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1ª.

Edição
2018
Hood Id 2017 Mari Sales
Todos os direitos reservados.
Criado no Brasil.
Capa: Gisele souza
Revisão: Bebel Lye
Diagramação Digital: Mari Sales
Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes,
personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da
autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera
coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a
reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios — tangível
ou intangível — sem o consentimento escrito da autora.
Criado no Brasil. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido
na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Sumário
Dedicatória
Sinopse
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Capítulo 54
Epílogo
FIM
Agradecimentos
Sobre a Autora
Outras Obras

Dedicatória

Essa história só existe por causa da insistência da amiga e
companheira de profissão Sabrina Lucas. Obrigada por nunca desistir de mim e
saber exatamente onde apertar os botões.
Sinopse

Sabrina é uma profissional da área de TI que está tentando sobreviver
aos trinta dias de férias repentinas do seu chefe setorial. Sua primeira atividade
será ajudar o mais novo CEO da empresa, que possui um sotaque irresistível e
olhos hipnotizantes.
Enrico Zanetti assumiu a posição de CEO de forma repentina, depois
que seu pai foi afastado por causa de um infarto. Em poucos dias de presidência
descobriu que a empresa possui um rombo em suas finanças, e agora está
disposto a encontrar o responsável a qualquer custo.
Com a ajuda do setor de TI, Enrico descobrirá não só o responsável
pelas falcatruas em sua empresa, mas também uma mulher competente,
destemida e que, aos poucos, despertará seus sentimentos mais profundos e nem
um pouco profissionais.
No meio dessa complexa investigação, Enrico e Sabrina descobrirão
afinidades, traição e amor.



Prólogo
Enrico Zanetti

Sabia que algo do tipo aconteceria mais cedo ou mais tarde. Meu pai,
que tanto me quis na presidência de sua empresa, agora conseguiu pela força das
circunstâncias. Já estava no Brasil há muito tempo para descobrir o quanto
Enrico, o homem que compartilhava não só meus genes, mas também o nome,
não se cuidava e abusava com soberba de tudo o que era viciante: bebidas,
tabaco e mulheres.
Ele havia infartado em sua casa, em uma noite nem um pouco coerente
para um homem de sua idade e posição. Uma de suas acompanhantes havia
ligado para mim perguntando o que deveria fazer com o homem caído quase
desfalecido no sofá.
Muitas vezes me perguntava o que minha mãe vira nesse homem, além
da beleza, para se relacionar. Ainda bem que há muito tempo eles se separaram
e, há outro tanto, não se falavam.
Também não entendia como meu pai conseguiu se casar mais duas
vezes e ainda por cima, engravidar uma delas. Se não gostava de
relacionamentos ou compromisso, por que firmar um?
Caspita, preferi eu mesmo ligar para a ambulância do que explicar
para aquela pessoa do outro lado do telefone que essa era uma emergência e que
em vez de gastar o dinheiro do meu pai com roupas, deveria gastar com estudo e
bom senso.
Nem um pouco entusiasmado em assumir a empresa que meu pai e seu
sócio mantinham, tive que deixar minhas tarefas de lado e arregaçar as mangas
para me inteirar da situação atual dela.
Enquanto meu pai trabalhava de manhã e “curtia a vida adoidado”
durante a noite, seu sócio Lauriano era obcecado pelo trabalho e por ganhar
dinheiro. Não sei como deram certo, esse era um mistério que eu não tinha
interesse em desvendar.
Supermercados Zanetti era uma rede de mercados famosa no estado e
nas cidades do interior. Com três estabelecimentos na capital e outros dez, cada
um em uma cidade interiorana, a empresa possuía credibilidade pelo tempo de
existência, faria vinte anos em poucas semanas. Havia uma sede oficial onde
ficava toda a parte administrativa e financeira.
A marca Zanetti sempre me interessou. O potencial dela era magnífico,
mas a forma arcaica que meu pai e seu sócio a dirigiam me desanimava a
presidi-la. Havia pouco investimento em tecnologia e muito desperdício de
recursos financeiros com propaganda impressa.
Depois de muita insistência por parte do meu progenitor, abandonei a
minha empresa de investimento em bolsa de valores para dar uma chance aos
Supermercados Zanetti. Mal sabia que em menos de dez dias, teria que assumir
completamente, já que a saúde do meu pai estava debilitada.
Como se não bastasse a enfermidade do meu pai, os pais de Lauriano
estavam a beira da morte, fazendo com que ele abandonasse repentinamente seu
posto, sem se importar com as consequências.
Enquanto assumia meu posto de CEO na empresa, me atualizava por
telefonemas sobre o estado atual do meu pai no hospital, através da enfermeira
contratada para acompanhá-lo enquanto estivesse internado. Nossa aproximação
não iria acontecer de forma tão simples, não seria sua enfermidade que me faria
perdoá-lo por suas atitudes com minha mãe e comigo.
Seria responsável apenas pelo patrimônio que minha mãe poderia
herdar e nada mais.
Havia cursado Administração na Itália e Economia no Brasil, então
com meus conhecimentos acadêmicos e por experiência própria, fiz o
levantamento de relatórios financeiros e qual não foi minha surpresa quando
descobri que a empresa estava com muitas dívidas, no negativo entre receitas e
despesas.
Depois de reuniões com os responsáveis administrativos e financeiros,
descobri que algo muito podre estava acontecendo debaixo dos narizes do meu
pai e de seu sócio: alguém estava roubando a empresa.
Tentei realizar uma auditoria própria, para isso chamei Alex, o
responsável de TI, para auditar todos os sistemas e operações realizadas na
empresa. Sabia que o sistema era desenvolvido internamente, não sabia o quanto
era restrito e o nível de segurança com as senhas de acesso. Porém, o homem
mais me enrolou do que me forneceu alguma coisa concreta. Não consegui
entender como Alex se mantinha efetivo na empresa com tão pouca assistência
que prestava para seus superiores.
Tratando-a como se fosse minha empresa, passei quase dia e noite
mergulhado em números, relatórios e estatísticas. Para quem tinha uma vida
pessoal movimentada com saídas todos os finais de semana, depois de quase um
mês eu estava quase surtando, porém focado em meu objetivo. Iria corrigir essa
empresa e mostrar para o meu pai o quanto seu filho bastardo era “mimado”,
como ele costumava dizer nas poucas vezes que nos vimos quando eu ainda
morava na Itália.
Em meio a minha determinação e orgulho, uma mulher de cabelos
presos, olhos curiosos e sorriso encantador cruzou meu caminho e me ajudou a
desvendar esse mistério ao mesmo tempo em que bagunçava o meu coração.
Capítulo 1

— TI, boa tarde.
— Ligação do senhor Zanetti para o senhor Alex. — mal abro a boca
para dizer que meu chefe Alex saiu de férias hoje, sem mais nem menos e a voz
do mais novo presidente da empresa soa ao meu ouvido.
— Alex, recebi novamente aquele e-mail com informações sobre a
empresa estar com o nome negativado, mas aperto na palavra e nada acontece.
Será que é vírus? Você não tinha arrumado isso? — diz enfurecido o todo
poderoso Enrico Giovanni Zanetti, CEO da empresa Supermercados Zanetti.
Não queria reparar, mas seu sotaque italiano me fez arrepiar. Não o
conheci pessoalmente, já que havia assumido o comando da empresa há pouco
tempo, além do mais Alex sempre me deixava de lado quando havia reuniões
setoriais. Sempre fui a segunda no comando no setor de TI, mas seu lado
arrogante só me permitia executar ordens.
— Bom dia, senhor Zanetti. — cumprimento-o animada e solicita,
empolgada para realizar minha primeira tarefa sem meu chefe me excluir. —
Alex saiu de férias hoje, mas posso ajudar no seu...
— Quem autorizou as férias do chefe do Departamento de TI? Até
ontem tínhamos ações combinadas a serem feitas. — indigna-se.
Caramba, sou a moça da TI, não uma vidente, meu lado irônico
responde na minha mente. Porém, minha boca responde:
— Não tenho essa informação, senhor, mas se estiver precisando...
— Quem está no lugar dele? É aquele rapaz de cabelo comprido e que
só veste roupa preta? Chame-o. — corta-me novamente, sem nenhuma paciência
ou educação. Entorto minha boca em uma careta, pensando que o CEO poderia
ser educado tanto quanto era charmoso com esse sotaque.
Decido por não responder e, assim, não prolongar a conversa
infrutífera. Estico meu braço para oferecer o telefone a Caio, o cabeludo que só
veste roupas pretas, nosso funcionário multiuso que nem implorando ficaria no
lugar de Alex.
Com o pouco de tempo a frente da empresa, senhor Zanetti – o filho –
era conhecido por ser acelerado, impiedoso e muito sério. Alex parecia ter a
confiança dele, uma vez que diariamente ligava para falar sobre nossos sistemas,
acesso e infraestrutura.
Para meu desgosto, meu chefe direto se mostrava muito prestativo. No
entanto, assim que o telefone era desligado, ele fazia careta, resmungava
obscenidades e fazia tudo de malgrado. Tentei oferecer auxílio, mas nunca me
deixou ajudá-lo, dizia que esse atendimento deveria ser feito apenas por pessoas
qualificadas como ele.
Idiota.
Estava acostumada com o machismo e preconceito do meu chefe desde
quando estagiei. Não lembrava quando foi o início de sua implicância comigo,
porque desde sempre me portei profissionalmente e muito fui competente.
Recusava-me a acreditar que tudo isso era por causa da minha postura e ele tinha
algum tipo de insegurança.
Para sobreviver, ignorava-o, já que havia muito a se aprender nessa
empresa, que tinha iniciado uma equipe de desenvolvimento interno, algo raro
quando se existia tantas empresas de desenvolvimento de software competentes
e com produtos excelentes. Além do mais, o salário era razoável e era
complementado com muitos outros benefícios.
— Quem é? — meu colega de trabalho e amigo pergunta com um
sussurro receoso.
Caio é o típico nerd, antissocial, introvertido e muito inteligente. Não
sai dessa sala e não conversa com ninguém a não ser por mensagens de texto.
Foi contratado pela velocidade que programa linhas de código e pela habilidade
em gerenciar uma rede de computadores de uma grande empresa como a
Supermercados Zanetti. A empresa tinha treze estabelecimentos, era próspera e
muito rentável, mesmo com toda essa crise financeira.
Até porque, ninguém ficava sem comer, não é mesmo?
— O todo poderoso. Atenda. — sibilo, tentando regular o volume da
minha voz para que meu interlocutor não escutasse. Chacoalho minha mão para
insistir que atenda, mesmo sabendo que era em vão.
Caio ficou mais de um mês sem falar comigo quando foi contratado.
Ele era muito tímido e seu jeito estranho me assustou no início. Depois que
comecei a pressioná-lo com mensagens pelo nosso comunicador interno, ele se
soltou. Falamos sobre todos os assuntos nerds e no final, quando falou pela
primeira vez comigo, disse que eu era digna de ter sua amizade.
Além de tudo, ele se achava o filho de Einstein. No final, o importante
era que tinha um bom coração e nunca me diminuiu perante os outros, como
nosso chefe gostava de fazer.
— Porra, não vou falar com ele. — Excêntrico, Caio se levanta e me
deixa sozinha com o telefone na mão. Os dois técnicos júniores também
observaram seu colega se levantar sem cerimônia. Seus olhos estavam
arregalados e o jovem Anderson estava com a boca aberta.
Maldita hora em que meu chefe saiu de férias. Coloco o telefone no
meu ouvido e enfrento a fera.
— Senhor, desculpe a demora, mas Caio, o rapaz que solicitou, acabou
de sair às pressas para o banheiro. — digo com humor mal contido e sorrio
vingada para meus dois acompanhantes.
Vitor, o outro técnico, tosse para esconder o riso enquanto Anderson
apenas se volta para os seus afazeres. Os três trabalhavam em uma ilha de mesas,
enquanto eu e meu chefe trabalhávamos em mesas individuais. Os servidores
ficavam separados por uma divisória metade vidrada.
— E quem é você? — sua entoação de voz muda suavemente. Apesar
de manter o tom de ordem, existia certa curiosidade.
Precisaria fazer um curso rápido de italiano, porque esse idioma me
fazia arrepiar completamente.
— Sou Sabrina, estou no lugar de Alex enquanto está ausente. Então,
quanto ao seu problema...
— Você não é a estagiária? — pergunta confuso e tento controlar
minha mente para não convergir essa pergunta para o lado pessoal.
Muitos achavam que eu era estagiária, pois era baixa, 1,60m de altura
e tinha rosto de menina. Além do fato de não ser homem, porque em algum lugar
no universo masculino, tecnologia e mulher não combinavam. Ou era só meu
chefe não perdendo a oportunidade de me rebaixar para o novo CEO. Não
duvidava de nada quando se tratava de Alex.
— Senhor Zanetti, deixei de ser estagiária há três anos.
— Oh, tudo bem. — escuto seu respirar profundo e fecho meus olhos
ao imaginá-lo fazendo isso perto de mim, dizendo essas palavras cheias de
sotaque ao pé do meu ouvidor. Controle-se, repreendo-me mentalmente. —
Preciso que resolva o problema desse e-mail, perco muito tempo analisando algo
que não preciso. Se for vírus, não deveria estar recebendo. Alex solicitou fundos
há duas semanas para instalar algo que resolvesse qualquer problema de
vulnerabilidade na rede. — voltou para seu tom impaciente na última frase.
Olho para o lado, vejo o servidor abandonado em cima da mesa do
meu chefe há dias e suspiro frustrada. Desde quando o equipamento chegou
estou cobrando sua implantação, o que já deveria ter sido feito, mas Alex nunca
levava em consideração nada do que eu falava. O filho da mãe saiu de férias, me
deixou com esse pepino na mão e sem antes me instruir. Eu não tinha domínio
sobre o assunto, mas junto com Caio, daríamos um jeito.
Sempre dávamos um jeito!
Custava deixar de ser egoísta? Para Alex, era um insulto imperdoável.
Por que eu aceitava tudo isso? Tentava lembrar minha motivação de vir trabalhar
e aguentar... Ah, certo, os benefícios.
— Sobre o servidor, precisarei verificar a documentação de Alex para
verificar como foi implantado ou o que falta ser feito. — Apesar de o meu chefe
ser idiota, não iria jogá-lo ao leão italiano. Tudo isso poderia voltar-se contra
mim. — Mas para não receber mais esse tipo de e-mail, posso usar uma solução
alternativa.
— Meu computador não pode servir de experiência para essa solução
alternativa. Sei o que vocês da informática fazem, a tal da gambiarra. —
continua bravo. — Não aceito esse tipo de solução. — Fecho os olhos e respiro
fundo para não responder algo de forma ríspida, uma vez que me ofendeu.
Não fazia gambiarra!
Tudo bem, fazia um pouco... Às vezes... Nas emergências...
Não queria fazer feio no meu primeiro dia chefiando meu setor, nunca
utilizaria o computador do dono para tais coisas, até porque, a pressa era dele,
não minha.
Então, com o coração cheio de boas intenções e postura profissional,
continuo falando com o CEO com a intenção de mostrar o quanto era
competente para estar naquela função.
Capítulo 2

— Senhor Zanetti, posso garantir ao senhor que tenho experiência
suficiente para que essa solução alternativa não se enquadre nas gambiarras.
Trabalho na Supermercados Zanetti há cinco anos e em nenhum momento a
empresa sofreu algum ataque virtual. — Queria ajudar, mas não aceitaria esse
desmerecimento gratuito, mesmo com sotaque irresistível.
— Não acredito! Você trabalha conosco há cinco anos? — questionou
surpreso e eu esperava do fundo do coração que não fosse pela minha
capacidade ou por ser mulher. O CEO da empresa era muito perspicaz e estava
fazendo várias reuniões com todos os setores e sobre funcionários, não estava
entendo o motivo de ele estar tão desinformado sobre mim.
As últimas três filiais abertas da empresa, praticamente fui sozinha
implantar o sistema, instruir os funcionários que iriam usá-lo e cabear toda a
estrutura. Não tinha medo de colocar a mão na massa se fosse economizar para a
empresa. Com alicate de climpar, passava os cabos de rede pelos conduites e
ligava-os no patch panel e switch. Tínhamos uma empresa que fazia esse serviço
para nós, por ser algo técnico e não tecnológico, mas irritava-me a falta de
cuidado que eles tinham, além da insubordinação comigo, como se não tivesse
informação técnica o suficiente para saber qualificar um serviço desses.
Amava minha profissão, mas odiava o preconceito com as mulheres.
Até parece que na faculdade não ensinava que o primeiro algoritmo a ser
processado por uma máquina foi feito por uma mulher, Ada Lovelace.
— Sim, desde o quinto semestre da minha faculdade de Ciência da
Computação. — respondo cansada. O pai desse homem tinha assinado meu
relatório de estágio supervisionado, tinha entregue uma cópia para o RH e ele
não sabia sobre a quantidade de tempo que eu trabalhava na empresa?
Por um lado, isso realmente me magoou, porque me dedicava para a
Supermercados Zanetti como se fosse minha, mesmo que meu colega de
trabalho fosse um pouco louco e meu chefe, um idiota.
O dono da empresa, mesmo que há pouco tempo no cargo, não saber
sobre mim mostrava que todos os meus esforços estavam sendo gastos à toa.
Enfim, às vezes achava que já tinha superado todos os tipos de idiotice
de Alex, mas mesmo não estando presente, ele aprontava.
— Estranho. Por que Alex nunca mencionou você na nossa reunião de
avaliação de desempenho? — há um tom perigoso em sua voz que faz meu
coração acelerar. Ele estava bravo comigo por causa do meu chefe? Esperava,
profundamente, que não.
Talvez seja porque uma mulher conseguiu ser melhor do que o cuzão
do meu chefe, meu pensamento cáustico tenta dominar minha boca, mas consigo
responder com cautela e ironia.
— Não tenho conhecimento sobre isso. O senhor deveria falar
diretamente com meu chefe o motivo dele esquecer uma funcionária — ironizo.
— Está tentando dizer como devo fazer meu trabalho? — exasperado,
o sotaque italiano ficou acentuado e me fez fraquejar. Não sabia qual era o
problema do meu corpo, já que minha cabeça sabia muito bem que além de
velho, ele parecia ser egocêntrico.
Nessas horas agradecia por não participar de reuniões com o CEO da
empresa, pois não saberia lidar com toda essa mescla de sentimentos que estava
sentindo. Uma hora me irritava, outra me excitava.
Imaginei-o de pé coordenando uma reunião, direcionando ordens e
cobrando resultados. Ele era inteligente o suficiente para que ninguém o
questionasse, só concordasse. Quão excitante isso não seria?
Assustada com a direção dos meus pensamentos, não controlo meu
tom de voz nervoso ao dizer:
— Por favor, senhor, me desculpe! Disse isso apenas como uma
observação, não tive a intenção...
A linha fica muda.
Desligou o telefone na minha cara! Merda! Dessa vez eu poderia ter
me afundado sem a ajuda de Alex.
Respiro fundo, solto um grito contido na garganta e envio uma
mensagem no celular de Caio, informando que não havia mais risco. Se algum
dia achei que Alex era idiota, me enganei, porque ele era um grande e enorme
verme!
Olho para os dois técnicos e os vejo focados em seus computadores.
Bom, eles sabiam o que era melhor para eles nesse momento de irritação minha.
Com uma caneca de petrolão, vulgo café, na mão, o safado do meu
colega nem conteve o sorriso quando me viu bufar.
— Você sabe, se não fosse pelo plano de saúde e vale refeição, eu
estaria longe daqui — digo amarga. — Ser masoquista cansa.
— Achei que eu era a única motivação para você ficar aqui — diz
magoado ao sentar na sua cadeira muito confortável.
Esquecia o quanto era sensível e não percebia o sarcasmo nas minhas
falas. Caio possuía todos os requisitos de nerd preenchido.
— Sim, dinheiro não valeria nada se não fosse sua companhia diária e
suas observações espirituosas. — Sorrio na tentativa de conter os danos. Caio
enrubesce e volta sua atenção para o computador.
Acreditava que essa vergonha fosse com as mulheres em geral e não
apenas comigo. Não havia nada que me atraísse nele, apesar de seus gostos
serem muito semelhantes aos meus. Era um bom amigo, aguentava-me reclamar
e levantava minha moral sempre que me sentia incapaz.
Olho para o relógio e vejo que não passava das quinze horas. A tarde
seria longa, já que ficaria de plantão os trinta dias de férias de Alex, um dos ônus
da empresa era se recusar a pagar horas extras para funcionários que não
possuíam cargo de confiança. Isso queria dizer que até as vinte e duas horas,
estaria confinada nesta sala cheia de computadores, bits, bytes e metal, muito
metal.
— O pessoal vai jogar um pouco de RPG on-line hoje — Caio
convida. — Bora pessoal?
— Estou dentro — Anderson concordou.
— Assim que sair daqui também vou — Vitor também concorda.
— Trinta dias de plantão, meu amigo, sem folga no sábado e domingo,
esqueceu? — Sem tirar meus olhos do meu monitor, começo a verificação de um
incidente alertado pelo meu sistema gerenciador da rede interna. O computador
SZ0005 está em risco.
Quando clico com o botão em cima do ícone para saber de quem é o
equipamento, o telefone toca.
— TI, boa tarde. — atendo e apoio o telefone no meu ombro, sem
interromper o que estava fazendo na minha área de trabalho.
— Estou tentando trabalhar e alguém está me bloqueando, não consigo
fazer mais nada no meu computador, está tudo travado! Ligue para Alex agora,
acabe com as férias dele. — esbraveja o CEO. Ele realmente deveria estar
furioso e com problemas de continuar o seu serviço, pois fez uma ligação direta
e seu tom beirava o antiprofissional.
— Hoje não é meu dia... — reclamo baixo, suspirando profundamente
e contando até dez ao mesmo tempo em que identifico que o computador
ameaçado é justamente o do senhor Enrico Zanetti. Que maravilha!
Tudo isso porque o preguiçoso e egoísta do meu chefe não deixou que
fizesse o serviço no servidor novo.
— O que você disse?
Suas palavras atingiram diretamente meu baixo ventre, seu tom
zangado e impaciente era um afrodisíaco. Poderia um homem tão nervoso e
impaciente parecer atraente? Acho que eu estava ficando louca.
— Poderia fazer tudo por acesso remoto, mas como o senhor está com
pressa, não acredito ser a melhor opção. Por favor, aguarde que em menos de
cinco minutos estarei na sua sala para resolvermos isso da melhor forma
possível. — impiedosa e sem pensar nas consequências, desligo o telefone na
cara do dono da empresa, bloqueio a minha máquina e levanto da mesa
determinada.
— Caralho, mulher, você vai lá? — Caio pergunta nervoso. Senhor
Zanetti era temido quando estava de bom humor, imagine impaciente e irritado.
Mas como cara feita e voz alta nunca me intimidaram, estava confiante.
— Vou. Por quê? Você quer ir no meu lugar? — Nega minha pergunta
retórica com a cabeça. — Não se preocupe, mostrarei a ele com quantos peitos
se faz uma profissional de TI.
Pego meu crachá em cima da mesa, coloco no pescoço e sigo pelas
escadas do edifício. Estávamos no subsolo e senhor Zanetti estava no quarto e
último andar. Antigamente, senhor Torres também estava lá, mas, assim como o
senhor Zanetti pai, agora estava ausente.
Quando a empresa foi assombrada pela notícia de que os dois sócios
estavam ausentes e que ninguém assumiria as rédeas, muitos comentavam que
seríamos demitidos em massa, não pagariam nossos direitos trabalhistas e todo
esse terrorismo. Um dia depois, senhor Zanetti – o filho – apareceu e colocou um
fim nessa rádio pião com muitas reuniões e exigências.
Enquanto subia as escadas, arrumava meu cabelo levemente loiro
preso em um rabo de cavalo. Ajeitei minha blusa na cintura, para cobrir um
pouco da minha calça jeans escura e o decote, que era levemente solto. De cara
limpa e o coração cheio de boas intenções, subi com passos firmes e
determinados até o homem que precisava da ajuda da TI.
Só esperava que meus sentimentos indevidos pelo meu CEO não
aflorassem no momento errado.
Capítulo 3

— Espere, senhorita. Você precisa ser anunciada antes. — Toda
engomada e impecável, a secretária do senhor Zanetti, senhorita Mirela, barra
minha entrada com um aperto forte da sua mão em meu braço.
Loira, linda e escultural, todos falavam dela, de sua beleza e
capacidade, inclusive que fazia trabalhos extras e nada profissionais com o dono
da Supermercados Zanetti. Bem, não me importava com nada disso, quem era eu
para julga-la?
O andar possuía uma grande recepção com sofás e mesas de centro. Na
frente de um grande corredor, havia uma mesa que tampava quase toda a
passagem. Isso queria dizer que, para seguir até a sala do todo poderoso e o
sócio, era necessário passar pela sua secretária, mais conhecida como ‘leão de
chácara’.
Olho para a porta, depois para sua mão e franzo a testa. Merda, essa
mulher fazia musculação? Estou identificada com o crachá, nunca precisei de
tanta cerimônia para entrar em uma sala.
Lembro que todos os atendimentos para a diretoria, quem fazia era
meu chefe Alex. Como essa foi sua primeira vez a ficar trinta dias ausente e,
pelo jeito, não avisou a ninguém, eu estava assumindo suas tarefas diárias. Pelo
visto, por aqui era tudo muito burocratizado.
Sem cerimônia, empurrou-me até a frente de sua mesa, sentou-me na
cadeira e me olhou com ar de desafio.
— Nome e setor. — ordenou.
— Sabrina, setor de TI. — controlei a rispidez na minha voz.
Pegou o telefone e sem desviar sua atenção de mim, falou com nosso
patrão.
— Senhor Zanetti, a senhorita Sabrina do setor de TI está aqui e
gostaria de entrar. Devo autorizar sua passagem? — completamente profissional,
o leão de chácara apenas disfarçou sua insatisfação, presente em sua voz, em me
ver.
Não autorize minha entrada e deixe seu chefe enlouquecido por causa
de um e-mail, penso irritada, apenas porque na minha cabeça poderia responder
do jeito que quisesse.
Cerrando meus olhos e fazendo minha cara mais ameaçadora, cruzo
meus braços e imagino o que faria com ela se eu fosse uma mestra gedi. Ela
poderia ser forte, mas eu teria o poder da mente a meu favor.
— Por favor, me acompanhe. — Desliga o telefone, se levanta e me
guia até a sala do homem com o sotaque mais irresistível.
Dois toques suaves na porta, senhorita Mirela abre e levemente me
empurra. Estava confiante até que o ver me deixou completamente... atraída.
Não bastava seu sotaque italiano mexer com minhas entranhas, agora sua
aparência também.
Já o havia visto antes, de longe, em fotos, estagnado, mas agora, em
seu local de trabalho, completamente absorto nos papéis em suas mãos e na
ligação em seu telefone celular, tornei-me inexplicavelmente fascinada por sua
postura rígida e presença dominante.
Assumia, nesse momento, que tinha uma fraqueza e essa era: homens
influentes, dominantes e competentes em suas áreas de trabalho, assim como ele,
senhor Zanetti.
Ninguém precisava apresentá-lo como chefe, porque tudo nele
demonstrava poder. Seu relógio grande, sofisticado e prateado mostrava
claramente que tinha muito dinheiro. Seu corte de cabelo volumoso, penteado
para trás e sem nenhum fio de cabelo solto, sua barba rala e devidamente
aparada indicavam que cuidava da sua aparência tanto quanto da empresa.
Senhor Zanetti ainda não notou a minha presença, estava escutando
alguma coisa que não o agradava pelo telefone, pois seu semblante denota
irritação. Será que tinha a mesma reação ao falar comigo?
Dou um passo a frente e nossos olhares se encontram, fazendo-me
parar meu progresso em sua direção. Ele me observa de uma maneira diferente,
avaliando, esperando meu próximo movimento. Não sei explicar, mas algo nesse
homem me faz querer desafiá-lo. Não faço nenhum movimento, coloco meus
braços para trás, levanto uma sobrancelha e o aguardo finalizar sua ligação.
Estou intimidada e também atraída para trabalhar com uma pessoa assim.
Não demora muito para sua voz rouca e irritada soar:
— Quero todas essas informações no meu e-mail agora. — ordena e
desliga o telefone, sem desviar seus olhos dos meus. Sua impaciência não sumiu
de suas feições e parecia direcionada a mim.
Um momento de um constrangedor silêncio aconteceu antes dele
levantar uma sobrancelha com uma pergunta soturna, o que eu queria parada
daquele jeito.
Recobro meus sentidos, respiro fundo e desvio meu olhar para seu
equipamento computacional, que era um notebook grande, porém muito fino, um
dos mais modernos da empresa. Meus olhos brilharam e meu lado nerd vibrou
ao constar que estarei manuseando tal máquina.
— Sou Sabrina do setor de TI, estou no lugar de Alex. Falamos a
pouco sobre seu e-mail e um possível risco de vírus. Vim resolver o problema.
— Ignoro seu escrutínio e sigo em direção ao lado da sua mesa, onde estava o
notebook aberto.
Sem cerimônia, inclino meu corpo, coloco minha mão no seu mouse
sem fio e o olho de lado.
— Posso? — Peguei-o olhando para o meu modesto decote, mas que
nesta posição estava destacado. Abaixei meu olhar para minha blusa, constei que
não revelava nada demais e voltei a fitá-lo, dessa vez, seus olhos estavam nos
meus com um brilho diferente, intenso.
Meu estômago encheu-se de fadas arruaceiras, causando um leve rubor
na minha face. Sempre mantive minha postura indiferente a determinados
olhares, já que muitos acreditavam que na informática só havia mulheres feias e
eu não era de se jogar fora, com seios fartos, quadris padrão e coxas levemente
grossas. Minhas curvas eram acentuadas e meu rosto era delicado, de menina,
um dos meus maiores problemas quanto a acreditarem que tinha vinte e quatro
anos e não dezoito.
— Sente-se numa das cadeiras. — Enrico ordenou com traços de
rouquidão. Não conseguia mais vê-lo como senhor, sem intimidade, pelo menos
não na minha mente poluída de luxúria.
Seria desejo? Não sabia, mas meu corpo interpretou assim, porque
meu ventre se contraiu. Para disfarçar meu leve desconforto, resolvi obedecê-lo.
Antes que me sentasse, falou novamente:
— Traga a cadeira aqui, quero acompanhar o que você fará no meu
notebook. — Sentado de forma relaxada e empurrando a cadeira suavemente
para o lado, o olhar que me deu não ajudou em nada a recuperar minha postura
profissional.
Se a fofoca era verdade, sobre o relacionamento não oficial do CEO
em exercício com a secretária, entendia completamente o que a senhorita Mirela
sentia e não a julgava. Se não fosse pelo meu orgulho e convicções pessoais, até
eu faria trabalho extra.
Controle-se, repreendo-me. Já não bastava me julgarem por ser uma
mulher na TI, agora seria julgada por dormir com o dono da empresa. Onde
estaria minha dignidade? E minha competência?
Com um suspiro baixo, trago a cadeira para o outro lado da mesa, ao
lado dele e me sento preparada para resolver a ocorrência do computador e sem
nenhum preparo para a ameaça que estava ao meu lado, quase que fungando no
meu pescoço.
Enrico havia se inclinado para frente, perto de mim, observando como
um falcão minhas ações no seu equipamento.
Faço um barulho na minha garganta, ajeito-me na cadeira e começo a
narrar minhas ações. Já que queria acompanhar, não faria nada sem que ele
soubesse antes.
— Esse é o e-mail que você... — corrijo-me rapidamente — que o
senhor abriu. Quando coloca o mouse em cima da palavra que está sublinhada e
em azul, aqui embaixo — aponto para o local com minha outra mão —
aparecerá o endereço que ele te encaminhará. Percebe que é um endereço
suspeito, sem “.com.br” e sem nenhuma referência a empresa que te enviou o e-
mail? — Viro meu rosto para ele e percebo seu olhar em mim.
Engulo a saliva e parece que desce rasgando minha garganta. Enrico
está completamente me secando, não chegando a me deixar desconfortável,
apenas envergonhada. Era um olhar avaliativo e arrisco a dizer que era até
admirado.
Céus, isso era real? Estava despertando o interesse do dono da
empresa? O desejo desse homem lindo e imponente?

Capítulo 4

Com uma respiração profunda e disfarçada, decido voltar minha
atenção para a tela à minha frente, ignoro as reações do meu corpo e continuo:
— Não sei qual foi o outro e-mail que recebeu, mas quando algo assim
surgir, faça essa análise antes de clicar no link. Se for suspeito, apenas exclua
desta forma. — Faço a exclusão e vou até o canto inferior direito da tela com o
mouse. — Vou criar uma regra na ferramenta de e-mail para enviar para lixeira
este tipo de correspondência. E... Apenas por desencargo de consciência, vou
abrir o programa de antivírus e coloca-lo para avaliar e analisar seu disco rígido.
— Hum... — murmura de forma insinuante, fecho meus olhos para
não pensar nas coisas que “rígido” poderia me lembrar e que provavelmente o
lembraram.
Merda! Não adiantou nada, pensei em tudo e sendo dele! Seus braços
me envolvendo, suas mãos me segurando pelo quadril, seu corpo empurrando-
me contra a parede, seu membro provocando meu sexo...
Senti meu rosto esquentar e novamente mexo-me na cadeira para
encontrar o meu juízo que parecia ter me abandonado. Custava dizer apenas
HD?
— Essa parte demora um pouco. Precisará utilizar sua máquina
enquanto isso ou poderá esperar concluir? — pergunto sem olhá-lo e fico
clicando com o mouse, abrindo e fechando programas, apenas para não cometer
uma loucura.
Tinha certeza que babaria se o olhasse novamente. Por que esse
homem intimidava, provocava e comandava, com agilidade? Tudo isso eram
atributos que eu valorizava em uma pessoa, principalmente em um homem.
— Quanto tempo?
Não tive a oportunidade para responder, pois o seu celular tocou. Ele
se levanta rapidamente da cadeira e seguiu para o canto mais afastado da sala,
onde uma grande janela com as persianas levantadas estava. Acredito que seja
para eu não escutar a conversa.
Solto a respiração que não sabia que estava presa e me acomodo mais
tranquilamente na cadeira, quase que esparramada. Olho para o lado e o vejo de
costas, uma mão no bolso do seu impecável terno e a outra segurando o aparelho
com tensão. Eram sussurros alterados, quase ríspidos.
Com minha imaginação fértil e nem um pouco preguiçosa, vi-me
levantando, envolvendo meus braços por trás e apoiando minha cabeça em suas
costas, numa tentativa de acalmá-lo. Parecia sempre tenso, em alerta, acreditava
que precisava de um momento de descanso.
Relaxe, homem!
Abruptamente ele vira a cabeça para trás e eu me endireito
rapidamente na cadeira, voltando a minha posição anterior. Pega no flagra, finjo
estar completamente compenetrada na minha tarefa de esperar o antivírus fazer
sua magia. Ainda bem que seu notebook era muito moderno e contava com um
HD SSD, que queria dizer que gravar e recuperar informações era muito mais
rápido que no HD convencional, inclusive uma varredura de antivírus.
Pela minha visão periférica vi Enrico sentar e trazer sua cadeira
novamente quase colada a minha. Seu corpo estava bem próximo ao meu e sua
respiração atingia meu pescoço, que estava exposto por causa do cabelo preso
em um rabo de cavalo.
Sua face não expressava nenhuma emoção diferente de seriedade e
frustração. Era completamente profissional e minha mente pecaminosa queria
saber se essa postura era em todas as áreas da sua vida.
— Por que você acha que devo relaxar? — com um sussurro e muita
tranquilidade, Enrico me questiona sem mudar sua expressão facial e me faz
fechar os olhos por vergonha.
Caramba, havia pensado alto!
Tentando não demonstrar o quanto me afetava, dei de ombros e o olhei
de lado. Estava nervosa e com o coração acelerado.
— Foi apenas um pensamento alto. Já que falei com você por telefone
duas vezes e nas duas e em todos esses telefonemas você pareceu soltar fogo
pelas ventas. — comecei a divagar e não parei. Tinha um problema e era de falar
pelos cotovelos quando estava desconfortável com a situação. — Por mais que
os assuntos sejam aborrecidos, é importante tratar com tranquilidade para não ser
influenciado pelos seus sentimentos à flor da pele. Minha mãe sempre diz que
não podemos fazer nada de cabeça quente e muito menos demonstrar nossas
emoções, que isso pode... — sou interrompida com um dedo nos meus lábios e
um olhar divertido.
Enrico tinha esses olhos castanhos que me lembravam a areia da
praia, chocolate quente e...
— Acho que já acabou. — como uma carícia na minha pele, sua voz
me faz arrepiar. Indica a tela do notebook com o olhar, afasta sua cadeira e
levanta, sem nenhum propósito. Volta para o mesmo canto que ficou ao telefone
anteriormente, de costas para mim e desta vez, com as duas mãos escondidas nos
bolsos da calça e seu olhar perdido no horizonte.
O que acabou de acontecer entre nós? Só poderia ser coisa da minha
cabeça, deveria parar de alimentar minha imaginação.
Com a intenção de fugir dessa situação nem um pouco típica, confiro
por linhas de código se o vírus ainda existe e assim que constatei que não, fechei
todos os programas, reiniciei o notebook e me levantei rapidamente.
— Concluí tudo o que precisava fazer no seu equipamento. Nada foi
danificado ou violado. Qualquer coisa, não hesite em me chamar. Até mais! —
anunciei minha saída e a conclusão do serviço.
Enrico não fez nenhum movimento ou se despediu de mim,
completamente absorto no que quer que passava em sua mente. Porém, diferente
do início de nossa interação, sua expressão facial era pensativa. Todo o
nervosismo e tensão havia sumido, sendo substituídos por um leve relaxamento.
Será que ele está pensando nas minhas palavras?
Eu o afetava tanto quanto ele me afetava?
Iludida, saio de sua sala e passo pela senhorita Mirela sem me
despedir. Ela também não pareceu reconhecer minha saída e não desviou a
atenção de sua tarefa no computador.
Descendo as escadas, refaço meu rabo de cavalo e penso em tudo o
que acabou de acontecer. O novo CEO da empresa parecia muito sério, mas com
sutileza deu indícios que queria se aproximar de mim. Ou será que tudo foi uma
ilusão da minha cabeça?
As pessoas querem acompanhar o que fazemos em seu computador,
ficar do lado, quase colado no meu pescoço era nada mais que uma posição
coincidente de sedução.
Precisava de férias ou de um pouco de consolo, estava sendo
controlada e dominada pelos meus hormônios e instintos primitivos. Um homem
bonito nunca tinha me afetado tanto. Era algo diferente, uma atração que ia
muito mais da aparência, muito além do seu olhar.
Meu último namoro durou apenas três meses, o suficiente para que
meu companheiro conseguisse que eu abrisse as pernas durante uma semana e
depois me dispensou. Camilo não era nada parecido com Enrico, era divertido,
descontraído e tinha cara de menino tanto quanto eu tinha de menina.
Lembro que resolvi dar uma chance para nós dois, uma vez que nunca
havia namorado e meus irmãos tinham mania de espantar todo e qualquer
pretendente. Então, quando eles começaram a trabalhar e não tiveram mais
tempo de infernizar a irmãzinha aqui, consegui um pouco de liberdade.
Bem, com Camilo eu preferia que eles continuassem a assediar, porque
evitaria todo o drama que sofri com nossa separação. Não era apaixonada, mas
me sentia uma fracassada no quesito mulher. Ele foi meu primeiro homem,
tínhamos vinte e um anos e muita energia.
Céus, faria três anos que estava solteira? Fazia tanto tempo assim sem
ter contato íntimo?
Não, houve outros homens que beijei, mas nenhum valeu a pena
investir para ter relações sexuais. Pelo menos até conhecer Enrico.
Ele estava fora do meu alcance, apesar da minha mulher interna dizer
que eu podia tudo e qualquer coisa.
Era isso, minha interminável seca de homens estava me deixando
interessada pelo homem que menos deveria me atrair, o todo poderoso CEO da
Supermercados Zanetti.
Nesse dia, fui para casa cheia de pensamentos impróprios e sonhei
com todo o poder de fogo que Enrico poderia me oferecer dentro de quatro
paredes.
Capítulo 5

— TI, bom dia. — Era o primeiro telefonema do dia. Nem havia
passado cinco minutos que sentei minha bunda na cadeira, o aparelho de tortura
auricular soou.
Como sempre, Caio estava atrasado. Pontualidade não fazia parte das
suas múltiplas habilidades tecnológicas e as broncas sobre isso nunca o
incomodaram, já que nunca foram descontados de seu salário. Já os outros dois
programadores estavam pontualmente acomodados em suas estações de trabalho,
focados em suas atividades.
Éramos cinco no setor de TI, Alex era o chefe, Caio era o arquiteto,
analista e responsável pela infraestrutura; Anderson e Vitor eram focados
unicamente na programação e atendimento não urgentes.
Minha parte cabia de tudo um pouco, porque desde que entrei para
empresa, me disponibilizei a aprender e fazer tudo. Também estava focada no
atendimento in loco e nas filiais.
Diferente dos outros, precisava sempre ser pontual, pois Alex fazia
questão de descontar meus atrasos e me recriminar. Porém, horas-extras eram
apenas investimentos de minha parte para crescer profissionalmente, ou seja, não
me pagava.
Sim, meu chefe era um grande idiota.
— Ligação do senhor Zanetti para a senhorita Sabrina. —
reconhecendo a voz do leão de chácara, respiro profundamente e aguardo o
italiano que abalou meu dia anterior e, pelo jeito, iria abalar hoje novamente.
Fui para casa de ônibus, como sempre e minha mente estava nesse
homem. Quando cheguei à minha casa, não consegui jantar, meu estômago
estava alterado e meu corpo incomodado. Revoltada comigo mesma, peguei o
pior livro da minha biblioteca de e-books do meu e-reader para tentar dormir na
marra.
Não sei se foi uma boa opção, porque os sonhos que tive só
aumentaram minha ânsia por esse italiano.
— Senhorita Sabrina — cumprimenta-me cordialmente, preciso e sem
nenhum resquício de impaciência. Porém, seu sotaque era inconfundível e me
deixava suspirando. — Preciso que veja o motivo da internet estar tão lenta.
Apesar da minha atração, era impossível não revirar meus olhos,
porque para os usuários, tudo era motivo da internet estar lenta.
Abro o programa que gerencia o tráfego na rede, apenas para atestar
que tudo estava normal enquanto falo:
— Bom dia, Senhor Zanetti. A princípio não há nenhum problema de
tráfego na internet ou na nossa rede interna. Qual operação o senhor está
realizando que constatou a lentidão?
— Estou tentando anexar um arquivo no meu e-mail, mas está
demorando muito. Não deveria ser automático? — Engraçado como sua
paciência vai diminuindo conforme vai dizendo seu problema. Porém, o desejo
que sua voz desperta em mim é completamente irracional. Como conseguirei
trabalhar vinte e nove dias com esse homem alimentando meu monstrinho da
luxúria?
Olho para minha tela, foco nos ícones e números para responder com
profissionalismo.
— Para os e-mails públicos, todos estão sujeitos às regras e banda do
operador. Para nosso e-mail corporativo, tudo deveria ser muito rápido, já que
nossa rede é Gigabit. Qual e-mail o senhor está utilizando?
— Não é tudo a mesma coisa? — sua voz continua com tom de
irritação. Dez a zero para a paciência de Enrico.
Sorrio e explico como as coisas funcionam com o mínimo de termos
técnicos.
— A rede é uma via de mão dupla. A velocidade da ida nem sempre é
a mesma da volta. O e-mail corporativo há uma grande vantagem sobre os e-
mails públicos, uma vez que eles possuem restrição de banda. Então...
— Sabrina, preciso anexar um arquivo no e-mail e não estou
conseguindo. — corta-me sem nenhuma piedade e fecho os olhos para controlar
o meu temperamento. Mesmo que meu baixo ventre estivesse vibrando com sua
voz, minha cabeça estava clamando por uma discussão.
Sabia que Enrico não tolerava falhas e procrastinação do serviço sem
comentários críticos. Estava sendo educada, paciente, mas ele queria curto e
grosso, que assim fosse.
— Cancele a operação e faça novamente — resumi.
— Vou ter que esperar todo o tempo novamente? Preciso que você
resolva o problema da internet para que o anexo vá ao e-mail!
Olho fixo para a porta da sala, descobrindo o que responderia quando
ela é aberta.
“Somos todos usuários” era a frase que estava estampada na camiseta
preta de Caio. Fico momentaneamente calada, uma vez que não fazia sentido
nenhum um nerd egocêntrico, que se achava o Einstein da informática, com uma
camiseta dessas, rebaixando-o para um mero usuário.
Escuto as risadas baixas de Anderson e Vitor e não consigo não revirar
meus olhos.
— Sabrina? — chama-me impaciente o todo poderoso da voz rude e
sotaque libidinoso. Não poderia ter nada com ele, pois faria muitas coisas
travessas apenas para escutá-lo me chamar assim.
Será que eu tinha algum problema? Enquanto algumas mulheres
gostavam de flores, vozes sussurradas e conversa melosa, eu curtia inteligência,
determinação e ordem. Gostava de ser mandada, apenas para poder desobedecer
e desafiar.
Ele poderia ser muita areia para meu caminhão, mas nada me impedia
de sonhar, mesmo que acordada.
— Senhor, estarei na sua sala em poucos minutos para ajudá-lo com
isso. — disse o que mais temia quando cheguei à empresa, depois de quase
quarenta minutos no ônibus.
— Tenho urgência. — despede-se com uma ordem.
Também tinha pressa para vê-lo, senti-lo e aquecê-lo. Se fosse íntima
dele, atrasaria o tanto quanto fosse possível apenas para fazê-lo descer as
escadas e vir me ver.
Mas nenhum chefe sairia de sua sala em busca de um funcionário, ele
sempre tinha tudo em suas mãos, na hora que quisesse, quando quisesse.
Solto o ar dos meus pulmões de forma audível, para ver se, assim
como o ar, esses pensamentos também se afastassem de mim. Sabia que pensar
não faria nenhum mal, mas poderia me iludir de algo que não existia.
Afasto-me da minha mesa com um empurrão e me levanto.
— Não vai parar na sua mesa hoje? — pergunta Caio, se acomodando
em sua estação de trabalho.
— Talvez sim, talvez não, quem sabe? Trabalhar na TI é uma caixinha
de Caios, surpresa. — rio da minha troca de palavras na frase.
Anderson cospe seu café por causa do riso e Vitor apenas balança a
cabeça com um sorriso no rosto.
— Nunca é monótono trabalhar nessa empresa. — Anderson diz
olhando para mim.
— Não mesmo. — concordo, porém com mais sentidos implícitos que
apenas o que acabou de ocorrer.
Sigo para o andar do meu CEO, com vontade de contar degraus, meu
lado desafiador querendo retardar ao máximo minha chegada a sua sala, mas não
queria testar a fera logo no meu segundo dia de suporte.
“Meu CEO”, rio dessas palavras. A posse era apenas nos meus sonhos
mais intensos e cheios de desejos.
Ajeito minha roupa, refaço meu rabo de cavalo e penso que deveria
começar a usar um pouco de maquiagem. Ou pelo menos um batom, já que
estava como chefe e minhas roupas simples de escritório poderiam não me trazer
tanto crédito.
Antes de pisar no último degrau da escada, para alcançar a porta que
daria acesso ao hall de entrada do andar, olho para baixo, para minhas vestes e
faço uma anotação mental para melhorar minhas opções de roupa de trabalho,
mesmo que não tivesse tantas condições financeiras para tanto.
Precisava me portar como chefe, não tinha nada a ver com querer
parecer mais atraente para um certo CEO.
Capítulo 6

Como da outra vez, subo os degraus ao mesmo tempo que arrumo meu
visual, meu rabo de cavalo e minha blusa, que era do mesmo modelo da que usei
ontem. Paro na frente da impecável Mirela e observo sua classe ao trabalhar.
Poderia ser confundida com uma CEO, mas era apenas a secretária de um.
Ela era uma bruta, mas poderia me espelhar um pouco em sua forma
de vestir.
— Pois não? — despeja desdém em seu cumprimento.
Minha vontade era responder, há algo para se fazer nesse andar além
de falar com Enrico? O sócio dele não estava na empresa, então, só restava um
CEO.
Porém, como sou muito educada e profissional, respondo sem
demostrar emoção:
— Estou aqui para auxiliar o Senhor Zanetti em um problema de
tecnologia.
— Seu nome e setor?
Sorrio com desprezo, sabendo que ela não se esqueceu de mim, vim
aqui ontem. Ou ela poderia muito bem olhar para o meu crachá e ler.
— Sabrina da TI.
Liga para Enrico, que autoriza minha entrada. Como da outra vez, me
acompanha, abre a porta e me empurra levemente para entrar.
Viro meu rosto para uma porta se fechando e prometo a mim mesma
vingar-me desta mulher. Nunca fiz nada para ela, não havia motivo para me
tratar assim. A não ser que fosse com todo mundo.
— Algo errado? — Enrico pergunta sentado em sua mesa com um
misto de preocupação e curiosidade.
Voltando minha atenção e foco para o problema atual, sigo até sua
mesa e paro ao seu lado. Estava impecável como ontem, seu terno azul marinho,
sua camisa branca e sua gravata azul escuro, com riscos vermelho-escuro,
deixavam-no completamente elegante e irresistível.
Tento desviar meus olhos dos seus e vejo o seu cabelo bem penteado e
rosto com uma barba levemente por fazer. Tudo isso completavam o figurino do
homem poderoso e maravilhoso que era.
Ninguém poderia negar nada a ele em uma reunião, porque o homem
sabia se vestir tanto quanto sabia argumentar. Ou apenas mandar, Enrico tinha
pulso firme.
Se fosse meu homem, com toda essa preocupação na voz, sentaria no
seu colo e puxaria seus cabelos para um beijo acalorado e sensual. Iria mostrar
nesse ato o quanto me agradava sua preocupação e entre nossos beijos,
informaria que sua secretária era uma esnobe.
Como é meu chefe, apenas sigo como a menina da TI que sou.
— Posso utilizar seu notebook? — peço autorização para manusear
seu equipamento com meu corpo levemente inclinado para ele. Penso na palavra
“equipamento” e logo meus olhos seguem para seu colo.
Nem um pouco recatada, minha mente imagina minha mão apertando
levemente sua virilha, sentindo seu membro enrijecer e me desejar. Abriria o
zíper da sua calça e encontraria meu objetivo pronto para ser devorado, seu
equipamento.
Caramba, precisava parar de pensar nesse tipo de coisas perto dele.
Desviei rapidamente meu olhar sentindo meu rosto um pouco enrubescido.
— Sente-se em uma cadeira, por favor. — com voz rouca, percebo que
olha discretamente para meu decote e lembro que essa posição me favoreceu
apenas para causar-nos pensamentos pervertidos.
Sem conseguir esconder meu rosto vermelho, posiciono a cadeira ao
seu lado e novamente sou atingida pela respiração de Enrico no meu pescoço.
Costumava usar o cabelo preso sempre, apenas por ser uma questão de
praticidade, mas o tanto de calor que estava me causando, fez-me querer soltá-lo.
Não poderia ter esse tipo de intensão, não com o meu chefe, muito
menos ele sendo o dono de uma grande rede de supermercados.
Quantos anos deveria ter? Quantas mulheres poderia ter? Quem era a
menina da TI do meio de tudo isso?
— Vamos lá, esse é o arquivo que o senhor quer anexar? — Dou dois
cliques no mouse para que o e-mail abrisse em uma janela única. Ajudá-lo com
seu problema desviaria minha mente de desejá-lo.
Inevitavelmente, leio o assunto do e-mail e todo o seu conteúdo. Era
um pedido de consultoria e auditoria de contrato social, para alguém de fora da
empresa. No corpo do e-mail constava que deveria ser avaliado a veracidade e a
confiabilidade das informações contidas de Enrico Giovanni Zanetti.
Que estranho, por que analisar algo já está pronto e vigente? Por que
isso acionou meus alertas de problemas?
— Vou fazer um teste, saindo e entrando novamente no site, tudo bem?
Pela minha visão periférica, vejo-o fazer um aceno positivo de cabeça.
Com destreza, abro o bloco de notas, copio o assunto e o corpo do e-mail. Fecho
o browser da internet, verifico no gerenciador de tarefas se tudo foi devidamente
encerrado e o abro novamente.
— Por favor, seu e-mail e senha. — solicito que digite.
Sem esperar, Enrico inclina todo o seu corpo em minha direção para
poder digitar as informações que o site solicitava. O contato foi pouco, apenas
seu braço coberto pelo terno no meu braço nu, mas foi o suficiente para
desequilibrar-me completamente.
Queria esse terno roçando meu corpo. Imaginei-me nua, enquanto ele
completamente vestido, nos movimentava em cima dessa mesa como dois
devassos enquanto a leão de chácara ficava em sua mesa morrendo de ciúme.
Ofegante e com os olhos arregalados, percebo que fiquei
momentaneamente muda e o encarando depois que voltou a sua posição inicial.
Merda, droga, porra...
— Aconteceu alguma coisa? Você está muito vermelha. — comenta
preocupado e novamente toca-me, mas desta vez foi sua mão na minha testa.
Tossindo e ajeitando-me na cadeira, viro meu rosto para fugir do seu
contato e para controlar meus hormônios furiosos. Pego o mouse com a mão
suando, o coração batendo acelerado e sigo dizendo:
— Tudo bem, vamos criar novamente um e-mail e anexar o arquivo
que você excita-PRECISA, o arquivo que você precisa. — Se estava vermelha,
agora estava roxa de vergonha.
Céus, estava falando esse tipo de palavra na frente do dono da
empresa? Queria uma dispensa com justa causa por assédio sexual invertido?
Olho rapidamente para ele, que não demonstra nenhuma reação ao que
disse. Respiro aliviada, porque precisava muito desse emprego, apesar dos
pesares.
Crio um novo e-mail, colo o assunto e corpo copiados no bloco de
notas e peço para que coloque o e-mail do destinatário.
Novamente se inclina em mim e numa tentativa de me controlar,
inspiro profundamente. Não deveria ter feito, pois o cheiro do seu perfume,
misturado com o seu shampoo de cabelo me fizeram fechar os olhos e gemer
internamente. Era maravilhoso!
Esse homem poderia ser menos excitante? Precisava, porque estava
pensando seriamente em não aparecer mais aqui.
— Sabrina, você realmente está com algum problema. Precisa que
chame a senhora Ana? — preocupado e com seu olhar intenso, limpo minhas
mãos na minha calça jeans, esfrego elas no meu rosto e suspiro. Entraria em
combustão espontânea se continuássemos assim. Será que olhava para suas
amantes assim, no ápice do prazer?
Ana era a enfermeira da empresa e seu diagnóstico, excitação, falta de
sexo e de profissionalismo iriam acabar com minha carreira.
— Minha glicemia deve estar baixa por não ter tomado café da manhã.
— Não era mentira, mas não era a explicação para minha vermelhidão. —
Vamos lá, o anexo está carregando, a barra de progresso já está na metade. Em
mais alguns segundos concluirá e então o e-mail poderá ser enviado.
— Por que não tomou café da manhã?
Sem desviar minha atenção da minha tarefa, com uma vontade imensa
de fugir dali, respondo com meu nervoso dominando minhas ações:
— Saio de casa as seis e meia para poder chegar aqui às sete e meia.
Qualquer outro horário me fará chegar depois das oito e isso quer dizer atraso,
ou seja, desconto no meu salário. Volto para casa às dez horas da noite, por causa
do meu plantão enquanto Alex estiver de férias. Acordar as cinco e meia da
manhã está fora de questão para poder fazer tudo o que preciso. — Droga,
divaguei novamente, não precisava contar tudo isso para meu chefe, parecia que
estava reclamando.
Aliviada, a imagem indica que o anexo foi completamente incluso,
clico no botão enviar e-mail e com um pulo, levanto da cadeira.
— Pronto, senhor Zanetti. Desculpe a demora e qualquer transtorno.
— Não olho nos seus olhos, porque sei que a intensidade continua lá para me
atormentar.
Saio de sua sala ao som de sua voz rouca e imponente dizendo:
— Obrigado, Sabrina.
Capítulo 7

Depois de passar no banheiro e beber mais de um litro de água para me
controlar, volto para a sala de TI, onde Caio e os outros funcionários estavam
escutando rock instrumental nas caixas de som do seu computador e bebendo sua
caneca diária de petrolão.
— Algum recado? — pergunto com voz trêmula, chamando sua
atenção para me ver sentar descompassada na cadeira. Ele havia abaixado o som
para me escutar melhor. Os outros dois fingiam não prestar atenção, mas sabia
que ambos estavam antenados em nossa interação.
— Tive dois chamados, mas todos resolvidos. Você sabe, bloquearam
minha senha, esqueci minha senha... — Toma um gole do líquido preto
horroroso e ergue as sobrancelhas. — Qual foi o problema da vez? Levou
bronca? Você está um pouco rubra.
— Anexo de e-mail e minha mente fértil. — solto subjetiva e suspiro.
Ajeito-me na cadeira e desbloqueio meu computador para voltar a trabalhar nas
tarefas diárias. — Você sabe se Enrico está fazendo alguma auditoria aqui na
empresa?
— Enrico? — Caio está complemente confuso e rapidamente me
corrijo.
— O dono da empresa, senhor Zanetti. — Faço um movimento com a
mão impaciente, como se esse homem e a forma de tratá-lo não quisesse dizer
nada para mim.
— Por que está chamando o dono da empresa pelo primeiro nome? —
desconfia e faço uma careta, observando os dois antenados perto dele. Preciso
controlar os danos antes que vire fofoca.
— Foi sem querer, estamos só entre nós, pare de frescura. — respondo
impaciente. — Vamos, me diga o que sabe!
Caio era tão antissocial, quanto bem informado. Na empresa, ele sabia
de tudo sobre todos, uma vez que monitorava o tráfego pelas redes internas e
externas. Não era seu trabalho e achava que ninguém sabia, mas minhas olhadas
disfarçadas para seu monitor, enquanto estava matando o tempo, fizeram-me ter
conhecimento.
Confesso que me aproveitava um pouco da situação, até para saber
sobre o humor de quem iria atender pessoalmente. Caio nunca desconfiou das
minhas perguntas e nunca se recusou a respondê-las.
— Não há nada oficial, mas parece que em algumas reuniões, ele
deixou a entender que queria auditar a empresa. — Aproxima sua cadeira da
minha e fala em tom de conspiração. — Há várias conversas sobre um desfalque
na empresa que o “CEO pai” fez, mas é um boato improcedente, já que não tem
cabimento o dono da empresa roubar a si próprio.
Faço um bico, empurro para o lado e uso meu computador para fazer
uma pesquisa, desviando minha atenção de Caio. Apesar de todo fogo que sentia
dentro de mim, minha intuição estava gritando mais alto, precisava saber o que
realmente estava acontecendo na Supermercados Zanetti.
Com isso, meu colega voltou para sua mesa e seu trabalho. Os outros
dois antenados haviam colocado fones de ouvido, mostrando assim que não
estavam ligados na nossa interação.
Menos mal.
Em minhas pesquisas encontrei notícias sobre CEO tanto o pai, quanto
o filho. Fotos, matérias sobre eventos sociais, inauguração de filiais, o problema
de saúde de Enrico pai e dos pais de Lauriano.
Porém, de tudo isso o que li, o que mais me chamou atenção foi as
fotos desse homem jovem, elegante e dominante. Descobri que tinha trinta anos,
trabalhava com bolsa de valores, era muito rico, inteligente e precisou assumir a
empresa de um dia para outro, depois do infarto de seu progenitor.
Nunca havia gasto dois minutos do meu tempo pensando em alguém e
agora, depois de nossa interação, não conseguia focar em meu serviço. Havia
implementações novas a serem desenvolvidas no sistema gerenciador de
documentos da empresa e eu estava protelando, enquanto admirava meu chefe.
Abro meu gerenciador de atividades, um programa que controla todas
as tarefas agendadas e faço uma careta. Tudo estava vermelho, indicando que
venceria hoje o prazo de conclusão. Poderia repassar um pouco dessa carta para
Vitor, ele daria conta das atividades, mas certas alterações de sistema, as mais
críticas, eu preferia fazer para não correr nenhum risco de falha.
Volto a adorar as imagens do meu CEO Enrico, já que meu monitor
não ficava à vista de ninguém, apenas da parede. Antes que pudesse salvar
alguma foto desse homem influente e imponente, completamente trajado de
terno, gravata e poder, meu telefone toca no mesmo ritmo acelerado do meu
coração.
Seria ele novamente?
Ao atender, descubro que é Carina do setor de recursos humanos com
problema de impressão. Agradecendo a distração, fecho todas as janelas de
pesquisa e sigo para orientá-la ao invés de repassar o atendimento para um dos
rapazes daqui.
O dia estava apenas começando e nem imaginava como terminaria.

