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O encontro com a Deusa.

Minha primeira experiência “na força”, ou


“acordando na matrix”

Tenho 43 anos de idade, e experimento com psicodélicos químicos


desde os 17 anos. De lá para cá foram milhares de experiências
variadas, mas nunca com a força e o entendimento lúcido
proporcionado pela combinação correta de substâncias naturais.

Eu sempre fui uma pessoa cética, centrada nos aspectos físicos das
sinestesias, e nas enxurradas de subconsciente que afloram na lisergia.
Apesar de ter uma formação literária centrada no estudo de mitologia,
esoterismo e espiritualidade, as experiências sempre eram “silenciosas”,
ou seja, ninguém falava comigo.

Resumindo, foram muitas trips de muita cor e sensações agradáveis, vi


amigos queridos brilhando, objetos se movendo e distorcendo, alguns
vultos ao estilo Dementor sobrevoando raves, várias risadas e
conclusões de vida, mas nenhuma mensagem verbal.

A Argirea foi a primeira vez em que senti uma presença forte, e quando
comecei a entender o conceito de aliado que Don Juan cita no livro A
erva do diabo, de Carlos Castañeda. Foi a primeira vez em que senti a
ligação com a entidade da planta, e a ouvir o que ela me falava sem
palavras. Ela tem uma presença muito forte, e traz uma sensação de
ligação com o Todo que literalmente te enraiza no chão, como se a
vontade da planta fosse maior do que tudo. Muito confortável e
relaxante.

Só vim a experimentar cogumelo depois de muitos anos de lisergia. O


Cubensis foi algo similar à Argirea, mas pela primeira vez com uma voz
verbal à parte da minha.
A voz do cogumelo tem uma mensagem diferente do vegetal.

Ao fechar os olhos me concentrava nas mandalas, mudando de forma e


percebi alguns vultos no plano de fundo, e sabia que eram eles as
entidades que me dirigiam a palavra.
Resumindo, essa foi a primeira vez em que realmente ouvi uma voz que
não era a minha dentro de minha cabeça me dizendo; “É a gente que
manda em tudo. Nada acontece sem a gente”, e vi dentro das mandalas
coloridas as ramificações do micélio universal.

O contato com a entidade do Micélio me mostrou que tudo o que é vivo


depende deles, e a vida como conhecemos existe apenas porque os
fungos existem.
Nossa saúde depende do equilíbrio da flora intestinal, e quando temos
um “gut feeling”, são os fungos de nosso corpo dizendo algo para a
nossa carne.

Como a dose de cogumelos não foi muita, a viagem ficou só nesse


sentimento de contato com o Todo, ao mesmo tempo em que eu era
observado pelos vultos em uma sensação de carinho e conforto.

A minha primeira experiência definitiva aconteceu a algumas semanas,


quando tive acesso a um kit de arruda síria, cubensis e changa fumável.

A indicação era fazer um jejum de algumas horas, tomar o chá de


arruda síria, após uma hora ingerir de 10g de cubensis, e após outra
hora fumar a dose de changa.

Eu e minha esposa seguimos o preceito do jejum, tomamos o chá,


consumimos os cogumelos e deitamos na cama para esperar os efeitos
começarem.

Assim que comecei a sentir o entorpecimento, fechei os olhos e as


mandalas coloridas começaram a povoar o espaço escuro de minha
visão como naves espaciais fluorescentes vindas de todos os lados em
direção ao centro. Logo as mandalas se juntaram a uma grade
quadriculada, que mudava de forma incessantemente, como se fosse
um powerpoint educativo me mostrando como as infinitas dimensões
partilham o mesmo ponto do espaço.

Nesse momento eu senti a presença dos vultos novamente, e eles


estavam felizes por eu estar ali com eles. Me acalmavam dizendo que
em todos os pontos do universo todas as dimensões coexistem, e me
perguntavam o que eu queria saber.

Eram aproximadamente oito vultos sobrepostos ao caleidoscópio de


padrões geométricos. Não os reconheci, mas tive a certeza que me
eram entes queridos.
Percebi que eles removeram minha alma pelo lado esquerdo do meu
corpo, e eu vi minha alma sobrevoando meu corpo, em um estranho tipo
de visão que me parecia ser em 360º.

