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Curso: Direito

Disciplina: Prática Jurídica IV


Prof. MSc. Robson Vargas

SEMANA 3

QUESTÃO-PROBLEMA – Adaptada do XXV Exame da OAB

Patrick, nascido em 04/06/1965, tio de Natália, jovem de 18 anos, estava na varanda


de sua casa em Caxias do Sul, em 12/01/2021, quando vê o namorado de sua
sobrinha, Lauro, agredindo-a de maneira violenta, em razão de ciúmes.

Verificando o risco que sua sobrinha corria com a agressão, Patrick gritou com Lauro,
que não parou de agredi-la. Patrick não tinha outra forma de intervir, porque estava
com uma perna enfaixada devido a um acidente de trânsito.

Ao ver que as agressões não cessavam, foi até o interior de sua residência e pegou
uma arma de fogo, de uso permitido, que mantinha no imóvel, devidamente registrada,
tendo ele autorização para tanto. Com intenção de causar lesão corporal que
garantisse a debilidade permanente de membro de Lauro, apertou o gatilho para
efetuar disparo na direção de sua perna. Por circunstâncias alheias à vontade de
Patrick, a arma não funcionou, mas o barulho da arma de fogo causou temor em Lauro,
que empreendeu fuga e compareceu à Delegacia para narrar a conduta de Patrick.

Após o término das investigações, com oitiva dos envolvidos e das testemunhas
presenciais do fato, quais sejam, Natália, Maria e José, estes dois últimos sendo
vizinhos que conversavam no portão da residência, o inquérito foi concluído, e o
Ministério Público ofereceu denúncia, perante o juízo competente, em face de Patrick
como incurso nas sanções penais do Art. 129, § 1º, inciso III, c/c. o Art. 14, inciso II,
ambos do Código Penal. Juntamente com a denúncia, vieram as principais peças que
constavam do inquérito, inclusive a Folha de Antecedentes Criminais, na qual constava
outra anotação por ação penal em curso pela suposta prática do crime do Art. 168 do
Código Penal, bem como o laudo de exame pericial na arma de Patrick apreendida, o
qual concluiu pela total incapacidade de efetuar disparos.

Em busca do cumprimento do mandado de citação, o oficial de justiça comparece à


residência de Patrick e verifica que o imóvel se encontrava trancado. Apenas em razão
desse único comparecimento no dia 25/02/2021, certifica que o réu estava se ocultando
para não ser citado e realiza, no dia seguinte, citação por hora certa, juntando o
resultado do mandado de citação e intimação para defesa aos autos no mesmo dia.
Maria, vizinha que presenciou a conduta do oficial de justiça, se assusta e liga para o
advogado de Patrick, informando o ocorrido e esclarecendo que ele se encontra
trabalhando e ficará embarcado por 15 dias. O advogado entra em contato com Patrick
por email e este apenas consegue encaminhar uma procuração para adoção das
medidas cabíveis, fazendo uma pequena síntese do ocorrido por escrito.
Considerando a situação narrada, apresente, na qualidade do advogado de Patrick, a
peça jurídica cabível, diferente do habeas corpus, apresentando todas as teses
jurídicas de direito material e processual pertinentes. A peça deverá ser datada do
último dia do prazo.

CONTEXTUALIZAÇÃO

1. Interposição – RESPOSTA À ACUSAÇÃO - fundamento – art. 396-A CPP.

2. Alegações

2.1 Preliminar

Nulidade da citação – art. 564, inciso III, “e”, do CPP.

CITAÇÃO – arts. 351, 362 CPP e arts. 252 e 253 CPC.

Contagem dos prazos no processo penal – contagem - Súmula 710-STF: No processo


penal, contam-se os prazos da data da intimação, e não da juntada aos autos do
mandado ou da carta precatória ou de ordem.

Ver ainda: art. 798 CPP.

2.2 Mérito

Absolvição sumária – art. 397 CPP – ver incisos.

Atipicidade do fato – incidência do art. 17 CP.

Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por
absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime.

Excludente de ilicitude – incidência do art. 25 CP.

DA LEGÍTIMA DEFESA (LD)

 É a repulsa a injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou de terceiro,


usando moderadamente os meios necessários. É apontada como sendo uma
das causas de exclusão da ilicitude mais remota ao longo da história da
humanidade.

