SUMÁRIO: Introdução; 1. Considerações gerais sobre o tema; 1.1. Conceito, princípios e atributos da jurisdição; 2. Direito Processual Constitucional; 3.

Instrumentos e medidas judiciais de busca da inclusão social pela jurisdição; 3.1. Devido processo legal; 3.2. Razoabilidade na duração do processo; 3.3. Repúdio ao formalismo exacerbado; 3.4. Assistência jurídica gratuita; 3.5. Tutelas de urgência: cautelar e antecipada; 3.6. Tutelas específicas: inibitória, reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica; 3.7. Tutela de interesses transindividuais; 3.8. Casos de inversão do ônus da prova; 3.9. Juizado Especial Cível; 3.10. Estímulo à conciliação e transação; 4. Conclusão; 5. Bibliografia. RESUMO: Este presente trabalho objetiva a análise da jurisdição como um fator de inclusão social. A partir de uma exposição singela sobre as facetas atuais da jurisdição, tecem-se considerações sobre o direito processual à luz da Constituição, cotejando-se as regras existentes com os princípios veiculados pela Lei Maior. Em seguida, passa-se à análise dos instrumentos capazes de refletir a almejada inclusão, para concluir que muito foi feito, mas falta ainda muito a fazer para que se garanta, de forma efetiva, a desejada inclusão. ABSTRACT: This present work aims to analyses jurisdiction as a factor of social inclusion. Starting from a simple exposition about jurisdiction nowadays facets, considerations are made concerning procedural law at the light of Constitution, in comparison with rules and principles existent on the Constitution. Following, it analyses instruments capable of reflecting desired inclusion, to conclude that much has been done, but there is still a lot to do to guarantee, in an effective way, desired inclusion. PALAVRAS-CHAVE: jurisdição. inclusão. social. Constituição.

INTRODUÇÃO
A Constituição da República de 1988, em atenção ao postulado da dignidade humana, proclamou uma série de direitos fundamentais. Dentre estes, situam-se os direitos individuais e coletivos, previstos no artigo 5º, da Lei Maior. Neste rol, destacase, no presente trabalho, o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional, previsto no inciso XXXV, de mencionado dispositivo. Dele pode ser extraída a fundamentação necessária para que a jurisdição se revista de viés democrático e conteúdo ético-jurídico, viabilizando-se, pois, a verdadeira inclusão.

1. JURISDIÇÃO: CONSIDERAÇÕES GERAIS
Ubi societas, ibi jus. Já é conhecido o adágio romano. Basta, pois, haver agrupamento de indivíduos, por mais rudimentar que seja, para que seja imperioso se cogitar de regras de condutas e seu cumprimento. A imposição de regras a certa sociedade não basta para que nela não existam conflitos de interesses, pois, hodiernamente, a quantidade de seres suplanta o número de bens e interesses. É, pois, necessário que haja mecanismos suficientes para assegurar a autoridade das normas impostas.

Em um primeiro momento, as divergências havidas eram resolvidas pelas próprias partes do conflito. É que se denomina de autotutela. Prevalecia, pois, a vontade do mais forte, ocorrendo, pois, a prevalência do império da força sobre o império das leis. A autotutela foi cedendo à medida que houve o fortalecimento dos Estados. Estes passaram, pois, a assumir o dever-poder de solucionar os conflitos surgidos entre seus membros. Conforme ensina Cesar Asfor Rocha (2007, p. 34): O aumento das populações, mesmo nos grupos sociais primitivos, foi impondo, gradativamente, a necessidade de que esses conflitos inter-individuais, naturais da convivência social, passassem a ser regulados ou resolvidos por meio de atividade estranha aos próprios esforços pessoais dos litigantes. No momento, porém, em que surgem as necessidades de julgamentos externos às vontades das partes, vencidas as etapas da autotutela e da autocomposição, vê-se o simultâneo aparecimento de estruturas formais de poder, implicando, como é natural, a organização de mecanismos também formais para pô-las em funcionamento e, ao mesmo tempo, de estilos peculiares de conduta, inclusive de linguagem, para realizar o acesso O poder, pois, de administrar os interesses coletivos, elaborar as normas estatais de conduta e aplicá-las concentra-se no Estado. Este fato remonta sua origem ao absolutismo, notadamente pela concentração dos poderes nas mãos do governante, do monarca, do príncipe. Nesse sentido, Paulo Bonavides escreve (2007, p. 33): ...foi a soberania, por sem dúvida, o grande princípio que inaugurou o Estado Moderno, impossível de constituir-se se lhe falecesse a sólida doutrina de um poder inabalável e inexpugnável, teorizado e concretizado na qualidade superlativa de autoridade central, unitária, monopolizadora de coerção Desse modo, todas as parcelas de vontades individuais deveriam se submeter à vontade estatal, a qual advinha de uma só pessoa ou grupo de pessoas (conselho), que determinavam todos os caminhos da coletividade. Após a derrocada do Estado Absoluto houve a ascensão do Estado Liberal, que teve como uma de suas determinantes a revolução burguesa havida na Europa feudal. Dentre suas idéias básicas já estava a ideologia da separação dos poderes. Houve grande fortalecimento da atividade legislativa, sendo que os julgadores deveriam se limitar a aplicar as leis, não havendo espaço para qualquer espécie de interpretação dessas normas. Na conhecida expressão de Montesquieu, os juízes deveriam ser apenas a boca da lei, privilegiando-se, pois, a escola da exegese, segundo a qual a totalidade do direito positivo se identifica por completo com a lei escrita; com isso a ciência jurídica se apegou à tese de que a função específica do jurista era ater-se com rigor absoluto ao texto legal e revelar seu sentido (Diniz: 2000, p. 50). Esse pensamento foi de inegável importância à época de seu surgimento, pois as pessoas sujeitas à norma poderiam ter a segurança da existência e extensão de seus direitos e deveres.

No entanto, apesar de sua grande pujança quando de seu surgimento, a escola da exegese sucumbiu às críticas que lhe eram direcionadas. Era inegável que qualquer norma, por mais unívoca que aparentasse ser, estava sujeita à interpretação. Ademais, patente a necessidade de a interpretação a elas conferida dar o "colorido" necessário e exigido pelo avanço social. Assim, várias correntes se contrapuseram à escola da exegese. Dentre as quais, podem ser destacadas (Diniz, 2000, p. 61-69): a corrente utilitarista de Jeremy Bentham (interpretação das leis a partir dos efeitos reais por ela produzidos quando aplicadas), o teleologismo de Rudolf von Ihering (interpretação das leis deve pressupor o conhecimento efetivo do povo e da época, pois sua finalidade é a própria existência da sociedade), a experiência prática de Oliver Wendell Holmes (a interpretação não é mera atividade silogística, mas resulta da experiência e necessidades de cada época, as teorias morais e políticas predominantes e intuições que inspiraram a ação política), a escola do direito livre de Eugen Ehrlich (o direito livre não é o direito estatal, contido nas leis, mas aquele que está constituído pelas convicções predominantes que regulam o comportamento, em um certo lugar e tempo, sobre aquilo que é justo) e a jurisprudência de interesses de Max Rümelin, entre outros (a função judicial é também a de ajustar os interesses, como o legislador o faria se tivesse de legislar sobre aquele caso). A aplicação estrita da lei, sem a pretensão de interpretá-la, sucumbiu fortemente com a promulgação de Constituições Democráticas (Rocha, 2007, p. 38), que passaram a exigir que normas fossem interpretadas a partir de seus regramentos, principalmente de cunho principiológico. Conforme Owen Fiss (2004, p. 36), a função do juiz é conferir significado concreto e aplicação aos valores constitucionais. Desse modo, longe de ser mera carta de intenções, as Constituições Democráticas veiculam preceitos de ordem pública, de índole cogente, de observância obrigatória em todo o proceder estatal. Nesse sentido, adveio a Constituição da República de 1988, cujos princípios devem irradiar-se para todo o direito pátrio. E, notadamente, em se tratando de processo e jurisdição, para que se garanta sua finalidade última, a saber, a pacificação social, na esteira do que já sustentou Gelson Amaro de Souza (2007, p. 26): É o processo o instrumento de pacificação social, através do qual o Estado visa solucionar os conflitos de interesse e difere da relação de direito material, com a qual por muitos séculos foi confundido. O processo não existe isoladamente, e a sua razão de ser está nos conflitos sociais e na conseqüente necessidade de solucioná-los na busca da pacificação social 1.1. JURISDIÇÃO: CONCEITO E PRINCÍPIOS De acordo com Fredie Didier Jr. (2007, p. 65), a jurisdição pode ser conceituada como a realização do direito em uma situação concreta, por meio de terceiro imparcial, de modo criativo e autoritativo.

que aplicará o direito posto a uma situação concreta que lhe é submetida. eles devem buscar a cooperação dos outros magistrados.. 50): . Trata-se do fenômeno denominado constitucionalismo. 45): ‘A) investidura: só exerce jurisdição quem ocupa o cargo de juiz. não podendo haver delegação de competências. escreve (2007. observa que (2007. Entretanto. bem assim com os direitos fundamentais De costume. b) aderência ao território: os juízes só têm autoridade dentro do território nacional. Esta nada mais é que a medida territorial da jurisdição. Mesmo que não haja lei que se possa aplicar. expõe Marcus Vinicius Rios Gonçalves (2004. a fim de iluminar todos os outros ramos do Direito. que se diferencia das demais normas jurídicas (leis. a um determinado caso concreto. 65): Diz-se que a decisão judicial é um ato jurídico que contém uma norma jurídica individualizada. na norma geral e abstrata. respeitados os limites da sua competência. A ausência de investidura implica óbice instransponível para o exercício da jurisdição. XXXV). p. fora dos limites territoriais de sua competência. É por essa razão que. Por todos. 2. a partir de preceitos mais ou menos abstratos e de alta carga axiológica. por exemplo) em razão da possibilidade de tornar-se indiscutível pela coisa julgada material. de forma específica. cumprindo-lhe compreender as particularidades do caso concreto e encontrar. Em virtude do chamado póspositivismo que caracteriza o atual Estado constitucional. aderência ao território. como será abordado abaixo. d) inafastabilidade: a lei não pode excluir da apreciação do Poder Judiciário nenhuma lesão ou ameaça a direito (CF. o juiz não se escusa de julgar invocando lacuna Feitas essas considerações. Para a formulação dessa norma individualizada. pois. que é pressuposto processual da própria existência do processo. 5º. p. Fredie Didier Jr. uma solução que esteja em conformidade com as disposições e princípios constitucionais. de forma bastante didática. art. Estefânia Maria de Queiroz Barbosa. exige-se do juiz uma postura muito mais ativa. indelegabilidade e inafastabilidade. conferindo-lhes legitimidade.Tradicionalmente. com a expedição de cartas precatórias. pura e simplesmente. pode-se dizer que o Direito Constitucional figura no centro de todo o ordenamento jurídico. não basta que o juiz promova. passa-se a tecer certas considerações acerca da influência determinante dos preceitos constitucionais sobre o direito processual. trata-se. típica do Poder Judiciário. quatro princípios próprios à jurisdição são sempre destacados pela doutrina: investidura. c) indelegabilidade: a função jurisdicional só pode ser exercida pelo Poder Judiciário. de uma das funções do Estado. ou simplesmente norma individual. em virtude do atual Estado Constitucional Brasileiro. p. em trabalho publicado acerca da jurisdição constitucional. sob pena de ofensa ao princípio constitucional do juiz natural. com propriedade. contudo. definida pelo Poder Judiciário. DIREITO PROCESSUAL CONSTITUCIONAL No sentido do que acima foi exposto. a aplicação da norma geral e abstrata ao caso concreto.

