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Unidade I

LETRAS INTERDISCIPLINAR

Prof. Ana Lúcia Machado da Silva


OBJETIVOS

Aliar os conhecimentos adquiridos na


graduação em Letras, entrelaçando:
 a arte literária com as outras artes;
 a língua com a literatura;
 a leitura de releituras de textos literários.

Ampliar o repertório linguístico por meio da


construção de um diálogo universal
entre as múltiplas linguagens e os seus
elementos culturais estruturadores

Compreender a relação harmônica


existente entre as disciplinas
componentes do currículo
Literatura e outras artes

 As artes são uma manifestação cultural

 temas afins são discutidos na literatura,


na música, no cinema etc.: amor,
desamores, guerra, paz, amizade,
futebol, sociedade...

 Composição/ a forma pode aproximar as


artes

 as artes podem demonstrar o imaginário


coletivo
Tema: futebol

 campo aberto e extenso, usado para o


jogo com bola por crianças. No plano de
fundo, natureza, intercalada com
moradia, cemitério (à esquerda). Animais
de grande porte circulam no campo.
 Início da popularização do futebol no
 Brasil

 Futebol, 1935
 Candido Portinari
O anjo de pernas tortas
Vinícius de Moraes

A um passe de Didi, Garrincha avança


Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança


Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita


Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!


É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!
O anjo de pernas tortas
Vinícius de Moraes

 Em jogo sinestésico, o poeta nos leva a


visualizar a partida, os incansáveis
dribles de Garrincha, a multidão
levantada e o gol. Gritamos junto com a
torcida em um só “ato de morte”, vozes
uníssonas em extrema tensão. Vemos o
anjo: pura imagem e pura dança; o
futebol de Garrincha colabora para o
futebol-arte.

 No Brasil, futebol + poesia + arte


poesia + futebol
Tema: desigualdade social

O bicho - BANDEIRA, Manuel


Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa;
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

auge da temática desigualdade social: a miséria


gradação – cão, gato, rato – o poeta coloca o
homem abaixo da situação animal.
metáfora: O bicho era um homem
Tema: desigualdade social

Exceto pela linha horizontal de fundo, em que


consta o tom claro, referência ao sol,
predominam as sombras e as cores escuras,
inclusive na forma cadavérica das pessoas.
A fome é visualizada nas costelas aparecendo

Retirantes, 1944
Candido Portinari
Tema: imaginário

 Imaginário: presente nas artes


 Imaginário: imagens construídos com
base no inconsciente coletivo

 Casa: lar, refúgio; desproteção, medo


 País: lar, refúgio; desproteção, medo

A casa fantasma – Mario Quintana


A casa está morta?
Não: a casa é um fantasma,
um fantasma que sonha
com a sua porta de pesada aldrava,
com seus intermináveis corredores
Tema: imaginário

 imagem marcante de casa associada a amor e


proteção. A essa imagem associam-se ainda as
imagens de brinquedo de montagem e a
história infantil de João e Maria e a casa
construída de doces.

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Parmalat
Interatividade

No quadro de Tarsila do Amaral, temos:

A feira II, 1925

a) brasilidade e imaginário popular


b) religiosidade e espiritualidade
c) dramaticidade e ansiedade
d) brejeirice e volúpia
e) Potência e força
LITERATURA & PINTURA:
RELAÇÃO COMPOSICIONAL

 poesia constitui-se de: efeitos rítmicos,


aliterativos (aliteração), métricos,
fonéticos, entre outros, dando
musicalidade ao texto; imagem,
portadora da aparência da matéria.

Inscrição, Cecília Meireles

Sou entre Flor e nuvem,


Estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente
[humanos,
Limitados em chorar?
Imagens

 figuras flor, nuvem, estrela e mar


condensam várias imagens, de acordo
com a vivência do leitor
 Flor pode significar beleza,
sensibilidade, luminosidade, vida. Tal
carga semântica se amplia na relação
com outras figuras. A ideia de
luminosidade se fortalece em estrela
que, por sua vez, traz a significação de
intangibilidade, distância e perenidade.
 As figuras podem levar a imagens
previsíveis, mais próximas, como as
encontradas no poema de Meireles.
Imagens

 As figuras podem também levar a


imagens inusitadas, como ocorre no
poema Paisagem do Capibaribe, em que
o autor associa a seca à estranha
imagem de um cão sem plumas:

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
 João Cabral de Melo Neto
Imagem sem referencial

 o próprio poema se faz imagem

Cassiano Ricardo
Imagem

A imagem na arte apresenta-se de forma


variada:

 como desreferencialização, ou seja, não


representa objeto (objeto) fora da arte.
Assim, se aparece o vermelho em uma
tela, é apenas a cor;
 como forma significativa, criada pela
intenção, adquirindo sentido.

