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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS


DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO
CURSO DE ADMINISTRAÇÃO – MODALIDADE EDUCAÇÃO A
DISTÂNCIA
DISCIPLINA: DIREITO COMERCIAL E TRIBUTÁRIO
PROFESSOR: PROF. DR. AMILCAR DOUGLAS PACKER
ALUNO:

PROBLEMA
Os acionistas ajuizaram ação indenizatória em face de Guilherme
Barros e Outros, alegando, em síntese, que detêm 19% do total do
capital social de União S.A. Transportes Coletivos, sociedade na qual
os réus ocupam os cargos de Diretor Presidente, Diretor Vice-
presidente e Diretor Financeiro. Sustentam a negligência dos réus na
elaboração das demonstrações financeiras da companhia. Afirmam
que mais de 70% da receita auferida com o transporte de passageiros
entre o Brasil e a Argentina não é contabilizada regularmente e é
desviada do caixa da empresa. Defenderam-se os réus alegando que
quando a sociedade empresária tem prejuízo, por deficiência na
administração, os sócios, naturalmente, sofrem um dano indireto, na
medida em que, na melhor das hipóteses, haverá menos resultado
social para distribuir como lucro. Pelos danos indiretos, contudo, os
sócios não têm ação contra o administrador. Em vista da autonomia
patrimonial da sociedade, eles não são partes legítimas para
promover a responsabilização deste, fundada na má-administração da
empresa e que, portanto, os acionistas minoritários não teriam
legitimidade para propor ação contra os administradores de
sociedade anônima.

FUNDAMENTO JURÍDICO
A Lei de Sociedades Anônimas dotou o acionista minoritário, que não
tem voz de mando, controle e rara influência nos órgãos de
administração, de certos remédios judiciais como forma de
salvaguardar seus interesses, tudo na clara tentativa de proporcionar
certo equilíbrio naquilo que muitos doutrinadores chamam de
democracia societária. O acionista minoritário detém, em regra, ação
judicial contra o acionista controlador e contra os administradores da
sociedade anônima. Os regimes de tais medidas são amplamente
diversos, mas essa distinção passa ao largo da presente disputa. É
importante não confundir acionistas controladores e diretores, ainda
que o tema seja a responsabilidade dos administradores. No que diz
respeito à responsabilidade dos administradores, a LSA parte de uma
premissa básica: a administração deve gozar de estabilidade e
relativa tranqüilidade para a condução dos negócios sociais. Houve
claro intuito do legislador em evitar a judiciarização da administração
societária. A regra é, assim, a adoção da ação social “uti universi”, ou
seja, uma demanda proposta pela sociedade empresária contra seu
administrador, após a sua destituição em Assembléia Geral, para se
ver ressarcida de prejuízos próprios. Excepcionalmente, admite-se
que o minoritário exerça tal ação social, que, então, se denomina “uti
singuli”. Trata-se de legitimação extraordinária. O minoritário exerce
aí papel de verdadeiro substituto processual, pois pleiteia em nome
próprio direito alheio (da sociedade empresária). Esta legitimação
requer, no entanto, a realização de assembléia geral. Se na referida
assembléia delibera-se pela responsabilização do administrador, mas
a medida judicial não se efetiva em 3 meses, qualquer acionista
passa a ser legitimado. Por outro lado, se a assembléia afasta a
responsabilização, a lei assegura aos minoritários detentores de, ao
menos, 5% do capital social que tragam a questão à juízo. Esses 5%
são, dessa forma, a medida da representatividade adequada dos
minoritários. Tais formalidades asseguram que a ação de
responsabilidade não será meio para a consecução de interesses
puramente egoísticos.
A lei, porém, reconhece que o minoritário pode sofrer prejuízos
diretamente causados pelo administrador. A existência de tal medida
judicial sequer precisaria constar expressamente da lei societária
ante o princípio da inafastabilidade do controle judicial (art. 5o, XXXV,
CF). Contudo, de forma didática, a lei deixou patente que a ação
individual não se confunde com a social. Na ação individual, o
acionista visa a satisfazer interesse próprio, age em nome e por conta
própria, não representando a sociedade. Se a existência de 3
instrumentos processuais diversos (ação social uti universi e uti
singuli, bem como ação individual) é questão que não gera grandes
controvérsias, o mesmo não pode se dizer com relação ao objeto de
tais medidas. Os atos do administrador podem causar prejuízos à
companhia, ao acionista e a terceiros. Nada impede que tais prejuízos
coexistam. Por isso, nem sempre é clara a diferença entre prejuízos
sociais, cujo ressarcimento é buscado pela ação social, e danos
sofridos por acionistas determinados, cuja reparação advém por meio
da ação individual. Com efeito, o prejuízo da sociedade quase sempre
se reflete na perda de valor econômico das ações da companhia, bem
como na diminuição dos lucros. Diante dessa dificuldade de
generalizar regras que solucionem a hipótese concreta, respeitados
doutrinadores procuram exemplificar hipóteses de danos que
consideram ser claramente individuais. Modesto Carvalhosa indica
que a prática de insider trading (uso irregular de informações
confidenciais pelos administradores) traz, em geral, prejuízo para os
acionistas sem causar prejuízo para a empresa. Da mesma forma,
podem haver danos que advenham de uma relação contratual direta
entre o acionista prejudicado e o administrador como por exemplo se
certo acionista foi impedido de exercer direito de preferência, de
participar de assembléia geral, bem como a divulgação de
informações contábeis falsas, fato que leva certos acionistas a
subscrever ações com prejuízo. A hipótese narrada de início no
entanto não se encaixa perfeitamente em nenhuma das hipóteses
mencionadas. No caso os réus teriam contribuído para o
subfaturamento de receitas, subtraído caixa da empresa e diminuído
o lucro a ser distribuído. Não mencionam que a fraude contábil teria
os levado a adquirir ações e tampouco a subscrever aumento de
capital. Confira-se:

