Você está na página 1de 175

JOSY STOQUE JULIANA MENDES

Edição Digital
2018
Copyright @ 2018 Josy Stoque e Juliana Mendes
Imagem de capa: Volodymyr Tverdokhlib
Direitos de Imagem cedidos por Shutterstock 2018
ÍNDICE

PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
EPÍLOGO
SOBRE AS AUTORAS
CONHEÇA EDUARDO, FERNANDO E EU
“Quando o impossível já foi eliminado, o que sobra,
por mais improvável que pareça,
só pode ser a verdade.”
ARTHUR CONAN DOYLE
PRÓLOGO

Jeane acorda tossindo, assustada, sentindo as grossas gotas de chuva entrando pela sua
boca, batendo em seus dentes e escorregando até a garganta. Ela passa a língua nos lábios de
forma automática e abre os olhos devagar, se ambientando aos poucos, precisando virar o rosto
para tentar enxergar alguma coisa ao redor. O cheiro de grama molhada se mistura a um odor
ocre, parecendo ferrugem. Ela aperta os dedos na terra úmida e um arrepio de dor sobe até os
cotovelos. Tenta mexer as pernas em seguida, em vão, pois parecem pesar mais do que uma
tonelada. Sente o pé direito latejar continuamente, enquanto percebe que um dos olhos parece
estar um pouco mais fechado do que o outro.
Ela não sabe onde está, nem tampouco como foi parar naquele lugar. Ao que parece, trata-
se de uma mata aberta, mas é impossível ter certeza. Jeane não consegue ouvir nada além da
chuva pesada, que teima em cair, cada vez mais forte. Esforça-se para resgatar a mínima
lembrança que a ajude a entender o que está acontecendo, mas uma profusão de pensamentos
desordenados passa pela sua cabeça, em um flash rápido de memória. É mais um misto de
sensações do que acontecimentos reais.
Jeane aperta os olhos, apavorada. Ainda pode sentir os socos lhe tirando o ar, a dor
excruciante passeando pelos seus nervos, o medo, os olhos arregalados e o corpo pequeno,
encolhido, esperando pelo próximo golpe. E a certeza desesperadora de que o mesmo viria.
A sua última visão, antes de perder os sentidos, foi o chão empoeirado. Disso se recorda
bem. Mas, ainda assim, não é essa a lembrança mais pungente. Ela não consegue esquecer a
nítida sensação de morte pela qual acabou de passar. Jeane sentiu o que tantas outras antes dela
devem ter experimentado: a certeza absoluta de que aqueles seriam seus últimos momentos.
Vislumbrou o fim, impiedoso, implacável, esperando do outro lado da parede. E sem o mínimo
de esperança, algo que talvez algumas tivessem, já que ela viu, mais de uma vez, toda a
crueldade da qual ele era realmente capaz.
Então, por que, afinal, ela foi poupada? A morte é, para ele, algo muito natural, um prazer
sádico, sexual, pulsional. Ela viu o brilho em seus olhos diversas vezes, a sua empolgação quase
infantil quando conseguia o último suspiro de mais uma vítima. Jeane leva a mão ao pescoço,
com dificuldade, apalpando-o de cima a baixo. Nenhum sinal do sufocamento costumeiro, sequer
um local está dolorido naquela região de seu corpo. Ele realmente não tentou matá-la. Até
porque, ele não tenta, simplesmente faz. Executa. Elimina.
Por algum motivo desconhecido, ele não a quis em sua coleção. Jeane não foi capaz de
provocar nele o desejo suficiente para que, tirar a sua vida, fosse razão de tamanho prazer. Terá
sido por ter tentado agradá-lo de todas as maneiras, sempre a fim de sobreviver mais um dia,
uma hora que fosse? Por ter aguentado tanto, por um tempo maior do que poderia imaginar que
seria capaz? Ela temia o próprio destino, a cada segundo em sua companhia. E sabia que o seu
sorriso era sincero ao vê-la realizar algo que o deixasse satisfeito.
Ele não lhe tirou a vida, por mais que os dias passassem. E Jeane precisou retribuir, de
alguma forma, sua “generosidade”, mantendo-o vivo, ativo e feliz, ainda que sua contribuição
não fosse direta. Afinal, “tudo tinha uma razão de ser”. “Cada vítima tem um papel na
construção de algo maior”. Era isso o que ele dizia, e era nisso que ela era obrigada a acreditar.
De repente, a realidade lhe bate com força, junto com a chuva impiedosa, que aumenta,
minuto a minuto. Jeane começa a chorar compulsivamente, e seu corpo dolorido sacode em
fortes espasmos. Não sabe precisar o que sente, o que quer, o que houve. Um monte de dúvidas
permeiam a sua cabeça, implacáveis, deixando-a ainda mais perdida. Que pessoa, afinal, era ela?
Em quem se transformou? Até onde poderia ter ido para evitar tudo o que aconteceu? O quanto
era culpada? Ou ela era apenas mais uma vítima? Do destino, da vida, de alguém cruel demais
para ser chamado de ser humano. E, por fim, a pergunta mais gritante de todas: como pode
chegar ali, se sequer conseguiu se defender do primeiro tapa, tamanha a sua surpresa quando
sentiu a mão quente no seu rosto?
A sensação de ser lavada pela chuva não existe. As gotas parecem mais lhe dar uma surra,
como se fossem pequenas agulhadas tortuosas. Ela é tomada por uma forte sensação de enjoo,
quase não tendo tempo de virar o rosto de lado, para não se afogar no próprio vômito, que vem
quente e imediato.
Mais uma vez.
Jeane quase se pergunta se em algum momento vai parar de vomitar, quando o barulho de
uma sirene, antes longínquo, se aproxima, parecendo estar cada vez mais perto.
Ela se apoia nos cotovelos, quando ouve o som de passos apressados na grama. Esforça-se
para se concentrar e procurar de onde vem, mas as vistas embaçam e sua pressão cai,
consideravelmente. Jeane finalmente perde a força nos braços, e seu corpo simplesmente desaba
novamente.
Antes de perder de vez os sentidos, ela passa a língua nos dentes, a tempo de constatar que
não lhe falta nenhum. E finalmente desmaia, com uma frase martelando em sua cabeça, de
maneira cruel e insistente:
Ele não me quis.
CAPÍTULO 1

Santiago anda de um lado para o outro de seu santuário particular, que muitos chamam de
lar, porém, para ele, é mais do que isso. O sobrado antigo, com degraus que rangem e papel de
parede envelhecido, é o lugar onde construiu uma história de realizações e vitórias, assim como
derrotas e vícios. A desordem generalizada do ambiente combina perfeitamente com a mente em
constante profusão do detetive.
Naquela semana, havia rejeitado três casos fáceis demais para o seu brilhantismo,
solucionados durante a primeira entrevista, e muito entediantes para ganhar seu interesse. A
polícia local não o consultava há pelo menos cinco dias, deixando-o em um estado completo de
desespero e ócio. O detetive particular precisa de um caso que o ocupe nas próximas horas, ou
fará um buraco no assoalho do térreo da casa.
Ele se cansa de andar, senta-se em sua poltrona favorita e acende um novo cigarro, mesmo
que tenha acabado de apagar o último. O cheiro do tabaco está impregnado no ar e ele aspira
como um viciado em pó. Seu nível de ansiedade sobe junto com os batimentos cardíacos,
acelerados pelos efeitos dos estimulantes contidos no cigarro. Fecha os olhos e se imagina
utilizando drogas mais pesadas, mas logo os reabre, antes que ceda à tentação.
Faz um ano, nove meses e vinte e sete dias que está limpo, mas quem está contando?
Desde o tempo em reabilitação, após ser cortado do quadro de funcionários da Delegacia,
Santiago não teve nenhuma recaída, mas não consegue largar o cigarro. Seu irmão mais velho
tentou convencê-lo a usar adesivos de nicotina, no entanto, não se adaptou à mudança, por mais
que tentasse. Também não é um fumante inveterado, só precisa se ocupar que tudo volta ao
normal.
Normalidade, definitivamente, não combina com o detetive particular. Ele não é um
homem comum, e pessoas comuns — mundanas, como costuma denominá-las — o entediam. É
tão fácil lê-las, mesmo quando fingem serem outras pessoas, que relacionamentos se tornaram
raridade em sua existência. Além do irmão — com quem mantém uma relação distante —, a
única pessoa que conquistou seu afeto verdadeiro foi o seu melhor amigo e parceiro que morreu
durante uma operação da polícia, e essa perda desencadeou seu vício em heroína e o consequente
afastamento da corporação.
Desde então, Santiago se fechou para novos relacionamentos, que já não eram uma
constante em sua vida agitada e fora do comum. É difícil para ele se relacionar com pessoas que
não gostam de ser enxergadas como verdadeiramente são. Normalmente, os seres humanos
preferem esconder seus segredos, e nada, absolutamente nada passa despercebido aos olhos do
detetive particular. Fora o fato de ele não ter tato para lidar com sentimentos e ser diagnosticado
como sociopata funcional, ou seja, tem dificuldade em sentir empatia, mas por ser consciente,
está longe de ser um perigo para a sociedade.
Seu problema de comportamento o ajuda a compreender a mente de psicopatas, e isso o
transformou no melhor ativo que a polícia da grande metrópole onde nasceu e reside poderia ter
— e ainda tem, através de suas consultas não remuneradas — para solucionar crimes
insolucionáveis. As charadas deixadas por criminosos, desde as pequenas às grandes pistas, são
os desafios diários que sua mente sedenta por estímulos necessita. Que pode ser considerado um
vício ainda maior do que a heroína. No entanto, manter-se focado em um caso o ajuda, inclusive,
em sua recuperação como dependente.
Santiago encara a parede da sala, na qual pistas de crimes que não conseguiu solucionar
ainda continuam fixadas ao redor da lareira, como lembretes de seu fracasso. Está prestes a
mandar mais um SMS ao chefe da polícia em busca de um caso, quando uma notícia na televisão
chama a sua atenção. O aparelho está ligado no canal de notícias vinte e quatro horas, assim
como o rádio está sintonizado no canal da polícia, que também avisa sobre uma ocorrência.
Enquanto ouve as duas informações ao mesmo tempo e seu supercérebro compila os dados,
levanta-se de um pulo, largando o cigarro aceso no cinzeiro, e caminha a passos largos até a
porta, onde seu casaco o aguarda. Enquanto o veste, depois de enrolar seu cachecol no pescoço,
pede um táxi pelo aplicativo do celular, e sorri para a tela quando uma mensagem do chefe de
polícia vem tirá-lo do tédio no qual se afogava.

“Hipólito, temos um caso que precisa de sua expertise, me encontre no hospital”.

Na sequência, o chefe envia a localização do hospital no qual quer a presença do detetive,


que já bate a porta da frente da casa, ganhando a calçada e erguendo a lapela do casaco para se
proteger da chuva torrencial que banha a metrópole neste momento. Os pingos grossos ensopam
seu cabelo, tornando-o um pouco mais rebelde do que já é. Santiago não se preocupa em ter uma
aparência um pouco desleixada.
O carro, que logo identifica como sendo sua carona, para no meio fio em frente ao seu
endereço. Sem confirmar a identidade do motorista antes, o detetive salta para o banco de trás do
automóvel, pedindo pressa para chegar ao seu destino. O taxista deixa de sorrir ao perceber que o
cliente comete um erro inaceitável para a empresa na qual trabalha.
— Desculpe, senhor Santiago, mas o senhor precisa alterar o endereço no aplicativo. São
normas da empresa para a sua própria segurança.
Santiago revira os olhos, exasperado com a inutilidade daquele pedido.
— Tenho certeza de que o senhor não é um serial killer à procura de uma vítima — força
um sorriso nada gentil e volta a digitar freneticamente no celular. — Como deseja, o endereço
está atualizado. Pode se apressar, por favor? Sua esposa não vai gostar que o senhor chegue
atrasado para o jantar.
O motorista encara o detetive pelo retrovisor central, intrigado.
— Como o senhor sabe que...
Enfadado, Santiago interrompe a pergunta óbvia do taxista.
— Dirija enquanto eu explico, por gentileza — salienta, antes de começar um discurso
ininterrupto, que despeja sobre o pobre, sem nem mesmo respirar direito. — Sua aliança está
desgastada, o que me diz que o senhor é casado há um bom tempo. Sua atitude correta quanto
aos procedimentos do seu trabalho me garantem que o senhor também é um homem de hábitos
enraizados, seguidor das regras sociais. E, por fim, sua postura um pouco encurvada e seu tom
baixo e quase suplicante de voz sugerem uma personalidade submissa, inclusive aos mandos de
uma esposa autoritária e exigente. Corrija-me se eu estiver errado, por favor.
Chocado, o motorista abre a boca para dizer alguma coisa, mas desiste. Santiago o ignora
pelo restante do caminho até o hospital, assim como o próprio taxista o faz, mantendo-se distante
e mais cabisbaixo do que nunca. Às vezes é irritante estar sempre certo, nunca sou surpreendido,
pensa o detetive, ansioso por chegar ao seu destino e sair do tédio que lhe corrói por dentro,
como uma úlcera.
Quando o táxi desacelera em frente ao hospital, Santiago salta do carro em movimento,
correndo sob a chuva, e adentrando a recepção. Passa as mãos pelo cabelo molhado a fim de
desgrudá-lo do rosto, e agita a lapela do casaco ensopado para remover o excesso de água. Poças
se formam sob suas passadas, conforme caminha em direção do chefe de polícia, que nunca se
lembra do nome.
— Hipólito — cumprimenta o chefe.
— Lovat — pelo menos o sobrenome e a formalidade jamais são esquecidos por Santiago,
que leva a sério as normas da sociedade. — Em que posso ajudá-lo?
Ambos se conhecem a uma década, desde que Santiago entrou para a polícia, até ser
expulso. Como respeita as habilidades excepcionais do colega, mesmo após a reabilitação,
Gregório — o primeiro nome do chefe de polícia — conseguiu autorização de superiores para
que o detetive particular pudesse ser consultado em casos mais complexos, no qual sua destreza
com deduções pode mostrar uma saída, antes inimaginável.
— Lembra-se do caso do Dentista? — Gregório acena para que ele o siga enquanto fala.
— Sim — ao responder, Santiago acompanha o chefe de polícia. — Esse nome que a
imprensa deu ao serial killer é ridículo.
Gregório ignora o comentário ácido do detetive.
— Recebemos uma chamada avisando sobre um corpo na floresta, mas, quando chegamos
lá, a vítima estava viva, apesar de desacordada. O laudo do clínico aponta inúmeros
espancamentos, o que causou o desmaio, mas não o suficiente para levá-la à morte. Inclusive,
nenhum dente falta em sua boca.
— Então, o que tem a ver com o Cara do Dente? — é como Santiago prefere chamar o
assassino em série. — Ele sufoca as vítimas com as mãos, enquanto elas afogam no próprio
sangue, por causa do dente extraído.
O detetive particular nunca se esquece de um caso não resolvido. É como uma mosca,
irritante, rondando sua mente. E não importa o inseticida que use, ela não morre.
Por outro lado, o que impressiona o chefe de polícia é a frieza com que Santiago narra o
modus operandi do serial killer, como se contasse uma mera casualidade.
— Nada, a não ser o depoimento dela, que diz ser a primeira vítima do Dentista, presa em
seus domínios há dez anos.
Santiago, um verdadeiro aficionado por quebra-cabeças, não deixa aquele mistério passar
despercebido, porém, sua reação é completamente inesperada, do ponto de vista de Gregório.
— Interessante — diz com um ar conspiratório e reflexivo. — Ela já foi identificada?
— Sim, confirmamos sua identidade através do DNA e das digitais, só por garantia. — O
chefe abre um bloco de notas e lê: — Doutora Jeane Werner, desaparecida após deixar o hospital
ao final de um plantão de trinta e seis horas, na data que ela informou.
— Parece um caso simples, Lovat. Por que estou aqui?
— Você vai entender assim que olhar para ela.
Gregório acena para os dois policiais postados na porta de um dos quartos e a abre,
fazendo sinal para que Santiago entre na sua frente. O detetive particular só precisa de um
segundo para entender o que o chefe de polícia quis dizer com suas últimas palavras. A doutora
Werner está deitada na cama do hospital, cercada por paredes e lençóis brancos, tal qual a
palidez de seu rosto seria, se não fossem os inchaços e hematomas roxos e vermelhos espalhados
por sua pele.
Um segundo olhar sobre a moça o intriga ainda mais. Seus olhos se encontram e ele
percebe um breve e trêmulo sorriso, que se estende de seus lábios. Santiago vê a mais nítida e
pura esperança, brilhando como um raio de sol ao abrir passagem entre as nuvens, após uma
tempestade.
Lovat tem razão. Essa mulher não se parece com nenhuma das vítimas do Cara do Dente,
nem fisicamente, nem na postura. E por que ele a teria poupado? O que a doutora tem de tão
especial para ter sobrevivido por dez anos nas mãos de um psicopata? Ou a pergunta certa
seria: o que ela não tem?, divaga o detetive, no segundo que precede sua conclusão sobre a
breve análise da mulher deitada na cama hospitalar.
— Fascinante! — sua voz sai vibrante e potente, espelhando a euforia diante do novo
desafio que se apresenta ao destemido detetive.
CAPÍTULO 2

Jeane se esquece de todos os policiais ao seu redor, quando seus olhos encontram os do
homem alto e encharcado que entra pela porta do seu quarto. Por alguns segundos, esquece-se de
respirar, e apenas o som dos aparelhos aos quais está conectada se torna audível.
Não que o estranho seja grande coisa para deixá-la tão surpresa, ao ponto de ficar sem
reação. Ele é um tipo ordinariamente comum. Alto, esguio, com o cabelo escuro e um pouco
maior e mais desgrenhado do que deveria, para alguém vestido tão demasiadamente formal e
antiquado. Charmoso, talvez, mas um homem que provavelmente Jeane nem olharia se passasse
por ela na rua.
Desde que seus olhos não se encontrassem, obviamente.
Ela percebe o sujeito esquadrinhando cada detalhe que pode do cenário em que se
encontra. Ele é sagaz, nitidamente. Esperto, intrigante, com um olhar capaz de captar mais do
que um homem ordinariamente comum, tipo ao qual Jeane o atribuiu. Ela sorri, pois sabe bem
que não fica atrás e percebe que, àquela altura, ele já identificou todos os seus hematomas e
analisou a gravidade de cada um deles. E, neste momento, deve estar se perguntando sobre o
motivo de ela ser a única vítima poupada por um implacável serial killer.
Pergunta que ela faz a si mesma, repetidamente.
Ainda assim, Jeane sustenta o olhar do sujeito sem se deixar intimidar, até que ele, após
encará-la, pisca e desvia os olhos para o chefe de polícia, no momento em que o mesmo decide
fazer as honras.
— Senhorita Werner, esse é o detetive Santiago Hipólito. Ele irá nos acompanhar durante
as suas declarações e trabalhará como consultor na investigação do seu caso.
Jeane endireita o corpo e sacode o cabelo castanho comprido e cacheado, jogando-o por
sobre um dos ombros.
— Muito prazer, detetive — ela diz com a voz firme e melodiosa, sem estender a mão para
Santiago. Ele, por sua vez, apenas faz um aceno com a cabeça, dando a volta e se sentando no
sofá, que fica posicionado exatamente ao lado da cama de Jeane.
— Vamos começar logo com isso — o detetive diz, cruzando as pernas, juntando as mãos
em cima do joelho e voltando a encará-la.
— Se importa se eu gravar a nossa conversa? Como a senhorita não quer falar com o
escrivão, eu preciso de algo que me permita acessar as suas declarações depois — o chefe de
polícia pergunta, cauteloso.
— À vontade — ela diz, estendendo a mão com cortesia. — Apenas não quero gente
demais aqui dentro. Sinto-me sufocada.
Imediatamente Jeane percebe o detetive Santiago levantando uma das sobrancelhas. Ele
está atento a cada gesto e palavra. É, parece que o cuidado que deve tomar terá de ser redobrado
diante de um homem tão irritantemente ardiloso. E o pior disso é que ela gosta. Para Jeane,
pessoas comuns são tediosas.
Após colocar o próprio celular em modo de gravação, Lovat se posiciona nos pés da cama
da testemunha.
— Vamos começar. A senhorita confirma a própria identidade como a de Jeane Werner?
— Sim — ela responde de imediato.
— Pode me dizer o seu nome completo, profissão, idade e data do desaparecimento?
— Meu nome é Jeane Hanna Werner. Sou clínica geral, tenho trinta e seis anos e fui
sequestrada no dia dezoito de julho de 2007.
— Certo. Sabe que dia é hoje?
— Dezoito de julho de 2017.
— Quantos anos a senhorita tinha quando desapareceu?
Ela dá um suspiro impaciente.
— Ora, senhor Lovat, se não sabe efetuar uma subtração simples dessas, não deveria estar
ocupando o cargo que ocupa.
Gregório cora, abaixando um pouco os olhos. Jeane pode ver, de rabo de olho, um esboço
de um sorriso irônico nos lábios de Santiago.
— Eu estou testando a sua orientação, senhorita. Você passou por um grande trauma, e
precisamos saber até onde as suas informações são confiáveis.
— Senhor Lovat, me diga uma coisa: há quanto tempo vocês procuram o Dentista? —
Jeane pergunta, fazendo o rosto de Santiago se contorcer pela menção ao apelido dado pela mídia
para o assassino.
— Há nove anos — Gregório responde, nitidamente encabulado.
— E quando foi que chegaram mais perto de descobrir alguma coisa realmente
significativa?
O chefe pensa um pouco, antes de responder:
— Ele não é um assassino padrão, a prova disso é que a senhorita está aqui, respirando e
sem marcas no pescoço.
— E com todos os dentes — Santiago acrescenta, com o dedo em riste, quase sorrindo.
Jeane olha de um para o outro, antes de curvar o corpo na direção do chefe de polícia e
sussurrar:
— Então, o que o senhor perde por me ouvir? O que eu tenho para contar, ainda que seja
confuso ou que haja alguma coisa que fuja do que realmente aconteceu, é mais do que já teve
acesso até hoje.
Dessa vez, o detetive particular não disfarça e dá uma risada, atraindo um olhar severo de
Gregório Lovat.
— Muito bem, senhorita Werner, como você e o senhor Hipólito parecem estar se
divertindo, vou permitir que ele faça as honras.
Eles encaram o chefe de polícia sem entender, até que Lovat, impacientemente, estala os
dedos para Santiago.
— Você vai pegar a declaração da vítima.
— Testemunha — o detetive corrige, quase imediatamente, sem o menor constrangimento.
— Que seja — Gregório diz, irritado, pegando o seu celular e colocando de volta no bolso.
— Eu vou cuidar das evidências e outros detalhes da cena do crime. Fiquem à vontade. — Assim
que termina a fala, sai do quarto e bate a porta, com um pouco mais de força do que deveria.
Santiago e Jeane, que encaravam a saída, agora se olham. Estão sozinhos e prestes a se
enfrentar, sem saber o que lhes aguarda. Ela percebe, na figura segura e altiva de Santiago, um
quê de vulnerabilidade que não sabe dizer de onde vem. E nem importa. Basta existir para que
ela possa se agarrar.
Jeane precisa se proteger a todo custo, pois sabe que pode ter ironicamente sobrevivido
apenas para pagar pelos pecados alheios. Ou seriam os seus próprios? Ela ainda se lembra da
pancada na cabeça, no estacionamento do hospital. Quase que por reflexo leva a mão à nuca,
tendo os olhos cheios d'água. Dez anos depois e a dor está ali, latente, inesquecível. O porta-
malas de um carro foi a sua última morada antes do cativeiro. O local na qual foi mantida por dez
anos. Dez longos anos. Onde parte significativa da sua juventude lhe foi tirada.
Quando se formou em medicina ainda tão nova, Jeane pensava em qual residência gostaria
de fazer. Tantas áreas lhe interessavam, mas uma em especial fazia seus olhos realmente
brilharem: a cirurgia. Ser cirurgiã geral era o principal objetivo de vida da jovem médica, cheia
de planos e sonhos, no exato dia em que foi sequestrada.
E exatamente há dez anos, a médica teria o seu promissor futuro brutalmente interrompido
e transformado ao ser jogada, desacordada, na traseira de um Megane. Antes fosse apenas isso, e
tudo acabasse por ali. Jeane estava sendo atirada em um destino cruel, um caminho sem volta,
um doloroso desfecho.
— Senhorita Werner? Pronta? — a voz de Santiago surge, forte, de algum lugar longe dos
pensamentos de Jeane, interrompendo o seu torpor.
Ela raspa a garganta e se endireita, olhando no fundo dos olhos do detetive, e pergunta de
maneira desafiadora:
— Não vai gravar?
Santiago dá um meio sorriso, enigmático, antes de responder:
— Não será necessário.
CAPÍTULO 3

Santiago não se surpreende com a atitude de Jeane. Desde que colocou os olhos nela pela
primeira vez, ele teve certeza de que não observava uma mera vítima. O que o intriga, no
entanto, é não conseguir lê-la claramente. Seus ferimentos lhe garantem que ela sofreu um tipo
de violência que deixará marcas para o resto de sua vida, fora o tempo em que passou em
cativeiro, mas sua postura demonstra uma força que ele não imagina de onde vem. Diante de
circunstâncias tão excepcionais, está ansioso para ouvir seu depoimento e, assim, quem sabe,
elucidar o enigma diante de si.
Enigmas são verdadeiros chamarizes para o detetive. Como um inseto atraído para a luz,
Santiago se vê orbitando ao redor de Jeane, vasculhando suas expressões e linguagem corporal,
em busca de respostas que simplesmente não enxerga. Na amplitude e segurança de sua mente
extraordinária, ele a desnuda da camisola hospitalar e disseca as feridas em seu corpo — usando
as informações do prontuário médico como guia —, e as associa às falas perspicazes dadas a
Gregório Lovat.
Fascinado, chega à conclusão de que a testemunha age totalmente fora do esperado, como
se fossem duas pessoas distintas. Mas Santiago sabe que isso é totalmente impossível, a menos
que ela tenha desenvolvido transtorno dissociativo de identidade. Porém, nada em seus registros
médicos indica tal problema psicológico, antes do rapto. Terá que esperar a avaliação de um
profissional.
Essa profunda observação dura apenas o segundo em que demora a elaborar o primeiro
questionamento. Quando abre a boca para dar início à entrevista, o chefe de polícia retorna,
aparentemente mais calmo. Santiago sabe que o caso é dele e que não seria de bom tom fazer as
primeiras perguntas à Jeane sem a sua presença, mas se vê um pouco frustrado com o fato de não
estar mais sozinho com ela. Seus lábios se apertam em uma linha rígida, demonstrando sua
frustração, porém, rapidamente, volta à aparente tranquilidade de sempre, mesmo quando está
com raiva.
O que pensa a seguir o deixa transtornado. Nem cinco minutos na presença dessa mulher
intrigante e eu já perco o controle? É melhor mesmo que Lovat esteja conosco.
— Seja bem-vindo de volta — o detetive recepciona o chefe de polícia, que retorna com o
celular na mão, pronto para gravar o depoimento.
A distração ajuda Santiago a desviar os olhos de Jeane de seu próprio rosto. Incomoda um
pouco o fato de que ela também esteja tentando lê-lo, como ele costuma fazer com as pessoas.
Ninguém nunca havia tentado antes, e espera que a testemunha não tenha sucesso em sua análise.
Gregório suspira ruidosamente, esfregando a mão livre no rosto cansado. Santiago logo
percebe a ansiedade estampada em cada marca de expressão. Ele percebe que o chefe de polícia
está em seu limite. Foram nove anos, com a sua ajuda, inclusive, buscando pistas que pudessem
ao menos lhes dizer quem é o Dentista. Mas o próprio detetive fracassou em suas deduções, e
ninguém foi preso, enquanto corpos e mais corpos de jovens eram encontrados.
Lovat está frustrado devido à senhorita Werner não facilitar e entregar de uma vez o Cara
do Dente, pensa Santiago, volvendo seus olhos para a enigmática mulher. Também estou curioso
para entender o porquê de sua relutância. É óbvio que ela está atrasando seu depoimento
propositalmente. Quer ganhar tempo para elaborar uma mentira? Será que podemos confiar na
história que vai nos contar?
Jeane sorri para Gregório, complacente, como se sentisse pena do sujeito.
— Eu tinha vinte e seis anos quando fui raptada pelo Dentista.
Santiago está tão concentrado em cada detalhe da mulher, que nem se incomoda com o
apelido do serial killer. Ele analisa a simetria do rosto dela, encontrando harmonia suficiente
entre os inchaços e roxos, que lhe garantem que é bonita. Não que a beleza importe para o
assassino, ou para ele mesmo. O detetive acredita que beleza seja uma mera distração. Há uma
lista de nove vítimas, totalmente diferentes entre si — com exceção da brancura dos dentes bem
cuidados —, e a semelhança mais nítida está na maneira como sumiram, sem testemunhas, e
foram mortas.
Beleza e perfeição não importam para o Cara do Dente, reflete Santiago, à procura de
parâmetros que encaixem a senhorita Werner no quadro. As vítimas são telas em branco, no qual
constrói sua obra-prima. Ele as sequestra, as mantém em cativeiro durante seu processo criativo
e depois as mata. Esse é o clímax para ele. O sangue inundando suas vias respiratórias
enquanto elas sufocam. E ele assiste em êxtase o grand finale de sua obra de arte. Depois que
está concluída, o serial killer revela ao mundo o seu trabalho. Estreitando os olhos em direção a
Jeane, interrompe o fluxo de pensamentos. Então, por que a senhorita Werner está viva?
— Como foi abordada, lembra-se de algum detalhe importante de seu rapto? — Gregório
continua sua caçada por informações. É a primeira vez que tem oportunidade de perguntar isso a
uma vítima, mesmo que Santiago já tenha deduzido o método.
— Eu me lembro como se fosse hoje — Jeane responde com firmeza e um misto de raiva,
que impressiona Santiago. — Repassei a cena tantas vezes na minha mente, que consigo me
recordar de tudo.
— Qual o seu intuito ao reviver o momento? — questiona o detetive, admirado ao perceber
uma leve petulância em sua voz. Claro que ele já deduziu o seu motivo, porém, quer ouvi-la
confessar.
— Revejo todos os pontos fracos e fortes, buscando falhas ou defesas, detetive. Tento
descobrir maneiras de ter evitado o rapto.
— Impressionante! — Santiago não faz nenhum esforço para esconder seu fascínio. É algo
que ele mesmo costuma fazer. Com sua agilidade de raciocínio, imagina inúmeros desfechos
para uma mesma ação. É assim que funcionam suas deduções.
— Seria muito mais impressionante se eu tivesse alguma noção de defesa pessoal, não
acha? — A ironia na voz da testemunha não passa despercebida por nenhum dos presentes.
Santiago ri outra vez. A mulher está mexendo com ele de uma maneira nova.
— Talvez tivesse evitado outras mortes — o detetive concorda, ganhando um leve franzir
de cenho de Gregório.
— A senhorita não é culpada pelo que aconteceu — apazigua o chefe de polícia.
— Talvez sim, talvez não — responde sem o menor pesar. Santiago fica intrigado ao notar
a frieza com a qual ela fala, como se fosse um hábito enraizado esconder suas emoções, como ele
próprio tinha. — Mas teria feito alguma diferença para mim se eu entrasse naquele
estacionamento mais atenta e com uma arma de choque ao alcance da mão. Com certeza, poderia
ter evitado dez anos de cativeiro, ao menos.
A senhorita Werner está divagando, estranha o detetive Hipólito. Nunca vi uma
testemunha de um crime desviar tanto do assunto ou discorrer sobre ele com tanta calma e
frieza. Normalmente, elas se calam, ou respondem objetivamente o que lhes foi perguntado. Será
que realmente está tentando ganhar tempo, ou se encontra tão traumatizada que tenta desviar o
foco de seus fantasmas? Se ela tiver mesmo boa memória, como parece, pode ser uma maneira
de escapar da realidade.
— Poderia nos contar como foi, por gentileza? — o chefe de polícia pede, achando
paciência em algum lugar que Santiago desconhece.
Imerso em suas próprias dúvidas, sem desviar os olhos de Jeane, ele a escuta repetir a
frase, com certo mistério no tom de sua voz:
— Eu me lembro como se fosse hoje...
CAPÍTULO 4

Jeane corria apressada pelo pátio do hospital no qual trabalhava, xingando um palavrão
mentalmente ao reparar que se esquecera de tirar o jaleco. Isso a fez se lembrar das milhares de
vezes em que o pai lhe dissera, em tom de reprimenda, que quem usa jaleco na rua é pipoqueiro.
A chuva caía fina e insistente, e somente no curto caminho entre a entrada do hospital e o
estacionamento, Jeane se molhou da cabeça aos pés. Sentiu o celular vibrando no bolso e
procurou uma marquise para se proteger e atender. Podia ser uma emergência do próprio
hospital. Mas ela acabara de sair! Será que não sobreviviam por cinco minutos sem ela?
Avistou um pequeno toldo, metade rasgado, e não teve dúvidas, correu para lá. Ao pegar o
celular, a chamada já havia sido desligada, porém a notificação de uma mensagem de texto
piscou na tela, na qual Jeane pôde ler a confirmação do seu horário no dentista, no dia seguinte.
Ela respirou, aliviada. Se não fosse o aviso, esqueceria de novo de sua limpeza semestral, e
continuaria com os dentes amarelados pelo consumo excessivo de café e ocasional de cigarro.
Jeane voltou a correr pelo estacionamento, até o seu veículo. Na pressa de chegar logo ao
carro sequer procurara as chaves na bolsa, e ao parar para fazer isso, uma sucessão de
acontecimentos ocorreu em uma fração de segundos: um carro preto passou em alta velocidade,
jogando uma quantidade significativa de água barrenta em cima de Jeane, e em seguida parou,
desligando os faróis. Um homem, cuja apenas a silhueta era visível, se aproximou, parecendo
constrangido e se desculpando.
Tudo o que Jeane queria era tomar um banho quente, comer alguma coisa substancial e cair
na cama, ainda mais depois de um plantão pesado como o que tivera. Estava ensopada e mal
humorada, e logo dispensou o pedante motorista, dizendo que estava tudo bem, pois já ia embora
para casa mesmo.
Ou pelo menos, Jeane assim imaginava.
Logo que a médica se despediu do desconhecido e virou de costas para entrar em seu carro,
um chumaço de estopa lhe foi prensado contra o rosto, turvando sua visão. Com a sua respiração
impedida, lágrimas brotaram em seus olhos, em uma sensação de sufocamento e desespero
silencioso. Jeane sabia o que o clorofórmio faria com ela, e até tentou lutar para impedir a função
do produto químico em seu organismo, mas a velocidade com que o solvente se espalhou em sua
corrente sanguínea através das vias aéreas foi realmente assustadora.
Logo sentiu as pernas bambas e fraquejou, sendo amparada pelo estranho, que a pegou no
colo. Ela o percebeu caminhar em direção ao carro que a sujou pouco antes, passo a passo,
meticulosamente. Jeane apenas sentiu, mais do que viu, o momento em que foi atirada dentro do
porta-malas aberto. A última coisa da qual se lembra antes de apagar, é do tranco quando o carro
arrancou do local e se pôs em movimento.
***
Jeane sentiu a cabeça pesada quando despertou. Os olhos teimavam em não abrir e a boca
estava tão seca, que os lábios chegavam a arder.
— Como pode uma doutora tão suja assim? Tão imunda? Que sujeira, que porcaria!
Jeane ouviu alguém falando em sussurros, como se estivesse longe. Não conseguiu
responder ou reagir. O corpo estava pesado demais, fraco demais. A cabeça doía de forma
extremamente incômoda. Teve medo de abrir os olhos. Começou a retomar o que acontecera,
para tentar entender onde estava e o que podia estar havendo, mas tudo parecia se misturar, ao
ponto de não conseguir distinguir a realidade do sonho, ou da imaginação.
Ao sentir um puxão firme no braço, Jeane deixou a cabeça pender para o lado, e sentiu
uma forte dor na nuca. A pele de seu ombro foi esfregada com tanta força, que a sentiu queimar,
como se estivesse sendo esfolada. Um forte cheiro de algo parecido com creolina subiu até suas
narinas, lhe causando ardência.
Ela precisava abrir os olhos, precisava saber o que estava acontecendo. A jovem médica
nunca tivera medo de enfrentar nada, e não seria naquele momento que iria estrear esse
sentimento. O que quer que estivesse acontecendo, já estava em processo. Manter os olhos
fechados não faria o pesadelo sumir, como fazia quando era criança, e ela sabia disso.
Jeane então se permitiu olhar, pela primeira vez, para seu sequestrador, do qual apenas vira
a silhueta. Ele estava agachado ao seu lado, com uma bucha vegetal na mão enluvada. Jeane
passou os olhos ao redor e percebeu que estava imersa em uma banheira de água fria, com algo
de aspecto leitoso diluído.
Ela prendeu o olhar no homem, que suspendeu seu braço, passando a esponja com força
em sua pele clara. Os cabelos do sujeito estavam protegidos por uma touca, por onde escapavam
alguns fios escuros, perto das orelhas. De seu rosto só conseguia ver os olhos, castanhos e
visivelmente perturbados, já que ele vestia uma máscara cirúrgica, que cobria o restante da face.
Na medida em que ele esfregava o seu corpo com força, o cheiro de desinfetante se tornava
mais e mais forte. O desconhecido repetiu o ritual de esfregação por toda a extensão da nudez de
Jeane, machucando-a muitas vezes, tamanha a força que colocava, e sempre murmurando as
mesmas palavras duras:
— Doutora suja, eu vou limpar você. Imunda, quanta sujeira, muita sujeira!
Quando pareceu terminar de banhá-la, ele sumiu por apenas alguns segundos, trazendo em
suas mãos uma lata cheia de algo parecido com carvão, um tubo de creme dental e uma escova
de dentes. O homem se agachou ao lado de Jeane, que finalmente parecia estar despertando do
torpor do clorofórmio. Reuniu forças para perguntar, em um tom de voz fraco:
— Quem é você?
O homem a encarou por alguns segundos, até voltar a sua atenção para a escova de dentes,
na qual apertou o tubo de creme dental, mergulhando-a na lata de pó de carvão em seguida, antes
de responder:
— Eu sou a pessoa que vai salvar você da imundície, doutora.
CAPÍTULO 5

