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www.serradopilar.com | Ramos na Paixão, 28.03.

2021 | ano 46º | nº 2 2 1 4

Deus
e a dor
do mundo
segundo o teólogo JÜRGEN MOLTMANN,
toda a d or do mun do foi assu mida pela dor do
P a i , n a en treg a do F i lh o e n a fo rça d o E sp í r i to .
O comentário é de F R A N C E S C O S T R A Z Z A R I , teólogo e padre da
Diocese de Vincenza, na Itália. O artigo foi publicado em Settimana
News, 29-03-2020.

Nestes tempos de coronavírus, ouve-se tudo e mais alguma coi-


sa… Por exemplo, o bispo de Cuernavaca (México), Ramón
Castro, numa homilia dominical – não numa entrevista, ou numa
conferência ou debate –, disse que Deus estava irritado por os
homens terem aberto o caminho ao aborto, à eutanásia e a diver-
sidade sexual. Trouxe à baila os furtos, a corrupção, a violência,
mas não o tráfico de drogas.
É evidente que o atual pastor da diocese de Cuernavaca não é,
nem sequer, uma pálida sombra do mítico M ÉNDEZ A RCEO , que
esteve à frente da diocese de 1953 a 1983, uma das figuras mais
prestigiadas do Concílio Vaticano II. Basta pensar no seu apoio à
Teologia da Libertação e ao Centro Cultural de Documentação
(CIDOC) do filósofo Ivan Illich, que teve muitos problemas com
o Vaticano.
O brado do bispo Ramón Castro, que afirmou ser o “grito de
Deus”, não está, com certeza, na linha da intervenção do conhe-
cido jesuíta James Martin, que, no New York Times do dia 22 de
março, lançou a seguinte pergunta: onde está Deus no meio des-
ta pandemia?

