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Diversidade dos campos rupestres ferruginosos


no Quadrilátero Ferrífero, MG
Claudia Maria Jacobi*
Flávio Fonseca do Carmo

Departamento de Biologia Geral, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil
* e-mail: jacobi@icb.ufmg.br

Resumo
Os campos rupestres ferruginosos, conhecidos como vegetação de canga, estão concentrados
no Quadrilátero Ferrífero, em áreas associadas a gigantescos depósitos de minério de ferro.
É um dos ecossistemas menos estudados de Minas Gerais, embora entre os mais ameaçados,
principalmente devido à intensa atividade mineradora associada a seus afloramentos de ferro.
Os poucos e recentes levantamentos florísticos restritos a estes afloramentos, que somados
não chegam a uma área de 260ha, indicaram uma alta diversidade alfa e beta. Em quatro
levantamentos foram identificadas 86 famílias, 250 gêneros e 458 espécies de plantas vascu-
lares, distribuídos nos diversos habitats resultantes de uma evolução geomorfológica muito
peculiar. As espécies comuns a esses afloramentos, entretanto, não chegam a 5%. Comparadas
com outros afloramentos rochosos, como os de quartzito, as cangas contribuem substan-
cialmente para a diversidade regional da flora. Um dos grupos vegetais mais relevantes para
a conservação de regiões metalíferas são as metalófitas, com espécies capazes de crescer
na presença de metais tóxicos, podendo oferecer serviços ecológicos como a fitoextração,
fitoestabilização e fitoprospecção. O incremento da atividade mineradora, aliado à carência
de unidades de conservação que abrigam este ecossistema, constituem as principais ameaças
aos campos rupestres ferruginosos.

abstract
Rupestrian ferruginous fields, known as canga vegetation, are concentrated in the Iron Quadrangle,
in areas associated with massive iron ore deposits. They are one of the least studied ecosystems
in Minas Gerais, although they are among the most threatened, mainly because of intense mining
activities associated with ironstone outcrops. The few and very recent floristic surveys restricted to
these outcrops, carried out in an area smaller than 260ha, indicated high alpha and beta diversities.
In four surveys, 86 families, 250 genera and 458 species of vascular plants were identified, distributed
among the different habitats that resulted from a very peculiar geomorphologic evolution. The
species common to all four outcrops, however, do not reach 5%. Compared to other rock outcrops
such as quartzite, ironstone outcrops contribute substantially to the regional plant diversity. One of
the plant groups most relevant for the conservation of metalliferous regions are the metallophytes,
with species capable of growing in the presence of toxic metals and therefore potentially useful

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for phytoextraction, phytostabilization and phytoprospection. The increasing mining activities,


together with the lack of conservation units that harbor this ecosystem, constitute the main threats
to ferruginous fields.

