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HANS KNEIFEL

CORRIDA COM A MORTE


Tradução de RICHARD PAUL NETO

Título do original: '' WETTFLUG MIT DEM TOD''

By ERICH PABEL VERLAG — Rastatt, West Germany


Da tradução — EDITORA TECNOPRINT S.A., 1977

Todos os personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança com


pessoas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência.

HISTÓRIA ou ESTÓRIA?
As Edições de Ouro e o Coquetel grafam a palavra história e não estória por
julgar a primeira forma mais correta, conforme dicionários mais
categorizados, que julgam a segunda forma imitação do inglês story, sem
correspondente com raízes em nossa língua.
1

Era verão na Austrália. O coronel McLane encontrava-se acima do


lugar pelo qual passava o paralelo quatorze do hemisfério sul. Groote
Eylandt jazia sob os raios quase verticais do sol. O silêncio só era
interrompido por três tipos de ruído: o ranger da espreguiçadeira, um
ruído farfalhante e acordes musicais. McLane estava de licença.
Achava-se totalmente descontraído na espreguiçadeira de tubos de aço
cromado e lona branca. Tinha um par de óculos escuros diante dos
olhos e um aparelho de leitura sobre o joelho. Alguma coisa farfalhava
na piscina próxima, e uma voz chamou:
— Querido!
Tamara levantou a cabeça e apoiou-se nos braços. Usava traje de
banho de uma só peça, que parecia ser feito de prata líquida.
— Suas geladeiras estão bem cheias, coronel McLane? —
perguntou a funcionária do SSG.
— Bastante — disse Cliff.
— Será que por lá existe um pouco de champanha?
Cliff suspeitou de que algo de grave estava para acontecer.
— Sem dúvida — disse laconicamente.
— Ficarei satisfeita com uns três ou quatro litros, querido. Mas
vejo-me obrigada a fazer uma exigência. Quero que os cálices de
champanha me sejam entregues por você e não por algum desses
robôs.
Com um muxoxo, Cliff levantou-se da poltrona de sol articulada e
caminhou até a beira da piscina. Olhou para Tamara e murmurou:
— Faz exatamente três dias que estou gozando férias. Não basta
que seja perturbado constantemente no estudo de escritos importantes.
Agora ainda tenho de fazer o papel de mordomo. O que deseja? Seja
precisa!
Tamara sorriu para ele; era um sorriso mais que fingido.
— Quero um cálice de champanha bem gelado — disse Tamara,
enfatizando as palavras. — E quero recebê-lo de suas mãos.
— Ainda bem que você está aqui em caráter particular — falou
Cliff em tom pouco nítido. — Senão poderia denunciá-la junto a Villa
por estar infringindo a norma que proíbe o consumo de bebidas
alcoólicas em serviço — disse e dirigiu-se para o frescor crepuscular
do bangalô. Ainda ouviu a voz de Tamara:
— Seu astronauta presunçoso! Nestes poucos dias, Cliff se tornara
bem moreno, e ficava alegre ao lembrar-se de que ainda tinha algumas
semanas de férias pela frente. Por algum tempo, o pequeno
apartamento de Tamara ficou deserto. Os dois passavam o tempo entre
banhos de sol e mergulhos na piscina, drinques dispendiosos e
conversas infindáveis, além de outras coisas agradáveis. Os tripulantes
da Orion VIII estavam espalhados em vários lugares, mas a qualquer
momento poderia entrar em contato com eles.
Entrou na cozinha robotizada, abriu a geladeira e pegou uma
garrafa de champanha. Depois sacou a rolha e tirou os cálices da
prateleira.
Voltou para junto da piscina.
— Que lindo! — disse Tamara. — Vejo que ainda existem
cavalheiros.
Cliff sentou-se perto dela e pôs os pés na água fria e deliciosa.
— São poucos — disse, descansando os cálices ao seu lado.
Encheu-os pela metade e entregou um deles a Tamara.
— Querido, acho que já o conheço mais ou menos. Vejo que sua
aparência é ótima; você está descansando muito bem e adquirindo um
bronzeado másculo cada vez mais intenso. Mas há alguma coisa em
seu rosto que me perturba.
— O que será? O nariz?
— Que engraçado! Não, não é o nariz — respondeu em tom sério.
— O que me preocupa é a expressão pensativa que vejo em seus
olhos. Essa expressão sempre surge quando você desconfia de algo.
Cliff levantou a cabeça e contemplou as ondas suaves do Golfo de
Carpentaria. As silhuetas de alguns iates a vela interrompiam a
superfície azul. De certa maneira, o mar se parecia com o cosmos.
Cliff lembrou-se do problema.
— Talvez você tenha razão — disse. — Acontece que eu mesmo
não percebi nada. Acabo de ler o relatório oficial do Ministério Para
Assuntos Extraterranos. E nesse relatório encontrei alguns dados
notáveis. Existem cerca de quatrocentos planetas que foram
colonizados no curso dos séculos. Em cada um desses mundos,
firmamos o pé de uma forma ou de outra. Evidentemente esse fato
exige uma adaptação mental.
— Adaptação mental? Em que sentido? — perguntou Tamara.
— Até a conquista de Marte a humanidade raciocinava em termos
globais. Em outras palavras, o pensamento centralizava-se em
determinado planeta. Atualmente exige-se que todos os homens
pensem em termos galáticos. Afinal, novecentos parsec não são
nenhuma brincadeira.
— Você acha que vai haver problemas?
— Tenho certeza absoluta de que vai haver. À medida que o
número de planetas colonizados aumenta, crescem as tendências de
certos grupos que desejam separar-se de Terra.
— Está pensando em Sahagoon? — perguntou Tamara, tirando o
gorro de banho.
Cliff acenou com a cabeça; parecia muito sério.
— Sim, entre outros. Vejo o perigo em termos mais gerais. Nos
últimos séculos, Terra urdiu uma rede muito densa. E cada um dos nós
dessa rede é muito importante. Basta que um deles se solte para que a
rede se desmanche. Existe uma ligação indissolúvel entre cada planeta
colonizado e todos os outros. A rede vem sendo controlada a partir de
Terra. Provavelmente conseguirei enxergar melhor quando tiver
terminado a leitura desse maldito relatório.
Tamara saiu da piscina bem devagar e segurou o cálice com ambas
as mãos.
— Agora vou ficar no sol. Farei o possível para não incomodá-lo.
Leia isso até o fim; depois discutiremos o assunto. De acordo?
Cliff olhou-a com certa dose de admiração.
— Você não é apenas extraordinariamente bela — disse em tom
indeciso. — Além disso traz umas idéias bem inteligentes nessa
cabeça notável.
O sorriso que Tamara exibiu desta vez foi sincero.
— ...de vez em quando — completou e voltou a segurar o aparelho
de projeção.
O tema da peça em que Cliff McLane estava mergulhando não era
puramente casual. Sabia-se que em hipótese alguma um mundo-irmão
se voltaria diretamente contra Terra. Esta possuía um estado-maior e
centenas de naves espaciais capazes de devastar um planeta numa
questão de minutos. E essa perspectiva faria recuar até mesmo as
cabeças mais fogosas e obstinadas.
Dali a uma hora o comandante estava lendo o fim do relatório.
Recomendamos que Terra use todos os meios ao seu dispor para
evitar que surja uma situação que possa tornar-se perigosa.
Todas as relações externas devem ser submetidas a um controle
rígido. O Centro de Computação deve ser aproveitado para, no
devido tempo, identificar eventuais fontes de erros. Assim que surgir
qualquer divergência, devemos recorrer aos homens mais experientes
para removê-la. No presente estágio de nossa expansão, não podemos
dar-nos ao luxo de um segundo que seja de descuido. Atenção: O
presente relatório é secreto. Só os membros da Frota Espacial podem
ter acesso ao mesmo.
Cliff virou a cabeça e começou a falar sem o menor intróito:
— O relatório contém tanta matéria explosiva que bastaria para
fazer ir pelos ares uma esfera espacial. Mas, como de costume, não
apresentam qualquer prova. Só posso fazer votos de que desta vez os
canais administrativos não sejam muito longos. Do contrário ainda
estaremos lendo este relatório quando tiver passado o tempo de agir.
— Você acredita que Wamsler e Villa também leram esta peça? —
perguntou a meia voz.
Cliff soltou uma risadinha sarcástica.
— Imagino que devem sentir-se muito superiores para ler isso. Só
vão começar a gritar quando a destruição de Terra for apenas uma
questão de segundos.
As idéias de ambos coincidiam.
— É bem possível — continuou Cliff em tom pensativo — que um
perigo imenso se desenvolva bem à nossa vista, e ninguém desconfia.
Recostou-se, pegou a mão de Tamara e tirou os óculos escuros.
Havia um aspecto desagradável nas previsões de Cliff: geralmente
tinham fundamento. Até então sempre tivera razão com suas
suposições, mas nem por isso se poderia dizer que previa todas as
situações. De qualquer maneira, sua paz de espírito ficaria fortemente
abalada pelo resto das férias.
Era noite. Cliff e Tamara estavam sentados junto a uma mesa
muito farta. Um robô corria ininterruptamente da mesa para a cozinha
e vice-versa, a fim de cumprir todos os desejos do casal.
— Você é uma ótima cozinheira, querida — falou Cliff, olhando
para o mar.
— Você está enganado! — retrucou Tamara. — Apenas fiz o
cardápio. A comida é obra dos robôs.
— De qualquer forma é muito gostosa — disse Cliff.
Tamara confirmou com um aceno de cabeça. Ambos envergavam
os uniformes especiais, pois haviam reservado uma mesa no Cassino
Starlight.
— Que horas são? — perguntou Tamara.
Antes que Cliff tivesse tempo de olhar para o relógio, o robô disse
sem entonação:
— Vinte e uma horas e treze minutos. Seguindo um velho hábito,
Cliff disse obrigado e continuou a comer. De repente o robô abriu o
olho vermelho, e um sinal piscou de forma alarmante. O alto-falante
instalado no corpo do pequeno robô deu um estalido. Uma voz
mecânica disse em tom indiferente:
— F.R.E.T. para coronel McLane. Queira chamar imediatamente o
nosso número.
Cliff sentiu-se gelado de susto. Deixara o aparelho de comunicação
sonora preso à espreguiçadeira, e o sinal deixou de ser ouvido.
— Nem mesmo na hora da comida, durante as férias, a gente tem
sossego — resmungou Cliff.
Atirou o guardanapo sobre a mesa e saiu correndo. Atravessou
rapidamente a pontezinha estreita e parou diante de um grande
videofone. Chamou o número da ante-sala de Wamsler. A tela
iluminou-se, mostrando uma ordenança.
— Pois não, comandante.
— Pediram que chamasse — disse Cliff. — Provavelmente as
salas de sessão estão novamente inundadas.
A moça obrigou-se a sorrir e disse:
— Não. Tenho um recado para o senhor. Dentro de trinta minutos,
haverá uma reunião do Comitê de Defesa. Pedem a presença imediata
do senhor e de Miss Jagellovsk.
A tela voltou a escurecer antes de Cliff pronunciar a palavra
"férias". Comprimiu o botão, que desligou o contato, e saiu lentamente
para o terraço.
— Meu amor — disse. — A dança e a visita ao bar foram
canceladas em virtude da ocorrência de neblina na superfície e de
tempestades solares.
Tamara endireitou-se na poltrona e fitou-o com uma expressão de
incredulidade. Cliff pescou um prato de sobremesa.
— Mal e mal temos tempo para comer. Depois sairemos correndo.
Wamsler tem necessidade imediata de nossas pessoas no Comitê de
Defesa.
— Você não disse que estamos gozando férias merecidas?
Cliff sacudiu energicamente a cabeça.
— Não tive tempo para isso. Mesmo que resolvêssemos passar
nossas férias num planeta situado em Dez/Leste 999, Wamsler nos
mandaria buscar. "Pronto para entrar em ação a qualquer momento", é
este o seu lema. Tenho vontade de matá-lo.
Cliff descansou o prato vazio sobre a placa traseira do robô e disse
laconicamente:
— Retirar a louça e arrumar. Seguiu-se um sinal luminoso a título
de confirmação.
— Então, o que vamos fazer? — perguntou Tamara decepcionada.
— Vamos engolir os últimos bocados e depois chamaremos um
carro que nos leve aos elevadores. Antes, poderíamos abrir uma
enorme cova.
— Uma cova?
— Naturalmente, uma cova — respondeu Cliff em tom
amargurado. — Para sepultar nossa boa vida.
Se desconfiassem do que os esperava, eles mesmos se teriam
escondido nessa cova. No entanto, chegaram com um atraso de apenas
seis minutos e receberam ordem para dirigir-se à sala de sessões. Ao
ver os rostos das pessoas reunidas, Cliff compreendeu que ao menos
suas férias estavam perdidas. E, também, as de sua tripulação.
A mesa comprida achava-se rodeada de enormes poltronas de
couro. Metade delas estava ocupada. Na parede mais ampla da sala,
viam-se grandes telas transportáveis de videofone. A projeção da
esfera de novecentos parsec emitia um brilho débil, enquanto as linhas
que a percorriam desprendiam uma forte luminosidade. Cliff e Tamara
hesitaram um pouco e sentaram-se. Um número cada vez maior de
pessoas entrava na sala.
Henryk Villa... Lydia van Dyke... Michael Spring-Brauner... Von
Wennerstein... Kublai-Krim... Sir Arthur, alguns historiadores, três
velhos comandantes de naves espaciais, alguns funcionários do
Serviço de Segurança — ao que parecia o quorum da reunião estava
completo.
— Façamos votos de que a coisa não saia muito dramática —
murmurou McLane e fitou os rostos dos outros participantes.
— Você tem alguma idéia definida? — perguntou Tamara em voz
baixa.
— Não; prefiro aguardar a surpresa.
O murmúrio das vozes cessou assim que o Secretário de Estado
Von Wennerstein se levantou e lançou um olhar muito expressivo em
torno.
— Senhoras e cavalheiros — disse. — Vimo-nos obrigados a
convocar esta reunião imediatamente. Acredito que todos tenham lido
o relatório distribuído pelo Ministério Para Assuntos Extraterranos.
Introduzimos os dados no Centro de Computação, realizamos uma
programação e deixamos que a máquina fizesse o trabalho. Tenho os
resultados diante de mim.
Cliff e Tamara trocaram um prolongado olhar de entendimento.
— Conheço o relatório — disse Wamsler em voz alta e virou
ligeiramente a cabeça, a fim de ver o rosto de Von Wennerstein. —
Não sei onde está o problema.
Von Wennerstein assustou-se e respondeu em tom seco:
— Não existe a menor dúvida de que o perigo para Terra tem
origem nos planetas jovens, colonizados recentemente. Em
comparação com os mundos firmemente integrados, representam
pouco menos que a metade.
Kublai-Krim, chefe das Forças Armadas Espaciais pediu a palavra.
— Trata-se de perigos que possam ser solucionados com os meios
militares? Afinal, possuímos uma frota.
— Qualquer problema pode ser resolvido por meio da frota —
disse Lydia van Dyke em tom áspero — desde que nossa intenção seja
arrasar os planetas em cuja colonização gastamos muito dinheiro. Foi
isso que o senhor quis dizer, Kublai?
— É claro que não. Mas qual é o problema com os mundos
recém-colonizados?
— Vejamos por exemplo o planeta Tareyton. Ali vivem trinta mil
colonos. No fundo, a única coisa que têm de fazer é supervisionar as
máquinas robotizadas. Acontece que as possibilidades de vida que
esse planeta oferece aos colonos são tantas que podem dispensar o
comércio com Terra ou com outros mundos. Por isso, poderão
perfeitamente tornar-se independentes.
Sir Arthur apontou para a projeção da esfera espacial.
— Fundamos este império. Nunca pensamos em negar a
independência a este ou àquele planeta. Como poderíamos, nestas
condições, obrigar outros mundos a compartilhar nossas idéias.
— Lembre-se dos extraterranos, Arthur! — advertiu Villa.
Sir Arthur ficou calado por um instante; depois baixou a cabeça e
disse:
— O senhor tem razão, coronel Villa.
— Geralmente tenho — murmurou Villa com um sorriso
presunçoso.
— Enquanto esses planetas exercerem a independência apenas no
terreno econômico, não haverá nada a objetar. Mas precisamos nos
garantir de que nos ajudarão quando formos atacados por outras
potências. E nunca teremos essa garantia se surgirem grupos que
sustentem concepções políticas diferentes.
Wennerstein aquecera-se com sua própria fala.
— Estou percebendo as linhas gerais do seu raciocínio — interveio
Villa. — O Governo de Terra não pode dispensar a cooperação dos
seus aliados, que são cerca de quatrocentos. Cada planeta é um elo da
corrente, e se a colaboração de qualquer um deles falhasse, a corrente
se romperia. Será que minha suposição é correta?
O Secretário de Estado fez um gesto afirmativo.
— Sim. É isso mesmo. Vamos aos dados. O Governo de Terra
elaborou um programa gigantesco. Todas as naves de nossa frota terão
oportunidade de demonstrar seu valor em missões extremamente
sérias. Queira distribuir isto.
Cliff pegou a brochura de formato alongado e, examinando a capa,
leu duas palavras que o deixaram espantado.
ANO GALÁTICO
— Isto soa muito bem — disse em voz baixa.
Tamara respondeu com um ligeiro sorriso. Ouviram a voz do
Secretário de Estado.
— O Governo de Terra proclamou o Ano Galático. Todos os
cientistas submetidos ao nosso controle estarão plenamente ocupados.
— Apontou para a projeção e seu rosto assumiu uma expressão
compenetrada. — As naves terão oportunidade de ficar estacionadas
nos pontos-chave. Haverá ainda uma atividade muito intensa no setor
da política externa. Todas as fontes de perigo serão mantidas sob
observação. Os resultados fornecidos pelo Centro de Computação
estão consignados na documentação que acaba de lhes ser entregue.
Lembrem-se: o assunto é estritamente sigiloso. Quer dizer alguma
coisa, coronel McLane?
Todos os olhos convergiram sobre Cliff, que fez um gesto
afirmativo e levantou-se.
— Von Wennerstein, não passo de um comandante de nave
espacial insignificante e tolo Apesar disso penso que o compreendi. O
senhor permite que eu recapitule as minhas conclusões?
O Secretário de Estado fez um gesto de concordância.
— Cada nave espacial de nossa frota dirigir-se-á a um planeta
previamente determinado, com alguns cientistas e talvez alguns
funcionários do SSG a bordo. Os planetas foram escolhidos pelo
Centro de Computação em função da periculosidade ou do perigo em
potencial. Uma vez lá, verificaremos na qualidade de representantes de
Terra se está tudo em ordem. Se houver alguma irregularidade,
devemos eliminá-la ou ao menos tentar eliminá-la. Cumprida a missão,
regressaremos a Terra e nos apresentaremos ao comando. Não é isso?
— Exatamente — disse o Secretário de Estado.
Lydia van Dyke levantou a mão e pediu a palavra.
— Sabemos que o Governo costuma trabalhar devagar, pois a ação
que desenvolve costuma ser bastante meticulosa. A operação Ano
Galáctico já foi preparada há muito tempo, não é?
— Sim — respondeu o Secretário de Estado. — Reconhecemos o
perigo muito antes da chegada dos extraterranos, os frogs.
— E esse Ano Galáctico, quanto tempo durará? Ele se
caracterizará pelo tempo de translação do planeta Terra em torno do
sol? — perguntou Cliff.
— Isso mesmo — respondeu Von Wennerstein. — Corresponderá
exatamente ao ano terrano. A operação durará trezentos e sessenta e
cinco dias a partir de amanhã.
— O assunto será levado ao conhecimento do público?
Mais uma vez, o Secretário de Estado confirmou.
— Nossa decisão e os dados precisos só serão tornados públicos
quando todas as naves se encontrarem no lugar que lhes tiver sido
destinado. Assim teremos mais facilidade em descobrir o motim, antes
que algum planeta o tente.
Villa mostrou um sorriso de deboche e disse em voz baixa, porém
todos conseguiram entender:
— Acho que isso representa uma excelente idéia de nosso prezado
governo.
Ouviram-se risos reprimidos.
— Mais alguma pergunta? — indagou Wennerstein.
— Quem será encarregado da distribuição dos objetivos? —
perguntou Lydia van Dyke, general-comandante das Formações
Espaciais Rápidas.
— O F.R.E.T. — respondeu Von Wennerstein.
— Quer dizer que é o gabinete de Wamsler — disse
Spring-Brauner, empertigando-se na poltrona.
Ao fitar prolongadamente Apoio, apelido de Spring-Brauner, Cliff
compreendeu que, mais uma vez, o destino desferira-lhe um golpe. E o
instrumento do destino fora o ajudante do marechal Wamsler.
Apesar disso, um sorriso surgiu em seu rosto.
— Até parece que você ainda não compreendeu. Quem escolhe
nosso objetivo é Spring-Brauner — cochichou Tamara, bastante
espantada.
Cliff inclinou a cabeça para aproximar a boca do ouvido de
Tamara.
— Não; apenas estou me lembrando de que Helga Legrelle
pertence à nossa tripulação — disse numa alusão ambígua.
Tamara não compreendeu logo.
— E daí? — perguntou em voz baixa.
— Lembro-me de que Apoio cometeu um erro tático ao formular
uma proposta de casamento a Helga. Talvez possa tirar proveito desse
fato, evidentemente a nosso favor.
— Ficaremos juntos? — perguntou Tamara.
— Não sei. Suponho que sim, pois Spring-Brauner pensa que
dessa forma me fará uma desfeita.
A voz potente de Wamsler interrompeu a conversa cochichada.
— Se minha interpretação é correta, o Governo de Terra,
juntamente com o Estado-Maior, procederá da seguinte forma: nós,
que pertencemos às unidades terranas de exploração espacial,
indicaremos os objetivos e enviaremos três naves a cada um deles.
Será um cruzador ligeiro, uma nave-laboratório e uma nave de escolta.
Os objetivos estão espalhados por todos os quadrantes da esfera
espacial. Dez dias após a decolagem, o mais tardar, será proclamado
oficialmente o Ano Galático. Depois ficaremos aguardando
informações. Assim que alguém note qualquer contratempo,
enviaremos uma frota e tentaremos convencer os rebeldes pelos meios
pacíficos. As intenções do Governo de Terra são estas, Von
Wennerstein?
Wamsler, cuja figura atarracada estava sentada atrás da mesa, fitou
o Secretário de Estado.
— Excelente — disse Von Wennerstein. — É exatamente o que
queremos. Posso informar o Governo de que as F.R.E.T. estão
dispostas a colaborar em toda linha?
— Pode — disse Wamsler.
— Além disso comunique ao Governo que o Serviço de Segurança
Galático compreendeu suas tarefas e se empenhará na execução das
mesmas — disse o coronel Villa em prosseguimento. — Afinal, o
problema não é apenas da frota; também é nosso.
— Obrigado, coronel — disse Von Wennerstein em tom
cerimonioso e inclinou o corpo alguns milímetros.
— A assembléia tem mais alguma decisão? — quem formulou a
pergunta foi Lydia van Dyke.
— A assembléia decide debandar e distribuir as tarefas — disse
Kublai-Krim com uma risada. — A assembléia recorrerá aos seus
recursos executivos para informar a todos os comandantes dentro de
trinta e seis horas. Os avisos serão expedidos imediatamente e a
distribuição será realizada aqui. Isso também diz respeito ao senhor,
coronel McLane.
— Já sei — disse Cliff em tom contrariado. — Naturalmente não
terão a menor consideração pelos membros da frota que pretendem
gozar férias bem merecidas, não é?
— Sinto muito, McLane — resmungou Wamsler. — Para a
necessidade não há lei.
— Conheço uma porção de ditados engraçados como este —
respondeu Cliff. — Quer dizer que por certos motivos posso
considerar minhas férias e as de minha tripulação como suspensas,
canceladas e inexistentes?
Villa disse com um sorriso sarcástico, apontando para os homens
sentados em torno dele:
— Por que o senhor deveria ter mais sorte que eu e os meus
colaboradores?
Cliff acenou com a cabeça e repetiu a pergunta:
— Isso mesmo; por que deveríamos ter melhor sorte?
Os participantes da reunião foram-se levantando um atrás do outro,
despediram-se e saíram da sala. Wamsler, Tamara e Cliff foram os
últimos; ficaram parados, de pé. Cliff fitou Wamsler com uma
expressão repreensiva e sacudiu a cabeça.
— Marechal, por que será que o pior sempre acaba atingindo a
mim e à minha tripulação? — perguntou em voz baixa. — Acho que
há algum sistema atrás disso. Não é a primeira vez que sou convocado
em meio às minhas férias. E minha tripulação também. Não se poderia
fazer alguma coisa para evitar isso?
Wamsler fitou-o como se tivesse lâmpadas no lugar dos olhos.
Depois de algum tempo apontou para a projeção da esfera espacial.
— Homem! — disse em tom quase solene. — O senhor não tem
muitas qualidades, mas posso garantir-lhe que possui uma.
— Qual é? — perguntou Cliff com certa curiosidade.
— Não faço a menor idéia.
Em certas situações, até mesmo um comandante extremamente
equilibrado pode cometer um homicídio premeditado. Mas, desta vez,
controlou-se como convinha a um coronel e perguntou a meia voz:
— Marechal, acredito que o senhor tem algum motivo para fazer
uma observação como esta.
— É claro que tenho — disse Wamsler em voz alta. — Olhe a
projeção da esfera espacial e olhe as inúmeras luzes. A esfera está
cheia de perigos que nos espreitam, e o senhor só pensa nas suas
férias. Será que o senhor ainda é recuperável? Terra está chamando,
McLane. Tire o algodão das suas orelhonas e procure ouvir o
chamado. E agora faça o favor de não insultar mais as minhas retinas.
"Vá embora. E daqui a trinta e cinco horas e cinqüenta e oito
minutos compareça ao meu gabinete juntamente com sua tripulação."
Cliff fez um gesto afirmativo. Sua continência foi de uma correção
exagerada.
— O senhor me trata com tamanha bondade, marechal do espaço!
— disse.
Pegou a mão de Tamara, saindo resolutamente da pequena sala de
sessões. Consumiu em três horas vários copos tomados no bar do
cassino para afogar o aborrecimento. E Cliff McLane ainda não sabia
qual seria sua tarefa...
2

