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Teoria Sociológica I

Prof.ª Franciele Otto Duque

2019
1 Edição
a
Copyright © UNIASSELVI 2019

Elaboração:
Prof.ª Franciele Otto Duque

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

D946t

Duque, Franciele Otto

Teoria sociológica I. / Franciele Otto Duque. – Indaial:


UNIASSELVI, 2019.

206 p.; il.

ISBN 978-85-515-0285-3

1. Sociologia - Teorias. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo


Da Vinci.

CDD 301.01

Impresso por:
Apresentação
Caro acadêmico!

Este é seu Livro de Estudos de Teoria Sociológica I. Com ele você


iniciará seus estudos de teoria sociológica, já que esta primeira parte trata
da chamada Sociologia Clássica. Diferentes autores contribuíram para
a consolidação da Sociologia, inclusive os autores clássicos que aqui você
estudará: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Os três legaram grandes
contribuições teóricas e metodológicas para as ciências sociais, e certamente
você já ouviu estes nomes — pois podemos dizer que são famosos em se
tratando da área de sociologia.

Sendo o primeiro passo de seus estudos em Teoria Sociológica (que


prosseguirão com os componentes curriculares: Teoria Sociológica II e Teoria
Sociológica III), cabe reforçar a importância dos clássicos. Autores clássicos
são sempre atuais, ou seja, eles adquirem o estatuto de clássicos justamente
porque são revisitados com frequência, e seu arcabouço intelectual
reinterpretado em diversos momentos. Em se tratando de Durkheim, Marx
e Weber, muitas produções contemporâneas ainda são embasadas nas obras
destes autores.

A divisão deste livro está baseada em três unidades, uma sobre cada
autor. As unidades dividem-se em tópicos que seguem uma lógica similar: o
primeiro apresenta as bases teórico- metodológicas da teoria sociológica de
cada autor; o segundo apresenta os principais conceitos desenvolvidos por
cada um; e o terceiro traz os desdobramentos de sua teoria sociológica —
com os principais temas de estudo e como foram abordados pelo autor.

A primeira unidade trata da obra de Émile Durkheim e de sua teoria


da integração. Inicialmente você conhecerá as influências do positivismo em
seu pensamento, o uso da noção de fato social, e o método funcionalista em
ação a partir deste conceito. Ou seja, são as bases do pensamento teórico e
das aplicações metodológicas que o autor produziu ao longo de sua carreira.
Em seguida, terá acesso ao estudo aprofundado dos conceitos relativos à
teoria da integração, baseada na divisão do trabalho social: solidariedade
mecânica, consciência coletiva, solidariedade orgânica e anomia. Para fechar,
alguns desdobramentos da aplicação de sua teoria sociológica: o estudo
sobre o suicídio, a moral, a religião e a educação.

III
A segunda unidade está direcionada para a obra de Karl Marx e a
teoria do materialismo histórico-dialético. Partindo das influências recebidas
dos autores Hegel e Feuerbach para o desenvolvimento do materialismo
dialético, segue-se pelo materialismo histórico e pela importância da análise
do modo de produção indicada pelo autor. Após, o aprofundamento será
nos conceitos de: infraestrutura e superestrutura, mercadoria e dinheiro,
exploração e mais-valia, alienação. Os temas de seus estudos principais, que
a parte final apresenta, são: classes sociais, a ideia de luta de classes, o papel
das revoluções na história, e o projeto político de Marx — que perpassa o
socialismo e o comunismo.

A terceira e última unidade é dedicada à obra de Max Weber e sua


teoria sociológica compreensiva. Iniciaremos identificando as influências que
o autor sofreu para desenvolver a proposta de individualismo metodológico,
e para analisar a relação entre objetividade e conhecimento. Segue-se o estudo
da noção de ação social, central na obra do autor. Após, seu estudo será sobre
os conceitos de tipo ideal, relação social, poder, dominação e estratificação
social (classes, estamentos e partidos). Para fechar o tópico sobre Weber,
você conhecerá aspectos principais de sua sociologia da religião, o processo
de racionalização social e seu favorecimento do capitalismo, a dominação
carismática e o chamado desencantamento do mundo.

Por meio desta trajetória, objetiva-se que você finalize a disciplina


identificando as características principais da teoria sociológica de cada
autor, bem como seus conceitos e principais estudos. Ressalto a importância
de seus estudos irem além deste livro, já que cada autor possui uma vasta
obra e temas diversos de estudo, impossíveis de sistematização total. Veja o
estudo desta disciplina como uma oportunidade de conhecer o básico sobre
cada autor, e de selecionar materiais complementares para conhecê-los com
mais afinco ao longo de toda a sua formação.

Desejo um ótimo processo formativo na teoria sociológica clássica!

Franciele Otto Duque

IV
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM..................................................... 1

TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO......................... 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 VIDA E OBRA........................................................................................................................................ 4
3 POSITIVISMO....................................................................................................................................... 6
4 FATO SOCIAL........................................................................................................................................ 12
5 FUNCIONALISMO............................................................................................................................... 17
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 22
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 23

TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A


COMPREENSÃO DA SOCIEDADE.............................................................................. 25
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 25
2 DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL................................................................................................ 25
2.1 SOLIDARIEDADE MECÂNICA.................................................................................................... 27
2.1.1 Consciência Coletiva............................................................................................................... 28
2.2 SOLIDARIEDADE ORGÂNICA.................................................................................................... 34
3 ANOMIA................................................................................................................................................. 42
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 48
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 49

TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM.............. 51


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 51
2 O SUICÍDIO........................................................................................................................................... 51
3 VIDA SOCIAL E MORALIDADE...................................................................................................... 55
4 A RELIGIÃO........................................................................................................................................... 59
5 A EDUCAÇÃO....................................................................................................................................... 63
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 66
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 71
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 72

UNIDADE 2 – O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX................... 73

TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO...................................... 75


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 75
2 VIDA E OBRA........................................................................................................................................ 75
3 MATERIALISMO DIALÉTICO.......................................................................................................... 78
4 MATERIALISMO HISTÓRICO......................................................................................................... 86
5 ANÁLISE DO MODO DE PRODUÇÃO.......................................................................................... 90
5.1 MODO DE PRODUÇÃO PRIMITIVO........................................................................................... 91
5.2 MODO DE PRODUÇÃO ESCRAVISTA........................................................................................ 91
5.3 MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO............................................................................................. 92

VII
5.4 MODO DE PRODUÇÃO FEUDAL................................................................................................ 92
5.5 MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA...................................................................................... 93
5.6 MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA....................................................................................... 93
5.7 MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA...................................................................................... 94
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 98
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 99

TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA


A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 101
2 INFRAESTRUTURA E SUPERESTRUTURA................................................................................ 101
3 MERCADORIA, VALOR E DINHEIRO ........................................................................................ 105
4 EXPLORAÇÃO, MAIS-VALIA E LUCRO .................................................................................... 109
5 ALIENAÇÃO........................................................................................................................................ 114
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 119
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 120

TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX........................ 121


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 121
2 CLASSES SOCIAIS............................................................................................................................. 121
3 PROJETO POLÍTICO: LUTA DE CLASSES................................................................................... 125
4 PAPEL REVOLUCIONÁRIO DA BURGUESIA............................................................................ 127
5 SOCIEDADE CAPITALISTA E COMUNISMO............................................................................ 130
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 133
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 138
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 139

UNIDADE 3 – A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER....................................... 141

TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO.................................... 143


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 143
2 VIDA E OBRA...................................................................................................................................... 144
3 BASES DA SOCIOLOGIA COMPREENSIVA.............................................................................. 145
4 INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO....................................................................................... 150
5 OBJETIVIDADE E CONHECIMENTO........................................................................................... 152
RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 159
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 160

TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A


COMPREENSÃO DA SOCIEDADE............................................................................ 161
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 161
2 AÇÃO SOCIAL.................................................................................................................................... 161
3 TIPO IDEAL.......................................................................................................................................... 166
4 RELAÇÃO SOCIAL............................................................................................................................. 170
5 PODER E DOMINAÇÃO................................................................................................................... 174
6 ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: CLASSES, ESTAMENTOS E PARTIDOS................................ 178
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 182
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 183

VIII
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER........................ 185
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 185
2 SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO......................................................................................................... 186
3 CAPITALISMO E RACIONALIZAÇÃO SOCIAL........................................................................ 189
4 CARISMA E DESENCANTAMENTO DO MUNDO................................................................... 194
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 198
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 203
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 204
REFERÊNCIAS........................................................................................................................................ 205

IX
X
UNIDADE 1

O FUNCIONALISMO DE ÉMILE
DURKHEIM

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Esta unidade tem por objetivos:

• situar as características e os principais aspectos das bases teóricas e


metodológicas do pensamento sociológico de Émile Durkheim;

• examinar as principais contribuições da teoria da integração de


Durkheim para a teoria sociológica clássica, a partir da sistematização
de seus conceitos principais;

• analisar os desdobramentos da teoria sociológica de Durkheim para a


sociologia, com base em temas cuja sua influência, nas formas de análise,
persiste nas interpretações contemporâneas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E


MÉTODO

TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A


COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE


DURKHEIM

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM:


TEORIA E MÉTODO

1 INTRODUÇÃO
Neste primeiro tópico você irá estudar alguns elementos sobre as principais
teorias e aplicação do método sociológico de acordo com o autor clássico Émile
Durkheim. Digo alguns elementos porque sua obra é bastante extensa e, mesmo
sintetizada, nos ocuparia muito tempo de estudo. Conforme for se interessando
pelas temáticas, procure encontrar as obras sugeridas para que possa prosseguir
com os estudos sobre o autor.

Iniciaremos pela retomada de sua vida e obra, que você já estudou


em História da Sociologia, seguindo pela explicação acerca das influências
positivistas em seu pensamento (e suas teorias). Se você ainda não cursou esta
disciplina, é essencial saber que a Sociologia surge baseada essencialmente em
três movimentos: o Renascimento – como marco cultural baseado nos ideais
iluministas que defendiam a racionalidade humana; a Revolução Francesa –
enquanto marco político de tomada de poder por parte do povo, ou seja, mudança
na ordem social; e a Revolução Industrial – que modifica a sociedade feudal
para uma sociedade industrial. Todas estas mudanças provocaram inúmeros
problemas sociais com os quais as pessoas não sabiam lidar, e por isso surge a
necessidade de uma ciência para tentar explicá-los, a ciência sociológica. A partir
disso surgem autores buscando explicações para a ordem social, e Durkheim é
um deles.

Após iremos nos aprofundar no conceito de fato social, base para o


desenvolvimento de seu pensamento sociológico. É a partir deste conceito que
Durkheim se define com relação a um pensamento que posiciona a sociedade
como prevalente em referência ao indivíduo. Para finalizar o tópico, veremos o
método funcionalista em ação em seu pensamento teórico e na busca por uma
metodologia para a ciência sociológica.

Novamente reforçamos: estude este tópico pensando que ele é uma síntese
dos principais pontos a serem estudados quando se fala em Émile Durkheim.
Não pare por aqui, caminhe pelas obras e teorias deste autor consagrado na
Sociologia. Para começar, vamos situá-lo no contexto de sua vida, para entender
o local de onde ele fala. Boa leitura!

3
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

2 VIDA E OBRA
Para começar, vamos entender um pouco sobre a biografia de Émile
Durkheim:

Filho, neto e bisneto de rabinos, Émile Durkheim nasceu em 15 de abril


de 1858. Com 21 anos, ingressou na Escola Normal Superior, principal
centro de formação da elite intelectual francesa. Entre seus colegas
mais próximos, destacaram-se Jean Jaurès e Henri Bergson.
Durkheim atingiu a maturidade logo após a derrota da França para a
Alemanha, na guerra de 1870, e a sangrenta repressão aos trabalhadores
rebelados na Comuna de Paris. Sob o impacto desses acontecimentos,
grande parte de sua geração aderiu aos ideais republicanos, laicos
e universalistas da III República, fornecendo-lhe alguns de seus
principais quadros intelectuais e políticos.
Ao escolher como objeto de estudo as relações entre a personalidade
individual e a solidariedade social, Durkheim afasta-se de sua área
de formação, a filosofia, encaminhando-se para a sociologia. Esta, no
entanto, ainda não era reconhecida como ciência ou mesmo como
disciplina acadêmica. Ele se impõe a tarefa de dar forma científica
(método e corpo) a esse saber, dissociando-o tanto da pregação
doutrinária dos seguidores de Comte como do ensaísmo eclético de
Renan e Taine.
Em 1885, como bolsista do governo francês, passa um semestre na
Alemanha. Assiste aos cursos de Wundt e toma contato com as obras
de Dilthey, Tönnies e Simmel. Os dois artigos que escreve sobre o
estado das ciências sociais na Alemanha abrem caminho para que
seja nomeado, em 1887, professor de pedagogia e ciência social na
Universidade de Bordéus.
Durkheim permaneceu em Bordéus por 15 anos. Nesse período,
escreveu e publicou seus principais livros e firmou sua reputação como
sociólogo. Nas disciplinas de pedagogia, tratou dos temas clássicos da
área, introduzindo paulatinamente o viés da sociologia da educação.
Nos cursos de sociologia (os primeiros na universidade francesa e
um sucesso de público), abordou temas que antecipam os principais
tópicos de sua obra: a solidariedade social, a família e o parentesco, o
suicídio, a religião, o socialismo, o direito e a política.
Publica seu primeiro livro, a tese doutoral Da divisão do trabalho
social, em 1893. Apenas dois anos depois, surgem as regras do método
sociológico, e, em 1897, O suicídio.
Em 1896, funda e dirige uma revista que se tornou rapidamente
modelo de pesquisa sociológica. Mais que um periódico, L’Année
Sociologique estabelece um programa sistemático, por meio de uma
divisão intelectual do trabalho que agrupa talentosos e destacados
cientistas.
Seu esforço para transformar a sociologia em disciplina acadêmica
é reconhecido em 1902, com sua nomeação para a Universidade de
Sorbonne, em Paris: a primeira cátedra de sociologia na França.
O interesse cada vez maior de Émile Durkheim pela sociologia
do conhecimento e da religião consolida uma inflexão em vida
intelectual. Em 1912, publica As formas elementares da vida religiosa.
Após sua morte, em 1917, foram editados novos livros, reunião de
artigos, como Sociologia e filosofia, ou de suas anotações de cursos:
Educação e sociologia, O socialismo, Pragmatismo e sociologia, Lições
de sociologia (DURKHEIM; MUSSE, 2007, p. 76–77).

4
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

FIGURA 1 – ÉMILE DURKHEIM

FONTE: <https://www.comunidadeculturaearte.com/wp-content/uploads/2017/08/emile-
durkheim-589909c93df78caebcf505a41.jpg>. Acesso em: 10 set. 2018.

DICAS

Uma excelente síntese sobre a vida de Durkheim e o


contexto histórico no qual este autor esteve inserido
é a introdução da obra Émile Durkheim: Sociologia. É
uma coletânea de textos do autor organizada por José
Albertino Rodrigues, publicada em várias edições pela
Editora Ática. Além disso, este texto também apresenta
diretrizes gerais da concepção sociológica e da posição
metodológica do autor. Leitura altamente recomendada!

FONTE:<https://www.estantevirtual.com.br/livros/jose-
albertino-rodrigues/durkheim/683457527>. Acesso em:
16 jan. 2019.

5
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Para sua localização na obra do autor, segue adiante um mapa conceitual


trazido nesta obra mencionada anteriormente, muito esclarecedor e que irá
auxiliá-lo na organização de seus estudos ao longo de toda esta unidade.

FIGURA 2 – MAPA CONCEITUAL DO PENSAMENTO DE ÉMILE DURKHEIM

FISIOLOGIA SOCIAL

MORAL RELIGIÃO
Sagrado
CONSCIÊNCIA REPRESENTAÇÕES
COLETIVA COLETIVAS
Profano
SOLIDARIEDADE SOCIAL

Direito
MECÂNICA tipo
Repressivo
SOCIEDADE

ANOMIA
(complexo integrado
de fatos sociais)
tipo
Direito
ORGÂNICA
Restitutivo
o

co
çã

o
er
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mic
çã
co
fu

o

anô
õe

coerção
s

GRUPOS E altru
INDIVÍDUO ísta
DIVISÃO INSTITUIÇÕES
DO SUICÍDIO
TRABALHO egoísta

MORFOLOGIA SOCIAL

FONTE: Durkheim e Rodrigues (2006, p. 31)

De posse das informações sobre a vida e obra deste autor, bem como o
mapa conceitual de suas principais análises, vamos iniciar nossa leitura, na seção
seguinte, pelo Positivismo, corrente filosófica que influenciou toda a obra deste
autor. Prossiga!

3 POSITIVISMO
Vamos iniciar nossos estudos aprofundados no autor Durkheim,
conhecendo as formas de pensar as análises sociais, os métodos propostos para
a Sociologia, e inevitavelmente para isso passaremos pelas suas obras com base
positivista.

Durkheim pode ser classificado, especialmente em seus primeiros escritos,


como um autor do Positivismo — já que pensa as análises sociais como ciência que
necessitava, à sua época, delimitar seu objeto específico de análise e seu método.

6
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

DICAS

Você já estudou o Positivismo? Caso já tenha cursado


a unidade curricular História da Sociologia, retome
os textos desta unidade, pois lá essa temática está
presente. Se ainda não cursou ou quer aprimorar seus
conhecimentos sobre o tema, busque a obra O que
é Positivismo?, de João Ribeiro Junior, publicada na
coleção Primeiros Passos. Há várias edições e a editora
é a Brasiliense.

FONTE:<https://www.skoob.com.br/o-que-e-
positivismo-8961ed10233.html>. Acesso em: 16 jan.
2019.

Para definir de maneira bem simples, Durkheim entendia que a tarefa


da Sociologia era estudar as instituições sociais, desde seu surgimento às suas
leis de funcionamento. Ele entendia que eram as instituições que levavam
ao compartilhamento de comportamentos por parte dos grupos. Todo
comportamento coletivo, portanto, tinha origem em um sistema de crenças, de
representações, de formas de pensar a ordem social e interpretar o mundo que
tinham base nas instituições sociais.

Tente pensar em exemplos... Nos dias atuais, onde você consegue


visualizar comportamentos coletivos que têm origem nas instituições sociais?
Muitos rituais das igrejas que são coletivos possuem origem na instituição
religião: casamentos, batismos, funerais, entre outros. Também conseguimos
visualizar comportamentos baseados em outras instituições: educação, política,
família... Pense um pouco sobre estes exemplos.

Você deve ter percebido que estes comportamentos compartilhados sempre


são baseados em regras externas ao indivíduo, que são assimiladas por ele conforme
avança sua vida social e sua socialização nos grupos. É isto que Durkheim entendia
que deveria ser estudado: como esta externalidade das regras impacta a vida
individual, buscando assim respostas para esta troca indivíduo X sociedade.

Para pensar nestas questões ele baseia-se na ideia de fundar uma ciência
que estude esta externalidade, encontre as leis de funcionamento da sociedade
e as descreva. Parte, portanto, da superioridade da ciência como forma de
conhecimento de mundo, defendida por Comte e pelo Positivismo, e do poder da
razão humana presente nas análises iluministas.
7
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

O Positivismo aparece nas teorias de Durkheim especialmente quando


ele se defronta com as questões sobre o conhecimento, ou seja, quando ele busca
entender o que é o objeto da Sociologia e seu método científico.

E
IMPORTANT

Nas reflexões sobre epistemologia (estudos sobre a teoria do conhecimento),


portanto, é que você conseguirá buscar elementos para conhecer melhor as influências
positivistas quando Durkheim lança luz às características científicas da ciência sociológica.

Sell (2002) destaca duas questões que o autor analisa em que se percebe a
veia positivista atuando. Um primeiro item com qual Durkheim se preocupa é a
superioridade da sociedade com relação ao indivíduo.

Para o Positivismo, o objeto condiciona a explicação da realidade,


portanto, a conclusão do autor é a mesma sobre este tema: a determinação da
sociedade em relação ao indivíduo, ou, a objetividade predominando com relação
à subjetividade.

É por isso que ao estudar Durkheim você irá ouvir muito que as explicações
sociais, para ele, têm fundamento na vida social, ou seja, na sociedade, e não no
indivíduo. Em termos de representação imagética, temos:

FIGURA 3 – REPRESENTAÇÃO DA RELAÇÃO INDIVÍDUO X SOCIEDADE PARA DURKHEIM

SOCIEDADE

INDIVÍDUO

FONTE: A autora (2018)

8
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

Durkheim reconhecia que a sociedade não existia sem os indivíduos, mas


“o que ele desejava ressaltar é que uma vez criadas pelo homem, as estruturas
sociais passam a funcionar de modo independente dos indivíduos, condicionando
suas ações” (SELL, 2002, p. 64).

Este funcionamento independente é o que ele visualiza como sendo as


instituições sociais, como estrutura externa de condicionamento dos indivíduos,
que possuem regras próprias, dinâmicas próprias, existindo independentes
daqueles que fazem parte delas. As instituições permanecem mesmo com a
passagem dos indivíduos por elas.

Novamente vamos parar para refletir: existem regras e funcionamentos


próprios da educação que estão aí, desde antes de nascermos, e seguem depois
de falecermos. Na religião funciona da mesma forma, há regras que sequer
conseguimos estabelecer quando surgiram na história, de tão antigas que são.
É esta independência do indivíduo que Durkheim busca destacar, combinados
regras, diretrizes, funcionamentos que existem antes do indivíduo, durante sua
vida e sua participação nas instituições, e seguirão depois dele.

Diante da identificação das instituições sociais (atualmente na Sociologia


se reconhece principalmente os exemplos: Religião, Família e Educação), o autor
persegue a ideia de que a tarefa da Sociologia é descrever como o todo condiciona
as partes, ou como a sociedade condiciona os indivíduos. Parte-se, portanto, do
estudo do objeto, e não do sujeito.

Em todas as obras de Durkheim vamos perceber que este pressuposto


está presente. Tanto em suas explicações sobre a origem da religião,
sobre o conhecimento, sobre o comportamento suicida e mesmo sobre
a divisão social do trabalho; é a sociedade que age sobre o indivíduo,
modelando suas formas de agir, influenciando suas concepções e
modos de ver, condicionando e padronizando o seu comportamento.
Ninguém mais do que Durkheim vai colocar tanta ênfase na força do
social sobre nossas vidas, procurando sempre ressaltar que, em última
instância, até mesmo a noção de que nós somos pessoas ou sujeitos
individuais não passa de uma construção social (SELL, 2002, p. 64).

TUROS
ESTUDOS FU

Para estudar o condicionamento do objeto diante do indivíduo, Durkheim


apresentou o conceito de Fato Social, central para o entendimento de sua teoria sociológica.
Teremos uma seção específica para tratar deste conceito, dada sua importância.

9
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Seguimos agora com o segundo item onde a influência positivista se


manifesta nas obras durkheimianas, trata-se de um método científico desenvolvido
para as ciências sociais ou, mais especialmente, para a Sociologia. Se o objeto de
estudos é a sociedade, a partir da objetividade, então era preciso também definir
um método para esta ciência. Para tal, seguiremos com a interpretação do autor
Sell (2002).

Uma das principais intenções de Durkheim, elencada, inclusive, como


uma das principais contribuições deste teórico para a Sociologia — e que
contribuiu para que este fosse considerado um autor clássico —, foi o seu esforço
em consolidar o espaço científico da ciência sociológica.

E foi para fixar esta ciência que ele se concentrou tanto no método. Resgate
em sua mente, qual o modelo ideal de método científico para o Positivismo?
Lembrou? O método das ciências naturais. Em função disso, Durkheim se
concentrou em verificar como o método das ciências naturais poderia ser uma
referência para as ciências sociais.

Para isso, o primeiro item que ele identifica ser fundamental é o


distanciamento do pesquisador com relação ao seu objeto de análise, ou seja,
os fenômenos sociais deveriam ser considerados como coisas. “Ao equiparar os
fenômenos sociais a ‘coisas’, Durkheim partia do princípio de que a realidade
social é idêntica à realidade da natureza e que, portanto, equipara-se também aos
fenômenos por ela estudados” (SELL, 2002, p. 65).

Segundo seu raciocínio, se as coisas naturais podem ser estudadas


independentes da ação humana, as coisas sociais também poderiam ser. O cientista
teria a tarefa de buscar regularidades, distinções, semelhanças, princípios. Para
isso, o primeiro passo seria que o cientista libertasse suas pré-noções, ou melhor,
aquilo que já conhecia ou interpretava sobre o fenômeno, analisando-o de forma
objetiva e baseado em suas características exteriores (objetivando o fenômeno).

Esta aproximação do objeto social com o objeto natural, entendendo


ambos como coisas, permitiu que Durkheim defendesse que o método de estudo
poderia ser o mesmo para ambas as tipologias científicas.

Ou seja, o papel da sociologia consiste em “registrar” da forma mais


imparcial possível a realidade pesquisada (o objeto), tal como naquelas
ciências. Cabe ao pesquisador apenas fazer um retrato da realidade
pesquisada, pois ela é uma realidade objetiva, tão objetiva como
qualquer “coisa” da natureza. Na percepção sociológica de Durkheim,
portanto, a realidade (objeto) é que se impõe ao sujeito (observador),
por isso, as ciências sociais deveriam adotar o mesmo método que as
ciências da natureza (SELL, 2002, p. 65).

Toda esta dinâmica de análise foi sintetizada por Tura (2006), conforme
segue:

10
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

Enfim, na visão durkheimiana só se poderia pensar no estudo dos


fenômenos sociais no campo da ciência se fosse possível concebê-los
como algo de real e existente fora das consciências particulares, ou
seja, como realidade coletiva, externa ao indivíduo, que o ultrapassa
e se impõe sobre ele. Para Durkheim, as sociedades, assim como os
fenômenos naturais, são ordenadas e reguladas por certas leis ou
tendências gerais e necessárias e que, por isso, se deve proceder à análise
das relações de causa e efeito entre os fenômenos sociais. É assim que se
pode antever algumas tendências futuras.
Em seus diversos textos, Durkheim se mostrou preocupado em dar
indicações minuciosas de seus procedimentos de análise e em apresentar
os limites de seu trabalho, posto que, segundo ele, estava lidando com
uma ciência jovem que tinha que se ater a um conjunto ainda precário de
dados acumulados e a um desenvolvimento teórico ainda iniciante. Por
isso, acreditava que seria mais viável naquele momento a investigação
de normas cristalizadas, instituições consolidadas e sistemas de regras
morais estabelecidas.
Os métodos de investigação das ciências naturais, já bastante
desenvolvidos no século XIX, foram a base de onde partiu. Essa gênese
marcou muito a linguagem de sua sociologia e do que se produziu
posteriormente. Pode-se notá-la em termos recorrentes com: espécies de
sociedade, sistemas, organismo social, funções e formas de regulação.
Os métodos experimentais da psicologia, a que Durkheim teve bastante
acesso participando de atividades de laboratório, também tiveram
influência em seu pensamento. Contudo, este interessado em distinguir
os métodos e as leis próprias da sociologia, sempre se referindo à
natureza sui generis da sociedade e, portanto, a impossibilidade de
redução dos fatos sociais aos fatos psicológicos e afirmando que os fatos
sociais só podem ser explicados por outros fatos sociais.
A sociologia é para Durkheim a ciência das instituições sociais, de sua
gênese e seu funcionamento. Instituições, no caso, entendidas em seu
sentido largo que abrange também as crenças, valores e comportamentos
instituídos. Por isso, ele pensou que a sociologia podia e devia auxiliar
na compreensão das instituições pedagógicas e a “conjeturar o que
devem ser elas, para o melhor resultado do próprio trabalho”. Esta
compreensão deve conduzir o pesquisador à análise de práticas sociais.
Pode-se verificar isto quando afirma que “os estudos devem recair sobre
fatos que conheçamos, que se realizem e sejam passíveis de observação”
(TURA, 2006, p. 33–35).

O método que estava no auge da discussão científica na época de Durkheim


era o chamado método funcionalista, e foi nele que o autor encontrou material
para solucionar seus anseios com relação aos objetos sociológicos, e com relação
especialmente ao método de análise.

NOTA

Iremos estudar o Funcionalismo em uma seção específica mais adiante, por hora
é importante que você saiba que é uma forma de explicação da ordem social que entendia
o funcionamento e a dinâmica sociais análogas ao funcionamento do corpo humano. Cada
grupo social, portanto, possuía uma função no organismo – que deveria ser cumprida para
que o todo funcionasse harmonicamente.

11
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Por isso, é possível classificar parte da obra de Durkheim como sendo


fruto de um pensamento funcionalista, e é o que iremos estudar mais adiante.
Enquanto prossegue com a leitura, tenha em mente sempre essa tentativa de
aproximação do método com as ciências naturais e a importância da objetividade
do pesquisador em suas análises sociais. Assim irá compreender o quanto este
pensamento interfere na Sociologia até os dias contemporâneos.

Antes de conhecer o detalhamento de seu pensamento funcionalista,


vamos destrinchar o conceito de Fato Social, base para o entendimento deste
método e da objetividade prevista por Durkheim para o analista social. Mas
antes, uma indicação de leitura!

DICAS

Para conhecer o pensamento durkheimiano sobre o


método científico da Sociologia, nada melhor do que as
palavras do próprio autor. Veja, portanto, a obra “As regras
do método sociológico”, do próprio Émile Durkheim,
traduzida e publicada por diferentes editoras no Brasil.
Uma edição compacta e barata pode ser a da Coleção
A Obra-Prima de Cada Autor, Editora Martin Claret, cuja
imagem de capa está ao lado.

FONTE:<https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/
ciencias-sociais/sociologia/as-regras-do-metodo-
sociologico-3055247>. Acesso em: 16 jan. 2019.

4 FATO SOCIAL
Em seus estudos básicos de Sociologia no Ensino Médio você já deve ter
se aproximado do conceito de Fato Social. É uma das noções mais presentes na
sociologia durkheimiana, e como explica boa parte de seu pensamento social,
é utilizada com bastante frequência. Nesta seção iremos nos aprofundar no
entendimento deste conceito, amparados pelas obras do autor e por sistematização
de outros autores.

Lembre-se, é essencial que você busque conhecer as próprias obras do


autor, pois são clássicos, ou seja, um autor de base para quem estuda Sociologia.
Nada melhor do que ter acesso às obras originais e interpretá-las a partir de sua
vivência e seus estudos.

12
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

Diante disso, nosso primeiro pressuposto é de que os fatos sociais são o


objeto de estudo dos sociólogos. São eles que o pesquisador deve buscar descrever
e interpretar, pois a partir deles é possível entender a sociedade como coisa, como
ente externo ao cientista, garantindo a tão importante neutralidade — conforme
vimos na seção anterior.

E
IMPORTANT

O objeto formal da Sociologia, portanto, para Durkheim, são os fatos sociais!

Ele define fato social no livro que indicamos anteriormente, logo em seu
início:

É um fato social toda a maneira de agir, fixa ou não, capaz de exercer


sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou ainda, que é geral no
conjunto de uma dada sociedade, tendo, ao mesmo tempo, uma
existência própria, independente das suas manifestações individuais
(DURKHEIM, s.d. apud MUSSE, 2006, p. 93).

É no fato social que Durkheim materializa, portanto, a exterioridade da vida


social no indivíduo, o condicionamento que este sofre em seus comportamentos,
reconhecendo a coerção da sociedade para com as ações individuais.

A tirinha a seguir (Figura 4) explica uma situação como esta, veja:

FIGURA 4 – TIRINHA: EXTERIORIDADE DA VIDA SOCIAL

Mãe, quero
fazer uma É para E tá todo
mecha verde expressar mundo
no cabelo. a minha fazendo!
Pra individualidade!
quê?!

FONTE: <https://blogdoenem.com.br/pensadores-sociologia-emile-durkheim/>. Acesso em:


20 set. 2018.

13
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Reconhecendo estas características próprias nos fatos sociais, sua


influência nas ações, pensamentos e sentimentos das pessoas, Durkheim defende a
necessidade de uma ciência que compreenda a ordem social a partir de um método
científico, que consiga chegar em suas leis específicas de funcionamento. Não
poderia ser o mesmo método da Psicologia, por exemplo, já que o entendimento
psicológico pode ser feito por meio da introspecção.

Da perspectiva do autor, a sociedade não é o resultado de um somatório


dos indivíduos vivos que a compõem ou de uma mera justaposição
de suas consciências. Ações e sentimentos particulares, ao serem
associados, combinados e fundidos, fazem nascer algo novo e exterior
àquelas consciências e às suas manifestações. E ainda que o todo só
se forme pelo agrupamento das partes, a associação “dá origem ao
nascimento de fenômenos que não provêm diretamente da natureza
dos elementos associados” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 62).

É em função desta definição que Durkheim distingue as consciências


individuais da consciência coletiva. A sociedade não é apenas a soma dos
indivíduos, mas sim uma síntese, um todo com forças que as particularidades não
apresentam. As formas de agir coletivas são diferentes das quais os indivíduos
utilizariam como referência se estivessem sozinhos.

Ainda para explicar com mais detalhes os fatos sociais:

Os fatos sociais podem ser menos consolidados, mais fluidos, são


as maneiras de agir. É o caso das correntes sociais, dos movimentos
coletivos, das correntes de opinião “que nos impelem com intensidade
desigual, segundo as épocas e os países, ao casamento, por exemplo,
ao suicídio, a uma natalidade mais ou menos forte etc.” Outros fatos
têm uma forma já cristalizada na sociedade, constituem suas maneiras
de ser: as regras jurídicas, morais, dogmas religiosos e sistemas
financeiros, o sentido das vias de comunicação, a maneira como
se constroem as casas, as vestimentas de um povo e suas inúmeras
formas de expressão. Eles são, por exemplo, os modos de circulação de
pessoas e de mercadorias, de comunicar-se, vestir-se, dançar, negociar,
rir, cantar, conversar etc., que vão sendo estabelecidos pelas sucessivas
gerações. Apesar de seu caráter ser mais ou menos cristalizado, tanto
as maneiras de ser quanto de agir são igualmente imperativas, coagem
os membros das sociedades a adotar determinadas condutas e formas
de sentir. Por encontrar-se fora dos indivíduos e possuir ascendência
sobre eles, consistem em uma realidade objetiva, são fatos sociais
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 63).

Da definição de fato social, Durkheim destaca três características que


nos auxiliam a compreender os mesmos: a exterioridade, a coercitividade e a
objetividade. Vamos pontuar cada uma delas:

• Exterioridade: as formas de agir sempre são determinadas pela sociedade, e


não pelo indivíduo, ou seja, são exteriores.

14
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

• Coercitividade: os fatos sociais exercem coerção sobre os indivíduos, ou seja,


são impostos a eles pela sociedade.
• Objetividade: a existência de formas de agir coletivas se dá independente do
indivíduo, ou seja, os fatos sociais existem, independentemente de quem forma
o grupo naquele momento.

Deste modo, podemos compreender o quanto o indivíduo é produto da


sociedade nas análises de Durkheim, sendo que esta deve ser a perspectiva de
análise para o entendimento dos comportamentos compartilhados, a ideia da
prevalência da sociedade com relação ao indivíduo.

Para explicar a exterioridade e objetividade dos fatos sociais, ele


argumenta que a internalização das formas de agir coletivas só ocorre por meio
de um processo educativo, ou seja, por meio de um processo de internalização.
A este processo damos o nome de socialização, outro conceito da Sociologia que
certamente permeará seus estudos futuros sobre Sociologia da Educação.

O processo educativo insere o indivíduo nas regras sociais, que ensinam


ao novo ser os comportamentos aceitos ou rejeitados, que, aos poucos, fazem
com que ele sinta, pense e interprete como seu grupo. “Com o tempo, as crianças
vão adquirindo os hábitos que lhes são ensinados e deixando de sentir-lhes a
coação, aprendem comportamentos e modos de sentir dos membros dos grupos
dos quais participam” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 63).

Esta internalização ocorre por meio do processo educativo e conforma


o indivíduo no pensamento do grupo, gerando representações coletivas e
representações individuais. A associação de ideias, percepções, sentimentos,
estados, como já dissemos, a “síntese”, faz com que existam representações que
são compartilhadas sobre o próprio grupo, sobre o mundo. Elas são expressas
em regras morais, padrões de beleza, lendas, mitos, religiões, entre outros. Estas
representações coletivas, também chamadas de consciência coletiva, são exemplos
de fatos sociais.

Eles são perceptíveis também no conjunto de valores dos grupos, pois


“eles também possuem uma realidade objetiva, independente do sentimento ou
da importância que alguém individualmente lhes dá; não necessitam expressar-
se por meio de uma pessoa em particular ou que esta esteja de acordo com eles”
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 64).

A coercitividade é trazida por Durkheim quando explica como os


fatos sociais exercem autoridade específica sobre os indivíduos, materializada
em diferentes obstáculos, impostos a quem realizar ações que contrariam as
convenções do grupo.

Como exemplo, podemos pensar em uma pessoa que tenta usar um


idioma diferente do local, uma moeda diferente, viola uma regra ou resiste a uma
lei. Ela sofre punições e/ou sanções, institucionalizadas no Estado, ou mesmo de
pessoas do próprio grupo.
15
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Ele tropeçará com os demais membros da sociedade que tentarão


impedi-lo, convencê-lo ou restringir sua ação, usarão de punições,
da censura, do riso, do opróbrio e de outras sanções, incluindo a
violência, advertindo-o de que está diante de algo que não depende
dele. Quando optamos pela não submissão, “as forças morais contra as
quais nos insurgimos reagem contra nós e é difícil, em virtude de sua
superioridade, que não sejamos vencidos. [...] estamos mergulhados
numa atmosfera de ideias e sentimentos coletivos que não podemos
modificar à vontade (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002,
p. 64).

A dificuldade de modificação de regras, a existência de sanções e punições


para quem avança de uma forma diferente do grupo, é o poder de coercitividade
dos fatos sociais sendo exercido. Durkheim reconhece que é possível que
haja modificações, mas para isso é necessário que os comportamentos sejam
combinados, que as ações de mudanças sejam também coletivas. Assim os fatos
sociais são reformados e podem sofrer modificações.

A ação transformadora é tanto mais difícil quanto maior o peso ou


a centralidade que a regra, a crença ou a prática social que se quer
modificar possuam para a coesão social. Enquanto nas sociedades
modernas, até mesmo os valores relativos à vida - o aborto, a
clonagem humana, a pena de morte ou a eutanásia - podem ser postos
em questão, em sociedades tradicionais, os inovadores enfrentam
maiores e às vezes insuperáveis resistências (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 65).

Os fatos sociais surgem a partir de causas externas, que vão se moldando


na interação dos grupos e dos indivíduos que compõem os grupos, adicionando a
esta interação as consciências individuais plurais, cuja síntese forma a consciência
coletiva.

Tura (2006) apresenta uma dimensão importante, destacada por Durkheim


acerca dos fatos sociais, os quais, muitas vezes, são ignorados por nossa própria
consciência individual. Ela explica:

Os fatos sociais são também coisas ignoradas, posto que, apesar


de estarmos convivendo com eles, os apreendemos a partir de
formas não metódicas, de uma penetração acrítica, de impressões
confusas. Para conhecê-los cientificamente é necessário que se utilize
criteriosamente o método científico e se vão realizando procedimentos
ligados à observação, à experimentação, à análise do tempo histórico
e social de constituição dos fenômenos sociais. Dessa forma, se está
intentando estudar como as coisas se dão no contexto de seu tempo
e espaço, marcado pelas crenças e valores de uma organização social
que determina formas de ver, sentir e pensar, que são forjadoras
de símbolos que se imbricam na consciência coletiva e produzem
representações coletivas (TURA, 2006, p. 37).

