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AiJvC-l 1,L 1-'V)I/l,t,Ji,'l,Y n1


Capítulo 1

A língua como sistema


de representação mental

1. Introdução

Neste capítulo, procuramos caracterizar as questões de fundo (em par-


ticular, questões de natureza epistemológica) que têm definido o programa
da gramática generativa, independentemente dos mecanismos técnico-teóricos
propostos no âmbito específico da investigação sobre a estrutura das línguas
humanas. Insistimos em particular na natureza «mentalista» da teoria, isto
é, na concepção de que o seu objecto de estudQ consiste num sistema de
regras e princípios radicados em última instância na mente humana, e não
em propriedades absolutas das expressões linguísticas consideradas em si
mesmas, ou consideradas como um aspecto particular do comportamento
humano independente das propriedades mentais subjacentcs à sua produ-
ção e compreensão.
Esta preocupação da gramática generativa com o aspecto psicológico
da linguagem, e sobretudo com o problema da aquisição da linguagem (em
última instância com o seu aspecto bioI6gico), não aparece apenas com a
TRL; pelo contrário, tem estado no centro das preocupações de Chomsky
(e de outros generativi:;tas) desde os seus primeiros trabalhos, como se pode
ver, por exemplo, pela data de publicação da célebre recensão crítica de
Chomsky (1959) a Skinner (1957), um trabalho sem dúvida tão revolu-
cionário no impaclf:) que teve no desenvolvimento das ciências da cogni-
ção e dos estudos sobre a aquisição da linguagem como Chomsky (1957)
o foi relativamente à área dos estudos gramaticais. É no entanto na TRL
que se torna possível .(talvez pela Plimeira vez) ancorar mais solidamente
na teoria gramatical as investigações relativas à aquisição e desenvolvimen-
to da linguagem na criança, através do modelo de «princípios e parâme-
tros».

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2. A tensão entre a natureza e a convenção nos estudos 3. O programa de investigação da gramática generativa
da linguagem
Na base do pressuposto de que a linguagem é um sistema de conheci-
As línguas naturais (com as propriedades que os linguistas e filósofos m~ntos interiorizado na mente humana, Chomsky define o programa de
lhestêm reconhecido) são adquiridas e faladas espontaneamente apenas pelos investigação da Gramática Generativa como c.desenvolvimento das quatro
membros da espécie humana, isto é, por organismos com um determinado seguintes questões (para uma exposição extremamente clara deste progra-
tipo específico de estrutura e organização mental. Parece pois difícil esca- ma, ver Chomsky (l988a) e as entrevistas dedicadas à linguística em
par à conclusão de que a~ propriedades essenciais da linguagem sã0 di- Chomsky (l988b)) (3):
rectamente determinadas p-ºI-PJ1.lDriedadesmentais dos seres--1lUCas fal;Jm
(I) Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de uma
e que estudar a linguagem humana cons!.ge em estudar determi~das pr~t-
priedades da mente humana, radicadas em última instância naorganj~ção. determinada língua particular, por exemplo do Português? O que é
biológica da espécie ..•.• '--'" - que existe na mente deste falante que lhe permite falar/compreen-
Ao longo da história dos estudos sobre a linguagem, esta conclusão (que der expressões do Português e ter intuições de natureza fonológica,
nos parece indiscutível) tem sido no entanto objecto de intensos debates, sintáctica e semântica sobre a sua língua?
e muitas das teorias desenvolvidas por filósofos e linguistas a têm nega-
do, explícita ou implicitamente. Como Chomsky o assinala várias vezes, 1{2}\J:omo é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente
o pensamento científico e humanista ocidental tem uma extrema dificul- ~ do falante? Que tipo de conhecimentos é necessário pressupor que
dade em assumir que os produtos do pensamento (entre: os quais a lingua- a criança traz a priori para o processo de aquisição de uma língua
gem) possam radicar na natureza biológica dos seres humanos tal como as particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua
mente?
estrututas anatómicas. A posição antimentalista tem usualmente uma fun-
damentação social: os seres humanos vivem em comunidades sociais; a lin-
guagem é um instrumento essencial na vida social das mulheres e dos ho- (3) Como é que o sistema de conhecimentos adquirido é utilizado pelo
mens; logo, a explicação última das propriedades da linguagem tem a ver falante em situações discursivas concretas?
com o seu funcionamento social; em última instância, é um produto con-
vencional da cultura dos seres humanos vivendo em sociedade, e não um (4) Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que servem de
produto natural da sua organização mental. base ao sistema de conhecimentos linguísticos?
Não é este o lugar para apresentar detalhadamente as diferentes esco-
las e correntes que se sucederam na história da linguística e a posição que gramática especulativa dos esc'olásticos do período medieval, a qual distinguia entre os
tomaram relativamente a esta dico!omia ('). A teoria da Gramática Gene- aspectos universais e os aspectos acidentais das línguas. realçando que a gramática é es-
rativa inscreve-se decididamente na corrente naturalista dos estudos sobre sencialmente universal e radicada no conhecimento hl'mano, e que os aspectos aciden-
a linguagem e a natureza humana (o que não significa, como Chomsky tais residem no vocabulário diferente das línguas particulares; e a tradição da Gramática
acentua várias vezes, que seja o rroduto ou o seguimento directo de ne- de Port-Royal dos séculos XVII e XVIII, com a sua insistência que a linguagem é um produto
da natureza mental humana, retlectindo direc!amente a organização e funcionamento do
nhuma das tradições históricas que a antecederam) e). raciocínio. Sobre esta última corrente, ver em particular Chomsky (I 966a).
Cl O termo «língua", tal como utilizado na fonl1ulação das questões (1)-(4), no de-
(') Ver, a este respeito, Chomsky (1966a; 1972; 1975), Robins (1967) e Lyons (1968). correr deste livro, e de um modo mais geral na literatura generativista, refere-se a um
Uma versão eontemporilnea da posição convencionalista reduz a linguagem humana (e as sistema de conhecimentos mental, e não ao conjunto de objectos abstractos (frases ou
suas propriedades centrais) a um simples instrumento comunicativo estruturalmente opti- expressões) determinado por esse sistema. NestH acepção, o termo <dínguH» é sinónimo
mizado com vista it cOlllunicação mais eficHz possível. Como Chomsky tem insistido várias de «gramática» (interiorizada) (ver a secção 4) ou de «competência» (ver a secção 5).
vezes, nem a comunicHç~o constitui o único uso que os seres humanos fazem da lingua- Chomsky (I986b) utiliza nesta acepção o termo técnico <<língUiI-h, (de «língua interiori-
gem, nem é viável cfectuar uma redução das complexas propriedades estruturais da lin- zada»), opondo-o ao lermo «língua-E» (de (<líng'la exteriorizada»), que refere o conjunto
guagem a requisitos comunicativos. Sobre este tópico, ver, por exemplo, Chomsky (1975, de frases e expressões dl:tem1inadas pela língua-I. O objecto de estudo da gramática
capítulo 2). generativa é a língua-I, não a língua-E. Para mais detalhes sobre esta dicotornia concep-
n Entre os exemplos da perspectiva naturalista sobre a linguagem, assinalemos a tual, ver Chornsky (I986b, 21-46; 1988b, 5X9-590).

