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Caras/os alunas/os,

O que nos importa para o momento é identificar e discernir as contribuições de dois


importantes precursores da psicanálise: Jean-Martin Charcot e Josef Breuer.

Tanto Charcot quanto Breuer desenvolveram suas experiências utilizando o método hipnótico
e tiveram uma influência direta sobre o pensamento freudiano no período pré- psicanalítico.

Segue-se então um pouco da história de Jean-Martin Charcot

Este importante neurologista, considerado o pai da neurologia moderna, desenvolveu suas


experiências na clínica Sapêtrière, em Paris, no final do século XIX. Charcot era o diretor clínico
da Salpetirère e, enquanto tal, dispunha de um farto material de pesquisa, devido aos milhares
de pacientes que, à época, se encontravam asilados naquele espaço.

O objetivo de Charcot era o de estabelecer diagnósticos diferenciais entre a histeria e outras


afecções de ordem neurológica. Para isso, contava inicialmente com a investigação post
mortem dos pacientes, ou seja, na medida em que ocorriam os óbitos na Salpêtirére, Charcot e
seus auxiliares procediam a dissecação anatômica dos cadáveres para verificar a ocorrência, ou
não, de lesões anatômicas no sistema nervoso que justificassem a existência do sintoma
apresentado pelo paciente em vida.

Porém, esse procedimento tornou-se ao longo do tempo insatisfatório e Charcot passou a


utilizar em suas investigações um método considerado pelos médicos e pela comunidade
científica de sua época como charlatanismo. Esse método era a hipnose.

Como vimos no “Estudo auto-biográfico” quando Freud foi ao encontro de Charcot, no final do
ano de 1885, o pai da psicanálise já demonstrava interesse pelo estudo e tratamento das
“doenças nervosas”, na medida em que se especializava em neurologia. Ao seguir de Viena à
Paris para assistir durante seis meses as apresentações clínicas de Charcot, Freud já tinha
conhecimento de um tratamento inusitado efetuado por Josef Breuer com uma paciente, cujo
pseudônimo seria Anna O. (Bertha Pappenheim). Breuer portanto havia relatado a Freud a
história desse tratamento efetuado através do método método catártico. Sobre esse assunto
falaremos em outro momento...

Voltando a Charcot, nos importa, por enquanto, conhecermos suas experiências com a hipnose
e as consequências teóricas e práticas desses experimentos.

Em suas apresentações clínicas, ao utilizar a hipnose, Charcot tanto produzia quanto suprimia
sintomas histéricos a partir de sugestões pós-hipnóticas. Ver filme “Freud, além da alma”

Frente a uma plateia de médicos, no anfiteatro da Salpêtrière, Charcot e seus auxiliares


colocavam os pacientes em estado hipnótico, e era sugerido a eles que deixassem de
apresentar os sintomas assim que um estímulo lhes fosse apresentado (um estalo de dedos,
por exemplo). A conclusão de Charcot era a seguinte: se o paciente depois de uma sugestão
pós hipnótica deixasse de apresentar o sintoma, este último não derivava de nenhum tipo de
lesão anatômica do sistema nervoso e a origem do sofrimento seria de ordem histérica. Mas
restava a questão: de onde deriva a histeria?

Além de suprimir sintomas histéricos dessa forma, Charcot também induzia os pacientes
hipnotizados a apresentarem outros sintomas, ou seja “criava” sintomas histéricos por
sugestão pós hipnótica. Ora, se sintomas histéricos podiam ser criados e suprimidos por
sugestão pós hipnótica, logo se esboça a ideia de que existe no psiquismo dos seres humanos
uma divisão entre um estado mental consciente e outro estado mental do qual essa
consciência a priori nada sabe: o inconsciente (não-consciente ou não sabido). Esse é um dos
grandes legados de Charcot.

Por outro lado, em suas investigações na Salpêtrère, Charcot descobre que os sintomas
histéricos tendiam a surgir tempos depois de algum evento traumático que havia sido
suprimido da consciência do sujeito. Ou seja, ao investigar a vida pregressa de alguns
pacientes, descobria que estes haviam vivenciado algum tipo de experiência traumática,
suprimido essa experiência da consciência e, no lugar dessa experiência suprimida, surgia,
tempos depois, algum tipo de sintoma histérico. Esboça-se aqui uma teoria propriamente
psicológica sobre a origem da histeria, embora bastante tosca.