Antes de adentrarmos os métodos para estudo dos fatos sociais, vamos


ao autor para conhecer como este define fato social e apresenta o conceito em sua
obra, veja a leitura sugerida no Uni.

16
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

DICAS

A leitura complementar desta unidade apresenta o texto do próprio Durkheim,


extraído da obra As Regras do Método Sociológico, intitulado O que é fato social? Sugiro que
você faça esta leitura antes de prosseguir com os estudos deste tópico.

5 FUNCIONALISMO
Reconhecendo a superioridade da sociedade com relação ao indivíduo,
e que as ciências sociais deveriam buscar desenvolver um método similar aos
métodos das ciências da natureza, Durkheim se aproximou da biologia para
pensar uma possibilidade de método para a Sociologia. Com isto ele se aproxima
das ideias de Herbert Spencer, o qual afirmou que natureza e sociedade obedecem
à mesma lei geral: a lei da evolução (SELL, 2002).

Toda a explicação funcionalista não é uma criação de Durkheim, mas sim


fruto da influência que esta teoria possuía na biologia, reinterpretada por Spencer
a partir das obras evolucionistas de Charles Darwin. A ciência daquela época
estava influenciada pelas maneiras de pensar baseadas no Evolucionismo.

NOTA

O Evolucionismo é uma corrente de pensamento presente na Antropologia, que


entende a existência de uma unidade psíquica nos seres humanos, pelo aspecto cultural, e
que em função disso os grupos sociais possuiriam estágios de desenvolvimento socioculturais
pelos quais deveriam passar.

Definido, portanto, o fato social como objeto formal dos estudos


sociológicos, Durkheim debruçou-se sobre o método. Ele precisava definir como
ocorreria o estudo dos fatos sociais, como garantir a neutralidade científica que
almejava, e foi a partir destas reflexões que ele se aproximou de uma metodologia
funcionalista.

No estudo da vida social, uma das preocupações de Durkheim


era avaliar qual método permitiria fazê-lo de maneira científica,
superando as deficiências do senso comum. Conclui que ele deveria
assemelhar-se ao adotado pelas ciências naturais, mas nem por isso ser
o seu decalque, porque os fatos que a Sociologia examina pertencem ao
reino social e têm peculiaridades que os distinguem dos fenômenos da

17
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

natureza. Tal método deveria ser estritamente sociológico. Com base


nele, os cientistas sociais investigariam possíveis relações de causa
e efeito e regularidades com vistas à descoberta de leis e mesmo de
“regras de ação para o futuro”, observando fenômenos rigorosamente
definidos (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 65).

Segundo Durkheim, os fatos sociais não existem apenas sem razão de


ser, mas cumprem uma função dentro do sistema social. É preciso, portanto,
investigar não apenas as causas que os levam a serem produzidos, mas também
a função que desempenham. Explicar os fatos sociais seria, então, demonstrar a
função que estes exercem.

Para isso, seria preciso inicialmente pesquisar as causas que levaram


o fato social a surgir, ou seja, não buscar no futuro, e sim no passado, quais
motivos fizeram com que esta forma de agir coletiva existisse. As análises sobre
o surgimento da prática social deveriam vir seguidas de investigação sobre a sua
utilidade social. A função seria determinada pela análise da utilidade projetada
no fato social, ou seja, para quê exatamente servia esta prática social.

Esta seria a dinâmica de pesquisa que deveria ser aplicada pela sociologia
segundo Durkheim, e assim seria possível determinar a função exercida pelos
fatos sociais no grupo ao qual estava vinculado. Desta maneira, pensando as
funções, Durkheim compara a sociedade com um corpo, um organismo vivo.
Lakatos e Marconi definem:

O método funcionalista considera, de um lado, a sociedade como


uma estrutura complexa de grupos ou indivíduos, reunidos numa
trama de ações e reações sociais; de outro, como um sistema de
instituições correlacionadas entre si, agindo e reagindo umas em
relação às outras. Qualquer que seja o enfoque, fica claro que o
conceito de sociedade é visto como um todo em funcionamento, um
sistema em operação. E o papel das partes nesse todo é compreendido
como funções no complexo de estrutura e organização (LAKATOS;
MARCONI, 1990, p. 35).

Nos corpos, cada órgão cumpre uma função. Assim também seria na
sociedade, segundo ele, cada segmento cumprindo uma função. As partes
existiriam para cumprir funções essenciais para a existência do todo, reforçando
novamente a percepção de um todo predominando sobre as partes (SELL, 2002).

Sell (2002, p. 69) propõe um exercício listando as instituições sociais, para


você pensar quais são as funções sociais que cada uma exerce:

18
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

QUADRO 1 - EXEMPLOS DE INSTITUIÇÕES SOCIAIS

FAMÍLIA RELIGIÃO EMPRESA ESCOLA


EXÉRCITO LEIS GOVERNO LAZER
FONTE: Sell (2002, p. 69)

Determinando a função de cada instituição é possível explicar sua existência


e entender as formas de agir coletivas que cada uma determina, gerando fatos
sociais e entendendo sua contribuição para o bom funcionamento da sociedade.
A escola, por exemplo, cumpre a função de socialização dos indivíduos mais
jovens nas diretrizes e comportamentos já estabelecidos pelos mais velhos, além
de socializar o novo indivíduo com outros.

É na determinação da função social que estas instituições cumprem


que a metodologia funcionalista procura explicar sua existência, bem
como das nossas formas de agir, ou, como queria Durkheim, dos fatos
sociais. Esta é a essência da metodologia funcionalista, que apesar
das inovações e aprofundamentos posteriores, constitui até hoje seu
núcleo de ideias básicas (SELL, 2002, p. 69).

O método proposto por Durkheim para entender as funções das instituições


era baseado na comparação, entendendo diferentes modos de organização social
e tempos históricos diversos, e assim, buscando comparar suas diferenças e
regularidades. As combinações de fatos e causalidades, portanto, poderiam
auxiliar na determinação de causas e efeitos, traduzindo as funções.

Outro aspecto fundamental da teoria funcionalista durkheimiana era a


ideia de pensar não apenas no conceito de sociedade, mas sim de sociedades,
no plural. Isto porque a analogia feita era de que haveria diferentes formas de
sociedades, passíveis de classificações em espécies, assim como os vegetais e
animais podem ser classificados na biologia.

Seria possível, por meio do método comparativo, encontrar sociedades


que se aproximam e estabelecer tipologias. Utilizando a observação criteriosa
e a descrição minuciosa, poderiam ser observados tipos de família, tipos de
religião, tipos de educação, atuando com similaridades, mas em “espécies”
diferentes de sociedades. O foco, para tal, precisa ser direcionado à identificação
de homogeneidades e regularidades.

Da mesma maneira, seria possível identificar quando alguma função social


não está sendo cumprida corretamente pela instituição à qual está vinculada, e
identificar as chamadas patologias sociais. Uma patologia ocorreria, portanto, na
situação em que o órgão responsável estivesse com problemas para desempenhar
seu papel, dificultando a manutenção da harmonia de todo o sistema. Vejamos:

19
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Para explicar um fenômeno social, deve-se procurar a causa que o


produz e a função que desempenha. Procura-se a causa nos fatos
anteriores, sociais e não individuais; e a função, através da relação
que o fato mantém com algum fim social. Durkheim, ao estabelecer
as regras de distinção entre o normal e o patológico, propôs: um
fato social é normal, para um tipo social determinado, quando
considerado numa determinada fase de seu desenvolvimento, desde
que se apresente na média das sociedades da mesma categoria, e na
mesma fase de sua evolução. Esta regra estabelece uma norma de
relatividade e de objetividade na observação dos fatos sociais, como
foi ilustrado em sua obra sobre o suicídio. Demonstra, também, que
certos fenômenos sociais, tidos como patológicos, só o são à medida
que ultrapassam uma taxa dita "normal", em determinado momento,
em sociedades de mesmo nível ou estágio de evolução (LAKATOS;
MARCONI, 1990, p. 47).

As disfunções sociais são consideradas normais em todas as sociedades,


no entanto, o patológico é definido como uma função doente, que pode colocar
em risco a existência do grupo, a destruição. Seria necessário ao investigador
verificar, em cada espécie de sociedade, o que é patológico em seu contexto. Como
exemplo, é possível citar a criminalidade, sempre existente em grupos sociais,
mas que dependendo do tipo e das taxas, passa a ser uma patologia.

A sociologia, neste caso, teria um papel fundamental na medida em que


ela deveria identificar qual parte do corpo não está mais integrada ao todo em
pleno funcionamento, para que a sociedade pudesse ajustar o que fosse necessário,
restaurando seu equilíbrio.

Estas ideias, infelizmente, levaram a sociologia de Durkheim a uma


visão política profundamente conservadora. Como a sociedade era
comparada com um corpo, não fazia sentido transformá-la. Para a
sociologia, a única solução possível para os problemas era “preservar”
(conservar) a sociedade, assim como o médico deve preservar o corpo
dos pacientes. Se existe algum problema, não há como mudar todo
o conjunto da sociedade: a única solução possível seria restaurar o
funcionamento das partes ou mesmo eliminar o problema. A tradição
funcionalista, portanto, coloca toda ênfase no equilíbrio e na integração
social, e todas as formas de conflito ou de contestação são vistas como
desvios e anomalias que precisam ser eliminadas. Desta forma, os
movimentos que contestam a ordem vigente e buscam a mudança
não encontram respaldo nesta teoria, pois ela está comprometida com
a ordem vigente e com sua preservação. Trata-se, portanto, de um
projeto político conservador (SELL, 2002, p. 85).

Diante destas analogias com o método biológico, é possível identificar


o viés de pensamento estabelecido por Durkheim ao ser influenciado pelo
Funcionalismo. Mais adiante, sua forma de pensar passa a ser chamada de
Estrutural-funcionalismo, em distinção a outras correntes sociológicas que
utilizam a metodologia funcionalista para interpretação da ordem social.

20
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

Até aqui você viu os principais aspectos teóricos e metodológicos do


pensamento durkheimiano. Para fechar, sugiro um vídeo indicado no UNI
a seguir, e no próximo tópico você irá se aprofundar no estudo da Teoria da
Integração deste autor.

DICAS

Para finalizar este tópico, veja o vídeo Clássicos da Sociologia: Émile Durkheim,
disponível na plataforma Youtube, uma aula produzida pela Universidade Virtual do Estado de
São Paulo – UNIVESP, sobre Durkheim.
Você poderá acessá-lo em: <https://www.youtube.com/watch?v=SMaxxNEqk7U>.

21
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• A teoria sociológica de Durkheim e seu método foram desenvolvidos a partir


de influências positivistas.

• Ele buscou interpretar como a externalidade das regras impacta a vida


individual, buscando assim respostas para esta troca indivíduo X sociedade.

• É no conceito de fato social que Durkheim materializa a exterioridade da vida


social no indivíduo, reconhecendo a coerção da sociedade para com as ações
individuais.

• Os fatos sociais possuem como características: exterioridade, coercitividade e


objetividade.

• Reconhecendo que as ciências sociais deveriam buscar desenvolver um método


similar aos métodos das ciências da natureza, Durkheim se aproximou da
biologia para pensar uma possibilidade de método para a Sociologia.

• Os fatos sociais cumprem uma função dentro do sistema social. É preciso


investigar não apenas as causas que os levam a serem produzidos, mas também
a função que desempenham no sistema social.

22
AUTOATIVIDADE

1 A teoria sociológica de Durkheim é marcada pela observação das relações


entre indivíduo e sociedade, enfatizando a prevalência da sociedade diante
do indivíduo, manifesta em diferentes fatos sociais. Sobre as principais
influências sofridas por Durkheim para o desenvolvimento de seu
pensamento sociológico, analise as seguintes sentenças:

I- O Positivismo influenciou o pensamento de Durkheim quando este buscou


um método adequado para a análise social, a fim de torná-la científica.
II- A objetividade defendida pelo Positivismo aparece nas obras de Durkheim
quando ele afirma a determinação da sociedade no comportamento do
indivíduo.
III- A neutralidade científica defendida pelo Positivismo não seria possível nas
análises sociais, já que o pesquisador é também parte de seu objeto de estudos.
IV- O método adequado para a sociologia deveria ser buscado com base nos
métodos das ciências naturais, mais precisamente a química.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente a afirmativa IV está correta.
b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.
d) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.

2 É no desenvolvimento da noção de fato social que Durkheim materializa a


exterioridade da vida social no indivíduo, o condicionamento que este sofre
em seus comportamentos, reconhecendo a coerção da sociedade para com
as ações individuais. Sobre as características do fato social, associe os itens,
utilizando o código a seguir:

I- Exterioridade.
II- Coercitividade.
III- Objetividade.

( ) Os fatos sociais são impostos a ele pela sociedade.


( ) As formas de agir são determinadas pela sociedade e não pelos indivíduos.
( ) As formas de agir coletivas existem independentes do indivíduo.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) I - III - II.
b) ( ) II - I - III.
c) ( ) I - II - III.
d) ( ) III - I - II.

23
24
UNIDADE 1
TÓPICO 2

CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA
INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO
DA SOCIEDADE

1 INTRODUÇÃO
Agora que você já compreendeu como funciona a lógica do pensamento
durkheimiano, entendendo as influências positivistas e o funcionamento do
método funcionalista, além da centralidade do conceito de fato social em suas
análises sociais, é hora de nos debruçarmos sobre o estudo de algumas noções de
base de seu arcabouço conceitual.

Durkheim desenvolveu importantes conceitos a partir da busca de uma


explicação funcionalista para as dinâmicas sociais. Boa parte deste material ainda
é utilizado na Sociologia atualmente, muitas vezes reinterpretado por autores
contemporâneos.

Como já frisamos, sua obra é muito vasta, portanto, neste tópico você verá
um recorte dos principais conceitos para entender a lógica da teoria da integração
social a partir da visão de Durkheim. Para este autor, é determinante que o
sociólogo interprete a forma pela qual o indivíduo se integra em seus grupos
sociais para que se possa apreender o funcionamento da ordem social.

A teoria da integração passa pela divisão do trabalho social, uma parte,


muito famosa, do pensamento durkheimiano. Acreditamos que você já tenha lido
ou ouvido algo em seus estudos até aqui. Portanto, é hora de conhecer detalhes e
se aprofundar neste conjunto teórico! Para este caminhar, passaremos pela divisão
do trabalho social através dos conceitos de: solidariedade mecânica, consciência
coletiva, solidariedade orgânica e anomia. Boa leitura!

2 DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL


Considerado uma das primeiras grandes obras de Durkheim, o livro A divisão
social do trabalho, escrito em 1893, pode ser tido como uma análise sobre as relações
dos seres humanos com o trabalho, e o impacto deste na vida social dos grupos.
Para sermos mais específicos, ele busca compreender, dentro da lógica da sociedade
moderna, a função que é exercida pela chamada divisão social do trabalho.

25
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Ou seja, as ditas sociedades simples, primitivas, não possuíam a


centralidade de suas atividades no trabalho, ou, ao menos, este não era
determinante e relacionado diretamente com a forma de suas relações sociais.
Mas no caso das sociedades complexas, modernas, o trabalho torna-se o centro
gerador das demais relações, é sua forma que determina e influencia como os
integrantes de um grupo se relacionam naquele momento.

Por conta disso, para Durkheim, era essencial compreender a dinâmica


de funcionamento e a divisão das funções que ocorriam no mundo do trabalho,
pois estas se espalhavam para além deste espaço, inclusive gerando processos de
diferenciação social entre os sujeitos.

NOTA

Uma pausa na teoria para um destaque: você consegue imaginar o quanto este
raciocínio é importante para uma obra sociológica? Durkheim fez o movimento de relacionar
formas de diferenciação no trabalho com formas de diferenciação social, ou seja, buscando
compreender as trocas ocorridas no microcosmo (trabalho) que modificavam as formas de
existência do macrocosmo (sociedade). Não é à toa que esta obra é estudada até hoje, e que
auxilia a compreender as bases da teoria sociológica durkheimiana.

Voltando... Para entendermos como ele analisa a função desta divisão


social do trabalho, vamos precisar de dois conceitos: solidariedade orgânica e
solidariedade mecânica. Você já deve ter ouvido falar em ambos, digamos que
são famosíssimos conceitos cunhados por Durkheim. Não temos como estudar
seu pensamento e obras sem passar pela noção de solidariedade.

Antes de prosseguir, reflita sobre o significado de solidariedade. Um


deles, se formos buscar no dicionário, é: “Sentimento de amor ou compaixão
pelos necessitados ou injustiçados, que impele o indivíduo a prestar-lhes ajuda
moral ou material” (MICHAELIS, 2018, s.p.). Este é o significado mais comum
que utilizamos quando falamos de solidariedade. No entanto, na sociologia, não
estamos nos referindo a um sentimento quando falamos nesta palavra, e sim
uma situação social na qual existe compartilhamento de ações e pensamentos por
grupos sociais. Então lembre-se, quando falarmos de solidariedade a seguir, não é
sobre o sentimento com relação aos desfavorecidos, e sim sobre comportamentos
coletivos de grupos sociais, certo?

Neste sentido, podemos buscar no dicionário mencionado uma definição


sociológica: “Estado ou situação de um grupo que resulta do compartilhamento
de atitudes e sentimentos, tornando o grupo uma unidade mais coesa e sólida,
com a capacidade de resistir às pressões externas” (MICHAELIS, 2018, s.p.).

26
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Agora sim, temos uma definição relacionada com os estudos de Durkheim, que
pensava a solidariedade como o laço de coesão entre os grupos.

A seguir, vamos estudar individualmente a solidariedade mecânica


e a solidariedade orgânica, e voltaremos, depois, a analisar a divisão social
do trabalho, pois, para entendê-la, você precisa consolidar primeiro estes dois
conceitos. Prossigamos!

2.1 SOLIDARIEDADE MECÂNICA


Para Durkheim, uma forma de laço possível entre os indivíduos, e
que determina o nível de evolução social de um grupo e/ou sociedade, é a
solidariedade mecânica. Sempre que você pensar em solidariedade mecânica,
lembre-se de que ela está associada a outro conceito importante na obra dele, o
de consciência coletiva.

E
IMPORTANT

A existência da consciência coletiva no grupo permite o predomínio da


solidariedade mecânica como base para as relações sociais, procure fixar esta relação
conceitual em sua mente durante seus estudos. Um conceito é interdependente do outro
na obra de Durkheim.

A consciência coletiva é definida como: “um conjunto de crenças e


sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, que forma
um sistema determinado que tem vida própria” (DURKHEIM, s.d. apud SELL,
2002, p. 72). Veja que aqui aparece a externalidade do fenômeno, a determinação
de comportamentos compartilhados a partir de estruturas externas, marca da
teoria sociológica durkheimiana — como vimos no tópico anterior.

A vida em comum, cujo vínculo se dá a partir da solidariedade mecânica,


é baseada nesta externalidade do grupo com relação ao indivíduo. Pouco aparece
o individual nas relações, a dominação que gera a coesão social é de predomínio
do grupo.

Segundo Sell (2002), a explicação para que os indivíduos vivam em


sociedade é justamente o compartilhamento de uma cultura comum, carregada
de itens que, de certa maneira, obrigam o indivíduo a participar do grupo e a
partilhar a cultura, até mesmo por uma questão de sobrevivência. “Quando
Durkheim fazia estas análises, estava pensando em sociedades do tipo simples,
como são as sociedades indígenas, por exemplo, em que a inserção dos indivíduos
no grupo é fundamental para sua cultura” (SELL, 2002, p. 72).

27
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Vamos dar uma pausa na solidariedade mecânica para aprofundar o


conceito de consciência coletiva e, depois deste estudo detalhado, continuaremos
com o estudo da solidariedade. Respire e retome a concentração, para compreender
um conceito precisamos de outro!

2.1.1 Consciência Coletiva


Para que você entenda com clareza o conceito de consciência coletiva, pode
começar pensando no significado literal das palavras que compõem a expressão.
A consciência é algo de que se está consciente, algo que ativamos racionalmente
para responder com ações aos estímulos da nossa vida. E o coletivo é aquilo que é
compartilhado, reconhecido pelo grupo como de propriedade de seus integrantes.
Portanto, a consciência coletiva são respostas racionais do grupo aos estímulos, e
respostas compartilhadas — repetidas e reforçadas por todo o grupo.

Segundo o autor, possuímos duas consciências: “Uma é comum com


todo o nosso grupo e, por conseguinte, não representa a nós mesmos,
mas a sociedade agindo e vivendo em nós. A outra, ao contrário, só
nos representa no que temos de pessoal e distinto, nisso é que faz de
nós um indivíduo.” Em outras palavras, existem em nós dois seres:
um, individual, “constituído de todos os estados mentais que não
se relacionam senão conosco mesmo e com os acontecimentos de
nossa vida pessoal”, e outro que revela em nós a mais alta realidade,
“um sistema de ideias, sentimentos e de hábitos que exprimem em
nós [...] o grupo ou os grupos diferentes de que fazemos parte; tais
são as crenças religiosas, as crenças e as práticas morais, as tradições
nacionais ou profissionais, as opiniões coletivas de toda espécie
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 70).

Conforme o indivíduo se envolve com sua vida social, cada vez mais
deixa sua individualidade ao largo para se comportar de acordo com os
preceitos defendidos pelo grupo. A educação, neste contexto, possui obrigações
de integração, moralizadoras, na medida em que irá instituir no indivíduo as
diretrizes morais do grupo, e, por meio desta ação, desenvolver a consciência
grupal no sujeito egoísta.

O conjunto de crenças e sentimentos compartilhados pelo grupo a


partir da consciência coletiva produz ideias, imagens, representações, que são
manifestadas de formas diferentes pelos sujeitos, mas cuja realidade própria
sempre está presente. A dimensão que será ocupada na consciência total das
pessoas é variada, de acordo com os dispositivos mobilizados pelo grupo para
que esta consciência se manifeste.

A coesão entre o grupo é determinada pela extensão da consciência


coletiva: quanto mais extensa a consciência, maior é a coesão. Vejamos:

28
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

A consciência comum recobre “áreas” de distintas dimensões na


consciência total das pessoas, o que depende de que seja ou segmentar
ou organizado o tipo de sociedade na qual aquelas se inserem.
Quanto mais extensa é a consciência coletiva, mais a coesão entre os
participantes da sociedade examinada refere-se a uma “conformidade
de todas as consciências particulares a um tipo comum”, o que faz
com que todas se assemelhem e, por isso, os membros do grupo
sintam-se atraídos pelas similitudes uns com os outros, ao mesmo
tempo que a sua individualidade é menor (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 71).

Durkheim também reconhece que, mesmo com um elevado grau de coesão,


e uma consciência coletiva consolidada, é possível que haja ações de rebelião por
parte dos sujeitos. Nem todos possuem a moral do grupo tão inculcada pelo
coletivo a ponto de sempre optarem pelas ações coletivas em detrimento das
individuais.

Isto quer dizer, o teórico reconhece que uma uniformidade total não é
possível, que existem as faltas morais ou mesmo os crimes — divergências entre
o indivíduo e as estruturas determinadas pelo coletivo. Quando a originalidade
individual se impõe com relação ao coletivo é como se esta pessoa estivesse
realizando um delito, deixando de seguir a moral coletiva, sendo tomada como
alguém que comete erros.

É aí que entra a ausência ou fraqueza da divisão do trabalho. Quando


a consciência individual é tão reduzida e fraca (afinal, só conhecemos parte do
todo, só compreendemos como funciona a nossa parte nesta divisão de trabalhos),
facilmente, a consciência total domina as decisões racionais sobre a vida individual.
Afinal, se não conhecemos o todo, é mais fácil nos guiarmos pelo comportamento
que todos estão tendo, do que nos rebelarmos e tomarmos decisões diferentes —
já que não temos referência do que pode ser um comportamento diferente.

Barbosa, Oliveira e Quintaneiro destacam um trecho da obra de Durkheim


para ilustrar:

Quanto mais o meio social se amplia, menos o desenvolvimento


das divergências privadas é contido. Mas, entre as divergências,
existem aquelas que são específicas de cada indivíduo, de cada
membro da família, elas mesmas tornam-se sempre mais numerosas
e mais importantes à medida que o campo das relações sociais se
torna mais vasto. Ali, então, onde elas encontram uma resistência
débil, é inevitável que elas provenham de fora, se acentuem, se
consolidem, e como elas são o âmago da personalidade individual,
esta vai necessariamente se desenvolver. Cada qual, com o passar
do tempo, assume mais sua fisionomia própria, sua maneira pessoal
de sentir e pensar (DURKHEIM, 1921 apud BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 71).

A individualidade gera uma interdependência entre os indivíduos,


na medida em que para sobreviver no organismo o individual precisa existir,

29
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

também precisa se moldar ao coletivo, gerando uma interdependência entre as


partes. Isso fortalece ainda mais a coesão social.

No entanto, mesmo com esta interdependência, as sociedades, cujo laço


social desenvolve-se com base na consciência coletiva do indivíduo, vão sendo
gradativamente moldadas à imagem e semelhança do grupo. Exemplo:

São sociedades que podem ser chamadas de clãs, segmentos que


executam funções semelhantes e processos similares na vida social,
todos caçadores, ou todos agricultores, e papéis sociais são cumpridos
de forma semelhante. O cimento que une esses organismos individuais
a esse corpo coletivo, como as células em um tecido, é a solidariedade
mecânica, por repetição (VERAS, 2014, p. 20).

A consciência coletiva gera um tipo psíquico nos indivíduos, eles passam,


e ela permanece. As agressões, as rebeliões contra isso são consideradas crimes, já
que ferem, de alguma maneira, aquilo que é coletivo e reconhecido como legítimo
por todos.

ATENCAO

Você percebeu como utilizamos, com certa frequência, a analogia do organismo


quando estamos tratando das teorias e obras de Durkheim? Isto é fruto da forma como ele
pensou a sociedade, baseada no organicismo, que vimos no tópico anterior. Se você ficou
com dúvidas sobre este tema, releia o conteúdo sobre o organicismo em Durkheim, pois ele
é essencial para que você compreenda a forma de pensar deste autor.

Vamos conhecer um pouco mais sobre a consciência coletiva nas palavras


do próprio autor, Durkheim:

O conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos


membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado
que tem vida própria: pode-se chamá-lo de consciência coletiva ou
comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um único órgão;
ela é, por definição, difusa em toda a extensão da sociedade; mas
possui caracteres específicos que a tornam uma realidade distinta.
Com efeito, ela independe das condições particulares em que se
encontram os indivíduos; estes passam e ela permanece. É a mesma
no Norte e no Sul, nas grandes e nas pequenas cidades, nas mais
diferentes profissões. Da mesma forma, não muda a cada geração,
mas ao contrário, enlaça umas às outras as gerações sucessivas.
Ela é, portanto, algo inteiramente diferente das consciências
particulares, ainda que não se realize senão nos indivíduos. Ela forma
o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas propriedades, suas
condições de existência, seu modo de desenvolvimento, tal como os

30
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

tipos individuais, ainda que de uma outra maneira. Assim sendo,


tem o direito de ser designada por um termo especial. Aquele que
empregamos acima não está isento por certo de ambiguidades. Como
os termos coletivo e social são muitas vezes confundidos um com o
outro, é-se levado a crer que a consciência coletiva é toda a consciência
social, ou seja, estende-se tanto quanto a vida psíquica da sociedade,
enquanto, sobretudo nas sociedades superiores, só ocupa uma parte
muito restrita. As funções judiciárias, governamentais, científicas,
industriais, em uma palavra, todas as funções especiais são de ordem
psíquica, posto que constituem sistemas de representação e de ações:
entretanto estão evidentemente fora da consciência comum. Para
evitar a confusão que se tem cometido, talvez fosse melhor criar
uma expressão técnica que designasse especialmente o conjunto de
similitudes sociais. Não obstante, como o emprego de um termo novo,
quando não é absolutamente necessário, tem seus inconvenientes,
reservamos a expressão mais usada de consciência coletiva ou comum,
mas relembrando sempre o sentido restrito em que a empregamos.
Podemos, pois, resumindo a análise precedente, dizer que um ato é
criminoso quando ofende as condições consolidadas e definidas da
consciência coletiva.
[...]
Existem em nós duas consciências: uma contém os estados que são
pessoais a cada um de nós e que nos caracterizam, enquanto os estados
que abrangem a outra são comuns a toda a sociedade. A primeira só
representa nossa personalidade individual e a constitui; a segunda
representa o tipo coletivo e, por conseguinte, a sociedade sem a qual
não existiria. Quando um dos elementos desta última é que determina
nossa conduta, não é em vista do interesse pessoal que agimos, mas
perseguimos fins coletivos. Ora, ainda que distintas, essas duas
consciências são ligadas uma à outra, pois que, em suma, elas formam
uma só, não havendo para ambas mais que um só e único substrato
orgânico. (DURKHEIM, s.d. apud MUSSE, 2007, p. 66–69).

Após o estudo detalhado sobre a consciência coletiva, voltemos à


solidariedade mecânica. Você já sabe que ela é produzida a partir da existência
desta consciência de grupo, que se sobrepõe ao indivíduo em suas escolhas e ações.

A solidariedade é chamada mecânica quando “liga diretamente o


indivíduo à sociedade, sem nenhum intermediário”, constituindo-se
de “um conjunto mais ou menos organizado de crenças e sentimentos
comuns a todos os membros do grupo: é o chamado tipo coletivo”.
Isso significa que não encontramos ali aquelas características que
diferenciam tão nitidamente uns dos outros os membros de uma
sociedade, a ponto de podermos chamá-los de indivíduos (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 72).

Nos grupos em que a solidariedade mecânica predomina, os indivíduos são


pouco desiguais entre si, o que dificulta a consolidação de uma individualidade.
A solidariedade acontece, portanto, em função das similitudes compartilhadas,
do coletivo que predomina a partir da identificação com os pares. Nestes grupos,
mesmo a propriedade de bens muitas vezes não é individual, apenas coletiva,
e não existem mestres ou dominadores que guiem o grupo — as decisões e
orientações também são compartilhadas a partir do conjunto de ideias comum.

31
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

A parcela de responsabilidade que a solidariedade mecânica tem na


integração social depende da extensão da vida social que ela abrange
e que é regulamentada pela consciência comum. O estabelecimento de
um poder absoluto - ou seja, a existência de um chefe situado “muito
acima do resto dos homens”, que encarna a extraordinária autoridade
emanada da consciência comum -, embora já seja uma primeira
divisão do trabalho no seio das sociedades primitivas, não muda
ainda a natureza de sua solidariedade, porque o chefe não faz mais do
que unir os membros à imagem do grupo que ele próprio representa.
Esse tipo de sociedade, na qual a coesão resulta “exclusivamente das
semelhanças, compõe-se de uma massa absolutamente homogênea,
cujas partes não se distinguiriam umas das outras”, é um agregado
informe: a horda, um tipo de sociedade simples ou não organizada
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 73).

As hordas, que as autoras mencionam na citação em conjunto, formam


os clãs. São sociedades baseadas nos laços de solidariedade mecânica, onde os
agregados homogêneos predominam.

A dissolução das sociedades segmentares é concomitante à formação


de sociedades parciais no seio da sociedade global. Nesse processo,
dá-se uma aproximação entre os membros que a formam, “a vida
social generaliza-se em lugar de concentrar-se numa quantidade
de pequenos lares distintos e semelhantes”, reduzem-se os “vácuos
morais” que separavam as pessoas e, com isso, as relações sociais
tornam-se mais numerosas e se estendem. Esse é o resultado de um
aumento da densidade moral e dinâmica. Com a intensificação das
relações sociais, os participantes dessas sociedades passam a estar
em contato suficiente entre si, e desse modo reagem aos demais
desde o ponto de vista moral, e “não apenas trocam serviços ou
fazem concorrência uns aos outros, mas vivem uma vida comum”
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 73).

As sociedades segmentadas que Durkheim analisa são as tradicionais,


formadas por segmentos homogêneos e similares, sem relações entre si. “Uma
sociedade segmentada é aquela onde os grupos sociais (como aldeias, por
exemplo) vivem isolados, com um sistema social que tem vida própria” (SELL,
2002, p. 73).

Neste caso o crescimento do grupo não diferencia funções, apenas cria


grupos com a mesma dinâmica anterior, um novo segmento, mas com as mesmas
características. Os povos indígenas, quando avançam de território, por exemplo,
formam novas aldeias, mas não complexificam seu sistema social. Para ilustrar,
veja Figura 5:

32
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

FIGURA 5 – SOCIEDADE COM PREDOMÍNIO DA SOLIDARIEDADE MECÂNICA

FONTE: <http://www.eletronorte.gov.br/opencms/opencms/pilares/meioAmbiente/
programasIndigenas/waimiri/subprogramaApoioProducao.html>. Acesso em: 10 set. 2018.

Agora, conforme a densidade material e humana dos grupos cresce,


havendo a multiplicação das relações sociais que cobrem os vazios sociais entre
os segmentos do grupo e surgindo a necessidade da divisão social do trabalho,
fomenta-se o surgimento de outro tipo de solidariedade, outra forma de laço
social: a solidariedade orgânica.

Mas antes de estudar o próximo conceito, queremos apresentar como


Durkheim visualizou a solidariedade mecânica do ponto de vista da análise
sociológica: analisando os aspectos jurídicos, ou seja, o direito.

Para ele, as normas jurídicas são um dos meios pelos quais a sociedade
materializa suas convicções morais, um dos elementos da consciência coletiva
(SELL, 2002). A organização das normas jurídicas materializa a forma de direito
que existe na sociedade, predominando o direito repressivo, no caso da existência
de solidariedade mecânica, e o direito restitutivo, no caso da solidariedade
orgânica. O primeiro é baseado em punição, e o segundo, em restabelecer a
ordem das coisas.

A partir disso, Durkheim analisa a existência e a pressão da consciência


coletiva sobre as pessoas, já que no predomínio da solidariedade mecânica, os atos
criminosos devem ser punidos, pois representam um perigo para a coesão social
(SELL, 2002). As transgressões não são permitidas e a punição existe para mostrar
aos demais os custos do distanciamento da moral coletiva. Este direito repressivo,
portanto, denota a existência da forte consciência coletiva na sociedade.

Agora sim, após esta visualização da análise sociológica da existência


da consciência coletiva, pela forma do direito, presente no grupo, podemos
prosseguir e estudar como se dá a evolução para uma nova forma de laço social:
a solidariedade orgânica.

33
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

2.2 SOLIDARIEDADE ORGÂNICA


Como vimos há pouco, é com o crescimento quantitativo, material e
moral que as sociedades iniciam um processo de especialização das funções, ou
como chama Durkheim: divisão social do trabalho. Esta nova densidade gera a
necessidade de novas formas de laço social, ou seja, uma integração social na
qual os indivíduos passam a depender uns dos outros, já que suas funções são
especializadas.

Esta dependência mútua é gerada porque a individualidade pressupõe


especialização quando se fala de divisão social do trabalho, por exemplo, se um
indivíduo é especialista apenas em uma dimensão, precisaria dos outros para a
própria sobrevivência, já que cada um é especializado em dimensões diferentes.
Para funcionarmos, precisamos de todos.

Ainda sobre esta dependência:

Onde existe uma divisão do trabalho desenvolvida, a sociedade não


tem como regulamentar todas as funções que engendra e, portanto,
deixa descoberta uma parcela da consciência individual: a esfera de
ação própria de cada um dos membros. À medida que a comunidade
ocupa um lugar menor, abre-se espaço para o desenvolvimento das
dessemelhanças, da individualidade, da personalidade autônoma
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 71).

Podemos visualizar a solidariedade orgânica na sociedade moderna,


na medida em que esta dependência fica evidente, afinal, cada indivíduo
exerce funções vitais, bem específicas, para o funcionamento do organismo —
dependendo umas das outras para que sejam executadas com sucesso.

Exemplo: um funcionário de uma fábrica de roupas só irá produzir


se receber seus tecidos, que por sua vez precisam ser transformados por
funcionários que os desenvolvem a partir do algodão, e que por sua vez precisa ser
transportado até à fábrica. Este transporte também exige pessoas envolvidas, que
receberão o algodão de produtores rurais, responsáveis pelo plantio e colheita.
Todos interdependentes entre si, se uma função falha, o organismo todo sofrerá
consequências.

Mas não é apenas ao setor econômico que Durkheim se refere quando


fala de especialização das funções e de divisão social do trabalho. Ele visualiza
este fenômeno em outras dimensões sociais, como na vida política, na cultura,
educação, arte etc. Para além das funções econômicas, todas estas outras
esferas vão se especializando cada vez mais e gerando uma dinâmica própria
de funcionamento, se diferenciando a partir da diversidade de suas atividades
(SELL, 2002).

34
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

E
IMPORTANT

Observe: não é porque a forma de laço social modifica-se a partir da especialização


das funções que não existe mais solidariedade. Segundo as análises de Durkheim, ela apenas
se modifica e gera uma nova forma de solidariedade, a orgânica. É diferente, mas segue
sendo uma forma de integração social.

Esta nova forma de integração institui-se justamente porque, diferente da


solidariedade mecânica em que a consciência coletiva predomina, a solidariedade
orgânica é gerada a partir do espaço para as esferas próprias de ação. Com esta esfera
específica, gera-se a interdependência mútua mencionada no início desta seção.

A originalidade da explicação durkheimiana está em demonstrar que,


longe de ser um entrave, este processo representa um novo mecanismo
de integração social. É a própria especialização das funções e das
pessoas que gera a solidariedade social, já que os indivíduos passam a
ser interdependentes das atividades desenvolvidas em outros setores
da vida social (SELL, 2002, p. 75).

A divisão social do trabalho integra o grupo, organiza a sociedade, que


necessita disso para sua coesão, em função do seu nível de complexidade. Quanto
mais complexa, maior a divisão e especialização de tarefas para que esta coesão
seja mantida, e a solidariedade gerada entre os membros.

E, novamente, vemos aqui a analogia de Durkheim com os órgãos, seu


vínculo com as perspectivas organicistas, quando ele afirma que é nesta situação
onde podemos visualizar que cada órgão tem um papel separado, especializado,
uma função definida no organismo. A unidade do corpo social funciona a partir
do desempenho de funções individuais.

As afinidades das pessoas, e de suas funções, as aproximam, e segundo


ele, as sociedades evoluirão para um momento em que as organizações sociais e
políticas terão como bases as diferenciações profissionais. Esta interdependência,
portanto, geraria noções coletivas, comportamentos compartilhados. Em outras
palavras:

Daí deriva a ideia de que a individuação é um processo intimamente


ligado ao desenvolvimento da divisão do trabalho social e a uma
classe de consciência que gradativamente ocupa o lugar da consciência
comum e que só ocorre quando os membros das sociedades se
diferenciam. E é esse mesmo processo que os torna interdependentes.
Segundo Durkheim, somente existem indivíduos no sentido moderno
da expressão quando se vive numa sociedade altamente diferenciada,
ou seja, onde a divisão do trabalho está presente, e na qual a consciência
coletiva ocupa um espaço já muito reduzido em face da consciência
individual (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 74).

35
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

É importante que você observe, nas suas leituras de Durkheim, que a


divisão social do trabalho não exerce apenas funções econômicas, mas antes de
tudo, função moral. Se na solidariedade mecânica a consciência coletiva mantinha
o conjunto moral a salvo de transgressões e impunha ao indivíduo este conjunto
de princípios, na solidariedade orgânica esta consciência se enfraquece.

Este enfraquecimento gera duas consequências (SELL, 2002):

• Uma maior autonomia dos indivíduos, pois não dependem somente da


consciência coletiva, podem ter ideias diferenciadas ou agirem de formas
diferentes, distinguindo-se do corpo social a partir do espaço ocupado por sua
individualidade, buscando aumentar suas ações em relação ao mundo social.
• O enfraquecimento da consciência coletiva pode gerar um excesso de egoísmo,
colocando os indivíduos em choque e comprometendo o bom funcionamento
do organismo social. Neste caso teríamos a divisão anômica do trabalho, um
problema da sociedade moderna, e que iremos estudar na próxima seção.