O ARRANJO da sala correspondia à importância da cena. Atrás da


enorme mesa do gabinete de Wamsler, estava sentado o marechal
juntamente com seu ajudante.
Wamsler fitava McLane, e Spring-Brauner não conseguia tirar os
olhos de Helga Legrelle. Face a isso, poder-se-ia ter a impressão de
que as outras pessoas que se encontravam na sala não tinham a menor
importância, o que evidentemente não correspondia à realidade. Lydia
van Dyke estava de pé ao lado de Tamara Jagellovsk e de um
comandante das Formações Espaciais Rápidas; tratava-se de um
homem magro chamado C.O. Erickson. Um silêncio angustiante
pesava sobre a cena. Cliff chegou à conclusão de que tudo aquilo não
valia a pena, pois fora obrigado a interromper suas férias. Por isso
realizou uma investida frontal.
— Senhor Spring-Brauner — disse em voz baixa, mas num tom de
voz que infundia pavor — tenho motivo para supor de que o senhor
usou toda sua inteligência, que não é pouca, para arranjar uma tarefa
bem agradável para a Orion. Estamos reunidos para ouvir sua
exposição. Poderia ter a bondade de começar?
Spring-Brauner fez uma expressão indignada.
— Naturalmente — disse, lançando um olhar para o chefe, que
esboçara um sorriso inconfundível ao ouvir as palavras de Cliff. Tirou
uma fita de plástico colorido de dentro da pasta, colocou-a diante de
uma lâmpada e leu.
— Planeta Tareyton — disse. — Cubo espacial Oeste/Seis 039.
Cliff deu de ombros. O planeta e a indicação de distância não lhe
diziam nada.
— Não sei o que fazer com isso — disse. — Alguém de vocês
conhece esse "negócio"?
Virou o rosto para os quatro membros de sua tripulação, mas
apenas encontrou olhares que não diziam nada.
— Não fazemos a menor idéia — disse Hasso Sigbjörnson, o
engenheiro de bordo, em tom tranqüilo, abrindo os braços.
— Era o que eu imaginava — disse Spring-Brauner, lançando um
olhar tímido para Helga, e prosseguiu em suas explicações:
— O planeta tem trinta mil habitantes. Enviaremos três naves para
lá: a Orion VIII, a Hydra II e a Scorpio. O planeta foi colonizado
exatamente há vinte anos e, em parte, já foi explorado. Abastece todo
o setor espacial que o cerca, correspondente exatamente a dez
planetas, com extratos de cereais. Uma boa quantidade dos mesmos é
remetida a Terra, que a transforma em outros produtos. Em linhas
gerais é só isto. O planeta Tareyton pode sustentar-se sozinho em
qualquer tempo; a especialização levada a efeito no mesmo é apenas
parcial.
— O que vamos fazer lá?
Estas palavras foram proferidas numa voz incrivelmente rouca e
profunda. Cliff virou a cabeça e viu o perfil do rosto de Erickson. O
comandante da nave Scorpio mantinha-se tranqüilamente de pé, e
dirigiu a pergunta não ao ajudante, mas diretamente a Wamsler.
— Os senhores se manterão em posição de espera...
— ...em órbita — completou Lydia van Dyke.
— ...e aguardarão. McLane, que é o mais arrojado do nosso
serviço, dará uma olhada mais de perto. A operação será
supervisionada e controlada por Miss Jagellovsk, que permanecerá a
bordo da Hydra II. Se houver necessidade de pesquisas científicas,
recorrerão aos três cavalheiros que estarão na Scorpio. Entendido?
Cliff sacudiu a cabeça.
— O que devemos observar, marechal? Existe algum ponto de
referência?
— Pois é isso — respondeu o chefe da F.R.E.T. — Não temos a
menor indicação. Segundo o Centro de Computação, a probabilidade
da existência de um fator de perigo é de 74:26, mas não conseguimos
descobrir onde está o perigo potencial. O fato de não saber o que está
procurando fará com que o senhor enxergue mais claro, McLane.
McLane e Hasso Sigbjörnson trocaram um olhar longo e bastante
expressivo.
— Será que o senhor não poderia destacar seu ajudante para
acompanhar-nos? — perguntou Hasso com a maior ingenuidade.
Spring-Brauner atirou a cabeça para o alto. O espanto e a
incredulidade desenharam-se em seu rosto. Brincou nervosamente
com os documentos que se encontravam à sua frente e evitou levantar
os olhos acima da tampa da mesa.
— Por quê, Sigbjörnson? — perguntou Wamsler em tom
ressentido.
Um sorriso malicioso surgiu no rosto de Cliff, que respondeu no
lugar de Hasso:
— Por motivos pessoais, marechal.
O rosto de Spring-Brauner começou a ruborizar-se. A tripulação da
Orion constatou o fato com uma satisfação indisfarçável.
— Fale logo, homem! — resmungou Wamsler. — Que motivos
pessoais são estes?
Cliff parecia hesitar.
— O caso é o seguinte — principiou. — Vez por outra, uma
pessoa adulta sente a necessidade de sociabilizar-se. Procuram
conhecer e aprender a estimar uma pessoa do sexo oposto. É
exatamente o que acontece no presente caso. O tenente apaixonou-se
por certa dama. Essa dama encontra-se neste recinto. Dê uma chance a
Spring-Brauner, pois acredito que a dama não lhe dá nenhuma.
Spring-Brauner travou uma luta solitária consigo mesmo, luta que
os tripulantes da Orion acompanharam com uma visível satisfação.
Wamsler não compreendeu tudo; ao que parecia, custava a chegar à
conclusão sobre quem seria a tal dama. Havia três pessoas do sexo
feminino no recinto: Tamara, Helga e Lydia. Wamsler tomou uma
decisão soberana e resmungou em tom mordaz:
— Este assunto não deve ser tratado aqui. Quer dizer que o senhor
não tem qualquer objeção contra a tarefa que lhe foi destinada,
McLane?
— Não — apressou-se Cliff a responder. — Até me sinto muito
satisfeito em viajar em companhia tão distinta e agradável.
Fez uma mesura para Tamara e Lydia.
— Spring-Brauner lhe fornecerá os detalhes. Façam o favor de
olhar para esta tela, senhoras e cavalheiros — disse Wamsler.
Spring-Brauner começou a falar:
— Tareyton é o terceiro planeta do sol que pertence ao mesmo tipo
do sol do planeta Terra. Os outros não assumem a menor importância
e sua colonização só seria possível em condições extremamente
difíceis. O clima de Tareyton é quente e úmido. Uma lua muito grande
gravita em torno do planeta. Sua massa é tamanha que causa variações
muito acentuadas no nível das águas. As marés são muito
pronunciadas, embora os mares do planeta sejam rasos. Vejam as
fotografias.
Ao que parecia o tenente recuperara o autocontrole.
As fotografias mostravam o seguinte: um grande planeta sem
calotas polares. A parte da superfície que podia ser reconhecida entre
as nuvens era bastante estranha.
Parecia que um modelador gigantesco havia feito perfurações de
tamanho aproximadamente igual na crosta do planeta. As perfurações
constituíam mares gigantescos, e a maior parte do entrelaçado
arredondado das terras mergulhava sob as águas por ocasião da maré
alta. Nas fotografias, viu-se a gigantesca lua branca subir por trás da
curvatura da superfície do planeta e dominar o cenário.
— As povoações são constituídas em grande parte de construções
de palafita. O processo de semeadura e colheita é inteiramente
robotizado, e as instalações do espaçoporto também são bastante
avançadas.
A série seguinte oferecia uma visão da paisagem do planeta,
contemplada de altura não superior a um quilômetro. Os tripulantes da
Orion viram as praias encurvadas dos mares e as massas de água de
contornos arredondados. Em algum ponto na periferia da tela, surgiu
uma povoação. Tratava-se de um conjunto circular de construções
erguidas sobre estacas e ligadas por estreitas pontes. Era um quadro
pacato e agradável. Dava uma impressão moderna e não parecia
encerrar o menor fator de perigo.
Uma indústria robotizada com gigantescos tanques esféricos e os
respectivos dispositivos de enchimento de vasilhames surgiu no
campo de visão. Ainda se viu um dos veículos rápidos de
deslizamento em zonas pantanosas que servia à locomoção dos
colonos. Seguiram-se as estatísticas de produção, de exportação, o
número exato dos habitantes, a densidade populacional e outros dados
de interesse relativos a Tareyton.
A lâmina do videofone tornou-se branca; Spring-Brauner acendeu
as luzes da sala.
— Estes documentos contêm outros dados e fotografias sobre o
planeta, coronel.
Spring-Brauner estendeu os documentos a McLane. Cliff
concedeu-lhe um sorriso sarcástico e pegou a caixa.
— Quanto tempo levaremos? De quanto tempo dispomos? —
perguntou em tom lacônico.
Wamsler abriu os braços.
— Por que faz essa pergunta a mim? — perguntou.
— Porque o senhor tem o aspecto de uma pessoa que sabe dar
respostas às perguntas, marechal — disse Cliff sem o menor respeito.
Na presença de Lydia sentia-se um pouco mais seguro.
— Não faço a menor idéia — falou Wamsler. Parecia que a
resposta que acabara de dar não o deixava muito satisfeito.
— Como devo interpretar essa resposta? — perguntou Cliff
obstinadamente.
— Ora essa! Se dez segundos após o pouso no planeta o senhor
tiver descoberto uma série de crimes capitais, terminará mais depressa
do que se levar dois anos para descobrir alguma coisa e reunir as
provas. Não sei dizer; fique por lá o tempo que julgar necessário.
— Será que meu soldo continuará a ser pago? — perguntou Cliff
com um sorriso de deboche.
— Cliff McLane, o senhor está se tornando insolente!
— Não. Apenas adoeço de saudades se tenho que passar um ano
inteiro, e até um ano galático, em órbita em torno de Tareyton. Talvez
para os tripulantes da Hydra II e da Scorpio a provação não seja tão
pesada, mas acontece que eu sou um terrano.
Wamsler teve a sensação desagradável de que os presentes se
divertiam à sua custa sem que ele o percebesse. Seu humor, que nas
últimas vinte e quatro horas descia constantemente em direção ao
ponto crítico, já não era dos melhores; passara o tempo atendendo às
tripulações das naves e designando suas tarefas.
— Coronel McLane — disse com a voz rouca. — Pegue sua
tripulação formidável e estes dados e decole. Depressa! A Base 104
aguarda a Orion daqui a cinco horas. Espere a Hydra II e a Scorpio
fora da atmosfera terrana. E deixe meu ajudante aqui mesmo; preciso
dele.
A voz de Wamsler tornava-se cada vez mais forte. Fez uma ligeira
pausa e quase chegou a gritar o restante de sua fala.
— Não volte enquanto não tiver neutralizado alguma situação de
perigo.
Cliff esforçou-se para continuar sério. Fez continência com uma
ênfase exagerada, o que deixou o marechal ainda mais aborrecido, e
deu um sinal para sua tripulação. As outras pessoas que se
encontravam presentes saíram atrás dele, deixando a sós Wamsler e
Spring-Brauner, que pareciam estupefatos e enfurecidos.
— Afinal — observou Spring-Brauner em tom mordaz — o slogan
de que McLane é o melhor homem que temos no espaço proveio do
senhor, marechal. Portanto, não se admire das atitudes do coronel.
Wamsler fitou a tampa da mesa, virou a cabeça para seu ordenança
e disse em tom furioso:
— Selecione os objetivos para as tripulações que deverão
comparecer daqui a pouco e deixe de comentários inteligentes. O
senhor não está sendo pago para isso.
— Perfeitamente — disse Spring-Brauner e teve a impressão triste
de que não só McLane, mas também Wamsler e até Helga Legrelle
estavam conspirando contra ele. E essa impressão era correta.
***
McLane caminhou ao lado do general Van Dyke em direção à
mesa reservada. Esforçou-se para ignorar o olhar ciumento de Tamara
Jagellovsk.
Cliff parou. Os tripulantes da Orion e Erickson rodearam-no.
Tomaram seus lugares.
— Decolaremos daqui a cinco horas — disse em voz alta. — Qual
é sua opinião sobre a operação, C.O.?
Erickson, que era um homem de cerca de cinqüenta anos, alto e
magro, deu de ombros. Tal qual os tripulantes da Orion, já usava o
casaco de bordo com a placa estreita e comprida no peito, cujos pontos
e divisões em campos, juntamente com um modelo magnético,
atestavam a identidade do portador. Era major.
— Não tenho nenhuma opinião, Cliff — disse C.O. — Isso pode
significar qualquer coisa, desde um tédio mortal até uma excitação
louca. Sou de opinião que devemos aguardar.
Hasso Sigbjörnson bateu com a colher na xícara e disse:
— Estou ansioso para executar uma tarefa que nos leve a um
ambiente normal. Vimos até agora os fanáticos, os hipnotizados, uma
poeira mortal... e agora temos pela frente um planeta aquático. E tudo
isso acompanhado do péssimo humor de Helga. Será uma experiência
inesquecível.
A telegrafista lançou um olhar furioso para Hasso.
— Você não tem motivo para divertir-se à minha custa — disse.
Cliff soltou uma estrondosa gargalhada.
— Ora, Helga, minha filha! — disse em tom contemporizados —
Ninguém está rindo de você; todo mundo está rindo de
Spring-Brauner.
— Não estou entendendo nada — interveio o general Van Dyke.
— O senhor poderia fazer o favor de explicar, McLane?
— O caso é o seguinte — começou Cliff com a maior boa vontade.
— Apoio teve a audácia de desejar Helga. Acho impossível que Helga
possa dar um passo em falso; por isso, a artilharia de nosso sarcasmo é
dirigida contra Spring-Brauner. E o melhor de tudo é que Wamsler
nem sabe de que se trata.
— Agora compreendo muita coisa que tem sido um mistério para
mim. Mas pergunto-lhe uma coisa, McLane: Spring-Brauner é seu
inimigo? — disse C.O.
Cliff fez um gesto afirmativo.
— Conheço-o desde a época do meu exame final. E dali em diante,
a luta nunca parou. Mas vamos prosseguir com Tareyton...
Gigantescas máquinas robotizadas flutuantes plantam o trigo-arroz no
fundo dos mares rasos. As plantas crescem por lá e, quando o cereal
está amadurecendo, sobe à superfície e fica exposto aos raios do sol. O
vento e as marés tangem o alimento flutuante para dentro das baías e
dali para as praias, onde é recolhido, limpo, processado e armazenado
em tanques por um processo inteiramente automatizado. Isso não é
nenhuma novidade, pois já temos visto coisa igual.
"Mas há um detalhe. Dez planetas e a própria Terra dependem do
suprimento pontual de alimentos vindos desse planeta. Os dez planetas
exercem atividades altamente especializadas; se os suprimentos
falhassem, sua situação se tornaria ao menos crítica. Terra não seria
atingida tão fortemente, pois poderia recorrer a outras fontes de
suprimento. É possível que este ponto represente um fator de perigo.
— Aos poucos começo a ver a finalidade da operação — observou
Atan Shubashi em tom seco, enquanto contemplava Helga Legrelle,
cujos dedos pontudos procuravam remover um fio de cabelo da
jaqueta dele.
— Agora temos a prova! — disse Helga em tom triunfante. —
Shubashi, cuja vida sentimental sempre tem sido um segredo guardado
a sete chaves, namora uma moça de cabelos curtos e negros.
Segurou o fio de cabelo entre os dedos, para que todos pudessem
vê-lo. Atan disse com um sorriso de desprezo:
— Isso é um engano. Foi a filha do 264. A tripulação da Orion e
Tamara Jagellovsk compreenderam.
— Há pouco tempo seu poodle real de número 264 teve uma
ninhada de filhotes. E agora Atan deve estar dando mostras de sua
habilidade de adestrador — disse Cliff.
— É mais ou menos isso — confirmou Shubashi e sorveu
ruidosamente o seu café.
— A uma velocidade normal, que não force demais os propulsores
das naves, levaremos cerca de seis dias para chegar a Oeste/Seis 039.
Nesses seis dias, teremos tempo para conferenciar sobre todos os
detalhes pelo rádio. Sugiro que esvaziemos nossas xícaras e nos
encontremos pontualmente, dentro de três horas no máximo, na
comporta de pessoas da Base 104. A Orion VIII decolará em primeiro
lugar, seguida pela Hydra II, e finalmente o senhor, C.O. Erickson,
decolará com a Scorpio. De acordo?
A proposta de Cliff obteve aprovação total. Despediram-se.
Cliff foi ao seu bangalô, ativou as unidades robotizadas que
cuidariam da casa até seu regresso e selecionou vários objetos, os
colocando numa bolsa de viagem. Não tinha um plano definido, mas
alguma coisa lhe dizia que os objetos que devia levar eram estes. Com
uma certa melancolia, contemplou as salas sombreadas, sacudiu os
ombros e entrou no carro de turbina. Chegou pontualmente à
comporta.
***
Guardando a necessária distância de segurança, as três naves
corriam pelo hiperespaço. Haviam realizado o sexto salto. O planeta
Tareyton e seu sol ficavam a poucas horas de distância. Cliff Allistair
McLane estava sentado em seu camarote a bordo da Orion. Seu status
de comandante de nave apenas lhe dera um metro quadrado a mais.
Cada lado de seu camarote media poucos centímetros mais que os dos
outros membros da tripulação. Até mesmo acima da porta, que podia
encolher-se numa fenda da curva do corredor, havia profundas gavetas
embutidas. Do lado oposto da porta Cliff saía da parede uma mesinha
de escrever. Uma luminária pequeníssima atirava um círculo de luz
sobre os documentos que tinha à sua frente. Diante da mesa, havia
uma tela de videofone de um metro quadrado. Nela se via a imagem de
uma paisagem planetária terrivelmente desoladora. Sempre que
levantava os olhos, Cliff via as finas nuvens de areia, tangidas por
cima das rochas. Era uma projeção ao vivo proveniente do estoque de
fotografias encontradas a bordo.
Cliff sacudiu os ombros e recostou-se na poltrona. À sua frente,
encontravam-se fotografias, diagramas, descrições, gráficos, números
e estatísticas. Trinta mil homens habitavam Tareyton. E o Centro de
Computação vira nesse planeta um fator de perigo altamente suspeito.
O comandante desistiu. No mesmo instante soou à sua esquerda
um fraco zumbido. Ligou o intercomunicador de bordo. Helga
Legrelle surgiu na tela.
— Tamara Jagellovsk, que se encontra a bordo da Hidra II, quer
falar com McLane. Transmitirei a ligação — disse em tom frio.
— Obrigado — disse Cliff e sacudiu a cabeça. O rosto de Tamara
surgiu na tela.
— Até onde conseguiu chegar nosso inteligente comandante? —
perguntou com um sorriso.
Cliff fez uma careta e respondeu:
— O comandante está tão inteligente quanto antes. Wamsler
passou óleo pelas nossas trancas.
Uma ruga vertical surgiu na testa de Tamara.
— O que quer dizer isso?
— Há alguns milênios ainda havia homens que faziam trancas de
seus cabelos e as atiravam para a nuca. Enfeitavam-nas com uma fita.
Nas trancas colocavam pó, geralmente branco.
— E incrível! — disse Tamara em tom de espanto. — Será que
uma coisa dessas realmente chegou a existir?
Cliff fez um gesto afirmativo.
— Sim. Quer dizer que as trancas estavam cheias de pó. Se
alguém, dando um tratamento adequado ao cabelo, o embebesse com
óleo, causava uma verdadeira devastação em virtude da mistura deste
com o pó branco. Foi dali que surgiu o ditado. Sempre que alguém
quer fazer um favor a outra pessoa e consegue exatamente o contrário,
diz-se que colocou óleo na trança. Wamsler teve a intenção de nos
confiar uma missão interessante, mas o resultado foi uma adivinhação
que não conduz a nada.
— Como foi que você conheceu esse ditado? — perguntou a
camarada.
— Ouvi de alguns intelectuais — disse Cliff. — Você já tem
alguma idéia aproveitável?
Tamara sacudiu a cabeça.
— Nenhuma, a não ser chamá-lo. Acho que foi uma boa idéia.
Como vamos agir?
— Formalmente — respondeu Cliff.
— Isso quer dizer que pousaremos em Halvorsen e nos
identificaremos como representantes de Terra. Faremos questão de
sermos convidados e ficaremos com os olhos abertos.
Cliff sorriu para Tamara e acenou violentamente com a cabeça.
Seu rosto exprimia sua conhecida força de resolução.
— Não ficaremos apenas com os olhos abertos. As três naves
permanecerão em órbita e seus instrumentos rastrearão cada metro
quadrado da superfície do planeta.
— Uma pergunta, Cliff. Você acredita que Tareyton está tramando
alguma coisa que exigirá nossa intervenção?
— A resposta é muito difícil — disse Cliff para esquivar-se.
— Foi justamente por isso que formulei a pergunta a você e não a
Lydia. É uma mulher encantadora para quem a conhece mais de perto.
— Foi o que eu já disse — declarou Cliff. — Acontece que você
ainda não tinha um gabarito pessoal que lhe permitisse vencer seus
ciúmes gratuitos. Quanto à sua pergunta, apenas posso responder que
não sei. Na maioria das vezes, uma desconfiança extremada e uma
curiosidade pérfida podem ser muito úteis. Se o planeta estiver
escondendo alguma coisa, nós descobriremos. Pretendo pousar lá com
Hasso e C.O. Sem você.
— Compreendo. O comandante McLane meterá o nariz em tudo
que existe lá embaixo.
— É exatamente o que pretendo fazer. E sentirei quando as coisas
começarem a feder.
Tamara riu e fez um gesto com a mão.
— Tomara que em Tareyton não lhe ponham óleo na trança —
disse e interrompeu a comunicação.
Cliff começou a reunir os documentos que tinha diante de si e a
guardá-los numa caixa. Segurou uma fotografia por algum tempo,
pegou o cubo de projeção, ligou-o para a reprodução estereoscópica e
enfiou o grosso quadro de plástico para dentro da fenda. Viu uma
gigantesca praia recurvada, que se perdia no infinito. Fez a projeção
descrever uma curva para a direita. Na parte da frente surgiu um
pântano, ou melhor, a paisagem de um delta. Havia muito junco,
árvores com raízes aéreas retorcidas e com fios gosmentos nos galhos
inferiores. O quadro era encimado pela lua.
Tratava-se de uma gigantesca lâmina branca sem contornos
definidos. Seu diâmetro correspondia aproximadamente a seis vezes o
da lua terrana. Era a impressão que se oferecia a quem se encontrasse
na superfície de Tareyton. No ar, uma fileira de aves aquáticas
semelhantes a cisnes deslocava-se, e um grupo de animais de grande
porte, que tinham uma vaga semelhança com vacas, surgiu no primeiro
plano do quadro.
A paisagem noturna parecia envolta em melancolia. A lua cheia
refletia-se em toda parte. As ondas formavam uma estranha
chanfradura. Subitamente McLane percebeu que os pêlos do braço se
arrepiavam. A visão lhe dava calafrios. Ligou o amplifica-dor. O junco
transformou-se numa confusão de grossos caules, que se moviam uns
contra os outros, formando um paredão que se interpunha entre o mar
e a faixa de terra situada em plano mais elevado. Nos caules via os
sinais deixados pela última maré alta, que havia deixado uma
coloração peculiar. Uma grande ave negra estava pousada num galho,
com o pescoço esticado e o bico bem aberto. Cliff teve a impressão de
que ouvia o grito.
Refletiu intensamente. Não pertencia à classe de pessoas que, face
à tecnologia e os graves desvios da civilização, se afastaram da
natureza e das coisas ligadas à mesma. Seria incapaz de passar dias
seguidos nas cavernas da Base 104, tal qual fazia Wamsler. Por isso,
teve a impressão de que era capaz de interpretar corretamente o
sentido desse quadro.
O planeta apoderava-se dos homens que pisassem nele.
Transformavam-se em seres do planeta, ou saíam dentro de poucos
dias. Não havia outra alternativa. Aqui não era o homo sapiens que
dominava a natureza. Pelo contrário, a beleza selvagem de Tareyton
não demorava em dominar o homem. Cliff compreendeu que a vaga
suspeita tinha sua razão de ser. Se nesse planeta houvesse pessoas que
eram contra Terra, as mesmas não hesitariam em transformar seus
desígnios em realidade.
Um sinal estridente soou.
Cliff sabia que era o primeiro aviso. Dali a pouco a Orion VIII, a
Hydra II e a Scorpio retornariam ao espaço normal. E quando isso
acontecesse, estariam no sistema solar de Tareyton.
Desligou o cubo de projeção, arrumou apressadamente as coisas e
subiu para a cabine de comando.
3