Introdução diversidade da flora associada aos afloramentos ferrugi-


nosos no Quadrilátero Ferrífero, comparar esta com a de
O Quadrilátero Ferrífero – QF, com uma área de aproxi- campos rupestres quartzíticos e discutir a importância
madamente 7.200km2, compõe o extremo sul da Cadeia da sua preservação e conhecimento.
do Espinhaço, que é considerada uma das regiões de
maior diversidade florística da América do Sul (Harley,
1995; Giulietti et al., 1997), com mais de 30% de ende- Heterogeneidade espacial dos afloramentos
mismo em sua flora (Giulietti et al., 1987). Está inserido ferruginosos
na zona de transição dos dois hotspots brasileiros: a
Mata Atlântica e o Cerrado, e é considerado uma área Com uma distribuição descontínua, geralmente restrita
de ‘importância biológica especial’ (Drummond et al., aos topos de montanhas, os campos rupestres são reco-
2005). Esse status foi proposto devido à presença dos nhecidos mundialmente como centros de diversidade e
campos ferruginosos, a ocorrência de espécies vegetais endemismo de plantas (Alves & Kolbek, 1994; Porembski
restritas à região, e por constituir um ambiente único et al., 1994; Giulietti et al., 1997). No Brasil, os campos
no estado. rupestres da Serra do Espinhaço são considerados
Formado por terrenos antigos e geologicamente centros de diversidade de famílias como Eriocaulaceae,
complexos, com litologias variadas aflorando lado a Xyridaceae e Velloziaceae, com aproximadamente 90%
lado (Alkmim & Marshak, 1998; Klein & Ladeira, 2000), das suas espécies endêmicas dessa região (Giulietti
o QF apresenta uma singular heterogeneidade da pai- et al., 2005), e de vários gêneros de Melastomataceae,
sagem, com fitofisionomias integrando um mosaico Ericaceae e Asteraceae (Pirani et al., 2003).
moldado pela conjunção da topografia, litologia, clima Nas montanhas formadas pelos gigantescos depó-
e altitude. Para ilustrar esta multiplicidade, em apenas sitos de minério de ferro que delimitam o QF estão
um km2 da Serra da Moeda (no sudoeste do QF) é pos- localizados os conglomerados ferruginosos superfi-
sível encontrar floresta estacional semidecidual, matas ciais, conhecidos como cangas. Estes afloramentos
ripárias, florestas montanas ou “capões de altitude”, são couraças compostas geralmente por minerais deri-
campo cerrado, cerrado sensu strictu, campos rupestres vados das formações ferríferas bandadas, hematita
quartzíticos, graníticos e campos rupestres ferruginosos. compacta e fragmentos de itabirito cimentados por
Estes últimos, conhecidos também como vegetação de limonita (Dorr, 1964), que em alguns locais podem
canga, são encontrados principalmente nesta região e chegar a mais de 30 metros de espessura (Simmons,
na Serra de Carajás – PA (Silva et al., 1996). No QF os 1963). Constituem verdadeiras “ilhas de ferro” dis-
campos ferruginosos estão associados a vários tipos de tribuídas nos topos e encostas de algumas dessas
substratos ricos em ferro. Estes podem se apresentar serras, em altitudes que variam de 900 a 1.900m. Na
totalmente fragmentados ou formando uma espessa e década de 1960, Dorr (1964) estimou que a cobertura
sólida couraça. Entre estes dois extremos ocorrem várias total dessas cangas era de aproximadamente 10.000ha,
fisionomias campestres como campo limpo, campo sujo uma área muito limitada quando comparada com a dos
e os campos rupestres propriamente ditos. Devido à campos rupestres quartzíticos, que ocorrem ao longo
distribuição em áreas restritas, de difícil acesso, e por de toda a Cadeia do Espinhaço, a Serra da Canastra, a
recobrirem importantes depósitos de minério de ferro, Serra de São José e outras.
os afloramentos ferruginosos estão entre os ecossis- A heterogeneidade topográfica das cangas, resul-
temas mais ameaçados e menos estudados de Minas tado de uma evolução geomorfológica muito peculiar
Gerais. Levantamentos florísticos exclusivamente nestes (Rosière & Chemale, 2000), reflete-se numa variedade
afloramentos são muito recentes (Mendonça, 2006; de ambientes, tendo sido identificados recentemente
Jacobi et al., 2007; Viana & Lombardi, 2007; Stehmann oito habitats associados aos afloramentos, cada um
& Oliveira, 2007). Nossos objetivos foram avaliar a com predominância de diferentes comunidades de