FIGURA 6 – SOCIEDADE COM PREDOMÍNIO DA SOLIDARIEDADE ORGÂNICA

FONTE: <https://sites.google.com/site/alltoclock/home/portugues/importancia-na-sociedade>.
Acesso em: 10 set. 2018.

Para fechar, voltamos ao estudo das palavras do autor:

Inteiramente diferente é a estrutura das sociedades em que a


solidariedade orgânica é preponderante.
Elas são constituídas não por uma repetição de segmentos similares e
homogêneos, mas sim por um sistema de órgãos diferentes, cada um
dos quais com um papel especial e formado de partes diferenciadas.

36
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Os elementos sociais não são da mesma natureza, ao mesmo tempo


que não se acham dispostos da mesma maneira. Eles não se acham
justapostos linearmente como os elos de uma cadeia, nem encaixados
uns nos outros, mas sim coordenados e subordinados uns aos outros,
em torno de um mesmo órgão central que exerce uma ação moderadora
sobre o resto do organismo. Este órgão, por sua vez, não tem o mesmo
caráter que no caso precedente; porque se os outros dependem dele,
ele, por sua vez, depende dos outros. Há sem dúvida uma situação
particular e, se quisermos, privilegiada, mas ela decorre da natureza
do papel que desempenha e não de qualquer coisa estranha às suas
funções e de qualquer força transmitida do exterior. Nada mais tem
que não seja temporal e humano; entre ele e os outros órgãos só há
diferença de grau. Assim é que, entre os animais, a preeminência do
sistema nervoso sobre os outros sistemas se reduz ao direito, se é
que se pode falar assim, de receber uma alimentação mais escolhida
e pegar sua parte antes dos demais; mas ele precisa dos outros, da
mesma forma que os outros precisam dele.
Esse tipo social se assenta em princípios tão diversos do precedente
que só se pode desenvolver na medida em que este desapareça. Com
efeito, os indivíduos estão agrupados não mais segundo suas relações
de descendência, mas segundo a natureza particular da atividade
social a que se consagram. O meio natural e necessário não é mais o
meio natal, mas o meio profissional. Não é mais a consanguinidade,
real ou fictícia, que marca o lugar de cada indivíduo, mas a função que
ele desempenha. Sem dúvida, quando essa nova organização começa
a aparecer, tenta utilizar e se assimilar à já existente. A maneira em que
as funções se dividem, se modela, pois, tão fielmente quanto possível,
sob o modo pelo qual a sociedade já está dividida. Os segmentos ou
pelo menos os grupos de segmentos unidos por afinidades especiais
tornam-se órgãos. Assim é que o clã, cujo conjunto forma a tribo dos
levitas, se apropria, entre os hebreus, das funções sacerdotais. De
maneira geral, as classes e as castas não têm provavelmente outra
origem nem outra natureza: elas resultam da mistura da organização
profissional nascente com a organização familiar preexistente. Mas
este arranjo misto não pode durar muito tempo, pois entre os dois
termos que ele pretende conciliar existe um antagonismo que acaba
necessariamente por explodir. Não há qualquer divisão do trabalho,
por mais rudimentar que seja, que se possa adaptar a esses moldes
rígidos, definidos, e que não são feitos para ela. Ela só pode crescer ao
se libertar desse quadro que a encerra. Desde que atinja um certo grau
de desenvolvimento, desaparece a relação entre o número invariável
de segmentos e aquelas crescentes funções que se especializam, bem
como entre as propriedades hereditariamente fixadas dos primeiros e
a novas aptidões que as segundas exigem. É preciso pois que a matéria
social entre em combinações inteiramente novas para se organizar
sobre outras bases. Ora, a antiga estrutura, enquanto persiste, opõe-se
a isso; eis porque ela deve necessariamente desaparecer (DURKHEIM,
s.p. apud MUSSE, 2007, p. 55–57).

37
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

DICAS

Para estudar os conceitos principais da obra de Durkheim,


mais especificamente, fato social e divisão do trabalho,
sugerimos o livro comentado pelo professor Ricardo
Musse, vinculado ao Departamento de Sociologia da
Universidade de São Paulo. A obra é: Émile Durkhein:
Fato social e divisão do trabalho, comentado por
Ricardo Musse. Publicado pela Editora Ática em 2007, na
coleção Ensaios Comentados.

FONTE:<http://lelivros.love/book/baixar-livro-fato-
social-e-divisao-do-trabalho-emile-durkheim-em-pdf-
epub-mobi-ou-ler-online/>. Acesso em: 16 jan. 2019.

Voltando à Divisão do Trabalho Social...

Agora que você já conhece as definições de Durkheim para solidariedade


mecânica e orgânica, pode perceber que ele observa um processo evolutivo
que envolve ambas. A sociedade, portanto, evoluiria de relações pautadas na
solidariedade mecânica, para relações pautadas na solidariedade orgânica. O
estágio evolutivo final, portanto, estaria ocorrendo quando os laços sociais se
pautassem na divisão social do trabalho.

O autor Sell apresenta um esquema para auxiliar na interpretação destes


dois tipos de sociedade:

QUADRO 2 – CARACTERÍSTICAS TIPOS DE SOLIDARIEDADE

Solidariedade Mecânica Solidariedade Orgânica


Laço de solidariedade Consciência coletiva Divisão social do trabalho
Organização Social Sociedades segmentadas Sociedades diferenciadas
Tipo de direito Direito repressivo Direito restitutivo
Fonte: Sell (2002, p. 71)

38
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Perceba que o desenvolvimento do tipo de solidariedade que irá


predominar na evolução de um grupo social, para Durkheim, está relacionado
com o laço de solidariedade, que pode ser entendido como o mecanismo que
gera esta solidariedade: a consciência coletiva ou a divisão social do trabalho
(SELL, 2002). Ambas são tão importantes porque são estratégias de integração
dos indivíduos nos grupos sociais e nas instituições sociais.

Chegamos, portanto, ao título deste tópico: a Teoria da Integração.


Explicar a integração social a partir da obra e raciocínio de Durkheim é utilizar
como base a Divisão Social do Trabalho, e sua respectiva relação com as formas
de solidariedade dos grupos.

O predomínio de formas de integração mecânicas ou orgânicas está


diretamente relacionado à organização dos indivíduos nestes grupos, e ao
posicionamento na evolução social identificado por Durkheim. Para ele, a
modernidade é explicada a partir desta polarização, inclusive (SELL, 2002).

Agora, para consolidar a importância que a Divisão Social do Trabalho


possui na obra de Durkheim, vamos conhecer um texto do próprio autor, para
que além da interpretação realizada por outros autores, você possa refletir a
partir de suas próprias palavras. O texto a seguir é a tradução de um trecho no
qual Durkheim busca pensar acerca do papel da divisão do trabalho, a fim de
compreender se a solidariedade social realmente deriva dela.

Não temos apenas que verificar se, em certos tipos de sociedade existe
uma solidariedade social que decorra da divisão do trabalho. Esta é
uma verdade evidente, visto que, se a divisão do trabalho é muito
desenvolvida, ela produz a solidariedade. Mas é preciso sobretudo
determinar em que medida a solidariedade por ela produzida
contribuiu para a integração geral da sociedade: somente então
saberemos até que ponto ela é necessária, se é um fator essencial da
coesão social ou, ao contrário, se não passa de uma condição acessória
e secundária. Para responder a essa questão é preciso, pois, comparar
essa relação social com outras a fim de medir a parte que lhe cabe no
cômputo total – e para isso é indispensável começar por classificar os
diferentes tipos de solidariedade social.
Mas a solidariedade social é um fenômeno sobretudo moral que,
por si mesmo, não se presta à observação exata e principalmente a
uma medição. Para proceder tanto a essa classificação como a essa
comparação, é preciso substituir ao fato interno que nos escapa, o fato
exterior que o simboliza, e estudar o primeiro através do segundo.
Esse símbolo visível é o direito. Com efeito, onde existe solidariedade
social, apesar do seu caráter imaterial, ela não permanece no seu
estado puro, mas manifesta sua presença pelos seus efeitos sensíveis.
Quando ela é forte, aproxima os homens uns dos outros, coloca-
os frequentemente em contato, multiplica as oportunidades de seu
relacionamento. Para ser mais exato, no ponto a que chegamos, é
errôneo dizer que ela é produto desses fenômenos, ou, ao contrário,
que ela é forte, ou antes, se ela é forte porque eles estão próximos uns
dos outros. Mas não é necessário no momento elucidar a questão.

39
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Basta constatar que essas duas ordens de fatos estão ligadas e variam
ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Quanto mais solidários sejam
os membros de uma sociedade, mais eles mantêm relações diversas,
seja se os seus contatos fossem raros, eles não dependeriam uns dos
outros, senão de maneira frágil e intermitente. Por outro lado, o
número dessas relações é necessariamente proporcional àquele das
regras jurídicas que o determina. Com efeito, a vida social, sempre
que exista de maneira durável, tende inevitavelmente a assumir uma
forma definida e a se organizar. E o direito não é outra coisa senão
essa própria organização, naquilo que ela tem de mais estável e mais
preciso. A vida geral da sociedade não pode se desenvolver num certo
ponto sem que a vida jurídica se desenvolva ao mesmo tempo e no
mesmo sentido. Podemos, portanto, estar seguros de ver refletidas no
direito todas as variedades essenciais da solidariedade social.
Poder-se-ia, é certo, objetar que as relações sociais podem se estabelecer
sem assumir por isso uma forma jurídica. É que a regulamentação não
atinge esse grau de consolidação e de precisão: elas não permanecer
indeterminadas por esse motivo, mas, ao invés de serem reguladas
pelo direito, o são pelos costumes. O direito só reflete uma parte
da vida social e, consequentemente, não nos fornece senão dados
incompletos para resolver o problema.
[...]
Será que poderíamos ir mais longe e sustentar que a solidariedade
social não se encontra inteiramente nas suas manifestações sensíveis;
que estas não a exprimem mesmo que parcial e imperfeitamente;
que, por trás do direito e dos costumes existe um estado interno de
onde ela se deriva e que, para conhecê-la verdadeiramente é preciso
penetrá-la diretamente e sem intermediários? – Mas não podemos
conhecer cientificamente as causas senão pelos efeitos que produzem
e, para melhor determinar-lhe a natureza, a ciência nada mais faz que
escolher entre esses resultados e aqueles que sejam os mais objetivos e
que se prestam melhor para medi-la.
[...]
O estudo da solidariedade pertence pois à Sociologia. É um fato social
que só se pode conhecer por meio de seus efeitos sociais. Se tantos
moralistas e psicólogos puderam tratar a questão sem seguir esse
método é porque eles contornaram a dificuldade. Eles eliminaram
do fenômeno tudo que ele tem de mais especificamente social, para
reter apenas o germe psicológico de que ele é o desenvolvimento.
É certo, com efeito, que a solidariedade, sendo um fato social de
primeira categoria, depende do nosso organismo individual. Para que
ela possa existir, é preciso que a nossa constituição física e psíquica
a comporte. Pode-se, pois, a rigor, contentar-se em estudá-la apenas
sob este aspecto. Mas, nesse caso, só se vê a parte mais indistinta e
menos especial; não é dela que se deve tratar, mas antes, do que a
torna possível (DURKHEIM; MUSSE, 2007, p. 66–69).

40
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

DICAS

Em seus estudos sobre Teoria Sociológica, é essencial que você


procure ler as obras originais dos autores em estudo, e não apenas
interpretações realizadas por outros autores. Para os conceitos de
divisão do trabalho, solidariedade, entre outros, procure a obra:
Da Divisão do Trabalho Social, de Émile Durkheim, publicada pela
Editora Martins Fontes, em diferentes edições/anos.

FONTE:<https://cienciassociais2016.wordpress.com/2016/09/22/
resenha-critica-divisao-social-do-trabalho-emile-durkheim-
conclusao/>. Acesso em: 16 jan. 2019.

Pelo texto é possível perceber a relação que Durkheim estabelece entre


as formas de solidariedade e o direito vivenciado pelas organizações sociais,
conforme indicado na tabela de Sell (2002), anteriormente apresentada (Quadro
2). Sendo assim, evoluem juntos: tipo de solidariedade, organização social e
forma de direito.

O direito foi fundamental para as análises do autor, conforme explica


Veras:

O exame partiu de dados que considerou observáveis, externos


e passíveis de constatações e interpretações: o crime que cada
sociedade considera, as penas aplicadas e, em última análise, o direito
que ostenta. O direito foi tido como manifestação da consciência
coletiva, o substrato comum, a alma difusa de cada sociedade. O fato
jurídico e, pois, um fato social, é regra de conduta sancionada e é
observável como exterior, sendo percebida como expressando todas
as variedades da solidariedade social. Assim, poder-se-iam estudar
as causas (solidariedade) pelos efeitos que provocam (direito)
(VERAS, 2014, p. 15).

Esta evolução mencionada por Durkheim, caracterizada pelo avanço


na diferenciação social, segue sempre no sentido da maior divisão do trabalho.
Quanto maior essa diferenciação de funções, portanto, maior o crescimento da
sociedade. A especialização no mundo do trabalho provoca o desenvolvimento
da solidariedade orgânica como forma de integração entre os indivíduos.

Esta integração é essencial para compreender a relação do indivíduo com


a sociedade em que vive, e a dinâmica social, pois ela promove um propósito de
vida, um suporte social que o grupo garante ao sujeito. Em outras palavras, na
interpretação de Ramos (2002, p. 158):

41
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Os efeitos estruturais no bem-estar psicológico das pessoas estão


implícitos na Teoria da Integração Social de Durkheim [1897] (1951).
Estritamente falando, a integração social, para Durkheim, promove um
sentido de significado e propósito para a vida. Isto é, de acordo com
Thoits (1982), a integração social leva ao suporte social, protegendo
a pessoa contra problemas que podem levar a comportamentos
desviantes. Alguns autores (Su e Ferraro, 1997; House, Landis e
Umberson, 1988) medem o conceito de integração social de Durkheim
como a frequência e a intensidade dos contatos sociais. Neste sentido,
a integração social acontece através de um comprometimento
que as pessoas têm com a ordem social e exerce controle sobre o
comportamento dos indivíduos. Esses contatos também reforçam
um sentimento de pertencimento perante a sociedade, que afeta
positivamente a saúde dos indivíduos. A integração social (frequência
de contatos) pode ter efeitos negativos na saúde, mas isso tem de
ser medido pela qualidade dos contatos. Em geral, a perspectiva da
integração social assume que a frequência dos contatos promove bem-
estar (Durkheim, 1897).

O tipo de sociedade, portanto, é passível de análise a partir da integração


existente entre os indivíduos, na medida em que é possível identificar esta pela
divisão do trabalho social. Quanto maior esta divisão, mais especializada, é menor
a coesão social. E esta aumenta quando a divisão social do trabalho é menor. A
coesão social pode ser um indicativo para a compreensão de como os fatos sociais
se impõem a um grupo, se menos ou mais coercitivos.

Para seguir com esta reflexão, vamos passar para o próximo conceito
das teorias durkheimianas, diretamente relacionado com o que vimos até aqui:
o conceito de anomia — ausência dos estados de solidariedade e integração,
no grupo, provoca uma situação de redução de regras morais. Após esta breve
definição de anomia. Prossiga!

3 ANOMIA
Um dos possíveis efeitos da complexificação social, e consequente divisão
social do trabalho, é a passagem da integração realizada pela solidariedade
mecânica para a solidariedade orgânica, certo? Isto você já deve ter fixado. Esta
passagem pode gerar um problema, chamado por Durkheim de individualismo
exacerbado, ou então, excesso de egoísmo.

Dado que a integração orgânica se dá pelos vínculos frágeis estabelecidos


pela especialização das funções, e pela perda da noção do todo, a força da
consciência coletiva é minimizada e o egoísmo de cada pessoa é ampliado. Esta
seria uma das contradições do mundo moderno para Durkheim: “Se, de um
lado, existe maior autonomia para o indivíduo, por outro, existe o risco de que o
excesso de liberdade leve à desagregação social” (SELL, 2002, p. 86).

42
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

As acirradas lutas sociais, frequentes à época de Durkheim, eram vistas


por ele como efeito deste excesso de egoísmo, especialmente as lutas de classes.
Assim, ele também buscou analisar o socialismo, que para ele era um indicador de
algo errado nas relações sociais, já que se contestava a raiz dos problemas sociais.
Mas para ele a questão não era econômica, como destacavam os socialistas, e sim
de ordem moral.

Ele apresenta, nas obras que tratam sobre a divisão social do trabalho, a
existência da anomia, ou ausência de normas, que ocorria a partir do declínio da
consciência coletiva. Se na integração via solidariedade mecânica a consciência
coletiva fazia o papel de integradora, na integração pela solidariedade orgânica
não havia quem fizesse este papel. Isto gerava a ausência de um conjunto de
orientações morais que guiassem a conduta individual e mantivessem os
indivíduos integrados na sociedade.

Enfim, sendo a divisão do trabalho um fato social, seu principal efeito


não é aumentar o rendimento das funções divididas, mas produzir
solidariedade. Se isto não acontece, é sinal de que os órgãos que
compõem uma sociedade dividida em funções não se autorregulam,
seja porque os intercâmbios ou contatos que realizam são insuficientes
ou pouco prolongados. Com isso, não podem garantir o equilíbrio e a
coesão social. Nesses casos, o estado de anomia é iminente (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 85).

A liberdade e autonomia, que o mundo moderno permitia aos seres


humanos, poderiam gerar este excesso de egoísmo, se os desejos humanos não
fossem freados, se as ambições não encontrassem um limite (SELL, 2002). Era
preciso haver um sentido para a vida, um sentido coletivo que viesse acompanhado
da noção de dever e disciplina, um guia para sua conduta.

Esta função é exercida, em sociedades menos complexas, pelos códigos


morais — materialização da consciência coletiva. Em sua ausência, os conflitos se
ampliam e surge a anomia, o egoísmo exagerado em função da falta de orientação
moral. Para Durkheim, era este movimento o causador de conflitos, e não a
questão econômica.

Analisando sob o viés funcionalista, é possível afirmar que:

Vê-se, assim que, sob certas circunstâncias, a divisão do trabalho pode


agir de maneira dissolvente, deixando de cumprir seu papel moral: o
de tornar solidárias as funções divididas. A ausência de normas — que
em situação normal se desprendem por si mesmas como prolongações
da divisão do trabalho — impossibilita que a competição presente na
vida social seja moderada e que se promova a harmonia das funções
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 85).

Um dos fatores identificados por Durkheim, que contribui para este


estado de anomia, é o enfraquecimento da religião (SELL, 2002). Os valores

43
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

e normas sociais sempre estiveram vinculados às religiões, e seus desejos e


ambições regrados a partir destas normas. Mas na sociedade moderna o papel
da religião vinha sendo reduzido, mais precisamente, sendo substituído pela
razão humana. No entanto, até aquele ponto, a razão ainda não havia encontrado
formas para realizar a integração social, ainda não havia desenvolvido novos
valores para substituir os antigos — e que tivessem a mesma força sobre o grupo
no quesito condutas.

Durkheim também compreendia que a sociologia, enquanto ciência,


não tinha o papel de apontar novos valores e regras morais, e sim identificar
os fenômenos e situações, permitindo à própria sociedade intervir de maneira a
restaurar o equilíbrio social.

Ele entendia que os novos valores morais e diretrizes sociais deveriam ser
desenvolvidos pela própria sociedade, restaurando assim a ordem social (SELL,
2002). Para isto, ele destaca, na sociedade da época, dois elementos que poderiam
auxiliar neste restauro, um de ordem moral e outro de ordem institucional.

Quanto ao elemento de ordem moral, Durkheim afirmava que o único


valor que poderia reduzir o excesso de egoísmo seria o valor do indivíduo.
Ele não vê problema no individualismo, e sim no excesso de egoísmo, que são
coisas diferentes. “Quando os homens tomarem consciência do valor do ser
humano, dizia ele, os laços de solidariedade, fraternidade e respeito poderiam
ser retomados” (SELL, 2002, p. 88). O egoísmo e os conflitos sociais, provenientes
dele, poderiam ser reduzidos quando fosse atribuído valor ao indivíduo e à sua
liberdade individual.

Já no quesito ordem institucional, ele busca pensar quais instituições


iriam substituir a religião na difusão desta nova moral, baseada na liberdade
individual. Primeiro, pondera que seriam a família e o Estado, mas já naquela
época, a família estava em um movimento de desprestígio, e o Estado era algo
afastado do indivíduo. Ele identifica, portanto, as corporações como instituições
para o restauro dos valores sociais.

Estas organizações profissionais teriam o poder de integrar os indivíduos


e instituir estados de disciplina, se impondo a eles e reorganizando as funções.
Detalhando:

Agindo diretamente no mundo do trabalho, as corporações


difundiriam a nova moral do “culto do indivíduo” e eliminariam
os conflitos de classe, sinais de que a sociedade estava anômica (ou
carente de normas). Com isso, a divisão social do trabalho estaria
consolidada e as disfunções e patologias da sociedade (as lutas de
classe) dariam lugar a uma sociedade integrada e harmônica (SELL,
2002, p. 89).

44
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Este movimento seria necessário para reduzir o estado de anomia


identificado por Durkheim nas sociedades modernas, e podemos perceber,
claramente, o pano de fundo das metodologias funcionalistas funcionando nesta
análise. Agora, vamos diretamente para a obra do autor para conhecer um pouco
de sua interpretação sobre este conceito.

Visto que um corpo de regras é a forma definida que, com o tempo,


assumem as relações que se estabelecem espontaneamente entre
as funções sociais, pode-se dizer a priori que o estado de anomia é
impossível sempre que os órgãos solidários estejam em contato
bastante e suficientemente prolongado. Com efeito, sendo contíguos,
eles são facilmente advertidos em qualquer circunstância da
necessidade que têm uns dos outros e adquirem por consequência um
sentimento vivo e contínuo de sua mútua dependência. Pela mesma
razão, os intercâmbios entre eles se fazem facilmente; tornam-se
frequentes por serem regulares; eles se regularizam por si próprios e o
tempo termina pouco a pouco a obra de consolidação. Enfim, porque
as menores reações podem ser mutuamente sentidas, as regras assim
formadas trazem a sua marca, isto é, preveem e determinam até no
detalhe as condições de equilíbrio; mas se, ao contrário, qualquer
elemento opaco se interpõe, desaparecem as excitações de uma certa
intensidade que possam se comunicar de um órgão para outro. As
relações sendo raras não se repetem bastante para se definirem; a
cada nova oportunidade correspondem novas tentativas. Os caminhos
por onde passam as ondas de movimentos não podem se aprofundar
porque essas ondas são muito intermitentes. Se pelo menos algumas
regras conseguem, no entanto, se constituir, elas são gerais e vagas;
porque, nessas condições, só os contornos mais gerais dos fenômenos
é que se podem fixar. O mesmo ocorrerá se a contiguidade, ainda que
suficiente, for muito recente ou durar muito pouco.
Essa condição se realiza geralmente pela força das coisas. Porque
uma função não pode se distribuir em duas ou mais partes de um
organismo, a não ser que estas sejam mais ou menos contíguas. Além
do mais, uma vez que o trabalho esteja dividido e como elas necessitam
umas das outras, tendem naturalmente a diminuir a distância que as
separa. Por isso, na medida em que se eleva na escala animal, vê-se
que os órgãos se aproximam e, como diz Spencer, introduzem-se
nos interstícios uns dos outros. Mas um conjunto de circunstâncias
excepcionais pode fazer que isto ocorra de outra forma.
É o que acontece nos casos de que nos ocupamos. Quanto mais
acentuado for o tipo segmentar, os mercados econômicos serão mais
ou menos correspondentes aos vários segmentos; consequentemente,
cada um deles será muito limitado. Os produtores, estando muito
próximos dos consumidores, podem colocar-se mais facilmente a
par da extensão das necessidades a serem satisfeitas. O equilíbrio
se estabelece, portanto, sem dificuldade e a produção regula-se por
si mesma. Ao contrário, na medida em que o tipo organizado se
desenvolve, a fusão dos diversos segmentos conduz os mercados a
serem um só, que abrange quase toda a sociedade. Ele se estende além
destes e tende a se tornar universal; pois as fronteiras que separam
os povos se reduzem, ao mesmo tempo que aquelas que separavam
os segmentos uns dos outros. Resulta que cada indústria produz
para consumidores que estão espalhados sobre toda a superfície do
país ou mesmo do mundo inteiro. O contato não é mais suficiente. O
produtor não pode mais abranger o mercado pelo olhar, nem mesmo
pelo pensamento; ele não pode mais fazer representar seus limites,

45
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

pois que o mercado é por assim dizer ilimitado. Em consequência,


a produção não tem freio nem regra; ela só pode tatear ao acaso e,
no curso desses tateamentos, é inevitável que as medidas sejam
ultrapassadas, tanto num sentido como no outro. Daí essas crises que
perturbam periodicamente as funções econômicas. O crescimento
destas crises locais e restritas que são as falências é certamente um
efeito dessa mesma causa.
Na medida em que o mercado se amplia, aparece a grande indústria.
Ora, ela tem como efeito transformar as relações entre patrões e
operários. Uma maior fadiga do sistema nervoso, juntamente com
a influência contagiosa das grandes aglomerações, aumenta as
necessidades destas últimas. O trabalho da máquina substitui o do
homem; o trabalho da manufatura, o da pequena oficina. O operário é
colocado sob regulamentos, afastado o dia inteiro de sua família; vive
sempre separado daquele que o emprega etc. Essas novas condições
da vida industrial exigem naturalmente uma nova organização; mas,
como estas transformações se completaram com extrema rapidez, os
interesses em conflito não tiveram tempo ainda para se equilibrarem.
Enfim, o que explica o fato de as ciências morais e sociais estarem
no estado que nós indicamos é que elas foram as últimas a entrar no
círculo das ciências positivas. Não é por menos, com efeito, que há um
século este novo campo de fenômenos se abriu para a investigação
científica. Os sábios se instalaram, uns aqui, outros ali, segundo suas
inclinações naturais. Dispersos nessa vasta área, eles permaneceram
até agora muito afastados uns dos outros para sentir todos os laços
que os unem. Mas, só porque eles conduziram suas pesquisas cada vez
mais longe do ponto inicial, acabarão necessariamente por alcançar
e, em consequência, tomar consciência de sua própria solidariedade.
A unidade da ciência se formará, portanto, por si mesma; não
pela unidade abstrata de uma fórmula, aliás muito exígua para a
multiplicidade de coisas que ela deveria envolver, mas pela unidade
viva de um todo orgânico. Para que a ciência seja una, não é necessário
que se apegue inteiramente ao campo de visão de uma só e mesma
consciência – o que é, aliás, impossível –, mas basta que todos aqueles
que a cultivam sintam que colaboram numa mesma obra.
Isto que precede tira todo fundamento das mais graves restrições
feitas à divisão do trabalho.
Ela foi muitas vezes acusada de diminuir o indivíduo, reduzindo-o
ao papel de máquina. E, com efeito, se ele não sabe para onde tendem
essas operações que se lhe exigem, não as associa a qualquer fim e só
pode se contentar com a rotina. Todos os dias ele repete os mesmos
movimentos com uma regularidade monótona, mas sem se interessar
nem compreendê-los. Não é mais a célula viva de um organismo vivo,
que vibra incessantemente ao contato com as células vizinhas, que
age sobre elas e responde por vezes à sua ação, estende-se, contrai-se,
dobra-se e se transforma segundo as necessidades e as circunstâncias;
não passa de uma engrenagem inerte que uma força externa põe em
funcionamento e que se move sempre no mesmo sentido e do mesmo
modo. Evidentemente, de qualquer maneira que se represente o ideal
moral, não se pode ficar indiferente a um tal aviltamento da natureza
humana. Porque se a moral tem como objetivo o aperfeiçoamento
individual, não pode permitir que se arruíne a tal ponto o indivíduo, e
se ela tem pôr fim a sociedade, não pode deixar que se esgote a própria
fonte da vida social; porque o mal não ameaça apenas as funções
econômicas, mas todas as funções sociais, por mais elevadas que sejam
(DURKHEIM, s.d. apud MUSSE, 2007, p. 68–73).

46
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA INTEGRAÇÃO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Também é a anomia um dos motivos atribuídos por Durkheim para


a existência de suicídios. Ele estudou o fenômeno do suicídio e, a partir do
material empírico obtido, desenvolveu diferentes análises sobre a teoria da
integração na sociedade. Como este recorte já pode ser definido, não mais como
conceito da Teoria da Integração, e sim como uma pesquisa em si realizada pelo
autor, ele segue no próximo tópico, que tratará sobre os desdobramentos da
sociologia de Durkheim.

47
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Durkheim buscou compreender, dentro da lógica da sociedade moderna, a


função que é exercida pela chamada divisão social do trabalho.

• A forma de laço entre os indivíduos, baseada na consciência coletiva, é a


solidariedade mecânica.

• A consciência coletiva é definida como um conjunto de crenças e sentimentos


comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, que forma um
sistema determinado com vida própria.

• A forma de laço entre os indivíduos desenvolvida a partir da diferenciação


entre as funções dos indivíduos, provocada pela divisão do trabalho social, é a
solidariedade orgânica.

• O tipo de sociedade é passível de análise a partir da integração existente entre


os indivíduos, na medida em que é possível identificar esta pela divisão social
do trabalho.

• A anomia é o egoísmo exagerado em função da falta de orientação moral.

48
AUTOATIVIDADE

1 Descreva os conceitos a seguir a partir das definições apresentadas por


Émile Durkheim na teoria da integração:

a) Divisão Social do Trabalho

b) Solidariedade Mecânica

c) Solidariedade Orgânica

d) Consciência Coletiva

e) Anomia

49
50
UNIDADE 1
TÓPICO 3

OS DESDOBRAMENTOS DA
SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

1 INTRODUÇÃO
Chegamos ao último tópico de seus estudos sobre o autor Émile Durkheim.
Ele trata sobre os desdobramentos de sua sociologia, ou seja, da aplicabilidade de
suas teorias e conceitos vistos até aqui, em pesquisas empíricas e temas de análise
que até hoje são referência para reinterpretações e para autores contemporâneos.

Estes desdobramentos iniciam quando Durkheim enfatiza a importância


da busca por um método próprio da sociologia, conseguindo, assim, consolidar
esta ciência, inclusive do ponto de vista acadêmico: ele é um dos principais
responsáveis pela inserção da sociologia na universidade como disciplina
acadêmica.

Ele também contribuiu significativamente para a epistemologia desta


ciência em seus escritos sobre religião, quando desenvolve uma perspectiva de
que o conhecimento é fruto da própria sociedade. Analisa, portanto, a ciência
como fruto da ordem social, buscando explicar os limites e possibilidades de uma
ciência sociológica.

Fato é que a teoria sociológica de Durkheim e o arcabouço conceitual por


ele desenvolvido permitiram o estudo de alguns fenômenos sociais cujos dados
e métodos persistem até hoje como referência para a Sociologia. É por isso que
estudaremos neste tópico suas análises sobre o suicídio, a moral, a religião e a
educação, todos como fenômenos sociais. São temas cujas análises durkheimianas
são clássicas, em se tratando de Sociologia. Desejo um ótimo estudo!

2 O SUICÍDIO
Os estudos sobre o suicídio de Durkheim são bastante famosos na
teoria sociológica clássica, pois é o momento no qual o autor aplica seu método
sociológico em uma pesquisa com dados empíricos. Ele trata o suicídio como fato
social, e não como caso individual, daí resulta a originalidade da proposta.

51
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

A definição inicial dada pelo autor é: “Chama-se suicídio todo caso de


morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo,
executado pela própria vítima e que ela sabia que deveria produzir esse resultado”
(DURKHEIM, 1973, p. 11 apud VERAS, 2014, p. 25).

Sendo assim, ele explica que o interessante ao sociólogo é a morte


voluntária, que não decorre de especificidades individuais, mas de causas sociais.
Ele afirma que cada sociedade possui uma aptidão para o suicídio, e ela pode ser
estabelecida pela relação entre o número total de mortes voluntárias e a população
total. Ele chama de taxa de mortalidade-suicídio, e pode denotar tendências de
variabilidade ou permanência (VERAS, 2014, p. 26).

Durkheim examinou estatísticas de diferentes países da Europa em


períodos do século XIX, buscando esgotar possíveis causas para números
elevados nas taxas, e após analisar exaustivamente estas causas, como: estados
psicopatológicos, o que ele chamou de fatores cósmicos e imitação, desenvolveu
todo um volume sobre as causas sociais do suicídio.

Estas causas estariam associadas ao grau de integração das sociedades,


que ele analisa a partir de todo o arcabouço teórico estudado no tópico anterior.
Falhas na integração social gerariam fissuras no tecido social, que levariam aos
altos índices de suicídio.

O fenômeno suicídio está presente em todos os grupos, e, por isso, é


possível definir que a causa está na mesma propriedade de todos, sendo ela um
maior ou menor grau de integração social.

Analisando o suicídio, Durkheim o distingue em três tipos: suicídio


egoísta, suicídio altruísta e suicídio anômico.

O suicídio egoísta é causado pela falta de integração do indivíduo aos


grupos da sociedade. É fruto de uma forte individualização, e Durkheim nota
que, conforme a integração em sociedades religiosas é maior, menores são as
taxas de suicídio. Elas variam também conforme a religião, conforme as práticas
que prendem o indivíduo à coletividade do grupo religioso. Quanto mais presos
à coletividade, menos taxas de suicídio do tipo egoísta. Também na família há
esta relação: casados com filhos tendem a se suicidar menos do que casados sem
filhos, pois a integração é maior no primeiro caso. Quanto mais laços sociais,
menos suicídios por solidão.

Quanto mais enfraquecidos estão os grupos aos quais o indivíduo


pertence, menos ele dependerá deles, e estará mais vinculado a si, configurando o
egoísmo. Existem disposições sociais, da vida coletiva, que levam a um menor ou
maior vínculo com a vida em comunidade, impactando diretamente na influência
que esta exerce sobre o indivíduo — mantendo ou não razões para viver.

52
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

O suicídio altruísta é presente em sociedades menos complexas, mais


simples, onde há menos egoísmo. Ele prevalece em idosos, docentes, viúvas, ou
servidores que perdem seus chefes. É um tipo de suicídio com fins sociais, em
que a pessoa se sente na obrigação de fazê-lo, para evitar castigos religiosos ou
desonra (VERAS, 2014).

A integração do indivíduo ao grupo, nestes casos, é demasiada, por isso


a perspectiva altruísta, há grande dependência entre indivíduo e grupo. Ele
apresenta o exemplo de sociedades hindus, nas quais os suicidas buscam a honra,
e de casos mais atuais, como soldados que se deixam matar em guerras por
patriotismo, mártires religiosos, ou mesmo terroristas, que se suicidam em nome
de deuses. Os militares possuem altos índices de suicídio altruísta, por exemplo,
já que a formação militar é uma formação de disciplina para se abnegar os desejos
individuais em função de outros.

O último é o suicídio anômico, provocado por crises que desencadeiam


processos de renúncia à vida, em função da ausência de normas que guiam a
vida individual. O ser humano necessita de freios aos seus desejos individuais, e
quando estes não existem em função do grau de sua integração social, ele entra
em crise.

FIGURA 7 – SÁTIRA AO FENÔMENO SUICÍCIO, QUE DENOTA A INTEGRAÇÃO SOCIAL

É mais
fácil do que
Por que a ter que
gente se matar todo
mata? mundo.

FONTE: <https://divagacoesligeiras.blogs.sapo.pt/280365.html>. Acesso em: 10 set. 2018.

A sociedade, esta força regularizadora, é benéfica ao indivíduo, e quando


a sociedade está perturbada por crises ou profundas transformações, a regulação
é reduzida e as paixões individuais sobressaem, assim, como medos e receios,
aumentando as taxas de suicídio. O estado de anomia, portanto, amplia as
situações favoráveis a isso (VERAS, 2014).
53
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Há uma relação entre o suicídio egoísta e o anômico, pois ambos


revelam ausência de laços sociais, mas, no primeiro tipo, a sociedade
está relativamente integrada, apenas os laços sociais se fragilizaram
e determinaram uma excessiva individualização. No segundo tipo,
o anômico, mais presente nas sociedades industriais e comerciais
complexas, a falta de mecanismos de regulação e de freios aos impulsos
do homem leva-o ao suicídio (VERAS, 2014, p. 27).

Em cada um dos tipos de suicídio, é possível notar a relação entre


indivíduo e sociedade, sendo causado ou pela falta da integração do indivíduo
nos grupos, ou pelo excesso do peso da sociedade sobre ele. De qualquer forma,
ele sempre identifica causas sociais, e considera o suicídio um fato social.

Ao contrário de fenômenos, como o crime, que Durkheim considerava


como um fato social normal, o suicídio era para ele um fato social
patológico, que evidenciava que havia profundas disfunções na
sociedade moderna. A existência do suicídio anômico era um indício
de que o excessivo enfraquecimento da consciência coletiva, a perda
de uma moral orientadora e disciplinadora dos comportamentos,
além do exacerbamento do individualismo, representavam um sério
risco para a integração social e a preservação da sociedade (SELL,
2002, p. 78).

De maneira muito sintetizada, estas são as principais bases da obra de


Durkheim, quando ele aplica seu método sociológico de base funcionalista para
entender um fenômeno social complexo como o suicídio. Esta análise, elaborada
a partir de pressupostos científicos da Sociologia, teve grande impacto no
desenvolvimento da ciência, já que é possível na obra observar não apenas os
fundamentos teóricos, mas também a aplicação prática de uma teoria sociológica.

DICAS

O desenvolvimento desta teoria durkheimiana está na obra


O Suicídio, publicada no Brasil pela Editora Martins Fontes.

FONTE:<https://colunastortas.com.br/livro-da-semana-o-
suicidio-emile-durkheim/>. Acesso em: 16 jan. 2019.

54
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

3 VIDA SOCIAL E MORALIDADE


Partindo da Teoria da Integração, e conhecendo por ela as formas existentes
de laços sociais, identificando que se pode observá-la a partir do direito aplicado
por cada grupo, e obtendo dados empíricos sobre o suicídio, desenvolvendo,
inclusive, tipologias para tal patologia social, Durkheim debruça-se nestes
materiais para compreender como a vida moral dos indivíduos e dos coletivos
está relacionada a isto.

Suas análises levam à conclusão da importância da moralidade como


fator de integração social, de integração das pessoas em uma vida coletiva, já
que o utilitarismo das funções exercidas na divisão social do trabalho leva ao
desentendimento do todo e às relações anômicas. Este seria o grande problema, a
grande patologia do mundo moderno.

Esta seção sobre a moral e a vida social explica ambos, principalmente a


partir de uma síntese da obra Um toque de Clássico, cuja referência completa você
pode consultar ao final deste livro de estudos, uma obra de Tania Quintaneiro,
Maria Ligia de Oliveira Barbosa e Márcia Gardênia de Oliveira, publicada pela
Editora UFMG.

Durkheim olhou para a França de sua época, e identificou ali a ausência


de instituições protetoras, como eram as corporações de ofício no período feudal,
e a queda na legitimidade dos conjuntos de valores. Tudo isso gerava conflitos
e desordens, já que não havia limitadores de interesses e de formas de ação
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002).