“Existem evidências de que apenas 30% (trinta por cento) dos ganhos
e rendimentos auferidos com a operação das 'linhas argentinas' são
realmente contabilizados. Ou seja, 70% (setenta por cento) dos
recursos sociais oriundos das 'linhas argentinas' não t[ê]m qualquer
documentação na companhia, o que os torna livres da incidência de
qualquer tributo e têm destino desconhecido pelos Autores. A única
coisa que sabem é que tal numerário não vai para o caixa da
sociedade.
(...)
Sem dúvida que as ações danosas dos Réus, caracterizadas por sua
conduta espúria e ilícita, causaram prejuízos aos Autores, na medida
em que, na qualidade de acionistas que são, têm o direito de
participar dos lucros da sociedade, e esses lhe foram
deliberadamente usurpados por administradores mal intencionados
que se locupletam às custas da companhia, deixando de gerar
receitas, e por conseqüência, lucro, tudo com o objetivo único de
converter tais verbas em benefício próprio”.

Percebe-se, assim, que os danos narrados pelos acionistas não foram


diretamente contra estes. Tais prejuízos foram causados à sociedade
que se viu privada de receitas e de fluxo de caixa. Essa lesão à
sociedade, segundo se depreende da inicial e do recurso especial,
também trouxe danos aos recorrentes, pois lucros deixaram de ser
distribuídos e suas ações desvalorizaram. Ocorre que esse reflexo
(ausência de lucros e desvalorização das ações) atingiu indiretamente
a todos os acionistas. A soma dos danos indiretos causados aos
acionistas é igual ao prejuízo direto sofrido pelas sociedade
empresária. Isto é, os prejuízos só foram sofridos pelos acionistas na
exata medida de sua participação social. Por isso, é de se esperar
que, com o ressarcimento dos prejuízos à companhia, em ação
própria, revertam-se também as perdas reflexas dos acionistas. Desta
forma, deve-se concluir que os acionistas descreveram em sua ação a
existência de dano social, com conseqüências apenas indiretas aos
minoritários. Considerando os fatos narrados pelos autores/acionistas,
vê-se que os autores pleiteiam o ressarcimento de danos que
consideraram ser próprios e isto seria suficiente para configurar sua
legitimidade ativa. Contudo, os danos descritos não são próprios, mas
sociais, ou seja, sofridos a um só tempo pela sociedade e
indiretamente por seus acionistas. Observa-se, em verdade, uma
desconexão lógica entre os fatos narrados e o pedido. Não se tem
direito próprio a ser ressarcido de danos que afetam, em primeiro
lugar, a companhia e, indiretamente, todos seus acionistas. Se o
patrimônio da companhia sofre prejuízo por efeito de ato ilícito de
administrador ou de terceiro, a ação para haver indenização compete
à companhia, como pessoa jurídica do patrimônio que sofreu o dano e
deve receber a reparação. Somente negando a existência da
personalidade distinta da companhia seria possível atribuir a cada
acionista ação para haver, do administrador ou de terceiro, a sua
quota-parte ideal no prejuízo causado ao patrimônio da companhia: a
reparação do patrimônio social seria substituída pela reparação dos
patrimônios dos acionistas que promovessem ações de indenização.

PERGUNTAS

Com base no texto acima responda as seguintes perguntas:

1) Qual a fonte legal a ser observada no caso (lei , decreto,


etc) ?

