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o passeio (1917-1918),de Marc ChagaU.Autorretratodo pintor


com sua amada mulher BeUa. Sobre a grama, a toalha vermelha
estendida para o piquenique. Ao fundo, sua aldeia natal, na
Rússia. Escreva em poucas linhas que elementos dessa tela são
significativos para explicitar a felicidade.

o O que significa ser feliz?


"Feliz aniversário!", "Feliz Ano-Novo!", "Felicidades!".
As saudações são nossos votos para aqueles que estimamos. E dese-
jamos o mesmo para nós: ser feliz. Mas é possível ser feliz? Em que con-
siste a felicidade?
Alguns, mais pessimistas, acham a felicidade um sonho impossível.
Os problemas do cotidiano, os sofrimentos físicos e morais, a fome, a
pobreza, a violência, o tédio são empecilhos severos. Mas será que mesmo
essas pessoas não têm um fiapo de esperança de ter uma vida melhor?
Para outros, como vemos na publicidade, a felicidade estaria nos
momentos de consumo, longe do trabalho, com todo o conforto e pra-
zer que o dinheiro pode lhes dar: um carro, um iate, roupas de marca,
ausência de sofrimento, um doce "nada fazer .....Por isso tantos esperam
as férias, a aposentadoria ou o prêmio da loteria.

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Como explicitação dessa felicidade fantasiosa, Conforme a ética aristotélica, conhecida como
em algumas revistas os famosos estampam apenas eudemonismo, as ações humanas tendem para o
sorrisos, enquanto em outras é exposta com certa bem e o bem supremo é a felicidade. E esta significa
crueldade a intimidade de relações malsucedidas, a realização da excelência (o melhor de si), que é a
brigas, internações para tratamento de dependên- sua natureza de ser racional.
cia de drogas ou para mais uma cirurgia plástica,
na luta contra o envelhecimento.
Pelos consultórios médicos passam pessoas
com estresse, a doença do nosso tempo. O enfren-
m ETIMOLOGIA
Eudemonismo. Do grego eudaimonia, "felicidade".
tamento de depressões desemboca na banalização
do consumo de psicofármacos - as "pílulas da feli-
cidade". Sob essa última perspectiva, a felicidade é
vista pelo seu avesso: como a não dor, o não sofri-
fJ A "experíêncía de ser"
mento, a não perda. De certo modo, representa a De maneira geral, a felicidade comporta um dado
adequação das pessoas a comportamentos padro- característico, que é o sentimento de satisfação em
nizados, ao que Nietzsche chamaria de "felicidade relação ao modo como vivemos, à possibilidade de
de rebanho". sentirmos alegria, contentamento, prazer. Por expe-
riência, sabemos que não se trata de uma plenitude,
porque esse estado de espírito não ocorre o tempo
C' PARA REFLETIR todo, já que a vida feliz não exclui os contratempos,
No Iivro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, as como a dor, o sofrimento, a tristeza.
pessoas permanecem sempre jovens e são "felizes"
Só a satisfação não é suficiente para explicar a
porque tomam o soma, uma droga que impede a
manifestação da tristeza e do sofrimento. Seria isso
felicidade, porque ela supõe a realização de desejos
a felicidade? que, não raro, são conflitantes. Por exemplo, você
pode ficar em dúvida entre assistir a um filme ou
ficar estudando.
Ao contrário dessa busca cega, a felicidade Os motivos que influem na decisão podem ser
encontra-se mais naquilo que o ser humano faz de de diversas naturezas: o filme é de um bom dire-
si próprio e menos no que consegue alcançar com I tor e trata de um tema que lhe interessa; ou então
os bens materiais ou o sucesso. Não se veja aqui a é puro entretenimento e você precisa se distrair.
acusação de que rico não pode ser feliz nem o elogio Por outro lado, o estudo pode ser um prazer, se o
ao despojamento ou à pobreza. Queremos dizer que, assunto lhe despertou o interesse; mas pode repre-
no primeiro caso, apenas as posses não nos tornam sentar, naquele momento, a privação de um prazer,
felizes, porque a riqueza nunca é um bem em si, mas por preferir um bem futuro, como a sua profissio-
um meio para nos propiciar outras coisas. nalização. Em qualquer caso, os desejos não são
O que se percebe é que na busca da felicidade compatíveis e uma decisão satisfaz um desejo, mas
muitas vezes as pessoas dela se afastam. A esse res- frustra o outro.
peito, diz Aristóteles: Vemos aí mais um componente da felicidade: a
autonomia da decisão. Se não somos livres, ficamos
sujeitos às influências externas e tornamos nos-
Ora, é esse o conceito que preeminentemente
sos sonhos alheios, o que acontece nas sociedades
fazemos da felicidade. É ela procurada sempre
por si mesma e nunca com vistas em outra coisa,
massificadas em que os comportamentos tendem
ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas
à padronização. Ao contrário, quando agimos de
as virtudes nós de fato escolhemos por si mesmos acordo com nossos próprios projetos de vida, deci-
[...]; mas também os escolhemos no interesse da dimos de modo coerente.
felicidade, pensando que a posse deles nos tornará Para tanto, é necessária a reflexão, que nos per-
felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe mite apreciar o que desejamos da vida como um
tendo em vista algum destes, nem, em geral, todo, conforme projetos que dão sentido às nossas
qualquer coisa que não seja ela própria.' decisões. É o que o filósofo francês Robert Misrahi
chama de "experiência de ser". E completa:

1 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 255. (Coleção Os Pensadores).

Em busca da felicidade Capítulo 7 L:" ""'0 "',,~


FRANK & ERNEST 80b Thaves

%GINTO ... GÓ PRODUZIMOG


POGGO VIVE:R •...•.•.•....
GE:aU~NCIAG, NÃO
MIN~A VIDA RE:MAKE:G.
NOVAME:NTE:?
Tira Frank &
Ernest, de 80b
Thaves, publicada
no jornal O
Estado de S. Paulo,
~-8 em 28 maio 2008,
L- ....:."\~.;..;;..~;:,;lJe;;.;::$::;;a. Caderno 2, D6.

Relacione esta tira de Bob Thaves com o conceito de "experiência de ser" de Misrahi,
Por que não seria possivel um r.emake da vida, e sim apenas urna continuidade dela?