A imagem vai se formando como surgir das


palavras no poema.
Imagem

O azul não é azul do céu, do mar ou dos


olhos; é azul simplesmente.
Outro sentido que não a visão não está
aparelhado para esta apreensão

Azul III, 1961


Joan Miró
Imagem sem referencial

 Telas se justapõem, compondo no


conjunto a tela maior. Isoladas, cada
uma cria seu espaço, determinado pela
cor
 figuras geométricas de tamanhos
diferentes, em linhas retas, horizontais e
verticais. Os ângulos retos expressam
estabilidade.

Composição, 1929
Piet Mondrain
o verbal e o visual

 O poema organiza-se em torno de ave e nave,


uma dentro da outra, girando sobre um eixo
em sentido horário. O segmento central
contém elementos ambíguos, antitéticos: a
beleza e a guerra.
 os que vão nascer, em oposição à lembrança
da arena romana, circular e esférica, no interior
da qual se dava o espetáculo da morte,
dos gladiadores. Da
arena, saudavam o
imperador: “os que
vão morrer te
saúdam”.
Interatividade

Dadas as considerações sobre literatura e


imagem, assinale a correta:
I. No reino das palavras – da literatura – a
imagem é desconsiderada.
II. A literatura cria imagens por meio das
palavras.
III. A imagem criada pelas palavras podem
ou não ter referência no mundo.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
Literatura nas artes

 Literatura influencia outras artes;

 Textos literários são usados no cinema,


pintura, HQ etc.

 lista infinita de obras literárias que foram


adaptadas para o cinema e apontaremos
apenas três:
Ensaio sobre a cegueira, de José
Saramago, Portugal
Um copo de cólera, Raduan Nassar, Brasil
O amor nos tempos do cólera, Gabriel
García Márquez, Colômbia
Literatura nas artes

 dificuldades em passar a linguagem


literária, escrita, para o cinema, arte
cênica múltipla em sua linguagem
(visual, sonora etc.), mas essencialmente
visual.

 é necessário reunir o máximo de


informação em um mínimo de tempo,
deixar somente o essencial da ação, o
que existe de mais significativo nas
individualidades
Transcodificação

 literatura descreve um mundo, convida o


leitor a participar dele, a imaginar as
cenas, é uma narrativa que se organiza
mentalmente. O cinema coloca o
espectador diante do mundo, com
imagens concebidas que se organizam
de acordo com uma continuidade
 transcodificação da literatura para o
cinema tem dificuldade de representar
visualmente significados verbais, da
mesma forma que exprimir com palavras
o que está expresso em linhas, formas e
cores, como em uma pintura ou
escultura
Relação entre as artes

 Ensaio sobre a cegueira, de José


Saramago, Portugal

 transposição da obra para o cinema pelo


diretor Fernando Meirelles

 Outras artes foram usadas no cinema:


Mark Rufallo, que protagoniza o Médico
de Ensaio sobre a Cegueira, não
conseguia seguir para a direção correta
por ter um problema de surdez e se
apoiou no ombro de outro ator. Meirelles
lembrou-se do quadro “A parábola dos
cegos” de Brueguel e recriou
essa mesma imagem no filme
Ensaio sobre a cegueira

Pieter Brueghel
A parábola do cego
1568

Cena Ensaio sobre a cegueira


As artes na literatura

Canção da menina descalça


Menina do campo
Nascida descalça
Em berço macio
De verde capim.

Menina do campo
Vestida de rosa
Brinca de roda
No meu jardim.

Menina do campo
Nascida descalça.

