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MIHALY CSIKSZENTMIHALYI

C O L E Ç Ã O C IÊ N C IA ATUAL
Coordenação editorial: Leny Cordeiro

Complexidade - Roger Lewin


Buracos negros, universos-bebês e outros ensaios - Stephen Hawking
Dobras no tempo - Georgc Smoot c Keay Davidson
O bico do tentilhão - Jonathan Weincr
Sonhos de uma teoria final - Steven Weinbcrg
O quark e o jaguar - Murray Gcll-Mann A DESCOBERTA DO FLUXO
Nano - Ed Regis
Signos da vida - Robert Pollack
A perigosa idéia de Darwin - Daniel C. Dennctt
A psicologia do envolvimento
A beleza da fera - Natalie Angier com a vida cotidiana
Somos diferentes? - James Trefil
♦• •
SÉRIE MESTRES DA CIÊNCIA Tradução de
Os três últimos minutos - Paul Davics PEDRO RIBEIRO
A origem da espécie humana - Richard Leakey
A origem do universo - John D. Barrow
O rio que saía do Éden - Richard Dawkins
O reino periódico - P. W. Atkins
Os números da natureza - lan Stewart
Tipos de mentes - Daniel C. Dennctt
Como o cérebro pensa - William H. Calvin
Laboratório terra - Stephen H. Schneider
O brilho do peixe-pônei - George C. Williams
Por que o sexo é divertido? - Jared Diamond
• • •

SÉRIE MESTRES DO PENSAMENTO


Depois de Deus - Don Cupitt
Mentes extraordinárias - Howard Gardncr
A descoberta do fluxo - Mihaly Csikszentmihalyi

Rio de Janeiro - 1999


Título original
F1NDING FLOW
The Psychology o f Engagement
w ith Everyday L ife

Copyright © 1997 by M ihaly Csikszentmihalyi


e Orion Publishing Group Ltd.

"O nome e a marca The MasterMinds


foram publicados com a autorização Para Isa, novamente
de seu proprietário 3rockman. Inc.”

Direitos mundiais para a língua portuguesa


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preparação de originais
R YTA VINAGRE
L A U RA NEVES

CIP-Brasil. Catalogação-na-fontc
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Csikszentmihalyi. M ihaly
C969d A descoberta do fluxo: a psicologia do envolvimento com a
vida cotidiana / M ihaly CsLszcntmihalyi; tradução de Pedro
Ribeiro. - Rio de Janeiro: Rocco, 1999
. - (Ciência Atual)

Tradução de: Finding flow: thc psychology o f engagement


w ith everyday lifc
Inclui bibliografia
ISBN 85-325-1014-0

1. Vida. 2. Cotidiano. 1. Título. II. Título: A psicologia do


envolvimento com a vida cotidiana. III. Série.
CDD -158.2
99-0602 CDU - 159.94
SUMÁRIO

Agradecimentos........................................................................ 9
1 - As estruturas da vida cotidiana........................................ 11
2 - 0 conteúdo da experiência............................................... 25
3 - Como nos sentimos quando fazemos coisas diferentes .... 41
4 - 0 paradoxo do trabalho.................................................... 53
5 - Os riscos e as oportunidades do la ze r............................. 67
6 - Relacionamentos e qualidade de vid a .............................. 80
7 - Como mudar os padrões de vida...................................... 97
8 - A personalidade autotélica................................................. 114
9 - 0 amor ao destino.............................................................. 128
Notas........................................................................................... 145
Referências............................................................................... 152
índice.......................................................................................... 159
AGRADECIMENTOS

Os resultados discutidos neste livro se baseiam em pesquisas


financiadas pela Spencer Foundation e pela Alfred P. Sloan
Foundation. Muitos colegas e estudantes forneceram um auxílio
valioso na pesquisa do fluxo. Gostaria de agradecer especialmen­
te a Kevin Rathunde, da Universidade de Utah; Samuel Whalen,
da Northwestern University; Kiyoshi Asakawa, da Universidade
Shikoku-Gakuen, no Japão; Fausto Massimini e Antonella Delle
Fave, da Universidade de Milão, Itália; Paolo Inghilleri, da
Universidade de Perugia, Itália; e a meus colegas na Univer­
sidade de Chicago, Wendy Adlai-Gail, Joel Hektner, Jeanne
Nakamura, John Patton e Jennifer Schmidt.
Dos muitos colegas cuja amizade tanto me auxiliou, gosta­
ria de agradecer especialmente a Charles Bidwell, W illiam
Damon, Howard Gardner, Geoffrey Godbey, Elizabeth Noelle-
Neumann, Mark Runco e Barbara Schneider.

II
UM

AS ESTRUTURAS D A V ID A C O T ID IA N A

Se realmente queremos viver, é melhor que comecemos a tentar


imediatamente; se não queremos, não faz mal, mas é melhor
começarmos a morrer.
W. H. Audcn

As palavras de Auden sintetizam com precisão o tema deste


livro.1 A escolha é simples; entre agora e o inevitável final dos
nossos dias, podemos escolher entre viver ou morrer. A vida bio­
lógica é um processo automático, desde que cuidemos das neces­
sidades do corpo. Mas viver no sentido a que o poeta se refere não
é de modo algum algo que aconteça espontaneamente. Na verda­
de, tudo conspira contra isso: se não assumirmos sua direção,
nossa vida será controlada pelo mundo exterior para servir a pro­
pósitos alheios aos nossos. Instintos biologicamente programa­
dos nos utilizarão para replicar o material genético que carrega­
mos, a cultura garantirá que empregaremos nossa vida para pro­
pagar os seus valores e instituições e outras pessoas tentarão tirar
o máximo da nossa energia para levar adiante seus próprios pla­
nos - tudo isso sem consideração alguma pelo modo como sere­
mos afetados. Não podemos esperar que alguém nos ajude a
viver, precisamos descobrir como fazer isso por conta própria.
Desse modo, o que significa “viver”? É claro que não se
refere simplesmente à sobrevivência biológica. Significa viver de
maneira olena. sem desperdício de temoo e ootencial. exoressan-
12 A DESCOBERTA DO FLUXO AS ESTRUTURAS DA VIDA C O T ID IA N A 13

complexidade do cosmos. Este livro estuda maneiras de viver primeiro é que profetas, poetas e filósofos vislumbraram verda­
deste modo, apoiando-se o máximo possível em descobertas da des importantes no passado, verdades que são essenciais para a
psicologia contem porânea e nas minhas próprias pesquisas, continuidade de nossa sobrevivência. Mas essas verdades foram
assim como na sabedoria do passado, em todas as formas como expressas no vocabulário conceituai de sua época, de modo que.
foi registrada. para que sejam úteis, seu significado precisa ser redescoberto e
Vou refazer a pergunta “o que é uma boa vida?” de uma reinterpretado a cada geração. Os livros sagrados do judaísmo,
maneira bastante modesta. Em vez de lidar com profecias e mis­ cristianismo, islamismo, budismo e dos Vedas são os melhores
térios, tentarei me limitar ao máximo às evidências racionais, repositórios das idéias mais importantes para nossos ancestrais, e
focalizando os eventos cotidianos que geralmente encontramos ignorá-los é um ato de arrogância infantil. Mas é igualmente
durante um dia normal. ingênuo acreditar que tudo que foi escrito no passado contém
Um exemplo concreto poderá ilustrar melhor o que quero uma verdade absoluta e imutável.
dizer com levar uma boa vida. Anos atrás, meus alunos e eu estu­ O segundo pressuposto deste livro é que atualmente a ciên­
damos uma fábrica onde eram montados vagões de trem. A ofici­ cia oferece as informações mais essenciais para a humanidade. A
na principal era um grande galpão sujo onde mal se podia ouvir verdade científica também é expressa de acordo com a visão de
uma palavra sequer, devido ao barulho constante. A maioria dos mundo de sua época, c portanto mudará e poderá ser descartada
soldadores que trabalhava ali detestava seu emprego, e ficava no futuro. Provavelmente existe tanta superstição e mal-entendi­
constantemente olhando para o relógio, ansiosa para ir embora. dos na ciência moderna quanto havia nos mitos antigos, mas esta­
Assim que saíam da fábrica corriam para os bares da vizinhança, mos próximos demais no tempo para ver a diferença. É possível
ou cruzavam a fronteira do estado em busca de lugares mais ani­ que no futuro a percepção extra-sensorial e a energia espiritual
mados. nos levem à verdade sem a necessidade de teorias e laboratórios.
Exceto um deles: Joe, um homem semi-alfabetizado de ses­ Mas os atalhos são perigosos; não podemos nos iludir pensando
senta e poucos anos, que aprendera sozinho a compreender e con­ que nosso conhecimento é mais avançado do que realmente é.
sertar cada peça de equipam ento na fábrica, de guindastes a Apesar de todas as consequências, na atualidade a ciência é ainda
monitores de computador. Ele adorava pegar máquinas que não o único espelho confiável da realidade, e a ignoramos por nossa
estavam funcionando, descobrir o que havia de errado com elas e conta e risco.
colocá-las novamente em funcionamento. Ele e a esposa cons­ O terceiro pressuposto é que, se desejamos compreender o
truíram um grande jardim de pedras nos dois terrenos vazios jun­ que acarreta “viver” de verdade, devemos escutar as vozes do
to à sua casa, e nele instalaram fontes que criavam um efeito de passado e integrar suas mensagens com o conhecimento que a
arco-íris - mesmo durante a noite. Os cento e poucos moldadores ciência está lentamente acumulando. Gestos ideológicos - tais
que trabalhavam na usina respeitavam Joe, embora não o com­ como o projeto de retomo à natureza de Rousseau, que foi um
preendessem muito bem. Eles pediam sua ajuda sempre que precursor da fé freudiana - são apenas atitudes vazias de signifi­
havia algum problema. Muitos diziam que sem Joe a fábrica teria cado se ninguém tem idéia do que é a natureza humana. Não há
de fechar. esperança no passado; não há solução a ser encontrada no presen­
Nos últimos anos conheci muitos executivos principais de te; tampouco ficaremos melhores saltando para um futuro imagi­
várias empresas, políticos poderosos e dezenas de laureados com nário. O único caminho para descobrir o significado da vida é a
o prêmio Nobel - pessoas eminentes, que de muitas maneiras tentativa lenta e paciente de compreender as realidades do passa­
viviam vidas excelentes, mas nenhuma delas era melhor do que a do e as possibilidades do futuro do modo como elas podem ser
de Joe. O que toma uma vida como a dele serena, útil e digna de compreendidas no presente.
ser vivida? Esta é a pergunta crucial à qual este livro tentará res­ Portanto, neste livro “vida” significará aquilo que experi­
ponder. Minha abordagem tem três pressupostos principais. O mentamos da manhã até a noite, sete dias por semana, durante
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setenta anos se tivermos sorte, durante ainda mais tempo se for­ Os babuínos que vivem nas planícies africanas passam cer­
mos ainda mais afortunados. Essa pode parecer uma perspectiva ca de um terço do seu tempo dormindo, e quando acordam divi­
estreita em comparação com as visões muito mais exaltadas da dem seu tempo entre viajar, encontrar alimento e comê-lo, e
vida que os mitos e as religiões tomaram familiares para nós. momentos de lazer - que basicamente consistem na interação, ou
Mas, subvertendo a aposta de Pascal, parece que, na dúvida, a em catar pulgas nos pêlos uns dos outros. Não é uma vida muito
melhor estratégia é acreditar que esses mais ou menos setenta estimulante, mas pouco mudou no milhão de anos desde que os
anos são nossa única chance de experimentar o cosmos, e deve­ seres humanos evoluíram de ancestrais símios comuns.3 As exi­
mos aproveitá-la ao máximo - pois, se não o fizermos, podere­ gências da vida ainda ordenam que passemos nosso tempo de um
mos perder tudo, e, se estivermos errados e houver uma vida após modo pouco diferente dos babuínos africanos. Com uma diferen­
a morte, não perderemos nada. ça de poucas horas, a maioria das pessoas dorme durante um ter­
O que será esta vida é em parte determinado pelos processos ço do dia e usa o resto para trabalhar, deslocar-se e descansar
químicos do nosso corpo, pela interação biológica entre os mais ou menos nas mesmas proporções que os babuínos. E como
órgãos, pelas ínfimas correntes elétricas saltando entre as sinap- o historiador Emmanuel Le Roy Ladurie mostrou, nas vilas fran­
ses do cérebro, e pela organização da informação que a cultura cesas do século XIII - que estavam entre as mais avançadas do
impõe sobre nossa mente. Mas a qualidade real da vida - o que mundo naquela época - , a atividade de lazer mais comum ainda
fazemos, e como nos sentimos quanto a isso - será determinada era catar piolhos nos cabelos uns dos outros. Hoje, naturalmente,
por nossos pensamentos e nossas emoções; pelas interpretações temos a televisão.4
que damos a processos químicos, biológicos e sociais. O estudo Os ciclos de descanso, produção, consumo e interação estão
do fluxo de consciência que passa pela mente é da competência tão integrados à maneira como experimentamos a vida quanto
da filosofia fenomenológica. Meu trabalho nos últimos trinta nossos sentidos - visão, audição e assim por diante. Como o sis­
anos consistiu em desenvolver uma fenomenologia sistemática tema nervoso foi construído para que só pudesse processar uma
que utiliza as ferramentas das ciências sociais - primariamente pequena quantidade de informação de cada vez, a maior parte
psicologia e sociologia - para responder à pergunta: como é a daquilo que experimentamos precisa ocorrer de maneira seqüen-
vida? E à pergunta mais prática: como cada um de nós pode ter cial, uma coisa depois da outra. Muitas vezes se diz dc um
uma vida excelente?2 homem rico e poderoso que, “como o resto de nós, ele precisa
O primeiro passo para responder a essas perguntas se rela­ botar uma perna nas calças de cada vez’’. Podemos engolir ape­
ciona com ter uma boa noção das forças que formam aquilo que nas um bocado, escutar uma só música, ler um só jornal, partici­
podemos experimentar. Quer gostemos ou não, cada um de nós par de uma só conversa de cada vez. Assim, as limitações na
está sujeito aos limites do que podemos fazer e sentir. Ignorar atenção, que determinam a quantidade de energia psíquica que
esses limites leva à negação e mais tarde ao fracasso. Para alcan­ possuímos para experimentar o mundo, oferecem um roteiro
çar a excelência, devemos primeiro compreender a realidade do inflexível para nossas vidas. Nas épocas mais diversas e em dife­
cotidiano, com todas as suas exigências e possíveis frustrações. rentes culturas, o que as pessoas fazem e por quanto tempo é in­
Em muitos dos antigos mitos, quem desejava encontrar a felicida­ crivelmente similar.
de, o amor ou a vida eterna tinha de primeiro viajar pelo mundo Tendo acabado de dizer que em alguns aspectos importantes
do além. Antes de obter a permissão para contemplar os esplen­ todas as vidas são similares, devemos nos apressar em reconhecer
dores do céu, Dante teve de perambular pelos horrores do inferno as óbvias diferenças. Um corretor de Manhattan, um camponês
para que pudesse compreender o que nos impede de atravessar os da China e um bosquímano do Kalahari viverão o roteiro huma­
portões celestiais. O mesmo é verdade na busca mais terrena que no básico de maneira que a princípio não parecerão ter nada em
estamos prestes a iniciar. comum. Escrevendo sobre a Europa dos séculos XVI a XVII, as
historiadoras Natalie Zemon Davis e Arlette Farge comentaram:
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“A vida diária se desdobrava no contexto de hierarquias sexuais e mos milhões de flocos de neve idênticos caindo. Mas, se pegar­
sociais duradouras.” Isso é verdadeiro para todos os grupos so­ mos uma lente de aumento e olharmos cada floco isoladamente,
ciais que conhecemos: o modo como uma pessoa vive depende logo descobriremos que eles não são idênticos - na verdade, cada
em grande parte do sexo, da idade e da posição social. um tem uma forma que nenhum outro floco duplicou exatamen­
A casualidade do nascimento coloca uma pessoa em um te. O mesmo é verdade quanto aos seres humanos. Podemos dizer
nicho que determina em grande parte em que tipo de experiências um bocado sobre o que Susan vai viver simplesmente pelo fato dc
sua vida consistirá. Um garoto de seis ou sete anos, nascido há ela ser humana. Podemos dizer ainda mais sabendo que ela é uma
duzentos anos em uma família pobre da Inglaterra, provavelmen­ garota americana, vivendo em uma certa comunidade, com pais
te despertaria às cinco da manhã e correría até o moinho para cui­ que possuem tais e tais profissões. Porém, saber todos os parâme­
dar das mós mecânicas e barulhentas até o crepúsculo, seis dias tros externos não nos permitirá prever como será a vida de Susan.
por semana.5 Muitas vezes ele morrería de exaustão antes de che­ Não só porque o acaso pode anular todas as apostas, mas também
gar à adolescência. Uma garota de 12 anos nas regiões produto­ e principalmente porque Susan possui uma mente própria, com a
ras de seda da França na mesma época ficaria sentada junto a qual pode decidir desperdiçar suas oportunidades ou vencer algu­
uma banheira o dia inteiro, mergulhando casulos de bicho-da- mas das desvantagens do seu nascimento.
seda em água fervente para derreter a substância viscosa que É devido a essa flexibilidade da consciência humana que um
mantinha os fios unidos. Ela provavelmente sucumbiría a doen­ livro como este pode ser escrito. Se tudo fosse determinado pela
ças respiratórias por ficar sentada em roupas úmidas da manhã condição humana comum, pelas categorias sociais e culturais e
até a noite, e as pontas dos seus dedos mais tarde perderíam qual­ pelo acaso, seria inútil refletir sobre as maneiras para tomar a
quer sensibilidade devido à água quente. Enquanto isso, as crian­ vida do indivíduo excelente. Felizmente, existem oportunidades
ças da nobreza aprendiam a dançar o minueto e a conversar cm suficientes para a iniciativa pessoal e escolha para fazer uma dife­
línguas estrangeiras. rença real. E aqueles que acreditam nisso são os que têm mais
As mesmas diferenças quanto às oportunidades de vida ain­ chance de se libertar dos grilhões do destino.
da são encontradas entre nós. O que uma criança nascida em uma
favela urbana em Los Angeles, Detroit ou na Cidade do México Viver significa experimentar - por meio de atos, sentimentos,
pode esperar experimentar durante uma vida? Como isso vai dife­ pensamentos. A experiência ocorre no tempo, por isso o tempo é
rir das expectativas de uma criança nascida em um próspero o mais escasso recurso que possuímos. Com o passar dos anos, o
subúrbio norte-americano, ou de uma abastada família sueca ou conteúdo da experiência determ inará a qualidade da vida.
suíça? Infelizmente não há justiça ou qualquer sentido no fato de Portanto, uma das decisões mais essenciais que qualquer um de
uma pessoa nascer em uma comunidade assolada pela fome, tal­ nós pode fazer é sobre o modo como o nosso tempo é alocado ou
vez até mesmo com um defeito físico congênito, enquanto outra investido. Naturalmente, o modo como investimos o tempo não
começa a vida com boa aparência, boa saúde e uma polpuda con­ depende apenas de nossa vontade. Como já vimos antes, limita­
ta bancária. ções severas ditam o que podemos fazer como membros da raça
Assim, embora os principais parâmetros da vida estejam humana, ou como participantes de determinada cultura ou socie­
fixados, e ninguém possa evitar o repouso, a alimentação, a inte­ dade. Apesar disso, é possível fazer escolhas pessoais, e o contro­
ração, e pelo menos algum trabalho, a humanidade está dividida le sobre o tempo está, em certa medida, nas nossas mãos. Como o
em categorias sociais que determinam em grande parte o conteú­ historiador E. P. Thompson observou, até mesmo nas décadas
do específico da experiência. E, para tomar tudo isso mais inte­ mais opressivas da Revolução Industrial, quando os operários tra­
ressante, existe, naturalmente, a questão da individualidade. balhavam como escravos durante mais de oitenta horas por sema­
Se olharmos pela janela no inverno norte-americano, vere­ na em minas e fábricas, alguns deles passavam suas poucas horas
18 A DESCOBERTA DO FLUXO AS ESTRUTURAS DA V ID A C O T ID IA N A 19

de precioso tempo livre em estudos literários ou ações políticas Tabela 1


em vez de seguir a maioria até os bares. Para onde vai o tempo?
Os termos que usamos para falar sobre o tempo - orçamen­
tar, investir, alocar, desperdiçar - foram extraídos da linguagem Baseada nas atividades diurnas relatadas por adultos e adolescentes
financeira. Conseqüentemente, algumas pessoas alegam que nos­ representativos em estudos norte-americanos recentes. As percentagens
diferirão em idade, sexo, classe social e preferência pessoal - as varia­
sa atitude para com o tempo é influenciada por nossa peculiar
ções máximas e mínimas estão indicadas. Cada ponto percentual equi­
herança capitalista. É verdade que a máxima “tempo é dinheiro’’
vale a uma hora por semana.
era uma das frases favoritas daquele grande apologista do capita­
lismo, Benjamin Franklin, mas a equiparação dos dois termos Atividades produtivas Total: 24-60%
certamente é muito mais antiga e enraizada na experiência huma­ Trabalhando no emprego, ou estudando 20-45%
na comum, em vez de apenas na nossa cultura. Na verdade, pode­ Falando, comendo, divagando durante o 4-15%
riamos afirmar que é o dinheiro que recebe o seu valor do tempo, trabalho
em vez do contrário. O dinheiro é simplesmente a unidade mais Atividades de m anutenção Total: 20-42%
utilizada para medir o tempo investido em fazer ou fabricar algu­ Cuidados com a casa (cozinhar, limpar, 8- 22%
ma coisa. E nós valorizamos o dinheiro porque de cena forma ele fazer compras)
nos liberta das limitações da vida, tomando possível que tenha­ Alimentação 3-5%
Cuidados pessoais (tomar banho, vestir-se) 3- 6%
mos tempo livre para fazermos o que desejarmos.
Dirigir o carro, transporte 6-9%
O que, então, as pessoas fazem com seu tempo? A Tabela 1
proporciona uma idéia geral de como passamos as 16 horas Atividades de lazer Total: 20-43%
(aproximadamente) por dia em que estamos despertos e cons­ Mídia (TV e leitura) 9- 13%
cientes.6 Os números são necessariamente aproximados, porque, Hobbies, esportes, filmes, restaurantes 4- 13%
dependendo de a pessoa ser jovem ou idosa, homem ou mulher, Conversa, contato social 4-12%
Repouso 3-5%
rico ou pobre, padrões muito diferentes poderão surgir. Mas, em
geral, os números na tabela nos fornecem uma descrição inicial Fontes: Csikszentmihalyi c G racf 1980; Kubcy c Csikszentmihalyi 1990;
de como é um dia médio na nossa sociedade. Eles são bastante Larson c Richards 1994.

similares de muitos modos ao uso que se faz do tempo em outros


países industrializados.7 cerca de quarenta horas semanais, o que representa 35 por cento
O que fazemos durante um dia comum pode ser dividido em das 112 horas da semana, esse número não reflete a realidade com
três tipos principais de atividades. O primeiro e maior deles inclui exatidão, porque das quarenta horas por semana passadas no
o que devemos fazer para gerar energia para nossa sobrevivência emprego, as pessoas só trabalham cerca de trinta; o restante é gas­
e nosso conforto. Hoje em dia isso é quase sinônimo de “ganhar to em conversas, divagações, listas e outras ocupações irrelevan­
dinheiro’’, já que o dinheiro se tomou o meio de troca para a tes para o trabalho.
maioria das coisas. No entanto, para os jovens ainda na escola, o Isso é muito ou pouco tempo? Depende do nosso ponto de
aprendizado pode ser incluído entre essas atividades produtivas, referência. De acordo com alguns antropólogos, entre as socieda­
porque para eles a educação é equivalente ao trabalho adulto, e o des de menor desenvolvimento tecnológico, como as tribos das
primeiro levará ao segundo. florestas brasileiras ou dos desertos africanos, os homens madu­
Cerca de um quarto ou mais de nossa energia psíquica é uti­ ros raramente passam mais de quatro horas por dia cuidando do
lizado nessas atividades produtivas, dependendo do tipo e da car­ seu sustento - o resto do tempo eles passam descansando, conver­
ga horária de trabalho, se em horário integral ou parcial. Embora sando, cantando e dançando. Por outro lado, durante os cento e
a maioria dos trabalhadores em tempo integral esteja no trabalho poucos anos da industrialização no Ocidente, antes que os sindi-
20 A DESCOBERTA DO FLUXO AS ESTRUTURAS DA VID A C O TID IA N A 21

calos fossem capazes de regulamentar o período de trabalho, não sário para cuidar de uma casa, assim como a tecnologia aliviou o
era incomum que trabalhadores passassem 12 horas por dia ou fardo físico do trabalho produtivo. Mas a maioria das mulheres na
mais na fábrica. Assim, o dia de trabalho de oito horas, que é a Ásia, África e América do Sul - em outras palavras, a maioria das
norma atual, está entre os dois extremos. mulheres do mundo - ainda precisa devotar uma grande parte de
As atividades produtivas criam energia nova, mas precisa­ suas vidas para impedir o colapso da infra-estrutura material e
mos trabalhar um bocado só para preservar o corpo e suas posses, emocional de suas famílias.
por isso cerca de um quarto do nosso dia está envolvido com O tempo que sobra das necessidades de produção e manu­
vários tipos de atividades de manutenção. Mantemos nossos cor­ tenção é tempo livre, ou lazer, que toma cerca de outro quarto do
pos em forma comendo, descansando, armando-nos; mantemos nosso tempo total.9 De acordo com muitos pensadores do passa­
nossas posses limpando-as, cozinhando, fazendo compras e todo do. homens e mulheres só podiam realizar o seu potencial quan­
tipo de trabalhos domésticos. Ao longo dos tempos, as mulheres do não tinham nada para fazer. É durante o lazer, de acordo com
ficaram encarregadas do trabalho de manutenção enquanto os os filósofos gregos, que nos tomamos verdadeiramente humanos,
homens assumiram os papéis produtivos. Essa diferença ainda é dedicando tempo ao desenvolvimento pessoal - ao aprendizado,
bastante forte atualmente nos EUA: embora homens e mulheres às artes, à atividade política. Na verdade, o termo grego para
passem períodos de tempo iguais comendo (cerca de 5 por cento), lazer, scholea, é a raiz da nossa palavra “escola”, porque se pen­
as mulheres dedicam duas vezes mais tempo que os homens a sava que o melhor uso para o lazer era o estudo.
fazer todas as atividades de manutenção. Infelizmente, esse ideal quase nunca é realizado. Na nossa
A rotulação sexual das (arefas domésticas é ainda mais sociedade, o tempo livre é ocupado por três tipos principais de
intensa em praticamente toda parte. Na ex-União Soviética, onde atividades - nenhuma delas realmente se aproximando daquilo
a igualdade sexual era uma questão de ideologia, as médicas c que os eruditos gregos, ou homens de lazer, tinham em mente. O
engenheiras casadas ainda tinham de fazer todas as tarefas primeiro é o consumo de mídia - na maior parte televisão, com
domésticas além do trabalho nos seus empregos. Na maior parte uma pitada de leitura de jornais e revistas. O segundo é a conver­
do mundo, um homem que cozinha para sua família ou lava os sação. O terceiro é um uso mais ativo do tempo livre e, portanto,
pratos perde sua auto-estima, assim como o respeito dos outros. mais próximo do antigo ideal: ele envolve hobbies, fazer música,
A divisão do trabalho parece ser tão antiga quanto a própria praticar esportes ou exercícios, ir a restaurantes ou ao cinema.
humanidade. No passado, contudo, a manutenção da casa muitas Cada um desses três tipos principais de lazer toma pelo menos
vezes exigia um esforço exaustivo por parte das mulheres. Um quatro horas por semana, podendo chegar a 12.
historiador descreve a situação na Europa há quatro séculos: Assistir à TV, que na média toma a maior quantidade de
energia psíquica de todos os atos de lazer, é provavelmente tam­
As mulheres carregavam água até íngremes áreas montanhosas... bém a forma mais nova de atividade na experiência humana.
onde a água era escassa... Elas cortavam e secavam feno, coleta­
Nada que homens e mulheres fizeram até agora durante os
vam algas, lenha, ervas da beira da estrada para alimentar os coe­
milhões de anos de evolução foi tão passivo, tão viciante na faci­
lhos. Ordenhavam vacas e cabras, cultivavam verduras, coleta­
vam nozes e ervas. A fonte mais comum de aquecimento para os
lidade com que atrai atenção e aprisiona - a menos que conside­
fazendeiros ingleses e para alguns fazendeiros irlandeses e esco­ remos olhar para o espaço, tirar uma sesta ou entrar em transe
ceses era o excremento de animais, que era recolhido à mão pelas como os balineses costumavam fazer. Os apologistas do meio
mulheres e amontoado próximo à lareira da fam ília para que alegam que a televisão fornece todo tipo de informação interes­
secasse...8 sante. Isso é verdade, mas como é muito mais fácil produzir pro­
gramas que deleitam em vez de enriquecer o espectador, o que a
O encanamento e os aparelhos eletrônicos certamente fize­ maioria das pessoas assiste dificilmente ajudará no desenvolvi­
ram uma grande diferença na quantidade de esforço físico neces­
mento da personalidade.
22 A DESCOBERTA DO FLUXO AS ESTRUTURAS DA VIDA COTIDIANA 23

Essas três funções principais - produção, manutenção e O segundo contexto é formado pela família do indivíduo -
lazer - absorvem nossa energia psíquica. Elas fornecem a infor­ para as crianças, os pais e irmãos; para os adultos, os seus parcei­
mação que atravessa a mente dia após dia, do nascimento ao final ros, cônjuges e filhos. Embora recentementc a própria noção de
da vida. Assim, em essência, nossa vida consiste em experiências “família” como unidade social reconhecível tenha sido fortemen­
relacionadas com o trabalho, com o esforço para impedir que o que te criticada, também é verdade que sempre e em toda parte exis­
já temos caia em pedaços e com o que quer que façamos em nosso tiu um grupo de pessoas com quem o indivíduo criava laços espe­
tempo livre. É dentro desses parâmetros que a vida se desdobra, e ciais de proximidade, com quem se sentia seguro e para com
é o modo como escolhemos o que fazemos, e a nossa abordagem quem linha um grau maior de responsabilidade. Por mais estra­
para fazê-lo. que determinará se a soma dos nossos dias será um nho que possam parecer hoje algumas de nossas estruturas fami­
borrão informe ou algo parecido com uma obra de arte. liares em comparação a uma família nuclear ideal, os parentes
íntimos ainda oferecem um tipo único de experiência.
Finalmente, existe o contexto definido pela ausência de
A vida cotidiana não c definida apenas pelo que fazemos, mas
outras pessoas - a solidão. Nas sociedades tecnológicas passamos
também por aqueles com quem estamos. Nossos atos e sentimen­
tos são sempre influenciados por outras pessoas, estejam elas pre­ cerca de um terço do dia sozinhos, uma proporção muito maior
sentes ou não. Desde Aristóteles sabemos que os seres humanos do que na maioria das sociedades tribais, onde estar sozinho mui­
são animais sociais; tanto física quanto psicologicamente depen­ tas vezes é considerado muito perigoso. Até mesmo para nós,
demos da companhia de outros. Há diferenças culturais em rela­ estar sozinho é considerado indesejável; a grande maioria das
ção às intensidades com que uma pessoa c influenciada pelos pessoas tenta evitar essa experiência o máximo possível. Embora
outros, ou pela opinião internalizada dos outros quando estão seja possível aprender a apreciar a solidão, ela é um raro gosto
sozinhos.10 Por exemplo, os hindus tradicionais não eram consi­ adquirido. Mas, quer gostemos dela ou não, muitas das obriga­
derados indivíduos isolados como imaginamos, mas como nós ções da vida diária exigem que fiquemos sozinhos: as crianças
cm uma rede social extensa. A identidade da pessoa era determi­ precisam estudar e praticar sozinhas, as donas de casa precisam
nada não tanto por seus pensamentos e atos quanto por de quem cuidar da casa sozinhas e muitos trabalhos são pelo menos em
ela era filha, irmã, prima ou mãe. Também na nossa época, em parte solitários. Assim, mesmo que não gostemos dela, é impor­
comparação com as caucasianas, as crianças do leste da Ásia tante aprender a tolerar a solidão, ou a qualidade das nossas será
estão muito mais conscientes das expectativas e opiniões pater­ prejudicada.
nas mesmo quando estão sozinhas - em termos psicanalíticos,
possuem um superego mais forte. No entanto, por mais indivi­
dualista que seja uma cultura, os outros ainda determinam em Neste capítulo e no seguinte, discorro sobre como a maioria das
grande parte a qualidade de vida de um indivíduo. pessoas utiliza o tempo, quanto tempo gastam sozinhas ou com
A maioria das pessoas passa períodos de tempo mais ou outras pessoas, e como se sentem quanto ao que fazem. Quais sào
menos iguais em três contextos sociais. O primeiro é composto de as evidências sobre as quais baseio essas afirmações?
estranhos, colegas de trabalho ou - para pessoas mais jovens - O método mais comum para descobrir o que as pessoas
colegas de estudo. É nesse espaço “público” que os atos do indi­ fazem com seu tempo é por meio de pesquisas, estudos e orça-
víduo são avaliados pelos outros, onde ele compete por recursos mentação de tempo. Esses métodos geralmente requerem que as
e onde é possível estabelecer relacionamentos de colaboração pessoas preencham um diário no final de cada dia ou semana; eles
com os outros. Já foi argumentado que essa esfera pública de são de fácil administração, mas como se baseiam em recordações,
ação é a mais importante para o desenvolvimento do potencial do não são muito precisos. Outra técnica é o Método de Amostragem
indivíduo, aquela onde os riscos são maiores mas onde ocorre o de Experiência (Experience Sampling Method - ou ESM), que
maior crescimento.11 desenvolví na Universidade de Chicago no início dos anos 70.12
24 A DESCOBERTA DO FLUXO

O ESM usa um pager ou relógio programável para avisar às pes­


soas que preencham duas páginas em um livreto que carregam
consigo. Os sinais são programados para disparar em períodos
aleatórios dentro de segmentos de duas horas do dia, do início da
manhã até as 23 horas, ou mais tarde. Ao toque do sinal, a pessoa DOIS
escreve onde ela está, o que está fazendo, no que está pensando,
com quem ela está, e então classifica o seu estado de consciência
naquele momento de acordo com várias escalas numéricas - quão O C O N TE Ú D O D A EXPERIÊNCIA
feliz ela está, quão concentrada, quão fortemente ela está motiva­
da, o nível da sua auto-estima, e assim por diante.
No final de uma semana, cada pessoa terá preenchido 56
páginas do livreto ESM, fornecendo um diafilme virtual das ati­
vidades da pessoa da manhã até a noite, dia após dia, durante a
semana, e podemos seguir suas variações de humor em relação ao
Já vimos que trabalho, manutenção e lazer tomam a maior parte
que a pessoa faz e com quem ela está.
de nossa energia psíquica. Mas uma pessoa pode adorar seu tra­
Em nosso laboratório de Chicago, coletamos com o passar
balho e outra pode odiá-lo; talvez uma pessoa aprecie seu tempo
dos anos um total de mais de 70 mil páginas de cerca de 2.300
livre e outra fique entediada por não ter nada para fazer. Assim,
indivíduos; pesquisadores de universidades cm outras partes do
embora o que fazemos todo dia tenha muiio a ver com o tipo de
mundo chegaram a superar o triplo desses números. Um grande
vida que levamos, o modo como experimentamos o que fazemos
número de respostas é importante porque nos permite observar a
é ainda mais importante.
forma e a qualidade da vida cotidiana em grandes detalhes e com
As emoções são, em certo aspecto, os elementos mais subje­
considerável precisão. Isso nos permite ver, por exemplo, quantas
tivos da consciência, já que só a própria pessoa pode dizer se sen­
vezes as pessoas fazem refeições, e como se sentem quando o
te verdadeiramente o amor, a vergonha, a gratidão ou a felicida­
fazem. Além disso, podemos ver se adolescentes, adultos e ido­
de. Porém, uma emoção é também o conteúdo mais objetivo da
sos sentem a mesma coisa quanto às suas refeições, e se comer é
mente, porque a sensação física que experimentamos quando
uma experiência similar quando comemos sozinhos ou acompa­
estamos apaixonados, envergonhados, assustados ou felizes é
nhados. O método também permite comparações entre america­
gcralmente mais real para nós do que aquilo que observamos no
nos, europeus, asiáticos e qualquer outra cultura onde o método
mundo exterior, ou o que quer que aprendamos com a ciência e a
possa ser aplicado. A seguir, usarei resultados obtidos por pes­
lógica. Assim, muitas vezes nos encontramos na posição parado­
quisas e dados estatísticos junto com os resultados do ESM. As
xal de sermos como psicólogos behavioristas quando olhamos
notas no final do livro indicarão as fontes de onde os dados foram
para outras pessoas, descartando o que elas dizem e confiando
obtidos.
apenas no que fazem, enquanto que, quando olhamos para nós
mesmos, somos fenomenologistas, levando nossos sentimentos
íntimos mais a sério do que eventos extemos ou ações declaradas.
Os psicólogos identificaram nove emoções básicas que
podem ser identificadas de maneira confiável pelas expressões
faciais entre pessoas que vivem em culturas diferentes; assim,
parece que do mesmo modo que todos os seres humanos podem
ver e falar, eles compartilham um conjunto comum de estados
2ó A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 27

emocionais.1 Mas, para simplificar o máximo possível, podemos O que estes estudos revelaram é ao mesmo tempo familiar c
dizer que todas as emoções compartilham uma dualidade básica: surpreendente. É surpreendente, por exemplo, que apesar de seus
elas são positivas e atraentes ou negativas e repulsivas. É devido problemas e tragédias, as pessoas em todo o mundo tendam a des­
a essa característica simples que as emoções nos ajudam a esco­ crever a si mesmas muito mais como felizes do que infelizes. Nos
lher o que deveria ser bom para nós. Um bebê é atraído por um Estados Unidos, em geral, um terço dos entrevistados de amos­
rosto humano, e fica feliz quando vê sua mãe, porque isso ajuda a tras representativas dizem que estão “muito felizes”, e só um em
criar um elo com a pessoa que cuida dele. Sentimos prazer quan­ dez “não está muito feliz”. A maioria se considera acima da
do comemos, ou quando estamos com um membro do sexo opos­ média, como “bastante feliz”. Resultados similares são relatados
to, porque nossa espécie não sobrevivería se não procurássemos por dezenas de outros países. Como isso pode acontecer, quando
comida e sexo. Nós sentimos uma repulsa instintiva diante de ser­ os pensadores em toda a história, ao refletirem sobre como a vida
pentes, insetos, odores pútridos, escuridão - todas as coisas que pode ser breve c dolorosa, sempre nos disseram que o mundo é
no passado evolutivo poderíam ter representado sérios perigos um vale de lágrimas e que não fomos feitos para sermos felizes?
para a sobrevivência.2 Talvez a razão para essa discrepância seja que os profetas e filó­
Além das emoções simples estabelecidas geneticamente, os sofos tendam a ser perfeccionistas, e as imperfeições da vida ten­
seres humanos desenvolveram um grande número de sentimentos dem a incomodá-los. Já o resto da humanidade se sente feliz por
mais sutis e suaves, assim como sentimentos infames. A evolução estar vivo, apesar destas mesmas imperfeições.
da consciência auto-reflexiva permitiu que nossa raça “brincas­ Naturalmente, existe uma explicação mais pessimista:
se” com sentimentos, forjando-os ou m anipulando-os de um quando as pessoas dizem que estão bastante felizes, elas estão
modo que nenhum outro animal pode fazer. As canções, danças e enganando o pesquisador ou, provavelmente, tentando ocultar
máscaras dos nossos ancestrais evocam terror e assombro, alegria seus próprios temores. Afinal de contas, Karl Marx nos acostu­
e exaltação. Filmes de horror, drogas e músicas têm o mesmo mou a pensar que um operário de fábrica pode pensar que está
efeito atualmente. Mas originalmente as emoções serviam como perfeitamente feliz, mas essa felicidade subjetiva é uma auto-ilu-
sinais sobre o mundo externo; agora são muitas vezes separadas são sem qualquer significado, porque objetivamente o trabalha­
de qualquer objeto real e desfrutadas por si mesmas. dor é alienado pelo sistema que explora seu trabalho. Jean-Paul
A felicidade é o protótipo das emoções positivas.3 Como Sartre nos disse que a maioria das pessoas vive com uma “falsa
disseram muitos pensadores desde Aristóteles, tudo o que faze­ consciência”, fingindo até para si mesmas que estão vivendo no
mos tem como meta final experimentar a felicidade. Não quere­ melhor dos mundos possíveis. Mais recentemente, Michel
mos realmente a riqueza, ou saúde, ou a fama por si sós - quere­ Foucault e os pós-modemistas deixaram claro que o que as pes­
mos essas coisas porque esperamos que elas nos tomem felizes. soas nos dizem não refletem eventos reais, mas só um estilo de
Porém, buscamos a felicidade não porque ela vá nos levar a algu­ narrativa, um modo de falar que se refere apenas a si mesmo.
ma outra coisa, mas por ela mesma. Se a felicidade é realmente o Embora essas críticas da autopercepção esclareçam questões
objetivo da vida, o que sabemos sobre ela? importantes que precisam ser reconhecidas, elas também sofrem
Até meados do século XX, os psicólogos relutavam em estu­ da arrogância intelectual de eruditos que acreditam que suas inter­
dar a felicidade, porque o paradigma behaviorista reinante nas pretações da realidade devem ter precedência sobre a experiência
ciências sociais sustentava que emoções subjetivas eram vagas direta da maioria das pessoas. Apesar das profundas dúvidas de
demais para que fossem objetos apropriados de pesquisa científi­ Marx, Sartre e Foucault, ainda penso que, quando uma pessoa diz
ca. Mas à medida que o “empirismo árido” no meio acadêmico foi que é “bastante feliz”, ninguém tem o direito de ignorar sua decla­
amainando nas últimas décadas, permitindo que a importância das ração, ou de interpretá-la para que signifique o oposto.
experiências subjetivas pudesse ser novamente reconhecida, o Outro conjunto de descobertas familiares mais surpreenden­
estudo da felicidade foi retomado com um novo vigor. tes tem a ver com o relacionamento entre bem-estar material e
O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 29
28 A DESCOBERTA DO FLUXO