A ação como consciência superior, que a moral exerce sobre os indivíduos,


fica prejudicada quando existe uma crise, o que ameaça a coesão social, pois os
indivíduos se tornam menos solidários. Quando a autoridade moral se ausenta,
a lei do mais forte volta a prevalecer, o estado de natureza, e a hostilidade e a
desconfiança, entre indivíduos do mesmo grupo, se fortalecem.

Vejamos a relação estabelecida entre a vida moral e a vida profissional:

O mundo moderno caracterizar-se-ia por uma redução na eficácia


de determinadas instituições integradoras, como a religião e a
família, já que as pessoas passam a agrupar-se segundo suas
atividades profissionais. A família não possui mais a antiga unidade
e indivisibilidade, tendo diminuído a sua influência sobre a vida
privada, o Estado mantém-se distante dos indivíduos, tendo “com
eles relações muito exteriores e muito intermitentes para que lhe
seja possível penetrar profundamente nas consciências individuais e
socializá-las interiormente”. Por outro lado, a diversidade de correntes
de pensamento torna as religiões pouco eficazes nesses aspectos,
na medida em que não mais subordinam completamente o fiel,
subsumindo-o no sagrado. Com isso, a profissão assume importância
cada vez maior na vida social, tornando-se herdeira da família,
substituindo-a e excedendo-a. Mas ela própria somente é regulada no
interior da esfera de suas próprias atividades (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 82).
55
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Diante disso, Durkheim procurou entender a solidariedade gerada na


vida profissional como fator de integração social, como base para o resgate da
moralidade, tão ausente nas sociedades industriais da época. A corporação ou
o grupo profissional faria o papel de regulamentador que a moral coletiva não
estava conseguindo cumprir, a lógica de pensamento era essa.

Além de substituir alguns estados anômicos presentes nesta situação,


as diretrizes do mundo profissional freariam impulsos e dariam força ao papel
profissional do indivíduo, vinculando-os ao dever profissional, como, até então,
estavam vinculados ao dever doméstico.

Como o sociólogo francês o percebia, tal estado de anarquia não


poderia ser atribuído somente a uma distribuição injusta da riqueza,
mas, principalmente, à falta de regulamentação das atividades
econômicas, cujo desenvolvimento havia sido tão extraordinário
nos últimos dois séculos que elas acabaram por deixar de ocupar
seu antigo lugar secundário. Ao mesmo tempo, o autor conferiu às
anormalidades provocadas por uma divisão anômica do trabalho
uma parte da responsabilidade nas desigualdades e nas insatisfações
presentes nas sociedades modernas. Mesmo tendo absorvido uma
“enorme quantidade de indivíduos cuja vida se passa quase que
inteiramente no meio industrial”, tais atividades não exerciam a
“coação, sem a qual não há moral”, isto é, não se lhes apresentavam
como uma autoridade que lhes impusesse deveres, regras, limites
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 83).

E para Durkheim, o mundo profissional deveria exercer função


moralizante, na medida em que o crescimento das corporações deveria fazer com
que sua autonomia se ampliasse e, portanto, estabelecesse princípios para seu ramo
industrial. Assim, um poder moral passaria a existir com a instituição, minimizando
a lei do mais forte e desenvolvendo a solidariedade entre os integrantes daquele
nicho — gerando a ideia de sacrifício em nome do interesse comum.

Com a mesma pretensão profissional, as pessoas iriam se aproximar, já


que indivíduos com ideias e ocupações similares são atraídos uns aos outros,
estabelecendo relações e desenvolvendo o sentimento de todo. Daí decorre a
função da divisão social do trabalho, segundo Durkheim:

Enfim, sendo a divisão do trabalho um fato social, seu principal efeito


não é aumentar o rendimento das funções divididas, mas produzir
solidariedade. Se isto não acontece, é sinal de que os órgãos que
compõem uma sociedade dividida em funções não se autorregulam,
seja porque os intercâmbios ou contatos que realizam são insuficientes
ou pouco prolongados. Com isso, não podem garantir o equilíbrio e a
coesão social. Nesses casos, o estado de anomia é iminente (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 85).

Esta obrigação com relação ao todo garante a manutenção do sistema


moral, já que esta é compreendida como sistema de normas de conduta, as quais
definem como o indivíduo deve se comportar em determinadas circunstâncias.

56
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

Estas formas diferem de outros conjuntos de regras “porque envolvem uma noção
de dever, constituem uma obrigação, possuem um respeito especial, são sentidas
como desejáveis e, para cumpri-las, os membros da sociedade são estimulados
a superar sua natureza individual” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 87).

Os deveres estabelecidos pela moral são praticados de forma livre, já que


o indivíduo passa a entender que cumprir estas regras é fazer o bem, é estar
contribuindo para seu grupo social. A moralidade é uma autoridade, com base
nela os indivíduos e suas ações são julgados. A sociedade, portanto, indica a
obrigatoriedade das regras morais, definindo comportamentos a partir de regras
externas ao indivíduo.

De acordo com a concepção de sociedade de Durkheim, a moral é a síntese


das consciências morais individuais, já que, também, a sociedade é a síntese dos
indivíduos que a compõem. Não apenas a somatória, mas sim a síntese, que
atua sobre todos. Assim é o movimento de gerar o interesse coletivo: a própria
sociedade provoca a subordinação dos interesses individuais aos coletivos, com
base no reconhecimento de fins mais elevados.

E é nesse ponto que aparece, novamente, a divisão social do trabalho,


porque a diferenciação provocada por esta divisão pode chegar ao nível de
manter em comum, apenas no grupo, sua noção de humanidade. O único ponto
em comum sendo o fato de serem seres humanos.

Você deve estar pensando o que isso pode provocar, não? O individualismo
exacerbado, a prevalência das consciências individuais, a ausência de ter algo
maior para honrar e defender. Sobre isso, ele diz que:

E como cada um de nós encarna algo da humanidade, cada consciência


individual encerra algo de divino e fica, assim, marcada por um caráter
inviolável para os outros. Esse é o único sistema de crenças que pode
garantir a unidade moral da sociedade moderna: a moral individualista
e a religião da humanidade, na qual o homem é, ao mesmo tempo, o
fiel e o deus (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 88).

Neste ponto aparece a definição do papel do indivíduo na sociedade


moderna, para Durkheim, que se relaciona com o Estado na defesa de seus
direitos individuais, e para proteger seus interesses.

Em sociedades cuja ordem social é mais simples, o Estado se confunde


comumente com a religião, a moral relaciona-se aos deveres como cidadão, e o
controle é mais próximo e direto. Nas mais complexas, “o Estado possui funções
muito mais extensas, existe também um número cada vez mais significativo de
grupos secundários que, além de expressar os distintos interesses organizados de
seus membros, mantêm com estes um contato estreito” (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 88).

57
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Este Estado individualista une-se à concepção de todos os direitos


individuais, modificando o conjunto moral coletivo. A citação que segue detalha
como se dá esta situação:

A glorificação do indivíduo move-se com base na simpatia por “tudo


o que é do homem, uma maior piedade por todas as dores, por todas
as misérias humanas, uma mais ardente necessidade de os combater
e atenuar, uma maior sede de justiça”. A vida, a honra e a liberdade
do indivíduo são respeitadas e protegidas, e se “ele tem direito a esse
respeito religioso é porque existe nele qualquer coisa da humanidade.
É a humanidade que é respeitável e sagrada” e, quando o homem a
cultua, ele tem que sair de si e estender-se aos outros. Essa moral não
deve, então, ser confundida com a concepção vulgar, condenada por
Durkheim, igualada ao egoísmo utilitário e ao utilitarismo estreito
que fazem a “apoteose do bem-estar e do interesse individuais e desse
culto egoísta do ego”. O homem livre é aquele que contém seu egoísmo
natural, subordina-se a fins mais altos, submete os desejos ao império
da vontade, conforma-os a justos limites. Por isso, um individualismo
desregrado adviria da falta de disciplina e de autoridade moral da
sociedade. A divinização do indivíduo é obra da própria sociedade, e
a liberdade deste é utilizada para o benefício social. O culto de que ele
é ao mesmo tempo objeto e agente dirige-se à pessoa, está acima das
consciências individuais e pode servir-lhes de elo em direção a uma
mesma fé. Ele representa a adesão unânime a um conjunto de crenças
e práticas coletivas merecedoras de um respeito particular que lhes
confere um caráter religioso (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 88).

Segundo Durkheim, este é o processo de redução da autoridade moral


da sociedade, e ele busca regatar esta análise para explicar o quanto o conjunto
moral dos grupos é fundamental para a manutenção da coesão social, evitando o
desenvolvimento de individualidades a partir da divisão social do trabalho, que
podem gerar patologias presentes nas sociedades modernas.

É por isso que ele se preocupou em estudar as religiões, para analisar


seus fundamentos e sua relação com os grupos sociais, e o quanto estas estavam
relacionadas ao conjunto moral e à vida social dos indivíduos. Trataremos sobre
isso na próxima seção.

58
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

DICAS

A teoria moral de Durkheim é bastante complexa, e necessita de


dedicação às leituras para que seja possível apreendê-la em sua
totalidade. Para isso, temos traduzidas algumas obras: Filosofia
Moral, Lições de sociologia, Ética e sociologia da moral, entre
outras. Sugerimos de início o livro A Educação Moral, onde é
possível estudar a concepção de moral durkheimiana e sua
relação com a instituição educação. Publicado pela Editora
Vozes, em diferentes edições.

FONTE:<https://www.amazon.com.br/Educa%C3%A7%C3%A3o
-moral-%C3%89mile-Durkheim/dp/8532636683>. Acesso em:
16 jan. 2019.

4 A RELIGIÃO
Um dos grandes temas ao qual Durkheim dedicou sua obra é a questão
da vida religiosa, buscando entender nela sua relação com o desenvolvimento da
moralidade. A obra principal produzida acerca deste tema chama-se As formas
elementares da vida religiosa. É um livro bastante famoso, não há como estudar as
análises deste autor sobre a religião sem passar por sua leitura, anote aí!

O autor buscou entender os princípios das religiões primitivas, mais


diretamente, a partir do totemismo encontrado em diferentes grupos australianos.
Ele utilizou-se de relatos para entender a dinâmica deste tipo de religião e teorizar
sobre suas influências na vida social e moral do grupo.

Estas religiões menos complexas seriam, para Durkheim, fonte de dados


importantes sobre a origem de seus preceitos, já que as individualidades e
diferenças ainda não tomaram conta do essencial — permitindo a visualização
daquilo que é comum a elas.

Ao analisar as religiões, o autor notou que estas são compostas pela


divisão da sociedade em duas esferas: o profano e o sagrado. O sagrado seria uma
percepção da humanidade, da força social agindo sobre eles mesmos, novamente
denotando a superioridade da sociedade com relação ao indivíduo — sendo a
religião uma expressão desse fato. Desta forma, o autor explica o surgimento da
religião em si, uma transfiguração da sociedade (SELL, 2002).

Vamos aprofundar esta distinção entre profano e sagrado, a partir da


síntese de Sell (2002):

59
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

• Esfera Sagrada: composta por coisas, crenças e ritos baseados em certa unidade,
chamada religião. Envolve o aspecto cultural (crenças) e o material (ritos). Com
o compartilhamento de crenças pelo grupo, temos a igreja.
• Esfera Profana: conjunto da realidade que se opõe ao sagrado, esferas de
atividades práticas e cotidianas da vida, como família, economia, entre outros.

A esfera sagrada é protegida e mantida em um estatuto especial nas


religiões, acessível por meio de ritos. Em outras palavras:

A passagem do mundo profano para o sagrado implica uma


metamorfose e envolve ritos de iniciação realizados por aquele que
renuncia ou sai de um mundo para entrar em outro e que morre
simbolicamente para renascer por meio de uma cerimônia. As
coisas sagradas são protegidas, mantidas à distância e isoladas pelas
interdições aplicadas às profanas. Elas podem ser palavras, objetos,
animais, alimentos, lugares, pessoas etc. Entre essas coisas existem as
que são proibidas de ser provadas, vistas, pronunciadas ou tocadas,
por exemplo, por homens, mulheres, solteiros, membros de algum
grupo, casta ou classe social, durante uma fase da vida ou em certos
estados naturais como a gravidez ou a menstruação (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 91).

As cerimônias religiosas, portanto, além de permitir o acesso do


mundo profano ao mundo religioso, possuem uma função social: aproximam
os indivíduos, lembram, a eles, que fazem parte de um grupo, multiplicam os
contatos e consolidam a ideia de coletividade. Assim, as consciências individuais
mudam, em favor de sentimentos sociais, fortalecidos nestas celebrações.

A sociedade envolve os indivíduos a partir do fenômeno religioso,


tornando-se ainda mais atuante neles, renovando sua parcela de ser social.
Além disso, ela atua também nas representações dos indivíduos, auxiliando na
manutenção da ordem social.

Nas religiões australianas, Durkheim identificou o uso de símbolos para


identificação do grupo, o totem. O totem era representado em diferentes objetos,
que passavam a ser sagrados. Ele poderia ser a representação de um animal, uma
árvore etc., e era diante destes objetos que os comportamentos religiosos deveriam
ocorrer. Estas práticas religiosas, chamadas ritos, poderiam ser divididas em:
ritos negativos (proibições), ritos positivos (deveres religiosos) e ritos de expiação
(cerimônias de perdão por violações cometidas) (SELL, 2002).

É interessante notar que nestas tribos australianas, a divindade não


é concebida como um ser pessoal, distinto dos homens. É por isso
que Durkheim rejeita as teorias que explicam a origem da religião a
partir deste pressuposto, como é o caso do animismo e do naturismo.
Enquanto para o primeiro, a religião constitui a crença em um espírito,
o naturismo postula que a divindade seria a transfiguração das forças
naturais que o homem percebe agindo na natureza. No totemismo,
a noção de divindade pessoal é concebida como uma força anônima
e impessoal que encontramos em cada um dos seres, como animais,

60
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

plantas ou outros objetos. É por isso que se trata da mais simples das
religiões: o conjunto da realidade no qual esta força se encontra é que
constitui a esfera sagrada. É por isso, enfim, que Durkheim afirma que
a esfera sagrada, em oposição à esfera profana, constitui a essência de
qualquer religião (SELL, 2002, p. 81).

Para ele, a origem das religiões está na necessidade que elas possuem
de despertar o divino nos seres humanos, para que assim a sociedade possa se
manifestar e conseguir obediência a ela, como ser superior. O comportamento
dos indivíduos na religião também seria explicado pelo predomínio da sociedade
com relação ao sujeito.

As religiões também são formas de cosmologia, ou sistemas coletivos


de representação do mundo. Elas apresentam uma sociedade idealizada, e
trazem categorias do entendimento humano, como tempo, causa, espaço etc. Em
função disso, Durkheim buscou estudar estes itens na religião, já que nela estas
relações são expressas por meio de símbolos e conceitos (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002).

Durkheim questiona as duas teses que até então procuraram explicar


a questão do conhecimento e de sua racionalidade - o empirismo
e o apriorismo - e propõe que seja reconhecida a origem social das
categorias, as quais traduziriam estados da coletividade, sendo, pois,
produtos da cooperação. Enquanto os conhecimentos empíricos são
suscitados pela ação do objeto sobre os espíritos dos indivíduos, as
categorias seriam representações essencialmente coletivas, obras
da sociedade expressas inicialmente por meio da religião, na qual
foi engendrado tudo o que há de essencial na sociedade: o direito, a
ciência, a moral, a arte e a recreação. Se isto se dá é porque “a ideia de
sociedade é a alma da religião”, e nesta originaram-se quase todas as
grandes instituições sociais. Ela é uma expressão resumida da vida
coletiva (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 92).

O autor vai além da análise da religião em si, desenvolvendo uma teoria


sobre conhecimento no estudo desta instituição. Segundo ele, a ciência e demais
formas de pensamento moderno possuem origem na religião (pois são a primeira
forma de representação do mundo), portanto, parte para o estudo de suas origens
sociais.

Sell (2002) explica esta teoria do conhecimento durkheimiana:

A tese central de Durkheim é que classificamos os seres do universo


(o mundo natural) porque temos o exemplo das sociedades humanas.
Vejamos como isto se dá.
No totemismo todos os seres eram classificados ou na esfera sagrada
ou na esfera profana. Os entes ou objetos que representassem o totem
(objetos, plantas, animais, membros da tribo, partes do corpo, etc.)
pertenciam ao mundo sagrado, enquanto o restante das coisas existentes
pertencia ao mundo profano. Portanto, a religião forneceu ao homem
um critério a partir do qual ele podia classificar e ordenar as coisas
do mundo. As categorias de pensamento humano, como as noções
de tempo, espaço, gênero, espécie, causa, substância e personalidade,

61
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

têm sua origem na religião, ou, em outras palavras, na sociedade. Foi


tomando a sociedade, suas relações hierárquicas (sociais) e suas crenças
como modelos, que o homem foi construindo suas primeiras explicações
do universo, aplicando as categorias do mundo religioso (ou social) ao
mundo natural.
Com esta teoria, Durkheim julgava poder encontrar uma saída para
o dualismo da teoria epistemológica, dividida entre a concepção que
julgava que a origem do conhecimento provinha da experiência (teoria
empirista) e a concepção que afirmava que a origem do saber está em
ideias inatas no indivíduo (teoria racionalista). Para o pensador francês,
se as experiências individuais fornecem ao indivíduo o conteúdo ou
a matéria do conhecimento, é a sociedade que constrói no homem
as categorias lógicas (como a noção de tempo, espaço, causalidade)
pelas quais ele organiza os dados da experiência. A própria noção de
causalidade (que é o princípio científico de que todo fenômeno tem
sempre uma causa eficiente, que explica a origem do fenômeno) tem
sua raiz na ideia do “mana”, ou seja, o ser divino que está materializado
no totem e é responsável pela “força”, vida ou movimento das coisas.
Mais uma vez, Durkheim volta ao pressuposto que guia todas as suas
obras: a sociedade é o fundamento lógico que explica o comportamento
humano. Assim, a sociedade também é responsável pela origem das
formas de conhecimento humano ou das categorias mentais pelas
quais o homem organiza os dados de sua experiência. E, ao mostrar
esse fenômeno, a sociologia, finalmente, encontrava uma explicação
que integrava e ao mesmo tempo superava a dicotomia presente nos
estudos do conhecimento humano (SELL, 2002, p. 81–83).

Desta maneira, Durkheim buscou solucionar as questões epistemológicas


que envolviam a Sociologia, contribuindo com mais um pilar para a consolidação
desta como ciência. Explicando a partir de uma análise empírica da religião
as representações específicas do totemismo, ele amplia esta análise para o
entendimento das formas de conhecimento humanas. Destaca-se, novamente,
a explicação da obtenção do conhecimento pela via social, a prevalência da
sociedade com relação às representações individuais.

DICAS

O melhor material complementar que podemos indicar para o


estudo aprofundado das questões da religião, em Durkheim, seria
sua obra principal sobre o tema: As formas elementares da vida
religiosa. Publicada pela Editora Martins Fontes, em diferentes
edições. Vale a leitura para apropriação do impacto de suas
análises sobre a religião, e sobre o desenvolvimento de sua teoria
sociológica do conhecimento.

F O N T E : < h t t p s : / / w w w. e m a r t i n s f o n t e s . c o m . b r / f o r m a s -
elementares-da-vida-religiosa-as-p18557/>. Acesso em: 16 jan.
2019.

62
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

5 A EDUCAÇÃO
Durkheim é o único, dos autores clássicos, que se deteve mais diretamente
ao estudo da instituição educação. Temos escritos dele analisando este fenômeno
social, buscando compreender sua função social nos grupos, influenciando as
análises do que viria a ser mais tarde o ramo da Sociologia da Educação.

Você irá estudar as teses de Durkheim sobre a educação, sempre que se


direcionar para a Sociologia da Educação, no entanto, é importante compreender,
em sua teoria sociológica, a relação estabelecida entre educação e moralidade.
Para ele, as sociedades deveriam ter um projeto de educação moral, pois é a
partir das socializações educativas que o sujeito é inserido no conjunto moral do
grupo. E isso passa a ter uma função essencial quando pensamos nos laços sociais
formados pelo indivíduo, seja a partir da solidariedade mecânica ou orgânica.

De início, é importante compreender que ele diferencia ciências da


educação e pedagogia. A pedagogia seria responsável pela identificação de
práticas, modelos, teorias sobre os sistemas educativos no sentido metodológico.
Ela indica os procedimentos práticos que se deve tomar para que a educação
cumpra sua função.

Já as ciências da educação, dentre elas a sociologia, deveriam ser o espaço


de análise no qual se observa a educação como fenômeno coletivo, compartilhado
entre diferentes grupos sociais: “a educação pode ser objeto de uma ciência
positiva, baseada na realidade, na evidência dos fatos, e para tal se deve ter por
fundamento a pesquisa e buscar, primeiramente, fatos exteriores ao indivíduo
que sejam passíveis de observação” (TURA, 2006, p. 40).

Alguns povos não tiveram pedagogia, mas possuem um processo


educativo, que pode ser analisado como fenômeno social. A partir disso, podemos
entender porque a educação pode ser objeto de análise sociológica, e como ela é
compreendida como instituição social.

Sendo assim, aparece na obra de Durkheim, novamente, a prevalência


da sociedade com relação ao indivíduo, quando ele reconhece a existência de
dois seres que convivem nos seres humanos: o ser individual e o ser social. O ser
individual é composto pelos estados mentais mais íntimos do sujeito, que possui
natureza egoísta e antissocial — é o que temos de mais primitivo, instintivo.
Já o ser social exprime em nós a natureza do grupo no qual estamos inseridos,
os sistemas de ideias, sentimentos e hábitos coletivos dos quais fazemos parte
(TURA, 2006).

O ser social não nasce conosco, ele precisa ser formatado, e é daí que
decorre a concepção de Durkheim de que o ser humano ao nascer é uma tábula
rasa, desprovido de percepções coletivas e sociais. A partir do nascimento,
portanto, vamos recebendo estas informações:

63
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

É a vida em sociedade, a convivência com o seu grupo, as diferentes


formas de comunicação social e associação que irão progressivamente
fazer com que o indivíduo internalize um conjunto de maneiras
de ser, pensar e agir que são próprias de seu meio e o indivíduo
irá se conformar por elas pelo que trazem de vantagens e de valor
na constituição da humanidade, pois que, sem o arcabouço social, o
homem retornaria à condição de animal. Se faltar ao indivíduo todo
o patrimônio de conhecimentos acumulados, da ciência produzida,
dos sistemas de classificações, de ideias, de fórmulas, de valores, de
técnicas e, especialmente, a linguagem própria do grupo, ele não
poderá sobreviver como ser humano (TURA, 2006, p. 42).

O conjunto das ideias, valores, representações que possuem natureza


própria nas instituições educacionais e independem dos indivíduos que as
frequentam naquele momento, permitem observar a educação como fato social.
Segundo Durkheim, seria papel da sociologia explicar o funcionamento e
identificar formas de melhoria para que a educação pudesse alcançar melhores
resultados – o que ele chama de fins sociais da educação.

Ele identifica, a partir da comparação de sistemas educativos de diferentes


sociedades, que não há uma educação única e universal, e sim variantes, de acordo
com o tempo e o meio nos quais estão localizadas. Por isso a educação deveria ser
analisada em seu contexto, a partir das sociedades com as quais está vinculada, e
não como ideal abstrato e único (TURA, 2006).

As práticas pedagógicas não são, pois, fruto de decisões arbitrárias


oriundas da vontade de um educador, mas, ao contrário, estão
fortemente determinadas por uma estrutura social e, por isso, seu
movimento evolutivo se dá de forma coerente com a constituição e
as necessidades do organismo social. Nesse sentido, todo e qualquer
sistema educativo é um produto histórico e só através da análise
histórica se pode entender e explicar porque, em cada momento, em
cada sociedade há um tipo regulador de educação, que se expressa
em tendências, fórmulas, padrões que se impõem sobre os indivíduos
e que são solidários e coerentes com o conjunto de atividades e
instituições da sociedade (TURA, 2006, p. 49).

Do ponto de vista conceitual, portanto, Durkheim define a educação como


a ação das gerações adultas sobre as gerações que ainda não estão preparadas
para a vida social, com o objetivo de desenvolver, nestas novas gerações, estados
necessários para a vida em sociedade.

Esta educação estará vinculada ao conjunto moral do grupo, por exemplo,


podendo variar de acordo com a função do grupo dentro do organismo social.
Ainda assim, esta educação irá conformar o indivíduo neste conjunto moral,
na intenção de haver uma base comum de ideias e sentimentos, que geram
práticas relativamente homogêneas. Para Durkheim, a educação possui função
homogeneizadora, por assim dizer.

64
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM

Neste ponto da análise, ele trata sobre os fins da educação, que podem
variar de acordo com o que a coletividade deseja que seja desenvolvido nos novos
integrantes sociais, mas que “exerce sobre os educadores uma pressão moral no
sentido de desenvolver nos educandos as qualidades comuns do grupo social e
seus ideais coletivos” (TURA, 2006, p. 51).

A busca por uma homogeneização a partir da educação se amplia quando


se trata de sociedades modernas, dado que a heterogeneidade crescente em função
da divisão social do trabalho particulariza cada vez mais as relações sociais. A
diferenciação se amplia, e os fins da educação relativos à manutenção do que é
comum à coletividade se distanciam.

Assim, o ser social precisa ser incutido nas crianças o quanto antes, para
que se agregue à sua individualidade uma natureza moral e social. A este processo
dá-se o nome de socialização, definido como “a interiorização do conjunto de
maneiras de ser, sentir, pensar e agir próprios do meio social em que se vive, o
que é essencial para a integração social do indivíduo” (TURA, 2006, p. 52).

Esta socialização se dá de forma metódica, porque possui objetivos


institucionais claros e uma função social definida, a partir do grupo ao qual
responde. A institucionalização desta educação moral é, para Durkheim, o
caminho para o pensamento coletivo, para que os indivíduos gostem da vida
em sociedade e pensem em ações coletivas e de comunidade, e não apenas ações
individualizadas.

DICAS

Esta foi apenas uma pequena síntese do pensamento de


Durkheim sobre a educação, e você pode acessar mais
informações nas obras dele e nas interpretações. Muitos
autores já se dedicaram a compreender as perspectivas
dele sobre a educação, pesquise! Sugiro que você
inicie pelo artigo que serviu como base para este texto,
intitulado Durkheim e a Educação. A autora é Maria de
Lourdes Rangel Tura, e está publicado no livro Sociologia
para Educadores, da Editora Quartet.

Sobre as obras do autor, você poderá iniciar pela leitura


de Educação e Sociologia e A Educação Moral, ambas
obras de Durkheim e publicadas no Brasil pela Editora
Vozes.

FONTE:<https://livralivro.com.br/books/show/352010?
recommender=I2>. Acesso em: 16 jan. 2019.

65
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

LEITURA COMPLEMENTAR

O QUE É FATO SOCIAL?

Émile Durkheim (trecho)

Antes de procurar qual método convém ao estudo dos fatos sociais,


importa saber quais fatos são assim denominados.

A questão se faz ainda mais necessária porque esse qualificativo é utilizado


sem muita precisão. É empregado correntemente para designar quase todos os
fenômenos que ocorrem no interior da sociedade, por pouco que apresentem,
com certa generalidade, algum interesse social. Mas desse modo não há, por assim
dizer, acontecimentos humanos que não possam ser chamados de sociais. Cada
indivíduo bebe, dorme, come, pensa, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse
em que essas funções sejam regularmente exercidas. Porém, se esses fatos fossem
sociais, a sociologia não teria objeto próprio, e seu domínio se confundiria com o
da biologia e o da psicologia.

Mas, na realidade, em toda sociedade há um grupo determinado de


fenômenos que se distinguem por traços específicos dos que são estudados pelas
outras ciências da natureza.

Quando exerço minhas tarefas de irmão, esposo ou cidadão, quando


realizo compromissos que assumi, cumpro deveres que estão definidos fora de
mim e de meus atos, no direito e nos costumes. Ainda que eles estejam de acordo
com meus sentimentos e eu os sinta interiormente na realidade, esta não deixa de
ser objetiva; pois não fui eu que os concebi, mas os recebi por meio da educação.
Quantas vezes, aliás, chegamos mesmo a ignorar os detalhes das obrigações que
nos incumbe, e, para conhecê-los, temos de consultar o Código e seus intérpretes
autorizados! Da mesma forma, as crenças e as práticas da vida religiosa, os fiéis,
ao nascer, as encontram prontas; se elas já existiam antes deles, isso significa
que existem fora deles. O sistema de signos de que me sirvo para expressar meu
pensamento, o sistema monetário que emprego para pagar minhas dívidas, os
instrumentos de crédito que utilizo em minhas relações comerciais, as práticas
adotadas em minha profissão etc. funcionam independentemente do uso que
faço deles. Tomando, um após o outro, todos os membros que compõem uma
sociedade, as conclusões anteriores poderão ser repetidas a propósito de cada
um. Eis aí, portanto, maneiras de agir, pensar e sentir que apresentam essa notável
propriedade de existir fora da consciência individual.

Esses tipos de conduta ou de pensamento não são apenas exteriores


ao indivíduo, mas também dotados de um poder imperativo e coercitivo em
virtude do qual se impõem a ele, quer queira, quer não. Sem dúvida, quando me
conformo a essa coerção voluntariamente, ela não se faz ou se faz pouco sentir,
sendo inútil. Mas, ainda assim, ela não deixa de ser um traço intrínseco desses

66
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

fatos, e a prova disso é que ela se afirma caso eu tente resistir. Se experimento
violar as regras do direito, elas reagem contra mim para impedir o meu ato, se
ainda houver tempo, ou para anulá-lo e restabelecê-lo à sua forma normal, se
ele tiver sido realizado e for reparável, ou para me fazer expiá-lo, se não houver
outro modo de repará-lo. E quanto às máximas puramente morais? A consciência
pública reprime todo ato que as ofenda por meio da vigilância que exerce sobre
a conduta dos cidadãos e através das penas especiais de que dispõe. Em outros
casos, a coerção é menos violenta, mas não deixa de existir. Se não me submeto às
convenções do mundo; se, ao me vestir, não levo em conta os costumes seguidos
em meu país e em minha classe, o riso que provoco e o isolamento em que me
vejo produzem, ainda que de modo atenuado, os mesmos efeitos que uma pena,
propriamente dita. Aliás, a coerção, por ser apenas indireta, não é menos eficaz.
Não sou obrigado a falar francês com meus compatriotas, nem a empregar
moedas legais; mas me é impossível agir de outra maneira. Se procurasse escapar
dessa necessidade, minha tentativa fracassaria miseravelmente. Industrial, nada
me interdita trabalhar com procedimentos e métodos de outro século; mas, se o
fizesse, certamente me arruinaria. Ainda que eu possa, de fato, libertar-me dessas
regras e violá-las com sucesso, isso não ocorre jamais sem que eu seja obrigado
a lutar contra elas. E, mesmo que elas sejam finalmente vencidas, fazem sentir
suficientemente seu poder coercitivo pela resistência que opõem. Mesmo quando
bem-sucedido, não há inovador cujos empreendimentos não se choquem com
oposições desse gênero.

Eis, portanto, uma ordem de fatos que apresentam características muito


especiais: consistem em maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo,
dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se lhe impõem.
Em consequência, não poderiam ser confundidos com os fenômenos orgânicos, já
que consistem em representações e ações; nem com os fenômenos psíquicos, que
existem somente na consciência individual e por meio dela. Esses fatos constituem,
portanto, uma espécie nova, e a eles deve ser dado e reservado o qualificativo de
sociais. Esse qualificativo lhes convém, pois é claro que, não tendo o indivíduo
por substrato, eles não podem ter outro que não a sociedade, seja a sociedade
política como um todo, seja qualquer um dos grupos parciais que ela contém,
sejam confissões religiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais
etc. Por outro lado, é unicamente a esses fatos que aquela expressão convém;
pois a palavra social só tem sentido definido com a condição de designar apenas
os fenômenos que não entram em nenhuma categoria de fatos já constituídos
e denominados. Eles constituem, portanto, o domínio próprio da sociologia. É
verdade que a palavra coerção, com a qual os definimos, corre o risco de enfurecer
os zelosos partidários de um individualismo absoluto. Como eles professam
que o indivíduo é perfeitamente autônomo, parece-lhes que este fica diminuído
todas as vezes que se evidencia que não depende apenas de si mesmo. Porém,
uma vez que hoje é incontestável que a maior parte de nossas ideias e tendências
não é elaborada por nós, vindo-nos de fora, elas somente podem penetrar em
nós impondo-se; isso é tudo o que nossa definição significa. Sabe-se, aliás, que a
coerção social não exclui necessariamente a personalidade individual.

67
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

Entretanto, como os exemplos que acabamos de citar (regras jurídicas,


morais, dogmas religiosos, sistemas financeiros etc.) consistem todos em
crenças e práticas constituídas, poder-se-ia supor, de acordo com o que foi dito,
que somente há fato social onde há organização definida. Mas há outros fatos
que, sem apresentar essas formas cristalizadas, têm as mesmas objetividade e
ascendência sobre o indivíduo. É o que se denomina de correntes sociais. Assim,
em uma assembleia, os grandes movimentos de entusiasmo, de indignação
e de compaixão que se produzem não têm origem em nenhuma consciência
particular. Chegam a cada um de nós de fora, e são suscetíveis de nos mover
apesar de nós. Sem dúvida, pode ocorrer que, me abandonando sem reserva, eu
não sinta a pressão que exercem sobre mim. Mas esta se revela tão logo eu tente
lutar contra ela. Quando um indivíduo tenta se opor a uma dessas manifestações
coletivas, os sentimentos que nega retornam contra ele. Ora, se esse poder de
coerção externo se afirma com tal nitidez nos casos de resistência, é porque
existe também, ainda que inconscientemente, nos casos contrários. Somos então
vítimas de uma ilusão que nos faz acreditar que nós mesmos elaboramos o que
se nos impôs de fora. Mas, se a complacência com que nos deixamos levar por
essa força mascara a pressão sofrida, ela não a suprime. Da mesma forma, o
ar não deixa de ser pesado, ainda que não sintamos o seu peso. Mesmo que
tenhamos, de nossa parte, colaborado espontaneamente para a emoção comum,
a impressão que experimentamos é completamente diferente da que sentiríamos
se estivéssemos sozinhos. Assim, quando a assembleia se dispersa, quando suas
influências sociais deixam de agir sobre nós e encontramo-nos novamente a sós,
os sentimentos que vivenciamos dão a impressão de algo estranho no qual não
mais nos reconhecemos. Percebemos então que os sofremos muito mais do que
os produzimos. Pode até mesmo acontecer de eles nos causarem horror, tão
contrários eram à nossa natureza. É desse modo que indivíduos perfeitamente
inofensivos na maior parte do tempo podem, reunidos na multidão, ser
levados a cometer atos de atrocidade. Ora, o que dizemos sobre essas explosões
passageiras aplica-se igualmente aos movimentos de opinião, mais duráveis,
sobre assuntos religiosos, políticos, literários, artísticos etc., que se produzem
incessantemente em torno de nós, seja em toda a extensão da sociedade, seja em
círculos mais restritos.

Essa definição de fato social pode, aliás, ser confirmada por uma
experiência característica. Basta observar o modo como as crianças são educadas.
Quando se examinam os fatos tais como eles são e como sempre foram, salta aos
olhos que toda educação consiste em um esforço contínuo para impor à criança
maneiras de ver, sentir e agir às quais ela não chegaria espontaneamente. Desde
os primeiros tempos de sua vida, coagimo-la a que coma, beba, durma em horas
regulares; forçamo-la à limpeza, à calma e à obediência; mais tarde a obrigamos
a aprender a considerar o outro, a respeitar os costumes, as conveniências;
forçamo-la ao trabalho etc. Se essa coerção, com o tempo, deixa de ser sentida, é
porque pouco a pouco deu origem a hábitos, a tendências internas que a tornam
inútil, mas que só a substituem porque dela derivam. É certo que, de acordo com
Spencer, uma educação racional deveria reprovar tais procedimentos e deixar
a criança agir com toda a liberdade; mas como essa teoria pedagógica jamais

68
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE ÉMILE DURKHEIM: TEORIA E MÉTODO

foi posta em prática por nenhum povo conhecido, ela não constitui senão um
desideratum pessoal, e não um fato que se possa opor aos precedentes. Ora, esses
últimos tornam-se particularmente instrutivos quando se tem em mente que a
educação tem justamente por objeto formar o ser social; pode-se, assim, perceber,
resumidamente, de que maneira esse ser social constituiu-se na história. Essa
pressão que a criança sofre a todo o momento é a própria pressão do meio social
que tende a moldá-la à sua imagem, e do qual, pais e mestres são apenas os
representantes e os intermediários.

Portanto, não é a sua generalidade que pode servir para caracterizar


os fenômenos sociológicos. Um pensamento que se encontra em todas as
consciências particulares, um movimento que todos os indivíduos repetem
não são por isso fatos sociais. Quem se contentou com esse traço para defini-
los, confundiu-os erroneamente com o que se poderia chamar de encarnações
individuais. O que os constitui são as crenças, as tendências, as práticas de
um grupo tomadas coletivamente; quanto às formas de que se revestem os
estados coletivos, refratados nos indivíduos, são coisas de outra espécie. O que
demonstra categoricamente essa dualidade de natureza é que essas duas ordens
de fatos apresentam-se frequentemente dissociadas. Com efeito, algumas
dessas maneiras de agir ou de pensar adquirem, pela repetição, uma espécie
de consistência que as precipita, por assim dizer, e as isola dos acontecimentos
particulares que as refletem. Elas ganham, assim, um corpo, uma forma sensível
que lhes é própria, constituindo uma realidade sui generis, muito distinta da
dos fatos individuais que a manifestam. O hábito coletivo não existe apenas
em estado de imanência nos atos sucessivos que ele determina, mas, por um
privilégio que não encontra exemplo no reino biológico, exprime-se de uma vez
por todas em uma fórmula que se repete de boca em boca, que se transmite pela
educação, que se fixa até mesmo por escrito. Tais são a origem e a natureza das
regras jurídicas, morais, dos aforismos e dos ditados populares, dos artigos de fé
em que as seitas religiosas ou políticas condensam as suas crenças, dos códigos
de gosto que as escolas literárias regulam etc. Nenhuma delas é inteiramente
encontrada nas aplicações que os particulares fazem, pois podem até mesmo
existir sem que sejam atualmente aplicadas.

Certamente essa dissociação não se apresenta sempre com a mesma


nitidez. Mas basta que ela exista de maneira incontestável nos casos importantes
e numerosos que acabamos de citar para provar que o fato social distingue-
se de suas repercussões individuais. Aliás, ainda quando essa dissociação não
se dá imediatamente à observação, pode-se com frequência realizá-la com a
ajuda de certos artifícios de método; é mesmo indispensável recorrer a essa
operação, caso se queira isolar o fato social de toda contaminação para observá-
lo em estado puro. Assim, há certas correntes de opinião que nos impelem, com
intensidade variável, segundo o tempo e conforme os países, uma ao casamento,
por exemplo, outra ao suicídio ou a uma natalidade mais ou menos intensa
etc. Trata-se evidentemente de fatos sociais. À primeira vista, eles parecem
inseparáveis das formas que assumem nos casos particulares. Mas a estatística
nos fornece o meio de isolá-los. São, com efeito, figurados, não desprovidos de

69
UNIDADE 1 | O FUNCIONALISMO DE ÉMILE DURKHEIM

exatidão, pelas taxas de natalidade, de nupcialidade, de suicídios, quer dizer,


por um número que se obtém dividindo a média total anual dos casamentos,
dos nascimentos e das mortes voluntárias pelo número de homens em idade de
se casar, procriar, de se suicidar. Como cada uma dessas cifras abrange todos os
casos particulares indistintamente, as circunstâncias individuais que podem ter
alguma participação na produção do fenômeno se neutralizam mutuamente e,
em decorrência, não contribuem para determiná-lo. O que essa cifra exprime é
certo estado de alma coletivo.