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o empreendimento generativista atribui um lugar central à questão@ cqq§~I}tip'ç1PJ~mJ~§eqtpções~
mentais constituídas por combinações categori-
Janto do ponto de vista filosófico/episte,mológico como do ponto de vista zªdªs das formás Iinguístic;as (5). Estas representações determinam de uma
da teoria gramatical propriamente diw Em partic.:ular, o cuidado atribuído forma muito explícita as propriedades fonológicas e sintácticas das expres-
à interacção entre J.ll-.:e (2) é a p~dra~.:!o.Q~ {i:J g~amáticll gen~ra\iy'!:'. sões da língua, assim como aquelas propriedades semânticas que são deri-
vadas directamente a partir das propriedades sintácticas. A gramática
lqualquer p~posta relativa ao tipo de conhecimentos iniciais ~ue a criança
~az para o processo de aqUlslçao rem de poder explicar adeqllllti:mlellte..,o determina igualmente o modo como estas representações se articulam com
C~!~U:tQ.~..ÇQ.nh<ef!!~º'§"adg !:ll!lil9~,relªtiYªm.~n!e a,4'ullL!i.umg,.Jlaóiculac; outros sistemas conceptuais da mente humana ou com o sistema neuro-
e':~~e gualguer 2!QRill',tªg!JMl..tQ-ª,Q~,cªr~~jDl~!!!Q§.,§ºP.lí: -muscular que determina a pronúncia das expressões (6),
uma língua particular tem de ser compatív~:!,_~.?D!_.2~,~_~im~nJ9s iIÜfj!Ij~,. Para dar um exemplo simples do funcionamento da gramática, tome··
mos uma expressão do Português como, por exemplo, a oração intenogativa
~~oÍãcfõ(re-a-aqulsíç~<[e
sererntêi"iõsa j)âi1:ií'-dosêonh'éCimentós' iÍIiciais.
'2"g~§~~~olvimento-dessaJjJ.lguª,
por outras palavras: nem que livro o Luís leu? A informação contida no dicionário mental sobre
tooas as gramátIcas que descreveii'íaâequaiiãmênte os dados de uma língua 1~
•,. indica que esta forma pertence à categoria verbo, e que é necessaria-
particular são psicologicamente possíveis. É necessário, para alem disso, mente aCOl:!!Qanh~açlª.g~1lm.._ÇQ.mpJ~11lt;11tº
. .dC:ê .. º_~jeçtçldireçto (uma expres-
que possam ter sido desenvolvidas pela crial'lça com base no sistema de são de categoria NP). Com base nesta informação, uma regra geral do sis-
aquisição inicial. tema constrói a representaçào (5), determinando em particular as seguintes
Nas próximas secções, abordamos os problemas levantados por cada uma propriedades da expressão: (i)' o produto La combinação V-NP pertence à
destas questões com mais ou menos pormenor consoante se inscrevam ou categoria VP; (ii) dentro do VP, V precede NP C):
não nas preocupações ce trais deste livro. Como o nosso objectivo central
é a apresentação de umaeoria lingÜística ue serve ge lfuiíl ~ elucidação (5) [vp [~'Ieu] r NPqUc"livro]]

\dos
menteproblemas~ (22: é aComeçamos
à ques,tão cemnrr(2). estes que edicamos mais algumas
portanto com eSj)ãç~espêcial-
observa- Uma outra regra do sistema determina que a repl~sentação (5) se combina
ções sobre (1), (3) e (4), para nos ocuparmos a seguir mais longamente com uma expressão de categoria NP com a função de sujeito, e que a
de (2). representação resultante pertence à categoria Frase (5):

(6) fS[NP o LUÍs1 rvp (v leu] [NPque livrom


4. A gramática como sistema computacional

o primeiro feixe de problemas leva ao desenvolvimento da gmmátictl


q(tllJ.P.aJJngua particul'lf, i~to ~, de..um modelo CJ4er~pre&çnte o si~temal
de, conhecimentos particular do falante, capaz de eJ<.plicaras suas i~tuiçõe~ (5) Podemos assimilar as formas pnmllIvas do dicionário às palavras, o que não é
~qQ~~" 'l.forma e a significação da?~xprt:ssõesIinguísticª~:I1º.m<eªçlªírwr{ tecnicamente correcto mas é suficiente para a exposição neste ponto, Ver o capítulo 3
"J.~,,,~C:êsií9. ou não admitidas pela ~uaJíngua (isto é, se são aceitáveis ou para uma discussão técnica da forma e conteúdo deste «dicionário».
não) C). As investigações dos generativistas (sobretudo nos últimos 20 anos) (6) A linguagem é, para Chomsky, um sistema formal interpretado, no sentido da lógica
(isto é, as expressões são construídas por UI11 sistema de regras exclusivamente formais
mostraram que a g@1,1ática int~riQri?ada consiste por um lado n,um,{<di.- e são posteriormenle investidas de significação). A interpretação semânlica atribuída às
,ç.Ü:máriQ.mental>~ das formas da línguae,por outro qUIUsistema deprindpios expressões derivadas pelo sistema formal podem ser determinadas por regras «tardias»
e Lfegrasl aS:l\@}ç1Qde forma comp!,!tacional sobre essas formas" isto. é, do próprio sistema. ou por regras de OUlros sislemas de representação mental. como o
sistema de crenças e de pressuposições acerca do mundo que nos rodeia, o sistema de
significações parcialmente arbitrárias e convencionais que a sociedade alIibui às palavras,
(') Seguindo uma tradição de longa data na gramauca generaliva, utilizamos o ler- e um sislema de represenlação semãntica parcialmente autónomo em relação à gramática.
mo «gramática» ambiguamente, para nos referirmos 'ao objecto real na mente do falante Ver o capítulo 5 para uma discussão de algumas destas questões.
de uma determinada língua particular e ao modelo científico que o linJuista constrói desse (') Ver o capítulo 2.3.2 para uma explicação da notação dos parênteses aqui utiliza-
objecto. Ulilizamos por vezes a expressão «gramática interiorizada» pala nos referirmos da. Ver o capítulo 9 para uma caracterização do princípio que determina a construção
exclusivamente ao objecto mental. ' sintáctica da representação (5) a partir das propriedades do verbo ler,