felicidade. Como era de se esperar, as pessoas que vivem em ção é mais uma característica pessoal do que situacional. Em
nações de melhor situação econômica e de maior estabilidade outras palavras, com o tempo algumas pessoas passam a se consi­
política se consideram mais felizes (por exemplo, os suíços e derar felizes, independentemente das condições extemas, enquan­
noruegueses dizem que são mais felizes que os gregos e portu­ to outras se acostumam a se sentir menos felizes, não importa o
gueses), mas nem sempre (por exemplo, os irlandeses, mais que lhes aconteça. Outros sentimentos são muito mais influencia­
pobres, alegam ser mais felizes que os japoneses, mais ricos). dos pelo que a pessoa faz, com quem ela está ou onde está. Esses
Dentro da mesma sociedade, contudo, existe apenas uma relação humores são mais suscetíveis à mudança direta e, como também
muito tênue entre as finanças e a satisfação com a vida; os bilio- estão relacionados ao grau de felicidade que sentimos, a longe
nários na América são apenas infimamente mais felizes do que prazo podem elevar nosso nível médio de felicidade.
aqueles com rendas medianas. E mesmo que a renda pessoal nos Por exemplo, quão ativos, fortes e alertas nos sentimos de­
EUA tenha mais que duplicado entre as décadas de 1960 e 1990 pende um bocado do que fazemos - esses sentimentos se tomam
em dólares constantes, a proporção de pessoas que afirmam ser mais intensos quando estamos envolvidos com uma tarefa difícil,
muito felizes continuou em 30 por cento. Uma conclusão que os e ficam mais atenuados quando fracassamos no que tentamos
dados parecem justificar é que, além do limite da pobreza, recur­ fazer, ou quando não tentamos fazer nada. Assim, esses senti­
sos adicionais não melhoram de maneira apreciável as chances de mentos podem ser afetados diretamente pelo que escolhemos
ser feliz. fazer. Quando nos sentimos ativos e fortes, temos maior probabi­
Várias qualidades pessoais estão relacionadas ao grau de feli­ lidade de nos sentirmos felizes, de modo que, com o tempo, a
cidade que as pessoas descrevem ter. Por exemplo, um extroverti­ escolha do que fazemos também afetará a nossa felicidade. Do
do saudável com auto-estima elevada, um casamento estável e fé mesmo modo, a maioria das pessoas acha que é mais alegre e
religiosa terá muito mais probabilidade de dizer que é feliz do que sociável quando está com outras pessoas do que quando está sozi­
um ateu cronicamente doente, introvertido e divorciado com baixa nha. Novamente, a alegria e a sociabilidade estão relacionadas à
auto-estima. Somente ao considerar esses aglomerados de relacio­ felicidade, o que provavelmente explica por que os extrovertidos,
namentos é que a crítica pós-modemista podería fazer sentido. É em média, tendem a ser mais felizes que os introvertidos.
provável, por exemplo, que uma pessoa saudável e religiosa cons­ A qualidade de vida não depende apenas da felicidade, mas
trua uma narrativa “mais feliz” sobre a sua vida do que uma que também do que a pessoa faz para ser feliz. Se o indivíduo deixa
não é, independentemente da qualidade real da experiência. Mas, de desenvolver metas que dêem significado à sua existência, se
já que sempre coletamos os dados “brutos” da experiência através ele não usa plenamente sua capacidade intelectual, então os bons
de filtros interpretativos, as histórias que contamos sobre as manei­ sentimentos são responsáveis por apenas uma fração de nosso
ras como nos sentimos são uma parte essencial das nossas emo­ potencial. Não se pode dizer que uma pessoa que alcança o con­
ções. Uma mulher que diz que está feliz por trabalhar em dois tentamento se afastando do mundo para “cultivar o seu jardim”,
empregos para manter um teto sobre as cabeças de seus filhos como o Cândido de Voltaire, leva uma vida excelente. Sem
talvez seja mais feliz do que uma mulher que não vê por que deve­ sonhos, sem riscos, só uma imagem superficial da vida pode ser
ria se incomodar em ter sequer um só emprego.
alcançada.
Mas a felicidade certamente não é a única emoção digna de
ser considerada. Na verdade, se queremos melhorar a qualidade
da vida cotidiana, a felicidade pode ser o ponto de partida errado. As emoções se referem a estados interiores de consciência.
Em primeiro lugar, relatos pessoais de felicidade não variam tan­ Emoções negativas como tristeza, medo, ansiedade ou tédio pro­
to de pessoa para pessoa quanto a maioria dos outros sentimen­ duzem “entropia psíquica” na mente, isto é, um estado em que
tos; por mais vazia que possa ser a vida de alguém, a maioria das não podemos usar a atenção de maneira eficaz para lidar com
pessoas relutará em admitir que é infeliz. Além disso, essa cmo- tarefas externas, porque precisamos dela para restaurar uma
30 A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 31

ordem interior subjetiva. Emoções positivas como felicidade, for­ que elas investiram sua atenção durante suas vidas. Sem um sóli­
ça ou alerta são estados de “negaentropia psíquica”, ou entropia do conjunto de metas, é difícil desenvolver um self coerente. É
negativa, porque não precisamos de atenção para refletir e sentir por meio do investimento organizado da energia psíquica propor­
pena de nós mesmos, e a energia psíquica pode fluir livremente cionado pelas metas que um indivíduo cria ordem na experiência.
para qualquer pensamento ou tarefa em que escolhemos investir.4 Essa ordem, que se manifesta em ações, emoções e escolhas pre­
Quando escolhemos prestar atenção em uma determinada visíveis, com o tempo se toma reconhecível como um “self' mais
tarefa, dizemos que formamos uma intenção, ou estabelecemos ou menos único.
uma meta para nós mesmos. O tempo que despendemos com nos­ As metas em que a pessoa investe também determinam a sua
sas metas e o grau de intensidade com que as mantemos dependem auto-estima.5 Como disse William James há mais de cem anos, a
da motivação. As intenções, metas e motivações também são, por­ auto-estima depende da proporção entre expectativa e sucessos.
tanto, manifestações da negaentropia psíquica. Elas concentram a Uma pessoa pode desenvolver uma baixa auto-estima porque
energia psíquica, estabelecem prioridades e assim criam ordem na estabelece metas elevadas demais, ou porque alcança muito pou­
consciência. Sem elas, os processos mentais se tomam aleatórios cos sucessos. Assim, não é necessariamente verdadeiro que a pes­
e os sentimentos tendem a se deteriorar rapidamente. soa que realiza mais terá auto-estima mais elevada. Ao contrário
As metas são geralmente ordenadas de forma hierárquica, do que poderiamos esperar, os estudantes ásio-americanos que
desde as comuns, como ir à loja da esquina para comprar sorvete, têm notas excelentes tendem a ter uma auto-estima mais baixa do
até arriscar a própria vida pelo seu país. Durante um dia médio, que outros menos bem-sucedidos na escola, porque proporcional­
em cerca de um terço do tempo as pessoas dirão que fazem o que mente suas metas são ainda mais elevadas do que seus sucessos.
estão fazendo porque querem fazê-lo, em um terço do tempo por­ As mães que trabalham em expediente integral tendem a ter uma
que precisam fazê-lo, e no último terço porque não tinham nada auto-estima inferior à das mães que não trabalham, porque embo­
melhor para fazer. Essas proporções variam de acordo com a ida­ ra realizem mais, suas expectativas ainda assim superam suas
de, o sexo e a atividade: as crianças sentem que têm mais opções conquistas. Daí segue que, ao contrário do que se pensa, aumen­
do que seus pais, e os homens mais do que as esposas; o que quer tar a auto-estima das crianças nem sempre é uma boa idéia -
que uma pessoa faça em casa é percebido como mais voluntário especialmente se isso é obtido ao reduzirmos suas expectativas.
do que no trabalho. Há outras concepções enganosas sobre intenções e metas.
Há muitos indícios mostrando que, enquanto as pessoas se Por exemplo, alguns observam que as religiões orientais, como as
sentem melhores quando o que fazem é voluntário, elas não se várias formas de hinduísmo e budismo, prescrevem a abolição da
sentem piores quando o que fazem é obrigatório. A entropia psí­ intencionalidade como um pré-requisito para a felicidade. Elas
quica é mais elevada quando as pessoas sentem que o que fazem é alegam que só abandonando todo desejo, só alcançando uma
motivado por não terem nada melhor para fazer. Assim, tanto a existência sem metas, poderemos evitar a infelicidade. Essa linha
motivação intrínseca (querer fazer) como a motivação cxtrínseca de pensamento influenciou muitos jovens na Europa e nos
(ter de fazer) são preferíveis ao estado onde se age por falta de coi­ Estados Unidos a tentar rejeitar todas as metas, acreditando que
sa melhor, sem possuir qualquer tipo de meta para focalizar a aten­ só o comportamento completamente espontâneo e fortuito leva a
ção. A grande parte da vida na qual muitas pessoas não experi­ uma vida iluminada.
mentam qualquer motivação permite uma melhoria considerável. Na minha opinião, essa leitura da mensagem oriental é bas­
A intenção focaliza a energia psíquica a curto prazo, tante superficial. Afinal de contas, tentar abolir o desejo é cm si
enquanto as metas tendem a ser mais de longo prazo, em última mesma uma meta tremendamente difícil e ambiciosa. A maioria
análise, são as melas que buscamos que formarão e determinarão de nós é tão completamente programada com desejos genéticos e
o tipo de self que nos tomamos. O que toma madre Teresa, a frei­ culturais que é preciso um ato de vontade quase sobre-humana
ra, radical mente diferente da cantora Madonna, são as metas em para aquietá-los. Aqueles que acreditam que ao ser espontâneos
32 A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 33

evitarão estabelecer metas em geral se restringem a seguir cega­ tamente fora de questão abordar o assunto de forma sistemática
mente as metas estabelecidas pelos instintos e pela educação. nestas páginas - em vez disso, faz mais sentido simplificá-lo,
Eles muitas vezes acabam sendo tão mesquinhos, lúbricos e pre­ para que possamos falar de sua relação com a vida cotidiana. O
conceituosos que arrepiam os cabelos de qualquer bom monge que chamamos de pensamento é também um processo por meio
budista. do qual a energia psíquica é ordenada. A emoção focaliza a aten­
A verdadeira mensagem das religiões orientais, na minha ção ao mobilizar todo o organismo em um modo de aproximação
opinião, não é a abolição de todas as metas. O que elas nos dizem ou evitação. As metas o fazem proporcionando imagens de resul­
é que devemos desconfiar da maioria das intenções que forma­ tados desejados. Os pensamentos ordenam a atenção produzindo
mos espontaneamente. Para garantir nossa sobrevivência em um seqüências de imagens que se relacionam de alguma maneira sig­
mundo perigoso, dominado pela escassez, nossos genes nos pro­ nificativa.
gramaram para que fôssemos gananciosos, para que desejásse­ Por exemplo, uma das operações mentais mais básicas con­
mos o poder, para que dominássemos os outros. Pela mesma siste na ligação entre a causa e efeito. O início desta ligação na
razão, o grupo social em que nascemos nos ensina que só aqueles vida de uma pessoa pode ser facilmente observado quando um
que compartilham nossa linguagem e nossa religião merecem bebê descobre pela primeira vez que movendo sua mão ele pode
confiança. A inércia do passado dita que a maioria das nossas tocar o sino pendurado sobre o berço. Esta conexão simples é o
metas será formada pela herança genética ou cultural. São essas paradigma sobre o qual grande parte do pensamento posterior se
metas, nos dizem os budistas, que devemos aprender a frear. Mas baseia. Com o tempo, contudo, os passos que levam das causas
essa meta exige uma motivação fortíssima. Paradoxalmente, a aos efeitos se tomam cada vez mais abstratos c distanciados da
meta de rejeitar metas programadas pode exigir o investimento realidade concreta. Um eletricista, um compositor, um investidor
constante de toda a energia psíquica da pessoa. Um iogue ou do mercado de ações consideram simultaneamente centenas de
monge budista precisa de cada grama de sua atenção para impe­ conexões possíveis entre os símbolos com que estão operando em
dir que os desejos programados irrompam na consciência, e suas mentes - watts e ohms, notas e ritmos, compra e venda de
assim possui muito pouca energia psíquica para fazer qualquer ações.
outra coisa. Desse modo, a práxis das religiões do Oriente é qua­ Agora provavelmente já ficou evidente que as emoções,
se o oposto de como geralmente foi interpretada no Ocidente. intenções e pensamentos não atravessam a consciência como ele­
Aprender a administrar as próprias metas é um passo impor­ mentos distintos de experiência, mas que estão constantemente
tante para alcançar a excelência na vida cotidiana. Fazê-lo, contu­ interconectados e se modificam uns aos outros à medida que
do, não envolve o extremo da espontaneidade, por um lado, nem avançam. Um jovem se apaixona por uma garota, e experimenta
o controle compulsivo, por outro. A melhor solução podería ser todas as emoções típicas do amor. Ele pretende conquistar o cora­
compreender as raízes das nossas motivações e, enquanto reco­ ção dela, e começa pensando em como alcançará sua meta. Ele
nhecemos os preconceitos envolvidos nos nossos desejos, com deduz que conseguir um novo carro envenenado vai conseguir
ioda humildade escolhemos metas que ordenarão nossa consciên­ chamar a atenção da garota. Assim, agora a meta de ganhar
cia sem causar desordem demais no ambiente social ou material. dinheiro para comprar um carro novo fica embutida na meta de
Tentar menos que isso é desperdiçar a chance de desenvolver o seduzir - mas ter de trabalhar mais pode interferir na meta de ir
seu potencial, e tentar muito mais é preparar o terreno para sua pescar, e pode produzir emoções negativas, que geram novos
própria derrota. pensamentos, que por sua vez podem fazer com que as metas do
rapaz entrem em choque com suas emoções... o fluxo da cons­
ciência sempre carrega muitos desses bits de informação ao mes­
O terceiro conteúdo da consciência são as operações mentais cog­ mo tempo.
nitivas.6 O pensamento é um tema tão complexo que está comple­ Para executar operações mentais com alguma profundidade.
34 A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 35

uma pessoa precisa aprender a concentrar a atenção. Sem foco, a inteligência amadureça, a menos que a pessoa aprenda a contro­
consciência se toma caótica. A condição normal da mente é de lar a atenção. Somente mediante investimentos extensivos de
desordem informacional; pensamentos aleatórios seguem uns aos energia psíquica uma criança com dons musicais pode se trans­
outros em vez de se alinhar em seqüências lógicas causais. A formar em um músico, ou uma criança com dotes matemáticos
menos que a pessoa aprenda a sc concentrar e seja capaz de inves­ pode se tomar um engenheiro ou um físico. E preciso muito es­
tir o esforço, os pensamentos se dispersarão sem chegar a qual­ forço para absorver o conhecimento e as habilidades necessárias
quer conclusão. Até mesmo as divagações - isto é, a ligação entre para realizar as operações mentais que um profissional adulto
imagens agradáveis para criar algum tipo de filme mental - exi­ deve executar. Mozart era um prodígio e um gênio, mas se seu pai
gem a capacidade de se concentrar, e parece que muitas crianças não o tivesse forçado a praticar assim que deixou as fraldas, difi­
nunca aprendem a controlar sua atenção suficienlemente para que cilmente seu talento teria florescido como floresceu. Aprendendo
sejam capazes de sonhar acordadas. a se concentrar, uma pessoa adquire controle sobre a vida psíqui­
A concentração exige mais esforço quando contraria as ca, o combustível básico do qual depende todo pensamento.
emoções e motivações. Um estudante que detesta matemática
terá grandes dificuldades para concentrar a atenção em um
Na vida cotidiana, é raro que os diferentes conteúdos da experiên­
manual de cálculo pelo tempo suficiente para absorver as infor­
cia estejam em sincronia uns com os outros. No trabalho, minha
mações que ele contém, e precisará de fortes incentivos (como,
atenção pode estar focalizada, porque o chefe mc deu uma tarefa
por exemplo, querer passar no curso) para fazê-lo. Geralmente,
que exige intenso raciocínio. Mas essa tarefa específica não é
quanto mais difícil é uma tarefa mental, maior é o esforço para se
uma que eu comumente gostaria de fazer, de modo que não estou
concentrar nela. Mas, quando uma pessoa gosta do que faz c está
motivada a fazê-lo, focalizar a mente se torna fácil mesmo em muito motivado intrinsecamente. Ao mesmo tempo, estou distraí­
presença de grandes dificuldades objetivas. do por sentimentos de ansiedade quanto ao comportamento errá­
De modo geral, quando a questão do pensamento vem à tico de meu filho adolescente. Assim, apesar de parte da minha
tona, a maioria das pessoas pensa que ele deve estar relacionado mente estar concentrada na tarefa, não estou completamentc
com a inteligência. Elas estão interessadas em diferenças indivi­ envolvido nela. Não é que a minha mente se encontre em um caos
duais no pensamento, como por exemplo: “Qual é o meu QI?” ou total, mas existe bastante entropia em minha consciência - pensa­
“ele é um gênio na matemática”. A inteligência se refere a uma mentos, emoções e intenções entram em foco e então desapare­
variedade de processos mentais; por exemplo, com que facilida­ cem, produzindo impulsos contrários e atraindo a minha atenção
de um indivíduo pode representar e manipular quantidades na para direções diferentes. Ou então, para considerar outro exem­
mente, ou quão sensível ele é à informação contida nas palavras. plo, posso apreciar um drinque com os amigos depois do traba­
Mas, como Howard Gardner mostrou, é possível estender o con­ lho, mas me sinto culpado por não ir para casa e para junto de
ceito de inteligência para que inclua a capacidade de diferenciar c minha família, e zangado comigo mesmo por desperdiçar tempo
usar todo tipo de informações, incluindo sensações musculares, e dinheiro.
sons, sentimentos e formas visuais.7 Algumas crianças nascem Nenhum desses cenários é particularmente incomum. A
com uma sensibilidade acima da média ao som; elas podem dis­ vida cotidiana está cheia deles: raras vezes sentimos a serenidade
criminar tons e afinações melhor que as outras, e à medida que que surge quando o coração, a vontade e a mente participam do
crescem aprendem a reconhecer notas e a produzir harmonias mesmo evento. Desejos, intenções e pensamentos conflitantes se
mais facilmente do que seus colegas. Do mesmo modo, pequenas esbarram na consciência, e somos impotentes para colocá-los em
vantagens no início da vida podem se transformar em grandes ordem.
diferenças em capacidades visuais, atléticas ou matemáticas.8 Mas agora vamos considerar algumas opções. Imagine, por
Mas talentos inatos não podem ser desenvolvidos até que a exemplo, que você está esquiando por um declive e toda a sua
36 A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 37

atenção está focalizada nos movimentos do corpo, na posição dos escalar uma montanha ou realizar uma cirurgia. As atividades que
esquis, no ar assoviando pelo seu rosto e nas árvores cobertas de induzem o fluxo podem ser chamadas de “atividades de fluxo”
neve passando à sua volta. Não há espaço na sua consciência para porque tomam mais provável que a experiência ocorra. Ao con­
conflitos ou contradições; você sabe que um pensamento ou emo­ trário da vida cotidiana, as atividades de fluxo permitem que uma
ção que o distraia pode fazer com que você acabe com a cara pessoa se concentre em metas límpidas e compatíveis.
enterrada na neve. E quem quer se distrair? A descida é tão per­ Outra característica das atividades de fluxo é que elas ofere­
feita que tudo o que você quer é que ela dure para sempre, para cem um feedback imediato; elas deixam claro o seu desempenho.
que possa mergulhar completamente na experiência. Depois de cada movimento de um jogo, você pode dizer se
Se esquiar não significa muito para você, substitua esse melhorou sua posição ou não. Com cada passo, o alpinista sabe
exemplo por sua atividade favorita. Pode ser cantar em um coral, que subiu mais um pouco. Depois de cada compasso de uma can­
programar um computador, dançar, jogar bridge, ler um bom ção você pode escutar se as notas que você cantou correspondem
livro. Ou se você adora o seu trabalho, como muitas pessoas, à partitura. O tecelão pode ver se a última fileira de fios se encai­
pode ser quando você está imerso em uma complicada cirurgia ou xa no padrão da tapeçaria como deveria. A cirurgia pode ver,
uma negociação fechada. Ou essa completa imersão na atividade enquanto corta, se o bisturi evitou todas as artérias, ou se há um
pode ocorrer em uma interação social, como por exemplo quando súbito sangramento. No trabalho ou em casa, podemos atravessar
bons amigos conversam uns com os outros, ou quando uma mãe longos períodos sem uma pista de como estamos, enquanto no
brinca com seu bebê. O que há de comum nesses momentos é que fluxo gcralmente acontece o contrário.
a consciência está repleta de experiências, e essas experiências O fluxo tende a ocorrer quando as habilidades de uma pes­
estão em harmonia umas com as outras. Ao contrário do que soa estão totalmente envolvidas em superar um desafio que está
acontece demasiadamente na vida cotidiana, em momentos como no limiar de sua capacidade de controle. Experiências ótimas
estes o que sentimos, o que desejamos e o que pensamos se har­ geralmente envolvem um fino equilíbrio entre a capacidade do
monizam. indivíduo de agir e as oportunidades disponíveis para a ação (ver
Esses momentos excepcionais são o que chamei de expe­ a Figura l). 10 Se os desafios são altos demais, a pessoa fica frus­
riências de fluxo.9 A metáfora do “fluxo” foi utilizada por muitas trada, cm seguida preocupada e mais tarde ansiosa. Se os desafios
pessoas para descrever a sensação de ação sem esforço experi­ são baixos em relação às habilidades do indivíduo, ele fica rela­
mentada em momentos que se destacam como os melhores de xado, cm seguida entediado. Se tanto os desafios quanto as habi­
suas vidas. Atletas se referem a eles como “atingir o auge”, mís­ lidades são percebidos como baixos, a pessoa se sente apática.
ticos religiosos como estar em “êxtase”, artistas e músicos como Mas quando altos desafios são correspondidos por altas habilida­
enlevo estético. Atletas, místicos e artistas fazem coisas muito des, então é mais provável que o profundo envolvimento que
diferentes quando alcançam o fluxo, no entanto suas descrições estabelece o fluxo à parte da vida comum ocorra. O alpinista o
da experiência são extraordinariamente similares. sentirá quando a montanha exigir toda a sua força, a cantora
O fluxo costuma ocorrer quando uma pessoa encara um quando a canção exigir toda a extensão de sua capacidade vocal,
conjunto claro de metas que exigem respostas apropriadas. É o tecelão quando o desenho da tapeçaria é mais complexo do que
fácil entrar em fluxo em jogos como xadrez, tênis ou pôquer, por­ qualquer coisa já tentada antes, e o cirurgião quando a operação
que eles possuem metas e regras para a ação que tomam possível envolve novos procedimentos ou exige uma variação inesperada.
ao jogador agir sem questionar o que deve ser feito e como fazê- Um dia típico está cheio de ansiedade e tédio. As experiências de
lo. Durante o jogo, o jogador vive em um mundo reservado onde fluxo oferecem os lampejos de vida intensa contra esse fundo
tudo está cm preto-e-branco. A mesma clareza de metas estará medíocre.
presente se você executar um ritual religioso, tocar uma peça
musical, tecer um tapete, escrever um programa de computador.
38 A DESCOBERTA DO FLUXO O CONTEÚDO DA EXPERIÊNCIA 39

Figura 1 É o envolvimento pleno do fluxo, em vez da felicidade, que


A qualidade da experiência como uma função do relacionamento gera a excelência na vida. Quando estamos no fluxo, não estamos
entre desafios e habilidades. A experiência ótima, ou fluxo, ocorre felizes, porque para experimentar a felicidade precisamos focali­
quando ambas as variáveis estão elevadas.
zar nossos estados interiores, e isso retiraria nossa atenção da
tarefa que estamos realizando. Se um alpinista perder tempo se
sentindo feliz enquanto executa um movimento difícil, ele pode
cair da montanha. O cirurgião não pode se sentir feliz durante
uma operação complicada, nem um músico quando toca uma par­
titura complexa. Só depois de completar a tarefa é que temos tem­
po para olhar para trás e ver o que aconteceu, e então somos inun­
dados com a gratidão pela excelência da experiência - desse
modo, rctrospectivamente, somos felizes. Mas é possível ser feliz
sem sentir o fluxo. Podemos ficar felizes experimentando o pra­
zer passivo de um corpo descansado, a calorosa luz do sol, o con­
tentamento de um relacionamento sereno. Esses momentos tam­
bém devem ser guardados, mas esse tipo de felicidade é muito
vulnerável e dependente de circunstâncias externas favoráveis. A
felicidade que segue o fluxo é criada por nós, e leva a uma com­
plexidade e um crescimento cada vez maiores da consciência.
A Figura 1 pode indicar por que o fluxo leva ao crescimen­
to pessoal. Digamos que uma pessoa está na área marcada
“Exaltação” da figura. Esta não é uma situação ruim; na exaltação
a pessoa se sente mentalmente concentrada, ativa e envolvida -
mas não muito forte, alegre ou no controle. Como podemos vol­
Fontes: adaptado de Massimini & Carli 1988: Csikszentmihalyi 1990. tar ao estado de fluxo, que é mais agradável? A resposta é óbvia:
aprendendo novas habilidades. Ou então vamos olhar para a área
rotulada de “Controle”. Este também é um estado positivo de
Quando as metas são claras, o feedback compatível c os experiência, onde o indivíduo se sente feliz, forte e satisfeito. Mas
desafios e habilidades estão equilibrados, a atenção se torna orde­ a pessoa tende a perder a concentração, o envolvimento e um sen­
nada c recebe total investimento. Devido à exigência total de timento da importância do que está sendo feito. Então, como a pes­
energia psíquica, uma pessoa no fluxo está completamentc con­ soa volta ao fluxo? Aumentando os desafios. Assim, a exaltação e
centrada. Não há espaço na consciência para pensamentos que o controle são estados muito importantes para o aprendizado. As
distraiam, para sentimentos incoerentes. A autoconsciência desa­ outras condições são menos favoráveis. Quando uma pessoa está
parece, no entanto a pessoa se sente mais forte do que de costu­ ansiosa ou preocupada, por exemplo, o passo na direção do fluxo
me. O senso de tempo é distorcido: as horas parecem passar como parece estar longo demais, e ela recua para uma situação menos
minutos. Quando todo o ser de uma pessoa é levado ao funciona­ desafiadora em vez de tentar lidar com o que está acontecendo.
mento total do corpo e da mente, o que quer que se faça torna-se Assim, a experiência de fluxo age como um ímã para o
digno de ser feito por seu próprio valor; viver se torna sua própria aprendizado - isto é. para o desenvolvimento de novos níveis de
justificativa. No foco harmonioso das energias físicas e psíquicas, desafios e habilidades. Em uma situação ideal, uma pessoa deve­
a vida enfim se torna realmcntc significativa. ria estar constantemente crescendo enquanto aprecia o que quer
40 A DESCOBERTA DO FLUXO

que esteja fazendo. Infelizmente, sabemos que não é o que acon­


tece. Em geral, nos sentimos entediados e apáticos demais para
nos mover para a zona de fluxo, de modo que preferimos preen­
cher nossa mente com um estímulo já pronto e empacotado vindo
da locadora de vídeo ou de algum outro tipo de entretenimento
profissional. Ou então nos sentimos assoberbados demais para TRÊS
imaginar que podemos desenvolver as habilidades apropriadas,
de modo que preferimos descer até a apatia engendrada por rela-
xantes artificiais como drogas c álcool. É necessário ter energia C O M O NOS SENTIMOS Q U A N D O
para alcançar as experiências ótimas, e muitas vezes somos inca­ FAZEMOS COISAS DIFERENTES
pazes de - ou não desejamos - fazer o esforço inicial.
Com que freqüência as pessoas experimentam o fluxo? 11
Isso depende de estarmos dispostos a contar até mesmo aproxima­
ções moderadas à condição ideal como momentos de fluxo. Por
exemplo, se você perguntar a uma amostra de americanos típicos, A qualidade de vida depende do que fazemos durante os setenta e
“Você se envolve em algo tão profundamente que nada mais pare­ tantos anos que vivemos em média, e no que passa pela consciên­
ce importar, a ponto de perder a noção do tempo?”, cerca de um cia durante esse período. Atividades diferentes gcralmente afe­
em cada cinco dirá que sim, que isso acontece com bastante fre­ tam a qualidade da experiência de maneiras bastante previsíveis.
qüência, às vezes em vários momentos do dia, enquanto cerca de Se durante a vida só fazemos coisas deprimentes, é improvável
15 por cento dirão que não, isso nunca acontece com eles. Essas que no fim tenhamos vivido com muita felicidade. Geralmente
freqüências parecem bastante estáveis e universais. Por exemplo, cada atividade possui tanto qualidades negativas quanto positi­
em uma avaliação recente de uma amostra representativa de 6.469 vas. Quando comemos, por exemplo, tendemos a sentir uma
alemães, a mesma pergunta foi respondida da seguinte maneira: emoção mais positiva que o normal; um gráfico do nível de feli­
Muitas Vezes, 23 por cento; Às Vezes, 40 por cento; Raramente, cidade da pessoa durante o dia lembra o perfil da ponte Golden
25 por cento; Nunca ou Não Sabe, 12 por cento. Naturalmente, se Gale na baía de San Francisco, com os pontos altos correspon­
fôssemos contar apenas com as experiências de fluxo mais inten­ dendo às refeições. Ao mesmo tempo, a concentração mental ten­
sas e exaltadas, sua freqüência seria muito mais rara. de a ser bastante baixa quando uma pessoa come, e ela raramenle
O fluxo geralmente é relatado quando uma pessoa está rea­ experimenta o fluxo.
lizando sua atividade favorita - jardinagem, ouvir música, jogar Os efeitos psicológicos das atividades não são lineares, mas
boliche, cozinhar uma boa refeição. Ele também ocorre quando dependem de sua relação sistêmica com tudo o que fazemos. Por
estamos dirigindo, quando conversamos com amigos e com uma exemplo, embora a comida seja uma fonte de bom humor, não
freqüência surpreendente durante o trabalho. Muito raramenle as podemos alcançar a felicidade comendo o dia inteiro. As refei­
pessoas relatam estado de fluxo em atividades de lazer passivo, ções elevam o nível de felicidade, mas só quando gastamos cerca
como assistir à televisão ou relaxar. Mas uma vez que pratica­ de 5 por cento do nosso tempo desperto comendo; se passásse­
mente qualquer atividade pode produzir o fluxo, contanto que os mos 100 por cento do nosso dia comendo, a comida rapidamente
elementos pertinentes estejam presentes, é possível melhorar a deixaria de ser agradável. O mesmo acontece com a maioria das
qualidade de vida nos certificando de que metas claras, feedback outras coisas boas na vida: sexo, relaxamento, assistir à televisão,
imediato, habilidades equilibradas com oportunidades de ação e em doses pequenas, tendem a melhorar a qualidade da vida coti­
as condições restantes do fluxo sejam, tanto quanto possível, uma diana consideravelmente, mas os efeitos não são aditivos; um
parte constante da vida cotidiana.
ponto de ganhos decrescentes é alcançado rapidamente.
42 A DESCOBERTA DO FLUXO COMO NOS SENTIMOS QUANDO FAZEMOS... 43

A Tabela 2 apresenta uma visão muito condensada de como as cn


pessoas, em geral, experimentam os vários componentes de suas 5
c
vidas cotidianas. Como podemos observar, quando os adultos tra­ 1
balham (ou quando as crianças fazem o dever de casa), eles ten­
V
dem a ser menos felizes do que a média, e a sua motivação fica •8
E
consideravelmente abaixo do normal. Ao mesmo tempo, seu nível i O O + □
£-
de concentração é relativamenle bastante alto, de modo que seus ã
processos mentais parecem estar envolvidos em uma proporção
maior do que no resto do dia. Surpreendentemente, o trabalho
muitas vezes também produz o fluxo, talvez porque os desafios e
habilidades tendem a ser elevados quando estamos trabalhando, e
as metas e o feedback muitas vezes são claros e imediatos. o •o +
Naturalmente, “trabalho” é uma categoria tão ampla que
parece impossível fazer uma generalização correta sobre ele. Em
primeiro lugar, faz sentido pensar que a qualidade da experiência
durante o trabalho dependería do tipo de emprego do indivíduo.
Um controlador de tráfego precisa concentrar muito mais a aten­
ção em seu trabalho do que um guarda-noturno. Um empresário
autônomo presumivelmente é muito mais motivado a trabalhar do
CM
que um funcionário público. Embora isso seja verdade, a rubrica O
característica do trabalho persiste, apesar das diferenças bastante
O
reais. Por exemplo, as experiências dos gerentes quando estão no
trabalho se assemelham muito mais às dos trabalhadores de linha
de montagem do que aquelas que eles vivem em suas casas.
Outro problema com a generalização do trabalho é que o
mesmo trabalho terá muitos aspectos experimentados de manei­ to o o +t o
ras diferentes. Um gerente pode adorar trabalhar em um projeto
mas detestar ir a conferências, enquanto um montador pode ado­
rar montar uma máquina mas detestar controle de estoque.
Mesmo assim, ainda é possível falar na qualidade distintiva da
experiência de trabalho em comparação com outras categorias de
atividade geral. Quanto mais ele se assemelha a uma atividade de
fluxo, mais envolvidos nos tomamos e mais positiva é a experiên­
cia. Quando o emprego apresenta metas claras, feedback não- 3
O
ambíguo, um senso de controle, desafios que correspondem às §
habilidades do trabalhador e poucas distrações, os sentimentos Q
Ê
que ele oferece não são diferentes daqueles experimentados em Q
um esporte ou desempenho artístico.
As atividades de manutenção são bastante variadas em rela­
ção a seu perfil experimental. Poucas pessoas gostam do trabalho
44 A DESCOBERTA DO FLUXO COMO NOS SENTIMOS QUANDO FAZEMOS... 45

dom éstico, que tende a ser negativo ou neutro em todas as da pessoa, e para muitos é amplamente superado pelo tempo pas­
dimensões. Contudo, se olharmos de maneira mais detalhada, sado em atividades de lazer passivo, como assistir à televisão.
veremos que cozinhar costuma ser uma experiência positiva, Outra maneira de interpretar o padrão na Tabela 2 é pergun­
especialmente em comparação com limpar a casa. Cuidados pes­ tar: quais são as atividades mais felizes? Quais são mais motiva­
soais - higiene, vestir-se e assim por diante - não costumam ser das? Se fizermos isso, veremos que a felicidade é mais alta quan­
positivos ou negativos. Comer, como mencionamos antes, é uma do comemos, quando estamos em lazer ativo ou quando falamos
das partes mais positivas do dia em termos de emoção e motiva­ com pessoas; está mais baixa quando trabalhamos no emprego ou
ção, embora seja fraca em atividade cognitiva e raramente uma em casa. A motivação segue um padrão similar, com a adição de
ocasião de fluxo. que o lazer passivo, que não nos toma felizes, é algo que, apesar
Dirigir um carro, que é o último principal componente da disso, queremos fazer. A concentração fica mais elevada no traba­
categoria de manutenção, é uma parte surpreendentemente posi­ lho, quando dirigimos e no lazer ativo - essas são as atividades
tiva da vida. Embora seja neutro em termos de felicidade e moti­ que, durante o dia, exigem o maior esforço mental. As mesmas ati­
vação, exige habilidade e concentração, e algumas pessoas expe­ vidades também oferecem as maiores taxas de fluxo, e o mesmo
rimentam o fluxo com mais freqüência enquanto dirigem do que acontece com a socialização. Quando interpretamos o padrão des­
em qualquer outro momento de suas vidas. te modo, ele novamente mostra que o lazer ativo oferece a melhor
Como era de se esperar, o lazer tende a incluir as experiên­ experiência no todo, enquanto o trabalho doméstico, os cuidados
cias mais positivas do dia. É durante o lazer que as pessoas se pessoais e o tempo em que ficamos à toa oferecem a pior.
sentem mais motivadas, quando dizem que querem fazer o que Assim, o primeiro passo para melhorar a qualidade de vida
estão fazendo. Mas aqui também temos algumas surpresas. O consiste em organizar as atividades diárias para que tiremos delas
lazer passivo, que inclui o consumo de mídia e o repouso, embo­ as experiências mais recompensadoras. Isso parece simples, mas
ra seja uma atividade motivadora e razoavelmente feliz, envolve a inércia do hábito e a pressão social são tão fortes que muitas
pouco foco mental e raramente produz fluxo. A socialização - pessoas não têm idéia de quais são os componentes das suas vidas
conversar com pessoas sem nenhuma outra finalidade que não a que real mente apreciam, e quais contribuem para o estresse e para
própria interação - costuma ser muito positiva, embora raramen­ a depressão. Manter um diário ou refletir ao anoitecer sobre o dia
te envolva uma alta concentração mental. O romance e o sexo passado são maneiras de contabilizar sistematicamente as várias
oferecem alguns dos melhores momentos do dia, mas para a influências sobre o nosso humor. Depois de ter ficado claro que
maioria das pessoas essas atividades são um tanto raras, de modo atividades produzem os pontos altos do nosso dia, é possível
que deixam de fazer muita diferença na quafdade geral de vida, a começar a fazer experimentos - aumentando a freqüência dos
menos que estejam embutidas em um contexto de relacionamen­ pontos positivos e diminuindo a freqüência dos demais.
to duradouro que oferece igualmente recompensas emocionais c Um exemplo um tanto extremo de como isso poderia fun­
intelectuais. cionar foi relatado por Marten DeVries, um psiquiatra encarrega­
O lazer ativo é outra fonte de experiências extremamente do de um grande centro de saúde comunitário na Holanda.1 Em
positivas. Quando as pessoas têm um hobby, se exercitam, tocam seu hospital, os pacientes rotineiramente recebem o ESM para
um instrumento musical ou vão a um cinema ou restaurante, ten­ descobrir o que fazem o dia todo, no que eles pensam e como se
dem a ser mais felizes, motivadas, concentradas, e entram mais sentem. Uma de suas pacientes, uma esquizofrênica que estava
vezes em fluxo do que em qualquer outro momento do dia. É nes­ internada havia mais de dez anos, mostrava os padrões de pensa­
se contexto que todas as dimensões variadas da experiência são mento confusos e baixa emoção comuns de uma patologia mental
focalizadas com mais intensidade e harmonia umas com as grave. Mas durante as duas semanas do estudo ESM, ela relatou
outras. É importante lembrar-se, contudo, de que o lazer ativo humores bastante positivos duas vezes. Nos dois casos, ela esta­
geralmente só ocupa entre um quarto e um quinto do tempo livre va cuidando das suas unhas. Pensando que seria uma tentativa
46 A DESCOBERTA DO FLUXO C O M O NOS SENTIMOS Q U A N D O FAZEM O S... 47

válida, a equipe do hospital fez com que uma manicure profissio­ ritmo do meu dia, e assim por diante. A pessoa às vezes bebe um
nal lhe ensinasse as técnicas da profissão. A paciente assimilou copo de vinho à noite, quando o nível de açúcar do sangue está
avidamente as instruções, e logo estava cuidando das unhas dos baixo, e espera ansiosamente por isso. E também, é claro, pelas
horas de trabalho.2
demais pacientes. Sua disposição mudou de maneira tão drástica
que a paciente foi liberada para viver em comunidade sob super­
visão; ela pendurou uma tabuleta diante de sua porta, e um ano Uma das principais características dos ritmos diários é
depois havia se tomado auto-suficiente. Ninguém sabe por que entrar e sair da solidão.3 Repetidas vezes, nossos dados indicam
cortar unhas era o desafio de que esta mulher precisava e, se inter­ que as pessoas ficam deprimidas quando estão sozinhas, e que se
pretarmos essa história psicanaliticam ente, talvez ninguém reanimam quando voltam à companhia dos outros. Sozinha, uma
quisesse saber. O fato é que, para essa pessoa, nesse estágio da pessoa geralmente relata uma felicidade em baixa, motivação
vida, ser uma manicure permitiu que pelo menos uma pálida adversa, baixa concentração, apatia e toda uma sequência de
semelhança de fluxo entrasse em sua vida. outros estados negativos tais como passividade, solidão, distan­
O professor Fausto Massimini e sua equipe na Universidade ciamento e baixa auto-estima. Estar sozinho afeta principalmente
de Milão, Itália, também adaptaram o ESM como ferramenta de os indivíduos que possuem menos recursos: aqueles que não
diagnóstico, e o utilizam para fazer intervenções personalizadas puderam receber educaçao formal, que são pobres, solteiros ou
que, ao mudar os padrões de atividade, podem melhorar o bem- divorciados. Alguns estados patológicos são muitas vezes invisí­
estar. Se um paciente está sempre sozinho, eles descobrem um tra­ veis enquanto a pessoa está acompanhada; eles se manifestam
balho ou atividades voluntárias que o levarão para o contato principalmente quando estamos sozinhos. Os humores que as
social. Se ele tem pavor de pessoas, eles o levam para caminhar pessoas diagnosticadas com depressão crônica ou com distúrbios
nas ruas movimentadas da cidade, para salas de espetáculos ou alimentares experimentam são indistinguíveis daqueles de uma
bailes. A presença confortadora do terapeuta na situação proble­ pessoa saudável - enquanto elas estiverem acompanhadas e
mática, em oposição ao consultório seguro, muitas vezes ajuda a fazendo algo que exija concentração. Mas, quando elas estão so­
remover os obstáculos para o envolvimento do paciente com ativi­ zinhas e sem ter o que fazer, suas mentes começam a ser ocupa­
dades que melhorariam a qualidade de sua vida. das por pensamentos deprimentes e sua consciência se lorna
As pessoas criativas são especialmente boas na ordenação entrópica. Isso também acontece, de uma maneira menos pronun­
de suas vidas de modo que o que fazem, quando e com quem ciada, com todos.
fazem lhes permite fazer seu melhor trabalho. Se o que precisam O motivo é que, quando temos de interagir com outra pes­
é de espontaneidade e desordem, elas se certificam de que o terão soa, até mesmo um estranho, nossa atenção se toma estruturada
também. A descrição do romancista Richard Stem dos “ritmos” por exigências externas. A presença do outro impõe metas e ofe­
de sua vida cotidiana é bastante típica: rece feedback. Até mesmo as interações mais simples - como
perguntar a outra pessoa que horas são - têm seus próprios desa­
Minha opinião é que eles se assemelham aos ritmos de outras pes­ fios, que confrontamos com nossas habilidades interpessoais.
soas. Qualquer um que trabalhe tem rotina ou impõe à sua vida
Nosso tom de voz, um sorriso, nossa postura e nosso comporta­
certos períodos em que pode estar sozinho ou em colaboração
com alguém. De qualquer modo, a pessoa elabora uma espécie de mento fazem parte das habilidades de que precisamos para abor­
cronograma para si mesma e isso não é simplesmente um fenôme­ dar um estranho na rua e causar uma boa impressão. Em encon­
no externo, um exoesqueleto. Parece-me que tem muito a ver com tros mais íntimos, o nível tanto dos desafios quanto das habilida­
o relacionamento de seu s e lf fisiológico, hormonal e orgânico des pode se tomar muito alto. Assim, as interações têm muitas
com o mundo externo. Os componentes podem ser tão comuns das características das atividades de fluxo, e elas certamente exi­
quanto “você lê o jornal pela manhã”. Eu costumava fazer isso gem o investimento ordenado de energia psíquica. Em contraste,
anos atrás, e parei de fazê-lo durante anos e anos, o que alterou o quando estamos sozinhos sem nada para fazer, não há motivo
48 A DESCOBERTA DO FLUXO COMO NOS SENTIMOS QUANDO FAZEMOS... 49