Santiago não acredita em coincidências. Jeane havia sido raptada e descartada em um dia
chuvoso. Essa informação, quase que insignificante, fica martelando em seu cérebro como uma
marreta de construção. Ele ainda não sabe qual é a importância dela para o caso, mas sua mente
brilhante faz as conexões de maneira inconsciente, trazendo, em algum momento, a verdade à
tona. Guarda o detalhe para uma conferência futura, após ouvir todo o depoimento da
testemunha, e volta o seu foco para a senhorita Werner.
Jeane suspira pesadamente, evidenciando cansaço, e uma enfermeira adentra o recinto a
fim de aferir seu estado clínico. O detetive fica tentado a deixá-la descansar e estranha o impulso.
Normalmente, sua empatia não se manifesta durante as investigações. Pelo contrário, sua ânsia
pelo resultado consome, não só a sua energia, quanto o seu tato. Não sabe explicar, mas essa
mulher manifesta algo novo dentro dele.
— Sei que está cansada, senhorita Werner, mas seu depoimento é crucial para salvar as
vidas de outras mulheres — o chefe de polícia formula um agradecimento ao final do relato
minucioso da testemunha quanto ao próprio rapto. — O que a senhorita nos deu agora foi mais
do que conseguimos descobrir nos últimos nove anos.
Santiago encara Gregório com indignação. Ele havia deduzido, lá nos primórdios da
investigação, que o Cara do Dente raptava mulheres distraídas, sozinhas, e em horários e locais
com pouca movimentação, já que nunca houve testemunhas dos raptos. Mesmo que ele fosse
matá-las no final, o detetive sabia que usava algum agente químico para imobilizá-las. Não é
fácil, nem para um homem grande, carregar uma mulher, ainda que pequena, se debatendo e
tentando escapar. Chamaria atenção desnecessária e o serial killer já provou não ser descuidado.
No entanto, o detetive Hipólito tem que concordar com Lovat. O curto diálogo narrado
pela senhorita Werner com o seu sequestrador dá uma nova perspectiva do assassino. Santiago
sabe que ele não se liga à beleza, e que tem fixação por dentes, mesmo não sendo dentista, já
haviam seguido essa pista e não dera em nada. Mas Jeane acaba de jogar uma luz sobre a mente
obscura do sujeito. Ele é aficionado por limpeza. O consultor deduziu que a limpeza exemplar no
corpo das vítimas encontradas foi executada a fim de remover qualquer resíduo que ajudasse a
polícia a localizá-lo.
Mas e se fosse parte de seu ritual psicótico?, Santiago questiona mentalmente.
— Estou realmente cansada — Jeane suspira de novo, olhando para a janela de seu quarto.
— Espero ter revivido aquele dia pela última vez.
— Vamos seguir adiante só mais um pouco, então poderá descansar — Gregório retoma as
perguntas, conferindo anotações feitas em um bloco durante o relato da testemunha. — Você
ficou lúcida o tempo inteiro? Depois do banho, o que aconteceu?
A ansiedade do chefe de polícia não passa despercebida nem por Jeane, muito menos por
Santiago, que se revolta com a atitude de Gregório. Em um único e ligeiro movimento, o detetive
se põe de pé e caminha apressado para fora do quarto.
— Vamos deixá-la descansar agora, Lovat. Temos muito no que trabalhar.
Mesmo contrariado, o chefe de polícia segue o consultor e, ao fechar a porta atrás de si,
despeja sua ira.
— O que pensa que está fazendo, Hipólito? Mal começamos a pegar o depoimento da
vítima e você...
— Testemunha — Santiago o corrige, encarando-o de frente com uma expressão neutra.
— Que seja! Estamos atrás desse cara há nove anos. Até parece que não está com pressa de
pegá-lo. E se ele estiver procurando outra vítima, nesse exato momento?
— Já sabemos como ele rapta e, graças à doutora Werner, pudemos confirmar o modus
operandi, e aprender um pouco mais sobre a mente do psicopata. Temos as roupas dela e a cena
do crime para analisar enquanto deixamos a testemunha ter um pouco de paz. Ela passou dez
anos em poder de um sequestrador. Dê um tempo, Lovat!
Gregório aponta o dedo contra o peitoral de Santiago, possesso.
— Exatamente, detetive! Jeane Werner passou dez anos com nosso assassino e sobreviveu.
Ela é a chave para encontrarmos o cativeiro e prendermos o Dentista!
Santiago sorri diante do desespero do chefe de polícia.
— Como o senhor pode ter tanta certeza de que é seguro confiar nas lembranças de uma
pessoa raptada há dez anos, que viveu sob a influência de seu sequestrador e que foi abandonada
em uma floresta, ferida, mas viva? Não há garantias de que sua memória seja fiel devido ao
trauma e, principalmente, pela possível manipulação de seu algoz — Hipólito cerra os olhos, em
um gesto corriqueiro de reflexão. — Duvido muito que o assassino tenha cometido um erro ao
deixá-la viver. Ainda não sei seus motivos, mas com certeza não nos ajudarão a pegá-lo.
— Você está insinuando que a senhorita Werner pode ter mais do que o simples papel de
vítima neste caso?
Santiago dá de ombros.
— Ela esconde alguma coisa. O senhor deve ter reparado que a doutora não reage como
uma vítima, muito menos parece traumatizada, mas tudo pode fazer parte de um objetivo maior,
inclusive nos enganar.
— Vou solicitar uma avaliação psiquiátrica imediatamente.
— Acredito que seja o melhor a fazer. Talvez ela se abra, espontaneamente, com um
profissional da saúde.
Dito isso, Hipólito vira as costas ao chefe de polícia, pronto para se inteirar sobre as novas
pistas que talvez a perícia tenha encontrado no local onde a doutora Werner foi abandonada.
— Aonde você vai? — o chefe de polícia questiona, irritado.
— Para a delegacia comparar as provas dos crimes anteriores com o relato e os indícios
encontrados com a doutora Werner na floresta.
— Me mantenha informado, Hipólito — ordena Lovat, virando-se em seguida para os dois
policiais postados na porta do quarto da testemunha.
A mente do detetive não para de trabalhar, coletando por si só as lembranças armazenadas
sobre os crimes cometidos pelo Cara do Dente. Diferentemente das pessoas comuns, Santiago
possui uma memória excepcional, trabalhada com esmero, que compartimenta a informação de
forma a poder ser acessada sempre que precisa. Para Hipólito, o cérebro humano é um HD com
espaço ilimitado de armazenamento de informação, seja do que viu, sentiu ou tocou, que está
inteiramente ao seu dispor.
Do hospital até a delegacia, o detetive se senta no banco do táxi, fecha os olhos, junta as
pontas dos dedos, e se autoinduz a um estado meditativo. Através desse exercício, ele se imagina
em uma imensa biblioteca, de tamanho infinito, na qual os livros são organizados por assunto.
Conforme pensa em palavras-chaves relativas ao caso, as prateleiras se movem a fim de lhe
trazer o conteúdo solicitado. Seu eu imaginário acessa as informações e busca a conexão entre
elas.
— Senhor? Senhor! — grita o taxista, trazendo a consciência de Santiago de volta à
realidade. — Chegamos.
— Obrigado — o detetive sorri amarelo e desce do automóvel, insatisfeito com a
interrupção do fluxo de seus pensamentos.
No entanto, aquele tempo foi mais do que suficiente para que Santiago Hipólito forme uma
teoria, que considera altamente plausível, entre todas as possibilidades.
CAPÍTULO 6

Jeane toma um copo d'água em pequenos goles, enquanto pensa no que acaba de acontecer
em seu quarto. Passou pelo primeiro depoimento, após dez anos de cárcere privado. Acredita que
não se saiu tão mal, e que conseguiu manter o controle na maior parte dele.
Ao mesmo tempo, a médica sabe que não conseguiu a neutralidade que gostaria durante
todo o interrogatório. O motivo tem nome e sobrenome, além de atender pela alcunha de detetive
particular. Santiago é um homem misterioso. À primeira vista, aparenta ser frio, racional ao
extremo, e até mesmo calculista. Um ser humano de uma mente frenética, que não deve parar de
pensar nem quando está dormindo.
Ainda assim, Santiago tem seus pontos fracos, o que não passou despercebido à Jeane. Ele
foi empático a ela, ao se compadecer de seu cansaço e interromper as perguntas, com o intuito de
deixá-la em paz. A médica quase pôde ver um ar carinhoso na forma como ele olhou para ela,
óbvio que encoberto por uma postura desdenhosa, quase blasé. O que a deixou ainda mais
intrigada e fascinada. Quem será o verdadeiro Santiago Hipólito? O homem frágil que ela notou,
capaz de um ato de solidariedade, ou a capa fria e distante que ele faz questão de ostentar?
E por que diabos a polícia precisa “terceirizar” um detetive particular? Isso não deveria ser
requisito básico de um processo investigativo?
A porta do quarto se abre, chamando a atenção de Jeane para a figura que entra no recinto.
Em menos de um minuto, ela percebe algumas coisas básicas acerca da pessoa que se apresenta à
sua frente. A mulher deve ter por volta de trinta anos. O jaleco se apresenta impecável, limpo e
bem passado, o que faz Jeane estremecer levemente. Os cabelos presos em um coque apertado e
os óculos que ornamentam um par de olhos muito sérios conferem uma aparência controlada e
sóbria à profissional. Ao mesmo tempo, um sorriso suave e uma expressão complacente lhe
mostram que ela está familiarizada e solidária com a situação de Jeane. Logo, a testemunha
compreende com que tipo de profissional está lidando.
— Olá, Jeane. Meu nome é Mariana Higino. Sou psiquiatra e psicoterapeuta do hospital, e
me pediram para vir dar uma olhadinha em você, para sabermos como está. O que passou foi
muito pesado. Acho que conversar um pouco com alguém que está mais interessado em seu bem-
estar do que na sua história pode fazer bem.
Jeane observa a terapeuta sem aparente interesse. O que aconteceu já foi, já passou, de que
adianta falar sobre os próprios sentimentos e percepções, se não para a polícia?
— Não vejo como isso pode ajudar — ela responde, secamente.
Praticidade é uma das características mais marcantes de Jeane, e ela só quer resolver tudo o
mais rapidamente possível. Qualquer ponto fora da curva lhe traz desconforto e, até então, esse já
é o segundo desvio que aparece. O primeiro, obviamente, é o homem que insiste em povoar seus
pensamentos desde cedo.
A terapeuta apenas sorri, pacientemente, sentando na cadeira ao lado da cama, devagar,
sem a menor pressa de sair, irritando Jeane ainda mais profundamente.
— Se não fizer bem, mal não vai fazer. Confie em mim, está bem? Apenas falaremos do
que você quiser — a terapeuta diz, com uma expressão firme, porém serena.
Jeane só consegue pensar em falar no perfume enjoativo que está empesteando o quarto,
desde que Mariana entrou. Porém, sabe que precisa ser colaborativa o máximo que conseguir.
Qualquer erro, qualquer escorregão, pode deixá-la em maus lençóis. E esse não é nem de longe o
seu objetivo.
A paciente se ajeita na cama, mudando o olhar de imediato, assumindo uma postura
vulnerável e temerosa. Ela sabe que é o que esperam dela. Não sabe por que toda vítima tem de
parecer frágil. Se ela fosse minimamente fraca, certamente não teria sobrevivido por dez anos ao
lado do Dentista. Ela sabe que sua força a salvou de um desfecho terrível. Mais de uma vez.
— Tudo bem, me desculpe se pareci na defensiva, mas você precisa entender que não é
fácil falar repetidamente sobre tudo o que eu passei. É muito doloroso reviver todo aquele
sofrimento.
A terapeuta se mostra compreensiva e aliviada por Jeane decidir baixar um pouco a guarda
e começar a falar. Muito previsível, em sua nada modesta opinião.
— Sem problemas, Jeane. Eu estou aqui para ouvi-la. Pode falar apenas o que achar
necessário, o que sentir vontade. Por exemplo, podemos começar com você me explicando como
está se sentindo agora que está de volta ao mundo real, que está segura.
De repente, a expressão na face de Jeane muda completamente. Seus olhos, desconfiados e
com certo tom de altivez se fixam em um ponto qualquer, tornando-se vidrados. A paciente
quase não pisca, e seu rosto reflete um misto de medo, dúvida e conformismo.
— Ninguém está seguro. Basta sorrir.
A terapeuta observa cada detalhe de Jeane com atenção. Seu corpo diz muito mais do que
suas palavras.
— Por que diz isso? Você não se sente segura aqui no hospital?
A paciente vira o olhar para a terapeuta, sem se alterar.
— Eu estava em um hospital quando fui sequestrada, não é?
Mariana respira fundo, antes de dizer:
— Compreendo que hospitais tornaram-se um lugar de grande trauma para você, mas...
— Na verdade, respirar é que se tornou uma afronta, doutora — a paciente interrompe,
abruptamente.
As mãos de Jeane começam a suar, frias, e ela automaticamente sente uma vontade
incontrolável de lavá-las. Seu corpo todo estremece, fazendo com que tente ao máximo disfarçar
o nervosismo. A pergunta que não abandona a sua mente volta a assombrá-la, repetidamente: por
que ela está viva?
— Continue, por favor — a terapeuta demanda, trazendo Jeane de volta à conversa.
— Ora, doutora, pense bem. Fui a única vítima viva de um serial killer, cruel e impiedoso.
Obviamente, algo deu muito errado, porque não me parece do feitio de um psicopata ser
misericordioso. Cara respiração minha é uma afronta a ele, não acha? Ou você não cogita a
possibilidade de ele querer aparecer um belo dia para terminar o serviço?
A terapeuta encara Jeane por alguns segundos, antes de dizer:
— É natural que esteja se sentindo assim, temerosa e insegura. Mas, acredite em mim,
nada de ruim voltará a lhe acontecer. Tem dois guardas na porta de seu quarto e você será
monitorada vinte e quatro horas por dia, até encontrarem o homem que a fez passar por isso. Sei
que é difícil, mas tente começar a pensar com mais otimismo e clareza, até mesmo para que
possa auxiliar a polícia na tarefa de encontrá-lo. A sua ajuda é fundamental para que esse
assassino seja colocado atrás das grades.
Jeane segura um bufar irônico, a tempo de não demonstrar sua descrença diante do pedido
absurdo da terapeuta. Otimismo? Foram DEZ anos em posse de um homem opressor,
mesquinho, desumano. Dia após dia ela esperava pelo pior, lutando para conseguir adiá-lo, por
pelo menos mais vinte e quatro horas. A cada nova vítima, a cada novo sangue derramado, Jeane
se questionava quando chegaria a sua vez. Precisava ser uma boa menina, precisava ser tudo
aquilo que era esperado dela. Só assim teria uma chance.
A paciente olha para as suas mãos e, por apenas um segundo, visualiza-as encharcadas de
sangue. Pavor toma conta de sua mente, que tenta levá-la a um caminho sem volta, de medo,
culpa e desespero. Por tanto tempo ela lutou contra o seu próprio cérebro, seus sentimentos,
pensamentos e vontades. Não pode sucumbir agora, de jeito nenhum. Não estando tão próximo
de compreender tudo, de descobrir as verdades que sempre se questionou. Jeane não pode perder
a cabeça de maneira alguma.
Pensando em tudo isso, ela simplesmente retoma sua postura controlada e serena, ainda
que esteja queimando por dentro. Olha para a terapeuta, com um sorriso fraco.
— Você tem razão. Eu preciso me acalmar e compreender que estou a salvo. É que foram
muitos anos, e eu ainda não estou sabendo muito bem lidar com tudo isso. É quase inacreditável.
A terapeuta sorri com ternura, encorajando-a a continuar.
— Eu posso imaginar a guerra que se trava dentro de você — ela acrescenta, e sua voz
calma irrita a paciente, mais uma vez.
É óbvio que não pode imaginar. Mariana não pode chegar nem perto de supor o que se
passa dentro de Jeane. O misto confuso de arrependimento e adrenalina, de medo e coragem, de
raiva e fascínio. As milhares de perguntas sem respostas, a busca pela veracidade, o horror de
imaginar com quais verdades está prestes a lidar...
Não doutora, você não imagina, Jeane pensa, atordoada, sentindo certo asco da
profissional. Ela mais uma vez sorri fracamente, e deixa os olhos caírem um pouco.
— Se você não se importar, eu gostaria de descansar agora. Estão me dando medicação
para a dor, e sinto sono a maior parte do tempo. Ainda não estou conseguindo me manter
acordada e ativa por muitas horas. Gostaria de poder ajudar mais, mas não consigo.
A terapeuta se levanta prontamente, atenciosa, colocando a mão sobre a de Jeane, que
repousa sobre o colchão.
— Claro, querida, descanse o quanto precisar. E olha, sei que quer muito ajudar, que deseja
que tudo isso acabe o quanto antes, mas não se cobre tanto. Você precisa respeitar o seu corpo, a
sua mente, o seu sofrimento, e ter uma recuperação saudável. Não deixe que te pressionem
demais.
Jeane sorri, pela primeira vez com sinceridade.
— Pode deixar, doutora. Vou tentar ter o máximo de cuidado comigo. Prometo.
— Se precisar de mim, pode pedir para algum enfermeiro me chamar, está bem?
Certamente nos veremos outras vezes.
Jeane assente com a cabeça, agradecendo, e Mariana sai pela porta do quarto, deixando-a
sozinha com seus pensamentos desconexos. Não via a hora de se livrar da terapeuta, mas agora
se sente realmente exausta. Ela permite que seu corpo sucumba ao cansaço, e que seus olhos
fechem, levando-a para o mundo dos sonhos.
Ou pesadelos. Há muito tempo Jeane não sabe o que é sonhar.
***
Lovat se aproxima da terapeuta, assim que a mesma deixa o quarto de Jeane.
— E então? — fala ansioso, fazendo a profissional franzir os lábios, descontente.
— Senhor Lovat, a paciente está traumatizada. Falou pouco, e tudo o que diz parece
remetê-la à situação traumática que passou. Ela estava muito defensiva no início, com o tempo
foi se soltando e falando um pouco mais, mas tudo meio confuso e pouco revelador. Conversarei
com ela em outra ocasião, agora Jeane pediu licença para descansar. Certamente tudo isso tem
sido massacrante para ela. Sugiro que dê um pouco de sossego para a paciente, se a quiser forte o
bastante para ajudar na investigação. Agora, se me dá licença, preciso voltar ao meu consultório.
O chefe de polícia coça o queixo, intrigado. Jeane não parece uma mulher confusa, e por
mais que tenha passado por algo tão horrível, se mostrou extremamente forte, consciente e
lúcida. Se pareceu desnorteada aos olhos da terapeuta, pode ser que tenha querido se mostrar
assim. Parece ser bem ardilosa, a suposta vítima.
Quando a terapeuta já está quase dobrando o corredor, Lovat, em uma última tentativa
desesperada, a chama:
— Tem certeza de que não há nada que eu precise saber, doutora Higino?
Ela para de frente para o elevador e aperta o botão. A porta se abre, mas antes de entrar
responde, sem dar tempo de Lovat retrucar:
— Aconselho que comece a trabalhar com a hipótese de que a paciente esconde muito
mais do que imagina, senhor Lovat. Passar bem.
E a última coisa que o chefe de polícia ouve é o som das portas do elevador se fechando.
CAPÍTULO 7

Santiago tem dois objetivos em mente ao adentrar a delegacia para confirmar sua teoria,
antes de externá-la ao impaciente chefe de polícia. A primeira e imprescindível coisa a fazer é
obter os resultados da perícia, quanto às roupas da doutora Jeane Werner e da cena do crime. E,
em seguida, precisa compará-los com as provas obtidas das nove vítimas do Cara do Dente.
Ele já sabe que vai encontrar diferenças gritantes, de acordo com o que se lembra, mas
prefere conferir um milhão de vezes a deixar algo passar. Também sabe que esse caso, pendente
há tanto tempo, possui muitas linhas soltas que ainda não pôde atar. E isso é um tormento para
seu supercérebro. Jeane é a peça que faltava, tem certeza disso, mas ainda não sabe onde
encaixá-la. Vítima ou testemunha? Pelo que percebeu no primeiro encontro, trata-se da segunda
opção.
Mas se estivesse olhando para aquela peça fundamental de maneira equivocada?
Santiago, antes de mais nada, necessita de certezas. Vai ao encontro do responsável pela
perícia e exige o laudo sobre a senhorita Werner. Apesar de não fazer mais parte da corporação,
o pessoal já está acostumado com seu jeito de ser. E, mesmo quem não gosta de Hipólito,
colabora com ele por reconhecer que é um importante ativo para a polícia local. Não precisam
gostar dele, só usufruir de seus métodos nada ortodoxos.
— De nada, Hipólito — diz o perito, ao entregar o relatório ao detetive.
Santiago ignora a ironia, concentrado em ler as linhas dispostas em suas mãos, enquanto
caminha até um oficial, que recebe a ordem de levar as provas do caso até a sala em que ele
estará aguardando, enquanto analisa o que o relatório. Quando se senta, já leu as três páginas do
laudo — sim, ele faz leitura dinâmica — e pondera sobre seus dados. Segundo o perito, Jeane
estava com as mesmas roupas que usou no dia do rapto, menos o jaleco. Haviam sido lavadas
com sabão neutro e não tinha fibras ou DNA que não fossem da floresta ou da própria “vítima”.
Torceu os lábios diante da palavra escrita no relatório.
Não foi encontrado nenhum objeto no local da “desova”, como brincos ou anéis, o que
era de se esperar, já que a doutora Werner saía do hospital na hora do rapto, e como médica,
era proibida de usar acessórios, Santiago completa em pensamento.
Neste instante o oficial entra na sala após bater, com todo o material solicitado. São duas
caixas, uma com a papelada e outra com as provas, protegidas em sacos de evidência. Santiago
não agradece outra vez, abrindo logo a primeira caixa e espalhando o conteúdo da pasta de cada
vítima sobre a mesa, como um mosaico do crime. A pasta de Jeane fica no centro daquela
bagunça organizada.
Impaciente e concentrado, Hipólito relê cada detalhe em busca de respostas. Frustrado,
percebe que não há nada de novo que não tenha se lembrado no trajeto até ali. Nenhuma das
nove vítimas foi “devolvida” com suas roupas do rapto. Na verdade, elas vestiam indumentárias
novas e limpas. Também foram deixadas em posições confortáveis, como se tivessem sido
cuidadosamente acomodadas nos locais de desova. Não havia marcas em seus corpos além dos
dedos em volta do pescoço e da ausência de um dente.
Enquanto as nove vítimas foram tratadas com cuidado e até apreço, a testemunha havia
sido cruelmente espancada e maltratada. Isso diz muito a Santiago. Confirma a suspeita de que
ela é mais do que uma mera vítima. Mas então por que não foi executada? Dez anos em poder do
serial killer diz ao detetive que Jeane conquistou algum tipo de confiança do assassino, e talvez
ele tivesse se livrado dela pela quebra dessa confiança. Mas lá estava a pergunta que não queria
calar: por que ele simplesmente não a matou e a enterrou para que nunca fosse encontrada?
Ao mesmo tempo que parece que o Cara do Dente não se importa com Jeane, pelo menos
da mesma maneira que se importava com as vítimas, ele a manteve consigo por uma década e
não lhe tirou a vida, mesmo quando a descartou. Isso não faz nenhum sentido para Santiago. A
menos que a morte, para o serial killer, seja tão sagrada que nem isso a doutora mereça. Talvez a
esteja punindo com as lembranças dos castigos e dos maus-tratos. Se assim for, ele a considera
fraca demais para superá-lo. E é aí que se fortalece a desconfiança, ainda não claramente
verbalizada pelo detetive, sobre Jeane sofrer de síndrome de Estocolmo. É muito mais comum do
que se pensa, vítimas que passam por um tempo prolongado de intimidação, desenvolverem
simpatia pelo raptor. E isso faria facilmente que, de alguma maneira, Jeane se tornasse uma
cúmplice, ainda que apenas acobertando a identidade do assassino, por exemplo.
Preciso do resultado da avaliação psicológica da senhorita Werner, conclui. Espera que
Lovat realmente tenha seguido seu conselho de solicitá-la o quanto antes.
Volve seus olhos para a caixa das provas e, utilizando luvas a fim de não contaminar as
evidências, abre pacote por pacote e reanalisa cada objeto encontrado com as vítimas. Cada uma
ganhou algo. Um urso de pelúcia, um botão de rosa que já secou e morreu, um colar, uma
pulseira, um piercing, um batom, um perfume, um anel e um livro. Fora as roupas iguais que
foram encontradas com os corpos e que as famílias confirmaram que não eram das vítimas.
Ele as presenteia depois da morte, como um agrado. Por um tempo, Santiago pensou que
o assassino premiava a beleza, devido à natureza dos presentes. Mas depois ficou claro que não
era isso. As vítimas não tinham nenhum padrão. Altas ou baixas, magras ou gordas, morenas ou
loiras, negras ou brancas, velhas ou novas, não importava para ele. Algumas eram bem cuidadas
e bastante vaidosas enquanto vivas, mas outras, segundo os familiares, eram mulheres
despojadas e livres de vaidade.
Ele tira algo delas, algo que o agrada, como o dente e suas vidas, e as devolve para suas
famílias com um mimo, a fim de presenteá-las por sua colaboração, emenda o pensamento ao
linkar as nove vítimas com o depoimento da doutora.
Encarando as fotografias das dez mulheres distribuídas sobre a mesa, Santiago também se
dá conta de que Jeane é a única da área da saúde. As outras eram jovens adultas, na faixa de vinte
a cinquenta anos, com profissões das mais diversas: estudante, dona de casa, gerente de banco,
vendedora de automóvel, corretora de imóvel, atendente de balcão, promotora de eventos,
modelo fotográfica e diretora executiva. Também possuíam níveis sociais e financeiros bastante
distintos.
O Cara do Dente escolheu a senhorita Jeane por sua expertise, deixa o pensamento
lógico elaborar e se firmar em sua mente. Mas para que? Será que o assassino obrigava a
doutora a garantir a sobrevivência das vítimas por mais tempo?
Consulta novamente o tempo de permanência de cada uma em cativeiro e constata o que
já sabia. Elas não duravam muito mais do que alguns dias. Se esse era o papel da senhorita
Werner, ela falhou, não apenas uma, mas nove vezes. Se for verdade, explica as marcas brutais
em seu corpo que, segundo o laudo médico, não são as primeiras. Há ossos quebrados, costelas
trincadas e perfurações cicatrizadas visíveis em sua pele não ferida.
A doutora Werner é uma mulher marcada de muitas maneiras por seu raptor e, antes de
dominá-la, o assassino prometeu limpá-la da imundície. Aposto que ela se agarrou a isso para
sobreviver, aceitando suas punições como um meio para um fim, e por isso mesmo o protegerá
durante as investigações. Nada do que ela nos disser é confiável.
Imerso em seus pensamentos, o detetive tem certeza de que sua teoria está correta: Jeane
foi deixada viva para ajudar o serial killer de alguma maneira. Consciente ou não.
Preciso falar com Lovat, imediatamente, reflete, já com o celular entre as mãos,
digitando uma mensagem de texto ao chefe de polícia.
CAPÍTULO 8

Jeane ouve um grito agudo de mulher, que faz com que abra os olhos de imediato. Ela gira
a cabeça de um lado para o outro, olhando ao redor, e tudo o que vê é um cômodo vazio,
parecido com um porão, abandonado e úmido. Um cheiro forte e putrefato toma conta de suas
narinas. Sente que está deitada sobre algo molhado e viscoso. Passa as mãos pelo chão,
espalhando o que quer que seja aquela gosma pegajosa.
— Ah, você acordou — ouve a voz que já lhe é tão familiar, e que faz seu coração
disparar.
— Eu... Onde estou? — sente o corpo pesado, como se estivesse fundida com o piso de
cimento queimado.
— Estamos no cenário da vez, minha querida. Logo iremos começar a nossa mais nova
obra — ele diz, se aproximando e entrando no campo de visão de Jeane. — Mas você está
bastante cansada, pelo visto. Talvez eu lhe dê uma folga hoje, se for boazinha.
O sujeito se afasta e, alguns segundos depois, Jeane ouve um novo grito, estrangulado e
cortante. Quer levantar para ver quem está ali, mas não consegue. Ela sabe o que está
acontecendo, em contrapartida. Já ouviu essa tortura tantas vezes, que tem consciência, inclusive,
de que o último e derradeiro grito de agonia está muito próximo.
O homem se reaproxima, as luvas cheias de sangue, a máscara cirúrgica toda respingada,
mas o jaleco, como sempre, incrivelmente e impecavelmente branco. Ele segura um dente entre o
indicador e o polegar, se aproximando de Jeane, tão perto, que ela pode não apenas identificar
que se trata de um canino, como também sentir o seu perfume enjoativo de Absinto.
— Que fique claro que apenas hoje eu poupei você, e veja com isso como sou benevolente.
Agora trate logo de se levantar. Estou quase terminando o serviço.
Jeane pensa na banheira, cheia de água fria e creolina. Imagina para quem será o banho
dessa vez. Sabe que não tem escolha a não ser obedecer à ordem, e, ainda que sinta o corpo
extremamente pesado, tenta se apoiar nos cotovelos, para se forçar a sentar. Ela não pode
desagradá-lo. Precisa ser forte, como sempre.
A viscosidade do chão faz com que um dos cotovelos de Jeane escorregue. Ela se ergue de
uma vez, se sentando da melhor maneira que pode, apenas para notar que está em cima de uma
enorme poça de sangue. De olhos arregalados, começa a passar as mãos pelo próprio corpo,
procurando indícios de onde pode estar vindo esse sangue todo. Acaba sujando camisola, rosto,
braços, e não encontra nenhum ferimento aparente.
Confusa, procura uma explicação ao redor, e sente o estômago embrulhar ao se deparar
com corpos, vários corpos amontoados e em decomposição. Trata-se de mulheres, várias, todas
em estado de apodrecimento, algumas já com buracos carcomidos. Da boca aberta de um dos
cadáveres, vê um monte de larvas saindo e entrando, em um piquenique funesto. Em outro,
contempla o último pavor nos olhos arregalados e sem vida. Em um terceiro, enxerga algo
parecido com o intestino, expurgado e aparente, sendo devorado por ratos, muitos ratos,
festejando o banquete em bando.
Jeane fecha os olhos desesperada, e começa a chorar copiosamente, soltando um grito
doloroso de horror e desespero. E aquele último grito, que ela sabia que não tardaria a ouvir, se
mistura ao seu, sendo seguido da voz que também os precede:
— Vamos. Está na hora.
Quando se apoia de joelhos para levantar, pegando a mão enluvada do homem à sua frente,
escorrega, indo direto de cabeça para o chão.
Jeane abre os olhos, sentindo as lágrimas escorrendo copiosamente, o coração acelerado e
a testa suada. O único som que ouve é o bip da máquina à qual está conectada. Ao seu redor, o
quarto do hospital permanece o mesmo. Aos poucos, compreende que teve um pesadelo. Respira
fundo, tentando se controlar, dizendo para si mesma que não pode mais se deixar abalar assim. O
pesadelo real que viveu por dez anos não pode continuar assombrando-a em seu inconsciente.
Finalmente acabou. Ela está bem. Está a salvo.
Ou será que está enganada?
***
Jeane vê a rua pela primeira vez em uma década, através da janela do carro. Nada pareceria
realmente diferente, não fosse o pavor que isso lhe provoca hoje. Lovat, sentado ao seu lado,
chama a sua atenção.
— Está se sentindo bem, senhorita Jeane? Acha que pode ter recebido alta cedo demais?
Podemos voltar, se quiser. Você está pálida.
— Não, eu estou bem. Não fazia mais sentido ficar naquele hospital. Confesso que estou
apenas curiosa e um pouco ansiosa. Você me disse que eu fui inserida no programa de proteção a
testemunhas e que estava me levando para um lugar seguro. Que lugar é esse, afinal?
Lovat mantém a seriedade de sempre, mas com um ar benevolente nos olhos.
— Prefiro que veja quando chegarmos. Nada deve ser explicado demais, todos os lugares
podem ter ouvidos. Não devemos deixar muitos rastros. Fique tranquila, já estamos quase lá.
Jeane torce os dedos sobre o colo, apreensiva. E, antes de conseguir se segurar, solta a
pergunta que a atormenta desde que saíram do hospital:
— Por que o detetive Hipólito não está com o senhor dessa vez?
O chefe de polícia dá um meio sorriso, antes de dizer:
— Ele espera pela senhorita em nosso destino.
O carro para de repente, em frente a um prédio antigo, em um bairro desconhecido por
Jeane. Lovat sai do carro, oferecendo a mão para a moça em seguida. Ele a leva para o edifício,
escoltado pelos dois policiais que estavam nos bancos da frente do veículo.
— Atrás de mim, por favor — o chefe de polícia instrui Jeane, que sobe um lance grande
de escadas, sendo seguida pelos policiais.
Lovat para em frente a uma porta de madeira desgastada, pegando uma chave no bolso e
abrindo. Dá espaço à moça e indica que entre. Jeane avança alguns passos e para, analisando o
ambiente e se vendo em uma sala grande, de móveis antigos, todos em madeira maciça. Dois
sofás de couro marrom fazem conjunto em frente a uma lareira apagada e toda coberta de papéis,
pregados por todos os lados. Anotações, recortes de jornais, mapas, enfim, uma infinidade das
mais diversas informações toma conta de toda aquela parede. No chão, pilhas de livros,
catálogos, caixas e mais caixas abertas e materiais espalhados em cima do carpete velho e
encardido. Um cheiro de tabaco toma conta do ar e, de fundo, os acordes de “Back To Black”, de
Amy Winehouse quase faz o papel de música ambiente. Uma única e enorme poltrona repousa
entre os dois sofás.
— Chegamos — Lovat diz, aparentemente para o nada.
De repente, a poltrona que Jeane julgava estar vazia gira, mostrando Santiago Hipólito
confortavelmente instalado. Ele traja um roupão azul marinho sobre algo que parece uma calça
de pijama. Em uma das mãos, segura uma caneca com um líquido fumegante, e na outra, um
cachimbo, ainda aceso.
O detetive parece se divertir diante da expressão de assombro de Jeane, dando uma
baforada longa no cachimbo, antes de dizer, com um sorriso misterioso:
— Seja bem-vinda ao meu humilde lar, senhorita Werner.
CAPÍTULO 9

Santiago teve uma esclarecedora conversa com Gregório na delegacia, quando o chefe de
polícia atendeu ao chamado do detetive e foi ao seu encontro. Lovat o achou imerso em
evidências e laudos do caso mais complicado que já tiveram até então. Gostava de ver Hipólito
sóbrio e compenetrado daquele jeito, muito diferente do policial distraído e descontrolado que
ele fora quando fazia uso regular de heroína.
Acreditava, inclusive, que não haviam pegado o Dentista antes por causa do vício de
Santiago, mas nunca diria aquilo a ele. Não queria lhe provocar uma recaída.
— E então, o que descobriu? — Em vez de falar, questionara o detetive.
— Eu tenho uma teoria, que pode ser confirmada com o relatório do psicólogo. E tive uma
ousada ideia, mas preciso de sua autorização para colocá-la em prática.
— A psicoterapeuta falou brevemente comigo ao sair do quarto da doutora Werner e
enviará o relatório para cá, assim que tiver redigido — Gregório aproveitou o ensejo para colocar
Santiago a par do aviso da doutora Higino sobre Jeane esconder algo.
— Como eu desconfiava — disse Hipólito após ouvir a opinião da especialista. — Quero
assumir a guarda da doutora. — E, antes que Gregório objetasse, prosseguiu, explicando qual era
a sua teoria sobre a possível cumplicidade de Werner. Quando o chefe de polícia pareceu
compreender seu objetivo, emendou: — Portanto, é primordial que ela esteja sob meus cuidados
para que eu possa forçá-la a abrir a guarda e confessar seus possíveis crimes.
— Faz sentido, Hipólito, mas com que desculpa a colocaremos sob vigilância na sua casa e
não em um abrigo seguro?
— Elementar, meu caro Lovat. — Santiago abriu um arremedo de sorriso, demonstrando
uma rara satisfação por seu plano. — Diremos à doutora Werner que, por ser testemunha, é
imprescindível para o nosso caso, portanto, estando ao meu lado durante a investigação poderá
colaborar mais.
— E você terá a chance de analisá-la de perto.
— Mais do que isso. Poderei encontrar seu ponto fraco.
— A senhorita Werner demonstrou ser bastante esperta.
Santiago ergueu as sobrancelhas, surpreso com o alerta na voz de Gregório.
— Pode ficar tranquilo, Lovat. Não sou vulnerável a um rabo de saia, como a grande
maioria dos homens.
O chefe de polícia concordou, por fim. Queria, mais do que nunca, colocar um basta
naquela matança.
***
Santiago vê a curiosidade latente no olhar atento de Jeane, assim que adentra sua sala.
Algo remexe dentro de si ao vê-la em pé, os cabelos soltos tampando parte dos hematomas do
rosto, enquanto seus olhos esquadrinham o ambiente. O detetive particular sabe que seu
santuário reflete sua própria alma, mas não teme a mulher na ponta oposta do cômodo. Pelo
contrário, sente-se atraído por sua força, como se ela fosse um ímã e o atraísse, inevitavelmente.
Por mais perturbado que esteja com a presença instigante da mulher extraordinária e
misteriosa em sua residência, Hipólito disfarça o desconforto e se levanta, a fim de mostrar à
senhorita seus novos aposentos. O chefe de polícia lhe lança um olhar cúmplice, antes de se
retirar, silenciosamente. O detetive se apodera da bolsa com os parcos pertences pessoais que
foram cedidos pelo departamento de polícia à testemunha. Ele aponta para as escadas.
— Por favor, doutora, sinta-se em casa. — Santiago está empolgado, principalmente,
porque a senhorita Werner aceitou sua oferta de bom grado.
— Obrigada. — Jeane sorri, sutilmente, subindo as escadarias para o primeiro andar. —
Foi muita gentileza de sua parte ceder um quarto em sua casa para mim. Há muito que não sei o
que é ter a sensação de segurança e o esforço extra da polícia para me manter segura é
reconfortante.
Santiago segue logo atrás dela, ritmando seus passos com os sons da madeira.
— Não tem de quê, doutora. Essa casa é monitorada por câmeras e Lovat também manterá
os dois guardas que a protegeram no hospital em minha porta.
— E você? — Jeane o olhou por cima do ombro. — Sabe lutar?
— No ramo em que atuo é preciso, doutora.
Ao alcançar o piso do primeiro andar, Jeane se vira de frente para Santiago.
— Nós já não passamos da fase da formalidade? — Abre um sorriso sedutor, que embeleza
tanto o seu rosto que, para Santiago, é como se todos os hematomas desaparecessem. — Afinal,
agora sou sua colega de quarto. Me chame apenas de Jeane.
— Sinto muito, senhorita Werner, mas prefiro manter nossa relação estritamente
profissional.
Santiago está a dois degraus do primeiro andar, o que facilita para Jeane ficar da sua altura.
Ela se aproxima e para, a poucos centímetros dele.
— Do que tem medo, detetive Hipólito?
A maneira ousada com a qual Jeane se aproxima, falando de maneira sedutora e lançando
sobre ele toda a força de um olhar penetrante, faz suas pernas tremerem. É a primeira vez que
uma mulher mexe com seu corpo, sexualmente, sem nem mesmo tocá-lo. Santiago estreita os
olhos, ameaçador, de maneira involuntária.
— De falhar no meu trabalho, doutora, que é meu único propósito ao convidá-la a morar na
minha casa, enquanto a investigação estiver em andamento.
Jeane o encara por mais alguns instantes, sem deixar o sorriso esmorecer. Para Santiago,
parece que ela duvida de cada uma de suas palavras, por mais sinceras que sejam. O detetive
contém o desejo de gritar e se defender. Não deve gastar energia com algo tão banal e
desproposital quanto um flerte, que ele não está disposto a retribuir. Ela lhe vira as costas e
prossegue até o único quarto do primeiro andar.
— Este é o quarto de hóspedes, raramente utilizado. — Santiago não admite que até
mesmo seu próprio quarto é quase tão inabitado quanto aquele.
Jeane observa a cama de casal no centro do cômodo e depois avista o closet na parede
oposta à janela, que garante uma ótima iluminação.
— É excelente! — ela não consegue evitar pensar no buraco no qual viveu nos últimos dez
anos. Mal consegue se lembrar de como era sua própria cama.
— O banheiro fica ao lado e é o único da casa.
Santiago recebe um novo e prolongado olhar da doutora, que solta faíscas na direção do
seu.
— Não me incomodo em dividir. Na verdade, não me importaria nem mesmo se
tivéssemos que compartilhar a mesma cama.
Incapaz de segurar o gesto, Santiago engole em seco o atrevimento da doutora. Ele nunca
viu uma mulher, que sofreu violência física, agir de maneira tão sexual.
— Ainda que fosse o único quarto — Santiago retruca, colocando-a logo a par de sua
rotina —, não seria necessário, já que eu quase não durmo.
— Quem aqui falou em dormir?
— Doutora Werner, eu...
Jeane começa a gargalhar, desconcertando Santiago completamente.
— Desculpe, detetive. Eu estava apenas brincando. Você é muito sério e formal. Só queria
quebrar essa barreira, já que terei que conviver com você nos próximos dias. Mas estou vendo
que vai ser mais difícil do que imaginava.
Santiago arregala os olhos, espantado por ter caído na armadilha de Jeane.
— Foi até bom para que a senhorita saiba que eu não sou um homem comum. Não faço
amigos, nem tenho amantes. E quando me conhecer melhor, tenho certeza de que não verá a hora
de se livrar de mim.
Jeane não aprecia o que Santiago diz, dá para ver em sua face. Ela avança pelo quarto até
parar diante dele outra vez, naquela mesma distância mínima de antes.
— Você subestima minha capacidade de empatia, detetive. Pois saiba que sempre estarei
aberta a uma amizade franca e duradoura com o homem nada comum que o senhor é. Tenho
absoluta confiança de que fará tudo o que estiver ao seu alcance para que eu me sinta segura.
O olhar de Jeane sobre Santiago queima como brasa, mas ele se fecha, não permitindo que
o calor derreta suas barreiras emocionais.
— Não se sinta especial, doutora. Você é apenas mais uma peça de um grande quebra-
cabeça que eu ainda não fui capaz de concluir. — Deixa a bolsa no chão, entre eles, afastando-se
dois longos passos, e balança a cabeça, em uma despedida cortês. — Se me dá licença, tenho um
assassino para encontrar.
Santiago sai do quarto de hóspedes transtornado por dentro, mas com o rosto mascarado
por uma expressão fria. Seu coração parece que vai sair pela boca e, pelo que pode perceber no
corpo feminino deixado para trás, Jeane não reage muito diferente dele.
O detetive se questiona, talvez tarde demais, se a ideia de colocar a doutora como hóspede
em sua própria casa não pode se tornar um grande erro. Santiago está acostumado a cometer
alguns enganos, mas não a errar completamente, sem fundamentos plausíveis. E, pelo visto, sua
decisão pode se configurar em uma das suas maiores falhas, comprometendo não apenas a
investigação, mas desestruturando toda uma vida de privação emocional.
E é por isso que sua mente não para de lhe dizer, repetidamente: mantenha o foco,
Hipólito!
CAPÍTULO 10