sentido nos escapa. Assim disse o filósofo francês


Nessa experiência, o sujeito não é mais Roland Barthes:
fragmentado ou dispersado entre diversas
personalidades (que opõem, por exemplo, a vida
Que é que eu penso do amor? Em suma, não penso
profissional e a criação, a atividade utilitária e
nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas
a atividade estética, a relação burocrática e a
estando do lado de dentro, eu o vejo em existência,
relação autenticamente pessoal). Ele se encontra,
não em essência. [...) Mesmo que eu discorresse
ao contrário, unificado, ao mesmo tempo em que
sobre o amor durante um ano, só poderia esperar
unifica essas diversas atividades por seu propósito
pegar o conceito "pelo rabo": por flashes, fórmulas,
existencial principal. A personalidade unificaria surpresas de expressão, dispersos pelo grande
se apreende então como adesão afirmativa a si escoamento do Imaginário; estou no mau lugar
mesma, e essa adesão, vivida como satisfação do amor, que é seu lugar iluminado: "O lugar
ou bem-estar existencial, pode ser apreendida mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre
como uma espécie de permanência alegre de sua embaixo da lâmpada".'
própria identidade. [...) É esse prazer existencial e
consciente de ser e de existir como sujeito e como
vida que chamamos de alegria? Apesar dessas dificuldades, tentemos algumas
delimitações do conceito. Em primeiro lugar, na lin-
guagem comum, amor é usado em diversas acepções,
Ao nos referirmos à experiência de ser de um desde as materiais - o amor ao dinheiro - até as reli-
sujeito livre, consciente de sua individualidade, giosas, como o amor a Deus. Fala-se também do amor
entramos no campo da ética. Portanto, a reflexão à pátria, ao trabalho e à justiça. É bem verdade que, em
sobre o que fazer da nossa vida para alcançar a feli- algumas dessas acepções, outros termos seriam mais
cidade nos coloca diante de escolhas morais. apropriados, tais como o desejo de posse do dinheiro,
Por fim - mas não por último -, o que é a felici- o interesse ou gosto pelo trabalho, o empenho moral na
dade se não tivermos com quem compartilhar nossa defesa da justiça e assim por diante.
alegria? Portanto, a felicidade é também a celebra- Para evitar confusões, distinguiremos três tipos
ção da amizade, do amor e do erotismo. de amor:filía, ágape e eras.
a) Filía
D Os tipos de amor O termo grego filía (philia) geralmente é tradu-
zido por "amizade". Trata-se do amor vivido na famí-
É difícil definir o amor, se pensarmos
nas mais lia ou entre os membros de uma comunidade. Os
diversas conceituações que recebeu no correr da laços de afeto que o expressam são, em tese, a gene-
história humana, principalmente se levarmos rosidade, o desprendimento e a reciprocidade, isto
em conta a especificidade desse sentimento, cujo é, a estima mútua.

2 MISRAHI, Robert. Afelicidade: ensaio sobre a alegria. Rio de Janeiro: Difel, 2001. p. 31-33.
3 BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981. p. 50.

] Unidade 2 Antropologia filosófica


Além desse sentido geral, distinguimos a ami- É de tal ordem a força desse impulso que foi
zade propriamente dita, quando um vínculo mais necessário o controle dos instintos agressivos e
forte une pessoas que se escolheram pelo que cada sexuais, para que a civilização pudesse existir. O
um é. Por isso Aristóteles explica que "os que dese- mundo humano organizou-se com a instauração da
jam bem aos seus amigos por eles mesmos são os lei e, consequentemente, com a interdição, pois as
mais verdadeiramente amigos". E conclui: proibições estabelecem regras que tornam possível
a vida em comum. ,
Mas é natural que tais amizades não sejam muito No entanto, a sexualidade humana não é
frequentes, pois que tais homens são raros. Acresce simplesmente biológica, não resulta exclusi-
que uma amizade dessa espécie exige tempo e vamente do funcionamento glandular nem se
familiaridade. Como diz o provérbio, os homens submete à mera imposição de regras sociais.
não podem conhecer-se mutuamente enquanto não Embora a atividade sexual seja comum aos ani-
houverem ".12o do sal 'untos"; e tampouco podem mais, apenas os humanos a vivenciam como
aceitar um ao outro como amigos enquanto cada um erotismo, como busca psicológica, independen-
não parecer estimável ao outro e este não depositar temente do fim natural dado pela reprodução. A
confiança nele. Os que não tardam a mostrar sexualidade humana é portanto a expressão do
mutuamente sinais de amizade desejam ser amigos, ser que deseja, escolhe, ama, que se comunica
mas não o são a menos que ambos sejam estimáveis com o mundo e com o outro, numa linguagem
e o saibam; porque o desejo da amizade pode surgir tanto mais humana quanto mais se exprime de
depressa, mas a amizade não.' maneira pessoal e única.
Veremos a seguir como os filósofos pensaram o
amor, as paixões, o significado do corpo e, por con-
b)Ágape
sequência, como compreenderam a felicidade.
Àgape, do grego agápe, significa "amor fraterno'.
Entre os cristãos primitivos, o termo designava
as refeições fraternais, em que se reuniam ricos e
pobres, daí o sentido de "caridade", de "amar ao pró-
m Platão: Eros e a filosofia
ximo como a si mesmo'. Para os gregos antigos, a felicidade está ligada à
Esse tipo de amor não supõe reciprocidade, por- atividade do sábio, capaz de levar uma vida virtuosa
que se ama sem esperar retribuição, assim como e racional. Platão, no diálogo Gôrgias. diz, por meio
independe do valor moral do indivíduo que é objeto de Sócrates:
de nossa atenção. Em termos profanos - não mais
religiosos -, trata-se da benevolência universal, a Tal é, segundo penso, o fim que é preciso ter
fraternidade pela qual zelamos pelos outros. sem cessar diante dos olhos para dirigir sua vida.
c) Eros É preciso que cada um empenhe todas as suas
Eros refere-se às relações que costumamos cha- forças, todas as do Estado, na direção desse fim,
mar de amorosas propriamente ditas. a aquisição da justiça e da temperança como
Diferentemente das outras expressões de amor condição da felicidades
já citadas, a paixão amorosa está associada à
exclusividade e à reciprocidade. Por isso, ao con-
Vejamos como o filósofo fundamenta essa
trário da tradição, que caracteriza o ser humano
afirmação.
apenas como racional, poderíamos vê-Io também
como "ser desejante", tal é a força que impul-
siona a busca do prazer e da alegria de conquis-
Remake. Do inglês, Iitera Imente, "fazer de novo".
tar o amado. Esse desejo, porém, não visa apenas Refere-se a filmes ou telenovelas em que as
a alcançar o outro como objeto. Mais que isso, mesmas histórias são encenadas novamente.
busca o reconhecimento do amado, quer captu- "Provar sal junto". Expressão que indica a convivência
rar sua consciência, porque o apaixonado deseja prolongada entre pessoas, ao citar o sal do alimento que
o desejo do outro. ambos comem inúmeras vezes um ao lado do outro.

4 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, VIII, 3, 1156b 30. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 382.
5 PLATÃO. Oeuvres completes: Gorgias. Tome IlI, 2e. Partie. Paris: Société D'Édition "Les Belles Lettres",
1949. p. 197. (Tradução nossa).

Em busca da felicidade
• o mito de Eros Pela boca de Sócrates, Platão estabelece uma rela-
ção entre Eros e a filosofia, de modo a não reduzir
a busca do amor apenas à procura da outra metade
que nos completa. Para ele, Eros é a ânsia de aju-
dar o eu autêntico a se realizar, na medida em que
a vontade humana tende para o bem e para o belo,
quando subordina a beleza física à beleza espiritual.
Nesse estágio, é capaz de desligar-se da paixão por
determinado indivíduo ou atividade, ocupando-se
com a pura contemplação da beleza.
O amor intelectual é, portanto, superior ao amor
sensível. Se na juventude predomina a admiração
pela beleza física, o verdadeiro discípulo de Eros
Eras. Vaso amadurece com o tempo ao descobrir que a beleza
ático,
C.470 a.C.
da alma é mais preciosa que a do corpo.
-450 a.c.