para que nos concentremos e, em conscqüência, a mente começa A vida cotidiana se desdobra em vários locais - o lar, o carro, o
a se desembaraçar, logo encontrando algo com que se preocupar. escritório, as ruas e os restaurantes. Além das atividades e com­
Estar com amigos oferece as experiências mais positivas. panhias, os locais também têm um efeito sobre a qualidade da
Aqui as pessoas relatam que ficam felizes, alertas, sociáveis, ale­ experiência. Os adolescentes, por exemplo, se sentem melhor
gres e motivadas. Isso é especialmcnte verdadeiro para os adoles­ quando estão o mais distante possível do controle dos adultos,
centes, mas também para idosos aposentados de setenta ou oiten­ como por exemplo cm um parque público. Eles se sentem mais
ta anos. A importância das amizades no bem-estar dificilmente constrangidos na escola, nas igrejas e em outros lugares onde seu
pode ser superestimada. A qualidade de vida melhora intensa­ comportamento precisa corresponder às expectativas dos outros.
mente quando há pelo menos outra pessoa disposta a escutar nos­ Os adultos também preferem parques públicos, onde provavel­
sos problemas e a nos apoiar emocionalmente. As pesquisas ame­ mente estarão com seus amigos e envolvidos cm atividades de
ricanas de âmbito nacional sugerem que o indivíduo que alega ter lazer voluntárias. Isso é especialmente verdadeiro para as mulhe­
cinco ou mais amigos com quem pode discutir problemas impor­ res, para quem sair de casa muitas vezes significa um alívio da
tantes tem uma probabilidade 60 por cento maior de dizer que é rotina, enquanto para os homens estar em um espaço público, em
“muito feliz”.4 geral está mais relacionado com o trabalho e com outras respon­
A experiência com a família tende a ser mediana, não tão sabilidades.
boa quanto com amigos, não tão má quanto à solidão.5 Mas essa Para muitas pessoas, dirigir um carro proporciona a sensa­
média também é o resultado de grandes flutuações; uma pessoa ção de liberdade e controle mais coerente; elas o chamam de sua
pode ficar extremamente irritada em casa em um momento e “máquina de pensar”, porque enquanto dirigem podem se con­
entrar em êxtase completo em seguida. No trabalho, os adultos centrar nos seus problemas sem interrupções e resolvem seus
tendem a ter uma concentração e um envolvimento cognitivo conflitos emocionais no casulo protetor do seu veículo pessoal.6
maiores, mas ficam mais motivados em casa, e nela se sentem Um metalúrgico de Chicago, sempre que seus problemas pes­
mais felizes. O mesmo acontece com as crianças na escola, em soais se tomam estressantes demais, pega o seu carro depois do
comparação com o lar. Os membros da família muitas vezes trabalho e dirige rumo ao oeste até chegar ao rio Mississippi. Ele
experimentam suas interações diferentemente uns dos outros. Por passa algumas horas cm um local para piqueniques às margens do
exemplo, quando os pais estão com os filhos, geralmente relatam rio, contemplando a passagem das águas silenciosas. Então ele
humores positivos. O mesmo fazem as crianças até a quinta série. volta para o carro e quando retoma para casa, com a aurora nas­
Mais tarde, as crianças relatam humores cada vez mais negativos cendo sobre o lago Michigan, ele se sente em paz. Para muitas
quando estão com os pais (pelo menos até a oitava série, depois famílias, o carro se tomou um local de união. Em casa, pais e
da qual não temos dados disponíveis). filhos muitas vezes se dispersam em quartos diferentes, fazendo
Os intensos efeitos da companhia sobre a qualidade da coisas diferentes; quando saem de cano, conversam, cantam ou
experiência sugere que investir energia psíquica em relaciona­ brincam juntos.
mentos é uma boa maneira de melhorar a vida. Até mesmo as Aposentos diferentes da casa também têm seu perfil emo­
conversas passivas e superficiais em um bar da vizinhança podem cional peculiar, em grande parte porque cada ambiente se destina
evitar a depressão. Mas, para o crescimento real, é necessário a uma atividade diferente. Por exemplo, os homens relatam
encontrar pessoas cujas opiniões sejam interessantes e cuja con­ humores agradáveis quando estão no porão, e as mulheres não;
versa seja estimulante. Uma habilidade mais difícil, mas a longo provavelmente porque os homens vão até o porão para relaxar ou
prazo até mais útil, é a habilidade de tolerar a solidão, e de até trabalhar em um hobby, enquanto suas esposas provavelmente
mesmo apreciá-la. usam o porão para lavar roupa. As mulheres relatam alguns dos
seus melhores momentos na casa quando estão no banheiro, onde
ficam relativamente livres das exigências da família, e na cozi-
50 A DESCOBERTA DO FLUXO C O M O NOS SENTIMOS Q U A N D O FAZEM O S... 51

nha, onde estão no controle e envolvidas com o alo de cozinhar, M uitas vezes ouvimos falar de como os biorritm os são
uma atividade relativamente agradável. (Os homens, na verdade, importantes e como nos sentimos diferentes nas deprimentes
sentem muito mais prazer cozinhando que as mulheres, sem dúvi­ segundas-feiras em comparação com os finais de semana.8 Na
da porque o fazem com uma freqüência dez vezes menor e, por­ verdade, o modo como cada dia é experimentado muda conside­
tanto, podem fazê-lo quando estão com vontade.) ravelmente da manhã para a noite. As primeiras horas da manhã e
Embora exista muito material sobre como o ambiente em tarde da noite são baixas em muitas das emoções positivas; o horá­
que vivemos afeta nossa mente, ainda há, na verdade, muito pou­ rio de refeições e as tardes são elevadas. As maiores mudanças
co conhecimento sistemático sobre esse tópico.7 Desde tempos ocorrem quando as crianças deixam a escola e quando os adultos
imemoriais, artistas, eruditos e místicos religiosos escolheram cui­ chegam em casa do trabalho. Nem todos os conteúdos da cons­
dadosamente ambientes que mais permitissem serenidade e inspi­ ciência viajam na mesma direção; quando saem com amigos à noi­
ração. Monges budistas se instalaram na nascente do rio Ganges, te, os adolescentes relatam uma excitação crescente a cada hora,
eruditos chineses escreviam em pavilhões localizados em lindas mas ao mesmo tempo também sentem que estão gradual mente
ilhas, os monastérios cristãos eram construídos em montanhas que perdendo o controle. Além dessas tendências gerais, existem
proporcionavam vistas maravilhosas. Na América contemporâ­ várias diferenças individuais; pessoas matinais e pessoas notumas
nea, institutos de pesquisa e laboratórios de pesquisa de empresas se relacionam com o período do dia de maneiras inversas.
geralmente se localizam entre cadeias de montanhas, com patos Apesar da má reputação de certos dias da semana, em geral
nos lagos tranqüilos ou o oceano no horizonte. as pessoas parecem experimentar cada dia mais ou menos da
Se confiarmos em relatos de pensadores criativos e artistas, mesma maneira. É verdade que, como era de se esperar, as tardes
arredores agradáveis muitas vezes são a fonte da inspiração e da de sexta-feira e os sábados são levemente melhores que as noites
criatividade. Muitas vezes eles ecoam as palavras de Franz Liszt, de domingo e as manhãs de segunda-feira, mas as diferenças são
que escreveu sobre o romântico lago Como: “Sinto que os vários menores do que se podería esperar. Depende muito de como pla­
elementos da natureza a meu redor... provocam uma reação emo­ nejamos nosso dia; as manhãs de domingo podem ser muito
cional nas profundezas da minha alma, que tentei transcrever deprimentes se não temos o que fazer, mas se esperamos avida­
para a música.” Manfred Eigen, que recebeu o prêmio Nobcl de mente uma atividade planejada previamente ou um ritual fami­
química em 1967, diz que algumas das suas inspirações mais liar, como ir à missa, por exemplo, então pode ser o ponto alto da
importantes surgiram em viagens de inverno pelos Alpes Suíços, semana.
onde ele convidava colegas de todo o mundo para esquiar e dis­ Uma descoberta interessante é que as pessoas relatam signi-
cutir ciência. Se lermos as biografias de físicos como Bohr, ficativamente mais sintomas físicos, como dores de cabeça e nas
Heisenberg, Chandrashekhar e Bethe, teremos a impressão de costas, durante os fins de semana ou em períodos em que não
que, sem viagens até as montanhas e a visão dos céus noturnos, estão estudando ou trabalhando. Até mesmo a dor das mulheres
sua ciência não teria ido muito longe. com câncer é tolerável quando estão com amigas, ou envolvidas
Para realizar uma mudança criativa na qualidade da expe­ em uma atividade; ela aumenta quando estão sozinhas, sem nada
riência, pode ser útil experimentar com o ambiente assim como para fazer. Aparentemente, quando a energia psíquica não está
com as atividades e os companheiros. Passeios e férias ajudam a dedicada a uma tarefa específica, é mais fácil notar o que há de
clarear a mente e a mudar perspectivas, a contemplar a própria errado com os nossos corpos. Isso se encaixa com o que sabemos
situação com novos olhos. Cuidar do ambiente da própria casa ou sobre a experiência de fluxo: quando jogam em um torneio final,
do escritório - livrando-se do excesso, redecorando-os segundo enxadristas podem passar horas sem notar a fome ou a dor de
nosso próprio gosto, tornando-os pessoal e psicologicamente cabeça; atletas em uma competição podem ignorar a dor e a fadi­
confortáveis —podería ser o primeiro passo para reorganizar nos­ ga até que o evento tenha terminado. Quando a atenção está foca­
sas vidas. lizada, as dores menores não são registradas na consciência.
52 A DESCOBERTA DO FLUXO

Novamente, com a hora do dia e outros parâmetros, é impor­


tante descobrir quais são os ritmos mais favoráveis para você.
Não há dia ou hora que seja melhor para todos. A reflexão ajuda
a identificar nossas preferências, e a experimentação com dife­
rentes alternativas - levantar cedo, tirar um cochilo à tarde,
comer em horários diferentes - ajuda a encontrar o melhor con­ QUATRO
junto de opções.

O PARADOXO DO TRABALHO
Em todos esses exemplos, procedemos como se as pessoas fos­
sem objetos passivos cujos estados interiores fossem afetados
pelo que fazem, com quem estão, onde estão e assim por diante.
Embora isso em parte seja verdade, em última análise não são as
condições externas que importam, mas o que fazemos com elas.
É perfeitamenle possível ser feliz realizando tarefas domésticas
sem ninguém por perto, estar motivado durante o trabalho, se O trabalho toma cerca de um terço do tempo disponível para
concentrar enquanto conversa com uma criança. Em outras pala­ viver. Trabalhar é uma experiência estranha; ela oferece alguns
vras, a excelência da vida cotidiana depende em última instância dos momentos mais intensos e satisfatórios, proporciona uma
não do que fazemos, mas de como fazemos. sensação de orgulho e identidade, mas é algo que a maioria de nós
Apesar disso, antes de procurar uma maneira de controlar fica feliz em evitar. Por um lado, pesquisas recentes relatam que
diretamente a qualidade da experiência transformando a informa­ 84 por cento dos homens e 77 por cento das mulheres nos Estados
ção em consciência, é importante refletir sobre os efeitos que o Unidos afirmam que continuariam a trabalhar mesmo que herdas­
ambiente diário - os lugares, as pessoas, as atividades e os perío­ sem dinheiro o suficiente para que não precisassem mais traba­
dos do dia - tem sobre nós. Até mesmo o místico mais consuma­ lhar. 1 Por outro lado, de acordo com vários estudos de ESM,
do, desapegado de todas as influências, vai preferir se sentar sob quando as pessoas ouviam os sinais do pager no trabalho elas
uma árvore específica, comer certa comida e estar com um com­ marcavam mais o item “gostaria de estar fazendo outra coisa” do
panheiro em vez de outro. A maioria de nós é muito mais sensí­ que em qualquer outro momento do dia. Outro exemplo dessa ati­
vel às situações em que nos encontramos. tude contraditória é um livro em que dois eminentes cientistas
Assim, o primeiro passo para melhorar a qualidade de vida sociais alemães, usando os mesmos resultados de pesquisa,
é prestar atenção ao que fazemos todo dia e notar como nos sen­ desenvolveram argumentos opostos. Um deles alegou, entre
timos em diferentes atividades, lugares, horas do dia e com dife­ outras coisas, que os trabalhadores alemães não gostavam do tra­
rentes companhias. Embora as tendências gerais provavelmente balho, e que aqueles que não gostavam de trabalhar eram em
se apliquem também a seu caso - você vai perceber que fica mais geral mais felizes. O segundo respondeu que os trabalhadores só
feliz na hora das refeições e sente o fluxo com mais freqüência no não gostam do trabalho porque sofreram uma lavagem cerebral
lazer ativo pode haver revelações surpreendentes. Você pode ideológica da mídia, e que aqueles que gostam do seu trabalho
descobrir que realmente gosta de ficar sozinho. Ou que gosta de levam vidas mais ricas. A questão é que existem indícios razoá­
trabalhar mais do que pensava; ou que ler faz com que você se veis para as duas conclusões. Como o trabalho é tão importante
sinta melhor do que assistir à televisão; ou o contrário de todas em relação à quantidade de tempo e à intensidade de efeitos que
essas afirmações. Não há nenhuma lei que nos obrigue a experi­ produz na consciência, é essencial encarar suas ambigüidades se
mentar a vida da mesma maneira. O que é vital é descobrir o que quisermos melhorar a qualidade de vida. Um primeiro passo nes­
funciona melhor no nosso caso. sa direção é rever brevemente o modo como as atividades profis-
54 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 55

sionais evoluíram na história, e os valores contraditórios que to, com uma variedade de engrenagens, começaram a ser utiliza­
foram atribuídos a elas e que ainda afetam nossas atitudes c dos para moer os grãos, carregar água, aquecer as foijas onde os
experiências. metais eram derretidos. O desenvolvimento das máquinas a
vapor, e mais tarde da eletricidade, revolucionou ainda mais o
modo como transformamos a energia e ganhamos nosso sustento.
O trabalho como nós o conhecemos é um desenvolvimento histó­
Um resultado dessas inovações tecnológicas foi que o traba­
rico muito recente.2 Ele nào existia antes das grandes revoluções
lho, em vez de ser visto simplesmente como um esforço físico
agrícolas que tomaram possível o cultivo intensivo da terra, há
que um boi ou um cavalo poderíam fazer melhor, começou a ser
cerca de 12 mil anos. Durante os milhões de anos anteriores de
percebido como uma atividade especializada, uma manifestação
evolução humana, cada homem e cada mulher cuidava de si mes­
da genialidade e da criatividade humanas. Na época de Calvino,
mo e de seus familiares. Mas não existia nada como trabalhar
já fazia sentido levar a sério a ‘‘ética do trabalho”. E foi por isso
para outra pessoa; para os caçadores-coletores, o trabalho estava
que Karl Marx pôde mais tarde reverter a avaliação clássica do
integrado de maneira indistinta ao resto da vida.
trabalho e alegar que só mediante a atividade produtiva podemos
Nas civilizações clássicas da Grécia e de Roma, os filósofos
realizar nosso potencial humano. Sua posição não contradizia o
refletiam a opinião pública sobre o trabalho, segundo a qual ele
espírito da afirmação oposta de Aristóteles, segundo o qual só o
deveria ser evitado a todo custo. O ócio era considerado uma vir­
lazer tomava os homens livres. Ocorre que, por volta do século
tude. De acordo com Aristóteles, só um homem que não precisa­
XIX, o trabalho oferecia mais opções criativas do que o ócio.
va trabalhar podería ser feliz. Os filósofos romanos concordavam
Durante as décadas de abundância após a Segunda Guerra
que “o trabalho assalariado é sórdido e indigno de um homem
Mundial, a maioria dos empregos nos EUA pode ter sido tediosa
livre... o trabalho artcsanal é sórdido, assim como o comércio”. O
ou insípida, mas em geral fornecia condições decentes e uma
ideal era conquistar ou comprar terras produtivas e então contra­
segurança razoável. Falava-se muito em uma nova era onde o tra­
tar uma equipe de capatazes para supervisionar o cultivo por
balho seria abolido, ou pelo menos transformado em tarefas buro­
escravos ou servos. Na Roma imperial, cerca de 20 por cento da
cráticas de supervisão que só exigiríam algumas horas por sema­
população masculina adulta não precisavam trabalhar. Tendo
na. Não foi preciso muito tempo para ver como essas previsões
alcançado uma vida de ócio, eles acreditavam que haviam chega­
eram utópicas. A concorrência global, que permitiu às popula­
do à excelência em suas vidas. Nos tempos republicanos, havia ções dc salários baixos da Ásia e da América do Sul competir no
algum fundamento para esta crença; os membros das classes
mercado de trabalho, está novamente dando ao trabalho nos
dominantes se ofereciam voluntariamente para ocupar cargos
Estados Unidos uma reputação negativa. Cada vez mais, à medi­
militares e administrativos que ajudavam a comunidade e propor­
da que a rede de segurança social corre o risco de se desfazer, as
cionavam oportunidades para que o potencial pessoal se expan­
pessoas precisam trabalhar mais, muitas vezes sob condições
disse. Mas, depois de séculos de comodidade, as classes ociosas
arbitrárias e sem muita segurança quanto ao futuro. Assim, mes­
se retiraram da vida pública e usaram o tempo livre para consu­
mo agora, no final do século XX, a profunda ambiguidade do tra­
mir o luxo e o entretenimento.
balho ainda nos assombra. Sabemos que ele é um dos elementos
O trabalho, para a maioria das pessoas, começou a mudar
mais importantes das nossas vidas; mas, enquanto trabalhamos,
radicalmente na Europa cerca de quinhentos anos atrás, passou
preferíamos estar fazendo outra coisa.
por outro salto quântico há duzentos anos e ainda continua a
mudar em ritmo acelerado. Até o século XIII, quase toda a ener­
gia para o trabalho dependia de músculos humanos ou animais. Como aprendemos essas atitudes conflitantes quanto ao trabalho?
Só alguns equipamentos primitivos, como moinhos d ’água, aju­ E como os jovens de hoje aprendem as habilidades e a disciplina
davam a aliviar o fardo. Então, pouco a pouco os moinhos de ven­ necessárias para o trabalho produtivo adulto? Essas perguntas
56 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 57

não são de modo algum sem importância. A cada geração o traba­ o censo de 1990.3 A maioria dos 244 adolescentes que esperam se
lho se toma um conceito cada vez mais vago, e fica cada vez mais tomar atletas profissionais também ficarão desapontados, já que
difícil para os jovens saber que trabalhos estarão esperando por eles superestimam suas chances em cerca de quinhentas vezes.
eles no futuro e aprender a se preparar para eles. Crianças de minorias que vivem em bairros populares ambicio­
No passado, e de certa forma mesmo agora, nas sociedades nam carreiras profissionais na mesma proporção que crianças
caçadoras e pescadoras do Alasca e da Melanésia, ainda podemos abastadas dos subúrbios americanos, apesar do fato de a taxa dc
ver o padrão usado em todas as outras partes do mundo: as crian­ desemprego para os jovens afro-americanos em algumas cidades
ças desde cedo participam do trabalho dos pais e gradualmente se ser de quase 50 por cento.
vêcm agindo como adultos produtivos com a maior tranquilidade. A falta de realismo quanto às futuras opções de carreira se
Um garoto inuit (esquimó) recebeu um arco de brinquedo aos deve em parte à natureza rapidamente mutável dos trabalhos
dois anos de idade e começou a praticar os disparos imediatamen­ adultos, mas também é causada pelo isolamento de muitos jovens
te. Aos quatro anos ele provavelmente vai conseguir atirar cm de oportunidades de trabalho significativas e de modelos adultos
uma ptármiga, aos seis em um coelho e daí chegará ao caribu e à de trabalho. Ao contrário do que poderiamos esperar, adolescen­
foca. Sua irmã passou por uma progressão similar ajudando as tes abastados geralmente trabalham com mais freqüência durante
mulheres do seu grupo familiar a curtir peles, cozinhar, costurar e o segundo grau do que estudantes mais pobres, embora não pre­
cuidar dos irmãos mais novos. Não se questiona o que a pessoa cisem fazê-lo. E a exposição a tarefas produtivas em casa, na vizi­
deve fazer quando crescer - não existem opções, apenas um úni­ nhança e na comunidade é muito maior para as crianças que cres­
co caminho para a maturidade produtiva. cem em ambientes ricos e estáveis. Ali, é possível realmente
Quando a revolução agrícola tomou as cidades possíveis, há encontrar jovens de 15 anos que planejam ser arquitetos e que
cerca de 10 mil anos, os trabalhos especializados começaram a aprenderam a desenhar na empresa dc arquitetura de um parente,
surgir e algumas opções foram abertas para os jovens. Ainda ajudaram a projetar uma nova ala na casa de um vizinho, fazem
assim, a maioria deles acabava fazendo o mesmo que os pais, o estágio em uma construtora local - apesar de essas oportunidades
que até alguns séculos atrás era principalmente o cultivo da terra. em geral serem infreqüentes. Em uma escola dc um bairro popu­
Foi só nos séculos XVI e XVII que uma grande quantidade de lar, o conselheiro profissional informal mais popular era um
jovens começou a se mudar das fazendas para as cidades, para segurança da escola que ajudou jovens inteligentes a encontrar
tentar a sorte na crescente economia urbana. De acordo com algu­ trabalho com as gangues, e orientou meninas de boa aparência a
mas estimativas, aos 12 anos cerca de 80 por cento das jovens do trabalhar como “modelos”.
campo de algumas partes da Europa deixavam seus pais fazendei­ De acordo com os resultados do ESM, parece que os jovens
ros, enquanto os meninos saíam em média dois anos antes. A aprendem a ambivalência dos mais velhos quanto ao trabalho
maioria dos trabalhos que os esperavam em Londres ou Paris muito cedo. Aos dez ou 11 anos, eles internalizaram o padrão
fazia parte do que agora seria chamado de setor de serviço, como típico de toda a sociedade. Quando perguntamos se o que eles
arrumadeiras, cocheiros, porteiros ou lavadeiras. estavam fazendo era mais parecido com “trabalho” ou com
A situação é muito diferente agora. Em um recente estudo, “diversão” (ou “ambos” ou “nenhum dos dois”), alunos da sexta
perguntamos a alguns milhares de adolescentes americanos série quase invariavelmente diziam que os cursos escolares são
representativos que empregos eles esperavam ter no futuro. Os trabalho e praticar esportes é diversão. A parte interessante é que
resultados são apresentados na Tabela 3, que revela que os ado­ sempre que os adolescentes fazem algo que rotulam como traba­
lescentes possuem expectativas altas e irreais de se tomarem pro­ lho, eles gcralmente dizem que é importante para o seu futuro,
fissionais; 15 por cento deles esperam se tomar médicos ou advo­ exige alta concentração e induz a uma forte auto-estima. No
gados, o que é quase 15 vezes mais do que a verdadeira propor­ entanto, eles também ficam menos felizes e motivados do que a
ção de médicos e advogados na força de trabalho de acordo com média quando dizem que fazem algo parecido com trabalho. Por
58 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 59

outro lado, quando estão fazendo alguma coisa que consideram empregos remunerados, geral mente servindo em lanchonetes,
diversão, eles a veem como algo de pouca importância e que exi­ sendo balconistas, vendedores ou babás. Quando os adolescentes
ge pouca concentração, mas estão felizes e motivados. Em outras ouvem o sinal do pager em seus empregos, relatam uma elevada
palavras, a divisão entre trabalho que é necessário mas desagra­ auto-estima. Eles veem o que fazem como algo importante e que
dável e o que é agradável mas inútil está bem estabelecida no exige uma grande concentração, mas estão menos felizes que o
final da infância. Ela se toma ainda mais pronunciada à medida usual (embora não tão infelizes quanto na escola) e não se diver­
que os adolescentes entram no segundo grau. tem. Em outras palavras, o padrão de ambivalência é estabeleci­
do nos primeiros passos de suas vidas profissionais.
Mas o trabalho, definitivamente, não é a pior coisa que os
Tabela 3
Que empregos os adolescentes am ericanos esperam ter? adolescentes experimentam; a pior condição que relatam é quan­
do o que fazem não parece nem trabalho nem diversão. Quando
Os dez trabalhos futuros mais esperados, de acordo com entrevistas esse é o caso - gcralmente em atividades dc manutenção, lazer
com uma amostra de 3.891 adolescentes americanos. passivo ou socialização - , sua auto-estima fica mais baixa, o que
fazem não tem importância, e sua felicidade e motivação também
Ocupação Posição % da mostra estão abaixo da média. No entanto, para os adolescentes, “nem
Médico 1 10 trabalho nem diversão” geralmente ocupa uma média de 35 por
Executivo 2 7
cento do dia. Alguns, especialmente crianças cujos pais tiveram
Advogado 3 7
Professor 4 7 pouco estudo, sentem que metade ou mais do que fazem cai nes­
Atleta 5 6 sa categoria. Uma pessoa que cresce experimentando a maior
Engenheiro 6 5 parte do dia como sem importância e sem prazer dificilmente
Enfermeira 7 4 encontrará muito significado no futuro.
Contador 8 3
Psicólogo 9 3
Arquiteto 10 3 As atitudes estabelecidas nos primeiros anos continuam a deter­
Outros — 45 minar o modo como experimentamos o trabalho durante o resto
Fonte: adaptado dc Bidwcll. Csikszcntmihalyi, Hcdges c Schncidcr, 1997. no prelo.
de nossas vidas. No emprego, as pessoas tendem a usar sua men­
te e seu corpo ao máximo; consequentemente, acreditam que o
que fazem é importante e sentem-se bem consigo mesmas
Quando os mesmos adolescentes mais tarde começam a tra­ enquanto o fazem. No entanto, sua motivação é pior do que quan­
balhar, relatam exatamente o mesmo padrão de experiência em do estão em casa, e o mesmo acontece com a qualidade dos seus
relação ao local de trabalho. Nos Estados Unidos, quase nove em humores. Apesar das grandes diferenças no salário, prestígio e
cada dez adolescentes estão empregados em algum momento liberdade, os gerentes tendem a sentir-se apenas um pouco mais
durante o segundo grau, uma proporção muito mais alta do que criativos e ativos no emprego, enquanto os trabalhadores em fun­
em qualquer outro país tecnologicamente avançado como a ções de escritório e da linha de montagem não são mais infelizes
Alemanha ou o Japão, onde existem menos oportunidades para o e insatisfeitos.
trabalho de meio expediente - e onde os pais preferem que seus Homens e mulheres, contudo, tendem a experimentar o tra­
filhos passem o máximo de tempo possível estudando, em vez de balho fora de casa de maneiras diferentes.4 Tradicionalmente, a
se distraírem com empregos irrelevantes para suas carreiras futu­ identidade e o amor-próprio do homem se baseiam na capacidade
ras. No nosso estudo, 57 por cento dos estudantes do décimo ano de obter energia do ambiente para seu próprio uso e para o uso da
e 86 por cento dos estudantes do décimo segundo ano possuem família. Independentemente de a satisfação que um homem
60 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 61

obtém com seu trabalho ser em parte geneticamente programada vam de uma maneira menos favorável que os homens era quando
ou inteiramente aprendida com a cultura, o fato é que mais ou trabalhavam em casa em projetos trazidos do escritório, sem
menos em toda parte um homem que nào é um provedor é, de cer­ dúvida porque nessas situações se sentiam responsáveis também
ta forma, um desajustado. A auto-estima das mulheres, por outro pelas tarefas domésticas além de suas obrigações profissionais.
lado, tradicionalmente se baseou em sua capacidade de criar um O duplo risco imposto por uma família e uma carreira pode
ambiente físico e emocional adequado para cuidar das crianças e ser um fardo pesado para a auto-estima das mulheres. Em um
do conforto dos adultos. Por mais esclarecidos que tenhamos nos estudo com mães de crianças pequenas que trabalhavam em tem­
tomado em termos de tentar evitar esses estereótipos sexuais, eles po integral, em meio expediente ou só algumas horas por semana,
ainda estão longe de acabar. Os adolescentes ainda querem ser Anne Wells descobriu que os níveis mais elevados de auto-estima
policiais, bombeiros e engenheiros, enquanto as garotas querem eram relatados por mulheres que trabalhavam menos, e os mais
ser donas de casa, enfermeiras e professoras - embora as garotas baixos pelas mulheres que trabalhavam mais - isso apesar do fato
hoje em dia também esperem se tomar profissionais, como médi­ de todas as mulheres gostarem de seu trabalho remunerado mais
cas e advogadas, a uma taxa ainda maior que a dos meninos. do que gostavam de trabalhar em casa. Novamente, esses dados
Devido ao papel diferente do trabalho remunerado na eco­ sugerem o significado ambíguo da auto-estima. Mulheres profis­
nomia psíquica de homens e mulheres, as respostas dos dois sionais de tempo integral podem ter menos auto-estima não por­
sexos aos seus empregos costumam ser diferentes. Deixando de que estão realizando menos, mas porque esperam de si mesmas
lado as ainda relativamente poucas mulheres de carreira cuja mais do que podem realizar.
identificação ocorre inicialmente com seus trabalhos, a maioria Essas questões trazem à tona o modo como é arbitrária a
das mulheres que trabalham em ocupações de escritório, serviços divisão entre o trabalho remunerado c o trabalho doméstico que
e até mesmo gerência tende a pensar no seu trabalho externo como as mulheres tradicional mente deveríam fazer por suas famílias.
algo que querem fazer em vez de algo que têm de fazer. O traba­ Como Elise Boulding e outros economistas sociais já apontaram,
lho é mais voluntário para muitas mulheres; é mais parecido com o trabalho de manutenção pode não ser produtivo, mas, se fosse
diversão, com algo que têm a opção de abandonar. Muitas delas considerado um serviço remunerado, a conta seria próxima ao
sentem que o que quer que aconteça no trabalho não é importante PIB. Os custos dos cuidados matemos com os filhos, com os
- e assim, paradoxal mente, podem apreciá-lo melhor. Mesmo que doentes, cozinhar, limpar e assim por diante nas taxas do merca­
as coisas dêem errado e elas sejam demitidas, isso não fere sua do duplicariam a folha de pagamento nacional, e talvez nos for­
auto-estima. Ao contrário dos homens, sua auto-imagem depende çassem a adotar uma economia mais humana. Mas, enquanto
mais do que acontece com suas famílias. Ter um pai desamparado isso, embora cuidar da casa possa aumentar a auto-estima de uma
ou uma criança com problemas na escola é um fardo muito maior mulher casada, não contribui muito para o seu bem-estar emocio­
sobre suas mentes do que o que acontece no trabalho. nal. Cozinhar, fazer as compras, levar os filhos de carro e cuidar
Como resultado, e sobretudo em comparação com o traba­ das crianças são acompanhados apenas por emoções medianas.
lho que costumam fazer em casa, as mulheres geralmente experi­ No entanto, limpar a casa, limpar a cozinha, lavar a roupa, con­
mentam o emprego de uma maneira mais positiva que os homens. sertar coisas na casa e equilibrar o orçamento geralmente estão
Por exemplo, em um estudo ESM conduzido com casais onde os entre as experiências mais negativas no dia de uma mulher.
dois parceiros trabalhavam, Reed Larson descobriu que as mu­ O trabalho tem diversas desvantagens, mas sua ausência é
lheres relatavam relativamente mais emoções positivas do que os pior. Os filósofos antigos tinham muito a dizer a favor do ócio,
homens quando faziam trabalhos de escritório, trabalho no com­ mas o que eles tinham em mente era o ócio de um proprietário de
putador, vendas, reuniões, trabalho no telefone, leitura de mate­ terras com muitos servos e escravos. Quando o ócio é forçado
rial relacionado com o trabalho e assim por diante. A única ativi­ sobre alguém sem uma bela renda, ele simplesmente produz uma
dade relacionada com o emprego que as mulheres experimenta­ grave queda na auto-estima e uma apatia generalizada. Como
62 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 63

mostrou John Haworth, psicólogo da Universidade de habilidades são subutilizadas e, como resultado, sentem-se ente-
Manchester, os jovens desempregados, mesmo quando recebem diadas ou - o que é mais raro - ansiosas.
um salário-dcsemprego relativamente generoso, têm uma grande Assim, não é de espantar que a qualidade da experiência no
dificuldade de encontrar satisfação em suas vidas.5 Em uma com­ trabalho seja geralmente mais positiva do que se podería esperar.
pilação de estudos envolvendo 170 mil trabalhadores em 16 Apesar disso, se tivéssemos a chance, provavelmente gostaría­
nações, Ronald Ingelhart descobriu que 83 por cento dos traba­ mos de trabalhar menos. Por que isso acontece? Duas principais
lhadores de escritório, 77 por cento dos trabalhadores braçais e só razões parecem estar envolvidas. A primeira se baseia nas condi­
61 por cento dos desempregados disseram que estavam satisfei­ ções objetivas do trabalho. É verdade que desde tempos imemo­
tos com suas vidas. A sugestão da Bíblia de que o homem foi fei­ riais aqueles que pagam os salários de outra pessoa não estão par-
to para desfrutar as riquezas da criação sem ter de trabalhar por licularmente preocupados com o bem-estar de seus empregados.
elas não parece se coadunar com os fatos. Sem a meta e os desa­ É preciso ter extraordinários recursos interiores para alcançar o
fios geralmente oferecidos por um trabalho, só uma rara autodis- fluxo enquanto se está cavando a um quilômetro abaixo do solo
ciplina pode manter a mente focalizada intensamente o bastante em uma mina sul-africana, ou cortando cana em uma plantação
para garantir uma vida significativa. sob um sol abrasador. Até mesmo em nossa época esclarecida,
com toda a ênfase em “recursos humanos”, a administração fre­
qüentem ente não tem qualquer interesse no modo como os
A descoberta, mediante nossos estudos com o ESM, de que as
empregados experimentam o trabalho. Portanto, não é surpreen­
fontes de fluxo nas vidas dos adultos podem ser encontradas com
dente que muitos trabalhadores acreditem que não podem contar
maior facilidade no trabalho que no tempo livre parece bastante
com o trabalho para fornecer as recompensas intrínsecas de suas
surpreendente a princípio. Os momentos em que uma pessoa está
vidas, e que eles terão de esperar até que estejam fora da fábrica
em uma situação de alto desafio e que exige extrema habilidade,
ou do escritório antes de poderem começar a se divertir - embora
acompanhada por sentimentos de concentração, criatividade e
isso não seja verdade.
satisfação, foram relatados mais freqüentemente no trabalho do
A segunda razão complementa a primeira, mas se baseia
que em casa. Ao analisarmos melhor, contudo, essa descoberta
menos na realidade contemporânea e mais na má reputação histó­
não é tão surpreendente. O que muitas vezes passa despercebido rica do trabalho, que é transmitida pela cultura e aprendida por
é que o trabalho é muito mais parecido com um jogo do que a cada um de nós à medida que crescemos. Não há dúvida de que
maioria das outras coisas que realizamos durante o dia. Ele geral­ durante a Revolução Industrial, há 250 anos, os operários das
mente tem metas claras e regras de desempenho; oferece feed- fábricas tinham de trabalhar sob condições desumanas. O tempo
back ou na forma de saber que terminamos bem uma tarefa, em livre era tão raro que se tornou um dos artigos mais preciosos. Os
termos de vendas mensuráveis, ou pela avaliação de nosso super­ trabalhadores acreditavam que, se ao menos tivessem mais tempo
visor. Uma tarefa geralmente encoraja a concentração e evita dis­ livre, automaticamente seriam mais felizes. Os sindicatos lutaram
trações; também permite uma quantidade variável de controle e - heroicamente para reduzir a semana de trabalho, e seu sucesso foi
pelo menos idealmente - suas dificuldades correspondem às uma das brilhantes realizações da história da humanidade. Infe-
habilidades do trabalhador. Assim, o trabalho tende a ter a estru­ lizmente, embora o tempo livre possa ser uma condição necessá­
tura de outras atividades intrinsecamente recompensadoras que ria para a felicidade, por si só não é suficiente para garanti-la.
fornecem fluxo, tais como jogos, esportes, música e arte. Em Aprender a usá-lo de maneira benéfica acaba sendo mais difícil
comparação, grande parte do resto da vida carece desses elemen­ do que podíamos imaginar. Tampouco parece que um excesso de
tos. Quando ficam em casa com a família ou sozinhas, as pessoas uma coisa boa seja necessariamente melhor; como acontece com
muitas vezes carecem de uma finalidade clara, não sabem como tantas outras coisas, o que enriquece a vida em pequenas quanti­
está sendo seu desempenho, estão distraídas, sentem que suas dades pode empobrecê-la em doses maiores. É por isso que, em
64 A DESCOBERTA DO FLUXO O PARADOXO DO TRABALHO 65

meados do século XX, psiquiatras e sociólogos alertavam para a Ed Asner, famoso como “Lou Grant”, ainda buscava novos
possibilidade de um desastre social ocasionado por excesso de desafios para suas habilidades dramáticas aos 63 anos: “Sinto
tempo livre. sede de... me expandir, ansioso pela caça.” O ganhador em duas
Esses dois motivos - os ambientes de trabalho objetivos e as ocasiões do prêmio Nobel, Linus Pauling, entrevistado quando
atitudes subjetivas que aprendemos a ter para com eles - conspi­ tinha 89 anos, disse: “Acho que nunca me sentei e me perguntei,
ram para tornar difícil para muitas pessoas admitir, até para si o que vou fazer com minha vida agora? Eu simplesmente conti­
mesmas, que o trabalho pode ser agradável. No entanto, quando nuei fazendo o que gostava.” O eminente psicólogo Donald
abordado sem preconceitos sociais excessivos e com a determi­ Campbell aconselhava os jovens estudantes: “Não procure a
nação de moldá-lo para que seja pessoalmente significativo, até ciência se você está interessado no dinheiro. Não procure a ciên­
mesmo o trabalho mais comum pode aumentar a qualidade de cia se você só gosta dela se se tomar famoso. Deixe a fama ser
vida, em vez de diminuí-la. algo que você aceita graciosamente se a conseguir, mas certifi-
Mas, naturalmente, as recompensas intrínsecas do trabalho que-se de que é uma carreira de que você gosta.” E Mark Strand,
são mais fáceis de constatar nas profissões altamente individuali­ o antigo poeta laureado dos Estados Unidos, descreve bem o flu­
zadas, em que uma pessoa está livre para escolher suas metas e xo na busca de sua vocação: “Você se dedica seriamente a seu tra­
estabelecer a dificuldade da tarefa. Artistas, empresários e cien­ balho, você perde a noção do tempo, está completamcntc enleva­
tistas altamente produtivos e criativos tendem a experimentar do, completamenie dominado pelo que está fazendo... quando
seus trabalhos como nossos ancestrais caçadores o faziam - como trabalha em algo e trabalha bem, você tem a sensação de que não
algo completamenie integrado com o resto de suas vidas. Uma há outra maneira de dizer o que está dizendo.”
das frases mais comuns que escutei nas quase cem entrevistas que É claro que pessoas como estas são muito afortunadas por
conduzi com pessoas como ganhadores do prêmio Nobel e outros lerem alcançado o lopo de profissões glamourosas. Mas também
líderes criativos em campos diferentes foi: “Você podería dizer seria fácil encontrar um grande número de pessoas famosas e
que trabalhei cada minuto da minha vida, ou podería dizer do bem-sucedidas que detestam seus trabalhos, enquanto podemos
mesmo modo que nunca trabalhei um único dia.” O historiador encontrar negociantes, bombeiros, lavradores e até mesmo operá­
John Hope Franklin expressou esse misto de trabalho e lazer de rios de linhas de montagem que adoram seu trabalho e o descre­
maneira mais concisa quando disse: “Eu sempre me identifiquei vem em termos líricos. Não são as condições externas que deter­
com a expressão ‘Graças a Deus é sexta-feira’, porque para mim minam o quanto o trabalho contribuirá para a excelência da vida
a sexta-feira significa que durante os próximos dois dias posso do indivíduo. É como o indivíduo trabalha, e que experiências ele
trabalhar sem interrupções.” é capaz de obter do confronto com seus desafios.
Para esses indivíduos, o fluxo é uma parte constante de sua Por mais satisfatório que seja, apenas o trabalho não pode
atividade profissional. Embora operar nas fronteiras do conheci­ tomar uma vida completa. A maioria dos indivíduos criativos que
mento deva necessariamente incluir muitas dificuldades e agita­ entrevistamos disse que suas famílias eram mais importantes para
ção interior, a alegria de fazer com que a mente alcance novos ter­ eles do que suas carreiras - embora seus verdadeiros hábitos mui­
ritórios é a característica mais óbvia de suas vidas, até mesmo tas vezes contradissessem estes sentimentos. Casamentos está­
depois da idade em que as pessoas estão geralmente satisfeitas em veis e emocionalmente recompensadores eram a norma entre
se aposentar. O inventor Jacob Rabinow, com mais de duzentas eles. Quando perguntei de que realizações na vida eles tinham
patentes registradas, descreveu seu trabalho aos 83 anos: “Você mais orgulho, as respostas mais típicas lembravam a do físico
precisa estar disposto a colocar em prática suas idéias, porque Freeman Dyson: "Suponho que foi apenas ler criado seis filhos, e
você está interessado... pessoas como eu agem assim. É divertido feito deles, pelo que posso ver, pessoas interessantes. Acho que é
aparecer com uma idéia e, se ninguém a quiser, eu não dou a míni­ disso que tenho mais orgulho, realmente.” John Reed, principal
ma. É simplesmente divertido criar algo estranho e diferente.” executivo da Citicorp, disse que o melhor investimento que ele já
66 A DESCOBERTA DO FLUXO

fez foi o ano que tirou da sua carreira de sucesso para passar o
tempo com seus filhos que estavam crescendo: “Criar filhos é
muito mais recompensador do que ganhar dinheiro para uma
empresa, em termos de uma sensação de satisfação.” E a maioria
desses indivíduos preenche qualquer tempo livre que possuam
com interessantes atividades de lazer, desde tocar em concertos CINCO
públicos e colecionar mapas náuticos raros, de cozinhar e escre­
ver um livro de receitas a se oferecer para ensinar em países sub­
desenvolvidos.
OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES
Assim, o amor e a dedicação à vocação não precisam ter as DO LAZER
conotações negativas do workaholism. Este termo poderia ser
legitimamente aplicado a uma pessoa mergulhada por completo
no trabalho para fugir de outras metas e responsabilidades. Um
workaholic corre o risco de só ver os desafios relacionados ao seu
trabalho, e de aprendei apenas as habilidades apropriadas para a Parece um tanto ridículo dizer que um dos problemas que enfren­
profissão; ele é incapaz de experimentar o fluxo em qualquer tamos neste ponto da históría é que não aprendemos a gastar nos­
outra atividade. Uma pessoa dessas perde muitas das oportunida­ so tempo livre de maneira sensata. No entanto, essa é uma preo­
des que contribuem para a excelência da vida, e em muitas oca­ cupação que muitos expressaram desde meados do século XX.
siões termina sua vida de uma maneira infeliz, quando, depois de Em 1958, o Grupo para o Progresso da Psiquiatria terminou seu
um vício avassalador pelo trabalho, não resta mais nada que ela relato anual com a conclusão: “Para muitos americanos, o lazer é
possa fazer. Felizmente, existem muitos exemplos de pessoas perigoso.” 1 Outros alegaram que o sucesso da civilização ameri­
que, embora sejam dedicadas ao trabalho, tiveram vidas multifa- cana dependerá da maneira como utilizamos o tempo livre. O que
cetadas. poderia justificar avisos tão graves? Antes de responder a essa
questão, precisamos refletir sobre como uma pessoa típica é afe­
tada pelo lazer. Os efeitos históricos neste caso são a soma de
experiências individuais, de modo que compreender os primeiros
ajudará a compreendê-las.
Devido a uma variedade de motivos que discutimos ante­
riormente, passamos a acreditar que o tempo livre é uma das
metas mais desejáveis a que podemos aspirar. Embora o trabalho
seja visto como um mal necessário, ser capaz de relaxar, de não
ter nada para fazer, parece para muitas pessoas a estrada real para
a felicidade. Geralmente, supõe-se que não é necessária qualquer
habilidade para apreciar o tempo livre, e que qualquer pessoa
pode fazer isso. No entanto, os sinais sugerem o oposto: é mais
difícil desfrutar o tempo livre do que o trabalho. Ter lazer à sua
disposição não melhora a qualidade de vida, a menos que a pes­
soa saiba como usá-lo de maneira eficaz; o lazer não é de modo
algum algo que a pessoa aprenda a fazer automaticamente.
O psicanalista Sandor Ferenczi, na virada do século, já
68 A DESCOBERTA DO FLUXO OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO LAZER 69

observara que aos domingos seus pacientes sofriam crises de his­ Esses métodos para evitar o caos na consciência funcionam
teria e depressão com mais freqüência do que durante o resto da em certa medida, mas raramente contribuem para uma qualidade
semana; ele chamou a síndrome de “neurose dominical”.2 Desde positiva da experiência. Como já vimos antes, os seres humanos
então, foi relatado que feriados e férias são períodos de perturba­ se sentem melhor no fluxo, quando estão totalmente envolvidos
ção mental acentuada. Nos nossos estudos de ESM, descobrimos em lidar com um desafio, resolver um problema, descobrir algo
que até mesmo a saúde física é melhor quando uma pessoa se con­ novo. A maioria das atividades que produz o fluxo também tem
centra em uma meta. Nos finais de semana, quando sozinhas e metas claras, regras claras, feedback imediato - um conjunto de
sem nada para fazer, as pessoas relatam mais sintomas de doenças. exigências externas que focaliza nossa atenção e requer o uso de
Todos esses indícios apontam para o fato de que o indivíduo nossas habilidades. Agora, essas são exatamente as condições
médio está despreparado para o ócio. Sem metas e sem outros que faltam com mais freqüência no tempo livre. Naturalmente, se
com quem possa interagir, a maioria das pessoas perde a motiva­ o indivíduo usa o lazer para praticar um esporte, uma forma de
ção e a concentração. A mente começa a viajar, e geral mente se arte ou um hobby, então os requisitos para o fluxo estarão presen­
concentra em problemas insolúveis que provocam ansiedade. tes. Mas o simples tempo livre sem nada específico para prender
Para evitar essa condição indesejável, a pessoa recorre a estraté­ a atenção do indivíduo oferece o oposto do fluxo: a entropia psí­
gias que afastam o pior da entropia psíquica. Sem necessariamen­ quica, cm que ele sc sentirá desatento c apático.
te estar consciente disso, o indivíduo procura estímulo para velar
as fontes de ansiedade da consciência. Ele pode assistir à televi­
Nem todas as atividades de tempo livre são iguais. Uma impor­
são, ler narrativas redundantes tais como romances ou histórias de
tante distinção deve ser feita entre lazer ativo e passivo, que têm
mistério, envolver-se no jogo obsessivo ou na sexualidade promís­
efeitos psicológicos bastante distintos. Por exemplo, os adoles­
cua, ou ficar bêbado e se drogar. Essas são maneiras rápidas de
centes americanos experimentam o fluxo (definido como
reduzir o caos na consciência a curto prazo, mas geralmente o úni­
momentos de alto nível de desafio e de alta habilidade) em cerca
co resíduo que deixam é um sentimento de insatisfação apática.
de 13 por cento do tempo em que estão assistindo à televisão, 34
Aparentemente, nosso sistema nervoso evoluiu para respon­
por cento do tempo quando estão praticando hobbies e 44 por
der a sinais externos, mas não teve tempo para se adaptar a lon­
gos períodos sem obstáculos ou perigos. Poucas pessoas aprende­ cento do tempo em que estão envolvidos em esporte e jogos (ver
ram a estruturar sua psique de maneira autônoma, em seu íntimo. Tabela 4). Isso indica que os hobbies têm duas vezes e meia mais
Nas sociedades bem-sucedidas, onde os adultos têm tempo dispo­ probabilidade de produzir um estado de apreciação ampliada do
nível, práticas culturais elaboradas evoluíram para manter a men­ que a televisão, e jogos ativos e esportes cerca de três vezes mais.
te ocupada. Elas incluem ciclos complexos de rituais cerimoniais, No entanto, esses mesmos adolescentes passam pelo menos um
danças, e torneios competitivos que às vezes duravam dias ou período quatro vezes maior do seu tempo livre assistindo à televi­
semanas - tais como os jogos olímpicos que começaram na auro­ são do que praticando hobbies ou esportes. Proporções similares
ra da história européia. Mesmo na falta de atividades religiosas também são verdadeiras para adultos. Por que passamos quatro
ou estéticas, pelo menos cada vila oferecia oportunidades infini­ vezes mais tempo fazendo algo que tem menos da metade da
tas para a fofoca e a discussão; sob a maior árvore da praça, os chance de fazer com que nos sintamos bem?
homens que não estavam ocupados com outras coisas sentavam- Quando perguntamos aos participantes de nossos estudos
se fumando seus cachimbos ou mascando folhas e nozes ligeira­ sobre esta questão, uma explicação coerente começou a surgir. O
mente alucinógenas, e mantinham suas mentes ordenadas por adolescente típico admite que andar de bicicleta, jogar basquete
meio de longas conversas. Este ainda é o padrão seguido pelos ou locar piano são mais agradáveis do que perambular pelo shop­
homens que descansam nas cafeterias do Mediterrâneo, ou nas ping ou assistir à televisão. Mas, dizem eles, organizar-se para
cervejarias do norte da Europa. um jogo de basquete leva tempo - é preciso trocar de roupa, pia-
70 A DESCOBERTA DO FLUXO OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO LAZER 71