Esses são os fenômenos sociais, desembaraçados de todo elemento


estranho. Quanto a suas manifestações privadas, têm realmente algo de social, já
que reproduzem parcialmente um modelo coletivo; mas cada uma delas depende
também, e em larga medida, da constituição orgânico-psíquica do indivíduo, das
circunstâncias particulares em que ele se situa. Não são, portanto, fenômenos
propriamente sociológicos. Pertencem, de maneira simultânea, a dois reinos;
poderiam ser chamadas de sociopsíquicas. Elas interessam ao sociólogo sem
que constituam a matéria imediata da sociologia. Analogamente, no interior do
organismo encontram-se fenômenos de natureza mista que são estudados pelas
ciências mistas, como a química biológica.

Mas, dir-se-á, um fenômeno somente pode ser coletivo se for comum


a todos os membros da sociedade ou, ao menos, à maior parte deles; se for,
portanto, geral. Sem dúvida. Mas se ele é geral é porque é coletivo (isto é, mais
ou menos obrigatório), longe de ser coletivo por ser geral. Trata-se de um estado
do grupo que se repete entre os indivíduos porque se impõe a eles. Ele está em
cada parte porque está no todo, longe de estar no todo por estar nas partes. Isso
fica, sobretudo, evidente nas crenças e nas práticas que nos são transmitidas
completamente prontas pelas gerações anteriores; nós as recebemos e as adotamos
porque, sendo simultaneamente uma obra coletiva e uma obra secular, estão
investidas de uma autoridade particular que a educação nos ensina a reconhecer
e a respeitar. Ora, é notável como a maioria dos fenômenos sociais nos chega
por essa via. No entanto, ainda que o fato social seja em parte devido à nossa
colaboração, a sua natureza não é outra. Um sentimento coletivo que irrompe
numa assembleia não exprime simplesmente o que possuía de comum com todos
os outros sentimentos individuais. Ele é algo totalmente distinto, como já vimos.
Resulta da vida comum, produto das ações e reações que se estabelecem entre
as consciências individuais; e, se esse sentimento ressoa em cada uma delas, é
graças à energia especial que se deve precisamente à sua origem coletiva. Se todos
os corações vibram em uníssono, não é em consequência de uma espontânea
concordância preestabelecida; é que uma mesma força os move numa mesma
direção. Cada um é levado por todos.
[...]

FONTE: MUSSE, R. Émile Durkheim: fato social e divisão do trabalho. São Paulo: Ática, 2007.
p. 14–23.

70
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Para analisar o suicídio, Durkheim o trata como fato social, aplicando seu
método sociológico e uma pesquisa com dados empíricos.

• Ele classifica o suicídio em três tipos: suicídio egoísta, suicídio altruísta e


suicídio anômico.

• Suas análises levam à conclusão da importância da moralidade como fator de


integração social, já que o utilitarismo das funções exercidas na divisão social
do trabalho leva ao desentendimento do todo e às relações anômicas.

• Na divisão do trabalho social, a corporação ou o grupo profissional faria o papel


de regulamentador que a moral coletiva não estava conseguindo cumprir.

• O autor buscou entender os princípios das religiões primitivas, mais diretamente


a partir do totemismo encontrado em diferentes grupos australianos.

• Ao analisar as religiões, este autor nota que estas são compostas pela divisão
da sociedade em duas esferas: o profano e o sagrado.

• Segundo ele, a ciência e demais formas de pensamento moderno possuem


origem na religião (pois são a primeira forma de representação do mundo),
portanto, parte para o estudo de suas origens sociais.

• Ele reconhece a existência de dois seres que convivem nos seres humanos: o ser
individual e o ser social.

• O conjunto das ideias, valores, representações que possuem natureza própria


nas instituições educacionais e independem dos indivíduos que as frequentam
naquele momento, permitem observar a educação como fato social.

71
AUTOATIVIDADE

1 É no estudo sobre o suicídio como fenômeno social que se pode observar


a aplicação de um método sociológico durkheimiano. Sobre as três
classificações apresentadas por Durkheim para o suicídio, associe os itens,
utilizando o código a seguir:

I- Suicídio egoísta.
II- Suicídio altruísta.
III- Suicídio anômico.

( ) Ocorre em função da ausência de normas que guiem a vida individual.


( ) Ocorre por fins sociais, pela integração demasiada do indivíduo em seu
grupo social.
( ) Ocorre pela falta de integração do indivíduo aos grupos da sociedade.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) I - II - III.
b) ( ) I - III - II.
c) ( ) III - II - I.
d) ( ) II - I - III.

2 Duas instituições sociais, estudadas com aprofundamento por Durkheim,


foram a educação e a religião. Sobre ambas, analise as seguintes sentenças:

I- A educação pode, para Durkheim, ser observada como fato social porque
sua existência independe dos indivíduos que a compõem em um determinado
momento.
II- A educação e a moralidade possuem uma relação direta na obra de
Durkheim, pois, para ele, a educação possui finalidades de educação moral.
III- As religiões são, para Durkheim, fruto de uma ordem social guiada pelo
divino, que determina as influências do indivíduo na esfera social.
IV- As análises sobre a religião contribuíram para Durkheim pensar em uma
teoria sociológica do conhecimento.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
b) ( ) Somente as afirmativas III e IV estão corretas.
c) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas.
d) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.

72
UNIDADE 2

O MATERIALISMO HISTÓRICO-
DIALÉTICO DE KARL MARX

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• situar as características e os principais aspectos das bases teóricas e


metodológicas do pensamento sociológico de Karl Marx;

• examinar as principais contribuições da teoria do materialismo-dialético


de Marx para a teoria sociológica clássica;

• sistematizar os conceitos principais da teoria sociológica de Marx;

• analisar os desdobramentos da teoria sociológica de Marx para a sociologia


com base em temas cuja sua influência nas formas de análise persiste nas
interpretações contemporâneas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 - A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

TÓPICO 2 - CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-


DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

TÓPICO 3 - OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

73
74
UNIDADE 2
TÓPICO 1

A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA


E MÉTODO

1 INTRODUÇÃO
Este primeiro tópico irá apresentar as obras, teorias e métodos de análise
desenvolvidos por Karl Marx, mais um dos autores clássicos da Sociologia.
Assim como Durkheim, ele também possui uma vasta obra, que será iniciada
neste livro didático, cujo aprofundamento irá depender de suas leituras e buscas
complementares. Neste sentido, temos uma série de obras sugeridas para que
você, acadêmico, conheça melhor os trabalhos do autor.

Para iniciar, conheceremos o contexto de vida do autor e as influências


sofridas para o desenvolvimento do materialismo dialético e materialismo
histórico — Hegel e Feuerbach. Entendidas as bases de suas teorias, seguiremos
para o método de análise, buscando compreender como o olhar sobre o modo
de produção dos grupos sociais é determinante para a sociologia desenvolvida
a partir de Marx. Fechando o tópico, o foco será direcionado para o modelo
capitalista, principal direcionamento de análise do autor.

Esta trajetória inicial servirá como base para o entendimento dos conceitos
marcados na obra marxiana, que serão estudados no segundo tópico desta
unidade. Portanto, concentre-se em compreender os principais elementos da
teoria e do método de análise social estabelecidos a partir de Marx. Boa leitura!

2 VIDA E OBRA
Para iniciarmos nossos estudos sobre Marx, vamos contextualizar sua
vida:

Karl Marx (1818–1883) foi um filósofo e revolucionário socialista


alemão. Criou as bases da doutrina comunista, onde criticou o
capitalismo. Sua filosofia exerceu influência em várias áreas do
conhecimento, tais como Sociologia, Política, Direito e Economia.

Karl Heinrich Marx nasceu em Trier, Renânia, província ao sul da


Prússia - um dos muitos reinos em que a Alemanha estava fragmentada,
no dia 5 de maio de 1818. Filho de Herschel Marx, advogado e

75
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

conselheiro da justiça, descendente de judeu, era perseguido pelo


governo absolutista de Guilherme III. Em 1835, depois de concluir
seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm, Karl ingressou no curso de
Direito da Universidade de Bonn, onde participou das lutas políticas
estudantis.

No final de 1836, Karl Marx se transferiu para a Universidade de


Berlim para estudar Filosofia. Nessa época, se propagavam as ideias
de Hegel, destacado filósofo e idealista alemão. Marx se alinha com os
"hegelianos de esquerda", que procuram analisar as questões sociais
fundamentados na necessidade de transformações na burguesia da
Alemanha. Entre 1838 e 1840, Karl Marx se dedica a elaborar sua tese.
Doutorou-se em Filosofia em 1841, na Universidade de Jena, com a
tese A Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro.

Por motivos políticos, Karl Marx não consegue a nomeação para


lecionar na universidade, que não aceita mestres que seguem as ideias
de Hegel. Com a recusa, Marx passa a escrever artigos para os Anais
Alemães, de seu amigo Arnold Ruge, mas a censura impede sua
publicação. Em outubro de 1842, muda-se para Colônia, e assume a
direção do jornal Gazeta Renana, onde conhece Friedrich Engels, mas
logo após a publicação do artigo sobre o absolutismo russo, o governo
fecha o jornal.

Em julho de 1843, Marx casa-se com Jenny, irmã de seu amigo Edgard
von Westphalen. O casal muda-se para Paris, onde Marx junto com
Ruge funda a revista Anais Franco-Alemãs, e publica os artigos de
Friedrich Engels. Publica também Introdução à Crítica da Filosofia do
Direito de Hegel e Sobre a Questão Judaica. Nessa época, ingressa numa
sociedade secreta.

Em fins de 1844, Marx começa a escrever para o Vornaerts, em Paris.


As opiniões desagradam o governo de Frederico Guilherme V,
imperador da Prússia, que pressiona o governo francês a expulsar os
colaboradores da publicação, entre eles Marx e Engels. Em fevereiro
de 1845, é obrigado a sair da França e segue para a Bélgica.

Karl Marx dedica-se a escrever teses sobre o socialismo e mantém


contato com o movimento operário europeu. Funda a Sociedade dos
Trabalhadores Alemães. Junto com Engels, adquirem um semanário e
se integram à Liga dos Justos, entidade secreta de operários alemães,
com filiais por toda a Europa.

No Segundo Congresso da Liga dos Justos, Marx e Engels são


solicitados para redigir um manifesto. No dia 21 de fevereiro de 1848,
com base no trabalho de Engels, Os Princípios do Comunismo, Marx
escreve o Manifesto Comunista, onde esboça suas principais ideias
com a luta de classes e o materialismo histórico. Critica o capitalismo,
expõe a história do movimento operário, e termina com um apelo pela
união dos operários no mundo todo. Pouco tempo depois, Karl e sua
mulher são presos e expulsos da Bélgica e se instalam em Londres.
Apesar da crise, em 1864, Marx funda a Associação Internacional dos
Trabalhadores, que fica conhecida como “Primeira Internacional".
Com a ajuda de Engels, publica em 1867 o primeiro volume de sua
mais importante obra, O Capital, em que sintetiza suas críticas à
economia capitalista.

76
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

A principal obra de Karl Marx é O Capital, nele, Marx faz uma


análise crítica ao capitalismo. Sintetiza o modo de funcionamento da
economia capitalista, mostrando que ela está baseada na exploração
do trabalhador assalariado, que produz um excedente que acaba
ficando para o capitalista. Segundo as teorias desenvolvidas por Karl
Marx, o excedente deveria voltar para o trabalhador, na forma de
salário, numa porcentagem do valor equivalente ao que foi produzido,
e a outra parte ficaria com o dono dos meios de produção. Essa seria
então o que Marx chamou de “mais-valia”. Com a ajuda de Engels, o
primeiro volume foi publicado em 1867.

Karl Marx faleceu em Londres, Inglaterra, no dia 14 de março de 1883


(FRAZÃO, 2018, s.p.)

FIGURA 1 – KARL MARX

FONTE: <http://fpaladini.blogspot.com/2014/05/por-que-voce-deveria-respeitar-karl-marx.
html>. Acesso em: 1 dez. 2018.

DICAS

Uma excelente síntese sobre a vida de Marx e alguns


textos fundamentais do autor estão em Marx: Sociologia.
Organizada por Florestan Fernandes, publicada em várias
edições pela Editora Ática. Além disso, este texto também
apresenta diretrizes gerais da concepção sociológica e da
posição metodológica do autor.

FONTE:<https://http2.mlstatic.com/marx-sociologia-
florestan-fernandes-e-octavio-ianni-D_NQ_NP_796711-
MLB20609408951_022016-O.webp>. Acesso em: 14 fev. 2019.

77
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Historicamente situados, vamos iniciar nossos estudos sobre as principais


obras, teorias e conceitos de Karl Marx. Boa leitura!

3 MATERIALISMO DIALÉTICO
Antes de acessarmos a principal herança de Marx, e o que podemos
chamar de seu método de explicação da sociedade, precisamos separar dois itens
e compreendê-los individualmente: um é o materialismo dialético, entendido
como sua teoria filosófica, e outro o materialismo histórico, entendido como um
método de estudo para a vida social. Ambos influenciaram o desenvolvimento
do materialismo histórico-dialético, que estudaremos no próximo tópico desta
unidade. Por ora, vamos estudar estas duas partes separadamente, prossigamos!

Para entender o pensamento filosófico de Marx e o funcionamento


da dialética em seu pensamento, iremos acompanhar principalmente o
desenvolvimento lógico realizado por Sell (2002), em seus escritos sobre Marx
no livro Sociologia Clássica. Ele explica o materialismo dialético a partir de três
momentos: a influência dos autores Hegel e Feuerbach; a superação de Marx
em relação à obra destes autores; e por último, a participação do materialismo
dialético na reformulação epistemológica da sociologia.

Vamos iniciar pelo entendimento das influências de Hegel, cuja principal


é o uso do método dialético.

Marx explica que mantém uma atitude crítica com relação à dialética
hegeliana, com sua famosa frase de que a dialética em Hegel está de “cabeça
para baixo”. Desta maneira, ele afirma ser necessário manter a dialética como
método, mas realizar modificações no que diz respeito ao conteúdo previsto por
Hegel. Em termos descritivos, Hegel propõe um idealismo dialético, enquanto
Marx propõe um materialismo dialético.

Para Hegel, a história deveria ser compreendida como movimento,


diferenciando-se da metafísica, onde a realidade possui uma essência que a define.
As modificações no mundo, nas coisas, ocorreriam — mas a essência de tudo
seria e permaneceria a mesma — do ponto de vista da metafísica. Quando Hegel
apresenta a dialética, ele defende que a realidade é composta por um constante
movimento, e não por uma essência imutável.

Portanto, aí se dá a principal inovação do pensamento hegeliano,


diferenciando-se do pensamento metafísico: se para o método metafísico a
essência das coisas não se modifica, no método dialético entende-se a realidade
como um movimento constante (SELL, 2002).

Sendo assim, cabe descobrir o que seria a razão ou causa deste movimento
constante, desta constante transformação, que para Hegel é a contradição. Todo

78
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

ser é contraditório, ou seja, já contém em si a sua negação. Este é o chamado


princípio da contradição. “Para Hegel, o princípio de que todos os seres são
contraditórios é uma lei que governa toda a realidade. É o fato de que todo ser
é contraditório que explica a causa do movimento ou do devir contínuo” (SELL,
2002, p. 153).

DICAS

Quer conhecer um pouco mais sobre Hegel e entender seu


importante legado filosófico? Uma de suas obras mais famosas
é A Fenomenologia do Espírito, publicada no Brasil pela Editora
Vozes, em diferentes edições.

F O N T E : < h t t p s : / / re s e n h a s d e f i l o s o f i a . f i l e s .w o rd p re s s .
com/2014/09/fenomenologiadoespirito.jpg>.Acesso em: 14
fev. 2019.

Confuso? Para detalhar, e explicar melhor o exemplo do diálogo que


Sell utiliza, pela sua aproximação com a o processo dialético. No diálogo o
pensamento se forma pela troca de afirmações, a ação ou contradição da ideia
afirmada anteriormente é que gera o movimento, ou pensamento. Assim ocorre
um diálogo, ele necessita da contradição de ideias para existir. Vejamos como
Sell explica:

O exemplo do diálogo nos ajuda a esclarecer duas coisas. Em primeiro


lugar, ele nos mostra a ideia de movimento, de devir ou ainda de
transformação. Ao trocarmos ideias com outras pessoas, nossos
pensamentos vão se alterando e as ideias de nosso interlocutor
também. De pensamento em pensamento, ou de ideia em ideia, o
que temos no diálogo é movimento constante. Em segundo lugar, fica
fácil perceber que este movimento de ideias é causado pela oposição
ou contradição das ideias entre si. Se não houvesse um confronto
de ideias, certamente não teríamos o movimento. A oposição ou
contradição de ideias é que gera o movimento. São justamente estes
dois aspectos que formam a essência da dialética em Hegel. Segundo
o autor (i) a realidade é uma contínua transformação (II) cuja causa ou
razão é o princípio da contradição, ou seja, o fato de que todos os seres
são contraditórios (SELL, 2002, p. 154).

79
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

FIGURA 2 – EXEMPLO SATIRIZADO DE DIALÉTICA

FONTE: <http://karlmarxicf.blogspot.com/>. Acesso em: 5 nov. 2018.

É importante frisar que o princípio para Hegel é a contradição inerente a


todos os seres, ou seja, a negação que cada um possui em si. No exemplo anterior,
isso está explícito quando se nota que ao afirmar uma ideia o indivíduo está se
opondo a outra, sempre. A negação está intrínseca, é nisso que você precisa se
concentrar para entender as ideias de Hegel: a afirmação de uma ideia gera a
negação de outra, ou seja, cada ser ou ideia existente possui em si a contradição
a outra ou outras.

Chegamos então ao seguinte esquema, que os intérpretes de Hegel


desenvolveram para esclarecer seu idealismo dialético (SELL, 2002, p. 155):

Tese  Antítese  Síntese/Tese  Antítese  Síntese/Tese

Esta seria, portanto, a dinâmica fundamental dos seres: tese – afirmação;


antítese – negação; síntese – negação da negação. A contradição precisa ser
superada pela síntese, portanto, que pode ser chamada de unidade dos contrários.
As sínteses serão novas teses e, assim, segue o movimento.

Desta maneira, a realidade seria marcada pelo movimento, a história


seria sempre movimento, gerado pela contradição existente em si. O início da
história seria a ideia, o elemento fundante. Confuso? Sell detalha bem esta parte
do pensamento de Hegel, veja:

De acordo com Hegel, seguindo a lei da contradição, o pensamento


aliena-se (sai de si mesmo) e torna-se o seu contrário: a matéria. Temos,
assim, a segunda fase da história. Finalmente, no terceiro momento da
história, a matéria supera a negação do espírito e torna-se “cultura”,
que é justamente uma síntese, ou seja, a superação das contradições
entre o pensamento e a matéria (SELL, 2002, p. 154).

80
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

O que Marx entendia que precisava ser modificado no pensamento de


Hegel era justamente a posição do pensamento nesta forma de pensar. Para ele,
a causa, o fundamento de tudo é a matéria, o elemento material. É a matéria
que provoca o movimento da história, e todo o processo de pensamento e de
construção das ideias surge a partir disso.

E
IMPORTANT

Você percebeu que de certa maneira Marx inverte o idealismo de Hegel? Se para
Hegel o movimento parte da ideia, do pensamento, para então desenvolver a matéria e gerar
história, para Marx esta ordem é invertida. Parte-se do mundo material para o pensamento
e a ideia, e é esse mundo material que faz movimentar a história. Você irá perceber que os
autores que tratam sobre este tema, nas obras, se referem sempre desta maneira: à inversão
que Marx faz do idealismo dialético e de Hegel. Agora você já sabe do que se trata!

Agora passemos ao segundo conjunto de ideias que influenciou o


materialismo dialético de Marx, provenientes do autor Feuerbach. A influência
de Feuerbach se dá especialmente na noção de alienação, conceito muito presente
nas obras de Marx e que terá uma seção especial nesta unidade. Por hora, cabe
entender a alienação na perspectiva de Feuerbach.

Este autor fazia parte da chamada esquerda hegeliana, um conjunto de


autores que estudava o pensamento de Hegel de uma forma crítica. Marx também
fazia parte deste grupo. De toda a obra de Hegel, Feuerbach se debruçou mais
sobre o estudo acerca da religião, que segundo ele seria uma forma de alienação
dos seres humanos.

Feuerbach também coloca o materialismo como início das coisas,


especialmente da religião. Para ele é o ser humano quem cria a ideia do divino,
e o coloca como um ser criado à imagem e semelhança do homem. Ou seja, ele
inverte a lógica religiosa, que indica o ser humano como imagem e semelhança
de Deus, que criou a humanidade. A tirinha a seguir explica esta ideia (Figura 3).

81
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

FIGURA 3 – CHARGE SATIRIZANDO O PENSAMENTO DE FEUERBACH

FONTE: <http://old.operamundi.com.br/conteudo/samuel/39073/
galeria+de+imagens+as+charges+em+portugues+de+charb+editor+do+charlie+hebdo
morto+no+ataque+em+paris.shtml>. Acesso em: 5 nov. 2018.

Vejamos como chegamos a esta inversão sobre o fenômeno religioso na


alienação:

De acordo com a explicação de Feuerbach, a religião é uma projeção


dos desejos do homem. A ideia de que Deus é um ser perfeito e
absoluto foi inventada pelo homem porque representa tudo aquilo que
o homem gostaria de ser. Deus nada mais é do que o homem perfeito,
um “super-homem”. Deus, portanto, é a própria essência humana.
Mas, em vez de reconhecer que a essência está nele mesmo, o homem
a coloca fora dele, em um ser espiritual que ele mesmo projetou.
Alienação, portanto, é justamente quando o homem não perceber as
coisas como elas são. O homem está alienado quando não percebe a
si mesmo, não reconhece a sua própria essência (SELL, 2002, p. 157).

O ponto chave que você precisa registrar é o final desta citação. A alienação
é o estado no qual o indivíduo não percebe as coisas como elas realmente são,
quando ele se desconecta de sua essência e não percebe mais seu lugar no mundo,
seu espaço na ordem social.

Enquanto Feuerbach refletia sobre esta alienação no quesito religioso,


desenvolvendo que o próprio ser humano projetava a religião como forma de se
alienar do mundo acerca do qual ele mesmo era responsável, Marx modificava
este pensamento.

82
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Para Marx a alienação existia, mas ela ocorria em função da alienação


material, ocorrida pelo sistema capitalista. É a posição do ser humano neste
modo de produção que o impede de ter noção da realidade e consciência de sua
essência. Para Marx, o capitalismo aliena o ser humano de sua própria essência,
que é o trabalho, na medida em que a propriedade privada, fundamento desta
forma econômica, separa o homem da sua natureza.

DICAS

Vamos aprofundar nossos estudos sobre a alienação em


Marx ainda nesta unidade, mas se você quiser conhecer mais
sobre suas reflexões acerca do pensamento de Feuerbach, a
obra mais indicada é Teses sobre Feuerbach, possível de ser
encontrada publicada pela Editora Jorge Zahar no Brasil.

FONTE:<https://http2.mlstatic.com/S_970347-MLB275776179
45_062018-O.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019

Agora que você já conhece as influências principais para o desenvolvimento


do materialismo dialético de Marx, podemos compreender como este autor supera
as contribuições de Hegel e de Feuerbach. Ele entende que a esquerda hegeliana
errou ao manter suas reflexões apenas no território das ideias, sem pensar as
condições reais de vida (SELL, 2002). Para Marx, não é apenas o mundo de ideias
que determina o pensamento humano, e sim as condições de produção material.

Para tanto, Marx elenca cinco pressupostos que, para ele, não podem ser
deixados de lado quando se pretende interpretar a história, dado que determinam
a humanidade do ponto de vista das condições cotidianas. A seguir segue a
descrição destes pressupostos:

O primeiro pressuposto básico da história é que os homens devem


estar em condições de viver para fazer história. A primeira realidade
histórica é a produção da vida material.
O segundo pressuposto é que tão logo a primeira necessidade é
satisfeita, a ação de satisfazê-la e o instrumento já adquirido para
essa satisfação criam novas necessidades. E essa produção de
necessidades novas é o primeiro ato histórico.

83
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

O terceiro pressuposto existente desde o início da evolução histórica


é a de que os homens, que renovam diariamente sua própria vida,
se põem a criar outros, a se reproduzirem – é a relação entre homem
e mulher, pais e filhos – é a família.
Segue-se um quarto pressuposto, de que um modo de produção ou
um estágio industrial está sempre ligado a um modo de cooperação.
A massa das forças produtivas determina o estado social.
Finalmente, somente depois de ter examinado os pontos anteriores,
no quarto pressuposto é que se pode verificar, segundo Marx, “que
o homem tem consciência”. Para Marx, a consciência nasce da
necessidade, da existência de intercâmbio com outros homens. A
consciência é, desde o seu início, um produto social (SELL, 2002,
p. 161).

Desse modo, Marx defende a determinação da matéria sobre a consciência


individual, fundando o materialismo dialético. A realidade existe a partir do
mundo material, e não a partir do pensamento, pois este também é determinado
pelas condições materiais.

Ao comparar o idealismo ao materialismo, temos:

FIGURA 4 – QUADRO COMPARATIVO

IDEALISMO DIALÉTICO

TESE Ideia em si A realidade é pensamento

ANTÍTESE Ideia fora de si A realidade torna-se matéria

A realidade é pensamento e
SÍNTESE Ideia em si e para si
matéria

MATERIALISMO DIALÉTICO

TESE Matéria (Natureza)

ANTÍTESE Pensamento (Trabalho)

SÍNTESE Sociedade (História)

FONTE: Sell (2002, p. 162)

Esta forma de pensar a dialética é determinante para o entendimento de


como as teorias de Marx influenciam a forma de pensar a ordem social. Para
além da observação do meio material como determinante para a transformação
da história, existem outros aspectos primordiais. Analisemos novamente a
explicação de Sell (2002).

84
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Agora que já compreendemos as diferenças entre o método dialético


em Hegel e Marx, vamos refletir sobre a influência do método dialético
na sociologia marxista. Quais as contribuições que a noção de dialética
em Marx trouxe para a construção dos fundamentos filosóficos desta
ciência? Em que medida o método dialético permitiu a Marx entender
a sociedade? Destaquemos, pois, alguns elementos neste sentido.
Em primeiro lugar, para entender a importância do materialismo
dialético na sociologia marxista, é importante destacarmos a posição
central que a interação entre o homem e a natureza adquire nesta teoria.
Para Marx, o elemento central para se entender o desenvolvimento da
sociedade é o TRABALHO: a ação do homem sobre a matéria.
De acordo com o esquema dialético de Marx, é pelo trabalho que o
homem supera sua condição de ser apenas natural e cria uma nova
realidade: a sociedade. Assim, se a matéria (mundo natural) representa
a tese, temos que o trabalho representa a antítese da matéria, que
uma vez modificada pelo homem gera a sociedade, que é a síntese. A
sociedade é justamente a síntese do eterno processo dialético pelo qual
o homem atua sobre a natureza e a transforma:
O trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza,
processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona,
regula e controla seu intercâmbio material com a natureza [...].
Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo
tempo modifica sua própria natureza.
A dialética do trabalho tem uma dupla importância para a sociologia.
O trabalho não só é uma condição indispensável da vida social, mas
também é o elemento determinante para a formação do ser humano,
seja como indivíduo, seja como ser social. Sem o trabalho não haveria
nem ser humano, nem relações sociais, nem sociedade e nem mesmo
a história. Por tudo isso, pode-se dizer que a categoria trabalho é o
conceito fundante e determinante de toda construção teórica marxista.
Um segundo aspecto importante do método dialético é que ele permitiu
à teoria marxista repensar um dos principais dilemas enfrentados
no campo da epistemologia sociológica: a relação entre indivíduo e
sociedade. Na teoria marxista, a relação do homem com a sociedade
não é reduzida a um ou outro dos polos, como faziam as teorias
anteriores. Ou seja, o homem não é fruto exclusivo da sociedade, nem
esta resulta apenas da ação humana. Na perspectiva dialética, existe
uma eterna relação entre indivíduo e sociedade, que faz com que
tanto a sociedade quanto o homem se modifiquem, desencadeando o
processo histórico-social.
Marx, em frase que se tornou célebre, enunciou esta ideia de uma
forma muito feliz, ao afirmar que “os homens fazem a história, mas
não a fazem como querem. Eles a fazem sob condições herdadas do
passado”. Nesta frase, Marx deixa muito claro o peso que as estruturas
sociais exercem sobre os indivíduos, mas, dialeticamente, mostrou que
os homens partem justamente destas mesmas estruturas para recriá-
las pela sua própria ação (SELL, 2002, p. 161).

Desta maneira, finalizamos o entendimento sobre a importância do modo


de pensar dialético e materialista para a sociologia, o que reitera a participação
de Marx no desenvolvimento do pensar sociológico — a tal ponto de tornar-se
um clássico. Seguiremos agora pelo estudo do materialismo histórico, outra parte
importante do pensamento deste autor, especialmente para a sociologia.

85
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

4 MATERIALISMO HISTÓRICO
Como vimos, para Marx a história é fruto do movimento gerado a partir do
trabalho humano, e não do pensamento, das ideias, ou de algum espírito absoluto.
A interação entre os seres humanos, buscando satisfazer suas necessidades, é
que desencadearia o processo histórico. É nessa perspectiva que Marx observa e
investiga a sociedade.

A análise da vida social deve, portanto, ser realizada através de uma


perspectiva dialética que, além de procurar estabelecer as leis de
mudança que regem os fenômenos, esteja fundada no estudo dos
fatos concretos, a fim de expor o movimento do real em seu conjunto.
Marx afirma que a compreensão positiva das coisas “inclui, ao mesmo
tempo, o conhecimento de sua negação fatal, de sua destruição
necessária, porque ao captar o próprio movimento, do qual todas as
formas acabadas são apenas uma configuração transitória, nada pode
detê-la, porque em essência é crítica e revolucionária” (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 28).

Para Marx, a possibilidade de estudo da ordem social inicia quando se


parte da consciência de que a vida social, política e intelectual é condicionada
pela produção de vida material — tanto das condições preexistentes ao indivíduo,
quanto das que ele mesmo criou. Para tanto, “as relações materiais que os homens
estabelecem e o modo como produzem seus meios de vida formam a base de
todas as suas relações” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 28).

DICAS

A ruptura de Marx com a esquerda hegeliana, ou seja,


suas ideias contrapondo o que este grupo defendia e
apresentando sua perspectiva materialista, estão descritas
na, escrita em parceria com Engels (Marx possui algumas
obras em parceria com ele). No Brasil você pode procurar
pela edição publicada pela Editora Martin Claret, na coleção
A obra-prima de cada autor.

FONTE:<https://d38h3sy5jr28pf.cloudfront.net/capas-
livros/9788572322898-karl-marx-a-ideologia-alema-
feuerbach-a-contraposicao-entre-as-cosmovisoes-
materialista-e-idealista-296407947.jpg>. Acesso em: 14
fev. 2019.

86
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Os estudos sobre a ordem social, portanto, deveriam iniciar pela economia


— que condiciona todo o desenvolvimento social. A vida material do homem,
e a produção desta vida material, seriam o ponto de partida para as análises
sociológicas. Marx não era sociólogo de formação, no entanto, estabelecendo este
pressuposto ele desenvolve uma teoria sociológica que o coloca na posição de
clássico nesta ciência — ao lado de Durkheim e Weber.

A historicidade das instituições, portanto, seria perceptível a partir do


estudo do modo de produção de um grupo, já que são mutáveis e impactam
nas relações entre as pessoas — iniciando pelas econômicas, e seguindo para as
demais (sociais, culturais etc.). Dessa mesma maneira, as representações e ideários
compartilhados sofrem esta influência, sendo localizados historicamente.

Para ele, tanto os processos ligados à produção são transitórios, como


as ideias, concepções, gostos, crenças, categorias do conhecimento e
ideologias, os quais, gerados socialmente, dependem do modo como
os homens se organizam para produzir. Portanto, o pensamento e a
consciência são, em última instância, decorrência da relação homem/
natureza, isto é, das relações materiais (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 29).

A famosa frase relativa a isso é que os seres humanos precisam estar


em condições de viver para poder fazer história. Para viver é preciso ter suas
necessidades satisfeitas: bebida, alimento, abrigo, vestimenta etc. O primeiro fato
histórico, portanto, a primeira causa, é justamente a produção destes meios —
a vida material. É a partir deste argumento que ele desenvolve o materialismo
histórico.

Na medida em que precisa satisfazer sua condição material, o ser humano


modifica a natureza, criando objetos e artefatos — além do que, a própria forma
de satisfazer as suas necessidades naturais também difere entre os grupos. A fome
pode ser resolvida de diferentes formas, com diferentes refeições. A vestimenta
também, modifica-se a cada grupo. O resultado das maneiras de satisfação
é passado para as gerações seguintes, como cultura. Torna-se um processo de
produção e reprodução da vida material.

“O processo de produção e reprodução da vida através do trabalho é,


para Marx, a atividade humana básica, a partir da qual se constitui a ‘história
dos homens’, é para ele que se volta o materialismo histórico, método de
análise da vida econômica, social, política, intelectual” (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 29).

87
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

E
IMPORTANT

Vale ressaltar que não é sobre qualquer modo de produção que Marx fala, ou
seja, pela produção em si. Ele destaca a produção dos indivíduos em sociedade, este é seu
foco de análise. Para entender a realidade é preciso, segundo ele, observar a estrutura social
— que dependerá do estágio de desenvolvimento de suas forças produtivas — e as relações
sociais de produção correspondentes.

Notou que as forças produtivas aparecem com frequência no estudo


sobre o materialismo histórico? Quando Marx fala de forças produtivas ele se
refere às formas pelas quais os indivíduos obtiveram os meios para satisfazer
suas necessidades, “em que grau desenvolveram sua tecnologia, processos e
modos de cooperação, a divisão técnica do trabalho, habilidades e conhecimentos
utilizados na produção, a qualidade dos instrumentos e as matérias-primas de
que dispõem” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 30). Trata-se do
grau de domínio do grupo com relação à natureza.

Outro termo que aparece com frequência é o de relações sociais de


produção, tratando das formas de distribuição dos meios de produção e do
produto, e também do tipo de divisão social do trabalho de uma sociedade em
um dado período histórico.

Ele expressa o modo como os homens se organizam entre si para


produzir; que formas existem naquela sociedade de apropriação de
ferramentas, tecnologia, terra, fontes de matéria-prima e de energia,
e eventualmente de trabalhadores; quem toma decisões que afetam
a produção; como a massa do que é produzido é distribuída, qual a
proporção que se destina a cada grupo, e as diversas maneiras pelas
quais os membros da sociedade produzem e repartem o produto
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 30).

O modo de produção de uma sociedade está ligado à forma necessária


de cooperação entre os indivíduos para que este funcione. A própria cooperação
torna-se uma força produtiva, e ela mesma pode ser utilizada em função de
interesses particulares. Sendo assim, a distribuição mencionada anteriormente
pode referir-se ao grupo social, ao produto e aos meios para produzi-lo —
distinguindo o acesso ao próprio processo produtivo.

Já a divisão social do trabalho aparece, na leitura de Marx, em separações


como trabalho intelectual e manual, trabalho industrial de trabalho agrícola,
subdivisão em grupos que dominam algumas tarefas, como controle financeiro,
ocupações religiosas, políticas, entre outros. Portanto, há posições desiguais que
contribuem para a divisão em classes da sociedade, desenhando a estrutura social.

88
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Assim sendo, as noções de forças produtivas e de relações sociais


de produção mostram que tais relações se interligam de modo que
as mudanças em uma provocam alterações na outra. Em resumo, o
conceito de forças produtivas refere-se aos instrumentos e habilidades
que possibilitam o controle das condições naturais para a produção, e
seu desenvolvimento é em geral cumulativo. O conceito de relações
sociais de produção trata das diferentes formas de organização da
produção e distribuição, de posse e tipos de propriedade dos meios
de produção, bem como e que se constituem no substrato para
a estruturação das desigualdades expressas na forma de classes
sociais. O primeiro trata das relações homem/natureza e o segundo
das relações entre os homens no processo produtivo (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 30).

Essa é a base, portanto, de análise social de Marx. A partir da


necessidade de produzir sua própria existência, os seres humanos adentram
relações independentes de sua vontade, mas necessárias para que possam
participar do sistema produtivo — ou seja, desenvolvem relações de produção
que correspondem a um grau de desenvolvimento de suas forças produtivas
materiais. E é com base nestas relações que se desenvolve a estrutura econômica
da sociedade, acima da qual ergue-se o que ele chama de superestrutura, que
iremos estudar mais à frente na unidade, com detalhes.

DICAS

Um resumo das análises que vimos até aqui, e que discutem


a chamada teoria sociológica de Marx, pode ser encontrado
na obra Contribuição à Crítica da Economia Política, Editora
Expressão Popular. Também há versões disponíveis em domínio
público na internet.

FONTE:<https://www.expressaopopular.com.br/loja/wp-content/
uploads/2016/09/1475031411_.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019.

A dimensão econômica é, para Marx, a base da sociedade, que ele chama


de infraestrutura. É sobre esta base que está construída a estrutura ideológica
da sociedade, o que ele chama de superestrutura. A infraestrutura condiciona
a superestrutura, e por isso é preciso partir da análise de sua base material
para compreender como esta condiciona a via ideológica e política da sociedade
(SELL, 2002).

89
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Se formos traduzir em uma imagem o princípio de análise da teoria


sociológica de Marx, vamos ver que ela é bem diferente do que vimos na
unidade anterior com a imagem sobre a teoria sociológica de Durkheim, já que a
análise determinante do sociólogo é no aspecto econômico, ou seja, o indivíduo
é determinado pela classe na qual está posicionado na estrutura das forças de
produção. Veja:

FIGURA 5 – REPRESENTAÇÃO DA RELAÇÃO INDIVÍDUO X SOCIEDADE PARA MARX

ECONOMIA
(MODO DE PRODUÇÃO)

SOCIEDADE
(CLASSES)

FONTE: A autora (2018)

Temos aí o domínio da dimensão econômica, da forma de produção


desenvolvida pelo grupo social sobre as classes, das quais fazem parte os
indivíduos. Portanto, temos uma relação de dominação entre o modo de produção
e as interpretações individuais, e é sobre isso que versa a próxima seção. Vamos
entender como se dá esta relação. Prossigamos!

5 ANÁLISE DO MODO DE PRODUÇÃO


Para explicar a dimensão econômica da sociedade, ou infraestrutura,
como ele chama, Marx analisou as sociedades do ponto de vista da evolução.
Para este autor, assim como vimos em Durkheim, também existe um percurso
evolutivo a ser seguido pelos grupos sociais.

Se em Durkheim as funções do organismo social evoluem para uma


solidariedade orgânica, para Marx a observação do sociólogo deve ocorrer a partir
da evolução do modo de produção. Para tanto, ele desenvolveu um esquema de
evolução da sociedade ocidental, “mostrando como as modificações das forças
produtivas alteravam as relações de produção (classes sociais) e também produzia
novas classes dominantes e novas formas de enxergar a realidade (ideologias)”
(SELL, 2002, p. 172).

90
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Estas etapas seriam:

• Modo de produção primitivo.


• Modo de produção escravista.
• Modo de produção asiático.
• Modo de produção feudal.
• Modo de produção capitalista.
• Modo de produção comunista.

