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Momentum

Um PIB de gente grande

Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br), diretor-geral da GS&MD –


Gouvêa de Souza

O tema do momento continua a ser o desempenho do PIB de 2010, que acompanhou


exatamente o que as previsões indicavam. Até aí, nada de novidade. Os fatos novos
são a natural desaceleração em 2011 e, muito mais importante, o comportamento
previsto para os próximos dez anos.
Uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos no Brasil foi a alteração da
perspectiva de análise de curto prazo para um cenário de mais longo prazo, processo
que só ocorre pela maior previsibilidade derivada de um nível muito maior de
estabilidade econômica, o que separa países emergentes de economias mais maduras.
E o Brasil parece ter atravessado essa ponte definitivamente.
Os dados recém divulgados mostram o país caminhando para se confirmar como a
sétima economia do mundo, superando a Itália, no conceito de tamanho do PIB
convertido em dólares. Se fosse adotado o conceito mais correto da Paridade de Poder
de Compra (PPP), essa posição já estaria assegurada, tanto quanto a maior economia
mundial já seria a chinesa e não a americana.
Alguns fatos merecem ser destacados nesse comportamento recente.
O primeiro deles é que a forte expansão de 7,5% em 2010 ocorreu sobre um
crescimento de praticamente zero em 2009 e caracteriza a retomada da expansão
econômica que já vinha ocorrendo desde meados da década, cujas bases foram
implementadas nos últimos 20 anos.
Em segundo lugar, deve ser destacado que o consumo interno tornou-se o principal
motor do desenvolvimento econômico a partir de 2004 e tudo leva a crer que possa
assim se manter nos próximos anos. Em 2010 o consumo das famílias cresceu 7% e o
varejo, principal beneficiado dessa expansão, avançou 10,7%.
O varejo brasileiro apresentou o quarto maior crescimento global em 2010, depois de
Índia, China e Chile, mas é o que apresentou o maior crescimento em seu nível de
maturidade no período de 2005 a 2009, numa comparação com a evolução do setor em
diversos países do mundo.
Um fator que tem contribuído para essa forte expansão do PIB é o crescente processo
de formalização da economia que tem ocorrido nos últimos anos por conta do aumento
da carga tributária e também, especialmente, pelos recursos utilizados no aperto fiscal,
que tem feito migrar, por ausência de opções, empresas que operavam com alguma
forma de informalidade para o lado formal do mercado. E isso tem trazido para os
dados oficiais o que permanecia escondido.
É relevante que, para um avanço de 7,5% do PIB, os impostos tiveram uma expansão
de 12,5%, sendo de 11,3% a expansão do ICMS, 42% do imposto de importação e
17,3% do IPI. Nos próximos anos deverá continuar essa maior expansão do ICMS, pela
expansão e formalização do varejo e da indústria; assim como acontecerá com o IPI; e,
principalmente, com o imposto de importação, pela necessidade de complementar a
oferta interna de produtos para atender a demanda do consumo, além de
equipamentos e maquinário para ampliar a base de produção local.
Observado, porém, esse cenário num horizonte maior de tempo, e colocando na
correta perspectiva as observações mais cautelosas dos economistas e analistas que
por obrigação profissional estão sempre advertindo sobre tudo que pode dar errado, o
que temos pela frente, ainda que com inevitáveis oscilações, são perspectivas muito
positivas, derivadas de um efeito autorrealimentador de crescimento.
Novos investimentos, locais e internacionais, na indústria, no varejo e nos serviços
tendem a assegurar a expansão do emprego e dos salários reais, com espaço também
para o aumento do crédito, hoje apenas representando em torno de 45% do PIB,
colaborando tudo isso para o aumento da confiança do consumidor, fatores propulsores
do consumo interno.
A lenta recuperação dos países mais maduros e a maior expansão dos países
emergentes podem criar espaços para a ampliação do nível de exportações,
beneficiando indústrias e segmentos que têm enfrentado dificuldades pela conjugação
do débil mercado externo com a apreciação do real.
Mais importante do que olhar para trás no entendimento do PIB passado é analisar as
perspectivas dos próximos dez anos e entender a janela histórica que se abriu para o
país, percebendo que a mudança que ocorreu (e continuará a ocorrer) leva o país
estruturalmente para outro patamar. Essa mudança requer um modelo mental e
empresarial absolutamente distinto para entender o mercado, o consumo, a sociedade
e os negócios.
Continuam sendo problemas sem solução aparente apenas o aumento do investimento
em infraestrutura, principal inibidor de uma expansão maior do país; e a redução do
gasto público, que possa ensejar taxas de juros, em especial para investimentos, que
sejam realmente de economias maduras.
Enquanto não se solucionar a questão das taxas de juros para investimentos no Brasil
estamos correndo para o futuro, mas ainda acorrentados ao passado.