Tabela 4 que as três atividades mais solitárias e menos estruturadas. Ao


Q uanto fluxo existe no lazer? mesmo tempo, as atividades que produzem fluxo, por serem mais
exigentes e difíceis, também ocasionalmente produzem condi­
A percentagem do tempo em que cada atividade de lazer proporciona ções de ansiedade. As três atividades de lazer passivo, por outro
fluxo, relaxamento, apatia e ansiedade. Os resultados de um estudo com
lado, raramente causam ansiedade: elas contribuem para oferecer
824 adolescentes americanos geraram cerca de 27 mil respostas. Os ter­
mos foram definidos da seguinte maneira: Fluxo: altos desafios, altas principalmente relaxamento e apatia. Se você preenche seu perío­
habilidades; Relaxamento: baixos desafios, altas habilidades; Apatia: do de lazer com lazer passivo, não terá muita alegria, mas tam­
baixos desafios, baixas habilidades; e Ansiedade: altos bém evitará o descontrole. Aparentemente, essa é uma barganha
desafios, baixas habilidades. que muitos consideram válida.
Não que seja ruim relaxar; todo mundo precisa de tempo
para esticar o corpo, ler livros despretensiosos, sentar-se no sofá
Fluxo Relaxamento Apatia Ansiedade olhando para o teto ou assistir a um programa de televisão. Como
Jogos e esportes 44 16 16 24 nos outros ingredientes da vida, o que importa é a dosagem. O
Hobbies 34 30 18 19
lazer passivo toma-se um problema quando uma pessoa o usa
Socialização 20 39 30 12
15
como principal - ou única - estratégia para ocupar o tempo. À
Pensamento 19 31 35
Ouvir música 15 43 35 7 medida que esses padrões se transformam em hábitos, começam
Assistir à televisão 13 43 38 6 a ter efeitos definidos na qualidade de vida como um todo.
Aqueles que aprendem a se apoiar no jogo para passar o tempo,
Fonte: Bidw ell. Csikszentmihalyi. Hedgcs e Schncidcr, 1997. no prelo.
por exemplo, podem se ver aprisionados em um hábito que inter­
fere no seu trabalho, em sua família e até no seu próprio bem-
nejar as coisas. É preciso passar por pelo menos meia hora de estar. As pessoas que assistem à televisão com uma freqüência
exercícios tediosos a cada vez que a pessoa se senta diante do pia­ maior que a comum também tendem a ter piores desempenhos no
no antes que a prática comece a ser divertida. Em outras palavras, trabalho e piores relacionamentos. Em um estudo em grande
cada uma das atividades que produzem fluxo exige um investi­ escala na Alemanha, foi descoberto que quanto mais as pessoas
mento inicial de atenção para que possa ser agradável. É preciso relatam a leitura de livros, mais experiências de fluxo alegam ter,
ter essa “energia de ativação” disponível para apreciar atividades enquanto a tendência oposta foi descoberta para assistir à televi­
complexas. Se uma pessoa está cansada demais, ansiosa ou não são.3 O maior fluxo foi relatado por pessoas que liam muito e
possui a disciplina para vencer o obstáculo inicial, terá de se con­ assistiam pouco à televisão, o menor por aqueles que raramente
tentar com algo que, embora menos apreciável, é mais acessível. liam e assistiam muito à TV.
É aqui que entram as atividades de “lazer passivo”. Só ficar É claro que essas correlações não significam necessaria­
com os amigos, ler um livro sem desafios, ligar a televisão não mente que os hábitos do lazer passivo originam empregos ruins,
exige muito em termos de utilização de energia; não exige habili­ relacionamentos ruins e assim por diante. É mais provável que os
dades ou concentração. Assim, o consumo de lazer passivo se tor­ elos causais comecem na outra extremidade: pessoas solitárias
na demasiadamente a opção escolhida, não só para os adolescen­ com trabalhos insatisfatórios preencherão seu tempo livre com
tes mas também para os adultos. lazer passivo. Ou aqueles que não conseguem encontrar o fluxo
Na Tabela 4, podemos ver uma comparação dos tipos prin­ de outra maneira nas suas vidas se voltam a atividades de lazer
cipais de atividade de lazer em termos da freqüência de fluxo ofe­ pouco exigentes. Mas a causalidade do desenvolvimento humano
recido para uma amostra de adolescentes americanos. Podemos geralmente é circular; o que era um efeito no início pode no futu­
ver que jogos e esportes, hobbies e socialização - as três ativida­ ro se tomar uma causa. Um pai abusivo pode forçar o filho a ado­
des ativas e/ou sociais - oferecem mais experiências d e fluxo do tar uma atitude defensiva baseada na agressão reprimida; à medi-
72 A DESCOBERTA DO FLUXO OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO LAZER 73

da que a criança cresce, é o seu estilo de defesa, em vez do trau­ do povo”, parafraseando o que Marx disse sobre a religião. Ou
ma inicial, que pode fazer com que seja fácil para ele se tomar um podemos vê-los como respostas criativas a situações perigosas
pai abusivo. Assim, adotar hábitos de lazer passivo não é só um impermeáveis a soluções mais eficazes.
efeito de problemas anteriores, mas se toma uma causa indepen­ A história parece indicar que uma sociedade começa a se
dente, que anula opções posteriores para melhorar a qualidade de apoiar pesadamente no lazer - e em especial no lazer passivo -
vida. quando se toma incapaz de oferecer uma ocupação produtiva sig­
nificativa para os seus membros.5 Assim, “pão e circo” é um pla­
no de último recurso que adia temporariamente a dissolução da
A expressão “pão e circo” se tomou um lugar-comum para des­
sociedade. Exemplos contemporâneos oferecem alguma com ­
crever o modo como o Império romano conseguia manter a popu­
preensão do que acontece nesses casos. Por exemplo, muitos
lação satisfeita durante os longos séculos de seu declínio. Ao ofe­
povos indígenas na América do Norte perderam a oportunidade
recer comida suficiente para manter os corpos satisfeitos e espe­
de experimentar o fluxo no trabalho e na vida comunitária, e pro­
táculos suficientes para manter as mentes entretidas, as classes
dominantes conseguiram evitar a intranquilidade social. É impro­ curam recapturá-lo em atividades de lazer que imitam seu antigo
estilo de vida agradável. Os jovens navajos costumavam se sentir
vável que essa política tenha sido adotada conscientemente, mas melhor quando galopavam atrás de suas ovelhas sobre os planal­
sua aplicação generalizada parece ter funcionado. Não teria sido tos do sudoeste, ou quando participavam de cantos e danças ceri­
a primeira nem a última vez em que oferecer oportunidades de moniais durante toda uma semana. Agora que essas experiências
lazer impediu que uma comunidade deteriorasse. Nas Guerras são menos relevantes, eles tentam recapturar o fluxo bebendo
persas, o primeiro historiador do Ocidente, o grego Heródoto, álcool e correndo pelas estradas do deserto em carros envenena­
descreve como Átis, rei da Lídia, na Ásia Menor, introduziu jo­ dos. O número de acidentes de trânsito fatais pode não ser maior
gos de bola há três mil anos como uma maneira de distrair seus do que as mortes sofridas nas guerras tribais ou durante o pasto­
súditos quando uma série de colheitas ruins provocou intranquili­ reio, mas parecem ter menos sentido.
dade na população faminta. “O plano contra a fome era envolver- Os inuil estão passando por uma perigosa e similar transi­
se em jogos de maneira tão completa durante um dia que a fome ção. Os jovens que não podem mais experimentar a emoção de
não seria sentida”, escreveu ele, “e no dia seguinte comer e se caçar focas e aprisionar ursos se voltam para os automóveis como
abster dos jogos. Deste modo eles passaram 18 anos.”4 uma ferramenta para escapar do tédio e se concentrar cm uma
Um padrão sim ilar se desenvolveu em Constantinopla meta significativa. Aparentemente, existem comunidades no
durante a decadência do Império bizantino. Para manter os cida­ Ártico que não têm estradas que as liguem a qualquer outro lugar,
dãos felizes, eram realizadas grandes corridas de biga na cidade. mas que construíram quilômetros de estradas exclusivamente pa­
Os melhores corredores se tomavam ricos e famosos, e eram ra os “pegas”. Na Arábia Saudita, os jovens filhos mimados dos
automaticamente eleitos para o Senado. Na América Central, barões do petróleo acham que andar de camelo está fora de moda
antes da conquista espanhola, os maias desenvolveram jogos ela­ e tentam reviver seu interesse correndo em Cadillacs novos no
borados similares ao basquete que mantinham os espectadores deserto sem estradas ou pelas ruas de Riad. Quando as atividades
ocupados durante semanas a fio. Em nossa época, as minorias produtivas se tomam rotineiras e sem significado, as atividades de
desvalidas dependem do esporte e do entretenimento como vias lazer ocupam os períodos de inatividade. Elas levarão cada vez
para a mobilidade social - basquete, beisebol, boxe e música mais tempo, e se apoiarão progressivamente em estímulos artifi­
popular absorvem a energia psíquica excessiva enquanto prome­ ciais cada vez mais complexos.
tem riqueza e fama. Dependendo de nossa perspectiva, é possível Existem indivíduos que, quando confrontados com a esteri­
interpretar isso de duas maneiras diam etralm ente opostas. lidade de seus trabalhos, escapam totalmente das responsabilida­
Podemos ver esses casos de lazer sendo usados como um “ópio des produtivas para buscar uma vida de fluxo no lazer. Isso não
7A A DESCOBERTA DO FLUXO OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO LAZER 75

ex ig e necessariam ente um a grande quantidade de dinheiro. Há dade significarão mais para a minha família do que os bens mate­
e n g e n h eiro s co m p eten tes que deixam seus e m p reg o s e lavam riais que já não posso dar a eles.6
pratos em restaurantes durante o inverno, para que possam esca­
A m udança dc carreira de executivo para carpinteiro é um
lar m ontanhas por todo o verão. H á colônias d e surfistas em todas
exem plo do tipo dc reajuste criativo que algum as pessoas preci­
as praias com boas ondas que vivem ao deus-dará, para que pos­ sam fazer em suas vidas. Elas procuram até encontrar um a ativi­
sam saborear o m áxim o de fluxo possível sobre suas pranchas. dade produtiva que lam bem possa perm itir-lhes inserir o m áxim o
Jim M acbeth, cientista social australiano, entrevistou deze­ de flu x o p o ssív el n as su a s v idas. A s o u tra s o p ç õ e s parecem
nas de m arinheiros de longo curso que passavam ano após ano m en os s a tisfa tó ria s; o in d iv íd u o sim p lesm en te perde coisas
navegando entre as ilhas do Pacífico Sul, m uitos deles sem pos­ dem ais tornando-se um w orkaholic, ou usando o lazer integral
suir nada além do barco em que tinham investido todas as suas com o fuga. A m aioria dc nós, contudo, fica contente em com par-
econom ias. Q uando ficavam sem dinheiro para com ida ou repa­ tim entalizar nossas vidas em trabalhos tediosos e entretenim ento
ro s, e le s a tra ca v a m em um p o rto para fa z e r b isc a te s a té que rotineiro. Um exem plo interessante de com o o fluxo invade o tra­
pu dessem reab astecer seus suprim entos e dep ois p artiam para balho e o lazer foi fornecido pelo estudo de um a com unidade
um a nova jornada. “C onsegui m e descartar de toda responsabili­ a lp in a por A n to n e lla D elle Fave e F austo M assim in i, da
d ad e, d e um a vida m onó tona e ser um pouco av en tu reiro . Eu Universidade dc M ilão. Eles entrevistaram 46 m em bros de uma
tinha de fazer algo da m inha vida além de vegetar”, disse um d es­ grande fam ília cm Pont T rcntaz, um a vila m ontanhesa rem ota
ses argonautas m odernos. “ Foi um a chance de fazer pelo m enos onde as pessoas possuem carros c aparelhos de televisão, m as
um a coisa realm ente grande na m inha vida, grande e m em orá­ ainda trabalham em tarefas tradicionais com o pastorear o gado,
vel” , disse outro. O u, nas palavras de outro m arinheiro: p lan ta r p o m ares e c a rp in ta ria . O s p sic ó lo g o s pediram às três
g e ra ç õ e s dos m o ra d o res que d e scre v e sse m q u an d o c com o
A civilização moderna descobriu o rádio, a televisão, os clubes
tinham experim entado o fluxo cm suas vidas (ver Figura 2).
noturnos e uma grande variedade de entretenimento mecanizado
para excitar nossos sentidos e nos ajudar a escapar do aparente
tédio da terra, do sol, do vento e das estrelas. Navegar nos devol­ Figura 2
ve a essas antigas realidades. Distribuição de atividades de fluxo em uma família de três
gerações (N = 46) de Pont Trentaz, vale Gressoney, Itália
A lguns indivíduos não abandonam totalm ente seus em pre­
gos, m as m udam a ênfase do trabalho para o lazer com o centro de
suas vidas. U m alpinista dedicado descreve a estim ulante auto-
disciplina de seu esporte com o um treinam ento para o resto da
vida: “Se você vencer essas batalhas vezes o bastante, as batalhas
contra si m esm o... fica fácil vencer as batalhas do m undo.” Nas
palavras de outro ex-executivo que se m udou para as m ontanhas
para ser carpinteiro:

Eu leria ganhado muito dinheiro se continuasse cm uma empresa,


mas certo dia percebi que não estava feliz. Eu não estava tendo o
tipo de experiência que torna a vida recompensadora. Vi que
minhas prioridades estavam confusas, passando a maior parte das
minhas horas no escritório... O tempo estava passando. Gosto de
ser carpinteiro. Vivo em um lugar tranqüilo e belo, e escalo quase
todas as noites. Acho que meu próprio relaxamento e disponibili­ Fontes: adaptado de Dcllc Fave c Massimini. 1988.
76 A DESCOBERTA DO FLUXO OS RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO IAZER 77

A geração mais velha declarou as mais freqüentes experiên­ prio trabalho. O lazer ativo que ajuda uma pessoa a crescer não
cias de fluxo, e a maioria delas envolvia trabalho; cortar feno nos vem com facilidade. No passado o lazer era justificado porque
campos, consertar o celeiro, fazer pão, ordenhar vacas, trabalhar dava às pessoas uma oportunidade de experimentar e desenvolver
no jardim. A geração intermediária - que incluía aqueles entre habilidades. Na verdade, antes que as ciências e as artes se profis-
quarenta e sessenta anos - declarava quantidades iguais de fluxo sionalizassem, grande parte da pesquisa científica, poesia, pintu­
no trabalho e nas atividades de lazer, como assistir a filmes, sair ra e composição musical era feita no tempo livre do indivíduo.
de férias, ler livros ou esquiar. Os netos, da geração mais nova, Gregory Mendel fez seus famosos experimentos genéticos como
mostraram um padrão oposto aos dos seus avós; declararam pou­ um hobby; Benjamin Franklin foi movido pelo interesse, não por
cas ocorrências de fluxo, e a maior parte dele vinha do lazer. uma atribuição de seu cargo, a moer lentes e fazer experiências
Dançar, correr de motocicleta e assistir à televisão eram alguns com pára-raios; Emily Dickinson escreveu sua fantástica poesia
dos meios mais freqüentes de satisfação. (A Figura 2 não mostra para criar ordem em sua própria vida. Hoje, supõe-se que só espe­
o quanto de fluxo cada grupo relatou; mostra apenas a percenta­ cialistas deveriam estar interessados nessas questões; os amado­
gem de fluxo que foi relatada no trabalho ou em casa.) res são ridicularizados por se aventurarem em campos reservados
Nem todas as diferenças entre as gerações em Pont Trentaz ao especialista. Mas os amadores - que fazem algo porque ado­
se devem às mudanças sociais. Algumas são características de ram fazê-lo - acrescentam satisfação e interesse às suas próprias
padrões de desenvolvimento normais que todas as gerações atra­ vidas e às vidas de todos os outros.
vessam: os jovens sempre dependem mais da apreciação dos ris­ Não só os indivíduos extraordinários são capazes de usar o
cos e estímulos artificiais. Mas é quase certo que essas diferenças lazer de maneira criativa. Toda a arte popular - as canções, os
normais são acentuadas em comunidades que estão passando por tecidos, a cerâmica e as esculturas que dão a cada cultura sua
transições sociais c econômicas. Nesses casos, as gerações mais identidade e renome particular - é resultado da lula de pessoas
velhas ainda encontram um desafio significativo nas tarefas pro­ comuns pela expressão de sua melhor habilidade no tempo que
dutivas tradicionais, enquanto seus filhos e netos, cada vez mais sobra do trabalho e das tarefas de manutenção. É difícil imaginar
entediados pelo que consideram trabalho irrelevante, se voltam como o mundo teria sido tedioso se nossos ancestrais houvessem
para o entretenimento como uma forma de evitar a entropia psí­ utilizado o tempo livre apenas para o entretenimento passivo, em
quica. vez de encontrar nele uma oportunidade de explorar a beleza e o
Nos Estados Unidos, comunidades tradicionais como os conhecimento.
amish e os menonitas conseguiram impedir que o trabalho e o flu­ Hoje, cerca de 7 por cento de toda a energia não-renovável
xo se separassem. Nas rotinas cotidianas de sua vida na fazenda, que utilizamos - eletricidade, gasolina, papel e produtos metáli­
é difícil saber quando o trabalho acaba e o lazer começa. A maior cos - é utilizada primariamente para o lazer. Construir e irrigar
parte das atividades de “tempo livre’’, como tecelagem, carpinta­ campos de golfe, imprimir revistas, fazer voar jatos até colônias
ria, canto ou leitura, é útil e produtiva nos sentidos material, de férias, produzir e distribuir programas de televisão, construir e
social ou espiritual. Naturalmente, essa conquista teve como pre­ abastecer lanchas e esquis consomem uma parte considerável dos
ço o “aprisionamento no âmbar’’, por assim dizer, paralisados cm recursos do planeta. Ironicamente, parece que a quantidade de
um ponto do desenvolvimento tecnológico e espiritual que hoje felicidade e alegria que retiramos do lazer não tem relação algu­
parece estranho. Esta é a única maneira de preservar a integrida­ ma - quando muito, uma relação negativa - com a quantidade de
de de uma existência alegre e produtiva? Ou é possível reinventar energia material consumida enquanto o realizamos.7 Atividades
um estilo de vida que combine essas características com uma mais baratas que exigem de nós investimentos de habilidade,
mudança evolutiva contínua? conhecimento e emoções são tão recompensadoras quanto as que
Para fazer o melhor uso do tempo livre, é preciso devotar utilizam muito equipamento e energia externa, em vez de nossa
muita engenhosidade e atenção ao que está sendo feito com o pró- própria energia psíquica. Ter uma boa conversa, praticar jardina-
78 A DESCOBERTA DO FLUXO o s RISCOS E AS OPORTUNIDADES DO LAZER 79

gem, ler poesia, fazer trabalho voluntário em um hospital ou mos as tendências apenas do ponto de vista de um resultado
aprender algo novo esgotam poucos recursos e são pelo menos financeiro, então não há nada de errado. Mas se contarmos tam­
tão agradáveis quanto atividades que consomem dez vezes mais bém os efeitos a longo prazo de gerações viciadas em entreteni­
recursos. mento passivo, o quadro cor-de-rosa vai parecer bastante grave.
Assim, a excelência da vida individual depende em grande Como evitar o perigo da polarização da vida em trabalho
parte do modo como o tempo livre é utilizado, por isso a qualida­ que não tem significado porque não é livre, e lazer que não tem
de de uma sociedade está relacionada com o que seus membros significado porque não tem finalidade? Uma maneira possível é
fazem em seu tempo de lazer. As ricas comunidades suburbanas sugerida pelo exemplo dos indivíduos criativos discutidos no
dos Estados Unidos podem ser tão deprimentemente amenas por­ capítulo anterior. Em suas vidas, o trabalho e o lazer são indivisí­
que há motivos para acreditar que, por trás das esplêndidas facha­ veis, como o são para as pessoas que vivem em sociedades tradi­
das que se elevam dos gramados verde-esmeralda, ninguém está cionais. Mas, ao contrário dessas últimas, as pessoas criativas não
fazendo nada de interessante. Existem países inteiros onde temos estão presas a um momento congelado do tempo. Elas usam o
a impressão, ao falar até mesmo com os membros da elite social, melhor conhecimento do passado e do presente para descobrir
que além do dinheiro, família, moda, férias e fofocas, não há mui­ uma maneira melhor de viver o futuro. Já que podemos aprender
to mais que envolva sua atenção. Enquanto isso ainda existem com eles, não há mais motivo para temer o tempo livre. O próprio
algumas regiões no mundo onde é possível encontrar profissio­ trabalho se toma tão agradável quanto o lazer e, quando é neces­
nais aposentados, encantados com a poesia clássica, que colecio­ sário tirar uma folga, o lazer provavelmente será uma verdadeira
nam livros antigos em suas bibliotecas, ou fazendeiros que tocam recreação em vez de um ardil para embotar a mente.
instrumentos musicais ou escrevem histórias das suas vilas, pre­ Se o próprio trabalho está além da redenção, outra solução é
servando as melhores criações de seus ancestrais enquanto acres­ certificar-se de que o tempo livre é pelo menos uma oportunida­
centam a elas suas próprias canções. de real para o fluxo - para explorar o potencial do s e lf e do
De qualquer modo, vemos que no nível social, assim como ambiente. Felizmente, o mundo está repleto de coisas interessan­
no individual, os hábitos de lazer agem tanto como efeito quanto tes para se fazer. Só a falta de imaginação, ou a falta de energia,
como causa. Quando o estilo de vida de um grupo social se tomar bloqueia nosso caminho. De outro modo, cada um de nós seria
obsoleto, quando o trabalho se tomar uma rotina tediosa e as res­ um poeta ou músico, um inventor ou explorador, um erudito,
ponsabilidades comunitárias perderem o significado, é provável cientista, artista ou colecionador amador.
que o lazer se tome cada vez mais importante. E se uma socieda­
de se toma dependente demais do entretenimento, provavelmen­
te haverá menos energia psíquica para lidar de maneira criativa
com os desafios tecnológicos e econômicos que inevitavelmente
surgirão.
Pode parecer um antagonismo gratuito alertar sobre a indús­
tria de entretenimento em uma época em que ela parece ter tanto
sucesso nos Estados Unidos. A música, o cinema, a moda e a tele­
visão trazem dinheiro de todo o mundo. As locadoras de vídeo se
plantaram em praticamente todo quarteirão, reduzindo o número
de desempregados. Nossos filhos vêem as celebridades da mídia
como modelos para guiar suas vidas, e nossa consciência é preen­
chida com informações sobre os feitos dos atletas e dos astros de
cinema. Como todo esse sucesso pode ser prejudicial? Se avaliar-
RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 81

depois, quando ela estáva pegando sol e tentando ler um livro


enquanto os netos jogavam água nela, a taxa de felicidade caiu
para 2 novamente: “Minha nora devia educar melhor esses mole­
ques’’, ela escreve no formulário ESM. Ao longo do dia, pensar
sobre as pessoas e interagir com elas geram constantes alterações
SEIS no nosso humor.

RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA Na maioria das sociedades, as pessoas dependem do contexto


social em uma proporção ainda maior do que no Ocidente tecno­
lógico. Acreditamos que o indivíduo deve ser deixado livre para
desenvolver seu potencial e, pelo menos desde Rousseau, passa­
mos a considerar a sociedade como um obstáculo perverso à rea­
lização pessoal. Por outro lado, a visão tradicional, especialmen­
Quando pensamos sobre os melhores e os piores estados emocio te na Ásia, determina que o indivíduo não é nada até que tenha
nais da vida, provavelmente atribuímos sua causa a outras pes­ sido formado c aperfeiçoado por meio de sua interação com os
soas. Um amante ou cônjuge pode fazer com que você se sinta outros. A índia oferece um dos exemplos mais claros de como
nas nuvens, mas também irritado e deprimido; as crianças podem isso funciona.2 A cultura clássica hindu se esforça muito para
ser uma bênção ou um sofrimento; uma palavra de um chefe pode garantir que seus membros se adaptem a ideais apropriados de
acabar com seu dia ou fazê-lo maravilhoso. De todas as coisas comportamento da infância até a velhice. “O hindu é produzido
que normalmente fazemos, a interação com os outros é a menos consciente e deliberadamente durante uma série de eventos cole­
previsível. Em um momento é fluxo; no seguinte, apatia, ansieda­ tivos. Esses eventos são samskaras, rituais de ciclo de vida fun­
de, relaxamento ou tédio. Devido ao poder que as interações têm damentais e compulsórios na vida de um hindu”, escreve Lynn
sobre nossas mentes, os clínicos desenvolveram formas de psico- Hart. Samskaras ajudam a formar crianças e adultos, fornecendo-
terapia que dependem da maximização dos encontros agradáveis lhes novas regras de conduta para cada passo sucessivo na vida.
com os outros. Não há dúvida de que o bem-estar está profunda­ Como o psicanalista indiano Sadhir Kakar escreveu de
mente ligado aos relacionamentos e que a consciência reverbera maneira um tanto jocosa, os samskaras são o rito certo no
com o fcedback que recebemos de outras pessoas.1 momento certo:
Por exemplo, Sarah, uma das pessoas que estudamos com o A conceitualização do ciclo da vida humana se desdobrando em
Método de Amostragem de Experiência, às 9:1 Oh da manhã de uma série dc estágios, cada estágio tendo suas “tarefas” específi­
sábado estava sentada sozinha em sua cozinha, tomando o café da cas e a necessidade de uma progressão ordenada ao longo deles, é
manhã e lendo o jomal. Quando o pager emitiu o sinal, ela clas­ uma parte estabelecida do pensamento indiano tradicional... uma
sificou sua felicidade em 5, em uma escala em que 1 é triste e 7 das maiores pressões desses rituais é a integração gradual da
muito feliz. Quando o sinal seguinte tocou, às ll:30h, ela ainda criança à sociedade, com os samskaras, metaforicamente, mar­
estava sozinha, fumando um cigarro, entristecida pelo pensamen­ cando o tempo para um movimento calculado que tira a criança da
simbiose original entre mãe e bebê para a plena participação em
to de que o filho ia se mudar para outra cidade. Agora sua felici­
dade tinha caído para 3. Às 13:00h, Sarah estava sozinha, passan­ sua comunidade.
do o aspirador de pó na sala de estar, com a felicidade reduzida a Mas a socialização não forma apenas o comportamento;
1. Às 14:30h, quando estava no quintal, nadando com os netos, a molda também a consciência às expectativas e aspirações da cul­
felicidade chegara a um 7 perfeito. Porém, menos de uma hora tura, de modo que sentimos vergonha quando observam nossas
82 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 83

falhas, e culpa quando sentimos que decepcionamos alguém. Aqui entre nossas metas e as metas de outros. Isto é sempre difícil em
também as culturas diferem muito em termos de quão profunda­ princípio, porque cada participante da interação tenderá a buscar
mente a personalidade depende das expectativas internalizadas da a realização de seus próprios interesses. Apesar disso, na maioria
comunidade; por exemplo, os japoneses possuem várias palavras das situações, se olharmos com cuidado, é possível descobrir pelo
para descrever tons distintos de dependência, obrigações e respon­ menos um retalho de metas compartilhadas. A segunda condição
sabilidade que temos dificuldade em traduzir para o inglês porque para uma interação bem-sucedida é estar disposto a investir aten­
em nosso ambiente social não aprendemos a experimentar esses ção nas metas da outra pessoa - o que também não é uma tarefa
sentimentos na mesma medida. No Japão, de acordo com Shintaro fácil, já que a energia psíquica é o recurso mais escasso e essen­
Ryu, um perspicaz jornalista japonês, o indivíduo típico “quer ir cial que possuímos. Quando essas condições são correspondidas,
aonde os outros vão; até mesmo quando ele vai à praia nadar, ele é possível obter os resultados mais valiosos de estar com outras
evita locais vazios, preferindo escolher um lugar onde as pessoas pessoas - experimentar o fluxo que surge da interação ótima.
estão praticamente umas em cima das outras”.
Não é difícil ver por que estamos tão envolvidos em nosso
As experiências mais positivas que as pessoas relatam em geral
meio social, tanto mental quanto fisicamente. Até mesmo nossos
parentes primatas, os macacos que vivem nas selvas e savanas são aquelas compartilhadas com os amigos.3 Isso é especialmen­
te verdadeiro para os adolescentes (ver Figura 3), mas também
africanas, aprenderam que, a menos que sejam aceitos pelo gru­
po, não viverão muito tempo; um babuíno solitário logo cairá pre­ para os anos finais da vida. As pessoas geralmente ficam muito
sa de leopardos ou hienas. Nossos ancestrais perceberam há mui­ mais motivadas e felizes quando estão com os amigos, indepen­
to tempo que eram animais sociais, que também dependiam do dentemente do que estejam fazendo. Até mesmo estudar e reali­
grupo não só para a proteção, como também para aprender os pra­ zar as tarefas caseiras, que deprimem o humor quando feitas sozi­
zeres da vida. A palavra grega “idiota” originalmente significava nho ou com a família, tomam-se experiências positivas quando
alguém que vivia sozinho; deduzia-se que, por ter sido excluído feitas com os amigos. Não é difícil ver por que isso ocorre. Com
da interação comunitária, aquela pessoa seria mentalmente inca­ os amigos, as condições para a interação ótima geral mente são
paz. Nas sociedades não-letradas contemporâneas, esse conheci­ maximizadas. Nós os escolhemos porque consideramos suas
mento está tão profundamente incutido que um indivíduo que metas compatíveis com as nossas, e o relacionamento é de igual­
gosta de estar sozinho é considerado um bruxo, pois uma pessoa dade. As amizades deveríam oferecer benefícios mútuos, sem
normal não escolhe deixar os outros a menos que seja forçada a restrições externas que possam levar à exploração. Ideaimente, as
fazê-lo. amizades nunca são estáticas: elas sempre oferecem novos estí­
Uma vez que são tão importantes para manter a consciência mulos emocionais e intelectuais, de modo que o relacionamento
equilibrada, é importante compreender como as interações nos não cai no tédio ou na apatia. Tentamos coisas novas, atividades
afetam, e aprender a transformá-las em experiências positivas, e aventuras; desenvolvemos novas atitudes, idéias e valores; pas­
em vez de negativas. Como ocorre com todas as outras coisas, samos a conhecer os amigos de maneira mais profunda e íntima.
não podemos desfrutar relacionamentos de graça. Temos de gas­ Apesar de muitas atividades de fluxo serem agradáveis apenas
tar certa quantidade de energia psíquica para receber seus benefí­ durante curto período, porque seus desafios logo se esgotam, os
cios. Se não o fizermos, nos arriscamos a nos encontrar na mes­ amigos podem oferecer um estímulo infinito durante a vida, aper­
ma situação da personagem de Sartre de Entre quatro paredes, feiçoando nossas habilidades emocionais e intelectuais.
que concluiu que o inferno são os outros. Naturalmente, esse ideal não é alcançado com muita fre-
Para que um relacionamento leve ordem à consciência, em qüência. Em vez de promover o crescimento, as amizades muitas
vez de entropia psíquica, ele tem de satisfazer pelo menos duas vezes oferecem um casulo seguro onde nossa auto-imagem pode
condições. A primeira é a existência de alguma compatibilidade ser preservada sem precisar mudar. A sociabilidade superficial
84 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DÊ V ID A 85

dos grupos de colegas adolescentes, clubes de bairros, associa­ Nesses casos, o crescimento também acontece como resultado do
ções profissionais, amigos de bar, proporciona uma sensação relacionamento mas, do ponto de vista da maioria, é um cresci­
tranqüilizadora de fazer parte de um grupo de pessoas de menta­ mento pernicioso.
lidade parecida sem exigir esforço ou crescimento. Uma indica­ Em comparação com as outras características principais do
ção desta tendência aparece na Figura 3, onde vemos que a con­ ambiente social, contudo, as amizades oferecem tanto os contex­
centração costuma ser significativamente mais baixa com amigos tos emocionais mais recompensadores no presente imediato quan­
do que na solidão. Ao que parece, o esforço mental raramente é to as maiores oportunidades para o desenvolvimento do próprio
envolvido nessas típicas interações amigáveis. potencial a longo prazo. A vida contemporânea, todavia, não é
Nos piores casos, quando uma pessoa sem outros laços pró­ muito apropriada para sustentar amizades. Nas sociedades mais
ximos depende exclusivamente de outros indivíduos desenraiza-
tradicionais, uma pessoa permanece em contato durante toda a
dos para seu apoio emocional, a amizade pode ser destrutiva.
sua vida com os amigos feitos de infância. A mobilidade geográ­
Gangues urbanas, grupos de dclinqüentes e de terroristas geral­
fica ou social nos Estados Unidos toma isso quase impossível.
mente são compostos de indivíduos que - por sua própria culpa
Nossos amigos do segundo grau não são os mesmos que nos
ou devido às circunstâncias - não encontraram um nicho em
acompanharam no primeiro grau, e na faculdade as amizades são
qualquer comunidade e só se identificam uns com os outros.
reordenadas mais uma vez. Desse modo, com as mudanças de um
trabalho para outro, de uma cidade para a seguinte, e com a idade,
Figura 3 as amizades efêmeras se tomam cada vez mais superficiais. A fal­
Como a experiência de qualidade dos adolescentes muda ta de amigos verdadeiros muitas vezes é a principal queixa de pes­
em diferentes contextos sociais soas que vivem uma crise emocional na segunda metade da vida.
Outro motivo freqüente de queixa é a falta de relacionamen­
tos sexuais compensadores.4 Uma das conquistas culturais do
século XX foi a redescobcrta da importância do “bom sexo’’ para
uma boa vida. No entanto, como de costume, o pêndulo oscilou
demais para um lado: a sexualidade foi descontextualizada do
resto da experiência e as pessoas aceitaram a idéia errônea de que
doses liberais de sexo as tomarão felizes. A variedade e a fre-
qüência dos encontros sexuais tomaram precedência sobre a pro­
fundidade e a intensidade do relacionamento em que foram incu­
tidos. É irônico que nesta questão os ensinamentos tradicionais
das religiões estejam mais próximos de uma posição científica do
que as crenças atuais da população, pois uma abordagem evoluti­
va confirma que a finalidade original da sexualidade é gerar
O ponto “o” nessa figura se refere à qualidade media da experiência
filhos e unir o casal. Naturalmente, isso não significa que essas
relatada durante a semana. Os sentimentos de felicidade e força pio­
ram de modo bastante significativo quando sozinhos, e melhoram com funções precisam ser a única finalidade do sexo. Por exemplo, a
amigos; a motivação é melhor de maneira muito significativa com função adaplativa do paladar era distinguir entre comida saudável
amigos. Tendências similares foram obtidas de todos os estudos ESM. e deteriorada, mas com o tempo desenvolvemos artes culinárias
tenham sido eles feitos com adultos ou adolescentes, nos EUA ou cm complexas baseadas em nuances sutis de gosto. Assim, sejam
outros países. quais forem as razões originais para o prazer sexual, cie sempre
Fonte: Csikszcnlmihalyi e Larson, 1984. pode ser usado para conceder novas oportunidades de enriquecer
86 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 87