O constitucionalismo tem. surgiu em um ambiente impregnado por idéias chamadas pós-positivistas. com base na chamada "força normativa da constituição" e desenvolvimento de novos métodos de interpretação constitucional. devem ter arrimo na Constituição . determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível Nessa perspectiva. deve se fazer exatamente aquilo que ela exige. pois. 343). devem ser satisfeitos na maior medida possível. E quem está incumbido de proteger estes valores é o Poder Judiciário. deve haver grande esforço para a máxima aplicação das regras e princípios constitucionais. Já as regras são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas. conforme salienta Luís Roberto Barroso. por conseguinte. Princípios. nem mais. Regras contêm. deve brilhar. não havendo espaço para possíveis conflitos entre elas. em atenção ao princípio da unidade. O âmbito das possibilidades jurídicas é determinado pelos princípios e regras colidentes. estão na verdade. ou no ápice. p. Saliente-se que toda a ciência processual gira em torno de quatro institutos básicos: jurisdição. Regras constitucionais devem ser sempre satisfeitas. por sua vez. por sua vez. p. nem menos. defesa e processo. Leciona Robert Alexy o seguinte (2008. conforme determinação do próprio poder constituinte Dito isto. quando os direitos fundamentais impõem limites materiais aos atos de governo. ação. ainda. a busca da efetividade das normas constitucionais. e não interferir na realidade prática. pois. Novo Direito Constitucional. visando. 90-91): Princípios são. Dele origina-se. por não haver possibilidade fática. pois. os direitos fundamentais que. institutos e categorias do Direito Processual. portanto. como queiram alguns. como pedra angular. ainda. o chamado neoprocessualismo.ascensão de valores. com a sistematização de novos princípios a esta interpretação inerentes (2008. Se uma regra vale. mormente quando se tratar de comandos veiculadores de direitos fundamentais. Todos eles. (2008. Nesse diapasão. Tem-se que o neoprocessualismo é o estudo do Direito Processual com supedâneo no neoconstitucionalismo.. então. mas também das possibilidades jurídicas. a proteger o povo como um todo e não apenas maiorias eventuais.. representam os valores substantivos escolhidos pela sociedade no momento constituinte – de máxima manifestação da soberania popular – que garantem o funcionamento da democracia. o reconhecimento da normatividade dos princípios e a essencialidade dos direitos fundamentais". O neoconstitucionalismo. na imposição de ditames constitucionais. pois existe a possibilidade de colidirem ou. ou. assim entendidas como aquelas destinadas a reconhecer a ". que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não depende somente das possibilidades fáticas. Trata-se de fenômeno fruto de duas mudanças básicas de paradigma. Se é luz. mandamentos de otimização. salienta-se que não basta a Constituição figurar no centro do ordenamento jurídico. p. É uma releitura dos princípios. surge o pensamento denominado neoconstitucionalismo. isto é. 342).

Esse modo de ver o processo. Compreende. atribuindo-se definitividade à decisão. A qualidade do serviço jurisdicional é marcada. deve ser interpretado em sua máxima efetividade. a doutrina moderna abandonou a idéia de que o direito de acesso à justiça. A jurisdição. Nessa esteira. É mais que isto. ainda. (b) jurídica (tecnicamente fundamentada e consistente). Por essas razões. se um dia foi importante para a concepção de um direito de ação independente do direito material. importa esclarecer que nossa Lei Maior. 8) a resposta judiciária de qualidade deve ser: (a) justa (equânime e plausível). (c) tempestiva (vedação à excessiva duração do processo – art. (2007. (d) razoavelmente previsível (a jurisprudência dominante e suas súmulas vinculantes. é pela atividade jurisdicional que o Poder Judiciário soluciona conflitos de interesses que lhe são submetidos. em maioria. no inciso LXXVIII. não se coaduna com as novas preocupações que estão nos estudos dos processualistas ligados ao tema da "efetividade do processo". direito a uma sentença de mérito. o qual. CF). recentemente acrescido pela Emenda Constitucional n. . o acesso à justiça ao patamar de direito fundamental. Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart escrevem (2006. INSTRUMENTOS E MEDIDAS JUDICIAIS DE BUSCA DA INCLUSÃO SOCIAL PELA JURISDIÇÃO Como já foi visto. 3. Por outro giro. p. do mesmo artigo. No inciso LIV consta a exigência de observância ao devido processo legal. de conteúdo e função mistificadores.da República. o direito à tutela efetiva dos direitos. de modo que seus princípios básicos. 45/2004. Cumpre destacar. Trata-se do princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional: "A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de lesão a direito". houve a consagração explícita do princípio da razoável duração do processo. sobretudo. trouxe no rol de seu artigo 5º alguns direitos e garantias que se aplicam diretamente ao processo. 32): A importância que se dá ao direito de acesso à justiça decorre do fato de que a ausência de tutela jurisdicional efetiva implica a transformação dos direitos garantidos constitucionalmente em meras declarações políticas. Conforme salienta Rodolfo de Camargo Mancuso. significa apenas direito à sentença de mérito. dependendo da forma como for prestada. Ele não deve ser confundido como mero acesso ao Poder Judiciário ou. LXXVIII. o mandamento trazido pelo inciso XXXV. 5º. pois. bem por isso. pela medida de sua efetividade. ou direito de ação. Dito isto. p. nessa ordem. persuasivas e impeditivas de recurso). sobretudo. decorrem das garantias fundamentais. pode ser fator de exclusão social ou de inclusão. que traz em si a superação da ilusão de que este poderia ser estudado de maneira neutra e distante da realidade social e do direito material . Erige.

É o viés procedimental do princípio em pauta. Deve franquear. para que as mais variadas oportunidades apareçam também a essas camadas. mormente quando se tratar de direitos fundamentais. pois. às minorias e aos sujeitos em condições especiais. procura-se elencar alguns deles. são indispensáveis ao correto exercício da jurisdição. direcionando-se diante de tal ou qual situação da forma mais efetiva possível. Isto se dá. Passa-se. visar à inclusão. antes de mais nada. deve zelar pelo cumprimento desses preceitos. de um lado. justamente. a salvaguarda do próprio processo. devido à natureza desse trabalho. na medida do possível. aos mais necessitados. Antônio Carlos de Araújo Cintra. Devido processo legal Trata-se de garantia constitucional de que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal (art. Reconhece-se. A atividade jurisdicional deve. do outro. Grinover e Cândido Rangel Dinamarco afirmaram que se trata do (2006. ao lado do "substantial due process". objetivamente considerado. meios especiais de acesso à justiça. a tratar de assuntos pontuais que. pois. pelo combate à exclusão social. que existem muitos outros institutos processuais vocacionados a esse objetivo. O Poder Judiciário. quanto administrativos. como fator legitimante do exercício da jurisdição . na exata medida em que se desigualam.1. 5º. com o fito de tutelar os direito de forma efetiva. refutando todas as condutas contrárias adotadas pelo Executivo e Legislativo. Sobre ele. quando obedecer às exigências de nosso Estado Democrático de Direito. 88): Conjunto de garantias constitucionais que. mas que configuram. tanto em processos judiciais. já defendida por Rui Barbosa: igualdade de tratamento aos iguais e tratamento desigual aos desiguais. LIV). como direitos públicos subjetivos (ou poderes e faculdades processuais) destas. porém. pois. é imprescindível a existência de seqüência de atos tendentes a esse mister. Desse modo. a atividade jurisdicional será fator de inegável inclusão social. p. entende-se. para que haja cerceamento de liberdade ou restrição aos bens. Por outro giro. No entanto. Ada P.Será fator de exclusão quando não observar as peculiaridades e vicissitudes do caso que se lhe apresenta. a seguir. 3. "iluminados" pelos corolários do contraditório e ampla defesa. asseguram às partes o exercício de suas faculdades e poderes processuais e. mediante o afastamento de óbices indevidos de acesso à justiça. Garantias que não servem apenas aos interesses das partes. de modo a assegurar a ordem jurídica justa. Somente assim haverá o cumprimento da igualdade material ou ontológica. foram erigidos para que houvesse a concretização de menciona inclusão. cuja marca é a observância da razoabilidade para os atos normativos em geral. fazendo ligeiras observações a cada tema.

de 06/11/1992. Por outro turno. regendo que o processo deve ser acessível a todos. 1. está o princípio econômico. liminares. é de rigor a observância a certos requisitos de forma. Desse modo. ensinam que (2006. XXXVII e LIII). Por outro giro. incs. 89): O conteúdo da fórmula vem a seguir desdobrado em um rico leque de garantias específicas. . uma duração não razoável é.2. por força do art. e b) ainda em uma série de garantias. Ademais. a EC 45/2004. Desse modo. quando devem estar presentes e extrínsecos. notadamente os pressupostos processuais e as condições da ação. 3. na dúplice garantia do juiz natural. uma vez que já se tratava de garantia de observância obrigatória. os pressupostos processuais extrínsecos de validade são: presença de juiz imparcial e competente. no custo e duração. quando devem estar ausentes. pois o fator tempo colabora. 5º. acrescentou o inciso LXXVIII ao artigo 5º. inegavelmente.3. Nessa esteira. sobre o desdobramento desse princípio. mas de acesso à ordem jurídica justa. em geral). além do maior custo que geram às partes e a todo o aparato Judiciário. a saber: a) antes de mais nada. qualquer punição ou restrição patrimonial sem que haja o respeito ao devido processo legal é arbitrária e ilegítima. por mais que satisfaçam a crise de certeza do direito. Há quem sustente a dispensabilidade dessa previsão. inegavelmente. 3. capacidade postulatória. mormente se levada em consideração. tratase de corolário do princípio do acesso à Justiça. não mais restrito à proibição de bills of attainder e juízos ou tribunais de exceção. garantindo a todos a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. que passou a viger no Direito Brasileiro a partir do Dec. p. para a definição dessa razoabilidade. Os pressupostos processuais intrínsecos podem ser de existência e de validade. implicando verdadeira exclusão social pela via do processo. Repúdio ao formalismo exacerbado Para o regular processamento de feitos. 678. pois processos que se propalam excessivamente no tempo.E ainda. 8º. concebido não simplesmente no direito de demandar. habeas corpus) e a qualidade dos sujeitos envolvidos (menores que pleiteiam pensão alimentícia e demandas de pessoas idosas. capacidade processual. fator de exclusão social. mas abrangendo a dimensão do juiz competente (art. não merecendo subsistir. da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica). da Constituição da República. ou até mesmo novas para o ordenamento constitucional. Os pressupostos processuais são intrínsecos. estendidas agora expressamente ao processo civil. a duração razoável do processo enseja a inclusão social. a natureza do procedimento (mandados de segurança. Razoabilidade na duração do processo Dentre os princípios deontológicos do processo. dificilmente conseguirão por termo à crise de satisfatividade. citação e demanda. do qual o Brasil é signatário. Pressupostos processuais intrínsecos de existência são: jurisdição. para que as pessoas deixem de receber exatamente aquilo que receberiam se o devedor tivesse cumprido espontaneamente a obrigação.