— Boa noite, usuária. — Caio se despede de mim com sua chacota do


dia.
Sem querer eu havia instalado um programa na minha máquina,
solicitado por um funcionário da contabilidade e, não prestando atenção, já que
minha cabeça toda hora seguia para um CEO impiedoso e irresistível, instalei o
programa Babui, um antivírus gratuito que vem anexado com outros programas.
Isso era algo que nunca deveria acontecer com uma pessoa com meu
conhecimento e experiência.
Quando fiz um som irritado com minha garganta, meu amigo e colega
de trabalho perguntou o que era e depois que contei, ficou me chamando de
usuária. Ainda por cima, prometeu me dar uma camiseta igual a sua.
Anderson fingiu não perceber minha gafe e tossia escondendo seu riso.
Já Vitor teve uma crise de riso e precisou ir ao banheiro para se controlar, já que
havia encontrado uma tirinha cômica com a mesma situação que estava
passando.
Sim, estar na TI era motivo de riso pelo menos uma vez por dia.
— Quem está com a camiseta é você, não eu. — digo com falsa
irritação e mostro a língua com zombaria, ele ri e vai embora.
Todos os outros funcionários já tinham ido embora, já que eram tão
pontuais para entrar tanto quanto para sair da empresa. Diferente de mim que era
pontual para chegar e muitas vezes não tinha horário para sair.
Eram seis e vinte da noite e ainda faltava quase quatro horas para o
meu turno acabar. Meu plantão era necessário, pois vez ou outra alguém de um
supermercado ligava, por problemas de impressão ou no sistema do caixa. Não
tínhamos help desk nas filiais, outra briga minha com meu chefe Alex, que
gostava de centralizar tudo.
Aproveito para terminar a programação atrasada em nossos sistemas
internos. Ligo minha caixa de som do computador, coloco uma música baixa,
mas agitada para afastar o sono e foco na tela. Não conseguia tomar aquele café
horroroso que Caio adorava, muito forte e com pouco açúcar.
Adorava a parte de suporte e gerenciamento de rede, mas minha
verdadeira paixão era a programação. Tudo o que a envolvia, desde a entrevista
com o usuário, para anotar os requisitos e montar os diagramas e fluxogramas de
desenvolvimento. Isso era o que fazia meu coração acelerar e minha satisfação
profissional florescer.
Por sermos uma equipe de cinco pessoas, adotamos uma mistura de
metodologias de gerenciamento de projeto, para atender nossa necessidade. Tudo
era devidamente documentado quando havia tempo hábil e quando Alex não se
intrometia, já que gostava de fazer do seu jeito, ou seja, sem padrão nenhum, na
pressa.
Livre para escrever todas as linhas de códigos que precisava, começo a
digitar e a cantar alheia a qualquer movimento ao meu redor.
Depois de alguns minutos ou horas, havia perdido a noção do tempo,
cantei:
— Everything you say to meeeeee.... — One Step Closer da banda
Linkin Park tocava e, sem nenhuma prudência, eu cantava acima do som
enquanto meus dedos digitava com velocidade no teclado. Era uma música forte,
de ordem e protesto.
Sentia-me um pouco rebelde, já que ter meu chefe por perto me
impedia de ter certas liberdades. Então, estando sozinha na sala e, tirando os
guardas noturnos, provavelmente na empresa estava livre para fazer o que
quisesse.
Alguns toques firmes na porta da minha sala me assustaram, e me
fizeram gritar e levar uma mão ao coração, que parecia ter pulado para fora do
meu peito. Enrico, meu CEO, estava me observando com o ombro apoiado no
batente da porta, braços cruzados e um olhar sério. Assim esperava, porque
parecia mais um sorriso contido.
Impecável, seu cabelo continuava bem penteado, seu terno alinhado e
seus olhos bem atentos. Como ele conseguia não fazer nenhum amassado depois
de um dia de trabalho?
O fato incomum de o meu chefe estar na minha sala não passou
desapercebido por mim. Com certeza algo grave deveria ter acontecido e seu
deslocamento até aqui com certeza me renderia uma advertência.
Oh, vida!
Capítulo 8

Rapidamente desliguei a música que tocava no meu computador,
apertei as teclas que gravava na memória todo o código que estava digitando no
momento e respirei levemente aliviada.
Tinha realmente me assustado.
— Nossa, que susto Enri-senhor Zanetti. Desculpe-me pela música,
mas trabalhar sozinha... — comecei me desculpando, completamente encabulada
por ter sido pega completamente descontraída.
Estava trabalhando, era verdade, mas não era uma postura muito
profissional, por isso deixava apenas para quando estava sozinha, nem perto de
Caio me permitia isso.
— Não há motivo para se desculpar. — ordenou e rapidamente me
calei.
Ficamos nos encarando calados, ele com seus olhos castanhos intensos
e eu assustada. Não sabia o horário, mas podia sentir que meu cabelo estava em
um coque bagunçado e não no meu rabo de cavalo. Acabava fazendo e refazendo
as amarras do meu cabelo para me ajudar a pensar em uma solução na
programação.
Por que Enrico estava aqui?
Droga! Provavelmente precisava de algo e envolvida com minha
música e programação, esqueci do telefone.
— Você ligou e não atendi, não é? Desculpe, senhor Zanetti...
— Fez algo de errado? — com seu tom ainda de ordem, me interrompe
e observa como um falcão.
— O quê? — Não sabia o que responder, já que não tinha entendido a
pergunta. Sua aparência e dominação estavam bagunçando com minha cabeça e
meu corpo desde hoje de manhã.
Controle-se já! -- ordenei-me.
— Você tomou alguma atitude que ferisse as políticas e bons costumes
da empresa? — sem perder seu temperamento tranquilo, reformulou sua
pergunta. Não havia movido nenhum músculo que não fosse os da boca e isso
aumentava a expectativa que eu estava sentido. Estaria ele me vigiando? O CEO
se daria ao trabalho de ME vigiar?
— Tirando a música e minha cantoria, não. Estava trabalhando. —
respondi hipnotizada, com medo do que minha resposta poderia ser interpretada
por ele.
— Então, não se desculpe nem assuma uma culpa que você não tem.
— Descruza os braços na sua frente ao mesmo tempo em que continua
ordenando. — Vamos!
— Vamos?
— Sim, são dez horas, seu plantão acabou. Não há necessidade de
mais tempo de trabalho do que o necessário. — Vira as costas e sai, sem me dar
a oportunidade de questionar.
Ele está me mandando embora?
Ou está oferecendo carona?
Nunca fiquei tão sem reação e desnorteada como hoje, agora, nesse
exato momento. Fiquei olhando bobamente para a porta e esperando alguém com
uma câmera gritar que tudo não passa de uma pegadinha.
Senhor Zanetti não conversa informalmente com seus funcionários.
Ninguém era amigo dele, muito menos eu, a menina da TI que por um problema
rotineiro, começou a lhe dar suporte técnico.
Vejo Enrico aparecer na porta da minha sala com um olhar ameaçador
e as fadas assanhadas e baladeiras da minha barriga começam a se revolver. Ele
queria me ver derreter ou desafiá-lo?
Sério, eu não era masoquista, mas sempre tive atração pelo desafio e
estar com esse homem era um.
— Quando você terminar o que precisa, nós vamos embora. —
resmungou enquanto voltava a sua posição anterior de estar com o ombro
apoiado no batente da porta.
— Esse “vamos embora” é “vamos embora juntos” ou “vamos
embora, você para um lado e eu para outro”? — Sinto meu coração acelerar mais
ainda se fosse possível. Não sabia como não gaguejei.
— Vamos embora, eu te levando para casa no meu carro. — responde
da mesma forma que fiz a pergunta e agora, meu coração parou.
Ele vai me dar carona?
Enrico me levaria para casa em seu carro?
Eu e o CEO no mesmo meio de transporte?
Ele havia tomado a pílula vermelha da matrix e eu não sabia? Porque
até alguns dias atrás ele não sabia que eu existia, aliás, achava que eu era
estagiária.
Não era porque meus hormônios e minha libido estavam
completamente de acordo com suas ações que aceitaria sem nenhuma colocação
impertinente.
— Muito obrigada pela gentileza, mas não precisa se incomodar,
senhor Zanetti. Está tudo sob controle, o ônibus que passa na esquina da empresa
para perto de casa. — Tento sorrir, mas saiu de boca fechada, como se fosse
falso.
Se já divagava estando nervosa na sala dele, imagine fora do ambiente
de trabalho?
Como se despisse de sua postura profissional, suspira e relaxa,
descruzando seus braços a sua frente.
— Sabrina, não irei insistir, mas gostaria de fazer uma gentileza para a
pessoa que com destreza resolveu alguns problemas para mim. Estava indo para
o estacionamento quando escutei a música. Vi que horas eram e lembrei do que
me disse, por isso estou aqui.
Contra fatos não havia argumentos e, sem nenhuma intenção de
recusar sua oferta novamente, bloqueei minha estação de trabalho, levantei-me
da cadeira e segui até o armário onde deixava minha bolsa de grandes
proporções.
Entre alivio, por não estar sendo vigiada pelo CEO, e desapontamento,
por não ter sido a ideia original, decidi encerrar meu expediente.
Voltei para minha mesa, coloquei o celular no bolso traseiro da minha
calça e parei na sua frente com uma pisada mais forte.
— Estou pronta! — Bolsa debaixo do braço e firmemente apertada
para sustentar meu juízo, Enrico acena afirmativo com a cabeça e seguimos pela
empresa até o estacionamento, que era no mesmo andar da minha sala, no
subsolo.
Apesar de não ter intimidade, não andei atrás dele, mas ao lado, como
iguais. Sabia o caminho e não precisava seguir de forma submissa as suas costas.
— Gosta de Pitty? — pergunta sem me encarar, mas virei meu rosto
para vê-lo e percebi um sorriso suave em seus lábios.
Tentando entender qual era a piada, forcei minha memória para a
banda e as músicas da cantora, meu rosto ficou completamente vermelho de
vergonha e assombro. Antes de ser interrompida, havia feito uma performance e
tanto cantando a música Máscara. Era antiga, mas as palavras muito atuais, “o
importante é ser você, mesmo que seja, estranho, seja você...”
Lembrei que havia conseguido compilar com sucesso meu código de
programação, passado nos testes básicos e estava pronto para ser testado por
Caio. Além de cantar algo, dancei e chacoalhei minha cabeça como se estivesse
em um show da banda. Estava me sentindo foda!
Apenas as pessoas que programavam entendiam o verdadeiro
significado de compilado com sucesso, sem alertas. Uma comemoração nem um
pouco recatada era necessário, mesmo que internamente.
— Muito engraçado... — resmungo ao ver que o sorriso aumentou em
seus lábios com meu desconforto.
Ainda bem que estava envergonhada, pois o que estava sentindo ao vê-
lo descontraído me deixou completamente hipnotizada. Enrico era tão lindo sério
e bruto, quanto sorrindo simpático. Os dois lados do meu atual objeto de desejo
estavam transformando-me em uma boba apaixonada.
Tornei-me um caso perdido!
Capítulo 9

— Quanto tempo você gasta da empresa até sua casa de ônibus? —
Enrico não espera que me acostume com o carro luxuoso que dirige e me
pergunta.
Era um Porche Panamera de 330 cavalos, bancos de couro
praticamente brancos e muita tecnologia. Conhecia carros, gostava deles, mas
ficava apenas na minha imaginação. Meu pai e irmãos eram fissurados em
automobilismo e mesmo que não fosse tão entusiasta quanto eles, lia e me
atualizava sobre o assunto.
Não era à toa que a profissão que escolhi seja mais masculinizada e
racional. Minha mãe é filha de fazendeiro, trabalhava braçal desde criança e
dentro de casa, nunca houve muito sobre delicadeza e mundo rosa. Em outras
palavras, não existia nada que pudesse ser considerado frescura para os homens.
Era a filha do meio, tinha um irmão mais velho e outro mais novo.
Sempre estive no meio dos meninos e até antes de trabalhar, me vestia como um
moleque. Ter um código de vestimenta me fez despertar um pouco do meu lado
feminino, o suficiente para mudar meu estilo.
Deixei as calças folgadas por jeans justos e blusas pretas e largas por
blusas claras e sociais. As calcinhas da vovó foram substituídas por calcinhas
estilo biquínis e renda. As sapatilhas continuaram nos meus pés, porque o salto
nunca foi uma opção para mim.
— Quase uma hora. Por um lado é bom, porque aproveito para ler ou
escutar música. — tento transformar minha resposta em algo que não era
realmente. Odiava ficar tanto tempo no transporte coletivo, além de ser muito
receosa em ser assaltada, como já fui duas vezes.
A primeira vez foi depois de um dia que tudo estava dando errado.
Meu celular tinha caído na privada e pifado, o sistema havia sido atualizado sem
minha bateria de testes e gerado um transtorno no financeiro e Alex me obrigou
a ficar até mais tarde para corrigir tudo. No final, o garoto com uma faca me
abordou e levou meu celular morto e o dinheiro da carteira.
Fiquei uma semana paranoica e depois de comprar um celular em
várias parcelas, algumas semanas depois fui assaltada novamente. Desta vez, a
paranoia deu lugar a raiva. Depois desse dia, o meu smartphone era o mais
barato do mercado, não iria sustentar esses bandidos.
— Mora com seus pais? — Sem olhar na minha direção e não tendo
pressa para chegar até minha casa, suspiro e aceito que haverá todo um
questionário sobre minha pessoa. Espero não dizer nenhuma asneira, já que o
estofado macio e sua voz com sotaque estavam começando a mexer com meus
hormônios.
— Sim. Meus pais, eu e dois irmãos. — Fico olhando o painel entre
nós dois e admirando a tecnologia. Esse carro era luxuoso e tenho certeza que
nunca mais andaria em um desses. Meus irmãos morreriam de inveja quando
contasse.
Enrico era um homem irresistível dirigindo um carro impressionante.
Não me importava com dinheiro, não era essa a questão e sim sua personalidade,
seu intelecto e sua atitude. Com certeza ele transformaria dirigir um fusca em
algo magnífico.
— Não há carros em sua casa? Nenhum deles pode pegar você no
serviço?
— Digamos que essa foi uma escolha minha. — Droga, estava
entrando em um assunto delicado dentro da minha família. Todos queriam que
saísse da empresa, por causa do tanto que sofria nas mãos de Alex e a falta de
pagamento de horas-extras.
No início chegava a minha casa e buscava consolo com minha mãe
sobre as coisas que acontecia, desde a pressão para concluir um projeto até as
ligações de madrugada para dar suporte. Ninguém da minha família aceitou
muito bem e comecei a omitir tudo, inclusive que saia tarde do serviço. Sempre
falava que ia jogar RPG com Caio ou ia ao cinema com o pessoal da faculdade.
Ninguém sabia que minha vida social andava mais pacata que conversa entre
tartarugas.
Todos tinham carro em casa, menos eu, que guardava dinheiro para
fazer um mochilão pela Europa. Cada um tinha uma prioridade e a minha era
viajar. Queria a experiência econômica, mas também não queria passar vontade.
Sandro tinha vinte e seis anos, era funcionário público e enquanto não
encontrasse uma mulher que fizesse tudo o que minha mãe fazia para ele, não
sairia de casa. Ou seja, ficaria eternamente com meus pais, coitados.
Saulo, meu irmão mais novo de vinte anos ainda cursava relações
públicas e estagiava em uma emissora de televisão. Fez alguns trabalhos
informais como modelo fotográfico e conseguiu dinheiro para comprar seu
próprio carro. Também não tinha nenhuma intenção de sair de casa.
Eu, a filha do meio e com vinte e quatro anos só queria encontrar meu
espaço no mercado de trabalho. Faria o mochilão e diferente dos meus irmãos,
queria um canto apenas meu. Mas essa era uma meta a longo prazo, quem sabe
com meus trinta anos.
Meus pais nunca esbanjaram dinheiro, vivíamos sempre no limite,
porém, nunca passamos dificuldades. Eles sempre nos incentivaram a conquistar
as coisas ao invés de ganhá-las, já que não podiam nos dar esse luxo. Meu pai
nos ajudava quando precisamos, mas a cada real emprestado, queria saber seu
destino. Minha mãe havia abandonado seu trabalho como professora e cuidava
exclusivamente da casa e dos seus homens.
— Você prefere se arriscar em um ônibus a esperar uma carona de
alguém da sua casa? — o tom familiar de contrariedade e irritação me fez olhar
para ele e levantar as sobrancelhas.
Se fosse qualquer um, diria que a vida era minha e o problema era
meu. Mas sendo o todo poderoso e o homem que queria impressionar de alguma
forma, medi minhas palavras. Queria que soubesse sobre mim tanto quanto
queria saber mais dele, sem interferir em nossa relação profissional.
Sei que não pareço uma namorada de CEO, então, continuaria
desejando-o nos meus sonhos, não era crime.
— Não gosto de me arriscar, mas também não gosto de ser controlada,
o que uma carona com alguém de casa significaria. Uso o transporte coletivo
pela liberdade de ir e vir.
— Por que não compra um carro para você?
Vê-lo dirigindo, postura ereta e braços estendidos apenas somavam
pontos para o quão irresistível Enrico era no meu conceito pessoal. Se ditando
ordens e sendo sério me deixava completamente ofegante, pilotando essa
máquina me fazia ter falta de ar.
Como dizer que o dinheiro que tenho guardado era para viajar? Ou
então, como explicar que não é tão simples comprar um carro quando se
pertencia à família Alencar.
— Minha meta no momento é outra. — tento encerrar o assunto, mas o
homem era persistente. Que vontade de ser íntima dele e poder mostrar minha
língua como fazia com Caio, apenas para mudar a direção dessa inquisição.
— Qual é a sua meta? — seu tom muda para curioso e decido
amezinhar a conversa com uma brincadeira.
— Por que só você faz as perguntas? Minha vez. — Sorrio quando ele
rapidamente olha para mim com despreocupação.
— O que quer saber? — Enrico está concentrado na direção e em
todos os meus movimentos. Arrepio ao perceber que irá responder o que quiser
saber.
Será que você aceitaria um romance casual, mas que não afetasse
nosso profissional? Queria perguntar isso, mas decidi por um assunto seguro,
que não envolvesse minha imaginação fértil e sonhadora.
— Você é Júnior ou Neto? — aproveito para tirar a dúvida que surgiu
quando pesquisei sobre o CEO pai e filho.
— Nenhum dos dois. — responde um pouco sombrio.
— Você e seu pai tem o mesmo nome? Homônimos? Igualzinho? —
insisto e mesmo parecendo tenso, sorri de lado.
— Sim, homônimos.
— Uau, estou pensando no desastre quando você era adolescente e
alguma menina ligava para falar com você. — divirto-me um pouco e vejo a
tensão sair de seu corpo quando ele vira o carro na minha rua.
— Sim, seria um problema se morássemos juntos, mas nunca morei
com ele. Qual dessas casas? — Vagarosamente, ele segue pela rua quando
aponto a casa verde.
— Nossa! O que será que está acontecendo que todos estão do lado de
fora? — pergunto de forma retórica e tento deduzir. — Já sei, Saulo deve ter
mexido com a vizinha novamente e minha mãe o está obrigando a se desculpar.
Esse menino não vai aprender nunca a mudar suas conquistas para longe do
bairro.
Enrico para o carro o mais próximo de casa e minha mãe se aproxima
de nós completamente irritada. Droga! Algo grave aconteceu.
Era só o que me faltava, minha mãe fazendo seus discursos acalorados
na frente do meu chefe, o dono da empresa, o homem que tinha poder de me
demitir.
Capítulo 10

Com medo do que poderia causar a fúria de dona Olga, decido fazer
uma saída rápida.
— Obrigada pela carona. — No automático, inclino-me no painel para
beijar seu rosto em despedida, como faço com todos de casa quando me dão uma
carona e saio rapidamente do automóvel.
— Sabrina Maria, pode me explicar onde a senhorita estava? Seu pai
já ia chamar a polícia. Ninguém consegue falar com você! — esbraveja minha
mãe e escuto a porta do carro bater atrás de mim.
Enrico saiu do seu carro e meu medo se concretiza. Ele não precisava
presenciar a ira da minha mãe por apenas não ter atendido o celular. Ela tinha o
costume de fazer tempestades em copo d’água.
— Mãe, qual o problema? Você sabe que chego sempre esse horário
em casa, não há necessidade disso tudo. Se não atendi, era porque estava
ocupada. — Aproximo dela e tento me afastar ao máximo do meu chefe. Essa
seria uma discussão familiar e eu o queria longe.
Talvez, se fingisse que não o escutei saindo do carro, voltaria para
dentro dele e se pouparia da vergonha alheia.
— Com quem você chegou? Quem é esse homem? — Tento empurrá-
la em direção a nossa casa, mas a mulher era feita de chumbo. Dona Olga tinha a
mão pesada e a força de um trabalhador braçal. — Vamos, Sabrina, me
responda!
— Mãe, estava trabalhando em algo importante, meu chefe deu
carona. Pronto, vamos voltar para casa e acalmar os homens antes que a
vizinhança toda acorde. — Vejo meu pai e meus irmãos vindo em nossa direção
com olhares avaliadores e começo a me desesperar.
Se minha progenitora era exagerada, com a ajuda do meu pai e irmãos,
tudo se tornaria um verdadeiro show de “casos de família”. Vejo a apresentadora
iniciando o programa e dizendo: “O caso de hoje é: sou a filha do meio, minha
família quer controlar os meus passos e me fazer passar vergonha na frente do
meu CEO”.
— Ah, então esse é o seu chefe? — minha mãe se desvencilha de mim
e aborda Enrico. Tento segurar seu braço e repreendê-la, sem sucesso. — Muito
prazer, rapaz, sou Olga, mãe da Sabrina e gostaria muito que ela fosse
reconhecida pelo tanto que se dedica a essa empresa. Pelo amor das horas extras,
ela atende telefone até de madrugada!
Olho desesperada para Enrico, que não desviou sua atenção da minha
mãe. Ele está sério, mas não com sua pose imponente, o que me faz descobrir
mais uma das suas facetas.
— É verdade. Minha irmã não tem coragem de falar, mas nós temos.
Sabrina precisa de férias, desde quando entrou só para de trabalhar no recesso de
Natal e Ano Novo. — Sandro entra na conversa e olho para ele com desespero.
Por favor, irmão mais velho, cale a boca! — Isso é inconstitucional, você sabe.
Minha família tinha boas intenções, mas eu previa uma demissão. Eles
estavam achando que Enrico era Alex e ainda por cima, queriam intimidá-lo.
Bendita hora que decidi chorar minhas frustações, era mais fácil encontrar outro
emprego do que conseguir alguma coisa na Supermercados Zanetti.
Precisava colocar ordem nisso tudo antes que me comprometesse mais
ainda.
— Gente, cadê o bom senso? — Fico entre eles e de costa para Enrico.
Depois, viro meu corpo para o homem que tinha todo o poder sobre mim e peço
com meus olhos tanto quanto meus lábios suplicam. — Muito obrigada pela
carona, senhor Zanetti. Esqueça o que eles falaram. Até amanhã. — Vá embora,
pelo amor da vergonha alheia causada pela família!
— Prazer em conhecê-los. — Enrico desviou-me e cumprimentou a
todos. — Sou Enrico Zanetti e terei o maior prazer em apurar tudo o que foi dito.
Sabrina deverá ter todos os seus direitos trabalhistas assegurados em minha
empresa.
— Enrico Zanetti, o dono da Supermercados Zanetti? — Saulo
arregala os olhos, começa a gargalhar e puxa meu outro irmão. — Merda,
Sandro, acho que você acabou de provocar a demissão da Sabrina. — Se afastam
e meu pai se aproxima mais da minha mãe, que parece chocada e hipnotizada.
— Desculpe nossa abordagem, senhor Zanetti. Estávamos um pouco
preocupados com nossa filha, que há mais de horas não responde seu celular. —
Meu pai olha para mim com censura e pego meu celular do bolso da calça. Não
lembrava de tê-lo escutado tocar. — Sou Antônio, pai de Sabrina. Muito
obrigado por trazê-la de volta para casa com segurança.
Celular sem bateria.
— Entendo completamente. Saibam que a Supermercados Zanetti tem
sorte de ter uma funcionária tão paciente e dedicada como a sua filha. Devem
estar orgulhosos.
Seria possível ficar constrangida, excitada e em choque, tudo ao
mesmo tempo? Era um elogio do dono da empresa para os meus pais, na minha
frente.
Encaro o rosto do homem mais poderoso que conheço e lembro que
antes de sair do carro beijei seu rosto. Fico completamente vermelha ao constar
essa atitude indevida. Céus! Havia esquecido qualquer protocolo de
profissionalismo, sabia que faria algo insano estando ao lado dele.
Despedimo-nos cordialmente, sem alterações de vozes. Sem uma
segunda olhada para meu CEO, entrei em casa ao som de várias perguntas
lançadas por todos.
— Como assim o dono da empresa te dá carona para casa? — Saulo
começa com as perguntas.
— Você está recebendo pelas horas extras? — Sandro cruza os braços
e franze a testa.
— Esse homem te olhou de um jeito estranho, filha. Ele tentou alguma
coisa com você? Pode falar comigo. — minha mãe pergunta mais calma, porém
preocupada.
— Não dê confiança para esse tipo de pessoa, filha, porque... — não
deixo meu pai terminar de falar.
— Vamos fazer o seguinte? Vou tomar um banho e depois volto para
falar com vocês. — Cansada, sigo para o meu quarto, que possuía um banheiro
anexo e me isolo nele até dormir.
Não iria dar nenhuma satisfação a ninguém. Ficaria feliz se Enrico
esquecesse tudo o que aconteceu e não me demitisse amanhã.
Apesar de não assumir, gostava de trabalhar na Supermercados Zanetti
porque aprendia muito todos os dias. Era entusiasta sobre tecnologia, movida a
desafios e desenvolver sistemas ao mesmo tempo em que gerenciava toda a
infraestrutura da empresa e suas filiais era muito, mas muito gratificante.
Alex normalmente assumia tudo o que eu fazia como sendo atitudes
dele, às vezes não me deixava aprender, mas assim que virava as costas, absorvia
tudo de forma autodidata. Já havia aprendido a lidar com esse homem e nada
mais me incomodava tanto.
Nunca pensei que a blindagem que meu chefe fazia com o CEO fosse
abalar tanto as minhas estruturas. Enquanto nunca havia falado com Enrico, nada
nele me afetava, mas a partir do momento que trocamos poucas palavras, mesmo
que por telefone, tudo mudou.
Achar um sotaque bonito e um rosto atraente era uma coisa. Sentir-se
excitada e completamente rendida aos encantos rústicos desse homem imponente
era outra completamente diferente. Precisava conter meus impulsos antes que
pudesse me arrepender, Enrico nunca olharia para mim como olho para ele,
imagino e até sinto.
Queria estar com ele, mas também queria o meu emprego, então,
precisava fingir que nada aconteceu quando fosse trabalhar. Com certeza era o
melhor a fazer, fingir ignorância.
Meu estômago roncou e não tive coragem de enfrentar minha família
para saciar minha fome. Preferia dormir sem comer a ter que dar todas as
explicações sobre ter que trabalhar até tarde durante um mês. Esse era um dos
inconvenientes que me estimulavam a ter meu próprio canto, minha casa e
minha vida. Amava minha família, mas a proteção excessiva me incomodava.
Deito na cama e finjo dormir quando minha mãe abre a porta do quarto
e pergunta se estou acordada. Estou, porque quem dorme não responde.
Rapidamente caio no sono, exausta de toda a confusão. Sonho com um
almoço familiar, onde Enrico era apresentado como meu namorado e assim que
tudo acabava, ele me demitia pela falta de profissionalismo da minha família em
um almoço íntimo.
Era sonho, era louco, era eu.
Capítulo 11

Acordei e não houve como fugir da inquisição da minha família.
Tirando Saulo, que mais riu do que participou, tive que inventar mil e uma
desculpas para explicar o motivo do dono da empresa estar me trazendo para
casa sem nenhuma segunda intenção pecaminosa. Pelo menos, não da parte dele.
Tive que contar que meu chefe entrou de férias e eu o estava
substituindo. E sim, receberia um percentual no meu holerite por isso.
Falei sobre o plantão obrigatório durante o mês inteiro, que era feito
por Alex.
Não contei sobre minha atração pelo meu CEO, nem meus
pensamentos insanos.
Depois de perder o horário do meu ônibus, Sandro me levou ao
trabalho em seu carro. Ele havia comprado um carro popular usado, em milhões
de parcelas, assim como eu comprava celular.
Percebi o quanto estava inquieto dirigindo e queria dar uma de irmão
mais velho, mas fiz questão de ligar o som do carro e cantar junto com a música.
Era desafinada, mas todos sabiam o quanto gostava disso e não me
recriminavam.
— Acho que você já está saturada disso, mas tenha cuidado e
mantenha-se afastada de homens ricos como esse tal de Enrico Zanetti. — Com
seu jeito calmo e preocupado, meu irmão não desvia a atenção da direção para
falar comigo, mas abaixa o volume do som.
— Sandro, isso não está fazendo sentido algum. Ele é meu chefe, é
óbvio que estarei por perto. — Só de pensar que poderei esbarrar com ele
novamente na empresa minhas fadas estomacais começaram a acordar. Não
estava preparada para esse confronto, não quando acordei completamente
inchada e de TPM.
— Eu vi como ele olhou para você. — acusa.
— Olhou? Não leve o que a mãe falou em consideração, ela está
viajando... — Será que Enrico olhou para mim como eu olhava para ele? Claro
que não, quem sou eu na fila das mulheres bonitas da cidade, pretendentes a
esposas de CEO? Aquela sem maquiagem, sem salto e com cabelo em um rabo
de cavalo, ou seja, a menina que anotava os nomes das pretendentes.
— A mãe não estava viajando. Sou homem e sei das coisas. Você é
bonita e inteligente... — diz contrariado e orgulhoso. Se elogio familiar
amaciasse meu ego, já estaria ronronando e com as patas para cima.
— Isso não quer dizer nada. Ser educado não é motivo de assédio
moral. Pare de ser paranoico, sei cuidar de mim. — Cruzo meus braços na minha
frente e agradeço que o prédio da empresa estava próximo.
— Não estou falando sobre moral e sim sexual. Esse homem ainda
tentará alguma coisa com você.
— E daí?
— Como assim “e daí”? Não deixe ele se aproveitar de você. A corda
sempre arrebenta para o lado mais fraco. E você, minha irmã, é esse lado. —
Estaciona o carro na frente da porta de entrada e me encara nem um pouco feliz.
— Irmão, acredite em mim, nessa situação quem se aproveitaria mais
seria eu do que ele. — Beijo seu rosto e abro a porta do carro. — Obrigada pela
carona, estou atrasada, fui!
Com passos apressados, cumprimento o segurança, a recepcionista e
desço as escadas para meu local de trabalho. Minha sala, por estar junto com
servidores e outros aparelhos eletrônicos, era completamente resistente a fogo,
demolição e invasão. O segurança da empresa sempre vinha até ela trancar
quando ia embora e abrir quando chegava. Os corredores da empresa eram
monitorados com câmeras e sensores.
Escuto passos atrás de mim e sorrio para Matias.
— Com pressa, senhorita?
— Sempre, Matias. Tudo bem com você?
Trocamos cordialidades e ele se despede enquanto entro na sala para
mais um dia de trabalho. Como sempre, era a primeira a chegar e a última a sair.
Guardo minha bolsa, sento na minha cadeira, desbloqueio meu
computador e olho meus e-mails ao mesmo tempo em que olho o sistema
gerenciador de servidores e máquinas ligadas à rede da empresa.
Em pouco tempo descubro que meu dia começará com muita agitação,
já que o primeiro e-mail que vejo é sobre um problema no servidor local de uma
das filiais. Sabendo que essa não seria uma tarefa fácil, coloquei o fone de
ouvido no telefone, para ter as duas mãos livres e liguei para o gerente, para
auxiliá-lo através de acesso remoto.
Vários minutos se passaram, Vitor e Anderson chegaram e se isolaram
em suas estações de trabalho. Caio chegou pouco tempo depois, sentou ao meu
lado e começou a me ajudar. Como imaginei, não seria uma tarefa fácil. O
supermercado estava com o sistema do caixa parado enquanto eu e meu amigo
tentávamos descobrir o motivo dele não conectar com o nosso servidor.
— Merda, Sabrina, tentamos de tudo! — Caio diz frustrado ao meu
lado e com tom baixo.
— Se realmente fosse tudo, esse sistema já estaria conectado! —
tampo o microfone do meu aparelho e o respondo indignada. Reclamar não
adiantaria nada, precisava de ideias e de preferência, uma que fosse a solução.
Outro telefone toca e com um suspiro cansado, atendo-o com meu outro ouvido,
já que Caio não faria essa gentileza para mim. — TI, bom dia.
— O senhor Zanetti solicita a presença da senhorita Sabrina em sua
sala com urgência. — Meu coração começa a pular em minha garganta, tirando
minha concentração do problema atual. O homem queria minha presença e não
poderia sair da sala enquanto não resolvesse esse pepino.
Olho para Caio, depois para os outros dois programadores e me vejo
completamente de mãos atadas.
Pisco algumas vezes e tento refletir, qual seria a dificuldade da vez?
— Moça, ainda não funcionou. — o gerente do supermercado
resmunga no meu outro ouvido e completamente pressionada, olho novamente
para Caio clamando ajuda.
— Só um momento, senhor. — Coloco o gerente na espera e respondo
o leão de chácara. — Mirela, estou no meio de algo importante, existe uma filial
parada sem conseguir acessar o sistema. Não poderei sair daqui enquanto não
resolver. Avise o senhor Zanetti que assim que terminar, estarei aí. — Sabendo
que a mulher iria dizer algo mal educado para mim, desliguei o telefone e o tirei
do gancho. Voltei minha atenção para o gerente. — Pronto, senhor. Vamos tentar
mais uma vez.
Assim, sem mais nem menos, a solução do problema vem a minha
mente. Olho para a configuração do horário do servidor, que por algum motivo
não estava conforme editado por nós e mostro com o dedo para Caio, que
arregala os olhos para mim e sorri.
— É claro, o horário, a relação de confiança entre máquinas... —
externa meus pensamentos.
Rapidamente faço a alteração, reinicio os serviços junto com tudo o
que precisava para que o sistema funcionasse e com a respiração presa, abro o
aplicativo, insiro usuário e senha e como mágica, o sistema volta a estar no ar.
— Bendito seja! Voltou! Obrigado, muito obrigado! — o gerente
começa a me agradecer e rapidamente investigo.
— Por um acaso essa máquina foi usada por alguém?
— Sim, ontem precisei acessar o site de um banco e apenas aqui
funcionava. — reviro os olhos e fecho minhas mãos com força, com raiva.
— Bem, já descobrimos o motivo de tudo isso acontecer então. Estou
revogando sua senha desse equipamento, pois ele só deve ser usado para
manutenção do sistema da empresa.
Não escutei nenhuma reclamação e depois de encerrar a ligação,
levanto meus dois braços para o alto em sinal de vitória. Encaro Caio, que estava
com sua cadeira ao meu lado e olhos arregalados para algo atrás de mim.
— Sucesso! — Com minha mão aberta em sua direção, peço com os
olhos um toque da sua própria, para comemorarmos, o que nunca veio. —
Maravilha, deixe-me no vácuo, anotarei mais essa na minha lista negra de
“zoação com a Sabrina” — zangada, volto minha atenção para o meu
computador e começo a redigir o relatório do atendimento a essa ocorrência.
Com certeza o supermercado parado por causa disso seria de conhecimento do
alto escalão e precisaria documentar tudo, para que não sobrasse para mim.
Sistema fora do ar queria dizer perda de dinheiro e bronca para o
pessoal de TI.
— Visita! — Caio sussurrou da sua mesa e olhei para ele confusa.
Depois olhei para a porta e congelei. Enrico estava parado me observando, desta
vez sem a jaqueta do terno, apenas com a camisa social branca, calça escura e
gravata.
Novamente esse homem aparece na minha sala ao invés do contrário.
Não era uma atitude habitual de chefe e o desconforto só aumentava. Minha
imaginação alimentava-me com esperanças de que seu interesse estava
ultrapassando o profissional. Minha razão me dava uma tapa na cabeça, dizendo
que minha sala era perto do estacionamento e ele deveria ter ido buscar algo em
seu carro.
Não sabia o que era certo, mas constava que meu corpo reagia a cada
interação com ele e isso estava começando a ficar preocupante.
Capítulo 12

Enrico estava parado na porta da minha sala. Seus braços cruzados a
sua frente, bem delineados pela camisa, seu relógio prata bem destacado em seu
pulso e seus olhos de falcão me encaravam como se fossem me comer. Não
havia nenhuma simpatia e isso me preocupava.
Deixando minha imaginação tomar conta, levanto da minha cadeira,
removo minha blusa e o encaro com provação, para que ele me pegue.
Mas como a vida real é completamente diferente da minha mente
fértil, sorrio sem graça e o cumprimento.
— Bom dia, senhor Zanetti. Desculpe não ter ido mais cedo à sua sala,
mas estava em um atendimento urgente que encerrou agora. — Olho para meu
monitor e depois para ele novamente. Caramba, por que era tão bonito? —
Ainda precisa de mim? Posso terminar meu relatório antes de ir?
— Podemos conversar aqui, não há problema. — sem demonstrar
pressa ou irritação, Enrico entra na sala e pela minha visão periférica vejo Caio
retesar. O antissocial que havia nele queria fugir e o bandido já estava se
levantando para isso.
Como um bom executivo, ele cumprimenta todos com um forte aperto
de mão, não se intimidando com seus os olhares assustados. Acho que nenhum
tinha visto Enrico ao vivo antes.
— Vou pegar um pouco de café. — sem nenhuma educação, Caio
resmunga e sai da sala acompanhado dos outros dois funcionários, que
justificaram suas saídas da mesma maneira.
Estava sozinha com meu predador.
— Aceita café? — pergunto enquanto digito e o observo sentar na
cadeira a minha frente.
— Não, e você? Tomou seu café da manhã? — Fica me observando
atento e curioso.
Por que o CEO está na minha sala, com muita paciência e a espera que
eu termine um relatório? Não deveria ser o contrário, eu a esperá-lo? Esse
homem está me confundindo!
— Não, mas trouxe um torrone para comer assim que conseguir
respirar. — Volto a olhar para o meu monitor, vejo algumas palavras digitadas
erradas e começo a corrigir com o cenho franzido.
— Apesar de ser uma iguaria italiana e de muito bom gosto, não
deveria servir como refeição.
Não consigo responder, então faço uma careta e finjo não ter
escutando. Não era assunto de trabalho, então, não deveria ser obrigatório
responder.
Meu estômago estava revolto, meu coração acelerado, então, precisei
do dobro de atenção para reler meu relatório e fazê-lo da melhor forma.
Novamente me questiono sobre o propósito de sua vinda à minha sala.
Questionar sobre minha alimentação? Não poderia ter esperado eu chegar até
ele?
— O que aconteceu? — Traz sua cadeira para o meu lado e observa
meu monitor. — Nossa! Como você consegue trabalhar com tudo isso aberto?
Com sua familiar aproximação, tento colocar ordem no meu juízo.
Sem sucesso. Minha mão começa a suar, tenho certeza que meu coração bate tão
alto que dá para escutar, além da minha boca estar seca. Seu cheiro suave e
levemente amadeirado inebria meus sentidos.
Estava sendo tentada pela luxúria ambulante ao meu lado. Precisava
urgentemente controlar a mim e aos meus pensamentos! Foco no monitor!
Precisava focar na minha tela e na pergunta que havia feito.
— É... Estou acostumada. — tento não gaguejar. — Houve uma parada
sistêmica em uma das filiais e estou desde o horário que cheguei tentando
resolver. — Encontro outra palavra escrita de forma errada e corrijo. Essa era eu,
fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, inclusive tentando domar a agitação
dentro de mim.
— Filial de Ribeirão, você falou com Robson. — afirma e me faz
olhá-lo com preocupação. Será que alguém já foi colocar a culpa na TI? Pior,
seria esse motivo dele estar aqui? Queria me dar bronca pessoalmente?
— Sim, o próprio. — Apresso-me a justificar: — Mas o problema foi
causado pela alteração no fuso horário do servidor, que não deveria ser mexido.
Já fiz a revogação do acesso, estou revendo políticas e acesso de todas as outras
filiais e dos gerentes, para que algo assim não aconteça novamente.
— Tenho certeza que prestou um ótimo serviço, Sabrina. — Sério e
intenso, ficamos nos encarando enquanto tentava processar suas palavras.
Não houve questionamento, nem contra argumentação, apenas
aceitação. Uma demonstração clara de confiança.
Seu celular tocou e diferente da outra vez, olhou quem era, ergueu uma
sobrancelha para mim e atendeu.
— Zanetti... sim, estou ciente. Qual foi o motivo da paralização? —
desta vez, Enrico começou a me olhar com raiva, mas estava clara a direção da
sua ira, para seu interlocutor. — Não foi isso que me reportaram, tem certeza
sobre sua afirmação? — Inclinando na minha direção, para olhar melhor no meu
monitor, Enrico continuou tranquilo e eu, comecei a ter dificuldades para
respirar sem gemer, quando o seu cheio invadiu minhas narinas. — Então não
houve “uso indevido do servidor efetuado pelo gerente do estabelecimento para
usar o browser de internet, para acessar o site de banco”?
Estava incrédula, Enrico estava me defendendo? Usando meus
argumentos para me defender?
Esse CEO existe?
Com um olhar mais satisfeito, balançou a cabeça de forma afirmativa,
voltou a sua posição original e sorriu levemente para mim antes de concluir sua
ligação.
— Entendo que não foi orientado sobre essa política, mas sei que
agora não haverá nenhuma outra ocorrência como essa, certo? Então, envie um
relatório das perdas enquanto estivemos parados para uma eventual tomada de
decisão. — Encerra a ligação, guarda o celular no bolso da calça e me olha
divertido. — Acho que você ganhou um admirador.
Não!
Sim!
Como assim?
Parei de respirar, parei de sentir e até mesmo meu coração parou de
bater. Enrico estava me paquerando?
— Robson elogiou bastante o seu trabalho e profissionalismo, apesar
de tentar esconder o problema antes de enquadrá-lo. — Com uma mão forte no
meu ombro, apertou e se levantou, levando consigo um pouco da minha força e
coragem. — Vamos para minha sala, temos uma reunião com Carina do RH.
Estava decepcionada por não ser ele o meu admirador, ao mesmo
tempo em que estava aliviada...
— Por que vamos falar com Carina? O senhor vai me demitir? — Era
isso, minha família tinha conseguido que eu fosse despejada da empresa. Tinha
conseguido resolver um enorme problema, mas não foi o suficiente para me
redimir. — Sério, senhor Zanetti, não leve em consideração o que minha mãe e
irmão disseram, são apenas ciumentos, está tudo superado. — Levanto da
cadeira e tento implorar.
— Nossa reunião com Carina não tem nada a ver com sua demissão.
Vamos até minha sala, lá explicarei. — Quase me envolvendo com seu braço,
coloca sua mão na minha lombar e empurra para a saída da sala.
Iria falar com ele sobre outra coisa que não fosse rescisão. O quê? Por
quê? Nem queria imaginar o que Alex iria dizer para mim quando voltasse das
férias e percebesse minha nova aproximação com o CEO da empresa.
— Você vai pelas escadas? — a voz de Enrico tira-me dos meus
pensamentos e olho para baixo, por já ter subido alguns degraus a sua frente.
— Oh, elevador, tudo bem... — começo a descer, mas novamente
Enrico disfarçadamente me enlaça no seu braço e com a mão na minha lombar,
dá apoio para que suba os degraus.
— A escada está bem para mim. — Sem tirar sua mão de mim,
subimos lado a lado. Não deveria, mas gostei dessa aproximação e deixei minha
imaginação me levar até momentos de prazer e luxúria nessa escadaria.
Mas antes, precisaria encontrar um ponto cego das câmeras ou
simplesmente desligá-las.
Capítulo 13

Para minha alegria, o ciúme e a raiva do leão de chácara ao nos ver me
deixou mais confiante. Desta vez, a mão nas minhas costas era do homem dos
meus sonhos e não da sua guarda.
Gentilmente abre a porta, faz-me entrar na sua frente e indica a cadeira
ao lado de Carina para que me sente. Cumprimento-a com um sorriso, já que
sempre foi muito educada comigo e nunca me importei em atender seus
problemas, apesar dela ser atrapalhada com a tecnologia.
Enrico contorna sua mesa, senta ereto e une as mãos em cima dos
papeis que ali estavam. Seu olhar está completamente profissional para nós duas
e me preparo para o que me aguarda.
— Chamei-a aqui junto com Carina para atualizarmos suas
informações pessoais. — seu tom é sério, impessoal e direto. Com minha
respiração controlada, mas coração como um cavalo de corrida, não desvio meu
olhar dos seus. — Em seus relatórios diários de frequência não consta trabalhos
extras nos últimos seis meses e muito menos as disponibilidades fora do serviço,
como ligações de madrugada.
Estou levemente sem cor, pressão baixa e constrangida. Enrico foi
averiguar tudo o que minha família falou e estou sendo confrontada com a
realidade.
Nada do que fazia extra era documentando, a não ser os históricos de
uso do meu computador, com minha senha. Além de alguns e-mails enviados
fora de horário, o resto, nada era documentado, justamente porque não recebia
por eles.
Mesmo com todo o seu desdém para mim, Alex constantemente dizia
que meu esforço seria recompensado um dia, se me dedicasse tanto quanto ele.
Ele fazia grandes discursos sobre ser um funcionário com atitudes proativas,
iniciativa e esforço. Por um tempo acreditei em suas palavras, depois, apenas me
acostumei que tudo não passava de discurso motivacional fajuto.
Por um momento comecei a acreditar que Enrico tivesse feito essa
investigação porque estar duvidando de mim. Por isso, decidi ser o mais sincera
possível.
— Senhor, não há nenhuma anotação na minha frequência sobre os
horários extras porque nunca os registrei. Foi tudo acordado com Alex, já que
não receberia pelo trabalho, então não deveria ser registrado. Não era necessário
averiguar a reclamação da minha...
— Não deveria omiti-los da empresa, muito menos aceitar um acordo
desse tipo do seu chefe imediato. Quero tudo documentado a partir desse mês,
sem discussão. — ordena. Engulo seco por não saber onde queria chegar com
tudo isso. Serei advertida?
— Sabrina, preciso da cópia do seu certificado de conclusão de curso e
todos os outros cursos e especializações que fez. — com sua voz suave e calma,
Carina rouba minha atenção e olho para ela com desespero. — Não precisa se
preocupar, isso é algo bom para você. — Sorri na tentativa de me acalmar.
— Tudo bem. Tenho tudo digitalizado no meu e-mail — concordo
insegura.
— Enquanto Alex estiver de férias, você deverá se reportar
diretamente a mim. A TI é um setor muito importante para o bom funcionamento
da empresa, estarei acompanhando de perto tudo o que envolvê-la. — sua voz
confiante, o significado de suas palavras fazem minhas mãos suarem. Estarei
com ele diariamente. Ele quer me envolver...
Sim, faça isso!
Não, deixe-me livre!
Estava confusa, não sabia como lidar com tudo isso. Meu corpo
apreciava a situação enquanto minha cabeça acionava mil e um alertas do perigo
que seria tudo isso. Lembrei-me da conversa com Caio e sobre a suspeita de
auditoria.
Será que ele iria me auditar pessoalmente? Toda essa aproximação não
passava de investigação?
Entre desilusão e medo, apesar de não fazer nada de errado no meu
trabalho, fiquei com o olhar perdido na parede, mas meu chefe me chama
atenção.
— Alguma dúvida? — Enrico pergunta de forma mais branda, e solto
a respiração de forma audível. Estava nervosa, muito nervosa.
— Senhor Zanetti, desculpe pelo inconveniente, por tudo. O senhor
com certeza tem muito mais coisas para se preocupar do que...
— Só me preocupo com o que realmente vale a pena. — com firmeza,
corta-me. Fita-me com intensidade e tenho certeza que suas palavras tiveram um
duplo sentido. Não me dando tempo para pensar, dirigiu-se para a responsável do
RH. — Carina, equipare o salário de Sabrina com o de Alex, inclusive seus
benefícios. Alex não será mais seu chefe e sim seu igual. — Volta a me encarar e
seu olhar é determinado. — Agora, vamos discutir sobre sua equipe e as
melhorias na nossa TI.
— Com licença, senhor Zanetti. — despede-se Carina.
Sabendo que era sua deixa, ela saiu da sala. Estava com medo de
pensar o que toda essa determinação poderia refletir na minha vida, no meu
relacionamento com meu chefe, ou melhor, ex-chefe.
Não consegui desviar meu olhar e Enrico não fez menção nenhuma de
abandonar o meu. Ele estava sério, confiante enquanto eu estava cativa e
vacilante.
Pinhão, seus olhos me lembravam uma semente, que muitos comiam,
inclusive eu. Estava hipnotizada e completamente sem rumo. Não saberia lidar
de forma profissional com o homem que alimentava meus sonhos libidinosos.
Meus sentimentos não sofreram nenhuma alteração apesar de sua aparente
desconfiança.
Previa que uma hora eu iria falhar, uma hora não seria profissional e
destruiria tudo que conquistei. Inclusive, percebi tardiamente que hoje foi um
avanço na minha carreira, mas sentia que tudo foi muito comprometedor.
O que deveria fazer a partir de agora? Como seria minha vida daqui
em diante?
— Sabrina... — sua voz suave me fez piscar várias vezes e recobrar
meus sentidos perdidos. Ajeitei-me na cadeira e tentei me portar de forma
profissional. — A intenção não era deixá-la desconfortável. Agora que sou seu
chefe direto, poderei abrir o jogo e expressar meu descontentamento com a falta
de informação que tenho do setor. Não é culpa sua, pelo contrário, é
completamente minha.
Agora que estava falando sobre trabalho, foquei nas suas palavras e
deixei minha mente poluída de lado. Mais uma vez Enrico mostrava que tinha
confiança em mim, mesmo que meu outro lado gritasse que suas intenções eram
de fiscalização. Apesar disso, não querer decepcioná-lo era mais importante que
imaginá-lo completamente envolvido em mim.
— Por que isso aconteceu, senhor Zanetti? Se me permite a
curiosidade. Alex sempre aparentou estar entrosado com todos os chefes. Eu
mesma já fiz relatórios e relatórios sobre a TI para ele, contendo inventário físico
e digital, diagnóstico atual da infraestrutura, gargalos de processamentos e vários
outros. — Meu coração não parou de ficar acelerado, mas o suor da minha mão
estava passando vagarosamente enquanto as passava pela minha calça jeans.
— Hoje fiz essa mesma pergunta e não soube responder. Não sei se
você sabe, mas o mês passado, quem controlava tudo era meu pai. Sempre estive
ao seu lado, conversava sobre a empresa, mas era apenas isso. Depois do seu
problema de saúde, assumi completamente a Supermercados Zanetti sem a
menor ideia do que iria encontrar. Nesse pouco tempo estando a frente, tive uma
visão do setor de TI completamente diferente da que Alex pintou. — Saindo da
sua postura tensa e imperativa, encostou suas costas, apoiou as mãos nos braços
da cadeira e olhou para seu notebook aberto. — Há algo estranho acontecendo,
algo sério e gostaria de contar com sua ajuda e colaboração.
— Pode contar comigo. — Percebo que sua preocupação está além do
meu setor e meu coração acalma. Não era eu o problema e sim algo mais sério.
Unindo as informações que tinha lido nas minhas pesquisas na internet e o que
estava me revelando, acreditava que tinha algo muito suspeito.
Estava preocupada e me sentindo importante por esse homem confiar
tanto em mim. Devo ter passado uma boa impressão.
— Acredito que pareça óbvio, mas peço sigilo quanto a tudo o que for
discutido com você. — Enrico volta a olhar para mim e confirmo com a cabeça
seu pedido. Sim, nada sairia dos meus lábios. — Nem para sua família. — insiste
com firmeza.
— Não se preocupe, senhor Zanetti, há tempos não falo sobre meu
serviço em casa, fique despreocupado. Aquilo que aconteceu ontem foi apenas
um lapso. — Tento sorrir timidamente para dizer a frase final. — Pode confiar
em mim!
— Sim, sei que posso. — rouco e suave, suas palavras fizeram meus
pensamentos promíscuos acordarem e nublar minha mente.
Na nuvem de luxúria, vejo-o removendo sua gravata, depois
desabotoando sua camiseta e me chamando com esse olhar afetuoso e
completamente sensual. Poderia estar usando uma saia, levantaria da cadeira e
apoiaria meu pé no assento dela, para provocar e me sentir sensual.
Ainda bem que Enrico se levantou e me tirou do transe, porque
imaginá-lo se despindo não estava fazendo bem para as minhas regiões baixas.
Apertei minhas pernas com a intenção de conter essa sensação de necessidade
carnal no momento inoportuno.
Cada vez mais estava me rendendo a esse homem, mesmo sem ele
saber.

