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Curso: Introdução a Crítica da Razão Pura - Prof.

Estevão Lemos Cruz

Como ILUMINISTA na reta final, o CRITICISMO Kantiano visa criticar as correntes filosóficas
modernas (RACIONALISMO e EMPIRISMO), bem como criticar os limites da RAZÃO e da
SENSIBILIDADE humana.

Como faço pra desenvolver o TESÃO, a motivação na leitura filosófica? Torne pessoal o
PROBLEMA da obra, se envolva com o problema. Senão, o estudo da obra será estéril,
desmotivador.

ERUDITISMO não se confunde com FILOSOFIA.

Se apaixone pelo problema e não pela RESPOSTA do problema, porque senão todas as
reflexões serão tendenciosas para a resposta. Torne pessoal o PROBLEMA e não a RESPOSTA.

Qual é o problema inaugural da obra que origina todo o seu encadeamento de argumentos?

Qual o problema inaugural da Crítica da Razão Pura? E a pergunta: É possível a METAFÍSICA


enquanto ciência?

Imagine que um matemático e um físico provasse por A + B, sem qualquer espaço pra duvida,
do modo completamente irrefutável que DEUS existe e que ele opera dessa ou daquela forma.
Eu só sei se isso é possível ou não se eu soubesse o conhecimento acerca de Deus é possível ou
não enquanto CIÊNCIA ou de modo mais geral, não se restringindo somente a questão de Deus
se eu soubesse a metafísica é possível ou não enquanto ciência.

Será que as antigas afirmações metafisicas dos gregos eram de fatos possíveis? O que é
ciência? Quais são os limites do conhecimento? Coo são possíveis os juízos sintéticos a priori?
Todas essas perguntas, muitas vão estar a serviço de responder a pergunta inaugural, se é
possível a metafisica quanto ciência. E para isso é necessário contextualizar a pergunta com a
época do Kant. Estamos falando de um filosofo do século XVIII com todo o contexto no
entorno dessa época.

Como o Kant planeja responder a essa pergunta? Como ele organiza toda a estrutura da obra,
a sua unidade estrutural pra dar conta de responder a essa pergunta? O autor, Kant, amarra
toda a sua linha argumentativa olhando pro SUMÁRIO, o índice da obra. Ou seja, pra saber
quais são as estratégias argumentativas do Kant, bora pro INDICE.

A obra inicia com a INTRODUÇÃO e duas grandes partes: uma chamada Doutrina
Transcendental dos Elementos que é mais de 70% da obra e outra chamada Doutrina
Transcendental do Método. E o que Kant diz na Introdução? Pra responder a pergunta “é
possível a metafisica da ciência?”, é preciso saber como a ciência funciona e boa parte da
introdução da crítica da Razão Pura é o Kant dizendo, “olha a ciência funciona segundo juízos
sintéticos a priori.

O que são juízos sintéticos a priori? Primeiro, o que são juízos? No caso, são predicações. São
enunciados que segue a formula S é P, ou seja, o sujeito operador coplativo, no caso o verbo
SER e o predicado ou pode ser S é igual a Não P. Tanto faz se é um juízo afirmativo ou negativo.
Por exemplo, o céu é azul, o triangulo tem três lados, dois mais dois são quatro. Tudo isso são
enunciados, segue a estrutura S é P, sujeito, operador coplativo e predicado.

Se a CIENCIA opera segundo juízos sintéticos a priori, a primeira informação aqui é que a
ciência emite juízos, ou seja, eu não posso dizer, “olha, sinto no meu coração que existe uma
quarta lei de Newton. Eu não sei dizer, só sei sentir. Ela está aqui no meu coração e não dá pra
falar”. Kant vai olhar pra vc e vai falar, “isso não é ciência”. Porque o conhecimento pra ser de
fato cientifico é preciso que ele possa ser predicável. É necessário também que esse juízo seja
sintético. Ou seja, que não haja identidade entre o sujeito e o predicado. Que esse juízo não
seja meramente tautológico, elucidativo, explicativo. Quando emito o juízo, “o corpo é
extenso”, esse juízo não é sintético porque o conceito de extenso já está contido no conceito
de corpo. Ao decompor o conceito de corpo, vou encontrar o conceito de extensão. Mas se eu
falo, “o quadro é branco”. Quadro e branco são coisas distintas. Se decomponho o conceito de
quadro, eu não vou encontrar o conceito de branco. Então por eles serem distintos, sujeito e
predicado, eu tenho ai um juízo sintético. Quando eu falo 2 + 6 é 8, isso também é um juízo
sintético. Se eu decomponho o conceito de 2, eu não vou encontrar o conceito de 8, se eu
decomponho o conceito de soma, também não vou encontrar o conceito de 8. Então uma
afirmação desse tipo, 2 + 6 = 8, é um juízo sintético porque o predicado é diferente do
sujeito. Mas para ser ciência, não basta ser um juízo sintético, precisa ser um juízo sintético a
priori.