SENTADO na poltrona do comandante, com os largos cintos


atados, Cliff viu o planeta crescer na tela central redonda. Atrás da
Orion, a Hydra e a Scorpio deslizavam pelo espaço. A única povoação
que fazia jus à denominação de cidade ficava perto do equador. Nos
outros lugares, os colonos espalhavam-se... Helga Legrelle, cujo
humor melhorara, estava lidando nos controles do rádio.
— Consegui a ligação audiovisual — disse, levantando
cautelosamente o fone de ouvido. — O cônsul Halvorsen está na linha.
— Passe a ligação — ordenou o comandante.
Ouviu-se um estalo nos alto-falantes e uma tela iluminou-se à
frente de Cliff. As lentes dirigiram-se sobre o coronel. Cliff exibiu o
célebre rosto impenetrável.
— Aqui fala o coronel McLane, a bordo da Orion — disse.
Pelo canto do olho viu que Helga acionara as teclas da ligação em
conferência, sem que ninguém o tivesse pedido. As outras naves
poderiam acompanhar o diálogo travado entre Cliff e Halvorsen.
— Meu nome é Halvorsen — disse o homem.
— Meus cumprimentos, cônsul — disse McLane. — Estamos
chegando na qualidade de representantes oficiais do governo terrano.
Trazemos credenciais e queremos pousar em seu espaçoporto, mas
apenas com a nave auxiliar.
— Excelente! — exclamou Halvorsen.
— Finalmente aparece alguma coisa para espantar o tédio.
— Isso parece ser um planeta de aventuras loucas. Vejam só! O
vôo para o tédio...
— resmungou Mario de Monti, que se encontrava no lugar
destinado à introdução de dados no sistema de computação.
Cliff fez-lhe um sinal para que se calasse. Halvorsen era um
homem pequeno e corpulento de cabelo ralo, bigode marcial e roupa
desleixada. À primeira vista, Cliff o achou simpático, mas não deixou
que seu interlocutor o percebesse.
— Peço o obséquio de nos fornecer um raio vetor — disse. —
Inicialmente pousaremos em três; o resto veremos depois. Será que
pode arranjar algumas camas de campanha para nós?
Halvorsen parecia ofendido. Apressou-se em responder:
— Faça-me o favor! Afinal, dispomos de casa de hóspedes
montada com certo luxo. Estão cordialmente convidados a ocupá-la.
Farei realizar uma grande festa.
— Obrigado pelo convite. Devo avisá-lo de que mais duas naves
se encontram em minha companhia. As três naves permanecerão em
órbita. Pousaremos numa Lancet — Cliff soltou uma risadinha.
O cônsul parecia estranhar aquilo, mas respondeu com um gesto
gentil.
— A perspectiva da mudança da rotina deixa-nos entusiasmados.
Então, a qualquer hora as naves deverão pousar. Quando poderei
esperar o senhor, coronel?
— Dentro de uma hora, aproximadamente. Seguiremos seu raio
vetor. Por enquanto, muito obrigado.
Halvorsen fez um sinal e interrompeu a comunicação. Helga
Legrelle, que se encontrava junto ao painel de controle de rádio, disse
em voz alta:
— Operadora de rádio chamando comandante: o raio vetor foi
captado.
— Obrigado — disse McLane e levantou a cabeça.
Viu os olhos de Lydia e C.O. dirigidos sobre ele.
— Quem chefia a expedição sou eu — disse McLane a meia voz.
— E quero que Hasso Sigbjörnson e o senhor, C.O., venham comigo a
Tareyton. Se chegarmos à conclusão de que o território é tranqüilo, os
outros virão posteriormente. De acordo?
— Sim; naturalmente.
— Muito bem. Pegaremos a Lancet I da Orion. C.O. fará o favor
de sair pela comporta lateral, num traje espacial leve à prova do
espaço. Nós o recolheremos a bordo. A Lancet pousará,
aproximadamente, dentro de quinze minutos.
— Está bem, Cliff — disse o comandante da Scorpio e
interrompeu a comunicação.
— Leve o rádio de pulso, McLane — recomendou Lydia van
Dyke. Cliff fez um gesto afirmativo. Era exatamente o que pretendia
fazer.
A outra tela também se apagou. Uma vez desligadas as máquinas,
Cliff recostou-se confortavelmente e colocou os pés calçados sobre o
painel de controle.
— Meus amigos, a coisa vai começar — disse a meia voz. —
Hasso, C.O. e eu procuraremos fazer um pouco de confusão. Ao que
parece, o cônsul ficou satisfeito com nossa visita, ou então sabe
representar muito bem. Se deixarmos de entrar em contato com vocês,
entrem no jogo.
"Se percebermos que não há nada por aqui, gozaremos umas férias.
Organizarei um serviço de transporte por Lancets que levará todos os
membros da expedição para baixo. Escolhi Hasso para que também
tenha uma oportunidade de sair de sua apertada sala de máquinas.
Mais alguma pergunta?"
— Não — disse Helga. — Continuarei a pensar se não será melhor
que eu case mesmo com Spring-Brauner.
Cliff esboçou um sorriso alegre.
— Se sua decisão for positiva, nós a largaremos em Tareyton.
Helga não respondeu. Comprimiu uma série de botões de seu
painel.
— Quanto a mim, conversarei com Tamara e farei o possível para
convencê-la de que tenho uma porção de boas qualidades — observou
Atan.
Mario não ficou muito satisfeito em ficar de sentinela por ali, mas
acabou dando de ombros, pegou o elevador e desceu para a câmara de
controle situada junto ao poço de decolagem das Lancets. Hasso e
Cliff fizeram um gesto.
— Vamos!
Colocaram os objetos de que precisavam em bolsas feitas de
matéria que não deixava passar o ar, fecharam-nas e enfiaram os trajes
espaciais leves. Cliff examinou sua arma, colocou no bolso vários
pentes de balas de reserva e entrou na abertura redonda do poço de
decolagem. A escotilha fechou-se atrás dos dois homens. Dali a alguns
minutos, a Lancet foi catapultada para fora da Orion com uma
aceleração equivalente a quatro G.
***
A pseudo-esfera iluminada formada pela Lancet, com as vinte
cúpulas redondas na parte superior, afastou-se silenciosamente,
descrevendo uma curva fechada, e tomou a direção da Scorpio. Não se
notava qualquer emissão de energia. De repente, a comporta redonda
abriu-se na parte inferior da nave auxiliar.
Hasso levantou a mão; Cliff viu-o através da lâmina do visor.
— Contato pelo rádio!
C.O. e a tripulação da Lancet comunicavam-se no tráfego
radiofônico normal da freqüência da frota.
— Aguardo-os na comporta de emergência.
Ouviu-se a voz de Cliff:
— Dentro de alguns segundos estaremos exatamente acima do
senhor. Quando isso acontecer, empurre-se e segure a escada.
A Lancet ia na direção vertical de encontro a Scorpio. Freou e
aguardou sobre o círculo bem iluminado da comporta de emergência.
Erickson, que envergava um traje espacial amarelo, olhou para cima,
empurrou-se levemente com as duas mãos e subiu verticalmente que
nem um foguete, penetrando na comporta. O impacto produziu um
leve solavanco na Lancet e a voz do homem disse:
— O.K. Pode fechar a comporta, Cliff.
Os dois segmentos fecharam-se simultaneamente: a comporta de
emergência da grande nave e a pequena eclusa da nave auxilar.
Enquanto Cliff enchia a cabine de mistura atmosférica e assistia a
comporta interna abrir-se. O capacete espacial do comandante surgiu
no campo de visão. McLane acelerou a Lancet.
— Seguindo o raio vetor, percebo que o mesmo vai quase na
vertical em relação à superfície do planeta. Isso quer dizer que as
naves se encontram quase diretamente em cima da Grande Laguna.
— Vamos embora para a grande aventura. O que será que nos
espera, Cliff? — perguntou Erickson em tom alegre.
— No mínimo é muita água — disse o comandante. — De resto
não sei o que nos espera. Deixemos que Halvorsen nos surpreenda.
Embaixo dos três homens, a paisagem estendia-se à luz do sol. Aos
poucos, foram distinguindo os detalhes a olho nu.
— Que coisa fantástica! — exclamou Erickson.
Sua observação dizia respeito às margens de dois mares, ou
melhor, de dois grandes lagos, que ficavam sob a nave auxiliar.
Partindo de uma faixa de terra que na parte mais estreita não tinha
mais de dez quilômetros de largura, as margens convexas das duas
baías se afastavam até desaparecer em meio à névoa e a distância.
Mais adiante, provavelmente num trecho de terra triangular, ficava a
cidade. Viam-se as construções de metal leve e as estruturas de
plástico e aço brilhando à luz do sol.
— Ali fica o pequeno espaçoporto — disse Hasso, apontando para
um campo bem aplainado de cerca de trezentos metros de diâmetro.
E é exatamente ali que vamos pousar — disse Cliff, movendo a
alavanca de pilotagem manual. A Lancet aproximou-se de alguns
edifícios que se agrupavam em torno da esguia torre de rádio. Já
estavam vendo os homens que pareciam aguardá-los.
— É um comitê de recepção! — disse Erickson em tom de
espanto. — São nove... doze pessoas.
— Provavelmente são todas as damas de honra existentes em
Tareyton — comentou o engenheiro de bordo em tom seco.
Cliff e Erickson soltaram uma risada.
— Nada de textos comprometedores, Hasso! — disse Cliff.
— Desculpe — disse Hasso com um sorriso.
Os suportes de aterrissagem chiaram ao saírem da parte inferior da
nave e tocaram o solo. As máquinas foram desligadas e Hasso
dispôs-se a abrir o traje espacial.
— Somos amáveis, inofensivos e um tanto curiosos. Que nem um
grupo de turistas que não entende nada de coisa alguma
— disse Cliff. — Daqui em diante, nosso papel será este.
Entendido?
Erickson dobrou o traje espacial e guardou-o numa das poucas
gavetas da pequena nave. Fez um gesto afirmativo.
— Já compreendi sua intenção, coronel
— respondeu Hasso. — Tomara que neste planeta não haja mais
ninguém que o compreenda.
— Tomara.
Encontravam-se na cabine da nave, envergando seus uniformes de
bordo. As bolsas à prova do espaço estavam junto às botas. No pulso
esquerdo os homens traziam o minúsculo aparelho de
radiocomunicação. Os cabos das armas saíam dos bolsos, na altura da
coxa.
— Pronto! — disse Cliff McLane, falando baixo, mas em tom
enfático.
Apertou um botão. O dispositivo automático abriu as duas
escotilhas da comporta ao mesmo tempo. A escada de degraus largos
foi movimentada pelo dispositivo hidráulico. O motor zumbiu
enquanto a mesma descia até tocar o chão. Erickson foi o primeiro a
descer; parou na sombra da Lancet. Depois que Cliff e Hasso haviam
saído, o primeiro fechou a comporta e a trancou. Agora só poderia ser
aberta com uma chave especial, que se encontrava em poder de Cliff.
— Olá! O senhor deve ser o célebre Cliff McLane! — disse uma
voz.
Cliff exibiu um sorriso indefinido, virou-se e estendeu a mão.
Halvorsen caminhava em sua direção, enquanto o grupo que o
acompanhava se aproximava mais devagar. Os dois homens
cumprimentaram-se.
— Não sou nenhuma celebridade — objetou Cliff.
— David Halvorsen — disse o cônsul, estendendo a mão a Hasso.
Era um homem pequeno, jovial e cheio de vida.
— Hasso Sigbjörnson, engenheiro de bordo — disse Hasso. Olhou
em torno e examinou demoradamente as instalações com os olhos
semicerrados. O brilho do plástico branco e do aço cromado ofuscava
sua visão.
— As instalações daqui são muito boas.
— Mais ou menos — disse Halvorsen enquanto cumprimentava o
comandante. — Cavalheiros, permitam que os convide para um
drinque de boas-vindas. Minha casa serve ao mesmo tempo de edifício
de controle do porto, depósito, residência e local de recepção. É bom
que saibam que por aqui não damos tanta importância às questões de
etiqueta.
Dirigiram-se para o grupo de doze pessoas que se encontrava entre
a Lancet e a casa erguida sobre suportes de aço.
— Isso faz com que desde logo eu simpatize com seu planeta —
disse Cliff, enquanto procurava memorizar os nomes das pessoas que
estavam sendo apresentadas. Era praticamente inútil, mas havia uma
exceção: Titus Veever.
Mesmo nas condições reinantes em Tareyton esse homem devia ser
considerado um fenômeno. Por ali não ligavam muito para questões de
etiqueta e, ao que parecia, nem para uma porção de outras coisas.
Veever era um homem de ombros largos com uma cabeleira negra
maltratada e um bigode bem maior que o do cônsul. Sua vestimenta
era "notável".
— Venham, cavalheiros, por aqui — ouviu-se a voz retumbante de
Halvorsen.
O lugar era ao mesmo tempo o centro da cidade. O campo havia
sido construído com gigantescos blocos de espuma de plástico, capaz
de resistir mesmo aos raios antigravitacionais de uma nave cargueira
inteiramente cheia. Era uma área redonda que media exatamente
trezentos e dez metros de diâmetro. Pontilhões e escadas, rampas e
faixas penseis com amuradas baixas ligavam os edifícios entre si e
estes com o solo. Era uma gigantesca cidade construída na laguna, que
oferecia um quadro grotesco já que seu solo era seco.
— Obrigado, Halvorsen — respondeu C.O.
Halvorsen e seus acompanhantes chegaram a uma plataforma
bastante extensa. Proporcionava uma visão excelente sobre o campo
de pouso e constituía uma espécie de jardim do edifício do consulado.
Em gigantescos jarros de plástico, cresciam plantas exóticas cujas
folhas tinham o formato de lança e cujas flores exalavam um perfume
atordoante.
Uma mesa comprida havia sido preparada.
— Halvorsen — disse Cliff em voz alta. — Agradeço em nome de
todos pela gentileza da recepção. É bem verdade que estou aqui na
qualidade de representante do governo de Terra, mas isso não me
impede de erguer o copo para um brinde.
Halvorsen riu; as pontas de seu bigode tremiam nervosamente.
Segurava um copo e distribuía outros de bebidas alcoólicas cujo
tamanho não era nada desprezível.
O grupo de colonos cercava os astronautas em semicírculo. Uma
brisa de cheiro salgado soprava da praia próxima e mexia nas plantas
da plataforma. De algum lugar ouviu-se o zumbido grave produzido
por uma máquina pesada.
— O que o trouxe até aqui, McLane? — perguntou o cônsul.
— Foi a curiosidade. Quero ver como funciona a vida nos mundos
coloniais de Terra. Como sabe, geralmente a frota costuma operar no
espaço vazio. Por isso não perdemos a oportunidade de introduzir
outra coloração na monotonia das tarefas que nos são atribuídas.
Halvorsen tomou um grande gole. Hasso fez um gesto de
aprovação, segurando o copo quase vazio. Cliff bebia devagar. Aquela
bebida tinha um gosto que lhe era estranho. Estranho, mas muito bom.
— O senhor veio com alguma incumbência? — perguntou Veever
a meia voz.
— Vim. Terei de apresentar uma descrição minuciosa deste
planeta. Terra precisa de dados para seus arquivos.
— Que espécie de dados?
Os olhos do homem de aspecto selvagem exprimiam desconfiança.
E essa expressão não desapareceu quando Cliff riu para ele.
— Trata-se principalmente de detalhes ligados às ciências naturais.
Teremos de tirar fotografias, para verificar como os edifícios e os
produtos da tecnologia se integram no ambiente geral do planeta... se é
que se integram.
— Compreendo — disse Titus.
Cliff percebeu que ele compreendia, mas não devia acreditar. Três
astronautas para a execução de uma tarefa estritamente limitada era
demais. Devia haver outra coisa atrás daquilo. Foram estes os
pensamentos de Titus, que se desenharam nitidamente em seu rosto.
— A vida aqui não é fácil, McLane — disse Halvorsen. — Mas
alguém que se acostumou a este planeta não quer viver em outro lugar.
Tareyton é lindo. Levamos uma vida dura, porém livre. Mas estou
esquecendo meus deveres de anfitrião. Permitem que os leve à casa
dos hóspedes e lhes mostre seus aposentos?
— Vamos devagar — disse Cliff. — Estou vendo a alguns metros
quadrados um bufê de primeira classe, e o senhor quer livrar-se de
nós. Ainda é cedo. Afinal, viemos do espaço vazio e estamos com
fome.
Deu alguns passos decididos em direção à mesa comprida.
Erickson pigarreou e completou a frase:
— Sem falar na sede.
Hasso era um dos amigos mais antigos de Cliff e Erickson
compreendeu logo qual era a intenção de McLane. Fazia o papel do
astronauta ligeiramente entediado, que se deleitava com as maravilhas
deste mundo. E, como se fosse um turista, queria ver, cheirar e tocar
tudo. Naquele planeta usava-se uma fala áspera e as gentilezas do
cônsul eram um tanto forçadas, mas o bufê realmente era apetitoso. Os
três homens avançaram sobre o mesmo, devoraram porções enormes e
derramaram a bebida goela abaixo.
Enquanto comiam, bebiam e se entretinham em conversas de
astronautas, lançavam olhares curiosos em torno.
As construções eram feitas de peças pré-fabricadas padronizadas,
habilmente colocadas lado a lado, ou umas em cima das outras. Do
lado oposto do campo, o comandante viu uma série de tanques de
diversas cores com uma capacidade muito grande. Descansavam sobre
suportes especiais, pois do contrário teriam afundado no solo arenoso.
Examinaram as vias de comunicação. Todas as construções
estavam ligadas por pontes, estradas e longas rampas, substituídas às
vezes por escadas esguias que subiam ou desciam em linha reta ou em
curva. O conjunto dava o aspecto de uma gigantesca rede formada por
meios de comunicação e plataformas, ligações e pontos de atracação,
que poderiam ser usados quando a maré subisse. E, por cima de tudo,
estendia-se o céu com sua coloração intensa: o azul-escuro estava
entremeado pelos contornos brancos das nuvens de verão.
— O senhor tem aqui um tempo maravilhoso... e isso de graça,
durante o ano inteiro — constatou Hasso Sigbjörnson e desabotoou a
gola do uniforme.
— Sim — disse Halvorsen. — Aqui na zona equatorial tudo
cresce, floresce e amadurece num tempo recorde. A chuva geralmente
cai durante a noite, conforme se deseja. Não conhecemos inverno nem
época chuvosa.
— E os senhores sabem destilar uma bebida alcoólica que é uma
lenda de tão boa — concluiu Erickson. — Se não fosse astronauta,
levaria algumas garrafas. Como é o nome disso?
Halvorsen soltou uma estrondosa gargalhada.
— O que há de engraçado na minha pergunta? — indagou o
comandante.
— O nome! — Até Titus Veever estava rindo.
— Por quê?
Halvorsen enxugou as lágrimas que lhe corriam pelo rosto e torceu
as pontas do bigode.
— Um dos primeiros colonos deste planeta descobriu a maneira de
destilar esta bebida de uma das plantas que crescem aqui. Fez uma
onda tremenda em tomo de sua invenção que, quando nos reunimos
para examinar os primeiros resultados, obrigamo-lo a tomar um bom
copo. Era tão forte que as lágrimas lhe vieram aos olhos. Por isso a
bebida foi batizada com o nome Archer's Tears.
— As lágrimas do senhor Archer — disse Cliff em tom pensativo.
— É um nome bem original.
— E uma excelente bebida — disse Erickson, segurando o copo à
frente de Veever, para que o mesmo o enchesse.
Cliff, Hasso e C.O. passaram os trinta minutos seguintes
devorando o que restava do bufê, tomando quantidades enormes de
bebida e soltando uma quantidade — não menor — de bobagens sobre
as belezas do planeta. Comentaram a monotonia do serviço na frota
espacial, a recepção gentil que lhes estava sendo proporcionada e as
aventuras que os esperavam. Finalmente Cliff deu o sinal.
— Cônsul — disse com a língua pesada. — Tenho a impressão de
que já falamos e bebemos demais. Poderia ter a gentileza de levar-nos
aos nossos aposentos?
Embora não tivesse bebido menos que Cliff, Halvorsen não
demonstrava a menor alteração.
— Terei muito prazer, comandante — disse.
Os outros colonos despediram-se. Halvorsen e Veever foram os
únicos que ficaram. Só agora Cliff viu que Veever usava no cinto,
extraordinariamente largo e de imitação de couro, uma arma de
aparência perigosa, que provavelmente funcionava com gás altamente
comprimido. Foi o que Cliff concluiu face aos enormes pentes. Veever
e Halvorsen apontaram para um edifício largo e baixo, que ficava a
uns duzentos metros em linha reta. O cônsul disse:
— É ali, McLane.
Os astronautas não tiveram necessidade de representar; realmente
não se sentiam muito seguros das pernas.
Subiram uma escada suave que os levou cerca de vinte metros
acima da superfície do solo. Atravessaram uma rampa em curva que
dava para a cobertura de uma casa que servia de plataforma. Depois
passaram por outras plataformas, que eram entradas de casas, até
chegarem ao terraço que se estendia diante da casa de hóspedes. Duas
moças jovens e lindas os aguardavam.
— Estes senhores são McLane, Sigbjörnson e C.O. Erickson —
disse Halvorsen, fazendo as apresentações. — Esta é a irmã de Titus
Veever; seu nome é Elena. Esta moça é Ivy Cerea.
Cliff e seus companheiros cumprimentaram-nas com uma cortesia
exagerada.
— Aguardo todos para um pequeno jantar — disse Halvorsen e
olhou para o relógio à prova de água. — Daqui a sete horas
exatamente.
— Agradecemos antecipadamente e não deixaremos de
comparecer — prometeu Cliff.
— O senhor mandará servir Archer's Tears? — perguntou
Erickson, recostando-se pesadamente contra a porta.
— À vontade — asseverou o cônsul. — Caso estiverem
interessados em caçadas, excursões pelos pântanos ou atividades
semelhantes, Titus será o homem que melhor lhes poderá servir.
McLane segurou a mão do barbudo, apertou-a fortemente e
respondeu em tom entusiástico:
— Teremos muito prazer. É o que desejamos.
Titus Veever obrigou-se a esboçar um sorriso sombrio e sua irmã,
que também tinha cabelos negros e cuja idade devia ser de cerca de
vinte e cinco anos, comprimiu a maçaneta eletrônica e abriu a porta.
Os três astronautas receberam três quartos grandes que quase
chegavam a ser luxuosos, mas evidentemente estavam guarnecidos
com os móveis em série produzidos pela cultura colonial terrana. As
moças levaram a bagagem para dentro, desejaram um bom repouso e
despediram-se.
Uma hora e meia ja se havia passado em Tareyton.
Cliff McLane abriu a borda larga da bolsa, tirou vários aparelhos,
colocou uma célula energética num deles e descansou-o. Parecia uma
caixa alongada provida de alguns botões e fendas, sob o disfarce de
um alto-falante. Cliff fez uma ligação, e uma música ensurdecedora
encheu o quarto. Thomas Peter: "Planet of Thousand Seas." Depois de
dezessete compassos, Cliff pegou outro aparelho e comprimiu um
botão. Um campo de interferência adaptado aos microfones comuns
espalhou-se. Qualquer pessoa que procurasse acompanhar a palestra
dos astronautas captaria um ruído terrível, que o faria supor que um
aparelho de reprodução mal ajustado provocava o ruído.
— C.O. — disse Cliff, quando a pequena tela do videofone se
iluminou.
Erickson estava desfazendo a mala espacial e guardava seu
conteúdo num armário embutido. Virou-se, e fez um gesto.
Cliff comprimiu outro número da faixa de controle e entrou em
contato com Hasso. Este se acomodara numa poltrona baixa e estava
esticando as pernas. Piscou para a tela, identificou o sinal de Cliff e
levantou-se. Dali a um minuto, estavam reunidos no quarto de Cliff.
Este fez um gesto contrariado e apontou para o aparelho de
interferência.
— A esta hora devem pensar que somos uns idiotas perfeitos ou
então acreditam que existe algo de terrível atrás de nossa aparição. De
qualquer maneira, nós os deixamos confusos. Halvorsen parece ser um
sujeito amável e inofensivo — comentou McLane.
Hasso cocou a nuca; parecia indeciso.
— Com exceção do comportamento um tanto sombrio de Titus
Veever, realmente parece que tudo está calmo em Tareyton. Até agora
não notei o menor indício de consciência pouco tranqüila.
Cliff olhou pela janela, contemplando o espaçoporto que se
estendia diante dele. Viu uma nave pesada de transportes levantar um
sistema de grossas mangueiras e ligá-las. Era uma nave de um dos dez
planetas que vinham suprir-se de alimentos em Tareyton. O disco
pairava dez metros acima da periferia do lado oposto do campo de
pouso.
— Hoje de noite terei uma boa conversa com o cônsul — disse em
voz baixa. — Não acredito que Halvorsen esteja metido num projeto
de atentado contra Terra.
Erickson esfregou as mãos e objetou:
— Não se esqueça: não sabemos se por aqui, embaixo da
superfície, está sendo tramada alguma coisa. Sabemos apenas que o
Centro de Computação chegou à conclusão de que este planeta
representa um possível fator de risco.
— E a probabilidade é superior a setenta por cento.
Hasso puxou a HM-4 e deixou que voltasse a escorregar para
dentro do coldre.
— Vamos aguardar — disse. — Até agora sempre encontramos
exatamente aquilo que procurávamos. Vamos esperar até depois do
jantar.
Cliff confirmou com um gesto.
— Devíamos dormir um pouco — disse. — As moças nos
chamarão.
— Que bom! — respondeu Erickson. — Sempre desejei uma coisa
destas.
— Se você vê o sorriso gelado de Elena Veever, vai desejar uma
única coisa: dormir de novo — disse Cliff em tom sarcástico.
— Daqui a seis horas e meia nos encontraremos na sala de estar,
de uniforme de gala, sem armas e sem rádio de pulso. De acordo? —
perguntou Cliff.
Hasso confirmou com um gesto e retirou-se.
— Enquanto não dormir, darei uma olhada pelos arredores com o
binóculo — disse Erickson e também se retirou. Cliff desligou o
aparelho de reprodução e o emissor de interferência e deitou
confortavelmente no leito. Se alguém os observasse ou escutasse, não
teria conseguido nada.
Era meia-noite. Cliff estava de pé ao lado de Halvorsen, junto à
amurada da plataforma. Atrás dos dois homens havia luzes, homens e
música. Viam-se os pratos e os copos. Ali, em meio à noite planetária,
reinava o silêncio. O vento salgado voltou a soprar. A curva
gigantesca da lua surgiu no horizonte. Cliff estava bem acordado;
durante o jantar quase não bebera. Os dois homens seguravam grandes
copos redondos e mantinham-se em silêncio. Este silêncio foi rompido
por Cliff.
— Conte alguma coisa sobre o trabalho que está sendo feito em
Tareyton — pediu a meia voz.
Halvorsen sacudiu os ombros largos.
— Os homens que trabalham por aqui são de um tipo estranho. O
senhor já deve ter percebido. Parte deles vem dos dez planetas que se
alimentam principalmente com o trigo-arroz. Uma parte menor vem de
Terra. Todos são gente muito estranha. Desprezam a tecnologia
enquanto apenas a utilizam. São os verdadeiros nativos deste mundo.
É um grupo de gente rude, mas adorável para quem os conhece mais
de perto. Tive a impressão de ouvir certa desconfiança em suas
palavras, coronel.
McLane fitou o rosto do cônsul.
— Não pretendo representar uma peça para o senhor, cônsul
Halvorsen — principiou.
O tom extremamente sério fez com que Halvorsen aguçasse o
ouvido.
— Pode falar; estou ouvindo — disse em voz baixa.
— Lá em cima estão estacionadas três naves espaciais — disse
Cliff. — Uma delas está ocupada com cientistas e a outra com
funcionários do Serviço de Segurança. O Centro de Computação
constatou que este planeta representa um perigo para a estrutura
econômica do Império.
Halvorsen assustou-se.
— Um perigo para o Império — disse em tom pensativo. — Que
espécie de perigo?
Cliff esboçou um sorriso.
— Este detalhe não foi apurado pelo Centro de Computação.
Halvorsen virou-se de modo a ver as portas do salão. Além deles,
não havia ninguém no terraço que se estendia dez metros acima do
espaçoporto e nove metros e meio acima das águas da maré que
recuavam lentamente.
— E os senhores vieram para identificar o perigo?
— Viemos verificar se o Centro de Computação cometeu um erro
ou não — retificou Cliff.
— E as três naves?
Cliff tomou um pequeno gole de bebida e respondeu:
— As naves permanecerão em órbita e dirigirão sobre o planeta
sistemas gigantescos de lentes, câmeras infravermelhas e não sei mais
o quê. Esses aparelhos fotografarão cada metro quadrado da superfície
do planeta e interpretarão os resultados. E as naves intervirão
implacavelmente se notarem alguma coisa ou se eu as chamar.
Halvorsen ficou calado; parecia abalado. Depois de algum tempo,
disse:
— Que diabo!
— Realmente — respondeu Cliff. — Esta palavra caracteriza a
situação. Permita uma pergunta. O senhor se considera um homem
pertencente a Terra ou a este planeta?
Por alguns segundos, reinou um silêncio constrangido.
— Sou o cônsul de Terra — disse Halvorsen em tom formal.
— Isso constitui uma honra para o senhor — respondeu Cliff. —
Sou um homem que gosta de eliminar toda e qualquer espécie de
ambigüidade. Por isso quero dizer o seguinte.
"Estou aqui para procurar e para encontrar. Não sei o que vou
encontrar; e nem o que vou procurar — comentou e prosseguiu: —
Bem, ainda não sei exatamente o que vou procurar. Levá-lo-ei
pessoalmente, acorrentado ou preso na câmara fria de minha nave,
para apresentá-lo no gabinete do coronel Villa, se constatar que o
senhor participa de qualquer ato que seja prejudicial a Terra ou ao
conjunto das relações econômicas. Ainda está na hora; se tiver alguma
coisa desagradável para contar, não encontrará nenhum amigo igual a
mim. Amanhã de manhã será tarde, pois então apenas serei o coronel
Cliff Allistair McLane. O que é que o senhor sabe, Halvorsen?
Halvorsen sacudiu a cabeça. Não se saberia dizer se a palidez do
seu rosto provinha do susto ou dos raios do luar.
— Não sei de nada — disse. — Se descobrir alguma coisa, farei o
que estiver ao meu alcance para dar-lhe apoio.
Cliff parecia satisfeito.
— É uma resposta muito clara.
Mais uma vez Cliff tomou uma porção de Archer's Tears.
— Amanhã iniciaremos a busca — disse. — Cruzaremos os
pantanais em companhia de Veever e observaremos tudo. Talvez com
isso surja alguma idéia.
— O senhor suspeita de Veever? — perguntou o cônsul.
— Suspeitamos de todos e de ninguém; o senhor é uma exceção —
respondeu o comandante.
— Se existe algo de verdadeiro no resultado a que chegou o Centro
de Computação, os malfeitores em potencial deverão encontrar-se
entre os colonos vindos dos dez outros planetas. O que está pensando,
McLane?
— Não estou pensando em nada. Estou à procura de pistas; e até
agora nunca deixei de encontrá-las quando as procurei. Minha tática
consiste em deixar o inimigo nervoso, para fazer com que se traia
através de uma reação inadequada.
— Muito bem. Quer dizer que continuaremos a representar os
nossos papéis? — perguntou Halvorsen em tom pensativo.
Cliff soltou uma risadinha.
— Isso mesmo. O senhor fará o papel do cônsul abobalhado que
não quer saber de nada além da bebida e das caçadas, enquanto nós
bancaremos os astronautas ávidos de aventuras, para os quais qualquer
planeta é uma área de piquenique.
Halvorsen levantou-se bebeu o conteúdo e atirou o copo para trás.
— O senhor goza de minha confiança integral, coronel — disse em
voz baixa. — Amanhã de manhã organizarei uma caçada. Fique com
os olhos bem abertos e arranje uma possibilidade de entrar em contato
com as naves.
Cliff contemplou a lua, que crescia cada vez mais, mergulhando a
fileira recurvada de construções numa luz quase fosforescente.
— Pegue um simples rádio de pulso, desde que o mesmo transmita
pela nova faixa da frota. Está garantido contra a escuta indevida. Diga
que quer falar com Tamara Jagellovsk em meu nome e diga-lhe que eu
lhe contei que ela tem um sinal redondo de cerca de três milímetros de
diâmetro na omoplata esquerda. Entendido? Halvorsen sorriu.
— Seus conhecimentos anatômicos são surpreendentes — disse.
— Pode estar aqui amanhã às sete da manhã? Mandarei levar roupas
de caça à casa de hóspedes.
— Estaremos aqui — prometeu McLane.
Antes de despedir-se e ir ao quarto antes dos companheiros,
absorveu o panorama do planeta em sua mente. O cheiro de água,
plantas úmidas e sal, a gigantesca lua branca, o junco e a periferia
redonda e molhada do espaçoporto, os tanques esféricos debilmente
iluminados e as janelas luminosas. Valeria a pena tramar um atentado
contra o Império por causa de um planeta como este? Sacudiu os
ombros. Não sabia.
4

