo — respondeu o motorista. — Se não houver mais comboios
nem postos de controlo.
Tinham ido fazer um passeio de um dia, Laila, o Babi e Tariq. Hasina também quisera ir,
suplicara mesmo ao pai dela, mas este não consentira. A viagem fora ideia do Babi.
Apesar de o seu salário não lhe permitir esse género de coisas, contratara um motorista
para todo o dia. Não revelara absolutamente nada a Laila quanto ao seu destino, dizendo
apenas que, com essa viagem, ia contribuir para a educação dela.
Estavam na estrada desde as cinco da madrugada. Pela janela, Laila vira a paisagem
mudar de cumes cobertos de neve para desertos, para desfiladeiros e afloramentos de
rochas ressequidas pelo sol. Ao longo do caminho haviam passado por casas de lama com
telhados de colmo e campos salpicados de molhos de trigo. Aqui e além, destacando-se
no terreno poeirento, Laila reconheceu as tendas negras de nómadas kuchi. E,
frequentemente, as carcaças de tanques soviéticos incendiados e helicópteros
destroçados. Este, pensou ela, era o Afeganistão de Ahmad e Nur. Aqui, nas províncias,
era afinal onde se travava a guerra. Não em Cabul. Cabul encontrava-se maiorita​riamente
em paz. Em Cabul, se não fossem os tiroteios ocasionais, se não fossem os soldados
soviéticos a fumar nos passeios e os jipes soviéticos percorrendo constantemente as ruas,
a guerra teria podido não passar de um boato.
A manhã chegava ao fim quando, após terem passado por mais dois postos de controlo,
penetraram num vale. O Babi mandou Laila inclinar-se sobre o banco e apontou para uma
série de muralhas de um vermelho queimado pelo sol e de aspecto antigo que se avistava
à distância.
— Aquilo é Shahr-e-Zohak. A Cidade Vermelha. Era uma forta​leza. Foi erigida há uns
novecentos anos para defender o vale dos invasores. O neto de Genghis Khan atacou-a no
século XIII, mas foi morto. Foi o próprio Genghis Khan quem então a destruiu.
— E isso, meus jovens amigos, é a História do nosso país: um invasor após outro —
disse o motorista, batendo a cinza do cigarro para fora da janela. — Macedónios.
Sassânidas. Árabes. Mongóis. Agora os soviéticos. Mas nós somos como aquelas
muralhas além. Danificadas, e nada de belo para ver, mas ainda de pé. Não é verdade,
badar?
— É assim mesmo — concordou o Babi.

MEIA HORA DEPOIS, o motorista estacou.


— Venham daí, vocês dois — disse o Babi. — Saiam e vamos dar uma vista de olhos.
Saíram do táxi, e o Babi apontou. — Lá estão eles. Olhem.
Tariq susteve a respiração. Laila também. E nesse momento soube que mesmo que
vivesse até aos cem anos nunca mais veria algo tão magnífico.
Os dois Budas eram enormes, erguendo-se muito mais alto do que ela havia imaginado
por todas as fotografias que vira. Esculpidos num rochedo escarpado descorado pelo sol,
examinavam-nos lá de cima, tal como haviam examinado há quase dois mil anos, imaginava
Laila, as caravanas que atravessavam o vale na Rota da Seda. De ambos os lados, ao
longo do nicho saliente onde se encontravam as estátuas, miríades de grutas perfuravam o
rochedo.
— Sinto-me tão pequeno — disse Tariq.
— Querem trepar lá ao cimo? — perguntou o Babi.
— Ao cimo das estátuas? — indagou Laila. — Podemos?
O Babi sorriu e estendeu a mão. — Venham daí.
A SUBIDA FOI DIFÍCILpara Tariq, que teve de se agarrar a Laila e ao Babi enquanto se
içavam por uma escada tortuosa, estreita e mal iluminada. Ao longo do percurso viram
grutas escuras e túneis que perfuravam o rochedo em todos os sentidos.
— Cuidado onde assentam os pés — avisou o Babi. A sua voz produziu um eco sonoro.
— O solo é traiçoeiro.
Em alguns sítios, a escada abria para a cavidade do Buda.
— Não olhem para baixo, pequenos. Olhem sempre em frente.
Enquanto subiam, o Babi contou-lhes que Bamiyan fora em tempos um florescente
centro budista, até ter caído sob domínio árabe islâmico no século IX. Os rochedos de
arenito eram o lar de monges budistas que neles escavavam grutas para lhes servirem de
habitação e de santuário a peregrinos fatigados. Os monges, disse o Babi, tinham pintado
belos frescos nas paredes e tectos das suas grutas.
— Em dado momento, havia cinco mil monges a viverem como eremitas nestas grutas
— prosseguiu ele.
Tariq respirava com dificuldade quando atingiram o cimo. Tam​bém o Babi ofegava, mas
os seus olhos brilhavam de excitação.
— Estamos no topo da cabeça do Buda — declarou ele, limpando a testa com um
lenço. — Há aqui um nicho de onde podemos olhar para fora.
Avançaram devagar até à saliência escarpada e, lado a lado, com o Babi no meio,
contemplaram o vale lá em baixo.
— Olhem só para isto! — exclamou Laila.
O Babi sorria.
O vale de Bamiyan era atapetado por luxuriantes campos de cultivo. O Babi disse que
eram de gualtéria e alfafa, e também de batatas. Os campos eram bordejados por
choupos e cruzados por regatos e valas de irrigação, em cujas margens minúsculas figuras
femininas, agachadas, lavavam roupa. O Babi apontou os arrozais e campos de cevada
que cobriam as encostas. Era Outono, e Laila distinguia pessoas com túnicas de cores
vivas a disporem as colheitas para secagem nos telhados de habitações construídas com
tijolos de lama. A estrada principal que atravessava a povoação era igualmente ladeada de
choupos. Havia pequenas lojas e casas de chá e barbeiros ambulantes de ambos os lados.
Para além da aldeia, para além do rio e dos regatos, Laila avistou montanhas, escalvadas
e de um castanho​-pó, e para além dessas, como para além de todas as coisas no
Afeganistão, erguia-se o topo coroado de neve do Hindu Kush.
E por cima de tudo aquilo o céu, de um azul perfeito, imaculado.
— Que silêncio — murmurou Laila. Via ovelhas e cavalos minús​culos mas não conseguia
ouvi-los balir nem relinchar.
É isso que eu sempre recordo aqui de cima — concordou o Babi. — O silêncio. A paz.
Quis que vocês sentissem isto. Mas também quis que vissem o património cultural do
vosso país, meus filhos, que conhecessem o seu rico passado. Sabem, há coisas que eu
posso ensinar​-vos. Outras vocês aprendem em livros. Mas há coisas que, bem, têm de ser
vistas e sentidas.
— Olhem — disse Tariq.
Observaram um falcão, sobrevoando a aldeia em círculos.
— Alguma vez trouxe a Mamã aqui acima? — perguntou Laila.
— Oh, muitas vezes. Antes de nascerem os rapazes. E depois também. A tua mãe,
nessa altura, era tão aventureira e... tão viva. Era a pessoa mais animada e mais feliz que
eu já conheci. — Sorriu à memória. — Tinha um riso especial. Juro que foi por causa disso
que casei com ela, Laila, por causa daquele riso. Cilindrava-nos. Não tínhamos qualquer
hipótese de resistência.
Uma onda de afecto percorreu Laila. Daí em diante, recordaria sempre o Babi assim,
com as suas reminiscências da Mamã, os cotovelos apoiados no rochedo, as mãos sob o
queixo, o cabelo revolto pelo vento, os olhos franzidos contra o sol.
— Vou ver algumas daquelas grutas — declarou Tariq.
— Tem cuidado — recomendou o Babi.
— Tenho, Kaka jan — ecoou de lá a voz de Tariq.
Laila observava um trio de homens lá muito em baixo, conversando junto a uma vaca
amarrada a uma cerca. Em redor deles, as árvores haviam começado a cobrir-se de ocre,
laranja, escarlate.
— Eu também sinto a falta dos rapazes, sabes — disse o Babi. Tinha os olhos rasos de
lágrimas e o queixo tremia-lhe. — Posso não... Com a tua mãe, tanto a alegria como a
tristeza são extremas. Ela não é capaz de disfarçar nem uma nem outra. Nunca foi. Eu
suponho que sou diferente. Tenho tendência para... Mas também me destruiu, a morte dos
rapazes. Também sinto a falta deles. Não passa um dia sem que eu... É muito difícil, Laila.
Extremamente difícil. — Apertou os cantos interiores dos olhos com o polegar e o
indicador. Quando tentou falar, a voz falhou-lhe. Comprimiu os lábios e aguardou. Inspirou
longa e profundamente, e depois olhou para ela. — Mas sinto-me feliz por te ter. Todos os
dias agradeço a Deus por te ter. Todos os dias. Por vezes, quando a tua mãe está num
dos seus dias francamente negros, sinto que só te tenho a ti, Laila.
Laila aproximou-se mais e encostou a face ao seu peito. O Babi pareceu levemente
surpreendido — ao contrário da Mamã, ele rara​mente expressava o seu afecto
fisicamente. Plantou um breve beijo no cimo da cabeça dela e abraçou-a
desajeitadamente. Ficaram assim durante um bocado, a contemplar o vale de Bamiyan lá
em baixo.
— Embora ame imenso esta terra, há dias em que penso deixá-la — proferiu o Babi.
— E ir para onde?
— Qualquer sítio onde seja fácil esquecer. Primeiro o Paquistão, suponho. Durante um
ano, talvez dois. Esperar que a nossa documen​tação seja processada.
— E depois?
— E depois, bem, o mundo é grande. Talvez a América. Algures perto do mar. Como a
Califórnia.
O Babi disse que os americanos eram um povo generoso. Ajudá​-los-iam com dinheiro e
comida durante um tempo, até eles se equilibrarem.
— Eu arranjava trabalho e, após alguns anos, quando tivéssemos amealhado o
suficiente, abríamos um pequeno restaurante afegão. Nada de extravagante, atenção,
apenas um sitiozinho modesto, meia dúzia de mesas, alguns tapetes. Talvez pendurar
algumas fotografias de Cabul nas paredes. Daríamos a conhecer aos americanos uma
amostra da comida afegã. E com os cozinhados da tua mãe, eles fariam fila pela rua
abaixo.
«E tu, tu continuarias a ir à escola, é claro. Sabes o que eu penso acerca disso. Seria a
nossa prioridade absoluta, proporcionar-te uma boa educação, liceu e depois universidade.
Mas nos teus tempos livres, se quisesses, podias ajudar, anotar as encomendas, encher
os jarros de água, esse género de coisas.
O Babi acrescentou que organizariam festas de aniversário no restaurante, bem como
cerimónias de noivado, reuniões de Ano Novo. Transformar-se-ia num local de reunião para
outros afegãos que, como eles, tivessem fugido à guerra. E, noite fora, depois de todos
terem partido e a casa estar limpa, eles três sentar-se-iam para tomar chá entre as mesas
vazias, cansados mas gratos pela sua sorte.
Quando o Babi acabou de falar, instalou-se o silêncio. Laila calou​-se igualmente. Sabiam
que a Mamã não iria a parte alguma. Para ela, fora impensável deixar o Afeganistão
enquanto Ahmad e Nur ainda estavam vivos. Agora que eram shahid, fazer as malas e fugir
seria uma afronta ainda maior, uma traição, um repúdio do sacrifício dos seus filhos.
Como podes pensar nisso? Laila estava a ouvi-la. A morte deles não significa nada
para ti, primo? O meu único conforto é saber que piso o mesmo solo que embebeu o
sangue deles. Não. Nunca.
E Laila sabia que o Babi nunca partiria sem ela, apesar de a Mamã agora já não ser
nem uma esposa para ele nem uma mãe para Laila. Pela Mamã, ele afastaria esse seu
sonho da mesma maneira que sacudia os salpicos de farinha do casaco ao chegar a casa
do trabalho. E por isso eles ficariam. Ficariam até a guerra acabar. E ficariam para o que
quer que viesse depois da guerra.
Lembrou-se que, uma vez, a Mamã dissera ao Babi que tinha casado com um homem
sem convicções. A Mamã não compreendia. Não compreendia que se se olhasse ao
espelho, veria a única convicção inabalável da vida do Babi.

MAIS TARDE, depois de terem almoçado ovos cozidos e batatas com pão, Tariq fez a sesta
debaixo de uma árvore na margem de um regato gorgolejante. Dormiu com o casaco
cuidadosamente dobrado como uma almofada, as mãos cruzadas sobre o peito. O
motorista foi à aldeia comprar amêndoas. O Babi sentou-se na base de uma acácia de
tronco largo a ler um livro. Laila conhecia aquele livro; ele lera​-lho uma vez. Contava a
história de um velho pescador chamado Santiago que apanha um peixe enorme. Mas
quando consegue levar o seu barco a porto seguro, não resta nada do seu troféu: os
tubarões destroçaram-no.
Laila sentou-se à beira do regato, com os pés mergulhados na água fresca. Por cima de
si, zumbiam mosquitos e dançavam sementes de algodão. Uma libélula esvoaçava por
perto. Laila contemplou as suas asas que captavam lampejos de sol enquanto ela adejava
de uma folha de erva para outra. Emitiam cintilações purpúreas, verdes, laranja. Na outra
margem, um grupo de rapazes hazara andava a apanhar do chão bostas de vaca secas e
a enfiá-las em sacos de serapilheira que traziam pendurados às costas. Algures, zurrou um
burro. Um gerador crepi​tou, animando-se.
Laila pensou novamente no sonho do Babi. Algures perto do mar.
Havia uma coisa que ela não dissera ao Babi lá em cima, no topo do Buda: havia um
motivo importante para se sentir feliz por eles não poderem partir. Sentiria saudades de
Giti e da sua sinceridade retraída, sim, e também de Hasina, com as suas gargalhadas
marotas e inces​santes palhaçadas. Mas, principalmente, Laila tinha ainda demasiado
presente a monotonia inexorável daquelas quatro semanas sem Tariq, quando ele fora a
Ghazni. Recordava demasiado bem como o tempo se arrastara sem ele, como vagueara
sentindo-se abandonada, desorientada. Como conseguiria suportar a sua ausência
permanente?
Talvez fosse insensato desejar tanto estar perto de uma pessoa, ali, num país onde as
balas tinham despedaçado os seus próprios irmãos. Mas Laila só precisava de recordar
Tariq avançando para Khadim a agitar a sua perna e, de repente, não havia nada no mundo
que fizesse mais sentido.
SEIS MESES DEPOIS, em Abril de 1988, o Babi chegou a casa com notícias
importantes.
— Eles assinaram um tratado! — exclamou. — Em Genebra. É oficial! Eles vão retirar-
se. Daqui a nove meses não haverá um soviético no Afeganistão!
A Mamã sentara-se na cama. Encolheu os ombros.
— Mas o regime comunista permanece — disse ela. — Najibullah é o presidente
fantoche dos soviéticos. E ele fica. Não, a guerra continuará. Isto não é o fim.
— Najibullah não durará muito — contrapôs o Babi.
— Eles vão-se embora, Mamã! Vão-se mesmo embora!
— Celebrem vocês os dois, se quiserem. Mas eu não descansarei enquanto os
mujahidin não fizerem um desfile da vitória aqui mesmo, em Cabul.
E, dito isso, estendeu-se novamente e puxou a manta para cima.
22

JANEIRO DE 1989

Num dia frio e enevoado de Janeiro de 1989, três meses antes de fazer onze anos,
Laila, os pais e Hasina foram ver um dos últimos comboios soviéticos a abandonar a
cidade. Os espectadores tinham-se reunido de ambos os lados da rua no exterior do Clube
Militar, perto de Wazir Akbar Khan. De pé na neve enlameada, observaram a linha de
tanques, carros blindados, e jipes enquanto delicados flocos de neve cruzavam o clarão
dos faróis que passavam. Havia observações contundentes e chacota. Soldados afegãos
mantinham as pessoas fora da rua. De vez em quando tinham de disparar um tiro de aviso.
A Mamã erguia bem acima da cabeça uma fotografia de Ahmad e Nur. Era aquela em
que eles estavam sentados costas com costas sob a pereira. Havia outras mulheres como
ela, com fotografias dos maridos, filhos e irmãos shahid hasteadas bem alto.
Alguém bateu no ombro de Laila e Hasina. Era Tariq.
— Onde é que foste arranjar essa coisa? — exclamou Hasina.
— Achei que devia vir vestido para a ocasião — respondeu Tariq. Trazia um enorme
gorro de pele à russo, completo com orelheiras que puxara para baixo. — Que tal estou?
— Ridículo — riu Laila.
— A ideia é essa.
— Os teus pais vieram para aqui contigo assim vestido?
— Na realidade, ficaram em casa — disse Tariq.
No Outono anterior, o tio de Ghazni morrera de ataque cardíaco, e, poucas semanas
depois, o pai de Tariq tivera por sua vez um enfarte, que o deixara débil e fatigado,
propenso a ansiedade e períodos de depressão que o assaltavam durante semanas a fio.
Laila sentiu-se satisfeita por ver Tariq de novo como antigamente. Durante semanas após a
doença do pai, observara-o a vaguear com ar apático, de rosto sério e cabisbaixo.
Escaparam-se os três, enquanto a Mamã e o Babi ficavam a ver os soviéticos. Tariq
comprou a um vendedor ambulante três pratos de feijão cozido coberto com espesso
chutney de coentros. Comeram debaixo do toldo de uma loja de tapetes fechada, e depois
Hasina foi procurar a família.
Na viagem de autocarro de regresso a casa, Tariq e Laila sentaram​-se atrás dos pais
dela. A Mamã ia à janela, a olhar para fora, com a fotografia apertada contra o peito. A
seu lado, o Babi escutava impassível um homem que argumentava que os soviéticos
podiam ir​-se embora mas enviariam armas para Najibullah em Cabul.
— Najibullah é um fantoche deles. E vão continuar a guerra por intermédio dele, pode
estar certo.
Alguém, da coxia seguinte, expressou a sua concordância.
A Mamã murmurava para consigo orações intermináveis que prosseguiam até ficar sem
fôlego e ser obrigada a soltar as derradeiras palavras com um débil guincho agudo.

À TARDE, Tariq e Laila foram ao Cinema Park e tiveram de se contentar com um filme
russo dobrado em farsi, o que lhe conferia efeito involuntariamente cómico. Havia um navio
mercante cujo imediato estava apaixonado pela filha do capitão, que se chamava Alyona.
Depois desabava uma violenta tempestade, raios, chuva, o mar encrespado a sacudir o
navio. Um dos marinheiros, completamente frenético, gritava qualquer coisa. Uma voz
afegã, absurdamente calma, traduzia: «O cavalheiro é capaz de fazer o favor de me
passar o cabo?»
Ouvindo aquilo, Tariq soltou uma gargalhada. E depressa se viram os dois acometidos
por um incontrolável ataque de riso. Apenas um se cansava, o outro fungava, e lá se
lançavam os dois num novo acesso. Um homem sentado duas filas adiante virou-se para
trás e mandou​-os calar.
Perto do fim havia uma cena de casamento. O capitão cedera e deixara Alyona
desposar o imediato. Os recém-casados sorriam um ao outro. Toda a gente bebia vodka.
— Eu cá nunca me casarei — sussurrou Tariq.
— Eu também não — concordou Laila, após um momento de hesitação. Receou que a
voz tivesse traído o seu desapontamento pelas palavras dele. Com o coração a galopar,
acrescentou, mais decidida agora: — Nunca.
— Os casamentos são estúpidos.
— Toda aquela confusão.
— Todo o dinheiro que se gasta.
— E para quê?
— Para roupa que nunca mais se veste.
— Ah!
— Se eu chegar a casar-me — rematou Tariq —, terão de arranjar espaço para três no
estrado do casamento. Eu, a noiva, e o fulano que me apontar a pistola à cabeça.
O homem da fila da frente lançou-lhes novo olhar reprovador.
No ecrã, Alyona e o seu novo marido colavam os lábios.
Vendo o beijo, Laila sentiu-se de súbito estranhamente visível. Ficou profundamente
consciente do coração aos saltos, do sangue a latejar nos ouvidos, da figura de Tariq a seu
lado, tenso, imóvel. O beijo arrastava-se. De repente, pareceu-lhe extremamente urgente
não se mexer nem fazer barulho. Pressentiu que Tariq a observava — um olho no beijo, o
outro nela — tal como ela o observava a ele. Estaria ele a ouvir o ar que entrava e saía
das suas narinas, interrogou​-se Laila, esperando por um vacilar subtil, uma imperceptível
alteração do ritmo, que traísse os seus pensamentos?
E como seria beijá-lo, sentir os pêlos macios de cima do seu lábio a roçarem pelos seus
próprios lábios?
Depois Tariq mexeu-se constrangido. Em voz tensa, disse: — Sabias que se lançares
ranho na Sibéria, transforma-se em gelo verde antes de chegar ao chão?
Riram ambos, mas desta vez foi uma risada curta, nervosa. E quando o filme acabou e
saíram para a rua, Laila sentiu-se aliviada ao ver que o céu escurecera e ela não teria de
encontrar os olhos de Tariq à crua luz do dia.
23

ABRIL DE 1992

Passaram três anos.


Durante esse período, o pai de Tariq teve uma série de ataques cardíacos que lhe
deixaram a mão esquerda paralisada e a fala ligeiramente presa. Quando se agitava, o
que acontecia com fre​quência, o problema agravava-se.
Tariq cresceu outra vez demais para a sua perna e recebeu uma nova prótese da Cruz
Vermelha, embora tivesse tido de esperar seis meses por ela.
Tal como Hasina receara, a família dela levou-a para Lahore, onde foi forçada a casar
com o primo proprietário da loja de automóveis. Na manhã da partida, Laila e Giti foram
despedir-se a casa dela. Hasina disse-lhes que o primo, o seu futuro marido, já dera início
ao processo para se mudarem para a Alemanha, onde viviam os irmãos dele. Dentro de
um ano, pensava ela, estariam em Frankfurt. Então choraram num abraço a três. Giti
estava inconsolável. O pai de Hasina ajudou-a a entrar para o banco traseiro do táxi, já
apinhado, e essa foi a derradeira vez que Laila a viu.
A União Soviética desmoronou-se com uma rapidez surpreendente. Parecia a Laila que,
quase todas as semanas, o Babi chegava a casa com notícias da última república a
declarar a independência. Lituânia. Estónia. Ucrânia. No Kremlin, a bandeira soviética foi
hasteada. Nascera a República da Rússia.
Em Cabul, Najibullah mudou de táctica e tentou pintar-se como muçulmano devoto. —
Demasiado pouco e demasiado tarde —, comentou o Babi. — Não se pode ser o chefe da
KHAD num dia e no outro rezar numa mesquita no meio de pessoas a quem se torturaram e
mataram os parentes. — Sentindo o laço a apertar-se em redor de Cabul, Najibullah tentou
chegar a um acordo com os mu​jahidin, mas estes esquivaram-se.
Do seu leito, a Mamã aprovou: — Fizeram eles bem. — Continuou com as suas vigílias
pelos mujahidin e esperou pelo seu desfile da vitória. Esperou pela queda dos inimigos dos
seus filhos.
E, FINALMENTE, isso aconteceu. Em Abril de 1992, o ano em que Laila fazia catorze anos.
Najibullah rendeu-se por fim e foi-lhe concedido santuário nas instalações das Nações
Unidas perto do Palácio Darulaman, a sul da cidade.
A jihad terminara. Os vários regimes comunistas que haviam detido o poder desde a
noite em que Laila nascera estavam todos derrotados. Os heróis da Mamã, os irmãos-de-
guerra de Ahmad e Nur, tinham vencido. E agora, após mais de uma década em que
tinham sacrificado tudo, abandonado as famílias para viverem nas montanhas e lutarem
pela soberania do Afeganistão, os mujahidin vinham para Cabul, em carne e osso — osso
exausto de combate.
A Mamã sabia-lhes os nomes a todos.
Havia Dostum, o exuberante comandante usbeque, líder da facção Junbish-i-Milli, que
tinha fama de variar de alianças. O intenso e carrancudo Gulbuddin Hekmatyar, líder da
facção Hezb-e-Islami, um pastune que estudara engenharia e em tempos matara um
estudante maoista. Rabbani, líder tajique da facção Jamiat-e-Islami, que ensina​ra
islamismo na Universidade de Cabul na época da monarquia. Sayyaf, um pastune de
Paghman com ligações árabes, um muçulmano convicto e líder da facção Ittehad-i-Islami.
Abdul Ali Mazari, líder da facção Hizb-e-Wahdat, conhecido por Baba Mazari entre os seus
companheiros hazaras, com fortes laços xiitas ao Irão.
E, evidentemente, havia o herói da Mamã, o aliado de Rabbani, o melancólico e
carismático comandante tajique, Ahmad Shah Massoud, o Leão do Panjshir. A Mamã
pregara um póster dele no seu quarto. O rosto atraente e pensativo de Massoud, de
sobrancelhas erguidas e o característico pakol inclinado, tornar-se-ia ubíquo em Cabul. Os
seus expressivos olhos pretos fitavam-nos de placards, de paredes, de montras, de
pequenas bandeiras presas nas antenas dos táxis.
Para a Mamã, foi o dia por que ela ansiara. Era a realização de todos aqueles anos de
espera.
Ela podia, finalmente, cessar as suas vigílias e os seus filhos podiam descansar em paz.
NO DIA SEGUINTE à rendição de Najibullah, quando a Mamã se levantou da cama era uma
mulher nova. Pela primeira vez em cinco anos, desde que Ahmad e Nur se haviam tornado
shahid, não se vestiu de preto. Envergou um vestido de linho azul-cobalto com bolas
brancas. Lavou as janelas, varreu o chão, arejou a casa, tomou um longo banho. Tinha a
voz estrídula de regozijo.
— Impõe-se uma festa — declarou ela.
Mandou Laila convidar vizinhos. — Diz-lhes que amanhã daremos um grande almoço!
Na cozinha, a Mamã parou a olhar em volta, de mãos nas ancas e disse, em tom de
censura benévola: — Que fizeste tu à minha cozinha, Laila? Ui. Está tudo num sítio
diferente.
Começou a deslocar tachos e panelas, teatralmente, como se estivesse a reivindicar de
novo a sua posse, a redifinir o seu território, agora que voltara. Laila manteve-se afastada
do seu caminho. Era o melhor. A Mamã conseguia ser tão indómita nos seus impulsos de
euforia como nos seus ataques de cólera. Com uma energia incansável, deitou-se aos seus
cozinhados: sopa de aush com feijão e endro seco, kofta, mantu a ferver ensopado com
iogurte fresco e salpicado de menta.
— Andas a depilar as sobrancelhas — comentou a Mamã enquanto abria um grande
saco de serapilheira com arroz no balcão da cozinha.
— Só um bocadinho.
A Mamã despejou arroz do saco para um enorme tacho preto cheio de água. Arregaçou
as mangas e começou a mexer.
— Como vai o Tariq?
— Tem tido o pai doente — informou Laila.
— Com que idade está ele agora?
— Não sei. Anda pelos sessenta, suponho.
— Refiro-me a Tariq.
— Oh. Dezasseis.
— É um rapaz muito simpático. Não achas?
Laila encolheu os ombros.
— Na realidade já não é bem um rapaz, pois não? Dezasseis. Quase um homem. Não
achas?
— Onde é que queres chegar, Mamã?
— Não é nada — respondeu a Mamã, sorrindo inocentemente. — Nada. Só que tu... Ah,
nada. Em todo o caso é melhor que eu não diga nada.
— Mas vejo que queres dizer — redarguiu Laila, irritada com os rodeios daquela
acusação jocosa.
— Bem. — A Mamã cruzou as mãos na borda do tacho. Laila detectou uma nota pouco
natural, quase ensaiada, na maneira como ela dissera «Bem» e naquele cruzar de mãos.
Receou que se avizinhasse um sermão.
— Uma coisa era quando vocês eram garotinhos e andavam a correr por aí. Não havia
mal nenhum nisso. Era encantador. Mas agora. Agora. Reparei que já usas sutiã, Laila.
Aquela observação apanhou Laila desprevenida.
— E a propósito, podias ter-me falado no sutiã. Eu não sabia. Sinto-me desapontada
por me não teres contado. — Sentindo-se em vantagem, a Mamã insistiu. — Seja como
for, não se trata aqui de mim nem do sutiã. Trata-se de ti e de Tariq. Ele é um rapaz, com​-
preendes, e como tal que lhe interessa a reputação? Mas tu? A reputação de uma
rapariga, principalmente de uma rapariga tão bonita como tu, é uma coisa delicada, Laila.
É como um pássaro mainá nas tuas mãos. Se afrouxares a pressão, lá vai ele.
— Então e os muros que tu trepavas e as escapadelas para o pomar com o Babi? —
repontou Laila, satisfeita com a sua rápida re​cuperação.
— Nós éramos primos. E casámos. Este rapaz pediu a tua mão?
— É um amigo. Um rafiq. Entre nós não há disso — respondeu Laila, em tom defensivo
e não muito convincente. — Para mim é como um irmão — acrescentou ela,
precipitadamente. E percebeu que cometera um erro, ainda antes de uma nuvem cruzar o
rosto da Mamã ensombrando-lhe as feições.
— Isso é que ele não é — declarou a Mamã secamente. — Não compares esse perneta
filho de um carpinteiro aos teus irmãos. Não há ninguém como os teus irmãos.
— Eu não disse que ele... Não era isso que eu queria dizer.
A Mamã suspirou pelo nariz e cerrou os dentes.
— Seja como for — prosseguiu ela, mas sem o recato despreo​cupado de há alguns
instantes —, o que eu quero dizer é que se não tiveres cuidado, as pessoas vão falar.
Laila abriu a boca para dizer qualquer coisa. Não que a Mamã não tivesse razão. Laila
sabia que os dias passados na rua com Tariq em brincadeiras inocentes, sem freios,
tinham terminado. Havia já algum tempo que ela começara a sentir uma estranheza nova
quando se encontravam os dois em público. Uma percepção de estar a ser olhada,
escrutinizada, comentada, como nunca sentira antes. E que não teria sentido mesmo agora
se não fosse um facto fundamental: apaixonara​-se por Tariq. Desesperada e
perdidamente. Quando ele se achava perto, Laila não conseguia evitar ser consumida
pelos mais escan​dalosos pensamentos, visões do seu corpo magro, nu, entrelaçado com o
dela. À noite, estendida na cama, fantasiava-o a beijar-lhe o ventre, imaginando a macieza
dos seus lábios, a sensação da sua mão no pescoço, no peito, nas costas, e mesmo mais
abaixo. Quando se entregava a tais pensamentos sentia-se dominada por uma sensação
de culpa, mas também por uma estranha sensação cálida que lhe irradiava do ventre até
parecer que a cara lhe brilhava ruborizada.
Não. A Mamã tinha razão. Na realidade, mais até do que ela própria pensava. Laila
desconfiava que algumas das vizinhas, se não a maioria, teceria já mexericos a respeito
dela e de Tariq. Notara risinhos maliciosos e estava a par dos murmúrios da vizinhança que
os considerava um casal. Outro dia, por exemplo, ela e Tariq iam a subir a rua e tinham-se
cruzado com Rashid, o sapateiro, que levava a reboque a esposa Mariam, enfiada na sua
burca. Ao passar por eles, Rashid dissera em tom jocoso: «Olhem só Laili e Majnun,»
referindo​-se aos atribulados amantes do poema romântico do século XII, da autoria de
Nezami — uma versão farsi de Romeu e Julieta, dizia o Babi, embora acrescentasse que
Nezami escrevera a sua história de amantes desditosos quatro séculos antes de
Shakespeare.
A Mamã tinha razão.
O que exasperava Laila era que a Mamã não conquistara o direito de a chamar à pedra.
Teria sido diferente se fosse o Babi a abordar o assunto. Mas a Mamã? Todos aqueles
anos de alheamento em que ela se confinara a si própria sem se importar por onde a filha
andava, nem com quem andava, nem o que pensava... Era injusto. Laila sentia-se como se
não valesse mais do que todos aqueles tachos e panelas, algo que podia ser ignorado, e
depois reclamado, a seu bel prazer, quando tal apetecesse à Mamã.
Mas aquele era um grande dia, um dia importante, para todos eles. Seria mesquinho
arruiná-lo por causa disso. Integrando-se no espírito da ocasião, Laila deixou passar.
— Já percebi — disse ela.
— Óptimo! — exclamou a Mamã. — Então temos isso resolvido. E agora, onde está
Hakim? Onde, oh onde, está esse meu maridinho querido?
ESTAVA UMdia ofuscante, sem uma nuvem, perfeito para uma festa. Os homens sentaram-
se no pátio em cadeiras articuladas desengonçadas. Beberam chá, fumaram e
conversaram em voz alta e zombeteira acerca do projecto dos mujahidin. Laila conhecia,
pelo Babi, as suas linhas gerais: o Afeganistão chamava-se agora Estado Islâmico do
Afeganistão. Um Conselho da Jihad Islâmica, constituído em Peshawar por várias das
facções de mujahidin e dirigido por Sibghatullah Mojadidi, supervisionaria as coisas durante
dois meses. Seguir-se-ia um concelho de liderança chefiado por Rabbani, que assumiria o
comando por quatro meses. Durante esses seis meses, realizar-se-ia um loya jirga, um
grande concelho de líderes e anciãos, que formaria um governo interino para deter o poder
durante dois anos, conduzindo a eleições democráticas.
Um dos homens abanava espetos de cordeiro que grelhavam num grill improvisado. O
Babi e o pai de Tariq jogavam xadrez à sombra da velha pereira, com os rostos tensos de
concentração. Tariq estava igualmente sentado junto ao tabuleiro, observando
alternadamente o jogo e escutando a conversa política da mesa adjacente.
As mulheres reuniram-se na sala, no corredor e na cozinha. Tagarelavam enquanto
erguiam os seus bebés e se esquivavam habil​mente, com gestos quase imperceptíveis das
ancas, às crianças que corriam umas atrás das outras pela casa. De um leitor de cassetes
saía retumbante um ghazal de Ustad Sarahang.
Laila estava na cozinha, a preparar garrafas de dogh com Giti. Giti já não era tão
tímida, nem tão séria, como dantes. Há vários meses que a sua perpétua ruga lhe
abandonara a testa. Ria agora aberta​mente, mais frequentemente e — ocorreu de súbito a
Laila — com um toque de coqueteria. Desfizera-se dos insípidos totós e deixara crescer o
cabelo, que salpicava de madeixas vermelhas. Laila acabou por saber que o impulsionador
dessa transformação era um rapaz de dezoito anos a quem Giti despertara a atenção.
Chamava-se Sabir, e era guarda-redes da equipa de futebol do irmão mais velho de Giti.
— Ah, ele tem um sorriso lindíssimo e o cabelo preto e espesso, espesso! — contara
ela a Laila. Ninguém estava a par da sua atracção, é claro. Giti encontrara-se com ele
duas vezes para tomarem chá, em segredo e durante um quarto de hora apenas, numa
pequena casa de chá em Taimani, do outro lado da cidade.
— Ele quer pedir a minha mão, Laila! Talvez já este Verão. Acreditas? Juro-te que não
consigo deixar de pensar nele.
— Então e a escola? — perguntara Laila. Giti inclinara a cabeça e deitara-lhe um olhar
que dizia Nenhuma de nós acredita nisso.
Aos vinte anos, costumava dizer Hasina, eu e Giti já teremos deitado cá para fora
quatro ou cinco miúdos cada uma. Mas tu, Laila, tu serás o orgulho destas duas
simplórias. Tu vais ser alguém. Eu sei que um dia pegarei num jornal e encontrarei a tua
fotografia na primeira página.
Giti estava agora ao lado de Laila, a cortar pepinos, com um ar sonhador e longínquo.
Ali perto, com o seu garrido vestido de Verão, a Mamã descascava ovos cozidos com
Wajma, a parteira, e a mãe de Tariq.
— Vou oferecer ao Comandante Massoud um retrato de Ahmad e Nur — dizia a Mamã
para Wajma, que acenava com a cabeça, esforçando-se por parecer sinceramente
interessada.
— Ele superintendeu pessoalmente ao funeral deles. Disse uma oração na campa. Será
um símbolo de agradecimento pela sua generosidade. — Partiu mais um ovo cozido. —
Consta-me que é um homem sério e honrado. Penso que apreciará o gesto.
Em redor delas, mulheres entravam e saíam da cozinha, levavam para fora taças de
qurma, travessas de mastawa, pães, e dispunham tudo em cima da sofrah estendida no
chão da sala.
De vez em quando Tariq aparecia na cozinha, petiscando daqui e dali.
— Homens não entram — dizia Giti.
— Fora, fora, fora — gritava Wajma.
Tariq sorria do enxotar bem-humorado das mulheres. Parecia ter prazer em não ser
bem-vindo ali, em infectar aquela atmosfera feminina com a sua sorridente irreverência
masculina.
Laila fazia os possíveis por não olhar para ele, não querendo dar àquelas mulheres mais
alimento para mexericos. Portanto conservava os olhos baixos e não se lhe dirigia, mas
recordava um sonho que tivera algumas noites antes: as suas duas caras, juntas num
espelho, sob um macio véu verde. E grãos de arroz, que lhe caíam do cabelo e
ressaltavam no espelho com um leve tinir.
Tariq estendeu a mão para provar um pedaço de guisado de vitela com batatas.
— Ho bacha! — Giti bateu-lhe nas costas da mão. Tariq roubou na mesma o bocado e
riu-se.
Era agora quase trinta centímetros mais alto do que Laila. Bar​beava-se. A cara estava
mais delgada, mais angulosa. Os ombros tinham alargado. Gostava de usar calças
pregueadas, mocassins pretos brilhantes, e camisas de manga curta que realçassem os
músculos recém-adquiridos nos braços — à custa de uns halteres velhos e ferrugentos que
levantava diariamente no seu pátio. O seu rosto adoptara ultimamente uma expressão de
contenção divertida. Come​çara a inclinar a cabeça levemente para o lado quando falava,
arqueando uma sobrancelha ao rir-se. Deixara crescer o cabelo e habituara-se a atirar
para trás as madeixas soltas, com demasiada frequência e sem a menor necessidade.
Também o meio sorriso insolente era novidade.
A última vez que Tariq foi corrido da cozinha, a mãe dele apanhou Laila a deitar-lhe um
olhar de relance. O coração de Laila deu um salto, e ela pestanejou com ar de culpa.
Atarefou-se de imediato a deitar o pepino cortado para a taça de iogurte salgado e
deslaçado com água. Mas continuou a sentir a mãe de Tariq a observá-la, o seu meio
sorriso sabedor, aprovador.
Os homens encheram os pratos e os copos e levaram a refeição para o pátio. Depois
de eles se terem servido, as mulheres e as crianças instalaram-se no chão em volta da
sofrah e comeram.
Só depois de a sofrah ter sido levantada e os pratos estarem empilhados na cozinha,
quando começou o frenesim da preparação do chá e de recordar quem bebia verde e
quem bebia preto, é que Tariq fez um gesto de cabeça e saiu.
Laila esperou cinco minutos e depois seguiu-o.
Encontrou-o três casas rua abaixo, encostado a um muro à entrada de um beco estreito
entre duas casas adjacentes. Entoava uma velha canção pashto, de Ustad Awal Mir:
Da ze ma ziba watan,
Da ze ma dada watan.
Esta é a nossa bela pátria,
Esta é a nossa amada pátria.
E estava a fumar, outro hábito novo, apanhado com os rapazes com quem Laila o via
andar ultimamente. Não os suportava, a esses novos amigos de Tariq. Vestiam todos da
mesma maneira, calças pregueadas, e camisas justas que lhes realçavam os braços e o
peito. Todos usavam demasiada água de colónia, e todos fumavam. Vagueavam pela
vizinhança em grupos, dizendo piadas, rindo alto, às vezes mesmo metendo-se com as
raparigas, com idênticos sorrisos estúpidos e satisfeitos nas caras. Um dos amigos de
Tariq, com base numa levíssima semelhança com Sylvester Stallone, insistia em que lhe
chamassem Rambo.
— A tua mãe matava-te se soubesse que fumas — disse Laila, olhando para um lado e
para o outro antes de se esgueirar para o beco.
— Mas não sabe — retorquiu ele, afastando-se para lhe dar lugar.
— Isso pode mudar.
— E quem é que lhe vai contar? Tu?
Laila bateu o pé, impaciente. — «Conta o teu segredo ao vento, mas não o culpes por
ele o contar às arvores.»
Tariq sorriu, a sobrancelha arqueada. — Quem disse isso?
— Khalil Gibran.
— És uma exibicionista.
— Dá-me um cigarro.
Ele abanou a cabeça negativamente e cruzou os braços. Era uma nova adição ao seu
repertório de poses: encostado à parede, com os braços cruzados, o cigarro pendente ao
canto da boca, a perna boa displicentemente dobrada.
— Por que não?
— Faz-te mal — respondeu ele.
— E a ti, não?
— Eu faço isto por causa das raparigas.
— Quais raparigas?
Ele sorriu com ar complacente. — Elas acham que é sexy.
— Não é.
— Não?
— Garanto-te.
— Não é sexy?
— Ficas com ar khila, como se fosses idiota.
— Isso magoa — comentou ele.
— E, aliás, quais raparigas?
— Tens ciúmes.
— Tenho uma curiosidade indiferente.
— Não podes ter as duas. — Puxou outra fumaça e franziu os olhos através do fumo. —
Aposto que eles agora estão a falar de nós.
Na cabeça de Laila soou a voz da Mamã. Como um pássaro mainá nas tuas mãos. Se
afrouxares a pressão, lá vai ele. Sentiu os remorsos cravarem​-lhe os dentes. Depois
desligou a voz da Mamã e ficou a saborear a maneira como Tariq dissera nós. Como
soava excitante, íntimo, vindo dele. E como era tranquilizador ouvi-lo dizer aquilo assim —
casual​mente, naturalmente. Nós. Era um reconhecimento da sua ligação, cristalizava-a.
— E o que estão eles a dizer?
— Que nós andamos a navegar pelo Rio do Pecado — disse ele. — A comer uma fatia
do Bolo da Impiedade.
— A viajar no Riquexó da Perversidade — ecoou Laila.
— A preparar Qurma Sacrílego.
Riram ambos. Depois Tariq comentou que o cabelo dela estava mais comprido. — Ficas
bem — disse.
Laila esperava não ter corado. — Mudaste de assunto.
— De quê?
— Das raparigas de cabeça oca que te acham sexy.
— Tu sabes.
— Sei o quê?
— Que eu só tenho olhos para ti.
Laila sentiu-se desfalecer interiormente. Tentou ler-lhe o rosto, mas encontrou uma
expressão indecifrável: o sorriso jovial e cretino a par do olhar sombrio e atormentado.
Uma expressão inteligente, calculada para ficar precisamente a meio caminho entre a troça
e a sinceridade.
Tariq esmagou o cigarro com o calcanhar do pé bom. — Então e o que pensas tu de
tudo isto?
— Da festa?
— Quem é que é agora o idiota? Refiro-me aos mujahidin, Laila. À vinda deles para
Cabul.
— Ah.
Começou a contar-lhe uma coisa que o Babi dissera, acerca do casamento tumultuoso
de armas e ego, quando ouviu um rebuliço vindo de casa. Vozes exaltadas. Gritos.
Partiu a correr. Tariq foi a manquejar atrás dela.
Grassava a confusão no pátio. No centro, dois homens engal​finhados rolavam no chão,
com uma faca pelo meio. Laila reconheceu um dos homens da mesa em que se estivera a
discutir política. O outro era o que estivera a abanar os espetos de kebab. Havia diversos
homens a tentar separá-los, mas o Babi não se encontrava entre esses. Man​tinha-se
encostado à parede, a uma distância segura da luta, acom​panhado pelo pai de Tariq, que
chorava.
Laila captou fragmentos das vozes excitadas à sua volta e, jun​tando-os, reconstituiu o
que acontecera: o fulano da mesa da política, um pastune, chamara traidor a Ahmad Shah
Massoud por «ter feito um pacto» com os soviéticos na década de 80. O homem dos
kebab, um tajique, sentira-se ofendido e exigira uma retratação. O pastune recusara. O
tajique dissera que se não fosse Massoud, a irmã do outro homem ainda estaria a «dá-la»
aos soldados sovié​ticos. Tinham chegado a vias de facto. Um deles brandira então uma
faca; havia discordância quanto a quem fora.
Horrorizada, Laila viu que Tariq se precipitara na contenda. Viu igualmente que alguns
dos pacificadores se estavam agora a esmurrar por sua vez. Julgou avistar uma segunda
faca.
Mais tarde, nessa noite, recordou como a confusão degenerara, com homens a tombar
uns por cima dos outros, por entre gritos, brados, injúrias e socos e, no meio de tudo
aquilo, um Tariq sorridente, de cabelo revolto, a perna solta, tentando rastejar dali para
fora.
FOI DE ENTONTECER a rapidez com que tudo se embrulhou.
O concelho de liderança foi formado prematuramente. Elegeu Rabbani presidente. As
outras facções gritaram nepotismo. Massoud pediu paz e paciência.
Hekmatyar, que fora excluído, ficou furioso. Os hazaras, com a sua longa história de
grupo oprimido e negligenciado, ferveram de cólera.
Trocaram-se insultos. Apontaram-se dedos. Voaram acusações. Terminaram-se
irritadamente reuniões e bateram-se portas. A cidade susteve a respiração. Nas
montanhas, os pentes carregados começaram a entrar nas kalashnikovs.
Os mujahidin, armados até aos dentes, mas faltando-lhes agora um inimigo comum,
tinham encontrado o inimigo uns nos outros.
O dia do ajuste de contas chegara por fim a Cabul.
E quando os rockets começaram a chover sobre Cabul, as pessoas correram a abrigar-
se. A Mamã também, literalmente. Voltou a vestir​-se de preto, enfiou-se no quarto, cerrou
os cortinados, e puxou a manta para cima da cabeça.
24

O que eu mais odeio — disse Laila para Tariq —, é o assobio, o maldito assobio.
Tariq acenou concordando.
Não era tanto o assobio em si, pensou Laila mais tarde, mas os segundos entre o seu
início e o impacto. O intervalo breve e inter​minável em que se sentia suspensa. O não
saber. A espera. Como um réu prestes a ouvir o veredicto.
Acontecia com frequência ao jantar, quando ela e o Babi estavam à mesa. Quando
aquilo começava, erguiam bruscamente as cabeças. Escutavam o assobio com os garfos
suspensos no ar, a comida por mastigar nas bocas. Laila via o reflexo das suas caras
semi-iluminadas na janela negra de breu, as suas sombras imóveis na parede. O assobio.
Depois a explosão, felizmente noutro lado qualquer, seguida de uma expulsão de ar e do
conhecimento de que eles haviam sido poupados, por agora, enquanto algures, no meio de
gritos e nuvens sufocantes de fumo, se revolvia com frenesim, se escavava
desesperadamente com as mãos nuas, para retirar dos escombros o que restava de uma
irmã, de um irmão, de um neto.
Mas o reverso de ter sido poupado era a agonia de se interrogar sobre quem não fora.
Após a explosão de cada rocket, Laila corria para a rua, balbuciando uma prece, certa de
que, desta vez, com certeza desta vez, iriam encontrar Tariq enterrado no meio do
cascalho e do fumo.
À noite, Laila ficava estendida na cama a observar os súbitos relâmpagos de luz branca
reflectidos na sua janela. Escutava o ratatatá de disparos automáticos e contava os rockets
que passavam assobiando por cima da sua cabeça, enquanto a casa estremecia e
choviam sobre ela pedaços de estuque do tecto. Algumas noites, quando a luz dos rockets
era tão brilhante que se podia ler um livro, o sono não chegava. E, se chegava, os sonhos
de Laila eram repletos de incêndios, membros decepados e gemidos dos feridos.
A manhã não trazia qualquer alívio. Ressoava a chamada dos muezzin para o namaz e
os mujahidin pousavam as armas, viravam​-se para oeste, e rezavam. Depois enrolavam os
tapetes, carregavam as armas, e as montanhas disparavam sobre Cabul, e Cabul
disparava sobre as montanhas, enquanto Laila e o resto da cidade assistiam tão
impotentes como o velho Santiago a ver os tubarões levarem pedaços do seu troféu
piscatório.
PARA ONDE QUER QUE FOSSE, LAILAvia os homens de Massoud. Via-os a percorrer as ruas e
a deter carros de cem em cem metros para interrogatórios. Sentavam-se a fumar em cima
de tanques, vestidos com os seus camuflados e os seus ubíquos pakols. Espreitavam os
transeuntes de trás de sacos de areia empilhados nos cruzamentos.
Não que Laila ainda saísse muito. E, quando tal acontecia, era sempre acompanhada
por Tariq, que parecia adorar esse papel de cavaleiro andante.
— Comprei uma pistola — disse ele um dia. Estavam sentados lá fora, no chão, sob a
pereira do pátio de Laila. E mostrou-lha. Disse que era uma semiautomática, uma Beretta.
A Laila aquilo parecia simplesmente preto e mortífero.
— Não gosto — declarou ela. — As armas assustam-me.
Tariq voltou o pente na mão.
— A semana passada, foram encontrados três corpos numa casa em Karteh-Seh —
comentou ele. — Soubeste? Irmãs. Violadas as três. As gargantas cortadas. Alguém lhes
arrancara os anéis dos dedos à dentada. Percebia-se pelas marcas de dentes...
— Não quero ouvir isso...
— E eu não quero incomodar-te — continuou Tariq. — Sim​plesmente... sinto-me melhor
trazendo isto.
Ele era agora a sua linha de ligação às ruas. Era ele quem ouvia o que corria e lhe
transmitia. Foi Tariq que lhe contou, por exem​plo, que milicianos estacionados nas
montanhas exercitavam a sua pontaria — e faziam apostas acerca dessa pontaria —
matando civis lá em baixo, homens, mulheres, crianças, escolhidos ao acaso. Con​tou-lhe
que eles disparavam rockets contra os carros mas, por qualquer razão, deixavam os táxis
em paz — o que explicou a Laila a recente epidemia de pessoas que pintavam os carros
de amarelo.
Tariq elucidou-a acerca das fronteiras existentes no interior de Cabul, incertas e em
permanente mudança. Laila aprendeu com ele, por exemplo, que aquela estrada, para
cima da segunda acácia à esquerda, pertencia a um senhor da guerra; que os quatro
quarteirões seguintes, a acabar na padaria ao lado da farmácia demolida, era o sector de
outro senhor da guerra; mas que se ela atravessasse essa rua e andasse menos de um
quilómetro para oeste, encontrar-se-ia no território de ainda outro senhor da guerra e
seria, portanto, alvo fácil para o fogo de atiradores soltos. Era assim que se chamavam
actualmente os heróis da Mamã. Senhores da guerra. Laila também lhes ouvira chamar
tofangdar. Fuzileiros. Outros ainda lhes chamavam mujahidin, mas quando tal acontecia,
faziam um trejeito — uma expressão sarcástica, de asco — e a palavra exalava uma
profunda aversão e um profundo desprezo. Como se fosse um insulto.
Tariq voltou a enfiar o pente na pistola.
— Tens coragem? — indagou Laila.
— Para quê?
— Para usar essa coisa. Para matar com ela.
Tariq enfiou a arma no cós das calças. Depois disse uma coisa simultaneamente
encantadora e terrível. — Por ti — afirmou ele. — Por ti, eu mataria, Laila.
Aproximou-se mais dela e as suas mãos roçaram, uma vez, e depois outra. Quando os
dedos de Tariq começaram hesitantemente a entrelaçar-se nos seus, Laila deixou. E
quando ele, subitamente, se inclinou e comprimiu os lábios contra os seus, Laila voltou a
deixar.
Nesse instante, toda aquela conversa da Mamã acerca de reputações e pássaros mainá
lhe pareceu irrelevante. Absurda, até. No meio de toda aquela matança e saque, de todo
aquele horror, era uma coisa inofensiva estar ali sentada debaixo de uma árvore e beijar
Tariq. Uma coisa insignificante. Um prazer facilmente desculpável. Portanto deixou-o beijá-
la, e quando ele se afastou foi ela quem se esticou e o beijou a ele, com o coração aos
pulos na garganta, o rosto a arder, um fogo a queimar-lhe o baixo ventre.