O que significa “A PRIORI” no juízo, significa que esse juízo não é fundado na experiência. Ele
não precisa do testemunho da experiência pra encontrar sua validade. Quando, por exemplo,
eu digo que todos os cisnes são brancos, isso é um juízo sintético, porque cisne e branco não
são a mesma coisa. Mas isso não é um juízo a priori porque eu preciso do testemunho da
experiência. Como que eu sei que todos os cisnes são brancos? Porque todos os cisnes que vi
até agora eram brancos. Mas pode ser que em algum momento numa caverna escondida, eu
encontre um cisne azul ou rosa. Então, a afirmação de que todos os cisnes são brancos é
baseada na minha experiência.

Agora quando eu falo que o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos
catetos, isso também é um juízo sintético, porque se decomponho o conceito de hipotenusa,
não vou encontrar o sentido do quadrado. Ou seja, o sujeito e predicado estão falando coisas
diferentes, só que ele também é a priori porque eu não preciso do testemunho da experiência
pra comprovar a validade desse juízo. Onde sequer exista triangulo no mundo, esse juízo
continua a ser valido.

Mas como saber se eu preciso ou não do testemunho da experiência? Existe um critério pra
saber se preciso ou não do testemunho da experiência. Trata-se do critério da universalidade e
necessidade. Se a relação entre sujeito e predicado for de universalidade e necessidade, se eu
não consigo pensar numa forma diferente desses termos se relacionarem, então eu tenho ai
um juízo a priori. Quando eu digo, “o cisne é branco”, eu tenho ai uma relação de
universalidade e necessidade. Eu posso pensar na existência de cisnes com outras cores, mas
se consegue pensar em triangulo retângulo cujo o quadrado da hipotenusa não seja igual a
soma dos quadrados dos catetos? Não consegue, porque há ai uma relação de universalidade
e necessidade.

Então o que é um juízo sintético a priori? É uma proposição em que o sujeito e o predicado
não estão numa relação de identidade e também a relação deles não se funda na
experiência. Essa relação é universal e necessária.

Qual o próximo passo que tenho que dar pra saber se a metafisica é possível ou não quanto
ciência? É preciso saber como são possíveis esses juízos e se a metafisica é capaz de emiti-los.
Porque é sabendo como são possíveis os juízos sintéticos a priori que eu vou saber quais são os
limites de todo o conhecimento a priori, e é aqui que a critica da razão começa pra valer.
A primeira divisão da critica da razão é a doutrina transcendental dos elementos. A gente pode
entender essa doutrina como um estudo. O transcendental está dando uma qualidade desse
estudo. O transcendental está indicando aqui que esse estudo visa o modo como conhecemos,
mas na medida em que esse conhecimento pode ser a priori, isso é, não fundado na
experiência. Mas o transcendental está dizendo que respeita a possibilidade desse próprio
estudo. Temos um copo de chopp, podemos falar das qualidades desse copo, que ele é
cilíndrico, que é de vidro, que é transparente. Mas se ao invés de eu prestar atenção em suas
qualidades, eu perguntasse, quais serão os elementos presentes em mim antes de qualquer
experiência, isto é, a priori, que me permite conhecer esse copo. Sacou a inversão? Não é mais
prestar a atenção copo, mas perceber mais o modo como nós conhecemos o copo. Então
quero fazer um estudo dos elementos que são presentes em mim, antes de qualquer
experiência, isto é, a priori, e que possibilita o conhecimento. Isso é a doutrina transcendental
dos elementos. Os elementos aqui significam procura por estruturas que não são derivadas,
mas são as mais básicas de todas, elementares, que não tem nada antes delas. Então, Kant
está perguntando, quais são esses elementos primeiros, anteriores a toda a experiência, isto é,
a priori, que estão presentes em mim e que permite todo o conhecimento. A pergunta por
esses elementos é a doutrina transcendental dos elementos. Esse transcendental está fazendo
referência à possibilidade do conhecimento na medida em que ele pode ser a priori, isto é,
não fundado na experiência.