Os três planadores de pântano aguardavam entre os suportes de aço


da casa de Halvorsen. Eram veículos versáteis semelhantes a barcos e
com o formato de uma casca. Estavam ocupados com três cilindros de
ar que podiam ser escamoteados. Cada cilindro funcionava através de
um motor potente. Um deles era móvel e servia de leme. A parte
dianteira tinha o formato de cabine. As instalações técnicas eram
simples, mas abundantes. Dois jatos fortes garantiam a locomoção na
água ou no pântano. O zumbido dos motores enchia o ar como o ruído
de um enxame de insetos enfurecidos. Halvorsen esperava entre os
deslizadores; falava ininterruptamente.
— Comandante, o senhor irá com Titus — disse em voz alta. —
Os outros cavalheiros poderão ocupar este deslizador. Acho que
devem separar-se, pois com isso a aventura será muito maior. Cuide
bem dos astronautas, Titus. Entendido?
Veever resmungou algumas palavras incompreensíveis. Hasso,
Erickson e Cliff tinham um aspecto bastante estranho. Usavam botas
compridas apertadas acima do joelho, calças de linho grosseiro e
jaquetas leves e curtas com muitos bolsos. Um cinto largo abrigava os
pentes das armas de gases. As facas e outros instrumentos, munições e
os mantimentos estavam empilhados nos compartimentos de carga dos
barcos.
— Três dias! — disse o cônsul em tom nervoso. — Se acontecer
alguma coisa, usem o rádio dos deslizadores. Neste caso, iremos
buscá-los com nosso helicóptero.
— Podemos partir? — perguntou Titus em voz alta.
A perspectiva de caçar nos pantanais e impressionar os homens do
espaço parecia melhorar consideravelmente sua disposição. Fumava
um grosso charuto fedorento.
— Podem. Voltem sãos e salvos — gritou Halvorsen.
— Enquanto isso o senhor pode preparar outra festa — disse
Erickson. — Com muito Archer's Tears.
— É o que faremos — prometeu o cônsul.
O primeiro deslizador partiu. Os três cilindros, ocultos sob as
chapas de proteção amarelas, giravam vertiginosamente e arrastaram a
"casca" para a frente. Um colono dirigia o veículo. Estava sentado
numa poltrona de aço, cerca de um metro acima da popa, e movia uma
alavanca de finalidade múltipla, que servia para dirigir, acelerar, frear
ou girar o barco.
Boa parte das terras, situadas entre as margens redondas dos
numerosos mares, ficava em nível mais baixo que as outras terras,
motivo por que sempre eram pantanosas. Milhões de animais viviam
nesses pantanais. Titus e Cliff pretendiam caçar a vinte quilômetros ao
sul da Grande Laguna. Os oceanos do planeta Tareyton continham
menos sais e minerais dissolvidos que os mares terranos. Suas
margens assumiam importância não apenas para as culturas de
trigo-arroz, mas também para a caça. Cliff notou o entusiasmo que se
estampava no rosto dos colonos e percebeu que se tratava de um povo
de caçadores, não de colhedores de cereais. Esse fato poderia assumir
certa relevância.
— Alô! — gritou Erickson, levantando a espingarda de pressão de
cano comprido acima da cabeça.
— Boa sorte! — gritou Cliff.
O deslizador que levava Erickson afastou-se. Titus Veever também
acelerou. Seguiu quase em linha reta para o sul. Sentado no centro do
deslizador, Cliff contemplava a paisagem através dos óculos escuros.
Apesar da tensão, sentia uma certa leveza e emoção. Dali a alguns
minutos, os juncos fecharam-se atrás deles.
— Atenção — disse Titus. — Vou encolher os cilindros.
Parou o deslizador, e a embarcação sem quilha caiu à água. A área
parecia a margem gigantesca de um lago terrano, situado numa área de
reserva biológica. Os motores auxiliares zumbiram e colocaram os
cilindros pouco acima da borda do deslizador. Ofereciam proteção
adicional no caso de colisão. Eram feitos de plástico resistente. Os
jatos chiavam e empurravam o barco pela água, através das florestas
de junco.
Os dois homens mantinham-se em silêncio. Depois de algum
tempo Veever tirou uma garrafa do bolso da jaqueta, sacou a rolha e
tomou um bom gole.
— Ei, o senhor! — disse a meia voz.
Cliff virou-se, levantou os braços e pegou a garrafa. Sorriu e
também bebeu um gole.
— Isso é bom para o resfriado. O junco é frio e úmido — disse
Titus um pouco mais amável.
Não havia a menor dúvida, para ele, os astronautas eram palhaços
fáceis de alegrar e ainda mais fáceis de impressionar. A comédia
representada por Cliff e seus companheiros fora coroada de pleno
êxito.
— Obrigado — disse Cliff, respirando profundamente. A bebida
forte parecia queimar sua garganta.
Dali a mais dez minutos a garrafa já estava pela metade. Titus
parou o deslizador. Desceu do assento do piloto e sentou ao lado de
McLane no banco largo de encosto. O sorriso que cobria seu rosto
assumiu uma expressão significativa quando começou a falar:
— O senhor já atirou com uma espingarda de pressão de gás,
astronauta?
Cliff esboçou um sorriso encabulado e disse, dando
intencionalmente um tom inseguro à voz:
— Sabe de uma coisa. Titus? Acho que não devemos adotar um
comportamento tão formalista no interior deste veículo. Passaremos
juntos mais de setenta e duas horas, e tenho certeza de que seremos
bons companheiros.
Titus fitou-o prolongadamente. Cliff teve a impressão de que havia
uma expressão de dúvida em seu olhar. Por fim, fez um gesto
afirmativo.
— Está certo — disse. — Seu nome é Cliff, não é?
— Sim, Titus — respondeu Cliff.
— Então; sabe atirar? — perguntou Titus.
— Só com as armas das naves espaciais, as peças de artilharia
Overkill e a HM-4 — disse Cliff. — Será que o senhor pode ensinar?
— Isso será indispensável.
A espingarda de pressão pertencente à coleção pessoal do cônsul
possuía um cano relativamente longo e um pente pesado embutido na
coronha. Além disso, havia um recipiente de alta pressão com gás. O
pente carregado de projéteis em forma de agulha ficava diante do
botão de acionamento. A coronha era de plástico, pesava bastante e
apresentava um enfeite de imitação de madeira. Sobre o cano estava
montada uma mira telescópica com um grau enorme de aumento.
— O senhor deve apertar este botão — disse Titus, segurando a
espingarda sobre o joelho, enquanto o cano apontava para cima. —
Com isso um projétil é injetado na câmara. As agulhas de caça estão
impregnadas de veneno paralisante de ação rápida. O animal é
imobilizado e fica inconsciente durante vários dias. Dessa forma, a
carne não estraga.
Cliff pegou a arma e comprimiu o botão que ficava diante do
acionador. Ouviu um forte estalido, Uma das agulhas foi injetada na
câmara.
— Continue!
Titus pegou sua arma e apontou com a mesma para uma árvore
parecida com um salgueiro, bem à frente do deslizador.
— Aponte bem, acompanhe o alvo na medida do possível e aperte
aqui. A força de recuo é mínima.
Cliff levantou-se; o deslizador balançou um pouco.
— Tem algum alvo? — perguntou. Titus enfiou dois dedos sujos
na boca e
soltou um assobio estridente e trêmulo.
Duas aves aquáticas negras levantaram vôo a sessenta metros de
distância. Bateram violentamente as asas e ganharam altura.
Afastaram-se em direção ao leste.
— Procure acertar na ave da frente — disse Titus em tom áspero.
Cliff seguiu o vôo da ave com o cano da arma, fez pontaria e
apertou o gatilho. O pássaro que voava à frente estremeceu, perdeu
altura e, batendo violentamente as asas, caiu quase na vertical. Cliff
virou-se e num espanto surpreendentemente genuíno perguntou:
— Será que é assim?
Uma expressão de espreita inconfundível surgiu no rosto barbudo
do colono.
— Ora essa! — disse em tom de espanto. — O senhor sabe blefar!
Cliff sacudiu a cabeça e descansou a arma.
— Palavra de honra, Titus — disse em voz baixa. — Até hoje
nunca segurei uma arma deste tipo. Talvez seja porque os homens do
espaço recebem um treinamento muito intenso. Não estou blefando.
Às vezes, um principiante costuma ter mais sorte que um perito.
Titus sacudiu a cabeça.
— É incrível — disse, voltando ao assento do piloto. — Vamos
buscar a ave.
Cliff sentou. O deslizador saiu com um zumbido. Cortava os
juncos. Dentro de dois minutos chegaram ao lugar em que a ave de
rapina caíra. Cliff fez o deslizador descrever uma curva fechada e
parou diante de um torvelinho borbulhento em meio a uma clareira nos
juncos.
— Está vendo? — perguntou em voz baixa.
Cliff empurrou os óculos para a testa e procurou enxergar melhor.
— São peixes?
— Sim; peixes de rapina.
Entre algumas moitas de junco e um pedaço de madeira
branquicenta e de aspecto estranho, peixes longos e esguios
arrancavam e devoravam os restos da ave de rapina. Na sua fúria,
pareciam-se com as piranhas terranas, mas eram dourados e traziam
grandes manchas azuis em torno dos olhos. A água estava
avermelhada e os animais pareciam possuídos de uma fúria
tresloucada.
Titus perdeu a superioridade e assumiu um ar sério.
— A primeira regra que o senhor deve seguir em Tareyton é a
seguinte: nunca entre na água sem estar protegido. Estas botas
forradas são as únicas que resistem aos dentes dos peixes de rapina.
Costumamos chamá-los de peixes dentuços. Dentro de poucos
segundos, conseguem despedaçar um dedo e mesmo um braço.
Durante as primeiras semanas de colonização tivemos alguns casos
difíceis para nosso cirurgião. Tome cuidado, Cliff. Não saia do
deslizador. E não se esqueça: estas aves negras são selvagens e
agressivas como os peixes.
Cliff acenou com a cabeça sem dizer uma palavra e pôs a mão na
pistola de pressão de gás que se encontrava no cinto. Titus voltou a
apontar sobre o torvelinho espumoso que se tornara menor.
— Sempre que tenha que atirar para dentro da água, lembre-se da
refração da luz.
— Pois não.
Os dois homens olharam-se. Desconfiavam um do outro, mas
procuravam minimizar esse sentimento. Sabiam que, atrás do aspecto
exterior, alguma coisa diferente se escondia. Os três dias seriam
passados num jogo cansativo de procurar enxergar através desta
"máscara". Cliff pensava em atentados em potencial, enquanto Titus
provavelmente tinha seus pensamentos voltados para agentes secretos
de Terra.
"Talvez", pensaram os dois, "haja algo de verdade nisso".
Os próximos dias mostrariam.
— O que deseja ver, Cliff? — perguntou Titus depois de algum
tempo.
Cliff deu de ombros.
— Quero ver tudo que existe por aqui. Além da caça, estaria muito
interessado em conhecer seu trabalho. Sinto-me fascinado por este tipo
de cultivo e pela maneira de fazer a colheita.
Titus cuspiu para dentro da água o resto do seu charuto babado e
olhou com algum interesse, quando um dentuço pegou uma folha e
saiu em ziguezague, seguido furiosamente por alguns exemplares
menores de sua raça. Virou o deslizador, olhou ligeiro para o sol e
disse em tom arrastado:
— Está bem. Eu o levarei à margem oriental da Laguna Setecentos
e Dez.
Cliff franziu a testa e perguntou imediatamente:
— O que vem a ser isso?
O deslizador atravessou a água, levantando uma onda de espuma à
sua frente, escorregou por cima de um trecho de pântano malcheiroso
e desapareceu num dos braços de água rasa.
— Em Tareyton existem cerca de mil mares desse tipo. Se
preferirmos, podemos dizer que o planeta é formado por um único
oceano cujos setores são separados por estreitas faixas de terra. Não
conseguimos encontrar nomes para os mares, motivo por que
começamos a numerá-los. Um dos maiores desses mares, que por
algum motivo desconhecido são quase todos circulares, recebeu o
nome de Laguna Setecentos e Dez.
— Isso não deixa de ter sua lógica — respondeu Cliff.
Durante uma hora e meia atravessaram a paisagem à velocidade
máxima. O calor e o cheiro de água salgada aumentavam
constantemente. Cliff começou a transpirar e abriu a camisa fina. O
colono dirigia o deslizador com uma segurança de sonâmbulo. Passou
em ziguezague entre várias ilhas e desviou-se de troncos flutuantes.
Um zumbido vindo da frente aumentava gradativamente.
— Que ruído é este? — perguntou Cliff em voz alta.
— É a colhedeira gigante. Temos que prestar atenção para não
cruzarmos o caminho de um dos transportadores robotizados, que não
foi programado para este tipo de obstáculo.
Cliff falou alto:
— Isto é com o senhor, Titus.
Titus riu e, enquanto dirigia, acendeu um dos seus charutos
fedorentos.
— Quer dirigir um pouco?
— Mais tarde talvez — gritou Cliff e segurou-se, pois a casca de
plástico escorregou por uma costa relativamente íngreme.
Dali a alguns minutos, o braço de mar alargou-se e uma coisa,
parecida com gramas altas, boiava na água. O deslizador abriu
caminho que nem um arado. O braço de mar abriu-se num triângulo,
cujo lado mais largo dava para a Laguna Setecentos e Dez.
— Com os demônios!
A voz de Cliff exprimia o espanto que sentia.
— Semeamos e colhemos várias vezes por ano — disse Titus em
tom indiferente. — Aquilo cresce sem adubação e sem qualquer
espécie de cuidado no fundo da laguna. Quando a planta está madura,
a parte mais leve se desprende da raiz e sobe à superfície. O vento e as
marés reúnem tudo. E esta "caixa" engole o produto.
A máquina para a qual Titus usara uma expressão tão depreciativa
constituía uma instalação como Cliff nunca vira igual. Flutuava sobre
certo número de sacos de plástico esféricos e continha uma usina
energética e um computador com uma programação bastante extensa.
Identificava a mercadoria flutuante, aspirava-a por uma fenda
gigantesca e separava o trigo-arroz da água. Depois secava o produto e
retirava os grãos das espigas capazes de flutuar. As espigas se
pareciam com cachos cheios de pequenos balões. A seguir tinha início
um processo bastante complicado.
— Aquilo são os transportadores robotizados — disse Cliff.
Uma máquina negra construída segundo o mesmo princípio do
deslizador puxava um gigantesco recipiente de plástico cheio de massa
viscosa.
— Isso mesmo; este negócio está arrastando os carboidratos —
constatou Titus.
— Como?
O colono explicou. O processamento químico separava os
componentes do trigo-arroz. Os hidratos de carbono, que perfaziam
cerca de setenta por cento, eram extraídos do resto. A proteína, que
chegava a cerca de doze por cento do total, era levada a tanques
esféricos através do mesmo processo e dali era bombeada quase que
automaticamente. As medições constantes impediam as trocas de
materiais e providenciavam as misturas destinadas a evitar variações
excessivas na qualidade. As substâncias minerais, cuja participação no
total era pouco superior a três por cento, eram carregadas por
máquinas menores, e a mesma coisa acontecia com o reduzido teor de
gordura. As fibras eram expelidas pelas máquinas, boiavam por algum
tempo e iam ao fundo, onde formavam uma espécie de adubo vegetal.
O sal obtido no processo também era recolhido em depósito e
expedido para vários planetas.
— Como é feita a semeadura? — indagou Cliff.
— Utilizamos máquinas. Um aparelho finca os grãos no fundo do
mar — disse Titus.
A programação das numerosas máquinas estava muito bem
ajustada. Por vários condutos corriam os diversos alimentos, ou
melhor, as variadas substâncias nutritivas trazidas pela água. Cada
unidade conhecia apenas seu bocal, ligava-se automaticamente e
aguardava o sinal da indicação de complementação do processo, que
era inteiramente automático. Após isso as válvulas se fechavam, os
robôs deslizavam e flutuavam em direção aos tanques e o processo se
repetia dia após dia, ano após ano.
— Com exceção de algumas áreas cobertas de juncos e umas
poucas árvores, o planeta foi transformado num campo de cultura
aquático — disse Titus num tom que quase chegava a ser de
recriminação.
Cliff recostou-se e fitou o colono.
— Ao que parece o senhor não vê nada de interessante nestes
processos — disse, esforçando-se para que a pergunta não soasse
como uma queixa.
Titus sacudiu a cabeça.
— No início, quando as instalações foram montadas e ajustadas,
ainda havia um certo prazer nisso. Agora a coisa está funcionando. E,
como o senhor mesmo teve oportunidade de ver, não há nada de
interessante nisso.
Cliff sorriu.
— Pode não ser interessante para o senhor, mas acho que é para os
planetas que dependem dos mantimentos produzidos aqui — disse a
meia voz.
Titus deu de ombros e deu uma cuspidela na água.
— Está bem — murmurou. — Mas o que vamos fazer? Ficar
parados, admirar estes idiotas metálicos e viver dizendo: Como isso é
fascinante? É o que o senhor quer dizer?
— Ora essa! — disse Cliff, sacudindo a cabeça. — Do
funcionamento dessas máquinas, além de outros fatores que influem
nas mesmas, como a temperatura e as condições atmosféricas, depende
a vida de milhões de seres humanos, que morrerão de fome se isso não
funcionar.
— Acontece que isso funciona. Os tecs cuidam disso.
Cliff franziu a testa e perguntou:
— Quem? Não compreendi. O que vêm a ser os tecs?
— São dez mil técnicos vindos de Terra, que vivem conosco —
disse Titus. — Halvorsen é um deles.
Uma suspeita foi surgindo na mente de Cliff.
— O que vou dizer pode parecer uma pergunta tola — disse. —
Será que estarei certo se disser que cerca de vinte mil colonos deste
planeta vêm dos mundos circundantes e uns dez mil de Terra? E estes
dez mil não devem ser muito amigos do senhor e de seus
companheiros, não é, Titus?
Titus acenou lentamente com a cabeça.
— Isso mesmo. Parece que nos desprezam. Não compreendem que
a gente se possa ocupar com outra coisa que não seja o reparo de
máquinas. Não são verdadeiros tareys.
Cliff compreendia cada vez melhor. Havia um conflito
artificialmente criado, ou resultante das circunstâncias, entre os tecs e
os tareys? Esta última palavra designava os verdadeiros nativos de
Tareyton, na expressão de Halvorsen.
— Por que será?
— É porque os tecs vêm da Terra. São homens e mulheres
arrogantes, para os quais não passamos de loucos.
— E os três astronautas que acabam de pousar no planeta também
pertencem a essa classe?
Cliff sabia que, ao formular esta pergunta, mexera numa casa de
marimbondos.
— Não é bem isso. O senhor se interessa pela caça; até sabe atirar.
Face aos modos lacônicos do colono, essas palavras representavam
o reconhecimento de uma afinidade espiritual. Cliff poderia ficar um
tanto convencido, mas suas suspeitas haviam sido atiçadas. Nos
próximos três dias, ficaria com os olhos bem abertos.
— Até sei atirar — disse. — E sei fazer mais alguma coisa.
— Bem — retrucou Titus Veever em tom conciliador. — Não leve
a coisa para o lado pessoal. O fato é que Terra e este grupo de dez
planetas, ou de onze, se incluirmos Tareyton, não têm nada em
comum.
— Não têm nada em comum? — perguntou Cliff, falando alto para
superar o ruído das turbinas. — Afinal, os habitantes destes planetas
são seres humanos que saíram de Terra há alguns séculos, ou mesmo
há alguns decênios ou anos. Somos todos irmãos.
O tarey exibiu um sorriso impertinente enquanto respondia:
— Até nas melhores famílias há encrencas.
Cliff não soube o que responder: o colono estava com a razão. Nas
melhores famílias ocorrem atritos que podem encontrar seu desfecho
em irrupções destrutivas. Agora já sabia em que direção deveria
desenvolver suas buscas, e em que termos teria de elaborar seus
planos.
— Para onde vamos? — perguntou, segurando-se no deslizador
que jogava violentamente.
— Vou mostrar-lhe uma colônia de aves de rapina.
Voltaram na mesma direção de onde tinham vindo. Atrás deles, foi
diminuindo o zumbido da enorme máquina que boiava pela beira da
laguna, onde procurava, encontrava e preparava alimentos para
milhões de seres humanos. Era a máquina colhedeira. Uma entre
novecentas e noventa e três. Trazia o número 710.
Cliff Allistair McLane, comandante da Orion VIII e coronel, chefe
de uma missão especial da nova Patrulha Espacial, parecia muito
pensativo quando o deslizador corria vertiginosamente entre os
bosques de junco, aproximando-se da colônia de aves de rapina. O sol
de Tareyton dardejava seus raios quase na vertical. O rosto de Cliff
estava coberto de suor. Ao lembrar-se das possibilidades que o planeta
oferecia em caso de conflito, sentiu um calafrio, apesar do calor.
Estavam nas primeiras horas da manhã. Entre Cliff e Titus
realmente se desenvolvera alguma coisa parecida com o
companheirismo. Durante a longa viagem para a colônia de aves de
rapina, ambos se mantiveram em silêncio. Agora, enquanto estavam
comendo, conseguiram aproximar-se mais um pouco. Entre os dois
homens estavam estendidas as embalagens com a refeição. Eram
conservas de carne que se aqueciam automaticamente quando se abria
a tampa. Café preto e forte, que se aquecia pelo mesmo princípio. Uma
garrafa de Archer’s Tears. Dois facões foram usados como talheres.
Titus mastigava em silêncio, espetando pedaços enormes de queijo
sintético. Veever reclinou-se e disse com a voz confusa:
— É uma vida agradável, não é? Cliff sorriu.
— Mais ou menos — disse. — O que me incomoda é o risco que
terei de correr se resolver nadar por aqui. E neste momento bem que
anseio por um metro cúbico de água fresca.
Titus atirou uma lata quase vazia para a água. No mesmo instante
surgiu um dos torvelinhos que já conheciam. Os peixes esguios
saltavam para o ar ao tentarem abocanhar um pouco dos restos de
comida. Seus corpos emitiam um brilho dourado. Ouviu-se um bater
de asas, e uma ave negra caiu do ar que nem uma pedra.
— Quer atirar? — perguntou Titus em tom indiferente.
— Não; prefiro observar.
O pássaro controlou a queda pouco acima da superfície da água,
ficou parado por alguns segundos, batendo as asas e finalmente cravou
as garras num dos peixes dentuços. O animal defendeu-se: seu corpo
tremulava e girava. Procurava morder o pescoço ou as asas do pássaro.
A ave de rapina afastou-se vagarosamente. Permaneceu no ar até que o
peixe estivesse morto. Depois disso, desenvolvendo um instinto
admirável, prendeu o peixe na bifurcação de dois galhos e começou a
rasgá-lo em faixas. Cliff já parará de comer; pegou o caneco de
plástico com o café.
— Nunca vi uma coisa dessas — disse. Titus fez um gesto.
— Talvez ainda cheguemos a ver estas aves caçarem um boi. É o
nome que damos a esse tipo de animal, embora seja um absurdo.
— O quê? As aves chegam a caçar um boi?
Titus tirou um magazine cheio de agulhas do cinto e inseriu-o na
arma. Controlou cuidadosamente o funcionamento da espingarda de
pressão de gás.
— Isso mesmo. É a quantidade.
Cliff guardou sua parte nas reservas de mantimentos e também se
reclinou. A uns duzentos e cinqüenta metros do lugar em que se
encontravam, havia um dos raros bosques deste planeta. Ao menos,
quinhentas aves de rapina negras estavam sentadas nos ninhos
esféricos ou em torno destes. Pareciam flores ou frutos estranhos, pois
mal se mexiam sob o intenso calor.
— É o que acabo de dizer. Dezenas de aves se reúnem, escolhem
um dos animais parecidos com um boi e atacam-no com os bicos e
com as garras. O animal fica nervoso, sai correndo e acaba
atravessando os juncos. A seguir, uma das aves lhe arranca os olhos.
Quando isso acontece, o fim está próximo. Então, o animal é devorado
ainda com vida.
Cliff estremeceu. Tareyton era um planeta selvagem, mas nunca
imaginaria que fosse tão selvagem assim. Estava percebendo o erro
que ele e seus colegas haviam cometido.
— Ei, está sonhando?
— Estou. Lembrei-me de nossa mãe-terra, quase estéril e livre de
perigos, e da vida que levamos por lá.
Um sorriso de desprezo surgiu no rosto de Titus.
— Qual é o tipo de vida que lhe agrada mais? A que estamos
levando aqui ou a que levam em Terra?
— Gostaria de misturar os dois estilos de vida, de uma coisa
intermediária entre a vida em Terra e a que se leva em Tareyton.
Titus colocou o pesado binóculo diante dos olhos e espiou os
ninhos.
— As aves estão muito nervosas — murmurou. — Essa coisa
intermediária de que o senhor acaba de falar não existe. Terá que ser
Terra ou Tareyton.
— Qual dos dois o senhor escolheu, Titus Veever?
Veever respondeu sem demonstrar a menor comoção, sem
modificar a expressão do rosto:
— Minha escolha é cem por cento a favor de Tareyton — depois
de uma ligeira pausa acrescentou: — Seria capaz de morrer por
Tareyton, segundo acredito.
Cliff acreditou. Também começava a sentir o fascínio deste mundo
descontraído.
— As aves estão muito nervosas. Provavelmente nos viram ou
ouviram.
Cliff olhou pelo binóculo e viu que as mais robustas entre as aves
de rapina se mexiam, abriam os bicos duros e recurvados, limpavam as
pernas, abriam e fechavam as asas.
— O que farão essas aves negras?
— Não sei dizer. Quando estão chocando, ficam loucas.
— Será que estão chocando?
— Talvez.
Cliff destravou sua arma manual e voltou a guardá-la. Não gostava
de assumir riscos. Subitamente as aves levantaram vôo. Pareciam
formar uma nuvem ameaçadora. Afastaram-se em sentido oposto ao
em que se encontravam os dois homens, batendo ruidosamente as asas.
— Também nunca vi uma coisa dessas — disse Titus. Cliff seguiu
a nuvem com os olhos e os pensamentos dele resumiam-se nestas
palavras: A nuvem simbolizava suas idéias. E essas idéias giravam em
torno da noção do perigo.
5