EM JUNHO DESSE ANO , 1992, houve fortes combates em Cabul oeste entre forças pastune
do senhor da guerra Sayyaf e os hazaras da facção Wahdat. Os projécteis destruíram
postes eléctricos e pulveriza​ram quarteirões inteiros de lojas e lares. Laila ouviu dizer que
milicianos pastune andavam a arrombar casas de hazaras, matando famílias inteiras, em
estilo de execução, e que os hazaras exerciam represálias raptando civis pastune, violando
raparigas pastune, bom​bardeando os bairros pastune e matando indiscriminadamente.
Todos os dias eram encontrados corpos amarrados a árvores, por vezes irreconhecíveis
de tão queimados. Frequentemente, tinham levado um tiro na cabeça, tinham-lhes
arrancado os olhos, ou cortado a língua.
O Babi tentou de novo convencer a Mamã a abandonar Cabul.
— Eles vão resolver isto — obstinava-se a Mamã. — Estes comba​tes são temporários.
Eles vão sentar-se à mesa e concertar algo.
— Fariba, a única coisa que esta gente conhece é guerra — insistiu o Babi. —
Aprenderam a andar com o biberão numa das mãos e uma arma na outra.
— Quem és tu para falar? — ripostou a Mamã. — Lutaste pela jihad? Abandonaste tudo
o que tinhas e arriscaste a tua vida? Se não fossem os mujahidin, ainda seríamos
escravos dos soviéticos, lembra​-te bem. E agora queres que nós os traiamos!
— Não somos nós os traidores, Fariba.
— Então vai tu. Leva a tua filha e foge. Manda-me um postal. Mas a paz há-de chegar e
eu, pelo menos, vou esperar por ela.
As ruas tornaram-se tão inseguras que o Babi fez uma coisa impensável: tirou Laila da
escola.
Passou a encarregar-se ele de a ensinar. Todos os dias, depois do pôr do Sol, Laila ia
para o seu escritório e, enquanto Hekmatyar dispa​rava os seus rockets contra Massoud
dos arredores sul da cidade, o Babi e ela discutiam os ghazals de Hafez e as obras de
Ustad Khalilullah Khalili, o amado poeta afegão. O Babi ensinou-a a derivar equações de
segundo grau, mostrou-lhe como decompor polinómios em factores e traçar curvas
paramétricas. Quando estava a ensinar, o Babi transformava-se. No seu elemento, no meio
dos seus livros, parecia mais alto a Laila. Era como se a sua voz se erguesse de um sítio
mais calmo, mais profundo, e não pestanejava tanto. Laila imaginava-o como devia ter sido
em tempos, apagando o quadro com gestos graciosos, olhando por cima do ombro de um
aluno, com ar paternal e interessado.
Mas não era fácil prestar atenção. Laila estava constantemente a distrair-se.
— Como se calcula o volume da pirâmide? — perguntava o Babi, e a única coisa em
que Laila conseguia pensar era na macieza dos lábios de Tariq, no calor do seu hálito na
boca dela, no seu próprio reflexo nos olhos cor de avelã dele. Beijara-o mais duas vezes
desde aquele dia debaixo da árvore, mais longamente, mais apaixonadamente, e, pensava
ela, menos desastradamente. De ambas as vezes se tinham encontrado em segredo no
beco escuro onde ele fumara um cigarro no dia do almoço de festa da Mamã. Da segunda
vez, deixara-o tocar-lhe no seio.
— Laila?
— Sim, Babi.
— Pirâmide. Volume. Onde é que tens a cabeça?
— Desculpa, Babi. Estava, hum... Vejamos. Pirâmide. Pirâmide. Um terço da área da
base vezes a altura.
O Babi concordava com ar confuso, demorando o olhar nela, e Laila pensava nas mãos
de Tariq, a apertarem-lhe o seio, a escorregarem-lhe pela nuca, enquanto se beijavam uma
e outra vez.
UM DIA, NESSE mesmo mês de Junho, Giti voltava para casa da escola com duas colegas.
Apenas a três quarteirões da casa de Giti, um rocket desgarrado atingiu as raparigas.
Mais tarde, nesse dia, Laila soube que Nila, a mãe de Giti, andara a correr de cima para
baixo na rua onde ela fora morta, apanhando bocados do corpo da filha num avental, e
gritando histericamente. O pé direito de Giti, ainda com a sua meia de nylon e mocassim
púrpura, seria encontrado duas semanas depois em cima de um telhado, já em
decomposição.
Na fatiha de Giti, no dia a seguir à chacina, Laila conservou-se sentada, aturdida, numa
sala repleta de mulheres chorosas. Era a primeira vez que morria alguém seu conhecido,
de quem ela fora íntima, que ela amara. Não conseguia assimilar a inescrutável realidade
de que Giti já não estava viva. Giti, com quem trocara bilhetinhos secretos durante as
aulas, cujas unhas pintara, cujos pêlos do queixo arrancara com uma pinça. Giti, que ia
casar-se com Sabir, o guarda-redes. Giti estava morta. Morta. Feita em pedaços. Laila
começou finalmente a chorar pela amiga. E todas as lágrimas que não fora capaz de
derramar no funeral dos irmãos lhe saíram agora em cascatas.
25

Laila não conseguia mover-se, como se tivesse cimento solidificado em todas as suas
articulações. Havia uma conversa a decorrer, e Laila sabia que se encontrava num dos
seus extremos, mas sentia-se distante, como se estivesse apenas a escutar às
escondidas. Enquanto Tariq falava, viu a sua vida como uma corda apodrecida, a oscilar, a
desen​rolar-se, as fibras a separarem-se, a tombarem.
Estava uma tarde quente e sufocante nesse Agosto de 1992, e eles encontravam-se na
sala da casa de Laila. A Mamã estivera todo o dia com dores de estômago, e, alguns
minutos antes, apesar dos rockets que Hekmatyar lançava de sul, o Babi levara-a a um
médico. E agora Tariq estava sentado no sofá ao lado de Laila, a olhar para o chão, com
as mãos entre os joelhos.
A dizer que ia partir.
Não da vizinhança. Não de Cabul. Mas do Afeganistão.
Partir.
Fora como se um raio fulminasse Laila.
— Para onde? Para onde é que vais?
— Primeiro para o Paquistão. Peshawar. Depois não sei. Talvez o Hindustão. O Irão.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Quero dizer, há quanto tempo é que sabes?
— Há alguns dias. Ia contar-te, Laila, juro, mas não consegui arranjar coragem. Sabia
como ias ficar transtornada.
— Quando?
— Amanhã.
— Amanhã?
— Laila, olha para mim.
— Amanhã.
— É por causa do meu pai. O coração dele não aguenta mais todos estes combates e
carnificinas.
Laila enterrou a cara nas mãos, com uma vaga de terror a inundar​-lhe o peito.
Já devia estar à espera disto, pensou ela. Quase toda a gente que conhecia tinha feito
as malas e partido. A vizinhança ficara pratica​mente despojada de caras familiares, e
agora, apenas quatro meses após o irromper da luta entre as diversas facções de
mujahidin, quase não reconhecia ninguém nas ruas. A família de Hasina fugira em Maio,
para Teerão. Wajma e o seu clã tinham ido para Islamabad nesse mesmo mês. Os pais e
as irmãs de Giti partiram em Junho, pouco depois da morte de Giti. Laila não sabia para
onde eles tinham ido — ouvira rumores de que se dirigiam a Mashad, no Irão. Após a
partida das pessoas, as suas casas permaneciam vagas durante alguns dias, e depois ou
os milicianos as ocupavam ou mudavam-se para lá estranhos.
Estavam todos a partir. E agora também Tariq.
— E a minha mãe já não é uma mulher nova — dizia ele. — Vivem num terror constante.
Laila, olha para mim.
— Devias ter-me dito.
— Por favor, olha para mim.
Laila soltou um gemido. Depois um grito. E depois começou a chorar, e quando ele lhe
foi enxugar a face com a ponta do polegar, ela afastou-lhe a mão. Era egoísta e irracional,
mas estava furiosa com ele por a abandonar, Tariq, que era como que uma extensão dela,
cuja sombra brotava ao lado da sua em cada recordação. Como podia ele deixá-la?
Esbofeteou-o. Depois voltou a esbofeteá-lo e puxou-lhe o cabelo, e ele teve de a agarrar
pelos pulsos, e começou a dizer qualquer coisa que ela não percebeu, falava docemente,
em tom sensato, e acabaram ficando com as testas juntas, os narizes juntos, e Laila sentiu
de novo o calor do hálito dele nos seus lábios.
E quando, de repente, Tariq se inclinou, ela correspondeu.
NOS DIAS E SEMANAS que se seguiram, Laila lutou freneti​camente por gravar na memória o
que acontecera a seguir. Tal como um amante de arte em fuga de um museu a arder,
agarrava o que podia — um olhar, um sussurro, um gemido — para o impedir de ser
destruído, para o preservar. Mas o tempo é o mais inexorável dos incêndios e, no final, ela
não conseguiu salvar tudo. Ainda assim tinha alguma coisa: aquela primeira tremenda
punhalada de dor lá em baixo. O raio de sol oblíquo na carpete. O calcanhar a roçar a
aspereza fria da perna artificial dele, apressadamente desprendida e pousada ao lado. As
suas mãos a segurar​-lhe os cotovelos. O vermelho-vivo da marca de nascença em forma
de bandolim invertido sob a sua espádua. O rosto dele pairando sobre o dela. Os seus
caracóis negros a baloiçar, a fazerem-lhe cócegas nos lábios e no queixo. O terror de
poderem ser descobertos. A in​credulidade perante a sua própria ousadia, a sua coragem.
O estranho e indescritível prazer, entrelaçado com a dor. E a expressão, a miríade de
expressões, de Tariq: apreensão, ternura, desculpa, embaraço, mas prin​cipalmente,
principalmente, desejo ardente.
A SEGUIR FOI UM FRENESIM. Camisas abotoadas à pressa, cintos apertados, cabelos
penteados com os dedos. Sentaram-se então, lado a lado, com o cheiro um do outro, as
caras afogueadas, ambos petrificados, ambos mudos perante a enormidade do que
acabara de acontecer. Do que tinham feito.
Laila viu três gotas de sangue na carpete, de sangue seu, e imaginou os pais sentados
no sofá mais tarde, ignorando o pecado que ela cometera. E depois instalou-se a
vergonha, e a culpa, e lá em cima o relógio continuava a fazer tique-taque, terrivelmente
alto aos ouvidos de Laila. Como o martelo de um juiz a bater repetidamente, condenando-
a.
Então Tariq disse: — Anda comigo.
Por um instante, Laila quase acreditou que era possível. Ela, Tariq e os pais dele,
partindo juntos. Fazendo as malas, subindo para uma camioneta, deixando para trás toda
aquela violência, indo ao encontro de felicidade, ou de problemas, mas o que quer que
surgisse enfrentá​-lo-iam juntos. O isolamento árido, a solidão mortal, não eram inevitáveis.
Ela podia ir. Eles podiam continuar juntos.
Teriam mais tardes como aquela.
— Quero casar contigo, Laila.
Pela primeira vez desde que haviam estado deitados no chão, Laila ergueu os olhos
para encontrar os dele. Perscrutou-lhe a cara. Desta vez não havia sinais de zombaria. O
seu olhar era de convicção, de sinceridade ingénua mas férrea.
— Tariq...
— Deixa-me casar contigo, Laila. Hoje. Podíamos casar hoje.
Começou a dizer mais, acerca de irem a uma mesquita, encon​trarem um mullah, duas
testemunhas, uma rápida nikka...
Mas Laila pensava na Mamã, tão obstinada e intransigente como os mujahidin, com o ar
em seu redor sufocante de rancor e desespero, e pensava no Babi, o seu triste e patético
opositor, que há muito se rendera.
Por vezes... sinto que só te tenho a ti, Laila.
Eram essas as circunstâncias da vida dela, as suas inescapáveis verdades.
— Vou pedir a tua mão a kaka Hakim. Ele dar-nos-á a sua bênção, Laila, estou certo.
Tinha razão. O Babi dar-lhes-ia a sua bênção. Mas isso destroçá​-lo-ia.
Tariq continuava a falar, em voz abafada, depois alta, suplicando, convencendo; o rosto
esperançado, depois magoado.
— Não posso — disse Laila.
— Não digas isso. Eu amo-te.
— Desculpa...
— Eu amo-te.
Quanto tempo esperara para o ouvir pronunciar aquelas palavras? Quantas vezes
sonhara com elas? Ali estavam, finalmente proferidas, e a ironia esmagou-a.
— Não posso deixar o meu pai — disse Laila. — Só me tem a mim. O coração dele
também não aguentaria.
Tariq sabia. Sabia que ela não podia ignorar as obrigações da sua vida da mesma
maneira que ele também o não podia fazer, mas aquilo prosseguiu, as súplicas dele e as
recusas dela, as propostas dele e as desculpas dela, as lágrimas de ambos.
Por fim, Laila teve de o obrigar a ir-se embora.
À saída, obrigou-o a prometer que partiria sem despedidas. Fe​chou-lhe a porta e
encostou-se a ela, a tremer, ouvindo os murros que ele desferia, um braço agarrado ao
ventre e uma mão a tapar a boca, enquanto ele continuava a falar do outro lado,
prometendo voltar, voltar para a vir buscar. Permaneceu ali até ele se cansar, até ele
desistir, e depois escutou-lhe os passos incertos até se extinguirem, até tudo ficar
silencioso, exceptuando o crepitar das armas nas montanhas e o seu próprio coração a
martelar-lhe no ventre, nos olhos, nos ossos.
26

Era, de longe, o dia mais quente do ano. As montanhas aprisio​navam o calor


escaldante, asfixiavam a cidade como fumo. Há vários dias que não havia electricidade.
Por toda a Cabul, as ventoinhas paradas pareciam troçar.
Laila estava estendida imóvel no sofá da sala, com a blusa man​chada de suor. Cada
baforada de respiração queimava-lhe a ponta do nariz. Sentia os pais a falarem no quarto
da Mamã. Duas noites antes, e novamente na noite anterior, acordara e pensara ter ouvido
as vozes deles cá em baixo. Falavam agora todos os dias, desde a história da bala, desde
o novo buraco no portão.
Lá fora, o bum distante da artilharia e depois, mais perto, o matraquear de uma longa
rajada de metralhadora, seguida de outra.
Dentro de Laila travava-se igualmente uma batalha: culpa de um lado, partilhada com
vergonha, e, do outro, a convicção de que o que ela e Tariq tinham feito não era pecado;
que fora uma coisa natural, boa, bela, inevitável mesmo, instigada pelo conhecimento de
que poderiam não voltar a ver-se.
Virou-se de lado no sofá, esforçando-se por recordar algo: a certa altura, quando se
encontravam no chão, Tariq apoiara a testa na dela. Depois ofegara qualquer coisa, Estou
a magoar-te? ou Isto está a magoar-te?
Laila não conseguia decidir qual das frases ele dissera.
Estou a magoar-te?
Isto está a magoar-te?
Só duas semanas desde que ele partira, e já começava a acontecer. O tempo embotava
as pontas dessas recordações aguçadas. Laila insistiu mentalmente. O que dissera ele?
De repente, parecia-lhe vital saber.
Cerrou os olhos. Concentrou-se.
Com o passar do tempo, cansar-se-ia lentamente desse exercício. Acharia cada vez
mais fatigante invocar, desempoeirar, ressuscitar uma vez mais o que morrera havia muito.
De facto, chegaria um dia, anos mais tarde, em que Laila deixaria de chorar a sua perda.
Ou, pelo menos, não o faria tão inexoravelmente; nem pouco mais ou menos. Chegaria um
dia em que os pormenores do rosto dele começariam a escapar ao punho da memória, em
que ouvir na rua uma mãe chamar o filho Tariq já não a deixaria perdida. Não sentiria a falta
dele como agora, em que o tormento da sua ausência era uma companhia constante, como
a dor fantasma de uma amputação.
Só lá muito ocasionalmente, quando Laila fosse já uma mulher adulta, a passar uma
camisa ou a empurrar os filhos num baloiço, é que algo trivial, talvez a tepidez de uma
carpete sob os pés num dia quente ou a curva da testa de um estranho, desencadearia
uma recordação dessa tarde juntos. E tudo lhe ocorreria de repente. A espon​taneidade. A
surpreendente imprudência. A inépcia. A dor do acto, o prazer, a tristeza. O calor dos seus
corpos entrelaçados.
E essa memória invadi-la-ia, tirando-lhe a respiração.
Mas depois passaria. O momento passaria. Deixando-a vazia, sem sentir nada excepto
uma vaga inquietação.
Decidiu que ele tinha dito Estou a magoar-te? Sim. Fora isso. Laila sentiu-se feliz por se
ter recordado.
Então o Babi surgiu do corredor, chamando-a do cimo das escadas, pedindo-lhe para
subir depressa.
— Ela concordou! — anunciou ele, a voz trémula de excitação reprimida. — Vamos
partir, Laila. Os três. Vamos deixar Cabul.
NO QUARTO DA MAMÃ, sentaram-se os três em cima da cama. Lá fora, os rockets cruzavam
o céu enquanto as forças de Hekmatyar e Massoud lutavam sem cessar. Laila sabia que
algures na cidade alguém acabara de morrer, e que uma nuvem de fumo negro pairava
sobre algum edifício que se desmoronara numa massa de pó ardente. De manhã teriam de
se desviar de corpos. Alguns seriam recolhidos. Outros não. Depois os cães de Cabul, que
tinham adquirido o gosto por carne humana, banquetear-se-iam.
Apesar disso, Laila sentia vontade de correr por essas ruas. Mal podia conter a sua
felicidade. Era preciso um esforço para ficar sentada, para não gritar de alegria. O Babi
dissera que iriam primeiro para o Paquistão, a fim de solicitarem vistos. O Paquistão, onde
estava Tariq! Tariq partira apenas há dezassete dias, calculou Laila, excitada. Se ao menos
a Mamã se tivesse decidido dezassete dias antes, poderiam ter partido juntos. Estaria com
Tariq neste momento! Mas isso agora não interessava. Iam para Peshawar — ela, a Mamã
e o Babi — e lá encontrariam Tariq e os pais dele. Com certeza. Tratariam da sua
documentação em conjunto. Depois, quem sabe? Quem sabe? Europa? América? Talvez,
como o Babi dizia sempre, algures perto do mar...
A Mamã estava meio sentada, encostada à cabeceira da cama. Tinha os olhos inchados
e puxava os cabelos.
Três dias antes, Laila saíra para apanhar um pouco de ar. Estava encostada ao portão
da entrada, quando ouvira um sonoro craque e algo passara a zumbir pela sua orelha
direita, fazendo voar lascas de madeira diante dos seus olhos. Depois da morte de Giti, e
dos milhares de rajadas e miríades de rockets que haviam caído em Cabul, fora a visão
daquele solitário buraco redondo no portão, a menos de três dedos do sítio onde estivera
a cabeça de Laila, que despertara a Mamã. Que a fizera ver que uma guerra já lhe havia
custado dois filhos; esta última podia custar-lhe a que lhe restava.
Das paredes do quarto, Ahmad e Nur sorriam para baixo. Laila observou os olhos da
Mamã, saltando agora de uma fotografia para a outra, com ar culpado. Como que
procurando o seu consentimento. A sua bênção. Como que pedindo o seu perdão.
— Não há aqui nada que nos prenda — disse o Babi. — Os nossos filhos morreram,
mas ainda temos Laila. Ainda nos temos um ao outro, Fariba. Podemos construir uma vida
nova.
O Babi esticou-se sobre a cama. Quando ele se curvou para lhe pegar nas mãos, a
Mamã deixou. O seu rosto exibia um ar de concessão. De resignação. Deram-se as mãos,
levemente, e depois abraçaram-se em silêncio. A Mamã enterrou a cara no pescoço do
Babi, apertando-lhe um pedaço da camisa.
Nessa noite, a excitação roubou horas de sono a Laila. Estendida na cama, observava o
horizonte a iluminar-se em violentos tons de laranja e amarelo. A dada altura, contudo,
apesar da exaltação que a possuía e do matraquear do fogo de artilharia lá fora,
adormeceu.
E sonhou.
Estão numa faixa de praia, sentados numa manta. O dia é frio, enevoado, mas está
calor ao lado de Tariq, debaixo do cobertor que lhes envolve os ombros. Vê carros
estacionados atrás de uma cerca baixa, pintada de branco, com a tinta lascada, debaixo
de um renque de palmeiras varridas pelo vento. O vento faz-lhe chorar os olhos, enterra​-
lhes os sapatos na areia e empurra rolos de erva seca dos cumes arredondados de uma
duna para outra. Contemplam barcos à vela a baloiçar ao longe. Em seu redor as gaivotas
gritam e estremecem ao vento. O vento faz erguer mais uma nuvem de areia das dunas
baixas a barlavento. Então há um ruído, como uma melodia, e ela diz-lhe uma coisa que o
Babi lhe ensinou muitos anos antes acerca do canto da areia.
Ele esfrega-lhe as sobrancelhas, soltando grãos de areia. Ela avista de relance a
aliança no dedo dele. É idêntica à dela — de ouro, com um motivo sinuoso gravado a toda
a volta.
É verdade, diz-lhe ela. É a fricção, de grão contra grão. Escuta. Ele obedece. Franze a
testa. Esperam ambos. Ouvem de novo. Um som gemebundo, quando o vento é suave, e
quando sopra forte, um coro agudo como um miado estridente.
O BABI DISSE que deviam levar apenas as coisas absolutamente necessárias. Venderiam o
resto.
— Isso dará para nos aguentarmos em Peshawar até eu encontrar trabalho.
Durante os dois dias seguintes, juntaram coisas para vender. Puseram-nas em grandes
pilhas.
No seu quarto, Laila separou blusas e sapatos velhos, livros, brin​quedos. Ao espreitar
para debaixo da cama, encontrou uma minúscula vaca de vidro amarelo que Hasina lhe
dera durante o recreio no quinto ano. Um porta-chaves com uma bola de futebol em
miniatura, presente de Giti. Uma pequena zebra de madeira com rodas. Um astronauta de
cerâmica que ela e Tariq haviam encontrado um dia na valeta. Ela tinha seis anos e Tariq
oito. Recordava-se de que tinham discutido um bocadinho sobre qual dos dois o
encontrara.
Também a Mamã juntava as suas coisas. Mas nos seus movimentos havia relutância, e
os seus olhos tinham uma expressão letárgica e longínqua. Desfez-se dos seus pratos
bons, dos naperons, de todas as suas jóias — excepto a aliança — e da maior parte da
roupa.
— Não vai vender isto, pois não? — indagou Laila, erguendo o vestido de casamento da
Mamã, que lhe tombou em cascatas pelo colo. Tocou na renda e nas fitas ao longo do
decote, nas pérolas cosidas à mão nas mangas.
A Mamã encolheu os ombros e tirou-lho, atirando-o bruscamente para um monte de
roupa. Como se estivesse a arrancar um penso rápido de um só golpe, pensou Laila.
Mas a tarefa mais dolorosa calhou ao Babi.
Laila foi encontrá-lo de pé no seu escritório, observando as pra​teleiras com uma
expressão pesarosa. Vestia uma t-shirt em segunda​-mão, estampada com a imagem da
ponte vermelha de São Francisco. O nevoeiro erguia-se cerrado das águas revoltas e
engolia as torres da ponte.
— Conheces a velha questão — comentou ele. — Estás numa ilha deserta. Podes ter
cinco livros. Quais é que escolhes? Nunca pensei ter realmente de o fazer.
— Vamos ter de te iniciar uma nova colecção, Babi.
— Hm. — Sorriu tristemente. — Não posso crer que vou deixar Cabul. Frequentei a
escola aqui, aqui tive o meu primeiro emprego, tornei-me pai nesta cidade. É estranho
pensar que em breve estarei a dormir sob o céu de outra cidade.
— Também eu acho estranho.
— Há um poema a respeito de Cabul que me tem andado a dançar na cabeça durante
todo o dia. Foi escrito por Saib-e-Tabrizi no século XVII, creio. Eu sabia o poema inteiro,
mas agora só consigo lembrar​-me de duas linhas:
Não se podem contar as luas que brilham sobre os seus telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
que se escondem por trás dos seus muros.

Laila ergueu os olhos e viu que ele chorava. Passou-lhe um braço pela cintura. — Oh,
Babi. Nós voltaremos. Quando esta guerra acabar. Voltaremos para Cabul, inshallah.
Verás.
NA MANHÃ DO TERCEIRO DIA, Laila começou a transferir as pilhas de coisas para o pátio e a
depositá-las junto à porta da entrada. Tencionavam chamar um táxi e levar tudo a uma loja
de penhores.
Laila ia e vinha da casa para o pátio, transportando rimas de roupa e pratos, e caixa
após caixa dos livros do Babi. Ao meio-dia deveria sentir-se exausta, pois o monte de
coisas junto da porta já lhe chegava à altura da cintura. Mas sabia que a cada viagem
ficava muito mais perto de voltar a ver Tariq e assim, a cada viagem, as suas pernas
ficavam mais lépidas e os braços menos cansados.
— Vamos precisar de um grande táxi.
Laila olhou para cima. Era a Mamã, que falava do seu quarto no piso superior.
Debruçada na janela, com os cotovelos apoiados no parapeito. O sol, quente e brilhante,
tocou o seu cabelo grisalho, brilhou no rosto magro e esvaído. Vestia o mesmo vestido
azul-cobalto que usara no dia do almoço de festa, quatro meses antes, um vestido jovem
destinado a uma mulher jovem, mas, por instantes, a Mamã pareceu-lhe velha. Uma velha
de braços descarnados, de têmporas cavadas e olhos apáticos rodeados por negros
círculos de fadiga, uma criatura totalmente diferente da mulher roliça, de cara redonda,
que sorria radiante nas fotografias pouco nítidas do casamento.
— Dois grandes táxis — concordou Laila.
Via igualmente o Babi, na sala, a empilhar caixas de livros em cima umas das outras.
— Vem para dentro quando acabares isso — disse a Mamã. — Vamos sentar-nos e
almoçar. Ovos cozidos e restos de feijão.
— O meu prato preferido — comentou Laila.
Pensou de súbito no seu sonho. Ela e Tariq numa manta. O oceano. O vento. As dunas.
Como era mesmo o canto das areias, perguntou-se?
Deteve-se. Viu um lagarto cinzento sair de uma fenda no solo. Virou rapidamente a
cabeça de um lado para o outro. Pestanejou. Precipitou-se para debaixo de uma pedra.
Laila visualizou de novo a praia. Mas agora o canto ouvia-se por toda a parte. E
aumentava. Cada vez mais alto, cada vez mais sonoro a cada instante que passava.
Inundou-lhe os ouvidos. Afogou tudo o resto. As gaivotas eram agora mimos emplumados,
abrindo e fechando os bicos silenciosamente, e as ondas rebentavam com espuma e
salpicos, mas sem rugido. As areias continuavam a cantar. Gritavam agora. Um som
semelhante a... um tinido?
Um tinido não. Não. Um assobio.
Laila deixou cair os livros aos pés. Olhou para o céu. Protegeu os olhos com uma das
mãos.
Depois um gigantesco rugido.
Por trás dela, um relâmpago branco.
O chão tremeu sob os seus pés.
Qualquer coisa quente e violenta a atingiu pelas costas, fazendo-a saltar das sandálias.
Levantou-a. E depois ela voou, girando e rodo​piando no ar, vendo alternadamente céu e
terra, céu e terra. Um grande pedaço de madeira incendiada passou sibilando, no meio de
milhares de lascas de vidro, e pareceu-lhe que as conseguia ver a todas, individualmente,
voando à sua volta, girando lentamente sobre si próprias, com o sol a reflectir-se em cada
uma delas. Arcos-íris minúsculos e belos.
Depois foi embater numa parede. Estatelou-se no chão. Sobre a cara e os braços caiu
uma chuva de pó, pedras e vidros. A última coisa de que teve consciência foi de ver algo
tombar com um baque no solo ali perto. Um pedaço ensanguentado de qualquer coisa. E
nesse pedaço, a extremidade de uma ponte vermelha a furar um nevoeiro cerrado.
À SUA VOLTA movem-se sombras. Em cima, no tecto, brilha uma luz fluorescente. Surge um
rosto de mulher, que paira sobre o dela.
Laila volta a tombar na escuridão.
OUTRO ROSTO. Desta vez de um homem. As suas feições parecem largas e abatidas. Os
lábios movem-se mas não emitem qualquer som. A única coisa que Laila ouve são
campainhas a tocar.
O homem faz-lhe um gesto com a mão. Franze a testa. Os seus lábios movem-se de
novo.
Dói. Respirar dói. Dói por toda a parte.
Um copo de água. Um comprimido cor-de-rosa.
Regressa às trevas.

A MULHER OUTRA VEZ. Cara comprida, olhos chegados. Diz qualquer coisa. Laila não
consegue ouvir nada senão as campainhas. Mas vê as palavras, semelhantes a um
espesso xarope negro, derra​marem-se da boca da mulher.
Dói-lhe o peito. Doem-lhe os braços e as pernas.
Em seu redor, movem-se sombras.
Onde está Tariq?
Por que não está ele ali?
Escuridão. Um monte de estrelas.
ELA E O BABI,empoleirados num sítio muito alto. Ele aponta para um campo de cevada.
Ouve-se o barulho de um gerador.
A mulher da cara comprida está debruçada sobre ela a olhá-la.
Respirar dói.
Algures, um acordeão toca.
Misericordiosamente, de novo o comprimido cor-de-rosa. Depois um silêncio profundo.
Um silêncio profundo cai sobre todas as coisas.
PARTE III

PARTE III
27

MARIAM

— Sabes quem eu sou?


A rapariga pestanejou.
— Sabes o que aconteceu?
A boca da rapariga tremeu. Fechou os olhos. Engoliu em seco. Passou a mão pela face
esquerda. Murmurou algo.
Mariam inclinou-se mais.
— Este ouvido — sussurrou a rapariga. — Não ouço.

DURANTE A PRIMEIRA SEMANA, a rapariga pouco mais fez do que dormir, ajudada pelos
comprimidos cor-de-rosa que Rashid pagara no hospital. Murmurava a dormir. Às vezes
dizia coisas sem nexo, gritava alto, chamava nomes que Mariam não reconhecia. Chorava
durante o sono, ficava agitada, afastava os cobertores, e depois Mariam tinha de a
segurar. Outras vezes vomitava sem cessar, lançando fora tudo o que Mariam lhe dera a
comer.
Quando estava calma, a rapariga era um par de olhos soturnos olhando em frente de
baixo do cobertor, sussurrando respostas breves às perguntas de Mariam e Rashid. Em
alguns dias parecia uma criança, abanando a cabeça de um lado para o outro quando
Mariam, e depois Rashid, tentavam alimentá-la. Ficava rígida quando Mariam se
aproximava dela com uma colher. Mas cansava-se com facilidade e acabava por se
submeter à persistente insistência deles. À rendição, seguiam-se longos períodos de
choro.
Rashid mandara Mariam esfregar pomada com antibiótico nos cortes da cara e do
pescoço da rapariga, e nos pontos que levara no ombro, nos braços e na parte inferior das
pernas. Mariam punha-lhes ligaduras, que lavava e voltava a usar. Quando a rapariga
precisava de vomitar, segurava-lhe o cabelo atrás, mantendo-o fora da cara.
— Quanto tempo vai ela ficar cá? — perguntou a Rashid.
— Até estar melhor. Olha para ela. Não está em condições de se ir embora. Coitadinha.
FORA RASHID quem encontrara a rapariga, que a desenterrara de baixo do entulho.
— Foi uma sorte eu estar em casa — disse ele à rapariga. Sentara​-se numa cadeira
articulada ao lado da cama de Mariam, onde a rapariga estava deitada. — Quer dizer, uma
sorte para ti. Desenterrei​-te com as minhas próprias mãos. Havia um pedaço de metal
deste tamanho... — Aí, afastou o polegar do indicador para lhe mostrar a dimensão real do
objecto, pelo menos duplicada, calculava Mariam. — Deste tamanho. A sair do teu ombro.
Estava profundamente espetado. Julguei que tinha de usar um alicate. Mas agora estás
bem. Não tarda nada, ficas nau socha. Como nova.
Fora Rashid que resgatara uma mão-cheia dos livros de Hakim.
— A maior parte estava feita em cinzas. O resto foi saqueado, lamento.
Ajudou Mariam a cuidar da rapariga naquela primeira semana. Um dia, chegou a casa
do trabalho com um cobertor e uma almofada novos. Noutro dia, com um frasco de
comprimidos.
— Vitaminas — elucidou ele.
Foi Rashid quem deu a Laila a notícia de que a casa do seu amigo Tariq se achava
agora ocupada.
— Um presente — comentou ele. — De um dos comandantes de Sayyaf a três dos seus
homens. Um presente. Ah!
Os três homens eram na realidade rapazes de rostos jovens e queimados pelo sol.
Mariam via-os quando por lá passava, sempre com os seus camuflados vestidos,
agachados em frente da entrada da casa de Tariq, a jogar cartas e a fumar, as
Kalashnikovs encostadas à parede. O mais musculoso, o que exibia uma atitude enfatuada
e de desprezo, era o líder. O mais novo era também o mais calado, o que parecia
relutante em abraçar totalmente o ar de impunidade dos amigos. Habituara-se a sorrir e
cumprimentar com a cabeça, salaam, sempre que Mariam por ali passava. Nessas alturas,
uma parte da sua presun​ção desaparecia, e Mariam captava um vislumbre de humildade
ainda não corrompida.
Depois, uma manhã, a casa foi atingida por rockets. Constou mais tarde que tinham sido
disparados pelos hazaras de Wahdat. Durante algum tempo, os vizinhos continuaram a
encontrar pedaços dos rapazes.
— Estavam a pedi-las — comentou Rashid.
A RAPARIGA TIVERAuma sorte extraordinária em escapar apenas com pequenos ferimentos,
pensou Mariam, considerando que o rocket reduzira a sua casa a um monte de entulho
fumegante. E assim, lentamente, a rapariga foi melhorando. Começou a comer mais,
começou ela própria a escovar o cabelo. Tomava banho sozinha. Começou a tomar as
refeições lá em baixo, com Mariam e Rashid.
Mas então, de repente, surgia uma recordação qualquer e havia silêncios impenetráveis
ou ataques de maus modos. Retraimentos e colapsos. Feições lívidas. Pesadelos e
súbitas crises de desgosto. Vómitos.
E às vezes remorsos.
— Eu não deveria estar aqui — disse ela um dia.
Mariam estava a mudar os lençóis. A rapariga observava do chão, os joelhos esfolados
erguidos contra o peito.
— O meu pai quis levar as caixas lá para fora. Os livros. Disse que eram demasiado
pesados para mim. Mas eu não deixei. Estava tão ansiosa. Eu é que devia estar dentro de
casa quando aquilo aconteceu.
Mariam sacudiu o lençol lavado e deixou-o cair sobre a cama. Olhou para a rapariga,
para os seus caracóis louros, o pescoço esbelto e os olhos verdes, as maçãs de rosto
salientes e os lábios carnudos. Lembrava-se de a ver na rua quando ela era pequena,
cambaleando atrás da mãe a caminho do tandur, às cavalitas do irmão, do mais novo, o do
tufo de pêlos na orelha. A jogar ao berlinde com o filho do carpinteiro.
A rapariga fitava-a como se aguardasse que Mariam proferisse alguma pérola de
sabedoria, alguma palavra de encorajamento. Mas que sabedoria tinha Mariam para
oferecer? Que encorajamento? Recordou o dia em que tinham enterrado a Nana e como
não sentira conforto algum ao ouvir o Mullah Faizullah citar-lhe o Corão. Bendito Aquele em
Cujas mãos está o reino, Aquele que tem poder sobre todas as coisas, que criou a morte
e a vida para nos pôr à prova. Ou quando falara dos seus próprios remorsos, Esses
pensamentos não são bons, Mariam jo. Destruir-te-ão. Não tiveste culpa. Não tiveste
culpa.
O que podia ela dizer àquela rapariga que lhe aliviasse o fardo?
Afinal, Mariam não precisou de dizer nada. Porque o rosto da rapariga contraiu-se, e ela
pôs-se de repente de gatas afirmando que ia vomitar.
— Espera! Aguenta. Vou buscar uma bacia. No chão não. Acabei de o limpar ... Oh. Oh.
Khodaya. Meu Deus.

DEPOIS, UM DIA,cerca de um mês após a explosão que matara os pais da rapariga, um


homem bateu-lhes à porta. Mariam abriu. Ele explicou ao que ia.
— Está aqui um homem para falar contigo — disse Mariam.
A rapariga levantou a cabeça da almofada.
— Diz que se chama Abdul Sharif.
— Não conheço nenhum Abdul Sharif.
— Bom, ele perguntou por ti. Tens de descer e falar com ele.
28

LAILA

Laila estava sentada defronte de Abdul Sharif, que era um homem magro, de cabeça
pequena, com um nariz bulboso salpicado das mesmas cicatrizes semelhantes a crateras
que lhe cobriam as faces. O cabelo, curto e castanho, assentava-lhe no crânio como
agulhas numa alfineteira.
— Vais ter de me desculpar, hamshira — disse ele, ajeitando o colarinho largo e
enxugando a testa com o lenço. — Ainda não recuperei completamente. Mais cinco dias
destes, como é que eles se chamam... comprimidos de sulfamidas.
Laila colocou-se de maneira a voltar para ele o seu ouvido direito, o bom. — Eras amigo
dos meus pais?
— Não, não — apressou-se a dizer Abdul Sharif. — Desculpa-me. — Levantou um
dedo, e bebeu um longo trago da água que Mariam pousara à sua frente.
— Suponho que devo começar pelo princípio. — Limpou os lábios, e de novo a testa. —
Sou um homem de negócios. Possuo lojas de vestuário, principalmente de homem.
Chapans, chapéus, tumbans, fatos, gravatas — de tudo um pouco. Duas lojas aqui em
Cabul, em Taimani e Shar-e-Nau, embora acabe de as vender. E duas no Pa​quistão, em
Peshawar, onde fica igualmente o meu armazém. Portanto, viajo bastante, de um lado para
o outro. O que, nos tempos que vão correndo — abanou a cabeça e teve um risinho
fatigado — digamos que é uma aventura.
«Estive recentemente em Peshawar, a tratar de negócios, receber encomendas, fazer
inventários, esse género de coisas. E também para visitar a minha família. Temos três
filhas, alhamdulellah. Mandei-as para Peshawar depois de os mujahidin terem começado
a atirar-se às gargantas uns dos outros. Não quero ver os seus nomes acrescentados à
lista dos shahid. Nem o meu, para ser franco. Irei juntar-me a elas muito em breve,
inshallah.
«Seja como for, eu deveria ter regressado a Cabul na quarta-feira antes desta última.
Mas, aconteceu que caí doente. Não te vou maçar com pormenores, hamshira, basta dizer
que quando fui tratar dos meus assuntos privados, o mais simples dos dois, era como se
estivesse a expelir pedaços de vidro quebrado. Não desejo tal nem ao próprio Hekmatyar.
A minha esposa, Nadia jan, Allah a abençoe, suplicou​-me que fosse ao médico. Mas eu
pensei que podia vencer aquilo com aspirina e muita água. Nadia jan insistiu e eu recusei, e
andámos assim um tempo. Conhece o ditado Para burro teimoso, condutor teimoso. Desta
vez, lamento dizer, venceu o burro. Que fui eu.
Bebeu o resto da água e estendeu o copo a Mariam. — Se não for demasiado zahmat.
Mariam pegou-lhe e saiu para o voltar a encher.
— Desnecessário será dizer, que eu devia ter-lhe dado ouvidos. Ela sempre foi a mais
sensata de nós, Deus lhe dê uma longa vida. Quando finalmente fui para o hospital, ardia
em febre e tremia como uma árvore beid ao vento. Mal me tinha de pé. A médica disse
que eu estava com um envenenamento de sangue. Disse que mais dois ou três dias e a
minha mulher teria ficado viúva.
«Puseram-me numa unidade especial, reservada às pessoas francamente doentes,
suponho. Oh, tashakor. — Recebeu o copo de Mariam e tirou do bolso do casaco um
enorme comprimido branco. — O tamanho destas coisas.
Laila viu-o engolir o comprimido. Apercebeu-se de que tinha a respiração acelerada.
Sentia as pernas pesadas, como se lhes tivessem amarrado toneladas. Disse a si mesma
que ele ainda não terminara, que ele ainda não lhe dissera nada. Mas continuaria dentro de
segundos e ela resistiu ao impulso de se erguer e sair, sair antes de ele lhe contar coisas
que não queria ouvir.
Abdul Sharif pousou o copo em cima da mesa.
— Foi aí que conheci o teu amigo, Mohammad Tariq Walizai.
O coração de Laila deu um salto. Tariq num hospital? Uma unidade especial? Para
pessoas francamente doentes?
Engoliu em seco. Mexeu-se na cadeira. Tinha de se couraçar. Se não, receava dar em
doida. Afastou os seus pensamentos de hospitais e unidades especiais e pensou antes no
facto de não ouvir chamar Tariq pelo seu nome completo desde que, há alguns anos, se
tinham os dois matriculado num curso de Inverno de farsi. O professor fazia a chamada
depois do toque da campainha e dizia assim o nome dele — Mohammad Tariq Walizi. Na
altura parecera-lhe comicamente oficial, ouvir pronunciar o nome completo dele.
— O que lhe acontecera, ouvi-o eu às enfermeiras — continuou Abdul Sharif, batendo
com o punho no peito como que para facilitar a passagem do comprimido. — Com todo o
tempo que passei em Peshawar, tornei-me bastante fluente em urdu. E o que concluí foi
que o teu amigo ia num camião carregado de refugiados, vinte e três ao todo, todos rumo
a Peshawar. Perto da fronteira, foram apanhados em fogo cruzado. Um rocket atingiu o
camião. Provavelmente um rocket extraviado, mas com aquela gente nunca se sabe, nunca
se sabe. Houve apenas seis sobreviventes, todos admitidos para a mesma unidade. Três
morreram nas vinte e quatro horas seguintes. Dois resistiram — irmãs, segundo ouvi — e
tinham recebido alta. O teu amigo, Mr. Walizai, era o último. Quando eu cheguei já ele lá
estava há quase três semanas.
Portanto, estava vivo. Como com que gravidade teria sido ferido? perguntava-se Laila
freneticamente. Com que gravidade? Com gravidade bastante para ser colocado numa
unidade especial, eviden​temente. Laila apercebeu-se de que começara a transpirar, de que
sentia a cara a escaldar. Tentou pensar noutra coisa qualquer, algo agradável, como a
viagem a Bamiyan para ver os Budas com Tariq e o Babi. Mas em vez disso foi uma
imagem dos pais de Tariq que lhe surgiu: a mãe de Tariq presa no camião voltado ao
contrário, a gritar pelo filho no meio do fumo, os braços e o peito a arder, a peruca a
derreter-se no seu crânio...
Laila teve de inspirar rapidamente uma série de vezes.
— Ele estava na cama ao lado da minha. Não havia paredes a separar-nos, apenas uma
cortina. Portanto, eu via-o bastante bem.
Abdul Sharif sentiu de súbito a necessidade urgente de brincar com a sua aliança.
Falava agora mais devagar.
— O teu amigo estava gravemente ferido, muito gravemente, compreendes? Tinha tubos
a saírem por todos os sítios. A princípio... — pigarreou. — A princípio, pensei que ele
perdera as duas pernas no ataque, mas uma das enfermeiras disse que não, só a direita,
a esquerda fora de acidente antigo. Havia também lesões internas. Já o tinham operado
três vezes. Retiraram partes dos intestinos, não me lembro do que mais. E tinha
queimaduras. Muito graves. É tudo o que direi a respeito disso. Estou certo de que já tens
a tua quota-parte de pesadelos, hamshira. Não vale a pena vir eu aumentá-los.
Tariq estava agora sem pernas. Era um torso com dois cotos. Sem pernas. Laila julgou
que ia desmaiar. Com um desesperado esforço de vontade, obrigou as gavinhas da sua
mente a sair daquela sala, por aquela janela, para longe daquele homem, para lá da rua,
para lá da cidade, das suas casas de telhados planos e bazares, e do seu labirinto de ruas
estreitas transformadas em castelos de areia.
— A maior parte do tempo ele estava drogado. Por causa das dores, compreendes?
Mas tinha momentos em que o efeito das drogas começava a desaparecer e então ficava
lúcido. Com dores, mas lúcido. Eu falava com ele da minha cama. Disse-lhe quem era, de
onde era. Ele ficou satisfeito, penso eu, por ter a seu lado um hamwatan.
«Era eu quem fazia a maior parte da conversa. A ele, custava-lhe falar. A sua voz era
rouca, e creio que lhe doía mexer os lábios. Por isso falei-lhe das minhas filhas, e da nossa
casa em Peshawar, e da varanda que o meu cunhado e eu estamos a construir nas
traseiras. Contei-lhe que vendera as lojas em Cabul e que ia voltar para tratar do resto da
papelada. Não era grande coisa, mas mantinha-o ocupado. Pelo menos, gosto de pensar
que sim.
«Por vezes ele também falava. Eu não conseguia perceber metade do que ele dizia,
mas apanhava o suficiente. Descreveu onde vivera. Falou do seu tio em Ghazni. E dos
cozinhados da mãe e do pai carpinteiro que tocava acordeão.
«Mas, principalmente, falou de ti, hamshira. Disse que eras... como é que ele se
expressou... a sua mais antiga recordação. Creio que foi isso, sim. Percebia-se que ele
gostava muito de ti. Balay, isso era óbvio. Mas disse que se sentia satisfeito por lá não
estares. Disse que não queria que o visses naquele estado.
Laila voltara a sentir os pés pesados, ancorados ao chão, como se, de súbito, todo o
seu sangue se tivesse acumulado aí. Mas a sua mente ia longe, livre e rápida, veloz como
um míssil, correndo para lá de Cabul, sobre montes castanhos escarpados e desertos
salpicados de moitas de salva, para além de ravinas de rochedos vermelhos pontea​gudos
e sobre montanhas de cumes cobertos de neve...
— Quando lhe disse que ia voltar a Cabul, ele pediu-me para te procurar. Para te dizer
que pensava em ti. Que tinha saudades tuas. Prometi-lhe que o faria. Afeiçoara-me a ele,
sabes? Via-se que era um rapaz como deve ser.
Abdul Sharif limpou a testa com o lenço.
— Uma noite acordei — prosseguiu ele, novamente interessado na aliança —, pelo
menos penso que era de noite, embora seja difícil saber em sítios daqueles. Não há
janelas. Madrugada, crepúsculo, não sabemos. Mas acordei, e havia uma agitação em
redor da cama ao lado da minha. Tens de compreender que eu próprio estava carregado
de medicamentos, sempre alternando entre consciência e inconsciência, a ponto de ser
difícil distinguir a realidade dos sonhos. A única coisa de que me lembro é de médicos
amontoados em volta da cama, a pedirem isto e aquilo, alarmes a soarem, o chão cheio de
seringas.
«De manhã, a cama estava vazia. Perguntei a uma enfermeira. Ela disse que ele lutara
com bravura.
Laila apercebia-se vagamente de que anuíra. Já sabia. Evidente​mente que já sabia.
Soubera por que é que aquele homem ali estava, quais as notícias que levava, desde o
primeiro instante, quando se sentara diante dele.
— A princípio, sabes?, a princípio pensei que nem sequer existisses — dizia ele agora.
— Pensei que era a morfina a falar. Talvez até esperasse que não existisses; sempre odiei
ser portador de más notícias. Mas tinha-lhe prometido. E, tal como disse, afeiçoara-me a
ele. Por​tanto, vim até aqui há alguns dias. Perguntei por ti, falei com alguns vizinhos. Eles
indicaram-me esta casa. Contaram-me igual​mente o que acontecera aos teus pais.
Quando ouvi isso, bem, dei meia-volta e fui​-me embora. Não tencionava dizer-te. Achei que
seria demasiado para ti. Para qualquer pessoa.
Abdul Sharif inclinou-se por cima da mesa e pousou a mão no joelho de Laila. — Mas
voltei atrás. Porque, ao fim e ao cabo, penso que ele quereria que tu soubesses. Acredito
nisso. Lamento tanto. Só queria...
Laila já não o escutava. Recordava o dia em que o homem do Panjshir viera dar a
notícia da morte de Ahmad e Nur. Recordou o Babi, lívido, abatendo-se sobre o sofá, e a
Mamã, a mão a voar-lhe para a boca ao ouvi-lo. Laila vira-a ficar despedaçada nesse dia e
isso assustara-a, mas não sentira verdadeiro desgosto. Não compreendera o horror da
perda da sua mãe. Agora, outro estranho trazia a notícia de outra morte. Agora, era ela
quem estava sentada na cadeira. Era então esse o seu castigo, a sua punição por se ter
mantido indiferente ao sofrimento da sua própria mãe?
Laila recordava que a Mamã caíra ao chão, aos gritos, a arrepelar os cabelos. Mas
Laila nem disso era capaz. Não conseguia mover-se. Não conseguia mover um músculo.
Permaneceu sentada na cadeira, com as mãos inertes no colo, os olhos fixos no vazio, e
deixou a sua mente continuar a voar. Deixou​-a continuar até encontrar o sítio, aquele sítio
bom e seguro, onde os campos de cevada eram verdes, onde a água corria límpida e as
sementes de algodão dançavam aos milhares pelo ar; onde o Babi estava a ler um livro à
sombra de uma acácia e Tariq dormia a sesta com as mãos cruzadas no peito, e onde ela
podia mergulhar os pés no regato e ter sonhos felizes sob o olhar vigilante de deuses
talhados em rocha antiga, descorada pelo sol.
29

MARIAM

— Tenho muita pena — disse Rashid para a rapariga, recebendo a tijela de mastawa e
almôndegas que Mariam lhe estendia sem olhar para ela. — Sei que eram muito...
amigos... vocês os dois. Sempre juntos, desde miúdos. É uma coisa terrível, o que
aconteceu. Andam a morrer demasiados jovens afegãos assim.
Fez um gesto impaciente com a mão, ainda a olhar para a rapariga, e Mariam passou-
lhe um guardanapo.
Durante anos vira-o comer, movimentando rapidamente os músculos das têmporas, uma
mão moldando pequenas bolas de arroz compactas, a palma da outra a limpar a gordura e
a apanhar os grãos de arroz soltos dos cantos da boca. Durante anos, ele comera sem
levantar os olhos, sem falar, como se estivesse a fazer algum julgamento, num silêncio
condenatório apenas quebrado por um grunhido de reprovação, um estalido desaprovador
da língua, uma ordem monossilábica pedindo mais pão ou mais água.
Agora, comia com uma colher. Usava guardanapo. Dizia lotfan quando pedia água. E
conversava. Animada e incessantemente.
— Se queres a minha opinião, os americanos escolheram o tipo errado ao armarem
Hekmatyar. Todas aquelas armas que a CIA lhe entregou nos anos oitenta para combater os
soviéticos. Os soviéticos foram-se embora, mas ele continua a ter as armas, e agora está
a virá-las contra gente inocente como os teus pais. E chama a isto jihad. Que farsa! O que
tem a jihad a ver com o massacre de mulheres e crianças? Melhor fora a CIA ter armado o
comandante Massoud.
As sobrancelhas de Mariam ergueram-se de motu próprio. O comandante Massoud?
Ainda tinha na cabeça as arengadas de Rashid contra Massoud, que era um traidor, um
comunista. Mas, eviden​temente, Massoud era tajique. Como Laila.
— Ora aí está um indivíduo razoável. Um afegão honrado. Um homem genuinamente
interessado numa resolução pacífica.
Rashid encolheu os ombros e suspirou.
— A verdade é que eles na América se estão nas tintas, nota bem. Que lhes importa
que pastunes e hazaras e tajiques e uzbeques se andem a matar uns aos outros? Quantos
americanos sabem sequer distinguir uns dos outros? Não esperem ajuda deles, é o que eu
digo. Agora que os soviéticos se desmoronaram, já não lhes servimos para nada. Já
tivemos a nossa utilidade. Para eles, o Afeganistão é um kenarab, um buraco de trampa.
Desculpa-me a linguagem, mas é a verdade. O que pensas tu, Laila jan?
A rapariga murmurou qualquer coisa ininteligível e continuou a dar voltas a uma
almôndega na sua tijela.
Rashid acenou pensativamente, como se ela tivesse dito a coisa mais inteligente que já
ouvira. Mariam teve de desviar os olhos.
— Sabes, o teu pai, Deus o tenha na sua paz, o teu pai e eu cos​tumávamos ter
discussões deste género. Isso antes de tu nasceres, claro. Falávamos incessantemente de
política. E de livros também. Não era, Mariam? Tu lembras-te.
Mariam atarefou-se a beber um gole de água.
— Seja como for, espero não estar a aborrecer-te com toda esta conversa sobre
política.
Mais tarde, na cozinha, Mariam ia mergulhando os pratos em água com sabão, sentindo
um nó apertado nas entranhas.
Não era tanto aquilo que ele dizia, as mentiras descaradas, a empatia fingida, nem
sequer o facto de não ter voltado a erguer a mão para ela, Mariam, desde que
desenterrara a rapariga de baixo daqueles tijolos.
Era toda a encenação. Como se fosse uma actuação em palco. Uma tentativa da parte
dele, simultaneamente astuta e patética, de impres​sionar. De seduzir.
E, de súbito, Mariam soube que as suas desconfianças eram funda​das. Compreendeu,
com um pavor que se assemelhava a uma violenta martelada na cabeça, que aquilo a que
estava a assistir era nada mais nada menos do que um cortejar.
QUANDO, FINALMENTE, arranjou coragem, Mariam foi ao quarto dele.
Rashid acendeu um cigarro e disse: — Por que não?
Mariam percebeu imediatamente que fora derrotada. Tivera uma meia esperança de que
ele negasse tudo, se fingisse admirado, talvez até ofendido, com as suas insinuações.
Talvez então tivesse alguma vantagem. Talvez tivesse conseguido envergonhá-lo. Mas a
sua calma admissão, o seu tom casual, roubavam-lhe todo o ânimo.
— Senta-te — ordenou ele. Estava deitado na cama, de costas para a parede, as
pernas grossas e compridas estendidas no colchão. — Senta-te antes que desmaies e
raches a cabeça.
Mariam deixou-se cair na cadeira articulada junto da cama.
— Passa-me esse cinzeiro, sim? — pediu ele.
Passou-lho, obedientemente.
Rashid devia andar pelos sessenta anos ou mais, pensou Mariam, e de facto nem o
próprio Rashid sabia a sua idade exacta. O cabelo embranquecera, mas mantinha-se
espesso e rijo como sempre. Havia um amolecimento nas pálpebras e na pele do pescoço,
que se tornara enrugada e curtida. As faces descaíam um pouco mais do que antes. De
manhã, curvava-se um bocado. Mas continuava a ter os ombros possantes, o dorso
corpulento, as mãos fortes, a barriga dilatada que entrava na sala antes de qualquer outra
parte do corpo.
No todo, Mariam achou que ele aguentara a passagem dos anos bastante melhor do
que ela.
— Precisamos de legalizar esta situação — prosseguia ele, equilibrando o cinzeiro na
barriga, fazendo beiço com ar jocoso. — As pessoas vão falar. Dá um aspecto pouco
honroso, uma jovem solteira a viver aqui. É mau para a minha reputação. E para a dela. E
para a tua, posso até acrescentar.
— Dezoito anos — disse Mariam. — E nunca te pedi nada. Absolutamente nada. Peço-
te agora.
Ele inspirou o fumo e deixou-o sair lentamente. — Ela não pode pura e simplesmente
permanecer aqui, se é isso que estás a sugerir. Não posso continuar a alimentá-la, a vesti-
la e a dar-lhe tecto. Não sou a Cruz Vermelha, Mariam.
— Mas isto?
— E então? Que foi? Achas que ela é demasiado nova? Tem catorze anos. Já não é
uma criança. Tu tinhas quinze, lembras-te? A minha mãe tinha catorze quando me teve.
Treze quando casou.
— Eu... eu não quero isto — balbuciou Mariam, a quem o ressentimento e a impotência
paralisavam.
— A decisão não é tua. É dela e minha.
— Sou demasiado velha.
— Ela é demasiado nova, tu és demasiado velha. Isto é um disparate.
— Sou demasiado velha. Demasiado velha para tu me fazeres isto — disse Mariam,
enrolando punhados de vestido com tanta força que as mãos lhe tremiam. — Para que,
após todos estes anos, tu me faças ambagh.
— Não sejas tão dramática. É uma coisa vulgar e tu sabe-lo. Há amigos meus que têm
duas, três, quatro esposas. O teu próprio pai tinha três. Além disso, o que eu vou fazer
agora, a maioria dos homens que conheço já o teria feito há muito tempo. Sabes que é
verdade.
— Não permitirei.
Ouvindo aquilo, Rashid sorriu tristemente.
— Há outra opção — comentou ele, coçando a sola de um dos pés com o calcanhar
caloso do outro. — Ela pode ir-se embora. Não a impedirei. Mas desconfio que não irá
longe. Sem comer, sem água, sem uma rupia nos bolsos, balas e rockets a voar por toda a
parte. Quantos dias achas que ela dura até ser raptada, violada, ou atirada para uma
valeta com a garganta cortada? Ou as três coisas?
Tossicou e ajeitou a almofada por trás das costas.
— As ruas lá fora estão implacáveis, Mariam, acredita. Assaltantes e bandidos a cada
esquina. Eu não daria muito pelas suas possibi​lidades, mesmo nada. Mas digamos que,
por milagre, ela consegue chegar a Peshawar. E depois? Fazes a menor ideia de como
são aqueles campos de refugiados?
Fitou-a por trás de uma coluna de fumo.
— Pessoas a viver debaixo de pedaços de cartão. Tuberculose, desinteria, fome, crime.
E isso é antes do Inverno. Depois é época da gangrena provocada pelo frio. Pneumonia.
Pessoas transfor​madas em pedaços de gelo. Esses campos tornam-se cemitérios
gelados.
— Evidentemente — fez um floreado trocista com a mão — ela pode manter-se
aquecida num daqueles bordéis de Peshawar. Consta​-me que os negócios vão
florescentes por lá. Uma beleza como ela devia render uma pequena fortuna, não achas?
Pousou o cinzeiro na mesa de cabeceira e atirou as pernas para fora da cama.
— Ouve — disse ele, permitindo-se agora falar em tom mais conciliador, como vencedor
que era. — Eu sabia que tu não irias reagir bem a isto. Não te censuro. Mas é o melhor.
Vais ver. Encara as coisas assim, Mariam. Eu estou a oferecer-te a ti uma ajuda nos
trabalhos da casa e a ela um santuário. Uma casa e um marido. Nos tempos que correm,
com as coisas como andam, uma mulher precisa de marido. Não reparaste em todas as
viúvas que andam a dormir pelas ruas? Seriam capazes de matar por uma oportunidade
destas. Na realidade, isto é... Bem, eu diria que é extremamente caridoso da minha parte.
Sorriu.
— Em minha opinião, mereço uma medalha.
MAIS TARDE,
no escuro, Mariam contou à rapariga.
Durante muito tempo, a rapariga permaneceu calada.
— Ele quer uma resposta amanhã de manhã — informou Mariam.
— Pode tê-la já — disse a rapariga. — A minha resposta é sim.
30