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Finalmente, outra regra do sistema determina, com base na presença da for- 5. CQmpetência e performance
ma que no NP objecto directo, que esta categoria é deslocada para a
posição inicial da oração, e que a expressão r.ecebe uma interpretação A questão (3) está na base da distinção efectuada por Chomsky (1965,
interrogativa (o travessão indica a posição a partir da qual o NP é deslo- 3-15) entre competência e performa/lce.A~J.ênr.ia...é o conhecimento
cado): m~n~;I!ij[S~?<Jil::yma. língua particular por pmle do sujeito falante. isto
,~, a/sua gramáticainteriorizada.! A «performance», por sua vez, designa o
(7) [NP que livro] [s [NP o Luís] [vr (v leu] -]] u.sQ~~oncretQ.da.Jinguagemem situações de fala concretas (Chomsky (1965.
3». Forno os actos de fala põem em jogo vaIj~veis ele natureza .social c
iI]t~Tif?Iiza.dad.o J,!lai1lc é, 1Jm.sist.em'l a.utónomo, cujos
1~.g,E~I"!)4\ic~ .esicológlçª_Lndep~endentes.elo conhecimento gramatical da língua, a estrll~
.QÜI!ç,ípÍQ§çrçprç~çIltªÇÕ\;;§Il1e§ªº.específiço.s (isto é, não são partilhados tura, organi~<l.9.ãoe cont_eºcl.ode qualquer expressão IinguÍstica (Oll sequên-
por outros sistemas ou capacidades humanas). Para além disso, a gramática éÍa-disêursiva de-.expressões) pronunciada em condições naturais é deter~
é independente dos outros sistemas conceptuais da mente humana (como, minada por uma col11binação muitas veles complexa de factor~s qU~.J~m
por exemplo, prinCÍpios de conversação, princípios de formação de concei- a v~(ãpênás~.P!~9!<l1ll}~~j2Il! ª.c.omp~t~DSIª7Q,~jJI\~!~mªJi_!~Yªl1JaclQ~.PQr
tos, etc.), embora mantendo com eles uma interacção complexa em pon- (3) dizem Rois respeito ao modo~çQmQ.~a_.cilmpetência_éutilizada (ou dis-
tos específicos. Esta visão da organização da mente humana tem sido torcida) em situações dc.RcLformanceW<lyés da sua Ínterac窺_Cp/11eSseS
chamada de J!lQg"tl-ª.!t.(~). Qualquer fenómeno linguístico, nesta perspecti- .sistemas (9).
Para dar apenas alguns exemplos, a atenção e a memória podem pro-
mos conceptu, s. Id!.lla.das tarefas do Iinguista consistç.preci§'!lJlel1te eJO vocar «erros>~de competência (por exemplo, quando entre o sujeito e o verbo
se interpõe material suficiente para fazer esquecer ao falante o número do
va,t~.:Jé..·.!P.jnarqu
ç!,e." um Pro~tois sãocomplexo
aqueles daa.s.p.
acção
tf;p toS..da
d.e gramática e de
lJm'!(:xpre§.s.ª.o outros m~canis-
linglJi~tjÇI;l
que sujeito e induzir desse modo uma forma verbal com a concordância erra-
discussãoser n<y
qeYem :'7secção
resentados
seguinte).
no nível,da gramática formal (v.er igualrr:ente a da). As falsas partidas, as mudanças de plano discursivo, as hesitações, o
gaguejar, etc., são outros factores que afectam º-!~uItado gramatica}cj.a.?
ex~sõe.§~n9!!ill1!Q.I.ef!ex..ºc1é1COTl}~~ncja: Num plano dlferente;~cxistem
convençõe:> linguÍsticas de natureza dis,;ursiva que determinam significa-
ções para as expressões que não são aquelas atribuídas pela gramática. Um
caso intçressante é o dos r?çt03 de L)Iaj1l5Ji~ect()s qomo (8) (ver Scarle
(1975»: .
(') A conccpç~o modular tia mcntc humana defende qu~ esta é formada por,p~lÍ~ulol~
d!il.!~lI)OlnOf. cada um Iklcs caracterizado por princípiqs e representações específicas. Es-
(8) a. Podes passar-me a manteiga'?
tes môdulos «comunicam» ~ntre si em pontos detenninados, mantendo uma interacção
b. Está um frio de rachar.
complexa que determina as propriedades dos fenômenos mentais humanos. Assim,-l2llJ]L.
além do môdulo li.!2ê!.ístico. a mente humana possui por hipótese um módulo matemático,
..u~!U.11<5~l~lo...!11~,-i.c!l!!_l!11LJ!!Ódulo
eSPi!9.'l! (que lhe permite compreender mapas. por exem- A expressão (8a) é gramaticalmrnle uma oraç:1o intenogativa, caracteriza-
plo). ul!!..2l.1~~uLo.~~~J()rll1~~çã()~~_e_(;onç(;.it.Q.S.,-
entre outros cujo descobrimento e caracteri- da pelo sistema formal como um pedido de informação. No entanto, num
zação pertence às ciências cognitil'as. Ver, a este respeito, Fodor (1983) e Gardner (1983;
1985). Esta posição opõe·se a uma visão da mente como sendo uma estrutura unifonne.
acto de fala em que seja nomlalmenle pronunciada (por exemplO, il mesa,
nlLQ~<JjJw:n~iad'lno lJuçrespcita ªo.~ se.l12.Q.!:iEçip19.!i. de f!!ncionamento, nOl11.<:~amen~os- durante o almoço), esta expressão é interpretada como um pedido para
suinQQ.j.ulla «inteligência. generalizada?> aplicável a todos os domínios mentais e deter-
minando o desenvolvimento cognitivo geral d.a criança, incluindo o seu desenvolvimento
Iinguístico. ~JiI\Lçgnçrp,ão. 0açwutura. J;l1Ç!llal.era defel)(jida pelo, psicólogo Jean Piagel
(~,5()~linua a ser defendida pelos seus segui~ores). Para um debate entre Chomsky e Piaget (9) A trajectória real de um projéctil constitui uma analogia possível, na medida em
relatil'amente a estas questões (bem como numerosos comentários e discussões por ou- que é o produto da trajectória ideal determinada pela balística com as condições atmos-
tros linguistas, psicÓloglls c neurologistas), ver Piauelli-Palmarini (ed.) (1979). (Recomen- féricas do mundo real (vento, eIC.) que a afectam. Do mesmo modo, a estrutura, conteúdo
da-se a versão inglesa desta obra. mais fiel ao' texto das publicações submetidas origi- e organização das expressões da linguagem são o produto da inlcracç~o da competência
nalmente em Inglês.) ideal com faclores psicolÓgicos ou sociais que afectam essa competência.

