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(Lei 9.610 de 19/02/1998.)

1ª Edição
Capa e Projeto Gráfico: Caroline Paim
Diagramação Digital: Beka Assis
Revisão: Beka Assis

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da
imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera
coincidência.
Agradecimentos

Sempre serei grata as pessoas que mais me incentivaram a continuar com esse livro.
Daniela Alves e Juliana Maria, obrigada pela paciência e conselhos. Beka Assis, minha revisora, por
também ter dedicado o tempo para puxar orelha, além do trabalho. Sem a sua força e apoio eu não
teria conseguido arriscar tão longe. A minha família que sempre está me incentivando a ser melhor e
minhas leitoras fiéis, novas ou antigas. Tudo isso é por causa de vocês.
Esse livro não é um romance como qualquer outro que escrevi. É diferente. Tem ação,
sexo, tensão e violência. O livro que mais gostei de escrever até hoje. James não é o mocinho como
os outros que já fiz, mas traz na personalidade coisas que cativarão cada leitora. Causar amor, raiva,
paixão, tristeza... Já a mocinha, Amy, amadurece de acordo com as situações que a vida obriga a
enfrentar. Ela cresce e se torna forte, destemida e decidida.
Uma observação indispensável: Serão dois livros. Histórias diferentes, mas que terão
ligações uma com a outra por fatos que serão contados nos dois.
Mergulhem na leitura, de coração aberto e se apaixonem, assim como eu me apaixonei.
Agradecimentos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Epílogo
Prólogo

Dezessete anos atrás...

James

Dou a décima volta no quarteirão com a minha bicicleta nova, que meu pai me deu de
presente ontem. Pude ouvir quando minha mãe brigou com ele, falando que não queria mais nada
vindo do dinheiro sujo que ele ganha. Só consegui escutar berros da minha mãe, que estava bem
furiosa.
Eu até entendo, já que ele trabalha com apostas e coisas ilegais, e ganha muito dinheiro.
Temos uma das casas mais bonitas da rua, com uma varanda enorme, a escada da varanda é toda de
madeira, um jardim perfeito, um carro na garagem. Meu irmão e eu estudamos em uma das melhores
escolas, e poderíamos dizer que temos uma vida perfeita; o único problema é que não podemos ter
amigos, pois minha mãe proíbe qualquer outra criança de se aproximar da nossa casa. Vivo sozinho
com o meu irmão, que é quatro anos mais novo do que eu, mas que me estressa com seu jeito
mimado. Eu gosto dele, mas não tenho vontade de brincar vinte quatro horas por dia. Já tenho
quatorze anos, e penso em sair com garotas.
Depois da última volta na bicicleta, paro do lado da garagem e vejo um carro preto
parando na calçada da minha casa, destruindo as plantas da minha mãe, as quais ela cuida com muito
carinho. Quero gritar com os homens que descem do carro, mas eu vejo armas. Muitas. Grandes. Isso
me causa medo, e fico parado no lugar.
Meu coração bate mais forte quando escuto estouros vindo de dentro da minha casa. O
barulho não é alto, mas consigo escutar. Solto minha bicicleta e corro para dentro de casa pela porta
da cozinha. Olho para o chão, perto do balcão, e vejo algo vermelho derramado no piso. Parece
sangue.
Corro, e vejo minha mãe com os olhos abertos, encarando o teto, sem falar nada.
— Mãe! — Fico de joelhos perto dela e sacudo seu ombro, mas o sangue que sai da sua
testa continua a descer. Começo a chorar, porque sei o que aconteceu. Levanto e tropeço no corpo do
meu pai, que está entre a cozinha e a sala. Caio por cima dele. — Pai! — Pego no seu rosto. Ele está
igual a minha mãe, com um buraco na testa por onde sai sangue, sem se mexer. — Não!
Balanço a cabeça. Minhas pernas estão tremendo muito. Acho que não vou conseguir subir
a escada desse jeito. Mas quero saber do meu irmão, não quero ficar sozinho.
— Meu pai disse que eu era o homem da casa depois dele. — falo comigo mesmo.
Lembro-me de todas as vezes que ele disse que eu tinha que proteger meu irmão. É isso
que vou fazer.
Antes que eu consiga colocar o pé no degrau, alguém me segura com força. Grito. Alguém
tem que me escutar. O homem fecha minha boca.
— Cala a boca, moleque! Ou eu vou te matar igual fiz com seus pais! — A frase ecoa em
meus ouvidos. Desisto de gritar e sinto vontade de vomitar quando o outro homem aparece e soca
minha barriga.
Sou arrastado pelo braço para dentro do carro, e jogado no porta-malas junto com meu
irmão, que chora assustado.
— Oliver! — Abraço meu irmão com força, e ficamos no escuro, chorando e com medo.
Muito medo. Mas eu serei forte por mim e por ele. Sempre irei proteger meu irmão, e tomarei o lugar
que era dos nossos pais.
— Agora eu sou o homem da casa, pai. Tenho quatorze anos, mas já sou o homem para
cuidar do Oliver. — falo baixinho e abraço meu irmão. Eu sou mais forte que eu achava que seria
capaz.
Capítulo 1

Dias atuais

Amy

Vinte e um... Vinte e dois... Vinte e três...


Conto cada soco que dou no saco de pancadas. O suor escorre pelo meu rosto, e já sinto
meu braço doer. Há mais de duas horas estou treinando e jogando meu estresse para longe. Preciso
descarregar minhas energias, senão serei capaz de enlouquecer.
— Acho melhor beber um pouco de água!
Taylor me entrega a garrafa de água, que viro de uma vez na boca. Em seguida, derramo o
líquido gelado no meu rosto.
— Obrigada!
Devolvo a garrafa e recebo uma toalha pequena.
— O que seria de você sem mim, hein? — brinca, erguendo a sobrancelha. Jogo a toalha
em cima dele.
Sento no chão e alongo meus braços.
Todos os dias eu venho aqui, já é mais do que uma tradição. Sei que não deveria viver tão
estressada, já que ainda estou com vinte anos, e deveria ser uma garota normal, como uma dessas que
sempre vejo na rua, andando de mãos dadas com o jogador de futebol da escola, indo para bailes e
festas na casa de colegas. Na verdade, não gostaria de ser assim. Acho tudo isso uma tolice, uma
futilidade.
— Como andam as coisas na sua casa? — Taylor pergunta, me tirando dos pensamentos.
— Péssimas! — Esse é o motivo do meu estresse. — Cada dia fica mais difícil. Minha
mãe está se acabando por causa de remédios e bebidas, e esquecendo que tem uma filha.
Respiro fundo, e Taylor leva a mão até meu rabo de cavalo. Ele brinca com os dedos entre
meu cabelo.
— Seu pai continua jogando muito? — Assinto.
— Já passou da hora de ele criar responsabilidade. Porra!
Taylor levanta.
— Amy, ele vai levar você e a sua mãe ao fundo do poço.
Sorrio, mas o sorriso não sai com sinceridade. É mais como ironia.
— Mais do que estamos? Tem outro patamar além do fundo do poço?
Ofereço a minha mão e ele me ajuda a levantar.
— Taylor, eu fico esperando o dia em que chegarei em casa e ele vai ter perdido tudo. Não
teremos nem para onde ir. Como se não bastasse, não consegui um trabalho sequer, e ainda tenho que
segurar as pontas. Fica difícil até mesmo sonhar em fazer faculdade, porque não tenho nem como me
bancar.
Ele se aproxima.
— Eu ofereço a minha casa para você. Quero dizer, meu quarto.
Taylor tenta se aproximar, e eu impeço, colocando minha mão sobre seu peito.
— Eu já disse para você parar com isso. — tento falar séria, mas com o olhar que ele me
lança, chega a ser impossível. — Até porque você é apaixonado por outra garota. Aquela metida a
dondoca.
Começo a desfilar ao redor dele, mexendo no cabelo, tentando imitar os modos da Lucy.
Ele gargalha.
— Tudo bem! Mas sabe que querendo se livrar do estresse daquela forma, estarei aqui.
Ninguém precisa saber mesmo.
A porta abre de uma vez, e Anton entra, batendo palma.
— Vamos, crianças! Acabou o recreio. Hora dos adultos brincarem.
Cerro o olhar para o homem alto e musculoso.
— Rá Rá Rá...
— Quanto senso de humor, garota!
Abro minha bolsa e retiro o papel de dentro.
— Aqui está o que me pediu.
Anton olha para o papel e sorri.
— Você é demais, Amy!
Dou de ombros e estendo a mão. Ele me entrega algumas cédulas.
— Obrigada!
Jogo a mochila nas costas e saio com Taylor ao meu lado.
— Você não está fazendo coisa errada, não é?
Nego.
— Ele só me pediu para hackear o e-mail de um antigo colega de trabalho que andou
querendo passá-lo para trás.
Mentira! Ele me pediu para hackear os e-mails da esposa dele.
Continuo caminhando na calçada e escuto o suspiro de alívio do Taylor.
Desde pequena mando bem com tecnologia, e quando conheci um amigo na escola, aprendi
a hackear qualquer coisa. Sei que é crime, mas também não uso para o mal. Só algumas exceções, e
na hora do desespero por dinheiro. Poucas pessoas sabem disso, e só ajudo quando é algo
importante.
Caminhamos em direção a lanchonete do bairro, a mais badalada por aqui, já que é o point
dos jovens estudantes.
Taylor abre a porta para mim e entro. Procuro a mesa mais escondida possível. Meu amigo
senta em minha frente, e a garçonete se aproxima.
— Oi garotos! — ela nos cumprimenta com um sorriso simpático.
— Dois milk-shakes de chocolate, Gina. — Sorrio com o pedido. Taylor sabe mais do que
ninguém as minhas preferências. — Viu como sou um bom partido? — Ergue a sobrancelha
sugestivamente. — Pena que você é meio assim... — Aponta para mim com desdém.
— Assim como? Que eu lembre bem há poucos minutos você estava me fazendo uma
proposta. — brinco.
— Você não faz bem meu tipo, só isso!
Gargalho.
— Seu tipo é àquela ali! — Aponto para a Lucy, que conversa com as amigas, enrolando o
dedo no cacho loiro e mascando seu chiclete de boca aberta. — Além de tudo, não tem modos. —
Bufo.
— Isso seria ciúme?
Ergo o dedo do meio para ele, que sorri de volta.
Gina nos entrega nossas bebidas e continuamos a conversar.
Taylor conta animado sobre a faculdade de arquitetura. Ele já está no quarto semestre.
Tudo que ele conta faz meus olhos brilharem. Eu até poderia estar fazendo também, já que as minhas
notas foram ótimas, mas precisaria me manter no campus, e eu não tenho dinheiro. Quem sabe ano
que vem. Espero que tudo lá em casa se estabilize novamente.
— Olha quem está por aqui... — Ergo o olhar quando escuto a voz da Lucy. — Se não é
ela, a menina-macho. Já estava dando socos em alguém? — Ela olha com desprezo para a minha
roupa.
— Por enquanto só no saco de pancadas, mas já estou pensando na possibilidade de socar
a sua cara.
Ela se assusta com as minhas palavras e se afasta.
— É uma selvagem mesmo!
Lucy sorri para o Taylor, que ignora.
— Além de fracassada, é isso aí... Nunca sairá dessa vida de merda. — As amigas dela
gargalham. — O pai é um viciado em jogos, e daqui a pouco vai vender até a filha. A mãe é uma
depressiva miserável. É... Uma vida lixo mesmo.
Quando ela começa a andar de volta para o lugar, não penso duas vezes: ando atrás e
despejo toda a minha bebida nos seus cachos loiros.
— Sua...
Ela olha, chocada, para o líquido marrom que escorre entre os fios e desliza por sua roupa.
— Só lamento por ter desperdiçado algo tão gostoso em você.
Pego minha bolsa e saio da lanchonete ouvindo risadas. Irada, ando em passos largos para
a minha casa, mas logo tenho a companhia do Taylor.
— Não sei como você ainda gosta dessa insuportável.
Bufo, e ele passa a mão no meu ombro.
— O encanto uma hora acaba.
Ficamos calados durante todo o caminho.
Lucy e eu nunca nos demos bem, desde o colegial. Ela sente um ódio gratuito por mim.
Talvez seja porque o Taylor, apesar de tudo, sempre esteve ao meu lado, e isso a incomoda. Os dois
já tiveram um rolo, ficaram algumas vezes, mas nada sério, já que ela sempre achou que nós dois
tivéssemos algo.
Quando paramos em frente à casa do meu amigo, ele me dá um abraço forte.
— Mais tarde vai querer sair? Comer uma pizza, tomar um sorvete... Coisas assim. Longe
da Lucy, é claro. Ou até mesmo beber, já que você fica bem solta quando tem álcool no sangue.
Balanço a cabeça, não conseguindo conter um sorriso.
— Melhor não. Hoje só quero cuidar da casa e tentar fazer minha mãe comer alguma coisa.
— Tudo bem. Mas já sabe… precisando, basta chamar.
Sorrio e continuo a caminhada até em casa.
Taylor e eu nos conhecemos desde crianças. Ele sempre foi aquele amigo fiel e pau para
toda obra. É ele quem me socorre quando preciso. Nós temos um relacionamento maduro para a
nossa idade. Não somos apaixonados um pelo outro, como pensa a maioria das pessoas que nos
conhecem. Ele só foi a única pessoa quem consegui me dar bem. Sempre tive dificuldade de conviver
com as meninas.
Há alguns meses eu e Taylor participamos de um aniversário de um colega aqui da cidade,
e bebemos um pouco além da conta. Acabou que nós dois transamos. Ele foi meu primeiro e único
até agora. Não conheci ninguém ainda que pudesse me fazer despertar algum bom sentimento.
Enquanto isso, Taylor e eu continuamos nossa amizade da mesma forma como começou. Nada mudou.
Quando chego em casa, vejo dois carros parados na calçada. Isso faz com que eu corra
para dentro.
Assim que abro a porta, me assusto. Meus pais estão sentados na mesa da cozinha, com
olhares tristes, e um clima tão pesado que eu poderia sentir com a própria mão. Na sala, parado com
dois comparsas, está o homem mais temido da cidade: James Lancaster.
Ele é lindo! Loiro, com barba por fazer e um ar de homem mau, perigoso. Aquele tipo de
bad boy de filme. Aquele com o sexo quente, mas que na verdade só leva você ao inferno.
— O que está acontecendo aqui?
Meu pai permanece de cabeça baixa, e minha mãe chora lágrimas intermináveis.
— Seu pai pode contar, mas se preferir, eu mesmo contarei. — James fala com um meio
sorriso provocante.
— Desculpe Amy. Mil desculpas. — São as únicas palavras que meu pai pronúncia.
— Eu exijo saber o que está acontecendo. — Cruzo os braços e espero impaciente.
James toma a frente e se aproxima de mim. Seu cheiro amadeirado penetra meu nariz.
— Seu pai apostou e perdeu muito dinheiro.
Sorrio nervosa, e minha mãe chora mais ainda.
— Perdeu o que ele não tinha? Faça-me o favor! Vocês são uns idiotas por apostarem com
esse daí.
James solta uma risada abafada.
— Se eu fosse você, tomaria cuidado com essa língua.
Dou de ombros.
— Afinal, quem vai pagar essa dívida?
Os olhos do James queimam em cima de mim.
— Você!
Bufo.
— Eu não trabalho. Não tenho como.
Ele chega mais perto e segura meu queixo.
— Ele apostou você, garota. Será você o pagamento.
As palavras batem tão forte no meu peito, que tenho a impressão de ter ficado tonta. Acho
que caí sentada no sofá. Só escuto burburinhos e choro.
— Beba! — Um dos comparsas dele me entrega um copo de água. Minhas mãos estão
trêmulas. Mal consigo levar o copo até a minha boca.
— Isso é ilegal. Não posso aceitar!
James retira um papel do bolso e me mostra. É a assinatura do meu pai, dando ao James
total liberdade para cuidar de mim.
Leio atentamente, e a única coisa que percebo é que, dessa vez, alcancei algo bem pior que
o fundo do poço.
Seria o inferno?
Capítulo 2

Amy

Ainda estou tentando assimilar tudo que acabei de ouvir. Meu próprio pai me colocou
numa mesa de apostas e perdeu. Meu pai que deveria me proteger, e não me entregar nas mãos de um
homem qualquer por causa de um jogo. Muito menos nas mãos de um assassino.
Sinto a bile na minha garganta e uma tontura. Mesmo sentada, preciso me apoiar no braço
do sofá, porque acredito que vou cair no chão a qualquer momento.
— Por quê? Como você foi fazer isso comigo? — pergunto, encarando meu pai com
desgosto.
— Não tive opção. — Ele dá de ombros.
— Como não teve? — grito, levantando — Eu sou a merda da sua filha! Apostasse tudo,
mas a mim? Você me entregou de mão beijada à um bandido!
— Sem ofensas. — James fala com um sorriso presunçoso.
— Eu não vou. Eu tenho esse direito. — Bato o pé, inconformada. — O direito de escolha.
— Me deixa explicar uma coisa a você, Amy. — James se aproxima. — Eu tenho um
documento que obriga você a ir comigo, que seu pai assinou. E se você não lembra, ainda não tem
vinte e um anos. Quando tiver, aí sim poderá ficar livre, se quiser.
Bufo.
— Estamos em que século? Por favor! Tem que haver alguma regra que me livre dessa
palhaçada. — Meu pai balança a cabeça em negação. — Pois eu vou chamar a polícia!
Seguro o celular e faço menção de ligar, mas meu pai segura meu braço e toma meu
aparelho.
— Você não pode fazer isso. Vai arruinar nossa vida! Correremos até risco de morte.
Olho para ele sem acreditar no que acabei de escutar.
— E o senhor não se preocupa em arruinar a minha vida?
Meus olhos estão encharcados.
— Sua vida será boa. James me prometeu que lhe dará tudo do bom e do melhor.
— Tudo conquistado com sangue de pessoas inocentes?
James toma a frente e pega o aparelho das mãos do meu pai.
— Não abra a boca para falar o que não sabe.
Ignoro seu comentário.
— Então é isso? — Ninguém fala mais nada. — Mãe? — Olho para a mulher magra com
olhos fundos. Ela só chora. — Por favor! — Suplico, mas sou ignorada.
— Sua mãe já deixou suas coisas arrumadas. — Meu pai fala e entra no quarto como se
estivesse fazendo a coisa mais normal do mundo, como se eu tivesse indo embora por vontade
própria. Ele entrega minhas coisas para um dos homens.
— Agora vamos! Já perdi tempo o suficiente.
— Não! Eu não vou a lugar algum com você! — Permaneço parada enquanto James me
encara.
— Eu vou logo avisando que não sou um homem paciente. — Sua voz é firme, ameaçadora.
— Então, não me provoque garota.
Ergo o queixo.
— E o que vai fazer para me obrigar? — Arqueio as sobrancelhas — Me matar? — falo
sem pensar. — Aí sim eu saio daqui.
Não demora muito. Ele vem na minha direção, e antes que eu possa pensar em qualquer
coisa, me joga no ombro e me leva, como se eu fosse um objeto qualquer.
— Me solta, seu desgraçado! — grito enquanto sou carregada para seu carro preto de
vidros escuros.
Meus pais nos acompanham do lado de fora. Quando sou colocada no banco de trás, tento
sair, mas um dos comparsas dele senta ao meu lado. Em seguida a outra porta também é fechada pelo
homem mais alto.
James para e olha para a outra casa em frente à minha, e fica alguns minutos como se
estivesse em transe. Mas o chamado de um dos comparsas o faz entrar no carro.
Olho ao redor tentando entender tudo, mas é difícil. Tenho a impressão que vou acordar de
um pesadelo a qualquer momento. Pelo vidro fumê ao meu lado consigo ver a minha mãe. Ela está
chorando. Bom, ela só tem feito isso ultimamente… também bebido e se drogado com os calmantes.
Está totalmente desestabilizada. Acredito que a situação agora só vá piorar.
Encosto-me ao banco de couro e fecho meus olhos. Sinto minha respiração falhar. Estou
nervosa e com o coração prestes a explodir dentro do peito.
Tento memorizar cada rua que eles entram para futuramente eu fugir e pedir ajuda. Isso é
ilegal e injusto. Não fiz nada para ter que passar por isso.
Enxugo minhas lágrimas, que teimam em escorrer. Levanto o olhar e vejo James me
encarando pelo espelho retrovisor. Sinto meu estômago virar com seu olhar.
Alguns minutos depois chegamos a uma casa escondida atrás de um muro alto. Dois
homens devidamente armados estão protegendo a entrada. James faz um sinal com a mão e o portão
abre, revelando uma casa de dois andares de cor cinza, com algumas árvores ao redor.
As portas se abrem e todos eles descem. Eu continuo sentada, sem mover um músculo.
Olho para fora e James está entrando na casa.
— Saia! — Um dos homens ordena e eu não obedeço. — Tudo bem! — fala, e logo eu
sinto um puxão no meu braço, me arrancando de dentro do veículo. Cambaleio no gramado e me
apoio para não cair com a cara no chão.
Encosto no carro e fico olhando ao redor. O homem se aproxima e segura meu queixo.
— Homens gostam desse tipo de mulher que você é. — Ergo o olhar para ele, que mantêm
os olhos fixos nos meus. Ele percebe que eu não vou responder e continua. — Esse tipo que se faz de
difícil. Um desafio é bom de vez em quando.
Dou de ombros.
— Não me importo com o que vocês gostam.
Sua risada é discreta e sombria.
— Deveria se importar em não ser atrevida. Eu posso calar sua boca em um instante. —
Engulo seco ao ouvir sua ameaça, mas não demonstro o medo que invade meu peito. Sua mão desliza
do meu queixo para o pescoço, me dando um calafrio. — Nada que uma boa trepada não dê jeito.
Ergo o punho para acertar seu nariz, mas ele é mais rápido, e aperta meu pulso.
— Você não quer fazer isso.
— Então me solte!
Meu corpo todo treme, e até o último fio de cabelo do meu corpo arrepia com seu olhar.
Seu nariz parece que soltará fumaça.
— É bom que mantenha essa marra somente para você, ou não vai gostar das
consequências. Não esqueça que somos assassinos. Matamos sem remorso.
Sinto seu hálito quente no meu rosto.
— Solte-a! — James diz.
O homem obedece ao seu comando, que sai em uma voz grossa e autoritária, e depois se
afasta, indo para o outro lado do jardim. Aliso meu pulso, que lateja. James se aproxima, passando a
mão na barba mal feita.
— Aqui será a sua casa. E bom, não tente fugir, já que tenho pessoas vigiando vinte e
quatro horas por dia. Será uma tentativa em vão. — Aperto o punho. Tenho vontade de socar essa
cara presunçosa. — Me acompanhe, vou mostrar a casa para você.
Fico parada no lugar quando ele começa a andar, mas um dos comparsas que aparece por
trás me empurra para frente com o braço.
— Babaca!
Xingo e ando batendo o pé.
Olho ao redor em busca de uma brecha para a minha futura fuga. Aos poucos vou conhecer
cada lugar e dar adeus a esse pesadelo.
Ele abre a porta de madeira e revela uma casa não tão luxuosa quanto eu imaginava. Bom,
ela é bonita e organizada, com um sofá grande, uma TV pendurada em uma parede coberta com um
papel cor de vinho, e uma lareira moderna. No cômodo da frente está a cozinha. O lugar é mais
bonito que a sala. Há uma ilha no meio, rodeada por banquetas e armários projetados nas paredes
dando um ar moderno.
Cruzo os braços e observo a movimentação e a liberdade dos homens em mexer na
geladeira ou em qualquer outra coisa. James parece ler meus pensamentos e me encara.
— Eles ficam aqui. Não moram, mas é quase isso. — Mostro meu desgosto. — Vai querer
comer alguma coisa? — pergunta, e eu nego. Ele bufa e segura meu braço. Não forte, mas de um jeito
carinhoso. — Venha!
Sigo James até o andar de cima. A escada é de mármore, mas sem quadros ao redor, ou
qualquer item que lembre uma família, nada. Entramos em um corredor rodeado com algumas portas.
— Esse é o seu quarto. — Ele abre a porta e revela um cômodo grande, com uma cama de
casal, estante quase vazia, com apenas uma TV. Tudo neutro, sufocante e perturbador.
— Ali há um banheiro e um armário para colocar suas roupas.
Viro-me para ele.
— Eu deveria agradecer pelo gesto tão acolhedor? — ironizo.
— Deveria. Bom, fique à vontade, mas não tanto. — Ele faz menção de sair do quarto, mas
volta e olha exatamente nos meus olhos. — E mais uma vez, na tentativa de fugir, não esqueça os
homens lá fora. Eles não são tão gentis quanto eu. E você não terá acesso à internet ou ligações.
Abro a boca, inconformada.
— Você não pode tirar isso também.
Ele sorri.
— Enquanto você não se adaptar, não terá essas regalias. Depois disso, pensarei em
liberar o seu celular.
— Babaca! — grito, e ele bate a porta. — Levo às mãos à cabeça, e olho ao redor. Merda!
O que está acontecendo? Isso é uma brincadeira. Claro que é! Logo mais meus pais vão aparecer
sorrindo. Logo o Taylor virá me buscar para comermos uma pizza. — Infeliz! — Desabo na cama e
choro.
Não vou ficar assim por muito tempo. Eu darei um jeito de sair daqui, e ficar longe dessa
casa e desse homem.
Capítulo 3

Dezessete anos atrás...

James

O porta-malas do carro é aberto, mostrando o sol escaldante. Oliver permanece


agarrado no meu pescoço, com os olhos inchados de tanto chorar. O homem mais velho aparece e
manda que peguem o meu irmão. Eu o seguro mais forte, tentando impedir, mas levo um soco na
cabeça, que me deixa tonto. Assisto meu irmão gritar meu nome, e quando me levanto para ir até
ele, sou puxado pela orelha.
— Me solta! — grito, chutando as pernas do homem. O que eu recebo de volta me faz
cair no chão de terra. Minha cabeça dói com a pancada de uma barra de ferro.
Sou arrastado para dentro de um galpão, em um lugar no meio do nada. A areia arranha
minhas pernas, braços e costas. Sinto dor por todo o meu corpo. Um dos homens me pega pela
camisa, me deixando de pé. A porta grande de madeira é aberta, e eu entro pelo empurrão que
recebo.
O lugar está cheio de homens armados, crianças e adolescentes com armas nas mãos,
que me olham com desconfiança. Olho para trás e vejo meu irmão sendo carregado nos braços,
mas pelo menos não está machucado.
— Solta ele, Connor! — Sou jogado no chão, na frente do homem mais velho que deu a
ordem. — Levanta! — grita, e eu ignoro. — Eu mandei levantar! — outro grito, mas dessa vez vem
acompanhado com um puxão de orelha que me faz ficar de pé na marra.
— Você matou meus pais! — falo, apertando o punho.
— Matei! Aquele verme do seu pai mereceu. Sua mãe foi somente um bônus.
Cuspo no seu rosto, demonstrando minha raiva e nojo. A risada do homem ecoa no lugar,
já que todos os outros estão calados, atentos ao diálogo.
— Você não deveria ter feito isso! — Ele pega um lenço no bolso e limpa o rosto.
— Faço outra vez! — aviso, mas com a convicção de que isso não vai ficar assim. Meu
corpo se contorce com o soco que levo no estômago. Fico sem ar e sem forças.
— Insolente!
Sua mão grande e pesada atinge meu rosto e o canto do nariz, me fazendo beijar o chão.
Abro os olhos e vejo o homem mais próximo.
— Caso não saiba, eu sou Jason Smith, um dos maiores traficantes daqui. Trabalho com
drogas pesadas, e tenho comparsas bem treinados para matar caso alguém atrapalhe meus planos.
Sinto meus dentes baterem.
— O que eu tenho a ver com isso? — pergunto, e ele sorri.
— Você precisa saber que eu não sou gentil. Ninguém daqui é. Então, abaixe a crista e
me obedeça. É o que todos fazem. — Devagar, eu tento levantar, mas o pé do Jason atinge meu
peito. Ele pisa, esfregando o pé com a bota suja. — Coloquem esse moleque no quarto escuro, sem
banheiro e sem comida. Ele precisa de uma lição.
Meu olhar o segue enquanto ele leva o Oliver para a parte de fora do galpão.
Logo sou puxado pelo braço e jogado em um quarto pequeno. A porta de ferro é fechada
e a escuridão me abraça. O mau cheiro, o escuro e a falta de ar me fazem cair no chão. Fico
sentado, encostado na parede úmida, tentando bolar um jeito de sair e levar meu irmão daqui.
Fecho os olhos e lembro-me dos meus pais.
Permito que uma lágrima escorra pelo meu rosto.

Dias atuais...

Amy é tudo que eu queria para mim. Eu a tenho observado nesses últimos anos. Sempre
tive a necessidade de me aproximar, mas todas as tentativas foram falhas. Ela é como uma obsessão,
algo que está longe do meu alcance. Algo puro, intocável e proibido.
Desde que a vi pela primeira vez, sorrindo e jogando conversa fora com a mãe, eu a
venerei. Na época ela ainda era adolescente, e eu a venerava, sem esse desejo carnal. Agora, com
ela aqui em minha frente, tento reorganizar meus pensamentos. Repito mentalmente que eu só tenho
que mantê-la aqui dentro. Sei que não devo tocá-la; muito menos olhar para o seu corpo e deixar o
desejo consumir minha alma.
Amy é bonita, inteligente e esperta tudo que qualquer homem decente pode ter. E eu não
sou decente, e muito menos digno.
Observo-a no quarto, ainda do mesmo jeito em que chegou em casa, antes de descobrir o
que a esperava, com seu cabelo amarrado, sua roupa de malhar colada no corpo, e o cheiro de
mulher.
Eu poderia lambê-la nesse momento. Poderia jogá-la contra a parede e esfregar meu corpo
no dela, sentindo seu cheiro e o gosto da sua boca. Poderia arrancar suas roupas e empurrar meu pau
dentro dela, para ouvi-la gemer de forma tímida ou selvagem.
Tento desviar dos pensamentos eróticos.
Desde quando comecei a organizar tudo para que ela chegasse, sabia que ia ser difícil. Ela
sempre demonstrou ter um gênio difícil, e que não cede fácil a ninguém. E eu sei que algo aqui dentro
me empurra para aproveitar essa chance. Insiste para que eu prove sua boca e a tenha nos meus
braços.
Eu não serei egoísta a esse ponto. Não vou carregá-la para o inferno que é a minha vida.
Não posso.
Desço as escadas, rumo a sala.
— James? — Escuto a voz do Tommy assim que desço a escada. Paro no meio da sala,
esperando que ele fale. — Você vem ou não? Vai ficar aí de babá da donzela? — provoca com um
sorriso no rosto.
— É melhor não me provocar! — Ele bufa, ignorando minha ameaça.
— Não sei qual o seu problema. Arrumar uma garota para dentro dessa casa? Aqui é cheio
de homens entrando e saindo. — Ele não deixa de ter razão. — É arriscado! Você vai colocá-la em
perigo por causa de um capricho seu?
Balanço a cabeça.
— Não é isso.
— É claro que é! Cansei de ver você olhando aquela garota, parado em frente à casa dela,
igual um idiota, admirando a menina sentada no telhado. — Fecho os olhos e sinto um peso na
cabeça. — Isso tudo por uma foda? Cara! Você tem as mulheres mais bonitas da cidade vindo aqui e
trepando sem limites. Mulheres que sabem o que você faz e que entendem, que não vão ter nada mais
além do seu pau; e mesmo assim quer seduzir aquela garota? — Tommy anda pela sala,
inconformado. — Trazer Amy a força não é uma boa tática. Lamento, meu caro amigo.
— Não é bem assim. Você está falando o que não sabe!
— Eu não sei? — Ele arqueia as sobrancelhas. — Você a ter aqui será ainda mais fácil de
levá-la para a cama. — E era exatamente isso que eu queria. Só que eu não farei. — Ela é uma
garota! Na primeira noite que você trepar com ela, vai ficar caída por você. Todas ficam, mesmo as
experientes… imagine ela, que com certeza nunca teve um homem na sua cama.
Sinto um alivio com essa afirmação. Espero realmente que ninguém tenha tocado nela. Só
que eu sei que isso seria quase impossível. Algum cara de sorte já deve ter tido a chance de ter o que
eu quero.
— Isso não vai acontecer, Tommy! — falo, tentando me convencer.
— Fale logo o que você quer. Com certeza não me chamou para dar conselhos
sentimentais.
Passo a mão pelo rosto.
— Paul e Carl já estão no carro esperando por nós dois. — Ando com ele até o carro e
encontro os dois me esperando. Chamo Julian, e ele anda até onde estou. — Fique de olho na casa.
Não deixe ninguém subir. Se por acaso ela tentar fugir, tranque-a até que eu volte.
Ele concorda e eu entro no carro. Sento no banco da frente, e seguimos até o nosso destino.
Recebi quinhentos mil dólares para matar um pedófilo. Um homem aparentemente comum,
que vive numa casa de uma rua pacata. Os vizinhos passaram a desconfiar quando as crianças
começaram a desaparecer. Eram sempre as mesmas que frequentavam a casa do homem nos horários
da manhã, depois da aula.
A polícia já chegou a ser alertada, mas como o homem é o padre do bairro, querido por
muita gente, nunca acreditaram. Achavam que era só mais uma implicância de pessoas de outra
religião.
Agora, vou descobrir se é exatamente isso. Se for, espero que ele reze bastante para que eu
tenha piedade e não estoure os seus miolos.
O carro para em frente à casa grande. A rua já está sem movimento, e vejo apenas algumas
crianças brincando no parque na esquina. Desço, e os três homens me acompanham, indo em direção
à porta. A frente da casa é bonita, decorada com flores. No gramado há alguns brinquedos. Típico de
quem quer atrair crianças.
Antes que eu consiga bater na porta, o homem careca, de torno dos seus sessenta anos,
abre. Está com uma mala na mão.
— Vai fugir?
Quando ele percebe o tom da minha voz e vê as armas, tenta fechar a porta, mas eu acerto
um chute forte na madeira, fazendo-o cair no chão.
— O que vocês querem? Eu não tenho nada! — fala, e meus comparsas trancam a porta.
Seguro o homem pelo colarinho da camisa branca e o arrasto até o sofá. Ele senta de uma
vez. Seus olhos arregalados nos encaram.
— Não tenho dinheiro aqui. Os fiéis doaram para um asilo.
Retiro a arma do cós da calça e aponto para ele.
— Acha mesmo que é isso que eu quero? — Noto seu pomo de adão mover de nervosismo.
— Fiquei sabendo, padre, que você gosta de se divertir com crianças. É verdade?
O homem balança a cabeça negativamente. Em seus olhos consigo ver a culpa.
— Não é bem assim como falam. Eu só dou doces, alguns brinquedos...
Aperto seu queixo com minha mão, enquanto a outra enfia a arma na sua boca.
— Cinco crianças desapareceram, padre. Quatro meninos e uma menina.
Coincidentemente, as mesmas cinco que vivem por aqui.
— As pessoas inventam de tudo para me derrubar. Eu amava esses meninos.
Desço o cano da arma entre as suas pernas. O homem não para de tremer. Seu rosto está
vermelho, como se fosse pegar fogo a qualquer momento.
— Essa merda aqui que anda usando?
— Não!
Respiro fundo e destravo a arma.
— Eu não vou te matar logo, desgraçado. Vou te fazer sofrer bem devagar. — Tommy me
entrega a faca e eu seguro a mão do padre. — Vou cortar dedo por dedo e fazer você engolir. — Ele
permanece calado. — Me falaram que uma das adolescentes que fazia orações com você sofreu uma
tentativa de estupro… que você passou a mão nas pernas dela. — Devagar, passo o metal afiado no
dedo médio, vendo o sangue escorrer. Ele treme, e o suor escorre pela testa. — Que tentou enfiar os
dedos dentro da calcinha da jovem. — O sangue continua a aparecer. — E que ela apanhou de alguns
fiéis fanáticos, pois quando souberam que ela denunciou você, acusaram a garota de mentirosa.
— É o que ela é! — grita. — Ai, merda! — Fico satisfeito em ouvir seu gemido de dor. —
Aquela puta que vivia se oferecendo. — Paro a faca por alguns minutos. — Ela que vivia me
pedindo carona, e vestia sempre aquelas saias pequenas. Eu sabia que ela estava pedindo por isso.
Solto a sua mão e levo a faca até a sua coxa, abrindo um corte.
— Desde quando uma roupa avisa que a mulher quer ser estuprada? — pergunto,
empurrando a faca na sua perna. — Responde! — Grito, mas como não obtenho resposta, empurro o
metal com mais força, fazendo o homem se contorcer.
— Para! Para! Para! — Sua suplica me faz afastar.
— Eles gostavam! — Ele faz uma careta e tenta estancar o sangramento. — Todos eles
gostavam do que eu fazia. O problema é que eles queriam contar para todo mundo.
— E aí você matou?
— Claro! Eu sou uma autoridade da igreja, jamais permitiria que alguém atrapalhasse
minha carreira.
Noto que meus comparsas dão um passo à frente, já com armas em punho.
— Quer saber? Você sequer merece morrer! — O homem suspira aliviado. — Mas vai
pagar pelo que fez!
Acerto um chute entre as suas pernas, fazendo o homem deitar em posição fetal em cima do
sofá.
— Seja homem, porra! Levante!
Grito, e ele obedece. Pego a arma e atiro entre as suas pernas.
— Desgraçado! — ele berra. — Maldito! Desgraçado!
Disparo contra a sua mão direita e depois faço o mesmo com a esquerda. Aproximo-me do
homem e seguro seu pescoço.
— Isso é para nunca mais abusar de ninguém. — Ele chora, e as lágrimas escorrem por
suas bochechas. — Aprenda que uma criança não é objeto sexual, é um ser sagrado. E que mulheres
só transam quando querem, ninguém obriga. Empurro o corpo contra o sofá. — Aprendeu? —
pergunto, observando o sangue escorrer. — Na próxima vez que eu receber alguma denúncia do tipo,
nem a sua reza o fará escapar.
Afasto-me, indo até o telefone. Ligo para a polícia. A atendente fala do outro lado da linha.
Levo o aparelho até o homem.
— Confesse!
Ordeno e ele aproxima a boca.
— Aqui é o padre George Hill... — gagueja — Eu estou esperando aqui em casa. Vou
contar onde enterrei os corpos... das... crianças.
Desligo o aparelho e acerto sua cabeça com uma coronhada. Ele cai imóvel no sofá.
— Vamos!
Saio da casa e vou até o carro, entrando sem esperar sem visto por alguém.
Eu sei que deveria tê-lo matado, mas não podia. Ele não merecia a morte nesse momento.
Esse verme imundo tem que morrer e pagar por todos os seus pecados. Isso ele vai pagar muito bem
quando for preso. Presidiários odeiam gente dessa laia. Odeiam estupradores ou qualquer coisa do
tipo.
Lá ele irá sofrer as consequências do que fez.
Enquanto volto, vejo carros da polícia passando. Logo terei as notícias sobre o que
aconteceu.
Chego em casa, e Julie está preparando o jantar no deck. Passo direto para o meu quarto e
vou tomar um banho. Preciso tirar qualquer resquício daquele verme do meu corpo.
Depois do banho, desço e ando até a cozinha, quando vejo Amy parada na janela,
observando a movimentação na parte de fora. Aproximo-me sem ser notado.
— Me procurando?
Minha voz ao pé do seu ouvido a faz pular em um susto.
O olhar da Amy desce pelo meu corpo, e ela solta uma lufada de ar.
— Eu...
Nervosa, ela se cala, me fazendo sorrir por seu nervosismo.
Em um instante ficamos assim, parados, nos encarando. Sinto uma vontade enorme de
agarrá-la e puxar sua boca para um beijo pervertido.
Capítulo 4

Amy

Acordo com dor de cabeça e a os olhos pesados. Chorei tanto que acabei caindo no sono.
Levanto e percebo que já está de noite, e a luz da lua é a única coisa que clareia meu quarto. Entro no
banheiro e lavo o meu rosto.
Olho meu reflexo no espelho e meus olhos estão inchados. Ainda não consigo acreditar no
que aconteceu. Vai ser difícil digerir tudo isso. O sentimento de raiva está me consumindo, e tudo por
culpa do meu pai.
Meu estômago reclama, e mesmo com meu orgulho gritando para ficar trancada no quarto,
acabo saindo em busca de comida. Preciso me alimentar, ou não terei forças para levantar amanhã.
A casa está silenciosa, diferente do jardim, já que escuto uma música ambiente tocando.
Quando chego à cozinha, consigo escutar melhor, inclusive as vozes de homens conversando.
Vasculho a geladeira, então pego um iogurte e um pedaço de queijo. Sento na banqueta e
como o mais rápido que posso antes que alguém apareça.
Quando termino, minha curiosidade fala mais alto, então vou até a pequena janela de vidro
perto da pia, e olho para saber o que estão fazendo. Noto que há uma piscina grande nos fundos da
casa, e é lá que todos estão. Alguns estão sentados na beirada, e outros ao redor da mesa de madeira.
Algumas mulheres também estão bebendo. Não vejo James. Nenhum sinal dele.
Sinto um vento quente na minha nuca.
— Me procurando?
Tomo um susto, e acabo esbarrando no seu peitoral.
James é alto e muito bonito. Musculoso, mas sem parecer aqueles ratos de academia. Seu
cabelo bagunçado e o jeito de homem poderoso e perigoso me fazem sentir algo que eu tento ignorar.
— Eu... — Minha falha tentativa de falar o faz rir. — Precisava comer.
Ele está próximo demais. Sinto seu cheiro e o hálito. Não está bebendo ainda. Seu olhar
penetra no meu e eu sinto uma tensão entre nós dois. Durante alguns instantes, que parece uma
eternidade, ele me observa como se fosse um animal selvagem prestes a pegar a presa.
— Pode comer o que precisar.
Fico encostada na pia, apertando meus dedos na borda.
— Eu vou voltar para o meu quarto.
Mesmo com meu pedido, ele continua a me intimidar.
— Venha aqui fora. Eles estão bebendo e comendo um pouco. A Julie está fazendo o jantar
lá fora. — Ele aponta para a parte do deck e eu olho. Uma senhora está preparando alguma coisa no
fogão à lenha.
— Eu já tomei um iogurte.
Ele segura minha mão.
— Só venha conhecê-la. Fique um pouco e coma.
Assim, sou puxada para o lado de fora.
Quando apareço entre eles, todos me encaram dos pés à cabeça. Alguns chegam a me
causar calafrios.
Sento perto da ponta da mesa, o mais longe possível deles.
— Sou Julie. É um prazer conhecê-la. — A senhora estende a mão, e eu aperto com um
sorriso sem graça.
— Amy.
Ela balança a cabeça e se afasta, voltando para o seu dever.
Noto o quanto ela é desconfiada. Não ergue a cabeça, não puxa assunto com ninguém;
apenas recebe ordens do James, que fala alguma coisa perto dela, fazendo-a balançar a cabeça em
afirmação.
Observo ao redor e os homens me encaram. James entra na casa para pegar alguma coisa,
me deixando sozinha com eles. As mulheres não falam comigo, mas sinto que me encaram. Tento
ignorar.
— Está disponível para a minha cama, linda? — O homem moreno, o mesmo que me
encurralou no carro, pergunta. Ele tem uma loira sentada no seu colo, com as pernas abertas,
mostrando para quem quiser ver que por debaixo do vestido não existe uma calcinha.
— Nem se você fosse o último homem do planeta.
Todos gargalham.
Eu acho que estou sem juízo por responder a assassinos dessa forma.
— Ela é atrevida! —o homem provoca. — Acredito que você não está em condições de
nos confrontar. Não é muita coisa.
Fecho minha mão e aperto o punho.
— Ela será o novo brinquedinho do James. — o outro fala, com um sorriso arrogante.
Sinto um incômodo por causa da sua observação.
— É bom que saiba que James adora brincar com várias. Você gosta? — Respiro fundo, e
faço de tudo para ignorar.
— Será que você é liberal? — a mulher que está no colo do homem pergunta. — Eu gosto
de transar com um homem e uma mulher. Se quiser, estou aqui. Posso te ensinar alguns truques que
deixam o James louco.
Era só o que me faltava!
— É uma boa proposta, Amy!
Sinto vontade de socar o homem e vê-lo caído no chão, mas antes que eu faça uma besteira,
levanto e tento voltar para dentro de casa, mas sou interrompida, mais uma vez, por um corpo pesado
e quente.
— Fique.
— Eu não sou obrigada a aguentar isso, sou?
Ergo a sobrancelha. Internamente estou tremendo.
James levanta o olhar para os homens, que se calam.
— Eu quero ir para o meu quarto.
— Não antes de comer.
Ergo o olhar.
— Vou ficar na cozinha.
Desvio do James e ando em passos apressados para longe deles.
Entro no cômodo e bato a porta, soltando um suspiro aliviado. Estou nervosa e com raiva.
Quero socar muito, quero atirar tudo contra a parede.
— Que raiva! — falo, dando um chute na porta. Passo as mãos no rosto e ando de um lado
para o outro. A porta se abre de uma vez e ele entra. — O que diabos você quer comigo, afinal? —
pergunto. — Vai me fazer sua prostituta? Vai querer me forçar a participar das suas orgias? —
Percebo que elevei o som da minha voz quando ele ergue a sobrancelha. — Vai me oferecer de
lanchinho para os seus comparsas bandidos? — Ele cruza os braços e espera que eu termine. — O
que quer? Porra! Eu não tenho nada! Se você abrir a porta dessa merda de casa, verá várias mulheres
que amariam estar aqui, e por livre e espontânea vontade.
— É isso que você acha que eu quero?
Sorrio, nervosa.
— E não é?
Ele se aproxima.
— Você está disposta a trepar comigo? — Engulo seco as suas palavras. — Se não, não se
preocupe. Eu não farei nada que você não queira. Não no sentido sexual.
Solto a ar pela boca para tentar me recompor do que acabei de ouvir.
— Então me explique! Acho que ao menos isso eu mereço saber.
— Você é mulher, e eu não tenho nenhuma aqui para me ajudar. Além do mais, é hacker. Eu
posso precisar de você.
Como ele sabia disso?
— Nenhum dos seus fantoches sabe fazer isso? — Ele nega com a cabeça. — Isso está me
cheirando a desculpa esfarrapada.
— Posso precisar de uma mulher assim… — Aponta para o meu corpo — Para minhas
missões.
— Você quer que eu vire bandida também?
James gargalha, e sua voz grossa invade o lugar.
— Isso já depende de você, não de mim.
— Seus comparsas me provocam, suas amigas ali fora também me olham com desdém.
Eles querem que eu participe dos jogos sexuais de todos.
Depois que falo me arrependo, pois James me lança um sorriso sexy e vem mais perto de
mim.
— Sobre isso, é bom que saiba que nenhum está disposto a te pedir em casamento. Então,
se pensar em deitar com algum deles, saiba bem o que está fazendo. Depois, fique à vontade. Transe
com um, dois ou todos. Faça o quiser. — Seu corpo fica colado no meu. — Contanto que mantenha
seu traseiro dentro de casa.
Empurro seu peito, afastando-o de mim.
— Eu não quero. Eu quero ir para a minha casa. Quero voltar para os meus pais e ter uma
vida como antes. Mesmo que seja uma merda de vida.
Em um rápido movimento, ele segura meu braço. Não aperta, mas claramente quer me dar
um aviso.
— Não faça mais isso. Eu posso ser qualquer coisa, mas não bato em mulher, então não me
provoque. Você não está em condições de exigir ou bater o pé como uma criança mimada. — Meu
queixo treme. Minha língua coça para soltar os piores palavrões. — Seu pai já foi rico, não é mais.
Então, pare de agir como a filhinha do papai, e aceite que você vai fazer o que eu mando. Nem que
para isso leve o tempo que for. — Sinto um arrepio na espinha. — Seu pai entregou você em minhas
mãos. Aceite isso de uma vez por todas, Amy. Aceite que a sua vida agora é aqui. Querendo, ou não,
é comigo que vai ficar. — Ele me solta e fica longe. — E não se preocupe. Eu não pretendo levar
você para a cama. — James me encara com uma expressão de desgosto. — De garota imatura eu
quero distância.
Assim, ele bate a porta e sai, me deixando com a raiva explodindo dentro de mim.
Fico parada no meio da cozinha, me sentindo ofendida e em choque com seu comentário.
Vejo os homens ligando a tevê do lado de fora e observando atentos ao telejornal. Vou até a
porta e tento ver o que está tomando a atenção dos mesmos.
“Padre George, famoso por suas missas ao ar livre para crianças e adolescentes, é preso
ao confessar o assassinato de cinco crianças da comunidade.”
Sinto um frio na espinha. Esse homem é conhecido. Já ouvi comentários sobre ele ser
acusado de pedofilia, mas tudo tinha sido negado.
Quando a câmera mostra o homem saindo de casa, sinto vontade de vomitar. Suas mãos e
sua virilha estão sangrando.
— A informação que um homem atirou na virilha do padre e em suas duas mãos, o
obrigando a confessar. Seria esse um justiceiro, ou somente um pai inconformado com o que
aconteceu?
Olho para o James, que balança a cabeça enquanto os outros falam de uma vez só. Uma das
mulheres senta no seu colo, agarrando o seu pescoço.
Sinto um calor queimando meu corpo quando assisto sua mão descendo entre as pernas da
mulher, na frente dos homens, sem inibições. A mulher o beija, devorando sua língua enquanto se
esfrega no seu colo. A outra, uma morena, vai até eles e abraça a loira por trás, beijando seu
pescoço.
Aperto minhas coxas, e fico inconformada com a reação do meu corpo.
De repente, James levanta com a mulher nos braços, que enrola as pernas torneadas no seu
quadril. A outra também acompanha os dois. Eu corro para a escada.
Antes de fechar a porta do meu quarto, escuto risadas e gemidos.
Tento retomar minha respiração.
Que merda foi essa que acabou de acontecer comigo?

Saio caminhando pelo jardim logo quando amanhece o dia, enquanto a casa ainda está
silenciosa. Sento no gramado e deixo meu rosto receber os raios do sol. Quem sabe assim ao menos
ganhe uma cor na pele. Há três dias que estou aqui, mesmo assim ainda não consigo aceitar essa
situação. Ninguém aceitaria isso numa boa, aceitaria?
Claro, com exceção das mulheres que frequentam esse lugar. Tenho certeza absoluta que
amariam viver como reféns do James. A imagem daquele outro dia ainda não saiu da minha mente,
das duas mulheres entrando no quarto com ele, e se entregando ao prazer. Ele deve ser bom no que
faz, mas eu prefiro não saber como é. Além do mais, minha estadia nessa casa será curta. Eu tenho
observado cada detalhe da rotina para conseguir uma brecha e fugir daqui. Não aguento mais essa
palhaçada. Por um instante cheguei a cogitar que aquilo fosse uma brincadeira ou pegadinha de
alguém, mas não é. Eu estou aqui, presa e engolindo os sapos até eu conseguir sair.
— Precisando de companhia?
Tomo um susto com a voz que surge atrás de mim.
— Não.
Sequer me dou ao trabalho de verificar quem é a pessoa, mas de qualquer forma, acabo
sendo ignorada, já que ele senta ao meu lado no gramado.
— Tommy. — Ele estende a mão, e eu ignoro. dando de ombros.
— Você já deve saber que eu não participo das orgias. Se quer que eu trepe com você e
seus amigos, esqueça.
Escuto sua gargalhada, e eu o encaro sem humor.
— É isso que acha que eu quero? — Bufa. — Não, Amy. Não se preocupe. Se tiver alguém
querendo comer você nessa casa, lamento dizer, mas não sou eu.
Sinto um arrepio ao lembrar-me do homem que me encurralou no carro.
— O que quer comigo, então?
Ergo a sobrancelha e espero que ele fale.
— Que tome cuidado com o Damon e os outros. Eles não têm limites. Acham que qualquer
mulher que entre nessa casa está pedindo sexo.
— A diferença é que eu não estou aqui por vontade própria.
Ele concorda.
— Eu sei. Só que, por favor, mantenha sua língua afiada dentro da boca. Você viu como é
com o Damon, ele não é gentil. Os outros também não.
— E você é?
— Não. Sou assassino, garota. Todos nós somos. A diferença é que eu não quero levar
você para a cama. Nem seria louco, ou estaria assinando meu atestado de óbito. — Fico sem
entender, mas ele continua. — Fique sempre de olhos bem abertos, mantenha o seu quarto trancado, e
evite bater de frente com alguém. Isso não vai ajudar você.
— Eu preciso ir embora.
Ele levanta e limpa as mãos.
— Mas não vai. Aceite isso, será mais fácil.
Ergo o olhar para o homem.
— O que ele quer comigo?
Dá de ombros.
— Seu pai perdeu a aposta, esqueceu?
— Estamos em pleno século vinte e um. Isso não existe!
— Seu pai fez isso, Amy. Não há mais justificativa. Só tente manter seu traseiro aqui
dentro e seguir meus conselhos.
Assim ele sai, me deixando sem entender nada.
Esse foi um dos poucos que não me olhou com o instinto assassino e que não tentou se
insinuar. Eu o vi na outra noite com uma mulher e outro homem, comparsa do James. Tommy deve ter
trinta e cinco anos, tem uma boa aparência, tatuagens pelos braços, e um corpo musculoso e bem
preparado.
Vou para o meu quarto pensando em tudo o que ele falou.
Lavo meu rosto na pia do banheiro e me encaro no reflexo do espelho. Tiro minha roupa,
ficando somente de calcinha. Abro a porta para pegar minha toalha, mas quase tenho um ataque do
coração ao ver o homem na minha frente.
— Merda!
Viro, e com as mãos cubro meus seios. Encostado na cômoda está o James. Seu olhar está
fixo no meu corpo, enquanto suas mãos se escondem no bolso da jaqueta.
— Deveria tomar mais cuidado ao andar nua desse jeito.
Abro a boca para protestar.
— Você quem deveria respeitar o meu espaço.
Ele assente.
— Sim, mas eu não esperava ganhar um show tão cedo. — Seu meio sorriso me faz querer
bater em sua cara presunçosa. — Você é ainda mais gostosa sem roupa.
Sua declaração faz os pelos do meu corpo arrepiarem.
— O que veio fazer aqui?
Engulo em seco, tentando disfarçar meu desconcerto.
— Preciso que se vista primeiro, ou não vou conseguir me concentrar.
Puxo o roupão pendurado e visto, tentando esconder meu corpo do seu olhar erótico.
James anda até onde estou e senta na cama. Seu olhar ainda está grudado no meu corpo.
— Preciso que desbloqueie esse notebook para mim.
Seguro aparelho nas mãos e ligo.
— É de alguém que eu preciso de informações. Preciso saber o que ele andou fazendo, e
que e-mails andou recebendo. — Cerro o olhar na sua direção em busca de uma explicação. — Estou
atrás de alguém. — ele responde sem esperar que eu pergunte. — Alguém que eu preciso estourar os
miolos.
Sinto enjoo ao ouvir suas palavras.
— Jason Smith. Caso encontre alguma coisa relacionada a ele, me fale.
Balanço a cabeça e mexe no notebook, com a mente martelando para saber quem é esse
homem.
Ao lado dele, sentada na cama, sinto um calor absurdo. Sua presença me deixa
incomodada, e seu cheiro ainda mais.
Depois de destravar o computador, abro no navegador e no histórico, tentando entrar no
seu e-mail.
— Não acha que eu caí nessa de você não ter alguém aqui para ajudá-lo com isso, não é?
— pergunto, com os olhos fixos na tela.
— Não. Você não é burra. Só que o que trabalhava com o TI foi morto há duas semanas. —
Sinto meus dedos tremerem. — Degolaram a cabeça dele, como um aviso, de que não deveria ter
invadido o sistema de um grupo de contrabando de narcóticos.
— Então, essa é apenas mais uma morte que você carrega nas costas?
Ele nega, com um leve aceno.
— Ele trabalhava para outra pessoa também. Dessa vez eu não tive envolvimento.
Vasculho o e-mail do homem, de nome Ethan, e paro de uma vez quando encontro o nome
“Pagamentos Smith”, de uma data não tão recente.
— Aqui!
Entrego o notebook ao James. Ele encara a tela e levanta de uma vez.
— Miserável! — Seu maxilar cerra e eu observo, até ser surpreendida com seu olhar. —
Obrigado pela ajuda.
Levanto e lanço um olhar preocupado para ele.
— Vai matar esse homem?
James se aproxima, segurando o meu queixo. Minhas pernas ficam bambas, e meu coração
parece sacudir dentro do peito. Seu cheiro invade meu nariz e me deixa tonta.
— É exatamente isso que farei caso ele não colabore.
Fico parada enquanto ele lança uma piscada e sai com o notebook debaixo do braço, me
deixando nervosa e com medo.
Merda!
Caio sentada na cama, tentando colocar na minha mente que é isso que vou sempre
presenciar dentro dessa casa.
Odeio meu pai por ter me colocado nessa situação.
Nunca irei perdoá-lo.
Capítulo 5

Amy

Organizo minhas coisas dentro do armário enquanto cantarolo baixinho. Fico pensando,
como James, um homem tão bonito, jovem e de boa aparência, é capaz de escolher essa vida. Eu
sempre ouvi boatos sobre ele. Apesar dele ser bandido, algumas meninas da escola suspiravam por
ele. Também pudera, ele chama a atenção de qualquer ser humano. Se ele fosse um bom homem e
honesto, com toda a certeza eu ficaria atraída por ele.
Se bem que eu acho que a reação que ele me causa é bem parecida com atração, mas eu
jamais poderia me relacionar com ele. Não conseguiria viver em meio a sangue e mortes.
Dizem que as pessoas se acostumam com as coisas boas e ruins. Talvez eu me acomode.
Não! Eu quero ir embora e ter uma vida livre. Tenho medo do que aqueles amigos dele seriam
capazes de fazer comigo. Eu odeio o jeito como me olham, como se eu fosse um pedaço de carne.
Espero que nunca precise ficar sozinha com eles. Acho que, de qualquer forma, James não permitiria
que tocassem em mim.
Depois que termino de arrumar minhas coisas, tiro minha roupa e entro no banheiro. Deixo
a água descer pelo meu corpo enquanto me ensaboo. James providenciou os melhores xampus e
sabonetes, e não deixou de providenciar também produtos de higiene pessoal e algumas coisas de
mulher, como maquiagem. Só não sei para que eu preciso de tudo isso, afinal estou presa aqui dentro.
Se bem que ele comentou sobre eu ajudá-lo nas missões. Só espero que eu não tenha que
estourar os miolos de alguém, pois não seria capaz. Posso ser até um pouco turrona, mas por dentro
não sou tão ruim assim.
Desligo o chuveiro, enrolo uma toalha no cabelo e outra no corpo. Busco por uma roupa
que seja confortável, mas que não mostre demais. Acabo escolhendo um short jeans e uma camisa de
alças. Acho que emagreci um pouco nesses últimos dias.
Nunca fui o estilo de meninas da escola. A maioria sempre denominou um padrão,
patricinhas, esbeltas e loiras. Eu sou o oposto, nunca me importei com coisas fúteis. Talvez seja por
isso que nunca tive amigas mulheres. O único que sempre foi, e é, meu confidente é um homem, o
Taylor. Ah, como sinto falta daquele sem juízo!
Minha barriga ronca e eu desço para fazer um lanche rápido. Julie está na cozinha e sorri
quando me vê.
— Com fome? — Assinto. — Espera um pouco. — Observo enquanto ela tira uma torta
fria e coloca uma fatia no meu prato. — Espero que goste.
— Já gostei só de sentir o cheiro. É de que?
Ela olha orgulhosa para o prato.
— Atum. É a preferida do James.
Reviro os olhos e começo a comer.
Converso com a Julie enquanto vou comendo o segundo pedaço. Ela tagarela sobre a
juventude dela, e como queria ter aproveitado mais e estudado o suficiente para não ter que viver
limpando casas.
— Não que eu ache ruim, mas tem coisa muito melhor. — Concordo. — Eu queria ter
estudado, arrumado um bom emprego e ter encontrado um marido.
Solto uma gargalhada com suas palavras.
— Que clichê, Julie! — debocho em tom de brincadeira.
— Clichê, e mesmo assim eu seria feliz. Você não?
Deixo meus ombros caírem e viro-me para ela.
— Não penso nisso. Eu quero fazer algo, e ganhar muito dinheiro para sumir do mapa.
De repente, a porta se abre e vejo Damon parado, me encarando com um olhar sombrio.
— Você poderia conseguir muito dinheiro com outros homens. Poderiam te dar tudo, e você
nem precisaria ser refém.
Cerro o olhar na sua direção. Esse homem não me desce.
— James dá o suficiente. Eu sei, mas...
Interrompo.
— Quem iria dar? Você?
Ele sorri sarcasticamente.
— Não! Nem eu quero isso… — Aponta para mim com desdém — Em minha vida. Deus
me livre de um estorvo desses. Eu ficaria satisfeito com uma trepada. Além do mais, você é
insuportável.
— Suas palavras não me atingem. Eu que não iria querer viver com um homem igual a
você.
E o clima fica pesado. Ele, claramente, não gostou da minha resposta.
— Se eu fosse você, tomaria muito cuidado com a língua. Não sou o James para achar tudo
engraçadinho.
Ergo o queixo e o encaro.
— Você está me ameaçando?
Claro que está! Foi uma pergunta retórica.
— Pense como quiser.
Ele pega uma maçã e sai batendo a porta, deixando meu peito pulando de medo.
— Cuidado com ele, Amy. Aliás, com todos os comparsas do James.
Engulo seco. Solto a respiração aliviada.
— Eu odeio esse homem! Odeio!
Dou um soco no balcão com frustração.
— Só se acalme, menina.
Como eu vou me acalmar depois dessa?
Olho pela janela e vejo o portão pequeno aberto, o social. Está na hora do lanche deles, e
o movimento de entra e sai começa a diminuir.
— Não pense nisso. — Julie tenta me alertar, mas algo dentro de mim me empurra. — Eles
vão matar você, Amy!
— Desculpa. Prefiro morrer tentando.
Olho para ela e deixo o prato de lado.
Eu corro enquanto não tem ninguém me observando. Ainda sinto Julie vindo atrás de mim,
mas é tarde demais. Não vou voltar e ficar conformada com essa vida medíocre, e esse acordo
ridículo entre ele e o meu pai.
Paro no portão social e observo ao redor. Não vejo ninguém. Todos eles estão lá dentro? É
muito bom para ser verdade. Saio de uma vez antes que alguém me veja e acabe com a minha festa e
empolgação.
A rua está deserta. Deve passar das oito da noite, já que a vizinhança está com tudo
fechado. Não há ninguém na calçada ou barulho de crianças brincando. O bairro é tranquilo, parece
mais aqueles de filmes de suspense, com tudo escuro e sombrio. A diferença é que as casas daqui são
luxuosas. Fico pensando se todos daqui são desse jeito, assassinos, ou trabalham honestamente. Será
que sabem do James? Se sabem, acho que preferem não dar pitacos. Quem seria louco? Acredito que
saibam, já que onde ele anda, as pessoas saem de perto.
Ando sem rumo, já que nunca vim por aqui e nem sei onde eu posso pedir socorro. Seria
arriscado pedir em uma dessas casas? Com toda a certeza James iria prejudicá-los. Não quero ter o
peso nas costas de saber que fui causadora do sofrimento de alguém.
Depois de alguns metros, já cansada, ainda não vejo movimento. Nenhum telefone público,
ninguém passando, nem mesmo James deve ter sentido minha falta ainda.
De repente vejo uma luz surgindo da rua lateral, e quando aparece mais próximo, noto que
é de uma viatura.
Melhor? Impossível!
Só preciso voltar para casa, pegar minhas coisas, e ir embora para onde ninguém me
encontre. Se for preciso mudo até de nome. Faço tudo só para ter um pouco de paz.
A viatura vem na minha direção e eu paro na frente dela, balançando os braços. Ela para e
um dos policiais desce, andando até onde estou.
— O que aconteceu com você?
Respiro aliviada e começo a chorar. Não sei o porquê, já que nunca choro com tanta
facilidade. Talvez seja de felicidade.
— Eu preciso voltar para a minha casa.
O outro anda até nós, e me olha atentamente.
— Você foi estuprada? — Nego — Tem que primeiramente me contar o que aconteceu.
Enxugo as lágrimas.
— Eu estou sendo mantida em cárcere privado.
— Precisa fazer uma denúncia formal, e aí iremos atrás de quem fez isso com você.
Fecho os olhos e respiro fundo.
— Quem é esse desgraçado? — pergunta, segurando meu braço.
Sei que estou perdida por fazer isso. Provavelmente ele vá querer me matar, mas é por
mim, pela minha segurança. De qualquer forma, não acredito que irei me manter viva ali dentro.
— James Lancaster.
O policial balança a cabeça e o outro vai até a viatura.
— Sabemos quem é. Só preciso que entre no carro e fique tranquila.
Faço o que ele pede, agora, com um alivio no peito. Seguro o braço do policial.
— Obrigada!
Ele me encara e me lança um sorriso amigável.
— Não precisa agradecer.
Alguns minutos se passam e continuamos no mesmo lugar, até que vejo uma luz forte de um
carro na nossa direção. Não enxergo bem de onde estou, mas ele para e alguém desce.
Espero que resolvam isso o mais rápido possível. Se ele vier atrás, é capaz de matar até
mesmo os policiais.
A porta do carro se abre e o policial me puxa pelo braço.
— Aqui está ela!
Sou empurrada para frente, como uma coisa qualquer, e vejo James parado na minha frente
com um olhar intimidador.
— O quê? — Olho para os policiais sem acreditar. Miseráveis! — Vocês deveriam me
proteger! — grito, tentando me afastar, mas James é mais rápido e me segura pelo braço.
— É o que eles estão fazendo, sua estúpida! — James fala, e pelo seu tom, percebo que
está com raiva.
— Proteger? — Solto uma risada sarcástica. — Estão me jogando de volta para um
assassino. — Queria poder socar esse policial de merda. — Se acontecer alguma coisa comigo, eu
irei atrás de vocês dois. Nem que seja no inferno! —Ameaço e eles sorriem.
— Melhor acalmar sua namoradinha, James! — O policial debocha, e sinto vontade de
chutar suas bolas.
— Não se preocupem. Já vou levá-la para casa.
Ele me arrasta até o carro e abre a porta. Não tenho alternativa a não ser obedecer.
Um dos policiais, o mais velho, encosta na janela ao lado do James.
— Tome mais cuidado. Ela pode expor você, e não vai ter mais ninguém para ajudá-lo.
— Obrigado.
Assim, ele sai cantando pneu, e eu ao seu lado, sem poder fazer mais nada, sentindo-me
derrotada e frustrada.
— Coagindo policiais? — pergunto. — O que mais você faz? Ainda vai me surpreender?
Ele fica pensativo, mas quando o carro para no seu jardim, ele olha para mim.
— Talvez sim. Isso depende da maneira como interpretar.
Desço do carro e marcho até a parte de dentro da casa.
Ele não vem atrás, nem me dá sermão.
Bom... Ele que não ache que vou aceitar isso de boa. Amanhã ou depois, se for preciso,
farei tudo de novo.