Cabe ressaltar que, apesar de criar e suprimir sintomas histéricos a partir de sugestões pós
hipnóticas, não era pretensão de Charcot encontrar a “cura” para a histeria. A supressão dos
sintomas apenas ocorria quando o paciente se encontrava hipnotizado. Ao sair desse estado,
os pacientes voltavam a apresentar os sintomas e para Charcot não havia possibilidade, nem
interesse, de tratar a histeria.

Seu interesse primordial era o de provar a autenticidade dos fenômenos histéricos, ao


contrário da maioria dos médicos da época, que consideravam esses sintomas como
fingimento ou simulação, pelo fato de não encontrarem nenhuma lesão orgânica que
justificasse a sua existência.

Ainda, segundo Freud, outro legado importante de Charcot para o desenvolvimento da


psicanálise, foi o ensinamento de que, para podermos ter um olhar imparcial sobre os
fenômenos, precisamos deixar toda e qualquer teoria prévia de lado e nos atermos à
observação dos fatos. A observação sempre em primeiro lugar, para, a partir daí, poder
descobrir as leis que regem o fenômeno.

Esse ensinamento vai nos servir quando abordarmos em um próximo momento as


experiências de Josef Breuer com Anna O. e as decorrência destas para o desenvolvimento do
método e da teoria psicanalítica.

Ressalte-se, por último, uma descoberta “incômoda” feita por Charcot: a de que a histeria não
acometia apenas mulheres, ou seja, homens também podiam desenvolver sintomas do tipo
histérico. Freud, ao comunicar essa descoberta de Charcot na Sociedade de Medicina de Viena,
encontrou fortes objeções uma vez que, historicamente, a palavra histeria provem do grego
Hysteron (útero) e os fenômenos histéricos, como vimos, desde a antiguidade grego-romana
foram associados às mulheres.

https://youtu.be/IBISqHY-9pY

https://youtu.be/sY07tx52ySY
Em primeiro lugar "empatia" não é um conceito psicanalítico e sim uma qualidade
humana de conseguir se colocar no lugar do outro, poder imaginar o que se passa com
ele e. além disso, implica em um respeito pelo sofrimento do outro, por mais que este
seja diferente do nosso. 
O conceito de transferência surge na teoria freudiana apenas no ano de 1905, quando, ao
publicar o caso Dora, Freud aborda um fenômeno relacionado à repetição no tratamento
psicanalítico, quando percebe que o sujeito tende a reeditar no tratamento, com seu
analista, certas demandas que originalmente seriam dirigidas às pessoas significativas
de seu passado, em geral da infância, tais como pai e mãe, ou aqueles que o
substituíram, por exemplo. Quanto a responder se essa transferência tem um teor sexual,
é importante, antes de mais nada, que possamos elucidar qual é o entendimento de
Freud sobre sexualidade. Já comentamos em outro momento que para Freud a
sexualidade é de ordem do pulsional e não pode ser confundida com genitalidade.
Portanto, a sua questão que sobre a relação da transferência com a sexualidade do
sujeito só poderá ser abordada um pouco mais adiante, quando tratarmos do conceito de
sexualidade e pulsão. 
Finalmente, a capacidade de empatia é requisito básico para qualquer prática que se
proponha a ser de alguma ajuda para outro ser humano.
Por óbvio, para que a transferência ocorra como um fenômeno no âmbito do tratamento
psicanalítico, é fundamental, antes de mais nada, que o analista tenha a capacidade de
uma escuta empática.  
 
Com relação a sua primeira dúvida:
 
Breuer e Freud publicaram os "Estudos Sobre a Histeria" no ano de 1895 (Vol. II das
Obras Completas de Freud). Nessa obra constam os relatos de cinco casos de histeria,
tratados fundamentalmente através do método (hipno) catártico. O primeiro deles,
escrito por Breuer, é caso Anna O. Os quatro casos restantes foram tratados por Freud.
O método (hipno) catártico tinha limitações sobre até onde poderia chegar a
investigação a respeito da origem dos sintomas histéricos. Através desse método,
estando o sujeito hipnotizado, o médico perguntava ao paciente sobre o evento que
havia originado o sintoma, com o intuito de que esse evento fosse "revivido" com a
exteriorização do afeto que havia sido suprimido no momento da cena original (catarse).
Portanto, se investigava, sobretudo o evento desencadeante de cada sintoma. Mais tarde,
Freud descobre que nunca é um único evento que está na origem de um sintoma, senão
uma sucessão de eventos que se ligam um ao outro, desde o mais atual (desencadeante)
até outros, mais remotos na vida do sujeito.  Pelo fato de o método (hipno) catártico ser
algo mais "superficial" em muitos casos não se conseguia alcançar a origem mais
remota do sintoma, que, segundo Freud descobre mais tarde, seria "sexual" no sentido
de algo ligado à sexualidade infantil, sobre a qual falaremos no tópico III.
 