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efectuar uma determinada acção (passar a manteiga), e não como um pedido objectos de um determinado conjunto», neste caso particular as frases de
de informação. O sentido convencional. neste caso, anula o sentido formal. uma língua e I).
Do mesmo modo, (8b), uma oração declarativa exprimindo a priori uma Em síntese, QJ.~stuqQdacompetência enquanto puro sistema de conhe-
proposição assertiva, pode ser utilizada como um pedido ou mesmo como çim~n!º§rJnentI;lLimpIica que o Jinguista proceda a uma abstracção das
uma ordem (para fechar a janela, por exemplo), num contexto discurs;vo 1~~!?!§ªs1.yªri<~Yeis:em jogo nos actos de fala concretos, ou seja implica
apropriado e se o falante tiver um ascendente de qualquer tipo sobre o .g~ê.º,...objeçtodoLseu estudo seja «um. falànte-ouvinte ideal, situado numa
ouvinte. çonllinidadelinguística completamente homogénea, que conhece a sua língua
Outras áreas de natureza geral que caem no âmbito da performance são péffeitalllente, eXque, ao. aplicar o seu conhecimento da língua numa per-
a estrutura das conversações e a relação entre o significado gramatical das formance efecti~á,não.é afectado pou.:ondições gramaticalmente irrelevan-
expressões e o contexto do discurso (isto é, o modo como esse contexto çç§ .•~liÇQmõjimitações de memória, distracções, desvios de atenção e inc
desambigua expressões semanticamente ambígúas ou atribui novas signifi- ~~r~~s~,;eerros (casuais ou característicos»>. (Chomsky (1965, 3), citado
cações a expressões que a priori não as possuem). Qualquer destes tópicos da tradução portuguesa, p. 83.) ('2)
põe em jogo a cOI1lP~tê!lcia_ellLinl~ra~çªo com fenómenos complexos de
natureza social, psicológica e discursiva (por exemplo, estratégias de co-
municação) (10). 6. A realização física do sistema da competência
Num sentido mais restrito, o termo ~m~rfoffi1ª!1f~~"é"!,lüIiz.ª<JQ (sobre-
tudo na literatura gcnerativista) llf.W\ .•n~lç[Ír"e~slus,!Y,~mept~_()~.rpeç:~l1isrn9s Enquanto sistema mental, a língua tem necessariamente um suporte
PJISgl§gic()s de percepç~o e pro~~~s,~mento da lin~ua~em que ~<f~~ilitam~> material no cérebro humano. ~_9.uestão (4) tem a ver com a rela,ção língll.a-
o",fuJ}cÍoJwmçnto da gramática interio.rizada (ver, por exemplo, Berwick e ...:eérebro, em parti cul ar co I1L.Q!L..!llITlill.Íillill.'i..Jl.e.umnais...q.u.e..sll p,ürlam.o c.o-
Weinberg (1984». Neste sentido, a teoIiâ da performance tem como um nhe9.!:!le-'!l.<?-
gramatical. Pouco teremos aqui a dizer sobre esta área da in-
dos seus objectivos centrais a construção de um «anaJisador» (em Inglês, vestigação, a qual, se bem que esteja ainda numa fase prematura, tem sido
um <~Rflrs~r»),o qual consiste num mecanismo capaz de analisar a cadeia objecto de esforços renovados no âmbito do interesse crescente pejas ciên-
falada linear (que é tudo a que o ouvinte tem acesso) de acordo com os cias da cognição em geral. Estes estudos, escusado será dizê-Ia, terão de
princípios de uma gramática generativa, os quais envolvem noções mais pôr em jogo uma colaboração estreita entre linguistas, psicÓlogos, patolo-
abstractas como estrutura de constituintes e movimentos transformacionais,
gistas da fala e neurologistas, os quais, com base em resultados pelo menos
entre outras (ver os capítulos 2 e 4, respectivamente). Note-~.~_ª_p.(Qp.ósito parciais obtidos pelos linguistas relativamente às questões (J )-(3), poderão
que a. gral!l1Íti.ca..enquantQ_fiQd.e.!º_Qª.c.oIllP.s:J.êuç.iaé..n.e.!JJ.ra...
r.e.la.tiv<l~Ete investigar os mecanismos físicos específicos que estão na base dos diver-
~prodiíção/compreensão daIinguagem, sendo subjacente a.a.il1bas.Em par- sos sistemas da competência e da perforl11ance. U~f!:l.fl~~lê:~lPEi\li]~gjada ES:~'lE__
ticuEir, não é um modelo da produção linguística pélo falante, erro de
investigação é o estudo das.'afasÜls: enLp-articular _u.!'mc;J-º_c!º!!l2.dS)~.=
interpretação por vezes cometido devido ao termo «generativo», o qual
significa simplesmente neste contexto «caracterizar explicit<imente os

(") Chomsky (l988a) coloca igualmente entre as questões de (3) o problema da pro-
dução da linguagem, que considera no entanto o seu aspecto mais misterioso e sobre o
qual o pensamento ciéntífico pouco ou nada tem a dizer. Entre os problemas levantado:;
pela produção encontram-se o uso criativo e inovador da linguagem, i~,to é, a possibili-
eO) Dada a natureza diversa dos factores extragramaticais que determinam os actos ~de de pronunciarmos pensamentos~~primirllQs...nU_OilÜlllo.s. ..antcriormeIHé, a
de fala, não podemos falar num único modelo generalizado de perfonnance, mas sim em liberdade da linguagem relativamente a estímulos ex ternos ou internos (por exemplo, se
vários modelos. de acordo com a especificidade e autonomia dos factores em jogo. Por tenho fome. não digo necessariamente tenho fome!), e a sua adequação (salvo casos pa-
exe'l1plo, o estudo do modo como o contexto discursivo desambigua o sentido das ex- tológicos) às situações discursivas. Critérios deste tipo eram frequentemente adiantados
pressões semanticamente ambíguas está na base de uma disciplina específica da perfor- pelos Cartesianos para a postulação da noção de «mente», oposta à noção de «corpo» como
ma:. ce. a p!9gml!!ica. (Ao atribuir a pragmática à perfonnance, não estamos de modo nenhum autómato.
a negar a existência de uma possível «competência pragmática» interiorizada na mente ('2) Para uma discussão das confusões metodológicas e concepruais que a distin,'ào
do falante.)
competência/performance tem suscitado na linguística contemporânea, "e r Newmeyer !l9k3J.

