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A Regulação do
Agente de Seguros no
Direito Brasileiro e
sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de
Seguros no País e no
Direito Comparado

Felipe Graça Bastos Esteves


Xxx.
E-mail: Xxxxx
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A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 31

Resumo

Em meio à celeuma causada no segmento de “produção” de seguros a partir da


iniciativa do regulador brasileiro de regulamentar a atividade do agente de seguros, o
presente trabalho aborda a posição jurídica e fática desse personagem na história da
indústria do seguro brasileira e o seu entrelaçamento com os diversos papéis desempe-
nhados ao longo do tempo pelo corretor de seguros até os dias atuais. Essa análise é ainda
permeada pelo exame da relação existente entre esses dois sujeitos (agente de seguros
e corretor de seguros) nos principais mercados de seguros do mundo, nomeadamente
o norte-americano e o da União Europeia, com destaque especial, neste último, para
Reino Unido e Portugal.
O trabalho argumenta que potenciais conflitos de interesses, para os quais o
nosso Direito não pode ser indiferente, surgem em decorrência do duplo papel certas
vezes desempenhado por corretores de seguros em nosso país, apresentando-se exter-
namente como um fiduciário do proponente-segurado (cliente), mas ocultando estarem
internamente vinculado a um ou várias seguradoras, para quem assumem função promo-
cional de produtos junto ao mesmo cliente. Demonstramos que fenômenos semelhantes
ocorrem na experiência dos países analisados e examinamos como o ordenamento
jurídico nessas jurisdições os enfrenta.
Por fim, o trabalho ainda procura desvendar as motivações regulatórias para
a regulamentação do agente de seguros, que culminou chamado, sem boa razão, de
“representante de seguros”, e traçar um panorama de alguns possíveis efeitos da novel
regulamentação para o mercado de seguros em geral e para a sua distribuição em parti-
cular, examinando tais cenários sob o prisma finalístico de proteção do consumidor de
seguros no Brasil.

Palavras-Chave: Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx (AGUARDANDO)


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A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 33

Introdução

Contextualização do Tema
No Brasil, seguros podem ser comercializados sob duas formas: (a) diretamente
pelas seguradoras junto a segurados; ou (b) por intermédio de corretores de seguros
habilitados. Os corretores de seguros respondem pela avassaladora maioria dos
seguros contratados no mercado nacional, justificando a assertiva de Menezes Cordeiro
em relação aos seguros em geral:

[...] Desde o início, a indústria seguradora assentou numa teia de mediadores,


que procediam à aproximação entre elas e os interessados. As companhias
seguradoras são, no fundo, entidades financeiras, que articulam o risco e o
dinheiro: não têm vocação para desenvolver, no terreno, os inúmeros contatos
que conduzem à conclusão dos seguros.
(CORDEIRO, 2013, p. 393)

Os corretores de seguros são hoje uma categoria consolidada e essencial para o


bom funcionamento do mercado de seguros. Há absoluto consenso de que a atuação do
corretor de seguros é fundamental em todas as fases do contrato de seguro.
Na fase pré-contratual, será dele, no mais das vezes, o aconselhamento inicial e
decisivo a respeito das coberturas disponíveis no mercado, seus preços e cotações frente
ao risco delineado pelo proponente-segurado. Compete ao corretor, ainda, alertar o seu
cliente quanto a circunstâncias e aspectos mais salientes do contrato, para sua melhor
compreensão. Contratos de seguros, mesmos os mais triviais, não são despidos de
grande complexidade para a enorme massa de segurados, sendo de suma importância
a intervenção de um especialista capaz de interagir com o consumidor de seguros e em
quem ele possa confiar plenamente.
Durante a fase de execução do contrato de seguro, a atuação do corretor de
seguros é igualmente relevante. Pressupõe-se que ele (o corretor) tenha toda a autori-
dade e conhecimento para orientar e instruir o segurado a respeito da interpretação dos
termos contratuais quando uma dúvida lhe assaltar, seja em relação ao cumprimento
de suas obrigações, seja quanto à sua fiel observância pela seguradora. A atuação do
corretor avulta em importância, em especial na superveniência de sinistro, quando a
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função econômica subjacente ao contrato de seguro é posta em prova; geralmente ele


desempenha papel central na interlocução com a seguradora, intercedendo e contribuindo
para um processo mais paritário e equilibrado de resolução da questão. A relação entre
o corretor de seguros e seu cliente é permeada por uma grande carga de fidúcia.
Pois bem. Em meados de junho de 2013, a Superintendência de Seguros Privados
– SUSEP, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda supervisora das atividades relacio-
nadas à indústria de seguros, colocou em consulta pública, por meio da minuta de resolução
nº 11/2013, uma proposta de regulamentação da atuação do “agente de seguros”.
A minuta de resolução nº 11/2013 encontrou imediata e intensa resistência da
classe profissional dos corretores de seguros. A Federação e diversos sindicatos
de corretores de seguros em todo o país manifestaram ferrenha oposição à possibilidade de
introdução do agente de seguros como um meio alternativo de angariação de negócios
por parte das seguradoras.

“Eu garanto que, no que depender de mim e dos sindicatos, a regulação dos
agentes de seguros não vai acontecer.” 1

Foi com essas palavras incisivas que o Sr. Armando Vergílio, Deputado Federal,
corretor de seguros, ex-superintendente da SUSEP e atual presidente da Federação
Nacional dos Corretores de Seguros e de Capitalização – Fenacor, criticou a iniciativa
da autarquia de disciplinar o papel do agente de seguros.
Instadas a se pronunciar sobre o tema, algumas seguradoras manifestaram
publicamente apoio aos corretores de seguros, de quem dependem para a colocação de
seus produtos junto a segurados2.
Apesar da resistência de corretores de seguros, em 28 de outubro de 2013 foi
publicada a Resolução CNSP nº 297/2013. A resolução disciplinou as operações dos

1
Pronunciamento proferido durante a 2ª Ecoseg (Encontro Catarinense de Corretores de Seguros) e reproduzido em
matéria de 31/07/2013, intitulada “Vergílio garante que agente de seguros não será regulamentado”, podendo ser consultada
em vários veículos especializados, entre eles o sítio eletrônico do Centro de Qualificação do Corretor de Seguros – CQCS.
Disponível em: <http://www.cqcs.com.br/noticia/vergilio-garante-que-agente-de-seguros-nao-sera-regulamentado/>.
Acesso em: 25 dez.2013.
2
Em matéria intitulada “O que as seguradoras pensam sobre os Agentes de Seguros”, Irani Nogueira reproduz declaração
do Diretor regional da Marítima Seguros: “Nós, da Marítima e da Yasuda, temos os corretores como nosso canal único
de distribuição. Respeitamos as demais seguradoras que acreditam na regulação do agente, mas nós entendemos que o
corretor de seguros é a melhor opção”. Disponível em: <http://www.cqcs.com.br/noticia/seguradoras-o-que-pensam-
sobre-os-agentes-de-seguros/>. Acesso em: 21 jan.2014.
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agentes de seguros, a quem chamou pela insípida alcunha de “representantes de seguros”,


como se isso fosse evitar, ou ao menos reduzir, a polêmica criada em torno do perso-
nagem, assim permitindo a sua aceitação de forma mais suave na indústria.
A regulamentação dos chamados “representantes de seguros” não surgiu no
vácuo. Na mesma data, o Conselho Nacional de Seguros Privados – CNSP editou outra
normatividade, a Resolução CNSP nº 296/2013, tendente a dar início à “moralização” da
venda de seguros de garantia estendida por entidades varejistas, notadamente lojistas, que
se apresentavam ao consumidor de bens como “estipulantes” na relação de seguro. Coube
à recente Circular SUSEP nº 480, de 18 de dezembro de 2013, enquadrar a organização
varejista como representante de seguros, para efeitos da Resolução CNSP nº 297/2013.
De pronto, a regulamentação dos chamados “representantes de seguros” suscita
inúmeras dúvidas, sobretudo se compararmos a situação do Brasil com os panoramas
normativos vigorantes no mercado internacional, onde há muito são acolhidas institu-
cionalmente as figuras do corretor e do agente de seguros. Faz sentido a fuga, ao menos
aparente, do Brasil à adoção escancarada da figura do agente de seguros? O que é o repre-
sentante de seguros? Seria ele um tertium genus? Em caso afirmativo, qual a vantagem
de o Brasil distanciar-se do resto do mundo, criando figuras peculiares, justamente no
momento em que se pretende inserir o país na economia globalizada?

Objetivos
O propósito deste trabalho monográfico não é passar em revista a Resolução
CNSP nº 297/2013, mas examinar, trazer novas luzes e desmistificar certos precon-
ceitos verificados na indústria brasileira do seguro a respeito da atividade do agente de
seguros, além de investigar o agenciamento de seguros por corretores e discorrer sobre
suas implicações.

Problema
O agente de seguros é hoje visto por várias lideranças da classe dos corretores
de seguros como uma ameaça à categoria, um rival estranho ao mercado pátrio e, acima
de tudo, desnecessário e prejudicial ao consumidor-segurado.
Mas será mesmo que o agente de seguros merece todos esses rótulos? Será que
a formalização da atividade do agente de seguros tenderá a representar um retrocesso?
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Em outros países, mais desenvolvidos do que o Brasil em termos securitários, ocorreu


o mesmo processo pernicioso diante da instituição do agente de seguros? É possível e
desejável a acumulação da função de agente de seguradoras por parte dos corretores de
seguros, como de costume? Quais serão os possíveis efeitos da introdução do agente
de seguros para as seguradoras? E para os segurados?

Hipóteses
O corretor de seguros é um ator sui generis da economia. Externamente, ele
costuma ser reconhecido como alguém que atua ao lado do segurado, possuindo deveres
que antecedem, perpassam e sucedem a contratação do seguro. É essa a percepção
generalizada dos segurados e que os próprios corretores costumam convenientemente
cultivar, sendo ainda, sem dúvida, a função mais saliente da atividade do corretor de
seguros que se extrai da legislação.
Contudo, o corretor de seguros é um sujeito mais complexo e multifacetado.
Por exemplo, é da seguradora, e não do cliente mais aparente, que parte a remuneração
destinada ao corretor, a comissão de corretagem.
Além disso, o corretor é geralmente utilizado como canal de distribuição dos
produtos das seguradoras – normalmente o principal canal de distribuição de determinadas
linhas de seguros mais complexos. Instaura-se assim, entre ele e seguradoras, uma relação
híbrida, que passa de forma invisível aos olhos da imensa maioria dos segurados.
Quer nos parecer que essas funções não podem ser acumuladas pelo corretor
de seguros sem que surjam, ao menos em tese, riscos de conflitos éticos e, ao menos a
partir do advento do Código Civil, também jurídicos e de difícil superação. A hipótese
que aventamos neste trabalho é, pois, que, quando o corretor se apresenta externamente
como representante do segurado, sua atuação torna-se incompatível com a de fomentador
de seguros de seguradoras. Isso porque, ao fomentar produtos das seguradoras, ele estará
atuando, a rigor, como genuíno agente desta, e não mais como corretor.
Nossas impressões preliminares, sujeitas ao crivo da pesquisa a ser desenvolvida,
sugerem que (i) a ausência de regulamentação específica sobre o agente de seguros por
tanto tempo é uma das razões para que a distorção criada no obscuro agenciamento de
seguros por corretores se perpetuasse e, com efeito, se tornasse de difícil enfrentamento;
e (ii) a regulamentação do agente de seguros contribuirá para um maior desenvolvimento
do mercado de seguros, com a expansão das possibilidades de sua distribuição, e, ainda,
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poderá tornar a comercialização de seguros mais transparente e visível para o segurado,


concretizando o tão decantado princípio da boa-fé.

Delimitação da Pesquisa
O presente estudo se propõe a examinar o papel do agente de seguros na história
da indústria de seguros brasileira e os possíveis efeitos de sua regulamentação por parte
da SUSEP. Para tanto, investigaremos as funções que esse profissional exerce em alguns
dos mercados securitários mais maduros do mundo, como o inglês e o norte-americano,
onde agentes e corretores coexistem, sendo comumente identificados como “produtores”
(em inglês: producers) de seguros. Para uma investigação mais abrangente, ainda exami-
naremos o tratamento conferido aos intermediários (ou mediadores) de seguros na União
Europeia e em Portugal.
Analisaremos também as atividades de agenciamento de seguros desenvolvidas
e muito disseminadas no Brasil, embora sem alarde e de forma quase disfarçada, por
corretores de seguros e por outras entidades anômalas, como as chamadas “plataformas”,
vale dizer, corretores que organizam a atuação, fazendo a ponte – isto é, a intermediação
– de outros corretores, e os corretores de seguros usualmente denominados de “cativos”,
que são aqueles declarados pelas seguradoras como corretores das operações, mas que
muitas vezes sequer tiveram qualquer contato com os segurados ou participaram da inter-
mediação. A racionalidade econômica da utilização dos corretores cativos está ligada ao
fato de que eles possuem um acerto de comissão de corretagem com seguradoras menos
dispendioso para estas do que os custos associados à contratação direta pelo segurado,
quando surge para a seguradora o dever de recolher a parcela de comissão de corretagem,
a valores de mercado, aos cofres da FUNENSEG.

Relevância do Estudo
Espera-se que o presente estudo ofereça subsídios e contribuições para o aceso
debate que se instalou entre corretores e também seguradoras, a propósito da utilização
no Brasil dos agentes de seguros como um canal de distribuição de produtos de seguros,
sua valia e seus potenciais efeitos. Em especial, o surgimento dos agentes pode despontar
como uma alternativa muito útil e mais barata do que a abertura de filiais para que
seguradoras possam cobrir o território nacional de forma mais abrangente, colaborando
para a expansão e maior penetração do seguro na sociedade brasileira em geral, fora
dos grandes centros urbanos.
38 • Em Debate

O Agente de Seguros no Direito Brasileiro


O Surgimento e o Caso do Agente de Seguros no Brasil

Os agentes de seguros não são figuras novas, tampouco inéditas na história da


indústria brasileira do seguro. Absolutamente. Em profundo e rigoroso estudo sobre
a profissão de corretor de seguros em nosso país, Silva assinala que o “embrião” do
agente de seguros já vinha regulado desde o Decreto [s/nº], de 24 de fevereiro de 1808
(SILVA, 2007, p. 3-37). Esse diploma marca o início da história do mercado segurador
brasileiro, ao autorizar o funcionamento da primeira companhia de seguros em nossa
terra: a Companhia Boa Fé3, na então Capitania da Bahia (SILVA, Rita de Cássia da
Costa, 2007, p. 12). Dispunham as condições (artigos) 7ª a 9ª do referido decreto para
funcionamento da dita seguradora, in verbis:

7ª Esta Companhia deverá ter 3 directores ou administradores, nomeados pelos


socios. Haverá um cofre, do qual todos 3 serão responsaveis. Haverá tambem
um escriptorio, no qual mercantilmente se façam os precisos e necessarios
assentos em livros proprios com limpeza e methodo, de sorte que estejam não
só patentes aos socios, como aos segurados, logo que o requererem.

8ª Os socios administradores, ou caixas, tomarão os seguros que lhes parecer;


terão a seu cargo a cobrança dos premios; assignarão as apolices em nome da
companhia; pagarão as perdas legalisadas, em consequencia da 5ª condição e
da boa fé com que este negocio deve ser tratado.

9ª Em remuneração do trabalho que os caixas ou administradores, hão de ter


pelas suas respectivas obrigações, haverão cinco por cento das importâncias
dos prêmios que cobrarem, cujos cinco por cento serão partíveis pelos 3 admi-
nistradores, os quaes serão obrigados a pagar caixeiros necessários, sendo só a
cargo da sociedade as despezas de livros, papel, etc., e a judiciaes.
(SILVA, 2007)

Em 1850, com o advento do Código Comercial, que passou a regular o seguro


marítimo, foi inaugurada a disciplina normativa do corretor. Porém, o corretor do Código

3
“1ª Esta Companhia será denominada Boa Fé. Principiará logo que tiver a approvação de Sua Alteza Real.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
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Comercial era compreendido sob uma acepção ampla, mais ligada à atividade de venda
de bens do que propriamente à comercialização de seguros marítimos4 5.
A regulação do seguro marítimo foi seguida pelo aporte no Brasil de diversas
seguradoras estrangeiras. O aumento na competição provocou uma mudança na forma
tradicional e algo tímida de comercialização de seguros ditada pelos administradores ou
caixas das seguradoras. Com o propósito de incrementar as vendas de seguros, diversas
seguradoras passaram a contar com colaboradores – os angariadores de seguros.6
Conforme destaca Silva,

Os ditos angariadores nada mais eram do que agentes credenciados junto às


seguradoras para comercializar, com exclusividade, em nome delas, os seguros.
É nessa sucessão de novos fatos que surge no mercado segurador a figura do
agente de seguros.
(SILVA, 2007, p. 17)

O corretor de seguros, tal qual conhecemos e nos habituamos a ver contempo-


raneamente, surgiu como alguém contratado por esses angariadores (rectius: agentes)
de seguros como forma de ampliação de sua produção de seguros. O panorama é bem
descrito por Silva7:

Estimulados, ou melhor, pressionados cada vez mais pelas companhias a aumen-


tarem sua produção, os agentes de seguros, que eram impedidos de representar
mais de uma companhia e, assim, como as companhias, na busca desenfreada de
novos negócios, ofertassem comissões, cada um de percentual mais elevado que
a outra, passaram a se servir dos “atravessadores de negócios”, os quais recebiam
como pagamento parte da comissão do agente que solicitava seus serviços.

A nova atividade no mercado segurador, a qual deu origem ao que hoje


chamamos corretor de seguros, não era vista com bons olhos, mas tal atividade

4
Vide, e.g., o art. 53, que dispunha que “[o]s corretores são obrigados a assistir à entrega das coisas vendidas por sua
intervenção, se alguma das partes o exigir; sob pena de uma multa correspondente a 5% (cinco por cento) da fiança, e de
responderem por perdas e danos.”
5
Essa acepção de corretor do Código Comercial se assemelha muito mais à do corretor geral sujeito do contrato de
corretagem regulado entre os arts. 722 e 729 do Código Civil de 2002, diverso do – e, por isso, atualmente de aplicação
apenas subsidiária ao – corretor de seguros.
6
Nesse sentido, SILVA, Rita de Cássia da Costa, ob. cit., p. 16.
7
Idem, ibidem.
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foi sedimentada em decorrência do fato de que os até então profissionais do


mercado – agentes de seguros – necessitavam valer-se cada vez mais daqueles
atravessadores para atingirem metas mais destacadas no ranking geral.
(SILVA, 2007, p. 17)

O surgimento dos chamados atravessadores, posteriormente corretores, de


seguros nasce no Brasil como solução para fazer frente à exigência formulada pelas
seguradoras de ampliação de suas vendas a partir do modelo de distribuição baseado
em agentes de seguros. Os atravessadores-corretores, que não guardavam vínculos
de exclusividade com seguradoras, completavam esse ciclo atuando a partir da ponta
inversa, vale dizer, obtendo o cliente (segurado) e promovendo a conexão do mesmo
com o angariador-agente de seguros, que lhes remunerava com parte da comissão que
a seguradora lhe pagava. O panorama é relatado por Roncaratti:

Os Agentes Representantes emissores de apólice, autorizados de Companhias


nacionais e estrangeiras de então, operavam pessoal e diretamente também
como produtores e intermediários de seguros de suas representadas, com
carteiras e segurados próprios, emitindo e assinando apólices e auferindo a
comissão contratual própria de representantes. Foram, entretanto, surgindo
cada vez em maior número, os que hoje legalmente se chama “Corretores de
Seguros”. Nem era[m] vistos com bons olhos, porque atravessavam seguros
dos próprios Agentes Representantes de Companhias e devendo ser-lhes pagas
comissões que de outro modo não o seriam, sem falar nos casos em que seguros
eram renovados em outras Companhias, com maiores comissões.
(RONCARATTI, 2013, p. 6-7)

Com o passar do tempo, a estrutura baseada em dispersos agentes de seguros


deu lugar a sucursais de seguradoras, com gerentes e pessoal próprio contratado
(SILVA, 2007, p. 17), num movimento de verticalização e internalização da atividade
pelas seguradoras.
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De atores fundamentais para o desenvolvimento do mercado de seguros em sua


fase inicial, os agentes de seguros foram minguando e gradualmente se misturando aos
corretores, com quem passaram a se confundir. Destaca Roncaratti:

Na prática, portanto, essas funções se fundiam numa mesma pessoa, havendo


Agentes que também eram Corretores, mas vinculados às Companhias em
cujo nome atuavam e exerciam poderes de representação. De outro lado, os
Corretores que, muito embora se considerem livres de qualquer subordinação,
representam as partes contratantes: Segurados e Companhias. Foram compre-
ensíveis os conflitos de interesses reinantes à época. E isso explica como, no
evoluir do tempo, as Companhias foram aos poucos substituindo seus Agentes
Representantes por Sucursais, com gerentes, pessoal e locações próprios.
(RONCARATTI, 2013, p. 7)

Esse fenômeno foi acompanhado pelo paulatino fortalecimento da atuação dos


corretores como categoria autônoma8, malgrado a resistência das lideranças das segu-
radoras em admiti-los como tais durante longo tempo, insistindo em reduzi-los a meros
“angariadores de seguros” (RONCARATTI, 2013, p. 8)9.
Em análise retrospectiva, Alvim também registra que:

A venda do seguro era feita antigamente pelos agentes do segurador, figura


conhecida nas pequenas cidades do interior. Muitos não possuíam qualifi-
cação profissional. Sua missão era exclusivamente encaminhar os negócios.
Qualquer pessoa frustrada noutras atividades poderia dedicar-se a operações
de seguro, cujo desenvolvimento não tinha maior expressão para a economia
do País. O agente era um preposto do segurador que lhe pagava comissões por
negócios encaminhados e, às vezes, uma remuneração fixa.
(ALVIM, 2007, p. 83)

8
Uma categoria rumando para autonomização, embora não fosse nem um pouco homogênea. Silva (2007, p. 17) registra
artigo publicado na Revista de Seguro clamando pela atenção de seguradoras e providências para “[...[regulamentando a
profissão de – agente – ou melhor – corretor de seguros –, moralizar uma classe que infelizmente, em virtude do pouco
ou quase nenhum interesse que tem despertado aos nossos Seguradores, é constituída, hoje, por elementos assaz hectero-
genios!” (“É imprescindível uma medida por parte das companhias de seguros”, Revista de Seguros, ano I, nº IV, p. 70,
outubro de 1920).
9
“Em resumo, o que os Corretores buscavam era um ‘Regulamento do Corretor’, ao passo que as Companhias enten-
diam ser de ‘Angariadores de Seguros’, mediante Convenção de Trabalho. O Fiscal Sindical esclarece que Convenção
só é aplicável a ajuste relativo a condições de trabalho entre um ou vários empregadores e seus empregados, ou entre um
Sindicato e outro Sindicato.”
42 • Em Debate

Como se vê, o agente foi cedendo lugar aos corretores, e não tardou muito até
que o Governo Federal reconhecesse, na década de 30, a legitimidade do Sindicato dos
Corretores. Isso permitiu a expedição de carteiras profissionais específicas e arrefeceu
por algum tempo o ímpeto da categoria por um projeto de regulamentação da profissão
dos corretores.
Sobreveio, em 1940, o Decreto-Lei nº 2.063 reformando o arcabouço legal
de seguros no Brasil. Conquanto o decreto-lei não tenha regulamentado a profissão do
corretor de seguros, ele representou um avanço para a classe, ao consagrar a possibilidade
de intermediação do contrato de seguro por um de corretor, com comissão pagável pela
respectiva seguradora. Vejamos:

Art. 84. A aquisição de qualquer seguro não poderá ser feita senão mediante
proposta assinada pelo interessado ou seu representante legal, ou por corretor
devidamente habilitado.