Capítulo 14

— Vamos almoçar. — ordena. Arruma as mangas de sua camisa, retira
o paletó do terno que estava apoiado na sua cadeira e o veste.
— Oi? — Olhei confusa quando se aproximou, pegou na minha mão e
me fez levantar. Ainda estava me recuperando das últimas imagens projetadas
pelo meu cérebro pervertido.
— Sou seu chefe direto, nossa reunião ainda não terminou e
precisamos comer. — ainda com seu tom mandão, arrasta-me pela sala até a
porta, onde abandona minha mão. A dele mais parecia brasa ardente do prazer.
Poderia uma mulher ficar com bolas azuis? Não sei, mas achava que
estava ficando.
— Senhor Enrico, preciso passar na minha sala, acionar o
redirecionamento de ligação para meu celular. — Sigo Enrico, que
educadamente se despede de Mirela. Ecoo sua despedida verbal, mas não perco
meu tempo a olhando, sabia que ela redirecionaria farpas para mim. Preferia
continuar no auge em relação a ela.
— Passaremos na sua sala antes de sairmos. — Seguindo pela escada,
acompanho sua descida rápida. Internamente me senti especial, por ele ter
lembrado que prefiro usar as escadas ao invés do elevador.
O homem era o dono da empresa, meu chefe imediato e precisava de
mim em uma reunião com almoço. Bem, não tinha nenhum motivo para recusar,
já que almoçava no mesmo restaurante todos os dias, perto da empresa, junto
com os outros rapazes da TI.
Invado minha sala com pressa e vejo Caio com a caneca no caminho
para a sua boca.
Enrico cumprimentou todos na sala cordialmente e ficou na porta
observando os meus movimentos. Tanto Caio como os outros dois responderam
monossilábicos para o CEO.
— Estarei em reunião com o senhor Zanetti, não vou almoçar com
vocês hoje. Caio, poderia atender as chamadas enquanto estou fora? — peço
enquanto sento na minha mesa e faço o redirecionamento da ligação. A empresa
possuía todas as suas linhas telefônicas por IP, então, toda a configuração era por
meio digital.
— Eu não atendo telefone. — sussurra Caio que me olha apreensivo
intimidado pela presença de Enrico.
Olho para o homem que considerava aterrorizante e reflito. Ele poderia
ser assustador, mas havia se tornado completamente acessível quando comecei a
conversar com ele. Não teria nada de mais em estar com ele, trabalhar com ele,
dar...
— Faça tudo on-line e se precisar que converse por telefone, peça para
um dos meninos atenderem ou apenas encaminhe a ligação para meu celular. Já
estou configurando as ligações do meu ramal para ele. — Termino o
procedimento, pego o tablet que fica em cima da minha mesa, levanto para pegar
minha bolsa e ir ao encontro de Enrico.
Com um olhar estranho para mim, Caio me vê colocando o aparelho
eletrônico dentro da bolsa e seguir o CEO em direção ao estacionamento. Não
estava pensando em todos os detalhes do que poderia acontecer ou o que
poderiam interpretar. Éramos apenas o chefe e sua funcionária indo para uma
reunião no almoço, embora que agradaria se fosse tudo romântico.
— Você parece como alguém indo para guerra. — diverte-se enquanto
seguimos para o imponente carro de luxo. Agora, ele estava mais descontraído
do que antes. Sua preocupação parecia ter esvaído.
— Todo dia é uma batalha estando na área de TI. — respondi com
simpatia e sorri com a intenção de agradecer a porta aberta do carro por Enrico.
Se não fosse nossas posições hierárquicas, arriscaria dizer que estava tentando
me seduzir com esse jeito cavalheiresco.
Assim que sento, meu celular toca e percebo que Carina do setor de
recursos humanos estava ligando. Provavelmente era alguma coisa que precisava
referente à reunião que tivemos mais cedo. Precisava enviar os documentos para
ela antes do dia terminar.
— Olá! — atendo enquanto coloco o cinto.
— Oi, Sabrina, sei que está em horário de almoço, mas minha
impressora está com o mesmo problema de ontem e tenho um monte de
relatórios para imprimir para o senhor Zanetti. — Reviro meus olhos, mas não
deixo de atendê-la da melhor forma possível.
Com um toque no meu braço, Enrico chama minha atenção e com
movimento dos meus lábios, informo que estava falando com Carina do RH.
— Tudo bem, Carina. Lembra-se do que fizemos ontem? Vamos
desinstalar sua impressora e instalá-la novamente. Clique no símbolo...
Direcionando o carro para fora do estacionamento do subsolo da
empresa, o CEO não desvia sua atenção da direção e de mim. Está com os olhos
e ouvidos atentos, mesmo não demonstrando. É incrível como estou percebendo
nuances que antes não via, como um leve enrugar de olhos ou pressão de seus
lábios. De longe, parece estar focado apenas no carro, de perto, é fácil perceber
que está concentrado em mim também.
Alterno entre olhar pelo para-brisa e para ele enquanto faço o suporte
técnico por telefone, absorvendo todo o poder que era um homem com o porte
dele guiando esse automóvel. Poderia ter pedido para um dos rapazes atendê-la,
mas ela sempre foi tão educada comigo que faria esse esforço.
O atendimento acaba pouco tempo antes de chegarmos ao destino
escolhido por Enrico.
Assim que paramos na frente de uma famosa cantina italiana, arregalo
meus olhos e me atrapalho para tirar o cinto de segurança. Estava morrendo de
medo do valor da conta dessa refeição. Por mais que o convite fosse do dono da
empresa, não me sentia confortável em gastar tanto em apenas uma refeição.
Com sua ajuda, saio do carro e um manobrista assume a direção.
Guiando-me com sua mão nas minhas costas, assim que atravesso a
porta de entrada do estabelecimento sinto-me deslocada. Havia muitas pessoas,
todas vestidas formalmente, com classe e esbanjando dinheiro. Eu, com meu
cabelo preso, blusa simples, calça jeans e sapatilhas nos pés, me sentia uma
mendiga. Até a recepcionista estava mais bem-apessoada no vestido preto de
corte simples do que eu.
Precisava mudar meu vestuário profissional urgente!
Em uma mesa afastada da entrada, Enrico puxa a cadeira para eu
sentar e sem conseguir reprimir meus sentimentos de prazer, sorrio e o observo
se acomodar a minha frente como uma namorada apaixonada. Ele era lindo,
imponente e só se relacionaria comigo nos meus sonhos.
Imitando seus movimentos, coloco o guardanapo de tecido no meu
colo.
— Aqui teremos mais privacidade e você poderá se alimentar
adequadamente. — diz com seu tom firme e seu sotaque irresistível. Achava que
estava me acostumando, não me derretendo a cada momento que o escutava, mas
era impossível.
— Torrone é uma alimentação adequada para um lanche. — retruco
fingindo seriedade, não contendo minha vontade de permitir-me intimidade com
ele através de brincadeiras.
O garçom chega, apresenta a si e a cantina. Informa o prato do dia, os
vinhos que acompanham e o prato de entrada. Entrega os cardápios para cada um
de nós e nos permite um momento para escolher, afastando-se da mesa.
Abro o menu e arregalo meus olhos para os valores dos pratos. Sabia
que seria caro, mas nem de longe imaginei que poderia haver pratos com três
dígitos antes da vírgula.
Tinha ouro junto com o molho de tomate?
Olho disfarçadamente para Enrico e percebo o quanto nossa realidade
é diferente. Ora eu imaginava nós dois juntos e esquecia que, na vida real, amor
platônico não era o suficiente. Isso apenas criou um abismo entre minha
imaginação fértil e a realidade.
Se não fosse pela atração ou hierarquia, com certeza estaríamos
impossibilitados de nos relacionar por causa da diferença social. Não que
houvesse algum tipo de preconceito sobre isso, mas dificilmente nos trataríamos
como iguais sendo tão diferentes socialmente.
Eu não era rica, minha família era classe média e com muito esforço!
Meus namorados e ficantes nunca tiveram mais dinheiro que eu e, sinceramente,
não sei se conseguiria lidar com tudo isso.
Que banho de água fria!
Capítulo 15

Ignorando a decepção que me invadia, engulo minha saliva como se
fosse areia e escolho o prato mais barato. Coloco o menu em cima da mesa e
meu assombro com os valores deveria estar refletido no meu rosto, porque
Enrico se preocupa e pergunta:
— Não gosta de comida italiana?
Na verdade, gosto mais é de homem italiano, meu eu pervertido se
intromete e rapidamente o abafo. Chega de alimentar o impossível.
— Pelo contrário, meu prato preferido é macarrão, o segundo é
nhoque, o terceiro pizza, mas os preç... — droga, não iria falar sobre valores com
alguém que com certeza nem se preocupa em pagar milhões em um carro. Sorrio
para disfarçar meu embaraço e mudo de assunto. — Enfim. O que o senhor
gostaria de saber sobre o setor de TI? Consigo obter algumas informações pelo
tablet se precisar. — Tento mostrar eficiência, mas seu franzir de cenho pareceu
não gostar da minha destreza. Será que não vou fazer nada certo hoje?
— Você pode acessar os dados da empresa pelo tablet? Mas isso não é
arriscado? — Como se isso respondesse uma pergunta interna, balança a cabeça.
— Nossa informação está vulnerável, eu sabia! — irrita-se, mas sem alterar o
volume de sua voz.
Nervosa, respiro fundo e bebo um pouco da água que foi servida no
meu copo. Precisava de controle e coerência nesse momento, porque era um
assunto delicado quando se tratava de pessoas leigas em acesso a informação.
Vulnerabilidade de informação dependia do ponto de vista.
— Esse tipo de acesso é restrito a usuários com perfis administrativos.
Todos foram devidamente autorizados pelo dono da empresa e, com isso, um
termo de responsabilidade e confiabilidade foi assinado por cada um. Há
reuniões e tomada de decisões que necessitam desse tipo de acesso externo. Na
verdade, há mais vantagens do que desvantagens. — mostro seriedade e o quanto
poderia confiar na minha informação, mas não me deixa continuar. Havia parado
apenas para respirar quando ele começa a questionar:
— Como são escolhidos esses usuários? Depois que a informação
vaza, não há termo de responsabilidade que desfaça a bagunça. — Olha-me
zangado, toda a sua ira direcionado a mim.
— Posso não ter a informação do como, mas tenho a quantidade de
usuários e quem são. — enquanto falava, acessava no tablet a informação, para
que ele não pudesse me interromper novamente. — Veja! — mostro a tela do
aparelho e ele se inclina na mesa para olhar — Essas são as pessoas com acesso
as informações da empresa de fora dela. Se você clicar aqui, visualizará o termo
assinado e quando foi liberado o acesso.
O garçom aparece e recolho o tablet enquanto Enrico volta a se sentar
ereto.
— Por favor, um Cioppino para mim. — Os dois me olham e
envergonhada, faço meu pedido:
— Um spaghetti à bolonhesa.
O garçom anota nossos pedidos e sorri para meu CEO.
— Senhor, com a intenção de agradecer a preferência, nosso gerente
gostaria de ofertar um vinho branco para acompanhar com seu prato como
cortesia. Aceita?
— Sim, obrigado.
Rapidamente outro garçom aparece com o vinho e serve nossas taças.
Parecia que meu chefe vinha com frequência aqui.
Enquanto isso, Enrico estendeu a mão e entreguei o tablet para ele. Por
sua atenção, percebi que analisava quem tinha acesso, um a um.
Quando somos deixados sozinhos, decreta:
— Remova o acesso de todos, inclusive o meu. Deixe apenas o seu. —
Devolve o tablet para mim.
Estava na ponta da língua discutir, mas assim que meus olhos focaram
nos seus, percebi que nada do que eu fizesse mudaria a sua decisão. Saber o peso
de ser a única com esse tipo de controle me deixou desconfortável.
Precisava alterar minha senha urgente, apenas por desencargo de
consciência.
— Tudo bem. — Atendo seu pedido e de forma remota, faço a
alteração de perfil de forma que pudesse ver. Ambos estávamos inclinados sobre
a mesa para olhar a tela do tablet. Por fim, apresento o resultado. Futuramente,
com certeza precisaria questionar essa exclusividade de acesso.
— É possível rastrear o acesso de uma pessoa na empresa? —
investiga ainda sério.
— Você quer saber os horários que ela acessa o computador, o sistema
ou o acesso remoto? Se existe auditoria dessas ações?
— Tudo. Quero saber se é possível me falar quando a pessoa acessou o
computador, os sites que acessou e o que fez dentro de todos os sistemas da
empresa.
— Tirando os sistemas que não são desenvolvidos internamente, o
resto, auditamos tudo. — Começo a imaginar os milhões de relatórios que
seriam gerados e os vários acessos que precisaria fazer para entregar isso que ele
queria, de apenas um usuário.
— Ótimo. — Encara-me feroz e depois sorri suavemente, voltando a
ficar ereto. — Agora, aprecie um pouco o vinho. — ordena enquanto ele mesmo
fazia isso.
Beber vinho no almoço? Mal bebia ele nas festas de faculdade, o
famoso “sangue de boi”, imagine esse todo chique.
— Senhor...
— Apenas Enrico. Enquanto estivermos fora da empresa ou apenas
nós, me chame de Enrico, por favor. — suaviza seu tom, sua feição, mas o peso
em seus ombros parecia intacto. Seu sotaque se acentua e meu interior se aperta
em resposta.
Nesse momento sinto que algo entre nós muda. Chamá-lo de modo
informal mudaria algo no nosso relacionamento e isso me excita ao mesmo
tempo em que me preocupa.
Nervosa, tomo um pouco de vinho e faço uma leve careta tentando não
cuspir o líquido, por se tratar de um vinho seco.
— O que foi? — Ele toma um pouco do seu próprio vinho novamente
e ergue as sobrancelhas. — O vinho está bom. — conclui.
— É seco. — respondo tímida, por não ser uma apreciadora da bebida.
Meu paladar era para o doce ou os espumantes, ou seja, suave.
Enrico chama o garçom no mesmo momento.
— Rapaz, por favor, traga um vinho mais suave. Minha acompanhante
não gostou desse. — solicita outro vinho para mim.
— Sim, senhor. — responde e sai para atender ao pedido.
Estava atônita por ele gastar tanto com a comida, agora, fiquei
apavorada pela bebida.
— Não há necessidade, por favor, esse está bom! — tento dissuadi-lo,
mas meu apelo é ignorado.
— É inconcebível tomar algo que te desagrada. — diz com
naturalidade, como se não estivesse gastando quase todo o valor do meu vale
refeição em um único almoço.
— É muito! — Precisando me recompor e sentindo-me desconfortável,
levanto da cadeira. — Vou ao banheiro e já volto.
Deixando todos os meus pertences sobre a mesa, praticamente fujo de
todo o poder e presença que Enrico tinha. Entro no banheiro, abaixo o assento da
privada e sento tampando meu rosto com as mãos.
Qual seu problema, mulher? Quem está gastando dinheiro é ele, não
vai sair do seu bolso. Não há nada para se incomodar. Tento me convencer do
absurdo que estou sentindo, mas estava difícil.
Gostar dele, imaginar nós dois juntos e mesclar tudo isso com a
realidade começou a cobrar seu preço. Se quisesse continuar trabalhando para
essa empresa, precisaria aprender a separar meus sentimentos do que é racional.
Depois de alguns segundos respirando fundo e limpando minha mente,
levanto-me e lavo minhas mãos. Precisava parar de pensar no meu chefe como
um possível namorado e aceitar de uma vez por todas que ele era o homem que
pagava meu salário.
Ele queria serviço e não frescura sentimental.

Capítulo 16

Volto para a mesa com um sorriso falso no rosto e vejo que meu copo
foi substituído por um suco de laranja.
— Não sabia se era do seu agrado, mas solicitei um suco de laranja.
Tudo bem? — paciente, ele sorri tenso quando agradeço com a cabeça. —
Poderia me falar um pouco das atividades diárias do seu setor?
Dentro de um assunto seguro e confortável para ambos, começamos a
conversar sobre a minha rotina, a de Alex e de todos os outros funcionários.
Enquanto falava, pediu que anotasse algumas ressalvas que tinha para serem
feitas, como colocar pessoas exclusivas para o suporte ao telefone, um
programador exclusivo e um gerenciador de infraestrutura.
Apresentei todos os sistemas desenvolvidos por nós e os adquiridos
externamente. Mostrei relatórios sobre a quantidade de incidentes que atendemos
das filiais, qual dava mais trabalho e a que tinha menos chamados. Tudo isso já
tinha pronto e disponível na intranet da empresa. Uma solicitação que Alex fez a
mim antes de sair de férias.
Nosso almoço chegou e enquanto comíamos, entramos em outros
assuntos, como a comida que preferimos, viagens e a Itália.
Enrico nasceu e cresceu no país até os dezoito anos, justificando seu
sotaque. Morava apenas com a mãe. Seu pai é descendente de italianos, mas sua
mãe era uma musicista e que continuava em seu país de origem. Falou que tinha
outros irmãos de ambos os lados, mas não detalhou quantos ou quem eram, nem
se eram próximos.
De minha parte, falei mais sobre minha família, a profissão dos meus
irmãos e a paixão dos homens por carros e velocidade. Contei que os
acompanhavam em tudo, embora não fosse tão aficionada.
Revelei o motivo de escolher Ciência da Computação como profissão,
o que arrancou gargalhadas dele.
— Mas é verdade! Adoro matemática, jogos de lógica e sudoku. — riu
mais ainda e me juntei às risadas de sua mente poluída. Estava tão feliz pelo
clima entre nós ter mudado, parecia que estava conversando com um amigo. —
Ia fazer Engenharia Civil, mas Saulo pediu Ciência da Computação para não
precisar nunca mais levar seu computador para ser formatado por um técnico.
— Isso aconteceu? — Com sorriso no rosto, toma um gole do seu
vinho e me encara atento.
— Todo mundo acha que aprendemos isso na faculdade, mas é algo
mais profundo que mexer em softwares. Aprendi a formatar um computador
sozinha, com tutoriais na internet.
Nossos olhos não deixavam de se encarar. Era íntimo, mas também
confortável. Não estava nem um pouco preocupada com o que poderia significar,
porque meu corpo estava bem e minha mente também.
Há muito tempo não me sentia tão leve conversando com um homem.
Enquanto continuávamos nossa conversa distraída, não pude evitar
admirar o quanto esse homem tinha tudo o que buscava em alguém para ter ao
lado, profissional e determinado na empresa, descontraído e brincalhão fora dela.
Enrico tentava esconder, mas gostava de fazer uma piada sempre que contava
algo de duplo sentido.
Parecíamos dois amigos íntimos conversando, trocamos a sobremesa
por café expresso e nem reparei que o meu celular não havia tocado em nenhum
momento quando depois de alguns risos, escutei-o.
— TI, boa tarde. — Sorrindo para o homem na minha frente, saúdo
meu interlocutor. Era um número de dentro da empresa, mas não havia anotado o
setor.
— O que a pobre menina da informática está fazendo com o dono da
empresa? É abrindo as pernas que você quer subir de cargo? Ou você o está
ajudando a sonegar impostos? — Perco o sorriso, a cor do rosto e a alegria. Não
reconheci a voz, nem se era masculina ou feminina, porque se assemelhava com
uma voz mecânica, ou seja, estava usando algum programa ou dispositivo para
fazer.
Movo o celular do meu ouvido e olho para sua tela. A linha havia
ficado muda e percebi que a ligação havia sido encerrada. Depois, olho para os
lados e não consigo encontrar ninguém conhecido.
Como assim?
Não tinha medo, mas meu calo sempre foi o preconceito por ser
mulher e conseguir meus feitos profissionais apenas com minha capacidade e
não charme ou o que tinha entre as minhas pernas.
— Quem era? — Enrico pergunta preocupado. — Está tudo bem?
Sem responder ao meu chefe, pego o tablet e vou pesquisar na central
telefônica de que setor era esse número. Não era possível que alguém, de dentro
da empresa, estivesse me vigiando.
Número desativado.
— Precisamos voltar para a empresa. — anuncio, guardando as coisas
na minha bolsa e automaticamente pegando minha carteira para pagar o almoço.
Estava completamente desnorteada, entre a raiva e o choro eminente.
— Sabrina! — chama-me ríspido e segura minha mão com a carteira
com um aperto firme. — Diga, quem era? Por que está tão nervosa?
Se ele estava com raiva, eu estava irada! Controlando meu coração
acelerado e a fúria nas minhas palavras, respondi:
— Algum idiota nos viu e ligou de dentro da empresa fazendo
ameaças. Odeio que questionem minha capacidade, não estou brincando no
serviço. — falo baixo.
— O que foi dito? De onde era? — Enrico refletiu minha indignação.
— Telefone desativado, mas dentro da empresa conseguirei rastrear
como essa ligação foi feita. — Respiro fundo e peço mais educadamente: — Por
favor, vamos voltar. Só quero poder resolver isso.
Não sabia quanto tempo havia passado, estava gostando da nossa
interação, mas essa ligação deixou meus cabelos em pé e a pulga atrás da orelha.
Ou você o está ajudando a sonegar impostos?
Será que era verdade? Enrico sonegava impostos e agora, que Alex
não estava trabalhando, queria minha ajuda? Mas como iria fazer algo do tipo, se
não tinha acesso ao sistema financeiro? Tinha senha de administrador na
empresa, mas nunca efetuei nenhuma operação dentro dos sistemas
desenvolvidos por nós, seria ilógico e ilegal.
Além do mais, ajudar a fraudar a própria empresa é algo
completamente ilógico.
Enrico chamou o garçom, avisando-lhe que fechasse a conta. Antes
que o rapaz trouxesse a conta na mesa, levantamos e seguimos até o caixa. Ele
iria efetuar o pagamento diretamente no caixa, porque me recusei a ficar sentada.
Nervosa e ansiosa por tudo, observei seu perfil e depois seus olhos de falcão em
mim.
Tudo isso não passava de um jogo? Quem estaria mentindo, Enrico ou
a voz ameaçadora?
— Mais coisas foram ditas. — afirmou sério, mas sem raiva.
— Sim. — Franzi o cenho e concordei. Não iria aliviar para o homem,
só porque habitava meus sonhos desejosos ou porque era meu chefe.
— Conversaremos mais no carro. — Coloca o cartão de crédito na
carteira, guarda em seu bolso e pede uma cópia da nota fiscal da refeição em
nome da empresa. Ele informa os dados a atendente, pega o papel e então, me
conduz para fora do restaurante com sua mão nas minhas costas.
Agora, esse toque que tanto gostava, parecia estranho. Não relaxaria
enquanto não soubesse tudo o que realmente estava acontecendo e qual era a
verdadeira intenção de Enrico.
As palavras do meu irmão voltaram a mim quando sentei no banco do
carro luxuoso: “a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”. Era isso? Meu
chefe estava em busca de um elo mais fraco para servir de bode expiatório?
Estava ansiosa, desesperada e não queria aceitar mais nada dele. Tive
vontade de sair do carro quando começou a dirigir.
— Diga. — ordenou.
— Fui acusada de te ajudar a sonegar impostos. Li alguma coisa do
tipo na mídia. Todas estavam acusando você... — paro um momento para me
corrigir, sabendo que tanto ele quanto o pai possuíam o mesmo nome. — Na
verdade, acusando você e seu pai, não há como saber, porque seu nome é igual
ao dele, ninguém diferencia os dois. — Solto meu cabelo e passo minhas mãos
neles com um pouco de frustração. Estava nervosa e divagando. — Céus, como
fui cair no meio disso tudo? Só quero trabalhar, ser reconhecida no que faço,
terminar de juntar dinheiro para meu mochilão e torcer para que a empresa me
dê dois meses de férias, que nunca tirei, diga-se de passagem. Queria poder
juntar mais dinheiro e comprar uma casa, um canto apenas meu. — Descontrolo-
me completamente ao lembrar de um conhecido. — Não quero ser presa como
meu amigo de faculdade que trabalha em órgão público, que foi acusado de
alterar o sistema e sumir com impostos a serem pagos. Não quero destruir minha
carreira, minha vida... — Paro um momento para respirar e vejo minha mãe com
cara de desgosto para mim. — Céus, o que minha mãe vai falar? Minha família
será completamente envergonhada...
Não reparei que Enrico estacionou o carro.
Não percebi que havia desafivelado nossos cintos.
Não notei que estava beirando a histeria.
Mas senti!
Senti Enrico pegar-me pela nuca com sua mão firme, o que me fez
encará-lo. Quando arregalei meus olhos e fechei minha boca, que mais parecia
uma matraca, seu olhar intenso antecipou seus atos e não tive outra escolha a não
ser ceder.
Seus lábios se juntaram aos meus e, com toda a adrenalina bombeando
no meu sangue, convidei-o a aprofundar o beijo ao abrir minha boca e invadir a
sua língua com minha.
Esqueci o motivo do meu assombro e decidi apenas seguir as vontades
do meu corpo.
Capítulo 17

— La mia bella ... — entre os beijos, Enrico murmurou as palavras
[1]

em seu perfeito italiano e me fez arrepiar de prazer.


Seus lábios eram suaves, seu gosto era forte como o café que tomamos
no final da refeição e todas as minhas terminações nervosas pediam mais desse
sabor, do néctar da luxúria italiana.
Assim que Enrico virou seu rosto para que nossas bocas se
encaixassem melhor, senti uma enorme necessidade de tê-lo mais perto de mim
que me fez soltar o sinto de segurança e quase sentar em cima do painel central
do carro. Quando um barulho dentro do carro soou, provavelmente de um botão
que acionei indevidamente, assustei, afastei-me do me chefe e apressadamente
amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo.
O que tinha acabado de acontecer?
Eu tinha beijado Enrico. Corrigindo, Enrico me beijou.
Meu chefe me beijou. Na boca.
Eu gostei. Muito.
Sem coragem de olhá-lo, tentei controlar o fogo que meu corpo tinha
sido tomado. Meu núcleo formigava, minhas pernas estavam bambas e minhas
mãos tremiam sedentas por tocá-lo outra vez.
Queria mais, muito mais, mas era irracional. Estava sendo acusada de
algo que não fiz, mas que agora tinha se transformado em verdade. Estava
abrindo minhas pernas para meu chefe!
— Desculpa Enrico... desculpe senhor Zanetti. Não sou assim, eu...
— Vou te deixar na empresa. Tenho outro compromisso. — totalmente
profissional e sem nenhum resquício de intimidade, Enrico voltou a conduzir o
carro.
Coloquei o cinto de segurança e suspirei de forma audível. Minhas
mãos foram para o meu rosto, tentando encobrir meu embaraço e desejo.
Não sabia o que doía mais, ele não assumir a culpa ou fingir que nada
aconteceu. Arrisquei uma espiada ao meu lado e o vi completamente tenso, além
do seu cabelo perfeitamente alinhado estar bagunçado. Fui eu?
Céus, e agora?
— Quero a auditoria de acesso de todos os funcionários no último mês
no meu e-mail ainda hoje. — ordena e abro minha boca em choque.
A empresa tinha mais de mil funcionários, sendo que desses, mais da
metade possuía acesso a computadores. Não seria uma tarefa difícil, mas daria
muito trabalho e ocuparia muito o meu tempo.
Estava sobrecarregada com sentimentos e responsabilidades, algo
desse tipo iria apenas aumentar meu fardo pessoal.
Tentando pensar como a funcionária que era, pego meu celular e
confiro o horário, para saber quanto tempo hábil teria para atender seu pedido.
Eram mais de três horas da tarde e assustei com o quanto de tempo passamos
juntos e nem percebemos.
— Será impossível entregar o que pede ainda hoje. Se for mais
específico em quem devo... — minha voz ainda estava trêmula pelo choque da
situação.
— Preciso dessa informação urgente, Sabrina. Tenho pessoas
desonestas na minha empresa, que estão te ameaçando e preciso saber quem são.
— Para o carro na frente da empresa e suspira de forma audível. Fecha os olhos
e encosta a cabeça no encosto do banco. — Nunca assuma a responsabilidade de
um ato que não cometeu. Eu te beijei, quem deveria se desculpar sou eu.
Com o coração acelerado, fico encarando seu perfil e o momento em
que iria se desculpar, que nunca veio.
— Preciso ir. — rosna impaciente, para que eu saia do seu automóvel.
Enrico não se desculpou, apenas me dispensou.
Sem me despedir e com raiva, saio do seu carro, bato a porta e sigo
com passos firmes e contrariados até minha sala. Não consigo conter meu mau
humor no cumprimento cordial de quem passa por mim e assim que chego na
minha sala, despois de descer um andar de escada, Caio está com o volume alto
do som enquanto Anderson e Vitor estão conversando descontraidamente.
— Desligue isso, Caio. — resmungo, jogando minha bolsa no chão ao
lado da minha mesa e sentando na minha cadeira com muita raiva. O teclado
também sofreu com os meus sentimentos e só queria poder descontar tudo o que
estava sentindo em um homem alto, de terno, com olhos cor de pinhão, barba
por fazer e de nacionalidade italiana.
— O que foi? — Obedece-me e me encara preocupado. Os outros dois
haviam voltado a suas posições de trabalho.
— TPM. — resmungo, não sendo uma total mentira. Tinha certeza que
toda essa minha necessidade pelo meu chefe não passava de momento hormonal.
Dizem que nessa época a mulher fica mais excitada.
Sim, a culpa é dos malditos estrogênio e progesterona.
— Tome. — Caio coloca um bombom Ferrera Rochedo na frente do
meu teclado e sorri apreensivo. — Tem mais de onde veio esse.
Parando de torturar meu teclado, abro o invólucro com rapidez e com
uma única mordida, deixo o doce derreter na minha boca com um gemido
satisfeito.
Sim, nada que um chocolate italiano não faça para acabar com a
necessidade de outra tentação da mesma nacionalidade.
— Já disse que se não fosse por você, já teria ido embora dessa
empresa? — com meu humor mais controlado, digo suavemente. Caio sempre
me surpreendia com esses gestos carinhosos quando eu estava uma pilha de
nervos. Não era a primeira vez e sabia que não seria a última.
— Espero que melhore. — Encabulado, coloca seus fones de ouvido e
se isola em seu mundo computacional enquanto encaro meu monitor com
frustração.
Havia uma missão a ser cumprida e faltaria tempo para que fosse
concluída ainda hoje. Poderia ser um idiota, poderia ameaçá-lo por assédio
sexual, mas não estava em mim nada disso. Só queria aprender, ter sucesso
profissional e pronto. Até porque, não houve assédio, eu queria, e muito, o que
aconteceu.
Mesmo com tanta coisa para ser executada, deleguei algumas tarefas
minhas na parte de desenvolvimento para meus três colegas de serviço. Nada
ficaria pendente enquanto estava resolvendo esse abacaxi.
Enquanto realizava consultas e operações no meu computador, minha
mente voltava há algumas horas atrás. Meu corpo não havia esquecido como
eram seus lábios, a vontade que senti de estar colada com ele e o quanto me
excitei com tudo isso.
Estava há tanto tempo sem namorado que todos os meus sentidos
estavam à flor da pele.
— Tchau, Sabrina. — Deixando mais um bombom italiano na minha
mesa com um sorriso contido, Caio se despede e olho para o canto inferior
direito do meu monitor. Seis e meia e não tinha nem metade dos relatórios de
auditoria prontos. Estava ainda na letra “j”.
Olhei para toda a minha sala e enfrentei a solidão de se trabalhar
sozinha depois das dezoito horas. O cansaço parecia ter me atingido em cheio.
Pensei em tomar um petrolão, mas lembrei do torrone na minha bolsa
e com a intenção de continuar firme e forte com minha tarefa, abaixei, peguei-o
dentro dela e comecei a comê-lo como uma selvagem. Deixaria o bombom para
depois.
Chegando a letra “p”, estiquei meus braços acima da cabeça para
alongar e bocejei. Com minha cabeça limpa, meus pensamentos se organizaram
e consegui me equilibrar emocionalmente. Estava exausta, como se tivesse
trabalhado mais de vinte e quatro horas seguidas.
Olhei para os lados e pela primeira vez me senti aflita por estar
sozinha. Lembrei-me do telefonema na hora do almoço e abandonei minha
atividade para investigar. Era o que deveria ter feito assim que cheguei do
almoço.
Almoço, Enrico, beijos...
Sem desviar o foco, Sabrina. Recrimino-me.
Pesquiso novamente o número desativado, procuro histórico, algum
registro excluído e nada. Faço uma breve pesquisa na internet para saber se era
possível realizar uma ligação sem deixar rastros com aquele aplicativo, e
encontrei meios de fazer o número aparecer no destino mesmo não sendo o de
origem.
Busquei em arquivos digitais antigos de instalação dos telefones IP e
descobri que esse ramal era usado no último andar. As únicas pessoas naquele
local eram Mirela e Enrico, que estava comigo quando recebi o telefonema.
Será que foi Mirela? Bem, sendo quem era e como se comportava, não
duvidaria, mas ela não tinha toda essa capacidade técnica, ou tinha? Nos tutoriais
da internet não parecia fácil de fazer, então...
Capítulo 18

Levantando da minha cadeira, sigo para fora da minha sala e subo as
escadas, indo direto ao último andar. Não tinha visto o horário, mas tinha certeza
que não havia ninguém na empresa. Com a intenção de investigar a mesa dessa
mulher, subi de forma sorrateira e invadi a recepção sem medo de ser vista.
Estava tudo vazio e com as luzes apagadas.
Sento na sua cadeira e abro a primeira gaveta, encontrando tudo
metodicamente alinhado. Blocos de anotações, canetas, clipes e grampos até
pareciam intocados. Arrumei um item que tinha saído do lugar e fechei
vagarosamente a gaveta.
Quando ia abrir a segunda, escuto vozes e meu coração quase pula
pela boca.
Caramba, e agora?
Olho para todos os lados e num ato de desespero, já que as vozes
estavam cada vez mais altas, agachei debaixo da mesa e trouxe a cadeira o
máximo que consegui até mim. Se fosse alguém vindo de frente, ninguém iria
me ver, mas se fosse da sala de Enrico, vergonhosamente seria pega.
— Não vai se repetir, chefinho, prometo. — perco toda a cor do meu
rosto quando escuto a voz de Mirela e o jeito suave que diz essas palavras. O
único chefe presente do leão de chácara era o homem que beijei na hora do
almoço, Enrico. Escuto um leve gemido, um estalo de lábios e um ronronar. —
Estou liberada?
Fecho meus olhos e tento controlar minha raiva e as lágrimas de
escorrerem. Eles pareciam bem íntimos pelos sons que escutei.
Esse homem está usando todas as mulheres a seu bel prazer. Fui uma
idiota apaixonada, além de uma funcionária capacho. Enquanto ele está curtindo
beijos, eu fiquei trabalhando em seu relatório infernal.
Sim, estava com ciúmes. Também estava me sentindo usada e irritada.
Não ouvi a resposta, mas passos perto da mesa. Não tive coragem de
abrir os olhos e como se conseguisse me ocultar dessa forma, esperei deixar de
escutar qualquer barulho antes de encarar minha realidade. Escutei sons de
sapato tocando o chão com firmeza, porta abrindo, porta fechando e o nada.
Rápida e silenciosamente saí debaixo da mesa e segui escadas abaixo.
As luzes continuaram apagadas e não sabia precisar se Enrico havia entrado em
sua sala ou saído do andar.
Às pressas, chego à minha sala e grito assustada ao ver o próprio CEO
sentado na cadeira em frente a minha mesa. Coloco uma mão no coração e
lágrimas escorrem dos meus olhos pelo susto, raiva e desilusão.
Céus, esse dia estava sendo muito!
— Desculpe, me assustei. — murmuro desgostosa.
Apesar de Enrico ter se levantado e me olhado preocupado, limpei
rapidamente minhas lágrimas, sentei na minha cadeira e o encarei friamente,
completamente recomposta.
— Onde estava? — Senta novamente na cadeira e me avalia.
Presenciando seu romance com o leão de chácara, italiano canalha e
irresistível.
— No banheiro. — respondo ríspida.
Abro o bombom deixado por meu colega de serviço, coloco-o inteiro
na boca e olho para o horário exibido pelo meu computador. Eram mais de dez
horas da noite e ainda tinha muito relatório a ser feito pela frente.
— Terminou o relatório?
— Não, como disse, são muitos usuários para pouco tempo. — falo
com a boca cheia encarando o meu monitor. Estava me sentindo rebelde e nem
um pouco educada. Termino de mastigar o bombom e o encaro. — Posso
terminar amanhã?
— Tem como imprimir o que você já fez? — pede impaciente e
arregalo meus olhos.
Ele é de verdade?
— Senhor Zanetti, são mais de mil páginas a serem impressas, é
inviável. — Vendo sua frustração pelas minhas palavras ou talvez pelo
tratamento cordial, decido ser prática, tiro o tablet da minha bolsa, configuro o
gerenciador de relatórios e o entrego com um bocejo. — Desculpe. Veja os
relatórios por aqui.
— Como isso funciona?
Inclino meu corpo na minha mesa, pego o aparelho da mão dele e
mostro:
— Você quer esse relatório para encontrar alguma coisa, certo? Se
você quiser saber sobre uma pessoa, digite o nome dela aqui. — Faço a operação
como um exemplo e continuo. — Se você quiser saber sobre um dia ou horário
específico, escolha aqui. E se você quiser saber qual operação e qual sistema,
escolha aqui.
Termino de falar, volto a minha cadeira e o vejo me encarando com
admiração. Encaro-o com ferocidade, não amolecendo meu coração para esse
aliciador de mulheres e volto a minha tarefa.
— Eu realmente aprecio sua dedicação, Sabrina. — diz suave. —
Tenho exigido muito de você, eu sei, mas sua ajuda será essencial para organizar
a empresa e o que tenho planejado.
— Sou paga para isso. — digo friamente. — Posso ir embora ou você
esperará até perto da meia noite para ter os relatórios em mãos? — Não o encaro,
porque minha raiva começou a crescer de uma forma exponencial. Elogiar-me
estava tendo o efeito contrário.
— Sabrina, sobre o que aconteceu no almoço... — tenta me acalmar,
mas mal sabe ele que meu problema foi o agora e não o que aconteceu no
almoço. Decido interromper suas desculpas.
— Não precisamos conversar sobre isso, ninguém precisa se
constranger mais. — controlo minha emoção, mas minha voz sai levemente
trêmula. — Posso ir embora? — insisto de forma enfática.
Abandona o tablet na minha mesa, levanta da cadeira e anda pela
minha sala com frustração, esfregando suas mãos no rosto e cabelo. Reparei sua
vestimenta apenas agora, camisa com mangas dobradas até os cotovelos, relógio
prateado destacado em seu pulso, sem jaqueta ou terno, sem gravata e cabelos
revoltos.
Isso era preocupação ou o momento pós Mirela?
Revoltada por não ter uma resposta quanto a alteração de prazo na
conclusão do meu serviço, bloquei minha máquina, guardei tudo na minha bolsa
e levantei da cadeira. Aproximo-me determinada, enquanto ele que para e me
olha com o cenho franzido.
— Estou cansada, esgotada e me sentindo como se um trator tivesse
me atropelado. Estou indo para casa, você tem o tablet para uma parcial dos
relatórios e amanhã, entregarei o resto. Adeus. — Viro minhas costas para ele,
mas não consigo dar nem mais um passo, porque me prende no lugar com uma
mão no meu braço. Olho-o confusa.
— Non. — diz com firmeza.
[2]

— Não?
Novamente, sem aviso prévio, cola sua boca na minha quando puxa
meu corpo para estar em frente ao seu. Impiedosa e com raiva, seguro seus
cabelos e puxo com força, arrancando um leve rosnado e gemido de seus lábios.
Nosso contato não é casual, não há delicadeza, apenas frustração e
desejo. Queria me lembrar de que o escutei a pouco com sua secretária Mirela,
mas a luxúria tomou conta quando suas mãos desceram pelas minhas costas e
apertaram minha bunda, levemente me erguendo para estar de encontro com sua
masculinidade.
Estava chateada, sobrecarregada e a única coisa oferecida foi esse
contato indevido com meu chefe. Que assim fosse, porque não iria mais lutar.
Estava completamente rendida aos seus encantos, mesmo que durasse apenas por
hoje.
— La mia perdizione ... — sussurrou entre os beijos. Não tinha a
[3]

menor ideia do que significava, então, simplesmente me perdi nessa neblina de


sedução italiana.
Capítulo 19

Entre os beijos ardentes e mãos abrasadoras, minha bolsa havia caído
do meu ombro com um baque seco. Fui empurrada contra a parede e o corpo que
desejei apenas nos meus pensamentos pervertidos, estava colado ao meu,
sufocando-me de paixão.
Suas mãos subiram novamente pelo meu corpo, desta vez pelos lados,
enquanto seus lábios iam, beijo a beijo, descendo pelo meu rosto e pescoço.
— Mi fai perdere giudizio ...
[4]

Arfo ao escutar as palavras que não compreendo enquanto sua mão


cobre meu seio e a outra fica acariciando debaixo do meu outro seio. Sua boca
explora meu pescoço e encontra minha orelha. Sinto sua língua, sua respiração
acelerada e seus gemidos.
Sentia como se fosse pegar fogo. Sentia uma necessidade inigualável
de corresponder as suas investidas, de senti-lo, de fazê-lo experimentar todas as
sensações que estava me proporcionando.
Estava me sentindo mais, muito mais mulher.
Ousada, ergo uma perna para enlaçar a sua, fazendo com que nossos
quadris estivessem bem mais encaixados do que antes. Minhas mãos saíram de
seus cabelos e vagaram pelas suas costas, arranhando, precisando
desesperadamente de contato físico.
Seus lábios voltam aos meus com suavidade e lentidão, tão sensual que
meu ventre formigava, instigando minha perna e meus quadris a se friccionarem
em busca do prazer que isso causava.
Enquanto o trazia para mais perto de mim com meu abraço e olhos
fechados, o sinto levantar minha blusa com naturalidade e assim que chegou às
minhas axilas, automaticamente ergui meus braços. Ele interrompeu nosso beijo,
olhamo-nos como dois embriagados de prazer e voltamos a nos atracar enquanto
minha blusa foi descartada em algum lugar.
Nesse momento, minha mente tinha apenas um objetivo, que era
minha total satisfação com esse ato. Todos os outros assuntos envolvidos foram
omitidos pela luxúria, ou seja, permiti-me entregar sem nenhuma reserva.
Agora, suas mãos buscavam o fecho do sutiã, impacientes por me ter
nua da cintura para cima.
Gemi quando senti todo o ar gelado da minha sala em meus seios
descobertos. A boca de Enrico não perdeu tempo e trocou meus lábios pelos
bicos entumecidos. Sua língua quente e seus lábios exigentes me fizeram fechar
os olhos em busca de armazenar todas essas sensações que estava sentindo.
Minhas mãos foram para seus cabelos e gemi alto quando Enrico
trocou de seio enquanto a mão atendeu a necessidade do outro. Gemi pela falta
de contato com seu quadril, meu sexo necessitando do aperto, do atrito com o
seu corpo.
— Enrico... — um pouco envergonhada, apenas pedi nas entrelinhas
do meu chamado a sua atenção para onde mais queria, precisava, ansiava!
Quase derretendo aos seus pés, abri meus olhos e vi o homem, o todo
poderoso da Supermercados Zanetti se ajoelhar na minha frente e me encarar
com uma necessidade que nunca vi em ninguém.
Com destreza, desabotoou meu jeans e empurrou para baixo minha
calcinha junto. Hipnotizada pelo homem que me devorava com os olhos,
esqueci-me de qualquer vergonha quanto ao meu estado atual e
involuntariamente, removi minhas sapatilhas e me separei do resto da minha
roupa.
Antes que pudesse me preparar, o homem colocou uma perna em seu
ombro e com sua boca e dedos, invadiu meu sexo úmido e latejante. Precisei
segurar seus cabelos novamente para não cair no chão quando uma onda de
prazer cobriu meu corpo.
Uau! Seria isso a iminência do meu clímax?
Não tive tempo de analisar, porque com a língua Enrico brincou com
meu clitóris e um de seus dedos me penetrou, fazendo-me sentir algo que pensei
que nunca existia.
Descontrolada, movimentei meus quadris enquanto gemia aliviada,
enlouquecida e satisfeita. Havia gozado e não conseguia pensar racionalmente,
não que antes essa situação estivesse diferente.
Ainda de olhos fechados, soltei seus cabelos e fiquei escorada na
parede ofegante, completamente acabada para qualquer outro tipo de ação.
Escutei algum barulho, mas não tomei conhecimento do que era, porque
precisava me recompor antes que abrisse os olhos e enfrentasse a realidade.
Com um impulso e força, fui erguida sentada pelos braços de Enrico.
Meus olhos abriram e encontraram o pinhão dos seus, impiedosos, mandantes e
luxuriosos. Era o olhar de alguém em uma missão de prazer, que me fez
preparada para mais. Ele me ofereceria mais.
Com ânimo, seus lábios devoraram os meus ao mesmo tempo em que
seu membro invadiu o local mais íntimo do meu corpo. Não havia mais o que
esconder, minha intimidade estava completamente exposta a esse homem.
Com movimentos medidos, seus quadris iam e vinham de encontrou
ao meu, aliviando a latência que estava meu clitóris. Assim que comecei a gemer
nos seus lábios, seus movimentos aumentaram de velocidade, sua boca emitiu
sons de esforço e prazer, apenas aumentando a minha necessidade de mais.
Abraçando-o com meu coração quase saltando do meu corpo, Enrico
desfez nossa conexão com os lábios e escondeu seu rosto no meu pescoço,
gemendo e depois, mordendo meu ombro assim que tudo se tornou mais intenso,
mas desesperado.
Abaixando-me levemente, apenas para que os movimentos atingissem
meu corpo de uma forma que sentisse o meu clímax novamente, fui pressionada
na parede o suficiente para não saber onde meu corpo começava e o de Enrico
terminava. Sentia-nos como uma só pessoa e num êxtase fora síncrona, nos
desfizemos com tremores de corpo e gemidos altos.
Tornou-se verídico, havia dado para o meu chefe.
Recuperando o meu fôlego tanto quanto meu companheiro, Enrico me
carrega pela sala e senta em uma cadeira comigo ainda montada em seu colo.
Estava com medo dos pensamentos que minha cabeça iria apresentar e, com um
suspiro, aumento meu aperto em seu corpo, não desfazendo nossa conexão
corporal, apesar de apenas eu estar nua, ele continuava completamente vestido.
Os braços de Enrico saem debaixo das minhas pernas e vão para as
minhas costas, movimentando para cima e para baixo em um carinho que me fez
arrepiar.
— Deve estar com frio, bella — carinhoso e completamente diferente
do que conheço de Enrico, ele me afasta e segura meu rosto com uma mão. —
Vá se vestir, precisamos conversar.
Como uma avalanche, os pensamentos que temia invadiram minha
mente e me deram forças para desconectar dele e sair do seu colo. Olhei para seu
membro coberto por látex e reparei o quanto era avantajado perante o último e
único que tive. Também percebi que fui irresponsável, já que em nenhum
momento lembrei-me do preservativo, apesar dele não o ter esquecido.
Meus membros tremeram de frio, de nervosismo e de vergonha. Sem
mostrar pressa em me vestir, fiquei de costas para ele enquanto colhia minhas
roupas do chão. A cada peça colocada, mais sobre as consequências dessas ações
me assolaram.
Havia fechado minha mente para a razão enquanto me deliciava com
as sensações que Enrico me proporcionou. Agora, tudo o que estava omitido
veio à tona, forçando arrependimento sobreposto ao sentimento de satisfação.
Abotoo minha calça jeans.
Havia me entregado ao dono da empresa no mesmo dia em que ele
havia me dado um aumento. Ele me levou para almoçar, nosso tratamento
mudou de completamente profissional a levemente amigável.
Coloco meu sutiã.
Recordei que no almoço recebi uma ameaça de alguém que estava me
vigiando, de olho em mim. Lembro-me das câmeras de vigilância apenas agora.
Olho para o teto, todos os cantos, apenas para garantir que não havia nada dentro
dessa sala. Pelo menos, não visível.
— O que foi? — Enrico interrompe meu devaneio com preocupação e
sem blusa, encaro a pessoa que tem o poder de me levar às alturas e me afundar
no mar da depressão.
Estava completamente recomposto, apesar das vestes estarem
amarrotadas tanto quanto seus cabelos. Seus lábios estavam vermelhos e
convidativos para mais um momento de loucura.
Olhou discretamente para meus seios cobertos com meu sutiã branco e
antes de respondê-lo, terminei de me vestir.
— Lembrei-me que a empresa possuí um circuito interno de vigilância
e olhei para cima, apenas para ter certeza que não havia uma aqui dentro. — com
fragilidade, cruzei meus braços na minha frente e tremi involuntariamente.
Estávamos distantes um do outro, o momento agradável se foi e o
constrangimento apareceu.
Será que era assim que as pessoas se sentiam quando tinham sexo
casual?
Arregalo meus olhos e cubro meu rosto com minhas mãos assim que a
verdade dos fatos me atinge como um banho de água fria. Havia feito sexo
casual!
Capítulo 20

— Sente-se, Sabrina. — Descubro meus olhos e vejo sua postura
profissional substituir a anterior carinhosa. O Enrico da luxúria havia ido embora
e o executivo tomou conta. — Precisamos conversar, isso foi um ato...
— Insano! — respondo por ele, não querendo me sentar, mas seguindo
em sua direção, passando por ele apenas para encarar o armário no outro lado da
sala. — Merda, eu não sou assim.
— Precisamos manter isso em sigilo, Sabrina.
Viro para encará-lo, meus braços cruzados na minha frente.
— Apesar de realmente não querer que essa situação se transforme na
fofoca atual, queria contar apenas para sua secretária esnobe ou devo dizer
amante, chefinho? — faço uma imitação vulgar do apelido, o que faz Enrico
franzir o cenho.
Mais uma verdade foi jogada na minha cara como uma torta de creme
do jogo passa ou repassa. Havia me entregado para o cara que estava se
relacionando com a própria secretária.
— Do que você está falando? — zanga-se e não me deixo abater pela
pontada de receio que senti. Escutei com meus próprios ouvidos e não estava
blefando.
— Antes de você vir aqui, estive lá em cima no seu andar. Escutei
você e Mirela conversando e fazendo não sei mais o quê.
— Você me viu lá em cima? — Seu olhar feroz em mim consegue me
fazer duvidar do que escutei.
Enrico não parecia ser uma pessoa de se justificar para outra, mas
assim que fiz uma careta, sentei na cadeira mais próxima e me abracei com
medo de tudo o que estava sentindo. Escutei-o suspirar alto e meus olhos
voltaram a encará-lo com dúvida.
Estava tão confusa!
— Sabrina, saí da empresa há horas e apenas voltei, porque sabia que
você estaria aqui até o final do plantão. Não subi para minha sala, vim
diretamente para cá! — Apesar de continuar com sua postura profissional,
percebi um pouco de candura em suas palavras.
Sentiria melhor se o conforto fosse dado com seus braços, mas pelo
jeito que estava se portanto nunca mais sentiria suas mãos em mim.
— Enrico... — respiro fundo e continuo, iria contar tudo. —
Investiguei sobre o telefone que me ligou no almoço. É um ramal desativado do
seu andar. Fui olhar de perto... merda! — Lembrei apenas agora que as escadas
tinham câmeras e com certeza registraram minha ida até lá em cima.
— Termine! — pede impaciente.
— Céus, serei demitida! — resmungo e fecho meus olhos, criando
coragem para assumir todos os atos realizados nesse dia.
— Não haverá demissão. Acabei de te dar um aumento!
— E acabei de dar para meu chefe! — retruco um pouco alto e tampo
minha boca com a mão para me conter. — Enrico, não quero esse aumento, não
vou subir na vida se não for pela minha competência profissional. —
choramingo, contendo as lágrimas de cair.
— O que acabou de acontecer aqui não tem nada a ver com seu
aumento. Não confunda as coisas, vamos conversar. — Olha-me intensamente.
— Mas antes, termine o que você estava dizendo sobre sua visita ao meu andar.
Tudo bem, primeiro o assunto perigoso, depois o vergonhoso.
— Então, ia olhar tudo o que estava na mesa de Mirela, com a intenção
de achar algo que a relacionasse a esse telefonema, quando escutei vozes. Me
escondi debaixo da mesa e o leão de chácara falou com seu “chefinho” —
contei, sem nenhum filtro.
— Leão de chácara?
Droga! Havia revelado meu apelido para ela.
— É, a Mirela. — Faço uma careta e agradeço que ele deixou de lado.
— E você me escutou falando? Me viu?
— Não. — reconheci envergonhada, mas tentei me justificar. — Ela
falou chefinho, quem é o único chefe dela? Se não era você...
— Meu pai ou Lauriano. Ela é funcionária deles e ainda os atende por
telefone e faz alguns serviços pessoais. Mas nenhum deles mencionou para mim
que voltaria a trabalhar. — Franze o cenho e me encara, tentando desvendar mais
das minhas palavras.
Encaro-o apreensiva e ainda constrangida com o que tinha feito para
tentar descobrir quem estava me espionando e, também, com o que eu meu chefe
fizemos.
— Você não viu quem estava com ela? — Neguei com a cabeça. —
Você falou de um circuito de segurança, certo? Onde ficam os monitores?
— Tem uma sala de vigilância no térreo, mas os dados ficam gravados
aqui, nos nossos servidores. — Apontei com a mão para o local fechado, o qual
alguns racks contendo servidores e switches estavam.
— Você tem acesso?
— Quer saber quem é o amante da sua secretária? — Levanto uma
sobrancelha curiosa e ciumenta.
— Não. — Pega uma cadeira que fica de frente para minha mesa e
empurra até chegar à minha frente. Senta com as pernas bem abertas e com as
mãos nos meus joelhos, puxa-me até colar no seu banco.
Suas mãos apertaram meus joelhos e instintivamente, apertei minhas
pernas para acalmar a chama que ele acendeu e nunca apagou, apenas abrandou.
Foquei meus olhos em suas mãos, na nossa conexão.
— Sabrina, olhe para mim. — Levanto meu olhar até encontrar os seus
e seguro minha respiração. A magnitude do que via estava além da minha
compreensão. — Posso confiar em você?
Por que me pede isso?
Meu coração, que havia abrandado seus batimentos, começou a
acelerar. Precisei soltar o ar dos meus pulmões e com algumas respirações
profundas, concentrei-me em sua boca ao invés das respostas fisiológicas do
meu corpo ao seu contato.
— Sim, Enrico, pode confiar em mim. — mesmo estando nervosa,
consigo respondê-lo com firmeza.
— A empresa irá falir se não encontrar o responsável pelo desfalque e
desaparecimento de receitas.
— Como assim? — Franzo a testa, completamente chocada com suas
palavras. Era impossível que Supermercados Zanetti estivesse em crise.
— Desde quando assumi a frente da empresa, constatei um rombo nas
contas bancárias. Ainda não consegui tudo o que preciso com o banco, extratos
bancários com mais de dois anos precisam de mais tempo do que eu esperava
para serem repassados. — Solta meus joelhos, olha para o teto e suspira
frustrado ao mesmo tempo em que passa as mãos pelos cabelos. — Tenho
algumas suspeitas de quem pode ter feito as retiradas de forma indevida, mas
existem impostos que não foram pagos, direitos trabalhistas que não foram
recolhidos... — volta a me encarar e exalou raiva nas últimas palavras. — São
mais de milhões subtraídos da empresa e outros milhões em dívidas com órgãos
federais.
Horrorizada, essa é a única palavra que resume o que sinto nesse
momento.
— Enrico, como isso aconteceu? Felipe do financeiro deveria estar a
par disso tudo... Ou é ele o responsável? — Esfrego minhas mãos nos meus
olhos e bocejo de cansaço. Ainda por cima, continuo sentindo o peso do mundo
nas minhas costas, por mais que havia gozado duas vezes há pouco tempo antes.
Não havia conversado com ele sobre nossa situação. Se seríamos
alguma coisa do outro além da relação profissional.
— Na verdade, Felipe é o braço direito do meu pai e segundo ele, a
situação financeira era de ciência dos sócios. — diz com certo ceticismo.
— E você acreditou?
— Claro que não, por isso contratei uma empresa de auditoria e
investigação para me ajudar com tudo isso. Precisei sair do meu perfil de chefe e
colocar a mão na massa, porque tudo indica que meu pai que estava fazendo
isso.
— Mas é completamente ilógico, seu pai quebrar a própria empresa? É
o nome dele que está em risco. — Bocejo novamente e arregalo meus olhos em
vergonha. — Desculpe, eu...
— Vamos, Sabrina. Amanhã nós continuaremos.
Enrico se levanta, puxa-me pelo braço e cola seu corpo ao meu.
Minhas mãos apoiam seu peitoral, ergo a cabeça e olho nos seus olhos de
pinhão.
Sem reação, apenas fecho os olhos quando seus lábios encostam nos
meus em um beijo casto e carinhoso. Seu toque era magnífico e eu,
completamente hipnotizada por esse homem e seu magnetismo, me rendi.
— Vou te deixar em casa. — quase sussurrando, Enrico se afasta
alguns passos, deixando-me com espaço livre para buscar minha bolsa
descartada no chão perto da porta.
Com uma mão na minha lombar, me guia até o estacionamento, abre a
porta do seu carro luxuoso e me ajuda a entrar como um verdadeiro cavalheiro.
Assim que Enrico dá partida no carro, lembro-me das imagens das
câmeras.
— Enrico, você não vai querer olhar as imagens das câmeras?
— Amanhã, porque agora, precisamos falar sobre nós.
Capítulo 21

Enquanto o carro era guiado, sentia uma leve irritação na garganta.
Queria falar sobre nós, saber o significado daquela transa, mas morria de medo
da resposta, dela ser uma dispensa educada.
Não transava com qualquer um e a prova disso era que só tive apenas
um parceiro sexual. Havia imaginado algo do tipo acontecendo conosco, minha
imaginação sempre me supervalorizou como mulher. Porém, não estive
preparada para me sentir tão realizada como Enrico me fez sentir.
Naquele momento, quando se ajoelhou na minha frente e me desnudou
da cintura para baixo, ele me olhava com desejo, admiração. Eu não era a
menina da TI, com cara de dezoito anos e conhecimento duvidoso. Era apenas
Sabrina, uma mulher rendida aos encantos de um homem com necessidade de
interação.
Devo ter feito alguma ação que externasse meus pensamentos
libidinosos, porque Enrico soltou a mão do volante e segurou a minha no meu
colo, perto da minha virilha. Olhei para baixo e constatei que minhas penas
estavam firmes uma a outra e minhas mãos em punhos.
Suspirei e tentei relaxar, apesar da mente continuar a fervilhar de
imagens obscenas.
— Espero não ter exagerado na dose. — com voz rouca, continua
dirigindo com uma mão no volante e outra na minha. Viro meu olhar para seu
perfil e o admiro.
— Não, foi na medida certa. — respondo um pouco envergonhada e
sou recompensada com um apertar de mãos. — E agora?
— Assumirmos qualquer coisa nesse momento colocaria toda a
auditoria em risco. — com seriedade na voz, sua mão volta para o volante e ele
faz uma curva suave com a direção. — Não vou mentir, preciso de você para
resolver esse problema com o rombo da empresa em primeiro lugar e, se
possível, colocar na cadeia os responsáveis.
Dor.
Não consegui raciocinar, apenas sentir a faca atravessando meu
coração bobo e apaixonado. Sim, estava apaixonada, completamente rendida por
esse homem, mas não servia para nada além de um meio para o fim.
Entendia seu raciocínio, se eu o ajudasse a auditar os funcionários e
fosse comprovada a nossa interação pessoal, o resultado seria comprometido. Eu
detinha poder para manipular os dados nos sistemas, poderia ser a pessoa que
maquiou alguns relatórios. Ou então, poderia apenas incriminar outra pessoa.
Estava magoada, muito ressentida para pensar de forma racional. Não
queria aceitar o óbvio, por uma vez na vida, queria dar voz aos sentimentos e
deixá-los me guiar.
E era isso que iria fazer, sem ter medo de me expor ainda mais para
esse homem.
— Quem te garante que não sou eu a responsável por tudo? — sem
emoção, jogo a pergunta no ar e espero, com meu coração despedaçado, sua
resposta.
— Você não entendeu o que quis dizer antes... — com pesar, tentou
desconversar, mas o interrompi.
— Apesar de ter ofertado minha confiança, não acho que deva
acreditar em mim.
— Sabrina...
— Irei ajudá-lo no que for necessário, mas não acho prudente saber
mais sobre seus planos. Melhor limitarmos nossa interação ao profissional. —
Percebo que entramos no meu bairro e com um aperto forte na minha bolsa,
preparo-me para saltar do carro assim que parar.
— Bella...
Meu baixo ventre se contraiu com a palavra que muito se assemelhava
a bonita em português.
— E pode parar de falar em italiano comigo, porque meu idioma é
português do Brasil. — Faço um movimento com minha mão, como se fosse
enxotá-lo. — Para ser mais específica, pt-BR!
Não conseguindo prever suas ações, fico completamente a sua mercê
quando desafivela meu cinto, estaciona o carro no mesmo local do dia anterior e
me puxa para sentar de lado no seu colo. Minhas pernas ficaram sobre o painel e
numa tentativa de não apertar nenhum botão indevidamente, ergo-as, fazendo
pressão no seu colo, mais especificamente no seu membro, que já parecia de
volta à vida.
— Seu carro vale milhões, a empresa está falida em milhões... não
tenho condição de pagar nada se quebrar alguma coisa daqui. Então, me deixe ir
embora.
— Non.
Com raiva, olho para seu rosto e vejo apenas um sorriso maroto brotar
em seus lábios. Minha vontade era de estrangulá-lo nesse exato momento,
porém, contrariava o que meu corpo começou a sentir.
Idiota. Os dois, ele e meu corpo.
— Non ti arrabbiare, mia bella, ti prego . Não quero restringir nossa
[5]

relação, não quero você pela metade.