MAIS uma vez, surgiu o quadro que prendia o homem de maneira


tão forte. Cliff experimentou-o com os cinco sentidos.
Ouviu os ruídos, cheirou o ar salgado, sentiu a sujeira que cobria
seus dedos, o cansaço que lhe doía até os ossos, via a gigantesca lua.
Haviam deitado para trás o encosto largo, preparando duas camas. Os
dois homens tentaram dormir sob a coberta leve. Cliff dobrara a
jaqueta, colocando-a embaixo da cabeça.
— Silêncio! — cochichou Titus. Moveu-se rapidamente e sem o
menor ruído, que nem um gato. Cliff ergueu-se e pegou a arma
manual.
— O que houve?
Titus passou ligeiro por cima dele, correu sobre a cabine e girou o
holofote. Com um estalo, Cliff destravou a arma. Atrás dele, o colono
ligou o holofote de proa. A luz branca mergulhou os galhos da árvore
numa claridade ofuscante. De repente, ouviu-se um ruído em cima dos
dois homens, ruído que Cliff ainda não conhecia. Nunca o ouvira tão
nitidamente e tão próximo. Na luz do holofote, o coronel viu uma das
aves de rapina, que se precipitava pelos galhos que nem uma flecha.
Partia para o ataque com as garras e com o bico. Com um chiado
descarregou a pistola de pressão de gases. A ave caiu à água a um
metro e meio do barco. Em meio ao ruído das asas e do grasnado das
aves, ouviu o grito de Veever.
— Estão atacando! São as aves!
O deslizador descansava na água, ao lado de um tronco de árvore.
O espaço vazio que se abria entre a água e a folhagem estava
totalmente iluminado. Por entre os galhos, Cliff viu o disco gigantesco
da lua, que parecia uma roda imensa a rolar pela linha do horizonte.
Diante da lua, a nuvem de aves de rapina encontrava-se em
movimento ininterrupto. Girava sempre e algumas destacavam-se do
bando, precipitando-se diretamente sobre o deslizador. Mais uma vez,
McLane fez pontaria e disparou. O funcionamento da pistola era quase
totalmente silencioso; apenas emitia um ligeiro chiado.
— Atire para salvar a vida! — disse Titus.
Soltou a chave do holofote, voltou para o banco largo e ficou de
costas para Cliff. As aves caíam por entre os galhos como se fossem
pedras, dobravam as asas e atacavam. Titus atirava com a espingarda
encostada aos quadris. Atirava ininterruptamente e sempre acertava.
As penas voavam, pancadas eram desferidas com o bico, as garras
procuravam cravar-se na carne, e os pássaros emitiam sons roucos.
Cliff preferiu não olhar para trás; poderia ser ofuscado. Apontava e
atirava, derrubando uma ave de rapina atrás da outra. Tirou a faca e
liquidou duas que o atacavam de lado.
Pelo canto do olho, Cliff percebeu que o colono usava uma tática
estranha. Atirava na direção das aves quando essas entravam no
campo de visão. Quando se aproximavam demais, abatia-as com o
cano comprido da arma de pressão. O pântano e a água parecia ferver
em torno do deslizador. A espuma sanguinolenta, as penas e os corpos
dourados dos peixes uniam-se num torvelinho vertiginoso e mortal.
— Vamos fugir! — exclamou Cliff. Titus tomou impulso, fez girar
a coronha de sua arma e num só movimento abateu algumas aves. A
arma quase chegou a roçar na cabeça do comandante.
— Bobagem!
Cliff confirmou com um gesto, puxou o dedo e atirou duas vezes
em seguida. Duas aves de rapina que pareciam realizar uma dança
insensata à luz do holofote caíram inermes sobre a embarcação.
— Por quê? — gritou Cliff.
A arma que segurava na mão estava vazia.
— Aqui estamos protegidos. Por que não está atirando?
Titus atirava com a arma apoiada nos quadris, pôs a mão para a
direita e atirou uma pistola para Cliff. Este apanhou-a no ar, girou e
liquidou dois atacantes. Depois, houve alguns segundos de sossego.
— Lá fora estaríamos em campo aberto — disse Veever,
contemplando Cliff que, numa pressa febril, trocava o magazine e o
recipiente de gás da arma vazia. — Até eu nunca vi uma coisa destas.
Duas aves de rapina aproximaram-se e atacaram imediatamente.
Cliff liquidou uma delas e Titus a outra.
— Agora já as conhecemos — disse Cliff.
— Devem estar loucas — disse Veever, apontando para a frente.
Cliff olhou para cima.
Diante do círculo claro, o bando ainda pairava no ar. Parecia uma
"calça-bombacha": era afunilada e ameaçadora. Subitamente fez-se o
silêncio: o bater e o farfalhar das asas nas imediações do deslizador
cessara. O quadro continuava a ser ameaçador. Mas os corpos escuros,
que se moviam diante deles, pareciam concentrar-se sobre outro
objetivo. Titus foi para a parte dianteira do deslizador e desligou o
holofote, depois que seu pé empurrara para a água ao menos vinte aves
inconscientes.
— Provavelmente hoje de tarde desrespeitamos a distância de
segurança — disse Veever. — Pois as aves só costumam atacar
isoladamente ou aos pares.
Cliff enxugou o sangue do rosto. Trazia arranhões profundos na
testa e ao lado das orelhas.
— Afinal, é a grande aventura — murmurou em tom mordaz. —
Não esperava tanto.
Titus soltou uma risadinha e tirou a garrafa de Archer's Tears pela
metade que trazia no bolso. Olhou cuidadosamente em torno, não viu
nada de suspeito e tirou a rolha da garrafa.
— Fico satisfeito em ver que o senhor tirou algum proveito da
excursão, Cliff — disse. — Terá alguma coisa a contar em Terra.
Só agora Cliff notou...
Titus, que era responsável por ele, lutara apenas por sua própria
vida, mas pouco se preocupara pela de Cliff. Devia pensar que este
saberia cuidar de si, ou então não se importaria se o comandante fosse
ferido. As coisas estavam ficando cada vez mais misteriosas.
— Se retornar com vida, terei alguma coisa para relatar —
respondeu Cliff em tom lacônico.
Procurou ver o rosto de Titus, mas este manteve a cabeça na
sombra. Depois de algum tempo, Veever tomou uma decisão.
— Vamos dar o fora — disse. — Não confio nestes pássaros
pretos.
Segurou a pistola, encostou a espingarda ao assento do piloto e
subiu ao mesmo. Empurrou cautelosamente os galhos para o lado,
ligou as turbinas e girou o deslizador quase em torno de seu próprio
eixo. A casca de plástico entrou na água aberta e ganhou velocidade.
Veever tomou a direção oeste. Cliff limpou o barco e viu que um
cardume de peixes dentuços os seguia. Sempre que uma das aves caía
à água, formava-se um torvelinho. A ave era estraçalhada pelos peixes.
Diante do disco lunar, ainda girava um grupo. Já era menor e mostrava
falhas; muitas haviam sido vitimadas durante os ataques.
— Titus — disse Cliff, segurando a espingarda sobre os joelhos.
— O que vamos fazer?
— Procuraremos outro lugar em que possamos dormir — disse o
tarey. — Ou será que faz questão absoluta de morrer hoje de noite?
Cliff não sorriu quando respondeu:
— Não quero morrer hoje de noite, nem nos próximos dias. Aonde
vamos?
— Para a frente — resmungou Veever. — Por lá existe um bosque
denso, cujas raízes mergulham na água. Nesse lugar, provavelmente
teremos sossego.
Cliff apontou para a lua e para o bando de aves. Um número cada
vez maior concentrava-se sobre um objetivo que ficava próximo ao
solo. Ouviu-se um grito agudo; não era a voz de um homem.
— As aves estão caçando um boi — murmurou Titus. — Quer
assistir ao espetáculo?
Cliff sacudiu a cabeça e estremeceu.
— Para mim o ataque sofrido por nós já basta.
— Era o que eu imaginava.
O deslizador encontrava-se num canal ladeado por verdadeiras
muralhas de junco, nos quais as marés haviam deixado sua marca:
faixas reluzentes de umidade e pequenos objetos flutuantes presos aos
caules. Ouvia-se apenas o ruído além do canto das duas turbinas e dos
gritos agudos vindos da esquerda.
— E assim que um boi muge — disse Titus — quando está sendo
atacado pelas aves.
Cliff não respondeu. De uma hora para outra, a caçada
transformara-se numa aventura de verdade.
Depois de mais meia hora de viagem, durante a qual eram
acompanhados constantemente pelos gritos agudos dos animais
semelhantes aos bovinos, chegaram à floresta. Era um conjunto de
árvores cujas raízes aéreas formavam um desenho bizarro. Entre a
floresta e os juncos havia uma área pantanosa traiçoeira, formando um
círculo de cerca de trinta metros de diâmetro. O canal de navegação
serpenteava em meio à mesma. Veever ligou o holofote por um
instante, executou alguns giros para iluminar a área e prosseguiu na
viagem.
— Aqui estaremos seguros — disse. Cliff travou a espingarda e
guardou-a.
Tirou as botas compridas e retirou um recipiente de plástico de
uma das gavetas de mantimentos. Pôs a mão acima da borda do
deslizador, encheu o recipiente de água e derramou-a sobre a parte
dianteira do veículo.
— O que está fazendo? — perguntou Veever.
— Se não lavarmos o sangue e as penas, não conseguiremos
dormir de tanto fedor — respondeu Cliff. — Além disso, suponho que
o cheiro será capaz de atrair aves, insetos e outros bichos.
Titus soltou uma estrondosa gargalhada.
— O senhor é um escoteiro de verdade — murmurou e desligou as
turbinas. O deslizador avançava lentamente entre dois troncos e ficou
imprensado. Os cilindros de plástico proporcionaram um molejo ao
tocarem a casca áspera das raízes aéreas.
— Sim. Sou um escoteiro muito esquisito — respondeu Cliff. —
Está ouvindo os gritos?
Veever deixou-se cair sobre o banco que ficava no centro do barco.
— Não sou surdo — respondeu.
— Estão ficando mais fortes — prosseguiu McLane.
— Devem ser as aves que estão tangendo uma manada pelo
pântano. Não vejo nada.
Cliff levou dez minutos para remover os sinais do ataque. Limpou
as mãos numa toalha de papel. De pé no deslizador, Veever olhou
cautelosamente em torno. Não viu nada, mas os gritos ininterruptos
caíam sobre os nervos dos dois homens. Cliff respirou profundamente
e pôs-se a refletir. Ao que parecia, Titus resolvera ignorar o
companheirismo que costuma reinar entre os caçadores. De uma hora
para outra, eram dois homens marcados por fortes contrastes no
mesmo deslizador: um astronauta de Terra, e um caçador do planeta
livre e selvagem de Tareyton. Ao que tudo indicava, Titus resolvera
reavivar esse contraste. Para McLane isso, só poderia significar uma
coisa: um cuidado constante!
Os gritos vindos da esquerda continuavam, tornavam-se cada vez
mais fortes e lancinantes e pareciam aproximar-se. Cliff segurou o
cabo da pistola e certificou-se de que o pente estava carregado e o
recipiente pressurizado havia sido corretamente introduzido na arma.
Já passavam duas horas da meia-noite.
Os acontecimentos e os numerosos quadros das últimas horas
desfilaram com lentidão diante de Cliff. Estava à procura de duas
coisas: o esclarecimento da situação reinante no deslizador e a
solução... Por ali devia haver alguma coisa representando um perigo
para Terra.
— Quero fazer-lhe uma pergunta, Titus — disse.
Titus estava estendido a seu lado sobre o banco largo. Também o
caçador voltara a calçar as botas de cano comprido, segurava a arma e
estava muito descontraído. Os gritos dos bovinos tornaram-se mais
fortes e penetrantes.
— Quem costuma supervisionar os tanques e os trabalhos de carga
quando chegam as naves?
Cliff ouviu Titus respirar fortemente. Um alarma começou a soar
em seu cérebro.
— Por que quer saber disso? — perguntou Titus num tom que
parecia tranqüilo demais.
— Porque isso me interessa — respondeu Cliff a meia voz.
— Há alguma coisa que não lhe interesse?
— Estou interessado em tudo — disse Cliff com uma risadinha. —
Não há nada que me deixe indiferente. As últimas horas até que foram
bem emocionantes, não foram, Titus?
— Hum — resmungou o colono. — Os tanques são vigiados por
nós ou pelos tecs.
— Qual é o fator que determina a escolha entre uns e outros?
Titus parecia assustar-se ou estacar.
— Por enquanto depende da situação dos tanques. Aqui na Grande
Laguna os tanques são vigiados pelos tecs, enquanto os outros são
controlados por nós. É uma porcaria de serviço.
— Hum — fez Cliff. — Acho que os senhores não costumam fazer
esse trabalho de graça.
— Não; somos pagos.
— Bem; ao que parece o senhor não se sente muito entusiasmado
por esse tipo de trabalho.
— Não; nem um pouco. Não ganhamos muito para abastecer os
gordos terranos de alimentos.
Ao menos, o desprezo pelos terranos fora claramente enunciado.
Cliff ergueu-se sobre os cotovelos e fitou o rosto de Titus. O colono
olhou-o e permaneceu calado.
— Lamento muito — disse Cliff em tom áspero. — Mas não tenho
a menor compreensão pela sua atitude.
— Naturalmente; afinal, o senhor é um tec.
Cliff sentou, estendeu a mão e pegou a garrafa. Depois disse com a
voz quase abalada:
— Agora, por certo, preciso de um grande gole.
Bebeu uma quantidade regular de Archer’s Tears e fechou
cautelosamente a garrafa. Depois disse em voz baixa, mas firme:
— Quer ouvir-me por alguns minutos, Titus?
— Não tenho a menor objeção — resmungou o colono. — Afinal,
não posso saltar para o pântano e sair correndo.
— Não diga bobagens.
— Pode começar, astronauta.
— Há muito tempo Terra começou a colonizar planetas situados no
setor espacial de novecentos parsec controlado por ela. Pouco importa
o que tenha acontecido neste meio tempo: nossos antepassados são
todos do planeta Terra. Somos humanos. Quer apreciemos a caça, a
astronáutica ou outro tipo de loucura, de certa forma somos irmãos.
Não há motivo para desprezar outra pessoa somente porque a mesma
não aceita o estilo de vida da gente. Ainda menos, tal fato justifica
qualquer tipo de reação maluca. Já vi um planeta colonial cujos chefes
seguiam alguma mística idiota: realizar uma tentativa de destruir
Terra. Esse fato não se repetirá, sempre que eu tenha conhecimento de
outra tentativa e possa impedi-la. O senhor sabe o que quero dizer?
— Não sou nenhum idiota — respondeu Titus em tom contrariado.
— Por que resolveu pregar este sermão?
Cliff levantou a cabeça e ouviu que os gritos se tornavam mais
fortes. Aproximavam-se do segundo acampamento que haviam
montado.
— Porque acredito que apesar dos seus modos extremamente
simples o senhor é um homem muito inteligente. E porque suponho
que saiba bastante para não se tornar co-autor de atos que podem ser
classificados na mesma categoria do atentado a Terra, já referidos por
mim.
Titus pôs a mão na arma.
— Será que o senhor suspeita de que estou planejando um atentado
contra Terra? — perguntou.
Cliff sacudiu a cabeça; estava muito sério.
— Não — disse. — Não suspeito do senhor, Titus. Apenas quero
que o senhor perca a arrogância que costuma demonstrar face aos tecs
e a Terra. Valemos tanto quanto o senhor: nem mais, nem menos.
— Arrogância? Nunca afirmei...
— Não afirmou, mas pensou — respondeu Cliff. — Está ouvindo a
gritaria?
— Estou. Temos de fazer alguma coisa.
— Qual é a sua sugestão?
Pela terceira vez naquela noite, Cliff sentiu que o perigo se
aproximava dele. Vinha pela semi-escuridão, através dos juncos
encimados pela gigantesca lua branca. As aves, as suspeitas contra
Titus, os bovinos...
— Até agora não tenho nenhuma sugestão.
Cliff levantou-se e destravou a espingarda. Titus subiu no assento
do piloto e olhou para a frente. Logo saltou para o chão do deslizador.
— Uma manada está correndo diretamente para cá — cochichou.
— O que podemos fazer? — perguntou Cliff.
— Sairemos do deslizador e nos separaremos. Procuraremos
esconder-nos nas árvores.
Saiu rapidamente do veículo e examinou o chão que tinha sob os
pés.
— Por que esses pseudo-bois não são atacados pelos peixes
dentuços?
Cliff encontrava-se do outro lado do deslizador e ouviu os estalos
dos juncos.
— Esses animais possuem córneas que vão dos cascos até a junta
superior. Os dentes dos peixes escorregam... Os dentuços só tem uma
chance quando os pseudo-bois se vêm obrigados a nadar devagar.
Titus levantou a espingarda e disse em tom insistente:
— Preste Atenção. Andaremos em direções opostas e
encontrar-nos-emos do outro lado da floresta. Se o senhor for atacado,
atire logo e fuja para as copas das árvores, escolhendo um lugar que os
pássaros não possam atingir. Provavelmente a manada passará
correndo por nós.
— Está certo.
Cliff caminhou com a maior cautela para o lado esquerdo. Sentiu o
chão instável e pouco seguro sob as solas das botas. Ouvia um chiado
cada vez que andava pelo charco. Os gritos tornavam-se cada vez mais
fortes. Cliff parou e olhou para trás. Encontrava-se a trinta metros do
deslizador. Do outro lado do círculo largo que se estendia em torno da
floresta, o junco abriu-se. Viu as cabeças de animais de grande porte
que corriam em carreira desabalada. A luz da lua iluminava o cenário.
O comandante sentiu-se transladado para um passado distante ou para
um ambiente místico e estranho. Havia aves de rapina no ar.
Numerosas sombras negras perseguiam os pseudo-bois.
— Que diabo! — cochichou Cliff.
Mais ou menos uma dezena de animais de grande porte saíram
correndo do junco.
Tinham chifres compridos e pontudos. As pernas esguias dos
animais estavam protegidas por uma substância óssea, tinham o
aspecto de cabos metálicos. As juntas estavam assinaladas por
escamas em forma de anéis superpostos. Os pescoços musculosos
sustentavam os crânios com olhos enormes. Esses olhos estavam
arregalados pelo pânico. O bater das asas, as pisadas dos cascos, os
gritos das aves de rapina e os estalos do junco tornaram-se mais fortes.
A manada correu na direção de Cliff. Este começou a correr.
Escorregou, voltou a colocar-se de pé e esforçou-se desesperadamente
para não perder nenhuma das armas que trazia consigo. Correu uns
cinqüenta metros e foi para o lado, penetrando na floresta. Pegou uma
das raízes, levantou-se pela mesma e puxou para cima a espingarda
que encontrara nela. Depois subiu na árvore com a velocidade
desesperada de uma pessoa perseguida. Os galhos fecharam-se atrás
dele. Rasgou as mãos na casca áspera. Pouco abaixo do lugar em que
se encontrava, a manada passou trovejando, perseguida pelas aves. Os
animais gritavam num tom agudo e queixoso. Cliff afastou um galho e
seguiu-os com os olhos. Contornaram a floresta.
Finalmente as aves conseguiram deter o animal que corria à frente
dos demais. Duas sombras desprenderam-se da cabeça.
O animal soltou um grito forte que antes parecia um choro. A
manada desviou-se para a direita, passou trovejando sobre a faixa de
terra e voltou a desaparecer em meio aos juncos. O "boi" atingido
gritou e distribuiu coices para todos os lados. O rabo girava que nem
uma hélice e o animal distribuía chifradas para todos os lados.
Levantou a cabeça e atingiu uma das aves. Finalmente dobrou as
pernas dianteiras e rolou para o lado. As aves de rapina
precipitaram-se sobre seu corpo. Dentro de poucos segundos, o local
transformou-se numa massa turbilhonante. Os pássaros negros o
devoraram.
Cliff continuou sentado e refletiu. Depois de algum tempo —
talvez uns quinze minutos — arriscou-se a descer da árvore. Colocava
o pé no chão e contemplava o esqueleto do animal de lado, quando um
ruído muito conhecido atingiu seu ouvido. Os jatos do deslizador
estavam sendo ligados. Cliff suspirou aliviado e gritou:
— Aqui, Titus!
O deslizador saiu por entre os troncos, descreveu uma curva e
acelerou. À luz do luar, o comandante viu o colono sentado na
poltrona do piloto, que acelerava a embarcação. Titus corria em
ziguezague pelo canal. Cliff suspeitou de alguma coisa, afastou a idéia
e finalmente compreendeu. Quando levantou a espingarda para atirar
em Titus, já era tarde. A casca deslizante de plástico passou entre as
muralhas de juncos e desapareceu.
— Que bonito! — resmungou Cliff em tom sarcástico.
Titus Veever resolvera deixá-lo para trás. Tinha certeza de que
Cliff não teria chances de sobreviver. Cliff teve vontade de
esbofetear-se; mas havia assumido o risco e agora só lhe restava ver
como conseguiria arranjar-se. Cliff contemplou a lua, como se
esperasse que a mesma lhe fornecesse uma resposta detalhada sobre
seu destino. Cocou a orelha, travou a pistola e segurou a espingarda
com ambas as mãos.
— De qualquer maneira — disse — agora já tenho uma prova
cabal de que alguma coisa está acontecendo neste planeta dos mil
oceanos. Viva o Centro de Computação.
Caminhou lenta e cautelosamente na direção de onde, segundo
acreditava, havia vindo o deslizador. Naquela região, a grande
máquina devia estar boiando, e por lá talvez houvesse possibilidade de
encontrar socorro.
— Que patife! — disse Cliff em voz alta, ao atingir a floresta de
juncos.
Mas logo teve que sorrir. Não sabia por quê, mas admirava Titus
Veever. Do ponto de vista tático justificava-se plenamente que o único
homem que possuía conhecimentos suficientes para descobrir um
projeto de atentado contra Terra fosse largado por ali. Cliff o havia
provocado e estava sofrendo as conseqüências. Evidentemente era
bastante duvidoso que conseguisse chegar vivo à Laguna Setecentos e
Dez. Penetrou na área coberta de juncos.
"Até a margem da laguna são cerca de trinta quilômetros. Trinta
mil metros!" pensou admirando-se.
A água, infestada de peixes dentuços que se precipitavam sobre as
botas fazia nascer em Cliff o medo de ser devorado por aqueles
espécimes de piranhas. Os juncos que se dobravam com um rangido,
cortavam o homem com suas folhas afiadas e despejavam insetos que
se precipitavam sobre McLane.
Cliff percorreu metro após metro. Sentiu-se ofuscado, sofreu um
ataque leve de esgotamento. Foi queimado pelo sol, atirou em dois
pássaros que se encontravam menos de dois metros acima de sua
cabeça.
Ele ansiava pelo zumbido da máquina. Mas nada!
O dia de Terra e o de Tareyton tinham a mesma duração, apenas
com a diferença de alguns minutos. Cliff olhou para o relógio. Eram
onze horas da manhã.
— Ao menos poderia ter deixado um pouco de água — disse com
os lábios rachados.
Prosseguiu na caminhada. Enquanto pisava nos juncos, no
pântano, em canais rasos ou na terra dura, teve tempo de sobra para
refletir sobre o problema. O único ponto importante eram os
alimentos, que chegavam a onze planetas. Dez deles ficavam nas
proximidades, e o outro era Terra. Os diversos extratos do trigo-arroz
eram usados em toda parte para a fabricação dos alimentos mais
variados. O que poderiam fazer diante dessa constelação de fatos?
Envenenar os extratos de alimentos?
Cliff prosseguiu aos tropeços e refletiu sobre o processo. Vinte mil
colonos conheciam os outros dez planetas, que eram seu mundo natal.
Seria uma vantagem para eles se envenenassem o resto da população?
Não.
Também não teriam nenhuma vantagem se os habitantes do outro
planeta — de Terra — fossem envenenados, mas a ação produziria um
certo efeito. Ninguém teria a idéia de analisar alimentos concentrados
ou os extratos vindos de mundos associados. Teriam que intoxicar os
onze planetas ou nenhum. Não havia outra alternativa. O raciocínio de
Cliff desenvolvera-se em direção errada. Não podia ser isso.
Continuou a caminhar e acreditou estar ouvindo o zumbido da
colhedeira. Ou será que já estava delirando? E se envenenassem
apenas determinados extratos? Suas idéias fixaram-se neste ponto.
Teve de confessar para si mesmo que a palavra veneno admitia uma
interpretação bastante ampla. Poderia tratar-se de droga, bactéria ou
vírus. Seria uma coisa tão pequena que dificilmente poderia ser
descoberta, e tão eficiente que poderia representar um perigo para um
planeta. Absurdo!
Antes teria de conhecer as modalidades da distribuição entre as
naves que transportavam os produtos para os onze planetas, senão de
nada adiantaria quebrar a cabeça. A suposição que fizera era tão
complicada e despropositada que não adiantaria insistir nela.
Ou será que adiantaria? Bastaria que uma das estações de tanques
ficasse sob o controle total dos tareys.
Cliff continuou cambaleando em meio aos juncos e sob o calor. As
horas foram passando. Sentia-se cada vez mais fraco. Só quando o
calor diminuiu porque o sol tocou a linha do horizonte, conseguiu
respirar melhor.
E agora realmente estava ouvindo o zumbido da máquina.
6

