Você está na página 1de 18

METODOLOGIA

DO ENSINO DA
LINGUAGEM

Roberta Spessato
História da língua
portuguesa: alguns
apontamentos
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Reconhecer a origem da língua portuguesa e a importância do seu


estudo.
 Identificar as diferenças entre a língua portuguesa e o português
brasileiro.
 Relacionar as variações da língua portuguesa de forma didática.

Introdução
Um dos maiores desafios das aulas de português diz respeito, sem dú-
vida, ao tratamento que o professor deve dar à variação linguística e aos
saberes gramaticais. Para que os desafios não sejam tão perturbadores,
é preciso conhecer não somente a origem da língua portuguesa, mas
também contrastá-la com a sua história no Brasil.
Neste capítulo, você vai estudar a origem da língua portuguesa. Você
também vai ver quais são as principais diferenças entre a língua portu-
guesa europeia e a brasileira. Além disso, vai conhecer alguns contrastes
entre ambas.

1 A origem da língua portuguesa


Os estudos linguísticos representam uma das mais antigas ciências exis-
tentes na humanidade. Neves (2004) pontua que os primeiros estudos sobre
a natureza da linguagem foram desenvolvidos pelos gregos por volta do
século V a.C.
2 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

Nas primeiras manifestações investigativas, a língua era estudada em uma


perspectiva filosófica, em que representava a expressão do pensamento. Aos
poucos, questionamentos sobre flexão verbal, estruturas e outros elementos
foram surgindo, juntamente às transformações linguísticas. De acordo com
Silva (1996), foi com o latim clássico, em Roma, no século I d.C., que ocorre-
ram os primeiros estudos gramaticais de uma língua diferente do grego. Com
os estudos atuais, sabe-se que a língua é um reflexo social e uma forma de
imperialismo e unificação cultural.
O Império Romano e a sua dominação foram decisórios para a formação das
línguas neolatinas atuais. Os romanos, além de estudiosos, desenvolveram o con-
ceito de civilização e deixaram várias construções como legado. A sua dominação
não foi repentina; pelo contrário. Estudos alegam que os romanos chegaram à
península por volta de 206 a.C. e, desde então, iniciaram um processo de dominação
territorial. Com essa dominação, a língua latina foi imposta em todo o território.
Assim, após séculos de plurilinguismos, diversos idiomas foram deixando de ser
usados pelos habitantes, e o latim passou a ser a língua predominante.
Embora tenha existido uma imposição linguística, a sociedade compro-
vadamente se modifica, e a língua é um dos espelhos sociais; ou seja, se a
sociedade não é uniforme, a língua tampouco o será. Portanto, assim como há
variantes linguísticas nas línguas contemporâneas (como mostram os estudos
sincrônicos atuais), o latim também possuía “subdivisões”: o latim clássico e
o latim vulgar. O primeiro era usado pelas classes dominantes do Império e
também por poetas, senadores, filósofos, etc. Ele se caracterizava por ser o latim
correto, culto. O segundo, além de ter características de outros idiomas falados
pelos povos dominados, era utilizado pelas classes consideradas mais baixas.
Por muitos séculos, Portugal passou por diferentes guerras e invasões;
concomitantemente, a língua portuguesa foi se transformando até configurar
o idioma que você conhece atualmente. Segundo Cardeira (2006), há quatro
fases primordiais para a língua portuguesa: o português antigo ou arcaico, o
português médio, o português clássico e o português moderno.
No século XIII, no reinado de D. Dinis, o português arcaico foi adotado
como língua escrita. Esse idioma, de acordo com a autora, foi utilizado no
pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais (1173–1175) e no testamento de Afonso
II (1214), entre outros documentos escritos em português antigo. No entanto,
em função da diversidade linguística, ao lado do português antigo, com os
trovadores, se originava a produção poética galego-portuguesa.
O português médio, não sendo ainda a língua escrita por Camões, floresceu
no início do século XV. Essa época é fundamental para a autonomia da língua
portuguesa, pois o seu uso passou a fazer parte da cultura de Portugal. Cardeira
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 3