LAILA

No dia seguinte, Laila ficou na cama. De manhã, estava debaixo do cobertor quando
Rashid enfiou a cabeça no quarto e disse que ia ao barbeiro. Continuava na cama quando
ele regressou ao fim da tarde, e lhe mostrou o seu novo corte de cabelo, o seu novo fato
em segunda​-mão, azul com riscas beges, e a aliança que lhe comprara.
Rashid sentou-se na cama ao lado dela, e foi com grandes ares que desatou lentamente
a fita, abriu a caixa e tirou delicadamente o anel. Revelou que trocara a velha aliança de
Mariam por ele.
— Ela não se importa. Acredita. Nem sequer dá por isso.
Laila afastou-se para a ponta da cama. Ouvia Mariam lá em baixo, o assobio do ferro
de engomar.
— Aliás, nunca a usou — disse Rashid.
— Não a quero — proferiu Laila, em voz débil. — Assim não. Tens de a devolver.
— Devolver? — Uma expressão impaciente atravessou-lhe o rosto e desapareceu.
Sorriu. — Também tive de juntar algum dinheiro; bastante, na realidade. Este anel é melhor,
ouro de vinte e dois carates. Vês como é pesado? Anda, pega-lhe. Não? — Fechou a
caixa. — E flores? Era agradável. Gostas de flores? Tens alguma preferida? Margaridas?
Tulipas? Lilazes? Flores não? Belo! Eu também acho que não adianta. Só pensei... Bom,
conheço um alfaiate aqui, em Deh-Mazang. Pensei que podíamos levar-te lá amanhã a tirar
medidas para um vestido adequado.
Laila abanou a cabeça.
Rashid alçou as sobrancelhas.
— Preferia... — começou Laila.
Ele pousou-lhe a mão no pescoço. Laila não conseguiu evitar estremecer e encolher-se.
O toque dele era como usar uma velha camisola de lã áspera e molhada, sem nada por
baixo.
— Sim?
— Preferia que despachássemos isto.
Rashid abriu a boca e depois sorriu, um sorriso rasgado que lhe descobriu os grandes
dentes amarelos. — Impaciente — observou.
ANTES DA VISITA DE ABDUL SHARIF, Laila tinha resolvido partir para o Paquistão. Mesmo
depois de Abdul Sharif ter trazido as suas notícias, pensava agora Laila, ela poderia ter
partido. Ir para algures longe dali. Desligar-se daquela cidade onde cada esquina de rua
era uma armadilha, onde cada beco escondia um fantasma que saltava para ela como o
boneco de molas de uma caixa de surpresas. Podia ter corrido o risco.
Mas, de repente, partir deixara de ser uma opção.
Por causa daqueles vómitos diários.
Daquela nova rotundidade nos seios.
E da consciência, no meio de todo aquele turbilhão, de que falhara um período.
Laila imaginou-se num campo de refugiados, uma zona desolada com milhares de folhas
de plástico atadas a postes improvisados agitando-se ao vento frio e cortante. Debaixo de
uma dessas tendas improvisadas, viu o seu bebé, o bebé de Tariq, as fontes encovadas,
os maxilares frouxos, a pele manchada, de um cinzento-azulado. Imaginou o seu pequenino
corpo lavado por estranhos, envolvido numa mortalha fulva, descido para um buraco
cavado num pedaço de terra varrida pelo vento sob o olhar desapontado dos abutres.
Como podia ela fugir agora?
Laila fez um inventário sombrio das pessoas da sua vida. Ahmad e Nur, mortos. Hasina,
desaparecida. Giti, morta. A Mamã, morta. O Babi, morto. Agora Tariq...
Mas, miraculosamente, algo da sua vida anterior permanecera, a sua derradeira ligação
com a pessoa que ela fora antes de ficar tão completamente só. Uma parte de Tariq vivia
ainda dentro dela, a brotar minúsculos braços, a crescer mãos translúcidas. Como poderia
pôr em risco a única coisa que lhe restava dele, da sua vida anterior?
Tomou rapidamente uma decisão. Tinham passado seis semanas desde que estivera
com Tariq. Mais tempo e Rashid desconfiaria.
Sabia que o que estava a fazer era desonesto. Desonesto, falso e vergonhoso. E
tremendamente injusto para com Mariam. Mas embora o bebé dentro de si não fosse
maior do que uma amora, Laila via já os sacrifícios que uma mãe era obrigada a fazer. A
virtude era apenas o primeiro.
Pousou a mão no ventre. Cerrou os olhos.
LAILA RECORDARIA a cerimónia silenciosa em pedaços e fragmentos. As riscas beges do
fato de Rashid. O cheiro intenso do seu perfume. O pequeno corte feito a barbear logo
acima da maçã de Adão. As extremidades ásperas dos seus dedos manchados de tabaco
quando ele lhe enfiara o anel. A caneta. Que não escrevia. A busca de uma nova caneta. O
contrato. A assinatura, a mão dele firme, a dela trémula. As orações. Reparar, no espelho,
que Rashid aparara as sobrancelhas.
E, algures na sala, Mariam a observar. O ar sufocante com a sua desaprovação.
Laila não conseguia cruzar o olhar com o da mulher mais velha.
NESSA NOITE, deitada sob os lençóis frios de Rashid, viu-o correr os cortinados. Já tremia
mesmo antes de os seus dedos lhe desabotoarem a blusa, de lhe puxarem o cordão das
calças. Ele estava agitado. Os seus dedos atrapalharam-se com a própria camisa,
demoraram a tirar o cinto. Laila teve a visão completa do seu peito pendente, do umbigo
saliente, com uma pequena veia azul no centro, dos tufos de espessos cabelos brancos no
seu peito, nos ombros e na parte superior dos braços. Sentiu os olhos dele percorrerem-na
de alto a baixo.
— Deus me ajude, creio que te amo — disse ele.
A bater os dentes, ela pediu-lhe que apagasse a luz.
Mais tarde, quando teve a certeza de que Rashid já dormia, Laila tirou silenciosamente a
faca que antes escondera debaixo do colchão. Picou a ponta do indicador. Depois, ergueu
o cobertor e deixou o sangue pingar para os lençóis onde se tinham deitado juntos.
31

MARIAM

Durante o dia, a rapariga não passava de uma mola de colchão a ranger, um ruído de
passos sobre a sua cabeça. Era água a correr na casa de banho, ou uma colher de chá a
retinir contra vidro no quarto lá em cima. Ocasionalmente, avistava-a: a mancha de um
vestido enfunado na periferia do campo visual de Mariam, subindo apressadamente os
degraus, os braços cruzados no peito, os saltos das sandálias a ressoar.
Mas era inevitável que acabassem por se cruzar. Mariam passava pela rapariga nas
escadas, no corredor estreito, na cozinha, ou na porta se vinha a entrar do pátio. Quando
se encontravam assim, o espaço entre elas ficava inundado de uma tensão constrangida. A
rapariga apanhava a saia e murmurava uma ou duas palavras de desculpa, e, enquanto ela
se afastava rapidamente, Mariam arriscava um olhar de viés e apanhava um rubor. Às
vezes sentia nela o cheiro de Rashid. Era o cheiro da sua transpiração, do seu tabaco, do
seu desejo que impregnava a pele da rapariga. O sexo, felizmente, há já algum tempo que
era um capítulo encerrado na sua própria vida. Agora até o pensamento dessas laboriosas
sessões por baixo de Rashid, lhe dava a volta ao estômago.
À noite, contudo, aquela dança orquestrada entre ela e a rapariga para se evitarem
mutuamente, não era possível. Rashid dizia que eram uma família. Insistia nisso, e as
famílias tinham de comer juntas, dizia ele.
— O que é isto? — perguntou, arrancando com os dedos a carne a um osso — a
charada da colher e do garfo fora abandonada uma semana após o casamento com a
rapariga. — Casei com um par de estátuas? Anda lá, Mariam, gap bezan, diz-lhe qualquer
coisa. Que é feito das tuas boas maneiras?
A chupar o tutano ao osso, disse para a rapariga: — Mas não lhe leves a mal. Ela é
calada. O que é uma bênção, realmente, porque, wallah, se uma pessoa não tem muito
que dizer mais vale poupar as palavras. Nós somos pessoas da cidade, tu e eu, mas ela é
uma dehati. Uma rapariga de aldeia. Nem sequer uma rapariga de aldeia. Não. Ela cresceu
numa kolba feita de lama, fora da aldeia. Foi o pai que a lá pôs. Contaste-lhe, Mariam,
contaste-lhe que és uma harami? Pois é. Mas não é desprovida de qualidades, tudo
pesado. Verás tu própria, Laila jan. Para começar, é robusta, boa trabalhadora, e sem
pretensões. Dizendo as coisas de outra maneira: se fosse um automóvel, seria um Volga.
Mariam era agora uma mulher de trinta e três anos, mas aquela palavra, harami, ainda
constituía uma ferroada. Ouvi-la, ainda a fazia sentir-se um insecto nocivo, uma barata.
Recordou Nana a puxá-la pelos pulsos. És uma pequena harami desastrada. É esta a
minha recompensa por tudo o que tenho suportado. Uma pequena harami desastrada que
parte peças de família.
— Tu — continuou Rashid para a rapariga —, tu, por outro lado, serias um Benz. Um
Benz reluzente, novinho em folha, topo de gama. Wah wah. Mas. Mas. — Ergueu o
indicador gorduroso. — Com um Benz... têm de se tomar algumas... precauções. Como
prova de respeito pela sua beleza e arte, compreendes. Oh, deves estar a pensar que eu
sou maluco, diwana, com toda esta conversa sobre automóveis. Não estou a dizer que
vocês são carros. Estou apenas a marcar uma posição.
Para o que viria a seguir, Rashid voltou a pousar no prato a bola de arroz que fizera. As
mãos oscilaram negligentemente por cima da comida, enquanto ele olhava para baixo com
expressão sóbria, pensativa.
— Não se deve falar mal dos mortos, muito menos dos shahid. E não quero com isto
faltar ao respeito a ninguém, é preciso que saibas, mas sinto certas... reservas... acerca
da maneira como os teus pais — que Allah lhes perdoe e conceda um lugar no paraíso —
acerca da sua, bem, da sua tolerância contigo. Lamento.
O olhar de ódio gelado que a rapariga lançou a Rashid ao ouvir isto não escapou a
Mariam, mas ele tinha os olhos baixos e não reparou.
— Não interessa. A questão é que agora eu sou teu marido, e cabe​-me a mim guardar
não só a tua honra mas também a nossa, sim, a nossa nang e namus. É o fardo do
marido. Deixa essa preocupação para mim. Por favor. Quanto a ti, tu és a rainha, a malika,
e esta casa é o teu palácio. Qualquer coisa de que precises pedes a Mariam e ela far​-te-
á. Não é verdade, Mariam? E se te apetecer qualquer coisa, eu compro-te. Vês, é esse o
género de marido que eu sou.
«Tudo o que peço em troca, é uma coisa simples. Peço que evites sair desta casa sem
a minha companhia. É tudo. Simples, não? Se eu cá não estiver e precisares de alguma
coisa com urgência, quer dizer, se precisares absolutamente e não puderes esperar por
mim, então podes mandar a Mariam que ela sairá para te ir buscar o que for preciso. Terás
certamente notado aqui uma discrepância. Bem, não se conduz um Volga e um Benz da
mesma maneira. Seria idiota, não? Ah, e peço-te igualmente que uses uma burca quando
sairmos juntos. Para tua própria protecção, naturalmente. É o melhor. Actualmente há
tantos homens lúbricos nesta cidade. Cheios de vis intenções, prontos a desonrar até
mesmo uma mulher casada. Pronto. É tudo.
Tossicou.
— Devo dizer que quando eu estiver ausente, Mariam será os meus olhos e os meus
ouvidos. — Aqui, deitou a Mariam um rápido olhar tão incisivo como um pontapé dado nas
fontes com um sapato de aço. — Não é que eu não tenha confiança. Pelo contrário. Com
toda a franqueza, pareces-me muito mais sensata do que é normal na tua idade. Mas és
ainda uma mulher jovem, Laila jan, uma dokatar e jawan, e as mulheres jovens podem fazer
escolhas infelizes. Podem ser propensas a travessuras. Seja como for, Mariam será a
responsável. E se houver deslizes...
E prosseguiu interminavelmente. Mariam, sentada, observava a rapariga pelo canto do
olho enquanto as exigências e julgamentos de Rashid choviam sobre elas como os rockets
sobre Cabul.
UM DIA, Mariam encontrava-se na sala a dobrar algumas camisas de Rashid que
apanhara da corda de estender roupa do pátio. Não sabia há quanto tempo estaria a
rapariga ali, mas, ao pegar numa camisa, virou-se e viu-a à entrada da porta, com as
mãos em volta de uma chávena de chá.
— Não queria assustar-te — disse a rapariga. — Desculpa.
Mariam limitou-se a fitá-la.
O sol iluminou o rosto da rapariga, os seus imensos olhos verdes e a testa lisa, as
maçãs de rosto salientes e as sobrancelhas espessas e atraentes, que não se
assemelhavam minimamente às de Mariam, finas e indefinidas. O cabelo dourado, ainda
por pentear nessa manhã, tinha um risco ao meio.
Mariam percebeu pela maneira tensa como a rapariga apertava a chávena e pelos
ombros hirtos, que ela estava nervosa. Imaginou-a sentada na cama a arranjar coragem.
— As folhas começam a mudar de cor — disse a rapariga em tom cordial. — Já
reparou? O Outono é a minha estação preferida. Gosto do cheiro, quando as pessoas
queimam as folhas nos jardins. A minha mãe preferia a Primavera. Conheceu a minha mãe?
— A bem dizer, não.
A rapariga levou a mão em concha atrás do ouvido. — Como?
Mariam elevou a voz. — Disse que não. Não conheci a tua mãe.
— Oh.
— Queres alguma coisa?
— Mariam jan, o que eu queria... Acerca das coisas que ele disse na outra noite...
— Tenho andado para te falar disso — interrompeu Mariam.
— Sim, por favor — disse a rapariga em tom intenso, quase ansioso. Deu um passo em
frente. Parecia aliviada.
Lá fora, gorgeava um papa-figos. Alguém puxava uma carroça; Mariam ouvia as
dobradiças a estalar, as rodas de ferro a saltar e chocalhar. Sentiu-se o som de disparos
não muito distante, um único tiro seguido de outros três, e depois nada.
— Não serei tua criada — declarou Mariam. — Não serei.
A rapariga estremeceu. — Não. Claro que não!
— Tu podes ser a malika do palácio e eu uma dehati, mas não receberei ordens tuas.
Podes ir queixar-te a ele e ele pode cortar-me a garganta, mas não receberei ordens tuas.
Estás a ouvir? Não serei tua criada.
— Não! Eu não pretendo...
— E se pensas que podes servir-te da tua beleza para te veres livre de mim, estás
enganada. Eu já cá estava. Recuso-me a ser expulsa. Não permitirei que me ponhas fora.
— Não é isso que eu quero — murmurou a rapariga em voz débil.
— E vejo que as tuas feridas já estão saradas. Portanto podes começar a fazer a tua
parte de trabalhos domésticos...
A rapariga acenava rapidamente. Entornou um bocado de chá, mas nem reparou. —
Sim, essa foi a outra razão por que vim cá abaixo, para te agradecer teres-me tratado...
— Pois olha que não o teria feito — interrompeu Mariam, aspe​ra​mente. — Não te teria
alimentado nem lavado nem tratado se soubesse que te ias voltar contra mim e roubar-me
o marido.
— Roubar...
— Vou continuar a cozinhar e a lavar a louça. Tu passas a lavar a roupa e a varrer.
Vamos alternando o resto diariamente. E mais uma coisa. A tua companhia não me
interessa. Não a desejo. O que quero é estar sozinha. Tu deixas-me em paz e eu retribuo o
favor. É assim que iremos entender-nos. São estas as regras.
Quando acabou de falar, Mariam tinha o coração a martelar-lhe no peito e a boca seca.
Nunca na vida falara daquela maneira, nunca afirmara a sua vontade tão energicamente.
Deveria ter-se sentido exultante, mas os olhos da rapariga haviam-se marejado de
lágrimas e a cara espelhava desolação, de modo que o júbilo sentido por Mariam com
aquela explosão lhe pareceu inadequado, até mesmo ilícito.
Estendeu as camisas à rapariga.
— Põe-nas no almari, não no guarda-roupa. Ele gosta das brancas na gaveta de cima,
e as outras na do meio, junto com as peúgas.
A rapariga pousou a chávena no chão e estendeu as mãos com as palmas para cima a
fim de receber as camisas. — Lamento tudo isto — crocitou ela.
— Bem podes — declarou Mariam. — Bem podes lamentar.
32

LAILA

Laila recordava-se de uma reunião que uma vez houvera lá em casa, há vários anos,
num dos dias bons da Mamã. As mulheres estavam sentadas no jardim, comendo de uma
travessa de amoras que Wajma tinha apanhado da árvore do pátio. As amoras maduras
eram brancas e cor-de-rosa, e algumas tinham o mesmo tom de púrpura escuro das
minúsculas veias surgidas no nariz de Wajma.
— Souberam como morreu o filho dele? — perguntara Wajma, enfiando energicamente
outra mão-cheia de amoras na boca des​dentada.
— Afogou-se, não foi? — respondera Nila, a mãe de Giti. — No lago Ghargha, não foi?
— Mas sabiam, sabiam que Rashid... — Wajma erguera um dedo e acenara
dramaticamente, continuando a mastigar e obrigando-as a esperar até ter engolido. —
Sabiam que nessa época ele costumava beber sharab e que nesse dia estava perdido de
bêbedo? É verdade. Perdido de bêbedo, foi o que eu ouvi. E ia apenas a meio da manhã.
Daí a pouco estava inconsciente numa espreguiçadeira. Podiam ter-lhe disparado o canhão
do meio-dia ao ouvido que ele nem teria pestanejado.
Laila lembrava-se que Wajma tapara a boca, e arrotara; que explorara com a língua os
intervalos entre os poucos dentes que lhe restavam.
— Podem imaginar o resto. O garoto foi para a água sem ninguém dar por isso.
Avistaram-no um bocado depois, a flutuar de cara para baixo. Correram pessoas a ajudar,
metade a tentar reanimar o rapaz, a outra metade o pai. Alguém se curvou sobre o corpo e
fez... aquela coisa da boca-a-boca que se deve fazer. Não adiantou. Todos viram isso. O
rapaz estava morto.
Laila recordava-se de Wajma ter erguido um dedo, com a voz trémula de piedade. — É
por isso que o Santo Corão proíbe o sharab. Porque são sempre os sóbrios a pagar os
pecados dos bêbedos. É por isso.
Era essa história que girava na cabeça de Laila depois de ter dado a notícia do bebé a
Rashid. Ele saltara imediatamente para a bicicleta, dirigira-se a uma mesquita, e rezara
para que fosse um rapaz.
Nessa noite, durante toda a refeição, Laila observou Mariam a empurrar um cubo de
carne de um lado para o outro do prato. Achava-se presente quando Rashid dera a
novidade a Mariam, em voz sonora e dramática; nunca Laila presenciara uma tão alegre
crueldade. As pestanas de Mariam tremeram ao ouvir a notícia. Espalhou-se no seu rosto
um intenso rubor. Sentou-se calada, com ar desolado.
Depois do jantar, Rashid foi para cima ouvir rádio, e Laila ajudou Mariam a levantar a
sofrah.
— Nem consigo imaginar o que serás tu agora — comentou Mariam, apanhando grãos
de arroz e migalhas de pão — se antes eras um Benz.
Laila tentou uma táctica mais jovial. — Um comboio? Talvez um enorme avião a jacto.
Mariam endireitou-se. — Espero que não tenhas pensado que isso te dispensa das
tarefas domésticas.
Laila abriu a boca, mas reconsiderou. Recordou a si própria que Mariam era a única
parte inocente em todo aquele acordo. Mariam e o bebé.
Mais tarde, na cama, debulhou-se em lágrimas.
O que tinha acontecido, quis Rashid saber, erguendo-lhe o queixo. Estava doente? Era o
bebé, passava-se alguma coisa com o bebé? Não?
Mariam tratava-a mal?
— É isso, não é?
— Não.
— Wallah o billah, vou lá abaixo dar-lhe uma lição. Quem pensará ela que é, essa
harami, para te tratar...
— Não!
Ele já começara a levantar-se e Laila teve de o agarrar pelo braço e puxá-lo de novo
para baixo. — Não vás! Não! Ela tem sido decente comigo. Preciso apenas de um minuto.
Isto já passa.
Rashid sentou-se ao lado dela, a acariciar-lhe o pescoço e a mur​murar. As suas mãos
deslizaram-lhe lentamente pelas costas e voltaram a subir. Inclinou-se e exibiu os dentes
encavalitados num sorriso rasgado.
— Então vamos lá a ver — ronronou ele — se poderei ajudar-te a ficares melhor.
PRIMEIRO as árvores — as que não tinham sido cortadas para lenha — despojaram-se
das suas folhas em tons de amarelo e cobre. Depois vieram os ventos, frios e agrestes,
rasgando a cidade. Arran​caram as derradeiras folhas ainda presas, e deixaram as árvores
com ar fantasmagórico contra o castanho descorado das montanhas. O primeiro nevão da
época foi leve, com os flocos a derreterem-se mal tombavam. Depois as estradas
gelaram, e a neve amontoou-se nos telhados, acumulou-se até meio nas janelas tornando-
as semelhantes a bolos cobertos. Com a neve vieram os papagaios, em tempos os
senhores dos céus invernosos de Cabul, agora tímidos invasores em território reivindicado
por rockets velozes e jactos de combate.
Rashid ia trazendo para casa notícias da guerra, e Laila sentia-se confusa com os
compromissos que ele tentava explicar-lhe. Sayyaf estava a combater os hazaras, disse
ele. Os hazaras estavam a combater Massoud.
— E esse está a combater Hekmatyar, é claro, que tem o apoio dos paquistaneses. São
inimigos mortais esses dois, Massoud e Hekmatyar. Sayyaf, alinhou com Massoud. E
Hekmatyar, por agora, apoia os hazaras.
Quanto a Dostum, o imprevisível comandante uzbeque, Rashid disse que ninguém sabia
para que lado penderia. Dostum lutara contra os soviéticos na década de 1980 ao lado dos
mujahidin, mas desertara e juntara-se ao regime fantoche de Najibullah, comunista, depois
da partida dos soviéticos. Ganhara até uma medalha, oferecida pelo próprio Najibullah,
antes de desertar uma vez mais e voltar para o lado dos mujahidin. De momento, disse
Rashid, Dostum estava a apoiar Massoud.
Em Cabul, principalmente em Cabul ocidental, grassavam os incêndios, e nuvens de
fumo pretas formavam cogumelos sobre edifícios cobertos de neve. As embaixadas
fechavam. As escolas desmoronavam-se. Nas salas de espera dos hospitais, disse
Rashid, os feridos morriam a esvair-se em sangue. Nas salas de operação, amputavam-se
membros sem anestesia.
— Mas não te preocupes — rematou ele. — Estás segura comigo, minha flor, minha gul.
Se alguém tentar fazer-te mal, arranco-lhe o fígado e obrigo-o a comê-lo.
Nesse Inverno, para onde quer que andasse, Laila encontrava o caminho bloqueado por
muros. Recordou com saudade os céus abertos da sua infância, os tempos em que ia a
jogos de buzkashi com o Babi e às compras a Mandaii com a Mamã, os tempos em que
corria livre​mente pelas ruas com Giti e Hasina, a tagarelar acerca de rapazes. Os tempos
em que se sentava com Tariq num leito de trevos, nas margens de um ribeiro qualquer,
trocando adivinhas e rebuçados, contem​plando o pôr do Sol.
Mas pensar em Tariq era traiçoeiro porque, antes de conseguir parar, via-o deitado
numa cama, longe de casa, com tubos a perfurar o seu corpo queimado. Tal como a bílis
que lhe queimava agora constantemente a garganta, uma mágoa profunda e paralisante
invadia o peito de Laila. As pernas transformavam-se em água. Tinha de se agarrar a
qualquer coisa.
Laila passou esse Inverno de 1992 a varrer a casa, a esfregar as paredes cor de
abóbora do quarto que partilhava com Rashid, a lavar roupa lá fora num grande lagaan de
cobre. Às vezes, via-se como se pairasse acima do seu próprio corpo, via-se agachada
sobre a borda do lagaan, as mangas arregaçadas até aos cotovelos, as mãos
avermelhadas a espremer água de sabão de uma das camisolas interiores de Rashid.
Nessa altura sentia-se perdida, como um sobrevivente de um naufrágio, sem terra à vista,
apenas milhas e milhas de mar.
Quando estava demasiado frio para sair, Laila vagueava pela casa. Caminhava,
arrastando uma unha ao longo da parede do vestíbulo, e depois voltava para trás, descia
as escadas, e voltava a subir, com a cara por lavar, o cabelo por escovar. Caminhava até
se deparar com Mariam, que lhe lançava um olhar sombrio e retomava a tarefa de cortar o
pé a um pimento e retirar fatias de gordura da carne. Um silêncio doloroso enchia a sala, e
Laila quase conseguia ver a hostilidade muda que irradiava de Mariam, como ondas de
calor erguendo-se do asfalto. Recuava, regressava ao seu quarto, sentava-se na cama e
ficava a ver a neve cair.
UM DIA,Rashid levou-a com ele à sua loja de sapatos.
Quando saíam juntos, ele caminhava a seu lado, com uma das mãos a agarrar-lhe o
cotovelo. Para Laila, andar pelas ruas transformara-se num exercício de como evitar
magoar-se. Os olhos ainda se não haviam adaptado à visão limitada, tipo quadrícula, da
burca, e os pés conti​nuavam a prender-se na bainha. Caminhava com o receio perpétuo de
tropeçar e cair, de partir um tornozelo ao pisar um buraco. No entanto, achava um certo
conforto na anonimidade proporcionada pela burca. Assim, não seria reconhecida se
encontrasse algum antigo conhecimento. Não teria de ver no seu olhar a surpresa, a
piedade ou a satisfação, pelo muito que ela descera, pela maneira como se haviam
frustrado as suas grandiosas aspirações.
A loja de Rashid era maior e melhor iluminada do que imaginara. Ele disse-lhe para se
sentar atrás da sua banca de trabalho atulhada, cujo topo se achava coberto de velhas
solas e restos de pele. Mostrou​-lhe os martelos, demonstrou como funcionava a lixadoura,
com voz sonora e orgulhosa.
Tocou-lhe no ventre, não por cima da blusa, mas por baixo, com os dedos frios e
ásperos como cortiça sobre a sua pele esticada. Laila recordou as mãos de Tariq, macias
mas fortes, as veias tortuosas e cheias das suas palmas, que ela sempre achara tão
atraentemente masculinas.
— Está a crescer tão depressa — exclamou Rashid. — Vai ser um grande rapaz. O meu
filho vai ser um pahlawan! Como o pai.
Laila puxou a blusa para baixo. O medo invadia-a quando ele falava assim.
— Como vão as coisas com Mariam?
Ela disse que iam bem.
— Bom. Bom.
Laila não lhe contou que tinham tido a sua primeira discussão séria.
Acontecera alguns dias antes. Laila fora à cozinha e encontrara Mariam a abrir e a
fechar gavetas com toda a força. Estava à procura, dissera ela, da colher de pau de cabo
comprido que usava para mexer o arroz.
— Onde é que a puseste? — perguntara, virando-se para fitar Laila.
— Eu? — admirara-se Laila. — Eu não lhe peguei. Eu quase aqui não entro.
— Já reparei.
— Isso é uma acusação? Foste tu que quiseste assim, lembras-te? Disseste que
preparavas as refeições. Mas se quiseres trocar...
— Então queres dizer que ela ganhou perninhas e se pôs a andar daqui para fora. Toc,
toc, toc, toc. Foi isso que aconteceu, degeh?
— O que eu quero dizer... — Laila procurara controlar-se. Em geral, conseguia, por um
esforço de vontade, absorver o escárnio e as acusações de Mariam. Mas tinha os
tornozelos inchados, doía-lhe a cabeça, e a azia estava a matá-la nesse dia. — Quero
dizer que talvez tu a tenhas arrumado mal.
— Arrumado mal? — Mariam puxara uma gaveta. As espátulas e facas que lá se
encontravam tilintaram. — Há quanto tempo aqui estás, meia dúzia de meses? Eu vivo
nesta casa há dezanove anos, dokhtar jo. Guardo essa colher de pau nesta gaveta desde
que tu andavas de fraldas.
— Mesmo assim — retorquira Laila, de dentes cerrados, prestes a atingir o limite — é
possível que a tenhas posto algures e esquecido.
— E é possível que tu a tenhas escondido algures, para me irritar.
— És uma pobre mulher desprezível — atirara-lhe Laila.
Mariam estremecera, depois dominara-se e apertara os lábios. — E tu és uma rameira.
Uma rameira e uma dozd. Uma rameira ladra, é o que tu és!
Tinham-se seguido gritos. Tachos erguidos mas não atirados. Tinham-se insultado,
chamando uma à outra nomes que faziam agora Laila corar. Desde então não se falavam.
Laila continuava chocada pela facilidade com que se descontrolara, mas a verdade era que
parte dela gostara daquilo, gostara da sensação de gritar com Mariam, de a insultar, de
ter um alvo para onde dirigir toda a cólera que fervia nela, o seu desgosto.
Laila perguntara-se, com uma espécie de percepção, se não aconte​ceria o mesmo com
Mariam.
Depois, correra para cima e atirara-se para a cama de Rashid. Lá em baixo, Mariam
continuava a gritar: — Tem vergonha nessa fuça! Tem vergonha nessa fuça! — Laila
estendera-se na cama, gemendo para a almofada, sentindo de repente imensas saudades
dos pais, com uma intensidade avassaladora que não sentia desde aqueles terríveis dias a
seguir à explosão do rocket. Permaneceu ali deitada, a agarrar punhados do lençol, até
que, de repente, susteve a respiração. Sentou​-se, levando rapidamente as mãos ao
ventre.
O bebé acabava de lhe dar o primeiro pontapé.
33

MARIAM

Uma manhã cedo na Primavera seguinte, de 1993, Mariam encontrava-se à janela da


sala a ver Rashid e a rapariga saírem de casa. A rapariga ia cambaleante, dobrada pela
cintura, um braço a proteger o ventre semelhante a um tambor esticado; o seu volume era
visível através da burca. Rashid, alvoroçado e excessivamente atencioso, segurava-lhe o
cotovelo, guiando-a pelo pátio como um polícia de trânsito. Dirigiu-lhe um gesto significativo
de Espera aqui, correu ao portão da entrada, e depois, mantendo-o aberto com o pé, fez
sinal à rapariga para avançar. Quando ela chegou junto dele, pegou-lhe na mão e ajudou-a
a sair. Mariam quase podia ouvi-lo dizer «Cuidado agora, minha flor, minha gul.»
Regressaram ao fim da tarde do dia seguinte.
Mariam viu Rashid entrar primeiro no pátio. Largou prema​tura​mente o portão que quase
foi atingir a rapariga na cara. Atravessou o pátio em alguns passos rápidos. Mariam
detectou uma sombra no seu rosto, um negrume subjacente à luz acobreada do anoitecer.
Dentro de casa, despiu o casaco e atirou-o para cima do sofá. Passando por Mariam,
disse em voz brusca: — Tenho fome. Prepara o jantar.
A porta da casa abriu-se. Do corredor, Mariam viu a rapariga com um embrulho
enfaixado na curva do braço esquerdo. Tinha um pé fora e outro dentro, contra a porta,
para a impedir de se fechar. Estava curvada e resmungava baixo, tentando alcançar o saco
de papel com os seus pertences que pousara para poder abrir a porta. Tinha o rosto
contraído de esforço. Ergueu os olhos e viu Mariam.
Mariam virou costas e foi para a cozinha aquecer a refeição de Rashid.

É COMO SE ME ESTIVESSEM a furar o ouvido com um aríete — comentou Rashid, esfregando


os olhos. Encontrava-se à porta do quarto de Mariam, de olhos inchados, vestindo apenas
um tumban atado com um laço. Tinha o cabelo branco revolto, espetado em todas as
direcções. — Este choro. Não aguento.
Lá em baixo, a rapariga passeava o bebé pela sala, esforçando-se por lhe cantar.
— Há dois meses que não durmo decentemente uma única noite — queixou-se Rashid.
— E o quarto cheira a esgoto. Há panos com trampa por toda a parte. Ainda a noite
passada pisei um.
Mariam sorriu intimamente com um prazer perverso.
— Leva-a lá para fora! — gritou Rashid por cima do ombro. — Não a podes levar lá
para fora?
A canção interrompeu-se brevemente. — Apanhava uma pneumonia!
— Estamos no Verão!
— O quê?
Rashid cerrou os dentes e elevou a voz. — Eu disse que está calor lá fora!
— Não a levo para fora!
A canção recomeçou.
— Às vezes, juro, às vezes apetece-me pôr aquela coisa numa caixa e deixá-la ir a
flutuar rio Cabul abaixo. Como o bebé Moisés.
Mariam nunca o ouvira referir-se à filha pelo nome que a rapariga lhe dera, Aziza, a
Acarinhada. Era sempre a bebé ou, quando estava realmente exasperado, aquela coisa.
Havia noites em que Mariam os ouvia discutir. Ia até à porta deles em bicos de pés, e
ouvia-o queixar-se acerca da bebé — sempre a bebé — do choro insistente, dos cheiros,
dos brinquedos que o faziam tropeçar, da forma como a bebé desviara dele as atenções
de Laila exigindo constantemente ser alimentada, posta a arrotar, mudada, passeada,
embalada. A rapariga, por sua vez, censurava-o por ele fumar no quarto, por não deixar a
bebé dormir com eles.
Outros argumentos eram trocados em voz mais baixa.
— O doutor disse seis semanas.
— Ainda não, Rashid. Não. Larga-me. Vá lá. Não faças isso.
— Já passaram dois meses.
— Sssh. Pronto. Acordaste a bebé. — E depois mais asperamente: — Khosh shodi?
Estás satisfeito agora?
Mariam esgueirava-se de volta ao seu quarto.
— Não podes ajudar? — perguntava agora Rashid. — Deve haver alguma coisa que tu
possas fazer.
— Que sei eu de bebés? — retorquiu Mariam.
— Rashid! Trazes-me o biberão? Está em cima do almari. Ela não come. Quero
experimentar outra vez o biberão.
Os gritos da bebé elevavam-se e caíam como um cutelo sobre carne.
Rashid fechou os olhos. — Aquela coisa é um senhor da guerra. Hekmatyar. Digo-te eu,
Laila deu à luz Gulbuddin Hekmatyar.
MARIAM OBSERVAVA os dias da rapariga a serem consumidos por ciclos de alimentação,
embalar, arrotar, passear. Mesmo quando a bebé dormia, havia fraldas sujas para esfregar
e deixar de molho num balde com o desinfectante que a rapariga insistira para Rashid lhe
comprar. Havia unhas para aparar com lixa, macacões e pijamas para lavar e pôr a secar.
Essas roupas, como outras coisas referentes à bebé, tornaram​-se um ponto de
controvérsia.
— O que têm de mal? — indagava Rashid.
— São roupas de rapaz. Para um bacha.
— Julgas que ela nota a diferença? Paguei bom dinheiro por isso. E outra coisa, esse
tom não me agrada. Considera isto um aviso.
Todas as semanas, sem falta, a rapariga aquecia ao lume uma braseira de metal preto,
atirava para lá um punhado de sementes de arruda, e abanava o fumo espandi na direcção
da bebé para afugentar o mal.
Mariam achava cansativo observar o entusiasmo enérgico da rapariga — embora
tivesse de confessar, ainda que apenas em privado, sentir uma certa admiração. Admirava
o brilho de adoração que os olhos da rapariga irradiavam, mesmo nas manhãs em que a
sua cara definhava e a tez se apresentava emaciada devido a uma noite a passear a bebé.
A rapariga tinha ataques de riso quando a bebé soltava gases. As mais insignificantes
mudanças a encantavam e tudo o que a bebé fazia era declarado espectacular.
— Olha! Ela estendeu a mão para a roca. Que esperta.
— Vou telefonar aos jornais — comentava Rashid.
Todas as noites havia exibições. Quando a rapariga insistia para que ele visse qualquer
coisa, Rashid espetava o queixo e deitava-lhe um impaciente olhar de esguelha por cima
do nariz adunco sulcado de veias azuis.
— Vê. Vê como ela se ri quando eu estalo os dedos. Olha. Vês? Viste?
Rashid resmungava e voltava ao seu prato. Mariam recordava-se de quando a mera
presença da rapariga o deixava eufórico. Tudo o que ela dizia lhe agradava, o intrigava, o
levava a erguer os olhos do prato e acenar a sua aprovação.
O mais estranho era que a queda em desgraça da rapariga devia ter agradado a
Mariam, proporcionando-lhe uma sensação de vingança. Mas não. Não. Para sua própria
surpresa, Mariam deu por si a ter pena dela.
Era igualmente ao jantar que a rapariga soltava uma corrente de preocupações. No topo
da lista vinha a pneumonia, de que ela desconfiava à mais leve tosse. Seguia-se a
desinteria, cujo espectro se erguia sempre que havia fezes soltas. E cada erupção era
varicela ou sarampo.
— Não devias afeiçoar-te tanto — comentou Rashid uma noite.
— O que é que queres dizer com isso?
— Uma noite destas estive a ouvir a rádio. A Voz da América. Ouvi umas estatísticas
interessantes. Diziam que no Afeganistão uma em cada quatro crianças morre antes de
atingir os cinco anos. Foi o que eles disseram. Ora, eles... Que foi? Que foi? Onde é que
tu vais? Volta para aqui. Volta imediatamente para aqui!
Lançou um olhar atónito a Mariam. — O que é que lhe deu?
Nessa noite, Mariam estava deitada quando começou novamente a discussão. Era uma
noite de Verão, quente e seca, típica do mês de saratan em Cabul. Mariam abrira a sua
janela e voltara a fechá-la vendo que não entrava qualquer brisa que amenizasse a
temperatura, apenas mosquitos. Sentia o calor erguer-se do solo lá fora, atravessar as
tábuas acastanhadas e lascadas da latrina do pátio, e subir pelas paredes até ao seu
quarto.
Geralmente, a discussão terminava ao fim de alguns minutos, mas passou-se meia hora
e não só continuava, como estava a aumentar de intensidade. Mariam ouvia agora os
gritos de Rashid. A voz da rapariga, apenas audível sob a dele, era hesitante e aguda. Em
breve a bebé chorava.
Depois Mariam ouviu a porta deles abrir-se com violência. De manhã, encontraria a
marca circular da maçaneta impressa na parede do corredor. Estava sentada na cama
quando a sua própria porta foi escancarada e Rashid entrou.
Vestia cuecas brancas e uma camisola condizente, com manchas de transpiração
amarelas nas axilas. Nos pés trazia chinelos. Tinha um cinto na mão, o de pele castanha
que comprara para a sua nikka com a rapariga, e vinha a enrolar a extremidade perfurada
em volta do pulso.
— Isto é obra tua. Sei muito bem — rosnou, avançando para ela.
Mariam deslizou para fora da cama e começou a recuar. Cruzou instintivamente os
braços sobre o peito, que era frequentemente onde ele a atingia primeiro.
— De que estás tu a falar? — balbuciou.
— De ela se me recusar. Estás a ensiná-la.
Ao longo dos anos, Mariam aprendera a couraçar-se contra o desdém e censuras dele,
as suas troças e reprimendas. Mas não era capaz de controlar aquele medo. Após tantos
anos, continuava a tremer de pavor quando ele surgia assim, um esgar na boca, o cinto
apertado no punho, fazendo estalar o couro, o brilho nos olhos raiados de sangue. Era o
medo da cabra solta na jaula do tigre, quando o tigre ergue os olhos das patas e começa a
rugir.
A rapariga entrara também no quarto, de olhos arregalados, o rosto contraído.
— Já devia saber que tu a corromperias — atirou Rashid a Mariam. Agitou o cinto,
experimentando-o contra a sua própria coxa. A fivela ressoou, sonora.
— Pára com isso, bas! — disse a rapariga. — Rashid, não podes fazer uma coisa
destas.
— Volta para o quarto.
Mariam recuou de novo.
— Não! Não faças isso!
— Já!
Rashid ergueu outra vez o cinto e dessa vez dirigiu-se a Mariam.
Então aconteceu uma coisa espantosa: a rapariga atirou-se a ele. Agarrou-lhe o braço
com ambas as mãos e tentou baixá-lo, mas não conseguiu mais do que ficar pendurada
nele. Mas conseguiu retardar o avanço de Rashid na direcção de Mariam.
— Larga! — gritou Rashid.
— Venceste. Venceste. Não faças isso. Por favor, Rashid, não lhe batas! Por favor não
faças isso.
Ficaram assim a lutar, a rapariga pendurada nele, suplicante, e Rashid tentando sacudi-
la, conservando os olhos fixos em Mariam, demasiado petrificada para fazer alguma coisa.
Por fim, Mariam percebeu que não haveria pancada, não nessa noite. Ele marcara a sua
posição. Permaneceu assim alguns instantes mais, de braço erguido, o peito arquejante,
uma fina camada de suor a cobrir-lhe a testa. Depois, lentamente, baixou o braço. Os pés
da rapariga tocaram no chão, mas ela continuou a não o largar, como se não confiasse
nele. Rashid teve de dar um puxão ao braço para se libertar das suas mãos.
— Fico de olho em ti — disse ele, atirando o cinto por cima do ombro. — Fico de olho
em vocês as duas. Não permitirei que me façam de ahmaq, de tolo, na minha própria casa.
Lançou um derradeiro olhar assassino a Mariam, e deu um encontrão nas costas da
rapariga ao saírem.
Quando ouviu a porta deles fechar-se, Mariam voltou para a cama, enterrou a cabeça
nas almofadas, e esperou que as tremuras cessassem.
NESSA NOITE, MARIAM foi acordada do seu sono três vezes. Da primeira, foi o estrondo dos
rockets a oeste, vindo da direcção de Karteh-Char. Da segunda, foi a bebé a chorar lá em
baixo, os murmúrios da rapariga tentando acalmá-la, o tinir da colher contra o biberão.
Finalmente, foi a sede que a tirou da cama.
No andar de baixo, a sala encontrava-se mergulhada na escuridão; apenas um raio de
lua entrava pela janela. Mariam ouviu o zumbido de uma mosca algures, distinguiu a
silhueta do fogão de ferro fundido ao canto, com a chaminé saliente que se dobrava num
ângulo pronunciado logo abaixo do tecto.
A caminho da cozinha, quase tropeçou em qualquer coisa. Havia uma forma a seus pés.
Quando os olhos se adaptaram, distinguiu a rapariga e a bebé deitadas no chão em cima
de uma manta.
A rapariga dormia de lado, e ressonava. A bebé estava acordada. Mariam acendeu o
candeeiro de querosene de cima da mesa e agachou​-se. Àquela luz, viu-a pela primeira vez
de perto, o tufo de cabelos pretos, os olhos pestanudos cor de avelã, as faces rosadas, os
lábios cor de romã.
Mariam teve a impressão de que a bebé a examinava igualmente. Estava deitada de
costas, a cabeça inclinada para o lado, fitando intensamente Mariam com uma mescla de
diversão, confusão e desconfiança. Perguntou-se se a sua cara a poderia assustar, mas
nessa altura a bebé soltou um gritinho satisfeito e Mariam percebeu que recebera um
julgamento favorável.
— Shh — sussurrou Mariam. — Vais acordar a tua mãe, apesar de meio surda.
A bebé cerrou um punho e, erguendo-o, descobriu, aos solavancos, o caminho até à
boca. Sorriu a Mariam, a boca cheia com a sua própria mão, bolhinhas de saliva a brilhar
nos lábios.
— Olhem para ti. Que tristeza, vestida como um rapaz. E toda abafada, com este calor.
Não admira que ainda estejas acordada.
Afastou o cobertor da bebé e ficou horrorizada ao descobrir um segundo por baixo. Deu
um estalido com a língua e tirou também esse. A bebé soltou uma risadinha de alívio.
Bateu os braços como um pássaro.
— Melhor, nay?
Quando Mariam se ia a endireitar, a bebé agarrou-lhe o dedo mindinho. Os minúsculos
dedos apertaram-no com força. Estavam quentes e macios, húmidos de baba.
— Gunuh — disse a bebé.
— Está bem, bas, larga.
A bebé apertou mais, e agitou as pernas.
Mariam soltou o dedo. A bebé sorriu e emitiu uma série de gorgeios. Voltou a enfiar os
nós dos dedos na boca.
— Por que é que estás tão feliz? Hum? De que é que te estás a rir? Não és tão esperta
como diz a tua mãe. Tens um pai bruto e uma mãe idiota. Não te rias tanto se soubesses.
Decerto que não. Agora, dorme. Vá.
Pôs-se de pé e deu alguns passos antes de a bebé começar a fazer os sons de eh, eh,
eh, que Mariam sabia serem o prenúncio de um choro desabalado. Voltou para trás.
— O que foi? O que queres tu de mim?
A bebé ofereceu-lhe um sorriso desdentado.
Mariam suspirou. Sentou-se no chão e deixou-a apertar-lhe o dedo, ficando a observá-la
enquanto ela dava gritinhos de satisfação e flectia as pernas gorduchas pelas coxas,
dando pontapés no ar. Manteve-se ali sentada, a olhar, até a bebé parar de se mover e
começar a ressonar suavemente.
Lá fora, os tordos cantavam alegremente e, ocasionalmente, quando os cantores
levantavam voo, Mariam via-lhes as asas banhadas pelo luar de um azul fosforescente que
se escapava através das nuvens. E embora tivesse a garganta ressequida pela sede e os
pés a arder de formigueiros, passou-se muito tempo antes de resolver levantar-se,
libertando docemente o seu dedo da mão da bebé.
34

LAILA

De todos os prazeres terrenos, o que Laila preferia era estar deitada junto de Aziza,
com a cara da sua bebé tão perto que podia ver-lhe as enormes pupilas dilatar e contrair.
Adorava passar o dedo sobre a pele agradavelmente macia de Aziza, sobre os nós dos
dedos rechonchudos, as pregas de gordura dos cotovelos. Às vezes, deitava Aziza no seu
peito e segredava para a coroa suave da sua cabeça coisas acerca de Tariq, o pai que
permaneceria sempre um estranho para Aziza, cujo rosto Aziza nunca conheceria. Falava-
lhe da sua aptidão para resolver enigmas, das suas manhas e travessuras, do seu riso
fácil.
— Tinha umas pestanas lindíssimas, espessas como as tuas. Um belo queixo, um nariz
bem feito, um crânio redondo. Oh, o teu pai era bonito, Aziza. Era perfeito. Perfeito, como
tu.
Mas tinha o cuidado de nunca lhe mencionar o nome.
Às vezes, surpreendia Rashid a olhar para Aziza de uma maneira muito esquisita. Uma
noite, sentado no chão do quarto, estava a cortar um calo do pé, e perguntou em tom
despreocupado: — Então como eram as coisas entre vocês dois?
Laila fitara-o com ar confuso, como se não tivesse compreendido.
— Laili e Majnun. Tu e o yaklenga, o aleijado. O que havia entre vocês, tu e ele?
— Era meu amigo — respondeu Laila, tendo o cuidado de não deixar a voz mudar muito
de tom. Atarefou-se a preparar um biberão. — Sabes isso.
— Não sei o que sei. — Rashid depositou os pedaços de calo cortado no parapeito da
janela e atirou-se para cima da cama. As molas protestaram com um rangido sonoro. Ele
estendeu as pernas e coçou a virilha. — E como... amigos, vocês os dois fizeram alguma
vez algo impróprio?
— Impróprio?
Rashid sorriu jovialmente, mas Laila sentia-lhe o olhar, frio e perfurante. — Ora vejamos.
Bem, ele alguma vez te beijou? Meteu talvez a mão onde não devia?
Laila estremeceu, esperava que com ar indignado. Sentia o coração a martelar-lhe na
garganta. — Ele era como um irmão para mim.
— Então era um amigo ou um irmão?
— Ambos. Ele...
— Era o quê?
— Era as duas coisas.
— Mas os irmãos e as irmãs são criaturas curiosas. Sim. Por vezes um irmão deixa a
irmã ver-lhe a pilinha e uma irmã deixará...
— Enojas-me — disse Laila.
— Então não houve nada.
— Não quero falar mais disto.
Rashid inclinou a cabeça, comprimiu os lábios, acenou. — As pessoas comentavam,
sabes. Eu lembro-me. Diziam todo o tipo de coisas a respeito de vocês os dois. Mas tu
dizes que não houve nada.
Laila obrigou-se a lançar-lhe um olhar fulminante.
Ele susteve-lhe o olhar durante um espaço de tempo horrivelmente longo, de uma forma
fixa que fez os nós dos dedos com que Laila segurava o biberão ficarem lívidos, e exigiu
toda a sua vontade para não vacilar.
Tremia só de pensar no que ele faria se descobrisse que ela o andava a roubar. Desde
o nascimento de Aziza, todas as semanas ia espreitar​-lhe a carteira quando ele estava a
dormir ou na latrina lá de fora e ti​rava uma nota. Algumas semanas, se a carteira estava
pouco recheada, tirava apenas uma nota de cinco afeganis, ou mesmo nada, com medo
que ele notasse. Quando a carteira estava bem provida, guardava uma de dez ou de vinte,
tendo até arriscado uma vez tirar duas de vinte. Escondia o dinheiro numa bolsa que
cosera no forro do seu casaco de Inverno de xadrez.
Perguntou-se o que faria Rashid se soubesse que ela estava a planear fugir na
Primavera seguinte. No máximo, no Verão seguinte. Laila esperava ter juntado mil afeganis
ou mais, metade dos quais se destinava ao bilhete de camioneta de Cabul para Peshawar.
Empenha​ria a aliança quando se aproximasse a altura, assim como as outras jóias que
Rashid lhe oferecera no ano anterior, quando ela ainda era a malika do seu palácio.
— Seja como for — prosseguiu ele, com os dedos a tamborilar na barriga —, não podes
censurar-me. Sou um marido. Isto são coisas em que um marido pensa. Mas ele tem sorte
em ter morrido como morreu. Porque se aqui estivesse agora, se eu lhe pusesse as mãos
em cima... — Inspirou através dos dentes e abanou a cabeça.
— E que tal não dizer mal dos mortos?
— Acho que certas pessoas nunca estão suficientemente mortas — rematou ele.

DOIS DIAS DEPOIS, ao acordar de manhã, Laila encontrou uma pilha de roupa de bebé,
cuidadosamente dobrada, do lado de fora da porta do seu quarto. Havia um vestido rodado
com pequeninos peixes cor-de-rosa bordados no corpo, um vestido de lã azul às flores
com meias e luvas a condizer, um pijama amarelo com bolas cor de cenoura, e calças de
algodão verde com um folho às pintinhas nas pernas.
— Corre o boato — informou Rashid ao jantar dessa noite, estalando os lábios, sem
ligar a Aziza nem ao pijama que Laila lhe vestira —, de que Dostum vai mudar de lado e
juntar-se a Hekmatyar. A ser assim, Massoud terá muito com que se ocupar a combater
esses dois. E não podemos esquecer os hazaras. — Serviu-se de um bocado de beringela
em salmoura que Mariam preparara nesse Verão. — Esperemos que não passe disso
mesmo, um boato. Porque se isso acontecer, esta guerra — e acenou com a mão
engordurada — vai parecer um piquenique de sábado em Paghman.
Mais tarde, ele montou-a e aliviou-se com uma pressa muda, completamente vestido,
exceptuando o tumban, que não tirara mas apenas puxara até aos tornozelos. Quando as
frenéticas sacudidelas cessaram, rolou de cima dela e adormeceu em minutos.
Laila esgueirou-se do quarto e foi encontrar Mariam acocorada na cozinha, a limpar um
par de trutas. A seu lado havia já uma panela com arroz de molho. A cozinha cheirava a
cominhos e fumo, cebolas alouradas e peixe.
Laila sentou-se a um canto e cobriu os joelhos com a bainha do vestido.
— Obrigada — disse ela.
Mariam ignorou-a. Acabou de cortar a primeira truta e pegou na segunda. Com uma
faca de serrilha, cortou as barbatanas, depois virou o peixe de forma a ficar com a barriga
virada para si, e abriu-o destra​mente da cauda às guelras. Laila viu-a meter o polegar na
boca do peixe, logo acima da queixada inferior, empurrar e, com um único movimento
descendente, retirar as guelras e as entranhas.
— A roupa é encantadora.
— Não me servia para nada — murmurou Mariam. Deixou cair o peixe num jornal
manchado de um líquido cinzento e lodoso, e cortou-lhe a cabeça. — Era para a tua filha
ou para as traças.
— Onde é que aprendeste a arranjar o peixe assim?
— Quando era pequena, vivia ao pé de um ribeiro. Costumava apanhar o meu próprio
peixe.
— Eu nunca pesquei.
— Não tem dificuldade nenhuma. É sobretudo esperar.
Laila observou-a a cortar a truta limpa em três partes. — Foste tu que fizeste as
roupas?
Mariam acenou afirmativamente.
— Quando?
Mariam lavou as secções do peixe numa tigela com água. — Quando estava grávida da
primeira vez. Ou talvez da segunda. Há dezoito ou dezanove anos. Há muito tempo, de
qualquer maneira. Como te disse, nunca me serviram para nada.
— És muito boa khayat. Talvez me possas ensinar.
Mariam meteu os pedaços de truta lavada numa tigela limpa. Com gotas de água a
escorrer dos dedos, levantou a cabeça e olhou para Laila, olhou-a como se fosse a
primeira vez.
— Na outra noite, quando ele... Nunca ninguém tomara assim o meu partido — disse
ela.
Laila examinou as faces descaídas de Mariam, as pálpebras formando pregas
fatigadas, as profundas rugas que lhe emolduravam a boca — viu todas essas coisas
como se também ela estivesse a olhar para alguém pela primeira vez. E, pela primeira vez,
o que Laila viu não foi o rosto de uma adversária, mas um rosto de agravos calados,
obrigações sem protesto, um destino aceite e suportado. Se ela ficasse, perguntou-se
Laila, seria aquele o seu próprio rosto daí a vinte anos?
— Não podia deixá-lo continuar — explicou ela. — Não fui criada numa casa em que as
pessoas procedessem assim.
— A tua casa agora é esta. Tens de te habituar.
— Não a isso. Nunca.
— Ele acabará por virar-se também contra ti, sabes — prosseguiu Mariam, enxugando
as mãos a um trapo. — Não tarda. E deste-lhe uma filha. Por isso, compreendes, o teu
pecado é ainda menos desculpável do que o meu.
Laila pôs-se de pé. — Sei que está frio lá fora, mas o que dizes a nós as duas
pecadoras irmos tomar uma chávena de chai ao pátio?
Mariam pareceu surpreendida. — Não posso. Ainda tenho de cortar e lavar os feijões.
— Eu ajudo-te a fazer isso de manhã.
— E tenho de limpar tudo isto aqui.
— Fá-lo-emos juntas. Se não estou em erro, sobrou algum halwa. É óptimo com chai.
Mariam pousou o trapo no balcão. Laila sentiu ansiedade na forma como ela puxou as
mangas, ajustou o hijab, afastou uma madeixa de cabelo.
— Os chineses dizem que é melhor ficar privado de comida durante três dias do que de
chá durante um.
Mariam teve um meio sorriso. — É um belo dito.
— Pois é.
— Mas não posso demorar-me muito.
— Uma chávena.
Sentaram-se lá fora em cadeiras articuladas e comeram halwa com os dedos, de uma
taça comum. Tomaram uma segunda chávena, e quando Laila lhe ofereceu uma terceira,
Mariam aceitou. Enquanto os canhões ribombavam nas montanhas, elas contemplaram as
nuvens a deslizar sobre a lua e os derradeiros pirilampos da estação a descrever
brilhantes arcos amarelos no escuro. E quando Aziza acordou a chorar e Rashid gritou a
Laila que fosse para cima calá-la, Laila e Mariam trocaram um olhar. Um olhar espontâneo,
conhecedor. E nessa troca breve e muda com Mariam, Laila percebeu que já não eram
inimigas.
35

MARIAM

Dessa noite em diante, Mariam e Laila passaram a ocupar-se das suas tarefas em
conjunto. Sentavam-se na cozinha e enrolavam massa, cortavam cebolas, picavam alho,
ofereciam bocadinhos de pepino a Aziza, que batucava com colheres de pau ali perto e
brincava com cenouras. No pátio, Aziza deitava-se num berço de vime, vestindo camadas
de roupa, um cachecol de Inverno aconchegado em volta do pescoço. Mariam e Laila
mantinham-na debaixo de olho enquanto lavavam a roupa, os nós dos dedos de Mariam a
chocarem com os de Laila enquanto esfregavam camisas, calças e fraldas.
Mariam foi-se habituando lentamente àquela companhia hesitante mas agradável.
Ansiava pelas três chávenas de chai partilhadas com Laila no pátio, agora um ritual
nocturno. De manhã, dava por si a esperar pelo som dos chinelos gretados de Laila a
bater nos degraus enquanto ela descia para o pequeno-almoço e pelo tilintar do riso agudo
de Aziza, a visão dos seus oito minúsculos dentes, o cheiro a leite da sua pele. Se Lai​la e
Aziza dormiam até mais tarde, Mariam começava a ficar ansiosa. La​vava pratos que não
precisavam de ser lavados. Arranjava almofadas impecáveis na sala. Limpava o pó a
parapeitos lavados. Mantinha-se ocupada até Laila entrar na cozinha, com Aziza apoiada
na anca.
Quando Aziza avistava Mariam, abria sempre muito os olhos, e começava a choramingar
e a agitar-se ao colo da mãe. Estendia-lhe os braços, exigindo que ela lhe pegasse,
abrindo e fechando com impaciência as mãos minúsculas, com um ar simultaneamente de
adoração e trémula ansiedade estampado na cara.
— Mas que cena tu fazes — comentava Laila, soltando-a e deixando​-a gatinhar em
direcção a Mariam. — Que cena! Calma. Khala Mariam não vai a lado nenhum. Está aí, a
tua tia. Vês? Vai lá, anda.
Assim que se encontrava nos braços de Mariam, Aziza enfiava o polegar na boca e
enterrava-lhe a cara no pescoço.
Mariam embalava-a rigidamente, com um sorriso meio espantado, meio grato nos
lábios. Nunca ela fora desejada daquela maneira. Nunca lhe fora demonstrado amor de
uma maneira tão franca, tão aberta.
Aziza enternecia Mariam até às lágrimas.
— Por que é que prendeste o teu coraçãozinho a uma velha bruxa feia como eu? —
Murmurava ela para o cabelo de Aziza. — Hum? Eu não sou ninguém, não vês? Uma
dehati. O que tenho eu para te dar?
Mas Aziza limitava-se a balbuciar satisfeita e a enterrar mais a cara. E quando ela fazia
isso, Mariam sentia-se desfalecer. Os olhos rasavam​-se de lágrimas. O seu coração
levantava voo. E ela extasiava-se pela forma como, após todos aqueles anos a vaguear
solta, encontrara naquela pequena criatura a primeira ligação verdadeira da sua vida de
ligações falsas e falhadas.