Parágrafo único. Quando o seguro tiver sido adquirido por intermédio de


corretor, a seguradora poderá pagar-lhe a comissão de aquisição até o máximo
estabelecido na respectiva tarifa.
(BRASIL, 1940)

O antigo angariador de seguros ou agente de seguros ia aos poucos saindo de


cena, ao menos formalmente. O Decreto-lei nº 2.063/40 apenas contemplou o agente en
passant, no dispositivo que fazia referência a sociedades seguradoras estrangeiras, de
quem exigia a nomeação de representante geral, com poderes, inclusive, para “nomear
agentes para o Brasil.” Confira-se:

Art. 206. As sociedades estrangeiras, [sic] são obrigadas a manter permanente-


mente na Capital Federal sua agência principal, a cargo do representante geral,
ao qual caberá a representação da sociedade em juízo ou fora dele, como autora
ou ré, receber primeiras citações, resolver todas as questões que se suscitarem,
quem com o Governo, quer com particulares, aceitar ou recusar propostas de
seguros, emitir apólices, fazer pagamentos devidos por seguros, movimentar
capitais e nomear agentes para o Brasil.
(BRASIL, 1940)
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
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Finalmente, em 29 de dezembro de 1964, foi promulgada a Lei nº 4.59410, regu-


lando a profissão de corretor de seguros. O art. 1º da referida lei define a atuação do
corretor de seguros:

Art. 1º. O corretor de seguros, seja pessoa física ou jurídica, é o intermediário


legalmente autorizado a angariar e a promover contratos de seguros, admitidos
pela legislação vigente, entre as Sociedades de Seguros e as pessoas físicas ou
jurídicas, de direito público ou privado.
(BRASIL, 1964)

É interessante observar que o citado dispositivo, ao autorizar o corretor de seguros


a “angariar e a promover contratos de seguros” – assim mesmo, sem maiores qualificativos
e, principalmente, sem vincular o corretor de seguros a agir como intermediário designado
pelo segurado –, acabou por reservar para ele um largo campo de atuação.
Pela dicção do dispositivo, aquela atuação do corretor tendo por objeto agir no
interesse do segurado, que é também a que povoa o imaginário popular, é apenas uma
das possibilidades contidas na ampla definição legal, mas não a única. A autorização
legal genérica para “angariar e a promover contratos de seguros” acabou por também
atribuir oficialmente ao corretor de seguros a atividade que no passado timbrava a
atuação dos agentes de seguros – ou, em sua denominação mais remota, pelos angaria-
dores de seguros.11
O Decreto nº 56.903, de setembro de 1965, que regulamenta a profissão do
corretor de seguros de vida e de capitalização, registra a transformação À qual a figura
do agente de seguros se sujeitou. O seu art. 1º, ao definir o corretor de seguros de vida
e de capitalização, refere-se a ele de acordo com a nomenclatura atual do antigo termo
“agente”, que se tornava parte do passado. Vejamos:

Art. 1º. O Corretor de seguros de Vida e de Capitalização, anteriormente deno-


minado Agente, quer seja pessoa física ou jurídica, é o intermediário legalmente
autorizado a angariar e a promover contratos de seguros de vida ou a colocar
títulos de capitalização, admitidos pela legislação vigente, entre sociedades de
seguros e capitalização e o público em geral.
(BRASIL, 1945)

10
Publicada em 05 de janeiro de 1965.
11
Gustavo Haical, em dissertação de mestrado dedicada ao tema do contrato de agência, após analisar a Lei nº 4.594/64,
chega a sustentar que “[a]inda que a Lei 4.594/1964 tenha o nome de ‘Lei do Corretor de Seguros’, em verdade está
a regular o contrato de agência de seguros.” (O Contrato de Agência: seus elementos tipificadores e efeitos jurídicos.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 86, nota 49).
44 • Em Debate

Porém, apesar do abandono do termo “agente”, o parágrafo único do art. 6º do


referido decreto permitia que outras figuras (inspetores ou organizadores admitidos)
pudessem ser remuneradas com comissões decorrentes do “agenciamento” de contratos
de seguros no ramo vida ou de planos de capitalização:

Art. 6º. Só ao Corretor de Seguros de Vida ou de Capitalização, devidamente


inscrito, nos termos deste Decreto, e que houver assinado a proposta de seguro
ou a requisição do título, deverá ser paga a corretagem ou a comissão previa-
mente estabelecida.

Parágrafo único. Aos inspetores ou organizadores admitidos ou contratados


pelas sociedades para fomentar o agenciamento de seguros de vida ou de títulos
de capitalização, também poderá ser paga a corretagem ou comissão prevista
neste artigo.
(BRASIL, 1965)

Contudo, anotam Tzirulnik e Piza (1996)12 que o citado art. 6º:

Não conta mais com o parágrafo único. Com a edição do Decreto-lei nº 73/66,
já havia sido revogado, pois o art. 124 estabelece que a comissão somente pode
ser paga a corretores habilitados.
(TZIRULNIK; PIZA, 1996)

Em 21 de outubro de 1966, a Portaria nº 28 foi expedida pelo Departamento


Nacional de Seguros Privados (DNSPC). O texto regulava a nomeação dos chamados
agentes emissores por seguradoras. Sobre tais agentes e sua atuação meramente marginal
no mercado de seguros, insta sublinhar novamente a opinião de Tzirulnik e Piza (1996)
(TZIRULNIK; PIZA, 1996):

Os agentes, também chamados representantes, constituem, na realidade, uma


alternativa à organização das seguradoras. Somente podem existir, e apenas um,
em cada unidade da federação, desde que ali não exista sede, filial ou sucursal
da seguradora respectiva. Devem ter, obrigatoriamente, mandato para receber

12
Disponível em: <http://www.ibds.com.br/artigos/ComercializacaodeSegurosContratacaoDiretaeIntermediacao.pdf>.
Acesso em 12 jan. 2014.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 45

e resolver reclamações, acordar a respeito, fazer pagamentos de indenizações


e de capitais garantidos, receber primeiras citações e representar a seguradora
perante a SUSEP. Poderão também ter poderes para emissão de apólices.
As suas remunerações são percentuais sobre a produção ou participação nos
lucros apurados nas respectivas operações, ou, ainda, na soma de ambas. [...]
Em nossa experiência profissional, como advogados, poucas vezes nos depa-
ramos com os agentes dessa espécie.
(TZIRULNIK; PIZA, 1996)

Agentes genuínos, como se verifica, eram raridades. Essa constatação não chega
a surpreender, pois é nítido que a política da época, a qual somente admitia um agente
emissor por unidade da federação e, mesmo assim, condicionado à ausência da segura-
dora naquela área, remava contra a difusão e expansão desses sujeitos. Sua atuação era,
portanto, meramente residual.
O virtual desaparecimento do agente de seguros foi corroborado, então,
com o advento do Decreto-Lei nº 73, de 21 de novembro de 1966, notadamente o
principal estatuto brasileiro ainda vigente no que tange à estruturação do Sistema
Nacional de Seguros Privados e seus componentes. O art. 8º do aludido decreto-lei
contempla os corretores de seguros habilitados, mas ignora a existência de agentes
de seguros autônomos:

Art. 8º. Fica instituído o Sistema Nacional de Seguros Privados, regulado pelo
presente Decreto-lei e constituído:
a) do Conselho Nacional de Seguros Privados – CNSP;
b) da Superintendência de Seguros Privados – SUSEP;
c) dos resseguradores; (Redação dada pela Lei Complementar nº 126, de 2007)13
d) das Sociedades autorizadas a operar em seguros privados;
e) dos corretores habilitados
(BRASIL, 1966)

13
A alínea “c” referia-se, originalmente, ao Instituto de Resseguros do Brasil – IRB, vindo a ser revogada com a pro-
mulgação, em 2007, da Lei Complementar nº 126, que promoveu a abertura do mercado brasileiro de resseguro, abrindo
caminho para a recente privatização do IRB.
46 • Em Debate

Outros dispositivos do Decreto-Lei nº 73/66 ratificaram a posição dos corretores


como legítimos intermediários na contratação de seguros14, a exemplo do que já fizera
a Lei nº 4.594/64:

Art 9º. Os seguros serão contratados mediante propostas assinadas pelo


segurado, seu representante legal ou por corretor habilitado, com emissão das
respectivas apólices, ressalvado o disposto no artigo seguinte.
[...]
Art 122. O corretor de seguros, pessoa física ou jurídica, é o intermediário
legalmente autorizado a angariar e promover contratos de seguro entre as Socie-
dades Seguradoras e as pessoas físicas ou jurídicas de Direito Privado.
(BRASIL, 1966)15

Ou seja, os corretores passaram efetivamente a reinar quase soberanos no cenário


normativo securitário, especialmente após o advento do Decreto-Lei nº 73/66.
O corretor despontava no cenário normativo pátrio como o intermediário por
excelência do contrato de seguros. Conforme anota Bierrenbach:

Nos anos 60, corretores em sua imensa maioria trabalhavam como agentes
gerais de seguradoras, limitando seu relacionamento a uma única companhia
da qual dependiam. Independente da forma pela qual eram chamados ou do
tipo de vínculo que tinham com seguradoras, tinham como característica o
fato de venderem diretamente os produtos e de se relacionarem apenas com
aquela empresa. No início, o modelo funcionou bastante bem para ambos.
O corretor tinha o monopólio de uma certa área ou pública e a seguradora tinha
sua preferência.
[...]
Começa a se delinear o modelo atual. Corretores vinculados ou inspetores de
produção ou agentes gerais começam a dividir sua produção inicialmente entre
duas empresas, depois colocam mais um pouco em uma terceira e ao diluir sua
produção entre muitas terminam perdendo o atendimento especial que antes
tinham. Passam, no entanto, a ter a alternativa de comparar preços, qualidade
e atendimento.
(BIERRENBACH, 2001, p. 146)

14
Uma rara exceção ao corretor de seguros é admitida pelo art. 30 da Lei n° 4.594/64. Nos municípios onde não houver
corretor de seguros habilitado, é aceita a contratação de seguros pela intermediação de qualquer cidadão.
15
A dicção do art. 122 é reproduzida quase ipsis literis no art. 100 do Decreto nº 60.459, de 1967, que regulamenta o
Decreto-Lei n° 73/66.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 47

O agente emissor ainda sobreviveu, ao menos no plano teórico, por mais algum
tempo. Mesmo com a extinção do DNSPC a partir de 196716, a Portaria nº 28/66 perma-
neceu em vigor, vindo a sofrer sucessivas modificações pontuais ditadas pela SUSEP,
por meio das circulares nº 31/73, 47/73, 46/76.
Em julho de 1978, foi editada a Resolução CNPS nº 19, que, entre outras
questões, aprovou normas regulamentadoras da criação, instalação, funcionamento e
encerramento de Agentes Gerais Emissores17 18. Porém, a SUSEP praticamente repetiu
a fórmula restritiva anterior e que travava a disseminação dos agentes, condenando-os
ao ostracismo:

3.1 Na Unidade da Federação em que a Sociedade Seguradora tiver sede, uma


ou mais Sucursais, ou vier a criá-las, não poderá ela manter Agente Geral
Emissor, respeitadas as situações existentes até 30.09.66.

3.2 As Sociedades Seguradoras poderão criar mais de uma Sucursal na mesma


Unidade da Federação, vedada a criação de novos Agentes Gerais Emissores.
(CNPS, 1978)

Em suma, o agente de seguros passou a existir como uma figura reconhecida apenas
em normas inferiores do ordenamento e sem qualquer expressão no mundo exterior.
O corretor passou a deter o monopólio de fato da intermediação de seguros
contemplado pelo ordenamento, sem prejuízo da contratação direta de seguro pelo
segurado junto à companhia seguradora. Com o crescimento orgânico e expansão
das seguradoras no território brasileiro, principalmente por meio de estabelecimentos
próprios (filiais e sucursais), o agente de seguros, seja como profissional autônomo ou

16
O Decreto-Lei nº 168, de 14 de fevereiro de 1967, retificou algumas disposições do Decreto-Lei nº 63/66, no que tange
a aspectos administrativos da SUSEP. Dentre os dispositivos alterados está o art. 136, que extinguiu o DNSPC.
17
2.2 Agente Geral Emissor: pessoa física ou jurídica a quem foram outorgados os poderes previstos nas alíneas “a” a
“f” do item 10 desta Resolução, observadas as restrições constantes dos subitem 3.1 e 3.2.
18
10. Nas Sucursais e Agentes Gerais Emissores haverá, pelo menos, um responsável ao qual serão especificamente
conferidos os seguintes poderes, entre outros que lhe forem inerentes:
a) aceitar ou recusar propostas de seguros dos ramos ou modalidades em que a Sociedade Seguradora estiver autorizada
a operar;
b) emitir apólices, bilhetes, aditivos, averbações, endossos, faturas, contas mensais e outros documentos relativos a
contratos de seguros;
c) receber e resolver reclamações e acordar a respeito;
d) efetuar o pagamento de indenizações e de capitais garantidos;
e) receber primeiras citações e representar a Sociedade, ativa e passivamente, em Juízo, no tocante às operações efetuadas
na respectiva jurisdição;
f) representar a Sociedade Seguradora perante as entidades fiscalizadoras de suas atividades e junto ao IRB.
48 • Em Debate

como empresa organizada, foi gradualmente desaparecendo do mundo do seguro no país,


embora sabidamente a atividade que outrora exercia jamais tenha deixado de existir.
Na prática, o que se viu foi que, aproveitando a brecha legal, muitos corretores de
seguros já faziam as vezes de agentes de seguros, mantendo corriqueiramente vínculos
jurídico-contratuais com seguradoras e assumindo a função de promotores de vendas
de seus produtos de seguros. Essa duplicidade de funções na mesma pessoa pode ou
não acarretar tensões.
Os problemas potencialmente surgem, em nosso sentir, quando corretores
assumem um duplo papel numa mesma dada colocação de seguros, vale dizer, quando
agem, num dos polos da relação contratual de seguros, como conselheiros do segurado,
mas também atuam, no polo oposto, como agentes da seguradora. Em síntese, as princi-
pais controvérsias emergem quando os corretores de seguros fomentam a venda de seus
produtos perante o mercado consumidor, mais precisamente junto ao segurado por ele
aconselhado, quando não também representado.
Bem examinada, essa dupla atuação do corretor de seguros suscita, de pronto,
controvérsias, ao menos sob dois aspectos. Do ponto de vista ético empresarial, é no
mínimo discutível se não surgem para o corretor de seguros conflitos de interesses.
Por exemplo, até que ponto um corretor que mantenha vínculo com deveres de
promoção de produtos de uma ou mais seguradoras poderá ter a isenção desejável para
aconselhar um segurado acerca da escolha do melhor seguro disponível no mercado e,
quiçá, representá-lo perante a seguradora?
Conforme veremos adiante, o corretor possui deveres fiduciários19 de lealdade e
diligência para com o segurado que aconselha e representa, dentre os quais se inclui o
dever de informação sobre circunstâncias contratuais relevantes.
Ocorre que os corretores geralmente se furtam a revelar ao segurado o fato de
manterem tais liames contratuais com certas seguradoras. Esse silêncio dos corretores
nos parece por si só emblemático, eloquente, revelador, para não dizer mais claramente
suspeito, e suspeito justamente de que alguma dúvida sob o prisma moral exista decor-
rente da não revelação.
Ademais, sob o aspecto mercadológico, surgem dúvidas sobre se esse modelo
de atuação exclusiva dos corretores na distribuição de seguros é o que propicia melhor
eficiência e bem-estar aos consumidores de seguros. Tais questões serão analisadas nos
capítulos finais deste trabalho.

19
Conforme anota Cordeiro, em relação ao mediador de seguros, “[o] BGH alemão foi sensível a este estado de coisas
tendo, em 1985, declarado o mediador dos seguros como um gestor fiduciário do tomador do seguro” (ob.cit., p. 394).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 49

O Ressurgimento do Agente de Seguros Frente à Dupla Atuação


do Corretor
O novo Código Civil, Lei nº 10.406, de 10 janeiro de 2002, trouxe algumas
mudanças importantes no que tange ao papel do agente e do contrato de agência.
Os arts. 710 a 721 do novel código passaram a disciplinar o contrato de agência a partir
da seguinte definição:

Art. 710. Pelo contrato de agência, uma pessoa assume, em caráter não eventual
e sem vínculos de dependência, a obrigação de promover, à conta de outra,
mediante retribuição, a realização de certos negócios, em zona determinada,
caracterizando-se a distribuição quando o agente tiver à sua disposição a coisa
a ser negociada.
(BRASIL, 2002)

Em termos simples, o agente (ou agenciador) é aquele que assume, em caráter não
eventual, e sem ser empregado, a obrigação de promover, à conta do agenciado, mediante
comissão, a realização de negócios empresariais em um território determinado.
Essa defi nição se assemelha à defi nição de representante comercial, já há
tempos conhecida e em vigor em nosso Direito, a ponto de diversos doutrinadores
simplesmente concluírem que representação comercial e agência são um só e idên-
tico contrato. O art. 1º da Lei nº 4.886/65, conhecida como a “Lei do Representante
Comercial”, estipula que:

Exerce a representação comercial autônoma a pessoa jurídica ou a pessoa física,


sem relação de emprego, que desempenha, em caráter não eventual por conta
de uma ou mais pessoas, a mediação para a realização de negócios mercantis,
agenciando propostas ou pedidos, para, transmiti-los aos representados, prati-
cando ou não atos relacionados com a execução dos negócios.
(BRASIL, 1965)20

20
“A Lei nº 4.886 não oferece nenhuma distinção entre as figuras do representante comercial e do agente comercial.
Ao invés, confunde-as, fazendo uma sinônima da outra. É significativo que, na definição legal do representante comercial o
artigo 1º use o verbo agenciar (‘agenciando propostas ou pedidos’). Ora, quem agencia é, na linguagem comum, um agente
ou agenciador.” (REQUIÃO, Rubens. Do Representante Comercial: Comentários à Lei nº 4.886, de 9 de dezembro de
1965, à Lei nº 8.420, de 8 de maio de 1992, e ao Código Civil de 2002. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 47-48).
50 • Em Debate

A identidade entre os contratos de representação comercial e de agência verifi-


cada por grande parte da doutrina é sintetizada por Rizzardo21 22:

As denominações contrato de agência e contrato de representação comercial


possuem o mesmo significado, sendo que os autores que estudaram a matérias
antes do vigente Código Civil, como Rubens Requião e Arnoldo Wald, já se
referiam aos agentes no sentido de representantes de empresas na comerciali-
zação de seus produtos.
(RIZZARDO, 2012, p. 11)

Mas o Código Civil não se limitou a traçar os contornos gerais do contrato de


agência. Em matéria de seguro, o legislador reservou uma disposição específica para a
até então abandonada figura do agente de seguros, conforme prevê o art. 775 do Código
Civil: “Art. 775. Os agentes autorizados do segurador presumem-se seus representantes
para todos os atos relativos aos contratos que agenciarem” (BRASIL, 2002).
Como se vê, segundo o art. 775 do Código Civil, as seguradoras podem se fazer
representar e atuar no mercado por intermédio de seus agentes em relação aos contratos
de seguro por estes agenciados.
Diversas indagações surgem se confrontarmos esse dispositivo com a histó-
rica atuação expansiva dos corretores de seguros, conforme já vimos anteriormente.
Por exemplo, podem os corretores, a partir do Código Civil atual, acumular as funções
inerentes à sua atividade como corretores de seguros com a de agentes autorizados do
segurador, na dicção do art. 775 do código?
Outras perquirições de ordem mais dogmática do que prática incluem, v.g., se,
com o surgimento do novo Código Civil de 2002 e a referência explícita em seu art. 775
ao agente autorizado do segurador, a norma seria autoaplicável ou careceria de regula-
mentação. Nós opinamos desde logo no sentido de que nada no art. 775 do código sugere
ou insinua que se trata de norma de eficácia contida ou permita validamente sustentar
sua não aplicabilidade plena e imediata.

21
Arnaldo Rizzardo, em prefácio à obra de autoria de Gustavo Haical, “O Contrato de Agência: seus elementos tipifica-
dores e efeitos jurídicos”, São Paulo, editora Revista dos Tribunais, 2012, p. 11.
22
A doutrina não é uniforme quanto ao tema. Pontes de Miranda, por exemplo, encabeça a lista dos que diferenciam os
tipos contratuais. Vide MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado, vol. XLIV, p. 24, 32 e 66, apud REQUIÃO
(2012, p. 48-49).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 51

Independentemente disso, o fato é que, mesmo com o advento do novo código


e da novidade legislativa no tocante ao agente de seguro, as seguradoras brasileiras
prosseguiram atuando como antes, vale dizer, contando unicamente com corretores
na intermediação de seus contratos com segurados, muitos dos quais continuaram
desempenhando o papel híbrido de corretores e agenciadores de produtos de seguros
das seguradoras.
E esse acúmulo na pessoa do corretor de seguros de papéis tão distintos, para não
dizer antagônicos, como já antecipamos, suscita críticas e questionamentos. Afinal, essa
atuação híbrida do corretor, se referente a um mesmo contrato de seguro, é compatível
com o ordenamento pátrio? É compatível com a forma como o corretor se apresenta ao
mercado? É compatível com a percepção do segurado a respeito do papel do corretor?
Surgem dessa atuação dupla do corretor, ao menos à primeira vista, conflitos de interesse
em potencial que não devem ser indiferentes ao Direito.
Algumas dessas perplexidades já foram aventadas por Mendonça:

Segundo a Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor) e todos


os Sindicatos de Corretores de Seguros brasileiros, o corretor de seguros
é o representante do segurado diante da seguradora, o responsável pela
defesa de seus interesses durante toda a vigência da apólice, aconteça ou
não sinistro.
[...]
Sendo o representante do segurado, o corretor de seguros não pode ser isento,
ele precisa defender seu lado, e isso quer dizer conseguir o máximo de vantagem
possível para ele, em detrimento da seguradora.
[...]
Então, se no exercício da atividade de defender os interesses do segurado, ele
é mais do que um corretor, e tem lado, uma vez que quem negocia a sua remu-
neração é a seguradora, que estaria do outro lado, e não o segurado, com quem
ele tem um vínculo profissional?
Mais do que isso, se ele defende o segurado, por que este não tem o direito de
saber quanto está pagando para ter o corretor como seu representante junto à
seguradora? Será que alguém contrata um advogado, um médico, um corretor
de imóveis sem saber quanto ele vai custar?
A proposta, aqui, não é questionar, nem diminuir a figura do corretor de seguros.
Ao contrário, partindo da certeza de que ele é o principal canal de distribuição
52 • Em Debate

de seguros no Brasil, a proposta foi levantar alguns pontos mal resolvidos até
mesmo pela lei, que tornam sua atuação nebulosa, podendo denegrir ou dimi-
nuir a importância de profissionais competentes, em função das incoerências e
da falta de transparência que hoje cercam a profissão.
Será que não é hora de repensar a figura do corretor de seguros para definir
claramente quem é o corretor, quem é o agente e quem é o vendedor de seguros
funcionário de uma seguradora?
(MENDONÇA, 2008, p. 112-113)

Abordaremos esses problemas nos capítulos que se seguem, mas não sem
antes realizar um breve voo sobre o regime dos corretores e dos agentes de seguros
no Direito Comparado.

A Interação entre o Agente de Seguros e o Corretor de Seguros


no Direito Comparado
Em diversos países do mundo, notadamente naqueles em que a atividade secu-
ritária se revela mais madura e difundida, coexistem agentes de seguros e corretores
de seguros. Examinaremos a seguir com maior profundidade como se dá a disciplina
jurídica dos intermediários de seguros no Direito norte-americano, para então deli-
nearmos o estado atual do Direito do Reino Unido e da União Europeia sobre a matéria.
Na sequência, analisaremos o tratamento conferido aos mediadores de seguros (inclusive,
mas não nos limitando a), corretores de seguros e agentes de seguros em Portugal.