(2006, p. 64) afirma que “[...] um processo de grande expressão do português a


partir do século XV é a relatinização do português [...]”, pois mesmo que a língua
portuguesa tenha atingido a sua autonomia em estudos escolares e na universidade
apenas no século XVII, o primeiro passo foi dado, pelo menos, 200 anos antes.
Além disso, essa fase se caracterizou por separar o galego do português.
A expansão da língua portuguesa foi resultado da necessidade de afir-
mação nacional e de consolidação de uma nova monarquia, o que ocorreu
juntamente às grandes navegações. Como você viu, no Império Romano, o
latim se tornou a língua oficial por uma questão de imposição linguística,
o que também ocorreu com o português. Somente com a queda do Império
Romano, com a crise feudal e com a proclamação de independência pelo rei
D. Afonso Henriques, o país renasceu para uma nova época: a época das
grandes navegações e dos descobrimentos. A história se repetiu, pois os que
antes foram dominados passaram a ser os desbravadores e dominadores, e a
sua dominação incluía a imposição linguística.
A época das grandes navegações foi essencial para a formação do por-
tuguês clássico. Com o avanço das conquistas, os portugueses descobriram
novas terras, novas línguas e novas realidades. A relação com o catolicismo
e a necessidade de dominação cultural oficializaram não apenas a língua
portuguesa, mas também a espanhola. Portugal e Espanha foram duas nações
muito fortes na época do descobrimento do Brasil. O reino de Castela, que
deu origem à língua espanhola, se viu diante do mesmo problema de Portugal:
precisava dominar as novas nações conquistadas. Além disso, segundo Azeredo
(2001), essa fase foi marcada pelo Renascimento Cultural e Urbano (séculos
XV a XVIII), e nele surgiram as primeiras gramáticas das línguas vernáculas.
Portanto, a primeira gramática das línguas neolatinas ou românicas foi a
gramática espanhola, nomeada Gramática de la lengua castellana e escrita por
Elio Antonio de Nebrija em 1492. Portugal, após chegar ao Brasil, em 1500,
percebeu a mesma necessidade, então a normatização da língua foi iniciada.
A primeira gramática da linguagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, data de
1536, enquanto a gramática de João de Barros foi publicada em 1540. Ambas
foram fortemente inspiradas nas gramáticas clássicas.
Essa fase foi substancial para o português. Junto com a primeira gramática
do português, o último auto de Gil Vicente é representado e, ainda, nessa
mesma época, se fundou o Santo Ofício da Inquisição. Gil Vicente estabelece
a ponte linguística e cultural entre o português médio e o clássico. Além disso,
a língua não é mais vista pelos portugueses somente como forma de comu-
nicação, mas como objeto em si. Ou seja, a noção da importância linguística
para a consolidação de um império é estabelecida.
4 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

O interesse pela língua como objeto a ser estudado, organizado e planifi-


cado é reflexo do Humanismo. As gramáticas e os dicionários surgem de um
movimento europeu que tinha o objetivo de unificar e defender as línguas
nacionais. A partir disso, Cardeira (2006, p. 69) afirma que “[...] nacionalismo,
ideal unificador e expansionista traduzem-se em preocupação com o ensino
da língua portuguesa. Multiplicam-se as gramáticas, os vocabulários e as
cartilhas [...]”.
No fim do século XVII, o português era uma língua em expansão, sendo
disseminado por escritores renomados até os dias atuais. O racionalismo dos
séculos XVII e XVIII, na óptica de Azeredo (2001), reforçou a ligação entre
a linguagem e o pensamento, considerando “abusos” ou “imperfeições” tudo
o que estivesse fora dessa concepção de língua.
Embora os séculos XVII e XVIII sejam momentos importantes para a
consolidação da língua portuguesa, eles fazem parte de um período transitório.
O século XVIII simboliza a nova fase do português: o português moderno.
Em 1759, a Companhia de Jesus é expulsa de Portugal e o monopólio educa-
cional jesuítico se acaba. Com isso, constitui-se a Escola dos Nobres e a Academia
Real da Ciência e reforma-se a universidade. O ensino de língua portuguesa
e línguas modernas passa a integrar o currículo escolar e pesquisas de cunho
linguístico começam a fazer parte da educação portuguesa. Uma consequência
desse ensino foi a fixação da norma culta, o que se reflete até os dias atuais.
Todavia, embora o século XVIII tenha sido substancial para o português
moderno, Portugal viveu uma história paradoxal em sua existência. Veja:

Quando se inicia o português moderno, no século XVIII, Portugal encontra-se


dividido entre Europa e Brasil e entre um pensamento conservador e uma nova
mentalidade. Na Europa, as inovações tecnológicas “iluminavam” o conhe-
cimento; no Brasil, as riquezas agrícolas e minerais atraíam a emigração e
alimentavam, em Portugal, um trono absolutista e uma aristocracia nobiliária
e clerical (CARDEIRA, 2006, p. 74).

Essa situação perdurou boa parte do século XVIII, mas a coroa não ima-
ginava que o Brasil, no século XIX, seria oficialmente a sua nova casa. Em
1808, após a invasão francesa, enquanto a Inglaterra combatia os franceses
em Portugal, a corte portuguesa se instalou no Brasil.
A história da língua portuguesa, a partir dessa data, é demarcada por uma
nova fase, da qual fez parte a expansão oficial do português culto de Portugal,
mas também a identidade nacional do português brasileiro como outra língua.
Conhecer a história da língua portuguesa europeia e a imposição linguística no
Brasil é fundamental para a compreensão do português brasileiro falado hoje.
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 5

As grandes navegações se caracterizam pela sua importância em relação à expansão


territorial portuguesa. Nessa época (entre os séculos XV e XVI), o português atingiu
todos os continentes; contudo, mesmo após essa visita, a língua portuguesa se “instalou”
apenas em alguns locais. O português, em decorrência da colonização, é a língua
oficial no Brasil, na Angola, na República Democrática de São Tomé e Príncipe, em
Moçambique, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

2 Português lusitano e português brasileiro


A língua é um reflexo da sua comunidade falante. Para Calvet (2002, p. 12),
“[...] as línguas não existem sem as pessoas que as falam, e a história de uma
língua é a história de seus falantes [...]”. Embora exista uma suposta unificação
da língua portuguesa, é necessário explicitar que a língua portuguesa lusitana
e a língua portuguesa brasileira são duas línguas com duas histórias diferentes.
Anteriormente, você conheceu a origem da língua portuguesa lusitana.
Como você viu, ela se constituiu, oficialmente, há quase 900 anos, ou seja,
tem praticamente o dobro da idade da língua portuguesa brasileira. Por isso,
para que você compreenda as diferenças existentes entre as duas vertentes
do português, é necessário que reflita sobre a história da língua portuguesa
no Brasil.

A origem do português brasileiro


A história do Brasil, após as grandes navegações e a chegada do homem branco,
é marcada pelo plurilinguismo, em função de todos os contatos linguísticos
que aconteceram desde o século XVI. Mello (2011, p. 175) declara que “[...]
o contato inicial entre os portugueses e os povos indígenas de línguas tupis-
-guaranis levou à formação da língua brasílica, que chegou a ser falada como
língua materna por parte da população da área que hoje é a cidade de São Paulo
[...]”. Na óptica de Battisti (2014), na época do Brasil colonial (1530–1815),
o português teve contato com as línguas indígenas faladas pelos nativos
brasileiros e as línguas africanas dos mais de quatro milhões de escravos.
Desde 1500, mesmo que a língua oficial do Brasil tenha sido o português,
o País nunca foi monolíngue. Como você viu, desde a imposição inicial do
português, a comunidade já falava línguas indígenas, e o contato não se deu
6 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