Caminho pelo jardim enquanto James e seus comparsas estão em uma reunião na sala. Há
quase duas semanas estou morando aqui, presa em uma casa que mais parece uma prisão. Não tenho
contato com ninguém lá fora. Não sei sobre meus pais, Taylor, ou qualquer outra pessoa.
Taylor... Será que ele já sabe? Tomara que não. Não o quero envolvido com isso. Poderia
custar a vida do meu amigo. Sinto um frio na barriga só de imaginar algo de ruim acontecendo com
ele. Melhor que meu pai invente uma boa desculpa e não permita que ele tente algo.
Ando até a Julie, que está limpando a cozinha. Ela não está falando muito comigo, e eu não
tenho ninguém aqui… não alguém que eu goste e o sentimento seja recíproco. O James ainda está
irritado, e os comparsas dele, no máximo, soltam algumas piadas de mau gosto. Eu tento ignorar
todas.
— Olá, Julie! — Sorrio, e ela mal levanta a cabeça para me encarar. — Quer ajuda?
Ela nega com a cabeça.
Observo enquanto ela limpa a bagunça que sobrou da noite anterior. Ela está zangada
comigo pelo que fiz há alguns dias atrás.
Ontem James e os comparsas chegaram tarde. Pelo que notei, estavam todos felizes.
Provavelmente mais uma missão que deu certo. Mais gente morta, e eles contentes com o sangue
derramado. Fizeram uma festa, e pelo que vi da janela do meu quarto, tinham várias mulheres. Ainda
flagrei James com uma seguindo para o quarto. Depois parei de vigiar e fui dormir. Tudo aquilo me
irritou profundamente.
Julie senta na banqueta e começa a cortar verduras, ignorando a minha presença.
— Olha, Julie, eu vivo aqui sozinha, mesmo que a casa esteja abarrotada de homens, afinal
não tenho amigos. Tenho pessoas que me odeiam, e que o máximo que vão querer de mim é a minha
morte. — A mulher ergue o olhar e me encara. — Você não precisa ficar me ignorando. Eu só quero
conversar e ter alguém para fazer companhia. Não mordo.
Ela abre um meio sorriso tímido.
— Eu sou paga para fazer minhas coisas. Comida, limpeza...
Dá de ombros.
— A regra é ser cega, surda e muda. Somente isso. Eu preciso do dinheiro. E depois
daquele dia, pode ser arriscado.
Bufo.
— Eu fugi porque quis. Nem você, e nem ninguém tem culpa nisso. — Ela cerra o
lábio. — E tem mais, não acredito que ele vá se incomodar se ver você conversando comigo.
— Não me incomodarei — Tomo um susto ao ouvir a voz — Contanto que não encha a
cabeça da minha empregada. Ela não é sua funcionária, e não está aqui para ajudar você a achar um
meio de fugir. Por isso a eu pago muito bem.
Olho para a figura do homem que apareceu sem que eu notasse.
— Que diabos! Você sempre tem que aparecer do nada?
James se aproxima, encostando o corpo nas minhas costas, esticando o braço.
— Eu estou na minha casa. Tenho o livre arbítrio de ir e vir.
Sinto meu sangue gelar por ele estar tão perto.
Ele encosta a boca no meu ouvido e aperta a minha cintura. Seu cheiro delicioso me deixa
embriagada e zonza. Sua mão faz meu corpo inteiro sentir uma energia incomum. Fico trêmula e
nervosa com sua proximidade.
— Você pode me dar licença? Preciso pegar alguns copos.
Só aí que eu percebo que estava na frente da prateleira embaixo do balcão.
— Ah! — Balanço a cabeça, me afastando. — Claro!
— Você está muito nervosa, Amy. Precisa respirar um pouco. Seu rosto está vermelho
demais. — Ah merda! — Fiz alguma coisa errada?
Nego, tentando manter a calma.
James sorri e sai da cozinha, voltando a fazer companhia aos amigos.
Desabo em uma das banquetas e respiro fundo. Algo nesse homem me deixa perturbada e
nervosa. Seria o medo, ou a culpa é da sensação que ele causa entre minhas pernas?
— Caramba! Você está bem? — Julie pergunta, me tirando do transe.
— É ele! Ele me deixa assim.
Pego uma maçã e dou uma mordida.
— James pode ser perigoso, mas ele não faria mal a você. Não enquanto não tentar fazer
alguma coisa errada.
Isso deveria me tranquilizar?
— Eu não deveria estar aqui. Eu tinha minha vida normal. —Olho para a senhora que está
atenta me escutando. — Certo, minha vida com meus pais não era perfeita. De qualquer forma, sinto
falta da minha mãe. Tenho medo do que possa acontecer com ela, já que não estou perto para cuidar
dela.
Julie olha para a porta da sala e me encara novamente.
— O que houve para você ter parado aqui?
— Meu pai me colocou em uma mesa de apostas, como se eu fosse um saco de dinheiro.
Ela me olha com espanto.
— Jogou com o Sr. Lancaster? — Concordo. — Tem certeza?
— Absoluta.
Sua expressão é de dúvida.
— Ele nunca joga. Nunca! Odeia esse tipo de vício.
Estranho!
Seu olhar é atento. Ela conversa, mas de olho caso James apareça novamente e escute
nossa conversa.
— E em relação ao seu pai, isso não é coisa que se faça. Apostar a filha? — fala,
inconformada.
— Meu pai era rico, Julie. Era um executivo bem-sucedido, mas a jogatina acabou com
tudo. Ele entrou no vício até perder os bens. Nós tivemos que vender a casa de praia, o carro. Minha
mãe entrou em depressão e vive igual uma alma penada, perambulando dentro de casa, sem vida e
sem perspectiva alguma.
— Sinto muito!
— Ele perdeu tudo, mas não parou. Continuou jogando. Eu imaginava que um dia chegaria
em casa e encontraria minhas coisas na rua, já que ele teria até apostado nosso único bem… a única
coisa que ainda não entrou na mesa de apostas. — Enxugo a lágrima que escorre no canto do meu
olho. — Então, dessa vez ele passou de todos os limites e me entregou ao James. E aqui estou. Sou
refém de um homem que mata a sangue frio, e que a qualquer momento pode perder a cabeça e me
matar também.
Julie me lança um sorriso reconfortante.
— Não é para tanto. Se James fez isso, deve ter algum motivo muito especial. Ele não joga,
e muito menos traz mulheres para morar com ele.
Ela dá duas batidinhas na minha mão e continua a fazer suas coisas.
Agora eu fiquei mais confusa do que antes.
Nesses dias que ainda tenho por aqui, até conseguir uma brecha para fugir novamente, vou
precisar me distrair com algo. Acho que a qualquer momento vou surtar. Nunca fui presa, meus pais
nunca me impediram de sair, e agora estou limitada dentro dessa casa. Os dias são sempre os
mesmos, vendo James e os outros conversando sobre a próxima missão, sobre coisas que eu nunca
consigo escutar, e na cozinha com a Julie. Ela é a única que ainda fala direito comigo.
Depois de um bom tempo conversando, levanto e vou trocar de roupa. O movimento hoje
está fraco. Acredito que os comparsas dele estejam em alguma missão sem o James, então vou
aproveitar a privacidade e experimentar a piscina. Acabo escolhendo um biquíni vermelho, que
quase não usei, pois dificilmente ia à praia. Das vezes que fui, foi o Taylor quem me levou.
Sinto tanta falta daquele bastardo!
Desço e vou até o deck pela cozinha, evitando chamar atenção dos dois homens que estão
no portão. Jogo o roupão na cadeira e pulo na água gelada, sentindo meus músculos tremerem.
Sozinha e mais calma, nado sem preocupações. Pelo menos estou me exercitando, e isso já vai tirar
um pouco do meu estresse.
Saio da água e arrasto a cadeira até onde o sol está batendo. Observo ao redor, e como não
vejo mais ninguém, deito, tentando ter um dia como o de qualquer garota da minha idade. Deixo o sol
queimar minha pele enquanto relaxo, contemplando o silêncio e a paz.
Escuto um barulho que me faz despertar de um cochilo. Procuro ao redor e não vejo
ninguém. Quando olho para cima, na janela do quarto de hóspedes, vejo James.
Meu corpo arrepia, meus pulmões parecem parar, e meu coração dispara.
Ele me observa com um olhar quente e com luxúria. Mesmo quando percebe que foi
flagrado, continua me encarando como se fosse me devorar com os olhos.
Seu maxilar cerra e meus mamilos endurecem sob o biquíni.
Mas quando ele me lança um meio sorriso, daqueles que homens cafajestes dão, sinto que a
reação que ele causou entre as minhas pernas é uma que sequer ousei sentir na vida.
O que esse homem está fazendo comigo?
Capítulo 6

Dezessete anos atrás…

James

Sou arrastado do quarto escuro até o meio do galpão. Meus olhos ardem com a
claridade.
— Levanta, moleque!
Sinto vontade de vomitar quando levo um chute pesado na minha barriga. Oliver chora,
sentado no colo do Jason.
— Se você não colaborar, eu vou matar você. E seu irmão… bom, vai ficar sozinho no
mundo.
Ergo o olhar e vejo meu irmão, que está triste. Ele é tão criança ainda. Eu sei, eu só
tenho quatorze anos e meu irmão dez, mas ele sempre foi tão mimado e bem cuidado. Se ficar
sozinho vão acabar com ele.
— Se bem que ele pode ser muito bem aproveitado no exterior.
Devagar, eu me levanto. Estou com a barriga doendo do chute e de fome.
— O que quer? — pergunto, limpando meus joelhos.
Jason coloca meu irmão sentado numa cadeira e levanta, vindo à minha direção.
— Quero que trabalhe comigo. — ele anda ao meu redor.
— Não! Não sou bandido igual a você!
Jason para na minha frente, levanta a mão e bate no meu rosto com tanta força que caio
no chão, sentindo a cabeça bater no piso.
— Você não tem nenhum direito de falar qualquer coisa comigo, seu moleque! — Ele
puxa minha camisa, forçando que eu fique de pé. — Vai fazer o que eu mando, ou então vou fazer
coisas com seu irmão, e você irá assistir tudo! Aí irá se arrepender de ter negado ajuda.
Eu entendo bem o que ele quer dizer com “fazer coisas com meu irmão”. Minha mãe
sempre conversou comigo para não confiar em estranhos. Eles fazem coisas que não devem, e
deixam marcas para o resto da vida.
— Eu ajudo! — falo, ajeitando minha roupa e enxugando as lágrimas.
— Muito bem! — Jason sorri.
— Mas tem que cuidar do meu irmão. Não o quero aqui. Não o quero nisso.
Oliver chora, vem correndo até onde estou e me abraça.
— Eu quero ficar com você.
Passo a mão na sua cabeça.
— É melhor ir embora. Eu serei forte por nós dois.
Meu pai sempre disse que eu seria o protetor do meu irmão caso acontecesse algo. E é
isso que eu serei.
— Leve-o daqui, Connor! — Jason grita para um dos homens, que arrasta Oliver para
fora do galpão.
Ele chora, grita, esperneia, mas eu fico quieto, sofrendo também por não poder fazer
nada.
A porta se fecha, e eu já não escuto mais o meu irmão.
Passam dias, e eu continuo sendo treinado pelos comparsas do Jason. Eles me ensinam a
atirar, socar, lutar como um homem. Meu irmão está vivendo bem, na casa maior, com a família do
Jason. Estão querendo levá-lo para a Itália para ele estudar fora.
Um deles já me perguntou se eu não sinto inveja do meu irmão pela mordomia. Se eu
disser que não queria estar longe daqui, estaria mentindo; mas quero meu irmão bem. Isso basta.
— Levanta! — Tommy soca mais uma vez o meu rosto. Ele é mais forte do que eu, mas
temos a mesma idade. Disse que veio para cá ano passado, foi treinado, e já faz missões junto com
o Jason… missões mais leves, e que precisam de garotos novos. Ele tem vários dessa idade, e os
que não conseguem acompanhar o ritmo vão para o México, para o trabalho sujo. Ele não disse
como, mas Tommy me contou que é para trabalhar vendendo o corpo.
Recebo outro soco no nariz e choro.
Jason vem até onde estou e ergue meu queixo.
— Engole o choro! — Não consigo. Tento, mas não consigo. Dói muito. — Homem não
chora, seu moleque!
Aliso meu rosto enxugando as lágrimas.
— Vamos lá!
Ele me empurra e caio no chão.
— Um homem não pode derramar uma lágrima. Eu vou ensinar você a ser forte. Pega as
navalhas para mim, Tommy. — Jason ordena e o menino faz sem reclamar, mesmo com o olhar
cheio de pena. Sou colocado na cadeira e amarrado.
— O que vai fazer?
Ele sorri.
— Vou fazer você sentir dor sem derramar uma lágrima sequer.
Quando ele passa a ponta no meu antebraço, grito.
O sangue aparece, e eu tento me controlar.
Não vou chorar.
Não vou!

Dias atuais...

Vasculho a caixa de fotos no armário do quarto de hóspedes. Sento na cama e seguro uma
que tenho com a minha mãe. Eu consegui recuperar essas fotos quando voltei à minha casa, quatro
anos depois da sua morte. Seu sorriso era tão bonito. Ninguém imaginaria que uma mulher tão
generosa e amorosa teria um fim trágico. Ainda dói. Tudo na minha alma dói por causa do que
aconteceu. Podem ter passado décadas, mas jamais irei esquecer aquilo. Seu rosto imóvel, o buraco
na testa, o sangue pelo chão. É por ela que eu ainda irei atrás do Jason. É por ela que ainda continuo
com o sangue fervendo nas veias por vingança.
A diferença agora é que meu foco principal não é o Jason, e sim o Lion Holding. Eu
preciso encontrar esse miserável antes que aconteça alguma merda. É da cabeça desse filho da mãe
que eu preciso.
Guardo a caixa e pego meu celular que vibra no bolso. É o Tommy.
— Alguma novidade? — pergunto, ansioso por uma resposta positiva.
— Nada. Esse verme do Lion se esconde muito bem.
Merda!
— Quem contratou a missão para matar o Lion?
Tommy tem ficado curioso nesses últimos dias.
— Eu.
— O quê? Você já tem inúmeras pessoas para dar lições ou matar, além do Jason, e agora
arrumou o Lion? Qual seu problema? — resmunga do outro lado da linha.
— Eu só preciso matar esse bastardo, Tommy. Ele trabalha com coisas ilícitas.
— Então estamos no mesmo barco, camarada!
Passo a mão pelo rosto.
— É diferente!
— Tudo bem, você não quer contar, entendi. Vá lá ficar vigiando sua garota marrenta que
eu irei continuar buscando informações.
Antes que eu possa responder, Tommy desliga.
Penso nela e em tudo que está acontecendo. Penso na paz que ela está sugando da minha
vida, algo que desde que ela chegou aqui, eu não tenho mais. Sei que na minha vida existe tudo,
menos esse sentimento de calmaria e tranquilidade, já que sempre estou matando ou distribuído socos
e pontapés. Falo daquela paz no coração, que livra você de cair em tentação. Nunca fui homem de me
relacionar seriamente, sequer namorei na vida, afinal não seria egoísta de colocar uma mulher nessa
minha vida de merda. Quando era adolescente ainda me apaixonei por uma garota da minha escola,
coisa de menino. Eu até dei um beijo nela na época. Um beijo inocente e sem segundas intenções. Só
que Amy me faz sentir de forma diferente. Algo que bagunça até mesmo meu instinto sexual.
Sempre tenho mulheres disponíveis. Os meus parceiros sempre conseguem algumas para
acalmar nossos ânimos depois de uma missão, que vêm e nos dão o que queremos. Eu as respeito
acima de qualquer coisa, nunca tratei uma mulher mal, nunca fui um babaca. As mulheres que me
procuram sabem que estamos atrás de sexo, e se entregam por prazer e luxúria. Algumas são
prostitutas, outras são estudantes universitárias. Tenho minhas limitações, não me deito com
adolescentes, e muito menos forço alguém. Quem já deitou comigo foi por livre e espontânea
vontade. Elas curtem o sexo selvagem e pervertido; aceitam transar com uma, duas mulheres, ou com
mais de um homem. Dessas fantasias comuns eu já realizei todas. A verdade é que a única que
ultimamente tem abalado minha alma é Amy. Fantasio em beijar sua boca e pressioná-la contra o meu
corpo. Esse inferno que tem deixado meu corpo louco de desejo.
Bebo mais um gole do meu uísque e boto o copo na mesa de livros. Olho pela janela, e o
barulho da água chama minha atenção.
É a Amy. Por Deus... Está de biquíni e saindo da piscina, com o corpo tentadoramente
molhado e os cabelos grudados nas costas. Consigo observar cada detalhe das suas curvas. Respiro
fundo e percebo minha ereção marcando a calça jeans.
Amy arrasta a cadeira até o sol e se deita. Observo atentamente todos os detalhes do seu
corpo e rosto. Quero memorizar tudo, ter uma boa lembrança quando ela for embora.
Não resisto, e como um gesto involuntário, abro minha calça.
Eu não acredito que irei fazer isso.
Viro de costas para a janela, me apoiando na parede, livrando minha ereção.
Fecho os olhos e consigo enxergá-la nitidamente em minha mente. Nesse momento, seguro
meu pau e, devagar, faço movimentos, tentando libertar a tensão que corrói minhas veias. Encosto a
cabeça na parede, e meus pensamentos vão fluindo com a excitação, pelo desejo de tê-la na minha
cama.
Amy está de joelhos, com seu olhar quente e selvagem, completamente nua e de cabelos
soltos. Sua mão pequena segura meu pau. Peço que passe a língua na ponta e vá descendo pela
base, e ela obedece. Lentamente, sua boca vai se fechando ao redor dele, e eu seguro seus cabelos
com minha mão. Amy desce seus dedos entre os seios, tocando o mamilo duro, me deixando sem ar.
Seus olhos não deixam os meus e sinto uma conexão incomum. Sinto minhas pernas tremerem ao
ponto de pedir para que pare, pois quero vê-la de quatro na cama; e é exatamente isso que faz.
Amy se exibe para mim, deixando-me curioso para ver cada detalhe. Ando até ela e seguro seu
quadril, penetrando minha ereção entre suas pernas, sentindo meu pau ser sugado por sua
abertura quente e encharcada. Amy geme meu nome, e eu sussurro palavras obscenas no seu
ouvido enquanto continuo estocando devagar. Meu grunhido sai rouco, e eu estou prestes a
despejar meu gozo dentro dela. Levo minha mão até sua boceta, massageio seu clitóris, e ela
contorce, rebolando seu quadril contra mim. No ritmo louco e incessante, ela fala um palavrão,
depois se desmancha em um orgasmo, deixando sua cabeça encostar-se ao colchão. Por vê-la
assim, e por estar dentro dela, logo eu gozo, empurrando tudo na sua boceta, que recebe-me,
apertada e deliciosamente. Beijo sua nuca e deito meu corpo por cima do seu.
Quando dou por mim, estou com as mãos meladas com meu gozo e a respiração
entrecortada.
Volto à janela, mas quando abro, acabo fazendo barulho. Nesse mesmo momento ela abre
os olhos e procura pelo som. Não demora e me vê com seus belos olhos arregalados.
Não resisto e sorrio vendo seu rosto assustado e lembrando os meus pensamentos
pervertidos. Lembrando que minhas mãos meladas e meu pau ainda em êxtase é por causa dela.
Você está fazendo isso comigo, garota!
Amy levanta de uma vez, nervosa e desconcertada, e pega seu roupão, vestindo e entrando
na casa para fugir do meu olhar. Já eu tento me recompor, então vou ao banheiro e me lavo.
Eu tenho que me controlar. Não sou um maldito garoto no ápice da puberdade!
À noite vasculho meu notebook sobre todas as informações que tenho sobre o Ruiz, o
mesmo que trabalhava para o Jason, e de quem eu tenho o notebook há alguns meses, desde que
Julian conseguiu roubá-lo.
Não adianta. Eu posso ser bom em muitas coisas, mas computadores não são meu forte.
Lembro-me da Amy. Ela é boa nisso. Descobri há alguns meses, enquanto colhia algumas
informações sobre ela. O instrutor da academia me falou. Claro que eu não a trouxe por isso, mas de
qualquer forma, é de grande utilidade.
Levanto e ando até o seu quarto. Dou uma leve batida na porta, e ela me manda entrar.
Ela está com uma calça de malha e uma camisa longa, que cobre até seu quadril. Seus
cabelos soltos e caídos sobre os ombros dão um ar selvagem.
— Eu preciso que você invada uma conta bancária para mim. Quero saber todas as
movimentações.
Não peço, acabo ordenando, fazendo suas sobrancelhas arquearem.
— O que eu ganho em troca?
Abro a boca, sem acreditar no que ouvi.
— O que você ganha? — Ela assente com um leve movimento, e eu me aproximo, podendo
sentir seu cheiro. — A minha paciência, que já está curta. Pare de agir de maneira irresponsável e
faça o que eu estou mandando.
Entrego o aparelho e em seguida os dados do Ruiz. Ela olha, desconfiada.
— Isso pode levar um tempo. — fala, enquanto espero de pé.
— Não tem problema. Eu ficarei aqui. Gosto de olhar você com raiva.
Ela solta um grunhido, ciente que não será fácil de me levar na lábia. Eu sei bem o que ela
quer: uma maneira de pedir ajuda a alguém.
Sento ao seu lado e tenho o prazer de sentir o seu aroma. Ela é cheirosa. Tem um cheiro
sensual, erótico. É impossível não ficar ansioso ao seu lado. Tudo me consome, principalmente o
desejo de possuí-la.
Noto seus dedos trêmulos batendo nas teclas. Sua respiração está rápida. Seria por desejo
ou medo por estar perto de mim? Não me espantaria com a segunda opção, apesar de perceber que
ela bate de frente comigo sem receios. E eu gosto disso. Gosto de ver como ela é tão dona de si.
A página abre e mostra todos os movimentos do homem, gastos e hotéis que o mesmo se
hospedou.
— Pronto! — entrega o aparelho sem olhar para mim.
— Muito bem. Qualquer coisa eu chamarei.
Assim, eu saio sem dar chance à voz que grita na minha mente.
Volto para o meu quarto e salvo todas as informações. Preciso ir atrás do Ruiz, mesmo que
o Jason não seja a prioridade do momento. Só preciso pegar aquele merda. Assim, os meus ombros
se livrariam de mais um peso.
Quando ando até a janela, vejo Amy, já calçada, correndo até o carro do Tommy. Balanço a
cabeça, sem acreditar no que estou vendo. Procuro pelos meus parceiros e não os vejo. Dave e Brian
estão do lado de fora, alguns estão numa missão, e os outros devem estar dentro da casa. Todos
sabem que ela não pode passar do portão, e os dois lá fora já foram avisados.
Jogo o notebook na cama e desço em passos largos, pegando a chave e indo até o carro.
Entro e dou partida, dando sinal para os dois no portão.
Meus dedos apertam forte no volante. Respiro fundo e tento controlar minha raiva, porque
eu sei que ela está desesperada. Sei que só quer ir embora, já que está aqui contra a sua vontade.
Dou a volta na rua e entro em casa novamente. Desço, ainda mais nervoso que antes, e
ando até o porta-malas. Estou impaciente e com raiva. Queria apertar aquele pescoço. Abro, e Amy
fica surpresa ao me ver. Ela lança um meio sorriso de culpa.
— Saia desse carro! — Fuzilo com meu olhar a garota que tem me deixado louco nesses
últimos dias. Ela sai do carro. Desconfiada, ela me encara. — Você até me ofende fazendo uma tolice
dessas. — falo, demonstrando minha decepção. — Achou que eu fosse burro? — Ela permanece
calada. — Responde, Amy!
Elevo meu tom de voz e percebo que ela se assusta, dando um passo para trás.
— Me deixa ir embora? — Suplica — Eu não posso ficar aqui. Eu não pertenço a isso.
— Você vai ficar aqui, querendo ou não. — Cerro os dentes. — Achava que eu não iria ver
você se escondendo dentro do carro? Achava que eu seria tolo em deixar você assim? Solta e livre
perambulando pela minha casa, logo depois da sua tentativa passada? — Aproximo-me, quase
encostando o rosto no dela. — Nunca se esqueça de um pequeno detalhe: aqui sempre terá alguém
vigiando você. Não tente bancar a esperta.
— Eu preciso ver minha mãe, James. Eu não posso ficar aqui parada, sem fazer nada,
enquanto ela pode estar lá tentando se matar. — Sorrio, passando a mão pelo cabelo e me sentindo
derrotado. — Eu a amo, apesar de tudo. Esse meu desespero, minha tolice, tudo é por causa da minha
preocupação. — Ela segura minha jaqueta e se aproxima. — Faça tudo o que quiser comigo, mas me
permita saber como ela está. Aí eu prometo que eu não cometo nenhuma idiotice.
— Eu não iria te falar nada. Não por enquanto.
Seus olhos arregalam.
— O que aconteceu com ela?
— Nada de ruim. Ela está em uma clínica de reabilitação. E é bom que você continue
sendo uma boa menina, ou então eu não darei mais um centavo para que ela tenha o melhor
tratamento.
Eu fiz isso por ela, e também pela mãe, que sofreu, e ainda sofre com tudo.
— Usar minha mãe para me chantagear é demais. É golpe baixo!
Sua voz sai fraca.
— Eu não estou chantageando; tanto que eu poderia ter dito antes, mas preferi esconder
isso de você. — Ela olha para mim como se estivesse buscando algo a mais. — Há dois dias alguns
enfermeiros foram buscá-la. Ela está sendo bem tratada. E seu pai… Bom, eu estou tentando mantê-lo
bem, mas espero que ele se controle e pare de jogar.
Aproximo-me mais um pouco.
— Bem que você gostou de jogar contra ele.
— Foi um bom acordo. — Ironizo, cerrando o olhar pelo seu corpo. — Espero que não
tente mais fugir, porque você não irá gostar das consequências. Eu estou farto dessas suas atitudes
infantis. Isso não condiz com sua idade e sua personalidade.
— Eu só estou desesperada. Eu já falei! — Sua voz sai quase como um sussurro.
— Desesperada ou não, é melhor que se mantenha dentro de casa. Você não sabe o que te
espera lá fora, Amy. Então, aceite que aqui é o melhor lugar para você ficar. — falo e me afasto. Ela
permanece no mesmo lugar.
A mãe dela precisava de um bom tratamento. Ela não pode acabar com a vida se entupindo
de medicamentos. Ela tem uma filha e um marido que a amam. Amy também não faz ideia do quanto
tem sorte.
O portão se abre e um carro entra, chamando minha atenção. É uma Ferrari vermelha.
Coloco as mãos no quadril, observando a pessoa entrar.
Não acredito nisso!
O homem bem vestido desce, indo até a Amy com um enorme sorriso no rosto.
— Uau... Temos novos habitantes na casa? E por sinal, uma bela mulher.
Amy parece confusa e assustada, mas logo pergunta.
— Quem é você?
Ele pega no queixo dela e sorri.
— Alguém que irá alegrar seus próximos dias, docinho.
Sem que ela possa impedir, ele pega sua mão e leva aos lábios. Amy dá um sopapo,
puxando a mão para longe do alcance dele. Nervoso, ando até os dois, tentando me controlar.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto e recebo um sorriso irônico de volta.
— Que bela maneira de me receber, irmãozinho!
Tomo todo o ar e percebo que minha vida vai se tornar ainda mais movimentada com o meu
irmão por perto.
Eu o amo, mas se ele atrapalhar minha vida, ou se meter com a Amy, eu chuto sua bunda
daqui.

Oliver

Ficar próximo ao meu irmão é tudo o que mais tento fazer na minha vida nesses últimos
anos. Sei que ele tem a vida dele, mas é minha única família. Sou independente, feliz e realizado,
mas o James é a única pessoa que tenho de verdade. Ele é sangue do meu sangue. Ele pode ser turrão,
difícil de conviver, mas mesmo assim eu sempre estarei por perto, por mais que ele tenha a terrível
mania de me escorraçar da casa e da vida dele.
Quando fui morar na Itália, tive que me separar do James. Foi difícil, eu ainda era uma
criança. Perdi totalmente o contato com o meu irmão, e passei mais de quatro anos sem ter ideia da
situação dele, se estava vivo ou já tinha morrido. Quando voltei, estava passando férias com meus
pais adotivos, e a primeira coisa que fiz foi vasculhar a cidade de ponta à cabeça, à procura dele.
Foram semanas de buscas, até que descobri que ele estava trabalhando para um mafioso que não era
mais o Jason. Aquele verme já tinha sumido do mapa.
Lembro que o James estava mudado, mais forte e mais sério. Passamos um bom tempo
conversando, até que ele me avisou que eu deveria manter distância dele. Um assassino poderia
prejudicar sua vida. Eu aceitei, por alguns meses.
E é exatamente assim desde então. Eu passo alguns meses na Itália, e depois volto para
visitar o meu irmão. Agora que ele trabalha por conta própria, fica mais fácil. Mesmo sendo chutado
para longe da sua vida, eu sempre volto, porque sei que isso tudo é uma casca. No final das contas,
modéstia à parte, sei que ele ama quando eu estou por perto.
— Estou satisfeito por saber que dessa vez eu tenho um incentivo a mais para ficar. —
provoco, deixando James irritado.
— Estou ocupado, Oliver. Não tenho tempo para suas aventuras.
Olho para o meu irmão.
— Quem disse que eu preciso de você? — Volto a olhar a garota, que não parece nada
contente a me ver. — Já de você, docinho... — pego na mecha do seu cabelo, e ela se afasta. —
Gosto dessas irritadinhas. — Pisco o olho, e ela bufa.
— Nem pense nisso, Oliver!
Com a voz ameaçadora do meu irmão, eu começo a perceber algo. Percebo que alguém
está conseguindo entrar nesse coração de pedra.
— Você não faz ideia do que eu estou pensando, James!
Sorrio, mesmo sabendo que é minha cabeça que está em perigo nesse momento.
A minha estadia nessa casa vai ser melhor do que eu imaginava.
Capítulo 7

Amy

Observo os dois homens discutindo. James é mais bonito que o irmão, mas por ser sério,
ele tem um ar mais pesado. Oliver não, é mais sorridente e tem um jeito livre. Os dois não são
parecidos nem fisicamente. Enquanto James é loiro, o irmão já tem um cabelo castanho escuro. Mas
de qualquer forma, os dois são bem charmosos.
Eu fico de braços cruzados, esperando eles terminarem. Aquela seria uma boa hora de sair
de perto e ficar trancada no meu quarto depois da minha segunda tentativa frustrada de fugir.
Também pudera, eu fui uma imbecil. De onde tirei a ideia de me esconder no porta-malas?
Só pode ser culpa do desespero mesmo.
Burra!
Pelo menos agora eu sei que a minha mãe está protegida e saudável, e isso é o que importa.
James fez isso por ela e por mim. É impossível não parar e pensar. No fundo ele não deve ser tão
ruim assim. E essa possibilidade faz meu coração bater forte.
— Você enrolou, mas ainda não falou o que veio fazer aqui. — James coloca as mãos nos
bolsos da calça jeans.
— Vim passar alguns meses na sua casa. Estou de férias. Você sabe o quanto amo esse
lugar.
O homem gargalha, mas o irmão permanece sério.
— Aqui não é hotel, Oliver. Estou ocupado demais para ficar bancando o babá.
— Eu já entendi o motivo de estar tão ocupado. — O olhar dele desce para o meu corpo e
me deixa incomodada.
— Amy, nos dê licença. — A voz do James é firme, e o que me resta é obedecer, mesmo
relutante.
Se minha vida já estava complicada com um, nem quero saber como será daqui para frente
com dois. Eu sequer imaginava que James tivesse um irmão; principalmente um assim, tão descarado.
Entro na cozinha, e solto a respiração que parecia presa desde a hora que fui descoberta
dentro do carro. Bebo um copo de água e relaxo um pouco.
— Você é uma tola! — Julie fala em um tom ríspido, me deixando surpresa.
— O quê?
— Ora! Fugir daquela maneira. James está sempre de olho em você, nem que seja através
dos outros. Ele não vai mais dar brecha depois da última vez. Não tente mais algo estúpido.
Dou de ombros.
— Eu só estou ficando maluca por estar presa.
— Pois não fique. Venha me ajudar, se quiser. — Ela me entrega algumas verduras e a faca.
O único jeito é procurar me distrair.
— E de qualquer forma, eu não vou mais fazer isso. Ele está ajudando a minha mãe.
Julie me lança um sorriso reconfortante.
Enquanto corto, vou pensando nos meus pais. Queria ter direito ao menos uma ligação.
Pelo menos a minha mãe está sendo bem cuidada. Ele está fazendo algo que, por enquanto, eu não
poderia pagar. Ela vai viver e vai recomeçar. Vai ficar tudo bem.
Respiro aliviada e tento pensar positivo.
— Cadê a melhor cozinheira do mundo? — Oliver entra na cozinha e agarra Julie pela
cintura, deixando a mulher sem graça. Ela se desvencilha, e Oliver senta ao meu lado.
— Você sabia que ela tem a melhor na culinária brasileira? — Olho para ela, esperando
uma resposta. — Ela é de família brasileira, docinho. Faz as melhores comidas. Até mesmo melhores
do que comi no próprio país. Julie sorri orgulhosa. — Amy... — meu nome sai da sua boca em um
tom doce — Algo me diz que minha estadia será perfeita. — Ignoro seu comentário e continuo a
cortar as verduras. — Fico me perguntando como meu irmão conseguiu uma garota tão linda.
Reviro os olhos.
— O que quer? Eu não vou dar para você.
Ele gargalha.
— Ah não! Não por enquanto, até porque meu irmão me mataria no exato momento que
soubesse. Mas não se preocupe, não agora. Eu sou um homem paciente.
Julie só nos observa.
— Julie deveria fazer aquele pão de queijo que só você sabe. Amy irá adorar.
— Eu farei qualquer dia desses.
Oliver continua me encarando, e eu fico tentando não olhar de volta.
— Você não me disse o que está fazendo aqui. Meu irmão não gosta de pessoas de fora na
casa dele. — Ignoro. — Você deve ser das boas.
Viro-me para ele.
— Você não tem nada melhor para fazer?
Ele nega.
— Tem algo melhor do que ficar aqui, olhando você?
Continuo meu trabalho e jogo tudo na panela como Julie pede. Refogo as verduras no azeite
enquanto Oliver permanece sentado na banqueta.
Fico aliviada quando James grita pelo irmão.
Se já estava difícil ficar longe de um que é trancado e na dele, imagino como será aguentar
o irmão, que é invasivo e fica em cima de mim.
Depois do almoço, consigo ficar em uma parte mais isolada do jardim, e observo James
conversar com dois dos seus companheiros. Eles discutem sobre o tal Ruiz, que está escondido, e
eles não conseguem encontrar. A curiosidade está martelando na minha cabeça. Eu só queria saber
quem é esse pobre coitado que precisa fugir para não ser pego pelo James. A única coisa que sei que
é o homem que invadi o notebook, e acessei o e-mail e a conta bancária.
Entediada, levanto assim que eles encerram a discussão. Eles bebem ao redor da mesa à
beira da piscina. Olho para o James.
— Eu preciso de alguma coisa para me distrair.
Eles me encaram.
— O que você sugere? Quer dar uma volta comigo? — Damon me provoca com seu meio
sorriso sarcástico. — Ou quer ir lá em cima me mostrar seu quarto? — Ele sorri e James bate na
mesa, causando um estrondo e deixando todos assustados.
— Cale a merda da sua boca, Damon!
O homem arregala os olhos.
— Qual o problema? É só uma boceta! — Gargalha, sem ser acompanhado pelos
companheiros.
James pega o homem pelo colarinho.
— O problema é que não permito esse tipo de brincadeira com ela, entendeu?
Ele concorda, logo sendo jogado de volta na cadeira.
— E você… — Aponta na minha direção — Venha comigo.
James anda em direção à parte de dentro da casa, e eu acompanho, ouvindo burburinho dos
homens. Algo dentro de mim me diz que terei problemas com esses caras.
Paramos na sala, ele olha para mim.
— O que quer? — pergunta, impaciente.
— Alguns livros, pelo menos. Estou sem fazer nada e vou enlouquecer. Um saco de
pancadas também não seria nada mal.
Ele bufa.
— Tudo bem. Faça uma lista e eu mandarei alguém comprar... Os livros. Depois
encomendo o saco de pancadas.
Agradeço e sinto vontade de abraçá-lo, mas me contenho.
Antes que eu possa falar mais alguma coisa, ele sai e me deixa plantada na sala.
Sorrio e cantarolo enquanto começo a escrever num pedaço de papel os títulos dos livros
que quero ler. Volto para o lado de fora e entrego a ele, que não se dar o trabalho de me olhar.
Tem uma coisa que eu não entendo. Fui obrigada a morar aqui com ele, com o pretexto de
que ele precisa de um hacker e de uma parceira. Bom, eu posso ser tudo, menos idiota. Ele poderia
contratar qualquer outra pessoa que fizesse isso sem ser forçada. Outra, ele não me quer como
mulher, não quer me levar para a cama, nem dar a entender nada relacionado a isso. Apenas quando
se aproxima que consigo notar uma tensão, nada mais. Então... O que ele quer comigo afinal?
Por que logo eu?
Isso vai ser o mais difícil de decifrar.
Na hora do jantar, Julie me chama no quarto, já que estou distraída lendo um livro que
recebi no final da tarde, um dos de minha pequena lista; que por sinal foi entregue e ele sequer veio
deixar pessoalmente. Julie o fez.
Desço e entro na sala de jantar. Sinto alívio — em partes — por ver que os comparsas dele
não estão para o jantar; mas em compensação, o irmão e ele estão. Não sei o que é pior.
Sento na frente do Oliver e ao lado do James, que está na ponta da mesa de vidro. Tudo
está exageradamente farto. Muita salada, carne, arroz e alguns acompanhamentos. Em silêncio,
começo a me servir.
Como enquanto sinto os olhares dos dois em cima de mim.
— Está gostando, docinho? — Levanto o olhar para o Oliver, já demonstrando o total
desconforto com esse apelido.
— Meu nome é Amy.
— Eu sei, mas prefiro docinho.
Bufo, e James troca um olhar com o irmão.
— Eu estou pensando em comprar uma casa por aqui. Ou ,se quiser, posso morar aqui com
você.
Oliver fala, e o irmão o encara sem acreditar.
— Você vive bem na Itália, não?
Ele concorda.
— Vivo sim, mas aqui me parece ser bem mais interessante. Ganhei um bom dinheiro e
posso comprar uma casa sem precisar mexer na minha conta.
Bebo um pouco do suco e olho para o Oliver.
— Vai me dizer que você também ganha dinheiro com sangue de inocentes?
Ele sorri.
— Não, docinho. — Espero que ele fale. — Eu vendo arte falsificada. Eu pego uma tela
original e faço a cópia. Nem todo mundo entende, e acaba comprando por ter a ambição de querer
uma tela de Picasso na parede de casa.
— Então ser bandido é mal de família?
Os dois me encaram.
— Ela é bem afiada, James. Onde você achou? — Recebo um meio sorriso do Oliver. —
Gostei dessa garota. Você não se incomodaria se...
James interrompe.
— Não! — Sua voz é firme.
— Ah! Você nunca se incomodou.
Aperto o garfo com força.
— Você está implorando para que eu chute a sua bunda daqui.
Oliver gargalha e continua a comer. Tento conter uma risada.
Percebo que durante o restante do jantar, James fica incomodado com as investidas do
irmão.
Bom... Não seria nada mal ter uma ajuda do Oliver. Não tenho obrigação de ir para a cama
com ele, mas pelo menos teria com quem me distrair.
O jantar termina, e Oliver se tranca no escritório para fazer uma ligação, e eu fico sozinha
com James. Ando até a sala e ele me acompanha.
— Você precisa de mais alguma coisa?
Quando ele é assim, gentil, eu percebo que posso ficar bem por aqui.
— Não. Eu só...
Encaro o seus olhos e boca. Acabo me perdendo.
— Gostou dos livros? — Sou incapaz de falar, então só balanço a cabeça. James se
aproxima, e não consigo tirar os pés do chão. Fico totalmente sem reação. Minha respiração fica
ruim, e eu tento me controlar. — Você pode ficar à vontade. Não precisa se trancafiar no quarto. E
claro, não tentar fugir de novo. — ele gargalha. Meu Deus!
Pela primeira vez ele sorri descontraidamente.
— Qual a graça? — pergunto.
— Sua tentativa de fugir. Aquilo foi ridículo. Achei que fosse mais esperta. Pensei que iria
pegar a chave do carro e sair de uma vez.
— Eu estava desesperada, não pensei nas consequências.
— Eu não farei nenhum mal a você, não precisa se desesperar.
Ele pega uma mecha do meu cabelo e coloca atrás da minha orelha. Seu dedo acaricia
minha bochecha. Meu coração dispara e meu corpo amolece. Que merda é essa? Como se eu tivesse
causado um choque, ele se afasta de uma vez.
— Tenho que ir. Não esqueça que tenho homens de olho em você.
James vira para sair, mas eu puxo seu braço e me aproximo.
Não sei ao certo o que dá em mim, mas em um impulso, eu agarro seu pescoço e o beijo.
Sinto os seus lábios macios e sua barba roçar no meu queixo. Ele não corresponde de imediato, então
paro... paro porque estou ficando maluca por beijar um assassino e me mostrar vulnerável. Mas antes
de me afastar, James reage, segura minha nuca e me dá um beijo voraz. Permito que sua língua entre
na minha boca, deslizando contra a minha, que está ávida por mais.
Nunca imaginei que fosse desejar alguém tão ardentemente. Ele é um assassino, perverso,
mau, mas eu quero isso. Estou gostando e me entrego ao beijo tão devasso e erótico.
A mão quente do James entra na parte de trás da minha blusa, acariciando minhas costas. Já
minhas mãos descem pela barra da sua camisa, explorando sua barriga sarada.
— Amy... — sua voz rouca ecoa entre nossos lábios. — Você não vai querer se enfiar
nisso.
Sinto um puxão no meu cabelo, perto da nuca, me deixando zonza.
James me beija novamente. Eu não fecho os olhos, e observo seu rosto e sua testa franzida.
Seu desejo que consumirá sua alma.
Lentamente, ele vai parando, se distanciando, e me deixando carente de mais beijos e desse
fogo que ele acendeu.
— Você não merece isso. — ele fala e sai, me deixando petrificada no meio da sala, sem
entender o que acabou de acontecer.
O que eu acabei de fazer?
É... Definitivamente, eu não estou com meu juízo perfeito.
Capítulo 8

James

Ela é o que eu nunca pude chegar perto. Minha vida sempre foi um lixo. Eu nunca seria
digno dela. Nunca. Bastava observá-la para que eu ficasse satisfeito. Mas chegou o dia e a
oportunidade de salvá-la, e eu o fiz. Fiz sem pensar nas consequências, e fiz porque acabei deixando
algo aqui dentro falar mais alto. Agora ela está lá, dentro da minha casa, vivendo como uma
prisioneira, querendo ir para longe. Mas eu não posso permitir. Eu não vou deixá-la ir embora. Não
agora, pelo menos.
Depois que percebi a forma como estava quase me deixando levar pelo sentimento, eu me
afastei. Só que Amy me beijou… e eu sei, sei que deveria ter me afastado, mas não consegui. Eu a
desejo como nunca ousei desejar outra mulher. Aquele beijo só veio para me dar a certeza de que eu
vou acabar levando Amy ao fundo do poço.
Com o resto do juízo que ainda restava na mente, eu consegui manter minha sanidade.
Interrompi aquele momento de loucura. Eu tenho que tratá-la friamente, será melhor assim. Ela tem
que saber que eu sou ruim, que eu sou indigno para ela. Amy merece alguém melhor, alguém que não
destrua a sua vida.
Mas será que eu permitiria?
— James! — Tommy, um dos meus companheiros, me chama. — Sonhando
acordado? — provoca.
Encaro-o.
— Sonhando com dia que arrancarei a sua cabeça.
Os outros gargalham.
— É a Amy que está te deixando assim? Você não era tão nervosinho.
Solto uma lufada de ar.
— É melhor que se concentrem no trabalho de vocês.
Eles sorriem.
— Por que o Damon não veio? — Tommy pergunta.
— Ele disse que tinha problemas para resolver.
Meus companheiros trabalham comigo, e eu sei o suficiente sobre a vida deles, mas não
tenho muita intimidade com todos, só mesmo com o Tommy, que está comigo desde o começo, já que
morávamos todos no mesmo lugar. Aquele inferno de lugar de onde me levaram quando mataram
meus pais.
Paramos o carro em frente à boate, a mesma que encontrei entre os gastos do Ruiz. Graças
a Amy, consegui todas as movimentações dele. Era tudo que eu precisava para achá-lo.
Dois deles ficam na entrada. Já o Tommy, me acompanha para dentro.
Confiro se minha arma bem colocada no cós da calça, e dou o sinal para o meu
companheiro.
Entramos, e logo somos recepcionados por uma mulher alta e esguia. Ela abre um sorriso
ao nos ver.
— Sejam bem-vindos! Temos garotas de todos os tipos dispostas a fazer o que tiverem
como pagar.
Entro no salão, e a boate é ainda mais luxuosa na parte de dentro, com mesas de vidro e
espelhos ao redor. Homens têm danças individuais em cima de cada mesa, e alguns estão com
mulheres no colo.
As dançarinas estão vestidas com espartilhos de cores variadas, mas o vermelho é o que
mais usam. Algumas nos olham, mas continuo a minha busca.
— Olá! — Uma ruiva com os peitos quase saltando do lingerie, para na minha frente. —
Quer uma dança?
Seguro a sua cintura e a puxo mais para perto.
— Preciso que me ajude.
Ela se afasta e seus olhos brilham.
— Diga-me, e eu serei toda sua. Ou de vocês.
Troco olhar com o Tommy, que dar de ombros.
— As salas privativas. Precisamos que nos leve até lá.
A mulher passa a mão do meu colarinho, deslizando até o botão da minha calça, me
deixando excitado com seu cheiro e seu atrevimento. Pena que meu foco é outro.
— Tenho que avisar que o privativo não é para qualquer um. O serviço é caro, e nem todos
podem pagar.
Sorrio, pegando na sua cintura.
— Dinheiro não é problema para nós dois.
Ela abre um sorriso quase de orelha a orelha.
— Venham!
A ruiva nos guia por um corredor estreito e com paredes escuras, com alguns detalhes com
espelhos. Ao passar por algumas portas, conseguimos escutar gemidos femininos.
Ela abre uma porta no meio do corredor e entra. Nós dois acompanhamos.
Vejo uma cama redonda com colchas de veludo cor de vinho, espelhos, e um jogo de luz
preenche o pequeno ambiente.
— Bom... com qual dos dois eu começo? — Ela desce o olhar pelo meu corpo, e depois
pelo do Tommy.
Se eu não tivesse a trabalho, iria ceder e aproveitar a chance de relaxar. É o que estou
precisando nesse momento. Pego algumas notas no meu bolso e me aproximo dela, colocando o
dinheiro dentro do seu decote.
— Eu preciso de uma informação — Agarro sua cintura e mordo levemente a sua orelha —
Nada mais.
— Pode dizer, que verei se está ao meu alcance.
Ela se afasta, retira o dinheiro e conta.
— Ethan Ruiz. Ele tem frequentado essa boate ultimamente.
— Eu não faço ideia de quem seja.
Passo a mão pela sua nuca, puxando, deixando mais perto de mim.
— Impossível que não saiba. É um careca alto, branco, olhos escuros... Ele vem aqui todos
os dias. Tem sido frequentador assíduo da boate.
A ruiva passa um tempo pensando, e depois solta um sorriso.
— O matador?
Concordo.
— Como sabe? — pergunto.
— Ele sempre anda armado e com seguranças; mas sempre que ele está no quarto, fica
sozinho com as dançarinas.
Beijo o seu pescoço, fazendo-a gemer baixinho.
— Só me mostre o quarto e volte para o salão.
Nervosa, ela sai do quarto e me mostra a suíte presidencial no final do corredor. Agradeço
com um meio sorriso e ela sai em passos apressados.
Devagar, ando até a porta, com Tommy ao meu lado, observando todos os movimentos.
Pego a minha arma e já deixo pronta para atirar caso seja preciso.
Duas mulheres saem do quarto, e aproveitamos a porta aberta. Ruiz está deitado,
aparentemente cochilando, pelado, com apenas um lençol cobrindo seu quadril.
— Boa noite! — falo com a arma apontada no meio da sua testa.
Ethan abre os olhos e se assusta ao me ver.
— Que porra é essa?
Ele fica parado, olhos arregalados e nervoso.
— Olá, Ruiz! — Acerto sua cabeça com uma coronhada e ele desmaia. — Me ajuda aqui!
Tommy pega o Ruiz por um lado, e eu pelo outro, na tentativa de levantá-lo.
Arrastamos o homem até o banheiro.
Alguns minutos depois, Tommy empurra a cabeça do Ruiz dentro da banheira, enquanto ele
tenta levantar, mas suas mãos amarradas o impedem de fazer.
— Onde está o Jason? — Ele não responde. — Mais uma vez, Tommy!
Meu companheiro o empurra mais uma vez, agora demorando mais um pouco.
Quando ele solta, Ruiz coloca a cabeça para fora da água e tosse, tentando voltar a
respirar.
— Onde está o Jason? — Ruiz me encara e cospe em mim. — Você não colaborou.
Pego um saco plástico dentro do bolso e passo em volta no seu rosto. Ele tenta
desvencilhar, mas somos dois contra um homem amarrado e vulnerável.
— Você está tirando o pouco de paciência que eu tenho, Ruiz. — Retiro o plástico, e ele
desaba, encostando na banheira. — Vai querer mais uma vez? — pergunto, e ele balança a cabeça.
— Não sei... — Busca o ar — Não sei onde ele está.
Abro o plástico mais uma vez.
— Não! Não!
Atendo seu pedido desesperado.
— Não me mate. Eu tenho meus filhos.
Gargalho.
— Até parece que pensa nos seus filhos. Se pensasse, não sairia matando inocentes por
causa de dinheiro.
Dessa vez ele que sorri.
— O sujo falando do mal lavado. O que você é, Lancaster? Um assassino, assim como eu.
Fecho meu punho e acerto seu rosto.
— Não me faça querer te matar. Seria um favor para a sua família.
Ele geme de dor.
Ruiz é covarde, sempre foi. Basta torturar um pouco que ele cede.
— Ele estava em Las Vegas. Estava comandando um cassino. É só isso que sei, não
trabalho mais para ele.
Gravo bem o que ele me fala.
— É para acreditar? Como você tem tanto dinheiro agora, já que a sua fonte era o Jason?
Eu vi seus recebimentos do Jason.
— Eu trabalho para outra pessoa, só isso. Aquilo eu recebi há muito tempo.
Levanto, e entrego o plástico ao Tommy.
— Acho bom que esteja falando a verdade, ou então vou te buscar em qualquer lugar que
esteja, nem que seja no inferno.
Acerto mais uma coronhada para que ele fique desacordado até que possamos sair sem
sermos seguido.
Ando em passos largos até a saída. Entro no carro e os homens me acompanham.
— E aí? — Um deles me pergunta.
— Vou ligar para os meus contatos em Las Vegas.
Dirijo de volta para casa, agora um pouco mais tranquilo por saber onde eu posso
encontrá-lo dessa vez.
— Temos que passar nesse endereço.
Julian me entrega um papel.
— O que é isso?
— Precisam da nossa ajuda. Uma mulher me contatou dizendo que precisa dar uma lição
em um homem.
Reviro os olhos.
— Se for por causa de traição, eu não vou. Isso não é motivo de sair batendo ou matando
alguém.
— Ele tentou abusar da filha dela.
Sinto um embrulho no estômago de nojo e raiva.
— Vamos lá!
Sigo o caminho entre algumas ruas do bairro de classe alta. Observo as casas à procura do
endereço que a mulher nos deu.
— É aquela! — Julian aponta para casa branca. — Vamos.
Desço do carro e espero enquanto Julian vai até a porta chamá-la.
Penso em ligar para o Oliver para saber como a Amy está, mas seria em vão. Tenho que
tomar cuidado com ele para que não faça bobagens, nem a leve pra cama.
— Você é o James?
A mulher, que aparenta em torno dos seus cinquenta anos, elegante, com cabelos presos em
um coque, me encara.
— O próprio.
Ela me entrega um envelope.
— Esse é o Kellan, meu ex-marido e padrasto da minha filha. Eu quero que vocês deem
uma lição nele. Não o matem.
— É isso que eu faço, senhora.
Ela balança a cabeça.
— Mas não quero carregar o peso da morte de alguém. Só deem um susto, nada mais. Por
favor! — Ela enxuga as lágrimas. — Ele tentou abusar da minha menina. Ele estava filmando minha
doce menina tomando banho, trocando de roupa, até mesmo quando ela estava com o namorado.
— Por que não denunciou? Se ela é menor de idade, a polícia iria ficar ao seu lado.
A mulher nega.
— Melhor não. Eu tenho medo do que ele seria capaz de fazer. Kellan tem parentes na
promotoria. Não daria em nada.
— Tudo bem. Eu vou ver o que posso fazer.
Ela me entrega outro papel.
— Esse é o endereço dele. Todas as noites ele está no bar que fica na esquina do prédio
dele. Sempre está à procura de garotas novas.
Um cheque de cem mil é colocado em minhas mãos.
Despeço-me e entro no carro. Durante o caminho, ficamos em silêncio. Esse será meu
próximo trabalho, mas ainda não sei o que farei ao certo, já que não é para matar.
Terei tempo para pensar até o final de semana.
Quando chego em casa, a primeira coisa que vejo é Amy sorrindo.
Na verdade, ela está gargalhando; algo que não faz comigo. Ao lado dela está o meu irmão,
conversando, e conseguindo arrancar aquela risada que só ela tem.
Eu juro por tudo que há de mais sagrado que acabo com meu irmão se ele tocar nela.
Capítulo 9