O Deus crucificado com o jejum eucarístico, as missas


Seja-nos permitido incomodar o sem participação coral, os ritos
grande teólogo reformado, (noven- mais significativos do ano litúrgico
ta e três anos), JÜ RG EN (o Tríduo Pascal).
MO LT MA NN que, nos anos O teólogo Rosino Gibellini recorda,
setenta do século passado, levan- em “Antologia del Novecento Teo-
tou a questão: Deus e a dor do logico” [Antologia do Século XX
mundo, um tema clássico, desde Teológico] (Bréscia: Queriniana,
sempre presente na reflexão teoló- 2011, p. 203), que, já no século IV,
gica, voltou à tona nestes tempos São Basílio, nas homilias da ma-
de coronavírus, não questionando, turidade, falava deste tema, como
apenas, os teólogos, mas também um “problema frequentemente
as comunidades cristãs, que lidam debatido”.
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Nos tempos modernos, o filósofo intimamente, conectado com a
alemão Leibniz (1646-1716) abor- esperança.
dou-o nos “Ensaios de teologia” O sofrimento de Deus
(1710). Como se pode conciliar a
M OLTMANN é o principal artífice
omnipotência de Deus e a sua bon-
da Teologia da Esperança, que
dade, com a presença do mal e da
o teólogo evangélico já havia deli-
dor no mundo? Como se pode jus-
neado em 1964, quando ensinava
tificar a existência de Deus diante
teologia sistemática em Bona, e
do sofrimento?
que continuaria a lecionar na Uni-
Nestes nossos tempos, o filósofo- versidade de Tübingen, a partir de
teólogo espanhol Andrés Tor- 1967, dando vida e corpo à cristo-
res Queiruga, fez do assunto o logia escatológica, que pode ser
objeto de valiosas argumentações. resumida na célebre expressão: na
Os seus textos sobre este tema, são ressurreição de Cristo estão lança-
os mais importantes e significati- das as bases do futuro da humani-
vos, no horizonte teológico atual. dade. Isso, especialmente, depois
Nenhum teólogo do século XX – de Auschwitz, com a inquietante
que conheceu Auschwitz, pergunta: que teologia depois de
Hiroshima, o Arquipélago Gu- Auschwitz? “O Deus crucifica-
lag – deu uma contribuição tão do” – observa M OLTMANN – dá
importante e decisiva quanto o profundidade e radicalidade à es-
teólogo M OLTMANN , com a obra perança, introduzindo no movi-
“O Deus crucificado” (1972). É mento messiânico a história da
uma reflexão que se enraíza na paixão humana.
Bíblia, atravessa a filosofia e a teo- Observa M OLTMANN : a cruz deve
logia, interpela a vida quotidiana ser entendida em termos trinitá-
do sofrimento e da morte de tantos rios. “Toda a história humana,
inocentes, vítimas de guerras ab- por mais marcada que esteja
surdas, de ideologias demoníacas, pela culpa e pela morte, é su-
de comportamentos desumanos. perada nessa ‘história de
O centro da reflexão de M OLT- Deus’, quer dizer, na Trinda-
MANN é o envolvimento de Deus na de, e integrada no futuro da
paixão do mundo. A cruz é vista e ‘história de Deus’. Não existe
interpretada como um “aconteci- nenhum sofrimento que, não
mento de Deus”, como “história de seja sofrimento de Deus, as-
Deus” e, consequentemente, como sim como não existe nenhuma
“história da história humana”. A morte que se não tenha tor-
conclusão é que a história humana nado morte de Deus na histó-
é Deus. “O Deus crucificado” está, ria do Gólgota. Por isso, muito
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menos existirão vida, felici- sinados e dos gaseados; somente
dade e alegria que não sejam com a cura dos angustiados e mar-
integradas, mediante a sua tirizados em vida; somente com a
história, na história eterna, demolição de todo o poder e domí-
na alegria infinita de Deus” nio, com a aniquilação da morte, o
(“O Deus crucificado”, p. 288). Filho entregará o reino ao Pai,
“Pensemos nos mártires”: escreve como Paulo afirma em 1 Corín-
M OLTMANN (1972). “A propósito tios 15. Então, Deus transformará
dessas pessoas, dessas vítimas a própria dor em alegria eterna.
mudas, só podemos dizer, em sen- É nestes termos que se anunciam o
tido realmente figurado, que o cumprimento da história trinitária
próprio Deus pende da forca” (re- de Deus e o fim da história do
ferência à cena descrita por Elie mundo, a superação do sofrimento
Wiesel, “La Nuit”, 1950). e a realização da história de espe-
E, se o afirmarmos com seriedade, rança da humanidade.
também teremos de acrescentar Deus em Auschwitz e Auschwitz
que, tal como a cruz de Cristo, em Deus: esse é o fundamento de
também o campo de concentração uma esperança real, que abraça a
de Auschwitz se encontra no pró- realidade do mundo e triunfa sobre
prio Deus, ou seja, foi assumido na ela, e é, também, a razão de um
dor do Pai, na entrega do Filho e na amor que é mais forte do que a
força do Espírito. morte, e que pode “manter parado
O que não implica a menor justifi- o mortuum” (expressão hegeliana
cação para o que aconteceu naque- que indica a força de resistência a
le campo de concentração, para as tudo o que dissolve e aniquila) (cf.
atrocidades sofridas por todas “O Deus crucificado”, pp. 325-
aquelas vítimas, porque a própria 327).
cruz marca o início da história Haverá uma teologia pós-
trinitária de Deus. Somente com a pandemia? A interrogação já circu-
ressurreição dos mortos, dos assas- la por aí.

Sobre o teólogo J URGEN M OLTMANN ver as FOLHA DOMINICAL (FD)


DA SERRA DO PILAR:
FD nº 1392 — A P AIXÃO : P OR UMA SOCIEDADE SEM VÍTIMAS
FD nº 1579 — B ISPOS ESQUECEREM O V ATICANO II É UMA VERGONHA !
FD nº 1941 — UMA ESPIRITUALIDADE ECUMÉNICA VIVIDA HOJE . D IÁLOGO
ENTRE H ANS K UNG E J URGEN M OLTMANN
FD nº 1979 — O D EUS DA E SPERANÇA E O NOSSO F UTURO
FD nº 2098 — A QUELES GESTOS QUE ATESTAM A GRANDEZA DA VIDA
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Cristo
não sai este ano
em procissão?

Quem inventou essa história,


que Cristo este ano não sai?
Se Ele está vestido de branco,
de azul ou de verde, nos hospitais?

Quem disse que o Nazareno não pode fazer penitência,


se estão todos atendendo os doentes nas urgências?

Como é que o Senhor dos Passos não sairá na Semana Santa?


Olha para Ele nos nossos médicos que sucumbem rendidos, exaustos,
como humildes cireneus, ajudando a cada passo:
socorristas, enfermeiros, pessoal administrativo,
lado a lado, sem descanso.

Como outrora, numa jumentinha, passou Jesus pela terra.