a vida. Mas, assim como a gula que não tem relação com a fome dependiam de seus pais para ter uma herança e status, as condi­
parece antinatural, uma obsessão com o sexo que seja divorciada ções de igualdade e reciprocidade que tomavam as amizades pos­
de outras necessidades humanas como intimidade, carinho e síveis não estavam presentes. Nas últimas gerações, contudo, a
dedicação se toma igualmente aberrante. família perdeu a maior parte de seu papel como uma necessidade
Quando os ousados pioneiros da liberação instintiva sauda­ econômica, c quanto menos dependemos dela para benefícios
ram o sexo livre como a solução para a repressão da sociedade, materiais, mais podemos apreciar o seu potencial para recompen­
eles não pensaram na possibilidade de que meio século depois o sas emocionais. Assim, a família moderna, com todos os seus pro­
sexo seria utilizado para vender desodorantes c refrigerantes. blemas, abre novas possibilidades para experiências ótimas que
Como Herbert Marcuse e outros notaram pesarosamente, Eros eram muito mais difíceis de surgir em épocas anteriores.
estava condenado a ser explorado de uma forma ou de outra; sua Nas últimas décadas, percebemos que a imagem da família
energia era forte demais para não ser cooptada pelos poderes da que valorizamos desde pelo menos a época vitoriana é só uma das
Igreja, do Estado ou, na ausência de qualquer um deles, pela muitas opções possíveis. De acordo com o historiador Lc Roy
indústria da propaganda. No passado, a sexualidade era reprimida, Ladurie, uma família rural francesa do final da Idade Média era
de modo que a energia psíquica atraída a ela pudesse ser canaliza­ formada por quem vivesse sob o mesmo teto e compartilhasse as
da para metas produtivas. Agora a sexualidade é encorajada, de mesmas refeições. Isso podería ter incluído pessoas de fato apa
modo que as pessoas canalizam sua energia psíquica no consumo rentadas pelo sangue, mas também peões e outros indivíduos que
que lhes dá a ilusão da realização sexual. Nos dois casos, uma for­ se aproximavam para ajudar no trabalho da fazenda. Aparen­
ça que resultaria em algumas das felicidades mais profundas e temente não havia qualquer distinção entre esses indivíduos; quer
íntimas da vida é tomada e manipulada por interesses externos. aparentados ou não, eles pareciam pertencer ao mesmo domus, ou
O que é possível fazer? Como acontece com outros aspectos lar feito de pedra e argamassa, que era a unidade realmente perti­
da vida, o que importa é decidir por si mesmo, perceber o que está nente, em vez da família biológica.5 Mil anos antes, o arranjo
em jogo e quais os interesses que tentam controlar nossa sexuali­ social da família romana era muito diferente. Nessa época, o
dade para seus próprios fins. É útil perceber como somos vulne­ patriarca tinha o direito legal de matar os próprios filhos se eles o
ráveis a esse respeito. Faz parte de uma condição universal: desagradassem, e a ascendência biológica era quase tão impor­
dizem que no nosso lado das Montanhas Rochosas os coiotes às tante para os romanos quanto para as aristocráticas famílias do
vezes mandam uma fêmea no cio para atrair cães de fazendas, século XIX.
que de nada desconfiam, pára a armadilha da alcatéia. Quando E essas variações estavam todas dentro da mesma tradição
percebemos nossa vulnerabilidade, o perigo é cair no extremo cultural. Além delas, os antropólogos nos familiarizaram com
oposto e nos tomarmos paranóicos quanto ao sexo. Nem o celiba­ uma grande variedade de outras formas familiares, desde a exten-
to nem a promiscuidade são necessariamente vantajosos; o que síssima família havaiana, em que toda mulher de uma geração
conta é como desejamos ordenar nossas vidas, c que papel dese­ anterior é considerada a “mãe” do indivíduo, até várias formas de
jamos exercer sexualmenle. arranjos polígamos e poliândricos. Tudo isso nos preparou para
ver a dissolução da família nuclear - com taxas de divórcio de 50
por cento e a maioria das crianças crescendo em famílias de pai
Na compensação parcial pela dificuldade de ter amigos, descobri­ ausente ou reconstituídas - não tanto como uma tragédia, mas
mos nos Estados Unidos uma nova possibilidade: fazer amizade como uma transição normal para novas formas adaptadas às con­
com os pais, cônjuges e filhos. Na tradição européia do amor cor­ dições sociais e econômicas em transformação. Nos extremos,
tês, a amizade com o próprio marido ou esposa era considerada ouvimos argumentos de que a família é uma instituição obsoleta
um paradoxo. Enquanto os casamentos se realizavam principal­ e reacionária, destinada a desaparecer.
mente a serviço de alianças políticas e econômicas e os filhos Uma visão contrária é proposta por conservadores que dese-
88 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 89

jam defender “valores familiares”, isto é, um retomo aos padrões em casa raramente é tão elevado quanto com os amigos, e rara­
convencionais consagrados nas comédias televisivas de meados mente é tão baixo quanto como estamos sozinhos. Ao mesmo
do século XX. Quem está certo nesta controvérsia? É claro que tempo, é em casa que o indivíduo pode liberar as emoções acu­
ambos os lados têm razão em certa medida, e ambos estão errados muladas com relativa segurança, como mostram os lamentáveis
em ter uma visão rígida de um padrão em evolução. Por um lado, abusos e violência característicos das famílias disfuncionais.
é tolice argumentar que um padrão familiar ideal existiu algum Em um amplo estudo sobre dinâmica fam iliar com o
dia, e que podemos nos apegar a essa quimera enquanto as demais Método de Amostragem de Experiência, Reed Larson e Maryse
condições sociais estão mudando. Por outro lado, é igualmente Richards encontraram vários padrões interessantes.6 Por exem­
errado afirmar que um sistema social saudável possa existir sem o plo, quando ambos os pais eram empregados, o humor do pai
apoio emocional e os cuidados que só os pais parecem ser capazes ficava baixo no trabalho, mas melhorava quando chegava em
de dar a crianças cm crescimento. Pois, não importa a variedade casa, enquanto que o oposto ocorria com as esposas que precisam
de formas que as famílias tomaram, uma constante foi que elas encarar tarefas domésticas quando voltavam do trabalho externo,
incluíam adultos de sexos opostos que assumiam a responsabili­ criando assim ciclos opostos de bem-estar emocional. Ao contrá­
dade por seu bem-estar mútuo e pelo bem-estar de seus filhos. rio do que se poderia esperar, há mais discussões em famílias
É por isso que o casamento é uma instituição tão complexa emocionalmente próximas; quando a família realmente tem pro­
em todas as sociedades. As negociações envolvidas nele, que blemas, pais e filhos se evitam em vez de discutir. Até mesmo nas
famílias contemporâneas as diferenças sexuais entre os cônjuges
incluem cálculos delicados de dotes e preços de noivas, foram
ainda são fortes: os humores do pai afetam os humores do resto
planejadas para que as crianças nascidas da união não se tomas­
da família, e os humores dos filhos afetam a mãe, mas os humo­
sem um fardo público. Em todas as sociedades, os pais e parentes
res da mãe têm pouco efeito discemível sobre o resto da família.
da noiva e do noivo assumiam a responsabilidade de apoiar c edu­
Além disso, cerca de 40 por cento dos pais e menos de 10 por
car os frutos da união, tanto em termos de necessidades materiais
cento das mães dizem que as realizações de seus filhos adoles­
quanto em relação à socialização de acordo com os valores e as
centes os deixavam de bom humor; enquanto 45 por cento das
regras da comunidade. Até agora nenhuma sociedade - nem a ex-
mães e só 20 por cento dos pais dizem que o bom humor dos
União Soviética, nem Israel, nem a China comunista - conseguiu
filhos melhora o humor deles. Claramente, os homens ainda estão
aperfeiçoar a família e substituí-la por outras instituições sociais. preocupados com o que os filhos fazem, e as mulheres com o que
É uma das grandes ironias de nossos tempos que, com todas as
os filhos sentem, como os papéis sexuais exigem.
suas boas intenções, o capitalism o liberal tenha conseguido Muito já foi escrito sobre o que faz as famílias funcionarem.
enfraquecer as famílias mais do que em qualquer outra época - O consenso é que as famílias que apóiam o bem-estar emocional
sem ser capaz de inventar um substituto para ela. c o crescimento de seus membros combina duas características
Os efeitos dos relacionamentos familiares sobre a qualidade opostas. Elas combinam disciplina com espontaneidade, regras
de vida são tão extensos que muito poderia ser escrito sobre eles. com liberdade, altas expectativas com amor irrestrito. Um siste­
Na verdade, muitas grandes obras literárias, de Édipo Rei a ma familiar ótimo é complexo porque encoraja o desenvolvimen­
Hamlet, de Madame Bovary a Desejo sob os olmos, tratam desse to individual único dos seus membros enquanto os une em uma
tema. As interações familiares afetam a qualidade da experiência teia de laços afetivos. Regras e disciplina são necessárias para
de maneiras diferentes para cada membro. Pais, mães e filhos rea­ evitar gasto excessivo de energia psíquica na negociação do que
girão ao mesmo evento de acordo com sua percepção da situação pode ou não ser feito - quando as crianças devem chegar em casa,
e a história das vicissitudes passadas no seu relacionamento. Mas, quando fazer o dever de casa, quem deve lavar os pratos. Assim,
para fazer uma generalização muito ampla, a família age como a energia psíquica liberada nas discussões e queixas pode ser
um pêndulo para os altos e baixos emocionais do dia. O humor investida na busca pelas metas de cada membro. Ao mesmo tem-
90 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 91

po, cada pessoa sabe que pode usar a energia psíquica coletiva da nosso bem-estar. Assim, a função fundamental até mesmo dos
família, se necessário. Crescendo em uma família complexa, as encontros mais rotineiros é a manutenção da realidade, indispen­
crianças precisam ter uma chance de desenvolver habilidades e sável para evitar que a consciência se desintegre no caos.
reconhecer desafios, e assim são mais aptas a experimentar a vida Em concordância com esses motivos, as pessoas, em geral,
como fluxo.7 relatam muito mais quedas de humor quando sozinhas do que
quando acompanhadas. Elas se sentem menos felizes, menos ale­
gres, menos fortes e mais entediadas, mais passivas, mais solitá­
Na nossa sociedade, o indivíduo médio passa cerca de um terço rias. A única dimensão da experiência que tende a ser mais alta é
do seu tempo desperto sozinho. As pessoas que passam muito a concentração. Quando escutaram pela primeira vez esses
menos ou muito mais tempo sozinhas muitas vezes têm proble­ padrões, muitas pessoas introspectivas ficaram incrédulas: “Isso
mas. Adolescentes que sempre ficam com os colegas têm pro­ não pode ser verdade”, dizem elas, “eu adoro ficar sozinho e bus­
blemas na escola e dificilmente aprenderão a pensar por si mes­ co a solidão sempre que possível.” Na verdade, é possível apren­
mos, enquanto aqueles que estão sempre sozinhos são presas fá­ der a gostar da solidão, mas isso não acontece com facilidade. Se
ceis da depressão e da alienação. O suicídio é mais freqüente en­ a pessoa é um artista, cientista ou escritor, se possui um hobby, ou
tre pessoas cujo trabalho as isola fisicamente, tais como lenhado­ uma rica vida interior, então ficar sozinho é não apenas agradável
res no Norte dos EUA, ou emocionalmente, como psiquiatras. As mas necessário. Relativamente poucos indivíduos, contudo,
exceções envolvem situações em que os dias são tão eslritamente dominam as ferramentas mentais que tomam isso possível.
programados que a entropia psíquica não consegue tomar conta A maioria das pessoas também superestima sua capacidade
da consciência. Os monges cartuxos podem passar a maior parte de tolerar a solidão. Uma pesquisa conduzida na Alemanha por
de suas vidas em suas celas isoladas sem efeitos negativos, ou, no Elizabeth Noelle-Neumann mostra até que ponto, curiosamente,
outro extremo da sociabilidade, o mesmo acontece com as tripu­ nos iludimos a esse respeito.9 Ela mostrou a milhares de indiví­
lações de submarinos, em que os marinheiros podem não ter qual­ duos duas fotos de uma paisagem montanhosa. Uma foto mostra­
quer privacidade durante meses a fio. va uma campina cheia de pessoas, enquanto a outra mostrava a
Em muitas sociedades pré-letradas, a quantidade ótima de mesma cena, mas só com alguns visitantes. Então ela fazia duas
solidão era zero. Os dobuanos da Melanésia, descritos pelo antro­ perguntas. A primeira era: “Em qual desses dois lugares você pre­
pólogo Reo Fortune, são típicos por tentar evitar a solidão a qual­ feriría passar suas férias?” Cerca de 60 por cento escolheram a
quer custo. Em Dobu, onde as pessoas precisam ir até o mato para campina deserta e só 34 por cento o lugar cheio de gente. A
fazer suas necessidades fisiológicas, elas sempre vão com um segunda pergunta era: “Em qual desses dois lugares você acha
amigo ou parente, por medo de serem prejudicadas pela feitiçaria que a maioria dos alemães preferiría passar suas férias?” A essa
caso fossem sozinhas.8 Que a feitiçaria seja mais eficaz contra pergunta, 61 por cento responderam que o lugar abarrotado pro­
uma pessoa solitária não é uma idéia inteiramente fantasiosa. O vavelmente seria a primeira escolha de seus compatriotas, e 23
que ela descreve é um fato real, embora sua explicação seja ale­ por cento, o local solitário. Aqui, como em muitas situações simi­
górica. Ela descreve o que muitos cientistas sociais observaram, lares, podemos aprender mais sobre as verdadeiras preferências
ou seja, que a mente de um indivíduo solitário é presa de ilusões ouvindo o que as pessoas dizem sobre a preferência alheia em vez
e medos irracionais. Quando falamos com outra pessoa, até mes­ do que elas alegam querer para si.
mo sobre os assuntos mais triviais - como o clima ou o jogo de Quer gostemos ou não da solidão, contudo, em nossa época
futebol da noite anterior -, a conversa introduz uma realidade temos de tolerar um pouco dela. É difícil aprender matemática,
compartilhada na nossa consciência. Até mesmo uma saudação, praticar piano, programar um computador ou descobrir qual é a
como “tenha um bom dia”, nos confirma nossa existência, porque finalidade de nossa vida se estamos cercados de gente. A concen­
nos fazemos notar aos outros, que demonstram preocupação com tração necessária para ordenar os pensamentos na consciência é
92 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE V ID A 93

facilmente interrompida por uma palavra externa, pela necessida­ urbana, um homem com uma cor de pele diferente, roupas e com­
de de prestar atenção em outra pessoa. Assim, descobrimos que portamento diferentes ainda é um predador em potencial.
os adolescentes que sentem que precisam estar sempre com os Neste caso também, todavia, existe o outro lado da moeda.
amigos - e esses são geralmente jovens cujas famílias oferecem Embora sejamos repelidos pelas diferenças, também somos fasci­
pouco apoio emocional em geral, não têm a energia psíquica nados pelo estranho e exótico. A metrópole nos é tão atraente em
necessária para o aprendizado complexo. Mesmo que tenham parte porque o choque de culturas estabelece uma atmosfera de
uma aptidão intelectual superior, o medo da solidão os impede de estímulo, liberdade e criatividade que raramente é encontrada cm
desenvolver seus talentos.10 uma cultura homogênea e isolada. Como resultado, as pessoas
declaram algumas de suas experiências mais positivas em espa­
É verdade que, se a solidão foi uma ameaça constante à huma­ ços públicos onde estão cercados por estranhos - parques, ruas,
nidade, os estranhos não foram um problema menor. Geralmente, restaurantes, teatros, clubes e praias. Enquanto pudermos supor
achamos que as pessoas que diferem de nós - por parentesco, lin­ que os “outros” partilharão nossas metas básicas e se comporta­
guagem, raça, religião, educação, classe social - terão metas com rão de maneira previsível dentro de certos limites, sua presença
finalidades opostas às nossas e, portanto, devem ser vistas acrescenta uma boa dose de tempero à qualidade de vida.
com suspeita. Os antigos grupos humanos geralmente pensavam A atual tendência rumo ao pluralismo e a uma cultura global
ser os únicos verdadeiros seres humanos, e que aqueles que não (que, como se sabe, não são a mesma coisa, mas levam à integra­
compartilhavam sua cultura não eram pessoas. Embora sejamos ção em vez da diferenciação) é uma maneira de reduzir a estra­
todos relacionados geneticamente, as diferenças culturais servi­ nheza de estranhos. Outra é a “restauração” das comunidades. As
ram para reforçar nosso isolamento uns dos outros. aspas na expressão anterior servem para indicar que comunidades
Por causa disso, sempre que grupos diferentes entram em ideais, como as famílias ideais, nunca existiram. Quando lemos
contato, eles ignoram demasiadamente sua humanidade mútua e histórias de vidas privadas, é difícil encontrar qualquer lugar, em
tratam o “outro” como um inimigo que em caso de necessidade qualquer período, em que as pessoas tenham vivido em serena
poderia ser destruído sem grande remorso. Isso é verdade não só cooperação, sem medo de inimigos externos ou internos na
entre os caçadores de cabeças da Nova Guiné, mas também entre comunidade. Pode não ter havido minorias raciais ou crime orga­
os sérvios e muçulmanos da Bósnia, católicos e protestantes nizado em pequenas vilas chinesas, indianas ou européias, mas é
irlandeses e uma infinidade de outros conflitos entre raças e cre­ possível encontrar desajustados, desequilibrados, hereges, castas
dos que borbulham sob a superfície da civilização. inferiores, animosidades políticas ou religiosas que explodiam
Os primeiros cadinhos de diversas identidades tribais foram em guerras civis e assim por diante. Nos Estados Unidos, as pri­
as grandes cidades, que surgiram por volta de 8 mil anos atrás em meiras comunidades devem ter tido uma grande dose de coesão -
muitas partes diferentes do mundo, da China c índia até o Egito. contanto que não fossem divididas por caças às bruxas, guerras
Aqui, pela primeira vez, pessoas de origens diferentes aprende­ com os índios, conflitos entre aqueles que eram contra e a favor
ram a cooperar e a tolerar modos de vida diferentes. Mas até mes­ da Coroa Britânica, ou contra ou a favor da escravidão.
mo as metrópoles cosmopolitas foram incapazes de eliminar o Em outras palavras, a comunidade ideal que inspirava os
medo de estranhos. Na Paris medieval, estudantes de sete anos de pincéis de Norman Rockwell nào era mais típica do que suas
idade tinham de usar adagas quando iam e voltavam das escolas famílias rosadas e bem alimentadas sentadas com as cabeças bai­
nas catedrais para se defender contra raptores e ladrões; hoje os xas e sorrisos satisfeitos à mesa de jantar do Dia de Ação de
estudantes dos grandes centros usam armas. No século XVII, era Graças. Mesmo assim, isso não significa que tentar criar comuni­
extremamente comum que mulheres caminhando pelas ruas da dades saudáveis seja uma má idéia. Pelo contrário, sugere que,
cidade fossem violentadas por gangues de jo v en s. 11 Na selva em vez de procurar modelos no passado, devemos descobrir
94 A DESCOBERTA DO FLUXO RELACIONAMENTOS E QUALIDADE DE VIDA 95

com o seria um am biente social seguro m ais estim ulante para o com o os dados foram interpretados. U m a das m anifestações da
futuro. extroversão é dar um foco positivo às coisas, enquanto os intro­
vertidos tendem a ser m ais reservados na descrição de seus esta­
dos interiores. A ssim , a qualidade da experiência pode ser sim ilar
D esde os prim órdios da filosofia ocidental, os pensadores conce­ em am bos os grupos, e só o relato diferiría.
beram duas m aneiras de realizar os potenciais hum anos. O pri­
Um a solução m elhor é sugerida pelo estudo dos indivíduos
m eiro envolvia a vita activa, ou a expressão do ser do indivíduo
criativos. E m vez de ser extrovertidas ou introvertidas, essas pes­
por m eio da ação na arena pública - prestar atenção ao que o co r­
soas parecem ser capazes de expressar am bas as características ao
ria no am biente social, tom ar decisões, envolver-se em política, longo de suas vidas. É verdade que o estereótipo do “gênio soli­
defender as próprias convicções, tom ar posição m esm o à custa do
tário” é forte e real m ente tem um a base nos fatos. Afinal de co n ­
p ró p rio co n fo rto e re p u ta ç ã o . 12 E ra isso que a lg u n s d o s m ais tas, geralm ente é preciso estar sozinho para escrever, pintar ou
influentes filósofos gregos viam com o a suprem a realização da faz e r e x p e riê n c ia s cm um lab o ra tó rio . N o e n ta n to , re p e tid a s
essência do indivíduo. M ais tarde, sob a influência da filosofia vezes os indivíduos criativos destacam a im portância de ver pes­
cristã, a vita contem plativa ganhou ascendência com o a m elhor soas e escu tar pessoas, trocar idéias c co n h ecer o trabalh o dos
m aneira de se passar a vida. Era por m eio da reflexão solitária, outros. O físico John A rchibald W heeler expressa esse ponto de
o ração e com unhão co m o Ser S uprem o que a pessoa poderia vista de m aneira bastante direta: “Se você não discute suas idéias
alcançar a realização m ais com pleta. E essas duas estratégias em com os o u tro s, você está p o r fora. N inguém , eu sem p re digo,
geral eram vistas com o m uluam ente exclusivas - um a pessoa não pode ser alguém sem que haja outras pessoas por perto.”
podia ser ativa e pensadora ao m esm o tem po. O utro cientista de destaque, Frecm an D yson, expressa com
Essa dicotom ia ainda perm eia nossa com preensão do co m ­ um a sutil nuança as fases opostas desta dicotom ia em sua obra.
portam ento hum ano. Carl Jung introduziu os conceitos de extro- Ele aponta para a porta do seu escritório e diz:
versão e introversão com o traços fundam entais e opostos da psi­
que. O sociólogo D avid Riesm an descreveu um a m udança histó­ A ciência é muito gregária. Ela é essencialmente a diferença entre
rica de personalidades orientadas para o interior para personali­ manter essa porta aberta ou fechada. Quando estou fazendo ciên­
cia, mantenho a porta aberta... Você quer estar o tempo todo falan­
dades de orientação externa. Nas atuais pesquisas psicológicas, a
do com pessoas... porque só interagindo com outras pessoas é
extroversão e a introversão são consideradas os traços de perso­ possível fazer alguma coisa interessante. É uma atividade essen-
nalidade mais estáveis que diferenciam as pessoas entre si e que cialmcntc comunitária. Existem coisas novas acontecendo o tem­
podem ser avaliados de m aneira confiável. G eralm ente cada um po lodo, e é preciso manter-se à frente e conscientizar-se do que
de nós tende a ser um a coisa ou outra, adorando interagir com as está acontecendo. É preciso falar constantemente. Mas, natural­
pessoas mas sentin do -se perdidos qu and o sozinhos, ou en co n ­ mente, escrever é diferente. Quando estou escrevendo, tenho de
trando o deleite na solidão, m as incapazes de se relacionar com as fechar a porta, e mesmo assim entram sons demais, de modo que,
pessoas. Qual desses tipos tem m ais probabilidade de e x trair o quando escrevo, muitas vezes me escondo na biblioteca. É um
m elhor da vida? jogo solitário.
O s estu d o s a tu a is o fere c em in d íc io s de q u e as p e sso a s John R ced, ex ecu tiv o principal da C iticorp que conduziu
expansivas e extrovertidas são m ais felizes, m ais alegres, m enos sua em presa com sucesso durante períodos turbulentos, fala da
estressadas, m ais serenas, m ais em paz consigo m esm as do que as alternância entre a introspecção e um a intensa interação social em
introvertidas. 13 A conclusão parece indicar que os extrovertidos - sua rotina diária:
que supostam ente nasceríam assim , em vez de chegar à extrover­
são por algum a influência externa - aproveitariam m uito m ais a Sou um sujeito ativo no início da manhã. Levanto-me sempre às
vida. N este caso, contudo, tenho algum as reservas sobre o m odo cinco da madrugada, saio do chuveiro às cinco e meia e geralmen-
96 A DESCOBERTA DO FLUXO

te tento trabalhar em casa ou no escritório, e é então que elaboro


grande parte do meu raciocínio e estabeleço minhas prioridades...
tento manter um período de razoável tranqüilidade até as nove e
meia ou dez da manha. Então me envolvo em várias transações.
Ser o diretor de uma empresa é como ser um chefe tribal. As pes­
soas entram no seu escritório e falam com você. SETE

Até mesmo no reino bastante particular das artes, é essencial


ter capacidade de interagir. A escultora Nina Holton descreve C O M O MUDAR OS PADRÕES DE VIDA
bem o papel da sociabilidade em seu trabalho:
Você não pode trabalhar inteiramente sozinho no seu canto; você
vai querer que um colega artista apareça e converse sobre as coi­
sas com você: “O que acha disso?” É preciso ter algum tipo de
feedback. Não há como ficar sentado ali totalmente sozinho... E
aí, mais tarde, quando você começar a expor, vai ter toda uma
rede de pessoas. Você terá de conhecer o pessoal das galerias, terá Há alguns anos, um homem de 83 anos escreveu uma das cartas
de conhecer pessoas que trabalham no campo em que está envol­ mais emocionantes que já recebí de um leitor. Depois da Primeira
vido. E você pode querer descobrir se deseja fazer parte disso ou Guerra Mundial, ele fora um soldado na artilharia de campo em
não, mas não pode deixar de ser parte de uma irmandade, com­ uma base militar do Sul dos Estados Unidos. Eles usavam cava­
preende? los para puxar os carregamentos de armas e, depois das mano­
bras, muitas vezes os desatrelavam e jogavam pólo. Durante
O modo como esses indivíduos criativos encaram a vida sugere esses jogos, ele sentia uma alegria que nunca vivera antes nem
que é possível ao mesmo tempo ser extrovertido e introvertido. vivería depois; ele presumiu que só jogar pólo poderia fazer com
Na verdade, expressar todo o espectro que vai da introversão à que ele se sentisse tão bem. Os sessenta anos seguintes foram
extroversào talvez seja o comportamento normal dos seres huma­ rotineiros e sem mudanças. Então ele leu Flux, e percebeu que a
nos. O que é anormal é ficar preso em uma ou outra das extremi­ empolgação que experimentara na juventude quando montava
dades deste contínuo, experimentando a vida apenas como um ser um cavalo não se limitava necessariamente ao jogo de pólo, e
gregário ou apenas como um ser solitário. Certamente o tempera­ começou a fazer coisas que ele pensava que seriam divertidas,
mento e a socialização nos empurrarão para uma direção ou para mas que nunca tentara. Passou a praticar jardinagem, ouvir músi­
outra, e depois de algum tempo ficará fácil para nós nos acomo­ ca e a realizar outras atividades que, vejam só, reviveram a satis­
darmos a essas forças condicionadoras e aprender a disputar nos­ fação da sua juventude.
sa interação social ou nossa solidão, mas não ambas as coisas. É muito bom que aos oitenta anos esse homem tenha desco­
Agir dessa maneira, contudo, limita o espectro total das experiên­ berto que não precisa aceitar passivamente uma vida tediosa.
cias que são possíveis aos seres humanos, e diminui nossas possi­ Ainda assim, os sessenta anos intermediários parecem ter sido
bilidades de desfrutar a vida. desnecessariamente vazios. E quantas pessoas nunca percebem
que podem moldar sua energia psíquica para que tirem o máximo
da experiência? Se a descoberta de que cerca de 15 por cento da
população nunca está em fluxo for correta, isso significa que,
apenas nos EUA, dezenas de milhares de pessoas estão se privan­
do daquilo que toma a vida digna de ser vivida.1
Naturalmente, em muitos casos é possível compreender por
98 A DESCOBERTA DO FLUXO
C O M O MUDAR OS PADRÕES DE V ID A 99

que uma pessoa pode experimentar o fluxo poucas vezes, ou mes­ nove anos de idade, deixando a família na pobreza. Embora fosse
mo nunca. Uma infância de privações, pais abusivos, pobreza e um leitor voraz e colecionasse minerais, plantas e insetos, Linus
vários outros motivos externos podem tomar difícil para uma não acreditava que conseguiría passar da escola secundária.
pessoa descobrir a felicidade na vida cotidiana. Por outro lado, Felizmente, os pais de um de seus amigos quase o obrigou a se
existem tantos exemplos de indivíduos que superaram esses obs­ inscrever na faculdade. Então ele recebeu uma bolsa para entrar
táculos que a crença de que a qualidade de vida é determinada na Cal Tech, envolveu-se em pesquisas, recebeu o prêmio Nobel
pelo ambiente externo é inconsistente. Algumas das discordân- de química em 1954 e o prêmio Nobel da paz em 1962. Ele des­
cias mais loquazes ao que escrevi sobre o fluxo vieram de leito­ creveu seus anos na faculdade da seguinte maneira:
res que alegavam ter sofrido abusos, mas queriam que eu soubes­
se que, ao contrário do que eu dissera, era perfeitamente possível Eu ganhava algum dinheiro fazendo bicos, trabalhando para a
que crianças maltratadas desfrutassem suas vidas adultas. faculdade, matando dentes-de-leào no gramado mergulhando uma
Os exemplos são muitos. Um dos meus favoritos envolve vara num balde contendo uma solução de arsenato de sódio e en­
Antonio Gramsci, o filósofo do socialismo humanista que teve tão enfiando o bastão no dente-de-leão. Todo dia eu rachava
lenha, cerca de um metro cúbico, talvez, em tábuas - as toras já
profunda influência sobre o desenvolvimento do pensamento
vinham serradas - de um tamanho que entrasse nos fogões a lenha
europeu neste século e a queda do leninismo-stalinismo.2 Nas­
do alojamento feminino. Duas vezes por semana eu cortava até
cido em 1891 em uma família desvalida na pobre ilha da Sar- um quarto de boi em postas ou cortes para assar, e todo dia eu pas­
denha, Antonio tinha uma deformação na coluna e passou quase sava esfregão na cozinha grande, a enorme área da cozinha.
toda a infância doente. Sua pobreza ficou praticamente insusten­ Então, no final do meu segundo ano, consegui um emprego como
tável quando o pai foi preso devido a acusações falsas, não engenheiro de pavimentação, colocando um pavimento de asfalto
podendo mais sustentar sua família numerosa. Em uma tentativa nas montanhas do sul do Oregon.
fracassada de curar sua corcunda, o tio de Antonio o pendurava
pelas canelas nas vigas da palhoça onde viviam. A mãe de An­ O que era tão impressionante em Linus Pauling é que até mes­
mo aos noventa anos de idade ele mantinha o entusiasmo e a curio­
tonio tinha tanta certeza de que a criança morrería durante o sono
sidade de uma criança. Tudo o que ele dizia ou fazia borbulhava de
que toda noite separava sua melhor roupa e um par de velas no
energia. Apesar das adversidades iniciais e das dificuldades poste­
armário, para que os preparativos do funeral levassem menos
riores, ele aparentava óbvia alegria de viver. E não havia nenhum
tempo. Com esses fatos, não seria surpresa que Gramsci cresces­
segredo sobre como ele fazia isso; em suas próprias palavras:
se cheio de ódio e rancor. Em vez disso, ele dedicou sua vida a
“Simplesmente fui fazendo o que gostava de fazer.”
ajudar os oprimidos, tomando-se um escritor sutil e um teórico
Alguns podem considerar essa atitude irresponsável: como
brilhante. Embora fosse um dos fundadores do Partido Comu­
alguém pode se dar ao luxo de fazer apenas o que gosta? Mas a
nista Italiano, ele jamais comprometeu seus valores humanitários
questão é que Pauling - e muitos outros que compartilham sua
por uma questão de pragmatismo ou dogma partidário. Mesmo
atitude - gostava de fazer quase tudo, por mais difícil ou banal
depois que Mussolini o aprisionou em uma cadeia medieval para que fosse, incluindo as coisas que era obrigado a fazer. A única
que ele morresse no confinamento solitário, Gramsci continuou coisa de que eles definitivamente não gostam é de perder tempo.
escrevendo cartas e ensaios cheios de luz, esperança e compai­ Assim, não é que a vida deles seja objetivamente melhor do que
xão. Todos os fatores externos conspiraram para perverter a vida a sua ou a minha, mas seu entusiasmo pela vida é tamanho que a
de Gramsci; ele deve receber todo o crédito por ter alcançado a maioria das coisas que eles fazem acaba oferecendo-lhes expe­
harmonia intelectual e emocional que deixou como sua herança. riências de fluxo.
Outro exemplo, extraído de minhas próprias pesquisas, é a Recentemente, muita coisa foi escrita sobre como as pes­
vida de Linus Pauling. Ele nasceu cm Portland, Oregon, na vira­ soas nascem com um temperamento alegre ou triste, e que não há
da do século XIX para o XX; seu pai morreu quando Linus tinha muito que possa ser feito para mudar isso. Se você é uma pessoa
100 A DESCOBERTA DO FLUXO C O M O MUDAR OS PADRÕES DE V ID A 101

feliz, vai continuar assim por pior que seja sua sorte; se você não tanto que recebam uma remuneração decente e tenham alguma
é. um golpe de sorte pode melhorar seu humor por um período segurança, não importa o grau de tédio ou alienação de seu traba­
curto, mas você logo vai voltar ao estado taciturno e desanimado lho. Essa atitude, contudo, acaba fazendo com que cerca de 40
a que foi condenado por sua estrutura genética. Se isso fosse ver­ por cento da nossa vida em vigília seja descartada. E já que nin­
dade, nào havería esperança na tentativa de alterar a qualidade da guém vai se dar ao trabalho de se certificar de que sentimos pra­
própria vida. Mas esse cenário determinista só está correto em zer com nosso trabalho, é importante que cada um de nós assuma
relação à exuberância extrovertida, que muitas vezes é confundi­ essa responsabilidade.
da com felicidade, pois ela parece ser um traço razoavelmente Geralmente, existem três motivos principais para ressentir-
estável do caráter de uma pessoa. No entanto, a história é muito se do trabalho.4 O primeiro é que o emprego não tem sentido -
diferente sc consideramos a felicidade como a apreciação menos não faz bem a ninguém, e na verdade pode até mesmo ser dano­
óbvia da vida que o fluxo oferece. so. Alguns funcionários públicos, vendedores de alto desempe­
Em um excelente estudo ESM longitudinal sobre adolescen­ nho e inclusive cientistas que trabalham em campos como arma­
tes, por exemplo, Joel Hektner descobriu que cerca de 60 por cen­ mentos ou o setor tabagista precisam adotar uma negação reai-
to dos adolescentes relataram a mesma freqüência de fluxo mente intensa para tolerar o que fazem para viver. O segundo
durante um período de uma semana medido com uma diferença motivo é que o trabalho é tedioso e rotineiro; não oferece varie­
de dois anos; aqueles que vivenciaram uma boa dose de fluxo dade ou desafio. Depois de alguns anos, é possível fazê-lo dor­
cedo ainda o faziam depois, e aqueles que vivenciaram pouco no mindo, e tudo o que ele oferece é um sentimento de estagnação
início ainda o faziam dois anos depois.3 Mas os 40 por cento res­ em vez de crescimento. O terceiro problema com os empregos é
tantes mudaram muito no mesmo período, metade deles declaran­ que muitas vezes eles são estressantes. cspecialmente quando não
do uma quantidade significativamente maior de fluxo (medido nos damos bem com nosso supervisor ou colegas, que esperam
como experiências de alto desafio e alta habilidade). Aqueles demais de nós ou que não reconhecem nossas contribuições. Ao
cuja freqüência de fluxo aumentara dois anos depois passavam contrário da opinião popular, preocupações com dinheiro e segu­
mais tempo estudando e menos tempo no lazer passivo, c seus rança geralmente não são tão importantes quanto esses três para
níveis de concentração, auto-estima, satisfação e interesse eram determinar se a pessoa está satisfeita ou nào com seu trabalho.
significativamente mais elevados que os dos adolescentes cuja Embora não queiramos admitir isso, a capacidade de vencer
freqüência de fluxo diminuira - embora dois anos antes os dois a maioria dos obstáculos está em nossas mãos. Não podemos cul­
grupos houvessem declarado a mesma qualidade de experiência. par a família, a sociedade ou a história se nosso trabalho nào tem
É importante observar que os adolescentes cujos fluxos tinham importância, é enfadonho ou estressante. Certamente, não exis­
aumentado não declararam que estavam “mais felizes’’ do que tem muitas opções quando percebemos que nosso emprego é inú­
aqueles cujo fluxo havia diminuído. Mas, devido às grandes dife­ til, ou até mesmo prejudicial. Talvez a única escolha seja pedir
renças nas outras dimensões de experiência, é seguro concluir demissão o mais rápido possível, mesmo sob pena de sofrer gran­
que a felicidade declarada pelo grupo de baixo fluxo era mais des dificuldades financeiras. Para que a nossa vida gere retomo, é
superficial e menos autêntica. Isso sugere que de fato é possível sempre melhor negócio fazer algo que nos deixe felizes do que
melhorar a qualidade da própria vida investindo energia psíquica algo que nos ofereça conforto material mas nos deixe emocional­
em atividades que tenham maior probabilidade de produzir fluxo. mente infelizes. Essas decisões são extraordinariamente difíceis,
e exigem uma grande honestidade consigo mesmo. Como
Hannah Arendt mostrou em relação a Adolf Eichmann e outros
Como para a maioria de nós o trabalho é a parte central da vida, é que trabalhavam nos campos de extermínio nazistas, é fácil dis­
essencial que essa atividade seja tão agradável e compcnsadora farçar a responsabilidade até mesmo pelo assassinato a sangue-
quanto possível. No entanto, muitas pessoas acreditam que, con­ frio de milhares com a desculpa: “Eu apenas trabalho aqui.’’
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Os psicólogos Ann Colby e William Damon descreveram desempenho do trabalho aumentou porque o trabalhador estava
muitos indivíduos que não pouparam esforços para que seus tra­ disposto a investir energia psíquica extra e, assim, conseguiu
balhos fossem significativos, pessoas que abandonaram uma extrair significado adicional dele. Mas o significado que obtemos
existência “normal” para se dedicar a ter importância para as de um trabalho é gratuito. Como esses exemplos mostram, é pre­
vidas dos outros.5 Uma dessas pessoas é Susie Valdez, que estava ciso pensar e agir além do que reza a atribuição do cargo. E isso,
passando de um trabalho mal pago e tedioso para outro na Costa por sua vez, exige atenção adicional, que, como já dissemos repe­
Oeste americana, sem nenhuma perspectiva dc coisa melhor. tidas vezes, é o recurso mais precioso que temos.
Então, durante uma visita ao México, ela viu os montes de lixo Um argumento similar pode ser empregado para transfor­
nos limites de Ciudad Juarez, onde centenas de meninos sem-teto mar um trabalho que carece de desafio e variedade em um que
sobreviviam catando lixo. Susie encontrou ali pessoas que esta­ satisfaça nossas necessidades de novidade e realização. Também
vam ainda mais desesperadas que ela, e descobriu que tinha a nesse caso a pessoa deseja gastar energia psíquica adicional para
capacidade de apontar às crianças um modo de vida melhor; ela recolher os benefícios desejados. Se não houver esforço, um tra­
formou uma missão entre o lixo, deu início a uma escola e a uma balho tedioso continuará tedioso. A solução básica é muito sim­
clínica e ficou conhecida como a “Rainha da Lixeira”. ples; ela requer que prestemos bastante atenção a cada etapa exi­
Além dessas mudanças drásticas, há muitas maneiras de tor­ gida no trabalho, c então perguntemos: essa etapa é necessária?
nar o próprio emprego mais significativo agregando-lhe mais Quem precisa dela? Se é realmente necessária, ela pode ser feita
valor.6 Um funcionário de supermercado que realmente é atencio­ de maneira melhor, mais rápida e mais eficiente? Que passos adi­
so com os clientes, um médico preocupado com o bem-estar total cionais tomariam minha contribuição mais valiosa? Nossa atitu­
dos pacientes em vez de apenas com sintomas específicos, um de para com o trabalho geraimente envolve gastar um bocado de
jornalista que considera a verdade pelo menos tão importante esforço tentando aparar as arestas e fazer o mínimo possível. Mas
quanto o interesse sensacionalista quando escreve uma reporta­ esta é uma estratégia míope. Se gastássemos a mesma quantidade
gem podem transformar um trabalho rotineiro com conscqüên- de atenção tentando encontrar maneiras de realizar mais no traba­
cias efêmeras em um trabalho importante. Com a especialização lho, sentiriamos mais prazer em trabalhar - e provavelmente
crescente, a maioria das atividades ocupacionais se tomou repeti­ seriamos mais bem-sucedidos.
tiva e unidimensional. É difícil desenvolver um conceito positivo Até mesmo algumas das descobertas mais importantes sur­
de si mesmo se tudo o que a pessoa faz é abastecer prateleiras de gem quando o cientista, atento a um processo rotineiro, nota algu­
supermercado ou preencher formulários da manhã até a noite. ma coisa nova e incomum que precisa ser explicada. Wilhelm C.
Levando em conta todo o contexto da atividade e compreenden­ Roentgen descobriu a radiação quando notou que alguns negati­
do o impacto de nossas ações sobre o todo, um trabalho comum vos fotográficos mostravam sinais de exposição mesmo na
pode se transformar em um desempenho memorável que toma o ausência de luz; Alexander Fleming descobriu a penicilina quan­
mundo melhor. do observou que culturas bacterianas eram menos densas em pla­
Como todo mundo, eu poderia fazer uma longa lista dc cas que não haviam sido limpas e estavam emboloradas; Rosalyn
encontros fortuitos com trabalhadores que, além de fazer seu tra­ Yalow descobriu a técnica de radioterapia depois de ter notado
balho, ajudaram a reduzir a entropia ao redor deles. Um frentista que os diabéticos absorviam insulina mais devagar que os pacien­
num posto de gasolina que consertou um limpador de pára-brisa tes normais, em vez de sua absorção ser mais rápida, como se
com um sorriso e se recusou a ser pago por um esforço tão peque­ acreditava anteriormente. Em todos esses casos - e os registros da
no; um corretor de imóveis que continuou a ajudar anos depois de ciência estão repletos de histórias similares - , um evento rotinei­
ter vendido a casa; uma comissária de bordo que concordou em ro é transformado em uma importante descoberta que muda a
permanecer no avião, depois de a tripulação ter ido embora, para maneira como vivemos porque alguém prestou mais atenção a ela
localizar uma carteira perdida... Em todos esses casos, o valor do do que a situação parecia requerer. Se ao entrar na banheira
104 A DESCOBERTA DO FLUXO COMO MUDAR OS PADRÕES DE VIDA 105