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plantas (Jacobi et al., 2007): paredões e entradas de 114 espécies; e Eudicotiledôneas, com 56 famílias e
cavernas, capões, tapetes de monocotiledôneas, fissu- 313 espécies (Anexo).
ras na rocha, fendas e depressões, lagoas temporárias, As 15 famílias de angiospermas com maior riqueza de
cavidades alagadas e rocha exposta. A canga fornece espécies foram Asteraceae (59 spp.), Poaceae (30 spp.),
assim condições ecológicas que geralmente diferem da Orchidaceae e Myrtaceae (28 spp.), Melastomataceae
paisagem adjacente, ou matriz. Esta heterogeneidade (23 spp.), Fabaceae (18 spp.), Solanaceae (17 spp.),
permite que os afloramentos ferruginosos constituam Rubiaceae (16 spp.), Apocynaceae, Cyperaceae e
um refúgio para espécies adaptadas a condições xéricas, Bromeliaceae (13 spp. cada), Velloziaceae (11 spp.),
como a cactácea Arthrocereus glaziovii N.P. Taylor & D.C. Malpighiaceae, Euphorbiaceae e Verbenaceae (10 spp.
Zappi e a condições mésicas, como Staurogyne minarum cada). Os dez gêneros com maior riqueza de espécies
Kuntze (Acanthaceae) e Juncus sp. (Juncaceae). foram Myrcia (13 spp.), Solanum (11 spp.), Vellozia
As plantas de campo rupestre ferruginoso, além das (8 spp.), Baccharis, Eugenia e Panicum (7 spp. cada), Leandra
adaptações fisiológicas, morfológicas e reprodutivas (6 spp.), Lippia, Miconia e Passiflora (5 spp. cada ). Foram
típicas de afloramentos rochosos lato sensu, como es- encontradas 34 espécies citadas na Lista Vermelha das
clerofilia, reprodução clonal e poiquiloidria, ou seja, a Espécies Ameaçadas de Extinção da Flora de Minas
capacidade de resistir a ciclos de dessecação e reidra- Gerais (Mendonça & Lins, 2000). Destas, 18 estão
tação (Gaff,1987; Giulietti et al., 1987), ainda possuem ameaçadas de extinção, como Guatteria sellowiana
adaptações para se estabelecer em um substrato rico Schltdl. (Annonaceae), Oncidium warmingii Rchb.f.
em metais pesados (Porto & Silva, 1989; Teixeira & (Orchidaceae), Ditassa linearis Mart. (Apocynaceae),
Lemos Filho, 1998). Hololepis pedunculata D.C. e Senecio pohlii Sch.Bip. ex Baker
(Asteraceae), Nematanthus strigillosus (Mart.) H.E. Moore
(Gesneriaceae); e 16 espécies estão presumivelmente
Diversidades alfa e beta ameaçadas, entre as quais Senecio adamantinus Banq.
e Eremanthus incanus Less. (Asteraceae), Sarcoglottis
Estudos florísticos de comunidades campestres já schwackei Schltr. (Orchidaceae) e Coccoloba acrostichoides
foram realizados em áreas metalíferas no QF, porém Cham. (Polygonaceae).
muitas vezes sem uma clara distinção entre as comu- Além da considerável diversidade alfa, relacionada aos
nidades associadas aos afloramentos ferruginosos, tipos de microhabitats, as cangas apresentam uma alta
chamados por Rizzini (1997) de “canga couraçada”, diversidade beta, decorrentes do isolamento, e prova-
das comunidades associadas a neossolos litólicos e velmente de variações climáticas e mineralógicas do subs-
cambissolos, entre outros (IBRAM, 2003), chamados trato ferruginoso (Vilela et al., 2004). Jacobi et al. (2007)
por aquele autor de “canga nodular”. Embora estes encontraram uma similaridade florística de 27% entre
dois tipos de substrato são ricos em minerais metálicos, duas cangas distantes entre si apenas 32km e, nos quatro
principalmente o ferro, e apresentam uma fisionomia levantamentos florísticos considerados aqui, menos de 5%
campestre, existem diferenças florísticas entre eles, das espécies foram comuns a todos os afloramentos ferrugi-
caracterizando-se o primeiro por sustentar uma comu- nosos. Todas essas espécies são típicas de campos rupestres
nidade mais adaptada ao ambiente rupícola (Vincent, sensu lato, como Vellozia compacta Mart. (Velloziaceae),
2004). Discutiremos aqui os resultados dos levanta- Tibouchina multiflora Cogn. (Melastomataceae) e as
mentos florísticos realizados somente em aflora- Asteraceae Dasyphyllum candolleanum (Gardner) Cabrera
mentos ferruginosos no QF (Mendonça, 2006; Jacobi e Lychnophora pinaster Mart., esta última restrita a Minas
et al., 2007; Viana & Lombardi, 2007; Stehmann & Gerais (Pirani et al. 2003).
Oliveira, 2007).
Os quatro levantamentos, agrupados em três regiões
(Figura 1), evidenciaram, em uma área total estimada Florística e diversidade de campos rupestres
que não ultrapassa 260ha, 86 famílias, 250 gêneros quartzíticos e sobre canga
e 458 espécies de plantas vasculares, agrupadas em
11 famílias de pteridófitas com 21 espécies e 75 fa- Quando comparados alguns estudos florísticos de
mílias de angiospermas (representando cerca de 34% campos rupestres realizados no Espinhaço mineiro, per-
das famílias encontradas no Brasil, sensu APG II, 2003) cebe-se que as cangas contribuem substancialmente
distribuídas em Magnoliídeas, com quatro famílias e para a diversidade regional (Tabela 1). Para esta compa-
10 espécies; Monocotiledôneas, com 15 famílias e ração foram considerados estudos de campos rupestres