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lectivo como o conhecimento gramatic_al é afectado (Jor tipos dif~.rentes de do 12ensamento filosófico e linguís1ic.o.-o.cidentaL(integrada ou não no âm-
lesões çerebrais. (13)'. bito mais vasto do debate epistemológico sobre a aquisição do conhecimen-
A possibilidade de sucesso teórico na caracterizaçãc neuronal detalha- to em geral) (14).
da do sistema gramatical levanta a questão do estatuto epistemológico dos O problema central nesta questão é o do papel específico d~ mente\
conceitos utilizados pelo linguista na caracterização desse sistema, em humana neste processo. De um lado situam-se aqueles que acre(jiÚiin ser
particular, se estes conceitos devem ou não ser substituídos pelos do neu- o desenvolvimento linguístico (e a aquisição do conhecimento em geral)
rologista no momento em que este seja capaz de oferecer uma caracteriza- basicamente determinado ~r causas extemas_ à ment~_..\1_l!..rna,!a, concreta-
ção igualmente detalhada e profunda em termos de células, neurónios, etc. mente pelas experiências e interacções da criança com o meio ambiente.
A questão mais geral que se coloca é a de saber se o estudo da mente No caso da ..linguagem, o m~i.Q_-ªmbienteé representado .pelafala-daspes-
- entendida como um conjunto de sistemas eognitivos - deve ou não soas ,que.~ºIlXi_Y~mcom.)l çriao.ça,.e pelas interacções Iinguísticas em que
ser reduzido ao estudo do cérebro no momento em que os neurologistas Jl:_crianç~. il1!<:~Y~ll1'Segundo os defensores desta posição, a linguagem é
, tiverem um conhecimento completo do modo como os sistemas físicos su- essencialmente uma questão de aprendizagem, no sentido específico de aqui-
portam os vários sistemas mentais. sição pela mente, através deprátíCas adequadas, de um sistema exterior a
Como o assinala Chomsky (l988a) (e outros cientistas da cognição ela. Segundo o psicólogo B. F.:...â!9nner!.por exemplo, ªªql1isiçãQ c1e_JJID;l
relativamente aos seus domínios particulares), é pouco provável que a com- língua consiste fUIJA~rnentalm~n!~nlJmª ªp.reI!di:z;ªg~!Ild.ehábitos de «com-
preensão dos fenómenos linguísticos possa ser atingida sem referência a J>..Q..r!~!!1e.ntoy.e;baJ>~ªtmyçs. de processos de observaç.ão, memorização, ge-
noções especificamente gramaticais como Frase, Grupo Nominal, Grupo __!l~mIi:z;ªç~oil1c1!JtjV<l, ,lssociação, etc. Esta posição, por outro lado, realça
Verbal, pronome, anáfora, ligação, etc, O mesmo se passa, de um modo o papel do ensino explícito e da prática como sendo essencial tanto na im-
mais geral, relativamente aos restantes sistemas cognitivos da mente hu- plantação como na solidificação dos conhecimentos adquiridos. Finalmente,
mana. Os dois tipos de estudos - da mente e do cérebro - sem dúvida o papel da mente humana em todo este processo é diminuto, Quando muito.
que se complementam, mas situam-se em planos diferentes da realidade, a mente possui princípios de inteligência extremamente gerais, que supor-
sem que nenhum se possa reduzir ao outro. A mente, nesta perspectivR,.,L tam a capacidade de efectuargeneralizações e associações (na área da lin-
Q...f.Q!li\LlllQ_
das JU.QPsiedadesal:>straçtas dQs ~istl<mas físicQs dp cérebro, e guagem e do conhecimento em geral), mas não existem principios ou es-
a,ÇQillPJeensão ~LQp.ri.~passa necessar.i~le Pl(Jo uso de çpn- truturas especificamente dirigidos para a aprendizagem das línguas.
c~ܺs.,,<em particular o conceito de representação) independ~te dos me- Diferentes versões desta posição têm sido defendidas ao longo da história
c'lnismos materiais [lQ§.tuladosaQ.JlÍveJ do cérebr,). do pensamento epistemológico (filosófico e científico) ocidental, constituin-
do aquilo a que é usual c~hamar a tradição empirista (da filosofia, psicolo-
gia ou linguística). Na psicologia do século xx, estas idcias foram defen-
7. A questão da aquisição da linguagem didas explicitamente pelQ...!:2s:h<lv19lÜin.lqlj'grte-Americano e, relati vamente
à aquisição da linguagem, especificamente por Skinoer (1957).
Como mencionámos acima, a-9!:!estão central QQ...QIQgramade investi- Para a tradiçãQ.X,l;iCi.o!l!!!t>ta,
na qual ÇJlOUlskyse inscreve (e da qual é
gação da gramátic~l1erativa é sem dúvid,a (2), ou seja, o-p-rQblcma de sem dúvida o expoente máximo na psicologia e na linguística do século
saber como_~_gy~,ggll1}!!!~a __se.__d~s_el1.Y5>,~v~E~_~~nte
d~ujeito falante, XX), q../JielU\IAUlmamlçlesempenhl! um papel fl!ndament\ll {la aquisição d~f:\
e em que base. Por outras palavras, é a guestão d('\ aqJ.li..si.çÍ!LdãlTrie;~ ,!W.íW!g~m:)SegLlijdo <;st,!_~~~p_~tiva!_as pr()priedades centrais da lingua-
gel1~ foi. e continua a s~r, uma das questões mais debatidas na história g,çm~ão ...determilladas_.l?9,L,R!j!!.E.illi9~S.,~.SJr!J.tHIª.LmÇ.!Hllitge
conteúdo,es-
.pecificament.elioguÍStkQ._ª!i_quaisl!JIJ,ÇjQ)l--ªJTI_como [Ima espécie de «plan-
~quitectónica no -WQcesso de aqu_!siçiio,-dirigi!!ºº () desenvolvimento

(13) A investigação das relações língua-cérebro tem antecedentes importantes (que


remontam ao século XIX) no estudo das localizações cerebrais de aspectos diferenciados
da linguagem (por Broca e Wemicke, entre outros). ªIQgll. foi o pdmeiro a apresentar (14) Sobre os tópicos dest:nvolvidos nesta e nas seguir.tes secções, ver, entre outros,
Baker (1979), Gleitman e Wanner (1982), Chomsky (1965; 1972; 1986b; t988<1; 1988b).
C;V~ê,\).cill,experimental de..que a língua se .situa ,dominantemente Jlo.J1emisfériol.esque.rdo'
~.~,~o. Cook (1988), Aitchison (1989) e Lightfoot (1989).