Jeane, após arrumar os poucos pertences no closet, senta-se na cama, respirando fundo.
Não acredita que está novamente em um quarto normal, sobre um colchão macio, com roupas de
cama quentes e aconchegantes. Quase lhe dá vontade de chorar. Quase. Ela sabe que se entregar
ao pranto pouco ajuda em alguma coisa. Aprendeu muito bem isso, nos últimos dez anos de
sobrevida.
— Estou saindo. Não sei se demoro — Santiago grita do térreo, sem dar maiores
explicações. Ela corre em seu encontro para saber mais, porém o detetive já sumiu porta afora.
Jeane começa a caminhar pela sala sem pressa, observando mais de perto os detalhes que
deixou passar. Certamente o detetive Hipólito é um homem de alma inquieta. Tudo no cômodo
sugere um caos extremamente organizado, desde os papéis jogados, até os recortes colados na
parede. Estranhamente, eles parecem estar cada qual em seu devido lugar.
Ela caminha por entre os livros, de olho na lareira recheada de notícias sobre crimes
diversos, quando se detém em algo que chama a sua atenção, e que ainda não tinha conseguido
observar do ângulo em que estava quando entrou: ao lado da lareira, em uma parede menor e
lateral, Jeane parece repassar toda a sua vida em um piscar de olhos. Ela deixa o queixo cair e
arregala os olhos diante de um enorme mosaico de recortes, alfinetados em um quadro de cortiça
mais alto do que ela. Bem em cima está um pedaço de papel, com um título escrito à mão e que
faz seus pelos arrepiarem: o caso do cara do dente. Logo abaixo, números dividem o quadro em
diversos quadrantes. Dez, para ser exato.
Jeane, com o coração acelerado por já ter ciência do que se trata, se aproxima do quadrante
número um. Dois recortes de jornal repousam, um ao lado do outro. O primeiro, fala do
desaparecimento de Tatiana Samarco, gerente de contas do Nacional Personnalité Bank. “A
desaparecida tem trinta e dois anos e foi vista pela última vez pelo segurança do banco, ao sair da
agência após um expediente de vinte e duas horas”, Jeane lê no primeiro recorte. A foto que
acompanha a notícia mostra Tatiana do modo que ela nunca havia visto. Olhos iluminados, pele
brilhante e um sorriso presunçoso no rosto. Da “Tati Incisiva”, apelido dado para ela pelo
Dentista para cadastro de vítimas do seu portfólio, Jeane só conheceu o olhar de horror, as
lágrimas, os gritos de dor, o rosto transtornado por medo e confusão.
No segundo recorte, a notícia de um corpo encontrado vinte e três dias após o
desaparecimento, e que foi identificado como sendo de Tatiana Samarco. Junto à reportagem,
uma foto revelada em tamanho ampliado, provavelmente tirada pelos peritos da polícia. A vítima
estava deitada, o corpo sem vida enrolado em um lençol impecavelmente branco, de modo
cuidadoso e artístico, formando uma espécie de toga romana, vestindo e enfeitando o cadáver.
Nos pés, sapatos brancos e envernizados, nunca antes usados, dado o estado impecável das solas.
Os cabelos negros, limpos e presos em um coque no alto da cabeça, contrastavam com a palidez
azulada da pele. Os olhos arregalados demonstravam sua última agonia, e a boca entreaberta
denunciava a falta de um dente incisivo, além da luta pela busca desesperada de ar, até o último
segundo. O pescoço apresentava grossas marcas roxas e, neste caso, estava ornamentado com um
belo colar dourado, com pedras que imitavam rubis.
A vítima foi encontrada pelos operários que trabalhavam na construção de um novo
edifício comercial, no centro da cidade. Nenhum deles poderia imaginar que, ao chegarem
naquela manhã, avistariam um pedaço de pano branco balançando pelas grades de um dos
andaimes, o mais baixo deles, para detectarem em seguida que se tratava da desova de uma
vítima de assassinato.
Jeane sente o estômago revirar, ao transferir o olhar para o quadrante número dois.
Seguindo o padrão do primeiro, vê uma reportagem descrevendo o desaparecimento da modelo
Maísa Deodoro, de vinte anos, que sumiu no trajeto entre a boate da qual saiu na madrugada de
uma sexta-feira, até a sua casa na Zona Sul, aonde nunca realmente chegou. Do lado, um recorte
do dia em que seu corpo foi encontrado, acompanhado de uma foto ampliada. A vítima, muito
limpa e enrolada em uma toga impecavelmente branca, foi encontrada debaixo de um outdoor
com uma propaganda de lingerie estrelada por ela, deitada sobre o capô do próprio carro, dezoito
dias após o seu desaparecimento. Maísa Molar, como foi nomeada pelo Dentista, também
mostrava a boca aberta, denunciando a falta de um dente. O pescoço também foi estrangulado,
mas sem ornamentação de colar. Dessa vez, a modelo fora encontrada com os lábios muito
vermelhos de batom, objeto que estava devidamente colocado em sua mão direita, como um
presente.
E assim, de quadrante em quadrante, Jeane revê as mulheres que passaram pelas mãos sem
bactérias e sem calor do Dentista. A diretora executiva Andréa Valin, de trinta e nove anos, ou
“Canina Valim”, encontrada nos mesmos parâmetros, como todas as vítimas, porém ao lado de
um frasco de Chanel nº 05. A dona de casa Cássia Reis, de quarenta e sete anos, ou “Cassinha
Pré-Molar”, achada com um botão de rosa sobre a toga branca. A corretora de imóveis Vega
Mantuza, de trinta anos, ou “Incisiva Veja”, cujo livro A Divina Comédia repousava sobre o colo
imaculado, ironicamente aberto no Inferno de Dante.
Vítima a vítima, Jeane reconhece todas as nove escolhidas pelo famigerado Dentista. E de
modo bem diferente do que havia visto até então. Pôde enxergar aquelas mulheres como eram
antes, em suas fotos na sessão de desaparecidos, tão cheias de vida, sonhos e planos, sem
poderem imaginar que um maníaco estava prestes a decidir que, para elas, o caminho se
encerrava ali. Por uma doença. Um mero capricho. Uma nítida loucura.
E no último quadrante, o décimo, posicionado exatamente no meio de todos os outros,
Jeane se depara com a notícia do próprio desaparecimento. Ela a lê ávida por notícias de seus
familiares, que não pode contatar devido ao risco que corre como testemunha do caso. O chefe
de polícia explicou que provavelmente só poderá andar livremente e falar com os seus após a
prisão do Dentista. Encara a própria foto ampliada do dia em que fora resgatada na mata. O
corpo desmaiado, em nada se parecia com as vítimas do Dentista. Roupas comuns, cabelo
desgrenhado, vários hematomas pelo corpo, mas nenhum no pescoço. Todos os dentes
preservados e nenhum presente deixado. Nenhuma lembrança. Nem um apelido “carinhoso”
sequer.
Tudo o que Jeane quer é se jogar na cama, gritar e sumir. Dar de cara com o passado
tenebroso lhe traz recordações que não gostaria de ter nunca mais. Imagens vívidas lhe
assombram a mente, lhe trazendo repúdio. Quase pode sentir o cheiro de sangue, quase pode
ouvir os pedidos de socorro. Quase pode enlouquecer com as dúvidas de sua mente perturbada.
Em um turbilhão de pensamentos, ela corre para o quarto de hóspedes da casa de Santiago,
em busca de abrigo. Jeane se joga sobre a cama e abraça o travesseiro, tentando controlar os
espasmos de seu corpo, que parece entrar em colapso nervoso. Presta atenção na própria
respiração, inspirando e expirando profundamente, até sentir que está conseguindo voltar ao
normal. Seu corpo vai parando de tremer, a mente deixando de trabalhar, e os olhos começam a
pesar, levando a testemunha para um estado de semiconsciência.
De repente, Jeane levanta de um pulo, catando roupas e toalha limpa pelo quarto, se
dirigindo às pressas para o banheiro e repetindo para si mesma: banho, preciso tomar banho, é
hora do meu banho.
CAPÍTULO 11

Santiago fuma três cigarros, um atrás do outro, na calçada em frente à sua casa, ignorando
os dois policiais postados à porta como guardas reais. Sua mente ficou em polvorosa depois das
brincadeiras inconvenientes de Jeane. Hipólito está nervoso, não apenas pelas insinuações de sua
hóspede, mas também por quase ter perdido completamente o controle e o foco. A doutora deu-
lhe muito no que pensar e, principalmente, imaginar.
O detetive só volta para dentro quando consegue suprimir a ideia de trocar fluidos sexuais
com a testemunha de seu caso. Além de que copular com uma mulher esteja completamente fora
de seus objetivos imediatos, Santiago não seria antiético a ponto de ceder à tentação justo com
uma vítima de violência física. Hipólito não costuma ser delicado durante o coito. Não é de sua
natureza ser delicado de forma alguma, a menos que finja. Uma parceira casual precisa estar
ciente de seus gostos peculiares, e que nunca haverá envolvimento emocional de sua parte.
— Estou de volta, doutora Werner! — grita da sala e ouve em resposta o som do chuveiro
ligado.
Santiago, normalmente, não se digna a avisar ninguém sobre sua rotina, muito menos
deixar de fumar dentro de casa em consideração a alguém. No entanto, em respeito à condição de
sua hóspede, abre uma exceção.
Não pretende dormir essa noite. Sua mente precisa de estímulo para resolver esse caso o
mais breve possível. De preferência, um estímulo que não o distraia, como o que Jeane sugeriu.
Entretanto, graças ao surgimento dela, o detetive tem uma nova linha de raciocínio, que renova
suas esperanças.
Santiago arrasta sua poltrona pela sala e a vira de frente para a parede na qual espalhou as
informações sobre as vítimas conhecidas do serial killer. Senta-se e encara o mural do caso,
pensando qual será a reação de Jeane ao se deparar com tudo aquilo. Espera que seja
esclarecedor. Ele faria aquele mosaico de qualquer maneira, porém, quando o fez desta vez,
imaginou que poderia ajudá-lo a ler melhor a testemunha. O detetive une as pontas dos dedos e
escora os cotovelos nos braços da poltrona, induzindo sua mente a um estado profundo de
meditação.
No entanto, seus sentidos continuam aguçados, como sempre, principalmente por estar
ciente de que há outra pessoa na casa. Santiago ouve quando Jeane sai do banheiro e se fecha no
quarto de hóspedes. Escuta seus passos ecoarem pelo cômodo, a porta do closet ranger, o
farfalhar de tecido... Nesse ponto, começa a suar frio, já que sua imaginação, extremamente
fértil, cria uma imagem perfeita do corpo nu de Jeane sendo coberto pela roupa de dormir. Nem
os hematomas o incomodam a ponto de fazer seu estado de excitação crescente regredir.
Ele não entende porque se sente atraído por Jeane. Deve ser por causa do caso e da
instigante oportunidade de concluí-lo. O som da mola da cama se movendo sob o peso do corpo
feminino ganha outra conotação em sua mente. Santiago aperta os olhos com força. Sabe que não
estaria tão consciente da hóspede se estivesse imerso em entorpecentes. Sua mente estaria em
uma viagem transcendental, rumo ao desfecho do caso do Cara do Dente.
O detetive afasta o desejo de se injetar heroína. Havia se controlado até então, não seria
uma mulher, introduzida em sua vida da noite para o dia, que o faria ser vencido pelo vício. Abre
os olhos e dá de cara com a foto da doutora, centralizada no mosaico. A fotografia é de quando
foi resgatada, portanto, Santiago pode apenas imaginar como seria seu rosto sem os hematomas.
Não se preocupou em separar uma foto dela escolhida pela família para ajudar nas buscas,
quando foi dada como desaparecida. A polícia nunca havia associado o desaparecimento dela
com o caso do assassino em série. Até Jeane ressuscitar dos “mortos”, literalmente.
— O que você esconde, doutora? — sussurra, como se conversasse com a própria.
Levanta-se e a encara de perto, ameaçadoramente. — O que as suas feridas podem me dizer
sobre seu algoz? Ou eu devo chamá-lo de cúmplice? O que pode acrescentar sobre as mulheres
sequestradas depois de você? Estiveram presas no mesmo lugar, ou você tinha um tratamento
privilegiado? Sei que ele não precisava de ajuda para sequestrar, nem para desovar as vítimas.
Então, qual foi o seu papel nesses dez anos?
A fotografia não responde nenhuma de suas perguntas e o enigma deixa Santiago no
escuro. Desvia sua atenção para a vítima do lado esquerdo de Jeane. A estudante de direito de
apenas dezenove anos é a mais jovem das mulheres raptadas pelo Cara do Dente. As duas fotos
da vítima revelam o antes e depois do sequestro. O detetive sabe que a toga na qual o serial killer
as envolve era usada na Roma antiga, a partir da Nova República, somente por prostitutas. O que
o leva a crer que o assassino tenha conhecimento de História.
Porém, uma busca pelo seleto grupo de professores das universidades locais não levou a
nada. Santiago não acredita mais em tais pistas. A única explicação lógica que encontra é que o
criminoso não é da cidade. Isso amplia seu leque de opções, assim como de pistas. Talvez, em
outra jurisdição, a polícia tenha encontrado algo que ele não foi capaz. A ideia mal se forma e o
detetive a afasta. Outras cidades não possuem sua mente como aliada. É impossível
acrescentarem mais do que ele já sabe.
E se isso for verdade, uma década não foi o início da matança do serial killer.
Agora, Santiago tem uma testemunha viva das atrocidades cometidas pelo Cara do Dente.
Duvida que outro departamento policial no país tenha chegado tão longe em um caso tão
complexo. O detetive precisa admitir, ao menos a si mesmo, que teve sorte. Não acredita no
acaso, por isso mesmo lida com a doutora do jeito que é necessário: suspeitando até mesmo de
seu depoimento. Não pode se deixar influenciar pela facilidade com que a moça veio parar em
suas mãos.
E em sua casa...
Desvia sua mente para o caso, antes que volte a lhe pregar peças. Olha para a senhora da
direita. Uma cinquentona, que ganhava a vida como promotora de eventos. Ela é a mais velha
das vítimas do Cara do Dente. Ao contrário da estudante, que recebeu como prêmio um mero
piercing no umbigo, a promotora ganhara um suntuoso solitário. Como era solteira, segundo os
familiares, o anel não podia ser de noivado. Mas aquilo o intrigou na época. Será que Valentine
Novaes, que teve o pré-molar arrancado, foi a favorita do assassino? E se sim, isso poderia
significar a faixa etária do suspeito e confirmar que seus crimes datam de antes de uma década?
Ele espera que Jeane possa lhe elucidar essa questão. E lá está Santiago às voltas com a
testemunha novamente. Mas não há alternativa. Ela é o centro do mistério. O caso e as vítimas
pairam ao seu redor como planetas girando em torno do sol. Mergulha mais profundamente em
suas reflexões até perder a noção do tempo e do espaço. De repente, sobram apenas as peças de
um imenso e confuso quebra-cabeça diante de seus olhos, um verdadeiro estimulante para seu
cérebro inquieto.
Um grito agudo invade o poço escuro e silencioso no qual está imerso, trazendo-o
abruptamente de volta à realidade. Santiago se percebe na poltrona, em sua posição preferida
para meditar, quando o som assustador se repete. Seu coração bate na garganta e a adrenalina o
obriga a agir. O detetive salta do seu local preferido na sala, corre para a escada e pula os degraus
de dois em dois ao escutar o berro tão alto, que fere seu tímpano sensível.
Ele abre a porta do quarto de hóspedes com todos os sentidos despertos e em alerta.
Demora apenas um segundo para que seus olhos se adaptem à escuridão do cômodo e possa
visualizar a silhueta feminina, contorcendo-se sobre o colchão. Sente o cheiro do medo
sobrepujar a fragrância suave que exala do corpo de Jeane. Sabonete e xampu. Santiago paira
com as mãos no ar entre eles, sem saber qual a melhor atitude a tomar.
— Não! Por favor! Eu prometo melhorar! — A moça se debate, falando sozinha.
— Doutora Werner — chama, com medo de despertá-la, mas é isso que precisa fazer.
Bufa, como se repreendesse a si mesmo, e a toca no ombro, procurando evitar qualquer
hematoma. — Acorde.
Ao sentir o toque vacilante de Santiago, Jeane empurra a mão do detetive.
— Não faça isso, por favor! — implora, ainda de olhos fechados, encolhendo-se em uma
bola.
Ela se mexeu tanto durante o sono que o cobertor caiu no chão. A camisola virou um bolo
de tecido na cintura e uma alça caiu, revelando mais de suas curvas do que Santiago precisava
ver. Por mais que as fotos da perícia de cada parte machucada do corpo de Jeane sejam em alta
definição, ele nunca sonhou em vê-la ao vivo, em carne, ossos e hematomas, deitada em sua
casa. Desvia os olhos, sentindo-se um predador sexual, que não consegue controlar o instinto de
devorar a vítima, mesmo diante de sua vulnerabilidade.
— É apenas um sonho, você está segura — tenta acordá-la novamente, sacudindo seu
ombro com mais força do que pretendia. Está desesperado para se livrar da obrigação de concluir
o que começou.
Eu não devia ter entrado aqui. Estou invadindo sua privacidade, por mais que a casa seja
minha, pensa.
Jeane começa a berrar de maneira desconexa e perturbadora, mas o que mais o transtorna é
o fato de que ela agarra seu pulso, enfiando as unhas na pele, com uma mão, e com a outra o
estapeia. Santiago luta para impedi-la, buscando usar a sua força de maneira comedida para não
machucá-la, mas também se salvar. Para sua surpresa, no entanto, seu corpo reage de maneira
inesperada. Unindo a imagem daquela mulher sexy e vulnerável à sua batalha contra a
dominação, o detetive se vê dentro de uma visão das mais eróticas que ele sequer pôde imaginar
um dia.
Uma parte da mente de Santiago sabe o que fazer e se regozija, mas a outra o orienta a
encontrar uma alternativa. Atordoado, sente uma fisgada entre as coxas, e com pressa para acabar
com aquilo de uma vez, cede à opção mais rápida. Senta-se sobre o corpo frágil e debilitado,
imobilizando-o com seu peso, e prende os braços de Jeane contra o colchão. Ela urra, erguendo o
tronco na vã tentativa de se libertar, e um seio escapa do tecido. Um maldito sorriso de satisfação
repuxa os lábios de Hipólito.
— Acorda, doutora! — É a sua vez de gritar, trazendo sua racionalidade de volta.
Obedecendo a seu comando, Jeane arregala os olhos, ofegante e assustada.
Santiago vence o embate contra o pesadelo, mas não antes que sua ereção se manifeste
com tanta evidência, que até mesmo Jeane testemunha seu descontrole.
CAPÍTULO 12

Jeane não consegue raciocinar sobre nada. O desespero de estar nas mãos do seu
sequestrador, presa, sabendo o que virá a seguir, é maior do que qualquer outra coisa. Até onde o
seu corpo vai aguentar? Até onde a sua mente vai encarar o desafio de não sucumbir à dor e à
loucura? Às vezes se questiona se estar no lugar de vítima não seria infinitamente melhor. Pelo
menos o seu sofrimento teria fim.
Ela tenta se livrar da forma que pode, levantando o quanto consegue e se debatendo. Sente
o corpo pesado dele sobre si, e a nojenta ereção a lhe apertar a coxa. Desespera-se pelo que virá a
seguir e começa a apertar o punho do Dentista com força, cravando-lhe as unhas, até que ele a
imobiliza de vez e, com uma voz firme, porém preocupada, a manda abrir os olhos.
Jeane obedece e franze a testa ao avistar Santiago. Seu primeiro impulso é gritar com ele,
mordê-lo, qualquer coisa para conseguir se livrar. O que ele está fazendo no cativeiro, em cima
dela, segurando-a com tanta força? O detetive nunca quis ajudá-la, afinal? Ele é o novo cúmplice
do sequestrador e a levou de volta para o seu cárcere?
— O que aconteceu? O que você está fazendo em cima de mim?
— Doutora Werner, se acalme, foi só um pesadelo. Está tudo bem.
A respiração ofegante de Jeane começa a desacelerar aos poucos. Ela passa os olhos ao
redor, girando-os sobre as órbitas e começa a se lembrar de onde está. Ela foi levada para a casa
de Santiago por Gregório. Tomou um banho e se deitou para descansar, após encarar o mosaico
montado na sala, sobre seus últimos dez anos de vida e terror. A partir daí, tem certeza de que
apagou, pois não se lembra de mais nada.
Até agora.
— Vou soltá-la, ok?
O detetive a encara, esperando que se situe. Ele começa a soltar seus punhos devagar, ao
notar que a doutora está voltando a si. Jeane sabe que teve mais um pesadelo, vívido e real, e
teme o que pode ter dito e o que Santiago presenciou. Tenta se acalmar, dizendo a si mesma que
foi tudo fruto da sua mente perturbada, do seu inconsciente ferido e traumatizado.
Ou quase tudo. Ainda sente sua coxa pressionada por algo que parece uma baita ereção.
Ela não consegue evitar de olhar para baixo, como um ato reflexo. Santiago parece pressentir,
pois se afasta, pondo-se de pé de imediato. O quarto está escuro, mas Jeane sente o cheiro de
constrangimento tomando conta do ambiente.
— A senhorita gritou e me bateu. Tive que tomar medidas drásticas para fazê-la acordar do
que parecia um pesadelo — ele quebra o silêncio, explicando melhor sua presença em cima dela.
Jeane ergue um pouco o corpo, sentando-se sobre o colchão e encostando as costas na
cabeceira. Ela percebe um dos seios fora da camisola e o cobre imediatamente, imaginando se
Santiago também o notou. Ou ainda pior, se o detetive é o responsável por ele estar desnudo.
Imediatamente Jeane se repreende por pensar dessa forma. Sabe que nem todos os homens
são monstros abomináveis. Santiago é frio, objetivo, um pouco rude até, mas não acredita que
seja capaz de um ato de maldade e abuso, como um representante da lei e da ordem. Ela confiou
no detetive, e o identificou como igual desde o começo. O que é estranho, pois já não era de
confiar em ninguém antes do sequestro, agora então, menos ainda. E precisa confiar em seus
instintos. Se tem uma coisa que aprendeu foi a ler as pessoas. E a se esconder delas, se
necessário.
— Sim, já estou mais calma. Obrigada por me acordar — Jeane lembra-se de dizer alguma
coisa, depois de um longo período de silêncio.
— Isso tem acontecido com frequência? — Santiago pergunta, sem conseguir disfarçar o
interesse na voz, percebido imediatamente pela doutora.
— Não. Foi a segunda vez. É natural, detetive, não se preocupe. Sou uma vítima
sobrevivente, talvez ainda um alvo em potencial, trazida para o programa de proteção à
testemunha. Nada mais normal e esperado do que esboçar manifestações pós-traumáticas, não
acha? É muita coisa para processar em um curto espaço de tempo — fala, retomando o tom
equilibrado e neutro que sempre tenta sustentar quando está na presença de alguém. Soa como
uma profissional, que sabe o que diz.
Ela quase pode sentir o detetive titubear na resposta, mas quando fala sua voz é
completamente normal, sem uma alteração sequer.
— E não acha que seria bom contar isso para alguém?
Jeane dá uma risada.
— Quer que eu corra para a sua cama no meio da noite sempre que tiver um sonho ruim,
detetive?
Hipólito raspa a garganta e ela pode ouvi-lo caminhar de um lado para o outro de seu
quarto. Está visivelmente nervoso, o que faz com que a doutora sinta um prazer incompreensível.
— Eu estava sugerindo uma terapia. Lovat comentou que uma psiquiatra foi vê-la.
— Como se você já não soubesse que ela iria — ela responde, sagazmente, ouvindo uma
risada contida em resposta. — Mas pode ser. Quando eu voltar ao hospital para avaliar a
cicatrização dos ferimentos vou olhar isso. Agora você pode voltar a dormir, detetive.
— Eu não durmo com frequência, senhorita Werner. Você ainda tem muito o que aprender
sobre mim. — Só então Jeane nota que ele está vestido com a mesma roupa de quando a recebeu
em sua casa, mais cedo.
Santiago respira fundo e começa a sair do quarto, mas para, de repente.
— Creio que seja de bom tom oferecer um chá. Ou um copo d'água com açúcar, talvez?
Acho que o protocolo de boas maneiras exige isso já que serei seu anfitrião por período
indeterminado.
Jeane dá um sorriso incontido. Ela torna a se deitar, ainda sentindo o corpo rígido por
causa do pesadelo pelo qual acaba de passar.
— Não é necessário, detetive, obrigada pela gentileza. A propósito, não precisa de
cerimônia comigo. Se precisar de algo, eu mesma levanto e pego.
Santiago hesita por um segundo, antes de sair pela porta e dizer, ao fechá-la:
— Bem, então, boa noite. Se precisar...
— Boa noite, Santiago. Durma bem — Jeane interrompe a demonstração de preocupação,
e Hipólito bate a porta, talvez com um pouco de raiva, dado o leve estrondo que o sucede.
A doutora respira, aliviada. Precisava ficar sozinha com urgência para dar conta do tremor
que tentava disfarçar e do nó na garganta que a atormenta. O detetive foi de grande ajuda, mais
solícito do que ela poderia imaginar, mas Jeane sabia que precisava lidar com os próprios
fantasmas sozinha. E eram muitos, diversos, muito mais do que o número nove, ou talvez dez,
que todos supunham. Afinal, são nove vítimas. Dez, se contar com ela. Um número fechado,
redondo, certo?
Antes fosse...
Jeane começa a inspirar e expirar, lenta e profundamente, prestando bastante atenção no
movimento de subir e descer do abdômen. Aprendeu esse truque para se acalmar sempre que
parecia que perderia o controle na última década. A respiração silenciosa, muitas vezes, era a
única coisa que não irritava o Dentista. Ele não tinha o melhor dos humores, ela sabia, mas
tinham dias que eram muito piores do que outros.
A doutora sente a pulsação se regularizando e a respiração voltando à normalidade. O
vento que entra pelo basculante bate em seu rosto e ela sente o suor gelando testa e bochechas.
Vira-se de lado, bem de frente para a janela, permitindo-se ser acariciada pela brisa fria. Fecha os
olhos, se perguntando se conseguirá voltar a dormir essa noite. Tem medo de encarar um novo
pesadelo. Todos têm sido extremamente cruéis ao seu modo, superdimensionando aquilo que já é
ruim o suficiente. Não sabe por que a sua mente faz questão de lhe torturar dessa maneira. Como
se já não tivesse sido judiada o bastante.
Jeane se permite permear os pensamentos por outros caminhos, e acaba chegando ao
detetive e no que aconteceu há pouco. Não pode dizer que foi uma ocorrência boa, dadas as
circunstâncias, mas a única coisa que não foi horrível nessa experiência foi tomar a consciência
de que quem estava em cima dela era Santiago. Infelizmente não estava em condições de
apreciar o toque, o calor, a interação dos dois corpos. Mas se lembra, vividamente, do pênis do
detetive apertando sua coxa. Chegava a machucá-la, tão duro e viril que estava. E pior:
generosamente. Uma bela extensão de sua pele sentiu o membro rígido de Santiago.
Ela se lembra também de quando guardou o seio exposto de volta na camisola, não lhe
passou despercebido que o mamilo estava rígido. Só não sabia dizer se pelo susto, pelo frio, ou
pela proximidade com aquele homem que lhe intriga e fascina desde o primeiro contato.
Desistindo de compreender, Jeane se permite pegar no sono mais uma vez, se questionando
se o seu corpo foi novamente despertado, do modo que ela imaginava que nunca mais seria.
CAPÍTULO 13

Santiago faz uso de diversos artifícios para manter seu foco no trabalho depois da visita
inapropriada ao quarto de sua hóspede, mas nada adianta. Nem a música alta nos fones de
ouvido, para não acordar Jeane, ou mesmo sua meditação surte o efeito esperado. O detetive tem
sérios desejos de quebrar alguns objetos até extravasar a agitação que o impede de se concentrar
no caso do Cara do Dente.
No meio da noite, desiste e resolve que dormir, ao menos, o fará parar de pensar na mulher
ferida e sensual hospedada no andar de cima. Ele se tranca em seu quarto, que fica
estrategicamente ao lado da sala, e ainda que sinta muita dificuldade para adormecer,
eventualmente seu corpo cede à inatividade. Obriga seu cérebro a desligar e espera que o sono
seja reparador, para que tenha outra perspectiva pela manhã.
No entanto, as poucas horas de descanso não melhoram seu humor. Santiago desperta junto
com a chegada do sol, sentindo-se pior por ter perdido um tempo precioso de investigação e,
talvez, ter aberto uma janela para que o assassino consiga escapar pelos seus dedos novamente.
Por isso, abre a porta do quarto com brutalidade, deixando-a bater contra a parede ao sair.
Ruma para a cozinha e coloca água para ferver, a fim de fazer chá e café. Confere na
geladeira e encontra apenas ovos, em meio a alguns órgãos e experimentos químicos que precisa
guardar em local refrigerado. Dá de ombros e os pega, a fim de fazer um mexido. Quebra as
cascas e despejas o conteúdo na frigideira, misturando a clara à gema com uma colher de pau.
— Bom dia, detetive. — A voz de Jeane não o sobressalta, pois a ouviu descer as escadas.
— Pensei que fosse alguma briga, mas é só você fazendo o café da manhã.
— Chá ou café, doutora Werner? — pergunta, sem se incomodar em cumprimentá-la ou
sequer olhá-la.
Jeane franze o cenho, estranhando a falta de educação de Hipólito.
— Café, não estou doente.
— E por acaso as pessoas tomam chá somente quando estão doentes? — Santiago retruca,
dividindo os ovos em duas porções.
— Eu, sim. Ah! Obrigada! — Jeane aceita o prato que o detetive lhe entrega.
Santiago volta ao fogão e despeja a água fervente em pó de café torrado. Enche duas
xícaras grandes com o líquido coado e oferece uma à Jeane, que sorri, grata, como se nada
tivesse acontecido na noite anterior. Hipólito não consegue fingir, por mais que tente. Ter ficado
sexualmente estimulado com a reação de defesa da doutora durante o pesadelo ainda o
envergonha.
— O açúcar está na terceira porta do armário, se quiser — o detetive orienta e, munido de
seu café, vai direto para a poltrona na sala.
Preciso manter a compostura se quiser seguir o plano. Se não, a presença da doutora em
minha casa não vai ter valido de nada. É para eu fazê-la perder o controle e não o contrário,
Santiago pensa, enquanto beberica o café quente e encara a fotografia de Jeane no centro do
mural do caso.
— Você é viciado em trabalho. — Santiago faz um esforço para não reparar no tom
sensual da voz de Jeane, no perfume feminino que exala dela e no pouco que o robe cobre sua
pele machucada. Ela transpira tanta autoconfiança que o irrita. Ignora a palavra “viciado”, pois
Jeane não sabe sobre seu problema com drogas. Foi um acordo feito com Lovat antes de levá-la à
sua residência. — Traz os casos para casa.
— Minha casa é o meu local de trabalho, doutora Werner. Por isso que a senhorita estará
segura enquanto estiver comigo. — Inclusive do meu desejo, acrescenta a si mesmo,
mentalmente.
— Você está de péssimo humor. — O sarcasmo não escapa a Hipólito. — Dormiu bem?
Santiago se levanta e encara Jeane pela primeira vez sob a luz do dia, após o que aconteceu
entre eles no quarto de hóspedes.
— Esse é o meu humor rotineiro, doutora. Acostume-se. Não perco tempo com
frivolidades, muito menos quando estou caçando um serial killer. Meu único objetivo é impedir
o assassino de continuar matando. Também deveria ser sua prioridade.
— É a minha prioridade. Estou aqui para ajudar no que puder, mas isso não me impede de
ser educada.
O detetive desvia de seu corpo, incomodado em estar no mesmo cômodo que aquela
mulher tentadora. Sua pele não consegue esquecer a dela. Às vezes, ter uma excelente memória é
uma maldição para ele.
— Vista-se assim que terminar o café. A senhorita já parece estar bem para dar seu
depoimento formal.
Santiago espera que Jeane tente persuadi-lo a desistir da ideia, mas é surpreendido por sua
resignação.
— Como quiser, detetive.
Em meia hora, estão saindo de casa, acompanhados pelos dois policiais à paisana. Santiago
aproveita a escolta em vez de pedir um táxi. Envia uma mensagem de texto a Lovat, avisando de
suas pretensões, por isso, assim que chegam à delegacia, o chefe de polícia está preparado para
eles, junto com o detetive encarregado do caso. Hipólito assistirá ao show de camarote, do outro
lado do espelho semitransparente.
— Como está se sentindo hoje, senhorita Werner? — cumprimenta Gregório.
— Melhor. Obrigada por perguntar, senhor Lovat.
— Está pronta para nos contar tudo o que se lembra?
— Com certeza, senhor.
Santiago estreita os olhos e troca um olhar enigmático com o chefe de polícia.
— Por aqui, por favor.
Gregório a leva para uma sala de interrogatório, e Santiago estuda suas reações. Ela engole
em seco ao perceber para onde está sendo guiada, e o detetive se regozija.
— É somente para sua privacidade — Lovat também percebe o desconforto de Jeane.
Fecha a porta atrás de si. — Aqui a senhorita poderá falar à vontade, sem ser interrompida, nem
coagida.
A segunda parte do que o chefe de polícia diz, Santiago ouve da sala escura ao lado,
escondido atrás do vidro espelhado.
Agora serei testemunha de sua derrocada, doutora, Santiago ironiza em pensamento.
Lovat liga o gravador e o coloca no centro da mesa, que está entre eles.
— Segunda-feira, vinte de julho de 2017. Segundo depoimento da doutora Jeane Hanna
Werner, única vítima sobrevivente do assassino em série conhecido pela alcunha de o Dentista
— o chefe de polícia grava a abertura da fita antes de começar. — Senhorita Werner, você já nos
contou como foi raptada e sobre sua primeira lembrança em cativeiro. Pode nos dar algum
detalhe do lugar?
Jeane pisca os olhos e os desvia para o tampo da mesa, demonstrando estar abalada.
— Era um lugar constantemente escuro e cheirava à água sanitária e desinfetante o tempo
todo para amenizar o odor de excremento e podridão. Não se parecia com uma casa. Era mais
como um porão, sem janelas ou portas, mas não tenho certeza.
— Alguma vez nesses dez anos a senhorita foi movida? Trocada de local?
— Não.
— Então, nunca viu os arredores do cativeiro?
— Não, senhor.
— A senhorita tem alguma ideia de onde estava sendo mantida?
— Nenhuma.
— Além do cheiro, havia sons que se repetiam? De pássaros, ou talvez uma rodovia?
Jeane não responde tão rápido como às outras perguntas, mas Santiago acredita que ela
possa estar tentando se recordar.
— Não consigo me lembrar, desculpe.
Ou sua mente está bloqueando lembranças, ou a doutora decidiu esconder informações
relevantes da polícia, o detetive reflete com os olhos presos na testemunha.
Como Santiago o havia orientado por mensagem de texto, o chefe de polícia prossegue
com o interrogatório, sem dar tempo para que Jeane se recupere.
— E a voz do assassino? Conseguiria identificá-la se a escutasse novamente?
— Sim, com certeza. É a única coisa que eu sei que era real, apesar de estar abafada,
constantemente, por uma máscara cirúrgica.
— Ele não apareceu à paisana para você nenhuma vez?
— Não, nunca.
— Conseguiria descrever algum traço de sua fisionomia para um retrato-falado?
— Bem, eu posso tentar, mas não tenho muita feição para descrever além dos olhos.
— Já ajuda. Como eram?
— Escuros e sombrios.
— Entendo que sua mente possa tê-lo associado a um monstro, mas isso foi bastante vago.
Jeane suspira e Santiago se aproxima mais do vidro, como se pudesse aspirar o ar que ela
liberou.
— Veja bem, senhor Lovat, eu me sentia acuada e não estava disposta a enfurecê-lo, e
acabar morta como as outras. Eu não ficava encarando. Não sei como sobrevivi a dez anos no
inferno, sendo torturada pelo próprio demônio, mas, infelizmente, ele fez um bom trabalho ao se
camuflar nas sombras. Ou talvez a minha mente esteja me pregando peças, e eu apenas
endemonizei um ser humano cruel. Talvez eu deva seguir o conselho do detetive Hipólito e
procurar ajuda psicológica.
Ela está me usando para se esquivar da pergunta, Santiago percebe, mas não faz nada para
tentar avisar Lovat. Acredita na percepção aguçada do chefe de polícia. Se ele não fosse bom,
não estaria na posição de liderar uma delegacia.
— Hipólito a orientou a procurar ajuda? — surpreende-se Gregório.
— Sim. Desde que fui salva, tenho pesadelos com o tempo em cativeiro.
— Seus pesadelos estão carregados pelas lembranças do que viveu?
— Mais do que isso. É como eu disse há pouco. Eu endemonizei meu algoz e em meus
sonhos as coisas são ainda piores do que realmente aconteceram.
— Está dizendo que a realidade não era tão dura quanto seus pesadelos? Acredita que
voltar ao cativeiro seja mais suportável do que enfrentar seus demônios?
— Não, eu... — Jeane se interrompe e Santiago vibra. Ele a pegou! — Não foi o q... — Ela
tenta se explicar novamente, porém se cala. Diversas expressões passam por seu rosto, como
assombro e medo. — Espera aí, senhor Lovat. Isso aqui é um depoimento ou um interrogatório?
Droga! A doutora percebeu nosso jogo. Santiago se frustra, no entanto, não está disposto a
deixá-la se fechar novamente. Esse caso depende da colaboração dela.
— É um depoimento, senhorita, mas tomei a liberdade de guiá-la pelas lembranças que são
mais relevantes para nós.
— Sinto que, na verdade, estão desconfiando de minhas palavras. — Jeane se ergue e dá
um ultimato, colocando Santiago em alerta: — Se o senhor não pretende formalizar uma
acusação contra mim, gostaria de me retirar agora.
O chefe de polícia se recosta à cadeira, entregando os pontos, que Hipólito pega para si.
Ele sai da sala ao lado ao mesmo tempo que Jeane, encontrando-a no corredor. Seus olhos soltam
faíscas ao se conectarem em um momento de pura adrenalina e desconfiança.
— Receio que a senhorita precisa voltar e terminar o seu depoimento, doutora Werner — e
para à sua frente, de forma ameaçadora. — Qualquer coisa que se lembrar vai ajudar a pegar o
cara que fez isso com você — evidencia o que quer dizer, apontando para o corpo machucado da
testemunha.
— Você acha que eu quero que ele escape, detetive? — Jeane o peita, aproximando-se
mais. — É claro que não! Só vou me sentir segura novamente quando o Dentista estiver
apodrecendo atrás das grades.
A chama que vibra no olhar da doutora acende aquela nova força que nasceu dentro do
detetive, desde a primeira vez que a viu.
— Então me ajude a pegá-lo, doutora — suplica, mas com firmeza. — E, enquanto a
senhorita estiver em minha casa, prometo que garantirei a sua integridade física.
Jeane perscruta seu olhar como se procurasse pela mentira, mas Santiago não consegue
fingir para ela.
Ele até tenta, porém, sempre falha.
CAPÍTULO 14