“apenas” com línguas africanas, mas também com outras nações europeias,
por exemplo, com os espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. E isso se
refere apenas aos primeiros 300 anos desde o descobrimento. Inclusive, Mello,
Altenhofen e Raso (2011, p. 13) afirmam que, “[...] ao longo dos mais de
cinco séculos depois do descobrimento, no território brasileiro, conviveram,
comunicaram e se misturaram populações ameríndias, europeias, africanas e
asiáticas. Se a língua-teto foi o português, essa língua conviveu e ainda convive
em lugares e domínios do repertório com muitas outras [...]”.
Battisti (2014) afirma que foi no Brasil colonial que se consagrou a iden-
tidade nacional, sustentada pela tríade branco, índio e negro. Além disso,
para a autora, foi também no plano linguístico que surgiram características
definidoras do português brasileiro, como a colocação de pronomes antes do
verbo em início de sentença (“Me viu” em lugar de “Viu-me”).
Na visão de Mello (2011), a língua portuguesa se consolidou no Brasil após
a vinda da família Real, em 1808, e a ampliação da escolarização no século
XIX. Além disso, para Andreazza e Nadalin (2011), a descoberta do ouro no
século XVIII atraiu a vinda espontânea de outros colonos portugueses sedu-
zidos pela possibilidade de enriquecer com a mineração, o que favoreceu a
ocupação em lugares até então não colonizados, como Goiás e Mato Grosso.
E, obviamente, se fez necessária uma nova leva de importação de africanos.
A situação inicial de plurilinguismo foi gradualmente desaparecendo, e
o português, paulatinamente, passou de língua oficial a língua efetivamente
falada por uma população mestiça, na qual o branco sempre ocupou o topo
da hierarquia social. Calvet (2002) afirma que existe um conjunto de atitudes
e sentimentos dos falantes para com as suas línguas, para com as variedades
de línguas e para com aqueles que as utilizam. Ou seja, se o homem branco,
português, ocupa o topo da hierarquia social, a tendência é que a sua língua
seja instaurada paulatinamente na sociedade.

A perspectiva linguística desde


a independência do Brasil
A família real, que vivia no Brasil desde 1808, após a Revolução Liberal do
Porto, em 1820, teve de voltar à sua terra de origem. O rei, D. João VI, havia
deixado seu filho D. Pedro II como governante representante da corte por-
tuguesa; no entanto, em 1822, o príncipe declara a independência do Brasil,
tornando-se imperador dessa nação.
O português brasileiro se formou a partir de uma língua base portuguesa,
trazida pelos colonizadores, adquirida como segunda língua por milhões de
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 7

africanos e por povos indígenas. Tal língua foi alterada pela influência de outras
nações europeias desde o início da colonização e continuou em permanente
evolução por meio de outros contatos linguísticos que ocorreram após 1822.
A partir da independência, segundo Andreazza e Nadalin (2011), construía-
-se uma nova sociedade, em que o objetivo era povoar e branquear a nação,
ou seja, o imigrante passou a ser extremamente necessário para “trazer o pro-
gresso” e “domar o interior selvagem”. O desenrolar desse propósito permitiu
que, desde o final do século XIX e em grande parte do século XX, entrassem
mais de cinco milhões de estrangeiros no Brasil. Ou seja, entre meados de
1820 e 1970, houve a entrada de imigrantes italianos, alemães, espanhóis,
ucranianos, poloneses e japoneses para ocupar pequenas propriedades em
colônias, principalmente no Sul do País.
No entanto, a entrada dos imigrantes, embora tivesse o objetivo de bran-
quear a nação, nem sempre foi vista com bons olhos. Segundo Croci (2011), a
abolição da escravidão, em 1888, ocorreu devido a um significativo movimento
de desobediência dos escravizados, resultando na fuga em massa dos afro-
descendentes. Os negros estavam montando suas comunidades quilombolas
e a mão de obra ficava cada vez mais escassa. Por questões de necessidade e
por pressão social de parte da sociedade intelectual abolicionista, a Lei Áurea
foi assinada.
Em função disso, o País viveu numa contradição entre os que detinham
o poder: enquanto os latifundiários apenas buscavam substituir o trabalho
escravo, a burocracia imperial e a intelectualidade estavam preocupadas com
o mapa social e cultural do País. Estas tinham como meta transformar a imi-
gração em um processo civilizatório, com o objetivo de construir a identidade
nacional. Elas se inspiravam em teorias sobre o branqueamento populacional
e almejavam a “melhora” da raça brasileira.
Croci (2011) afirma que a entrada de imigrantes europeus foi estratégica
para a operação de branqueamento da sociedade que estava em formação.
Mesmo que os imigrantes tivessem “ganhado terras”, as suas condições eram
subalternas; além disso, quando a sua cultura passou a ser inserida de maneira
efetiva na sociedade, mesmo brancos, antes desejados, passaram a ser indese-
jáveis. Em função das promessas não cumpridas e das péssimas condições de
trabalho, o fluxo de saída dos imigrantes europeus foi superior ao de entrada.
Dessa forma, em 1902, foi expedido, pelo governo italiano, o decreto Prinetti,
no qual o governo italiano afirmou que o governo brasileiro tratava seus
imigrantes como “escravos brancos”, proibindo a emigração subvencionada.
Por necessidade de mão de obra, o Brasil conseguiu firmar com o Japão
uma solução imediata. Portanto, em 1907, Brasil e Japão firmaram um acordo
8 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