Arquimedes, houvesse apenas pensado: “Droga, molhei o chão reduzir o tempo necessário para realizar seu trabalho não melho­
de novo, o que a patroa vai dizer?’’, a humanidade poderia ter pre­ rou a produção, porque a linha continuava se movendo na veloci­
cisado esperar mais algumas centenas de anos para compreender dade anterior. Mas ele adorava a satisfação de usar suas habilida­
o princípio do deslocamento dos fluidos. Como Yalow descreveu des plenamente: “É melhor do que qualquer outra coisa - muito
sua própria experiência: “Algo acontece, e você reconhece que melhor do que assistir à televisão.” E como ele sentia que eslava
aconteceu.” Parece simples, mas a maioria de nós geralmente está chegando ao seu limite no emprego atual, fazia um curso noturno
distraída demais para reconhecer quando algo acontece. para receber um diploma que lhe abrisse novas perspectivas na
Assim como mudanças mínimas podem resultar em grandes engenharia eletrônica.
descobertas, pequenos ajustes podem transformar um trabalho Não surpreende que o mesmo tipo de abordagem seja neces­
rotineiro detestado em um desempenho profissional que o indiví­ sário para resolver o problema do estresse no trabalho, já que o
duo espera com ansiedade a cada manhã. Primeiro, é preciso estresse é prejudicial para conseguir o fluxo. No uso comum, a
compreender totalmente o que está acontecendo e por quê; em palavra “estresse” se aplica tanto à tensão que sentimos quanto às
segundo lugar, é essencial não aceitar passivamente o que está suas causas externas.7 Essa ambigüidade leva ao pressuposto
acontecendo como a única maneira de realizar o trabalho; então é errôneo de que o estresse externo forçosamente resultará no des­
preciso pensar cm opções c experimentá las até encontrar uma conforto psíquico. Contudo, mais uma vez, não existe uma rela­
maneira melhor. Geralmente os funcionários são promovidos ção de correspondência exata entre o objetivo e o subjetivo; o
para cargos mais desafiadores porque seguiram esses passos em estresse extemo (que, para evitar confusão, poderiamos chamar
suas funções anteriores. Porém, mesmo que ninguém mais note, de “tensão”) não precisa levar a experiências negativas. É verda­
o trabalhador que usa a energia psíquica deste modo terá um de que as pessoas se sentem ansiosas quando percebem os desa­
emprego mais satisfatório. fios em uma situação que vai muito além de suas capacidades, e
Um dos exemplos mais claros que já vi foi quando fiz uma que desejam evitar a ansiedade a todo custo. Mas a percepção dos
pesquisa em uma fábrica onde eslava sendo montado o equipa­ desafios c habilidades está relacionada com uma avaliação subje­
mento audiovisual de uma linha de produção. A maioria dos tra­ tiva sujeita a mudanças.
balhadores da linha estava entediada e considerava seu trabalho No trabalho, existem tantas fontes de tensão quanto na pró­
como inferior à sua capacidade. Então conheci Rico, que tinha pria vida; crises inesperadas, expectativas elevadas, problemas
uma maneira totalmente diferente de encarar o que fazia. Ele real­ insolúveis de todos os tipos. Como impedi-las de se tomarem
mente considerava seu emprego algo difícil, que exigia uma estressantes? Um primeiro passo consiste em estabelecer priori­
grande habilidade. No final, ele eslava certo. Embora precisasse dades entre as exigências que se acumulam na consciência.
fazer os mesmos tipos de tarefas tediosas que o resto do pessoal. Quanto maior a responsabilidade que o indivíduo possui, mais
Rico aprendera sozinho a realizá-las com a economia e a elegân­ essencial se toma saber o que é verdadeiramente importante e o
cia de um virtuose. Cerca de quatrocentas vezes por dia uma que não é. As pessoas bem-sucedidas muitas vezes fazem listas,
câmera parava em sua estação e Rico tinha 43 segundos para veri­ ou planilhas, de todas as coisas que precisam fazer, e rapidamen­
ficar se o sistema de som correspondia às especificações. Em te decidem que tarefas podem delegar, ou esquecer, e quais preci­
alguns anos, depois de experimentar diferentes ferramentas e sam encarar pessoalmente, e em qual ordem. Às vezes essa ativi­
padrões de movimento, ele conseguiu reduzir o tempo medio dade toma a iorma de um ritual e, como todo ritual, serve em par­
necessário para a verificação de cada câmera para 28 segundos. te como uma garantia de que as coisas estão sob controle. John
Ele estava tão orgulhoso dessa realização quanto um atleta olím­ Reed, executivo principal da Cilicorp, passa grande parte do tem­
pico estaria se, depois de se preparar durante um período igual, po a cada manhã estabelecendo suas prioridades. “Sou um gran­
conseguisse quebrar o recorde de 44 segundos nos quatrocentos de fazedor de listas”, diz ele, “tenho vinte listas de afazeres o
metros rasos. Rico não ganhou uma medalha por seu recorde, e tempo todo. Se eu tiver cinco minutos livres, sento-me e faço
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uma lista de coisas com que deveria estar me preocupando...” campo. Não havia montadores de carros antes de empreendedo­
Mas não é necessário ser tão sistemático; algumas pessoas con­ res como Menry Ford construírem as primeiras linhas de produ­
fiam em sua memória e experiência, e fazem suas escolhas de ção. Obviamente, muito poucas pessoas podem iniciar novas
maneira mais intuitiva. O importante é desenvolver uma estraté­ linhas de trabalho; a maioria de nós seguirá a descrição de cargo
gia pessoal para produzir algum tipo de ordem. Depois do estabe­ das carreiras convencionais. Mas até mesmo o emprego mais
lecimento de prioridades, algumas pessoas enfrentarão primeiro rotineiro pode se beneficiar do tipo de energia transformadora
as tarefas mais fáceis na lista e limparão a mesa para as tarefas que os indivíduos criativos levam ao que fazem.
mais difíceis; outros procedem na ordem reversa, porque sentem George Klein, um biólogo estudioso de tumores que chefia
que depois de lidar com os itens difíceis, os mais fáceis se resol­ um renomado departamento de pesquisa no Instituto Karolinska,
verão por si mesmos. As duas estratégias funcionam, mas para em Estocolmo, ilustra bem como essas pessoas encaram seu tra­
pessoas diferentes; o que importa é que cada pessoa descubra a balho. Klein gosta imensamente do que faz, no entanto existem
estratégia de sua preferência. dois aspectos da sua função que ele detesta. Um deles é esperar
Ser capaz de criar a ordem entre as várias exigências que se em terminais de aeroporto, o que ele precisa fazer frequentemen­
acumulam sobre a consciência é um grande passo na eliminação te devido a sua agenda repleta de encontros internacionais. O
do estresse. O passo seguinte é fazer com que nossas habilidades outro aspecto que ele odeia é escrever os inevitáveis projetos para
correspondam aos desafios que foram identificados. Existirão obter financiamento dos órgãos governamentais que fornecem os
tarefas que nos sentiremos incapazes de resolver - elas podem ser fundos para sua equipe de pesquisa. Essas duas tarefas tediosas
delegadas a outra pessoa? Você pode aprender as habilidades estavam desgastando sua energia psíquica e gerando insatisfação
necessárias a tempo? Você pode conseguir ajuda? A tarefa pode com seu trabalho. No entanto, não podiam ser evitadas. Então
ser transformada, ou dividida em partes mais simples? Geral­ Klein teve uma súbita inspiração: e se ele combinasse as duas? Se
mente a resposta a uma dessas questões oferecerá uma solução ele pudesse escrever seus projetos enquanto esperava pelos
que transforma uma situação potencial mente estressante cm uma aviões, pouparia metade do tempo anteriormente dedicado a tare­
experiência de fluxo. Nada disso acontecerá, contudo, se o indi­ fas tediosas. Para implementar essa estratégia, ele comprou o
víduo responder à tensão passivamente, como um coelho parali­ melhor gravador de bolso que conseguiu encontrar e começou a
sado diante dos faróis de um carro que se aproxima. É preciso ditar solicitações de financiamento enquanto esperava nas filas
investir atenção na ordenação de tarefas, na análise do que é de alfândega dos aeroportos. Esses aspectos do seu trabalho ain­
necessário para completá-las, nas estratégias da solução. Somen­ da são objetivamente o que eram antes, mas devido ao controle
te pelo exercício do controle o estresse poderá ser evitado. E que assumiu, Klein praticamente os transformou em um jogo.
embora todos possuam a energia psíquica para lidar com a tensão, Agora é um desafio ditar o máximo possível enquanto espera; em
poucos aprendem a usá-la de maneira eficaz. vez de sentir que está perdendo tempo em uma tarefa tediosa, ele
As carreiras de indivíduos criativos oferecem alguns dos se sente energizado.
melhores exemplos de como é possível moldar o trabalho segun­ Em cada viagem, vemos dezenas de homens e mulheres tra­
do as próprias exigências. A maioria das pessoas criativas não balhando em seus laptops, somando colunas de cifras ou subli­
segue uma carreira estabelecida, mas inventa seu trabalho nhando artigos técnicos que estão lendo. Isso significa que, como
enquanto o realiza. Os artistas inventam seu próprio estilo de pin­ George Klein, eles se sentem energizados por terem combinado a
tura, os compositores seus próprios estilos musicais. Os cientistas viagem com o trabalho? Isso depende de sentirem que foram
criativos desenvolvem novos campos de ciência, e tomam possí­ obrigados a fazê-lo ou se adotam essa estratégia para poupar tem­
vel para seus sucessores desenvolverem carreiras nesses campos. po ou ganhar em eficiência. No primeiro caso, trabalhar no avião
Não existiam radiologistas antes de Rocntgen, e não havia medi­ provavelmente causará tensão em vez de dar origem ao fluxo. Se
cina nuclear antes de Yalow e seus colaboradores criarem este é algo que a pessoa acha que precisa fazer, talvez fosse melhor
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olhar para as nuvens pela janela, ler uma revista ou conversar que a família é a preocupação mais importante de suas vidas,
com outro passageiro. muito poucos - poucos homens, cm especial - se comportam
como se esse fosse o caso. É verdade que a maioria dos homens
Além do trabalho, outra grande área que tem impacto sobre a casados agora está convencida de que suas vidas são dedicadas à
qualidade de vida é o tipo de relacionamento que temos. E muitas família, c do ponto de vista material isso pode ser verdade. Mas é
vezes existe um conflito entre esses dois lados, de modo que uma preciso mais do que comida na geladeira e dois carros na garagem
pessoa que adora o trabalho pode negligenciar a família e os ami­ para levar a família adiante. Um grupo de pessoas se mantém uni­
gos, e vice-versa. O inventor Jacob Rabinow, ao descrever como do por dois tipos de energia: energia material fornecida por comi­
sua esposa muitas vezes se sente deixada de lado, repete aquilo da, calor, cuidados físicos e dinheiro; e a energia psíquica das
que todas as pessoas dedicadas ao trabalho diriam: pessoas investindo atenção nas metas umas das outras. A menos
que pais e filhos compartilhem idéias, emoções, atividades,
Eu me envolvo de tal maneira com uma idéia quando estou traba­ memórias e sonhos, seu relacionamento só sobreviverá porque
lhando, fico tão concentrado, que fico totalmente sozinho. Não satisfaz necessidades materiais. Como entidade psíquica, só exis­
presto atenção no que as pessoas dizem... Você não presta atenção tirá no nível mais primitivo.
cm ninguém. E tende a se afastar das pessoas... Talvez, se eu não
Por incrível que pareça, muitas pessoas se recusam a admi­
fosse um inventor mas tivesse um emprego rotineiro, eu passaria
tir esse fato. A atitude mais difundida parece ser que, enquanto as
mais tempo cm casa e prestaria mais atenção na minha família...
assim, talvez as pessoas que não gostem dos seus empregos gos­
necessidades materiais forem satisfeitas, a família vai cuidar de si
tem mais dos seus lares. mesma; ela será um refúgio caloroso, harmonioso e permanente
cm um mundo frio e perigoso. E muito comum encontrar homens
Essa observação é muito verdadeira, e o motivo é simples. bem-sucedidos de quarenta ou cinqüenta anos que ficam perple­
Já que a atenção é um recurso limitado, quando uma mela toma xos quando suas esposas os abandonam ou seus filhos se envol­
toda a nossa energia psíquica, não sobra nada para as demais ati­ vem em problemas sérios. Eles não amaram sempre a sua famí­
vidades. lia? Eles não investiram toda a sua energia para tomá-los felizes?
Apesar disso, é difícil ser feliz se a pessoa negligencia qual­ E verdade que nunca tiveram mais do que alguns minutos por dia
quer uma dessas dimensões. Muitas pessoas casadas com seus para conversar, mas como poderíam ter feito de maneira diferen­
empregos estão conscientes disso, e encontram maneiras de com­ te, com todas as exigências do emprego...
pensar o fato escolhendo um cônjuge compreensivo ou sendo Em geral, acreditamos que alcançar o sucesso na carreira
muito cuidadosas na divisão de sua atenção. Linus Pauling foi exige uma grande quantidade de investimento contínuo de pensa­
bastante sincero sobre essa questão: “Na minha opinião, tive a mento e energia. Relacionamentos familiares, por sua vez, são
sorte da minha esposa pensar que seu dever e seu prazer na vida “naturais”, de modo que exigem pouco esforço mental. O cônju­
viriam da sua família - seu marido e seus filhos. E que o melhor ge vai continuar a ser solidário, as crianças vão cuidar dos pais -
modo como ela podería contribuir seria cuidar para que eu não mais ou menos - porque é assim que as famílias deveríam ser. Os
fosse incomodado com os problemas do lar; ela resolvería todos empresários sabem que até a empresa mais bem-sucedida precisa
esses problemas de modo que eu podería dedicar todo o meu tem­ de atenção constante, porque as condições extemas e internas
po ao trabalho.” Mas poucas pessoas - c especial mente poucas estão sempre mudando, e têm de ser ajustadas. A entropia é um
mulheres - podem se considerar tão afortunadas quanto Pauling fator constante e, se alguém não cuidar dela, a empresa se dissol­
neste aspecto. ve. No entanto, muitos deles acreditam que as famílias são de
Um caminho mais realista é encontrar maneiras de equili­ alguma maneira diferentes - a entropia não pode tocá-las, e con­
brar o significado das recompensas que recebemos no trabalho e sequentemente elas são imunes a mudanças.
nos relacionamentos. Apesar do fato de quase todo mundo alegar Existiam alguns fundamentos para essa crença quando as
110 A DESCOBERTA DO FLUXO C O M O MUDAR OS PADRÕES DE V ID A 111

fam ílias se m antinham unidas devido a laços externos de contro­ encare com a m esm a atenção com que encararia um esporte ou
le social, e por laços intem os de com prom isso ético ou religioso. um a atuação artística. M aria A llison e M argaret C arlisle D uncan
As obrigações contratuais tinham a vantagem de produzir rela­ descreveram vários exem plos de com o a energia psíquica inves­
cionam entos previsíveis e poupar energia por m eio da exclusão tida no crescim ento de um a criança pode produzir a alegria de ter
de opções e da necessidade de negociação constante. Q uando o filhos. No texto a seguir, um a m ãe descreve os m om entos em que
casam ento supostam ente devia durar para sem pre, não era neces­ alcança o fluxo:
sário esforço constante para mantê-lo. A gora que a integridade da
fam ília tom ou-se um a questão de escolha pessoal, ela não pode ... quando estou trabalhando com minha filha; quando ela está
descobrindo alguma coisa nova. Uma nova receita de biscoito que
sobreviver exceto pela infusão regular de energia psíquica.
ela tentou, que ela mesma fez, e uma obra artística de que sente
O novo tipo de fam ília é m uito vulnerável, a m enos que pos­
orgulho. Uma coisa com que ela está realmente envolvida é a sua
sa oferecer recom pensas intrínsecas para seus m em bros. Q uando leitura, e nós lemos juntas. Ela lê para mim, e eu leio para ela, e
a interação da fam ília fornece fluxo, é do interesse de todos m an­ esse é um momento em que de certa forma perco o contato com o
ter o relacionam ento. N o entanto, com o as fam ílias são vistas de resto do mundo, em que fico totalmente absorvida no que estou
m odo tão displicente, poucas pessoas aprenderam a transform ar fazendo...8
os v elh o s laços de u n ião criados p o r o b rig a ç õ es e x te rn a s em
novos laços, m ais sólidos e criados pela alegria que oferecem . Para experim entar um prazer tão sim ples na paternidade ou
Q uando os pais chegam em casa exaustos dos seus em pregos, m aternidade, é preciso estar atento, saber do que é que a criança
eles acreditam que estar com a fam ília será um a experiência que “sente orgulho” , no que está “envolvida” ; então tem os de dedicar
não exigirá qualquer esforço, relaxante e revigorante. M as encon­ m ais atenção a com partilhar essas atividades com ela. P erm a­
trar o fluxo nos relacionam entos fam iliares exige tanta habilidade necer ju n to só se tom a agradável quando existe harm onia entre as
quanto qualquer outra atividade com plexa. m eias dos participantes e quando todos estão investindo energia
O e scrito r can ad en se R obertson D avies descrev e um dos psíquica em um a m eta conjunta.
m otivos pelos quais seu casam ento de 50 anos é gratificante: O m esm o é verdade para qualquer outro tipo de interação.
Por exem plo, quando existe m otivo para pensar que som os valo­
Shakespeare exerceu um papel extraordinário no nosso casamen­ rizados, a satisfação no trabalho costum a ser elevada, enquanto a
to como uma fonte inesgotável dc citações, piadas e referências. m aior fonte de estresse no local de trabalho é o sentim ento de que
Acho que tenho uma sorte fora do comum, porque passamos um ninguém está interessado em apoiar nossas metas. As lulas inter­
tempo maravilhoso juntos. Foi sempre uma aventura, e ainda não
nas entre colegas, a incapacidade de se com unicar com superiores
chegamos ao fim. Ainda não deixamos de conversar, e juro que a
conversa é ainda mais importante para o casamento do que o sexo. c subordinados são a ruína da m aioria dos em pregos. As raízes do
conflito interpessoal costum am ser um a preocupação excessiva
Para D avies e sua esposa, a habilidade que tom ou possível o consigo m esm o e um a incapacidade de prestar atenção às neces­
fluxo conjunto foi um am or e um conhecim ento com uns da lite­ sidades alheias. É triste ver com o a m aioria das pessoas arruina
ratura. M as é possível substituir Shakespeare p o r praticam ente um relacionam ento porque se recusa a reconhecer que podería
qualquer outra coisa. U m casal na faixa dos sessenta anos reviveu servir m elhor a seus próprios interesses se ajudasse os outros a
seu relacio n am en to com eçando a c o rrer ju n to s em m aratonas; alcançar os deles.
o utros o fizeram por m eio de viagens, ja rd in a g e m ou crian d o N a cu ltu ra em presarial am ericana, o herói é um a pessoa
cães. Q u an d o as p e sso a s prestam ate n ç ã o u m as às o u tra s, as im p ied o sa e c o m p e titiv a com um eg o en o rm e. In fe liz m c n te ,
chances de a fam ília ser unida pelo fluxo aum enta. alguns dos principais em presários e executivos realm ente se coa­
T er filhos supostam ente deveria ser um a das experiências dunam com essa im agem . No entanto, tam bém é tranquilizador o
m ais gratificantes da vida; mas não é, a m enos que a pessoa a falo de que o egoísm o agressivo não é o único cam inho para o
112 A DESCOBERTA DO FLUXO C O M O MUDAR OS PADRÕES DE V ID A 113

sucesso. Na verdade, nas empresas mais estáveis e bem adminis­ quicas tradicionais, como a da antiga China, formas complexas
tradas, os líderes tentam promover subordinados que não invis­ de saudação e de conversa convencionais garantem que as pes­
tam toda sua energia psíquica no desenvolvimento pessoal, mas soas se comuniquem sem precisar perder tempo imaginando o
que usem parte dela para levar adiante as metas da empresa. Eles que precisam dizer e como dizê-lo. Os americanos aperfeiçoaram
sabem que, se a direção estiver cheia de egoístas ambiciosos, a uma forma de conversa fácil que corresponde à natureza móvel e
empresa sofrerá. democrática da sociedade; em sua jovialidade superficial, contu­
Keith é um exemplo dos muitos gerentes que conheci que do, ela é tão formalizada quanto a de uma tribo africana. Para
passaram uma década ou mais tentando desesperadam ente ganhar alguma coisa por meio da conversa com uma pessoa, é
impressionar seus superiores para ser promovido. Ele trabalhava preciso aprender alguma coisa nova, seja em termos de conheci­
setenta horas ou mais por semana, mesmo quando sabia que não mento ou de emoções. Isso exige que ambos os participantes se
era necessário, descuidando-se de sua família e de seu próprio concentrem na interação, o que por sua vez exige energia psíqui­
crescimento pessoal. Para aumentar sua vantagem competitiva, ca que geralmente não estamos dispostos a investir. No entanto,
Keith acumulou todo o crédito que conseguiu por suas realiza­ um fluxo genuíno obtido pela conversa é um dos pontos altos da
ções, mesmo que isso significasse fazer com que os colegas e existência.
subordinados fossem malvistos. Mas, apesar de todos os seus O segredo de iniciar uma boa conversa é na verdade bastan­
esforços, ele continuou sendo deixado de lado nas promoções te simples. O primeiro passo é descobrir quais as metas da outra
importantes. Finalmente, Keith resignou-se, achando que tinha pessoa: no que ela está interessada no momento? No que está
chegado no ápice de sua carreira, e decidiu encontrar sua recom­ envolvida? O que ela realizou, ou está tentando realizar? Se algu­
pensa em outra parte. Ele passou a ficar mais tempo junto com a ma dessas opções parece digna de interesse, o próximo passo é
família, arrumou um hobby, envolveu-se em atividades comuni­ utilizar a própria experiência ou habilidade nos tópicos levanta­
tárias. Como ele não estava mais se esforçando tanto, seu com­ dos pelo outro - sem tentar tomar conta da conversa, mas desen­
portamento no trabalho começou a ficar mais relaxado, menos volvendo-a em conjunto. Uma boa conversa é como uma jam ses-
egoísta, mais objetivo. Na verdade, ele começou a agir mais sion no jazz, em que o músico começa com elementos convencio­
como um líder, cujos planos pessoais estavam subordinados ao nais e então introduz variações espontâneas que criam uma com­
bem-estar da empresa. Agora a gerência geral finalmentc ficara posição nova e empolgante.
impressionada. Esse era o tipo de pessoa de que precisavam ao Se o trabalho e os relacionamentos são capazes de oferecer
leme. Keith foi promovido logo depois que deixou sua ambição fluxo, a qualidade da vida cotidiana certamente irá melhorar. Mas
de lado. O seu caso não é nem um pouco incomum: para ter a não existem truques, nem atalhos fáceis. É necessário um com­
confiança necessária para receber uma posição de liderança, é útil promisso total para experimentar a vida totalmente, uma dedica­
levar adiante as metas dos outros, assim como as nossas. ção em que nenhuma oportunidade é deixada de lado e nenhum
Relações amigáveis no emprego são importantes, mas a potencial permanece inexplorado, para alcançar a excelência. A
qualidade de vida também depende dos inumeráveis encontros organização do se//que toma isso possível é o tópico do próximo
com as outras pessoas fora do trabalho. Isso não é tão simples capítulo.
quanto parece: toda vez que paramos para falar com alguém gas­
tamos alguma energia psíquica, e podemos ser ignorados, ridicu­
larizados ou explorados. A maioria das culturas desenvolve seus
próprios padrões peculiares para facilitar a interação social. Nos
grupos em que o parentesco é o principal princípio de organiza­
ção, pode ser que esperem que você faça brincadeiras com suas
cunhadas mas nunca fale com sua sogra. Nas sociedades hierár­
A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 115

cia autotélica para mim; mas se eu jogasse por dinheiro, ou para


alcançar um nível competitivo no meio enxadrístico, o mesmo
jogo seria principalmente exotélico, isto é, motivado por uma
meta externa. Quando aplicado a uma personalidade, autotélico
denota um indivíduo que geralmcnte faz as coisas por si mesmas,
OITO em vez de alcançar alguma meta externa posterior.
É claro que ninguém é totalmente autotélico, porque todos
A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA nós precisamos fazer determinadas coisas mesmo não gostando
delas, devido a um senso de dever ou necessidade. Mas existe
uma graduação, que vai dos indivíduos que quase nunca sentem
que o que fazem é digno de fazer por sua própria natureza, até
aqueles que pensam que tudo o que fazem é importante e valioso
por si mesmo. É a esses últimos indivíduos que o termo autotéli­
co se aplica.
Quando outros fatores estão equilibrados, uma vida repleta de Uma pessoa autotélica precisa dc poucos bens materiais e
complexas atividades de fluxo é mais digna de ser vivida do que pouco entretenimento, conforto, poder ou fama, porque o que ela
uma vida de consumo de entretenimento passivo. Nas palavras de faz já é gratificante. Como essas pessoas experimentam o fluxo
uma mulher que descreveu o que sua carreira significava para ela: no trabalho, na vida familiar, quando interagem com os outros,
“Estar totalmente absorvido no que se está fazendo e gostar tanto quando comem c até mesmo sozinhas e sem nada para fazer, são
do que se faz a ponto de não querer fazer outra coisa. E não com­ menos dependentes das recompensas externas que mantêm os
preendo como as pessoas sobrevivem sem experimentar alguma outros motivados a prosseguir com uma vida composta de rotinas
coisa assim...” 1 Ou como disse o historiador C. Vann Woodward tediosas e sem significado. Elas são mais autônomas e indepen­
de sua obra, que tenta com preender a dinâm ica do Sul dos dentes, porque não podem ser tão facilmente manipuladas com
Estados Unidos: ameaças ou recompensas externas. Ao mesmo tempo, se envol­
É algo que me interessa. É uma fonte de satisfação alcançar algo - vem mais com tudo a seu redor, porque estão totalmente imersas
que você considera importante. Sem esse tipo de consciência ou na corrente da vida.
motivação, acredito que a vida seria bastante tediosa e sem signi­ Mas como descobrir se alguém é autotélico? A melhor
ficado, e eu não gostaria de tentar esse tipo de vida. O lazer com­ maneira é observar uma pessoa durante um longo período de tem­
pleto, digamos, não ter nada para fazer que você ache que valha a po, em muitas situações diferentes. Um “teste” rápido do tipo que
pena fazer - parece-me uma situação bastante desesperadora. os psicólogos usam não é muito apropriado, em parte porque o
fluxo é uma experiência tão subjetiva que seria relativamente
Quando conseguimos enfrentar a vida com tamanho envol­
fácil para uma pessoa falsificar suas respostas. Uma entrevista ou
vimento e entusiasmo, podemos dizer que conquistamos uma
questionário prolongado pode ajudar, mas prefiro usar um instru­
personalidade autotélica.
mento de medição mais indireto. De acordo com a teoria, as pes­
soas deveríam estar cm estado de fluxo quando percebem que
“Autotélica” é uma palavra composta de dois radicais gregos: tanto os desafios em uma dada situação quanto suas capacidades
auto (relativo ao indivíduo) e telos (meta, finalidade). Uma ativi­ são elevados. Assim, uma maneira de avaliar o quanto uma pes­
dade autotélica seria realizada por si mesma, tendo a experiência soa é autotélica é computar a freqüência com que ela relata estar
como meta principal. Por exemplo, se eu jogasse xadrez princi­ em uma situação de alto desafio e alta habilidade durante uma
palmente para apreciar o jogo, então a partida seria uma experiên­ semana de mensagens por pager com o Método de Amostragem
116 A DESCOBERTA D O FLUXO A PERSO N A LID A D E A U T O TÉ LIC A 117

de Experiência. Descobrimos que existem pessoas nessa situação Figura 4.2


durante mais de 70 por cento do tempo, e outras menos de 10 por Percentagem de tempo gasto em várias atividades
cento. Deduzimos que os primeiros são mais autotélicos que os por adolescentes não-autotélicos
últimos.
Usando este método, podemos identificar o que distingue as ■ Estudo
pessoas cujas experiências são principalmentc autotélicas daque­ □ Hobbies
las que raramente experimentam esse estado. Por exemplo, em um □ Esportes
estudo dividimos um grupo de duzentos adolescentes muito talen­
■ TV
tosos em dois grupos: cinqüenta deles cuja freqüência de respos­
tas de alto desafio e alta habilidade durante a semana estava no
quartil superior (o grupo “autotélico”), e os contrastamos com cin­
qüenta que estavam no quartil inferior (o grupo “não-autotélico”).
Fizemos a seguinte pergunta: esses dois grupos de adolescentes
estão usando seu tempo de maneiras diferentes? Os contrastes
mais significativos entre os dois grupos aparecem nas Figuras 4.1
e 4.2. Cada adolescente autotélico passa em média 11 por cento do
seu tempo estudando, o que é 5 por cento a mais do que os pontos
percentuais gastos pelo outro grupo. Como cada ponto percentual
Fonte: adaptado de Adlai-G ail. 1994.
é mais ou menos equivalente a uma hora, podemos dizer que em
uma semana os adolescentes autotélicos passavam llhoras estu­
dando, c os demais utilizavam seis horas para o estudo. As outras diferenças envolviam hobbies, em que o primeiro
grupo passava cerca do dobro da quantidade de tempo (6 contra
Figura 4.1
Percentagem de tempo gasto em várias atividades 3,5 por cento) e esportes (2,5 contra 1 por cento). O contrário
por adolescentes autotélicos ocorria somente cm relação ao tempo gasto assistindo à televisão:
os não-autotélicos assistiam à televisão quase o dobro do tempo
gasto pelos autotélicos (15,2 contra 8,5 por cento). Resultados
■ Estudo muito similares e igualmente significativos foram encontrados
em um estudo posterior de uma amostragem representativa de
□ Hobbies
adolescentes americanos, em que 202 adolescentes autotélicos
□ Esportes
foram comparados a 202 adolescentes não-autotélicos. Clara­
■ TV mente, uma importante dimensão do que significa ser autotélico
está relacionada ao que a pessoa faz com seu tempo. O lazer e o
entretenimento passivo não oferecem muita oportunidade de
exercitar as próprias habilidades. O indivíduo aprende a experi­
mentar o fluxo quando se envolve em atividades mais apropria­
das para fornecê-lo, ou seja, o trabalho intelectual e o lazer ativo.
Mas será que a qualidade da experiência dos jovens autoté­
licos é melhor do que a de seus colegas? Afinal, o fato de realiza­
rem mais coisas desafiadoras é cm parte verdadeiro pela sua pró­
Fonte: Adnpmdo de A dlai-G ail. 1994. pria definição, já que definimos ser autotélico como estar fre-
118 A DESCOBERTA DO FLUXO A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 119

Figura 5.1 Figura 5.2


Qualidade da experiência durante unia semana de amostragem Qualidade da experiência durante uma semana de amostragem
ESM para 202 adolescentes autotélicos e 202 adolescentes ESM para 202 adolescentes autotélicos e 202 adolescentes
não-autotélicos quando envolvidos em atividades produtivas não-autotélicos quando envolvidos em lazer ativo

Fonte: adaptado dc llcktner. 1996. Fonte: adaptado dc Hcktncr. 1996 c B idw cll ct al. 1997. no prelo.

qüentemente em situações desafiadoras. A verdadeira questão é vidades produtivas; no entanto, eles se concentram menos c con­
sc estar cm uma situação produtora dc fluxo rcalmcntc melhora a sideram o que fazem menos importante para suas metas futuras.
experiência subjetiva. A resposta é afirmativa. Para ilustrar os As comparações entre os grupos, exceto pela felicidade, são todas
resultados, a Figura 5.1 apresenta as respostas semanais media­ estatisticamente significativas. Os jovens autotélicos se concen­
nas de dois grupos de 202 adolescentes autotélicos e 202 adoles­ tram mais, se divertem mais, possuem uma auto-estima maior e
centes não-autolclicos representativos da população dos EUA do veem o que fazem como mais relacionado a suas metas futuras.
segundo grau quando estão realizando trabalhos acadêmicos ou Tudo isso se coaduna com o que poderiamos esperar, exceto por
remunerados. O resultado mostra que, quando está envolvido em um detalhe. Por que eles não são mais felizes?
atividades produtivas, o primeiro grupo sc concentra significati­ O que descobri, depois dc décadas fazendo pesquisas com o
vamente mais, possui uma auto-estima bem maior, c considera o ESM, é que a felicidade declarada não é uma boa indicadora da
que está fazendo muito mais importante para suas metas futuras. qualidade de vida da pessoa. Algumas pessoas dizem que estão
No entanto, os dois grupos não são significalivamenle diferentes “felizes” mesmo quando não gostam de seus empregos, quando a
em lermos de satisfação ou de felicidade. vida domestica é inexistente, quando passam o tempo todo em
E a qualidade da experiência no lazer ativo? A Figura 5.2 atividades sem significado. Somos criaturas resistentes, c aparen­
mostra o padrão das diferenças. Em primeiro lugar, como pode­ temente somos capazes de evitar a tristeza quando todas as con­
riamos esperar, no lazer todos os adolescentes relatam uma felici­ dições sugerem o contrário. Se não podemos dizer que somos
dade e satisfação maiores do que quando estão envolvidos em ati­ pelo menos um pouco felizes, qual é o sentido de persistir? As
120 A DESCOBERTA DO FLUXO A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 121

pessoas autotélicas podem não ser necessariamente mais felizes, objetos mais dignos de nossa energia psíquica são nós mesmos e,
mas estão envolvidas em atividades mais complexas e se sentem em menor grau, pessoas e coisas que nos darão alguma vantagem
melhores consigo mesmas. Ter uma vida excelente pode não ser material ou emocional. O resultado é que não sobra muita atenção
o bastante para ser feliz. O que importa é ser feliz enquanto esta­ para que participemos completamente do mundo, para que fique­
mos fazendo coisas que ampliam nossas habilidades, que nos aju­ mos surpresos, para que aprendamos coisas novas, para que pos­
dam a crescer e a realizar nosso potencial. Isso é especialmente samos desenvolver a empatia e crescer além dos limites estabele­
verdadeiro na juventude: um adolescente que se sente feliz ao não cidos por nosso autoccntrismo.
fazer nada provavelmente não será um adulto feliz. As pessoas autotélicas se preocupam menos consigo mes­
Outra descoberta interessante é que o grupo autotélico pas­ mas e, portanto, possuem mais energia psíquica livre para experi­
sa uma quantidade significativamente maior de tempo interagin­ mentar a vida. Kelly, uma das adolescentes de nosso estudo que
do com a família - cerca de quatro horas por semana - em com­ geralmente relata altos desafios e altas habilidades em seus for­
paração com os outros. Isso começa a explicar por que eles apren­ mulários ESM, difere das colegas por não estar o tempo todo pen­
dem a gostar mais do que fazem. A família parece agir como um sando cm namorados, fazendo compras no shopping ou preocu­
ambiente protetor onde uma criança pode viver em relativa segu­ pada em como tirar boas notas. Em vez disso, ela é fascinada por
rança sem ter de estai autoconsciente ou se preocupar em assumir mitologia e chama a si mesma de “estudiosa céltica”. Ela traba­
uma atitude defensiva ou competitiva. A criação americana de lhava em um museu três tardes por semana ajudando a armazenar
filhos enfatizou a independência desde cedo como uma meta cen­ e classificar artefatos. Gosta até mesmo dos aspectos mais roti­
tral; quanto mais cedo os adolescentes deixavam seus pais, tanto neiros do seu trabalho, como “colocar tudo nos arquivos e coisas
emocional como fisicamente, mais cedo deveríam amadurecer. assim”, além de estar alerta para o que acontece a seu redor. Ao
Mas a maturidade precoce não é realmente uma boa idéia. mesmo tempo, ela aprecia seus amigos, com quem tem longos
Quando precisam se virar sozinhos, os jovens podem facilmente debates sobre religião e a vida depois da escola. Isso não signifi­
se tomar inseguros e defensivos. Poderiamos até afirmar, na ver­ ca que ela seja altruísta ou recatada. Seus interesses são ainda
dade, que quanto mais complexo for o mundo adulto onde preci­ expressões de sua individualidade única, mas ela parece genuina­
sam encontrar seu lugar, maior será o período de dependência de mente gostar do que faz e, pelo menos em parte, de uma maneira
que um adolescente precisará para se preparar para ele. autotélica.
Naturalmente, essa “neotenia social” só funciona se a família é Indivíduos criativos geralmente também são autotélicos, e
uma unidade relativamente complexa que oferece estímulo, bem eles muitas vezes chegam às suas descobertas porque possuem
como apoio; de nada adianta uma criança continuar dependente energia psíquica de sobra para investir em objetos aparentemente
de uma família disfuncional.2 fúteis. A neuropsicóloga Brenda Milner descreve a atitude que
tem para com o trabalho, compartilhada por outros cientistas ou
artistas de vanguarda: “Eu diria que sou imparcial em relação ao
Se existe uma qualidade que distingue os indivíduos autotélicos,
que é importante ou grande, porque cada descoberta nova, até
é sua aparentemente inesgotável energia psíquica. Embora eles
mesmo uma pequenina, é um momento empolgante de descober­
não tenham uma capacidade de atenção maior do que qualquer
ta.” A historiadora Natalie Davis explica como escolhe as ques­
outra pessoa, eles prestam mais atenção ao que acontece ao redor
tões com que trabalhará: “Bem, eu sinto uma grande curiosidade
deles, percebem mais coisas e estão dispostos a se dedicar a
por alguma questão. Ela simplesmente ‘fisga’ minha atenção por
determinadas atividades por elas mesmas sem esperar um feed-
completo... As vezes, tudo parece incrivelmente interessante...
back imediato. A maioria de nós guarda a atenção cuidadosamen­
Eu posso não saber o que investi pessoal mente nisso, além da
te. Nós só a empregamos em coisas sérias, para tarefas importan­
minha curiosidade e do meu deleite.”
tes; só nos interessamos pelo que promove nosso bem-estar. Os
O inventor Frank Offner, que depois de aperfeiçoar os moto-
122 A DESCOBERTA DO FLUXO A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 123

res de avião e as máquinas de eletroencefalograma, aos 81 anos começar uma coleção de minerais. Encontrei algumas ágatas - era
interessou-se pelo estudo da fisiologia das células capilares, dá tudo que eu podia encontrar e reconhecer no vale Willamette
um perfeito exemplo da humildade dos indivíduos autotélicos mas eu li livros de mineralogia e copiei tabelas de propriedades,
diante dos mistérios da vida, até mesmo daqueles que parecem dureza, cor do traço e outras propriedades dos minerais dos livros.
mais insignificantes: E então, quando tinha 13 anos, fiquei interessado em química.
Fiquei bastante empolgado quando percebi que os químicos
Ah, eu adoro resolver problemas. Seja a razão por que nosso lava­ podiam converter certas substâncias em outras substâncias com
dor de pratos não está funcionando, ou por que o automóvel não propriedades bastante diferentes... Os gases hidrogênio e oxigênio
está funcionando, ou como os nervos funcionam, ou qualquer coi­ formando a água. Ou o sódio e o cloreto formando o cloreto de
sa. Agora estou trabalhando com Peter para pesquisar como as sódio. Substâncias bastante diferentes dos elementos que se com­
células capilares funcionam, e ah... é tão interessante... Eu não me binaram para formar os compostos. Assim, desde então, passei
importo com o tipo de problema. Se posso resolvê-lo, é divertido. grande parte do meu tempo tentando compreender melhor a quí­
É real mente muito divertido resolver problemas, não é? Não é mica. E isso significa realmente compreender o mundo, a nature­
isso que é interessante na vida? za do universo.