NO INÍCIO DO ANO SEGUINTE,


em Janeiro de 1994, Dostum mudou realmente de lado. Juntou-
se a Gulbuddin Hekmatyar, e tomou posição nas muralhas de Bala Hissar, a velha cidadela
que se debruçava sobre a cidade das montanhas de Koh-e-Shirdawaza. Juntos,
dispararam contra as forças de Massoud e Rabbani entrin​cheiradas no Ministério da
Defesa e no Palácio Presidencial. De ambos os lados do rio Cabul, descarregavam rajadas
de artilharia uns sobre os outros. As ruas ficaram apinhadas de cadáveres, vidros e
pedaços de metal amolgados. Havia pilhagens, assassínios, e, cada vez mais, violações,
que eram usadas para intimidar civis e recompensar milicianos. Mariam ouviu falar de
mulheres que se suicidavam com medo de serem violadas, e de homens que, em nome da
honra, matavam as esposas e as filhas se estas tivessem sido violadas pelos militares.
Aziza chorava com o ruído dos morteiros. Para a distrair, Mariam dispunha grãos de
arroz no chão, a formar uma casa ou um galo ou uma estrela, e deixava que Aziza os
espalhasse. Desenhava-lhe elefantes como Jalil lhe ensinara, com um só traço, sem
levantar nunca o bico da caneta.
Rashid disse que havia diariamente dezenas de mortos civis. Hospitais e lojas com
material clínico estavam a ser bombardeados. Veículos que transportavam alimentos de
emergência estavam a ser impedidos de entrar na cidade, disse ele, saqueados e
metralhados. Mariam perguntava-se se também se lutaria assim em Herat, e em caso
afirmativo, como estariam o Mullah Faizullah, se ainda fosse vivo, e também Bibi jo, com
todos os seus filhos, esposas e netos. E, evidentemente, Jalil. Estaria escondido como ela,
perguntava-se Mariam? Ou teria pegado nas suas esposas e filhos e abandonado o país?
Esperava que Jalil se encontrasse são e salvo em algum lado, que tivesse conseguido
escapar a toda aquela carnificina.
Durante uma semana, os combates obrigaram até Rashid a ficar em casa. Trancou o
portão do pátio, montou armadilhas, trancou igualmente a porta de entrada da casa e
barricou-a com o sofá. Andava de um lado para o outro, a fumar, a espreitar pela janela, a
limpar a pistola, carregando-a e voltando a carrregá-la. Por duas vezes disparou a arma
para a rua, afirmando que vira alguém a tentar trepar pelo muro.
— Eles andam a obrigar rapazes a juntarem-se-lhes — disse Rashid. — Os mujahidin.
Em plena luz do dia, de arma apontada. Arrastam os rapazes que encontram nas ruas. E
quando os soldados de uma milícia rival capturam esses rapazes, torturam-nos. Ouvi dizer
que os electrocutam — foi o que eu ouvi —, que lhes esmagam os testículos com alicates.
Obrigam os rapazes a conduzi-los às suas casas. Depois forçam a entrada, matam os
pais, violam as irmãs e as mães.
Agitou a pistola por cima da cabeça. — Que se atrevam a tentar forçar a entrada em
minha casa. Eu é que lhes esmago os testículos a eles! Rebento-lhes a cabeça! Sabem
que sortudas vocês duas são por terem um homem que não tem medo nem do próprio
Shaitan?
Baixou os olhos para o chão e reparou em Aziza junto dos seus pés. — Desampara-me
a loja! — gritou asperamente, fazendo com a arma o gesto de correr com ela. — Pára de
me seguir! E podes parar também de torcer os punhos dessa maneira. Não te vou pegar.
Anda lá! Marcha antes que eu te pise.
Aziza encolheu-se. Gatinhou de volta a Mariam, com ar magoado e confuso. Ao colo
dela, chuchou no polegar tristemente, observando Rashid com ar triste e pensativo. De vez
em quando, erguia os olhos como quem pretende ser tranquilizada, imaginou Mariam.
Mas no que dizia respeito a pais, Mariam não podia tranquilizar ninguém.
MARIAM SENTIU UM ENORME ALÍVIO quando os combates cessaram de novo, principalmente
porque deixaram de estar encur​raladas com Rashid, com o seu temperamento azedo a
infectar a casa toda. E ele assustara-a imenso ao agitar aquela pistola carregada perto de
Aziza.
Um dia desse Inverno, Laila pediu para entrançar o cabelo a Mariam.
Mariam sentou-se imóvel e observou no espelho os dedos esbeltos de Laila a
apertarem-lhe as tranças, com o rosto franzido de concentra​ção. Aziza dormia enroscada
no chão. Tinha debaixo do braço uma boneca que Mariam lhe fizera, enchendo o corpo
com feijões. Arranjara-lhe um vestido com tecido tinto com chá, e um colar com pequenos
carrinhos de linha vazios enfiados num cordel.
Depois Aziza soltou gases a dormir. Laila começou a rir, e Mariam juntou-se-lhe.
Ficaram a rir assim, para o reflexo uma da outra no espelho, com as lágrimas a virem-lhes
aos olhos, e o momento foi tão natural, tão espontâneo, que de repente Mariam começou
a falar-lhe de Jalil, e de Nana, e dos jinn. Laila permaneceu com as mãos pousadas nos
ombros de Mariam, os olhos presos ao seu rosto no espelho. E as palavras saíram, como
sangue a jorrar de uma artéria. Mariam falou​-lhe de Bibi jo, do Mullah Faizullah, da viagem
humilhante a casa de Jalil, do suicídio de Nana. Falou das esposas de Jalil, e da nikka
apressada com Rashid, da viagem para Cabul, das suas gravidezes, dos intermináveis
ciclos de esperança e desapontamento, da viragem de Rashid contra ela.
Depois, Laila sentou-se aos pés da cadeira de Mariam. Com ar ausente, tirou um
pedaço de cotão preso ao cabelo de Aziza. Seguiu​-se um silêncio.
— Eu também tenho uma coisa para te contar — começou Laila.
NESSA NOITE, MARIAM não dormiu. Ficou sentada na cama, vendo a neve cair
silenciosamente.
As estações tinham-se sucedido; em Cabul, vários presidentes tinham tomado posse e
sido assassinados; um império tinha sido derrotado; guerras antigas tinham terminado e
outras novas estalado. Mas Mariam mal dera por isso, mal se importara. Tinha passado
esses anos num canto distante da sua mente. Um campo seco e estéril, para lá de desejos
e lamentos, para lá de sonhos e desilusões. Ali, o futuro não interessava. E o passado
continha apenas uma sabedoria: o amor era um erro perigoso, e a sua cúmplice, a
esperança, uma ilusão traiçoeira. E sempre que essas venenosas flores gémeas
começavam a brotar na terra ressequida desse campo, Mariam arrancava-as. Arran​cava-
as e deitava-as fora antes de criarem raízes.
Mas de algum modo, ao longo dos últimos meses, Laila e Aziza — uma harami como
ela, afinal — haviam-se transformado numa extensão de si mesma, e agora, sem elas, a
vida que Mariam tolerara durante tanto tempo parecia-lhe de súbito intolerável.
Nós vamos partir esta Primavera, eu e Aziza. Vem connosco, Mariam.
Os anos não tinham sido indulgentes com Mariam. Mas talvez, pensou ela, ainda
houvesse melhores anos à sua espera. Uma vida nova, uma vida em que encontrasse a
felicidade que, dissera Nana, uma harami como ela nunca teria. Duas novas flores tinham
inespera​damente brotado na sua vida, e, contemplando a neve a tombar, Mariam imaginou
o Mullah Faizullah fazendo girar as suas contas tasbeh, a inclinar-se e a segredar-lhe na
sua voz suave e trémula: Mas foi Deus que as plantou, Mariam jo. E é Sua vontade que tu
cuides delas. É Sua vontade, minha filha.
36

LAILA

À medida que a claridade ia removendo a escuridão do céu nessa manhã de Primavera


de 1994, Laila teve a certeza de que Rashid sabia. Que, a qualquer momento, ele a
arrastaria da cama para fora e lhe perguntaria se de facto ela o tomara por um tal khar,
por um tal burro, que não descobrisse. Mas soou o azan, e depois o sol matinal inundou os
telhados e os galos começaram a cantar e não aconteceu nada de invulgar.
Ouvia-o na casa de banho, a bater a navalha contra a borda do lavatório. Depois lá em
baixo, de um lado para o outro, a aquecer chá. As chaves tilintaram. Agora ia a atravessar
o pátio, com a bicicleta pela mão.
Laila espreitou por uma fresta dos cortinados da sala. Viu-o afastar​-se a pedalar, um
homem grande numa bicicleta pequena, com o sol da manhã a faiscar no guiador.
— Laila?
Mariam surgira à entrada da porta. Laila percebeu que ela também não dormira.
Perguntou-se se Mariam teria igualmente sido assaltada durante toda a noite por acessos
de euforia e ataques de ansiedade de deixar a boca seca.
— Partimos dentro de meia hora — disse Laila.
NO BANCO DE TRÁS do táxi, permaneceram caladas. Aziza ia sentada ao colo de Mariam, a
boneca muito apertada, observando com os olhos arregalados de espanto a cidade que
passava veloz​mente.
— Ona! — gritou ela, apontando para um grupo de rapariguinhas a saltar a corda. —
Mayam! Ona!
Para onde quer que olhasse, Laila via Rashid. Avistou-o a sair de barbearias com
montras da cor de pó de carvão, de minúsculas bancas que vendiam perdizes, de lojas
danificadas, com as frentes abertas, apinhadas de pneus velhos até ao tecto.
Afundou-se mais no assento.
A seu lado, Mariam murmurava uma prece. Laila gostaria de poder ver-lhe a cara, mas
Mariam ia de burca — iam ambas — e a única coisa que conseguia avistar era o brilho dos
seus olhos através da rede.
Era a primeira vez que Laila saía de casa desde há semanas, não contando com a
rápida ida à loja de penhores no dia anterior — onde empurrara a aliança por um balcão de
vidro, e de onde saíra entu​siasmada com a finalidade daquele gesto, sabendo que já não
podia voltar atrás.
A toda a sua volta, Laila via agora as consequências dos recentes combates cujos sons
ouvira em casa. Casas destelhadas transformadas em ruínas de tijolos e pedras
pontiagudas, edifícios esventrados com traves caídas a espreitar de buracos, os
esqueletos carbonizados e mutilados de automóveis virados ao contrário, por vezes
empilhados uns por cima dos outros, paredes furadas por balas de todos os calibres
imagináveis, vidros quebrados por toda a parte. Viu um cortejo fúnebre a dirigir-se a uma
mesquita, levando atrás uma mulher idosa vestida de negro a arrepelar os cabelos.
Passaram por um cemitério juncado de sepulturas cobertas por pedras amontoadas, com
bandeiras rotas de shahid a oscilar à brisa.
Laila estendeu o braço por cima da mala, e rodeou com os dedos o braço macio da
filha.
NA ESTAÇÃO DE CAMIONETAS da Porta de Lahore, perto de Pol Mahmood Khan, em Cabul
leste, havia uma fileira de camionetas estacionadas junto ao passeio. Homens de turbante
atarefavam-se a içar embrulhos e caixotes para os tectos das camionetas, e a prender
malas com cordas. No interior da estação, uma longa fila de homens esperava para chegar
à bilheteira. Mulheres de burca conversavam em grupos, com os seus haveres empilhados
aos pés. Embalavam-se bebés, repreendiam-se crianças por se afastarem demasiado.
Milicianos mujahidin patrulhavam a estação e o passeio, gritando ordens secas aqui e
além. Usavam botas, pakols, e camuflados verdes cobertos de pó. Todos traziam
kalashnikovs.
Laila sentia-se observada. Não fitou ninguém a direito, mas tinha a sensação de que
todas aquelas pessoas sabiam e olhavam desaprovadoramente aquilo que ela e Mariam se
preparavam para fazer.
— Estás a ver alguém? — perguntou Laila.
Mariam mudou Aziza de braço. — Estou à procura.
Laila soubera que aquilo seria a primeira parte arriscada: encontrar um homem certo,
disposto a passar por membro da família delas. As liberdades e oportunidades de que as
mulheres haviam gozado entre 1978 e 1992 pertenciam ao passado; Laila ainda se
recordava do comentário do Babi a propósito desses anos de domínio comunista, São
bons tempos para ser mulher no Afeganistão, Laila. Desde que os mujahidin haviam
tomado o poder, em Abril de 1992, o nome do Afeganistão fora mudado para Estado
Islâmico do Afeganistão. O Supremo Tribunal, controlado por Rabbani, estava agora cheio
de mullahs da linha dura que tinham rejeitado os decretos da era comunista a favor de
mais poder para as mulheres, aprovando em vez disso regras baseadas nas rigorosas leis
islâmicas da Shari’a, que mandavam cobrir as mulheres, proibiam que estas viajassem sem
um parente masculino, e puniam o adultério com apedrejamento. Apesar de a imposição
dessas leis ser, no máximo, esporádica. Mas eles aplicá-las-iam mais, dissera Laila a
Mariam, se não andassem tão ocupados a matar-se uns aos outros. E a nós.
A segunda parte arriscada da viagem viria quando chegassem realmente ao Paquistão.
Já sobrecarregado com cerca de dois milhões de refugiados afegãos, o Paquistão fechara
as suas fronteiras aos afegãos em Janeiro desse ano. Laila ouvira dizer que apenas era
admitido quem possuía visto. Mas a fronteira era porosa, sempre fora, e Laila sabia que
milhares de afegãos continuavam a passar para o Paquistão quer por meio de subornos,
quer fazendo prova de razões humanitárias — e havia sempre contrabandistas que se
podiam contratar. Arranjaremos maneira quando lá chegarmos, dissera ela a Mariam.
— Que tal aquele? — indagou Mariam, apontando com o queixo.
— Não me parece de confiança.
— E aquele?
— Demasiado velho. E viaja com outros dois homens.
Laila descobriu-o por fim, sentado lá fora, num banco do parque, com uma mulher
velada ao lado e um garotinho de solidéu, mais ou menos da idade de Aziza, a saltitar nos
joelhos. Era alto e magro, de barba, vestia uma camisa de colarinho aberto e um modesto
casaco cinzento a que faltavam botões.
— Espera aqui — disse ela a Mariam. Ao afastar-se, ouviu de novo Mariam murmurar
uma oração.
Quando Laila se aproximou do jovem, ele levantou a cabeça, protegendo os olhos do sol
com a mão.
— Desculpa, irmão, mas vão para Peshawar?
— Vamos — respondeu ele, franzindo os olhos.
— Talvez nos possas ajudar. Poderás fazer-nos um favor?
Ele passou o garoto à mulher, e afastou-se um pouco com Laila.
— O que é, hamshira?
Laila sentiu-se encorajada ao ver que ele possuía olhos doces e um rosto bondoso.
Contou-lhe a história que ela e Mariam haviam combinado. Ela era uma biwa, disse, uma
viúva. Ela, a mãe e a filha não tinham mais ninguém em Cabul. Iam para Peshawar a fim de
viverem com um tio.
— Querem vir com a minha família — disse o jovem.
— Sei que é um zahmat para ti. Mas pareces-me um irmão respeitável, e eu...
— Não te preocupes, hamshira. Eu compreendo. Não é incómodo nenhum. Deixe-me ir
comprar-te os bilhetes.
— Obrigada, irmão. Isto é um sawab, uma boa acção. Deus lembrar-se-á.
Tirou o sobrescrito do bolso debaixo da burca e entregou-lho. Tinha dentro mil e cem
afeganis, cerca de metade do dinheiro que amealhara ao longo do ano passado mais o que
recebera da venda do anel. Ele enfiou o sobrescrito no bolso das calças.
— Espera aqui.
Laila viu-o entrar na estação. Regressou meia hora depois.
— É melhor guardar eu os vossos bilhetes — disse ele. — A camioneta sai daqui a uma
hora, às onze. Entraremos juntos. Eu cha​mo-me Wakil. Se eles perguntarem — o que não
é natural — digo​-lhes que és minha prima.
Laila disse-lhe os seus nomes, e ele afirmou que se lembraria.
— Mantenham-se perto — aconselhou.
Sentaram-se no banco ao lado do de Wakil e da família. Estava uma manhã soalheira e
tépida, o céu riscado apenas por alguns farrapos de nuvens pairando ao longe sobre as
montanhas. Mariam começou a dar a Aziza algumas das bolachas que, apesar da pressa
de fazer a mala, se lembrara de levar. Ofereceu uma a Laila.
— Vomito com certeza — riu Laila. — Estou demasiado excitada.
— Eu também.
— Obrigada, Mariam.
— Por quê?
— Por isto. Por vires connosco — respondeu Laila. — Acho que não seria capaz de o
fazer sozinha.
— Não será preciso.
— Correrá tudo bem, no lugar para onde vamos, não é verdade, Mariam?
A mão de Mariam deslizou pelo banco e fechou-se sobre a dela. — O Corão diz que
Allah é o Oriente e o Ocidente, portanto para onde quer que nos viremos está a vontade
de Allah.
— Bov! — gritou Aziza, apontando uma camioneta. — Mayam, bov!
— Estou a ver, Aziza jo — disse Mariam. — Tens razão, bov. Daqui a pouco vamos
todas viajar no bov. Ah, as coisas que tu vais ver.
Laila sorriu. Observou um carpinteiro que, na sua loja do outro lado da rua, serrava
madeira, fazendo voar lascas. Observou os carros passarem velozmente, as janelas
cobertas por uma camada de fuligem e sujidade. Observou as camionetas a rosnarem
preguiçosamente encostadas ao passeio, com pavões, leões, sóis nascentes, e espadas
reluzentes pintadas de lado.
Sob a tepidez do sol matinal, Laila sentia-se simultaneamente atordoada e ousada. Teve
outro daqueles pequenos acessos de euforia, e quando um cão vadio de olhos amarelos se
aproximou a coxear, inclinou-se e afagou-lhe as costas.
Alguns minutos antes das onze, um homem de corneta deu instruções para que todos os
passageiros com destino a Peshawar começassem a embarcar. As portas da camioneta
abriram-se com um violento silvo hidráulico. Uma torrente de viajantes precipitou-se para lá,
apressando-se para passar primeiro.
Wakil fez sinal a Laila enquanto pegava no filho.
— Estamos prontas — disse Laila.
Wakil foi à frente. Ao aproximarem-se da camioneta, Laila viu caras aparecerem às
janelas, narizes e palmas esborrachados contra o vidro. A toda a volta gritavam-se
despedidas.
Um jovem miliciano verificava os bilhetes à porta da camioneta.
— Bov! — exclamou Aziza.
Wakil entregou os bilhetes ao soldado, que os rasgou ao meio e os devolveu. Wakil
deixou a esposa subir primeiro. Laila viu-o trocar um olhar com o soldado, e depois,
empoleirado no primeiro degrau da camioneta, inclinou-se e disse-lhe qualquer coisa ao
ouvido. O mili​ciano acenou.
O coração de Laila caiu-lhe aos pés.
— Vocês duas, com a criança, desviem-se — ordenou o soldado.
Laila fingiu não ouvir. Avançou para subir o degrau, mas ele agarrou-a pelo ombro e
puxou-a rudemente para fora da fila. — Tu também — disse ele para Mariam. —
Despachem-se! Estão a atrasar a fila.
— Qual é o problema, irmão? — perguntou Laila com os lábios entorpecidos. — Nós
temos bilhetes. O meu primo não tos entregou?
Ele fez com o dedo um gesto de Sssh e falou em voz baixa com outro guarda. O
segundo guarda, um indivíduo rotundo com uma cicatriz na face direita, anuiu com um
aceno.
— Sigam-me — disse ele para Laila.
— Nós precisamos de apanhar esta camioneta — gritou Laila, ciente de que a voz lhe
tremia. — Temos bilhetes. Por que estás a fazer isto?
— Vocês não vão apanhar esta camioneta. É melhor que aceites isso. Vocês vão seguir-
me. A não ser que queiras que a tua pequenita te veja ser arrastada à força.
Enquanto eram conduzidas a um camião, Laila olhou por cima do ombro e avistou o filho
de Wakil na parte de trás da camioneta. O garoto também a viu e acenou alegremente.
NA ESQUADRA DE POLÍCIA de Torabaz Khan Intersection, man​daram-nas sentar separadas,
em extremos opostos de um longo corredor apinhado, tendo pelo meio uma secretária,
atrás da qual um homem fumava cigarro após cigarro e batia ocasionalmente as teclas de
uma máquina de escrever. Passaram-se assim três horas. Aziza andou a cambalear de
Laila para Mariam, e vice-versa. Brincou com um clip que o homem da secretária lhe deu.
Acabou as bolachas. Por fim, adormeceu ao colo de Mariam.
Cerca das três da tarde, Laila foi levada para uma sala de inter​rogatório. Mariam foi
mandada esperar no corredor com Aziza.
O homem sentado à secretária encontrava-se na casa dos trinta e vestia à civil: fato
preto, gravata, mocassins pretos. Tinha uma barba cuidadosamente aparada, o cabelo
curto, e as sobrancelhas muito juntas. Fitou fixamente Laila, batendo na secretária com a
ponta do lápis que tinha a borracha.
— Sabemos — começou ele, pigarreando e tapando delicadamente a boca com o punho
— que já disseste hoje uma mentira, hamshira. O jovem da estação não era teu primo. Foi
ele próprio quem no-lo disse. A questão é saber se ainda dirás mais mentiras hoje.
Pessoal​mente, aconselho-te a que o não faças.
— Nós íamos viver com o meu tio — afirmou Laila. — É a verdade.
O polícia acenou. — A hamshira que está no corredor é tua mãe?
— É.
— Ela tem pronuncia de harati. Tu não.
— Ela foi criada em Herat, eu nasci aqui em Cabul.
— Claro. E és viúva? Disseste que eras. Os meus sentimentos. E esse tio, esse kaka,
onde é que ele vive?
— Em Peshawar.
— Sim, já disseste isso. — Mordiscou a ponta do lápis e manteve​-o suspenso sobre
uma folha de papel em branco. — Mas onde, em Peshawar? Em que bairro, por favor?
Nome de rua, número de sector.
Laila esforçou-se por repelir a bolha de pânico que lhe subia pelo peito. Deu-lhe o nome
da única rua que conhecia em Peshawar — ouvira mencioná-la uma vez, na festa que a
Mamã dera quando os mujahidin tinham entrado em Cabul: — Jamrud Road.
— Ah, sim. A rua do Pearl Continental Hotel. Talvez ele o tenha mencionado.
Ela agarrou-se àquela oportunidade e disse que sim. — Nessa mesma rua, sim.
— Só que o hotel é em Khyber Road.
Laila ouvia Aziza a chorar no corredor. — A minha filha está assustada. Posso ir buscá-
la, irmão?
— Prefiro «Agente». E não tardarás a ir ter com ela. Tens o nú-mero de telefone desse
tio?
— Tenho. Tinha. Eu... — Mesmo com a burca entre eles, Laila não se sentia protegida
dos seus olhos penetrantes. — Estou tão transtornada que acho que me esqueci.
Ele suspirou pelo nariz. Perguntou o nome do tio, o nome da esposa do tio. Quantos
filhos tinha? Como se chamavam? Onde é que ele trabalhava? Que idade tinha? As
perguntas atrapalharam Laila.
O agente pousou o lápis, entrelaçou os dedos, e inclinou-se para diante da maneira que
os pais fazem quando pretendem comunicar uma coisa a uma criança pequena. — Tens
consciência, hamshira, de que é crime uma mulher fugir de casa. Vemos isso acontecer
imenso. Mulheres que viajam sozinhas, afirmando que os maridos morreram. Por vezes
falam verdade, mas a maioria das vezes não. Podes ir para a prisão por fugir de casa,
presumo que compreendes isso, nay?
— Deixe-nos partir, Agente... — Leu o nome na placa que ele trazia na lapela. — Agente
Rahman. Honre o significado do seu nome e mostre compaixão. Que importância tem para
si deixar partir duas pobres mulheres? Que mal faz libertar-nos? Nós não somos
criminosas.
— Não posso.
— Por favor, suplico-te.
— É uma questão de qanun, hamshira, uma questão de lei — declarou Rahman,
conferindo à voz um tom grave, de importância. — Compreendes, a minha
responsabilidade é manter a ordem.
Apesar do seu estado de perturbação, Laila quase se riu. Pasmava que ele empregasse
tal palavra face a tudo aquilo que as facções de mujahidin tinham feito: os assassínios, as
pilhagens, as violações, as torturas, as execuções, os bombardeamentos, as dezenas de
milhar de rockets que tinham disparado uns contra os outros, indiferentes a todas as
pessoas inocentes que morreriam nesse fogo cruzado. Ordem. Mas mordeu a língua.
— Se nos mandar voltar para casa — proferiu ela lentamente — sabe-se lá o que ele
nos fará.
Viu que ele teve de fazer um esforço para não desviar os olhos. — O que um homem faz
em sua casa é com ele.
— Então e a lei nesse caso, Agente Rahman? — Lágrimas de raiva queimavam-lhe os
olhos. — Estará lá o senhor para manter a ordem?
— É nossa política não interferir em assuntos particulares da família, hamshira.
— Claro que não. Quando isso beneficia o homem. E este não é um «assunto particular
da família», como lhe chamou? Pois não?
Ele afastou a cadeira da secretária e ergueu-se, endireitando o casaco. — Acho que
esta conversa terminou. Devo dizer, hamshira, que defendeste muito mal o teu caso. Muito
mal mesmo. Agora, se quiseres aguardar lá fora vou trocar duas palavras com a tua...
quem quer que ela seja.
Laila começou a protestar, e depois a gritar, e ele teve de chamar outros dois homens
para a arrastarem para fora do gabinete.
A entrevista de Mariam durou apenas alguns minutos. Quando saiu, vinha com ar
abalado.
— Ele fez-me tantas perguntas — balbuciou ela. — Desculpa, Laila jo. Eu não sou
inteligente como tu. Ele fez tantas perguntas e eu não sabia as respostas. Desculpa.
— A culpa não é tua, Mariam — proferiu Laila debilmente. — É mi​nha. A culpa é só
minha. É tudo culpa minha.
PASSAVA DAS seis horas quando o carro da polícia estacionou em frente da casa. Laila e
Mariam foram mandadas esperar no banco de trás, guardadas por um soldado mujahidin
no lugar do passageiro. Foi o condutor que saiu do carro, bateu à porta e falou com
Rashid. Foi ele quem lhes fez sinal para entrarem.
— Bem-vindas a casa — disse o homem do assento da frente, acendendo um cigarro.
— TU — ordenou ele a Mariam. — Tu esperas aqui.
Mariam sentou-se no sofá, muda.
— Vocês duas, para cima.
Rashid agarrou Laila pelo cotovelo e empurrou-a pelos degraus acima. Calçava ainda os
sapatos que levara para o trabalho, não mudara para os chinelos, não tirara o relógio, nem
sequer despira o casaco. Laila imaginou como devia ele ter andado uma hora, ou talvez
minutos, antes, correndo de sala em sala, batendo com as portas, furioso e incrédulo,
praguejando em voz baixa.
Ao cimo das escadas, Laila virou-se para ele.
— Ela não queria fazer isto — disse. — Fui eu que a obriguei. Ela não queria ir...
Laila não viu o murro chegar. Num instante estava a falar e no seguinte estava de gatas,
de olhos arregalados e rosto congestionado, tentanto respirar. Era como se um carro a
tivesse atingido a alta velocidade, no sítio sensível entre a extremidade inferior do externo
e o umbigo. Apercebeu-se de que deixara cair Aziza, de que Aziza estava aos gritos.
Tentou respirar de novo e só conseguiu emitir um som rouco e abafado. A saliva escorria-
lhe da boca.
Depois sentiu-se a ser arrastada pelos cabelos. Viu Aziza ser erguida, viu as sandálias
dela caírem, os pés pequeninos agitarem-se. Estavam a ser-lhe arrancados cabelos do
crânio e os seus olhos rasaram​-se de lágrimas de dor. Viu o pé dele abrir a porta do
quarto de Mariam com um pontapé, viu Aziza ser atirada para a cama. Rashid largou o
cabelo de Laila, e ela sentiu-lhe a ponta do sapato embater na sua nádega direita. Uivou
de dor enquanto ele fechava a porta com estrondo. A chave rangeu na fechadura.
Aziza continuava a gritar. Laila jazia enrolada no chão, ofegante. Apoiou-se nas mãos e
rastejou até junto da cama onde se achava Aziza. Estendeu os braços para a filha.
No andar de baixo, começou o espancamento. Os sons que chegavam até Laila eram de
um procedimento metódico, familiar. Não havia insultos, nem gritos, nem súplicas, nem
brados supre​endidos, apenas o acto sistemático de espancar e ser espancado, o tum, tum
de algo sólido atingindo repetidamente carne, de alguma coisa, alguém, a embater numa
parede com um baque, de roupa rasgada. De vez em quando, Laila ouvia passos a correr,
uma perseguição muda, mobiliário derrubado, vidros partidos, e depois novamente as
pancadas.
Pegou em Aziza ao colo. Sentiu uma tepidez espalhar-se pela frente do seu vestido
quando a bexiga de Aziza se despejou.
Lá em baixo, as corridas e as perseguições pararam finalmente. O som agora era de
um taco de madeira a sovar repetidamente uma peça de carne.
Laila embalou Aziza até os sons cessarem e, ouvindo o rangido da porta de mosquiteiro
a abrir e fechar com estrondo, pousou Aziza no chão e espreitou pela janela. Viu Rashid
levando Mariam através do pátio presa pela nuca. Mariam estava descalça e ia dobrada
ao meio. Havia sangue nas mãos dele, sangue na cara de Mariam, no cabelo, no pescoço
e pelas costas abaixo. A blusa dela fora rasgada à frente.
— Perdoa-me, Mariam — chorou Laila, encostada ao vidro.
Viu-o atirar Mariam para o barracão das ferramentas. Entrou e voltou a sair com um
martelo e várias tábuas compridas. Fechou a porta dupla do barracão, tirou do bolso uma
chave e trancou o cadeado. Experimentou a porta, e depois foi às traseiras buscar uma
escada.
Minutos depois, o seu rosto surgia na janela de Laila, com pregos enfiados ao canto da
boca. Tinha o cabelo desgrenhado e um risco de sangue na testa. Ao vê-lo, Aziza soltou
um grito e enterrou a cara na axila de Laila.
Rashid começou a pregar as tábuas na janela.
A ESCURIDÃO ERA TOTAL, impenetrável e constante, sem estrato nem textura. Rashid
enchera as fendas entre as tábuas com qualquer coisa, e colocara um objecto grande e
irremovível na base da porta de forma a impedir a passagem de toda a claridade. Algo
fora enfiado no buraco da fechadura.
Laila percebeu que lhe era impossível avaliar a passagem do tempo com os olhos,
portanto fê-lo com o seu ouvido bom. O azan e os galos a cantar assinalavam a manhã. O
som de pratos na cozinha lá em baixo e a rádio a tocar, eram sinónimo de noite.
No primeiro dia, tateavam e procuravam-se uma à outra nas trevas. Laila não via Aziza
quando ela chorava, nem quando gatinhava.
— Aishi — pedia Aziza. — Aishi.
— Daqui a pouco. — Laila beijou a filha, pensando encontrar a testa mas sentindo o
topo da cabeça. — Daqui a pouco teremos leite. Tem paciência. Sê uma menina paciente e
boazinha para a Mamã, e eu arranjo-te aishi.
Cantou-lhe canções.
O azan soou pela segunda vez e Rashid continuou sem lhes dar nada para comer e, pior
ainda, nem um pouco de água. Nesse dia, caiu sobre elas um calor espesso e sufocante.
O quarto transformou​-se numa panela de pressão. Laila passava a língua ressequida pelos
lábios, pensando no poço lá fora, com a sua água boa e fresca. Aziza não parava de
chorar, e Laila notou alarmada que quando lhe limpou as faces com as mãos estas
permaneceram secas. Despiu-a comple​tamente, tentou em vão encontrar alguma coisa
para a abanar, e acabou por lhe soprar até ficar zonza. Em breve Aziza deixou de gatinhar.
Dormia intermitentemente.
Nesse dia, Laila bateu várias vezes com os punhos na parede, gastando toda a sua
energia a gritar por socorro, na esperança de que algum vizinho a ouvisse. Mas não veio
ninguém, e os seus gritos ape​nas assustavam Aziza, que começou de novo a chorar, com
um som débil e rouco. Laila deslizou para o chão. Pensou, com um sentimento de culpa,
em Mariam, espancada e ensanguentada, trancada no barracão com aquele calor.
A dada altura adormeceu, o corpo a esturrar ao calor. Sonhou que ela e Aziza tinham
encontrado Tariq. Estava do outro lado de uma rua apinhada, debaixo do toldo de uma
alfaiataria. Agachado, provava figos de um caixote. Aquele é o teu pai, disse Laila. Aquele
homem ali, estás a vê-lo? É ele o teu verdadeiro baba. Chamou-o pelo nome, mas os
ruídos da rua abafaram-lhe a voz e Tariq não ouviu.
Despertou com o assobio de rockets a passarem-lhe por cima da cabeça. Algures, o
céu que ela não podia ver, incendiou-se com explosões e o longo e frenético martelar de
disparos de metralhadoras. Laila fechou os olhos. Acordou de novo com os passos
pesados de Rashid no corredor. Arrastou-se para a porta, e bateu-lhe com as palmas das
mãos.
— Só um copo, Rashid. Não é para mim. Faz isso por ela. Não queres o sangue dela
nas tuas mãos.
Ele passou sem parar.
Começou a suplicar. Pediu perdão, fez promessas. Amaldiçoou-o.
A porta dele fechou-se. Foi ligado o rádio.
O muezzin chamou para o azan pela terceira vez. De novo o calor. Aziza ficou ainda
mais apática. Deixou de chorar, deixou comple​tamente de se mexer.
Laila ia encostando o ouvido à boca da filha, sempre apavorada com o receio de não
ouvir o silvo abafado da respiração. Até esse simples acto de se erguer lhe fazia andar a
cabeça à roda. Adormeceu, teve sonhos que não conseguiu recordar. Quando acordava, ia
verificar Aziza, sentia as gretas ressequidas dos seus lábios, o ténue latejar no pescoço, e
voltava a deitar-se. Iam morrer ali, Laila estava agora certa disso, mas aquilo que mais
temia era sobreviver a Aziza, tão pequenina e frágil. Quanto tempo poderia ela resistir
ainda? Aziza morreria com aquele calor, e Laila teria de ficar ali estendida ao lado do seu
pequenino corpo rígido, aguardando a sua própria morte. Voltou a adormecer. Acordou.
Adormeceu. A linha de separação entre sonho e vigília esfumou-se.
Não foram os galos nem o azan que a voltaram a acordar, mas o som de alguma coisa
pesada a ser arrastada. Ouviu um tilintar. De repente, o quarto encheu-se de luz. Os seus
olhos protestaram violentamente. Laila levantou a cabeça, estremeceu, e protegeu os
olhos. Através das fendas dos dedos, viu uma silhueta grande e enevoada de pé num
rectângulo de claridade. A silhueta moveu-se. Agora havia uma forma agachada junto dela,
avantajando-se sobre ela, e uma voz ao seu ouvido.
— Se tentares isto outra vez eu encontro-te. Juro pelo nome do Profeta que te encontro.
E, quando vos encontrar, não há tribunal neste maldito país que me condene pelo que farei.
Primeiro a Mariam, depois a ela, e por fim a ti. Obrigo-te a assistir. Estás a perceber?
Obrigo-te a assistir.
E com essas palavras saiu do quarto. Mas não sem antes enfiar um pontapé no flanco
de Laila que a fez andar a urinar sangue durante dias.
37

MARIAM — SETEMBRO DE 1996

Dois anos e meio mais tarde, na manhã do dia 27 de Setembro, Mariam acordou com
sons de gritos, assobios, fogo-de-artifício e música. Correu para a sala e encontrou Laila
já à janela, com Aziza às cavalitas. Laila virou-se e sorriu.
— Chegaram os taliban — disse ela.

MARIAM OUVIRA FALAR pela primeira vez nos taliban dois anos antes, em Outubro de 1994,
quando Rashid chegara a casa com a notícia de que eles tinham derrubado os senhores
da guerra em Kandahar e tomado a cidade. Eram uma tropa de guerrilheiros, disse ele,
constituída por jovens pastunes cujas famílias haviam fugido para o Paquistão durante a
guerra contra os soviéticos. A maior parte tinha sido criada — alguns haviam mesmo
nascido — em campos de refugiados ao longo da fronteira paquistanesa, e em madrassas
paquistanesas, onde eram instruídos na Shari’a por mullahs. O seu líder era um misterioso
e iletrado eremita zarolho, chamado Mullah Omar, que, disse Rashid com ar divertido, se
intitulava Amir-ul-Muminin, Líder dos Crentes.
— É verdade que esses rapazes não tem risha, não têm raízes — comentara Rashid,
sem se dirigir nem a Mariam nem a Laila. Desde a fuga falhada, dois anos e meio antes,
Mariam sabia que, para ele, ela e Laila se haviam tornado um mesmo e único ser,
igualmente insignificante, igualmente merecedor da sua desconfiança, do seu desdém e do
seu desprezo. Quando Rashid falava, Mariam tinha a sensação de que ele estava a travar
uma conversa consigo mesmo, ou com alguma presença invisível na sala que, ao contrário
dela própria e de Laila, era digna de ouvir as suas opiniões.
— Eles podem não ter passado — prosseguiu ele, a fumar fitando o tecto. — Podem
não saber nada da História do mundo nem deste país. Sim. E, comparada com eles, aqui a
Mariam podia muito bem ser professora universitária. Ah! Tudo isso é verdade. Mas olhem
em volta. O que se vê? Comandantes mujahidin corruptos e gananciosos, armados até
aos dentes, ricos à custa de heroína, declarando a jihad uns aos outros e matando todos
os que se acham no meio — é o que se vê. Pelo menos os taliban são puros e
incorruptíveis. Pelo menos são rapazes muçulmanos decentes. Wallah, quando eles
chegarem, limparão isto tudo. Trarão paz e ordem. As pessoas deixarão de apanhar um
tiro ao sair para comprar leite. Acabam-se os rockets! Imaginem só.
Ao longo dos últimos dois anos, os taliban tinham vindo a avançar em direcção a Cabul,
tomando cidades aos mujahidin, acabando com a guerra de facções onde quer que se
instalassem. Tinham capturado e executado o comandante hazara Abdul Ali Mazari.
Durante meses, tinham-se aquartelado nos arredores a sul de Cabul, disparando sobre a
cidade, trocando rockets com Ahmad Shah Massoud. No início desse Setembro de 1996,
tinham tomado as cidades de Jalalabad e Sarobi.
Os taliban tinham uma coisa que os mujahidin não tinham, disse Rashid. Eram unidos.
— Que venham — rematou ele. — Pessoalmente, recebo-os com uma chuva de pétalas
de rosa.
NESSE DIA saíram os quatro, com Rashid a conduzi-las de um autocarro para outro, a fim
de saudarem o seu novo mundo, os seus novos líderes. Em cada bairro devastado,
Mariam encontrava gente a materializar-se dos escombros e a sair para as ruas. Viu uma
mulher idosa a desperdiçar mãos-cheias de arroz, atirando-as aos transeuntes, com um
sorriso cansado e desdentado. Dois homens abraçavam-se junto aos restos de um edifício
desventrado, no céu por cima deles o assobio, os silvos e o estralejar de meia dúzia de
petardos lançados por rapazes empoleirados nos telhados. O hino nacional tocava em
leitores de cassetes, competindo com as buzinas de automóveis.
— Olha, Mariam! — Aziza apontou para um grupo de rapazes que desciam correndo ao
longo de Jadeh Maywand. Erguiam os punhos ao ar e arrastavam latas ferrugentas atadas
com cordéis. Gritavam que Massoud e Rabbani tinham retirado de Cabul.
Por todo o lado se ouvia gritar: Allah-u-akbar!
Em Jadeh Maywand, Mariam viu um lençol pendurado numa janela, e alguém pintara
nele três palavras em letras garrafais: ZENDA BAAD TALIBAN! Longa vida aos taliban!
Caminhando pelas ruas, Mariam avistou mais letreiros com os mesmos votos —
pintados em janelas, pregados em portas, esvoaçando das antenas de automóveis.
MARIAM VIU O SEU PRIMEIRO taliban na tarde desse dia, em Pashtunistan Square, com
Rashid, Laila e Aziza. Juntara-se aí uma amálgama de gente. Mariam viu pessoas a
esticarem os pescoços, pessoas amontoadas em redor da fonte azul do centro da praça,
pessoas empoleiradas no seu leito seco. Esforçavam-se por avistar a extre​midade da
praça, perto do antigo Khyber Restaurant.
Rashid serviu-se da sua estatura para empurrar e afastar os espectadores, e conduziu-
as para onde alguém estava a falar através de um altifalante.
Quando Aziza viu aquilo, soltou um grito e enterrou a cara na burca de Mariam.
A voz do altifalante pertencia a um jovem magro, de barba e tur​bante preto, que estava
de pé numa espécie de andaime impro​visado. Na mão livre, empunhava um lança-rockets.
A seu lado, dois homens ensanguentados pendiam de cordas atadas aos postes de
semáforos. As roupas tinham-lhes sido rasgadas. As caras tumefactas haviam passado a
um azul purpúreo.
— Eu conheço-o — disse Mariam —, o da esquerda.
Uma mulher jovem à frente dela voltou-se e disse que era Najibullah. O outro homem era
seu irmão. Mariam recordou o rosto de Najibullah, roliço e de bigode, a sorrir abertamente
em cartazes e montras de lojas durante os anos dos soviéticos.
Ouviu dizer mais tarde que os taliban tinham ido buscar Najibullah à força ao seu
santuário na sede das Nações Unidas, perto de Darulaman Palace. Tinham-no torturado
durante horas e depois tinham-no atado pelas pernas a um camião e arrastado o corpo
sem vida pelas ruas.
— Ele matou muitos, muitos muçulmanos! — gritava o jovem taliban pelo altifalante.
Falava farsi com pronúncia pastune, e depois passou para pastune. Acentuava as suas
palavras apontando para os cadáveres com a arma. — Os seus crimes são conhecidos de
todos. Era um comunista e um kafir. É isto que nós fazemos aos infiéis que cometem
crimes contra o Islão.
Rashid sorria com ar complacente.
Nos braços de Mariam, Aziza começou a chorar.
NO DIA SEGUINTE, Cabul foi invadida por camiões. Em Khair khana, em Shair-e-Nau, em
Karteh-Parwan, em Wazir Akbar Khan e Taimani, camiões Toyota vermelhos serpenteavam
pelas ruas. Nas suas caixas sentavam-se homens barbudos com turbantes pretos. De
cada camião, um altifalante trovejava proclamações, primeiro em farsi, depois em pastune.
A mesma mensagem ressoava dos altifa​lantes colocados no topo de mesquitas, e na
rádio, que era agora conhecida como a Voz da Shari’a. A mensagem estava igualmente
escrita em panfletos atirados para as ruas. Mariam encontrou um no pátio.
O nome do nosso watan é agora Emirato Islâmico do Afeganistão. Estas são as leis que nós imporemos e a que
vós obedecereis:
Todos os cidadãos devem rezar cinco vezes ao dia. Se durante a hora da oração forem apanhados a fazer
qualquer outra coisa, serão espancados.
Todos os homens deixarão crescer a barba. O comprimento correcto é de, pelo menos, um punho cerrado
abaixo do queixo. Se não cumprirem isto, serão espancados.
Todos os rapazes usarão turbantes. Os rapazes do primeiro ao sexto ano usarão turbantes pretos, anos
superiores usarão turbantes brancos. Todos os rapazes usarão vestuário islâmico. Os colarinhos das camisas
andarão abotoados.
É proibido cantar.
É proibido dançar.
São proibidos jogos de cartas, xadrez, jogos de azar e lançar papagaios.
É proibido escrever livros, ver filmes e pintar quadros.
Se tiverem periquitos, serão espancados. Os vossos pássaros serão mortos.
Se roubarem, ser-vos-á cortada a mão pelo pulso. Se voltarem a roubar, ser​-vos-á cortado o pé.
Se não forem muçulmanos, não pratiquem culto onde possam ser vistos por muçulmanos. Se o fizerem, serão
espancados e presos. Se forem apanhados a tentar converter um muçulmano à vossa fé, serão executados.
Atenção mulheres:
Devem permanecer sempre em vossas casas. Não é próprio uma mulher vaguear sem destino pelas ruas. Se
saírem, devem ser acompanhadas por um mahram, um parente do sexo masculino. Se forem apanhadas sozinhas
na rua, serão espancadas e mandadas para casa.
Não deverão, seja em que circunstâncias for, mostrar o vosso rosto. Cobrir-se​-ão com a burca quando saírem.
Se o não fizerem, serão severamente espancadas.
São proibidos os cosméticos.
São proibidas as jóias.
Não devem usar roupa elegante.
Não devem falar senão quando falarem convosco.
Não devem cruzar o vosso olhar com o de um homem.
Não devem rir em público. Se o fizerem, serão espancadas.
Não devem pintar as unhas. Se o fizerem, perderão um dedo.
As raparigas ficam proibidas de frequentar a escola. Todas as escolas para raparigas serão imediatamente
encerradas.
As mulheres ficam proibidas de trabalhar.
Se forem culpadas de adultério, serão apedrejadas até à morte.
Ouçam. Ouçam bem. Obedeçam. Allah-u-akbar.

Rashid desligou o rádio. Estavam a jantar sentados no chão da sala, menos de uma
semana depois de terem visto o corpo de Najibullah pendurado numa corda.
— Eles não podem obrigar metade da população a ficar em casa sem fazer nada —
comentou Laila.
— Por que não? — contrapôs Rashid. Por uma vez, Mariam concordava com ele. De
facto, não fora isso mesmo que ele fizera a Laila e a ela? Decerto Laila via isso.
— Isto não é uma aldeia qualquer. Isto é Cabul. As mulheres aqui costumavam exercer
advocacia e medicina, ocupavam lugares no governo...
Rashid sorriu, trocista. — Isso é o discurso da arrogante filha de um universitário leitor
de poesia como tu és. Que urbano, que tajique, da tua parte. Achas que isto é alguma
ideia nova e radical trazida pelos taliban? Alguma vez viveste fora da tua preciosa concha
em Cabul, minha gul? Alguma vez te deste ao trabalho de visitar o Afeganistão real, o sul,
o leste, ao longo da fronteira tribal com o Paquistão? Não? Eu já. E posso dizer-te que há
muitos lugares neste país que sempre viveram dessa maneira, ou pelo menos de forma
muito semelhante. Mas tu não sabes.
— Recuso-me a acreditar nisto — declarou Laila. — Eles não estão a falar a sério.
— O que os taliban fizeram a Najibullah pareceu-me suficiente​mente sério — disse
Rashid. — Não concordas?
— Ele era comunista! Era o chefe da Polícia Secreta.
Rashid riu-se.
Mariam ouviu a resposta nesse riso: aos olhos dos taliban, ser comunista e chefe da
odiada KHAD tornava Najibullah apenas ligeiramente mais desprezível do que uma mulher.
38

LAILA

Quando os taliban se deitaram ao trabalho, Laila sentiu-se satisfeita por o Babi já ali não
estar para assistir. Teria ficado destroçado.
Homens armados de picaretas invadiram o delapidado Museu de Cabul e transformaram
em entulho estátuas pré-islâmicas — isto é, as que não tinham já sido saqueadas pelos
mujahidin. A universidade foi encerrada e os estudantes mandados para casa. Os quadros
foram arrancados das paredes e retalhados com facas. Ecrãs de televisão foram
destruídos a pontapé. Os livros, exceptuando o Corão, foram queimados em pilhas, e as
lojas que os vendiam fechadas. Os poemas de Khalili, Pajwak, Ansari, Haji Dehqan,
Ashraqi, Beytaab, Hafez, Jami, Nizami, Rumi, Khayyám, Beydel e muitos mais
desvaneceram-se em fumo.
Laila ouviu falar de homens que eram arrastados das ruas, acusados de faltarem ao
namaz, e enfiados à força nas mesquitas. Soube que o Restaurante Marco Pólo, perto de
Chicken Street, havia sido transformado num centro de interrogatórios. Às vezes, ouviam-
se gritos vindos de trás das suas janelas pintadas de preto. Por toda a parte, a Patrulha
das Barbas percorria as ruas em camiões Toyota à procura de caras rapadas para as
esmurrar até sangrarem.
Fecharam igualmente os cinemas. Cinema Park. Ariana. Aryub. As salas de projecção
foram pilhadas e as bobinas de filmes queimadas. Laila recordou as vezes que ela e Tariq
se tinham sentado naquelas salas e assistido a filmes indianos, todas aquelas histórias
melodra​máticas de amantes separados por uma trágica reviravolta do destino, um à deriva
em algum país longínquo, a outra obrigada a casar, as lágrimas, as canções em campos
de cravinas, a ânsia de reunião. Recordou como Tariq se ria por ela chorar nesses filmes.
— Gostava de saber o que fizeram eles ao cinema do meu pai — disse-lhe Mariam um
dia. — Quer dizer, se ainda lá está. Ou se ainda é dele.
Kharabat, o velho gueto musical de Cabul, foi silenciado. Os músicos foram espancados
e presos, os seus rubabs, tambouras e harmónios espezinhados. Os taliban foram à
sepultura do cantor preferido de Tariq, Ahmad Zahir, e dispararam sobre ela.
— Ele está morto há quase vinte anos — comentou Laila para Mariam. — Não chega
morrer uma vez?
RASHID não se sentiu grandemente incomodado com a política dos taliban. Tudo o que
teve de fazer foi deixar crescer a barba, o que ele fez, e visitar a mesquita, o que fez
igualmente. Rashid encarava os taliban com uma espécie de perplexidade complacente e
afectuosa, como se poderia encarar um primo excêntrico dado a imprevisíveis actos de
hilariedade e escândalo.
Todas as quartas-feiras à noite, Rashid ouvia a Voz da Shari’a onde os taliban
anunciavam os nomes daqueles que iam ser punidos. Depois, às sextas, ia ao Estádio de
Ghazi, comprava uma Pepsi, e assistia ao espectáculo. Na cama, obrigava Laila a ouvi-lo
descrever, com uma estranha satisfação, as mãos que vira ser decepadas, os
chicoteamentos, os enforcamentos, as decapitações.
— Hoje vi um homem degolar o assassino do irmão — disse ele uma noite, soprando
halos de fumo.
— Eles são uns selvagens — comentou Laila.
— Achas? — ironizou ele. — Comparados com quê? Os soviéticos mataram um milhão
de pessoas. Sabes quantas mataram os mujahidin apenas em Cabul nestes últimos quatro
anos? Cinquenta mil. Cinquenta mil! Será assim tão insensível, em comparação, cortar as
mãos de alguns ladrões? Olho por olho, dente por dente. Vem no Corão. Além disso, diz-
me uma coisa: se alguém matasse a Aziza, não desejarias ter a possibilidade de a vingar?
Laila lançou-lhe um olhar aborrecido.
— Estou só a marcar uma posição — disse Rashid.
— És igual a eles.
— Tem uma cor de olhos interessante, a Aziza. Não achas? Não é nem a tua nem a
minha.
Rashid rolou na cama para ficar de frente para ela, e arranhou-lhe suavemente a coxa
com a unha retorcida do indicador.
— Deixa-me explicar-te — disse ele. — Se me desse na gana — e não digo que isso vai
acontecer, mas podia, podia — teria o direito de mandar embora Aziza. Que acharias tu
disso? Ou podia dirigir​-me um dia aos taliban, simplesmente entrar lá e dizer que tenho as
minhas desconfianças a teu respeito. Não precisava de mais nada. Na palavra de quem
achas tu que eles acreditariam? O que achas que te fariam?
Laila afastou a coxa.
— Não que eu fizesse isso — continuou ele. — Não faria. Nay. Provavelmente não. Tu
conhesce-me.
— És desprezível — atirou-lhe Laila.
— Isso é uma palavra cara — comentou Rashid. — Foi uma coisa que sempre me
desagradou em ti. Mesmo quando eras miúda, quando andavas por aí a correr com aquele
aleijado, achavas-te tão inteligente, com os teus livros e poemas. De que te serve agora
toda a tua esperteza? O que é que te mantém fora das ruas, a tua esperteza ou eu? Sou
desprezível? Metade das mulheres desta cidade seriam capazes de matar para ter um
marido como eu. Capazes de matar.
Voltou a pôr-se de costas e soprou o fumo para o tecto.
— Gostas de palavras caras? Eu dou-te uma: perspectiva. É o que eu estou a fazer
agora, Laila. A certificar-me de que tu não perdes a perspectiva.
O que fez Laila sentir o estômago às voltas o resto da noite foi o facto de todas as
palavras que Rashid pronunciara serem verdade, desde a primeira à última.
Mas de manhã, e durante várias manhãs a seguir, a sensação de náusea persistiu, e
depois piorou, transformando-se numa coisa desanimadoramente familiar.