O RADIO de pulso estava no quarto da casa de hóspedes,


desligado, e o rádio maior encontrava-se a bordo do deslizador. A
esperança de que os instrumentos das três naves pudessem descobri-lo
era bastante desarrazoada. Lá em cima não estariam fitando
ininterruptamente as lentes e as imagens das telas infravermelhas.
Aqui em meio à selva não passava de um minúsculo ponto móvel.
O sol estava cortado em duas partes pela linha do horizonte e
McLane viu que o canal estreito se alargava. O zumbido aumentou, as
muralhas de junco recuaram e uma pseudo-desembocadura triangular
surgiu diante dele.
— Até que enfim! — enxugou o suor da testa.
Nunca se sentira tão feliz com a visão de uma máquina. Nunca
havia caminhado trinta quilômetros pelo junco e pelos pântanos.
— Os robôs não foram programados para serem perturbados por
homens — murmurou em voz baixa. — Foi o que Veever disse. Se eu
o agarrar, dar-lhe-ei uma surra. Ou então seguro-o e Mario aplica-lhe a
sova.
Caminhou lenta e cautelosamente em direção à máquina. O lugar
tornava-se cada vez mais fundo e quando se encontrava a poucos
metros da máquina já atingia a parte superior das botas. Aqui, nas
imediações da colhedeira robotizada, havia pouquíssimos peixes
dentuços, ou nenhum. Cliff parou exausto quando segurou um dos
cabos.
— Meu amor metálico! — disse em tom carinhoso, acariciando a
área morna de uma reentrância. Procurou levantar o corpo, depois de
colocar a espingarda em segurança. Chegou ao conjunto complicado
de hastes que ficavam junto às válvulas do tanque. O resto foi fácil.
Esperou.
Controlou o tempo. Aguardou exatamente durante trinta minutos.
Enquanto ia escurecendo, ouviu o som que os cilindros largos de
perfis arestosos produziam em meio ao pântano e aos juncos. Viu a
máquina de tração que se aproximava do colosso com os holofotes de
luz infravermelha acesos. A grande máquina quase chegara a esvaziar
a baía, e da fenda que se abria na mesma um acúmulo de plantas
trituradas foi despejada na água. O robô de tração descreveu uma
curva ampla, inseriu-se num raio direcional e tomou o rumo em que
Cliff se encontrava. O envoltório frouxo que arrastava atrás de si foi
agarrado por um gancho e os bocais dos canos de enchimento
comprimiram-se contra as válvulas. Ouviu-se um estalido no interior
do gigante.
— Vamos à Grande Laguna de carona com os hidratos de carbono!
Conseguira; mas a parte mais difícil ainda estava pela frente.
Enquanto a maré subia, o envoltório elástico de matéria plástica
inflou-se. Quantidades gigantescas de substância líquida foram
bombeadas para dentro do recipiente, até que o mesmo ficasse cheio.
Cliff deixou-se cair e sentou em cima do recipiente. Prendeu a correia
fina da espingarda a um dos laços que provavelmente constituía o
ponto de amarração do autômato de limpeza e sentiu a gigantesca
"pele" de plástico intumescer-se. A máquina de tração emitiu um
zumbido e a viagem teve início.
Apesar do cansaço, Cliff não se sentia aborrecido. Já sabia por
onde começar e a alegria de ter escapado vivo do pântano, dos peixes
dentuços, dos pseudo-bovinos e das aves de rapina superava todos os
outros sentimentos.
Sentado sobre o recipiente de hidrato de carbono, olhava bem para
diante e viu as raras luzes da povoação. Já se sentia contente com a
expressão que veria em muitos rostos. Chegaria junto aos tanques e
faria uma visita ao cônsul Halvorsen.
De repente foi dominado pelo cansaço. Segurou-se
desesperadamente e sentiu que o gigantesco recipiente deslizava pelo
pântano. O borbulhar da água era um ruído monótono, e o zumbido da
máquina também. Cliff adormeceu. Sua salvação era a correia da
espingarda que enlaçava seu pulso.
Dali a trinta minutos, acordou. O zumbido e o balanço agradável
da máquina cessaram.
— Ei! — disse alguém. — Veja lá que chave você vai puxar.
Cliff lentamente soltou a correia, mas continuou sentado. À sua
frente, erguia-se a parede de um dos gigantescos tanques, e um braço
de guindaste com uma válvula de bomba "faminta" aproximava-se
dele. Sorriu. O ligeiro período de sono já o deixara mais disposto.
— Queiram desculpar — disse em voz alta e admirou-se por falar
em tom rouco, como um alto-falante defeituoso. — Poderia informar
se me encontro em Grande Laguna?
Se tivesse vindo em cima de um sáurio a surpresa não teria sido
maior.
— Há alguém ali! — berrou um dos tecs. — Em cima do tanque de
plástico!
Outro gritou em voz alta:
— Suspendam a descarga automática. Cliff sentou na beirada do
recipiente, esticou as pernas e disse em voz alta:
— Cuidado; escorregarei pelo lado esquerdo.
Deixou-se cair sobre a convexidade do recipiente e bateu no chão.
Os três terranos, limpos e sem barba, inclinaram-se sobre ele. A luz de
um conjunto de lâmpadas incidiu sobre ele.
— É um dos astronautas que conhecemos durante a festa realizada
em casa de Halvorsen — disse uma voz. Cliff segurava a espingarda e
respondeu tranqüilamente.
— Sim, é isso mesmo.
— Como está o senhor! — disse um dos homens.
Aos poucos, o comandante começou a distinguir os rostos.
— Devo estar um tanto cansado — disse Cliff. — Será que os
senhores têm algum meio de transportar-me à casa de Halvorsen?
— Infelizmente não. São apenas trezentos e dez metros — disse o
capataz que usava sobretudo amarelo.
— Andei trinta quilômetros pelo pântano — Cliff apalpou os
joelhos. — Conseguirei vencer mais trezentos metros. Por acaso viram
Titus Veever?
— Não — disse um dos terranos. — Onde está ele?
— Eu lhe dou minha nave espacial, se me disser onde está. Tenho
uma conta bem grande para ajustar com ele — disse Cliff, respirando
com dificuldade.
Afastou os trabalhadores, fitou as luzes da casa de Halvorsen e
começou a caminhar. Movia-se como um autômato. Sob seus pés,
encontrava-se o espaçoporto.
Conseguiu vencer os trezentos metros.
Também conseguiu subir a escada para a casa de Halvorsen e
parou no meio do terraço. Olhou para o relógio.
— Que diabo! — resmungou. — Já passa das nove. Será que ainda
posso tocar a campainha?
Resolveu deixar de lado as convenções sociais e colocou o dedo
sujo sobre o botão largo. O som estridente da cigarra ajustada numa
tonalidade muito alta encheu a casa. Halvorsen levou apenas alguns
segundos para chegar à porta. Gritou em tom indignado:
— Por todas as nebulosas, o que está havendo por aqui?
Recuou um passo e a luz da sala iluminou o rosto de McLane.
Halvorsen reconheceu o astronauta e balbuciou:
— Coronel McLane!
Cliff soltou a porta. Quase chegou a cair para dentro da sala e mal
sentiu os braços de Halvorsen que o seguravam.
— É isso mesmo! — resmungou com a voz confusa.
— De onde vem o senhor? — fungou o cônsul em tom assustado.
Cliff percebeu que sua reação não era fingida. Não saberia dizer se
fora produzida pela alegria ou pelo medo.
— Pântano — disse Cliff e deixou-se cair numa das pesadas
poltronas.
— Onde está Titus Veever?
— Pântano — voltou a dizer Cliff. A espingarda tombou
ruidosamente ao chão, disparando um tiro. Uma agulha perfurou o
mapa do planeta pendurado entre a porta e a parede.
— Está morto? — perguntou Halvorsen.
— Claro que não.
— O que aconteceu?
— Titus fugiu — respondeu Cliff e bocejou sem colocar a mão
diante da boca. — Fugiu sem levar-me; de propósito.
Halvorsen fitou-o apavorado.
— O senhor andou todo o caminho? Onde estava?
— No pântano — disse Cliff com a voz débil.
Halvorsen sentou por um instante, mas logo se levantou de um
salto, como se uma agulha o espetasse. Desapareceu nos fundos da
sala. O coronel ouviu o ruído de portas que se abriam e fechavam.
Quando o cônsul Halvorsen voltou com uma seringa de pressão e um
forte estimulante, Cliff dormia profundamente. Halvorsen
desinfetou-lhe o braço, encostou a seringa e acionou a mesma. Depois
saiu para trazer um copo gigantesco de suco de frutas com glicose e
álcool, além de alguns sanduíches e um gravador.
Quando voltou, Cliff já havia acordado.
— Será que estou em casa de Halvorsen? — perguntou o
comandante numa voz surpreendentemente clara. O cansaço havia
desaparecido como por encanto. Halvorsen ligou o gravador de fita e
respondeu:
— Seja o que for que tenha acontecido, o senhor se encontra em
segurança. O que houve, coronel McLane?
Enquanto Cliff comia, bebia e respondia a perguntas, os carretéis
de fita giravam. Relatou minuciosamente tudo que se passara desde o
momento em que o deslizador partiu. Halvorsen sacudiu a cabeça de
espanto.
Alguém acendeu a luz.
Cliff viu Tamara Jagellovsk. Depois de sorrir ligeiramente para
ele, Tamara comprimiu o botão do videofone e disse:
— O chefe já acordou. Venham. Sentou na cama ao seu lado,
beijou-o e apontou para a janela larga. Cliff ergueu-se ligeiramente e
reconheceu a Orion VIII que pairava ao lado da Lancet, pouco acima
do espaçoporto. Sabia que durante sua ausência certas coisas haviam
tomado curso. A porta abriu-se, e várias pessoas entraram. Lydia van
Dyke foi a primeira. Cliff descobriu-se.
— Não tenho culpa de usar esta vestimenta nada elegante — disse
em sua defesa.
Atrás de Lydia entraram Mario, Hasso e Erickson, e ainda Helga
Legrelle e Halvorsen. Nos rostos deles, desenhava-se o traço de
resolução que Cliff, segundo pensava, conhecia e sabia avaliar.
Halvorsen foi o primeiro a falar:
— Coronel — disse em tom um tanto embaraçado. — Ao que
parece, a coisa é muito séria. O responsável pelo arranjo da caçada sou
eu. Chamamos os dois deslizadores pelo rádio e mandamos que
retornassem imediatamente. Com Hasso Sigbjörnson e C.O. Erickson
não aconteceu nada.
Cliff estendeu a mão e disse em tom categórico:
— Não direi uma única palavra se não me derem imediatamente
um copo enorme de Archer's Tears.
Com uma expressão quase insultuosa no rosto, Halvorsen tirou
uma garrafa do bolso traseiro da calça, levantou-se e pegou um copo
de tamanho considerável num armário embutido. Encheu-o e
aproximou-se da cama.
— Permita que chame sua atenção para a norma bem conhecida,
segundo a qual o uso do álcool é rigorosamente proibido a qualquer
astronauta que se encontre em serviço — disse Tamara Jagellovsk em
tom rígido. — Se a norma for infringida, ver-me-ei obrigada a avisar
meus superiores.
— As normas não falam na travessia de pântanos durante a qual a
morte espreita a gente atrás de cada junco. Avise seus superiores,
camarada, avise-os.
Tamara contemplou Cliff enquanto o coronel esvaziava
tranqüilamente o copo.
— Muito bem — disse o comandante. — Agora estou disposto a
conversar.
Todos os olhares dirigiram-se para ele.
— Antes de mais nada, senhor cônsul, aceite meus sinceros
agradecimentos pelo auxílio imediato que me dispensou. Fiquei
satisfeito em saber que Erickson e Hasso voltaram sãos e salvos.
Notaram algo de anormal?
O comandante da Scorpio sacudiu a cabeça.
— Não percebemos nada, Cliff — disse.
— O colono não demonstrou uma gentileza cativante, mas
conseguimos arranjar-nos. Vimos muita coisa e atiramos um bocado.
Hasso levantou a mão e prosseguiu:
— No meu deslizador foi a mesma coisa. Muito sol, muito junco,
muitos pássaros; apenas isso.
Cliff resmungou:
— Parece que mais uma vez todas as "gentilezas" concentraram-se
sobre minha pessoa. De qualquer maneira, suponho que os vinte mil
colonos vindos dos planetas vizinhos estejam planejando ou já tenham
iniciado a execução de um atentado contra Terra. Só conheço uma
única possibilidade, ou melhor, um único instrumento para a prática
do atentado. São os extratos de alimentos. O que acha, cônsul
Halvorsen?
Halvorsen acenou com a cabeça.
— Acho que o senhor acertou. Não sei como isso poderia ser feito.
— Pois eu imagino — respondeu Cliff.
— Dispomos dos dados. Alguém sabe se ultimamente houve
conflitos políticos ou movimentos de independência em algum dos
planetas do grupo de dez?
— Não sei de nada — respondeu Lydia van Dyke. — Descobri os
nomes dos dez mundos, mas não sei absolutamente nada sobre sua
estruturação política.
— Quais são os nomes? — perguntou Cliff.
— Bem. Não se sabe desde quando usam este nome, de onde
provém ou por que o escolheram. Acontece que por qualquer motivo
com o qual não conseguimos atinar os dez planetas usam o nome
Sistema de Papillon.
Ninguém sabia informar nada sobre esses planetas.
Cliff fez um gesto afirmativo e seu indicador sujo apontou para
Helga Legrelle. Depois de algum tempo, disse:
— Comandante à operadora de rádio. Faça o favor de voltar à nave
e expeça uma mensagem às F.R.E.T. e ao SSG. Indague sobre os
dados relativos aos dez planetas, mencionando meu nome. Tenho
fortes suspeitas de que aqui esteja sendo planejado um atentado contra
Terra. Diga que respondam por H.S. e D. Quando tiver a resposta, faça
o favor de voltar e leia o que Villa e Wamsler tiverem dito ou
descoberto.
Helga levantou-se e respondeu:
— Operadora de rádio ao comandante: entendido.
— Por aqui existem quase mil estações desse tipo. Logo, existem
cerca de mil conjuntos de tanques e mil campos de pouso. Esses
lugares são visitados ininterruptamente por naves espaciais que trazem
a tripulação normal de três homens: o comandante, o operador de
rádio e o astronavegador. São mais de mil pousos e decolagens.
Correto, cônsul?
Cliff dirigira a pergunta a Halvorsen. Este tinha os números exatos
na cabeça e respondeu prontamente:
— Ao todo, o número de pousos por conjunto de tanques é
superior a vinte. No ano passado, a safra foi tão abundante que houve
necessidade de vinte e cinco decolagens e pousos em média. Isso
representa perto de vinte e cinco mil naves. Quatro mil delas
dirigem-se a Terra. Posso fornecer as quantidades exatas e o número
preciso de decolagens, mas...
Cliff interrompeu-o com um gesto.
— Pode deixar — disse. — Suponha que o senhor esteja
interessado em contaminar um planeta — digamos Terra. O que faria?
— Procuraria infetar um conjunto de tanques com alguma coisa
que despovoaria o planeta — disse Halvorsen.
— Para isso seria necessário que as naves desse planeta, que
poderia ser Terra, só se dirigissem a determinadas estações, não é?
— Sem dúvida — concordou Halvorsen. — Para evitar o
congestionamento do espaço aéreo e dispensar uma porção de cálculos
e problemas administrativos, decidimos que cada nave sempre deve
dirigir-se ao mesmo espaçoporto, durante o ano todo. Só em casos
excepcionais é encaminhada a outro ponto.
Lydia van Dyke perguntou com sua voz fria:
— Qual seria um caso excepcional, cônsul?
Halvorsen não teve necessidade de refletir.
— Um caso excepcional se verifica quando a safra terminou e
alguma nave não consegue encher seus tanques. Nesse caso, dirige-se
ao conjunto de tanques mais próximo, ou é encaminhada para outro
lugar em que haja extrato em quantidade suficiente.
— Isso acontece muitas vezes? — perguntou Hasso Sigbjörnson.
— Umas cinco vezes por ano. Não deve ser mais; e acontece por
acaso. Não se pode estabelecer nenhuma regra que nos permitiria dizer
com algumas semanas de antecedência qual é a nave e qual será o
planeta de destino.
Lydia van Dyke disse em tom sarcástico:
— Quer dizer que podemos concluir que, por aqui, nenhum cônsul
morreu de estafa.
Halvorsen soltou uma risadinha e retrucou:
— Não, mas dois dos meus antecessores enfrentaram um ataque de
aves de rapina. Um deles teve um braço amputado. A vida por aqui
não é tão suave como a gente gostaria.
Seu bigode tremia nervosamente.
— Não fique zangado — disse Lydia. — Foi apenas uma idéia.
Tamara interveio.
— Também haveria a possibilidade de espalhar um vírus e
fornecer antídotos aos planetas que não devem ser atingidos pelo
mesmo. Isso seria fácil, uma vez que se sabe qual é o conjunto de
tanques onde cada nave recebe sua carga.
Cliff concordou.
— Seria outra possibilidade.
Halvorsen levantou-se de um salto e parou perto da cama do
comandante. — Talvez o senhor ache que a possibilidade é
complicada e remota, mas parece que descobri uma terceira
possibilidade. Tremia de nervosismo.
— Diga logo, senão o senhor acaba "estourando" — disse Tamara.
— Pode-se introduzir o antídoto de qualquer doença nos tanques
de determinado planeta ou grupo de planetas. Deixa-se de inserir o
antídoto em certos tanques, que podem ser aqueles em que se
abastecem as naves destinadas a Terra. Nesse caso, determina-se
precisamente quando deverá irromper uma epidemia.
Cliff voltou a recostar-se.
— Temos pouco tempo para descobrir qual das três hipóteses é a
verdadeira. Sob o ponto de vista teórico, talvez já seja tarde.
Lydia van Dyke enumerou as hipóteses.
— Primeira: infetar os tanques destinados a certo planeta.
Segunda: infetar todos os tanques, fornecendo o antídoto a
determinado grupo de planetas. Terceira: introduzir o antídoto num
grupo de tanques, colocando os germes diretamente no planeta visado.
— A enumeração é curta, mas no fundo é correta, general — disse
Cliff. — Apenas estou aguardando uma hipercomunicação. Depois,
pensarei num meio de realizar os controles que se tornam necessários.
Estamos equipados para esse tipo de investigação?
— Estamos — disse Erickson em tom decidido.
— Um instante — disse Hasso Sigbjörnson. — É apenas uma
idéia. Falamos em germes, bactérias, vírus e outras coisas de menos de
um milésimo de milímetro. Não haveria outra coisa sobre a qual
deveríamos quebrar a cabeça?
Halvorsen virou-se abruptamente.
— É a única possibilidade de que alguém daqui pode lançar mão.
Será que valeria a pena colocar peixes dentuços nas águas terranas?
Ou exportar aves de rapina para o planeta Terra, para que as mesmas
ataquem naves solitárias? A ameaça só pode residir nessa área
microlítica.
— Não deixo de reconhecer este fato — respondeu Hasso.
Cliff sacudiu a cabeça e apoiou-se sobre os cotovelos.
— Só pode ser Terra — disse em tom decidido.
— Por quê?
— Pensem um pouco. Há séculos conseguimos extirpar
praticamente todas as enfermidades mais sérias, com exceção do
resfriado. Qualquer ataque bacteriológico atingiria Terra, um planeta
densamente povoado onde as possibilidades de contágio são inúmeras.
Halvorsen parecia tornar-se ainda menor. Encolheu-se na sua
poltrona e murmurou:
— Que diabo, comandante. O senhor tem tanta razão que já
começo a temê-lo seriamente.
Lydia van Dyke fez um gesto afirmativo.
— E tudo isso em pleno Ano Galático.
— Cujo começo anunciei oficialmente hoje de manhã pela
emissora planetária. Ainda anunciei que as naves espaciais estão aqui
por esse motivo. — disse o cônsul.
— Não se aborreça, Halvorsen — murmurou Cliff. — Não
pensávamos que as coisas fossem tão graves. Mas... deve ser Helga.
A porta abriu-se. Helga entrou com o rosto muito sério.
Aproximou-se da cama, parou e entregou a Cliff uma folha de papel
coberta por letras verticais. Cliff agradeceu com um gesto, sorriu
ligeiramente, leu o texto e repetiu-o em voz alta.
F.R.E.T. para coronel McLane. Nave Orion VIII. Segundo o relato
das instâncias competentes e conforme resposta do Centro de
Computação, podemos fornecer as informações que seguem.
Exatamente há um ano terrano o Sistema de Papillon procurou
separar-se de Terra sob a forma de um bloco econômico.
Constituímos uma comissão e submetemos a matéria à votação. As
condições econômicas e políticas eram tão confusas que não pudemos
concordar com essas pretensões. O Sistema de Papillon voltou a ser
incorporado à estrutura terrana. Ass. Wamsler. Fim.
As pessoas reunidas no quarto olharam-se. Cliff exibiu um sorriso
feroz e disse em voz alta:
— É o primeiro relatório que recebemos. As informações
fornecidas por Villa apenas permitem imaginar como Terra se opõe à
dissolução de seu círculo de poder econômico. Diria que se trata de
uma ditadura, se não tivesse experimentado pessoalmente o perigo
representado pelos extraterranos e outros tipos de ameaças. Acontece
que os planetas coloniais não têm a menor idéia de tudo isso.
— Leia logo, comandante! — disse o cônsul.
— Naturalmente — disse Cliff e leu em voz alta:
SSG para Mc Lane. Nave Orion VIII. Há dez meses todos os
dirigentes do Sistema de Papillon foram substituídos por terranos
leais numa ação-relâmpago secreta. Os responsáveis pelas tendências
anárquicas foram deportados para Mura e Tareyton. Precisam de
reforços? Villa. Fim.
— Lacônico como sempre — comentou Cliff. — O que foi que
você respondeu, Helga, minha filha?
— Por enquanto não estamos precisando de reforços — disse
Helga.
Halvorsen falou:
— Estas mensagens esclarecem tudo. Os elementos deportados
procuram vingar-se.
— Ainda sinto Mura no estômago — disse McLane. — Nunca me
esquecerei dos raios omikron.
— O que vamos fazer? — perguntou Lydia van Dyke em voz
baixa. Tamara levantou-se e parou perto de Halvorsen.
— Cônsul, será que o senhor teria uma possibilidade de colher
uma amostra de cada um dos conjuntos de tanques que abastecem os
planetas do Sistema de Papillon?
Halvorsen passou a mão pelo cabelo; parecia assustado.
— Isso levaria séculos — disse. — É claro que confio nos meus
tecs, mas teria de chamar os grupos um por um. Muito tempo se
passaria antes que todas estivessem aqui.
— Use todos os recursos de que possa dispor. Apresse a coisa o
mais que puder — disse Tamara Jagellovsk em tom suplicante. — O
destino de Terra está em jogo.
— Poderiam dar uma ajuda? — perguntou Halvorsen e
levantou-se.
— Naturalmente — disse Tamara. — Vamos ao seu escritório para
discutir o assunto. As amostras serão trazidas para cá. Mandaremos
pousar a nave. Está de acordo, Cliff?
Todos viam que o comandante ansiava por um banho, um
barbeador e um bom lanche ou jantar.
— Você é a agente do SSG. Acho que está com a razão.
Tamara e Halvorsen despediram-se. Tinham pressa. Cliff procurou
descobrir um meio mais rápido, mas não conseguiu.
— Hasso e C.O. — disse. — Quero pedir-lhes vários favores.
Procurem Halvorsen e peçam que entregue a vocês um mapa
detalhado de Tareyton.
Os dois levantaram-se e correram atrás de Tamara e do cônsul.
— O que devo fazer, McLane? — perguntou Helga.
— Você terá a gentileza de procurar uma boa alma que me forneça
uma refeição bem substancial.
— É uma coisa que eu faço com o maior prazer — respondeu
Helga, lamentando que Tamara não estivesse ouvindo.
Lydia van Dyke levantou-se e chegou bem perto da cama. Seus
olhos cinzentos examinaram Cliff, que voltou a puxar a coberta até o
queixo, franzindo a testa num gesto indagador.
— Acho que o senhor também me poderia atribuir alguma tarefa
— disse Lydia.
Cliff conhecia seus modos ásperos, motivo por que não se deixou
impressionar pelos mesmos. Fez um gesto de concordância.
— Onde é que eu devo "abrir um buraco"? — perguntou Van
Dyke.
Cliff esforçou-se para sorrir.
— Ainda não encontrei Veever — ponderou. — Peço-lhe que
organize as análises das diversas amostras, de maneira tal que a
demora seja a menor possível. Poderei confiar na senhora?
Cliff fez um gesto de recusa e continuou:
— O disfarce seria inútil. Entre em contato com as naves e dê
ordem para que pousem aqui. Não há mais nada a fazer pairando sobre
o planeta. E, aqui embaixo, as coisas vão esquentar.
Lydia exibiu um sorriso disfarçado. Tinha trinta e cinco anos de
idade. Vez por outra Cliff surpreendia-se ao estabelecer comparações
entre ela e Tamara, sem chegar a qualquer resultado. Lydia era pelo
menos cinco anos mais jovem que ele. Tinha uma estima
extraordinária por Cliff, que a venerava de forma bastante estranha.
— Tomara que o senhor não derreta — disse em tom de
advertência.
— Dificilmente. A raiva que sinto por Titus evitará que isso
aconteça.
Por fim, Cliff viu-se só. Saiu da cama, procurou e encontrou o
banheiro e submeteu-se a um procedimento demorado e complicado.
Assustou-se ao ver seu rosto refletido pelo espelho. Estava barbudo,
com a pele tostada e uma queimadura de sol no nariz. Os olhos muito
afundados nas covas estavam "enfeitados" por quatro arranhões que
começavam a cicatrizar. Fez a barba com o máximo de cuidado e
acabou junto à mesa farta, posta onde já estavam Helga e Ivy Cerea.
— Isso é formidável — resmungou Cliff e sentou.
Dali a meia hora, sentia-se refeito, e sua disposição de espírito
melhorara consideravelmente. Hasso e Erickson entraram na sala.
Traziam o mapa e as respectivas informações. Um círculo bastante
limitado de terranos, formado por amigos e colaboradores do cônsul
Halvorsen, ocupara o edifício e desenvolvia uma atividade febril.
Hasso parou ao lado de Cliff e encheu uma xícara de café.
— A coisa começa a ficar séria — disse em voz baixa.
Cliff fez um gesto afirmativo.
— É verdade. Teremos que realizar um trabalho descomunal. E o
trabalho não deixa de ser perigoso, pois não há nada que corra tão
depressa como um boato. É de supor que, neste meio tempo, Titus
Veever já tenha avisado seus amigos e comparsas. Sem dúvida, já sabe
que cheguei até aqui. Como acabo de dizer, não há nada que corra tão
depressa como um boato.
Erickson pôs a mão no bolso e tirou a HM-4.
— Cuidarei da Lancet — disse. — Tenho certeza de que, depois,
nós três examinaremos os tanques destinados a Terra.
Uma terrível expressão surgiu no rosto de Cliff.
— Você tem mais do que razão, comandante — disse.
Havia um tom perigoso em sua voz.
7

CLIFF, Hasso e Erickson inclinaram-se sobre o mapa detalhado.