Novamente, as palavras do meu irmão me assombram e não sei se o
agradeço ou simplesmente acabo com sua vida.
“A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”.
— Bem, vai ter que se contentar com isso, porque não serei
massacrada no final dessa operação. — Tento sair do seu colo, mas acabo
incitando-o a ficar mais excitado. — Céus, você não se cansa?
— Non, mia bella. — Sorri quando franzo minha testa e o encaro com
minha ferocidade, odiando e amando o idioma que sai de seus lábios. — Não,
minha linda. Não me canso de você. — traduz e seus braços envolvem minha
cintura, me fazendo parar e minhas pernas relaxarem no painel. Não iria mais
pensar em não causar danos.
Relaxo no seu colo, fecho meus olhos e esqueço, por um momento,
que o homem que estou sentada em cima é meu chefe, o CEO da empresa, a
pessoa que me quer para investigar, colocando em dúvida qualquer sentimento
que achava que poderia ter por mim.
Minha cabeça apoiou em seu ombro, uma mão foi para o seu coração e
senti o ritmo frenético que batia. Suas mãos na minha cintura e seu queixo
apoiado na minha cabeça me fez relaxar e apreciar o momento.
Seria possível um homem desse calibre estar interessado
verdadeiramente por mim?
Minha performance há alguns momentos atrás foi digna de uma
mulher desinibida, confiante e nem um pouco preocupada com as consequências.
Por que não poderia continuar dessa maneira?
Porque você não bebeu bebida alcoólica suficiente para tanto. Meu
inconsciente ganha voz.
Era verdade, quando começamos a nos beijar, senti-me embriagada,
completamente confiante das minhas ações.
— Enrico, preciso dormir. — sussurro e afasto meu corpo do dele,
para encará-lo. Mesmo na penumbra, consegui visualizar os olhos de pinhão e
suas intenções para comigo. Preocupação, carinho e necessidade, mas eu não
sabia distinguir se precisava de mim para sua auditoria, para suprir suas
necessidades carnais ou apenas precisa de Sabrina.
— Descanse, mia bella. — Passou a mão no meu rosto, desceu pelo
meu pescoço e braço, até chegar à minha mão. — Não sei qual seu receio, queria
conversar mais, o suficiente para que você entenda minhas intenções. Estou em
um momento delicado da minha vida, onde seu apoio é fundamental para que
siga em frente.
Mais uma vez percebo que sirvo apenas para essa operação de
descoberta de quem quer falir a empresa.
— Sou sua funcionária, mas não serei usada fora do âmbito
profissional. — Com seus braços frouxos, consigo voltar para o banco do
passageiro. Pego a minha bolsa que caiu no assoalho do carro, abro a porta e
resmungo: — Boa noite.
Com os faróis acesos, percebo Enrico acompanhando-me com os olhos
até o portão de casa. No caminho peguei a chave dentro da minha bolsa, coloco-
a na fechadura do portão menor e sem olhar para trás.
Transformando meu humor assim que abro a porta de entrada da casa,
sou recepcionada pela minha mãe e seu costumeiro questionário sobre onde
estava e o que estava fazendo.
Aproveitei que já sabia sobre meu plantão e disse apenas que perdi o
horário, pois fiquei jogando RPG para relaxar.
Sim, só se fosse Rebolando no Pau Gostoso.
Capítulo 22

Fui dormir incomodada e acordei renovada. Apesar do peso nos meus
ombros, percebi que meu corpo relaxou e incrivelmente consegui descansar.
Minha mente ainda estava fervilhando com ideias, possibilidades e
imagens obscenas. Estava me sentindo um menino recém-chegado a puberdade,
precisando se aliviar mais de cinco vezes por dia.
Quando abri meu guarda-roupa para escolher o que iria usar, decidi
abandonar minha calça jeans. Peguei meu conjunto de calça social e terninho, há
muito abandonado.
Escolhi a lingerie branca mais nova que possuía e as coloquei. Preciso
variar as cores, porque branco, bege e preto eram as que predominavam.
Nenhuma sensual, todas casuais.
Completamente vestida, olhei-me no espelho e sorri para o reflexo.
Parecia uma executiva, não mais a menina da TI. Peguei minha bolsa e vi o
quanto não combinava com meu vestuário sofisticado.
Pego meu celular, que estava carregando, e vejo que estou em cima da
hora para pegar o ônibus. Rapidamente saio do meu quarto e vou para cozinha,
onde toda a família já estava.
Cumprimento todos com um bom dia murmurado e beijo no rosto.
— Dormiu bem, minha filha? — minha mãe questiona com
preocupação enquanto abro a geladeira em busca de alimento para o café da
manhã. Meu pai e irmãos estavam sentados à mesa terminando seus desjejuns.
— Sim, mãe, assim como todos os dias. — Pego uma maçã, lavo-a na
pia e decido ir comendo no caminho. — Vou correr para pegar o ônibus. Bom
trabalho, gente.
Com uma mão no meu braço, minha mãe interrompe minha saída de
perto dela. Olho-a confusa e espero o que parecia ser um sermão.
— Filha, você sabe que pode contar com a mãe, certo? — Engulo a
saliva como se fosse areia e aceno em acordo, com medo de derramar todas as
minhas preocupações em seu colo. — Você tem mania de guardar tudo para si,
com medo da nossa reação. Só queremos o seu bem. Deixe-nos te proteger.
Com um sorriso forçado, beijo o seu rosto, murmuro um
agradecimento e fujo para o ponto de ônibus, com lágrimas nos olhos.
Minha mãe tinha um sexto sentido para tudo, com certeza farejou
minhas inseguranças e receios, por mais que estivesse me sentindo poderosa com
essa roupa. Dou uma mordida na maçã e espero o ônibus respirando
profundamente para que meu equilíbrio emocional voltasse ao normal.
Chego ao trabalho com minha confiança recobrada. Sorridente, vejo
que o segurança e a recepcionista repararam na minha roupa social. Droga! Essa
era a desvantagem de se vestir bem quando você sempre se portou
informalmente, todos iriam reparar e comentar.
Nem quero imaginar quando vier trabalhar de saia. Bem, acho que isso
nunca irá acontecer, já que apenas dois vestidos fazem parte do meu guarda-
roupa e são para festas de gala.
— Bom dia, Matias. — cumprimento o segurança que desce as
escadas comigo para abrir a porta.
— Bom dia, senhorita. Está elegante hoje. — Abrindo a porta para
mim, agradeço seu elogio e sigo para minha mesa.
Memórias do dia anterior fazem meu coração bater acelerado, mas me
forço a seguir com minha rotina, porém, com um sorriso bobo nos lábios.
Sabia que poderia ser apenas um objeto da operação, mas o ato
libidinoso de ontem foi bom, não podia negar, meu corpo não permitiria.
Checo meus e-mails e aos poucos, meus colegas de trabalho vão
aparecendo e me cumprimentando. Caio é o último a chegar, com uma caixa de
bombons Ferrera Rochedo na mão.
Amplio meu sorriso assim que ele a coloca em cima da minha mesa e
quando abro minha boca para agradecer, olho em seus olhos e vejo acusação
neles.
— O que foi, Caio? — esqueço da cordialidade e vou direto ao ponto.
— Você está namorando? — acusa-me com voz baixa.
Sinto toda a cor do meu rosto sumir e meu coração parar de bater por
um momento. Será que ele sabe sobre mim e Enrico?
Tento encontrar alguma coisa em seu olhar, julgamento ou nojo, mas
só vejo acusação e mágoa.
— Não estou entendendo sua pergunta. — decido pela ignorância
enquanto recobro meus sentidos e cor da pele.
— Cheguei à empresa e a recepcionista me pediu para entregar a você
essa caixa de bombons, justo o bombom que dou para você! — sussurra com
raiva. Tento entender qual o problema, o que realmente deixou Caio furioso e
para minha sorte, ele continua. — Avise aos seus admiradores ou namoradinhos
que você tem um amigo muito ciumento, e Ferrera Rochedo só EU posso te dar.
Deixando-me atônita, observo Caio se ajeitar em sua estação de
trabalho, colocar os fones de ouvido e imergir no trabalho. Olho para Anderson e
Vitor, que estão confusos tanto quanto eu.
Meu colega de trabalho e amigo estava com ciúmes porque alguém me
deu o mesmo bombom que ele me dá, como se apenas ele tivesse a
exclusividade de me presentear.
Esses homens da computação não existem!
Bem, melhor ciúme pela amizade do que por amor. Nada entre nós
poderia acontecer, não tínhamos química para isso.
Pego a caixa e olho para todos os lados dela, em busca de uma
identificação. Nada, era apenas ela e seus bombons suculentos.
Com meu instinto desconfiado em alerta, decidi não comer nada antes
de saber de quem era. Fui ameaçada por telefone ontem e agora, estava
recebendo bombons sem identificação? Nunca tive um admirador secreto, não
achava que teria boas intenções nesse presente.
Ah, não esqueça do sexo selvagem de ontem. Minha mente
impertinente se intromete e entorto minha boca, antes de voltar aos meus
afazeres. Tinha um monte de relatórios para fazer e entregar a Enrico e agora que
sabia um pouco sobre seus intuitos, a cada pessoa consultada, investigava
acessos suspeitos.
Sites que entrou, operações nos sistemas, tudo foi conferido por mim e
o relatório, que deveria estar pronto até o final da manhã, estava pela metade.
Tinha opção de continuar indiferente, mas os sentimentos que sentia por Enrico
não me permitiam ser apenas profissional. Meu lado racional poderia dominar
minha boca, mas minhas ações apenas o coração controlava.
Não saí para tomar água e muito menor ir ao banheiro. Não olhei para
os lados e direcionei tudo o que me era encaminhado para meus colegas de
trabalho. Estava compenetrada e determinada a encontrar algo.
Fiz isso durante toda a manhã e antes de sair para almoçar com os
colegas de serviço, duas mulheres invadiram minha sala. As duas da mesma
estatura, uma branca e outra mulata. Ambas de cabelos escuros e vestindo
terninhos, saias e sapatos altos.
Eram duas executivas com poder e presença no recinto, fazendo com
que Anderson e Vitor parasse o que estavam fazendo para babar. Como era de se
esperar, o excêntrico Caio apenas ignorou a presença de ambas, tirou seus fones,
levantou-se e olhou para nós.
— Vamos almoçar?
Saindo de seus transes, Vitor e Anderson também se levantam.
— Bom dia, moças. Precisam de alguma coisa? — Levanto da minha
cadeira, dispenso meus colegas e congelo no lugar assim que sinto algo descer.
Estava de TPM e o senhor chico acabou de dar suas caras. Teria
momento pior? Com um suspiro, caminho vagarosamente até elas, que me
olham avaliadoras.
— Sou Prócion, auditora da Stars Auditoria e Investigação. Fomos
contratadas pelo senhor Zanetti. — Estendi minha mão de forma tensa, para
cumprimentá-la, sentindo minhas partes íntimas ficarem úmidas.
Caramba, será que tinha algum absorvente na minha bolsa?
Normalmente tinha um reserva sempre, mas não me lembrava se repus o último,
uma vez que minha menstruação não era nem um pouco regular.
— Eu sou Vega. — Também nos cumprimentamos com um apertar de
mãos, mas ela não me soltou. — O que está acontecendo?
Não sabia o que pensar. Ela estava querendo saber sobre o que estava
sentindo nesse momento ou o que estava acontecendo com a empresa?
Sentindo uma nova onda de umidade entre as minhas pernas, soltei do
seu aperto e corri para a minha bolsa.
— Gente, desculpe, mas preciso ir ao banheiro urgente. — Com
desespero, não encontro nada na minha bolsa e gemo em frustração. — Droga!
— Sabrina? — escuto a voz de Enrico e olho para o teto, sabendo que
tinha feito algo de muito errado em outra vida para tudo isso estar acontecendo e
com ele presenciando.
Capítulo 23

Viro minha cabeça para olhar as três pessoas que me observam com
intensidade. Será que alguma delas possui um absorvente?
— Elas são as responsáveis pela auditoria, como conversamos.
Gostaria que você as ajudasse no que precisarem. — Apesar do seu olhar
confuso e preocupado, Enrico manteve a postura profissional.
Percebi que me avaliou da cabeça aos pés e com medo da grande
umidade que sentia, virei meu corpo completamente para frente. Coloquei
minhas mãos para trás, com a intenção de sentir se algo estava aparente.
— Sim, senhor Zanetti. — minha voz tremulou.
— Terminou os relatórios de ontem?
— Estou quase acabando. — controlo minha voz para não
choramingar. Céus, poderia me sentir mais constrangida do que agora?
— Quando terminar gostaria de me reunir com você. — solicitou de
forma profissional.
Vejo a moça, Vega, arregalar os olhos e sorrir para mim com simpatia.
Virou para Enrico e falou:
— Obrigada por nos apresentar, senhor Zanetti. Assumimos a partir
daqui. Ainda hoje receberá um relatório do que encontrarmos. — dispensando
nosso chefe, Enrico sai da sala e Vega fecha a porta. — Prócion, alerta vermelho
do mês. — diz em tom conspiratório.
Estou sem ação, não sabendo o que fazer para me livrar dessas duas
mulheres.
— Sério? Você não está se prevenindo? — A mulata questiona e então,
as duas se viram para mim, seus olhares com simpatia. — Poxa, Sabrina, justo
agora?
— Do que vocês estão falando? Olha, estou numa emergência, preciso
de um...
— Absorvente. Sabemos, sua calça já está manchada. — interrompe-
me Vega. Vem em minha direção, vira-me de costas e consta com um estalo de
língua. — É, você está com problemas.
— Alguma de vocês tem absorvente? — repito meu pedido com
desespero.
— Você precisa trocar de roupa, Sabrina. Absorvente não vai resolver
nada. — Prócion responde e faço uma careta desesperada.
— Não posso ir para casa, é muito longe. Ainda por cima, preciso
terminar um relatório e ajudar vocês. — Suspiro nervosa. — Sabe aquele dia que
você achou que começou com o pé direito, mas então, reconheceu que tem dois
pés esquerdos? Vesti-me bem pela primeira vez na vida para vir trabalhar, ganhei
bombons de um desconhecido e ainda descobri que meu amigo tem ciúmes de
mim, o que conforta meu coração, já que não tenho amizades. Estava indo tudo
bem, até que levantei da minha cadeira e senti essa... — olho para meu quadril e
resmungo frustrada. — Nessas horas, odeio ser mulher.
Como sempre acontecia quando ficava nervosa, falei demais.
— Venha, vamos te ajudar. — Vega me coloca na sua frente e
empurra-me para fora da sala. — Siga até o banheiro feminino, cuidarei da sua
retaguarda. Prócion irá trazer algum vestuário para você, daremos um jeito.
Esquecendo que eram duas estranhas, faço o que me é orientado
subindo para o banheiro no térreo. A outra moça seguiu para fora da empresa.
O banheiro era pequeno e tinha apenas dois reservados. Com um
sorriso simpático, Vega me observa enquanto retribuo sua avaliação.
— Desculpe a indelicadeza, mas de onde surgiu o nome Vega? — para
passar o tempo, decido perguntar o que havia me intrigado antes.
— É o nome de uma das estrelas mais brilhantes do universo. Antes
que você questione, Prócion também. Trabalhamos para a SAI e apenas por uma
questão de gosto, temos nomes de estrelas. — Pisca um olho para mim,
confiante e carismática.
Ainda não estava entendendo muito bem tudo isso, mas a outra moça,
com uma bolsa na mão, entra e nos tranca.
— Você parece vestir o mesmo número que nós, então acho que vai
dar certo a mesma roupa que vestimos. — Coloca a bolsa em cima da pia com
duas cubas e retira o que precisava. — Tem absorvente interno, normal sem
abas, com abas...
— Por que vocês trazem uma roupa extra? — interrompo-a.
— Somos auditoras e algo mais, o que implica em sempre estar
preparada para qualquer eventualidade, nossa ou de nossos clientes. — Vega
responde, mas não consigo processar as palavras.
Prócion virou seu rosto para mim e ergueu uma sobrancelha.
— Você não usa nenhum método para controlar sua menstruação?
Mal havia as conhecido e já queriam saber de assuntos particulares
sobre a minha vida. Quem eram essas mulheres?
— Prócion, você a está assustando. — Vega se aproximou de mim e
com um sussurro, me tranquilizou. — Antes de chegarmos aqui, investigamos a
empresa e todos os funcionários da sede. Sabemos que você é correta, não há
nada que desabone sua conduta dentro da empresa. Estamos do mesmo lado,
queremos descobrir quem está por trás do rombo e encare isso como um ato de
boa-fé de nossa parte. Queremos que confie em nós. Somos as mocinhas. Além
do mais, precisaremos de muitas informações e acesso para concluir essa
operação.
Bem, se ela achou que eu estava assustada antes, mal sabia que agora
eu estava tremendo. Decidindo por absorver suas palavras antes de concordar ou
correr para questionar Enrico, pego a roupa das mãos da mulata, constatando
com tristeza que se tratava de uma saia e terninho, além de uma calcinha preta e
adequada para minha atual situação.
Escolho o absorvente com abas e entro em um dos cubículos. Troco-
me e fico olhando para minhas canelas nuas. Não lembrava a última vez que
vesti uma saia, já que não existia uma no meu guarda-roupa.
— Está tudo bem por aí? — Prócion bate na porta do meu cubículo e
abre vagarosamente. — Qual o problema? Muito comportado?
— Acho que nunca vesti uma saia depois dos meus quatorze anos. —
falo baixo e tentando não entrar em pânico. — Não sei usar isso, todos vão
reparar.
— São coisas da sua cabeça, não dê bola para elas. — Mostra-se com a
mão, de cima para baixo e ergue as sobrancelhas. — Você diria que odeio saias,
salto altos e sou flamenguista fanática?
— Você gosta de futebol?
— Tanto gosto, como jogo. Vou aos estádios e fico gritando no meio
na muvuca! — Ela ergue o braço e começa a cantar algum hino desconhecido
pela minha pessoa.
Assim que a torcida acaba, sou retirada do meu esconderijo e encaro
meu reflexo no espelho. Vega foi para meu lado, de modo que ficou uma de cada
lada.
— Você está linda. Por que essa cara? — Vega questiona.
Porque não me sinto eu.
Respiro fundo e decido ignorar essa sensação de me sentir muito
mulher. Precisava aceitar que era bonita, que um homem me tomou ontem com
muito desejo e que sabia o que estava fazendo, tanto no lado pessoal como no
profissional.
— Vocês têm razão, não há motivo para tanto alarde, é apenas uma
saia. Além do mais, vocês salvaram meu dia. — Sorrio para o reflexo e para as
duas. Elas retribuem o sorriso e se afastam de mim.
— Vamos então. Você poderia nos dar acesso aos sistemas para
consultar relatórios ates de ir almoçar? — Prócion solicita.
— Não vou almoçar, ficarei com vocês. — Volto para o cubículo, pego
meus pertences manchados e dobro-os até se transformarem em um pacote
pequeno.
Apesar de elas serem simpáticas, transmitirem confiança e segurança,
não liberaria os dados da empresa sem supervisão. Não arriscaria, mesmo que
Enrico confiasse nelas.
Descemos para minha sala novamente. Sinto-me estranha, com as
pernas presas e frias por causa da pele exposta.
Guardo minha roupa usada, arrumo a mesa de Alex para as duas
utilizarem e sou recompensada com mais dois absorventes. Agradecendo com os
olhos, guardo-os em minha bolsa e volto para a minha mesa, com a intenção de
criar usuários de consulta para as duas auditoras.
Ambas abrem notebooks na mesa e percebo que cochicham. Tento
entender o que falam, mas não consigo discernir as palavras. Elas parecem tão
competentes no que fazem e entrosadas que antes de liberar o acesso, admiro-as
pelo canto do meu olho.
— Acessem o endereço intranet.supermercadoszanetti.com.br no
browser dos seus computadores. Criei um usuário para cada uma, seu nome
ponto consulta. — Elas prontamente começam a seguir minha orientação.
Volto a focar no meu monitor e nos meus relatórios para Enrico sobre
os acessos dos funcionários assim que meus colegas de trabalho voltam do
almoço e seguimos a tarde em um silêncio cômodo.
Capítulo 24

Só quando o primeiro a se despedir, Vitor, se pronuncia é que percebo
que já são dezoito horas. Meu estômago roncou e olhei para os bombons com
um desejo desumano.
Nenhum deles questionou a presença das duas mulheres
desconhecidas, comprovando o quanto apenas eu tinha uma preocupação além
das minhas atividades normais.
— Boa noite, Sabrina, pelo jeito não vai participar do corujão hoje,
né? — Balanço a cabeça de forma negativa. — Bem, até segunda-feira. —
Deixando um de seus bombons para mim, Caio se despede e Anderson o
acompanha. Sem pensar duas vezes, devoro o pequeno néctar dos deuses e gemo
de saciedade.
— Você não comeu? — Prócion se manifesta.
— Esqueci completamente. Quando estou focada em alguma coisa,
esqueço-me até de beber água. — Havia levantado duas vezes para ir ao
banheiro, para trocar o absorvente e beber água.
— Muito serviço para hoje?
— Sim, um relatório que senhor Zanetti me solicitou. — Olho
novamente para as horas, apenas para constatar que minha noite seria longa.
Apesar de estar começando o final de semana, há muito tempo isso não existia
para mim. O plantão não me permitia hoje e Alex não me permitia antes.
— Nós terminamos o relatório inicial de auditoria. Você nos
acompanha até a sala do CEO? — solicita Vega.
— Sim, sem problema. — Apesar da minha calma aparente, meu
estômago começou a embrulhar e a fome a sumir. As fadas da antecipação
acordaram e me fizeram suspirar quando levantei da mesa.
Com destreza e profissionalismo, as duas fecharam os notebooks,
guardaram em suas pastas e me acompanharam pelas escadas. Assim que
cheguei ao térreo, rumei para o elevador, por estar muito incomodada em andar
com a saia.
Assim que entramos, Prócion me olha da cabeça aos pés.
— Antes que me esqueça, pode ficar com a roupa. Você ficou muito
bem nela.
— Como assim? Eu não posso aceitar! — tento contestar, mas sou
interrompida pelo olhar feroz das duas auditoras.
— Ainda bem que o meu presente não está em discussão. — Com o
abrir de portas do elevador indicando o último andar, ela e Vega saem depois de
mim.
Aproximamo-nos da mesa da secretária Mirela e minha surpresa foi
tanta com seu sorriso acolhedor que me fez arregalar os olhos.
— Sabrina, querida, o que você precisa hoje? — O leão de chácara,
que mais parecia um gato carente, me recepciona dessa forma e me deixa sem
palavras.
Quem era essa mulher e o que fez com a esnobe que anteriormente
ficava aqui?
As auditoras perceberam meu choque e intercederam por mim.
— Boa tarde. Estamos aqui para falar com senhor Zanetti. — Vega
tomou a frente.
— Mas é claro, só um momento que irei anunciá-las.
Com certeza tinha entrado em um universo paralelo, porque essa
mulher me viu mais de dois dias seguidos e em nenhum momento se mostrou tão
prestativa igual agora. Seria uma fachada por causa das auditoras? Enrico falou
com ela?
Como se tudo começasse a se encaixar, lembro-me do dia de ontem,
que entrei sorrateira nesse andar por causa da ligação suspeita no horário do
almoço. Precisava verificar as câmeras e tentar descobrir quem era esse
“chefinho”. Alguma coisa aconteceu de ontem para hoje para que ela mudasse o
comportamento de forma tão radical.
Com o sorriso ainda estampado no rosto, nos encaminha para a sala de
Enrico. Acabei me distraindo dos pensamentos de que iria ver o homem o qual
havia me entregado. Assim que a porta se abriu e seus olhos saíram do seu
notebook para nós, precisei segurar minha respiração, porque esse homem
continuava tão magnífico como sempre.
Como se não tivesse o encontrado na hora do almoço. Minha mente
me recrimina pela reação exagerada, mas diferente da nossa interação no meio
do dia, seus olhos transpareciam desejo. Quem via de longe poderia achar que
estava com raiva de mim, mas reconheci esse olhar, era o mesmo de quando se
ajoelhou e devorou meu sexo.
— Sabrina? — Sou tirada do meu transe apaixonado por Vega. Olho
para as duas auditoras e percebo que suspeitam dos meus sentimentos, porque
ambas sorriem com mistério em minha direção. — Poderia configurar o
notebook do senhor Zanetti para acessar nossos relatórios? Temos uma
plataforma para armazenar nossos documentos, não é difícil de acessar, basta
digitar o endereço no browser.
Seguindo no automático e me aproximando do causador da farra no
meu estômago, paro ao lado de sua cadeira e tento encarar seus olhos sem
derreter.
— Boa tarde, senhor Zanetti. Posso configurar seu notebook? —
Engulo a saliva com receio de sua resposta, por mais que seja óbvia. Na verdade,
estava muito ansiosa.
— Sente-se antes de qualquer coisa e faça tudo de onde eu possa ver
— com seu habitual tom de ordem, todas as sensações que estava sentindo são
cobertas por gelo. Não há intimidade, muito menos carinho.
O que pensei que poderia acontecer? Demonstração pública de afeto?
Ele havia deixado claro que não assumiria nada por causa da auditoria e com
minha relutância em aceitar conversar mais sobre o assunto ontem à noite,
provavelmente o que tivemos não passou de um momento e nada mais.
Segundos depois, Prócion libera uma cadeira. Pego-a e trago até ao
lado dele, para fazer tudo sob seus olhos. Desta vez, a aproximação foi diferente,
fria a distante.
Meu cérebro dizia que tudo isso não se passava de uma fachada por
causa de nosso público, mas meu coração, que era tão sentimental e carente, não
queria saber, apenas sofrer pela indiferença do CEO.
Como orientado, acesso o site institucional da Stars Auditoria e
Investigação. Existia um espaço para clientes que, depois de inseridos o usuário
e senha, aparecia um repositório de documentos.
— Pronto, senhor Zanetti. — Com mágoa perceptível no meu tom,
levantei-me, devolvi a cadeira para a auditora e encarei os três. — Precisam de
mais alguma coisa? Tenho um relatório para ser concluído.
Mesmo com o mesmo olhar de quando entrei, desejando-me, Enrico
me dispensa.
— Tenho urgência nesse relatório, Sabrina. Qualquer coisa Mirela
solicitará sua presença.
E com suas palavras de dono da Supermercados Zanetti, despeço-me
das gentis moças e saio da sala com o coração na mão de tão triste.
— Aconteceu alguma coisa, Sabrina? Posso ajudá-la? — a voz suave
de Mirela assusta-me o suficiente para parar meu progresso e quase pular.
— Estou bem, obrigada. — Continuo a andar e desço as escadas como
se o andar estivesse pegando fogo. Apesar de estar de saia, os sapatos
continuavam sendo minhas sapatilhas, que me permitiram agilidade na hora de
descer com velocidade.
Com a mudança drástica de tratamento de Mirela na cabeça, a primeira
coisa que fiz quando voltei para o meu computador foi acessar o servidor que
continha as imagens das câmeras de segurança da empresa. Precisava comprovar
quem estava querendo brincar comigo: essa mulher ou Enrico.
Apesar de ter acreditado nas palavras do dono da empresa, estava
ressentida o suficiente para voltar a desconfiar dele, independentemente se havia
me tratado com tanto cuidado enquanto estivemos em nosso momento íntimo.
Perdi algum tempo entendendo como funcionava o programa de
vigilância, quais eram as câmeras e como recuperava as gravações. Sabia que
tinha relatório para fazer, mas essa informação era mais importante.
Pesquisei pelo horário, pelas câmeras que poderiam ter me registrado
subir ou a passagem de Mirela e seu “chefinho”. Nada, não havia nada nos
vídeos, parecia até ser uma fotografia sendo filmada de tão estático que as
escadas pareciam. Não existia nada diferente das dezenove às vinte. Matias
apareceu pouco depois desse horário nas imagens, conferindo o travamento das
salas.
Apoio meu cotovelo na mesa e minha cabeça na minha mão,
observando as imagens e tentando decifrar o que havia acontecido. Como isso
era possível?
— Boa noite. — Vega tira minha concentração com sua aparição. Com
um sorriso no rosto, ela se aproxima da minha mesa, deixa um cartão pessoal em
cima do meu teclado e pisca um olho para mim. — Foi muito bom trabalhar com
você. Para emergências. Qualquer uma. — ressaltou a frase final, o que me fez
questionar até onde essa emergência iria.
— Já terminaram a auditoria? — questiono, já que apenas algumas
horas não poderiam ser suficientes para uma auditoria.
— Primeira etapa concluída. Se tudo correr como pensamos, não
iremos mais nos encontrar. Bom final de semana. — Sem maiores explicações,
vai embora e me deixa cheia de perguntas.
Capítulo 25

Volto a trabalhar no relatório de Enrico quando meu telefone toca.
Diferente dos outros dias estava tão chateada que não liguei música nenhuma
para me acompanhar. Queria apenas ir embora, já que estava cansada e morrendo
de fome.
— TI, boa noite.
— Boa noite, Sabrina. Senhor Zanetti solicita sua presença na sala
dele. — assusto ao escutar a voz da mulher que nunca vi fazendo uma hora extra
na vida. Bem, já tinha comprovado que fazia para os antigos sócios da
Supermercados Zanetti.
— Estou subindo. — Desligo o telefone e levanto da minha cadeira.
Olho para a caixa de bombons intacta na minha mesa e com raiva,
abro-a e como um deles para saciar minha fome. Se alguém queria me
envenenar, conseguiu, porque estava mais faminta do que preocupada com
minha saúde!
Novamente, subo as escadas até o térreo e pego o elevador. Descer as
escadas não tinha problema, mas subir era complicado. Saia executiva tinha tudo
de complicado, mesmo que me deixasse parecendo muito mais mulher.
Assim que cheguei à recepção, Mirela estava arrumando sua mesa para
ir embora. Como se nada de estranho tivesse acontecido com a gente, ela sorri e
diz:
— Você está muito bem com essa roupa, Sabrina. Pode entrar, sua
chegada já foi anunciada. Bom final de semana. — Aproxima-se de mim, dá-me
um beijo no rosto e segue para o elevador que estava com a porta aberta.
Observei seus passos, inclusive acenei um tchau, porque não
conseguia não retribuir suas ações, ela parecia tão legal. Olhei para sua mesa,
procurei alguma coisa fora do lugar e não havia nada.
Apesar disso tudo, meus dois pés ainda estavam atrás quando se
tratava dessa mulher. Até descobrir sua verdadeira intenção, ficaria com os dois
olhos abertos em sua direção.
Segui para a sala do Enrico, bati duas vezes na porta e abri.
— O senhor me chamou? — por hábito, tratei-o formalmente, entrei
na sala e fechei a porta atrás de mim. Não andei até ele, porque seu olhar havia
me paralisado logo na entrada.
Ele havia retirado a jaqueta do terno, dobrado as mangas da camiseta
branca até os cotovelos e soltado um pouco a gravata. Estava um pouco
amarrotado, cabelos bagunçados e muito irresistível.
Esse homem realmente foi meu? Desejou-me como se fosse a mulher
mais irresistível do mundo?
— Venha, Sabrina. — encantou-me como um mestre da sedução.
Obediente, andei até as cadeiras que ficam na frente da sua mesa. Sem
precisar ditar outro comando, virou a cadeira e seu corpo de lado para a mesa.
Entendendo que me queria ao seu lado, dei a volta na mesa e parei à sua frente.
Com o coração acelerando gradativamente enquanto olhava-me da
cabeça aos pés, sentado em sua cadeira, com as costas grudadas no encosto.
Depois que seus olhos param nos meus, o pinhão que me iludia transmitiu
desejo.
Impossível não se sentir realizada com um homem desses olhando
dessa forma para mim. Inclinando seu corpo para frente, suas mãos seguiram da
minha panturrilha, vagarosamente, até minha bunda. Congelei no lugar, sabendo
que nada poderia acontecer entre nós por causa do meu alerta vermelho.
Se Enrico percebeu, não demostrou, porque suas mãos continuaram
sua exploração, dessa vez descendo para as minhas panturrilhas novamente e me
fazendo dar um passo em sua direção, ficando entre suas pernas.
Nossa falta de palavras, enquanto era adorada por esse homem,
deixava-me muito excitada e frustrada. Não iria rolar nada, tudo seria em vão.
— Mia bella... — com sua voz rouca falando em italiano, sua mão
começou a subir novamente minhas pernas e pararam na barra da minha saia. —
Irresistibile .
[6]

Fechei os olhos, absorvendo o que poderiam ser essas palavras e suas


intenções. Não precisava mais imaginar o que poderíamos fazer, já que tive a
experiência real. Sabia o quanto esse homem poderia me proporcionar prazeres
inigualáveis e me tratar como uma mulher de verdade.
Seu rosto se aninhou na minha barriga, causando cócegas na região e
no meu baixo ventre. Tudo parecia mais sensível, muito mais intenso.
Assim que suas mãos ameaçaram subir pelas minhas coxas, debaixo da
saia, abri meus olhos num susto e dei dois passos para trás, desmanchando a
nossa neblina de luxúria. Estava ofegante, com o rosto quente pelo desejo.
Enrico despertava dentro de mim algo que nunca pensei em ser, mulher poderosa
e irresistível.
Aceitava muito bem minhas atuais condições de menina, amiga e
companheira. Porém, depois do dia de ontem, nunca mais aceitaria nada menos
do que meu CEO me ofereceu. Era mais e nunca voltaria a menos.
Quando encontrei os olhos confusos e magoados de Enrico, quase me
arrependi das minhas ações. Na verdade, não pensei antes de agir. Estava sendo
adorada por um homem lindo e poderoso e praticamente repeli seus atos.
— O que foi, mia bella? — o carinho no seu tom pesou ainda mais
meu arrependimento.
— Não podemos continuar com... — tentei encontrar as palavras
certas para abordar minha situação de uma forma madura, mas o nervosismo e a
vergonha me consumiram como nunca antes. Não queria dar esperanças de um
momento bom se meu órgão reprodutor tinha planos de limpeza na casa durante
três a cinco dias.
Agora, apenas chateado, Enrico me observa dar a volta na sua mesa,
sentar em uma das cadeiras e o encarar muda. Seus olhos de pinhão, tão
questionadores e sentimentais estavam me transformando em uma adolescente
tímida.
Apenas diga que está menstruada, mulher! Tento me convencer e me
obrigar a ser sincera, mas da minha boca sai apenas:
— Falta apenas dois funcionários para concluir o relatório. Quer que
configure tudo no seu notebook? — sem um equilíbrio no meu tom de voz, tento
me portar profissionalmente.
Seu olhar avaliador me deixa incomodada ao ponto de me mexer na
cadeira, como se minha calcinha estivesse indevidamente entre minhas nádegas.
Ele queria saber o motivo da minha dispensa, estava magoado por causa disso,
não precisava ler mentes ou linguagem corporal para saber disso, porque um
sinal luminoso estampava sua testa.
— No meu notebook. — autoritário, afastou sua cadeira de perto da
mesa e se levantou. — Você consegue terminar daqui o relatório? — Apontou
com o olhar para o equipamento.
Senti minha barriga apertar, a fome novamente mostrando que
comandava meu organismo. Preferia minha sala, com meus bombons e minhas
máquinas, mas não poderia mentir.
— Sim, consigo.
— Então faça tudo daqui. Precisarei sair por alguns minutos, no
máximo em uma hora estarei de volta. É tempo suficiente para concluir? — Sem
esboçar nenhuma emoção como ele, levanto da minha cadeira e aceno
afirmativo.
Sem se despedir, ele sai da sala e me deixa com um buraco no
estômago e no coração.
Não deveria tê-lo tratado daquela maneira, ainda mais quando me
apreciava daquele jeito. Quantas não iriam quer estar na mesma situação que eu,
independentemente do estado atual.
Não tinha intenção de fazer nada menstruada, ninguém iria me obrigar.
Ou não...
Sento na cadeira presidencial, aproveitando o pouco de luxo que
poderia usufruir enquanto Enrico estivesse fora e voltei ao meu trabalho.
Nem cinco minutos se passaram quando minha vista ficou
embaralhada, meu corpo pareceu frio e meus braços ficara moles.
Assustada, comecei a inspirar e expirar com velocidade, para oxigenar
meu corpo, mas nada adiantava, sentia-me mais fraca a cada segundo que
passava.
Sem me dar conta do próximo sintoma, minha vista escurece, meu
corpo amolece e viro maria-mole assim que meu corpo encontra o chão.
Capítulo 26

Sinto uma mão áspera na minha bochecha enquanto os sons ficam
nítidos. Pisco meus olhos e reconheço Enrico.
— Espere, ela acordou... sim, vou perguntar. Obrigado. —
Preocupação parecia não definir seu estado atual, pois seus olhos de pinhão
haviam se transformado em duas jabuticabas maduras, estavam intensos e
determinados. Enrico estava ajoelhado ao meu lado. Falava no celular com
alguém e descartou o aparelho para falar comigo. — Sabrina, qual foi sua última
refeição?
Franzi o cenho e tentei me sentar, mas Enrico segurou meu ombro,
forçando meu tronco ficar encostado no chão. Isso só me fez lembrar o quanto
ele era forte.
— O que aconteceu? — Senti uma dor nas minhas costas e fechei os
olhos novamente constatando que havia desmaiado e provavelmente me
machucado na queda. Acabei de constatar, havia apagado.
— Quando foi sua última refeição? — impaciente, apertou meu ombro
e perguntou com ferocidade, o que me fez responder chateada. Não merecia ser
tratada assim, não depois de um desmaio.
— Comi um bombom antes de subir. — Tentei tirar sua mão de mim,
mas não consegui. — Me deixe sentar!
— Fique onde está! — Começou a discutir comigo e bloqueou minha
nova tentativa de sentar com a mão aberta entre meus seios. — E no almoço? O
que comeu? Não me diga que ficou apenas no torrone novamente.
— Eu não comi nada, não podia deixar as auditoras sozinhas no
horário do almoço. — Ele ia abrir a boca para falar, mas continuei esbravejando
com o pouco de força que me restava. — Além do mais, precisei trocar de roupa,
se não percebeu, porque justo hoje tudo de errado teve que acontecer, como a
visita do chico! — Coloco meu braço em cima dos meus olhos e tento controlar
as lágrimas de escorrerem. Odiava esse período de descontrole hormonal e tudo
que vinha com ele.
— Chico? Quem é esse Chico que foi te visitar e te deixou tão
chateada? Não me venha dizer que... — Parecia que havíamos encontrado um
denominador comum de irritação, porque só faltei ver fogo sair pelos olhos
deles.
— Menstruação! — explodi e me sentei ao mesmo tempo! Às vezes
esquecia que esse homem não era brasileiro e provavelmente não tem
proximidade com nenhuma mulher com mais de quarenta anos. — Estou
menstruada, é uma expressão herdada do português de Portugal, quer dizer sujo,
é um período nem um pouco...
E nem me deixou terminar quando seus lábios se uniram aos meus
com força, sua mão apoiou minha nuca e seus lábios forçaram os meus se
abrirem para que sua língua pudesse cumprimentar a minha.
Magnífico como um picolé de chocolate, senti nossos sabores
achocolatados se misturarem. Ele, com certeza, havia comido um Ferrera
Rochedo. Meu favorito.
Não havia motivos para resistir a esse beijo, que apenas me
proporcionava sensações de euforia e satisfação. Sabia que seus maiores
interesses em mim eram a auditoria e as informações que poderia oferecer, mas
não me importava, não agora. Deixaria essas implicações para depois.
Sem me dar oportunidade para aproveitar mais do beijo, se afasta de
mim, porém sua mão continua na minha nuca, apertando com força, mas sem
machucar.
— Você me assustou, mia bela. — aliviado, sorriu levemente.
Eu era um caso perdido quando se tratava de Enrico e seu italiano
perfeito. Esse homem era bom demais para mim, precisava saber urgentemente o
que eu tinha para ter despertado seu interesse, além do meu fácil acesso a
informação.
— Não imaginei que ficaria tão fraca. Já fiquei sem almoço muitas
vezes por causa do trabalho. — Com um bufo contrariado, Enrico pega seu
celular descartado ao seu lado, se levanta e me ajuda a levantar também.
Olhei ao meu redor e reparei que havia bagunçado toda a sua mesa,
havia papéis espalhados por ela e pelo chão perto de mim.
— Estava falando com Ana ao telefone quando cheguei e te encontrei
desacordada no chão. Perguntei se conhecia seu histórico de enfermidade para
ter desmaiado e ela adivinhou em cheio que era fraqueza por falta de
alimentação.
— Por que você estava falando com Ana? — desconfio e meu lado
ciumento e inseguro me faz lembrar que Enrico pode ser apenas um aproveitador
de mulheres para conseguir o que quer. Na verdade, ele era, só eu não tinha
aceitado ainda.
Puxando-me pela mão, seguimos para sair da sua sala.
— Espere, Enrico, não terminei seu relatório!
— Depois que jantar, você poderá fazer o que quiser. — Soltando
minha mão e apoiando-a em minhas costas, ele me acompanha até o elevador.
Parando no térreo, Enrico conversa com um dos seguranças e descemos as
escadas até o subsolo, onde minha sala e o estacionamento ficavam.
Não passou desapercebido por mim o fato de não ter respondido minha
pergunta sobre Ana, a enfermeira da empresa.
— Pegue sua bolsa antes de sairmos.
— Por que estava conversando com Ana? — questiono antes de entrar
na minha sala e ir direto a minha mesa, onde havia meus bombons. Precisava
devorar alguns.
— Gostou do seu presente? — Com a boca cheia, olho para Enrico
sorrindo e percebo que foi ele quem me deu a caixa.
Havia ganhado um presente desse homem, algo romântico como
Ferrera Rochedo.
— Casa comigo? — Como que em transe, pisco os olhos e rio
completamente envergonhada. Enrico havia congelado no lugar junto com sua
feição. Era tempo de conter os danos. — Obrigada, são meus favoritos, mas você
está proibido de me presentear com Ferrera Rochedo aqui na empresa — digo
séria, mas com meu rosto em chamas.
A falta de comida estava me deixando com a língua solta tal como
quando ficava nervosa. Comi mais um bombom com pressa, necessitando de
energia e disposição para enfrentar as loucas palavras que disse segundos atrás.
Ainda sem transparecer nenhuma emoção, Enrico cruzou os braços
enquanto fui pegar minha bolsa para irmos jantar.
— Por que não devo entregar presentes para você na empresa?
— O problema não é o presente e sim Ferrera Rochedo. — Aponto
para a mesa de Caio. — Sabe Caio, o cabeludo? Então, ele é um amigo
ciumento, praticamente decretou a lei de que apenas ele pode me dar esse
bombom. — Paro na sua frente e ergo uma sobrancelha. Ele reflete o gesto.
— Você e Caio tem alguma coisa? — disse o nome do Caio com um
desprezo completamente genuíno.
— Sim, amizade. Ele é meu único amigo, é excêntrico, muito nerd e
pouco sociável. Não implica. — ordenei e com minhas duas mãos em seu braço
cruzado na sua frente, o empurrei devagar. — Vamos jantar, estou morta de
fome.
— Sim, mia bella. — Com um enorme sorriso nos lábios, descruzou
seus braços vagarosamente, depois, segurou meu rosto com as duas mãos.
Afoita, segurei seus pulsos ao mesmo tempo em que seus lábios iam de encontro
ao meu.
Por que ele tinha que ser assim, tão maravilhoso?
Libertando-nos para segurar minha mão, andamos para fora da sala,
em direção ao estacionamento. Sua mão na minha era pouco, queria tanto que
me abraçasse, que pudesse envolver meu braço em sua cintura, mesmo que
parecesse coisa de adolescente.
Não tive namorados, nunca andei com ninguém assim, abraçado,
compartilhando o calor e os cheiros. Todavia, não sabia o que fazer com ele,
como me portar ou o quanto poderia me aproveitar, porque suas palavras me
atormentam quando quero tocá-lo além do que ele me toca. “Assumirmos
qualquer coisa nesse momento colocaria toda a auditoria em risco”.
Bufo assim que ele abre a porta, porque me lembrei de uma pergunta
que fiz já duas vezes e não obtive resposta. Não me importei se estava sendo
chata, iria insistir até ele dar sinais de que esse assunto não me interessava.
— E aí, vai me contar porque estava falando com Ana? — Paro de
frente para ele com meus braços cruzados depois que abre a porta. Ele apoia um
braço na parte de cima e me sorri com malícia.
— Ciúmes, mia bella?
Capítulo 27

Chateada, sento no banco do carro e afivelo meu cinto com mais força
do que deveria enquanto ele fecha a porta. Se quer o tratamento do silêncio,
então, que assim seja.
Entra no carro, aperta minha coxa para chamar minha atenção e o olho
com irritação.
— Meu pai está internado na UTI, tenho uma enfermeira que o
acompanha e me relata tudo o que está acontecendo. Como tudo que vem desse
homem, desconfio que haja algo errado. Sem passar o nome do paciente, pedi
que Ana levasse os exames do meu pai para avaliação com o marido dela, que é
médico cardiologista.
— Que suspeitas você tem sobre os exames? Que é mais grave do que
os médicos te reportaram?
— Não, o contrário. — sombrio, coloca as mãos no volante e encara o
para-brisa.
Eram poucas palavras, mas queriam dizer tanto. Pelo visto, Enrico
nunca foi visitar seu pai no hospital. Ele comentou que não tinha muita
proximidade afetiva, mas nem na enfermidade a aproximação aconteceu.
Desconfiava que o próprio pai estava afundando a empresa, o que me levava a
um questionamento importante.
— Por que salvar a empresa do seu pai e não a deixar afundar, já que
esse patrimônio não é seu? — questiono assim que ele dá partida no carro e
começa a sair do estacionamento.
— A princípio, era apenas uma questão de orgulho, mostrar para meu
pai que poderia fazer muito melhor do que ele. Agora, depois da auditoria... —
Olhou-me de relance e voltou seu foco na direção. — Ele usou documentos
falsos para abrir essa sociedade, na verdade, usou meus documentos, como se
tivesse nascido aqui no Brasil. — Parou no sinal vermelho e me encarou com
ferocidade. — Ele tem documentos meus, como se fosse dele.
— Como isso é possível?
— Homônimos. — Voltou sua atenção na direção assim que o sinal
ficou verde.
Minha cabeça imaginou mil e um cenários. Entre chocada e levemente
irritada pelo próprio pai ter usado seu filho. Os meus pensamentos são
interrompidos pelo celular de Enrico. O nome Rita apareceu no som do carro, o
que fez meu estômago apertar de ciúme e curiosidade.
— Só um minuto, mia bella. — Apertou um botão no volante do carro
e começou a falar em italiano com a mulher do outro lado. A voz não era de uma
mulher da nossa faixa etária, provavelmente bem mais velha e muito nervosa, o
que deixou meu lado ciumento aliviado. Arregalei meus olhos quando Enrico
também elevou sua voz e com uma exalação irritada, encerrou a ligação.
Fiquei com medo de perguntar o que era enquanto sua energia zangada
não dissipasse.
— Você precisa comer e eu preciso resolver um problema que é do
meu pai. — Com uma virada brusca, sou direcionada para perto do painel do
carro. — Não era o que tinha em mente, mia bella, mas posso passar no drive
thru e levá-la para casa?
— O que aconteceu?
— Rita, minha funcionária de casa e também minha nonna , está
[7]

cuidando da filha mais nova do último casamento do meu pai. Só que... —


Segura o volante com força, tentando aliviar um pouco da sua frustração. —
Depois da hospitalização dele, ela anda rebelde, desafiando todos e não
querendo falar com nenhuma mulher.
— Como assim? — Entramos no drive thru da minha franquia de
lanches favorita e sorrio involuntária, inclinando meu corpo em cima do painel
central. — Quero um lanche, suco de uva e batatas fritas grande.
Enrico me olha hipnotizado, segura meu queixo e beija meus lábios,
fazendo-me esquecer de qualquer coisa que tenho em mente. Esse homem sabia
os momentos exatos para me encantar com sua sedução.
Um barulho de garganta arranhando interrompe nosso momento,
Enrico pede minha comida, mas não me deixa pagar. Com o argumento de que
era a empresa pagando o almoço que trabalhei, aceitei e voltei ao seu problema
anterior.
— Você estava dizendo que sua irmã rebelde só quer falar com
homens? Quantos anos ela tem?
Depois de abrir e fechar a boca sem emitir nenhum som, me encara e
concorda com a cabeça.
— Sim, ela é minha irmã por parte de pai, tem quatorze anos e alega
ser bissexual. Inclusive, acabou de contar para a mãe que não é mais virgem. —
Pega o saco com meu lanche e depois me entrega. Com medo, deixo-o de lado e
foco na nossa conversa, que muito me espantou, mas queria, de alguma forma,
ajudá-lo. — Estamos tentando convencê-la a visitar um psicólogo, mas está
difícil, quase impossível ir por vontade própria.
Tentei me lembrar de quando tive essa idade, o que me motivava e o
que me rebelava. Era uma criança tentando ser adolescente, mas nem sabia ao
menos o que estava fazendo quando desafiava meus pais e meus irmãos.
— Sei que não sou ninguém, mas me lembro um pouco dessa fase e
posso tentar intermediar. Se duas mulheres mais velhas não conseguiram, não sei
se você, que não é próximo dela, resolverá alguma coisa.
Em silêncio, meu CEO segue pelas ruas. Acabei ficando
desconfortável e com uma sensação de que tinha extrapolado minha intimidade
com ele. Ao avistar uma drogaria, lembrei que estava sem trocar absorvente por
um tempo.
— Uma drogaria, você poderia parar aqui por apenas alguns minutos?
Prometo não demorar, é uma emergência também. — suplico e Enrico estaciona
o carro sem comentários.
Saio do carro rapidamente e para minha surpresa, ele desce junto
comigo, deixando-me constrangida. Iria comprar algo que não precisava do seu
conhecimento.
— Você não precisava me acompanhar, é uma compra rápida. —
sussurro perto dele, já que o estabelecimento vazio fazia com que todo o barulho
parecesse ecoar.
— Também preciso fazer uma compra rápida, mia bela. — também
sussurrou. Com uma mão na minha cintura e os lábios na minha testa, se afastou
de mim e seguiu para perto do caixa, onde havia preservativos.
Virando rapidamente de costas e seguindo até o local dos absorventes,
escolhi o que normalmente usava e disfarçadamente, fui até o caixa, onde Enrico
me esperava.
— Vamos, passe o seu. — pediu com um sorriso nos lábios.
— Você não vai pagar por isso. Não há nada que você argumente que
justifique. — Faço uma carranca, o que aumenta seu sorriso.
Hábil, deu um passo na minha direção, removeu o pacote que tanto
tentei esconder em minhas mãos e entregou para o caixa.
— Hei! — protestei, pegando minha bolsa e buscando minha carteira.
— Considere isso como um adiantamento do seu freelance. —
bloqueou meu dinheiro para o homem no caixa, que segurava o riso para nossa
interação.
— Adiantamento do quê?
— Você irá comigo tentar apagar o incêndio com minha irmã. — Com
uma mão nas minhas costas, saímos da drogaria e entramos no carro novamente.
Ele entrega a sacola para mim e ainda constrangida, deixo todos os itens dentro
dela.
— Não precisa se sentir pressionado a me levar. Só vou se você achar
que é uma boa ideia.
— Talvez seja a melhor opção. Alguém de fora pode desvendar o que
se passa na cabeça dessa menina. — Dá partida no carro e começa a dirigir.
Suspiro de forma inaudível para seu perfil másculo e perfeito. — Enquanto
vamos, coma. — usou seu tom de ordem.
— E sujar seu carro? Nem pensar.
— Sabrina, coma. Até chegarmos lá, você poderá desmaiar
novamente. — Olha para mim de relance. — Quero experimentar as batatas.
Pego o saco que estava no assoalho do carro, abro-o e pego uma batata
frita, que ainda estava quente e gemo.
— Delícia.
— Alimente minha boca, depois cuidaremos das outras partes que
estão de jejum. — Estico minha mão em sua direção com duas batatas e ele faz
questão de abocanhar meu dedo e chupar. Antes que tirasse minha mão, ele
segurou meu pulso e com sedução, sugou meus dedos e acariciou com sua
língua, fazendo meu ventre formigar.
— Sabe o quanto isso é injusto? — choraminguei e fechei os olhos,
inebriada com essas sensações.
— O que sei é que experimentei o melhor fruto da minha vida ontem e
não poderei saboreá-lo hoje. — Sugou mais uma vez meus dedos e então,
colocou sua mão no meu colo. — Não tem noção do quanto sua entrega e
ingenuidade me excitam, mia bella.
Ele disse isso para mim? Estava falando comigo?
Procurando uma forma de conter meu rosto de não virar um pimentão,
ataquei as batatinhas e enchi minha boca delas.
— Quero mais. — rouco, capturou meu pulso antes que colocasse
mais batatas na minha boca e as levou até a sua. Novamente me torturou com
suas sugadas, mostrando o quanto todo o meu corpo estava conectado com o que
ele fazia com meus dedos.
— Céus... — gemi e fechei os olhos, relembrando quando me ergueu
pelas pernas com seus braços e enterrou todo o seu poder masculino dentro de
mim. Ele era meu fruto proibido, eu que estava sofrendo por não poder deleitar-
me.
Capítulo 28

Soltou minha mão no meu colo novamente e seguimos em um silêncio
cheio de luxúria e necessidade. Precisava desse homem agora como o ar que
estava tentando inspirar para aliviar meus pulmões.
Para me acalmar, comi o meu lanche e bebi o suco. Aproveitei e enviei
uma mensagem para todos da minha família, dizendo que ia participar do
corujão na lan house com Caio. Uma mentirinha, apenas por questão de
liberdade de ir e vir. Meu pai, principalmente, não gostava das minhas idas ao
corujão, mas depois de nossa última discussão, onde mostrei que nada além de
jogos de computador acontece lá, não criticou mais.
Tentei fazer o mínimo de sujeira ao me fartar do alimento e quando
pensei que estava demorando demais nossa chegada, uma enorme casa, com um
enorme portão apareceram em minha frente.
Retirando o controle remoto de um porta-treco do seu lado do carro,
Enrico abre o portão eletrônico e entramos em uma residência que mais se
parecia com um palácio de tão grande.
Um, dois, três... eram mais de vinte janelas contadas do primeiro e
segundo andar. Só de pensar em limpar já dava câimbras nas minhas pernas e
braços.
— A esposa do meu pai se chama Clara e sua filha... — parou um
momento, lembrando-se de alguma coisa. — Na verdade, minha irmã, se chama
Sofia. A senhora mais velha é Rita, não se preocupe se falar com você em
italiano, ela fala português, mas esquece que nem todos a entendem.
— Tudo bem. — Coloco os dois sacos no chão do carro e solto meu
cinto ao mesmo tempo em que Enrico sai do carro e corre para o meu lado, e
abre a porta para mim.
Ajuda-me a sair e assim que a porta se fecha atrás de mim, ele me
pressiona na lataria, seu corpo se molda ao meu e sua boca invade a minha.
Estava agoniada por ter sabor de lanche e não algo mais saboroso como meus
chocolates italiano. A língua dele era voraz e fazia eu me sentir ousada.
Parecíamos dois namorados dando um último beijo antes de entrar na
casa da família. Ele me fazia esquecer que eu era a funcionária beijando o dono
da empresa. Perdia-me entre os sentimentos carinhosos que trocávamos entre
nossos lábios e saliva. Não havia classe social ou hierárquica. Nos braços dele,
era apenas Sabrina e Enrico.
— Quel bene che è arrivato , Enrico. — Uma senhora afoita
[8]

interrompe nossa interação e corre em nossa direção, despejando palavras em


italiano que apenas ele entendia.
Identifiquei a senhora como Rita. Ela era alta, larga e gesticulava
muito com os braços. Seu tom de voz era alto e parecia que estava brigando com
Enrico, se não fosse a serenidade dele em responder suas perguntas. Com o
cabelo branco preso em um coque bem apertado, a senhora tinha marcas de
expressão no rosto que denotavam o quanto trabalhou sob o sol.
— Vamos! — Tirando-me da minha avaliação de Rita, com sua mão
em minhas costas, Enrico me levou até ela e nos apresentou. — Rita, está é
Sabrina e ela não fala italiano.
— Muito prazer... — estendi minha mão, mas foi descartada qualquer
cordialidade quando me puxou para um abraço, alguns tapinhas nas costas,
outras palavras em italiano e um olhar para Enrico.
— Vá ver sua sorella, Enrico. Ela nos deixará loucas antes de ir ao
médico! — Solta-me e o carrega para dentro da casa pelo braço. Sigo seu
caminho alguns passos atrás, um pouco deslocada por não saber com que tipo de
formalidade seguir.
Foi um choque assim que atravessei a porta de entrada e me deparei
com móveis brancos, limpeza e luxo. Muito esplendor para pouco conhecimento
em riqueza. Mais uma vez me lembrei do quão rústica e nem um pouco
preocupada em regras de etiqueta minha família é.
Deslocada, fiquei parada perto da porta de entrada, enquanto Rita e
Enrico seguiram para dentro da casa em algum lugar.
Olhei para os lados, coloquei minhas mãos para trás e suspirei. Droga,
bendita hora que me ofereci para vir falar com sua irmã. Esqueci completamente
que esse homem veio de berço de ouro. Fiquei encarando minhas sapatilhas e
canelas expostas. Esse era o máximo de tempo que havia ficado com uma saia na
minha vida toda.
— Mia bella? — Olho para cima e vejo meu homem do outro lado do
cômodo, perto de uma porta, estendendo a mão. E com esse tipo de atitude e
tratamento, consigo, mesmo que por poucos segundos, me sentir integrada a esse
local. — Venha!
Respirando fundo, segui até onde estava e coloquei minha mão na
dele. Apertei, porque a imponência desse local estava me deixado insegura e
precisava de um pouco de apoio, algo que Enrico estava proporcionando sem se
dar conta.
Seguimos por um corredor aos sons de gritos e choros femininos. Rita
e outra senhora, provavelmente Clara, estavam paradas na porta com pose de
derrotadas.
Assim que nos aproximamos o suficiente para sermos notados, Clara
se afastou da porta e olhou para Enrico com um misto de raiva e impotência.
— Espero que saiba o que está fazendo, expondo nossos problemas
para alguém de fora da família. — Sem esperar resposta, seguiu seu caminho
enquanto eu senti meu coração apertar. Droga! Será que me voluntariar foi um
erro?
Os gritos cessaram e só o choro sofrido da adolescente preenchia o
silêncio constrangedor que se instaurou.
— Não se preocupe, bambina , essa é uma mãe desesperada falando.
[9]

Vão, sigam direto para a bestia cheia de hormônios. — Empurrando-nos para


[10]

dentro do quarto com cuidado, entrei primeiro e olhei a bagunça que o cômodo
chique e aconchegante estava.
A primeira palavra que veio a minha cabeça foi mimada, por causa dos
pôsteres de banda adolescente, cantores e atores colados da parede. Além de um
mural cheio de fotos dela em vários pontos turísticos do mundo, em várias
idades. Em algumas viagens estava sozinha, outras com a mãe e com Enrico pai,
que nada se assemelhava a Enrico filho, para meu alívio.
— O que essa garota está fazendo aqui? Veio me apresentar alguém
para transar? — Desfocando minha atenção do cômodo e encarando a menina,
que com tão pouca idade falava sobre assuntos tão adultos.
Com roupas folgadas e escuras, quase tive um déjà vu e me vi na
menina antes de começar a trabalhar para Supermercados Zanetti. Os cabelos
castanhos claros, quase loiros amarrados em um rabo de cavalo assemelhava aos
meus atuais. Não havia nenhum resquício de feminilidade nela e se não fosse
pela unha feita de cor preta, poderia ser confundida com um menino.
— Sofia, essa é Sabrina. — Ignorando as palavras despudoradas, sorri
para a menina, soltei-me de Enrico e estendi minha mão enquanto caminhava
alguns passos até chegar perto dela.
— Olá, Sofia. — Bem amigável, cheguei próxima o suficiente para
que apertasse minha mãe. Poucos segundos depois, ao invés de me
cumprimentar, a menina pulou em cima de mim, envolveu seus braços no meu
pescoço e me beijou de boca fechada.
Estava atordoada que acabei apenas arregalando os olhos em vez de
afastá-la de mim. Enrico interveio antes que o constrangimento ficasse maior.
Pegou pela cintura uma Sofia revoltada, esperneando e gritando.
Bem, isso era um caso para uma intervenção especializada. É muito
mais do que uma mera crise existencial de adolescente. Toquei meus lábios com
minha mão e arregalei meus olhos quando a música da Katty Parry veio na
minha mente: “I kiss the girl...”
Em Italiano, os dois começaram a discutir aos gritos. Nunca havia
visto Enrico tão bravo e descontrolado. Havia jogado a menina na cama e
pairado sobre ela de pé, gesticulando. Pouco tempo depois, a menina se encolheu
em uma bolha e começou a chorar, muito mais descontrolada do que quando
entramos dentro do quarto.
— O que você disse a ela? — Aproximei-me de Enrico e tentei falar o
mais baixo possível, porém, de forma que entendesse e não chamasse atenção da
garota.
Com seus olhos em fúria, ao som dos choros sofridos de Sofia,
respondeu-me:
— Que passou de todos os limites quando beijou minha mulher. Nada
justifica desrespeitar uma pessoa, sendo da família ou uma convidada. Esse
show termina hoje ou irei interná-la no hospital psiquiátrico contra sua vontade!
Capítulo 29