Os vultos trabalhavam em minha alma, limpando e retirando coisas que


pareciam me sugar, mas eu tinha a nítida sensação de que os
“parasitas” que eram retirados eram tratados com carinho e atenção. Eu
dizia para não os machucarem, e soube que eles estavam sendo
levados para onde necessitavam estar.
A situação toda parecia como uma máquina de cura espiritual, como se
fosse uma cápsula médica multidimensional, me preparando para o que
iria acontecer.

Nesse momento meu gato veio deitar no meu lado direito, e eu vi os


vultos darem espaço para ele participar da “cura”. O ronronado dele me
confortava e fazia tudo melhor.

Então minha esposa me disse estar na hora de fumar o DMT da


changa, eu me levantei para preparar o cigarro.

Tenho um altar com uma caveira de resina talhada com tribais, e


quando dei conta de mim mesmo, estava fazendo o cigarro ajoelhado
em frente à caveira.
Nesse momento, meus gatos começaram a brincar de pega pega em
torno de mim, e percebi que o cheiro da changa e do chá de arruda
também fizeram efeito neles. Percebi que eles estavam mais ariscos, e
olhavam para as mesmas mandalas que apareciam para mim.
Terminei de bolar o cigarro, e o ofereci à caveira. Naquele momento eu
soube que estava falando com a Morte, e pedi encarecidamente que
desejava a conhecer em Sua totalidade, que eu queria saber quem ela
é de verdade.

Me deitei novamente na cama, acendi a changa, e após 3 tragos fechei


os olhos novamente, e junto com as mandalas que giravam cada vez
mais rápido, comecei a ouvir a música do vegetal, como se fosse um
coral composto por infinitas vozes. Esse coral deu lugar a um zumbido,
que foi ficando cada vez mais alto. Quando o zumbido ficou
insuportável, deu lugar a um silêncio profundo, e fui arremessado
diretamente a um lugar distante, onde tive o encontro com a Deusa,
conforme meu pedido feito para a caveira.

Para explicar o que senti, preciso fazer algumas analogias com cinema.
Eu acabei chegando à conclusão que o filme 2001 de Stanley Kubrick
fala exatamente sobre essa experiência. Quando o monolito preto
aparece para os macacos pré históricos, a música de fundo é um coral
de centenas de vozes, seguido por um zumbido que vai ficando cada
vez mais alto, e quando o macaco toca o monolito, o zumbido pára, a a
cena troca para o macaco se dando conta que pode usar um osso como
ferramenta. Na cena do monolito na Lua ocorre o mesmo; coral de
vozes, zumbido crescente quando o astronauta toca o monolito,
zumbido fica insuportável, e corta a cena para a nave espacial viajando
para Júpiter.

Minha conclusão foi a de que esse estado alterado de consciência nos


mergulha na Mônada do conhecimento citada por Hermes Trimegistros
na Tábua de Esmeralda. Após passarmos pelo coral de vozes infinito e
o zumbido insuportável, voltamos com um fragmento do conhecimento
que nos é pertinente.
A sensação que tive dentro da Mônada era de que TODO o
conhecimento estava disponível, e os vultos me diziam que ali eu
poderia saber tudo o que gostaria.
Me lembrei de Nikola Tesla, e os sonhos lúcidos que ele relatava ter,
quando foi revelado para ele as inovações no campo da eletricidade que
nossa sociedade usa hoje em dia.

Voltando à descrição da experiência, quando o zumbido chegou no seu


ápice, eu me senti como na cena do filme Dr Estranho, quando a Anciã
toca a testa de Stephen Strange, e ele é arremessado imediatamente
através das dimensões, e eu me senti como se fosse o Neo acordando
na Matrix, e a vasta paisagem biomecânica do universo se abriu para
mim. Naquele momento eu estava vendo com visão 360º total, e me
encontrei em um universo que poderia ser descrito como Cenobita ou o
palácio de Cthulhu, só que apesar de ter um formato grotesco feito de
carne e vegetal em completa simbiose e movimento, não havia medo,
nem terror e nem dor. Apenas uma sensação deliciosa de amor
supremo por todas as coisas, e nesse momento Ela se revelou para
mim.

Ela era o grande organismo universal que é a Morte cumprindo meu


pedido de A ver em sua totalidade, me mostrando que ela também é a
Vida. Me dizendo que não existe separação entre nada, que não
existem coisas “perfeitas” sem as “imperfeitas”.