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Figura 1 – Mapa das reservas de minério de ferro no Quadrilátero Ferrífero, identificando as maiores minas de extração de
hematita compacta (círculos) e as regiões onde foram realizados os levantamentos florísticos em campos rupestres ferruginosos
mencionados no presente trabalho. Região 1: Barão de Cocais; Região 2: Nova Lima, Serra da Calçada e PE da Serra do Rola Moça;
Região 3: Serra da Moeda. Adaptado de Pires (2003).

quartzíticos realizados na Serra do Cipó e em Grão- substâncias húmicas (solos escuros) pode explicar esse
Mogol (Giulietti et al., 1987; Pirani et al., 2003) reconhe- fato. Ao contrário, Solanaceae é bem representada
cidos pelo intenso trabalho de amostragem florística e nas cangas, e ausente nas comunidades quartzíticas.
caracterização fitofisionomica. Provavelmente a presença frequente de capões nestes
Analisando as 15 famílias de angiospermas mais ambientes permite um número maior de espécies de
ricas, observa-se que a maioria ocorre tanto em cangas matas ou ecotonais. Isso pode também explicar a maior
quanto em campos rupestres quartzíticos, constituindo proporção de espécies de Rubiaceae e Myrtaceae, e a
de 55% até 67% do total das espécies encontradas presença de gêneros como Myrcia, Solanum, Eugenia,
nestes estudos (Tabela 2). Entretanto, a sua represen- Leandra e Miconia, que estão entre os mais ricos em
tatividade varia em alguns casos. Eriocaulaceae e número de espécies nos afloramentos ferruginosos.
Xyridaceae não são bem representadas em cangas, Bromeliaceae e Orchidaceae são bem representadas
embora sejam consideradas famílias típicas de campos tanto em cangas quanto quartzito. Em cangas, estas
rupestres (Menezes & Giulietti, 2000). A ausência de famílias assumem uma maior proporção, sendo a maioria
solos arenosos alagáveis e com grande quantidade de das espécies de hábito rupícola.

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TABELA1 – Alguns levantamentos florísticos de campos rupestres realizados no Espinhaço mineiro.

LOCALIDADE ÁREA (ha) SUBSTRATO ESPÉCIES FAMÍLIAS REFERÊNCIA


Serra do Cipó 20.000 quartzito 1590 138 Menezes & Giulietti, 2000
Grão-Mogol 10.000 quartzito 1073 129 Pirani et al., 2003***
Serra de Itabirito 4.000† quartzito, itabirito 412 83 Brandão et al., 1991**
PE Itacolomi 2.000† quartzito 300 67 Peron, 1989*
Serra da Piedade 800† quartzito, itabirito, canga 305 55 Brandão & Gavilanes, 1990
Serra do Ambrósio 700 †
quartzito 84 40 Pirani et al., 1994
Nova Lima 100† canga 217 61 Mendonça, 2006
Serra da Calçada 75 †
canga 246 56 Viana & Lombardi, 2007
Barão de Cocais 35† canga 119 38 Stehmann & Oliveira, 2007
PE S. Rola Moça 25 canga 138 46 Jacobi et al., 2007
Serra da Moeda 20 canga 160 55 Jacobi et al., 2007
Formações vegetais incluídas no estudo:
* mata ripária, floresta estacional semidecidual e campos cerrados.
** cerrado.
*** campo limpo, cerrado, carrasco, matas de galeria e mata mesófila.

estimada.