Apesar de o meu estômago estar cheio de comida, as fadas
encontraram um espaço para fazer folia e começaram a se mexer.
“Minha mulher”. Essas palavras se repetiam em loop infinito na
minha mente enquanto encarava o homem feroz, capaz de combater uma
adolescente para preservar a honra de sua companheira.
Sentindo-me agradecida, envolvi meus braços em sua cintura e abracei
seu corpo. Era a primeira vez que tomava iniciativa em uma demonstração de
afeto, acredito que o choquei, pois não houve retribuição. Bem, pelo menos
queria pensar assim, já que toda a minha empolgação anterior havia se dissipado.
Sem dar maiores explicações, sentei na beirada da cama gigantesca
dessa menina e apoiei uma mão mais próxima a ela. Estava encolhida, chorando
alto e soluçando. O edredom sob minha mão era macio e suave, parecia um
pedaço de nuvem.
— Scusa ... — Soluçou, limpou o nariz naquele pedaço de céu
[11]

chamado edredom e se sentou. — Desculpa. — Olhou para mim, com olhos de


cachorro que caiu do caminhão de mudança e depois para Enrico, esperando sua
aprovação.
— Enquanto sua atitude não melhorar, não há perdão da minha parte.
— Olhei rapidamente para o homem de palavras frias atrás de mim e voltei a
encarar a adolescente que roubou meu primeiro beijo gay.
Pelo jeito, ao lado de Enrico, eu iria participar de várias experiências
inéditas, começando por sexo no escritório.
Para controlar o leve rubor na minha face, comecei a falar:
— Sofia, gostaria de me apresentar. Não acredito que seja muito bom
beijar alguém sem antes saber quem é. — A menina ruborizou e desviou o olhar
para sua mão em seu colo. Para quem estava cheia de atitude, essa era uma
reação que não esperava.
— Sabrina... — advertiu-me, mas ignorei. Já que me voluntariei para a
tarefa, deveria estar preparada para todos os contratempos.
— Sou Sabrina, tenho vinte e quatro anos e sou formada em Ciências
da Computação. — Seu olhar levantou e encontrou o meu surpreso. Sorri,
porque imagino que tanto a minha idade quanto a minha formação foi uma
surpresa.
— Você é tão velha assim? — Fez uma careta e imagino que, na sua
cabeça infantil, havia contabilizado que tinha beijado uma idosa. Isso me fez
concluir que sua afirmação de ter transado, como Enrico comentou, pode não ser
verdadeira.
— Sim, muito velha, apesar de faltar quase quarenta anos para ser
considerada idosa. — Sorri e vi novamente Sofia se encabular. A menina era
inocência pura, com certeza só quer chamar atenção. — Sei que não sou
nenhuma amiga de infância ou de confiança, mas já passei pelo que está
passando.
— Seu pai também está morrendo? — Limpando o nariz em sua blusa,
ergo minhas sobrancelhas com surpresa. Será que tudo isso se resumia ao Enrico
pai?
— Nosso pai não está morrendo, Sofia, já cansei de falar isso. —
Enrico se intrometeu na conversa sem paciência.
— E por que não posso vê-lo? — elevou a voz.
Pelo jeito, falar alto era uma questão de família.
— Se tudo isso era por causa de uma visita a UTI, eu teria invadido
aquele hospital e colocado você dentro daquele quarto com ou sem autorização
do médico. — Enrico esbravejou no mesmo tom.
— Você não está nem aí para ele!
— O meu relacionamento com ele não deve interferir no seu. Meus
assuntos com Enrico vão muito além...
— Você é o culpado! — interrompeu o irmão com essa acusação e
decidi intervir, antes que a discussão ficasse pior.
— Sofia! — alto, mas não com raiva, chamei a atenção da menina. —
Está claro que há uma falta de comunicação por aqui. Seu irmão está cuidando
da empresa do seu pai e da saúde dele. Culpar Enrico é a última coisa que você
deveria fazer.
— É mentira, ele nunca se importou com meu pai!
— Se você tivesse um pouco mais de idade iria dizer a forma que
encontrei seu querido pai antes de levá-lo para o hospital. — replicou com raiva.
— Não é à toa que sua mãe se divorciou dele.
Sentindo-me no meio do fogo cruzado e com medo de levar pancada
de alguém, levantei da cama e aproximei de Enrico.
— Não dê ouvidos a ela. Quer chamar atenção e está conseguindo. Me
deixe falar com ela. Uma tentativa apenas. — sussurro, para que apenas ele
escute. Seu semblante cansado era um chamariz para o meu lado romântico,
tinha necessidade de acalentá-lo.
Segurei sua mão e apertei. Ele retribuiu o aperto e virou de costas,
encarando o mural cheio de fotos de viagens. Esse era todo o aval necessário que
precisava, então, voltei a me sentar na cama e falar com Sofia.
— Você é namorada do meu irmão? — perguntou enquanto seus olhos
me avaliavam como uma águia.
— Vamos falar de você primeiro, pode ser? — desviei da resposta, não
sabendo lidar com meu coração acelerado e por não saber o que responder.
Eu era namorada de Enrico?
“Assumirmos qualquer coisa nesse momento colocaria toda a
auditoria em risco”. Essa frase se repetiu com a voz dele na minha mente e
tentei ignorar a decepção. Se não queria assumir nada agora, imagine depois.
— Não há nada para falar de mim. Só quero poder ser quem eu sou e
namorar quem quiser. — Cruzou os braços na minha frente e se emburrou.
— Você pode ser quem você quiser, só que é muita coisa ao mesmo
tempo. Há seu pai doente, sua mãe preocupada, você querendo expor sua
sexualidade, além de atacar quem mal conhece. — Levantei uma sobrancelha,
para que me fizesse entender como algo grave e brincadeira. Ela estava olhando
para o nada, para baixo. — Não seria prudente resolver um assunto de cada vez?
— Ninguém me entende. — choramingou.
— Posso contar a história de uma amiga? — Não respondeu, mesmo
assim continuei. Meu instinto dizia que deveria contar uma história e assim o fiz.
— Estudávamos juntas no ensino médio e uma menina gostava dela. Assumia
gostar de meninas e ficou por um bom tempo insistindo para que as duas se
beijassem e tudo mais. — Ela olhou para mim com curiosidade e agradeci minha
intuição feminina. — Depois de tanto insistir, minha amiga cedeu, as duas se
beijaram, mas ela havia ficado um pouco abalada. Tentei conversar, arrancar dela
qualquer coisa, mas a cada vez que perguntava sobre o beijo, mais ela se
afastava.
Interrompi a história, apenas para analisar a reação de Sofia. Eu estava
surpresa comigo mesma e com a forma que usei para interpretar essa menina, já
que sua postura estava mudando para menos agressiva.
— O que aconteceu?
— Bem, nos afastamos e a reencontrei algum tempo atrás em uma
festa. Ela havia mudado, parecia mais confiante e feliz do que a última vez que
tinha conversado comigo ainda no ensino médio. Pediu desculpas e falou que a
vida dela havia melhorado depois que começou a visitar uma psicóloga. Me
contou que, além do beijo lésbico, os pais dela estavam em processo de
separação e a avó tinha falecido. Era muita coisa para processar sozinha e a
ajuda profissional foi o que a salvou de surtar.
— Não vou numa médica que cuida de louco.
— Apesar de psicólogo ser algo muito além do que cuidar de louco,
seus pais podem te obrigar a ir ou...
— Já disse que não...
— Ou — interrompi-a da mesma forma que fez comigo. Estava
tranquila enquanto ela parecia a ponto de explodir —, você pode continuar a
deixar o clima tenso na família e não só você precisará de ajuda profissional,
mas todo mundo da casa.
— Todo mundo me culpa por tudo. Vocês são preconceituosos, não me
aceitam como sou!
— Apenas para concluir a história da minha amiga, ela me falou que
perdeu muito da adolescência reclamando sozinha pelos cantos. Da mesma
forma que tinha experimentado um beijo, deveria ter experimentado uma
consulta com o médico de louco. — Sofia franziu a testa e sorriu, porque sabia
que havia plantado uma semente na cabeça dela. — Engraçado como para fazer
algo que achamos proibido temos coragem, mas para nos ajudar, somos covardes
e nos escondemos atrás de preconceitos.
— Mas...
— Engraçado que para você somos preconceituosos por não te aceitar
como bissexual, mas você pode julgar o psicólogo como médico de doido. —
Levanto-me da cama enquanto ela apenas abre a boca sem dizer mais uma
palavra.
Virei as costas para ela e encontrei o olhar admirado de Enrico. Esse
homem não sabia quando parar de me surpreender. Nunca fui exaltada dessa
forma apenas com os olhos e achando isso tudo muito para suportar diante de
uma plateia, saio do quarto e encosto minhas costas na porta fechada.
Tinha acontecido, me apaixonei pelo meu CEO.
Capítulo 30

— Como foi, bambina? — Rita me surpreendeu, fazendo com que
pulasse e me afastasse da porta.
— Oh, Rita, que susto. — Coloco a mão no peito e suspiro. — Posso
não ter conseguido, mas acho que plantei uma semente de dúvida em seus
pensamentos. — Sorrio com simpatia.
— Me chame de Nonna, bambina. Enrico está lá dentro? Quer tomar
uma água, um chá? — Sem esperar minha resposta, ela pega no meu cotovelo e
me conduz pela casa. — Dona Clara já foi se deitar, coitada dessa mulher!
— Sim, é muita coisa para processar ao mesmo tempo. — Entramos
numa cozinha e ela me faz sentar no banco alto de um balcão.
A cozinha parecia saída de filmes americanos, com balcão central,
geladeiras gigantescas e tudo sendo preto ou em inox. Não gostava de cozinhar,
mas essa cozinha mudaria de opinião em dois segundos.
— Deixe-me preparar algo, está com fome de quê? — Parecendo
minha mãe, com seu olhar preocupado e avaliativo, tento usar a mesma técnica
de enganação com um sorriso forçado.
— Uma água será o suficiente. Acabei de jantar.
Nonna franze o cenho e coloca as mãos na cintura.
— E você consegue enganar sua mãe com essa cara? Bambina, não me
venha com essa conversa de apenas água, diga o que quer comer.
Faço uma careta imaginando que assim como eu “enganava” minha
mãe, ela fazia o mesmo comigo, quando aceitava minha mentira.
— Só água mesmo, Nonna. Estou naqueles dias, sabe? Melhor não
abusar. — falei baixo e um pouco envergonhada. Era incrível como falava pouco
sobre esse assunto, já que a maioria dos meus amigos eram homens. Por isso,
estava envergonhada de assumir algo que é natural da mulher.
— Ah, indisposto ! Tenho o chá perfeito para você! — Enquanto ela
[12]

abria armários e colocava água para ferver em uma chaleira, Enrico apareceu.
Apoiando suas mãos nos meus ombros, ele apertou com carinho e
beijou meu pescoço. Nonna não havia virado para recepcioná-lo e por causa
disso, Enrico deixou sua mão descer dos meus ombros e encontrar minha
lombar, o início da minha bunda.
Arrepiei, porque o contato desse homem com meu corpo não era uma
ação para ser ignorada.
Viro meu rosto para ele, que parece muito mais tranquilo e feliz.
Esperava que a última conversa que ele teve com Sofia tivesse resolvido a
pendência de não ir a um psicólogo.
— Como foi, Enrico? — Nonna perguntou ainda de costas. Sentando
no banco ao meu lado.
Essa mulher tinha olhos na nuca?
— Ela prometeu ir comigo na psicóloga segunda-feira se a levasse até
o pai. Um acordo fácil que não seria possível se não fosse por Sabrina. — Beijou
minha testa e controlei o ato de fechar os olhos e apreciar o carinho. Queria ter
esse tipo de interação para o resto da vida.
— Bambina de ouro! — Virou-se para mim e entregou uma xícara
fumegante. — Tome, se sentirá bem melhor. — Pisca um olho para mim.
— Você não está bem?
— Sim, sim. — Pego minha xícara, levo até meus lábios para poder
assoprar e esfriar seu conteúdo. — Assunto feminino. — resmungo, conseguindo
um sorriso desse homem imponente e sedutor.
— Não seja indelicado, Enrico. — Nonna repreende-o com um
balançar de toalha de pano.
— E Clara? — Ele muda de assunto.
— Já foi se deitar. Sabe como ela é sensível para esse tipo de assunto,
ainda mais quando envolve seu pai. — responde sombria e vejo que alguma
conversa pelo olhar foi compartilhada.
Bocejo depois de tomar um gole fervente do chá, que tinha um leve
gosto ruim.
— Vamos embora, você precisa descasar. — Ele levanta da cadeira e
me fazer segui-lo. — Arrivederci , Nonna!
[13]

— Espere, preciso terminar meu chá. — reclamo quando remove a


xícara da minha mão e coloca no balcão. — Obrigada e boa noite! — Aceno
com minha mão livre para a senhora simpática e atenciosa.
Nonna apenas sorri quando, puxando minha mão, Enrico me leva
embora daquela casa até o local onde seu carro foi estacionado.
— Vou te levar em casa. — Abre a porta do carro para mim e espera
que me sente para fechar a porta.
— Se não se incomodar, poderia me levar numa lan house? — Peço
assim que Enrico entra no carro. Ele me olha confuso, tentando entender meu
pedido ou não querendo me levar para onde queria ir. — Se for dar trabalho, não
tem problema, pode me deixar na empresa que me viro.
— Calma, só quero entender o motivo de você querer ir numa lan
house nesse horário. Se precisar, você pode usar o computador da empresa para
seus assuntos pessoais. — Sem se preocupar em ligar o carro, virou todo o seu
corpo na minha direção e me olhou com ferocidade.
— Não é para isso. O pessoal faz corujão de sexta-feira e faz tempo
que não apareço, então, como já avisei meus pais que só irei aparecer de
madrugada, resolvi comparecer, nem que seja por poucas horas. — Seu olhar
sem compreender minhas palavras me fez lembrar que esse era um homem de
negócios e não um dos meninos que estava acostumada lidar.
— Corujão?
— Sim, corujão, ficar a madrugada inteira usando o computador para
jogos em rede como Call of Duty, Lineage... — Suspirei nervosa ao ver sua
expressão ficar mais confusa. Apesar de crianças e adolescentes jogarem, muitos
adultos também compartilhavam desse gosto. — Enfim, só me deixe lá ou na
empresa. Explicar tudo isso para um executivo que provavelmente usa seu tempo
vago para continuar trabalhando é um pouco constrangedor. Preciso aliviar
minha mente de alguma forma, estou estressada e ainda de TPM, então, tire esse
olhar confuso da sua cara e pare de fazer perguntas.
Bufo e cruzo meus braços na minha frente, encarando o nada no para-
brisa.
Ele dá partida no carro, sai da casa e segue pelas ruas sem nenhuma
pressa.
— Você quer descansar sua mente com jogos? — Viro meu rosto para
encará-lo, porque a diversão no seu tom era transparente. Ele estava sorrindo e
provavelmente fez tudo aquilo de propósito.
— Você sabia sobre o que eu estava falando? — acusei.
— Mia bella, não respondeu minha pergunta. Quer descansar sua
mente com jogos? — perguntou novamente com sedução.
— Sim, é assim que consigo me desligar da empresa. — respondi com
severidade, como se o culpado fosse ele.
Assim que Enrico para o carro em frente a um portão, olho para frente
e reparo que é um prédio de luxo da cidade. Abro a boca, chocada com o que
estava acontecendo naquele momento.
— Vamos jogar em casa. Vou te proporcionar todo o desligamento da
realidade que você precisa. — Ainda tentando me seduzir, fechei minhas pernas
com força, amaldiçoando Eva por ter pecado no paraíso e ter nos feito menstruar
uma vez por mês.
Era tempo de pensar em um método contraceptivo já que seria
submetida à sedução italiana.
Estacionou o carro, pegou as sacolas do meu pé e saiu para abrir a
porta para mim.
— Pare de jogar seu charme sobre mim justamente quando não posso
retribuir. — reclamo desconsolada e sou pressionada na lataria do carro. Minha
bolsa e as sacolas caem no chão quando Enrico envolve suas mãos no meu rosto
e me segura para devorar minha boca sem piedade.
Acho que nunca iria me cansar da necessidade dele de me surpreender
com beijos.
Capítulo 31

Não poderia me privar dos lábios definidos desse homem, ainda mais
com tanta paixão. Ele desceu suas mãos pelo meu pescoço, depois os seios e
ficou na barriga. Precisava pedir que parasse, que não avançasse, porque não
poderia continuar a brincadeira. Ele inclinou o corpo para o lado e trouxe uma
perna para envolver a sua, fazendo com que minha saia levantasse quase
completamente.
Seu quadril se mexeu, seu corpo me embalou e só em algum lugar da
minha mente gritava para parar, mas estava tão envolvida nas sensações, no calor
do momento e nos lábios ardentes que agarrei suas costas e com minhas unhas
arranhei por cima da camisa.
Liberou meus lábios para distribuir beijos pela minha face e seguir até
meu ouvido.
— Sei que sua mente pervertida só pensa em me ter dentro de você.
Confesso que não consigo pensar em outra coisa quando estou ao seu lado, mas
não se engane, há um Xbox One no meu apartamento, poderemos jogar como
você planejava. — rouco de paixão e desejo, com uma protuberância na sua
calça, fez mais um movimento de seu quadril no meu para me fazer gemer.
Estava quase lá! Com toda essa fricção, esse movimento e toda a
situação proibida, meu clímax estava próximo. Por que parar agora?
Solto o ar pelo nariz frustrada.
— E desde quando o CEO da Supermercados Zanetti joga vídeo
game? — Franzo o cenho enquanto todo o clima romântico e excitante se esvai.
— Desde quando minha posição na empresa tem relação com meus
hobbys? — Ergue uma sobrancelha com desafio.
Emblemático, afasta de mim para pegar os itens descartados no chão.
Pega minha mão e seguimos até o elevador. Na garagem, apenas carros de luxo e
importados, automóveis que só veria em revista ou de longe na rua.
Antes de apertar o botão para chamar o elevador, vejo um Porche, meu
carro dos sonhos.
— Ele é de verdade? — Solto da mão de Enrico e sigo até a máquina
de cor branca com faixas vermelhas, as cores da Martini. Com medo de tocar,
apenas passei minha mão por cima do capô, dois dedos longe da lataria e olhei
para dentro da porta do motorista. — Uau! Saulo ficará enlouquecido quando
dizer que existe um 918 Spyder aqui na cidade. Preciso tirar uma foto. — Coloco
a mão na minha bunda, percebendo que não havia bolso e depois ergui meu olhar
para Enrico, que segurava minha bolsa e me observava com indiferença.
Será que fiz algo de errado?
Com certeza sim, Maria-Gasolina. Sou repreendida pela minha mente
e envergonhada, abaixo minha cabeça, respiro fundo e volto a olhá-lo, mas desta
vez séria.
Com toda a certeza do mundo me achou uma interesseira, só porque
visualizou um carro que nunca viu ao vivo. Ele era rico, esse tipo de coisa com
certeza não faria diferença na vida dele.
Mais uma vez sou confrontada por nossa diferença social e o quanto
tudo isso não teria futuro. Minha mãe sempre dizia que precisava encontrar
alguém com o mesmo nível social que eu para casar, porque construir junto era o
segredo para um relacionamento de sucesso.
Estava pensando sobre isso, ter um relacionamento com Enrico, mas
desta vez, como um banho de água fria, compreendi que não passaria de uma
aventura. Depois que o pai dele voltasse e não precisasse de mim, com certeza
tudo acabaria.
Parada ao seu lado, ele me entrega minha bolsa e coloco a alça no
ombro.
— Não vai tirar uma foto? — questionou sem nenhum resquício de
simpatia e intimidade que tivemos antes.
— Pensei alto, não é nada. Como disse antes, meus pais e irmãos são
fissurados em automóveis e consequentemente eu também. — Encarando os
números acima da porta do elevador que não chegava, tentando fingir
indiferença. — Você olha para carros importados todos os dias. Eu olho para
carros populares, então, desculpe se me excedi.
— Tem noção de quanto custa um carro desses?
Ainda sem olhar para ele, respondo:
— Bem, ele possui um motor é v8 e mais dois motores elétricos, que
somando as forças de todos dá quase 900 cavalos. Então, com certeza ele vale
mais de cinco milhões. Tem noção que esse carro faz mais de 300 quilômetros
por hora? E em 2,5 segundos faz 100 quilômetros por hora! — Não consigo
parar minha boca de falar sobre esse carro quando as portas do elevador se
abriram e entramos nele. Encaro-o. — Tem noção que só existem 918 unidades
do mundo e uma está a nossa frente? Esse carro é tecnologia pura!
Enrico aperta o botão do último andar, coloca as sacolas no chão ao
meu lado, pega minha bolsa e faz o mesmo. Com um olhar predador, ele me
enjaula com seus braços apoiados ao lado da minha cabeça na parede do
elevador e posiciona nosso olhar no mesmo nível.
— Quero que saiba, mia bella, que se não fosse pela sua situação atual,
você estaria nua nesse elevador, implorando para que parasse de te fazer gozar,
porque isso — ele pegou minha mão e colocou na sua virilha inchada e rígida —
apenas você conseguiu fazer. Sua paixão por tecnologia me excita e não quero
nada menos do que me perder em você.
Apertando minha mão no seu membro, coloca sua testa na minha e
geme frustrado.
A recíproca era verdadeira, meu CEO.
Muito rápido chegamos ao seu andar. Ele se afasta, recolhe tudo o que
estava no chão com uma mão e me guia para o hall do seu apartamento com sua
mão na minha.
Hábil, abre a porta com as sacolas em mãos. Acende as luzes e vejo
um apartamento tirado de uma revista de design de interiores.
Deparo-me com três ambientes, sala de estar, jantar e de tevê. Tudo
preto, amadeirado e cinza. Era elegante, sofisticado e... não queria pensar que era
rico. Novamente a lembrança de que vivíamos em mundos completamente
distintos. Enfim, só precisava me preparar para o tombo quando tudo isso
acabasse.
Deixa as sacolas em cima de um dos sofás da área de estar e me
encara.
— Vá para a tevê, os controles e os jogos estão no rack embaixo dela.
— Beija minha testa e solta minha mão. — Vou providenciar um pouco de
bebidas e aperitivos.
— Mas acabei de comer!
— E vai gastar energia tentando me derrotar no Mortal Kombat. —
Despido de sua habitual polidez, Enrico estava descontraído e sorridente.
— Você pode tentar. — Não resisto à provocação. Sorrio de lado, feliz
que ele possuía um dos jogos que mais gostava. — Posso usar o banheiro?
— Fique à vontade. — gritou de dentro da cozinha.
Curiosa, ao invés de usar o lavabo, pego minha sacola com
absorventes e sigo pelo corredor. Abro a primeira porta e vejo que é um quarto,
está decorado como a entrada, marrom e cinza. Possuí uma cama de casal,
guarda-roupa e criado mudo. Dou um passo para dentro, apenas para conferir o
tamanho do banheiro e digo “uau” na minha mente. Era limpo e espaçoso.
Confiro outras duas portas, todos os cômodos iguais ao primeiro.
Então, a última seria o seu quarto.
Abrindo vagarosamente, encaro uma cama muito grande,
impecavelmente alinhada. Passo minha mão pelo edredom, olho em volta e
chego à conclusão que não há nada pessoal dele exposto. Vejo ao lado um closet
e mais à frente a porta do banheiro.
Sorrindo, entro nele e tranco a porta para fazer o que precisava. O
tamanho do banheiro concorria com o meu quarto. Havia uma banheira, um
chuveiro e duas pias. Qual a necessidade de tudo isso? Não sabia, mas
suspeitava que provaria se não precisasse dessa troca necessária entre minhas
pernas.
Volto para a sala escondendo um sorriso e meu pacote atrás das costas.
Enrico já estava no sofá em frente à televisão, controle e jogo a postos. Havia
tirado todo o terno, arregaçado as mangas e tirado os sapatos. Não tinha quase
nenhum resquício do executivo.
Amendoins e batatas chips estavam expostos na mesa de centro junto
com dois copos enormes de refrigerante. Precisei controlar minha língua para
não o pedir em casamento novamente, porque isso era o céu.
Guardo meu pacote na minha bolsa, sento ao lado dele e sorrimos um
para o outro. Encarando-nos assim, conseguia nos ver em um futuro, onde no
final de semana, competíamos no controle e quem perdia, tirava uma peça de
roupa.
— Vejo no brilho dos seus olhos os seus pensamentos. — com
rouquidão, aproxima seus lábios dos meus e amplia o sorriso. Nossos olhos estão
bloqueados um no outro. — Quero saber todos.
— Se você ganhar, quem sabe eu faça algum deles. — Termino a
distância entre nossas bocas e enlaço meus braços no seu pescoço. Ele
corresponde a minha necessidade pelo seu toque, deslizando sua mão na minha
coxa, por baixo da saia.
Sem continuar com a tentação, se afasta ofegante, entrega um controle
preto para mim e suspira de olho fechado.
— Quanto tempo vou ter que esperar?
— De três a cinco dias. — Tento não o olhar e encaro a televisão, que
mostra o início do jogo.
— Cinco dias infernais. — sussurra e depois tromba seu braço no meu.
— Escolha com qual avatar vai perder.
Mudando a neblina de luxúria para descontração, seguimos a
madrugada como dois nerds, entre beijos e jogos.
Capítulo 32

Acordei sobressaltada, suada e confusa. Antes de surtar, descobri que
estava dormindo em cima de Enrico, no sofá, em seu apartamento. Os raios de
sol estavam invadindo o local, anunciando que poderiam ser mais de seis horas
da manhã!
— Minha mãe vai me matar! — Sem delicadeza, me desvencilho do
corpo que estava embaixo de mim e pego meu celular que estava na mesa de
centro junto com os restos de petiscos que comemos. — Céus, estou atrasada! —
Eram sete horas da manhã e haviam várias ligações não atendidas, que não ouvi,
porque o celular estava no silencioso.
Enquanto pego minha bolsa e corro para o banheiro do quarto
principal, para tentar me aprontar para o dia, escuto Enrico gritar um “bom dia”.
Ele entrou em seu quarto e conseguia escutar seus movimentos mesmo com a
porta fechada.
Assim que terminei de escovar meus dentes com creme dental e o
dedo, olho-me no espelho e suspiro. Era o momento de enfrentar as
consequências de dormir fora de casa.
Saio do banheiro ao mesmo tempo em que ligo para minha mãe, meu
primeiro leão a ser enfrentado no dia.
— Sabrina Maria Alencar! O que a senhorita pensa que está fazendo
passando a noite fora e sem dar nenhuma explicação? — Minha boca fica parada
aberta para responder e por causa da minha visão. Enrico havia removido sua
roupa e estava, de cueca box branca, escolhendo uma roupa no seu closet. Não
tinha visto ele nu antes, apenas senti seus músculos e pele, então, vê-lo dessa
forma me fez ofegar. — Eu e seu pai queremos conversar com você assim que
chegar em casa, mocinha. Você pode ser maior de idade, mas enquanto estiver
sob o nosso teto, deve seguir as nossas regras, começando por dizer onde estava
e com quem!
Fecho os olhos, viro de costas para a minha visão magnífica de homem
e dou passos para trás até chegar à cama e poder me sentar. Droga! Estava com
um sermão agendado com meus pais. Mesmo sendo tão velha e direita, liberdade
era um sonho distante, mas que planejava conquistar.
— Mãe, bom dia. Acabei perdendo a hora e...
— Perdendo a hora? E as ligações que fizemos? E a preocupação que
ficamos até você decidir nos agraciar com esse contato? — pelo tom e nível de
irritação, parecia que passei a noite roubando um banco ou me prostituindo.
— Tudo bem! Estou bem como sempre! A preocupação é
completamente desnecessária. Preciso ir trabalhar, nos vemos mais tarde —
controlo minha ansiedade e raiva.
— Quero saber onde estava!
— Trabalhando, mãe. É tudo o que sei fazer desde que entrei nessa
empresa. Trabalho, trabalho e trabalho! — exalto-me e abro os olhos para
encarar a parede. — Em casa conversamos, tudo bem? Tchau. — Encerro a
ligação frustrada e uma mão no meu ombro me faz pular e sair da cama.
— Está tudo bem? — Enrico, ainda trajando quase nada de roupa me
pergunta e sinto as lágrimas ameaçarem cair. Merda de TPM!
— Sim, sim, não se preocupe. — Balanço minha mão na nossa frente e
finjo um sorriso. — Vou te esperar na sala.
— Não vá antes de ser sincera comigo. — Segura meu braço a
transmite seu calor e carinho pelo toque da sua mão.
Tanto esforço para não me expor, mas não haverá saída.
— Não estou legal, porque não posso sair e fazer o que quiser sem o
aval dos meus pais. Não posso namorar, porque estou de TPM. Estou cansada,
exausta, mas preciso trabalhar. Então, vamos para a empresa, vou comer meus
bombons e tentar melhorar meu humor até o final do expediente. — Controlei
meus lábios de se curvarem para baixo e o choro começar.
— Que dia da semana é hoje? — Segura meu outro braço e começa a
movimentar sua mão para cima e para baixo, numa carícia acalentadora e terna.
— Sábado.
— Folgue hoje e amanhã. Vá para casa. — Subiu suas mãos para meu
pescoço e depois para meu rabo de cavalo. Desfez o penteado e massageou meu
couro cabeludo. — Venha, vou te agradar um pouco.
— Não! — gemi e segurei suas mãos, pausando a carinho. —
Enquanto você faz isso, fico toda incomodada e precisando de alívio, o que, na
minha atual situação, não é muito interessante de se compartilhar. Além do mais,
sou a única de plantão no final de semana, preciso estar na empresa.
— Dois dias de folga não matará ninguém, mia bella. — Remove
minha mão da sua e continua a massagem, agora, com seu corpo quase nu mais
próximo do meu. Direcionei meu olhar e minhas mãos para seu peitoral. Rígido.
Firme.
— Se o sistema de um dos supermercados parar, a empresa perderá
dinheiro com as vendas, além da bronca que receberá dos clientes. — Tentei não
fechar os olhos e gemer em apreciação. As mãos desse homem eram majestosas.
— Sabrina.
— Sim? — Ainda com as mãos no seu peito, ergo meu olhar para o
seu.
— Aprecio muito sua preocupação e empenho com a empresa, mas
sou o dono e estou ordenando que não vá trabalhar hoje e amanhã. — Fecha as
mãos em punhos com meus cabelos entre os dedos, me tornando cativa.
— Bem, já que insiste. Contra os fatos não há argumentos. — Já
hipnotizada pelo seu olhar dominante, ergo-me na ponta dos pés e Enrico
termina a distância entre as nossas bocas.
Apesar dos seus lábios estarem quentes da noite de sono, os meus
recém-refrescados dão uma sensação de soberania. Subo meus braços para
envolver seu pescoço e as suas mãos descem para segurar a minha bunda e
encaixar meu quadril com a sua ereção.
Com pouco tecido entre nós, era fácil e irresistível a apreciação de sua
masculinidade. Sinto-me ficar mais úmida do que já estava e bloqueio da minha
mente qualquer coisa vermelha que irá me fazer cair do céu que é estar nos
braços e com os lábios colados com os de Enrico.
— Voglio così tanto , mia bella. — Assim que abandonou minha boca
[14]

para beijar meu pescoço, disse e me fez gemer com a mistura de sensações entre
tato e audição.
— Estar com você numa cama e com essas palavras me levará a
loucura. — sussurro, porque não pretendia falar em voz alta meus anseios.
— Oh, mia bella. Será a primeira coisa que faremos assim que o chico
for embora. — Sorriu contra minha clavícula e subiu suas mãos para apertar
meus seios. — Meu pau quer estar entre eles quando isso acontecer. —
Malicioso, apertou e massageou por cima da minha blusa, transformando-me em
ousada.
Com um passo para trás, esquecendo as consequências e implicações
do que acabava de assolar minha mente, removo minha blusa aos olhos atentos
de Enrico, tão hipnotizado quanto eu nesse momento de luxúria.
Removi meu sutiã, o que fez o sorriso dele sumir um pouco e se
aproximar para que suas mãos voltassem para onde estavam. Sua mão estava
abrasadora em meus seios, causando arrepios e proporcionando desejo.
— Mia bella, perché è così perfetto ? Quero tanto o que você quer me
[15]

dar na mesma proporção que precisarei recusar.


— Me deixe fazer. — Um pouco acanhada por não saber o que ele
achava tão perfeito e por querer recusar, coloco minha mão no cós da sua cueca
e, andando para o lado, trago-o até a cama. Subo de joelhos em cima dela e
agacho na sua frente ao mesmo tempo em que removo sua cueca.
Com o poder em minhas mãos, segurei seu membro e admirei o quanto
estava firme e ereto. Com poucos movimentos para cima e para baixo, percebi
que movimentou seu quadril para encontrar com meu toque e gemeu mostrando
o quanto estava apreciando.
Sem esperar mais, cobri com minha boca sua masculinidade, sugando
e circulando minha língua a cada investida. Sua mão segurou meu cabelo com
cuidado, apenas para acompanhar meus movimentos e os seus com os quadris.
Ele estava em êxtase e tudo por minha causa.
Presenciar um homem tão poderoso como Enrico quase desfeito em
meus lábios aumentou os meus pontos de habilidade de sexo oral. Não fiz
muitos, mas assisti vários...
— Sabrina... — pediu clemência e afastei minha boca para substituir
pelos peitos. Não haveria calmaria enquanto esse homem não estivesse satisfeito.
Segurei meus seios enquanto seu membro se movimentava entre eles.
Enrico estava afoito, encarava nosso vínculo com muito tesão.
— Posso?
— Sim! — respondi apressadamente.
Entrosados, sabia que queria permissão para gozar neles, o que liberei
sem pensar duas vezes. Entre jorros no meu pescoço e clavícula, senti nosso
relacionamento mudar novamente.
— Nonostante si punteggio, è tatuato in me . — Com uma mão na
[16]

minha bochecha, senti suas palavras estrangeiras como uma declaração de amor
e desta vez, não ficaria sem saber o significado.
— O que você disse?
Capítulo 33

— Venha tomar banho comigo. — pediu rouco de paixão, mas neguei.
Além de ter ignorado minha pergunta e ser algo íntimo, não pularíamos etapas,
não essas.
— Vou me limpar na pia, não vou tomar banho com você. Não fuja da
minha pergunta, quero saber o que disse em italiano.
— Que você é especial, mia bella. Muito te aguarda daqui há dois ou
quatro dias. — promete com palavras e com seu olhar.
— Está contando? — Arregalei os olhos divertida e o segui até o
banheiro. Iria me limpar, mas só o suficiente para não ficar cheirando a sexo.
— Cada minuto. — Piscou um olho, removeu sua mão do meu rosto e
seguiu para o banheiro.
Entrou no cúbico cercado pelo box transparente e começou a se lavar
enquanto eu me limpava e não conseguia tirar o cheio dele de mim.
— Droga! Estou cheirando porra. Minha mãe vai achar o máximo. —
murmurei irônica encarando o espelho. Desta vez, a brincadeira sobre eu ser
garota de programa seria interpretada de outra maneira por ela.
— Tenho alguns perfumes no meu closet. Talvez exista algum que
você possa usar. — preocupado, encaro o homem tomando banho e o vejo com o
cenho franzido me observando. — Não vou lamentar nosso momento, mia bella.
Se precisar, entrarei com você na sua casa.
— Não! — discordei sem pensar. Ele não queria assumir nosso
envolvimento, não sabia o que isso implicaria na empresa, mas sabia que para a
auditoria seria ruim e para minha família... Seriam dias e dias de sermão. Não
queria e não estava preparada.
Mas...
Essa seria a oportunidade de não ser simplesmente descartada quando
toda nossa interação obrigatória fosse desfeita.
Sem olhar para ele, saio do banheiro, coloco meu sutiã que estava
abandonado perto da cama e sigo para o closet. Observei as roupas alinhadas e
bem passadas até encontrar os relógios e perfumes. Fechei o olho assim que
inspirei o cheiro que era de Enrico impregnado nessa sessão.
Até quando esse romantismo estaria vigente nas minhas ações quando
se tratava do meu CEO?
— Deu certo? — Aproximou-se com a toalha enrolada na cintura e os
cabelos úmidos. Olhei por todo o seu corpo, apenas para mentalizar e
materializá-lo nos meus sonhos sórdidos.
É verdade que tive esse homem?
Balancei minha cabeça para dispersar os sentimentos contraditórios e
exalei.
— Ainda não testei nenhum. Alguma sugestão?
Antes de me ajudar, desenrolou a toalha da cintura, terminou de se
enxugar e deixou a toalha em cima do banco que ficava no centro do closet. Em
todo momento ele me encarava, desejoso, admirado e algo mais... Não consegui
identificar, mas era algo que nunca percebi em olhar nenhum de outro homem.
Colocou uma cueca boxer branca e se aproximou de mim, fresco e
limpo.
— Use esse, é uma colônia, o mais suave que tenho. — com sedução,
ele espirrou um pouco do produto nele e depois no meu pescoço. Antes que
reclamasse que era pouco, ele me envolveu em seus braços e me abraçou. Um
aperto firme e romântico, que senti completamente o seu corpo.
Envolvi meus braços nele e retribuí o aperto. Esse poderia ser o
momento para revelar tantas coisas, declarar tantos sentimentos, mas minhas
ações já mostraram muito de mim, não poderia me desnudar mais.
— Obrigada pela folga. — decidi romper o silêncio, já que minha
língua ameaçava soltar o que não deveria.
— Descanse um pouco, você não deveria trabalhar tanto assim no final
de semana. — Afasta-se de mim e vai até onde estava uma muda de roupa
separada. Era uma roupa social, mas sem gravata e a jaqueta do terno.
— Ossos do ofício. — respondo baixo e sigo até minha blusa. Torcia,
profundamente, que não estivesse muito amassada.
Os próximos passos foram realizados em silêncio. Terminamos de nos
arrumar, saímos do apartamento e fomos até o estacionamento. Antes de se
aproximar do seu carro, Enrico tirou do bolso da calça seu celular, tirou uma foto
do Porche que admirei no dia anterior e seguiu até onde estava.
— Enviei para seu e-mail. — Sorrindo, destravou o carro e fiz uma
careta divertida para ele. Abriu a porta e me ajudou a entrar, como sempre um
cavalheiro.
— Eu realmente aprecio sua gentileza com a porta. — assumo assim
que ele se acomoda no seu assento.
— Há certos costumes que nunca deveriam sair de moda. — Liga o
carro e sai da garagem. Ousada, ligo o rádio, sintonizo minha estação favorita e
começo a cantar com a música.
— ...como um presente do céu, você vem comigo, vem comigo, meu
amuleto da sorte, me deixa mais forte... — Apesar de criticada pelos meus
colegas de trabalho quando souberam que gostava de NXZero, não me
importava e continuava seguindo seu trabalho.
— Você gosta de cantar? — perguntou sem desviar sua atenção da rua
e fiquei irritada.
— Não me venha com a piadinha, “você gosta de cantar?”, “Gosto”,
“Então, por que não aprende?” — Cruzei meus braços na minha frente e fiz bico,
indignada.
E então, Enrico riu. Muito. Deu gargalhadas e achei que a direção
estaria comprometida de tanto que ele exagerou da reação. Continuei com minha
pose, porque odiava a piada, por já ter caído muitas vezes.
Assim que chegamos à rua de casa, ele reduziu o riso e respirou fundo.
Parou o carro em frente do portão da minha casa e segurou meu braço antes que
eu desafivelasse o cinto.
— Me desculpe, não queria te chatear. — Sorria descontraído e se não
estivesse apaixonada por ele, estaria nesse momento. O homem era lindo.
— Já estou acostumada com a piada. Vindo de você foi a cereja do
bolo. — disse amarga, o que fez ele se inclinar no painel do carro e unir nossos
lábios de forma casta.
— Não iria fazer essa piada, até porque não a conhecia. Minha
pergunta foi sincera. Tenho o rock band guardado em casa, para quando
jogarmos novamente. — falou olhando nos meus olhos e com os lábios
próximos aos meus.
Todo o nosso momento da madrugada voltou à minha cabeça. Entre as
lutas no videogame, vitórias e derrotas, trocamos beijos, carinhos e piadas.
Como imaginei, Enrico tinha um lado brincalhão e irônico, que usou a todo o
momento que perdia uma luta. Já gostava desse tipo de interação com os amigos,
agora, com o namorado, teve outro peso.
Perdemos a hora, jogamos a preço de beijos, o que mostrava que não
havia perdedores.
Quando um desses beijos ultrapassou os limites permitidos, quando
suas mãos desesperadas invadiram minha blusa, paramos largados no sofá,
apenas observando nossas características físicas.
Ele tinha sardas no nariz, uma pinta perto do ouvido e algumas marcas
de expressões nos olhos. Não queria imaginar o que estava reparando, nas
minhas sobrancelhas mal delineadas ou as marcas de sol no meu rosto.
Quando toda essa avaliação foi de mais, deitei minha cabeça no seu
peito e escutei seu coração bater a um ritmo acelerado. Acho que acabei pegando
no sono e descobri meu remédio para a insônia: escutar o coração de Enrico.
— Estarei com minha irmã esse final de semana. Qualquer coisa me
ligue, tudo bem? — Interpretei suas palavras como, não iremos nos ver nesse
final de semana.
Volta a se sentar em seu banco de forma correta.
— Família em primeiro lugar sempre. Se precisar de mim, estou à
disposição. — Sorrio fraca.
— Quer que eu entre com você? — Tira-me do devaneio e solto meu
cinto de segurança.
— Pode deixar. Tchau. — Sem um segundo beijo, saio do carro e sigo
para enfrentar meus pais e seu humor.
Abro o portão, depois sigo para a porta de entrada com a respiração
presa no pulmão. Mal a abro e minha mãe me surpreende.
— Que roupas são essas, Sabrina? Você sai de casa com uma roupa,
passa a noite fora, sabe-se lá com quem e volta com outra e ainda... — se
aproxima de mim e inspira — cheirando a perfume masculino. Eu não te criei
assim...
Como toda discussão, meus irmãos apareceram, meu pai observou e
todos falavam enquanto eu apenas escutava e mentalizava para tudo isso acabar
o quanto antes.
Era muita proteção, meus irmãos me ajudavam a conter os danos e
meu pai tentava acalmar minha mãe. Claro que quando o assunto sexo entrou na
discussão, fiz questão de mostrar meu pacote de absorvente e o quanto estava
impossibilitada de atos libidinosos. Como anteriormente, era uma mentirinha por
questão de sobrevivência.
Depois de quase uma hora, sigo para meu quarto e lá pretendia me
confinar pelo resto do dia. Se uma noite fora causava tudo isso, imagine contar
que estava me relacionando com o dono da empresa. Sorri, imaginando a cara de
choque dos meus pais.
Capítulo 34

— Do outro lado, Kylo. Atrás do tanque! — falo ríspida para o
microfone do meu fone de ouvido enquanto mouse e teclado estão sendo
manuseados pelas minhas mãos. Kylo era o codinome de Caio no jogo
Battlefield 1. Jogávamos on-line em nossos computadores, cada um na sua casa.
Esse jogo tem o cenário da primeira guerra mundial e precisamos
defender as posições com armas de fogo, dessa mesma época, para vencer a
batalha.
Depois do sermão, sai do meu quarto apenas para almoçar. Como
sempre, fui incumbida de limpar a cozinha e retirar os lixos da casa. Odiava essa
punição, mas se minha mãe achava que me faltava serviço doméstico, que seja
feita a sua vontade.
Então, quando deitei na minha cama e olhei para o teto, descobri que
não sabia o que era ficar em casa e descansar.
Cansada de não fazer nada e louca para comer um chocolate, liguei
meu notebook que há muito estava abandonado dentro do guarda-roupa e
comecei a jogar. Nem cinco minutos se passaram quando Caio me chamou no
programa TS para conversarmos enquanto jogávamos.
— Droga, o cara está de sniper. Derruba ele, Fiona. — reclamou meu
companheiro que acabava de morrer.
— Partiu! — Levantei as mãos para o alto em sinal de vitória e voltei
para a batalha rapidamente.
Meu celular tocou, anunciando o recebimento de uma mensagem, mas
ignorei. Precisava defender minha posição a qualquer custo.
— Vamos, vamos... — resmunguei quando não consegui acertar meu
adversário. — Droga! — A música de derrota começou a tocar, anunciando que
perdemos a batalha.
— Nossa! Esse time está muito ruim, cansei. Vamos jogar Lineage?
Acabei de receber uma mensagem do Vitor falando sobre uma batalha daqui a
pouco.
Meu celular toca novamente, fazendo-me dar atenção a ele antes de
responder Caio.
— Como foi a conversa com seus pais? Conseguiu descansar? Estou
com saudades. — li em voz alta e com um sorriso nos lábios. Era Enrico sendo
atencioso como sempre.
— O que é isso? — Lembro de Caio e fecho meus olhos.
— Uma mensagem que recebi. Não deveria ter falado em voz alta. —
Começo a digitar minha resposta, resumindo meu sermão em apenas duas
palavras e retribuindo o quanto também sentia sua falta.
— Seu namorado? — seu tom era sério. — O mesmo que te deu os
bombons?
— Não é meu namorado, Caio. E sim, ele quem me deu os bombons.
— Pensei sobre as palavras da minha resposta e fiquei triste sem razão. Aceitei
ser o segredo dele, mas no meu íntimo, lá no fundo, não queria.
— Bem, quem é?
— Alguém da empresa... — resmunguei baixo, sem coragem para
mentir para ele.
— Isso quer dizer que você não quer assumir o relacionamento ou
ele? — Abro a boca para responder, mas ele continua. — Nunca conversamos
sobre esse tipo de assunto, até porque, não sou mulherzinha para ficar
discutindo sentimentos, mas você trabalha demais, joga demais e não tem uma
vida pessoal. Sei que namorar não dá XP, mas precisamos aliviar a tensão de
alguma forma.
Estava chocada com suas palavras. Jurava que esse homem só pensava
em programação e jogos de computador vinte e quatro horas por dia.
— E você alivia tensão como? — mudei o foco da questão para ele,
não querendo pensar que até ele reparou que não tinha vida social.
— Não vou discutir com você sobre meus gostos sexuais a não ser que
você queira experimentar, coisa que sei que não é de seu interesse.
Ri algo ao mesmo tempo em que recebi outra mensagem de Enrico no
celular. “Parece que você ganhou uma fã. Sofia só vai à psicóloga amanhã se
você for junto.”
— Ah, Caio, somo amigos. Acho que não preciso experimentar para
saber mais sobre os seus gostos. Eu conto o meu e você conta o seu. —
provoquei e respondi a mensagem do celular. “Se meu chefe me liberar, irei com
certeza.”
— Venha na minha casa hoje e te darei uma amostra grátis. —
Arregalei meus olhos e decidi não estender mais essa provocação de duplo
sentido.
— Você me convenceu, não perguntarei mais sobre isso, apesar de que
estou imaginando brinquedinhos sexuais em formato da U.S.S. Enterprise. —
Começou a retrucar, mas não o deixei falar, o assunto estava encerrado. — Você
vai jogar RPG, eu vou arranjar alguma coisa para comer, ver um filme e dormir.
— Como você conseguiu folga em pleno sábado? Quem está
monitorando a TI?
— Bem, acho que caí no gosto do CEO, Caio. — Sorri pelo duplo
sentido que só eu entendi. — Tchau.
Saí do programa de conversação, removi meus fones de ouvidos da
cabeça e deitei na cama. Não sabia se era bom ou ruim ficar ociosa em casa.
— Sabrina? — Meu irmão mais novo abre a porta do meu quarto e
sorri. — Já que você nos agraciou com sua presença no final de semana, vamos
ao cinema? Tem filme de mutante estreando hoje. — Sentei na cama e apontei
meu dedo indicador para ele.
— Quero pipoca.
— A maior que tiver. Vá tomar banho.
Rápida, me aprontei como se fosse agraciada com o poder da
velocidade. Estava quase escurecendo e provavelmente sairíamos para comer
algum lanche depois do filme. Para isso, coloquei minha roupa básica composta
de calça jeans, blusa larga e sapatilha.
Antes de sair de casa, interagi com os meus pais e parecia que nada
havia acontecido horas mais cedo. Por estar saindo com meu irmão, nenhum
alarme foi acionado para eles. Bem, não seria eu a falar algo para despertar o
extinto protetor.
Fomos ao carro de Saulo e como ele sempre foi generoso, não precisei
contribuir com nenhum valor para pagar o estacionamento ou a pipoca.
Enquanto esperávamos o filme começar, andamos pelo shopping conversando
banalidades, sobre os últimos filmes que vimos e o que estávamos esperando.
Pouco tempo depois, o assunto seguiu para carros e lembrei-me do
carro que tinha foto. Parei de andar um momento e o surpreendi com:
— Saulo, você não imagina que carro existe na cidade e vi com meus
próprios olhos!
— Qual? — Seus olhos brilharam. Tirei o celular da minha bolsa,
busquei a foto do Porche e mostrei.
— Um 918 Spyder com as cores da Martini. É maravilhoso! — Ao
invés de vê-lo empolgado, presenciei sua cor sumir do rosto e os olhos ficarem
preocupados.
— Por que você tem uma foto de dentro do estacionamento desse
prédio? — Encarou-me com o cenho franzido. — Quem você conhece de lá?
— E quem você conhece nesse prédio? — Fiz cara de brava e usei
meu poder de irmã mais velha para ter a resposta primeiro. Funcionou assim que
seu olhar desviou do meu e suas mãos foram para dentro do bolso da sua calça.
— Não diga para ninguém, mas estou saindo com a dona desse carro.
— respondeu receoso e olhou para todos os lados, com medo de que alguém
escutasse suas palavras.
Estava chocada e com a boca aberta. Meu irmão estava saindo com
alguém rico, podre de rico!
— Que bom que sei um segredo seu, agora posso contar o meu. —
Aproximei e baixei minha voz. — Estava lá, porque estou saindo com Enrico
Zanetti, ele mora lá.
Ficamos nos encarando por um bom tempo, ambos chocados com a
situação.
— A mãe nunca vai aceitar seu namoro. — interrompeu o silêncio com
a voz um pouco sombria. Ele queria me repreender, mas estava na mesma
situação que eu.
— E o pai nunca vai aceitar você se envolver com alguém que recebe
mais que você. Já pensou, seu filho não sendo o chefe da família? — zombei.
Meus pais tinham um pouco dos ensinamentos dos meus avós enraizados neles.
— Mas eu não namoro. É apenas...
— Tudo bem, senhor “eu não namoro”. — brinquei imitando a sua
voz. — Se gosta dela, independente da classe social, você deve ser feliz. — disse
séria.
Olhou para longe, depois para mim e pegou o celular. Refleti sobre
minhas palavras como ele e tentei me convencer que era verdade. Simples dizer
para outras pessoas e complicado aceitar para nós mesmos.
— Está na hora do filme, vamos. — Com um braço nos meus ombros,
seguimos para a sala de cinema em um clima mais cúmplice e parceiro. Não
costumava desabafar com meus irmãos, mas achava que havia conseguido um
parceiro nessa empreitada.
Capítulo 35

No domingo decidimos almoçar em família no shopping. Minha mãe
estava radiante já que há muito tempo não conseguia juntar todos nós para um
almoço familiar.
E para comemorar, ela queria me levar para comprar roupas e sapatos
novos. Claro, quem pagaria era eu, mas ela queria fazer o papel de Esquadrão da
Moda.
Enquanto meu pai e irmãos passeavam pela loja de eletrônicos, que era
onde eu também queria estar, minha mãe me arrastou para uma grande loja, onde
vendiam roupas femininas, masculinas, cama, mesa e banho. Há muito não
entrava em uma dessas, por falta de tempo e por ter comprado meus últimos
itens de vestuário pela internet.
Depois de mostrar mais de dez peças de roupa e eu recusar, me lembrei
do motivo de odiar sair para comprar roupa com minha mãe. Ela sugeria roupas
que ela vestia e não as que combinavam comigo. Sua paciência estava esgotando
tanto quanto a minha quando reclamei:
— Eu não vou usar isso, mãe! — resmunguei quando ela me mostrou
uma blusa florida e de grandes proporções. Era recatada, mas um nível muito
acima do meu, na verdade, era nível vovó.
— Sabrina, é sempre difícil comprar roupa para você. Desde criança
foi cheia de frescura. Cansei. Se vira, quero no mínimo três blusas e duas calças
novas antes de irmos embora. Vou olhar roupa para seu pai e seus irmãos. —
brava, ela segue para fora da loja de departamentos.
Fecho os olhos e suspiro. Não sabia o motivo de ainda querer fazer o
que ela me ordenava. Já tinha vinte e quatro anos, precisava sair da barra da saia
dela. Mas antes, precisava fazer meu mochilão!
— Acho que alguém precisa de ajuda. — reconheço a voz e viro para a
dona dela. Era Vega, acompanhada de Prócion e uma ruiva exuberante.
— Ajuda? Ela precisa de uma intervenção! — A ruiva diz e se
aproxima para um abraço. — Ouvi falar muito sobre você. Sou Bet, sua
salvadora fashion.
— Como? — Cumprimento as outras duas com abraços enquanto
observo Bet pegar uma blusa ousada e me mostrar.
— Prócion, pega uma sacola, vou escolher as roupas e no provador
veremos qual fica bem. — Encontra uma sacola perto de nós e a abre para Bet
depositar suas escolhas.
Será que deveria resistir mais? Acho que não, precisava de uma
opinião que não fosse da minha mãe e a minha própria não funcionava. Queria
me vestir melhor, não queria ser mais a menina da TI. Queria ser a mulher que os
olhos de Enrico me mostravam ser.
— Eu não uso esse tipo de decote. — comento ao perceber que a blusa
nem um pouco recatada tinha um decote avantajado e sustentado por fios.
— Diga isso quando estiver no seu corpo. — Pisca um olho para mim
e volta a procurar roupas. — Peitos foram feitos para decotes, ainda mais os seus
que são avantajados.
Olho para baixo e fico vermelha de vergonha ao lembrar o que tinha
feito com Enrico.
— E aí, conseguiu um dia de folga? — Prócion me tirou do meu
devaneio.
— Sim, tive sábado e domingo para mim. — Fiz uma careta para a
saia jeans que Bet colocou na sacola. Elas iriam me obrigar a vestir tudo isso de
roupas e não conseguiria resistir.
— Estar com o chefe tem suas vantagens, heim? — Bateu seu ombro
no meu e sorriu ao mesmo tempo em que fiz uma careta.
— Não sou assim, Prócion. Queria trabalhar, na verdade precisava.
Além do mais, acho que nem lembro quando foi à última vez que folguei num
sábado e domingo, eu merecia. — respondi na defensiva. Cruzei meus braços na
frente e fiquei imaginando que seria esse tipo de comentário que receberia na
empresa quando descobrissem nosso envolvimento. Todos só veriam os meus
benefícios fáceis e esqueceriam o tanto que trabalho para os ter.
— Calma, Sabrina. Era só uma brincadeira. — Apertou meu braço
como um pedido de desculpa.
— E mesmo se não fosse, mulher, esqueça a opinião alheia. Você
merece tudo de melhor sendo a funcionária competente e sendo a mulher do
CEO. — Vega fica do meu outro lado e sorri com simpatia.
Olho para ela, depois para Bet e a vejo completamente compenetrada
na escolha de roupas. Só esperava não me afogar em um estilo que não fosse
meu.
— Adoro comprar roupas com Bet. — Prócion muda de assunto.
— Eu também, ela tem o melhor gosto e o melhor senso de moda da
SAI. — complementa Vega.
— Ela também trabalha com vocês?
— Oba, calcinhas! — Bet anuncia e segue entre araras de roupas até a
sessão de roupa íntima. E, para meu desgosto, mas não surpresa, ela pega
calcinhas fio dental.
— Não vou experimentar calcinhas! — indignei-me.
— Não serão todas, apenas modelos específicos.
— Estou menstruada! — falo baixo e irritada. Seria nojento.
— Bem, então você terá que levar uma de cada para casa. — Sorriu
com malícia e continuou a pegar vários modelos e colocar dentro da sacola que
Prócion segurava.
— Me ajudem! — peço para as duas.
— Renda-se ao poder de Bet e seja feliz! — Prócion começou a rir
quando comecei a demonstrar meu desespero.
— Gente, minha mãe não pode saber que uso fio dental. Vai achar que
sou uma garota de programa de verdade.
— Quanto preconceito por causa de uma peça íntima, Sabrina. — Bet
faz uma careta. — Essa calcinha é sensual, mas também é útil para não marcar
nas roupas.
— Eu nunca usei uma calcinha assim. — insisto desesperada. — Não é
meu estilo.
— Ah, mas tenho certeza que vale o sacrifício quando o bonitão te ver
com ela. — Ergueu e abaixou as sobrancelhas.
Olhei para todas elas, que se mostravam confiantes e nem um pouco
interessadas em desistir de me ver com essas roupas.
Enquanto Bet voltou a encher a sacola que Prócion carregava, fiz bico
e cruzei meus braços na minha frente. Estava curiosa para saber como ficaria
com essa roupa íntima, mas não assumiria minha derrota tão fácil.
— Vamos para o provador, vou te ajudar com as combinações.
Sem conseguir me preparar para o furacão chamado Bet, entramos no
provador de grandes dimensões. A sacola foi colocada em cima do banco e,
segundos depois, foi retirado de dentro dela a saia jeans e uma blusa pequena e
decotada.
— Mas...
— Vista! — ordenou de uma forma que não tive como recusar ou me
sentir tímida na sua frente. Removi minha roupa de costas para ela, vesti as
roupas estranhas e me olhei no espelho.
— Essa não sou eu. — Apesar de apreciar a roupa no meu corpo, o
quanto me pareci descolada, estava incomodada.
— Claro que é, mas uma você que vai para o shopping com as amigas
tomar uma cerveja depois do expediente. — Em pé atrás de mim, arrumou a
barra da blusa e da saia. — Com essas pernas e esses peitos, eu andaria assim o
dia inteiro.
— Acho que não sei sentar com uma saia dessas. — Encarei minhas
pernas brancas e nuas. A saia social era aceitável, mas essa... — É muito para
mim.
— Tudo bem, peguei outro modelo. Já que não houve objeção para a
blusa, ela fica. Tire a roupa, vou te dar outra. — Nem iria tentar protestar, sabia
as batalhas que iria lutar e essa não era uma que venceria.
Além de experimentar roupa, falei sobre tudo do mundo feminino com
Bet. Além de boa com moda, ela era uma ótima conselheira. Quando falamos
sobre menstruação, ela me indicou uma médica amiga sua, que me atenderia
segunda-feira no almoço para providenciar um método contraceptivo ideal. Não
que iria começar a transar sem camisinha, mas não teria mais preocupação com
TPM e absorventes.
Depois de duas ligações da minha mãe preocupada com meu
desaparecimento e uma hora no provador, saí da loja com muito mais do que
minha mãe exigiu.
Tinha várias calcinhas novas, ousadas e recatadas. Até uma cinta
entrou no meio dessa compra e quando fui pagar, Bet passou seu cartão
corporativo, dizendo que fazia parte de sua missão. Queria discutir, mas quando
vi o valor total, agradeci a todas com um abraço forte e a promessa de uma saída
apenas com garotas.
— E a auditoria. Como está? — perguntei antes de me despedir delas.
— Ainda não concluímos. Tivemos progresso e está sendo reportado
para o senhor Zanetti. — Vega sorri de boca fechada, um pouco sem graça e
todas se afastam.
Se havia novidades sobre o que estava acontecendo, eu queria saber.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem para meu CEO: “Bom domingo
para você. Sabe que pode contar comigo para tudo. Até amanhã. Beijos”.
Capítulo 36