Santiago assume o lugar do chefe de polícia, sentando-se diante de Jeane na sala de


interrogatório, que bate os dedos sobre a mesa, impaciente. Ela nem sabe como foi convencida a
voltar ali.
— Eu já disse que quero ir embora. Estou cansada, parece que vocês esqueceram que estou
me recuperando de uma tentativa de assassinato! — Jeane reclama, demonstrando uma
indignação exacerbada e pouco convincente, até mesmo para ela.
Obviamente a doutora quer se livrar da situação o quanto antes. Ela sabe que foi
encurralada por Lovat e quase perdeu a linha. Não pode deixar isso acontecer de novo.
E não vai.
— Nós já vamos embora — Santiago fala, enigmático. — Só estamos aguardando uma
encomenda que preciso levar para casa. Lovat foi conseguir a autorização.
Jeane e Santiago se olham por tempo indefinido. A sensação que a testemunha tem é de
que o detetive tenta, a todo custo, desvendar o que se passa em sua cabeça. Ele não pode sequer
imaginar. Por mais que algo passe por sua mente astuta e brilhante, a vítima tem certeza de que
não chega nem perto do seu real terror.
— Você é feliz, detetive? — Jeane quebra o silêncio.
Santiago não esboça nenhuma reação. Apenas dirige os olhos frios a ela, antes de
responder:
— Felicidade é um estado ilusório, no qual as pessoas se colocam para dar conta de suas
sobrevidas monótonas, e que perseguem constantemente por nunca se sentirem satisfeitas com o
que possuem.
Jeane observa Santiago, incrédula. Como ele pode ser tão alheio aos sentimentos quando
quer, como se tivesse um botão de liga e desliga? Ninguém é tão frio assim. Nem ela mesma. E
olha que se acha uma pedra de gelo, muitas vezes. Talvez o Dentista seja, mas ele é um
psicopata. O detetive, no momento, não parece nem de longe com o homem que perdeu o
controle sobre o próprio corpo em seu quarto a noite passada.
— Então, se você não acredita na felicidade, não é feliz — ela conclui, com o olhar
perdido, sem encarar os olhos de Santiago.
— Ninguém é “feliz”, senhorita — o detetive responde, fazendo sinal de aspas com os
dedos. — Eu sou satisfeito com o que faço. Isso me basta.
Lovat entra na sala, interrompendo a conversa, carregando uma enorme caixa organizadora
com dificuldade, e convoca:
— Vamos. Vou levar a caixa para a viatura.
Por todo o caminho de volta, Santiago e Jeane seguem calados no banco traseiro do carro,
cada um olhando pela sua janela. A médica se sente realmente cansada depois de ter sido
encurralada e não está para muitas palavras. Por sorte, Santiago também não parece querer
conversa.
Quando chegam à casa do detetive, ela entra logo após seu anfitrião, que joga a caixa com
um baque surdo no chão, assustando-a. Jeane fecha a porta e tira o casaco.
— Acho que agora eu aceito aquele chá — solicita com a voz amena, tentando quebrar o
clima estranho que se estabeleceu entre os dois, desde a delegacia. A médica ficou vulnerável, e
certamente Santiago percebeu.
— Farei para a senhorita, mas antes, preciso de um favor.
Jeane estranha o tom de voz complacente e a expressão serena do homem à sua frente. O
que será que Santiago vai lhe pedir que o tenha feito baixar a guarda dessa maneira? Qual será a
bomba que o detetive está prestes a jogar em seu colo?
— Pois não — assente, engolindo em seco.
— Preciso que a senhorita se posicione diante do painel de fotos e recortes.
Ela arregala os olhos, visivelmente assustada.
— Qual deles? — tenta se fazer de desentendida.
— Está vendo mais algum? — Santiago aponta o painel montado para o caso do Dentista.
Só então Jeane percebe que todas as outras paredes estão completamente limpas e livres de
colagens. Ele tirou tudo durante a noite. Por quê? — Os demais eram elementos distratores, e eu
preciso focar — ele explica ao ver a expressão confusa e assustada da médica, como se lesse seus
pensamentos.
— E para que isso?
— Confie em mim, senhorita Werner. Eu sei o que eu estou fazendo. Ou está com medo do
que pode vir a enfrentar? — Santiago se aproxima de Jeane e abaixa o tom de voz, de modo
ameaçador.
Ele olha diretamente em seus olhos. A médica trinca os dentes e fecha os dedos em punho,
a ponto de sentir as unhas machucando as palmas das mãos. O detetive está mesmo tentando
mexer com seu orgulho deliberadamente, desafiando-a para ver se ela vai ficar ou correr? Não
pode acreditar que ele a julga ser tão ingênua!
— Medo? Medo eu tive nos últimos dez anos. Estou muito bem agora, obrigada — diz,
passando pelo detetive, pulando a caixa que ele jogou no chão e se posicionando em frente ao
painel. — Satisfeito? — emburra de braços cruzados.
— Quase — Santiago sorri, quando se abaixa e abre a tampa da caixa. — Você se lembra
bem de cada uma das vítimas do Cara do Dente? Chegou a conhecê-las?
Jeane respira fundo. É obvio que se lembra de cada uma, pensa consigo, e não precisa de
mural nenhum para isso. Ali só estão nove mulheres. Dez, se contar com ela. E suas lembranças
vão muito além desse número.
— De certo modo... — fala, evasiva. — Mas me lembro sim.
— Ótimo — Santiago demonstra uma empolgação quase infantil. — Quero que foque na
de número oito, por favor. Esqueça o restante, no momento. Olhe as fotos dela, o antes e o
depois, tudo o que existia em seus olhos e que lhe foi tirado quando a mulher da primeira foto foi
transformada na vítima da segunda.
Jeane transfere o olhar para a número oito: Vera Moraes, quarenta e três anos, balconista
de uma loja de roupas do Shopping Golden Garden. Na foto à esquerda, a mulher, que
aparentava muito menos idade do que tinha, sorri, com uma criança pequena no colo. Seu filho
de seis anos, Arthur. “MM” — como o dentista a chamava, abreviação de “Molar Moraes” —
gritou pelo menino até o seu último suspiro. Na foto seguinte, a vítima achada no padrão de
sempre, com uma diferença. O souvenir encontrado junto ao corpo dessa vez foi...
— Um urso de pelúcia — Santiago comenta no ouvido de Jeane, fazendo-a dar um
sobressalto. Sequer sentiu que o detetive se aproximou, tão envolvida estava com a vítima
número oito. — Exatamente esse.
Santiago permanece às costas da moça e circula seu corpo com o braço, estendendo à sua
frente o pequeno urso branco encontrado com Vera. Aquele mesmo que ela viu sendo
esterilizado por dois dias seguidos. Apesar de o brinquedo estar lacrado no saco de evidências,
ela ainda pode sentir o forte cheiro de creolina.
— Esse foi o presente da vítima número oito. Por que um urso? Em referência à criança da
foto? É o prêmio de consolação para o menino de seis anos, que perdeu a mãe de forma tão
brutal? — Santiago pergunta em um sussurro, tão perto da médica, que a faz se arrepiar. —
Agora olhe a número nove, por favor.
Jeane encontra os olhos de Luísa Salim, a vendedora de automóveis de trinta e sete anos.
Logo em seguida, Santiago a circula com o outro braço e estende mais um pacote à sua frente.
— Essa foi a pulseira encontrada com a número nove.
Jeane a conhece bem. Uma peça de aço cirúrgico, banhada à prata de lei, sem nenhum
berloque. Uma semijoia simples e sem atrativos, não fosse a frase de Leonardo Da Vinci gravada
do lado de dentro, que diz: “Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua
morte, ele permaneça”.
De repente, Jeane se vê quase abraçada por trás por Santiago, com seus dois braços em
volta dela, estendidos, cada mão segurando uma evidência entre ela e o painel. Sente-se
sufocada, como se um ser, de uma força e magnitude muito maiores que as dela, a cercasse.
Imagina um anjo caído, de asas negras, mas de pele impecavelmente branca e limpa.
— O que você quer, detetive? — pergunta, com um fio de voz.
Ele se afasta um pouco, dando-lhe espaço, mas Jeane estranhamente não consegue respirar
melhor.
— Eu quero que olhe para a número dez.
E ali está a foto da médica, bem no centro, como já havia visto.
— Eu sei que sou eu — ela diz, constatando o óbvio. — E daí?
Santiago se aproxima do painel, dessa vez de mãos vazias. Ele chega bem perto da foto de
Jeane desacordada e machucada, passando os dedos sobre o papel, como se a acariciasse.
— Por que essa aqui está com roupas comuns, e não com a toga igual de todas as outras?
Por que está machucada, cheia de hematomas, mas viva e com todos os dentes? O que seria dado
a ela como presente, caso ela não fosse a testemunha viva dos crimes, mas apenas a vítima
número dez? — Santiago se vira de repente, de frente para Jeane, e ela sente que seu coração vai
sair pela boca. — Por que você está aqui, doutora Werner? O que está escondendo?
Jeane se irrita e se desespera. Precisa sair dali, precisa correr e se esconder como puder.
Santiago está cada vez mais perto do seu interior obscuro e fétido. Não pode se deixar levar por
essa intimidação, de jeito nenhum.
Ela se vira, se preparando para deixar a sala, mas o detetive agarra seu punho com força,
fazendo-a voltar-se para ele, furiosa, em uma reação automática.
— O que você fez, senhorita Werner?
E a doutora, sem pensar duas vezes, dá um tapa em cheio na face de Santiago. Ele sequer
se abala, como se a agressão não passasse de carinho. Jeane tenta dar o segundo, armando um
soco mais forte, porém o detetive segura o seu outro punho a tempo de se proteger. Santiago
também está mais preparado para seu ataque de fúria.
— Seu desgraçado! — Como não pode agredir, Jeane berra, descontrolada. — Como pode
insinuar que eu fiz alguma coisa de livre vontade? Como ousa me pressionar assim? Você acha
que sabe tudo, mas não sabe de nada. Esse seu mural idiota de antes e depois não chega nem
perto do durante. Seu imbecil! Babaca! Escroto!
Santiago dá um sorriso sarcástico de satisfação, antes de retrucar:
— Eu nunca disse que fez algo de espontânea vontade, senhorita Werner.
Jeane grita e se debate, tentando se soltar, sem conseguir ignorar o sarcasmo na voz do
detetive. Santiago empurra a moça contra o mural a fim de conter seus avanços, segurando-a
com o próprio corpo, muito maior e mais pesado que o dela. A doutora ofega, o ódio nitidamente
destilando pelos olhos estupefatos. Não consegue sequer enxergá-lo, apenas vê um borrão à sua
frente.
— Me desculpe — ele murmura, num tom muito diferente da ironia destilada há pouco,
ainda mantendo Jeane presa com seu próprio corpo, que não para de se debater.
— Não adianta pedir desculpas. Você foi cruel, desumano! Seu peito é oco no lugar do
coração!
Santiago estreita os olhos até quase se fecharem, sobrando apenas duas fendas cinzentas,
que a fulminam. Todos os nervos do corpo masculino estão tensionados como as cordas de um
violino.
— Não estou pedindo desculpas por trazê-la aqui e provocar essa reação — sua voz fica
um pouco mais alta e mais firme. — Disso eu não me arrependo.
Jeane para de se debater, abruptamente, confusa e furiosa.
— Então está pedindo desculpas pelo que, seu otário?
Santiago abaixa o rosto, sentindo a respiração quente e ofegante da moça se misturando
com a sua, antes de explicar:
— Por isso.
E se joga em cima da médica, de modo bruto e impensado, sem se importar com as
consequências de seus atos.
CAPÍTULO 15

Santiago se desculpa ao perceber que perdeu a batalha contra o imenso desejo que Jeane
desperta nele com sua fúria, que mais parece de um filhote de gato. O detetive também pede
perdão pela falta de delicadeza com que seu corpo cobre o dela, invadindo o seu espaço pessoal.
Hipólito sente muito por atacá-la como um animal no cio, bufando e grunhindo. Ainda não sabe
como consegue se expressar em uma lucidez tão fugaz. O que resta é apenas ardor e desespero
em tomá-la para si.
Ele suspende os braços dela sobre a cabeça e os pressiona contra o mural do caso,
imobilizando-os. A proximidade de seus rostos faz com que compartilhem a mesma respiração
entrecortada. Jeane está com os lábios entreabertos de espanto, ou tão sem fôlego quanto ele.
Porém, Santiago os sufoca com a própria boca, em busca de alívio para sua excitação, e a fim de
calar os xingamentos que ela profere. Seu modo dominador está ativado, e nada o fará retornar
ao detetive enquanto não subjugar essa mulher abusada que ousa enfrentá-lo, como se fosse uma
tigresa.
Jeane corresponde ao beijo por apenas um instante, antes de morder o lábio inferior de
Santiago com força. Ele se afasta o suficiente para escapar da retaliação, sentindo-se ainda mais
teso, e gargalha, jogando a cabeça para trás. Essa mulher vai me levar à beira da loucura. O
pensamento que se forma na mente do detetive é desolador. A doutora estreita os olhos, sem
compreender sua reação irracional. Ainda está morrendo de raiva dele e debate-se, tentando
armar uma joelhada em suas bolas.
— O que está fazendo? — reclama, demonstrando toda sua indignação.
Santiago rosna, voltando à seriedade, e comprimindo mais o corpo de Jeane. Ele
reaproxima suas faces novamente, de maneira ameaçadora. Segura seus pulsos com a mão
esquerda e seu queixo com a direita. Encara seus olhos ainda mais escuros devido às pupilas
dilatadas, e não consegue definir se é por irritação ou excitação.
— Me perdendo...
O homem volta a beijá-la, desbravando seus lábios e sua língua de tal forma, que fica
difícil para Jeane acompanhar, muito menos atacá-lo outra vez. No começo, ela ainda luta para
afastá-lo, porém, aos poucos seu corpo relaxa contra o dele, e o beijo se torna mais sincronizado.
Ao mesmo tempo em que o aprofunda, Santiago fricciona a ereção latejante contra a pélvis dela,
fazendo-a grunhir em sua boca.
— Me solta, seu imbecil! — ela interrompe o beijo só para ordenar.
A mulher gira o rosto até livrar o queixo, porém, não liberta as mãos. Santiago está louco,
excitado e desesperado pelo atrito de suas genitálias. Nunca alguém o atraiu tanto quanto a
doutora. Seus sentidos estão totalmente focados nela. Percebe que seu coração acelerado
encontra um ritmo mais parecido com o dele, e que há um aumento de sua temperatura corporal.
O detetive conhece todos os hormônios que se ativaram em seu organismo, resultando nesses
sintomas, mas não tem certeza de que é pelo mesmo motivo que o seu.
Por que não consigo lê-la?, apavora-se, afrouxando um pouco a pegada bruta em seus
pulsos. A dúvida o está matando por dentro.
Como se despertasse de um transe, Santiago arregala os olhos e se afasta vários passos, até
cair sentado em sua poltrona. Seu corpo inteiro treme e sente uma vergonha tão grande de si
mesmo, que abaixa a cabeça e desvia os olhos. Não consegue fazer sua voz sair a fim de se
desculpar pelo ataque. Lembra-se que já o fez antes mesmo de cometer tal pecado e
simplesmente se levanta para deixar o cômodo e Jeane em paz.
— Aonde você vai? — a mulher o segue pela sala, fazendo-o estacar.
— Privá-la da minha presença — ele não tem coragem de se virar e encará-la de frente.
Jeane dá a volta no corpo inerte e para diante dele.
— Ah! Mas não vai mesmo! Não antes de acabarmos com essa discussão.
— Considera essa situação uma mera discussão, doutora?
Ela balança a mão, esnobando a importância que ele dá ao ocorrido.
— Admito que extrapolamos um pouco, detetive, mas como dois adultos, que vão viver os
próximos dias debaixo do mesmo teto, não devemos dar um desfecho?
Santiago estreia os olhos, confuso.
— E qual conclusão seria melhor do que eu lhe dar o espaço que merece?
Jeane avança alguns passos, suficientes para ficar próxima demais dele.
— Quem disse que eu preciso espaço?
— A senhorita quer mesmo continuar? Não percebeu que o que aconteceu agora há pouco
foi err...
A doutora se estica e o agarra pela lapela da camisa, tocando novamente seus lábios.
Santiago os sente formigarem de prazer com o contato. Os de Jeane se movem, quentes e macios,
abrindo-se para ele. Hipólito suga o ar por sua boca aberta e faz a língua acariciar seu interior,
encontrando a dela. O beijo é tudo e um pouco mais do que ele imaginou, principalmente ao
sentir o gemido da doutora vibrar por suas terminações nervosas.
O detetive espalma seu rosto, fazendo um grande esforço para não perder o controle outra
vez.
— Eu não posso... — confessa contra sua boca, buscando forças para afastá-la.
No entanto, Jeane se agarra mais a ele, atacando suas defesas. Mesmo assim, Santiago luta
para interromper algo que não devia estar acontecendo em hipótese alguma. A mulher é guerreira
e não desiste fácil, assim como ele, que tentou subjugá-la a todo custo. Enfurecida com a falta de
resposta de seus lábios, ela soca seu ombro diversas vezes, forçando uma reação que surge, de
repente, como se acionasse um botão.
Santiago urra, erguendo-a nos braços e fazendo-a se sentar sobre a mesa da sala de jantar,
com as bocas tão grudadas, que parecem devorar um ao outro. Ele a solta, mas ela não o larga de
jeito algum. Hipólito desafivela o próprio cinto e o tira dos passantes de maneira ruidosa,
atraindo a atenção de Jeane. Ela ainda mantém o pescoço do detetive laçado por suas mãos e o
encara tão de perto, que pode sentir o frio glacial que emana das íris cinzentas dele.
— Se vamos continuar com isso, preciso de uma garantia de que você não vai me bater de
novo.
Ele pega uma de suas mãos, depois a outra, unindo-as bem diante de seus olhos. Beija os
dorsos com sensualidade e as leva para as costas dela. Com uma agilidade e precisão
surpreendentes, Santiago prende os pulsos com o cinto, puxando-o com firmeza e imobilizando
os braços de Jeane. Qualquer movimento, inclusive se ela se soltar, irá provocar dor.
Santiago toca o rosto marcado com suavidade, notando que o peito da doutora sobe e
desce, cadenciadamente. Todos os sinais estão bastante claros para ele agora. As pupilas
dilatadas, a respiração descompassada e os lábios entreabertos, ofegantes, gritam que ela o
deseja, e não poderia deixá-lo mais fora de si do que fingindo que não.
Só falta confirmar essa explosão química, conclui sua breve análise mental, tornando a
arrebatar sua boca em um longo e duro beijo.
Jeane não demonstra nenhum medo, entregando-se à sua vontade com um desprendimento
que o comove. A doutora confia em mim e farei jus a essa confiança. Santiago é um homem
diferente, obviamente encara o sexo de forma distinta. O normal nunca lhe atraiu. Mas acredita
que sexo fetichista só é possível de acontecer em um ambiente seguro. Ele já prometeu protegê-
la, não descumprirá sua palavra tão fácil, somente por ter perdido o controle de sua racionalidade
para o desejo sexual.
Santiago desce Jeane da mesa, recostando-a, a fim de conhecer seu corpo. Sobre as roupas
mesmo, ele acaricia a curva do pescoço delicado e os ombros firmes, espalmando seu peito até
que as mãos cubram os seios. Hipólito apalpa as mamas macias e generosas, sentindo os
mamilos endurecerem com o estímulo. A respiração dela torna-se mais ruidosa com os carinhos
nada gentis.
Ele invade a blusa pelo lado de dentro, torcendo e esticando os bicos dos seios, sensíveis
ao seu toque impetuoso. Santiago não conhece outro jeito de dar e sentir prazer, e fica feliz e
aliviado quando o corpo de Jeane corresponde à sua audácia de maneira positiva. É uma surpresa
agradável descobrir, através de um coito não programado, que a mulher em seus braços aprecia o
mesmo que ele.
Normalmente, Santiago tem uma honesta conversa com as pretendentes à sua cama, na
qual estabelece suas preferências com clareza. Algumas desistem de prosseguir. Por isso gosta de
dialogar antes para não decepcionar ninguém. Para Hipólito, sexo tem que ser uma troca justa.
Jamais se aproveitaria de uma mulher para satisfação própria. Assim como é sincero, é
importante que ela também seja.
E não há nada mais sincero do que o ataque de Jeane quando Santiago recuou.
O detetive alisa a curva da cintura da doutora com cuidado, sem esquecer das feridas que
estão em processo de cura, e logo desce as mãos pelos quadris. Não interrompe o beijo, sabe que
é relevante para criar vínculo, intimidade e preliminares, mas não é nisso que pensa agora. Só
não consegue parar. A saliva de Jeane é afrodisíaca e seus lábios se movem de uma maneira
alucinante. Santiago nunca se sentiu tão vulnerável nos braços de uma mulher.
Sem mais delongas, Hipólito para as carícias no cós da calça de Werner e a desabotoa,
descendo o zíper em um movimento rápido. Suas mãos ajudam a peça grossa a escorregar pelo
quadril bem marcado, a fim de que deslize pelas pernas. A roupa fica embolada nos tornozelos
da doutora, mas ele não se importa. É até bom que mantém as pernas dela imóveis também.
Santiago cessa o beijo e gira Jeane em seu próprio eixo, voltando a segurar o cinto preso ao
redor de seus pulsos. Com a outra mão, o detetive inclina a doutora sobre a mesa, fazendo-a
empinar a bunda em sua direção. A posição lhe dá um ótimo ângulo do espetáculo que é o corpo
dessa mulher. A pele branca está imaculada nessa área, mas não que se incomode com os
hematomas. Ela continua linda e sexy para seus olhos, que veem além do físico.
Jeane solta uma exclamação, mais parecida com um gemido, quando o hálito de Santiago
sopra quente em sua vagina. Ele se abaixa e encara a calcinha de perto, antes de comprovar com
um toque abusado o quanto ela está molhada. Desliza o dedo para frente e para trás, encaixando-
o entre os grandes lábios. Sente, através do tecido, os pequenos lábios se abrindo e o clitóris
intumescendo, conforme atiça a área erógena.
Quando a vagina de Jeane fica tão ensopada, que seu dedo mal escorrega no tecido úmido,
Santiago se dá por satisfeito e abaixa a calcinha, parando-a em seus joelhos. As pernas dela
tremem e ele pode sentir a expectativa crescendo em seu corpo, através do suor, dos batimentos
cardíacos irregulares e da respiração descompassada. Mas ele está longe de dar fim à tortura.
Ajoelha-se e mergulha a língua na fenda encharcada, bebendo da excitação dela como se
fosse o melhor dos elixires. Para Santiago, não existe nada mais gostoso de provar do que uma
boceta. Ele fica tão alucinado com o cheiro, a textura e o sabor, que enfia a cara e se lambuza
todo, mesclando chupadas com linguadas, que fazem Jeane se contorcer e gemer cada vez mais
alto.
Quando ataca o ânus, a doutora fica nas pontas dos pés, tensionando os músculos das
pernas. A visão é muito excitante para o detetive. Seu pau pulsa, ainda prisioneiro das roupas,
implorando para ser libertado, só para se enfiar no corpo daquela mulher irresistível.
— Por favor... — Jeane suplica, espelhando seu próprio desespero.
— Por favor o que? — Santiago ainda brinca, afastando a boca da bunda dela e usando um
dedo para atiçar seu clitóris em movimentos circulares deliciosos.
— Por favor — a voz dela sai com dificuldade —, eu preciso que você me foda.
Satisfeito demais com sua resposta, ele se ergue, larga o cinto e o clitóris, e se concentra
em abaixar as próprias calças, deixando-a também embolada nos tornozelos.
— Primeira lição: não tem nada que me peça com jeitinho que eu me recuse a fazer por
você.
Santiago não admite verbalmente, mas seu inconsciente sabe que está mais do que
envolvido com a testemunha.
CAPÍTULO 16

Jeane, ao mesmo tempo em que se xinga mentalmente por ceder com tanta facilidade ao
desejo por Santiago, se sente inebriada de prazer. Sabe que o que vai sentir agora será muito
mais do que espera, quando o ouve baixar o zíper e descer as calças. Hipólito, frio, calculista e
controlador, se revela a ela como uma fera enfurecida, quente, passional e intensamente sexual.
Quem diria! Ela devia ter confiado em seus instintos desde o começo, quando viu aquela chama
que, de vez em quando, perpassa pelos olhos do detetive.
— Ia dizer para se segurar, senhorita, mas você não está em condições — Santiago
comenta, com um tom sarcástico. — Então, pode deixar que eu te seguro.
Ele espalma as mãos nas costas de Jeane, comprimindo-a contra a mesa, pensando que a
melhor decisão que tomou foi manter uma camisinha como companheira desde que a doutora
começou a morar em sua casa, sob sua proteção. Afinal, “um homem prevenido vale por dois”.
Santiago se posiciona na abertura encharcada de Jeane, e sem aviso ou cerimônia, se enfia
até o talo, de uma só vez, arrancando um grito agudo da doutora. Ela berra mais alto do que ele
esperava, se comunicando com os instintos mais selvagens do detetive. Ele imprensa ainda mais
o corpo de Jeane sobre a mesa com suas mãos, e começa a estocar com vontade, desejo, quase
raiva. Que porra aquela mulher tinha feito com ele, para fazê-lo abrir mão do controle dessa
maneira?
Jeane sente o próprio corpo contra a madeira fria, sendo deliciosamente friccionado. O
prazer é muito maior agora do que qualquer outro pensamento. Está se sentindo flutuar, apesar
do peso das mãos de Santiago agarrando suas costas com tanta força. Quem diria que voltaria a
sentir excitação com um homem depois da violência sem medidas que sofreu. Ele a fode, duro,
com força, sem cerimônia, e ela se abre e se entrega. Hipólito urra, Werner grita. Ela geme, ele
suspira ruidosamente. O detetive bomba e a doutora se contrai. Um sexo digno de National
Geographic, com certeza.
Quando está prestes a gozar e aperta a boceta com força em volta do pau de Santiago,
controlando os espasmos para prolongar o próprio prazer, Jeane ouve a voz dele completamente
transtornada, grossa e rouca, modificada pelo momento insano de luxúria ao qual estão
protagonizando:
— Não segure, senhorita Werner. Está autorizada a gozar.
Com vontade de xingar um palavrão ao pensar que ela é quem decide a hora de gozar,
Jeane não consegue mais se segurar e se derrama inteira no pau de Santiago, tremendo e se
contorcendo. Ela não para de jorrar por segundos a fio, chegando a sentir o próprio líquido
quente vazar e escorrer pelo meio de suas pernas.
Hipólito fica estático, como se não quisesse atrapalhar o prazer de Jeane. Seu pênis apenas
enrijece ainda mais e relaxa, repetidamente, fazendo-a se perder. A doutora é dessas mulheres
que gozam sem miséria, encharcando o camarada. O detetive daria tudo para sentir o líquido
quente e viscoso em seu pau. Santiago se assusta com o próprio pensamento. É a primeira vez
que lamenta a existência da camisinha.
— Santiago — Jeane sussurra, fazendo o detetive se abaixar próximo aos seus lábios para
ouvi-la. — Meus braços doem muito.
Imediatamente ela sente o detetive se levantar e desamarrá-la, ajudando-a a se por de pé.
Quando se vira de frente para ele, dá de cara com o seu membro rígido, grande e apontando para
cima. Sua boca se enche d'água e o líquido entre suas pernas escorre mais um pouco, causando
uma cosquinha de prazer. Jeane esfrega os pulsos, enquanto se delicia com a visão de Hipólito,
lindo e nu, à sua frente. Ela termina de tirar a calça e a calcinha emboladas nas pernas.
— Terminou o serviço, detetive? Tão fraquinho...
Santiago está tão transtornado de tesão que sequer consegue responder. Ele apenas tira as
peças de roupa que lhe prendem e parte para cima de Jeane, que se afasta em um pulo e começa a
rir. Ele tenta alcançá-la com um braço, mas ela corre novamente. Sem a menor paciência para
brincadeiras, Santiago a alcança, jogando-a sobre o aparador e derrubando o abajur. A lâmpada
vira um estilhaço no chão.
Ele beija a doutora com ardor, arrastando-a pela parede, com força, corpo com corpo se
devastando em uma dança voluptuosa. O detetive tenta levantar as pernas de Jeane para enroscá-
las em seu quadril, mas ela o empurra de repente, fazendo-o se desequilibrar e cair de costas
sobre a mesa de centro, cheia de livros, pratos, copos e canecas. O barulho de coisas se
quebrando ecoa na sala como se não fosse ter fim. Jeane tampa a boca segurando uma risada,
diante do olhar confuso e furioso de Santiago.
Quando a doutora se prepara para correr, Hipólito a segura pelo tornozelo, fazendo-a cair
de joelhos sobre o carpete. Ele se atraca em Jeane e morde suas nádegas com força, fazendo-a
gritar e se contorcer em sua boca. Ela se vira e dá um chute na canela do detetive. Ele grita e leva
a mão ao local. É o tempo da doutora se levantar, sendo logo seguida por Santiago, que não se
deixa derrotar assim tão facilmente.
Parados, um de frente para o outro, com suas respirações ofegantes e olhos flamejados,
Jeane e Santiago destilam ódio e desejo. Eles sentem como se não pudessem manter seus corpos
afastados. Um depende do outro para sobreviver, em uma vida de êxtase e lascívia. Desde
quando um contato inicial causa tanta dependência?, pensam em uníssono, em uma harmonia
que só verdadeiros amantes são capazes de encontrar.
Os dois se rodeiam, vagarosamente, aumentando a tensão do ambiente, como animais
preparados para dar o bote a qualquer momento. O ar está carregação de tesão, como se a
respiração excitada deles se condensasse. E, apenas um segundo antes de Santiago atacar
novamente, Jeane se adianta e pula em cima dele, fazendo-o cair sentado em sua poltrona, dessa
vez.
Ela monta sobre ele, deixando seu pênis preenchê-la por inteiro, e começa a cavalgar o
detetive, que a princípio apenas a observa de olhos arregalados. Aparentemente, não está
acostumado com uma mulher no controle, tamanha a sua surpresa ao ver a desenvoltura de
Jeane, entrando e saindo, subindo e descendo, brincando, faminta, com seu pau latejante. Ela
gosta ainda mais. A doutora se sente especial e poderosa dominando aquele homem, que parece
predominar sobre tudo e sobre todos.
Jeane firma os joelhos ainda mais na poltrona, ao lado de Santiago, e quica sobre ele.
Hipólito volta um pouco a si e segura os seios da sua amante, que balançam com força, ao sabor
da trepada mais deliciosa da vida dos dois. Ele tenta chupá-los em vão, tamanho o ritmo
estabelecido pela doutora. Tem medo de fazer qualquer movimento que estrague o momento. Ele
está muito perto de ter seu merecido alívio. Já se controlou demais diante dessa mulher deliciosa.
De repente, Santiago segura Jeane pela nuca e une suas testas, misturando o suor um do
outro.
— Goza comigo, senhorita Werner.
A doutora continua pulando sobre o pau do detetive, com mais força do que antes, se
sentindo cutucada em lugares de seu interior que homem nenhum jamais o fez. Ele fecha os
olhos e joga a cabeça para trás, puxando os cabelos de Jeane. Ela agarra os dele, com as duas
mãos, encurvada na direção que é puxada, dando uma última e ainda mais profunda enterrada.
Santiago solta um urro animalesco, esticando os cabelos longos dela até a cintura. Ela se libera e
se deixa levar, gozando junto com o detetive, plena e ruidosamente. Suas pernas começam a
tremer em fortes e descontrolados espasmos e, ao sentir que vai cair, Jeane se debate, procurando
algo para se segurar. Leva à mão até a enorme luminária de chão, de ferro e vidro, que fica ao
lado do sofá.
O objeto vai direto para o chão, fazendo um estrondo ensurdecedor. Neste momento, os
policiais à paisana que estão tomando conta da porta de Santiago entram, de revólveres em
punho, gritando meia dúzia de ordens. A poltrona está de costas para eles, logo, não podem ver
quem está sentado nela. Jeane e Santiago se entreolham, segurando o riso. Ela, mais do que ele.
Passado o furor e vindo o alívio, o detetive se percebe verdadeiramente preocupado com as
consequências do que acabaram de fazer.
CAPÍTULO 17

Santiago é trazido de volta à sala destruída pelos vozerios dos dois guardas, que arrombam
a porta da casa e invadem a sala com chutes e gritos. Em um movimento rápido, troca de lugar
com Jeane, depositando-a sentada, e fica de pé, semiescondido pelo encosto da grande poltrona.
Está ofegante, descabelado, quase nu, e não acredita que se permitiu perder o controle daquele
jeito, a poucos metros de duas testemunhas.
— Acalmem-se, senhores — o detetive ergue as mãos, na defensiva, ao encarar os canos
dos revolveres dos policiais. — Não estamos sendo atacados.
— Chamamos, mas ninguém respondeu — retruca um deles, conferindo o caos ao redor.
Santiago não tem coragem de olhar. Não ainda. Ele fica abismado por não ter escutado
nem o chamado, nem a porta sendo arrebentada.
— Sinto muito por isso. Estávamos imersos em um... experimento. — Hipólito não
encontra outra forma de explicar a situação delicada.
— Onde a senhorita Werner está? — o outro policial parece desconfiado.
Antes que Santiago invente uma desculpa, Jeane se ergue, cautelosamente, ficando de
joelhos na poltrona e deixando apenas a cabeça aparecer sobre o encosto.
— Estou bem, não se preocupem. — Ela não consegue conter o sorriso na voz.
— Bom, agora que viram que não estamos em perigo, voltem ao seu posto, por favor.
Temos um assassino para prender.
Lentamente, mais do que a paciência de Santiago pode suportar, os dois policiais se retiram
da sala, resmungando desculpas sem graça, e solicitando via celular um chaveiro de confiança
para consertar a fechadura aberta à força. Quando a porta é novamente encostada, Jeane se joga
na poltrona, caindo na gargalhada, a ponto de lágrimas escorrerem de seus olhos.
— Do que está rindo, mulher? — o detetive não está no mesmo clima. A
irresponsabilidade do que acabou de fazer pesa sobre sua consciência.
— Não é possível que eles nem desconfiem do que acabou de acontecer aqui. Não
contivemos nossos gritos.
Santiago faz uma imensa careta, afastando-se dela antes que perca a paciência.
— Espero que pensem que tivemos uma baita discussão!
Jeane para de rir ao sentir a dureza na voz de Hipólito. Ela se ergue da poltrona e o assiste
vestir as calças e o cinto, encontrando as peças jogadas pelo chão, em pontos diferentes da sala
de dois ambientes. Ela gosta da bagunça que causaram. Há muito que a doutora não sabia o que
era se divertir, muito menos com um homem.
— É a isso que vai reduzir o que aconteceu entre nós? Uma simples discussão?
Santiago a olha sem nenhuma simpatia, o que lhe causa um arrepio na coluna.
— O que houve aqui sequer deveria ter acontecido, doutora. Mas pode ter certeza de que
não voltará a se repetir.
A senhorita Werner acredita nele, o que lhe causa certa dor no peito. No entanto, ela
também endurece a feição, como se não fizesse a menor diferença.
— Que seja! — ergue as mãos, rendendo-se, e sai à caça das próprias roupas.
Uma pequena parte da mente inquieta do detetive não consegue sentir o alívio que a
rendição de Jeane lhe causa. Ignora a sensação e se vira para ela, quando a percebe novamente
vestida.
— Está pronta para compartilhar novas informações sobre o caso, senhorita Werner?
Jeane suspira, pesadamente, pensando no que pode dizer ao detetive Hipólito. Ela se senta
na poltrona e fecha os olhos, aproveitando a mente vazia e o corpo relaxado para enfrentar o caos
nada agradável em sua memória. A doutora sabe que precisa ajudar, que é o certo a fazer. Não
consegue mais aguentar a frieza e a brutalidade que o Dentista impregna em suas vítimas.
Também está cansada de se esconder. Santiago, sem querer, havia lhe devolvido a vontade de
viver, e viver plenamente, sem receios. Agora só basta descobrir se há coragem o bastante para
tentar.
Hipólito sente raiva quando Jeane se fecha, novamente. Claro que jamais usaria o sexo
para conseguir da testemunha informações relevantes para a investigação. Não é um canalha
manipulador. É difícil para ele olhar seu rosto corado e satisfeito sem se lembrar de que ela
esteve sobre ele há tão pouco tempo, e como aquilo foi bom. Fazia bastante tempo que o detetive
não ficava, sexualmente, tão satisfeito, mesmo que nem de longe Jeane seja a submissa quieta e
calada que ele prefere.
Não que seja um opressor de mulheres. É absolutamente contra qualquer tipo de violência
em todos os sentidos. Mas, na cama, Santiago gosta do fetiche de comandar, submeter, punir e
agradar. Prefere estar no controle de seu corpo e do seu prazer, aproveitando-se do deleite de sua
parceira para potencializar o seu. Porém, como jamais poderia esperar, com Jeane ele perdeu
tanto o controle quanto a razão, e aquilo o levou a um novo nível de excitação que jamais sentiu
antes dela.
O detetive se repreende mentalmente por estar divagando sobre um assunto não pertinente
para o momento. Volve os olhos para o painel do caso, ignorando de propósito a fotografia da
doutora no centro do mosaico.
— Eu não sabia se era dia ou noite — a doutora começa a falar, ainda de olhos fechados,
como se evitasse encará-lo. — Estava sempre escuro. Não havia janelas e a única porta vivia
trancada. Mas, com o tempo, o Dentista estabeleceu uma rotina que me ajudou a não enlouquecer
e a me situar. Ele me levava comida e água duas vezes por dia. Não me cumprimentava com
bom-dia ou boa-noite, só dava ordens: coma, durma, acorde, obedeça. Claro que eu resisti e
tentei escapar diversas vezes. — Santiago a vê engolir em seco antes de continuar. — Mas nunca
consegui nada além de ferimentos, que marcaram meu corpo de cicatrizes.
Santiago se compadece. Ele viu cada marca e até as memorizou, no entanto, elas o atraem.
Demonstra o quanto a senhorita Werner é uma lutadora. Surpreso, ele se vê sendo empático com
ela outra vez, e não se contém.
— As cicatrizes são suas marcas de guerra, doutora — diz com uma voz rouca e baixa,
quase solene. Jeane abre os olhos e o encara. — Tenha orgulho delas. A senhorita está segura em
minha casa, tanto comigo quanto com os dois guardas postados na entrada, mas se quiser
aprender defesa pessoal a fim de se sentir mais preparada para enfrentar o mundo lá fora quando
a investigação acabar, eu lhe darei aulas de bom grado.
Jeane encontra um sorriso em meio a seu assombro. Aquele homem, que a amou com tanta
paixão e falta de cuidado, é um poço de contradição. E ela gosta disso. Santiago a atrai,
principalmente por ser duro quando precisa e suave quando necessário. O tipo de homem que faz
qualquer mulher perder a cabeça. Ela não está disposta a perder a dela para ninguém, mesmo que
esse homem seja um cara tão bom quanto Hipólito. Seu futuro está em suspenso há terríveis dez
anos. Não pode arrastar outra pessoa para a lama na qual está atolada até o pescoço.
— Obrigada, detetive.
No entanto, Jeane não pode afirmar que não está mais vulnerável do que deveria com
Santiago. Como, justo ela, que pensou que seu coração estivesse fechado para sempre depois de
sofrer nas mãos de um psicopata durante anos a fio, pôde baixar a guarda e se sentir tão frágil,
sabendo que é muito mais forte do que a maioria, comprovado por tudo o que teve de suportar?
CAPÍTULO 18