Amy

Desde a hora que o James saiu com os comparsas, estou sozinha, vagando pelo jardim. Eu
tenho que gastar minhas energias, afinal não tenho me exercitado, pois aqui é quase impossível
conseguir fazer alguma coisa sem ter alguém me observando; tanto que só aproveitei a piscina uma
vez. Poderia nadar todos os dias, correr ao redor do jardim, mas sempre tinha alguém com os olhos
fixos em mim. Eu só preciso jogar toda essa tensão para o ar depois daquele beijo que me deixou em
combustão.
Aquele beijo que mal me deixou dormir, que tem consumido a minha alma desde então.
Aproveito que estou sozinha e começo a me alongar. Se eu fizer algo para me cansar,
dormirei bem e não ficarei vagando pela casa à procura do que fazer.
Começo a correr ao redor da piscina, concentrada no meu exercício, esquecendo o mundo
ao redor.
Alguns minutos depois, desabo no chão, cansada, tentando buscar o ar.
— O que você está fazendo?
Viro e vejo Oliver parado atrás de mim.
Ele está com um visual mais despojado, vestindo uma bermuda jeans e uma camiseta justa
no seu corpo.
— Tentando não enlouquecer. — Ele senta ao meu lado. — O que quer, exatamente? —
pergunto e ele sorri.
— Fazer companhia a você. Quer que eu te ajude a gastar energias?
Ergue as sobrancelhas sugestivamente.
— Depende de como seria isso. Se for socando essa sua cara presunçosa, eu irei amar.
Oliver é muito bonito, e quando dá um meio sorriso, é como se em sua testa aparecesse
“cafajeste”. Ele parece ser aquele típico homem que não vale nada.
— Uau! Temos uma lutadora aqui? É para isso que meu irmão quer você?
Provoca.
— Eu só tenho costume de socar o saco de pancadas mesmo. Porém, se quiser se oferecer
para ser o meu, aceitarei.
— Por que você é assim, sempre dando ferroadas?
Dou de ombros.
— Eu estou aqui contra a minha vontade, Oliver. Queria o quê? Que eu estivesse soltando
fogos e agradecendo ao seu irmão pelo ato de bondade?
— Olha, não sei exatamente o que aconteceu, mas meu irmão não é um monstro. Com
certeza deve ter um bom motivo para ele ter feito isso.
Bufo.
— Como o quê? Seu irmão apenas me mantém trancafiada aqui e age como um babaca.
Lembro-me do nosso beijo. Tudo bem, ele não foi um babaca.
— Não exagera. Ele só é difícil de conviver. E, pelo visto, você não é das melhores
também.
A seguir Oliver pergunta mais sobre o que aconteceu e eu conto. Ah! Não sei se deveria,
mas falo tudo, nos mínimos detalhes. Oliver escuta tudo atentamente.
— Estranho! — Observa meu rosto, mas seu pensamento está longe. — James tem repúdio
de jogos. O nosso pai... — Ele para, como se percebesse que está falando algo proibido. — Mas
você deveria agradecer ao meu irmão por estar aqui. Ele te livrou do encosto do seu pai. — Acerto
uma cotovelada nas suas costelas. — Meu pai era um bom homem, Amy, diferente do seu. Tinha os
defeitos dele, mas nos amava. — fala, e eu fico curiosa para saber mais deles.
— O que aconteceu?
Oliver conta que os pais foram assassinados quando ele tinha dez anos e James era
adolescente. Não dá muitos detalhes, mas acaba contando do quanto era unido com o irmão, que é
mais velho quatro anos. No caso, James tem trinta e um. Eu poderia dizer que ele é bem mais velho
por causa da sua aparência cansada.
Quero perguntar mais sobre o James, o que o fez ficar assim, o porquê dele ser tão
trancado.
— James sempre foi assim... estranho? — pergunto, e Oliver bufa.
— Não. Só depois do que aconteceu.
Sinto um nó no fundo do peito.
— Eu queria saber mais sobre ele.
Oliver sorri, e só aí percebo que deixei meu pensamento sair em voz alta.
— Sobre isso, docinho, eu prefiro que ele conte. Amo muito a minha vida para morrer
cedo. — Por que estou tão interessada em um assassino? — Mas me fala sobre você, Amy. Estou
bem curioso para saber sobre sua vida.
Deixo meus ombros relaxarem e olho para ele.
— Eu sou filha única. Estava estudando para ser alguém na vida, mas não tinha uma
carreira certa em mente. Nunca fui de muitos amigos. Aliás, só tive um até agora.
Oliver vira, ficando frente a frente comigo.
— Eu estou aqui, posso ser seu amigo.
— Um amigo que quer me levar para a cama.
Gargalha.
— Você é bem convencida, hein? Mas não é isso que os amigos fazem? Eu transo com
todas as minhas amigas.
— Ridículo!
Ele começa a contar sobre suas aventuras nos países que já viajou. Conta sobre mulheres e
conquistas. Eu me divirto com tudo que ele conta.
Por que o James não pode ser assim como o irmão? Por que ele não conversa comigo
dessa maneira?
Oliver levanta e me puxa, mas acabo caindo no chão e caio na gargalhada. Levanto,
limpando as mãos.
De repente o portão se abre e vejo o carro do James entrando.
Meu coração começa a bater mais forte.
Ele sai do carro e eu começo a ficar nervosa. Seu cabelo está para trás, a barba para fazer,
e ele veste uma calça jeans que veste bem no seu corpo. Sua camisa está aberta os primeiros botões,
deixando a mostra uma parte do seu peitoral.
Ele se aproxima e sinto seu cheiro.
— O que vocês estão fazendo?
Oliver sorri e encara o irmão.
— Nos conhecendo melhor. Por enquanto, só na teoria.
Pelo jeito do Oliver falar, sai como provocação. Eu não gosto disso.
— Eu quero conversar com você. Espero no meu escritório.
James chama o irmão e sai andando na frente.
— Acho que tem alguém se mordendo de ciúmes.
A frase que o Oliver fala antes de sair atrás do irmão me deixa pensativa.
Ciúmes? Ah tá... Até parece! Só se for por medo do Oliver me ajudar a sair. Tento ignorar
meus pensamentos sobre os dois e subo para o meu quarto.
James não me faz companhia, mas — aparentemente — não gosta que o irmão faça. Não sei
o que ele quer. Preciso desvendar esse homem. Como? Eu não sei. Ele tem que abrir a guarda e me
contar sobre ele. Preciso saber ao certo os motivos para eu ter que ficar aqui, e porquê ele aceitou
meu pai me entregar como aposta, já que a Julie e o Oliver disseram que ele odeia jogos.
Até agora não sei de nada, só de desculpas esfarrapadas da parte dele. Nada mais.
Tiro minha roupa e tomo um banho. Estou nervosa e inquieta, além de me sentir uma inútil.
Quero me ocupar com alguma coisa.
Saio do banheiro enrolada na toalha e solto um grito quando vejo James sentado na beirada
da minha cama.
Seu olhar desce pelo meu corpo, me causando calafrios.
— Você não pode entrar sem bater. E se eu estivesse nua?
Ele dá de ombros.
— Eu seria um cara sortudo. — Seu sorriso me faz ficar nervosa. — Você que não pode
ficar com essa porta aberta. Vários homens circulam pela casa. Não é seguro.
— Ah! Nisso eu tenho que concordar. Até porque, o mais perigoso está na minha frente.
James cerra o olhar para mim e balança a cabeça.
— Você, como sempre, fala demais. Não consegue segurar a língua dentro da boca.
Levanta, se aproximando.
— É o que eu sei sobre você.
Ele vem andando na minha direção, e eu dou passos para trás até esbarrar na mesinha de
livros.
— Não tenho outra referência sua, a não ser que você mata a sangue frio.
Uma risada abafada sai entre seus lábios.
— Essa é a única coisa que você precisa saber. — Sinto ódio quando ele fala assim. —
Não quero você muito próxima do meu irmão.
Sorrio.
— Por quê? Ele parece ser o único que ainda se importa comigo além da Julie.
— Meu irmão é aventureiro e não pensa em nada antes de agir. Então, só tome cuidado.
Dou de ombros.
— Não me importo. Sou bem grandinha para saber o que eu faço.
Ele cerra o maxilar de uma forma sexy. Não fala mais nada, e só me encara. Ficamos
escutando nossas respirações.
Quando ele passa a mão pela minha cintura e me puxa até ele, eu fico parada, sem nenhuma
reação.
— Ah, Amy… — Eu nunca tinha ficado excitada ao ouvir meu nome. — Você não vai
querer me provocar. — Meu coração bate desesperado no peito enquanto sinto seu cheiro, seu hálito
e... Ele está excitado. Eu o sinto duro roçando no meu ventre. — Estou tentando ser firme, resistir,
mas... — Ele para. Fica em silêncio. Seu olhar me queima por dentro. Seus dedos alisam minha
bochecha. — Você é tão linda, Amy!
Tento não demonstrar o quanto fiquei mexida com seu elogio.
Antes que eu consiga processar qualquer movimento, ele agarra minha nuca e me beija de
um jeito feroz, faminto e avassalador. Sua língua penetra na minha boca com violência e desejo. Ela
invade de uma forma devassa, me fazendo arrepiar até o último pelo do meu corpo. Sinto vontade de
agarrá-lo de volta, sentar e abrir minhas pernas em torno do seu quadril.
Nunca tinha me sentido tão desejada... E pervertida.
Sinto sua ereção me mostrando o quanto ele também me deseja. Eu quero tanto que ele
continue me deixando beijar, que me toque, e com isso eu permito tudo.
Suas mãos exploram meu corpo por cima da toalha, e eu sinto minhas pernas bambearem.
Deixo que James esfregue o corpo no meu, me devorando com a boca, e deslizando sua língua pelo
meu pescoço. Suas mãos apertam minha bunda, e eu imploro em silêncio para que ele vá além disso,
que me dê mais.
Ele me solta, mas quando penso que ele irá embora e me deixará sozinha, James desfaz o
nó da toalha, deixando o pano cair no chão, revelando meu corpo nu. Seus olhos descem e veneram
cada parte do meu corpo. Ele desce a mão até o final da minha barriga. Algo dentro de mim grita
para que continue, mesmo que ele esteja ainda relutante para fazer isso. Aproveitando a chance,
agarro seu pescoço, trazendo-o mais para perto de mim, colando nossos corpos enquanto nossas
bocas se devoram.
Solto um gemido quando ele leva a mão entre minhas pernas, movimentando os dedos em
minha entrada.
— Você é maravilhosa, Amy!
Sua frase causa um impacto por todo meu corpo, fazendo uma onda de eletricidade correr
pelas minhas veias. No meu ventre, sua ereção roça de forma forte e excitante. Eu abro mais as
pernas e libero a entrada de seus dedos em mim. Sinto sua língua penetrar o céu da minha boca de
uma maneira tão erótica que me faz pensar que poderia ser em outro lugar.
— Você está tão... Molhada!
Sua voz rouca é interrompida por minha língua.
Estou ficando louca, excitada, e ansiosa por mais.
Ele desce a língua pelo meu pescoço, mordendo levemente minha clavícula. Sua outra mão
aperta minha bunda, me puxando contra seu corpo.
— Amy...
Meu nome sai numa melodia tão quente que me faz suspirar.
— James, me beija. Apenas me beija.
Ele obedece, me deixando zonza.
— Ah Deus... Você é tão linda, Amy! — Seu olhar é tão quente e hipnotizador. — Você está
me deixando louco e inconsequente.
Suspiro quando seus lábios trilham do caminho até os meus seios, me deixando arrepiada.
James agarra meu mamilo com a boca molhada, sugando com desejo, e eu tento buscar
minha respiração entre seus avanços. Sua experiência o faz ainda mais quente e habilidoso. Quando
pega o outro seio, beija, chupa e assopra de leve, e eu sinto que vou desmanchar em seus braços. De
joelhos, ele beija minha barriga e desce até a minha virilha. Sou levada pela excitação, abro minhas
pernas e permito que ele vá até lá e me devore também. Quero saber como é, qual a sensação, e
sentir meu corpo em êxtase.
— Você é simplesmente melhor do que eu imaginava.
Quando sua língua toca meu clitóris, eu quase grito de prazer, mas me contenho. Ele me
deixa louca, me faz rebolar em sua boca, o assistindo tão submisso me dando prazer. Eu gosto disso.
Gosto de tê-lo assim.
— Doce. Molhada. Gostosa.
Cada palavra sai da sua boca com uma pausa entre elas, quando ele lambe minha carne
depilada.
Apoio minhas mãos na sua cabeça, sentindo os fios do seu cabelo entre os meus dedos.
Uma excitação fora do comum invade meu corpo, começando da minha boceta e espalha-
se, fazendo meu corpo contorcer e liberar uma adrenalina inédita para mim.
— Isso, goze na minha boca, Amy!
Suas palavras eróticas me fazem desmanchar de prazer. Meu corpo treme, e sinto minha
boceta pulsar.
Ele levanta, fica com a testa colada na minha e aperta minha cintura.
— Eu quero você, James! — falo de uma vez, assustada com minha ousadia e atrevimento.
— Eu também quero você, Amy! — Seus lábios roçam nos meus. — Eu não deveria, mas
quero.
A porta se abre de uma vez, e James me cobre com o corpo, olhando para trás.
Tommy.
— Uau! — Encosto a cabeça no peitoral à minha frente. — Eu não queria atrapalhar! —
fala, dando as costas.
— O que você quer? — James pergunta, impaciente.
— Precisa vir comigo. Está na hora, James.
Assim, ele sai batendo a porta, fazendo meu corpo relaxar. Ficamos com a cabeça
encostada uma na outra, tentando processar o que acabou de acontecer.
— Tenho que ir, Amy! — Olho para ele, sem acreditar. — Isso estava indo longe demais.
— Você tem que decidir o que quer.
— Eu decido o que é melhor para você.
Empurro seu peito, o afastando. Estou com o coração doendo.
— Apenas saia do meu quarto, James!
Ele passa a mão pelo rosto.
— Você não entende. — Sua voz é baixa. — Eu não posso fazer isso com você. Mesmo
que...
Interrompo.
— Saia! — Grito, mostrando insatisfação com sua atitude. — Melhor você aprender a
bater na merda dessa porta antes de entrar.
Ele concorda e sai do quarto, batendo a porta. Fico sem ar, apoiada na quina da mesa,
desnorteada e sem saber o que fazer.
Meu Deus! O que foi isso que acabou de acontecer? Quase transei com o cara que me
trouxe a força para a casa dele. Cadê o amor próprio?
Pior de tudo é que meu interior implora por mais e mais... Mas não vou! Eu tenho que parar
de desejá-lo, parar de sentir o que sinto. E se eu continuar me entregando, a única coisa que vou
conseguir é ficar ainda mais perdida. James me deseja, mas se afasta. Ele me leva a loucura e depois
vai embora. O que ele quer de mim?
Visto uma calça e uma camisa folgada e arrumo meu cabelo. Já passa das onze da noite.
Deito na cama e fecho os olhos.
Quero dormir e esquecer o que aconteceu, mas meu corpo está pedindo para levantar e ir
atrás dele. Quero ligar o foda-se, tentar colocar o James contra a parede, e saber qual é a dele, e
porquê ele tem que me manter aqui. Quero saber o que está acontecendo.
Pego um livro e tento me concentrar na leitura, só que acabo me perdendo nos
pensamentos. Tudo se resume ao James.
Acordo ao ouvir uma música vinda do andar de baixo. Olho para o relógio no criado
mudo, e já passa das três da madrugada. Fecho o livro que estava em cima da minha barriga, levanto
e calço meu par de chinelos. Saio do quarto em busca de saber o que está acontecendo.
No corredor, ouço burburinhos, e... Uma mulher gemendo? Meu coração dispara e minha
mente me manda voltar para o quarto, mas minha curiosidade me empurra até a escada.
Não vejo ninguém, então desço em busca da tal mulher. Preciso saber quem está aqui ou
não conseguirei dormir.
Quando chego à sala de TV, vejo James. Ele está pelado, sentado no sofá com uma mulher
no colo, que rebola e geme igual uma cadela no cio. Uma mão dele aperta sua bunda, enquanto a
outra segura uma garrafa de uísque.
Os cabelos da mulher estão jogados para trás, sua bunda exposta, e seu corpo parece arder
de desejo, e James aceita. Ver James fazendo aquilo mesmo depois de nós dois termos quase
transado me deixa com um nó na garganta. Não consigo sair do lugar.
A cena me causa uma dor imensa no peito, principalmente quando ela levanta e fica de
joelhos à sua frente.
James ergue o olhar e me vê. Sinto minhas pernas amolecerem. A mulher se vira e olha
para mim, sorri e levanta.
— Olha só... alguém para brincar com nós dois, James! — fala, andando até onde estou. —
Quem sabe a gente não consiga levantar o astral dele?
A única reação que tenho é de correr de volta para o meu quarto. Tranco a porta e desabo
no chão, ainda atônita pelo que acabei de ver.
James estava completamente nu. Eu ainda não tinha visto seu corpo daquele jeito, e ele
estava tão sério, abatido. Eu queria ter arrastado aquela mulher para longe dele, jogá-la para fora da
casa e dizer que ela não tinha o direito de tocar nele.
O que está havendo comigo?
Tenho vontade de chorar, gritar, bater no James...
Uma batida forte na porta me faz saltar.
— Amy! — É a voz dele! — Abre essa porta. — Não respondo. — Amy!
Levanto, respiro fundo e abro.
Ele está somente com uma toalha cobrindo o quadril. Seus músculos chamam minha
atenção, e eu prendo a respiração.
— Eu sinto muito por ter atrapalhado. Só queria beber um copo d'água.
Ele me encara. Está ofegante.
— Amy, eu não...
Balanço a cabeça, interrompendo.
— Não me importa!
Não sei o que ele quer dizer, mas não vou permitir que continue. Só preciso de distância.
Só preciso afastar essa vontade de chorar.
— Mas...
Antes que ele fale algo que me faça acabar com o resto da minha dignidade, tranco a porta
e vou para a cama.
Agora, respiro calmamente.
Meu coração dói.
Dói porque depois do que fizemos, ele ainda foi atrás de outra mulher. Mesmo que eu e ele
não tenhamos nada um com o outro, eu me senti incomodada e... enciumada?
Eu queria poder odiá-lo, mas o meu corpo sente outra coisa que me impede de fazer isso.
Por que está sendo tão difícil?
Capítulo 10

James

Chego em casa e jogo minha bolsa de armas na mesa do escritório. Tommy me acompanha,
batendo a porta atrás de si. Estou esgotado e com a cabeça a mil.
Fomos atrás de um homem que comanda uma clínica de drogas poderosas. Eles pegam
adolescentes e usam como cobaias. O efeito da droga acaba sendo devastador, causando mortes, e
nos casos mais leves, convulsões e delírios. A polícia já tinha dado um fim nisso, prendendo o
homem, mas a justiça o soltou, usando o pretexto de falta de provas necessárias. Então Tommy, Julian
e eu acabamos com a festa, cravando uma bala no meio da sua testa, depois de fazê-lo engolir
comprimido por comprimido.
— Então, você ainda não me falou sobre o que aconteceu no quarto da Amy hoje cedo.
Sento na cadeira e encaro meu amigo.
— Isso não é problema seu! — vocifero.
— Não, não é. Mas eu sou seu amigo desde que saímos daquela miséria de vida com o
Jason.
— Isso não tem nada a ver com o que aconteceu.
Tommy para na minha frente.
— Eu estou preocupado com a Amy. — Ergo a sobrancelha e espero que continue. —
Vocês estavam quase transando, e você prestes a foder a vida da garota.
— Eu não fui capaz de resistir, Tommy. — falo, sabendo que ele tem razão. Ele sempre
tem. É o mais sensato entre todos nós.
— É tão difícil manter o pau dentro das calças? Porra, James! — Ele passa a mão pelo
cabelo. — Deixe a Amy ir embora. Ela precisa sair dessa casa.
Levanto de uma vez.
— Não! — Tommy se assusta com meu grito. — Ela não pode ir embora. Não agora.
Sinto minha garganta fechar.
— Tudo bem, James! Espero que saiba bem o que está fazendo.
Antes de sair, ele se vira para mim novamente.
— As garotas estão lá fora nos esperando.
Concordo, guardando minhas coisas e indo atrás dele.

Na madrugada, entro na sala de tevê com a mulher ruiva, que me empurra contra o sofá,
que tira minha roupa enquanto eu bebo mais um gole da bebida. A garrafa já está com menos da
metade, e eu já me sinto bêbado o suficiente para ir dormir, mas quero continuar. Quero tirar a Amy
da minha cabeça, esquecê-la e focar em mantê-la segura. Será melhor para nós dois, mas
principalmente para ela.
— Vamos, James! — Nua, a ruiva rebola no meu colo, tentando me animar. — O que está
acontecendo com você? — resmunga, esfregando os seios fartos no meu rosto.
Eu não sinto nada.
Nada.
— Eu só sairei daqui quando você me comer como sempre faz.
Insistente, ela se ajoelha entre as minhas pernas, e pega em meu pau sem vida alguma, que
não se animou com a mulher pelada na minha frente. A única coisa que queria nesse momento era
parar com isso e ir para o meu quarto. O toque dela está começando a me deixar incomodado.
Viro a garrafa e bebo um longo gole, sentindo o álcool queimar minha garganta.
Ergo o meu olhar para a porta e meu corpo petrifica. Amy está assustada, assistindo a cena,
pálida e nervosa.
A ruiva levanta e procura o motivo de eu estar parado igual uma estátua.
— Olha só... alguém para brincar com nós dois, James! — fala animada, andando até a
Amy, que a encara, surpresa. — Quem sabe a gente não consiga levantar o astral dele?
Assim, Amy sai correndo de volta para o quarto, deixando a mulher confusa.
— O que aconteceu com ela? — pergunta, enquanto tento me levantar.
— Apenas volte lá para fora.
Cambaleio.
— Não, James! Quero você! — choraminga.
— Não posso Penélope. Sinto muito.
Dou um beijo de leve nos seus lábios, e saio, enrolando a toalha no meu quadril.
Subo a escada, tendo a certeza que eu acabei de magoar a Amy, e mesmo que não pareça,
era a última coisa que eu queria.
— Amy! — Bato na porta e sussurro seu nome. — Abre essa porta. — Ela não responde.
Está me odiando ainda mais. — Amy!
Escuto o clique na fechadura e a porta se abre. Meu coração começa a palpitar mais forte.
Estou bêbado, mas mesmo assim consigo sentir tudo que a minha ação estúpida está me causando.
— Eu sinto muito por ter atrapalhado. Só queria beber um copo d'água.
Mentira! Seu olhar está magoado; além do mais, ela não me olha diretamente nos olhos.
— Amy, eu não...
Eu não consegui levantar a porra do meu pau. Não consegui sequer sentir desejo pela
mulher, porque na minha maldita cabeça só tinha você e o que fizemos nesse quarto mais cedo.
— Não me importa! — Ela me interrompe com a voz fria.
Quero poder pedir desculpas. Sou um imbecil. Só que eu sei também que é assim que ela
tem que me ver, como um babaca, estúpido, canalha. Ela não deve se iludir e acreditar que algum dia
eu serei um bom partido. Eu só tenho que protegê-la, não acabar com a vida dela.
Dou um passo para frente.
— Mas...
Amy fecha a porta de uma vez, não permitindo que eu fale.
Desabo no chão, encosto minhas costas na parede e apoio a cabeça nas mãos.
Que merda eu estou fazendo?
Por que eu aceitei essa situação?

Mal consegui pregar o olho durante toda a noite. Depois da imbecilidade de trazer a
Penélope, e permitir que a Amy assistisse aquilo, me senti mais sujo do que eu já sou. Eu sei que
devo fazer com que ela me veja como um monstro, ou seja lá o que for, mas jamais pensei em magoá-
la deliberadamente.
Na hora que eu a beijei, senti o seu desejo. Depois de sentir seu gosto, ver seu corpo tão
rendido e entregue a mim, eu fiquei ainda mais louco. Aquilo era perigoso. Eu queria mais, queria
continuar, mas entendo que foi melhor assim. Ela não merece a merda da minha vida. Porém, eu a
quero por perto. Tenho que protegê-la, nem que para isso, eu viva com a tortura de desejá-la a cada
minuto sem poder tocá-la.
Julie serve o café da manhã, e a movimentação da casa já é intensa. Quatro dos meus
companheiros estão me acompanhando em uma reunião aqui mesmo, na mesa. Preciso resolver o que
aquela senhora me pediu sobre o ex-marido. Ainda não pensei em um método de pegá-lo sem chamar
atenção.
— Iremos hoje? — Julian pergunta, enquanto mordisca um pedaço de pão.
— Se eu conseguir um jeito discreto de apanhar o miserável, sim.
Continuo meu café e ela aparece. Está vestida com uma calça jeans e uma camiseta de
banda de rock. Seus cabelos negros estão presos em um rabo de cavalo, e o rosto está sem nenhuma
maquiagem. Ainda assim é uma porra de garota bonita. Amy tem seus vinte anos, mas mesmo assim
desperta desejos em mim como uma mulher mais velha. Até mais. Muito mais.
— Bom dia, gatinha emburrada! — Damon a cumprimenta com sarcasmo, e com uma
intimidade que ela não permitiu. Amy, por sua vez, só ignora.
Sei que todos eles são meus companheiros, mas não confio que eles fiquem perto dela. Não
gosto dos olhares que lançam quando ela está por perto. Por isso, prefiro manter meus olhos em cima
dela o máximo que posso. Se algum tentar fazer alguma coisa, eu matarei sem remorso algum.
— Então, continuando, ela disse que ele gosta de mulheres mais jovens. Só precisamos de
uma boa isca.
Julian fala olhando para Amy, que o encara de volta sem entender.
— Nem pense nisso, Julian. — Ela olha para mim e espera uma explicação. — Eu não vou
permitir. Colocá-la em risco? Não.
— Será que eu posso saber do que estão falando?
Bebo um gole do meu café, e Julian toma a frente.
— Precisamos pegar um homem que tentou violentar a enteada. Ele gosta de garotas,
assim… como você.
— Julian! — falo em tom ameaçador.
— Precisamos de uma isca, e você seria perfeita. Bonita e jovem.
Bato a xícara na mesa.
— Não! Não vamos fazer isso. — Eles me olham, desconfiados. Eles não sabem o motivo
ao certo de ter trazido a Amy para a minha casa. Só sabem que eu apostei e ganhei. Nada mais. —
Eu não irei permitir.
Amy levanta.
— Eu estou dentro. Irei com vocês.
Pelo seu jeito de falar, é exatamente para me provocar. Vejo mágoa no seu olhar.
— Não seja inconsequente.
Ela cruza os braços.
— O que tem de pior do que estar aqui? — Passo a mão no rosto. — Eu posso ajudar
vocês. Vocês vão ficar de olho em mim e tenho certeza que não vão deixar ninguém me fazer mal.
Aliás, não foi para isso que me trouxe? — Que ideia estúpida! — Eu só não aguento ficar aqui
trancada. Eu preciso ter um pouco de adrenalina.
Tommy levanta, e todos viram na sua direção.
— Acho uma ótima ideia. Ela é jovem, bonita, e vai chamar atenção do homem. — Amy
ergue a sobrancelha e me encara. — Além do mais, todos nós estaremos de tocaia.
— Não sei. Não quero colocá-la em perigo.
Amy pigarreia, chamando a atenção.
— Me desculpem o que vou falar, mas eu já vivo em perigo dentro dessa casa. — Ela e sua
língua afiada. — Eu não vejo problema algum em ajudar vocês. Se estiverem lá, eu vou sem medo.
Acho que será até divertido.
— Essa garota não tem juízo. — Brian, que está sentado na ponta da mesa, fala com um
sorriso no rosto.
— Então... Combinado? —pergunta, com animação.
Deixo meus ombros caírem em derrota.
— Tudo bem. Você irá.
Ela comemora e volta a comer.
Durante o resto da manhã eu não a vejo. Acabo dentro da minha sala com Tommy e Julian,
resolvendo alguns assuntos inacabados. Quando eles vão embora, meu irmão entra.
— O que quer? — pergunto, sem meias palavras.
Pode até não parecer, mas eu gosto do meu irmão. Só não me sinto à vontade com ele
cercando a Amy vinte quatro horas por dia. Meu irmão sim poderia ser alguém bom para ela. Apesar
de não ser honesto, ele não carrega mortes e sangue nas costas. Poderia dar uma vida divertida a
Amy. Tudo que eu jamais poderia dar. Só que eu prefiro não pensar na possibilidade dos dois juntos.
— Que papo é esse que a Amy vai sair com vocês mais tarde?
Ele senta à minha frente, cruzando as pernas sobre a mesa.
— Ela insistiu e eu cedi. Talvez seja uma boa ideia.
Oliver só me observa, como se me analisasse.
— Por que realmente você a trouxe para cá? Porque pelo que eu conheço você, jamais iria
querer uma mulher morando aqui.
— O pai dela perdeu a aposta.
Dou de ombros.
— Desde quando começou a jogar, James? — Inferno! Levanto. — Há muito mais nisso
tudo, não é? — Passo a mão pelo cabelo e ando até a janela. — Você pode me falar, James. Sou seu
irmão. Caramba!
Viro-me para ele.
— Ela só precisa ficar aqui, nada mais.
Duas batidas na porta interrompe, nossa conversa.
— Entra!
Tommy aparece novamente.
— Acho que deveríamos conversar com a Amy. Talvez ela precise de alguma orientação.
Concordo.
— Tudo bem. Mande-a descer.
Caio de volta na cadeira, me sentindo derrotado.
— Essa garota está te tirando do sério, não é? — pergunta.
— Posso dizer o mesmo sobre você, Oliver.
Ele sorri.
— Ela é interessante. Jamais passaria por mim sem chamar minha atenção.
— Não, nem tente.
Antes que ele responda, Amy, Julian e Tommy entram.
— O que eu precisarei fazer? — ela pergunta, confiante. Algo dentro de mim grita, me
chamando de imbecil.
— Sente que eu vou explicar.
Amy obedece e escuta com atenção o que vou falando. Ela não toca no assunto da noite
passada, não se mostra desconfortável. A única coisa em que ela parece focar é em ajudar na missão.
Até seu jeito de falar comigo está estranho. Está me tratando diferente.
Melhor assim, Amy!
Quando termino de explicar, ela sai do escritório com meu irmão e Julian vai em seguida.
Tommy me encara de longe, com os braços cruzados, e eu evito puxar conversa; mas é em vão.
— Ciúmes? — pergunta em um tom cínico.
— Acho que você precisa procurar o que fazer, Tommy. Está preocupado demais com a
minha vida.
Sua única resposta é um meio sorriso. Em seguida ele sai, fechando a porta e me deixando
sozinho.
Passo a mão no rosto e levanto, e vou até a janela quando ouço a risada da Amy.
Ela está sentada no jardim, com Oliver ao lado, que fala alguma bobagem que a faz rir.
Eles conversam, e Oliver a encara por muito tempo. Eu conheço meu irmão, sei o que ele está
querendo.
E isso me incomoda. Dói e machuca, mesmo sabendo que eu sequer tenho o direito de
sentir algo.

Às oito da noite já estou impaciente, esperando-a descer. Damon, Julian, Tommy e eu já


estamos prontos. Se tudo seguir como combinamos, será fácil dar ao tal cara o que ele merece. A
mulher me entregou um envelope com fotos e o nome dele, e sou um bom fisionomista.
— Estou bem?
Todos viram o olhar para escada, eu inclusive.
Sinto minha garganta secar quando a vejo.
Amy está com um vestido vermelho justo, com alças que a deixam com o ar de menina
sexy. O tecido alcança a metade da coxa e aperta sua cintura. No quadril é um pouco mais solto, e
delineia bem o seu corpo. Eu poderia passar minhas mãos e dedos em cada parte, e jamais
esqueceria os mínimos detalhes.
— Uau! Que gostosa! — Julian fala, e eu o lanço um olhar recriminador.
— Você não acha que isso está chamando atenção demais? — pergunto sem pensar, e
todos me olham de uma vez.
— Eu tenho que ir para chamar atenção, não?
Concordo, mesmo achando que deveria desistir dessa tolice de levá-la.
— Foda-se o que você vai fazer, mas será a rainha da noite. — Meu irmão aparece e não
disfarça o interesse. — Mas cá entre nós, não é arriscado levar Amy sem uma arma escondida?
Bufo.
— Claro que não! Ela não deve saber usar uma.
— Quem disse isso? — Suas palavras fazem todos ficarem surpresos. — Meu pai me
ensinou a atirar. Apesar de não ter prática, eu posso assustar e dar alguns tiros.
Passo a mão no rosto e entrego uma pistola na mão dela, que sorri e os olhos brilham.
Amy esconde a arma na cinta liga, sem se importar nos homens babando nas suas pernas.
— Como está se sentindo com essa situação? — Meu irmão pergunta.
— Estou super empolgada! — Ela lança um sorriso para ele.
Aproximo-me dela e seguro sua nuca.
— Nem tente fugir. Não faça nada idiota, ou irei atrás de você e não permitirei que saia do
quarto.
Ela engole seco e ergue a cabeça.
— Tudo bem, senhor bipolar.
Debocha e sai andando na frente.
Durante o caminho, vou sentado ao lado dela, que está com a cabeça encostada no vidro da
janela, pensativa e calada. Quando chegamos, ela retoca a maquiagem e entra na frente, deixando-nos
para trás como o combinado.
Alguns minutos depois nós entramos no bar. Tommy, Julian e Brian, sentam no canto mais
discreto. Damon fica no carro.
De longe eu a observo. Ela está de pé, encostada no balcão, justamente ao lado do Kellan,
a nossa vítima.
Ando até onde ela está e fico próximo, sentado na banqueta. Peço uma bebida e fico atento
a todos seu movimentos.
— Estou tão indecisa com o que escolher. — fala, mexendo nos cabelos e empinando a
bunda, encostada no balcão. — O que você me sugere? — pergunta.
Kellan a encara e desce o olhar pelo seu corpo. Já pegou a isca.
— Para uma jovem linda como você, eu escolheria um Dry Martini.
Ela retribui o olhar.
— Então vou confiar no seu gosto.
O barman entrega a bebida, e ela bebe quase de uma vez, pedindo outra.
Os dois começam a jogar conversa fora, e ele cai nos encantos dela facilmente. Também
pudera, bonita e jovem. Uma ninfeta do jeito que ele gosta. O homem deve ter em torno dos sessenta,
e mesmo assim não se dá ao respeito, e nem respeita ninguém pelo visto.
— Você é solteira?
Ela concorda.
— Solteira e sempre disponível. — Pisca, e eu sinto um incomodo.
— Gosta de homens mais velhos?
O homem fica mais perto dela.
— Claro! São bem mais experientes e sabem o que fazer entre quatro paredes.
Droga! Esse não é o momento para sentir ciúmes ou ficar imaginando se ela já teve essa
experiência.
— Gosto dessas, assim como você.
Ela dá de ombros e sorri.
— Não quer sair para conversar lá fora? — ele pergunta, e ela balança a cabeça.
— Sem pressa! A noite está apenas começando.
As palavras e a sedução proposital, deixam o homem de queixo caído.
Amy escolhe outra bebida, e eu reparo algo que não esperava: Kellan despeja um pó
dentro da bebida dela, sem que ela veja.
Tento fazer um sinal para que ela não beba, mas antes que ela o faça, ando até onde estão,
na tentativa disfarçada de chamar o barman, e derrubo o copo dela, deixando o líquido escorrer pelo
balcão.
— Droga! — ela xinga, e me encara de um jeito nada amigável.
— Qual o seu problema, cara?
Ele pergunta com o rosto vermelho de raiva.
Eu o encaro, mas Amy bufa, me dando as costas.
— Melhor irmos lá para fora mesmo.
Kellan a segura pela mão e puxa para o lado de fora do barzinho. Dou sinal para os meus
companheiros e sigo os dois.
Do lado de fora não consigo vê-los, e isso me deixa nervoso.
Ando até a lateral e vejo um beco escuro, onde eles estão. Kellan está tentando agarrá-la a
força e ela tenta se desvencilhar.
Pego minha arma e preparo para atirar, caso ele faça alguma coisa. Antes que eu consiga
dar um passo à frente, Amy acerta um soco no rosto do homem, que cai no chão. Em um rápido
movimento, ela tira a arma debaixo do vestido e aponta para ele.
— Então, ouvi dizer que você é um pedófilo de merda. É verdade?
Amy o aproveita caído no chão e apoia o pé no seu peitoral.
— Sua vadia! — Ele cospe o xingamento em voz alta.
— Uma vadia que tem uma arma na mão apontada para o meio da sua testa, seu
desgraçado! — Ouço o clique da sua arma, mas ela não atira. — Sabe o que fazem com homens
iguais a você?
— Não me interessa. Quando eu sair daqui vou te matar, sua piranha. — Kellan não se
mexe. — Todas vocês são umas cadelas. Seduzem e nos provocam usando roupas desse jeito para
depois ficarem se fazendo de vítima. É por isso que eu faço e não tenho nem remorso. Todas
merecem esse tratamento!
Ela gargalha.
— Acho que você não está em vantagem de falar tanta merda.
— É bom que atire, ou quando eu me livrar, você vai ver o que eu sou capaz de fazer.
É quando um tiro ecoa no beco, nos assustando.
Capítulo 11

Amy

Qualquer pessoa diria que eu sou louca por estar aqui, por ter aceitado me juntar a eles
para pegar um cara. Eu sei, foi inconsequente. Só que eu precisava de ação na minha vida, precisava
fazer algo pra sentir o que eles sentem.
É... Eu sou louca!
Louca porque o cara que eu fui atrás quase me violentou, já que eu aceitei vir até esse beco
deserto na confiança de que James e os comparsas jamais me deixariam aqui sozinha. Foi por pouco.
Muito pouco.
Um disparo ecoa no beco, assustando todo mundo. A vítima, inclusive.
— Sua puta!
Gargalho ao ver seu desespero. Atiro mais uma vez, sentindo minhas mãos trêmulas, mas
me sinto realizada.
Será que é esse prazer que ele sente?
Que merda eu estou pensando?
James toma arma da minha mão, sem dar tempo de reagir. Sorrio, nervosa.
— Ficou maluca, Amy?
Suas palavras saem em voz alta e em tom recriminador. Dou de ombros, afinal só atirei no
chão, ao lado do corpo dele.
— Eu só iria assustá-lo. Ele mereceu. — Olho para o homem no chão, que está com olhos
arregalados. — Foi divertido assustar esse covarde. — falo, mas logo percebo o quanto fui tola.
James se aproxima, segura meu braço e encosta a boca no meu ouvido.
— Vá para o carro!
Eu balanço a cabeça em negação, e noto que ele pega uma barra de ferro fina, mas —
aparentemente — pesada.
— Eu quero ficar aqui.
James solta um suspiro pesado.
— Eu aconselho que não assista o que vamos fazer. — Sinto um arrepio percorrer minha
espinha. — Damon, leve-a daqui.
O homem, o único que eu nunca gostei, me puxa pelo braço.
— Me solta!
Consigo me desvencilhar e ando até a parede ao lado do beco. Preciso saber o que eles
vão fazer.
Damon me encara de um jeito estranho, pior como das outras vezes, de uma forma
traiçoeira. Tremo quando escuto pancadas e gemidos vindo do beco. O homem pede clemência, e
James fala alguma coisa, mas não consigo entender.
Meu coração vai até a boca.
— Assustada? — pergunta, me lançando um meio sorriso. — É isso que ele faz, lindinha.
— Damon segura meu queixo, me fazendo olhar para ele. — Pessoas como nós torturamos e matamos
sem piedade. — Sinto vontade de acertá-lo com um soco no nariz. Odeio o toque dele, o cheiro e o
hálito de cigarro. — Não faça nada estúpido, porque nem a sua boceta apertada vai fazê-lo ter pena.
Engulo seco.
— Você pode achar que uma chave de boceta é suficiente para segurá-lo, mas não é. Você
nunca irá mudar o James e o seu instinto. Depois que ele cansar de você, vai te deixar na rua da
amargura.
O que será que James fala sobre mim? É isso que ele quer? Sexo?
— Ele já comeu várias por aí. Por que uma garota imatura e insuportável iria segurá-lo?
— Vá se foder, Damon!
Xingo, encarando o homem de perto.
— Cuidado, Amy. Posso te matar e ninguém vai sentir sua falta.
Sorrio.
— Isso se eu não matar você primeiro.
Damon me fuzila com o olhar, e só daí que eu percebo que extrapolei todos os limites.
— Estarei esperando, Amy.
Meu queixo treme, e eu me afasto, indo até o carro. Encosto na porta, e sinto um vento frio
percorrer meu corpo, me fazendo estremecer. Abraço meu corpo na tentativa de me esquentar.
— Pegue! — Ergo o olhar e vejo James, estendendo a sua jaqueta de couro na minha
direção. Fico de costas para ele, que me ajuda a vestir. Sinto seu cheiro por causa da roupa. É algo
que vai ficar impregnado em mim a noite inteira.
— O que você fez com ele? — pergunto ao abrir a porta do carro.
— Não importa. Entre!
Bufo em desaprovação e entro no carro, ficando isolada e sem puxar assunto.
Durante o caminho, o clima no carro é pesado. Ninguém conversa, não tem nenhuma
música tocando na rádio, mas o cheiro de homens ao redor invade o pequeno espaço.
— Como está sua mão?
Ele quebra o silêncio, observando que está inchada depois do soco que dei no Kellan.
— Só um pouco dormente, mas logo passa.
O que o James faz me deixa surpresa e sem reação. Ele segura minha mão e leva até os
lábios, dando um beijo de leve, e faz meu corpo inteiro entrar em combustão.
De repente, ele solta, e Damon encara boquiaberto o gesto do patrão. James vira e volta a
atenção para a rua, observando pela janela fumê.
Não demora muito para que o carro pare em frente à casa onde estou morando há algumas
semanas. Tanto tempo que já chega a ser familiar para mim.
Desço e entro na casa, sozinha, deixando os homens para trás.
Abro a porta do meu quarto e corro até o banheiro. Preciso tirar essa maquiagem, respirar,
gritar...
Mesmo com os motivos que o Kellan deu para que James fosse até lá, eu ainda estou
impressionada com os gemidos de dor e as pancadas que ele levou. Será que ele morreu?
Sinto um enjoo, mas respiro fundo e tento me controlar. Estou nervosa.
Bom, seja lá o que for, ele mereceu.
Retiro meu sapato e coloco no canto do quarto. Antes que possa começar a me livrar da
roupa, sinto meu estomago reclamar. Talvez esse enjoo seja fome, afinal mal consegui comer hoje, já
que estava nervosa e ansiosa demais para conseguir digerir qualquer coisa.
De pés descalços e ainda com o vestido, desço as escadas e ando até a cozinha. Escuto
burburinhos vindos do escritório do James. Ah! Escritório de assassinos.
Aproveito por estar sozinha e abro a geladeira em busca do que comer. Acabo fazendo um
sanduiche de queijo e peito de peru, mas minha garganta implora por algum líquido forte. Ando até a
adega e pego uma garrafa de vinho. Com dificuldade, abro a garrafa e despejo a bebida na taça.
Sento na banqueta e como um pedaço do pão. Sorrio aliviada por meu estômago aceitar a comida
sem embrulhar. Viro a taça em um gole só.
Não tenho muito costume de beber. Provo de vez em quando em algum evento especial.
Mas hoje sinto que preciso de um pouco antes de dormir.
— Que delícia! — sussurro, satisfeita.
— O que está fazendo?
A voz grossa me faz virar de imediato para a porta, e mesmo com a iluminação fraca, eu
reconheço essa silhueta. James.
Ergo o pão e a taça para que ele veja.
— Acho que não preciso pedir permissão, não é? — ironizo, despejando mais um gole do
vinho na boca.
— Não. — James vem andando até onde estou, e agora posso ver seu rosto. Ele está com
as mãos no bolso e a testa franzida. — Você foi bem. — Dou de ombros. — Não deveria ter atirado,
mas foi bem sim. Só não se acostume. Não pretendo colocá-la em perigo.
Gargalho com as suas palavras.
— Isso é uma ironia, não é? — Ergo uma sobrancelha, e ele não sorri. Nenhuma reação
divertida.
— Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse com você. Eu sempre farei o possível para
mantê-la segura.
Eu sei que não deveria acreditar nas palavras dele, afinal, é um assassino e me obrigou a
vir morar com ele. Mas no fundo eu sinto que suas palavras são verdadeiras.
— Quer? — ofereço a garrafa, e ele aceita. James pega uma taça debaixo do balcão e se
serve.
Bebo mais alguns goles do vinho para me encorajar a conversar com ele. É muito mais
fácil fazer isso quando o vejo armado, com uma carranca e um olhar cruel. Agora, com ele ao meu
lado, bebendo e me encarando de um jeito quente, me faz apertar as coxas de desejo. Lembro-me da
cena que presenciei. Ele estava transando com outra mulher... isso no mesmo dia que nós dois quase
chegamos lá.
James nota e olha para as minhas pernas, especialmente para a fenda ao lado.
— Não me olha assim, James. — peço, e ele sorri.
— Por quê? Isso te incomoda?
— O que me incomoda é saber que você me beijou, me deixou nua e quase transou comigo
naquele quarto, mas que depois disso você foi parar com outra mulher. — Aperto a taça com os
dedos trêmulos. — Que você sequer se importou em fechar a porta da sala, mesmo sabendo que eu
poderia ver aquilo. — Sinto meu peito gritar. — Na verdade, acho que você fez de propósito. Fez
para mostrar que você só estava me usando e brincando comigo, para depois se vangloriar com seus
parceiros babacas. Dói… mas eu também fui uma estúpida por me deixar cair nos encantos de um
cara bonito.
Meu Deus! O que eu estou falando?
James me encara com o maxilar cerrando.
— É isso que acha que eu quero com você? — Ergo a sobrancelha. — Eu não sou
moleque, Amy. — Sua voz sai firme e convicta. — Tudo está fugindo do meu controle, tudo está tão
errado. Por isso eu tive que sair do quarto. — Sua respiração é pesada. — Porque eu não trouxe
você para trepar comigo.
Meu sangue começa a gelar pelas veias.
— Por que você me trouxe? Qual o interesse?
James me observa e seu cenho franze, o que o torna mais insuportavelmente quente.
— Tive meus motivos.
Ah droga!
— Isso é óbvio, mas não disse quais. Não especificamente.
Bebo mais um gole e espero.
— Minha resposta já basta, é o suficiente.
Bufo em desgosto.
Levanto, ficando na sua frente.
— Qual o seu problema? Porque eu juro que não entendo. — Seu olhar é de surpresa. —
Primeiro você me falou que queria ajuda, mas se fosse realmente isso, teria contratado qualquer outra
pessoa sem precisar obrigá-la. Segundo, você me trata bem, depois finge que não existo, e logo após
está me dando patadas. Não entendo você.
— Não tem que entender.
Sua voz é baixa, e me dá a certeza de que ele queria sim me dizer.
— Você não quer me matar, e não me maltrata. Além do mais, me deixou excitada, e depois
saiu como se não quisesse nada daquilo.
Fecho os olhos, e me arrependo amargamente por ter começado essa discussão.
Onde eu estava com a cabeça por falar isso?
— Quem disse que eu não quero? — Sua resposta me faz abrir os olhos de imediato.
Minha boca seca no mesmo momento. — Eu quero trepar com você, caso não tenha percebido depois
daquele dia. — Engulo seco. Seu olhar muda, e consigo notar seu peito subindo e descendo. —
Desde que você chegou, desde que te beijei, quando senti o gosto da sua boceta e quando vi você
vestida com essa merda de vestido. — Ele se aproxima lentamente. — Eu quero foder você. Quero te
colocar de quatro naquela sua cama e me enterrar aí dentro. — Sinto meu corpo em chamas e minha
calcinha encharcada. — Mesmo que eu saiba que estou cometendo uma loucura, que posso estar
fodendo com seus miolos, ainda sim quero você. — Suas mãos seguram meu rosto. — E se quer
saber, eu não transei com a Penélope, nem com ninguém.
— Eu vi. — É a única frase que sai da minha boca, porque ainda dói fechar os olhos e ver
aquela cena passando na minha frente.
— O que você viu foi um homem tentando ter uma noite de sexo para deixar os
pensamentos estúpidos de lado. Um homem que sequer conseguiu levantar a porra do pau. Sabe por
quê? — pergunta, me deixando aliviada por dentro por saber que ele não fez nada com ela, mas ao
mesmo tempo triste por saber que ele tentou. — Ah Amy... Porque quem eu quero sentir é você. Com
quem eu quero foder à noite toda, é você.
Não dá tempo. Não consigo sequer raciocinar, porque no mesmo instante, James me puxa
contra seu corpo e me beija do seu jeito selvagem, duro e indecente.
Permito que sua língua invada minha boca e escorregue pela minha. Permito que ele pegue
em minha bunda e aperte com desejo e luxúria.
Porque eu sei que a partir desse momento, estarei perdida.
E se for para me perder nos braços dele, que assim seja.
Capítulo 12

Amy

Sinto meu coração bombeando e minhas pernas trêmulas. Dentro de minha calcinha, sinto
uma pulsação fora do comum. Procuro desesperada pela sua boca, que sobe pelo meu pescoço e vai
de encontro da minha. Sua língua invade minha boca e parece querer explorar cada parte.
— Porra! — James xinga entre meus lábios. Quando sua mão adentra a minha calcinha, e
nota o quanto estou encharcada, seus dedos deslizam pela carne macia e molhada, me deixando
extasiada. Seus dedos grossos, calejados e sexy, entram na minha boceta de uma vez, fazendo-me
arquear as costas.
— Ah... James! — gemo entre seus lábios quentes.
Com a mão livre, ele desliza nas minhas costas, buscando o zíper do meu vestido. Eu
permito. Permito tudo nesse momento. Eu só quero tê-lo entre as minhas pernas.
Aqui, dentro da cozinha, somos beijos, mãos e fogo. Parecemos uma explosão.
— Eu não posso esperar, Amy! — Sua voz é uma súplica. Eu fico mais excitada.
James ergue o meu vestido e o retira, jogando aos seus pés. Fico aqui, exposta, excitada,
louca e atrevida, como nunca tinha sido capaz de ser com outra pessoa. Ele me faz ficar livre, liberta
e sensual.
Meu ventre começa a se contrair com seus dedos entrando e saindo de minha boceta.
Quando ele nota, retira e eu choramingo.
— Continua! — Exijo, como uma ordem, mas ele não obedece. James apenas me olha de
um jeito feroz, selvagem, rústico...
— Não goze agora. — ele morde meu lábio e se afasta, levando os dedos melados até a
sua boca. É sexy e quente. Eu poderia ter um orgasmo só de olhar.
James se ajoelha aos meus pés, e tira minha calcinha. A cena me deixa em transe e ao
mesmo tempo prestes a explodir. Um homem másculo, quente e lindo de joelhos, beija dos meus pés
até a minha coxa, como alguém faminto.
Eu sei que ele faz isso com todas, mas não me importo. Eu quero provar, quero saber como
é. Preciso.
— É a sua primeira vez? —Ele me pergunta com sua voz rouca.
— Não. — Ele fecha os olhos e solta um suspiro. Esperava que eu fosse virgem? —
James?
Em um rápido movimento, ele se levanta e me coloca sentada no balcão. Fico tonta, e só
consigo escutar o barulho do zíper se abrindo e da nossa respiração ofegante.
Antes que eu consiga pensar, ele se enterra dentro de mim de uma vez, como se estivesse
ansiando por isso há tempos. Meu corpo treme e o suor escorre pelos meus seios. Os dedos quentes
do James apertam um de meus mamilos, e ele leva o outro até a sua boca, sugando meu mamilo
rosado enquanto seu pau faz uma dança louca dentro de mim. A sensação de êxtase é única, e meu
interior implora por mais. Sem dúvida alguma eu precisaria ter James dessa forma entre minhas
pernas todos os dias.
Aperto seu ombro e procuro pela sua boca selvagem. Sentir sua barba roçar no meu queixo
e sua língua roçar em minha pele me faz sentir inebriada. Enfeitiçada.
— Porra! Porra, Amy! — Geme entre meus lábios, ofegando de desejo.
— Mais forte! — Minhas unhas encravam na sua pele quando ele empurra de uma vez.
— Assim que você gosta? — Suas estocadas aumentam a velocidade. Ele poderia
aumentar bem mais, eu não me importaria.
— Goze para mim, Amy.
A mão que estava no meu seio desce para entre minhas pernas. James massageia o meu
clitóris em um ritmo acelerado. Gostoso. Viciante e excitante.
— Estou... — Engulo as minhas palavras. Estou sem ar.
— Você fica ainda mais sexy excitada.
Uma onda frenética invade meu corpo, começa entre as pernas e ultrapassa meu corpo
todo. James me pega nos braços e estoca forte, andando pela cozinha e parando quando me coloca
contra a parede. Minhas costas nuas esfregam no concreto, e o sinto dentro de mim, fazendo meu
instinto selvagem gritar de prazer, e imploro por mais.
Seus lábios e barba roçam no meu pescoço, me deixando arrepiada.
Aperto sua cintura com minhas coxas e, como resposta, ele empurra mais forte, levando a
mão até meus cabelos e puxando com força. Isso é tão excitante, louco e selvagem.
Solto um grito de prazer, satisfação e luxúria. Logo sinto James fazendo o mesmo. Seu pau
pulsa dentro de mim, jorrando o líquido de uma vez, me deixando satisfeita.
Eu poderia escutar seu gemido o dia todo. Não há nada mais sexy.
Ele pousa a cabeça no meu ombro e tenta recuperar o fôlego. Ninguém fala nada. O único
som é o da nossa ofegante respiração.
Ele me senta de volta no balcão e se afasta, fazendo meu peito reclamar.
James pega um pedaço de papel toalha e limpa entre as minhas pernas pegajosas e
molhadas. Uma lembrança do que acabou de acontecer.
— Não deveríamos ter feito sem preservativo. — Merda! Eu esqueci completamente.
Fecho os olhos e nos condeno por tamanha irresponsabilidade. — Eu vou trazer um comprimido para
você.
Concordo, mesmo sendo leiga nesses assuntos.
Veja bem, minha mãe nunca conversou comigo sobre isso. Não tenho uma vida sexual
ativa, e a única vez que transei foi com proteção. As únicas coisas que sei são as que aprendi na
escola.
— Melhor você ir para o quarto e trancar a porta.
— Como?
James me olha, e sinto como se nada importasse para ele, como se eu acabasse de ser
usada e largada.
É... Exatamente isso.
— Você é um idiota! — Cuspo as palavras sem pensar.
— Melhor que pense exatamente assim, Amy. Porque é isso mesmo que eu sou.
— Olha como você é, caramba!
Empurro seu peito.
— Amy, eu não posso ferrar com sua vida assim. Não posso me deixar levar por desejo,
porque você não merece isso. — James passa a mão pelo rosto e volta a me encarar. — Você merece
algo melhor do que essa situação, do que essa merda toda. Algo melhor do que eu tenho a te oferecer.
— Isso é tão humilhante! — sussurro, mas não era para ele escutar.
— Não. Isso que eu estou fazendo é por você, pela sua sanidade. Não posso ser um maldito
egoísta quando se trata de você, Amy. — James vira de costas. — Não posso.
E antes que eu possa abrir a boca para falar, ele sai, me deixando nua, descabelada e
sentada no balcão.
Fui fraca mais uma vez.
Subo para o meu quarto com os olhos ardendo em lágrimas. Jogo minha roupa no chão e
entro no chuveiro, deixando a água escorrer por meu corpo enquanto penso no que acabou de
acontecer.
Por que eu fui tão fácil? Quando eu agi dessa forma? Nem parecia ser eu ali, me
entregando ao prazer e o desejo.
E foi tão bom! Eu poderia fazer mais. Poderia passar a noite inteira nos braços dele.
Passo as mãos no meu rosto, sem acreditar nos meus pensamentos.
Eu nunca fui assim. Nunca agi por desejo e luxúria. Agora sou isso, alguém derretida por
um assassino, o mesmo que me trouxe a força para cá.
Nunca devo esquecer isso.
Só que as palavras dele gritam na minha mente, e luto para entender o que ele falou, e que
ele se importa comigo.
Visto uma camisa preta e um short jeans. Sem sono, acabo descendo para dar uma volta no
jardim. Tenho vontade de gritar. Fui tão estúpida!
Por que fico tão vulnerável perto dele? Nem sei quem sou. Sequer consigo raciocinar.
Tola.
Tomo um susto quando escuto o portão abrir, e quem eu vejo é o Oliver cambaleando no
gramado. Ando até onde ele está.
— Olha quem estava me esperando! — fala em tom de brincadeira, com a língua
embolada. — Andou chorando, docinho? — Sorrio. — Vem cá e me ajuda? Mal posso caminhar.
Reviro os olhos e tento ajudá-lo, passando seu braço pelo meu ombro.
— Se falar demais, te deixo jogado igual um cachorro abandonado.
Bufo e tento guiá-lo até a sala.
Oliver fede a bebida, tem uma marca de batom na gola da camisa e um cheiro de perfume
feminino. Ele é bonito. Não tem como sair sem chamar atenção e ter mulheres ao seu redor.
Abro a porta e ele se joga no sofá. Ele abre a camisa e tira, jogando no chão.
— Preciso de água.
Seus olhos estão quase fechando. Faço o que ele pede. Entrego o copo e ele bebe, sem tirar
o olhar do meu.
Sento na pequena mesa à sua frente e o observo.
— O que aconteceu, Amy? — pergunta, colocando o copo no chão.
Oliver mexe nos cabelos bagunçados, e apoia o braço nas pernas, ficando mais próximo de
mim.
Dou de ombros.
— Nada.
— Claro que aconteceu alguma coisa. Conte-me, docinho. Eu estou aqui para te consolar.
Sorrio em deboche.
— Não vou transar com você, Oliver.
Ele gargalha.
— Não vai porque está louca pelo meu irmão, e eu não quero perder a cabeça, e ele me
mataria. Mas eu gosto de ver o James desconcertado por sua causa.
Sinto um nó na garganta depois da minha humilhação na cozinha.
— Você estava chorando. Seus olhos estão inchados.
Seu dedo passa no canto do meu olho.
— Ele é só um babaca a mais no mundo. — falo sem pensar. Estaria sendo injusta?
— Vocês transaram?
Levanto.
— Não. Eu quero distância dele, Oliver.
— Não quer não.
Encaro o homem sentado na minha frente.
— Você gosta dele, eu já percebi. Acho que qualquer pessoa já percebeu.
— Não fale bobagens. — bufo.
— E a tendência dele é fazer você se afastar. Fazer você odiá-lo. Ele faz isso com as
pessoas.
Lembro-me do que ele me falou.
Não seja iludida e burra, Amy.
— Quer fugir comigo? — sua pergunta me pega de surpresa.
— Está louco?
Olho ao redor para conferir que ninguém está nos escutando.
— Poderíamos formar uma boa dupla. — ele alisa minha mão de um jeito carinhoso. — Te
mostraria o mundo, Amy.
Seus lábios ficam em uma linha reta.
— Você está bêbado e não está dizendo coisa com coisa.
Sua risada sai abafada.
— Eu sei que você não quer. Você é apaixonada pelo meu irmão.
— Não!
Ele balança a cabeça.
— Tente negar o quanto quiser, mas infelizmente, essa é a verdade.
Mordo o lábio. Agora ele me deixou sem saber o que dizer.
— Venha! — chamo, antes que ele continue a falar mais bobagens. — Vou te levar para a
cama.
Oliver levanta e passa o braço pelo meu ombro.
— Caramba, sua safada! Espera pelo menos o cheiro do meu irmão sair do seu corpo. —
fala em tom de brincadeira e eu gargalho.
Idiota!
Subimos a escada devagar e em silêncio.
Gosto do Oliver, muito. Apesar das brincadeiras, ele me respeita e sabe o limite certo.
No fundo ele tem razão, eu gosto do James. Isso já é inegável.
Oliver se joga na cama e eu me despeço, e vou para o meu quarto para tentar esquecer o
que aconteceu, mesmo sabendo que o cheiro dele está impregnado na minha pele, e que nem um
banho demorado vai conseguir tirar.
Capítulo 13

Amy

De manhã, acordo com o sol queimando o meu rosto. Ainda me sinto dolorida física e
mentalmente depois do que aconteceu ontem. Demorei a dormir pensando em tudo e recordando
daquele rosto lindo. Seu beijo foi quente, e ao mesmo tempo tão apaixonado. Eu sei que estou sendo
tola, afinal um homem como o James não se apaixona, não tem sentimentos por ninguém. Seus
sentimentos são puramente carnais. Ele gosta de sexo, e nada mais.
Tomo um banho e escovo meus dentes. Faço uma trança rápida em meus cabelos e desço,
estou faminta.
Enquanto vou descendo as escadas escuto um barulho vindo da sala de jantar. Os homens
conversam ao mesmo tempo, e eu não consigo identificar o assunto exatamente.
— Então foi por isso que a trouxe? Que loucura!
Julian pergunta, e quando me vê parada na porta, fica em silêncio.
— O que está acontecendo aqui? — pergunto, olhando para o James, que não responde. —
Julian? — Nada.— Tommy? — ele abaixa a cabeça. — Estavam falando sobre mim. Tenho esse
direito.
Nenhum fala mais nada. Que droga!
Sento na cadeira e começo a me servir.
— Tudo bem, vou fingir que não estavam falando sobre mim, e que vocês não estão tão
tensos que é capaz de sentir no ar.
— São negócios, Amy.
A voz do James sai gentil. Por mais que eu ainda esteja com muita raiva, ainda sinto um
frenesi dentro de mim.
— E eu sou o seu negócio.
— Não seja patética!
Ele olha para os dois homens parados, e eles saem como se lessem os pensamentos do
patrão.
— Depois de ontem você ainda se sente um... — Ergue a mão na minha direção —
Negócio?
Sorrio.
— Você só pode estar de brincadeira comigo. — Ele ergue a sobrancelha. — Depois
de ontem eu ainda me sinto pior do que quando cheguei aqui.
Não é tão verdade. Senti-me bastante viva, até ele me deixar largada e sozinha.
Lembro-me do que o Damon me falou. Será mesmo que ele só quer isso? Quer me fazer sua
prostituta e depois largar?
— Que tipo de pervertido você é?
Ele fica sem entender.
— Aquilo não era para ter acontecido. — diz.
— Que frase mais clichê, James. Você pode mais do que isso.
Tomo um gole do meu café.
— Não era, mas aconteceu. Eu estava ansiando por aquele momento. — Ele ser tão direto
me deixa sem fala. — Só que eu quero que você saiba que eu não sou um bom partido.
— Não me diga!
Sussurro, e na verdade, nem sei se ele escutou.
— Eu gosto do sexo, Amy. Mas não quero que confunda tudo. Não quero destruir você e
sua vida. Só quero te proteger.
Ergo o olhar na sua direção e percebo que ele está sendo sincero.
— Não é o que parece. Sinceramente, eu não entendo essa situação.
— Não é a hora de você saber, Amy. Só quero que me entenda e também me ajude… Não
torne nossa convivência difícil. — Ele passa a mão pelo cabelo e eu observo. — Pode ser clichê o
que eu te digo agora, mas é a verdade. Eu não posso te dar esperanças de sentimentos além do sexo.
Você não merece a bagagem da minha vida. — Seu olhar fica fixo na mesa. — Nenhuma mulher
merece.
Não sei como reagir depois do que ele falou. Aparentemente ele tem sim sentimentos, só
não quer demonstrar. Eu também. E por mais que esteja balançada, tenho que me controlar. Não
posso me iludir com o James, afinal ele é um assassino, e mesmo que seja gostoso, ele mata pessoas.
Ele não quer se tornar diferente do que é, ele gosta do que faz, e eu não sei se tenho estômago para
seguir com a vida desta forma.
— Por que você veste essa carcaça de homem mau? Eu sei você é, mas não o tempo todo.
Olha, você até se importa comigo.
Ele balança a cabeça.
— Eu me importo com você, não faz ideia do quanto. Farei o que for preciso para mantê-la
viva e em paz. — Seus olhos se fecham por alguns segundos, e depois ele volta a me encarar. — Mas
nunca esqueça que eu sou um assassino, Amy. Eu cresci numa vida de merda, e eu fui me adaptando a
ela. É isso que eu sou.
Engulo seco.
James levanta e vem na minha direção, me deixando imóvel.
— Eu sou um homem ruim, e isso já está cravado na minha pele, no meu instinto. Não vou
mudar por mulher, por irmão, nem por ninguém. — Suas mãos dentro do bolso da calça o deixam
mais sério. — Quem entra na minha vida não consegue me mudar, só consegue ser corrompido.
Seu pomo de adão mexe, e eu quero tocá-lo.
— E se eu quiser ser corrompida?
O que diabo eu falei agora? Estou maluca?
— Eu não quero isso para você. Seria egoísmo da minha parte. — Ele coloca um
comprimido em cima da mesa. — Tome!
Depois sai como um flash e eu fecho os olhos, tentando assimilar o que ele acabou de
dizer.
Tomo meu café à força e tento digerir tudo. É difícil. Eu deveria estar ciente de toda a
situação, mas o James só conseguiu me deixar ainda mais confusa. Meus sentimentos estão remexidos
dentro do peito. Eu quero odiá-lo, mas não consigo. Não sei porquê, mas nunca consegui. Na
verdade, eu queria entrar na vida dele e saber o que passa na sua cabeça. Queria entender o porquê
de tudo isso. Queria entender o verdadeiro motivo de eu estar aqui.
Termino meu café e saio em direção à varanda. Preciso respirar ar fresco depois de tudo
isso. De ontem, de hoje...
— Se arrume. — A voz dele me faz dar um pulo. — Vou levar você em um lugar.
Quando viro para olhar para ele, James já está dentro da casa novamente.
Respiro fundo e faço o que ele mandou, subo e me arrumo. Não sei bem para onde vamos,
mas como ainda é de manhã, escolho um visual mais despojado com um par de tênis. Meus cabelos
eu acabo deixando solto.
Entro no banheiro e passo uma leve maquiagem. Sei o que estou fazendo e me sinto uma
idiota, por mais que não queira. Estou num misto de emoções, confusa, querendo entender e ao
mesmo tempo quero aproveitar. Burra? Talvez. Deveria querer me afastar dele depois de ontem, mas
não consigo. Não consigo manter distância. Algo dentro de mim me puxa até ele, como um imã.
Desço as escadas, e ele já está me esperando impaciente.
— Onde iremos?
— Você verá.
Ando, acompanhando-o até o carro. Ele fala com Tommy, que só balança a cabeça em
concordância. James entra no carro e eu faço o mesmo.
Iremos sozinhos.
Coloco o cinto e ele me observa.
— Nós iremos sair, mas não cometa a tolice de tentar fugir, Amy.
Olho para ele e seu cabelo para trás e sua barba a fazer.
— Eu não vou fugir.
Ele concorda e dá partida no carro.
O silêncio é perturbador. Ele não troca uma palavra comigo e a minha ansiedade me deixa
nervosa e querendo surtar.
— Você não escuta música?
Ele concorda.
— Não muito, mas tenho algumas coisas aí. Pode olhar.
Sinto um alivio e começo a vasculhar no som do carro. Aperto play no cd na música do
Nirvana, encosto a cabeça no banco e fecho os olhos. Deixo meus pensamentos voarem para longe.
— Chegamos!
Desperto e olho o relógio no meu braço. Percebo que a viagem durou quase uma hora.
Desço do carro e vejo uma casa. Não uma simples, algo grande, cercada por um muro
repleto de plantas, um gramado do outro lado do portão. Vejo uma placa na entrada quando o
segurança abre para que James e eu entremos.
“Casa de recuperação”.
Nem me dou o trabalho de terminar de ler.
— Minha mãe? — pergunto, eufórica.
— Isso. Acho que precisa vê-la.
Sorrio satisfeita.
Ele anda até a recepção e conversa com uma mulher, que me leva até a parte de dentro da
casa enquanto James fica no jardim.
Aqui me parece muito agradável. É bem iluminado, arborizado e com pessoas de todos os
tipos sentadas no jardim, enquanto leem, fazem exercícios e etc. Entramos em um corredor de
quartos. Algumas portas estão abertas, me dando a visão de camas duplas em cada quarto. O lugar é
limpo e tem um cheiro agradável.
— Ela está aqui. Fique à vontade.
A mulher se afasta e fico parada na porta. Quando olho para dentro, vejo a minha mãe. Está
sentada na beirada da cama, bordando. Sua aparência está mais saudável, de cabelos arrumados e
uma roupa bem vestida.
— Será que eu posso entrar?
Ela ergue o olhar, e ao me ver, sorri. Minha mãe levanta de uma vez e me dá um abraço
forte, como nunca mais tinha recebido da mesma.
Lembro-me de quando eu era mais nova, — antes do meu pai se afundar em jogos — que
minha mãe era carinhosa. Ela sempre foi gentil atenciosa e presente. Meu pai também era, me tratava
bem, participava da minha vida. Não sei bem o que houve, mas de repente ele mudou. Ele começou a
jogar, e foi a partir daquele momento que nossa família ficou desestabilizada. Começamos a
derrapar. Meu pai perdeu o emprego, carro, teve que vender algumas joias da minha mãe para pagar
as contas, e foi quando o verdadeiro inferno começou.
Minha mãe passou a ficar nervosa e tomar calmantes. Achando pouco, ela ainda bebia
todos os dias. Ficava descontrolada. Um dia ela recebeu um telefonema, meu pai e ela discutiram
feio, e tudo aconteceu rápido demais. Minha mãe estava desacordada, com os pulsos sangrando, com
olhos fundos, pálida, e meu pai carregou nos braços. Foi desesperador. Passei dias na casa do
Taylor. Foi um verdadeiro pesadelo.
— Como você está ótima, mãe!
Observo seus traços e seu sorriso.
— Você também, filha. Eu estava com tanto medo, tanto! Temia e ainda temo muito por sua
segurança.
Balanço a cabeça.
— Eu estou bem. Estou sendo bem tratada.
De qualquer forma, não posso ser ingrata.
— E o seu pai?
Dou de ombros.
— Não sei. E sinceramente, estou tão magoada com ele pelo que ele foi capaz de fazer.
Minhas lágrimas começam a descer. É como se jogasse todos os sentimentos para fora.
— Seu pai é um homem bom. A culpa foi minha.
Nego.
— Não. Foi ele que se sentou à mesa e me colocou como aposta. Ele que me entregou
assim, como uma mercadoria. Isso eu nunca vou perdoar.
— Não é bem assim. Tenta relevar. Ele te ama tanto, e só quer o seu bem.
Balanço a cabeça e começo a andar pelo pequeno quarto.
— Ele não ama. Se amasse, não tinha feito o que fez.
Minha mãe se aproxima. Seus olhos estão encharcados também.
— Foi muito além do que imagina, Amy… Muito mais.
Afasto-me, tentando entender.
— E o que foi mãe?
— Não posso. Não consigo. — Ela começa a soluçar em um choro desesperador, e eu fico
perdida. A única reação que tenho é abraçá-la. — Eu te amo, Amy. Te amo tanto.
Olho para a porta e vejo James parado, nos observando.
— Não suportaria perder você.
— E não vai, mãe.
Beijo o topo da sua cabeça, e ela começa a se acalmar.
James entra no quarto e ela pede para que ele sente conosco. Minha mãe muda de assunto,
e fala sobre a casa de recuperação e os dias que está passando aqui. Aparentemente aquilo está
fazendo bem a ela. Ela está mais viva, apesar de demonstrar culpa. O que ela falou ficou martelando
na minha mente, e por mais que eu esteja curiosa, não quero tocar na ferida novamente e fazê-la
chorar.
Passamos mais de uma hora conversando, inclusive James participa. Minha mãe parece
satisfeita em me ver com ele.
Ela sabe que ele é um assassino. Não pode simplesmente agir como se ele fosse um bom
partido.
Nunca será. Por mais que a minha alma e meu corpo implorem por ele.
Saio da clínica mais feliz, tranquila e satisfeita com o que vi.
— Obrigada. — falo enquanto ele dirige. — Obrigada de verdade. Ver minha mãe assim
me deixou muito feliz. Não imagina o quanto.
— De qualquer forma, paga pelo meu comportamento na outra noite. Você não merecia.
— Você tem que entender que eu sei o que faço. E se fiz aquilo, foi porque eu quis. Você
não me obrigou.
Olho para ele, que mantém o foco na estrada, em silêncio.
Esse homem é um mistério, e que eu quero muito desvendá-lo.
Capítulo 14

James

Dirijo em silêncio enquanto ela escuta a música que colocou no som. Ela parece com
pensamento distante, mas feliz. Sua aparência está mais leve, mais tranquila. Fico satisfeito por saber
que tenho parte dessa responsabilidade. Eu sei que isso não apaga o que eu sou e o que eu fiz com ela
na outra noite, mas é como um pedido de desculpas. Eu só precisava vê-la bem, e não martelando
tudo o que aconteceu entre nós dois.
Sobre ontem, eu queria ter evitado. Até tentei, mas não deu, eu não consegui. Sabia que
trazendo Amy para a minha casa eu já estaria assumindo um risco, mas não quero que ela tenha uma
vida desgraçada. Quero que seja feliz. Ela é a única coisa boa na minha vida. Mesmo quando estiver
longe, quando for embora, Amy ainda será a melhor coisa que aconteceu comigo.
Sei que eu a tratei mal ao deixa-la daquela forma no meio da cozinha. Eu posso ser um
assassino, perverso e tudo mais, mas não trato mal nenhuma mulher, principalmente as que eu transo.
Só que eu estava gostando daquilo. Eu gostei de vê-la entregue a mim, gemendo, sussurrando meu
nome… e pior, vendo que eu poderia fazer com que ela se apegue a mim.
Quando percebi seu olhar esperançoso na minha direção depois do sexo, soube que era a
hora de mascarar o que estava sentindo. É como eu sempre digo a mim mesmo todos os dias, o meu
mantra: Eu não sirvo para ela.
Dói dizer isso, mas é a verdade. Ela merece algo melhor. Ela merece tudo do melhor. Uma
vida melhor do que ela pode ter ao meu lado.
Essa fase é passageira. Quando tudo terminar, ela irá embora e viverá a vida dela. Estará
livre de mim e poderá seguir em frente com uma vida que ela merece.
Paro no sinal. Tudo acontece rápido demais. Ela abre a porta do carro e sai correndo em
um piscar de olhos.
— Amy! — grito — Amy!
Merda!
Coloco o carro no canto da calçada e desço atrás dela, que anda em passos rápidos como
se não escutasse meu chamado.
— Amy, você não vai querer fazer isso!
Sou ignorado enquanto ela corre na direção de um bar.
Inferno!
— Amy!
Quando entro no bar atrás dela, vejo seu pai. Sinto um nó na garganta ao vê-lo ainda mais
derrotado do que antes.
— Você está bebendo... E jogando? — ela grita, chamando atenção de todos. Alguns me
olham desconfiados, sabem quem eu sou.
Amy pega a bebida e derruba no chão. As cartas de baralho são espalhadas, jogadas aos
pés dos homens.
— O que você está fazendo aqui, Amy?
Seu olhar perdido encara a filha, e depois se volta para mim. Amy segura o homem pelo
colarinho.
— Ora, o que eu vim fazer? O que acha? — Ela chora. Eu nunca a vi chorar. Ela sempre
me pareceu tão forte. — Não está satisfeito com o que fez?
Olho ao redor, e as pessoas nos observam com curiosidade.
— Amy, não. Por favor. Não fale mais nada, minha filha.
O pedido do seu pai é como uma súplica. Eu seguro o braço dela, tentando puxá-la para
fora.
— Escute seu pai, Amy.
Ela tenta se desvencilhar, mas não a solto.
— Por quê? Não quer que os seus amigos saibam o que você fez?
Inferno!
— Não se exponha! — sussurro ao seu ouvido, e claro, sou ignorado.
— Vamos lá, pai! Diga a eles! Ou quer que eu diga?
Tento arrastá-la para o lado de fora, mas não adianta muito, já que ela tem a atenção de
todos.
— Acham que esse homem está no fundo do poço? — grita. — Não! Não está! Ele perdeu
tudo. Emprego, carros, dinheiro... — Ah merda!
— James, tire minha filha daqui, por favor!
Ela gargalha.
— Você me entregou nas mãos do James numa aposta! Numa mísera aposta!
Escuto seus soluços. Agora é tarde, todos já escutaram o que ela falou.
— Não sabe o que está falando.
— Eu sei, pai. Eu sei e isso dói. Você era para me amar e proteger. Mas não. Descartou-
me!
Olho para o homem sentado na cadeira, cabisbaixo.
— Não, Amy. Não...
Ele tenta se justificar, mas eu agarro Amy nos meus braços e a levo até o carro. Ela se
debate, me acerta com tapas, e chora.
Abro a porta do carro e ela entra sem mais protesto. Logo faço o mesmo, e sento ao seu
lado.
— Por que não me deixou ficar? Eu precisava jogar tudo para fora. — fala, enxugando as
lágrimas.
— Você não deveria ter feito aquilo.
Passo a mão no rosto, me sentindo derrotado.
— Por quê? Tem medo que os outros denunciem vocês dois? O que fizeram foi crime,
James!
Balanço a cabeça.
— A polícia é a menor das minhas preocupações.
Ela sorri.
— Claro! Você os extorquiu. Eles estão ao seu lado.
Bufo, batendo no volante.
— Não faça mais uma bobagem dessas, entendeu? Nunca mais.
Meu tom é ameaçador.
— Vai me matar? — pergunta de uma vez, erguendo o queixo e mostrando que nunca teve
medo de mim.
— Não. Mas vontade não me falta.
Principalmente quando ela faz uma idiotice dessas como fez hoje.
Tudo bem, é justificável… ela não tem noção do que está acontecendo. Melhor que
continue pensando assim, pelo menos por enquanto.
Voltamos para casa em silêncio. Ela está pensativa e triste. Odeio vê-la assim.
Quando entramos, tudo está em silêncio. Não vejo meus companheiros, meu irmão, nem
ninguém.
Pego a arma no meu cós e entro na casa.
— Por que está fazendo isso? — faço gesto para que fique em silêncio.
Olho pela sala, escritório, e quando chego à cozinha, Tommy, Julian e Julie estão comendo
em silêncio. Eles olham para nós dois, especificamente para a arma na minha mão.
— O que aconteceu? — Tommy pergunta.
— Cadê os outros? A entrada está sozinha.
Guardo a arma e, Amy se afasta até a geladeira, a procura de alguma coisa para comer.
— Damon saiu com o Oliver.
— Foram fazer o quê?
Ele dá de ombros.
— Oliver precisava de alguém para acompanhá-lo em uma negociação com um francês,
pelo menos foi o que ouvi.
Meu irmão e suas coisas. Com certeza foi negociar algum trabalho, e como aqui ele não
tem ninguém para protegê-lo, precisou do Damon.
— Eu tenho uma informação importante, James. — Brian entra na cozinha, chamando a
atenção de todos.
— Melhor no escritório.
Faço gesto com a cabeça e ando até o cômodo. Eles me seguem, deixando Amy e Julie
sozinhas na cozinha.
Abro a porta e vou à direção da minha cadeira. Eles entram e fecham a porta.
— O que aconteceu?
Brian senta na minha frente.
— Eu estava no cassino, e ouvi murmurinho de que hoje sai um ônibus com adolescentes
para o México.
— Que horas?
Tommy toma a frente.
— Está marcado para depois do almoço. Só que eu peguei o endereço do galpão, e é
melhor que a gente vá mais cedo para tentar impedir e não chamar atenção. Precisamos ficar no
encalço do Lion. Eles vão se encontrar em Abilene, em uma estrada de terra abandonada, próximo de
onde nós ficamos perdidos, lembra?
Tommy recorda e eu concordo.
Levanto, pegando minhas coisas.
— Vamos logo! Ligue para o Damon e o mande voltar para casa agora. — Antes que eles
saiam, aviso. — Chame também os outros que estão de folga. Preciso de mais pessoas comigo.
Eles concordam e saem.
Lion está na minha mira há muitos anos. Só que ele é um homem muito difícil de encontrar,
que se esconde como uma agulha no palheiro. É dos bons. Ele trafica adolescentes para mandar até o
México, dizendo que vai arranjar emprego para cada um e uma boa faculdade. Lá eles trabalham
como garotos e garotas de programa. O esquema dele é grande, e ninguém nunca conseguiu
desmanchar. Mas eu vou. Não só por eles, mas pelo motivo principal.
Sei que minha meta é encontrar o Jason, o que matou meus pais por causa de dívidas. Mas
por enquanto vou ter que deixar minha vingança de lado. Nem que demore mais dez anos, eu espero.
Enfiarei uma bala no meio da testa dele.
Desabo na cadeira e aliso minha têmpora, recordando do que aconteceu há mais de
dezessete anos atrás com o Jason.