2004. sem resolução de mérito. que se o ato processual praticado for irregular. 100. para alguns. II) e o foro do domicílio do devedor. nos termos do artigo 267. em princípio. que o magistrado os afaste no caso concreto. Nelson e NERY. sejam decididas por magistrado. nada impede que o juiz da vara vizinha determine sua expedição. adotada por nosso Código de Processo Civil (NERY JR. em virtude da urgência. Rosa Maria de Andrade: 2007. CPC. pois sua finalidade é reduzir desníveis. Diante da inexistência de pressupostos intrínsecos e condições da ação ou. nada impedindo. a nulidade – absoluta ou relativa – não deve ser decretada. mas. Estes casos e outros encontram respaldo constitucional. incisos IV. Pressupostos processuais extrínsecos são: coisa julgada. ao determinar a competência do foro da residência da mulher. p. I).citação válida e petição inicial apta a produzir efeitos. Porém. p. Calha salientar. Nesse diapasão. (GONÇALVES. com supedâneo no artigo 244. 25): . Se o juiz da vara na qual tramita o processo não se encontra no recinto do Fórum. p. Trata-se da aplicação do princípio da instrumentalidade das formas. condicionam a própria existência do direito de ação. para a ação de separação dos cônjuges e a conversão desta em divórcio. o interesse de agir e a legitimidade de partes. Há exceções previstas no próprio CPC. Assim. conforme teoria eclética de Liebman. salienta Cândido Rangel Dinamarco (2005. assim. posteriormente. Assim. para a ação em que se pedem alimentos (inc. para o resguardo do direito material. 105-108). ele tiver atingido sua finalidade. o art. do Código de Processo Civil. em face da urgência da medida. pois. III). para a expedição de um alvará de soltura. 167). para a ação de anulação de títulos extraviados ou destruídos (inc. As condições da ação perfazem a possibilidade jurídica do pedido. contraria a regra geral de competência do art. ainda. litispendência. com a finalidade de evitar que a regra geral possa ocasionar dificuldades de acesso à justiça ao presumivelmente mais "fraco" na relação jurídica processual. em se tratando de condições da ação. e para a anulação de casamento (inc. Trata-se. 94 ("domicílio do réu"). Marcus Vinicius. Por exemplo. deve o feito ser extinto. Por vezes. de requisitos indispensáveis à existência e desenvolvimento válido e regular do processo ou. nenhuma formalidade pode ser considerada um fim em si mesmo. V e VI. verificando-se a presença de pressupostos extrínsecos. é imperioso que certas questões. importa esclarecer que formalidade difere de formalismo exacerbado. do CPC. de todo o modo. quando houver necessidade. incompetente. perempção e. todavia. compromisso arbitral. Máxime quando se trata de questões que podem ser confirmadas ou afastadas. por exemplo. o foro do domicílio ou residência do alimentando. pelo juiz competente.

por sua vez. Por vezes. pois viabilizam a adequada tutela do direito material (no caso de tutela antecipada) ou o resguardo da efetividade do processo correlato (no caso de tutela cautelar). Por esta razão. A tutela cautelar busca proteger a efetividade do processo correlato. mas de forma antecipada. também. reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica De nada adianta possuir uma Constituição de vanguarda e uma legislação. alteração legislativa inseriu o parágrafo 7º ao art. Mas não se confundem. 273 pretendeu somente viabilizar a concessão. os direitos ali previstos. uma vez que seu objetivo é evitar maiores dúvidas quanto ao cabimento da tutela urgente (evidentemente de natureza nebulosa) no processo de conhecimento Feitas essas observações. por terem como marca característica o fator tempo como aniquilador do direito que procuram resguardar. fatores de inclusão social. político. no Código de Defesa do Consumidor e no Código de Defesa da Criança e do Adolescente (medidas destinadas à efetividade do processo) (. 273. não existindo erro grosseiro do requerente. 3. havendo dúvida fundada e razoável quanto à natureza da tutela. dando efetividade aos seus princípios formativos (lógico. aceitando-se a possibilidade de requerimento de tutela cautelar no processo de conhecimento. em outras palavras. ao contrário da tutela cautelar. 231): Esse parágrafo. Tutelas específicas: inibitória. de modo geral. econômico). cautelar e antecipada. exemplar. tem-se que ambas as tutelas. frisa a diferença entre ambas. é uma tendência universal. CPC. Com relação a ele. jurídico. ao aceitar a possibilidade de confusão entre as tutelas cautelar e antecipatória. da tutela cautelar que foi chamada de antecipatória. no bojo do processo de conhecimento. aplica-se a idéia de fungibilidade. nas preocupações do legislador brasileiro da atualidade.. ou. conseqüentemente. de modo bastante visível. p. 7º do art. de forma efetiva.5. concede à parte exatamente aquilo que pede. Em um primeira interpretação poderia ser dito que o par. Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart sustentam (2006. Realiza. Entretanto.4. são importantes instrumentos à efetividade da jurisdição e. na Lei da Ação Civil Pública. Tem cunho notadamente instrumental e o escopo de viabilizar o implemento futuro do direito que se busca. dito "principal". hoje 3. consagrando o "princípio da fungibilidade" entre ambas as tutelas. é correto admitir a concessão de tutela de natureza antecipatória ainda que ela tenha sido postulada com o nome de cautelar. Nesse caso. o direito material afirmado pelo autor. A tutela antecipada. . Ela satisfaz o direito acautelado. Tutelas de urgência: cautelar e antecipada Tutela cautelar e tutela antecipada são espécies do gênero tutela de urgência.) Aprimorar o serviço jurisdicional prestado através do processo. como se vê na Lei dos Juizados Especiais. Isto por uma razão de lógica básica: somente coisas distintas podem ser confundidas.. se o ordenamento jurídico não tutela. não é muito fácil distingui-las.A visão instrumental que está no espírito do processualista moderno transparece.

Destinada a impedir. de forma direta e principal. Seu objetivo é "impedir. 1º. as normas definidoras dos direitos fundamentais têm aplicação imediata. aplicáveis de ofício. a violação de um direito. Nesse sentido. ainda. A tutela inibitória é de cunho preventivo. existem três modalidades de tutela específica: a tutela inibitória. 586): Tutela inibitória. tutela antecipada e tutela inibitória).. pois atua justamente para impedir que ocorra violação a direitos. não forem protegidos. é preventiva e tem eficácia mandamental. do Código Civil. III. no princípio da primazia da tutela específica (DIDIER et al: 2007. A tutela genérica. por exemplo. ou. positiva (obrigação de fazer) ou negativa (obrigação de não fazer). para que haja observância ao sobreprincípio da dignidade da pessoa humana. Fala-se. 5º. da CF). p. devem ser tutelados de forma específica. inc. Ação inibitória. enunciadas no art. escrevem Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery (2006. o que ocorre nos casos de impossibilidade fática dessa situação (danos provenientes de ato ilícito exaurido) ou total desinteresse da vítima quanto a seu cumprimento. para a tutela das obrigações de entrega de coisa (CPC 461-A). 310). ocasionada pela prática de certo ato ilícito. pois. pois seus efeitos são de execução lato sensu (Nery. O objetivo da . é imprescindível valer-se da tutela específica. O artigo 12.3. pois. p. Para o restabelecimento das partes à situação anterior àquela do dano ou ilícito. mormente os chamados novos direitos. 29/30). de forma imediata e definitiva. da Constituição. Prefácio ao livro de Spadoni. p. É forma de tutela preventiva (tutela cautelar. A sentença inibitória prescinde de posterior e seqüencial processo de execução para ser efetiva no mundo fático. 1. É providência judicial que veda. constitui verdadeira cláusula geral de tutela aos direitos da personalidade. Consoante parcela considerável da doutrina. a violação do próprio direito material da parte. parágrafo 1º. Sobre ela. por vezes. denominada "pelo equivalente em pecúnia" era aquela própria do Estado Liberal burguês. PP. Em nosso Estado Democrático de Direito. da Constituição. efetivamente. n.2. como ocorre nos casos de inadimplemento absoluto da obrigação. 6º. dentre os quais se enquadra. Por expressa disposição do art. 9). constantes do art. Principalmente os direitos sociais. a tutela reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica. Ação inibitória. a proteção específica de certos direitos peculiares. a prática de ato contrário aos deveres estabelecidos pela ordem jurídica. Aliás. a condenação daquele que causou um dano pague certa importância em dinheiro não causa lenitivo à dor. o direito da personalidade. devendo ser interpretada como resultado extensivo". o Enunciado 140 do Conselho da Justiça Federal: "A primeira parte do art. 12 do Código Civil refere-se a técnicas de tutela específica. relegando-se a tutela pelo equivalente em pecúnia para segundo plano. pois. com ela não se confundindo. É imperiosa.Nem sempre o ressarcimento dos danos materiais ou a reparação do dano moral em pecúnia ensejarão a justiça do caso concreto. de nada adianta que tenham exigibilidade desde 05 de outubro de 1988 se eles. 461 do Código de Processo Civil. de forma definitiva. em sua máxima expressão possível. um dos fundamentos de nossa República Federativa (art. ou ainda sua continuação ou repetição" (Spadoni. a ação inibitória. Se assim o é. ela sucumbe diante dos preceitos constitucionais.

aumentando a remuneração paga aos advogados particulares por serviços jurídicos prestados aos . n. a tutela reintegratória.. Os últimos autores acima citados fornecem um bom exemplo (2007. que se volta ao futuro). 41) Por outro lado. pois visa a impedir que ele continue. inclusive. Em outubro de 1972. para restabelecer a situação anterior.). Didier. pois. especialmente na área de aconselhamento jurídico. Tut. Entende-se como ressarcimento na forma específica tanto a reparação in natura como a reparação através de um meio nãopecuniário Entende-se. que o empregador seja compelido a custear e entregar-lhe uma prótese. Inibitória. da prática de atos lícitos. acima explanada. diferentemente da inibitória. 316): Um bom exemplo de tutela ressarcitória específica é o caso em que um empregado que tenha sido vítima de um acidente de trabalho que leva à amputação de um de seus membros inferiores pode. existe a tutela ressarcitória específica. a tutela reintegratória visa impedir que o ilícito continue.6. como forma de reparação específica. baseado em serviço gratuito prestado pelos advogados. por um enfoque moderno de "securité sociale". apagá-lo.5. a Lei de Aconselhamento e Assistência Judiciária da Inglaterra aumentou grandemente o alcance do sistema implantado em 1949. com o Office of Economic Opportunity (OEO) e continuou através do mundo no início da década de 70. a França substituiu seu esquema de assistência judiciária do século dezenove. pois. Mauro Cappelletti e Bryant Garth escrevem (2002. que as tutelas específicas são verdadeiras formas de inclusão social. também chamada de remoção do ilícito. no qual o custo dos honorários é suportado pelo Estado. mas não exaurido. o novo e inovador programa da Suécia tornou-se lei. Em janeiro de 1972. pouco importa o dano. a República Federal da Alemanha aperfeiçoou seu sistema. O que se questiona é a existência de dano e a viabilidade de seu desaparecimento. prossiga ou se repita (Marinoni. Ela se volta contra o dano já causado. sem elas. p. eliminando-o.. 3. e a Província Canadense de Quebeque estabeleceu seu primeiro programa de assistência judiciária financiado pelo governo. ela visa a removê-lo. 314-315): A tutela reintegratória volta-se contra o ilícito já praticado (olha para o passado. Enquanto a tutela inibitória visa impedir que o ilícito seja praticado. em proporcionar serviços jurídicos para os pobres (. tem cunho repressivo. Pouco importa a culpa. p. como pretende a nova hermenêutica constitucional. 3. pois é cediço que o dano pode decorrer. Pouco importa a existência de ilícito. Dois meses mais tarde. pois atua após o ilícito ter sido praticado e consumado. p. é impensável o cumprimento devido do pretendido acesso à justiça. Assistência jurídica gratuita Trata-se da primeira onda tendente a solucionar o problema de acesso à justiça. A reforma começou em 1965 nos Estados Unidos.inibitória é evitar que o ilícito corra. muito adequadamente. Rafael Oliveira e Paula Braga lecionam (2007. p. fazê-lo desaparecer Por final. 31 e 33-34): Os primeiros esforços importantes para incrementar o acesso à justiça nos países ocidentais concentraram-se. Em maio de 1972.