Segunda questão:
 
Aqui Freud se refere a uma primeira divergência entre ele e Breuer a respeito do
mecanismo que originava um sintoma histérico. Para Breuer um sintoma histérico
surgia quando o sujeito se encontrava em um estado "hipnóide", ou seja, em um estado
de rebaixamento da consciência (turvação da consciência) que precipitava o surgimento
do sintoma.
Para Freud, por outro lado, o sintoma histérico era decorrente de uma defesa do sujeito
contra algum conteúdo representacional incompatível com sua consciência, ou seja, uma
ideia que não podia ser admitida pela consciência, era afastada desta por meio da ação
da censura (portanto se tornava inconsciente) e aparecia representada de maneira
metafórica, através de um sintoma. Nesse sentido, o sintoma se afigurava como um
representante deformado de uma ideia insuportável  para ser admitida na consciência do
sujeito, devido a seus padrões éticos e morais.

Quanto ao fator energético ao qual Freud se refere, diz respeito ao processo de conversão.
Segundo Breuer,  um afeto vinculado a uma situação vivida pelo sujeito, não externalizado no
momento propício, é represado pelo sujeito e acaba por escoar por outra via, no caso da histeria
conversiva pela via somática. Então o sintoma apresentado no corpo do sujeito histérico seria uma
representação daquilo que não pode ser dito, nem externalizado do ponto de vista afetivo no
momento apropriado. Seria o famoso "engolir sapos" que vivemos na nossa vida civilizada. Como
exemplo: vc "engole um sapo", afasta a situação de sua consciência e, algum tempo depois, sente
fortes dores de cabeça não justificadas por uma condição orgânica. Por isso, Anna O. apelidou o
tratamento efetuado por Breuer de "limpeza de chaminé", pois, metaforicamente, quando a chaminé
está obstruída, a fumaça tende a escoar por outra via. Quando vc limpa a chaminé, a fumaça volta a
escoar pela via normal.

 
Olá Adriele,
 
1- O método utilizado por Breuer com Anna O. era o (hipno) catártico, ou seja, em
primeiro lugar a paciente era hipnotizada e em seguida Breuer fazia perguntas a ela a
respeito da situação que gerou cada um dos seus sintomas (era tratado um sintoma de
cada vez).
Assim, se a lembrança viesse acompanhada de exteriorização afetiva (catarse) ocorria a
cura do sintoma. Explicarei isso melhor na primeira parte de um áudio que estou
produzindo para enviar para vcs.
 
Breuer deu o caso por "resolvido" em 1882, dois anos depois do início do tratamento,
pois a paciente já estava curada dos sintomas mais incapacitantes, porém, logo depois
de ser comunicada sobre a interrupção do tratamento, Anna O. teve uma recaída
violenta e, num ataque histérico, dizia que estava nascendo o filho que ela teria com dr
Breuer. Este ficou muito assutado ao presenciar essa cena, pois não havia, de fato,
ocorrido nada de "sexual" entre ele e sua paciente. Anos mais tarde, Freud deu-se conta
de que essa manifestação de Anna O. derivava de um fenômeno que ele denominou de
Transferência (1905).
Enfim, de fato Anna O. não foi completamente curada (por outro lado, a cura completa,
como algo ideal, não existe), sabe-se que ao longo de sua vida passou por vários
instituições para tratamento de saúde. Contudo, conseguiu levar uma vida relativamente
satisfatória e se tornou a precursora da assistência social na Alemanha, conforme indica
o professor Düncker em um dos vídeos enviados.
 
Cabe salientar que, ao contrário do que mostra o filme "Freud, além da alma", Freud
não deu continuidade ao tratamento de Anna O. (representada, em parte, no filme pela
personagem Cecily.
 
 
Abraço!

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