O Conceito de Relação de Agência no Common Law

Antes que se procure entender o papel específico do agente de seguros no Direito


norte-americano, é fundamental que se compreenda a noção de “agente” e “relação de
agência” na tradição anglo-saxônica.
Agência e, igualmente, relações de agência, são conceitos tão caros quanto
amplos no Direito de matriz consuetudinária.
O Direito inglês se utiliza do conceito de relação de agência desde tempos
imemoriais. Em 1873, a Câmara dos Lordes assentou a definição repetida até os nossos
dias, de que “[an agent] is a person invested with a legal power to alter his principal’s
legal relations with third parties” (Towle & Co. v. White and Ors (1873) 29 L.T. 78).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 53

Ou seja, um agente é uma pessoa investida de poderes jurídicos para modificar a relação
jurídica do principal23 com terceiros.
Agência, em sentido jurídico, tem recebido várias conceituações, umas mais
abrangentes e outras mais restritas. Um conceito geralmente prestigiado em doutrina é
o que define a relação de agência como:

A relação existente entre duas pessoas, onde uma, chamada de agente, é consi-
derada por lei para representar a outra, denominada principal, de tal forma que
esteja apta a afetar a posição jurídica da agenciada com respeito a terceiros
àquela relação pela celebração de contratos ou pela disposição de bens.
(FRIDMAN, 1990, apud SMITH; LAWSON, 2011, p. 110)24

O American Law Institute, entidade de referência no estudo, esclarecimento e apri-


moramento do direito norte-americano, editou o Restatement of the Law – Agency, atual-
mente em sua terceira edição completamente renovada. O § 1.01 define Agência como:

A relação fiduciária que surge quando uma pessoa (o “principal”) manifesta


assentimento para outra pessoa (o “agente”) que o agente deve agir à conta do
principal e sujeito ao controle do principal, e o agente manifesta assentimento
ou de outra forma consente em assim agir.25

Munday26 assinala as raízes históricas que demarcam a diferença entre a agência


e a corretagem geral:

A lei de agência surgiu pela primeira vez como um corpo em grande parte
unitário de direito comum. No entanto, determinados costumes, muitos dos
quais depois corporificados em regras, passaram a ser reconhecidos para

23
Como a relação de agência implica um regime jurídico mais geral e amplo do que aquele atinente ao contrato de agência,
adotaremos neste trabalho, em benefício da clareza e fidelidade, a designação “principal” quando nos referirmos à relação
de agência e o termo “agenciado” quando fizermos referencia ao sujeito por conta de quem a atividade é promovida no
contrato de agência.
24
No original: “Agency is the relationship that exists between two persons where one, called agent, is considered in law
to represent the other, called the principal, in such a way as to be able to affect the principal’s legal position in respect of
strangers to the relationship by the making of contracts or the disposition of property.”
25
“The fiduciary relationship that arises when one person (a ‘principal’) manifests assent to another person (an ‘agent’)
that the agent shall act on the principal’s behalf and subject to the principal’s control, and the agent manifests assent or
otherwise consents so to act.”
26
MUNDAY, Roderick. Agency: Law and Principles. Oxford: Oxford University Press, 2013, item 1.06.
54 • Em Debate

aplicar a determinadas classes de intermediário. Por volta do século XVIII, por


exemplo, foi totalmente aceito que esses agentes conhecidos como “feitores”
tinham o direito de vender os bens de seu principal em seus próprios nomes;
corretores, ao contrário, não.
(MUNDAY, 2013)27

A relação de agência permeia diversos ramos do Direito anglo-saxão, tanto do


direito público28 29 quanto do direito privado30. As relações de agência constituem um
pilar fundamental para o direito empresarial, notadamente o societário, como esclarece,
de forma singela, Rasmusen31:

27
“[A] law of agency first emerged as a largely unitary body of common law. However, particular customs, many of
which later hardened into rules, came to be recognized to apply to particular classes of intermediary. By the eighteenth
century, for instance, it was fully accepted that those agents known as ‘factors’ had the right to sell their principal’s goods
in their own names; brokers, in contrast, did not.”
28
Um exemplo clássico da influência das relações de agência no direito público está na estrutura governamental.
O termo que designa as agências, de que são espécies as agências executivas e reguladoras, que mais recentemente ficaram
famosas entre nós com a reforma administrativa do Estado brasileiro, decorre justamente da noção tradicional de agên-
cia do Common Law. Agências são subdivisões do governo (Poder Executivo), cuja autoridade emana – indiretamente
– do Povo, mais especificamente das leis que são produzidas pelo Poder Legislativo, legítimo representante do Povo.
Nesse esquema, é o Povo ou o Congresso (que, por sua vez, representa o Povo) que define na lei a medida de poder del-
egada às agências do Poder Executivo. Esse é o conceito tradicional do princípio da legalidade num Estado Democrático
de Direito, figurando o Povo como agenciado e as agências como agentes – daí o termo “agências” –, cujos poderes
estariam delegados pelo agenciado ao agente nos limites da lei. Nesse sentido, veja-se Marshall et al.:
“As the word ‘agency’ suggests, the ‘authorities’ that are the subject matter of administrative law are the agents –
officers, boards, commissions, and the like – established by some principal to carry that person’s or body’s purpose.
Within the federal government, it is usually a stature that charters an agency to carry out public purposes. This com-
mon model would suggest that Congress is the principal and the administrative body is the agent whose existence,
powers, purposes and structure are within the control of the legislative branch.”
(MARSHALL, Jerry L. et al., 2009, p. 13-14).
29
“Public management is not neutral administrative action but consists of the execution of public policies. The principal-
agent framework underlines this feature, as the basic principal of public sector organizations is the population, or demos.”
(LANE, Jan-Erik, 2005. p. 4)
30
Notadamente a partir das décadas de 60 e 70, a teoria da agência passou a despertar intenso interesse de outras áreas do
conhecimento, como a economia, a contabilidade, as finanças, o marketing etc. Nesse sentido, vide Kathleen M. Eisenhardt,
segundo a qual “[a]gency theory has been used by scholars in accounting (e.g., Demski & Feltham, 1978), economics
(e.g., Spence & Zeckhauser, 1971), finance (e.g., Fama, 1980), marketing (e.g., Basu, Lal, Srinivasan, & Staelin, 1985),
political science (e.g., Mitnick, 1986), organizational behavior (e.g., Eisenhardt, 1985, 1988; Kosnik, 1987) and sociol-
ogy (e.g., Eccles, 1985; White, 1985). [...] During the 1960s and early 1970s, economists explored risk sharing among
individuals or groups (e.g., Arrow, 1971; Wilson, 1968).” (Agency Theory: An Assessment and Review, The Academy
of Management Review, vol. 14, no. 1 (Jan., 1989), pp. 57-58).
31
No original: “No business owner can do everything himself. He must delegate some things to agents, and this is
true not only for large corporations, but for any business with employees. This is particularly true, of course, once the
organization has more than one owner. In partnerships, the partners act as each other’s agents. And in corporations,
the shareholders are completely unable to act on their own behalf; they delegate authority to a board of directors, which in
turn delegates authority to officers. Indeed, agency is one of the main themes of corporate law, and a standard introductory
section of its textbooks.” Disponível em SSRN: http://ssrn.com/abstract=271692 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.271692.
Acesso: 25 dez.2013).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 55

Nenhum empresário pode fazer tudo sozinho. Ele deve delegar algumas
coisas para agentes, e isso é verdadeiro não apenas para grandes sociedades
anônimas, mas também para qualquer negócio contendo empregados. Isso é
especialmente verdadeiro, claro, quando a organização possui mais de um dono.
Em parcerias32, os parceiros agem como agentes uns dos outros. E nas socie-
dades anônimas, os acionistas são completamente incapazes de agir em nome
delas; eles delegam poderes a um conselho de administração, que, por sua vez,
delega poderes a diretores. De fato, agência é um dos principais temas do direito
societário, e um capítulo introdutório padrão dos livros-texto.
(RASMUSSEN, 2003)

Na mesma linha, são clássicas as lições introdutórias de Gregory e Reuschlein:

Hoje, a maior parte do trabalho do mundo é realizada por agentes. A divisão do


trabalho, os meios rápidos de transporte e o crescimento de empresas coopera-
tivas, em grande parte sob a forma de empresas, tanto públicas como privadas,
ditam a necessidade de agentes. Os tipos de pessoas que funcionam como agentes
na atividade comercial são numerosos e variados. O feitor, a quem as mercadorias
devem ser vendidas por seu diretor, o corretor, que desenvolve os contratos de
compra e venda para os outros; estes são agentes. Nós geralmente caracterizamos
funcionários de empresas que a garimpam, fabricam, compram, vendem ou trans-
portam, como servos, mas eles também se inserem na categoria geral dos agentes,
na medida em que seu trabalho é realizado sob a direcção de e para o benefício
de seus empregadores. Dirigentes e funcionários da nação, estados e municípios
são agentes, embora sujeitos a regras legais, muitas vezes caracterizadas por
limitações especiais estabelecidas sob o título de “Funcionários Públicos”.
(GREGOY; REUSCHLEIN, 2011, p. 3)33 34

32
As “partnerships” (parcerias) norte-americanas são assemelhadas às sociedades limitadas brasileiras, com algumas
diferenças, como, por exemplo, a de os parceiros numa “partnership” não gozarem de responsabilidade limitada ao capital
subscrito e integralizado por eles.
33
“Today, most of the world’s work is performed by agents. The division of labor, the ready means of transportation and
the growth of cooperative enterprises largely in the form of corporations, both public and private, dictate the need for
agents. The kinds of persons functioning as agents in commercial activity are numerous and varied. The factor, to whom
goods are to be sold for his principal; the broker, who makes contracts of purchase and sale for others; these are agents.
We usually characterize the employees of enterprises which mine, manufacture, buy, sell or transport, as servants, but they
also fall within the general category of agents, inasmuch as their work is performed subject to the direction of and for the
benefit of their employers. Officers and employees of the nation, states and municipalities are agents, though subject to
legal rules often characterized by special limitations set forth in works under some such title as ‘Public Officers.’”
34
No mesmo sentido, Bainbridge: “Agency is the most pervasive form of business relationship. Just as a sole proprietor
and his single employee are in an agency relationship, so are a Fortune 500 company and its president. […] An agency
relationship comes into existence when there is a manifestation by the principal of consent that the agent act on his behalf
and subject to his control, and the agent consents to so act. The requisite manifestation of consent can be implied from
the circumstances, which makes it possible for the parties to have formed a legally effective agency relationship without
realizing they had done so. The purpose of the relationship need not be a business one; in theory, if you send a buddy to
the vending machine to get you a soda, you may have retained an agent.” (BAINBRIDGE, 2004. p. 2).
56 • Em Debate

Conforme se pode observar, as relações de agência segundo o Direito anglo-


saxão são bastante abrangentes e disseminadas, estando presentes sempre que se opera
uma delegação de poderes para alguém agir à conta de outrem.
Convém destacar que é inerente à relação de agência que o delegatário desses
poderes – o agente – possua deveres fiduciários de lealdade e cuidado para com o dele-
gante – o principal. Sobre isso o consenso é simplesmente absoluto.
A produção jurídico-literária relacionada ao instituto da agência é vasta,
assim como também são vastas as classificações de tipos de agência pela doutrina e
jurisprudência anglo-saxã. Neste trabalho, adotaremos a divisão dos tipos de agência
em quatro categorias:

a) General agent (agente geral): possui poderes gerais para desenvolver um amplo
número e variedade de transações em nome e por conta do agenciado. Uma vez
caracterizado o sujeito como general agent, cria-se para ele uma presunção
relativa de poderes de sorte que limitações a tais poderes por parte do principal
devem ser expressas;

b) Special agent (agente especial): contrariamente ao general agent, o special agent


somente terá poderes para agir em nome do principal nas situações expressa-
mente especificadas no ato de delegação;

c) Servant: significa servidor ou servo, em oposição a “master” (i.e., mestre).


O termo era largamente utilizado até o século XIX pra designar o agente
cujas atividades estavam sujeitas ao controle do – rectius: ao direito de
controle pelo – principal (master). Modernamente, a expressão tem caído em
certo desuso; tanto o Direito inglês quanto o norte-americano têm preferido
denominá-lo como empregado por sua conotação mais neutra e não pejorativa
ou de inferioridade;

d) Independent Contractor: grosso modo, é o que vulgarmente chamamos no Brasil


de profissional liberal genuíno, contratado para uma atividade por suas habili-
dades especiais, mas que retém para si autonomia na sua execução e nos meios
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 57

utilizados para a realização da atividade (SITKOFF, 2014).35 Adiantemo-nos para


enquadrar os agentes de seguros (GADAROWSKI, 1983, p. 453)36 e os corretores
de seguros geralmente nesta categoria de agentes lato sensu.

Fixadas essas premissas, passemos ao exame de como o Direito norte-americano


e o Direito inglês encaram a relação entre o agente de seguros e o corretor de seguros
dentro do arcabouço securitário de cada um desses países.

O Agente e o Corretor de Seguros nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, a regulação da atividade dos intermediários de seguros é


de competência legislativa estadual. A título de exemplificação, o Código de Seguros
do Estado da Califórnia define agente de seguros e corretor de seguros (broker) como
figuras nitidamente distintas:

Um agente de seguros é a pessoa que transaciona seguros que não de vida,


invalidez, ou de saúde, em nome de uma seguradora autorizada.
(§ 1621, primeira parte37)

35
Em seu substancioso artigo, o professor da Faculdade de Direito de Harvard Robert H. Sitkoff explica por que finan-
cial advisors que detêm poderes para gerir contas de seus clientes são agentes (lato sensu) destes e, com efeito, rendem
a eles deveres fiduciários de lealdade (duty of loyalty), cuidado (duty of care), a par de se sujeitarem a uma série de
regras subsidiárias influentes sobre as suas condutas – e.g., regras a respeito da possibilidade de competirem com seus
principais, confidencialidade, divulgação, escrituração e guarda de documentos, etc. Disponível em: <http://ssrn.com/
abstract=2234830> ou <http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2234830>).
36
“Cases involving termination of the relationship between an insurer and the agent have raised some of the same issues
affecting termination of the at will employee. That may be surprising because an employee is not generally viewed as hav-
ing the same relationship to his or her employer as the agent has with his or her insurance company. Agents are generally
considered as independent contractors. Also, the insurance agent occupies a different position compared with the common
law employee in regards to compensation. While an agent’s compensation is obviously derived from the sale of a product,
the success in the sale is very often directly related to the individual agent’s own effort and his or her reputation. It is a
sale based upon a personal relationship with e purchaser. The sale comes from the effort put into acquiring knowledge
about the needs of a prospective insured, knowledge as to particular products available as well as the reputation acquired
by the agent over the years in the community. […]”
“An agent has the power and authority to take applications, collect funds, perform field underwriting, and in the case
of casualty insurance, the ability to bind the company. What the company knows about a particular risk may oftentimes
come solely from the agent. There is a fiduciary relationship that exists between the agent and the insurer. None of these
factors may be found in an employer-employee relationship. In addition, most insurer-agent relationships are evidenced
by a written agreement which usually does discuss the issue of termination. Generally, the insurer has reserved the right
to terminate at will usually upon the giving of a particular notice. Finally, and not the least important, the relationship
between an agent and the insurance company is the common law relationship between and agent and the principal. Com-
mon law over the years has clearly established the right of a principal to revoke the agent’s authority.”
37
No original: “An insurance agent is a person who transacts insurance, other than life, disability, or health insurance,
on behalf of an admitted insurance company.”
58 • Em Debate

[...]
Um corretor de seguros é a pessoa que, em troca de retribuição e em nome de
outra pessoa, transaciona seguro que não seguro de vida com, mas não em nome
de, uma seguradora admitida. (§ 1623)38

Além do agente de seguros e do corretor de seguros, o Código de Seguros da


Califórnia também prevê a figura do “insurance solicitor”, algo semelhante a um anga-
riador ou atravessador de seguros, mas obrigatoriamente pessoa física e a serviço do
agente ou do corretor. Ele é definido como “a pessoa natural empregada para auxiliar
um agente de seguros ou um corretor de seguros em transacionar seguros que não de
vida” (§ 1624)39.
A exemplo do Código de Seguros da Califórnia, os estatutos de seguros de vários
outros estados norte-americanos também definem quem seria o corretor de seguros e o
agente de seguros40.
Os agentes de seguros representam uma categoria forte, consolidada e em franca
expansão nos Estados Unidos. O Departamento de Trabalho do Governo dos Estados
Unidos registrou, em 2010, a existência de aproximadamente 411.500 agentes de seguros
no país. Também previu um crescimento de 2010 a 2020, a uma taxa de 22%, bem acima
da média de ocupações gerais no país (BLS, 2012-13)41.
Dentre as várias classificações de agentes de seguros existentes, a mais geral e
importante é a que distingue os agentes exclusivos (ou vinculados) dos agentes inde-
pendentes. Trata-se de uma classificação que mira o liame entre o agente de seguros e
as seguradoras vistas coletivamente. São exclusivos os agentes de seguros que mantêm

38
No original: “An insurance broker is a person who, for compensation and on behalf of another person, transacts insur-
ance other than life insurance with, but not on behalf of, an admitted insurer.” (Cal. Ins. Code, § 1623(a)).
39
No original: “1624. An insurance solicitor is a natural person employed to aid an insurance agent or insurance broker
in transacting insurance other than life.”
40
Por exemplo, a Lei de Seguros do Estado de Nova Iorque estipula como sendo corretor de seguros (broker) “qualquer
pessoa, empresa, associação ou sociedade anônima que, em troca de retribuição, comissão ou outra coisa de valor, atua
ou auxilia de qualquer forma na busca, negociação ou venda, de qualquer contrato de seguro ou plano ou na colocação
de riscos ou contratação de seguros, em nome de um segurado que não ele mesmo, ela mesma ou em nome de qualquer
corretor de seguros autorizado [..]” (§ 2101(c)). No original: “Any person, firm, association or Corporation who or which
for any compensation, commission or other thing of value acts or aids in any manner in soliciting, negotiating or selling,
any insurance or annuity contract or in placing risks or taking out insurance, on behalf of an insured other than himself,
herself or itself or on behalf of any licensed insurance broker (…)” (N.Y. Ins. Law, § 2101(c)).
41
Disponível em: <http://www.bls.gov/ooh/sales/insurance-sales-agents.htm>. Acesso em: 29 dez.2013.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 59

vínculos contratuais de exclusividade com uma única seguradora ou com uma seguradora
conforme o tipo de seguro envolvido. Em contrapartida, os agentes independentes são
aqueles que não possuem semelhantes restrições na promoção de seguros, realizando
contratos simultâneos com várias seguradoras concorrentes.
Há, nos EUA, diversos estudos objetivando determinar a forma mais eficiente
de distribuição de seguros. Tradicionalmente, a distribuição por meio de agentes
independentes sempre foi aquela dominante para seguros de responsabilidade
civil e de propriedades ( property and liability insurance). Nas últimas décadas,
contudo, notou-se um aumento na participação dos agentes exclusivos (CUMMINS;
VANDERHEI, 1979, p. 710).42
A distinção entre agentes exclusivos e agentes independentes é relevante ainda
porque muitos são os que computam os seguros comercializados pelos primeiros (agentes
exclusivos) como vendas diretas, equiparáveis, para tal fim, às vendas realizadas pelo
corpo funcional da própria seguradora. Nesse raciocínio, aqueles seguros contratados por
intermédio dos agentes independentes são comumente classificados como contratação

42
Esse aumento foi acompanhado de estudos que demonstram a sua maior eficiência para diversas linhas de seguros.
Veja, por todos, Cummins e VanDerhei:
“Property-liability insurance in the United States is distributed through two major channels – the independent
(American) agency system and the exclusive agency system. Independent agents maintain contracts with several
insurance companies and are not obligated to place business with any one of them. Most exclusive agents, on the
other hand, are contractually bound to place their business with a single company. The independent agency system
is the traditional method for distributing property-liability insurance and for many years was dominant in all types
of coverage. During the past 25 years, exclusive agency companies, led by State Farm and Allstate, have captured
a substantial share of the market for automobile and homeowners’ insurance and have begun to challenge the
independent agency firms for the business of commercial clients.
In his classic study of property-liability insurance markets, Joskow (1973) presented evidence that the exclusive
agency system is substantially more efficient than the independent agency system. Based on regression results,
Joskow (1973, p. 400) found that ‘the expense ratios of [exclusive agency companies] average 10.82 percentage
points less than the agency companies ceteris paribus. For the auto companies themselves the figure is 11.48.’
He recommended that attempts be made ‘to speed up the transition from agency production of customers to direct
writing whenever possible’ (p. 425).
Joskow’s findings have received widespread attention both from the insurance industry and from regulators
(MacAvoy, 1977). The defenders of the independent agency system have relied on three major arguments:
(1) independent agents provide better, more personalized service than exclusive agents; (2) independent agency
companies recently have introduced several cost-cutting innovations which may have narrowed the gap between
their expense ratios and those of the exclusive agency firms; and (3) Joskow’s results were biased because they
focused only on underwriting costs. According to this argument, independent agency companies rely heavily on
their agents to settle losses, while exclusive agency companies perform this service primarily through company
personnel. Hence, if one considers total costs (for underwriting and loss adjustment services), the efficiency differ-
ence between the two systems should be less pronounced.
Recent evidence presented by Etgar (1976) and by Cummins and Weisbart (1977) indicates that the first argument is
not valid, i.e., there is no systematic difference in quality of service between independent and exclusive agents.”
60 • Em Debate

indireta, à semelhança das vendas feitas por intermédio de corretores de seguros em


contato com a seguradora ou seus agentes de seguros. Vejamos43:

Em geral, o uso do sistema de distribuição direta significa que o produto é


vendido ao consumidor final por um representante direto da empresa. Não há
intermediário dentro do canal de distribuição. Tal é também o caso da seguro
de propriedade e de responsabilidade civil, mas a representação direta pode
assumir uma das três formas diferentes: vendas através de um empregado
assalariado, as vendas através de um agente exclusivo, ou oferta direta ao
consumidor através do e-mail ou um ou mais dos as outras formas de mídia de
publicidade, tais como rádio, televisão, jornais e revistas.
O conceito de um sistema indireto de distribuição implica um intermediário.
Ou seja, um empresário independente está envolvido na distribuição do produto.
Na distribuição indireta de seguro de propriedade – responsabilidade civil
existem dois subconjuntos: agentes independentes e corretores. Agentes de
seguros independentes são independent contractors que podem legalmente
representar muitas companhias de seguros. Tal agente contrata com várias
companhias de seguros, e para cada exposição a risco, o agente determina qual
das empresas que ele / ela representa receberá o negócio, alocando a colocação
de cobertura dessa maneira. Um corretor representa o consumidor e serve como
intermediário quando se lida com as seguradoras selecionadas. Não existe
nenhuma relação contratual entre corretores e seguradoras. O corretor contrata
com o segurado como seu representante, e age em seu nome, selecionando
potenciais seguradoras, negociando a cobertura e, em geral, servindo como
representante do segurado.
(HARDIGREE; HOWE,1990, p. 29)44

43
Veremos mais adiante que essa classificação não corresponde àquela mais apropriada à luz do Direito brasileiro posto.
44
“In general, the use of direct distribution system means that the product is sold to the end consumer by a direct
representative of the company. There is no intermediary within the channel of distribution. Such is also the case in
property-liability insurance, but the direct representation may take one of three different forms: sales through a salaries
employee, sales using a an exclusive agent, or direct solicitation to the consumer using the mail or one or more of the
other forms of advertising media such as radio, television, newspaper, and magazines.
The concept of an indirect system of distribution implies a channel intermediary. That is, an independent business owner
is involved in the distribution of the product. In the indirect distribution of property-liability insurance there exists two
subsets: independent agents and brokers. Independent insurance agents are independent contractors who may legally
represent many insurance companies. Such an agent contracts with multiple insurance companies, and for each loss
exposure, the agent determines which of the companies he/she represents will receive the business, allocating the placement
of coverage accordingly. A broker represents the consumer and serves as an intermediary when dealing with the insurers
selected. No contractual relationship exists between brokers and insurers. The broker contracts with the insured as their
representative, and acts upon their behalf, selecting potential insurers, negotiating coverage, and in general, serving as
the insured’s representative.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 61

No que concerne ao relacionamento individual entre o agente e a seguradora,


agentes de seguros são ainda classificados de diversas formas segundo os poderes que
lhes são conferidos. São principais as seguintes categorias45:

• General agent: a exemplo do que ocorre com a classificação geral em relação


ao agente lato sensu, no campo específico do seguro, agente geral será aquele
autorizado pela seguradora a aceitar riscos, aceitar disposições contratuais e
acordos relacionadas ao clausulado das apólices, a emitir e renovar apólices, a
modificar termos e renunciar a direitos da seguradora em apólices existentes.
Em suma, no contexto do contrato de seguro, o agente geral tem autoridade quase
ilimitada para atuar por conta da seguradora que lhe conferiu poderes;

• Managing General Agent (“MGA”): é o agente autorizado por uma seguradora a


gerir toda ou parte de uma linha de negócios dessa empresa em certa zona geográ-
fica ou em relação a uma dada carteira. Um MGA pode comercializar apólices ou
produtos da seguradora, emitir apólices, receber o pagamento de prêmios, regular e
pagar sinistros, supervisionar litígios e negociar resseguros facultativos. Os MGAs
são caracterizados principalmente por sua capacidade de subscrever e precificar
os programas de seguros que gerenciam para seguradoras;

• Special agent: é o tipo de agente cujos poderes para vincular uma seguradora
são expressamente limitados. Por exemplo, um agente de vendas ou de anga-
riação é ordinariamente autorizado a comercializar seguros, receber propostas
de seguros e encaminhá-las para as seguradoras ou para seus agentes gerais, a
entregar apólices quando emitidas pelas seguradoras e a receber pagamentos de
prêmios. Ele não costuma deter poderes para alterar o clausulado de apólices,
renunciar a direitos previstos nas disposições contratuais ou a emitir apólices.

Corretores de seguros, a seu turno, são frequentemente classificados como46:

• Retail brokers: os “corretores retalhistas” ou “corretores varejistas” são aqueles


que mantêm uma relação contratual direta com os segurados para quem buscam
coberturas de seguros;

45
Baseada na classificação catalogada por Richmond, ob. cit., p. 5-6.
46
Idem, ibidem.
62 • Em Debate

• Wholesale brokers: os “corretores atacadistas” são aqueles a quem os corretores


varejistas recorrem para colocar as coberturas ambicionadas por seus clientes-
segurados. Assim, corretores atacadistas consideram como seus clientes os
corretores varejistas. Os corretores atacadistas geralmente mantêm um relaciona-
mento com uma ou mais seguradoras, que os contratam para comercializar seus
produtos de seguros. Normalmente, os corretores atacadistas não se comunicam
com os clientes dos corretores varejistas, funcionando como ponte entre estes e
a seguradora que disponibiliza o tipo de cobertura procurado. Corretores ataca-
distas não têm controle sobre as operações e negócios de corretores varejistas.
No Brasil, as corretoras comumente chamadas de “plataformas” desempenham
papéis semelhantes, organizando a “produção” de outros corretores para uma
dada seguradora.47

Apesar de as definições legais apresentadas no início desta seção e das classifi-


cações acima delinearem as atividades dos corretores e dos agentes de seguros em polos
opostos, no mercado de seguros essa distinção muitas vezes não será tão clara, tampouco
observada. Ao revés, na prática, existe um entrelaçamento relativamente intenso das
atividades promovidas por agentes e corretores, como bem explicam Cummins e Doherty
(2006, p. 361), tornando a linha divisória que distingue e separa a atuação de um e outro
profissional razoavelmente permeável:

A distinção entre agentes e corretores independentes é sutil. A costumeira


distinção de manual é que os agentes de seguros são “agentes” (no sentido legal)
da seguradora, enquanto que os corretores são tradicionalmente descritos como
agentes do tomador do seguro. No entanto, a distinção dos livros é demasiada
simplista para fornecer uma descrição adequada do mercado de seguros, porque
os agentes e corretores independentes executam muitas das mesmas funções e
prestam serviços para ambos as seguradoras e os segurados [...]. Na verdade,
ambos os agentes e corretores independentes atuam em diferentes graus como
defensores do tomador do seguro, prestando serviços tais como desenhos de
cobertura, controle de perdas e gestão de sinistros. Além disso, embora os
agentes independentes não representem várias seguradoras sob contratos de
agência, muitas empresas, geralmente conhecidas como corretoras, também,
colocam uma proporção significativa de seus negócios sob contratos essencial-
mente idênticos.