Outra questão interessante é o fato de a Constituição ter determinado a gratuidade jurídica àqueles que comprovarem insuficiência de recursos. Por exemplo. grandemente melhorados Como se percebe. Esse preceito constitucional. os quais não serão facilmente obtidos se aquele estado. Ocorre que nossa Constituição da República. mas que se relacionem. por simples afirmação de que não está em condições de pagar as custas do processo e os honorários de advogado. já agora dissolvido. destarte. Também durante esse período. tratou-se de onda que abrangeu quase todo o mundo ocidental. 273). exclusivamente. Houve várias reformas na Austrália. assinala-se que não se pode cogitar. entrou em vigor a Lei n. a obtenção de um documento qualquer relativo à lide. o magistrado. salvo quando as vicissitudes do caso apontarem para sua inexistência. não há que se exigir que a parte comprove o fato de não poder arcar com as custas e despesas processuais. A primeira é que substituiu a expressão assistência judiciária por assistência jurídica. de fato. pois. pois. foi estabelecida nos Estados Unidos a longamente esperada Legal Services Corporation – um esforço para preservar e ampliar os progressos do OEO. por exemplo.pobres. Entre outras disposições. aos três últimos exercícios financeiros. simplesmente. que era semelhante ao esquema francês anterior a 1972. é de bom alvitre que o requerente junte as declarações de seu imposto de renda referentes. . para tanto. em mero juízo de possibilidade para deferi-lo (DIDIER Jr. baseando-se. a interpretação que faço é a seguinte: em princípio. Quando isto ocorrer. Nos exatos termos do dispositivo legal em tela. Em nosso País.060/50 que dispensava essa comprovação. Ressalvados entendimentos contrários. pois nem sempre é fácil de fazer prova desse estado de hipossuficiência. Os sistemas de assistência judiciária da maior parte do mundo moderno foram.: 2007. ao arrepio do preceituado pelo art. Em outras palavras. Desse modo. de modo a remunerar os advogados mais adequadamente. o que fornece conotação muito mais ampla. tanto a Áustria quanto a Holanda reviram seus programas de assistência judiciária.060. inc. em seu artigo 5º. 4º. for necessária a juntada de documentos. pois deixa de se referir. à gratuidade para os atos de índole eminentemente processual. p. pela lei em pauta. não há necessidade de demonstração do estado de pobreza. LXXIV. de revogação do dispositivo mencionado pelo Texto Constitucional. E em julho de 1974. 1. estatui em seu artigo 4º que os benefícios da assistência judiciária gratuita serão devidos àqueles que. aparentemente. existir. 1. para abarcar também atos extrajudiciais. de algum modo. de questão atinente à cognição judicial vertical superficial. da Lei n. determinou a prestação jurídica gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. sem prejuízo próprio ou de sua família. Isto significaria um verdadeiro retrocesso. principalmente quando. trata-se. e a Itália quase chegou a mudar seu sistema anacrônico. trouxe duas inovações. em 05 de fevereiro de 1950. com o processo.

valendo-se de critérios objetivos. importa salientar que. Entretanto. 707): (. com o rompimento de certos conceitos . 49). e Rosa Maria de Andrade Nery escrevem (2007.347/85. pode entender que a natureza da ação movida pelo interessado demonstra que ele possui porte econômico para suportar as despesas do processo. As ações coletivas são demandas tendentes à proteção de interesses transindividuais. livremente. Bem por isso. do Código de Processo Civil. 1428): O juiz da causa. bem como a Lei n. possuindo espectro coletivo. Tutela de interesses transindividuais Trata-se da segunda onda de acesso à justiça (CAPPELLETTI e GARTH: 2002. Neste caso. Trata-se da Defensoria Pública que. a compreensão da nova categoria de direitos chamada "direitos transindividuais" ou. a chamada "Lei de Ação Civil Pública". o processo civil apresenta certos dogmas. Trata-se de interesses que suplantam a mera proteção individual. É o que se extrai da redação da primeira parte do artigo 472. a regra de que somente há coisa julgada entre aqueles que fizeram parte da relação jurídica processual (princípio da relatividade). pela circunstância concreta. fazer juízo de valor acerca do termo pobreza.) A medida liminar ou sentença proferida em ação civil pública ou ação coletiva. por parcela da doutrina. tradicionalmente. nem obriga o juiz a se curvar aos seus dizeres se de outras provas e circunstâncias ficar evidenciado que o conceito de pobreza que a parte invoca não é aquele que justifica a concessão do privilégio. simplesmente "coletivos. coletivos e individuais homogêneos. não é prova inequívoca daquilo que ele afirma. a decisão ou sentença proferida nessa espécie de ação contém o chamado. p. cumpre destacar existe carreira própria para a defesa dos interesses dessa categoria de pessoas.Nessa linha. atualmente. em sentido amplo". p. Dito isto. p. subdividem-nos em interesses difusos. Nos dizeres de Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery (2007. fez surgir a necessidade de novos modos de proteção.. É possível que. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 7. 3. por exemplo. liminar ou sentença de juiz estadual tenha de produzir efeitos em outro Estado da federação. mas de limites subjetivos da coisa julgada. deferindo ou não o benefício Ainda em se tratando de gratuidade. Cabe ao magistrado. Nelson Nery Jr. ainda subsistem em grande parte deles o convênio formado entre advogados particulares e a Defensoria Pública ou Procuradoria-Geral do Estado. Tudo isto representa inegável expressão da inclusão social.7. está instalada em quase todos os estados brasileiros. conquanto seja o único entrave burocrático que se exige para libertar o magistrado para decidir em favor do peticionário. Dentre eles. A declaração pura e simples do interessado. notadamente quanto aos efeitos erga omnes ou ultra partes da coisa julgada (CDC 103). Não se trata de jurisdição nem de competência. para a atuação nessas causas. de "efeito expansivo". Sem prejuízo. os efeitos subjetivos da sentença se produzirão onde quer que seus destinatários se encontrem. pode atingir número elevado de pessoas residentes por todo o País.

Na precisa lição de Thereza Alvim. Por outra banda. Este. inc. quando. Em outros casos. Inverteu-se. O caso mais marcante dessa inversão é trazido pelo Código de Defesa do Consumidor. Ela está presente no art. é caso de inversão ope judice. pelo contrário. do CDC. ao estabelecimento da igualdade ontológica. 3. jurídico. anota Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (2005. citada por José Geraldo Brito Filomeno (2005. inclusive. visando. além de sistematizar a responsabilidade objetiva e reformular os conceitos de legitimação para agir e conferir efeitos à coisa julgada secundum eventum litis A hipótese de inversão constante do art. atendendo o processo aos reclames da instrumentalidade e efetividade. VIII. em seu artigo 6º. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. Fortaleceu sua posição através da associação de grupos. que as alterações existentes visaram ao atendimento de maior número de consumidores. pois. Ou seja. justamente.8. apenas como um meio para a consecução do direito material. 8. Vê-se. verdadeiros paradigmas do processo brasileiro. à visão instrumental que se vem intentando conferir ao processo civil. VIII. a verificação dos requisitos necessários para que ela ocorra fica a critério do juiz. na medida em que o modelo tradicional mostrou-se inadequado às sociedades de massa. segundo as regras ordinárias de experiência. "está em harmonia com a obrigação de o . em grande parte. como preleciona grande parte da doutrina. a critério do juiz. qualquer porção de liberdade ao julgador. É o que se denomina inversão ope legis. mencionada no início deste trabalho. nunca deve ser visto como um fim em si mesmo. a favor do consumidor. 6º. a inversão. 358): A ratio do dispositivo é fácil de compreender. do CDC. o que atende. a lei assinala a possibilidade de inversão do ônus da prova. o consumidor não precisa provar suas alegações. Acredita-se que o alegado se deve. aos reclames da inclusão social. O fornecedor é quem tem de provar que elas não procedem.078/90 prevê a facilitação da defesa do consumidor através da inversão do ônus da prova. para que pudesse ele ir a juízo". inexistindo. ela a determina. Casos de inversão do ônus da prova Em certos casos. p. se pretendesse o legislador deixar a cargo do consumidor a prova da enganosidade e absusividade do anúncio. outrossim. possibilitando a defesa coletiva de seus interesses. sem dúvidas. Determina que incumbe ao fornecedor o ônus de provar a veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária que patrocina. inc. iluminado por vários princípios de lastro constitucional e deontológicos. 38. "já teria criado um obstáculo. adequando-se o processo à universalidade da jurisdição. p. 143) destaca: A Lei n.tradicionais. em dissertação sobre o tema. Determina a inversão do ônus da prova. aqui. mas. existe um caso de inversão que decorre da própria disposição legal. Cecília Matos. político e econômico. Em certos casos. a tradicional regra de que falar e não provar é mesma coisa que não falar. quase intransponível. pois. acima mencionada. obstando o acesso à ordem jurídica efetiva e justa. como os princípios lógico. Sobre ele.