Requisitos da legítima defesa

a) agressão injusta – a agressão consiste em uma atividade exclusiva do ser


humano, o qual deve agir com consciência e voluntariedade, lesando ou expondo a
perigo de lesão um bem consagrado pelo ordenamento jurídico. Deve ser injusta, ou
seja, ilícita. Ver: provocação (pode ela consistir ou não em uma agressão).

b) agressão atual ou iminente – atual no sentido de estar acontecendo e


iminente que está prestes a acontecer.

Pontos para análise:

PONTO 1 – Não há legítima defesa na conduta daquele que, em momento


posterior a injusta provocação, agride a vítima em fuga, com golpes de facão, pois age
com animus de revide e não de defesa (RT 771/671).

PONTO 2 – Demora na reação exclui a LD (RT 548/308). Não há legítima


defesa se o agente vai atrás do desafeto e o lesiona, nem se após o desarmá-lo,
passar a agredi-lo.

PONTO 3 – Jurisprudência – A agressão finda ou pretérita não justifica a


legítima defesa (RT 634/267). A vingança é indicativo de ódio e pode caracterizar uma
traição (RT 398/375).

c) agressão a direito próprio ou alheio – qualquer bem jurídico pode ser


protegido pela LD. Questão polêmica: honra no contexto de infidelidade conjugal.
Quem é o verdadeiro traidor, senão aquele que não se mostrou preparado para o
relacionamento conjugal.

ATENÇÃO!

Unânime - STF invalida legítima defesa da honra em feminicídio


https://www.migalhas.com.br/quentes/341760/unanime--stf-invalida-legitima-
defesa-da-honra-em-feminicidio

d) reação com meios necessários – meios necessários são aqueles que o


agente tem a disposição.

e) uso moderado dos meios necessários – como se trata de uma reação


humana, não pode ser medida milimetricamente. Na jurisprudência encontramos o
seguinte precedente – Há legítima defesa se, para preservar a própria vida e a da filha,
usa de punhal, repetidas vezes, até cessar o risco (RT 628/348).

f) conhecimento da situação de fato justificante – animus defendendi.

Formas de legítima defesa

 A LD pode ser própria ou de terceiro; real ou putativa; e, defensiva ou


ofensiva. Sobre a legítima defesa putativa (imaginária), cumpre anotar que esta
ocorre quando o agente acredita erroneamente que sofre uma agressão injusta,
quando na verdade esse ataque não existe.

 Em sede de LD putativa, nos termos do art. 20, § 1º, 1ª parte, CP, o fato típico
praticado permanece revestido de ilicitude, mas se o erro for escusável opera-se
a isenção da pena, excluindo-se a culpabilidade. Se o erro for inescusável, não
há isenção de pena, sendo que afasta-se o dolo, respondendo o agente por
crime culposo, se previsto em lei (art. 20, § 1º, in fine, CP).

Ponto de interesse sobre a LD – offendicula


 Conhecidas como armadilhas de defesa, as offendículas são aparatos
facilmente perceptíveis e cuja destinação é a proteção da propriedade (cacos
de vidro ou lanças colocados em cima dos muros; cerca eletrificada com
identificação e aviso; cão bravio também com identificação no imóvel; arame
farpado, etc).

 Sendo assim, o proprietário que, de modo legítimo, vale-se desses artefatos


de proteção, certamente não comete crime algum, posto que sua conduta é
lícita, autorizada pelo ordenamento jurídico (quando proporcionais, excluem a
tipicidade do fato). Todavia, a doutrina diverge quanto à causa de excludente
de ilicitude que melhor se adequa: legítima defesa ou exercício regular de um
direito?

 Segundo Damásio de Jesus (Direito Penal. V 1. São Paulo: Saraiva, 2005, p.


397), quando as offendículas são instaladas, tem-se o exercício regular de um
direito; porém, uma vez acionadas, configura-se a legítima defesa.

 Quando o indivíduo for atacado por um cachorro e o ataque for espontâneo e


para salvar sua vida ou a de terceiros, o indivíduo mata o animal, estará
acobertado pelo estado de necessidade. Contudo, se o ataque for orquestrado pela
ação humana e o agente vier a matar o animal, estará acobertado pelo instituto da
legítima defesa, pois esta é aplicada apenas á agressão que advém da ação
humana. Nela, o cachorro é um mero instrumento da ação humana, assim como
uma arma branca ou uma arma de fogo.