migratório. No entanto, o governo japonês, além de possuir uma cultura com-


pletamente diferente da brasileira, era mais imperialista do que os governos
europeus. Por isso, tal acordo não agradou aos governantes, tampouco à elite
brasileira.
Com o aumento vegetativo e o aumento de imigrantes, em 1900, segundo
Andreazza e Nadalin (2011), havia 17.318.556 habitantes no território brasileiro;
em 1960, já eram 70.967.185 habitantes. As metrópoles brasileiras foram se
formando e se consagrando multiétnicas, assim como configurando a sua
cultura e a sua variedade linguística. Mello, Altenhofen e Raso (2011, p. 19)
afirmam que, “[...] apesar de o Brasil parecer um país monolíngue, é um dos
territórios com maior densidade linguística do mundo [...]”.
Além disso, com os processos de globalização, a internet e o turismo, por
exemplo, o Brasil, por ser um país ainda muito jovem e pluricultural, absorve
constantemente novas características na sua fala. Mello (2011) é contra a visão
de que o português do Brasil é uma evolução linguística do português lusitano.
Para a autora, não existiu um processo de crioulização e descrioulização, ou
seja, o português falado no Brasil não se formou apenas a partir da imposição
do português falado em Portugal, mas também foi composto por inúmeras
línguas indígenas, africanas, europeias, etc.

A relação atual entre a língua portuguesa brasileira


e a lusitana
A relação entre a língua do colonizador e a língua do colonizado é um tema
bastante discutido. Questiona-se, por exemplo, qual é a relação existente entre
o português brasileiro e o português europeu, ou entre o espanhol europeu
e o espanhol americano. Trata-se de uma mesma língua, ou estão em jogo
dois idiomas?
Essa pergunta está continuamente presente na relação entre o espanhol e
o castelhano, mas não na relação entre o português do Brasil e o português
de Portugal. Por incrível que pareça, o desconhecimento é algo extremamente
relevante para tal questionamento. Isso porque existe uma unidade muito maior
no espanhol, que tem oficialmente 22 países falantes, do que no português,
que possui cinco.
A unidade presente na língua espanhola e a identidade contrastante entre a
língua portuguesa brasileira e a lusitana se relacionam diretamente a aspectos
históricos. Na época do Renascimento e do descobrimento, publicaram-se
muitas gramáticas latinas inspiradas na literatura greco-romana. Foi nesse
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 9