Renovada e descansada, cheguei à empresa com um enorme sorriso no
rosto, roupas novas e humor nas alturas. Vestia uma blusa de seda de alças, saia
até os joelhos e uma sandália com um salto de cinco centímetros. Para mim, era
uma evolução sair das sapatilhas.
Sentindo-me confiante com os olhares aprovadores de todos por quem
passei, entrei na minha sala pronta para matar todos os leões que me
aguardavam.
Além de estar feliz pelo descanso no final de semana, meu período
também estava no fim, o que queria dizer que poderia me aventurar com meu
CEO amanhã!
Olhei para onde deveriam estar meus bombons na minha mesa e fiz
uma careta. Comida e equipamento eletrônico não combinavam e na correria de
ir embora, esqueci de retirá-los. A moça da limpeza deve ter visto e colocado na
geladeira da cozinha compartilhada dos funcionários.
— Bom dia! — Caio, também com um ar renovado, me cumprimenta
e vai para sua mesa.
— Uau, o que te tirou da cama tão cedo? — Olho o horário no relógio
do computador e percebo que chegou dez minutos adiantado.
— Já disse que para saber, você precisaria experimentar. —
removendo o cabelo do seu rosto e colocando atrás da orelha, Caio sorri quando
mostro o dedo do meio para ele.
Meus outros colegas de serviço chegaram enquanto eu me organizava
para começar mais um dia de trabalho. Olhei para as atividades que eles estavam
trabalhando e percebi que Anderson não fez nenhuma tarefa que lhe passei na
semana passada.
Não tive tempo para fazer nada do que ficou sem fazer, já que Enrico
havia monopolizado minhas habilidades. Todas elas.
— Anderson, você viu as atividades de novas implementações no
sistema que te passei na semana passada? — perguntei sem malícia, mas estava
sentindo raiva por ter muito trabalho atrasado.
— Sim. — respondeu, sem me olhar.
— Existe alguma dúvida para executá-las? — insisti na pergunta
inocente, mas na verdade, queria perguntar: então, por que não fez?
— Não.
— Poderia, então, concluir para mim? Elas são prioridades.
— Você não é minha chefe. — resmungou baixinho, mas escutei alto e
claro.
Como é que é? Ele está fazendo esse corpo mole porque não sou sua
chefe?
Caio observa nossa interação com o cenho franzido enquanto Vitor
finge que não está acontecendo nada com o fone de ouvido posto.
Queria atacar, levantar e colocar meu dedo no seu rosto, mas mantive a
calma, porém sem perder minha postura de líder.
— Na verdade, enquanto Alex não está, sim, sou sua chefe. — digo
firme e contundente, fazendo com que ele me olhe com raiva. Qual era o
problema dele? — Poderia priorizar tudo o que te passei na semana passada?
Deveria já estar pronto!
Direcionou seu último olhar para mim com raiva, voltou sua atenção
para a tela do seu monitor e me ignorou. Como tratar uma situação dessas?
Enquanto pensava sobre o assunto e trabalhava, Anderson saiu da sala
e ficou muito tempo fora dela. Como se não tivesse serviço acumulado, ele
estava procrastinando.
Resolvo terminar a parte que faltava do relatório de Enrico e esqueço
por um momento o que aconteceu há poucos minutos atrás. Assim que terminei,
meu telefone toca.
— TI, bom dia.
— Sabrina, é Carina, tudo bem?
— Bom dia, Carina. Em que posso ajudar hoje?
— Poderia vir a minha sala por um momento?
Ela parece enigmática, mas não consigo pensar em nada que queira
falar comigo diretamente.
— Tudo bem.
Desligamos o telefone e aviso a Caio que já volto. Subo as escadas
arrumando meu rabo de cavalo. Essa foi a única coisa igual que mantive. Cabelo
solto atrapalhava o trabalho, tanto quanto pulseiras e anéis.
Vou até o primeiro andar, onde o setor de RH ficava localizado, e entro
na sala depois de bater duas vezes na porta.
— Olá, Carina. — Ela apontou para a cadeira na frente da sua mesa e
me sentei nela.
— Pedi que viesse até aqui, porque Anderson se sentiu ofendido pelo
seu tratamento hoje de manhã. — Meu coração começou a correr como um
cavalo de corrida. Não acreditava que ele fez isso comigo. — Ele me falou que
você cobrou algumas atividades que não foram diretamente incumbidas a ele e
depois, na frente dos seus colegas, deixou a entender que ele era incompetente.
— Não entendi. O que ele contou para você? — Esfreguei minhas
mãos no rosto e tentei engolir tudo o que Carina estava me falando.
— Ele está equivocado? Me conta a sua versão do que aconteceu.
— Eu só perguntei o motivo dele não ter executado as atividades que
passei a ele, então, jogou na minha cara que eu não sou sua chefe. Bem, se não
sou, quem é? Quando Alex não está, quem assume tudo sou eu! Sempre foi
assim, não entendi o motivo dele interpretar tudo isso como intimidação. —
Olhava para todos os cantos, em busca de uma resposta.
Tinha chegado tão feliz na empresa, estava tão contente por ter uma
folga, mudar meu visual e então... levo uma rasteira dessas.
— Sabrina, preciso prezar pelos funcionários. Se ele se intimidou, para
isso virar um processo de assédio moral é um piscar de olhos. Senhor Zanetti te
promoveu, talvez faltou nossa apresentação formal para seus colegas de serviço.
— Em todo o momento, Carina tentou ser compreensiva apenas com o lado de
Anderson.
— Você pode questionar Caio ou Vitor, não houve intimidação. Foi
uma pergunta, apenas. As atividades estão atrasadas, sozinha não dou conta, por
isso os tenho! — Comecei a me exaltar e Carina levantou as mãos em um
movimento para tentar me acalmar.
— Tudo bem, tudo bem, mas ele já fez a reclamação, precisarei
repassar para o senhor Zanetti para avaliação. — Ela não poderia der dito coisa
pior. Em vez de ajudá-lo na empresa, estava causando mais transtorno.
— Será que valerá de alguma coisa pedir desculpas para ele? —
Franze a testa com a minha sugestão. — Com a melhor das intenções, peço que
o chame aqui para administrar esse conflito, me dê a oportunidade de réplica,
Carina. Irei me desculpar e dizer que minha intenção não foi essa. Por favor, não
leve isso para o senhor Zanetti. — praticamente implorei.
— Não sei, Sabrina. Você é jovem e às vezes, o jeito que falamos pode
transformar uma simples frase em algo agressivo. Posso não passar
imediatamente para ele, mas precisarei repassar em algum momento.
— Por favor. — Apertei o apoio da cadeira que estava sentada.
Pensando, Carina pegou o telefone, ligou para Anderson e aguardamos
a sua chegada.
— Tente não se exaltar. — Foram suas últimas palavras para mim
quando Anderson entrou e intimidado, abaixou a cabeça e se aproximou de nós.
— Sente-se, Anderson. Conversei com a Sabrina e parece que tudo foi um mal-
entendido.
—Sim, Anderson. Me desculpe se fui grosseira de alguma forma.
Acho que nos faltou comunicação. Estou com outras atividades para serem
feitas, exigência do senhor Zanetti, por isso passei para você, que é o mais ágil
da equipe. — exagerei em suas qualidades, querendo suas desculpas ao mesmo
tempo em que queria trucidá-lo. Meu coração não parou de bater acelerado em
nenhum momento, me fazendo quase gaguejar no pedido de desculpas.
— Ninguém sabia que você estava substituindo Alex. Não fomos
informados e receber ordem de colega de serviço não é legal, ainda mais naquele
tom. — respondeu com um sorriso nervoso e olhando para Carina.
Paciência. Por favor, cabeça, não me permita dizer nenhuma besteira
ou agredi-lo fisicamente na frente de uma testemunha.
— Então, Anderson. Senhor Zanetti promoveu Sabrina a chefe do
setor, ela é oficialmente chefe junto com Alex. Vamos fazer uma reunião hoje ou
amanhã para apresentá-la como tal, tudo bem? — Olhou para ele, olhou para
mim e continuou. — Sobre o mal-entendido, Sabrina conseguiu esclarecer?
— Mais ou menos... — resmungou e recebi uma advertência no olhar
de Carina quando arregalei meus olhos. Respirei fundo e invoquei a paciência do
mestre ancião.
— Anderson, me desculpe pelo que falei. Não tive a intenção de te
constranger. — Ele não olhava para mim, apenas para o chão. Covarde! — Pode
deixar que mudarei a forma como tratarei as atividades não concluídas, tudo
bem?
Ele não respondeu e Carina chamou sua atenção.
— Estamos aqui para resolver de forma amigável, Anderson. O que
você tiver de problema, pode contar com a gente. Sabrina está sendo humilde o
suficiente para reconhecer o erro e se desculpar.
Não, eu não estava errada! Queria gritar, porque estava sendo tachada
de assediadora e não foi desse jeito. Quer raiva! Que ódio! Sentia-me presa
dentro de uma cela de injustiça.
— Tudo bem. — Ele olhou para mim pela primeira vez depois que
comecei a falar com ele e percebi a sua sensação de superioridade. Ele havia
conseguido o que queria. — Obrigado, Carina. Preciso voltar ao serviço.
— Tudo bem, Anderson. Obrigada. — falou atenciosa.
Assim que ele saiu da sala, levantei-me da cadeira e comecei a andar
pela sua sala. Era pequena, apenas armários, a mesa e cadeiras.
— Você viu como ele foi sínico? — Apontei para a porta e falei baixo.
— Sabrina, tenha paciência. Ser líder e chefe não é fazer amizades,
mas controlar seus subordinados. Ele parece ter alguma birra com você, então,
tome cuidado dobrado antes de tratar com ele sobre trabalho e cobranças.
— Isso é muito injusto. — Continuo andando pela sala e cruzo meus
braços na minha frente. — Eu nunca dei motivo para me tratar assim, pelo
contrário, sempre cobri as costas dele, quando não concluía uma atividade e
Alex exigia estar pronta para ontem.
— Bem-vinda ao mundo da liderança. Nem sempre temos os melhores
liderados. Felizes são aqueles que conseguem aproveitar as intempéries a seu
favor.
Sento na cadeira, descruzo meus braços e faço uma careta.
— Isso é...
— Sim, isso é. Mas você é competente, Sabrina, vai tirar de letra. E
não se esqueça, não o trate diferente. — Sorri compreensiva e olha para seu
computador. — Estou esperando seus documentos.
— Sim, envio agora para você. Obrigada, Carina.
— De nada.
Antes de voltar para a minha sala, olho para as escadas pensando se
deveria subir para falar com Enrico antes ou iria para o banheiro, para me
recompor.
Decido pelo banheiro, com medo de ser repreendida por mais um.
Joguei água no rosto, imaginando que fosse óleo de peroba e desci as escadas
para a sala onde existia mais um idiota na minha vida profissional.
Capítulo 37

O resto da manhã passou tranquilamente. Uma mulher havia me ligado
para confirmar minha consulta médica no horário de almoço e lembrei da minha
conversa de domingo. Vega, Prócion e Bet possuíam muitos contatos
importantes e conseguir um médico tão rápido assim era muito bom.
— Vai almoçar com a gente? — Caio perguntou de pé na frente da
minha mesa. Os outros dois estavam em suas mesas, claramente evitando o
contato visual comigo. Tenho certeza que Anderson já contou tudo para eles, vou
precisar saber mais sobre isso com Caio.
— Vou ao médico, exames de rotina. — dispensei seu convite e segui
para concluir o que estava fazendo antes de sair da empresa e pegar um táxi.
Eles saíram segundos depois e eu, minutos.
A viagem de táxi não foi tão longa e conheci mais uma mulher com
nome estranho. O consultório não parecia ser comercial, já que não existia
recepção e quem me recebeu foi a própria média. Arc era uma mulher bonita,
esbelta e muito simpática. Apresentou-se como sendo clínica geral, fez uma
breve entrevista comigo e me deu duas opções de contracepção, injetável ou via
oral. Escolhi o injetável e lá mesmo ela fez a aplicação.
Orientou-me a consultar minha médica no próximo mês para dar
prosseguimento as aplicações de injeções.
— Você também é da SAI? — questionei depois de me despedir com
um apertar de mãos.
— Se cuida, Sabrina. — Com uma piscada de olho para mim, guiou-
me até a porta, deixando no ar a sua resposta.
Na calçada, pego meu celular de dentro da bolsa e vejo nele duas
ligações não atendidas. Estava no silencioso, por isso não havia escutado.
Percebo que ambas eram de Enrico e meu coração acelera. Esperava,
profundamente, que ele não fosse daqueles que odiavam não ser atendidos de
imediato.
Provavelmente queria falar comigo sobre sua irmã e a ida até o
psicólogo. Retorno a ligação e no primeiro toque sou atendida. Apresso-me com
a desculpa:
— Oi, Enrico, desculpa não a...
— Onde está? Vou buscar minha irmã para ir ao psicólogo, preciso de
você. — descarta a saudação e pergunta apressado.
— Dei uma passada no médico, mas já estou voltando. — Começo a
andar apressada pela rua, em busca de um táxi ou em chegar até o prédio da sede
da Supermercados Zanetti. O que acontecer primeiro.
— Por que você foi ao médico? Está com algum problema? Tem a ver
com seu desmaio? — Apesar da sua preocupação genuína, rolo meus olhos e
respondo ofegante.
— Não é nada demais, consulta de rotina. Já estou voltando.
— Correndo?
— Ou de táxi, se encontrar um no caminho.
— Onde está? Vou te buscar.
Dei minha localização, caminhei até o ponto de ônibus mais próximo e
sentei no banco, para recuperar meu fôlego. Nem cinco minutos se passaram e o
carro importado de Enrico havia parado na minha frente.
Rapidamente me acomodei no banco, coloquei meu cinto e olhei para
ele, seu cabelo bem penteado, seus olhos cor de pinhão e seu terno impecável.
Enrico me encarava sério, e os batimentos cardíacos que havia diminuído por
causa do meu descanso, agora, aceleraram.
— Eu preciso... — com voz rouca e seu olhar transmitindo tudo o que
queria, sorri orgulhosa, soltei meu cinto e inclinei meu corpo sobre o painel do
carro. Tudo dele me atraía e quando sua necessidade foi transmitida em suas
reticências, não pude negar, apenas fiz.
Com uma mão, ele trouxe meu rosto para mais perto e deslizou pela
minha bochecha e pescoço. Seus olhos se fecharam antes dos seus lábios se
encontrarem com o meu e seu sabor refrescante e mentolado me fizeram abrir a
boca e receber sua língua.
Se não fosse a buzina do ônibus nos alertando que estávamos na rua e
parado em local proibido, com certeza pularia em seu colo. Voltei para meu lugar
sorrindo e ele, seguiu dirigindo.
— Senti sua falta. — Com o coração apertado, vi seus lábios sorrirem,
mas nada ser proferido por sua boca. Odiava essa vulnerabilidade e comecei a
me culpar por demonstrar meu apreço por ele.
Depois de algumas curvas, ele falou:
— Minha madrasta não gostou muito da ideia de você estar com Sofia,
mas garanti a ela que nada do que acontecesse ou fosse dito perto de você seria
exposto para terceiros. Sei que podemos confiar em você.
— Sim. — Apesar da minha resposta firme, estava sendo esmagada
por dentro. Minhas fadas baladeiras estavam embriagadas, causando um leve
desconforto no meu estômago. Para me acalmar, decido saber mais sobre o
assunto. — Conseguiu marcar uma visita no hospital, para ela ver seu pai?
— Não, mas assim que deixar Sofia no psicólogo, irei ao hospital ver
com meus próprios olhos o que está acontecendo. — Penso em oferecer minha
companhia, mas mordo minha língua antes de proferir qualquer palavra. Apesar
de ele parecer me querer, estava bloqueado para discussão afetiva.
— Espero que dê tudo certo. — digo por obrigação e Enrico vira o
carro para parar em frente ao portão da mansão da sua madrasta.
Ele aperta o botão para abrir o portão e suspira com frustração.
— Estou com a cabeça cheia, Sabrina. Não leve em consideração
minha distância nas palavras, releve apenas minhas ações. — Estende sua mão
para o meu colo e aperta minha mão. Retribuo seu conforto e tento aceitar seu
pedido de desculpas implícito.
— Vai dar tudo certo. Vou te ajudar no que precisar.
— Eu sei e é por isso que eu... — interrompe a fala assim que para o
carro. Meu coração para algumas batidas e volta ao seu compasso normal assim
que ele solta minha mão e sai do carro.
Ele iria falar o que eu estava pensando?
Claro que não. Homens como Enrico não se declaram, muito menos
em pouco tempo de relacionamento.
Sofia e Clara entram no banco de trás do carro. Enquanto a filha sorri
de orelha a orelha para mim, a mãe me encara como se fosse uma oportunista.
— Oi Sabrina. Você vai ficar comigo durante a sessão?
— Claro que não, Sofia! — Clara responde indignada e Enrico se
acomoda no assento do motorista e começa a dirigir o carro.
— Mas mãe...
— Sofia, esse é um momento íntimo entre você e seu médico. Se você
quiser que eu participe de uma sessão, veja com ele a possibilidade.
— É medica, não quero saber de homem na minha vida. — Com seu
jeito rebelde, cruza os braços na frente, faz bico, olha para a janela e dá a
conversa por encerrada.
— Eu não vou ter uma filha sapatão!
— Clara! — em tom de advertência, Enrico tenta conter o clima tenso
que se instaurou, mas de nada adiantou. Percebi que segurava o volante com
força e queria muito poder colocar minha mão no seu braço e acalmá-lo, mas
estava acanhada em fazer qualquer gesto carinho na frente de outras pessoas.
Chegamos à clínica e todos entraram. Mal sabíamos o que nos
aguardava quando sentamos na recepção, junto com outros pacientes. Parecia ter
mais de um psicólogo atendendo e quando um homem saiu da sala vestido todo
de branco, Sofia surtou e queria ir embora a todo custo, porque não queria ser
atendida por um homem.
Depois do show dramalhão por parte de Sofia, a sua psicóloga conteve
os danos e nos liberou para ir embora. Clara foi a única a ficar e voltaria de táxi.
— Ela não sabe dirigir? — perguntei enquanto seguíamos no carro
para alguma direção.
— Não e não gosta de motoristas. — Entorta a boca, achando a
justificativa da mulher tão sem sentido quanto eu achava.
Enquanto pensava se ligava o rádio, tocava seu braço ou dizia alguma
coisa, Enrico estaciona o carro na frente da empresa, mas não me olha,
visivelmente desconfortável por me dispensar.
Não querendo criar caso, soltei meu cinto, inclinei sobre o painel no
carro e beijei sua bochecha, demorando apenas o suficiente para dizer baixinho:
— Estou aqui para o que precisar.
Capítulo 38

No meio da tarde e lembrando que me esqueci de almoçar, vou até a
cozinha e encontro minha caixa de bombom parcialmente comida dentro da
geladeira.
Enquanto estou apreciando a comida nem um pouco ideal e repassando
na minha mente o clima pesado na minha sala, Caio aparece na cozinha, mostra
sua caneca e vai até a pia lavá-la. Escondi a caixa atrás do meu corpo e continuei
mastigando o último bombom.
— Nunca vi você na cozinha. Veio se render ao petrolão?
— Apenas beliscando alguma coisa, não deu tempo de almoçar. —
Faço uma careta assim que ele se inclina e vê a caixa de bombom.
— Ganhou outra? — indigna-se.
— É a mesma, me perdoa, mas estava morrendo de fome. — suplico
seu perdão.
— Só dessa vez... — Vai até a garrafa de café e me olha desconfiado.
— O que você fez para Anderson?
— O que eu fiz? — pergunto de forma alterada e abaixo o volume da
minha voz ao mesmo tempo em que me aproximo dele. — O bonitão foi no RH
me dedurar, porque fui muito ríspida hoje de manhã.
— Sério? — Arregala os olhos e balança a cabeça de forma negativa.
— Essa geração nutella...
— Não é culpa da geração, ele que é sínico! — falo baixo, mas
irritada.
— Não quero colocar mais lenha na fogueira, mas ele nunca gostou de
você, sempre te achou esnobe. — imitou meu tom baixo e como sempre, quando
se tratava de fofoca, Caio era o mais informado.
— Como assim? Sempre o defendi, fazia o seu serviço para não ficar
feio perante Alex. Será que Vitor pensa isso também? — Aproximei mais e
encarei Caio, que dava um gole de seu petrolão.
— Ele vai com a onda, Sabrina. Se falam bem, ele fala bem, se falam
mal, ele fala mal. — Deu de ombros.
— E você? Fala bem ou mal de mim? — Mostrei-lhe minha cara mais
séria e brava.
— Não mate o mensageiro. Eu só escuto e quando me perguntam,
respondo com sinceridade. — Olhou para mim como se fosse louca.
— E quando é sobre mim, você responde o quê? — insisti.
— Que é uma ótima profissional, apesar de se deixar levar pela
emoção muitas vezes. Todo mundo te faz de gato e sapato. — repreendeu.
Olhei para o teto, em busca de paciência e refiz o meu rabo de cavalo.
Joguei a caixa de bombom no lixo, peguei um copo de plástico e fui enchê-lo de
água.
— Por que eu? — perguntei baixo, apenas para mim.
— Sabrina, você já deveria saber. — Bebo minha água e encaro Caio,
que também bebe de sua caneca. — Você é mulher, bonita e sabe tudo o que um
homem gosta. Você nunca deu moral para ninguém dentro daquela sala.
— O que uma coisa tem a ver com outra? — Jogo o copo fora e franzo
a testa, tentando entender as palavras do meu amigo.
— Você intimida. Não é à toa que não tem uma vida fora dessa
empresa. Ninguém quer uma concorrente como companheira. Só gostaria de
saber quem é o corajoso que você está...
— Boa tarde! Olá, querida, como você está? — Mirela nos assusta
entrando na cozinha com um enorme sorriso.
— Tudo bem. — respondo receosa e sem o mesmo entusiasmo dela.
Saio junto com Caio daquele lugar, em um silêncio incômodo.
Por que essa mulher resolveu me tratar bem de um dia para o outro?
Lembro que identifiquei uma alteração nas imagens das câmeras e não comentei
com Enrico sobre isso. Ele está tão cheio de problemas, será que investigo por
mim mesma?
Descemos as escadas sem dizer nada um para o outro e olho para cima,
para a câmera que nos filma. Vejo algo diferente nela e decido olhar mais perto
quando todos tiverem ido embora da empresa.

O silêncio reinou, inclusive quando Vitor e Anderson foram embora,


sem se despedirem. Depois de alguns segundos, bufei irritada.
— Acho que tem alguém de TPM ainda? — Caio se levanta pronto
para ir embora e coloca um bombom na minha frente.
— Sua sorte é que sabe me subornar muito bem. — Abro o bombom,
aceno adeus e abro o programa de vigilância na minha máquina. Precisava de
todos fora da sala para poder começar minha própria investigação.
Com o programa de monitoramento de computadores à esquerda e o
de vigilância à direita, fui acompanhando a saída de todos os funcionários e o
desligamento das máquinas. Vejo Enrico sair do elevador e ir para a garagem.
Por um momento pensei que iria me encontrar, mas seguiu direto para seu carro.
Era visível o quanto estava cansado, muito além do que sei que está acontecendo
na sua vida.
Pelo jeito, ele não confiava tanto assim em mim, a ponto de revelar
muito. Não sei como foi sua visita ao hospital e por impulso, pego meu celular e
envio uma mensagem a ele.
“Espero que tudo tenha dado certo hoje a tarde com Sofia e seu pai.
Estou aqui para o que precisar. Beijos”.
Assim que aperto “enviar”, me arrependo. Estava me tornando
patética, uma adolescente apaixonada.
Mesmo não esperando resposta, olho para meu celular de cinco em
cinco minutos enquanto volto ao monitoramento.
— Idiota... — resmungo para mim mesma e levanto da minha cadeira
assim que a imagem da câmera de vigilância das escadas congela às dezenove
horas.
Com uma cadeira, saio da sala, coloco-a debaixo da câmera e tento
identificar o que há de estranho no equipamento com a ajuda da lanterna do meu
celular. Era um dispositivo estranho, provavelmente o que causava o
congelamento das imagens. Tirei uma foto para pesquisar mais sobre ele.
— Você tem certeza? — uma voz baixa e masculina vinda de algum
andar acima me alcança. Não era estranha, mas minha memória não me lembrou
de quem seria.
Passos descendo as escadas me assustaram, me fazendo quase cair da
cadeira. Desci dela o mais silenciosa possível e segui para frente da minha sala,
querendo escutar mais, porém também querendo me manter oculta.
— Sim, eu a vi saindo do carro dele no almoço, eles se beijaram, com
certeza está dando para Zanetti. — apesar de também baixa, reconheci a segunda
voz como sendo de Mirela. Meu coração congela e minhas mãos começam a
suar. Era de mim que estavam falando?
— Sempre desconfiei que ela era uma oportunista. Precisamos impedir
que forneça as nossas informações comprometedoras. Já fui informado que
existe uma empresa nos auditando. — a voz masculina começou a ficar mais
forte e claramente identificável, mas estava muito nervosa, porque tinha certeza
que era sobre mim que estavam falando.
Entro em minha sala, apago a luz e fico escondida dentro, mas com o
ouvido colado no vão, para escutar mais.
— Fiquei sabendo sobre isso também, mas vou me aproximar dessa
caçadora de CEO. — Limpei minhas mãos na minha saia e fechei os olhos,
ansiosa por saber o motivo de me julgarem dessa forma.
— Ou podemos denunciá-lo por assédio sexual. Até que eles
esclareçam que foi consensual, conseguiríamos concluir nossa meta e sumir
daqui.
— Tem certeza que não estamos sendo filmados? — Mirela deveria
estar passando pela câmera que identifiquei com o dispositivo para burlar.
— Ah, ele não seria louco de fazer um serviço mal feito para mim. E
quem quer que escute sobre isso, será devidamente silenciado.
Não falaram mais nada, passaram na frente da minha sala em silêncio.
Com a luz apagada e apenas com os leds dos dispositivos eletrônicos da sala,
encontrei minha cadeira, sentei e escondi meu rosto nos meus braços cruzados
em cima da mesa.
Que loucura foi essa que me meti?
Meu celular vibrando me faz assustar e olhar sua tela. Enrico havia
respondido e me deixado com o coração acelerado ainda mais, porém, por um
motivo diferente.
“Preciso de você, mia bella. Comigo, na minha cama, dentro de você”.
Capítulo 39

— Bom dia, minha filha. Sente e tome o café da manhã conosco. —
minha mãe ordena. Beijo sua bochecha em cumprimento e nego com a cabeça.
— Estou atrasada, mãe.
— Você sempre está atrasada. Sandro, leve sua irmã ao serviço.
Sabrina, sente e coma. — Olha-me brava e apenas cedo, já que não possuía
argumentos quando se tratava de carona.
— Você sabe que posso te levar no serviço sempre que precisar. Meu
horário de entrada é flexível. — Pego um pão francês do saco pardo e o abro
com a faca de cerra.
— Obrigada, Sandro, mas prefiro não depender dos outros. — Passo
margarina, coloco uma fatia de mozarela e geleia.
— Por que não compra um carro para você, filha? Sei que está
guardando dinheiro, use-o para isso. — Meu pai me observa como um falcão e
percebo que todos na mesa estão me olhando, como se fosse um bicho estranho.
— Por que estão olhando para mim desse jeito? — Dou uma mordida
no meu pão e vejo Saulo segurar o riso. Ele parecia saber de algo que não sabia.
— Acho que depois que começou a trabalhar lá com os Zanettis, não
sentou para tomar café da manhã com a gente. — Minha mãe senta à mesa e
sorri, olhando para todos da família.
Ainda bem que a oscilação hormonal havia ido embora, senão estaria
em prantos nesse momento. Parecia que era o motivo da desunião da família.
Engolindo meu orgulho, mordo mais uma vez meu pão e encaro minha mãe.
— Vou aceitar mais vezes a carona de Sandro, mãe. — Olho para meu
irmão. — Tudo bem para você?
— Depois falo quanto ficou sua parte do combustível. — Brinca e faço
uma careta.
— Pode enviar a conta para mim quando chegar, mocinho. — minha
mãe me defende e mostro minha língua a ele. Toma essa!
Sem pressa, escovo meus dentes novamente e seguimos de carro para
meu serviço. Como sempre, defino a estação de rádio que aprecio e começo a
cantar.
— E como está o serviço?
— Bem. — Paro apenas para responder e continuo cantando, olhando
para a rua.
— E o seu chefe? Tem te assediado?
Engasgo com a saliva, imaginando tudo o que eu e Enrico fizemos. Se
ele soubesse...
— Tira isso da sua cabeça, Sandro. — falo entre tossidas.
— Se ele fizer alguma coisa para te prejudicar, Sabrina, eu acabo com
a vida profissional dele. — ameaça, me observando recuperar.
— Não viaja. Ele está cheio de problemas na empresa e como sou da
TI, estou ajudando.
Decido não cantar mais e nem conversar sobre o assunto. Por esse e
outros motivos acredito que meu relacionamento com Enrico deveria ficar
oculto. Minha família não lidaria bem com seu cargo e com seu dinheiro, tenho
certeza.
Despeço-me do meu irmão com um beijo no rosto, sigo desconfiada
para o meu emprego devido à conversa que escutei no dia anterior. Precisava ter
cuidado com minhas ações, inclusive com Mirela.
Trabalhei a manhã pensando na voz masculina que escutei com Mirela,
mas nada fez com que minha mente clareasse e a vinculasse com uma pessoa.
Pouco depois das nove horas, Carina apareceu na nossa sala para
conversar sobre minha promoção como chefe junto com Alex. Senti que o clima
pareceu aliviar e para contribuir com o bom relacionamento, mesmo que
internamente queira trucidar meus colegas de trabalho, fui almoçar com eles e
banquei a sobremesa.
Consegui deixar todas as atividades pendentes de Anderson
concluídas. O atendimento aos incidentes de informática havia sido baixo, então
assumi algumas tarefas e as executei. Tudo parecia ter voltado a sua
normalidade, o que me agradava.
Quando o final de expediente chegou e os rapazes me deram adeus,
consegui respirar e meditar um pouco olhando para o teto. Trabalhar com Alex
era desgastante, mas sempre foi claro o seu desgosto por mim, então, não
precisava fingir cordialidade com ele e nem ele comigo. Mas fingir que estava
tudo bem com Anderson, quando não estava... Sentia que sangue de barata corria
pelas minhas veias, transformando-me numa pessoa falsa.
Seria esse o ônus de ser chefe? Ter que aturar esse tipo de pessoa?
Alex não tinha esse problema, já que nunca abri minha boca para
reclamar de sua conduta comigo. Sempre achei que poderia mostrar meu
potencial e reverter a situação a meu favor. Pelo visto, só eu pensava assim.
Olhei para meu celular, tentada a enviar uma mensagem para Enrico,
mas um atendimento requisitado pelo gerente da filial tirou-me da tentação. Uma
máquina havia queimado e precisava ser substituída. Apesar de simples, a ação
era trabalhosa e por acesso remoto, realizei tudo o que precisava antes do meu
plantão acabar.
Saio da minha sala para ir embora e por curiosidade, vou até o
estacionamento, constatar se meu CEO ainda trabalhava ou tinha ido embora. O
seu carro importado estava lá, lindo e robusto.
Como estava livre de qualquer impedimento, esquecendo a prudência,
subo as escadas com o coração na mão e a desculpa na ponta da língua se
encontrasse o leão de chácara ou se Enrico me dispensasse.
Enquanto subi as escadas, refiz meu rabo de cavalo, ajeitei a barra da
minha saia, a gola da minha blusa e alça da minha bolsa no meu ombro.
Sorri ao lembrar-me da calcinha que havia colocado e agradeci
mentalmente o clima por ter secado minhas roupas durante a madrugada do dia
anterior. Eu mesma lavei tudo, sem minha mãe ver. Não precisava dos seus
sermões sobre o que uma calcinha cavada me fazia parecer.
Não tive coragem de usar a fio-dental, apesar de ter ficado tentada.
Quem sabe num evento, ou numa saída rápida.
A conversa de hoje cedo com meu irmão veio a mente, mas fiz uma
careta e afastei suas preocupações. Não adiantava sofrer por antecedência, não
havia garantia no meu relacionamento com Enrico, mas o hoje, o agora, sabia
que poderia existir e ser real. Não iria desperdiçar essa chance.
Assim que chego ao seu andar agradeço minha sorte, pois não havia
ninguém na recepção. Então, segui direto para a porta do meu CEO. Duas
batidas me fizeram suspirar e abrir a porta com um sorriso cauteloso.
Com o mesmo semblante cansado do dia anterior que vi pelas câmeras
de vigilância, Enrico estava trajado com sua camisa social branca, gravata cinza
escura e seu terno preto risca de giz. A jaqueta estava apoiada na sua cadeira e
seus olhos saíram do notebook e me encararam com certo desespero.
— Te atrapalho? — pergunto entrando na sala e fechando a porta atrás
de mim. Não saí de perto da porta, aguardando sua resposta prendendo a
respiração.
Para minha surpresa, ele se levantou da cadeira e caminhou,
vagarosamente até onde estava. No caminho, ele desabotoou os pulsos da sua
camisa, soltou sua gravata e desabotoou o primeiro botão. O peso nos seus
ombros parecia ter reduzido e seu olhar cansado se transformou em predador.
Deixei a alça da minha bolsa escorregar do meu ombro, coloquei
minhas mãos para trás e encostei meu corpo na porta. Não sabia como receber
sua investida, então, decidi observar.
— Um dia. — Parou na minha frente e passou o dorso dos seus dedos
na minha bochecha. Ele ainda estava contando, por isso fechei os olhos e sorri.
— Boa noite para você também, Enrico. Estamos com sorte, porque
houve uma antecipação, então... — Não me permitiu concluir, porque sua mão
seguiu até minha nuca e apetou. Seus lábios encontraram os meus abertos e
sedentos de prazer. Minhas mãos saíram do esconderijo, abandonaram a bolsa ao
meu lado no chão e seguraram o cabelo sedoso e bem alinhado dele.
— Mi sono sentito così tanto manchi , mia bella. — Deixou-me louca
[17]

com suas palavras e colei meu corpo no seu, ficando na ponta dos pés.
— Em português, CEO. — ofeguei uma repreensão e devorei sua
boca, sentindo meu corpo entrar em chama e meu núcleo começar a vibrar pela
umidade.
— Non, mia bella. — Sorriu contra os meus lábios. — Quero você
selvagem, aqui, na minha mesa.
Seus lábios não voltaram aos meus e seus olhos observaram sua mão
descer do meu pescoço para meu seio. Apertou levemente e desceu para minha
cintura e então, a barra da minha saia. Lentamente ergueu o tecido com a mão
deslizando pela minha coxa, fazendo-me arrepiar.
Minhas coxas estavam desnudas na mesma intensidade que minha
alma. Esse homem conseguiu despertar a mulher em mim e não queria
abandonar essa sensação tão cedo.
Capítulo 40

— Mia bella... — gemeu assim que levantou toda a minha saia e
cobriu meu sexo com sua mão. Vestia a calcinha de seda branca, bem diferente
da calcinha de algodão que normalmente uso.
— Para você. — Chamei sua atenção com essas palavras e sua
admiração me deixou envergonhada, mas não desviei meu olhar do dele.
Com um impulso, colocou suas mãos na minha bunda e ergueu meu
corpo para que minhas pernas envolvessem sua cintura. Meus braços enlaçaram
seu pescoço e sorri, me sentindo realizada.
— Perché non ti ho incontrato prima ? — Caminhou pela sala e
[18]

pousou minha bunda em cima de sua mesa. Esse homem iria me enlouquecer
com suas palavras estrangeiras.
— Eu sei, essa calcinha deixa qualquer uma irresistível — fingi que
entendi sua pergunta e respondi com ousadia e diversão. Ele sorriu, aquele
sorriso que me fazia apaixonar cada vez mais.
— Você é única. — Ainda com minhas pernas envolta de sua cintura,
ele começou a beijar meu pescoço, sugar e morder, fazendo-me gemer. Coloquei
minhas mãos atrás de mim como apoio e ofereci meu corpo para que ele fizesse
o que bem entendesse.
Parou de devorar meu corpo para me encarar, sorri maliciosamente e
segura a barra da minha blusa. Com calma, ele ergueu aos poucos, expondo
minha pele com cautela. Assim que chegou às minhas axilas, sorri cheia de
desejo, ergui meus braços e o deixei descartar minha roupa em qualquer lugar.
Com as mãos na minha cintura, beijou meu pescoço, meus seios e
ombros. Ele estava com muito mais calma do que a nossa primeira vez e eu não
tinha intenção de apressá-lo. Não tinha horário marcado para nada além de ser
dele.
Subindo pelas minhas costas, suas mãos encostaram-se ao fecho do
meu sutiã e o abriram. Removi rapidamente, para que pudesse se fartar dos meus
seios, que já estavam clamando por sua total atenção.
Seus lábios e sua língua me provocando misturado com o ar
condicionado da sala me fizeram arrepiar e gemer. Era bom, maravilhoso. Na
verdade, me sentia linda e poderosa. Não era apenas um homem adorando uma
mulher, mas um homem poderoso mostrando seu interesse por mim.
Com a saia embolada na minha cintura, depois da atenção aos meus
seios, ele pegou a cadeira e sentou, abriu minhas pernas e apreciou.
Olhando-me nos olhos, removeu minha calcinha. Minha respiração
estava ofegante e meus batimentos cardíacos estavam acelerados. Estava
antecipando a sua ação, sua boca entre as minhas pernas me transportou para
mundos que achei que nunca existia. O êxtase era maravilhoso.
Removeu minhas sandálias e depois, terminou de tirar minha calcinha.
Desviou seus olhos dos meus para acompanhar o caminho que sua mão fazia.
Panturrilhas, atrás do meu joelho e coxas.
Arrepiei-me novamente.
— Está com frio, mia bella?
— Se quiser chamar assim... — Apoiei-me nos cotovelos quando sua
boca encontrou meu ponto mais íntimo. Engasguei um gemido quando não deu
trégua para meu clitóris e movimento sua língua em todos os sentidos possíveis.
Fechei meus olhos, e meus quadris se movimentaram com cautela em
conjunto com sua boca. Estava quase lá, precisava apenas de...
Um dedo invadiu minha entrada, curvou e me fez jogar a cabeça para
trás quando meu clímax me encontrou, deixando rastros de sensibilidade por
todo o meu corpo.
Esse homem lidava com meu corpo com a mesma maestria que lidava
com essa empresa. Era competente, ágil e sabia aproveitar todas as
oportunidades.
Com beijos de boca aberta em minha coxa, virilha e barriga, Enrico me
ergueu com suas mãos na minha cintura e voltou a beijar meus seios. Estava
destruída, mas ele conseguiu reverter essa situação em segundos.
— Primeira gaveta. — disse beijando abaixo do meu seio e
acariciando minhas costas.
— Oi? — Estava inebriada pela luxúria, não conseguia raciocinar
corretamente.
— Minha carteira está na primeira gaveta... — Chupou um seio. —
Camisinha... estou quase explodindo aqui.
Inclinei meu corpo para trás, o que me expos novamente para sua boca
se fartar do meu sexo. Estava sensível, mas ele foi mais delicado dessa vez.
Peguei sua carteira, abri e encontrei a camisinha rapidamente.
Enquanto abria a embalagem, Enrico abria sua calça, abaixou até o
meio da sua coxa e tomou a camisinha da minha mão. Observei-o colocar em
seu membro com atenção e curiosidade. Sua masculinidade se moveu em um
momento e ele sorriu quando voltou a me encarar.
— Ele gosta de seus olhos no dele tanto quando de estar escondido
dentro de você. — Com suas mãos no meu quadril, me ajeitou no seu colo e na
cadeira. Dentro de mim, ele deslizou sem nenhum impedimento, pois estava
úmida e lubrificada o suficiente para transar com ele a noite inteira.
Com a ponta dos pés alcançando o chão, tentei me movimentar para
cima e para baixo, ao mesmo tempo em que me esfregava no seu corpo. Apesar
de imaginar ser maravilhosa sua pele junto com a minha, sua roupa esfregando
no meu corpo nu era atrevido e emocionante.
Uni nossas bocas em um beijo cheio de significado. Queria dizer que
nele que me sentia poderosa, muito mais mulher do que imaginava poder ser.
Sua resposta foi apertar minhas coxas e gemer nos meus lábios.
Antes que eu pudesse cansar, ele assumiu os movimentos, ergueu-me
um pouco e estocou na minha entrada, sem interromper nosso beijo.
Abracei seu pescoço, soltei seus lábios e ofeguei no seu ouvido,
apenas para deixá-lo enlouquecido e encontrar seu próprio clímax. Seu gemido
final foi animalesco e seus movimentos rápidos.
No final, ainda dentro de mim, ele me abraçou, enganchou seu pescoço
no meu ombro e suspirou como se tivesse o melhor presente do mundo ou todos
os seus problemas estivessem resolvidos.
Suas mãos vagaram nas minhas costas nuas e quando ameacei me
movimentar para que seu membro pudesse ser libertado pela minha entrada,
senti-o se mexer.
— Novamente? — Afasto de seu corpo e mostro meus olhos
arregalados. Não havia gozado dessa vez, mas nem precisava, porque estava
completamente sensível.
— Estou tão surpreso quanto você, mia bella. — Beijou meus lábios,
minha testa e voltou a me abraçar, mas desta vez me obrigou a deixar a cabeça
em seu ombro. — Me dê dez minutos, uma nova camisinha e estarei pronto.
— Você é um CEO ou um ator pornô? — Sorri quando senti seu peito
vibrar pela risada contida e seu abraço me apertar.
— É por essas e outras que não me arrependo de nada. Você vale todos
os riscos. — Tentei processar suas palavras, pois pareciam muito mais
profundas, com muito mais significados do que aparentavam, mas Enrico me
colocou sentada na sua mesa novamente e se levantou. — Espere aqui, já volto.
Removendo a camisinha enquanto segurava a calça e caminhava até
seu armário atrás da mesa, percebo que uma das portas era a entrada de um
banheiro.
Ele não demora, retorna arrumado e com suas folhas de lenço
umedecido. Estendo minha mão para pegar, mas Enrico senta na cadeira
novamente e começa a me limpar.
Estranho, para dizer o mínimo. Não interrompi, apenas observei suas
ações e meus sentimentos por esse homem.
— Você precisa saber. — Descartou os lenços, inclinou para o lado
para pegar minha calcinha e começou a me vestir. — Esse é o tipo de coisa que
faz uma mulher se apaixonar.
— Uma mulher? — Inclina novamente para pegar meu sutiã, levanta e
me coloca de pé no chão, nem um pouco incomodado com a revelação indireta
que acabei de fazer.
— Eu sou uma mulher, Enrico. — Não gostei da vulnerabilidade na
minha voz, por isso desviei meu olhar, coloquei o sutiã que me entregou, arrumei
a saia e busquei minha blusa.
Depois de colocar minha blusa e voltar para perto dele, para por
minhas sandálias, meu CEO coloca a mão no meu queixo e me faz encará-lo.
— Não, mia bella. Você é muito mais que uma mulher. E esse é o tipo
de coisa que faz um homem correr... — parou e abaixou seu tom de voz. — Ou
se apaixonar.
Capítulo 41

Um silêncio caloroso e assustador se instaurou e precisei quebrar o
clima. Não sabia se estava pronta para me declarar ou receber sua declaração.
Estava com medo de todo esse sentimento magnífico ser manchado com “não
vou te assumir” ou falarem que subi de cargo por causa do meu relacionamento
com o chefe.
— Me deu fome. — Sorri e dei um passo para trás, olhando por todo o
escritório.
— Você almoçou hoje? — Franziu a testa, pegou sua carteira em cima
da mesa e colocou no bolso. Pegou sua gravata, a jaqueta do terno e colocou.
— Por incrível que pareça, sim. Meu chefe não me passou nenhuma
missão impossível, então pude ter meu horário de almoço. — Pisquei um olho,
para mostrar que minha intenção era apenas provocar.
— Bem, saiba que sua folga acabou e seu chefe te dará outra missão.
— De lado, com uma mão na minha cintura trouxe meu corpo para mais perto e
beijou minha testa. — Vamos sair daqui. Preciso te contar algumas coisas.
Lado a lado, saímos do seu escritório e descemos pelas escadas. Pensei
em falar sobre as câmeras, mas decidi escutar o que ele queria dizer antes.
— Preciso da sua ajuda para identificar ações suspeitas de Felipe do
financeiro e de todos do setor. — Acomodou-se no seu banco depois de abrir a
porta para eu entrar.
— Eu gerei a auditoria de todo mundo. Se tiver algo suspeito,
aparecerá no relatório que te dei.
— Desta vez, vou precisar da auditoria do tempo que você puder me
dar. Não são muitas pessoas, Felipe e mais dois auxiliares. — Da partida no
carro e começa a andar. — O que quer jantar?
— Pizza? — Sorrio travessa.
— Será pizza então. — Estende a mão para o meu colo e aperta minha
coxa. — Vamos pedir para viagem e jantar no meu apartamento?
— Por mais que minhas partes íntimas estejam de acordo com sua
proposta, não são elas que enfrentam meus pais pela manhã. E falando em pais,
como está o seu?
— Não sei. — respondeu sombrio.
— Como assim?
— Ele teve alta do hospital há uma semana e não informou a ninguém,
pelo contrário. Subornou a enfermeira que contratei para cuidá-lo a mentir. —
Apertou o volante com força.
— Você acha que isso tem alguma coisa a ver com o roubo na
empresa?
— Não sei, mas vou descobrir e tomarei medidas drásticas. — Ligou o
som do carro e entendi isso como um encerramento de assunto.
Para mostrar que não estava afetada com sua omissão de informação,
apesar de querer reclamar, troco a estação da rádio e começo a cantar com a
música.
Seguimos para uma pizzaria de bairro, que indiquei por ser
maravilhosa. Estava vazia e quase fechando, o que nos deu privacidade.
Conversamos sobre carros e o motivo dele não ter um carro italiano e sim um
alemão.
— Só porque sou italiano, não quer dizer que tudo precise ser da
mesma nacionalidade. — Comeu um pedaço de pizza e fez uma careta quando
enchi meu prato com katchup.
— Se posso comprar uma Ferrari, não ficaria com um alemão. —
Iniciei um discurso sobre as vantagens e a tecnologia dos modelos de carros que
competiam com o seu Porche. Seu olhar era atento e cético, apesar de no fundo
estar admirado.
Assustando-me quando puxou minha cadeira para o seu lado e beijou
minha boca com gosto de massa, queijo e katchup. Não me preocupei com o
sabor, apenas correspondi com um sorriso nos lábios. Ele ficava enlouquecido
com meu conhecimento por automóveis tanto quanto eu ficava quando ele falava
em italiano.
— Se não fosse seu conhecimento por carros, iria te deixar aqui com
seu katchup. — Colocou um dedo na minha pizza, sujou de molho vermelho e
passou no meu nariz.
— Hei, condimentos existem para serem abusados e devorados. —
Tirei a sujeira do meu nariz, sujei sua boca e limpei-a com a minha língua. Seus
olhos brilharam e sua mão apertou minha coxa por baixo da mesa.
— Haverá vingança, senhorita Sabrina.
— Pagarei para ver, senhor Zanetti. — provoquei aventureira,
adorando nosso clima descontraído. — Não se esqueça de cobrar com juros e
correção monetária.
— Ah, não se preocupe com isso. — Com uma mão na minha nuca,
trouxe minha cabeça para que nossos lábios se unissem novamente e sua mão na
minha coxa foi para debaixo da minha saia e quase encontrou meu ponto
sensível.
Assustada com toda essa luxúria e despudor em local público, afastei-
me e coloquei minha cadeira no lugar inicial, na frente dele, do outro lado da
mesa. Senti meu rosto ficar quente e sabia que estava transparecendo minha
vergonha.
— Estou quase terminando. — Começo a devorar minha pizza e o
olho de relance.
— Eu só comecei. — rouco, provocou de forma sensual.
— Amanhã continuamos. Preciso dormir. — pareci desesperada.
— Venha comigo. — Estende sua mão e aperta a minha em cima da
mesa. Havia acabado de devorar o último pedaço do meu prato.
— Não posso... — parei e pensei no quão infantil seria justificando
que meus pais não aprovariam, então, arranjei outra desculpa. — Na verdade,
não podemos. Vamos com calma, pelo menos enquanto a auditoria está
acontecendo.
Uso suas próprias palavras para justificar o que não gostaria. Não
queria ir devagar, não queria me conter quando se tratava dele.
Vejo sua feição mudar, seu sorriso diminuir e o brilho dos olhos
apagar.
— É verdade. Obrigado por me lembrar de algo que estava quase
esquecendo.
Mesmo que meu coração tenha se apertado ao escutar sua
concordância, meu lado irônico, que há muito não se manifestava, entra em ação.
Isso mesmo, Sabrina, seja profissional até em seus relacionamentos amoroso.
Enrico pede a conta, seguimos para o carro e vamos embora em
absoluto silêncio. No meio do caminho até em casa, ele pega minha mão e
coloca no seu colo, me fazendo quase inclinar no painel para me manter junto
dele.
— Buona notte , mia bella. — Não pude conter o sorriso quando
[19]

soube exatamente o que ele falou.


— Buona notte. — respondi em seu idioma, conseguindo o melhor
sorriso de toda a noite. Inclinei para beijá-lo de forma casta e saí de seu carro
com um sentimento de “pertencer a distância”.
Cheguei em casa depois da meia noite. Todos já estavam dormindo,
como sempre acontecia quando chegava do serviço. Fui à geladeira e peguei um
copo de água quando a porta da frente é aberta e vejo Saulo entrando por ela.
— Isso são horas de chegar em casa? — finjo repreendê-lo, o que o faz
se assustar e suspirar de alívio por ser eu.
— Pelo jeito você andou fazendo hora extra assim como eu. — Piscou
um olho para mim e roubou minha garrafa de água.
Inclinei meu nariz para perto do seu pescoço e inspirei. Apesar de
nunca ter conversado sobre relacionamentos amorosos com meus irmãos, Saulo
sempre foi receptivo para qualquer assunto e Sandro era muito preocupado e
protetor.
Ele cheirava a perfume de mulher e por isso sorri com conhecimento.
Franzi o cenho ao processar suas palavras anteriores.
— Espere aí, a moça do Porche Spider é sua chefe? — sussurrei, não
querendo acordar ninguém em casa.
Ele balançou a cabeça em concordância. Será que...
— Sim, ela é mais velha, mais rica e muito mais gostosa. — Bati de
brincadeira no seu braço e ele riu. — Bem, você será chamada apenas de
interesseira e eu, serei chamado de michê. — Não parecia incomodado com
nenhuma das duas coisas.
— O seu caso é sério? — Acompanhei-o até a pia, onde descartava a
garrafa de água.
— Sim, o sexo é muito sério. — Fiz uma careta.
— Homens... — Sigo para fora da cozinha, mas sou interrompida pela
voz sombria do meu irmão.
— Não se apegue, Sabrina. Esse tipo de gente gosta de brincar, então,
entre no ritmo e saia dele assim que não quiserem mais.
Fui tomar banho e dormi com os conselhos dos meus irmãos. Um
pedia para ter cuidado e o outro, para aproveitar enquanto durasse. Ambos
tinham a certeza de que um relacionamento com o chefe não teria futuro.
Capítulo 42

— Ah, não. — escutei Caio gemer e reclamar para a tela do seu
computador.
Era quase o horário do almoço e logo que cheguei ao serviço, não tive
tempo para fazer ou pensar em quase nada que não fosse trabalhar. Foram muitos
suportes e muito trabalho com os relatórios para Enrico.
— O que foi? — Não tirei meus olhos do computador. Faltava muito
pouco para acabar de gerar a auditoria do último funcionário do financeiro para
entregar ao meu CEO.
— Vai ter comemoração dos vinte anos da empresa, lá no
estacionamento do supermercado matriz. — continuou resmungando.
— E qual é o problema? Essa festa está programada há dois anos. —
Os resultados do último relatório saíram, então, peguei o tablet e o configurei
para entregar a Enrico. Achava que ele iria pedir minha ajuda, mas não seria tão
ousada a esse ponto de começar a analisar sem antes ele me autorizar.
— Sei, sei... mas agora, por livre e espontânea pressão, estamos sendo
obrigados a participar. — Olho para Caio e os outros dois colegas de serviço que
não pareciam contentes com a situação.
Ainda sentada na minha cadeira, arrasto-a até chegar o lado de Caio e
vejo que estava lendo um e-mail enviado pelo marketing.

“É com muito orgulho e satisfação que anunciamos os vinte anos da
Supermercados Zanetti. Tradição, respeito e qualidade sempre foram os valores
mais cultivados na nossa empresa.
Os vinte anos serão muito mais que uma comemoração, mas uma
mudança de gestão e de novos valores.
Senhor Enrico Zanetti convoca todos os colaboradores para celebrar
mais uma vitória e, com isso, anunciar as novidades para os clientes da marca.”