TABELA 2 – As 15 famílias de angiospermas com maior riqueza Os afloramentos metalíferos em geral concentram
de espécies encontradas em campos rupestres ferruginosos do espécies metalófilas endêmicas, (Whiting et al., 2004).
Quadrilátero Ferrífero e em campos rupestres quartzíticos da Serra do
Considerando o escasso número de levantamentos em
Cipó e de Grão-Mogol, MG. Os números representam a contribuição
percentual de cada família para a riqueza de espécies. canga, ainda é cedo para apontar espécies endêmicas
exclusivas de afloramentos ferruginosos no QF. Apesar
FAMÍLIAS CANGAS S. CIPÓ GRÃO-MOGOL dos dados insuficientes, algumas espécies endêmicas
como a cactácea Arthrocereus glaziovii (Taylor & Zappi,
Apocynaceae 2,8 2,4 3,6
2004), ou possivelmente endêmicas como as bromélias
Asteraceae 12,9 10,6 7,6
Dyckia consimilis Mez e Vriesea minarum L.B. Sm. (Versieux,
Bignoniaceae –– –– 1,8 2005) já foram relatadas, e provavelmente o número de
Bromeliaceae 2,8 2,3 1,7 endemismos seja muito maior. Estudos florísticos devem
Cyperaceae 2,8 2,0 3,2 ser realizados em todo o QF, principalmente nas regiões
Eriocaulaceae –– 5,3 2,4 leste e sul, para uma caracterização detalhada da flora
Euphorbiaceae 2,2 1,5 3,1 e da distribuição geográfica das espécies de campos
rupestres sobre canga. Ditassa monocoronata Rapini
Fabaceae 3,9 6,7 9,7
(Apocynaceae) descoberta em 2001 (Rapini et al., 2002)
Malpighiaceae 2,2 2,6 2,4
e Vriesea longistaminea Paula & Leme (Bromeliaceae)
Melastomataceae 5,0 5,7 4,0 descrita em 2004 (Leme & Paula, 2004) exemplificam
Myrtaceae 6,1 2,8 3,2 essa situação. Ambas foram encontradas em regiões
Orchidaceae 6,1 5,0 2,8 restritas e muito próximas a cavas de extração de mi-
Poaceae 6,5 8,2 3,8 nério de ferro.
Rubiaceae 5,4 2,9 3,9
Solanaceae 3,7 –– ––
Quadrilátero Ferrífero, uma ecorregião
Velloziaceae 2,4 3,6 1,7
metalífera?
Verbenaceae 2,2 –– ––
Xyridaceae –– 2,9 –– O QF é considerado uma das mais importantes provín-
Total (%) 67,2 64,4 54,8 cias minerais do mundo (Spier et al., 2003). O Brasil é o
Fontes: Giulietti et al. 1987; Pirani et al. 2003; Mendonça, 2006; Jacobi
segundo maior produtor mundial de minério de ferro,
et al., 2007; Viana & Lombardi, 2007; Stehmann & Oliveira, 2007. e cerca de 75% desse minério é extraído no QF, onde