47
O paralelo é nosso. A descrição da atuação das plataformas é de Tzirulnik e Piza (1996).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 63

[...] Assim, enquanto os rótulos ”agente” e “corretor” têm uma aparente simpli-
cidade legal, a realidade econômica é mais complexa. Agentes independentes
e corretores são melhor pensados como criadores de mercado ou casadores [no
sentido de] que casam necessidades específicas dos segurados com os produtos
das seguradoras.
(CUMMINS; DOHERTY 2006, p. 361)48

Portanto, mesmo em um mercado de seguros tão desenvolvido quanto o norte-


americano, e desenvolvido principalmente à base de vendas de seguros por meio de
intermediários, há, na prática, uma grande superposição na atuação dos corretores de
seguros e dos agentes de seguros – os produtores de seguros.
No caso dos corretores de seguros, o papel duplo (dual agents) que eles por
vezes desempenham não passa despercebido pela doutrina e pela jurisprudência, como
salienta Richmond:

As linhas que limitam o status ou o papel de um corretor podem, por vezes, ser
turvas. Se um segurado determina a um corretor para obter o seguro de uma
determinada empresa de seguro, o corretor é considerado como um agente da
seguradora. Um agente também pode ser um agente duplo do segurado para
fins de obtenção de uma cobertura e um agente da seguradora para outros fins.
[Ver Secura Ins. Co. v Saunders, 227 F.3d 1077, 1080 (8º Cir. 2000) (aplicação
do direito do Missouri e explicando que um corretor “pode ser o agente da segu-
radora para alguns propósitos, e o agente do segurado para os outros”), Layne
Christensen Co. v Zurique Canadá, 38 P.3D 757, 768 (Kansas Ct App 2002.)
(explicando que o corretor “estava agindo em nome da seguradora para outros
fins”)] [Transamerica Interway, Inc. v Commercial Union Assurance Co. de S.
África , Ltd., 97 FRD 419, 421 (SDNY 1983) (observando que “enquanto um
corretor de seguros pode agir para o segurado na proposta e no processamento

48
“The distinction between independent agents and brokers is a subtle one. The usual ‘textbook’ distinction is that
insurance agents are ‘agents’ (in the legal sense) of the insurer, whereas brokers are traditionally described as agents of
the policyholder. However, the textbook distinction is too simplistic to provide an adequate description of the insurance
marketplace because independent agents and brokers perform many of the same functions and provide services to both
insurers and policyholders […]. In fact, both independent agents and brokers act in varying degrees as advocates for the
policyholder, providing services such as coverage design, loss control, and claims management. In addition, although
independent agents do represent several insurers under ‘agency appointment’ contracts, many firms, generally known as
brokers, also place a significant proportion of their business under essentially identical contracts.
[…]Thus, while the labels ‘agent’ and ‘broker’ have a disarming legal simplicity, the economic reality is more complex.
Independent agents and brokers are best thought of as market makers or matchmakers who match particular needs of
policyholders with the products of insurers.”
64 • Em Debate

de uma apólice, o corretor geralmente atua para a seguradora em entregar a


apólice e na cobrança e transferência dos prêmios”).]
Os corretores são tipicamente agentes das seguradoras no que diz respeito à
emissão de apólices, emissão de certificados de seguros, cobrança de prêmios, e
assim por diante. Um corretor não pode ser convertido em um agente para uma
seguradora sem alguma ação por parte da seguradora ou sem fatos suficientes
para inferir uma relação de agência. A mera aceitação por um corretor de uma
comissão paga por uma seguradora não é suficiente para criar uma relação de
agência entre o corretor e a companhia de seguros.
(RICHMOND, 2004, p. 7)49

Richmond50 prossegue:

A ideia de que um corretor de seguros pode servir como um agente duplo pode
parecer à primeira vista estranha, na medida em que relações de agência duplas
são reprimidas na lei. Afinal de contas, os agentes são fiduciários para os seus

49
“The lines bounding a broker’s status or role sometimes blur. If an insured directs a broker to obtain insurance from
a particular insurance company, the broker is considered to be an agent of the insurer. A broker also can be a dual agent
of the insured for purposes of obtaining coverage and an agent of the insurer for other purposes. [See Secura Ins. Co. v.
Saunders, 227 F.3d 1077, 1080 (8th Cir. 2000) (applying Missouri law and explaining that a broker ‘may be the agent
of the insurer for some purposes, and the agent of the insured for others’); Layne Christensen Co. v. Zurich Canada, 38
P.3d 757, 768 (Kan. Ct. App. 2002) (explaining that broker ‘was acting on behalf of the insurer for other purposes’).]
[Transamerica Interway, Inc. v. Commercial Union Assurance Co. of S. Africa, Ltd., 97 F.R.D. 419, 421 (S.D.N.Y. 1983)
(observing that ‘while an insurance broker may act for the insured in applying for and processing a policy, the broker
generally acts for the insurer in delivering the policy and in collecting and remitting the premiums’)]
Brokers are typically insurers’ agents with respect to issuing policies, issuing certificates of insurance, collecting premi-
ums, and the like. A broker may not be converted into an agent for an insurer without some action on the carrier’s part
or without facts sufficient to infer an agency relationship. The mere acceptance by a broker of a commission paid by an
insurer is insufficient to create an agency relationship between the broker and the insurance company.”
50
ob. cit., pp. 8. Richmond defende a ausência de conflito de interesses a partir de argumentos que parecem ao autor deste
trabalho discutíveis, argumentando que (i) as atividades desenvolvidas pelo corretor como agente da seguradora (colocação
de cobertura e recebimento de prêmios de seguro) são totalmente separadas daquelas desenvolvidas por ele como agente
do segurado; e que (ii) a relação de agência constituída entre o corretor e o segurado terminaria quando ele obtém para
o segurado a cobertura desejada. Confira-se o que ele apresenta em relação às indagações surgidas a respeito do papel
duplo do corretor: “This question can be answered at least two ways. Fist, dual agency is possible with the consent of both
principals. An insurer expressly consents to a broker’s dual agency when it contracts with him. An insured’s consent to a
broker’s dual agency may be express or implied. Second, brokers can act as dual agents because they have no conflict of
interest in their roles and it is conflict of interest that a prohibition on dual agency is intended to prevent. For example, a
broker can compatibly procure insurance for an insured and collect a premium for that coverage for the insurance company.
The broker’s responsibilities to the insured and to the insurer are independent. Dual agency is permissible here because
the transactions (placing coverage and collecting the premium) are separate and distinct; the insured controls the broker
with respect to placing coverage and the insurer controls the broker with respect to collecting the premium. Indeed, it is
generally the case that the principal-agent relationship between the insured and the broker terminates when the broker
obtains the desired coverage. In that situation there is no dual agency relationship to be concerned about when it comes
time for the broker to perform those tasks for which it clearly is the insurer’s agent, such as collecting premiums of issuing
certificates, for then the broker is solely an agent of the insurer.” (ob. cit., p. 8-9).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 65

principais e, portanto, devem-lhes lealdade indivisível. Um agente é obrigado a


agir exclusivamente para seu principal em todos os assuntos relacionados com
a sua agência. Como pode então um corretor de ser um agente duplo?
(RICHMOND, 2004)51

No fundo, é importante que se entenda que, nos Estados Unidos, haverá sempre
uma relação de agência, segundo o conceito básico anglo-saxão, entre o corretor de
seguros e o seu contratante (geralmente o segurado) e entre o agente de seguros e o seu
contratante (geralmente a seguradora), conforme assevera Richmond:

É importante entender, no entanto, que um intermediário é sempre um agente


para alguma parte da contratação de seguro. Se um intermediário é um agente
do segurado ou da seguradora depende dos fatos do caso.
Como os intermediários são classificados determina em favor de quem podem
ser estabelecidos deveres, e também pode determinar a natureza dessas funções.
Esta inquirição é, obviamente, importante quando se avalia responsabilidade
potencial de seguradoras em disputas decorrentes de ações de intermediários,
porque as seguradoras são responsáveis pelos atos ilícitos de seus agentes
agindo no curso e na extensão de sua agência. Se um intermediário está funcio-
nando como um agente do segurado, por outro lado, sua negligência não pode
ser imputada à companhia de seguros.
(RICHMOND, 2004, p. 2-3)52

Ou seja, para o Direito norte-americano, a relação de agência está no seio de toda


e qualquer relação contratual travada pelo agente de seguros e seu contratante, e pelo
corretor de seguros e seu contratante. Dessa relação de agência emanam deveres fidu-
ciários de lealdade e de cuidado, que incluem deveres de informação, confidencialidade,

51
“The idea that an insurance broker can serve as a dual agent may at first seem odd, inasmuch as dual agency relation-
ships are disfavored in the law. After all, agents are fiduciaries to their principals and therefore owe them undivided
loyalty. An agent is bound to act solely for his principal in all matters connected with his agency. How then can a broker
be a dual agent?”
52
“It is important to understand, however, that an intermediary always is an agent for some party to the insurance purchase.
Whether an intermediary is an agent of the insured or the insurer depends on the facts of the case.
How intermediaries are classified determines to whom they may owe duties, and also may determine the nature of those
duties. This inquiry is obviously important when evaluating insurance companies’ potential liability in disputes stemming
from intermediaries’ actions, because insurers are vicariously liable only for the tortious acts of their agents acting within
the course and scope of their agency. If an intermediary is functioning as an agent of the insured, on the other hand, his
negligence cannot be imputed to the insurance company.”
66 • Em Debate

não concorrência etc., do corretor e do agente de seguros para com os seus contratantes,
sejam eles segurados ou seguradoras.
Em uma frase, são deveres que impõem ao agente e ao corretor atuação perante
terceiros estritamente dentro das atribuições delegadas e que, numa escala de priori-
dades, leve em consideração de forma primária o interesse daquele que o contratou em
detrimento do seu próprio interesse individual, quando esses dois interesses estiverem
em conflito.
O Código de Seguros do Estado da Califórnia busca definir quais atividades um
corretor não pode desenvolver para uma seguradora sob pena de desnaturar sua qualidade
única de corretor, transmudando-se em um corretor de papel duplo ou corretor-agente.
O § 1.623, alínea “c”, estabelece que a presunção legal de que um corretor está agindo
genuína e unicamente como corretor, e não como verdadeiro agente de seguros, é refu-
tada se o corretor praticar alguma das seguintes atividades à conta da seguradora:

(1) O corretor é nomeado pela seguradora para a mesma classe de seguros negociada;
(2) O corretor possui poderes para vincular a seguradora;
(3) O corretor possui poderes para nomear outros intermediários como agentes da
seguradora; e
(4) O corretor é autorizado a pagar indenizações à conta da seguradora.

Como nos Estados Unidos a competência para legislar sobre os intermediários de


seguros é estadual, a diversidade de regimes jurídicos aplicáveis aos agentes de seguros
e corretores de seguros é fator que dificulta sobremaneira a expansão da atuação desses
atores para além dos estados de seus domicílios e, com efeito, o desenvolvimento da
indústria de seguros.
Por essa razão, a Associação Nacional de Comissários de Seguros – NAIC53,
entidade que congrega os órgãos reguladores de seguros de todos os 50 estados da nação,
do Distrito de Columbia e dos cinco territórios norte-americanos54, editou um modelo
de Lei de Licenciamento de Produtores para a área de seguros, o Producer Licensing

53
Acrônimo de National Association of Insurance Commissioners.
54
A NAIC, que se chamava originalmente “Convenção Nacional de Comissários de Seguros”, iniciou suas operações com
a sua primeira reunião em 24 de maio de 1871. Os objetivos da NAIC incluem proteger os interesses de consumidores
de seguros e propiciar um foro de desenvolvimento de políticas de regulação uniformes sempre que apropriado. (DOC-
TOR, Randall; CERNY, Robert J. Regulation of Insurance Intermediaries, New Appleman on Insurance Law Library
Edition, Chapter 15, § 15.03).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 67

Model Act (PLMA). O PLMA foi criado com o objetivo de garantir certa uniformidade
no tratamento dispensado aos agentes e corretores de seguros quanto aos requisitos para
o seu registro e quanto às possibilidades de atuação dentro das fronteiras do país55.
A maior parte dos estados norte-americanos adotou o PLMA, embora com alguns
com modificações, enquanto outros aderiram apenas às disposições de reciprocidade do
documento.
A Cláusula 18 do PLMA disciplina o dever de produtores de seguros de divulgar
a seus clientes retribuições recebidas de seguradores em situações de potencial conflito
de interesses.
Segundo a Cláusula 18, A (1), do PLMA, quando um produtor de seguros ou
sua filiada receberem alguma retribuição de seu cliente para a colocação de seguro ou
para representarem o cliente a respeito de tal colocação, não devem aceitar ou receber
qualquer retribuição de uma seguradora ou de terceiros pela colocação de seguros, salvo
se o produtor houver, anteriormente à contratação de seguro pelo seu cliente:

(a) Obtido a admissão documentada do cliente de que tal retribuição será recebida
pelo produtor ou filiada; e

(b) Divulgado o montante da retribuição [a ser recebida] da seguradora ou de


terceiros pela colocação. Se o montante de retribuição não for conhecido no
momento da divulgação, o produtor deve divulgar o método específico para
calcular a retribuição e, se possível, uma estimativa razoável daquele.

A obrigação de divulgação não se operará para o produtor de seguros que,


cumulativamente:

(a) Não receber retribuição do seu cliente pela colocação do seguro; e


(b) Em relação à colocação do seguro, representar a seguradora que tenha nomeado
o produtor de seguros; e
(c) Divulgar ao cliente, anteriormente à contratação do seguro:
(i) Que o produtor de seguros receberá retribuição da seguradora em relação
àquela colocação de seguros; ou

55
O PLMA pode ser acessado no sítio eletrônico <http://www.naic.org/store/free/MDL-218.pdf>. Acesso em 04
jan.2014.
68 • Em Debate

(ii) Que, em relação àquela colocação de seguros, o produtor de seguros repre-


senta a seguradora e que o produtor pode prestar serviços ao seu cliente para
a seguradora.

Como se vê, existe uma nítida preocupação da NAIC em proteger o consumidor


de seguros contra a atuação em conflito de interesses do produtor de seguros – na prática,
principalmente do corretor de seguros que acumule a função de agente da seguradora.
A solução preconizada pela NAIC foi a de garantir a transparência nessas rela-
ções, evitando que a assimetria informacional do consumidor possa dar azo ao abuso
por parte do produtor de seguros. Essa solução de transparência passa, portanto, pela
criação do dever do produtor de seguros de informar ao seu cliente-consumidor que
receberá, em paralelo, retribuição específica para aquela colocação em virtude de outra
relação mantida entre produtor e seguradora.

O Caso das Comissões Condicionais (Contingent Commissions)

Talvez o caso mais paradigmático que se propôs a discutir os limites da atuação


dupla dos corretores de seguros na história da indústria de seguros tenha sido o das
contingent commissions, que chamaremos aqui em tradução literal de comissões condi-
cionais ou comissões contingentes.
Em 25 de agosto de 1998, o Departamento de Seguros do Estado de Nova Iorque
emitiu uma carta-circular a todos os corretores e seguradoras licenciados contendo
instruções relacionadas a uma alegada prática que tinha chegado a seu conhecimento,
a saber: de que uma retribuição não divulgada, além das comissões, estaria sendo paga
a corretores por seguradoras como remuneração adicional pela colocação de negócios,
sem que tal informação estivesse sendo repassada a segurados56.
A carta dizia textualmente que

[...] Segundo o Artigo 2101(c) da Lei de Seguros de Nova Iorque (“NYIL”), um


corretor é o representante legal do segurado. É a posição deste Departamento
que o recebimento não divulgado de retribuição adicional é suficiente para
criar a percepção de que corretores estão conflitados em sua lealdade e que
tal conduta pode constituir uma violação ao Artigo 2110 como uma prática
desonesta ou não digna de confiança.
(DFS, 1988)

56
Carta-circular disponível no sítio eletrônico do Department of Financial Services do Estado de Nova Iorque. Disponível
em: <http://www.dfs.ny.gov/insurance/circltr/1998/cl98_22.htm>. Acesso em: 05 jan.2014.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 69

A carta concluía:

Assim, de acordo com as seções de lei mencionado acima, bem como o artigo
23 da NYIL, este Departamento oferece a seguinte orientação.

• Todos os acordos de compensação entre uma seguradora e um corretor


devem ser reduzidos a escrito e acordado por ambas as partes;
• Todos esses acordos de compensação devem ser divulgados aos segurados,
antes da compra, de modo a permitir que os segurados possam entender os
custos da cobertura e da motivação de sua corretora em colocar o negócio;
• Todas as taxas pagas aos corretores devem ser incluídas como fatores no
estabelecimento de taxas de prêmio de uma seguradora;
• Todas as taxas pagas aos corretores (e razões para tais pagamentos de taxas)
devem ser incluídas em um arquivo mantido pelo corretor da seguradora; e
• Procedimentos de auditoria interna da seguradora devem incluir a verifi-
cação de que todas as taxas pagas aos corretores são adequadas e dentro
dos parâmetros do Regulamento da Lei de Seguros de Nova York e deste
departamento.
(DFS, 1988)57

Pois bem. Passados alguns anos, em outubro de 2004, após meses de investiga-
ções, o advogado geral de Nova Iorque, Eliot Spitzer, ajuizou ação judicial contra Marsh
& MacLennan Companies e Marsh, Inc., notadamente a maior corretora de seguros do
mundo, alegando atuação fraudulenta e violações às normas de defesa da concorrência
nas atividades de corretagem e contratação de seguros.
As práticas denunciadas por Spitzer também incriminavam diversas das maiores
seguradoras, incluindo a American International Group (AIG), ACE Ltd. e o Hartford
Financial Services Group (BRAHAM(B), 2010. p. 135).

57
“Accordingly, pursuant to the sections of law noted above, as well as Article 23 of the NYIL, this Department offers
the following guidance.
• All compensation arrangements between an insurer and a broker should be reduced to writing and agreed to by
both parties;
• All such compensation arrangements should be disclosed to insureds prior to the purchase so as to enable insureds to
understand the costs of the coverage and the motivation of their broker in placing the business;
• All fees paid to brokers should be included as factors in the establishment of an insurer’s premium rates;
• All fees paid to brokers (and reasons for such fee payments) should be included in a broker file maintained by the
insurer; and
• The insurer’s internal auditing procedures should include verification that all fees paid to brokers are proper and within
the parameters of the New York Insurance Law and Department regulations.”
70 • Em Debate

As alegações de acusação formuladas podem ser resumidas por alguns trechos


colhidos de um depoimento prestado pelo advogado geral Spitzer ao Comitê de Assuntos
Governamentais do Senado Norte-Americano:

Muito rapidamente, a nossa investigação encontrou evidências generalizadas


de que os corretores estavam recebendo pagamentos ocultos, essencialmente
propina, de empresas de seguros.
Ao olhar atentamente para essas comissões condicionais, descobrimos um
outro lado da indústria de seguros. Não só os corretores de seguros recebem
comissões condicionais para dirigir o negócio, mas muitos corretores, com a
ajuda e conivência de companhias de seguros, se envolvem em fraude sistemá-
tica e manipulação de mercado, a fim de garantir que os negócios mais lucrativos
e de grandes volumes fossem para algumas companhias de seguros selecionadas.
Em outras palavras, nós achamos que o favoritismo, o sigilo e confl itos
governam este mercado, não a concorrência aberta.
[...]
Todos os corretores de seguros recebem uma compensação quando obtêm
seguro para seus clientes. [...]
Nossa investigação revelou que, para além desta comissão habitual divulgada,
muitos corretores também recebem remuneração condicional das companhias
de seguros com base no volume e/ou rentabilidade do negócio que o corretor
coloca com eles. Estes pagamentos são conhecidos como “comissões condicio-
nais”, mas atendem por muitos outros nomes, como “substituições”, ou, no caso
de Marsh, contratos de serviços de colocação (“PSA”) ou acordos de serviço
do mercado (“MSAS”).
Descobrimos que os corretores rotineiramente enganam os seus clientes sobre
a verdadeira natureza de comissões condicionais. O website da Marsh, por
exemplo, descreve MSAS como “‘acordos que cobrem o pagamento do valor que
corretores fornecem para seguradoras”. A verdade é que as comissões condicio-
nais e MSAS fornecem pouco ou nenhum valor ou serviços para seguradoras.
Eles parecem ser nada mais do que os pagamentos para dirigir negócios para
seguradoras preferenciais.
[...]
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 71

Comissões contingentes representam a primeira fonte de renda não divulgada


ou mal divulgada. No entanto, em troca de entrar em comissões contingentes e
dirigir seguros de varejo para uma companhia de seguros, corretores, por vezes,
exigem que a seguradora entre em um relacionamento recíproco de utilização
do corretor para a compra de resseguro da seguradora, resultando em comissões
de resseguro adicionais para o corretor. Isso representa uma segunda fonte de
renda não revelada.
[...]
Assim, ao longo de toda a vida útil de um risco segurável, corretores podem
receber até quatro fluxos de receitas adicionais, além de receber comissões de
varejo habituais. Todos estes pagamentos, no entanto, estão reservados ou mal
divulgados, e embutem custos mais elevados no próprio seguro, resultando no
pagamento de prêmios maiores por parte dos consumidores.
[...]
Para fazer o sistema funcionar, no entanto, o corretor tem que entregar o volume
prometido de negócio para a seguradora que o está pagando por este direciona-
mento. Essa pressão para entregar negócios leva corretores a participarem de
conluio e outras formas de manipulação do mercado. Nós encontramos:

Comprovação de conluio em mercados de seguros de excess casualty onde a


Marsh manejou a apresentação de propostas fictícias ou infladas artificialmente,
a fim de criar a ilusão de concorrência entre as seguradoras e mascarar a direção
direta dos negócios de seguros para uma seguradora favorecida. Acusações
criminais foram apresentadas contra dois funcionários da AIG e um empregado
Ace em conexão com este regime.
Casos em que Marsh articulou para que seguradoras que se abstivessem de
apresentar propostas em certas contas, a fim de limitar a concorrência e orientar
negócios para uma seguradora preferida;
Comprovação de propostas ou efetivos acordos “no shopping”, onde Marsh e
ULR [Universal Life Resources, Inc.] se se comprometem expressamente a não
comprar apólices quando elas surgem para a renovação, garantindo essencial-
mente que o negócio ficasse com a seguradora já vinculada.
72 • Em Debate

Numerosos exemplos indiretos de direcionamento, como corretores oferecendo


a seguradoras favorecidas oportunidades de apresentarem a proposta mais
baixa, mas não estendendo oportunidades similares a outros concorrentes.58
(ABRAHAM, 2010)

58
“Very quickly, our investigation found widespread evidence that brokers were receiving hidden payments, essentially
kickbacks, from insurance companies.
By looking closely at these contingent commissions, we uncovered another side of the insurance industry. Not only do
insurance brokers receive contingent commissions to steer business, but many brokers, with the assistance and collusion
of insurance companies, engage in systematic fraud and market manipulation in order to ensure that profitable and high
volume business goes to a few selected insurance companies. In other words, we found that favoritism, secrecy and
conflicts rule this market, and not open competition.
(…)
All insurance brokers receive compensation when they obtain insurance for their clients. (…)
Our investigation revealed that in addition to this customary disclosed commission, many brokers also receive contingent
compensation from insurance companies based on the volume and/or profitability of the business that the broker places
with them. These payments are known as ‘contingent commissions,’ but go by many other names such as ‘overrides,’ or
in the case of Marsh, placement service agreements (‘psas’) or market service agreements (‘msas’).
We found that brokers routinely mislead their clients about the true nature of contingent commissions. Marsh’s website,
for instance, describe msas as ‘agreements that cover payment for the value brokers provide to insurance carriers.’ The
truth is that contingent commissions and msas provide little or no value or services to insurance carriers. They appear to
be nothing more than payments for steering business to preferred insurance carriers.
(…)
Contingent commissions represent the first source of undisclosed or poorly disclosed income. However, in exchange for
entering into contingent commissions and steering retail insurance to an insurance carrier, brokers sometimes demand
that the carrier enter into a reciprocal relationship to use to the broker for the carrier’s reinsurance purchases, resulting in
additional reinsurance commissions to the broker. This represents a second source of undisclosed income.
(…)
Thus, across the entire life span of an insurable risk, brokers may receive as many as four additional streams of income in
addition to receiving customary retail commissions. All of these payments, however, are undisclosed, or poorly disclosed,
and place higher costs on the insurance itself, resulting in higher premium payments by consumers.
(…)
To make the system work, however, the broker has to deliver the promised volume of business to the insurance company
that is paying it to steer. This pressure to deliver business leads brokers to engage in bid rigging and other forms of market
manipulation. We found:

• Evidence of direct bid rigging in excess casualty insurance markets where Marsh arranged for the submission of fictitious
or artificially inflated bids in order to create the illusion of competition among insurance carriers and mask the direct
steering of insurance business to a favored insurance carrier. Criminal charges were filed against two AIG employees
and one Ace employee in connection with this scheme.
• Cases where Marsh arranger for insurance carriers to refrain from bidding on certain accounts in order to limit competi-
tion and steer business to a preferred carrier.
• Evidence of proposed or actual ‘no shopping’ agreements where Marsh and ULR [Universal Life Resources, Inc.]
would affirmatively undertake not to shop policies when they come up for renewal, essentially guaranteeing that the
business stayed with the incumbent insurer.
• Numerous indirect examples of steering such as brokers offering favored carriers opportunities to be the lowest bidder
but not offering similar opportunities to other bidders.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 73

Na conclusão de seu depoimento, o advogado geral Spitzer deixou o Senado com


uma mensagem em forma de pergunta:

Por fim, os corretores devem ser chamados a prestar contas de suas atividades
de direcionamento. Como é que a cultura de favorecimento e recompensas
distorceu seu dever fiduciário básico de servir o cliente. Mais importante, como
podemos tomar medidas para reformar esta cultura, exigindo a divulgação
adequada para garantir que os mercados estão funcionando corretamente?59
(ABRAHAM(B), 2010)

Outros Estados prontamente intensificaram ou deram início a investigações


semelhantes60 e Spitzer ingressou com ações similares contra empresas do grupo AON,
AIG, além de prosseguir com investigações contra diversas companhias seguradoras
(e.g., The St. Paul Travelers Companies, Inc., Zurich Companies, etc.) e corretoras
(e.g., Willis Group Holdings).
Apesar da enorme agitação causada pelas ações judiciais e investigações, os
casos não tiveram, em geral, vida longa. As principais disputas civis se encerraram por
meio de acordos milionários firmados antes que qualquer decisão conclusiva fosse profe-
rida quanto ao mérito das acusações formuladas contra as corretoras de seguros.61
A Marsh, por exemplo, firmou acordo por meio do qual aceitou pagar a quantia
de US$ 850 milhões a um fundo destinado aos segurados contratantes da corretora que
estiveram sujeitos ao pagamento paralelo de comissões condicionais por seguradoras.
Segundo o acordo, a Marsh não assumiu qualquer grau de culpa pelas condutas alegadas
e não se sujeitou ao pagamento de multas ou outras penalidades. A empresa ainda se
comprometeu a não utilizar comissões condicionais até 2010.
Os acordos celebrados com as empresas AON e Willis previram obrigações
semelhantes, embora em cifras menos elevadas.
A enorme controvérsia em torno das comissões condicionais despertou imenso
interesse acadêmico e normativo, tanto nos Estados Unidos quanto em outros quadrantes

59
“Lastly, the brokers should be called to account for their steering activities. How has the culture of favoritism and
pay-offs distorted their basic fiduciary duty to serve the customer. More importantly, how can we take steps to reform
this culture by requiring appropriate disclosure to ensure the markets are operating properly?”
60
O estado de Illinois adotou iniciativa similar contra a corretora Arthur J. Gallagher & Co.
61
Os acordos firmados pelo Estado de Nova Iorque estão disponíveis no sítio eletrônico do Department of Financial
Services do Estado de Nova Iorque: <http://www.dfs.ny.gov/insurance/invstcomp.htm>.
74 • Em Debate

do globo. Inúmeros estudos são continuamente dedicados ao tema, muitos dos quais,
registre-se, defendem veementemente os benefícios desse tipo de arranjo para o mercado
de seguros e seus consumidores, persistindo a polêmica em torno do tema62.
Legislações foram modificadas após o imbróglio para, em nome das respon-
sabilidades fiduciárias de corretores para com segurados, criar ou reforçar o dever
de informação dos primeiros para com os últimos quanto a esquemas de pagamento de
comissões como aqueles denunciados por Sptizer, buscando incutir mais transparência
nas operações de intermediação de seguros. Exemplos incluem as normas vigentes na
União Europeia e as propostas atuais no sentido de sua reforma, que intensificam ainda
mais tais deveres informativos.
Consigne-se, por fim, que há ainda nos Estados Unidos muitos defensores da tese
de que corretores não têm um dever afirmativo de voluntariar a segurados a existência
de algum vínculo ou de recebimentos adicionais de seguradoras com quem operam.
Segundo os cultores desse raciocínio, o dever de informação somente surgiria sempre
que (e somente se) assim perquirido pelo segurado.63
Decididamente, o equilíbrio exato da regulação da questão não é algo homo-
gêneo, variando, pelo que parece, ao sabor do valor e do peso relativo conferido ao
dever fiduciário de lealdade do corretor de seguros perante o segurado em cada estado
dos EUA.