Jeane prende o cabelo em um coque alto, colocando para trás da orelha os fios rebeldes que
insistem em se soltar. Dá uma volta em torno do próprio eixo, avaliando no espelho o look
esportivo. O conjunto de top preto e camiseta de tecido Dry Fit, bem como a calça legging e o
par de tênis que Santiago providenciou para as aulas de defesa pessoal, lhe caíram como uma
luva. Ela dá um sorriso maroto ao pensar no detetive na loja, escolhendo as peças, tentando
comparar as roupas com suas medidas exatas. Depois de conhecerem bem as curvas um do outro,
obviamente ele acertaria.
A doutora sente as pernas bambas só de lembrar da sessão de sexo selvagem que tiveram
no dia anterior. Foi diferente de tudo o que já viveu com um homem. Percebeu que, com o seu
“guardião”, transar não é apenas trepar. Vai além de desejo, de tesão. É necessidade, entrega,
desespero. Nunca se sentiu tão dependente de um corpo e do toque de alguém durante o ato
sexual.
O único real problema nem é o envolvimento. Jeane até poderia se permitir uma boa
diversão com o detetive mandão. Porém, Santiago travou de tal forma depois do flagrante que
levaram na poltrona, que mal falou com ela depois daquilo. Desconfia, inclusive, que a tem
evitado pela casa.
Jeane suspira, seguindo para o martírio. Só aceitou fazer as aulas porque viu aí uma
oportunidade dupla. Poderia fugir dos questionamentos de Santiago, e ainda canalizar o interesse
dele para outra coisa. De todo modo, acredita que no fim vai valer à pena.
Ela chega à sala e, ao dar de cara com Hipólito, quase solta uma risada inconveniente. Tem
que se segurar ao vê-lo parado no meio do cômodo, com uma camisa de malha solta por cima de
uma calça que mais parece vestida a vácuo. Se colocar uma cueca por cima, vira o super-herói
mais fora de contexto que já existiu.
— Pronta para a sua primeira aula? — Santiago desperta Jeane com sua pergunta, ainda
vidrada na visão cômica à sua frente.
— Estou — ela se recompõe e caminha na direção do detetive. — Que tal? — provoca,
parando na frente dele e dando uma voltinha.
— Vai servir para o propósito. Sente-se.
A médica franze a testa, se perguntando que raio de aula de defesa pessoal se aprende
sentada. Santiago volta carregando um quadro negro, postando-o de frente para a poltrona na
qual Jeane acaba de se acomodar. Ele se vira, fazendo uma mesura exagerada para iniciar o que
parece que será um longo discurso.
— Para começar, senhorita Werner, você precisa compreender a diferença básica entre a
defesa pessoal e as artes marciais. — Santiago ganha uma revirada de olhos da doutora, que opta
por ignorar. — As artes marciais são estilos de luta que englobam defesa e ataque e, além de
muito treinamento, requer um alto índice de disciplina e concentração. A defesa pessoal não é
premeditada. Não vou lhe ensinar a lutar, vou lhe ensinar a se defender, quando e se for
necessário. E apesar de a senhorita precisar de uma bela dose de disciplina, o treinamento de
defesa pessoal não nos dá tempo para desenvolvê-la, dada a emergência e o imediatismo. Afinal,
cada dia lá fora é um dia a mais de perigo.
— Aqui dentro também — Jeane deixa escapar, em um sussurro.
Santiago a observa com certa pena. Imagina o quão horrível deve ser sentir medo o tempo
todo.
— Por isso mesmo lhe ofereci esse treinamento. Talvez a ajude a se sentir mais segura.
A médica faz sinal afirmativo com a cabeça, ainda com o olhar meio perdido, como fica
sempre que está imersa em pensamentos sombrios. O detetive dá de ombros e se vira para o
quadro, escrevendo o número quatro.
— Eu sou faixa preta na arte de defesa pessoal conhecida como Krav Maga, e será em
cima dos meus conhecimentos que irei orientá-la. Temos quatro movimentos básicos e iniciais
que fazem parte da cartilha essencial de quem quer saber se defender de maneira efetiva. Vamos
passar um por um. Venha, levante-se.
A doutora se põe de pé, frente a frente com o seu professor.
— A primeira coisa que a senhorita vai aprender é a dar um belo chute na virilha. Se a
pessoa que a ameaça estiver de frente, é uma das melhores maneiras de se defender. Nesse caso,
a força e a velocidade são seus melhores amigos. Está acompanhando?
— Estou — Jeane responde, com sinceridade. Está extremamente concentrada, e Santiago
gosta dessa postura.
— Certo. Me observe — ele diz, se afastando um pouco. — A posição é a seguinte: você
vai levantar as mãos para proteger o rosto. Isso é muito importante para o caso de um possível
contra-ataque. Ao mesmo tempo, a sua perna dominante, ou aquela na qual você tem mais força,
vai para trás, e o joelho da frente flexiona. Está vendo?
Ela observa atentamente, tentando imitar os gestos de Santiago.
— Isso, muito bem. Essa é a posição de preparo para desferir o chute. O que lhe resta
agora é apenas calcular a distância para o alcance perfeito da sua canela na virilha do desgraçado.
— Canela? — ela demonstra confusão. — Achei que a gente chutava com o pé.
— É o que a maioria pensa, erroneamente — o detetive explica, dando um sorriso de sabe
tudo —, mas nem pé e nem joelho, dois pontos que você pode machucar facilmente, dependendo
da força empregada. A canela fará um o estrago maior, com menos riscos para sua integridade
física. Um golpe nem sempre é medido pela força, mas pela eficiência. A ideia é incapacitar o
agressor e mantê-la segura.
— Entendi.
— Então, suspender as mãos, perna dominante para trás, flexionar o joelho, calcular, mirar
e chutar! — E Hipólito dá um chute considerável no ar, bem ao lado de Jeane, que chega a sentir
o vento provocado pelo movimento. — Geralmente quando isso acontece, o seu oponente se
curva, ou de dor ou para tentar se proteger. E aí estará a sua chance de decidir se o melhor é
correr ou acabar com ele.
— Acabar com ele? — ela se surpreende, em um fio de voz.
Santiago bufa, impaciente.
— Não é o que você está pensando. Acabar com ele no sentido de tirá-lo de ação. Desferir
mais golpes, desmaiá-lo, prendê-lo, enfim, tirar a si mesma da zona de perigo. Compreendeu?
Ela faz que sim com a cabeça.
— Pode repetir o movimento? — pede, insegura.
O detetive se prepara e dá um novo chute, devagar, quase que em câmera lenta, e em
seguida mais um, muito mais rápido dessa vez.
— Acha que pode dar uns chutes para eu observar? — devolve para a doutora.
— Creio que sim. Estou pronta para tentar.
Movimento a movimento, Jeane repete o que lhe foi ensinado diversas vezes. Vez ou outra,
Hipólito faz algum comentário, corrige uma posição, chama a atenção para sua postura,
aperfeiçoando os golpes de Jeane, que não ousa interromper o mestre.
De repente, batem à porta de entrada, fazendo os dois darem um pulo. A médica se vira
com os braços erguidos diante do rosto, em reação defensiva, arrancando de Santiago uma
gargalhada sincera.
— Calma, apenas teremos de sair daqui. A senhora Haddad chegou para limpar a casa —
seus olhos ficam sérios e um pouco sombrios, quando a referência à bagunça que fizeram durante
o sexo do dia anterior nitidamente não lhe passa despercebida. — Ela vai começar aqui por
baixo. Vá lá para cima, preparei o cômodo ao lado do seu quarto para treinarmos. Vou falar com
ela e subo em seguida.
— Aquele que deveria ser uma biblioteca, se os seus livros não estivessem espalhados por
toda a casa?
Santiago desfere um olhar mortal para Jeane, que dá de ombros. Vencida, se vai, sem dizer
mais meia palavra. Ela sobe as escadas de dois em dois degraus e corre até a biblioteca, se
trancando no cômodo.
Nesse momento, a doutora sente que entrou em outra dimensão. O salão está vazio e
escuro, sem nenhuma janela aparente. Seus passos formam ecos assustadores, fazendo-a perceber
que aquele deve ser o único cômodo da casa sem carpete. Um frio absurdamente glacial toma
conta do seu corpo, que começa a tremer involuntariamente. Ela olha ao seu redor e pergunta em
voz alta:
— Por que eu estou aqui novamente? Que horas são? Meu Deus, que horas são?
E cai de joelhos, se sentindo incapaz de sustentar o próprio corpo, cruza os braços e se
encolhe, balançando para frente e para trás, embalando a si mesma em um movimento repetitivo.
— Por favor, me deixe ir embora. Eu não quero mais. Não consigo mais.
Jeane ouve um barulho na porta, mas não consegue se mexer.
— Não consegue o quê? — uma voz masculina vem de trás da vítima, fazendo-a se
encolher ainda mais.
— Eu estou cansada, por favor... Ela é muito pesada, eu não consigo virá-la mais. Eu juro
que já está bem limpa. Por favor, ela está perfeita.
Um cheiro forte de creolina enche as narinas de Jeane.
— Não! — ela dá um grito e se levanta, correndo para a parede mais próxima. — Minha
pele não aguenta mais um banho! Eu estou esfolada! Chega, por favor!
De súbito, mãos fortes e masculinas seguram Jeane pelos braços e ela dá um grito agudo de
dor, como se estivesse sendo apertada fortemente. A doutora se agita, desesperada, tentando se
desvencilhar a todo custo.
— Senhorita Werner, calma, sou eu, Hipólito! Vai se machucar! Senhorita Werner, pare de
se debater, por favor!
Ela não ouve, não vê, não sente. Apenas sabe que precisa fugir, precisa correr. O detetive
fica consternado e faz a única coisa que lhe vem à mente: corre para a janela, abrindo as cortinas
e iluminando o cômodo.
Jeane aperta os olhos para se acostumar com a claridade. Os cabelos estão desgrenhados e
soltos. Lágrimas escorrem pelo seu rosto, se misturando com a baba em seu queixo. Ela olha
para o detetive como se ele fosse um estranho e parte furiosa em sua direção. Hipólito ergue as
mãos e a doutora para à sua frente, com olhos vidrados.
— Werner, se acalme, por favor! Sou eu!
Tudo ocorre em fração de segundos: a médica levanta as mãos na frente do rosto a fim de
se proteger, coloca a perna dominante para trás, flexiona o joelho da frente, olha para a virilha de
Santiago e desfere o chute mais forte que consegue. Foge em seguida, deixando o detetive de
olhos arregalados e desabado no chão, urrando de dor.
CAPÍTULO 19

Santiago sabia que sua brilhante ideia teria consequências, mas jamais poderia imaginar
que seria atacado por Jeane. O detetive a percebeu se esquivar novamente, logo após se abrir um
pouco, usando a oferta de aulas de defesa pessoal para fugir de mais perguntas. Mas o que a
doutora não sabe é que Hipólito possui maneiras pouco ortodoxas de conseguir o que quer, e não
desiste ao primeiro obstáculo, assim como os grandes gênios mundiais, que fizeram história e
deixaram sua marca no mundo.
Ele estava puto por ter cedido à atração, e envergonhado por ter perdido o controle tão
facilmente. Também se sentia ridículo por ter amolecido ao vê-la tão vulnerável, oferecendo-se
para ensiná-la a se defender. Aquilo mexeu com o homem tanto quanto a força atrativa que
insistia em compeli-lo para os braços de Jeane. Por isso tudo, Santiago a mandara para a
biblioteca praticamente vazia e completamente escura, preparada para se parecer com o cativeiro
no qual ela viveu os últimos dez anos.
No entanto, aquilo foi um gatilho e tanto para a doutora, fazendo-a reagir de maneira
inesperada. Seus gritos lançaram luz para a mente obscurecida pela falta de provas do detetive, e
o fez ter uma desconfiança que até então não havia se firmado como hipótese. Sua reação de
defesa e fuga demonstrou o quanto Werner estava atormentada com as lembranças de seu
sequestro, e por motivos profundos, que até então desconhecia.
Ainda caído de joelhos no centro do cômodo, as mãos protegendo as bolas doloridas,
Santiago tenta se concentrar no reduto de sua mente e ignorar a dor lancinante, que perfura e
pulsa todas as terminações nervosas de seu corpo, como uma corrente elétrica. Ao que parece,
Jeane era obrigada a lavar os corpos de todas as vítimas do Cara do Dente, e também a se limpar
com exagero. A fixação do psicopata com limpeza havia levado a doutora ao desespero.
Procurando respirar com cadência, Santiago não tem pressa de correr atrás de Jeane, pois
sabe que isso só a afastará mais. Está seguro de que os dois guardas na porta não a deixarão ir a
lugar nenhum sem escolta, portanto, sabe que não vai perdê-la de vista pela demora em se erguer
do piso. Está aproveitando o tempo para colocar as ideias em ordem. Depois de um pouco de
reflexão, não vê muitas alternativas, a não ser a coisa certa a fazer diante do grande problema que
enfrenta.
O detetive inspira profundamente e se levanta, tomando o rumo dos gritos de Jeane, que
sacodem a casa. Ela xinga e esperneia, quando a encontra sendo segurada pelos dois guardas, no
hall da casa, com direito a chave de braço e algemas. A imagem agrada Santiago mais do que
gostaria. Vê-la submetida é muito excitante para seu lado dominador, que anda pouco
resguardado depois do sexo selvagem feito naquela sala. Porém, a expressão de pavor em seu
rosto apaga qualquer tesão que a cena acendeu.
— Soltem-na! — ordena, com severidade.
— Mas, Hipólito, ela está descontrolada — explica um deles.
— E tentou sair sem proteção — acrescenta o outro.
Santiago franze o cenho e volta a mandar, com ainda mais fúria.
— Eu mandei soltá-la, agora, e voltem ao seu posto imediatamente!
Assustados com a força na voz do detetive, eles retiram as algemas e a largam. Jeane
desaba sobre o piso, chorando e se enrolando feito uma bola. Santiago se compadece, sentindo-se
culpado por ter desencadeado um episódio clínico tão severo. O detetive se enganou quanto à
fachada fortificada que a doutora construiu para se esconder de todos. Ele até acredita que ela
realmente seja forte, já que suportou tanto tempo de cativeiro, mas duvida que isso não deixou
sequelas que a acompanharão pelo resto da vida. Ali está a prova de que foi longe demais pelo
caso.
A doutora Werner precisa de ajuda e não de acusações, pensa, enquanto se aproxima, sem
tocá-la, e se deita ao seu lado, olhando-a intensamente. Teme o que farão com Jeane caso conte o
que desencadeou seu ataque histérico ao chefe de polícia. Sabe que certamente Lovat será
comunicado pelos guardas, ainda que ele próprio não fale sobre os detalhes depois. O detetive se
encontra em uma sinuca de bico.
Santiago se lembra de quando era criança e sua mãe cantava até que adormecesse, quando
tinha medo de escuro. O detetive foi um menino incomum, com um pai pouco presente e uma
mãe extremamente amorosa. Seu irmão também não foi muito gentil com ele, torturando-o boa
parte da infância e adolescência, o que resultou em um relacionamento inexistente e uma
distância segura. Hipólito foi educado através do medo, o que o transformou no homem que
aprendeu a enfrentá-lo, sem titubear. Talvez o equilíbrio entre a ausência do pai e a doçura da
mãe tenha moldado seu caráter, tão peculiar quanto seu cérebro.
— “Eu estou aqui, não precisa ter medo” — começa a cantar em um sussurro doce. — “E
quando eu não estiver, basta fechar os olhos e pensar em mim”. — Jeane abre os olhos devagar,
o corpo sacudindo entre os espasmos dos soluços. Parece curiosa quando encontra o olhar de
Santiago. — “Eu estarei pensando em você, onde estiver”.
A doutora funga, batendo as pestanas úmidas e acalmando-se, quase que instantaneamente.
O detetive sorri com certa dificuldade, pois o olhar de Jeane lembra muito seu próprio olhar anos
antes, uma criança assustada, que não entendia porque era tão diferente e maltratado por isso. Ele
chegou a se odiar na adolescência, desejando ter nascido tão comum quanto qualquer coleguinha
da escola. Eles o massacravam por ser um nerd, gênio, CDF, filhinho de papai, entre outros
adjetivos. A lista era grande.
Sem aviso, Jeane se arrasta pelo chão até se aconchegar no corpo de Santiago, fechando os
olhos novamente. Ele ergue as mãos sem saber o que fazer com aquela proximidade
inconveniente, quase engasgando com o espanto e interrompendo a música. Mas os olhos dela o
encaram, confiantes, estimulando-o a continuar. Suspirando, o detetive a envolve em seus
braços, apoiando o queixo em sua cabeça e sentindo a ponta de seu nariz cutucar seu tórax.
Em algum momento, para de cantar e apenas sussurra a melodia, ao senti-la respirar mais
profundamente. A doutora adormeceu, pensa, contente, sentindo-se grato pela calmaria e
orgulhoso por conseguir o feito de tranquilizá-la. Uma emoção nova nasce em seu peito, não
muito diferente da que sentia quando sua mãe o acalentava daquela maneira. Seu coração quase
para, tamanha é a força do sentimento que o sufoca.
Santiago não sabe o que acontecerá com Jeane quando ela acordar daquele pesadelo e se
der conta do que fez. Mas o detetive tem absoluta certeza de uma coisa: não deixará que nada de
mal lhe aconteça, nem que tenha que omitir a verdade da polícia a fim de protegê-la de um futuro
tão terrível quanto permanecer em cativeiro.
Hipólito também fará o Cara do Dente pagar pelo trauma que lhe causou.
CAPÍTULO 20

Jeane abre os olhos com dificuldade, mas logo compreende que está no quarto de hóspedes
da casa de Santiago. O sol está se pondo e uma luz avermelhada entra pelas frestas da cortina,
que mal cobre a janela.
Ela sente o rosto pegajoso e passa as mãos nos olhos e bochechas. Uma confusão já seca de
lágrimas, saliva e coriza em sua face parece ser a responsável. Pensa em se levantar para ir ao
banheiro se lavar e se assusta ao dar de cara com Santiago, que parece adormecido na poltrona ao
lado da sua cama.
A doutora retoma o que a levou até àquele momento. O detetive está vestido com as
mesmas roupas engraçadas com as quais o encontrou logo cedo, para a primeira aula de defesa
pessoal, arrancando um novo sorriso de Jeane. De diferente, apenas uma bolsa de gelo entre as
pernas, que chama a atenção da médica. Terá ela acertado Hipólito onde não devia durante a
prática?
Apesar disso, o detetive parece repousar tranquilo, ainda que porte uma ruga de
preocupação entre as sobrancelhas franzidas. A doutora ouve, do lado de fora, uma mulher
assobiando enquanto parece passar o aspirador. A empregada de Santiago está na casa. Lembra-
se de quando a senhora Haddad chegou e o detetive orientou Jeane a esperá-lo na biblioteca.
Um arrepio lhe percorre a espinha. A biblioteca estava escura e fria, e ela quase pode sentir
aquele gelo tomar conta de seu corpo novamente. Puxa a coberta mais para cima de si, quase
como um ato involuntário, procurando se aquecer. Basta a doutora se lembrar de estar naquele
cômodo horrível, com o inconfundível cheiro de creolina lhe queimando as narinas, que lágrimas
brotam mais uma vez, sem esforço. A partir daí, há apenas uma confusão de flashes em sua
mente, até o momento em que se lembra de abrir os olhos por um segundo e ver Santiago
carregando seu corpo inerte escada acima.
Então, Jeane compreende parte do que aconteceu: desceu para a sua primeira aula, a
senhora Haddad chegou e ela foi esperar Santiago na biblioteca, algo ocorreu que a perturbou
sobremaneira e que provavelmente a fez desmaiar, obrigando o detetive a pegá-la e colocá-la na
cama.
Jeane se questiona sobre o que pode tê-la deixado tão perturbada. Logo a resposta lhe vem,
como um raio: certamente a biblioteca vazia, a escuridão do ambiente fechado e o cheiro forte
que sentiu de desinfetante a fizeram recordar os anos tortuosos que passou nas mãos do Dentista.
Sente um novo calafrio e seu corpo inteiro treme. A médica pensa no quanto é triste não
poder entrar em uma sala escura sem ter um ataque. Sabe que o que sofreu está muito além do
que a maioria das pessoas aguentaria, mas ainda assim esperava ser mais forte do que isso. Crises
de estresse pós-traumático não ajudam em nada no momento, pelo contrário. Só a deixam mais
vulnerável a Santiago. O detetive é astuto e certamente já percebeu que a doutora esconde muito
mais do que demonstra.
Uma ideia, então, passa pela cabeça de Jeane. Terá o detetive armado aquela situação toda
para observar sua reação? Hipólito seria completamente capaz de algo assim, sem medo algum
do que poderia causar. Neste caso, os fins justificariam os meios.
A doutora se sente confusa. Sabe que falou sobre as características do local que foi seu
cativeiro para o detetive, mas não se lembra de falar nada sobre os banhos de creolina que era
obrigada a tomar. E não se recorda de dizer que lavava as vítimas do Dentista com o mesmo
produto, sentindo a própria pele queimar e arder no contato com a química, até que ele as
julgasse limpas o bastante.
Jeane não costuma acreditar em coincidências, mas realmente pode estar diante de uma. É
provável que o cheiro de produtos químicos fosse por causa da senhora Haddad limpando o
andar de baixo. A cozinha realmente precisa de alvejante. É a única explicação plausível.
A médica empurra a coberta de cima de si, sentindo agora um calor absurdo. Levanta-se
devagar e vai até o banheiro, onde lava o rosto, escova os dentes e ajeita o cabelo. Se sente
minimamente apresentável novamente, apesar dos olhos inchados e da boca mais rosada do que
de costume, sinais claros de um choro dolorosamente intenso e perturbador.
Ao voltar para o quarto, Jeane fita Santiago ainda adormecido, na poltrona. Ela se
aproxima, até estar bem próxima dele. Sua respiração profunda e cadenciada vai acalmando a
doutora aos poucos. A moça sente uma paz que não experimentava há muito tempo. Os cabelos
anelados e rebeldes do detetive estão suados e colados na testa, e Jeane os tira com cuidado,
usando as pontas dos dedos e fazendo Hipólito se mexer e resmungar um pouco na poltrona. Não
consegue evitar olhar o rosto contraído do detetive demoradamente, analisando cada detalhe,
quase com carinho. Segura o ímpeto de acariciar sua pele clara, sem marcas, e com a barba feita
de maneira meticulosa.
Os olhos de Santiago se mexem, como se estivesse sonhando e, sem pensar, a protegida de
Hipólito se senta no colo dele, abraçando-o pelo pescoço e despertando o detetive do sono
profundo em que estava. Ele acorda em alerta e encara a senhorita Werner ali, desprotegida e
carente em seu colo, e seu coração começa a bater descompassadamente. Não sabe de onde
diabos arranja forças para segurar o desejo de beijá-la.
— Você está bem? — ele se preocupa, abraçando o corpo gelado da moça frágil em seus
braços.
— Pode me colocar na cama? — ela pede, com uma voz quase infantil.
Santiago se levanta com dificuldade, carregando Jeane consigo, ainda sentindo um latejar
incômodo entre as pernas quando a bolsa de gelo que estava aliviando a pancada cai no chão. Ele
leva a doutora com cuidado, colocando-a sobre os lençóis e cobrindo-a com o cobertor em
seguida.
— Quer mais alguma coisa? — pergunta, preocupado, fazendo um carinho no rosto de
Jeane com as costas do indicador.
— Pode se deitar um pouco comigo? — ela pede, com olhos suplicantes, fazendo o
detetive sentir um calor diferente no peito.
Ele reluta por alguns segundos, tentando fazer a coisa certa, que seria sair porta afora,
mesmo sabendo que jamais conseguirá. Santiago dá a volta na cama e se deita ao lado da
doutora, que imediatamente busca os braços do detetive, se aninhando por inteiro nele. Deita em
seu peito, abraça sua cintura e entrelaça as pernas nas dele.
Hipólito se sente sem rumo. Já enfrentou desafios absurdos, mandou para a cadeia
criminosos com inteligência acima da média, muito mais sagazes do que a maioria, já desvendou
casos que ninguém em seu lugar conseguiria, e já teve um número considerável de mulheres em
sua cama, todas bem dispostas a serem dominadas por ele. Mas, exatamente ali, enroscado ao
corpo pequeno e delicado da mulher mais intrigante, inteligente, esquiva e perturbadora que já
conheceu, se sente completamente perdido.
— O que aconteceu comigo? — Jeane pergunta, despertando Santiago de seus
questionamentos.
— Você teve uma crise, senhorita Werner. Parece que alguma coisa a fez se lembrar dos
horrores que passou, e você entrou em um estado crítico e, em seguida, quase catatônico.
— Hm...
Ele a abraça ainda mais forte, sentindo o perfume do xampu de Jeane inundando suas
narinas. Sem perceber, respira fundo, quase que para senti-la ainda mais dentro de si.
— Talvez seja bom colocar esses horrores para fora, doutora. E, sinceramente, não consigo
pensar em alguém mais disposto do que eu a ouvi-la.
Jeane fica em silêncio por longos minutos, a ponto de Santiago acreditar que pegou no
sono novamente.
— Tudo bem, detetive, você está certo. Creio que chegou o momento de começar a falar.
CAPÍTULO 21

Santiago precisa de uma distração, antes que se perca no calor e nas curvas da mulher
sedutora, enroscada nele como uma gata manhosa. Também sente necessidade de ajudá-la a
superar seus traumas, não pensando apenas no caso — que, claro, não consegue esquecer —,
mas também na saúde mental de Jeane. É para salvar pessoas como ela de perigos como o Cara
do Dente que ele trabalha tão exaustivamente.
Nunca se viu apto a ser o alicerce de alguém, talvez por ser pouco emocional e muito
racional. Mas com a doutora é diferente. Ele consegue sentir uma compaixão latente ao vê-la
sofrer, uma dor lancinante ao assisti-la chorar e uma serenidade desconcertante ao acompanhá-la
dormir. Tão boa e desproposital, que o detetive acabou caindo no sono, sentado na poltrona, sem
nem perceber.
Agora, deitado na cama, com Jeane em seus braços, Santiago encara seus olhos castanhos
expressivos bem de perto, porque foi incapaz de não atender a seu pedido.
— Eu era uma espécie de ajudante do Dentista — a doutora começa a falar, nitidamente
forçando as palavras a saírem. Com uma paciência que não lhe é característica, o detetive a
escuta, sem interrompê-la. — Tinha que manter o local onde ficava e a mim mesma cheirando à
limpeza. — Sua voz falha e Santiago pensa em lhe pedir para parar, achando crueldade fazê-la
reviver os horrores através da confissão, mas Jeane continua, antes que se decida. — Era
obrigada a limpar os corpos que ele trazia para mim, depois de... — Ela funga e balança a
cabeça, apertando os olhos. — E ele ficava de vigia, acompanhando meus movimentos, até
mesmo a minha respiração. Parecia que sentia nojo de mim depois que eu as tocava.
Um soluço incontido escapa por seus lábios e Santiago a aperta contra si, deixando-a
chorar largamente. Ele alisa suas costas e aperta os dedos nas suas costelas, de forma meio dura,
sentindo-se enfurecido por não poder verbalizar a frase mais clichê do universo, mas que
adoraria dizer mesmo assim: “vai ficar tudo bem”. O detetive sabe que é mentira, pelo menos até
pegar aquele assassino em série, insuportavelmente escorregadio. Nenhum crime é perfeito, ele
tem que descobrir a falha.
— Por favor, Santiago — murmura entre o choro, esfregando o rosto úmido na camiseta
dele. — Me ajuda a voltar a respirar... — Seus olhos se encontram, gerando uma faísca, e
causando uma explosão no interior do detetive. — Preciso esquecer...
Hipólito nunca quis ser o abrigo de ninguém, mas é com emoção desmedida que oferece a
segurança de seu corpo para Werner se proteger. Ele só quer ver a dor estampada em seu rosto
desaparecer, como se jamais existisse, e conhece apenas uma forma de fazer isso, a única que
funciona consigo mesmo. Apertando mais o corpo da doutora contra o seu, Santiago aproxima
seus lábios, arrebatando os dela em um beijo voraz. Rapidamente, uma de suas mãos desliza
pelas costas de Jeane, e se enrosca em sua nuca, junto com fios sedosos de seus cabelos
perfumados.
Ele a prende a si, da mesma maneira que está preso à Jeane, desde a primeira vez que seus
olhos se puseram sobre ela. Santiago é incapaz de se lembrar de qualquer outra promessa que se
fez além de proteger a doutora. Pouco importa que o detetive não deveria se envolver com a
testemunha do caso no qual está trabalhando. A única coisa que lhe interessa é trazê-la de volta à
vida, e mantê-la bem distante do pesadelo ao qual o Cara do Dente a impôs.
Santiago rola para cima dela, aconchegando o corpo de Jeane de costas no colchão. Ela
ainda está usando as roupas de ginástica que o detetive mandou comprar para as aulas de defesa
pessoal. Tanto melhor, pouco tecido para tirar do caminho de suas mãos. Não sabia que sentia
tanta falta daquele corpo até tocá-lo outra vez. Seus dedos já conhecem a textura e a maciez
daquela pele que, unida ao seu intelecto, faz da doutora a mulher.
Para Hipólito, Werner é a definição perfeita do gênero feminino, que mistura a
feminilidade sensual com a perspicácia de uma grande observadora. A mulher figura todo o sexo
feminino em si, eclipsando todas as outras aos olhos treinados do homem acostumado com
padrões quase imutáveis nas pessoas que cruzam seu caminho. Jeane é, definitivamente, fora do
padrão estabelecido pela lógica de seu cérebro, sempre catalogando gestos, expressões e timbres.
É-lhe quase impossível lê-la, e isso não o frustra mais, porém, o atrai para uma rede, na
qual está preso por livre e espontânea vontade, e de onde não deseja escapar. O detetive se vê
reagindo ao inesperado de maneira impulsiva, que não lhe é característica, mas o momento exige.
Então, rende-se, certo de que aquele é apenas o início de uma experiência tão nova, quanto
avassaladora. Santiago pouco entende, ou dá ouvidos, para o desejo. No entanto, aquele é tão
visceral quanto necessidades básicas ou físicas, oriundo de seu cerne, como se fizesse parte do
DNA.
Hipólito ainda a beija, organizando em sua mente sempre alerta tudo o que ama em
Werner: os olhos expressivos, a boca sedutora, a língua afiada, o pensamento ágil, o corpo
marcado de uma guerreira, a capacidade de se entregar à paixão mesmo quebrada, a
impulsividade vivaz e a até mesmo a habilidade de guardar segredos. Nunca, a seus olhos
exigentes, Santiago encontrou alguém tão perfeita. Ninguém nunca chegou perto do alto padrão
que exige.
Só ela, a doutora Jeane Werner. A mulher, em sua mais pura essência.
Santiago cessa o beijo e encosta suas testas, em busca de ar. Suas respirações se misturam
e os sons frenéticos e intensos causam frenesi no seu corpo. Ergue a cabeça apenas o suficiente
para que seus olhos se encontrem de maneira confortável e incisiva. Porém, Jeane mantém as
pálpebras fechadas.
— Olhe para mim — murmura em uma voz rouca e suave. Ela o obedece, de imediato. —
Reconheça meu toque, doutora Werner. — As palmas do detetive espalham seu calor pelo corpo
dela sobre as roupas. — Veja em minha alma o desejo de livrá-la de seu tormento. — Ela fixa o
olhar tão fundo no dele, que ambos estremecem. — Guarde o que vê na memória e, quando a dor
vier e não souber para onde ir, lembre-se que sou seu abrigo.
Ele se inclina e beija sua fronte com doçura e delicadeza, capazes de transformar um corpo
frio como gelo em uma poça de água. Jeane estava longe de estar imune aos encantos de um
homem tão sedutor e intenso, quanto jamais pensou que Santiago poderia ser. Ela esperava tudo
dele: enfrentamento, teimosia e sagacidade. Porém, a emoção que transborda de seus olhos,
arrematada por suas palavras e pelas mãos, que a tocam de forma tão carinhosa, espelham o seu
próprio sentimento.
Nem se Jeane lutasse por mil anos conseguiria resistir àquele detetive, cuja atratividade
não é só física. Ele inspira confiança e transpira paixão. Seus olhos a desnudam sem que as mãos
estejam trabalhando, vasculhando sua alma sem pedir licença. Sua pegada é crua, visceral,
primitiva, como as mais intensas e verdadeiras emoções humanas. A doutora não entende como
alguém tão racional pode ser sentimental ao extremo oposto. Só é surpreendida, pega
completamente desprevenida pela força do desejo que a assalta na presença de Santiago.
Para Werner, ele é a melhor composição masculina que teve o privilégio de ter.
Jeane suspira e se deixa içar. Santiago a ajuda a se sentar de frente para ele, de forma que
possa olhá-la nos olhos conforme a despe. Ergue sua blusa, curvando-se para frente a fim de
beijar a curva delicada do seu pescoço. Sobe os lábios por seu rosto, abençoando, com a leveza
do bater das asas de um beija-flor, os hematomas deixados pelo Cara do Dente. A blusa se perde
em algum ponto do quarto, enquanto o detetive ocupa as mãos em retirar o top da doutora.
Quando se veem livres, os seios caem, pesados, sob o efeito da gravidade. Tal qual,
Hipólito é atraído para eles, inclinando o tronco dela para trás e segurando-a firme, a fim de
sugar os mamilos arrepiados. Santiago os estimula até que estejam duros e alongados, e os
gemidos sussurrados de Jeane se tornem um indício de deleite. Aproveita a posição para salpicar
os roxos em seu abdômen com beijos ternos, que causam ainda mais emoção à Werner.
Ele a deposita sobre o colchão novamente, focando sua atenção na calça legging, que se
modela às suas coxas e está prestes a levar o detetive à loucura. Desde que a viu naquela roupa,
imaginou-se a arrancando diversas vezes, culminando em um sexo selvagem e duro no chão da
sala, onde praticaram a primeira aula. Ele havia se contido, mas não tem porque se segurar agora.
Puxando com a delicadeza que propôs desde o início, Santiago a deixa somente de calcinha, e
para, contemplando-a por um instante.
— Você é a mulher mais bela e sensual que já conheci, senhorita Werner. — Não consegue
se obrigar a ser menos formal com ela, não está acostumado a ser informal com ninguém. Talvez
em algum momento consiga chamá-la pelo primeiro nome. Mas como ela não exige nada, nem
mesmo o lembra da formalidade desnecessária, ele se perde na visão que tem diante de si. —
Não me canso de olhá-la.
Jeane acha impossível, dado o estado calamitoso de seu corpo, carimbado de roxos e
vermelhos por todos os lados. Porém, no momento só consegue admirar a beleza do homem que
a venera com verdade, como se ela fosse uma deusa indestrutível, de graça e encanto imortais.
Santiago a faz se sentir exatamente assim: etérea. Ela sabe que o amor tem esse poder, torna o
objeto de nossa afeição a preciosidade mais rara na eternidade em que dura o sentimento.
A doutora se levanta e se senta no colo do detetive, atacando sua boca ao mesmo tempo em
que lhe arranca a camiseta, afoitamente. Quando interrompem o beijo para que a peça o
descubra, Santiago invade a calcinha de Jeane com dedos ávidos, tanto na frente quanto atrás,
acariciando partes de seu corpo que já pulsam, nervosamente, à espera de alívio.
Werner enlouquece sob o estímulo duplo de Hipólito, lutando contra seu próprio peso, a
fim de alcançar o pênis dele. Desistindo de lhe arrancar a calça estranha, ela enfia as mãos em
seu interior quente, deixando uma em suas bolas enquanto a outra traz seu pau para fora da
roupa, a fim de lhe dar um tratamento igualmente excitante. Ambos gemem, buscando as bocas
um do outro como se tivessem combinado o movimento.
O detetive perde o equilíbrio e acaba caindo de costas no colchão. A doutora vai com ele,
sem interromper o beijo maluco que seus lábios protagonizam, com direito a mordidas e
lambidas. Os dedos de Santiago estão tão lambuzados na lubrificação de Jeane, que facilmente se
introduzem nos dois orifícios disponíveis para seu manuseio. Werner grunhe contra sua boca,
movendo o corpo para cima e para baixo, e fricciona a própria barriga contra a ereção de
Hipólito.
Santiago move as mãos no ritmo e pressão tão certos que Jeane goza, ruidosamente,
afastando suas bocas, a fim de gritar. É nesse momento de vulnerabilidade que ele aproveita para
inverter suas posições, voltando a cobrir o corpo dela com o seu. A calça, meio embolada em
seus quadris incomoda, por isso se livra dela junto com a cueca em um puxão preciso, antes de
atacar a pobre calcinha, destruindo a renda frágil com sua brutalidade. O detetive não pretendia
se render ao animal feroz dentro de si, mas quando perde o controle sobre a racionalidade, não há
mais nada a fazer.
O sorriso de Jeane garante que ela gosta tanto do delicado quanto do bruto.
Ele ergue as pernas dela até os ombros e mergulha a boca na fenda escorregadia, bebendo
outra vez da fonte daquele elixir aromático e irresistível, que é a vagina da doutora. Nunca
chupou uma boceta tão gostosa. Dessa vez, Santiago usa somente a boca, aproveitando que o
clitóris já está intumescido e sensível pelo primeiro orgasmo, tapando a boca de Werner com
uma mão, já que ela não para de gemer cada vez mais alto. A outra amassa uma mama com força
comedida, estimulando-a.
Jeane lhe agarra os cabelos e os puxa, grunhindo fortemente contra a sua palma úmida,
cheirando a sexo, e goza de novo, tão rápido que nem acredita.
Descontrolado, Santiago ergue o tronco, mantendo os tornozelos de Jeane sobre os ombros,
e enfia seu pênis no canal escorregadio até o talo. Como ainda mantém a boca dela coberta, o
berro morre contra sua mão e ele sorri, em uma mistura de malícia e desejo desenfreado. Cinge o
pescoço torneado com os dedos da outra mão e se apoia nos joelhos para começar a meter
cadenciadamente. A doutora se agarra aos pulsos do detetive e fecha os olhos, sentindo o corpo
sacolejar no ritmo do vaivém delicioso.
— Continue olhando para mim, Werner! — Hipólito ordena, energicamente.
Jeane reabre os olhos e vê toda a emoção estampada no rosto de Santiago. Ele a vasculha,
desnuda, reconhece e provoca, conforme seus corpos se unem, se derretem e se agitam na
emoção do amor que fazem. A ternura se derrama sobre ela, emocionando-a. As mãos em volta
de partes de seu corpo não machucam, se encaixam. O pênis indo e vindo em seu interior mais
sedento faz crescer a pulsação, tanto quanto o sentimento que enxerga naquele olhar cinzento
como um dia nublado.
Santiago é como a chuva que surge a qualquer momento naquela região. Jeane sempre
acha que está preparada para ela, mas ainda assim acaba se molhando. E nessa toada, de um
chuvisco a uma pancada intensa, ele a inunda, levando-a consigo para o nebuloso estado de
êxtase. Seu corpo convulsiona exatamente no mesmo instante em que o sente pulsar e ejacular,
banhando-a com a liquidez de um amor tão fervente, que derreteu a frieza do metal em seus
olhos, transformando-o no calor da luz do luar.
CAPÍTULO 22