Sell (2002) apresenta os detalhes de cada uma destas etapas, e iremos nos
basear em seus escritos para estudá-las.

5.1 MODO DE PRODUÇÃO PRIMITIVO


As sociedades primitivas não possuem Estado, e a chefia dos grupos é
realizada pelos chefes de família, ou seja, a organização dos grupos é comunitária
— a partir da distribuição do poder destes chefes. A consciência que prevalece
é a religião, e os grupos unem-se para enfrentar os desafios da natureza. Neste
sentido, o modo de produção é baseado na coletividade de posse dos meios de
produção, já que as áreas de caça e os produtos são propriedades comuns. Como
exemplo, temos as tribos indígenas existentes no início da colonização no Brasil.
Segue quadro sistematizando este modo de produção (Figura 6):

FIGURA 6 – MODO DE PRODUÇÃO PRIMITIVO

1. Modo de produção primitivo

Ideologia Religião primitiva

Estado Organização comunitária


Propriedade coletiva
Relações de Produção
Não há classes sociais
Forças Produtivas Cultivo da terra/Caça/Colheita

Fonte: Sell (2002, p. 173)

5.2 MODO DE PRODUÇÃO ESCRAVISTA


Superada a etapa de caça e coleta, instaurada a agricultura, a próxima
etapa é baseada na produção agrícola, ou seja, possui excedentes econômicos e
traz consigo o modo de produção escravista. Forma típica de grandes impérios
como Grécia e Roma, basicamente os escravos são prisioneiros de guerra. A
divisão da sociedade ocorre gerando duas classes: senhores e escravos; o poder
político surge (Estados Imperiais), e a religião assume papel ideológico com a
criação de deuses para que não se questione a ordem social baseada na dominação
e exploração de classe.
91
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

FIGURA 7 – MODO DE PRODUÇÃO ESCRAVISTA

2. Modo de produção escravista

Ideologia Religião do Estado

Estado Impérios centralizados (Ex: Roma)

Relações de Produção Senhores x Escravos

Forças Produtivas Cultivo da terra com base na escravidão

Fonte: Sell (2002, p. 174)

5.3 MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO


O mundo oriental baseia-se, principalmente, neste modo de produção, no
qual as terras são posse do Estado, e a divisão de classes se dá entre governantes e
escravos. O Estado é fortemente centralizado e controla a ordem social, a exemplo
dos grandes impérios como China, Egito e Babilônia. Os governantes possuem
este poder porque são considerados seres divinos, e a religião é muito forte neste
modo de produção.

FIGURA 8 – MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO

3. Modo de produção asiático (Oriente)

Ideologia Religião do Estado

Estado Impérios centralizados (Ex: China)

Relações de Produção Estados x Escravos

Forças Produtivas Propriedade estatal e escravidão

Fonte: Sell (2002, p. 174)

5.4 MODO DE PRODUÇÃO FEUDAL


O modo de produção feudal é originário da Europa, até o século XV —
em função da divisão em feudos do continente, gerada pela queda do Império
Romano. Estas grandes extensões de terra, ou feudos, eram cultivadas pelos
servos — que eram livres, mas passavam a vida trabalhando para os senhores
feudais, mantendo seu sustento dessa forma. A administração política do feudo
é de cada dono, o Estado está enfraquecido, e a unidade feudal é dada pelo
catolicismo — que apresenta a ordem social como vontade divina: nobreza, clero
e povo. Novamente, temos a legitimidade da dominação de classe justificada pela
religião.

92
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

FIGURA 9 – MODO DE PRODUÇÃO FEUDAL

4. Modo de produção feudal

Ideologia Catolicismo

Estado Poder descentralizado (Feudos)

Relações de Produção Senhores x Servos

Forças Produtivas Cultivo da terra/ arrendamento

Fonte: Sell (2002, p. 174)

5.5 MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA


A Revolução Industrial modifica as formas produtivas, fazendo surgir
duas grandes classes: burguesia e proletariado. A burguesia — donos dos meios
de produção - exerce o poder por meio do Estado Parlamentar e impõe sua visão
de mundo por meio das artes, ciência, filosofia e religião.

FIGURA 10 – MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA

5. Modo de produção capitalista

Ideologia Cultura burguesa (individualismo)

Estado Estado Parlamentar

Relações de Produção Burguesia x proletariado

Forças Produtivas Indústria

Fonte: Sell (2002, p. 175)

5.6 MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA


É neste modo de produção que reside boa parte do esforço de Marx em
compreender a ordem social, já que para ele o capitalismo enfrentaria uma grande
crise e seria substituído pelo modo de produção comunista (iremos estudar este
processo mais adiante, em detalhes). Neste modo de produção não haveria classes
nem Estado, e a exploração e propriedade privada seriam abolidos. Fechando este
pensamento, Sell nos apresenta as etapas da vida social que podem ser extraídas
de Marx:

93
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

FIGURA 11 – ETAPAS DA HISTÓRIA PARA MARX

TESE ANTÍTESE SÍNTESE

Sociedade sem classes Sociedades de classes Sociedade sem classes

- Modo de produção escravista


- Modo de produção - Modo de produção asiático
Comunismo
primitivo - Modo de produção feudal
- Modo de produção capitalista

Fonte: Sell (2002, p. 176)

Esta seria a lógica de evolução identificada por Marx, embora ela não seja
entendida por ele como um esquema rígido que precisa ser seguido por todas as
sociedades. Esta análise foi realizada por ele muito mais na tentativa de entender
o surgimento do capitalismo, pois foi sobre este modelo econômico que ele se
debruçou em estudos.

Verificando os modos de produção desta perspectiva, conseguimos


compreender as diferenças entre eles e como o modo capitalista está posicionado,
sabendo quais são suas características próprias.

5.7 MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA


Marx desenvolveu suas análises sobre o capitalismo em uma grande obra,
um clássico das teorias econômicas: O Capital. São quatro volumes, os três últimos
editados por Engels a partir dos manuscritos de Marx:

• Livro I – O processo de produção do Capital (1867).


• Livro II – O processo de circulação do Capital (1885).
• Livro III – O processo global de produção capitalista (1894).
• Livro IV – Teorias da mais-valia (1905–1910).

94
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

DICAS

No Brasil há uma versão da obra O Capital publicada


recentemente pela Editora Boitempo, o primeiro livro publicado
em 2013 e os demais volumes em anos seguintes.

FONTE:<https://www.boitempoeditorial.com.br/resizer/
view/900/900/true/false/119.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019.

A base de análise do sistema capitalista é a mercadoria, que pode ser


definida tanto pelos produtos quanto pela própria força de trabalho — e possui
valor de uso e valor de troca. Enquanto valor de uso, satisfaz as necessidades
humanas, servindo como meio de subsistência ou solucionando as fantasias e
desejos humanos. Esse valor de uso se efetiva no consumo. Enquanto valor de
troca, há produtos que se destinam para uso próprio e não se tornam mercadorias
porque não se destinam para trocas. Sobre o valor de troca, explicando:

Para calcular a valor de troca de uma mercadoria, mede-se a quantidade


da “substância” que ela contém, o trabalho, embora para isso não se
leve em conta as diferenças entre habilidades e capacidades de seus
produtores individualmente e, sim, a força social média, o tempo
de trabalho socialmente necessário, isto é, “todo trabalho executado
com grau médio de habilidade e intensidade em condições normais
relativas ao meio social dado”. Ou seja, o cálculo do valor de troca é
feito segundo o tempo de trabalho gasto na sua produção, em uma
sociedade e em um período dados. Distintas mercadorias podem ter
valores diferentes e, para que seus possíveis consumidores realizem
entre si os intercâmbios que pretendem, é preciso haver um meio
de quantificar tais valores, que variam segundo o lugar e a época, a
disponibilidade de materiais, as técnicas para obtê-las e transformá-
las etc. No momento da permuta, faz-se a abstração da forma concreta
assumida pela mercadoria (um prato feito ou um ramo de flores) e
do seu valor de uso, e então “só lhe resta uma qualidade: a de ser
produto do trabalho [...] uma inversão de força humana de trabalho,
sem referência à forma particular em que foi invertida” (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 43).

Há que se considerar, também, que neste sistema ninguém produz tudo


o que precisa, ou seja, a diversificação da produção gera divisão do trabalho.

95
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Os valores de uso são diferenciados, pois as mercadorias estão relacionadas ao


investimento de trabalho realizado para sua produção. Estes valores podem ser
materializados em forma de moeda, e são trocados e negociados no mercado.

Portanto, o capitalismo pressupõe a existência do mercado, para negociação


do capital, no qual também é possível negociar a força de trabalho, que é livre e
também pode ser negociada. Mas é claro que há regras para o estabelecimento de
seu valor:

E como se determina o valor da força de trabalho no mercado?


Através do “valor dos meios de subsistência requeridos para
produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho”, ou
seja, tudo o que é necessário para que o trabalhador se reproduza
de acordo com suas habilidades, capacitação e nível de vida, o qual
varia historicamente entre épocas, regiões e ocupações. Isso também
significa que o produtor reproduz a si mesmo enquanto categoria
“trabalhador” e à sua família para que, como diz Marx, “essa singular
raça de possuidores dessa mercadoria se perpetue no mercado”. O
capital - para quem ela é útil e que compra essa mercadoria - não é
simplesmente uma soma de meios de produção. Esses, sim, é que
foram transformados em capital ao serem apropriados pela burguesia.
O capital, assim como o trabalho assalariado, é uma relação social de
produção, é uma forma histórica de distribuição das condições de
produção, resultante de um processo de expropriação e concentração
da propriedade (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 44).

A ideologia que sustenta o sistema capitalista é a ideologia da igualdade,


pela qual todos são iguais perante a lei, o mercado, o Estado, como se o salário
recebido pela sua força de trabalho fosse equivalente — ou seja, uma troca justa.
Na verdade, há produção de lucros excedentes que permitem aos detentores
dos modos de produção um acúmulo de capital. Este excedente é a chamada
mais-valia.

FIGURA 12 – CHARGE SATIRIZANDO A DESIGUALDADE ORIGINADA PELO CAPITALISMO

FONTE: <https://www.cebi.org.br/noticias/hora-de-aceitar-que-o-capitalismo-nao-deu-certo/>.
Acesso em: 26 nov. 2018.

96
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE KARL MARX: TEORIA E MÉTODO

Iremos estudar a mais-valia no próximo tópico, junto a outros conceitos


fundamentais para que você compreenda o pensamento de Marx. Eles são a base
para o entendimento de suas reflexões sobre o sistema capitalista, e também para
que possamos entender o materialismo histórico-dialético.

Vamos encerrar com uma sugestão de vídeo e seguimos para o próximo


tópico, onde estudaremos com mais afinco os conceitos de base das teorias
marxistas.

DICAS

Para finalizar, veja o vídeo Clássicos da Sociologia: Karl Marx, disponível na


plataforma Youtube — uma aula produzida pela Universidade Virtual do Estado de São
Paulo — UNIVESP, sobre Marx. Você poderá acessá-lo em: https://www.youtube.com/
watch?v=2DmlHFtTplA.

97
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Marx desenvolveu o materialismo dialético, entendido como sua teoria


filosófica, e o materialismo histórico, entendido como um método de estudo
para a vida social. Ambos influenciaram o desenvolvimento do materialismo
histórico-dialético.

• Marx é influenciado pelo idealismo dialético de Hegel, para quem a dinâmica


principal dos seres é tese, antítese, síntese.

• Se para Hegel o movimento parte da ideia, do pensamento, para então


desenvolver a matéria e gerar história, para Marx esta ordem é invertida. Parte-
se do mundo material para o pensamento e a ideia, e é esse mundo material
que faz movimentar a história.

• Outra influência veio do pensamento de Feuerbach, que refletia sobre a


alienação no quesito religioso, desenvolvendo que o próprio ser humano
projetava a religião como forma de se alienar do mundo acerca do qual ele
mesmo era responsável.

• Marx modificou este pensamento afirmando que a alienação existia, mas ela
ocorria em função da alienação material, ocorrida pelo sistema capitalista e a
partir do trabalho humano.

• Para Marx, a história é fruto do movimento gerado a partir do trabalho


humano, e não do pensamento, das ideias, ou de algum espírito absoluto. A
interação entre os seres humanos, buscando satisfazer suas necessidades, é que
desencadearia o processo histórico.

• Quando Marx fala de forças produtivas, ele se refere às formas pelas quais os
indivíduos obtiveram os meios para satisfazer suas necessidades.

• As relações sociais de produção tratam das formas de distribuição dos meios


de produção e do produto, e também do tipo de divisão social do trabalho de
uma sociedade em um dado período histórico.

• Se em Durkheim as funções do organismo social evoluem para uma


solidariedade orgânica, para Marx a observação do sociólogo deve ocorrer a
partir da evolução do modo de produção.

• A base de análise do sistema capitalista é a mercadoria, que pode ser definida


tanto pelos produtos quanto pela própria força de trabalho — e possui valor de
uso e valor de troca.

98
AUTOATIVIDADE

1 A teoria sociológica de Marx é marcada pela observação do modo de


produção como determinante para a organização social. Sobre as principais
influências sofridas por este autor para o desenvolvimento de seu
pensamento sociológico, analise as seguintes sentenças:

I- Para Hegel, o movimento parte da ideia, do pensamento, para então


desenvolver a matéria e gerar história, para Marx esta ordem é invertida.
II- Para Feuerbach, a alienação do ser humano estava na religião, e para Marx
estava na alienação material originada pelo sistema capitalista.
III- Marx desenvolve o materialismo dialético, onde a realidade existe a
partir do mundo material, e não a partir do pensamento, pois este também é
determinado pelas condições materiais.

Assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Somente a afirmativa III está correta.


b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.
d) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.

2 A história é fruto do movimento gerado a partir do trabalho humano, e


não do pensamento, das ideias, ou de algum espírito absoluto. A interação
entre os seres humanos, buscando satisfazer suas necessidades, é que
desencadearia o processo histórico. Estamos falando da teoria sobre:

a) ( ) Materialismo Dialético.
b) ( ) Materialismo Histórico.
c) ( ) Sistema Capitalista.
d) ( ) Luta de Classes.

99
100
UNIDADE 2 TÓPICO 2

CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO
HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

1 INTRODUÇÃO
Passamos no primeiro tópico pelas bases de construção do materialismo
histórico-dialético, e o quanto ele é uma forma fundamental de compreensão dos
sistemas econômicos, especialmente do sistema capitalista.

Neste tópico, o direcionamento se dá para o estudo dos conceitos


fundamentais da obra de Marx, neste contexto do materialismo histórico-
dialético. Ressalto a importância de que seus estudos sigam além do material do
caderno, já que a obra de Marx é vasta e são muitos conceitos a serem apreendidos
e aprofundados.

O recorte se dará nos conceitos de: infraestrutura e superestrutura,


mercadoria e dinheiro, exploração e mais-valia e alienação. É fundamental
compreender este conjunto teórico para utilizar da maneira correta os fundamentos
do materialismo histórico-dialético como modo de compreensão da sociedade.
Vamos começar? Boa leitura!

2 INFRAESTRUTURA E SUPERESTRUTURA
Sendo simplistas, mas de uma maneira muito didática para que você
registre a diferença, é possível afirmar em síntese que a infraestrutura é a dimensão
econômica, enquanto a superestrutura é composta pela vida política e cultural da
sociedade, ou seja, corresponde à dimensão ideológica.

Para explicar a infraestrutura, vamos compreender a relação do ser


humano com o trabalho. O trabalho é o elemento central da economia, já que para
sobreviver os seres humanos produzem bens para satisfazer suas necessidades.
Sendo assim, por este meio a natureza é transformada e a garantia da reprodução
da existência humana se perpetua (SELL, 2002).

101
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Neste processo de trabalho é possível identificar duas dimensões


fundamentais: a relação do homem com a natureza, e a relação do homem com
outras pessoas.

A relação do ser humano com a natureza ocorre pela mediação de


instrumentos de trabalho e matéria-prima, que são meios de apoio no processo
de produção. Este conjunto é chamado de forças produtivas, como vimos no
tópico anterior. São estas forças produtivas, compostas por tudo o que é usado no
processo de produção, que determinam muitas escolhas do indivíduo — pois já
estão postas na medida em que ele se insere na sociedade.

Para Marx, o trabalho e a produção não são fenômenos isolados, eles


ocorrem a partir da relação entre os indivíduos, ou seja, é um fenômeno social.
Desenvolvem-se, portanto, relações de produção — materializadas na divisão
do trabalho. Estas relações ocorrem a partir das forças produtivas, já que estas
irão determinar o posicionamento do indivíduo na classe e em seus grupos
(SELL, 2002).

E
IMPORTANT

A infraestrutura, portanto, é composta pelas forças produtivas e pelas relações de


produção — este conjunto é a base econômica de uma sociedade. E como toda sociedade
organiza seu processo de trabalho, é possível observar estas dimensões nos diferentes grupos.
Assim, o sociólogo pode compreender as relações entre os indivíduos a partir da análise das
forças produtivas, pois elas irão determinar o tipo de relação existente entre as pessoas. As
relações sociais são condicionadas pelas forças produtivas.

Essa base (forças produtivas + relações de produção) formada pela


infraestrutura é o fundamento para o desenvolvimento das instituições políticas
e sociais, na medida em que são produzidos também itens que não têm forma
material: as ideologias políticas, as concepções religiosas, os códigos morais, as
representações coletivas, e é este conjunto que compõe a superestrutura.

São os homens que produzem as suas representações, as suas ideias


etc., mas os homens reais, atuantes, e tais como foram condicionados
por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do
modo de relações que lhes corresponde, incluindo até as formas mais
amplas que estas possam tomar. A consciência nunca pode ser mais
que o Ser consciente, e o Ser dos homens é o seu processo da vida real...
Assim, a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia,
tal como as formas de consciência que lhes correspondem, perdem
imediatamente toda aparência de autonomia. Não têm história, não
têm desenvolvimento; serão, antes, os homens que, desenvolvendo

102
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

a sua produção material e as suas relações materiais, transformam,


com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos
deste pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim
a vida que determina a consciência (MARX, ENGELS; 1845, s.p.).

A forma das instituições, os sistemas jurídicos, as escolhas políticas, são


determinados pela organização do processo produtivo, para Marx. Todos fazem
parte do conjunto da superestrutura, estes itens não materiais ou elementos
abstratos, que compõem a sociedade.

As classes geradas a partir da posse dos meios de produção dividem


a sociedade em grupos — frutos das relações estabelecidas a partir do modo
de produção. A propriedade privada origina os donos, os proprietários, que
necessitam consolidar seu domínio utilizando a força — gerando assim o Estado.

O Estado é, portanto, instrumento para garantia de dominação econômica


de uma classe sobre as outras, para Marx. As leis e as determinações estatais seguem
o interesse das classes dos proprietários (SELL, 2002). Quando estas leis falham,
o Estado ainda possui a possibilidade do uso estatal da força, especialmente das
forças armadas — o que garante a manutenção dos privilégios. Esta é a concepção
de Estado estabelecida por Marx.

Além do Estado, na superestrutura também há a ideologia. Para Marx,


as ideias disseminadas na sociedade são as ideias de uma classe dominante, ou
seja, ao assumir o domínio, uma classe privilegiada impõe também sua visão
de mundo e seus valores. As demais classes assumem esta visão como real e
não percebem sua exploração, tornando-se alienadas. Definindo, para Marx, “a
ideologia, portanto, é um conjunto de falsas representações da realidade, que
servem para legitimar e consolidar o poder das classes dominantes” (SELL, 2002,
p. 171).

E
IMPORTANT

A superestrutura é composta pelo Estado e pela Ideologia, instrumentos


de dominação das classes privilegiadas. A superestrutura, portanto, é condicionada pela
infraestrutura, já que é nesta segunda que se forma a classe que dominará os meios de
produção e, por consequência, deterá o poder político e ideológico da sociedade.

Para fechar, cabe destacar que há contradições na interpretação destes


dois conceitos segundo Marx, conforme apresenta a citação:

103
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

De toda maneira, a complexidade da relação estrutura e superestrutura


continuou levando a interpretações contraditórias do marxismo. As
chamadas leituras economicistas do pensamento de Marx enfatizam
o determinismo da vida econômica sobre as formas superestruturais,
excluindo qualquer possibilidade de que as ideologias, as ciências, a
arte, as crenças religiosas, as formas de consciência coletiva, tanto de
classes como de outros modos de associação, sistemas jurídicos ou de
governo tenham exercido sobre a história de um povo um papel, se
não determinante, pelo menos com peso semelhante ao da estrutura.
Tais perspectivas foram com frequência utilizadas com a finalidade de
impor concepções políticas autoritárias, mesmo que anticapitalistas,
algumas das quais se propuseram a promover uma “revolução” no
nível superestrutural de modo a adequá-lo às chamadas “necessidades
da produção”. Com isso, tradições culturais, valores, crenças e
costumes sofreram intervenções por parte de interesses políticos
organizados. Em muitos casos, manifestações artísticas como a poesia,
a escultura, a pintura e o teatro servem até hoje de testemunho das
exigências que lhes foram colocadas por vanguardas partidárias
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 35).

Assim como no tópico anterior, ao finalizar o estudo de um conceito do


autor clássico, vamos nos remeter ao seu próprio escrito. Lembre-se: é fundamental
interpretar a teoria sociológica direto da fonte, ou seja, direto do próprio autor.

O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de


fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção
social da sua vida, os homens contraem determinadas relações
necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que
correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas
forças produtivas materiais.
O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica
da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura
jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de
consciência social.
O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida
social, política e espiritual em geral.
Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo
contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar
a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas
materiais da sociedade se chocam com as relações de produção
existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as
relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali.
De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações
se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de
revolução social.
Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos
rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela.
Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre
entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de
produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das
ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas
ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens
adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo.

104
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que


ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas
de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário
explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo
conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de
produção.
Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam
todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações
de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da
própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência.
Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode
alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que esses objetivos
só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as
condições materiais para a sua realização.
A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de
progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção
asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas
de produção são a última forma antagônica do processo social de
produção, antagônica, não no sentido de um antagonismo individual,
mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida
dos indivíduos.
As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no seio da sociedade
burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a
solução desse antagonismo.
Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da
sociedade humana (MARX, 1859, p. 03).

Entendidos os conceitos de infraestrutura e superestrutura, bem como


reforçados os conceitos de forças produtivas e relações sociais de produção,
vamos seguir por duas noções não menos importantes na teoria e obra de Marx:
Mercadoria e Dinheiro.

3 MERCADORIA, VALOR E DINHEIRO


Dois conceitos essenciais para a interpretação do capitalismo por Marx foram
os conceitos de mercadoria e de dinheiro. Este primeiro, para ele, é a base da economia
capitalista, ou seja, o sistema só existe porque temos mercado, temos mercadoria.

A mercadoria é produzida no sistema capitalista e pode ser a base inicial


para explicação deste modo de produção, já que suas características ajudam a
compreender o sistema como um todo e seu funcionamento (SELL, 2002).

Para isso segue-se a lógica que vimos até aqui, do valor de uso e valor de
troca, enquadradas nas teorias de fundo dialético de Marx sobre a tese, antítese e
síntese. O valor de uso seria a tese, o valor de troca a antítese, e o valor de uso e o
valor de troca juntos, a síntese.

Vamos simplificar a partir da explicação de Sell (2002): “O valor de uso de


uma mercadoria é o seu aspecto material, ou seja, sua capacidade para satisfazer
uma necessidade humana. O valor de uso, portanto, tem a ver com o ‘conteúdo’
da mercadoria” (p. 179).

105
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Além do valor de uso, cada mercadoria possui seu valor de troca. “O valor
de troca é a capacidade que cada mercadoria possui para ser trocada por outra
mercadoria” (SELL, 2002, p. 179).

É nesta troca que começa a aparecer o problema: como é possível medir


o valor de uma mercadoria, ou seja, como saberei quanto da mercadoria A é
equivalente ao valor da mercadoria B? É neste ponto que entra na análise de
Marx a categoria trabalho. Veja que ele é central em todas as análises conceituais
do autor.

Para explicar esta relação de valores, Marx utiliza a teoria do valor-trabalho


do autor David Ricardo — e afirma que a grandeza do valor é determinada pela
quantidade de trabalho socialmente necessária para a produção do valor de uso. A
quantidade de trabalho também pode ser compreendida pelo tempo de trabalho.

Com isto é possível inferir que o valor de uma mercadoria é definido a


partir do trabalho que é investido nela, e explica: “Tempo de trabalho socialmente
necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor de uso
qualquer, nas condições de produção socialmente normais, existentes, e com
o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho” (MARX, 1994 apud
SELL, 2002, p. 170).

Para que a troca de mercadorias seja realizada é necessário que exista


uma outra mercadoria, que medeia esta situação: o dinheiro. E em sua obra O
Capital, Marx se lança na busca de entender a origem do dinheiro, a gênese desta
mediação que explica o sistema capitalista.

Segundo Marx, é possível apresentar a origem do valor de três formas,


conforme explicação de Sell (2002, p. 180):

a) Forma simples: uma mercadoria (x) pode ser trocada por outra
mercadoria (y).
b) Forma total: uma mercadoria (x) pode ser trocada por várias outras
mercadorias (a, b, c, d, e, f etc.).
c) Forma dinheiro: todas as mercadorias (a, b, c, d, e, f etc.) podem ser
trocadas por uma única mercadoria que serve de “equivalente geral”
para todas as mercadorias. É neste momento que surge o dinheiro.
A ação social de todas as outras mercadorias, elege, portanto, uma
mercadoria determinada para nela representarem seus valores. O
dinheiro, portanto, serve a dois propósitos: servir de meio de troca
e de forma de valor (ou equivalente geral das mercadorias).

A ênfase que Marx procura dar é sobre a relação entre dinheiro e trabalho.
Ele demonstra que dinheiro é mercadoria, e mercadoria é trabalho. Quando o
dinheiro perde sua relação direta com o trabalho, ocorre o que Marx chama de
“fetichismo da mercadoria”: “O capital desvinculado do trabalho aliena o ser
humano da produção de sua existência social” (SELL, 2002, p. 180).

106
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

E
IMPORTANT

Você certamente já ouviu falar nesta expressão de Marx, fetichismo da mercadoria.


Ela aparece muito nos estudos atuais sobre consumo, sobre mercado. É importante lembrar
que este processo aliena o ser humano: o torna objeto nas relações sociais, dependente das
mercadorias, e a mercadoria se torna sujeito. Nesta situação, não é mais a produção que
está a serviço do ser humano, e sim o ser humano encontra-se dominado pela produção —
escravo da mercadoria. De modo geral, portanto, o ser humano aliena-se de sua relação ativa
na transformação da natureza em mercadoria.

Nesta condição, as relações humanas não são mais observadas como tal,
são apenas relações baseadas na economia. É como se o olhar das pessoas estivesse
totalmente dominado pela produção econômica, pelas cifras mercadológicas.

FIGURA 13 – CHARGE SATIRIZANDO O FETICHISMO DA MERCADORIA

FONTE: <https://marxrevisitado.blogspot.com/2012/11/fetichismo-frases-imagem-e-som.html>.
Acesso em: 26 nov. 2018.

Para finalizar, vamos a um texto esclarecedor sobre isto, que apresenta


também o conceito de alienação, que estudaremos ainda neste tópico.

O conceito de “fetichismo da mercadoria” foi cunhado por Karl


Marx (1818-1883) na obra-prima intitulada O Capital [1867], estando
diretamente ligado a outro conceito, o de “alienação”.

107
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Palavra alienação vem do Latim alienus, que significa “de fora”,


“pertencente a outro”. Karl Max, em sua obra Manuscritos econômico-
filosóficos, de 1844, utilizou a palavra “alienação” para designar o
estranhamento do trabalhador com o produto do seu trabalho, ou seja,
o trabalhador não mais dominando todas as etapas de fabricação e não
possuindo os meios de produção para tal, acaba não se reconhecendo
no produto produzido, passando o produto a não ser visto como ligado
ao seu trabalho. É como se o produto tivesse surgido independente do
homem/produtor, como uma espécie de feitiço, daí o termo utilizado
por Max: fetichismo da mercadoria.
Para Marx (1994, p. 81):
“A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características
sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como
características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos
do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos
individuais dos produtores e o trabalho social total, ao refleti-la como
relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu
próprio trabalho”.
Nesse sentido, o produto perde a relação com o produtor e parece
ganhar vida própria. Passa a ser compreendido como algo “de fora”
do trabalhador, ficando esse “alienado” em relação ao produto.
Assim, o “Fetichismo da Mercadoria” caracteriza-se pelo fato de as
mercadorias, dentro do sistema capitalista, ocultarem as relações
sociais de exploração do trabalho.
Segundo Marx (1994, p. 81):
“Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume
a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar
um símile, temos que recorrer à região nebulosa da crença. Aí, os
produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria,
figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres
humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo
das mercadorias. Chamo isto de fetichismo […].”
O conceito de fetichismo influenciou diversos estudos posteriores, tais
como o desenvolvimento da teoria da coisificação, de Georg Lukács
(BODART, 2016, s.p.).

Para complementar seus conhecimentos sobre estes conceitos, vamos a


uma dica de leitura e, posteriormente, seguimos para a próxima seção, onde o
estudo estará concentrado nos conceitos de exploração e mais-valia.

DICAS

Para conhecer melhor o conceito de fetichismo da mercadoria, alienação, e a


relação de ambos com o trabalho, procure realizar a leitura do artigo disponível no link: http://
www.scielo.br/pdf/rbcpol/n17/0103-3352-rbcpol-17-00007.pdf. A referência é: LIMA, Rômulo
André. Trabalho, alienação e fetichismo. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n.17,
p. 7-42, maio – ago. 2015.

108
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

4 EXPLORAÇÃO, MAIS-VALIA E LUCRO


Conforme vimos, a base do sistema capitalista para Marx é formada
por dois itens, a mercadoria e o dinheiro. Ambos passam por um processo de
circulação, que ele alinha como sendo: a mercadoria é trocada por dinheiro, e o
dinheiro é trocado por mercadoria. Este fluxo ele chama de processo de circulação
simples.

Este processo de circulação tem início na tentativa de satisfação de uma


necessidade, que parte de um valor de uso que é vendido. Com o dinheiro deste
valor de uso adquire-se outro valor de uso, ou seja, satisfaz-se uma necessidade
(SELL, 2002). O dinheiro, portanto, é um meio de troca neste contexto.

Esta é a lógica da circulação simples, diferente da circulação capitalista,


que inicia no dinheiro, que é trocado por uma mercadoria, para que gere mais
dinheiro. O objetivo da circulação capitalista, portanto, é o lucro.

Sell (2002) estabelece as seguintes fórmulas de comparação (M=


mercadoria, D= dinheiro):

M -------------------- D --------------------- M  circulação simples


D -------------------- M --------------------- + D  circulação capitalista

A particularidade do capitalismo, portanto, é a acumulação e geração de


lucro. O primeiro dinheiro, o capital, torna-se mais dinheiro — e o objetivo final
não é mais a satisfação das necessidades, e sim o acúmulo. A mercadoria (valor
de uso) entra neste ciclo apenas como uma mediação para a obtenção de lucro —
para valorizar o capital inicial.

Mas então fica a pergunta: se este dinheiro entra e, no processo, torna-se


mais capital — como isto acontece? De onde surge o lucro?

Sell (2002) nos explica, a partir da teoria de Marx, que o lucro se origina
no processo de produção: “No primeiro ato da circulação, que é a compra de
uma mercadoria (D – M), o capitalista interrompe a troca para transformar a
mercadoria pelo trabalho. Como o trabalho cria valor, no segundo ato da troca
(M – D), a mercadoria pode ser vendida por um valor maior” (SELL, 2002, p. 182).

Neste ponto da teoria chegamos ao tão polêmico, e conhecido, conceito


da obra de Karl Marx, e tenho certeza de que você — com seu interesse pela
sociologia — já ouviu falar sobre ele: a mais-valia.

Em resumo: “Pelo processo de transformação da mercadoria, o capitalista


contrata um operário e lhe oferece um salário por uma determinada jornada de
trabalho. De onde vem o lucro? Ora, vem do tempo de trabalho não pago ao
trabalhador, que é chamado por Marx de mais-valia.” (SELL, 2002, p. 182).

109
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

E
IMPORTANT

A mais-valia é, nas teorias de Marx, o que origina o lucro — é o tempo de trabalho


não pago ao trabalhador dentro de uma determinada jornada de trabalho.

Ainda nos apropriando de Sell (2002), vejamos seu exemplo para ilustrar
a mais-valia:

FIGURA 14 – EXEMPLO DO PROCESSO DE OBTENÇÃO DA MAIS-VALIA

FONTE: Sell (2002, p. 183)

110
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

A impressão inicial passada ao trabalhador é de que a troca da força de


trabalho por um valor em salário é equivalente, no entanto, o valor produzido no
tempo de trabalho é superior ao qual ele vende suas capacidades.

Marx distingue o tempo de trabalho necessário, durante o qual se dá a


reprodução do trabalhador e no qual gera o equivalente a seu salário,
do tempo de trabalho excedente, período em que a atividade produtiva
não cria valor para o trabalhador mas para o proprietário do capital.
Em função das relações sociais de produção capitalistas, o valor que
é produzido durante o tempo de trabalho excedente ou não pago é
apropriado pela burguesia. Parte desse valor extraído gratuitamente
durante o processo de produção passa a integrar o próprio capital,
possibilitando a acumulação crescente. O valor que ultrapassa o dos
fatores consumidos no processo produtivo (meios de produção e força
de trabalho), e que se acrescenta ao capital empregado inicialmente
na produção, é a mais-valia (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 57).

Em suma, aparece aqui outro conceito para estudarmos nesta seção: a


exploração. Afinal, é a partir da exploração do trabalhador, da extração da mais-
valia que o sistema capitalista se mantém nas suas relações de acumulação. Boa
parte das polêmicas que envolvem a obra O Capital origina-se destas análises, nas
quais ele explica e demonstra como a exploração do trabalhador contribui para o
acúmulo de lucro dos donos dos meios de produção.

Marx ainda diferencia dois tipos de mais-valia (SELL, 2002):

• Mais-valia Absoluta: aumenta-se a jornada de trabalho e, por consequência,


o tempo de extração da mais-valia. Por isso os capitalistas defendem maiores
jornadas de trabalho.
• Mais-valia Relativa: aumenta-se a produtividade, o trabalho rendendo mais, o
lucro originado é maior. Geralmente é obtido pelo aperfeiçoamento tecnológico.

Este processo de exploração, que Marx define como sendo uma das leis
de funcionamento do sistema capitalista, funciona porque o trabalhador alienado
não percebe sua condição. O conceito de alienação é o que iremos estudar na
próxima seção, mas veja como ele se articula com a mais-valia:

Ela se transforma, assim, em uma riqueza que se opõe à classe dos


trabalhadores. A taxa de mais-valia, a razão entre trabalho excedente e
trabalho necessário, expressa o grau de exploração da força de trabalho
pelo capital. O que impede o trabalhador de perceber como se dá
efetivamente todo esse processo é sua situação alienada. Em síntese, o
trabalho apropriado pelo capital “é trabalho forçado, ainda que possa
parecer o resultado de uma convenção contratual livremente aceita”
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 57).

Segundo Marx, esta situação não se manteria por muito tempo, pois ele
identificou que existe uma contradição nesta lógica, já que o lucro diminuiria na
medida em que a classe trabalhadora não tivesse mais possibilidade de acessar os

111
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

bens de consumo. Ele chama esta ideia de Teoria da Crise da Sociedade Capitalista,
e a próxima unidade irá tratar sobre este tema, que tem relação com a forma como
Marx propõe seu projeto político.

FIGURA 15 – REPRESENTAÇÃO DA MAIS-VALIA

FONTE: <http://calaabocajornalista.blogspot.com/2011/12/resumiu-teoria-marxista-em-uma-
tirinha.html>. Acesso em: 26 nov. 2018.

112
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Para finalizar, vamos estudar um exemplo dele sobre a mais-valia:

Suponhamos agora que a quantidade média diária de artigos de


primeira necessidade imprescindíveis à vida de um operário exija
seis horas de trabalho médio para a sua produção. Suponhamos,
além disso, que estas seis horas de trabalho médio se materializem
numa quantidade de ouro equivalente a 3 xelins. Nestas condições,
os 3 xelins seriam o preço ou a expressão em dinheiro do valor diário
da força de trabalho desse homem se trabalhasse seis horas diárias,
ele produziria diariamente um valor que bastaria para comprar a
quantidade média de seus artigos diários de primeira necessidade ou
para se manter como operário.
Mas o nosso homem é um obreiro assalariado. Portanto, precisa
vender a sua força de trabalho a um capitalista. Se a vende por 3 xelins
diários, ou por 18 semanais, vende-a pelo seu valor. Vamos supor que
se trata de um fiandeiro. Trabalhando seis horas por dia, incorporará
ao algodão, diariamente, um valor de 3 xelins. Este valor diariamente
incorporado por ele representaria um equivalente exato do salário, ou
preço de sua força de trabalho, que recebe cada dia. Mas neste caso não
iria para o capitalista nenhuma mais-valia ou sobreproduto algum. É
aqui, então, que tropeçamos com a verdadeira dificuldade.
Ao comprar a força de trabalho do operário e ao pagá-la pelo seu
valor, o capitalista adquire, como qualquer outro comprador, o direito
de consumir ou usar a mercadoria comprada. A força de trabalho de
um homem é consumida, ou usada, fazendo-o trabalhar, assim como
se consome ou se usa uma máquina fazendo-a funcionar. Portanto,
o capitalista, ao comprar o valor diário, ou semanal, da força de
trabalho do operário, adquire o direito de servir-se dela ou de fazê-la
funcionar durante todo o dia ou toda a semana. A jornada de trabalho,
ou a semana de trabalho, têm naturalmente certos limites, mas a isto
volveremos, em detalhe, mais adiante.
No momento, quero chamar-vos a atenção para um ponto decisivo.
O valor da força de trabalho se determina pela quantidade de trabalho
necessário para a sua conservação, ou reprodução, mas o uso desta
força só é limitado pela energia vital e a força física do operário. O
valor diário ou semanal da força de trabalho difere completamente do
funcionamento diário ou semanal desta mesma força de trabalho, são
duas coisas completamente distintas, como a ração consumida por um
cavalo e o tempo em que este pode carregar o cavaleiro. A quantidade
de trabalho que serve de limite ao valor da força de trabalho do operário
não limita de modo algum a quantidade de trabalho que sua força
de trabalho pode executar. Tomemos o exemplo do nosso fiandeiro.
Vimos que, para recompor diariamente a sua força de trabalho, este
fiandeiro precisava reproduzir um valor diário de 3 xelins, o que
realizava com um trabalho diário de seis horas. Isto, porém, não lhe
tira a capacidade de trabalhar 10 ou 12 horas e mais, diariamente. Mas
o capitalista, ao pagar o valor diário ou semanal da força de trabalho
do fiandeiro, adquire o direito de usá-la durante todo o dia ou toda a
semana. Fá-lo-á trabalhar, portanto, digamos, 12 horas diárias, quer
dizer, além das seis horas necessárias para recompor o seu salário, ou
o valor de sua força de trabalho, terá de trabalhar outras seis horas, a
que chamarei horas de sobretrabalho, e este sobretrabalho irá traduzir-
se em uma mais-valia e em um sobreproduto. Se, por exemplo,
nosso fiandeiro, com o seu trabalho diário de seis horas, acrescenta
ao algodão um valor de 3 xelins, valor que constitui um equivalente
exato de seu salário, em 12 horas acrescentará ao algodão um valor
de 6 xelins e produzirá a correspondente quantidade adicional de fio.