— Há um total de novecentos e noventa e três conjuntos de
tanques — disse Cliff mostrando os dados. — Exatamente oitenta são
visitados exclusivamente por naves destinadas a Terra. Oitenta vezes
vinte e cinco são...
— Duas mil chegadas — disse Hasso.
— O transporte exige naves dotadas de tanques de tamanhos
variados, destinados aos hidratos de carbono, à proteína, às
substâncias minerais, às suspensões de lipóides e aos sais. São cinco
tanques. Em qual deles poderiam ser colocados os germes? —
continuou o coronel.
Erickson vestia uma mistura de traje de bordo e de caçador. Era
mais prático, pois com a maré alta os tanques ficavam parcialmente
submersos.
— Não assumiremos qualquer risco — disse Cliff. — Retiraremos
amostras de todos os tanques.
Hasso soltou uma risada de desespero.
— São quatrocentas amostras; cinco em cada conjunto de tanques.
Nossos cientistas ficarão felizes. Terão trabalho para alguns meses.
Cliff lançou um olhar de espanto para Hasso.
— Meses? — perguntou, esticando a palavra. Os exames terão de
ser realizados dentro de alguns dias. Talvez o acaso nos ajude para que
não precisemos colocar todas as amostras embaixo do microscópio.
Erickson parecia cético.
— Como vamos agir, Cliff?
Cliff deu de ombros e apontou para os oitenta círculos que traçara
com a caneta hidrográfica em torno dos conjuntos de tanques
destinados às naves terranas.
— Agiremos sistematicamente, meu caro — respondeu. — E, mais
que tudo, agiremos depressa.
Isso significava que dois grupos de pesquisadores estariam a
caminho. Os terranos que trabalhavam no planeta retirariam amostras
de cada um dos tanques dos Papillons e as levariam à nave. Cliff,
Hasso e Erickson examinariam os tanques destinados aos terranos.
— Quando partiremos? — perguntou Erickson.
Perto deles, estavam exatamente oitenta conjuntos de tubos de
ensaio e algumas peças de reserva. A operação era secreta e teria que
ser executada depressa. O risco de que houvesse um traidor no grupo
não podia ser evitado. As primeiras amostras estavam chegando,
assinaladas com o número do conjunto de tanques e contendo cinco
tubos de ensaio lacrados. Os cientistas da nave desenvolveram um
processo especial, que permitia que os exames fossem realizados sem
perda de tempo.
— Tomara que possamos comer antes de partirmos — comentou
Hasso num tom de suave recriminação.
— Pois não — disse Cliff. — Ivy cuidará disso.
Erickson sorriu e disse:
— Prometeu que trará minhas garrafas de Archer's Tears.
Os homens riram.
Entre as naves, a residência do cônsul Halvorsen, o quarto de Cliff
McLane e a Lancet foi instalada uma comunicação para conferências
baseada em aparelhos de videofone. Helga dirigia o tráfego
radiofônico, com a assistência do primeiro-oficial. Cliff olhou para o
relógio. Faltavam cento e vinte minutos para a decolagem da Lancet.
Hasso mostrara-se disposto a pilotar a nave, enquanto agüentasse.
Cliff e Erickson recolheriam as amostras. Se necessário, fariam uso
das armas. Ouviu-se um zumbido. Cliff executou um giro de noventa
graus com sua poltrona, calcou a tecla de resposta e fitou o rosto sério
de Halvorsen.
— Comandante McLane — disse o cônsul a meia voz. — Tenho
várias notícias. Algumas são boas, outras são más.
Cliff levantou a mão para interromper a conversa de Erickson e
Hasso.
— Dê primeiro as notícias boas, Halvorsen — disse, falando
depressa.
— Ao todo chegaram amostras de cento e treze dos conjuntos de
tanques Papillons. Logo, ainda faltam muitas. Já mandei levar as
amostras à nave.
— Se continuarmos assim, a coleta terminará amanhã de noite; ou
talvez hoje de madrugada — disse Cliff. — Quais são as notícias más?
— Dos conjuntos de tanques que o senhor terá de visitar com seus
tripulantes, uns trinta são controlados pelos tareys. Talvez tenha de
contar com alguma reação.
— Era o que eu receava.
— Há outra coisa. Ainda não temos nenhuma informação sobre o
paradeiro de Titus Veever. Sua irmã também desapareceu; o senhor já
deve ter notado.
— Sim — disse Cliff. — Por falar nisso, o senhor poderia pedir a
Ivy Cerea que viesse até aqui com um lanche bem reforçado para três
pessoas. E com um cantil...
— ...cheio de Archer's Tears. Era o que eu imaginava. Será
providenciado, comandante — Halvorsen fez sinal de que
compreendera.
A comunicação foi interrompida, e Helga Legrelle surgiu na linha.
— Cliff — disse em tom exaltado. — Neste instante, nossa
operação está sendo iniciada. As primeiras amostras acabam de chegar
à nave. Deseja ser mantido constantemente a par?
— Não — disse Cliff. — Chamaremos quando precisarmos de
alguma coisa, ou se surgir algum perigo. Desligo.
— Cuidem bem de vocês. Entendeu? Cliff sentiu-se comovido.
— Naturalmente, minha filha — disse. — Como sempre, sairemos
disto como heróis envoltos numa auréola. Talvez Wamsler acabe nos
dando outra vez um relógio ou uma caixa de uísque autêntico.
— Tenho minhas dúvidas — concluiu a operadora de rádio.
— Vamos dar mais uma olhada no mapa — disse Cliff. — Cada
estação emite um sinal de posição característico, e os receptores das
naves cargueiras estão ajustadas para o mesmo. Viremos daqui —
Cliff desenhou uma seta e traçou uma linha — e nosso primeiro pouso
será ali.
Ao lado da respectiva posição indicou um sinal.
— O serviço será seu, Hasso. Não poderá haver nenhuma
confusão.
— Faz pouco tempo que sou engenheiro de bordo — disse Hasso,
piscando os olhos azuis para Cliff. — É claro que terei meus
problemas com essas coisas.
McLane repeliu-o com um gesto.
— Será um serviço infernal, meus amigos — asseverou.
Elaboraram uma rota que previa oitenta pousos, voltaram a
recapitular tudo e aguardaram o lanche. Antes que os três homens
entrassem resolutamente e cheios de iniciativa na sua Lancet,
permitiram-se um enorme gole da excelente bebida que o cônsul
Halvorsen lhes mandara.
***
O círculo de edifícios brancos e reluzentes, que se erguia numa
confusão de estacas sobre a superfície luminosa do espaçoporto,
captou os primeiros raios. Na linha do horizonte havia uma parede de
nuvens, fina e vertical, e o sol ia subindo atrás dela. Três aves de
rapina bateram com as asas ao sobrevoarem a Grande Laguna.
Dirigiam-se para o sul, para a direção que a Lancet tomaria. Hasso
recolheu a escada, ligou toda a aparelhagem e colocou o mapa à sua
direita, sobre os aparelhos de radiocomunicação. Depois disso a
Lancet ergueu-se sem o menor ruído.
— Objetivo número um — disse Cliff, examinando de uma das
cúpulas transparentes a paisagem que despertava. — O conjunto de
tanques da Laguna Seiscentos e Setenta.
— Entendido — disse Hasso e acelerou.
A Lancet inclinou-se para a frente, ganhou velocidade e
deslocou-se vertiginosamente para o sul, trinta metros acima dos
juncos, da água e das árvores bizarras. Os homens mantinham-se em
silêncio. Bastante nervosos, examinavam as armas e refletiam sobre
suas tarefas. Dali a dez minutos, depois de um vôo veloz, Hasso
baixou a Lancet. A nave auxiliar baixou sobre o campo de cerca de
setenta metros de diâmetro situado junto aos tanques, que eram cinco.
Tal qual o campo espacial de Grande Laguna, compunha-se de blocos
de plástico, soldados e apoiados em suportes de metal. A escotilha
externa da comporta abriu-se.
— Hasso, você ficará na escada da nave e nos dará cobertura com
a HM-4.
Hasso fez um gesto afirmativo. Cliff pegou uma caixinha com
tubos de ensaio, enfiou-a no bolso interno da jaqueta e destravou a
arma de pressão de gás.
— Vamos — disse em tom enérgico.
C. O. e Cliff saíram da nave, caminharam em direção ao edifício
baixo e pararam quando um homem, um tarey, surgiu de repente na
porta.
— O que querem? — perguntou o colono.
Parecia ser um parente de Titus; a barba e a vestimenta desleixada
conferiam-lhe um ar característico.
— Ano Galático! Pertencemos a uma comissão incumbida de
serviços de coordenação. Precisamos de amostras dos seus tanques.
O colono pôs as mãos nos quadris e gritou:
— Dê o fora, tec!
Cliff exibiu um sorriso feroz. Sem dizer uma palavra tirou a arma
do coldre e apontou diretamente para a barriga do homem.
— O senhor irá por bem ou teremos de usar métodos mais
persuasivos? — perguntou em tom indiferente.
O colono lançou-lhe um olhar de perplexidade.
— Mantenha-o sob controle, comandante — disse Cliff.
Erickson tirou a arma de pressão de gás do cinto largo e encostou o
cano na altura do estômago do colono.
Cliff correu para o primeiro tanque, abriu a caixinha e levantou o
fecho do primeiro tubo de ensaio. Ao lado da torneira havia um
pequeno fecho de controle. Cliff pôs o tubo embaixo do jato fino que
saiu da abertura, colocou cerca de vinte centímetros cúbicos e voltou a
fechar a torneirinha. Arrolhou o tubo de ensaio e arrancou a faixa de
lacre. Os produtos químicos entraram em ação e produziram no tubo
de ensaio uma vedação à prova de ar. Cliff correu para o segundo
tanque. Repetiu o procedimento. Levou exatamente cinco minutos
para encher a caixinha com as cinco amostras.
Enquanto Cliff retornava à nave, Erickson retirava-se, andando de
costas. O colono fitava-o em silêncio e não fez a menor menção de
esboçar qualquer gesto de defesa. Fora tomado de surpresa. Ao chegar
embaixo da nave, Erickson fez um disparo de advertência. A agulha
penetrou no chão bem perto das botas do colono. Recolheu a escada,
fechou a comporta e a Lancet levantou vôo. Cliff pegou uma caneta
hidrográfica e desenhou três algarismos sobre a caixinha: 670.
— Já conseguimos a maior parte — asseverou Hasso, enquanto a
nave corria em direção ao próximo objetivo. — Só faltam setenta e
nove pousos e decolagens.
Cliff olhou para o mapa e murmurou:
— Objetivo número dois. Laguna Seiscentos e Cinqüenta e Nove.
Bem à frente da nave esférica com as cúpulas características de
plástico transparente erguia-se a próxima instalação de tanques em
meio aos juncos que ladeavam as águas. Cinco gigantescos tanques
esféricos repousavam sobre suportes com grandes placas de apoio.
Entre os tanques, havia passarelas mecânicas que permitiam aos
encarregados cuidarem da aparelhagem sem molhar-se. Ao lado do
círculo, uma pequena casa pré-fabricada construída sobre estacas. Para
os robôs de transporte fora instalada uma rampa de acesso. Um
conjunto de reatores supria de energia a aparelhagem móvel e fornecia
a eletricidade para as instalações de rádio e as máquinas. Era tudo.
Quase mil estações desse tipo estavam espalhadas pelo planeta de
Tareyton.
— Vamos pousar — disse Hasso, depois de ter captado e
identificado o raio vetor característico.
Exatamente, dez minutos se haviam passado desde a decolagem
em Grande Laguna. Os acontecimentos verificados na primeira
estação repetiram-se quase que do mesmo modo.
— Se conseguirmos manter o desempenho atual, poderemos
terminar dentro de quatorze horas — resmungou Cliff. — Depois,
cairemos de estafa, mas isso não faz mal.
Mais uma vez a Lancet encontrava-se no ar. Corria em direção ao
objetivo número três.
Ao meio-dia, mais de seis horas após a decolagem, haviam visitado
um total de trinta e cinco estações de tanques.
Por duas vezes, viram-se obrigados a recorrer à violência.
Num dos pousos, foram recebidos a tiros e responderam ao fogo.
Até as quatorze horas tudo correu normalmente. Hasso reclinou-se
e disse com a voz cansada:
— Cliff.
McLane tirou rapidamente três recipientes de plástico com café do
minúsculo fogão de radar. Dividiu-os pelos amigos e levantou os
olhos.
— O que houve, Hasso?
— Hasso espalmou a mão e soltou a direção.
— Não agüento mais.
— Assumo o comando — disse Erickson e empurrou Hasso para
fora do assento do piloto. C.O., que era comandante de nave,
evidentemente sabia pilotar uma nave auxiliar. Hasso fechou os olhos
e sorveu devagar o café. Depois recostou-se no assento do co-piloto.
— É um negócio infernal, Cliff McLane! — falou sorrindo.
Era um sorriso um tanto martirizado, mas confiante. Cliff não
respondeu; limitou-se a estender a mão direita com os dedos abertos.
Os dedos tremiam de nervosismo e exaustão. Erickson inclinou-se
sobre o mapa, olhou para o indicador ótico do sinal de identificação e
disse em voz alta:
— Objetivo número trinta e nove. Laguna Trezentos e Vinte e Um.
Dez segundos antes do pouso, Cliff ligou o botão de resposta do
videofone. Helga apareceu na tela. A moça arregalou os olhos,
contemplou os três homens sem dizer uma palavra e sacudiu a cabeça.
— Até parece que vocês são doentes internados numa clínica de
nervos dirigida pelo doutor Sherkoff — comentou. — Preste atenção.
Transmitirei a ligação para a outra nave.
A imagem desapareceu e foi substituída por outra. Era um
cientista.
— Barcfield! — disse Erickson em tom de espanto. — Tem
alguma informação para nós?
Barcfield era bacteriólogo e, evidentemente, fora incumbido desde
logo da chefia das duas equipes. Desde a chegada das primeiras
amostras, se havia passado um tempo considerável. Os cientistas já
deviam ter realizado grande número de exames.
— Tenho. É uma coisa estranha, comandante.
Barcfield estava pálido e parecia tão exausto quanto os três homens
que se encontravam na Lancet. Atrás dele, viam-se os gigantescos
microscópios, cujo funcionamento era possível devido às instalações
de bordo, além de outros cientistas e de uma quantidade enorme de
tubos de ensaio bem arrumados.
— Conte logo!
A nave auxiliar pousou e a comporta abriu-se.
— Até agora todas as amostras, com exceção das sedimentações
salinas higroscópicas, estavam contaminadas. Positivamente
contaminadas.
Três pares de olhos fitaram-no. Os homens mantiveram-se em
silêncio. Tiveram a impressão de que poderiam ouvir o bater de seus
corações.
— O que foi que encontraram?
— Volto a afirmar: quatro das amostras colhidas em cada estação
de tanques estavam cheias de germes. Examinamos todas, num total de
duzentas amostras, ou seja, oitocentos preparados. Todos eles
continham germes antiamarílicos.
McLane disse com a voz fraca:
— Faça o favor de explicar o sentido da expressão. Não somos
cientistas.
Um sorriso tímido surgiu no rosto de Barcfield.
— Pelo que pudemos constatar, estes extratos contêm devoradores
de vírus extremamente resistentes. Continuam vivos, mesmo que os
extratos sejam submetidos a modificações muito complicadas através
de processos químicos e do calor. Os planetas do Sistema de Papillon,
por exemplo, poderiam ser contaminados de febre amarela. É verdade
que seria uma febre amarela completamente diferente das que
conhecemos por experiência. As pessoas que comem os extratos
vindos deste planeta não serão atacadas pela febre amarela. O nome
correto dos germes antiamarílicos seria germes bacteriófagos, já que
devoram vírus ou bactérias. Compreendeu minha exposição?
— Temos motivo para supor que os dez planetas do Sistema de
Papillon recebem soros que agem contra a febre amarela. Se de
repente as naves passassem a transportar vírus de febre amarela, os
habitantes desses dez planetas não sofreriam nada — intercalou Cliff.
Barcfield acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— Vejo que compreendeu, comandante. Agora já pode tirar suas
conclusões.
Cliff refletiu alguns segundos; depois disse:
— Pela lógica, as amostras colhidas por nós deveriam ser
totalmente neutras, uma vez que se destinam a Terra. Nosso planeta
não está protegido contra o vírus da febre amarela. Dali se concluiria
que grandes quantidades de vírus de febre amarela serão colocados
neste planeta. A doença deverá representar um golpe mortal para
Terra.
Mais uma vez, o cientista concordou.
— Correto. É verdade que é um procedimento longo e complicado,
mas o mesmo exclui totalmente o perigo para os planetas do Sistema
de Papillon. Entendido?
— Entendido — disse Erickson. — Vamos colher o resto das
amostras. Precisamos ter certeza absoluta.
— Era o que eu ia recomendar — concluiu o cientista. —
Enquanto isso, examinaremos todas as amostras infetadas que
pudermos. Não tenham a menor dúvida.
— Acompanhamos a palestra — disse Helga. — Cliff, as coisas
estão ruins, não estão?
— Estão — respondeu o comandante. — Muito ruins. Voltaremos
ao anoitecer, com um total de oitenta amostras.
Saíram da Lancet.
***
Mais uma vez a lua mergulhou a paisagem em sua misteriosa
luminosidade. Não havia nenhuma luz que indicasse a existência de
qualquer pessoa na última das estações de tanques, que correspondia
ao objetivo número oitenta daquele dia. Um silêncio arrepiante
envolvia tudo; só se ouviam os ruídos produzidos pelos animais. A
Lancet, cujas máquinas trabalhavam em ponto morto, estava parada na
periferia do campo de pouso. Os três homens afastaram-se dos
suportes de aterrissagem. Sentiam fome e estavam cansados.
— Não estou gostando — disse Hasso em voz baixa.
A arma que segurava na mão emitia um brilho ameaçador.
— Está tudo quieto demais — cochichou Erickson. — Até parece
que não há ninguém por aqui. Estamos a poucos quilômetros de
Grande Laguna, e não há ninguém... Não sei como explicar.
Cliff saiu da sombra da nave auxiliar.
— Suas ponderações são corretas, mas irrelevantes. Precisamos da
última amostra.
— Eu lhes darei cobertura — disse Erickson e destravou a
espingarda que segurava com ambas as mãos.
Cliff ligou o pesado farol manual e caminhou alguns metros à
frente de Hasso com os tubos de ensaio embaixo do braço.
Aproximava-se do primeiro dos gigantescos tanques. Não se via nada,
e nada se movia.
— Será que abandonaram a estação de tanques? Ou estarão
escondidos? — cochichou Hasso em tom nervoso.
— Não sei — murmurou Cliff. Iluminou a torneira de extração de
líquido, abriu o primeiro tubo de ensaio e encheu-o até dois terços da
altura. Depois, os dois homens foram ao lugar situado embaixo do
segundo tanque. Entre o entrelaçado de suportes e placas de apoio
havia alguns centímetros de água. De uma hora para outra, o som
produzido pelos passos parecia bastante alterado. Era o segundo
tanque. Enquanto Cliff enchia o segundo tubo de ensaio, Erickson, que
se encontrava embaixo da Lancet, pegou o pesado holofote manual,
ligou-o e deixou o feixe de luz . caminhar em todas as direções.
Iluminou os dois homens, os juncos, e desligou o holofote. Era tudo
silêncio e escuridão. A luz da pequena lanterna fazia um jogo
fantasmagórico entre os tanques dois e três. Subitamente Erickson
ouviu os passos do comandante e do engenheiro de bordo. A água
farfalhou, e de repente ouviu-se um chiado. Nada se moveu.
Bastante nervoso, Erickson mudou a posição da arma. Segurou-a
na altura dos quadris e virou-se.
— Comandante! — gritou. — Aconteceu alguma coisa?
— Não.
Cliff e Hasso passaram ao quarto e ao quinto tanque. Erickson viu
alguns contornos nítidos por entre a luz e voltou a ouvir o chiado. Foi
um som metálico seguido de um assobio pelo ar. Devia ser o ricochete
do disparo da arma de pressão de gás. Erickson abaixou-se, levantou o
holofote e iluminou a periferia da área livre. Ouviu vagamente os
ruídos que Cliff produziu ao tirar a amostra, seguidos pelos passos dos
dois homens que caminhavam em sua direção por dentro da água rasa.
— Estão atirando contra vocês — disse Erickson em voz baixa.
Viu Cliff e Hasso diante da esfera gigantesca da lua. Suas silhuetas
desenhavam-se nitidamente. E alguém atirava de algum lugar. Devia
estar bem oculto. Hasso e Cliff já se encontravam ao lado de Erickson.
— Alguém está atirando contra nós! — disse Erickson em tom
insistente. — Rápido! Vamos entrar na nave.
Mais uma vez, ouviu-se o chiado, e antes que cessasse, o ruído da
agulha atingindo alguma coisa. Ricocheteou contra a parede da
Lancet. Cliff virou-se rapidamente e dirigiu a arma contra os juncos.
Puxou o gatilho várias vezes e ouviu o chiado fraco dos gases
descomprimidos. Não atingiu nada. Apontara para os juncos, na altura
do joelho de um homem que estivesse de pé.
Hasso subia pela escada e desaparecia no interior da nave.
— Vamos! Entre logo — disse Erickson. Este também disparou,
rapidamente e sem fazer pontaria. Abaixou-se, atirou a pesada lanterna
para Hasso, que a pegou habilmente no ar. Cliff saltou para a escada,
colocou as amostras no chão. Quando estava para esticar a mão para
ajudar Erickson a subir, ouviu um som diferente.
— Fui atingido. Que diabo! — disse Erickson e foi escorregando
da escada. Cliff saltou para o chão. Abaixou-se, ouviu o ricochete
junto a sua cabeça e pôs C.O. nas costas. Fungando, cambaleou escada
acima. Segurou-se. Hasso decolou num instante. A Lancet ganhou
altitude e correu vertiginosamente em direção à Grande Laguna. Cliff
baixou o corpo do comandante numa poltrona.
— Está morto? — perguntou Hasso, que não tirava os olhos dos
instrumentos e imprimia o desempenho máximo às máquinas.
— Inconsciente — respondeu Cliff. — As agulhas fazem com que
os animais menores fiquem inconscientes. Não sabemos que efeitos
produzem no homem. Ligue o videofone.
Hasso colocou a nave auxiliar na rota e com um movimento rápido
fez a ligação. Helga Legrelle apareceu na tela.
— Alguém atirou contra nós. Erickson foi atingido por um disparo
de arma de pressão de gás. Faça o favor de avisar Halvorsen. Peça-lhe
que chame um médico. Pousaremos no terraço.
— Será providenciado — disse Helga, virando-se e estabelecendo
uma ligação indireta.
Enquanto abria a camisa de Erickson e colocava a mão sobre o
coração do major, Cliff ouviu a voz de Halvorsen. Gritou alguma
coisa que soava como: "Era só o que faltava. Devemos chamar
imediatamente Longjon. Rápido!" Logo se tornou mais tranqüilo.
Helga estabeleceu a ligação direta entre Halvorsen e a Lancet.
A cabeça do cônsul apareceu na tela.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Faz dois minutos — respondeu Cliff. — Foi no último ponto de
nossa rota. Qual é o efeito das agulhas?
— Erickson não morrerá — disse Halvorsen. — Mas dentro de
cinco minutos contados após o impacto deve receber a injeção com o
antídoto. Longjon já se encontra a meu lado, com tudo preparado. Voe
mais depressa, Sigbjörnson.
Sem dizer uma palavra, Hasso apontou para a alavanca do
acelerador, que estava regulada na última posição. As máquinas
emitiam um zumbido desagradável. A Lancet aproximava-se da
Grande Laguna à velocidade de quinhentos quilômetros por hora.
— Estamos desenvolvendo a velocidade máxima — disse Cliff. —
Neste momento vemos as primeiras luzes da povoação.
Chegaram com um segundo de antecedência. A Lancet passou
ruidosamente por cima da nave espacial, correu para a casa do cônsul
e freou com uma desaceleração de cinco G. Cliff fora prevenido e
amarrara Erickson. Depois a nave auxiliar pousou pesadamente,
demoliu a amurada do terraço e, ao tocar a superfície, já havia
escamoteado a escada. Longjon precipitou-se para dentro. Percebeu à
primeira vista o que havia acontecido e atirou-se sobre Erickson. A
seringa pressurizada chiou como se fosse uma arma de gás. Hasso
enxugou o suor da testa.
— Foi por pouco, Cliff — disse com um suspiro de alívio.
Alguns homens e várias moças, que pelo aspecto provinham de
Terra, entraram na nave e carregaram o comandante para fora. Cliff
sabia que ele e Hasso só precisavam de uma coisa: dormir bastante.
— Aquilo que está para vir provavelmente será muito mais crítico,
Hasso — disse em tom sério.
De pé a seu lado, Halvorsen fitou-o com uma admiração
indisfarçável, misturada com certa timidez.
— Dentro de doze horas, Erickson recuperará plenamente a
consciência — disse. — Os irmãos Veever ainda não foram
localizados.
Cliff apontou a direção da qual tinham vindo.
— Amanhã poderá enviar uma expedição armada num helicóptero.
Tenho certeza quase absoluta de que foram Titus e sua irmã que
atiraram contra nós. Deve ter sido Titus que atingiu o comandante,
pois é um atirador de primeira. Os ricochetes certamente devem ser
debitados a sua irmã.
— Amanhã — disse Halvorsen. — O que vai fazer agora?
Cliff sentiu um cansaço igual ao que o dominara dois dias antes, à
mesma hora.
— Vamos fazer três coisas — respondeu. — Voar até a nave,
descarregar as amostras e depois dormiremos.
Dali a uma hora, McLane estava deitado na cama. Durante os
poucos minutos que se passaram antes de adormecer, refletiu sobre
aquilo que havia descoberto e sobre as prováveis conseqüências dos
fatos.
"É de se supor", pensou, "que nas oitenta amostras não será
encontrado nada. Os homens deportados para cá, que foram os
responsáveis pelos movimentos separatistas dos dez planetas, querem
vingar-se. Protegerão seus mundos contra os efeitos da agressão que
planejaram para Terra. Enquanto nesta, alguns vírus provocariam uma
catástrofe, no Sistema de Papillon a população imunizada os
absorveria sem problemas."
"Sim", continuou pensando Cliff, "nas oitenta amostras não será
encontrado nada."
Mas havia uma verdade terrível. De tão cansado que estava, Cliff
McLane era incapaz de raciocinar claramente, e por isso cometeu um
engano.
8