3ª Câm. confira-se a seguinte decisão: Revisional de cláusulas contratuais c/c anulatória de título de crédito e tutela antecipada . p.Incidência do Código de Defesa do Consumidor determinada . faz-se necessário que seja garantido aos consumidores o direito de acesso substancial à Justiça. do CPC. Fátima Nancy Andrighi (STJ). científicos e fáticos ligados à mensagem publicitária Saliente-se que. tem o condão de afastar. inclusive. A esse respeito.Rel. Para a demonstração de suas alegações. 17.Relação de consumo caracterizada . AI 0311096-9. Juiza Maria Elza. econômica e mercadológica. assinala-se que o banco deve arcar com o pagamento dos honorários do perito. Veja-se. exemplificando. Oséas Davi Viana). a fim de que seus súditos se apavorassem com a idéia de . se for o caso de aplicação da regra da inversão do ônus da prova. é de se reconhecer o direito à inversão de ônus . também. Juizado Especial Cível Com propriedade. Civ. Isto porque a imposição legal. a regra clássica veiculada pelo art. PROVA . Nesta hipótese.Pretensão ao adiantamento das despesas do perito por parte do Banco-agravado . sem perder sua indispensável imparcialidade. a inversão quanto às despesas de sua realização. 19.inteligência do artigo 6º. preocupando-se com a efetiva tutela de direitos básicos.Cabimento . principalmente em relação ao fornecedor. é pessoa carente de estrutura jurídica. VIII.078/90 Exercício pleno da garantia constitucional da ampla defesa . cumulação de permissão de permanência com juros de mora e a cobrança de outros encargos que reputa ilegais.Agravo de Instrumento Origem: São Paulo ."(Processo: 0951637-4 . na maioria dos casos. o Professor Walter Ceneviva cita lição da Min. Há de se ter em mente. que o consumidor. no curso das dinastias Manchus. deve ser um sujeito processual ativo.18/10/2000 . Juiz Duarte de Paula.Recurso provido para esse fim. apesar de entendimentos contrários. Assim. de índole constitucional. escreve Ricardo Cunha Chimenti (2007. 30/8/2000. 3. TAMG.Ônus _ Inversão . pois.Necessidade de manifestação do juiz para se saber se o elemento da verossimilhança está presente Recurso provido para esse fim.9. da hipossuficiência técnica e/ou econômica a impedir o amplo acesso à justiça e ao direito de defesa. a qual normalmente é muito custosa. que remete à China do século VII. mesmo que não tenha solicitado a realização dessa prova..11. O juiz. o então imperador Hang Hsi teria baixado um decreto ordenando que todos aqueles que se dirigissem aos tribunais fossem tratados sem piedade ou consideração. também.Perícia . À época. da Lei 8.4ª Câmara . é indispensável realização de prova pericial. 4ª Câm. as seguintes lições jurisprudenciais: TAMG.1999. Assim.Caracterização. promovendo-se a indispensável inclusão social. 8): Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo.Admissibilidade . a imposição de inversão de ônus da prova implica. ademais. Civ. Alega a existência de anatocismo. AI 0290036-1.fornecedor manter em seu poder e informar aos legítimos interessados os dados técnicos. o consumidor ingressa com uma ação de revisão de contrato bancário.

Seu objetivo é. No mais. informalidade.099/95. 24): "A distinção básica está no fato de que a conciliação exige o comparecimento das partes perante o juiz ou conciliador. economia processual e celeridade. a obtenção da conciliação ou transação (art. para as questões cíveis que versarem sobre direitos patrimoniais disponíveis. Hang Hsi tinha por objetivo evitar que seus súditos concebessem a idéia de que tinham à sua disposição uma Justiça acessível e ágil. pois. a empatia dos Tribunais com essas formas de solução de conflitos. eram venais. litigiosidade esta que os Juizados Especiais e seus princípios específicos visam a solucionar Nessa perspectiva. conciliar . corrompidos e submetiam os jurisdicionados a múltiplas humilhações). que nas causas não excedentes a vinte salários mínimos. Com isso. tal crença seria um desastre. Para o imperador. as formalidades exigidas nos demais procedimentos devem ser vistas com ressalvas. da mesma lei). 10. Ou seja. técnica mediante a qual um terceiro se coloca entre os contendores. quando forem infrutíferas todas as tentativas de acordo (transação ou conciliação). 9º. p.10. a presença de advogados (art. É inegável. Estímulo à conciliação e transação É patente o estímulo conferido pela legislação e por nossos Tribunais visando à solução de conflitos pela conciliação ou pela transação.444/2002). do CPC. pelo advento da Lei n. ademais. um dos maiores fatores de desestabilização social é a litigiosidade reprimida.099/95). o Conselho Superior da Magistratura. ao lado da submissão e da renúncia. o que ocorreria se pensassem que os juízes eram sérios e competentes. A primeira é a que ocorre por meio da mediação. Dispensa-se. pois. pelo dever atribuído ao juiz de tentar. é uma das formas de autocomposição do litígio. informado pelos princípios da oralidade. Trata-se de procedimento comum. além de pedantes. tem-se como outro fator de inclusão social a instituição dos Juizados Especial Cíveis. da Lei n. por exemplo. o que ocorreu.comparecer perante os magistrados (os quais. sempre que possível. Os treze séculos se passaram desde então. a qualquer tempo. de cunho sumaríssimo. nos moldes como hoje se apresenta. 3. nossa legislação reforça essa idéia por meio da obrigatoriedade da realização de audiência preliminar (artigo 331. enquanto a transação é ato de iniciativa exclusiva das partes e chega em juízo já formalizada". De forma bastante didática. por meio do Provimento 893/2004 criou os chamados "setores de conciliação". com redação determinada pela Lei n. questões de família e da infância e juventude. tencionando conduzi-los à autocomposição do litígio. 9. simplicidade. por sua vez. 9. Neste rito. viabiliza-se o acesso e a resolução do conflito de interesses. porém. devendo haver instrução processual apenas em último caso. Ricardo Cunha Chimenti as diferencia da seguinte forma (2007. pois os litígios surgiriam em número infinito e a metade da população seria insuficiente para julgar os litígios da outra metade. 2º. acabaram por ensinar o contrário. No Estado de São Paulo. A transação.

2007. Trad. entre outros. Ellen Gracie Northfleet. após uma singela abordagem sobre jurisdição e processo constitucional. Teoria dos Direitos Fundamentais. Ricardo Cunha. São Paulo: Saraiva. 475-N. Mauro. Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris Editor. da Advocacia e dos demais setores da sociedade. Salvador: Podivm. Muito se fez. São Paulo: Malheiros. a preferência. CHIMENTI. vindo a ter cabo o processo em menor tempo. mas. BARROSO. o que demonstra. BARBOZA. 2007. Porém. 9ª ed. cuja aplicação devida ocasionará a almejada inclusão social. É inegável que vários outros assuntos tendentes à celeridade e efetividade processual não foram delineados. com a imprescindível colaboração do Ministério Público. BIBLIOGRAFIA ALEXY. pela efetiva tutela dos direitos. CAPPELLETTI.as partes (art. o fomento e. acredita-se. mormente àqueles cujos sociais para os quais o tempo é fator inexorável de angústia e descrédito. 2008. muito há de ser feito. 2007. franqueando-se às minorias e às camadas mais necessitadas da sociedade uma especial atenção. BONAVIDES. procurou-se. o que gera maior grau de satisfação por parte dos jurisdicionados. inc. DIDIER Jr. IV. com a abordagem. III. São Paulo: Saraiva. 2008. 6ª ed. . No entanto. Teoria do Estado. CONCLUSÃO Diante do presente trabalho. Luís Roberto. Trad. Acesso à justiça. sobretudo. São Paulo: Malheiros. Paulo. 6ª ed. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis e federais. abordar temas pontuais que. como é o caso das recentes alterações no processo de execução de título judicial (atual fase de cumprimento de sentença) e execução de título extrajudicial. Belo Horizonte: Fórum. procurou-se. Jurisdição constitucional: entre constitucionalismo e democracia. Interpretação e aplicação da Constituição. reflexo de inegável inclusão. ainda que não inclua matéria posta em juízo (art. Vol. Não se diz isto tão somente em se tratando de ação legiferante. Estefânia Maria de Queiroz. 2002. guardam estreita pertinência com a inclusão social. 125. do CPC). por essa via de pacificação de conflitos. do CPC) e pelo revestimento do atributo de executividade à sentença homologatória de conciliação ou transação. GARTH. I. 4. 5. Bryant. de Virgílio Afonso da Silva. inc. promovendo-se verdadeira inclusão social. Robert. refere-se a uma postura ativa do Poder Judiciário como verdadeiro garantidor da ordem jurídica justa e responsável. quiçá. além de outros dispositivos. tangenciar alguns temas relevantes. de forma inegável. 2007. Teoria geral do processo. para que as mais variadas oportunidades sejam garantidas também a estas pessoas.

Owen. São Paulo: Saraiva. SOUZA. Ada Pelegrini. Rio de Janeiro: Forense Universitária. FISS. GONÇALVES. São Paulo: Malheiros. 2007. 12ª ed. 2000. São Paulo: Revista dos Tribunais.. DINAMARCO. São Paulo: Malheiros. São Paulo: Revista dos Tribunais. GRINOVER. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 22ª ed. 5ª ed. 2004.. São Paulo: Revista dos Tribunais. A instrumentalidade do processo. Sérgio Cruz. 2005. I. constituição e sociedade. 2007. 2005. Teoria geral do processo. A luta pela efetividade da jurisdição. 2006. Fredie. ARENHART. Maria Helena. DINARMARCO. Efeitos da sentença que julga os embargos à execução. decisão judicial. Novo Curso de Direito Processual Civil. Salvador: Podivm. Ada Pelegrini. OLIVEIRA. São Paulo: Saraiva. São Paulo: MP Editora.DIDIER Jr. BRAGA..et al. cumprimento e liquidação de sentença e coisa julgada. DINIZ. MARINONI. Vol. Cesar Asfor. 2007. 2006. Luiz Guilherme. GRINOVER. Compreendendo O Fenômeno Jurídico Jurisdição INTRODUÇÃO O presente artigo tem por objetivo demonstrar os resultados obtidos em uma pesquisa acerca da jurisdição. II. Rafael. Vol. Gelson Amaro de. Um novo processo civil: estudos norte-americanos sobre jurisdição. Paulo Sarno. Compêndio de introdução à ciência do direito. Manual do processo de conhecimento. Curso de Direito Processual: direito probatório. ROCHA. Cândido Rangel. 2004. Cândido Rangel. Marcus Vinicius. 8ª ed. A pesquisa partiu das seguintes questões: O que é jurisdição? Qual seu objetivo? E quais suas características? A resposta para esses questionamentos foi .

Seja porque (a) aquele que poderia satisfazer sua pretensão não a satisfaz. com poder suficiente para coibir os homens de buscar solução de suas lides através da lei do mais forte e subjugo forçado do mais fraco”. Entretanto. pretendendo para si determinado bem. pois este não se submetia as regras de convivência. ou seja. Na primeira fase da civilização dos povos quando surgia um conflito. 1 . segundo a doutrina. p. p. vigorava nesse período lei do mais forte. 23) asseveram que tal fato ocorria devido a “falta de um órgão estatal que com soberania e autoridade. Carlos Eduardo F. 2004. Mas o que seria necessariamente um conflito? Juridicamente falando Ada Pellegrini Grinover. garantisse o comprimento do direito”. A primeira parte foi dedicada a uma análise de como as primeiras sociedades viviam e como elas resolviam seus litígios. e na quarta parte suas características. Pode-se dizer que todos no grupo faziam a mesma coisa: trabalhavam juntos. possuindo total liberdade. O estudo do assunto “jurisdição” se justifica na importância da matéria para os operadores e futuros operadores do Direito. os citados autores (2004. denominadas de sociedades primitivas. tal “espírito” de solidariedade não evitava conflitos. 2005. “quando inexistia um Estado organizado. onde as pessoas faziam vingança com as próprias mãos. Moacyr Amaral Santos e José de Albuquerque Rocha. ou por intermediação de um terceiro. Quando se vive em sociedade é muito comum o surgimento de conflitos. Assim. Por não existir o Estado para submeter coativamente os cidadãos . não pode obtê-lo. Quando o homem começou a viver em sociedade não havia a figura do Estado. Essa forma de resolução de conflito a doutrina denomina de autotutela. CINTRA e DINAMARCO. é a insatisfação de uma pessoa. A eliminação desses conflitos ocorrentes na vida em sociedade pode ocorrer por obra de um ou de ambos os sujeitos envolvidos no conflito. ao contrário do que ocorria com o homem fora da sociedade. Era muito comum nesse tipo de sociedade a intensa solidariedade entre os indivíduos do grupo. de Mattos Barroso. As primeiras sociedades existentes. seja porque (b) o próprio direito proíbe a sua satisfação voluntária da pretensão. Antonio Carlos de Araújo Cintra e Candido Rangel Dinamarco nos responde: Os conflitos caracterizam-se por situações em que uma pessoa. possuíam uma estrutura organizacional bastante simples. O artigo encontra-se estruturado em quatro partes.encontrada nos livros de Teoria Geral do Processo de renomados autores como Ada Pellegrini Grinover. este ainda era embrionário. guerreavam juntos e habitavam juntos. a segunda dediquei ao conceito de jurisdição. usaria sua própria força para satisfazer sua pretensão. quem pretendesse para si algo que outrem o impedisse de obter. 21). pois o ser humano vivendo em sociedade passa a ser obrigado a dividir seu espaço. este era resolvido entre as partes. 22) Dessa forma. a terceira compreende o objetivo da jurisdição. (BARROSO. além da introdução e conclusão. (GRINOVER.SOCIEDADE E TUTELA JURÍDICA. No mesmo sentido. p. o que caracteriza o conflito.

