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Artigo Inédito

A Confecção do “Set Up” de Diagnóstico


Ortodôntico
The Conffection of Orthodontic Diagnostic Set Up

Resumo o estudo dos modelos (discrepância de


Os autores apresentam, fase por espaços, discrepância de Bolton, e verifi-
fase, uma técnica para a confecção do cação de assimetrias), bem como após a
¨Set Up¨ de diagnóstico ortodôntico. realização de um plano de tratamento de-
talhado, uma vez que todos os procedi-
Carlos Alberto
Introdução mentos de montagem do ¨Set Up¨ serão
Estevanell O ¨Set Up¨ é a montagem dos dentes baseados no plano de tratamento.
Ta va r e s
de modelos de gesso baseada em um pla- Inicialmente os dentes deverão ser nu-
no de tratamento ortodôntico objetivan- merados para evitar que sejam confundi-
do visualizar a oclusão que será obtida dos após terem sido removidos dos mo-
com o tratamento antes mesmo de seu delos. Verifica-se então a simetria das ar-
início4. Segundo MOYERS, sua realiza- cadas com a utilização de uma placa de
ção permite a avaliação do espaço nas Schmuth. A linha média dentária do paci-
três dimensões, sendo utilizado como au- ente deve ser marcada nas bases de am-
xiliar de diagnóstico3, uma vez que em bos os modelos através de um sulco reali-
função dos resultados obtidos neste, o pla- zado com uma serra de ourives muito fina,
no de tratamento poderá ser confirma- e preenchido com cera azul. É importante
do, modificado, e até mesmo rejeitado. A também demarcar a linha média óssea,
confecção do ¨Set Up¨ deveria fazer parte preenchendo este sulco com cera verme-
de todo planejamento ortodôntico4. lha para diferenciá-lo do anterior. Da mes-
ma forma, os primeiros molares serão
Preparação marcados com pequenos sulcos nas su-
Para a confecção do ¨Set Up¨ são fun- perfícies vestibulares das cúspides mésio-
damentais dois pares de modelos de ges- vestibulares dos quatro quadrantes. Es-
so oriundos de excelentes moldagens e re- ses sulcos deverão ser prolongados até
cortados corretamente, um deles será uti- as bases dos respectivos modelos, se-
lizado na construção do ¨Set Up¨ e o outro guindo a mesma inclinação axial do den-
como modelo de estudo e para compara- te. Todos os sulcos são preenchidos com
ções. A elaboração do ¨Set Up¨ deverá ser cera azul para escultura, a fim de que
iniciada somente após o exame clínico, se tornem mais visíveis. Através des-
análise cefalométrica e das fotografias, e tas marcas pode-se avaliar o que ocor-

Carlos Alberto Estevanell TavaresA


Unitermos: Diagnós- Lisa Klein ZaniniB
tico; Modelos;
A
Ortodontia; Set Mestre e doutorando em Ortodontia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Professor do Curso de Especialização em Ortodontia da ABO-RS
up. B
Aluna do Curso de Especialização em Ortodontia da ULBRA-RS

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reu com os molares após a montagem
do ¨Set Up¨. Esta observação será im-
portante no planejamento da ancora-
gem para o caso.
Outro registro importante é o da po-
sição no sentido ântero-posterior do in-
cisivo inferior mais projetado (FIG. 1);
este é realizado recortando-se um pa-
pel cartão, no mesmo plano que a base
do modelo inferior, até que este fique
totalmente encostado na porção ante-
rior da base do modelo e na face vesti-
bular do incisivo mais projetado, ou
contornando este dente com um fio de
latão e depois passando a conforma-
ção para o papel cartão. Na porção do
cartão que ultrapassa por oclusal do in- FIGURA 1 - Cartão de referência da posição do incisivo inferior mais projetado.
cisivo, faz-se uma marcação
milimetrada paralela à base do mode-
lo. Este cartão orientará a posição do
incisivo mais projetado na montagem
do ¨Set Up¨. Se o plano de tratamento
estabeleceu recolocação dos incisivos,
estes serão montados conforme as
marcas no cartão na quantia determi-
nada, se o plano de tratamento deter-
minou a projeção dos incisivos, o car-
tão deverá ficar afastado da base a mes-
ma quantidade de milímetros que os in-
cisivos seriam projetados. Registra-se
ainda no cartão o nome, número, dis-
tância bicanina e bimolar do paciente
e a quantidade de recolocação dos in-
cisivos inferiores.
A remoção dos dentes tem início fa- FIGURA 2 - Os dentes são serrados tanto no sentido vertical como horizontal,
zendo-se um túnel na altura das raízes sem chegar aos pontos de contato.

dos incisivos na linha mediana, com


uma broca esférica n.6. Pode-se reali-
zar o “Set Up” retirando todos os den-
tes de ambas as arcadas (exceto se-
gundos molares), ou por hemiarcos,
iniciando-se nestes casos pelo lado de
menor intercuspidação dentária. Atra-
vés do túnel feito com auxílio da broca,
passa-se uma serrinha espiral que é pre-
sa ao arco de serra de ambos os lados.
Os dentes são serrados tanto no senti-
do horizontal como vertical procuran-
do-se acompanhar a anatomia das
raízes, e sem tocar nos pontos de con-
tato dos dentes para não alterar as
suas dimensões mésio-distais (FIG. 2).
Os dentes são soltos através de uma
leve pressão dos dedos, para que não FIGURA 3 - Os pontos de contato são separados por uma leve pressão digital.