Das dez horas da manhã até as onze, ou seja, durante uma hora
inteira, Cliff esforçou-se para espantar o cansaço profundo que
invadira seu corpo. Tentou recuperar a capacidade de raciocinar e de
reagir com a necessária rapidez. Naquele instante, ainda não poderia
imaginar que, dali a três horas, uma decepção terrível o aguardaria.
Levantou-se da mesa do café. Comera sozinho, já que os outros
participantes da operação estavam superocupados. O zumbido do
videofone cortou o silêncio.
Cliff parou e calcou a tecla de resposta.
— McLane — disse laconicamente. Era Halvorsen.
— Arme-se de paciência, comandante — disse. Cliff não saberia
dizer se o cônsul anunciaria um desastre ou não. — Enquanto o senhor
estava descansando, travamos o primeiro combate neste planeta.
Cliff logo compreendeu.
— Foram os Veever?
— Sim — respondeu o cônsul — pegamo-los junto à estação de
tanques em que Erickson foi atingido pelo disparo. C.O. ainda se sente
um pouco fraco, mas não sofreu qualquer dano permanente, Será que
poderia vir logo até aqui?
— Voarei — asseverou Cliff e desligou. Mario e ele chegaram
simultaneamente à plataforma.
— Comandante — disse Mario, apertando a mão de Cliff. — Será
que a grande aventura nos pegou?
Um sorriso cobria-lhe o rosto largo.
— Pegou. Mas não é exatamente o que eu queria. Venha comigo.
Uma multidão de colonos estava reunida na enorme sala que ficava
junto ao terraço. Pelas vestimentas e pela ausência das barbas marciais
percebia-se que eram quase todos terranos. Ninguém falava. No meio
da sala havia uma poltrona pesada. Titus Veever estava sentado nela,
amarrado com largas correias. Cliff parou como se alguém o
segurasse. Caminhou devagar para junto de Titus. Fitaram-se
longamente e em silêncio.
— Titus, caro colega de caça e companheiro de luta perigosa —
disse Cliff em tom penetrante. — O senhor tem sorte por estar apenas
amarrado a essa poltrona. Devo-lhe muita coisa, e prometi a mim
mesmo que lhe daria uma sova por causa de sua desonestidade. Que
tal?
— Seu tec estúpido! — resmungou Veever.
Cliff fez um sinal para Mario, abriu a grande fivela magnética de
seu cinto e entregou-o ao primeiro-oficial. Mario sorriu como quem
compreendia.
— Desamarre-o, Halvorsen — disse Cliff.
Halvorsen, muito nervoso, interpôs-se entre o colono e o
astronauta.
— Comandante, o senhor não pode... Afinal, este homem...
Cliff afastou-o.
— Na qualidade de chefe da operação ordeno-lhe que desamarre o
prisioneiro.
Halvorsen deu-se por vencido. Sacudiu os ombros e fez um sinal
para seus subordinados. Estes não disseram nada; desataram os cintos
que prendiam Titus. Cliff recuou um passo. Na sala, espalhou-se um
silêncio de tensa expectativa. Esse silêncio foi interrompido por Mario
de Monti, que tirou a pistola do cinto de Cliff, destravou-a com um
estalo e se colocou diante da porta.
— Vamos assistir a uma luta honesta, minha gente.
Veever levantou-se e parou diante da poltrona. Cliff procurou
golpear com a esquerda. Veever reagiu com uma rapidez extrema:
levantou os braços e reteve a mão esquerda de Cliff. Este puxou o
colono para junto de si, e com a direita desferiu um golpe que passaria
para a história.
Veever foi atingido em cheio. Foi atirado para trás, caiu na
poltrona e o pé desta quebrou-se com o impacto de seu corpo. A
violência do soco fez com que Titus rolasse e batesse em cheio contra
a parede. A pancada abalou a casa e um enorme quadro com moldura
especial soltou-se da parede. Tombou para a frente e quebrou bem na
cabeça do colono. Cliff ficou parando, fazendo massagem na mão
direita.
— O desempenho fez jus à sua fama, Cliff — disse Mario com um
sorriso largo.
Dois homens libertaram Veever da moldura e dos pedaços do
quadro e arrastaram-no para o centro da sala. Amarraram suas mãos e
ficaram parados em atitude de expectativa. Halvorsen esteve a ponto
de dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um zumbido.
Alguém manipulou uma chave junto à escrivaninha coberta de
tubos de ensaio vazios, pequenos videofones e armas, além de lápis,
anotações e xícaras vazias. O grande videofone foi ligado e Helga
Legrelle surgiu na tela.
— Quero falar com o comandante McLane — disse em voz alta.
Cliff abriu caminho por entre os circunstantes. O rosto de Helga
trazia todos os sinais de pânico. Cliff desconfiou de que havia alguma
coisa terrível.
— Vou ligá-lo com Barcfield — disse laconicamente e moveu uma
chave. O rosto do cientista encheu a tela.
— McLane, é uma coisa terrível — balbuciou. Parecia que sua voz
não obedecia à vontade.
— O que houve?
— Das oitenta amostras, todas foram examinadas, e não existe
nenhuma possibilidade de engano, setenta e seis não acusaram nada.
São compostas exclusivamente de extratos.
Cliff pensou que o chão iria abrir-se embaixo dele. Na sala só se
ouvia a respiração pesada do colono, que parecia recuperar a
consciência aos poucos.
— E as quatro restantes? — indagou Cliff.
— As quatro estão infetadas de vírus de febre amarela.
— Meu Deus! — disse Cliff. — Será que não houve algum
engano?
O cientista-chefe sacudiu a cabeça sem dizer uma palavra.
— Isso significa que Terra não terá a menor proteção se alguém
tiver a idéia de carregar as naves de algum desses dezesseis tanques.
Seria a maior catástrofe desde o planeta incandescente que saiu da
trajetória. Obrigado, Barcfield.
Barcfield hesitou.
— Para sua informação quero acrescentar que as amostras provêm
dos conjuntos de tanques Quinhentos e Trinta, Quinhentos e Trinta e
Nove, Seiscentos e Vinte e Um e Setecentos e Três.
Uma pessoa que se encontrava na sala anotou os números.
— É só o que posso informar — disse Barcfield. — O que
devemos fazer, comandante?
— Interrompa as análises. Vá dormir e prossiga quando estiver
descansado. Depois documente tudo e reúna provas cabais dos fatos.
Algum ocupante da nave ficou exposto aos vírus de febre amarela?
— Não. Fizemos vacinas com culturas criadas às pressas. O senhor
ainda terá que ser vacinado, McLane.
— Daqui a pouco estarei aí — prometeu Cliff em tom nervoso.
— Ei! — disse alguém com a voz rouca. — Ouça, seu tec
estúpido!
Várias cabeças viraram-se. Titus Veever endireitara o corpo um
pouco e virou a cabeça de forma a poder fitar McLane com os olhos
inchados.
— Quer repetir a dose? — perguntou Cliff em tom gentil.
— O senhor perdeu o jogo, astronauta. Parecia que ali vinha outra
surpresa.
— Por quê? — perguntou Cliff.
— Ontem os tareys carregaram quatro naves, que se encontram na
rota de Terra. Pousaram junto aos tanques que continham vírus. O
senhor perdeu e Terra também.
Cliff ficou calado por segundos.
Depois disse com uma calma que surpreendeu até mesmo Mario,
embora o primeiro-oficial conhecesse o poder de autocontrole de Cliff:
— Cônsul Halvorsen.
— Pois não, comandante.
— Leve este homem à câmara fria da Hydra II. É uma ordem.
Cuidarei do resto.
Depois segurou Mario pelo ombro e gritou:
— Depressa, Mario. Realizaremos uma decolagem de emergência
com a Orion.
Saíram correndo sem despedir-se das pessoas que se encontravam
na sala.
Precipitaram-se para dentro do elevador central, comprimiram o
botão e foram à parte inferior da nave. O pequeno elevador
recolheu-os. Dali a pouco, viram-se na sala de comando. Helga
virou-se abruptamente ao ver os dois homens. Manipulava os
comandos de comunicação audiovisual.
— O que houve? — cochichou em tom assustado.
— Uma decolagem de alarma. Onde estão Atan e Hasso?
— Atan está no seu camarote, dormindo — disse Helga. — Hasso
está com os cientistas.
Cliff foi saindo e gritou:
— Avise Tamara e Van Dyke. Tomarei uma vacina. Halvorsen
explicará tudo.
Voltou dali a cinco minutos. Ao lado dele, Hasso atravessou
correndo os sessenta metros do espaçoporto. Atan já estava sentado
diante das telas. Helga gritou ordens numa sucessão rápida, seguidas
de instruções e informações. Hasso desapareceu na sala de máquinas,
e Mario já havia programado a rota para Terra.
— Comandante para computação: curso de Terra programado?
— Comandante para sala de máquinas: toda força em todos os
conjuntos. Velocidade máxima.
— Entendido.
Hasso, que como de costume surgiu na tela, levantou a mão.
— Comandante para rádio: prepare-se para transmitir uma série de
mensagens para Tareyton e para as autoridades terranas.
— Todos os contatos estabelecidos. Livro de bordo funcionando
— respondeu Helga.
— Decolar! — disse Cliff.
A Orion VIII subiu, disparou para o céu e afastou-se
vertiginosamente. Dali a alguns segundos, durante os quais os
neutralizadores de gravidade tiveram que realizar um trabalho titânico,
os homens reunidos na casa de Halvorsen ouviram um forte
estampido. Isso se deu quando o disco prateado ultrapassou a barreira
do som. A nave desapareceu no espaço.
— Estabeleça contato com Tareyton, minha filha — disse Cliff em
tom tranqüilo.
Contemplou a tela central redonda. Viu o planeta diminuir e o sol
reduzir-se até ficar do tamanho de uma estrela. Dali a alguns minutos,
se as máquinas não queimassem, a Orion penetraria no hiperespaço.
— Contato estabelecido. Ligarei as telas.
Helga moveu várias chaves.
— Preste atenção, Halvorsen — disse Cliff, que já se acalmara um
pouco. — O senhor já deve ter verificado quando as naves cargueiras
decolaram de seu planeta, não é?
Halvorsen esboçou um sorriso forçado.
— Sim, infelizmente — respondeu.
— Por que infelizmente? — perguntou Cliff.
— Porque lamento ter que dar-lhe a informação que segue,
McLane. A primeira das quatro naves tem uma vantagem de vinte e
duas horas. A última decolou há dez horas. Estamos reunindo uma
tripulação que voará para as quatro estações de tanques. Assim que
tivermos os resultados, entrarei em contato com o senhor pelo
hiper-rádio. Entendido?
— De acordo — disse Cliff. — Não se preocupe. Minha Orion é
uma nave muito rápida.
— Acontece que são vinte e duas horas. Isso corresponde a seis
zonas de distância.
— Quer fazer o favor de chamar Tamara Jagellovsk?
Halvorsen fez um gesto afirmativo e transferiu a ligação.
— Decolei para interceptar as naves antes que cheguem a Terra —
disse Cliff sem o menor intróito. — Tentarei convencer os
comandantes a pararem. Além disso, entrarei em contato com Villa e
Wamsler. Concluam as investigações e levem Halvorsen e Veever a
Terra. Combinado?
— Combinado, Cliff.
Oeste/Seis 039. Uma nave levava cerca de cento e quarenta horas
para chegar a Terra. As naves cargueiras eram mais lentas.
"Por isso", assim pensou Mario de Monti no dispositivo de
alimentação do computador, "a Orion teria que vencer o percurso em
pouco mais de cento e vinte horas para ter uma chance real."
— Faça o favor de chamar Lydia van Dyke.
— General — disse o comandante — farei o possível para
convencer as naves a pararem. Se alguma coisa não der certo, poderei
contar com seu apoio?
— Pode contar com todo o apoio da minha parte, Cliff — disse
Lydia em tom amistoso.
— Muito bem. É possível que tenha que tomar uma medida
drástica. Gostaria de ter cobertura.
— No que depender de Tamara e de mim, o senhor pode contar
com todo o apoio.
Cliff aproximou os dedos da tecla.
— Obrigado — concluiu.
A tela escureceu. Cliff levantou-se. Parou no centro da sala de
comando e disse:
— Daqui a alguns minutos, a nave penetrará no hiperespaço. Atan,
faça o favor de permanecer junto às telas. Mario, você cuidará do
rádio. Helga tem dormido pouco; rápido, para o camarote. Hasso.
O engenheiro da nave respondeu pelo intercomunicador de bordo.
— Não posso aumentar mais nada, Cliff, senão ficaremos parados
no hiperespaço.
— Ainda não entramos nele, Hasso.
— Não, mas daqui a pouco vamos saltar.
— Muito bem. Helga e eu vamos dormir. No momento em que um
de vocês se sentir cansado acordará um de nós. A substituição tem de
ser imediata. Pelo menos três postos devem ficar constantemente
guarnecidos. Ligarei o piloto automático. Tudo entendido?
— Durma tranqüilo, comandante — murmurou Atan. —
Cuidaremos da Orion como se fosse uma preciosidade.
Cliff sorriu.
— Muito bem — disse. — Confio em vocês.
A Orion VIII, que era uma das naves espaciais mais velozes de
Terra, correu pelo espaço como um fantasma prateado, foi ganhando
velocidade e finalmente foi empurrada para o hiperespaço pelas
máquinas.
O painel de rádio estava com o autômato de advertência ligado.
'Hasso acompanhava as indicações das máquinas que corriam
vertiginosamente. Mario achava-se sentado na poltrona de comando.
Dez horas depois da decolagem: há algum tempo De Monti
procurava pesar as chances do empreendimento de Cliff.
"Conseguiria alcançar as outras naves? A Orion ultrapassaria ao
menos três delas.
E uma série de mensagens de rádio seria suficiente para advertir os
respectivos comandantes. O perigo residia na quarta nave, aquela que
decolara em primeiro lugar. Quando os vírus de febre amarela
tivessem sido inseridos no processo produtivo, já não haveria como
salvar Terra de seu triste destino."
Continuou pensando:
"Nem mesmo os robôs e uma equipe sanitarista trabalhando a toda
velocidade conseguiriam vacinar alguns bilhões de homens contra a
febre amarela, uma doença há muito extirpada e esquecida. E os que
fugissem nas naves levariam os germes para todos os setores do
espaço."
Essas idéias fizeram Mario empalidecer. Sentiu um calafrio. Com o
canto dos olhos, viu a luz que piscava.
Dirigiu-se imediatamente ao painel de rádio, girou os botões e
ligou o hiper-receptor. Ao mesmo tempo, conectou o dispositivo de
escrita e pôs o livro de bordo a funcionar. Uma mensagem transmitida
por fita começou a ser gravada.
Seu teor era o seguinte:
Aqui fala o planeta Tareyton. Chamamos McLane a bordo da
Orion VIII. Nossos comandos descobriram que as tripulações técnicas
das quatro naves espaciais foram subjugadas. Os homens já se
encontram no consulado, sãos e salvos. Informam que as quatro naves
foram guarnecidas por uma tripulação composta de colonos que as
levará a Terra. Com isso, o perigo tornou-se ainda maior. Titus
Veever, submetido a um inquérito mais rigoroso sob a direção de
Tamara, confessou que as tripulações receberam ordem de lançar os
estoques na atmosfera terrana. Os cientistas pedem que
acrescentemos o seguinte: o vírus da febre amarela não corresponde
ao tipo clássico. Trata-se de uma cultura especial que produziu uma
bactéria desnaturada. Provavelmente não poderá ser combatida por
qualquer dos medicamentos ou soros conhecidos. Assinado.
Halvorsen. Decolarei dentro de cinco horas em companhia de Veever
e das tripulações libertadas, com destino a Terra. Desligo.
— Virão na Hydra II — murmurou Mario e disse:
— Atan. Leia isto.
Hasso surgiu na tela do videofone.
— Mario, seu rosto merece um estudo. O que está lendo?
— As piores notícias que vi desde o momento em que decolamos
de Terra — respondeu Mario. — Deixe suas máquinas em paz por
alguns minutos e dê um pulo até aqui.
— Irei logo — disse o engenheiro da nave.
Leram o texto que retratava uma terrível realidade. Repetiram a
leitura e decidiram acordar Cliff imediatamente. Caberia a ele decidir
o que se deveria fazer.
Havia cinco naves que seguiam a rota de Terra. Quatro delas
levavam uma carga mortífera. Seria uma corrida de cujo resultado
dependeria a própria existência de Terra. Mario encarregou-se de
acordar Cliff.
— Pegarei esta folha e tentarei explicar ao coronel que só há uma
possibilidade de aumentar o clima de tensão. Seria o aviso de que a
primeira nave pousou ou coisa semelhante.
Hasso sacudiu a cabeça.
— Você tem um humor bastante macabro, meu caro — disse.
***
Cliff fitou os números, como se os mesmos pudessem produzir
algum milagre. 122:25:09:30... Essas cifras indicavam a distância no
tempo a partir do momento em que as máquinas da nave foram postas
a funcionar. Cento e vinte e duas horas e vinte e cinco minutos:
durante esse tempo a Orion VIII correra vertiginosamente pelo espaço,
executara saltos pelo hiperespaço e encontrava-se a poucos segundos
do momento em que voltaria a ser arremessada para o espaço normal.
— Estamos chegando perto de Terra — disse Cliff. — Ainda
temos tempo de transmitir a mensagem. Faça correr a fita, Helga.
Já conhecia o texto do aviso de Halvorsen e ajustara seus planos ao
mesmo. A antena da nave irradiou a primeira mensagem pelo
hiperespaço. Hasso utilizou todas as reservas energéticas para atingir
uma capacidade de transmissão mais alta. O texto foi o seguinte:
Aqui fala o cruzador espacial Orion VIII comandado por McLane.
Circunstâncias extraordinárias obrigam-me a expedir a seguinte
ordem: é estabelecida uma proibição geral de pouso para toda e
qualquer nave. Repito. Uma proibição geral de pouso para toda e
qualquer nave. Nenhum veículo espacial poderá penetrar na
atmosfera terrana. Meu projetor Overkill será utilizado sem a menor
contemplação se constatar qualquer violação desta ordem. Desligo.
O aviso foi transmitido três vezes. Depois Helga desligou. Todas
as naves que se encontrassem no hiperespaço, nas proximidades de
Terra, haviam captado a mensagem. Dali a alguns segundos, o sol e as
estrelas surgiram nas telas da nave. A Orion encontrava-se no espaço
normal, a uma unidade astronômica de Terra. Os tripulantes
encontravam-se nos seus postos.
Cliff estava sentado em sua poltrona, com os cintos atados, e
segurava os controles de pilotagem manual. Cada pessoa que se
encontrava a bordo sabia perfeitamente o que tinha que fazer. Hasso
reduziu o desempenho da maior parte das máquinas. Com uma
satisfação silenciosa, constatou que nem um único bloco se queimara,
embora parte dos condutos tivesse sofrido bastante.
— Atan — perguntou Cliff em tom penetrante. — O que está
vendo?
As telas de Atan mostravam o setor espacial adjacente a Terra no
qual deveria surgir a nave de Tareyton. Se os cálculos de Cliff fossem
corretos, e se os colonos quisessem arriscar uma missão suicida, a
nave teria que aparecer a qualquer instante.
— Por enquanto nada.
Helga girou a fita para trás e ligou o transmissor para o tráfego de
rádio normal. Mais uma vez, as áreas adjacentes a Terra receberam um
aviso. As poucas naves da frota que se encontravam nas proximidades
souberam interpretar corretamente a informação de McLane. Afinal,
conheciam o coronel. Além disso, dali a poucos segundos, o texto
seria transmitido para o gabinete de Wamsler. Este ouviu a mensagem,
empalideceu e começou a esbravejar.
Os segundos passaram devagar, arrastavam-se, martirizavam os
homens...
— Há um contato de ressonância, Cliff.
— Procure verificar se é uma nave cargueira ou um cruzador.
Atan fez suas verificações e, dentro de quinze segundos, constatou
sem a menor sombra de dúvida que se tratava de uma nave cargueira
vinda de Tareyton. Fez um sinal, e Cliff levantou a cabeça. Fitou os
olhos de Mario de Monti, que ocupara seu lugar no posto de artilharia.
— Agiremos conforme o plano — disse Cliff.
— Entendido.
A Orion já se encontrava a menos de uma unidade astronômica de
Terra. Acelerou e moveu-se ligeiro em direção ao outro disco. Helga
tentou ininterruptamente estabelecer contato radiofônico com a outra
nave, mas foi em vão. As naves aproximaram-se. Não havia a menor
dúvida de que o destino do cargueiro era Terra. Quando Cliff seguiu
uma rota de colisão, não reduziu a velocidade, mas apenas o sentido
de deslocamento.
— Vamos atacar — disse Cliff.
A Orion aumentou a velocidade e aproximou-se. Cliff freou e
colocou a nave em posição. Mario tinha a nave cargueira na mira.
Comprimiu o botão e abriu fogo. Compridos fios brancos de fogo
correram em direção à outra nave e esfacelaram o envoltório que
abrigava os propulsores. A nave cargueira foi reduzida à imobilidade
total. Um raio de tração segurou-a. Vagava no espaço sem a menor
capacidade de impulso. Mais dois tiros foram disparados e derreteram
as comportas de saída.
— Excelente, Mario — disse Cliff.
A nave cargueira girava inerme sobre a tela redonda. Com exceção
das máquinas, o veículo espacial estava intacto. Apenas, não poderia
percorrer um metro sequer com seus próprios recursos.
— Foi a número um — disse Mario. — Onde estão as outras?
— Devagar — respondeu Helga em voz alta. — Antes de mais
nada teremos que ouvir os gritos de Wamsler. Está no meu receptor.
Contato audiovisual por Eos IV.
— Transfira — disse Cliff.
***
— Marechal Wamsler — gritou McLane, quando este, que
gesticulava furiosamente, surgiu na tela. — Ouça primeiro o que tenho
que lhe dizer.
— O que está pensando? Comando alfa. Pouse imediatamente.
Nos últimos dias, Cliff tivera que controlar-se demais. Ainda desta
vez se controlou. Fitou o rosto de Wamsler, aguardou uma pausa entre
os gritos e os comandos e disse em tom tranqüilo:
— Assim que voltar ao normal, discutirei o assunto com o senhor,
marechal.
Fez um sinal, e Helga Legrelle interrompeu a comunicação. Cliff
conseguiu ignorar as ordens das F.R.E.T. Também conseguiu reduzir à
imobilidade as três naves restantes vindas de Tareyton. Rebocou-as
para as proximidades de Terra, certificou-se de que nada mais poderia
acontecer e depois solicitou formalmente permissão para pousar.
Assim que a Orion VIII desceu na Base 104, quinze agentes do SSG
prenderam a tripulação.
Cliff ficou trancado por doze horas numa cela solitária. Teve
oportunidade de rememorar todos os detalhes do drama. Não se sentia
muito bem.
Finalmente vieram buscá-lo. Foi levado ao gabinete de Villa como
se fosse um criminoso de alta periculosidade.
Cliff já conhecia este tipo de procedimento. Mas desta vez,
sentia-se enojado. Sua equipe estava reunida, sentada em fila a seu
lado. À sua frente, Wamsler e Villa estavam entronizados, com
Michael Spring-Brauner no centro. O recinto formigava de agentes do
SSG.
— Coronel McLane — disse Villa num temível tom de voz — o
senhor forçou demais as coisas. Exagerou e não há desculpa sobre os
atos premeditados que praticou. Ou será que tem alguma explicação?
O rosto de Cliff assumiu uma expressão fatalista quando
respondeu:
— Tenho uma impressão bastante nítida de que a partir de
determinada graduação a sensibilidade sadia sofre uma redução
acentuada. Por acaso rebocaram as quatro naves cargueiras?
— Foi o que fizemos — disse Villa com um sorriso finório.
— E examinaram o conteúdo dos tanques? — perguntou Cliff. —
Afinal, não é totalmente impossível que uma vez tivessem uma boa
idéia.
— Nos tanques havia os extratos de Tareyton.
— E esses extratos contêm tantos vírus de febre amarela
desnaturados que, com eles, se poderia despovoar metade da Galáxia,
coronel — disse Cliff. — Com esta o senhor não contava, não é
mesmo? — soltou uma risadinha.
Por alguns segundos, Villa fitou-o com uma expressão de
incredulidade. Depois ligou um videofone e pediu às suas equipes que
mantivessem os tanques fechados e chamassem um grupo de
bacteriólogos. Cliff e seus companheiros ouviram-no.
— Normalmente costuma-se perguntar ao réu qual foi sua intenção
ao praticar o ato de que é acusado — ironizou Cliff em tom de
recriminação. — É claro que esta regra não se aplica nos recintos em
que nos encontramos. O velho McLane agiu por puro prazer quando
reduziu uma nave a sucata no interior do cubo espacial terrano. E,
antes, procurou voar de Tareyton para cá num tempo recorde porque
não tinha outra coisa a fazer.
Depois a raiva apossou-se dele.
— De resto — berrou sem o menor autocontrole — não tenho
nenhuma vontade de discutir com os senhores. Exijo que me levem de
volta a minha cela. Dentro em breve Lydia, Halvorsen, nosso cônsul
em Tareyton, doze astronautas libertados e Tamara deverão pousar
aqui. Pergunte a essas pessoas por que vieram para cá. Ainda lhes dou
um bom conselho: prestem atenção ao que Halvorsen tem para contar.
Dirigiu-se às sentinelas.
— Vamos! — gritou. — Levem-me de volta. E não me
incomodem antes que tudo tenha passado.
Villa fez um sinal para os homens. McLane foi levado para a cela
solitária. Adormeceu...
***
...e acordou.
Ao que parecia, tinha sonhado, e ao menos os sonhos
demonstraram-lhe alguma compreensão. Reconciliaram-no com seu
destino amargo. Cliff apalpou os dedos doloridos e sonhou que
Halvorsen se encontrava diante dele com um copo enorme de Archer's
Tears e sorria. Seu bigode tremia nervosamente, que nem os juncos de
Grande Laguna.
Abriu os olhos e piscou-os, um tanto confuso. Wamsler e Villa
estavam sentados à sua frente.
— Oh, não!
Cliff ergueu-se. Não quis acreditar. Villa e Wamsler seguravam
um enorme copo e cheiravam seu conteúdo. Wamsler parecia um tanto
embaraçado. Pôs a mão para trás e trouxe um terceiro copo.
— Recomendações de Halvorsen — disse Wamsler em tom alegre
e descontraído. — Pediu que lhe entregássemos esta "água da
consolação".
— Contou o que aconteceu? — perguntou Cliff, olhando Villa e
Wamsler com uma expressão desconfiada.
— Contou — disse Villa e tomou um grande gole. — E deu o
devido realce ao papel desempenhado pelo senhor.
Wamsler bateu nas coxas e resmungou:
— Já estou perdendo a paciência com o senhor, McLane.
Constantemente fico rastejando para pedir desculpas.
Cliff cheirou a bebida e sorveu um grande gole. Dentro de poucos
segundos, dispôs-se a esquecer sua raiva pelas F.R.E.T. e pelo SSG.
Cliff sorriu ligeiramente e perguntou:
— Ficou tudo esclarecido?
— Ficou — disse Villa. — Ficamos muitíssimo agradecidos ao
senhor. Nosso juízo foi precipitado; a razão estava com o senhor.
Empenhei-me pessoalmente junto ao governo terrano e consegui
convencê-lo a importar uma grande remessa desta aguardente
saborosíssima e presentear o senhor. Mais uma vez, Terra foi salva
pelo senhor.
— Foi, sim. Mas nunca teria conseguido se não fosse minha
tripulação e o cônsul Halvorsen.
Cliff contemplou os dois homens.
— Quando os vejo tão quietos — disse baixinho e com uma falsa
amabilidade na voz — só posso ter pena dos senhores, que ficam
sentados aqui embaixo, sem ver a lua branca de Tareyton, as aves
negras e os peixes dentuços, sem ouvir o farfalhar dos juncos, sem
sentir o cheiro da água salgada. Por isso, nunca compreenderão o
quanto um homem como eu ama a liberdade.
— A liberdade de derrubar os tareys com socos ferozes? —
perguntou Villa.
Wamsler sorriu.
— Ou a liberdade de embriagar-se vergonhosamente em serviço?
Cliff desistiu. Não adiantava discutir com esses homens numa base
racional. Não compreendiam nada. Se não acontecesse um milagre,
morreriam nestas "cavernas". Esvaziou o copo e começou a rir.
***
Em Mais Rápido que a Luz, próxima aventura da Patrulha das
Estrelas, a supernave Orion, comandada pelo coronel Mc Lane, vive
mais uma emocionante aventura.
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