Na mitologia grega, Eros (Cupido, para os til PARA SABER MAIS


romanos) é representado por um belo jovem O que é otãofalado amor platônico? É o amor em que
ou por urna criança travessa que flecha os não mais predominam a sensibilidade e as paixões,
mas o prazer intelectual e espiritual.
corações para torná-los apaixonados.

É importante observar que essa concepção deve


No diálogo O banquete, Platão relata um encon- ser compreendida de acordo com a concepção pla-
tro em que os convivas discursam sobre o amor. tônica de submissão do corpo à alma. Assim, Platão
Aristófanes, o melhor comediógrafo da época, conta subordina as paixões à razão, Eros a Logos.
o mito sobre a origem do amor. No início, os seres
humanos eram duplos e esféricos, e os sexos eram • COrpOe alma: o dualismo platônico
três, um deles constituído por duas metades mas- Durante muito tempo os filósofos ocidentais
culinas, outro por duas metades femininas e o ter- explicaram o ser humano como composto de duas
ceiro, andrógino, metade masculino, metade femi- partes diferentes e separadas: o corpo (material) e
nino. Por terem ousado desafiar os deuses, Zeus a alma (espiritual e consciente). Chamamos de dua-
cortou-os em dois para enfraquecê-los, A partir lismo psicofisico essa dupla realidade da consciência
dessa separação, cada metade buscou restaurar a separada do corpo.
unidade primitiva, de onde surgiu o amor recíproco. Segundo Platão, antes' de se encarnar, a alma
E como os seres iniciais não eram apenas bissexuais, teria vivido no mundo das ideias, onde tudo conhe-
foi valorizado o amor entre seres do mesmo sexo, ceu por simples intuição, ou seja, por conhecimento
sobretudo o masculino, como expressão possível intelectual direto e imediato, sem precisar usar os
desse encontro amoroso. sentidos. Quando a alma se une ao corpo, ela se
Ao ser dada a palavra a Sócrates, a discussão degrada, por se tornar prisioneira dele. Passa então
é focada no amor como anseio humano por uma a se compor de duas partes:
totalidade do ser, representando desse modo o pro-
a) alma superior (a alma intelectiva);
cesso de aperfeiçoamento do próprio eu. Sócrates
lembra então o diálogo que tivera com a sacerdo- b) alma inferior e irracional (a alma do corpo).
tisa Diotima sobre a origem e a natureza de Eros. Esta, por sua vez, divide-se em duas partes:
Segundo ela, durante o aniversário de Afrodite, Eros • a alma irascível, impulsiva, sede da coragem,
nasceu de Poros (Expediente, Engenho ou Recurso) localizada no peito;
e de Pénia (Pobreza). Deve, portanto, aos pais a • a alma concupiscível, centrada no ventre
inquietude de procurar sair da situação de pobreza e sede do desejo intenso de bens ou gozos
e, por meio de expedientes, alcançar o que deseja: materiais, inclusive o apetite sexual.
por isso o amor é a oscilação eterna entre o não
possuir e o possuir, é um ~
que não se tem e se deseja ter.
de qualquer coisa
> Anelo. Desejo intenso.

Unidade 2 Antropologia filosófica


No entanto, o aforismo "corpo são em mente sã"
apenas confirma a superioridade do espírito: na
posse de saúde perfeita, a alma se desprende dos
sentidos para melhor se concentrar na contem-
plação das ideias. Caso contrário, a fraqueza física
torna-se empecilho maior à vida intelectual. Nesse
contexto, fica claro que a felicidade para Platão é de
natureza racional e moral, e depende do controle do
corpo e das paixões.
Cavaleiro guiando cavalos, desenho
em vaso grego de 540 a.C,

Essa figura representa a divisão da alma, ~ PARA SABER MAIS


segundo Platão. A alma inferior é representada A concepção platônica de separação corpo-alma
continuou na Idade Média com a tradição platôni-
pelos dois cavalos, um branco e um preto,
co-cristã, que associava o corpo a sexo e pecado. A
respectivamente, a coragem e o desejo. Se os convicção de que as paixões são perigosas e levam
cavalos simbolizam a força, o impulso que nos à degradação moral estimulou as práticas de purifi-
leva adiante, o cocheiro é a razão que os controla. cação pelo ascetismo, por meio de jejum, flagelação
e abstinência sexual.

Escravizada pelo sensível, a alma inferior con- r:J O COrpOsob O olhar da ciência
duz à opinião e, consequentemente, ao erro, pertur- Durante o Renascimento e a Idade Moderna,
bando o conhecimento verdadeiro. O corpo é tam- começou a mudar a concepção de corpo. Um indício
bém ocasião de corrupção e decadência moral, caso foi a prática de dissecação de cadáveres, até então
a alma superior não saiba controlar as paixões e os proibida pela Igreja, por ser um ato sacrílego que
desejos. Portanto, todo esforço humano consiste no desvenda o que Deus teria ocultado de nosso olhar.
domínio da alma superior sobre a inferior. No século XVI, o médico belga Andreas Vesalius
Não deixa de parecer contraditória essa desva- (1514-1564) causou perplexidade ao desafiar essa
lorização do corpo, se sabemos o quanto os gregos tradição. Apesar das dificuldades enfrentadas, seu
apreciavam os exercícios físicos, os esportes, além procedimento revolucionário alterou várias con-
de cultuar a beleza do corpo. Não por acaso, a Grécia cepções inadequadas da anatomia tradicional, até
foi o berço das Olimpíadas, durante as quais até as então baseada na obra de Cláudio Galeno, médico
guerras cessavam e seus artistas esculpiam corpos que viveu no século II e que se restringira a disseca-
perfeitos, simétricos e belos. ções de animais.

Nesta tela do século XVII,


o pintor não representa
apenas médicos aprendendo
a dissecação. Trata-se do novo
olhar profano, voltado para um
mundo a ser desvendado pela
ciência nascente.

licão de anatomia do Dr. van der Meer.


Michiel Jansz van Mierevelt, 161].