NUMA TARDE FRIA e nublada, pouco tempo depois, Laila estava deitada de costas no chão
do quarto. Mariam dormia uma sesta com Aziza no seu quarto.
Laila tinha na mão uma vareta de metal que cortara com um alicate de uma roda de
bicicleta abandonada. Encontrara-a no mesmo beco onde beijara Tariq há muitos anos.
Conservou-se estendida no chão durante muito tempo, sorvendo o ar através dos dentes
cerrados, de pernas afastadas.
Adorara Aziza desde o momento em que suspeitara da sua existência. Não houvera
nenhuma destas dúvidas, desta incerteza. Que coisa terrível para uma mãe, pensou Laila,
temer não arranjar amor para dar ao seu próprio filho. Que coisa antinatural. E no entanto,
ali estendida, com as mãos suadas prontas a guiar a vareta, não conseguia deixar de
interrogar-se se poderia realmente amar alguma vez o filho de Rashid como amara o de
Tariq.
No fim, Laila não foi capaz de agir.
Não foi o medo de se esvair em sangue e morrer que a levou a largar a vareta, nem
sequer a ideia de que o acto era amaldiçoado — como desconfiava. Largou a vareta
porque não conseguiu aceitar aquilo que os mujahidin tinham aceitado tão prontamente:
que na guerra, por vezes, tinham de se sacrificar vidas inocentes. A guerra dela era contra
Rashid. O bebé não tinha culpa. E já houvera demasiadas mortes. Laila já vira morrer
demasiados inocentes apanhados pelo fogo cruzado de inimigos.
39

MARIAM — SETEMBRO DE 1997

— Este hospital já não trata mulheres — rosnou o guarda. Estava ao cimo das escadas,
fitando com um olhar gelado a multidão reunida diante do Hospital Malalai.
Da multidão ergueu-se um protesto sonoro.
— Mas este é um hospital feminino — bradou uma voz de mulher atrás de Mariam.
Seguiram-se gritos de aprovação.
Mariam passou Aziza de um braço para o outro. Com o livre amparou Laila, que gemia,
e por sua vez passara o braço em volta do pescoço de Rashid.
— Já não — declarou o taliban.
— A minha mulher vai ter um bebé! — gritou um homem corpulento. — Queres que ela
dê à luz aqui na rua, irmão?
Mariam ouvira anunciar, em Janeiro desse ano, que homens e mulheres seriam
examinados em hospitais diferentes, e que todo o pessoal feminino seria dispensado dos
hospitais de Cabul e mandado trabalhar numas instalações centrais. Ninguém acreditara, e
os taliban não tinham obrigado a respeitar essa política. Até agora.
— Então e o Hospital Ali Abad? — perguntou outro homem.
O guarda abanou a cabeça.
— Wazir Akbar Khan?
— Só homens — insistiu ele.
— O que havemos de fazer?
— Vão a Rabia Balkhi — disse o guarda.
Uma mulher jovem avançou, dizendo que já lá estivera. Não tinham água limpa, declarou
ela, nem oxigénio, nem medicamentos, nem electricidade. — Ali não há nada.
— Mas é para onde vocês têm de ir — repetiu o guarda.
Ouviram-se mais alguns resmungos e gritos, um ou dois insultos. Alguém atirou uma
pedra.
O taliban ergueu a sua kalashnikov e disparou algumas rajadas para o ar. Outro taliban
atrás dele brandiu um chicote.
A multidão dispersou rapidamente.
A SALA DE ESPERA em Rabia Balkhi estava apinhada de mulheres de burca com os
respectivos filhos. O ar tresandava a suor e corpos sujos, a pés, urina, fumo de cigarro e
anti-séptico. Sob a ventoinha de tecto imóvel, as crianças corriam atrás umas das outras,
saltando por cima das pernas estendidas de pais que dormitavam.
Mariam ajudou Laila a sentar-se encostada a uma parede de onde se haviam
despegado pedaços de estuque, deixando espaços com a forma de países estranhos.
Laila baloiçava-se de trás para diante, as mãos a comprimir a barriga.
— Vou conseguir que te vejam, Laila jo. Prometo.
— Despacha-te — disse Rashid.
Em frente do guichê de registo havia uma horda de mulheres que se empurravam
mutuamente. Algumas ainda tinham os bebés ao colo. Outras distanciavam-se da massa e
empurravam as portas duplas que conduziam às salas de tratamento. Um guarda taliban
armado bloqueava-lhes o caminho e mandava-as voltar para trás.
Mariam abriu caminho à força. Firmou os calcanhares e empurrou cotovelos, coxas e
ombros de estranhos. Alguém lhe deu uma coto​velada nas costelas e ela devolveu-a. Uma
mão estendeu-se deses​perada para a sua cara. Ela afastou-a com uma pancada. Para se
impelir para diante, agadanhou pescoços, braços e cotovelos, cabelos, e quando uma
mulher próxima sibilou furiosa, Mariam sibilou também.
Via agora os sacrifícios que uma mãe se via obrigada a fazer. O decoro era apenas um
deles. Pensou tristemente em Nana, nos sacrifícios que também ela fizera. Nana, que
podia tê-la dado, ou atirado para uma valeta algures e fugido. Mas não. Em vez disso,
Nana suportara a vergonha de dar à luz uma harami, moldara a sua vida em volta da tarefa
ingrata de criar Mariam, e, à sua maneira, de a amar. E, no fim, Mariam escolhera Jalil.
Enquanto lutava com uma determinação insolente para abrir caminho até à frente daquela
confusão, Mariam desejou ter sido melhor filha para Nana. Desejou ter compreendido
então aquilo que compreendia agora acerca da maternidade.
Encontrou-se cara a cara com uma enfermeira, coberta dos pés à cabeça por uma
imunda burca cinzenta. Estava a falar com uma mulher jovem, envergando uma burca de
capuz manchado de sangue.
— As águas da minha filha rebentaram e o bebé não sai — chamou Mariam.
— Eu é que estou a falar com ela! — gritou a mulher ensanguen​tada. — Espera a tua
vez!
Toda aquela massa de mulheres oscilava de um lado para o outro, como a erva alta em
redor da kolba quando a brisa varria a clareira. Uma mulher atrás de Mariam gritava que a
filha partira o cotovelo ao cair de uma árvore. Outra gritava que estava a perder coágulos
de sangue.
— Ela tem febre? — perguntou a enfermeira. Mariam levou um instante a perceber que
a pergunta lhe era dirigida.
— Não — respondeu.
— Hemorragia?
— Não.
— Onde está ela?
Por cima das cabeças cobertas, Mariam apontou para o sítio onde Laila se encontrava
sentada com Rashid.
— Vamos atendê-la — disse a enfermeira.
— Quanto tempo? — gritou Mariam. Alguém a agarrara pelos ombros e a empurrava
para trás.
— Não sei — redarguiu a enfermeira. Acrescentou que tinham apenas duas médicas e
estavam ambas a operar nesse momento.
— Ela tem dores — insistiu Mariam.
— Também eu! — explodiu a mulher da cabeça ensanguentada. — Espera pela tua vez!
Mariam estava a ser arrastava para trás. Um mar de ombros e nucas barrava-lhe agora
a vista da enfermeira. Cheirou-lhe a bolsado de bebé.
— Leva-a a dar uma volta — aconselhou a enfermeira. — E espera.
ESCURECERA LÁ FORA quando a enfermeira as chamou finalmente. A sala de partos tinha
oito camas, ocupadas por mulheres que gemiam e se contorciam, assistidas por
enfermeiras completa​mente cobertas. Duas das mulheres estavam a dar à luz. Não havia
cortinados a separar as camas. Deram a Laila uma cama ao fundo da sala, por baixo de
uma janela que alguém pintara de preto. Havia perto um lava-loiças, rachado e seco, e
sobre ele uma corda de que pendiam luvas de cirurgia manchadas. No meio da sala,
Mariam viu uma mesa de alumínio. A prateleira de cima tinha um cobertor cor de fuligem; a
de baixo estava vazia.
Uma das mulheres seguiu o olhar de Mariam.
— Põem as vivas na de cima — explicou ela, em tom fatigado.
A médica, que vestia uma burca azul-escura, era uma mulher baixa, atormentada, com
movimentos de pássaro. Tudo o que dizia soava com impaciência, com urgência.
— Primeiro bebé. — Disse-o assim, não como pergunta mas como afirmação.
— Segundo — rectificou Mariam.
Laila soltou um grito e virou-se para o lado. Os dedos fecharam​-se nos de Mariam.
— Houve problemas no primeiro parto?
— Não.
— És a mãe?
— Sou — respondeu Mariam.
A médica levantou a parte inferior da burca e tirou um instru​mento metálico, em forma de
cone. Ergueu a burca de Laila e pousou​-lhe a parte mais larga do instrumento no ventre,
levando a mais estreita ao ouvido. Escutou durante quase um minuto, mudou de sítio,
voltou a escutar, voltou a mudar de sítio.
— Agora tenho de sentir o bebé, hamshira.
Calçou uma das luvas penduradas com uma mola sobre o lava​-loiças. Carregou na
barriga de Laila com uma das mãos e enfiou a outra dentro dela. Laila gemeu. Quando
acabou, a médica deu a luva a uma enfermeira, que a passou por água e voltou a pendurá-
la na corda.
— A tua filha precisa de uma cesariana. Sabem o que é? Temos de abrir o útero e tirar
o bebé, porque ele está com apresentação pélvica.
— Não compreendo — balbuciou Mariam.
A médica disse que o bebé estava posicionado de uma maneira que não lhe permitiria
sair sozinho. — E já passou demasiado tempo. Temos de ir já para a sala de operações.
Laila fez um esgar afirmativo, e a cabeça tombou-lhe para o lado.
— Há uma coisa que tenho de te dizer — a médica aproximou-se mais de Mariam,
inclinou-se e falou em tom mais baixo, confidencial. Havia agora na sua voz um toque de
embaraço.
— O que está ela a dizer? — gemeu Laila. — Há alguma coisa errada com o bebé?
— Mas como poderá ela aguentar? — perguntou Mariam.
A médica deve ter ouvido uma acusação naquela pergunta, a avaliar pelo tom defensivo
que a sua voz adquiriu.
— Julgas que ajo assim por gosto? — disse ela. — O que querem que eu faça? Eles
não me dão aquilo de que preciso. Também não tenho raios-X, nem sucção, nem oxigénio,
nem sequer simples antibióticos. Quando as ONG oferecem dinheiro, os taliban recusam.
Ou canalizam o dinheiro para os sítios que atendem homens.
— Mas, Doutora sahib, não há nada que lhe possa dar? — insistiu Mariam.
— O que é? — gemeu de novo Laila.
— Podes ir tu mesma comprar o remédio, mas...
— Escreva o nome — disse Mariam. — Escreva aí o nome e eu vou buscar.
Por baixo da burca a médica abanou bruscamente a cabeça. — Não há tempo —
declarou ela. — Por um lado, nenhuma das farmácias aqui próximas o possuem. Por isso,
terias de andar no meio do trânsito de um sítio para outro, talvez até à outra ponta da
cidade, com poucas probabilidades de chegar a encontrá-lo. Já são quase oito e meia,
portanto o mais provável era seres presa por desobedeceres ao recolher obrigatório.
Mesmo que encontres o remédio, as probabilidades são de que não tenhas dinheiro
suficiente para o comprar. Ou terás de travar uma guerra, com lances cada vez mais altos,
com alguém igualmente desesperado. Não há tempo. Este bebé tem de vir cá para fora
agora.
— Digam-me o que se passa! — gritou Laila. Erguera-se apoiada nos cotovelos.
A médica respirou fundo e depois informou Laila de que o hospital não tinha anestésicos.
— Mas se protelarmos isto, perdes o teu bebé.
— Então abra-me já — respondeu Laila. Deixou-se cair de novo na cama e levantou os
joelhos. — Abra-me e dê-me o meu bebé.
NO INTERIOR DA VELHA e encardida sala de operações, Laila jazia numa mesa operatória
enquanto a médica lavava as mãos numa bacia. Laila tremia. Sorvia o ar através dos
dentes de cada vez que a enfermeira lhe esfregava o ventre com um pano embebido num
líquido castanho-amarelado. À porta havia outra enfermeira, que a abria de vez em quando
para espreitar lá para fora.
A médica despira a burca, e Mariam viu que ela possuía uma coroa de cabelo prateado,
pálpebras pesadas e pequenas bolsas de fadiga aos cantos da boca.
— Eles querem que nós operemos de burca — explicou a médica, indicando com um
gesto de cabeça a enfermeira da porta. — Ela fica de vigia. Se os vir aproximarem-se, eu
cubro-me.
Disse isto em tom pragmático, quase indiferente, e Mariam compreendeu que aquela
mulher ultrapassara há muito a fase de sentir os ultrajes. Ali estava uma mulher, pensou
ela, que compreendia que tinha sorte por estar sequer a trabalhar, e que havia sempre
alguma coisa, alguma coisa mais, que eles lhe podiam tirar.
Havia dois tirantes metálicos, verticais, de ambos os lados dos ombros de Laila. A
enfermeira que lhe limpara o ventre, pegou em molas e prendeu-lhes um lençol, formando
com ele uma cortina entre Laila e a médica.
Mariam posicionou-se atrás da cabeça de Laila e baixou a cara de modo a que as suas
faces se tocassem. Sentia-a bater os dentes. Entrelaçaram as mãos.
Através da cortina, Mariam viu a sombra da médica mover-se para a esquerda de Laila,
a enfermeira para a direita. Laila tinha os lábios completamente arrepanhados; à superfície
dos seus dentes cerrados formavam-se e estalavam bolhas de saliva. Soltava sons
sibilantes, curtos e abafados.
A médica disse: — Coragem, irmãzinha.
Debruçou-se sobre ela.
Laila esbugalhou os olhos. Depois a sua boca abriu-se. Ficou assim a aguentar, a
aguentar, a aguentar, a tremer, os tendões do pescoço tensos, o suor a escorrer-lhe da
cara, os dedos a esmagarem os de Mariam.
Mariam admiraria eternamente Laila por ter conseguido aguentar tanto tempo antes de
começar a gritar.
40

LAILA — OUTONO DE 1999

A ideia de cavar o buraco foi de Mariam. Uma manhã, apontou para um pedaço de solo
por trás do barracão das ferramentas. — Podemos fazê-lo aqui — disse ela. — É um bom
sítio.
Foram-se alternando a golpear o solo com uma pá, e depois a lançar a terra solta para
o lado. Não pensavam fazer um buraco muito grande, nem muito profundo, portanto o
trabalho de cavar não deveria ter sido tão estafante como acabou por se mostrar. Era a
seca, iniciada em 1998 e agora no seu segundo ano, que estava a lançar a devastação por
toda a parte. Quase não nevara no Inverno passado e não chovera nada nessa Primavera.
Por todo o país, os agricultores abandonavam as suas terras ressequidas, vendiam os
seus bens, e vagueavam de aldeia em aldeia à procura de água. Mudaram-se para o
Paquistão ou o Irão. Instalaram-se em Cabul. Mas os lençóis de água estavam baixos
também na cidade, e os poços superficiais tinham secado. As filas nos poços profundos
eram tão grandes que Laila e Mariam passavam horas à espera da sua vez. O rio Cabul,
sem as suas cheias primaveris anuais, estava seco como um osso. Era agora uma latrina
pública, não havia lá nada excepto excrementos humanos e cascalho.
Por isso, elas continuaram a brandir a pá e a golpear, mas o terreno, crestado pelo sol,
adquirira a dureza da rocha, e a terra estava infle​xível, comprimida, quase petrificada.
Mariam tinha agora quarenta anos. O cabelo, apanhado em cima, mostrava já alguns
fios grisalhos. Debaixo dos olhos formavam-se papos castanhos e em forma de crescente.
Perdera dois dentes da frente. Um caíra, o outro partira-lho Rashid quando ela, acidental​-
mente, deixara cair Zalmai. A pele endurecera, tisnada por tanto tempo passado no pátio
sob um sol escaldante. Sentavam-se a ver Zalmai correr atrás de Aziza.
Quando terminaram, quando o buraco ficou pronto, inclinaram-se e olharam para baixo.
— Deve servir — comentou Mariam.
ZALMAI ESTAVA COM DOIS ANOS .
Era um rapazinho roliço de cabelo encaracolado. Tinha olhos
pequenos, acastanhados, e um tom rosado nas bochechas, como Rashid,
independentemente do tempo que estivesse. Possuía igualmente o contorno do couro
cabeludo do pai, cerrado e em forma de meia-lua, a começar pouco acima das
sobrancelhas.
Quando estava sozinho com Laila, Zalmai era doce, bem humorado e brincalhão.
Gostava de trepar aos ombros da mãe, de brincar às escondidas com ela e Aziza no pátio.
Às vezes, nos seus momentos mais calmos, gostava de se sentar ao colo de Laila e que
ela lhe cantasse. A sua canção preferida era «Mullah Mohammad Jan». Balouçava os
pezitos gorduchos enquanto ela cantava para o cabelo encaracolado e fazia coro quando
chegava ao refrão, entoando as palavras que sabia com a sua voz desafinada:
Anda, vamos a Mazar, Mullah Mohammad jan,
Ver os campos de tulipas, ó amado companheiro.

Laila gostava dos beijos húmidos que Zalmai lhe dava nas faces, gostava das covinhas
dos seus cotovelos e dos robustos dedinhos dos pés. Gostava de lhe fazer cócegas, de
construir túneis com almofadas para ele atravessar, de o ver adormecer nos seus braços
com uma das mãos sempre a apertar a orelha dela. Sentia um aperto no estômago
sempre que recordava aquela tarde em que se deitara no chão com uma vareta de roda de
bicicleta entre as pernas. Como estivera perto. Agora, parecia-lhe impensável ter sequer
contemplado tal ideia. O seu filho era uma bênção, e Laila sentira-se aliviada ao descobrir
que os seus receios não tinham fundamento, que amava Zalmai com todas as fibras do seu
ser, como acontecia com Aziza.
Mas Zalmai adorava o pai, e, por causa disso, transformava-se quan​do Rashid estava
por perto para o apaparicar. Zalmai reagia então rapida​mente com uma gargalhada de
desafio ou um sorriso impudente. Na presença do pai, ofendia-se facilmente. Mostrava
ressentimento. Persistia nas suas travessuras, apesar das repreensões de Laila, coisa que
nunca acontecia quando Rashid estava ausente.
Rashid aprovava tudo isso. — É sinal de inteligência — comentava ele. Dizia o mesmo
das imprudências de Zalmai: quando ele engolia berlindes para depois os cuspir, quando
acendia fósforos, quando mascava os cigarros de Rashid.
Quando Zalmai nascera, Rashid instalara-o no leito que partilhava com Laila. Comprara-
lhe um berço novo e mandara pintar leões e leopardos agachados nos painéis laterais.
Pagara roupas novas, rocas novas, biberões novos, fraldas novas, apesar de não se
poderem dar a esse luxo e as que haviam servido a Aziza ainda estarem utilizáveis. Um dia,
chegara a casa com um móbile a pilhas, que pendurara por cima do berço de Zalmai.
Pequenos abelhões amarelos e pretos baloiçavam de um girassol e chiavam quando ele os
apertava. Ao ser ligado, tocava uma música.
— Pensava que tinhas dito que o negócio andava fraco — comen​tara Laila.
— Tenho amigos a quem posso pedir emprestado — declarara ele, descartando-se.
— E como tencionas pagar-lhes?
— As coisas hão-de mudar. Mudam sempre. Olha, ele gosta. Vês?
A maior parte dos dias, Laila ficava privada do filho. Rashid levava​-o para a loja,
deixava-o gatinhar em volta da sua banca de trabalho apinhada, brincar com velhas solas
de borracha e restos de couro. Rashid martelava os seus pregos de ferro e fazia girar a
roda de lixa, mantendo-o sempre debaixo de olho. Se Zalmai derrubava uma prateleira de
sapatos, Rashid repreendia-o suavemente, em tom calmo e meio sorridente. Se o garoto
voltava a fazer o mesmo, Rashid pousava o martelo, sentava-o à sua secretária e falava
com ele doce​mente.
A sua paciência para Zalmai era um poço profundo e ines​gotável.
Ao fim da tarde regressavam juntos a casa, a cabeça de Zalmai a baloiçar no ombro de
Rashid, ambos a cheirar a cola e a couro. Sorriam como pessoas que partilham um
segredo, dissimuladamente, como se tivessem passado o dia naquela loja sombria, não a
fazer sapatos, mas a engendrar intrigas secretas. Zalmai gostava de se sentar ao lado do
pai ao jantar, altura em que se entregavam a jogos privados, enquanto Mariam, Laila e
Aziza pousavam os pratos na sofrah. Davam alter​nadamente cotoveladas no peito um ao
outro, por entre risos abafados, bombardeando-se com migalhas de pão, segredando
coisas que os outros não conseguiam ouvir. Se Laila falava com eles, Rashid erguia os
olhos, aborrecido com a intromissão indesejada. Se ela pedia para pegar em Zalmai — ou,
pior ainda, se Zalmai estendia os braços para ela — Rashid fulminava-a com o olhar.
Laila afastava-se magoada.
ENTÃO UMA NOITE, algumas semanas após Zalmai ter feito dois anos, Rashid chegou a
casa com uma televisão e um gravador de vídeo. O dia estivera tépido, quase fragrante,
mas a tarde apresentava​-se mais fresca, já a preparar uma noite gélida e sem estrelas.
Ele pousou tudo na mesa da sala, dizendo que os comprara no mercado negro.
— Outro empréstimo? — perguntou Laila.
— É um Magnavox.
Aziza entrou na sala e, vendo a TV, correu para ela.
— Cuidado, Aziza jo — recomendou Mariam. — Não mexas.
O cabelo de Aziza tornara-se tão claro como o de Laila, que via nas faces dela as suas
próprias covinhas. Transformara-se numa garotinha calma e pensativa, com um
comportamento que Laila considerava precoce para os seus seis anos. Surpreendia-a a
maneira de falar da filha, a sua cadência e ritmo, as suas pausas significativas e
entoações, tão adultas, tão contrastantes com o corpo imaturo que albergava a voz. Fora
Aziza que, com despreocupada autoridade, chamara a si a tarefa de acordar diariamente
Zalmai, de o vestir, de lhe dar o pequeno-almoço, de o pentear. Era ela que o deitava para
fazer a sesta, que actuava como serena apaziguadora do seu volátil irmão. Perto dele,
Aziza habituara-se a abanar a cabeça com um ar exasperado e estranhamente adulto.
Aziza carregou no botão de ligar a TV. Rashid franziu o cenho, agarrou-lhe o pulso e
assentou-o na mesa, sem a menor suavidade.
— Esta TV é de Zalmai — declarou ele.
Aziza foi para junto de Mariam e trepou-lhe para o colo. Aquelas duas eram agora
inseparáveis. Ultimamente, com a bênção de Laila, Mariam começara a ensinar a Aziza
versos do Corão. A garota sabia já recitar de cor a sura2 de Ikhlas3 e a Fatiha4, e como
executar os quatro ruqats da oração da manhã.
Não tenho mais nada para lhe dar, dissera Mariam a Laila, se não este conhecimento,
estas orações. É o único verdadeiro bem que já possuí.
Zalmai entrou na sala. Enquanto Rashid observava ansioso, da mes​ma maneira que as
pessoas aguardam os simples truques de mágicos ambulantes, Zalmai começou a puxar o
fio da TV, a carregar em botões, a espalmar as mãos no ecrã vazio. Quando as levantou,
as pequenas palmas condensadas desvaneceram-se do vidro. Rashid sorriu or​gulho​so, e
ficou a ver Zalmai continuar a apoiar as mãos e a le​vantá-las, vezes sem conta.
Os taliban tinham banido a televisão. Os vídeos haviam sido apreendidos publicamente,
as cassetes arrancadas e as fitas enroladas nos postes de cercas. Os discos de satélite
tinham sido enforcados em postes de electricidade. Mas Rashid afirmou que só porque as
coisas tinham sido banidas não queria dizer que não se conseguissem encontrar.
— Amanhã vou começar a procurar cassetes de desenhos animados — disse ele. —
Não será difícil. Pode comprar-se de tudo nos bazares de mercado negro.
— Então talvez possas comprar um poço novo — comentou Laila, recebendo como
resposta um olhar de desdém.
Mais tarde, após terem jantado de novo simples arroz branco e prescindido de chá por
causa da seca, Rashid terminou de fumar o seu cigarro e comunicou a Laila a sua decisão.
— Não — disse Laila.
Ele disse que não lhe estava a pedir opinião.
— Não me interessa se estás ou não.
— Interessava-te se soubesses a história toda.
Contou-lhe que pedira dinheiro emprestado a mais amigos do que lhe dissera, que só o
dinheiro proveniente da loja já não chegava para os sustentar aos cinco. — Não te contei
mais cedo para te poupar a preocupações.
— Além disso — acrescentou — ficavas admirada se soubesses o que eles conseguem
juntar.
Laila voltou a dizer que não. Estavam na sala. Mariam e as crianças estavam na
cozinha. Laila ouvia o ruído de pratos, o riso agudo de Zalmai, Aziza a dizer qualquer coisa
a Mariam na sua voz firme e razoável.
— Haverá lá outros como ela, até mais novos — disse Rashid. — Toda a gente está a
fazer o mesmo em Cabul.
Laila disse-lhe que não lhe interessava o que as outras pessoas faziam com os filhos.
— Eu mantenho-a bem debaixo de olho — prosseguiu Rashid, agora já com menos
paciência. — É uma esquina segura. Há uma mesquita do outro lado da rua.
— Não te deixo fazer da minha filha uma pedinte de rua! — retorquiu Laila asperamente.
A bofetada produziu um estalido sonoro, a palma da sua mão de dedos grossos a atingir
em cheio a carne do rosto de Laila, fazendo-a virar a cabeça. Os ruídos da cozinha
cessaram. Durante um momento, a casa ficou absolutamente silenciosa. Depois houve uma
sucessão de passos apressados no corredor antes de Mariam e as crianças entrarem na
sala, os olhos passando dela para Rashid e outra vez para ela.
Então Laila deu-lhe um murro.
Era a primeira vez que batia em alguém, descontando os murros fingidos que costumava
trocar com Tariq. Mas esses eram dados de punho aberto, eram palmadas mais do que
murros, conscientemente amigáveis, confortáveis expressões de ansiedades
simultaneamente desconcertantes e excitantes. Eram dirigidos ao músculo a que Tariq, em
tom profissional, chamava o deltóide.
Laila observou o arco descrito pelo seu punho cerrado a fender o ar, sentiu a rugosidade
da pele áspera e mal barbeada de Rashid sob os nós dos dedos. Provocou um som
semelhante a um saco de arroz a cair ao chão. Atingiu-o com força. O impacto obrigou-o
mesmo a recuar dois passos.
Do outro lado da sala, um suster de respiração, um latido, e um grito. Laila não sabia de
quem provinha cada um dos ruídos. De momento, estava demasiado atónita para notar ou
se importar, aguardando que a sua mente apreendesse o que a sua mão fizera. Quando
isso aconteceu, pensava que talvez tivesse sorrido. Talvez tivesse feito um trejeito de troça
quando, para sua surpresa, Rashid saiu calmamente da sala.
De repente, pareceu-lhe que as provações colectivas das suas vidas — a dela, a de
Aziza, a de Mariam — se tinham simplesmente desvanecido, evaporado como as palmas
de Zalmai do ecrã da televisão. Pareceu-lhe, embora absurdamente, ter valido a pena
suportar tudo o que tinham suportado para gozar aquele único momento glorioso, aquele
acto de desafio que terminaria com o sofrimento de todas as indignidades.
Laila não notou que Rashid regressara à sala. Até sentir a sua mão apertar-lhe a
garganta. Até ser levantada do chão e atirada contra a parede.
Vista de perto, a cara escarninha de Rashid parecia incrivelmente grande. Laila reparou
como a idade a tornara cada vez mais inchada, como haviam aumentado as veias
rebentadas rasgando caminhos minúsculos no nariz. Rashid não disse nada. E, realmente,
o que podia dizer-se, que necessidade havia de dizer alguma coisa, quando se enfiava o
cano de uma pistola na boca da mulher?
AS BUSCAS de surpresa eram a razão para elas estarem a cavar no pátio. Às vezes eram
mensais, outras semanais. Ultimamente, quase diárias. A maior parte das vezes, os taliban
confiscavam coisas, davam um pontapé no traseiro de alguém, batiam na parte de trás de
uma ou duas cabeças. Mas às vezes havia espancamentos públicos, chicotadas nas solas
dos pés ou nas palmas das mãos.
— Devagar — disse Mariam, os joelhos à beira. Desceram a TV para o buraco,
segurando cada uma na extremidade da folha de plástico em que a tinham embrulhado.
— Já está bem — observou Mariam.
Quando terminaram, voltaram a encher o buraco e calcaram a terra, espalhando alguma
em volta de maneira a não dar nas vistas.
— Pronto — rematou Mariam, limpando as mãos ao vestido.
Tinham acordado em que, quando fosse seguro, quando os taliban diminuíssem as
buscas, dentro de um mês ou dois ou seis, ou talvez mais, voltariam a desenterrar a TV.
NO SONHO DE LAILA, ela e Mariam estão lá fora atrás do barracão, a cavar novamente.
Mas desta vez, é Aziza que estão a descer para o buraco. A respiração de Aziza turva o
plástico em que a embrulharam. Laila vê-lhe os olhos aterrados, o branco das palmas a
bater contra a folha de plástico. Aziza suplica. Laila não consegue ouvir-lhe os gritos. Só
por algum tempo, grita ela para baixo, é só por algum tempo. É por causa das buscas,
não percebes, meu amor? Quando as buscas cessarem, a mamã e khala Mariam
desenterram-te. Prometo, meu amor. Depois poderemos brincar. Poderemos brincar a
tudo o que quiseres. Enche a pá de terra. Mas quando os primeiros torrões de solo
bateram no plástico, Laila acordou, ofegante, com a boca a saber a terra.

Sura é o nome dado a cada capítulo do Corão; são 114 suras, subdivididas em versículos (ayat). (NT)

A Sinceridade.

A Abertura.
41

MARIAM

No Verão de 2000, a seca atingiu o seu terceiro e pior ano.


Em Helmand, Zabol, Kandahar, as aldeias transformaram-se em rebanhos de
comunidades nómadas, sempre em movimento, à procura de água e pasto para o seu
gado. Quando não os encontravam, quando as suas cabras e ovelhas e vacas morriam,
iam para Cabul. Escolheram a colina de Kareh-Ariana, e viviam em simulacros de bairros
miseráveis, apinhados aos quinze e vinte em cada barraca.
Esse foi igualmente o Verão do Titanic, o Verão em que Mariam e Aziza formavam uma
confusão de braços e pernas, rolando pelo chão a rir, com Aziza a insistir que ela era Jack.
— Baixinho, Aziza jo.
— Jack! Diz o meu nome, khala Mariam. Diz. Jack!
— O teu pai vai ficar zangado se o acordares.
— Jack! E tu és a Rose.
Aquilo acabava sempre com Mariam deitada de costas, rendida, concordando em ser
Rose. — Bom, tu és o Jack — cedia ela. — Morres cedo e eu vivo até uma idade
provecta.
— Sim, mas morro como um herói — retorquia Aziza — ao passo que tu, Rose, tu
passas toda a tua triste vida a suspirar por mim. — Depois, a cavalo no peito de Mariam,
anunciava: — Agora temos de nos beijar! — Mariam abanava a cabeça de um lado para o
outro, e Aziza, encantada com o seu próprio comportamento escandaloso, gargalhava
estendendo os lábios.
Às vezes, Zalmai aparecia e ficava a observar aquela brincadeira. O que é que ele era,
perguntava.
— Tu podes ser o icebergue — estipulava Aziza.
Nesse Verão, a febre do Titanic apoderou-se de Cabul. As pessoas traziam do
Paquistão cópias pirateadas do filme, às vezes na roupa interior. Após o recolher
obrigatório, todos trancavam as portas, apagavam as luzes, baixavam o som e
derramavam lágrimas por Jack e Rose e os passageiros do navio condenado. Se havia
energia eléctrica, Mariam, Laila e as crianças também viam o filme. Noite avançada, uma
dúzia de vezes ou mais, desenterraram a TV de trás do barracão, com as luzes apagadas
e mantas a tapar as janelas.
No leito ressequido do rio Cabul instalaram-se vendedores. Em breve, na bacia crestada
do rio era possível comprar carpetes Titanic, e tecidos Titanic de rolos expostos em
carrinhos de mão. Havia desodorizante Titanic, pasta de dentes Titanic, perfume Titanic,
pakora Titanic, até burcas Titanic. Um pedinde particularmente persistente começou a
intitular-se «O Pedinte Titanic».
Nascera «Titanic City».
É por causa da canção, dizia-se.
Não, é o mar. O luxo. O navio.
É por causa do sexo, sussurrava-se.
Leo, disse Aziza timidamente. É tudo por causa do Leo.
— Todos anseiam pelo Jack — comentou Laila para Mariam. — É o que é. Todos
querem que Jack os venha salvar do desastre. Mas não há Jack nenhum. O Jack não
volta. O Jack está morto.
DEPOIS, no fim do Verão, um mercador de tecidos adormeceu e esqueceu-se de apagar
o cigarro. Ele sobreviveu ao incêndio, mas a sua loja não. O fogo consumiu igualmente a
loja de tecidos pegada, uma loja de roupa em segunda-mão, uma pequena loja de
mobiliário e uma padaria.
Mais tarde, disseram a Rashid que se o vento soprasse de leste em vez de oeste, a loja
dele, situada na esquina do quarteirão, talvez tivesse sido poupada.
VENDERAM TUDO .
Primeiro foram as coisas de Mariam, depois as de Laila. A roupa de bebé de Aziza, os
poucos brinquedos que Laila lutara para que Rashid lhe comprasse. Aziza observou tudo
isso com ar dócil. O relógio de Rashid foi igualmente vendido, o seu velho transístor, o seu
par de gravatas, os sapatos, e a aliança. O sofá, a mesa, a carpete, e as cadeiras
também se foram. Zalmai fez uma forte birra quando Rashid vendeu a TV.
Após o incêndio, Rashid ficava em casa quase todos os dias. Esbofeteava Aziza. Dava
pontapés a Mariam. Atirava com coisas. Punha defeitos em Laila, no seu odor, na maneira
como se vestia, na maneira como se penteava, nos dentes que começavam a amarelecer.
— O que é que te aconteceu? — implicava ele. — Casei com uma pari e agora tenho
uma megera às costas. Estás a transformar-te na Mariam.
Foi despedido da casa de kebabs perto de Haji Yaghoub Square porque se envolveu
numa rixa com um cliente. O cliente queixou-se de que Rashid atirara o pão rudemente
para cima da mesa. Trocaram​-se palavras ásperas. Rashid chamara uzbeque com cara de
macaco ao cliente. Brandira-se uma arma. Em resposta apontara-se um espeto. Na versão
de Rashid, era ele quem empunhava o espeto. Mariam tinha as suas dúvidas.
Despedido do restaurante em Taimani porque os clientes se queixavam das longas
esperas, Rashid disse que o cozinheiro era lento e preguiçoso.
— Provavelmente estavas lá atrás a dormir a sesta — comentou Laila.
— Não o provoques, Laila jo — pediu Mariam.
— Estou a avisar-te, mulher — ameaçou ele.
— Ou isso ou a fumar.
— Juro por Deus.
— Não consegues deixar de ser o que és.
E então ele caiu sobre Laila, martelando-lhe o peito, a cabeça, o ventre com os punhos,
arrancando-lhe cabelos, atirando-a contra a parede. Aziza gritava, puxando-lhe pela
camisa; Zalmai chorava também, tentando afastá-lo da mãe. Rashid empurrou as crianças,
atirou Laila ao chão, e começou a dar-lhe pontapés. Mariam lançou​-se por cima de Laila.
Ele continuou aos pontapés, agora a Mariam, a espuma a saltar-lhe da boca, os olhos
brilhantes de uma decisão assassina, aos pontapés até não poder mais.
— Juro que hás-de obrigar-me a matar-te, Laila — disse ele, ofe​gante. Depois saiu
desabalado.

QUANDO O DINHEIRO ACABOU, a fome começou a lançar uma mortalha sobre as suas vidas.
Mariam sentiu-se atónita ao ver quão rapidamente aliviar a fome se transformou no ponto
crucial das suas existências.
O arroz, simplesmente cozido com água e sal, sem carne nem molho, era agora um
pitéu raro. Saltavam refeições com uma regula​ridade progressiva e alarmante. Às vezes
Rashid levava para casa sardinhas enlatadas e pão seco e quebradiço que sabia a
serradura. Outras vezes um saco com maçãs roubadas, correndo o risco de ver cortarem-
lhe a mão. Em mercearias, metia disfarçadamente ao bolso uma lata de raviólis, que
dividiam por cinco, recebendo Zalmai a parte de leão. Comiam nabos crus salpicados de
sal. Folhas de alface murchas e bananas escuras eram o jantar.
Morrer de fome tornou-se de súbito uma possibilidade real. Alguns optaram por não
esperar por ela. Mariam ouviu falar de uma vizinha viúva que arranjara um pouco de pão
seco, o misturara com veneno de ratos, e o dera a comer aos seus sete filhos. Guardara
para ela a porção maior.
As costelas de Aziza começaram a furar a pele, e a carne das faces desapareceu. As
barrigas das pernas emagreceram e a tez adquiriu a cor de chá fraco. Quando lhe pegava,
Mariam sentia-lhe o osso da anca espetado através da pele esticada. Zalmai deitava-se
pela casa, de olhos mortiços semicerrados, ou ao colo do pai, inerte como um farrapo.
Chorava até adormecer, quando tinha energia para tanto, mas o seu sono era esporádico e
intermitente. Sempre que Mariam se levantava, dançavam-lhe pontos brancos diante dos
olhos. A cabeça andava-lhe à roda e sentia permanentemente campainhas nos ouvidos.
Recordou uma coisa que o Mullah Faizullah costumava dizer a respeito da fome, quando
começava o Ramadão: Até o homem mordido pela cobra consegue dormir, mas o faminto
não.
— Os meus filhos vão morrer — disse Laila. — Mesmo diante dos meus olhos.
— Não vão nada — afirmou Mariam. — Eu não deixo. Vai ficar tudo bem, Laila jo. Sei o
que hei-de fazer.
NUM DIA ESCALDANTE, Mariam enfiou a burca e, acom​panhada por Rashid, dirigiu-se a pé
ao Hotel Intercontinental. Bilhetes de autocarro eram agora um luxo que eles não se
podiam permitir, e Mariam estava exausta quando chegaram ao topo da íngreme colina. Ao
subir a encosta, fora assaltada por vertigens, e vira​-se obrigada a parar duas vezes à
espera que passassem.
À entrada do hotel, Rashid cumprimentou e abraçou um dos porteiros de fato cor de
vinho e boné. Houve entre eles uma conversa de aspecto amigável. Rashid falou com a
mão no cotovelo do porteiro. A dada altura apontou para Mariam, e olharam ambos
brevemente para ela. Mariam achou que havia algo de vagamente familiar no indivíduo.
Quando o porteiro voltou para dentro, Mariam e Rashid esperaram. Daquele ponto de
observação, Mariam avistava o Instituto Politécnico e, para lá dele, o velho bairro de Khair
khana e a estrada para Mazar. Para sul, via a fábrica de pão, a Silo, há muito abandonada,
com a sua fachada amarelo-pálido salpicada de buracos escancarados devido a todos os
bombardeamentos que suportara. Mais para sul, distinguia as ruínas do Palácio de
Darulaman, onde, muitos anos antes, Rashid a levara a um piquenique. A recordação
desse dia era uma relíquia de um passado que já não lhe parecia o seu.
Concentrou-se naquelas coisas, naqueles marcos. Receava perder a coragem se
deixasse a mente vaguear.
À entrada do hotel chegavam jipes e táxis com intervalos de poucos minutos. Os
porteiros corriam a saudar os passageiros, que eram todos homens armados, barbudos,
de turbantes, todos eles saindo com o mesmo ar seguro de si, de despreocupada ameaça.
Mariam ouviu pedaços das conversas enquanto eles desapareciam pelas portas do hotel.
Ouviu falar pastune e farsi, mas também urdu e árabe.
— Apresento-te os nossos verdadeiros senhores — disse Rashid em voz baixa. —
Islamistas paquistaneses e árabes. Os taliban são marionetas. Estes é que são os
grandes jogadores e o Afeganistão é o seu tabuleiro.
Rashid contou-lhe que ouvira rumores de que os taliban estavam a consentir que aquela
gente instalasse por todo o país campos secretos onde eram treinados jovens para se
tornarem bombistas suicidas e combatentes da jihad.
— Por que é que ele demora tanto? — perguntou Mariam.
Rashid cuspiu e tapou o cuspo com terra.
Uma hora depois, Mariam e Rashid encontravam-se no interior do hotel, a seguir o
porteiro. Os calcanhares batiam no soalho de mosaico enquanto eram conduzidos através
do átrio agradavelmente fresco. Mariam viu dois homens sentados em cadeirões de
cabedal, com espingardas e uma mesa de café entre eles, a beber chá preto e a comer de
um prato de jelabi cobertos de melaço, argolas salpicadas de açúcar em pó. Pensou em
Aziza, que adorava jelabi, e desviou a custo o olhar.
O porteiro levou-os até uma varanda. Tirou do bolso um pequeno telefone sem fios e um
pedaço de papel em que estava rabiscado um número. Disse a Rashid que era o telemóvel
do seu supervisor.
— Consegui-vos cinco minutos — disse ele. — Não mais.
— Tashakor — agradeceu Rashid. — Não me esquecerei disto.
O porteiro acenou e afastou-se. Rashid marcou o número e passou o telefone a
Mariam.
Enquanto escutava o toque irritante, a mente de Mariam divagava. Divagou até à última
vez que vira Jalil, treze anos antes, na Primavera de 1987. Estava na rua, diante da casa
dela, apoiado a uma bengala, ao lado do Benz azul com matrícula de Herat e a risca
branca a dividir o tejadilho, o capô e a mala. Mantivera-se ali durante horas, à espera dela,
chamando por ela de vez em quando, tal como Mariam tinha outrora chamado por ele
diante da casa dele. Mariam afastara a cortina uma vez, apenas um pouco e avistara-o de
relance. Apenas de relance, mas o suficiente para ver que começava a curvar-se e que o
seu cabelo embran​quecera. Usava óculos, uma gravata vermelha, como sempre, e o
habitual triângulo do lenço branco no bolso do casaco. O mais surpreendente é que estava
mais magro, muito mais magro, do que ela o recordava; o casaco do fato escuro descaía-
lhe nos ombros e as calças faziam pregas nos tornozelos.
Jalil também a vira, ainda que só por instantes. Os seus olhos tinham-se encontrado
brevemente através de uma fresta das cortinas, tal como acontecera muitos anos antes
através de outra fenda noutras cortinas. Mas nessa altura Mariam correra-as rapidamente.
Sentara-se na cama e aguardara que ele partisse.
Pensou na carta que por fim Jalil lhe deixara à porta. Guardara-a durante dias, debaixo
da almofada, pegando-lhe de vez em quando, revolvendo-a nas mãos. Acabara por a
rasgar sem a ter aberto.
E agora, após todos esses anos, estava ali a telefonar-lhe.
Mariam lamentava hoje o seu tolo orgulho juvenil. Desejava tê​-lo deixado entrar. Que mal
teria feito deixá-lo entrar, sentar-se ao pé dele, deixá-lo dizer o que fora dizer? Era seu pai.
Não fora um bom pai, é verdade, mas como os seus defeitos lhe pareciam agora vulgares,
desculpáveis, comparados com a maldade de Rashid, ou com a brutalidade e violência que
ela vira homens infligirem uns aos outros.
Desejou não ter destruído a carta.
Soou-lhe ao ouvido a voz grave de um homem, informando-a de que ligara para o
gabinete do presidente da câmara de Herat.
Mariam pigarreou. — Salaam, irmão, estou à procura de uma pessoa que vive em
Herat. Ou viveu, há muitos anos. Chama-se Jalil Khan. Morava em Shar-e-Nau e era o
dono do cinema. Possui alguma informação a respeito do seu paradeiro?
A irritação era audível na voz do homem. — E é por isso que telefona para o gabinete
do presidente da câmara?
Mariam respondeu que não sabia a quem mais telefonar. — Per​doe-me, irmão. Sei que
tem coisas importantes a tratar, mas é assunto de vida ou de morte, falo-lhe por uma
questão de vida ou de morte.
— Eu não o conheço. O cinema está fechado há muitos anos.
— Talvez haja aí alguém que o conheça, alguém...
— Não há ninguém.
Mariam fechou os olhos. — Por favor, irmão. Há crianças envol​vidas. Crianças
pequenas.
Um longo suspiro.
— Talvez alguém aí...
— Há cá um guarda. Creio que viveu aqui toda a vida.
— Sim, pergunte-lhe, por favor.
— Volte a telefonar amanhã.
Mariam disse que não podia. — Só tenho este telefone por cinco minutos. Não tenho...
Ouviu-se um clique no outro extremo e Mariam pensou que ele desligara. Mas ouvia
passos, e vozes, uma buzina de automóvel ao longe, e um zumbido mecânico pontuado de
cliques, talvez uma ventoinha eléctrica. Passou o telefone para o outro ouvido, e fechou os
olhos.
Recordou Jalil a sorrir, a enfiar a mão no bolso.
Ah. Claro. Bem. Aqui está, então. Sem mais delongas...
Um pingente em forma de folha, moedas minúsculas com luas e estrelas gravadas a
baloiçar.
Experimenta-o, Mariam jo.
O que é que achas?
Acho que pareces uma rainha.
Decorreram alguns minutos. Depois ouviu passos, um crepitar, e um clique. — Ele
conhece-o realmente.
— Conhece?
— É o que ele diz.
— Onde está ele? — indagou Mariam. — Esse homem sabe onde está Jalil Khan?
Houve uma pausa. — Diz que ele morreu há vários anos, em 1987.
Mariam sentiu uma volta no estômago. Considerara essa possibi​lidade, evidentemente.
Jalil estaria agora com setenta e muitos anos, mas...
1987.
Estava moribundo então. Fizera a longa viagem desde Herat para se despedir.
Deslocou-se até à beira da varanda. Dali podia ver a piscina do hotel, famosa em
tempos e agora vazia e suja, rasgada por buracos de bala e com azulejos caídos. E havia
também o danificado campo de ténis, com a rede rasgada pendendo molemente ao meio,
como pele morta largada por uma cobra.
— Agora tenho de ir — disse a voz do outro lado.
— Lamento tê-lo incomodado — respondeu Mariam, chorando silenciosamente para o
telefone. Viu Jalil a acenar-lhe, a saltar de pedra em pedra para atravessar o regato, os
bolsos inchados de presentes. Tantas vezes sustivera a respiração à espera dele, pedindo
a Deus que lhe concedesse mais tempo com ele. — Obrigada — começou ela a dizer; mas
o homem do outro lado desligara já.
Rashid fitava-a. Mariam abanou a cabeça.
— Inútil — exclamou ele, arrebatando-lhe o telefone. — Tal filha, tal pai.
Ao atravessarem o átrio para sair, Rashid aproximou-se rapida​mente da mesa de café,
agora abandonada, e meteu ao bolso a última argola de jelabi. Levou-a para casa e deu-a
a Zalmai.
42

LAILA

Num saco de papel, Aziza arrumou o seguinte: a sua saia de flores e o seu único par de
soquetes, as suas luvas de lã desemparceiradas, um velho cobertor cor de abóbora
salpicado de estrelas e cometas, uma chávena de plástico rachada, uma banana, os seus
dados.
Era uma fria manhã de Abril de 2001, pouco antes do vigésimo terceiro aniversário de
Laila. O céu estava de um cinza translúcido, e as rajadas de um vento gélido e pegajoso
faziam bater a porta​-mosquiteiro.
Alguns dias antes, Laila ouvira dizer que Ahmad Shah Massoud fora a França e que
falara no Parlamento Europeu. Massoud encon​trava-se agora no norte, de onde era
oriundo, a chefiar a Aliança Nortista, o único grupo da oposição que ainda combatia os
taliban. Na Europa, Massoud avisara o Ocidente acerca dos campos de terroristas no
Afeganistão, e pedira aos E.U. que o ajudassem a lutar contra os taliban.
— Se o Presidente Bush não nos ajudar — afirmara ele — esses terroristas não
tardarão a provocar danos nos Estados Unidos e na Europa.
Um mês antes disso, Laila soubera que os taliban tinham colocado cargas de TNT nas
fendas dos budas gigantes de Bamiyan e os haviam feito explodir, rotulando-os de objectos
de idolatria e pecado. Levantara-se um grito de revolta em todo o mundo, desde os
Estados Unidos à China. Governos, historiadores e arqueólogos de todos os pontos do
globo tinham escrito cartas, suplicando aos taliban que não demolissem os dois maiores
artefactos históricos do Afeganistão. Mas os taliban tinham prosseguido e detonado os
seus explosivos no interior dos budas com dois mil anos. A cada explosão haviam cantado
Allah-u-akbar, aplaudindo de cada vez que as estátuas perdiam um braço ou uma perna
esfarelados no meio de uma nuvem de pó. Laila recordava-se de ter estado com o Babi e
Tariq no topo do Buda maior, em 1987, a brisa a soprar-lhes nos rostos iluminados pelo
sol, a observar um falcão descrevendo círculos sobre o vale que se estendia lá em baixo.
Mas quando ouviu a notícia da destruição das estátuas, Laila permaneceu indiferente.
Pareceu-lhe não ter importância. Como podia ela preocupar-se com estátuas quando a sua
própria vida se esboroava em pó?
Até Rashid lhe dizer que eram horas de irem, Laila esteve sentada no chão a um canto
da sala, sem falar e de rosto impenetrável, o cabelo caído para a cara em caracóis
desordenados. Por muito que respirasse fundo, parecia-lhe que não conseguia encher os
pulmões de ar suficiente.
Karteh-Seh, Zalmai remexia-se nos braços de Rashid e Aziza dava a
NO CAMINHO PARA
mão a Mariam, caminhando rapidamente a seu lado. O vento fazia-lhe voar o lenço sujo
atado sob o queixo e agitava-lhe a bainha do vestido. Aziza mostrava-se agora mais
sombria, como se tivesse começado a pressentir, a cada passo andado, que estava a ser
enganada. Laila não tivera coragem de lhe contar a verdade. Dissera-lhe que ia para uma
escola, uma escola especial onde as crianças comiam e dormiam e não regressavam a
casa depois das aulas. Agora Aziza bombardeava Laila com as mesmas perguntas que
repisava há dias. Os alunos dormiam em quartos diferentes ou todos num só quarto
grande? Ela faria amigas? Laila tinha a certeza de que os professores seriam bondosos?
E, mais de uma vez, Quanto tempo tenho de lá ficar?
Detiveram-se dois quarteirões antes do edifício atarracado, estilo quartel.
— Eu e Zalmai esperamos aqui — disse Rashid. — Ah, antes que me esqueça...
Tirou do bolso uma pastilha elástica, presente de despedida, e estendeu-a a Aziza com
ar hirto e magnânimo. Aziza pegou-lhe e balbuciou um obrigada. Laila admirou a cortesia
de Aziza, a enorme capacidade de perdão da filha, e os seus olhos marejaram-se de
lágrimas. O coração apertava-se-lhe e quase se esvaía de dor ao pensar que nessa tarde
Aziza não dormiria a sesta a seu lado, que não sentiria o peso pluma do braço de Aziza no
seu peito, a curva da cabeça de Aziza contra as costelas, a respiração de Aziza a
aquecer-lhe o pescoço, os calcanhares de Aziza espetados no seu ventre.
Quando se afastaram com Aziza, Zalmai começou a chorar, gritanto Ziza! Ziza!
Esbracejou, dando pontapés nos braços do pai e chamando a irmã, até a sua atenção ser
distraída por um macaco que tocava órgão do lado oposto da rua.
Percorreram os dois últimos quarteirões sozinhas, Mariam, Laila e Aziza. Quando se
aproximaram do edifício, Laila viu a sua fachada lascada, o telhado descaído, as tábuas
pregadas em molduras a que faltavam janelas, o topo de um suporte de baloiços por cima
de um muro delapidado.
Pararam à porta, e Laila repetiu a Aziza o que já lhe dissera antes.
— E se perguntarem pelo teu pai, o que é que dizes?
— Os mujahidin mataram-no — respondeu Aziza, a boca rígida de tensão.
— Muito bem. Compreendes, Aziza?
— Porque esta é uma escola especial — disse Aziza. Agora que ali estavam, e o
edifício era uma realidade, parecia abalada. O lábio inferior tremia-lhe, as lágrimas
ameaçavam subir-lhe aos olhos, e Laila viu quanto ela se esforçava por ser corajosa. — Se
dissermos a verdade — continuou Aziza em voz débil e efegante — eles não me aceitam.
É uma escola especial. Quero ir para casa.
— Venho visitar-te, sempre — conseguiu Laila articular. — Prometo.
— Eu também — acrescentou Mariam. — Nós viremos ver-te, Aziza jo, e brincaremos
juntas, como sempre. É apenas por pouco tempo, até o teu pai encontrar trabalho.
— Eles aqui têm comida — disse Laila em voz trémula. Sentia-se grata por ter a burca,
grata por Aziza não poder ver que lá por dentro ela estava completamente descontrolada.
— Aqui, não passarás fome. Eles têm arroz e pão e água, e talvez mesmo fruta.
— Mas tu não estarás aqui. E khala Mariam não estará comigo.
— Eu virei ver-te — repetiu Laila. — Sempre. Olha para mim, Aziza. Eu virei ver-te. Eu
sou tua mãe. Nem que me mate, eu virei ver-te.