na transação o autor renúncia apenas parte da pretensão material. com o passar do tempo os indivíduos foram percebendo que a autocomposição não resolvia totalmente seus conflitos. Já a autotutela. (BARROSO.269 Haverá resolução de mérito: I . p. . p. seja pelo próprio Estado (art. as partes do litígio passaram então a resolver amigavelmente suas pendências. 27). 22) Assim. sendo necessário. V . por não mais desejar o bem pretendido. Entretanto. Nesse sentido. IV . no Código de Processo Civil artigo 269. para solução desses conflitos o intermédio de uma terceira pessoa. Esse tipo de solução é denominado de autocomposição. cit. Cintra e Dinamarco (2005. (Op. o réu livremente e sem qualquer sujeição forçada submete-se à pretensão material do adversário. seja quando praticada pelo particular.quando o juiz pronunciar a decadência ou a prescrição. III . nesses casos o que se diz titular de um direito material violado abre mão definitiva e voluntariamente de sua pretensão. frisa-se que a resolução de conflito por meio da autocomposição ainda perdura em nosso direito moderno. Neste período o Estado já estava organizado e detinha o poder de decidir e sujeitar os cidadãos ao cumprimento de suas decisões: surge então a tutela jurisdicional. chegando ambos a um denominador comum. ou ambos. II . 345 Código Penal)”. pondo fim ao conflito através da entrega espontânea do bem pertencente ao autor. atualmente “é definida como crime. abrem mão do interesse ou de parte dele. pondo fim ao litígio de forma unilateral. A última forma de autocomposição é denominada de: c) Transação. 2005. III e V prevê as três formas de autocomposição: Art.quando as partes transigirem.ás suas decisões. onde uma das partes em conflito. enquanto o réu reconhece a procedência de parte não renunciada. a desistência é caracterizada pela renúncia à pretensão. nos lembra Grinover.quando o autor renunciar ao direito sobre que se funda a ação. onde o autor renuncia parcialmente a sua pretensão material. b) Submissão. p.quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor. entregando parte do bem pretendido. 22). Segundo Barroso são três as formas de autocomposição: a) Renuncia ou desistência. incisos II.quando o réu reconhecer a procedência do pedido. a submissão compreende a submissão do réu à pretensão material do autor.

tem de cumprir determinadas tarefas ou atribuições. do poder Judiciário. dito de outro modo. p. a própria e exclusiva função do poder Judiciário: . Há três funções distintas correspondentes ao Estado: Legislativo. p.67).Esta terceira forma de solução dos conflitos na sociedade cabe. Em sentido semelhante. definido por Moacyr é importante. mais especificamente. no atual paradigma. Para por fim a tal situação o homem aceitou se submeter ao poder do Estado. o Estado teria surgido de um contrato. ao qual definiremos agora. específica de se organizar o poder político sociedades indígenas. por exemplo. Portanto. a jurisdição é o poder-dever do Estado 4 de aplicar o Direito ao caso concreto. (SANTOS. em uma definição pessoal diríamos ainda que: Estado é uma forma de organização específica. o Estado é uma forma particular. Etimologicamente a expressão “jurisdição” indica a presença de duas palavras unidas: júris (direito) e dictio (dizer) (NORONHA. pois enfatiza a função do Estado. e o Judiciário na função jurisdicional. pois precisava de um órgão forte para defender seus interesses e proteger seus bens 3. que exerce as funções legislativas (criar as leis). E. p. que o próprio Estado elaborou. tal conceito. e que se distingue das demais sociedades por ter fins políticos”. 2005. 2006). 1989. É nesta última que reside o conceito de jurisdição. utilizam-se de colegiados ou conselhos que respondem pela organização de todo o grupo social. também conhecida com teoria contratualista. Assim. o Executivo na função administrativa. Moacyr Amaral dos Santos definiu mais detalhadamente: A jurisdição é uma das funções da soberania do Estado. 75) afirma que “o Estado é uma forma específica de sociedade humana. compondo os conflitos de interesses e dessa forma resguardar a ordem jurídica e a autoridade da lei. Nesse sentido. apenas ao Estado. pois antes do seu surgimento o homem vivia em um estado natural.CONCEITO DE JURISDIÇÃO Segundo a Teoria do Contrato Social. própria. Rocha (2006. onde as guerras eram constantes entre os povos. 2 . Estado é a sociedade que está política e juridicamente organizada. Consiste no poder de atuar o direito objetivo. em um esforço de sistematizar esses dados iniciais. singular de se estruturar (organizar) o Poder Político de acordo com certos princípios que atendam à própria administração deste poder (MARTINEZ. função de poder. através de seus órgãos investidos (juizes). como qualquer sociedade. 44). Dessa forma. Dentre as suas tarefas há uma muito importante que é de conservar e desenvolver as condições da vida em sociedade. Ou. afirma Martinez: Assim.

(ius dicere) dicção do direito sempre foi considerada uma função estatal. por seus delegados.34) 4 . expressa o encargo que os órgãos estatais têm de promover a pacificação dos conflitos. no exercício da função jurisdicional.73) o que se dá através do devido processo legal. [. é a capacidade de decidir e impor decisões. Já para Grinover. a “pacificação social é o escopo magno da jurisdição” (2004. através da aplicação e especialização do direito ao caso concreto. perante aquele. p. conforme assevera Ovídio Batista. Era exercido pelo próprio rei. p. ou seja. O processo contencioso é. c) a realização da jurisdição. “o ato jurisdicional é praticado pelo Juiz. é assegurar a paz jurídica aplicando a lei e realizando a justiça por meio de um processo. Se não há lide como poderia o Judiciário dizer . Cintra e Dinamarco. e a conformidade com o direito ou com a eqüidade expressa-se por meio do conceito da justiça. pode não corresponder a ela o resultado do processo. a fórmula pode ser integrada falando de justa composição da lide. Ou seja. p. ela só é exercida mediante um conflito de interesses e por provocação de uma das partes. ou pelo povo como acontecia entre os germânicos nas suas assembléias Ding.] a composição se deve fazer conforme o direito ou conforme a eqüidade. 26).. que não é outro que a composição da lide. p.CARACTERÍSTICAS DA JURISDIÇÃO Grande parte da doutrina afirma que uma das principais características da jurisdição é a existência da lide. 2007).. imperador. mediante a realização do direito justo e por meio do processo.139) “jurisdição é ao mesmo tempo. portanto. a eliminação inevitável deste. Como poder. que o realiza por dever de função” (2001. 68) que “jurisdição é função provocada”. fato que tais pessoas personificavam o poder soberano que compreendia a jurisdição. é o sinal de sua humanidade (CARNELUTTI. 2004. investidos pelo Estado no poder de julgar. Cintra e Dinamarco (2004. p. 3 – FINALIDADES DA JURISDIÇÃO A função jurisdicional tem por finalidades 5 : a) a composição de litígios. o objetivo do Estado. Portanto. função e atividade”. Apenas há necessidade de advertir que se a justiça da composição constitui o fim. Porém não se pode deixar de dizer que o Estado desempenha a função jurisdicional sempre mediante o devido processo legal. A doutrina específica esse objetivo como sendo o escopo jurídico da função jurisdicional. Como função. Já como atividade ela é o complexo de atos dos juizes de direito. Afirma Moacyr (2005. um conflito. um processo caracterizado pelo fim. Para Grinover. como sucedeu em Roma. b) a pacificação social. poder. É inegável o seu caráter público bem como o interesse do estado em declarar e atuar o direito objetivo em relação a uma concreta pretensão (LEITE. ou seja. ministros ou funcionários. este seria o escopo político.

por meio da aplicação das leis de forma justa. as ações preventivas. é a existência do conflito de interesses que leva o interessado a dirigir-se ao juiz e pedir-lhe uma solução. Assim. modernamente. tais como a possibilidade de determinar. Entretanto. inc. fica restrita à instauração de processo e a determinação do objeto litigioso. para efeitos práticos. 5 . não existe o exercício espontâneo da atividade jurisdicional. capitaneada por Carnelutti. Assim. tratá-la a como um princípio inerente a jurisdição.de quem é o direito. esta. ou melhor. mantendo a paz social. deve-se registrar que há quem entenda que o controle abstrato da constitucionalidade das leis. pela “vontade” da norma jurídica aplicada no caso em concreto. XXXVI). pois. 70). Já quanto às características da Jurisdição. podem ser revistos pelos juízes no exercício da jurisdição. p. 5º. a produção dos meios de prova e de dar tutela sem pedido expresso pela parte (SCHMIDT. embora permaneça a inércia como característica da jurisdição para a maioria da doutrina. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada” (art. CINTRA e DINAMARCO.CONSIDERAÇÃOES FINAIS Com base no que foi exposto pode-se concluir que jurisdição é o poder-dever que o Estado tem para pacificar as pessoas conflitantes. consiste na substituição da vontade das partes. Uma terceira característica é a definitividade ou imutabilidade. sendo mais adequado. Como dispõe nossa Carta Magna “a lei não prejudicará o direito adquirido. Ou seja. Quanto à inércia. “os atos dos demais Poderes do Estado. característica da substitutividade proposta por Chiovenda. é resguardar a ordem jurídica. 2004. Assim. para que o juiz possa “dizer de quem é o direito” é preciso provocá-lo. tecnicamente. ao magistrado são atribuídos amplos poderes de direção do processo. sendo que nestes casos. segundo algumas teorias. a “coisa julgada é a imutabilidade dos efeitos de uma sentença” (GRINOVER. costuma-se afirmar que a jurisdição é inerte. não pode mais ser revistos ou modificados. Função esta que é exercida tipicamente pelo Poder Judiciário através do devido processo legal. 2007). percebemos que hodiernamente não é tarefa fácil arrolá-las. as ações constitutivas necessárias e a jurisdição voluntária são. Outra característica (bastante polemica) é a inércia. mas o contrário é absolutamente inadmissível” (2005). Carnelutti foi suficientemente claro ao demonstrar que a jurisdição consiste na justa composição da lide. O Estado substitui as atividades daqueles que estão envolvidos no conflito trazido à apreciação. Nesse sentido. mas não única. E por fim. o caráter substitutivo que consiste na substituição das partes no litígio pelo Estado-juiz: é “uma atividade substitutiva porque se exerce em substituição à atividade das partes”. Afinal. 144). sendo que como relata Candido Rangel Dinamarco. uma vez proferida a sentença e não havendo mais recurso. p. ou seja. não necessariamente exista uma lide. 2006. para a posição majoritária. No entanto. Tal fato se deve . a sentença será definitiva. a rigor. Sua finalidade precípua. só haverá jurisdição quando houver lide. jurisdição. sem provocação. (BARROSO.