Leio mentalmente o e-mail e não vejo nada de obrigação.
— Caio, onde existe obrigação aqui?
— Na parte do anúncio de novidades, não consegui esperar até semana
que vem para saber. Por que informar apenas na festa? Justo neste sábado, no
campeonato de CS go.
Volto minha cadeira para minha mesa enquanto rolo meus olhos para
sua curiosidade.
— Vocês vão? — questiono os outros dois.
— Comida e bebida de graça? É claro. — Anderson responde com um
sorriso interesseiro e Vitor apenas concorda com a cabeça.
— Maravilha! Vou pedir o carro do meu irmão emprestado ou uma
carona. Quem precisar é só avisar. — ofereço por educação, mas com
sinceridade para Caio.
Por sorte, apenas quem eu queria aceita minha carona.
Termino de configurar o tablet, dispenso o almoço com o pessoal da TI
e subo as escadas com o aparelho na mão. Estava com uma roupa semelhante ao
dia anterior e estava contente por estar me acostumando a subir escada de saia.
— Olá, querida. Como vai? Vamos almoçar juntas? — Sou
recepcionada por um leão de chácara risonho e simpático. Nunca conseguiria
aceitar essa nova versão de Mirela, ainda mais depois do que escutei no outro
dia.
— Bem, Mirela. Preciso entregar um relatório para senhor Zanetti. —
desconverso e mostro o tablet para me justificar.
— Deixe para depois do almoço! — Levanta da sua mesa e vem na
minha direção. — Vamos, precisamos conversar. — Ela parece mais séria e tento
me desvencilhar de seu aperto, mas a mulher era mais forte do que muitos
homens que conhecia.
Ela e o homem misterioso tinham planos para me silenciar e comecei a
ficar com medo de urgência em me tirar daqui.
— Mirela, preciso entregar urgente...
— Sabrina, Mirela, onde vão? — Olho para Enrico como se fosse o
meu salvador. Ele havia saído da sua sala, parecia pronto para ir almoçar.
— Seu relatório, senhor Enri... senhor Zanetti. — gaguejei e falei mais
do que deveria.
— Você me falou que ainda não estava pronto, Sabrina. Vamos
almoçar e já voltamos, senhor Zanetti. — Mirela fala por mim e quase mostro
minha indignação com algumas verdades.
— Venha, Sabrina. Mirela, bom almoço. — Se não amasse esse
homem, nesse momento o faria.
A secretária liberta meu braço e consigo seguir Enrico até sua sala.
Assim que ele fecha a porta, abraço sua cintura e suspiro aliviada. Ele parece
congelado com minha demonstração de afeto e me estapeio mentalmente por se
tão espontânea.
— Desculpa Enrico. É que escutei Mirela falando algumas coisas
sobre mim, depois mudou o jeito que me trata e estou com um pouco de medo...
— Ele me olha sério e sem nenhum pingo de compreensão, por isso interrompo
de começar a divagar, já que estava nervosa.
— Sabrina, o que você escutou exatamente? Você a viu, ou foi a
mesma coisa da última vez? — Sem nenhuma emoção, ele me questiona e me
sinto uma menina ao invés da mulher como ele sempre me tratava e me fazia
sentir.
Estava decepcionada comigo mesma com tanto poder que havia dado
para ele. Afasto-me dele e mostro o tablet.
— Desculpe por te incomodar. Aqui está o relatório que solicitou.
Consta dois anos de auditoria dos quatro funcionários do setor financeiro. Houve
demissão e contratação de um novo, então adicionei ambos na auditoria mesmo
assim. Algumas câmeras estão com um dispositivo para burlar as imagens,
gostaria de saber a quem reportar a situação.
— Como é que é? — Passa as mãos pelo rosto, segue para a cadeira
mais próxima e senta. Coloca a outra cadeira na sua frente e me convida, com o
olhar, para sentar.
Mesmo contrariada, sento na sua frente e ele se apoia nos braços da
minha cadeira. Lembro que foi nesse local que fizemos nossa loucura sexual e
me remexo irritada no mesmo lugar, por sentir uma pontada de excitação.
Olho em seus olhos e espero o que quer que seja que queira me dizer.
— Meu dia estava sendo horrível e acabou de piorar assim que vi a
decepção nos seus olhos, mia bella. — Deslizou sua mão para as minhas pernas
e apertou. — Vamos almoçar?
— Tudo bem. — Engoli minha birra e levantei ao mesmo tempo em
que ele. — Levo o tablet?
— Sim, por favor. — respondeu de forma mais carinhosa.
Entendia que dias ruins existiam, que estando no mesmo ambiente de
trabalho poderia sobrar para mim. O importante era ele ter reconhecido e ter se
redimido, apesar de nunca usar a palavra desculpa.
Lado a lado, saímos e descemos as escadas para o estacionamento.
— Não gosta de elevadores? — perguntei assim que nos aproximamos
do carro.
— Te faço a mesma pergunta. — Abre a porta para mim, mas antes
que entre no carro, ele alisa minhas costas e minha bunda.
— Para quem teve um dia horrível, a mão boba está muito animada. —
ironizo quando ele entra no carro.
— Não é só minha mão que não foi afetado pelo meu humor. — Com
um sorriso malicioso, sai com o carro para a rua. — Gostou do último
restaurante que almoçamos? Ou prefere outro?
— Se o outro for mais caro que a cantina, então prefiro o mesmo da
última vez. — Mordo minha língua por deixar minha sinceridade ser externada.
— Não se preocupe com dinheiro, mia bella. Tudo será resolvido na
empresa e mesmo se não for, meus investimentos financeiros e na bolsa de
valores garantirão nosso sustento.
Arregalo meus olhos para o para-brisa do carro, recebendo essas
palavras com o peso que elas deveriam conter. Ele pensava em um futuro
comigo, nenhuma outra opção era válida depois dessa afirmação.
Olho para ele rapidamente e vejo que está absorto em pensamentos.
Será que se arrependeu de dizer algo como isso para mim?
— Agora me conte sobre o que você escutou de Mirela e as câmeras.
Enquanto estávamos no carro e no restaurante, contei com detalhes
tudo o que descobri. Apesar de ser repreendida por não ter contado antes sobre
minhas suspeitas, Enrico me contou mais sobre a empresa de auditoria que
contratou, a Stars Auditoria e Investigação, SAI. Além da auditoria, elas iriam
encontrar o responsável por todo o caos na empresa.
As auditoras eram mais do que mulheres que tratavam de burocracia e
numa ligação enquanto almoçávamos, Enrico pediu que contasse para Vega tudo
o que fiquei sabendo.
— Sabrina, você está proibida de ficar sozinha na empresa, está me
ouvindo? — Escuto a voz de Prócion e percebo que a ligação estava no viva-voz
do outro lado.
— Mas...
— Não hesite em nos comunicar quando achar que estiver em perigo,
entendeu?
Capítulo 43

Depois de replicar a bronca das mulheres da SAI, Enrico decreta que
me levará para casa todos os dias e que eu deveria trabalhar na sua sala no
período noturno, assim que Mirela fosse embora.
— Estou me arrependendo de ter contado tudo isso. — resmungo no
caminho de volta para a empresa. Odiava superproteção. Já bastava meus pais,
agora Enrico.
— Sabrina, não há motivo de se colocar em perigo por minha causa ou
pela empresa.
— Não é por sua causa, mas pelo meu cargo. Tenho acesso à
informação e com certeza a solução desse mistério está no meio do bando de
dados. — Começo a pensar sobre todos os lugares que poderei acessar para
descobrir mais sobre os planos de Mirela e o homem misterioso. Seriam eles os
responsáveis pelo rombo na empresa?
— Vamos começar pelo relatório que você gerou. Vega me passou
algumas informações chaves que servirão de referência, que são transferências
suspeitas e saques sem prestação de contas. Comece pela auditoria dentro do
sistema financeiro.
Em modo profissional, pego o tablet e começo a anotar tudo o que
servirá para minha pesquisa. Enrico começa a dizer números, contas e empresas.
— Não preciso dizer que é extremamente sigiloso inclusive que esse
relatório existe. — Solta seu cinto e me encara. O carro estava estacionado e
nem percebi que havíamos chegado à empresa.
— Então só poderei mexer nele quando os rapazes forem embora, já
que tenho alguns curiosos na minha sala.
— Tudo bem. Me ligue no celular para saber se Mirela já foi embora.
— Combinado. — Solto meu cinto, inclino para dar um selinho nos
seus lábios, mas ele mantém minha posição com uma mão na minha nuca para
continuar a me beijar.
Poderia me acostumar a trabalhar dessa forma, entre beijos, almoços e
assuntos sérios.
— Mia bella... — clamou por mim.
— Eu sei, também te quero, mas preciso trabalhar. — respondi
praticamente fugindo do seu carro e indo para minha sala.
Volto para minha estação de trabalho e pouco tempo depois, meu
ramal toca.
— TI, boa tarde. — Apoio o telefone no ombro enquanto respondo um
e-mail.
— Pelo visto, a menina da TI conseguiu o que queria, fisgar o dono da
empresa abrindo as pernas. — a voz mecânica soa pelo meu ouvido e congelo
meus dedos no teclado. Com sorte, estou com pensamentos a mil e rapidamente
abro o sistema de telefonia da empresa. Não havia nada acusando uma chamada
e minha perspicácia começou a ser afetada pelo desespero.
— Quem é? — Não poderia ser Mirela, ou sim? Pego meu celular e
envio uma mensagem para Enrico, torcendo para que ele vá ver Mirela sem me
questionar muito.
“Ligação de ameaça novamente. Confira se Mirela está ao telefone”.
Abandono meu celular e continuo pesquisando alguma forma de identificar de
onde vem a chamada.
— Ah, mas não se engane, ele perderá tudo, inclusive seus próprios
bens. Acho melhor você aproveitar enquanto ele tem algum dinheiro e processá-
lo por assédio. — Riu no final, o que fez meu coração apertar.
— Você enlouqueceu se... — minha voz trêmula chamou atenção de
Caio, que estava sem fones de ouvido.
— Afaste-se dele, ou haverá consequências. — esbravejou. Fechei os
olhos e abaixei a cabeça, para não chamar atenção.
— Quem... — O barulho conhecido como ligação encerrada soou no
meu ouvido e bati com a mão fechada na minha mesa. Olho para cima e percebo
três pares de olhos me encarando confusos.
Mordo meu lábio, revezando olhar para a tela do meu monitor e para
meus colegas.
— Está tudo bem? — preocupado, Caio abandona seu teclado e vira
sua cadeira em minha direção.
— Sim, era apenas alguém mal-educado. — Respiro fundo várias
vezes e vou clicando em todos os menus do sistema que controla os telefones.
Por que não encontrava o que precisava?
— Quem? Tem um cara do caixa do supermercado matriz que é muito
idiota. — Anderson destila seu veneno e meu sangue ferve.
— Não se identificou, mas não consigo encontrar o número que ligou
pelo sistema. — Faço uma careta, com vontade de socar o monitor com o
teclado.
Meu celular toca, anunciando o recebimento de uma mensagem e me
assusto. Caio empurra sua cadeira ao lado da minha e observa o que estava
fazendo.
“Ela não estava em sua mesa. Venha na minha sala agora”.
— Que estranho, cara, não registrou a chamada recebida no seu ramal.
— Pegou o teclado e mouse para ficar na sua frente e começou a investigar.
— Isso é possível? Como burlar um sistema que monitora tudo on-
line?
— Pergunta retórica, certo? — Caio me olha de canto de olho e volta
sua atenção para o monitor. — Tudo pode ser burlado, alterado ou corrompido se
está entre bits e bytes. E...
Abre o programa para execução de ações por linhas de código e digita
várias coisas. Entendia alguma delas, outras apenas observava os resultados.
Caio tinha muito conhecimento hacker, o que não me surpreendeu quando
apontou para a tela e sorriu triunfante.
— Você descobriu, não é mesmo? — Sorri esperançosa.
— Nada passa por mim. — Beijou o dorso da sua própria mão, depois
a outra e continuou. Convencido. — Essa ligação foi feita fora da empresa, com
um endereço de IP estrangeiro. Por que alguém sem educação teria tanto
trabalho assim? — Olhou-me avaliativo. — Algo que preciso saber? —
Levantou uma sobrancelha.
Não poderia envolvê-lo nisso, além de Enrico querer sigilo absoluto.
Mas precisava saber quem era ou de onde vinha essas ligações suspeitas. Olhei
para os outros dois na sala, que haviam retornado às suas atividades e falei
baixo.
— Faz um favor para mim? Consiga tudo o que você puder sobre isso.
Como conseguiu burlar e qual sistema operacional a pessoa usa.
Ele não respondeu e continuou me olhando, avaliando minhas feições
preocupadas e provavelmente escutando o bater do meu coração.
Meu ramal tocou novamente e num piscar de olhos, Caio digitou um
comando e apontou para a tela com um sorriso.
— Seu chefe.
— Nosso chefe. — Coloco a mão no telefone e suplico. — Por favor!
— Não precisa disso, sabe que vou fazer, mas queria que confiasse em
mim e dissesse o que está acontecendo. — Um pouco chateado, ele afasta sua
cadeira e atendo o telefone.
— TI, boa tarde. — Mesmo sabendo quem era, optei pela saudação
formal para tentar me acalmar.
— Por que não está na minha sala? — Enrico está desprovido de
qualquer humor ou calor em sua pergunta.
— Desculpe, senhor, irei imediatamente. — com formalidade,
respondo.
— Está tudo bem, mia bella? — baixo e preocupado, sorrio.
— Sim, senhor. Levarei o tablet também. — Desligo o telefone, pego o
aparelho, meu celular e anuncio a todos na sala que estarei ausente por um
tempo para um atendimento.
Subo o mais rápido que posso com o pequeno salto e saia. Chego à
recepção e não encontro Mirela, então, sigo direto para a porta do CEO.
— Com licença. — Bato duas vezes na porta, abro e entro.
Vejo Enrico se controlar para não levantar da mesa e me abordar,
então, sento na cadeira a sua frente o mais rápido possível.
— Então? — pede uma explicação.
— Onde foi Mirela?
— Teve que se ausentar para ir ao médico. E sobre a ligação?
Percebo que mais uma vez tudo converge para essa mulher e relato
para Enrico tudo o que aconteceu e minhas teorias. No mesmo momento, ele
acionou a SAI, que não me permitiu voltar a minha sala, obrigando-me a
trabalhar com ele.
Não ouviria reclamação da minha parte.
Capítulo 44

Segui para casa no final do meu expediente com Enrico e fui trabalhar
com a carona de Sandro. Estava começando a desacostumar do coletivo e não
sabia se isso era algo bom ou ruim. Por estarmos focados na auditoria que existia
no meu tablet, acabei não me insinuando e Enrico não tentou nenhuma
aproximação. Ele havia me convidado para dormir em seu apartamento
novamente, o que recusei, mesmo querendo muito.
Misturar trabalho e prazer tinha suas vantagens e desvantagens. Ter
pais protetores também. Achava que meu mochilão teria que ser adiado e
providenciaria uma casa apenas para mim.
Minhas descobertas com o relatório de auditoria foram reveladoras.
Encontrei os saques e pagamentos que Enrico suspeitava e com as informações
da conciliação bancária que gerei no sistema contábil, descobri como os roubos
eram feitos. Estava claro que havia manipulação diretamente no banco de dados
do sistema, o que me fez gerar relatórios de auditoria diretamente na fonte. Só eu
e Alex tínhamos acesso, então, ou era o próprio Alex que fazia isso, ou alguém
tinha sua senha.
Deixei para informar Enrico no outro dia, para não atolá-lo de
informações.
A quinta-feira se arrastou em atendimento de impressoras
desconfiguradas. Parecia mentira, mas tive que dividir os atendimentos entre
Anderson e Vitor, já que quase toda a empresa parou.
Acabei não falando e nem vendo Enrico, apesar de incumbir uma das
mulheres da SAI para me levar em casa. Prócion estava a par da festa de
comemoração dos vinte anos da empresa e se convidou para me arrumar, já que
a mulher do CEO não poderia ir sem uma produção.
— Tirando o anônimo, ninguém sabe que estou me relacionado com
ele. — Rolei meus olhos a sua sugestão.
— Senhor Zanetti, o interessado no assunto, sabe. Fim de papo. Me
aguarde sábado em sua casa.
Falando com toda essa delicadeza e argumento, apenas assenti.
Apesar de ter perguntado sobre a câmera de segurança adulterada e as
suspeitas sobre Mirela, a funcionária da SAI não me deu nada além de:
— Não se preocupe. Deixe tudo isso para as especialistas.
Recebi apenas uma mensagem de Enrico na manhã de quinta-feira,
informando que ficaria com sua irmã e iria encontrar seu pai. Apesar de Sofia ter
feito progressos nas sessões diárias, Clara, sua mãe, precisou de terapia também.
O Enrico pai parecia ter traumatizado não só a filha, mas também a ex-esposa.
Ofereci minha ajuda e apoio, mas não obtive resposta.
Antes de dormir, insisti numa resposta enviando mais uma mensagem.
“Seu dia deve ter sido atribulado. Gostaria de poder estar com você
todas as noites. Beijos!”
Era sexta-feira, quase meio dia e nem sinal do meu homem. Olho a
última mensagem que enviei a ele e entorto a minha boca. Não houve resposta
de sua parte desde ontem.
O que lhe impedia de responder uma simples mensagem?
Acreditava que estava chateado e se sentindo sem apoio de minha
parte, esse deveria ser o único motivo para me deixar no silêncio. Não queria
assumir para Enrico que mesmo com vinte e quatro anos, meus pais achavam
que era virgem e não permitiam que eu passasse a noite fora.
Numa tentativa de acalmar meu coração, liguei para o seu telefone
celular e para Mirela. Chamou e chamou, mas não fui atendida. O carro dele
também não estava na empresa, o que me fazia concluir que ele estava
trabalhando em outro assunto ou... será que estava fugindo de mim?
Sabrina, ele tem mais o que fazer do que ficar pensando em você e
nessas hipóteses infantis, meu inconsciente zombou.
— Ainda estou trabalhando no rastreio daquele IP. — Caio parou na
frente da minha mesa e me tirou do devaneio de auto piedade. — Vamos
almoçar?
— Preciso terminar uma coisa, depois como. — Na verdade, estava
com o estômago embrulhado. As fadas baladeiras estavam de ressaca e
chateadas por não receber uma resposta satisfatória do CEO.
Sozinha na sala, liguei as caixas de som e coloquei um pouco de
música para tentar afogar minhas mágoas.
O estagiário que costuma entregar documentos e protocolar entregas
aparece na minha sala. Era magro, cabelo raspado e algumas espinhas no rosto.
— Oi. — Abaixo o volume do som e sorrio para ele. Sempre
vergonhoso, esticou o braço e me mostrou um envelope pardo lacrado e
encaminhado pelo correio.
— Chegou para a senhora. — Colocou o caderno de protocolo na
minha frente, assinei e foi embora sem se despedir.
— Tchau para você também. — falei para porta, olhei para os lados do
envelope e vi que não tinha remetente.
Com a testa franzida, rasguei a lateral e espalhei o conteúdo na minha
mesa. Eram fotos e, assustada, pego as imagens na mão e detecto que são minha
e de Enrico na pizzaria, no restaurante, dentro do carro. Todos tinham intimidade
ou estávamos nos beijando. Procuro mais alguma coisa dentro do envelope e não
acho nada.
Olho atrás das fotos com lágrimas ameaçando escorrer. Parecia coisa
de filme, mas alguém esteve nos seguindo e está me intimidando.
“Dono da supermercados Zanetti é acusado de assédio sexual”. Com
letras de forma, encontro essa frase, que mais parecia manchete de jornal
sensacionalista.
Ou podemos denunciá-lo por assédio sexual. Até que eles esclareçam
que foi consensual, conseguiríamos concluir nossa meta e sumir daqui.
Era certeza que Mirela estava envolvida nisso, as palavras que escutei
da sua conversa com o homem misterioso tinham tudo a ver com isso.
Guardo as imagens dentro do envelope, levanto para colocar dentro da
minha bolsa e um barulho estrondoso acompanhado de queda de energia me faz
gritar e me encurralar abraçada ao envelope.
O que foi isso?
Apesar de existir nobreaks para as máquinas, as luzes continuam
apagadas e apenas os leds dos equipamentos iluminam a sala.
Escuto passos e corro para minha mesa, tateando o espaço até
encontrar meu celular. Grito quando batem com força na porta, fazendo meu
coração acelerar e quase sair pela boca. Pego a chave da sala dos servidores que
ficava escondida num compartimento debaixo da minha mesa e corro agachada
até lá.
Mais batidas à porta fazem com que derrube meu celular, mas não me
impedem de abrir a porta do ambiente gelado que era onde ficavam os servidores
e me trancar lá.
Escondendo-me atrás de uma das raques, abraço minhas pernas, o
envelope com as fotos, escondo minha cabeça e começo a chorar.
— Último alerta. — a voz mecânica soa na minha sala e as luzes
retornam ao ambiente.
Como estava em choque, continuei com meu pranto silencioso. Toda
essa situação era mais do que poderia suportar. Não podia deixar Enrico sofrer,
mas não queria me perder no meio do caminho.
Escuto barulho de porta e vozes, o que me faz encolher mais ainda.
Estava começando a tremer, por causa do ar condicionado, mas não tinha
pretensão de sair enquanto não soubesse que era seguro.
Lembro que deixei meu celular no chão, do outro lado da porta e
mentalizo para que ele não tenha sido furtado. Não poderia ter deixado isso
acontecer, precisava acionar Enrico ou alguém da SAI.
Não, iria esperar. Meu CEO está envolvido com seus problemas
pessoais e Prócion iria à minha casa amanhã, para nos arrumar para a festa. Não
precisava alarmar, até porque, daqui a pouco meus colegas de serviço voltariam
do almoço.
Depois de várias respirações e controle das minhas emoções, levanto
do meu lugar e espio pelo vidro da porta. Todos já estavam em seus lugares
trabalhando.
Abro a porta, saio e procuro meu celular.
— Gente, vocês viram meu celular? — Ajoelho no chão e começo a
procurar debaixo das mesas e dos armários.
— Por que você estava dentro da sala do servidor, Sabrina? — Caio
coloca a mão no meu braço, me ajuda a levantar e faz uma careta. — Você está
congelada.
— Você viu meu celular? — Ignoro sua pergunta, uma vez que estava
preocupada com o meu aparelho. Se a pessoa que me assustou agora fosse à
mesma que bloqueou o rastreio da chamada de telefone, conseguiria acessar
minha vida, inclusive as mensagens que troquei com Enrico. — Merda!
— Você está muito estranha, Sabrina. Tem certeza que está bem?
Olho para os três rapazes que trabalham comigo e sinto vontade de
chorar. Aperto o envelope que estava na minha mão e decido por ir para casa,
porque a chance de começar a chorar novamente era grande.
Precisava me sentir segura e como não tinha Enrico, precisava da
minha mãe.
Capítulo 45

Peguei um táxi e fui para casa. Culpando uma dor de cabeça pelo meu
retorno, minha mãe deixou que dormisse o resto da tarde e de noite, fez uma
sopa. As perguntas foram poucas sobre o meu estado, agradeci ao sexto sentido
dela por isso.
Antes de dormir, acessei o site que mostra a localização do meu
aparelho celular e suspirei aliviada por ter indicado que estava na própria sede.
Tamanha era minha angústia que provavelmente devo ter chutado para algum
canto e não encontrei.
Acessei minha conta de e-mail pessoal, encontrei os telefones de
Enrico e Prócion. Com um aplicativo web, enviei uma mensagem de texto
informando que estava sem meu celular. Não coloquei meu número residencial,
porque não queria ser incomodada.
Uma noite sem celular provavelmente me faria bem.

Acordo com minha mãe chacoalhando meu ombro.


— Filha, você tem visita. Uma tal de prosa... não sei como fala o nome
dela.
Espreguiço-me na cama, sorrio para minha mãe e sento.
— Prócion. E ela está adiantada. Veio para se aprontar comigo, para a
festa de vinte anos da empresa. — Busco meu celular no meu criado mudo e
lembro que estou sem ele. — Que horas são?
— Quase meio-dia, filha.
Arregalo meus olhos, não lembrando quando foi à última vez que
dormi até tão tarde.
— Pode deixar entrar, vou conferir como está lá na empresa pelo
acesso remoto enquanto isso.
Minha mãe sai do meu quarto e fico de pé para me esticar mais ainda.
Vestia um pijama fofo com estampa de várias meninas. Sento na cadeira da
minha mesa de quarto, para ligar o notebook e Prócion aparece com uma mala
em mãos.
— O que é isso?
— Kit de primeiros socorros da Bet. — Cumprimenta-me com um
beijo no rosto, coloca a mala na minha cama e senta.
Acesso remotamente o computador que uso na empresa, vejo as
atividades concluída dos rapazes, as pendências e alguns e-mails.
— O que você está fazendo?
— Trabalhando. Mas é rápido.
— Já encontrou seu celular?
— Está na empresa, de acordo com a última localização de ontem à
noite. — Suspiro e olho para ela. — Posso desabafar com você?
Preocupada, se ajeita de forma mais confortável na minha cama e
sorri.
— Sou toda ouvidos. Pode mandar.
Antes de começar a jorrar todo o envolvimento com Enrico, as
conversas e essa última ameaça, lembrei que Enrico queria sigilo. Na minha
atual situação, não poderia mais guardar para mim e ele já tinha demonstrado
confiar muito nessa empresa, consequentemente, nas auditoras. Também as via
como amigas leais, além de apenas prestadoras de serviço.
Soltando exclamações com palavrões enquanto comentava a minha
última aventura assustadora com direito a luzes apagadas e barulhos estranhos,
peguei o envelope de dentro da minha bolsa, mostrei as imagens minha e de
Enrico e num piscar de olhos, ela tirou uma foto com seu celular dos dizeres e
começou a digitar algo.
— O que você vai fazer?
— Castor, olhe seu e-mail. — disse focada enquanto digitava em seu
celular.
— Quem é Castor? — Inclino minha cabeça para ver o que ela estava
fazendo e bloqueia a tela sorrindo.
— Você é a menina da TI para os Supermercado Zanetti. Castor é a da
SAI.
— Mande um oi para ela. — falo curiosa.
— Ela retribuiu o oi e disse que você tem bom gosto. — Devolveu o
retrato com os dizeres atrás.
— Para homens? — Guardo a foto no envelope e tudo de volta na
minha bolsa.
— Não, doces. Ela curte um Ferrera Rochedo. — Levanta da cama e
vai para a mala. — Vamos começar com seu cabelo.
Antes de almoçar, estava com o cabelo preso em uma touca. Prócion
almoçou com minha família e despertou o interesse do meu irmão mais velho
quando o assunto entrou em termos legais, jurídicos e contábeis.
— Você entende o quanto uma empresa fica vulnerável quando aceita
alguma prestação de contas sem ter nota fiscal? É uma exigência fiscal aceitável
se todas as empresas não trabalhassem na informalidade.
— Mas a lei exige formalidade, então, que não façam uso dos serviços
e materiais desses lugares quando for para a empresa. — Mesmo com o jeito
zangado, meu irmão parecia realizado ao discutir isso.
— Sandro, você encontrou sua alma gêmea. — Saulo brincou,
deixando minha amiga corada e minha mãe animada em unir os dois.
Antes que perdesse o foco, levanto da mesa com ela e nos refugiamos
em meu quarto até dar o horário do evento. Conversamos sobre filmes, livros e
seriados. Enquanto ela fazia minha unha, entramos em uma discussão acalorada
sobre o quanto era bom um filme de ação. Ela era contra eles e a favor das
comédias românticas.
Quando o sol começa a se pôr, vou para o banho e cuido para não
molhar meu cabelo.
— Merda, esqueci de avisar Caio de que estou sem celular!
Saio do banho e vou direto para meu computador enviar uma
mensagem de texto para o celular do meu amigo. Ele precisava se aprontar para
ir conosco.
Prócion entrou no banho e deixou minha roupa exposta na cama. Um
vestido com a parte de cima preta, tinha apenas uma alça e era todo drapeado. A
saia era da cor creme, rodado e com certo volume. O salto era alto, preto e
fechado.
— Isso não sou eu. — Fiquei encarando por muito tempo, já que
minha convidada saiu do banho e pegou sua roupa.
— Por que não se vestiu?
— É muito chique! — desesperei.
— Está de acordo com o código de vestimenta para esse tipo de
ocasião. Pare de frescura e vista-se, porque preciso colocar um pouco de
maquiagem nesse rosto virginal.
Enquanto ela se trocava no banheiro, receosa, termino de me enxugar,
coloco o vestido, o sapato e tento me encarar.
— Venha se olhar, você está linda! — Vestida com um tubinho preto e
básico, Prócion abre a porta do banheiro e olho como fiquei da cintura para
cima. Estava linda de verdade.
— Não estou muito chique? — perguntei sorrindo, mas insegura.
— Está digna de seu par, mulher. Sente-se na cadeira, vou terminar de
te aprontar.
Maquiagem pronta, cabelo arrumado e brincos de pérolas postos, olhei
no espelho e precisei memorizar cada parte de mim. Formaturas e casamentos
eram os únicos momentos que fazia algum tipo de produção, que não passava de
corretivo debaixo dos olhos e um batom.
Agora, estava com uma maquiagem profissional, base, sombra e blush.
Olho no espelho pela última vez nessa noite. Estranho meu cabelo
solto e fico movimentando minha cabeça para senti-lo deslizar pelas minhas
costas. Prócion ri e mostra o celular.
— Venha, vou tirar uma foto sua para as estrelas.
— Que estrelas?
— Você achou que dentro da Stars Auditoria e Investigação tinha o
quê? Mulheres? De jeito nenhum, apenas estrelas e as mais brilhantes do
universo. — Pisca um olho confiante, posiciona o celular para registrar uma foto
e depois, para uma selfie. — Faça uma pose sexy.
Sintonizadas, ambas fizemos uma careta e rimos divertidas com o
resultado.
— Vamos pegar seu amigo cabeludo e deixar vários marmanjos de
boca aberta com o mulherão da TI.
Capítulo 46

Depois que Caio me cumprimentou, não disse mais nada durante a
viagem até o local da festa. Apesar disso, ele me olhava muito, já que estava no
banco de trás e perpendicular a mim.
— Tem algo errado comigo, Caio? — Abaixo o quebra-sol e tento
olhar meu reflexo no espelho.
Estávamos no carro de Prócion e ele a reconheceu da empresa. Seu
cumprimento a ela foi apenas um resmungo típico.
— Não. — Com seu jeito esquisito, respondeu sem argumentar muito.
— Se acostume com esse tipo de reação, Sabrina. Está tão linda que
tira as palavras da boca dos homens. — diverte-se a motorista.
— Sim. — Caio concorda. Voltei o quebra-sol para a posição original
e olhei para o lado, preocupada em chamar tanta atenção.
Seguimos o restante da viagem em silêncio e entramos no
estacionamento onde seria a festa, deixando o carro na parte reservada para os
automóveis. Pessoas já estavam sentadas pelas mesas espalhadas em volta ao
palco. Famílias desconhecidas e rostos poucos conhecidos, que identifiquei das
fotos cadastrados em seu registro digital, olhavam para mim e para Prócion.
Escolhemos uma mesa mais afastada e mal sentei quando um senhor com um
enorme sorriso no rosto nos abordou.
— Olá, boa noite! — Ele olha para todos e depois firma o olhar em
mim. — Você deve ser Sabrina, não é mesmo? — Franzo a testa, não
reconhecendo essa pessoa. — Sou Vilmar, o gerente da filial de Ribeirão. Você
me ajudou semana passada.
Lembro-me do atendimento e sorrio simpática.
— Ah, sim, me lembro. Olá Vilmar. — Estendo minha mão, mas ele a
pega e inclina para beijar meu rosto. Congelo com a intimidade que não dei e
continuo com meu sorriso amarelo quando ele puxa uma cadeira da mesa ao lado
e começa a conversar.
Em pouco tempo, Caio se levanta da mesa e o vejo encontrar com
Anderson, Vitor e suas namoradas e, então, sentam-se em outra mesa.
Que maravilha, fui abandonada.
Com desespero e sem saber como dispensar o homem que não tinha
nada de interessante ou de simpático, aperto a coxa da minha amiga em
desespero para que ela entenda o que preciso.
— Sabrina, vamos ao banheiro comigo? — Prócion se levanta, não
espera resposta e me puxa.
Suspiro aliviada.
— Que homem chato! — Assim que estamos longe o suficiente, olho
para trás e vejo nossa mesa abandonada e Vilmar não localizado.
— Chato? Enquanto você era obrigada a escutar um chato, estava
escutando dois, porque Castor não parava de reclamar no meu ouvido. — Ela me
parou e franziu a testa. — Você precisa pedir socorro antes que fiquemos loucas!
— Pode deixar, eu... — perdi o foco e o que iria falar quando vejo
Enrico entrar na minha linha de visão.
Com um terno completo, inclusive com o colete, ele caminha junto de
Carina até o palco. Dois rapazes o seguem com caixas em seus colos. Ele estava
lindo e poderoso, como sempre o admirei e percebo que a moça do RH também
nutre sentimentos semelhantes aos meus, se o brilho nos olhos dela fosse alguma
indicação.
— Uau! Se ele não fosse seu, com certeza seria meu.
— O que disse? — Saio do meu devaneio com as suas palavras e
quando vi Enrico beijar o rosto de Carina e sorrir. Não sei se era a saudade por
não ter falado com ele nos últimos dois dias, ou se era apenas ciúmes, mas
estava chateada.
— Opa! Acho que temos problema no paraíso. — Segue para uma
mesa onde servia bebidas, pega dois copos de refrigerante e volta. Apenas sigo-a
como um robô, alternando olhar para Enrico e para o meu caminho.
— Ele nem olhou para mim. — resmungo assim que me sento.
— Ah, com certeza ele olhou, esse tipo de sentimento nos faz ter um
radar. — Ela bebe um gole do seu copo e sorri simpática. — Ele é o dono da
empresa, conheço essas confraternizações, ele precisa se concentrar para ser
sociável.
— Eu sei, mas... — engulo toda a minha bebida em um gole só. —
Hora ruim para ficar sem celular. Não falar com ele nesses dois dias me deixou
insegura como uma adolescente. Não gosto, mas está sendo inevitável.
Com um sorriso malicioso, Prócion olha para os lados em busca de
algo, se levanta e me ajuda a levantar.
— Preciso de você naquela parte do estacionamento. Está vendo os
dois ônibus? Fique ali, já volto.
— O que...
— Depois explico, vá para lá, é importante!
Contrariada, sigo até onde ela indicou e cruzo meus braços com um
pouco de frio da brisa noturna. Aqui estava muito silencioso e vazio, apenas o
vento me fez companhia.
Depois do que pareceram horas, sinto mãos na minha cintura e quase
pulo um metro de altura de susto. Consegui me afastar e quando olho para quem
me tocou, paro meus passos para trás. Era Enrico, em toda a sua glória e
imponência profissional, apesar dos seus olhos serem completamente carnais.
Ele se aproxima de mim, segura meu rosto com as mãos e aproxima
seus lábios dos meus. Quando achei que ele me daria um beijo arrebatador, ele
abaixa minha cabeça e beija minha testa.
— Boa noite, mia bella... bella.
— Oi. — Coloco minhas mãos nos seus pulsos e ergo minha cabeça
para encará-lo. — Senti sua falta. — Mordi minha língua atrevida, que não era
comandada pelo meu filtro.
Sentia tantas emoções ao ver seus olhos de pinhão nublados pela
escuridão que não conseguia raciocinar direito. Sentia muito mais do que uma
atração qualquer por meu chefe, só podia ser amor e não estava com medo, não
agora que me olhava com tanta admiração.
— Não como eu senti. — Deslizou suas mãos pelo meu pescoço e
soltei seus pulsos. Desceu pelos meus ombros, cotovelos, mãos e depois, a barra
da saia do meu vestido. — Voglio scoparti . — Suas mãos foram para trás, nas
[20]

minhas coxas e fizeram meu corpo colar ao seu. — Seu batom sai fácil?
— Não sei... — Por baixo da minha saia, suas mãos encontraram
minha bunda nua. Estava com a calcinha fio-dental e percebo que isso o deixou
louco de paixão.
Estávamos no estacionamento, perto de um lugar onde tinha muitas
pessoas em um evento. Era imprudente, irresistível e ousado.
— Cazzo ... — rosnou, invadiu minha boca e parecia não se importar
[21]

mais com meu batom, porque seus lábios judiaram dos meus, necessitados,
luxuriosos. Ergueu-me apenas um pouco, para poder me pressionar contra um
dos ônibus. Envolvi minhas penas ao seu redor e sua pélvis friccionou entre as
minhas pernas. Sua masculinidade estava evidente, enlouquecendo todos os
meus sentidos.
Não queria saber de nada ao meu redor que não fosse meu homem,
minha necessidade e seu desejo.
Gemi, desesperada pelo contato, necessitada por tê-lo em mim, me
estimulando, me possuindo. Abandonou minha boca para arrebatar o meu
pescoço com mordidas e beijos.
— Mais, Enrico... — Para acalmar as fadas baladeiras dentro de mim,
precisava de mais, de tudo dele.
— Não estou com camisinha aqui, mia bella. E não devemos... —
Começou a esfregar seu corpo no meu, aproximando-me do êxtase. A mistura de
local público e esse homem me deixavam sem juízo. — Você está quase lá. Vai!
Goza para mim, bella.
Com seu pedido e movimentos, seus lábios tamparam os meus
gemidos de prazer. Seus movimentos logo reduziram e o abracei, com medo da
loucura que acabei de fazer e de saudade.
— Preciso ir, mia bella. Tenho algumas atividades para fazer daqui a
pouco. — Quando me coloca no chão, arruma minha roupa e olha nos meus
olhos com um brilho diferente. — Ti a... — coloca a mão no meu rosto e se
afasta. — Você está linda.
— E o seu... — Apesar de suas palavras me deixarem assustadas,
consegui indicar sua virilha inchada. O batom não parecia ter manchado tanto o
seu rosto.
— Depois terminamos, il mi amore . [22]

E com essas palavras que para mim eram uma declaração de amor,
Enrico se afasta sem olhar para trás levando consigo um pedaço de mim que não
sabia que estava pronto para ser compartilhado, o meu coração.
Capítulo 47

Parada no lugar, tentando me recompor do orgasmo mais significativo
que já tive, Prócion aparece com um lenço na mão e começa a limpar minha
maquiagem.
— Sabia que esse batom era duro na queda. Saiu apenas um pouco,
nem precisarei retocar a maquiagem. — Ainda em transe, deixo-a fazer o que
quiser comigo e me levar de volta para a mesa onde estávamos sentadas.
Vejo ao redor que a maioria dos lugares estavam ocupados. Crianças
corriam de um lado para outro, pais e amigos estavam presentes, muitos
desconhecidos por mim.
— Não imaginava que a Supermercados Zanetti empregava tanta
gente. — atesto o óbvio, admirada pelo tamanho da empresa. — Percebi que
muita gente do interior veio.
— Sim, senhor Zanetti bancou a vinda de muitos para poder participar.
Se a empresa está tão falida como Enrico me falou, com que dinheiro
ele bancou tudo isso?
Na hora lembro que ele já me contou sobre seus investimentos
financeiros e o quanto é rico, independente dessa empresa.
Olho para o palco, percebendo um movimento perto dele e o vejo. Não
havia limites para a minha admiração por esse homem. Além de resolver um
problema que não era dele e sim do seu pai, ele ainda proporcionava diversão
para seus funcionários.
Mesmo com sua pose profissional e rígida, dentro habitava um enorme
coração.
Enrico sobe ao palco junto com Carina, do RH, e Felipe, do
Financeiro. Uma pessoa arruma o microfone e voz com sotaque italiano
preenche o ambiente.
— Boa noite, colaboradores, familiares e amigos. É com grande
satisfação que recebo todos nesta festa que é muito mais do que uma celebração
pelos vinte anos da Supermercados Zanetti, mas a transição para uma nova era
dentro da empresa.
“Enrico e Lauriano idealizaram essa empresa como sendo sua própria
família. Apesar de serem pessoas com características opostas, eles conseguiram
fazer uso disso para alavancar o negócio e expandi-lo para todo o estado.
Prosperamos e com isso conseguimos construir essa enorme família que é a
Supermercados Zanetti. Obrigado a todos pela participação e contribuição para o
sucesso que somos.”
Uma salva de palmas ressoou. Não podia conter o sorriso nos meus
lábios ao perceber o quanto o discurso desse homem era perfeito.
— Ao meu lado estão Carina e Felipe, que são as pessoas mais
conhecidas nessa empresa. Estou certo? — Com um sorriso brincalhão, algumas
pessoas riram, outras bateram palmas de acordo. — Hoje gostaria de
homenagear todos os colaboradores e destacar alguns que fizeram a diferença.
Vamos começar por Carina e Felipe, que nunca mediram esforços para atender
todos os colaboradores com respeito e profissionalismo. Sem um RH e um
financeiro comprometido, a empresa ficaria manca.
Os dois parecem surpresos quando um homem traz um buquê de flores
para a mulher e duas caixas, uma para cada. Eles abrem e existe uma placa
dentro. Não é possível ler, mas com certeza é algo legal, pois faz com que Carina
faça uma dancinha da felicidade. Felipe parece mais retraído, sem graça e não
encara os olhos de Enrico quando o cumprimenta. Arrisco dizer que parece até
pálido.
— Obrigado pela dedicação, carinho e atenção com a empresa Zanetti.
— Enrico lê o que está escrito na placa e ergue um papel. — Esse é um cartão
que concede desconto de 50% nas compras nos supermercados da rede, com
validade de um ano. Parabéns a vocês.
Palmas, assobios e gritos de euforia preencheram o ambiente. Alguém
apareceu com uma mesa com várias caixas e buque de flores.
— Querem conhecer os outros homenageados? — Um coro de “sim”
responde sua pergunta retórica. — Então, venha para o palco, por favor, senhor
Cristovam Aparecido da Silva. — Longe, um senhor com visíveis cabelos
brancos se levanta e segue para o palco acompanhando de palmas. — Ele é
estoquista do primeiro supermercado aberto pela empresa e sempre contribuiu
com boas ideias de reciclagem e economia de energia.
Enrico bate palmas, recebe o senhor e complementa sua homenagem
com outro elogio.
E essa foi rotina para outros quinzes colaboradores. Apesar de
cansativo, foi interessante saber mais um pouco sobre quem eram as pessoas que
faziam parte da empresa. Alguns contribuíam com economia de material de
escritório, outros com reaproveitamento de caixas de papelão e reciclagem...
Supermercados Zanetti era muito mais do que eu imaginava e existiam pessoas
dedicadas tanto quanto eu para o bem da empresa.
— E para encerrar nossas homenagens e liberarmos o jantar, que
imagino que todos estão aguardando — risos soam —, quero chamar ao palco
Sabrina Maria Alencar, gestora do setor de TI.
Arregalo meus olhos enquanto vários olham para mim como Enrico
estava fazendo. Prócion está com o celular na minha cara, provavelmente
filmando minha reação.
Olho para os lados, em busca de Alex, já que ele era o verdadeiro
gestor do setor de TI, mas não tenho tempo de procurar, porque Enrico continua
seu discurso, fazendo meu coração quase explodir.
— Sabrina colaborou com a empresa indicando melhorias no
gerenciamento de projetos, desenvolvimento e atendimento aos chamados de
informática. Além de estar sempre disposta a ajudar, ela contribuiu com a
redução de tempo para lançamento no sistema com seu estudo sobre sistemas
intuitivos.
Acanhada e chocada por Enrico saber tanto sobre o que fiz dentro da
empresa, mesmo antes dele assumir o seu posto, levanto da cadeira arrumando a
saia do meu vestido e com salva de palmas, sigo para o palco, até o CEO.
— Parabéns. — Com um aperto de mão e seus olhos brilhando, Enrico
me cumprimenta e transmite muito mais do que suas palavras queriam dizer.
Assim que ele solta minha mão, saio do meu transe e pego as flores da mão de
Carina, que também sorri como se tivesse ganhado na loteria.
— Parabéns, Sabrina. Você é mais do que importante para nós. —
Emocionada, Carina me abraçou e me direcionou para Felipe.
— Parabéns. — Ainda sem graça, ele me cumprimentou com um
aperto de mão e entregou a caixa com a homenagem.
Olhei para trás quando Enrico anunciou o final das homenagens e o
início da confraternização com o jantar e música à vontade.
Desci do palco e Caio me abordou no caminho.
— Parabéns, Sabrina. — Sorrindo, Caio aperta minha mão.
— Obrigada, estou surpresa.
— E eu mais ainda por descobrir com quem você está.
Com os braços cheios, tento impedir que ele fale mais alguma coisa
me aproximando e falando em seu ouvido.
— Como assim? Eu não dei bandeira lá no palco!
— Eu sabia que era Felipe! — Caio sussurra seu palpite errado e rolo
meus olhos.
— Vem sentar comigo. — Sigo em direção a minha mesa, onde
Prócion está sorrindo olhando para o celular. — Onde está Alex? Ele não veio?
— Não o vi, deve estar viajando. — Senta numa cadeira e inclina a
cabeça para olhar a tela do celular da auditora. Como fez comigo, ela bloqueia e
guarda o aparelho.
— Parabéns, Sabrina. Sempre te achei foda!
Coloco meus presentes na mesa, sento e tento encontrar Enrico, sem
sucesso.
— Ali. — Caio aponta para onde Felipe estava com sua família e bufo
irritada.
— Quem disse que estava procurando o homem do financeiro, Caio?
Não viaja! Além de não fazer o meu tipo, ele é casado.
Parecendo que a informação foi processada com sucesso naquele
momento, ele arregala os olhos e abre a boca em choque.
Caramba, talvez deixá-lo pensar no outro poderia ser uma boa ideia.
Com medo do que ele poderia dizer, tampo sua boca e suplico com
meus olhos que ele deixe o assunto de lado.
— Lá vem o chato... — Prócion murmura e olho para onde seu rosto
está virado. Vilmar está vindo em minha direção e tudo o que mais queria era me
esconder dentro de um buraco.
Capítulo 48

— Parabéns, Sabrina. Não esperaria menos de você. — Com uma mão
em meu ombro, ele cumprimenta Caio.
Tira essa mão de mim, grito na minha cabeça e apenas abaixo meu
ombro para que sua mão escorregasse do local, o que não funcionou.
— Obrigada. Se me der licença, vou servir o jantar. — Levanto-me,
conseguindo me afastar dele. — Caio, você fica na mesa enquanto eu e...
— Ah, não, você irá dançar comigo!
— Não, obrigada...
Quando percebo, estou sendo arrastada para a pista de dança. Esse
homem perdeu a noção do que “não” significa?
— Vilmar, eu não estou afim de... — não concluo minha frase, porque
vejo Enrico dançando com Mirela, que vestia um lindo vestido azul marinho
colado ao corpo.
De todas as mulheres dessa festa ele escolheu justo ela?
Como a maioria das pessoas estava se servido, a música tocada no som
era calma e propícia para ser dançado a dois.
Quando ele sorriu para ela, que o abraçou mais forte, vi tudo ficar
vermelho. Apesar de estar com os sentimentos à flor da pele, minha cabeça
processou as minhas opções, que seriam: seguir até ele e interromper essa dança,
voltar para minha mesa irritada ou aceitar a dança com esse tiozão.
Claro que a opção três prevaleceu. Somos seres racionais, mas quando
os sentimentos estão falando mais alto, tendemos a ser impulsivos, apenas para
equilibrar a força. Quando ele me puxa para o meio da pista e coloca a mão na
minha cintura, apenas fecho o olho e tento não sentir raiva de todos os homens
na face da Terra.
Ao som de Ed Sheeran, Thinking Out Love, vejo o amor da minha vida
dando atenção indevida a mulher que está destruindo sua empresa. Será que ele
não se lembra de tudo o que falei sobre essa mulher?
— Você é uma moça muito bonita. Por que está solteira?
— Por opção. — respondi seca e irritada quando ele nos vira e acaba
com minha visão privilegiada do casal que não deveria ser um.
Qual o motivo dele estar interagindo com o inimigo?
Minha raiva só aumentava cada vez mais que as perguntas surgiam.
— Ah, sempre soube que esses dois estavam envolvidos. — Viro meu
rosto para onde ele olhava e solto raios pelos meus olhos quando Enrico e Mirela
nos olham e cumprimentam com um aceno de cabeça.
Idiota. Como ele tem coragem de interagir com o leão de chácara?
Com alguém que ameaçou me prejudicar? Ele não se preocupa nem um pouco
comigo? Tudo o que tivemos foi uma mentira?
Fui usada?
Volto a olhar para o outro lado na tentativa de controlar meus ciúmes e
indignação. O pior de tudo era que não conseguiria tirar satisfação com ele,
porque não tínhamos um relacionamento assumido e como estava sem celular,
nem enviar uma mensagem desaforada eu poderia.
Se bem que algumas horas atrás, conseguimos até fazer uma
preliminar. Bufo. Tudo isso deve ter sido parte do seu show.
— Idiota! — resmungo para mim. Independente de qualquer coisa, ele
continuava sendo o meu amor, não deveria estar com ela.
— O que disse? — Percebo que na minha distração, Vilmar havia
aproximado seu corpo do meu de um jeito muito íntimo. Não conseguiria seguir
com isso, não havia mais sangue de barata nas minhas veias para aceitar essa
dança e encarar Enrico de longe.
— Não estou me sentindo bem, vou sentar. — Quando me afasto dele,
percebo uma sombra ao nosso lado.
— Vilmar. Sabrina. — Enrico nos cumprimenta e muito educado, pega
minha mão. — Posso ter a honra dessa dança?
Encaro com ferocidade esse homem que claramente está arriscando
toda a auditoria e sua postura profissional ao fazer tal pedido. Pensava que não
iria conseguir tirar satisfação, mas pelo visto, ele não está se importando com
nada.
— Ela não está muito bem. — Vilmar intercede por mim e
mentalmente chuto a cara dele.
— Apenas alguns segundos, não tomarei muito o tempo dela. —
dispensa o homem e envolve minha cintura com seus braços. Minhas mãos
apoiam em seus ombros, informalmente assim como fiz com Vilmar.
Nesse momento, One Million Reasons, da Lady Gaga começa a tocar.
Inevitável não começar a cantar, baixinho, perto do seu pescoço por causa da
nossa diferença de tamanho.
— Amo sua voz, mia bella. — Meu coração aquece e as dúvidas
aparecem. — Amo seu cabelo solto.
Não respondo, estou muito absorta na letra da música. A música fala
sobre ter um milhão de motivos para ir embora, mas precisava apenas de um
bom motivo para ficar.
Não queria dançar com ele depois do que presenciei. Poderia escolher
qualquer outra para dançar, menos Mirela.
— Estou arriscando muito aqui, mas não suportava presenciar outro
homem com você. — falou baixo para mim, perto do meu ouvido. Não tive
coragem de encará-lo, continuei olhando para o lado, quase encostando minha
cabeça no seu ombro. — Não suportava ver seu olhar decepcionado.
— Por que você estava com Mirela? Você sabe que ela...
— Muita coisa aconteceu nesses últimos dois dias... — interrompe-me.
— A SAI conseguiu identificar três suspeitos e existem provas.
Ao invés de prestar atenção nas suas palavras, que poderiam ser
alguma indicação do motivo de estar com sua secretária bandida, uma raiva ao
vê-lo interagir com alguém que o prejudicou e ameaçou me prejudicar dominou
minhas ações. Não conseguia aceitar tal atitude e muito menos dosar as minhas
nesse momento.
— Ela está envolvida no roubo da empresa. — Paro de dançar e encaro
o homem que tinha o poder de me destruir. — Ela me ameaçou e você estava
rindo com ela agora a pouco.
— Bella...
Por mais que suas palavras suplicassem minha compreensão, que o
deixasse falar, apenas virei às costas e saí para longe daquele lugar e daquelas
pessoas. Não queria mais ser a pessoa racional e atenciosa, mas a que por um
momento deixou os sentimentos falarem por si.
Controlando as lágrimas de escorrerem, segui para perto dos ônibus,
onde nos encontramos. Precisava de um momento para respirar, pensar e me
equilibrar. Encostei minhas costas no metal frio do veículo e deixei as lágrimas
escorrerem.
Não deveria ter misturado meu trabalho com meu coração. Devo ter
dado um show ao abandonar Enrico no meio da pista de dança e ainda por cima
comprometê-lo. Agora, se quisessem, com certeza poderiam processá-lo por
assédio sexual, porque minha repulsa por ele foi clara há segundos atrás.
Era uma idiota apaixonada. Ao invés de seguir com minha raiva,
estava pensando em sua reputação. Não sabia escolher que lado ficar: defendê-lo
ou incriminá-lo.
— Droga! — Bati com a mão fechada ao meu lado e com a outra,
tentei enxugar minhas lágrimas.
— Ela está aqui. — escuto a voz de uma mulher e olho para um lado
enquanto do outro, sou envolvida por braços fortes, um na minha cintura, outro
na minha boca.
Automaticamente começo a espernear e tentar gritar, sem sucesso.
Quem era que me mantinha cativa?
— Vamos. — Mirela aparece no meu campo de visão e sou levada em
direção a um carro com a porta aberta.
Esperneio e faço de tudo para me soltar. Por sorte, consigo alguns
segundos da minha boca livre para gritar.
Levo uma tapa de mão aberta de Mirela, que apressa o passo e senta
no banco do motorista.
— Seu idiota, cale a boca dessa menina! — Com a mão no meu
pescoço, olho para meu raptor e vejo que é Alex. Arregalo meus olhos ao
identificá-lo e também pela falta de ar. Começo a arranhar sua mão e braço
quando sou jogada dentro do carro.
— Fique quietinha, boneca, só levará alguns segundos para você
desmaiar. — zomba assim que o carro começa a andar. Poucos segundos depois,
sem ar nos meus pulmões, fico mole e vejo tudo preto.
Capítulo 49

— Acorda, biscate! — Levo uma tapa na cara e abro meus olhos com
dor no meu rosto.
— Para de me bater, droga. — Olho para os lados e vejo que estamos
na empresa, na minha sala. Estou deitada no chão, Mirela e Alex estão
agachados ao meu lado.
— Você vai acessar seu computador e excluir todo o banco de dados
do sistema financeiro e contábil. — Alex coloca a mão atrás das costas e retira
uma arma. — Agora e sem gracinha.
— Por que você mesmo não faz isso? Por que precisa de mim? —
Sento e arrumo meu vestido, que estava quase revelando minha calcinha. Céus!
Será que eles viram?
— Não precisa cobrir, biscate. Você mostrou tudo dentro do carro. —
Com o celular na mão, ela me mostra fotos das minhas partes íntimas expostas.
Começo a tremer, me encolher e tento me afastar deles, mas a arma de
Alex me freia.
— Anda logo.
— Mas... — Percebo, nesse momento, que Alex precisa de mim,
porque não sabe fazer. Todos esses anos fazendo o serviço dele... Era porque ele
não sabia.
Ele percebe minha compreensão e bate com a arma no meu rosto.
Sinto gosto de sangue na boca e minha bochecha arder.
— Cinco segundos antes de atirar no seu joelho. Um! — Não precisou
falar mais, porque me levantei e corri para meu computador. Apesar da leve
tontura que senti, consegui sentar na minha cadeira e desbloquear o sistema
operacional da minha máquina.
— Sem gracinha. — ameaçou com a arma na minha cabeça e no
automático, acessei os servidores de forma remota e fui excluindo o banco de
dados.
Por um lado, estava aliviada por saber que tínhamos backup diários,
então, não haveria grande perdas, mas por outro, sabia que Alex também tinha
esse conhecimento e não deixaria passar.
— Ótimo, agora os backups.
— Está demorando demais, Alex. — com impaciência, Mirela
começou a andar de um lado para outro na nossa frente.
— Quase acabando. — Esfregou a arma na minha nuca, deixando-me
arrepiada de medo. — Ande logo, biscate.
— Pronto, pronto! — Levantei minhas mãos em sinal de rendição.
— Não acabou. Vá retirar os HDs das máquinas, quero todos. — Viro
meu rosto para o cano da arma, mas encaro Alex.
— Você está louco, vai destruir a empresa.
— Isso é pouco. — Cutuca a arma no meu rosto, o que faz meus olhos
fecharem. — Para de me questionar e anda logo!
Volto para tela do meu computador, para acionar a rotina de
desligamento dos servidores, mas sinto meu cabelo ser puxado com força. Grito
quando levanto pela força bruta que foi usada.
— Você acha que estou preocupado em desligar corretamente essas
merdas?
— Anda logo, porra! — Mirela grita histérica, o que me deixa mais
nervosa.
Ainda com a mão no meu cabelo, agacho para pegar as chaves da sala
do servidor. Minhas mãos estão tremendo e as lágrimas começaram a escorrer
dos meus olhos.
Céus, estava ajudando esses dois loucos a destruírem a empresa.
Pego a chave de fenda em cima da mesa de Anderson e vou até a porta
da sala dos servidores para desbloquear.
— Por quê? — sussurro entre minhas lágrimas. Estava com muito
medo e preocupada com o significado de tudo isso. Queria tanto que alguém me
encontrasse agora.
Será que ninguém tinha notado minha falta?
— Vai tirando esse servidor da raque enquanto pego a Storage de
backup.
— Anda logo! — Da porta, Mirela continua nos apressando.
— Cala essa boca, mulher. Você faz toda essa merda de forma
descuidada e agora quer pressa? — Desconecta os cabos do equipamento e
coloca a storage no chão perto da porta.
— Não reclama, porque você também usufruiu. Se não fosse suas
mentiras com relação as suas habilidades, não estaríamos aqui. — Com lágrimas
escorrendo dos olhos, fico atenta a conversa dos dois.
— Mentiras? Você queria algo impossível!
— E você queria me comer, por isso mentiu. — Bateu na minha
cabeça e decidi ignorar, porque seria o saco de pancada por muito tempo. —
Anda logo.
— Está com pressa? Leve todos os equipamentos então, ao invés dos
HDs. — respondeu com ironia, Alex.
— Então faça isso, o carro está com o porta-malas aberto.
— Fique onde estão! — escuto a voz de Prócion e fico preocupada.
Ela era louca de enfrentar os dois?
— Solte essa arma ou vou atirar! — ameaça Vega. Olho para a porta e
vejo as duas, uma de vestido e outra com roupas pretas como uma policial
apontando armas para os dois.
Sem nenhum cuidado, Alex me pega com uma chave de braço no meu
pescoço e me coloca na sua frente. A arma está apontada para minha cabeça.
O olhar das duas auditoras me analisa rapidamente, mas voltam a focar
neles.
— Saiam daqui, ou ela morre. — Mirela dá passos para trás, na
tentativa de se proteger. Ela não tinha nada para atacar, apenas suas palavras.
Com um tiro na sua coxa, rasgando seu vestido, Mirela grita e cai no
chão gritando e xingando.
Sinto o braço no meu pescoço aumentar seu aperto e minhas mãos
tentam libertar o ar para entrar nos meus pulmões.
— Saiam daqui, ou começarei a ferir Sabrina. — Com a mão
segurando a arma, ele começa a tocar meu corpo, me fazendo espernear e chorar.
Socorro! Socorro!
— Se tocar mais um dedo nela, você não será um homem morto, mas
um capado. — A arma de Vega mira minha virilha e a mão de Alex volta para
cima.
Mirela se arrastou para o nosso lado enquanto isso, gemendo e
chorando pela perna machucada.
Não queria estar aqui, fazer parte disso tudo. Parecia até uma realidade
paralela, outra dimensão. Cansei de ser a vítima, apesar da dor estar cada vez
mais acentuada no meu rosto e agora, na minha alma. Essa situação havia me
traumatizado!
— Solte Sabrina. — Prócion ordenou e num acesso de loucura, com
toda a força que pude reunir, pisei com meu salto no pé de Alex e soltei meu
corpo para cair no chão, quando ele afrouxou o aperto no meu pescoço.
Bastou apenas um tiro para me encolher em posição fetal, tampar meus
ouvidos e fechar meus olhos. Sinto minhas costas serem aranhadas, meu cabelo
ser puxado e depois nada. Não me importei se minha posição estava revelando
mais do que deveria, só queria poder sumir.
Lágrimas escorriam dos meus olhos quando uma mão gentil tocou meu
ombro. Encolhi ainda mais, com medo do que poderia vir.
— Acabou, Sabrina. — a voz suave de Prócion me tira do meu mundo.
Viro meu rosto para ela e salto em seus braços. — Acabou, tudo acabou.
Soluçando e agarrando seu corpo como se fosse meu colete salva
vidas, respiro fundo por saber que continuava viva.
— Céus... — choraminguei e a abracei ainda mais.
— Eu sei. Você está salva e todos estão a salvo.
Ainda chorando, me afasto dela e olho ao meu redor, vendo sangue,
mas não vendo ninguém.
— Cadê os dois?
— Agora, eles são problema da SAI. — com palavras intensas, vejo
que essa mulher era muito mais do que uma auditora.
Capítulo 50