A Lei que regulamenta as atividades das Sociedades Anônimas é a


Lei 6.404/1976. No caso analisado, devem ser observados os artigos
158-160:

“Art. 158. O administrador não é pessoalmente responsável pelas


obrigações que contrair em nome da sociedade e em virtude de ato
regular de gestão; responde, porém, civilmente, pelos prejuízos que
causar, quando proceder:
I - dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo;
II - com violação da lei ou do estatuto.
§ 1º O administrador não é responsável por atos ilícitos de
outros administradores, salvo se com eles for conivente, se
negligenciar em descobri-los ou se, deles tendo conhecimento,
deixar de agir para impedir a sua prática. Exime-se de
responsabilidade o administrador dissidente que faça consignar
sua divergência em ata de reunião do órgão de administração
ou, não sendo possível, dela dê ciência imediata e por escrito
ao órgão da administração, no conselho fiscal, se em
funcionamento, ou à assembléia-geral.
§ 2º Os administradores são solidariamente responsáveis pelos
prejuízos causados em virtude do não cumprimento dos
deveres impostos por lei para assegurar o funcionamento
normal da companhia, ainda que, pelo estatuto, tais deveres
não caibam a todos eles.
§ 3º Nas companhias abertas, a responsabilidade de que trata o
§ 2º ficará restrita, ressalvado o disposto no § 4º, aos
administradores que, por disposição do estatuto, tenham
atribuição específica de dar cumprimento àqueles deveres.
§ 4º O administrador que, tendo conhecimento do não
cumprimento desses deveres por seu predecessor, ou pelo
administrador competente nos termos do § 3º, deixar de
comunicar o fato a assembléia-geral, tornar-se-á por ele
solidariamente responsável.
§ 5º Responderá solidariamente com o administrador quem,
com o fim de obter vantagem para si ou para outrem, concorrer
para a prática de ato com violação da lei ou do estatuto.
Art. 159. Compete à companhia, mediante prévia deliberação da
assembléia-geral, a ação de responsabilidade civil contra o
administrador, pelos prejuízos causados ao seu patrimônio.
§ 1º A deliberação poderá ser tomada em assembléia-geral
ordinária e, se prevista na ordem do dia, ou for conseqüência
direta de assunto nela incluído, em assembléia-geral
extraordinária.
§ 2º O administrador ou administradores contra os quais deva
ser proposta ação ficarão impedidos e deverão ser substituídos
na mesma assembléia.
§ 3º Qualquer acionista poderá promover a ação, se não for
proposta no prazo de 3 (três) meses da deliberação da
assembléia-geral.
§ 4º Se a assembléia deliberar não promover a ação, poderá ela
ser proposta por acionistas que representem 5% (cinco por
cento), pelo menos, do capital social.
§ 5° Os resultados da ação promovida por acionista deferem-se
à companhia, mas esta deverá indenizá-lo, até o limite
daqueles resultados, de todas as despesas em que tiver
incorrido, inclusive correção monetária e juros dos dispêndios
realizados.
§ 6° O juiz poderá reconhecer a exclusão da responsabilidade
do administrador, se convencido de que este agiu de boa-fé e
visando ao interesse da companhia.
§ 7º A ação prevista neste artigo não exclui a que couber ao
acionista ou terceiro diretamente prejudicado por ato de
administrador.
Art. 160. As normas desta Seção aplicam-se aos membros de
quaisquer órgãos, criados pelo estatuto, com funções técnicas ou
destinados a aconselhar os administradores.”

2) Pode o terceiro ou acionista prejudicado por ato direto do


administrador se indenizar contra este (o administrador)?
Qual a fonte legal?

Conforme reza o artigo 159, parágrafo 7º, da Lei 6.404/1976, o


acionista pode se indenizar contra o administrador, conforme abaixo
transcrito:

“Art. 159. Compete à companhia, mediante prévia deliberação da


assembléia-geral, a ação de responsabilidade civil contra o
administrador, pelos prejuízos causados ao seu patrimônio.
[ ... ]
§ 7º A ação prevista neste artigo não exclui a que couber ao
acionista ou terceiro diretamente prejudicado por ato de
administrador.”
3) A responsabilidade do administrador é objetiva ou
subjetiva ?

De acordo com o artigo 158 da Lei 6.404/1976, a responsabilidade do


administrador é subjetiva.

4) Qual a ligação entre “dano social” e “prejuízos indiretos”


na hipótese ?

O “dano social” consiste em dano causado à sociedade jurídica e não


afeta diretamente os acionistas. Os “prejuízos indiretos”, por sua vez,
correspondem ao não recebimento dos lucros correspondentes pelos
acionistas, como conseqüência do dano social causado à sociedade
jurídica em virtude de atos dos administradores, porém, sem que
ocorra a redução de capital ou prejuízos financeiros.

5) Com base nos argumentos é devida a ação social (contra a


pessoa jurídica) ou individual (contra os administradores) ?
Porque ?

Haja vista que o prejuízo dos acionistas foi indireto, sendo que o dano
foi causado à sociedade jurídica, é devida a ação social, de forma a
recompor o patrimônio da sociedade. Desta forma, ao recompor o
patrimônio da sociedade, todos os acionistas serão indiretamente
ressarcidos, na medida de suas participações societárias.