Saio do carro acompanhado pelo Adam e o Tommy. Jason vem logo atrás. Estamos em
uma fazenda numa pequena cidade do Texas. Estou segurando uma pistola e os demais também.
Hoje é a minha primeira missão e meu coração pula no peito. Quero sair e gritar por socorro. Eu
não quero ter de fazer isso, mas ou é obedecer ou ver meu irmão sendo morto.
— O fazendeiro está me devendo muita grana. — Jason fala, e logo eu me lembro dos
meus pais. — Esse gado todo, essas terras, estão sendo mantidas por causa do meu dinheiro. Esse
miserável me pediu e não pagou.
Troco um olhar com o Tommy, que já é mais experiente, mas que me lança um olhar de
amizade.
— E o que nós fazemos com homens desse tipo? — pergunto, e o Adam toma frente.
— Matamos! Quero acertar o tiro na cabeça dele, Jason!
Fico assustado com as palavras do menino, que é ainda mais novo do que eu e o Tommy,
mas que está aqui desde os cinco anos.
Entramos na casa, que parece ser muito bem cuidada. Jason vasculha por todo o lugar
em busca do homem, e nós três esperamos. Eu estou nervoso. Sinto dor na barriga e na cabeça.
— Vai ficar tudo bem. — Tommy fala, tentando me reconfortar.
— É melhor nunca se mostrar fraco.
Balanço a cabeça e Adam nos encara.
— O melhor é vocês calarem a boca, ou vou contar tudo para o Jason, que vai dar uma
lição nos dois.
Sinto vontade de socar esse menino, mas me contenho.
De repente, Jason aparece com um homem mais velho. Deve ter idade para ser meu avô,
coisa que eu nunca conheci.
— Matem esse verme!
O homem chora, pedindo perdão, mas Jason ignora.
— Cala a boca!
Ele acerta um chute no homem, que geme de dor.
— James! — Tomo um susto ao ouvir meu nome. — Venha!
Sou puxado pelo braço e paro na frente do senhor, que não para de chorar.
— Atire! — Ordena, mas eu não sei se quero. — Na boca. — Balanço a cabeça. — Vai
querer que eu mate o Oliver?
Aponto a arma para o Jason. Eu poderia matá-lo, não é?
— Faça o que ele está mandando! — Adam grita, e quando olho, ele tem a arma
apontada para a minha cabeça.
— Não faça nada estúpido, garoto burro.
Jason desdenha, e eu acabo colocando a arma na boca do homem deitado no chão.
— Logo!
Nervoso, com minhas mãos trêmulas e as pernas bambas, penso em tudo. Penso em meus
pais, no Oliver, e em tudo que tenho que fazer para sobreviver e manter meu irmão vivo.
Fecho os olhos e atiro, sentindo o sangue do homem jorrar em cima de mim.
Solto a arma e saio correndo para fora, chorando e lembrando o estado que ficou o
rosto do velho. Não acredito no que fiz!
Sinto uma mão no meu ombro. É o Jason!
— O primeiro sempre é pior, mas depois fica fácil. Você se acostuma.
Assim, ele anda até o carro e me espera.
Eu preciso ir embora e levar meu irmão comigo.

Meu pai devia dinheiro a ele na época, que tinha um cassino. Meu pai era como o da Amy,
viciado em jogos. Além do mais, vendia drogas. Na época eu sabia que era errado, mas não tinha
noção do tamanho. Era jovem demais para saber. Só depois que fui morar no galpão com o Jason e
seus comparsas que entendi tudo. Todo o esquema e o que eles queriam comigo. Tornar-me um
assassino. E conseguiram.
Desligo os pensamentos sobre o Jason e foco no Lion Holding.
— Preparado, James? — Tommy pergunta, e eu me livro dos pensamentos.
— Sim. Eu vou livrar o mundo e ela daquele infeliz.
Pego minha bolsa com os armamentos e saio sem ver a Amy novamente.
Capítulo 15

James

Duas horas na estrada com Tommy e Julian, e mesmo com o nervosismo e ansiedade, sigo
para a cidade aqui mesmo no Texas. Moro em uma cidade pequena, e não demora muito até chegar ao
nosso destino. Eu preciso tirar o peso das costas. Essa missão parecia quase impossível de encontrar
o Lion. Claro, ele não é meu único alvo, mas só posso fazer uma coisa de cada vez.
Tommy dirige, e eu aproveito e ligo para o Damon. Preciso saber como a Amy está e se a
casa está bem protegida.
— James? — Escuto a voz do Damon do outro lado da linha.
— Onde está a Amy? — pergunto e eu o escuto resmungar.
— Está trancada no quarto. Não saiu de lá por nada. Julie ainda mandou comida, mas ela
fez a refeição por lá mesmo. Aquela garota me odeia.
— Deixe-a em paz. Não quero que toque num fio de cabelo dela. — Sinto os olhares de
Tommy e Julian em cima de mim. — Não me interessa se você é o meu parceiro, mas se tocar nela eu
o mato.
Ele gargalha.
— Claro que eu não vou fazer nada com ela. É uma ninguém pra mim.
— Acho bom, Damon.
Tudo fica em silêncio.
— Damon... Tem seguranças suficientes?
— Sim.
— Então mais tarde estarei por aí. Não permita a entrada de ninguém, entendeu?
— Entendi. E onde vocês estão? Não entendi bem o que foram fazer. — pergunta, mas não
quero entrar em detalhes. Só depois que eu chegar.
— Estou indo para Abilene. Mais tarde nos falaremos.
Despeço-me e desligo o telefone.
— Você está muito interessado naquela garota, não é? Ela não é somente uma missão para
você. — Julian pergunta em tom de brincadeira, e eu o encaro, fazendo o mesmo ficar sério no
mesmo instante.
— Eu só quero protegê-la.
Ele balança a cabeça e eu viro para frente, atento a estrada. Ninguém comenta mais nada.
Meia hora depois paramos em frente a uma pensão, aparentemente abandonada. Na frente
há um ônibus grande, sem ninguém dentro. Pego minha bolsa, jogo no ombro e desço do carro. Os
dois me acompanham.
O sol escaldante e o silêncio ensurdecedor me deixam tenso. Esse lugar foi exatamente
onde fiquei quando fugi de dentro do ônibus do Jason. É aqui que eles dão partida para outros países
ilegalmente. A polícia nunca se importou, por isso, eles mandam e desmandam.
Lion é ainda pior. Também, não trabalha com nada que envolva pouca grana. Não é à toa
que ele é quase um bilionário. Ninguém sabe ao certo onde ele se esconde, mas sei que o patrimônio
dele é grande e que tem gente vigiando todo o mundo por ele. O trabalho dele é sujo e perverso. Eu
sempre quis pegá-lo, sempre; só que meu foco pelo Jason nunca me deixou conseguir. Agora virou o
contrário, Lion é o primeiro para que eu possa ter paz e sossego.
Fico de tocaia do lado de fora, esperando que eles saiam.
— Eu vou ficar do lado de lá do ônibus.
Tommy fala, se afastando.
— E eu ficarei do outro lado da rua, esperando que apareça.
Julian avisa e também vai para longe, me deixando sozinho.
Alguns minutos depois, um homem alto, aparentemente com seus cinquenta anos, sai com
uma fileira de meninos e meninas adolescentes, todos desconfiados e cabisbaixos. Devagar, eles
entram no ônibus, e eu espero pacientemente.
Quando a porta do ônibus se fecha, o homem anda de volta para a casa, mas eu o sigo.
Antes que eu consiga acertá-lo com uma coronhada, um tiro passa de raspão pelo meu braço.
— Merda! — grito, e meus parceiros começam a atirar de volta em direção a casa.
Começo uma luta corporal com o homem, enquanto os tiros se intensificam. Os gritos de
dentro do ônibus são altos e desesperadores.
— Fiquem no chão!
Grito para eles, mas logo sou atingido por um soco no rosto, me fazendo cair no chão de
terra.
Puxo o homem e ele cai ao meu lado. Socos, pontapés, tiros, gritos... Tudo parece mais
uma cena de filme de faroeste. A poeira arde meus olhos, e eu fico por cima do homem, dando socos
fortes, fazendo o sangue jorrar no seu nariz, testa e boca... Até ele ficar desacordado.
Levanto e entro na casa, acompanhado pelos meus dois companheiros. Um homem desce a
escada, mas antes que possa erguer a mão atiro na sua cabeça. O outro que aparece por trás do
Julian, que tem o mesmo fim. Tiros abafados e pisadas fortes no chão de madeira preenchem o lugar
velho e com cheiro de mofo.
— Fiquem aqui e eu subo.
Aviso aos dois e subo de dois em dois degraus na escada velha e acabada, que range a
cada pisada minha. As portas dos quartos estão todas abertas, mostrando homens caídos no chão e
paredes cheias de buracos de balas.
No último quarto, a porta fechada é aberta com um chute forte; e quem eu encontro não é o
Lion, e sim Ruiz, para a minha surpresa. Sua arma está apontada na minha direção.
— Se não é o matador de Dallas...
No seu rosto um sorriso de deboche.
— Eu deveria ter te matado. — falo, lembrando que eu fui um imbecil por ter poupado o
Ruiz.
— Mas não matou. Para minha sorte.
Aperto a arma com força.
— Você é um burro, James. Achava que eu ainda estava no esquema com o Jason?
Gargalha.
— Trabalho para o mais poderoso entre todos, o que é muito melhor do que você.
— Filho da puta!
Xingo, inconformado com a descoberta.
— Uma pena ter que morrer em minhas mãos. Acredito que o Lion adoraria fazer o
serviço.
Continuo com a minha arma apontada para ele, sem me render. Porque sei que um vacilo,
eu posso morrer.
— Onde está o miserável do seu patrão? — pergunto.
— Foi embora. — dá de ombros — Achou que ele ficaria aqui esperando você vim matá-
lo?
— É um covarde! Poderia ter ficado. Mas serve você mesmo... pelo menos por enquanto.
Fico parado no lugar, sabendo que não posso me mover, ou estarei assinando meu próprio
atestado de óbito.
— Onde ele está?
— Para que quer saber? Você não sairá daqui vivo.
Sorrio.
— Sobre isso, eu já duvido muito.
Clico na arma e atiro, mas antes que ele caia, escuto outro disparo forte.
— Merda!
Meu braço adormece, e vejo que meu ombro foi atingido.
— Inferno! — xingo, tentando aliviar a dor.
O homem geme no chão. O tiro no peito direito não foi para matá-lo. Não ainda.
Chuto a sua arma para longe. — Vou reformular a pergunta. — Chuto sua boca, fazendo-o
cuspir dois dentes.
— Merda!
O sangue escorre e ele treme.
— Onde está o Lion, Ruiz?
— Foi embora! Ele soube que você viria e se foi.
— Quem avisou? — pergunto, já impaciente.
— Ninguém que seja da sua maldita conta.
Piso no seu peito e ele urra de dor.
— Vá para o inferno, Lancaster!
— Talvez você me espere por lá!
E eu atiro no meio da sua testa.
Respiro fundo e observo o corpo do homem estirado no chão. Menos um verme no mundo.
Ninguém irá sentir falta. Estou fazendo um favor para os filhos dele. É só mais um bandido cruel e
perverso.
Sorrio sozinho. É até irônico, porque eu sou exatamente igual a ele… igual a todos eles.
Também mato a sangue frio, e não sinto remorsos. Pelo menos não mato pessoas inocentes.
— James?
Julian e Tommy aparecem e se assustam ao ver meu ombro sangrando.
— Droga! Tem que fazer um curativo.
Balanço a cabeça.
— Em casa.
Pego o celular e ligo para o John, meu amigo policial, o mesmo que pegou a Amy naquele
dia tentando fugir.
— John? — Ele responde. — Preciso que avise aos seus amigos policiais de Abilene que
tem um ônibus cheio de adolescentes no meio da estrada. Mande virem na rota da Lake Rd que eles
irão encontrá-los.
— Tudo bem!
— Há corpos dentro da casa. Alguns, provavelmente, ainda vivos.
Lamento por isso.
— Já vou ligar. Saia logo daí. Não deixe rastros.
Concordo e agradeço.
— Vamos embora!
Julian e Tommy saem do ônibus e tentam acalmar as pessoas. Eles avisam que não saiam
até chegar a polícia.
Entro no carro, e logo recebo uma mensagem do John avisando que os policiais estão há
dez minutos daqui.
— Melhor irmos rápido.
Julian dá partida no carro e olha preocupada para o meu ombro, que não para de sangrar.
Tiro a minha camisa e gemo de dor. Aprendi a controlar um pouco. Os anos fizeram isso comigo.
Jason fez isso.
— É melhor parar em uma farmácia. Eu compro os curativos. — Tommy fala e eu nego.
— Não precisa. Em casa... Tenho tudo em casa.
Enrolo a blusa no meu ombro, fazendo pressão para estancar o sangue. Sinto-me fraco.
Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos.
Inferno! Perdi esse bastardo de vista.
— Alguém avisou que viríamos. — falo, e os dois olham para mim.
— Quem? Tudo foi tão bem escondido.
Balanço a cabeça.
— Não faço ideia. — Penso, mas não adianta, tudo em vão. — Mas vou descobrir.
— Alguém deve ter escutado lá no cassino. Sabem que trabalhamos para você. — Tommy
justifica.
— Pode ser, mas não acredito muito nisso. Lion não sabia que eu estava atrás dele.
Ficamos em silencio durante as três horas de viagem.
Minhas pernas estão bambas e começo a suar frio.
Paramos em frente da minha casa já na escuridão. Julian buzina, e logo o portão é aberto.
Oliver e Damon correm até o carro quando desço cambaleando.
— Ele perdeu muito sangue! — Escuto Julian falar para o Oliver, que passa o meu braço
direito pelo seu ombro e tenta me levar para o quarto.
Subo a escada devagar, degrau por degrau, sentindo uma dor insuportável no ombro
esquerdo. A parte do meu ombro da blusa já está encharcada com o liquido vermelho.
— O que aconteceu? — Damon pergunta quando deito na cama, encostando a cabeça no
travesseiro.
— Ele fugiu. O desgraçado... Ai! — Porra! — Alguém avisou.
Damon fica surpreso.
— Mas quem, porra? Quem faria isso?
— Não sei.
Oliver arruma o travesseiro debaixo da minha cabeça.
— Você precisa de um curativo, mas Julie não está em casa.
De repente, olho para a porta e vejo Amy parada, com o olhar assustado.
— O que aconteceu com você? — Ela anda em passos lentos até onde estou.
— Ele levou um tiro. A bala ainda está alojada e ele perdeu muito sangue. — Oliver vira
para ela.
— Você sabe fazer curativo, não é?
Ela nega com a cabeça.
— Posso tentar.
Fecho os olhos.
— Ah Deus! Isso só pode ser brincadeira.
Xingo, e ela me encara.
— Se quiser, fique com a bala alojada no ombro, ou posso empurrar bem mais. Babaca!
Suspiro.
— Tudo bem. Desculpa!
Ela vira na direção dos homens, e eu sinto frio. Começo a tremer.
— Preciso que peguem gases, esparadrapos, uma pinça, soro e água morna.
Ordena, e eles saem do quarto, nos deixando sozinhos.
— No que você foi se meter, James? —— Ela coloca a mão na testa, nervosa e pálida. —
Aliás, no que você foi me meter?
Sorrio, mesmo nervoso. Ela anda de um lado para o outro, até o Tommy aparecer com as
coisas que ela pediu.
— Aqui tem tudo. Toalhas, os itens que me pediu, e o material para fazer os pontos.
Tommy bota a mala na cadeira.
— Obrigada, Tommy. Agora preciso que segure o James.
Meu parceiro senta do outro lado da cama e segura meu braço e peito.
— Ele está com febre, Amy.
Ela balança a cabeça.
— Primeiro vamos tirar o projétil.
Amy segura o soro e coloca no meu ferimento, me fazendo gritar.
— Caralho!
Ela se assusta.
— Eu preciso limpar antes de retirar.
— Onde você aprendeu?
Ela lança um meio sorriso.
— Nos escoteiros aprendi a tirar farpas, fazer curativos de ferimento com pregos...
— Ah merda! Só faça logo isso.
Ela esteriliza a pinça e parece perdida.
— A Julie só puxa a bala de uma vez e pronto. Depois disso costure.
Com as mãos trêmulas, ela abre a carne, mas antes que possa tirar, Julie entra no quarto.
— Deixe que eu faço isso, Amy. — Amy pula da cama e se afasta, deixando minha
empregada fazer o serviço.
— Sinto muito! Eu não conseguiria. — Ela pede desculpas com o olhar, e eu estendo a mão
direta para ela, que se aproxima e segura.
— Só o mantenha distraído.
Amy senta ao meu lado, e a única coisa que eu faço para esquecer a dor é focar no seu
rosto, nos seus traços e seu olhar assustado. Sua mão está quente e trêmula. Assim, ela permanece ao
meu lado, até que a Julie termine.
— Pronto!
A mulher levanta satisfeita com o curativo.
— Você está ardendo em febre, James. Aqui têm analgésicos, toalha e álcool. Posso ficar
aqui com você a noite toda, se quiser.
Amy levanta e toma a frente.
— Pode deixar, Julie. Eu ficarei aqui.
Tommy e Julie ficam surpresos com sua atitude. Eu inclusive.
— Tem certeza? Eu posso ficar. Já estou acostumada. Não é a primeira vez.
— Absoluta. Podem ir. Eu ficarei bem.
Assim, os dois saem, nos deixando a sós. Amy pega um copo com água e me dá um
comprimido.
— Tome. Isso pode amenizar a dor e a febre.
Faço o que ela pede e deito.
— Está bolando um plano para me matar asfixiado enquanto eu estiver dormindo?
Ela sorri.
— Talvez.
— Quer ser minha sucessora?
Amy cruza os braços e fica pensativa.
— Se isso der tanto dinheiro quanto eu penso.
Sorrio com sua ironia divertida.
Meu telefone toca, interrompendo nossa conversa, e ela me entrega o aparelho. O número é
restrito e eu não queria atender nesse momento.
— Quer que eu atenda? — pergunta, e eu nego.
Na segunda vez, pela insistência, acabo atendendo.
— Alô!
Espero a outra pessoa responder.
— Então é você que está com ela, seu desgraçado?
Congelo com o telefone na mão.
Lion.
Capítulo 16

Amy

James joga o celular no chão e geme em seguida. Seu rosto está pálido, e seja lá quem era
do outro lado da linha, o deixou perturbado. Eu sei que não adianta perguntar, porque ele não vai me
dizer. Eu nunca sei de nada sobre ele, ou sobre o verdadeiro motivo de estar aqui. Isso também não
me importa. Não hoje, enquanto ele está assim, tão vulnerável.
— É melhor que fique deitado e tente dormir.
Pego na sua testa, e ele está ardendo em febre. Corro até as coisas que deixaram aqui e
pego uma toalha. Despejo álcool e ando até a cama. Passo o pano por sua testa, rosto, pescoço e
peitoral.
Eu ainda não tinha visto James assim, sem camisa, tão de perto. Tão nos mínimos detalhes.
Minha boca seca ao ver seu peito musculoso e barriga tanquinho. O que mais chama a minha atenção
são as cicatrizes pelo corpo e braços, linhas retas que preenchem seu corpo másculo.
— Isso são consequências da minha vida de merda.
Assusto-me ao perceber que ele estava reparando em mim, no meu olhar.
— Doem? — pergunto, passando a toalha por elas.
— Na alma.
Engulo seco.
— O que aconteceu aqui?
Minha pergunta sai sem muitas esperanças de uma resposta, já que ele nunca conversa
comigo. Eu queria poder saber mais sobre ele.
— Navalhas. — Surpreendo-me com sua resposta inesperada. Tanto que não falo mais
nada. — Eu tinha quatorze anos quando fizeram isso comigo. Jason Smith, um dos maiores assassinos
que você possa imaginar. — Sinto por ele. Por ter sofrido dessa forma. — Ele só perde para o
bastardo do Lion. — O nome sai da sua boca em um tom amargo. — Ele matou os meus pais. Matou
por causa de dívidas com jogos.
Fico em choque com suas palavras. Poderia ser o fim do meu pai?
— Como uma pessoa é capaz de fazer isso?
Ele se ajeita, tentando deixar o braço mais relaxado.
— As pessoas são capazes de coisas muito piores do que isso.
Olho para ele e vejo algo mais. Algo além de um assassino.
— E esse Lion?
Seus olhos arregalam, mas continua a falar.
— Ele trabalha com tráfico de pessoas. Leva para fora do país, prometendo um bom
emprego e uma garantia de vida. Depois, obriga todas a trabalharem como garotas de programa. Ele
também comanda prostitutas de luxo assassinas, e disponibiliza suas fotos em sites. Elas
acompanham magnatas, tem noite de sexo, e depois matam, roubando seus bens mais acessíveis. —
Nem consigo responder de tão assustada que eu fico. — É exatamente isso que eu tento acabar, Amy.
— Então você é uma boa pessoa, de qualquer forma.
Ele balança a cabeça.
— Eu posso ser tudo, menos uma boa pessoa.
Assim, mostrando que não quer mais discutir sobre o assunto, ele vira o rosto e fecha os
olhos.
Continuo a passar a toalha pela sua testa.
James me causa coisas inexplicáveis. Coisas que eu jamais imaginei que sentiria por
alguém. Ele mexe com meus melhores e piores instintos, faz meu corpo inteiro reagir a sua
proximidade, seu toque e seus beijos. Meu foco na vida nunca foi me apaixonar. Sempre mantive a
cabeça nos estudos e na minha amizade com o Taylor; enquanto minhas colegas de escola iam para
festas, bailes, namorar em acampamentos, eu só pensava em afundar a cabeça nos livros. Só queria
estudar para garantir um futuro bom, diferente do da minha mãe.
Deixo os pensamentos de lado, e observo o James me encarar. Seu olhar está cansado e seu
ombro enfaixado me fazem querer conversar mais com ele. Desvendá-lo.
— O que realmente aconteceu com você e seu irmão?
Ele bufa, abrindo os olhos e me encara.
— Você é curiosa demais!
Dou de ombros.
— Tenho que passar a noite vigiando você. Tenho pelo menos o direito de tentar conversar.
— Pelo seu olhar acredito que estou quase vencendo pelo cansaço. — Já que não me fala nada sobre
o motivo de ter me trazido, deveria contar a sua vida.
— Minha vida de merda não é interessante para ninguém, Amy.
Paro a toalha no meio do seu peito.
— Para mim é.
Foi uma frase dita sem pensar, mais com um pensamento que saiu em voz alta. Quase me
arrependo, mas quando ele começa a falar, percebo que foi a melhor coisa que fiz.
James conta sobre a morte dos seus pais, e que o Jason, o assassino, o levou junto com o
Oliver. Quando começa a falar sobre o tipo de treinamento que levou, sinto pena... uma tristeza
enorme por saber que ele passou por isso tão cedo. Também, por saber que Jason gostava do Oliver,
mas odiava o James. Por isso, descontava toda a sua raiva, por causa da dívida do pai Lancaster, no
James. Ele apanhava até desmaiar. Houveram dias em que dormiu com cortes de navalha ardendo em
contato com o chão frio e duro.
E eu ainda reclamava da minha vida.
— Caramba! Por isso você é assim, tão jovem.
Olho com piedade para o homem deitado na minha frente, e que não demonstra nenhuma
dor pelo que acorreu.
— Não admito que sinta pena de mim, Amy. — Sua voz é fria e seca.
— Não sinto. Mas sinto do menino que sofreu. Você agora se transformou no que ele quis
que você se tornasse.
Meus olhos parecem arder.
— Você acabou se transformando em um assassino, James. Alguém igual ao Jason.
Ele balança a cabeça.
— Não! Você pode falar qualquer coisa que quiser, mas não que eu me tornei um Jason.
Levanto.
— E o que você é? — Abro os braços. — É um assassino. Mata pessoas inocentes por
dinheiro, James. O que mais seria isso? — James fica em silêncio. Ele tenta se sentar, solta um
gemido, e eu corro para ajudá-lo. — Não sei por que ninguém me conta. Todos vocês são um
mistério para mim. O único que ainda se abre comigo é o Oliver. Que por sinal, eu não sei o que
aconteceu com ele depois que vocês se separaram.
Sento de volta, passando as mãos pelo cabelo.
— Ele foi morar com uma família adotiva na Itália, dois trambiqueiros. De qualquer forma,
deram uma vida boa para o meu irmão, que quando cresceu, voltou e nos reencontramos.
— Que bom que vocês têm um ao outro.
— E eu sempre o protegerei, por mais que ele seja desse jeito que é. É minha única
família, a única pessoa que eu sei que aguenta a carga da minha vida miserável.
Cerro os lábios.
— Depois que você fugiu do Jason, o que aconteceu? — pergunto, interessada.
— Acabei indo morar na rua, com Tommy. — Fico surpresa com a descoberta. — Ele
também morava lá com o Jason, e na primeira oportunidade, nós fugimos. Depois, comecei a
trabalhar para um mafioso. Sabia que era errado, mas era minha única opção. Ele me deu casa,
comida e roupas. Foi uma boa alternativa.
— E você matava pessoas?
Concorda.
— Fui um aprendiz. Acabei virando seu comparsa, até que um dia ele morreu, e eu fiquei
com o que era dele. Alguns bens, dinheiro, ele deixou para mim. Tommy estava trabalhando com um
traficante, e depois que o Michael morreu, eu o chamei para trabalhar comigo.
Fico quieta, escutando tudo.
— Eu fiquei com os clientes do Michael também.
— Ah, claro! — debocho. — Eu não mato inocentes, Amy. — Essa também me deixa
surpresa. — Eu mato pessoas que merecem morrer. Pessoas que não vão fazer falta a ninguém.
— E como sabe que não?
Dar de ombros.
— Você tem que me dar um bom motivo para matar alguém. Geralmente, eu mando para os
meus amigos policiais e eles puxam a ficha. Já matei de pai de família pedófilo a chefes do tráfico.
Engulo suas palavras com dificuldade.
— Seus amigos policiais são corruptos. Se fossem boas pessoas, não estariam ao seu lado.
Ele sorri.
— Não. Eu entrego os bandidos para eles ou eu mesmo mato. Faço um serviço que não
mancha o nome deles.
Inacreditável.
— E agora, além de matar pessoas que merecem morrer… — Friso bem a sua frase —
Você fica nessa luta incessante atrás do Jason? Do Lion também?
Concorda.
— Mais alguma pergunta?
— Talvez sobre eu estar...
Ele nem me deixa terminar.
— Não. Essa eu não respondo.
Bufo me sentindo derrotada.
— É melhor ir dormir então.
Viro-me para ele.
— O que fez com o Kellan, afinal? Aquele da boate?
Seu maxilar cerra e ele me encara.
— Meus amigos policiais cuidaram dele.
Balanço a cabeça um pouco aliviada.
— Acabou o interrogatório?
Ironiza.
— Por hoje. — Ajeito seu travesseiro — Agora durma!
Ele atende meu pedido e se deita. Eu permaneço sentada ao seu lado, até que ele durma.
Sinto vontade de beijá-lo novamente, tocar seu corpo...
Acordo com alguém pigarreando ao redor.
Abro os olhos e vejo Oliver, sorrindo maliciosamente na minha direção.
— Ninguém te ensinou que é errado agarrar uma pessoa impossibilitada de se defender? —
fala, e é quando noto que estava dormindo ao lado do James, com a cabeça no seu ombro direito.
— Merda!
Dou um pulo da cama e ajeito os cabelos.
— E agora, como você vai saber se ela não se aproveitou do seu corpo nu, James? —
provoca, falando com o irmão. Quando olho para o James, vejo que ele está sorrindo. Miserável!
— Eu sinto muito. Só adormeci sem perceber que estava deitada aqui.
Estou nervosa e querendo correr do quarto de tanta vergonha.
— Imagina. Minha cama é grande, e sempre caberá mais alguém.
Reviro os olhos.
— Vocês dois são idênticos!
Saio do quarto em passos rápidos.
Desço até a cozinha e Julie está pondo o café na mesa.
— Dormiu bem? — pergunta com um meio sorriso nos lábios.
— Você também não, hein?
Ela balança cabeça.
— Sinto muito. Fui até o quarto para saber se queria comer alguma coisa, mas não quis
atrapalhar seu sono.
— Maldita hora que inventei de ficar lá com ele.
Julie para e senta na minha frente.
— Tenho certeza que ele ficou feliz com a companhia.
Ignoro seu comentário e começo a comer.
Depois de tomar meu café, tomo um banho, troco de roupa. Depois vou até o jardim, e ando
tentando aliviar o estresse.
— Amy?
Fico surpresa a ver o James no jardim, bem melhor do que ontem.
— Acho que você não deveria levantar.
— Bobagem! Estou acostumado, já fiquei pior do que isso. Foi somente um tiro no ombro.
Olho para os homens parados no portão, colocando algumas compras para fora do carro.
— Tenho uma surpresa para você. — Olho para ele, interessada. — Venha até o deck.
Ele anda na frente e eu vou acompanhando.
Quando vejo, um boom Box — um boneco simulador de Box — está colocado perto da
piscina.
— Eu sei que gosta de treinar, então comprei para você. Só precisa ir lá e dar uns socos
para se livrar do estresse que é viver aqui.
Abro um sorriso e vou correndo igual uma criança quando ganha seu brinquedo preferido.
Capítulo 17

Amy

Uma semana depois, e James já está bem melhor. Até já saiu com Tommy e Damon para um
serviço na cidade vizinha. Pelo que ouvi os mesmos comentando, era um sequestrador. Ele tinha
mantido a irmã em cárcere privado por anos, e a torturava. Pelas fotos que eles receberam dos
policiais, eu vi a tal mulher. Estava magra, abatida, sem vida. Sei que o mais óbvio era prendê-los,
mas a família é rica e influente, e não queria um escândalo. Então, acharam mais fácil dar um fim no
filho, que já não tinha mais tanta importância para eles.
Como pode? Uma vida valer menos que a posição social. Eu sei que o homem não presta,
mas ao menos poderia ter pago tudo o que fez com a irmã se ficasse preso, levando anos sofrendo
dentro de um presídio.
Mas quem sou eu para dar palpite em alguma coisa por aqui?
Até que nesses últimos dias tem sido mais tranquilo. James até está mais próximo a mim,
sem me dar tantas patadas. Oliver faz sempre aquelas brincadeiras toscas; mas é quem me diverte.
Damon que de vez em quando solta farpas em cima de mim, e os demais me defendem. Tommy e
Julian são os que tenho mais proximidade. São pessoas boas, apesar da profissão.
Hoje foi o dia que mais treinei. Fiquei sozinha grande parte do tempo. Tomei um banho e
me arrumei para curtir um pouco da festa que organizaram.
Percebi que o James gosta muito de dar essas festas com bebidas e mulheres. Não tem mais
ninguém de fora, além das esbeltas loiras, ruivas e morenas bem vestidas e de boa aparência. Os
homens nem sequer me notam quando estão quase devorando a boca das mulheres.
Vou até a mesa de bebidas e me sirvo com uma dose de vodca. A música toca em som
ambiente, para não chamar atenção dos vizinhos. Procuro pelo James, mas não o encontro.
Sinto um nó na garganta ao pensar que ele possa estar com outra mulher dentro de casa. Ou
com outras...
Mas qual é o meu problema? Não somos nada um do outro. Não posso simplesmente me
sentir incomodada por causa disso.
Só que o meu coração grita o contrário, e implora para que eu vá atrás dele e acabe com
qualquer festa que ele esteja fazendo lá dentro.
É... Eu estou mais do que atraída pelo James. Para falar a verdade, acho que desde a
primeira vez que ele me beijou, meu coração se rendeu de vez.
Entro na casa, e sinto um alivio pela música estar mais abafada. Procuro por todos os
cômodos, mas não queria subir até o quarto.
— Ei. — A voz, vinda da sala de TV, me faz tomar um susto.
— Caramba!
Ando ao encontro dele, que está sentado no sofá, com sua bebida na mão no ambiente
iluminado só pelo abajur moderno.
— Não está gostando da festa? — debocha.
— Nunca gostei de festas. Não seria essa, cheia de assassinos, que eu iria gostar. — falo
em tom de brincadeira.
— Ninguém tocaria em você mesmo.
— Eu posso dar um chute nas partes baixas para me defender. Quebrar um nariz também.
Ele sorri e eu vejo seus dentes brancos perfeitos.
— Eu acredito.
James bate no sofá ao seu lado, e eu sento.
— Pensei que estivesse ocupado com um par de seios na sua cara.
Gargalha.
— Não. Ultimamente eu estou preferindo um tipo especifico de par de seios.
Termino minha dose de bebida, e ele pega a garrafa que está sobre a mesa.
— Mais? — pergunta, e eu estendo o copo.
Bebo mais um pouco e o líquido desce queimando pela minha garganta. O silêncio entre
nós é perturbador. Eu queria perguntar mais sobre ele, mas não consigo conversar agora. Estou
nervosa. O efeito que ele causa em mim é devastador. Eu preciso de mais um pouco de álcool para
poder me soltar.
— Eu fui atrás do seu pai. — Olho para ele, esperando que continue. — Dei um ultimato.
Ou ele para de jogar e beber, ou vai ver o sol nascer quadrado.
Abro a boca surpresa.
— Preso? Por quê? Ele não faz nada de errado.
Ele dar de ombros.
— Dou meu jeito. O que não pode continuar é ele acabar com o resto da família que tem se
destruindo porque quer. Nós já conversamos diversas vezes, Amy. Eu ofereci dinheiro para comida e
necessidades pessoais, mas ele estava trocando tudo em fichas de apostas. Agora vai para outra
cidade por um tempo para trabalhar, firmar a vida. Quando a poeira abaixar, ele voltará. — Sinto
uma vontade louca de chorar. — Sei que ele é um bom homem. Você tem sorte. O que ele fez por
você...
Eu interrompo.
— Ele me entregou a você, James!
— Sua mãe eu entendo, passou por muita coisa. Ela sim dá para entender que uma hora iria
ter recaída, mas ele tem que ser forte por vocês, e não se afundar mais. Não pode ser tão covarde.
Passou por muita coisa...
— Do que você está falando?
Será que eu não conheço a minha própria mãe?
— Um dia, Amy! Eu não posso.
Que merda!
— Porra! — Levanto, pegando mais uma dose e virando goela abaixo. — Eu estou farta
disso tudo. — Mais uma dose. — Cansada! — Despejo todo o líquido de uma vez na garganta. —
Esse mistério. — Quarta dose, e eu já me sinto tonta. — Quer saber? — Ando até ele. — Eu não
quero mais falar sobre isso por hoje. — Jogo minha sandália. — Eu quero ser livre e não pensar em
nada. — Sento de volta ao seu lado, colocando a mão na sua coxa. — Converse o que você achar
adequado, ou faça alguma coisa, porque eu sinto que eu vou pirar com essa carga na minha cabeça.
Ele se ajeita ao meu lado e coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Tudo bem, Amy! — Seu dedo desliza até meus lábios, mas logo ele tira. — Sobre
aquele dia... — Fico sem entender, mas acabo me perdendo no seu olhar. — Na cozinha, você disse
que não era mais virgem.
Fico surpresa com sua pergunta repentina.
— Não era exatamente esse tipo de conversa que eu estava esperando. — Seu maxilar
cerra e ela espera que eu continue. — Não era virgem, se é isso que te interessa tanto.
Ele franze as sobrancelhas.
— Quem?
— Um amigo.
Não falo o nome. Não posso. Não quero colocar o Taylor no meio disto.
— Você nunca namorou, pelo que sei. Nunca gostou de festas, nunca foi de beber...
Olho para ele, sem acreditar que saiba tanto sobre mim.
— Parece que você me conhece bem.
Seu olhar queima no meu e eu fico arrepiada.
— Mais do que você possa imaginar.
Sorrio involuntariamente.
— Devo me preocupar com isso? Parece meio psicótico.
James balança a cabeça e seu cenho está mais leve.
— Não. Nem um pouco. — Fico aliviada ao ver seu jeito despojado. — Talvez, deva se
preocupar com esse meu desejo louco de levar você para a minha cama.
Engulo o resto da bebida de uma vez.
— E seu disser que também tenho esse desejo?
Fecho os olhos quando percebo que mais uma vez pensei em voz alta. Ou seria a culpa da
bebida?
— Amy... Você não pode falar isso e achar que eu não vou ficar duro e te agarrar aqui
mesmo.
Ele se aproxima.
Não espero mais nada. Puxo sua nuca e levo minha boca até a dele, me entregando mais
uma vez, sem pensar em mais nada, só no gosto da sua boca e suas mãos quentes me apalpando.
Isso estava prestes a acontecer de qualquer forma. James me causa um desejo absurdo,
fogo... uma tensão e tesão. Sinto meu sangue ferver nas veias de prazer ao sentir seu cheiro. Sim, me
rendi. Rendi aos seus beijos e sua pegada. Não tem mais jeito. Sei que estou perdida e esse é um
passo próximo ao precipício que serei largada quando toda essa loucura acabar.
Capítulo 18

Amy

James e eu estamos em uma sintonia mútua, e eu não entendo bem o porquê disto estar
acontecendo. Eu deveria me afastar dele. Jamais deveria sentir o que sinto dentro de mim, mas eu não
consigo mudar meus sentimentos. Não consigo arrancá-lo do meu peito... não agora… Não com ele
tão perto, tão lindo e me beijando. É um assassino, mas que eu não consigo odiar.
Eu permiti me render assim, e agora parece ser tarde demais.
Sua boca trilha a linha do meu pescoço até parar entre meus seios, que estão implorando
por sua língua. E é exatamente o que ele faz. Sua carne molhada brinca com meu mamilo rosado
enquanto observo seu olhar incendiando no meu. Ele repete o mesmo processo no outro seio, me
deixando quase capaz de gozar sem ao menos ele ter se encostado à minha boceta.
— Deliciosa!
Seu tom é grave e trêmulo ao mesmo tempo. Gosto de vê-lo assim por mim.
James desliza sua mão entre minhas coxas e puxa a calcinha para o lado. Abro as pernas e
dou mais espaço para que ele explore dentro de mim, onde ele já pertence.
— Encharcada. — Morde meu ouvido — Por mim. Droga!
Ele pressiona meu clitóris, e não precisa fazer mais nada, porque eu desmancho em um
orgasmo que parecia estar preso há tempos.
Sem que eu possa pensar, James me coloca no seu colo, e eu vou sem pestanejar. Sentir sua
ereção entre as minhas pernas, me deixa pronta para mais. Eu quero ir além. Quero senti-lo dentro de
mim novamente, empurrando forte e grosso.
— Eu quero você! — falo com meus lábios entre os dele, minha língua explorando a sua, e
rebolo em cima dele.
— Eu também, Amy. Te quero desde que te vi uma mulher.
Mal consigo raciocinar com suas palavras, seus toques e seus beijos.
Suas mãos apertam minha bunda com firmeza.
— Me possua, James! Faça de mim o que quiser. — Ele não responde. — Foda-me como
fez naquele dia.
Em meu juízo normal jamais falaria isso, mas estou louca... Estou excitada e querendo
mais.
— Você não sabe onde está se metendo.
Sorrio em tom irônico.
— Não me importa. Pior do que já estou, não tem como.
Ele franze a testa, mas acaba ignorando meu comentário, que acredito ter saído de uma
forma muito ruim.
— Eu não quis...
James coloca o dedo em cima dos meus lábios.
— Não continue. Você me quer? Pois você terá.
Em um rápido movimento, sou jogada de quatro no sofá, e solto uma risada abafada com
seu jeito sutil de agir comigo. O pior é que gosto disso. Não deveria, mas gosto.
James retira minha calcinha e ergue meu vestido, me deixando completamente exposta para
ele fazer o que bem entender.
Sinto sua mão deslizar entre a minha boceta e a minha bunda, me fazendo soltar um gemido.
— Sempre quis te ver assim. Sempre quis te deixar louca de prazer. — Suas palavras me
deixam ainda mais excitada. — Abra mais as pernas que vou chupar você, Amy. Quero sentir seu
gosto novamente.
Ninguém nunca me beijou ali além do James. É algo tão íntimo, principalmente quando
feito dessa forma. Eu estou de quatro, exposta, tão intimamente pronta para ser devorada, totalmente
entregue ao prazer.
James fica de joelhos, e suas mãos apalpam a carne da minha bunda. Solto um gemido
quando sinto sua língua deslizando pela minha boceta lentamente, me deixando com as pernas fracas.
— Eu sou louco pelo seu gosto. Ficaria o dia inteiro com minha boca aqui.
A ponta da sua língua acaricia o meu clitóris enquanto mordo o encosto do sofá, tentando
não gritar como uma louca.
— Ah James... Por favor! — Rebolo na sua língua, e seu dedo explora minha bunda.
Quando o sinto penetrar no buraco apertado, solto um grunhido.
— Você gosta, Amy? — Sou incapaz de abrir a boca para falar qualquer coisa. — Gosta
que eu coma você com a língua e invada sua bunda deliciosa?
Balanço a cabeça concordando.
— Continue!
Ele obedece, traçando a língua pela minha entrada molhada e carente dele.
Sinto-me pervertida, sexy, desejada... Sinto tudo o que nunca senti. Nunca imaginei que
gostaria tanto do sexo como estou gostando.
Acho que ficarei viciada.
— Droga, James!
Seu dedo circula dentro de mim, enquanto a sua língua devassa passeia pela minha boceta.
— Goze, Amy! Se entregue ao prazer. Venha para mim.
Abro a boca, soltando um longo suspiro.
— Quero gozar com você dentro de mim. — peço em desespero, e ele levanta.
— Eu vou foder você com força, e não serei nem um pouco gentil, Amy.
Seus dedos alisam minha bunda, mas em seguida ele afasta, voltando de uma vez com um
tapa forte na minha carne.
— Ai, porra! —xingo, mesmo sabendo que o tapa me deixou mais excitada do que
dolorida.
— Você quem está pedindo isso. E eu também não aguento mais esperar para me enterrar
dentro de você.
James abre uma embalagem de preservativo e coloca. Eu não vejo, mas sinto seus
movimentos.
De repente, sinto seu pau deslizar dentro da minha boceta, e ele agarra meus cabelos entre
os dedos, puxando para trás. Seus movimentos são rápidos e fortes. Uma onda de prazer invade meu
corpo com suas estocadas. Eu enlouqueço.
— Ah, Amy! — Sua voz sexy e máscula me deixa extasiada. — Eu não vou querer parar.
Nunca mais.
Um sorriso se abre na minha boca.
— Eu não quero que pare.
Mais forte. Três, cinco, sete... Ele afunda dentro de mim com mais força.
— Você não sabe o que está pedindo.
Sinto perder as forças nas minhas pernas.
Seu pau inchado dentro de mim, seus toques, suas palavras... Tudo isso está me levando ao
êxtase do prazer. A uma loucura que eu nunca vivi.
Sinto o orgasmo do James chegar junto com o meu, e fico satisfeita. Sem ar, encosto minha
cabeça no sofá e tento recuperar minha respiração. Nunca me senti tão bem, exausta e cansada. Na
verdade, posso até estar cansada, mas estou pronta para mais. Uma noite. Horas e horas. Quanto
tempo ele aguentar.
James desaba o corpo por cima do meu e me ajuda a deita de bruços no sofá. Ele beija
minha nuca e ombros. Seus lábios parecem ter uma mágica. Ele é melhor em tudo o que faz.
— Acho que precisamos de um banho. — fala ao pé do meu ouvido.
— Não, acho que precisamos de outra rodada.
Sua risada abafada me faz sorrir também.
— Eu estou criando um monstro? — pergunta em tom divertido.
— Talvez.
Ele levanta e oferece a mão para que eu faça o mesmo.
Assisto enquanto ele tira o preservativo e enrola num pedaço de papel, jogando na pequena
lixeira da sala.
— Venha!
Ela arruma meu vestido e me leva para o seu quarto.
Aí sim... Trancados, livres e sem nos preocuparmos com o depois, nós nos entregamos a
mais uma rodada de desejo e luxúria.
E eu não pretendo parar.
Acordo com meu estômago roncando. Visto a primeira camisa do James que vejo e prendo
os cabelos. Não tem mais música, e tudo está em silêncio. Ouço apenas alguns sussurros.
Sempre tem alguém perambulando nessa casa?
Na cozinha vejo a comida que sobrou da festa guardada em potes. Não resisto e acabo
pegando um pedaço da torta fria que a Julie sempre faz. Pego uma lata de coca. Como tão rápido
como se tivesse desesperada.
James acabou com minha energia. Nunca pensei que o sexo seria tão bom dessa maneira.
Ando pelo corredor e escuto gemidos vindos do quarto de hóspedes. Não sei o que
acontece comigo, mas deixo a curiosidade falar mais alto.
A porta está entreaberta. Eu empurro devagar, e quase derrubo a lata no chão quando vejo a
cena.
Dois homens se beijam loucamente e... Uma mulher. Tem uma mulher entre os dois?
Engulo seco e aperto as coxas. É impossível não achar sexy essa cena. Não consigo mais
me mexer. Parece que fiquei grudada no chão.
Eles penetram na mulher violentamente, fazendo a mesma grunhir em gemidos
desesperados de prazer. Abraçados, se beijam, deixando que a mulher entre eles sinta seus desejos
aflorando.
Acabo dando um passo à frente, conseguindo identificar o rosto dos dois. Parecem alheios
a minha presença.
É Julian e... Tommy?
Solto um suspiro e cubro minha boca com a mão, mas é tarde demais. Tommy está pálido,
me encarando, e Julian quando vira, quase solta a mulher que permanece escondida entre eles.
— Amy? O que...
Ergo a mão.
— Eu sinto muito. Só ia passando pela porta, e vi.
Julian pega sua calça e veste rapidamente, Assim que se afasta, consigo ver o rosto da
mulher.
— Lucy?
Ela me olha, surpresa e desconfiada.
— Amy... O que você está fazendo aqui?
Cruzo os braços e não acredito que ela está de cabeça baixa. Envergonhada. Por Deus!
— Vocês se conhecem?
Tommy também se veste, jogando o vestido para Lucy.
— Estudávamos juntas. — falo, e ela vira de costas para se vestir, como se eu não tivesse
acabado de ver coisa pior.
— Estou envergonhado, Amy. Sinto muito!
Dou de ombros quando Tommy pede desculpas.
— Eu não me importo, a vida é de vocês.
Eles ficam surpresos.
— É que isso não é fácil de aceitar.
— Qual o problema em dois homens e uma mulher se entregarem ao prazer? — Ergo as
mãos no ar. — Não sou expert em sexo, mas sei que não estão fazendo nada de errado. — Ele sorri.
— Acho melhor eu subir. E mais uma vez, me desculpem por ter atrapalhado.
Não espero uma resposta, saio tão rápido quanto entrei.
Volto para o quarto e tomo o resto da minha coca. Coloco a lata no criado mudo e ando até
a janela. Agora perdi o sono.
Vejo Julian, Tommy e Lucy indo embora. Eles fecham o portão e eu volto para a cama.
Observo James dormir tranquilamente. Não parece ser o que é, tão sereno e calmo. Passo
os dedos no seu peitoral e olho seu rosto. Seus traços são perfeitos. Boca, olhos, nariz, queixo...
Todo o conjunto é tão bonito.
Estico o pescoço para deixar um beijo nos seus lábios, mas escuto disparos abafados.
Levanto em um pulo e corro até a janela. Vejo homens que não reconheço entrando na casa,
armados, procurando por alguém entre as pessoas que dormem no jardim.
Ando até o James e sacudo seus ombros.
— James! James! Acorda!
Meu coração parece que vai sair pela boca a qualquer momento.
Capítulo 19

Amy

James acorda assustado, enquanto minhas mãos trêmulas apertam seus ombros. Eu mal
consigo falar. Ele me encara e senta de uma vez ao me ver assustada.
— O que aconteceu? — pergunta, passando a mão no rosto.
— Invadiram a casa! Estão armados e...
Ele não espera que eu termine. Levanta e pega uma arma guardada debaixo da cama.
— Venha! — Ele não se dá ao trabalho de se calçar. Só veste uma camisa, pega a chave do
carro, celular e a carteira. — Merda! Não sabia que ele viria tão rápido.
Saímos do quarto devagar, sem fazer barulho.
— De quem você está falando?
Ele ignora minha pergunta.
— São quantos? — pergunta.
— Uns seis.
Ele xinga em voz baixa.
James me puxa para o lado oposto da escada. Fico sem entender o que ele quer fazer, mas
mesmo assim eu confio nele. Irônico, mas confio.
— Aqui!
Ele me mostra uma saída de emergência com uma escada de ferro na lateral da casa.
Desço devagar e com as pernas tremendo. Estou com medo... Medo de morrer ou de
assistir a morte dele.
Caio de bunda e minha cabeça bate no gramado. Antes que eu levante, James já está ao meu
lado.
— Venha!
Ele segura minha mão e andamos até a parte da frente.
Tudo acontece tão rápido, que mal consigo assimilar. Começam a disparar na nossa
direção. Eu abaixo a cabeça e escuto James revidando. São muitos tiros, e o barulho do alarme do
carro sendo desbloqueado soa.
James me empurra contra a parede e sussurra no meu ouvido.
— Você vai correr até o carro e entrar o mais rápido que puder, entendeu?
Balanço a cabeça.
— Mas eles vão me matar!
Sinto algo fechar a minha garganta.
— Não vão. Eles não querem matar você. — Ele me solta e grita. — Corre!
Faço o que ele manda, corro com as mãos na cabeça e me sinto no meio do fogo cruzado.
Um disparo acerta a porta do carro assim que abro.
— Merda!
Entro e bato a porta.
Consigo respirar quando sento. Acredito que o carro seja blindado, ou ele não me
mandaria ficar aqui.
Dois homens que estão na varanda do quarto de cima atiram na direção do James, que é tão
ágil, que derruba um de cima da sacada, fazendo o mesmo cair no chão sem vida.
Outro chega por trás e tenta acertar uma coronhada na sua cabeça, mas James o pega pelo
pescoço e bate seu corpo na parede. A cena que eu vejo me faz querer vomitar. O tiro estraçalha a
cabeça do homem. Fecho os olhos, mas a cena não vai sair da minha cabeça.
James atira no terceiro ,que aparece saindo da sala e que não tem tempo de erguer a mão
para atirar.
Ele corre numa velocidade incrível e entra no lado do motorista. Sua camisa está suja de
sangue. Não do dele, mas do homem que teve a cabeça atingida.
James liga o carro e dá partida. O veículo logo começa a ser alvejado por balas e mais
balas.
Quando passamos pelo portão vejo Brian e Dave sem vida, com poças de sangue ao redor.
— James! — grito, sem acreditar no que vi.
Ele bate no volante com raiva, pois acabou de perder dois dos seus companheiros. Eu não
faço ideia do que se passa na sua cabeça, já que ele é acostumado com a morte.
Eu choro. Nunca vi a morte passar tão de perto. Coloco o cinto e olho para o James, que
está concentrado na estrada, tentando fugir antes que os homens nos encontrem.
— O que foi isso? — pergunto com a voz falha.
— Lion Holding. Ele quer me matar, se não deu para perceber.
Bufo.
— Isso foi meio óbvio. Só quero saber por quê.
Ele balança a cabeça negativamente.
— Não é o momento.
Tenho vontade de socá-lo por ser sempre misterioso e me esconder tudo.
Olho para trás e vejo um carro vindo à nossa direção.
— É melhor se segurar, Amy!
Faço o que ele manda.
James aumenta a velocidade, e quando olho no ponteiro, percebo que estamos a cento e
vinte.
— Nós vamos morrer!
Ele solta uma lufada de ar.
— Nós iremos morrer de qualquer jeito. É melhor morrer tentando, pelo menos.
— Isso não ajudou!
Encosto no banco e bato minha cabeça no vidro da janela quando James faz uma curva
brusca. Ele entra em uma ruela e vai em direção ao viaduto. Olho para trás e não vejo sinal de carro.
James escolhe o túnel e pega a saída mais próxima para Duncanville.
Quando vejo que ninguém mais nos segue, consigo respirar mais tranquila.
— A vida é sempre assim ao seu lado?
— De vez em quando.
Passo a mão no rosto.
— Meu Deus, James!
Ele olha para mim, sem entender meu desespero.
— Cadê o Oliver? O Damon?
— Oliver não estava na festa. Ele saiu com uma mulher.
Respiro aliviada.
— Damon estava por lá mais cedo, mas não o vi mais.
Ele soca o volante novamente.
— Que inferno!
Assusto-me.
— Eu deveria ter deixado todos eles na minha casa. Sabia que com você lá seria perigoso.
Olho para ele, sem entender.
— Como assim?
— Eu posso arriscar minha vida, não a sua.
Encosto minha cabeça no banco de couro.
— Você um dia vai me explicar isso tudo, não é?
Ele concorda.
— Por mim eu já teria contado, mas não posso. Preciso que entenda e tenha paciência.
— Mais do que já tenho?
Dobro minhas pernas e olho para a estrada vazia.
Acordo com James cutucando minha perna. Abro os olhos e noto que estamos parados em
frente a um motel de estrada.
— Eu estou só de blusa.
Ele olha ao redor.
— Fique aqui que vou pegar a chave do quarto.
James bate a porta e trava. Anda na direção da recepção, e eu o observo. Ele tem as costas
largas e um bom porte de homem. Intimida qualquer pessoa com essa pose de malvado, de vilão.
Olho para a estrada e nenhum sinal de carro. Ainda bem!
O motel parece pequeno, mas ao menos é fácil de esconder. Cada quarto tem uma garagem
com um toldo para fechar. Melhor assim. Se aqueles homens passarem, não vão saber que estamos
aqui.
James abre a porta do carro e entra. Um homem careca, que fica na recepção, abre a
garagem e entramos. Assim que o toldo é colocado, eu desço.
— Acho que dá para ficar aqui até de manhã.
Concordo.
Ele abre a porta e espera que eu entre primeiro.
Sento na cama e cruzo as pernas, observando enquanto James pega o celular e faz uma
ligação.
— Tommy? — Ele anda pelo quarto impaciente. — Onde você está? — ele espera — Tem
notícias do Julian? — Prendo meu cabelo em um coque. — Invadiram minha casa. Quase me
mataram. Se a Amy não tivesse os visto entrando, eu não estaria mais aqui e ela teria sido levada. —
O quê? Eu era o motivo por eles estarem ali? — Tudo bem! Eles mataram dois. Brian e Dave.
Sinto um embrulho no estômago ao lembrar os dois estirados no chão, bem na entrada.
— Sim, passem por lá. Vou ligar para o Damon. Qualquer coisa me ligue.
Ele desliga e logo faz outra chamada.
— Merda! Ele não atende essa porra!
Sua voz sai quase como um grito. Ele tenta outra ligação.
— Julian? Onde você está?
James encosta na janela e observa o lado de fora.
— Porra, Julian. Preciso que deixe a mulher aí e vá lá em casa.
Ele explica tudo o que aconteceu ao parceiro. Demora mais alguns minutos, e ele desliga.
— Tenta se acalmar. Você está nervoso demais.
Ele se ajoelha aos meus pés, coloca a cabeça no meu colo e passa os braços ao redor da
minha cintura.
— Você poderia ter morrido. Eu não me perdoaria.
Passo a mão pelo seu cabelo.
— Eu estou aqui.
Ficamos em silêncio por um bom tempo na mesma posição.
Quando o James age dessa forma, sendo ele mesmo, se abrindo para mim, eu sinto que ele
pode mudar. Ao mesmo tempo, sei também que a qualquer momento ele pode me atacar e dizer que
não quer ficar comigo. Eu não me importo, pois não vou viver como se precisasse dele. Mesmo que
eu já esteja acostumada e rendida, não quero ficar dependente de um homem, por mais que ele abale
todas as minhas estruturas. Não sei se aguentaria o ritmo, essa loucura.
Por enquanto prefiro não pensar sobre isso. Minha cabeça ainda está zonza por tudo que
aconteceu hoje. James disse que eles foram atrás de mim.
Por quê? O que eu tenho que interessa a eles? Eu não sou rica, não tenho nada que
desperta o interesse deles.
Droga! Agora vou ficar com isso na cabeça até que ele tenha a boa vontade de me
contar.
O celular dele toca e ele se levanta para atender.
— Fala, Tommy!
Enquanto ele escuta, me encara.
— Merda! Como assim dopadas? Quem diabos iria fazer isso? — Ele bate na cômoda. —
Damon também? Inferno! Leve-o para dentro de casa e tente acordá-lo. Ele precisa saber o que
aconteceu. — James apoia os cotovelos. — Não! Não me importa se estão bem. Eu quero saber quem
estava nessa maldita festa. Quero saber o nome de todos. — Passa a mão no rosto. — De jeito
nenhum que eu vou aceitar isso assim. Claro que eu vou atrás do Lion, mas antes eu quero saber quem
facilitou o acesso deles. Quem disse que a casa estaria cheia? — Faz uma pausa para escutar. —
Onde está a Julie que não apareceu na hora da festa? — Meu Deus... Será? Não! — Claro que sim!
Todos serão suspeitos. Sim, você inclusive. Trate de saber o que aconteceu. Alguém está ajudando
aquele filho da puta, e eu vou descobrir quem é.
James desliga o celular e coloca em cima do móvel.
— Você acha que a Julie seria capaz? — pergunto, mesmo não acreditando nessa
possibilidade.
— Ela sumiu, Amy. Esses dias ela anda saindo demais. — Respiro fundo e tento não
colocar coisas na cabeça. — E tem mais, quem tem acesso ao preparo da comida é ela. Se botaram
alguma coisa na comida ou bebida deles, ela pode ter culpa.
— Eu prefiro não acreditar nisso.
Cruzo os braços.
— Com a convivência você vai perceber que não pode confiar em ninguém.
Fixo o olhar no dele.
— Nem em você?
Ele sorri.
— Em mim pode. Pelo menos nisso. Eu jamais faria mal a você. Mas... — James se
aproxima e me puxa até ele. — Eu já falei para você que não sou um homem bom, Amy. Eu sou ruim.
Balanço a cabeça.
— Não é! Eu sei que não é verdade.
— Não crie um eu aí dentro dessa cabeça. Você vai se decepcionar.
Encosto a testa no seu queixo.
— Acho que ainda irei buscar o melhor em você.
— Não. No máximo encontrará algo ainda pior.
Afasto-me e olho para ele, inconformada.
— Por que você é assim? Sempre se menosprezando?
— Eu gosto do que sou, mas não gosto quando penso em nós dois. Você deveria manter
distância, e não se iludir achando que poderemos ficar juntos.
É como se eu levasse um soco no estômago.
— Você não parece se incomodar quando estamos transando.
Ele nega.
— Não mesmo. São momentos que quero aproveitar até a hora de você ir embora. —
James passa a mão no meu cabelo. — Você precisa de um banho. Está com os cabelos cheios de
areia e grama.
Foi na hora que cai da escada no jardim.
— Você também está imundo!
Franzo o nariz e ele sorri.
Seus dedos trilham os botões da camisa branca, me deixando somente de calcinha. O que
não demora muito também a perder, já que ele se abaixa e tira o tecido fino.
— Eu vou te dar banho.
Sigo James até o banheiro. Ele enche a banheira e confere a água. Eu espero enquanto o
observo.
Ele começa a se despir sob o meu olhar.
Depois de cheia, ele entra e me puxa para que eu fique de costas, entre as suas pernas.
Assim, mesmo depois de tudo, consigo relaxar nos seus braços.
Capítulo 20