O Agente e o Corretor de Seguros no Reino Unido

Na Inglaterra, a atividade de seguros é regulada como uma espécie do gênero


“atividade financeira”. Fica submetida, por conseguinte, às normas expedidas pelo Finan-
cial Services Authority (“FCA”), órgão regulador das atividades financeiras em geral.
Os parâmetros de conduta na indústria passaram por reformas nas últimas
décadas, sendo atualmente regidos pelo “Insurance: [New] Conduct of Business Sour-
cebook” (“ICOBS”), de 2008.
A presença de agentes de seguros e corretores de seguros é muito antiga na
Inglaterra. Clarke explica que recentemente o termo “broker” fora oficialmente abolido,

62
E.g., CHENG, Jiang; ELYASIANI, Elyas; LIN, Tzu-Ting. Market Reaction to Regulatory Action in the Insurance
Industry: The Case of Contingent Commission. The Journal of Risk and Insurance, v. 77, n. 2 (June 2010), p. 347-368;
SCHWARCZ, Daniel, Beyond Disclosure: The Case for Banning Contingent Commissions. Yale Law & Policy Review,
Vol. 25, p. 289, 2007, Minnesota Legal Studies Research Paper No. 07-52.
63
Por todos, consulte-se RICHMOND, Douglas R., em “New Appleman on Insurance Law Library Edition”, Lexis Nexis,
2009, Capítulo 2.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 75

dando lugar à distinção entre os chamados agentes vinculados (tied agents) e agentes
independentes (independent agents):

Até recentemente, os intermediários de seguros eram de dois tipos, os agentes


vinculados e agentes independentes. Destes últimos, aqueles que se inscreveram
como tal foram chamados corretores de seguros. Hoje, o que conta não é o
nome ou o rótulo, mas o que uma pessoa faz, a atividade realizada. [...] Neste
livro, no entanto, a menos que o contexto exija interpretação diferente, aqueles
cujo estão principalmente ocupados na venda de seguro em nome das segura-
doras são referidos como agentes, aqueles que estão ocupados principalmente
com o papel de intermediários entre compradores e vendedores de seguros,
incluindo os chamados corretores de seguros no passado, são referidos como
os independentes.
(CLARKE, 2005, p. 58)64

O já referido papel duplo do corretor (verdadeiramente um corretor-agente),


podendo de forma híbrida representar os interesses do segurado, mas concomitantemente
também manter relações próximas – e não raramente estáveis e duradouras – com a
seguradora, angariando negócios para ela e vindo a ser remunerado por esta última, é
bem conhecido. A questão também é capturada por Clarke:

Uma característica curiosa do contrato entre um independente e os seus clientes


é que, no passado, os independentes não eram geralmente pagos taxas, por
clientes, mas comissão, pelas seguradoras. Na lei geral, a resposta à pergunta
“Quem paga o flautista?” é um dos principais testes de agência: o flautista é o
agente de quem paga . Isso continua a ser assim na lei de outros países, não só
em geral, mas também para os intermediários de seguros independentes nos
Estados Unidos. Por conta, em parte, dos problemas debatidos aqui, nos últimos
tempos muitos independentes no Reino Unido mudaram para uma relação
mais transparente, através da qual eles são remunerados como qualquer outra
profissão, ou seja, por honorários pagáveis pelos clientes. No entanto, um grande

64
“Until recently insurance intermediaries were of two kinds, tied agents and independent agents. Of the latter, those
who registered as such were called insurance brokers. Today what counts is not the name or the label but what a person
does, the activity undertaken. (…) In this book, however, unless the context otherwise requires, those whose are mainly
occupied in selling insurance on behalf of insurers are referred to as agents; those who are mainly occupied with the role
of intermediary between buyers and sellers of insurance, including those called insurance brokers in the past, are referred
to as independents.”
76 • Em Debate

número ainda opera como antes na comissão de seguradoras. Um dos motivos


é o medo de que os clientes que não apreciem o valor real e o custo do serviço
prestado por independentes e achem as taxas excessivas e que, em um mercado
impulsionado pelo preço, o público consumidor de seguros seja conduzido
diretamente para seguradoras, forçando os independentes a sair do negócio.
Seja como for, o sistema de pagamento por comissão coloca problemas de lei.
(CLARKE, 2005, p. 66)65

Conforme se vê, segundo Clarke, justamente por conta desse papel duplo de
corretores e do conflito de interesses potencial daí decorrente66, em 2005 já era notável
na Inglaterra um movimento dos chamados “independentes”, ou seja, dos intermediá-
rios sem vínculos de exclusividade com seguradoras, no sentido de serem remunerados
diretamente apenas pelos segurados, em contrapartida aos serviços especializados de
angariação de seguro e consultoria que lhes prestam.
O ICOBS, alinhado com a Diretiva 2002/92/EC, de 09 de dezembro de 2002,
conhecida como a Diretiva de Mediação de Seguros e transposta tempestivamente
para o direito interno do Reino Unido em 14 de janeiro de 2005, não se envereda em
distinções entre agente de seguros e corretores de seguros. O ICOBS se refere ao gênero
“intermediário de seguros”, o qual, por sua vez, é definido de forma ampla como “a
fi rma que desenvolve atividade de mediação de seguro que não uma seguradora”.
A diretiva será examinada mais detalhadamente na próxima seção em que trataremos
da União Europeia.

65
“A curious feature of the contract between independent and their clients is that, in the past, independents were gener-
ally paid not fees by clients but commission by insurers. In the general law, the answer to ‘who pays the piper?’ is one
of the main tests of agency: the piper is the agent of the one who pays. This remains so in the law of other countries, not
only in general but also for independent insurance intermediaries in the United States. On account partly of the problems
debated here, in recent times many independents in the UK have switched to a more transparent relationship whereby
they are remunerated like any other profession, namely, by professional fees payable by clients. However, a large number
still operate as before on commission from insurers. One reason is fear that clients would not appreciate the real value
and cost of the service provided by independents and find the fees excessive; and that, in a market driven by price, the
insurance buying public will be driven to direct insurers and that independents will be forced out of business. Be that as
it may, the system of payment by commission poses problems of law.”
66
Sobre o tema, Doctor e Cerny comentam que “[...] the dual agency doctrine has been recognized widely in other jurisdic-
tions. Thus, within the same transaction, a broker will be deemed to be the agent of the insured for purposes of selecting
a particular insurer and placing coverage with the insurer and will [be] deemed to be the agent of the insurer for purposes
of collecting the premium, issuing evidence of insurance coverage and any other tasks that the broker may undertake on
behalf of the insurer.” (DOCTOR, Randall; CERNY, Robert J., em “New Appleman on Insurance Law Library Edition”,
§ 15.02[1][d], Lexis Nexis, 2009. p. 15-13).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 77

Segundo os itens 4.1.2 (“Escopo da Divulgação”) e 4.1.6 (1) (“Escopo do


Serviço”) do ICOBS:

Antes da celebração de um contrato inicial de seguro e, se necessário, sua alte-


ração ou renovação, a empresa deve fornecer ao cliente, pelo menos:

(1) o seu nome e endereço;


(2) o fato de que ele está incluído no Cadastro de Serviços Financeiros e os
meios para verificar isso;
(3) se ele tem uma participação direta ou indireta que representa mais de 10 %
dos direitos de voto ou do capital de uma determinada empresa de seguros
(que não é um ressegurador puro);
(4) se uma determinada empresa de seguros (que não é um ressegurador pura)
ou sua empresa-mãe tem uma participação directa ou indirecta que repre-
senta mais de 10 % dos direitos de voto ou do capital da empresa; e
(5) os procedimentos que permitem aos clientes e outras partes interessadas
apresentarem reclamações da empresa com a empresa e o Serviço de Ouvi-
doria Financeira, ou, se o Serviço de Ouvidoria Financeira não se aplica, as
informações sobre a reclamações extrajudiciais e os caminhos e mecanismos
para a resolução de litígios entre a empresa e seus clientes.67

(1) Antes da celebração de um contrato inicial de seguro (que não seja um


contrato de seguro de viagem vinculado) e, se necessário, na sua alteração ou
renovação, a empresa deve informar o cliente se:

(a) o aconselhamento é dado à base de uma análise justa do mercado, ou


(b) ele tem uma obrigação contratual de exercer a atividade de mediação de
seguros exclusivamente com uma ou mais seguradoras;
(c) não tem a obrigação contratual de exercer a atividade de mediação de
seguros exclusivamente com uma ou mais empresas de seguros e não dar
conselhos com base em uma análise imparcial do mercado.

67
“Prior to the conclusion of an initial contract of insurance and, if necessary, on its amendment or renewal, a firm must
provide the customer with at least:
(1) its name and address;
(2) the fact that it is included in the Financial Services Register and the means for verifying this;
(3) whether it has a direct or indirect holding representing more than 10% of the voting rights or capital in a given insur-
ance undertaking (that is not a pure reinsurer);
(4) whether a given insurance undertaking (that is not a pure reinsurer) or its parent undertaking has a direct or indirect
holding representing more than 10% of the voting rights or capital in the firm; and
(5) the procedures allowing customers and other interested parties to register complaints about the firm with the firm
and the Financial Ombudsman Service or, if the Financial Ombudsman Service does not apply, information about
the out-of-court complaint and redress procedures available for the settlement of disputes between the firm and its
customers.”
78 • Em Debate

(2) Uma empresa que não aconselha com base em uma análise imparcial
do mercado deve informar o cliente de que ele tem o direito de solicitar o
nome de cada seguradora com a qual a empresa pode e não realizar negócio.
A empresa deve respeitar tal pedido.68
(ICOBS, 2014)

Portanto, vigora no Reino Unido o dever do intermediário de seguros de informar


de modo transparente aos segurado a existência de vínculo com seguradora hábil a compro-
meter o seu exercício de análise justa do mercado que o segurado lhe tenha feito.
Tais deveres inerentes à atuação dos intermediários de seguros são manifestações
dos deveres de cuidado e lealdade gerais que devem guardar com seus clientes, conforme
afirma, a título de arremate, Jess:

Há muito tempo tem sido aceito que a relação corretor / cliente dá origem a uma
obrigação contratual implícita de que o corretor irá exercer todos os cuidados
razoáveis e habilidades na execução de suas instruções. [...] O corretor também
tem o dever de cuidado extensiva no delito culpável do common law decorrente
da posição do corretor de ser uma pessoa que professa ter habilidade especial.
O dever de um corretor de seguros ou outro intermediário é o mesmo, e é de
exercer um grau razoável e normal de cuidado e habilidades “como uma pessoa
de capacidade média e habilidade ordinária na sua situação e profissão pode
razoavelmente esperar que exercem.”
(JESS, 2011, p. 111-112)69

68
“(1) Prior to the conclusion of an initial contract of insurance (other than a connected travel insurance contract)2 and,
if necessary, on its amendment or renewal, a firm must tell the customer whether:
(a) it gives advice on the basis of a fair analysis of the market; or
(b) it is under a contractual obligation to conduct insurance mediation business exclusively with one or more insurance
undertakings; or
(c) it is not under a contractual obligation to conduct insurance mediation business exclusively with one or more insurance
undertakings and does not give advice on the basis of a fair analysis of the market.
(2) A firm that does not advise on the basis of a fair analysis of the market must inform its customer that he has the right
to request the name of each insurance undertaking with which the firm may and does conduct business. A firm must
comply with such a request.”
69
“It has long been accepted that the broker/client relationship gives rise to an implied contractual duty that the broker will
exercise all reasonable care and skill in the performance of his instructions. (…) The broker will also owe a coextensive
duty of care in the common law tort of negligence arising from the broker’s position of being a person professing to have
special skill.
The duty of an insurance broker or other intermediary is the same, and it is to exercise such a reasonable and ordinary
degree of care and skill ‘as a person of average capacity and ordinary ability in his situation and profession might fairly
be expected to exert.’”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 79

O Agente e o Corretor de Seguros na União Europeia

Tal qual acontece no mercado norte-americano, os intermediários (ALVES(B),


2007, p. 36-37)70 de seguros na Europa, notadamente agentes de seguros e corretores, são
também os principais responsáveis pela distribuição de seguros no mercado, conforme
indica o quadro a seguir, que traz dados de 2010:

70
Convém esclarecer que no Direito português é frequente que referências a “insurance intermediaries” contidas nas
normas da União Europeia sejam muitas vezes traduzidas como “mediadores de seguros”. É que mediação de seguros é
uma expressão que de longa data possui acepção jurídica própria no Direito português. Neste trabalho utilizaremos o termo
“intermediário de seguros” e suas variações de estilo, inclusive “mediador de seguros” indistintamente, sem a mesma
preocupação e rigidez, eis que no Brasil a figura do mediador de seguros não encontra definição em nosso Direito positivo.
A distinção terminológica entre intermediador e mediador de seguros no Direito luso é explicada por Alves: “Julgamos
que qualquer actividade de distribuição de seguros em que haja a intervenção de um terceiro em relação à seguradora é
intermediação de seguros. A entidade alheia às seguradoras, que distribui produtos de seguros de uma ou mais empresas,
é um intermediário de seguros. A intermediação pode assumir a forma de mediação. A mediação é o modo mais frequente
de distribuir seguros e encontra-se sujeita a regulamentação específica. O acesso à actividade de mediação encontra-se
limitado ao preenchimento de determinados requisitos e à inscrição num registro nacional. Os mediadores têm direitos e
deveres que resultam da lei e podem ser sujeitos à aplicação de sanções, caso não os cumpram. A actividade de mediação
é uma profissão que o legislador pretende que seja exercida com rigor e dignidade, para o que estabeleceu um regime
exigente para a ela aceder. Os mediadores de seguros são intermediários de seguros, sujeitos ao regime específico da
mediação. Existe, portanto, intermediação lato sensu, que inclui a mediação e a intermediação stricto sensu. É mediação
de seguros toda a actividade que tem em vista a celebração e/ou execução de contratos de seguro, sujeita à legislação
específica que a regula. É intermediação de seguros stricto sensu toda a actividade legal de distribuição de seguros ou
execução de contratos de seguro, que não esteja sujeita às regras específicas de mediação.”
80 • Em Debate

No âmbito da União Europeia, a disciplina jurídica dos intermediários de seguros


era objeto da Diretiva 77/92/CEE, de 13 de dezembro de 1976 (CORDEIRO, 2013,
p. 395)71, que impunha aos Estados-Membros medidas destinadas a facilitar o
exercício efetivo da liberdade de estabelecimento da livre prestação de serviços
nas atividades de agente e de corretor de seguros. Embora reconhecesse a distinta
qualificação jurídica das duas atividades, a diretiva não traçava uma diferenciação,

71
“Ficou previsto que essa Diretriz vigoraria até à (sic) entrada em vigor das disposições relativas à coordenação das
regulamentações nacionais respeitantes ao acesso às atividades de agentes e corretores de seguros e ao seu exercício.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 81

buscando albergar ambas72 e deixando a regulamentação mais particularizada para


o foro interno dos Estados-Membros.
A Diretiva 77/92/CEE não está mais em vigor. Ela foi revogada pela Diretiva de
Mediação de Seguros (Diretiva 2002/92/EC), também conhecida pela sigla IMD73, que
estabelece os contornos gerais da atividade. A Diretiva 2002/92/EC define “Interme-
diação de Seguros” como

As atividades que consistem em apresentar, propor ou praticar outro ato


preparatório da celebração de um contrato de seguro, ou em celebrar esses
contratos, de apoiar a gestão e execução desses contratos, em especial em caso
de sinistro.
(EC, 2002)

Não passaremos em revista todas as definições contidas na Diretiva 2002/92/


EC, mas, em razão da pertinência para este trabalho, convém consignar que ela prevê
ainda a figura do “tied insurance intermediary” (intermediário de seguros vinculado74),
definindo-o como

[...] Qualquer pessoa que exerça uma atividade de mediação de seguros, em nome
e por conta de uma empresa de seguros ou de várias empresas de seguros, caso
os produtos não sejam concorrentes, mas que não receba prêmios nem somas
destinadas ao cliente e atue sob a inteira responsabilidade dessas empresas de
seguros, no que se refere aos respectivos produtos. [...] Considera-se igualmente
mediador de seguros ligado, agindo sob a responsabilidade de uma ou várias
empresas de seguros, no que se refere aos respectivos produtos, qualquer pessoa

72
“1. A presente directiva aplica-se às actividades seguintes, na medida em que se insiram no ex grupo 630 CITI do
Anexo III do Programa Geral para a Supressão das Restrições à Liberdade de Estabelecimento:
a) A actividade profissional das pessoas que, estabelecendo a ligação entre os tomadores de seguro e as empresas de
seguros ou de resseguro, e podendo escolher livremente essas empresas, com vista à cobertura de riscos a segurar ou a
ressegurar, preparam a celebração de contratos de seguro e colaboram, eventualmente, na sua gestão e na sua execução,
nomeadamente em caso de sinistro;
b) A actividade profissional das pessoas encarregadas, por força de um ou mais contratos ou de procurações, de apresentar,
propor e preparar ou celebrar contratos de seguros, ou de colaborar na sua gestão e na sua execução, nomeadamente,
em caso de sinistro, em nome e por conta, ou unicamente por conta, de uma ou mais empresas de seguros;
c) As actividades de pessoas não abrangidas pelas alíneas a) e b), mas que actuando por conta delas executam, nomeada-
mente, trabalhos de preparação, apresentam contratos de seguro ou cobram prémios, sem que estas operações possam
representar qualquer compromisso perante o público ou da parte do público.”
73
Acrônimo de Insurance Mediation Directive.
74
Na versão da diretiva em língua portuguesa, a expressão é traduzida como “mediador de seguros ligado”.
82 • Em Debate

que exerça uma actividade de mediação de seguros, em complemento da sua


actividade profissional principal, sempre que o seguro constitua um comple-
mento dos bens ou serviços fornecidos no âmbito dessa ocupação principal e
que não receba prémios nem somas destinadas ao cliente.
(EC, 2002)

Um dos pontos de preocupação da diretiva foi regular a relação cliente-inter-


mediário de seguros quando este último possuir laços contratuais de produção com
seguradoras. O Artigo 12 da diretiva impõe expressamente ao intermediário de seguros
nesta situação o dever de prestar tal informação ao seu cliente75:

CAPÍTULO III
INFORMAÇÕES A PRESTAR PELOS MEDIADORES
Artigo 12.º
Informações a prestar pelo mediador de seguros
1. Antes da celebração de qualquer contrato de seguro inicial e, se necessário,
aquando da sua alteração ou renovação, um mediador de seguros deve
informar os clientes, pelo menos:
a) Da sua identidade e endereço;
b) Do registo em que foi inscrito e dos meios para verificar se foi efectivamente
registado;
c) De qualquer participação, directa ou indirecta, superior a 10 % nos direitos
de voto ou no capital que tenha numa determinada empresa de seguros;
d) De qualquer participação, directa ou indirecta, superior a 10 % nos direitos
de voto ou no capital do mediador de seguros detida por uma determinada
empresa de seguros, ou pela empresa-mãe de uma determinada empresa de
seguros;
e) Dos procedimentos, referidos no artigo 10º, que permitem aos clientes e a
outras partes interessadas apresentarem reclamações contra mediadores de
seguros e, eventualmente, dos procedimentos extrajudiciais de reclamação
e recurso referidos no artigo 11º.
Além disso, o mediador de seguros deve indicar ao cliente, no que se refere ao
contrato que é fornecido:
i) Se baseia os seus conselhos na obrigação de fornecer uma análise imparcial
prevista no nº 2; ou

75
O Artigo 13 da diretiva cuida da forma/dos meios de prestação das informações impostas ao intermediário de seguros
pelo Artigo 12.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 83

ii) Se tem a obrigação contratual de exercer a actividade de mediação


de seguros exclusivamente com uma ou mais empresas de seguros.
Nesse caso e a pedido do cliente, deve também informá-lo dos nomes
dessas empresas de seguros; ou
iii) Se não tem a obrigação contratual de exercer a actividade de mediação
de seguros exclusivamente com uma ou mais empresas de seguros e
se não baseia os seus conselhos na obrigação de fornecer uma análise
imparcial prevista no nº 2. Nesse caso e a pedido do cliente, deve também
informá-lo dos nomes das empresas de seguros com as quais trabalha.
Nos casos em que se preveja que determinada informação é dada apenas a pedido
do cliente, este deve ser notificado do direito de pedir essa informação.
2. Quando o mediador de seguros informar o cliente que baseia os seus conse-
lhos numa análise imparcial, é obrigado a dar esses conselhos com base
na análise de um número suficiente de contratos de seguro disponíveis no
mercado que lhe permita fazer uma recomendação, de acordo com critérios
profissionais, quanto ao contrato de seguro mais adequado às necessidades
do cliente.
3. Antes da celebração de qualquer contrato de seguro, o mediador de seguros
deve, tendo em conta especialmente as informações fornecidas pelo cliente,
especificar pelo menos as exigências e as necessidades do cliente e as razões
que nortearam os conselhos dados quanto a um determinado produto.
Essas informações são ajustadas de acordo com a complexidade do contrato
de seguro proposto.
4. As informações a que se referem os nºs 1, 2 e 3 não têm de ser prestadas
pelos mediadores de seguros se estes desenvolverem actividades de
mediação que digam respeito à cobertura de grandes riscos; os mediadores
de resseguros também estão dispensados de prestar essas informações.
5. Os Estados-Membros podem manter ou aprovar disposições mais estritas
em relação às exigências em matéria de informação previstas no nº 1, desde
que essas disposições sejam conformes com o direito comunitário.
Os Estados-Membros comunicam à Comissão as disposições nacionais a que
se refere o primeiro parágrafo.
Para estabelecer por todos os meios adequados um elevado nível de transpa-
rência, a Comissão garante que as informações relativas às disposições nacio-
nais que lhe são comunicadas sejam também comunicadas aos consumidores
e aos mediadores de seguros. (grifos nossos)
(EC, 2002)
84 • Em Debate

Mesmo sendo de implementação compulsória no âmbito da União Europeia até


15 de janeiro de 2005, apenas quatro membros transpuseram a Diretiva 2002/92/EC
ao seu direito interno tempestivamente: Áustria, Dinamarca, Irlanda e o Reino Unido.
Os demais Estados-Membros implementaram a IMD com atraso76.
Como a Diretiva 2002/92/EC estipula diretrizes e princípios gerais mínimos no
sentido de harmonização77, o resultado de sua longa e demorada adoção pelos Estados-
Membros se traduziu em normas e regimes muito heterogêneos no ordenamento dos 27
países integrantes da União Europeia.
A excessiva fragmentação das legislações nacionais decorrentes da imple-
mentação da IMD – para alguns, uma verdadeira colcha de retalhos –, redundou em
inúmeras inconsistências78 e lacunas que não favorecem a promoção de um mercado
único, objetivo primordial da União Europeia. Esses fatores, aliados à situação de perda
de confiança dos consumidores provocada pela aguda crise financeira iniciada na última
década, motivou a Comissão Europeia a propor em uma nova diretiva em substituição
à Diretiva 2002/92/EC.
O objetivo principal da Comissão Europeia com a nova proposta de diretiva sobre
mediação de seguros (apelidada de “IMD 2”) foi elevar a proteção do consumidor no
setor de seguros, criando padrões de conduta comuns a diversos tipos de “vendedores”
de seguros e assegurando aconselhamento apropriado aos consumidores.79 São também
objetivos da IMD 2 uma concorrência sem distorções entre os diversos players e, como
não poderia deixar de ser, a integração dos mercados em um único.80