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atualmente mais de 50 minas a céu aberto estão em representado por áreas localizadas nas Guianas e nos
atividade. A região também é uma grande produtora Andes (WWF & IUCN, 1999). O QF, em vista do seu con-
de alumínio, manganês, ouro e outros tipos de minerais texto geo-econômico e importância biológica, cumpre
(DNPM, 2006). com diversos requisitos listados por Dinerstein et al.
Uma das comunidades vegetais mais relevantes (1995), para ser identificado como ecorregião.
para a conservação de regiões metalíferas com intensa
atividade mineradora são as plantas metalófilas, com-
preendendo as pseudometalófitas, espécies que tole- Desafios para a conservação
ram solos com altas concentrações de metais, porém
comumente encontradas em solos não metálicos; as A maioria dos levantamentos florísticos em cangas no
eumetalófitas, que apresentam mecanismos de resis- QF são muito recentes. Das quatro mencionadas neste
tência e/ou tolerância, com táxons endêmicos de áreas estudo, duas já desapareceram por causa da mine-
metalíferas; e as hiperacumuladoras, que concentram ração, e apenas uma está localizada em unidade de
altos valores de metais pesados nos tecidos (Whiting conservação, o que infelizmente parece refletir o status
et al., 2004). Estas comunidades vegetais associadas regional desse ameaçado ecossistema. Pode-se apenas
aos substratos metalíferos podem oferecer serviços especular o que já foi perdido com a eliminação histórica
ecológicos como a fitoextração, fitoestabilização e de um número considerável de cangas. Esse fato torna-se
fitoprospecção (Ginocchio & Baker, 2004). Atualmente inquestionável quando se observa o contexto geo-eco-
no mundo diversos grupos de pesquisa estão focali- nômico do QF, com uma intensa atividade de mineração
zando a conservação e a utilização sustentável dessas gerando uma grande demanda por processos ambientais
comunidades (Cook & Johnson, 2002; Whiting et al., de licenciamento para pesquisa, concessões minerais e
2002; Reeves, 2003), atendendo a recomendações da exploração. Somente na Área de Proteção Ambiental Sul
Convenção da Diversidade Biológica - CDB – para identi- da região metropolitana de Belo Horizonte (APA-Sul),
ficar e conservar as metalófitas. Whiting et al. (2004), por os direitos minerários chegam a 77% dos 165.160ha de
exemplo, sugeriram a inclusão destas recomendações no área desta unidade de conservação (IBRAM, 2003).
Sistema de Gestão Ambiental - ISO 14.000. Entre as maiores ameaças à biodiversidade mundial
Apesar de existirem no país importantes regiões com está a perda de habitat, que nas cangas ocorre pela
afloramentos rochosos ricos em metais, como o próprio histórica atividade de mineração, recentemente inten-
QF e a Serra de Carajás (Silva, 1991), a importância sificada pela abertura econômica da China, que gerou
biológica das comunidades metalófilas ainda é subes- em nível mundial uma demanda sem precedentes por
timada no Brasil, em parte devido ao pequeno número minérios, fenômeno conhecida como “efeito China”
de estudos ecológicos, geobotânicos e biogeográficos (DNPM, 2006). Estima-se que em 2010 a produção brasi-
realizados até o presente. No QF já foram identificadas leira anual desse minério deverá atingir 280 milhões de
algumas metalófitas (sensu Whiting et al., 2004) asso- toneladas, representando um aumento de 53% quando
ciadas à canga, como Eremanthus erythropappus (DC.) comparado com a produção de 1988 (DNPM, 2001). O
N.F.F. MacLeish e E. glomerulatus Less. (Asteraceae), mapa na Figura 1 indica apenas as minas a céu aberto
Microlicia crenulata Mart. e Trembleya laniflora Cogn. que extraem hematita compacta, um tipo especial de
(Melastomataceae), que acumulam nas folhas concen- minério com alto teor de ferro, e não inclui as cavas
trações de Cu, Fe, Mn, e Zn acima do disponível no de extração dos outros tipos de minério de ferro que
substrato (Teixeira & Lemos-Filho, 1998), e metalófilas existem no QF.
associadas a outros tipos de substratos metalíferos, Ao contrário da maioria dos campos rupestres
como Podocarpus sellowii KL. (Podocarpaceae), Schinus quartzíticos, que têm uma ampla área de distribuição,
terebinthifolius Raddi (Anacardiaceae), Paepalanthus alguns localizados em unidades de conservação de
sp. (Eriocaulaceae) e Vellozia sp. (Velloziaceae), que dimensões consideráveis, como o Parque Nacional da
acumulam nos tecidos concentrações de Cd, Cu, Fe, Mn, Serra do Cipó, os campos rupestres ferruginosos no
Ni e Pb acima da normalidade (Porto & Silva, 1989). Espinhaço estão numa situação que precisa ser rapi-
No mundo já foram propostos cinco “hotspots meta- damente revertida (Jacobi & Carmo, 2008). Além da
líferos”, todos eles em ecorregiões florestais ricas em distribuição restrita, concentrada no QF, são pouquís-
biodiversidade e ameaçadas pelos impactos ambien- simas as unidades de conservação que contém essas
tais relacionados à intensa atividade de mineração. comunidades, sendo o Parque Estadual da Serra do Rola
Somente um destes hotspots ocorre na América do Sul, Moça, próximo de Belo Horizonte, a mais destacada.