Se estou me referindo ao estudo dos elementos, e esses elementos se referem ao que há de


mais básico, isto é, que não se deriva de nada, nem da experiência, portanto é só a priori,
então todo estudo acerca desses elementos já é por definição transcendental, já que diz
respeito a possibilidade a priori do conhecimento.

Que elementos são esses? São as formas puras da sensibilidade, espaço e tempo, e os
conceitos puros do entendimento, as 12 categorias. Isso nos indica algo a respeito da
sensibilidade e do entendimento. O que esses termos estão nos antecipando é que o Kant está
propondo é que esses elementos básicos, a priori, anteriores a todas as experiências, que
possibilitam o conhecimento, estão presentes na sensibilidade e no entendimento,
enquanto suas condições de possibilidades.

O que o Kant está propondo e da pra perceber só ao olhar pro INDICE, é que o conhecimento
tem duas fontes de origem. Tudo o que eu conheço é a partir da síntese dessas duas fontes, a
sensibilidade e o entendimento. A sensibilidade é uma faculdade passiva pela qual sou
afetado pelos objetos. É na sensibilidade que vão ser fornecidas as intuições e o
entendimento é uma faculdade ativa que vai produzir as representações. Vai pegar as
intuições fornecidas na sensibilidade e vai pensar elas, vai torna-las compreensíveis. O
entendimento é justamente essa capacidade de pensar o objeto da intuição sensível.

Imagine se eu só tivesse a faculdade do entendimento, de pensar, mas que eu tivesse nascido


sem nenhum dos meus cinco sentidos. Se tivesse nascido cego, surdo, sem olfato, paladar, sem
a capacidade de sentir o tato. Qual seria então o conteúdo dos meus pensamentos? Nenhum,
porque por mais que eu pudesse pensar, eu não teria o que pensar.

Agora imagine o contrário, que tivesse nascido com todos os meus sentidos bem dispostos,
mas que eu não tivesse a faculdade do entendimento. Eu não teria como pensar, como dar
sentido as intuições fornecidas pela sensibilidade. É por isso que Kant tem a sua frase famosa
que diz, “pensamentos sem conteúdos são vazios e intuições sem conceitos são cegas”.
Os elementos são as formas puras da sensibilidade e os conceitos puros do entendimento, e a
sintese entre sensibilidade e entendimento é que possibilita o conhecimento. Kant está
dizendo que existe elementos a priori em mim que possibilitam a sensibilidade e elementos a
priori em mim que possibilitam o entendimento. Pra descrever quais elementos a priori são
estes que possibilitam a sensibilidade é que o Kant vai escrever a ESTÉTICA TRANSCEDENTAL.
Kant está fazendo uso aqui do sentido etimológico da palavra estética que significa sensação.
Não tem nada haver com belo, mas com sensação. A estética transcendental está perguntando
pelos elementos a priori que possibilitam a sensibilidade que são o espaço e o tempo, que são
as formas puras da sensibilidade.

Pra se ocupar isoladamente do entendimento, Kant vai escrever a LÓGICA TRANSCEDENTAL. Se


a estética cuidava da sensibilidade, a logica transcendental vai destacar apenas a parte do
conhecimento que tem origem no entendimento. É por isso que a doutrina transcendental dos
elementos se divide em estética transcendental que se ocupa da sensibilidade e da logica
transcendental que se ocupa do entendimento. A estética transcendental vai se dividir em
duas sessões que explicam o espaço e o tempo que são os elementos a priori da sensibilidade.
Já a lógica transcendental vai se dividir em analítica transcendental e dialética transcendental.
E quais são as funções dessas partes? A analítica vai mostrar justamente quais são aqueles
elementos puros do entendimento e quais são os princípios sem os quais nenhum objeto pode
ser pensado. E é por isso que a analítica transcendental vai se subdividir em analítica dos
conceitos e analítica dos princípios. É na analítica dos conceitos que Kant vai pegar a faculdade
do entendimento e vai decompô-la até ele encontrar esses elementos básicos não derivados
da experiência que possibilitam todo o conhecimento a priori dos objetos. E é na analítica dos
conceitos que Kant vai finalmente dizer sobre as 12 categorias. É aqui que finalmente vai
aparecer as famosas tabuas das categorias do Kant que a partir do qual, o entendimento forma
todos os seus conceitos. Então, no final da analítica dos conceitos a gente já vai saber quais são
os elementos a priori da sensibilidade e do entendimento, as categorias. É também na analítica
dos conceitos que Kant finalmente nos responde a pergunta como são possíveis os juízos
sintéticos a priori e com isso mostra como a ciência é possível.