O DIRECTOR DO ORFANATO era um homem curvado, de peito estreito e rosto


agradavelmente rugoso. Começava a ficar calvo, tinha uma barba desgrenhada e olhos
semelhantes a contas. Chamava​-se Zaman. Usava solidéu. A lente esquerda dos óculos
estava lascada.
Enquanto as conduzia ao seu gabinete, perguntou os nomes a Laila e Mariam,
indagando igualmente o nome e a idade de Aziza. Passaram por corredores mal iluminados
onde crianças descalças se afastavam e os observavam. Tinham o cabelo emaranhado ou
os crânios rapados. Vestiam camisolas de mangas esfarrapadas, calças de ganga puídas
com as joelheiras reduzidas ao fio, casacos remendados com fita adesiva. Laila sentiu o
cheiro de sabão e talco, amónia e urina, e de uma apreensão crescente em Aziza, que
começara a choramingar.
Laila avistou de relance o pátio: um terreno inculto, um suporte de baloiços
desconjuntado, pneus velhos, uma bola de basquetebol vazia. As salas por onde passaram
encontravam-se vazias, as janelas tapadas com folhas de plástico. Um rapaz saiu a correr
de uma das salas e agarrou-se ao cotovelo de Laila, tentando subir-lhe para os braços.
Uma auxiliar, que estava a limpar algo que parecia uma poça de urina, pousou a esfregona
e foi soltar o rapaz.
Zaman tratava os órfãos com um simpático ar de proprietário. Ao passar, dava
palmadinhas nas cabeças de uns, dizia-lhes uma ou duas palavras cordiais, desgrenhava-
lhes o cabelo, sem ares superiores. As crianças recebiam com agrado as suas
manifestações. Todas o fitavam, pareceu a Laila, à espera de aprovação.
Entraram para o gabinete dele, uma sala apenas com três cadeiras articuladas e uma
secretária desarrumada, com pilhas de papéis espalhados por cima.
— É de Herat — disse Zaman para Mariam. — Percebo pela pronúncia.
Recostou-se na cadeira, entrelaçou as mãos no ventre, e disse que tinha um cunhado
que vivera lá. Laila notou que até esses gestos vulgares pareciam exigir-lhe esforço. E
embora ele sorrisse levemente, Laila pressentiu algo de perturbado e magoado por baixo,
desapon​tamento e derrota sob uma camada de verniz de bom humor.
— Fabricava peças de vidro — continuou Zaman. — Fez estes belos cisnes verde-jade.
Se os segurarmos contra a luz eles brilham por dentro, como se o vidro estivesse cheio de
minúsculas jóias. Voltou lá?
Mariam disse que não voltara.
— Eu sou de Kandahar. Já esteve em Kandahar, hamshira? Não? É encantador. Que
jardins! E as uvas! Ah, as uvas. Enfeitiçam o palato.
À porta tinham-se juntado algumas crianças que espreitavam para o interior. Zaman
mandou-as embora docemente, em pastune.
— Evidentemente, também gosto de Herat. Cidade de artistas e escritores, sufis e
místicos. Conhece a velha piada, de que não se pode esticar uma perna em Herat sem dar
um pontapé no rabo de um poeta.
Ao lado de Laila, Aziza soltou uma risadinha.
Zaiman fingiu suster a respiração. — Ah, pronto. Fiz-te rir, pequena hamshira. Isso é,
em geral, o mais difícil. Por instantes, senti​-me preocupado. Pensei que teria de cacarejar
como uma galinha ou zurrar como um burro. Mas, aqui estás. E como és en​cantadora.
Chamou um ajudante para olhar por Aziza durante alguns mo​mentos. Aziza saltou para o
colo de Mariam e agarrou-se a ela.
— É só para conversarmos, meu amor — disse Laila. — Eu estarei aqui. Está bem?
Aqui mesmo.
— Por que não vamos até lá fora um minuto, Aziza jo? — sugeriu Mariam. — A tua mãe
precisa de conversar com kaka Zaman. Apenas um minuto. Vá, anda.
Depois de ficarem sós, Zaman perguntou-lhe a data de nascimento de Aziza, doenças
que tivera, alergias. Informou-se acerca do pai de Aziza, e Laila teve a estranha
experiência de contar uma mentira que era de facto a verdade. Zaman escutou, sem que a
sua expressão revelasse crença ou cepticismo. Dirigia o orfanato na base da confiança,
disse. Se uma hamshira dizia que o marido morrera e ela não podia cuidar dos filhos, ele
não punha isso em causa.
Laila começou a chorar.
Zaman pousou a caneta.
— Tenho vergonha — articulou Laila em voz rouca, a mão contra a boca.
— Olha para mim, hamshira.
— Que espécie de mãe abandona a sua própria filha?
— Olha para mim.
Laila ergueu os olhos.
— A culpa não é tua. Ouves-me? Não é tua. Esses selvagens, esses wahshis, é que
têm a culpa. Envergonham-me como pastune que sou. Desonraram o nome do meu povo.
E não és a única, hamshira. Rece​bemos constantemente mães como tu, constantemente,
mães que vêm aqui porque não podem alimentar os seus filhos porque os taliban não as
deixam sair de casa para ganhar a vida. Por isso não te culpes. Ninguém aqui te culpa. Eu
compreendo. — Inclinou-se para diante. — Hamshira. Eu compreendo.
Laila enxugou os olhos ao tecido da burca.
— Quanto a este sítio — Zaman suspirou, fazendo um gesto com a mão —, podes ver o
estado em que se encontra. Estamos sempre com falta de fundos, sempre a lutar, sempre
a improvisar. Recebemos pouco ou nenhum apoio dos taliban. Mas vamo-nos aguentando.
Como tu, fazemos o que temos de fazer. Allah é bom e generoso, Allah providencia, e,
enquanto Ele providenciar, eu farei com que Aziza seja alimentada e vestida. Isso te
prometo.
Laila baixou a cabeça.
— Está bem?
Sorria de forma cordial. — Mas não chores, hamshira. Não deixes que ela te veja
chorar.
Laila limpou de novo os olhos. — Deus te abençoe — disse ela em voz rouca. — Deus
te abençoe, irmão.
MAS QUANDO CHEGOU a hora das despedidas, a cena decorreu precisamente como Laila
receara.
Aziza entrou em pânico.
Durante todo o caminho para casa, apoiada a Mariam, Laila ouviu os gritos agudos de
Aziza. Mentalmente, via as mãos grossas e calosas de Zaman fecharem-se em redor dos
braços de Aziza; via-as puxarem, suavemente a princípio, e depois com força crescente,
para soltar Aziza de si. Via Aziza a espernear nos braços de Zaman enquanto ele virava
rapidamente a esquina, ouvia Aziza gritar como se estivesse prestes a desaparecer da
face da Terra. E via-se a si própria a correr pelo corredor, de cabeça baixa, com um uivo
de dor a subir-lhe na garganta.
— Sinto o cheiro dela — disse Laila a Mariam, em casa. Os seus olhos vaguearam sem
ver para lá do ombro de Mariam, para lá do pátio, até às montanhas, castanhas como
cuspo de um fumador. — Sinto o cheiro dela a dormir. E tu? Tu sentes o cheiro?
— Oh, Laila jo — respondeu Mariam. — Não faças isso. De que adianta? De que
adianta?
A PRINCÍPIO, Rashid fazia a vontade a Laila e acompanhava-os — a ela, a Mariam e a
Zalmai — até ao orfanato, embora não deixasse de a fustigar com os seus olhares
mortificados, de lhe encher os ouvidos com as suas arengas sobre o desconforto que ela o
obrigava a suportar, o quanto as pernas e as costas e os pés lhe doíam de fazer o
caminho de ida e volta. Certificava-se de que ela ficava ciente do tremendo incómodo que
lhe causava.
— Já não sou um homem novo — dizia ele. — Não que isso te preocupe. Tu enterravas-
me, se pudesses fazer o que te apetece. Mas não podes, Laila. Não podes fazer o que te
apetece.
Separavam-se a dois quarteirões do orfanato, e ele nunca lhes concedia mais de quinze
minutos. — Atrasem-se um minuto — dizia —, e eu ponho-me a andar. Falo a sério.
Laila tinha de o atazanar, de lhe suplicar, para alongar um pouco mais os minutos
concedidos a Aziza. Por si própria e por Mariam, desolada com a ausência de Aziza,
embora, como sempre, optasse por alimentar o seu sofrimento em privado e em silêncio. E
também por Zalmai, que todos os dias perguntava pela irmã, e tinha birras que terminavam
por vezes em inconsoláveis ataques de choro.
Às vezes, a caminho do orfanato, Rashid parava e queixava-se de que a perna lhe doía.
Depois dava meia-volta e encetava o caminho de regresso a casa em passadas largas e
firmes, sem o mais leve coxear. Ou dava um estalido com a língua e dizia, «São os meus
pulmões, Laila. Falta-me o fôlego. Talvez amanhã me sinta melhor, ou no dia seguinte.
Veremos.» Nem se dava ao trabalho de fingir uma respiração ofegante. Frequentemente,
ao voltar para trás, acendia um cigarro. Laila, desolada, era obrigada a segui-lo para casa,
tremendo de ressentimento e raiva impotente.
Depois, um dia, ele disse a Laila que não voltaria a acompanhá-la. — Ando demasiado
exausto de calcorrear as ruas todo o dia à procura de trabalho.
— Então vou sozinha — declarou Laila. — Não podes impedir​-me, Rashid. Estás a
ouvir? Podes bater-me quanto quiseres, mas eu continuarei a ir lá.
— Faz o que quiseres. Mas não conseguirás passar pelos taliban. Não digas que não te
avisei.
— Eu vou contigo — ofereceu Mariam.
Mas Laila não consentiu. — Tu tens de ficar em casa com Zalmai. Se fôssemos
detidas... não quero que ele veja.
E assim, a vida de Laila passou a girar em volta de arranjar expedientes para ir ver
Aziza. Metade das vezes, não conseguia chegar ao orfanato. Ao atravessar a rua, era vista
pelos taliban e crivada de perguntas — Como é que te chamas? Onde é que vais? Por
que é que estás sozinha? Onde está o teu mahram? — antes de ser mandada para casa.
Se tinha sorte, recebia uma repreensão ou um pontapé no rabo, um empurrão nas costas.
Outras vezes, enfrentava uma mescla de paus de madeira, ramos de árvore, chicotes
curtos, bofetadas, frequentemente murros.
Um dia, um jovem taliban espancou Laila com uma antena de rádio. Quando acabou,
deu-lhe uma pancada final na nuca e disse: «Se te volto a ver, bato-te até o leite da tua
mãe te saltar dos ossos.»
Dessa vez, Laila foi para casa. Deitou-se de barriga para baixo, sentindo-se um animal
estúpido e lamentável, sibilando de dor enquanto Mariam lhe punha panos húmidos nas
costas e coxas ensanguentadas. Mas, em geral, Laila recusava-se a ceder. Fazia menção
de regressar a casa, e depois tomava um caminho diferente por ruas laterais. Às vezes era
apanhada, interrogada, repreendida duas, três, até quatro vezes num só dia. Depois os
chicotes desciam e as antenas rasgavam o ar, e ela arrastava-se para casa, a sangrar, e
sem ter sequer avistado Aziza. Depressa aprendeu a vestir várias camadas de roupa, duas
ou três camisolas debaixo da burca mesmo quando estava calor, para se proteger das
pancadas.
Mas se conseguia passar pelos taliban, a recompensa valia a pena. Podia então passar
o tempo que quisesse — horas, até — com Aziza. Sentavam-se no pátio, perto dos
baloiços, no meio de outras crianças e mães de visita, e conversavam a respeito do que
Aziza aprendera nessa semana.
Aziza contou-lhe que kaka Zaman insistia em lhes ensinar qualquer coisa todos os dias,
a maior parte das vezes leitura e escrita, às vezes geografia, um pouco de História ou
Ciências, algo acerca de plantas e animais.
— Mas temos de correr as cortinas — explicou Aziza — para os taliban não nos verem.
— Kaka Zaman tinha agulhas de tricot e novelos de lã à mão para o caso de uma
inspecção dos taliban. — Guardamos os livros e fazemos de conta que estamos a tricotar.
Um dia, durante uma visita a Aziza, Laila viu uma mulher de meia-idade, com a burca
afastada para trás, que viera visitar três rapazes e uma rapariga. Reconheceu a cara
angulosa, as sobrancelhas espessas, mas não a boca descaída e o cabelo grisalho.
Recordou os xales, as saias pretas, a voz áspera, a forma como ela costumava usar o
cabelo negro de azeviche apanhado num carrapito deixando ver os pêlos pretos da nuca.
Laila recordava-se daquela mulher que, em tempos, proibia as alunas de se cobrirem,
dizendo que as mulheres e os homens eram iguais, que não havia razão para as mulheres
se cobrirem se os homens o não faziam.
A dada altura, khala Rangmaal levantou a cabeça e cruzou o olhar com o dela, mas
Laila não detectou qualquer pausa, qualquer sinal de reconhecimento, nos olhos da sua
antiga professora.
SÃO FRACTURAS ao longo da crosta terrestre — disse Aziza. — Chamam-se falhas.
Era uma tarde quente, uma sexta-feira, em Junho de 2001. Estavam os quatro sentados
nas traseiras do orfanato, Laila, Zalmai, Mariam e Aziza. Rashid cedera dessa vez — o
que não era frequente — e acompanhara-os. Ficara à espera na rua, junto à paragem do
autocarro.
Em volta deles corriam crianças descalças. Uma bola de basquete vazia era pontapeada
de um lado para o outro, negligentemente perseguida.
— E de cada lado das falhas, há as camadas de rocha que formam a crosta terrestre
— ia dizendo Aziza.
Alguém afastara o cabelo da cara de Aziza, entrançara-o e prendera​-lho muito bem no
cimo da cabeça. Laila invejava quem pudera sentar​-se atrás da sua filha, entrelaçar-lhe
partes do cabelo, pedir-lhe que estivesse quieta.
Aziza demonstrava abrindo as mãos, de palmas viradas para cima, e esfregando-as
uma na outra. Zalmai observava com imenso interesse.
— Placas quectónicas, é como se chamam?
— Tectónicas — corrigiu Laila. Custava-lhe falar. O queixo ainda estava magoado,
doíam-lhe as costas e o pescoço. Tinha o lábio inchado, e a língua ia continuamente bater
no espaço vazio do incisivo inferior que Rashid lhe partira havia dois dias. Antes de a
Mamã e o Babi terem morrido e a sua vida ter dado uma volta completa, Laila nunca teria
acreditado que um corpo humano pudesse suportar tanta pancada, tão intensa, tão
regularmente, e mesmo assim continuar a funcionar.
— Certo. E quando deslizam umas pelas outras, preendem-se e resvalam — percebes,
Mamã? — e isso liberta energia, que vem até à superfície da Terra e a faz tremer.
— Estás a ficar tão esperta — comentou Mariam. — Muito mais esperta do que a tua
ignorante khala.
O rosto de Aziza iluminou-se num sorriso. — Tu não és ignorante, khala Mariam. E kaka
Zaman diz que, às vezes, o movimento das rochas é muito, muito profundo, e é violento e
assustador lá em baixo, mas tudo o que nós sentimos à superfície é um leve tremor.
Apenas um leve tremor.
Na visita anterior a essa, eram átomos de oxigénio na atmosfera a espalhar a luz azul do
sol. Se a Terra não tivesse atmosfera, dissera Aziza levemente ofegante, o céu não seria
de todo azul, o mar seria negro retinto e o Sol uma grande estrela brilhante no escuro.
— A Aziza vem connosco para casa desta vez? — perguntou Zalmai.
— Em breve, meu amor — respondeu Laila. — Em breve.
Laila viu-o afastar-se, a caminhar como o pai, curvado para diante, com os dedos dos
pés encolhidos. Dirigiu-se aos baloiços, empurrou um assento vazio, e acabou sentando-se
no cimento, a arrancar ervas daninhas de uma racha.
A água evapora-se das folhas — sabias Mamã? — da mesma maneira que da roupa
lavada pendurada na corda a secar. E isso leva o fluxo de água pela árvore acima.
Desde o solo através das raízes, depois pelo tronco da árvore acima, através dos ramos
e até às folhas. Chama-se transpiração.
Laila perguntou-se mais do que uma vez o que fariam os taliban se descobrissem as
lições clandestinas de kaka Zaman.
Durante as visitas, Aziza não permitia que o silêncio se instalasse. Enchia todos os
espaços com discursos efusivos, feitos numa voz aguda e sonora. Sabia as coisas pela
rama, e as suas mãos gesticulavam desordenadamente, voando com um nervosismo que
não era nada próprio dela. Tinha um riso novo, Aziza. Não era tanto um riso, realmente,
mas antes uma pontuação nervosa, que, desconfiava Laila, se destinava a tranquilizá-la.
E havia outras mudanças. Laila notava a sujidade sob as unhas de Aziza, e Aziza notava
que ela notava e escondia as mãos debaixo das coxas. Sempre que uma criança chorava
nas proximidades, com o muco a saltar-lhe do nariz, ou se algum garoto passava por ali de
rabo ao léu, com o cabelo pegado de porcaria, Aziza pestanejava e apressava-se a
explicar. Parecia uma anfitriã envergonhada perante os seus convidados devido à miséria
da sua casa e ao desmazelo dos seus filhos.
As perguntas a respeito de como ela se estava a adaptar recebiam respostas vagas,
mas animadas.
Vou muito bem, khala. Estou muito bem.
Os miúdos implicam contigo?
Não, Mamã. São todos simpáticos.
Comes? Dormes bem?
Como. Durmo. Sim. Tivemos borrego a noite passada. Talvez tenha sido na semana
passada.
Quando Aziza falava assim, Laila via nela muito de Mariam.
Aziza agora gaguejava. Mariam foi a primeira a reparar. Era leve mas perceptível, e
mais pronunciado com palavras começadas por t. Laila falou nisso a Zaman. Ele franziu a
testa e disse. «Pensei que ela sempre gaguejara.»
Nessa tarde de sexta-feira deixaram o orfanato com Aziza para dar um pequeno passeio
e encontraram-se com Rashid, que os aguardava na paragem de autocarro. Quando
Zalmai avistou o pai, soltou um guincho entusiástico e libertou-se impacientemente dos
braços de Laila. A saudação de Aziza a Rashid foi rígida, mas não hostil.
Rashid disse que tinham de se apressar porque ele dispunha apenas de duas horas até
ter de se apresentar de volta ao trabalho. Era a sua primeira semana como porteiro do
Intercontinental. Do meio-dia às oito, seis dias por semana, Rashid abria portas de
automóveis, transportava bagagem, limpava algo ocasionalmente derramado. Às vezes, ao
fim do dia, o cozinheiro do restaurante estilo bufete, deixava Rashid levar para casa alguns
restos, desde que ele fosse discreto: almôndegas frias a boiar em óleo; asas de frango
fritas, com a pele dura e seca; pastéis de massa recheados emborrachados; arroz rijo e
encaroçado. Rashid prometera a Laila que logo que tivesse poupado algum dinheiro, Aziza
poderia voltar para casa.
Rashid vestia o seu uniforme, um fato de poliéster cor de vinho, camisa branca, gravata
de prender com elástico, boné a comprimir o cabelo branco. Aquele uniforme
transformava-o. Parecia vulnerável, penosamente desnorteado, quase inofensivo. Como
alguém que aceitou sem um suspiro de protesto as indignidades que a vida lhe distribuíra.
Alguém simultaneamente patético e admirável na sua docilidade.
Foram de autocarro até Titanic City. Dirigiram-se para o leito do rio, flanqueado dos dois
lados por barracas improvisadas, presas às margens secas. Perto da ponte, ao descerem
os degraus, viram que um homem descalço pendia morto de uma grua, com as orelhas
cortadas, o pescoço curvado na extremidade de uma corda. No rio, confun​diram​-se com a
horda de compradores que vagueavam por ali, os trocadores de dinheiro e os funcionários
das ONG de ar entediado, os vendedores de cigarros, as mulheres cobertas que agitavam
falsas receitas de antibióticos em frente das pessoas e pediam dinheiro para as aviar.
Taliban, de chicote em punho, mascando naswar, patrulhavam Titanic City atentos a uma
gargalhada indiscreta, um rosto descoberto.
Num quiosque de brinquedos, entre um vendedor de casacos pustin e uma bancada de
flores artificiais, Zalmai escolheu uma bola de basquetebol com círculos amarelos e azuis.
— Escolhe qualquer coisa — disse Rashid a Aziza.
Aziza encolheu-se, rígida de embaraço.
— Despacha-te. Tenho de estar no trabalho daqui a uma hora.
Aziza escolheu uma máquina de pastilhas elásticas — podia enfiar​-se sempre a mesma
moeda para receber o doce, e depois recuperá-la da portinhola atrás.
Rashid alçou as sobrancelhas quando o vendedor lhe disse o preço. Seguiu-se uma
discussão, no fim da qual Rashid disse irritadamente a Aziza, como se tivesse sido ela a
regatear com ele: — Devolve isso. Não posso comprar as duas coisas.
No caminho de regresso, a fachada de boa disposição de Aziza foi​-se desvanecendo à
medida que se aproximavam do orfanato. As mãos deixaram de voar. A cara sombreou-se.
Acontecia sempre assim. Era agora a vez de Laila se encarregar da conversa, com ajudas
de Mariam, de rir nervosamente, de preencher o melancólico silêncio com uma incessante
tagarelice à-toa.
Mais tarde, depois de Rashid as ter deixado e apanhado o autocarro para o trabalho,
Laila viu Aziza acenar a despedir-se e seguir ao longo do muro do pátio das traseiras do
orfanato, a arrastar os pés. Recordou o gaguejar da filha, e aquilo que ela dissera
anteriormente acerca de fracturas e violentas colisões muito profundas das quais tudo o
que vemos à superfície é um leve tremor.
— gritou Zalmai.
VAI-TE EMBORA, TU!
— Shuu — disse Mariam. — Com quem estás tu a gritar?
Ele apontou. — Ali. Aquele homem.
Laila seguiu o dedo. Estava um homem à porta da entrada da casa, apoiado a ela. Virou
a cabeça quando as viu aproximarem-se. Des​cruzou os braços. Avançou alguns passos
para elas, a coxear.
Laila estacou.
Saiu-lhe da garganta um som abafado. Os joelhos cederam. De repente, Laila desejou,
precisou, de agarrar o braço de Mariam, o ombro, o pulso, uma coisa, qualquer coisa a
que se apoiar. Mas não o fez. Não se atreveu. Não se atreveu a mover um músculo. Não
se atreveu a respirar, nem sequer a pestanejar, com medo de que ele não passasse de
uma miragem tremeluzindo ao longe, uma ilusão frágil que se desvaneceria à menor
provocação. Laila permaneceu absolutamente imóvel e fitou Tariq até o peito lhe gritar por
ar e os olhos arderem por pestanejar. E, de algum modo, milagrosamente, depois de ter
respirado, fechado e aberto os olhos, ele continuava ali. Tariq continuava ali.
Laila permitiu-se dar um passo na sua direcção. Depois outro. E outro. E depois
começou a correr.
43

MARIAM

Lá em cima, no quarto de Mariam, Zalmai parecia ligado à corrente. Andou um bocado a


bater a bola de basquetebol no chão e contra as paredes. Mariam pediu-lhe para estar
quieto, mas Zalmai, ciente de que ela não tinha autoridade sobre ele, continuou a bater a
bola, desafiando​-a com os olhos. Durante algum tempo brincaram com o carrinho dele,
uma ambulância com grandes letras vermelhas dos lados, empurrando​-o de um para o
outro através do quarto.
Pouco antes, quando tinham encontrado Tariq à porta, Zalmai apertara fortemente a
bola de basquete contra o peito e enfiara o polegar na boca — algo que já não fazia
excepto quando se sentia inseguro. Examinara Tariq com desconfiança.
— Quem é aquele homem? — perguntava agora. — Não gosto dele.
Mariam preparava-se para explicar, para lhe contar que ele e Laila tinham crescido
juntos, mas Zalmai interrompeu-a dizendo-lhe para virar a ambulância de forma a ficar com
a frente para ele, e depois de ela ter acedido, disse que queria outra vez a bola de
basquete.
— Onde é que ela está? — indagou o garoto. — Onde é que está a bola que o Baba jan
me comprou? Onde é que está? Quero-a! Quero​-a! — a sua voz subia de tom, tornando-
se mais estridente a cada palavra.
— Estava aqui agora mesmo — respondeu Mariam, mas ele gritou: — Não, perdeu-se,
que eu sei. Sei que se perdeu! Onde é que ela está? Onde é que ela está?
— Aqui — disse Mariam, tirando a bola do armário para onde esta rebolara. Mas Zalmai
estava agora aos berros e a bater com os punhos, gritando que não era a mesma bola,
não podia ser, porque a bola dele se perdera, e aquela era falsa, para onde é que fora a
sua bola verdadeira? Para onde? Para onde, para onde, para onde?
Gritou até que Laila teve de subir para lhe pegar, para o embalar e passar os dedos
pelos seus espessos caracóis pretos, enxugar-lhe as faces húmidas e dar estalidos com a
língua junto ao ouvido dele.
Mariam esperou do lado de fora do quarto. Do cimo das escadas, avistava apenas as
longas pernas de Tariq, a verdadeira e a artificial, vestidas de caqui, estendidas no chão da
sala desprovida de carpetes. Foi então que percebeu por que motivo o porteiro do
Continental lhe parecera familiar no dia em que lá tinha ido com Rashid para telefonar a
Jalil. O homem estava de boné e óculos escuros, e fora por isso que não o reconhecera
mais cedo. Mas agora Mariam recordava aquele dia, há nove anos, recordava-o sentado lá
em baixo, a enxugar a testa com o lenço e a pedir água. Agora cruzava-se na sua mente
todo o tipo de perguntas. Os comprimidos de sulfamidas também fariam parte do logro?
Qual deles é que planeara a mentira, fornecera os pormenores convincentes? E quanto
pagara Rashid a Abdul Sharif — se é que esse era sequer o nome dele — para vir
esmagar Laila com a história da morte de Tariq?
44

LAILA

Tariq contou que um dos homens que partilhava a sua cela tinha um primo que uma vez
fora publicamente açoitado por pintar flamingos. Esse primo, tinha uma paixão
aparentemente incurável por tais aves.
— Blocos de desenho inteiros — disse Tariq. — Dezenas de óleos com flamingos a
vaguear em lagoas, a apanhar sol em pântanos. E também a voarem ao pôr do Sol.
— Flamingos — repetiu Laila. Olhou para ele, sentado encostado à parede, a perna boa
dobrada pelo joelho. Apetecia-lhe voltar a tocar​-lhe, como acontecera antes junto do
portão, quando correra para ele. Sentia-se embaraçada agora ao pensar como lhe lançara
os braços ao pescoço e chorara no seu peito, como pronunciara o seu nome repetidas
vezes, em voz rouca e ininteligível. Teria agido demasiado ansiosa​mente, demasiado
desesperadamente, perguntava-se. Talvez. Mas não conseguira evitar. E agora ansiava por
voltar a tocar-lhe, para provar de novo a si própria que ele se encontrava realmente ali, que
não era um sonho, uma aparição.
— É verdade — declarou ele. — Flamingos.
Quando os taliban encontraram os desenhos, continuou Tariq, sentiram-se ofendidos
com as longas pernas despidas das aves. Depois de terem atado o primo pelas pernas e
de lhe terem chicoteado as plantas dos pés até fazer sangue, tinham-no confrontado com
uma opção: ou destruía os desenhos ou punha os flamingos decentes. Portanto o primo
pegara num pincel e pintara calças a todos os flamingos.
— E aí tens. Flamingos islâmicos — comentou Tariq.
O riso irrompeu, mas Laila reprimiu-o. Sentia vergonha dos seus dentes amarelados, do
incisivo que lhe faltava. Vergonha do seu aspecto envelhecido e do lábio inchado. Desejou
ter tido a possi​bilidade de lavar a cara, de pelo menos escovar o cabelo.
— Mas o primo vai ser o último a rir — disse Tariq. — Pintou as calças a aguarela.
Quando os taliban se forem, ele limita-se a lavá​-las. — Sorriu, e Laila reparou que também
a ele lhe faltava um dente; baixou os olhos para as mãos. — É verdade.
Trazia um pakol na cabeça, botas de marcha, e uma camisola de lã preta metida para
dentro das calças de caqui. Arvorava um meio sorriso, e acenava lentamente com a
cabeça. Laila não se recordava de ele dizer aquilo dantes, aquelas palavras é verdade,
nem daquele gesto pensativo com os dedos a formarem uma tenda no colo, e o acenar de
cabeça era igualmente novo. Palavras tão adultas, gestos tão adultos, e por que havia isso
de ser surpreendente? Tariq agora era adulto, era um homem de vinte e cinco anos, de
movimentos lentos e sorriso fatigado. Alto, barbudo, mais delgado do que surgia nos
sonhos dela, mas com mãos fortes, mãos de trabalhador, com veias tortuosas e grossas.
O rosto continuava magro e atraente, mas já não tinha a tez clara; a testa apresentava um
aspecto curtido, queimado pelo sol, tal como o pescoço; era a testa de um viajante no
término de uma longa e exaustiva viagem. O pakol estava bastante empurrado para trás, e
Laila notou que ele começava a perder cabelo. O castanho-avelã dos seus olhos era mais
baço do que ela recordava, mais claro, ou talvez fosse apenas a luz da sala.
Laila lembrou-se da mãe de Tariq, dos seus gestos compassados, dos sorrisos
inteligentes, da peruca cor de púrpura desbotada. E do pai, com o seu olhar penetrante, o
seu humor irónico. Antes, à porta, numa voz repleta de lágrimas, tropeçando nas suas
próprias palavras, contara-lhe o que pensava ter-lhe acontecido a ele e aos pais, e Tariq
abanara a cabeça. Por isso agora perguntou-lhe como passavam eles, os pais. Mas
lamentou a pergunta ao ver Tariq baixar os olhos e dizer, algo desatento. — Faleceram.
— Tenho muita pena.
— Bom. Pois. Eu também. Toma. — Tirou um pequeno saco de papel do bolso e
passou-o a Laila. — Com os cumprimentos de Alyona. — Lá dentro havia um bloco de
queijo embrulhado em plástico.
— Alyona. É um bonito nome. — Laila tentou dizer o resto sem vacilar. — É a tua
mulher?
— A minha cabra. — Sorria-lhe com ar de expectativa, como que aguardando que ela
recuperasse a memória.
Então Laila recordou-se. O filme soviético. Alyona era a filha do capitão, a rapariga
apaixonada pelo imediato. Fora no dia em que ela, Tariq e Hasina tinham visto os tanques e
os jipes soviéticos aban​donarem Cabul, o dia em que Tariq usara aquele ridículo chapéu
russo de pele.
— Tive de atá-la a um poste pregado ao chão — estava Tariq a dizer. — E de construir
uma cerca. Por causa dos lobos. Perto dos contrafortes das montanhas onde eu vivo, há
uma área florestal, talvez a uns quatrocentos metros, pinheiros na sua maioria, alguns
abetos, cedros. Eles mantêm-se essencialmente na floresta, os lobos, mas uma cabra a
balir, uma cabra que gosta de vadiar, isso pode atraí-los. Daí a cerca. E o poste.
Laila indagou que montanhas.
— Pir Panjal. Paquistão — respondeu ele. — O sítio onde vivo chama-se Murri; é uma
estância de Verão, a uma hora de Islamabad. É verde e montanhoso, com imensas
árvores, bastante acima do nível do mar. Por isso é fresco no Verão. Perfeito para os
turistas.
Os britânicos tinham-na construído como estação de montanha perto do seu quartel-
general em Rawalpindi, para os vitorianos fugirem ao calor. Ainda se encontravam algumas
relíquias dos tempos coloniais, disse Tariq, uma ocasional casa de chá, bungalows com
telhados de zinco, chamados chalés, esse género de coisas. A cidade em si era pequena e
agradável. A rua principal chamava-se Mall, e aí se situavam os correios, um bazar, alguns
restaurantes, e lojas que pediam aos turistas preços excessivos por peças de vidro pintado
e carpetes manuais. Curiosamente, o trânsito no Mall era de sentido único, mas fluía uma
semana numa direcção e na semana seguinte na direcção oposta.
— Os habitantes dizem que na Irlanda o trânsito também é assim em alguns sítios —
comentou Tariq. — Eu cá não sei. Seja como for, é bonito. É uma vida simples, mas eu
gosto. Gosto de viver ali.
— Com a tua cabra. Com Alyona.
Laila lançara aquilo menos como uma graça do que como abertura a outra linha de
conversa, do género quem mais vivia lá com ele a preocupar-se com a hipótese de os
lobos poderem comer cabras. Mas Tariq limitou-se a continuar a acenar.
— Também tenho muita pena dos teus pais — disse.
— Soubeste.
— Falei com alguns vizinhos — elucidou ele. Seguiu-se uma pausa, durante a qual Laila
se perguntou que mais lhe teriam contado os vizinhos. — Não reconheço ninguém. Quer
dizer, de antigamente.
— Partiram todos. Não ficou ninguém que tu conheças.
— E não reconheço Cabul.
— Nem eu — declarou Laila. — E nunca de cá saí.
— A MAMÃ TEM um amigo novo — disse Zalmai a seguir ao jantar dessa mesma noite,
depois de Tariq ter partido. — Um homem.
Rashid ergueu os olhos. — Ah, tem?
TARIQ PERGUNTOU SE podia fumar.
Tinham ficado um tempo no campo de refugiados de Nasir Bagh, perto de Peshawar,
contou Tariq, batendo a cinza para um pires. Já havia sessenta mil afegãos a viver ali
quando ele e os pais chegaram.
— Não era tão mau como alguns dos outros campos, como, Deus nos livre, Jalozai —
prosseguiu ele. — Suponho que a dada altura foi até uma espécie de campo-modelo, na
época da Guerra Fria, um lugar para onde o Ocidente podia apontar e provar ao mundo
que não se limitava apenas a despachar armas para o Afeganistão.
Mas isso fora durante a guerra soviética, disse Tariq, os dias da jihad e do interesse
mundial e do envio generoso de fundos e das visitas de Margaret Thatcher.
— Sabes o resto, Laila. Depois da guerra, os soviéticos desmo​ronaram-se e o Ocidente
passou adiante. Já não havia nada em jogo para eles no Afeganistão e o dinheiro esgotou-
se. Agora Nasir Bagh são tendas, pó, e esgotos a céu aberto. Quando nós lá chegámos,
entregaram-nos um pau e uma peça de lona e disseram-nos para construirmos uma tenda.
O que ele mais recordava acerca de Nasir Bagh, onde tinham permanecido durante um
ano, era a cor castanha. — Tendas castanhas. Pessoas castanhas. Cães castanhos.
Flocos de aveia castanhos.
Havia uma árvore sem folhas a que trepava diariamente; punha-se a cavalo num ramo e
observava os refugiados deitados ao sol, com as suas chagas e cotos bem à vista. Via
garotinhos macilentos a transportar água nos seus bidons de gasolina, a apanhar
excrementos de cão para fazer fogueiras, a esculpir AK-47s de madeira com canivetes
rombos, a acarretar os sacos de farinha de trigo com que ninguém conseguia fazer pão
que ligasse. Por toda a cidade de refugiados, o vento fazia agitar as tendas. Soprava
restolho para toda a parte e erguia papagaios lançados dos telhados de choupanas de
lama.
— Morreram imensos garotos. Desinteria, tuberculose, fome, tudo e mais alguma coisa.
Principalmente da maldita desinteria. Céus, Laila. Vi enterrar tantas crianças. Não se pode
assistir a nada pior.
Cruzou as pernas. Durante um bocado o silêncio reinou de novo entre eles.
— O meu pai não sobreviveu a esse primeiro Inverno — reco​meçou Tariq. — Morreu
durante o sono. Penso que não sentiu.
Nesse mesmo Inverno, prosseguiu ele, a mãe apanhou uma pneumonia e quase morreu,
teria morrido, se não fosse um médico do campo que trabalhava numa carrinha
transformada em clínica ambu​lante. Ela acordava de noite, febril, a tossir, com
expectoração espessa, cor de ferrugem. As filas para o médico eram longas; toda a gente
tremia, gemia, tossia, algumas pessoas com fezes a escorrerem pelas pernas, outras
demasiado exaustas ou famintas ou doentes para articularem palavras.
— Mas aquele médico era um homem decente. Tratou a minha mãe, deu-lhe
comprimidos, salvou-lhe a vida nesse Inverno.
Nesse mesmo Inverno, Tariq encurralara um garoto.
— Doze, talvez treze anos — comentou ele serenamente. — Encostei-lhe um pedaço de
vidro à garganta e tirei-lhe o cobertor. Para dar à minha mãe.
Depois da doença da mãe, Tariq jurara a si próprio que não pas​sariam outro Inverno no
campo. Trabalharia, pouparia, mudar-se-iam para um apartamento em Peshawar com
aquecimento e água limpa. Quando a Primavera chegou, foi procurar trabalho. De vez em
quando, de manhã cedo, chegava um camião ao campo, reunia umas dezenas de rapazes,
e levava-os para remover pedras de um terreno ou para colher maçãs num pomar em
troca de algumas moedas, por vezes um cobertor, um par de sapatos. Mas nunca o
queriam a ele, disse Tariq.
— Bastava olharem para a minha perna e acabava-se a conversa.
Havia outros trabalhos. Cavar valas, construir casebres, acarretar água, limpar latrinas.
Mas os homens novos lutavam por essas tarefas, e Tariq não tinha qualquer hipótese.
Então, um dia no Outono de 1993, ele conheceu o proprietário de uma loja.
— Ofereceu-me dinheiro para levar um casaco de couro para Lahore. Não muito, mas o
suficiente, o suficiente para um ou talvez dois meses de renda num apartamento.
O lojista dera-lhe um bilhete de camioneta, continuou Tariq, e a morada de uma esquina
junto à Estação de Caminhos-de-Ferro de Lahore onde ele devia entregar o casaco a um
amigo seu.
— Eu já sabia. É evidente que sabia — admitiu Tariq. — Disse​-me que se eu fosse
apanhado, estava por minha conta, que devia lembrar-me de que ele sabia onde vivia a
minha mãe. Mas o dinheiro era demasiado tentador para eu poder recusar. E o Inverno
aproxi​mava​-se novamente.
— Até onde chegaste? — perguntou Laila.
— Não muito longe — respondeu ele, e riu-se, parecendo descul​par-se, sentir vergonha.
— Nem sequer cheguei a entrar na camioneta. Mas eu julgava estar imune, sabes, seguro.
Como se houvesse lá em cima algures um contabilista, um tipo de lápis enfiado atrás da
orelha a registar essas coisas, a fazer cálculos, que olharia para baixo e diria, «Sim, sim,
ele pode fazer isso, vamos deixar passar. Este já pagou a sua quota-parte.»
O haxixe estava metido nas costuras, e quando a polícia abrira o casaco com uma faca,
espalhara-se pela rua inteira.
Tariq riu de novo ao dizer aquilo, uma gargalhada trémula, aguda, e Laila recordou que,
quando eram pequenos, ele costumava rir assim para disfarçar o embaraço, para
desdramatizar coisas imprudentes ou escandalosas que fizera.
— Ele coxeia — explicou Zalmai.
— Será quem eu penso?
— Veio apenas fazer uma visita — disse Mariam.
— Tu, calas a boca — cuspiu Rashid, erguendo um dedo. Virou​-se de novo para Laila.
— Bem, quem havia de dizer? Laili e Majnun reunidos. Como nos velhos tempos. — O seu
rosto adquiriu uma expressão impiedosa. — Portanto, deixaste-o entrar. Aqui. Na minha
casa. Deixaste-o entrar. Ele esteve aqui com o meu filho.
— Tu enganaste-me. Tu mentiste-me — proferiu Laila, rangendo os dentes. —
Mandaste aquele homem sentar-se diante de mim e... Sabias que eu partiria se pensasse
que ele estava vivo.
— E TU NÃO ME MENTISTE? — trovejou Rashid. — Pensas que não percebi? Da tua harami?
Tomas-me por idiota, minha puta?
QUANTO MAIS TARIQ FALAVA, mais Laila receava o momento em que ele se calasse. O
silêncio que se seguiria, o sinal de que era a vez dela de contar coisas, de fornecer o
porquê e como e quando, de tornar oficial aquilo que ele decerto já sabia. Sentia uma leve
náusea sempre que ele se detinha. Evitava-lhe o olhar. Fitava os ásperos pêlos pretos que
tinham brotado nas costas das mãos dele nos anos intercalados.
Tariq pouco disse acerca dos anos passados na prisão, a não ser que lá aprendera a
falar urdu. Quando Laila o interrogou, abanou a cabeça impaciente. Nesse gesto, Laila viu
barras ferrugentas e corpos sujos, homens violentos e salas apinhadas, e tectos a
apodrecerem com mofo. Leu no rosto dele que fora um lugar de aviltamento, de
degradação e desespero.
Disse que a mãe tentara visitá-lo após a sua detenção.
— Foi lá por três vezes. Mas eu nunca cheguei a vê-la.
Escrevera-lhe uma carta, e ainda outras depois dessa, embora duvidasse que ela as
recebesse.
— E escrevi-te.
— Escreveste?
— Ah, volumes completos — afirmou ele. — O teu amigo Rumi teria invejado a minha
produção. — Depois riu de novo, desta vez às gargalhadas, como se estivesse
simultaneamente surpreendido com a sua ousadia e embaraçado pelo que deixara
escapar.
Lá em cima, Zalmai começou a gritar.
— COMO NOS VELHOS TEMPOS, então — proferiu Rashid. — Vocês os dois. Suponho que o
deixaste ver-te a cara.
— Deixou — disse Zalmai. E para Laila: — Deixaste, Mamã. Eu vi-te.

— O TEU FILHO NÃO simpatiza muito comigo — comentou Tariq quando Laila regressou ao
andar de baixo.
— Desculpa — disse ela. — Não é isso. Ele apenas... Não lhe ligues. — Depois mudou
rapidamente de assunto porque a fazia sentir-se perversa e culpada reagir assim a
propósito de Zalmai, uma criança, um garotinho que amava o pai, e cuja aversão instintiva
por aquele estranho era compreensível e legítima.
E escrevi-te.
Volumes.
Volumes.
— Há quanto tempo estás em Murri?
— Há menos de um ano — respondeu Tariq.
Na prisão tornara-se amigo de um homem mais velho, contou ele, um fulano chamado
Salim, paquistanês, antigo jogador de hóquei que andava há anos dentro e fora da prisão e
estava a cumprir dez anos por ter apunhalado um polícia infiltrado. Todas as prisões têm
um homem como Salim, disse Tariq. Havia sempre alguém astuto e bem rela​cionado, que
contornava o sistema e arranjava coisas, alguém em redor de quem o ar ressoava tanto de
oportunidades como de perigo. Fora Salim quem enviara para o exterior as indagações de
Tariq acerca da mãe, fora Salim quem o mandara sentar-se e lhe contara, em voz doce e
paternal, que ela morrera de frio.
Tariq passara sete anos na prisão paquistanesa. — Safei-me bem — observou ele. —
Tive sorte. Calhou que o juiz destacado para o meu caso tinha um irmão casado com uma
mulher afegã. Talvez se tenha apiedado. Não sei.
Quando Tariq acabou de cumprir a sua pena, no início do Inverno de 2000, Salim dera-
lhe a morada do irmão e um número de telefone. O irmão chamava-se Sayid.
— Disse-me que Sayid era proprietário de um pequeno hotel em Murri — continuou
Tariq. — Vinte quartos e um salão, um pequeno estabelecimento para receber turistas.
Disse-me para lhe contar que ia mandado por ele.
Tariq gostara de Murri assim que descera da camioneta; os pinheiros cobertos de neve;
o ar frio e revigorante; os chalés de madeira com persianas, o fumo a serpentear das
chaminés.
Ali estava um lugar, pensara Tariq ao bater à porta de Sayid, um lugar não só a mundos
de distância dos infortúnios que ele conhecera, mas também um lugar que tornava até
mesmo a noção de desgraça e tristeza de certo modo obscena, inimaginável.
— Disse para mim próprio, aqui está um lugar onde um homem pode deixar o passado
para trás e seguir para diante.
Tariq fora contratado como porteiro e faz-tudo. Saíra-se bem, disse ele, durante o
período experimental de um mês pelo qual Sayid o aceitara, com metade do salário.
Enquanto Tariq falava, Laila via Sayid, que imaginava de olhos estreitos e cara rubicunda, à
janela do escritório da recepção observando Tariq a cortar madeira e a limpar o caminho
da neve. Via-o debruçar-se sobre a perna de Tariq, exami​nando-a, enquanto este se
estendia debaixo do lava-loiças a consertar um cano furado. Imaginou-o a conferir a caixa
registadora à procura de faltas de dinheiro.
A barraca de Tariq, disse ele, ficava ao lado do pequeno chalé da cozinheira, uma velha
viúva antiquada chamada Adiba. Ambas as construções eram independentes do hotel em
si, separadas do edifício principal por um grupo de amendoeiras, um banco de jardim, e
uma fonte de pedra em forma de pirâmide que, no Verão, gorgolejava água o dia inteiro.
Laila imaginou Tariq na sua barraca, sentado na cama, a contemplar o mundo frondoso
para lá da sua janela.
No fim do período experimental, Sayid aumentara o salário de Tariq para a totalidade,
dissera-lhe que os almoços eram gratuitos, dera-lhe um casaco de lã e mandara fazer-lhe
uma perna nova. Tariq confessou que chorara com a bondade do homem.
Com o primeiro mês de salário completo no bolso, Tariq fora à cidade e comprara
Alyona.
— O pêlo dela é absolutamente branco — disse ele, sorrindo. — Em algumas manhãs,
se nevou toda a noite, olha-se pela janela e a única coisa que dela se vê são os olhos e a
ponta do focinho.
Laila acenou. Seguiu-se novo silêncio. Lá em cima, Zalmai começara outra vez a bater a
bola contra a parede.
— Eu pensava que tu morreras — principiou Laila.
— Eu sei. Já me disseste.
A voz de Laila falhou. Teve de pigarrear, de se controlar. — O homem que veio dar a
notícia foi tão sincero... eu acreditei nele, Tariq. Oxalá não o tivesse feito, mas acreditei. E
depois senti-me tão só e tão assustada. De outro modo, não teria aceitado casar com
Rashid. Não teria...
— Não precisas de fazer isto — murmurou ele docemente, evi​tan​do-lhe os olhos. Não
havia qualquer censura oculta, nem recrimina​ções, na maneira como ele disse aquilo. Nem
a menor sugestão de culpabilidade.
— Preciso sim. Porque houve uma razão mais importante pela qual eu casei com ele. Há
algo que tu não sabes, Tariq. Alguém. Tenho de te contar.

— TAMBÉM TE SENTASTE a conversar com ele? — perguntou Rashid a Zalmai.


Zalmai não respondeu. Laila via agora hesitação e incerteza nos seus olhos, como se
tivesse acabado de se aperceber de que revelara uma coisa muito mais séria do que tinha
pensado.
— Fiz-te uma pergunta, meu rapaz.
Zalmai engoliu em seco. Manteve o olhar desviado. — Eu estava lá em cima, a brincar
com Mariam.
— E a tua mãe?
Zalmai, à beira das lágrimas, fitou Laila como quem pede desculpa.
— Está tudo bem, Zalmai — sossegou-o Laila. — Diz a verdade.
— Ela estava... Ela estava lá em baixo, a falar com aquele homem — disse o garoto em
voz débil, pouco mais que um sussurro.
— Estou a ver — comentou Rashid. — Trabalho de equipa.

QUANDO IA A SAIR,Tariq disse: — Quero conhecê-la. Quero vê-la.


— Eu trato disso — concordou Laila.
— Aziza. Aziza. — Sorriu, saboreando a palavra. Sempre que Rashid pronunciava o
nome da sua filha, Laila encontrava-lhe um som desagradável, quase grosseiro. — Aziza. É
lindo.
— E ela também. Verás.
— Fico a contar os minutos.
Haviam passado quase dez anos desde a última vez que se tinham visto. Pela mente de
Laila perpassou a lembrança de todas as vezes que se haviam encontrado no beco e
beijado em segredo. Perguntou​-se como a veria ele agora. Ainda a acharia bonita? Ou
parecer-lhe-ia fanada, diminuída, lamentável, uma velha pesada e horrorosa? Quase dez
anos. Mas, por um momento, ali de pé com Tariq à luz do Sol, foi como se esses anos
nunca tivessem acontecido. A morte dos pais, o seu casamento com Rashid, as mortes, os
rockets, os taliban, os espancamentos, a fome, até mesmo os filhos, tudo isso parecia um
sonho, um desvio bizarro, um mero interlúdio entre essa derradeira tarde juntos e aquele
momento.
Depois a cara de Tariq modificou-se e ele ficou sério. Ela conhecia aquela expressão.
Era a mesma que o seu rosto apresentava naquele dia, tantos anos antes, quando eram
ainda crianças, e ele desapertara a perna artificial e fora atrás de Khadim. Agora estendeu
a mão e tocou-lhe no canto do lábio inferior.
— Foi ele quem te fez isto — proferiu friamente.
Ao seu toque, Laila recordou novamente o frenesim daquela tarde em que tinham
concebido Aziza. A respiração dele no seu pescoço, os músculos dos quadris flectidos, o
peito comprimindo os seus seios, as mãos de ambos entrelaçadas.
— Quem me dera ter-te levado comigo — Tariq quase sussurrou.
Laila teve de baixar os olhos, esforçando-se por não chorar.
— Sei que tu agora és uma mulher casada, e mãe. E eis-me aqui, ao fim de todos estes
anos, depois de tudo o que aconteceu, a aparecer-te à porta. Provavelmente não é
decente, nem justo, mas vim de muito longe para te ver, e... Oh, Laila, quem me dera
nunca te ter deixado.
— Por favor — murmurou ela em voz rouca.
— Devia ter insistido mais. Devia ter casado contigo quando tive essa possibilidade.
Tudo teria sido diferente então.
— Não fales assim. Por favor. Dói.
Ele anuiu, começou a dar um passo para ela, e depois estacou. — Não pretendo nada.
E não é minha intenção virar a tua vida de pernas para o ar, surgindo assim vindo do ar. Se
quiseres que eu parta, se quiseres que eu volte para o Paquistão, é só dizeres, Laila. Falo
a sério. Diz e eu vou. Nunca mais te incomodarei. Eu...
— Não! — exclamou Laila, com mais veemência do que preten​dera. Viu que lhe
agarrara o braço, que o apertava. Deixou cair a mão. — Não. Não te vás embora, Tariq.
Por favor, fica.
Tariq acenou.
— Ele trabalha do meio-dia às oito. Volta amanhã à tarde. Eu levo​-te a Aziza.
— Não tenho medo dele, sabes.
— Eu sei. Volta amanhã à tarde.
— E depois?
— E depois... Não sei. Tenho de pensar. Isto é...
— Eu sei — concordou ele. — Compreendo. Lamento. Lamento uma série de coisas.
— Não lamentes. Prometeste voltar. E voltaste.
Os olhos dele marejaram-se de lágrimas. — É bom ver-te, Laila.
Ela observou-o a afastar-se, sentindo-se tremer. Pensou, Volumes, e percorreu-a novo
arrepio, uma corrente de tristeza e desespero, mas também de esperança ansiosa e
irreprimível.
45

MARIAM

— Eu estava lá em cima a brincar com Mariam — disse Zalmai.