113
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

E como vendeu sua força de trabalho ao capitalista, todo o valor ou


todo o produto por ele criado pertence ao capitalista, que é dono de
sua força de trabalho, por tempore. Por conseguinte, desembolsando 3
xelins, o capitalista realizará o valor de 6, pois com o desembolso de um
valor no qual se cristalizam seis horas de trabalho receberá em troca
um valor no qual estão cristalizadas 12 horas. Se repete, diariamente,
esta operação, o capitalista desembolsará 3 xelins por dia e embolsará
6, cuja metade tornará a inverter no pagamento de novos salários,
enquanto a outra metade formará a mais-valia, pela qual o capitalista
não paga equivalente algum. Este tipo de intercâmbio entre o capital e
o trabalho é o que serve de base à produção capitalista, ou ao sistema
do salariado, e tem que conduzir, sem cessar, à constante reprodução
do operário como operário e do capitalista como capitalista.
A taxa de mais-valia dependerá, se todas as outras circunstâncias
permanecerem invariáveis, da proporção existente entre a parte da
jornada que o operário tem que trabalhar para reproduzir o valor da
força de trabalho e o sobretempo ou sobretrabalho realizado para o
capitalista. Dependerá, por isso, da proporção em que a jornada de
trabalho se prolongue além do tempo durante o qual o operário, com
o seu trabalho, se limita a reproduzir o valor de sua força de trabalho
ou a repor o seu salário (MARX, 1865, p. 19).

Para finalizar este tópico, iremos nos aprofundar no conceito de alienação,


que sustenta todo este processo de exploração da mais-valia. Vamos à última
seção do tópico? Boa leitura!

5 ALIENAÇÃO
A ideia de alienação surge, para Marx, como um conceito atrelado
ao trabalho. A alienação de que trata este autor é a alienação sobre o processo
completo de trabalho, o estranhamento do trabalhador com relação à sua
produção. O trabalhador conhece suas atividades, suas tarefas, suas obrigações,
mas não conhece o processo completo que envolve seu trabalho, portanto, é
alienado com relação a muitos itens. Pense você: em seu trabalho, conhece tudo o
que envolve a produção nas suas atividades?

Marx destaca três aspectos da alienação (de acordo com BARBOSA;


OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 50):

1) o trabalhador relaciona-se com o produto do seu trabalho como com


algo alheio a ele, que o domina e lhe é adverso, e relaciona-se da mesma
forma com os objetos naturais do mundo externo; o trabalhador é
alienado em relação às coisas;
2) a atividade do trabalhador tampouco está sob seu domínio, ele a
percebe como estranha a si próprio, assim como sua vida pessoal e
sua energia física e espiritual, sentidas como atividades que não lhe
pertencem; o trabalhador é alienado em relação a si mesmo;
3) a vida genérica ou produtiva do ser humano torna-se apenas meio
de vida para o trabalhador, ou seja, seu trabalho - que é sua atividade
vital consciente e que o distingue dos animais - deixa de ser livre e
passa a ser unicamente meio para que sobreviva.

114
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Ter um trabalho, ser produtivo, acaba se tornando uma obrigação, já que


este proletário operário não possui meios de produção. A sua única possibilidade
para adquirir o que é necessário à sobrevivência é vender sua capacidade de
trabalho, tornar-se assalariado. Este processo reduz o ser humano a uma máquina
e o mantém envolto em uma atividade abstrata, já que não participa e nem
conhece todas as etapas. Ou seja, é alienado com relação ao próprio processo do
qual é parte.

“O trabalhador e suas propriedades humanas só existem para o capital.


Se ele não tem trabalho, não tem salário, não tem existência. Só existe quando
se relaciona com o capital e, como este lhe é estranho, a vida do trabalhador é
também estranha para ele próprio” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 50).

O salário é, portanto, o instrumento para que o trabalhador seja mantido


como instrumento produtivo, já que muitas vezes o próprio trabalho torna-se
um sacrifício — uma obrigação pela sobrevivência. Neste contexto, são criadas
necessidades baseadas na posse de dinheiro, obrigando os seres humanos a maiores
sacrifícios e dependência deste salário, desta condição financeira de assalariado.

Em suma, o operário não se reconhece no produto que criou, em


condições que escapam a seu arbítrio e às vezes até à sua compreensão,
nem vê no trabalho qualquer finalidade que não seja a de garantir
sua sobrevivência. E a própria “força de produção multiplicada que
nasce por obra da cooperação dos diferentes indivíduos sob a ação da
divisão do trabalho” aparece aos produtores como um poder alheio,
sobre o qual não têm controle, não sabem de onde procede e sentem
como se estivesse situado à margem deles, independentemente de sua
vontade e de seus atos e que “até mesmo dirige esta vontade e estes
atos” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 51).

O crescimento da riqueza gerado pelo trabalho, portanto, se contrapõe


à humanização do indivíduo que ali está responsável por parte do processo
produtivo, já que ele trabalha para obter meios de suprir as próprias necessidades
criadas pelo capital. Além disso, a força de trabalho funciona como uma
mercadoria no capitalismo: se a oferta é maior que a demanda, uma parte destas
pessoas fica fora do mercado, e a força de trabalho é desvalorizada.

Do ponto de vista interno, não existe uma participação consciente no


processo produtivo, o indivíduo apenas atende alienado ao que a organização
social de seu trabalho exige.

Todos os meios para desenvolver a produção transformam-se em


meios para dominar e explorar o produtor: fazem dele um homem
truncado, fragmentário, ou o apêndice de uma máquina. Opõem-
se a ele, como outras tantas potências hostis, as forças científicas da
produção. Substituem o trabalho atrativo por trabalho forçado. Fazem
com que as condições em que se desenvolve o trabalho sejam cada vez
mais anormais, e submetem o trabalhador, durante seu serviço, a um
despotismo tão ilimitado como mesquinho. Convertem toda sua vida
em tempo de trabalho... (MARX, 1973 apud BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 53).
115
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Voltamos aí ao fetichismo da mercadoria, as relações sociais envoltas


no processo de produção das mercadorias tornam-se ocultas no valor destas
mercadorias. Os próprios produtores ficam alheios a toda a geração de valor
ocorrida no processo de transformação dela pelo trabalho. A percepção da vida
social por detrás deste objeto é nublada, e com isso todas as demais relações
passam a ser objetificadas, ou seja, expressas em objetos.

FIGURA 16 – CRÍTICA À ALIENAÇÃO DO TRABALHO

FONTE: <http://www.zonacurva.com.br/tag/alienacao-do-trabalho/>. Acesso em: 26 nov. 2018.

Sell (2002, p. 159) indica quatro formas que Marx apresenta de alienação
humana, originadas pela existência da propriedade privada, que vão além das
relações de trabalho, inclusive:

• Alienação do homem do produto do seu próprio trabalho: aquilo


que o trabalhador produz no capitalismo não pertence a ele.
Pertence ao proprietário capitalista, ao dono dos meios de produção.
Portanto, o homem aliena-se, ou seja, perde o controle daquilo que
ele mesmo produz, quer dizer, do objeto de trabalho.
• Alienação do homem no ato da produção: na economia capitalista,
o trabalhador também não controla a atividade de produzir. Esta
capacidade é vendida por ele ao capitalista. Portanto, no processo
de produção, o trabalhador também aliena sua atividade. Ela não
lhe pertence e é controlada por outra pessoa.
• Alienação do homem de sua própria espécie: Com isto, Marx estava
querendo ressaltar que o homem também se achava separado de
seus semelhantes.
• Alienação do homem de sua própria natureza humana: a principal
consequência da propriedade privada e do capitalismo é que
o homem está alienado de si mesmo, ou seja, daquilo que ele
mesmo é. Isto acontece porque o trabalho – que é o elemento que
o diferencia das outras espécies – não está mais a seu serviço. As
coisas inverteram-se. Sob a forma capitalista, o homem tornou-se
escravo do trabalho.

116
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Vamos ao texto do próprio Marx:

Examinemos, agora, mais além, como esse conceito de trabalho


alienado deve expressar-se e revelar-se na realidade. Se o produto
do trabalho me é estranho e enfrenta-me como uma força estranha, a
quem pertence ele? Se minha própria atividade não me pertence, mas
é uma atividade alienada, forçada, a quem ela pertence? A um ser,
outro que não eu. E que é esse ser? Os deuses? É evidente, nas mais
primitivas etapas de produção adiantada, por exemplo, construção
de templos, etc., no Egito, Índia, México, é nos serviços prestados aos
deuses, que o produto pertencia a estes. Mas os deuses nunca eram por
si sós os donos do trabalho humano; tampouco o era a natureza. Que
contradição haveria se quanto mais o homem subjugasse a natureza
com seu trabalho, e quanto mais as maravilhas dos deuses fossem
tornadas supérfluas pelas da indústria, ele se abstivesse da sua alegria
em produzir e de sua fruição dos produtos por amor a esses poderes!
O ser estranho a quem pertencem o trabalho e o produto deste, a
quem o trabalho é devotado, e para cuja fruição se destina o produto
do trabalho, só pode ser o próprio homem. Se o produto do trabalho
não pertence ao trabalhador, mas o enfrenta como uma força estranha,
isso só pode acontecer porque pertence a um outro homem que não
o trabalhador. Se sua atividade é para ele um tormento, ela deve ser
uma fonte de satisfação e prazer para outro. Não os deuses nem a
natureza, mas só o próprio homem pode ser essa força estranha acima
dos homens.
Considere-se a afirmação anterior segundo a qual a relação do homem
consigo mesmo se concretiza e objetiva primariamente através de sua
relação com outros homens. Se, portanto, ele está relacionado com
o produto de seu trabalho, seu trabalho objetificado, como com um
objeto estranho, hostil, poderoso e independente, ele está relacionado
de tal maneira que um outro homem, estranho, hostil, poderoso e
independente, é o dono de seu objeto. Se ele está relacionado com sua
atividade como com uma atividade não livre, então está relacionado
com ela como uma atividade a serviço e sob jugo, coerção e domínio
de outro homem.
Toda autoalienação do homem, de si mesmo e da natureza, aparece na
relação que ele postula entre os outros homens, ele próprio e a natureza.
Assim a autoalienação religiosa é necessariamente exemplificada
na relação entre leigos e sacerdotes, ou, já que aqui se trata de uma
questão do mundo espiritual, entre leigos e um mediador. No mundo
real da prática, essa autoalienação só pode ser expressa na relação real,
prática, do homem com seus semelhantes.
O meio através do qual a alienação ocorre é, por si mesmo, um meio
prático. Graças ao trabalho alienado, por conseguinte, o homem não
só produz sua relação com o objeto e o processo da produção como
com homens estranhos e hostis, mas também produz a relação de
outros homens com a produção e o produto dele, e a relação entre ele
próprio e os demais homens. Tal como ele cria sua própria produção
como uma perversão, uma punição, e seu próprio produto como uma
perda, como um produto que não lhe pertence, assim também cria a
dominação do não produtor sobre a produção e os produtos desta. Ao
alienar sua própria atividade, ele outorga ao estranho uma atividade
que não é deste.
Apreciamos até aqui essa relação somente do lado do trabalhador, e
posteriormente a apreciaremos também do lado do não trabalhador.

117
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Assim, graças ao trabalho alienado, o trabalhador cria a relação de


outro homem que não trabalha e está de fora do processo do trabalho,
com o seu próprio trabalho. A relação do trabalhador com o trabalho
também provoca a relação do capitalista (ou como quer que se
denomine ao dono da mão de obra) com o trabalho. A propriedade
privada é, portanto, o produto, o resultado inevitável, do trabalho
alienado, da relação externa do trabalhador com a natureza e consigo
mesmo.
A propriedade privada, pois, deriva-se da análise do conceito de
trabalho alienado: isto é, homem alienado, trabalho alienado, vida
alienada, e homem afastado (MARX, 1844, p. 110).

Finalizando, esta charge resume de maneira fantástica o que é a


materialização da alienação do trabalho na vida do operário (Figura 17):

FIGURA 17 – CHARGE: ALIENAÇÃO DO TRABALHO

FONTE: <https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2013/11/01/a-alienacao-do-
trabalho/>. Acesso em: 26 nov. 2018.

Para solucionar o problema de todas as formas de alienação, Marx


propõe que a direção da produção seja assumida por homens conscientes de suas
vontades e necessidade, permitindo o retorno de formas transparentes de relação
entre as pessoas e com o próprio processo produtivo, ou seja, a humanização — e
para isso propõe o comunismo. Iremos estudar os desdobramentos das teorias de
Marx na próxima unidade, e esta proposta de humanização é uma delas.

118
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico apresentamos:

• A infraestrutura é a dimensão econômica, enquanto a superestrutura é


composta pela vida política e cultural da sociedade.

• A infraestrutura, portanto, é composta pelas forças produtivas e pelas relações


de produção — este conjunto é a base econômica de uma sociedade.

• A superestrutura é composta pelo Estado e pela Ideologia, instrumentos de


dominação das classes privilegiadas.

• A base do sistema capitalista para Marx é formada por dois itens, a mercadoria
e o dinheiro. Ambos passam por um processo de circulação, que ele alinha
como sendo: a mercadoria é trocada por dinheiro, e o dinheiro é trocado por
mercadoria. Este fluxo ele chama de processo de circulação simples.

• A Mais-valia é, nas teorias de Marx, o que origina o lucro — é o tempo de


trabalho não pago ao trabalhador dentro de uma determinada jornada de
trabalho, e é classificada em mais-valia relativa e mais-valia absoluta.

• A alienação de que trata este autor pode ser classificada em: Alienação do
homem do produto do seu próprio trabalho, Alienação do homem no ato da
produção, Alienação do homem de sua própria espécie, Alienação do homem
de sua própria natureza humana.

119
AUTOATIVIDADE

1 Descreva os conceitos a seguir a partir das definições apresentadas por Karl


Marx na Teoria do Materialismo Dialético:

a) Infraestrutura:

b) Superestrutura:

c) Fetichismo da mercadoria:

d) Mais-valia:

e) Alienação:

120
UNIDADE 2 TÓPICO 3

OS DESDOBRAMENTOS DA
SOCIOLOGIA DE KARL MARX

1 INTRODUÇÃO
Neste último tópico de seus estudos sobre Marx, iremos compreender
alguns desdobramentos de suas teorias e do modo de pensar a sociedade —
especialmente materializados em um projeto político famoso e polêmico, que
culminaria no comunismo.

As obras de Marx continuam sendo revisitadas e reinterpretadas


atualmente, o que o coloca na condição de clássico. Além disso, seu projeto
político ainda segue vivo em alguns grupos, e influencia outros. Seus temas
de análise seguem sendo referência para economistas, sociólogos, cientistas
políticos, entre outros.

Sua maneira de observar o modo de produção, como determinante para


a configuração social, serve como base para autores contemporâneos. É uma
nova perspectiva de entender a ordem social lançada à época em que viveu e que
perdura até os dias atuais, por isso a importância de conhecer em detalhes a obra
deste autor para as teorias sociológicas. Para além das polêmicas que envolvem
a obra de Marx, cabe o olhar científico para as contribuições do autor através de
suas análises sociais.

Neste sentido, o último tópico é voltado para entendermos as classes


sociais, a ideia de luta de classes, o papel das revoluções na história, e o seu
projeto político passando pelo socialismo e comunismo. São todos temas clássicos
na obra de Marx e visitados com frequência pelos autores que o interpretam, e
fecharemos assim esta unidade. Boa leitura!

2 CLASSES SOCIAIS
Um dos conceitos desenvolvidos por Marx mais presente na atualidade e
nas reinterpretações de sua teoria é o de classes sociais. Ele serve como base para
todo o desdobramento do seu pensamento, no entendimento do projeto político
que propõe, nas análises sobre revolução, e sobre a superação do capitalismo pelo
comunismo. Sendo assim, é essencial que iniciemos esta seção nos aprofundando
no entendimento sobre a noção de classes sociais.

121
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Marx não desenvolveu uma única obra acerca do conceito de classes, mas
disseminou diferentes elementos ao longo de sua produção, que, sistematizados,
nos mostram seu entendimento sobre esta classificação social.

Ele parte da ideia de que o trabalho é a atividade vital do indivíduo, por


meio da qual ele se humaniza. Durante os processos produtivos são geradas as
relações sociais e os indivíduos extraem da natureza o que necessitam, sendo que
uma parte (mais-valia) se torna apropriação de não produtores, como Estado,
pessoas ou empresas). Como vimos, assim ele trabalha o conceito de exploração,
e, alinhado a ele, é que traz a ideia de classes sociais.

Enquanto a capacidade produtiva dos grupos sociais era limitada, a


organização social era simples e baseada na luta pela extração da natureza daquilo
que era essencial à sobrevivência. Esta condição não permitia uma exploração,
um domínio — já que a apropriação do trabalho do outro não era necessária.

Ou seja, “numa época em que duas mãos não podem produzir mais
do que o que uma boca consome, não existem bases econômicas”
que possibilitem que uns vivam do trabalho de outros, seja na forma
de trabalho escravo ou de qualquer outro modo de exploração. É o
surgimento de um excedente da produção que permite a divisão social
do trabalho, assim como a apropriação das condições de produção por
parte de alguns membros da comunidade os quais passam, então, a
estabelecer algum tipo de direito sobre o produto ou sobre os próprios
trabalhadores. Vê-se, portanto, que a existência das classes sociais se
vincula a circunstâncias históricas específicas, quais sejam, aquelas
em que a criação de um excedente possibilita a apropriação privada
das condições de produção (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 38).

Sendo assim, o materialismo dialético de Marx rejeita a ideia de


desigualdade natural, e também de que as classes se definiriam a partir da posse
de uma determinada renda ou origem dela. "A renda não é um fator independente
da produção: é, antes, uma expressão da parcela maior ou menor do produto a
que um grupo de indivíduos pode ter direito em decorrência de sua posição na
estrutura de classes” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 39).

Basicamente, Marx desenvolve a ideia de uma sociedade estruturada


com base em duas grandes classes: de um lado, os possuidores dos meios de
produção (burguesia), e de outro lado, os que não os possuem (proletariado).
Esta polaridade permeia toda a análise deste autor sobre as classes sociais, e toda
sua obra quando explica a relação direta entre as desigualdades e o modo de
produção dos grupos sociais.

Esta polaridade expressa-se em diferentes formatos de acordo com


o período histórico, temos aí servos e senhores feudais, escravos e patrícios,
aprendizes e mestres, e as mais diretamente analisadas por Marx: capitalistas
e trabalhadores livres. A sociedade moderna seria, portanto, dividida em
proletariado e burguesia.

122
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

É importante destacar que este é um esquema teórico que não dá conta


das variações e complexidades das sociedades na prática, mas que auxilia “na
possibilidade de identificar a configuração básica das classes de cada modo
de produção, aquelas que responderão pela dinâmica essencial de uma dada
sociedade, definindo inclusive as relações com as demais classes” (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 39).

FIGURA 18 – OPOSIÇÃO CLASSES SOCIAIS

FONTE: <https://enem.estuda.com/questoes/?id=141910>. Acesso em: 5 nov. 2018.

Reconhecendo estas complexidades e nuances nas classes sociais, Marx


avalia que a tendência é de redução destas particularidades, e concentração cada
vez maior do capital, polarizando ainda mais os grupos e reduzindo as classes
intermediárias. No entanto, há críticas atualmente produzidas sobre isso, vejamos
o panorama geral:

Mesmo assim, Marx acredita que a tendência do modo capitalista de


produção é separar cada vez mais o trabalho e os meios de produção,
concentrando e transformando estes últimos em capital e aquele
em trabalho assalariado e, com isso, eliminar as demais divisões
intermediárias das classes. Não obstante, as sociedades comportam
também critérios e modos de apropriação e de estabelecimento
de privilégios que geram ou mantêm outras divisões e classes
além daquelas cujas relações são as que, em definitivo, modelam a
produção e a formação socioeconômica. O estabelecimento de novas
relações sociais de produção com a organização jurídica e política
correspondente e, com elas, de novas classes, quase nunca representa
uma completa extinção dos modos de produção anteriores, cujos
traços às vezes só gradualmente vão desaparecendo.
O desenvolvimento do modo de produção capitalista tomou rumos
imprevisíveis para um analista situado, como Marx, em meados do
século 19. A organização econômica e política ancorou-se cada vez mais
firmemente em níveis internacionais e, no interior de cada sociedade,
esses processos adquiriram feições muito singulares, referidas à
diversidade de elementos que conformaram suas experiências
históricas. Tudo isso teve como resultado novas subdivisões no
interior das classes sociais, como ocorre com o crescimento das
chamadas “classes médias” e dos setores tecnoburocráticos. Em outros

123
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

casos, consolidou a existência de antigas relações de produção, às


vezes sob novas roupagens, tanto no campo como nas cidades. Em
suma, formaram-se historicamente estruturas econômicas e sociais
complexas, conjugando relações entre as novas classes e frações de
classe típicas das sociedades capitalistas tradicionais.
A crítica feita pelo marxismo à propriedade privada dos meios
de produção da vida humana dirige-se, antes de tudo, às suas
consequências: a exploração da classe de produtores não possuidores
por parte de uma classe de proprietários, a limitação à liberdade e às
potencialidades dos primeiros e a desumanização de que ambos são
vítimas. Mas o domínio dos possuidores dos meios de produção não se
restringe à esfera produtiva: a classe que detém o poder material numa
dada sociedade é também a potência política e espiritual dominante.
Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre
outras coisas, uma consciência, e é em consequência disso que pensam;
na medida em que dominam enquanto classe e determinam uma
época histórica em toda sua extensão, é lógico que esses indivíduos
dominem em todos os sentidos, que tenham, entre outras, uma
posição dominante como seres pensantes, como produtores de ideias,
que regulamentem a produção e a distribuição dos pensamentos de
sua época; as suas ideias são, portanto, as ideias dominantes de sua
época (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 40).

Esta polarização em duas grandes classes é o fundamento da análise de


Marx no que diz respeito à estruturação de classes da sociedade capitalista. Veja
a seguir uma sugestão de livro no qual você pode aprofundar seu estudo sobre
este tema.

DICAS

Para avançar em seus estudos, tanto sobre o conceito de


classes sociais em Marx, quanto sobre a noção de luta de
classes (próximo tópico), você pode utilizar a obra de Nildo
Viana, A teoria das classes sociais em Karl Marx, publicada
pela Editora Chiado, em maio de 2018.

FONTE:<https://content.chiadobooks.com/img/290x386/
capa_a_teoria_das_classes_sociais_em_karl_marx_ebook.
jpg>.Acesso em: 14 fev. 2019.

124
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

3 PROJETO POLÍTICO: LUTA DE CLASSES


As análises sobre a luta de classes fazem parte de uma dimensão mais
política da obra de Marx, na qual ele sugere que por meio desta luta seria possível
chegar a um modelo socialista, que seria implantado após a crise do capitalismo.

Para ele, a história de todas as sociedades perpassa pela história da luta de


classes, e suas reflexões sobre este tema estão, principalmente, indicadas na obra
Manifesto do Partido Comunista. Portanto, para além de estereótipos compartilhados
sobre esta obra, para além de ser uma análise do modelo comunista, ela apresenta
o pensamento de Marx sobre as facetas da luta de classes — essencial para o
entendimento de sua teoria sociológica.

A história das sociedades cuja estrutura produtiva baseia-se na


apropriação privada dos meios de produção pode ser descrita como
a história das lutas de classes. Essa expressão, antes de significar
uma situação de confronto explícito - que de fato pode ocorrer em
certas circunstâncias históricas - expressa a existência de contradições
numa estrutura classista, o antagonismo de interesses que caracteriza
necessariamente uma relação entre classes, devido ao caráter
dialético da realidade. Dado que as classes dominantes sustentam-se
na exploração do trabalho daqueles que não são proprietários nem
possuidores dos meios de produção — assim como em diversas
formas de opressão social, política, intelectual, religiosa etc. —, a
relação entre elas não pode ser outra senão conflitiva, ainda que apenas
potencialmente (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 41).

Como vimos no tópico anterior, para Marx a existência das classes sempre
ocorreu — mas ele visualizava que, na época em que vivia, esta divisão acentuava-
se, já que os antagonismos entre a burguesia e o proletariado se faziam cada vez
mais presentes. Segundo ele, a burguesia inaugurou o capitalismo, na medida em
que se voltou contra o regime feudalista e instaura esta nova ordem. E então, para
superar o capitalismo seria preciso que os operários (o proletariado) fizessem o
mesmo movimento derrubando o regime capitalista e instaurando o socialismo.

Para que se consiga operar a modificação do sistema econômico, Sell


(2002, p. 188) destaca que Marx apresentou algumas fases:

• No início, combate às próprias máquinas.


• Depois, passa a defender seus direitos (sindicalismo).
• Posteriormente, se organiza enquanto classe social (partido político).
• Finalmente, desencadeia uma luta que termina com a revolução contra a
burguesia.

Ele via esta vitória do proletariado como um processo de evolução


do sistema, como inevitável. Para tal havia a necessidade do surgimento da
consciência de classe, já que a divisão do trabalho provoca indivíduos alienados
do processo e insere-os em relações sociais automatizadas e de base muito mais
econômica do que humana.

125
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Esta consciência seria formada, para Marx, por meio de um processo


gradativo de organização política. As lutas coletivas fariam com que aos poucos
o indivíduo notasse subjetivamente sua condição de classe, compreendendo a
necessidade de se aliar ao seu grupo e assim defender os interesses de sua classe.

Do ponto de vista do materialismo histórico, a luta de classes impulsiona


a mudança estrutural na sociedade, por isso é vista como o motor da história, ou
seja, essencial à superação dialética das contradições existentes no capitalismo. A
classe explorada seria o mais poderoso agente de mudança social, portanto.

Para fins analíticos, Marx distingue conceitualmente as classes em si,


conjunto dos membros de uma sociedade que são identificados por
compartilhar determinadas condições objetivas, ou a mesma situação
no que se refere à propriedade dos meios de produção, das classes para
si, classes que se organizam politicamente para a defesa consciente
de seus interesses, cuja identidade é construída também do ponto de
vista subjetivo (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 41).

Pode-se notar a característica de recorte que existe no conceito de


classe social para Marx: um grupo existe pela identificação de suas condições
objetivas, bem como da posse ou não dos meios de produção. Isto gera um
processo identitário, em que o grupo passa a ser a referência do indivíduo, e
seus interesses podem tornar-se coletivos, a depender do desenvolvimento da
consciência de classe.

A consciência de classe materializa-se em associações políticas, como


sindicatos e partidos, com duas finalidades principais: defender seus interesses
e combater seus opressores. Elas possuem, portanto, um papel de extrema
relevância, mantendo o grupo unido em prol de bandeiras coletivas e sendo força
de resistência à dominação.

FIGURA 19 – SÁTIRA LUTA DE CLASSES

FONTE: <https://acasadevidro.com/2016/04/19/em-debate-a-luta-de-classes-morreu/>. Acesso


em: 5 nov. 2018.
126
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

Os intérpretes da obra de Marx buscam compreender o quanto a luta de


classes ainda pode ser um conceito aplicável à realidade atual. Este é um dos
conceitos mais revisitados do clássico.

Para fechar, cabe compreender que Marx apresenta a ideia de um Estado


como instrumento de classe, conforme Sell nos explica em seu texto.

Na obra “A Ideologia Alemã”, Marx já tinha apontado que o Estado


surge na história como resultado da divisão da sociedade em classes
sociais. Como vimos, esta tese já está presente em sua teoria do
materialismo histórico.
No Manifesto do Partido Comunista, Marx volta a enfatizar esta ideia,
quando afirma que o Estado “é o comitê executivo da burguesia”!
Com isso, ele queria denunciar o fato de que a igualdade jurídica dos
cidadãos escondia sua divisão em classes. Se a lei é a mesma para
todos, isso não significa que todos são iguais. Essa ilusão faz do Estado
um mecanismo de ocultamento das classes sociais.
Porém, mais do que um agente passivo de ocultação, Marx percebeu
que o Estado só favorecia os interesses da burguesia. Assim, as leis
tratavam de preservar e proteger a propriedade privada, enquanto
os operários e seus movimentos eram perseguidos. Para eles, a única
atenção do Estado era o uso da força (SELL, 2002, p. 190).

4 PAPEL REVOLUCIONÁRIO DA BURGUESIA


Para entender a força da sociedade de classes no período em que viveu,
Marx se debruçou sobre o estudo do surgimento, evolução e superação do
capitalismo a partir da destruição da sociedade feudal. Ele queria compreender
como a burguesia conseguiu modificar a organização produtiva feudal para
impor o modo de produção capitalista.

Conquanto a proteção das guildas e corporações da Idade Média


tivesse possibilitado a acumulação do capital, o desenvolvimento
do comércio marítimo e a fundação das colônias, a manutenção das
velhas estruturas feudais constituir-se-iam num entrave à continuidade
daquela expansão. Vimos, pois, que os meios de produção e de troca,
sobre cuja base a burguesia se formou, foram criados na sociedade
feudal. Ao alcançar um certo grau de desenvolvimento, esses meios de
produção e de troca, as condições em que a sociedade feudal produzia e
trocava, toda a organização feudal da agricultura e da indústria, em uma
palavra, as relações feudais de propriedade, deixaram de corresponder
às forças produtivas já desenvolvidas. Freavam a produção em lugar
de impulsioná-la... Era preciso romper essas travas, e foram rompidas.
Em seu lugar estabeleceu-se a livre concorrência, com uma constituição
social e política adequada a ela e com a dominação econômica e política
da classe burguesa (MARXS; ENGELS, 1975, p. 26 apud BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 46).

Havia regulamentos na época para que o excesso de acúmulo fosse evitado:


o empregador possuía um número limitado de pessoas que poderia empregar,
além de poder comprar qualquer mercadoria exceto a força de trabalho (a não ser
que o trabalhador não tivesse nenhuma outra mercadoria para troca, ele precisava
ser totalmente livre no mercado para poder vender sua força de trabalho).
127
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Esta era uma organização que mantinha todas as outras instituições, desde
a organização política do Estado até sistemas religiosos e culturais. E então, esta
burguesia, limitada pelos regulamentos da época, operou verdadeira revolução
— já que modificou totalmente as instituições a partir do novo sistema econômico.

Sua ação destruiu os modos de organização do trabalho, as formas


da propriedade no campo e na cidade; debilitou as antigas classes
dominantes como a aristocracia feudal e o clero, substituiu a legislação
feudal, e eliminou os impostos e obrigações feudais, as corporações
de ofício, o sistema de vassalagem que impedia que os servos se
transformassem nos trabalhadores livres e mesmo o regime político
monárquico nos casos em que sua existência representava um
obstáculo ao pleno desenvolvimento das potencialidades da produção
capitalista (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 47).

Então Marx, em parceria com Engels, desenvolve todo um raciocínio para


compreender como, ao longo da história, houve outras ações revolucionárias
da classe burguesa. Segundo eles, há muitos feitos históricos que precisam ser
observados, como as pirâmides do Egito, aquedutos em Roma, Cruzadas, todos
liderados pela burguesia. Assim, em um processo de racionalização, o capitalismo
é implantado também a partir desta classe.

A disseminação deste modo de produção se dá pela “venda” da ideia de


civilização, além da necessidade da classe de obter novos mercados, ter acesso
a matérias-primas e gerar novas necessidades nas populações (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002).

E esta revolução provocada pela burguesia gera, ainda mais, contradições


sociais, polarizando as sociedades em dois grupos: burgueses e proletários. A
luta de classes torna-se ainda mais evidente neste contexto.

E é neste ponto que quem assumiria o papel revolucionário seria a classe


operária, e não mais a burguesia. Se, por necessidade, a burguesia operou uma
revolução no modelo econômico em seu favor, ela também deu espaço — no
modo de produção capitalista — para que os operários se tornassem uma massa
que, ao ter consciência de sua situação, pudesse se reunir e evocar nova revolução.
Quem efetivamente teria papel revolucionário neste novo contexto, portanto,
seria o proletariado — não mais a burguesia.

Desta feita, caberia ao proletariado estabelecer a ideia de uma civilização


alicerçada na coletividade e não na supervalorização do indivíduo, como no caso
da burguesia.

Barbosa, Oliveira e Quintaneiro (2002, p. 49) explicam como seria este


novo movimento revolucionário:

128
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

Por meio de um processo revolucionário, as condições de apropriação e


concentração dos meios de produção existentes em mãos de uma classe
desaparecem e, a partir de então, inicia-se um processo de fundação da
sociedade sobre novas bases. No caso de uma revolução proletária, na
medida em que desaparecessem as garantias da propriedade privada
dos meios de produção, o mesmo aconteceria com a burguesia como
classe e com o modo capitalista de produção. Instalar-se-ia, então, uma
nova forma de organização social que, numa fase transitória, seria uma
ditadura do proletariado, mas, ao realizar todas as condições a que se
propôs, tornar-se-ia uma sociedade comunista. A antiga sociedade civil
será então substituída “por uma associação que exclua as classes e seu
antagonismo; já não existirá um poder político propriamente dito, pois
o poder político é precisamente a expressão oficial do antagonismo
de classe dentro da sociedade civil”. Uma das premissas para a
existência dessa sociedade seria o grande desenvolvimento das forças
produtivas promovido pela produção capitalista “pois, sem ele, apenas
se generalizará a penúria e, com a pobreza, começará paralelamente a
luta pelo indispensável e cair-se-á fatalmente na imundície anterior...”
Em outras palavras, “a libertação é um fato histórico e não um fato
intelectual, e é provocado por condições históricas, pelo progresso da
indústria, do comércio, da agricultura.

Ainda pensando sobre os movimentos revolucionários, a teoria marxiana


procura entender o progresso das sociedades. Quando as forças produtivas
começam a ter necessidade de expansão, as estruturas sociais, econômicas e
políticas passam a se desintegrar para dar lugar às novas estruturas. Eclodem
então os conflitos latentes e inicia-se a época revolucionária. O progresso é o
resultado dialético desta situação.

No período medieval, as forças produtivas anunciadas pela burguesia


nascente foram de encontro aos interesses representados nas
corporações de ofícios e nas guildas. Por isso é que as revoluções
burguesas vieram representar o processo de liberação daquelas
forças, paralisadas por relações sociais ultrapassadas. Essa não
correspondência entre relações sociais e forças produtivas cerceia o
potencial de avanço da produção, fornece as condições materiais para
que as classes atuem e exerçam seu papel revolucionário. O progresso
das forças produtivas, os câmbios nas relações sociais de produção e,
consequentemente, nas instituições políticas, jurídicas, religiosas etc.
permitem compreender como se dá historicamente a passagem de
uma organização social a outra mais avançada, ou a um novo modo
de produção (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 47).

Quando uma classe consegue se impor diante de outra, ela substitui as


formas econômicas, sociais, enfim, a superestrutura e a infraestrutura. Diante da
ideia de progresso, a classe revolucionária seria a que faz evoluir um grupo social
o mais rapidamente possível, já que “liberta” os elementos de progresso contidos
nas contradições das estruturas antigas.

Para fechar seus estudos sobre Marx, vamos, a seguir, compreender


como ele defendia que as contradições existentes no capitalismo levariam a um
novo formato de vida, um novo modelo de produção, a partir da revolução do
proletariado: o comunismo.

129
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

5 SOCIEDADE CAPITALISTA E COMUNISMO


Para Marx, a superação da sociedade capitalista era uma etapa essencial
para o progresso da humanidade, e isso só seria possível a partir da força do
operariado. Mas para que esta classe se tornasse revolucionária era preciso
que fosse construída uma consciência de classe, por isso indicou algumas
possibilidades objetivas em sua obra Manifesto do Partido Comunista.

DICAS

A coleção A Obra-Prima de Cada Autor, que já apresentamos para


você neste livro didático, possui uma edição do Manifesto do
Partido Comunista, obra de Marx e Engels. Editora Martin Claret.

FONTE:<https://images.livrariasaraiva.com.br/imagemnet/imagem.
aspx/?pro_id=451965&qld=90&l=430&a=-1>. Acesso em: 14 fev. 2019.

Este livro não é um manual de receitas, mas a indicação de linhas


possíveis para a construção de uma nova sociedade. Também é nele que Marx
aborda alguns itens essenciais do modelo comunista, tais como a abolição da
propriedade burguesa (e não da propriedade privada em geral) e a importância
da abolição das classes sociais neste modelo.

130
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

FIGURA 20 – SÁTIRA LIBERDADE NO CAPITALISMO

FONTE: <http://omarxistaleninista.blogspot.com/2010/06/liberdade-no-capitalismo.html>.
Acesso em: 05 nov. 2018.

Para tanto, seria preciso abolir também o instrumento de luta de classes


Estado, necessário em um primeiro momento para que a burguesia fosse
derrubada, mas que no comunismo não deveria existir (SELL, 2002).

Sendo assim, Marx reconhece uma fase intermediária, uma fase de


transição, entre os modelos capitalista e comunista. Após seu falecimento são
registrados dois grupos de socialistas: os socialistas revolucionários (achavam
que o caminho seria a revolução armada) e os socialistas reformistas ou social-
democratas (defendiam um caminho por eleições e reformas graduais).

O desdobramento destes movimentos deu-se de duas maneiras diferentes:

131
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

• Os socialistas revolucionários foram responsáveis pela primeira revolução


socialista no mundo: a revolução russa de 1917. Foi a primeira tentativa de
implantação do socialismo, mas acabou se tornando uma ditadura com a
economia estatizada e Stalin à frente de tudo. Assim foi até 1991, quando a
URSS se dissolveu. Também é possível citar a revolução chinesa de 1949 e a
revolução cubana de 1959 (SELL, 2002).
• Os socialistas social-democratas participaram de eleições e fortaleceram
sindicatos. Ganharam o governo em alguns momentos na Europa, e seguiram
com a bandeira de reformas graduais para atingir o socialismo. Não conseguiram
introduzir o modelo, mas produziram reformas sociais e melhoraram a vida dos
trabalhadores sobremaneira, especialmente nos chamados países de Estado de
Bem-Estar Social (SELL, 2002).

Ainda na atualidade existem correntes socialistas que se fundamentam nas


análises de Marx para defender este sistema como projeto político. Embora suas
obras não sejam manuais, as ideias nelas apresentadas auxiliam no entendimento
de uma proposta alternativa ao modelo capitalista.

Após o estágio intermediário socialista, portanto, teríamos a emancipação


do comunismo. Neste modelo, as condições de existência seriam apropriadas
socialmente, e não haveria distinção entre privado e coletivo. A divisão do
trabalho favoreceria ao interesse de todos na sociedade.

Este sistema social seria regulado de acordo com as necessidades humanas,


e não mais um sistema que gera necessidades para produzir mais mercadorias.
Seria uma regulação baseada na consciência da humanidade acerca de seus rumos,
e cujas decisões se dariam de maneira coletiva — objetivando o bem-estar de todos.

DICAS

Para finalizar, fica a dica de filme para conhecer visualmente


a vida de Marx. Ele intitula-se O jovem Marx. Lançado em
2017.

FONTE:<https://imagens.publicocdn.com/imagens.
aspx/588941?tp=KM&w=220>. Acesso em: 14 fev. 2019.

132
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

LEITURA COMPLEMENTAR

BURGUESES E PROLETÁRIOS

Karl Marx (trecho)

A história de todas as sociedades até o presente é a história das lutas de


classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, membro


de corporação e oficial-artesão, em síntese, opressores e oprimidos estiveram em
constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora dissimulada,
ora aberta, que a cada vez terminava com uma reconfiguração revolucionária de
toda a sociedade ou com a derrocada comum das classes em luta.

Nas épocas remotas da história, encontramos por quase toda a parte uma
estruturação completa da sociedade em diferentes estamentos, uma gradação
multifacetada das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros,
plebeus, escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, membros de
corporação, oficiais-artesãos, servos, e ainda, em quase cada uma dessas classes,
novas gradações particulares.