Essa última citação sugere que o interesse de uma pessoa E importante observar que Pauling não era um menino pro­
autotélica não é inteiramente passivo e contemplativo. Ele tam­ dígio que assombrou os mais velhos com sua inteligência brilhan­
bém envolve uma tentativa de compreender, ou, no caso do te. Ele seguia seus interesses por conta própria, sem reconheci­
inventor, de resolver problemas. O importante é que o interesse mento e com pouco estímulo. O que o fez iniciar uma vida longa
seja desinteressado’, em outras palavras, que não esteja inteira­ e produtiva foi uma determinação de participar da maneira mais
mente a serviço de nossas próprias metas pessoais. Só teremos plena possível na vida a seu redor. Hazel Henderson, que dedicou
chance de apreender a realidade se nossa atenção conseguir se toda sua vida adulta a formar organizações para a proteção do
libertar de nossas metas e ambições. ambiente, como os Cidadãos pelo Ar Limpo, descreve vividamen-
Algumas pessoas parecem ter esse tipo de atenção abundan­ te a atitude de alegre interesse que essas pessoas compartilham:
te disponível desde cedo na vida, e a utilizaram para se perguntar
Quando eu tinha cinco anos - você sabe, quando você simples­
sobre tudo a seu redor. O inventor Jacob Rabinow viu seu primei­ mente abre os olhos, olha em volta e diz: “Uau, que viagem incrí­
ro automóvel quando tinha sete anos de idade, enquanto vivia em vel! O que diabos está acontecendo? O que eu deveria estar fazen­
uma cidade provinciana chinesa. Ele se lembra de imediatamente do aqui?” Esta pergunta esteve presente em toda a minha vida. E
ter se arrastado para debaixo do carro, para ver como as rodas eu adoro fazê-la! Eu a faço todos os dias novamente... E então,
eram movidas pelo motor e em seguida ir para casa a fim de toda manhã, quando você acorda, é como se fosse a aurora da
esculpir uma transmissão e engrenagens diferenciais na madeira. criação.
Linus Pauling descreve sua infância em lermos típicos dos indiví­
Mas nem todos são afortunados o bastante para ter tanta
duos mais criativos:
energia psíquica quanto Pauling ou Henderson. A maioria de nós
Quando eu tinha 11 anos de idade, bem, primeiro eu gostava de aprendeu a poupar nossa atenção para lidar com as exigências
ler. E li muitos livros... Quando mal tinha nove anos... já tinha lido imediatas de nossas vidas, e sobra muito pouco para que esteja­
a Bíblia e a Origem das espécies, de Darwin. E... aos 12 anos tive mos interessados na natureza do universo, no nosso lugar no cos­
um curso de história antiga no primeiro ano do ginásio, gostei de mo ou em qualquer outra coisa que não seja registrada como
ler aquele livro de história, de modo que nas primeiras semanas ganho na nossa contabilidade de metas imediatas. No entanto,
do ano eu já havia lido todo o livro e estava procurando mais sem o interesse desinteressado, a vida é desinteressante. Não há
informações sobre o mundo antigo. Aos 11 anos, comecei a cole­
espaço para o deslumbramento, a novidade, a surpresa, para a
cionar insetos e a ler livros sobre entomologia. Aos 12, tentei
transcendência dos limites impostos por nossos medos e precon-
124 A DESCOBERTA DO FLUXO A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 125

ceilos. Se o indivíduo deixou de desenvolver a curiosidade e o fio que tome nossa atenção de assalto, precisamos aprender a
interesse nos primeiros anos de vida, é uma boa idéia faze-lo ago­ concentrá-la mais ou menos de acordo com nossa vontade. Sc
ra, antes que seja tarde demais para melhorar a qualidade de sua você está interessado em alguma coisa, sua concentração aumen­
própria vida. ta, seu interesse por qualquer atividade aumentará se você se con­
Em princípio isso parece muito fácil, mas na prática se reve­ centrar nela.
la muito mais difícil. No entanto, tenho certeza de que vale a pena Muitas das coisas que consideramos interessantes não o são
tentar. O primeiro passo é desenvolver o hábito de fazer seja o por sua própria natureza, mas porque nos demos ao trabalho de
que for com a atenção concentrada, com habilidade em vez de prestar atenção nelas. Até que comecemos a colecioná-los, inse­
inércia. Até mesmo as tarefas mais rotineiras, como lavar pratos, tos e minerais não são muito agradáveis. Nem a maioria das pes­
vestir-se ou aparar a grama se tomam mais gratificantes se as soas. até que fiquemos sabendo sobre suas vidas e pensamentos.
encaramos com o cuidado que seria necessário para realizar uma Correr maratonas ou escalar montanhas, o jogo de bridge ou os
obra de arte. O passo seguinte é transferir alguma energia psíqui­ dramas de Racine são bastante tediosos, exceto para aqueles que
ca todos os dias das tarefas que não gostamos de fazer, ou do lazer investiram atenção o bastante para perceber sua intrincada com­
passivo, para alguma coisa que nunca fizemos antes, ou algo que plexidade. A medida que nos concentramos em qualquer segmen­
gostamos de fazer mas que não fazemos com muita freqüência to da realidade, uma gama potcnuialmente infinita de oportunida­
porque parece muito trabalhoso. Existem literalmente milhões de des para a ação - física, mental e emocional - é revelada para que
coisas interessantes no mundo para ver, para fazer, para aprender. nossas habilidades sejam utilizadas. Nunca há uma boa desculpa
Mas elas não se tomam realmente interessantes até que devote­ para estar entediado.
mos atenção a elas. Controlar a atenção significa controlar a experiência e, por­
Muitas pessoas dirão que esse conselho é inútil, porque já tanto, a qualidade de vida.3 A informação só chega à consciência
possuem tantas exigências em relação a seu tempo que não quando prestamos atenção nela. A atenção age como um filtro
podem absolutamente se dar ao luxo de fazer nada de novo ou entre os eventos externos e a experiência que temos deles. A
interessante. O estresse relacionado ao tempo tomou-se uma das quantidade de estresse que experimentamos depende mais do
queixas mais populares de nossa época. Só que muitas vezes ele nível de controle que temos sobre a atenção do que aquilo que
é uma desculpa para não assumirmos o controle sobre nossas realmente acontece conosco. O efeito da dor física, da perda de
vidas. Quantas das coisas que fazemos todos os dias são realmen­ dinheiro, de uma desfeita social depende de quanta atenção
te necessárias? Quantas das exigências poderíam ser reduzidas se demos a ele, o quanto de espaço lhe concedemos na consciência.
colocássemos alguma energia na priorização, na organização c no Quanto mais energia psíquica investimos em um evento doloro­
aperfeiçoamento das rotinas que agora dispersam nossa atenção? so, mais real ele se toma e mais entropia produz na nossa cons­
É verdade que, se deixarmos o tempo escorrer por nossos dedos, ciência. Negar, reprimir ou interpretar erroneamente também não
f
logo não teremos mais tempo algum sobrando. É preciso saber é uma solução, porque a informação continuará fervilhando nos
como cultivá-lo cuidadosamente, de modo não tanto a alcançar a recessos da alma, drenando energia psíquica para impedir sua dis­
seminação. É melhor encarar o sofrimento de maneira direta e
riqueza e a segurança em algum futuro distante, mas para apreciar
franca, reconhecendo e respeitando sua presença, e então se ocu­
a vida aqui e agora.
par o mais rápido possível com as coisas em que nós escolhemos
nos concentrar.
O tempo é o que precisamos encontrar para desenvolver o inte­ Em um estudo de pessoas que sofreram grave invalidez
resse e a curiosidade para apreciar a vida por si mesma. Outro devido a doença ou acidentes - ficando cegas ou paraplégicas
recurso igualmente importante é a capacidade de controlar a ener­ o professor Fausto Massimini e sua equipe descobriram que
gia psíquica. Em vez de esperar por um estímulo externo ou desa­ várias delas tinham se adaptado de maneira admirável à sua tra-
126 A DESCOBERTA DO FLUXO A PERSONALIDADE AUTOTÉLICA 127

gédia, e que alegavam que suas vidas tinham melhorado devido à conscientes, ou quais informações alcançarão nossa consciência.
sua deficiência.4 O que distinguia esses indivíduos era que eles Como resultado, nossas vidas não são nossas de qualquer manei­
tinham decidido dominar suas limitações ao impor à sua energia ra significativa; a maioria de nós experimenta aquilo que foi pro­
psíquica uma disciplina sem precedentes. Eles aprenderam a gramado para nós. Aprendemos o que supostamente vale a pena
obter fluxo de habilidades simples como vestir-se, caminhar ao ser visto, e o que não vale; o que devemos recordar e o que deve­
redor da casa e dirigir um carro. Aqueles que se saíram melhor mos esquecer; o que sentimos quando vemos um morcego, uma
foram muito além de simplesmente cuidar das tarefas básicas da bandeira, ou uma pessoa que adora a Deus com ritos diferentes;
vida. Um deles se tomou instrutor de natação, outros se tomaram aprendemos aquilo pelo que supostamente vale a pena morrer e
contadores, viajaram para jogar em torneios internacionais de viver. Com o passar dos anos, nossa experiência seguirá o roteiro
xadrez e encontros de natação ou se tomaram campeões de arco e escrito pela biologia e pela cultura. A única maneira de tomar
flecha em cadeiras de rodas. posse da vida é aprender a coordenar a energia psíquica e a nossa
A mesma capacidade de transformar uma situação trágica vontade.
em uma situação pelo menos tolerável é mostrada por vítimas de
terroristas que sobrevivem ao confinamento solitário ou por pri­
sioneiros de campos de concentração. Em tais condições, o
ambiente externo, “real”, é tão árido e desumanizador que induz
ao desespero para a maioria das pessoas. Aqueles que sobrevi­
vem conseguem ignorar seletivamente as condições externas e
redirecionar sua atenção para uma vida interior que só é real para
eles mesmos. É mais fácil fazê-lo se você conhece poesia, mate­
mática ou algum outro sistema de símbolos que permita que você
se concentre e faça um trabalho intelectual sem qualquer apoio
visual ou material.
Esses exemplos sugerem que é preciso aprender a controlar
a atenção. A princípio, qualquer habilidade ou disciplina que a
pessoa possa dominar por sua própria vontade servirá; meditação
e oração, caso esta seja sua inclinação; exercícios, ginástica aeró-
bica, artes marciais para aqueles que preferem a concentração em
habilidades físicas. Qualquer especialização ou maestria que o
indivíduo considere agradável e em que possa melhorar seu pró­
prio conhecimento com o tempo. O mais importante, contudo, é a
atitude para com essas disciplinas. Se a pessoa reza para tomar-se
virtuosa, ou se exercita para desenvolver músculos peitorais for­
tes, ou aprende para acumular conhecimento, então grande parte
do benefício é perdida. O que realmente importa é apreciar a ativi­
dade por ela mesma, e saber que o que vale não é o resultado, mas
o controle que a pessoa está adquirindo sobre a própria atenção.
Geralmente, a atenção é direcionada por instruções genéti­
cas, convenções sociais e hábitos que aprendemos na infância.
Portanto, não somos nós que decidimos do que nos tomamos
O AMOR AO DESTINO 129

vida, de que o destaque dado anteriormente à educação de crian­


ças para que fossem individualistas sem peias tenha sido real­
mente uma boa idéia. Ele agora acredita que é pelo menos tão
essencial para elas aprender a trabalhar pelo bem comum, e apre­
ciar a religião, arte e os outros aspectos inefáveis da vida.
NOVE Na verdade, os sinais de alerta de que ficamos apaixonados
demais por nós mesmos são muitos. Um exemplo é a incapacida­
de das pessoas de firmar compromissos, que fez com que metade
O AMOR A O DESTINO da população urbana nos países desenvolvidos passasse sua vida
sozinha, e na dissolução de uma enorme proporção de casamen­
tos. Outro exemplo é a crescente desilusão que as pessoas rela­
tam, em uma pesquisa após a outra, com a maioria das institui­
ções em que confiavam anteriormente e com os indivíduos que as
lideram.
Quer gostemos disso ou não, nossas vidas deixarão uma marca no Cada vez mais, parecemos enterrar nossas cabeças na areia
universo. O nascimento de cada pessoa produz ondas que alcan­ e evitar escutar as más notícias, nos recolhendo em comunidades
çam o ambiente social; pais, irmãos, parentes e amigos são afeta­ cercadas por muros e protegidas por armas. Mas uma boa vida
dos por este evento e à medida que crescemos nossas ações dei­ pessoal é impossível se ignoramos uma sociedade comipta, como
xam milhares de consequências, algumas planejadas c outras não. Sócrates sabia e aqueles que viveram sob recentes ditaduras des­
Nossas decisões de consumo fazem uma minúscula diferença na cobriram. Seria muito mais fácil se fôssemos responsáveis apenas
economia, decisões políticas afetam o futuro da comunidade e por nós mesmos. Infelizmente, as coisas não funcionam desta
cada ato generoso ou mesquinho modifica ligeiramente a quali­ maneira. Uma responsabilidade ativa pelo resto da humanidade, e
dade total do bem-estar humano. As pessoas cujas vidas são auto- pelo mundo do qual fazemos parte, é um ingrediente necessário
para uma boa vida.1
télicas ajudam a reduzir a entropia na consciência daqueles com
quem entram em contato; aqueles que dedicam toda a sua energia O verdadeiro desafio, contudo, é reduzir a entropia ao nosso
psíquica a competir por recursos e a engrandecer sua própria per­ redor sem aumentá-la em nossa consciência. Os budistas dão um
bom conselho quanto ao modo como isso pode ser feito: “Aja
sonalidade aumentam o total de entropia.
sempre como se o futuro do universo dependesse daquilo que
Não é possível que uma pessoa leve uma vida realmentc
você faz, enquanto ri de si mesmo por pensar que o que quer que
excelente sem sentir que pertence a algo maior e mais permanen­
você faça fará realmente alguma diferença.” E essa brincadeira
te do que ela mesma. Esta é uma conclusão comum a todas as
séria, essa combinação de preocupação e humildade, que torna
várias religiões que deram significado às vidas das pessoas duran­
possível estar envolvido e despreocupado ao mesmo tempo. Com
te as longas eras da história humana. Hoje em dia, ainda atordoa­
essa atitude não é necessário vencer para sentir-se contente; aju­
dos pelos grandes avanços trazidos pela ciência e tecnologia, cor­
dar a manter a ordem no universo se toma sua própria recompen­
remos o risco de esquecer essa compreensão. Nos Estados Unidos
sa. independentemente das conseqüências. Desse modo é possí­
e em outras sociedades tecnologicamente avançadas, o individua­
vel encontrar a alegria mesmo quando travamos uma batalha per­
lismo e o materialismo prevaleceram quase que completamente dida por uma boa causa.
sobre a lealdade à comunidade e aos valores espirituais.
É um fato significativo que o Dr. Benjamin Spock, cujos
conselhos sobre a criação dos filhos foram tão importantes para Um primeiro passo para sair deste impasse é ter uma compreen­
pelo menos duas gerações de pais, tenha duvidado, no final de sua são mais clara de nosso self - a imagem que cada pessoa desen-
130 A DESCOBERTA DO FLUXO O AMOR A O DESTINO 131

volve de si mesma.2 Nào poderiamos ir muito longe sem um self sobre nossos atos, e vai murchar e morrer. Mas não há maneira de
Mas a desvantagem da auto-imagem é que, assim que ela emerge eliminar completamente o ego e ainda assim sobreviver. A única
no início da infância, começa a controlar o resto da consciência. alternativa viável é seguir um curso menos radical, e nos certifi­
Como nos identificamos com ele, acreditando que seja a essência car de que conhecemos nosso self e compreendemos suas pecu­
central do nosso ser, o se lf cada vez mais parece ser não só o liaridades. Então é possível separar as necessidades que real men­
aspecto mais importante da consciência como também - pelo te nos ajudam a navegar pela vida dos cancros malignos que nas­
menos para algumas pessoas - o único que merece atenção. O cem delas e que tomam nossas vidas infelizes.
perigo é que toda a energia psíquica do indivíduo pode ser dire­ Quando perguntaram ao romancista Richard Slem qual era o
cionada para a satisfação das necessidades dessa entidade imagi­ obstáculo mais difícil a ser vencido em sua carreira, ele respondeu:
nária que nós mesmos criamos. Isso podería não ser tão ruim, se
o self que trouxéssemos ao mundo fosse uma entidade razoável. Acho que é a parte desprezível de mim mesmo, aquela parte que
é descrita por palavras como vaidade, orgulho, a sensação de nào
Mas as crianças que sofrem maus-tratos podem crescer cons­
estar recebendo o tratamento que deveria, a comparação com os
truindo uma imagem desesperançada, ou vingativa, de s e lf as
outros e assim por diante. Tentei vigoresamente disciplinar esse
crianças que são mimadas sem ser amadas podem desenvolver lado. E tive a sorte de encontrar o bastante do que é positivo para
selves narcisistas. Um self pode inflar até se tomar insaciável, ou combater o caráter belicoso e o ressentimento... que vi paralisar
ter uma idéia completamente exagerada da sua importância. As colegas meus, colegas mais talentosos do que eu. Eu senti essas
pessoas que possuem um self com essas distorções serão compe­ coisas dentro de mim. E tive de aprender a combatê-las.
lidas a satisfazer suas necessidades. Se pensarem que precisam de Eu diria que o maior obstáculo é - a própria pessoa.
mais poder, ou de mais dinheiro, ou amor, ou aventura, farão tudo
para satisfazer essa necessidade, mesmo indo além do que é bom Para cada um de nós, o maior obstáculo para uma boa vida é
para elas a longo prazo. Nesses casos a energia psíquica de uma nossa própria individualidade. No entanto, se pudermos aprender
pessoa, direcionada por um ego equivocado, provavelmente pro­ a viver com isso e, como Ulisses, encontrar uma maneira de resis­
vocará entropia no ambiente, assim como dentro da própria cons­ ti r ao canto das sereias das suas necessidades, o self pode se tor­
nar um amigo, um ajudante, uma rocha que servirá de fundamen­
ciência.
Como não possui um senso de se lf um animal se esforçará to para uma vida plena. Stem prossegue e descreve como, sendo
até que suas necessidades biológicas sejam satisfeitas, mas não um escritor, ele pode domar o ego impulsivo e obrigá-lo a reali­
muito além. Ele atacará uma presa, defenderá seu território, luta­ zar trabalhos criativos:
rá por uma companheira, mas quando esses imperativos forem Naturalmente, existem coisas dentro de mim... que sei que são
resolvidos, ele descansará. No entanto, se um homem desenvolve más, mesquinhas, perversas, fracas, isso, aquilo. Eu posso retirar
uma auto-imagem baseada no poder, na riqueza, não existem força deste fato... Posso transformá-las. Elas são fontes de força.
limites para seus esforços. Ele vai buscar a meta estabelecida pelo E, como disse antes, o escritor aproveita essas características, elas
self sem descanso, mesmo que tenha de arruinar seu self no pro­ são o seu material.
cesso, mesmo que tenha de destruir outras pessoas que cruzem
Não é preciso ser um artista para transformar as “partes des­
seu caminho.
Assim, não é de surpreender que tantas religiões tenham prezíveis” do self em uma compreensão mais profunda da nature­
colocado sobre o ego a culpa de ser a causa de todas as infelicida- za humana. Todos nós temos a oportunidade de usar a ambição, a
necessidade de sermos amados - ou até mesmo a agressividade -
des humanas. O conselho radical é neutralizar o ego, não permi­
de maneiras construtivas, sem sermos carregados por elas. Uma
tindo que ele dite desejos. Se nos recusarmos a escutar nossas
necessidades, desistindo de comida, sexo e todas as vaidades vez que tenhamos percebido quais são nossos demônios, não pre­
pelas quais os homens lutam, o ego não terá qualquer influência cisamos mais ter medo deles. Em vez de levá-los a sério, pode-
132 A DESCOBERTA DO FLUXO O AMOR A O DESTINO 133

mos sorrir com compaixão diante da arrogância desses frutos de Além disso, o hábito de introspecção que nossa sociedade
nossa imaginação. Não precisamos alimentar sua fome voraz, narcisista encoraja na verdade pode tomar as coisas piores. A
exceto de acordo com nossa própria vontade, quando ao fazer pesquisa ESM mostra que, quando as pessoas pensam sobre si
isso obtemos ajuda para alcançar alguma coisa digna. mesmas, seu humor geralmente se toma negativo. Quando uma
Naturalmente, isso é mais fácil de falar do que fazer. Desde pessoa começa a refletir sem ter habilidade para isso, os primei­
a época em que o oráculo de Delfos começou a dar o sensato con­ ros pensamentos que vêm à mente costumam ser deprimentes.
selho “Conhece-te a ti mesmo”, há cerca de três mil anos, as pes­ Enquanto no fluxo nos esquecemos de nós mesmos, na apatia, na
soas que pensaram sobre esses assuntos concordaram que é pre­ preocupação e no tédio, o self costuma estar no centro do palco.
ciso primeiro conhecer e depois dominar o ego antes de embarcar Assim, a menos que a pessoa tenha dominado a capacidade de
em uma boa vida. No entanto, realizamos muito pouco progresso reflexão, a prática de “pensar em problemas” geralmente piora o
na direção do autoconhecimento. É muito comum que aqueles
que está errado em vez de aliviar as dificuldades.
que exortam a virtude do altruísmo de maneira mais ruidosa A maioria das pessoas só pensa sobre si mesma quando as
sejam os que acabam sendo movidos pela cobiça c pela ambição.
coisas não estão indo bem, e assim elas entram em um círculo
No século XX, o projeto do autoconhecimento foi identifi­
vicioso em que a ansiedade presente caracteriza o passado, fazen­
cado com maior intensidade com a análise freudiana. Formada
do com que as memórias dolorosas, por sua vez, tomem o presen­
pelo ceticismo radical dos anos entre as duas guerras mundiais, a
te ainda mais sombrio. Uma maneira de romper esse círculo é
psicanálise estabeleceu suas metas de maneira modesta: ela ofe­
desenvolver o hábito de refletir sobre a própria vida quando há
recia autoconhecimento sem aspirar a dizer a ninguém o que
um bom motivo para sentir-se bem quanto a ela, quando estamos
deveria fazer com ele uma vez que fosse conquistado. E a com­
num humor otimista. Mas é ainda melhor investir energia psíqui­
preensão que ela oferecia, por mais profunda que fosse, também
ca em metas e relacionamentos que tragam indiretamente harmo­
era bastante limitada, só revelando algumas das armadilhas nas
nia para o self. Depois de experimentar o fluxo em uma interação
quais o ego costuma cair - os tumores malignos que resultam de
tentar lidar com o triângulo familiar e com a subseqüente repres­ complexa, o retomo é concreto e objetivo, e nos sentimos melho­
são da sexualidade. Por mais importante que tenha sido essa com­ res quanto a nós mesmos sem ao menos precisar tentar.
preensão, ela teve o resultado infeliz de oferecer uma falsa sensa­ Para que experimentemos o fluxo, é útil ter metas claras -
ção de segurança para pessoas que acreditavam que, ao exorcizar não porque seja importante alcançar metas, mas porque, sem uma
algum trauma infantil, poderíam viver felizes para sempre. O se lf meta, é difícil se concentrar e evitar distrações. Assim, uma alpi­
infelizmente, é mais astucioso e complicado do que isso. nista estabelece como meta chegar no topo não porque tenha
A psicoterapia se apóia principalmente na recordação e na algum profundo desejo de alcançá-lo, mas porque a meta toma a
posterior partilha de experiências passadas com um analista capa­ experiência da escalada possível. Se não fosse pelo topo, a esca­
citado para isso. Este processo de reflexão orientada pode ser lada seria um percurso sem significado, que deixaria o indivíduo
muito útil, e em sua forma não difere muito da injunção do orácu­ intranqüilo e apáticc.
lo de Delfos. A dificuldade aparece quando a popularidade dessa Existem muitos indícios mostrando que, mesmo que a pes­
forma de terapia leva as pessoas a acreditarem que, por meio da soa não experimente o fluxo, o simples fato de fazer algo que se
introspecção e da dissecação do seu passado, poderão resolver coadune com nossas metas melhora o estado da mente. Por exem­
seus problemas. Isso geralmente não funciona, porque as lentes plo, estar com amigos costuma elevar nosso humor, especialmen­
através das quais olhamos para o passado são distorcidas precisa­ te se percebemos que interagir com amigos é o que desejamos no
mente pelo tipo de problemas que queremos resolver. É preciso momento; mas quando sentimos que deveriamos estar trabalhan­
um terapeuta hábil, ou muita prática, para que possamos nos do, então o tempo que passamos com os mesmos amigos é muito
beneficiar da reflexão. menos positivo. Por outro lado, até mesmo um trabalho de que
134 A DESCOBERTA DO FLUXO O AMOR A O DESTINO 135

não gostamos faz com que nos sintamos melhor se conseguimos cimento resultava em experiências de pico realizadoras. Estas
vê-lo como parte das nossas metas. envolviam uma coerência entre o self e o ambiente e ele se refe­
Essas descobertas sugerem que uma maneira simples de ria a isto como a harmonia entre a “necessidade interna” e a
melhorar a qualidade de vida é tomar posse de nossas próprias “necessidade externa”, ou entre “eu quero” e “eu devo”. Quando
ações. Uma boa parte do que fazemos (cerca de dois terços, em isso acontece, “a pessoa abraça livre e alegremente, e de todo
média) são coisas que fazemos porque acreditamos que precisa­ coração, os seus próprios determinantes; ela escolhe e deseja seu
mos fazer, ou que fazemos porque não estamos com vontade de próprio destino”.
fazer qualquer outra coisa. Muitas pessoas passam suas vidas O psicólogo Carl Rogers também endossava uma perspecti­
inteiras sentindo-se como marionetes que só se movem porque va bastante similar. Ele comentou sobre o que chamava de pessoa
seus cordões foram puxados. Sob essas condições, provavelmente completamente funcional: “Ela decide ou escolhe seguir o curso
pensaremos que nossa energia psíquica foi desperdiçada. Assim, de ação que é o vetor mais econômico em relação a todos os estí­
pergunta-se, por que não queremos fazer mais coisas? O próprio mulos internos e externos, porque esse é o comportamento mais
ato de querer focaliza nossa atenção, estabelece a prioridade na profundamente satisfatório.” Como resultado, ele continua: “A
consciência e assim cria uma sensação de harmonia interior. pessoa completamente funcional... não só experimenta, mas utili­
Existem muitas coisas na vida que precisamos fazer e de que za a mais absoluta liberdade quando espontânea, livre e volunta­
não gostamos. Pode ser participar de reuniões, levar o lixo para riamente escolhe e decide aquilo que é absolutamente determina­
fora ou organizar as contas do mês. Algumas delas são inevitá­ do”. Assim, como em Nietzsche e Maslow, o amor ao destino
veis; por mais engenhosos que sejamos, ainda assim precisare­ corresponde a uma disposição de aceitar a responsabilidade pelas
mos fazê-las. Portanto, as opções são fazê-las de modo contraria­ próprias ações, sejam elas espontâneas ou impostas pelo mundo
do, reclamando quanto à sua imposição, ou fazê-las de boa von­ externo. É essa aceitação que leva ao crescimento pessoal, e que
tade. Em ambos os casos, estamos presos à atividade, mas no oferece o sentimento de serena satisfação, capaz de remover o
segundo caso a experiência certamente será mais positiva. É pos­ fardo da entropia da vida cotidiana.
sível estabelecer metas até mesmo para a tarefa mais desprezada:
por exemplo, cortar a grama da maneira mais rápida e eficiente
A qualidade de vida melhora muito se aprendemos a amar o que
possível. O próprio ato de estabelecer uma meta anula grande
temos - nesse detalhe, Nietzsche e companhia estavam absoluta­
parte da dificuldade de uma tarefa.
s Essa atitude para com nossas próprias escolhas é bem
mente certos. Mas, em retrospecto, podemos começar a ver as
limitações da “psicologia humanista” da qual Maslow e Rogers
expressa no conceito do amor fa li - ou amor ao destino - , um
foram líderes de enorme destaque. Nos dias gloriosos da metade
conceito central na filosofia de Nietzsche.3 Por exemplo, ao dis­
do século XX, quando a prosperidade reinava e a paz acenava do
cutir o que é necessário para viver plenamente, ele escreve:
outro lado da esquina, fazia sentido acreditar que a realização
“Minha fórmula para a grandeza em um ser humano é o amor
pessoal só podería levar a resultados positivos. Não havia neces­
fati: que o indivíduo não queira ser diferente, nem no futuro, nem
sidade, nessa época, de fazer comparações invejosas sobre
no passado, nem em toda a eternidade... Não apenas suportar o
maneiras de auto-realização, de questionar se um conjunto de
que é necessário... mas amá-lo.” E: “Quero aprender cada vez
metas era melhor que outro - o que importava era fazer o que se
mais a ver a beleza do que é necessário nas coisas; então serei um
queria. A neblina otimista aparava todas as arestas, e nos permi­
daqueles que tomam as coisas belas.”
timos acreditar que o único mal vinha de não realizar o próprio
Os estudos de Abraham Maslow o levaram a conclusões
potencial.
similares. Baseado em suas observações clínicas e entrevistas
O problema é que as pessoas também aprendem a amar coi­
com indivíduos responsáveis por suas realizações, incluindo
sas destrutivas para elas c para os outros. Adolescentes presos por
artistas criativos e cientistas, ele concluiu que o processo de cres­ /
136 A DESCOBERTA DO FLUXO O AMOR A O DESTINO 137

vandalismo ou roubo muitas vezes não possuem outra motivação recer um cenário para o que acontece com aqueles que só agem
exceto a excitação que experimentam ao roubar um carro ou de acordo com interesses pessoais - como por exemplo reencar-
invadir uma casa. Veteranos de guerra dizem que nunca sentiram nar cm uma forma de vida inferior, ou ser esquecido, ou ir para o
um fluxo tão intenso como quando estavam atrás de uma metra­ inferno.
lhadora nas frentes de batalha. Quando o físico Robert J. Um dos principais desafios de nosso tempo é descobrir
Oppenheimer estava desenvolvendo a bomba atômica, ele escre­ novas bases para metas transcendentes que correspondam a todo
veu com uma paixão lírica sobre o “doce problema” que estava o resto que sabemos sobre o mundo. Um novo mito para dar sig­
tentando resolver.4 Segundo todos os relatos, Adolph Eichmann nificado à vida, se preferir chamar assim, mas um que nos sirva
adorava trabalhar nos problemas logísticos envolvidos no trans­ no presente e no futuro próximo - assim como os mitos anterio­
porte de judeus para os campos de extermínio. A implicação res ajudaram nossos ancestrais a encontrar sentido em sua exis­
moral desses exemplos é obviamente diversa, mas eles provam tência, apoiando-se nas imagens, metáforas e fatos conhecidos
que gostar do que se faz não é motivo suficiente para fazê-lo. por eles. Mas assim como os elementos dos mitos passados eram
O fluxo é uma fonte de energia psíquica que concentra a considerados verdadeiros por aqueles que os usavam, também
atenção c motiva a ação. Como outras formas de energia, ele é precisamos acreditar na verdade dessa nova Providência.
neutro - pode ser usado para finalidades constnitivas ou destruti­ No passado, eram os profetas que declaravam os mitos que
vas. O fogo pode ser usado para nos aquecer em uma noite gela­ davam poder às crenças da comunidade. Utilizando imagens
da ou para incendiar a casa. O mesmo é verdade quanto à eletri­ familiares, eles davam a entender que um ser supremo estava
cidade ou à energia nuclear. Tomar a energia disponível para o falando por intermédio deles para dizer às pessoas como deve­
uso humano é uma realização importante, mas aprender a usá-la ríam se comportar e como era o mundo além dos nossos sentidos.
bem é pelo menos igualmente essencial. Assim, para criar uma Ainda podem existir profetas alegando saber essas coisas, mas é
boa vida, não basta lutar por metas que nos trazem prazer, mas menos provável que alguém acredite neles. Uma conseqüência de
também escolher metas que reduzirão a soma total de entropia no depender da ciência para resolver problemas m ateriais e da
mundo. democracia para resolver conflitos políticos é que aprendemos a
Então, onde é possível encontrar essas metas? A tarefa das desconfiar da visão de um único indivíduo, por mais inspirada
religiões é definir as implicações da entropia nos assuntos huma­ que ela seja. Naturalmente, o “culto à personalidade” ainda está
nos. Ela foi chamada de “pecado”, e consistia no comportamento bastante vivo, só que mais abrandado por um saudável ceticismo.
que prejudicava o indivíduo, a comunidade ou seus valores. Uma revelação convincente precisava ter aquele elemento con­
Todas as sociedades que sobreviveram precisaram definir metas sensual que passamos a esperar da verdade científica e da tomada
positivas para direcionar a energia do seu povo; para tomá-las efi­ de decisões democrática.
cazes, criaram seres sobrenaturais que comunicavam as regras de Em vez de esperar por profetas, podemos descobrir os pila­
comportamento certo e errado por meio de visões, aparições e res sobre os quais construir uma boa vida a partir do conhecimen­
textos ditados para indivíduos especiais, como Moisés, Maomé to que cientistas e outros pensadores estão lentamente acumulan­
ou Joseph Smith (o fundador da Igreja Mórmon). Essas metas não do. Existem pistas suficientes sobre o modo como o universo fun­
poderíam ser explicadas em termos das nossas vidas aqui e ago­ ciona para sabermos que tipos de ações apóiam o aumento de
ra, porque se os únicos efeitos das nossas ações fossem os que complexidade e ordem, e que tipo leva à destruição. Estamos
observamos nesta vida, o bom senso ditaria que devemos conse­ redescobrindo o modo como todas as formas de vida dependem
guir o máximo de prazer e vantagens materiais que pudermos, umas das outras c do meio ambiente; quão precisamente cada
mesmo que para tanto precisemos ser impiedosos. No entanto, ação produz uma reação equivalente; como é difícil criar ordem e
uma comunidade seria destruída se todo mundo fosse motivado energia útil, e como é fácil desperdiçá-la em desordem. Aprende­
por puro egoísmo; desse modo, todas as religiões precisaram ofe­ mos que as consequências das ações podem não ser visíveis ime-
138 A DESCOBERTA D O FLUXO O AMOR A O DESTINO 139

diatamente, mas podem ter efeitos futuros, porque tudo o que rança a vários cientistas de que o universo não é regido pelo caos,
existe faz parte de um sistema interconectado. Grande parte disso mas que oculta uma história significativa. Um dos primeiros a
já foi dito, de uma maneira ou de outra, nas religiões dos índios expressar essa conexão foi o paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard
das planícies norte-americanas, dos budistas, dos zoroastristas e de Chardin, cujo Fenômeno humano deu uma descrição lírica -
em inumeráveis outras crenças baseadas em cuidadosa observa­ talvez excessivamente lírica - da evolução da poeira atômica há
ção da vida. A contribuição da ciência contemporânea é uma bilhões de anos até a unificação da mente e do espírito no que ele
expressão sistemática desses fatos em uma linguagem que tem chama de Ponto Omega, o seu equivalente para o conceito tradi­
autoridade em nossa época. cional de almas se unindo ao ser supremo no céu.
Mas também existem outros insights latentes, e talvez mais A maioria dos cientistas zombou da visão de Teilhard, mas
estimulantes, na ciência moderna. Por exemplo, as implicações alguns dos mais ousados - como C. H. Waddington, Julian Huxley
da relatividade podem sugerir uma maneira de reconciliar as e Theodosius Dobzhansky - a levaram muito a sério. De uma for­
crenças monoteístas que foram bem-sucedidas nos últimos dois ma ou de outra, a complexidade evolutiva tem a constituição de
milênios e as formas poli teístas fragmentadas e idiossincrásicas um mito sólido o bastante para que se acredite nele. Por exemplo,
que foram por elas substituídas. O politeísmo tinha a desvanta­ Jonas Salk, o inventor da vacina contra a pólio - que se considera­
gem de, quando as pessoas realniente acreditavam na existência va um artista e humanista tanto quanto cientista - , passou os últi­
de espíritos, demiurgos, demônios e deuses distintos, cada um mos anos de sua vida lutando para compreender como a vida pas­
com seu próprio caráter e esfera de autoridade, causar muita con­ sada pode conter as chaves para o futuro. Em suas palavras:
fusão e dissipação da atenção entre as entidades espirituais con­ Continuei a me interessar por algumas... das questões mais funda­
correntes. A postulação de um Deus único, fosse ela da parte dos mentais. sobre a própria criatividade... Considero-nos o produto
israelitas, dos cristãos ou dos muçulmanos, reordenou a cons­ do processo de evolução, eu diría de uma evolução criativa. Ago­
ciência dos crentes, liberando uma imensa quantidade de energia ra precisamos nos transformar no próprio processo, ou em parte
psíquica, que varreu as outras crenças. No entanto, a grande des­ do próprio processo. Assim, a partir dessa perspectiva, eu me inte­
vantagem do monoteísmo é que, ao especificar um único ser ressei pela evolução humana, pelo fenômeno da evolução em si
supremo, ele tendia a se desenvolver sob um rígido dogmatismo. mesmo manifestado no que eu chamo de evolução pré-biológica;
O que a relatividade e as descobertas mais recentes sobre as e a evolução metabiológica da mente-cérebro. E agora estou
começando a escrever sobre o que chamo de evolução teleológi-
geometrias fractais podem sugerir é que a mesma realidade pode
ca, que é a evolução com uma finalidade. Assim, a minha meta
ser distribuída em pacotes diferentes, por assim dizer, e que,
agora, como podería ser dito, é tentar compreender a evolução, a
dependendo da perspectiva do espectador, do ângulo de visão, do criatividade, de uma maneira significativa.
contexto temporal e da escala de observação, o indivíduo pode
ver retratos diferentes da mesma verdade subjacente. Assim, não É cedo demais para ver claramente o que está além desses
há necessidade de considerar visões e insights diferentes das novos horizontes que estão se abrindo. Mas os escritores e cien­
crenças que aprendemos na infância como heréticas, pois sabe­ tistas estão começando a construir juntos a visão que pode levar
mos que essas são manifestações localmente válidas e temporá­ ao futuro. Alguns desses esforços parecem tão fantasiosos que
rias de um único processo subjacente de enorme complexidade. ainda pertencem ao reino da imaginação. Por exem plo, Ma-
Muitos dos elementos pertinentes convergem em tomo do deleine L’Engle elaborou, em seus livros para crianças, tramas
processo de evolução.5 Ironicamente, embora as observações de em que os eventos nas células do corpo são comparados a lutas
Darwin fossem vistas justamente como uma ameaça à religião históricas entre personagens humanos, que por sua vez refletem
cristã fundamentalista, a idéia de que, com a passagem de perío­ conflitos cósmicos entre seres sobrenaturais. E ela está perfeita-
dos muito longos de tempo, os sistemas ecológicos e a estrutura mente consciente de que a ficção científica que escreve tem con­
dos organismos tendem a uma complexidade crescente deu espe­ sequências éticas. A:é mesmo quando as personagens no livro
140 A DESCOBERTA DO FLUXO O AMOR A O DESTINO 141

sofrem e estão prestes a ser tragadas pelas forças do mal, ela acre­ forças cósmicas - por exemplo, alegando que Deus nos criou à
dita que: “É preciso tirá-las dali, levá-los para algum tipo de espe­ Sua imagem, tomando possível que centenas de pintores cristãos
rança. Eu não gosto de livros desalentados, livros que fazem você O representassem como um velho patriarca benevolente. E, o que
pensar ‘ah, a vida não merece ser vivida’. Eu quero fazer com que talvez seja mais importante, elas dão à vida de cada indivíduo
eles pensem, sim, esse esforço é árduo, mas vale a pena, no fun­ uma dignidade e a promessa da eternidade. É realmente difícil
do é cheio de alegria.” igualar esse ato. O processo de evolução, como é compreendido
John Archibald Wheeler, um dos físicos mais renomados do agora, trabalha estatisticamente sobre grandes números, e não
século XX, passa seu tempo se perguntando como exercemos um tem nada a dizer para os indivíduos; é levado pelo determinismo
papel vital em trazer para a realidade o mundo material que pare­ unido com o acaso, em vez da finalidade e do livre-arbítrio. Sim,
ce existir objetivamente fora e distinto de nós. Benjamin Spock, ele parece uma doutrina árida, sem possibilidade de inspirar
o eminente pediatra, está tentando redefinir a espiritualidade em alguém a organizar sua vida.
relação ao que faz sentido para nossos tempos. E também existem No entanto, as descobertas da ciência podem trazer uma
aqueles que, como o economista e ativista Hazel Henderson, ado­ mensagem de esperança para cada um de nós. Em primeiro lugar,
taram uma filosofia pessoal livre em que a sua identidade é vista elas estão nos tomando cada vez mais conscientes de como cada
como uma encarnação momentânea da corrente contínua da vida: pessoa é única. Não só a maneira particular como os ingredientes
do código genético foram combinados, fornecendo instruções
De certa forma me sinto um extraterrestre. Estou aqui em visita,
temporariamente. E também tenho uma forma humana. Sou mui­ para o desenvolvimento de traços físicos e mentais sem preceden­
to apegado emocionalmente a essa espécie. Mas também possuo tes, mas também únicos no tempo e no espaço em que esse orga­
um aspecto infinito dentro de mim. Tudo isso se relaciona de uma nismo específico foi colocado para encontrar a vida. Como um
maneira bastante fácil para mim. Pode parecer brincadeira, mas o indivíduo se toma único dentro de um contexto físico, social e
fato é que isso é uma prática espiritual para mim. cultural, quando e onde nós nascemos define uma coordenada
única de existência que ninguém mais compartilha.
Pode parecer que tamanha exuberância pagã nada mais é do Assim, cada um de nós é responsável por um ponto particu­
que um retomo a superstições do passado, junto com a crença em lar no espaço e no tempo, onde nosso corpo e mente formam um
reencamação, abduções alienígenas ou percepção extra-senso- vínculo dentro da rede total da existência. Pois embora seja ver­
rial. A diferença essencial é que os crentes da Nova Era acreditam dade que somos resultado de instruções genéticas e interações
literalmente em sua fé, enquanto as pessoas que estou citando sociais, também é verdade que por termos inventado o conceito
sabem que falam metaforicamente, usando aproximações para de liberdade podemos fazer escolhas que determinarão a forma
uma realidade subjacente em que acreditam, mas que não têm futura da rede de que fazemos parte. O tipo de cosmético que usa­
como expressar de modo adequado. Elas seriam as últimas a rci- mos nos ajudará a determinar se o ar continuará respirável, a
ficar seus insights, acreditando que eles são literalmcntc verda­ quantidade de tempo que passamos conversando com professores
deiros. Elas sabem que seu próprio conhecimento está em evolu­ afetará o que nossas crianças aprendem e o tipo de espetáculos e
ção, e que em alguns anos ele terá de ser expresso de uma forma programas a que assistimos influenciará a natureza do entreteni­
inteiramente diferente. mento comercial.
A compreensão contem porânea da matéria e da energia
Uma coisa é a evolução nos ajudar a visualizar o futuro com refe­ sugere uma nova maneira de pensar sobre o bem e o mal.6 O mal
rência ao passado, e outra ela nos orientar para que criemos uma na vida humana é análogo ao processo de entropia no universo
existência significativa e satisfatória. Certamente, um dos moti­ material. Chamamos de mal aquilo que provoca dor, sofrimento e
vos pelos quais as tradições religiosas têm uma influência tão desordem na psique ou na comunidade. Ele geralmente envolve
poderosa sobre a consciência humana é que elas personalizam tomar o caminho de menor resistência, ou agir de acordo com
142 A DESCOBERTA DO FLUXO
O AMOR A O DESTINO 143
princípios de uma ordem inferior de organização. É o que aconte­
Naturalmente, esta não é a única maneira de entendermos as
ce quando uma pessoa dotada de consciência age apenas com
implicações da ciência para o futuro. Também é possível não ver
base no instinto, ou quando um ser social age de maneira egoísta
nada além do acaso sem significado atuando no mundo, e sentir-
embora a situação exija a cooperação. Quando os cientistas traba­ se desencorajado com isso. Na verdade, é a coisa mais fácil a
lham para aperfeiçoar meios de destruição, eles estão sucumbin­ fazer. A entropia também se sustenta no modo como interpreta­
do à entropia, mesmo que estejam utilizando o conhecimento
mos os indícios fornecidos pelos sentidos. Mas este capítulo
mais recente e sofisticado. A entropia ou o mal é o estado padrão,
começou com a pergunta: como podemos encontrar uma meta
a condição a que os sistemas retomam, a menos que nos esforce­
que nos permita apreciar a vida enquanto somos responsáveis
mos para evitá-lo.
para com os outros? Escolher essa interpretação para o conheci­
O que o reprime é o que chamamos de “bem” - ações que
mento atual que a ciência oferece pode ser uma resposta para essa
preservam a ordem enquanto previnem a rigidez, que são orienta­
pergunta. Dentro de uma estrutura evolutiva, podemos concentrar
das pela necessidade dos sistemas mais evoluídos. Atos que
a consciência nas tarefas da vida cotidiana sabendo que, quando
levam em conta o futuro, o bem comum e o bem-estar emocional
agimos na plenitude da experiência de fluxo, também estamos
dos outros. O bem é a vitória criativa da inércia, a enerçúa que
construindo uma ponte para o futuro do nosso universo.
leva à evulução da consciência humana. Agir de acordo com
novos princípios de organização é sempre muito difícil, e exige
mais esforço e energia. A habilidade de fazê-lo é o que ficou
conhecido como virtude.
Mas por que alguém deveria ser virtuoso quando é mais
fácil deixar a entropia prevalecer? Por que alguém desejaria levar
adiante a evolução sem a promessa da vida eterna como recom­
pensa? Sc o que dissemos até agora é verdade, a vida etema real­
mente faz parte do conjunto da existência - não do modo como os
desenhos animados representam a vida após a morte, com perso­
nagens sob halos, em camisolas, passeando pelas nuvens, mas
pelo fato de que nossos atos vão reverberar no tempo e formar o
futuro em evolução. Quer a nossa consciência atual de individua­
lidade seja preservada em alguma dimensão de existência após a
morte ou desapareça completamente, o fato inegável é que nosso
ser sempre fará parte da trama de tudo o que existe. Quanto mais
energia psíquica investimos no futuro da vida, mais nos tomamos
parte dele. Aqueles que se identificam com a evolução fundem
sua consciência com ela, como um pequeno córrego que se une a
um pequeno rio, cujas correntes se tomam uma só.
O inferno, nesse quadro, é simplesmente a separação do
indivíduo do fluxo da vida. É apegar-se ao passado, à individua­
lidade, à segurança da inércia. Existe um traço desse sentido na
raiz da palavra “diabo”; ela vem do grego dia bollein, separar ou
quebrar alguma coisa. Diabólico é enfraquecer a complexidade
emergente retirando dela nossa energia psíquica.
NOTAS

CAPÍTULO 1

1. Uma excelente série de reflexões sobre a poesia de Auden c seu lugar na litera­
tura contemporânea pode ser encontrada em Hccht (1993).
2. As bases teóricas e empíricas para as afirmações feitas neste livro podem ser
encontradas, por exemplo, em Csikszentmihalyi (1990. 1993); Csikszent­
mihalyi e Csikszentmihalyi (1988); Csikszentmihalyi e Rathunde (1993).
3. Uma descrição detalhada das atividades de primatas em liberdade é dada por
Altmann (1980). As atividades diárias de camponeses no sul da França durante
a Idade Média são relatadas em Le Roy Ladurie (1979).
4. Os historiadores franceses associados ao periódico Annales foram pioneiros no
estudo do modo como as pessoas viviam em diferentes períodos históricos. Um
exemplo do gênero é Davis e Farge (1993).
5. Thompson (1963) fornece algumas das descrições mais vividas de como a vida
diária mudou como resultado da industrialização na Inglaterra.
ó. As fontes para os dados apresentados nesta tabela são as seguintes: o orçamen­
to de tempo dos adultos americanos, usando o ESM, foi relatado em Csiks­
zentmihalyi c Graef (1980); Csikszentmihalyi e LeFreve (1989); Kubey e
Csikszentmihalyi (1990); Larson e Richards (1994); para o orçamento de tem­
po dos adolescentes, ver Bidwell et al. (no prelo): Csikszentmihalyi c Larson
(1984); Csikszentmihalyi, Rathunde c Whalen (1993).
7. A quantidade de tempo que os caçadorcs-colctores gastavam cm atividades pro­
dutivas foi estimada por Marshall Sahlins (1972). Resultados similares também
são relatados em Lee c DeVore (1968). Para orçamentos de tempo no século
XVIII. ver Thompson (1963). e nos tempos recentes, Szalai (1965).
8. A citação é de Hufton (1993. p. 30).
9. Para uma história detalhada do lazer, ver Kelly (1982).
10. Mckim Marriott descreve a visão tradicional hindu da posição do indivíduo no
contexto social (Marriott 1976); para a comparação de crianças caucasianas c
do leste da Ásia, ver Asakawa (1996).
1 1 .0 argumento sobre a importância de ter uma esfera pública para o desenvolvi­
mento da individualidade foi feito por Hannah Arendt (1956).
146 A DESCOBERTA DO FLUXO NO TAS 147