34 35
lin~uístico .num sentido Qf~Q~srr.ml!Hl{IQ:J~stas
estruturas mentais \2en~nce.J.D Existe um aspecto, no entanto, em que o «meio ambiente» linguístico
determina de um modo óbvio o conteúdo parcial daquilo que é aprendido:
elSçlu~iv'lmenle à esoécie huma.naesão~eneti:amente detenni?~1a~911~eja;,
[a9Jij~ll~~or~~nizaç40. bioló~ic~'ê1fléspécie, Se~undo est;;t:Concepçãü;' ad- se uma r;riança cresce numa comunidade linguística em que se fale o Japonês,
cjuiiii'uma'Iínguaé.mais .,uma' questãodCJtlQfllroçnO f' de deserwolllimen- por exemplo, a língua que aprende é o Japonês e não o Português. Volta-
tg;. de'mm;~<órgão», meotaLbiolÓgko elo qllf'..\llI1aquestão.de .aprendizagem mos mais à frente (aquando da discussão da noção de parâmetro) a esta
(no sentido que exp]icitámos atrás). A este conjunto de princípios e estru- observação trivial mas tão importante na determinação das características
turas mentais especificamente linguísticos, Chomsky (1966b) chamaLi.A.tfft exactas do modelo de aquisição subjacente ao desenvolvimento da lingua-
callislllQ. d.ç. Aaui,sicjicp:daid",il1RUaRem'A (em Inglês, «Language Acquisition gem,
Device», usualmente abreviado em «L~D»). Nos m,~ddos Iinguísticos pro-
postos pelos generativistas, a..LAD re.cebe'.oncimeJ;lé,:~ºIªm~tiçªJ2!1iY#-
• (abreviamos em DG, do Inglês «Universal Gramman». 8. O problema da projecção
A~euçã,~wW~Q.Jl.I:,.gI!.,Q l2a12ddo meio al}lQ~!}!!L!l-ª-,!gui-
si~~Q da linguagem. Em primeif(L~~~~~~J?~~~2.'l~.~.!~cleiall1. a O problema da aquisição da linguagem pode ser teoricamente coloca-
cdançl.ll< íl~ §yg~ç]ipçljªnçiª_~ ..v.er~is sijo determinantes para iniciarofun- r do do seguinte modo: q~l é a relaçãº-ill1e existe entre os ~<dad_ospriIl1ári!ls»
ciQijam~ut~t_ºQ 111.ec'mi~J110· ºe'~(Hif~l~º;':sem:'ni>'~~taºiº:-~tennliiâr),s .. .!Lg!l~..ª_g!iª-!!ç.ªJ~!!L.'!f~"§§.Q..f!urantea fase de aquisiç:ão da linguagem (o
~i~g.ªºe.§. fm'l!s atillgidas_pelo __ §_i~Jemª. gqlIllalicaI., Ou seja, sem estar seu meio_ªmbietH.~.l!!Jgy!s!iso) t.Q sisteT!.lªde c9nhecimentos Dnul CJue....9::...
imersa num ambiente Jinguístico, uma criança não aprende a falar (15). Em .lacteriza a competência lin~uísticu do aduItIP1!.!!.0~iDQ()~~,,<s.~.!:IU~.ízos de
segundo lugar, os meios linguístico, emocional e educativo são factores que mmaticalidade e as suas intuições fonológicas, sintácticas e semânticªs)?
determinam o grau de desenvolvimento da linguagem pela c~iança ~",q~~( Baker (1979) chama a esta questão o ~2blemai<1. projecção»; ®..::m~sIi.-
is~1fj,CJMt~ ..9~ IlQvo, quç.d,ete.rgljn~m~~irecç~<;> do deseÚv?lvimento Qâ •••~.!!L...g~""impJ.Ü;,!l,J!p1,!~~~ção '.·quantit9!~quªlitillivLº9~ .. Q?9-º.~
~SLç9nteÚdo fil~al d-º.Jij~~ (16) .. "x."".,
n .. K •. , ..•
.~ Çn~~n!e.Jinitose con~i~tinºo ~nl expre~sges relativamente
simples) sºti(l.~LQ..:çºlljyntojnfinito d~ ~xpressões da língua., Isto significa
que a criança adquire a partir de uma experiência finita um sistema de com-
('5) Não é só o meio ambiente linguístico que é determinante no desenvolvimento petência quc se aplica sobre um conjunto infinito de expressõcs e que in-
da linguagem (ou no desenvolvimento das outras capacidades intelectuais de uma crian- corpora propriedades complexas (nomeadamente recursivas, ver o capítulo
ça); o equilíbrio, a estabilidade emocional e a saúde física são condições ambientais tão 2.5.1qll~,(1~t1ados primários certamcntc não exigem. t;:.!lI.. resl.1I1!9J o.,,-si~te-
""'<'~"':'
importantes como a interae,'ão verbal. Estes trúÍsmos têm sido infelizmente cÓnfirmados
pelas crian~as manlidas cm isolamento durante os primeiros anos da sua vida. Para um
~'.," >":i,~/,-.:"::-,_ ..,:Y,tfi.f.,.,,,i'H,'~".';':·.--

!!iih11.&l<PJllP,ºl~nç:iml!iQ,'!J(,!~gf'<itlláticíld()
.. ':";' :',C,':_:'

adulto) quantitativa e quali tati-


.'_.:::',:", ",' .:'

é , .. -.''''.". <

dos casos mais bem estudados no âmbito da psicologia e da linguística moderna (o caso Yi!I~.d!HÚlgmªj§;,çgl1}plex() do que o sistema simples ne.cessário para!
de Gcniel. ver CUrlis~ (1977). ç<ª,:ªç!çri.~ªL.º~,Qª4ºs';',PJÜJliÍÚQLllpanicdosquais o sistema tinal é. adqui ..
('6) Chomsky (1988b. 5(2) dá como exemplo o crescimento de uma 11or, um pro· J:i.9J>~.
cesso sem dúvida geneticamente determinado. O desenvolvimento final atingido pela !lor Colocado nestes termm" o problema da aquisição leva jogicamente à
depende crucialmente dos cuidados com que é tratada, embora estes não possam alterar conclusão de que existe um mecanismo mental inato de ~1911i~iç_~()._que medeia
o curso específico do crescimento ou o seu resultado final no que respeita às características
particulares da espécie (por exemplo, se plantarmos a semente de uma rosa não obtemos
um cravo) .
Estas observações têm consequências importantes relativamente à elaboração de
currículos escolares apropriados para o desenvolvimento da linguagem nas crianças (pre- .(S\~~~~J~I~~5~t~:~~f,~~\V~ \l. ..revela ~ma 1!!S2mp~e~_n.~ii2
;t?tal.taIJtodos. fu~d~me~to~
l>--ª§!Ç..2ll9l!~grall!~UCà"~enerál1Va como do processo de aqUISIção e desenvolVimento da
ferimos o termo «desenvolvimento» ao temlO «aprendizagem» pelos motivos apontados !.in8.Yll.z.ç!lt ~la.. crip.nçd. Tal como uma flor;" uma criança precisa de um meio ambiente
no texto). Os ataques feitos à gramática generativa de uma perspectiva pedagógica atri- rico que lhe permita desenvolver ao máximo as suas potencialidades linguÍsticas (isto é.
buindo-lhe a ideia de que as capacidades linguísticas se desenvolvem «por si mesmas» e precisa de leitura, de conversação, de prática da escrita, ele.). A última coisa que a crian-
não necessitam de cuidados escolares (ou outros) revela ignorância ou desoneslidade. No
ça necessita é que lhe ensinem a estrutura da sua Iíogua. Essa estrutura, ela própr;a en·
extremo oposto, a ideia de que o desenvolvimento das capacidades linguísticas da crian- carrega-se de a desenvolver sem necessidade de instrução, e de um modo muito mais rico,
ça passa pela aprendiz.agem da teoria gramatical, em particular de uma pseudogramática sofisticado e articulado do que aquilo que é proposto por qualquer teoria linguística actual,
generativa reduzida a uma análise das expressões em árvores, representa uma posição de incluindo a TRL

36 37
entre
-
os dados ..----.-
-.-----.--.-.--
primários e a gramática final, e..•. que procede ··Fef'
..-- .•...-.----.,------.---
à proi~ão
.•.•• ( •• I cilllentosespecffiçqtão
~""""'~"'","",;I.,"'-'_';""'_""'''''''''''_ ~~,·_.c,·~.·, __,
complexo e tão rico sobre a sua lípgua (e o.utn;>s
. " .........•..