Em busca da felicidade Capítulo 7


A "profanação" pelo olhar levada a efeito por para adquiri-Ia é a mais útil ocupação que se possa
Vesalius foi ilustrada por Rembrandt no célebre qua- ter, como é, sem dúvida, a mais agradável e a mais
dro Lição de anatomia e por outros pintores. como doce."
Van Mierevelt. Esse novo olhar sobre o mundo é o da
consciência secularizada. da qual se retira o compo-
nente religioso para só considerar a natureza física
e biológica do corpo. como objeto de estudo cien-
m A inovação de Espinosa
tífico. Esses antecedentes são indicativos da revo- No século XVII. Espinosa éonstitui uma exceção na
lução científica levada a efeito no século XVII por tentativa de superar a dicotomia corpo-consciência
Bacon, Descartes e Galileu. para restabelecer a unidade humana. Como para ele
o desejo é a própria essência humana. interessa-se
• Descartes: o corpo-máquina por tudo o que nos dá alegria e. por consequência .
aumenta nossa capacidade de pensar e de agir. dis-
A filosofia de René Descartes (1596-1650) contri- tinguindo o que nos leva à tristeza. à passividade e
buiu para a nova concepção de corpo. Para ele. o ser que atrofia nossa potência de existir.
humano é constituído por duas substâncias distintas:
• a substância pensante (em latim res cogitans, • A teoria do paralelismo
"coisa que pensa"), de natureza espiritual: o
Ao analisar as possibilidades de expressão da
pensamento;
liberdade. Espinosa desafia a tradição vinda dos gre-
• a substância extensa (res extensa). de natureza
gos. A novidade é a teoria do paralelismo, segundo
material: o corpo.
a qual não há relação de causalidade ou de hierar-
Eis aí o dualismo psicofisico cartesiano. Esse posi-
quia entre corpo e espírito: nem o espírito é superior
cionamento, embora pareça com o dualismo platô-
ao corpo. como afirmam os idealistas. nem o corpo
nico. apresenta diferenças. porque Descartes con-
determina a consciência. como dizem os materialis-
cebe um corpo-objeto associado à ideia mecanicista
tas. A relação entre um e outro não é de causalidade.
do ser humano-máquina. Ou seja. para o filósofo.
mas de expressão e simples correspondência. pois o
o nosso corpo age como máquina e funciona de
que se passa em um deles exprime-se no outro: a
acordo com as leis universais.
alma e o corpo expressam a mesma coisa. cada um
Descartes explica. porém. que. apesar de diferen-
a seu modo próprio.
tes. corpo e alma são substâncias que se relacionam.
porque a alma necessita do corpo: é pela imagina-
ção que o corpo fornece à alma os elementos sensí-
II'QUEMÉ?
veis do mundo e pelo qual podemos experimentar
sentimentos e apetites. Mas cabe à alma submeter Baruch Espinosa (1632-1677),filó-
a vontade à razão. controlar as paixões que preju- sofo judeu holandês, sofreu inú-
meros reveses em sua vida. Cedo
dicam a atividade intelectual e provocam tristeza.
foi expulso da sinagoga, acu-
bem como cultivar aquelas que nos dão alegria. Em sado de heresia. Deserdado pela
As paixões da alma. Descartes afirma que podemos família, ocupou-se como polidor
conhecer a força ou a fraqueza da alma pelos com- de lentes, para garantir a sobre-
bates em que a vontade consegue vencer mais facil- vivência e dedicar-se à reflexão.
mente as paixões. Escreveu Tratado teológico-polí-
tico e Ética, entre várias obras ma I Espinosa,
Como vemos. a concepção cartesiana sobre a gravura anônima,
compreendidas e quase nunca
relação corpo e alma alia-se à necessidade de um lidas, tanto no seu século como século XVIII.
comportamento moral livre que. por meio da prática nos subsequentes. Sofreu acusa-
da virtude e da sabedoria. permita ao ser humano ções ora de ateísmo, ora de panteísmo. Considerado
controlar as paixões. Seria isso a felicidade? É assim por muitos um filósofo determinista, no sentido de
que Descartes escreve em uma carta dirigida à prin- negar a liberdade humana, Espinosa, ao contrário,
critica toda forma de poder, quer político, quer reli-
cesa Elisabeth da Boêmia. em 1645:
gioso, ao esclarecer quais são os obstáculos à vida,
ao pensamento e à política livres. Ele quer descobrir
o que nos leva à servidão e à obediência, o que per-
a maior felicidade do homem depende desse reto uso
mite e o que impede o exercício da liberdade.
da razão e, por conseguinte, que o estudo que serve

6 DESCARTES, René. Cartas. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 319. (Coleção Os Pensadores).

Unidade 2 Antropologia filosófica


Não convém, portanto, dizer que o corpo é pas- aversão, temor, desespero, indignação, inveja,
sivo enquanto a alma é ativa, ou vice-versa, Quando crueldade, ressentimento, melancolia, remorso,
passivos, o somos de corpo e alma; quando ativos, vingança etc.
o somos de corpo e alma também. Somos ativos E quanto à alma: qual é sua força e sua fraqueza?
quando autônomos, senhores de nossa ação, e pas- A virtude da alma, no sentido primitivo de força,
sivos quando o que ocorre em nosso corpo ou alma de poder, consiste na atividade de pensar, conhe-
tem uma causa externa mais poderosa que nossa cer. Portanto, sua fraqueza é a ignorância. Quando
força interna. Daí decorre a heteronomia. a alma se reconhece capaz de produzir ideias, passa
Vejamos como Espinosa concebe as paixões da a uma perfeição maior e é afetada pela alegria. Mas,
alegria e da tristeza. Qual a diferença entre elas? se em alguma situação a alma não consegue enten-
der, a descoberta de sua impotência provoca o sen-

m ETIMOLOGIA
Paixão. Em grego,pathos significa "padecer", "sofrer",
timento de diminuição do ser e, portanto, a tristeza.
Nesse caso, a alma está passiva.

no sentido de algo que ocorre no sujeito indepen-


dentemente de sua vontade.Ao padecer, não somos
nós que agimos, mas sofremos a ação de uma causa
ti)' PARA SABER MAIS
Espinosa usa o termo latino conatus (esforço, impulso)
exterior. para designara tendência detodos osseresa se autopre-
serva rem: "toda a coisa se esforça, enquanto está em si,
por perseverar no seu ser" (Ética, Parte 111,Proposição Vi) .
• A alegria é a passagem do ser humano de uma
perfeição menor para uma maior.
• A tristeza é a passagem do ser humano de uma •• Uma ética da felicidade
perfeição maior para uma menor. O que fazer para evitar a paixão triste e propi-
A paixão alegre, ao aumentar o nosso ser e a nossa ciar a paixão alegre? Pela teoria do paralelismo, a
potência de agir, aproxima-nos do ponto em que alma não determina o movimento ou o repouso do
nos tornaremos senhores dela e, portanto, dignos corpo, nem o corpo leva a alma a pensar, por isso
de ação. Assim, o amor é a alegria do amante, forti- não cabe ao espírito combater as paixões tristes. O
ficada pela presença do amado ou da coisa amada. que as destruirá só pode ser uma paixão alegre, nas
Outras expressões da alegria são o contentamento, situações em que, de joguetes dos nossos afetos,
a admiração, a estima, a misericórdia. podemos passar a ser senhores deles. Portanto, um
A paixão triste afasta-nos cada vez mais da afeto jamais é vencido por uma ideia, mas um afeto
nossa potência de agir, por ser geradora de ódio, forte é capaz de destruir um afeto fraco.

o pintorrealista Edward Hopper


(1882-1967)é conhecido pelas
telas representativas do cotidiano,
aparentemente banais, mas densas de
significados. Seus personagens exprimem
desalento, tristeza, desengano. Reflita:
nesta tela Quarto de hotel, a mulher
encontra-se em um quarto simples de
hotel, as malas ainda nem foram desfeitas.
Levemente arcada, aparentemente
inerte, tem um papel nas mãos. Em que
sentido uma tristeza de tal ordem pode
desencadear - segundo os conceitos de
Espinosa - uma diminuição do ser?

Hotel roam. Edward Hopper, 1931.