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se perca material no sentido mésio-
distal (FIG. 3). Todos os dentes são
separados dos modelos com exceção
dos últimos molares, que são manti-
dos como referência da dimensão ver-
tical para a montagem (FIG. 4).
Após a remoção de todos os den-
tes as ¨raízes¨ recebem uma forma mais
natural, desgastando-se o gesso com
uma fresa em forma de pera, evitan-
do desta forma interferências quando
do reposicionamento dos dentes (FIG.
5). Nas bases dos modelos e na por-
ção apical das raízes são feitas reten-
ções que são preenchidas com cera
utilidade, que será o primeiro meio de
FIGURA 4 - Os últimos molares não são removidos dos modelos. sustentação para os dentes.
Se estiver planejada a realização
de ¨Stripping¨ este deve ser realizado
antes da montagem, medindo-se exa-
tamente, com um paquímetro, o quan-
to foi desgastado da cada dente. Se
houver espectativa de crescimento
mandibular, acrescentam-se lâminas
cera n.7 na parte posterior do modelo
inferior, na quantidade correspondente
ao crescimento mandibular previsto
na análise cefalométrica. Normalmen-
te coloca-se uma lâmina de cera para
cada milímetro de estimativa de cres-
cimento do pogônio duro.

Montagem
A montagem do ¨Set Up¨ inicia pe-
FIGURA 5 - Preparo da porção radicular dos dentes, obtendo-se uma forma los incisivos inferiores cuja posição tan-
mais natural. to em relação à linha média como no
sentido ântero-posterior são determi-
nadas pelo plano de tratamento, e
montados com auxílio da marca da
linha mediana e do cartão de referên-
cia (FIG. 6). A seguir são montados
os caninos, observando-se a distân-
cia inter-caninos original e o plano de
tratamento, então são colocados os
pré-molares e finalmente os primeiros
molares, observando-se a distância
inter-molares. Se o espaço para a co-
locação dos primeiros molares não for
suficiente os segundos molares são re-
duzidos na sua superfície mesial em
quantidade suficiente para permitir a
colocação mais distal dos primeiros.
FIGURA 6 - Início da montagem pelos incisivos inferiores com o auxílio do
Evidentemente dentes com extra-
cartão de referência ção planejada devem ser eliminados

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da montagem. No caso de algum dente
não ter erupcionado, este poderá ser
substituído por outro com dimensões
idênticas, conforme o previsto pelo
método de predição. Nesta fase os den-
tes estão afixados somente com cera
articulação o que permite uma certa
movimentação sem a necessidade de
removê-los, aproveitando-se para dar
a forma ideal ao arco inferior.
Os dentes do arco superior são
montados com base no plano de tra-
tamento e sobre os dentes do arco in-
ferior, com a melhor intercuspidação
possível, com sobremordida e sobres-
saliência ideais e as relações molares
conforme determinado no plano de
tratamento. Após terem sido monta-
dos os dentes superiores e a oclusão
considerada a melhor possível, será
adicionada cera n.7 para fixar os den-
tes nas posições definitivas. Faz-se
então a escultura da ¨gengiva¨ com
auxílio de espátulas de cera n.7 e n.31,
Le cron e lamparina de Hanau. Para
o acabamento deve-se imergir os mo-
delos em solução de sabão por 2 ho-
ras, polir com algodão embebido em
sabão e secar por 48 horas (FIG. 7).

Análise do ¨SET UP¨


Analisando-se o ¨Set Up¨ pode-se FIGURA 7 - ¨Set Up¨ finalizado (caso com extrações dos primeiros pré-molares
observar se a sobremordida e a so- superiores e um incisivo central inferior).
bressaliência estão corretas; se a in-
tercuspidação dos dentes posteriores para uma conclusão à respeito do mes- sultado obtido poderá então ser expos-
ficou excelente; se as distâncias inter- mo. Através do ¨Set Up¨ pode-se avali- to ao paciente de forma muito mais
caninos e inter-molares foram ar diversas opções de tratamento para compreensível do que apenas uma ex-
mantidas; se a recolocação dos incisi- um mesmo paciente, executando-se di- planação teórica daquilo que se pretende
vos ficou de acordo com o plano de ferentes montagens de dentes. O re- com o tratamento ortodôntico.
tratamento; se houve perda de anco-
ragem em nível de primeiros molares
Abstract
ou os mesmos foram deslocados no
sentido distal em relação as marcas; The authors present, step by step, Uniterms: Casts; Diagnostic;
se as linhas médias estão coinciden- a technic for the conffection of a Orthodontics; Set up.
tes; se ¨Stripping¨ foi necessário e em diagnostic set up.
que quantidade; e se forem necessári-
as exodontias e de quais dentes; tudo
Referências Bibliográficas
isto dando uma idéia do resultado or-
todôntico final a ser obtido. 01 - BOLOGNESE, Ana Maria et al. Set-up : 03 - MOYERS, R. E. Ortodontia. 3.ed. Rio de
uma técnica de confecção. Rev Socie- Janeiro : Guanabara Koogan, 1979.
dade Brasileira de Ortodontia, v.2, p.323-324, p.323-324, 1979.
Conclusões n.8, p.245-249, 1995. 04 - MUCHA, José Nélson; MENEZES, Leonar-
Uma visão concreta dos resultados 02 - KESLING, Harold D. The diagnostic setup do Soares de. Confecção de ¨Set-up¨.
with consideration of the third Rio de Janeiro : UFRJ, 1988. /Relatório
obtidos através de um determinado pla- dimension. Am J Orthodontics, apresentado ao curso de mestrado em
no de tratamento estará à disposição v.42, n.10, p-740-747, Oct. 1956. Ortodontia, Rio de Janeiro, 1988.

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