12. Aqueles interessados nos detalhes deste método devem consultar Csikszent- berras empíricas nos forçaram a rever nossas hipóteses iniciais. Por exemplo, a
m ihalyi e Larson (1987); Moneta c C sikszentm ihalyi (1996). revisão mais recente envolveu a inversão da colocação das experiências de
"relaxam ento” e “ tédio". O riginalm ente eu pensava que desafios baixos e alta
CAPÍTULO 2
habilidade deviam resultar na experiência dc tédio. N o entanto, m uitos estudos,
1. As principais emoções que poccm ser diferenciadas c que são reconhecidas cm por exem plo A dlai-G a il (1994), Csikszentm ihalyi e C sikszentm ihalyi (1988) e
todas as culturas são alegria, raiva, tristeza, medo, interesse, vergonha, culpa, Hektner (1996), mostraram que as pessoas relatam uma sensação dc relaxa­
inveja e depressão (Campos c Barrett. 1984). mento nessas situações, enquanto o tédio tende a ocorrer quando tanto os desa­
2. Embora o próprio Charles Darwin tenha percebido que as emoções serviam a fios quanto as habilidades são baixos.
Finalidades de sobrevivência que tinham evo lu íd o do mesmo m odo que os 11. A m aior pesquisa sobre o flu x o entre os alemães é relatada em N ocllc-N eu-
órgãos físicos do corpo, fo i só m uito recentemente que os traços psicológicos mann (1995). A lguns relatos interessantes sobre com o o flu xo ocorre em d ife ­
começaram a ser estudados a partir de uma perspectiva evolutiva. U m exemplo rentes atividades são os seguintes: escrevendo. Perry (1996); computadores.
recente é a obra de David Buss (1994). T re v in o e T re vin o (1992); W ebster e M artocch io (1993); ensino. Colcm an
3 . U m dos p rim e iro s estudos psicológicos da fe licid a d e . The S tru ctu re o f (1994); leitura. M cQ u illa n e Conde (1996): administrando. Loubris. Crous e
Psychological Well-Being, dc Norman Bradbum (1969). originalm ente tinha a Schepcrs (1995); esportes. Jackson (1996). Stein. K im iccik. Daniels e Jackson
palavra “ felicidade” no título, mas fo i posteriormente alterado para "bem-estar (1995); jardinagem . Rcigberg (1995), entre outros.
psicológico" para não parecer pouco científico. Estudos atuais incluem o exten­
so resumo do tó p ico por M ycrs (1992), a obra de M yers c D iener (1995) e CAPÍTULO 3
D icner e Diener (1996). que descobre que as pessoas gcralmente estão felizes; 1. O psiquiatra Marten De Vries (1992) fo i um dos prim eiros a investigar em deta­
outra fonte é Lykken e Tellcgcn (1996). A s comparações internacionais de ren­ lhes o m odo com o os pacientes psiquiátricos realmente se sentem, e descobriu
da c felicidade estão cm Inglehart (1990). O principal problem a é que esses vários dados básicos sobre a psicopatologia. Para a obra do professor Massi­
estudos se baseiam nas declarações globais do participante quanto a sua própria m in i e seu grupo na Universidade dc M ilã o , ver In g h ille ri (1995); M assim ini e
felicidade. Com o as pessoas possuem uma forte inclinação a considerar sua Ing hilleri (1986).
própria vida fe liz, independentemente do seu conteúdo, essa medida não nos 2. A citação de Richard Stem c as que a seguem neste liv ro foram extraídas dc
proporciona m uita informação sobre a qualidade de vida da pessoa. meu estudo recente sobre a cria tivid a d e (C sikszentm ih alyi. 1996). que se
4. A entropia psíquica ou con flito de consciência, e seu oposto, a negacntropia baseia cm entrevistas com 91 artistas, cientistas e líderes políticos e do mundo
psíquica, que descreve estados de harm onia psíquica, são descritos cm dos negócios que alteraram a cultura cm que viviam de alguma maneira. Sobre
Csikszentm ihalyi (1988. 1990); C sikszentm ihalyi e C sikszentm ihalyi (1988); o relacionamento entre o flu x o c a criatividade, ver também a coleção editada
Csikszentm ihalyi e Rathunde (no prelo). por George K le in (1990).
5. A fórm ula de W illia m James para a auto-estima fo i publicada em James ( 1890). 3. Para os efeitos prejudiciais de estar sozinho, veja, por exem plo. Csikszent­
O contraste de auto-estim a entre grupos étnicos está em Asakawa (1996) e m ih alyi e Larson (1984); Larson e Csikszentm ihalyi (1978); Larson, M aim cll c
B id w e ll et al. (no prelo). As diferenças dc auto-estima entre mães que estão tra­ Zuzanck (1986).
balhando e que estão em casa foram estudadas por A nn W ells (1988). 4. Descobertas de pesquisas americanas que indicam uma relação entre a felicida­
6. Discuti o papel da atenção no pensamento cm C sikszentm ihalyi (1993). O psi­ de e ter amigos foram relatadas por B urt (1986).
cólogo de Y alc Jerome Singcr estudou o devaneio extensivamente (J. L. Singcr 5. O estudo recente de Recd Larson c Maryse Richards. cm que todos os membros
1966, 1981). da fa m ília p a rticip a va m de um estudo E S M ao mesm o tem po (Larson c
7. A obra canônica neste campe é a análise dc Howard Gardner das sete formas Richards, 1994). revela m uitos padrões intrigantes presentes na experiência
principais tomadas pela inteligência humana (Gardner 1983). fam iliar: com o o título do seu liv ro . D iverging Realities (Realidades divergen­
8. O esforço necessário para desenvolver o talento dc um jo ve m é descrito nos tes). dá a entender, pais e filhos raramente têm a mesma experiência quando
estudos de Benjam im B loom (1985) e nas pesquisas que conduzi com meus interagem dentro de casa.
alunos (Csikszentm ihalyi, Rathunde e Whalen 1993). 6. Que d irig ir é uma das experiências mais agradáveis nas vidas dc muitas pessoas
9. A lgum as das p rin cip a is fontes a respeito dessa experiência sào C sikszent­ fo i sugerido por um dos nossos estudos de ESM (Csikszentm ihalyi c LcFreve,
m ih a lyi (1975, 1990); Csikszentm ihalyi e Csikszentm ihalyi (1988); Moneta e 1989); um estudo ESM mais profundo patrocinado pela Nissan U S A revelou
Csikszentm ihalyi (1996). Para estudos mais especializados, ver também A dlai- m uitos detalhes que não haviam sido previstos, alguns dos quais são relatados
G ail (1994); Choc (1995); Heinc (1996); Hektner (1996); In g h ille ri (1995). em diferentes panes deste liv ro .
"E xperiência ótim a” e "negaentropia psíquica" são às vezes usados com o sinô­ 7. Para uma crítica do esquecimento geral da influência do nosso ambiente sobre
nimos de experiência de fluxo. nossas emoções e pensamentos, ver G allaghcr (1993). Outras obras sobre este
10. A s fontes para esta fig u ra são C sikszentm ihalyi (1990) c M assim ini e C a rli tópico incluem Csikszentm ihalyi e Rochberg-Halton (1981).
(1988). Esta representação passou por várias revisões à medida que as dcsco- 8. D ois estudos in ic ia is ainda inéditos, um com pletado p o r M a ria W ong na
148 A DESCOBERTA DO FLUXO NO TAS 149

U niversidade de M ic h ig a n e o o u tro p o r C yn th ia H e d ricks (n o p re lo ) na CAPÍTULO ó


Universidade do Sul da C alifórnia, descobriram que uma quantidade sig nifica­ 1. Refere-se ao trabalho de Lewinsohn (1982).
tivamente m aior de sintomas é relatada nos domingos, assim com o em situa­ 2. A im portância de pertencer a uma rede social na ín d ia é discutida por Hart
ções que não exigem atenção concentrada, sugerindo que estar ocupado nos (1992); Kakar (1978); M a rrio tt (1976): no Japão, por Asakawa (1996); Lebra
impede, de certa form a, de perceber a dor. (1976); M arku se K ita ya m a (1991).
3. Para a importância da amizade para uma vida satisfatória, ver M ycrs (1992).
CAPÍTULO 4
4 . O modo com o forças seletivas ao longo da evolução formaram nossas emoções,
1. Esses resultados de pesquisa são de Y ankelovich (1981) c foram reproduzidos atitudes e comportamentos sexuais é bem descrito em Buss (1994). Para uma
segundo padrões sim ilares cm outros países. Para a ambivalência sobre o traba­ história cultural da sexualidade humana, ver I. Singer (1966). A exploração da
lho. veja C sikszcntm ihalyi e LeFevre (1989); c o diálo go entre os cientistas sexualidade é discutida em Marcuse (1955).
sociais alemães está em Noellc-Ncum ann e Strumpel (1984). Noelle-Neumann 5. A com posição das fam ília s na Idade M édia é descrita em Le R oy Ladurie
interpretou o vínculo entre a disposição para o trabalho e um estilo de vida posi­ (19 79 ). O utras form as de arranjos fam iliare s são discutidas cm Edwards
tiv o com o evidê ncia de que o "tra b a lh o deixa você fe liz ” , enquanto que (1969); H crlih y (1985); M ittcrauer e Sieder (1982).
Strumpel compreende que a preferência geral pelo lazer significa que " o traba­ 6. Essas descobertas vêm da pesquisa, já mencionada várias vezes, de Larson e
lho deixa você in fe liz". Richards (1994).
2 . Para alguns insights interessantes sobre o modo com o o trabalho mudou com o 7. A noção teórica da complexidade foi aplicada ao sistema fa m ilia r p o r K cvin
passar dos séculos, ver, por exemplo, Braudcl (1985): Lee c D eV ore (1968); Rathundc (no pre lo ). V e r tam bém C a rro ll, S chncidcr c C s ik s z c n tm ih a ly i
Norberg (1993); Veyne (1987). (1996); C sikszcntm ihalyi c Rathundc (1993); Csikszcntm ihalyi c Rathunde (no
3. Resultados relativos ao modo com o os adolescentes norte-americanos apren­ prelo); Huang (1996) para outras descobertas que usam este conceito.
8. A paranóia generalizada dos dobuanos é descrita por Rco Fortune ((1932)
dem atitudes c habilidades pertinentes a suas ocupações futuras foram obtidos
1963). O conceito dc conversa com o um meio de manutenção da realidade foi
durante um estudo longitudinal de cinco anos com quase quatro m il estudantes
de prim eiro c segundo graus cm todos os Estados Unidos, financiado pela Sloan desenvolvido pelos sociólogos Pctcr Bcrger e Thomas Luckm an (1967).
9. A pesquisa cm questão fo i relatada em N oeJe-N eum ann e K ocher (1993
Foundation (B id w e ll et al.. 1992). A s experiências negativas associadas a a tiv i­
p. 504).
dades que não eram trabalho nem diversão foram exploradas cm detalhes por
10. Os dados que mostram com o os estudantes que não suportam fica r sozinhos
Jennifer Schm idt (1997).
têm problemas para desenvolver seus talentos é apresentado em C sikszcnt­
4. Diferenças de gênero na experiência do trabalho são relatadas em Larson c
m ihalyi. Rathundc e Whalen (1993).
Richards (1994). Anne W ells (1988) descobriu as diferenças na auto-estima
1 1 . 0 historiador francês Philippe Ariès descreveu os perigos que ameaçavam os
entre as mães que trabalhavam em tempo integral c cm meio expediente.
estudantes medievais cm Paris (Ariès. 1962). A ameaça para mulheres cam i­
5. Estudos ESM de jovens desempregados no Reino U nido foram feitos por John
nhando nas ruas no século X V II é mencionada por Norberg (1993).
Haworth (Haworth e Ducker, 1991). Os estudos internacionais sobre o desem­ 12. Hannah Arendt (1956) discute a diferença nas visões de mundo implicadas por
prego foram relatados cm Ingelhart (1990). uma vida ativa em contraposição com a vida passiva. A distinção entre modos
CAPÍTULO 5 dc vida “ orientados para dentro" e “ orientados para fo ra " apareceu em Ries-
man. G lazer e Denncy (1950). A tipo lo gia da "e xtro versã o" cm oposição a
1. O aviso dos psiquiatras fo i relatado em P sychiatry (1958); para argumentos
"introversão" foi desenvolvida por Carl Jung (1954); para sua medição atual,
similares, ver Gussen (1967); Kubey e Csikszcntm ihalyi (1990).
ver Costa e M cCrac (1984).
2. A referência está cm Fcrenczi (1950); ver também Boyer (1955); C attcll (1955). 13. As pesquisas sugerindo que os extrovertidos tendem a estar mais satisfeitos
3. As diferenças fundamentais encontradas entre indivíduos que eram leitores fre­
com suas vidas são relatadas por M ycrs (1992).
quentes c aqueles que eram telespectadores freqüentes são relatadas em Noelle-
Neumann (1996). CAPÍTULO 7
4. Ver Guerras persas. L iv ro 1. Capítulo 94. 1. Sobre esse número, ver últim a nota do Capítulo 2.
5. Para alguns indícios históricos, ver K e lly (1982); parte do material de compa­ 2. Uma biografia dc leitura bastante agradável deste teórico político italiano foi
ração cultural está cm In g h illcri (1993). escrita por Fiorc (1973).
6. O estudo de Macbeth é relatado cm Macbeth (1988); a citação do marinheiro 3. O estudo relatado aqui fo i fe ito por Joel Hcktncr (1996).
está cm Pirsig (1977); a citação do alpinista está cm Csikszcntm ihalyi (1975). 4. As idéias mencionadas nesta seção derivam em grande parte de m uitos anos de
7. A descoberta de que o uso de energia não-renovávcl no lazer está relacionado aconselhamento de gerentes de negócios que fiz no programa de extensão de
negativamenic com a felicidade, pelo menos para as mulheres, é relatada em verão da Universidade de Chicago, cm V ail, Colorado.
G rre fe i al. (1981). 5. As biografias de indivíduos com sensibilidade moral excepcional foram coleta­
das e analisadas por C olby c Damon (1992).
150 A DESCOBERTA DO FLUXO
NO TAS 151

ó. Um dos relatos mais antigos e, até hoje, um dos mais inspirados sobre o que os 5. Alguns dos pioneiros que ampliaram o pensamento evolucionista até o reino da
trabalhadores que têm orgulho dos seus trabalhos pensam é a série de entrevis­ evolução cultural humana foram Bergson (1944); Campbell (1976); J. Huxlcy
tas coletada por Studs Terkel (1974). (1947); T . H. Huxlcy (1894); Johnston (1984); Teilhard dc Chardin (1965).
7. O fisiologista Hans Selye foi o primeiro a identificar o ••eustresse’’. ou valor ó. Bem c mal, do ponto de vista da teoria evolutiva, são discutidos por Alexander
positivo do estresse administrável para o organismo. A resposta psicológica ó ti­ (1987); Burhoc (1986); Campbell (1975); W illiam s (1988).
ma à tensão é amplamente pesquisada (Selye. 1956).
8. A citação que descreve o prazer de uma mãe enquanto brinca com o filho é de
Allison e Duncan (1988).

CAPÍTULO 8

1. A citação é de Allison e Duncan (1988).


2. Em embriologia, “ neotenia" se refere ao retardamento do desenvolvimento dos
bebês humanos em comparação com outros primatas c espécies de mamíferos.
Supostamente, isso acontece para permitir que um aprendizado maior ocorra, já
que o sistema nervoso amadurece em interação com o ambiente cm vez de no
isolamento (Lemer. 1984). A neotenia social é uma extensão desse conceito
para a tendência de algumas pessoas jovens de se beneficiarem de um período
de amadurecimento mais longo protegido dentro da família (Csikszentmihalyi
e Rathundc, no prelo).
3. A importância do controle da atenção, ou da "energia psíquica", é fundamental
para assumir o controle da própria vida. Alguns dos pensamentos pertinentes a
esta afirmação podem ser encontrados cm Csikszentmihalyi (1978, 1993).
4. Fausto Massimini e sua equipe na Universidade de M ilão entrevistaram um
grande número de indivíduos que sofreram tragédias, como por exemplo pes­
soas que ficaram paraplégicas ou cegas (Negri. Massimini c Delle Favc. 1992).
Ao contrário do que se poderia esperar, muitos desses indivíduos conseguem
desfrutar mais suas próprias vidas depois de um acidente trágico do que antes.
Ver também Diener e Dicncr (1996). Por outro lado, as pesquisas com ganhado­
res de loteria (Brickman, Coates e Janoff-Bulman. 1978) sugerem que ganhar
subitamente uma fortuna não aumenta a felicidade. Esses resultados confirmam
a antiga sabedoria segundo a qual não é o que acontece com uma pessoa que
determina a qualidade de vida, mas sim o que uma pessoa faz acontecer.

CAPÍTULO 9

1. Algumas das declarações recentes mais importantes sobre a falta de envolvi­


mento com valores maiores do que o indivíduo foram feitas por Bellah et al.
(1985. 1991); Lash (1990). Para comentários sobre a necessidade de criar
novos valores à medida que os antigos perdem a credibilidade, ver Massimini c
Delle Favc (1991).
2. Uma breve descrição dc como o self evoluiu filogcnética c ontogcneticamente
é dada por Csikszentmihalyi (1993).
3. O conceito dc Nictzschc dc amor fa ti está cm Nictzsche ([1882] 1974). Para as
idéias dc Maslow sobre o mesmo assunto, ver Maslow (1971); c para as dc
Rogcrs. ver Rogcrs (1969).
4. A citação de R. J. Oppenhcimcr c o problema dc encontrar fluxo cm atividades
destrutivas são analisados em Csikszentmihalyi (1985); Csikszentmihalyi c
Larson (1978).
REFERÊNCIAS 153

Brickman, P. D. Coates, c R. Janoff-Bulman. 1978. "Lottcry winners and accidcnt


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ÍNDICE

A Aristóteles, 22. 26. 54, 55


Ações, assumir responsabilidade pelas Arquimedes, 104
próprias. 133-136 Ásia, posição do indivíduo no contexto
Adolescentes: atitudes dos adolescentes social na, 22. 81-82
para com o trabalho. 56-58; autotéli- Asner, Ed. 64-65
cos, 115-121; Atenção. Ver Energia psíquica
concentração e. 92; destmtividade das Atividades cotidianas. Ver Experiências
ações dos. 135; frcqüência do fluxo Atividades dc lazer, 19, 21-22, 67-79:
entre. 99-101; amigos e, 47. 83, 84; lazer ativo versus lazer passivo, 68-
falta de motivação na adolescência; 72; pessoas comuns e, 77; dificulda­
atividades de lazer dos, 68-69; locais de dc apreciar, 67-71. 77; especialis­
preferidos pelos, 48-49 tas e, 77; fluxo c. 44-45, 68-71, 74;
Álcool: apatia e, 40; como mau uso do vidas centradas cm, 73-75; uso de
tempo dc lazer, 67. 73 energia não-renovávcl e. 77-78; ener­
Allison, Maria, 111 gia psíquica c. 18; entropia psíquica
Ambiente, qualidade da experiência e,
e, 68-69; qualidade da experiência
48-51
do, 14.43,44-45; qualidade da socie­
Amigos. 82-84: adolescentes e, 47, 84;
dade e, 78-79; sociedades que sc
concentração c. 84; a amizade des­
apóiam em. 69,71-73, 78; trabalho c,
trutiva, 84; dentro da, 84
79; trabalho combinado com. 76-77,
família, 87; fluxo c, 82-84; metas c,
79; trabalho separado do, 66, 75-76.
133; mobilidade e cultivo dc; quali­
dade da experiência de. 48. Ver Re­ Ver Lazer ativo; Lazer passivo.
lacionamentos Atividades dc manutenção, 19-20, 22:
Amish, trabalho c atividades dc lazer qualidade da experiência das. 43.44;
combinados pelos. 76-77 tempo gasto em, 19-20.
Amor ao destino. 134-136 Ver Dirigir; Comer; Trabalho.
Ansiedade, fluxo e. 38. 40 Auden, W.H., 11
Apatia, fluxo c, 38. 40 Autoconhecimento, 131-134
Arábia Saudita, lazer passivo e, 73 Auto-estima: metas e. 30-32; trabalho
Arendt, Hannah. 101 doméstico e, 61; mulheres trabalha­
Ariès, Philippe, 152 doras c, 59-61
ÍNDICE 161
160 A DESCOBERTA DO FLUXO

Drogas: apatia e, 40; como um mau uso Estímulo, fluxo e, 37. 39-41
B Conversa: flu xo e, 69. 70, 112-113;
qualidade da experiência da. 43. 44- do tempo dc lazer, 68 Estresse: habilidades correspondentes
Babuínos: atividades dos, 15; contexto
45; manutenção da realidade, 48.90- Duncan. Margarct Carlisle, 111 ao desafio reduzindo o; 106
social c. 15, 81
Dyson. Frccman. 65-66.95 estabelecimento dc prioridades reduzin­
Bem c mal. matéria c energia c, 141- 91; tempo gasto na. 18-21
do o. 105-106; no trabalho; 101,
143 Conversar. Ver Conversa.
Crescimento: fluxo c. 43. 44. 45; posse
E 105-106
Bethe, 50
da próprias ações e, 133-136 Educação. Ver Trabalho Estudo, por adolescentes. 116. 117. Ver
Bohr, Nicls, 50
Ego. VerSelf Trabalho
Bloom. Benjamin, 152 Cultura global, estranheza em relação
Eichmann, Adolph, 101 Evolução, 138-139, 141
Bradbum, Norman. 11-12 ao diferente reduzida pela. 93
Budismo: sobre a abolição dc metas Eigen. Manfrcd. 50 Exercício: qualidade da experiência do.
Cultura, contexto social e. 22. 8 1-83
Emoções. 25-29, 32: básicas, 26; con­ 44; tempo gasto em. 44
para alcançar a felicidade, 31-32;
centração c. 34; dualidade das. 26; E xotilico, 115
sobre a redução da entropia psíqui­ D
metas c. 33; hereditariedade. 26 Expectativas, auto-estima c. 30-31
ca, 129-130
desenvolvimento humano e, 26; Experiência ótima. Ver Fluxo
Buss, David, 153 Damon, W illiam . 101-102
objetividade das, 25-26; energia psí­ Experiências: características comuns
Dante. 14
quica c, 32; qualidade dc vida de­ das. 14-15; diferenças nas, 15-18;
C Danvin. Charles. 138
terminada pelas. 14; subjetividade metas e. 30; individualidade e, 16-
Caçadores-colclorcs, atividades produ­ Davics. Robcrtson. 110-111 das. 25-26; pensamento e, 33. Ver 18; ótimas, ver Fluxo; qualidade dc
tivas dos, 145 Davis, Natalie Zemon. 15
Felicidade. vida determinada pelo conteúdo das.
Calvino. João, 55 Delle Fave, Antonella, 75-76
Energia espiritual, 13 17; relacionamentos influenciando
Campbell, Donald, 65 Depressão: conversa e. 48; solidão e. Energia não-renovávcl. atividades dc as, 14. 15, 22-23. Ver também A tiv i­
Cândido (Voltaire), 29 46. 47.48. 90 lazer c, 77-78 dades dc lazer; Atividades de manu­
Carro. Ver Dirigir. Desafios: habilidades equilibradas com Energia psíquica: personalidade autoté- tenção; Atividades produtivas; Qua­
Casa, perfil emocional dos cômodos da desafios para fluxo. 37-38; habilida­ lica c. 120-123; para concentração, lidade da experiência.
casa. 49-50 des correspondentes com redução dc 34-35; emoções. 32 Extrovcrsào: felicidade c. 30, 94; como
Casamento, 86, 88. fluxo no, 110-111; estresse. 106 experiências formadas pela, 16; hereditária. 100; introversão versus.
Ver Família.
Desejo, responsabilidade pelos próprios fam ília c, 89-90, 109-112; fluxo e.
Chandrashckar. 50 93-96
atose. 133-136 38-39; futuro c, 142; metas c, 31,32,
Ciência: metas e, 137-143; passado
Desemprego, efeito negativo do, 61-62. atividades de lazer e, 19; atividades
integrado a, 13-14; verdades da. 13 F
Ver Trabalho de manutenção c, 19; paternidade e.
Colby.Ann, 101-103 Família: personalidade autotélica c,
Destino, amor ao, 134-136 111, atividades produtivas e, 19;
Companhia. Ver Relacionamentos. 119-121; complexa, 90; Método dc
Devaneio, 34, no trabalho, 18, 19 relacionamentos e, 82, 132-134;
Compromissos, incapacidade de firmar. Amostragem de Experiência estu­
DeVries, Marten, 45 pensamento e, 32; trabalho e» 102-
129 dando a. 89; fluxo na. 109-112; ami­
Dias da semana, qualidade da experiên­ 103
Comunidade(s): individualismo e mate- zade na, 86; humores na. 48. 49-50.
cia e, 51-52 Entre quatro paredes (Sartre), 82
rialismo versus lealdade à. 129-130 88-89; energia psíquica e. 89-90.
Dickinson, Emily, 77 Entropia psíquica: personalidade auto-
comunidade; a estranheza dc forasteiros 109-112; requisitos para uma famí­
Dinheiro: felicidade c, 28; tempo e. 17, télica e, 128; preocupação e humani­
reduzida pela comunidade. 92-94 lia bem-sucedida, 89-90. como con­
18 dade reduzindo a. 129-130; falta de
Concentração: atividade cotidiana e. 43. texto social. 22; trabalho e, 65-66.
D irig ir: Estudo do M étodo dc Am os­ motivação c. 30; emoções negativas
44; fluxo e, 38-39; com amigos, 83. Ver Casamento; Relacionamentos.
tragem de Experiência. 149; quali­ c, 28; redução da, no trabalho. 102;
84; solidão c, 91. 92 pensamento
solidão. 90 Famílias complexas, 90
necessitando de. 33-35 dade da experiência c; tempo gasto
dirigindo. 43.44. 45.49 ESM. Ver Método de Amostragem de Farge, Arlette, 15
Consciência. Ver Emoções; Metas;
Experiência Feedback. atividades dc fluxo fornecen­
Pensamento Distúrbios alimentares, solidão e, 47
ESP. 13 do imediato; 37
Consumo de mídia. Ver Leitura; Tele­ D ivergent Realities (Larson c Ri-
Espaço público como contexto social. Felicidade, 26-30; personalidade auto-
visão ehards), 155
22-23 lélica e, 120; como linha fundamen­
Contexto social; diferenças de socieda­ Dobuanos (Melanésia). 90
Esportes: fluxo c. 69, 70: adolescentes. tal. 26-28; religiões orientais sobre o
de no. Ver Relacionamentos. Dobzhansky, Teodosius. 139
116. 117. 118; tempo gasto cm, 21 abandono das metas para alcançar a.
Controle, fluxo c, 38. 39-40 Dor. fluxo e. 51-52
162 A DESCOBERTA DO FLUXO ÍNDICE 163

31-32; atividades cotidianas e. 43. G índia, posição individual cm um con­ ma, 67.69.70-73,78-79; sociedades
45; extrovertidos c. 29, 94; fluxo e, Ganhadores de loteria, felicidade entre. texto social na, 22, 81-82 baseadas no. 68. 71-72, 78-79; c
39; amigos e, 48; nos ganhadores de 153 Individualidade: comunidade e valores adolescentes. 115-118. Ver Leitura;
loteria, 149; outros sentimentos pes­ Gardner, Howard, 34 individuais versus, 128-130; expe­ Televisão; Descanso.
soais influenciando a. 28-30; perso­ Genética. Ver Hereditariedade riências formadas pela. 16-18 Leitura: fluxo c. 70-71; como um mau
nalidade e relatos pessoais de, 26- Gcometrias fractais. 138 Indivíduos criativos: como autotélicos, uso do tempo de lazer, 67; qualidade
27, 28, 120; relacionam entos se­ Grécia. Ver Grécia antiga 121-123; extroversão versus intro- de, experiência da, 43, 44; tempo
xuais c; 86-87 Grécia antiga: Aristóteles e, 20, 26, 54. versão cm, 94-96; trabalho formado gasto na, 18. 21
Fenômeno humano, O (Tcilhard de 55; lazer passivo e. 19, 72; Sócrates por. 106-108 L’Englc. Madcleine. 140
Chardin), 139 e. 129; trabalho e, 56 Indústria de entretenim ento, efeitos Liszt, Franz, 50
Ferenczi, Sandor, 67 Guerras persas (Hcródoto), 72 deletérios da. 78-79 Locais, qualidade da experiência em
Filmes: qualidade da experiência dos. Infemo como separação do fluxo, 142 diferentes, 48-51
44; tempo gasto com. 21,45 H Ingclhan, Ronald, 61-62
Filosofia fcnomcnológica. 13-15 Habilidades: desafios equilibrados com Intenções, 29, 30. Ver Metas M
Fleming. Alexandcr. 103 habilidades para o fluxo, 37-38; Interação. Ver Relacionamentos
Fluxo. 35-36: crianças m altratadas c. desafios equilibrados com habilida­ Interesse desinteressado, cm uma perso­ Macbeth, Jim, 73-74
97-100; adolescentes e, 99-101; des para redução do estresse, 106 nalidade autotélica. 122-124 Madonna (cantora), 30
desafios e habilidades equilibradas Habitantes du Alasca, lazer passivo c, Introversão, extroversão c, 93-96 Mães: fluxo entre as. 111; auto-estima
no. 37-38; alteração de padrões da 73; trabalho c. 55 Inuit (esquimós): lazer passivo c os. 73; nas que trabalham em tempo inte­
vida e, 97-113; concentração c, 37- Hart, Lynn, 81 gral, 31. Ver Paternidade; Mulheres
trabalhos e os, 56
38; finalidades construtivas ou des­ Haworth, John, 62 Mal c bem, matéria e energia e. 142-143
Hedricks, Cynlhia, 155 Marcusc. Hcrbcrt, 86
trutivas do. 38-39; conversa e. 112- J
Heisenberg, Wemer, 50 Marriot. McKim. 145
113; indivíduos criativos. 46; defini­
Hendcrson, Hazcl. 123 Marx, Karl. 27, 55
ção de, 35-36; freqüência do. 40-41; James, William, 158
Hereditariedade: emoções e. 26; extro- Maslow, Abraham, 134-135
am igos e. 82-84; m etas e, 36-37, Japão, posição do indivíduo no contexto
versão c. 100 Massimini, Fausto, 46. 75
133-134; crescimento e, 38. 39-40; social no, 82
Hcródoto, 72 Matéria c energia, bem c mal c. 142-143
felicidade c, 39; o inferno com o Jogo, como um mau uso do tempo dc
Hinduísmo: sobre a abolição dc metas M aterialismo: com unidade e valores
separação do. 142; ilustrações do. lazer. 68. 71
para alcançar a felicidade. 31-32; espirituais versus. 129-130; felicida­
97-101; retomo imediato do, 51-52; Jung. Carl. 94
sobre a posição do indivíduo no con­ de versus, 28
atividades dc lazer e, 44-45, 68-72,
texto social, 22. 81-82 Maias. lazer passivo usado por. 73
73-76, 79; velhice c, 97-98; dor e. K Melanésia, trabalho e, 56
Hobbics: fluxo e, 70, 71; qualidade da
51-52; paternidade e. 110-112; lazer
experiência dos. 44; dos adolescen­ Mcndel, Gregory. 77
passivo e. 44-45; prevalência do, 98; Kakar. Sadhir, 81-82
tes, 116,117; tempo gasto cm. 21,44 M cnonitas, atividades dc trabalho c
energia psíquica c, 38-39; psicopato- Klein, Gcorgc, 107 lazer combinadas pelos, 76-77
Holton, Nina. 95-97
logia c. 45-46; relacionam entos e,
Homens, atividades produtivas e. Ver
L Metas, 29-32: construtivas versus des­
47. 83-84, 108-113; trabalho e, 42, trutivas, 135-136; descobrindo no­
Diferenças de sexo
43.44. 62. 64-65; Laduric, Lc Roy. 15. 86-87 vas bases para o transcendente. 136-
Horas do dia, qualidade da experiên­
Foco. Ver Concentração. Larson. Reed, 60, 89 143; as religiões orientais sobre a
cia c, 51-52
Forasteiros. 92-93: comunidades e, 92- Lazer ativo: adolescentes e, 115-118; abolição das metas para alcançar a
Humores: na família, 48. 49-50, 88-89;
94; fascínio por, 93; medo dc, 92-93; solidão c humores; 91 amadores e. 77; dificuldades dc apre­ felicidade. 31-32; em oções c. 33;
pluralismo e, 93 Huxley, Julian, 139 ciar o, 77; especialistas c o. 77; fluxo fluxo e. 36-37, 133-135; hierarquia
Ford, Hcnry, 106 c, 45; lazer passivo versus, 68-71; dc. 29-31; motivação e. 29-31. 32;
Fortune. Reo, 90 I qualidade da experiência no, 118- profetas c, 137; energia psíquica e.
Foucaull, Michcl, 27 Idade, experiências formadas pela, 15- 120. Ver Exercício; Hobbics; Filmes; 30. 32, 132-133; negaentropia psí­
Franklin, Benjamin. 18, 77 17 Música; Restaurantes; Esportes. quica c, 29; ciência c, 137, 143.
Franklin, John Hope, 64 Império Bizantino, lazer passivo no, 72 Lazer passivo: lazer ativo versus. 68- auto-estima e. 30-31; pensamentos
Freud. Sigmund, 14, 132 Império Romano. Ver Roma antiga 71: fluxo e. 44-45; como um proble­ e, 34.
164 A DESCOBERTA DO FLUXO ÍNDICE 165

Método dc Amostragem de Experiência P Primatas: atividades dos. 15; contexto sociedades cm termos de. 22. 80-83;
(ESM). 23-24: personalidade autoté- social e, 82 estranhos e. 92-94; tempo gasio em
Pascal. Blaise. 14
lica estudada com. 115-119; direção Prioridades, estresse reduzido pelo esta­ relacionamentos, 22-23; bem-estar
Passado: rcinterpretando verdades do.
estudada com, 147; família estudada belecimento dc. 105-106 c. 80-81; trabalho versus. 108-109.
13; ciência integrada com o. 13-14
Processos biológicos, vida determinada Ver Família; Am igos; Casamento;
com, 89; qualidade de experiência Paternidade, flu xo na, 110-112. Ver por, 14 Solidão
estudada com. 45-46; relacionamen­ Mães Profetas, metas e, 137 Relatividade, monoteísmo c. 138
tos estudados com. 80-81; atitudes Pauling. L i nus, 65. 99. 108. 122-123 Psicologia humanista, responsabilidade Relaxamento, fluxo e. 38
dc trabalho estudadas com. 53, 56- Pensamento, 32-35; causa e efeito. 33; pelas próprias ações e a, 120-123 Religiões orientais, sobre a abolição de
58, 60. 32 concentração e. 33-35; emoções e, Psicopatologia. fluxo e, 45-47 metas para alcançar a felicidade. 31-
Miner. Brcnda, 121 33: fluxo e. 69, 70; Psicotcrapia, autoconhecimento e, 132 32.
Monoteísmo. relatividade e. 138 inteligência e. 35. 146; energia psíquica Ver Budismo; Hinduísmo
Motivação extrínscca, 30 e. 32-33; qualidade de vida e. 14 Q Repouso: qualidade da experiência do,
Motivação intrínseca, 30 Personalidade autotélica, 114-127: em Qualidade da experiência, 41-53: lazer 43. 44; tempo gasto no. 18
Motivação: adolescentes sem. 58-60; adolescentes. 115-121; em in d iv í­ ativo e, 118-120; personalidade Responsabilidade ativa. 129
concentração e, 34; atividades coti­ duos criativos. 121-123; definição autotélica e; 117-119 concentração Responsabilidade: pela humanidade,
dianas e. 43; da. 114-116; determinação da. 115- c. 43. 44; criatividade c. 46; dias da 129; ciência e, 141-142
cxtrínseca, 30; intrínseca, 30; entropia 120; desenvolvimento da. 124-127; semana e. 51. 52; dirig ir e. 49; estu­ Restaurantes: qualidade da experiência
psíquica c falta dc. 30; trabalho e. 60. do da; experiência pelo Método de em. 14,44
interesse desinteressado da. 122-
Mozart. Wolfgang Amadeus. 35 Amostragem dc Experiência. 45-47; Richards, Maryse, 89, 147
124; Estudo do Método de
Mulheres: trabalhos domésticos feitos família e. 88-89; atividades dc lazer Riesman, David, 93-95
Amostragem dc Experiência sobre.
por. 20. 61; atividades de manuten­ e. 43,44-45; locais c. 48-51; ativida­ Rockwell, Norman, 93
115-119; família e. 119-121; fe lici­
ção c. 20; auto-estima e trabalho des de manutenção e, 43. 44; moti­ Roentgcn. W ilhclm C., 103
dade e. 120; energia psíquica e, 121- vação e, 43, 44; relacionamentos e. Rogcrs, Carl, 135
feminino. 59-61. Ver Diferenças dc 123, 124-127. 150; entropia psíquica 41-42; relação sistemática com Roma antiga: lazer passivo c, 72-73; tra­
sexo. reduzida pela. 130; qualidade da outras atividades e, 41-42; tempo do balho e, 54-55
Música; flu xo e. 69-71; qualidade da experiência e. 117-120; em pessoas dia e, 51-52. Romance, qualidade da experiência no.
experiência da. 44; tempo gasto cm. com deficiências graves. 126; tempo Qualidade dc vida: conteúdo das expe­ 44
21,45 necessário para desenvolvimento. riências determinando a, 17; quali­ Rousseau. Jean-Jacques. 13. 81
124; em vítimas de terroristas. 126. dade dc experiência e, 44-47; rela­ Ryu, Shintaro. 82
N Personalidade; desenvolvimento do cionamentos c, 22-23; pensamentos
Navajo, lazer passivo e, 72-74 senso de; boa vida e; poder e; auto- c emoções determinando a. 14; alo­ S
Necessidade interior. Maslow sobre a, conhecimento e. Ver Personalidade cação no tempo e, 18-22. Sahlins, Marshall. 145
135 autotélica; auto-estima Salk, Jonas, 139
Necessidades extemas. Maslow sobre, Pessoa totalmcntc funcional. Rogcrs R Sartrc, Jcan-Paul. 27
135 Rabinow. Jacob. 64, 122 Schmidt, Jennifcr. 148
sobre a, 134-135
Negaentropia psíquica. 145; metas c. Rathundc. Kcvin, 149 Sclye, Hans, 150
Pessoas cegas, energia psíquica disci­
Rccd. John. 65,95, 105 Sentimentos. Ver Emoções
30; emoções positivas e. 30 plinada por. 125-126
Relacionamentos sexuais: felicidade c, Singer. 1.. 149
Neotenia social. 119-121 Pessoas. Ver Relacionamentos
85-86; qualidade da experiência dos Singcr, Jcromc. 146
Neurose dominical. 68 Pluralismo, estranheza em relação ao relacionamentos. 80-81: estudo dc. Sistema nervoso, experiências forma­
Nictzsche, 134-135 diferente reduzida pelo, 93 com o Método dc Amostragem de das pelo, 14-16
Noclle-Neumann, Elizabeth, 91 Pont Tretax (Itália), distribuição de ati­ Experiência. 80-81; experiência in ­ Socialização. Ver Conversa
vidades de fluxo em, 75-76 fluenciada pelos, 14, 22-23; extro- Sociedade, contexto social e, 22. 81-83
O Posição social, experiências formadas versão versus inlroversão c. 93-96; Sociedades pré-lctradas: solidão c. 90;
Offner, Frank, 121 pela. 15-17 fluxo e. 83, 108-113; incapacidade trabalho c. 56
Operações mentais cognitivas. Ver Pós-modemismo, autopercepção da dc firm a r compromissos e. 129; Sócrates, 129
Pensamento felicidade criticada pelo. 27, 28 energia psíquica e. 83. 132-134; Solidão. 90-94; concentração e. 91. 92;
Oppcnheimer, Robcrt J.. 136, 150 Preocupação, fluxo e, 38,40 requisitos para. 83; diferenças de conversa e. 90-91; efeitos prejudi-
166 A DESCOBERTA DO FLUXO

ciais da. 46-47, 90-91; atitudes his­ separadas do. 66, 74-76; motvação e.
tóricas para com a. 81-83; humores 59; efeitos negativos do desemprego
e, 91; preferência pela, 91; nas so­ e, 61-62; condições objetivas do. 62-
ciedades pré-letradas, 90; entropia 63; entropia psíquica reduzida no.
psíquica e, 90; como um contexto 102; qualidade de experiência no. 12-
social. 23; tolerância e apreciação 13, 42, 43, 44, 45; relacionamentos
da, 48. 91-92. Ver Relacionamentos no, 111-113; relacionamentos versus.
Spock. Bcnjamin, 128, 140 108-109; ressentimento quanto ao,
Stem. Richard. 46, 132-134 100-105; formação do, segundo as
Strand, Mark, 65 necessidades do indivíduo. 106-108;
Structure o f Psychological Well-Being, estresse no, 101, 105-106, 111; tem­
The (Bradbum), 146 po gasto no, 18-19
Suicídio, solidão e. 90
U
T Uso da energia, atividades dc lazer c,
Talento: desenvolvimento de, 34-35; 77-78
solidão e, 92
Tédio, fluxo e, 38,40 V
Teilliard dc Chaidin, Pienc, 139 Valdcz, Susic. 101-103
Televisão: adolescentes assistindo à, Valores espirituais, individualism o e
116.117; fluxo e, 70, 71; como mau
materialismo versus lealdade a. 129-
uso do lazer; 68, 71; qualidade da
130
experiência da. 43, 44, 45; tempo
Velhice, fluxo na. 97-98
gasto com a. 18, 21,45
Verdades. 13
Tempo livre. Ver Atividades de lazer
Veteranos, ações destrutivas dos, 136
Tempo: alocação do, 17-22; personali­
Vida diária. Ver Experiências.
dade autotélica c, 124; dinheiro
Vítimas de terrorismo, energia psíquica
como, 17-18
disciplinada nas, 126
Teresa, madre. 30
V iver: definição de, I I . 13; passado
Terkel, Studs. 150
Thompson, E. P., 17 interligado à ciência para. 13-14,
Trabalho doméstico: qualidade da expe­ fatores incontroláveis que determi­
riência do. 43,44; auto-estima c, 61; nam a vida, 14. Ver Experiências.
tempo gasto no. 19 Voltaire, 29
Trabalho escolar. Ver Trabalho
Trabalho. 53-66; atitude ambivalente W
para com o, 53-66; devaneios no, 18. Waddington, C. H., 139
19; estudo do Método dc Amostra­ Wells, Annc, 61. 146
gem dc Experiência sobre o. 53, 56- Wheeler, John Archibald, 95. 140
59, 60; família e, 65-66; descobrindo Wong, Maria, 147
novidades no. 102-105; diferenças Woodward, C. Vann, 114-115
sexuais na experiência do, 59-62; Workaholism, 66, 75
metas c, 134; desprezo histórico pelo.
63; atividades de lazer combinadas Y
com. 76-77, 79; atividades de lazer Yalow, Rosalyn, 103, 106