gu~dE!it_~~!.Y~uilli!'.l.~i-".(l_-gu~
car~c,teriza o .sistema final. ~1J:síntese,?· slsteil.).asmentais,sTmdúvida) dada a pobreza dos estímulos iniciais aos
~ti.~final(Q).§.~ma.,d-,!L~ºm~ªnciaU.9-.m~º11ªç1-º"--º-ªjJHerªcção.entre qüã'fS'"éêX'PõSiô'dürante a'Case de aquisição. Os estímulos iniciais são pobres
QWJJ.ldQs,·"Prjmárips.eº"":me~nismQ,imenJªLd.e2aqu.isiçãa. A resolução do porque não contêm as informações pertinentes para o desenvolvimento das
problema da projecção consiste pois em determinar tão precisamente quan- propriedades específicas do sistema final.
to possível as responsabilidades respectivas do mecanismo de aquisição e ~~.?Jllç!~p_ara,Jl.pr..0~!emad~_f>latã9, segundo Chomsky, só pode ser
dos dados primários no processo de aquisição e desenvolvimento do siste- uma: se os dados primários são insuficientes para explicar o sistema de
ma final da competência do sujeito falante. conhecimentos final, então é necessário concluir que a mente da criança
Nos termos deste modelo, !.
tradiçAg~rt1pi[Í_s.tll.iPr.~~§.1lIJpe
(pelo menos -I2.~imosiç.ij,º_l!m..J:onjuntQde princípios linguísticos. complexos
(2....L.ô..P..L~~'"ºoPOQ19,,<:l(l.yistado linguista, UO). que. guia de um m9do
implicitamente)
~~Iati\'amente CJ!!Sa.relaç_ão~~Lol'-cTºªcl.Q~P!i!!!ªrios
directa, t<Lquenãoexistem ~ .11ºiferenças.
(;:grt1pe,têl1ci!1
finl!l
notáveis p'req~ª~ºe.e.'\Jrema,men~e restringido a aquisição e desenvolvimento:
~u.!:.ç~â·r.gy_,ljitl!1Ly.ª----eº!re os doi$. Para desenvolver o sistema de co- .daliP~~~.A est.e argumento em favor de um sistema DO inato, Choms-
nhecimentos final a partir dos dados primários, apenas são necessários ~ma. o~<argurnento~da E9l?fJ:2;!U:!9.s:estímulos».Em síntese, o. falante
princípios mentais indutivos simples como a capacidade de estabelecer adulto tem determinados conhecimentos sobre a sua língua para os quais
·1 analogias entre diferentes expressões ou paradigmas e de proceder a gene- não existe evidência (linguística, psicológica, ou de qualquer outro tipo)
ralizações de vária ordem com base nessas analogias (17). Para além des- que possam ser determinados directamente pelo meio ambiente linguístico
tes processos mentais, a aquisição da linguagem é uma questão de treino, inicial durante o curso normal do processo da aquisição, com ou sem a
imitação e memorização por parte da criança, e de correcção, aprovação aplicação de mecanismos de associação, generalização, etc. Estes conheci-
ou reprovação por parte dos pais ou das pessoas responsáveis pela sua- . mentos\êm vois de ser atribuídos à «planta arquitectóniq» inata que guia
educa~ã? •.•..... ' .' .' '\ e determina a aquisição e desenvolvimento da linguagem .
.q~pl'P~; temal?2A!~ºQJ'ªri.a~yy~es.qu~~~~;.J.1,12g~1 Cl.- ~~.lr.:ea!is.tllp()r~
qUê~·jg
, :'no.. ':"~'.':',';:(ou .. n.ega).'.
:,-:~ r. ~ O.-abismo"
;" "." ..: ;,:.:.lilll~.e,n~ não. só (]uantitativo.·.·mas
•• "~_"~~~ly,,
'é. .•.
:~-,..':"~~.
-..-.,..-,
-:.,,,,,,--.,_ iessencialment~
.. ".:v--. . .,-,.
~' ~' '..;.,.,_:,_,.,._,"
_."'.,; ~

~1~JiX~!)J:l':'!?;.t:&!§!!?..$IHr.~ o~.dadosJingllfst!cgs p!Ímá1]9se osist~ll1a de 9. Os dados primários e a não existência


&iLhb.~çjmélltosfinal do adulto,~S!,lªE!llmática inieI1~ri2;llq<1~ ~homsky nota de informação negativa no processo de aquisição
que o indivíduo falante possui toda uma série de conhecimentos sobre a
sua língua cujo desenvolvimento não pode provir da aplicação de meca- Alguns estudos recentes sobre a natureza dos dados primários e o seu
nismos indutivos de generalização sobre os dados primários, e muito menos papel na aquisição e desenvolvimento da linguagem apoiam a tese de Choms-
por imitação ou memorização. Nos termos de Chomsky, os estímulos ky sobre a pobreza dos estímulos iniciais'e a necessidade de postular um
primários são «pobres», isto é, não contêm à informação necessária pura mecanismo mental inato de aquisição.
explicar o sistema rico e complexo de conhecimentos finais (através de ge- Estes estudos mostram que o meio ambiente Iinguístico de uma crian-
neralizações, imitações, etc.). Em textos rece.!!l~ (ver, por exemplo (l986b; ça típica durante a fase de aquisição é essencialmente formado por expres-
1988a)), ÇhomskLr~J.~[e._:~_ª __e.?1.asituação como sendo um dos casos
sões g~~ª.: e que é com base nesta ii:JP.r'!!.<5_ãgY.!!§..iJ{~(~~
p.ªLtiflil.ar~~daquiloa que chama o <~!e1D~ g§~~ª~»: CQ!)Ç;[~Ii!lllepJt, que a criança desenvolve uma gramática interiorizada (18). Por outro lado,
'liQr,QI;>l.t!ll~.~g~ .._§ª.b.srs'"ç[15?~é_.9~l1..l!I~ffiilt~R?J.~L~E!.~tst~JH~ ...~~..~Pn~ef
(18) A questão de saber se os dados primários contêm igualmenle expressões «dege-
neradas» e semigramaticais é objecto de debales na literalura psico-linguística. Note-se
que nesse caso o problema da projecção é ainda mais complicado para a criança. Outra
(17) Um exemplo simples de generalização analógica é o seguinte: com base na questão debatida é a de saber se os dados primários consistem essencialmente numa fala
observação de que um número finito de verbos cujo infinilivo lermina em -ar forma o simplificada e estruturada de modo apropriado às capacidades psico-linguíslicas das crian-
pretérilo imperfeito com a terminação -va, o falante conclui que qualquer verbo cujo ças em cada etapa do seu desenvolvimenlo (o termo inglês para esla fala é «motherese»).
infinitivo termine em -ar forma o pretérito imperfeito com aquele sufixo. Em sintaxe, Para uma síntese de várias posições sobre este problema (nomeadamenle a ideia de que
no entanto. exemplos simples de generalizações são muito mais difíceis, se não mesmo este tipo de fala não é pertinente para a aquisição), ver Gleitman e Wanner (1982) e
impossíveis, de construir. Newmeyer (1983).