momento, mais especificamente em 1492 (ano de descobrimento da América),


que o latinista Elio Antonio de Nebrija foi convidado pela coroa de Castela
(que deu origem à Espanha) para escrever a primeira gramática da língua
castelhana. Essa publicação é um marco na história das gramáticas das lín-
guas românicas, pois na Europa não havia nenhuma gramática de qualquer
língua vulgar. O italiano teve sua primeira gramática em 1529, o português,
em 1536, e o francês, em 1550. A Espanha foi a precursora na normatização
das línguas latinas vernáculas.
Com a normatização linguística, seria possível não somente criar uma
unidade linguística para propagar o idioma perpetuamente, mas, principal-
mente, usar a língua como ferramenta na manutenção da unidade dos países
conquistados. A partir disso, era possível criar material pedagógico para
ensinar uma língua nacional aos povos colonizados.
O uso de material pedagógico como objeto unificador de um povo foi
fundamental para todos os países que fizeram parte das grandes navegações,
inclusive para o Brasil. No entanto, a Espanha, além de vanguardista em relação
à primeira gramática, em 1713, pela necessidade de manter o controle nas suas
colônias, inaugurou a Real Academia Española, uma academia linguística
existente até hoje e que normatiza, aceita as variantes da língua espanhola
de diferentes países e unifica o idioma. Ela é a referência mundial do que se
pode ou não aceitar no espanhol.
Não há diferença — nem na prática, nem na teoria — entre o espanhol
e o castelhano, já que se trata de um mesmo idioma. Assim, a comunicação
entre um argentino, um espanhol e um chileno, mesmo com sotaques dis-
tintos, é fluida, como no caso de um amazonense e um gaúcho dialogando.
No entanto, a comunicação entre um português e um brasileiro não obtém
o mesmo sucesso, pois, mesmo que Portugal tenha se inspirado na Espanha
para a confecção de sua primeira gramática, a unificação oficial da língua
portuguesa aconteceu apenas em 2009, com a última reforma ortográfica.
Essa unidade linguística do português é ilusória, pois não se unifica algo
artificialmente. Além disso, se não existisse a fala, a gramática nunca nas-
ceria. Em contraste, há uma unidade na língua espanhola que foi imposta e
construída ao longo de séculos.
Sabendo que a língua é o reflexo da sociedade, ao comparar a história
do português lusitano à história do português brasileiro, é possível perceber
que se tratam de duas línguas. E, por mais que exista uma forma padrão no
português brasileiro, há diferentes variantes que constituem essa unidade
linguística repleta de identidade.
10 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

O português do Brasil é uma língua que tem uma unidade dentro da sua
variedade territorial, mas não tem tal unidade em relação ao seu antigo colo-
nizador. O contato do português no Brasil com diferentes línguas e culturas
resultou na identidade cultural e linguística desse idioma. Portanto, mesmo que
existam diferentes sotaques e variações no português brasileiro, a comunicação
é fluida entre um baiano, um carioca e um mineiro; entretanto, é possível e
provável que todos tenham dificuldade de se comunicar com os portugueses.
Ou seja, estão em jogo duas línguas diferentes que carregam a sua história, a
sua unidade e a sua identidade.

A seguir, veja a linha do tempo da história da língua portuguesa desde o descobrimento


do Brasil.
 1500 — Ocorre a chegada dos portugueses no Brasil. É o primeiro momento de
contato linguístico entre as nações.
 1536 — É publicada a primeira gramática da língua portuguesa, escrita por D. Fernão.
 1580 — Começa a ser registrada a língua brasílica ou língua geral paulista. “Tucuriuri”
significava “gafanhotos verdes”.
 1580 a 1640 — Período de dominação espanhola.
 1759 — Marquês de Pombal promulga lei impondo o uso da língua portuguesa; no
entanto, no território brasileiro, coexistem diversos idiomas indígenas e africanos.
 1808 — A chegada da família real é decisiva para a difusão da língua: são criadas
bibliotecas, escolas e gráficas (e, com elas, jornais e revistas).
 1819 — A chegada de imigrantes europeus incentiva o branqueamento e as trans-
formações do idioma, com a introdução de diversos estrangeirismos.
 1907 — Inicia-se a imigração japonesa.
 1922 — A Semana de Arte Moderna carrega o português informal para as artes.
A crescente urbanização e o surgimento do rádio ajudam a misturar variedades
linguísticas.
 1988 — A Constituição garante a preservação dos dialetos de grupos indígenas e
remanescentes de quilombos.
 1990 — Com a televisão presente em mais de 90% dos lares, não se constata
isolamento linguístico.
 2000 — Com a evolução tecnológica, a internet começa a fazer parte da cultura
brasileira. Devido à globalização, há uma aproximação bastante significativa da
sociedade brasileira com outras culturas.
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 11