76
Salvo por algumas poucas exceções (e.g., Alemanha), a grande maioria dos países já possuía regimes próprios para
a disciplina dos intermediários de seguros. Tais legislações nacionais tiveram que ser reformadas para se adaptarem à
Diretiva 2002/92/EC.
77
Diretivas são instrumentos normativos vinculantes em relação à finalidade por elas prescrita, mas deixam espaço aos
Estados-Membros para a escolha da forma e do método de implementação. Conforme esclarecem CRAIG e DE BÚRCA,
“[d]irectives are particularly useful when the aim is to harmonize the laws within a certain area or to introduce complex
legislative change. This is because discretion is left to Member States as to how the directive is to be implemented.”
(CRAIG, Paul, DE BÚRCA, Gráinne. EU Law – Text, Cases, and Materials. 4. ed. New York: Oxford University Press,
2008. p. 85)
78
Sobretudo quanto aos requisitos de informação exigidos dos mediadores de seguros.
79
Vide http://ec.europa.eu/internal_market/insurance/consumer/mediation/#maincontentSec3.
80
Proposta de revisão da IMD: EC. European Comission. Proposal for a Directive of The European Parliament and of
The Council on insurance mediation. Disponível em: <http://ec.europa.eu/internal_market/insurance/docs/consumers/
mediation/20120703-directive_en.pdf>. Acesso em: 30 dez.2013.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 85

As melhorias pretendidas pela IMD 2 em relação à IMD são descritas


abaixo : 81

Em termos concretos, o projeto IMD2 deve atingir os seguintes melhorias:


ampliar o âmbito de aplicação do IMD1 a todos os canais de distribuição (por
exemplo, subscritores diretos, locadoras de veículos etc.); identificar, gerenciar
e mitigar os conflitos de interesses; elevar o nível de harmonização das sanções
administrativas e medidas para a violação das disposições essenciais da diretiva
actual; melhorar a adequação e objetividade do aconselhamento; garantir que a
qualificação profissional dos vendedores seja compatível com a complexidade
dos produtos vendidos; simplificar e aproximar o procedimento para a entrada
entre-fronteiras para os mercados de seguros em toda a UE.
(EC, 2012)82

Seguros comercializados subsidiariamente a outros serviços, como, por exemplo,


seguros de viagens comercializados por agentes de turismo, apólices de seguro vendidas
por locadoras de veículos, etc., passam a integrar o escopo de aplicação da IMD 2.
Algumas modificações conceituais em relação à IMD incluem:

• O termo “mediação de seguros” é ampliado para fazer frente ao alargamento


do escopo da diretiva, especificando ainda que certas atividades praticadas por
insurance aggregators websites83 constituem mediação de seguros;
• tied insurance intermediary (“intermediário de seguros vinculado”) é
ampliado para incluir intermediários trabalhando sob a responsabilidade de
outro intermediário;
• contingent commission (“comissão condicional”) é definida como a comissão na
qual o montante a ser pago é baseado no atingimento de metas acordadas;

81
Idem, ibidem.
82
“In concrete terms, the IMD2 project should achieve the following improvements: expand the scope of application of IMD1
to all distribution channels (e.g. direct writers, car rentals, etc.); identify, manage and mitigate conflicts of interest; raise the
level of harmonization of administrative sanctions and measures for breach of key provisions of the current Directive; enhance
the suitability and objectiveness of advice; ensure sellers’ professional qualifications match the complexity of products sold;
simplify and approximate the procedure for cross-border entry to insurance markets across the EU.”
83 Também conhecidos como agregadores on line de seguros, os insurance aggregator websites são sítios da internet que
congregam cotações de várias seguradoras simultaneamente para as coberturas procuradas. No Brasil, o serviço ainda é
incipiente, mas já existem alguns poucos sítios que prestam tais serviços.
86 • Em Debate

• close links (conexões ou relações próximas) definem arranjos com pessoas conec-
tadas e acertos que podem afetar a capacidade do regulador de supervisionar
eficazmente; e
• remuneration é definido para incluir não apenas pagamentos (taxas, comissões,
etc.), mas também benefícios pecuniários de qualquer tipo.

A IMD 2 deve ser aprovada em breve pelo Conselho da União Europeia e pelo
Parlamento Europeu antes de sua adoção com eficácia normativa vinculante. A expec-
tativa inicial do mercado era de que tais aprovações tivessem ocorrido em 2013 para sua
entrada em vigor em 201584.
Para os fi ns deste trabalho, destaquem-se as seguintes disposições presentes
na “consideranda” da IMD2, que salientam a preocupação de manter o consumidor
de seguros bem informado na hipótese de laços entre o intermediário de seguros e
a seguradora:

(30) Os consumidores devem receber com antecedência informações claras


sobre o status das pessoas que vendem o produto de seguro e sobre a remu-
neração que recebem. Há uma necessidade de introduzir uma divulgação
de status obrigatória para os intermediários de seguros europeus e empresas de
seguros. Esta informação deve ser dada ao consumidor na fase pré-contratual.
Seu papel é demonstrar a relação entre a empresa de seguros e o intermediário
(quando aplicável), bem como a estrutura e o conteúdo da remuneração dos
intermediários.

(31) A fim de mitigar os conflitos de interesse entre o vendedor e o comprador


de um produto de seguro, é necessária a divulgação suficiente da remuneração
dos distribuidores de seguros. Assim, para produtos de seguro de vida, o inter-
mediário e o empregado do intermediário de seguros ou a empresa de seguros
devem ser obrigados a informar o cliente sobre a sua remuneração antes da
venda. Para outros produtos de seguros, sujeitos a um período transitório de 5
(cinco) anos, o cliente deve ser informado sobre o direito do cliente de solicitar
esta informação, que deve ser fornecido ao cliente, mediante solicitação.

84
Vide http://www.nortonrosefulbright.com/knowledge/publications/69251/revised-insurance-mediation-direc-
tive e http://www.bakermckenzie.com/files/Publication/803a2d89-c011-47ef-a8a7-f89d4683e987/Presentation/
PublicationAttachment/88c4fda1-d62c-4b67-aaef-fd5495a6c4d9/al_belgium_imdii_jul12.pdf. Acesso em 30 dez.2013.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 87

(32) A fim de fornecer um cliente com informações comparáveis sobre os


serviços de mediação de seguros prestados independentemente de as contrata-
ções se darem através de um intermediário ou diretamente de uma empresa de
seguros, e para evitar a distorção da concorrência, incentivando as empresas
de seguros a vender diretamente para clientes, ao invés de através de inter-
mediários, buscando evitar os requisitos de informação, empresas de seguros
também devem ser obrigadas a fornecer informações acerca da remuneração
para os clientes com os quais lidam diretamente na prestação de serviços de
mediação de seguros sobre a remuneração que recebem pela venda de produtos
de seguros.
[...]
(35) É essencial para o cliente saber se ele/ela está lidando com um inter-
mediário que o está aconselhando sobre os produtos de uma ampla gama de
empresas de seguros ou sobre produtos oferecidos por um número restrito
de empresas.
(CE, 2012)85

85
“(30) Consumers should be provided in advance with clear information about the status of the persons who sell the
insurance product and about the remuneration which they receive. There is a need to introduce a mandatory status disclo-
sure for European insurance intermediaries and insurance undertakings. This information should be given to the consumer
at the pre-contractual stage. Its role is to show the relationship between the insurance undertaking and the intermediary
(where applicable) as well as the structure and the content of the intermediaries’ remuneration.
(31) In order to mitigate conflicts of interest between the seller and the buyer of an insurance product, it is necessary
to ensure sufficient disclosure of remuneration of insurance distributors. Accordingly, for life insurance products, the
intermediary and the employee of the insurance intermediary or the insurance undertaking should be obliged to inform
the customer about its remuneration, in advance of the sale. For other insurance products, subject to a transitional period
of 5 years, the customer must be informed of the customer’s right to request this information, which must be provided
to the customer upon request.
(32) In order to provide a customer with comparable information on the insurance mediation services provided regardless
of whether the customer purchases through an intermediary, or directly from an insurance undertaking, and to avoid the
distortion of competition by encouraging insurance undertakings to sell direct to customers rather than via intermediar-
ies in order to avoid information requirements, insurance undertakings should also be required to provide information
about remuneration to customers with whom they deal directly in the provision of insurance mediation services about the
remuneration they receive for the sale of insurance products.
[…]
(35) It is essential for the customer to know whether he/she is dealing with an intermediary who is advising the customer
on products from a broad range of insurance undertakings or on products provided by a specific number of insurance
undertakings.”
88 • Em Debate

Os Artigos 15, 16 e 17 do Capítulo VI da IMD2 estabelecem um complexo meca-


nismo de divulgação ao segurado de informações sobre o intermediário de seguros, em
especial dos pagamentos recebidos por este último:

Capítulo VI.
Requisitos de informação e regras de conduta profissional

Artigo 15
Princípio geral

1. Os Estados-Membros devem exigir que, no exercício de mediação de


seguros com ou para os clientes, um intermediário de seguros ou empresa
de seguros atue honesta, equitativa e profissionalmente, em conformidade
com os melhores interesses de seus clientes.
2. Todas as informações, incluindo as comunicações comerciais, apresentadas
pelo intermediário de seguros ou empresa de seguros para os clientes ou
clientes potenciais, deve ser justa, clara e não enganosa. As comunicações
comerciais devem ser claramente identificáveis como tais.

Artigo 16
Informações gerais fornecidas por intermediário
de seguros ou empresa de seguros

Estados-Membros devem editar regras assegurando que

(a) Antes da conclusão de qualquer contrato de seguros, um intermediário


de seguros, inclusive os vinculados, deve fazer as seguintes divulgações
a clientes:

(i) sua identidade e endereço e que é um intermediário de seguros;


(ii) se ele fornece algum tipo de aconselhamento ou não sobre produtos de
seguros vendidos;
(iii) os procedimentos referidos no Artigo 12, permitindo que clientes e
outros interessados possam formular reclamações sobre intermediários
de seguros e resseguros e sobre reclamações extrajudiciais e meca-
nismos de compensação referidos no Artigo 13;
(iv) O cadastro em que foi incluído e os meios para verificar que ele foi
cadastrado; e
(v) Se o intermediário está representando o cliente ou está atuando para e
à conta de uma empresa de seguros;
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 89

(b) Antes da conclusão de qualquer contrato de seguros, uma empresa de


seguros deve fazer as seguintes divulgações a clientes:
(i) sua identidade e endereço e que é uma empresa de seguros;
(ii) se ela fornece algum tipo de aconselhamento ou não sobre produtos de
seguros vendidos;
(iii) os procedimentos referidos no Artigo 12, permitindo que clientes e
outros interessados possam formular reclamações sobre intermediários
de seguros e resseguros e sobre reclamações extrajudiciais e meca-
nismos de compensação referidos no Artigo 13.

Artigo 17
Conflitos de interesse e transparência

1. Antes da conclusão de qualquer contrato de seguros, um intermediário de


seguros – inclusive os vinculados – deve fornecer a clientes pelo menos as
seguintes informações:

(a) se ele tem uma participação, direta ou indireta, superior a 10% dos
direitos de voto ou do capital de uma determinada empresa de seguros;
(b) se uma determinada empresa de seguros ou empresa-mãe de uma
determinada empresa de seguros tem uma participação, direta ou
indireta, superior a 10% dos direitos de voto ou no capital do inter-
mediário de seguros;
(c) em relação ao contrato proposto, se:
(i) ele dá aconselhamento baseado numa análise justa;
(ii) ele está sob uma obrigação contratual de conduzir negócio de
mediação de seguros exclusivamente com uma ou mais empresas
de seguros. Neste caso, ele deve fornecer os nomes dessas
empresas de seguros; ou
(iii) ele não está sob a obrigação contratual de conduzir negócios de
mediação de seguros exclusivamente com uma ou mais empresas
de seguros e não fornece aconselhamento à base de uma análise
justa. Neste caso, ele deve fornecer os nomes das empresas de
seguros com as quais deve e pode conduzir negócios
(d) a natureza da remuneração recebida em relação ao contrato de seguro;
(e) se, em relação ao contrato de seguro, ele trabalha:
(i) com base em uma taxa, que é a remuneração paga diretamente
pelo cliente; ou
90 • Em Debate

(ii) com base em uma comissão de qualquer tipo, que é a remuneração


incluída no prêmio de seguro; ou
(iii) com base em uma combinação de ambas (i) e (ii);
(f) se o intermediário receberá uma taxa ou uma comissão de nenhum tipo,
o valor total da remuneração relativa aos produtos de seguros oferecidos
ou considerados, ou, se o montante exato não pode ser dado, a base de
cálculo total da taxa ou comissão ou a combinação de ambos;
(g) se o montante da comissão é baseado no cumprimento de metas acor-
dadas ou limites relativos aos negócios colocados pelo intermediário
com uma seguradora, as metas ou limites, bem como os valores a pagar
na realização deles.
2. Em derrogação do parágrafo 1 (f), durante cinco anos a partir da data em
que a presente directiva entrar em vigor, o intermediário de contratos de
seguros que não contratar em qualquer uma das classes especificadas no
anexo I da Directiva 2002/83/CE deve, antes da celebração de quaisquer tais
contratos de seguro, se o intermediário está a ser remunerado por uma taxa
ou comissão,
(a) fornecer ao cliente o valor ou, se o montante exato não pode ser dado,
a base de cálculo da taxa ou comissão ou a combinação de ambos, se
o cliente assim o solicitar.
(b) informar o cliente do seu direito de solicitação à informação referida
no ponto (a).
3. A empresa de seguros ou o intermediário de seguros deve também informar
o cliente sobre a natureza e a base de cálculo de qualquer remuneração
variável recebida por qualquer funcionário deles para distribuir e gerenciar
o produto de seguro em questão.
4. Se quaisquer pagamentos forem feitos pelo cliente nos termos do contrato
de seguro após a sua conclusão, a empresa de seguros ou o intermediário
também devem fazer as divulgações de acordo com o presente artigo para
cada tal pagamento.
5. A Comissão deve ter poderes para adotar atos delegados de acordo com o
Artigo 33. Esses atos delegados devem especificar:
(a) critérios apropriados para determinar como a remuneração do interme-
diário – inclusive comissões contigentes – deve ser divulgada ao cliente,
conforme referido no parágrafo 1 (f) e (g) e no parágrafo 2 deste Artigo;
(b) critérios apropriados para determinar em particular a base de cálculo
de todas as taxas ou comissões ou da combinação de ambas;
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 91

(c) as providências que intermediários de seguros e empresas de seguros


devem razoavelmente ser esperadas para todas para divulgar sua remu-
neração ao cliente.
(CE, 2012)86

86
“Chapter VI.
Information Requirements and Conduct of Business Rules

Article 15
General principle

1. Member States shall require that, when carrying out insurance mediation with or for customers, an insurance inter-
mediary or insurance undertaking acts honestly, fairly and professionally in accordance with the best interests of its
customers.
2. All information, including marketing communications, addressed by the insurance intermediary or insurance undertak-
ing to customers or potential customers shall be fair, clear and not misleading. Marketing communications shall be
clearly identifiable as such.

Article 16
General information provided by the insurance intermediary or insurance undertaking

Member States shall lay down rules ensuring that


(a) prior to the conclusion of any insurance contract, an insurance intermediary including tied ones shall make the fol-
lowing disclosures to customers:
(i) its identity and address and that it is an insurance intermediary;
(ii) whether or not it provides any type of advice about the insurance products sold;
(iii) the procedures referred to in Article 12 allowing customers and other interested parties to register complaints
about insurance and reinsurance intermediaries and about the out-of-court complaint and redress procedures
referred to in Article 13;
(iv) the register in which it has been included and the means for verifying that it has been registered; and
(v) whether the intermediary is representing the customer or is acting for and on behalf of the insurance undertak-
ing;
(b) prior to the conclusion of any insurance contract, an insurance undertaking shall make the following disclosures to
customers:
(i) its identity and address and that it is an insurance undertaking;
(ii) whether or not it provides any type of advice about the insurance products sold;
(iii) the procedures referred to in Article 12 allowing customers and other interested parties to register complaints about
insurance undertakings and about the out-of-court complaint and redress procedures referred to in Article 13.

Article 17
Conflicts of interest and transparency

1. Prior to the conclusion of any insurance contract, an insurance intermediary – including tied ones – shall provide the
customer with at least the following information:
(a) whether it has a holding, direct or indirect, representing more than 10% of the voting rights or of the capital in
a given insurance undertaking;
(b) whether a given insurance undertaking or parent undertaking of a given insurance undertaking has a holding, direct
or indirect, representing more than 10% of the voting rights or of the capital in the insurance intermediary;
(c) in relation to the contract proposed, whether:
(i) it gives advice on the basis of a fair analysis, or
(ii) it is under a contractual obligation to conduct insurance mediation business exclusively with one or more
insurance undertakings. In that case, it shall provide the names of those insurance undertakings, or
92 • Em Debate

Salta aos olhos, portanto, a aguda preocupação da Comissão Europeia em


assegurar um grau elevado de transparência ao consumidor sempre que a atuação do
intermediário de seguros possa resvalar em algum potencial conflito de interesses.
A adoção da IMD2 e sua devida implementação por parte dos Estados-Membros
da União Europeia ampliarão ainda mais o rol de informações que o intermediário de
seguros deverá compulsoriamente prestar ao consumidor quanto a eventuais vínculos
porventura mantidos com seguradoras e, ainda, quanto à abrangência de suas pesquisas
de condições de apólices a pedido de consumidores, permitindo a estes avaliar o grau de
independência do intermediário antes de concluir a decisão de contratar seguro.

(iii) it is not under a contractual obligation to conduct insurance mediation business exclusively with one or
more insurance undertakings and does not give advice on the basis of a fair analysis. In that case, it shall
provide the names of the insurance undertakings with which it may and does conduct business;
(d) the nature of the remuneration received in relation to the insurance contract;
(e) whether in relation to the insurance contract, it works:
(i) on the basis of a fee, that is the remuneration paid directly by the customer; or
(ii) on the basis of a commission of any kind, that is the remuneration included in the insurance premium; or
(iii) on the basis of a combination of both (i) and (ii);
(f) if the intermediary will receive a fee or a commission of any kind, the full amount of the remuneration concerning
the insurance products being offered or considered or, where the precise amount is not capable of being given,
the basis of calculation of all the fee or commission or the combination of both;
(g) if the amount of the commission is based on the achievement of agreed targets or thresholds relating to the
business placed by the intermediary with an insurer, the targets or thresholds as well as the amounts payable on
the achievement of them.
2. By derogation from paragraph 1 (f) for five years from the date on which this Directive comes into force, the inter-
mediary of insurance contracts other than contracts in any of the classes specified in Annex I of Directive 2002/83/
EC, shall, prior to the conclusion of any such insurance contract, if the intermediary is to be remunerated by a fee or
commission,
(a) provide the customer with the amount or, where the precise amount is not capable of being given, the basis of
calculation of the fee or commission or the combination of both, if the customer so requests.
(b) inform the customer of his right to request the information referred to in point (a).
3. The insurance undertaking or insurance intermediary shall also inform the customer about the nature and the basis of
the calculation of any variable remuneration received by any employee of theirs for distributing and managing the
insurance product in question.
4. If any payments are made by the customer under the insurance contract after its conclusion, the insurance undertaking
or intermediary shall also make the disclosures in accordance with this Article for each such payment.
5. The Commission shall be empowered to adopt delegated acts in accordance with Article 33. Those delegated acts shall
specify:
(a) appropriate criteria for determining how the remuneration of the intermediary – including contingent commission
– shall be disclosed to the customer as referred to in paragraph 1 (f) and (g) and paragraph 2 of this Article;
(b) appropriate criteria for determining in particular the basis of calculation of all the fee or commission or the
combination of both;
(c) the steps that insurance intermediaries and insurance undertakings might reasonably be expected to take to
disclose their remuneration to the customer.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 93

O Agente e o Corretor de Seguros em Portugal

Em Portugal, o Decreto-Lei nº 388/91 destinava-se a regular a mediação de


seguros relativa a:

a) Contratos de seguro directo celebrados nos termos da legislação aplicável


cobrindo riscos situados em Portugal; b) Operações de seguro, nomeada-
mente operações de capitalização e de fundos de pensões, realizadas, nos
termos legais e normativos em vigor, por seguradoras ou sociedades gestoras
de fundos de pensões operando em Portugal. (Art. 1º, nº 1)
(PORTUGAL, 1991)

Para os fins do referido diploma, mediação de seguros era definida como

A atividade remunerada tendente à realização, através de apreciação dos riscos


em causa, e assistência, ou apenas à assistência, dos contratos e operações no
nº 1 do artigo 1º.
(PORTUGAL, 1991)

Com a superveniência da Diretiva 2002/92/EC, foi necessária a sua transposição


para o Direito interno português, o que se deu, com algum atraso, mediante a edição
do Decreto-Lei nº 144, de 31 de julho de 2006. O Decreto-Lei nº 144/2006 revogou
expressamente o Decreto-Lei nº 388/91, impondo uma grande revisão de todo o regime
de mediação de seguros no país.87
O Decreto-Lei nº 144/2006 é bastante pródigo no número de definições criadas,
valendo destacar as seguintes definições gerais:

• “Empresa de seguros”: uma empresa que tenha recebido da autoridade compe-


tente de um dos Estados-Membros da União Europeia uma autorização para o
exercício da atividade seguradora (Artigo 5º, alínea “a”);

87
“A necessidade de transposição da directiva constitui, ainda, a oportunidade para a revisão global do actual ordenamento
jurídico nacional em matéria de mediação de seguros, uma vez que se reconhece que o mesmo carece de actualização
face à evolução do mercado segurador, às novas técnicas de comercialização de seguros e às exigências de aumento da
confiança no mercado, mediante o incremento da profissionalização, da credibilidade e da transparência na actividade de
mediação de seguros.” (trecho preâmbulo do Decreto-Lei nº 144/2006).
94 • Em Debate

• “Mediação de seguros”: qualquer atividade que consista em apresentar ou propor


um contrato de seguro ou praticar outro ato preparatório da sua celebração, em
celebrar o contrato de seguro, ou em apoiar a gestão e execução desse contrato,
em especial em caso de sinistro (Artigo 5º, alínea “c”);
• “Mediador de seguros”: qualquer pessoa singular ou coletiva que inicie ou exerça,
mediante remuneração, a atividade de mediação de seguros (Artigo 5º, alínea
“e”); e
• “Contrato de seguro”: não só o contrato de seguro, mas também operações de
capitalização, todos celebrados, nos termos legais e regulamentares em vigor,
por empresas de seguros autorizadas a operar no território português (Artigo 5º,
alínea “i”).

O Artigo 8º do decreto-lei prevê três categorias de mediadores de seguros,


a saber:

• Mediador de seguros ligado: categoria em que a pessoa exerce a atividade de


mediação de seguros (alínea “a”):
– Em nome e por conta de uma empresa de seguros ou, com autorização desta,
de várias empresas de seguros, desde que os produtos que promova não sejam
concorrentes, não recebendo prêmios ou somas destinados aos tomadores de
seguros, segurados ou beneficiários e atuando sob inteira responsabilidade
dessa ou dessas empresas de seguros, no que se refere à mediação dos respec-
tivos produtos;
– Em complemento da sua atividade profissional, sempre que o seguro seja
acessório do bem ou serviço fornecido no âmbito dessa atividade principal,
não recebendo prêmios ou somas destinados aos tomadores de seguros, segu-
rados ou beneficiários e atuando sob inteira responsabilidade de uma ou várias
empresas de seguros, no que se refere à mediação dos respectivos produtos.88

88
“Parece que se incluem nesta categoria todas as pessoas singulares ou colectivas que comercializam
seguros associados aos seus bens ou produtos. Refira-se, a título de exemplo, empresas de venda de auto-
móveis que disponibilizam seguros automóvel; empresas que concedem crédito, que disponibilizam seguros
de vida; agências de viagem, que disponibilizam seguros de assistência e acidentes pessoais, bancos que
disponibilizam seguros de vida e de incêndio e outros danos em coisas a mutuários de crédito à habitação;
empresas que vendem bens diversos e disponibilizam seguros com coberturas de assistência e furto ou roubo.
(ALVES, Paula Ribeiro, ob. cit., p. 95, nota 240).
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 95

• Agente de seguros: categoria em que a pessoa exerce a atividade de mediação de


seguros em nome e por conta de uma ou mais empresas de seguros ou de outro
mediador de seguros, nos termos do ou dos contratos que celebre com essas
entidades (alínea “b”); e

• Corretor de seguros: categoria em que a pessoa exerce a atividade de mediação


de seguros de forma independente face às empresas de seguros, baseando a sua
atividade numa análise imparcial de um número suficiente de contratos de seguro
disponíveis no mercado que lhe permita aconselhar o cliente tendo em conta as
suas necessidades específicas (alínea “c”).