. 2005. Teoria geral do processo.. São Paulo: RT. A Ordem Econômica na Constituição de 1988: Interpretação e crítica. 2006. 1989. 8a ed. ROCHA.. ed. São Paulo. Acesso em: 29 abr. São Paulo. Candido Rangel.principalmente pela atual momento. 2004. 5ª ed. 2004. Candido Rangel. Ovídio. Teoria geral do Processo Civil. José de Albuquerque. REFERÊNCIAS BARROSO. GRINOVER. ano 10. São Paulo:Malheiros editores. Malheiros Editores. São Paulo: Saraiva. 2005. Constituição (1988). 19. atual. 24. 2001. NERY JUNIOR. n. DINAMARCO. ed. Disponível em: <http://jusvi. NORONHA. 2005.com. Teoria geral do processo e processo de conhecimento. São Paulo.. Constituição da República Federativa do Brasil. Vinício Carrilho. ed. hodiernamente. 19 ago. Instituições de direito processual civil..com/doutrinas_e_pecas/ver/2165>. São Paulo: Saraiva. Nelson. Francesco. 5.br/doutrina/texto. 2004. CARNELUTTI. Antônio Carlos de Araújo. Rosa Maria de Andrade.ed. Fundamentos institucionais do Estado. ainda se tem por características a lide. A ATIVIDADE JURISDICIONAL DO ESTADO E A PAZ SOCIAL . 2007. Magalhães. Como se Faz um Processo. 3 jun. Gisele. BATISTA. 8. 2004. Moacyr Amaral. 21.uol. Curso de Direito Processual Penal. com a conseqüente adoção de novas teorias. Acesso em: 09 maio 2007. 2ª edição. definitividade e substitutividade..asp?id=8453>. DINAMARCO. São Paulo: Saraiva. Teresina. inércia. 1067. Vitória. E. Primeiras linhas de direito processual civil. LEITE. Editora Malheiros. Eros Roberto. Disponível em: <http://jus2. Código de processo civil comentado. NERY. Revista dos Tribunais. Desenvolvimento do Direito Processual. Jus Vigilantibus. BRASIL. Ada Pellegrini.. 10ª edição. ed. Teoria geral do processo. GRAU. 2006. São Paulo. 2004. Brasília: Senado. SANTOS. Carlos Eduardo Ferraz de Mattos. 2005. Editora Minelli. Jus Navigandi. onde se busca a própria alteração do paradigma de processo. MARTINEZ. São Paulo: Atlas. CINTRA. sendo que.

Os Princípios Fundamentais da Jurisdição. Era aquilo que hoje chamamos de autotutela. etc.39) ressalta que: [. apenas conhecidas e reveladas pelos sacerdotes. Nos primórdios da civilização humana o direito era uma manifestação das leis de Deus. Os órgãos tribunais surgiram da sociedade e não de Estado. p. aquele que se visse envolvido em qualquer tipo de conflito intersubjetivo poderia resolvê-lo por si mesmo...] assim a tripartição das funções do Estado. de modo a garantir o necessário equilíbrio no exercício do poder estatal [. Introdução 2.. Esboço Histórico 3.. Num outro momento da civilização. mediante o concurso dos órgãos do Poder Judiciário. o comportamento. A separação dos poderes consiste basicamente em distinguir as três funções do Estado: a legislativa. numa fase mais desenvolvida. é que a tarefa de resolver conflitos entre as pessoas foi admitida como função do Estado. é que permite a existência do Estado Liberal. a administrativa e a jurisdicional. como dado prévio. 4. a honra. que se tenha algum conhecimento a cerca de seu histórico. chegando-se à solução dos conflitos entre sujeitos mediante o concurso de terceiro desinteressado e imparcial. 2 ESBOÇO HISTÓRICO Para que se possa conhecer e compreender o conceito de Jurisdição. Nesta justiça primitiva o mais forte agia sobre o mais fraco utilizando da força ou da violência pra fazer valer seu direito.] a noção de Estado de Direito. Conclusão 1 INTRODUÇÃO A analise das funções do Estado Democrático de Direito esta estreitamente relacionada à clássica Separação dos Poderes esboçada por Aristóteles. embora tenham permanecido alguns mecanismos de julgamento próprios de determinada sociedade como a moral. era chamada “justiça de mão própria”. Em um outro estágio da civilização. com a entrega de cada função do poder a organismos diferentes. antes conferida ao soberano e mais tarde. os valores. administrativa e jurisdiciona – estão voltadas ao alcance dos fins do próprio Estado e são dispostas. . Com o passar do tempo. Estes tribunais foram criados com o fim de proteger o Estado. na organização da estrutura do Estado. que as exercerão com exclusividade para garantir equilíbrio e controle mútuo. Somente depois do desenvolvimento e estabilização da idéia de Estado. a arbitragem foi se tornando obrigatória devido à necessidade de albergar para si toda solução de conflitos de interesse (lide) como forma de buscar o bem comum e a paz social. Tais funções deveram ser atribuídas a três órgãos autônomos entre si. Conceito e Características da Jurisdição. próprias de sua soberania. A Atividade Jurisdicional do Estado e a Paz Social. é imprescindível. 5. trabalhada por John Locke e exposta por Montesquieu na sua obra “O Espírito das Leis”. O Estado se apoderou da competência de julgar os conflitos.Sumário: 1. que se adota contemporaneamente. 6. e destinavam a decidir conflitos entre os membros de uma comunidade. a autotutela foi sendo substituída pela arbitragem facultativa. consagra a idéia de divisão das funções atribuídas ao Estado. dotados de independência estrutural e autonomia política diante dos demais órgãos. WAMBIER (2006. Tais funções legislativa. e conseqüentemente com o surgimento das primeiras noções daquilo que seria posteriormente o Estado de Direito.

impedimento e suspeição. o poder de dizer o direito. Atualmente a Jurisdição é tida como atividade provocada e pública. via ação. com o fim de resguardar a paz social e o império da norma de direito”. OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA JURISDIÇÃO A função jurisdicional é composta por uma série de princípios que são universalmente aceitos e reconhecidos.Diante disso. em última instância. deve ser provocado por quem tenha interesse em lide”. p. que deve ser resolvida pelos órgãos da Jurisdição. CONCEITO E CARACTERISTICAS DE JURISDIÇÃO A palavra Jurisdição origina-se da expressão latina dicere ius. primordialmente. entende-se a incumbência de assegurar a justiça. a seguir. da aderência ao território. A Jurisdição também pode ser caracterizada pela sua forma. presença de lide.55): “Jurisdição é uma função do Estado pela qual este atua o direito objetivo na composição dos conflitos de interesses. do juiz e dos procedimentos previstos na lei. a Jurisdição “é uma função inerte que só se põe em movimento quando ativada por aquele que invoca a proteção jurisdicional do Estado”. não há Jurisdição. considera-se a existência de uma lide com relevância jurídica. Observa ainda que “o Judiciário não atua espontaneamente. ao contrário. não podendo este delegar suas atribuições nem se eximir de julgar. entende-se a presença das partes. ora com a presença de outro. e pela presença da coisa julgada. tais como o espólio e o condomínio). isto é. a paz social e is demais valores jurídicos. pela inércia inicial. ou seja. por meio da aplicação de uma solução prevista pelo sistema jurídico. conteúdo e função. no caso concreto. ora com a presença de um. Ou seja. a opinião de alguns eminentes doutrinadores a respeito do conceito de Jurisdição. Em suma. que hoje é função expressa do Estado. p. através da ação.37) a Jurisdição: É função que consiste. em lugar dos interessados. 3. Por conteúdo. exercida por juiz natural. ou seja. pela imparcialidade do juiz. que tem por finalidade a garantia da eficácia do direito em última instância. fica claro que a Jurisdição do Estado Democrático de Direito é fruto de desenvolvimentos milenares. 4. o juiz aguarda que alguém lhe procure através da demanda ou pedido. porque a inércia é uma de suas principais características. definitividade da solução dada. exceto nas situações de incompetência. inclusive recorrendo à força se necessário. São eles: da investidura. Por função. Todas essas fases são continuas e em todas elas. a Jurisdição é a função estatal exercida pelos órgãos do Poder Judiciário. pois sem provocação. o juiz em regra deve aguardar a provocação da parte. esses mecanismos estiveram presentes. Na conceituação de BAPTISTA DA SILVA (2006.62). independentes e imparciais. Segundo CARREIRA ALIVIM (2006 p. da . A Jurisdição é uma atividade provocada. pelo pressuposto da inobservância do direito. Por forma. Ressalta-se. em resolver os conflitos que a ela sejam apresentados pelas pessoas físicas ou jurídicas (e também pelos despersonalizados. A Jurisdição caracteriza-se pela finalidade de atuação do direito objetivo. Para WAMBIER (2006.

e o principio do juiz natural. da indeclinabilidade. estamos a falar da demora da atividade jurisdicional.indelegabilidade. Como destaca BAPTISTA DA SILVA (2006. pois o juiz é investido das funções jurisdicionais como órgão do Estado. havia a justiça de mão própria. devendo exercê-las pessoalmente. não agindo de oficio. o que. 6. Em outras palavras pode-se dizer que a Jurisdição clama por uma pacificação social. ou seja. quer seja visto como instrumento de aplicação da lei. da inércia. mas essa ainda não era a aplicação da lei como função especifica. Conclusão Antes de ter o Estado monopolizado a função de julgar. É possível afirmar que são varias as situações na vida das pessoas em sociedade que levam à busca espontânea do serviço jurisdicional. p. legitimar o uso da força física. É um poder. e. por conseguinte acaba por criar ou agravar um problema que gera conseqüências nefastas ao cidadão que necessita com urgência dessa proteção. suspensão do fato ou composição do litígio. O primeiro é o mais importante. diz que nenhuma lesão do direito deixará de ser apreciada pelo Poder Judiciário. O segundo significa que a Jurisdição pressupõe um território sobre o qual é exercida. significa que todos têm direito a um julgamento por juiz imparcial e independente. Pode-se alegar que a atividade jurisdicional é ao mesmo tempo um dever e um poder. Um dever enquanto tarefa de ofertar aos indivíduos a tutela dos seus direitos. O terceiro tem assento constitucional. significa que a Jurisdição só será legitimamente exercida por quem tenha sido dela investido por autoridade competente do Estado e de conformidade com as normas legais. amparando-se aquele que realmente tem direito de ser protegido. A pacificação social é promovida pelo exercício da Jurisdição. tutelando os direitos que cada um destes já não pode mais defender individualmente ou auto-tutelar. não pode haver Jurisdição sem ação. A atividade jurisdicional do Estado surgiu para regular as relações entre os indivíduos que compõe a sociedade. 5. desde que respeitada sempre à efetiva liberdade e autonomia do individuo em relação aos seus direitos fundamentais.61): . Muitas das vezes o cidadão fica dependente do “socorro” estatal para resguardas seus direitos e ao mesmo tempo proibido de recorrer a autotutela. por ser a ferramenta de que dispõe o Estado para controlar indivíduos. não podendo haver tribunais ou juízes de exceção. O último princípio a ser analisado é o do juiz natural. se necessário. É importante frisar que a própria sociedade tem interesse na paz social. A crescente complexidade das relações sociais dos dias atuais vem gerando um considerável aumento na procura da prestação da tutela jurisdicional. O quinto põe em relevo que a Jurisdição depende de provocação do interessado no seu exercício. A ATIVIDADE JURISDICIONAL DO ESTADO E A PAZ SOCIAL A Função imediata da Jurisdição é a de dirimir os conflitos de interesses das mais variadas espécies e decidir as controvérsias que refletem direta ou indiretamente na ordem social. O quarto também tem assento constitucional. É certo que nenhum impedimento há de ser posto a qualquer meio de composição de conflito que seja capaz e eficaz de assegurar a paz social.