39
,'''''''TT:''·."'''''jé,"C":y,": ".', t
aquilo, a que os psicólogos e os linguistas chamamTi!}let:maçãO;n~gªtil!a, 10. Alguns exemplos concretos: aspectos sintácticos
ou seja, informação sobre as expressões inaceitá'veis"'da língua, desempe- , e semânticos da forma~)
nha um papel nulo ou diminuto no processo de aquisição: as crianças
tipicamente não recebem instrução gramatical, quer sob a forma de correc- Para tornar mais concreta a discussão das duas últimas secções, ilus-
ção de en'os quer sob a forma de explicações explícitas (ver Baker (1979), tremo-Ia com algumas propriedades da sintaxe do Português relacionadas
Cook (J 988), Lightfoot (1989) e os trabalhos sobre psicologia do desen- com a forma se, mostrando quão implausível é tentar encontrar a sua origem
volvimento da linguagem ,kií citados) (19). Como Lightfoot (1989) o assi- na experiência linguística primária da criança durante a fase de aquisição.
nala, a criança não é um i<pequeno linguista» construindo a sua gramática Em Português, bem como nas outras línguas Românicas, o morfema
com base simultaneamente em informações sobre expressões gramaticais e se tem duas4funções (entre outras não pertinentes para esta discussão): de
não gramaticais eOj. eron()llle«allafórico~ reflexiYfLQ!,L,ce..çápr.çlcl.L(tomando
a sua referência de
Uma das questões mais prementes postas pelo problema da aquisição outro Grupo Nominal' (NP) presente na oração) e de ~<pronomeimR~~s.oaJ»
é então a de explicar como é que o sistema final inclui o conhecimento com referência indeterminada (<<arbitrária», na terminologia da TRL) e sig-
nificação próxima da do pronome indefinido alguém, No exemplo (9), o
de que determinadas expressões ou frases sã9i~~~eitáveis, ou seja, como pronome se tem uma interPretação primariamente anafórica (recíproca); no
~~qJY~~rco,1J!\eCime~toe,~~f~~~
t&;.QJl,1.lª"l.i..~2'-pU:~~ª9&:!1ª9,,~JS:lstl.'lLna:,~ua
..·bngua ro,~nao.;poâe ter;·umadeter" exemplo (10), pelo contrário, a sua interPreta(;&º ~primariamente «arbitrária»:
IUiQad,fl;sigpifita~.~9;:€prig,..j.Jogicamente:póssíVéf. O problema pode ser
s,:~'âITiênte'êaráctefizado, do seguinte modo: ~Ü;,A~,intQ~~Quuni-",.. (9) Nesta penitenciária, os presos agridem-se )frequentemente.
Cftw.y.msJt2~itivaª Hrian~ª~esenYQl\,e W~a~m~"séris: qe, conhegi!J!eDJº~
~tÍà'.9.§ccSºl?f~~,líggpa. íq~ªi~,sã,9,8ntão os mecanismos de aquisição que (10) Nesta penitenciária, agriden(-;) os presos frequentemente,
permi tem este processo?! Qj,inodeloÚ:mpiriS!ª,J.l~Um!JisiÇ.,~.ã<LP"ª~eJer
inm.wn~n.tQs~suficie,Ule_s~pªraI.e~p.QIL<kLa~~tfU:l.\J~lªq; não se entende bem Abstraindo das expressões adverbiais nesta penitenciária e frequen-
como é que a generalização analógica permite a construção de um conhe- temente, o exemplo (9) recebe primariamente a interPretação anafórica
cimento negativo a partir de informação unicame~tepositjva: (ver ,,~secção recíproca «para cada par (x, y 1 do conjunto dos presos, x agride y (po-
seguinte para alguns exemplos concretos). l1!r'.llQ1niQ.deloí-aciomilistaj pelo dendo x=y)>>(a interPretação reflexiva «caua membro x do conjunto dos
con trário, e.sI.e..lip.Q;.
de·,processQc.llãO·~
é:pJQb.temá1iç_Q,;~r~iºrçilndo_ª~"cºnclu- presos agride x'>embora gramaticalmente possível, éJ?Lagmatigr:~!ili<. menos
são, de,;Clwmi.k.y. de"lll~fLos estÍll!!!!osl!!!gélj,~,-º-ª çriª!lç'L,Sªº «poºr~l)>>,.·~ normal); e o exemplo (10) recebe a interpretação «um conjunto de pessoas
d!f;;lggcj.a peI]9 ..LilllLQ}J;f.!lllhtI!o i
llél~9.~ª!lfiçj~!l t<:?!!l,~1}
t~_ C9!Jlpl<:?.l'º .JJod(': ,~x pli- .indeterminadas (alguém} !!Rfide os presos», em que o pronome se corres-
q!t'..;!'; flill!!§jção.•e desenvolvi men to .'.dalinguagemj e I), ponde ao sujeito da oração, ou seja, ao Agente da acção de agredir, como
o NP o;; guardas na expressão nesta penitenciária, os guardas agridem
os presos frc,quentemcnte),
("1) A correcção pelos pai~, por exemplo, ainda que ocorra durante o processo de apren- Se chamarmos a sua atenção para esse facto, os falantes do Português
dizagem, tende mais a ~er ~ohre a adequação do conteúdo da fala das crianças relativa-
mente il situação discursiva, e menos sobre a forma gramatical das expressões. Em qualquer
caso, a c()m~cção pareee não ter um efeito decisivo sobre o rumo do processo de apren- tência tinguística final, t<01f1Q.ª.aqllisiç,ãQ.,nã~<kp~.da...c.cu:a:c.çãu-d.e..JJJ])JPO.<!.2,
dizagem (muitas vezes a criança corrigida pura e simplesmente ignora as correcções e .,CD.IlàLA queslão mais geral levantada pela exigência de uniformidade é o facto de as
continua sistematicamente a fazer o mesmo erro, até à altura própria, biológica, de in- crianças de uma dada comunidade linguístiea desenvolverem sistemas finais de compe-
corporar a forma ou as formas eorrectas). tência linguística muito semelhantes Cjuanto ao seu escopo e Cjualidade, mau grado terem
('li) Nem o~ dados primários da criança se encontram organizados em paradigmas cla- experiências iniciais diferentes no domínio não só linguístico, mas também social, edu-
ros e arrumados como os do linguista, isto é, predirigidos para a formação de hipóteses' cativo, emocional e cultural (ver Chomsky (1965) para uma primeira discussão deste
científicas. problema). Ctamos urna passagem de Cook (1988, 61) que nos parece ser uma das melhores
('1) Cook (1988)mO~lra igualmente que os dados primários têm de obedecer a uma sínteses sobre a questão: «So long as the environment contains a cenain amount 01' lan-
exigência de uniformidade, Por exemplo, se a cOlTecção pelos pais parece predominante guage, il appears not to bc crucial to lhe acquisition 01' grammatical competence what
no proces~o de aprendizagem de algumas crianças, mas é totalmente inexistente no caso lhis sample consists 01'; any human child learns any human language, whatever the si-
de outras crianças, e se ambos os grupos adquirem aproximadamente a mesma compe- tuation.»

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