Em busca da felicidade Capítulo 7 t".~."."_,,


Diferentemente de outros filósofos que estabele- tação dinâmica da pulsão sexual na vida psíquica.
cem hierarquias e subjugam as paixões à razão, para Na psicanálise, a energia das pulsões refere-se a
Espinosa a felicidade - e portanto a liberdade - tudo o que podemos incluir sob o nome de amor.
não está em nos livrarmos das paixões. Assim ele diz:

A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a


m ETIMOLOGIA

Libido. Do latim, libitus, "desejo", "vontade".


própria virtude; e não gozamos dela por refrearmos ,
as paixões, mas, ao contrário, gozamos dela por
podermos refrear as paixões.'
~PARA SABER MAIS
Nietzsche e Freud são examinados em outros capí-
As boas paixões permitem o desenvolvimento tulos. Para localizar as referências, confira o índice
humano, facilitam o encontro das pessoas e propor- de nomes no final do livro.
cionam a alegria. As más impedem o crescimento,
corrompem as relações e as orientam para as for-
mas de exploração e destruição. A sexualidade para Freud tem um sentido bas-
tante amplo e não deve ser associada apenas à
genitalidade, isto é, aos atos que se referem expli-
D As teorias contemporâneas citamente à atividade sexual. Uma das maneiras
No final do século XIX, Friedrich Nietzsche cri- de reencaminhar as energias sexuais é a sublima-
tica Sócrates por ter sido o primeiro a encaminhar ção, pela qual a força primária da libido é desviada
a reflexão moral em direção ao controle racional para um alvo não sexual caracterizado por ativida-
das paixões. Acrescenta que a tendência de des- des valorizadas socialmente. Segundo a teoria freu-
confiar dos instintos culminou com o ascetismo diana, há libido investida em todos os atos psíqui-
cristão, que ele responsabiliza pelo processo de cos, o que nos permite encontrar prazer também em
domesticação do ser humano, ao torná-l o culpado atividades que não são primariamente de natureza
e fraco. Orienta-se então no sentido de recuperar sexual. Exemplos de formas sublimadas da libido
as forças vitais, instintivas, subjugadas pela razão são o trabalho, o jogo, a investigação intelectual e a
durante séculos. produção artística, entre outras.
Veremos como essas ideias influenciaram os A cultura torna-se possível, portanto, pelo con-
pensadores que se seguiram. trole do desejo. Nem sempre, porém, a regulação
da sexualidade é saudável e consciente, sobre-
•• Freud e a natureza sexual tudo quando as normas introjetadas no incons-
ciente impedem a decisão autônoma das pessoas.
da conduta humana
O processo de repressão ocorre quando o ego, sob
O médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), o comando do superego, não toma conhecimento
fundador da psicanálise, ao levantar a hipótese do das exigências do id, por serem demasiadamente
inconsciente desmente as crenças racionalistas conflitivas e inconciliáveis com a moral, e por isso
segundo as quais a consciência humana é o centro elas são rejeitadas, permanecendo no inconsciente.
das decisões e ao controle dos desejos. Diante das Entretanto, a energia não canalizada reaparece sob
forças conflitantes das 1'lulsões, o indivíduo reage, a forma de sintomas, muitas vezes neuróticos. A
mas desconhece os determinantes de sua ação. sexualidade expressa-se numa relação ambígua de
Caberá ao processo psicanalítico auxílíá-lo a recupe- atração e repulsa, desejo e culpa.
rar o que foi silenciado pela repressão dos desejos. Em O mal-estar da civilização, Freud observa
Outra inovação da psicanálise encontra-se que as forças agressivas e egoístas precisaram ser
na compreensão da natureza sexual da conduta controladas para permitir o convívio humano e a
humana. A energia que preside todos os atos hu- vida moral, mas se pergunta em que medida essa
manos é de natureza pulsional, pela qual Freud renúncia pode ser autodestrutiva a ponto de com-
põe em relevo o conceito de ~. De difícil defi- prometer a felicidade. Conclui com pessimismo que
nição, a libido pode ser entendida como a pulsão é alto o preço pago pelo indivíduo para se tornar
da energia sexual, mais propriamente a manifes- civilizado.

7 ESPINOSA, Baruch. Ética, Livro V, Proposição XLII. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 306. (Coleção
Os Pensadores).

Unidade 2 Antropologia filosófica


• A fenomenologia: a intencionaUdade primeiro momento da experiência humana, porque
antes de ser um "ser que conhece", o sujeito é um
Os filósofos da corrente fenomenológica criti-
"ser que vive e sente", maneira essa de participar,
cam a concepção dualista que separa corpo-mente,
com o corpo, do conjunto da realidade.
sujeito-mundo. Para tanto, baseiam-se no conceito
de intencionalidade.
Exemplos de integração corpo-consciência
Com o corpo nos engajamos na realidade de inú-
til PARA SABER MAIS
meras maneiras possíveis: por meio do trabalho, da
arte, do amor, do sexo, da ação em geral.
A fenomenologia é a filosofia (e o método) que
nasceu na Alemanha e teve como precursor Franz • Ao estabelecer contato com outra pessoa, eu me
Brentano (1838-1917),no final do século XIX. Mas foi revelo pelos gestos, atitudes, mímica, olhar, enfim,
Edmund Husserl (1859-1938) quem formulou suas pelas manifestações corporais. Observando o
principais linhas,abrindo caminho no século seguinte movimento de alguém, não o vejo como um sim-
para Martin Heidegger, Karl Jaspers,Jean-Paul Sartre
ples ato mecânico, de uma máquina, mas como
e Maurice Merleau-Ponty, entre outros.
gesto expressivo, nunca apenas corporal, porque
o gesto diz algo e nos remete imediatamente à
Segundo a noção de intencionalidade, a cons- interioridade do sujeito. Um olhar pode significar
ciência é sempre consciência de alguma coisa. Em raiva, desprezo, piedade, súplica ou amor. De fato,
outras palavras, não há pura consciência separada o corpo do outro não é uma coisa qualquer, é um
do mundo, mas toda consciência visa ao mundo. corpo humano. Do mesmo modo, o instrumento
Desse modo, a fenomenologia tenta superar não só supõe o sentido que lhe conferimos: uma arma
o dualismo corpo-mente, como as dicotomias cons- tem para o caçador um significado bem diferente
ciência-objeto e indivíduo-mundo, descobrindo do que lhe dá o assassino ou o revolucionário.
nesses palas relações de reciprocidade.
Afinal, o que é o corpo nessa perspectiva? Ele não
Pulsão. Na psicanálise, as pulsões são forças inter-
se identifica às "coisas" porque, embora o corpo seja
nas que provocam tensões. As pulsões são de diver-
facticidade, no sentido de "estar lá com as coisas", sas naturezas, entre as quais, as sexuais e as de
não é facticidade pura, por ser também acesso às autoconservação.
coisas e a si mesmo. Portanto, a dimensão de facti- Facticidade e transcendência. São dois conceitos
cidade do corpo não se desliga da possibilidade de antitéticos (que estão em antítese). Pela facticidade
(de[actum, "fato"), ou ima nência, o ser h u ma no encon-
transcendência.
tra-se lançado entre as coisas em situações dadas e
Se o corpo não é coisa nem obstáculo, mas integra não escolhidas por ele. Pela transcendência ele supera,
a totalidade do ser humano, meu corpo não é alguma vai além da facticidade. Para outros sentidos de trans-
coisa que eu tenho: eu sou meu corpo. O corpo é o cendência, consulte o Vocabulário no final do livro.