James

Passo os dedos entre os cabelos da Amy enquanto ela relaxa encostada no meu peito. Ela
consegue me deixar tranquilo e me faz ter esperança de algo mudar. Só que algo no fundo do meu
peito grita para que eu me afaste, que não permita que ela viva nessa vida de merda. Eu só tenho que
esperar. Esse foi o trato. Eu cuidaria dela… protegeria.
Sei que tudo o que estou fazendo foge do que prometi, mas não consegui resistir.
Agora Lion descobriu sobre ela. Sabe que está comigo e não está para brincadeira. Não sei
como vou fazer, mas irei virar o mundo do avesso se for preciso para protegê-la. Nem que para isso
eu mate todos que atravessarem o meu caminho.
Levanto e confiro mais uma vez o movimento do lado de fora. Nada. Ainda bem.
Observo Amy deitada na cama. Seu corpo quase nu espalhado na cama me deixa tentado.
Eu quero me aproximar e tocar sua pele. Não posso. Estou com a cabeça a mil, e ela deve estar pior.
— James?
Escuto sua voz quando me viro para olhar pela janela.
— O quê?
Não olho, mas consigo ouvir sua decepção por eu não dar atenção.
— Vem! Fica aqui comigo?
Sua voz sai numa súplica deliciosa de ouvir.
Viro-me para ela, e seu sorriso na minha direção me faz repensar o que ia fazer. Eu queria
deixá-la quieta, sozinha, descansando, mas ela não permite isso.
— Você precisa dormir. A noite foi conturbada.
Dá de ombros.
— Talvez eu prefira relaxar de outra maneira.
Sorrio com a sua ousadia.
— Você era tímida, não? — Ergo a sobrancelha.
— Não! Eu nunca disse isso.— Morde o lábio inferior me provocando. — Só não tinha
experimentado um sexo viciante.
Passo a mão pelo rosto e ando até ela, que está sentada na ponta da cama.
Seguro seus cabelos e meus dedos enroscam nos fios castanhos escuros.
— Desde quando te vi pela primeira vez, sentada no telhado de casa, há seis anos, tive
vontade de fazer isso.
Ela ergue o olhar surpresa.
Que merda! O que estou falando? Só posso ter enlouquecido.
— O que disse?
Balanço a cabeça.
— Eu gosto dos seus cabelos. Gosto de passar a mão, de sentir o cheiro.
Abaixo a cabeça e encosto o nariz no topo da sua cabeça, sentindo um cheiro doce e
inebriante.
Suas mãos descem até a toalha enrolada no meu quadril e eu observo. Vejo sua garganta
subir e descer quando ela ergue o olhar para mim.
— O que foi, Amy? — pergunto, e ela fica sem graça.
— Quero chupar você!
Suas palavras me causam um impacto grande, como se nunca tivessem feito isso comigo.
Eu fico imediatamente duro. Nervoso. Ansioso.
Devagar, eu tiro a toalha e deixo cair no chão. Amy vê a minha ereção saltando quando me
livro da peça. Ela não faz nada. Só observa e passa a língua pelos lábios.
— Eu nunca...
Sua voz é baixa, mas eu entendo. Sei o que ela quer dizer.
— Fique à vontade. Só não morda. — Sorrio para tentar deixá-la mais relaxada. —
Segure! — ordeno, e ela faz o que eu mando. Quando sinto sua mão quente do meu pau, estremeço. —
Agora faça movimentos nele subindo e descendo. — Tento falar o mais calmamente o possível, mas
queria poder enfiá-lo e foder sua boca gostosa, como imaginei diversas vezes. — Coloque na boca
devagar e chupe. Vá da base até onde conseguir. Só não pare com o movimento com a mão. Isso é
excitante.
Sua boca encosta no meu pau e eu solto um gemido baixo. Ela não é experiente, isso é
óbvio. Está atrapalhada e não sabe tão bem o que fazer, mas eu irei ensinar.
— Isso! — A metade do meu pau é engolido pela sua boca. Ela tenta mais, mas eu impeço.
— Só até onde aguentar, Amy.
Pego seus cabelos e prendo em uma só mão. Devagar, ela chupa subindo até a base e
descendo com sua boca molhada.
— Delícia! — sussurro.
Abaixo o olhar para a mulher em minha frente, que devora meu pau como se estivesse com
fome dele.
— Linda, Amy!
Seguro sua nuca com a outra mão livre.
Sinto meu pau começar a inchar e minhas bolas implorarem para despejar tudo na boca
dela. Eu não posso, não farei isso com ela. Não agora.
Amy passa a língua na base e me encara. Eu poderia gravar esse momento para quando ela
for embora, eu poder olhar e admirar. Inocente e ao mesmo tempo sedutora.
— Vem cá!
Ajudo a levantar segurando sua mão.
— Eu ainda irei foder sua boca, mas não vai ser hoje. Você me deixou duro, e se eu não me
enterrar em você, vou gozar aqui mesmo, igual um homem inexperiente.
Ela sorri e abre o roupão, expondo seu corpo que eu já gravei cada detalhe.
— Ah, Amy!
Deito na cama e puxo-a contra mim. Seguro sua, nuca deixando nossas bocas próximas o
suficiente para começar um beijo. E é o que ela faz, me beija e agarra meu cabelo, esfregando seu
corpo no meu, como uma gata no cio.
Puxo um preservativo de dentro da minha carteira e coloco sob seu olhar.
— Sente por cima de mim! — ordeno, posicionando o pau na sua boceta quente e apertada.
Ela está depilada ao estilo brasileiro, e isso me deixa louco. — Faça o que você quiser! — falo,
segurando na sua cintura.
— Você quem comanda por hoje.
Sua dança começa lentamente. Ela cavalga em cima de mim, com seus cabelos jogados
para trás, a boca aberta, e seus seios balançando no seu ritmo.
— James!
Meu nome sai da sua boca e parece bem melhor vindo dela.
— Abra as pernas!
Amy se joga para trás, apoia seu corpo e segura o colchão. Suas pernas ficam abertas para
mim. Abro seus grandes lábios, expondo seu clitóris. Eu massageio enquanto ela continua, rebolando
no meu pau.
— Gosta disso? — pergunto com o polegar no seu clitóris.
— Si… Sim... — Ela abre a boca em busca de ar. — Ah James! — grita meu nome mais
uma vez.
— Você quer gozar? Continue. — provoco, aumentando a velocidade do meu dedo. —
Gostosa!
Amy começa a cavalgar mais forte, sentando com força e desesperada. Ela está com o
rosto suando, e o bico do seio aceso.
A excitação no seu rosto é nítida, isso me enlouquece.
— Vou gozar, James! —Ela está sendo pervertida do seu jeito.
— Goze, garota! Venha!
Amy se desmancha nos meus braços em um orgasmo ininterrupto. Logo eu a acompanho,
jorrando meu gozo, e me sinto mais calmo com ela aqui em meus braços.
— Isso foi muito... — suspira — Bom!
Sorrio, beijando o topo da sua cabeça.
— Você foi maravilhosa, Amy!
Ela ergue a cabeça e me encara, sorrindo orgulhosa. Vai ser difícil aceitar a partida dela
quando chegar a hora.
Acordo com o toque do meu celular. Estico o braço, e pego o aparelho no criado mudo.
É o Tommy.
— Fala!
Burburinhos chamam a minha atenção.
— Estou na sua casa. Todos já foram embora. Peguei a lista com o nome das mulheres que
estavam aqui, mas nenhuma chamou minha atenção.
Xingo em silêncio.
— Alguém teve acesso a tudo. Não é possível!
— Vou esperar você chegar.
Uma pausa.
— Vocês vão voltar? Ou preferem outro canto?
— Não! Ficarei aqui. Quero esperar o Lion me procurar novamente.
Eu vou matar aquele desgraçado. Lenta e dolorosamente.
— Mas, e a Amy? É ela que ele quer.
Sinto uma raiva querendo explodir no meu peito.
— Eu vou deixá-la preparada, pronta para recebê-lo.
— Isso é loucura, James! Não foi você mesmo que disse que queria Amy distante disso
tudo?
Verdade. Falei isso, e por mim ela ficaria longe daqui, longe da minha vida.
— Ela é esperta. Não vou subestimá-la.
Escuto sua risada abafada.
— Nem eu!
— Então, chame mais dois para a entrada da casa e os coloque do lado de dentro. Hoje
mesmo voltarei, até porque Lion não vai imaginar que estarei de volta.
Ele concorda e desliga o telefone.
Foi uma idiotice sem tamanho colocar dois dos meus homens parados na entrada de casa.
Com câmeras, eu poderia muito bem ter deixado dentro do jardim. Eles eram ágeis e fiéis. Sinto uma
culpa por saber que perdi mais dois.
Não é a primeira vez que isso acontece, só nunca aconteceu na minha casa. Alguns
parceiros meus já acabaram morrendo em missões. Nunca as ações são cem por cento bem-
sucedidas. Sempre tem algum deslize e descuido. É uma vida perigosa. Quem aceita sabe o risco que
está assumindo.
No final da tarde, voltamos para casa em um carro novo. Comprei e deixei o meu para trás.
Não tenho carro no meu nome, sempre uso identidade falsa para fazer compras.
Pedi um blindado, e um conhecido que trabalha numa concessionária me ajuda sempre que
preciso. Eu só dou um agrado a mais.
— Eu ainda estou com medo de voltar. — fala, e sinto receio na sua voz.
— Eu vou deixar você protegida, não se preocupe.
Duas horas depois chego em casa, e o portão é aberto no momento em que paro em frente.
Entro, sem deixar chances para alguém observar.
Amy é a primeira a descer, e Oliver vai até ela.
— Meu Deus! — Ele a abraça e eu sinto um incômodo. — Eu pensei que ia perder você.
Sua frase sai acompanhada por uma risada irônica. Ele me encara. Sabe que me atinge.
— Estou viva! — Amy abre os braços e gira.
— Acho que seria melhor vir comigo para a Itália. Estaria mais segura. Mudamos de
nomes e...
Interrompo.
— Oliver... Não!
Ele ergue os braços e se afasta, não sem antes de passar a mão no rosto da Amy.
— Vamos lá dentro! — falo, e todos me acompanham até a sala. Amy anda atrás de mim
com o Oliver.
Na sala, Tommy, Julian, Damon, mais dois que eu tinha dispensado por uns tempos e Amy
ficam esperando que eu tome a iniciativa.
— Cadê a Julie? — pergunto, e não demora até ela aparecer na sala. — Ontem invadiram
minha casa, que foi feita para ser segura. Ninguém nunca tinha se aproximado porque sabiam que
aqui era um lugar protegido.
Eles balançam a cabeça escutando com atenção.
— Damon e as convidadas da festa foram dopadas. Não sei com o que batizaram, mas não
me atingiu. Nem a Amy, nem Julian e nem Tommy.
Coloco as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.
Olho para a Julie.
— Onde você estava?
Minha voz é calma, mas autoritária.
— Eu estava na missa.
Cerro o olhar na sua direção.
— Ah James! Não... — Ela coloca a mão sobre a boca — Eu jamais faria isso.
— Como vou saber? — pergunto, percebendo seu choro aparecer.
— Eu nunca trairia vocês. Por que faria isso?
Dou de ombros.
— As pessoas são capazes de tudo por dinheiro.
— Ah meu Deus! — Agora ela chora. Desesperada, nervosa e envergonhada.
— Eu não me importo com muito dinheiro. Nunca me importei. Gosto do meu trabalho
aqui, e...
— Pare de chorar, Julie.
Começo a ficar nervoso.
— Para, James! — Viro ao escutar Amy elevando a voz. Ela vai até Julie e a consola.
— Ela já disse que não foi ela, caramba!
— Como sabe, Amy? Ela tem saído quase todos os dias.
Julie enxuga as lágrimas.
— Eu estou participando dos eventos da igreja. Só precisava de algo para me distrair além
daqui. — Ela caminha até onde estou. — Eu não tive culpa de nada, mas se quiser me demitir, eu vou
aceitar. — Oliver e Amy me encaram decepcionados. — Não me importo em perder o emprego, mas
sairei de consciência limpa.
— Então, James? — Oliver pergunta, erguendo a sobrancelha na minha direção.
Passo a mão pelo rosto me sentindo derrotado e... culpado.
— Desculpe-me, Julie. Eu só estou nervoso demais.
Meu irmão sorri.
— Você não precisa mais se explicar. — Julie segura minha mão e beija. — Obrigada,
James! Obrigada!
Sinto vergonha do que fiz. Pelo menos, os ânimos melhoraram e o clima já não está tão
pesado.
Tommy vem até onde estou e me entrega um papel.
— A lista de convidadas. Não conheço nenhuma bem. Só sei que elas sempre estão por
aqui. Claro, tem a Lucy, mas você sabe que ela é desmiolada. — Sorri — Nunca faria mal a ninguém
dessa maneira.
Lucy é estudante, bonita e jovem. Bebe, gosta de festas e muito sexo. Apesar de ser
desligada e meio louca, eu não confio. Todos serão suspeitos até que se prove o contrário.
Leio e não vejo nenhum nome estranho. Não conheço todas, mas sou bom em gravar nomes.
Sempre são as mesmas mulheres que frequentam as minhas festas. Elas vêm para beber e se divertir.
O sexo faz parte, caso elas queiram. Algumas recebem agrados, outras ficam satisfeitas com o sexo.
Eu sempre transava com alguma diferente. Assim era melhor. Nenhuma se apegava. Elas
entendiam que eu não estava disponível para um relacionamento. Não posso arrastar uma mulher para
a minha vida. Nenhuma merece essa carga.
— E agora? — Julian pergunta.
— Quero que providenciem uma arma para a Amy. — Ela fica surpresa com o que eu falo.
— Ela tem que ficar preparada caso alguém invada novamente. — Viro-me para ela. — E atire. Sem
dó. Não pense em nada. Só atire.
Amy concorda, mas sei que está nervosa.
— Ligaram para mim, James. — Tommy fala. — Querem que você faça um serviço.
Balanço a cabeça e ando até o escritório. Ele me acompanha.
Entro na pequena sala e ele vem logo atrás, trancando a porta.
— O que é? — pergunto, sentando na minha cadeira.
— Uma mulher que está comandando um cassino aqui em Dallas. O nome dela é Rita
Muller.
— O que ela fez? Investigou? — pergunto, e ele concorda.
— Lá dentro do cassino funciona um clube de swing. Ela espera os casais irem lá e se
divertirem. Tudo é filmado. Depois, manda o vídeo para os clientes, chantageando. Sempre pede
muito dinheiro. Caso não paguem, ela expõe e depois comete atentados contra os parentes dos
mesmos.
Aliso minha têmpora.
— Quem contratou foi um cantor famoso. Ele não quer se expor, mas quer que mate a
mulher.
— Eu não estou com cabeça para isso.
Minha mente só gira em torno do Lion.
— Não gosto de matar mulheres, você sabe bem disso.
Por mais que ela seja errada, eu nunca consigo. Não sei por quê. Talvez pela criação que
minha mãe deu. Não sei... Só nunca consegui.
— Então dê um susto. Eu avisei sobre isso, e ele concordou.
Concordo.
— Tudo bem. Iremos por lá! — Levanto. — Só quero mais pessoas com a gente. Ligue
para os antigos.
Ele balança a cabeça e faz menção de sair, mas antes de abrir a porta ele volta.
— Mais alguma coisa, Tommy?
Ele fica em silêncio por alguns minutos. Eu o conheço, sei que quer contar algo. São anos
de convivência.
— Amy falou alguma coisa sobre ontem?
Franzo a sobrancelha e fico sem entender.
— Aconteceu alguma coisa que eu não estou sabendo? — pergunto e ele já parece
arrependido por ter começado.
— Não é nada demais.
— Fala. — Sou curto e grosso. Tommy senta na cadeira a minha frente.
— Depois que vocês subiram, Julian, eu e uma convidada subimos para o quarto de
hóspedes. Nós transamos.
Dou de ombros.
— E qual o problema nisso? Todos aqui já fizemos sexo a três.
Ele está envergonhado.
— Não é bem como você e os outros fazem. — Fico sem entender. — Eu estava beijando o
Julian. — Fico surpreso com a sua declaração. — Nós ficamos há algum tempo. Escondido, é claro.
— E a Amy entra onde nessa história?
— Ela viu. Nos pegou no flagra.
Sorrio com sua habilidade de pegar pessoas em situação constrangedora.
— Ela também me pegou com uma mulher outro dia. — Passo a mão no cabelo. — Acho
que devemos ser cuidadosos. Agora temos uma mulher morando aqui além da Julie. Olha Tommy, se
eu disser que não fiquei surpreso vou estar mentindo, Porque eu fiquei mesmo. Nunca imaginei.
— Aconteceu. Não tivemos como evitar. Mas eu juro que isso não vai atrapalhar nosso
trabalho.
Bufo.
— É claro que não. Trabalho é trabalho, Vida pessoal é outra coisa. Eu não me importo,
isso não faz diferença alguma para mim.
Ele levanta.
— Sério? Porque não falamos por medo de você demitir nós dois.
— Eu jamais faria isso por um motivo pessoal, pode ficar tranquilo. — Estendo a mão e
ele aperta. — Só me importo com o seu trabalho comigo. Aliás, o seu e o do Julian. O resto não é da
minha conta.
Ele agradece e sai.
De tudo que eu poderia imaginar, essa seria a última coisa. Mas eu não tenho nada a ver
com isso. É uma opção deles, e eu não tenho do que reclamar. São bons parceiros, e nunca me
provaram o contrário.
Sento novamente na cadeira e tento pensar em um jeito de ir nessa próxima missão.
A porta se abre e Amy entra, com a roupa trocada e um ar mais leve.
— Fico feliz por não ter demitido a Julie. — Balanço a cabeça. — Tenho certeza que ela
não teve culpa. Talvez tenha sido uma dessas mulheres que vocês colocam aqui dentro. — Ergo a
sobrancelha. — Alguma dessas que já dormiu com você.
— Isso é ciúme? — pergunto.
— Não. Só acho que vocês confiam demais nas mulheres, e esquecem que elas também
podem ser perigosas.
Ela senta-se à mesa, e eu processo suas palavras.
— Claro! — Levanto de uma vez, assustando-a. — Miserável!
Bato na mesa.
— O que foi James? — pergunta. sem entender minha reação.
— Isso só pode ter sido coisa das mulheres do Lion.
Como eu fui tão estúpido por deixar qualquer mulher entrar aqui?
Inferno!
Capítulo 21

Amy

Tudo ainda é uma confusão louca dentro da minha mente. Tento não pensar muito, ou então
terei a certeza que irei surtar. Estou dormindo com o James para ficar mais segura, mas mesmo assim
fico receosa. Lion quer me pegar e matar o James, e não vai pensar duas vezes antes de tentar outra
vez. Temo por tudo, por mim e por ele. Não quero que aconteça nada com o James.
Eu sei que penso numa mudança, numa reviravolta, e que o James desista dessa vida de
sangue e morte, mas ele não demonstra interesse nisso. Sua profissão parece dar prazer para ele, e o
deixa feliz. Por que eu, uma garota inexperiente, iria conseguir isso? Não é romance, não é ficção, é a
realidade de uma vida miserável.
— Beba! — Oliver me oferece uma taça de vinho e eu aceito. — Você parece distante.
Ele dá a volta ao meu redor e senta no sofá, onde estava sozinha, esperando James terminar
uma reunião com os comparsas.
— Estava pensando no que tem acontecido nessas últimas semanas.
— Não pense demais. James, com toda certeza, está fazendo isso por você. — Não sei se
fico aliviada ou preocupada. — Amy, eu posso não ser igual o James, mas estou aqui disposto a
ajudá-la também. Posso cuidar de você. — Olho para o homem na minha frente. Tão bonito, jovem,
esperto... Deveria ser o tipo certo para me apaixonar. Mas não, estou indo pelo lado mais difícil. —
Não precisa achar que eu tenho segundas intenções.
Ergo a sobrancelha.
— Ah, não tem? — brinco.
— Não. Não por agora. Talvez, futuramente, quando meu pescoço estiver longe do meu
irmão.
Gargalho.
— Vou anotar seu convite, Oliver. É bem tentador fugir disso tudo e ir para outro país.
E falei a verdade. Caso aconteça alguma coisa eu irei embora sem olhar para trás. Oliver é
um amigo, eu não preciso transar com ele.
— Espero que eu continue vivo até lá! — fala, olhando para a porta, conferindo se o irmão
não está por perto.
— Você nunca se apaixonou, Oliver? — pergunto, tentando descobrir mais sobre o homem
que sempre me tratou bem.
Ele encosta-se ao sofá e bebe um gole do seu vinho.
— Já sim! — Ele sorri. — Uma morena maravilhosa.
Seu pensamento parece distante.
— Por que não deu certo?
— Ela é uma policial. — Gargalho, sem acreditar na sua trágica história de amor. — Pode
debochar, Amy.
Recomponho-me.
— Eu não queria. Só achei irônico. Você, um bandido, se apaixonar por uma policial.
Ele dá de ombros.
— Nós estávamos vivendo uma paixão tórrida, daquelas de filmes, avassaladoras. Eu
estava disposto a dar o mundo para ela. Eu já sabia que ela era uma policial, óbvio, mas não queria
que ela descobrisse sobre a minha profissão. Nós estávamos nos divertindo, parecíamos um com o
outro. Até os mesmos gostos. — Escuto com atenção enquanto tomo meu vinho. — Até que um dia
ela me pegou. Estava atrás de mim há anos, só não sabia o nome.
— Ela prendeu você?
Ele nega.
— Ela me mandou ir embora e sumir da sua vida. Se não fizesse isso, aí sim ela me
entregaria para os seus superiores.
— Você pensou em mudar por ela? — pergunto, porque no fundo do meu peito, penso que o
James possa mudar.
— Talvez. Eu estou adaptado a minha vida, Amy. É isso que eu amo fazer.
Passo a mão pelo rosto.
— Como sabe, se nunca tentou nada diferente?
— Apenas sei.
A porta do escritório se abre e James nos vê. Seu olhar é atento ao irmão.
Damon, Julian, Tommy saem e andam até a parte de fora da casa. James vem até onde
estou. Meu corpo todo reage com a aproximação.
— O que estavam fazendo?
Mostro a taça com vinho pela metade. James olha para o irmão, que lança um meio sorriso.
— Só estávamos conversando, não se preocupe. — Oliver levanta. — Essa daí é louca
por você. — Ele bate no ombro do irmão e se afasta em direção as escadas. — Você é um cara de
sorte!
As palavras que o Oliver solta antes de sumir me deixam com vontade de enfiar a cabeça
em um buraco.
Tenho certeza que o James já percebeu meus sentimentos, mas não quero falar. Não quero
tocar nesse assunto. Eu sei que ele não tem o mesmo sentimento por mim, por mais que demonstre
isso quando estamos entre quatro paredes. Mas eu queria que ele se rendesse de vez e se mostrasse
tão louco por mim quanto sou por ele.
James estende a mão e eu seguro. Ele me puxa contra seu corpo.
— É verdade? — pergunta, me deixando tonta com seu cheiro bom.
— Não seja convencido. — bufo, já sentindo que o álcool mexeu na minha cabeça.
— Não se apaixone, Amy! Por favor, não quero ter que partir seu coração.
Afasto-me, empurrando seu peito.
— Acho que é tarde demais para falar isso.
Ando até a parte de fora e caminho até a piscina.
Sinto meus olhos arderem. Não choro, a lágrima não chega a cair. Sinto raiva, mágoa,
culpa... Queria poder dizer que não me importo, que estou apaixonada assim mesmo, que quero
aproveitar cada minuto aqui dentro, e não ligo se ele não se apaixonou também, porque eu sei que ele
sente algo por mim.
Então por que me trataria tão bem?
Por que me beijaria daquela forma?
Por que sentiria tanto desejo?
Prefiro não acreditar na falta de sentimento, mesmo que devesse. Mesmo que minha alma
grite para acabar com isso, não dá, não consigo. O sentimento já tomou conta de mim.
Nervosa, tiro meu vestido e jogo no chão. Vesti um biquíni, mas acabei parando na sala e
ficando por lá. Oliver sentou e conversou, e atrasou meus planos de relaxar na piscina.
Caio na água e sinto meu corpo relaxar. Nado de uma ponta a outra, tentando gastar minhas
energias. Preciso cansar, ficar exausta, para desistir de pensar sobre meus sentimentos. Mas quando
levanto minha cabeça, tudo que estava pensando fica de lado quando vejo James parado na minha
frente. Seu olhar duro, quente e seu corpo irresistível e sem roupa.
Olhar para o seu corpo exposto, me deixa sem fôlego. O fogo entre minhas pernas acende,
mesmo que eu esteja debaixo de água.
Sem ao menos pedir, avisar ou perguntar se eu queria, ele pula dentro da piscina e vem até
mim. Suas mãos tocam minha cintura, sua cabeça encosta na minha.
— Por que faz isso comigo? — Suas palavras saem em voz baixa, mas consigo entender
perfeitamente bem. — Eu deveria me controlar perto de você, mas não consigo. — Eu também não.
— Quero lamber seu corpo te vendo assim toda molhada. — ele fala e sorri em seguida. — Eu
queria ficar longe de você. Queria te deixar em paz. — Passo os braços em volta do seu pescoço. —
Você viveria melhor sem eu por perto. Eu deveria proteger você, cuidar, não levá-la para a cama. —
Meu coração bate tão forte, que sinto meu peito querer explodir. — Só que eu não consigo, Amy. Eu
desejo você, desejo estar entre as suas pernas e te beijar. Quero te devorar e contemplar seu rosto,
ardendo em desejo quando o orgasmo está chegando.
Abro a boca, tentando buscar o ar.
— Me beija, James! Não fala mais nada. Só me...
Ele interrompe minha fala com sua boca faminta cobrindo a minha.
Deixo sua língua penetrar na minha boca com devassidão. A minha desliza contra a sua,
fazendo uma dança indecente. E eu gosto. Eu sou viciada. Eu amo.
James segura minhas pernas, prendendo-as em volta do seu quadril. Não me importo se
alguém esteja vendo, não me importo que talvez estejamos dando um show a alguém. Eu só quero me
entregar, sentir seu desejo por mim, mesmo que seja idiotice, inconsequência, eu não me importo. Só
quero me satisfazer com seus beijos e toques.
Sinto a parte de baixo do meu biquíni ser desamarrada. Afasto para liberar o tecido do meu
corpo, e esfrego minha boceta na sua ereção, sentindo um prazer indescritível, algo que só ele é
capaz de me dar.
— Você gosta? — pergunta, e eu estou zonza demais para responder.
Ele leva seus dedos até a minha boceta lisa, que desmancha com seu toque e incendeia num
fogo sem fim. As chamas queimam meu corpo inteiro pelo prazer. Sinto dois dos seus dedos entrando
em mim, e mexendo sensualmente. Nossas bocas se devoram, seus dedos me fodem, seu cheiro me
embriaga. Tudo isso se torna um misto de luxúria.
— Ah, James! — gemo entre seus lábios doces e molhados.
Ele morde meu lábio inferior, e quando abro os olhos, percebo que ele está me encarando.
Seu olhar está selvagem e sexy. Fixo meu olhar no dele, rebolando nos seus dedos, enquanto a palma
grossa da sua mão esfrega meu clitóris.
— Quer meu pau dentro de você? — sua pergunta direta e quente me faz concordar de
imediato.
Abro ainda mais minhas pernas, permitindo que ele entre de uma vez, me fazendo gritar de
prazer e desejo.
As mãos do James seguram minha cintura com força, e ele me empurra contra a parede de
azulejos da piscina. Cada estocada me faz soltar um gemido selvagem. Fico sem ar, com a boca seca.
— Você é maravilhosa, Amy! —Seus lábios beijam meu pescoço. — Tão sensacional, sexy
e perigosa, que nem se dá conta.
As estocadas aumentam o ritmo.
— Eu quero devorar você até não poder mais, até te ver passando por aquela porta e me
dando adeus.
Interrompo suas palavras, segurando seu rosto com a barba mal feita, e enfio minha língua
na sua boca. Não quero ouvir sobre isso. Não quero saber de mais nada. Só quero beijá-lo e permitir
que me devore como deseja. Estou amando tudo isso, mesmo que seja o começo da minha desgraça.
Sinto meu corpo estremecer e minha boceta pulsar. Com o costume, pela experiência que
estou tendo com ele, sei que é o meu orgasmo querendo chegar.
Deixo meu corpo liberar o prazer enquanto James me abraça forte. Ele vai quase junto
comigo, derramando seu gozo dentro de mim. Eu sinto uma satisfação, felicidade, paixão.
Ele me beija carinhosamente, alisando minhas costas, com seus dedos grossos e calejados.
— Eu estou louca por você, James! —falo entre seus lábios, sabendo que foi sem querer,
porque jamais deveria ter deixado meu sentimento falar em voz alta.
— Amy...
Meu peito dói.
Por sorte, ou acaso, somos interrompidos por batidas fortes no portão.
— Merda! — xinga e me entrega a parte de baixo do meu biquíni.
James sai da piscina e coloca a bermuda. Em seguida me puxa, ajudando a me vestir.
As batidas ficam mais fortes.
Quem seria tolo em bater dessa maneira aqui? Quem estaria querendo assinar o seu
próprio atestado de óbito?
Os homens do James correm até o portão, já com as armas prontas para atirar.
— Amy! — O meu nome sai de uma voz conhecida. — Amy!
Sinto minhas pernas enfraquecerem. O portão se abre e ao ver meu amigo Taylor. Meu
coração dispara e minha boca seca.
James pega Taylor pelo colarinho e o arrasta para dentro, enquanto o comparsa fecha o
portão.
— O que quer? — James grita — Está ficando louco?
Corro até onde estão.
— Não faça nada com ele.
James vira o olhar na minha direção ao ouvir minha súplica.
— O que ele é seu?
Engulo seco. Não queria envolver o meu amigo nisso.
— É meu amigo. Você deve saber.
Dou de ombros.
— Não é o que parece. — sua voz sai fria.
— Solte-o, James. Por favor!
Relutante, ele larga Taylor no chão como se fosse um pedaço de merda. Taylor anda até
onde estou e me abraça forte. Sinto uma calmaria com o contato. Ele se afasta e me analisa dos pés à
cabeça. Encara meu corpo seminu molhado.
— O que você está fazendo aqui? — Olha para o James, que percebe que ele também
acabou de sair da piscina. — O que ele fez com você?
James dá um passo à frente, mas eu ergo a mão.
— Nada. Só estou morando aqui.
Taylor balança a cabeça.
— Isso é estranho. Você não iria embora sem se despedir de mim. Não iria vir morar com
ele sem me contar.
— Eu só estou aqui e bem. Não se preocupe.
— Não! Eu não aceito. Você jamais faria isso. Cadê a minha amiga decidida?
Seguro sua mão.
— Eu estou feliz, Taylor. Não tem nada de errado.
Claro que ele desconfiaria. Taylor me conhece bem, e sabe que eu jamais iria fazer isso do
nada, sem motivos.
— Vem comigo! Eles são assassinos!
James sorri. — Você não tem amor a sua vida? Todos nós estamos armados.
Fecho os olhos e sinto raiva por ele ter falado assim.
— James, por favor, nos dê licença.
Os homens me encaram, mas mesmo assim eles se afastam, mantendo uma boa distância.
— Está vendo? Eu vou levá-la de volta.
— Eu não vou.
Ele cerra o olhar na minha direção.
— Sério? Quer que eu acredite que não está acontecendo nada? — Espera, mas eu não
respondo. — Tudo bem. Eu chamarei a polícia e direi que você está sendo obrigada a ficar aqui.
— Você não faria isso.
Ele concorda.
— Faria muito mais por você. Não vou engolir que fique aqui com esses marginais. Eles
vão corrompê-la.
Eu não queria ter que falar, mas é o único jeito de mantê-lo longe daqui.
— Eu quero ficar aqui e você não vai me impedir. Eu escolho o que quero, e ninguém vai
dar palpite. Nem você. — Taylor arregala os olhos sem acreditar. — Porque eu já estou corrompida,
Taylor.
— É isso, então? Você quer essa vida? Viver nas mãos de um assassino?
Balanço a cabeça em afirmação.
— É o dinheiro? É a mordomia? Ou seria o sexo?
Seu olhar analisa meu corpo com desdém.
— Vendeu-se barato assim? Virou prostituta?
Sem pensar direito, acerto o rosto meu amigo com um soco no nariz.
Ele fica surpreso. Dói mais em mim do que nele.
— Quer saber? Fica aí!
Taylor começa a se afastar, e meu peito dói.
— Viva sua vida de merda com esses marginais. Espero que saiba o que está fazendo.
Eu assisto ele se afastar e o portão abrir. Tenho vontade de gritar e correr atrás dele. Quero
abraçá-lo e pedir desculpa pelo que fiz.
Tarde demais.
Capítulo 22

Amy

Eu sei que fui uma estúpida com o Taylor. Jamais deveria ter falado daquela maneira, por
mais que ele tenha me ofendido. Só que eu não posso envolver meu amigo nisso tudo. Não posso
permitir que ele tente invadir essa casa e confrontar o James. Isso é loucura.
Poderia contar toda a verdade, ou parte dela, já que nem eu mesma sei o que de fato está
acontecendo. Mas eu conheço meu amigo, e sei que ele vai querer ficar e me proteger, e eu não vou
suportar ser responsável pela morte dele. Eu nunca me perdoaria.
Por falar no Taylor, aquilo tudo que ele falou, a forma como se mostrou preocupado,
deixou James desconfiado. Fez com que o instinto possessivo despertasse. Notei que ele ficou
enciumado, porque durante uma conversa que tivemos — logo depois que meu amigo foi embora —
perguntou se tinha sido Taylor a tirar minha virgindade, se foi ele meu primeiro amor.
Mal sabe ele que é o único. Sempre será o James.
Termino meu café, observando Julie preparar o almoço.
— Tem ficado bastante quieta desde que o James interrogou você. — falo, e logo ela vira
para me dar total atenção.
— Eu ainda estou pensando naquilo tudo, Amy.
Seus dedos batem no mármore e seu olhar triste me encara.
— Tenho tanto receio do que possa acontecer. James tem um traidor dentro de casa, e
apesar de tudo, eu gosto de todos eles. De forma diferente, mas gosto.
— Eu entendo.
Ela volta a mexer nas panelas e eu levanto, já que ela não troca mais uma palavra comigo.
Começo a pensar em todos eles. Na verdade, de todos, só tenho mais proximidade com
Tommy e Julian. Os outros me respeitam. Quer dizer, um ou outro me olha torto, mas não sei se algum
tem um grande motivo para apunhalá-lo pelas costas.
— Sim, querida! — Paro de uma vez na sala quando escuto Oliver falando no celular. Ele
está alheio a minha presença. — Irei voltar para enchê-la com beijos e o que mais estiver pensando.
— Sorrio, cruzando os braços. — Não fale assim, Laura. Quando eu chegar por aí irei recompensá-
la. — Oliver solta uma risada discreta. — Só de imaginar sua boceta no meu rosto eu já fico de pau
duro.
Engasgo quando escuto sua última frase.
Ele vira de uma vez, colocando o celular sobre o peito.
— Amy!
Ergo os braços, tentando disfarçar a vergonha.
— Eu... Desculpe.
Seu olhar me analisa, então ele desliga o aparelho sem ao menos se despedir da mulher.
— É bom que não olhe para a minha calça. — Fico ainda mais envergonhada. — Não
precisa ficar vermelha desse jeito, Amy. Até parece que nunca viu um.
— Oliver!
Falo e um meio sorriso sai dos seus lábios.
— É a policial? — pergunto, tentando desviar da situação constrangedora.
— Não. Como poderia ser? Ela me odeia.
Oliver se arrasta até o sofá e senta, cruzando as pernas.
— Quem garante isso? — falo, e ele dá de ombros.
— Laura é uma amiga. Mais do que uma amiga, na verdade. Ela é meio que a minha Mrs.
Robinson.
Gargalho alto dessa vez.
— Quem me ensinou tudo.
Sento no braço do sofá.
— Ela era minha professora de artes.
— Isso deveria ser crime.
Brinco, mas nós dois sabemos que é verdade.
— Talvez. Mas nós dois nos damos bem.
— Deu para perceber.
Ele sorri.
— Eu te falei que transo com todas as minhas amigas, Amy. Menos você, claro. — Oliver
levanta, segurando meu queixo. — E não é por culpa minha.
Ele se afasta, me deixando rija no sofá, sem me mexer direito.
— Relaxa! Sou apenas seu cunhado nesse momento.
Troco um olhar com ele e sorrio.
Bom, ele não presta. Isso eu sempre soube, desde que bati o olho. Mas apesar de tudo, eu
sei que ele sempre vai se manter no limite. Confio no Oliver.
Ando até o jardim, onde James me espera. Seu olhar me devora, mas eu tento disfarçar o
nervosismo que ele ainda me causa. Principalmente com esse tipo de olhar.
— Você realmente quer ir? — pergunta, me esperando ao lado do carro.
— Claro que sim.
Pedi ao James que me levasse até a clínica para que eu pelo menos possa ver como minha
mãe está. Esses dias eu tenho sentido meu coração apertado, e estou preocupada com ela.
Entramos no carro acompanhados por Paul e Damon. Os dois sentam no banco traseiro
enquanto eu vou ao lado do James. No caminho, eles vão falando sobre o caso da Rita Muller. Eu
escuto atentamente. A mulher é perigosa, chantagista e poderosa. O negócio dela envolve muito
dinheiro.
Passamos em frente ao bar que meu pai frequentava, e eu sinto meu peito doer. Tudo parece
passar como um flash na minha mente. Sinto falta dele, mas ao mesmo tempo um alívio por saber que
ele está bem nesse momento.
— Você parece distante.
James me livra do devaneio, me fazendo virar na sua direção.
— Estava pensando no meu pai.
— Ele está bem. Depois você pode ligar para ele, para conversarem um pouco.
Sorrio com seu ato, mas sou capaz de sentir o desconforto dos dois no banco de trás. Eu
ignoro, voltando minha atenção para o homem ao meu lado.
Engraçado como é a vida. James é um assassino cruel e de sangue frio, mas me trata bem.
Seu jeito protetor, gentil, carinhoso e quente me faz ficar tão sentimental. Às vezes eu paro e o
observo. Vejo seu rosto lindo, sua barba mal feita e aspecto cansado, e eu sinto vontade de abraçá-lo.
Queria poder desvendar todo esse mistério que nos rodeia, poder viver tranquila, mesmo ciente que
nessa vida, nessa profissão que ele tem, jamais saberemos o que é tranquilidade.
Paramos em frente à clínica, e James segura meu braço antes que eu saia.
— Você precisa ficar atenta ao seu redor.
Ergo as sobrancelhas, sem entender.
— Vocês estão aqui, James.
Ele assente.
— Mesmo assim. Não é seguro. — James ergue a perna da calça, tira uma pistola e me
entrega. — Tome. Mate sem pensar duas vezes.
Seguro a arma, mas em seguida eu a devolvo.
— Aqui é uma clínica. Ninguém fará nada comigo. — falo em um tom confiante, mas logo
desanimo quando James me lança um olhar preocupado.
— Aqui é tão perigoso quanto em qualquer outro lugar. Talvez seja ainda mais. — Antes
que eu possa perguntar alguma coisa, ele desce do carro e abre a porta do meu lado. — Venha. —
Ele segura minha mão e olha para os dois. — Fiquem na entrada. Qualquer movimento estranho me
avise.
Os dois concordam, e eu ando com James para a parte de dentro da clínica.
A diretora do lugar é quem nos recebe. Ela é simpática, gentil e atenciosa. Tenho quase
certeza que James encheu a mão dela para que minha mãe receba um tratamento especial. Duvido que
ela seja assim com todo mundo.
A mulher conta sobre o progresso da minha mãe, que inclusive já está ajudando nas tarefas
do lugar. Ela tem cuidado das plantas, ajuda a preparar os lanches, além de fazer leitura todas as
noites para um grupo de pacientes.
Ela para de falar quando paramos em frente à sala de tevê.
— Ela está lá dentro organizando as coisas para uma sessão de cinema mais tarde.
Balanço a cabeça.
— Entre, Amy. Eu ficarei aqui fora. — James fala e eu dou um beijo na sua bochecha, logo
me afastando para entrar na sala.
Bato a porta atrás de mim, e observo a mulher ajeitando as cadeiras em fileiras, dispersa a
minha presença. Eu apenas olho. Observo-a como se estivesse gravando cada detalhe, gravando na
mente para nunca esquecer.
Como se isso fosse possível eu conseguir esquecer.
— Senti sua falta.
Minha voz a faz dar um pulo com o susto.
— Amy, querida! — Ela vem correndo na minha direção, batendo o quadril nas cadeiras.
Recebo um abraço forte, apertado, carinhoso... De mãe. Sentir seu cheiro me deixa feliz. — Eu
também senti sua falta, minha menina.
Ela se afasta e me puxa para uma cadeira. Sento, e ela faz o mesmo.
— Tenho pensado demais na senhora esses últimos dias.
Sorri.
— Eu também. Pelo menos sinto um alívio saber que você está bem.
Seus dedos alisam meu rosto, e eu sinto a tranquilidade tomar minha alma.
— Seu pai me ligou. Ele está trabalhando, e não bebe mais. — Meu peito parece corroer a
mágoa por tudo. — Não o odeie, Amy.
Assinto.
— Nesse momento eu só posso desejar que ele fique bem. Mesmo com tudo, com a aposta,
com o que ele fez...
Ela cobre meus lábios com dois dedos.
— Você nem imagina o quanto ele te ama, e que ele é capaz de dar a vida por você.
Bufo, tentando deixar o meu pai de lado.
— James está tratando você bem? — Antes que eu abra a boca para responder, ela
continua. — Eu sei que é um assassino, mas ele prometeu cuidar de você.
Seguro sua mão.
— Sim. Ele me trata bem. Nós dois...
Paro de falar no mesmo instante. Não deveria encher minha mãe com isso.
— Entendi. Você está apaixonada.
Penso nas suas palavras.
— Bem, eu não sei. Ele é bom para mim, sabe? Ele me trata bem, me faz feliz… Mas ele
foge.
— Ele apenas está querendo o seu bem, Amy. Acredito que não quer transformá-la no que
ele é.
Eu sei que é isso. No fundo, eu sei que é.
— Algumas vezes acho que eu seria capaz.
O olhar da minha mãe muda de amável para preocupada em segundos.
— Amy?
Solto suas mãos e coço meu pescoço. Levanto, nervosa.
— Eu só estou nervosa, mãe. Ignore.
Ela anda até onde estou.
— Apenas tome cuidado.
Sentamos de volta e conversamos por mais alguns minutos, já que o James não pode passar
o dia todo aqui.
Quando chegamos ao jardim, longe de todo mundo, eu a abraço mais uma vez.
— Se cuide, mãe. Por favor! — sussurro em seu ouvido.
— Você também. — Ela segura meu rosto com as duas mãos e me encara. — Nunca
esqueça que eu te amo, Amy. — Sinto um calafrio na espinha. — Nunca esqueça que tudo que eu
tenho na vida é você. Que apesar de tudo, eu te amo... Amo mais do que qualquer outra pessoa na
vida seria capaz de amar.
Meus olhos encharcam de lágrimas e os dela também.
— Não sei se gosto disso, parece uma despedida.
Ela nega com a cabeça.
— Não é.
Seu sorriso é fraco e sem convicção, mas eu a envolvo em outro abraço, e me despeço com
o coração partido.
Saímos da clínica rapidamente e eu permaneço em silêncio.
— Tudo bem com você?
Concordo, enxugando discretamente a lágrima que escorre do meu olho.
Meu peito parece gritar, meu coração dói, e minha alma está despedaçada.
Algum tempo depois o carro para na casa dele. Eu desço e vou direto para a parte de
dentro.
Na sala, encontro Oliver, Tommy, Julian e... Lucy?
— O que ela está fazendo aqui?
A voz do James aparece de uma vez na sala, atrás de mim.
— Eu só precisava falar com a Amy.
Fico surpresa.
— Uau! Você sequer gosta de mim, Lucy.
Os homens a encaram.
— Não foi você que...
Antes que James possa falar, ela ergue a mão.
— Se está falando do dia que invadiram aqui, não.
James olha para Tommy.
— Como ela sabe?
— Ela estava conosco naquele dia, e acabou escutando tudo.
Olho desconfiada para a garota em minha frente, mas ela logo arregala os olhos.
— Eu jamais seria capaz de fazer aquilo.
— Então, o que diabo você quer com a Amy, garota?
— Podemos ficar sozinhas?
Ela pede, e eu olho para o James, que aceita, nos deixando a sós.
Lucy anda até a sala de tevê e eu acompanho. Incomoda-me saber que ela conhece tão bem
essa casa.
— O que quer comigo? — pergunto, impaciente.
— Você sabe que eu nunca gostei de você, não é? — Finjo surpresa, levando a mão até o
peito. — Você sempre teve tudo, Amy. Pais carinhosos, atenciosos, um amigo como o Taylor. Mesmo
quando você estava no fundo do poço com seus pais, eu ainda sim sentia inveja de você. Afinal, você
tinha o meu primeiro amor como refúgio.
— Ah não, Lucy. Tudo por causa do Taylor? — Bufo em desgosto.
— Era isso e outras coisas. No fundo eu queria ser você, e por isso sempre te ataquei. —
Ela senta e cruza as pernas, sem demonstrar qualquer sentimento de culpa ou arrependimento. — E
agora estamos aqui, envolvidas com assassinos. Que loucura!
Seu sorriso é leve, mas ainda sim bonito.
— Estou ficando preocupada com o rumo da nossa conversa. — falo, e ela me encara de
volta.
— É sobre o Taylor. — Meu coração bate forte com receio e medo. — Eu contei que você
estava aqui. Ele estava preocupado com o seu sumiço, e eu não resisti.
Passo a mão pelo rosto.
— Você tem noção do que fez? — Ela balança a cabeça em afirmação. — Eles poderiam
ter matado o Taylor. Ele estava furioso e inconformado.
— Eu sei. Eu só queria que ele te odiasse, vendo o que você está fazendo.
Sua voz sai baixa.
— Eu tive que tratar meu amigo mal. Tive que mandá-lo ir embora por medo de ele se
envolver nisso tudo. Meu Deus!
— E agora ele odeia você, Amy.
Não sei se isso saiu como lamentação ou triunfo. Mesmo assim, eu ergo meu queixo e
balanço minha cabeça.
— Era essa a intenção, Lucy. — Ela parece surpresa. — Eu prefiro que ele me odeie, mas
que não cometa uma tolice ao arriscar a vida por mim. Ele não merece ter que pagar por algo que não
é dele. — Lucy levanta e vem até mim, mas eu a encaro com desprezo. — Eu não sou igual a você,
Lucy. Não sou egoísta e maldosa. — falo, tentando cutucar o fundo da sua alma. — E obrigada por
ter colocado a vida do seu primeiro amor — ironizo —, em risco por causa de uma infantilidade.
Ela anda até a porta, mas se vira de volta na minha direção.
— Engraçado. Temos algo em comum agora. — Franzo a testa em confusão. — Estamos
apaixonadas por assassinos.
Abro a boca para protestar, mas antes que consiga, Lucy me lança um sorriso debochado e
sai, me deixando sem reação.
Volto à sala. James está à minha espera, com uma das mãos no bolso da jaqueta.
— O que ela queria?
Dou de ombros.
— Coisas de mulher.
Ele me encara, desconfiado, mas logo somos interrompidos pelo Julian.
— Tommy foi deixá-la em casa.
Ele pega uma arma e joga para o James.
— O que farão?
James sorri.
— Você quem vai.
Fico surpresa quando ele entrega a arma em minhas mãos.
— O quê? — Espero, apreensiva.
— Apenas treinar. Pelo menos por enquanto. — Sorrio, lançando ao James um olhar de
satisfação. — Agora troque de roupa. Vou te esperar do lado de fora.
Ele segura minha nuca e me puxa para um beijo.
De repente, fico sozinha a sala, com a arma na mão e sentindo o olhar preocupado do
Oliver.
— Você não quer isso, Amy.
— Eu quero…
Dou de ombros e subo a escada correndo.
Seja lá o que vier pela frente, quero estar preparada.
Capítulo 23

James

Depois do que aconteceu aqui em casa, mal tenho conseguido dormir. Fecho os olhos e
imagino Lion entrando e levando Amy. Sempre acordo com seus gritos de socorro que ecoam na
minha mente. Quando acordo e a vejo dormindo ao meu lado, meu coração se acalma. Mesmo assim,
meu receio é grande. Dois dos homens estão do lado de dentro vigiando o dia todo. Ela dorme
comigo todas as noites. Esses dias tenho treinado bastante a Amy, tanto com golpes quanto com
armas. Ela já me disse saber atirar e provou isso, mas numa situação de risco, onde os nervos estão à
flor da pele, ela nunca precisou usar. Por isso, Tommy, Julian e eu estamos fazendo de tudo para que
ela fique pronta para receber quem for.
Claro, também estamos aproveitando para aproveitar o sexo selvagem. Cada dia Amy fica
mais experiente e ousada. Eu gosto disso. Mas também sei que estou a preparando para o mundo.
Para os outros. Ela não vai ficar por muito tempo.
A visita do amigo dela ainda martela na minha mente. Foi ele a quem ela se entregou pela
primeira vez. — Isso ela me contou na noite passada — Percebi que ele sempre teve o melhor dela.
E isso me faz sentir o coração doer de ciúmes. Algo que eu jamais deveria me dar ao luxo de sentir.
De qualquer forma, ver como ele se preocupa com ela, que até mesmo foi capaz de se arriscar vindo
até aqui, me deu certo alívio. Porque se um dia algo acontecer comigo, eu sei que ela terá o amigo
para protegê-la. Mesmo que as intenções dele sejam além da amizade.
Ela merece alguém com uma vida melhor, alguém que vai oferecer a vida de rainha, que ela
merece. E depois do que ela me disse na piscina sobre seu sentimento por mim, eu só tenho que ter a
certeza que não sou um bom homem para ela. Sou incapaz de ter sentimentos à altura do dela.
Pego minha bolsa com armamentos e coloco no ombro. Hoje iremos para o cassino. Eu já
sei o que iremos fazer. Amy vai comigo, e está ansiosa. Ficou eufórica quando contei que ela iria
participar. É perigoso, mas ela precisa ser colocada a risco também. Precisa aprender a se defender.
Desço, e Tommy e Julian já estão prontos e com armas guardadas. Não pela missão, mas
para o acaso de aparecer alguém do Lion.
Ontem passamos o dia inteiro assistindo as filmagens da câmera de segurança do lado de
fora da casa. Não achei ninguém suspeito.
Escuto tilintar de saltos na escada, e olho para ver como ela está.
Amy desce a escada com seu salto fino e um vestido verde, um decote nada discreto, e seu
cabelo preso para a lateral.
— Uau! — Tommy fala, admirando sua beleza.
— Prontos? — Ergue a sobrancelha, e eu quase a trancafio dentro do quarto.
Entramos no carro em direção ao cassino. Queen sai dos alto falantes, e vejo uma Amy
mais leve, cantarolando uma música.
Lembro-me de quando eu era uma criança. Minha mãe gostava de escutar músicas
românticas e eu gostava daquilo. Gostava das letras e do seu jeito leve de cantar, rodopiando pela
casa. Minha mãe não merecia aquela vida, muito menos aquela morte. Meu pai foi o culpado por tudo
aquilo. Sua jogatina, seu desespero por dinheiro fácil, o deixaram no fundo do poço, e acabou
levando a família toda com ele. Oliver tem a imagem do nosso pai um bom homem. Tudo bem que ele
era um bom pai, tratava todo mundo bem, mas se fosse tão bom e honesto, jamais teria se envolvido
naquilo tudo.
Eu sei que sou o sujo falando do mal lavado, porque eu também entrei para o lado negro.
Eu também não sou uma boa pessoa, por mais que eu tente. A cada boa ação que tento fazer, faço dez
erradas. Sei que já tenho uma vaga no inferno, e eu irei sozinho. Não levarei a Amy comigo.
— Vai querer que eu entre também? — Tommy pergunta, enquanto olho pelo retrovisor e
vejo o outro carro, dos meus comparsas, nos dando proteção.
— Sim, mas depois. Entre com o Julian. — Saio da avenida principal e entro no bairro
pequeno e pacato, onde fica a boate. — Eu irei entrar com a Amy, com as pulseiras Vips diamante
que consegui. Usem a de vocês também, mas fiquem de olho no salão principal.
Entrei em contato com o policial John, e ele conseguiu uma planta do lugar. Eu encomendei
quatro pulseiras. As de diamantes são para a parte mais luxuosa, onde só frequenta quem tem
condições de pagar uma fortuna. A de bronze dá acesso ao primeiro andar, onde poucas pessoas
ficam, no cassinos. Primeiro eles jogam, depois são convidados para a festa. A prata é o segundo
andar, com direito a open bar e a ouro dá direito a tudo isso, com a quartos especiais. A de diamante
é da especial, e dá direito a todos os caprichos e acompanhantes que trabalham aqui para satisfazer
os casais e amigos.
— Chegamos! — Aviso, e Amy retoca o batom.
— Estou nervosa. Não sei o que me espera lá dentro. — fala com a voz calma.
— Sexo, Amy. É isso que vai encontrar por lá. — Julian brinca, apertando seu queixo. —
Está disposta mesmo? — pergunto.
— Claro que sim. Não confia em mim?
Abro a bolsa e retiro um celular de dentro.
— Fique.
Ela parece surpresa com o presente.
— Mas...
Interrompo.
— Agora eu confio em você. Sei que não vai fugir. Além do mais, você precisa ter um. —
Concorda, ligando a aparelho. — Aí tem o meu número e de todos eles. Caso precise, basta chamar.
Ela se aproxima e me dá um beijo nos lábios, rápido, afastando-se e saindo do carro. Faço
o mesmo. Amy anda pela calçada e eu acompanho, passando a mão pela sua cintura. Tommy e Julian
ficam logo atrás.
Na entrada, o segurança confere nossas pulseiras e passam a mão por dentro do meu paletó
em busca de uma arma. Pernas, costas e braços. Faz o mesmo com a Amy, que fica pálida no lugar.
— Podem ir.
Entramos, e Amy me encara.
— Você está armado, James! Como conseguiu?
Sorrio com sua curiosidade.
— Ele trabalha para mim, Amy. — Ando até o salão principal. — Não sou bobo.
Ela balança a cabeça e observa o lugar abismada. Aparentemente ela nunca frequentou algo
assim.
— Aqui é enorme. — Concordo. — Já tinha ido atrás do meu pai em um cassino, mas nem
chega perto desse.
— Aqui é luxuoso, Amy. Não é qualquer pessoa que pode vir.
As paredes são cobertas de tecido vermelho e dourado. O cheiro de cigarro preenche o
lugar. O barulho de conversas, discussões e fichas ecoa no lugar fechado. Pessoas de todas as idades
e raças estão aqui dentro. Ninguém olha para nós dois. Aqui, somos somente mais dois convidados
em busca de diversão.
— Boa noite, senhora? — O homem de terno pergunta a Amy, que sorri com gentileza.
— Rachel Wayne.
Ele segura sua mão e beija, observando a pulseira no braço, percebendo que somos um
casal bem financeiramente.
— Sr. Wayne, acredito.
Concordo com a cabeça.
Ele libera nossa entrada e nos dá fichas para jogar.
Eu combinei com Amy de mudar nossos nomes e nos passarmos por um casal normal. Um
casal que curte sexo de todas as maneiras, e que também gosta de jogos.
O lugar me faz mal. Não gosto de jogos, nunca gostei. Depois de saber que meu pai estava
viciado, prometi que eu nunca entraria nessa vida. Ele era como o pai da Amy, viciado. Ele chegava
em casa tarde, fedendo a bebida e perfume barato. Eu lembro bem de tudo. Todos os detalhes.
Amy anda em direção as mesas, mas puxo seu braço.
— O que foi? — pergunta.
— Vamos subir.
— Você não vai jogar?
Bufo.
— Claro que não. Odeio jogos! — falo, andando até a porta escondida perto dos
banheiros.
— Como odeia? Foi você mesmo que jogou com o meu pai.
Ah droga!
Viro-me para ela.
— Foi uma exceção, Amy. Uma exceção.
Ela ergue o queixo.
— Você não trapaceou, certo?
Passo a mão pelo rosto.
— Não, Amy. Olhe para mim e veja se tenho cara de quem trapaceia. — Seguro seu braço.
— E vamos logo antes que eu perca minha paciência.
O guia nos leva até um elevador especial. Aperta no quarto andar e subimos em silencio.
Por pouco eu não dei uma mancada. Aliás, eu cometi um deslize. Tenho que aprender a me
controlar e prestar mais atenção no que falo perto dela. Nunca precisei andar em cascas de ovos com
meus parceiros. Sempre conversamos abertamente sobre as missões e o que aconteceu comigo no
passado. Inclusive, eles também sabem sobre a Amy. Só que eu tenho que tomar mais cuidado. O pai
dela não quer que ela saiba, não por enquanto. Uma tolice, só que eu prometi.
Quando a porta do salão se abre, Amy arregala os olhos e aperta minha mão.
A música toca em som ambiente. As pessoas estão sentadas em mesas, cadeiras, na
banqueta do balcão de bebidas. Sem inibições, eles se beijam, se tocam, transam... Todos entregues
ao pecado e ao prazer.
Não há muita gente, até porque o convite para essa área custa caro. Há em torno de trinta
pessoas ricas, jovens e mais velhos, que se divertem sem se preocuparem em serem vistos.
— Eu vou ter que fazer isso também? — pergunta com a voz trêmula.
— Você não precisa fazer nada que não queira. — Ergo seu queixo e ela olha para mim. —
Não vou deixar ninguém tocar em você.
Seu suspiro é de alivio.
Andamos até o bar.
— Uma dose de uísque escocês. — O homem me serve. — Quer alguma bebida, Rachel?
— pergunto, e ela confirma.
— Uma vodca. O mais forte possível.
O barman sorri e coloca sua bebida.
— É a primeira vez de vocês aqui?
Olho para ele, que mantém os olhos na Amy.
— Aqui sim, mas já frequentamos outros lugares. — respondo enquanto ela bebe um gole e
faz uma careta discreta.
— Vão se divertir. Fiquem à vontade!
— Quero ver a Rita Muller.
O homem me encara, surpreso.
— Queremos ir para o privado com ela. Sei que ela aceita por uma boa quantia.
Ele parece vasculhar a área.
— Sim, ela aceita. Só que não com qualquer pessoa. Rita é uma mulher desconfiada.
Balanço a cabeça.
— Chame-a.
Ele se afasta e pega seu celular. Eu o observo enquanto ele fala com a patroa.
— Ela vai encontrar vocês na sala de Voyeurismo.
Ele nos ensina como chegar lá, e eu ando acompanhado da Amy, que não larga minha mão.
Entramos em um pequeno corredor. Gemidos abafados preenchem nossos ouvidos. É
excitante, não posso negar.
— Você fica excitada com isso? — pergunto, e ela pisca sem acreditar.
— Eu... Não... Um pouco. É sexy!
Lanço um meio sorriso e continuo andando até chegarmos ao nosso destino.
Abro a porta e tudo está escuro. Algumas velas que estão nas paredes iluminam fracamente
o ambiente. Telas de vidro fumê mostram o outro lado. Homens, mulheres, duplas e grupos se
entregam ao sexo enquanto outras pessoas assistem.
Puxo Amy, que está com os olhos vidrados na cena, até o sofá de veludo. Ela senta ao meu
lado.
Viro minha cabeça e vejo Rita. Ela é exatamente como na foto. Cabelos loiros, alta, bonita
e enxuta para os seus quarenta anos.
— Rita Muller? — sussurro ao seu ouvido e ela vira de imediato. — Christian Wayne. —
Estendo a mão e ela revida. — Essa é a minha esposa, Rachel.
Ela olha para Amy com um olhar de loba faminta. Amy é bonita, tem um ar sensual e
ninfeta, e a maioria gosta disso.
— Estão gostando? — pergunta, virando seu corpo para mim.
— Claro. É nossa primeira vez aqui, e eu fiquei sabendo que a dona da boate e do cassino
gosta de brincar com os clientes.
Rita molha os lábios.
— Sim. Só que primeiro eu gosto de assistir o casal. — Obviamente ela não vacilaria se
mostrando para as câmeras. — O que você faz?
— Sou empresário do ramo de joias.
Ela parece bem interessada.
— Talvez eu o conheça.
Meus dedos enrolam nas mechas do cabelo loiro.
— Mas acho que isso não é um assunto para esse momento, não é?
Ela concorda.
— Claro que não.
Rita levanta e eu acompanho. Amy aperta a minha mão.
— Vou levar vocês para o quarto presidencial. — Fico satisfeito. — Peço champanhe?
— À vontade!
Olho para Amy enquanto entramos no quarto. Quero que fique calma.
Rita senta numa poltrona em frente à cama.
— Sabe que eu cobro um valor alto por isso, não é? — pergunta.
— Dinheiro não é um problema para mim.
Pego meu celular e passo uma rápida e discreta mensagem para o Tommy. Coloco o
aparelho na mesa.
Um rapaz, que trabalha como garçom, coloca a bebida na mesa, e sai sem olhar para
nenhum de nós. Ele sai tão rápido quanto entrou e bateu na porta.
Sirvo uma taça para as duas mulheres. Amy despeja toda a bebida na boca de uma vez.
Rita não, bebe devagar, nos observando.
— Comecem. Quero ver se você é tão quente quanto me parece ser. — Puxo Amy até mim.
— Tire a roupa dela.
Por Deus... Eu terei que fazer tudo o que ela manda, pelo menos até o Tommy e o Julian
darem um sinal que estão aqui por cima para impedir que os seguranças dela entrem.
Capítulo 24
James