Assim nossos heróis caminhantes passam as noites velando,
para abastecer mercados de bairro, farmácias, lojas…
O exército, a polícia, patrulham ruas desertas,
não estão com suas famílias, mas a cuidar das nossas.

E longe das cidades Jesus Cristo,


verga-se sobre os sulcos da terra,
lança-se no mar num barco,
estende cabos, abre poços e pastoreia o gado.
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Ninguém diga que o Senhor não está nas ruas presente,
quando nas igrejas solitárias,
os sacerdotes celebram missa todos os dias.

Ninguém diga que Jesus Cativo não vai sair este ano,
enquanto houver uma voz boa clamando pelo que está preso.
Ninguém diga que Jesus do Grande Poder não vai sair no seu andor,
quando tantas vidas orantes se oferecem e amam.

Com cansaço no olhar,


com bom humor, sem falhar,
também Cristo está presente
em qualquer supermercado,
repondo as prateleiras,
ou junto à caixa cobrando.

Jesus vem no camião de branco e verde pintado,


recolher o nosso lixo, e vai-se sem ser notado.

Quando vejo tanta gente que os seus já enterrou,


sinto que também saiu a Senhora da Piedade, do bairro de baixo,
a Virgem das Angústias, com seu Filho no regaço.

E mesmo que a todos nos assuste


passar pelo Santo Sepulcro,
é aí que está a fortaleza d’Aquele que venceu o mundo.

Talvez não haja procissões com imagens esculpidas,


mas, olha, Cristo sai ao encontro da tua vida,
em mil rostos escondidos, sem velas nem sinos.
Mesmo não havendo procissões,
permanecerá o cheiro do incenso que faz bem à nossa gente.

O amor transpõe os muros,


o coração não se encerra.
Será uma Semana Santa, mais que nunca verdadeira.

D. CARLOS CASTILLO MATTASOGLIO.


Arcebispo de Lima e Primaz do Perú
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Jesus
perante a sua Morte

J
esus previu seriamente a sua vida foi «desviver-
possibilidade de uma morte se» pela causa de
violenta. Talvez não contasse com a Deus e ao serviço
intervenção da autoridade romana ou a libertador dos
crucificação como o último destino mais homens. A sua morte
provável. Mas não se Lhe ocultava a reação selará agora a sua
que a Sua atuação estava a provocar nos vida. Jesus morrerá
sectores mais poderosos. O rosto de Deus por fidelidade ao Pai e
que apresenta desfaz demasiados por solidariedade com
esquemas teológicos, e o anúncio do Seu os homens.
reinado quebra demasiadas seguranças
Em primeiro lugar,
políticas e religiosas.
Jesus enfrenta a sua
No entanto, nada muda a sua atuação. Não própria morte a partir
ilude a morte. Não se defende. Não de uma atitude de
empreende a fuga. Tampouco procura a total confiança no Pai.
sua perdição. Não é Jesus o homem que Avança para a morte,
procura a Sua morte em atitude suicida. convencido de que a
Durante a sua curta estadia em Jerusalém, Sua execução não
esforça-se por se ocultar e não aparecer em poderá impedir a
público. chegada do reino de
Deus, que continua a
Se queremos saber como Jesus viveu a sua
anunciar até ao final.
morte, devemos deter-nos em duas
atitudes fundamentais que dão sentido a Na ceia de despedida,
todo o seu comportamento final. Toda a Jesus manifesta a sua
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total fé de que voltará a comer com os Seus Por outro lado, Jesus
a Páscoa verdadeira, quando se estabeleça morre numa atitude
o reino definitivo de Deus, por cima de de solidariedade e de
todas as injustiças que possam cometer os serviço a todos. Toda
humanos. a sua vida consistiu
em defender os
pobres frente à
desumanidade dos
ricos, em solidarizar-
se com os débeis
frente aos interesses
egoístas dos
poderosos, em
anunciar o perdão aos
pecadores frente à
dureza inamovível dos
«justos».

Agora sofre a morte


de um pobre, de um
abandonado que nada
pode ante o poder dos
que dominam a Terra.
E vive a sua morte
como um serviço. O
Cristo crucificado, do Mestre José Rodrigues (1936-2016).
último e supremo
Quando tudo fracassa e até Deus parece serviço que pode fazer
abandoná-Lo como a um falso profeta, à causa de Deus e à
condenado justamente em nome da lei, salvação definitiva
Jesus grita: «Pai, nas Tuas mãos ponho a dos seus filhos e
Minha vida». filhas.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA


Ramos – B (Mc 14, 1 – 15, 47)
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