Na Olimpiada de 1984, em Los Angeles, a rnaratonista


suíça Gabrielle Andersen-Schiess cruzou a linha de chegada
23 minutos após a primeira colocada. Estava absolutamente
trôpega, exausta, mas não desistiu apesar da quase falência
do corpo.
A partir da frase de Merleau-Ponty: "a dor e a fadiga, em
um momento dado, não vêm do exterior, elas sempre têm um
sentido", reflita sobre as questões:
a) Que sentido teria para a maratonista suportar a tal ponto
a fadiga?
b) Esse esforço extremo nos faz refletir sobre os atletas que, para
enfrentar as competições, fazem uso de dopirzg ou ultrapassam
os limites do próprio corpo. Posicione-se a respeito.

A maratonista suíça Gabrielle Andersen-Schiess,


na Olimpíada de 1984, em Los Angeles.

Em busca da Felicidade Capítulo 7


• A sexualidade humana não é puramente bioló- trabalho, concluiu pela negação dessa utopia, pelo
gica, separada da pessoa integral. Já vimos que menos naquele momento.
ela é na verdade erotismo, e, sob esse aspecto, Em Eros e civilização, constata que as exigências
constitui parte integrante do ser total. Merleau- da nova ordem industrial capitalista provocam uma
-Ponty cita o exemplo dado por Wilhelm Steckel, super-repressão, intimamente ligada ao princípio de
discípulo dissidente de Freud, para quem a frigi- desempenho, segundo o qual o trabalhador interioriza
dez quase nunca está ligada a condições anatô- a necessidade de rendimento, de produtividade, pre-
micas ou fisiológicas. A frigidez traduziria enchendo funções preestabelecidas e organizadas em
um sistema cujo funcionamento se dá independente-
mente da participação consciente de cada um.
a recusa da condição feminina ou da condição de
Assim, o ideal de produtividade da sociedade
ser sexuado, e esta por sua vez traduz a recusa do
industrial faz-se por meio da repressão: "eficiência
parceiro sexual e do destino que ele representa."
e repressão convergem". Nesse ambiente repres-
sor, a sexualidade, que deveria impregnar todas as
ações humanas prazerosas, restringe-se a momen-
• Poderíamos argumentar que, ao contrário dos
tos isolados, nas horas de lazer, além de ser redu-
exemplos anteriores, a dor e a doença seriam zida à genitalidade, ao ato sexual exclusivamente.
manifestações de pura corporeidade. Afinal, há
Mais ainda, em alguns casos é controlada para não
uma objetividade na cadeira onde demos uma
se desviar da função de procriação.
canelada, e todo órgão afetado por alguma doença
padece a ação de vírus ou bactérias. Há doen-
ças hereditárias, defeitos congênitos. Tudo isso ~ PARA REFLETIR
parece muito distante da ação da consciência. No Reveja no capítulo 6, "Trabalho, alienação e con-
entanto, a facticidade nunca se separa da trans- sumo", o conceito de unidimensionalidade, pelo q ua I
cendência, que resulta do sentido que a pessoa dá Marcuse denuncia a perda da dimensão crítica do
à dor ou à doença ou no uso que faz dela. trabalhador na economia capitalista. Relacione-o
Que conclusão podemos tirar do conceito de inten- com o teor do presente item, indicando os aspectos
psicanalíticos e marxistas de sua teoria.
cionalidade, tão caro à fenomenologia? A compreen-
são que temos do corpo e da consciência, dos afetos,
enfim, do mundo e dos outros, nunca resulta da pura
Poderíamos objetar que, a partir da década de
intelecção, mas depende do sentido que descobrimos
1960, com a chamada revolução sexual, a repressão
em cada experiência, nos significados que deciframos
seria substituída pela valorização da sexualidade,
ao pensar o mundo, o outro e nós mesmos.
o que significaria, segundo alguns, uma liberação.
No entanto, o capitalismo reagiu incorporando as
• Marcuse: Eros e civilização novas tendências a fim de amenizar seus efeitos. Por
No século XIX, exerceu-se um controle cada vez exemplo, uma ampla produção de revistas, filmes,
mais severo sobre o trabalhador fabril. O princípio livros, peças teatrais atende ao interesse despertado
de adestramento do corpo, que o submetia a férrea pelas questões sexuais. Essa produção, porém, vol-
disciplina, com jornada de 14 a 16 horas em locais ta-se para um "novo filão' do consumismo: o sexo
insalubres, fez com que o trabalho não representasse torna-se vendável e exposto como em um supermer-
apenas um freio para o sexo, mas que promovesse cado. Ao examinar o conteúdo de tais publicações,
um processo de dessexualização e deserotização do percebe-se que, na verdade, simulam a liberação da
corpo. Ou seja, quando o trabalho é instrumento de sexualidade e reforçam preconceitos.
exploração econômica, dele é retirado todo prazer Para Marcuse, essa liberação é ilusória, porque
e possibilidade de humanização. na verdade é um tipo de repressão mais sutil. Em
Nas décadas de 1960 e 1970, influenciado pelo primeiro lugar, porque a sexualidade "liberada" é a
marxismo e pela psicanálise, o filósofo alemão sexualidade genital, isto é, a que se centraliza no ato
Herbert Marcuse indagava sobre a possibilidade sexual, o que denota empobrecimento da sexuali-
de uma civilização não repressiva. Embora espe- dade humana, que deveria estar difusa não só no
rasse que o progresso tecnológico haveria de dila- corpo todo como no ambiente e nos atos não propria-
tar o tempo livre e propiciar melhores condições de mente sexuais. A canalização dos instintos para os

8 MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p 218.

Unidade 2 Antropologia filosófica


órgãos do sexo impede que seu erotismo "desorde- estabelece padrões sobre o que é normal ou patoló-
nado" e "improdutivo" prejudique a "boa ordem" do gico, classifica os tipos de comportamento, determina
trabalho e extravase os limites permitidos. a rofilaxia e aprisiona os indivíduos à última palavra
do "especialista competente', por meio do qual o sexo
Na verdade, oculta-se que
é vigiado e regulado.
Foucault vai mais longe ao investigar de que
o ambiente no qual o indivíduo podia obter prazer- maneira as instâncias do poder atuam sobre o indi-
que ele podia concentrar como agradável quase como víduo para criar modos de agir e de pensar e con-
uma zona estendida de seu corpo - foi reduzido. clui que a imposição de comportamentos passa pela
domesticação e docilização do corpo.
Consequentemente, o "universo" de concentração
Pela teoria da microfisica do poder, Foucault
de desejos libidinosos é do mesmo modo reduzido.
demonstra como a debilitação do corpo não depende
O efeito é uma localização e contração da libido, a
necessariamente do aparelho do Estado ou de algum
redução da experiência erótica para experiência e outro modo de dominação às claras, tal como a escra-
satisfação sexuais." vidão. Mas trata-se da ação de micropoderes que se
exercem de maneira difusa nos mais diversos campos
da vida social e cultural, no próprio seio da sociedade.
a:
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o. O novo tipo de disciplina atua na organização do
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espaço, no controle do tempo e na vigilância, visando
di à padronização de comportamento.
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Marcuse e Foucault, por caminhos diferentes,
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-o lidade, ainda quando esta aparece como "normal"
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-o ou "liberada", Perguntamos: como fica a felicidade
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~ americano As discussões entre os pensadores a respeito das
"ea. n.2J,
mudanças institucionais que começaram a ocorrer na
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ea. Wesselmann, segunda metade do século XXidentificam complexas
li! 1962. reações à antiga ordem. Devido à prevalência do setor
de serviços, à entrada na era da informática e da comu-
o artista expõe a nudez ao lado
nicação e à globalização, aceleraram-se as mudanças
de sorvetes e milk-shukes, indicando
culturais a partir das décadas de 1980 e 1990.
antecipadamente, no inicio da década
Desse modo, as crianças e os adolescentes edu-
de 1960, a ligação entre liberdade sexual
cados fora das normas da cultura patriarcal tra-
e sociedade de consumo, ou seja, a
dicional cresceram convivendo com diferentes
sexualidade como objeto de consumo.
padrões de conduta. A família adquiriu formatos
plurais, tais como divorciados que se casam nova-
mente, núcleos monoparentais (formados ape-
•• Foucault: a microfisica do poder nas pela mãe ou pelo pai), uniões informais entre
Segundo MichelFoucault, autor de História da sexua- homem e mulher e entre pessoas do mesmo sexo.
lidade, a civilização contemporânea fala muito sobre
sexo, sobretudo a partir do discurso científico. Para Profilaxia. Parte da medicina que trata da preserva-