— Eu não vou mais esperar porra nenhuma! — escuto a voz de Enrico
alterada como nunca e passos pesados se aproximando. Arregalo meus olhos
quando ele aparece na porta da minha sala, com o cabelo bagunçado, sem a
jaqueta do terno e com as mangas da sua camisa aberta.
Quando seus olhos encontraram os meus, vi o desespero que até
mesmo eu estava sentindo. Estava sentada no chão, com o rosto machucado e
provavelmente com manchas de sangue pelo meu vestido.
— Oh-ou... — Prócion me ajudou a levantar quando o meu CEO se
aproximou com pressa de mim e me afogou em um abraço sufocante.
— Cazzo! Non fare questo a me. Non posso vivere senza di te ! —
[23]

esbravejou. Afastou-me apenas o suficiente para olhar meu rosto e esboçar uma
raiva sem igual. Não conhecia esse lado de Enrico e estava ficando assustada.
Lágrimas começaram a escorrer novamente dos meus olhos e meu
corpo a tremer. Tentei sair do seu aperto, assustada e cansada de tanta emoção.
Não precisava de raiva, queria apenas minha casa, minha cama e o colo da
minha mãe.
— Me solta, não preciso de bronca. Depois eu recupero os dados, nem
tudo foi perdido. — Tento retirar sua mão do meu braço, sem sucesso.
— Sabrina, ele está assustado porque você é muito importante para ele
— Prócion se intromete na nossa conversa e aperta o ombro de Enrico. —
Vamos embora, minha equipe cuidará de tudo e tratará com a polícia. Amanhã
conversaremos.
— Ela precisa ir para o hospital.
— Nossa médica irá atendê-la em qualquer lugar que vocês forem.
Ele balança a cabeça de forma afirmativa e volta a me olhar. Ele
segura meu rosto para encará-lo.
— Estou enlouquecido com tudo o que aconteceu, mas não é com
você, mia bella. Não sei o que faria se algo acontecesse com você... — sua voz
falhou e ele respirou fundo com os olhos fechados. — Vamos conversar melhor
no meu apartamento.
— Quero ir para minha casa. — Tentando controlar minhas lágrimas,
peço como se fosse uma criança assustada.
Ele beija minha testa e depois me abraça, dessa vez com carinho e sem
desespero.
— Perdono, mia bella. Perdão. — Respira fundo e me acalma
passando a mão nas minhas costas. — Me deixe cuidar de você antes de aparecer
desse jeito na sua casa. Sua família é muito protetora e trará pontos negativos
para mim quando for conhecê-la.
Inspirando seu cheiro conhecido, meus batimentos cardíacos voltaram
ao normal, minhas lágrimas começaram a cessar e comecei a me arrepender de
querer ir para casa. Só queria continuar aqui, nos braços dele.
Enquanto ficamos assim por um bom tempo, processei de fato suas
palavras. Ele havia pedido desculpas. Na verdade, perdão. Ele quer cuidar de
mim, quer conhecer meus pais...
— Eles vão te castrar se souber do que aconteceu comigo na sua
empresa! — Saio do seu abraço para olhá-lo com os olhos arregalados. — Não
acho uma boa ideia...
— Vamos, il mio amore. Vou cuidar de você e depois, vamos para sua
casa.
Com a auditora esperando na porta por nós com um sorriso cúmplice,
seguimos para o estacionamento e depois para dentro do carro de Enrico. Em
nenhum momento ele me soltou, abraçado de lado ao meu corpo, senti seu calor
e estava reconfortada.
Sentei no banco do passageiro e ele colocou o sinto de segurança em
mim, todo cuidadoso e atencioso. Suspirei de alívio por estar em segurança e em
uma superfície agradável.
— Você está bem? Precisa de alguma coisa? — Sentou no seu banco e
virou seu corpo para mim, sua mão no meu braço deslizando para cima e para
baixo com carinho.
Sorri de uma maneira que pensei que não conseguiria fazer minutos
depois do que aconteceu.
— Só cuide de mim. Não foi uma experiência que eu gostaria de
repetir.
— Não se preocupe, il mio amore, irei repor suas energias na banheira.
— Coloca a mão no meu rosto com cuidado e seus olhos de pinhão me prendem
no seu casulo de carinho.
— Banheira? — Continuo sorrindo.
— O que você quiser. — Inclina no painel central, beija meus lábios
com cuidado, por causa do corte que havia nele e depois se ajeita para começar a
dirigir.
Como fechei os olhos, para descansar minha cabeça e minhas
emoções, não houve nenhuma conversa, apenas carinho da mão dele na minha
de vez em quando.
Saímos do carro que foi estacionado no subsolo do seu prédio. Enrico
me abraçou de lado e andamos até o elevador, que já estava chegando ao nosso
andar. Enrico beija minha cabeça antes das portas abrirem e vejo meu irmão com
uma mulher aos beijos.
— Merda! — exclamo com uma careta no rosto. Assim que meu irmão
para de beijar a mulher e nos encara, escondo meu rosto no peito de Enrico.
— Sabrina? — A voz preocupada denuncia que ele me viu e não
gostou.
— Você é o irmão... — Enrico é interrompido pela ira do meu irmão
mais novo.
— O que você fez com ela, seu filho da... — Saio do lado de Enrico e
fico entre os dois, com minhas mãos no peito do meu irmão.
— Ei! Olha como você fala com o meu namorado! — falo alto e tento
controlar as lágrimas de caírem. Não precisava enfrentar mais emoção hoje, só
queria descansar. — Me machucaram, Enrico me ajudou e estou indo no
apartamento dele para um médico me examinar e descansar antes de enfrentar
você e o resto da família Alencar.
— Você não vai para o apartamento dele, você volta para casa comigo.
— Pegou no meu braço e despertou a ira do meu CEO.
— Sua irmã está machucada! — Retirou a mão de Saulo do meu braço
e vejo a mulher, que não parecia ser tão velha, se expor.
— Querido, deixe sua irmã com o homem dela. Vamos voltar para o
meu apartamento, você espera o médico examinar e a vê novamente. — Com
voz suave e cheia de sentimento, percebo que para ela era muito mais do que
sexo, como meu irmão me insinuou. — Pode ser assim? — fez a pergunta
olhando para Enrico.
— Ela vai falar com ele quando quiser. — Entrou no elevador junto
comigo e apertou o botão que indicava o seu andar. Meu irmão ficou muito
chocado para bloquear a porta de fechar e impedir nossa fuga.
Queria dizer que não era assim que ele conseguiria simpatia da minha
família, mas preferi ficar quieta e me aconchegar em seus braços.
Em silêncio, ele entrou no apartamento e me fez sentar no sofá da sala
de estar. Segundo depois, a campainha tocou e Arc, a mulher que me atendeu
dias atrás apareceu. Enrico a cumprimentou e seguiu para a cozinha.
— Olá. Como você está se sentindo? — Deixou sua maleta em cima
da mesa de centro e a abriu.
— Esgotada. — Enrico apareceu com um copo de água para eu beber e
fiquei feliz por ele ter pensado nisso.
— Vou examiná-la, tudo bem? — Assenti com a cabeça. Com a mão
enluvada, lenço umedecido e um medicamento vermelho, Arc limpou meu rosto
e avaliou os meus machucados. — Ele te estrangulou? — perguntou indignada
quando olhou meu pescoço. Vi Enrico endurecer e fechar as mãos com raiva.
— Sim, depois apaguei e... — lembrei que tirou fotos minhas e curvei
meus lábios para baixo. — Ele tirou... — controlei minhas emoções e continuei.
— Ele tirou fotos minhas, da...
— Não se preocupe, Sabrina. Tudo será destruído, nada mais irá te
alcançar. — Sorriu com serenidade.
— Nada! — repetiu Enrico com ferocidade. — Nada e ninguém irá te
ferir novamente, custe o que custar.
Capítulo 51

Depois dos cuidados com meu rosto, tomei um relaxante muscular e
segui para o banheiro de Enrico. Arc foi embora e entregou meu celular, que
estava em posse de Alex. Ele estava desligado e assim que o liguei, milhões de
mensagens e ligações perdidas apitaram nele.
— Ligue para seu irmão. — Enrico me sugeriu enquanto ligava a água
para encher a banheira.
Saulo atendeu no primeiro toque.
— Como você está?
— Saulo, vou ficar com Enrico essa noite. Você avisa a mãe que estou
bem e que logo de manhã iremos para casa?
— Sabrina, você disse que era apenas uma aventura. Você está
gostando dele? — Olho para Enrico, que estava com o peito definido nu e estava
removendo a calça.
Se eu gostava dele? Não, eu o amava.
— Conversamos melhor amanhã, tudo bem? Eu só preciso... —
Suspirei e fechei os olhos. — Me dê isso.
— Se esse metido fizer algo para você... — ameaçou com muita
emoção, o que me fez sorrir e voltar a encarar meu CEO. Saulo não teria chance
com ele.
— Tchau. — Encerrei a ligação sem esperar sua despedida. Desliguei
o aparelho novamente e comecei a remover minha roupa.
A banheira encheu, o cheiro de chá verde preencheu o ar e inspirei
profundamente. Em todo momento eu era observada com atenção. Ele já estava
nu e só de pensar que estaria, finalmente, pele com pele, meu ventre despertou
com uma vibração.
Estendeu a mão quando descartei todas as peças de roupa do meu
corpo e entramos na banheira, Enrico atrás e eu na sua frente. A água estava
quente e meus músculos tensos relaxaram com o contato da água e da pele desse
homem.
Era o paraíso!
Gemi quando as mãos dele vagaram pelo meu corpo, sem malícia, mas
com muito cuidado.
— Enquanto estive cuidando da minha irmã e minha madrasta na
quinta-feira, meu pai apareceu bêbado na casa delas, nem parecia que teve um
infarto. — Percebo que ele irá contar toda a história e fecho meus olhos para
escutar e sentir. — Tivemos uma discussão e finalmente descobri quando a
empresa começou a quebrar.
“Ele tinha um caso com Mirela desde a sua contratação. Para agradá-
la, mandava todas as contas com nota fiscal que ela gastava para o financeiro
pagar. Isso durou até Lauriano descobrir e acabar com a mordomia dos dois.”
“Foi pouco tempo depois que eles descobriram uma nova forma de a
empresa pagar pelos luxos de Mirela. Com a ajuda de Alex, ele alterava os
valores a serem pagos de uma determinada conta a pagar e meu pai ordenava o
pagamento do documento em dinheiro. Isso queria dizer que o financeiro tirava
da conta um valor maior do que o que realmente era necessário. Depois que a
conciliação bancária era feita, Alex voltava ao valor original, para a auditoria
anual, que confere os papeis com o sistema, não perceber a divergência.”
— Mas na auditoria da conciliação bancária apareceria. — Enquanto
Enrico me abraçou e envolveu suas pernas em mim, abracei seus braços e relaxei
em cima do seu corpo.
— Exatamente, il mio amore. Mas essas auditorias nunca foram
realizadas. E pior, essa brecha para tirar dinheiro da empresa saiu do controle do
meu pai. Mais contas foram pagas dessa maneira sem o consentimento dele,
enriquecendo Mirela e Alex.
— Eles eram namorados?
— É o que tudo indica. — Beijou minha testa e suspirou. — Quando
meu pai me obrigou a assumir a empresa, não imaginava que iria vasculhar o
passado dela. Seu infarto foi devido a isso, mas poucos dias depois, não estava
mais internado. Estava com muita vergonha para assumir a burrice que havia
feito.
— Caramba...
— Quando o confrontei sobre a empresa estar em meu nome, com
documentos falsos, ele assumiu que fez com a intenção de usar a empresa para
fraudar licitações. Claro que não daria certo com Lauriano junto.
— Seu pai é doente. — Virei meu rosto para olhá-lo com espanto
depois volto para minha posição confortável.
— Um doente que deixou a família inteira assim. Clara e Sofia não
estão bem, elas presenciaram tudo e tive que contratar uma psicóloga em tempo
integral para dar conta das duas. Além de Rita, que está cuidando das duas como
se fosse a nonna delas.
— Fico feliz que existe uma Rita na vida de vocês.
— Existirá na sua também. Ela quer te conhecer mais.
— Eu também. — Suspirei feliz, compreendendo um pouco mais do
que realmente aconteceu para que tudo isso virasse a loucura que foi.
— Falei com Lauriano na sexta-feira. Ele não pretende voltar a
assumir a empresa, desgostoso demais com o rumo da sua vida, o quanto se
dedicou e, mesmo assim, debaixo do nariz seu próprio sócio o afundou. Já
providenciei a alteração do contrato social, irei assumir como único sócio a
Supermercados Zanetti. Negociei a parte dele com pagamentos mensais em
cinco anos, de acordo com os lucros da empresa.
“Enquanto resolvia essas situações, acionei a SAI, que providenciaram
as provas suficientes para incriminar Mirela e Alex. Eu precisava de uma
declaração de culpa da minha secretária, a única que não tinha rastro para ser
incriminada e para isso, tive que dançar com ela na festa de vinte anos e fingir
ser como meu pai, queria continuar com suas fraudes.”
— Poderia ter me avisado. — Faço beiço.
— Tentei, mas seu celular estava indisponível.
— É verdade... — Fiz uma careta e respirei fundo. — Você fez tudo
isso em dois dias?
— Sou um homem de negócios, tempo é dinheiro. — brincou. Soltou-
me do seu abraço e começou a vagar suas mãos pelo meu corpo novamente.
Ficamos um bom tempo em silêncio, a temperatura da banheira
começou a esfriar e meus sentidos a se perder. Estava quase dormindo quando
meu corpo começou a reagir de maneira luxuriosa para seu carinho.
— Hum... isso é tão bom. — Mexi mais meu corpo e senti seu membro
criar vida. Beijou meu ombro e começou a massagear meus seios.
— Posso transformar em melhor, il mio amore. — Uma mão desceu
entre minhas pernas e ficou no meu sexo. Senti seu membro se mexer
novamente, arrancando-me outro gemido.
Com lentidão, começou a tocar meu clitóris. Quando meus quadris
começaram a se movimentar, buscando uma fricção maior, seus movimentos
aumentaram, a pressão ficou maior e, com minhas mãos apernando sua coxa,
encontrei meu clímax de forma preguiçosa.
Sorri por ter um homem ao meu lado que sabia como acender meu
fogo. Não conseguiria fazer nada disso se não fosse sua paciência e atenção para
o meu corpo. Ele merecia tudo o que poderia oferecer.
Esticando meus braços com o apoio das minhas mãos nas suas pernas,
ergui-me o suficiente para minha entrada se alinhar na sua masculinidade.
Apesar da umidade, não deslizou como imaginei.
— Não precisamos continuar. Não... — Gemeu quando movimentei
para cima e para baixo até me preencher completamente.
— Assim está melhor. — Encostei meu corpo no seu, deitei minha
cabeça no seu ombro e fechei os olhos quando ele me ajeitou e começou a se
movimentar para dentro e para fora de mim, lento e torturante.
Nossas respirações estavam ofegantes, ele pelo esforço e eu pelo
prazer. Um braço me envolveu por baixo do meu peito e a outra mão me
manipulou. Era maravilhoso ser estimulada das duas formas.
— Ti amo, mia bela. — gemeu as palavras enquanto acelerou os
movimentos. — Eu te amo, Sabrina.
Tentei responder, mas encontrei meu clímax assim que o senti jorrar
dentro de mim. Durou muito tempo, foi intenso e me deixou sem chão. Aceitava
uma mulher como eu se apaixonar por um homem como Enrico em pouco
tempo, mas ser recíproco?
— Enrico... — ofeguei, quando ele se movimento uma última vez com
um gemido.
— Você entrou na minha vida quando eu só precisava de um
instrumento para resolver meu problema com a empresa. Mas seu
profissionalismo... Em vez de focar no que precisava, só me fazia querer cheirá-
la, estar perto de você, te fazer me querer... — Saiu de dentro de mim e virou
meu corpo para que eu o encarasse. — Você era essa mulher misteriosa e intensa
escondida dentro dessa menina do setor de TI na minha sala. Eu não poderia
deixar essa oportunidade passar. Eu precisava de você para mim, na minha vida.
Coloquei minhas mãos no seu rosto e uni nossos lábios, controlando
minha boca de me declarar muito mais do que ele fez. Precisava absorver, ter
esse momento só para mim.
Voltei a encarar os olhos de pinhão que tanto me conquistaram e sorri.
— Fale novamente o que você sente por mim. — sussurrei.
— Te amo. — sorriu.
— Não, em italiano.
—Ti amo. — ampliou o sorriso.
— Sim. Ti amo.
Capítulo 52

Sem nos preocupar com vestuário, deitamos na cama de Enrico e não
demorou muito para apagarmos. Tinha deitado minha cabeça em seu peito, mas
segundos depois, ele me virou para que minhas costas ficassem na sua frente e
me envolveu num abraço conchinha.
As revelações na banheira foram muito além do que imaginava. Saber
como todo o roubo aconteceu e que Enrico seria o único dono da empresa foram
insignificantes perante a sua declaração.
Ele me amava. O CEO da Supermercados Zanetti estava apaixonado
por mim. Isso queria dizer que ele correspondia aos meus sentimentos.
Acordei com beijos na cabeça, pescoço e ombro.
— Buongiorno, il mio amore. — Estiquei meu corpo e esfreguei minha
nudez na sua.
— Buongiorno, italiano. Quero aulas.
— Tutto quello che volete. Tudo o que você quiser. — Movimentou
seu quadril e gemeu. — Não sei se foi uma boa ideia dormimos assim.
— Eu não achei isso. — Esfreguei meu quadril no seu membro e virei
meu rosto para receber os lábios de Enrico, que me devoraram. Acordar desta
forma me deixava muito excitada e não precisou de muito para encontrarmos
nossa libertação.
Quando senti o líquido escorrer pelas minhas pernas quando sentei na
cama, fiz uma careta.
— Esquecemos a camisinha. Temos que ir à farmácia comprar a pílula
do dia seguinte. — Meu coração apertou, na dúvida se poderia tomar, já que
tinha tomado a injeção. Coloquei as mãos na minha cabeça e resmunguei. —
Droga, comecei com a contracepção esse mês, não deveria ser descuidada.
— Calma. Não quer ligar para a médica Arc? — Sentou do meu lado e
esfregou sua mão na minha coxa.
— Por que você está calmo? Eu posso engravidar, dar o golpe da
barriga. — Jogo meus braços para cima e me levanto. — Você é louco... — Sigo
para o banheiro e bato a porta atrás de mim.
Quando liguei o chuveiro, comecei a surtar por pensar que poderia
estar grávida. Pensei no que meus pais iriam falar e fechei os olhos.
O que mais poderia acontecer?
— Qual o problema, il mio amore? — Ainda calmo, Enrico entra no
box junto comigo e começa a tomar banho.
— Eu posso... — Não consegui terminar.
— Grávida? Não temos como saber, converse com a médica e tire as
dúvidas. Não adianta ficar ansiosa por causa de uma possibilidade. Você mesma
disse que tomou a injeção...
— Sim, a primeira. Eu nunca usei anticoncepcional na minha vida. —
Bufei e peguei o shampoo da mão dele para passar no meu cabelo. — Esqueça
isso, conversar com meus pais hoje será muito pior do que poder estar grávida.
Um problema de cada vez.
Alguns minutos depois, Enrico sorriu para mim sem motivo nenhum,
ergueu-me e pressionou meu corpo entre a parede e o dele.
— Ti amo. — Atacou minha boca com um beijo cheio de luxúria.
Abracei seu corpo com meus braços e pernas, esquecendo qualquer desafio a
diante.

— Sabrina, é inaceitável esse comportamento. — Minha mãe não me


cumprimenta e me recepciona na frente de casa quando eu e Enrico
atravessamos o portão.
— Bom dia, dona Olga. Podemos conversar lá dentro? — com
firmeza, meu homem assume a frente da situação e suspiro com alívio. Era
covardia da minha parte, mas não queria ter esse confronto sozinha novamente.
Meu pai e irmãos estavam na sala, era quase meio dia e o cheiro de
comida da minha mãe impregnou a casa. Todos sentaram e Enrico assumiu a
conversa, enquanto segurava sua mão com força.
Primeiro, ele contou sobre o roubo da empresa e os culpados.
Continuou com meu sequestro e não conseguiu falar mais nada, quando minha
mãe me tirou de perto dele e me abraçou com força.
— Você está bem, minha filha? Eu sabia que essa empresa não era
para você, precisa pedir demissão urgente. Não pode...
— Mãe, eles já estão presos, nada irá acontecer comigo. — Saio do
seu abraço e tento justificar.
— Você gosta de sofrer, é isso? Gosta de se arriscar e ficar em perigo
de forma desnecessária. — repreende-me.
— Se eu sair da empresa será por outro motivo, não esse. — Voltei a
sentar do lado de Enrico e me preparei para o segundou round de repreensões. —
Além do mais, estamos juntos.
— O quê? — Minha mãe e pai ecoaram sua pergunta. Saulo estava
emburrado em um canto da sala e Sandro fuzilava Enrico com o olhar.
— Tenham a certeza dona Olga e senhor Antônio que sou a primeira
pessoa a se preocupar com o bem-estar de Sabrina. Já estou providenciando um
carro e um segurança para acompanhá-la para ir e voltar no serviço.
— Você é louco. — Rolei meus olhos para a tentativa de impressionar
dele.
— Você é rico, rapaz. Minha filha é inteligente e bonita, não é para ser
feita de boba. — Meu pai não mudou sua feição séria.
— E quando você se cansar dela? Não são só seus sentimentos que
serão atingidos, mas sua vida profissional. Você tem o poder sobre...
— Não sou um moleque que vai à casa dos pais da sua namorada
apenas para fazer uma cena de bom moço. Sou responsável pelos meus atos e
não vou brincar com os sentimentos de ninguém. Sabrina é adulta e pode muito
bem destruir meus sentimentos, assim como eu posso fazer isso com os dela. —
Tomou fôlego e continuou, intenso e firme. — Minha intenção não é brincar de
casinha ou faz de conta, não sou homem de assumir relacionamento para curtir
uma aventura. Quero me relacionar com ela, ser aceito por vocês e podermos
conviver como genro, cunhados e sogros.
Acho que ninguém esperava o discurso convincente e cheio de paixão
de Enrico, porque minha mãe passa a mão nas suas coxas e sorri para meu
namorado, como se nada tivesse acontecido.
— Vai ficar para o almoço, Enrico?
— Será um prazer, dona Olga. — Retribuiu o sorriso com um aperto
na minha mão.
— Tudo bem. Sabrina, venha me ajudar, deixe os homens
conversarem. — Com um beijo na sua bochecha e outro aperto na sua mão, vou
até a cozinha com a minha mãe e com o coração acelerado. Tenho certeza que o
sermão virá com força na minha direção.
— Filha, esse homem é tão rico como imagino que seja? — Sem
emoção, ela pergunta enquanto começa a lavar as folhas de alface para a salada.
Encosto no armário e cruzo os braços na minha frente.
— Talvez mais, mãe. Parece que ele tem outra empresa. — respondo
preocupada.
— Se um dia você casar com ele, nunca deixe de trabalhar, minha
filha. Mesmo depois dos filhos. Homens assim querem a mulher em casa, para
ser dominada e controlada. Não se permita ficar assim
— Mãe...
— Só lembre-se dessas palavras no dia que ele sugerir ou você pensar
em não trabalhar. Não dependa de homem nenhum na sua vida, mesmo que ele
possa bancar vocês dois. — Sem olhar para mim, ela continuou a lavar as folhas
e fui e fui ao seu encontro e a abracei pelas costas. — Você está se arriscando
demais nesse relacionamento. Olha o que você já sofreu por causa de problemas
na empresa dele.
— Mãe, eu te amo. — Ignorei sua última frase. Essa situação poderia
acontecer comigo estando com Erico ou não. Beijei seu rosto e vi uma lágrima
escorrer de seu olho. Soltei um riso e comecei a chorar também. — Poxa, mãe...
— Você ainda será mãe de uma menina tão especial como você e vai
saber o trabalho que é.
Começamos a rir e a chorar até que meu pai apareceu na porta, para
saber o que estava acontecendo e saiu de lá balançando a cabeça em negação.
Éramos uma bagunça de emoção.
Capítulo 53

Não se falava em outra coisa na empresa a não ser na festa dos vinte
anos, a fraude gerada pela Mirela e Alex e suas prisões. Apesar das suspeitas
sobre as horas extras de Mirela, o gestor de TI foi a grande revelação do caso.
A prisão dos dois, suas confissões e o meu sequestro estavam
estampados em todos os sites de notícia. Não havia detalhes, mas tinha
informação suficiente para que a cidade inteira ficasse chocada com isso. Enrico-
pai, claro, ficou omisso.
Como meu irmão disse: a corda sempre arrebenta para o lado mais
fraco.
Depois do almoço de domingo na casa dos meus pais, Enrico falou
para que eu ficasse em casa por uma semana, para me recuperar. Meus pais
concordaram, Sandro exigiu uma licença remunerada e Saulo ficou reticente no
seu canto.
No final das contas, fiz o que quis. Era impossível ficar em casa
enquanto a empresa estaria parada pela falta dos servidores. Caio poderia dar
conta do recado, mas não conseguiria por causa da pressão.
Contei por cima o que me aconteceu para meus colegas de trabalho e
percebi que ganhei um pouco do respeito deles.
— Cara, eu tiraria um mês de férias depois disso. — Anderson falou
sonhador.
— Bem, depois que colocar tudo em ordem, estou pensando nisso.
Tenho um dinheiro guardado para o meu mochilão, acho que vou fazer só uma
viagem mesmo. — Ele me fez ter uma ideia, que guardei para pedir a Enrico e
Carina.
— Cara, você é a mulher mais foda que conheço. — Vitor se
pronuncia e faz com que os outros dois concordem.
— Pode deixar que rodo o programa de recuperação de dados por aqui.
— Caio se voluntariou e enviei um e-mail para todos os colaboradores
informando sobre o período de indisponibilidade dos sistemas.
Nem trinta segundos se passaram quando o meu ramal tocou.
— TI, bom dia.
— O que está fazendo, Sabrina? — Faço uma careta para a voz
desgostosa de Enrico. — Você não tinha concordado em ficar em casa?
Conversamos antes de dormir na noite anterior e havia concordado em
ficar em casa. Ele também me contou que meu pai e irmãos o ameaçaram se me
fizesse algum mal.
— Preciso de reabilitação, acho que sou uma viciada em trabalho. —
Forço a risada, mas percebo que meu humor não chegou a ele.
— O que está fazendo? — perguntou em seu tom profissional e
comecei a ficar chateada.
— Estou retornando os serviços e recuperando os dados. Caio está me
ajudando e se tudo der certo, até amanhã tudo estará de volta. Então,
precisaremos sincronizar as filiais com os nossos bancos, já que elas estão
trabalhando off-line. — respondi no mesmo tom.
— E depois disso?
— Férias. Vou solicitar minhas férias para Carina e viajar para bem
longe daqui. — Fechei os olhos e lembrei que não estava falando com meu
namorado, mas o dono da empresa. — Desculpe, senhor Zanetti. Estou um
pouco tensa ainda, com as emoções a flor da pele, não tive...
— Il mi amore. — interrompeu-me com a voz mais suave.
— Sim. — respondi com um sussurro.
— Faça o que você quiser, só não exagere ou se sinta obrigada a fazer
algo. Não precisa solicitar suas férias, está autorizado por mim. — Ele fez uma
pausa e meu coração se acalmou. — Precisamos nos alinhar para não
confundirmos discussões de empresa com pessoal.
— Sim. — resmunguei, achando que seria difícil tudo isso.
— Pretende ir para onde?
— Ir?
— Sim, você falou que ia viajar. Não sei se estou disposto a te deixar
ir sem mim. Aonde vamos? — Sorri ao nos imaginar viajando.
— Europa. Você pode me apresentar sua cidade natal.
— Perfeito. Quando você termina tudo?
— Duas semanas. — Abro o calendário do meu computador e faço
uma careta. — Esqueci, tem aniversário do meu pai daqui a... vinte dias. Vou
pesquisar o preço das passagens e te falo quando.
— Não se preocupe com o preço, vou solicitar para...
— CEO, é o seguinte: como sei que você vai querer bancar tudo, as
passagens são por minha conta. Não estou aberta a discussões. — falei em tom
de ordem.
— Tudo o que quiser, il mio amore. Quando sair para almoçar, passo
na sua sala para irmos juntos.
— Tudo bem. — Encerro a ligação sorridente, olho para meus colegas
de sala e congelo. Todos estavam me encarando curiosos e chocados.
Merda! Acho que falei demais no telefone.
Voltei a minha atenção para o meu monitor, fingindo que não havia
nada de errado.
Quando o almoço chegou e Enrico apareceu antes de todos saírem para
o almoço.
— Olá senhores. — Olhou para os três depois para mim, com um
sorriso. — Vamos, Sabrina?
— Bom almoço, gente. — Levanto rapidamente da minha cadeira com
os olhares atentos deles.
Sigo lado a lado para Enrico, que começa a rir enquanto abre a porta
para que eu entre.
— Qual a graça?
— Acho que seus colegas de serviço nunca mais abrirão a boca para
falar besteira perto de você. — Ele fecha a porta e vai para o seu lado.
— Por quê? — insisto quando ele senta ao meu lado e dá partida.
— Carina me passou sobre o incidente da semana passada com
Anderson. — Começou a guiar o carro. — Levou toda a minha força e
autocontrole para não o demitir. Agora que estamos namorando oficialmente,
precisamos tomar cuidado com nossos impulsos.
— Ainda bem que você não o demitiu. Para viajarmos, vamos precisar
de mais pessoas no setor, para que eu treine e possa me substituir.
— Ninguém irá te substituir, il mio amore. — Pegou minha mão e
beijou. — Que tal um restaurante novo?
— Você que me convidou, só vou com meu estômago. — brinco.
— Precisarei contratar outra pessoa para o setor financeiro também. —
comenta sério.
— E Felipe?
— Ele pediu demissão hoje cedo. Parece que sabia de tudo o que
estava acontecendo. Não assumiu pegar dinheiro, mas mascarou relatórios para
que a roubalheira fosse omitida. Ele estava com peso na consciência e com muita
vergonha por si e por sua família.
Lembro que ele estava muito sem graça por receber a homenagem na
festa e fico desgostosa.
— Triste por saber que a ganância tem tanto poder. — Ligo o rádio e
sintonizo na estação que gosto. — Não li nada sobre o estado de saúde de Mirela
e Alex. Eles estão bem?
— Defina bem. — respondeu misterioso e franzi o cenho.
— Sei que estão vivos, mas Mirela foi baleada. Alex... Acho que
também foi.
— Sim, um tiro no ombro.
— Você o viu?
— Depois que saí da sua casa no domingo, fui à SAI pagar a conta e
encerrar a operação. Digamos que... — olhou-me de forma sombria — tive
minha própria vingança.
Arregalei meus olhos e ele parou o carro no estacionamento de um
restaurante self service. Era famoso e muito gostoso, porém com valores acima
da média.
— Você... — Interrompeu-me com um beijo nos lábios e as mãos no
meu pescoço.
— Il mio amore, o que você precisa saber é que acabou. Eles não irão
fazer mal algum para ninguém enquanto eu estiver vivo.
Capítulo 54

Quase dois meses depois da festa de vinte anos da empresa, todos já
sabiam que a menina da TI e o CEO estavam namorando. Caio continuou sendo
o mesmo comigo, mas todos os outros mudaram seu comportamento. Alguns
pareceram me bajular mais, outros me encaravam de forma esnobe.
Confesso que não estava pronta para esse desafio, mas todos os dias eu
aprendia a lidar com a situação e me importava menos com a opinião dos outros.
Como Carina disse, estava lá para trabalhar, não fazer amigos.
Anderson, por exemplo, me tratava mais profissional do que nunca.
Até com as brincadeiras entre todos da sala ele não ria. Mesmo com sua
competência, Enrico não o queria na empresa por muito tempo. Ele dizia que
pessoas com más intenções não deveriam ser suportadas.
Prócion se tornou minha amiga. Nos falamos todos os dias por
mensagens de celular e saímos para confraternizar uma vez com Vega e Bet. As
duas eram ótimas, mas minha afinidade maior foi com a divertida e brincalhona
Prócion.
Marcamos nossa viagem e deixamos tudo organizado para nossa
ausência. Enrico acompanhava diariamente os relatórios enviados pelo novo
funcionário do financeiro e eu, acessava remotamente minha máquina e
acompanhava os dois funcionários novos da TI, um exclusivo para a
infraestrutura e uma mulher, exclusiva na programação.
Meus pais não aceitaram com facilidade minha viagem com Enrico,
até saberem que eu iria conhecer a sua mãe. Acho que perceberam que nosso
relacionamento era sério e que não poderiam me tratar como adolescente.
Eu e Enrico embarcamos para viajar pela Europa há uma semana.
Começamos pela Inglaterra, Paris e agora, estávamos na Itália. Apesar de eu
saber o suficiente para sobreviver de Inglês, Enrico era fluente nessa língua,
além de francês. Não passei fome, muito menos vontade.
Visitamos Roma primeiro e então, seguimos para sua cidade natal,
Bolonha. Era onde sua mãe morava e nos aguardava com o almoço. Alugamos
um carro e meu estômago estava revolto de nervoso.
— Trouxe o remédio de enjoo? — Enrico perguntou preocupado. —
Não sabia que você passava mal em viagens de carro.
— Não passo, mas estou nervosa por conhecer sua mãe.
Ele gargalhou, totalmente à vontade para zombar de mim. Nesses dois
meses, nossa interação aumentou e evoluiu tanto, que nem precisamos nos
preocupar com nossa vida pessoal e profissional, tudo se encaixou perfeitamente
conforme o dia a dia.
— Não acredito que tendo dona Olga e o senhor Antônio como pais
você está com medo da minha madre.
— E se ela não gostar de mim? Achar que...
— Canta mal? — complementou ainda com um enorme sorriso no
rosto. — Não se preocupe, eu adoro te ouvir.
— Que bom, porque vou treinar meu italiano. — Aumentei o som do
rádio e comecei a fingir cantar uma música que nunca ouvi, em italiano.
Como sempre fazia quando era espontânea, Enrico pegou minha mão,
beijou e disse:
— Ti amo.
— Ti amo troppo . — respondi em italiano também, já com
[24]

conhecimento de algumas palavras. Ele havia me ensinado muitas e estava feliz


por entender grande parte do que ele falava para mim quando estávamos fazendo
amor.
Observei a paisagem dessas estradas com olhos ansiosos. Minha
barriga ainda estava revolta, minhas fadas baladeiras decidiram fazer uma festa
diurna, o que não me agradou.
Chegamos à cidade e paramos numa casa que parecia tão antiga
quanto à própria cidade. Fiquei maravilhada com a construção, com a quantidade
de flores e com o fato de não haver portão.
Uma senhora magra e alta abre a porta e vem nos recepcionar com um
enorme sorriso nos lábios.
— Bella, mio figlio . Ela é linda! — Abraçou-me depois de Enrico e
[25]

me olhou da cabeça aos pés. — Como vai? Sou Bianca!


— Prazer em conhecê-la, dona Bianca. — Tentei falar em italiano, mas
a única coisa que meu estômago deixou que eu pensasse foi em português.
Coloquei a mão na minha barriga e gemi. — Não estou bem, a viagem me
deixou enjoada.
Enrico me abraçou de lado, mas sua mãe me tirou do seu aperto e me
acolheu.
— Venha, vamos entrar. Filho, leve suas malas para o seu quarto, eu
cuido dela.
Segui para deitar no sofá macio e aconchegante. Não consegui reparar
em nada de dentro, porque estava quase fechando os olhos de tontura.
— Era só o que me faltava, sinto muito por isso, nunca tive “enjoo de
viagem”. — falei com os olhos fechados e coloquei um braço para cobrir meus
olhos.
— Beba um pouco de água gelada, vai te fazer bem. — Segurei o copo
e bebi a água como se fosse algo nojento.
— Devo ter pego uma virose, só pode. O gosto da água está horrível.
— Implorei com meus olhos. — Por favor, me desculpe.
— Não há por que se desculpar. — sorriu e passou a mão na minha
testa. Meu cabelo estava preso e vestia um vestido florido e solto até o joelho. —
Quer descansar? O quarto está pronto.
— Não! Estou parecendo um coala de tanto que durmo. A viagem era
para descansar, mas acho que meu corpo esqueceu da parte da diversão. —
brinquei quando o sorriso de dona Bianca aumentava.
— Você já fez um teste de gravidez? — pergunta baixinho e respondo
assustada.
— O quê?
Um filme dos últimos meses passou em minha cabeça. Eu entrando na
sala de Enrico pela primeira vez, o seu primeiro beijo para me calar, nossa
primeira transa na minha sala, meu sequestro e nossa confissão de amor na
banheira.
Fizemos sexo sem proteção na banheira.
Depois que dormimos, fizemos sexo sem proteção novamente.
Todas as outras vezes usamos camisinha e como não menstruei...
— Não! — Arregalei meus olhos para minha sogra, que mal tinha
conversado. Eu não poderia começar tão errado assim.
— O que foi, mia bella? Quer que eu vá à drogaria comprar alguma
coisa? — Enrico aparece na sala com preocupação.
Minha cabeça estava confusa.
— Filho, você pode colocar a mesa para nós? Eu vou com sua bella na
drogaria, é aqui perto.
Comecei a pensar na possibilidade de estar grávida, que deveria ter
tomado a pílula do dia seguinte...
— Não precisa, eu vou de carro e será rápido.
— Vá, Enrico. — ordenou no mesmo tom que ele usa de comando.
Com a ajuda de dona Bianca, saí da casa e seguimos por uma rua de
tijolos.
Não consegui falar, estava em choque e com medo. Minha vida não
poderia mudar assim tão drasticamente, poderia?
— Você ama meu filho?
Olho para minha sogra quando chegamos à frente de uma drogaria e
assusto com sua pergunta, mas a resposta está na ponta da língua.
— Claro que amo.
— Então, independentemente do resultado do exame de farmácia, isso
é o que importa. — Sorriu com lágrimas nos olhos. — Mas se for agraciada com
uma gravidez, não conseguirei resistir e terei que me mudar para o Brasil, como
meu filho sempre quis, mas era resistente por causa de seu pai e as lembranças
que ele me traz. — Enxugou uma lágrima. — Não imagino outro lugar para estar
se tiver um neto.
Sem condição para falar ou responder, lágrimas escorreram dos meus
olhos enquanto dona Bianca comprava o teste, seguia comigo até o banheiro e
esperou do lado de fora para o meu anúncio.
Confesso ter ficado de olhos fechados por muito tempo depois de ter
feito xixi. Com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, pensei na minha vida
profissional e pessoal. Estava com vinte e quatro anos, tinha estabilidade
profissional, uma ótima família como pilar da minha formação, o melhor
namorado do mundo e... Abro meus olhos e confirmo os dois risquinhos, que
indicam positivo.
Abro a porta e me deparo com os dois, futura vovó sorrindo e futuro
pai confuso. Ergui o teste rindo e chorando, sem saber o que pensar. Então
apenas falei:
— Estou grávida.
Epílogo

Incrível como uma gestação pode mudar sua vida. Além das alterações
hormonais, todos ao seu redor tratam você como se fosse de porcelana. Minha
sogra e Enrico foram um desses que só faltavam colocar comida na minha boca,
para não fazer esforço com o braço.
Tivemos que antecipar a volta para o Brasil e em dois meses, dona
Bianca viria de mudança. Não avisamos aos meus pais, porque depois de uma
semana na casa da mãe de Enrico sendo paparicada, era hora de enfrentar a
minha família.
Meu irmão mais velho iria nos buscar no aeroporto, o único que estava
sabendo sobre toda a minha situação.
— Minha mãe vai surtar. — choraminguei assim que vi meu irmão do
outro lado da porta da sala de desembarque.
— Por um lado, posso respirar aliviado, já que deixarei um herdeiro
antes de ser capado. — Sorriu brincalhão, o que me irritou.
— Não brinque com um assunto sério desses, italiano. — Coloquei a
mão na minha barriga e pensei no bebê que estava sendo gerado.
Ele pegou nossa mala da esteira, beijou meus lábios e inclinou para
beijar minha barriga.
Depois do meu choro e riso na drogaria, Enrico não perdia um
momento para alisar minha barriga ou beijá-la. Ao contrário do que imaginei, ele
recebeu muito bem a notícia que seria pai e antes de dormir, naquele dia,
sussurrou que eu seria a melhor mãe do mundo.
Era estranho tê-lo todo cuidadoso comigo, uma vez que não me sentia
grávida. Tirando o sono e um dia de enjoo, não tive nenhum sintoma da
gravidez.
Seguimos até meu irmão, que nos recebeu com abraços calorosos e
uma esfregada na minha barriga.
— Parabéns irmã! Meu sobrinho está bem?
— Ele quer comer Ferrera Rochedo — brinquei. — Como estão todos
em casa? — Seguimos para o estacionamento. Enrico caminha abraçado comigo.
— Digamos que você está com sorte, uma vez que Saulo protagonizou
um bate-boca na frente de casa com uma ricaça e deixou a mãe enfurecida.
Tenho certeza que quando descobrir que vai ser avó, nem vai querer saber de
pegar no pé dele.
— Será que a mulher seria a minha vizinha? — Enrico pergunta.
— Com certeza. — Paramos na frente do carro e enquanto os homens
guardavam as bagagens, sentei no banco traseiro para descansar. Qualquer lugar
era momento para dormir, era um caso perdido.
Seguimos até minha casa ao som das vozes deles, que conversavam
sobre as notícias da cidade e sobre carros.
— Chegamos, il mio amore. — Enrico me acorda e quase me carrega
no colo para me tirar do banco.
— Não exagera. — Dispensei seu colo, mas me agarrei a sua mão
quando entramos em casa.
— Já voltaram? Por quê? Como foi por lá? — Minha mãe estava com
um pano de prato nas mãos e o semblante preocupado.
— Tivemos que voltar, mãe, já que descobri que você será avó. —
Como um curativo, distraí o paciente e arranquei de uma vez.
Minha mãe piscou algumas vezes, olhou de mim para Enrico e franziu
o cenho.
— Você planejava ter um filho? — com uma pergunta clínica, ela me
tira do lado de Enrico e me leva até a cozinha. — Você está grávida?
— Isso, mãe. Não foi planejado, inclusive eu comecei a tomar injeção
para evitar gravidez e menstruação, mas...
— Você vai casar! — declarou como se fosse o óbvio. — Haverá um
casamento e daí serei avó — gritou me fazendo revirar os olhos. Meu pai
apareceu na cozinha e dei a notícia para ele, que recebeu de forma mais
tranquila.
Abracei os dois e voltei para sala, para os braços de um Enrico
risonho.
— Eu não vou casar — resmunguei.
— Não tive a oportunidade nem de propor e você já está negando? —
finge estar ofendido, mas seus braços me envolvem mais ainda.
— Exatamente. A grávida sou eu, então, precisam fazer o que eu
quero, senão o bebê vai nascer com cara de... — o peito de Enrico já estava
vibrando com uma risada contida.
— Ti amo. — Beijou minha testa enquanto continuava a rir.
Aconcheguei-me em seus braços e sussurrei que o amava também.
Estávamos tão sintonizados que o medo que tinha do nosso relacionamento não
dar certo sumiu.
— Mãe, quem deveria estar chorando sou eu. — Empacotei meu
último pertence e coloquei dentro da caixa. Haviam várias pilhadas ao lado da
cama. Estava definitivamente saindo da casa dos meus pais e indo morar com
Enrico, meu namorado e pai do meu filho.
Depois de uma semana tumultuada entre consultas médicas, encontrar
uma casa para a mãe de Enrico e decidir entre casar ou apenas morar junto, sem
consultar ninguém, acordei, empacotei tudo o que consegui e avisei Enrico para
conseguir uma caminhonete, porque estava indo em definitivo para sua casa.
Não aguentava mais ficar longe de seus braços, muito menos de não
poder apagar o meu fogo de grávida.
Iria voltar a trabalhar no próximo dia útil, então, precisava agir antes
que deixasse minha mãe fazer minha cabeça para casar.
Não iria casar. Meu filho não seria justificativa para um casamento.
— Você terá que vir almoçar aqui todos os domingos. — Fungou e se
afastou de mim, reclamando o quanto era ingrata e que saberia o que ela estava
sentindo agora que viraria mãe.
Coloquei a mão na minha barriga, lembrei que hoje fariam nove
semanas de gestação e sorri igual uma mãe boba.
Peguei meu celular, liguei para Enrico e sentei na cama.
— Il mio amore — saudei com carinho.
— Prócion irá te pegar. Tive que resolver um problema na empresa.
— O que aconteceu? — Enrico sempre me contava com detalhes tudo
o que acontecia na empresa, então, me pareceu estranho dizer dessa forma tão
vaga.
— Assim que chegar em casa eu conto. Não vejo a hora de poder
dormir e acordar ao seu lado todos os dias, il mio amore.
— Diga isso quando eu pesar por dois. — zombo.
— Você não fez a ultrassom, poderá ser por três. — Como sempre, sua
veia para brincadeiras era tão boa quanto a minha.
— Então vá trabalhar bastante, porque se tiver mais que um bebê aqui
dentro, você terá que contratar uma babá.
Encerramos nossa ligação e escuto uma buzina do lado de fora.
Quando vou para a sala, não só minha amiga, mas Vega e Bet aparecem.
— Olá, dona Olga — elas cumprimentam minha mãe e vão até meu
quarto. Prócion aparece com uma mala semelhante a do dia da festa.
— Como seu primeiro dia de moça independente, nós iremos te
presentar com uma sessão de beleza.
— Quanto exagero. — Pego uma caixa e Vega tira da minha mão. —
Gente, precisamos fazer essa mudança.
— Nós carregamos. Você vai tomar um banho para receber a
produção. — Vega ordena e como já conhecia o poder dessas mulheres, apenas
segui suas ordens. Receber um pouco de carinho e beleza não me mataria.
Quando terminei meu banho, não havia mais nada meu no quarto.
Prócion me entregou um cabide e nele estava o vestido mais lindo que já vi.
Com alças finas, o vestido era branco, longo e drapeado até os quadris.
Encarei as mulheres e depois o vestido, entendendo onde elas queriam
chegar.
— Não... — Controlei meu choro, porque um lado meu queria gritar
sim e estava cada vez mais forte.
— Pare de bobagem, Sabrina. Será apenas uma cerimônia simbólica,
já que você está irredutível a casar. Se não for pela formalidade, será pelo
coração. — Engolindo o caroço da minha garganta, Prócion conseguiu me
convencer. Enrico me surpreendeu mais uma vez com tudo isso.
Assim que me aprontei, toda minha família me aguardava arrumada na
sala. Seguimos a caminhonete em dois carros e não consegui segurar minhas
lágrimas quando minha mãe me olhou com orgulho e apertou minha mão.
Mesmo que não fosse oficial, realmente estar fazendo isso me deixou mais do
que nervosa.
Paramos em frente ao prédio e subimos de elevador. Quando
chegamos ao apartamento de Enrico, encontrei dona Bianca, Clara, Sofia, Caio e
a namorada de Saulo na sala. Todo o cômodo estava decorado com flores
brancas e enfeites dourados.
Cumprimentei todos de forma emocionada. Meu amigo excêntrico
estava participando de um evento social e isso era dizer muito dele. Contei da
minha gravidez, já que ninguém na empresa estava sabendo e ele sorriu
satisfeito.
— Todos os desejos de Ferrera Rochedo serão meus. — Lembrou-me
da sua exigência.
Apresentei minha família à dona Bianca, Clara, Sofia e Carla, a
vizinha de Enrico e namorada de Saulo, que pareciam ainda não ter se entendido.
Rita saiu da cozinha radiante, agradecendo a todos pela presença.
— Mas, e Enrico? — Olhei confusa para os lados.
— No elevador. — Prócion pisca um olho para mim e vai até a porta,
abri-la.
Enrico invade o apartamento com pressa e irritado. Quando ia abrir a
boca para reclamar com Prócion, encontra meu olhar, olha-me da cabeça aos pés
e fica sem fala.
— Ele não ia te contrariar, então, tive que improvisar. — Rita sussurra
no meu ouvido e vai até onde Enrico estava. — Venha, não fique acanhado. —
Ela o puxa pelo pulso e nos coloca no meio do círculo que formamos.
— Bella. — Enrico me abraçou de lado, beijou meus cabelos e apertou
meu braço.
— A vida se modernizou, mas eu gosto de tradição e por isso,
convoquei todos vocês para presenciar a união dessas duas pessoas, que são
como meus filhos. — Ela nos olhos e continuou. — Sejam felizes nessa nova
etapa das suas vidas, que tenham muita paciência e que cuidem muito bem do
meu netinho.
Todos bateram palmas enquanto abraçamos Rita e depois, trocamos
um beijo casto.
— Sabrina, menina da TI, mulher da minha vida. — As lágrimas
começaram a escorrer. — Apesar de todo sofrimento, sou o homem mais feliz do
mundo por ter tantas pessoas especiais ao meu lado e por você ter me escolhido
como seu homem e pai do seu filho. — Beijou minha testa, tirou a carteira do
bolso e de dentro de um compartimento, retirou duas alianças. — Apesar de
você ter frustrado meus planos, de Rita não ter contato os seus, andava comigo
por todos os lados para que um dia eu pudesse fazer a promessa de uma vida. —
Ajoelhou e beijou minha barriga. — Me ajude, bebê. — Tossi um sorriso entre
as lágrimas. — Case comigo, il mio amore, esteja comigo em todos os
momentos perante nossos familiares, amigos e Deus.
— Sim... — choraminguei enquanto uns riam e outros fungavam.
Colocou a aliança no meu dedo e beijou minha mão. Levantou-se,
pegou meu rosto entre suas mãos e beijou-me de forma apaixonada e completa.
— Isso sim que é um pedido de casamento! — Prócion falou alto,
arrancando risos de alguns. — Obrigada, obrigada. Rita teve a ideia, mas eu
executei tudo. Acho que vou mudar de ramo.
Vega e Bet reviraram os olhos para sua amiga enquanto me afoguei
nos braços do homem que estaria ao meu lado pelo resto da minha vida.
Movida a desafio, abracei Enrico e aceitei com bom grado a nova fase
da minha vida, ser analista, esposa e mãe.
FIM
Agradecimentos

A história desse livro e como foi construído é muito especial para
mim. Várias pessoas influenciaram e transformaram essa obra em algo mais que
especial. E então, veio a Michele e lacrou com a impressão dela.
Começou com uma chamada, Sabrina me instigando a escrever sobre
um CEO. Céus, eu não sirvo para escrever sobre isso, apenas ler. Todo dia ela
me instigava, todo dia ela jogava enredos ao vento, até que então, no shopping,
me veio o insight!
Para acompanhar os capítulos, Rejane surgiu. Uma amiga preciosa e
que brilha tanto quanto Canopus, uma das mais brilhantes estrelas do universo.
As sugestões preciosas e os áudios animadores mudaram muito minha vida,
mesmo que ela não saiba.
E como eu não sou uma escritora sozinha no mundo, outras estrelas
surgiram e com elas, a SAI. Sim, existe uma história por trás de Stars Auditoria e
Investigação, existem mulheres maravilhosas para me inspirarem.
Enquanto eu desenvolvia a história, Digo foi mais que um leitor, mas o
crítico que me apontou várias situações no livro que me fizeram rir e querer
mudar, mas ainda não foi o momento. Operação CEO está sendo impresso na sua
versão nua e crua.
Obrigada Bebel por sua dedicação e paciência. Adorei trabalhar com
você, é sempre um prazer estar nesse meio literário não só como parceira!
Meu grupo poderoso e querido de betas surgiu depois que esse livro
foi concluído, mas não as impedi de ter um gostinho desse italiano que tanto
amei escrever. Obrigada Alcilene, Josi, Letícia, Paula, Rayanne e Thárcyla,
minhas eternas Joaninhas Valentes!
Mesmo esse sendo um afilhado desgarrado, agradeço a Sue Hecker e
Martinha Fagundes, duas autoras que tenho o prazer de compartilhar o mundo
literário, amizade e inspiração. Não é à toa que vocês são as poderosas do Vênus
Moto Clube. Obrigada por nunca desistirem de mim.
Agradeço a minha família sempre, uma representação de amor que não
me cabe no peito. Fabricio, Amanda e em especial Daniel, meu caçula e pequeno
guerreiro. Enquanto escrevia esse livro, vivi momentos difíceis com ele e hoje,
nada mais foi que aprendizado.
Mi, minha louca preciosa, encantada e sonhadora. Nunca haverão
palavras para retribuir o carinho que você tem por mim. Amo você!
Autoras companheiras e parceiras, grupos do Whatsapp e Facebook,
que estão no meu dia a dia ou apenas em momentos esporádicos, obrigada por
estarem comigo nessa jornada! Sabem que pode contar comigo!
Um agradecimento adicional e especial para Denilia Carneiro, Lis
Santos e Lih Santos. Motivação maior não há quando se sonha junto! O espaço
entre o capítulo e o texto é especial para você, Deni.
Aos meus parceiros poderosos, muito, muito obrigada!
50livros
a_magiadoslivros
alfasliterarias
anaflpimentta
betaliteraria
bibliovicio.da.jess
cafecomletras.oficial
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issoateparecemagia
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jujueoslivros
literatura.hot.livros
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lua.de.papel
mafiosas_literarias
maniaca_literaria
menina.que.amaler
minhapequenacolecao
ocantinhodaleituraa
paraleloliterario
Perfeição Lit
pro_funda
queen_of_literature
raposaliteraria
sayociosa
SussurrandoSonhos
totoroliterario
viciadosemliteraturanacional
vidadebibliotecaria
E, não menos importante, a você, querida encantada e leitora.
Obrigada por compartilhar esse sonho comigo! Espero que tenha feito uma boa
leitura.
Sobre a Autora

Mari Sales é mãe, esposa e escritora em tempo integral, analista de
sistema quando requisitada e leitora assídua durante as noites e madrugadas. Nos
intervalos entre suas vocações, procura controlar a mente para não se atropelar
em todas as ideias que tem. Entusiasta das obras nacionais de romance
contemporâneo, contribuiu com esse universo literário através do blog Resenhas
Nacionais e entrou no universo das publicações independentes em janeiro de
2017 com Superando com Amor, e desde então, não tem planos para parar tão
cedo.
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Outras Obras

Benjamin: https://amzn.to/2RWtizX
Sinopse: Marcados por uma tragédia em sua infância, os irmãos Valentini estão
afastados há muito tempo uns dos outros. Benjamin, o irmão mais velho,
precisou sofrer uma desilusão para saber que a família era o pilar de tudo e que
precisava unir todos novamente.
Embora a tarefa parecesse difícil, ele encontra uma aliada para essa missão, a
jovem Rayanne, uma mulher insegura, desempregada e apaixonada por livros,
que foi contratada para organizar a biblioteca da mansão e encontrar os diários
secretos da matriarca da família.
Em meio a tantos mistérios e segredos, o amor familiar parece se renovar tanto
quanto o amor entre um homem e uma mulher de mundos tão distintos.

Carlos Eduardo: https://amzn.to/2NNUxsX
Sinopse: Numa tentativa de mascarar seus fantasmas do passado, Carlos
Eduardo era um empresário que gostava de se exibir nas redes sociais e curtir a
vida de solteiro sem restrições. Todos o conheciam por sua irreverência, nada
parecia o afetar, até que o convite de casamento do seu irmão mais velho o fez
voltar as suas origens.
Disposto a confrontar Benjamin por conta dos laços de família que Rayanne
possuía, ele chegou na mansão Valentini disposto a derrubar tudo e todos,
porém, a mulher que não tem papas na língua e não leva desaforo para casa o
atropelou.
Letícia precisava de férias, sua rotina de trabalho obrigou seu chefe a dispensá-la
por alguns dias, levando-a a se dedicar exclusivamente à sua amiga Ray e os
mistérios da família Valentini.
Segredos descobertos e muita ação revelaram que o passado não era como eles
acreditavam e a urgência em unir todos da família se tornou primordial.
Arthur: https://amzn.to/2SxdeE5
Sinopse: Paula teve a difícil missão de enfrentar o irmão mais novo da família
Valentini. Metódico e recluso, a reunião para convencê-lo a ir no casamento de
Benjamin deveria acontecer juntamente com Carlos Eduardo, mas ela foi
sozinha. Confiante de suas habilidades, mesmo cercada pelos desastres que
causa, ela penetrou as barreiras de proteção desse irmão antes mesmo de saber.
A mulher que quebrou suas regras não deveria atraí-lo. A racionalidade não
deveria dar lugar para o impulso, mas foi isso que Arthur fez, mudou seus
limites e desafiou a mais centrada das amigas.
Ela não se intimidava facilmente. Ele não sabia o que estava por vir ao dar
brecha para que Paula pudesse agir.
Será que o amor, o mais indescritível dos sentimentos, sobreporia toda lógica
que rondava o irmão mais misterioso?


Antonio: https://amzn.to/2SvuF7W
Sinopse: Criado apenas para ser objeto de vingança contra um amor não
correspondido, Antonio seguia sua vida entorpecido pelos prazeres mundanos e
os estudos. Mal sabia ele que tudo isso fazia parte de um plano cruel e perigoso.
Josi seguiu seus instintos e tirou Antonio do fogo cruzado mesmo estando
confusa quanto à atração que sente por um homem com a mesma aparência do
namorado de Paula. Ela não era impulsiva quando se tratava de assuntos íntimos,
mas, da mesma forma que ela mexeu com o mundo de Tony, este abalou seus
conceitos e ideologias.
Uma festa, confusão e um rapto nem um pouco premeditado dão início à solução
dos mistérios que envolvem o sumiço do irmão Valentini bem como uma nova
saga em busca da mãe, a única que poderá finalmente esclarecer e dar um ponto
final as dúvidas.

Encantadas por Livros e Música: Primeira Temporada:
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Sinopse: Os dez contos da primeira temporária da série Encantadas por Livros e
Música está aqui, com um capítulo bônus final.

10 contos em um só livro! Serão várias páginas de muito amor, emoção e
erotismo.

O Desejo de Leo
O Sonho de Justin
A Aposta de Kant
A Farsa de Evandro
O Charme de Alex
O Rompante de Well
O Retorno de Fabiano
A Escolha de Bruno
A Marca de Ryan
A Promessa de Thor
Selvagem Moto Clube: https://amzn.to/2QlULdz
Sinopse: O presidente do Selvagem Moto Clube está gravemente doente e um
sucessor precisará ser escolhido antes que John morra. O vice-presidente deveria
ser o herdeiro legítimo, mas seu mal caráter e negócios ilícitos fazem com que
essa vaga seja disputada.
John nunca quis que sua família se envolvesse com seu Moto Clube, mas sua
filha Valentine entra na disputa pela presidência e nada mudará sua decisão. No
meio dessa disputa entre o comando do Selvagem, Doc é o único homem que ela
poderá confiar para lutar pelo Moto Clube e quem sabe pelo seu coração, que há
muito foi judiado por outro motociclista.
Entre a brutalidade e o preconceito, Doc e Valentine encontrarão muito mais do
que resistência nos membros do Moto Clube, mas intrigas e traição.
Aranhas Moto Clube: https://amzn.to/2x62CDU
Sinopse: Ter um relacionamento afetivo nunca foi preferência na vida de Rachel
Collins. Seu trabalho e seu irmão eram as únicas prioridades, até que seu
caminho cruza com o de Victor Aranha em um tribunal, em lados opostos. O
homem de postura arrogante e confiante, presidente de um Moto Clube, abalou
os planos da advogada.
Tempos depois, os dois se encontram informalmente e a chama adormecida se
acende. Prudente e competente, Rachel acaba em conflito de interesses ao ser
convidada por Victor, para uma noite sem compromisso. O lado pessoal dos dois
estava pronto para colocar em risco tudo o que construíram.
Ela seguia as leis. Ele as quebrava.
Victor precisa de assessoria jurídica, e claro que convoca a atrevida Rachel
Collins. Tentada pelo desafio, acaba envolvida em muito mais do que suas teias,
mas no lado obscuro do Aranhas Moto Clube.

Piratas Moto Clube: https://amzn.to/2QpLOzN
Sinopse: Ser o presidente do Piratas Moto Clube nunca tinha passado pela
cabeça de Richard Collins, um homem respeitado e de valores tradicionais. Ele
assumiu o posto de chefe de família muito cedo e isso trouxe sequelas para sua
confiança. Apesar disso, ninguém sabia que debaixo daquela postura firme e
cheia de argumentos morava um homem assombrado pelas suas limitações.
Nina está envolvida em todos os assuntos dos seus amigos, principalmente
quando Richard, seu Lorde da vida, está em causa. Quando ele precisa de
proteção extra, além do que já tem por causa de JFreeman, ela não só se
voluntaria, mas decide investir, finalmente, na sua atração pelo homem que é o
verdadeiro príncipe de terno e gravata.
Apesar de serem de mundos diferentes e com convicções completamente
opostas, as circunstâncias colocarão à prova tudo o que acreditam, inclusive seus
próprios medos.
As aparências trazem julgamentos precipitados e as histórias de família mal
contadas também. Existem muito mais segredos pirateados do que ocultos nessa
história.

[1]
Minha bela.
[2]
Não.
[3]
Minha perdição.
[4]
Você me faz perder o juízo.
[5]
Não fique brava comigo, por favor.
[6]
Irresistível.
[7]
Avó.
[8]
Que bom que chegou.
[9]
Criança.
[10]
Fera.
[11]
Desculpa.
[12]
Menstruada.
[13]
Tchau.
[14]
Te quero tanto.
[15]
Por que é tão perfeita?
[16]
Apesar de ter te marcado, você se tatuou dentro de mim.
[17]
Senti tanta a sua falta.
[18]
Por que não te conheci antes?
[19]
Boa noite.
[20]
Quero transar com você.
[21]
Que se foda.
[22]
Meu amor.
[23]
Não faça mais isso comigo. Não sei viver sem ter você.
[24]
Te amo também.
[25]
Meu filho.
Table of Contents
Dedicatória
Sinopse
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Capítulo 54
Epílogo
FIM
Agradecimentos
Sobre a Autora
Outras Obras