Faço o que Rita manda. Lentamente vou tirando o vestido da Amy, deslizando pelo seu
corpo sensual. De qualquer forma, eu já estou duro. Mesmo com toda essa situação, estou pronto para
devorá-la.
O vestido cai aos seus pés, e eu me ajoelho, tirando sua pequena calcinha. Sinto as pernas
dela trêmulas, e eu deixo um beijo em cada coxa, tentando deixá-la mais calma.
— Deite-a na cama e abra as pernas dela. Quero ver sua boceta. — Rita diz. Amy deita, e
eu afasto suas coxas, deixando-a exposta para a mulher, que nem pisca de tão atenta. — Passe seus
dedos e faça-a gozar. Quero vê-la estremecer.
Essa mulher só pode ser louca. Seu olhar denuncia isso.
Massageio o clitóris da Amy lentamente, e noto o quanto está molhada com a situação.
Minha calça está apertada por causa do meu pau, que implora por ela, por seu cheiro e sua boceta
apertada.
— Isso! — A mulher sorri maliciosamente.
Desvio o olhar e foco no olhar da minha Amy, que está nervosa e excitada na minha frente.
— Ah... — ela geme quando eu aumento a velocidade. Trago meu dedo até a minha boca e
chupo seu gosto. Doce e gostoso. É como um mel.
— Goze para mim, A... — Fecho os olhos — Rachel. Venha!
Coloco dois dedos dentro dela, que se contorce na cama com tecidos de cetim vermelho.
Ela me parece mais poderosa, mais mulher. Amy amadureceu com essas semanas. Está mais bonita,
mais solta, mais livre.
Sinto a pulsação dentro da sua boceta quente, e logo sou interrompido.
— Tire sua calça. — ordena. — Mande-a chupar você.
Amy senta na beirada da cama, enquanto abro minha calça. A arma está escondida dentro
da perna da calça. Se Tommy e Julian não chegarem a tempo, não sei como vou fazer.
Amy abaixa a minha cueca, deixando meu pau de fora. Agora, mais experiente, ela segura a
ereção na sua mão pequena e leva até a boca. Seguro seus cabelos e a deixo comandar, sugando tudo
na sua boca quente e molhada.
— Muito bem!
Olho para Rita, e ela está levantando o vestido. Volto a encarar Amy, e seus olhos estão
maliciosos e nervosos.
— Mais rápido, Rachel!
Ela pede, e Amy obedece, me levando à loucura.
Minhas pernas ficam trêmulas e eu empurro mais forte.
— Agora o faça gozar na sua boca.
Fecho os olhos e continuo concentrado na minha garota, que eu estou corrompendo ao meu
mundo mesmo sem querer. A que está gostando disso, mesmo contra a minha vontade.
Em sugadas fortes e rápidas, Amy deixa sua saliva molhar meu pau na sua boca. Minha
mão aperta seus cabelos e a outra segura a sua nuca.
Amy fica melhor a cada dia que passa ao meu lado. Ela é melhor do que eu esperava que
fosse. Experiente e ousada. Pervertida e quente. Sem nunca perder aquele ar de garota.
— Ah, Rachel! — gemo, apertando sua nuca.
— Goze para nós, Christian.
A voz da mulher que nos observa é baixa e sensual.
— Rachel...
Sussurro seu nome falso enquanto despejo meu liquido na sua boca. Ele jorra, escorrendo
pelos cantos dos seus lábios. Ela ainda não tinha feito isso. Tentou, mas não tinha conseguido bem.
Então, a deixei à vontade. Na cama, ela é livre para fazer o que quiser.
— Tire as calças e foda sua mulher. — Rita pede, me deixando apreensivo. — Depois
dela, serei eu.
Olho para a porta e nem sinal dos dois.
Merda!
— O que estão esperando?
Olho para os cantos do teto em busca das câmeras. Nada. Não encontro nenhuma.
Escuto o barulho dos saltos batendo no chão, mas quando vou me virar, sinto minha calça
sendo arrastada até o chão e é quando minha arma fica a mostra, fazendo Rita dar um salto para trás.
— Que porra vocês são? — pergunta, mas seguro seu braço antes que ela saia do quarto.
— Me solta!
Nego, balançando a cabeça.
Amy vai até a porta e fica na passagem, colocando seu vestido de volta,
— O que querem comigo? Eu tenho pessoas me vigiando. Logo estarão aqui para estourar
os miolos dos dois.
Visto a minha calça e ela faz menção de correr, mas eu a jogo sentada de volta na poltrona.
Pego a minha arma.
— Acho que precisamos ter uma conversa.
Ela cospe no meu rosto, e a saliva escorre pela minha bochecha.
— Isso não foi educado.
Ela sorri.
— Vai me bater? Quero ver se é tão covarde.
Amy se aproxima e eu me afasto.
Rita saca uma arma, mas Amy é mais rápida, acertando um soco no rosto da mulher, depois
conseguindo desarmá-la.
— Na minha época mulher dava tapas, puxava cabelo... — brinco, sabendo que ela não é
assim.
Eu me abaixo e pego a arma do chão.
— Onde estão as câmeras, piranha? — Amy fica de frente com a mulher, enquanto eu
amarro suas mãos. — Onde?
— Piranha é você que está aqui se prestando a isso.
A mulher provoca e leva outro soco, fazendo suas bochechas ficarem vermelhas.
— Acho melhor você dizer.
— Vadia! — cospe o xingamento para Amy, que senta por cima dela, apertando seu
pescoço.
— Do que você me chamou? — Amy aperta com mais força, enquanto a mulher se debate.
— Ela não está brincando.
Rita olha para mim com o rosto tremendo, e então Amy a solta. A mulher tenta recuperar o
ar.
— Na luminária.
Procuro, olhando para cima. Disparo um tiro, despedaçando o material, que cai no chão.
— Você é um tolo!
Amy volta a segurar seu pescoço.
— Onde tem mais?
A mulher começa a sufocar.
— Na TV tem uma.
Vou até o aparelho e vasculho até achar a pequena câmera.
— Eu vou mandar matar os dois! Vou vasculhar em toda a cidade até receber a cabeça de
cada um.
Mando um aviso para o John, para que traga a polícia até aqui como se tivesse recebido
uma denúncia anônima.
— Você não vai fazer nada. — Aproximo-me. — Você vai entregar todo o material que tem
aqui para a polícia.
— Polícia não! — ela se desespera. — Não pode envolver a polícia nisso.
— De duas, uma: ou eu chamo a polícia, ou vou ter que te matar.
Ela abre a boca e me encara.
— Pode me matar. Eu não me importo!
Lanço um sorriso irônico.
— Se é isso que você quer... — Aponto a arma para o meio da sua testa. — Não vai ser
isso que irei fazer.
Guardo a arma, e Amy já está vestida novamente.
Meu celular toca, e é mensagem do John.
“Estamos há cinco minutos daí”
Amarro a mulher na poltrona, para que não fuja, e coloco fita isolante na sua boca. Seu
braço eu deixo algemado na cadeira.
— Vamos, Amy!
Seguro sua mão e a puxo para fora do quarto o mais rápido possível.
O corredor está quieto demais. Não escuto gemidos, sussurros, ou pessoas conversando
animadas.
— Alguma coisa está acontecendo aqui. — falo para Amy, que fica ao meu lado.
— Vamos descer e ir embora. Não podemos ficar expostos.
Ando até o elevador, e quando ele abre, ainda estou na metade do corredor.
Lion.
Congelo quando vejo o homem vindo à nossa direção. Alto, bem vestido, armado e
acompanhado com mais dois homens maiores do que ele.
— É melhor que pare James! — ordena.
Saco a arma e aponto para o bastardo, que sorri em resposta.
— Amy... — Ele a encara com um meio sorriso — acredito que você não vai querer
presenciar a cabeça do Lancaster sendo estourada, não é?!
Meu queixo treme de raiva ao encarar o homem que permanece calmo e frio.
— Apenas me entregue o que eu quero, James. Não lhe pertence. Sabe bem disso.
Sinto a mão da Amy apertar a minha com força.
Dou dois passos para trás, tentando me afastar.
Dois disparos ecoam por trás do Lion, fazendo um dos homens cair no chão, então
aproveito a chance e entro na saída de emergência, trancando a porta.
Eu poderia aproveitar a chance para matá-lo. Mas seria um contra três, e a Amy não pode
ser colocada em risco dessa forma.
— Quem é esse? — Amy pergunta enquanto descemos as escadas.
— Rápido, Amy! — Batidas na porta de ferro denunciam que eles ainda estão por lá. —
Vamos logo antes que ele coloque pessoas lá embaixo. — Seguro sua mão, e ela tira os sapatos,
deixando no meio do caminho. — Por aqui.
Entramos em uma porta do que me parece ser a administração. Andamos em passos largos
e rápidos. Olho para trás e não vejo ninguém no nosso encalço.
— Merda!
Um tiro atinge meu braço de raspão e eu atiro no homem que aparece na minha frente.
— Meu Deus, James! — grita, correndo comigo até a saída lateral.
— Só precisamos ir embora.
Abro a porta e ficamos em um beco escuro. Olho para os lados, mas não tem mais ninguém,
só alguém caído no chão. Ando, ignorando, mas a voz me faz voltar atrás.
— James!
Tommy?
Volto e vejo meu amigo sangrando, deitado no chão, com a pele pálida e suando.
— Merda!
Passo o braço em volta das suas costas.
— Venha, Tommy. Precisamos ir!
Julian nos assusta quando aparece de uma vez, saindo pela mesma porta que eu sai com a
Amy.
— O que aconteceu? — pergunta, e logo me ajuda a carregá-lo.
— Ele está ferido!
— Você também está!
Ela acusa e eu olho para a manga da minha camisa suja de sangue.
— Foi de raspão.
Na verdade, sequer consigo pensar na dor.
Andamos até o carro e Tommy entra no banco traseiro acompanhado por Julian. Ligo o
veículo e acelero. Preciso ficar longe daqui.
Logo o outro carro aparece atrás. São os meus comparsas.
— Que merda aconteceu lá dentro? — pergunto sem tirar os olhos da pista. — Esperei
vocês aparecerem.
Escuto barulho da sirena da polícia.
— Você os chamou?
Amy pergunta, vendo os carros passarem. Eu concordo.
— Eu não ia matar a Rita. Ela não merece nem morrer.
Dobro na outra rua, cortando o caminho de casa.
— O que esse Lion quer?
Sua voz sai preocupada.
Eu fecho os olhos e solto uma respiração pesada.
— Ele quer levar você.
Falo de uma vez, sentindo um peso a menos.
Olho pelo retrovisor e vejo Tommy fraco, ferido, e com os olhos quase fechados.
Chegamos em casa e eu buzino até o portão ser aberto. Olho ao redor antes de entrar.
Ninguém.
Não acredito que Lion vai voltar aqui. Ele fará pior. Comerá pelas beiradas até me pegar
desprevenido. Tenho que tomar todo o cuidado possível.
Os homens entram e me ajudam a tirar Tommy de dentro do carro.
— Levem ele para o quarto de hóspedes. Chamem a Julie.
Ando pelo jardim com raiva e o sangue fervendo.
— James. — Amy me chama, e eu olho para ela.
— Agora não, Amy!
Bufa.
— Precisamos conversar sobre o que aconteceu.
Entro na sala e todos nos seguem, com exceção do Tommy.
— Quero entender o que aconteceu, Julian! — falo nervoso.
— Nós íamos subir, James. Só que o Lion apareceu e começou a atirar em todo mundo.
Nos espalhamos para tentar avisar a você, mas não deu tempo. A boate estava cercada do lado de
dentro.
Olho para os homens que estavam no carro de trás.
— E vocês? Porra! Não viram nada? — Eles negam. — Puta merda! Eu estou bem servido.
Julian toma a frente.
— Acho que eles entraram por outra parte. Nós não esperávamos por isso, James.
Passo a mão pelo cabelo.
— Como aquele desgraçado soube?
Eles dão de ombros.
— Não é primeira que isso acontece. Eu vou descobrir quem está ajudando o Lion, e
quando eu descobrir, não vai gostar do resultado.
Olho para a Amy, que está encolhida em um canto da sala.
— Saiam daqui! — Grito, e eles obedecem. — Vem cá! — chamo, e ela anda até onde
estou.
— O que foi isso, James? — Sua voz é chorosa. — Estou com medo. Muito medo.
Passo a mão na sua cintura.
— Não fique. Eu posso até morrer, mas eu mato aquele desgraçado antes.
Eu vou para o inferno, mas eu arrasto o Lion junto comigo.
Capítulo 25
Amy

O suor escorre pela minha testa e minha garganta já está seca. Só não posso desistir. Eu
não vou abrir mão. Não sou fraca. Nunca fui. Quero provar que sou capaz de ajudá-los. Eu não sei
bem o que virá pela frente, mas o melhor é que eu me dedique ao máximo possível para aprender a
me defender. Esse homem, o Lion, claramente me quer. O motivo? Não faço a mínima ideia. A única
coisa que sei é que ele não está para brincadeira. Por pouco seus homens não mataram o James, e no
outro dia, o Tommy. Por sorte ele conseguiu sobreviver. Levou um tiro na barriga, mas já cuidou do
ferimento e está bem melhor.
Rita Muller está presa, e responderá por inúmeros crimes. Pelo menos ele não a matou. Já
é um bom caminho.
— Mais uma vez! — James ordena, e eu acerto outro chute no Julian. — Isso! — Julian
alisa a barriga depois do meu golpe. — Muito bem! Você consegue melhor do que isso, Amy.
Provoca.
— Julian, tente derrubá-la.
Ele vem até onde estou, me segura pelos braços e me joga no chão, em um golpe rápido e
indefensável.
Gemo quando minhas costas latejam com a pancada.
— Acho que estão pegando pesado demais com ela. — Oliver reclama, enquanto assiste
tudo sentado no gramado.
— Eu não sou fraca. Posso muito bem treinar de igual para igual.
Levanto com dificuldade.
Sei que James não está cem por cento confortável com a situação, mas achou melhor que eu
treinasse. Claro, não nesses métodos. Porém, depois da minha insistência, ele acabou aceitando. Eu
não gosto de ser subestimada, não gosto que me tratem como uma boneca de porcelana.
Eu sou mais forte do que imaginam.
— Vamos, donzela! Mostre-me que você consegue dar socos além do boom Box. — Parto
para cima do Julian, que entra na defensiva e se protege de outro golpe. — Ah, Amy! Você pode mais
do que isso.
Passo a mão na testa, tirando as mechas do rosto.
— Amy, você está bem com essa situação? — James me pergunta, e eu olho para ele,
balançando a cabeça.
Em um golpe rápido, sou derrubada no chão, e sinto meu rosto arder.
— Nunca dê as costas para o inimigo, Amy. Nunca.
Julian sussurra ao pé do meu ouvido.
Tento buscar a respiração, mas estou presa entre o chão e o homem musculoso e pesado em
cima de mim. Tento sair debaixo, mas não consigo. Eu me debato, tento usar os golpes que aprendi na
academia, mas é em vão. Ele tem a vantagem em cima de mim.
— Chega, Julian! — James ordena e sinto um alivio quando me livro do peso.
Ele ergue a mão na minha direção e eu seguro, me levantando devagar.
— Por que está fazendo isso, se o Lion vai usar armamento pesado? — Tommy pergunta.
— Para o caso de alguém pegá-la desprevenida em uma das missões que ela for conosco.
— Ainda acho uma tolice essa garota estúpida nos acompanhar. — Damon resmunga, e eu
fito seu olhar.
— Por que você não vem? — chamo, provocando.
— Amy, não. Já chega!
James tenta intervir, mas eu continuo firme.
— Venha você me ensinar, Damon!
Ele dá de ombros e anda até onde estou, arrancando a camisa do corpo, exibindo seu
peitoral másculo e coberto de tatuagens.
— Tente me atacar, que usarei as técnicas que aprendi.
Pego a garrafa de água e despejo o liquido na minha boca. Todos observam atentos a cada
movimento.
Acerto um chute no seu queixo, e a sua cabeça dá uma leve inclinada para trás. Ele é mais
forte do que eu imaginava.
Tento desviar de um golpe no meu rosto, mas quando viro minha cabeça, ele acerta um
soco no meu nariz.
— Pega leve, Damon!
James grita, mas o comparsa apenas sorri.
— Vamos princesinha.
Provoca, e eu vou para cima dele, com um chute na sua coxa.
Deixo minha raiva acumular, lembrando cada provocação, cada vez que ele me ameaçou.
Meu sangue ferve nas veias.
Ergo minha perna mais uma vez, mas Damon é mais rápido. Ele se protege. Antes que eu
possa reagir mais uma vez, sinto outro soco no nariz, que me deixa desligada por alguns segundos.
Damon vem até onde estou e me vira, agarrando meu pescoço, me dando uma gravata.
— Tente se livrar agora. — Seu sussurro no meu ouvido com o hálito quente me causa
arrepios. — Mostre ao James que você é tão boa nisso quanto em dar a boceta para ele.
Gelo com suas palavras.
Ele fala com a voz tão baixa, que os outros sequer notaram o que ele disse. A raiva cresce
no meu peito.
Seu braço no meu pescoço aperta mais, me deixando sem fôlego.
Tento puxar seu braço, e quando consigo uma folga, abaixo o queixo e protejo meu pescoço
com o maxilar. A pressão diminui.
Abaixo meu corpo e abro as pernas. Olho para o James, que balança a cabeça avisando
que estou fazendo certo. Tento jogar Damon para a frente, mas seu corpo é pesado. Ele aperta mais e
eu começo a me desesperar, mesmo sabendo que aqui ele não fará nada comigo.
— Abaixe mais. Vamos!
Tommy me instrui, ficando próximo.
Puxo minha força para frente, até cambalear e cair junto com o Damon no chão.
Quando ele rola para o lado, respiro fundo, tentando reordenar minha respiração falha.
Coloco a mão no pescoço.
— Até que você não é tão ruim. — provoca.
— Chega! — James me levanta e eu fico de pé, fraca, ainda com a respiração fraca. —
Isso já foi até o limite. — Ele pega uma arma no cós da calça e me entrega. — Acerte o alvo na
parede. — Aponta para o desenho na parede próximo a piscina. Engatilho a arma e atiro. — Não.
Passou perto. Outra vez.
James fica por trás, e segura meu braço.
— Fixe o olhar na mira e tente acertar no meio. — Tento mais uma vez, e consigo chegar
mais próximo. — Está melhorando.
Tento mais oito vezes até conseguir acertar o alvo.
Meu pai me ensinou a atirar quando eu tinha dezesseis anos. Ele tinha uma arma guardada,
mas nunca imaginei que ele fosse querer que eu atirasse. Até que um dia, nervoso, ele me obrigou a
aprender. Não tão bem quanto James sabe, mas tentou. Ao menos eu sei disparar a curta distância.
— Corre!
Corro e tento acertar o alvo mais uma vez. Cansada, desabo no chão, pegando a garrafa de
água.
— Você foi bem, Amy.
Dou de ombros.
— Poderia ter sido melhor.
Ele balança a cabeça, e senta ao meu lado.
— Isso é somente no caso de proteção. Eles não vão entrar aqui e simplesmente perder
tempo lutando. Vão matar todos que estão aqui e levar você para longe. Na missão que for comigo
antes de você ir embora, só precisa se proteger caso alguém te pegue.
Concordo.
— Por que acha que eu tenho uma hora certa para ir embora? — pergunto, com um nó na
garganta.
— Porque você tem. Isso vai acabar Amy.
Olho para frente, onde os homens conversam.
— Você não vai viver aqui para sempre. Eu jamais permitiria isso.
Bufo.
— Já parou para pensar na possibilidade de eu querer isso? De eu querer ficar? Eu posso
comandar a minha vida. Não sou uma donzela indefesa.
Ele sorri.
— Você só pode estar de brincadeira comigo.
— Não estou. Não sou de papel. Posso ficar aqui, ajudar vocês, e ao mesmo tempo ter a
minha vida.
James me faz olhar para ele.
— Impossível ter uma vida aqui dentro. Olha para nós, Amy. — Segura meu queixo com
carinho. — Nós somos assassinos. Você não precisa ser uma.
Afasto-me e ando até a parte de dentro da casa.
Entro no meu quarto, tranco a porta e vou direto para o banheiro. Preciso relaxar um
pouco. Esses dias a carga tem sido pesada. Desde que o Lion invadiu a boate eu fico nervosa. James
resolveu começar a me treinar. É cansativo, mas preciso. Treinava na academia, mas nada
comparado ao que preciso saber. É uma vida corrida e louca. Ando sobre uma corda bamba com
medo de a qualquer hora despencar.
Depois do banho, me visto e desço para comer alguma coisa. A casa está silenciosa.
Agradeço pelo fato de, aparentemente, todos terem saído, com exceção dos homens no jardim. Julie
está na cozinha, preparando a comida para o jantar.
— Eu fiz uma vitamina para você, Amy. Está na geladeira. — Agradeço e pego a jarra,
sentando na banqueta. — Cansada?
Sorrio.
— Um pouco, Julie. Tudo está sendo tão insano.
Tomo a vitamina acompanhada com alguns biscoitos.
— Essa é a vida do James. — Ela dá de ombros. — Mas pelo que sei estão atrás de você.
Só isso também. James não discute perto de mim.
— Eu também só sei sobre isso, Julie. Fico sem entender.
— Tente manter a calma. James vai mover céus e terra se for preciso para mantê-la segura.
Eu acredito, mas não consigo relaxar.
Termino meu lanche e subo. Não estou disposta para conversar. Quero tentar dormir e
esfriar um pouco a mente. Agora, que estou com celular, posso ligar para a minha mãe. E é
exatamente o que farei mais tarde. Só preciso estar mais tranquila. Não quero passar meu estresse
para ela.
Entro no meu quarto e sinto um vento quente na minha nuca. A porta bate e quando olho de
uma vez, vejo Damon parado, sorrindo e com um olhar sombrio.
— O que quer aqui? — Sinto um frio na espinha. — Saia do meu quarto! — falo com a voz
firme.
— Ou o quê? Vai gritar? Me bater? — gargalha. — James saiu com o Julian e o Tommy. Os
outros dois não vão escutar você daqui. Os demais estão fazendo ronda pelas redondezas.
Dou um passo para trás.
— Você quem está ajudando o Lion, não é?
Ele me dá um meio sorriso perverso.
— Advinha? E eu descobri cada coisa que você nem sonha.
Tudo começa a ficar claro na minha mente.
— Você que dopou todo mundo na festa. Dopou-se para que ninguém desconfiasse.
— Óbvio! Ainda não era hora.
— Ele vai matar você.
Damon se aproxima mais e eu sou interrompida pela cama. Meu coração dispara forte.
— Ele pode até matar, porque eu sei que ele vai tentar quando descobrir, mas eu já vou
estar longe… só que não antes de saber o que ele gosta tanto em você.
Engulo a saliva de uma vez.
— Damon...
Tento escapar, mas ele é mais rápido, mais forte, mais ágil...
Damon cai por cima de mim, esfregando os lábios no meu pescoço. Sinto nojo. Tento sair,
mas ele não permite. Ele rasga meu vestido, me deixando somente de calcinha.
— Não lute! É em vão! — fala, soltando seu hálito de cigarro no meu rosto.
Sua mão desce entre minhas pernas. Ele pega nas minhas partes intimas, eu aperto as coxas.
Damon coloca a mão dentro da minha calcinha, mas eu o chuto. Em seguida levo um soco no nariz,
que me deixa tonta. Damon aproveita a chance e abre minhas pernas.
Sinto sua ereção no meu ventre e começo a me desesperar.
— Calma, Amy! Eu serei gentil se me ajudar. Sou melhor do que o James nisso.
Ele agarra meus pulsos, colocando acima da minha cabeça. Debato, chuto, mordo... Mas
nada está funcionando. O sangue escorre do meu nariz, e sinto o gosto dele escorrendo até minha
boca.
— Abra as pernas, Amy! Quero foder você para que nunca me esqueça.
Choramingo quando ele morde o meu pescoço.
— Para, Damon! Eu não quero.
— Mas eu quero!
Escuto o barulho do zíper sendo aberto. Logo em seguida ele rasga minha calcinha e tenta
penetrar, mas eu sou firme.
— Eu posso morrer, mas você não vai conseguir.
A única alternativa que me resta é acertar uma cabeçada na sua, e eu fico muito tonta com a
pancada, mas consigo fazer com que se levante.
— Desgraçada!
Damon ergue a mão para me acertar, mas logo leva um golpe na cabeça. Julie.
Ele não cai. Parece feito de pedra. Numa mesma volta que dá, acerta o rosto de Julie,
fazendo que ela caia no chão, com as costas na parede.
— Meu Deus! — grito.
Ele fecha a calça e me encara. — Quer saber? — Ajeita a camisa e eu tento me cobrir.
Minha roupa está rasgada. — O Lion vai fazer o serviço melhor. Claro, só não vai estuprar você.
Fico sem entender.
— Até porque isso é nojento. E por mais que ele seja ruim, não acredito que vá fazer isso
com a própria filha.
É como se eu acabasse de levar uma pancada forte. Uma pior do que a cabeçada.
Sinto meu chão sumir sob os pés.
— O que...
Engulo seco.
— Ah, garota estúpida! — Bufa. — Lion Holding é o seu pai. Ou por que ele estaria tão
desesperado atrás de você? — É isso? — Não seria por uma foda, não é?
Levo a mão até a boca e prendo a respiração.
Vou sufocar.
Tudo que vivi até hoje foi uma mentira?
Meu Deus!
Capítulo 26

Amy

Sinto o meu ar faltar com a bomba que o Damon acabou de jogar sobre a minha cabeça.
Minha mãe mentiu esse tempo todo? Minha mãe se envolveu com um bandido? Nada faz sentido para
mim. Nada! Nada se encaixa. Não consigo ligar os pontos. Eles nunca deram a entender que eu sou
filha de outro homem. Meu pai, apesar do vicio ele nunca me tratou indiferente.
Será que sabe?
— É mentira! — falo, tentando acreditar nas minhas palavras.
— Não é não. Pergunte ao seu querido James. Ele escondeu isso de você.
Claro que era esse o segredo. Óbvio.
Trêmula, eu me encolho na cama, enquanto Julie permanece desacordada no chão. A
pancada que ela levou na cabeça foi forte.
— Eu estava ajudando o Lion. Não o tempo todo, é claro. Eu tinha, e tenho um motivo
maior para trabalhar com o James. Mas o Lion me procurou, pediu para que eu ficasse de olho nos
passos do James, já que ele é uma espécie de justiceiro fajuto. Lion tinha receio de que fosse
encontrado. Afinal, seu amado é bom no que faz.
— Bandido! — xingo.
— Não sou diferente do James.
— Você o ofende fazendo essa comparação.
Ele gargalha.
— Você acha que ele é um príncipe encantado? Acha que vai regenerar o James e fazê-lo
um mocinho? — Cerro o olhar na sua direção. Ele parece desequilibrado. — Burra! Idiota e
sonhadora. Afinal, achar que um bandido vai ficar bom por sua causa é demais.
Sinto-me ofendida, mas fico calada. Ainda estou em choque, tentando processar o que
descobri.
— Lion precisava de alguém de olho no James, e eu o fiz. Só que o Lion começou a se
interessar por você. Ele pediu para procurá-la. No começo eu não queria dizer onde você estava,
porque eu achava que era só um encanto por uma boceta. Não fazia ideia do porquê. Até que
descobri o ouro que eu tinha nas mãos. A sua filha. Sua maldita filha! — Bufa. — Eu pensei em
entregar você, mas como? James não sai do seu pé um instante sequer. Afinal, eu tinha que
disfarçar… fazer o bom comparsa. — Tenho vontade de socá-lo. — Lion me ofereceu muita grana
para pegar você. Depois das tentativas frustradas, ele me pediu pessoalmente.
— O que ele quer comigo?
Pergunto já com medo da resposta.
— Ora, ele quer que você seja sua sucessora.
— Quer que eu vire bandida?
Sorrio.
— Ele comanda a maior rede de prostituição do país. Não é qualquer negócio. Lion tem um
império, algo que envolve muito dinheiro.
Julie levanta, mas ele não percebe.
— Pois mande um recado para ele. — Damon ergue a sobrancelha. — Que me espere. Pois
eu vou com o James estourar os seus miolos. — Levanto. — E depois dele, vai ser você. E eu farei
questão de fazer isso com minhas próprias mãos.
Damon me acerta com um soco e eu caio na cama, e rolo até cair no chão.
De repente, a porta é aberta e os homens entram, tentando pegar o Damon, que luta
incessantemente.
Tiros começam a ecoar no meu quarto, e eu fecho os ouvidos. Não posso correr e sair,
porque a porta está fechada com o Damon. Um peso cai ao meu lado.
Um dos homens está morto. É o Paul. Sangue escorre até onde estou. Tento não olhar, mas o
buraco no meio da sua cabeça me deixa assustada. Grito, mas permaneço no lugar.
As lágrimas descem pelo meu rosto. Escuto mais tiros, pancadas e silêncio.
Um silêncio fúnebre que é interrompido por um carro cantando pneu.
Respiro fundo.
— Amy? — Julie me assusta quando me chama. Levanto de uma vez, e da ponta do meu
cabelo escorre o sangue do homem que Damon matou. — Tudo bem, Amy!
Ela tenta me consolar, mas ainda estou tremendo.
— Ele... Meu Deus!
Olho para o homem com a cabeça afundada na poça de sangue.
— James está vindo. Eu já mandei ligar para ele.
Balanço a cabeça.
— Vou preparar a banheira no quarto do James. Você precisa de um banho.
Ela sai e eu sento na beirada da cama. Estou suja de sangue, trêmula, mas nada se compara
com a minha mente perturbada nesse momento, pelo que aconteceu.
Levanto e pego a arma do homem que caiu no canto da cama. Limpo e guardo dentro da
minha gaveta.
Ando até o quarto do James e me livro do que sobra da minha roupa, jogando no chão, no
meio do quarto, sem me importar com a Julie atenta aos meus movimentos.
A banheira está cheia e eu entro, sentando e deixando meu corpo descansar.
Começo a chorar com a descoberta. Tudo parece que está começando a ser digerido.

James

Eu sei que exagerei no treinamento da Amy. Eu quero que ela aprenda a se defender. Sei
que ela não é uma garota comum. Sempre foi esperta, inteligente e diferente. Eu não duvido da sua
capacidade. Só que estamos envolvidos com pessoas perigosas, pessoas que não pensam duas vezes
antes de apertar o gatilho e estourar os miolos de quem ficar no meio. E é exatamente isso que eu
temo.
Lion já provou mais do que o necessário que vai fazer de tudo para pegá-la. Eu não sei
como vou encontrá-lo, já que ele é bom em se esconder, mas eu vou conseguir. E vou enfiar uma bala
sem dó nenhum no meio da sua testa.
Minha cabeça nunca vive quieta. Como se não bastasse o Jason, que é uma vingança sem
fim, ainda tem o Lion. Esse é o primeiro, minha prioridade no momento.
— Nós não encontramos nada. O cassino que ele estava comandando fechou. — John
explica sobre a busca incessante pelo Jason.
— Eu vou atrás dele. Já comuniquei a outras unidades. Todos estão de olho.
Balanço a cabeça.
Meu celular toca. É o Carl, um dos seguranças que contratei para vigiar a casa.
— Fala!
Espero, e o silêncio que ele faz antes de começar a falar me dá medo.
— Você precisa voltar para casa urgente. Atacaram a Amy.
Na mesma hora meu coração dispara, e a única ação que tenho é de correr até meu carro.
Os três me acompanham sem entender.
— O que houve, James? — Tommy pergunta, e eu ainda estou com o celular no ouvido.
— Atacaram a Amy. Carl acabou de me falar.
Eles correm para dentro do carro e John vai embora, pedindo para mandar notícias.
— Como ela está, Carl? — pergunto enquanto vou dirigindo. Boto no viva voz e entrego
para o Julian segurar.
— Abalada. Ele matou o Paul.
Respiro fundo para acalmar os nervos até chegar em casa.
— Eu já estou indo para casa. Feche tudo e mantenha os olhos nela.
Julian desliga o telefone e encara a pista assustado. Assim como eu.
Não sei bem de fato o que ocorreu, mas só bastou eu tirar meus olhos dela que isso
aconteceu. Merda!
Soco o volante e meu sangue ferve nas veias. Quero matar aquele desgraçado ou quem quer
que seja que fez alguma coisa com ela.
— Acho que não foi o Lion. — Tommy comenta. — Se fosse teria levado a Amy.
Concordo.
— Mas quem diabos ia fazer alguma coisa a ela? Quem tem esse acesso a minha casa?
Eles ficam em silêncio e minha raiva corrói numa velocidade sem rumo.
Chego em casa e Carl abre o portão. Desço e o silêncio me deixa assustado, como eu nunca
tinha ficado antes.
— Cadê ela? — pergunto, e ele aponta para o meu quarto.
Subo correndo, sem saber como foi ou quem entrou aqui. Só preciso olhar nos seus olhos e
ver que está bem.
Abro a porta do quarto e não a vejo. Ando até o banheiro quando escuto barulho de água.
Quando entro, ela está sentada na banheira, em silêncio, viajando em pensamentos.
— Fiquei assustado quando soube o que aconteceu.
Ela vira de uma vez, olhando para mim com desprezo.
— Estou aqui. Fisicamente bem, mas mentalmente não. — Tiro minha jaqueta para entrar
na banheira, mas antes que consiga tirar a blusa, ela levanta, exibindo seu corpo. — Não! — fala,
erguendo a mão e uma barreira entre nós. — Esse não é o momento.
Engulo seco e a encaro.
Ela chorou. Seus olhos estão vermelhos e inchados. Seu rosto tem uma marca vermelha no
seu pescoço, uma mordida.
— O que aconteceu? — pergunto, observando enquanto ela se veste.
— Eu quase fui estuprada. Por pouco ele não conseguiu. — Aquele frio na espinha que há
tempos eu não sentia aparece. — Nunca me senti tão humilhada, James.
Sinto um nó na garganta por vê-la assim. Eu quero beijá-la, alisar cada parte em que ela
está machucada.
— Quem foi o merda que fez isso com você? — falo entre os dentes.
— Adivinha? Damon.
Arregalo os olhos, surpreso com a declaração. Eu já sabia que o Damon não gostava dela.
Só que pensei que fosse por incomodo ao vê-la aqui, dentro de casa. Não que a raiva chegasse a esse
ponto.
— Damon? — O nome sai amargo da minha boca. — Cadê esse desgraçado?
Ela dá de ombros.
— Ele me bateu, bateu na Julie, matou o Paul e fugiu.
Dou um soco na parede e sinto uma dormência na mão de imediato.
— Eu vou matar aquele merda! — grito. — Vou matar! Mas não antes de arrancar cada
dente daquela boca maldita.
Já fiz isso uma vez com outra pessoa, e não guardo remorso algum.
Ela passa por mim, indo para o quarto.
— Você não sabe a melhor parte. — Espero que ela fale. — Ele me contou tudo. — Fico
parado no lugar. Sem reação. — Agora eu sei o que o Lion quer. — Inferno! Minha raiva só
aumenta. — Damon me contou o que você estava me escondendo.
Seu olhar é de decepção.
— Eu não tinha autorização de contar. — falo com a voz baixa.
— Damon contou.
Ando pelo quarto.
— Ele não tinha o direito. — Paro de uma vez. — Não me lembro de ter contado para o
Damon sobre isso. Só contei para o Julian e o Tommy.
Olho para Amy e ela dá de ombros.
— Ele está trabalhando para o meu querido pai.
Sua voz sai em tom amargo. Amy senta na cama, cruzando as pernas e esperando que eu
explique o que aconteceu de verdade.
— Vamos, James! Você vai me contar, não é? — Cerro o maxilar, nervoso. — Por que isso
tudo? Como você sabia sobre o Lion?
Derrotado, puxo a cadeira até onde ela está.
Solto um longo suspiro e começo pela parte principal.
— A aposta nunca existiu de verdade.
Capítulo 27

James

Dois meses atrás...

— Onde está o desgraçado do Jason?


Soco mais uma vez o nariz do atendente do hotel.
— Eu não sei James!
Outro.
— Você trabalhava com ele, Kevin. Não se faça de desentendido. — Empurro seu corpo
contra a parede, causando um estalo nas suas costas. — Quer que diga ao seu patrão que você
trabalhava treinando jovens assassinos? — Ele balança a cabeça. — Puxei sua ficha, Kevin. Você
e seu companheiro estão tentando adotar uma criança.
Sorrio.
— O conselho tutelar iria amar saber o que você fazia antes de conhecer seu marido.
Aperto o colarinho da sua camisa, e ele começa a sufocar.
— Merda! Ele sumiu do mapa. Sabia que estavam atrás dele.
Empurro-o mais uma vez contra a parede.
— Quem me garante que está falando a verdade? — pergunto com as mãos trêmulas.
— Eu dou a minha palavra. É a única coisa que sei.
Solto Kevin de uma vez e ele cai no chão, tentando buscar o ar.
— Eu vou acreditar em você. — Levanto o homem mais uma vez pelo colarinho. — Mas se
eu souber que andou mentindo, eu vou cumprir o que prometi.
Largo o homem no beco e saio andando pela rua. Acendo meu cigarro e vou até o meu
carro.
Tommy me espera no banco do motorista.
— E aí? Alguma novidade?
— Nada. Aquele verme está muito bem escondido.
Ele liga o carro e começa a ir de volta para casa.
— Ligaram para falar com você.
Olho para ele.
— Quem?
— Andrew Mitchell. — ele fala, e na mesma hora eu reconheço o nome. Só não digo nada
sobre. — Você o conhece, James?
Concordo.
— O que ele quer?
— Que você vá até o bar onde ele joga. Precisa falar com você. É urgente!
Bufo.
— Tudo bem. Vamos lá!
Só espero que ele não esteja esperando que eu mate alguém por causa de jogo.
Passamos em frente a minha casa e eu sinto meu peito apertar. É como se pudesse ver a
minha mãe regando o jardim, sorrindo a cada vez que eu chegava da escola. Não gosto da sensação
que me causa lembrar isso tudo.
Olho para o outro lado da rua e a vejo. Amy Mitchell. A única mulher — garota — que
conseguiu abalar tudo aqui dentro.
— Vai devagar! — peço, e ele obedece.
Ela está sentada no telhado de casa, um costume que sempre teve, e que notei desde que eu
a vi pela primeira vez. Aparentemente está estudando, dedicada e desligada do que acontece ao seu
redor. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo lateral, seus óculos de leitura estão dando um ar
de intelectual para o seu rosto.
Ela vê o carro e eu desisto de encará-la.
— Quem é ela? — Tommy pergunta e eu nego.
— Ninguém. — Eu sei que ela é inalcançável. Eu não sou digno de uma pessoa desse tipo.
Ela não merece uma vida de merda como a minha. Merece casar, ter filhos, e ser feliz com alguém
que seja capaz de dedicar a sua vida a ela. — Ninguém que esteja ao meu alcance.
Desligo meus pensamentos quando Tommy para o carro na calçada do bar.
Aqui funciona uma jogatina clandestina. Jogam baralho. Tudo por muito dinheiro. Homens
que destroem a família e perdem emprego por causa do vício. Agiotas que ficam na porta
emprestando dinheiro com juros altíssimos.
Só consigo lembrar o meu pai. Foi assim que ele começou. Depois, em busca do dinheiro
fácil, passou a vender drogas de todos os tipos. Faturava bem, mas foi levando nossa família ao
fundo do poço. Até Jason ir cobrar a dívida.
— Ali está ele! — Tommy aponta para o homem sentado no canto do bar, que está com o
movimento fraco. Pouquíssimas mesas estão ocupadas.
— Pode ir, Tommy. — ele obedece e sai.
Ando até o homem, que parece aliviado quando me ver. Já os outros frequentadores
parecem encolher a minha presença. Alguns até vão embora, temendo que eu os mate.
Sempre foi assim, e isso nunca vai mudar.
Puxo a cadeira de madeira e sento à sua frente.
— Espero que não peça para que eu mate um agiota. Eu não faço isso.
Ele esfrega o rosto e me encara.
— Eu preciso que proteja a minha filha.
Apoio os braços sobre a mesa.
De tudo que ele poderia pedir, isso era justamente o que nunca iria imaginar.
— Você tem noção do que está me pedindo? — Ergo a sobrancelha. — Sou um assassino
de aluguel, senhor Mitchell.
— Eu sei, mas também sei que vigia minha filha. — Fico surpreso com o que ele conta. —
Não sei o que quer com ela, mas se quisesse matar, já tinha feito. E eu sei da sua história com seus
pais. Sei que sofreu depois que eles morreram. Sei que seu pai era viciado e acabou com a família.
Chamo o garçom, que mesmo com medo, se aproxima. Peço uma dose de uísque e ele traz.
Depois dessa, eu preciso beber.
— Sei que você para na frente da minha casa e observa a Amy. Também o vi pela janela da
casa dos seus pais admirando minha filha.
— Não pode confiar em mim, Mitchell!
— Eu sei que não vai fazer mal a ela. Você gosta dela, não é?
Aproximo meu rosto do dele.
— Eu sou um assassino. Sentimentos não existem aqui dentro. — minto, mesmo sabendo
que é verdade o que ele disse.
— Só leve Amy com você. Ela ainda tem vinte anos, pode ser obrigada a isso.
Balanço a cabeça.
— Tem que ter um bom motivo para que eu faça isso.
Ele arrasta a cadeira mais para perto e começa.
— Eu estava num bar, perto do meu trabalho, comemorando mais um contrato bem-
sucedido e conheci uma mulher. Ela era linda. Eu nunca tinha visto igual. — Fico sem entender o
porquê dessa história, mas escuto pacientemente. — Ela tinha um olhar assustado. Servia as bebidas,
mas sempre mantinha os olhos na entrada, como se a qualquer momento fosse entrar alguém para
atacá-la. Então, no final do expediente, eu fui atrás dela. Estava hipnotizado. — ele sorri. — Com o
passar das semanas, nós ficamos mais próximos, até que ela revelou que tinha fugido da Holanda e
que estava grávida. Foi uma surpresa. Eu quis caçar o miserável que tinha abandonado aquela
mulher, mas ela me contou o que ele era, um traficante de pessoas. Traficava e obrigava as mulheres
a se prostituírem. Ela tinha sido uma, mas que transou com o bastardo. — Fico boquiaberto. Nunca
imaginaria isso. — Ela não queria tirar o bebê, o que ele insistia para que ela fizesse. Então ela
fugiu.
Bebo mais um gole da bebida amarga.
— Fiz uma proposta. Eu casaria com ela, assumiria o bebê se ela ficasse comigo. Eu
estava apaixonado. Era um jovem cheio de descobertas. — Na minha mente vem à imagem da mulher
na calçada de casa, com um olhar triste e depressivo. — Vivíamos em paz. Uma família perfeita.
Amy nasceu e nós éramos os pais mais realizados do mundo. Eu amava, e ainda amo aquela garota,
mesmo que ela tenha o sangue de um bandido. — Ele tira os óculos e enxuga o canto dos olhos. —
Até que um dia vi a minha mulher, que era cheia de vida desde que nossa filha nasceu, se entupir de
remédio controlado. Eu não entendia. Pressionei, até que ela me contou tudo. Lion Holding estava
atrás da filha.
Ah merda!
— Ele descobriu uma doença e viu que precisaria de ajuda para tocar os negócios.
Precisava de uma sucessora. Então, mandou investigar a Lisa até encontrar. O nome dela era Margot,
mas mesmo assim, com a mudança, ele conseguiu achar todos nós.
— E agora sua filha está em perigo. — falo, sentindo raiva do homem que eu já ouvi falar,
mas nunca consegui chegar perto.
— Nossa família se desestabilizou, James. Passei a ficar mais tempo no bar, comecei a
jogar e afundei tudo. Afundei a família que eu deveria proteger.
— Covarde. — acuso, mesmo sabendo que não deveria ter falado nada.
— Sim, eu sou. Mas agora, como ele voltou a procurá-la, eu preciso que a leve para longe.
Ele quer vir buscar a filha. Deu o prazo de uma semana para que ela esteja com ele.
— Como ele garante que ela vá trabalhar lá? Amy não parece alguém que vai aceitar isso
de boa.
Ele concorda.
— Não vai mesmo. Só que, caso ela não aceite, ele jurou matá-la… não sem antes fazer
isso comigo e com a mãe dela.
— E onde esse filho da puta está?
Dá de ombros.
— Ninguém sabe. Um amigo já tentou rastrear o número, mas não conseguiu.
— Por que não avisou a polícia?
— Foi à primeira coisa que ele avisou. Depois disso mandou fotos da Amy na rua. Ele
quer que a mãe dela entregue Amy por vontade própria, não quer pegá-la na marra. O que posso
fazer?
Respiro fundo para controlar a minha raiva.
— Ela sabe que isso está acontecendo?
Ele nega.
— Ela não pode saber, James. Não agora, pelo menos. Quero somente mantê-la segura.
Lisa teme que ela a odeie.
— Então não vai ser fácil eu levá-la para a minha casa sem ter um bom motivo aparente.
O homem olha para os lados e começa a distribuir as cartas. Sinto um gelo no corpo. Odeio
jogos.
— Não jogo.
Sou curto com as minhas palavras.
— Só preciso que finja que estamos jogando. — Não entendo. — Eu vou perder a minha
filha numa mesa de apostas.
Encosto-me a cadeira, sem acreditar na ideia estúpida do homem.
— Sua filha vai odiar você.
— Que me odeie, mas que permaneça viva. — Pego as cartas que ele me entrega. O bar já
está quase vazio. Quase ninguém quis ficar.
— Ela ainda tem vinte anos e pode ir sem reclamar. — Duvido.
— Não. Ela vai espernear porque tem o gênio forte. Mas por estar ainda sob a minha
responsabilidade, ela terá que ir.
— Você sabe que está assumindo um risco, não é? — pergunto.
— Melhor do que perder minha filha sem tentar protegê-la. Eu sei que eu sou um merda de
ser humano, mas ela não merece sofrer. — Jogo a carta na mesa, tentando não lembrar que eu repugno
jogatina. — Só não fale nada para ela, por favor! Na hora certa, quando a mãe dela estiver
preparada, iremos contar.
Balanço a cabeça, sabendo que eu aceitei isso e que também estou assumindo um risco.
Um risco de tentar não tocá-la ou então estarei perdido e levando a garota para o inferno
que é a minha vida.
Capítulo 28

Dias atuais…

James

Contar tudo o que aconteceu antes disso começar foi uma forma de desabafo. Eu tinha que
guardar segredo, afinal foi um pedido do seu pai, uma promessa que fiz. Só que aquele miserável do
Damon contou na frente, então não me restava outra alternativa. Uma hora ela teria que saber, e
lamento por não ter sido por mim.
Amy está assustada com tudo. Seus olhos estão arregalados e a boca aberta com a bomba
que acabou de descobrir. Eu não faço ideia do que está se passando na mente dela, mas sei que ela
deve estar destruída por dentro.
— A aposta foi uma mentira. — Ela repete a frase para ela mesma. — E o meu pai... — De
uma forma única, ela começa a chorar. Muito. Deixando as lágrimas descerem pelas suas bochechas
vermelhas. — James... — Como nunca tive pratica em consolar ninguém, fico quieto, dando o espaço
que ela precisa. — Eu briguei com meu pai. Eu fui embora de casa odiando o homem que fez isso por
mim? — Seu soluço fica mais alto. É desesperador. Fico nervoso. — E minha mãe passou por aquilo
tudo e eu não fiz nada para ajudá-la. Eu só a julguei, condenei, desprezei aquela mulher que eu
achava fraca por estar se entregando ao vício dos remédios.
— Você não tinha como saber.
Ela levanta, abalada, andando pelo quarto.
— Mas se eu não fosse tão geniosa, teria calma e não ofenderia os dois quando deixaram
você me trazer a força. — Imagino o quanto deve estar doendo por dentro. — Meu Deus!
Ela passa as mãos pelo rosto.
Eu assisto tudo. Seu desespero, arrependimento e a tristeza por saber de tudo. Não é fácil.
Não será fácil nos próximos dias, afinal ela ainda não pode voltar para casa e ver os dois.
Nem faço ideia de quando isso irá acontecer.
Amy para, me olha, e enxuga as lágrimas.
— Você estava me protegendo. — Encaro a mulher que se tornou mais forte depois que
chegou aqui. — Eu cuspi as piores palavras para você e...
Levanto, andando até ela. Seguro seu rosto.
— Não, Amy.
— Você só estava me protegendo, James.
Beijo a sua testa.
— Eu estou acostumado com isso. Não me importo. Fale o que quiser, mas ainda sim, eu
não tenho o direito de me sentir ofendido.
Ela passa a mão pelo meu rosto.
— Você não é ruim, James. Não é.
Seguro seus braços e afasto meu corpo do dela.
— Eu sou, Amy. Sempre serei. Vou continuar matando quem atrapalhar o meu caminho,
mas... — Ela escuta atentamente. — Se eu tiver que morrer para proteger você, eu farei isso.
— Não quero que isso aconteça.
Bufo.
— Mas isso irá acontecer.
— Não!
— Eu tenho inimigos, pessoas que me odeiam, então fique preparada para quando esse dia
chegar. Eu não tenho salvação, Amy. — Passo os dedos nos cantos dos seus olhos. — Vou matar o
Lion, o Damon e te deixarei livre, para fazer o que quiser. Estudar, casar e ser feliz.
Mesmo que doa na minha alma, eu farei isso. Vou deixar meu egoísmo de lado. Não posso
condenar a sua vida por causa de um sentimento que tenho no peito.
Afasto e ando até a porta.
— Aonde você vai? — pergunta enquanto saio.
— Limpar a bagunça que o Damon fez.
Bato a porta e respiro fundo.
Queria poder ficar com ela, acalmar seu coração, mas é um momento que ela precisa
digerir tudo. Vou pensar em um jeito de pegar o Damon e o Lion.
Preciso começar a me afastar. Quando tudo isso acabar, ela vai ter que aceitar e seguir em
frente. Não vou permitir mais mortes e sangue em sua vida.
Entro no seu quarto, e Carl e outro estão tirando o corpo pálido do Paul. Mais um que
morre por causa do meu trabalho.
— Vamos levar até o cemitério clandestino. — Carl avisa. — Por sorte ele era sozinho no
mundo. Ninguém vai atrás de saber por que ele morreu.
Concordo em silêncio.
Olho ao redor do quarto e tudo está uma bagunça. A poça de sangue seco está no meio do
quarto. Julie entra para limpar, e eu observo seu jeito desconfiado. Seu rosto também está vermelho.
— Sinto muito, Julie.
Ela balança a cabeça e me olha.
— Você não teria como adivinhar, não é?
Concordo, mesmo sabendo que eu tenho culpa por ter trazido aquele filho da puta para
dentro da minha casa.
Desço e vou à procura do Tommy. Ele está na sala, acompanhado por Julian e Oliver.
— Como ela está? — Oliver pergunta.
— Abalada. Ele tentou violentá-la e não conseguiu, mas contou tudo o que eu estava
escondendo para protegê-la.
— Irmão, tire Amy dessa casa. Pode acabar acontecendo coisa pior. — Ele tem razão. Eu
sei que tem. — Você pode até proteger, mas sabe que uma hora não vai dar mais.
Sento no sofá, apoiando os cotovelos nas coxas.
— O que quer que eu faça? Jogue a garota na rua, sem proteção, com um louco atrás dela?
Ele nega.
— Podemos dar identidade falsa para ela, e eu a levo para a Itália. De lá, ela pode ir para
qualquer outro lugar no mundo. — Não deixa de ser uma boa ideia. — Eu vou junto e a mantenho
segura.
— Ele tem razão, James. — Tommy fala.
— Tudo bem. — concordo com um aperto no peito.
Não seja egoísta!
— Julian, entre em contato com o John e peça que arrume a identidade, passaporte e outros
documentos necessários.
Ele balança a cabeça e sai.
— Tommy, procure saber onde está o Damon. Quem viu, quando e onde. Preciso achar esse
bastardo.
— Eu vou. Qualquer coisa eu ligo.
— Cuidado. — aviso, e ele sai em seguida.
Oliver se aproxima.
— Eu sei o quanto você quer ficar a sós com a Amy. — falo, conseguindo arrancar um
sorriso do mesmo. — Eu a deixo ir com você. Deixo porque sei que ela vai ser bem mais feliz longe
de mim.
Mesmo sabendo que vou morrer com o ciúme corroendo no meu peito.
— Eu jamais iria tocar nela, James. — Sua voz é firme. — Eu sei o quanto gosta dela e
respeito isso. Amy é encantadora, e em outra ocasião eu cairia aos seus pés e faria de tudo para tê-la
como mulher. Mas não posso.
Cerro o maxilar.
— Não posso porque sei que ela é a única coisa que faz meu irmão ser melhor.
— Você deu a ideia de ela ir embora, mesmo que eu odeie a ideia de vê-la longe daqui.
Ele sorri.
— Mas eu amo demais a Amy para permitir que ela fique nessa desgraça de vida, James.
Não quero que ela se transforme no que você se transformou.
— Nem eu.
— Sei que você é bom. Sei que aí dentro ainda pode haver esperança para uma mudança,
mas você já se destruiu muito por causa do que passou. — Oliver me conhece bem. Sabe o que sinto,
o que sofri, e a mágoa que guardo no peito. — Enquanto você não mudar, ela não pode ficar aqui.
— Eu nunca vou mudar, Oliver. É a minha sina. Vou morrer sendo um assassino. — Ele
balança a cabeça, desacreditado. — Você não faz ideia do que eu passei com o Jason. Ele me
transformou no que sou hoje. Minha busca atrás de vingança nunca vai ter fim.
— Essa sua busca incessante que está acabando com você.
— Eu só vou sossegar quando ver o Jason morto. Por tudo que ele fez. Por matar meu pai,
a minha mãe que era inocente, e ter feito o que fez comigo.
Bufa.
— Isso que vai te matar, meu irmão.
— Que mate! Mas não antes de conseguir matar o Lion e o Jason.
Oliver passa as mãos pelo cabelo.
— Meu Deus! Você é cabeça dura demais!
— Você nunca vai entender.
Ele para e me encara.
— Então, posso levar a Amy? — concordo, mesmo com dificuldade em aceitar.
— O que estão falando?
Ela pergunta, descendo a escada.
— Você vai embora comigo, Amy!
Oliver avisa de supetão e ela fica surpresa.
— Embora para onde?
— Para a Itália.
Amy olha para o Oliver e depois para mim. Eu não falo nada, só aceito a condição.
— Deixa ver se eu entendi. — Anda pela sala até onde estamos. — Vocês estão decidindo
a minha ida sem me consultar?
— É melhor assim, Amy! — falo, tentando passar calma.
— O melhor é vocês saberem que eu tenho idade suficiente para não aceitar isso. Que se
eu quiser ir embora, irei sem ninguém mandar.
Isso vai ser mais difícil do que eu previa.
— Você não pode mais ficar aqui, Amy. É perigoso! Lion vai pegar você.
— Que venha! Eu vou ficar esperando com uma arma apontada para o meio das fuças dele.
Oliver gargalha.
— Você criou um monstro! — Ela o encara, fuzilando com o olhar. — Ela está ficando
igualzinha a você. E isso é preocupante.
— Oliver, se intrometa na sua vida.
Ele ergue os braços com suas palavras ingratas.
— Eu só estou pensando no seu bem.
— Eu sei, Oliver. Eu sei. Mas tente aceitar que eu quero ficar. Quero continuar aqui até ter
a certeza que ele está morto.
— Olha, Amy. Se eu disser que aceito isso, vou mentir… então ficarei aqui também. No
momento que quiser ir embora, eu levarei você comigo.
Assim, Oliver se cala, observando Amy como se a qualquer momento fosse jogá-la no
ombro e levá-la na marra.
Meu celular apita avisando que tenho uma mensagem. Tiro do bolso e confiro.
Meu sangue para nas veias.
Meu coração acelera, e eu mal consigo me mover.
— James? — Escuto meu nome. — James?
Alguém me sacode e eu acordo do transe. É a Amy.
— O que foi? Você está pálido! — Olho para a garota na minha frente, com o olhar
preocupado. — O que aconteceu?
Engulo seco e tento transparecer calma, mesmo que seja impossível.
— Sua mãe, Amy!
Seus olhos arregalam, e eu não quero mostrar o que recebi. Antes que consiga raciocinar,
Amy puxa o celular da minha mão.
Em seu olhar eu noto a dor e o desespero.
Lion me mandou uma foto da Lisa debilitada, amarrada e com o rosto machucado.
Embaixo da foto está escrito:
“Se a Amy não se entregar em vinte quatros horas, mato a... Lisa?”
Oliver também lê a mensagem.
— E agora, James? — Pergunta, mas antes que eu responda, Amy toma a frente.
— Se é a mim que ele quer, eu irei.
Ah Deus!
Que merda essa garota está pensando em fazer?
Capítulo 29

Amy

Subo e troco de roupa. Visto uma calça de lycra, uma camisa branca, e a jaqueta de couro
preta. Dentro da bolsa jogo as duas armas que o James me deu outro dia. Eu posso até morrer, Lion
pode ficar comigo e fazer o que quiser, só não vou permitir que mate a minha mãe. Ela não tem culpa
de nada, não tem culpa de ter tido uma vida miserável por causa desse homem. Ela não merece
morrer por causa da filha que ela deveria ter abortado antes mesmo que alguém desse conta da
gravidez.
— Isso é loucura! — Oliver me recrimina enquanto eu termino de me arrumar.
— Loucura é deixar minha mãe morrer por causa da minha covardia. — Saio do quarto e
desço a escada quase correndo.
— Tenho certeza que ela não vai querer isso.
— Não me importo!
Tommy, James e Julian estão parados na sala, me encarando, incrédulos.
— Você não vai, Amy! — James ordena, mas nada e nem ninguém vai me parar.
— Eu vou. Você não tem o direito de me impedir!
— Tenho e vou.
Bufo.
— Vai me matar? Se sim, aí eu concordo que não irei.
Ele solta um grunhido de raiva.
— Eu quero te matar, Amy. Por mais que não consiga, eu quero. Deixe de ser teimosa!
Cruzo os braços.
— Se fosse a sua mãe, James, você iria ficar em casa, esperando a boa vontade de o Jason
soltá-la? — Ele fica em silêncio. — Não, eu sei que não. Você não precisa responder.
— Eu não tinha ninguém por mim, mas você tem. Nós três iremos salvá-la. Não precisa se
preocupar.
— Amy, fique. Eles irão atrás dela e eu vou te proteger. Sua mãe não vai querer ser salva
em troca de te ver morta. — Oliver insiste e eu ignoro.
Ando até a parte de fora da casa e vou até o carro. Os quatro homens me seguem.
— Deixe de teimosia, Amy. Escuta o Oliver.
Entro no carro e olho para o Tommy, que tenta me convencer de desistir.
— Vou precisar atirar em algum de vocês para entenderem que eu vou?
Oliver resmunga e fica no jardim enquanto os três entram no carro.
James senta no banco do motorista ao meu lado.
Sei que eu posso estar sendo inconsequente, imatura, imbecil, ou seja lá o que for, mas é a
vida da minha mãe que está em jogo. E se ele quiser que eu morra, ou trabalhe para ele, eu irei. Não
vou acovardar com isso.
— Liga para ele, James! — peço enquanto ele dirige sem rumo.
James me entrega o celular e vasculho a mensagem que ele mandou. Ainda vejo novamente
a foto da minha mãe pálida, com hematomas e amarrada. Isso me faz sentir um embrulho no estômago.
Ligo para o Lion e ele atende no terceiro toque.
— Pensou na minha proposta, James?
Sua voz é grossa e me causa medo.
— Onde você está, seu desgraçado? — pelo seu sussurro do outro lado da linha, percebo
que está surpreso.
— É você, filhinha? — seu tom irônico me causa raiva. Uma raiva que quer explodir
dentro do meu peito.
— Eu vou até você, mas antes, vai soltar a minha mãe, miserável!
— Ah não! Não, não, não... — ele solta uma risada. — Não é bem assim.
— E o que você quer? — pergunto.
— Você virá sozinha. Sem James, sem comparsas, sem ninguém. Um vacilo, e eu mato essa
vagabunda.
Sem pestanejar, eu respondo.
— Eu irei sozinha!
No mesmo instante, James balança a cabeça me proibindo de fazer isso.
— Você vai me esperar no Old City Park, daqui a vinte minutos. — Concordo. — Deixe o
James para trás. Se o trouxer, mato sua mãe, e você irá assistir de camarote.
A ligação é desligada e eu tento buscar forças, mesmo que seja difícil.
— Não, Amy! Isso é uma armadilha. — James tenta me convencer ao contrário.
— Eu irei assim mesmo. — Ele soca o volante. — E vocês vão voltar daqui.
Quando ele para no sinal, eu desço do carro e ando para o outro lado da rua atrás de um
táxi. Alguém puxa meu braço, e eu não preciso virar para saber quem é.
— Amy, por favor. — Balanço a cabeça. — Amy, eu conheço esse tipo de jogo. Ele está
enganando você.
— Isso eu vou descobrir quando chegar lá. E nem tente ir atrás, porque eu atiro no
primeiro que se meter na minha frente.
Um táxi passa e eu aceno.
Sem me despedir do James, corro até o carro e entro. Não olho para trás, prefiro não saber
o quanto ele está me odiando.
— Old City, por favor.
O taxista concorda e sai em direção a — talvez — minha morte.
Confiro o celular do James que trouxe comigo e não vejo mais nenhuma chamada ou
mensagem do Lion.
Eu não faço ideia do que me espera, mas irei de cabeça erguida e pronta para matar.
Mesmo que eu nunca tenha feito isso, mesmo que isso possa perdurar na minha mente pelo resto da
vida. É pela minha mãe, a mulher que sofreu a vida inteira e mesmo assim se calou. Ela aguentou
tudo por mim, para que eu nunca soubesse o merda do pai biológico que eu tenho.
O celular vibra e é o Lion.
“Quando chegar, procure sua mãe pelo parque. Nós estamos ansiosos para ver nossa
filhinha.”
Droga! Filho da puta desgraçado!
Meia hora depois, paro em frente ao parque. Pago a corrida com o dinheiro que peguei da
carteira do James enquanto me arrumava.
Respiro fundo e desço.
Com a mochila nas costas, ando a procura da minha mãe.

Lisa

A fraqueza consome meu corpo. Abro os olhos e lembro exatamente o que aconteceu. Lion
Holding estava na clínica para me buscar. Tentei gritar, pedi socorro, mas não sei o que ele fez, ou
talvez seja o poder de persuasão que ele sempre teve, mas as funcionárias não deram a mínima para
o meu desespero. Pelo contrário, passaram receitas e remédios para Lion me manter calma.
Olho ao redor e meu pulso dói. Estou amarrada numa cadeira de ferro, enquanto
Lion/Romeo me observa com um sorriso maligno.
É como se passasse um filme na minha frente de tudo o que aconteceu naquela época.