ele, a ciência "naturaliza" o sexo, reduzindo-o a urna ção da saúde por meio de práticas de higiene e de
prevenção de doenças.
visão biologizante. Ao mostrá-lo como algo "natural",

9 MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. 4. ed. Rio de


Janeiro: Zahar, 1973.p. 83.

Em busca da felicidade Capítulo 7 [ • ::


voa~ ~"f.o~ 11Jt't> 6e!4, I"'Af.II ( . conciliar a preocupação de si com a gene-
lVA~WA% € f"O;Z ft;!jCO ~~ rosidade, no esforço para a construção de
~R~ ( uma individualidade responsável pelo outro
) e pelo mundo.
Por outro lado, Lipovetsky adverte sobre a
ambiguidade dessas novas estimulações:

[...] ao mesmo tempo em que exerce uma


função de personalização, o narcisismo
Tira Família Brasil, de Luis Fernando Verissimo publicada realiza também uma missão de normalização
s.
no jornal O Estado de Paulo, em 2008.
do corpo: o interesse febril que temos pelo
corpo não é, de modo algum, espontâneo
Por decorrência, também os jovens comportam-se e "livre", pois obedece a imperativos sociais,
com mais liberdade sexual e isenção de culpa do tais como a "linha", a "forma", o orgasmo etc.
que nas gerações que os antecederam. Ao mesmo O narcisismo joga e ganha em todas as tabelas
tempo, readquirem forças os movimentos de funcionando concomitantemente como operador
retorno ao ideal da família patriarcal e da defesa de despadronização e operador de padronização,
da indissolubilidade do casamento, estimulados sendo que esta jamais se reconhece como tal,
sobretudo por grupos religiosos. Esse estado de mas se dobra diante das mínimas exigências da
coisas repercute no que entendemos e esperamos personalização: a normalização
das relações amorosas e nas expectativas em torno pós-moderna se apresenta sempre como o único
do que é ser feliz. meio de o indivíduo ser realmente ele mesmo,
Quais são as consequências do afrouxamento jovem, esbelto, dinâmico."
das regras de comportamento que passaram a per-
mitir modos plurais de conduta? O que se percebe
em um primeiro momento é o individualismo, por-
que cada um se volta com mais intensidade para
m Felicidade e autonomia
si mesmo, na busca da realização dos desejos aqui Ao analisar o que é ser feliz, fizemos um percurso
e agora. Segundo alguns, diminuiu o interesse pelo na história da filosofia. Pudemos ver que a felicidade
coletivo, retraindo-se a participação política rebelde não se separa do processo de constituição da identi-
típica dos anos de 1960. Como decorrência, intensi- dade de cada um de nós, do que queremos para nossa
ficou-se o narcisismo devido à ênfase no aprimora- vida, da nossa "experiência de ser". Essa busca, porém,
mento da própria imagem e pela ânsia de consumo não é solitária, mas realiza-se na intersubjetividade:
numa sociedade hedonista e permissiva. depende das amizades, do amor, do erotismo e, nesse
Após longa tradição de desvalorização do corpo sentido, de como compreendemos nosso corpo, os
e das paixões, de seu controle e normatização, surge sentimentos e nossa relação com os outros.
a tendência aparentemente transgressiva da libera- A turbulência e a novidade das mudanças ocor-
ção e do resgate do corpo, até que no final do sécu- ridas a partir das últimas décadas do século xx, que
lo XXse dissemina o culto do corpo visando a garan- modificaram de maneira drástica os padrões de com-
tir a saúde, o bem-estar e a beleza. portamento, explicam a perplexidade de muitos. Se
O filósofo Gilles Lipovetsky analisa as mudan- alguns veem com bons olhos as mudanças, há os que
ças do nosso tempo, por ele consideradas inevitá- denunciam o braço invisível da alienação em condu-
veis. Destaca aspectos positivos na nova ordem, tas aparentemente autônomas. Nessa ótica, con-
na qual coabitam os fenômenos de massificação e cluem não haver propriamente autonomia, porque
de personalização, de individualismo exacerbado e os mecanismos de repressão encontram-se na pró-
de individualismo responsável. Por um lado, esta- pria sociedade e são exercidos como instrumentos de
ríamos ganhando autonomia e personalização, já controle dos desejos, seja para estimulá-los, seja para
que as respostas "não estão prontas", o que permite reprimi-los. É preciso, portanto, prosseguir na busca
comportamentos alternativos. Nesse caso, basta da autêntica liberação.

]O LIPOVETSKY, Gilles.A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri: Manole,
2005. p. 44.