Interessante notar a exigência legal de independência do corretor de seguros em


relação à seguradora. Na mesma esteira, o art. 19, 1, alínea “a”, do decreto-lei estatui
que, para efeito de inscrição no registro como corretor de seguros, a pessoa singular
não pode exercer qualquer profissão capaz de diminuir a independência no exercício da
atividade de mediação e, no caso de pessoa coletiva, ter objeto social exclusivo a ativi-
dades incluídas no setor financeiro.
Os arts. 31 e 32 do Decreto-Lei nº 144/2006 fixam os principais deveres gerais e
especiais, respectivamente, de mediadores de seguros para com seus clientes. As regras
estabelecidas no art. 32 muito se assemelham àquelas da Diretiva 2002/92/EC, consa-
grando os deveres de informação sempre que qualquer ato ou relação existente possa
restringir ou comprometer uma atuação isenta e abrangente do mediador de seguros,
inclusive no que toca à sua remuneração:

Artigo 31º
Deveres do mediador de seguros para com os clientes

Sem prejuízo de outros deveres fixados ao longo do presente decreto-lei, são


deveres do mediador de seguros para com os clientes:

a) Informar, nos termos fi xados por lei e respectiva regulamentação, dos


direitos e deveres que decorrem da celebração de contratos de seguro;
b) Aconselhar, de modo correcto e pormenorizado e de acordo com o exigível
pela respectiva categoria de mediador, sobre a modalidade de contrato mais
conveniente à transferência de risco ou ao investimento;
96 • Em Debate

c) Não praticar quaisquer actos relacionados com um contrato de seguro


sem informar previamente o respectivo tomador de seguro e obter a sua
concordância;
d) Transmitir à empresa de seguros, em tempo útil, todas as informações, no
âmbito do contrato de seguro, que o tomador do seguro solicite;
e) Prestar ao tomador do seguro todos os esclarecimentos relativos ao contrato
de seguro durante a sua execução e durante a pendência dos conflitos dela
derivados;
f) Não fazer uso de outra profissão ou cargo que exerça para condicionar a
liberdade negocial do cliente;
g) Não impor a obrigatoriedade de celebração de um contrato de seguro com
uma determinada empresa de seguros como condição de acesso do cliente
a outro bem ou serviço fornecido.

Artigo 32º
Deveres de informação em especial

1. Antes da celebração de qualquer contrato de seguro inicial e, se necessário,


quando da sua alteração ou renovação, o mediador de seguros deve informar
o cliente, pelo menos:

a) Da sua identidade e endereço;


b) Do registo em que foi inscrito, da data da inscrição e dos meios para
verificar se foi efectivamente registado;
c) De qualquer participação, directa ou indirecta, superior a 10% nos direitos
de voto ou no capital que tenha numa determinada empresa de seguros;
d) De qualquer participação, directa ou indirecta, superior a 10% nos
direitos de voto ou no capital do mediador de seguros detida por uma
determinada empresa de seguros ou pela empresa-mãe de uma deter-
minada empresa de seguros;
e) Se está ou não autorizado a receber prémios para serem entregues à
empresa de seguros;
f) Se a sua intervenção se esgota com a celebração do contrato de seguro
ou se a sua intervenção envolve a prestação de assistência ao longo do
período de vigência do contrato de seguro;
g) Caso aplicável, da sua qualidade de trabalhador de uma empresa de
seguros;
h) Do direito do cliente de solicitar informação sobre a remuneração que o
mediador receberá pela prestação do serviço de mediação e, em confor-
midade, fornecer-lhe, a seu pedido, tal informação;
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 97

i) Dos procedimentos, referidos no artigo 65º que permitem aos tomadores


de seguros e a outras partes interessadas apresentarem reclamações
contra mediadores de seguros e dos procedimentos extrajudiciais de
reclamação e recurso referidos no artigo 43º.

2. Adicionalmente, o mediador de seguros deve indicar ao cliente, no que se


refere ao contrato que é proposto:

a) Se baseia os seus conselhos na obrigação de fornecer uma análise impar-


cial nos termos do nº 4; ou
b) Se tem a obrigação contratual de exercer a atividade de mediação de
seguros exclusivamente para uma ou mais empresas de seguros ou outros
mediadores de seguros; ou
c) Se não tem a obrigação contratual de exercer a actividade de mediação
de seguros exclusivamente para uma ou mais empresas de seguros ou
mediadores de seguros e se não baseia os seus conselhos na obrigação
de fornecer uma análise imparcial nos termos do nº 4;
d) Se no contrato intervêm outros mediadores de seguros, identificando-os.

3. Nos casos previstos nas alíneas b) e c) do número anterior, o mediador de


seguros deve informar o cliente do seu direito de solicitar informação sobre
o nome da ou das empresas de seguros e mediadores de seguros com os quais
trabalha e, em conformidade, fornecer-lhe, a seu pedido, tais informações.
4. Quando o mediador de seguros informar o cliente que baseia os seus conse-
lhos numa análise imparcial, é obrigado a dar esses conselhos com base
na análise de um número suficiente de contratos de seguro disponíveis no
mercado que lhe permita fazer uma recomendação, de acordo com critérios
profissionais, quanto ao contrato de seguro mais adequado às necessidades
do cliente.
5. Antes da celebração de qualquer contrato de seguro, qualquer mediador de
seguros deve, tendo em conta especialmente as informações fornecidas pelo
cliente e a complexidade do contrato de seguro proposto, especificar, no
mínimo, as respectivas exigências e necessidades e as razões que nortearam
os conselhos dados quanto a um determinado produto.
6. Os mediadores de seguros estão dispensados de prestar as informações
previstas no presente artigo quando desenvolvam actividade de mediação
referente à cobertura de grandes riscos.
(PORTUGAL, 2006)
98 • Em Debate

O Decreto-Lei nº 144/2006 foi regulamentado pelo Instituto de Seguros de


Portugal – ISP89, por meio do Regulamento nº 16/2007, Norma Regulamentar nº
17/2006-R, vindo a sofrer em seguida sucessivas alterações.
Em prol da transparência e com o objetivo de facilitar a verificação dos registros
de mediadores de seguros por parte de seus clientes, o Artigo 32 do regulamento prevê
que o ISP disponibilize, em seu sítio da Internet, dentre outras tantas informações:

• Identificação da empresa de seguros a que se encontre vinculado o agente de


seguros por contrato de exclusividade para o conjunto dos ramos “Não Vida” ou
para o ramo “Vida” (alínea “g”); e
• No caso de mediador de seguros ligado a (ou às) empresa(s) de seguros com a(s)
qual (quais) está autorizado a trabalhar (alínea “h”).

O ISP ainda editou princípios e regras de boas práticas no relacionamento entre


empresas de seguros e mediadores de seguros por meio da Circular nº 12, de 23 de
dezembro de 2010. Entre os princípios gerais recomendados pelo ISP estão os da Ética
e Integridade, assim descritos:

C) Ética e Integridade

As empresas de seguros e os mediadores de seguros devem, no quadro do seu


relacionamento, observar princípios de ética e integridade, agindo, em todas as
circunstâncias, com rectidão e honestidade, abstendo-se de aceitar de terceiros
qualquer compensação, favor ou vantagem ilegítima e, bem assim, de intervir
em situações ou contratos relativamente aos quais exista, ou possa existir,
conflito de interesses, seja a nível pessoal, profissional ou institucional.
(ISP)

89
A Lei nº 11, de 04 de abril de 2006, autorizou o Governo de Portugal a regular o acesso e o exercício da atividade de
mediação de seguros ou de resseguros, conferindo determinados poderes normativos e de supervisão ao ISP.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 99

O renovado e complexo arcabouço regulatório do mediador de seguros ainda é


recente, faltando massa crítica de precedentes para formar jurisprudência a seu respeito.
É o que comenta, a título de arremate, Menezes Cordeiro90:

A lentidão da justiça leva a que, no verão de 2012, não exista ainda jurispru-
dência publicada de tribunais superiores sobre a mediação de seguros, à luz do
Decreto-Lei nº 144/2006.
(CORDEIRO, 2013, p. 423)

A Disciplina do Agente de Seguros no Brasil e sua Regulamentação


A Inteligência do Art. 775 do Código Civil

Vimos no capítulo 2 que o Código Civil de 2002 introduziu em nosso quadro


normativo, sob o patamar de lei, a figura do agente (geral), nos arts. 710 et seq., e do
agente autorizado do segurador, ou seja, o agente de seguros, no art. 775.
Em benefício da didática, transcrevamos os arts. 710 e 775 novamente:

Art. 710. Pelo contrato de agência, uma pessoa assume, em caráter não eventual
e sem vínculos de dependência, a obrigação de promover, à conta de outra,
mediante retribuição, a realização de certos negócios, em zona determinada,
caracterizando-se a distribuição quando o agente tiver à sua disposição a coisa
a ser negociada. [...]

Art. 775. Os agentes autorizados do segurador presumem-se seus represen-


tantes para todos os atos relativos aos contratos que agenciarem.
(BRASIL, 2002)

90
ob. cit., p. 423.
100 • Em Debate

A nosso ver, existe entre o regime jurídico dos arts. 710 e 721, atinentes ao
contrato de agência e, com efeito, ao agente em geral, e o art. 775, concernente ao agente
de seguros, uma relação de especialidade, conquanto todos os dispositivos estejam
previstos no mesmo diploma legal. Nos clássicos ensinamentos de Bobbio:

A situação antinômica, criada pelo relacionamento entre uma lei geral e uma
lei especial, é aquela que corresponde ao tipo de antinomia total-parcial.
Isso significa que quando se aplica o critério da lex specialis não acontece a
eliminação total de uma das duas normas incompatíveis, mas somente daquela
parte da lei geral que é incompatível com a lei especial. Por efeito da lei especial,
a lei geral cai parcialmente.
(BOBBIO, 1999, p. 96-97)

Dessa forma, aplica-se ao agente de seguros a norma do art. 775 em caráter


primário e, subsidiariamente, as normas dos arts. 710 a 721 que com o art. 775 não
conflitarem, cabendo ainda ao operador do Direito recorrer às normas gerais de agência
quanto às questões não reguladas no art. 775. Devido à identidade, parcial ou total, entre
o contrato de agência e o de representação comercial, quer nos parecer que também
são aplicáveis ao agente de seguros, no que couber, as normas que emergem da Lei
nº 4.886/65, reguladora da atividade do representante comercial autônomo (SANTOS,
2006, p. 156).
O termo “agente”, empregado pelo legislador no citado art. 775, é utilizado em
sua acepção técnico-jurídica, cuja definição se extrai do art. 710. Dessa forma, o agente
autorizado pelo segurador para figurar como tal deve, sob pena de não ser agente, reunir
as características estipuladas na primeira parte do art. 710, quais sejam:

• não eventualidade: o agente deve assumir o encargo autorizado pela seguradora


em caráter não eventual. A relação de agência é uma relação vocacionada a se
protrair no tempo. O agente deve atuar dentro dos poderes que lhe forem dados de
forma duradoura, não se aceitando que a relação se constitua para uma atuação
pontual, episódica, esporádica. São plenamente aplicáveis as palavras de Requião
a propósito da mesma característica (não eventualidade) presente no contrato de
representação comercial:

[A] representação comercial autônoma, por defi nição legal; não pode ser
eventual. Não é ato instantâneo, ou de curta vida, que se esgota com uma ou
poucas operações, como é o caso da corretagem de Bolsa, quando o corretor,
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 101

na maior parte dos casos, é contratado para uma operação de compra ou venda,
esgotando-se o contrato quando se concretiza o negócio.
(REQUIÃO, 2003, p. 12)91

• Independência: o agente não deve ter vínculos de dependência com a seguradora,


vale dizer, embora o agente deva observância às determinações ditadas pela
seguradora quanto aos fins de sua atuação, o agente deve ter relativa autonomia.
É da natureza da relação que o agente não guarde subordinação hierárquica
em relação à seguradora, ou seja, não deva obediência ao poder diretivo desta,
reservando para si certa autonomia sobre como empreender no dia a dia as
tarefas finalisticamente atribuídas a ele pela seguradora, sob pena de o seu status
jurídico transmudar-se de agente em empregado da seguradora, o que afastaria
as normas de agência e atrairia todo o amplo acervo normativo especial perti-
nente às relações laborais. Na prática, a distinção entre as figuras do agente e do
empregado no que toca ao aspecto dependência é sutil e de difícil conceituação
em abstrato, devendo ser apurada casuisticamente, segundo as circunstâncias do
caso concreto;
• Delimitação especial: o ato de nomeação do agente autorizado da seguradora
deverá especificar a zona, a área e o território geográfico de atuação do agente.

A partir do Código Civil, que entrou em vigor em 11 de janeiro de 2003, os


corretores de seguros que eram também (ou passaram posteriormente a ser) autorizados
por seguradoras para promover ou atuar à sua conta em relação a contratos de seguros
tornaram-se oficialmente também agentes, na dicção técnica do estatuto civil. Assim, o
papel duplo que desempenhavam passou a ser nitidamente enxergado e regulado pelo
ordenamento em caráter legal, tornando-os, do ponto de vista jurídico, figuras desemba-
raçadamente híbridas (corretores de seguros-agentes). Vulgarmente, pode-se dizer que

91
“O Código Civil, como se lê no texto do art. 710, atribui ao contrato de agência a natureza de permanente, de longa
duração, conceito também fixado no art. 1º da Lei nº 4.886/65 para a representação comercial. As relações das partes,
representante e representada, agente e proponente, têm características duráveis. O contrato não é instantâneo, pois não se
resolve de imediato à celebração ou execução do negócio intermediado. Ao contrário, a complexidade dos atos, a constância
dos contatos, a persistência do agente, as novas contratações que tenham como objeto os mesmos bens já solicitados pelos
mesmos ou novos clientes, a continuidade da intermediação para renovação dos contratos executados, visando a novos
fornecimentos, impõem a longa duração ao contrato examinado. A eventualidade, que pode ser elementos de certos tipos
de contratos de intermediação (caso da corretagem regulada pelos arts. 722 e s. do Código Civil), como já dito, não é
característica do contrato de agência.” (REQUIÃO, Rubens Edmundo, ob. cit., p. 13).
102 • Em Debate

o sujeito veste duas camisas ou utiliza dois chapéus distintos e autônomos, sem relação
de acessoriedade entre a corretagem e a agência e vice-versa.
Abra-se um parêntese para destacar que a norma do art. 775 do Código Civil
é autoaplicável, não se argumentando que sua eficácia dependesse de regulamentação
(CASSA, SORAGAYA JR., 2013, p. 71).92
Pois bem. Essa nova rotulagem legal (agente) não tem per se o condão de desna-
turar a qualidade de corretores de seguros detida por esses sujeitos. Afinal, conforme já
vimos no item 2.1 supra, a dicção do art. 1º da Lei nº 4.594/6493 é de largueza suficiente
para conter a atividade prevista no art. 775 do Código Civil sem conflitar com essa
norma. Daí ser possível falar em corretores de seguros-agentes de seguros sem que tal
terminologia constitua uma contradição em termos, contanto, a nosso ver, que o duplo
papel seja exercido separadamente, ou seja, não se misture numa mesma dada relação
de contratação de seguros.
A promiscuidade em um mesmo negócio, vale dizer, a confluência concomi-
tante dos papéis de, por um lado, corretor do segurado quanto a seu aconselhamento e
busca da apólice mais adequada e, por outro lado, agente da seguradora com deveres
de produção – isto é, de promoção de produtos de seguros –, em troca de remuneração
própria e específica, cria um estado de conflito de interesses. É o que, aliás, sugerem o
PLMA norte-americano, o IMD 1 e, sobretudo, o IMD 2 da União Europeia.

O Contexto da Regulamentação do Art. 775 do Código Civil – A Desordem e


os Abusos na Distribuição de Seguros por Falsos Estipulantes e Corretores

Vimos de passagem que a norma do art. 775 do Código Civil de 2002 não carece,
em princípio, de regulamentação. Nada obstante, a elevação promovida pelo legislador
civil do agente de seguros ao patamar legal não foi suficiente para provocar uma alteração
no mercado quanto à utilização desse intermediário.

92 “Nem se argumente que o art. 775 do CC pende de regulamentação. Segundo Rui Barbosa, normas autoaplicáveis ou
autoexecutáveis são aquelas que contêm determinações que, para serem executadas, ‘não se haja mister de constituir ou
designar uma autoridade, nem criar ou indicar um processo especial, e aquelas onde o direito instituído se ache armado
por si mesmo, pela sua própria natureza dos seus meios de execução e preservação.’” (Comentários à Constituição Federal
Brasileira, coligidos e ordenados por Homero Pires, vol II, São Paulo, Saraiva, 1933, p. 488). O art. 775 do CC não tem
sua eficácia condicionada à posterior edição de qualquer lei ou ato normativo para produzir todos os seus efeitos. O seu
conteúdo já reflete uma regra clara, não existindo qualquer óbice à sua imediata e plena aplicabilidade, sendo ela, portanto,
norma autoaplicável.”
93
“Art. 1º. O corretor de seguros, seja pessoa física ou jurídica, é o intermediário legalmente autorizado a angariar e a
promover contratos de seguros, admitidos pela legislação vigente, entre as Sociedades de Seguros e as pessoas físicas ou
jurídicas, de direito público ou privado.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 103

Passados mais de dez anos da entrada em vigor do código, não se via qualquer
impacto decorrente da introdução da norma, de sorte que agentes de seguros autônomos
e ostentando esse título continuaram sendo uma raridade, praticamente inexistentes.
O termo “agente de seguros” era quase um tabu para a classe de corretores, provocando,
muitas vezes, arrepios quando pronunciado.
Na prática, nada mudara na vida dos corretores em função do art. 775
do Código Civil. Eis que, em 14 de junho de 2013, sobreveio consulta pública lançada
pela SUSEP com o objetivo de colher comentários e críticas sobre uma minuta de
resolução CNSP destinada a disciplinar a atuação do representante, pessoa jurídica,
das sociedades seguradoras denominado pelas autoridades por agente de seguros.
Consoante indicamos na abertura deste trabalho, a consulta pública dos agentes de
seguros provocou uma reação feroz da classe de corretores de seguros, temerosa
de que tal fato viesse a, de algum modo, prejudicar a sua confortável situação de
senhores absolutos da intermediação de seguros.
É difícil especular sobre a verdadeira motivação das autoridades de seguros
brasileiras para a iniciativa de regulamentar o art. 775 do Código Civil após uma década
de vigência do diploma.
Contudo, o contexto em que a citada consulta pública surgiu leva a crer que as
autoridades de seguros parecem ter buscado promover alguns ajustes importantes no
mercado de intermediação/distribuição de seguros, com o fito principal de intensificar
a proteção do consumidor de seguros.

A Repressão aos Falsos Estipulantes

Vale lembrar que a consulta pública do agente de seguros surgiu quase conco-
mitantemente com a consulta pública da proposta de normativo tendente a regulamentar
a atuação da rede varejista na comercialização de seguros, em nome das seguradoras.
Em relação a essa última, um dos focos de preocupação das autoridades de seguros
brasileiras era combater e moralizar a atuação de falsos estipulantes em prejuízo do
mercado consumidor.
O problema dos falsos estipulantes, sobre o qual não nos deteremos neste
trabalho, estava na prática, largamente utilizada, segundo a qual vendedores de seguros
na rede varejista passaram a se apropriar, de forma atécnica e anômala, da figura do
estipulante no contrato de seguro.
104 • Em Debate

A Resolução CNSP nº 107, de 2004, define estipulante como:

[...] A pessoa física ou jurídica que contrata apólice coletiva de seguros, ficando
investido dos poderes de representação dos segurados perante as sociedades
seguradoras [...].
(CNSP, 2004)

A regra básica da estipulação nos seguros está prevista no art. 767 do Código
Civil de 200294, que reza:

Art. 767. No seguro à conta de outrem, o segurador pode opor ao segurado


quaisquer defesas que tenha contra o estipulante, por descumprimento das
normas de conclusão do contrato, ou de pagamento do prêmio.
(BRASIL, 2002)

A norma do art. 767 pressupõe que o estipulante, que contrata seguro em favor
de outrem, comungue interesses e tenha vínculo com o terceiro em favor de quem
o seguro é contratado. É geralmente o caso, por exemplo, do estipulante de seguros
em favor de membros de associações, sindicatos, ou de estipulantes-empregadores
em favor de empregados. O estipulante liga-se por representação, portanto, ao segu-
rado, podendo ser interessante ou vantajoso ao primeiro, mediatamente, que o último
obtenha a garantia do seguro. Este é o estipulante genuíno, o qual por isso zela pela
salutar manutenção do contrato de seguro em benefício do segurado, assumindo geral-
mente funções administrativas em relação ao seguro contratado e inúmeros deveres
de informação perante o segurado.
Falso estipulante é uma das denominações possíveis daquelas pessoas que,
abusando da dicção da norma, atuam profissionalmente como estipulantes na contra-
tação de seguros em favor de terceiros com os quais não guardam qualquer outra relação
duradoura senão a securitária.

94
Vide ainda o art. 21, §§ 1º e 2º do Decreto-Lei nº 73/66: “§1º – Para efeitos deste Decreto-Lei, estipulante é a pessoa
que contrata seguros por conta de terceiros, podendo acumular a condição de beneficiário. § 2º – Nos seguros facultativos,
o estipulante é mandatário dos segurados.”
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 105

Nessas hipóteses, inexistirá realmente apólice coletiva ou seguro de grupo95,


mas, ao contrário, apólice individual, conforme prescreve o parágrafo único do art. 1º
da sobredita resolução:

Parágrafo único. As apólices coletivas em que o estipulante possua, com o


grupo segurado, exclusivamente, o vínculo de natureza securitária, referente à
contratação do seguro, serão consideradas apólices individuais, no que concerne
ao relacionamento dos segurados com a sociedade seguradora.
(CNSP, 2004)

É o interesse da garantia do grupo segurado, e não o interesse egoísta e comercial


de vender o seguro a um grupo, que move o real estipulante. Ele assume várias obriga-
ções e importantes deveres na gestão do seguro que por meio do estipulante é mantido,
a ponto de o art. 801, in fine, do Código Civil dizer, a propósito dos seguros de pessoas,
que ele “é o único responsável, para com o segurador, pelo cumprimento de todas as
obrigações contratuais”.
Caso atue no interesse-mor de comercializar o seguro, sem assumir, na prática,
o polo de interesse do segurado, mas sim representando a seguradora, será, a rigor, um
falso estipulante e um agente da seguradora (art. 775). Daí o art. 801, § 1º, primeira
parte, do Código Civil estatuir que “[o] estipulante não representa o segurador perante
o grupo segurado [...]”.

95
A importância do seguro de grupo na distribuição de seguros é destacada por Paula Ribeiro Alves: “Os seguros de
grupo, em nossa opinião, surgem também como um canal de distribuição. [...] Julgamos que, na realidade, a seguradora
ao celebrar o contrato de seguro de grupo está a colocar no mercado, através do tomador de seguro, o seu produto.
[...] A distribuição através dos tomadores de seguros de grupo é um modo sui generis de distribuição, uma vez que é uma
parte no contrato de seguro que promove a sua comercialização. Não deixará, no entanto, de ser uma forma de distribuição
indirecta, uma vez que a seguradora coloca, indirectamente, através do tomador de seguro, os seus seguros no mercado.”
(Estudos de Direito dos Seguros – Intermediaçãço de Seguros e Seguro de Grupo. Coimbra: Almedina, 2007, p. 23-25).
106 • Em Debate

A distorção na norma pelos falsos estipulantes foi verificada em várias modali-


dades de seguros, mas de forma mais proliferada e alarmante nos seguros de garantia
estendida largamente comercializados por entidades varejistas junto ao público em geral
(lojistas, supermercados, etc.). Essa distorção motivou a SUSEP a iniciar uma ampla
reforma na atuação desses sujeitos, conforme indica trecho de declaração de Luciano
Portal Santanna, superintendente da SUSEP:

“Quando começamos a fiscalizar as varejistas que comercializam seguros,


identificamos distorções na venda, pois essas varejistas, como estipulantes dos
contratos, representavam mais as seguradoras do que os consumidores”96

Com o advento da Resolução CNSP nº 296, de 25 de outubro de 2013, foi vedada,


e.g., a contratação de seguro de garantia estendida por meio de apólice coletiva (art.
4º, caput97), eliminando assim a figura do estipulante nesse tipo de contrato, ficando
assegurado, ainda, o direito de arrependimento pelo segurado em sete dias, a contar da
contratação (art. 14, caput98).
A recente Circular SUSEP nº 480, de 18 de dezembro de 2013, consagrou a
posição da organização varejista99 que comercializa seguros como verdadeiro “repre-
sentante de seguros” (art. 2º, caput), como veremos mais adiante, nomenclatura que
prevaleceu na resolução CNSP para designar o agente de seguros. O normativo foi mais
além: a fim de não deixar dúvidas possíveis, estabeleceu ser “expressamente vedado
às organizações varejistas, de que trata esta Circular, a atuação como estipulante ou
subestipulante de seguros” (art. 2º, §1º).