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O reconhecimento recente do QF como área de ‘impor- Drummond, G.M., C.S. Martins, A.B.M Machado, F.A. Sebaio &
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Jacobi & Carmo | 33

ANEXO – Lista das famílias de plantas vasculares (com número de gêneros e espécies) presentes em Campos rupestres ferruginosos
no Quadrilátero Ferrífero, MG (Mendonça, 2006*; Stehmann & Oliveira, 2007; Jacobi et al. 2007*; Viana & Lombardi, 2007.
AMÇ = Ameaçadas; PRE = Presumivelmente ameaçadas (Mendonça & Lins, 2000).

N° ESPÉCIES N° ESPÉCIES
Família Gêneros Espécies AMÇ PRE Família Gêneros Espécies AMÇ PRE
Pteridófitas* Campanulaceae 2 2
Aspleniaceae 1 1 Clusiaceae 2 2
Blechnaceae 1 3 Convolvulaceae 4 7
Cyatheaceae 1 2 Cunoniaceae 1 1
Davallinaceae 1 1 Ericaceae 2 3
Dryopteridaceae 1 1 Erythroxylaceae 1 3
Grammitidaceae 1 1 Euphorbiaceae 5 10
Hymenophyllaceae 1 1 Fabaceae 12 18
Lomariopsidaceae 1 1 Gentianaceae 1 1
Lycopodiaceae 2 2 Gesneriaceae 3 4 2 1
Polypodiaceae 4 5 Humiriaceae 1 1
Pteridaceae 2 3 Hypericaceae 1 4
Magnoliídeas Lamiaceae 4 9
Annonaceae 1 2 2 Loganiaceae 1 2
Aristolochiaceae 1 1 Loranthaceae 2 2
Lauraceae 2 4 2 1 Lythraceae 3 5
Piperaceae 1 3 Malpighiaceae 5 10
Monocotiledôneas Malvaceae 4 5
Alstroemeriaceae 1 1 Melastomataceae 8 23
Amaryllidaceae 2 2 Meliaceae 1 1
Araceae 2 4 Moraceae 1 1
Bromeliaceae 6 13 2 Myrsinaceae 1 3
Commelinaceae 2 2
Myrtaceae 10 28
Cyperaceae 7 13
Nyctaginaceae 1 3
Dioscoreaceae 1 1
Ochnaceae 1 1
Eriocaulaceae 2 2
Olacaceae 1 1
Iridaceae 2 3
Onagraceae 1 1
Juncaceae 1 1
Orobanchaceae 1 1
Orchidaceae 16 28 1 2
Passifloraceae 1 5
Poaceae 14 30
Phyllanthaceae 1 3
Smilacaceae 1 2
Phytolaccaceae 1 1
Velloziaceae 2 11
Polygalaceae 1 1
Xyridaceae 1 1
Polygonaceae 1 2 1
Eudicotiledôneas
Portulaccaceae 1 2
Acanthaceae 3 3
Rosaceae 1 1
Anacardiaceae 1 1
Apiaceae 1 2 Rubiaceae 10 16
Apocynaceae 8 13 2 Salicaceae 2 3
Aquifoliaceae 1 2 Santalaceae 1 1
Araliaceae 1 2 Sapindaceae 3 5
Asteraceae 32 59 7 9 Solanaceae 6 17 1
Begoniaceae 1 2 Verbenaceae 3 10
Bignoniaceae 3 3 Violaceae 1 1
Boraginaceae 1 1 Vitaceae 1 2
Cactaceae 1 1 1 Vochysiaceae 1 1
Celastraceae 1 1 Famílias 86 250 458 18 16

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