— E a tua mãe?
— Ela estava... Ela estava lá em baixo, a falar com aquele homem.
— Estou a ver — comentou Rashid. — Trabalho de equipa.
Mariam viu-lhe o rosto distender-se, descontrair-se. Viu as rugas da testa desfazerem-
se. A desconfiança e a dúvida desapareceram-lhe do olhar num ápice. Endireitou-se e,
durante alguns breves instantes, pareceu apenas pensativo, como o capitão de um navio
que, informado da iminência de um motim, pondera serenamente o seu movimento
seguinte.
Levantou os olhos.
Mariam começou a dizer qualquer coisa, mas ele ergueu a mão e, sem olhar para ela,
disse: — É demasiado tarde, Mariam.
A Zalmai, ordenou em tom frio: — Tu vais lá para cima, meu rapaz.
Mariam viu o alarme na cara de Zalmai. O garoto olhou nervosa​mente em volta, para
eles os três. Sentia agora que o seu jogo de mexericos trouxera para a sala algo de grave,
de grave para os adultos. Lançou um olhar desanimado, contrito na direcção de Mariam, e
depois da mãe.
Em voz dura, Rashid disse: — Imediatamente!
Pegou em Zalmai pelo cotovelo. Zalmai deixou-se levar docilmente para cima.
Mariam e Laila ficaram petrificadas, de olhos no chão, como se, olhando uma para a
outra, dessem crédito à maneira como Rashid via as coisas: enquanto ele andava a abrir
portas e a transportar a bagagem de pessoas que nem um olhar lhe concediam, nas suas
costas, na sua casa, na presença do seu adorado filho, tomava forma uma obscena
conspiração. Nenhuma proferiu palavra. Escutaram os passos no corredor do andar de
cima, uns pesados e ameaçadores, os outros o tropel de um animalzito assustadiço.
Ouviram uma troca de palavras abafada, uma súplica aguda, uma resposta áspera, uma
porta fechada, o ruído da chave a girar. Depois um conjunto de passos a regressar, agora
mais impacientes.
Mariam viu-lhe os pés a martelarem os degraus enquanto ele descia. Viu-o meter a
chave no bolso, viu o cinto, com o lado dos furos fortemente enrolado nos dedos. A fivela
de latão falso arrastava atrás dele, ressaltando nos degraus.
Avançou para o deter, mas ele empurrou-a e passou por ela a resfolegar. Sem uma
palavra, atirou o cinto na direcção de Laila. Fê​-lo com tal rapidez que ela não teve tempo
de recuar nem de se curvar, nem sequer de erguer um braço protector. Laila levou os
dedos à fonte, olhou para o sangue, e depois fitou Rashid, atónita. Esse olhar de
incredulidade durou apenas um instante, e foi substituído por ódio.
Rashid agitou de novo o cinto.
Dessa vez, Laila protegeu-se com o braço e tentou agarrar o cinto. Falhou, e Rashid
atingiu-a de novo. Laila apanhou-o por segundos antes de Rashid o soltar e voltar a
fustigá-la. Depois ela começou a correr em volta da sala, enquanto Mariam gritava
palavras que corriam igualmente e implorava a Rashid que parasse. Mas ele continuava a
perseguir Laila, bloqueando-lhe o caminho e fazendo estalar o cinto sobre ela. A dada
altura, Laila encolheu-se e conseguiu dar-lhe um murro na orelha, levando-o a cuspir uma
praga e a persegui-la ainda mais violentamente. Apanhou-a, atirou-a contra a parede, e
fustigou​-a repetidamente com o cinto, a fivela a bater-lhe no peito, no ombro, nos braços
erguidos, nos dedos, a fazer sangue onde quer que se afundava.
Mariam perdeu a conta às vezes que o cinto se abateu, às súplicas que gritou a Rashid,
às vezes que rodeou o emaranhado incoerente de dentes e punhos e cinto, antes de ver
dedos enclavinhados no rosto de Rashid, unhas falhadas cravadas nas bochechas dele, a
pu​xarem-lhe o cabelo, a arranharem-lhe a testa. Ao tempo que decorreu até se aperceber,
com um misto de choque e de alívio, que os dedos eram os seus.
Ele largou Laila e virou-se para ela. A princípio, fitou-a sem a ver, depois apertou os
olhos e examinou-a com interesse. O seu olhar passou de confusão a choque, depois a
desaprovação, desapontamento mesmo, detendo-se aí um momento.
Mariam recordou a primeira vez que lhe vira os olhos, sob o véu de casamento, na
presença de Jalil, como os seus olhares haviam deslizado pelo espelho e se tinham
encontrado, o dele indiferente, o dela dócil, contemporizador, quase a desculpar-se.
A desculpar-se.
Mariam via agora neses mesmos olhos como fora idiota.
Fora uma esposa infiel?, perguntou-se. Uma esposa enfatuada? Uma mulher
desonesta? De má fama? Grosseira? Que coisa prejudicial fizera propositadamente àquele
homem para merecer a sua maldade, os seus ataques contínuos, o prazer com que ele a
atormentava? Não o tratara quando estava doente? Não o alimentara, a ele e aos seus
amigos, não limpara obedientemente tudo o que ele sujara?
Não entregara a sua juventude àquele homem?
Alguma vez merecera realmente a sua vileza?
O cinto ressoou com um baque quando Rashid o deixou cair ao chão e avançou para
ela. Alguns trabalhos, dizia aquele baque, deviam ser feitos com as mãos.
Mas precisamente quando ele caía sobre si, Mariam viu Laila lá atrás apanhar qualquer
coisa do chão. Viu-a erguer a mão acima da cabeça, deter-se, e depois descê-la com um
silvo sobre a face de Rashid. Vidros partidos. Os restos escavacados de um copo de água
tombaram ao chão. Havia sangue nas mãos de Laila, sangue a sair do golpe aberto na
face de Rashid, sangue a escorrer-lhe pelo pescoço, pela camisa. Ele virou-se, rosnando,
de dentes arreganhados e olhos chamejantes.
Rashid e Laila caíram ao chão, envolvidos em luta. Ele acabou por cima, as mãos já
apertadas em redor do pescoço dela.
Mariam esgatanhou-o. Bateu-lhe no peito. Atirou-se contra ele. Esforçou-se por lhe
afastar os dedos do pescoço de Laila. Mordeu-lhes. Mas eles permaneceram fortemente
aferrados em volta da traqueia de Laila, e Mariam compreendeu que Rashid tencionava
levar aquilo até ao fim.
Pretendia sufocá-la, e nenhuma delas podia fazer nada.
Mariam recuou e saiu da sala. Apercebeu-se de um som de pancadas lá em cima, de
pequenas mãos a bater contra uma porta fechada à chave. Correu pelo corredor. Irrompeu
porta fora. Atravessou o pátio.
No barracão das ferramentas, Mariam agarrou na pá.
Rashid não deu conta do seu regresso à sala. Continuava em cima de Laila, com os
olhos de louco arregalados, as mãos apertadas em volta do pescoço dela. A cara de Laila
começava a ficar azulada, e tinha os olhos revirados. Mariam viu que ela já não se debatia.
Ele vai matá​-la, pensou. Pretende realmente matá-la. E Mariam não podia, não queria,
permitir que isso acontecesse. Rashid roubara-lhe tanta coisa em vinte e sete anos de
casamento. Não ficaria a vê-lo roubar-lhe também Laila.
Fincou os pés e apertou o cabo da pá com mais força. Levantou-a. Chamou-o. Queria
que ele visse.
— Rashid.
Ele olhou para cima.
Mariam tomou impulso.
Atingiu-o na têmpora. O golpe derrubou-o, afastando-o de cima de Laila.
Rashid levou a palma da mão à cabeça. Olhou para as pontas dos dedos cobertas de
sangue, e depois para Mariam. Ela pensou ver o seu rosto suavizar-se. Imaginou que algo
passara entre os dois, que talvez ela lhe tivesse, literalmente, enfiado na cabeça um
vislumbre de compreensão à martelada. Talvez ele também tivesse visto alguma coisa na
cara dela, pensou Mariam, alguma coisa que o levara a tergiversar. Talvez tivesse visto
vestígios de toda a abnegação, de todo o sacrifício, de toda o violento esforço de que ela
necessitara para viver com ele durante todos aqueles anos, para viver com a sua contínua
condescen​dência e violência, a sua permanente insatisfação e maldade. Seria respeito o
que via nos seus olhos? Arrependimento?
Mas depois ele curvou o lábio superior num rosnado odiento, e Mariam percebeu então
a futilidade, talvez mesmo a irresponsa​bilidade, de não terminar aquilo. Se o deixasse
partir agora, quanto tempo levaria Rashid a tirar a chave do bolso e ir buscar aquela sua
pistola lá acima, ao quarto onde trancara Zalmai? Se Mariam tivesse a certeza de que ele
se contentaria em dar-lhe um tiro apenas a ela, de que havia uma possibilidade de ele
poupar Laila, talvez tivesse largado a pá. Mas nos olhos de Rashid ela viu a morte de
ambas.
E assim Mariam levantou a pá ao alto, levantou-a o mais alto que pôde, inclinando-a até
lhe tocar na nuca. Virou-a de maneira a que a extremidade aguçada ficasse na vertical, e,
ao fazer isso, ocorreu-lhe que pela primeira vez era ela a decidir o curso da sua própria
vida.
E com tal pensamento, Mariam baixou a pá. Dessa vez com toda a força de que foi
capaz.
46

LAILA

Laila tinha consciência da cara por cima de si, uma mescla de dentes, tabaco e olhos
agourentos. Pressentia também vagamente Mariam, uma presença para lá da cara, dos
seus punhos a martelarem. Por cima deles havia o tecto, e era para o tecto que Laila se
sentia atraída, com as marcas escuras de mofo a espalharem-se como tinta num vestido,
a racha no estuque que era um sorriso impassível ou um franzir de testa, conforme a
extremidade da sala de onde se olhava. Laila recordou as muitas vezes que atara um
pedaço de pano à ponta de uma vassoura e limpara teias de aranha daquele tecto. As três
vezes que ela e Mariam o tinham pintado de branco. A racha agora já não era um sorriso
mas um esgar trocista. E estava a recuar. O tecto estava a encolher, a subir, a afastar-se
dela em direcção a uma obscuridade indistinta mais para além. Subiu até ficar reduzido ao
tamanho de um selo, branco e brilhante, com tudo à sua volta obliterado pelas trevas
cerradas. No escuro, a cara de Rashid era como uma mancha solar.
Agora pequenos jactos curtos de luz ofuscante diante dos olhos, como estrelas
prateadas a explodir. Formas geométricas bizarras no meio da luz, espirais, coisa em
forma de ovo, a moverem-se para cima e para baixo, para os lados, fundindo-se umas nas
outras, separando​-se, aglutinando-se em qualquer outra coisa, e depois esbatendo-se,
dando lugar às trevas.
Vozes abafadas e distantes.
Por trás das suas pálpebras, faiscaram oscilando os rostos dos filhos. Aziza, vigilante e
sobrecarregada de responsabilidades, consciente, reservada. Zalmai, fitando o pai com
uma trepidação ansiosa.
Ia então acabar assim, pensou Laila. Que fim miserável.
Mas depois as trevas começaram a desvanecer-se. Teve a sensação de se erguer, de
ser levantada. O tecto reapareceu lentamente, expandiu-se, e Laila conseguiu distinguir
outra vez a racha, com o mesmo sorriso impassível.
Abanavam-na. Estás bem? Responde-me, estás bem? Sobre ela pairava o rosto de
Mariam, sulcado de rasgões, sombrio de preocupação.
Laila tentou respirar. Uma sensação de queimadura na garganta. Tentou de novo. A
queimadura foi ainda maior dessa vez, não apenas na garganta mas também no peito. E
depois começou a tossir e a arquejar. A ofegar. Mas a respirar. Na sua orelha boa
ressoavam campainhas.
A PRIMEIRA COISAque viu quando se sentou foi Rashid. Jazia de costas, fitando o vazio sem
pestanejar, com uma expressão de peixe fora de água. Um fio de espuma, levemente
rosada, escorria-lhe da boca para o lado da cara. Tinha a frente das calças molhada. Viu-
lhe a testa.
Depois viu a pá.
Soltou um gemido. — Oh — disse em tom trémulo, mal conse​guindo arranjar voz. — Oh,
Mariam.
LAILA ANDAVA DE umlado para o outro, a gemer e a bater as mãos uma na outra, enquanto
Mariam permanecia sentada perto de Rashid, as mãos no colo, calma e imóvel. Durante
muito tempo Mariam não disse nada.
Laila sentia a boca seca, e balbuciava as palavras, a tremer da cabeça aos pés. Fez um
esforço de vontade para não olhar para Rashid, para o rictus da sua boca, os olhos
abertos, o sangue a coagular na cova da clavícula.
Lá fora, a luz começava a desaparecer, as sombras avançavam. O rosto de Mariam
parecia pálido e definhado àquela claridade, mas ela não se mostrava agitada nem
assustada, apenas preocupada, pensativa, tão concentrada que nem ligou quando uma
mosca lhe pousou no queixo. Estava apenas ali sentada com o lábio inferior espetado,
como sempre que se encontrava absorta em pensamentos.
Por fim, disse: — Senta-te, Laila jo.
Laila obedeceu.
— Temos de o levar daqui. Zalmai não pode ver isto.
MARIAM TIROU a chave do quarto do bolso de Rashid antes de o envolverem num lençol.
Laila pegou-lhe pelas pernas, por trás dos joelhos, e Mariam agarrou-lhe por baixo dos
braços. Tentaram levantá​-lo, mas era demasiado pesado, e acabaram por o arrastar. Ao
passarem pela porta de entrada para o pátio, o pé de Rashid ficou preso na ombreira e a
perna dobrou para o lado. Tiveram de recuar e tentar de novo, mas nessa altura algo
tombou no andar de cima e as pernas de Laila cederam. Largou Rashid. Deixou-se cair ao
chão, a tremer e a soluçar, e Mariam teve de se debruçar sobre ela, de mãos nas ancas, e
dizer-lhe que se controlasse. Agora já não podiam voltar atrás.
Ao fim de um bocado, Laila levantou-se e limpou a cara, e transpor​taram Rashid para o
pátio sem mais incidentes. Levaram-no para o barracão das ferramentas. Deixaram-no
atrás da bancada de trabalho, em cima da qual se encontravam a serra, alguns pregos, um
formão, um martelo, e um bloco de madeira cilíndrico de que Rashid tencionara talhar
qualquer coisa para Zalmai, mas que nunca chegara a fazer.
Depois voltaram para casa. Mariam lavou as mãos, passou-as pelo cabelo, respirou
fundo e soltou um suspiro. — Agora deixa-me tratar as tuas feridas. Estás cheia de golpes,
Laila jo.

MARIAM DISSE QUE precisava da noite para ponderar o assunto. Para ordenar os
pensamentos e arquitectar um plano.
— Há uma maneira — afirmou ela — , só preciso de a encontrar.
— Temos de nos ir embora! Não podemos ficar aqui — disse Laila, em voz rouca e
entrecortada. Pensou de súbito no som que a pá devia ter feito ao bater na cabeça de
Rashid, e o corpo dobrou-se para diante. Sentiu a bílis subir-lhe pelo peito.
Mariam aguardou pacientemente que Laila se sentisse melhor. Depois fê-la deitar-se e
enquanto lhe afagava a cabeça pousada no seu colo, Mariam disse-lhe para não se
preocupar, que tudo ficaria bem. Disse-lhe que partiriam — ela, Laila, as crianças, e
também Tariq. Deixariam aquela casa, aquela cidade impiedosa. Deixariam mesmo aquele
país desesperançado, disse Mariam, passando os dedos pelo cabelo de Laila, e iriam para
um lugar qualquer, remoto e seguro, onde ninguém os descobriria, onde poderiam repudiar
o passado e encontrar abrigo.
— Um lugar com árvores — disse ela. — Sim. Muitas árvores.
Viveriam numa casa pequenina nos limites de uma cidade em que nunca tivessem ouvido
falar, disse Mariam, ou numa aldeia remota onde a estrada fosse estreita e de terra batida
mas bordejada por todo o tipo de plantas e arbustos. Talvez houvesse um carreiro a seguir,
um carreiro que conduzisse a um campo relvado onde as crianças poderiam brincar, ou
talvez um caminho de cascalho que os levaria a um límpido lago azul onde nadavam trutas
e os juncos se erguiam à superfície. Criariam ovelhas e galinhas, fariam pão juntas e
ensinariam as crianças a ler. Construiriam novas vidas — vidas pacíficas e solitárias — e
aí, o peso de tudo o que haviam suportado abandoná-las-ia, e mereceriam toda a
felicidade e simples prosperidade que encon​trariam.
Laila ia soltando murmúrios encorajadores. Seria uma existência repleta de dificuldades,
bem via, mas de um género agradável, dificuldades de que poderiam orgulhar-se,
apoderar-se, estimar, como a uma herança de família. A suave voz maternal de Mariam
prosseguia, confortando-a. Há uma maneira, dissera ela, e, de manhã, Mariam dir-lhe-ia o
que tinha de ser feito e eles fá-lo-iam, e talvez amanhã a essa hora fossem a caminho
dessa nova vida, uma vida exuberante de possibilidades e alegria e dificuldades bem
acolhidas. Laila sentia-se grata por Mariam se ocupar de tudo, de mente desanuviada e
sóbria, capaz de pensar por elas duas. Na sua própria cabeça ia uma confusão perturbada
e irrequieta.
Mariam ergueu-se. — Agora devias ir ocupar-te do teu filho. — O seu rosto espelhava a
expressão mais dorida que Laila já vira numa face humana.
LAILA ENCONTROU-O no escuro, enroscado no lado do colchão onde Rashid se deitava.
Enfiou-se por baixo da manta ao pé dele e puxou o cobertor para cima.
— Estás a dormir?
Sem se voltar para ela, Zalmai respondeu: — Não consigo dormir. O Baba jan ainda não
disse comigo as orações do Babalu.
— Talvez eu possa dizê-las contigo esta noite.
— Não sabes dizê-las como ele.
Ela apertou-lhe o ombro pequenino. Beijou-lhe a nuca. — Posso tentar.
— Onde está o Baba jan?
— O Baba jan foi-se embora — disse Laila, sentindo de novo um aperto na garganta.
E ali estava ela, proferida pela primeira vez, a grande mentira amaldiçoada. Quantas
vezes teria de repetir essa mentira? Perguntou​-se Laila, tristemente. Quantas vezes teria
Zalmai de ser enganado? Viu mentalmente Zalmai a correr, jubiloso, para acolher Rashid
quando ele chegava a casa e Rashid a pegar-lhe pelos cotovelos e a fazê-lo girar à roda, à
roda, até as pernas de Zalmai ficarem absolu​tamente hori​zontais, e depois os dois a rir
quando Zalmai andava aos trambolhões como um bêbedo. Recordou os seus jogos
tumultuosos e as suas gargalhadas sonoras, os seus olhares secretos.
Um manto de vergonha e desgosto pelo filho caiu sobre Laila.
— Onde é que ele foi?
— Não sei, meu amor.
Quando voltaria? O Baba jan traria um presente quando voltasse?
Fez as orações com Zalmai. Vinte e um Bismallah-e-rahman-e​-rahims, um por cada nó
de sete dedos. Viu-o colocar as mãos em concha diante da cara e soprar, depois assentar
as costas de ambas as mãos na testa e fazer um gesto de rejeição, sussurrando, Babalu,
vai​-te embora, não venhas para Zalmai, ele não te quer cá. Babalu, vai-te embora.
Depois, para terminar, disseram Allah-u-akbar três vezes. E mais tarde, muito mais tarde
durante a noite, Laila sentiu um sobressalto ao ouvir uma voz abafada: O Baba jan foi-se
embora por minha causa? Por causa do que eu disse, acerca de ti e daquele homem lá
em baixo?
Debruçou-se sobre ele, para o tranquilizar, para lhe dizer Não teve nada que ver
contigo, Zalmai. Não. Não tiveste culpa de nada. Mas ele dormia, o pequeno peito subindo
e descendo ao ritmo da respiração.
QUANDO LAILA SE FOI deitar, a sua mente achava-se entor​pecida, enevoada, incapaz de
pensamento racional contínuo. Mas quando acordou, à chamada do muezzin para a
oração da manhã, grande parte do embotamento desaparecera.
Sentou-se e ficou um bocado a contemplar Zalmai adormecido, com o punho fechado
sob o queixo. Laila imaginou Mariam a entrar devagarinho no quarto a meio da noite
enquanto ela e Zalmai dormiam, a observá-los, a fazer mentalmente planos.
Deslizou para fora da cama. Precisou de fazer um esforço para se aguentar de pé.
Sentia dores por toda a parte. No pescoço, nos ombros, nas costas, nos braços, nas
coxas, tudo marcado pelos cortes da fivela do cinto de Rashid. Estremeceu e saiu do
quarto silenciosamente.
No quarto de Mariam, a claridade era de um tom de cinzento carregado, o género de luz
que Laila sempre associara a galos a cantar e orvalho a escorrer da superfície da relva.
Mariam estava sentada a um canto, num tapete de oração virado para a janela. Devagar,
Laila deixou-se descair para o chão e sentou-se em frente dela.
— Devias ir visitar a Aziza esta manhã — disse Mariam.
— Eu sei o que tu pretendes fazer.
— Não vás a pé. Toma o autocarro, é a maneira de te misturares. Os táxis são
demasiado conspícuos. Fazem-te inevitavelmente parar por ires sozinha.
— O que tu prometeste ontem à noite...
Laila não conseguiu terminar. As árvores, o lago, a aldeia sem nome. Uma ilusão, via
agora. Uma mentira encantadora destinada a acalmar. Como quando se fala suavemente a
uma criança perturbada.
— Falava a sério — retorquiu Mariam. — Falava a sério para ti, Laila jo.
— Não quero nada disso sem ti — murmurou Laila em voz rouca.
Mariam sorriu debilmente.
— Quero que seja exactamente como tu disseste, Mariam, todos nós a irmos juntos, tu,
eu, as crianças. Tariq tem uma casa no Paquistão. Podemos esconder-nos lá durante
algum tempo, esperar que as coisas acalmem...
— Isso não é possível — disse Mariam, pacientemente, como um pai a um filho bem-
intencionado mas extraviado.
— Cuidaremos uma da outra — insistiu Laila, engasgando-se com as palavras, os olhos
marejados de lágrimas. — Como tu disseste. Não. Eu cuidarei de ti para variar.
— Oh, Laila jo.
Laila prosseguiu o seu discurso incoerente e entaramelado. Re​gateou. Prometeu. Faria
as limpezas todas, disse ela, cozinharia para todos. — Tu não terás de fazer nada. Nunca
mais. Descansas, dormes, tratas do jardim. Tudo o que quiseres, é só pedires e eu
arranjo-te. Não faças isto, Mariam. Não me deixes. Não despedaces o coração de Aziza.
— Eles cortam mãos por roubar um pão — disse Mariam. — O que achas tu que eles
farão quando encontrarem um marido morto e duas esposas desaparecidas?
— Ninguém saberá — ofegou Laila. — Ninguém nos encontrará.
— Encontram, sim. Mais cedo ou mais tarde. Eles são sabujos — Mariam falava em voz
baixa, cautelosa; fazia as promessas de Laila parecerem fantásticas, inventadas, idiotas.
— Mariam, por favor...
— E quando nos encontrarem, consideram-te tão culpada a ti como a mim. E a Tariq
também. Não quero que vivam sempre a mudar de um lado para o outro, como fugitivos. E
o que acontecerá aos teus filhos se vocês os dois forem apanhados?
Os olhos de Laila rasos de lágrimas ardentes.
— Quem cuidará deles então? Os taliban? Pensa como mãe, Laila jo. Pensa como mãe.
É o que eu estou a fazer.
— Não posso.
— Deves.
— Não é justo — proferiu Laila, desalentada.
— É sim. Anda cá. Deita-te aqui.
Laila arrastou-se até ela e voltou a pousar a cabeça no colo de Mariam. Recordou todas
as tardes que tinham passado juntas, a entrançar o cabelo uma à outra, com Mariam a
escutar pacientemente os seus pensamentos aleatórios e as suas histórias vulgares com
um ar de gratidão, com a expressão de uma pessoa a quem foi concedido um privilégio
único e cobiçado.
— É justo — repetiu Mariam. — Eu matei o nosso marido. Privei o teu filho de pai. Não
está certo que eu fuja. Eu não posso. Mesmo que eles nunca nos apanhassem, eu nunca...
— os lábios tremeram​-lhe. — Eu nunca poderei fugir ao desgosto do teu filho. Como posso
encará-lo? Como posso alguma vez arranjar coragem para o encarar, Laila jo?
Mariam torceu uma madeixa do cabelo de Laila, desenrolando um caracol rebelde.
— Para mim, acaba aqui. Não há mais nada que eu queira. Tudo o que sempre desejei
em garotinha já tu me deste. Tu e os teus filhos fizeram-me muito feliz. Está tudo bem,
Laila jo. Está bem assim. Não fiques triste.
Laila não conseguiu encontrar uma resposta razoável para o que Mariam dissera. Mas
continuou a divagar, incoerentemente, infantil​mente, a respeito de árvores de fruto que
aguardavam ser plantadas e galinhas que aguardavam ser criadas; acerca de pequenas
casas em cidades anónimas, e passeios a lagos repletos de trutas. E, por fim, quando as
palavras secaram, as lágrimas persistiram, e a única coisa que Laila podia fazer era
render-se e soluçar como uma criança assoberbada pela lógica inatacável de um adulto. A
única coisa que podia fazer era rolar e enterrar a cara uma derradeira vez no tépido
refúgio do colo de Mariam.
MAIS TARDE, Mariam embrulhou um leve almoço de pão e figos secos para Zalmai.
Embrulhou igualmente alguns figos para Aziza, e meia dúzia de biscoitos em forma de
animais. Pôs tudo num saco de papel e entregou-o a Laila.
— Beija Aziza por mim — pediu. — Diz-lhe que ela é a nur dos meus olhos e o sultão do
meu coração. Fazes-me isso?
Laila acenou afirmativamente, de lábios apertados.
— Apanha o autocarro, como eu te disse, e conserva a cabeça baixa.
— Quando é que te verei, Mariam? Quero ver-te antes de testemunhar. Eu conto-lhes
como tudo aconteceu. Explico-lhes que a culpa não foi tua. Que tiveste de fazer aquilo.
Eles vão compreender, não vão, Mariam? Eles vão compreender.
Mariam lançou-lhe um olhar doce.
Agachou-se para ficar ao nível de Zalmai. Ele vestia uma t-shirt encarnada, calças de
caqui puídas, e um par de botas à cowboy em segunda-mão que Rashid lhe comprara em
Mandaii. Segurava a sua bola de basquete nova com as duas mãos. Mariam depôs-lhe um
beijo na face.
— Agora sê um rapazinho forte e bom — disse ela. — Trata bem a tua mãe. — Tomou-
lhe a cara entre as mãos. Ele recuou, mas ela segurou​-o. — Tenho tanta pena, Zalmai jo.
Acredita que tenho muita pena de todo o teu desgosto e da tua tristeza.
Laila deu a mão a Zalmai enquanto desciam a rua juntos. Antes de virarem a esquina,
olhou para trás e viu Mariam à porta. Tinha um lenço branco a cobrir a cabeça, uma
camisola azul-escura abotoada à frente, e calças de algodão brancas. Uma franja de
cabelo grisalho tombava-lhe para a testa. Barras de sol atravessavam-lhe o rosto e os
ombros. Mariam acenou amigavelmente.
Dobraram a esquina, e Laila nunca mais voltou a ver Mariam.
47

MARIAM

Parecia-lhe que voltara a viver numa kolba, após todos aqueles anos.
A prisão para mulheres de Walayat era um edifício quadrado, pardacento, em Shar-e-
Nau, perto da Rua das Galinhas. Ficava no centro de um complexo mais vasto que alojava
reclusos do sexo masculino. Uma porta trancada a cadeado separava Mariam e as outras
mulheres dos homens em redor. Mariam contou cinco celas em funcionamento. Eram
divisões sem mobiliário, com as paredes sujas e a tinta a pelar, e pequenas janelas dando
para o pátio. As janelas eram gradeadas, apesar de as portas das celas não estarem
fechadas à chave e as mulheres terem liberdade de frequentar o pátio quando quisessem.
Não havia vidros nas janelas. Também não havia cortinas, o que significava que os guardas
taliban que percorriam o pátio viam para o interior das celas. Algumas mulheres
queixavam​-se de que os guardas fumavam junto à janela e olhavam de soslaio, com os
seus olhos rapaces e sorrisos cobiçosos, trocando entre si piadas indecentes acerca
delas. Por isso, a maioria das mulheres usava burca o dia inteiro, tirando-as apenas após o
pôr do Sol, depois de o portão principal ter sido fechado e os guardas terem recolhido aos
seus postos.
À noite, a cela que Mariam partilhava com cinco mulheres e quatro crianças estava às
escuras. Nas noites em que havia electricidade, erguiam até ao tecto Naghma, uma
rapariga baixa, de peito chato e cabelo preto e crespo. Havia aí um fio a que fora
arrancada a protecção, e Naghma enrolava o fio descarnado em volta da base da lâmpada
para estabelecer o circuito.
As instalações sanitárias eram do tamanho de armários, com o chão de cimento pleno
de rachas. Havia um pequeno buraco rectangular no solo, em cujo fundo se empilhavam
fezes. As moscas voavam para dentro e para fora do buraco.
No meio da prisão havia um pátio rectangular, aberto, e, no centro deste, um poço. O
poço não possuía drenagem, pelo que o pátio ficava frequentemente transformado num
pântano e a água era fétida. As cordas de roupa, carregadas de meias e fraldas lavadas à
mão, cruza​vam-se no pátio. Era ali que os reclusos recebiam as visitas e que coziam o
arroz trazido pelas famílias, dado que a prisão não fornecia comida. O pátio servia
igualmente de recreio para as crianças; Mariam soubera que muitas delas tinham nascido
em Walayat e nunca haviam visto o mundo para lá daquelas paredes. Observava-os a
correr uns atrás dos outros, vendo os seus pés des​calços levantar salpicos de lama.
Corriam o dia inteiro, inventando jogos animados, ignorando o fedor das fezes e da urina
que permeava Walayat e os seus próprios corpos, esquecendo os guardas taliban até
levarem uma bofetada de algum deles.
Mariam não tinha visitas. Fora a primeira e a única coisa que pedira aos funcionários
taliban da prisão. Nada de visitas.

NENHUMA DAS mulheres da cela de Mariam cumpria pena por crime violento; estavam
todas ali por terem «fugido de casa», uma ofensa vul​gar. Consequentemente, Mariam
adquirira uma certa notoriedade entre elas, tornando-se uma espécie de celebridade. As
outras mulheres olhavam-na com expressão reverente, quase de assombro. Ofereciam​-lhe
os seus cobertores. Competiam para partilhar a comida com ela.
A mais ávida era Naghma, que lhe andava sempre colada aos calcanhares, seguindo
Mariam para onde quer que fosse. Naghma era o género de pessoa que se distraía a
distribuir notícias de desgraças, suas ou dos outros. Contou que o pai a prometera a um
alfaiate trinta anos mais velho do que ela.
— Cheira como goh e tem menos dentes do que dedos — era como Naghma descrevia
o alfaiate.
Tentara fugir para Gardez com um jovem por quem se apaixonara, filho de um mullah
local. Mal haviam chegado a sair de Cabul. Quando foram apanhados e mandados de volta
a suas casas, o filho do mullah foi chicoteado até se arrepender e dizer que Naghma o
seduzira com os seus encantos femininos. Lançara-lhe um encantamento, disse ele.
Prometeu voltar a dedicar-se ao estudo do Corão. O filho do mullah foi libertado. Naghma
foi condenada a cinco anos de prisão.
O melhor mesmo era estar ali na prisão, dissera ela. O pai jurara que no dia em que a
soltassem lhe encostaria uma faca ao pescoço.
Ouvindo Naghma, Mariam recordou o pálido cintilar de estrelas frias e a cadeia de
nuvens rosadas sobre as montanhas de Safid-koh nessa manhã longínqua em que Nana lhe
dissera Tal como a agulha de uma bússola aponta para o norte, o dedo acusador de um
homem encontra sempre uma mulher. Sempre. Lembra-te disso, Mariam.

O JULGAMENTO DE MARIAM efectuara-se na semana anterior. Não houvera advogado de


defesa, nem audiência pública, nem contestação das provas, nem possibilidade de apelos.
Mariam abdicara do direito de apresentar testemunhas. O processo completo demorara
menos de um quarto de hora.
O chefe era o juiz do meio, um taliban de aspecto frágil. Era espantosamente
descarnado, de pele amarela e coriácea, e barba ruiva encaracolada. Usava óculos que lhe
ampliavam os olhos e revelavam a esclerótica amarelada. O pescoço parecia demasiado
fino para suportar o turbante enrolado à cabeça por meio de voltas com​plicadas.
— Confessas, hamshira? — perguntara ele de novo, em voz fatigada.
— Sim — respondera Mariam.
O homem acenara. Ou talvez não. Era difícil saber; tanto as mãos como a cabeça lhe
tremiam fortemente, recordando a Mariam o tremor do Mullah Faizullah. Quando pretendia
chá, não pegava na sua chávena. Acenava ao homem de ombros quadrados, sentado à
sua esquerda, que lha levava respeitosamente aos lábios. Depois, o taliban cerrava
suavemente os olhos, num gesto de gratidão mudo e elegante.
Mariam achara uma certa candura no seu comportamento. Quando falava, era com uma
mescla de astúcia e ternura. O seu sorriso era paciente. Não olhava Mariam com
desprezo. Não se lhe dirigia com rancor ou acusadoramente, mas antes num suave tom de
quem pede desculpa.
— Compreendes perfeitamente aquilo que estás a dizer? — perguntara o taliban de
rosto ossudo à direita do juiz, não o que lhe dava o chá. Era o mais novo dos três. Falava
depressa, com uma confiança arrogante e enfática. Ficara irritado por Mariam não saber
falar pastun e dera-lhe a impressão de ser o tipo de jovem agressivo que saboreava a sua
autoridade, via ofensas em toda a parte e achava ser seu direito inato julgar os outros.
— Compreendo, sim — respondera Mariam.
— Não estou bem certo — comentara o jovem taliban. — Deus fez-nos diferentes, a
vocês mulheres e a nós homens. Os nossos cérebros são diferentes. Vocês não são
capazes de pensar como nós. Isso foi demonstrado cientificamente por médicos
ocidentais. É por isso que nós só exigimos uma testemunha do sexo masculino e duas do
feminino.
— Eu confesso o que fiz, irmão — dissera Mariam. — Mas, se o não tivesse feito, ele
tê-la-ia matado. Estava a estrangulá-la.
— Dizes tu. Mas também as mulheres estão sempre dispostas a jurar qualquer coisa.
— É a verdade.
— Tens testemunhas? Além da tua ambagh?
— Não — respondera Mariam.
— Bom, então. — Erguera as mãos ao ar com uma pequena risada.
A seguir falara o taliban adoentado.
— Eu tenho um médico em Peshawar — começara ele. — Um óptimo jovem
paquistanês. Fui consultá-lo há um mês, e de novo na semana passada. Pedi-lhe, diz-me a
verdade, amigo, e ele disse-me, três meses, sahib Mullah, talvez seis, no máximo...
depende da vontade de Deus, é claro.
Acenara discretamente ao homem de ombros quadrados à sua esquerda e bebera mais
um gole do chá que lhe foi oferecido. Limpara a boca com as costas da mão trémula. —
Não me assusta deixar esta vida que o meu único filho deixou há cinco anos, esta vida que
insiste em infligir-nos desgosto após desgosto quando já não conseguimos suportar mais.
Não, creio que partirei de bom grado quando chegar a minha vez.
«O que me assusta, hamshira, é o dia em que Deus me chamar à Sua presença e
perguntar, Por que é que não fizeste o que eu mandava, Mullah? Por que é que não
obedeceste às minhas leis? Como é que me explicarei diante Dele, hamshira? Qual será a
minha defesa por não observar os seus mandamentos? Tudo o que eu posso fazer, tudo o
que qualquer um de nós pode fazer, no tempo que nos é concedido, é seguir as leis que
Ele nos deixou. Quanto mais vejo com clareza o meu fim, hamshira, quanto mais me
aproximo do dia do juízo final, mais decidido fico a cumprir a Sua palavra. Por muito
doloroso que isso seja.
Ajeitara-se na sua almofada e estremecera.
— Acredito quando dizes que o teu marido era um homem de temperamento
desagradável — prosseguira ele, fitando Mariam por trás dos óculos, com um olhar
simultaneamente severo e condoído. — Mas não posso deixar de ficar perturbado com a
brutalidade do teu acto, hamshira. Sinto-me perturbado com aquilo que fizeste; sinto-me
perturbado pelo facto de o seu filhinho estar a chorar por ele no andar de cima quando o
fizeste.
— Estou cansado e prestes a morrer, e desejo ser misericordioso. Desejo perdoar-te.
Mas quando Deus me convocar e disser. Mas não te competia a ti perdoar, Mullah, o que
poderei eu responder-Lhe?
Os companheiros tinham acenado, fitando-o com admiração.
— Algo me diz que tu não és uma mulher perversa, hamshira. Mas fizeste uma coisa
perversa. E tens de pagar pelo que fizeste. A Shari’a não é vaga sobre este assunto. Diz
que tenho o dever de te mandar para onde eu próprio me irei juntar a ti em breve.
— Compreendes, hamshira?
Mariam baixara os olhos para as mãos. Dissera que sim.
— Que Allah te perdoe.
Antes de a levarem, tinham entregado um documento a Mariam, dizendo-lhe para
assinar por baixo das suas declarações e da sentença do mullah. Observada pelos três
taliban, Mariam escrevera o seu nome — o mim, o reh, o yah, e o mim — recordando a
última vez que assinara o seu nome num documento, vinte e sete anos antes, à mesa de
Jalil, sob o olhar atento de outro mullah.

MARIAM PASSOU DEZ DIAS na prisão. Sentava-se à janela da cela, observando a vida dos
reclusos a desenrolar-se no pátio. Quando sopravam os ventos estivais, ela via pedaços
de papel cavalgar as correntes em frenéticos movimentos rotativos, atirados de um lado
para o outro, lá no alto, acima dos muros da prisão. Observava os ventos provocarem
motins de pó, erguendo-o em violentas espirais que fustigavam o pátio. Todos — os
guardas, os reclusos, as crianças, Mariam — enterravam as caras no ângulo do cotovelo,
mas o pó era imbatível. Alojava-se nos canais auditivos e nas narinas, nas pestanas e nas
pregas da pele, nos espaços entre molares. Só ao crepúsculo os ventos amainavam. E
então, se soprava uma brisa nocturna, era tímida, como que a compensar os excessos do
seu irmão diurno.
No último dia de Mariam em Walayat, Naghma ofereceu-lhe uma tangerina. Pousou-a na
palma da mão de Mariam e fechou-lhe os dedos em volta. Depois rompeu em lágrimas.
— És a melhor amiga que já tive — soluçou ela.
Mariam passou o resto do dia à janela gradeada observando os reclusos lá em baixo.
Alguém cozinhava uma refeição, e um jorro de ar quente e fumo perfumado de cominhos
insinuou-se pela janela. Mariam via as crianças a brincar à cabra-cega. Duas garotinhas
entoavam uma canção, e Mariam recordou-a da sua infância, recordou Jalil a cantar para
si, sentados numa rocha, a pescarem no regato:
Lili lili bebedouro de passarinho
Erguido no meio de um caminho,
Peixinho pulou na borda, beberricou,
Escorregou e na água tombou.

Teve sonhos desconexos nessa derradeira noite. Sonhou com seixos, onze, dispostos na
vertical. Jalil, novamente jovem, todo ele sorrisos sedutores, covinhas no queixo e manchas
de suor, o casaco atirado por cima do ombro, chegou finalmente para levar a filha a
passear no seu reluzente Buick Roadmaster preto. O Mullah Faizullah, desfiando as contas
do seu rosário, passeando com ela ao longo do ribeiro, as sombras gémeas deslizando
pela água e pelas margens verdejantes, salpicadas de íris silvestres azul-alfazema que,
nesse sonho, cheiravam a trevos. Sonhou com a Nana à entrada da kolba, com a sua voz
rouca e distante, chamando-a para jantar, enquanto Mariam brincava na erva fresca e
enredada onde deslizavam formigas e corriam besouros, e os gafanhotos saltitavam por
entre as diferentes tonalidades de verde. O ranger de um carrinho de mão subindo com
esforço um caminho poeirento. O tilintar de campainhas de vacas. Ovelhas a balir numa
encosta.
NO CAMINHO para o Estádio Ghazi, Mariam foi a sacolejar no assento do camião que
derrapava ao desviar-se dos buracos da rua, fazendo as rodas cuspirem seixos. Os
solavancos faziam-lhe doer o osso sacro. Sentado diante dela, um jovem taliban armado
observava-a.
Mariam perguntou-se se lhe calharia a ele, àquele jovem de aspecto simpático, de olhos
vivos encovados e rosto levemente pontiagudo, que tamborilava com a unha suja do
indicador na parte lateral do camião.
— Tens fome, mãe? — perguntou ele.
Mariam abanou a cabeça.
— Tenho uma bolacha. É boa. Podes ficar com ela se tiveres fome. Não me importo.
— Não. Tashakor, irmão.
Ele acenou, e fitou-a com benevolência. — Tens medo, mãe?
Mariam sentia um nó na garganta. Em voz trémula, disse-lhe a verdade. — Sim. Tenho
muito medo.
— Tenho aqui uma fotografia do meu pai — disse o jovem. — Não me lembro dele.
Reparava bicicletas antigamente, é só o que sei. Mas não me lembro da maneira como se
movia, percebes?, do seu riso nem do som da sua voz. — Desviou os olhos e depois voltou
a fitar Mariam. — A minha mãe costumava dizer que ele era o homem mais corajoso que já
conhecera. Um leão, dizia ela. Mas contou-me que chorava como uma criança na manhã
em que os comunistas o levaram. Conto-te isto para saberes que é normal estar
assustado. Não há razão para ter vergonha, mãe.
Pela primeira vez nesse dia, Mariam chorou um pouco.
MILHARES DE OLHOS pousados sobre ela. Nas bancadas apinhadas, esticavam-se
pescoços para se ver melhor. Davam-se estalidos com a língua. Um longo murmúrio
percorreu o estádio quando Mariam foi ajudada a descer do camião. Imaginou cabeças a
abanar quando o altifalante anunciou o seu crime. Mas não ergueu os olhos para ver se
abanavam de desaprovação ou caridade, de censura ou piedade. Mariam ignorou-os a
todos.
Nessa manhã, receara cobrir-se de ridículo, dar o espectáculo de chorar e suplicar.
Receara poder pôr-se aos gritos ou a vomitar, ou até mesmo urinar-se, ser traída nos seus
derradeiros momentos por instintos animais ou pelas misérias do corpo. Mas quando a
mandaram descer do camião, as pernas de Mariam não vergaram. Os seus braços não
gesticularam. Não teve de ser arrastada. E quando se sentiu vacilar, pensou em Zalmai, a
quem roubara o amor da sua vida, cujos dias seriam agora moldados pelo desgosto do
desaparecimento do pai. E o passo de Mariam tornou-se firme e ela conseguiu andar sem
protestar.
Aproximou-se dela um homem armado que a mandou dirigir-se ao poste da baliza do
lado sul. Mariam sentia a multidão excitada de expectativa. Não ergueu o olhar. Manteve os
olhos fixos no solo, na sua sombra, na sombra do carrasco que seguia a sua.
Embora tivesse tido alguns momentos de beleza, Mariam sabia que de um modo geral a
vida lhe fora madrasta. Mas, ao andar os últimos vinte passos, não pôde deixar de desejar
continuar a viver. Desejava poder voltar a ver Laila, ouvir as suas gargalhadas sonoras,
sentar-se mais uma vez com ela a tomar um chai e a comer restos de halwa, sob um céu
estrelado. Doía-lhe não poder ver Aziza crescer, não ver a bela mulher em que ela se
tornaria um dia, não vir a pintar​-lhe as mãos com hena e atirar doces de noqul no seu
casamento. Nunca brincaria com os filhos de Aziza. Teria gostado tanto disso, de ser velha
e brincar com os filhos de Aziza.
Perto do poste, o homem que vinha atrás dela mandou-a parar. Mariam obedeceu.
Através da rede da burca, viu os braços da sombra dele levantarem a sombra da sua
Kalashnikov.
Mariam desejou tantas coisas nesses seus últimos momentos. E contudo, ao cerrar os
olhos, já não foi o pesar que a invadiu, mas uma sensação de paz imensa. Pensou na sua
entrada neste mundo, a filha harami de uma pobre aldeã, uma coisa indesejada, um
lamentável acidente insignificante. Uma erva. E, no entanto, ia abandoná-lo como uma
mulher que amara e fora amada. Abandonava-o como amiga, companheira, guardiã. Uma
mãe. Uma pessoa importante, finalmente. Não, não era assim tão mau ter de morrer
daquela maneira, pensou Mariam. Não era assim tão mau. Era um fim legítimo para uma
vida com um princípio ilegítimo.
Os pensamentos finais de Mariam foram algumas palavras do Corão, murmuradas
baixinho.
Ele criou os céus e a Terra com a verdade; Ele faz a noite cobrir o dia e faz o dia
vencer a noite, e Ele fez o Sol e a Lua subservientes; cada um deles corre para um termo
determinado; seguramente Ele é o Todo-Poderoso, o Grande Clemente.
— Ajoelha-te — disse o taliban.
Ó Senhor! Perdoa e tem piedade, pois Tu és o maior dos misericordiosos.
— Ajoelha-te aqui, hamshira. E olha para baixo.
Pela última vez, Mariam fez o que lhe mandavam.
PARTE IV

PARTE IV
48

Tariq sofre agora de dores de cabeça.


Há noites em que Laila acorda e o encontra na borda da cama, balançando-se para a
frente e para trás, com a camisola interior por cima da cabeça. As enxaquecas começaram
em Nasir Bagh, diz ele, e pioraram na prisão. Às vezes provocam-lhe vómitos, deixam-no
cego de um olho. Ele diz que é como sentir a faca de um carniceiro enterrada numa fonte,
a atravessar-lhe lentamente o cérebro, e depois a sair do outro lado.
— Sinto até o sabor do metal quando elas começam.
Por vezes, Laila humedece um pano e pousa-lho na testa e isso ajuda um pouco. Os
pequenos comprimidos brancos que o médico de Sayid lhe receitou também ajudam. Mas
há noites em que a única coisa que Tariq pode fazer é segurar a cabeça entre as mãos e
gemer, de olhos injectados, e nariz a pingar. Quando está com um desses ataques, Laila
senta-se junto dele, massaja-lhe a nuca, aperta-lhe a mão entre as suas, sentindo na
palma o metal frio da aliança dele.
Casaram no dia em que chegaram a Murri. Sayid pareceu aliviado quando Tariq lhe
disse. Não teria de abordar com ele o delicado assunto de um casal não casado a viver no
seu hotel. Sayid não se parece nada com a imagem que Laila fizera dele, de cara
rubicunda e olhos pequenos. Tem um bigode matizado cujas extremidades enrola a formar
uma ponta aguçada, e uma massa de longo cabelo grisalho, que penteia para trás,
deixando a testa livre. É um homem educado, de voz suave, que fala em tom comedido e
se movimenta com elegância.
Foi Sayid que, nesse dia, pediu a um amigo e a um mullah que viessem para a nikka, e
que chamou Tariq de parte para lhe oferecer dinheiro. Ele não queria aceitar, mas Sayid
insistiu. Então Tariq foi até à rua principal e voltou com duas alianças finas e simples.
Casaram nessa noite, depois de as crianças se terem ido deitar.
No espelho, por trás do véu verde com que o mullah lhes cobriu as cabeças, os olhos
de Laila encontraram os de Tariq. Não houve lágrimas, nem sorrisos de nubentes, nem
juramentos sussurrados de amor eterno. Em silêncio, Laila fitou os seus reflexos, as caras
envelhecidas para além dos anos, os papos sob os olhos, as rugas e a carne flácida que
agora marcavam os seus rostos outrora jovens e lisos. Tariq abriu a boca e começou a
dizer qualquer coisa, mas nessa altura alguém puxou o véu, e Laila ficou sem saber o que
era.
Nessa noite, deitaram-se lado a lado como marido e mulher, enquanto as crianças
ressonavam abaixo deles em camas de campanha. Laila recordou a naturalidade com que
ela e Tariq, em novos, cos​tumavam encher o ar entre eles de palavras, a desordem, o fluxo
irreprimível do seu tagarelar, interrompendo-se constantemente, puxando os colarinhos um
ao outro para sublinhar um ponto, o riso fácil, o desejo de agradar. Tantas coisas haviam
acontecido desde esses dias de infância, tantas coisas que precisavam de ser ditas. Mas
nessa primeira noite, a enormidade de tudo aquilo roubava-lhe as palavras. Nessa noite,
era feliz apenas por o ter ao lado. Era feliz apenas por saber que ele estava ali, sentir o
seu calor junto de si, estar deitada junto dele, as cabeças tocando-se, a mão direita de
Tariq a apertar a sua esquerda.
A meio da noite, quando Laila acordou com sede, viu que ainda conservavam as mãos
fortemente entrelaçadas, como crianças ansiosas agarradas a fios de balões, com tanta
força que os nós dos dedos ficam brancos.

LAILA GOSTA DAS MANHÃS frescas e enevoadas de Murri e dos seus crepúsculos
deslumbrantes, do brilho escuro do céu à noite; do verde dos pinheiros e do castanho
suave dos esquilos que sobem e descem pelos troncos fortes; das súbitas chuvadas que
obrigam os transeuntes às compras no Mall a correr para se abrigarem sob os toldos.
Gosta das lojas de recordações, e dos vários hotéis que albergam turistas, apesar dos
habitantes locais lamentarem a construção cons​tante, a expansão das infra-estruturas que
afirmam estar a destruir a beleza natural de Murri. Laila acha estranho as pessoas
lamentarem a construção de edifícios. Em Cabul, celebrá-la-iam.
Gosta de ter uma casa de banho, não uma latrina exterior mas uma verdadeira casa de
banho, com uma sanita e autoclismo, chuveiro, e também um lavatório, com torneiras
duplas de onde ela pode tirar, com um simples rodar de pulso, água quente ou fria. Gosta
de despertar de manhã com o som dos balidos de Alyona, e simpatiza com Adiba, a
cozinheira rabugenta mas inofensiva, que opera ma​ravilhas na cozinha.
Às vezes, vendo Tariq a dormir e os filhos murmurarem e mexe​rem-se durante o sono,
Laila sente um enorme nó de gratidão na garganta e as lágrimas assomam-lhe aos olhos.
De manhã, Laila segue Tariq de quarto em quarto. De uma argola presa à cintura tilintam
chaves e das presilhas das calças de ganga oscila um frasco de spray limpa-vidros. Laila
transporta um balde com panos, desinfectante, uma escova de limpeza e cera em spray
para os móveis. Aziza acompanha-os, com a esfregona numa das mãos e a boneca com
enchimento de feijões que Mariam lhe fez na outra. Zalmai segue-os relutantemente,
amuado, sempre alguns passos mais atrás.
Laila aspira, faz as camas e limpa o pó. Tariq lava o lavatório e a banheira, esfrega a
sanita e passa a esfregona pelo chão de linóleo. Abastece as prateleiras com toalhas
limpas, miniaturas de frascos de champô, e pequenos sabonetes perfumados de amêndoa.
Aziza chamou a si a tarefa de limpar os vidros das janelas. A boneca nunca está longe do
sítio onde ela trabalha.
Laila falou-lhe de Tariq alguns dias depois da nikka.
É estranho, quase perturbador, o que aconteceu entre Aziza e Tariq, pensa Laila. Aziza
já termina as frases dele e ele as dela. Passa-lhe as coisas antes de ele as pedir. Trocam
sorrisos cúmplices através da mesa do jantar como se não fossem estranhos, mas
companheiros reunidos após uma longa separação.
Aziza baixara, pensativamente, os olhos para as mãos quando Laila lhe contara.
— Eu gosto dele — dissera após uma prolongada pausa.
— Ele ama-te.
— Ele disse isso?
— Não precisa de o dizer, Aziza.
— Conta-me o resto, Mamã. Quero saber.
E Laila contara-lhe tudo.
— O teu pai é um homem bom. É o melhor homem que já conheci.
— E se ele se vai embora? — perguntara Aziza.
— Ele nunca se irá embora. Olha para mim, Aziza. O teu pai nunca te magoará, e nunca
se irá embora.
O alívio que se espelhara no rosto de Aziza despedaçara o coração de Laila.
TARIQ COMPROU a Zalmai um cavalo de baloiço, e construiu​-lhe uma carruagem.
Aprendera com um companheiro de prisão a fazer animais de papel, e assim, dobrou,
cortou e recortou inúmeras folhas para fazer a Zalmai leões e cangurus, cavalos e aves de
plumagem colorida. Mas essas tentativas de aproximação são recusadas rude​mente, por
vezes até malevolamente.
— Tu és um burro! — grita Zalmai. — Não quero os teus brinquedos!
— Zalmai! — exclama Laila em voz sufocada.
— Não tem importância — diz Tariq. — Laila, não tem impor​tância. Deixa.
— Tu não és o meu Baba jan! O meu verdadeiro Baba jan anda em viagem, e quando
voltar dá-te uma tareia! E não conseguirás fugir porque ele tem duas pernas e tu só tens
uma!
À noite, Laila abraça Zalmai contra o peito e recita com ele as orações do Babalu.
Quando ele a interroga, ela repete a mentira, diz que o Baba jan partiu e que não sabe
quando regressará. Odeia esta tarefa, odeia-se a si própria por mentir assim a uma
criança.
Laila sabe que esta mentira vergonhosa tem de continuar a ser repetida uma e outra
vez. Terá de ser assim porque Zalmai perguntará, ao saltar de um baloiço, ao acordar de
uma sesta, e, mais tarde, quando tiver idade para apertar os seus próprios sapatos, para
ir sozinho para a escola, a mentira terá ainda de continuar a ser dita.
Laila sabe que a certa altura as perguntas secarão. Lentamente, Zalmai deixará de
perguntar-se porque o abandonou o seu pai. Deixará de avistar o pai junto a semáforos, de
o ver em velhos curvados des​cendo a rua devagar ou beberricando chá em casas com
montras abertas. E um dia, passeando ao longo de algum rio sinuoso, ou contemplando um
campo de neve imaculado, descobrirá que o desaparecimento do pai já não é uma ferida
em carne viva. Que se transformou em algo completamente diferente, algo de contornos
mais suaves e indolentes. Como uma lenda. Algo que se venera, embora nos confunda.
Laila é feliz em Murri. Mas não é uma felicidade fácil. Não é uma felicidade sem custos.
NOS SEUS DIAS DE FOLGA, Tariq leva Laila e as crianças ao centro, onde há lojas que
vendem bugigangas e perto do qual existe uma igreja anglicana construída em meados do
século XIX. Tariq compra kebabs chapli picantes nos vendedores ambulantes. Passeiam por
entre a multidão de habitantes locais, europeus com os seus telemóveis e câmaras digitais,
e punjabis que estão ali para fugir ao calor das planícies.
De vez em quando, tomam o autocarro para Kashmir Point. Daí, Tariq mostra-lhes o vale
do rio Jhelum, as encostas atapetadas de pinheiros, e as colinas cobertas de densas
florestas verdejantes, onde, diz ele, ainda se podem avistar macacos a saltar de ramo em
ramo. Vão igualmente até Nathia Gali, com os seus bosques de áceres, a cerca de trinta
quilómetros de Murri, e Tariq dá a mão a Laila enquanto percorrem a rua sombreada de
árvores até à casa do Governador. Param no antigo cemitério britânico, ou tomam um táxi
para o cimo da montanha a fim de contemplarem daí o vale luxuriante, envolto em névoa.
Às vezes, durante essas saídas, passam por uma montra e Laila vê as suas imagens
reflectidas no vidro. Marido, mulher, filha, filho. Tem a certeza de que, a um estranho, eles
devem parecer a mais vulgar das famílias, sem segredos, mentiras ou remorsos.
AZIZA TEM PESADELOS dos quais acorda aos gritos. Laila precisa de se estender a seu lado,
enxugar-lhe as faces com a manga, acalmá-la até ela voltar a adormecer.
Também Laila tem os seus sonhos. Neles, está sempre na casa de Cabul, a percorrer o
corredor, a subir as escadas. Está sozinha, mas por trás das portas ouve o sibilar ritmado
de um ferro de engomar, o som de lençóis sacudidos e dobrados. Por vezes, ouve uma voz
baixa de mulher entoar uma velha canção herati. Mas quando entra, a sala está vazia. Não
há lá ninguém.
Os sonhos deixam Laila abalada. Acorda coberta de suor, com os olhos a arder de
lágrimas. É devastador. De todas as vezes, é devastador.
49

Um domingo desse Setembro, Laila foi deitar Zalmai, que estava constipado, para
dormir uma sesta, quando Tariq entra de rompante no chalé.
— Ouviste? — pergunta ele, um pouco ofegante. — Mataram-no. Ahmad Shah
Massoud. Está morto.
— O quê?
Da entrada, Tariq conta-lhe o que sabe.
— Diz-se que ele deu uma entrevista a dois jornalistas que afirmaram ser belgas de
origem marroquina. Enquanto conversavam, explodiu uma bomba oculta na câmara de
vídeo. Matou Massoud e um dos jornalistas. Abateram o outro a tiro quando ele tentou
fugir. Agora diz-se que eram provavelmente homens da Al-Qaeda.
Laila recorda o póster de Ahmad Shah Massoud que a Mamã tinha pregado na parede
do seu quarto. Massoud inclinado para diante, uma sobrancelha erguida, a testa franzida
de concentração, como se estivesse a ouvir respeitosamente alguém. Recorda-se de como
a Mamã ficara grata por Massoud ter dito uma oração no funeral dos filhos, e de ela contar
isso a toda a gente. Mesmo depois de rebentar a guerra entre a facção dele e as outras, a
Mamã recusara-se a culpá​-lo. Ele é um homem bom, costumava dizer. Ele quer a paz.
Quer reconstruir o Afeganistão. Mas não o deixam. Não o deixam mesmo. Para a Mamã,
mesmo no final, mesmo depois de tudo ter corrido tão terrivelmente mal e Cabul se
encontrar em ruínas, Massoud conti​nua​va a ser o Leão do Penjshir.
Laila não é tão clemente. O fim violento de Massoud não lhe dá alegria, mas lembra-se
demasiado bem dos bairros arrasados sob a sua alçada, dos corpos desenterrados dos
escombros, das mãos e pés de crianças descobertos em telhados ou nos ramos altos de
alguma árvore dias depois do funeral. Lembra-se demasiado bem da expres​são da cara da
Mamã momentos antes do impacto do rocket e, por muito que tente esquecer, do dorso
decapitado do Babi a aterrar perto de si, com a torre da ponte pintada na sua t-shirt a
emergir da névoa espessa e do sangue.
— Vai realizar-se um funeral — está Tariq a dizer. — Tenho a certeza. Provavelmente em
Rawalpindi. E vai ser uma coisa em grande.
Zalmai, que estava quase a dormir, sentou-se na cama, esfregando os olhos com os
punhos.
Dois dias mais tarde, estão a fazer a limpeza a um quarto quando ouvem uma grande
agitação. Tariq deixa cair a esfregona e sai apressado. Laila segue-o.
O barulho vem do átrio do hotel. À direita da recepção há uma área com diversas
cadeiras e dois sofás estofados de camurça bege. No canto, em frente dos sofás, há uma
televisão, e reunidos diante desta acham-se Sayid, o porteiro e vários hóspedes.
Laila e Tariq aproximam-se também.
A TV está sintonizada na BBC. No ecrã vê-se um edifício, uma torre, com fumo negro a
sair dos andares superiores. Tariq diz qualquer coisa a Sayid e este está a meio da
resposta quando surge no canto do ecrã um avião. Choca contra a torre adjacente,
explodindo numa bola de fogo que faz parecer minúsculas todas as que Laila viu até hoje.
Das gargantas dos presentes sai um grito unânime.
Em menos de duas horas, ambas as torres se desmoronaram.
Em breve, todas as estações de TV estão a falar do Afeganistão, dos taliban e de
Osama bin Laden.

— OUVISTE O QUE disseram os taliban? — pergunta Tariq. — Acerca de bin Laden?