96
Publicado no sítio eletrônico da Associação do Ministério Público de Minas Gerais e disponível em <http://www.amp-
mg.jusbrasil.com.br>.
97
“Art. 4º. O plano de seguro de garantia estendida somente poderá ser contratado mediante emissão de apólice individual
ou de bilhete, observadas as legislações específicas, não se admitindo, em nenhuma hipótese, contratação por meio de
apólice coletiva.”
98
Art. 14. O segurado poderá desistir do seguro contratado no prazo de 7 (sete) dias corridos a contar da assinatura da
proposta, no caso de contratação por apólice individual, ou da emissão do bilhete, no caso de contratação por bilhete.
99
“Para efeitos desta Circular, entende-se como ‘organização varejista’ qualquer organização que pratique as atividades
de venda, revenda ou distribuição de mercadorias, novas ou usadas, em loja ou por outros meios, incluindo meios remotos,
preponderantemente para o consumidor final para consumo pessoal ou não comercial.” (Art. 1º, §1º)
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 107

Concorrência na Produção de Seguros

Além do fenômeno dos falsos estipulantes, o mercado de intermediação de


seguros nacional foi bastante fértil em produzir outras distorções ao regime vislumbrado
pelo legislador.
Como já examinamos no início deste trabalho, a contratação de seguros no Brasil
pode se dar de duas maneiras: direta ou indireta, variando conforme a intermediação da
contratação pela presença do corretor de seguros como mediador especializado, atuando
autonomamente no interesse do proponente-segurado.
Tendo em vista que a contratação intermediada impõe o pagamento da comissão
de corretagem ao profissional responsável pela intermediação e que esse pagamento é
feito a partir do pagamento do prêmio de seguro, é lógico e evidente que esse montante
é embutido pela seguradora no preço comercial do seguro como despesa.
Assim, seria natural que a contratação direta, porque desprovida da despesa
com comissão de corretagem, fosse apta a ser oferecida no mercado ao menor preço,
em relação à contratação intermediada.
Contudo, quando da edição da lei que regula a atividade do corretor de seguros,
a Lei nº 4.594/64, o legislador entendeu por bem eliminar essa vantagem competitiva
da venda direta pelas seguradoras, e o fez ao instituir, na contratação direta, o dever das
seguradoras de recolher ao Fundo de Desenvolvimento Educacional do Seguro, admi-
nistrado pela Fundação Escola Nacional de Seguros – FUNENSEG, taxa equivalente
ao valor que habitualmente seria destinado ao pagamento do corretor de seguros, caso
a contratação houvesse sido intermediada, e não direta.
Ao impor um custo compulsório e artificial às seguradoras, no fundo, o Estado
encorajava a contratação intermediada, pois de certo modo a seguradora teria com quem
dividir (o corretor) a responsabilidade pela informação adequada a respeito do contrato
de seguro.
O subscritor deste trabalho até compreenderia esse tipo de intervenção estatal
marcada pelo objetivo de fomentar a atuação dos corretores se ela tivesse caráter provi-
sório, mas discordaria de sua instituição permanente. A provisoriedade se justificaria
plenamente em uma política estatal de expansão da atuação dos corretores na contra-
tação de seguros. Afinal, embora sejam contratos fundamentais para o progresso da
economia de um país, é universalmente aceito que seguros são quase sempre contratos
de enorme complexidade e cujo funcionamento escapa à compreensão do público em geral.
108 • Em Debate

A intermediação de seguros por profissionais especializados, que dominem a técnica


securitária e sejam capazes de traduzi-los de maneira palatável aos proponentes-segu-
rados-beneficiários é, logo, recomendável. É certo, ainda, que, em meados da década
de 60, quando essa política foi introduzida, os corretores eram uma classe profissional
ainda em fase inicial de amadurecimento, que carecia de consolidação e afirmação
interna e, sobretudo, junto ao mercado consumidor de seguros.
Praticamente meio século se passou desde a instituição dessa taxa. Eventual
justificativa que pudesse estar presente em 1964 definitivamente se perdeu no tempo.
O engenho criativo do empresariado criou formas até simples de burlar a obrigatoriedade
de recolhimento da taxa, conforme anotam Tzirulnik e Piza100:

Para não dizer mais, registre-se que seguradores, praticamente todos, para
poderem oferecer preços competitivos ou mesmo com o intuito de obter
melhores resultados, passaram a fazer uso de corretoras fictícias, comumente
denominadas cativas, ao invés das contratações diretas explícitas. Aqui uma
grave infração à lei. A relação das cativas com os seguradores burla o princípio
da autonomia dos corretores fixado no art. 125 do D.L. 73/66, que proíbe mante-
nham esses profissionais, seus prepostos, assim como os sócios ou diretores de
sociedades corretoras, relação de emprego ou de direção com sociedade segu-
radora. Embora tecnicamente não se trate de vínculo laboral, porque a lei veda
essa possibilidade, a relação do corretor cativo, assim como da pessoa jurídica
desse tipo, produz igual subordinação e dependência.
(TZIRULNIK, PIZA, 1996)

A corretora cativa é, pois, muitas vezes, produto de manobras para driblar a


obrigatoriedade de recolhimento compulsório à FUNENSEG de valor equivalente à
comissão de seguros habitualmente praticada. É frequente que corretoras cativas apenas
emprestem o seu nome para fins de documentação (assinatura da proposta) da operação
concludente do contrato de seguros, não intervindo efetivamente no negócio. O mais
grave desse fenômeno envolvendo as corretoras cativas é que o segurado não contará,
na prática, com uma atuação efetiva de um intermediário comprometido em zelar pelos
seus interesses junto à seguradora. Essa circunstância torna quase inócua a nobre e
bem-intencionada política de estimular a participação do corretor no iter de formação do

100
TZIRULNIK, Ernesto; PIZA, Paulo L. T., ob. cit., loc. cit.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 109

contrato de seguros, dando ensejo a inúmeros problemas e assimetrias informacionais,


em prejuízo do consumidor de seguros, justamente aquele que deveria ser, em última
análise, o principal destinatário da política de alocação de recursos à FUNENSEG
voltados à capacitação de especialistas em seguros.
Ao mesmo tempo em que somos contrários à continuidade da – em nossa opinião,
inócua – política de cobrança da taxa de corretagem na contratação direta de seguros, a
nosso ver, é fundamental que as autoridades de seguros intensifiquem a repressão dessas
corretoras de papel. Elas constituem uma grave distorção do mercado e muito atrapalham
a atividade do corretor de seguros sério, profissional e engajado em cumprir rigorosa-
mente suas funções perante segurados e seguradoras – enfim, do modelo de corretor
preconizado em nosso ordenamento, ou seja, como, via de regra, ele deveria ser.

A Regulamentação do Art. 775 do Código Civil – A Resolução CNSP Sobre


Representante de Seguros (Agente de Seguros)

Já tivemos ocasião de adiantar que o nomen juris agente de seguros, que era a
vocação exata da proposta de resolução lançada em consulta pública, não sobreviveu ao
processo de escrutínio público.
A Resolução CNSP nº 297, de 25 de outubro de 2013, adotou a expressão “repre-
sentantes de seguros” para caracterizar o que mundo afora é denominado agente de
seguros, apesar da tendência verificada em se designá-los pelo gênero intermediário
de seguros ou mediador de seguros, que inclui o agente de seguros, corretores de seguros
e figuras afins.
Não vemos sentido no disfarce, senão para talvez acalmar os ânimos mais exal-
tados de alguns corretores de seguros, incomodados com a iniciativa do CNSP de retirar
o agente de seguros do ostracismo. A definição do representante de seguros pelo regula-
mento, a qual é abaixo transcrita, não deixa qualquer dúvida de que ele é rigorosamente
o mesmo agente de seguros capitulado no art. 775 do Código Civil de 2002:

§ 1º Considera-se representante de seguros, para efeito desta Resolução, a


pessoa jurídica que assumir a obrigação de promover, em caráter não eventual
e sem vínculos de dependência, a realização de contratos de seguro à conta e
em nome da sociedade seguradora. (Art. 1º)
(CNSP, 2013)
110 • Em Debate

As normas que regem a atuação do representante de seguros são igualmente


consistentes com a figura do agente de seguros. Por exemplo, segundo a resolução:

• O representante de seguros atuará de acordo com os poderes delimitados no


respectivo contrato firmado com a seguradora;
• Os contratos firmados entre pessoa jurídica na condição de representante de
seguros e seguradora deverão prever, em nome desta, a prestação de, pelo menos,
um dos seguintes serviços:
– oferta e promoção de planos de seguro, inclusive por meios remotos, em nome
de seguradora;
– recepção de propostas de planos de seguro, emissão de bilhetes de seguros e
apólices individuais em nome de seguradora;
– coleta e fornecimento à seguradora dos dados cadastrais e de documen-
tação de proponentes, segurados, beneficiários e corretores de seguros e
seus prepostos;
– recolhimento de prêmios de seguro, em nome da seguradora;
– recebimento de avisos de sinistros, em nome da seguradora;
– pagamento de indenização, em nome da seguradora; ou
– orientação e assistência aos segurados e seus beneficiários, no que compete aos
contratos de seguros, inclusive por meios remotos, em nome da seguradora.

• As sociedades seguradoras deverão garantir que seus respectivos representantes


de seguros ajam, atendo-se às instruções recebidas pelas mesmas, com clareza,
boa-fé, transparência, eficiência e confiança no atendimento aos proponentes,
segurados e beneficiários;
• O representante de seguros somente poderá ofertar e receber propostas relativas
a planos de seguro, concernentes aos ramos delimitados na resolução, nas suas
dependências físicas ou, quando for o caso, por meios remotos, na forma esta-
belecida em norma específica;
• A relação entre o representante de seguros e o proponente, segurado ou benefi-
ciário poderá ser intermediada por corretor de seguros ou seu preposto;
• A contratação de seguro feita pelo proponente junto ao representante de seguros,
sem a participação de corretor de seguros ou de seu preposto, caracteriza-se,
também, como venda direta da sociedade seguradora. O representante de seguros
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 111

poderá exercer sua atividade para outra empresa, ou efetuar negócios em nome e
por conta própria, desde que não se trate de atividade concorrente com a da socie-
dade seguradora, observado o que dispuser no contrato celebrado entre ambos;
• O contrato celebrado entre a sociedade seguradora e o representante de seguros
deve dispor sobre a forma, a delimitação da zona de atuação, exclusividade,
rescisão e estipulação de prazo de duração, se determinado ou indeterminado.

A resolução ainda prevê algumas matérias que devem estar obrigatoriamente


reguladas de forma clara e detalhada no contrato firmado entre a seguradora e o corres-
pondente representante de seguros, como, por exemplo, a remuneração auferida por
este último.
O extrato dos poderes conferidos por meio desse contrato deve ser disponi-
bilizado pelo representante de seguros ao consumidor no local de venda do seguro
ou, quando se tratar de venda por meios remotos, na rede mundial de computadores
(Internet). Essa medida busca evitar a proliferação de falsos agentes se apresentando
como representantes de seguradoras sem realmente ostentarem essa condição ou de
apregoarem deter poderes que verdadeiramente não têm.
A tentativa de cerco ao falso estipulante é confirmada pelo art. 4º da reso-
lução, que proíbe o representante de seguros de contratar mediante apólice coletiva.
Também aqui fica consagrado o direito de arrependimento pelo consumidor em sete
dias corridos a contar da assinatura da proposta, no caso de apólice individual, ou da
emissão do bilhete. Numa primeira análise, essa norma sobre o direito de arrependi-
mento nos parece ter validade plena apenas quando diz respeito às contratações feitas por
meios remotos, posto que o fundamento de sua validade, o art. 49 do Código de Defesa
do Consumidor (Lei nº 8.078/90)101, pressupõe a contratação fora do estabelecimento
comercial (físico) do fornecedor.
Em relação à contratação feita no estabelecimento físico do representante de
seguros, a outorga de direito de arrependimento ao consumidor é de validade no mínimo
discutível, eis que inova no ordenamento jurídico, criando obrigações e direitos, sem

Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento
101

do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento
comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os valores eventualmente
pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados.
112 • Em Debate

qualquer respaldo em lei autorizativa. Sendo a contratação por meio de representante


de seguros reputada “venda” direta de seguros, tem-se que o estabelecimento físico do
representante de seguros deve ser considerado como venda no próprio estabelecimento
da seguradora. Assim, cremos que nessa parte as autoridades administrativas de seguros
brasileiras exorbitaram sua competência normativa, violando o princípio da legalidade
ao qual estão adstritos.
Questão central objeto deste trabalho se liga a ideia de verificar como o CNSP
enfrentou, se é que enfrentou, os potenciais conflitos de interesses surgidos na acumu-
lação dos papéis de corretor de seguros e agente de seguros.
Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na União Europeia, que têm
admitido esse papel duplo sob a condição de que o consumidor de seguros seja ostensiva
e expressamente informado dessa circunstância, as autoridades securitárias brasileiras
adotaram um modelo mais radical. Dispõe o § 7º do art. 1º da resolução que “[é] vedado
ao representante de seguros o exercício da atividade de corretagem de seguros ou a
atuação como estipulante ou subestipulante”.
Embora talvez o dispositivo seja menos explícito do que deveria, em nosso sentir
a recíproca também se revela verdadeira, vale dizer, a norma não deixa espaço para que
o corretor de seguros acumule a função de representante de seguros tanto quanto veda
o representante de seguros de também exercer a atividade de corretagem de seguros.
Vamos ainda um pouco mais além. Quer-nos parecer que a intenção do regulador
foi vedar essa cumulação independentemente de se tratar de uma mesma seguradora
ou não. Não nos pareceria coerente com a rigidez do modelo que fosse possível a um
corretor de seguros figurar como representante de seguros de uma seguradora com quem
não atua ou em cuja linha de seguro não atua como corretor.
O processo de formulação de políticas numa indústria é complexo e multifatorial.
Não tendo sido divulgado um estudo prévio de impacto regulatório, como lamentavel-
mente é costumeiro na indústria do seguro no Brasil, é difícil prever se a posição extre-
mada assumida pelo regulador pátrio foi a mais acertada e contribuirá decisivamente
para pôr um basta nas atuações de corretores de seguros em conflito de interesses e, em
última análise, em franco prejuízo a consumidores de seguros brasileiros.
Contudo, diante da desordem instalada na intermediação de seguros no mercado
brasileiro, onde operações veladas e à margem da lei proliferam, não se pode olvidar de
que estamos num estágio inferior em comparação com os mercados norte-americano
e da União Europeia no que tange ao conhecimento do consumidor a respeito da operação
de seguros e da sua intermediação.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 113

Com um diagnóstico de problemas diferente e mais alarmante do que aqueles


existentes nos mercados de seguros mais maduros e experimentados, compreende-se que
o CNSP, visando a corrigir o problema crônico de falta de transparência enfrentado entre
nós, tenha optado por um remédio igualmente diverso e mais forte do que os mecanismos
adotados nos Estados Unidos e na União Europeia.
Por fi m, ainda nos parece salutar o reforço dado pelo CNSP aos represen-
tantes de seguros (rectius: agentes de seguros) sob o prisma concorrencial e de
expansão de seguros.
Embora a norma do art. 775 do Código Civil de 2002 não pendesse de regula-
mentação para ser eficaz, o empurrão dado pelo CNSP aos representantes de seguros
pode facilitar a nomeação desses sujeitos para o atendimento de localidades hoje não
atendidas, ou pelo menos não satisfatoriamente, por corretores de seguros, filiais ou
sucursais de seguradoras.
A contratação de representantes de seguros surge como uma alternativa barata
para a seguradora de expansão territorial dos seus negócios, por certo bem menos
custosa, a priori, do que o investimento para a criação de estabelecimento próprio, com
funcionários próprios, considerando todos os encargos inerentes à sua implementação.
Para um território de dimensões continentais como o Brasil, a facilitação da
possibilidade de expansão geográfica dos negócios das seguradoras a menores custos e
sem o mesmo grau de burocracia societária e fiscal que marca o nosso país é iniciativa
digna de aplausos.

Conclusões
Diante do exposto, conclui-se que a expressão “representantes de seguros”,
nomenclatura empregada pela Resolução CNSP nº 297/2013, designa, na realidade, os
personagens da indústria de seguros que mundo afora são denominados “agentes de
seguros”. Aliás, a bem da verdade, também o Código Civil brasileiro de 2002 adota
essa terminologia internacional, embora com mínima variação, ao se referir aos agentes
autorizados do segurador, segundo dicção do seu art. 775.
A constatação acima torna difícil de explicar em bases técnicas a razão de o
CNSP ter se convencido de abandonar o termo “agente de seguros”, consagrado inter-
nacionalmente e previsto na proposta de resolução que, após consulta pública, transfor-
mou-se na Resolução CNSP nº 297/2013. Quer nos parecer que somente considerações
114 • Em Debate

de ordem política poderiam explicar essa mudança de rumo. É provável que o fator que
motivou o CNSP a assim agir tenha sido o intuito de não estimular uma reação corpora-
tivista contrária mais forte e exaltada dos corretores de seguros, os quais, como vimos,
ao menos por meio de suas entidades de classe, vociferaram contra a possibilidade de
regulamentação da figura do agente de seguros. Não vemos nenhuma procedência nessa
reação ou resistência dos corretores de seguros, mesmo porque a atuação do agente de
seguros, ao menos a partir do advento do Código Civil de 2002, passou a ser desemba-
raçadamente legal, podendo ser bem defendida contra eventuais ataques com suporte
no princípio constitucional da livre iniciativa.
Gostem os dirigentes da classe dos corretores de seguros ou não, o fato é que
essa regulamentação em caráter infralegal se deu, sendo absolutamente desimportante
para o Direito se sob o “exótico” nomen juris de “representantes de seguros” em lugar
do seu título original, genuíno e legítimo, de agentes de seguros.
A substância, por óbvio, prevalece sobre a forma, valendo recordar, ainda, que,
aos olhos do ordenamento jurídico brasileiro, o art. 775 do Código Civil de 2002 sequer
carecia de regulamentação para sua norma ser eficaz. Assim, entendemos que é possível
falar sem qualquer hesitação que temos devidamente regulamentada a figura dos agentes
de seguros, conquanto camuflada pelo CNSP sob outro nome.
O disfarce sob o rótulo “representantes de seguros” é de se lamentar, pois revela
uma face embaraçosa e atrasada da indústria de seguros brasileira, ainda refém de alguns
interesses classistas e corporativistas típicos de organizações oligárquicas, na contramão
do que já está sedimentado internacionalmente há várias décadas.
Vimos ainda que os agentes de seguros não são inteiramente novos na história
da indústria de seguros brasileira. A rigor, a sua presença é verificada nos primórdios
das atividades de seguros em nosso território, precedendo, inclusive, a atuação dos
corretores de seguros.
Embora os agentes de seguros tenham caído no esquecimento e quase desapa-
recido (movimento que coincidiu com a emergência e afirmação dos corretores e com o
acúmulo, na sua pessoa, de funções anteriormente afetas aos agentes de seguros), nunca
chegaram a ser inteiramente eliminados. Mesmo nos períodos de atuação mais tímida e
discreta dos agentes, normas inferiores do ordenamento previam a sua possibilidade de
existência (agentes gerais emissores), conquanto desencorajando, de certo modo, a sua
criação, dadas as severas restrições que relegavam a eles papéis residuais e secundários
de cooperação com seguradoras.
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 115

O acúmulo nos corretores de seguros de funções vocacionadas a agentes de


seguros que verificamos não é exclusividade do Brasil. Também no exterior esse fenô-
meno de vinculação entre corretores de seguros e seguradoras (duplo papel) existe.
É alhures antiga a preocupação de tratamento jurídico aos conflitos de interesses
surgidos quando corretores se prestam a combinar sua atuação no exercício de defesa
dos interesses do proponente-segurado com sua atuação ligada à promoção de produtos
de seguradoras. Na União Europeia, é abertamente reconhecido que essa preocupação
se intensificou à medida que cresceu o sentimento de desconfiança de consumidores em
relação a produtos financeiros em geral, inclusive seguros.
Há, porém, diferenças estruturais muito importantes entre os mercados líderes
globais e o brasileiro. Nos mercados onde o seguro é uma indústria muito madura e
forte – e examinamos neste trabalho a feição exibida pelos mercados norte-americano e
da União Europeia, com ênfase no Reino Unido e em Portugal –, a presença dos agentes
de seguros como canal de distribuição está bastante consolidada, sendo mais claramente
percebida pelo consumidor de seguros como tal.
Assim, as autoridades legislativas nesses mercados têm preferido, convergen-
temente, combater o problema de falta de transparência e conflitos de interesses na
atuação do intermediário (ou mediador) de seguros vinculado a seguradora(s) a partir
da criação, para tais sujeitos, de uma ampla gama de deveres de informação especí-
ficos e bem definidos, tendo o cliente (proponente-segurado) como destinatário dessas
informações. Em uma frase, os intermediários têm assim o dever de revelar aos seus
clientes (proponentes-segurados), de maneiras especialmente delimitadas, eventuais
vinculações com seguradoras que sejam capazes de comprometer a independência plena
de sua atuação como um fiduciário de seu cliente. É direito que assiste aos clientes,
ainda, entender a abrangência das pesquisas de mercado realizadas pelo intermediário
a seu pedido junto a seguradoras.
A intervenção estatal na economia com a adoção desses mecanismos, embora
importante, não chega a ser branda, mas também não é extremada. Preservam-se os atores
de mercado, apenas protegendo o consumidor de seguros de forma a garantir que ele possa
tomar sua decisão de consumo de maneira soberana e mais informada possível.
A regulação, por meio da criação ou intensificação de deveres de informação,
confere aos consumidores meios idôneos para conhecerem a real posição dos interme-
diários de seguros com que tratam, permitindo-lhes mais facilmente procurar outros
116 • Em Debate

intermediários, em caso de desconfianças decorrentes das vinculações com seguradoras


trazidas ao seu conhecimento.
No Brasil, a situação é diversa. Na prática, os corretores de seguros têm reinado
praticamente absolutos na intermediação de seguros, sem concorrência real de outros
entes há várias décadas. Essa ampla prevalência dos corretores ainda conta com o
beneplácito de um arcabouço jurídico que, desde a promulgação da Lei nº 4.594/64,
desestimula a venda direta de seguros, e o faz tributando essa modalidade de venda de
forma artificial, com a obrigação de recolhimento de valores equivalentes a comissões
a um fundo destinado à FUNENSEG para subsidiar estudos na área de seguros.
Conforme defendemos neste trabalho, praticamente 50 anos depois da insti-
tuição desse recolhimento, os motivos que determinaram a sua criação em 1964 já não
estão mais presentes. O desestímulo à contratação direta de seguros, ocasionando um
quase monopólio de fato e de direito dos corretores de seguros, gerou reações, com o
surgimento de distorções e anomalias na distribuição de seguros. Corretoras cativas
que apenas emprestam seus nomes e habilitações, sem terem qualquer participação
efetiva na colocação do seguro, são um pernicioso exemplo dessas distorções e devem
ser reprimidas.
Além disso, é deveras duvidosa a legalidade ou, no mínimo, a eficácia de uma
política baseada na obrigação de que segurados, de modo geral, custeiem o desen-
volvimento do ensino do seguro no país, cuja atividade, mais do que nunca, desperta
grande interesse e investimentos da iniciativa privada. Em 1964, o regime de governo
existente era outro, exibindo feições completamente distintas do modelo de Estado
consagrado na Constituição da República de 1988. De lá para cá, o mercado de seguros
cresceu e, segundo nos parece, não carece desse tipo de incentivo desenvolvimentista
para manter-se ou continuar atraindo investimentos. Portanto, soa absurda e abso-
lutamente anacrônica a transferência de comissionamento à FUNENSEG em pleno
século XXI.
Ainda que a regulamentação do agente/representante de seguros não fosse
rigorosamente necessária sob o prisma legal, cremos que essa iniciativa vem em boa
hora e pode, efetivamente, impulsionar a atividade, até aqui adormecida, apesar de sua
consagração com estatura legal por meio do art. 775 do Código Civil. Acreditamos que
o desenvolvimento do representante de seguros possa facilitar a distribuição de seguros,
contribuindo para a sua maior capilaridade e, assim, que estes atinjam rincões menos
A Regulação do Agente de Seguros no Direito Brasileiro e sua Interrelação com a
Atuação do Corretor de Seguros no País e no Direito Comparado • 117

abastecidos, podendo ainda ampliar a competição, mesmo nas localidades já atendidas


por seguradoras. Essa perspectiva de ampliação geográfica do mapa do seguro tende a
ajudar ainda aqueles corretores que hoje possuem poucos acessos a seguradoras e têm
que recorrer às chamadas “plataformas” para tanto, ou ainda, pouco acesso a alguns
segmentos específicos de seguros mais especializados.
Essa possibilidade de maior abastecimento de seguros no país e de concorrência
mais equilibrada na distribuição de seguros oferece melhores perspectivas aos consumi-
dores, tanto porque o aumento de competição pode vir a gerar menores preços em médio
ou longo prazos, quanto porque contribui para tornar o segmento de intermediação de
seguros mais transparente, reduzindo as possibilidades dos, até hoje, comuns conflitos
de interesses dos corretores vinculados a seguradoras.
Ao contrário do sentimento imediato de oposição manifestado por algumas
lideranças da classe dos corretores de seguros, cremos que essa maior concorrência no
mercado de distribuição tende a favorecer também os próprios corretores de seguros
preocupados em realizar o seu trabalho com primor e competência. Afinal, conforme já
asseveraram Tzirulnik e Piza (1996), é incontestável que “[o] corretor é o auxiliar sem o
qual esse comércio estaria fadado a tornar-se demasiadamente estático e assimétrico.”
Em suma, o corretor de seguros continua sendo peça absolutamente fundamental
para o bom e sadio funcionamento do mercado de seguros, sendo ainda mais essencial
que ele se concentre nas múltiplas funções que lhe são atribuídas pela legislação, na
importante função educativa que presta ao aconselhar adequadamente o proponente em
todas as fases do contrato (pré-contratual, durante sua execução e pós-contratual), no
auxílio prestado quando da regulação do sinistro e até, diga-se, no combate à assimetria
informacional da seguradora em face do segurado, prevenindo fraudes deletérias à massa
componente da mutualidade.
Ademais, é inegável que o corretor ostenta hoje uma posição muito privilegiada
frente ao agente/representante de seguros, acumulando décadas de conhecimento
profundo e especializado que lhe garantem dianteira e enorme vantagem competitiva.
Assim, de forma geral, vemos com bons olhos a regulamentação do agente de
seguros, ainda que sob os criticados disfarces, como, por exemplo, o cognome de repre-
sentante de seguros.
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