Da terra, flor.
Do céu, querubim.
DIAS, Iêda
As artes na literatura

 No poema, a autora associa a imagem da


menina do campo à ideia de
despojamento, pureza, aconchego,
ternura, acentuando a relação do poema
com a pintura Menina com as espigas, de
Renoir.
Artes na literatura

 a presença da outra arte na literatura


está na obra Era uma vez três.... em que
Ana Maria Machado conta histórias a
partir dos quadros de Alfredo Volpi
(pintor italiano que veio ao Brasil). Na
obra de há a força de formas e cores
unida ao jogo de palavras, sons e ritmos.
Volpi Ana Maria
Interatividade

Na relação artes x literatura, consideram-


se:
I. Há grande diálogo entre as artes
visuais e a literatura.
II. Verifica-se a diluição de limites rígidos
entre as diferentes linguagens e
consequente aproximação entre as
artes.
III. Poetas se conscientizaram da
visualidade da escrita e da página.
a) Apenas I está correta.
b) Apenas II está correta.
c) Apenas III está correta.
d) Apenas I e II estão corretas.
e) I, II e III estão corretas.
Artes na literatura

 Carlos Drummond de Andrade, no livro


Farewell, cria alguns poemas com tema de
quadros famosos e dá os mesmos títulos aos
textos poéticos

Retrato do Casal Arnolflini (Jan Van Eick)

A imagem reproduz-se até o sem-fim.


O casal sem filhos
gera continuamente nos espelhos
a imagem de perpétuo casamento.

Jan Van Eick


O casal Arnolflini
1434
Artes na literatura

Gioconda (Da Vinci)

O ardiloso sorriso.
Alonga-se em silêncio
para contemporâneos e pósteros
ansiosos, em vão, por decifrá-lo.
Não há decifração. Há o sorriso.

Leonardo da Vinci
Retrato de Lisa Del Giocondo
1503-1506
Leitura e texto

Texto:
 verbal: poemas, crônicas, piadas...
 não verbal: pinturas, músicas,
esculturas, HQ...

Leitura:
 Verbal
 Não verbal

 Níveis: sensorial, emocional, racional


Leitura sensorial

 Você escolhe apenas pela capa?


 Que estilo musical você mais ouve?
Aquele que mais agrada sua
sensibilidade auditiva?
 Entre os materiais usados em escultura,
qual causa vontade irresistível de tocar a
obra? Será a madeira, o ferro, a argila,
areia...?
 Em cada ambiente, o livro exala um
cheiro. Na biblioteca, no sebo, na
livraria, nós sentimos cheiro de mofo,
produto para conservação do livro, de
recém-impresso etc. Em qual ambiente
você se sente melhor devido
ao cheiro?
Leitura emocional

 Já leu ou lê todos ou quase todos os


livros de um escritor?
 Lê (livro, história em quadrinho e outra
arte) ou assiste (filme, novela, série)
constantemente obra que tenha o
mesmo tema?
 Comprou todos os CD do mesmo
intérprete musical?

 Metaesquema II
 1958
Leitura racional

 Qual é a questão de que o texto está


tratando?

 Qual é a posição do autor sobre a


questão posta em discussão?

 Quais são os argumentos utilizados pelo


autor para fundamentar a posição
assumida?

 Como é a linguagem constituída no


texto?
Resumo

 a literatura e outras artes, verificando


que elas podem ser relacionadas porque
elas seguem a mesma temática. No
nosso caso, os temas em comum
destacados foram: cultura brasileira, em
especial, o futebol; a desigualdade
social; o imaginário.

 a literatura e outras artes podem ser


aproximadas, não pelo tema, mas pela
forma, ou seja, a preocupação não está
em referenciar o mundo externo à arte,
mas a ela própria;
Resumo

 a literatura se encontra em outras artes,


que a usam como motivo temático, como
forma de diálogo, como forma de dar
outra perspectiva a um ponto já
trabalhado em obra;

 por fim, a literatura usa outras artes para


sua própria criação. Pode recorrer a uma
arte, por exemplo, exclusivamente visual
(pintura, desenho etc.) para construir a
sua visualidade literária
Interatividade

Sobre a pintura, desconsideramos:

JOSÉ PANCETTI, Itapoã, 1956


a) A superfície parece estar em constante
movimento, representado pelo mar.
b) Predominam as linhas horizontais.
c) É uma cena fácil de ser interpretada.
d) As cores demonstram ambiente poluído e mal-
conservado.
e) A tela representa uma cena que evoca o
imaginário comum.
ATÉ A PRÓXIMA!

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