O efeito caleidoscópio das mandalas continuava infinitamente me


mostrando que o grande quadriculado dos pilares da Criação contém
em si todas as formas possíveis, e ia mudando de forma, passando por
galhos e vinhas vegetais, para músculos que lembravam paisagens de
Giger, mas bioluminescentes como peixes abissais.
Então me foi mostrada a grande teia que permea o Todo, como as
linhas do destino tecidas pelas três Nornes. Dentro do efeito
caleidoscópio, eu via a passagem dessa manifestação como a grande
aranha Ananse, para todas as outras divindades que “tecem”nosso
destino.
Nesse momento Ela olhou para mim e me sorriu com suas infinitas
bocas, dentes, tetas, folhas, galhos, flores, ovos, tentáculos, braços,
asas, olhos e dedos. Ela me mostrou que a teia do destino que tece
como Deusa Aranha Ananse, na verdade é o seu corpo também. Ela é o
topo da cadeia alimentar, Tudo o que é, se alimenta dentro Dela e faz
parte Dela. Ela é a Deusa da Morte e Vida, e me mostrou como a
parcela dela que se entitula como Micélio é parte imprescindível da
manutenção do Todo através da putrefação e renovação da matéria
morta em vida novamente.

“Tudo o que vive tem que morrer, para poder viver novamente dentro de
Mim.” Nada se perde nesse ciclo, e como filhos da Vida, podemos ter a
certeza de que nunca deixaremos de existir.

Tenho que reiterar, que apesar de estar inserido nesse contexto


Gigeresco cenobita, que pode parecer grotesco à princípio, e que por
diversas vezes foi retratado no cinema como sendo uma dimensão de
puro Mal, mas a sensação que tive sempre foi de carinho e amor
universal.

Foi como se a Deusa Kannon, ou o Buda Avalokitesvara me


mostrassem que sua verdadeira face também á a de Kali, ou Shiva
destruidor.

A mensagem passada foi a de que não existe destruição na verdade, e


que realmente “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma.”

E que por mais que os seres “morram”, eles nunca deixam o ciclo da
cadeia alimentar, sempre sendo retornados ao caldo universal, com a
promessa de continuar o processo a partir do ponto em que deixaram a
Vida.

Perguntei então o porquê de existirem os tiranos e as pessoas


maldosas, e Ela me explicou que quando ignoramos o fato de que todos
os seres vivos irão morrer, esquecemos que o poder de tirar e dar é
somente Dela.
Toda essa sensação de carinho e amor supremo me deu a certeza de
que devemos cuidar de todos com carinho, pois todos iremos morrer em
algum ponto, e não há sentido real em acelerar a morte das coisas por
nosso bel-prazer.
Tive a confirmação de que devemos amar ao próximo como amamos a
nós mesmo, pois em realidade o outro faz parte de nós. Todos fazemos
parte do corpo da Deusa.
Ela é a cadeia alimentar completa, se alimenta de si mesma, e Ela se
ama acima de tudo, portanto nos ama infinitamente também, pois não
há separação.

A vida existe apenas para existir, para viver, e não está em nosso poder
como indivíduo ir contra a vida.

Outra constatação que me foi elucidada, foi a não necessidade de


intermediários espirituais. Eu pedi uma audiência com o Ser Supremo, e
não me foi negada.

Quando acordei no dia seguinte, me senti estranhamente sem ressaca.


Algo inédito em todas as minhas aventuras psicodélicas. Todas as
vezes em que eu viajava com substâncias químicas, no dia seguinte
sempre me sentia acabado e exaurido, mas o contato com a Deusa
através das plantas sagradas me deixou renovado, com uma força e
certeza nunca antes alcançadas.

Aprendi uma grande lição sobre adicção a substâncias químicas;


quando usamos apenas uma substância, nossa alma pende para para a
influência individual, e nossa percepção é prejudicada, ficamos à mercê
dos espíritos obsessores de cada substância.
O uso cerimonial de três substâncias me deu o conhecimento de que a
santíssima trindade é uma analogia a essa abordagem, e dessa
maneira, nossa alma fica centralizada entre os vértices das substâncias
que usamos, não pendendo para o desequilíbrio, ficando assim livre
para usufruir de tudo o que as infinitas dimensões nos tem a oferecer.

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