Visto uma roupa apresentável enquanto a minha mãe me observa, triste e cabisbaixa. Ela
não está contente por saber que eu estou indo para Amsterdã trabalhar como recepcionista de
eventos. É um novo futuro. É um sonho.
Terminei o ensino médio, e por enquanto não penso em faculdade. Quero me estabilizar
no outro país e juntar um bom dinheiro.
— Não fica assim, mãe. Estou feliz com essa nova oportunidade. Vou mandar dinheiro, e
a senhora não vai mais precisar trabalhar.
Ela balança a cabeça.
— Estou com o coração apertado, filha. Como se pressentisse algo ruim acontecendo
com você.
Bufo.
— Não se preocupe. Romeo é um homem integro, já veio aqui, conversou com a senhora,
mostrou documentos, passagens, onde iremos ficar hospedadas. O grupo dele é grande, e ele
sempre fica em busca de jovens para trabalhar nas empresas da família.
Romeo Clarke é um dos homens mais influentes que conheci. Ele fala línguas que nunca
imaginei que existiam, fez viagens pelo mundo, e a palestra onde fez a seleção para as garotas foi
em um hotel em Austin. Tudo foi minimamente organizado. Há uma semana ele veio aqui conversar
com minha mãe, fez isso com todas as garotas. Inclusive deu o endereço do prédio que iremos
morar. Fica perto da casa da Anne Frank. Estou ansiosa para conhecer o lugar. Mal posso
esperar.
— Promete que vai me ligar assim que chegar por lá?
Concordo.
— E pode deixar que cada passo que eu der, irei mandar fotos por correspondência.
Minha mãe me dá um beijo doce na testa, e eu me despeço quando escuto a buzina da
van que irá nos levar até o aeroporto.
Entro no veículo e vejo que minha mãe me observa da janela da sala. Dou um aceno, e
ela responde com desânimo. Talvez isso seja a falta que ela vai sentir. Sempre fomos nós duas, e
ela não está acostumada a ficar sem a filha por tanto tempo. Mas isso vai ser provisório. Assim
que eu conseguir ficar mais folgada, eu a levarei para morar comigo.
Durante o voo em um jato fretado, temos tudo do bom e do melhor. Bebidas e aperitivos.
Romeo não veio conosco, já está por lá. Meu coração aperta de ansiedade para vê-lo.
Minha mãe não sabe, mas eu e Romeo estamos saindo desde o dia da palestra. Foi
encanto à primeira vista. Também, eu estava abalada por causa do término do meu
relacionamento do canalha do Jared, então, conhecer o Romeo, um homem lindo, charmoso e
gentil, me fez ver que eu posso sim ter a segunda chance para ser feliz.
As meninas dentro do avião estão nervosas, mas animadas. Fazem mil e um planos para
quando chegarem à cidade. Eu também. Só que quero ver Romeo e matar a falta que eu estou
sentindo dele. Não sei bem o que ele quer fazer, mas se declarou e disse que vai casar comigo.
Mas eu não quero agora, quero trabalhar e me manter sem me amarrar a ele no momento.
Eu posso até estar apaixonada, mas primeiro o farei esperar. Ele vai ficar louco por
mim.
Chegamos em Amsterdã e vamos direto para o prédio em que vamos morar. Romeo não
aparece até chegarmos ao destino.
A decepção é nítida no olhar de todas nós quando vemos que o prédio não é o mesmo
que ele mostrou em fotos.
— É aqui que vamos ficar? — pergunto a um dos homens que nos guia para dentro.
— É sim! É um prédio de luxo na frente do que vocês esperam.
Sua risada abafada me faz tremer.
O lugar é precário, pequeno, com paredes mofadas e um cheiro insuportável. Somos
levadas até a parte de cima. Pelo que noto, são dois andares. Só que pelas escadas percebo
também que temos outra parte do subterrâneo.
Somos colocadas numa sala grande, escura e abafada. Todas as meninas olham
desconfiadas, e eu fico temerosa com o que vem a seguir.
De repente Romeo entra, com seu porte másculo, viril e estupidamente lindo.
— Olha só... Todas chegaram bem.
Lanço um sorriso na sua direção, mas ele ignora. Sinto-me mal.
— Aqui que vamos morar? — pergunto, conseguindo um olhar desprezível de volta.
— E onde iria ser? — Ele sorri. Todo mundo fica calado, menos eu.
— Aqui é horrível. Não tem condições de abrigar qualquer pessoa.
Romeo se aproxima.
— É exatamente aqui que vão ficar. — engulo seco ao ver seu jeito tão diferente de
antes. — Vão ficar aqui e trabalhar lá embaixo.
— Não era em recepção de festas?
Ele gargalha.
— Depende do seu ponto de vista. — Seguro minha bolsa com força, tentando controlar
a raiva. — É uma boate. Irão trabalhar lá como garotas de programa.
Abro a boca, surpresa.
— Eu não vim para fazer isso.
— Acha que veio para quê? Para trabalhar em um lugar refinado? Ganhar bem? Na
moleza? — Ergo meu queixo. — Ninguém mandou serem burras. Nunca falaram para vocês que
emprego não bate à porta?
— Babaca! — cuspo a palavras, e logo levo um tapa forte no rosto.
— Vai fazer o que eu mando, sua estúpida. Ou faz, ou morre.
Penso na minha mãe, no que ela me falou.
— Você foi a mais fácil de cair na lábia. Pobre, sonhadora e romântica. — Sorri e os
outros comparsas acompanham. — Então, daqui a duas horas quero todas prontas, maquiadas e
com um sorriso no rosto. Estão ansiosos para vê-las.
Antes de sair ele volta a nos encarar.
— Só mais uma coisa: não tentem fugir. Eu tenho o endereço de todas vocês. Caso
cometam um deslize, mato mãe, pai, filho, até mesmo o cachorro. Então, aceitem o que vieram
fazer e pronto.
Romeo sai batendo a porta.
Caio no chão, chorando em desespero.
As meninas fazem o mesmo, desacreditadas do pesadelo que sequer começou.

— Não imagina a falta que senti de você. — Ele anda até onde estou e se abaixa, ficando a
altura no meu peito. — Você fugiu, me obrigando a matar sua mãe. — Sinto uma dor no peito por
lembrar a minha doce mãe. Seus conselhos, sua tristeza quando fui embora. — Se bem que aquela
velha não fazia falta para ninguém. — Ele alisa meu rosto. — Você não imagina a cara de decepção
que ela fez ao descobrir que a filha tinha virado prostituta. Foi sensacional. Lavei as minhas mãos.
Quer saber como eu a matei?
Mesmo sem força, eu cuspo no seu olho. Ele puxa o lenço e limpa, com o ar tranquilo de
um perfeito psicopata.
— Ah! Eu poderia deixar você seguir sua vida, mas você não tirou o maldito filho que
carregava.
Desespero-me ao saber que ele pode fazer algo com a minha filha. A que está alheia a toda
a essa situação.
— Deixa minha filha em paz!
Imploro e ele ignora.
— De jeito nenhum. Até porque é a minha filha também. Tenho meu direito.
— Se tocar em um fio de cabelo dela, eu matarei você, desgraçado!
Ameaço e ele sorri.
— Acredito que você não tenha condições de me ameaçar. — Levo um tapa tão forte, que
fico tonta. — Mais alguma queixa? — Pergunta, e eu cuspo novamente.
Romeo, que agora sei que não é o seu nome verdadeiro, levanta, pega uma barra de ferro e
atinge meu braço, que lateja.
— Seu merda! Por que não me mata logo, filho da puta?
— E deixar você perder o melhor da festa?
Ergo o olhar na sua direção.
— O que você vai fazer?
Ele ergue a barra.
— Espere e verá!
A pancada que levo faz minha vista escurecer.
Abro os olhos quando estou sendo arrastada por um homem até o meio de um parque, entre
as árvores. Meus olhos ardem.
Romeo para de uma vez, mandando o homem me largar.
Sou jogada no chão, e meu rosto bate no gramado.
— Surpresa! — fala, e eu ergo o olhar para a minha frente.
— Mãe!
Amy grita, correndo na minha direção.
Capítulo 30

Amy

Com o coração saltitando dentro do peito e mãos suando frio, ando entre as árvores em
busca da minha mãe. Procurando pelo homem de quem herdei o sangue, mas que tem infernizado a
minha vida nesses últimos meses. Tudo o que aconteceu foi culpa dele. Toda essa bagunça que está
minha cabeça é culpa desse miserável.
Escuto passos e corro na direção dos sons. Paro de uma vez e sinto meu peito doer. Minha
mãe está sendo arrastada pelo gramado, como um saco inútil. O homem que a traz pelo braço é mais
rústico e alto; tem uma arma na outra mão, e está pronto para atirar em quem atravessar seu caminho.
Ao seu lado está outro, bem vestido, elegante, e que parece mais um executivo bem-sucedido.
O homem joga minha mãe no chão, que cai humilhada e descartada.
— Mãe! — grito e corro na sua direção, mas paro quando vejo uma arma apontada para
sua cabeça. — Não! — peço ao homem, mas outro que vem andando até onde estou. Faço menção de
pegar a arma, mas ele ergue a mão.
— Não faça uma tolice. Sua mãe está ali, caída e com a arma pronta para matá-la.
Respiro fundo e lanço um olhar para a minha mãe, tentando tranquilizá-la.
— Eu faço o que quiser, mas solte-a.
— Amy, não! — Minha mãe suplica, mesmo fraca.
— Cala a boca, desgraçada! — Lion grita.
Eu não posso fazer muito. Ele tem um comparsa apontando a arma para a cabeça dela. Eu
tenho a minha arma, mas é arriscado e tudo pode ser em vão.
— Então você vem comigo ou não? Hoje não estou com paciência para drama familiar. —
pergunta, estendendo a mão na minha direção.
— Amy... Por favor!
Olho para a mulher que me deu à luz, que me criou com carinho e dedicação mesmo
passando por tudo. Mesmo por ter sofrido tanto a vida inteira.
— Melhor você não se intrometer. — O aviso de Lion para a minha mãe e o olhar que ele
lança para o comparsa, me faz ter certeza que o melhor é me entregar.
— Solte minha mãe e a deixe ir. Assim, eu irei com você.
Ele dá de ombros e pega a arma da mão do homem, que ainda está apontando para ela.
— Sua mãe não tem importância nenhuma para mim. Viva ou morta, não tem utilidade.
Olho para ela mais uma vez. Por vê-la machucada, sinto vontade de matar o Lion. Meu
pai... Irônico, não é?
— Tudo bem! — Ergo a mão para me render.
Lion faz menção de guardar a arma, mas minha mãe fala mais uma vez.
— Amy, não vá... Fuja! — implora mais uma vez. — Ele vai destruir você.
E tudo se esvai quando escuto um disparo.
Olho para o chão e tremo.
— Não! — Caio ao lado dela, segurando sua mão. — Nãããooo! — grito, como se isso
fosse ajudar. — Mãe! Mãe!
Abraço seu corpo já sem vida, e no lado esquerdo de seu peito o sangue se espalha. Tento
estancar o sangramento, mas isso não ajuda. É impossível. Ela já se foi.
O barulho de sirene faz Lion me puxar de uma vez, mas continuo relutante.
— Venha! — Luto para que ele não me leve. A polícia se aproxima. Antes de permitir que
ele consiga, eu saco a arma e atiro na sua perna. — Maldita!
O sangue escorre. Ele e o comparsa correm e entram em um carro preto parado do outro
lado.
Viro para a mulher deitada no chão.
— Mãe... Por favor! — Meu peito parece que acabou de ser dilacerado. A dor que se
espalha por toda a minha alma parece piorar a cada segundo. Seguro sua mão pálida e trago aos
lábios. — Mãe... — Aos soluços, deito por cima do seu corpo. — Desculpa, mãe. Desculpa!
Agarro seus cabelos entre meus dedos. Sinto a maciez e recordo de todas as vezes que
cuidei dela. De quando ela estava tão debilitada por causa dos remédios que mal conseguia ir ao
banheiro sozinha.
— Mãezinha! — Choro. Liberto tudo que está preso dentro do meu peito. — Por favor... —
falo baixinho — Acorde!
O líquido que se espalha entre nossos corpos não me incomoda. O que dói é não sentir sua
respiração, seus batimentos...
— Sinto muito! — falo somente para ela. Só ela poderia me perdoar. — O que vou fazer?
Como vou seguir em frente sabendo que eu fui a culpada pela sua morte?
E agora? Não vou mais ter esperanças de vê-la bem. Não vou mais sorrir quando ela
estiver cantarolando pela casa em um dos seus momentos livres e sem preocupações.
Eu sequer vou vê-la doente, precisando de um banho, de um afago, de que eu dê comida na
sua boca.
Depois que saí de casa, a única coisa que lembro é da minha mãe chorando. Sem reação.
Sem entrar na frente e impedir aquilo tudo.
Agora eu entendo. Entendo tudo.
E sinto muito. Porque eu sei que a culpa é minha.
Sinto uma pessoa me puxar de cima do corpo da minha mãe. Estou sem forças, sem
conseguir pensar. Só me sinto ser carregada. Sirenes. Burburinhos. Muitas pessoas ao redor. Meus
olhos pesando. Minha boca seca. Minha roupa está molhada.
— Mãe! — sussurro. — Por quê? — pergunto, sem esperar alguma resposta.
Ela não está mais aqui. Não consegui salvá-la. Eu tentei, mas não consegui.
Sou colocada dentro de um carro. Deito no banco traseiro e lembro o desespero da minha
mãe, dela implorando para que eu não me entregasse ao Lion. Seus machucados pelo rosto e corpo
me dão raiva. Mágoa. Sede de vingança.
Ela não merecia. Não deveria ter morrido daquela maneira, não depois de tudo que ela
passou.
Não foi justo. Não com ela.
Volto a chorar aos soluços. Minha ficha ainda não quer cair. Acho que a qualquer momento
ela vai dizer que foi apenas um pesadelo.
— Amy? — É a voz do James que me desperta. Ele enxuga minhas lágrimas com um lenço.
Isso nem sequer parece com ele. Mas eu aceito. Aceito porque tudo que eu preciso é de colo nesse
momento. — Venha! Chegamos em casa.
Saio do carro devagar, porque minhas pernas estão falhas. Ele me ajuda, passando os
braços por trás dos meus joelhos e me colocando no braço. Encosto a cabeça no seu peito e fecho os
olhos. Tento me acalmar e pensar que ela talvez esteja melhor agora, sem se preocupar se Lion irá
atrás dela.
Só desperto quando sou colocada no chão do banheiro. James tira minha roupa devagar, e
eu não tenho reação de ajudá-lo. Não consigo. É como se estivesse sido colocada em modo
automático. Deixo-o fazer o que achar melhor.
Devagar, ele me leva para debaixo do chuveiro. Sinto a água gelada descer pelo meu
corpo. Suas mãos esfregam meu corpo lentamente. Agarro na sua cintura e encosto a cabeça no seu
peito novamente.
— Ela se foi, James. — é a única frase que consigo pronunciar.
Ele lava meus cabelos, me virando de costas contra o seu corpo. Com carinho, sem
malícias. Ele respeita minha dor. Ele entende o que estou passando.
O chuveiro é desligado e sou enrolada no roupão. Com sua ajuda, ando até a cama e me
deito.
— A culpa foi minha! — repito, sabendo que é a verdade.
James senta na minha frente.
— Não! A culpa nunca será sua, Amy. Ele queria fazer isso.
Balanço a cabeça, deixando, mais uma vez, as lágrimas caírem.
— Eu estava julgando minha mãe. — Ele passa os dedos pelo meu rosto. — Eu disse que
ela não se importava comigo quando descobri que ela estava fazendo aquilo. — Levo as mãos à
cabeça. — Droga, James! Ela não merecia isso.
Seu abraço me acolhe, alivia a minha dor. O abraço é de alguém que precisou também uma
vez, mas não tinha ninguém para fazê-lo.
Capítulo 31

Amy

Visto minha roupa preta e desço a escada. Ainda dói. Tudo dói. Coração, cabeça e a alma.
Ela estava indo bem. Quando fui visitá-la na clínica, ela estava cheia de vida. Conversamos durante
horas. Tinha esperanças de que minha mãe ficasse bem, de que voltasse a sorrir, a ser feliz… se é
que ela lembrava o que era felicidade. Minha mãe foi uma jovem sonhadora, que esperava subir na
vida, mas foi enganada. Aquele desgraçado acabou com a vida dela! Destruiu minha família e a
minha vida. A culpa não foi do meu pai verdadeiro, e sim do biológico. Ele me deu o sangue maldito
que corre nas minhas veias. Se me resta algum sentimento bom dentro do peito, veio de minha mãe,
porque o resto do meu corpo implora por vingança. E agora eu vou atrás. Eu vou matá-lo, nem que
seja a última coisa que eu faça na minha vida. Que, por sinal, é uma tragédia.
— Meus pêsames! — O policial estende a mão e eu aperto. — Sinto muito, mas é a lei.
Temos que colher o seu depoimento.
— Lion Holding matou a minha mãe porque está atrás de mim.
Ele anota algo na sua caderneta.
— Isso nós já sabemos. Só precisamos de mais informações sobre ele.
Dou de ombros.
— Não tenho. Mas eu não quero que nenhum de vocês vá atrás dele. Eu mesma irei.
John, o mais velho, encara o James.
— Essa menina não vai fazer isso. Eu não permito, James!
Tomo a frente.
— James não manda na minha vida.
— Amy, ele tem razão. — Sinto James segurar o meu braço.
— Garota, você vai acabar destruindo sua vida.
— Minha vida não tem como piorar, John.
O meu sangue ferve por vingança. Ele corre nas veias me pedindo para ir atrás do Lion. E
eu irei. Não sei por onde começar, e espero que James me ajude, ou do contrário, irei sozinha, sem
ajuda e contando com a sorte.
A porta se abre de uma vez e vejo meu pai. Eu não o via há vários dias. Ele estava
trabalhando em outra cidade. James e sua influência o ajudaram.
— Amy! — Ele corre até onde estou e me abraça forte. Sinto um alivio no peito por causa
do gesto.
Pela primeira vez vejo meu pai chorar. Ele soluça, aos prantos. Está tão desesperado
quanto eu. Com a diferença que eu vi a cena. Assisti tudo, vi o sangue jorrando do seu corpo. Vi
minha mãe morrer na minha frente.
— Sinto muito, meu amor! — Ele alisa meu rosto com carinho. — Eu deveria ter protegido
sua mãe. Jamais deveria ter me afundado naquela desgraça de vicio.
— Não, pai. O que passou, o que fez por ela, o que aceitou, apaga todos esses anos de
vícios. Você foi forte, honesto e gentil com nós duas. Deu amor, carinho, mesmo sabendo que eu era
filha de outro homem. Ninguém faria isso.
— Você me perdoa? — pergunta, claramente arrependido.
— Eu não tenho que perdoar nada, só agradecer.
Dou outro abraço forte no homem que me entregou ao James para me proteger. Que mesmo
sabendo que seria perigoso, fez isso por mim.
— Vamos? — James nos chama, e eu ando ao lado do meu pai até o carro.
Chego ao cemitério, e a parte reservada para família e amigos está cercada. Os comparsas
do James estão nos protegendo em caso de outro ataque do Lion. Sinto-me presa, enjaulada. De quê
adiantou tudo isso se a minha mãe morreu? Se eu a perdi para sempre.
— Venha! — James segura a minha mão e me guia até próximo ao caixão.
Olho para o rosto pálido da minha mãe e choro novamente. Passo a mão na sua testa e
deixo um beijo de leve.
— Desculpe por não ter sido capaz de defendê-la. Desculpe, mãe! — sussurro.
Queria que isso tudo fosse somente um pesadelo, e quando acordasse, minha mãe estaria
em casa, sorrindo, me chamando para tomar café. Mas não é. Tudo isso é a minha realidade. O que
vou ter que suportar.
Sinto meu pai passar o braço pelo meu ombro.
— Deveria ter ficado com minha mulher. Deveria ter beijado e abraçado forte. — lamenta-
se mais uma vez.
— Não iria adiantar de nada. Ele está decidido a atacar quem eu amo.
— Ele só vai sossegar quando desgraçar a sua vida.
Respiro fundo.
— Já desgraçou.
Viro de volta para o caixão da minha mãe e fico em uma conversa silenciosa.
As pessoas chegam, passam pelo corpo, e fingem uma dor que não existe. Nunca tivemos
muitos amigos. As pessoas nunca se importaram com ela. Nenhum vizinho se solidarizou com minha
mãe quando ela começou a ficar depressiva. Éramos somente eu e meu pai. Taylor também, claro.
Minha mãe o amava; achava que nós dois iríamos casar e ter uma família.
Quando termina, começo a andar com James e meu pai ao meu lado. É quando vejo Taylor,
saindo do cemitério, me olhando com desgosto. Ele não fala comigo, sequer me deseja os pêsames. E
isso dói no fundo do meu peito. Queria seu abraço. Queria sua amizade. Sinto falta disso.
Entramos no carro e voltamos para casa. Meu pai está vindo também, mas logo vai para a
outra cidade novamente. James conseguiu documentos falsos para que ele viva em paz, sem o risco
de o Lion encontrá-lo.
Entro no quarto, tiro minha roupa e tomo um banho rápido. Só penso em dormir e tentar
esquecer um pouco esses últimos dias. Damon, Lion, minha mãe.
James entra no quarto e se livra das roupas, também entrando no banheiro. Eu penso em
cada segundo de como será a minha vingança, como vou matar um por um. Começando pelo Lion, que
destruiu a minha vida. Depois vem o Damon, e esse eu também vou querer matar com minhas
próprias mãos.
Eu sei, fui corrompida. Mas o que posso fazer? Só me resta fazer com que paguem pelo
que fizeram.
Começo a fechar meus olhos, mas sinto um peso ao meu lado na cama. Vejo James, limpo e
pelado. Ele afasta as cobertas e deita ao meu lado, puxando meu corpo contra o dele, me permitindo
sentir seu cheiro de homem. O cheiro que eu amo, e que apesar de tudo, me conforta.
Ele beija o topo da minha cabeça e deixa os dedos alisarem minha nuca.
— Preciso que me conte algo bom. Algo que vá me deixar feliz. — peço, e sinto seu peito
subir e descer rapidamente.
Não fala nada. Só que eu insisto.
— Por que meu pai confiou em você? Por que me entregou a um assassino para me
proteger de outro?
Ele respira fundo e começa.
— Seu pai sabia que eu observava você. — Ergo a cabeça para encará-lo. Não estou
entendendo. — Sempre foi você, Amy. — Sento na cama e espero que continue. — Aquela casa de
frente a sua, era dos meus pais. — Fico surpresa com a descoberta. Ela sempre foi abandonada desde
que me entendo por gente. — Toda semana eu ia por lá. Precisava recordar bons momentos, apesar
do fim trágico. — Imagino quanta dor ele deve ter sentido. — Então, um dia eu estava lá, olhando
pela janela, e vi você. — Ele sorri. — Estava escapando para o telhado. Você estudava lá em cima,
dispersa de tudo que acontecia ao seu redor.
— Eu amava aquele lugar. Era minha paz. — falo.
— Você tinha um jeito engraçado de estudar. Lia o livro, anotava em um caderno vermelho,
mordia a caneta quando estava pensativa, e falava sozinha, como se discutisse com alguém.
— Eu fazia isso para aprender mais fácil. Eu estava estudando para tentar uma bolsa na
faculdade futuramente.
Dou de ombros.
— A partir dali eu passei a te observar. Você só tinha quatorze anos. Era uma garota
normal como qualquer outra, mas tinha algo especial. Não despertava em mim a luxúria e o desejo.
Despertava algo bom e puro, algo que eu não tinha de verdade. — Noto a dificuldade que ele tem de
se expressar. — Com o tempo, eu descobri que você fazia coisas que, provavelmente, ninguém mais
sabia. — Espero curiosa. — Antes de entrar em casa, você conferia as correspondências, olhava as
flores, depois subia os degraus de dois em dois. Nunca subia ou descia normalmente. Quando entrava
no quarto, abria as cortinas, janelas, e ia ligar o som. Dançava pelo quarto enquanto organizava a
cama que você sempre deixava bagunçada na hora de ir para a escola.
— James...
Estou surpresa. Sem palavras.
— Tomava banho, comia, e depois ia para o telhado com os fones de ouvido e suas coisas.
Sempre o mesmo ritual. Nunca gostou de ser arrumar demais. Vestia roupas simples e práticas. —
Concordo. — Três vezes na semana ia para a academia e voltava com seu amigo. Vocês se
despediam com um beijo no rosto. Aquilo me dava um alívio, e ao mesmo tempo uma inveja. Ele
tinha o que eu queria para mim.
Abro a boca sem acreditar no que ele acabou de falar.
— Eu sempre quis que você fosse minha. Sempre quis segurar sua mão, alisar seus
cabelos, beijar seu pescoço lindo que você deixava exposto cada vez que prendia o cabelo em um
coque. Queria morder seu nariz que você sempre franzia quando algo não estava certo ou não te
agradava. Queria tirar seu vestido, que mesmo usando, eu percebia que você não ficava à vontade.
Você preferia os tênis e calças de malha. — Ninguém nunca reparou tanto em mim. — Talvez, seu
pai tenha me visto todos os dias, tanto que sabia de tudo, porque foi me procurar pedindo para que eu
te protegesse. Ele sabia que mesmo eu sendo um assassino miserável, eu jamais faria mal a você. —
Ele olha nos meus olhos. — Porque se tem algo de bom que possa existir na minha vida, é você quem
causa. É o sentimento que tenho por você que não me permite ser cem por cento ruim, que me impede
de ser egoísta, que faz meu instinto protetor aflorar. Porque eu quero te ver feliz, Amy. Por mais que
eu saiba que eu jamais seria capaz de te proporcionar isso, sei e tenho que deixar que outra pessoa o
faça.
— Droga, James! — Eu o abraço ainda mais forte. — Você não acha que depois de escutar
tudo isso eu vou aceitar me afastar de você, não é?
Antes que ele interrompa me dizendo que não, eu o beijo. Beijo com todo o amor que tenho
no meu peito. Sabendo que de um jeito indireto, ele disse que me ama.
No outro dia acordo com o celular do James tocando. Alerta de mensagem. Ele ainda está
dormindo. Eu seguro o aparelho e confiro o que tem escrito. É do Lion.
“Matar mais um fará sua namorada se entregar?”
Arrasto a tela e congelo com a foto que ele mandou. É o Taylor, machucado e jogado no
gramado. Tem outra mensagem.
“Dessa vez eu pensei bem. Talvez ela me convença a não matá-lo.”
Grito, acordando o James em um pulo.
— O que foi, Amy? — pergunta, assustado.
— Você vai achar o desgraçado do Lion e deixar que eu o mate.
Ele passa a mão no rosto e pega o celular da minha mão.
— Filho da puta!
Levanto para mais um dia, agora com mais sede de vingança.
Se ele acha que o James pode matá-lo, vai ver que eu posso ser muito pior.
Capítulo 32

Amy

Uma semana depois, todos ainda estão abalados com o que aconteceu, principalmente eu.
Dói na alma recordar a cena que eu presenciei. Jamais imaginei passar tudo na minha vida, que eu
achava que era sem graça e normal. Daria tudo para ter minha vida de volta. Aquela sem graça, sem
muita agitação. Não teria me apaixonado pelo James, não viveria uma paixão dessa forma, mas eu
teria a minha mãe comigo. E ela é insubstituível.
James me deixou melhor depois que contou tudo. Eu jamais imaginaria aquilo... nunca
passou pela minha cabeça que ele gostava de mim antes de tudo. Tudo é tão louco, que nem sei o que
dizer.
Ando sozinha pela casa enquanto James e os comparsas saem para caçar o Lion. Ele não
me permitiu ir por enquanto, pois disse que não é o momento. Ele precisa primeiramente descobrir
onde ele está.
Sento no jardim e lembro-me do Taylor, de seu olhar decepcionado e de como ele me
ignorou. Sinto falta do meu amigo e das vezes que nos divertimos juntos. Preciso vê-lo. Como? Eu
ainda não sei. Desde a mensagem que recebi do Lion, fico preocupada com ele. Sinto medo. Medo
que possa acontecer algo com o meu amigo.
Preciso saber como ele está. Preciso pedir desculpa por tudo, nem que seja arriscado.
Entro e pego a chave do carro do Tommy. Espero que os dois homens que ficam no jardim,
entrem para comer. São dois preguiçosos. Demonstram firmeza na frente do James, mas quando ele
sai, só querem conversar e comer. Dois idiotas que serão fáceis de enganar. Afinal, os únicos
competentes são Tommy e Julian. Carl também, mas ele fica mais fazendo ronda nas redondezas do
que aqui dentro.
— Julie está chamando vocês! — aviso, e um deles entra, deixando o outro de olho em
mim.
Bufo, decepcionada.
— O que foi, Docinho? — Viro-me para o Oliver, que pergunta chegando por trás.
— Estou querendo dar uma volta. Passear, comer algo diferente.
Ele nega.
— Não começa com isso. James me mataria. Você não pode andar por aí dando bobeira.
— Ele nem vai saber. — Faço beicinho na tentativa de convencê-lo.
Sei que estou fazendo uma sacanagem sem tamanho com o Oliver, usando seu carinho por
mim para que me ajude a sair.
— Se for rápido, eu irei. James está em outra cidade.
Comemoro, feliz.
Oliver pega a chave do carro na minha mão e entra. Faço o mesmo.
— Não faça besteira, Amy!
Avisa, e eu balanço a cabeça.
Oliver buzina para o homem no portão e ele libera nossa passagem. Sinto um alivio no
peito.
O carro anda pelas ruas e eu observo as pessoas passando, alheias ao que está
acontecendo. O carro do Tommy é igual ao de James. Vidro fumê, blindado e discreto. Um carro
comum como qualquer outro, mas seguro.
— O que você quer realmente? — Oliver pergunta, me olhando de soslaio.
— Só passear. — Dou de ombros.
O carro freia de uma vez, me fazendo jogar o corpo para frente.
— Está louco? — pergunto, me recompondo.
— Eu posso ser tudo, menos burro, Amy. Diz logo o que você pretende fazer.
Mordo o lábio me sentindo envergonhada.
— Eu quero ver meu amigo, Oliver.
— E por que não me falou? — pergunta.
— Porque sabia que não ia aceitar.
— Ia me matar no caminho?
Sorrio.
— Não. Só ia descer do carro quando você fosse comprar nosso café.
Ele balança a cabeça.
— Você é uma tola! — Bufa. — Fala o endereço desse bastardo.
Acerto uma cotovelada no seu braço e digo o endereço da casa do meu amigo. Oliver
segue o caminho, prometendo que isso será um segredo entre nós dois.
Meia hora depois paramos em frente à casa. Antes que eu desça, Oliver segura meu braço.
— Não demore. James não pode desconfiar do que aconteceu.
Concordo, agradecendo.
A rua está deserta. É terça, e a maioria dos moradores está no trabalho, escola,
universidade. O que é bom, já que assim, não chamarei atenção.
Bato na porta de madeira escura. É tão familiar para mim. Essa casa, as redondezas, tudo.
Quanto tempo que não ando aqui? Sinto uma falta imensa... Falta das nossas conversas nessa varanda,
dentro do seu quarto, risada por noites e noites.
A porta se abre, me livrando dos devaneios. Quem eu vejo é a empregada da casa. Como já
me conhece, permite minha entrada, avisando que o Taylor está no quarto. Eu agradeço, e subo.
Nada mudou. Tudo bem decorado, requintado e de bom gosto. A mãe do Taylor é uma das
melhores arquitetas da cidade, ganha muito bem; tanto quanto o marido que é médico. O quarto do
Taylor fica no último andar, isolado de todos os outros. Não vejo mais ninguém na casa, nem pais,
nem sua irmã mais nova.
Bato na porta e logo ele manda entrar, sem se dar ao trabalho de perguntar quem é.
Quando entro, sinto um nó no estômago. Meu amigo está machucado dos pés da cabeça.
Hematomas cobrem seu rosto, corpo, e com certeza, a mente. Ando até a ponta da cama.
— Sinto muito, Taylor! — falo, mas o olhar de desprezo que ele lança na minha direção me
faz perceber que talvez tivesse sido melhor não vir aqui. — Eu sei que está chateado comigo, mas
não tive culpa... Não no que aconteceu com você.
Eu preciso contar tudo sobre Lion. Não posso permitir que meu amigo ache que eu sou
responsável pelo que aconteceu. Aliás, eu sei que sou. O pior de tudo é que eu sou.
— O que quer aqui, Amy? — Sua pergunta é seca. Sem aquele sentimento que ele tinha por
mim.
— Só precisava saber como estava.
Ele balança a cabeça.
— Até parece que se importa comigo.
Sinto-me ofendida.
— Claro que me importo! Você é meu amigo de infância, Taylor!
— Não, Amy. Essa que está parada na minha frente não é a minha amiga. Não é aquela
menina que eu conheci. Você é outra. — Engulo seco as suas ofensas. Ele tem razão em estar bravo.
Eu entendo. — Agora mora com um assassino. Quem sabe no que se transformou? É uma também?
Nego, mesmo sabendo que eu mataria o Lion sem pestanejar.
— Não é bem assim.
— É! Você mostrou isso quando me expulsou da casa dele.
— Eu estava te protegendo!
Ele olha para os braços machucados.
— Acho que não funcionou.
— Não foi o James. Você sabe que não foi.
Minha voz soa fraca por medo do que possa vim adiante.
— Quem me garante que eles não são da mesma laia? Que não estão combinados para
estragar mais ainda a sua vida?
— Não... O que o Lion quer comigo é outra coisa.
Com dificuldade, Taylor ergue a mão.
— Não me importa, Amy. Nada mais. Você escolheu esse caminho. Sua mãe morreu, seu
pai teve que ir embora, e eu levei uma surra mesmo sem saber o que estava acontecendo. Só Deus
sabe quem será a próxima vítima. — Quero abraçá-lo, mesmo querendo também bater nessa cabeça
teimosa. Por que não me permite explicar? Não dá uma chance de que eu conte tudo. Não acredita em
mim. — E sabe o que ele me disse? — Ergue a sobrancelha — Que o que ele fez foi uma
consequência de você ter fugido dele.
Odeio o Lion. Odeio com todas as minhas forças. Odeio por ter o mesmo sangue que
aquele miserável.
— Eu vou atrás dele e vou matá-lo, Taylor. Tudo que ele fez não tem justificativa.
— Olha só... É assim que se fala. Digna de uma bela cria do James Lancaster. — Fecho os
olhos e percebo que falei o que não deveria. — Saia da minha casa, Amy. — Fico sem acreditar nas
suas palavras. — Nunca mais me procure. Não quero estar envolvido nessa desgraça de vida que
você escolheu.
— Taylor.
Tento mais uma vez, mas não adianta.
— Você está sendo patética. Apenas saia!
Balanço a cabeça e obedeço.
Desço as escadas rapidamente. Estou triste, mas sei que ele precisa de um tempo. Depois
disso ele vai me entender.
Tem que entender.
Saio batendo a porta. Sei que é melhor ir embora antes que os pais dele apareçam e
chamem a polícia.
Entro no carro e não vejo o Oliver. Tudo silencioso e quieto demais para o meu gosto.
— Ah, merda!
Resmungo. Olho para trás, mas não o vejo. Quando vou sair do carro, sinto alguém
enrolando uma corda no meu pescoço e pressionando contra o banco.
Começo a sufocar sem ar. Bato as pernas, tento puxar a corda para afrouxá-la. Tudo em
vão. Tento gritar, mas não consigo. Estou começando a perder a força.
— Olá, vadia!
Congelo ao ouvir a voz do Damon atrás de mim.
Ele solta a corda, e antes que eu possa gritar, levo uma pancada forte na cabeça.
Capítulo 33

Amy

Sinto o chão duro e úmido. Estou fraca e sinto um gosto metálico na boca. Abro os olhos
devagar e sinto dor, como se meus olhos estivessem impossibilitados de enxergar alguma coisa. Mas
eu tento. Levo as costas da mão para esfregar, e o ardor alivia.
As dores estão espalhadas por todo o meu corpo. Mal consigo respirar. Tudo dói. Tudo.
Física e mentalmente. Não me lembro de nada, só de entrar no carro, sentir falta do Oliver, e sentir
alguém me agarrando por trás.
Damon.
Não consigo levantar. Estou algemada ao chão. Uma corrente de ferro está me prendendo
ao chão fedorento e úmido.
— Olha só quem acordou... — Ergo o olhar. A voz eu reconheço muito bem.
Passa um flash na minha mente, como um pesadelo. Alguém me batendo, chutando, puxando
meus cabelos.
— O que será que aconteceu? Seu protetor não estava com você. — debocha. — Ele já
cansou da garota mimada e burra? — Damon arrasta a cadeira até onde estou e senta. Seu olhar é
sombrio. — Eu avisei que isso iria acontecer. Falei que sua boceta apertada um dia ia cansá-lo.
Tento falar, mas não consigo.
— Eu não gosto dele. Nunca gostei. — Bufa. — Mas eu precisava trabalhar com ele.
Precisava destruir a vida do homem que matou o meu pai. — Mais vingança? — Surpresa? — Ergue
a sobrancelha. — James é o diabo em pessoa, Amy. Tola foi você quem se apaixonou.
Nisso ele tem razão. Eu me apaixonei, permiti esse sentimento dominar o meu peito e
minha alma.
— Eu poderia entregar você ao Lion. — Ele me observa.
Damon é bonito. Qualquer mulher cairia aos seus pés se não soubesse o que ele é. O que
ele faz. Ele poderia ser sexy, se seu olhar não fosse tão sombrio.
— Mas quero vingança. Vingança contra o James. — Ele levanta e anda até onde estou.
Agachando aos meus pés.
— E como eu vou me vingar se não for com a parte que mais vai doer nele?
— Miserável!
A única palavra que consigo falar.
— Fraca? — pergunta — Efeito do remédio que apliquei no seu sangue.
Por isso estou tão fraca e zonza.
— Me mate logo, desgraçado. — falo e tento buscar o ar que falta nos meus pulmões.
Damon se levanta, e tudo acontece tão rápido que eu não consigo ver nada, só sinto a dor
que dilacera meu corpo.
Ele me atinge com um chute na barriga, me fazendo gemer. Sinto vontade de vomitar.
— Não me peite, porque eu não sou o James. — Ergo o olhar e vejo um homem
perturbado, violento e perigoso. — Matar eu não vou. Não agora. — Sua voz rouca me causa
arrepios. — Primeiro quero te fazer sofrer, porque sei que vai doer mais nele do que em você
mesma. — Droga! Isso tudo para atingir James pode ser perigoso. — Quero que ele procure você e
te encontre morta. Veja que nem ele foi capaz de te proteger. — As lágrimas teimam em querer
descer, mas não vou dar esse gosto a ele. — Ele vai ver como é doloroso perder alguém que nem
teve a chance de se defender.
Respiro fundo. Minha barriga lateja. Sinto cólicas. Enjoos.
— James vai pagar por ter tirado a vida do meu pai. Vai pagar caro! — Ele se afasta. — E
isso está apenas começando.
Damon sai do pequeno quarto escuro, me deixando sozinha.
A porta de ferro bate e eu sinto um alívio por ele ter saído. Não sei ao certo o que ele vai
fazer, mas com certeza quer me ver mal, destruída. Tudo para se vingar do James.
Tento levantar, mas mal consigo sentir meu corpo. Sinto dores em todos os lugares, mas a
barriga é o que mais incomoda.
Com dificuldade, consigo sentar, encostando meu corpo na parede fria.
Olho para os braços e vejo hematomas. As cenas são tão apagadas da minha mente que não
consigo distinguir bem. Também, não importa. Não quero lembrar esses detalhes.
Minha barriga ronca de fome, mas o enjoo jamais me permitiria comer algo. Não faço ideia
de quantas horas estou aqui, de que horas são nesse momento… De como está o James.
Será que ele já sabe?
Será que vem me procurar?
E se o Damon matá-lo?
Eu espero que meu pai esteja bem, que ninguém vá atrás dele. Eu só desejo que ele viva em
paz depois de tudo, pois ele não merece sofrer por algo que nunca teve culpa.
Lembro-me do olhar de desprezo do Taylor para mim, do seu jeito frio e seco. Eu sei que
ele está magoado, decepcionado comigo. Eu entendo perfeitamente, teria a mesma reação. Vou
entender se ele nunca mais quiser falar comigo.
Eu mereço. Mereço que ele me odeie, porque troquei meu amigo por um homem com a vida
carregada de sangue... O homem que eu me apaixonei perdidamente.
Fecho os olhos, e ainda sentada, penso no James. Lembro de seu rosto preocupado, suas
linhas de expressão dando mais idade do que ele tem. Sua barba mal feita. Cicatrizes pelo corpo. O
cheiro másculo que tanto me excita.
Ele teve uma vida difícil. Perdeu os pais cedo, sofreu nas mãos do Jason, ficou largado na
rua, apanhando de traficantes e polícia. Um pré-adolescente cheio de cargas ruins nas costas. Nunca
conseguiu ser feliz de verdade.
Eu queria deixar meu sentimento de lado, mas sei que jamais conseguiria. Apesar de tudo,
James sempre me tratou bem, e sempre tentou me proteger, apesar das minhas atitudes idiotas.
E eu o amo. Com tudo. Sangue, morte, ou qualquer outra coisa, mas eu o amo.
Tento dormir sentada. Não quero deitar. Quero permanecer assim e arranjar forças para
enfrentar o que quer que esteja vindo.
Arrasto meu corpo até o canto do quarto. É melhor, menos incômodo.
Sinto o sono chegar e me entrego. Pelo menos assim a dor será enganada por algumas
horas.
Desperto com a água gelada no meu rosto. Fico sem fôlego. Uma risada abafada me faz
lembrar onde estou.
— Acorda, vadia! — Queria ter forças nesse momento para acabar com esse filho da puta.
— Sabe que estou sentindo falta daquele seu atrevimento? Não tem graça alguma ver você assim.
Meu queixo treme.
— Você é um covarde, Damon. Precisou me dopar para poder me bater. É tão fraco que
sequer consegue lutar de igual para igual.
Sua gargalhada ecoa no cômodo escuro.
— Você dava uns socos no saco de pancada e se acha mais forte? Faça-me o favor! Fraca
ou não, você vai morrer de qualquer jeito.
— Pelo menos eu morreria tentando.
Damon levanta e vai até a porta na lateral. Não faço a mínima ideia de onde estou. Se
conseguir me soltar, terei que descobrir como fugir e para onde vou. As paredes cheias de mofo, o
chão molhado, o mau cheiro, não me dão ideia alguma.
— Tenho uma surpresa para você.
Fecho os olhos, tento respirar fundo e me concentrar para não dormir novamente, mesmo
que meu corpo esteja implorando por isso.
Damon sai do outro cômodo e joga uma pessoa na minha frente. Minha vista embaçada
atrapalha, mas mesmo assim consigo identificar.
— Oliver?
Meu desespero bate mais forte. Oliver não tem culpa, ele não merece isso.
— Por que ele? O que ele fez para você, Damon?
Olho para o meu amigo, desmaiado, com sangue pelo rosto.
— Eu nem tinha a intenção, mas como ele estava com você… Foi uma boa, vou matar dois
coelhos numa cajadada só.
Mais uma morte para a minha cabeça? Será que vou conseguir carregar mais essa culpa?
Por que isso tudo está acontecendo comigo? Por que a cada passo que eu dou, acontece uma
tragédia?
Damon puxa Oliver até a parede ao meu lado. Debilitado, ele fica encostado, sem se
mover.
— Deixe-o em paz, seu verme! — tento gritar, mas até nisso eu sou fraca.
— E perder a diversão? Perder seu amado namorado sofrendo com a morte das pessoas
mais importantes da vida dele?
— Ah Damon... Eu vou me soltar e te matar. Farei isso com tanto prazer, que não sentirei
remorso.
Seus passos na minha direção são rápidos e eu não consigo assimilar nada, só quando sinto
mais um chute na minha barriga.
Não consigo mais controlar. Começo a vomitar incontrolavelmente. Despejo até o que não
comi. O mau cheiro me dá ainda mais ânsia.
— Você não deveria me provocar, vagabunda!
Ele anda até a porta e sai, batendo de uma vez.
— Ei... — A voz rouca do Oliver me faz levantar a cabeça.
— Oliver!
Fico mais aliviada ao vê-lo vivo.
— Você está horrível! — brinca, conseguindo me arrancar um sorriso.
— Acho que apanhei um pouco.
— Fraca! James odiaria ver que você está permitindo isso.
James... O nome me causa uma dor no peito. Temo por sua vida. Não tenho notícias dele.
Ele não veio atrás de mim, não sei de nada. Ele pode estar morto, pode estar me odiando.
Tomara que seja a segunda opção. Essa eu aguento.
— Sinto muito, Oliver! Se eu tivesse ficado em casa, nada disso estaria acontecendo.
Mordo o lábio com o gosto amargo.
— Bobagem! Adrenalina é bom de vez em quando. — Sorrio. — Venha para cá. Você vai
acabar caindo em cima do vômito. — pede gentilmente, e eu rastejo até ele.
Com dificuldade, encosto no seu ombro. Ele geme, mas coloca a mão na minha cabeça para
que eu permaneça na posição.
— Eu daria o mundo para você, Amy. — Fecho os olhos ao ouvir suas palavras. — Desde
quando te vi me encantei. Foi uma conexão. Algo diferente. — sua voz é fraca, mas mesmo assim
continua. — Só que vi o jeito do meu irmão olhando para você, a forma que ele te olha, que ele age
quando está ao seu lado. Como ele te protege! — Um aperto no peito novamente. — Ele é louco por
você. Sei que é a salvação dele. Ou não. Porque, afinal, você é tão parecida com ele.
Sorrio, tentando enxugar as lágrimas.
— Eu jamais tentaria me enfiar entre vocês dois.
Sinto seu coração batendo forte.
— Mesmo não conseguindo o seu amor, quero te proteger. Quando isso tudo acabar, você
vai comigo para a Itália e ficará lá por um tempo. Precisa descansar e esquecer essa tragédia que se
tornou sua vida.
Eu passo a mão pela sua cintura e o abraço.
— Obrigada por tudo, Oliver.
Meu peito dói tanto. Um mau pressentimento. Algo que não vai acabar bem.
— Para com isso. Despedida não é meu forte, Amy. — Sua risada abafada me tranquiliza.
— Vamos imaginar que sairemos daqui vivos e prontos para outra.
Concordo.
— Espero, Oliver. Espero.
Ele me abraça em um gesto fraco e acolhedor, mas me deixa mais tranquila.
A porta se abre de uma vez e Damon volta, encarando nós dois. Um sorriso presunçoso
acende no seu rosto.
— Então a vagabunda também está pegando o irmão? — Sinto o queixo do Oliver tremer.
— James está pagando por todos seus pecados somente com você, Amy. — debocha, andando até
onde estou. — Queria ficar mais um pouco. Mas acabei de receber a notícia que te encontraram.
O alivio invade meu peito. Mas é por pouco tempo.
— Não é o James. É o seu pai... Seu amoroso e gentil pai.
Queria que isso tudo acabasse de uma vez, que isso fosse somente um pesadelo, e quando
eu acordasse estaria ao lado do James, olhando para aquele rosto lindo e a barba mal feita.
— Ele está bem irritado com você.
Damon tira minhas algemas, depois me pega pelos cabelos arrastando meu corpo pelo
chão.
— Solte ela! — Oliver pede.
— Não se intrometa! — Damon grita — Ainda não chegou a sua vez.
Fico de pé, mesmo sem forças. Damon encosta o cano da arma no meu pescoço.
— Seu pai quer você viva, só que eu não posso permitir isso. Sei que ele pode não te
matar. Então, de que adiantará a minha vingança?
Com o resto de forças que tenho, acerto uma cabeçada na sua. Fico tonta. Ele cambaleia
para trás. Algo me diz que foi uma péssima ideia.
Damon acerta meu rosto com um soco forte e eu caio no chão, sentindo meu rosto latejar.
Sinto o gosto de sangue novamente.
— Miserável! — Oliver levanta, e eu não consigo acompanhar bem, mas começa uma luta
corporal com o Damon.
— Oliver não!
Ele está fraco. Não sei se Damon também deu a injeção nele, mas mesmo assim Oliver
apanhou. Ele não gosta de violência.
Os dois rolam pelo chão, aos socos e pontapés. Eu tento levantar. Arrasto-me até os dois.
Não posso permitir que o Oliver morra por minha causa.
— Oliver!
Antes que eu consiga chegar perto, escuto um disparo. Os dois ficam parados. Damon está
em cima do Oliver.
— Ai Deus! — Meu sangue congela nas veias quando vejo Oliver sangrando. — Não!
Grito, indo para cima do Damon. Aperto seu pescoço com as minhas unhas. Ele levanta,
gira pelo cômodo comigo nas costas.
— Vadia! Me solta! — grita, tentando me tirar de cima dele. — Eu vou te matar!
Ele joga as costas contra a parede, me pressionando entre ele e a parede fria.
— Desgraçada! Vou te matar!
Busco forças. Não posso desistir. Não posso deixá-lo vencer. A luta agora é com um único
objetivo. Matar ou morrer. E não estou disposta a morrer… não agora.
— Não se eu te matar primeiro!
Deslizo a mão até o cós da sua calça e tiro uma faca. Sem pensar, sem esperar, passo o
metal afiado na sua garganta, e depois enfio de uma vez, só para ter a garantia que ele não
sobreviverá.
— Morre, desgraçado!
Torço o metal afiado na sua garganta, sem sentir nojo ou remorso.
Sinto o sangue escorrer em minhas mãos. Ele começa a agonizar, caindo para trás, me
fazendo cair de costas na parede.
Observo o sangue jorrando do seu pescoço.
Nunca imaginei que ficaria feliz e satisfeita com a morte de alguém como estou agora.
Rastejo até o Oliver, que foi atingido no peito. Está quase fechando os olhos. Deito por
cima dele.
— Você não vai fazer isso comigo. — choro, implorando para que ele reaja.
— Por favor, Oliver!
— Vá embora daqui! — pede, e eu nego.
— Não posso deixar você aqui.
Ele segura minha mão.
— Pelo menos hoje, faça o que alguém manda, por favor!
Levanto.
— E você?
— Não há muito que fazer.
Fico dividida se fujo ou permaneço com ele.
— Venha comigo, Oliver! — imploro, tentando levantá-lo.
— Não, Amy. Eu ficarei aqui. Vá logo!
— Eu não vou!
Quando escuto barulho de carro, arrasto Oliver comigo até a outra saída, sentindo dor e
fraqueza, mas tentando um jeito de sair daqui e pedir ajuda. Não posso lutar sozinha.
A porta se abre e eu não consigo mais. Estou sangrando por todo o corpo.
— Olá, filhinha!
Viro para a porta de entrada e vejo Lion. Fico parada no lugar enquanto ele sorri. Está,
aparentemente, sozinho. Mesmo assim, sou eu contra um assassino mais forte e cheio de energia. O
restante que eu tinha, usei com o Damon.
— Sabe, Amy… — Ando para trás enquanto ele vem na minha direção. — Quando a idiota
da sua mãe me falou que estava grávida, eu quis matá-la. — Sua voz é fria. — Eu gostava da
Margot... achei que um dia eu iria conseguir corrompê-la, mas ela foi tão burra. Engravidar? — bufa,
enquanto anda devagar. — Tentei convencê-la que o melhor seria abortar, mas ela se negou e fugiu.
Até então eu não me importava mais... Seria mais uma criança bastarda no mundo e que não me
incomodaria.
Caio quando tropeço no corpo do Damon.
— Só que depois, eu comecei a sentir a falta daquela vadia. Ela era boa de cama, sabia o
que estava fazendo. Queria Margot ao meu lado. Mas aí, durante esses anos todos, acabei
descobrindo que ela tinha mudado de nome, e que tinha você. Uma linda garota e esperta. — Meu
queixo treme. Quero tanto matar esse homem. — Pensei e cheguei à conclusão que você seria uma
ótima sucessora. Um bom treino, e você seria perfeita para me substituir. Não entregaria o meu
império a qualquer pessoa. Teria que ser alguém do meu sangue.
Lion me coloca de pé segurando pelo meu pescoço. Fico sem ar, sem mais força.
— Por isso eu comecei essa busca incessante atrás de você. Nunca imaginei que aquele
infeliz do Lancaster estaria com a minha filha. Um bandido estava te protegendo. Irônico, não é? —
Cuspo no seu rosto. — Mas agora estou farto de você. O que faço? — pergunta, olhando para o meu
rosto, que com toda a certeza está ficando roxo. — Não sei se te levo comigo, ou encerro esse
inferno matando você.
Engulo seco implorando para que ele me mate. Assim terei paz, e darei paz a todas as
outras pessoas ao meu redor.
Ele me solta e caio de bunda novamente.
— Espero que me mate, ou então quem vai morrer é você.
Lion segura meu pescoço novamente e me joga contra a parede. Agora eu acho que dessa
eu não passo.
Capítulo 34

James

Desde quando cheguei em casa na noite anterior, vasculho tudo atrás da Amy e do meu
irmão. Meus amigos policiais já confeririam as câmeras do aeroporto. Não acredito muito na ideia
deles fugirem juntos, mas é uma possibilidade. As roupas dela estão do mesmo jeito no armário.
Nada suspeito. Nada.
— Você não tem certeza mesmo de que não ouviu nada diferente? — pergunto pela
milésima vez a um dos homens que ficam no jardim.
— Não. Eles só entraram no carro do Tommy e saíram. Imaginei que seria somente um
passeio.
Sinto vontade de matar o meu irmão por ser tão inconsequente e permitir que ela fosse
também.
— Inferno!
Pela primeira vez, me sinto impotente, porque quando meus pais morreram, eu ainda era
inexperiente; mas agora não. Agora eu sou um assassino, e simplesmente permito que ela deslize
entre meus dedos.
Como fui deixar isso acontecer?
Ando pela casa, pensando em tudo. Em todas as possibilidades.
E se...
— Nenhuma pessoa ou carro estranho andou pelas redondezas? — Eles negam. — Acho
que podemos colocar o Lion na lista de suspeitos. — digo, e Tommy balança a cabeça
negativamente.
— E o Damon?
Respiro fundo. Sim, poderia ser ele. Muito mais óbvio do que o Lion.
Pego meu celular e ligo para ele. Não demora muito e ele atende.
— Olá, meu amigo James Lancaster.
Seu tom é irônico.
— Onde ela está, filho da puta? — pergunto, e ele solta uma risada.
— Comigo, óbvio.
Passo a mão no rosto inconformado.
— Eu vou te matar, Damon! — cuspo as palavras.
— Ah! Ela já me disse isso umas dez vezes. Você criou um monstro. Ela virou sua cópia.
— debocha. — Mas venha atrás. Eu sei que você é bom nisso, James. — Sinto meu corpo tremer. —
Só lamento informar que quando chegar encontrará os dois mortos.
— Nem ouse, ou vou arrancar dente por dente dessa sua boca imunda e fazê-lo engolir
todos.
Gargalha.
— Isso que fez com o meu pai, não foi? —Tento entender o que ele está falando. — Você
matou meu pai, James. Hugo Haynes. Não lembra?
Fico surpreso com a descoberta.
— Seu pai?
Tommy, Julian e os outros estão atentos a minha conversa.
— Sim. Ou você acha que eu iria trabalhar com você por vontade própria?
Estou sem reação. Nunca esperava isso.
— Vou fazer a mesma coisa com a Amy. Depois, com seu irmão. E quando conseguir
rastrear meu celular será tarde demais... Vai encontrar os dois mortos. — Sinto um desespero que há
anos não sentia. — Adeus, Lancaster de merda!
Ele desliga, e eu sinto vontade de atirar o celular contra a parede.
— Mande rastrear o celular desse filho da puta. — ordeno, e logo Julian liga para o John,
pedindo ajuda.
Nunca imaginaria que o Hugo, que matei há três anos, era pai do Damon. Aquele
desgraçado merecia morrer. Não tinha lógica alguma Damon querer vingança. O pai dele era um
verme que torturava homossexuais por prazer. Ele repugnava, dizia que exterminaria um por um.
Quando descobri, fui atrás e fiz o mesmo. Usei um dos seus métodos favoritos: Extrair dentes sem
anestesia e a sangue frio. Achei que aquele verme não tinha ninguém para vingar sua morte, afinal era
um inútil imprestável. Infelizmente, no mundo ainda há pessoas iguais, doentes e perversas.
Pego minhas coisas e espero impacientemente.
Tommy ainda conversa comigo, só que estou longe demais para dar atenção a qualquer
palavra.
— Damon odiava a Amy. Eu percebia isso.
Ao ouvir o nome dela, meu peito dói.
— Eu achava que era por qualquer coisa, menos que ele queria te atingir.
Sento no sofá, me sentindo derrotado.
— Se ele fizer algo com ela? — pergunto, sabendo que eu não resistiria. — Se ela ou meu
irmão morrer, eu nunca mais irei me perdoar. — falo com o olhar e pensamento distante. — Porque
eu coloquei os dois nessa situação.
— Nós iremos encontrá-los, James. — Tommy bate no meu ombro.
— Espero que seja com vida, Tommy.
Meia hora depois, Julian retorna com o endereço onde Damon está. É uma casa
abandonada numa estrada de terra. Seguimos viagem com o carro estourando o limite de velocidade.
Cada minuto que passa meu coração aperta. Sinto medo. Medo do que possa acontecer com
os dois. Eles são as únicas pessoas mais importantes na minha vida, e não posso permitir que algo
aconteça a eles dois.
Oliver e eu sempre brigamos, discutimos por coisas bobas, só que nunca deixei a dúvida
do meu sentimento por ele. É minha única família, a única pessoa que tem meu sangue, e eu farei de
tudo para defendê-lo. Ele não merece morrer por algo que eu fiz. Amy é a minha garota, aquela que
eu prometi cuidar. Fui falho. Não fui competente o suficiente para livrá-la das garras do Damon.
Só espero que eu não a perca.
Quero aquela garota estúpida e teimosa por perto.
O carro para a alguns metros de distância da casa, que já consigo ver de onde estou.
Seguro minha arma e deixo-a pronta para atirar.
Julian e Tommy vão até a parte de trás da casa. Eu sigo para a entrada principal.
Paro de uma vez quando vejo homens na entrada. Altos, bem armados, e de olho em
qualquer movimentação.
Retiro da bolsa a outra arma, ficando com uma em cada mão. Miro nos dois seguranças
parados na calçada. De uma vez, em sincronia, disparo na cabeça dos dois, fazendo-os caírem no
gramado.
— Menos dois!
Ando até a porta e abro devagar. Escuto alguém falando, a voz não é estranha.
Entro e vejo dois corpos caídos no chão, diante de Lion.
Merda!
Aponto a arma na sua direção.
Lion tem Amy pelo pescoço, batendo seu pequeno corpo contra a parede.
— Você irá comigo? — ele pergunta.
— Não! — A voz dela esta fraca e quase sem som.
— Você terá uma vida boa ao meu lado, basta querer.
— Eu estouro seus miolos, mas não irei com você.
Lion começa a apertar o pescoço da Amy, e não me resta outra opção a não ser atirar nas
suas costas.
Ela é largada no chão e ele cai, gemendo de dor.
Corro até ela, mas antes que eu chegue perto, Amy pega a arma que está ao seu lado e
aponta para o pai, o bandido miserável do Lion.
— Amy... Não! — peço, porque não quero suas mãos sujas de sangue.
Sentada, derrotada e abatida, ela segura a arma com as mãos trêmulas.
— Esse é pela a minha mãe, seu merda!
Amy atira, acertando a sua virilha, fazendo Lion gemer mais ainda.
— É melhor que me mate, ou eu vou acabar com você lentamente.
Lion ameaça, e ela acerta mais cinco disparos, incluindo um no meio da testa do infeliz.
— Morre, filho da puta!
A arma é descarregada no Lion, e eu assisto tudo, surpreso com o ódio queimando nos
olhos da Amy.
— Eu precisava fazer isso.
Seus olhos começam a revirar.
— O Oliver...
Amy cai deitada, desacordada. Corro para segurá-la nos braços. Ela sangra no rosto, e sua
roupa está encharcada do líquido vermelho.
Damon está deitado no chão, sem vida, com a garganta cortada. Oliver está do outro lado.
Não quero ver. Não posso.
Meus olhos ardem. Pela primeira vez em anos sinto o choro desesperador querer sair.
Quero liberar tudo que guardei durante anos.
Saio com Amy nos braços em direção ao carro. Ela está pálida, o rosto quase sem vida.
Entre suas pernas vejo uma mancha de sangue. Parece que tudo dói mais em mim do que nela. Todo o
sentimento de culpa cai sobre as minhas costas.
Julian e Tommy correm até onde estou.
— Ela está viva? — Julian pergunta.
— Sim. Preciso levá-la ao hospital. — Coloco Amy no banco traseiro. — Liguem para o
Carl buscar vocês e o Oliver. — O nó se instala na minha garganta. — Precisam ir lá. — Meu queixo
treme. — Eu não pude chegar perto. Não pude olhar para ele.
Não consegui sequer tocar no meu irmão para conferir seu pulso. É como se lembrasse dos
meus pais.
Deveria ser forte, mas nesse momento não consigo. Não sinto nem minhas pernas quando
entro no carro. Já matei a sangue frio, torturei, vi sangue jorrar de gargantas, arranquei dentes, mas
nada se compara a ver meu irmão naquele estado. Nada. Ele é o único da minha família, e não
suportaria ter que vê-lo morto.
As lágrimas descem. Choro como há tempos não fazia. Jason me ensinou a nunca chorar,
que homens não demonstram esse tipo de sentimento. Mas foda-se! Nem o machismo cruel do Jason
vai conseguir me impedir nesse momento. Tudo dói. Meu corpo, minha alma e o meu coração que eu
acabei de descobrir que ainda tenho.
Soco o volante, inconformado com o que aconteceu. Eu deveria ter ficado em casa.
Deveria ter amarrado a Amy se fosse preciso. Merda!
Olho para Amy pelo retrovisor, que não se mexe. Não faço ideia do que aconteceu. Não sei
se o Damon deu alguma coisa além da surra que, aparentemente, ela levou. Eu quem deveria ter
matado aquele desgraçado.
Freio o carro de uma vez na calçada do Hospital, e desço, pegando Amy nos braços.
Entro, chamando a atenção das pessoas. Uma enfermeira vem até onde estou.
— O que aconteceu?
Mal consigo falar. Meu corpo está suando frio.
— Só a mantenha viva. — Minha voz sai fraca. — Por favor!
Depois, tudo começa a ser rápido demais.
Eles colocam Amy em uma maca, me mandam fazer a ficha e a levam para dentro.
Eu não sei o que fazer, só sei que se eu perder meu irmão e Amy será demais para mim.
Um carro para na porta e eu vejo meu irmão. Os maqueiros correm para pegá-lo.
Sinto um alivio por ver que ele também tem chances de sobreviver.
— Ele está em estado grave! — um enfermeiro grita e meu coração gela.
Capítulo 35