Jeane se sente esmagada pelo corpo suado do homem que acaba de se derramar dentro
dela. O contato permite a doutora reparar que a respiração ofegante de Santiago segue o mesmo
compasso da sua. O detetive deita a cabeça no peito dela, que lhe acaricia os cabelos, enquanto
ele ouve as batidas do seu coração. E assim ficam os amantes após se deleitarem, um grudado ao
outro sem nada dizer, por tempo indeterminado.
A médica se mexe um pouco na cama, fazendo com que Santiago saia de cima dela de
imediato, e deite-se ao seu lado. Ela imediatamente se aconchega em seu peito, e o detetive passa
o braço em volta do corpo delicado. A mulher acaricia o peito nu de Hipólito, com pouquíssimos
pelos, enquanto ele lhe beija a cabeça e afaga-lhe os cabelos. Sente o esperma escorrendo pelas
suas pernas. Não usaram camisinha e isso não está certo. Precisarão ter uma séria conversa sobre
isso.
— O que fizemos foi... — Santiago não consegue terminar a frase. Sente Jeane se encolher
em seus braços, provavelmente com medo do que ouvirá, uma vez que já foi repelida por ele
antes. — Incrível! Você é uma mulher muito diferente, senhorita Werner.
— Diferente bom, ou diferente ruim? — a doutora não se contenta ao ouvir o elogio vago e
usa um adorável tom infantil para questioná-lo.
— Diferente de todos com quem já lidei até hoje. Digamos que eu seja racional demais
para todo e qualquer assunto, e não seria diferente no tocante a sentimentos amorosos. Sempre
achei tudo isso que falam sobre paixão, como borboletas no estômago, pernas virando gelatina,
corações disparados, almas gêmeas, entre outras coisas, uma grande bobagem. Ainda acho,
confesso, mas com você eu consigo entender os motivos das pessoas acreditarem tanto nessas
baboseiras relacionadas ao amor.
Jeane dá um largo sorriso e aperta Santiago junto a si. Sabe que, em se tratando dele, isso
foi praticamente uma declaração. Não consegue precisar como chegaram a esse ponto, mas
alcança a visão clara de que, tanto ela quanto o detetive, estão completamente envolvidos. Não
há muito mais a ser feito diante disso.
Ele toma uma das mãos de Jeane, entrelaçando seus dedos aos dela, delicadamente. Não há
cobranças, não há medo ou fuga. Santiago apenas permite à doutora relaxar, ficar à vontade e se
sentir segura em sua pele. E é justamente nesse momento, em que o detetive jamais esperaria que
algo mais contundente pudesse aparecer, que a voz de Jeane surge para surpreendê-lo.
— Não sei precisar quanto tempo demoramos entre o estacionamento do hospital e o
cativeiro. Eu estava desacordada, como já declarei. Quando recobrei a consciência, me
encontrava dentro de uma banheira, de molho na creolina, sendo esfregada com esponja por um
homem desconhecido. Minha pele ardia e minha boca estava seca. Pedi água, e ele me fez beber
do meu próprio banho.
Santiago engole em seco.
— Com desinfetante e tudo? — pergunta, tentando amenizar o tom investigativo, que lhe é
tão natural.
— Sim. Foi a única vez. Passei muito mal e vomitei muito. Ele se deu por satisfeito. Disse
que eu havia sido lavada por dentro.
O detetive analisa o padrão do Cara do Dente. Ele faz as conexões entre todas as
informações que já tem e as novas que surgem de Jeane. Seu cérebro parece tecer uma imensa e
ainda desorganizada teia, que espera conseguir dar sentido o quanto antes.
— Ele me vestiu com uma camisola branca de hospital, desde o início. E essa foi a minha
indumentária diária. Eu tinha duas peças para revezar. A lavagem era feita por mim, sem tirar o
tecido do meu próprio corpo, dentro da banheira. Lá era tudo fechado, eu sentia muito calor, mas
evitava ao máximo lavar as roupas por causa da minha pele, que ia ficando cada vez mais
irritada. Imagina quando ele me feria e me obrigava entrar na banheira cheia de química para me
limpar do sangue a tormenta que eu vivia.
Hipólito imagina cada descrição de Jeane com cuidado, procurando as perguntas certas a
serem feitas. A doutora está receptiva, entregue, confiante. Precisa aproveitar ao máximo o
momento. Sem forçá-la, obviamente. Não quer fazê-la passar por pressão alguma além daquelas
que já viveu.
— Tudo era limpo assim?
— Não. Somente os corpos e o local de assepsia, tanto do meu, quanto os das outras
garotas. O cativeiro era imundo, cheirava a excremento. Não tinha banheiro, eu tinha que urinar e
defecar em uma fossa. Quando enchia, o Dentista tampava o buraco com terra úmida e cavava
outro.
A cabeça de Hipólito trabalha em ritmo frenético. São muitas novidades em um espaço de
tempo mínimo. Muita coisa a perguntar, muita informação a processar. Ainda assim, não
consegue deixar de se sentir muito mal ao imaginar Jeane sendo mantida encarcerada em um
lugar tão fétido, por tanto tempo.
— Então o chão era de terra? — pergunta, tentando organizar os pensamentos. Não pode
se entregar ao sentimento agora. Precisa do mínimo de frieza e racionalidade se quiser seguir
adiante, se quiser ajudar a mulher que, ainda aninhada em seus braços, deposita toda a sua
confiança sobre ele.
— Era. De terra alaranjada. Vivia enlameado por causa da água que sempre derramávamos
entre um banho e outro.
— Sei... E você disse dos corpos de outras garotas. Havia outras lá com você?
— Claro, todas as vítimas estiveram lá comigo em algum momento. Algumas por dias,
outras apenas por algumas horas. Mas todas passaram por lá. Ele escolhia a coitada, levava para
o cativeiro, a mantinha presa até o seu objetivo final, e eu preparava o corpo para a desova.
Jeane estremece, fazendo com que Santiago a aperte ainda mais contra si.
— Se não quiser continuar...
— Eu quero — ela interrompe o detetive, abruptamente. — Preciso!
— Tudo bem, senhorita Werner. Então, prossigamos. Me fale um pouco sobre o
sequestrador. O que conseguir se lembrar.
Ela respira fundo e ergue o corpo, se postando sentada de frente para Hipólito, assumindo
o papel de testemunha. Jeane está visivelmente disposta a ajudar, finalmente.
— O Dentista sempre foi um homem de poucas palavras. Nunca vi seu rosto, pois sempre
entrou na minha “prisão” com máscara e touca cirúrgicas, jaleco e luvas. O pouco que pude ver,
não diz muito. Seus olhos eram castanhos bem escuros, os cabelos castanhos e um pouco mais
compridos, já que alguns tufos escapavam por baixo da touca, a barba era rala, sempre por fazer.
Ah, e ele cheirava constantemente a suor.
Santiago aguarda, mas a descrição parece ter acabado.
— Lembra a altura dele? Do tamanho dos pés? Coisas que pudessem ajudar na eliminação
de suspeitos? — o detetive repete perguntas feitas anteriormente, mas nunca respondidas.
— Ele era um pouco mais alto do que eu, mas não chegava a ter a sua altura. Não me
lembro do tamanho dos pés.
— Tudo bem — Santiago a tranquiliza, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha de
Jeane. Ela fecha os olhos e se deixa levar pelo toque, inclinando o rosto na direção da mão de
Santiago, que o acaricia, levemente, com os dedos. Não consegue imaginar ninguém capaz de
fazer qualquer maldade com aquela mulher. Chega a trincar os dentes ao pensar no que Jeane
passou todo esse tempo nas mãos de um psicopata.
— Eu não tinha noção de dia e noite — ela continuando narrando de olhos fechados, a
expressão serena de quem extravasa algo que lhe faz mal e lhe provoca alívio. — Lá era tudo
fechado, como já disse uma vez. O ar era rarefeito e entrava por pequenos buracos feitos à
furadeira, onde não passava luz e não dava para ver do lado de fora. Eu me sentia um rato dentro
de uma caixa, guardado para um experimento, sendo alimentado de tempos em tempos apenas
para não morrer.
— Ele não lhe dava comida todos os dias? — o detetive pergunta, em tom indignado.
— Ele levava comida e água duas vezes ao dia, mas às vezes chegava com uma quantidade
maior, para um período determinado de tempo. Sabia que ele iria sumir, e eu precisava racionar,
pois, como não tinha noção de dias, não sabia em quanto tempo ele me reabasteceria. Pelo menos
a comida era boa e fresca, pães, frios, manteiga, leite, carne e verduras.
— Mas você tinha onde preparar?
— Na “prisão” tinha tudo. De um lado, uma geladeira pequena e azul, ladeada por um
fogão de duas bocas. Tinha pia, panelas, copos e talheres. Eu comia sentada em uma mesinha
dessas de colégio. Do outro lado, improvisei alguns varais onde secava as minhas camisolas e
tolhas. Eu as lavava no corpo, mas o Dentista me deixava estender para secar, com medo de que
eu ficasse doente. Aliás, ele tinha pavor de doença. Me fazia tomar suplementos e vitaminas o
tempo todo. Dizia que não queria arriscar a minha vida, que eu era muito preciosa.
— Que bonzinho! — Santiago bufa de maneira sarcástica.
Jeane encolhe os ombros.
— No outro canto da “prisão” ficavam a banheira e a fossa. Logo ao lado, um conjunto de
correntes onde o Dentista prendia as vítimas vivas, e uma maca hospitalar limpa e esterilizada,
onde as colocava depois de mortas e limpas, para transportar.
— Entendi. Mas, senhorita Werner, algo aqui não se encaixa. Por que você não foi morta
desde o início? Por que não teve o mesmo destino das demais?
— Ele dizia que precisava de mim.
— Como assim? Em que sentido?
De repente, os olhos de Jeane se tornam vidrados. É como se perdesse a consciência plena,
e fosse guiada apenas por lembranças fragmentadas. Santiago observa a mudança assustadora de
comportamento, procurando não se mostrar minimamente abalado. Não pode de jeito nenhum
perder essa conexão.
— Eu era a escolhida. Apenas eu sabia fazer a incisão perfeita para extrair o dente das
meninas. Ele precisava dos dentes imaculados, sei disso. Eu extraía com o máximo de cuidado,
da maneira que fosse deixá-lo mais feliz. Eu gostava quando ele ficava feliz.
Santiago mal respira, com medo do ruído atrapalhar o momento revelador que presencia.
— Um molar, um pré-molar, um canino... Um a um, eu ia montando a arcada dentária
perfeita para o Dentista. O sorriso dos sonhos!
De repente Jeane deita e se dobra, começando a chorar, compulsivamente. Ela abraça os
joelhos em posição fetal, encolhendo-se o máximo que consegue.
— Por favor, não me olhe assim. Eu juro que não é minha culpa, eu fiz o melhor que pude.
Eu fiz o melhor que pude!
Santiago agarra a doutora, que dá um grito e começa a tremer e convulsionar em soluços.
Ele a imobiliza, beija a sua cabeça e sussurra em seu ouvido:
— Ei, senhorita Werner, sou eu, Santiago. Estou com você. Eu prometi que estaria sempre
aqui.
E começa a cantarolar a mesma canção que a acalmou mais cedo, na sala. O detetive sente
quando a doutora começa a se entregar, relaxando o corpo, pouco a pouco. Sua respiração se
normaliza devagar, até ficar profunda e uniforme.
Santiago se ajeita na cama, abraçando Jeane com o corpo todo. Sabe que não ouviu tudo,
mas uma parte significativa foi dita hoje, lhe dando um material muito maior para dar
seguimento ao caso que lhe perturba por tanto tempo. É inevitável sentir uma pontada de dor ao
se dar conta de que Jeane sofreu além do que imaginava. O assassino lhe fez participar crimes e
isso gerou um trauma horrível. Tanto que, quando entra no momento do relato da coisa crua, a
doutora dissocia, entra em estado semiconsciente e começa a viver a lembrança como se fosse
real. Sempre clamando por misericórdia, como percebe chocado.
O detetive sente os olhos molhados. Não sabe se de tristeza ou ódio, mas na certeza de que
precisa prender esse desgraçado. Precisa encarcerar o assassino que acabou com a vida de todas
aquelas mulheres. O homem que, por muito pouco, não destruiu de maneira irremediável e
definitiva a sua senhorita Werner.
***
Jeane desperta, procurando por Santiago na cama. Já é de manhã, pelo que pode ver através
da janela do quarto. Lembra-se de praticamente tudo da noite anterior. Da paixão do seu amante,
da entrega de ambos em um momento carregado de desejo e sentimento, da forma como se
sentiu amada e protegida, ao ponto de aflorar-lhe a vontade de finalmente contar tudo e deixar o
detetive saber como foram os últimos anos de sua sobrevida. A médica se lembra de tudo, menos
de como dormiu. Deve ter apagado pelo cansaço físico e mental, proporcionados pelo sexo
intenso e relato longo, ambos relacionados a Hipólito.
Ela se levanta para ir ao banheiro, sentindo-se dolorida, mas algo a detém na porta do
quarto. Uma melodia triste e doce vem do andar de baixo, atraindo Jeane, que parece
hipnotizada. Ela desce as escadas vagarosamente, como se caminhasse seguindo o som da
música.
Ao chegar à sala, a doutora sente um soco no estômago, que quase lhe tira o fôlego:
Santiago está de pé, os olhos fechados, tocando uma melodia maravilhosa ao violino. O
instrumento e ele parecem se fundir de modo harmônico, os movimentos do seu corpo são suaves
e delicados. Jeane se emociona de tal maneira que tem a certeza de que, se abrir a boca, vai se
esvair em choro.
Demora alguns segundos para que o detetive perceba a sua presença. Quando vê a doutora,
Santiago abre um largo sorriso, parando de tocar e se dirigindo até ela.
— Dormiu bem? — confere, segurando o queixo da moça e plantando-lhe um beijo suave
em seus lábios.
— Muito bem, ao que parece. E você?
Santiago encosta o nariz no dela.
— Como eu não dormia há muito tempo.
Jeane sorri e Santiago se afasta, pegando a sua mão e levando-a até a cozinha. A mesa está
posta com uma variedade de comidas e lanches que seria capaz de alimentar um batalhão.
— Estamos esperando alguém para tomar café? — ela se assusta.
— Estive esperando por você — ele não disfarça o duplo sentido, puxando a cadeira para a
doutora sentar.
Santiago se acomoda ao lado de Jeane em seguida.
— Eu não sabia que você tocava — ela puxa conversa, se servindo de suco de laranja.
— Eu não praticava há um tempo. Me deu vontade. Estava com uma composição na
cabeça que precisava sair.
Ela arregala os olhos.
— Aquela música é sua?! — está encantada e abismada.
— Sim — ele responde de modo blasé, como se não fosse nada demais. — Compor me
ajuda a pensar.
— É linda!
— Obrigado.
De repente a campainha toca, fazendo o detetive resmungar e levantar de um pulo para
atender.
— Santiago! — Jeane chama, antes que o detetive saia da cozinha. — Qual o nome da
música?
Ele dá um sorriso terno e reponde, antes de se virar para sair:
— A Mulher.
CAPÍTULO 23

Santiago não consegue disfarçar o sorriso conforme se encaminha até o hall e abre a porta.
A presença e a aproximação de Jeane foram tão naturais quanto respirar para ele. Nunca se
imaginou envolvido emocionalmente com ninguém, muito menos com a testemunha de um caso.
Ele não é dado à intimidade nem mesmo com os membros da família. Está espantado consigo
mesmo, porém, não menos maravilhado.
No entanto, seu sorriso morre ao verificar quem se encontra de pé na entrada de sua casa,
logo cedo. Com cara de poucos amigos, Lovat se obriga a cumprimentar o detetive e despeja a
que veio, antes mesmo de aceitar o convite para entrar.
— Minha intuição me dizia que você faria alguma merda, Hipólito. O que houve com a
testemunha para que ela tentasse fugir? — acrescenta, ao adentrar o hall e parar, afastando as
gotas de chuva do casaco.
O detetive compreende que os policiais à paisana foram entregar o ocorrido ao chefe de
polícia, como já esperava. Santiago percebe Gregório olhar além dele e se vira, a fim de
encontrar os olhos perturbados da doutora, que nitidamente não sabe o que dizer. Volta-se,
rapidamente em seu socorro, com uma mentira já preparada.
— A senhorita Werner e eu tivemos um pequeno desentendimento, que resultou em seu
desejo de deixar a minha casa, mas já estamos acertados.
Hipólito havia dito algo semelhante para a senhora Haddad, que o encontrou deitado no
chão da sala, enquanto tentava acalmar Jeane. Naquele momento, ele apenas lhe pediu silêncio,
que ela atendeu, mesmo sem entender o que acontecia. Depois de levar a doutora para a cama,
desceu para pagar a gentil senhora e aproveitou o ensejo para lhe explicar o ocorrido, com
poucas palavras e muitas mentiras.
O que essa mulher fez comigo em apenas dois dias?, Santiago se questiona enquanto
aguarda a avaliação de Gregório. Não que mentir lhe fosse absurdo. Às vezes se valia do recurso
para alcançar seus objetivos que, no fim, eram sempre corretos e com as melhores das intenções.
— Deseja que eu a leve para outro lugar, senhorita Werner? — ele a perscruta, com um
olhar analítico.
— Não, senhor Lovat. — Santiago contém um sorriso presunçoso, mantendo sua máscara
habitual de indiferença, diante da recusa de Jeane. — Como Hipólito explicou, já resolvemos
nossa pequena divergência.
O chefe de polícia olha de um para outro, desconfiado. Ele sente cheiro da mentira no ar.
Tem certeza de que estão escondendo alguma coisa, mas decide não insistir, uma vez que possui
um assunto mais urgente a tratar.
— Fiz uma pesquisa à procura de Meganes, especificamente modelos de dez anos atrás ou
mais, a única pista que a senhorita deu no primeiro depoimento, mas não encontrei nada suspeito
— Lovat muda de assunto, aproveitando a visita para continuar a investigação do caso. — Puxei
as fichas criminais dos proprietários e estavam todos limpos. Preciso de uma luz que só você
pode dar, Hipólito.
Jeane e Santiago se entreolham antes que o detetive volte a falar.
— Procure por grandes compras de produtos de limpeza com creolina durante a última
década — orienta, antes de contar as novas informações, sucintamente, que a doutora lhe dera
depois do momento tórrido de paixão que tiveram.
Nunca imaginei que sexo seria um grande artifício para coletar o depoimento de uma
testemunha, brinca mentalmente, sentindo-se leve e ativo depois da noite de descanso, enroscado
no corpo da médica. Teve algum tempo, enquanto compunha, de absorver tudo o que ela falara e
de fazer novas conexões.
— Pelo que a senhorita Werner me contou, acredito que o assassino a mantinha em alguma
fazenda, um local bem escondido na mata — Santiago despeja seus pensamentos em uma
torrente só. — Provavelmente um lugar ermo, sem fiação elétrica ou saneamento básico. Penso
que seja uma habitação clandestina, construída provisoriamente para coletar e abrigar suas
presas. Minha preocupação é que ele tenha ido embora e destruído o esconderijo, apagando as
pistas. Procure por incêndios nas matas da cidade...
— Por que acha que ele foi embora? — Lovat interrompe o fluxo de palavras de Hipólito,
que engole a seco sua omissão sobre a participação de Werner nos crimes.
Ele, definitivamente, não vai comprometê-la, mas também não pode mentir sobre um
detalhe tão importante para o caso.
— Eu que fazia a incisão cirúrgica para que o Dentista removesse os dentes das vítimas —
Jeane é mais rápida dessa vez, aparvalhando o chefe de polícia.
— Você o quê? Por quê?
— Ela era obrigada, obviamente, Lovat — Santiago intercede, irritado.
Gregório olha de um para o outro, com os olhos esbugalhados. A cada dia esse caso ganha
novas proporções e se torna mais estranho.
— Então, por que ele se livrou da senhorita?
É a vez da médica engolir em seco antes de responder, ao mesmo tempo em que o detetive
também fala:
— O Dentista...
— O Cara do Dente...
Eles se encaram ao concluir, sem se surpreenderem que ambos tenham alcançando o
mesmo entendimento:
— Já completou a arcada dentária perfeita.
CAPÍTULO 24

Jeane permanece calada por um longo tempo, após a saída do chefe de polícia. Lovat foi
embora atordoado com o montante de informações e explicações dadas pelo detetive e pela
doutora. Toda a teoria formulada pelos dois faz completo sentido e elucida o real objetivo do
assassino, procurado há tanto tempo.
A testemunha já havia concluído a motivação do Dentista. Cada mulher sequestrada
recebia um apelido, indicando um dente. Demorou apenas duas ou três vítimas para Jeane
entender. Os nomes indicavam o dente que seria extraído. Cada uma, um dente diferente,
compondo o que seria uma arcada dentária.
— Muito sagaz, senhorita Werner — Hipólito diz, chamando a atenção da doutora. —
Chegamos à mesma conclusão. Parece que formamos uma bela dupla.
— Pois é, quem diria! Santiago, eu gostaria que me levasse ao local onde me encontraram,
se for possível.
Ele a encara, intrigado.
— Agora? Tem certeza?
A médica engole em seco e levanta a cabeça, se mostrando resolutiva e segura de si.
— Absoluta.
O detetive a observa, encantado. A força que Jeane tira de dentro de seu corpo e mente
fragilizados é simplesmente incrível. Realmente está diante de uma mulher completamente
diferente do padrão. Ela é vulnerável — ou está, no momento —, mas nem por isso sucumbe à
fraqueza. É como se assistisse uma luta diária entre duas pessoas, e é algo impressionante de se
ver.
— Santiago? — ela chama a atenção de Hipólito, com uma expressão confusa no rosto.
Acredita que ele deve estar ponderando sobre seu pedido. Mal sabe a doutora que o detetive está
perdido em seus encantos.
— Tudo bem, senhorita Werner, vamos voltar à clareira.
***
Jeane tira os sapatos, permitindo-se sentir a grama úmida entre os dedos dos pés. O cheiro
de terra molhada invade suas narinas, de maneira extremamente familiar. Não chove
torrencialmente como no momento em que foi encontrada, mas uma garoa fina é suficiente para
tornar o clima próximo do vivido aquele dia.
A doutora respira fundo, sentindo Santiago logo atrás de si, quieto e respeitando o seu
momento, mas nem por isso se fazendo menos presente.
— O Dentista sempre escolhia o dente que julgava o mais bonito para arrancar. Sempre um
diferente, para montar a arcada — reflete parada e observando um ponto qualquer no horizonte.
Hipólito se aproxima, ficando ao lado da senhorita Werner.
— Por que ele queria montar uma arcada dentária?
— Eu não sei, ele nunca disse. Apenas demonstrava um empenho desmedido nisso. No
começo eu nem entendia que era esse o objetivo, achava que ele era somente cruel e queria
guardar um “souvenir” daquelas mulheres. Mas, a despeito do que ouvimos acerca dos
assassinos em série, ele não torturava, não maltratava. Não parecia sentir prazer na dor. Ele
apenas queria o dente, nada mais.
Santiago absorve as novas informações, conectando-as ao que já sabe. As vítimas eram
sempre encontradas perfeitamente limpas e bem cuidadas. As únicas coisas que marcavam a
conexão com a morte eram o dente extraído e o sufocamento no próprio sangue. Quase não havia
marcas de violência. Quando encontravam algum hematoma, era uma ou outra escoriação nos
pulsos e tornozelos — provavelmente causados por corda, correntes — e alguma marca roxa no
pescoço.
— Ele as deixava sufocarem no próprio sangue até morrer? — procura confirmar todas as
suspeitas que já levantou ao longo desses anos.
— Mais ou menos — Jeane diz, pensativa. — Na verdade, ele me ordenou que descobrisse
um modo de fazer a incisão e retirar o dente de maneira a provocar uma hemorragia.
— Então por isso escolheu uma cirurgiã, não um dentista! — o detetive exclama,
visivelmente animado. — Ele precisava de alguém que soubesse fazer cortes precisos, ao ponto
de provocar o “acidente” perfeito. Um dentista só faz isso quando comete um erro. Um cirurgião,
todavia, é treinado para saber fazer todo tipo de incisão.
Jeane o encara de olhos arregalados.
— Nunca tinha pensado nisso. Faz sentido.
— Claro! Todo o sentido.
— Até porque, ele tinha extremo cuidado com os corpos. Não gostava de deixá-las sujas,
com manchas e marcas. Era metódico e cuidadoso.
Hipólito observa a doutora, redobrando a atenção ao seu tom de voz. Estaria sendo
complacente com o assassino? Ou admirando o seu suposto cuidado com as vítimas?
— Enfim — ela continua, sem perceber o olhar inquisitivo de Santiago —, eu fazia a
incisão com um bisturi e arrancava o dente com alicate de extração. O Dentista trazia os
instrumentos estéreis e lacrados, para cada procedimento. Uma vez provocada a hemorragia, ele
tomava o meu lugar, segurando a vítima pelo pescoço e a mantendo imóvel, até sufocar. Veja
bem, ele apenas a mantinha no lugar. Não tinha o objetivo de estrangular ninguém. Quando
ficavam marcas, se tornava extremamente frustrado e violento. E era eu quem ele usava para se
acalmar — estremece, passando as mãos pelos braços arrepiados.
Santiago tira o grosso casaco, colocando-o ao redor dos ombros de Jeane.
— Ele te machucava? Te molestava? — pergunta, irritado e temeroso antecipadamente
pelo que vai ouvir.
— Ele me prendia, usando força sem comedimento, como se eu não tivesse feito um bom
serviço e precisasse ser punida. E lá me deixava por dias, sem água, sem comida, atolada nos
meus próprios excrementos. Quando aparecia, era quase como encontrar com Deus.
— Como assim? — o detetive pergunta, apenas para mantê-la falando. Jeane está entregue,
disposta a colaborar e ele não pode perder a oportunidade.
— Era um sentimento muito dúbio, na verdade. Por mais que eu sofresse, nunca cheguei a
desejar a morte. Eu queria viver, escapar de alguma maneira. Então, quando era deixada presa e
não tinha noção temporal alguma, tudo o que eu queria era que o Dentista voltasse. Quando o
via, sentia um enorme alívio. Quase um sentimento de gratidão.
Santiago elimina aí a possibilidade que levantou no início, de Jeane sofrer da Síndrome de
Estocolmo. Ela tem noção de tudo, inclusive de que era grata pelo assassino deixá-la viver, mas
que isso não era bondade ou altruísmo. Ele apenas precisava dela. Já devia imaginar que uma
mulher tão inteligente não cairia em uma armadilha psicológica tão absurda.
— Como ele escolhia as mulheres?
— Como se escolhe cavalos, detetive. Pelos dentes.
— Não faz sentido, você tem um sorriso muito bonito, por que não se tornou uma vítima
em potencial? — Hipólito divaga, mais para si mesmo, e se anima ao concluir. — Claro! Ele
precisava de alguém que fizesse o trabalho sujo.
Jeane responde com a cabeça, afirmativamente.
— Além disso, meus dentes possuem discretas manchas amareladas. Não são perfeitos.
Inclusive, eu faria uma limpeza no dia seguinte ao sequestro, tinha acabado de desligar o celular
confirmando o meu horário quando o Dentista me interceptou no estacionamento do hospital. Ele
era doente por limpeza. Apesar de parte do cativeiro ser podre, eu tinha de estar sempre limpa.
Ele me inspecionava e se achasse que não estava limpa o suficiente, me deixava de molho na
banheira, com água e creolina, além de me esfregar com esponja quantas vezes julgasse
necessário. E eu tinha de fazer isso também, com as vítimas, depois de mortas. Eu preparava os
corpos e ele apenas inspecionava e as colocava sobre a maca para levá-las.
— E como ele fazia? Abria uma porta e passava com a maca? Nunca pensou em fugir
nesses momentos em que a porta estava aberta e ele estava distraído?
Jeane engole em seco.
— Era uma gaveta, não uma porta. Ele transportava na maca até um canto escondido por
um biombo, que nunca me deixava chegar perto. O Dentista colocava o corpo em uma grande,
gelada e escura gaveta. Era de madeira por fora, mas de alumínio por dentro. Acredito que abria
do outro lado para pegar o corpo, e trancava em seguida, pois eu nunca consegui abri-la.
Uma luz se acende na cabeça do detetive. Começa a se questionar como Jeane sabia da
temperatura e do material da gaveta se, segundo ela, o assassino nunca a deixava se aproximar?
Terá usado figura de linguagem, raciocínio abstrato e dedutivo, ou teve um contato com a gaveta
muito maior do que aparenta? Será que já esteve lá dentro? Se for isso, como saiu? E por que
omitiria esse detalhe da história?
— Tem alguma coisa que não está me contando? — arrisca, cauteloso.
Jeane desvia o olhar, dando alguns passos, nitidamente para se esquivar dos olhos
desconfiados do detetive.
— Claro que não. Acho que podemos ir, não me lembro de absolutamente nada que nos
ajude a localizar o cativeiro. Realmente fui trazida apagada para cá.
Santiago concorda, segurando o impulso de encurralar a doutora com perguntas que
certamente a fariam dizer o que falta nessa história. Ela está se mostrando solícita e disposta a
ajudar. Precisa ter paciência, já tem bastante material novo para trabalhar. Não quer perder o
apoio da testemunha por ser invasivo, tampouco quer deixar o calor da mulher que ocupa seus
pensamentos.
— Vamos para casa. Tenho uma surpresa.
***
Depois de um longo silêncio, quando finalmente chegam ao apartamento de Santiago,
Jeane encontra a senhora Haddad parada e sorridente na sala. Ela e o detetive trocam um olhar
cúmplice, mas antes que possa perguntar qualquer coisa, ele pede que a doutora vá até o quarto,
avisando que irá encontrá-la na sala em uma hora.
Quando chega ao aposento, Jeane toma um susto. Sobre sua cama — agora, devidamente
arrumada —, repousa um lindo vestido preto, um delicado tomara-que-caia. O corpete tem a
borda com detalhes em veludo, e a saia evasê é em organza, leve e solta.
— O senhor Hipólito pediu que eu buscasse esse vestido para a senhorita. Espero que seja
do seu agrado — a senhora Haddad fala da porta, avisando a doutora de sua presença.
Jeane se aproxima da cama e senta-se, passando a mão sobre o tecido suave.
— É lindo! Eu adorei. A senhora escolheu?
— Não, querida, foi ele mesmo. Escolheu e deixou na loja para ajustes, que julgou
necessários para cair perfeitamente em seu corpo. Apenas fui buscar. Mas escolhi os sapatos — a
empregada explica, se aproximando com um par de scarpins pretos, de verniz e salto alto. As
solas vermelhas dão um toque sensual ao modelo.
— São lindíssimos! — Jeane fica boquiaberta — Mas para que tudo isso?
— O senhor Hipólito quer levá-la para jantar. Agora vá tomar um banho que vou dar um
jeito no seu cabelo e fazer uma maquiagem bem bonita.
A doutora sorri, mas dá um suspiro entristecido.
— Eu não tenho nada de maquiagem.
A senhora Haddad se aproxima, abrindo a primeira gaveta da cômoda. Uma diversidade de
pincéis, lápis de olhos, batons, blushes, corretivos, entre tantos outros produtos saltam aos olhos
de Jeane.
— Somos mulheres, queridas. Cuidamos umas das outras. Eu não iria deixá-la na mão.
A médica sorri, agradecida, e corre para o chuveiro. Não acredita que Santiago foi capaz de
tanta delicadeza. O detetive não é tão inacessível quanto parecia, pelo visto.
Quando sai do banheiro, veste-se e se senta na poltrona, de frente para a senhora Haddad.
— Será que dá para disfarçar um pouco esses hematomas? — pergunta, olhando os braços
nus e ainda machucados.
— Vou fazer o melhor possível, querida.
— Obrigada. A senhora trabalha aqui há muito tempo? — Jeane puxa conversa, enquanto a
senhora Haddad começa a maquiá-la.
— Oito anos.
— Nossa, bastante! Santiago sempre foi assim?
— Assim como, meu bem?
— Não sei dizer ao certo... Difícil, eu acho?
A senhora Haddad dá um sorriso simpático.
— Acredite, senhorita Werner, ele não é nada difícil com você. Muito pelo contrário,
nunca o vi baixando a guarda com ninguém.
Jeane sorri, lisonjeada por estar conseguindo se relacionar tão bem com um homem como
Santiago.
Algum tempo e muita conversa depois, a senhora Haddad se afasta um pouco, olhando a
doutora de cima a baixo.
— Meu trabalho aqui está terminado. Seu cavalheiro já deve estar à sua espera.
A doutora se levanta, agarra o rosto da empregada e dá-lhe um beijo estalado na bochecha
em agradecimento, seguindo em direção à sala, alegremente.
Ao descer os degraus, os olhos de Jeane avistam seu detetive de costas, ao pé da escada.
Está muito bem vestido, com calça de alfaiataria preta bem cortada e camisa de linho branca,
impecavelmente passada. Parece ter tentado domar um pouco os cachos rebeldes, o que faz sua
acompanhante sorrir.
Ele se vira e finalmente a vê, não conseguindo disfarçar o deslumbre. Está visivelmente
encantado com a beleza de Jeane. Os olhos dele varrem o corpo dela com paixão e desejo,
fazendo a doutora se arrepiar antes mesmo de chegar ao último degrau.
Santiago estende a mão para Jeane, que entrega a dela.
— Preparada para o nosso primeiro encontro, doutora Werner?
Ela sorri, levantando uma sobrancelha.
— Mal posso esperar, detetive Hipólito.
CAPÍTULO 25

Santiago não consegue fazer seus olhos se virarem para outra direção que não a da mulher
linda e deslumbrante diante de si. Quando escolheu aquele vestido, ele a imaginou perfeitamente
dentro dele, mas a realidade o atingiu em cheio ao constar que sua imaginação jamais poderia ter
sido tão fiel à perfeição do corpo de Jeane adornado por ele. Os cabelos da doutora estão soltos
até a cintura, em ondas acobreadas, que o convidam a enroscar os dedos, ou o pulso, e imobilizar
a sua cabeça em um beijo eterno.
Os lábios não ficariam mais encantadores com uma cor que não fosse suave e naturalmente
atraente. Os hematomas estão tão bem escondidos que o detetive mal pode identificá-los, mesmo
que nunca tenha se importado com eles. Enormes brincos pendem das orelhas, balançando ao
ritmo de seus movimentos, e se misturando à cabeleira cheia e perfumada da médica. A curva
generosa do colo exposto no decote e a clavícula saltando diante de seus olhos o faz perder o
juízo. Hipólito está hipnotizado, com o coração batendo em um ritmo frenético e seu corpo
inteiro reage à presença marcante de Werner.
Ele a puxa para si sem perceber o que faz, laçando sua cintura com mãos firmes. Ela vem
fácil, aconchegando-se em seu abraço apertado e sorri como uma dama lisonjeada pela atenção
recebida de seu cavalheiro. Santiago está louco por desfazer aquela produção toda com dedos
ágeis, despindo-a do vestido caro, bagunçando seu cabelo e borrando seu batom com beijos
ávidos. Encara as pontas dos sapatos e conclui que a deixaria com eles enquanto a fodesse,
loucamente, contra a parede mais próxima.
Jeane solta a sua mão e ajeita a gravata borboleta, com um sorriso encantador.
— Se arrumou depressa demais, Santiago? Está ansioso?
Ele ergue uma sobrancelha e o canto de sua boca imita o gesto, do mesmo lado.
— Não tenho o hábito de me vestir tão formalmente. Algo que meu irmão sempre
desaprovou.
— Percebe-se — seu riso faz uma comichão nascer no baixo ventre do detetive.
— Vamos, o carro já está à nossa espera — Santiago lambe os lábios e faz um grande
esforço para seguir o planejado, em vez de esquecer a noite normal fora da casa segura, e
carregar a doutora nos braços até a sua cama, que está a apenas alguns passos de distância.
De mãos dadas, porque Hipólito não consegue parar de tocá-la, eles carregam seus casacos
nos braços e saem da casa, sendo acompanhados de perto pelos dois guardas. O detetive os
ignora como se eles não estivessem presentes. Não há como impedi-los de acompanhar a
testemunha aonde quer que ela vá, então, resta fingir que estão sozinhos. A presença dos
policiais o inibe um pouco, portanto, após abrir a porta para que Jeane entre antes dele, Santiago
se senta ao seu lado e não lhe toma a mão novamente.
— Uma limusine com motorista? — a médica se espanta.
Hipólito dá de ombros.
— Essa noite é especial e você merece todas as regalias.
Werner franze o cenho.
— Não sabia que sua profissão dá tanto dinheiro.
Santiago ri quando percebe os rumos de seus pensamentos.
— Não dá, minha querida. Mas eu tenho meios e contatos — pisca os olhos, matreiro.
— Ah! Você cobra favores.
— Precisamente. Nem todos os casos que pego são pelo dinheiro.
— Entendo.
Eles se encaram por alguns instantes antes que o detetive acrescente:
— Interessada?
— Como? — Jeane demonstra surpresa outra vez.
— Gostaria de ser minha parceira quando este caso estiver encerrado?
Werner analisa Hipólito atentamente, questionando-se se ele está falando sério.
— Já pensou sobre o que quer fazer depois que reconquistar sua liberdade? — Como ela
não responde, decide abordar o assunto de maneira menos direta. — Você é inteligente e possui
uma mente dedutiva, como a minha. Acredito que formaremos uma ótima parceria.
Jeane ainda está boquiaberta.
— Desculpe se pareci pouco interessada, só foi algo em que não havia pensado ainda.
Tenho formação médica, mas minha última atuação foi há dez anos. Não tenho certeza de que
quero voltar a fazer cirurgias depois do que passei nas mãos do Dentista, mas também não sei se
devo mudar tão drasticamente de ramo.
Santiago pega sua mão e a aperta, como se o pequeno gesto pudesse confortá-la.
— Não se sinta pressionada. O que você decidir, terá meu apoio incondicional.
O casal troca um sorriso motivador e passa o restante do trajeto com as mãos juntas.
Santiago faz círculos com o polegar no dorso da mão de Jeane, um gesto suave que a acalma. Ela
não está verdadeiramente nervosa. Perto dele, só consegue sentir paz e segurança. A confiança
rápida que depositou no detetive não a assusta mais. Em apenas três dias, ele virou seu mundo do
avesso e a doutora acaba de descobrir que o avesso é o seu lado certo.
A limusine para diante de um restaurante luxuoso. O motorista abre a porta para que os
dois saltem, oferecendo a mão para ajudar Jeane a descer do automóvel sem tropeçar na barra do
vestido longo. De braços dados, Santiago a guia para dentro do estabelecimento, onde são
recebidos por um maître atencioso, que os leva até à mesa reservada com antecedência. A vista é
espetacular, mesmo que esteja filtrada através de uma grossa parede de vidro.
Hipólito avista os dois guardas na calçada, fazendo um reconhecimento do local e suas
vulnerabilidades. Evita a careta que deseja se manifestar. É claro que Lovat havia sido
regiamente contra aquele encontro, além de despender minutos em um sermão infundado sobre o
envolvimento do detetive com a testemunha. Acontece que Santiago não deve nada ao chefe de
polícia além de respeito. O que ele faz em sua vida privada não é da conta de Gregório.
Ao se voltar para Jeane, esquece toda a chateação e se concentra em contemplar a beleza
da mulher, que em tão pouco tempo, se tornou elementar à sua existência, quase sempre tediosa.
Com ela, Santiago tem certeza de que cada dia será uma descoberta nova, um desafio diferente e
uma incerteza apaixonante. Ninguém é mais imprevisível que Werner e sua sagacidade, que o
instiga a querer saber mais sobre ela.
— Fale-me um pouco sobre você — pede em uma voz suave e sorridente.
Jeane não pensa muito para começar a falar. Pensar em seu passado é sempre mais fácil do
que se lembrar do cárcere. Pode até fingir que ainda tem uma vida normal.
— Fui a primeira aluna da minha turma, tanto em notas quanto em residência. Minha mãe
teria muito orgulho.
Deduzindo corretamente, Santiago apenas diz:
— Sinto muito por sua perda.
— Eu era apenas uma menina e já superei, apesar da saudade. Pensava muito nela quando
estava no cativeiro.
O pesar em seu semblante causa dor física no detetive.
— Tenha orgulho de si mesma, você é uma guerreira, uma sobrevivente.
Trocam um aperto de mão sobre a mesa, antes que o maître volte com a bebida e
demonstre interesse em anotar os pedidos. Santiago mantém o jantar cronometrado, já que possui
planos para mais tarde. A conversa fica leve, cheia de sorrisos e toques gentis. Quem os vê,
percebe claramente a paixão no olhar, o desejo nos lábios e a atração na maneira que os corpos
se procuram. Santiago não esconde a chama que derrete seus olhos, sempre tão frios. Jeane
corresponde, sentindo-se bem por não ter que pensar no Dentista por uma noite inteira.
Aquele homem, sempre tão sério e distante, emana um fogo que aquece seu coração
alquebrado e lhe dá esperança de um recomeço muito melhor do que podia sequer imaginar.
— Obrigada pelo jantar, Santiago — agradece em um sussurro quando ele a guia de volta
para a limusine. — Sua companhia também foi surpreendentemente encantadora.
Hipólito beija o dorso de sua mão, contendo a vontade de lhe tomar a boca ali mesmo, na
frente de todos, inclusive dos guardas.
— Nossa noite está apenas começando, minha cara Werner.
Jeane ri e se escora no braço firme e másculo.
— Sempre tão formal, senhor.
Ele ergue as sobrancelhas, fingindo espanto.
— Ora, pensei que “minha cara” fosse íntimo o bastante. — Por mais que o detetive faça
piada, ele ainda não sabe como agir de maneira naturalmente à vontade na presença de alguém
tão próximo. Por mais que queira e que considera parte de sua existência como essencial, além
de um sentimento muito perto do amor brotar em seu coração, Santiago não faz ideia de como se
obrigar a chamá-la pelo primeiro nome.
Em sua mente racional parece errado sequer cogitar tal afronta.
— Está de bom tamanho, Santiago. Já percebi que é bastante peculiar e isso não me
desagrada.
Ele espalma o coração, suspirando de alívio.
— Menos mal, senhorita. Não pretendo ofendê-la.
Aceitando a mão do motorista, Jeane adentra o carro e só quando Santiago se senta ao seu
lado, responde, sorrindo:
— Eu sei que não.
Toma a liberdade de entrelaçar seus dedos e assim seguem até o próximo destino, que
Hipólito não informa em voz alta, deixando-a na expectativa.
Quando param em frente ao grande teatro, a médica salta do veículo deslumbrada com a
imponência do prédio e com uma eletricidade correndo toda sua pele. Quanto tempo não
frequenta um lugar de paz, cultura e beleza como aquele? Sua mente, que já apreciou arte e
música, está carente daquele toque sutil e leve, que faz o coração bater mais forte. Enlevada, ela
se vira para encarar Santiago. Ele lê a interrogação e a gratidão em seu olhar, sem que Jeane
precise dizer qualquer coisa.
— Como você demonstrou interesse na minha composição, eu achei por bem trazê-la para
ouvir meu compositor favorito.
— Oh! Você não sabe como... Estou sem palavras, Santiago.
O sorriso de satisfação embeleza o rosto do detetive, já muito belo aos olhos de Jeane.
— Pablo Martin de Sarasate é um violinista espanhol do período Romântico e me cativa
pelas composições intensas que produziu há mais de cem anos, que ainda são reproduzidas com
grande técnica e interpretação apaixonada, como as obras exigem. Espero que também aprecie.
— Tenho certeza de que vou adorar! Obrigada.
Pendurada no braço de Hipólito, Werner se deixa levar para dentro do teatro e se senta ao
lado dele, em um camarote. Nem se dá ao trabalho de perguntar outra vez onde ele arranjou
ingressos exclusivos. Conhecendo o detetive, já sabe a resposta, que deve ser semelhante à da
limusine.
Eles admiram as obras instrumentais em um silêncio aterrador, ainda que suas mãos não se
deixem. O violino é a grande estrela do espetáculo, que é revezado entre damas e cavalheiros de
grande talento, em solos, acompanhado apenas de um piano, ou de uma orquestra completa.
Jeane se arrepia, emociona e aplaude, e Santiago se esquece muitas vezes de assistir a
apresentação incrível, para vê-la brilhar na semiescuridão do camarote.
Que mulher linda, pensa consigo mesmo, inquieto à espera de tê-la novamente em seus
braços, na intimidade de seu santuário. Para Santiago, a beleza externa não conta, mas quanto
mais conhece de Jeane, mais linda ela se torna aos seus olhos. É por isso que seus hematomas
nunca o incomodaram. Ele sempre a viu por dentro, através de seu olhar, a força de sua alma e
sua inteligência. E não existe nada mais atraente para o detetive do que uma mente brilhante
associada a uma personalidade forte.
No fim, estão de pé, ovacionando os instrumentistas, que não param de se curvar no palco,
agradecidos pelo entusiasmo dos espectadores na plateia lotada.
Santiago daria tudo para fazer amor com Jeane, enquanto as cordas do violino são
arranhadas pelo arco. A imagem é tão sexy em sua mente, que sua composição vem à tona,
obrigando seu cérebro hiperativo e multitarefas a cantarolar a canção, que intitulou de “A
Mulher”, em homenagem à Werner. No carro, já não consegue pensar em outra coisa, e seus
olhos flamejam sobre ela, imaginando exatamente o que fará assim que pisarem no hall de sua
casa.
Alheia ao rumo dos pensamentos sórdidos do detetive, a doutora o encara e sorri, quase
tímida, os olhos ainda brilhando pela emoção vivenciada. Incapaz de resistir, Santiago se curva,
balbuciando tão próximo de sua orelha, que sua pele se arrepia ao toque suave dos lábios macios
e do calor de seu hálito.
— Para mim, você é a imagem perfeita da mulher irresistível, senhorita Werner. — A
confissão é seguida de uma promessa: — Mal posso esperar para estarmos sozinhos entre quatro
paredes a fim de que entenda como me sinto quando está perto de mim.
CAPÍTULO 26