3 O contraste estrutural entre o português


do Brasil e o português europeu
Como você pôde perceber, existem dois idiomas, e um deles pode ser con-
siderado a língua materna de outro; ou seja, há o português de Portugal e
o português brasileiro. Para Câmara Jr. (1976), as diferenças entre a língua
portuguesa brasileira padrão e a língua portuguesa padrão resultam em dois
sistemas linguísticos distintos, ou seja, dois diferentes idiomas, como você
pode ver a seguir:

[...] as discrepâncias de língua padrão entre Brasil e Portugal não devem


ser explicadas por um suposto substrato tupi ou por uma suposta influência
africana, como se tem feito às vezes. Resultam essencialmente de se achar
a língua em dois territórios nacionais distintos e separados (CÂMARA JR.,
1976, p. 30–31).

As evidências linguísticas que organizam as oposições entre o português


brasileiro e o europeu representam a identidade linguística nacional de cada
comunidade. Na óptica de Souza (2011), com o avanço da linguística, o centro
das discussões sobre o português do Brasil ganha outros delineamentos.
Afinal, busca-se explicar como as línguas, embora aparentadas, funcionam
em sua estrutura de forma diferente, dando lugar a sistemas ou até mesmo
idiomas distintos.
Na visão de Perini (2011), hoje, no Brasil, a população urbana e escola-
rizada fala uma variedade do português que pode ser considerada padrão,
pois se trata da língua falada pela população culta brasileira. O autor afirma
que concomitantemente há também certo número de variedades não padrão
(normalmente estigmatizadas), utilizadas nas zonas rurais e por pessoas com
pouca escolaridade em centros urbanos. E, por fim, há uma língua padrão
escrita que se diferencia de todas as variedades faladas e que ainda se espelha
no modelo do português escrito baseado nas gramáticas da língua portuguesa
europeia.
Assim como há a forma padrão falada pelos brasileiros, há também a forma
padrão falada pelos portugueses. Contudo, segundo Perini (2011, p. 140),
“[...] o padrão falado brasileiro difere em muitos pontos importantes do padrão
falado europeu, de modo que não é ficção falar num português americano,
em bloco, em face do bloco do português europeu [...]”.
A seguir, veja algumas diferenças sintáticas existentes entre o português
lusitano e o brasileiro.
12 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

A morfologia verbal
Em Portugal, segundo Holm (2011), o pronome de tratamento “tu” é informal,
enquanto “você” é formal. No Brasil, os lugares que usam “tu” o conjugam
na terceira pessoa do singular, e os lugares que usam “você” o utilizam em
situações formais e informais. Além disso, os falantes brasileiros não utilizam
o pronome de sujeito “vós”. De acordo com Perini (2011), o pronome “vos”
está completamente extinto no Brasil. De maneira geral, há uma redução na
conjugação verbal no português brasileiro. Por exemplo:

Eu parto
Tu/você/ele parte
Nós partimos

Mello (1997) afirma que os falantes brasileiros utilizam mais os pronomes


de sujeito do que os falantes portugueses, pois os pronomes são necessários
para todas as pessoas, menos para as primeiras, uma vez que elas mantêm a
sua marca flexional distinta.
Na óptica de Perini (2011), a simplificação também é retratada pela subs-
tituição do pronome de primeira pessoa do plural (“nós”) por “a gente”, que
se conjuga na terceira pessoa do singular. Portanto, o quadro do português
falado no Brasil, segundo o autor, é o seguinte:

Eu faço
Tu/você/ele/a gente faz
Vocês/eles fazem

O uso dos pronomes em relação à substituição de


oblíquo por reto
Uma das características mais marcantes do português brasileiro é o uso de
formas pronominais plenas como objeto direto, em substituição aos clíticos
esperados pela norma padrão. Por exemplo:

Vi uma calça linda e quero muito comprar ela.

No lugar de:

Vi uma calça linda e quero muito comprá-la.