Unidade 2 Antropologia filosófica


Leitura complementar
o ecletismo da felicidade
"Com o capitalismo de consumo, o hedonismo se tem de excluir nem a superficialidade nem a 'profundi-
impôs como um valor supremo e as satisfações mer- dade', nem a distração fútil nem a difícil constituição
cantis, como o caminho privilegiado da felicidade. de si mesmo. O homem muda ao longo da vida e não
Enquanto a cultura da vida cotidiana for dominada por esperamos sempre as mesmas satisfações da existência.
esse sistema de referência, a menos que se enfrente Significa dizer que não poderia haver outra filosofia da
um cataclismo ecológico ou econômico, a sociedade de felicidade que não desunificada e pluralista: uma filo-
h i perconsu mo prossegu irá i rresistivel mente em sua tra- sofia menos cética que eclética, menos definitiva que
jetória. Mas, se novas maneiras de avaliar os gozos mate- móvel.
riais e os prazeres imediatos vierem à luz, se uma outra No quadro de uma problemática 'dispersa', não
maneira de pensar a educação se impuser, a sociedade é tanto o próprio consumismo que compete denun-
de hiperconsumo dará lugar a outro tipo de cultura. A ciar, mas sua excrescência ou seu imperialismo consti-
mutação decorrente será produzida pela invenção de tuindo obstáculo ao desenvolvimento da diversidade
novos objetivos e sentidos, de novas perspectivas e prio- das potencialidades humanas. Assim, a sociedade
ridades na existência. Quando a felicidade for menos hipermercantil deve ser corrigida e enquadrada em
identificada à satisfação do maior número de necessi- vez de posta no pelourinho. Nem tudo é para ser rejei-
dades e à renovação sem limite dos objetos e dos laze- tado, muito é para ser reajustado e reequilibrado a
res, o ciclo do hiperconsumo estará encerrado. Essa fim de que a ordem tentacular do hiperconsumo não
mudança sócio-histórica não implica nem renúncia ao esmague a multiplicidade dos horizontes da vida.
bem-estar material, nem desaparecimento da organi- Nesse domínio, nada está dado, tudo está por inven-
zação mercantil dos modos de vida; ela supõe um novo tar e construir, sem modelo garantido. Tarefa árdua,
pluralismo dos valores, uma nova apreciação da vida necessariamente incerta e sem fim, a conquista da feli-
devorada pela ordem do consumo volúvel.Muitas são as cidade não pode ter prazo.
razões que levam a pensar que a cultura da felicidade [...] Lutamos por uma sociedade e uma vida melhor,
mercantil não pode ser considerada um modelo de vida buscamos incansavelmente os caminhos da felici-
boa. São suficientes, no entanto, para invalidar radical- dade, mas o que nos é mais precioso - a alegria de
mente seu princípio? viver -, como ignorar que sempre nos será dada por
Porque o homem não é Uno, a filosofia da felicidade acréscimo?"
tem o dever de fazer justiça a normas ou princípios de LlPOVETSKY,Gilles. A felicidade paradoxal. São Paulo:
vida antitéticos. Temos de reconhecer a legitimidade da Companhia das Letras, 2007. p. 367-370.
frivolidade hedonística ao mesmo tempo que a exigên-
cia da construção de si pelo pensamento e pelo agir. A
Ecletismo. "Qualquer teoria, prática ou disposição
filosofia dos antigos procurava formar um homem sábio de espírito que se caracteriza pela escolha do
que permanecesse idêntico a si próprio, querendo sem- que parece melhor entre várias doutrinas, métodos
pre a mesma coisa na coerência consigo e na rejeição ou estilos." (Dicionário Houaiss. Rio de Janeiro:
do supérfluo. Isso é de fato possível, de fato desejável? Objetiva, 2009. p. 719.)
Não o creio. Se, como sublinha Pascal, o homem é um Antitético. O que encerra uma antítese: uma

ser feito de 'contrariedades', a filosofia da felicidade não oposição entre proposições contraditórias.

~ Questões

11 Identifique no texto de Lipovetsky as características negativas e as positivas do


que ele denomina cultura da felicidade mercantil.

IJ Em que a posição de Lipovetsky se distingue das teorias de Marcuse e Foucault?

li Posicione-se a respeito da felicidade.

Leitura complementar Unidade 2 _


> Revendo o capitulo > Caiu no vestibular
D Dê as caracteristicas da felicidade elencadas no 11(PUC-RS) adaptado.
tópico 1 (O que significa ser feliz?) e desenvolva
Todos os dias, a qualquer hora, somos apresentados
uma delas. Se for o caso, indique alguma que você
a novos produtos - o celular com funções incríveis,
considera importante e que não foi contemplada.
o automóvel antiestresse, a geladeira que não só con-
S Faça um fichamento destacando, em cada momento serva os alimentos, mas também preserva o meio
histórico, a visão predominante a respeito da rela- ambiente ... Muitos, na verdade, são produtos inúteis,
ção corpo-alma. fabricados e anunciados para levar nosso dinheiro.

11Explique e dê um exemplo sobre a reação à dicoto-


Olhe à sua volta: quantas coisas em sua casa, na
sua mesa de trabalho, apenas ocupam espaço, mais
mia corpo-consciência representada pela corrente
atrapalham do que ajudam a viver? E quantas são
fenomeno lógica.
verdadeiramente úteis e necessárias?
> Aplicando os conceitos Feito esse inventário, escolha um ou mais objetos
sem os quais você acha que não poderia viver e
11 É adequada a introdução da disciplina Educação desenvolva o seguinte tema de sua dissertação: "Um
Sexual no currículo do ensino fundamental bem indispensável para uma vida confortável".
e médio? Algumas pessoas argumentam que
seriam favoráveis "desde que as informações 11 (UFMG) Leia este trecho.
sejam estritamente científicas e restritas à biolo- "[Há] três fontes de que o nosso sofrimento pro-
gia". Qual é sua posição sobre essa orientação? vém: o poder superior da natureza, a fragilidade de
Justifique. nossos próprios corpos e a inadequação das regras
11 "O homem é só um laço de relações, apenas as que procuram ajustar relacionamentos mútuos dos
seres humanos na família, no Estado e na socie-
relações contam para o homem." Em que sentido
a frase de Saint-Exupéry pode ser interpretada do dade. Quanto às duas primeiras fontes, nosso jul-
ponto de vista da busca da felicidade? gamento não pode hesitar muito. Ele nos força a
reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos sub-
11 "Os filósofos concebem as emoções que se com- meter ao inevitável [..J Esse reconhecimento não
batem entre si, em nós, como vícios em que os possui um efeito paralisador. Pelo contrário, aponta
homens caem por erro próprio; é por isso que a direção para a nossa atividade. Se não podemos
se habituaram a ridicularizá-los, de lorá-los ou, afastar todo o sofrimento, podemos afastar um
quando querem parecer mais morais, detestá-los pouco dele e mitigar outro tanto [...] Quanto à ter-
[..J. Tive todo o cuidado de não ridicularizar as ceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa ati-
ações dos homens, não as lamentar, não as detes- tude é diferente. Não a admitimos de modo algum;
tar, mas adquirir delas verdadeiro conhecimento." não podemos perceber por que os regulamentos
(Espinosa. Tratado político. São Paulo: Abril estabelecidos por nós mesmos não representam,
Cultural, 1973. p. 313-314.Coleção Os Pensadores.) ao contrário, proteção e beneficio para cada um de
A partir dessa citação, responda: Por que Espinosa nós". (Sígmund Freud. O mal-estar na civilização e
inovou na compreensão do corpo e da alma ao cri- outros trabalhos. Em: Edição Standard Brasileira das
ticar aqueles que deploram as paixões humanas? Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
11 Atenda às questões. v. XXI. Rio de Janeiro: Irnago, 1974.p. 105.)

a) O que Marcuse quer dizer com a expressão "efi- Com base na leitura desse trecho e considerando
ciência e repressão convergem"? outras informações presentes na obra citada,
b) Em seguida, explique a frase de Foucault: "o redija um texto justificando a ideia, defendida por
corpo só se torna força útil se é ao mesmo Freud, de que a cultura não torna os seres huma-
tempo corpo produtivo e corpo submisso". nos felizes.

c) Embora esses dois filósofos tenham teo-


rias diferentes, sob que aspecto podemos
aproximá-los? > Deplorar. Lastimar, lamentar, mostrar desagrado.

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