Jeane o sente adentrando pelo quarto, ainda que sua entrada seja calma e silenciosa. Não
pode vê-lo e tampouco se levantar para procurá-lo no escuro. Ainda não sabe explicar como
concordou com o que Santiago propôs. Depois de tudo o que passou, pressupõe-se que a última
coisa que a doutora fosse querer seria se sentir presa, ainda que fosse por um simples fetiche
sexual. Mas não foi qualquer pessoa que o pediu: foi o seu detetive particular, o seu protetor, o
único representante do sexo masculino que conseguiu virar a sua cabeça. Ela simplesmente não
soube e não conseguiu dizer não.
A presença imponente deste homem no quarto, apenas o calor e energia irradiados do seu
corpo, são suficientes para Jeane apertar as coxas uma contra a outra, em uma vã tentativa de
aliviar a excitação. Ela sente-se quente e pulsante pela ansiedade do que está por vir. Ainda não
faz ideia do que Santiago pretende, mas não tem o mínimo medo. Confia nele. Por algum motivo
misterioso, a doutora deposita as fichas no detetive.
Ela sente o peso de Santiago quando ele se senta na cama. Sem perceber, lambe os lábios e
engole em seco, respondendo à sensação entorpecedora de proximidade e intimidade.
— Acho que nunca a vi tão bonita — o detetive diz, arrumando o lenço de seda que usou
como venda, sobre os olhos da doutora. Como se precisasse. Seus olhos estão naturalmente
fechados.
Ao sentir o toque de Santiago em seu rosto, Jeane se contorce e puxa os braços para
enlaçá-lo, porém se detém ao sentir o leve mordiscar das algemas que a prendem à cabeceira da
cama.
— Cuidado, senhorita Werner, vai acabar se machucando desse jeito, e não queremos isso,
não é?
Jeane sente todos os pelos do corpo se arrepiarem ao som da voz rouca do detetive. Ela
percebe as pontas dos dedos dele tocando seu pescoço, descendo pelo colo e puxando o bojo da
camisola de renda branca para baixo, deixando um dos seios livres. Santiago leva a boca ao bico
já arrepiado e duro, e começa a chupar sem aviso, com uma vontade esfomeada. A dor que isso
provoca ressoa pelo corpo de Jeane, aumentando a sensação de prazer e a faz gemer de maneira
incontrolável. É surreal que se sinta dessa forma. De repente, ele para, tirando a boca do seio
dolorido por apenas um segundo.
— Você só vai gozar quando eu disser que pode.
Jeane trava de imediato, enrijecendo o corpo em sinal de alerta. Ordens e comandos lhe
remetem ao cativeiro e, ainda que sejam situações completamente diferentes, é inevitável a
sensação de medo que tenta atrapalhar o seu momento sensual com Santiago. Ela tenta não
demonstrar a angústia e o pavor. Não quer se perder mais uma vez. Mas a mudança da doutora
não passa despercebida ao detetive, que se aproxima ainda mais, deitando-se ao seu lado com
cuidado.
— Olhe para mim — ele a orienta, assim que lhe tira a venda dos olhos. — Sou eu quem
está aqui com você. Mais ninguém. Somos nós dois, Jeane. — A respiração descompassada da
doutora se engasga, quando surge uma lágrima teimosa e inesperada no canto do seu olho direito.
— Você me chamou pelo meu nome... — ela murmura, entre suspiros.
Santiago arregala os olhos, demonstrando que sequer havia notado o que acabou de fazer.
Ele encara a doutora, indeciso, assustado, em uma briga interna entre se proteger e se entregar.
Está indo longe demais. Os dois estão indo longe demais e não sabe mensurar até onde isso pode
ser um prejuízo, afinal. Só sabe que está encantado pela mulher indefesa à sua frente, que se
permitiu dominar na cama, ainda que cheia de traumas e esqueletos escondidos no armário.
O detetive não se contém mais e se deita por cima de Jeane. Ambos estão desnudos, o que
faz com que todas as partes certas de seus corpos se comuniquem. Ele beija-lhe a testa, os olhos,
as maçãs do rosto, o queixo, até chegar a boca muito próxima à dela, misturando os hálitos
quentes ao dizer:
— Minha preciosa, eu nunca faria algo que te machucasse ou perturbasse. Não quero feri-
la ou causar medo. Vamos com calma. Tenho muitos desejos a serem realizados com você, mas
não tenho pressa. Já tomei você como minha. Não temos mais o que fazer quanto a isso. O meu
objetivo agora é fazê-la descansar em mim. Vou ser o seu porto seguro, o seu lugar de apoio, seu
alicerce e seu lar. Se sentir medo, me procure. Se achar que vai cair, se apoie em mim, porque eu
também já sou seu.
Jeane, entre choros e sorrisos, pede a Santiago que solte seus punhos, o que ele faz de
imediato. Em seguida, ela o abraça, enrolando braços e pernas ao seu redor, apertando-o forte
contra si. Ele deixa o peso cair sobre a doutora, que no lugar de se sentir sufocada, percebe-se
inteira de um modo que nunca aconteceu antes. Ela fecha os olhos, procurando guardar na
memória da sua mente e do seu corpo cada sensação que experimenta. Não quer jamais esquecer
esse momento.
Jeane leva a boca ao ouvido do detetive e sussurra:
— Faça amor comigo, Santiago.
Ele simplesmente enlouquece com o pedido da sua doutora. Hipólito leva a mão ao
membro duro e já encaixado entre as pernas de Jeane, apenas para direcioná-lo, e a penetra, lenta
e suavemente, arrancando-lhe um uivo longo e murmurado. Começa a se movimentar dentro
dela, sentindo sua boceta quente e convidativa, abraçando e sufocando seu pênis dolorido de
tanto desejo por ela.
Jeane enlaça suas pernas nas de Santiago, apertando-o ainda mais contra o seu corpo. Ele
levanta um pouco o tronco e comanda, sem medo, se derramando em paixão e sentimento:
— Abra os olhos. Quero que olhe para mim. Quando gozar, quero que veja bem quem está
com você. Quero que saiba que aqui, fundida a mim, é o seu lugar.
O detetive começa a bombar em Jeane com força, arrancando-lhe gritos de prazer. Cada
estocada, mais forte e mais funda, é uma nova descarga elétrica no corpo da doutora. Ela
enlouquece, se contorcendo embaixo do detetive, desejando que tudo isso dure o máximo
possível.
Santiago procura as mãos de Jeane e as entrelaça às suas, usando-as de apoio para meter
ainda mais forte. Ela estremece e, antes de se deixar levar, em um único rompante pergunta,
baixinho:
— Posso gozar, detetive?
Santiago dá uma risada sensual e a olha com uma chama incandescente nos olhos, antes de
responder:
— Goza, minha musa. Goza para mim, em mim! Agora!
Jeane se deixa levar pelo prazer que esse homem lhe proporciona, gozando longa e
intensamente. Cada partícula do seu corpo se entrega a ele, sem medo e sem culpa, como se fosse
o certo a fazer, o único caminho. A doutora, que nunca acreditou em destino, pela primeira vez
pensa que foi designada para esse homem. Que estava fadada a encontrá-lo em seu caminho. Se
para isso foram necessários dez anos de cárcere, então que seja. Obviamente que não escolheria
isso e nem passaria por tudo novamente, mas se Santiago é a recompensa final, então Jeane
aceitará o troféu e estourará o champanhe.
Com um grito ensurdecedor o detetive se derrama dentro da doutora, preenchendo-a com
sua paixão, luxúria e calor. Os dois se abraçam, perdidos em espasmos, sem dizer sequer uma
única palavra.
Nada mais precisa ser dito.
Ela é dele.
E ele é dela.
CAPÍTULO 27

Santiago não estranha o fato de ter adormecido novamente nos braços e na cama de Jeane.
Está virando um hábito que ele aprecia. Não dormir, mas ter companhia. Acorda agitado, com o
toque insistente do celular na cabeceira da cama. A doutora se mexe o suficiente, apenas a fim de
rolar para longe de seus braços, conforme ele se move em busca de silenciar o aparelho.
É uma mensagem de texto de Lovat, pedindo que compareçam à delegacia. A intimação
tem o poder de despertar seu cérebro de vez. O trabalho substitui as lembranças nostálgicas da
noite com Werner. Hipólito nunca foi paciente com uma mulher despreparada para agradá-lo no
sexo. Nunca cedeu ao sexo padrão antes da doutora. Não vê graça no comum, mas sua
companheira está bem longe de ser comum.
Jeane tem a capacidade de estimular não somente seu corpo, mas sua mente. E isso sim é
inédito em sua existência. A conexão dos corpos, nesse caso, é somente a cereja do bolo, que seu
desejo não consegue ignorar. Existe uma identidade de gênero que define a atração sexual pela
inteligência de outra pessoa: sapiossexual. Até o desejo físico pela testemunha Santiago precisa
entender de maneira racional.
Mas a emoção já é outra coisa, que o desorienta, tira do eixo e do próprio caminho. Algo
lhe diz que esse sentimento novo, que só cresce dentro si, ainda causará um grande estrago em
sua vida metódica e lógica. Se se deixar ser controlado por ela, então, desconhecerá seu futuro. A
única coisa que não consegue mais é desmembrar Jeane de si. Seria, literalmente, como perder
um membro, um órgão vital, o seu próprio coração.
Hipólito desconhecia a existência desse no seu peito — claro que ele sabe que há um
músculo, que bombeia sangue por todo seu corpo, mas não sabia o que era amar e ser amado
antes de Werner entrar em sua vida. Achou, inocentemente, que amor era o mesmo que anular
suas faculdades mentais extraordinárias. O que nunca imaginou, no entanto, é que o
complementasse, abrindo sua mente para uma visão nova.
Ele quer mais dessa sensação inebriante que é olhar para ela e se derreter em sua pele e em
seus beijos. Essa paixão é mais estimulante que heroína. Santiago está se tornando um viciado
em Jeane.
Suspirando, Hipólito enrosca seus membros nos dela, fazendo-a gemer de frustração por
ser acordada. Porém, ele inicia uma trilha de beijos hipnótica, que a faz resfolegar. A pele de
Werner se arrepia e responde ao despertar erótico, reconhecendo os lábios que a fazem delirar
com uma facilidade fascinante. Ela se abre, apesar de manter os olhos fechados, e se permite ser
mordida e sugada. Ele vai parar entre suas pernas e só para de estimulá-la quando a assiste gozar.
— Bom dia, senhorita Werner — Santiago cumprimenta com um sorriso, beijando-a nos
lábios e fazendo-a sentir o gosto de seu prazer.
A resposta dela é um grunhido, agarrando-o com força contra si e aprofundando o beijo.
Entretanto, o detetive não tem tempo para mais uma rodada de sexo. Só quis acordá-la
carinhosamente, como forma de cumprir sua palavra. Jeane sempre estaria segura e seria amada
enquanto estivesse com ele.
— O chefe de polícia solicita nossa presença na delegacia. É melhor nos aprontarmos e
sairmos logo.
Jogando-se contra o travesseiro, ao sentir o peso de Santiago sair de sobre si, Werner
suspira, derrotada. Vai precisar de um banho frio para desligar seu corpo, depois daquele
despertar quente. Sem enrolar mais, deixa-se levantar e cumprir sua obrigação como testemunha
do caso do Dentista. Ela está otimista que o detetive vá encontrar aquele desgraçado e mantê-la
segura, como prometeu.
Em uma hora estão entrando na delegacia, onde encontram um impaciente chefe de polícia.
— Já não era sem tempo! — Gregório os recepciona.
Jeane revira os olhos e Santiago contra-ataca:
— Conseguiu alguma coisa, Lovat?
Hipólito não se abala com a pressão. Ele fez sua parte. Amoleceu a testemunha, conseguiu
mais informações que somente poderiam deduzir, e lhe deu uma nova linha de investigação para
seguir.
— Sim, venham comigo — Gregório os guia para a sala na qual as provas estão
organizadas para consulta.
Sobre a mesa, há um mapa da cidade, com vários pontos assinalados em caneta vermelha.
Os três se posicionam ao redor dele, enquanto o chefe de polícia explica:
— Encontramos somente cinco propriedades rurais com as descrições que nos deu, sendo
duas delas distantes demais da floresta. As outras três estão apenas a alguns quilômetros do local
de desova da senhorita Werner. Uma a cerca de oito quilômetros.
— Facilmente percorridos a pé — complementa Hipólito, lembrando que não havia marcas
de pneu nas imediações do local. — E quanto aos estabelecimentos que vendem creolina?
— Existem diversas lojas especializadas — Lovat passa a lista, que Santiago lê em um
piscar de olhos. — Ele deve ter comprado pela internet, para que não precisasse circular muito.
O detetive consultor faz um gesto, como se afastasse a ideia.
— O Cara do Dente jamais daria o endereço para entrega. Não foi assim que ele
sobreviveu por dez anos. Também não deve repetir o mesmo lugar de compra, para não ser
lembrado. Perfilamos que é homem, branco, com cerca de quarenta anos e de aparência bastante
comum.
— Eu sei, mas nem um dos estabelecimentos se destacaram.
— Esse aqui — Santiago aponta para uma loja agropecuária. O chefe de polícia não
consegue entender como a mente de Hipólito funciona e sua expressão denuncia isso. — Para o
assassino em série, as vítimas são como criação.
— Quer dizer, como vacas?
Santiago revira os olhos.
— Não, já que o cuidado com que as trata está mais para garanhões.
— Isso é novo — e o chefe de polícia deixa o olhar intrigado recair sobre Jeane, que se
mantém silenciosa, somente observando. — Vou mandar sondar essas propriedades, investigar
os proprietários e a contabilidade da loja. Se tiverem câmera de vigilância, facilitará o nosso
trabalho. Alguma coisa a acrescentar, senhorita Werner?
Jeane concentra seu olhar nos pontos vermelhos do mapa, enquanto Santiago marca a
localização da loja agropecuária. Quando seus olhos encontram o ponto azul, onde tem certeza
de que foi encontrada, não sente coisa alguma. Nenhuma lembrança surge, nem mesmo em flash.
Aquele mapa é apenas um emaranhado de linhas que não lhe dizem nada.
— Era escuro e frio. Tinha a impressão de ter sido enterrada viva, mesmo sabendo que
não.
— Como você tinha certeza? — pergunta Santiago, fazendo-a estremecer, mas ela nem
compreende direito o porquê da reação.
— Eu não sei... — responde, baixinho, como se se sentisse intimidada de novo.
Hipólito a olha com pesar. Sabe que a pressão pode ser pior, mas é sua obrigação.
— Você, alguma vez, conseguiu olhar do lado de fora, senhorita Werner?
— Não. — Para sua surpresa, ela responde sem titubear.
— Nem por uma fresta?
— Não havia frestas! — salienta, nervosa.
O detetive e o chefe de polícia se entreolham, antes que o segundo tome a palavra.
— Calma, doutora — Gregório faz a vez do policial bom, a fim de amenizar o empurrão de
Santiago. — Está tudo bem, ninguém está pedindo que cometa perjúrio.
A testa de Jeane salpica de gotículas de suor que não passam despercebidas por Santiago.
O que está acontecendo?, o detetive pensa, aflito. O que Werner ainda esconde?
CAPÍTULO 28

Jeane chega a casa se sentindo tonta e enjoada. Não sabe explicar a sensação estranha que
experimenta desde a conversa na delegacia. Uma impressão muito real de estar sendo vigiada de
perto. É quase como se o Dentista estivesse à espreita, assistindo a tudo o que eles estão fazendo,
aguardando o momento ideal para aparecer. Como se a cada novo movimento, a cada passo mais
perto das respostas, ela estivesse se colocando novamente em perigo. A médica não é mulher de
acreditar em intuições, sexto sentido, nada disso. Mas que dentro do peito ela está sentindo um
gosto amargo de aviso, com certeza está.
— O que houve, Jeane? Está se sentindo mal? Sua testa está suada, você está pálida —
Santiago diz, sacando um lenço do bolso e secando as gotículas de suor do rosto da doutora. O
detetive pega o copo de café que Jeane comprou para ele na saída da delegacia e oferece a ela,
que nega veementemente.
— Só um mal estar repentino. Devo ter comido algo que não caiu bem — ela disfarça da
maneira que consegue.
Jeane não quer essa vida para si, muito menos para Santiago. Não quer viver com medo,
apavorada, achando que algo pode lhe acontecer a qualquer momento. Muito menos transmitir
essa insegurança ao seu parceiro. O detetive merece um pouco de crédito, afinal, prometeu
protegê-la a todo custo. E ela precisa acreditar para seguir adiante. Não apenas na investigação,
mas na vida.
— Tem certeza? — ele reforça a pergunta, alisando os cabelos da doutora.
Jeane passa os braços em volta do pescoço de Santiago, dando um abraço apertado no
detetive. Tudo o que ela quer está dentro dos seus braços, ao seu alcance. Isso terá de ser
suficiente para lhe trazer paz. O detetive corresponde ao abraço, apertando-a forte contra si.
— Preciso me deitar um pouco, você se importa? — ela diz, se desvencilhando do abraço,
de súbito, e deixando o detetive com uma expressão confusa no rosto.
— Não, tudo bem, vá descansar. Eu tenho muito trabalho por aqui — ele fala com um
olhar desconfiado.
Jeane não espera para subir as escadas correndo e se dirigir ao seu quarto. Ela se joga na
cama, segurando o estômago com as mãos. Uma aguda vontade de chorar a faz fungar algumas
vezes. E o cansaço provocado pela angústia acaba vencendo a médica, que sente os olhos
pesando e adormece, quase instantaneamente.
Um forte cheiro de creolina desperta Jeane, que se levanta assustada ao avistar uma sombra
parada à sua frente. Está escuro e ela não consegue enxergar com nitidez. E nem precisa. A
médica sabe que ali, aos pés da cama, está quem ela tanto temia que voltasse para destruir o que
ainda restou de sua vida.
— Sentiu saudades? — a voz dele ressoa pelo quarto, sádica, melodiosa, fúnebre, fazendo
a doutora se arrepiar.
— O que... O que você está fazendo aqui? — ela está visivelmente assustada.
O Dentista solta uma risada rouca e macabra.
— Ora, precisamos terminar o que começamos. Agora não sou apenas eu, preciso de você.
As lágrimas começam a rolar pelo rosto de Jeane, copiosamente. Não tem forças para se
levantar, sequer para fugir. Imaginou tantas vezes o que teria feito de diferente se soubesse que
seria abordada por um sequestrador. E agora que tem a oportunidade, a única coisa que consegue
fazer é chorar de maneira patética diante dele.
— Por favor, me deixe em paz. Eu fiquei calada até agora, não vou dizer nada para eles. Só
dei informações evasivas, nada consistente. Fique longe do cativeiro e nunca irão saber quem é
você.
O Dentista sorri, os olhos brilhando de pura maldade.
— E quem disse que eu não quero ser encontrado? Está na hora do mundo saber quem é o
Dentista — ele fala em um tom de voz ainda mais sinistro. — Mas, antes, precisamos terminar o
serviço.
Jeane se ajoelha e junta as mãos em uma súplica débil.
— Por favor, me deixe em paz! Não me faça viver aquilo de novo, por favor!
E a última coisa que vê é o sorriso cruel e desumano do seu algoz, se aproximando, cada
vez mais e mais perto, antes de apagar de vez.
***
Santiago acorda na poltrona da sala, de supetão. Olha ao redor rapidamente, para se
contextualizar. Não acredita que adormeceu tão profundamente, isso nunca foi do seu feitio. Sua
mente audaciosa e brilhante está constantemente em funcionamento, como engrenagens girando
sem descanso. Insônia faz parte do seu cotidiano. Adormecer em qualquer lugar e a qualquer
momento, não mesmo.
O detetive se levanta, se espreguiçando, e olhando em seu relógio de bolso. São dezoito
horas! Os ponteiros estariam corretos ou ele teria dormido a tarde toda? Jeane também está
deitada já há horas, sem dar notícias. Pretendia deixá-la descansando o quanto quisesse, mas não
se aguenta e decide verificar se está tudo bem. Não é apenas preocupação. Sente falta de estar
por perto, de observar seus cabelos castanhos e macios, de sentir o cheiro adocicado de sua pele,
o gosto mentolado de sua boca. Enfim, Santiago está entregue ao feitiço mirabolante da doutora.
Irremediavelmente. Precisa estar com ela com urgência.
Ele sobe as escadas de dois em dois degraus, chegando com pressa até a porta do quarto.
Sequer se preocupa em bater, esquecendo todo e qualquer decoro, e entra, para encontrar uma
cama desfeita, porém vazia.
— Jeane? — ele chama, incomodado por não vê-la ali. Sai do quarto e começa a procurá-la
de cômodo em cômodo, gritando por ela, mas sem sucesso. Nem no banheiro, um local provável,
a encontra.
Ele desce as escadas já começando a entrar em desespero, procurando pelo celular e
correndo até a porta de entrada.
— Ei! Vocês! — Santiago grita para os policiais à paisana, na entrada de sua casa. —
Vocês viram a senhorita Werner? Ela saiu de casa?
Os policiais respondem juntos com a cabeça, em negativa, e um deles diz em seguida:
— Não detetive, ninguém passou por aqui desde que chegaram, a não ser um homem de
capa e chapéu, mas ele apenas saiu do prédio. Deve ser um dos seus vizinhos.
Santiago volta para dentro de casa, disposto a falar com Lovat, quando em uma rápida
varredura pela sala percebe que algo está fora de contexto. Ao procurar com cuidado o que
chama a sua atenção encontra, no mosaico de vítimas do Cara do Dente que criou em sua parede,
um bilhete que nunca esteve ali, pregado com um alfinete bem em cima da foto de Jeane.
O detetive sente seu corpo inteiro enrijecer ao se aproximar do papel, a passos lentos e
temerosos, até que as letras se tornem finalmente nítidas aos seus olhos:

“Santiago Hipólito, meu caro detetive,


Tenho acompanhado há algum tempo a sua sagacidade, e confesso estar decepcionado pelo
seu brilhantismo não superar a sua incapacidade de me encontrar. Decidi eu mesmo acabar com
esse jogo de gato e rato. Todas as respostas estão aguardando por você, bem como a sua amada
doutora. Venha sozinho e não avise ninguém. Nem pense em me irritar, você sabe o que
acontece quando estou feliz, não irá querer me ver descontente. Acredite, eu saberei se
descumprir minhas orientações.
Onde nos encontrar? Elementar, meu caro. Basta seguir os seus instintos. Vamos, eu confio
em sua capacidade. Você descobriu o meu lugar favorito para compras, afinal de contas. Muito
bem, detetive!
Sei que logo estaremos juntos. Todos nós.
Estou aguardando ansiosamente por nosso encontro.
O Dentista”

Santiago sente o corpo todo gelar de cima a baixo ao ler o bilhete mais duas vezes, em
busca de todos os detalhes que possam ter passado despercebidos.
CAPÍTULO 29

Santiago relê o bilhete do Cara do Dente pela centésima vez e não encontra nada que possa
ajudá-lo a localizar o cativeiro. A letargia que nubla sua mente o irrita a ponto de perder a calma.
Como pôde dormir o dia todo?! Como conseguiu apagar no sofá e não despertar com a invasão à
sua casa e o rapto de Jeane, bem embaixo do seu nariz? Como deixou que um assassino em série
entrasse em sua residência e levasse a pessoa mais importante de sua vida?
Uma dor de cabeça tem início em sua fronte, causando-lhe ainda mais raiva. Por que está
tão estranhamente lento? Tomado pela incapacidade de desvendar aquele quebra-cabeça, o
detetive chuta longe a mesinha de centro, na qual estavam muitas porcarias, que voam, batendo
na parede e caindo no chão. Tomba a poltrona, joga tudo o que está sobre a mesa da sala de
jantar, fazendo muito barulho com a louça esquecida ali. Ele se deixa cair de encontro à parede
do caso, as costas duras, os olhos marejados, o rosto vermelho de fúria.
Sua imagem no momento é uma anedota do renomado e grande detetive Santiago Hipólito.
A quem está querendo enganar? É apenas um viciado, vivendo em uma casa doada pelo
irmão, no qual acumula lixo e derrotas. Quer desesperadamente ligar para o seu traficante e
arranjar heroína. Lambe os lábios ressequidos e pisca as pálpebras, tentando amenizar a ardência.
Nesse instante de total desespero, não acredita em si mesmo. Perde completamente a paciência
com o maldito que ri de sua cara ao tirar dele a melhor coisa que lhe aconteceu: a presença da
senhorita Werner.
Não demora para a porta da frente bater contra a parede, depois de ser aberta
tempestivamente, e os dois guardas se postarem diante dele, com armas em punho, à procura da
ameaça. É tarde demais para esses paspalhos fazerem seu trabalho. Jeane já foi levada. Santiago
ri da ironia. Três policiais não foram páreos para a ousadia do serial killer.
— O que houve, Hipólito? — pergunta um deles, sem fôlego.
— Chamem Lovat e peçam para que traga a perícia — ignora o questionamento e dá a
ordem, rendendo-se à culpa e a inatividade de encontrar a senhorita Werner sozinho. — O Cara
do Dente esteve aqui e pegou a testemunha.
Um dos guardas arqueja, surpreso, e Santiago finge que está sozinho de novo. Encara o
caos do cômodo, sentindo-se inútil.
— Mas como? Ninguém entrou e nem saiu o dia todo. E vocês estavam bastante quietos
aqui dentro.
Santiago apenas encara a poça de café que sua destruição formou no piso. Estranha o fato
de não ter terminado de tomá-lo. O detetive respira café, é isso que o deixa acordado, noite e dia,
a fim de desvendar os casos. Ignorando os guardas, que pelo menos atendem seu pedido, se
estica até alcançar o copo descartável. Aproxima-o do nariz e aspira o cheiro do grão moído e
queimado, tão saboroso. No entanto, não é apenas isso que sente ali. Como seu café é sempre
sem açúcar, não deveria ter nenhum outro cheiro.
— Sonífero... — sussurra, descrente.
Isso explica porque dormiu de dia, por tantas horas ininterruptas. Foi drogado. Como um
viciado em recuperação, Santiago não tem nenhuma droga em casa, nem mesmo álcool. Engole
em seco quando percebe que o Cara do Dente segue seus passos, a ponto de batizar o café que
Jeane comprou para ele nas imediações da delegacia. O desgraçado sempre esteve por perto, por
isso está um passo à frente.
Isso o leva a temerosa constatação de que o assassino pode ser alguém da própria polícia.
Não há mais como impedir Lovat de vir à sua casa com a perícia, mas pode conversar com
Gregório em particular sobre suas suspeitas. Ergue-se do chão, determinado a colocar sua mente
em funcionamento de novo. Vai até a cozinha e faz uma jarra de café fresco e forte. Toma três
xícaras seguidas assim que fica pronto a fim de clarear as ideias e acabar com o entorpecimento
do remédio para dormir.
Está pilhado e ativo quando o chefe de polícia chega, fazendo estardalhaço.
— Que porra aconteceu aqui, Hipólito? — Ao menos a bronca veio depois que Lovat
esculhambou com os dois guardas.
Santiago não se irrita. Ele merece.
— Preciso de um cigarro — diz, acenando para que Gregório o acompanhe até a calçada.
— O que está fazendo? Você nunca se importou de fumar dentro de casa.
Hipólito para de costas para a porta a fim de evitar que alguém possa ler seus lábios como
ele, que é um especialista nisso. O detetive acende o cigarro e dá uma tragada antes de começar a
explicar sua teoria ao irritado chefe de polícia.
— Fui dopado na saída da delegacia e o mais incrível é que os dois inúteis que você
escolheu para nos escoltar não viram ninguém entrar na minha casa e levar a senhorita Werner.
Eu sei que ela jamais iria sem lutar.
A cara de Lovat não é das melhores quando percebe o rumo das deduções do detetive.
— O que está insinuando, Hipólito? Que meu pessoal está de conluio com o Dentista?
— Não acha suspeito?
— Que merda! — Gregório passa as mãos no cabelo, desolado, obrigando-se a pensar. —
Eu quero provas, não vou investigar meu pessoal baseado em conversa fiada.
— Minhas deduções são baseadas em lógica, Lovat.
— Não interessa! — salienta, nervoso, tentando desviar do assunto complicado. — Não se
acusa bons policiais sem provas.
Santiago suspira, derrotado, mas sua mente recuperada, graças à cafeína, funciona a todo
vapor e encontra uma saída.
— As câmeras!
O detetive corre para dentro de casa, mirando a escrivaninha no canto intacto da sala.
Ainda bem que não quebrou o laptop em seu surto cego. Levanta a tampa e acessa o ícone da
vigilância. Uma tela preta abre. Ele espera que a imagem carregue, mas nunca acontece. Lovat
está atrás dele, esperando para ver também. Santiago aperta uma tecla, tentando apressar o
processo, e nada. Rebobina a gravação e descobre que a última coisa filmada foi a chegada do
casal, pela manhã.
— Não! — Hipólito murmura desolado, socando a mesa com ódio.
— Cara esperto esse Dentista — o chefe de polícia diz, quase como se fosse um elogio.
Santiago o fulmina com um olhar feroz.
— Quem sabia sobre essas câmeras, Lovat?! — vocifera.
— Está querendo dizer que...
— Apenas nós sabíamos: você, os guardas e eu.
— Que merda, Hipólito! Você quer me foder?
— Não, porra, eu quero achar Jeane e o maldito que a sequestrou!
O grito do detetive faz as respirações ficarem suspensas por vários segundos. O barulho de
botas, cochichos e papéis cessa, abruptamente. Santiago se arrepende da explosão assim que
percebe a censura no rosto do chefe de polícia.
— Você não fez o que estou pensando... — Lovat questiona, abismado. Hipólito desvia de
Gregório e para em frente ao painel de provas, ignorando toda a perícia estática, acompanhando a
conversa. — Porra, você trepou com a testemunha!
— Vamos nos concentrar no que importa, Lovat. — Santiago encara o chefe de polícia, em
seguida os peritos, que entendem como um sinal para voltarem ao trabalho. — Por favor?
Gregório suspira e se rende, tentando não pensar mais na informação desconcertante de
que o esquisitão possui vida sexual. Quem diria! Por sua vez, Hipólito relê o bilhete, deixado
pelo Cara do Dente, em voz alta agora para compartilhá-lo com o chefe de polícia. É só nesse
momento que uma frase o incomoda. Fica repetindo-a em sua mente, tentando decifrar o
provável enigma contido ali.
“Você descobriu o meu lugar favorito para compras.”
— Chefe — chama um dos peritos, porém Santiago mantém sua mente multitarefas focada
na frase e em seus possíveis significados, enquanto ouve a conversa paralela. — Nenhuma porta
ou janela foi arrombada.
— Nem no porão?
— Não, mas o portão está aberto. Provavelmente o Dentista a levou pelos fundos.
— Testem o copo de café de Hipólito no laboratório — Lovat instrui.
— Chefe — outra voz interrompe o relatório, afoitamente. — Encontramos isso.
Santiago escuta o som de comprimidos se agitando dentro de um frasco. Sua atenção se
volta totalmente para o perito, que estende o saco plástico de evidência na direção de Gregório, e
o intercepta.
— Onde encontrou isso?! — exige, nervoso, lendo a descrição do medicamento e a
instrução médica na embalagem.
— No andar de cima...
Santiago dá um giro inteiro pelas evidências, que gritam em sua mente, no silêncio que
segue seu assombro. Ele sabe exatamente o que precisa fazer. Com a desculpa de fumar mais um
cigarro sai da casa, sem explicar nada a ninguém.
Só o detetive pode salvar a doutora Werner.
CAPÍTULO 30