Amy

Abro os olhos e a claridade faz arder. Tento reconhecer o lugar onde estou. Minha roupa é
uma bata, estou recebendo soro na veia... Hospital. James me trouxe? Não me lembro de muita coisa,
só de ter matado o Lion. Não é uma memória tão clara, apenas imagens passam como um flash de
memória. Não sei como saí de lá, como me acharam. Tudo está confuso demais.
Uma cólica forte atinge meu corpo e gemo baixinho. Meu corpo todo dói. Damon me bateu,
devo estar cheia de hematomas por todo o corpo.
Sinto alguém segurando a minha mão. Olho para o lado e vejo James com o aspecto
cansado e triste. Mesmo assim ele me lança um pequeno sorriso.
— Que bom que acordou. Está se sentindo melhor?
Balanço levemente a cabeça.
— Melhor do que estar morta. Isso eu posso garantir. — Consigo arrancar do seu rosto
uma risada abafada. — Só sinto dores por todo o corpo. Tudo por causa daquele desgraçado. — falo
ainda com sede de vingança, por mais que ele já esteja morto.
— Eu quem deveria ter matado o Damon, não o Lion. Aquele filho da puta merecia morrer
lentamente.
Sorrio com o que James fala.
— Quem disse que o Lion matou o Damon? — Ergo a sobrancelha.
— Não foi ele?
Nego.
— Eu cortei a garganta daquele miserável!
Quem diria que um dia eu me sentiria vitoriosa com a morte de alguém?
— Você não deveria ter sujado suas mãos, Amy. Essa vida não é para você.
Dou de ombros.
— Era matar ou morrer, James.
Como se sentisse um baque no meu corpo, começo a tremer com um nervoso na barriga.
— Cadê o Oliver? — pergunto, já preocupada com a resposta. — Por favor, não me diz
que ele morreu. Eu não suportaria levar a culpa nos ombros.
Choro, deixando as lágrimas descerem à vontade.
— Eu jamais deveria ter levado o Oliver comigo. Jamais! Mas eu só queria ver meu
amigo, que agora me odeia, e com meu egoísmo medíocre, puxei uma pessoa comigo. Uma pessoa
que não merecia. — Fecho os olhos e penso nele. — Ele sempre foi tão bom para mim.
Os dedos do James acariciam minha mão.
— Ele está bem, Amy. — Encaro James, aliviada. — Oliver passou por uma cirurgia para
retirar a bala e está em observação. Por enquanto está dormindo.
Sorrio.
— Posso ir vê-lo?
— Ainda não. O médico está vindo para conversar com você.
Pelo rosto abalado do James, sei que não vem coisa boa.
Um mau pressentimento. De novo.
Eu só queria um pouco de paz para a minha vida. Queria fugir e me esconder.
Fico em silêncio, lembrando de tudo que aconteceu depois que o Damon me pegou. Não
queria, mas não consigo apagar nada da minha mente.
O médico entra com alguns papéis nas mãos. James levanta e o cumprimenta. Seu porte faz
qualquer um ficar minúsculo na sua frente. Ele dá espaço para o homem, que anda até onde estou.
— Está se sentindo melhor? — pergunta, e eu balanço a cabeça afirmando.
— Só estou com dores no corpo e cólicas. Acho que eu acabei menstruando.
Ele cerra o lábio e troca um olhar com o James, que não está entendendo nada.
— Aconteceu mais alguma coisa, doutor? — pergunto já com a barriga revirando de
ansiedade... E medo.
— Devido as pancadas que levou, o estresse e toda a situação, eu sinto muito. — Ele faz
uma pausa para me deixar mais apreensiva. — Mas você perdeu o bebê que esperava há seis
semanas.
Fico perplexa, encarando o médico, sem acreditar no que acabei de escutar.
— Essas primeiras semanas são as mais perigosas. Então, infelizmente, você acabou
sofrendo um aborto espontâneo.
Olho para o James, que parece mais branco ainda. Não faz um movimento.
Tento respirar fundo. Não sei o que estou sentindo, não faço ideia. Tudo parece um misto
louco na mente.
— Eu... — Engulo seco, e o médico fica mais próximo.
— Lamento pelo ocorrido. Não conseguimos fazer nada.
Balanço a cabeça.
— Eu vou deixar vocês dois a sós.
Assim ele sai, deixando a bomba cair nas nossas cabeças.
Grávida? Eu sequer pensei nessa possibilidade. Nessa loucura que foram os últimos dias,
não me lembrei da minha menstruação. Mas James me deu o remédio naquele dia, tenho certeza que
tomei.
Ou não?
Encosto a cabeça no travesseiro e olho para o James, que está virado para a janela de
vidro.
Um filho? Como eu cuidaria? O que eu faria da minha vida com um bebê? Meu Deus!
Levo a mão até a minha barriga e choro. Não sei porquê, já que eu não estava preparada
para ser mãe. Mas era uma vida dentro de mim, era alguém com o meu sangue. Fecho os olhos e as
lágrimas descem pelas minhas bochechas. Não dá para acreditar nisso tudo. Em nada. Tudo foi e está
sendo um pesadelo.
Sinto seus dedos enxugando as minhas lágrimas, e eu tento ficar mais tranquila. Não
consigo, estou processando tudo. Abro os olhos e James me encara com o cenho franzido. Seu rosto
está com aspecto mais preocupado. Seu maxilar, cerrado.
— Talvez tenha sido melhor assim. Eu só deveria ter tomado mais cuidado e me prevenido.
— ele fala, e eu sei… sei que tem razão. — Eu não seria um bom pai, Amy. — Suas palavras me
causam dor. — Eu sou ruim. Jamais seria um bom exemplo.
— Eu não sei o que dizer.
Viro o rosto e não consigo encará-lo. Não sei. Algo dentro de mim parece tão magoado, tão
ferido, como se ele fosse o causador disso tudo.
— Me deixa sozinha, James!
— Você...
Olho para ele novamente.
— Por favor!
Mesmo relutante, ele faz o que eu peço.
Com a porta fechada, liberto meu choro, expulsando toda a carga do meu peito e da minha
alma.
Sei que tudo na vida acontece por algum motivo. Sei que eu também não seria uma boa
mãe. Sei que nós dois não merecíamos um filho. Ele seria mais um de nós.
É... Foi melhor assim.
***
Três dias depois recebo alta. Estou muito melhor. Oliver também tem tudo para sair em
breve. O caso dele foi mais grave, ficou desacordado por algumas horas. Eu mal pude visitá-lo.
James não permitiu que eu levantasse.
Por falar nele, tem feito de tudo para me agradar. Notou o quanto estou estranha com ele.
Não sei explicar, mas quero sossego. Não quero nada com ele agora. Nada. Algo dentro de mim
implora por isso.
— Acabo de comprovar que vaso ruim não quebra. — falo quando entro no quarto,
arrancando um sorriso do Oliver.
— Devo dizer a mesma coisa. — brinca, e eu aliso seu cabelo.
— Desculpa. Sei que você está nessa situação por culpa minha.
— Bobagem! Temos uma ligação boa agora. Desgraça une as pessoas, não sabia?
Sorrio.
— Talvez sim. Ou não também. — Penso no James, que está do lado de fora do quarto.
— Eu soube o que aconteceu. Você está bem? — ele pergunta e eu sei sobre o que ele se
refere.
— Sim, na medida do possível. Ainda não assimilei tudo.
— Há males que vem para o bem. Nada acontece por acaso.
Balanço a cabeça.
— Verdade. — Tento mudar de assunto. — Você está pronto para se aventurar?
— Sem dúvida alguma! Basta me tirarem daqui. — Ele me lança um sorriso amigo. Eu amo
esse idiota.
— Eu te amo, Oliver. Amo como o irmão que eu nunca tive.
— Porra! Você acabou de enfiar o dedo na minha cicatriz e abrir sem dó algum.
Gargalho, como nesses últimos dias não tenho feito.
— Dramático!
— Eu aceito isso. Você é especial para mim, Amy. Como uma irmã… então. — Bufa. — Já
que você me considera assim também. — Mordo o lábio, e ele dá um meio sorriso. — Fala logo.
Sabia que tinha segundas intenções.
— Será que você teria um apartamento para me emprestar na Itália?
Ele arregala os olhos, surpreso com meu pedido.
— Você está querendo que o James me mate, não é?
Dou de ombros.
— Ele não pode fazer nada, Oliver.
— Por que você quer ir? — pergunta, desconfiado.
— Preciso respirar novos ares. Quero ir embora e tentar esquecer tudo que aconteceu. Vou
conseguir um emprego por lá e tentar me sustentar.
— Ah, Droga! — xinga. — James vai odiar isso.
— James não é o dono da minha vida, Oliver! — falo, andando pelo quarto. — Eu não
posso viver pensando na opinião do James. Eu sou adulta. A vida é minha! — Sei que ele me ajudou,
me protegeu, mas eu não posso mais. — A ameaça era o Lion, e ele agora está morto. Acabou! —
Oliver grunhe. — Se não me ajudar, eu vou conseguir outra pessoa para fazer isso.
Ele me encara derrotado.
— Você tem um incrível poder de persuasão.
Dou um meio sorriso.
— Tudo bem, eu vou emprestar o meu apartamento. Só não vou poder ir com você. James
vai precisar de mim, mesmo que não admita isso.
Agradeço pela sua gentileza e dou um beijo na sua testa.
Depois de me despedir, volto para casa com o James.
Tomo um banho e desço para o jantar. Ainda estou um pouco debilitada, sem forças, com
dores, e uma péssima aparência. Cinco dias já se passaram desde que eu saí do hospital. Oliver
também já está de volta. Ainda precisa de cuidados, mas está bem melhor. James e eu não trocamos
muitas palavras nesses últimos dias. Está tudo diferente. Eu ainda sou louca por ele, mas não posso
por enquanto. Minha cabeça está um turbilhão de pensamentos. Lion, o rapto, o aborto… tanta coisa.
Tanta, que não consigo ficar aqui agora.
Sei que estou sendo precipitada, egoísta, ou seja o que for, mas esses últimos meses eu
fiquei trancafiada aqui, sem ter uma vida de verdade, mesmo que o James tenha me proporcionado
momentos tão perfeitos.
Entro na sala de jantar, e eles conversam alheios a minha presença.
— Ele está no Alabama. — Tommy avisa e eu paro para escutar. — O que vai fazer?
Não escuto a resposta do James de imediato. Só barulho de talheres.
— Eu irei atrás dele. — Sua voz é firme. — Vou matar o Jason e esse tempo que fiquei
parado, sem ir atrás dele, só me fez ter mais sede de vingança.
— Nós iremos! — Julian fala, prestando apoio a essa loucura. — E a Amy?
Sinto um frio na barriga ao ouvir meu nome.
— Amy vai ficar aqui. Vou botar homens vigiando, cuidando e tomando todo cuidado
necessário.
Entro na sala e todos param de falar, me encarando surpresos.
— Mais uma vez decidindo por mim, James?
Sento ao lado do Tommy.
— Quero você longe disso tudo.
Bufo.
— Já cortei a garganta do Damon, estourei os miolos do Lion. O que quer mais? Eu já
tenho essa carga e esse sangue todo nas mãos.
— Só que a tendência é só piorar. Eu vou atrás do Jason e...
Interrompo.
— Jason é coisa sua, ele não virá atrás de mim.
— Você não o conhece.
Ele está começando a ficar nervoso.
— Nem quero. Eu estou indo embora.
Todos os três homens olham para mim de uma vez.
— Indo embora para onde? — ele pergunta, apertando o garfo.
— Para a Itália.
James encara os dois homens.
— Preciso conversar com a Amy. Com licença. — ele levanta, indo até o escritório. Eu o
acompanho.
Entro logo atrás, fecho a porta e fico parada, encostada na madeira de braços cruzados.
— Eu vou matar o Oliver! — fala, andando ao redor do pequeno cômodo.
— Não foi ideia dele. Eu pedi, irei sozinha.
— Isso é loucura, Amy!
Agora sua voz sai mais baixa.
— Não é! Eu só preciso de paz, James. Eu passei por tanta coisa. Preciso sossegar longe
disso tudo. Perdi a minha mãe, meu pai teve que ir morar em outra cidade, e eu sequer contei o que
aconteceu. Nem quero, porque odeio deixá-lo preocupado. Eu quero que ele viva em paz.
— E nós dois? — pergunta, e eu nem sei ao certo. — Eu sei que o melhor é ficar longe de
mim. Sei disso. Sempre quis o melhor para você. — Ele se aproxima, encostando o corpo contra o
meu. — Só que eu não me acostumei a ter você longe.
Seus dedos tocam meu rosto e eu tento resistir ao seu cheiro.
— É só um tempo, James. Nós precisamos dessa pausa.
Que Deus me ajude, porque eu sei o quanto é difícil.
— Não acho que eu precise.
Sorri.
— Você vai ficar bem. Aliás, nós iremos.
Tento ser madura, firme, porque quero manter a ideia de ir embora. Preciso ficar sozinha e
colocar minha vida em ordem.
— Se é assim que prefere, eu deixo. Eu deixo porque não posso ser egoísta quando falo
em você. Não posso pensar em mim quando tem você envolvida.
Meu coração bombeia dentro do peito. Suas palavras...
Ah, droga!
— Eu vou voltar. Com esse tempo saberemos se é para ser ou não.
Sua testa encosta na minha e eu respiro fundo.
— Eu vou sentir sua falta. — fala, esfregando os lábios nos meus.
— Eu também.
E muita falta.
— Mas vou aceitar porque quero o melhor para você. Mesmo que isso dilacere meu peito.
Solto um suspiro.
James não permite que eu fale. Ele me beija com devoção, paixão, desejo e luxúria. Com
todo o sentimento que ele tem. Seu beijo me deixa tonta, me embriaga, me faz até mesmo ficar
balançada.
Passo as mãos pela parede de músculos na minha frente. Quero gravar cada detalhe do seu
corpo másculo. Quero gravar seu beijo e seu cheiro.
— Amy... — sussurra, enfiando a língua na minha boca de maneira selvagem. — Você
ainda vai acabar comigo. — Suas mãos descem até a minha cintura. Os dedos acariciam lentamente.
— Você é a única. Sempre será!
Enrolo meus braços e o beijo mais intensamente, porque eu sei que isso é uma despedida.
E eu sei que eu vou sentir falta. A cada maldito minuto dos meus dias, eu irei sentir falta.
Mas será melhor assim.

Duas da manhã.
Entro no avião e sigo meu rumo para outro país. Outra vida. Outras pessoas.
Por mais que eu o ame, não posso continuar. Preciso de paz, e isso é algo inalcançável se
eu estiver ao lado do James.
Eu não me despedi, não conseguiria. Sei que se eu olhasse mais uma vez para o rosto dele,
seria tentador ficar. Mas agora eu preciso de um tempo reservado somente para mim.
Não queria machucá-lo. Eu sou louca por ele, apaixonada por cada detalhe da pele,
cabelos, voz e sexo. Mas será bom para os dois.
Lembro-me do nosso beijo mais cedo e suspiro.
Sorrio, olhando pela janela a cidade que vou deixando para trás.
Um dia eu vou voltar, e espero reencontrá-lo.
Capítulo 36

James

Eu a beijo. Beijo com tanta sede de desejo. Sentir o seu cheiro, o seu jeito sensual, me faz
enlouquecer mais ainda por ela. Amy não tem noção do que ela é capaz de fazer comigo. Às vezes
acho que nem eu tenho.
— Ah, Amy! — sussurro entre os seus lábios, e ela aperta meu quadril por cima do cós da
calça.
Eu não queria aceitar a ida dela. Não queria permitir essa loucura que é ela ir embora. Eu
sei que eu prometi a mim mesmo que na hora certa ela iria embora; que quando Lion morresse, eu a
deixaria em paz. E é isso que farei, porque sei que ela precisa. Amy agora tem sangue nas mãos. Não
deveria, mas tem. Agora ela vai carregar o peso de duas mortes nas costas. Eu sei que as primeiras
sempre são as mais difíceis, que quando matamos, acordamos de pesadelos, sentimos medo e
remorso. E agora não sei se ela está passando por isso ou se está aliviada. Afinal, eram dois
bandidos… Mereciam morrer e não vão fazer falta a ninguém.
— James? — Ela interrompe o beijo, se afastando. — Promete que vai se manter vivo? —
pergunta com um pequeno sorriso no rosto.
— Eu tentarei, Amy.
Passo os dedos pelo seu rosto machucado. Aquele desgraçado do Damon deixou marcas no
corpo e na mente dela. Eu queria poder tirar uma a uma.
— Eu vou atrás do Jason. Quero aquele miserável morto.
Ela revira os olhos.
— Isso não vai ter fim. Há quantos anos ele se esconde? Isso porque nem sabe que você
está indo atrás.
Dou de ombros.
— Talvez até saiba. Ele tem pessoas de olho em todos em qualquer lugar que você possa
imaginar.
— Que loucura! Isso não pode ser vida. Você precisa respirar um pouco, focar mais no seu
trabalho de assassino de aluguel, e esquecer um pouco o Jason. Ele vai acabar matando você.
Respiro fundo.
— Nunca irei esquecer, Amy! São dezessete anos guardando a raiva dentro de mim.
— Tudo bem. Faça o que quiser. Só preciso de paz, e não quero pensar nisso tudo.
Sorrio.
— Não pense. Isso é um problema meu, não seu. Quero você em paz, mais leve e
despreocupada.
Amy passa a mão pela minha barba e me encara com os olhos lindos.
— Eu nunca vou deixar de me preocupar com você.
Recebo um beijo doce e curto.
Assisto Amy se afastar, indo para o quarto, sem me chamar para ir com ela... sem pedir que
eu durma abraçando seu corpo pequeno.
É melhor assim.
Desabo na cadeira tentando dissolver tudo o que aconteceu nesses últimos dias. Ainda
sinto um nó na garganta ao lembrar que ela estava grávida e ninguém sabia. Eu seria pai, meu Deus!
Passo a mão pelo rosto.
Eu jamais poderia ser pai, não com essa merda de vida que eu levo. Que bons exemplos eu
teria a dar a uma criança? Eu sequer sei cuidar de uma, e jamais seria capaz de fazê-los felizes. Amy
merece muito mais o que eu tenho para oferecer. Só que também sei que ela seria boa para essa vida
que eu carrego. Ela é forte, esperta, destemida; tudo que eu preciso em uma parceira. Uma que eu
jamais iria querer colocar em perigo, mas mesmo assim meu egoísmo acaba falando mais alto e
permitindo que eu a deseje sempre aqui comigo.
Uma batida na porta me faz despertar dos pensamentos. É o Tommy.
— Você está bem? — pergunta, vindo até onde estou.
— Na medida do possível, sim.
Tommy tira um papel do seu bolso e me entrega.
Abro e vejo uma foto do Jason. Ele está mais magro e velho, andando em uma das ruas de
Los Angeles.
— Esse desgraçado ainda está andando despreocupado assim? E ele não estava no
Alabama?
— Informação falsa, James. Estão tentando despistar qualquer um que esteja atrás dele.
Amasso o papel na minha mão.
— Ele está contrabandeando armas e distribuindo drogas entre artistas. Uma informante me
contou. Tudo material pesado e do bom.
Levanto.
— Procure saber em que hotel ele está hospedado.
Tommy balança a cabeça.
— Pode deixar! Eu ligarei agora mesmo para saber e tentar descobrir um meio de ir até
ele.
— Faça isso.
Ele sai, me deixando sozinho novamente.
Vou para o meu quarto com o coração a mil e os nervos à flor da pele.
Eu deveria parar de pensar nela. Será melhor.
Tomo um banho rápido e vou para a cama. Há anos eu não sei o que colocar a cabeça no
travesseiro e dormir em paz. Em minha mente sempre tem coisas ruins acontecendo. Sangue, mortes,
gritos de clemência. Não que eu me arrependa de ter feito tudo isso até hoje, mas de qualquer forma,
as imagens giram na cabeça.
Antes de conseguir dormir, penso em tudo. Em Amy, em como ela vai viver por lá, sozinha
e como uma garota normal da idade dela. Penso nos meus pais, em minha sede de vingança. Quero
matar o Jason… devagar, para que ele sofra. Nem assim será o suficiente para aliviar o que ele fez.
Acordo com o sol começando a nascer. Minhas noites de sono são curtas.
Escovo os dentes e lavo o rosto antes de descer.
A casa está silenciosa, mas o cheiro de café que vem da cozinha me chama até ela. Entro e
Julie está preparando os ovos e bacon. Sento na banqueta, e ela toma um susto a me ver.
— Bom dia, James! — respondo e a observo continuar o seu trabalho.
Consegui Julie há oito anos, desempregada, morando em uma pequena casa. Ela conhece o
Tommy desde que ele morava com um traficante, e por intermédio dele, ela veio trabalhar aqui. No
começo foi difícil, já que ela teria que conviver com assassinos. Ainda é desconfiada, mas melhorou
muito com o passar dos anos. Hoje consegue falar, perguntar, dialogar. Antigamente ela sequer abria
a boca perto de mim. Eu sei que deveria confiar nela cem por cento, mas não consigo ser assim com
ninguém. Vivo preparado para ser atacado a qualquer momento.
— Aqui o seu café!
Ela coloca o prato com torradas, ovos, bacon na minha frente. Coloco meu café e começo a
comer.
Tommy e Julian entram na cozinha e se servem sem cerimônias.
— Quer que eu chame a Amy para comer? — Julie pergunta, e eu confirmo. A mulher sai,
me deixando sozinho com meus companheiros.
— Amy está melhor? — Tommy, que é um dos que mais gosta dela, pergunta.
— Na medida do possível. Tudo foi intenso demais.
Lembro-me do aborto. Lembro que eu poderia ter sido pai. Uma merda de pai.
— Eu só queria ter matado o Damon com as minhas próprias mãos. Aquele desgraçado
quase a matou.
Meu peito dói, como nunca mais tinha doído.
Julie aparece de uma vez, branca e nervosa, segurando um papel na mão.
— O que aconteceu?
Olho, preocupado.
— Ela se foi.
Suas palavras causam um impacto forte no meu peito.
Levanto e ando até ela, tomando o pedaço de papel e lendo.
“Estou a caminho da Itália. Não sou fã de despedidas, muito menos de alguém que me
deixa inconsequente. Fica bem. Eu ficarei.”
Solto um longo suspiro e olho para os três, que me encaram surpresos.
— Ela já foi embora. — As palavras causam um nó na minha garganta. — Foi melhor
assim! — falo isso na tentativa de me convencer.
Jogo o papel no lixo e saio da cozinha, tentando respirar e aceitar que ela só escolheu o
caminho certo.
Subo para o seu quarto e entro, fechando a porta atrás de mim. Tudo está estranho demais,
triste e sem graça. Não faz sentido ela não estar aqui. Eu já estava mal-acostumado. Gostava da sua
marra e seu jeito de enfrentar no começo. Ela não sabia o quanto me enlouquecia com aquilo. Depois,
quando a beijei e consegui ter seu corpo por algumas noites, eu fique ainda mais viciado nela.
Inferno!
Daria tudo para tê-la aqui novamente, mostrar que vamos superar juntos, mesmo sabendo
que a carga que carrego jamais permitiria isso.
Fecho os olhos e as lembranças dos momentos invadem minha pele e penetram na minha
alma. Um sentimento que jamais imaginei ter a honra de sentir. Se eu já era obcecado por era antes,
agora, depois de experimentar como é ter a Amy nos braços, eu sou mais louco ainda. Morreria por
ela se fosse preciso. Daria minha vida. Ela é a única parte boa que existe dentro de mim.
Única.
Duas batidas na porta chamam minha atenção. Afasto as lembranças e saio do quarto.
Tommy está parado no corredor, me analisando dos pés à cabeça.
— Ela vai voltar James. — sua voz tenta me reconfortar.
— Eu só quero que ela fique bem. Independentemente de estar aqui ou não.
Um nó parece apertar minha garganta.
— Tem alguém querendo falar com ela lá embaixo.
Franzo a sobrancelha, sem entender, mas mesmo assim desço.
Quando apareço na sala, vejo a única pessoa que não esperava, a que eu sequer lembrava
que existia. Um sentimento bem parecido com ciúme invade meu peito.
Ele está aqui por ela.
— O que quer? — pergunto, olhando para o Taylor, amigo da Amy.
— Eu vim ver a Amy. Eu soube o que aconteceu.
Ele me encara desconfiado.
— Ela tinha ido atrás de mim antes de ser atacada, e a tratei tão mal. Sei que eu estava com
muita raiva e decepcionado por ela estar com você, mas eu a amo tanto. Sinto um remorso enorme
por não ter abraçado aquela garota estúpida. —Taylor passa a mão no rosto e senta no sofá, sob meu
olhar, do Oliver e do Tommy. — Ela sempre foi minha amiga, sempre esteve ao meu lado. Eu jamais
deveria ter tratado a Amy tão mal sem saber o verdadeiro motivo por ela ter vindo para cá. —
Escondo as mãos nos bolsos da calça. Estou apertando meus punhos com força. — Só que eu a vi
com você. — Ele me encara com desgosto. — Ela estava tão mudada. Estava mais mulher,
determinada e parecia apaixonada. — Isso acaba me deixando feliz, de qualquer forma. — James, só
permita que eu peça desculpas. Permita que eu a abrace.
— Tarde demais, Taylor. Ela foi embora.
Minha voz sai em um tom fraco.
— Como assim? Simplesmente se foi?
Concordo.
— Ela precisa desse tempo. E, por mais que eu esteja prestes a pegar a droga do avião e
trazê-la no ombro, eu sei que ela precisa disso.
O jovem rapaz levanta, andando até onde estou.
— Amy está mais do que certa. Você só irá trazer desgraça para a vida dela.
Abro a boca, sem acreditar nas suas palavras.
— Esse não tem medo de morrer! — Oliver fala, soltando uma risada em seguida.
— James não se incomodaria com a verdade. — Seu olhar fuzila o meu. — Porque é
exatamente como eu falei. Amy é uma pessoa maravilhosa, e não se deixará corromper por um
bandido. Mesmo que tenha trepado com ele algumas vezes, eu sei que ela não aguenta isso. — Aperto
meu maxilar. — Você deve ter sido aquela paixonite explosiva. Um homem experiente, bom de cama,
selvagem… óbvio que ela iria ficar caída aos seus pés.
Seguro seu colarinho e o deixo mais próximo.
— Saia da minha frente antes que eu arranque a sua língua e o faça engolir.
Solto, e ele se mantém firme.
— É isso que você é, James. Pode me matar se quiser, mas sabe que é a verdade. Sabe que
a Amy merece algo bem melhor do que você.
Assim, ele vira as costas e vai embora.
Sem falar com mais ninguém, saio de casa e entro no meu carro, dando partida e saindo
sem rumo, precisando reorganizar meus pensamentos.
Taylor não deixa de ter razão, mas mesmo assim eu a quero... Quero como nunca quis
ninguém na minha vida. Eu preciso daquela garota atrevida comigo novamente.
Ligo o som do carro e deixo a playlist que ela escolheu tocar dentro do veículo, e sinto
meu coração ser espancado com a letra da música que penetra nos meus ouvidos. É o Lenny Kravitz
cantando.
Babe can´t you see
Hear, this is killing me
I don´t wanna push you baby
I don´t want you to be told
is just that I can´t breath without you
feels like I´m gonna lose control
Eu preciso da Amy de volta.
Capítulo 37

James

Minha cabeça lateja desde a hora que levantei. A bebida de ontem não parece ter descido
tão bem quanto antes. O gosto de ferrugem na minha boca me faz querer vomitar. Eu sei que não
deveria ter exagerado na bebida, mas não me contive. Precisava de algo para abastecer minha alma e
meus pensamentos. Tudo parece girar e acabar voltando para ela. Sempre ela. Eu tenho culpa. Eu
permiti que isso acontecesse. Nunca fui tão fraco por nenhuma mulher, mas acabei cedendo pela
Amy.
Meu peito grita por ela a cada maldito minuto do meu dia. Fico pensando em como ela
está, o que está fazendo, com quem está compartilhando seus dias. Já faz um mês. Desgraçados trinta
dias que sinto sua falta. Que não tenho seu corpo pequeno sobre o meu, muito menos seus gemidos
excitantes durante o sexo. Minha mão é a única que me ajuda a aliviar essa falta que eu sinto. Durante
as noites em que massageio meu pau com os pensamentos nela. Naquela boca, seios, pernas...
— Você ouviu o que eu acabei de falar?
Desligo meus pensamentos quando olho para o Tommy, que está me encarando preocupado.
— Você pode repetir, caso queira.
Meu amigo resmunga, passando a mão pelo rosto.
— Eu estava dizendo que caso você encontre o Jason e o mate, como será para frente?
Foco meu olhar na estrada e penso por alguns minutos.
— Não sei. Eu só preciso acabar com tudo e pronto.
O silêncio fúnebre invade o carro.
Eu, Tommy e Julian estamos indo ao encontro de um dos comparsas do Jason. Talvez ele
seja quem consiga me dar uma informação exata sobre tudo. Localização, negócios... porque está
difícil encontrar esse verme imundo. Tenho vasculhado cada maldita pista que eu tenho conseguido
para encontrar o bastardo do Jason, mas parece que ele foge cada vez que descubro uma chance de
pegá-lo.
Aperto meus dedos no volante quando avisto a fazenda. A casa é bem pequena, mas o
terreno é vasto. Tem vacas, plantações e um galpão isolado. Tudo parece me lembrar algo no
passado.
Não é o mesmo lugar, mas parece tão familiar.
— Aquele é o Connor?
A pergunta o Tommy sai num tom surpreso e eufórico. Julian logo se aproxima, ficando
entre nós dois.
— Sim! — Falo, engolindo seco. — Eu reconheceria esse miserável até pintado de ouro.
Passo pela porteira aberta, e logo Connor dá conta da visita, mas parece tentar reconhecer
o carro, o motorista.
— James?
Escuto o sussurro do Tommy quando piso no acelerador, que mesmo sem olhar, sei que o
ponteiro deve acusar mais de cem quilômetros.
— James...
Meu sangue ferve nas veias, passando por todo meu corpo, me incendiando, dando ânsia de
vingança, dor, rancor... por tudo o que aconteceu naquela época.
Quando percebe o carro pronto para atropelá-lo, ele começa a correr, mas é tarde, porque
eu já o tenho atingido, e jogado do outro lado, caído no chão de terra. Freio o carro e desço, indo
com todo meu ódio que possui minha alma e minha mente.
A poeira embaça minha vista, minhas mãos parecem ansiosas, meu coração bate acelerado.
Caminho até onde o bastardo geme de dor, se contorcendo em posição fetal. Eu paro à sua
frente e quando ele me vê, parece não acreditar. Seu semblante muda totalmente de dor para surpresa.
— Que porra é...
Eu interrompo suas palavras quando acerto um chute nas suas costelas e ele grita.
— Lembra de mim, não é?!
Falo e acerto mais um chute, percebendo a poeira subir entre nós dois.
— O que quer?
Pergunta, ainda sem condições de reagir.
Eu me abaixo, pegando o homem pelo colarinho e ergo do chão.
— Vingança.
A palavra sai em um tom amargo, doloroso.
— Por tudo. Tudo, Connor. Isso porque eu sequer comecei.
É quando minha mente parece deslocar e minha alma sair do corpo. Porque não resta mais
nada. Humanidade, sanidade, consciência. Eu apenas ajo.
Acerto socos repetidas vezes no rosto do homem.
Dois... Quatro... Sete...
O sangue jorra do rosto do homem enquanto eu soco com força o meu punho. De joelhos,
segurando o colarinho da sua camisa, continuo o ritual. Descontando toda a minha raiva, meu
sentimento ruim, minha vingança, em cima dele.
— Eu sempre quis estourar seus miolos, desgraçado.
Falo, já ofegante, enquanto o homem parece inconsciente.
— James!
Seguro sua cabeça e empurro contra o chão.
— Isso é por tudo que fez comigo.
Mais uma vez, e eu sou capaz de ouvir os estalos do crânio.
— James!
O grito dessa vez é mais forte, mas seguido por um puxão, que me tira de cima do homem.
Tento me soltar, voltar para cima dele, matá-lo com todo o sangue que está fervendo nas
minhas veias.
Tommy me acerta com um soco e eu caio sentado.
Olho surpreso para o meu amigo.
— Qual é?
Pergunto, limpando o sangue do meu rosto. Não o meu, mas o do homem.
— Chega. Você está fora de si.
Minha respiração pesada, a mão dormente, tudo isso me faz ficar parado no mesmo lugar.
— Você precisa se acalmar. Não era isso que queríamos fazer.
Sorrio.
— Tem razão, Tommy. Queria fazer pior com esse desgraçado.
Tommy passa a mão pelo rosto e me olha preocupado.
— Connor não é o seu alvo, e sim o Jason.
— Foda-se!
Tento ir mais uma vez para cima do homem, mas Tommy e Julian me seguram.
Connor tosse, tentando abrir os olhos, mas está com os dois inchados demais para que
consiga.
— Jason está longe.
As palavras saem da sua boca em um tom fraco.
— Onde?
Pergunto, sentindo meu corpo estremecer.
— Não faço ideia. — O sangue escorre pelos cantos da sua boca — Mas é bom que saiba
que ele está fugindo de você.
Encaro o homem com desconfiança e descrença.
— Todo mundo sabe o quanto está desesperado para matá-lo. — Uma risada abafada sai
dos seus lábios — Eu aconselho que pare, ou ele vai matar você e quem você ama.
Olho para os meus dois amigos que parecem entender o recado.
— Do que merda você está falando?
Sinto meu corpo enrijecer. Mesmo sabendo a resposta, espero ansioso.
— A filha do Lion e o Oliver. Ele vai matar os dois e mandar as cabeças por
correspondência. — Meu coração acelera — E eu vou adorar quando isso acontecer.
É nesse momento que eu não penso mais em nada.
Quando dou por mim, estou por cima dele novamente, deixando o ódio me cegar, com a
arma apontada, empurrando contra a testa do Connor.
— Quem disse que você estará aqui para ver isso?
Aperto o gatilho e sinto o sangue espirrar no meu rosto.
Satisfeito, nervoso e inquieto, levanto, passando a mão no rosto e indo de volta para o
carro.
Ninguém fala mais nada.
Chego em casa e o clima é pesado. Tenso. Tudo parece diferente. É como se voltasse há
uns meses atrás. Silencioso, perturbador e solitário.
Jogo minha bolsa em cima do sofá e Oliver se vira de uma vez, me encarando com horror
no olhar.
— Que merda aconteceu?
Pergunta, olhando para minha camisa suja de sangue.
— Distribui minha raiva por aí.
Pego um copo e me sirvo com uísque. Levo a garrafa até o sofá e sento.
Tomo um gole de uma vez, deixando o líquido queimar pela minha garganta.
Antes que eu abra a boca para falar, o celular do meu irmão toca. Ele olha para a tela e
depois para mim.
— Amy.
O nome me faz sentir os pelos do meu corpo reagir.
— Atenda.
Ele faz o que eu mando e eu só escuto, atento a cada palavra.
— Estou bem, docinho.
O jeito carinhoso do meu irmão chega a incomodar, mesmo sabendo que ele não ficaria
com ela.
— Claro. Você está gostando?
Ergo meu olhar na sua direção e fico sem entender.
Os dois continuam em um papo animado, mas eu não faço ideia do que ela está falando do
outro lado da linha.
— James está aqui, Amy. Ele...
Um silêncio ensurdecedor invade a sala.
— Tudo bem. Você quem sabe.
Oliver se despede e eu espero que ele fale alguma coisa depois que guarda o celular no
bolso.
— Ela está bem.
Balanço a cabeça.
— Está sentindo sua falta, mas...
Levanto, sem esquecer a garrafa.
— Entendi, Oliver.
Quando vou caminhando para o jardim, ele fala.
— Ela te ama. Você sabe.
Assinto, permanecendo no lugar.
— Amy vai ficar bem melhor sem eu por perto.
Oliver ainda me chama, mas eu ignoro, sentando no gramado e acendendo um cigarro.
Deixo toda a tristeza bater no meu peito e na minha alma. Sinto-me vazio, incompleto, mas
eu não me importo.
Ou pelo menos tento não me importar.
Tento disfarçar essa falta que ela está fazendo na minha vida.
Ou deixo meu egoísmo falar mais alto, ou sinto que irei surtar.
Capítulo 38

Dois meses depois…

Amy

Lanço meu corpo para frente e acerto o rosto do homem com um soco forte, fazendo o
mesmo cambalear para trás. Antes que ele reaja, acerto um golpe na sua perna. Ele sequer se mexe.
Em um rápido movimento, sou atingida por um soco no canto da boca.
— Ah, merda! — xingo quando sinto o gosto metálico na boca, mas não desisto.
Posiciono minha perna dominante para trás e pego impulso, acertando entre as suas pernas,
encostando o joelho na sua virilha.
— Chega! — ele pede, bebendo um pouco de água e me oferecendo a outra garrafa. —
Você está bem melhor do que quando chegou, Amy!
Sorrio com o elogio do meu instrutor.
Alessandro é instrutor de boxe, defesa pessoal, e também personal trainer. Desde que
cheguei aqui na Itália há dois meses venho para a sua academia. É aqui que me distraio e me livro da
ansiedade.
Ajeito meu cabelo em uma trança rápida.
— Tenho que ir. O dever me chama!
Pego a minha bolsa e jogo no ombro.
— Até mais!
Ele dá uma leve batida no meu ombro e eu saio.
Minha vida por aqui tem sido exatamente isso. Trabalho, luta, treino. Eu irei voltar mais
forte e mais preparada. Minha rotina é corrida, e não permite que eu pare para pensar demais.
Não tenho muitas notícias do James e de como está por lá. Oliver sempre tem me ligado
nesses últimos dias, tentando me contar alguma coisa, mas eu interrompo. Foi uma promessa que fiz a
mim mesma. Precisava dar um tempo de tudo, sem saber do James, da carga, ou de qualquer coisa
que acabe me ligando a ele.
Meu pai também liga para saber como estou. Está mais alegre e confiante. Ele se mudou
para Manhattan. Voltou a trabalhar com o que ele gosta, comandando a parte de comercio exterior de
uma multinacional. Também está saindo com alguém, e estava receoso que eu o recriminasse, já que
não faz muito tempo que a minha mãe morreu. Eu não me importo. Fico feliz por ele, e quero que siga
sua vida. Não temos o mesmo sangue, mas foi ele que me criou. É o meu verdadeiro pai, de qualquer
forma.
Entro na sala acústica no mesmo prédio da academia e vou direto guardar minha bolsa.
Aqui, eu faço aulas de tiro. Eu já sabia atirar, mas estou me tornando melhor. Quero voltar
especialista.
— Boa noite, Georgina!
A mulher alta, morena e musculosa sorri, com um leve acenado com a cabeça.
Georgina é instrutora de tiro. Na verdade, ela é mil e uma utilidades. No turno da tarde dá
aulas de defesa pessoal, e também trabalha como segurança de eventos. É bem turrona e séria. Sou
uma das poucas pessoas daqui que consegue arrancar um sorriso dela. Ah, claro, a namorada dela
também consegue esse feito.
Georgina me entrega uma pistola, os fones de proteção, e começamos de novo.
Eu sei atirar desde meus quatorze anos, mas o básico. Meu pai ensinou por proteção. Na
época não entendia, mas hoje eu entendo o que ele queria… queria me proteger do Lion. Queria que
eu matasse se ele chegasse perto.
— Nunca se esqueça de que deve posicionar bem. — Ela fica atrás de mim, segurando meu
ombro. — Controle a respiração e mantenha o olho na mira.
Olho para o alvo que mexe de um lado para o outro.
Em movimento é o que sempre tenho dificuldade. Fico nervosa, tensa e ansiosa. Isso acaba
atrapalhando e me fazendo falhar. Só que erros não vão mais existir no meu vocabulário.
— Você está nervosa, Amy! — chama a minha atenção, e eu balanço a cabeça tentando
manter a calma. — Bloqueie a respiração, aperte o gatilho, e só depois do disparo você volta a
respirar.
Com cuidado e atenção, faço o que ela manda. Meu corpo sente o impulso.
— Muito bem! — ela elogia. — Ainda não acertou o alvo, mas fez o que pedi. Continue.
Fico firme na minha posição.
Georgina e eu ficamos no mesmo ritmo por mais duas horas. Consigo acertar o alvo quatro
vezes, nas últimas tentativas. Meus braços estão dormentes e minha cabeça lateja.
Jogo a mochila nas costas e me despeço da minha instrutora. Saio da academia e volto
andando para casa.
Eu ando muito ansiosa nesses últimos dias, e nada que eu faço sai tão bem. Tiros, luta, tudo
parece ficar cada vez mais complicado. Coloquei as minhas metas na mente, e isso martela o dia
todo, sem parar. Minha cabeça está cheia de planos para quando eu voltar. Tenho coisas a fazer que
vão mudar a minha vida. Mesmo com receio, quero fazer o que acho que devo.
Na calçada de uma lanchonete vejo jovens conversando. Eles sorriem animados, e isso faz
um sentimento de tristeza bater no meu peito. Esse tipo de relação era a que eu tinha com o Taylor.
Dói lembrar o meu amigo, que hoje não quer mais saber de mim. Eu entendo, sei o que passa pela sua
cabeça. Além dos mais, ele foi atacado por minha causa. A mágoa que ele guarda deve estar
corroendo por dentro.
Entro no prédio que moro e não cumprimento ninguém. Eu prefiro não ter amigos por aqui.
O enorme apartamento do Oliver é a cara dele. Bem decorado, com coisas extravagante,
janelas de vidros que vão do chão ao teto, sofá de couro, e uma infinidade de coisas que só ele seria
capaz de ter dentro de um só lugar.
Vou direto para o banho. Meu dia foi longo e eu só preciso de uma pausa.
Já pela manhã, sento no banco da praça em frente ao prédio. Cansada da caminhada que fiz,
fico observando o movimento das pessoas. Homens e mulheres caminham ou correm ao redor da
praça. São todos dispersos ao que acontece.
Não sei se sou a única, mas sempre que paro por aqui. Gosto de imaginar a vida dessas
pessoas… se são calmas, movimentadas, ou se chegam a parecer um pouco com a minha trágica vida.
Penso na minha mãe. Sei que parece clichê, mas sei que ela está melhor agora. Morta? É.
Mas imagino sempre um paraíso além da vida. Acredito que agora ela esteja olhando por mim e pelo
meu pai.
Quando chego em casa, a única coisa que consigo fazer é tomar um banho rápido e beliscar
alguma coisa.
Enquanto me olho no espelho, lembro-me do James. Lembro o seu rosto, sua boca e seu
corpo. Daria tudo para tocá-lo nesse momento.
Engraçado lembrar o que houve nesses últimos meses. Cheguei na casa do James uma
garota, sai de lá uma pessoa quebrada, e vou voltar uma mulher forte, decidida e que vai fazer o que
a alma pede para fazer.
Será que sempre foi meu destino?
Prendo meu cabelo longo em um rabo de cavalo e calço meu tênis. Já estou vestida com
minha calça jeans e a camiseta branca da cafeteria. Eu gosto de ter que conviver com pessoas
diferentes todos os dias, mas outro lado implora para que eu jogue tudo para o ar e volte. Não
aguento mais a falta que estou sentindo da minha cidade, do meu verdadeiro lugar.
Sozinha, caminho pela calçada, enquanto as pessoas passam por mim, apressadas, falando
ao celular, bem vestidas para o trabalho.
Chego à cafeteria, um lugar bonito, organizado, com o cheiro agradável. O meu patrão, o
senhor italiano e nada discreto, já grita por mim, acenando com os braços pequenos.
— Demorou a chegar, garota!
Sorrio e pego a minha caderneta de pedidos.
Atendo as mesas com um sorriso simpático. Não sei o que essas pessoas fazem da vida.
Poucos conversam, poucos se abrem de verdade. Outros são calados, desconfiados e discretos. Eles
me chamam, agradecem, mandam e desmandam, e eu penso no que eles achariam se soubesse o que
eu sou de verdade… se soubessem que nas minhas veias corre o sangue de um assassino, e que me
fez ser igual.
Não me lamento. Nunca. Lion e Damon mereceram morrer. Se eu pudesse repetir, faria tudo
de novo. Não, faria melhor.
Damon quase me violentou, matou o Paul, e ajudou os comparsas do Lion a invadirem a
casa do James; além de ter me espancado enquanto estava me mantendo refém.
Já o Lion… aquele desgraçado poderia ter morrido mais devagar. Deveria ter tido a
chance de arrancar cada dente daquela boca de merda, de ter arrancado cada membro com minhas
próprias mãos. Ele acabou com a vida da minha mãe, destruiu seus sonhos, a enganou; e não
satisfeito a matou a sangue frio na minha frente. Nenhum tiro que aquele filho da puta levou foi
suficiente.
Merecia bem mais.
— O que está fazendo? — Acordo do meu devaneio quando o cliente me cutuca, me
fazendo perceber que quebrei a caneta na minha mão.
— Sinto muito! — falo, e em seguida entro na cozinha atrás de um copo de café. Preciso
acordar para a realidade e pensar no futuro, no que tenho em mente. Lion se foi e não pode ter
controle sobre a minha vida.
Volto para a cafeteria e continuo o meu trabalho tentando não pensar demais, tentando
apenas ser uma pessoa normal por algumas horas.
No final do dia, termino de limpar as mesas, organizar o balcão e me despeço do meu
patrão. Sorrio com o bolso cheio de gorjetas que recebi durante o dia.
Caminho pela calçada sozinha, apressada para chegar em casa, tomar um banho e me
distrair com um livro.
Chego em casa, e quando abro a porta, tenho a impressão que meu coração vai acabar
explodindo dentro do meu peito.
Minhas pernas ficam bambas, minha boca seca, e no meu peito o meu coração bate forte,
sabendo que o dono dele é o único que consegue causar esse efeito em mim.
— James? — É a única coisa que consigo falar ao ver o meu homem, aquele que tem
invadido minha mente e minha alma nessas últimas semanas.
Devagar, ele levanta do sofá.
Sua barba está grande, seu cabelo penteado para trás, seu corpo parece ainda mais forte e
seu cheiro tão familiar me deixa eufórica.
— O que...
Ele me interrompe, colocando o dedo sobre meus lábios.
— Não fala nada, Amy. — Eu o encaro, tentando controlar minha respiração. — Sei que eu
deveria ter ficado por lá. — Sua mão segura minha nuca com força e me faz ficar excitada de
imediato. — Deveria ter respeitado seu tempo, seu espaço e tudo mais. Mas que merda, Amy! São
dois meses, porra! — Sinto meus olhos lacrimejando. — Dois meses longe de você. Isso é demais
para mim.
Seus lábios roçam levemente nos meus.
— Eu tentei. Juro que tentei, mas eu já estava mal-acostumado com sua presença na minha
casa e na minha vida. — Solto a bolsa no chão e subo minhas mãos pelo seu peitoral. — Volte para
mim, Amy. Volte para a minha vida novamente, porque eu acho que se não tiver você comigo, eu vou
acabar definhando. — Sorrio com seu drama. — Eu quero você ao meu lado de novo porque eu sou
um maldito egoísta… porque você é única coisa que ainda me dar forças para seguir com a minha
vida.
Deixo as lágrimas descerem pelas minhas bochechas.
Sei que isso vai contra a tudo que prometi, mas com ele aqui, sendo sincero e apaixonado,
eu não posso resistir. Tudo acaba de se esvair bem aqui, no meio dessa sala. A única coisa que eu
quero nesse momento é beijá-lo e fazer amor com o homem que eu amo.
— Como eu senti sua falta, James.
Eu o beijo. Beijo com devoção, paixão e desejo. Eu o amo, e senti sua falta. Não posso
mais resistir a esse sentimento que parece ter acabado de entrar em erupção dentro do meu peito.
— Quero foder você, Amy. — Suspiro entre seus lábios. — Porque eu estava louco pela
sua boceta gostosa.
Gargalho.
— Quanto romantismo!
— Do jeito que você sempre gostou.
Sua voz quente é só uma faísca que incendeia entre as chamas do meu corpo. E eu me
entrego. Entrego-me de corpo e alma para o único homem que é o dono do meu coração.
Capítulo 39

James

Eu tentei. Tentei de diversas formas não ir atrás dela. Passei dois malditos e desgraçados
meses longe dela, aguentando, suportando, e imaginando que ela ficaria bem sem mim, que a qualquer
momento iria conhecer alguém a sua altura, que pudesse dar a vida que ela merece. Mas eu sou um
filho da puta egoísta e não aguentei.
Todas as vezes que Oliver ligava para ela, Amy jamais permitia que falasse sobre mim,
sobre nós.
Não parei com minhas missões e com a busca incessante pelo Jason, mas precisava dessa
folga. Eu estava bebendo demais, desatento, deixando o sentimento me consumir e me fazendo ficar
vazio sem ela por perto.
Arrasto Amy pelo apartamento, esbarrando nos móveis e indo até o quarto. Tiro sua roupa
e largo no caminho. Ela também faz o mesmo.
Amy cai na cama de barriga para baixo, e eu contemplo a cena, querendo gravar cada
detalhe na mente; mas logo minha excitação e o tremor no corpo me chamam para cair por cima dela.
Beijo seu pescoço, nuca, mordo seu ombro.
— Senti falta do seu cheiro. — sussurro ao pé do seu ouvido, descendo minha mão entre
duas pernas. — Tão molhada! — Roço minha ereção na sua bunda. — Não posso esperar muito,
Amy. Posso devorar você, e depois partimos para os preliminares?
Escuto sua risada abafada entre os lençóis, e sua cabeça balança, assentindo e me dando
permissão.
Devagar, penetro-a, que contorce o corpo debaixo do meu corpo.
— Quente e receptiva.
Meus movimentos são lentos. Agora já estou dentro dela, e não preciso mais de pressa. Era
tudo que eu esperava fazer nesses últimos dois meses. Era isso que eu queria: tê-la comigo.
Puxo seu cabelo e Amy empina a bunda, mexendo o quadril contra o meu. Estoco forte e
lentamente. Minha respiração falha, meu corpo incendeia, e meu coração dispara.
— Ah, Amy...
Solto um grunhido pelo prazer de estar assim.
— James.
Meu nome sai com o sussurro excitante.
Monto em cima dela, empurrando com força, num sexo bruto e cheio de paixão. Puxo seu
cabelo, fazendo sua cabeça inclinar para trás.
— Ah, Deus...
Observo as curvas do seu corpo. Amy está mais forte. Músculos apareceram nas costas,
braços, e sua bunda está maior. Eu ainda quero beijar, lamber, devorar, contemplar e consumir cada
parte do seu corpo maravilhoso, e que me deixou tão viciado.
Levo minha mão livre entre suas pernas, procurando por seu clitóris inchado. Eu
massageio, circulando e apertando, fazendo Amy soltar um gemido.
— Assim que você gosta? — pergunto, e em seguida mordo o lóbulo de sua orelha. —
Quer que eu vá mais forte?
Ela concorda e eu empurro, também aumentando a pressão e velocidade do meu dedo entre
suas pernas.
— James... — grita — James, droga!
Sinto uma onda percorrer por todas as minhas veias. Estremeço, gozando, despejando meu
desejo dentro dela, que também deixa ao orgasmo consumir seu corpo.
Enterro meu nariz no seu pescoço, ouvindo sua respiração falhar, e sentindo seu coração
pular dentro do peito.
— Oliver tem uma banheira bem espaçosa. — fala, e eu sorrio.
— Você sabe que eu não quero parar, não é?
Escuto seu suspiro.
— Quem disse que eu quero que pare?
Levanto, puxando Amy contra meu corpo.
Seu cabelo bagunçado, sexy e selvagem cobre as laterais do seu rosto, e eu a encaro com
tanto desejo e luxúria como nunca imaginei sentir na vida.
— Sou louco por você, sua garota estúpida.
Um alívio percorre meu peito depois de soltar a frase.
Sou difícil para demonstrar sentimentos, mas quero que ela saiba. Quero que ela nunca
mais tente fugir novamente.
— Eu soube desde o primeiro dia. — fala, franzindo o nariz. — Você mente muito mal.
Brinco, apertando sua bunda.
— E você me odiava, Amy. — Ela abre a boca para falar, e eu interrompo. — Com razão.
Eu merecia aquilo tudo.
Suas mãos seguram meu rosto, seus dedos trilham minha barba.
— Você me salvou, James. Nunca irei esquecer o que fez por mim. Mesmo que tenhamos
passado por aquilo tudo, eu ainda quero você. Quero viver ao seu lado.
Seguro sua nuca.
— Você faz ideia de onde está se metendo, não é? — pergunto, arqueando a sobrancelha.
— Sim. Eu quero me jogar na sua vida, nos seus braços, e nunca mais cometer a tolice de
me afastar.
Sorrio, alisando seu rosto com os dedos calejados.
— Ah, merda! — xingo, pegando Amy nos braços e levando até o banheiro. Sento-a na pia,
penetrando-a, que me recebe com as pernas enroladas em volta do meu quadril. — Sou louco demais
por você, garota! — Empurro, apertando sua cintura. — Louco demais! — sussurro enquanto desço
minha língua até seu pescoço. Beijo seus seios, mordo, chupo, belisco. Amy geme meu nome, me
abraça forte, e me aperta com suas pernas.
Olho meu reflexo no espelho, meu rosto vermelho, suado, tranquilo. Vejo que era dela que
eu precisava, e ainda preciso.
Eu permiti isso acontecer, e agora não tem mais saída.
Nossos corpos se esbarram, esfregam, suam. Nossas bocas se beijam, devoram, sussurram
e gemem.
Eu só quero isso. Por enquanto não quero pensar em mais nada. Só preciso da Amy, e de
algo que só ela é capaz de me dar.
Sento na varanda, observando o movimento no lado de fora. Oliver escolheu um dos
melhores apartamentos. Óbvio, isso era de se esperar por sua extravagância. Lembro-me dele, de
como nos aproximamos nesses últimos meses. Nunca tinha ficado amigo do Oliver, mas agora nós
estamos. Agora, eu sei que posso contar com ele e vice-versa. Foram meses de descobertas e
mudanças.
Sinto a mão macia da Amy acariciar o meu ombro, e ela me entrega o copo de uísque,
sentando ao meu lado. Ela fica um bom tempo pensativa, olhando para a rua, balançando o corpo e
mordendo os lábios.
Seus belos olhos me encaram de repente.
— E o Jason? — pergunta, fazendo que minha promessa de não pensar em nada além de
nós dois se esvair.
— Não sei. Fui atrás dele, mas o perdi mais uma vez.
Cerro o maxilar.
Meus parceiros e eu fomos atrás daquele desgraçado. Não encontramos nada. Ele não para
por lugar algum. Sabe que a polícia anda atrás dele, então vaga de canto em canto.
— Você ainda vai continuar?
Assinto. Eu nunca iria deixar aquilo tudo passar assim.
— Dessa vez eu irei com você, James. — Sua convicção me faz virar de uma vez.
— Você não vai fazer isso, Amy.
Ela levanta, ficando de frente para mim.
— Não começa com essa mesma ladainha de que não posso desgraçar minha vida, que não
devo me enfiar nisso, que não vai adiantar. — Por Deus... — Eu quero trabalhar com você. — Passo
a mão pelo rosto me sentindo derrotado. — Quero ir atrás de miseráveis que não vão fazer falta no
mundo. Quero dar lições em bandidos, e ir atrás do Jason com você.
Seguro a sua mão e ela senta no meu colo.
— Você é maluca! — falo, e ela sorri.
— Eu quero fazer tudo isso ao seu lado. — seus olhos brilham e meu corpo reage.
Aperto sua cintura.
— Eu criei um monstro. — sorrio, levantando com ela nos meus braços.
— Criou um monstro que é louco por você, James. Alguém que se descobriu parecida
demais com o homem que ela ama.
Congelo ao ouvir suas palavras.
Amor. Algo que eu nunca tinha sentido por uma mulher, a não ser a minha mãe.
— Apenas me ame de volta, James. Isso é suficiente.
Empurro seu corpo contra a parede.
— Já faço isso desde a primeira vez.
Tomo sua boca de uma vez, sugando sua respiração e sentindo meu corpo ficar alvoroçado
com nosso contato.
— Minha garota. — Interrompo o beijo, esfregando minha ereção. — Eu morreria por
você.
Antes que ela possa responder, eu a beijo mais uma vez, parando e desabando em cima do
sofá.
Afasto os pensamentos sobre a nossa conversa e me concentro em dedicar meus próximos
dias somente a ela e nada mais, como se no mundo só houvesse nós dois e ninguém mais. Nenhuma
barreira, bandidos, sangue e mortes.
Epílogo

Cinco meses depois…

Amy

Desço do carro acompanhada por James, Tommy e Julian. A missão de hoje é acabar com
um esquema de tráfico de órgãos. O chefe da quadrilha é um médico renomado e respeitado, que
jamais levantou suspeita por ser influente, e protegido por pessoas poderosas. De hoje ele não
escapa. Até porque, ninguém sai impune quando é pego pelo James.
Entramos pela saída de emergência. Tudo parece calmo demais, com exceção dos homens
na portaria na frente, que não se deram conta da nossa invasão. Devagar, ando atrás do James,
enquanto ele, mira no homem de costas, parado na guarita. O disparo é abafado, e quando o outro
homem tenta revidar, Tommy acerta um tiro na sua cabeça.
— Vamos!
James ordena, abrindo a porta lateral.
Entramos, e fico assustada com o silêncio ensurdecedor do lugar. Parece que estamos em
um daqueles hospitais de filmes de terror, bem iluminado, moderno e limpo, mas calmo e silencioso
demais, a ponto de causar arrepios. Como é noite, acredito que não há muitos funcionários por aqui.
Aos poucos vamos descobrindo algumas dependências do lugar. No corredor, há quartos
com portas abertas, mostrando pacientes dormindo nas camas. Alguns sobrevivem com ajuda de
aparelhos, outros, com soro na veia. A maioria está pálida, sem vida, apenas entregue ao que vai
acontecer.
— Meu Deus!
Sussurro, sentindo um nó apertar minha garganta.
Quando chegamos na recepção, é que realmente começa a batalha. Homens apontam armas
em nossa direção.
O barulho parece mais calibrar minha energia. Somos atingidos por tiros vindos de todos
os lugares da entrada e dos andares superiores. Enquanto James atira em direção nos que estão em
cima, Tommy vai aos do seu lado, e eu descarrego minha arma nos que aparecem à minha frente.
Atiro com a mesma habilidade que adquiri com a Georgina, e também com o James depois que
voltei.
— Abaixa! — escuto o grito do James e faço o que ele manda, até que um estampido passa
por nós dois.
— Ah, merda!
Olho para cima e vejo um homem ruivo, de meia idade, correndo em direção à saída dos
fundos da emergência.
— Fiquem. Eu irei atrás dele. — aviso, enquanto eles concordam com um leve aceno de
cabeça.
Subo as escadas o mais rápido que posso, de dois em dois degraus, e corro até a porta de
onde o homem saiu. Chego ao estacionamento da parte de trás, e avisto o homem correndo, ainda
vestido com seu jaleco branco. Ele entra no carro, e eu fico na frente, com a arma apontada.
Ele me encara e acelera o carro. Saco a outra arma de dentro da bota, e aponto para o meu
alvo.
— Você não vai querer fazer isso. — falo como se ele fosse capaz de escutar.
O homem acelera o veículo na minha direção e eu começo os disparos. Quebro o vidro
dianteiro, e ele se abaixa, deixando o carro fazer um ziguezague no piso de concreto.
Mais três disparos, e acerto os pneus da frente. Acerto outro no vidro, que despedaça. O
homem ergue a cabeça e tenta desviar da bala que vai em sua direção, mas outro tiro — um certeiro
— atinge seu ombro, fazendo com que o carro bata na coluna.
Sorrio satisfeita e ando até ele.
O carro está completamente amassado na parte da frente, as luzes piscam e os vidros estão
quebrados. Abro a porta, e arranco o homem de dentro pelo colarinho. Sua testa está sangrando
graças a um corte do supercílio.
— O que quer comigo, piranha?
Com a força que tenho, arrasto o homem e jogo no chão. Vejo em seu rosto que ele é um
frouxo. Não vai reagir.
— Do que você me chamou? — pergunto enquanto guardo uma arma na bota.
— Piranha! — vocifera, e eu acerto um chute no seu nariz, fazendo-o gemer no chão.
— Merda! Sua vadia maluca! O que quer?
Outro chute, agora fazendo com que ele caia deitado.
— Recebi uma denúncia. — falo, e ele sorri em deboche.
— Você não é policial!
Piso no seu peito e aperto.
— Não. Mas eu te garanto que você iria torcer para que eu fosse uma.
— Desgraçada!
Pressiono meu pé com mais força.
— Recebemos um milhão para estourar os seus miolos.
Sua testa está suada, e ele parece surpreso com o que acabei de contar.
— Isso só pode ser coisa de concorrentes.
— Você mata pessoas saudáveis e moradores de rua para retirar os órgãos. Acha isso
normal?
Fico com a arma apontada para a sua cabeça.
— Você também acha normal o seu trabalho?
Assinto.
— Sim! E você não imagina o quanto gosto de fazer isso. — Agacho, aproximando a arma
da sua boca. — Quero saber para quem anda distribuindo os órgãos.
Ele tenta levantar e acertar minha mão, mas atinjo seu rosto com um soco.
Sorrio ao ver sua bochecha vermelha.
— Vá se foder!
Ergo o homem do chão e jogo novamente, fazendo suas costas levarem um baque forte.
— Quem?
Seus olhos estão arregalados, o suor e sangue escorrem pelo seu rosto, e me mostram que
não vai demorar muito para que ele me revele.
— Eu... Eu... — A respiração é pesada e sinto seus dedos, que seguram meu pulso,
tremendo. — Vendo para o exterior. — Sinto uma raiva dentro do peito. — É muito dinheiro. Você é
uma estúpida por tentar fazer papel de justiceira. Não sabe o que está atrapalhando.
Acerto seu rosto com mais um soco, e o sangue jorra na minha mão.
— Filho da puta!
Ele cospe, e a sua saliva atinge o canto do meu lábio.
— Você não sabe com quem está mexendo.
Ergo a arma e acerto uma coronhada, fazendo-o desmaiar.
Levanto, limpando meu rosto.
— Amy! — O grito do James me faz olhar para trás, percebendo seu olhar no homem caído
ao chão. — O que você fez? — pergunta, passando a mão pela minha cintura.
— Nada do que ele mereça.
Tommy olha na minha direção e sorri. Somos ainda mais próximos do que antes.
— Você não tem noção do que encontramos lá dentro.
James fala com sua voz cansada.
— Quinze quartos com pessoas sedadas, desacordadas, e na fila de espera de doação. Ele
já estava prestes a matá-las. Vai de crianças a idosos. É assustador.
Lembro de ter visto as outras pessoas esperando o mesmo fim.
Olho de volta para o homem e penso se devo acertar o meio da sua testa com uma bala,
mas isso jamais seria suficiente.
— Eu vou ligar para o John. O médico de merda… — Olha com repulsa para o homem —
Será pego em flagrante e vai apodrecer na cadeia.
Tommy e Julian recolhem o homem do chão e levam até a parte de dentro da clínica. Fico
sozinha com James.
— Então, o que faremos agora? — pergunto, guardando a arma no cós da calça e a outra na
bota.
— Vamos embora. John logo estará aqui, e não precisará mais da gente. — Concordo com
a cabeça, aproximando meu corpo do dele, sentindo sua mão passar pela minha cintura e apertar
forte. — Esse caos que você deixou no estacionamento está me deixando com tesão. — James deixa
as palavras saírem da sua boca em um tom irônico.
— Sexo em público parece tentador.
Sorrio, beijando seus lábios.
— Melhor irmos.
Sou interrompida e puxada para fora do lugar.
Chegamos em casa, e sento no sofá, me livrando das botas apertadas, enquanto James e os
outros guardam as malas. Há dois dias que estávamos fora. Tínhamos ido à outra missão em
Louisiana, para matar um chefe do narcotráfico. Uma missão tensa, mas que mais uma vez foi
resolvida.
Isso, essa vida, não era o que eu esperava para o meu futuro. Nada disso estava nos meus
planos. Só que a convivência com o James, a participação que eu tinha em tudo, e que passei a me
identificar, me fez mudar. Meu pai sabe sobre isso. Ele não aceitou de imediato, mas está
conformado. Sabe que eu gosto de sentir o sangue fervendo nas veias, além de poder fazer a minha
justiça. Pode não ser o emprego dos sonhos, mas assim, faço alguns filhos da puta pagarem pelos
seus crimes.
Afasto meus pensamentos quando James liga a tevê, mostrando a matéria no telejornal, que
fala sobre a prisão do médico Louis Preston.
“O homem comandava uma quadrilha de tráfico de órgãos, que contrabandeava para
países da Europa e da América do Sul. O médico confessou que há anos trabalhava no ramo,
pegando crianças e adultos moradores de rua. Ele tinha em torno de dez parceiros, que ajudavam
nos negócios. A polícia já está em busca dos outros meliantes. A estimativa é que o homem
acumulou uma fortuna de milhões com o trabalho sujo. Agora a justiça tomará conta desse
monstro ganancioso e sem escrúpulos. O que nos resta saber é quem conseguiu desarticular a
quadrilha, já que há anos a justiça tentava fazer o serviço, mas graças as influências, eram
interrompidos. Seriam justiceiros, ou novos heróis da vida real?”
Sorrio com a matéria, observando James parado, com as mãos nos bolsos da calça jeans.
— Contemplando o trabalho? — pergunta, e dou de ombros.
— Nada mal. Pelo menos dessa vez não nos ofenderam. — Levanto, andando até onde ele
está. — Acho que preciso de um bom banho. — Franzo o nariz, olhando com repulsa para minha
roupa suja.
— Farei questão de cuidar disto.
Sua mão passa pela minha cintura, apertando e acendendo todas as chamas do meu corpo.
Seus lábios roçam nos meus me deixando excitada.
— Nos poupem dessa cena pornográfica. — Salto para trás com o susto, sorrindo. Oliver
está parado atrás de mim. — Eu sou adepto ao voyeurismo, mas é meu irmão, porra. Isso não faz
sentido.
Gargalho com suas palavras.
— Onde você pensa que vai? — pergunto, olhando para a mala na sua mão.
— Respirar novos ares, e trepar em qualquer continente por aí.
Bufo, indo até ele e dando um abraço apertado.
— Tome cuidado. — peço, alisando seu rosto. — E juízo.
— Isso é a única coisa que eu não faço questão de ter.
Oliver brinca, fazendo meu coração sentir uma calmaria.
Amo esse cara!
— Bom, eu só estava esperando os dois chegarem. Estou indo, mas em breve voltarei para
alegrar os dias de vocês.
Ele vai até o irmão e o abraça, se despedindo rapidamente.
Depois que o Oliver sai, ando com o James até nosso quarto.
Agora sim teremos uma noite de sexo quente entre quatro paredes.
E eu me entrego, sem receios ou medos, porque agora estou ao lado do meu homem. Do
homem que desperta todos os sentimentos dentro do meu peito, e que me fará enfrentar qualquer coisa
para mantê-lo a salvo. Eu faria tudo por ele, inclusive pegar o miserável do Jason, para acabar de
vez com seus fantasmas do passado.
Nem que seja a última coisa que eu faça.
Table of Contents
Agradecimentos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Epílogo