História da língua portuguesa: alguns apontamentos 13

O uso dos pronomes em relação à ordem


O brasileiro tem o hábito de usar o pronome oblíquo para iniciar a oração.
Por exemplo:

Maria, te comprei um presente.

No lugar de:

Maria, comprei-te um presente.

Tempos verbais
O futuro do presente (“chegarei”), o mais-que-perfeito (“chegara”) e o futuro
do pretérito (“chegaria”), para Perini (2011), são praticamente inexistentes.
O autor afirma que a noção de futuro se expressa pelo presente do indicativo.
Por exemplo:

Amanhã João vai a Porto Alegre.

No lugar de:

Amanhã João irá a Porto Alegre.

Também se utiliza a construção “ir” + infinitivo:

Eu vou vender meu carro.

No lugar de:

Eu venderei meu carro.

Os estudos que investigam se o português brasileiro é ou não uma nova


língua ultrapassam a questão linguística e cultural, pois está em jogo, principal-
mente, uma discussão política. Perini (2011) afirma que há uma nova língua em
formação no Brasil e em Portugal, já que o processo de afastamento é mútuo.
Ou seja, as diferenças linguísticas abarcam todas as áreas da gramática —
não só a sintaxe, mas também a fonologia, a morfologia e a semântica. Com
a evolução da linguística e com o avanço dos estudos linguísticos, há uma
14 História da língua portuguesa: alguns apontamentos

tendência paulatina de separação. No entanto, a ciência, embora com estudos


e provas cabíveis para a separação dos idiomas, depende do Estado para que
os estudos saiam das academias e cheguem à comunidade.
Espera-se, portanto, que a história se repita. Isto é, que a autonomia do Brasil
(não apenas econômica, mas também cultural e linguística) tenha como reflexo
uma língua chamada não “português brasileiro”, mas apenas “brasileiro”, a
qual não negará a relação com a sua língua materna, o português.

ANDREAZZA, M. L.; NADALIN, S. O. História da ocupação do Brasil. In: MELLO, H. R.;


ALTENHOFEN, C. V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte:
UFMG, 2011. p. 57–72.
AZEREDO, J. C. Iniciação à sintaxe do português. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BATTISTI, E. O português falado no Rio Grande do Sul: história e variação linguística.
In: BISOL, L.; BATTISTI, E. (org.). O português falado no Rio Grande do Sul. Porto Alegre:
EdiPUCRS, 2014. p. 9–17.
CALVET, L. J. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo: Parábola Editorial, 2002.
CÂMARA JR., J. M. História e estrutura da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Padrão,
1976.
CARDEIRA, E. O essencial sobre a história do português. Lisboa: Editorial Caminho, 2006.
CROCI, F. A imigração no Brasil: In: MELLO, H. R.; ALTENHOFEN, C. V.; RASO, T. (org.). Os
contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 73–120
HOLM, J. O português do Brasil e o português europeu. In: MELLO, H. R.; ALTENHOFEN, C.
V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 157–172.
MELLO, H. R. Formação do português brasileiro sob a perspectiva da linguística de
contato. In: MELLO, H.; ALTENHOFEN, C. V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no
Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 173–185.
MELLO, H. R. The genesis and development of Brazilian vernacular Portuguese. Ann Atbor:
Universidade de Nova York, 1997.
MELLO, H. R.; ALTENHOFEN, C. V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no Brasil. Belo
Horizonte: UFMG, 2011.
NEVES, M. H. M. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na língua portuguesa.
São Paulo: Contexto, 2004.
História da língua portuguesa: alguns apontamentos 15

PERINI, M.A. Quadro geral do português do Brasil hoje. In: MELLO, H. R.; ALTENHOFEN, C.
V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 139–155.
SILVA, R. V. M. Tradição gramatical e gramática tradicional. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1996.
SOUZA, T. C. Língua nacional e materialidade discursiva. In: MELLO, H. R.; ALTENHOFEN, C.
V.; RASO, T. (org.). Os contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 241–253.

Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun-
cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a
rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de
local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade
sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links.

Você também pode gostar