Jeane olha para as mãos ensanguentadas, sentindo um aperto no peito. Ela começa a rir do
nada, descontroladamente, ao ponto de perder o ar. O parco brilho do dente que segura entre os
dedos, está encoberto pelo líquido viscoso e vermelho. O cheiro no ar é ainda mais fétido do que
se lembrava. O lugar exala podridão.
A doutora ouve passos vindos do lado de fora do estaleiro. Não consegue deixar de sorrir.
Ela sabia que ele viria. A vítima tinha a certeza absoluta de que não seria abandonada em
momento algum, ainda que estivesse cercada de esqueletos. Literalmente.
Santiago entra, puxando um lenço de seu bolso e tampando de imediato nariz e boca, tão
forte e desagradável é o cheiro do local. Ele vê Jeane agachada, de costas, e seu coração dispara.
O ímpeto é de correr ao seu encontro, mas precisa ser cauteloso. Rapidamente faz uma varredura
no local. No chão, vê a sua capa de chuva e o seu costumeiro chapéu. Compreende que o
Dentista os usou para chegar até ali, e suas entranhas reviram. Foi isso que os policiais à paisana
viram saindo do prédio, alguém vestido com as suas roupas. À direita, vê a tal banheira, já
descrita pela médica, aparentemente cheia de alguma coisa que não pode ser creolina, dado o
odor fétido que exala, sem contar a nata de bolor que boia na superfície do líquido.
Não tem dúvidas de que estão no cativeiro do Cara do Dente. Gira sobre os próprios pés e
só vê sujeira, onde ratos e baratas passeiam confortavelmente. A um canto, uma maca
empoeirada, roupas imundas amontoadas e restos de comida. Do outro lado, vislumbra o que
deve ser a tal precária cozinha descrita por Jeane, por onde passa um varal de corda, visivelmente
úmido e apodrecido.
O mais intrigante é que o detetive não vê mais ninguém, além de Jeane, agachada à sua
frente. Suas entranhas se retorcem ainda mais. Não é possível, não pode ser...
— Está sozinha? Onde está o Dentista? — ele se dirige à médica, sussurrando e engolindo
em seco.
Jeane levanta devagar e se vira, lentamente, dando a Santiago um olhar débil. Um sorriso
assustador toma conta da feição da doutora, tornando a sua imagem macabra e sinistra, de um
modo que o detetive jamais imaginou vê-la. Ele não pode deixar de notar suas mãos sujas de
sangue e algo entre seus dedos, quando ela levanta a expressão, encarando-o diretamente nos
olhos.
— Eu nunca estou sozinha.
O coração de Santiago bate tão forte, que ele quase o sente nas orelhas. A verdade que
gritava dentro de si mesmo está ali, completamente descortinada à sua frente, e ele ainda não
consegue acreditar.
— Jeane, o que significa isso? Que sangue é esse?
Ela fecha a expressão, endurecendo o cenho e se afasta a passos lentos e curtos, revelando
um corpo caído atrás de si. Trata-se de uma jovem, os olhos arregalados e a boca aberta
ornamentando funestamente um rosto cinza e sem vida. Os cabelos, aparentemente loiros, estão
empapados de sangue. O detetive faz menção de correr em direção à mulher, mas Jeane levanta a
mão, o detendo:
— Não se incomode. Não há nada que você possa fazer. Ela está morta.
A doutora caminha alguns passos até a banheira, onde mergulha a mão na mistura
apodrecida em seu interior sem esboçar o mínimo desconforto. Quando se volta mais uma vez
para o detetive, está segurando um dente entre o indicativo e o polegar. Ela o encara com uma
expressão encantada, como se fosse uma obra-prima.
— Aqui temos Heleninha Incisiva Inferior. E o último dente que faltava. Finalmente está
terminado.
Werner, como se estivesse em transe, caminha até a mesinha escolar ao lado do fogão,
provavelmente aquela em que a doutora realizava suas refeições. Em cima repousa um estojo de
veludo vermelho e de fecho dourado. Jeane o pega, abrindo-o e colocando o dente em um único
espaço vazio. Ela sorri e se vira, apresentando o trabalho para Santiago:
— Veja, detetive, finalmente acabou. Contemplei a arcada dentária perfeita.
Santiago estremece ao ver todos os dentes ali, organizadamente dispostos, como joias. Ele
rapidamente conta vinte e oito dentes. Vinte e oito vítimas. Muito além do número que estimava.
Ele se aproxima cautelosamente, colocando as mãos sobre as mãos da médica.
— O que aconteceu com você, Jeane? Eu preciso compreender, preciso que me conte tudo.
Ela o olha nos olhos, e aquela vulnerabilidade que o encanta está mais uma vez ali. A
médica entrega o estojo a Santiago e se afasta alguns passos, antes de começar a falar.
— Mas você já sabe, detetive... Eu fui sequestrada.
— Não brinque comigo, senhorita Werner, você sabe do que estou falando. Muita coisa
aqui não faz sentido. Preciso resolver essa trama, e isso só é possível se você me ajudar.
A moça encara o detetive e sua expressão se transforma completamente para um olhar doce
e temeroso.
— Mas eu ajudo, eu sou boa em ajudar. Juro que sou!
Santiago sente uma dor no coração ao vê-la tão confusa, desprotegida, quase como se não
estivesse em si mesma. Mas precisa ser forte. O detetive sabe que precisa desvincular a imagem
da mulher que ama da aparente assassina, postada à sua frente. Precisa agir com inteligência.
— Então me ajude, senhorita Werner. Como tudo isso começou? — Ela o observa, com
uma expressão genuinamente confusa. — Quem, afinal, é o Dentista?
Ela se senta sobre a mesa onde antes estava o estojo de dentes, assumindo uma pose quase
didática.
— O Dentista era um homem com um ideal. Ele queria montar a arcada dentária perfeita,
como você mesmo deduziu. Só faltava uma.
— Mas por que ele fazia isso? Por que os dentes? — o detetive indaga rapidamente, sem
querer que Jeane tenha tempo de recuperar o mínimo de fôlego e desista de contar toda a
verdade.
— Ele teve uma mãe muito ruim, detetive. A mulher o adotou quando tinha onze anos,
depois de ter passado por três orfanatos. Quando eu era boazinha, ele me contava partes da sua
história, enquanto me banhava. A mãe era doente, maníaca, obcecada, fazia o menino escovar os
dentes repetidamente, e quando achava que algum não havia sido escovado direito, o arrancava
com alicate de prensa. Inclusive ele me disse que, muitas vezes ela não conseguia puxar o dente
direito e o quebrava. Por isso ele tinha vários cacos na boca.
A mente de Santiago ordena tudo com rapidez, fazendo todas as ligações possíveis,
previstas ou imprevistas. Tudo toma forma com clareza, as perguntas são respondidas e várias
pequeninas luzes parecem se acender.
— Então, a loucura dele com limpeza...
— Sim, detetive, tudo fruto do que a mãe lhe ensinou.
— Só uma coisa, onde se encaixa o Megane? Foi o carro que ele usou no sequestro, certo?
— Sim, mas ele só o usava conosco. Apenas com as suas vítimas. Era para o trabalho sujo.
Santiago passa a mão pelo rosto, visivelmente tenso. Não passou despercebido ao detetive
que Jeane se referiu ao Dentista no passado várias vezes. Algo mais aconteceu e, pela primeira
vez na vida, o detetive teme o que está para ouvir de uma testemunha. Sabe que precisa
perguntar, precisa encontrar força e coragem. Mas o medo, um sentimento basicamente
inexistente na vida e no vocabulário de Hipólito, esmaga seu peito tão intensamente, que a
sensação é quase física.
— Vamos retomar alguns detalhes. Por que a toga e os presentes?
Jeane faz sinal afirmativo com a cabeça.
— Eu as enrolava na toga porque era a vestimenta escolhida por ele com o propósito
simbólico, já que eram roupas utilizadas na Roma Antiga por mulheres que serviam aos desejos
dos homens. Ele dizia que o presente que comprava para cada uma era uma homenagem à
mulher que deu a própria vida para que ele tivesse o sorriso mais perfeito do mundo.
— Ele mostrava arrependimento? Culpa?
Jeane bufa, revirando os olhos.
— Nenhum. Na cabeça dele, era como se elas fossem privilegiadas por terem sido
escolhidas para lhe ajudar a cumprir a sua missão.
Mais uma vez, a referência ao passado ao falar do Cara do Dente. Santiago não pode mais
adiar o inevitável. Ele precisa saber, por pior que possa ser a resposta.
— E onde está o assassino, Jeane? Onde ele está nesse exato momento?
A mulher empina o tronco e arregala os olhos, tentando disfarçar a rápida olhada que dá
para a banheira.
— O que aconteceu? O que você fez? — Santiago pergunta, em um fio de voz.
De repente, a médica se levanta, transtornada. Ela começa a andar de um lado para o outro,
aflita, parecendo que irá desabar a qualquer momento.
— Eu não tive escolha, era ele ou eu. Ele disse que eu não teria mais serventia quando
terminasse, que não sabia o que iria fazer comigo. Ele ia me matar, eu sabia que ia. Era ele ou
eu!
Santiago se levanta, resoluto, caminha até Jeane e a segura pelos ombros.
— Werner, já chega de enrolação! O que aconteceu? Eu preciso saber, agora!
Ela paralisa diante do comando do detetive. Jeane não reage, não respira, não pisca. O
olhar estático se prende aos olhos de Santiago por alguns segundos até que diz, em um sopro de
voz quase inaudível:
— Eu matei o Dentista.
CAPÍTULO 31

Jeane permanece estática nos braços de Santiago, que tenta processar o que acaba de ouvir.
A senhorita Werner, a vítima do Cara do Dente, a testemunha viva do serial killer, se tornou uma
assassina. A sua doutora. A mente de Santiago gira em uma velocidade incomum, até mesmo
para ele. Pensa, pensa, pensa, e deduz que deve ter sido em legítima defesa, é claro. Jeane não
deve ser uma mulher dada a esses desmandos. É óbvio que não.
Ainda assim, uma dúvida não para de martelar em sua mente: e a mulher morta no chão,
com a qual a encontrou assim que chegou?
— Como isso aconteceu?
A médica apenas responde, sem verter o olhar para Santiago, permanecendo com os olhos
fixos em um ponto inexistente.
— O Dentista e eu nos aproximamos, como eu lhe disse. À medida que ele me limpava e
dava banho quando achava que devia, ia se abrindo e contanto a sua história. Eu acabei falando
também um pouco sobre mim, quando ele se interessou em saber. Contei sobre a morte pré-
matura da minha mãe, que se foi em um acidente de carro, quando eu tinha apenas dez anos. Ela
tomava medicamentos controlados para transtorno afetivo bipolar e, em um dia ruim, acabou se
medicando mais do que devia antes de pegar o carro. Morreu na hora, e matou mais duas pessoas
que estavam no outro veículo, uma mulher e uma criança. Falei também do fato de sentir falta de
ter o amor de uma mãe no decorrer da minha vida, da luta do meu pai para criar a mim e às
minhas irmãs, sem ter tempo de sofrer ou se recuperar, esse tipo de coisa.
Santiago não sabe se sente cansaço por segurar Jeane no lugar, ou fraqueza pelo abalo de
tudo o que está descobrindo, mas apoia a doutora na mesinha escolar e solta os braços, que
parecem doloridos.
— Continue — tenta parecer impassível, mas por dentro sente vontade de berrar.
— Há mais ou menos umas três semanas, o Dentista começou a adoecer. Posso jurar que
era ansiedade, porque sua saga estava chegando ao fim. Foi logo depois de capturar e prender
Helena. A imunidade deve ter baixado e, em alguns dias, quem lhe dava banho era eu, para
ajudar a conter a febre, que só aumentava. E foi em um desses dias, logo após ele insinuar que o
meu trabalho estava acabando e eu não teria mais serventia para ele, que decidi que aquele banho
seria o último.
— Você o afogou na banheira?
— Eu tentei, mas o homem era mais forte do que eu, ainda que estivesse fraco pela febre.
Ele se levantou e, de dentro da banheira, lutou comigo, até conseguir me dar um soco que me
fizesse cair. O assassino ia sair da banheira e seria o meu fim, tenho certeza. Foi quando eu
avistei a corrente do pé de Helena, que ele havia soltado na noite anterior, porque a estava
deixando marcada. Aquela ali — Jeane aponta para uma grossa corrente de ferro, com um
grilhão largo e pesado na ponta. — E foi o meu último ato com o Dentista: uma única pancada na
cabeça, que o fez cair e desmaiar dentro da banheira. Então, ele morreu afogado sim, mas eu não
o afoguei.
Santiago sente um bolo se formar na garganta ao perguntar, apontando para a banheira:
— Ele ainda está ali?
Jeane apenas faz um sinal afirmativo com a cabeça. O detetive aperta os olhos com as
pontas dos dedos. Tinha certeza de que teria sido legítima defesa. Jeane sabia que iria morrer,
precisava lutar pela própria vida e assim o fez. Ainda assim, algumas peças estão faltando nessa
história.
— E como você saiu daqui? E por que não soltou a moça, para que fugissem juntas?
— A porta era fechada eletronicamente, com senha. Eu não sabia o código, não tinha como
sair por ela e não podia arrombá-la como fiz agora para entrar, pois não tinha nada do lado de
dentro que me ajudasse a fazer isso. E, como você pode ver, aqui não tem janelas, só esses
buracos na parede por onde não passa uma caneta sequer. Comecei a procurar algo que me
ajudasse a sair, vasculhei os bolsos do Dentista, até que encontrei a chave do cadeado da gaveta.
Santiago se lembra de cada detalhe já narrado por Jeane anteriormente.
— Peguei as minhas roupas, aquelas que usava no dia do sequestro. Era uma das coisas
que me dava esperança, ele ter guardado as minhas roupas. Pensava que um dia poderia ser solta.
Enfim, me troquei, abri a gaveta e me enfiei nela. Avisei à Helena que iria buscar ajuda. Com as
mãos, os joelhos e os pés, fui me apoiando no teto e impelindo a gaveta com o corpo, do lado de
dentro para o lado de fora, até conseguir sair totalmente. Quando terminei de empurrar, a gaveta
caiu no chão fazendo um estrondo, e eu bati a cabeça com muita força. Levantei-me um pouco
tonta, e com o corpo todo arranhado, mas saí logo correndo em busca de ajuda. A partir daí, não
me lembro de mais nada. Só de quando acordei no hospital.
Santiago compreende a história, agora praticamente toda elucidada. Por isso Jeane
conhecia o material da gaveta onde o Cara do Dente desovava os corpos. Por isso estava toda
espancada e arranhada quando foi encontrada. Além da luta com o seu sequestrador, ainda se
machucou toda para conseguir escapar. Tudo agora se encaixa e passa a fazer sentido, menos
uma coisa: e Helena? Por que Jeane não salvou Helena? Por que voltou hoje, sozinha, ao
cativeiro? Por que estava cheia de sangue e com o dente da mulher nas mãos? E, por fim, se o
Cara do Dente está morto, quem deixou aquele bilhete para Santiago?
Com medo da resposta, o detetive toma fôlego para fazer a inevitável pergunta:
— Como você veio parar aqui hoje, Jeane?
A doutora de repente muda completamente a feição, para a mesma expressão macabra com
a qual Santiago a encontrou assim que chegou ao cativeiro. O detetive sente todos os pelos do
corpo se arrepiarem. Um clima ainda mais mórbido toma conta do ambiente.
— Ele me chamou. O Dentista me chama desde o dia em que fugi. Ele nunca me deixou.
Eu precisava voltar para terminar o serviço. Mas ele queria que você assistisse dessa vez. O
assassino gostou de você, detetive.
Santiago arregala os olhos, consternado pelo que acaba de compreender.
— Você matou a moça, Jeane?
Ela dá uma risada sinistra, que o faz se encolher.
— Vai muito além disso, Santiago. Eu consegui, finalmente completei a arcada dentária
perfeita. E agora o Dentista poderá me deixar em paz.
O sorriso sinistro no rosto de Jeane chega a deformar o seu rosto, tão transtornada que a
médica se mostra ao narrar a conclusão dos fatos. E o detetive compreende que Jeane
enlouqueceu. Os dez anos de cativeiro acabaram por prejudicar a sanidade mental da mulher, que
acreditou ter que cumprir o objetivo do seu sequestrador. Ela não apenas eliminou o assassino,
mas voltou e matou Helena, que devia estar fraca demais para se defender, uma vez que passou
os últimos dias sem água e sem comida, presa e sem esperanças. E ainda diz ter sido a mando do
Dentista.
Em sua loucura, a testemunha brincou com Santiago e com a polícia esse tempo todo,
alucinando, delirando, talvez na maior parte do tempo. Por isso Jeane chorava e pedia clemência.
Por isso tinha medo o tempo todo. O seu algoz a acompanhava dentro de sua mente, até
finalmente levá-la ao extremo. Ela deixou o bilhete. Ela levou-o ao cativeiro. Ela matou a última
vítima.
— Jeane, você precisa de ajuda — Santiago diz, em um sopro cansado e desesperado.
A médica se vira, com um meio sorriso.
— Não, detetive, não sou eu quem precisa de ajuda. Agora você sabe demais — ela diz,
levantando a mão e mostrando um brilhante bisturi cirúrgico. — Infelizmente, terei de matá-lo. A
sua hora chegou.
E ao dizer isso, Jeane pula para cima de Santiago que, pego de surpresa, cai de costas no
chão, levando a médica consigo. Ela desfere golpes com o bisturi, dos quais Santiago desvia, até
conseguir segurar os pulsos da doutora, que não solta de jeito nenhum o instrumento. Ele rola,
assumindo o controle e ficando por cima da médica.
— Solte isso, Jeane. Eu não quero machucar você.
Os olhos dela faíscam.
— Um de nós terá de morrer, detetive. Não existe mais lugar no mundo para mim. Eu não
vou passar o resto da minha vida presa de novo. Não aguento!
E a mulher começa a chorar, copiosa e instantaneamente. O detetive sente seu coração
sangrar e afrouxa o aperto nos punhos de Jeane.
— Eu posso te ajudar, minha Jeane. Confie em mim.
Ele se ergue, a fim de ligar para Lovat e chamar ajuda. Porém, não completa o movimento
assim que sente uma dor aguda percorrendo sua coluna. Santiago se vira para a médica, que tenta
lhe golpear outra vez. Instintivamente, o detetive leva as mãos ao pescoço de Jeane, sufocando-a.
A doutora se defende, enfiando o bisturi em suas costas e fazendo as vistas do detetive
escurecerem.
— Santiago — e a voz dela surge, chorosa, estrangulada e desesperada — eu preciso que
acabe com isso. Me liberte. Por favor, me deixe ser livre. Vamos, dê um fim nisso! Eu imploro!
O detetive aperta ainda mais o pescoço da doutora, que luta por ar involuntariamente, se
convulsionando. Seus olhos embaçam, as retinas queimam, sua respiração sai em lufadas de ar
frio e quente, como um touro bravo, e Santiago não consegue se fazer parar. Quando sente o
corpo perdendo as forças debaixo do seu, até se tornar inerte, ele desaba sobre ela, perdendo os
sentidos.
***
— Santiago! Santiago! Pelo amor de Deus homem, acorde! — a voz de Gregório soa
dentro da cabeça do detetive.
Ele sente a boca seca ao passar a língua nos lábios. Um barulho alto e longo de sirene
perturba a sua paz. Sua cabeça dói insuportavelmente, e a claridade o faz voltar a fechar os olhos,
assim que os tenta abrir.
— O que aconteceu? — pergunta, em fio de voz muito fraco.
— Santiago! Você acordou. Graças a Deus! Vai ficar tudo bem, estamos em uma
ambulância, indo para o hospital. Já estamos quase lá.
A cabeça do detetive pesa, e os pensamentos estão confusos e desordenados. Lembra-se do
cativeiro, da mulher morta no chão, da sensação de desespero... Lembra-se da água embolorada
na banheira, que continha o corpo do Dentista, do cheiro podre no ar, dos ratos e baratas, do
estojo de dentes... Lembra-se da dor nas costas, dos dedos apertados em volta do pescoço de...
— Jeane! — ele grita, se levantando de uma vez e fazendo uma careta de dor. — Lovat, eu
matei Jeane! — Lágrimas embaçam seus olhos pela primeira vez desde que cometera tal ato de
misericórdia. — Eu matei Jeane!
O chefe de polícia se aproxima, segurando o amigo no lugar.
— Calma, Santiago, você só está confuso. Está tudo bem, vai ficar tudo bem.
— Não, Lovat, eu estou confessando meu crime: EU MATEI JEANE.
— Você não matou ninguém, Hipólito. Eu posso lhe assegurar isso.
— Então, ela sobreviveu? Ela está bem? — ele pergunta em um misto de confusão e
desespero, mas esperançoso, agarrando o colarinho do chefe de polícia.
— Santiago, de uma coisa eu sei: você não matou Jeane. Mas se ela está bem não posso
dizer.
— Como assim?
Gregório se solta do detetive, respirando fundo ao responder, assim que a ambulância
parece chegar ao seu destino.
— A senhorita Werner desapareceu.
CAPÍTULO 32

Santiago não consegue se sentir aliviado ao saber que Jeane está viva. Ele sabe que ela não
está bem, independente de seu estado físico. A mente dela está doente há muito tempo. Ele já
havia visto sinais, mas não imaginava que estivesse em um grau tão avançado, já que não
conhecia nada sobre o transtorno da mãe. O detetive tem ciência de que doenças mentais podem
ser hereditárias.
O transtorno não constava em registros médicos da senhorita Werner porque a doutora não
havia apresentado sintomas anteriores ao rapto. O Dentista foi o gatilho que sua mente, forte e
destemida, não conseguiu resistir. Santiago se recusa a ver Jeane como uma mera assassina, fria
e calculista, porém, seu desespero está em encontrá-la e lhe oferecer ajuda.
Ele também está ciente de que ela não vai aguentar passar por um julgamento sem danos
maiores, ou mesmo por uma prisão psiquiátrica. Por isso, não cede à pressão de Gregório,
quando o chefe de polícia o bombardeia com perguntas sobre o que aconteceu no estaleiro, após
uma bateria de exames, curativos em suas costas perfuradas pelo bisturi, e antibióticos e
analgésicos em seu sangue para evitar infecção e amenizar seu sofrimento, respectivamente.
— Minha cabeça dói, Lovat — reclama, a fim de se esquivar do interrogatório.
— E você acha que a minha está de que jeito? — explode Gregório. — Depois que
encontramos aquelas pílulas para dormir, você sumiu e passei a noite inteira tentando contatá-lo,
enquanto a perícia trabalhava nas evidências, até que conseguimos rastrear seu celular e
encontrá-lo no cativeiro do Dentista, desmaiado entre dois corpos. Deduzir que foi dopado pela
medicação da senhorita Werner foi fácil, agora quero saber como descobriu a localização do
estaleiro abandonado. Ela lhe deu alguma dica? Por que não falou comigo antes de enfrentar o
Dentista sozinho?
Santiago não deixa sua obstinação esmorecer. Precisa proteger a mulher por quem está
perdidamente apaixonado.
— O bilhete me orientou — decide que deve pelo menos começar a explicar suas ações,
antes que o chefe de polícia desconfie dele também. Na verdade, o falso bilhete do Cara do
Dente, as câmeras desligadas e o sonífero haviam levantado a suspeita da cumplicidade de Jeane,
mas o detetive não quis crer nas evidências até ver com os próprios olhos. Ele nunca precisou
comprovar materialmente antes para acreditar em uma possibilidade. Seu coração ainda se recusa
a aceitar o que sua mente não pode negar. — Um trecho apontava para a conversa que tivemos
ontem de manhã na delegacia — na qual somente nós três estivemos presentes, acrescenta
mentalmente, suspirando cansado. Aquela foi a prova cabal da participação de Jeane.
“Você descobriu o meu lugar favorito para compras”, recita em voz alta e de cor.
— Ah! Mas é claro! Quando você aponta o detalhe, parece tão óbvio que até sinto
vergonha por não ter notado antes — retruca Lovat. — Essa frase faz alusão à loja agropecuária.
O estaleiro fica nas proximidades, perto da floresta. Já estamos analisando as imagens das
câmeras de vigilância a fim de identificar o Dentista.
— Não será necessário. Ele está em decomposição na banheira.
O chefe de polícia franze o cenho.
— Pensei que fosse outra vítima. Encontramos a caixa com vinte e oito dentes.
— Talvez algumas vítimas tenham sido enterradas ou não são daqui.
— Vai me explicar o que aconteceu? Se o assassino não raptou a senhorita Werner, quem
escreveu o bilhete? Quem matou a vítima encontrada presa no estaleiro? E quem te atacou?
Santiago sabe que basta a perícia fazer um teste para identificar a caligrafia de Jeane e que
provavelmente ela deixou DNA ao extrair o dente de Helena, ou mesmo digitais no bisturi. Não
há escapatória para o detetive além de dizer a verdade.
— Lovat, a doutora está em surto psicótico e precisa ser encontrada com urgência.
— Como eu suspeitava, a senhorita Werner é cúmplice do Dentista.
— Não! Ela é vítima! — Santiago agarra a gola do chefe de polícia de novo, gritando em
desespero e ignorando as pontadas nas costas causadas pelo movimento brusco. — Foi a maior
vítima do Cara do Dente! Você tem que me escutar, Lovat!
— Você precisa se acalmar, Hipólito, e começar a desembuchar de uma vez — Gregório
diz com severidade, afastando o detetive com força.
Recostando-se à cama novamente, Santiago fecha os olhos, junta as pontas dos dedos e fala
por minutos ininterruptos, tornando real o seu maior pesadelo.
— Eu devia ter percebido que ela estava perturbada — sente-se culpado além da conta no
fim do resumo, e expõe seus sentimentos sem receio. — Mas ao invés de ajudá-la a buscar um
profissional, confiei em sua estabilidade e a forcei a reviver os dez anos de cativeiro e tortura. —
Santiago encara Gregório, com raiva comedida. — Nós provocamos a morte de Helena, Lovat, e
a fuga de Jeane. Ela me pediu para morrer e pode estar tentando o suicídio agora mesmo,
enquanto temos essa conversa. Não podemos causar mais danos à mente da doutora,
aprisionando-a em um manicômio judiciário, onde a assistência médica é precária. Precisamos
tratá-la como vítima de um psicopata, que a traumatizou profundamente.
O chefe de polícia pesa as palavras, antes de dar a sua sentença.
— Veremos, Hipólito. Primeiro encontramos a senhorita Werner, depois decido o que
fazer com ela.
***
Santiago precisa encontrar Jeane antes da polícia. Recebeu alta depois de passar apenas
uma noite no hospital em observação, já que perdeu os sentidos no cativeiro, e está nas ruas,
consultando sua rede secreta de desabrigados atrás da doutora. O desespero toma conta de todo o
seu ser quando não encontra vestígios ou rastros que o ajudem a localizar a senhorita Werner.
Ela realmente desapareceu, e o detetive não entende como.
Ele perambula pelos becos fétidos, que muito lembram o cativeiro apodrecido do Cara do
Dente, permitindo que sua racionalidade latente o guie. No entanto, nada consegue aplacar a dor
que lhe corrói a alma. Como teve coragem de sufocá-la até que perdesse os sentidos? A última
coisa que Santiago queria era machucar Jeane, física ou emocionalmente, no entanto, ajudou a
causar-lhe o surto, e nada pode reparar um trauma desses.
Os olhos desesperados dela imploraram por alívio, pelo fim do tormento, e Santiago
entende, por mais que seja a favor da vida e não da morte. Não é um viciado? Um tipo de
moribundo, que precisa resistir à tentação das drogas todos os dias, para realmente viver? Um
gênio, que se entedia facilmente, e que começou a usar heroína como recreação — e
experimento, ao perceber que sua mente se potencializava com substâncias químicas — até não
ser mais capaz de diferenciar a realidade da fantasia?
Não tinha caído no fundo do poço para disfarçar a sensação de vazio que a morte de seu
único amigo e parceiro na corporação lhe provocara?
O gatilho foi exatamente o mesmo: culpa. Santiago se sentia culpado pelo que aconteceu
com seu colega e se afundou nas drogas, até perder completamente o bom senso e ser finalmente
expulso da polícia. Ao longo de sua carreira de dez anos, recebeu muitas advertências devido ao
seu comportamento excêntrico, porém Lovat o acobertou enquanto pôde.
E agora, a mesma sede pelo torpor faz sua boca salivar. Santiago resiste com toda a força
de vontade que possui por querer localizar Jeane, mas, conforme os dias passam e as pistas não
surgem, a culpa e a derrota são as únicas coisas que lhe sobram. Hipólito se sente marcado pela
má sorte. Todos por quem sentiu apreço se foram: sua mãe, seu parceiro, sua mulher...
Santiago sabe que não é um homem tolerável, por isso valoriza ainda mais a afeição de três
pessoas realmente importantes em sua vida. Elas venceram suas barreiras e encontraram o
caminho do afeto por alguém que pouco, ou quase nada, fazia para retribuir. O detetive acreditou
que com Jeane aprendia, mesmo que fosse preciso perdê-la para libertá-la de seu martírio. Ele
esteve disposto a fazê-lo, por ela... Por amor à mulher que levou consigo seu coração.
Finalmente, Hipólito se deixa chorar, o que quis fazer desde que entendera o que havia
causado à Werner. A dor é grande, mas não o bastante para expurgar seus pecados. Por conta
disso, Santiago se bate, fechando a mão em punho e socando o próprio peito vez após outra, até
perder o fôlego.
Jogado no chão de sua sala, procurando com desespero o aroma quase inexistente do
perfume de Jeane no ar, ele não decide, apenas faz. Pega o celular e contata o traficante que lhe
fornecia heroína, marcando um encontro.
***
Santiago não volta para casa há tanto tempo que já não sabe contar. Está deitado em um
colchão imundo, em um lugar tão horrível quanto o cheiro denuncia, mas nada o incomoda além
da ausência da heroína circulando em seu sangue. Ela é seu remédio, a cura para a sua dor, já que
não consegue se livrar da culpa. Perder Jeane não ajudou em nada a mantê-lo longe das drogas.
A recaída foi abismal.
Está sujo, mas não se importa. Mal come, mal bebe, não sente necessidade. É um alívio
quando o torpor vem e traz de volta o rosto de Jeane, seu sorriso e suas palavras doces. Antes
que ela se vá novamente e com medo de que nunca mais volte, ele aplica mais uma dose
diretamente na veia, com uma seringa que permanece ao seu lado, no chão, junto com a droga.
A onda sobe por seu corpo e se aloja em seu cérebro, fazendo-o se sentir sob a pressão da
água. Ela reaparece logo, pairando sobre ele, como uma miragem.
— Jeane...
— Santiago, o que aconteceu com você?
— Eu vou ficar bem se estiver aqui comigo.
Ele sente o afago de sua mão quente e macia contra a sua face, pela primeira vez. É tão
real, que quase pode vislumbrar algo além de mais uma simples “viagem”.
— Não suporto te ver assim. — Tenta levantá-lo, mas não aguenta o seu peso sozinha. —
Venha, me ajude a te ajudar.
— Não quero ir a lugar algum. Só fica comigo.
Jeane para, saboreando os lábios de maneira nervosa. Santiago sente muita saudade de seus
beijos, mas não ousa pedir. Só quer continuar olhando para ela.
— Você também precisa de ajuda — ela retruca, condescendente.
— Não, você precisa e eu não estou ajudando em nada...
Santiago sente a culpa trancar sua garganta e seus olhos se enchem de água.
— Eu vou buscar ajuda, se você vier comigo — Jeane argumenta, inteligente.
— Promete?
— Prometo.
O detetive sorri e percebe seu corpo ficar tão leve, que é fácil para a doutora içá-lo do
colchão e carregá-lo para longe daquela pocilga, onde vários drogados gemem, indiferentes ao
que acontece fora de suas mentes entorpecidas. Santiago está feliz. O calor do corpo dela é um
bálsamo contra o dele, que está fraco, raquítico e imundo. Jeane está perfumada e as roupas,
percebe, não estão puídas como as dele. Como não vê mais nada além dela, percebe, tardiamente,
que suas pálpebras estão fechadas. Quando as abre, está dentro de um veículo muito limpo e um
homem o encara de perto.
— Você vai ficar bem, irmãozinho. Vou cuidar de ti.
EPÍLOGO

Santiago ouve o farfalhar do papel em seu bolso enquanto anda pelo cemitério, à procura
de um túmulo específico. Ele nunca fora vê-lo. É a primeira vez, e gostaria de fazer as pazes e
pedir perdão para, enfim, seguir em frente. É um dos doze passos para a recuperação de
dependentes químicos. Não acredita que faz um ano que está limpo de novo. Um ano, dois dias e
cinco horas, para ser exato.
Entre os delírios com Jeane provocados pelo uso de entorpecentes, o detetive particular foi
resgatado pelo irmão mais velho, Máximo Hipólito, que também foi responsável por sua
primeira recuperação. Devido ao seu orgulho e à relação pouco cultivada entre eles, Santiago não
o procurou antes, porém, fez uso de sua grande influência para encontrar a doutora, prometendo
se submeter à internação em uma clínica especializada se ele a encontrasse.
Máximo cumpriu sua parte do acordo, com uma rapidez desconcertante, na opinião de
Santiago. Ele sabia que o irmão era rico e influente, e que trabalhava para o governo, fazendo
uso de carros luxuosos e ternos caros, uma vida refinada que o mais jovem dos Hipólito achava
um desperdício de recursos. No entanto, precisava admitir que a alta posição na hierarquia do
país e o dinheiro ilimitado são facilitadores dos quais não podia abrir mão. Não quando a polícia
local caçava Jeane como uma criminosa.
Como Santiago temia, a perícia conseguiu colocar a senhorita Werner na cena do crime,
com o bisturi na mão e na hora da morte da última vítima do Cara do Dente, Helena Medeiros,
graças ao DNA e às digitais dela, presentes no casaco e chapéu dele, que Jeane usou para fugir.
Por mais que desejasse preservá-la das consequências de suas atitudes, o detetive não pôde fazer
nada para impedir a Justiça de cumprir o seu papel.
Mas, ao menos, conseguiu fazer uma troca justa com Máximo, que pagou o melhor
advogado de defesa, conseguiu uma internação em uma clínica de recuperação para vítimas de
estresse pós-traumático, e ainda um psiquiatra respeitado e conhecido para fazer um laudo
técnico sobre o estado psicológico de Jeane, que foi apresentado no tribunal durante o
julgamento. No fim, os depoimentos de Santiago e de Gregório diante do júri também auxiliaram
a inocentar a doutora da acusação de homicídio culposo. Quanto ao assassinato do Dentista, a
Promotoria concordou que foi praticado em autodefesa, portanto, não houve acusação formal.
Ao final, a mídia idolatrava a doutora Jeane Werner como uma heroína nacional, que
carregaria sempre consigo as consequências de sua coragem e força.
Ainda que possa parecer, não foi assim tão fácil. O Hipólito mais novo ainda precisava
cumprir a sua parte no acordo com o mais velho, que consistia em trabalhar para o governo do
país por seis meses, em uma missão secreta e de segurança nacional. Santiago bufou ao constatar
a preguiça do irmão, que era tão bom ou melhor do que ele na arte da dedução, porém, não sentia
o mesmo apreço pelo trabalho em campo que o detetive. Máximo gostava de coordenar, não de
executar.
No tempo em que esteve sob as ordens do governo, Santiago não podia ter contato com
ninguém, nem mesmo acompanhar a recuperação de Jeane, na clínica paga por Máximo. Ao
menos ela teve a presença da família por perto. A única coisa que o irmão permitiu foram cartas,
que eles escreviam com bastante regularidade, e eram analisadas por uma equipe de especialistas
treinados antes de chegarem aos seus destinos.
O detetive e a doutora tiveram de criar um código para falar sobre intimidades, que não
desejavam compartilhar com mais ninguém. Como, por exemplo, a proposta que Santiago fizera
à Jeane, e da qual uma parte da resposta carrega consigo no bolso da calça, como um lembrete do
início de seu futuro. Um recomeço diferente dos outros, que deseja partilhar com alguém tão
admirável quanto ele próprio.
Santiago está disposto a abrir mão de tudo, se for preciso, para ter Jeane ao seu lado. A
correspondência, em vez de tornar a relação deles fria e distante, os aproximou e os ajudou a
dividir mais sobre si mesmos, coisas que jamais haviam dito antes a ninguém. Ambos
compartilharam suas sombras, seus temores e desejos. Sua humanidade e os defeitos foram
escancarados como uma fratura exposta.
Lá estavam eles, dois seres destroçados, juntando os pedaços graças à presença do outro.
Santiago jamais viraria as costas para uma pessoa que precisa de ajuda. Muito menos
alguém por quem é perdidamente apaixonado. Não importa para o detetive que Jeane tenha
desenvolvido bipolaridade. Ela ainda poderia ter uma vida normal se tomasse os medicamentos
regularmente, mesmo que fosse para o resto de sua vida. A doutora nunca deixaria de ser a
mulher aos olhos dele. A sua mulher.
Hipólito para diante da lápide que, em poucas palavras e alguns números, marca a
trajetória de uma das pessoas mais importantes de sua vida.

Roberto Moreno
15/06/1980
01/09/2015
Um grande policial e o melhor amigo que alguém pode ter

— Não vim aqui antes porque tive vergonha — Santiago começa a falar sozinho, com os
olhos fixos no túmulo do colega. A emoção embargada na voz é evidente, ainda que em uma
tentativa frustrada, o detetive tente manter o controle o máximo possível — Você me conhecia
como poucos e sabe como prezo por uma imagem sólida e racional. Mas com seu jeito honesto e
sua admiração sincera, você quebrou as minhas barreiras e me mostrou o caminho para fazer
laços afetivos. Sabe que fui até o fundo do poço quando você tomou aquele tiro em campo, não
sabe? Eu me culpei, Roberto, por tempo demais. Preciso me perdoar, senão não conseguirei
retomar a minha vida. Preciso deixá-lo descansar em paz.
Santiago para de falar quando, meio longínquo, mas não tanto assim para a sua audição
aguçada, o detetive percebe passos vindos em sua direção, e a brisa fresca traz um aroma
inesquecível para o seu olfato. Ele sorri e continua de costas, sentindo o corpo todo eletrizar
apenas com a ideia de quem se aproxima. Seu coração também reage, sacudindo dentro de seu
peito com uma saudade medonha. Não está alucinando, dessa vez. Ou será que pode estar,
tamanho o desespero por reencontrá-la?
— Eu estou amando, Roberto — confessa para o parceiro, como se falasse com o próprio,
cara a cara. — Logo eu, o homem que nunca acreditou que o amor fosse benéfico,
principalmente para o meu ofício. Porque, você sabe, ser detetive me define. Sou bom nisso e
sempre serei. Não consigo me ver fazendo outra coisa pelo resto da vida. Mas agora que você se
foi, também percebi que sou muito melhor com um parceiro. Compreendi que a incapacidade de
criar laços não faz de mim uma pessoa melhor. O que ainda não sei é se a mulher, que me
encantou desde a primeira vez em que coloquei meus olhos nela e ouvi suas palavras
inteligentes, vai aceitar ser minha parceira no trabalho, e minha submissa na cama.
As passadas cessam logo atrás dele. Santiago aspira o cheiro dela profundamente,
apertando os olhos, para fazer uma imagem mental. Sabe que sua memória jamais faria jus à
beleza e à inteligência incautas de Jeane. Portanto, ergue as pálpebras e se vira para encará-la.
Torce para que ela esteja realmente ali e não seja apenas um desejo. Perde o fôlego, no segundo
que demora para vislumbrar cada detalhe que a compõe.
A doutora Werner está vestida com simplicidade, mas com roupas limpas e novas. Seu
rosto, sem marcas ou hematomas, nunca lhe pareceu mais lindo. O sorriso deslumbrante faz seu
coração parar de bater por um instante, e seus olhos o fulminam com sua perspicácia latente. A
última imagem que o detetive guardou da mesma pessoa é muito diferente. Em nada a mulher
diante de si se parece com a moça em surto que ele viu pela última vez na recepção da clínica,
quando se deu sua internação.
— Você está incrível, Jeane.
— Obrigada, Santiago. Por tudo.
A mera distância de um passo entre eles o está perturbando, mas não será capaz de estreitá-
la em seus braços enquanto a doutora não responder, positivamente, à sua proposta. Está
torcendo muito para que aceite todos seus termos e viva com ele sob o mesmo teto, aprendendo
seus métodos, a fim de poder acompanhá-lo nas investigações que pretende retomar, assim que
ela disser sim.
Eles sorriem um para o outro, criando uma áurea de expectativa e uma tensão sexual quase
palpável ao seu redor. Santiago literalmente a devora com os olhos, ansioso para começar a
desbravar os limites físicos do corpo de Jeane, à dor e ao prazer. Sua boca seca de desejo. Porém,
como ela não diz mais nada, puxa assunto:
— Na carta você me disse que responderia pessoalmente, assim que saísse da clínica. Por
que não me avisou que seria hoje? Teria ido buscá-la. Ou será que não podia esperar mais para
falar comigo a respeito do nosso futuro, juntos?
A doutora joga a cabeça para trás por causa da gargalhada que solta.
— Queria fazer uma surpresa. Máximo disse que o encontraria aqui.
Santiago revira os olhos. Não gosta da intimidade que seu irmão conquistou com a sua
mulher. Não consegue mais segurar a própria ansiedade, por isso, reforça a proposta:
— Então, senhorita Werner, está disposta a ser minha parceira, em todos os sentidos?
Jeane encara Santiago, sentindo a expectativa do detetive quase lhe perfurando a pele.
— Pensei muito a respeito e já tenho uma resposta para lhe dar.
O detetive simplesmente para de respirar, à espera.

CONTINUA...
SOBRE AS AUTORAS

O primeiro livro da carreira de Josy Stoque foi a saga sobrenatural Os Qu4tro Elementos,
traduzida para o inglês pela AmazonCrossing.
Ela escreveu também Insensatez, em parceria com Gisele Galindo, Estrela; a trilogia Puro
Êxtase, sucesso de vendas na versão digital; o romance erótico policial Não Espere pelo
Amanhã, que se tornou Best-seller da Amazon; e Eu Nunca, com Mila Wander, um dos mais
vendidos da Veja Online.
Josy é pisciana, sonhadora e, claro, viciada em livros. Tanto que a sua gatinha tem nome de
personagem: Tris.
Ah! Ela tatuou os 4 efes da protagonista de Puro Êxtase, para nunca se esquecer de viver
intensamente.

Juliana Mendes cresceu em meio aos livros. Aos quatorze anos, já havia
participado de diversos concursos de poesia e escrito uma releitura da peça “A Revolta dos
Brinquedos”. Seu primeiro livro publicado em 2015, Porque fechei os olhos, foi indicado à
categoria de Melhores Romances do Wattpad e ganhou o Top Lançamento de Janeiro de 2016,
do Blog Livros do Coração. A obra também se tornou Best-Seller na Amazon. Em 2017, foi
relançado junto com o segundo volume, Porque abri os olhos, pela editora Ler Editorial.
Outra obra da autora é Indomável Coração, escrito em parceria com S. Miller, lançado em 2016
pela editora Astral Cultural. O e-book se tornou mais um Best-Seller da Amazon e figurou na
Veja Online por vários dias.
CONHEÇA EDUARDO, FERNANDO E EU

Criada em uma fazenda no interior do Rio de Janeiro, Fabiana teve um


casamento arranjado, no qual não viveu nada daquilo que sonhou para si. Pouco depois de se
mudar para a capital, a jovem viúva vê a chance de recomeçar sua vida, literalmente, através da
janela de seu novo apartamento, pela qual assiste a uma tórrida cena de sexo, protagonizada por
dois homens. Desperta como uma mulher completamente nova e disposta a descobrir mais sobre
si mesma e os novos desejos de seu corpo, cruza com os dois lindos desconhecidos no
condomínio onde moram.
Eduardo é um ginecologista safado, que não perde a oportunidade de ficar com quem tiver
vontade, e lhe mostrará todas as maneiras que eles podem aproveitar o tempo juntos. Já
Fernando, um psicólogo fofo que a conhece por acaso na praia em frente ao prédio, fará com que
seus sentimentos oscilem entre desejo e amizade.
Como pessoas muito diferentes que são, Fabiana, Eduardo e Fernando se envolverão em uma
relação complicada e intensa, cheia de paixão e reviravoltas, que trará à tona o melhor e o pior de
cada um. Vocês estão prontos para conhecer esse trio?
Inspirados na ideia original de Gracielle Rattes, três escritores brasileiros, que são referência no
gênero erótico, desconstroem conceitos e derrubam tabus nessa obra que vai envolver cada leitor,
da primeira à última página.