Aziza está sentada diante dele, na cama, examinando o tabuleiro. Tariq ensinou-a a jogar
xadrez. Tem a testa franzida e bate agora no lábio inferior, imitando a linguagem corporal
que o pai assume quando está a ponderar um movimento.
A constipação de Zalmai melhorou um pouco. Ele dorme, e Laila esfrega-lhe Vick no
peito.
— Ouvi — responde ela.
Os taliban anunciaram que não entregarão bin Laden porque ele é um mehman, um
hóspede que encontrou santuário no Afeganistão e é contra o código de ética pashtunwali
entregar um hóspede. Tariq solta uma risada amarga, e Laila sente nesse riso a sua
revolta por ver distorcido um honroso costume pastune, e deturpados os hábitos do seu
povo.
Alguns dias após os ataques, Laila e Tariq encontram-se de novo no átrio do hotel. No
ecrã de TV, fala George W. Bush. Por trás dele há uma enorme bandeira americana. A
dada altura, a sua voz treme, e Laila pensa que ele vai chorar.
Sayid, que fala inglês, explica-lhes que Bush acaba de declarar a guerra.
— A quem? — indaga Tariq.
— Ao vosso país, para começar.
— TALVEZ NÃO seja assim tão mau — comenta Tariq.
Acabaram de fazer amor. Ele está deitado ao lado de Laila, a cabeça apoiada no seu
peito, o braço passado por cima do ventre. As primeiras vezes que tentaram, houve
dificuldades. Tariq desfez-se em desculpas, Laila tranquilizou-o. Continua a haver
dificuldades, agora não físicas mas logísticas. A cabana que partilham com os filhos é
pequena. As crianças dormem em camas de campanha ao lado deles e por isso há pouca
privacidade. A maioria das vezes, Laila e Tariq fazem amor em silêncio, com uma paixão
muda e controlada, completamente vestidos sob os cobertores como precaução para o
caso de serem interrompidos pelas crianças. Estão atentos ao roçagar dos lençóis, ao
ranger das molas do colchão. Mas para Laila, estar com Tariq é algo por que vale a pena
suportar tais apreensões. Quando fazem amor, Laila sente-se ancorada, protegida. As
suas ansiedades serenam, o temor de que a sua vida conjunta seja uma bênção
temporária, que em breve se vá desmoronar em cacos, afasta-se. O seu medo da
separação desaparece.
— O que queres tu dizer com isso? — pergunta-lhe ela agora.
— O que está a passar-se no nosso país. Talvez no fim não seja assim tão mau.
No país deles, as bombas caem de novo, desta vez bombas ame​ricanas; Laila tem visto
diariamente imagens da guerra na televisão enquanto muda lençóis e aspira. Os
americanos armaram mais uma vez os senhores da guerra, e obtiveram o apoio da Aliança
do Norte para expulsar os taliban e encontrar bin Laden.
Mas o que Tariq diz exaspera Laila. Afasta-lhe rudemente a cabeça do seu peito.
— Não seja assim tão mau? Pessoas a morrer? Mulheres, crianças, velhos? Casas
novamente destruídas? Não seja assim tão mau?
— Shiuu. Acordas as crianças.
— Como podes dizer tal coisa, Tariq? — exclama, irritada. — Depois do pseudo-engano
em Karam? Cem pessoas inocentes! Tu viste os corpos!
— Não — diz Tariq. Soergue-se apoiado no cotovelo, e baixa os olhos para Laila. —
Não compreendeste. O que eu quero dizer é que....
— Tu não sabes — diz Laila. Tem consciência de que elevou a voz, de que estão
perante a sua primeira briga como marido e mulher. — Tu partiste quando os mujahidin
começaram a lutar, lembras-te? Eu é que fiquei. Eu. Eu conheço a guerra. Perdi os meus
pais na guerra. Os meus pais, Tariq. E agora, ouvir-te dizer que a guerra não é uma coisa
assim tão má?
— Desculpa, Laila. Desculpa. — Segura-lhe o rosto entre as mãos. — Tens razão.
Desculpa. Perdoa-me. O que eu queria dizer era que talvez haja esperança no fim desta
guerra, que talvez pela primeira vez desde há muito tempo...
— Não quero falar mais disto — diz Laila, surpreendida pela aspereza com que o
atacou. Sabe que é injusto o que lhe disse — a guerra não levou também os pais dele? —
e o que quer que tenha explodido em si começa já a acalmar. Tariq continua a falar doce​-
mente, e quando ele a puxa para si, ela deixa. Quando ele lhe beija a mão, e depois a
testa, ela deixa. Sabe que ele provavelmente tem razão. Sabe o sentido do seu
comentário. Talvez isto seja necessário. Talvez haja esperança quando as bombas de Bush
cessarem de cair. Mas não é capaz de o admitir, não quando o que aconteceu ao Babi e à
Mamã está neste momento a acontecer a alguém no Afeganistão, não quando um rocket
pode ter acabado de deixar órfão algum rapaz ou rapariga que será apanhado
desprevenido tal como ela. Laila não é capaz de admitir tal coisa. É difícil alegrar-se.
Parece-lhe hipócrita, perverso.
Nessa noite, Zalmai acorda com tosse. Antes de Laila poder mover​-se, já Tariq passou
as pernas para fora da cama. Prende a sua prótese, dirige-se para Zalmai e pega-lhe ao
colo. Deitada, Laila observa a silhueta de Tariq a andar de um lado para o outro no escuro.
Vê a forma da cabeça de Zalmai pousada no seu ombro, as mãos entrelaçadas no
pescoço de Tariq, os pequenos pés baloiçando junto à anca dele.
Quando Tariq regressa ao leito, nenhum deles fala. Laila estende a mão e afaga-lhe o
rosto. Tariq tem as faces húmidas.
50

Para Laila, a vida em Murri é confortável e tranquila. O trabalho não é pesado e, nos
dias de folga, ela e Tariq levam as crianças a andar de teleférico no monte Patriata, ou vão
até Pindi Point, onde, num dia límpido, se avista até Islamabad e ao centro de Rawalpindi.
Estendem uma manta na relva e comem sanduíches de almôndegas com pepino e bebem
ginger ale fresca.
É uma boa vida, diz Laila a si própria, uma vida para dar graças aos céus. De facto, é
precisamente o género de vida com que ela sonhava nos dias mais negros do seu
casamento com Rashid. Todos os dias, Laila lembra isso a si mesma.
Depois, numa noite quente de Julho de 2002, ela e Tariq estão deitados a conversar em
voz baixa acerca de todas as mudanças que se deram no seu país. Houve tantas. As
forças de coligação expulsaram os taliban de todas as cidades principais, empurraram-nos
para lá da fronteira com o Paquistão e para as montanhas a sul e a leste do Afeganistão.
Foi enviada para Cabul a ISAF5, uma força internacional de manutenção da paz. O país tem
agora um presidente interino, Hamid Karzai.
Laila decide que chegou a altura de falar a Tariq.
Há um ano, de boa vontade teria dado um braço para sair de Cabul. Mas, nos últimos
meses, deu por si a sentir saudades da cidade da sua infância. Fazem-lhe falta a animação
de Shor Bazaar, os jardins de Babur, o pregão dos aguadeiros arrastando os seus odres
de pele de cabra. Fazem-lhe falta o regateio dos vendedores de roupa da Rua das
Galinhas e os vendilhões de melão de Karteh-Parwan.
Mas não é apenas a saudade ou a nostalgia que levam Laila a pensar tanto em Cabul
presentemente. A inquietação invadiu-a. Ouve dizer que em Cabul se estão a construir
escolas, a reparar estradas, as mulheres regressam ao trabalho, e a sua vida ali, por
muito agradável que seja, e por muito grata que ela se sinta, parece-lhe... insuficiente.
Inconsequente. Pior ainda, um desperdício. Ultimamente, começou a ouvir a voz do Babi,
Tu podes ser tudo aquilo que quiseres, Laila, diz-lhe ele. Tenho a certeza disso. E sei
também que quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de ti.
Laila ouve igualmente a voz da Mamã. Lembra-se da resposta que a Mamã dava ao
Babi quando ele sugeria que abandonassem o Afeganistão. Eu quero ver realizado o
sonho dos meus filhos. Quero estar cá quando isso acontecer, quando o Afeganistão for
livre, para os rapazes também verem. Eles verão através dos meus olhos. Há agora uma
parte de Laila que quer voltar para Cabul, pela Mamã e pelo Babi, para eles verem através
dos olhos dela.
E depois há Mariam, perante a qual Laila se sente obrigada. Terá Mariam morrido para
isto? Pergunta-se ela. Ter-se-á Mariam sacrifi​cado para ela, Laila, ser uma criada num
país estrangeiro? Talvez para Mariam não tivesse importância aquilo com que se ocupava
desde que ela e as crianças estivessem seguras e felizes. Mas para Laila, tem. De
repente, tem uma importância enorme.
— Quero regressar — diz ela.
Tariq senta-se na cama e fita-a.
Laila sente-se mais uma vez impressionada com a beleza dele, a curva perfeita da sua
testa, os músculos esbeltos dos braços, os olhos pensativos e inteligentes. Passou-se um
ano, e ainda há alturas, em momentos como este, em que Laila não consegue acreditar
que eles se reencontraram, que ele está realmente ali, com ela, que é seu marido.
— Regressar? A Cabul? — pergunta ele.
— Só se tu também quiseres.
— Não és feliz aqui? Pareces feliz. E as crianças também.
Laila senta-se. Tariq desvia-se para lhe dar lugar.
— E sou feliz — afirma Laila. — Claro que sou. Mas... daqui, vamos para onde, Tariq?
Quanto tempo aqui ficamos? Não estamos na nossa casa. Em Cabul sim, e há tantas
coisas a acontecer por lá, muitas delas boas. Eu quero participar em tudo isso. Quero
fazer alguma coisa. Quero contribuir. Compreendes?
Tariq acena lentamente. — Então é isso que tu queres? Tens a certeza?
— Quero, sim, tenho a certeza. Mas há mais. Sinto que tenho de regressar. Já não me
parece bem continuar aqui.
Tariq olha para as mãos, depois volta a fitá-la.
— Mas só, só, se tu também quiseres.
Tariq sorri. As rugas da testa desvanecem-se, e por um breve instante ele é de novo o
antigo Tariq, o Tariq que não tinha dores de cabeça, que dissera uma vez que na Sibéria o
muco se transforma em gelo antes de chegar ao solo. Talvez seja imaginação, mas Laila
acha que nos últimos tempos esse antigo Tariq emerge com mais frequência.
— Eu? — diz ele. — Eu seguir-te-ei até ao fim do mundo, Laila.
Ela puxa-o para si e beija-o nos lábios. Crê que nunca o amou tanto como neste
momento. — Obrigada — murmura com a testa encos​tada à dele.
— Vamos para casa.
— Mas primeiro, quero ir a Herat — diz ela.
— A Herat?
Laila explica-lhe.
AS CRIANÇAS PRECISAM de ser tranquilizadas, cada uma à sua maneira. Laila vai sentar-se
junto de uma Aziza agitada, que ainda tem pesadelos, que na semana anterior rompeu em
lágrimas quando alguém disparou uma salva de tiros para o céu num casamento local. Laila
tem de lhe explicar que quando regressarem a Cabul os taliban não estarão lá, que não
haverá combates, e que ela não voltará para o orfanato. — Viveremos todos juntos. O teu
pai, eu, Zalmai. E tu, Aziza. Nunca, nunca mais ficarás longe de mim. Prometo. — Sorri à
filha. — Isto é, até ao dia em que tu queiras. Quando te apaixonares por algum jovem e
quiseres casar com ele.
No dia da partida de Murri, Zalmai está inconsolável. Abraçou-se ao pescoço de Alyona
e não a quer largar.
— Não consigo despegá-lo dela, Mamã — diz Aziza.
— Zalmai. Não podemos levar uma cabra na camioneta — explica novamente Laila.
Só depois de Tariq se ajoelhar ao lado dele e prometer que, em Cabul, lhe comprará
uma cabra igualzinha a Alyona, é que Zalmai a solta relutantemente.
Há lágrimas igualmente nas despedidas a Sayid. Para dar sorte, ele segura, à entrada
da porta, um Corão que Tariq, Laila e as crianças beijam três vezes; depois ergue-o de
forma a poderem passar debaixo dele. Ajuda Tariq a colocar as duas malas no porta-
bagagens do seu carro. É Sayid quem os leva à estação, e fica no passeio a acenar
quando a camioneta se afasta aos arrancos.
Inclinada para trás, vendo Sayid a diminuir pelo vidro traseiro da camioneta, Laila ouve a
voz de uma dúvida sussurrar-lhe na cabeça. Estarão a ser loucos, pergunta-se, por
abandonar a segurança de Murri? Por regressar à terra onde pereceram os seus pais e os
seus irmãos, onde o fumo das bombas só agora começa a assentar?
E então, das negras espirais da sua memória, erguem-se duas linhas de poesia, a ode
de adeus do Babi a Cabul:
Não se podem contar as luas que brilham sobre os seus telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
que se escondem por trás dos seus muros.
Laila instala-se no seu lugar, pestanejando para conter as lágrimas. Cabul espera.
Precisa. Este regresso a casa é o movimento certo.
Mas primeiro há que dizer um derradeiro adeus.
AS GUERRAS NO Afeganistão devastaram as estradas que ligam Cabul, Herat e Kandahar.
O caminho mais fácil para chegar a Herat é agora através de Mashad, no Irão. Laila e a
família passam apenas uma noite aí, num hotel, e na manhã seguinte apanham outra
camioneta.
Mashad é uma cidade populosa, cheia de azáfama. Laila observa os parques, mesquitas
e restaurantes de chelo kebab que vão desfilando lá fora. Quando a camioneta passa pelo
santuário do Imã Reza, o oitavo imã Shi’a, ela torce o pescoço para ver melhor os seus
mosaicos reluzentes, os minaretes, a magnífica cúpula dourada, tudo impecável e
carinhosamente conservado. Pensa nos Budas do seu país, transformados agora em
grãos de pó, espalhados pelo vento no Vale de Bamiyan.
A viagem até à fronteira irano-afegã demora quase dez horas. A paisagem torna-se
mais desolada, mais árida à medida que se aproximam do Afeganistão. Pouco antes de
atravessarem a fronteira para Herat, passam por um campo de refugiados afegão. Para
Laila, é um enevoado de poeira amarela, tendas negras e estruturas precárias feitas de
chapa ondulada. Inclina-se e aperta a mão de Tariq.
EM HERAT, a maior parte das ruas está asfaltada e ladeada de fragrantes pinheiros. Há
parques e bibliotecas municipais em cons​trução, pátios recuperados, edifícios pintados de
fresco. Os semáforos funcionam, e, o que mais surpreende Laila, a electricidade é
ininterrupta. Laila ouviu dizer que Ismail Khan, o senhor da guerra que governa Herat ao
estilo feudal, ajudou a reconstruir a cidade com os impostos consideráveis que cobra na
fronteira afegã-iraniana, dinheiro que Cabul afirma pertencer não a ele mas ao governo
central. O tom de voz do motorista de táxi que os conduz ao Hotel Muwaffaq é
simultaneamente reverente e receoso quando menciona o nome de Ismail Khan.
A estadia de duas noites no Hotel Muwaffaq irá custar-lhes quase um quinto das suas
poupanças, mas a viagem desde Mashad foi longa e extenuante, e as crianças estão
exaustas. O empregado idoso da recepção diz a Tariq, enquanto procura a chave do
quarto, que o Muwaffaq é muito popular entre os jornalistas e trabalhadores das ONG.
— Bin Laden dormiu aqui uma vez — gaba-se ele.
O quarto tem duas camas, e uma casa de banho com água corrente fria. Na parede,
entre as camas, há um quadro que retrata o poeta Khaja Abdullah Ansary. Da janela, Laila
vê a rua fervilhante lá em baixo e, do lado oposto, um parque com caminhos de tijolo de
tons suaves serpenteando através de maciços de flores. As crianças, que se habituaram à
televisão, ficam desapontadas por o quarto a não ter, mas depressa adormecem. Também
Tariq e Laila sucumbem rapidamente. Laila dorme profundamente nos braços de Tariq;
acorda apenas uma vez a meio da noite, com um sonho que não consegue recordar.
NA MANHÃ SEGUINTE, após um pequeno-almoço de chá e pão fresco, compota de marmelo
e ovos cozidos, Tariq arranja-lhe um táxi.
— Tens a certeza de que não queres que eu vá contigo? — pergunta. Aziza está de mão
dada com ele. Zalmai não, mas encontra​-se perto de Tariq, com um dos ombros encostado
à sua anca.
— Tenho a certeza.
— Fico preocupado.
— Vai correr tudo bem — sossega-o Laila. — Prometo. Leva as crianças a um
mercado. Compra-lhes qualquer coisa.
Zalmai começa a chorar quando o táxi se afasta, e, ao voltar-se para trás, Laila vê que
ele estende os braços a Tariq. O facto de o filho começar a aceitar Tariq tranquiliza-a, mas
ao mesmo tempo parte-lhe o coração.
— NÃO ÉS DE HERAT — diz o motorista.
Usa o cabelo preto pelos ombros — um vulgar gesto de desprezo pelos taliban
expulsos, como Laila já descobriu — e tem o bigode interrompido do lado esquerdo por
uma cicatriz. Há uma fotografia presa no pára-brisas do seu lado. É de uma rapariga de
faces rosadas, cabelo com risco ao meio e tranças.
Laila diz-lhe que passou o último ano no Paquistão e agora vai voltar para Cabul. —
Deh-Mazang.
Através do pára-brisas ela vê ferreiros a soldar pegas de metal em potes, albardeiros a
estender pedaços de peles por curtir para secar ao sol.
— Há muito que vives aqui, irmão? — pergunta ela.
— Toda a minha vida. Nasci aqui. Assisti a tudo. Lembras-te da insurreição?
Laila diz que sim, mas ele continua.
— Estava-se em Março de 1979, cerca de nove meses antes da invasão soviética. Uns
heratis exaltados mataram alguns conselheiros soviéticos, por isso os sovietes mandaram
tanques e helicópteros e arrasaram isto. Durante três dias dispararam sobre a cidade,
hamshira. Derrubaram edifícios, destruíram um dos minaretes, mataram milhares de
pessoas. Milhares. Eu perdi duas irmãs nesses três dias. Uma tinha doze anos. — Bate na
fotografia presa ao pára-brisas. — É ela.
— Lamento — diz Laila, achando espantoso que as histórias de todos os afegãos sejam
marcadas pela morte, pela perda e por inima​gináveis desgostos. E no entanto, como ela
testemunha, as pessoas acham maneira de sobreviver, de seguir em frente. Pensa na sua
própria vida e em tudo o que lhe aconteceu, e admira-se por também ela ter sobrevivido,
por estar viva e sentada naquele táxi a ouvir a história daquele homem.

GUL DAMAN é uma aldeia com meia dúzia de casas muradas erguendo-se entre kolbas de
tecto chato, construídas com lama e palha. No exterior das kolba, Laila vê mulheres de
pele tisnada a cozinhar, os rostos suados do vapor que se eleva de grandes panelas
enegrecidas, pousadas em grelhas improvisadas com troncos. Há mulas a comer de
gamelas. Crianças que perseguiam galinhas começam a correr atrás do táxi. Laila vê
homens a empurrar carros de mão cheios de pedras; param à passagem do carro. O
motorista faz uma curva e passam por um cemitério que tem no centro um mausoléu
carcomido pelo tempo. O motorista diz-lhe que está ali sepultado um Sufi da aldeia.
Há igualmente um moinho de vento. À sombra das suas velas imóveis, cor de ferrugem,
três garotinhos acocorados brincam com lama. O motorista encosta e debruça-se da
janela. Responde-lhe o rapaz que parece mais velho. Aponta uma casa mais para o fundo
da estrada. O motorista agradece e volta a arrancar.
Estaciona em frente da casa murada, com um só piso. Laila vê as copas de figueiras
por cima dos muros, sobre que se debruçam alguns ramos.
— Não demoro — diz ela ao motorista.
O HOMEM DE MEIA-IDADE que abre a porta é baixo, magro, de cabelo arruivado. A barba é
estriada de grisalho. Veste um chapan por cima do pirhan-tumban.
Trocam salaam alaykums.
— É esta a casa do Mullah Faizullah? — pergunta Laila.
— Sim. Sou Hamza, o filho dele. Em que posso ajudar-te, hamshireh?
— Venho por causa de uma velha amiga do teu pai, Mariam.
Hamza pestaneja. Perpassa-lhe pelo rosto uma expressão de perplexidade. —
Mariam...
— A filha de Jalil Khan.
Ele pestaneja novamente. Depois leva a palma da mão à face e a cara ilumina-se com
um sorriso que revela espaços vazios e dentes estragados. — Oh! — exclama. Aquilo soa
como um Ohhhhh, como um longo expirar. — Oh! Mariam! És filha dela? Ela... — estica
agora o pescoço, olhando para trás de Laila, ansioso, à procura. — Ela está cá? Há tanto
tempo! A Mariam está cá?
— Mariam morreu, infelizmente.
O sorriso desvanece-se do rosto de Hamza.
Durante alguns instantes ficam ali, à entrada da porta, com Hamza a olhar para o chão.
Algures zurra um burro.
— Entra — convida Hamza, abrindo completamente a porta. — Entra, por favor.

SENTAM-SE no chão de uma sala escassamente mobilada. Há uma carpete herati,


almofadas enfeitadas com contas, e na parede uma fotografia emoldurada de Meca.
Instalam-se perto da janela aberta, ladeando uma oblonga faixa de luz. Laila ouve vozes
femininas a murmurar na outra sala. Um rapazinho descalço coloca diante deles uma
travessa com chá verde e nogás gaaz de pistáscio. Hamza acena na sua direcção.
— O meu filho.
O rapaz sai silenciosamente.
— Então, conta-me — pede Hamza, com ar fatigado.
Laila conta. Conta tudo. Demora mais tempo do que havia imaginado. Perto do fim,
esforça-se por manter a serenidade. Um ano depois, ainda não lhe é fácil falar de Mariam.
Depois de ela terminar, Hamza permanece calado durante muito tempo. Gira lentamente
a chávena no pires, para um lado, para o outro.
— O meu pai, que descanse em paz, gostava muito dela — diz por fim. — Foi ele quem
lhe cantou o azan ao ouvido quando ela nasceu, sabes? Visitava-a todas as semanas, sem
falta. Às vezes, levava​-me com ele. Era seu professor, sim, mas era também um amigo.
Era um homem caridoso, o meu pai. Quando Jalil Khan a casou daquela maneira, quase se
lhe partiu o coração.
— Lamento que o teu pai tenha morrido. Que Deus lhe perdoe.
Hamza agradeceu com um aceno. — Viveu até uma idade avançada. Na realidade,
sobreviveu mesmo a Jalil Khan. Sepultamo​-lo no cemitério da aldeia, não muito longe do
sítio onde está enterrada a mãe de Mariam. O meu pai era um homem muito, muito
estimado, seguramente merecedor do paraíso.
Laila pousa a chávena.
— Posso pedir-te uma coisa?
— Claro.
— Podes mostrar-me onde viveu Mariam? — pergunta ela. — Podes levar-me lá?
O MOTORISTA ACEDE em esperar um pouco mais.
Hamza e Laila saem da aldeia e descem a colina pela estrada que liga Gul Daman a
Herat. Após cerca de um quarto de hora, ele aponta uma estreita fenda na erva alta que
bordeja a estrada de ambos os lados.
— É por ali que se vai — indica ele. — Há um carreiro.
O carreiro é acidentado, tortuoso, e sombrio, sob a vegetação desor​denada. O vento
fustiga a erva alta contra as barrigas das pernas de Laila, enquanto ela e Hamza trepam
aos ziguezagues. De cada lado há um caleidoscópio de flores silvestres que oscilam com a
brisa, umas altas, de pétalas curvas, outras baixas, de folhas em leque. Aqui e além alguns
ranúnculos semimurchos espreitam por entre os arbustos. Laila ouve o chilrear de
andorinhas lá no alto e o incansável trilo dos gafanhotos a seus pés.
Caminham assim, colina acima, durante uns duzentos metros ou mais. Depois o carreiro
torna-se plano e desemboca em terreno mais regular. Estacam para recuperar o fôlego.
Laila enxuga a testa com a manga e enxota um bando de mosquitos que lhe esvoaça em
redor da cara. Vê as montanhas no horizonte, alguns campos de algodão, alguns choupos,
diversos arbustos silvestres cujo nome ignora.
— Dantes havia aqui um regato — explica Hamza, um pouco ofegante. — Mas há muito
que secou.
Diz-lhe que a espera ali. Diz-lhe que atravesse o leito seco e continue em direcção às
montanhas.
— Eu espero aqui — e senta-se numa pedra, à sombra de um choupo. — Continua tu.
— Não me...
— Não te preocupes. Demora o tempo que quiseres. Vai lá, hamshireh.
Laila agradece-lhe. Atravessa o leito do rio seco, saltando de pedra em pedra. Avista
entre as rochas garrafas de soda partidas, latas ferrugentas, e um contentor metálico com
tampa de zinco coberto de bolor e semi-enterrado no solo.
Dirige-se para as montanhas, para os salgueiros, que já vislumbra, com os seus longos
ramos pendentes oscilando a cada rabanada de vento. O coração martela-lhe no peito. Vê
que os salgueiros estão dispostos como Mariam descreveu, um bosque circular com uma
clareira no meio. Laila apressa o passo, quase corre agora. Olha para trás por cima do
ombro e vê que Hamza está reduzido a uma figura minúscula, o chapan uma explosão de
cor contra o castanho do tronco das árvores. Tropeça numa pedra e quase cai, e depois
recupera o equilíbrio. Percorre depressa o resto do caminho com as pernas das calças
puxadas para cima. Chega ofegante junto dos salgueiros.
A kolba de Mariam ainda lá está.
Quando se aproxima, nota que o único caixilho de janela está vazio e que a porta
desapareceu. Mariam descrevera igualmente uma capoeira e um tandur, uma latrina de
madeira, mas Laila não vê quaisquer sinais deles. Detém-se à entrada da kolba. Ouve as
moscas a zumbirem lá dentro.
Para entrar, tem de se desviar de uma grande teia de aranha que esvoaça ao vento.
Está escuro. Laila tem de deixar os olhos habituarem​-se durante alguns momentos. Então
vê que o interior é ainda mais pequeno do que imaginara. Do soalho resta apenas metade
de uma tábua lascada e semipodre; o resto, calcula, foi arrancado para queimar. O chão
encontra-se agora tapetado com folhas secas, garrafas partidas, invólucros de pastilha
elástica abandonados, cogumelos bravos, velhas pontas de cigarro amarelecidas. Mas
principalmente com ervas daninhas, algumas mirradas, outras crescendo impudentes até
meio das paredes.
Quinze anos, pensa Laila. Quinze anos naquele lugar.
Senta-se, encostada à parede. Escuta o vento que sibila por entre os salgueiros. Há
mais teias de aranha esticadas pelo tecto. Alguém escreveu qualquer coisa com tinta de
spray numa das paredes, mas a maior parte já se desvaneceu e Laila não consegue
decifrar o que diz. Depois percebe que aquilo é russo. Há um ninho abandonado num dos
cantos, e um morcego suspenso de cabeça para baixo noutro, onde as paredes encontram
o tecto acaçapado.
Laila fecha os olhos e permanece ali um momento.
No Paquistão, era por vezes difícil recordar os pormenores do rosto de Mariam. Havia
alturas em que, como uma palavra na ponta da língua, a sua cara lhe escapava. Mas
agora, naquele lugar, é fácil invocar Mariam sob as pálpebras cerradas: o brilho suave do
seu olhar, o queixo longo, a pele curtida do pescoço, o sorriso de lábios estreitos. Ali, Laila
pode voltar a encostar a face na doçura do colo de Mariam, pode ouvi-la a andar de um
lado para o outro recitando versos do Corão, pode sentir as palavras a vibrarem pelo
corpo de Mariam abaixo, até aos joelhos, e aos seus próprios ouvidos.
Então, de repente, as ervas daninhas começam a recuar, como se algo de baixo do solo
as puxasse pelas raízes. Afundam-se cada vez mais até a terra da kolba engolir a
derradeira folha espinhosa. As teias de aranha desfazem-se por magia. O ninho
desconjunta-se, os galhos soltam-se um por um, e voam para fora da kolba uns atrás dos
outros. Um apagador invisível elimina os grafitti russos da parede.
As pranchas do soalho estão de volta. Laila vê agora um par de catres, uma mesa de
madeira, duas cadeiras, um fogão de ferro fundido ao canto, e ao longo das paredes
prateleiras onde há tachos e panelas de barro, uma chaleira enfarruscada, chávenas e
colheres. Ouve galinhas a cacarejar lá fora, o gorgolejar distante do regato.
Uma jovem Mariam está sentada à mesa a fazer uma boneca à luz de uma lamparina.
Entoa qualquer coisa. O rosto é liso e jovem, o cabelo está lavado, penteado para trás.
Tem os dentes todos.
Laila observa Mariam a colar pedaços de fio à cabeça da boneca. Dentro de poucos
anos, aquela rapariguinha será uma mulher que exigirá pouco da vida, que nunca
sobrecarregará os outros, que nunca dará a entender que também ela teve desgostos,
desapontamentos, sonhos que foram ridicularizados. Uma mulher que será como uma
rocha no leito de um rio, suportando sem queixas, a sua bondade não manchada, mas
forjada pela turbulência que lhe passa por cima. Laila vislumbra já qualquer coisa para lá
dos olhos dessa jovem, qualquer coisa no seu âmago mais profundo, que nem Rashid nem
os taliban conseguirão quebrar. Qualquer coisa de tão duro e inflexível como um bloco de
pedra. Qualquer coisa que, no final, será a sua ruína e a salvação de Laila.
A garotinha ergue os olhos. Pousa a boneca. Sorri.
Laila jo?
Laila abre os olhos, sobressaltada. Falta-lhe a respiração e o seu corpo inclina-se para
diante. Assusta o morcego, que voa de um lado ao outro da kolba, as asas adejando como
as páginas de um livro, antes de desaparecer pela janela.
Levanta-se, sacode das calças as folhas mortas em que esteve sentada. Sai da kolba.
Lá fora, a luz mudou ligeiramente. O vento que sopra faz ondular a erva e estalar os ramos
dos salgueiros.
Antes de abandonar a clareira, Laila lança um derradeiro olhar à kolba onde Mariam
dormira, comera, sonhara, sustendo a respiração à espera de Jalil. Sobre as paredes
inclinadas, os salgueiros projectam sombras retorcidas que mudam a cada rajada de
vento. Um corvo pousou no telhado plano. Debica qualquer coisa, crocita, levanta voo.
— Adeus, Mariam.
E com essas palavras, sem se aperceber de que está a chorar, Laila começa a correr
pelo meio da erva.
Encontra Hamza ainda sentado na rocha. Quando a avista, levanta-se.
— Regressemos — diz ele. E acrescenta: — Tenho uma coisa para te dar.
LAILA ESPERA POR Hamza no jardim, junto à porta de entrada. O rapaz que lhes serviu o
chá há bocado está de pé à sombra de uma das figueiras, com uma galinha ao colo, e
olha-a impassível. Laila avista duas caras, uma mulher de idade e uma rapariga de hijabs,
que a observam discretamente de uma janela.
A porta abre-se e surge Hamza, trazendo na mão uma caixa.
Entrega-a a Laila.
— Jalil Khan deu isto ao meu pai cerca de um mês antes de morrer — diz Hamza. —
Pediu-lhe que a guardasse até Mariam a vir buscar. O meu pai teve-a durante dois anos.
Depois, mesmo antes de falecer, entregou-ma e pediu-me que a guardasse para Mariam.
Mas ela... tu sabes que ela nunca veio.
Laila fita a caixa de lata oval. Parece uma velha caixa de bombons. É verde-azeitona,
com grinaldas de um dourado esmaecido a toda a volta da tampa, presa por dobradiças.
Os lados têm um pouco de ferrugem, e a parte da frente da tampa duas minúsculas
amolgadelas. Laila tenta abrir a caixa, mas está fechada à chave.
— O que tem dentro? — pergunta ela.
Hamza pousa-lhe uma chave na palma da mão. — O meu pai nunca a abriu. E eu
também não. Suponho que era vontade de Deus que fosses tu a abri-la.
DE REGRESSO AO HOTEL, vê que Tariq e as crianças ainda não vol​taram.
Laila senta-se na cama, com a caixa ao colo. Parte de si deseja deixá​-la fechada,
manter em segredo o que quer que Jalil pretendera. Mas, por fim, a curiosidade é mais
forte. Enfia a chave. Tem de girar e sacudir, mas consegue abrir a caixa.
Lá dentro, encontra três coisas: um sobrescrito, um saco de estopa, e uma cassete de
vídeo.
Laila pega na cassete e desce até à recepção. O funcionário idoso que os recebeu na
véspera informa-a de que o hotel só possui um leitor de vídeo, na sua melhor suite. A suite
está vaga, de momento, e ele concorda em levá-la lá. Deixa a recepção ao cuidado de um
jovem de bigode e fato completo, que está a falar ao telemóvel.
O velhote conduz Laila ao segundo andar, até uma porta na extremidade de um longo
corredor. Abre a fechadura e deixa-a entrar. Ela avista a TV ao canto, mas os seus olhos
não registam mais nada.
Liga-a, liga o leitor de vídeo. Enfia a cassete e carrega no botão de PLAY. O ecrã
mantém-se em branco durante alguns momentos, e Laila começa a perguntar-se por que
se teria Jalil dado ao trabalho de deixar a Mariam uma cassete em branco. Mas então
ouve música e as imagens começam a passar no ecrã.
Laila franze a testa. Olha durante um ou dois minutos. Depois carrega no STOP, avança
com a cassete, e carrega de novo em PLAY. É o mesmo filme.
O velho fita-a interrogativamente.
O filme é Pinóquio, de Walt Disney. Laila não compreende.

TARIQ E AS CRIANÇAS regressam ao hotel pouco depois das seis. Aziza corre para Laila e
mostra os brincos que Tariq lhe comprou, de prata com uma borboleta em esmalte. Zalmai
aperta um golfinho insuflável que guincha quando lhe apertam o focinho.
— Como estás tu? — pergunta Tariq, passando-lhe o braço pelos ombros.
— Estou bem — responde Laila. — Depois conto-te.
Dirigem-se a um restaurante de kebabs para jantar. É uma casa pequena, com toalhas
de plástico pegajosas, muito fumo e ruído. Mas o borrego está tenro e saboroso e o pão
quente. Depois dão um pequeno passeio. Num quiosque de esquina, Tariq compra às
crianças gelado de água de rosas. Comem sentados num banco, com as montanhas atrás
recortadas contra o vermelho-escarlate do crepúsculo. O ar é tépido, impregnado da
fragrância dos cedros.
Laila abrira o sobrescrito à tarde, quando voltara para o seu quarto após ter visionado a
cassete. Era uma carta, escrita à mão a tinta azul numa folha de papel pautado amarelo.
Dizia:
13 de Maio de 1987

Minha querida Mariam,


Espero que esta carta te vá encontrar de saúde.
Como sabes, fui a Cabul há um mês para falar contigo. Mas tu não me recebeste. Fiquei desapontado, mas não
posso censurar-te. No teu lugar, talvez tivesse feito o mesmo. Há muito que perdi o privilégio das tuas boas graças
e sou eu o único culpado disso. Mas se estás a ler esta carta, é porque leste a que deixei à tua porta. Leste-a e
vieste ver o Mullah Faizullah, como te pedi. Agradeço-te, Mariam jo. Fico-te grato por esta oportunidade de poder
dizer-te algumas palavras.
Por onde começar?
O teu pai tem tido tantos desgostos desde a última vez que falámos, Mariam jo. A tua madrasta Afsoon morreu
no primeiro dia da insurreição de 1979. Nesse mesmo dia, uma bala perdida matou a tua irmã Niloufar. Ainda a
estou a ver, à minha pequena Niloufar, a fazer o pino para impressionar os convidados. O teu irmão Farhad juntou-
se à jihad em 1980. Os soviéticos mataram-no em 1982, às portas de Helmand. Nunca consegui ver o seu corpo.
Não sei se tens filhos, Mariam jo, mas se tens, peço a Deus que olhe por eles e te poupe à dor que eu conheci.
Ainda sonho com eles. Ainda sonho com os meus filhos mortos.
Sonho igualmente contigo, Mariam jo. Fazes-me falta. Faz-me falta o som da tua voz, do teu riso. Tenho
saudades de ler para ti, e de todas as vezes que fomos pescar juntos. Lembras-te de todas as vezes que fomos
pescar juntos? Eras uma boa filha, Mariam jo, e nunca consigo pensar em ti sem sentir vergonha e remorsos.
Remorsos... Quando se trata de ti, Mariam jo, sinto um mar deles. Lamento não te ter recebido no dia em que vieste
a Herat. Lamento não te ter aberto a porta e acolhido. Lamento não te ter reconhecido como filha e deixado viver
naquela casa durante todos aqueles anos. E porquê? Medo de perder prestígio? De manchar o meu pseudo bom
nome? Como todas essas coisas deixaram de ter importância para mim após todas as perdas, todas as coisas
terríveis a que assisti nesta maldita guerra. Mas agora, evidentemente, é demasiado tarde. Talvez compreender
apenas quando as coisas já não têm remédio seja o castigo justo para os que não tiveram coração. Agora tudo o
que posso fazer é dizer que tu foste uma boa filha, Mariam jo, e que eu nunca te mereci. Agora tudo o que posso
fazer é pedir o teu perdão. Por isso, perdoa​-me, Mariam jo. Perdoa-me. Perdoa-me. Perdoa-me.
Já não sou o homem abastado que conheceste. Os comunistas confiscaram muitas das minhas propriedades e
também todas as minhas lojas. Mas é mesquinho lamentar-me, pois Deus — por razões que não compreendo —
ainda me abençoou com muito mais do que à maioria das pessoas. Desde o meu regresso de Cabul, consegui
vender as poucas propriedades que me restavam. Junto aqui a tua parte da herança. Verás que está longe de ser
uma fortuna, mas é qualquer coisa. É qualquer coisa. (Repararás também que tomei a liberdade de trocar o dinheiro
em dólares. Penso que é o melhor. Só Deus sabe o destino da nossa desgraçada moeda.)
Espero que não penses que estou a tentar comprar o teu perdão. Espero que me faças a justiça de saber que o
teu perdão não está à venda. Nunca esteve. Estou apenas a entregar-te, embora tardiamente, o que sempre te
pertenceu. Não fui um pai consciencioso para ti em vida. Talvez o possa ser na morte.
Ah, a morte. Não te aborrecerei com pormenores, mas a morte aproxima​-se agora de mim. Um coração fraco,
dizem os médicos. Penso que é uma morte adequada para um homem fraco.
Mariam jo,
Ouso, ouso ter esperança de que após teres lido esta carta, sejas mais caridosa para mim do que eu fui para ti.
Que possas decidir-te a vir ver o teu pai. Que baterás uma vez mais à minha porta e me darás a possibilidade de
desta vez a abrir, de te acolher, de te receber nos meus braços, minha filha, como deveria ter feito há todos esses
anos. É uma esperança tão fraca como o meu coração. Sei isso. Mas fico à espera. Fico à espera de que venhas
bater-me à porta. Continuo a ter esperança.
Deus te conceda uma vida longa e próspera, minha filha. Deus te dê muitos filhos saudáveis e belos. Possas tu
encontrar a felicidade, a paz e a aceitação que eu te não dei. Fica bem. Deixo-te nas mãos amorosas de Deus.
O teu pai indigno,
Jalil

Nessa noite, depois de regressarem ao hotel, depois de as crianças terem brincado e


ido para a cama, Laila fala a Tariq da carta. Mostra​-lhe o dinheiro no saco de estopa.
Quando ela rompe em lágrimas, ele beija-lhe o rosto e abraça-a.

International Security Assistance Force. (NT)


51

ABRIL DE 2003

A seca acabou. Nevou finalmente neste último Inverno, até à altura dos joelhos, e agora
chove já há dias. O rio Cabul flui uma vez mais. As suas cheias de Primavera arrastaram
Titanic City.
Há lama nas ruas. Os sapatos chiam. Os carros ficam atolados. Burros carregados de
maçãs arrastam-se pesadamente, com os cascos a fazer espirrar salpicos das poças de
chuva. Mas ninguém se queixa da lama, ninguém lamenta Titanic City. Precisamos que
Cabul volte a ser verde, dizem as pessoas.
Ontem, Laila observou os filhos a brincar à chuva no quintal, saltando de poça em poça,
sob um céu plúmbeo. Via-os da janela da cozinha da pequena casa com dois quartos que
alugaram em Deh​-Mazang. Há uma romãzeira no pátio e um maciço de rosas amarelas.
Tariq restaurou as paredes e construiu para as crianças um escorrega, um baloiço, e uma
pequena área cercada para a nova cabra de Zalmai. Laila contempla a chuva a escorrer do
crânio de Zalmai — ele pediu para lho raparem como o de Tariq, que está agora
encarregado de dizer as orações do Babalu. A chuva achatou os longos cabelos de Aziza,
transformando-o em cachos encharcados que salpicam Zalmai quando ela vira a cabeça.
Zalmai está quase com seis anos. Aziza tem dez. Festejaram o seu aniversário a
semana passada, levando-a ao Cinema Park, onde, finalmente, o filme Titanic foi exibido
às claras para os habitantes de Cabul.
— DESPACHEM-SE, MENINOS, vamos chegar atrasados — chama Laila, metendo-lhes os
almoços num saco de papel.
São oito horas da manhã. Laila levantou-se às cinco. Como sempre, Aziza acordou-a
com um leve abanão para recitarem o namaz matinal. Laila sabe que as orações são a
maneira de Aziza se manter agarrada a Mariam, a sua maneira de a conservar por perto
ainda mais um pouco, antes de o tempo seguir o seu curso e lhe arrancar Mariam do
jardim da memória como uma erva puxada pelas raízes.
Após o namaz, Laila voltara para a cama, e dormia ainda quando Tariq saiu de casa.
Lembra-se vagamente do seu beijo na face. Tariq arranjou trabalho numa ONG francesa que
fornece próteses a sobre​viventes de minas terrestres e amputados.
Zalmai surge na cozinha a perseguir Aziza.
— Vocês os dois têm os cadernos? Lápis? Livros?
— Aqui mesmo — diz Aziza, erguendo a mochila. Laila repara, uma vez mais, que ela
gagueja menos.
— Então, vamos.
Laila manda sair as crianças e fecha a porta à chave. Saem para a manhã fresca. Hoje
não chove. O céu está azul e não se vislumbram amontoados de nuvens no horizonte. De
mãos dadas, dirigem-se os três à paragem de autocarros. As ruas fervilham já de gente,
há um fluido contínuo de riquexós, táxis, camiões das Nações Unidas, autocarros, jipes da
ISAF. Mercadores de olhos sonolentos sobem as persianas onduladas que foram descidas
para a noite. Há vendedores sentados por detrás de torres de pastilhas elásticas e maços
de cigarros. As viúvas já se apossaram dos seus lugares nas esquinas, pedindo uma
moeda aos transeuntes.
Laila acha estranho estar de novo em Cabul. A cidade mudou. Todos os dias vê agora
pessoas a plantar árvores, a pintar casas velhas, a acarretar tijolos para construir novas.
Cavam sarjetas e poços. Nos parapeitos das janelas, vê flores enterradas em carcaças
ocas de velhos rockets dos mujahidin — são as flores dos rockets, como lhe chamam os
habitantes de Cabul. Há pouco tempo, Tariq levou Laila e as crianças aos Jardins de Babur,
que se encontram em franca renovação. Pela primeira vez desde há anos, Laila ouve
música nas esquinas de Cabul, rubab e tabla, dutar, harmónio e tambura, velhas canções
de Ahmad Zahir.
Laila gostaria que a Mamã e o Babi ali estivessem para ver todas essas modificações.
Mas, tal como a carta de Jalil, o arrependimento de Cabul chegou demasiado tarde.
Laila e as crianças preparam-se para atravessar a rua em direcção à paragem de
autocarros quando, de súbito, surge um Land Cruiser preto de janelas fumadas a grande
velocidade. Desvia-se no último instante, evitando Laila por menos de um metro e
salpicando de água da chuva cor de chá as blusas das crianças.
Com o coração aos pulos no peito, Laila puxa novamente os filhos para o passeio.
O Land Cruiser acelera rua abaixo, buzina duas vezes, e curva bruscamente à
esquerda.
Laila fica ali parada, tentando recuperar o fôlego, com os dedos firmemente cerrados
nos pulsos das crianças.
É uma coisa que corrói Laila. A ideia de que os senhores da guerra tenham sido
autorizados a voltar a Cabul. Que os assassinos dos seus pais vivam em casas luxuosas
com jardins murados, que tenham sido nomeados ministro disto e subsecretário daquilo,
que se desloquem impunemente em reluzentes carros utilitários despor​tivos, à prova de
bala, através dos bairros que arrasaram. É uma coisa que a corrói.
Mas Laila decidiu não permitir que o ressentimento a incapacite. Mariam não quereria
tal. Que sentido tem? Diria ela com um sorriso simultaneamente inocente e sábio. De que
adianta, Laila jo? Portanto Laila resignou-se a seguir para diante. Para seu próprio bem,
por Tariq e pelas crianças. E por Mariam, que ainda a visita nos seus sonhos, que está
sempre à distância de um sopro no seu subconsciente. Laila segue para diante. Porque, ao
fim e ao cabo, sabe que é tudo o que pode fazer. Isso e ter esperança.
ZAMAN ESTÁ junto à linha de lançamento livre, de joelhos flectidos, a bater uma bola de
basquete. Dá instruções a um grupo de rapazes com camisolas iguais, sentado em
semicírculo no pátio. Avista Laila, mete a bola debaixo do braço, e acena. Diz qualquer
coisa aos rapazes, que por sua vez acenam e gritam: «Salaam, moalim sahib!»
Laila corresponde à saudação.
O campo de jogos do orfanato tem agora uma fila de jovens macieiras ao longo do muro
virado a leste. Laila planeia plantar também outra fileira junto ao muro sul assim que ele
estiver recons​truído. Há um novo conjunto de baloiços, novas barras paralelas e um
labirinto metálico onde fazer exercícios.
Laila volta a entrar passando pelo guarda-vento.
Tanto o exterior como o interior do orfanato, foram pintados de novo. Tariq e Zaman
taparam todos os buracos do telhado, repararam as paredes, substituíram as janelas,
alcatifaram as salas onde as crianças dormem e brincam. No Inverno passado, Laila
comprou algumas camas para os dormitórios, e também almofadas e quentes cobertores
de lã. Mandou instalar fogões de ferro.
Anis, um dos jornais de Cabul, publicara no mês anterior um artigo sobre a renovação
do orfanato. Tinham igualmente tirado uma fotografia de Zaman, Tariq, Laila e um dos
auxiliares, de pé por trás das crianças. Quando viu o artigo, Laila lembrou-se de Giti e
Hasina, as suas amigas de infância, e das palavras de Hasina, Aos vinte anos, eu e Giti já
teremos deitado cá para fora quatro ou cinco miúdos cada uma. Mas tu, Laila, tu serás o
orgulho destas duas simplórias. Tu vais ser alguém. Eu sei que um dia pegarei no jornal
e encontrarei a tua fotografia na primeira página. A fotografia não saíra na primeira
página, mas apesar disso lá estava, tal como Hasina previra.
Laila dobra a esquina e avança pelo mesmo corredor onde, dois anos antes, ela e
Mariam tinham entregado Aziza a Zaman. Laila ainda se recorda de que foi preciso
desprender à força os dedos de Aziza do seu pulso. Lembra-se de correr pelo corredor,
sufocando um grito de angústia, com Mariam a chamá-la, e Aziza a chorar em pânico. As
paredes do corredor estão agora cobertas de pósteres de dinossauros, de personagens
de desenhos animados, dos Budas de Bamiyan, e de amostras dos trabalhos feitos pelos
órfãos. Muitos dos desenhos mostram tanques a arrasar casas, homens a brandir AK-47s,
tendas de campos de refugiados, cenas da jihad.
Dobrada nova esquina, Laila vê as crianças, que a esperam do lado de fora da sala de
aula. É acolhida pelos seus lenços, pelos crânios rapados cobertos por solidéus, pelas
suas pequenas figuras delgadas, pela beleza das suas feições vulgares.
Quando a avistam, as crianças correm para ela. Correm a toda a velocidade. Laila é
assaltada. Há um tumulto de saudações estridentes, de vozes agudas, de mãozitas que
tocam, agarram, puxam, empurram, enquanto as crianças se acotovelam umas às outras
para treparem para os braços de Laila. Há mãozitas estendidas e pedidos de atenção.
Algumas chamam-lhe Mãe. Laila não as corrige.
Esta manhã Laila tem dificuldade em acalmar as crianças, conseguir que formem uma
fila alinhada, levá-las a entrar para a aula.
A sala de aulas foi feita por Tariq e Zaman, que derrubaram uma parede entre duas
divisões contínuas. O soalho mantém-se cheio de fendas e faltam mosaicos. Por agora,
está coberto com lona encerada, mas Tariq já prometeu que em breve colocará mosaicos
novos e depois assentará a alcatifa.
Pregado por cima da porta da aula vê-se um rectângulo de madeira, que Zaman lixou e
pintou de branco reluzente. Com um pincel, escreveu aí quatro linhas de poesia que, Laila
sabe, são a sua resposta aos que resmungam que o dinheiro prometido ao Afeganistão
não chega, que a reconstrução avança demasiado devagar, que há corru​p​ção, que os
taliban já estão a reorganizar-se e regressarão para se vingar, que o mundo se esquecerá,
uma vez mais, do Afeganistão. São versos do ghazal de Hafez preferido por Zaman:
José regressará a Caná, não chores,
Casebres transformar-se-ão em roseirais, não chores.
Se um dilúvio vier afogar tudo o que vive,
Noé será o teu guia no olho do furacão, não chores.

Laila passa debaixo do quadro e entra na aula. As crianças ocupam os seus lugares,
abrem os cadernos, tagarelam. Aziza conversa com uma garota da fila ao lado. Um avião
de papel sobrevoa a sala descrevendo um amplo arco. Alguém o envia de volta.
— Abram os vossos livros de farsi, meninos — diz Laila, pousando os seus próprios
livros em cima da secretária.
Sob um coro de páginas folheadas, Laila dirige-se à janela sem cortinas. Através do
vidro, vê os rapazes que se alinham no recreio para treinar lançamento livre. Por cima
deles, sobre as montanhas, ergue-se o sol matinal. Reflecte-se na borda metálica do aro
de basquete, na corrente que suporta os baloiços feitos de pneus, no apito pendurado em
volta do pescoço de Zaman, nos seus óculos novos, impecáveis. Laila assenta as palmas
das mãos contra os vidros mornos. Fecha os olhos. Deixa os raios de sol afagarem-lhe as
faces, as pálpebras, a testa.
Quando regressaram a Cabul, Laila sofria por não saber onde os taliban tinham
sepultado Mariam. Gostaria de poder visitar a sua campa, de sentar-se um pouco com ela,
deixar uma ou duas flores. Mas agora percebe que isso não tem importância. Mariam
nunca está longe. Está aqui, nestas paredes que eles pintaram, nas árvores que
plantaram, nos cobertores que aquecem as crianças, nas almofadas e nos livros e nos
lápis. Está nos risos das crianças. Está nos versos que Aziza recita e nas orações que
murmura quando se inclina para ocidente. Mas, acima de tudo, Mariam está no coração de
Laila, onde brilha com o irreprimível esplendor de mil sóis.
Laila apercebe-se de que a chamam. Vira-se, inclinando instinti​vamente a cabeça para
erguer um pouco o ouvido bom. É Aziza.
— Mamã? Estás bem?
A sala ficou silenciosa. As crianças observam-na.
Prepara-se para responder quando, de repente, lhe falta a respiração. Leva as mãos ao
ventre. Afaga o lugar onde, um instante antes, sentiu percorrê-la uma onda. Espera. Mas o
movimento não se repete.
— Mamã?
— Sim, meu amor. — Sorri. — Estou bem. Sim. Muito bem.
Enquanto se dirige para a sua secretária diante da turma, Laila pensa no jogo dos
nomes que voltaram a fazer ao jantar da noite anterior. Tornou-se um ritual diário desde
que Laila deu a notícia a Tariq e às crianças. Cada um deles defende, repetidamente, a
sua escolha. Tariq gosta de Mohammad. Zalmai, que viu recentemente um vídeo do Super-
Homem, não consegue perceber por que não há​-de um rapaz afegão poder chamar-se
Clark. Aziza defende com unhas e dentes Aman. A Laila agrada Omar.
Mas o jogo envolve apenas nomes masculinos. Porque, se for uma rapariga, Laila já lhe
pôs nome.
POSFÁCIO

Há já quase três décadas que a crise dos refugiados afegãos é das mais graves em
todo o globo. Guerra, fome, anarquia e opressão obrigaram milhões de pessoas — como
Tariq e a família nesta história — a abandonar as suas casas e a fugir do Afeganistão para
se instalarem nos vizinhos Paquistão e Irão. No auge do êxodo, havia oito milhões de
afegãos a viver no estrangeiro como refugiados. Mais de dois milhões de refugiados
afegãos permanecem ainda hoje no Paquistão.
Durante o ano passado, tive o privilégio de trabalhar como enviado dos Estados Unidos
na UNHRC6, a agência das N.U. para os Refu​giados, uma das principais agências
humanitárias do mundo. O mandato da UNHRC é para proteger os direitos humanos básicos
dos refugiados, providenciar auxílio de emergência e ajudar os refugiados a recomeçar a
sua vida num ambiente seguro. A UNHRC proporciona assistência a mais de vinte milhões de
desalojados em todo o mundo, não apenas no Afeganistão mas também em sítios como a
Colômbia, o Burundi, o Congo, o Chade e na região de Darfur no Sudão. Trabalhar com a
UNHRC no auxílio a refugiados foi uma das experiências mais gratificantes e significativas da
minha vida.
Para ajudar, ou simplesmente saber mais acerca do trabalho da UNHRC, ou dos
problemas dos refugiados em geral, visite o site www.UNrefugees.org.

Obrigado.
Khaled Hosseini
31 de Janeiro, 2007

United Nations High Commissioner for Refugees — Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. (NT)
AGRADECIMENTOS

Alguns esclarecimentos antes dos agradecimentos. A aldeia de Gul Daman é um local


fictício — tanto quanto sei. Aqueles que conhecem bem a cidade de Herat notarão que
tomei pequenas liberdades ao descrever a geografia dos seus arredores. Finalmente, o
título desta obra vem de um poema composto por Saeb-e-Tabrizi, poeta persa do século
XVII. Quem conheça o original farsi notará, sem dúvida, que a tradução do verso contendo o
título deste romance não é literal. Mas eu acho-a encantadora, e é a tradução geralmente
aceite, da Dr.a Josephine Davis, a quem estou grato.
Gostaria de agradecer a Qayoum Sarwar, Hekmat Sadat, Elyse Hathaway, Rosemary
Stasek, Lawrence Quill, e Ahleema Jazmin Quill a sua ajuda e apoio.
Um agradecimento muito especial ao meu pai, Baba, por ter lido o manuscrito, pela
resposta, e, como sempre, pelo seu amor e apoio. E à minha mãe, cujo altruísmo e
espírito doce impregnam esta história. És a minha razão de ser, mãe jo. Agradeço aos
meus sogros a sua generosidade e inúmeras amabilidades. Fico igualmente em dívida e
grato a cada um dos membros da minha maravilhosa família.
Quero agradecer à minha agente, Elaine Koster, pela sua crença inabalável, a Jody
Hotchkiss (Em Frente!), David Grossman, Helen Heller e ao incansável Chandler Crawford.
Estou grato e em dívida para com todas as pessoas da Riverside Books. Desejo
agradecer, em particular, a Susan Petersen Kennedy e a Geoffrey Kloske pela sua fé
nesta história. Os meus mais sentidos agradecimentos também a Marilyn Ducksworth, Mih-
Ho Cha, Catharine Lynch, Craig D. Burke, Leslie Schwartz, Honi Werner, e Wendy Pearl.
Um agradecimento especial a Tony Davis, o meu editor de texto de olhos de lince a quem
nada escapa e, finalmente, a Sarah McGrath, a minha talentosa editora, pela sua
paciência, visão, e conselhos.
E por fim, obrigado, Roya. Por teres lido e relido esta história, por me amparares nas
pequenas crises de confiança (e noutras ainda mais sérias), por nunca duvidares. Sem ti,
este livro não existiria. Amo-te.