Baptista da.e ampl. 9 ed. atual e ampl. Para finalizar.A verdadeira e autêntica Jurisdição apenas surgiu a partir do momento em que o verdadeiro Estado assumiu uma posição de maior independência. Rio de Janeiro: Forense. Mais informações: Adoro Cinema. Paralelamente dois amigos de infância se tornam policiais e se destacam pela honestidade e honra ao cumprir suas atribuições. . Manual de direito processual civil. no . Ficha Técnica Brasil. São Paulo: Editora Revista Tropa de Elite Publicado em 16/10/2007. Caio Junqueira. 1997. Ver. Direção: José Padilha. Ação. Teoria geral do processo civil. Curso avançado de processo civil. ed. Ver. mediante a qual este substitui os titulares dos interesses em conflito para. Comentários A pirataria não parece ter atrapalhado o desempenho de Tropa de Elite cinema. 4. em ação. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. e atual. 118 minutos. se indignando com a corrupção existente no batalhão em que servem. Essa pacificação é realizada através da atuação da vontade do direito objetivo que rege o caso apresentado em concreto para ser solucionado.. Fernanda de Freitas. O dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE (Wagner Moura). imparcialmente. Fernanda Machado. desvinculando-se dos valores estritamente religiosos e passando a exercer um poder mais acentuado de controle social. 2006 WAMBIER. GAMA. Com Wagner Moura. que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para sua função. no pleno exercício da justiça. Arruda. Milhem Cortaz. André Ramiro. Fábio Lago. Fabio Luiz. Ovídio A.1: parte geral. 8 ed. cinema. Se é verdade que o filme foi liberado pela própria podutora. Teoria geral do processo. Vol. v. através de uma sentença de mérito ou através da execução forçada. José Eduardo Carreira. alcançar a pacificação do conflito que os envolve. Poucas vezes vi uma sala tão abarrotada e em nenhuma delas tratava-se de filme nacional. o Estado deverá desempenhar essa função sempre mediante o processo. a tática de marketing funcionou. E atual. A Jurisdição é uma das funções do Estado.1. Luiz Rodriguez. 2007. rev. 2006. 2005 ALVIM. Referências ALVIM. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. SILVA.

restaria a Nascimento outra alternativa além da tortura? Lembre-se de que os torturados são traficantes. Seu idealismo é o dinheiro farto proporcionado pelas drogas. é um filme violento. Trainspotting ou Jogos Mortais. protagonizada por algum criminoso e acontecida consigo ou com algum parente. a guerra continua." As críticas que ando lendo sobre Tropa de Elite assustam-me mais que o próprio filme. Afinal. "O curso do BOPE prepara os policiais para a guerra e não adianta me dizer que isso é desumano. Não. Quase todo mundo tem uma história de terror para contar. Tropa de Elite não é mais violento que Cães de Aluguel. criada e propagada aos quatro cantos com intenções nem sempre samaritanas. É isso que a platéia aplaude. O discurso torto "direitos . teoricamente formadores de opinião. ao contrário do que mal-intencionados espalharam. não negocia. não é uma história de ficção. qual é a surpresa? Alguém ainda duvida que o Rio de Janeiro vive em estado de guerra? Alguém aí não sabe que os traficantes agem como um Estado dentro do Estado de direito. Simplesmente. Não me venha com o discurso "eles não tiveram outra chance". para extrair informações. não justifica. Talvez essa proximidade com a realidade é que tenha agredido os mais puritanos. Acreditar nisso é assumir que todo pobre é bandido. ao contrário dos exemplos. José Padilha transpôs para o cinema o que acontece cotidianamente nos morros cariocas. o que está longe da verdade. age.Sim. traz uma sensação de alívio e de justiça que quase não é possível no mundo real. Enquanto os traficantes tiverem dinheiro pra se armar. Essa falácia. a bandidagem ser punida. Evidentemente. a pior laia de gente que pode existir. Articulistas. o Cap. declararam-se chocados com a vibração da platéia diante das ações drásticas do Capitão Nascimento. o protagonista brilhantemente interpretado por Wagner Moura. Não. A violência não é um fantasma. não pensam duas vezes antes de matar barbaramente quem os desafia (ninguém mais se lembra de Tim Lopes?). encarando policiais como inimigos e pessoas comuns como peças de seu jogo de poder. Armados até os dentes. Ver num filme. serve apenas para aliviar a culpa das classes economicamente privilegiadas. Também não é uma questão restrita ao Rio de Janeiro ou aos morros. amigo ou conhecido. Nascimento não contemporiza. não faz apologia da tortura. impondo sua lei e sua ordem por meio da força? "Só rico com consciência social é que não entende que guerra é guerra. Nascimento não é um santo e Tropa de Elite não pretende canonizá-lo. É necessário estar totalmente alheio à realidade – como não deveria estar um formador de opinião – para não chocar-se com o comportamento dos espectadores. O comportamento de Nascimento é criticado pelos seus pares e pela sua própria consciência. Essa gente não tem escrúpulos e não hesita em eliminar quem se põe em seu caminho. bem como. não é o banho de sangue que alguns críticos querem fazer crer." Será que. embora ele se aferre à idéia de que "os fins justificam os meios". muito mais poderoso e articulado que este.

mal-remunerada e desvalorizada. não há ficção aqui. e em que muita gente boa tem acreditado. o sistema trabalha para resolver os problemas do sistema. Os poucos casos de corrupção que chegam ao conhecimento da imprensa são uma pequena parte da podridão que assola a polícia militar carioca. Por quem? Por secundaristas que vivem de mesada e universitários que se acham gente grande. afinal. Não sei aí na sua cidade. pelos cidadãos-de-bem com carro na garagem e celular da moda. "Quantas crianças a gente tem que perder pro tráfico só pra um playboy enrolar um baseado?" Tropa de Elite tem o grande mérito de bater em todo mundo. é este: um punhado de homens que se mantém fiel ao combate ao . Em última análise. subornos. você ainda será acusado de violentar os "direitos humanos"? A situação de descalabro a que chegou a polícia militar carioca não é só culpa do governo. permitido ou proibido. Pela mesma classe que fica furiosa quando tem o som do carro roubado. Atua em causa própria. não poupa as classes mais favorecidas e a imprensa." O BOPE – Batalhão de Operações Especiais – está fora do sistema. Nesse processo. "O sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade. quem cheira pó é culpado pela situação calamitosa a que chegou o Rio de Janeiro. por que envonver-se numa troca de tiros se é mais fácil aceitar um suborninho? Por que arriscar sua vida para matar um traficante se. é confrontada. É dito com todas as letras: quem fuma maconha ajuda traficante. pertencem à classe privilegiada com poder aquisitivo para pagar uma entrada de cinema. Corrupto e corruptor até a medula. Não que essa situação seja desculpa para suas ações – não é. sem meias palavras. quem enrola baseado financia a violência. e quase tão consumida quanto. é culpa da inversão de valores na sociedade. além de tudo. cumplicidade com criminosos. adulteração de estatísticas. Por outro lado. transforma traficantes em vítimas e polícia em bandido." Tropa de Elite também bate na polícia militar carioca. Esse discurso enfático atinge boa parte dos espectadores do filme que. mal-preparada. Ocupa os espaços que o Estado e o tráfico deixam para trás. mas aqui em Brasília maconha é tão acessível quanto cigarro. responsável pela criação do tal "sistema". o "sistema" é uma intrincada rede de propinas. A hierarquia de valores anda completamente deturpada. é culpa de cada um de nós. A visão torta que a elite tem do que é certo ou errado. Se há algum heroísmo no filme. A hipocrisia do discurso social "pela paz" e "contra a violência" é desnudada várias e várias vezes. Infelizmente. tendo como único fim a retroalimentação. "O BOPE tem guerreiros que acreditam no Brasil.humanos" que temos ouvido nas últimas décadas.

honesto e fiel aos seus princípios. Um estado de guerra produz excessos e condutas condenáveis. a corrupção é injustificável e a omissão é uma vergonha. a cenografia é realista. Além da Tela Eu poderia usar este espaço para despejar estatísticas da criminalidade relacionada ao tráfico. que traz diversos pontos de reflexão. morre menos" -. corrupção. Você está a par das estatísticas. A elite de esquerda prefere criticar a ditadura militar. pouco importa. por menores que sejam. Tropa de Elite merecia ser o candidato do Brasil ao Oscar 2008. Nascimento. Você lê jornais e assiste a noticiários. A atuação de Wagner Moura é irretocável. Se há controvérsia sobre um ou outro número – "não morre tanta gente. O que realmente me preocupa é o esforço de certos segmentos em demonizar o protagonista. A polícia militar anda bastante preocupada com o filme. Se era a intenção de Padilha transformar Nascimento num herói ou não. por sua vez. nesse aspecto. a trilha sonora é dramática. lava a alma de cada brasileiro que já foi vítima da violência. a atacar reais inimigos. Deve ser falta de serviço.crime. Tropa de Elite é uma produção de primeiro nível. mas conservemos a noção de certo e errado. a ponto de ter intimado para depor seu diretor e um dos autores do livro. Para esse pequeno grupo altamente treinado. Afora a exclente história. baseia-se em relatos de policiais do BOPE. . A rápida movimentação de câmera envolve o espectador. sob risco de morte. sim. em troca de um salário ínfimo e apesar das pressões da mídia. Nada disso é necessário. o Capitão Nascimento é um herói. suborno. brilhante mesmo. que se encerrou há mais de 20 anos. Tropa de Elite é baseado no livro A Elite da Tropa que. não há dúvidas de que. consumo de drogas. É aqui que se entende a reação da platéia. Sim. "Faca na caveira e nada na carteira". A direção é tensa. Claro que jamais conseguiria tal proeza. mas não se deve confundir os papéis: quem trafica é bandido. colocando-o dentro da ação. quem combate o tráfico é mocinho. ou encher de notícias relacionadas a mortes violentas. são muito mais elevados do que o aceitável. Sejamos maniqueístas.

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