A moderna sociedade burguesa, emergente do naufrágio da sociedade


feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Ela apenas colocou novas classes,
novas condições de opressão, novas estruturas de luta no lugar das antigas.

A nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se, contudo, pelo fato


de ter simplificado os antagonismos de classes. A sociedade toda cinde-se, mais
e mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes diretamente
confrontadas: burguesia e proletariado.

Dos servos da Idade Média advieram os burgueses extramuros das


primeiras cidades; deste estamento medieval desenvolveram-se os primeiros
elementos da burguesia.

A descoberta da América, a circum-navegação da África criaram um


novo terreno para a burguesia ascendente. Os mercados das Índias Orientais
e da China, a colonização da América, o intercâmbio com as colônias, a
multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio,
à navegação, à indústria um impulso jamais conhecido; e, com isso, imprimiram
um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na sociedade feudal em
desagregação.

O funcionamento feudal ou corporativo da indústria, existente até então,


já não bastava para as necessidades que cresciam com os novos mercados. A
manufatura tomou o seu lugar. Os mestres de corporação foram sufocados pelo
estrato médio industrial; a divisão do trabalho entre as diversas corporações
desapareceu perante a divisão do trabalho no interior da própria oficina particular.
133
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Mas os mercados continuavam a crescer, continuava a aumentar a


necessidade de produtos. Também a manufatura já não bastava mais. Então o
vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. A grande indústria
moderna tomou o lugar da manufatura; o lugar do estrato médio industrial foi
tomado pelos milionários industriais, os chefes de exércitos industriais inteiros,
os burgueses modernos.

A grande indústria criou o mercado mundial, que a descoberta da América


preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação, às comunicações
por terra um desenvolvimento incalculável. Este, por sua vez, reagiu sobre
a expansão da indústria, e na mesma medida em que indústria, comércio,
navegação, estradas de ferro se expandiam, nessa mesma medida a burguesia
desenvolvia-se, multiplicava seus capitais, empurrava a um segundo plano todas
as classes provenientes da Idade Média.

Vemos, portanto, como a própria burguesia moderna é o produto de um


longo processo de desenvolvimento, de uma série de revoluções (Umwälzungen)
nos meios de produção e de transporte.

Cada uma dessas etapas de desenvolvimento da burguesia veio


acompanhada de um progresso político correspondente. Estrato social oprimido
sob o domínio dos senhores feudais, associação armada e com administração
autônoma na comuna (3); aqui cidade-república independente, ali terceiro Estado
tributário da monarquia; depois, na era da manufatura, contrapeso à nobreza na
monarquia estamental ou absoluta; base principal das grandes monarquias de
uma forma geral, a burguesia conquistou finalmente para si, desde a criação da
grande indústria e do mercado mundial no moderno Estado representativo, o
domínio político exclusivo. O poder estatal moderno é apenas uma comissão que
administra os negócios comuns do conjunto da classe burguesa.

A burguesia desempenhou na história um papel extremamente


revolucionário.

Onde quer a burguesia tenha chegado ao poder, ela destruiu todas as


relações feudais, patriarcais, idílicas. Ela rompeu impiedosamente os variegados
laços feudais que atavam o homem ao seu superior natural, não deixando nenhum
outro laço entre os seres humanos senão o interesse nu e cru, senão o insensível
"pagamento à vista". Ela afogou os arrepios sagrados do arroubo religioso,
do entusiasmo cavalheiresco, da plangência do filisteísmo burguês, nas águas
gélidas do cálculo egoísta. Ela dissolveu a dignidade pessoal em valor de troca,
e no lugar das inúmeras liberdades atestadas em documento ou valorosamente
conquistadas, colocou uma única inescrupulosa liberdade de comércio. A
burguesia, em uma palavra, colocou no lugar da exploração ocultada por ilusões
religiosas e políticas a exploração aberta, desavergonhada, direta, seca.

A burguesia despojou de sua auréola sagrada todas as atividades até


então veneráveis, contempladas com piedoso recato. Ela transformou o médico,

134
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

o jurista, o clérigo, o poeta, o homem das ciências, em trabalhadores assalariados,


pagos por ela.

A burguesia arrancou às relações familiares o seu comovente véu


sentimental e as reduziu a pura relação monetária.

A burguesia revelou como o dispêndio brutal de forças, que a reação


tanto admira na Idade Média, encontrava o seu complemento adequado na mais
indolente ociosidade. Apenas ela deu provas daquilo que a atividade dos homens
é capaz de levar a cabo. Ela realizou obras miraculosas inteiramente diferentes das
pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das catedrais góticas, ela executou
deslocamentos inteiramente diferentes das Migrações dos Povos e das Cruzadas.

A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente os


instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, assim, o conjunto
das relações sociais. Conservação inalterada do velho modo de produção foi,
ao contrário, a condição primeira de existência de todas as classes industriais
anteriores. O revolucionamento contínuo da produção, o abalo ininterrupto de
todas as situações sociais, a insegurança e a movimentação eternas distinguem
a época burguesa de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com
o seu séquito de veneráveis representações e concepções, são dissolvidas; todas
as relações novas, posteriormente formadas, envelhecem antes que possam
enrijecer-se. Tudo o que está estratificado e em vigor volatiliza-se, todo o sagrado
é profanado, e os homens são finalmente obrigados a encarar a sua situação de
vida, os seus relacionamentos mútuos com olhos sóbrios.

A necessidade de um mercado cada vez mais expansivo para seus


produtos impele a burguesia por todo o globo terrestre. Ela tem de alojar-se por
toda parte, estabelecer-se por toda parte, construir vínculos por toda parte.

Através da exploração do mercado mundial, a burguesia configurou


de maneira cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. Para
grande pesar dos reacionários, ela subtraiu à indústria o solo nacional em que
tinha os pés. As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas e ainda
continuam sendo aniquiladas diariamente. São sufocadas por novas indústrias,
cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por
indústrias que não mais processam matérias-primas nativas, mas sim matérias-
primas próprias das zonas mais afastadas, e cujos produtos são consumidos não
apenas no próprio país, mas simultaneamente em todas as partes do mundo. No
lugar das velhas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem novas
necessidades, que requerem para a sua satisfação os produtos dos mais distantes
países e climas. No lugar da velha autossuficiência e do velho isolamento locais
e nacionais, surge um intercâmbio em todas as direções, uma interdependência
múltipla das nações. E o que se dá com a produção material, dá-se também com
a produção intelectual. Os produtos intelectuais das nações isoladas tornam-se
patrimônio comum. A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez
mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais vai se formando uma
literatura universal.

135
UNIDADE 2 | O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO DE KARL MARX

Através do rápido aperfeiçoamento de todos os instrumentos de produção,


através das comunicações infinitamente facilitadas, a burguesia arrasta todas as
nações, mesmo as mais bárbaras, para dentro da civilização. Os módicos preços
de suas mercadorias são a artilharia pesada com que ela põe abaixo todas as
muralhas da China, com que ela constrange à capitulação mesmo a mais obstinada
xenofobia dos bárbaros. Ela obriga todas as nações que não queiram desmoronar
a apropriar-se do modo de produção da burguesia; ela as obriga a introduzir em
seu próprio meio a assim chamada civilização, isto é, a tornarem-se burguesas.
Em uma palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.

A burguesia submeteu o campo ao domínio da cidade. Ela criou cidades


enormes, aumentou o número da população urbana, em face da rural, em alta
escala e, assim, arrancou do idiotismo da vida rural uma parcela significativa
da população. Da mesma forma como torna o campo dependente da cidade, ela
torna os países bárbaros e semibárbaros dependentes dos civilizados, os povos
agrários dependentes dos povos burgueses, o Oriente dependente do Ocidente.

A burguesia vem abolindo cada vez mais a fragmentação dos meios de


produção, da posse e da população. Ela aglomerou a população, centralizou os
meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. Consequência
necessária disso tudo foi a centralização política. Províncias independentes, quase
que tão-somente aliadas, com interesses, leis, governos e sistemas aduaneiros
diversificados, foram aglutinadas em uma nação, um governo, um interesse
nacional de classe, uma fronteira aduaneira.

Em seu domínio de classe que mal chega a um século, a burguesia criou


forças produtivas em massa, mais colossais do que todas as gerações passadas
em conjunto. Subjugação das forças da natureza, maquinaria, aplicação da
química na indústria e na agricultura, navegação a vapor, estradas de ferro,
telégrafos elétricos, arroteamento de continentes inteiros, canalização dos rios
para a navegação, populações inteiras como que brotando do chão — que século
passado poderia supor que tamanhas forças produtivas estavam adormecidas no
seio do trabalho social!

Nós vimos, portanto: os meios de produção e de circulação, sobre cujas


bases a burguesia se formou, foram gerados na sociedade feudal. Em um certo
estágio do desenvolvimento desses meios de produção e de circulação, as
relações nas quais a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da
agricultura e da manufatura, em uma palavra, as relações feudais de propriedade,
não correspondiam mais às forças produtivas já desenvolvidas. Elas tolhiam
a produção, em vez de fomentá-la. Transformavam-se assim em outros tantos
grilhões. Precisavam ser explodidas, foram explodidas.

136
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE KARL MARX

Em seu lugar entrou a livre concorrência, com a constituição social e


política que lhe era adequada, com o domínio econômico e político da classe
burguesa.

Sob os nossos olhos processa-se um movimento semelhante. As relações


burguesas de produção e de circulação, as relações burguesas de propriedade, a
moderna sociedade burguesa, que fez aparecer meios de produção e de circulação
tão poderosos, assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue mais dominar
os poderes subterrâneos que invocou. Há decênios a história da indústria e do
comércio vem sendo apenas a história da revolta das modernas forças produtivas
contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que
constituem as condições vitais da burguesia e da sua dominação. Basta mencionar
as crises comerciais que, em sua recorrência periódica, questionam de maneira
cada vez mais ameaçadora a existência de toda a sociedade burguesa. Nas
crises comerciais extermina-se regularmente não apenas uma grande parte dos
produtos fabricados, mas também das forças produtivas já criadas. Deflagra-se
nas crises uma epidemia social que a todas as épocas anteriores apareceria como
contrassenso — a epidemia da superprodução. A sociedade encontra-se remetida
subitamente a um estado de momentânea barbárie; uma epidemia de fome ou
uma guerra geral de extermínio parecem ter-lhe cortado todo suprimento de
alimentos; a indústria e o comércio parecem aniquilados — e por quê? Porque a
sociedade possui demasiada civilização, demasiados suprimentos de alimentos,
demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que estão
à sua disposição já não servem mais ao fomento das relações de propriedade
burguesas; ao contrário, elas se tornaram por demais poderosas para essas
relações, são tolhidas por elas; e tão logo superam esse obstáculo, levam toda a
sociedade burguesa à desordem, põem em perigo a existência da propriedade
burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para abarcar
a riqueza gerada por elas. — Através de que meios a burguesia supera as crises?
Por um lado, pelo extermínio forçado de grande parte das forças produtivas; por
outro lado, pela conquista de novos mercados e da exploração mais metódica
dos antigos mercados. Como isso acontece então? Pelo fato de que a burguesia
prepara crises cada vez mais amplas e poderosas, e reduz os meios de preveni-las.

As armas com as quais a burguesia derruiu o feudalismo voltam-se agora


contra a própria burguesia.

Mas a burguesia não forjou apenas as armas que lhe trazem a morte; ela
produziu também os homens que portarão essas armas – os operários modernos,
os proletários.

FONTE: MARX, K. ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Londres: [s.n.],1872, p. 1-5. Disponível
em: <https://www.portalabel.org.br/images/pdfs/manifesto-comunista.pdf>. Acesso em: 13 dez. 2018.

137
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você viu que:

• Marx desenvolve a ideia de uma sociedade estruturada com base em duas


grandes classes: de um lado, os possuidores dos meios de produção (burguesia),
e de outro lado, os que não os possuem (proletariado).

• As análises sobre a luta de classes fazem parte de uma dimensão mais política da
obra de Marx, na qual ele sugere que, por meio desta luta seria possível chegar
a um modelo socialista, que seria implantado após a crise do capitalismo.

• Do ponto de vista do materialismo histórico, a luta de classes impulsiona a


mudança estrutural na sociedade, por isso é vista como o motor da história, ou
seja, essencial à superação dialética das contradições existentes no capitalismo,
e só pode ocorrer a partir do desenvolvimento da consciência de classe.

• Para entender a força da sociedade de classes no período em que viveu, Marx se


debruçou sobre o estudo do surgimento, evolução e superação do capitalismo
a partir da destruição da sociedade feudal. Ele queria compreender como a
burguesia conseguiu modificar a organização produtiva feudal para impor o
modo de produção capitalista.

• Marx reconhece uma fase intermediária, uma fase de transição, entre os


modelos capitalista e comunista. Após seu falecimento são registrados dois
grupos de socialistas: os socialistas revolucionários (achavam que o caminho
seria a revolução armada) e os socialistas reformistas ou social-democratas
(defendiam um caminho por eleições e reformas graduais).

138
AUTOATIVIDADE

1 Os conceitos de classes sociais e de luta de classes permeiam toda a obra de


Karl Marx. Sobre ambos, analise as seguintes sentenças:

I– As classes sociais surgem com a sofisticação da organização social, pois


enquanto esta era simples e dependia apenas da extração da natureza, não
havia exploração do trabalho do outro.
II– A polaridade presente nas análises do autor define-se em duas grandes
classes sociais: burguesia e classe média.
III– A única formação histórica que apresenta a divisão de classes sociais é o
sistema capitalista, as outras não apresentavam divisões de classe.

Assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.


b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
d) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas.

2 Marx reconhece uma fase intermediária, uma fase de transição, entre os


modelos capitalista e comunista: o socialismo. Sobre os modelos socialista e
comunista, associe os itens, utilizando o código a seguir:

I– Modelo Socialista Revolucionário.


II– Modelo Socialista Social-democrata.
III– Modelo Comunista.

( ) Neste modelo, as condições de existência seriam apropriadas socialmente,


e não haveria distinção entre privado e coletivo.
( ) Este modelo defende um caminho de mudança por eleições e reformas
graduais para implantação do socialismo.
( ) Este modelo defende a revolução armada como forma de implantação de
um novo modelo econômico.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) I – II – III.
b) ( ) I – III – II.
c) ( ) III – II – I.
d) ( ) II – I – III.

139
140
UNIDADE 3

A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE
MAX WEBER

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• situar as características e os principais aspectos das bases teóricas e


metodológicas do pensamento sociológico de Max Weber;

• examinar as principais contribuições da teoria da ação social de Max


Weber para a teoria sociológica clássica;

• sistematizar os conceitos principais da obra de Max Weber;

• analisar os desdobramentos da teoria sociológica de Weber para a sociologia


com base em temas cuja influência, nas formas de análise, persiste nas
interpretações contemporâneas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A


COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

141
142
UNIDADE 3
TÓPICO 1

A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER:


TEORIA E MÉTODO

1 INTRODUÇÃO
Chegamos ao nosso último tópico de estudos da teoria sociológica
clássica, no qual iremos tratar sobre as obras e teorias do autor Max Weber. Não
diferente de Durkheim e Marx, Weber legou um grande arcabouço conceitual
e metodológico para a área das Ciências Sociais — o que era inclusive uma
preocupação dele. Segundo Weber, era muito importante definir as bases
conceituais e metodológicas da sociologia para consolidá-la como ciência, e todo
o material produzido por ele, neste sentido, é essencial até os dias atuais. Há
muitos pesquisadores que reinterpretam e buscam em Weber o entendimento
para aspectos da ordem social contemporânea.

Sua vasta obra será apresentada neste tópico e seu aprofundamento


dependerá de você! Para tal — assim como nos tópicos anteriores — há obras do
autor sugeridas, bem como artigos de interpretações que tratam sobre Weber.
Aproveite este material complementar de acordo com seus interesses, e conheça
ainda mais sobre a teoria sociológica weberiana.

De início, conheceremos o contexto de vida do autor para, então,


nos aprofundarmos no estudo sobre sua teoria sociológica compreensiva.
Você poderá identificar as influências que estimularam o pensamento de
Weber, e o funcionamento das explicações sociológicas do autor a partir da
ideia de compreensão. Em seguida, seu estudo será direcionado ao chamado
individualismo metodológico — por meio do qual Weber define o método de
análise da sociologia —, baseado nas ações sociais do indivíduo. Por último
serão apresentadas as relações entre a objetividade e o desenvolvimento do
conhecimento, e a postura necessária ao pesquisador para que a objetividade no
estudo dos fenômenos sociais seja atingida — garantindo o rigor científico nas
pesquisas sociais.

Este tópico inicial pretende apresentar as bases da teoria e metodologia


propostas por Weber, para que no segundo tópico você adentre em seu
mundo conceitual. Reforço a importância dos estudos complementares para o
entendimento da teoria sociológica do autor que, não à toa, é considerado um
clássico em nossa área de estudos. Desejo uma ótima leitura!

143
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

2 VIDA E OBRA
Para iniciarmos nossos estudos sobre Weber, vamos contextualizar sua
vida:

O sociólogo alemão Max Weber nasceu em Erfurt, em 21 de abril de 1864.


Filho de um advogado, Weber realizou seus estudos em Heidelberg,
a partir do ano de 1882. Embora tivesse seguido a carreira jurídica,
também estudava filosofia, teologia, história e economia. Em 1889, ele
terminou seus estudos, tendo obtido o doutorado em Direito no ano de
1891, quando defendeu sua tese.
Terminada a fase de estudos, Weber passa a se dedicar à docência
universitária. Foi professor de Direito em Berlim (1891-1893), de
economia política em Friburgo (1895) e, finalmente, também de
economia política em Heidelberg (1896).
No ano de 1897, Weber foi acometido de uma crise nervosa, que durou
até 1902. Somente neste ano ele vai retomando, aos poucos, seu trabalho.
Em 1903, ajuda a fundar o “Arquivo para a ciência social e a ciência
política”, que se tornou uma das principais revistas de ciências sociais.
Em 1904, Weber fará uma viagem de estudos para os Estados Unidos,
que vai influenciar diretamente sua reflexão sobre o capitalismo. É a
partir deste período que Weber passa a se interessar mais diretamente
pela sociologia.
Em 1907, o pensador alemão recebe uma herança que permite que ele
se dedique apenas às suas atividades de pesquisa. Sua casa torna-se um
centro frequentado por intelectuais de renome, como Georg Lukács,
Georg Simmel e outros. Em 1908, Weber ajuda a fundar a associação
alemã de sociologia. Durante a primeira guerra mundial (1914-1917),
administra alguns hospitais da região de Heidelberg. Em 1918, aceita
uma cátedra na Universidade de Munique. Weber ainda participa da
redação da nova Constituição Germânica que funda a República da
Alemanha (chama de Constituição de Weimar, cidade onde foi redigida).
Seu falecimento ocorreu no ano de 1920, na cidade de Munique.
Entre os escritos de Max Weber, além de textos sociológicos, aparecem
obras de epistemologia, história, direito e economia (SELL, 2002, p. 96).

FIGURA 1 – MAX WEBER

FONTE: <https://www.mundociencia.com.br/sociologia/max-weber/>. Acesso em: 7 jan. 2019.

144
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

DICAS

Assim como já indicado nas unidades anteriores, acerca


dos outros clássicos, temos uma excelente síntese sobre
a vida de Weber e alguns textos fundamentais na obra
Weber: Sociologia — da coleção Grandes Cientistas
Sociais. Coordenada por Florestan Fernandes e organizada
por Gabriel Cohn, foi publicada em várias edições pela
Editora Ática.

F O N T E : < h t t p s : / / e n c r y p t e d - t b n 0. g s t a t i c . c o m /
images?q=tbn:ANd9GcTy-lpvFZbQRUItpSnlGioUgi7u3u
2zHJItGbWZlRg_S44SatajYQ>. Acesso em: 14 fev. 2019.

Agora que já conhecemos um pouco sobre a vida de Max Weber, vamos


iniciar nossos estudos sobre sua tão vasta obra — extremamente importante para
os estudos sociológicos. Bons estudos!

3 BASES DA SOCIOLOGIA COMPREENSIVA


Vamos começar contextualizando a produção da obra de Weber. A partir
de sua biografia já é possível compreender que o período em que ele viveu esteve
repleto de discussões filosóficas e intelectuais. Mas o que importa destacar é que
o positivismo e seus críticos possuíam a maior parte dos holofotes nestes debates,
na medida em que se buscava entender a especificidade das ciências da natureza
e das chamadas ciências do espírito (humanas), especialmente quanto aos valores
envolvidos, à possibilidade da identificação de leis, e aos métodos de ambas.

Weber inevitavelmente participa dos debates sobre o positivismo, e


desenvolve boa parte de sua teoria sociológica neste contexto. Ela é chamada
de Teoria Sociológica Compreensiva. Você já parou para pensar ou pesquisar o
porquê deste nome? Veremos ao longo desta seção.

Sell (2002) destaca as correntes teóricas que influenciaram o pensamento


de Weber:

• Filosofia clássica: Kant, pela afirmação de que o conhecimento não capta a


essência da realidade, apenas os fenômenos que nos são transmitidos por meio
dos sentidos; e Nietszche com sua visão pessimista da sociedade moderna.

145
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

• Filósofos neokantianos: Dilthey, Windelband e Rickert, pela insistência na


necessidade da distinção entre as ciências da natureza e as características das
ciências sociais.
• Pensamento social alemão: Tönnies, Simmel, Sombardt e Troeltsch, a partir da
retomada de diferentes ideias, trazidas por este autor, denotando que Weber
(embora seja o maior expoente alemão) não era um autor isolado.

Além destas influências, o contexto histórico é notável nas obras de Weber:


um momento de expansão do capitalismo industrial; a unificação dos territórios
germânicos realizada por Otto von Bismarck (1870); o governo centralizador e
burocrata que foi implantado a partir de então; enfim, o papel do Estado como
líder da industrialização econômica e o aumento da burocracia aparecem com
frequência como tema de seus escritos — influenciando toda a sua obra.

Weber apresenta uma teoria sociológica diferenciada se comparada à


perspectiva positivista de Comte e Durkheim, por exemplo, e mesmo à perspectiva
do materialismo histórico-dialético de Marx. Ele apresenta o primado do sujeito,
e não o primado do objeto.

Se para Durkheim as explicações sociológicas deveriam orientar-se pela


externalidade, pela objetividade, e para Marx deveriam orientar-se pelo modo de
produção da sociedade, aspectos econômicos, em Weber a ênfase é no indivíduo
como elemento fundante da realidade social. Para ilustrar, vejamos:

FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO DA RELAÇÃO INDIVÍDUO X SOCIEDADE PARA WEBER

SOCIEDADE

INDIVÍDUO

FONTE: A autora (2018)

Dada a força do pensamento positivista na época, a perspectiva trazida


por Weber foi bastante inovadora para as ciências sociais. Trata-se de um novo
caminho de interpretação, que modifica pilares da epistemologia e propõe novas
formas metodológicas para a sociologia, mais diretamente.

146
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

Uma primeira questão enfrentada por Weber, importante para a


epistemologia das ciências sociais, partiu da discussão neokantiana sobre o uso
dos mesmos métodos nas ciências da natureza e nas ciências sociais. O positivismo
defendia o uso dos mesmos métodos, e os neokantianos pensavam diferente.
Weber também compartilhava desta última posição (SELL, 2002).

Weber não concordava com a busca por leis sociais defendida pelo
positivismo, que era o que justificava a unicidade entre os métodos das ciências
naturais e os métodos das ciências sociais. “Por isso, a preocupação básica dos
críticos do positivismo era apontar quais eram os aspectos que diferenciavam as
ciências sociais das ciências da natureza, ao mesmo tempo em que buscavam para
elas um novo método” (SELL, 2002, p. 102).

Para entender os debates que rodearam o desenvolvimento da obra de


Weber sobre as bases de sua teoria sociológica, vamos manter e apresentar a
diferenciação desenvolvida por Sell (2002), com base na maneira pela qual os
neokantianos influenciaram o pensamento weberiano: Dilthey, Windelband e
Rickert.

Dilthey defendia que a diferença principal entre as ciências da natureza e


as ciências sociais consistia no fato de que seus objetos de estudo são diferentes.
Em função disso, a relação com o objeto é diferenciada: nas ciências da natureza
temos um objeto exterior, enquanto nas ciências sociais a humanidade é objeto e
sujeito ao mesmo tempo – já que faz parte do mundo da cultura. Em função disso,
as ciências naturais partem do princípio da explicação, enquanto as ciências
sociais partem do princípio da compreensão. “Enquanto a explicação consiste na
busca de leis causais, a compreensão implica um mergulho empático no espírito
dos agentes históricos em busca do sentido de sua ação” (SELL, 2002, p. 102).
Vejamos a síntese do pensamento de Dilthey:

FIGURA 3 – SÍNTESE DO PENSAMENTO DE DILTHEY

DILTHEY OBJETO MÉTODO


Ciências da
Natureza Explicação
natureza
Sociedade Compreensão
Ciências sociais
(homem) (verstehen)
FONTE: Sell (2002, p. 103)

Windelband apresentava a diferenciação pelo método, e não pelo objeto de


estudos. Ele diferenciava as ciências que utilizam o método nomotético, e o método
ideográfico. “Enquanto o método nomotético está orientado para a construção de
leis gerais, o método ideográfico visa destacar a individualidade e a singularidade
de um determinado fenômeno” (SELL, 2002, p. 103). Desta maneira, ele rejeitava a
busca por leis gerais para as ciências sociais, e sim um estudo mais detido de um
fenômeno em específico. Vejamos a síntese de seu pensamento:

147
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

FIGURA 4 – SÍNTESE DO PENSAMENTO DE WINDELBAND

WINDELBAND MÉTODO OBJETIVO

Ciências da Método
Leis gerais
natureza nomotético
Método Singularidade
Ciências sociais
ideográfico dos fenômenos

FONTE: Sell (2002, p. 103)

Por último temos Rickert, também diferenciando as ciências sociais e


naturais a partir do método. Nas ciências sociais, segundo ele, existe uma relação
intrínseca com os valores, coisa que as ciências naturais não apresentam. A seleção
de objetos passa, necessariamente, pelos valores culturais e interesses pessoais
do pesquisador (SELL, 2002). Esta ideia é retomada por Weber para tratar da
subjetividade inerente aos processos de investigação social.

Em meio a estes debates, Weber critica o positivismo, mas também não


defende uma separação total, já que entende a busca por leis como um instrumento
para compreensão da realidade útil para que as ciências sociais não caiam no
subjetivismo: “Para Weber, portanto, os dois procedimentos (explicação causal
e compreensão) são complementares, devendo ser usados pelo pesquisador
conforme as finalidades da pesquisa” (SELL, 2002, p. 104).

Weber apresenta esta proposta para as ciências sociais, do uso do método


de acordo com as possibilidades de explicação dos fenômenos. Vejamos:

Para Weber, o sociólogo deve saber integrar estes dois métodos


(individualizante e generalizante) nas suas pesquisas. Assim, pelo
método individualizante, o cientista social seleciona os dados da
realidade que deseja pesquisar, destacando a singularidade e os
traços que definem seu objeto. Ao estudar o capitalismo, por exemplo,
Weber procurou distinguir os elementos que definem este sistema e o
diferenciam de outras formas de comportamento econômico. Trata-se
do uso do método individualizante, que procura dirigir sua atenção
para os caracteres qualitativos e singulares de qualquer fenômeno.
Mas, ao pesquisar a origem do capitalismo, Weber vai utilizar do
método generalizante o princípio da causalidade, que busca estabelecer
relações entre os fenômenos. Nas pesquisas sobre o capitalismo,
para voltar ao nosso exemplo, Weber se pergunta de que forma as
ideias e o modo de vida dos protestantes (ética protestante) podem
ser considerados como uma das causas fundamentais na origem do
moderno sistema econômico capitalista (SELL, 2002, p. 104).

Sell (2002) destaca ainda que, para Weber, a finalidade das ciências sociais
não deve ser de encontrar leis científicas, pois elas são apenas probabilidades
de que determinadas situações ocorram de maneira esperada. O método

148
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

generalizante nas ciências sociais, portanto, não deve buscar um sistema de leis
para identificar que fenômenos ocorram sempre da mesma forma, mas serve
como método que propicie a objetividade científica — na medida em que auxilia
no estabelecimento de relações entre os fenômenos.

Para finalizar, Sell (2002) apresenta uma síntese dos debates que
influenciaram Weber na elaboração de sua teoria sociológica:

FIGURA 5 – SÍNTESE DEBATES CIÊNCIAS DA NATUREZA X CIÊNCIAS SOCIAIS

POSITIVISTAS
As ciências da natureza e as ciências sociais possuem
o mesmo método.
NEO-KANTIANOS
As ciências da natureza e as ciências sociais possuem
métodos diferentes.
MAX WEBER
Crítica aos positivistas: a realidade é infinita. Logo,
não pode ser explicada totalmente a partir de leis
científicas.
Crítica aos neo-kantianos: a sociologia deverá fazer
uso dos dois métodos, dependendo da finalidade da
pesquisa.

Todavia, nas ciências sociais, as "leis" são apenas


probabilidade de ação social. São um meio e não a
finalidade da pesquisa.

FONTE: Sell (2002, p. 106)

E
IMPORTANT

Você deve recordar que a essência da discussão epistemológica de Weber está


direcionada para todo este debate apresentado, o qual envolve diferentes autores. O essencial
é compreender que a discussão se dá para a delimitação das especificidades entre as ciências
da natureza e as ciências sociais, seja com propostas que fazem pelo objeto de estudo ou
com propostas que pensam o método como diferenciação. E, para Weber, a finalidade
da pesquisa não é a elaboração de leis, e sim a utilização dos métodos individualizante e
generalizante — de acordo com as características e necessidades da pesquisa.

149
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

4 INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO
Weber, como vimos, apresenta uma visão diferenciada do positivismo
quando pensa a relação entre as ciências sociais e as ciências naturais.
Relembrando: não defende que seja preciso a obtenção de leis gerais nas análises
sociais, conforme ditava o positivismo, mas sim o uso dos métodos generalizante
e individualizante de acordo com as características do objeto em estudo.

Ele se diferencia também, do positivismo, no modo de pensar os


fundamentos da relação entre indivíduo e sociedade, conforme antecipado na
seção anterior. Inaugura o chamado primado do sujeito, sugerindo que este seja
o elemento central das análises de sociólogos — e não apenas os fenômenos
externos a ele (conforme autores positivistas).

A unidade básica da explicação sociológica é, para Weber, o indivíduo —


que ele compara a um átomo na sociologia interpretativa. Para entender unidades
maiores como o Estado, uma associação, o capitalismo etc., é preciso analisar
as interações humanas ali existentes (relações sociais) e para isso a sociologia
reduziria os conceitos à ação compreensível, que são os atos dos indivíduos
participantes destas relações.

Se, para Durkheim, a sociedade é superior ao indivíduo, poderíamos


dizer que para Weber, o indivíduo é o fundamento da sociedade. Esta
afirmação vai muito além do fato de que uma sociedade não existe sem
indivíduos. A existência da sociedade somente se realiza pela ação e
interação recíprocas entre as pessoas (SELL, 2002, p. 107).

A partir das interações mencionadas existem as estruturas coletivas como


família, grupo, Estado etc., e então, para a análise destas instituições, o ponto de
partida seria a ação dos indivíduos (daí a importância do conceito de ação em sua
obra) e, por isso, que ele é individualista quanto ao método.

A possibilidade do sociólogo de compreender as instituições sociais,


portanto, passa pela análise do comportamento dos indivíduos. “Tudo o que
existe na sociedade, seus grupos, instituições e comportamentos, são fruto da
vontade e da atividade dos homens. Por isso, não faz sentido compreendê-los
sem resgatar o sentido contido em cada elemento da sociedade” (SELL, 2002,
p. 108).

Para Weber, é essencial retornar à gênese de cada instituição para


compreender qual foi a atividade que deu importância para sua existência, e as
razões pelas quais continuaram a existir. Por isso a análise deve se deter nas ações
individuais, que originaram as instituições e que as mantêm até o momento da
investigação.

Segue uma análise mais detida sobre as influências que geraram em Weber
a proposta do individualismo metodológico e suas características:

150
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

Max Weber incorporou o problema da compreensão em sua abordagem


sociológica que, como ressaltava, era um tipo de Sociologia, entre
outros tipos possíveis. Portanto, chamou sua perspectiva de Sociologia
“interpretativa” ou “compreensiva”. É característico de sua posição
racional e positivista o fato de ter ele transformado o conceito de
compreensão, que continuou sendo para Weber uma abordagem
excepcional das Ciências Morais ou Culturais que tratam do homem,
e não dos outros animais ou da natureza inanimada. O homem pode
“compreender” ou procurar “compreender” suas próprias intenções
pela introspecção, ou pode interpretar os motivos da conduta de
outros homens em termos de suas intenções professadas ou atribuídas.
Weber distingue diferentes “tipos” de ações motivados. Considera,
caracteristicamente, como do tipo mais “compreensivo” as ações que
estão na natureza da adequação racional, e dos quais a conduta do
“homem econômico” constitui exemplo destacado.
As ações menos racionais são exemplificadas por Weber em termos
da busca de “fins absolutos”, fluindo de sentimentos afetivos ou dos
elementos “tradicionais”. Como os fins absolutos devem ser tomados
pelo sociólogo como elementos “dados”, uma ação pode ser racional
em relação aos meios empregados, mas irracional em relação aos
fins visados. A ação “afetiva”, que nasce puramente do sentimento,
é um tipo de conduta menos racional. E finalmente, aproximando-
se do nível “instintivo”, há a conduta “tradicional”: irrefletido e
habitual, esse tipo é sancionado porque “sempre foi feito assim”,
sendo, portanto, considerado como a conduta adequada. Tais tipos de
“ações” são construídos operacionalmente em termos de uma escala
de racionalidade e irracionalidade. Um recurso tipológico, e não uma
“psicologia” da motivação, é assim descrito.
Essa abordagem nominalista, com sua ênfase sobre as relações
racionais de fins e meios como a forma mais “compreensível” de
conduta, distingue a obra de Weber do pensamento conservador e
sua “compreensão” documental, assimilando a singularidade de
um objeto a um todo espiritualizado. Não obstante, dando destaque
à incompreensibilidade da conduta humana, em oposição à simples
explicação causal dos “fatos sociais” como ocorre na Ciência Natural,
Weber traça uma linha entre sua Sociologia interpretativa e a physique
sociale na tradição de Condorcet, que Comte chamou de sociologia
e Durkheim desenvolveu de modo tão destacado. Já se observou
acertadamente que os tipos básicos de estrutura social usados por
Weber — “sociedade”, “associação” e “comunidade” — correspondem
intimamente aos seus “tipos de ação” — o “racionalmente adequado”,
o “afetivo”, e o “tradicionalista”.
Se aceitássemos as reflexões metodológicas que Weber faz sobre seu
próprio trabalho pelo valor aparente que encerram, não encontraríamos
nelas uma justificação sistemática de sua análise de fenômenos como
a estratificação ou o capitalismo. Tomado literalmente, o “método
de compreensão” dificilmente lhe permitiria o uso de explicações
estruturais, pois elas tentam justificar a motivação dos sistemas de ação
pelas suas funções como estruturas funcionais e não pelas intenções
subjetivas dos indivíduos que as praticam.
Segundo o método de compreensão de Weber, devemos esperar que
ele siga uma teoria subjetiva de estratificação, mas isso não ocorre.
Da mesma forma, podemos assinalar a refutação, por Weber, de um
lugar-comum alemão sobre os Estados Unidos como uma nação de
“indivíduos atomizados” : “No passado e até o presente, foi uma
característica precisamente da democracia especificamente americana
o fato de não constituir ela um monte informe de indivíduos, mas um

151
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

animado complexo de associações rigorosamente exclusivas, embora


voluntárias”. Weber vê a tendência para a democracia ateniense
como sendo determinada pela modificação na organização militar: a
democracia surgiu quando o exército dos hoplitas, mais antigo, deu
lugar ao navalismo. Explicações estruturais semelhantes são reveladas
na forma pela qual ele liga a difusão das burocracias à tarefa de
administrar grandes impérios interiores como Roma e China, Rússia e
os Estados Unidos.
Ao usar o princípio de explicação estrutural, Weber aproxima-se
do processo analítico do pensamento marxista, que, de uma forma
“desespiritualizada”, utiliza o modo de pensar originalmente hegeliano
e conservador. Na sua ênfase metodológica sobre a compreensão
do indivíduo como a unidade final de explicação, Weber polemiza
contra o pensamento organicista dos conservadores, e também com
o uso marxista de significados objetivos de ação social, a despeito da
consciência do agente (MILLS; GERTH, 1946, p. 73).

DICAS

Para avançar no entendimento do individualismo metodológico, acesse


o artigo de Sell que trata especificamente sobre a discussão acerca desta temática.
Está disponível no link: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/civitas/article/
view/22167. A referência completa é: SELL, C. E. Max Weber e o átomo da sociologia: um
individualismo metodológico moderado? Civitas: Revista de Ciências Sociais, Porto Alegre,
vol. 16, n. 2, p. 323-347, abr.– jun. 2016.

5 OBJETIVIDADE E CONHECIMENTO
Já é possível perceber, a partir do estudo das bases que influenciaram o
desenvolvimento da teoria sociológica compreensiva, que Weber se preocupou em
entender como o sujeito pesquisador — que também é objeto na medida em que
faz parte de grupos sociais — pode garantir que os resultados de suas pesquisas
científicas não estejam “contaminados” com seus valores pessoais. Em sua obra,
esta preocupação aparece sendo chamada de objetividade do conhecimento.

152
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

DICAS

A coleção Ensaios Comentados da Editora Ática, que já apresentei


a você na primeira unidade deste livro de estudos, publicou o
texto A objetividade do conhecimento nas Ciências Sociais, em
2006. O trecho anteriormente destacado é um excerto deste
texto, portanto, recomendado para todo estudante da área de
Ciências Sociais.

FONTE:<https://images.livrariasaraiva.com.br/imagemnet/imagem.
aspx/?pro_id=1642130&qld=90&l=430&a=-1>. Acesso em: 14 fev. 2019.

Outra obra que apresenta discussões sobre a objetividade


necessária ao cientista social, e a distinção entre a ciência
(objetiva) e a política (valores) do pesquisador é o livro Ciência e
Política: duas vocações. Há várias edições no Brasil, publicadas
pela Editora Cultrix.

FONTE:<http://statics.livrariacultura.net.br/products/capas_
lg/347/60347.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019.

O cientista precisa, para Weber, estar capacitado para poder cumprir


seu dever científico e ver a realidade dos fatos, diferenciando sua defesa pelos
seus valores em seu aspecto mais político. “Enquanto a ciência é um produto da
reflexão do cientista, a política o é do homem de vontade e de ação, ou do membro
de uma classe que compartilha com outras ideologias e interesses” (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 98).

É necessário que haja uma distinção clara entre os julgamentos de valor e o


saber empírico levantado pelo cientista. Ele deve analisar os problemas e sugerir
soluções, mas o significado que dá a isso diz respeito ao significado que dá a estes
problemas e objetos, ou seja, seu julgamento valorativo.

Destaca-se também que Weber reconhece que as ciências humanas estão


relacionadas a valores, já que os valores pessoais e a cultura do pesquisador
são um quadro que move suas pesquisas de acordo com interesses pessoais. O

153
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

interesse de um sociólogo brasileiro certamente será diferente do interesse de um


sociólogo francês, por exemplo. No entanto, nem por isso a ciência sociológica cai
no relativismo.

Para que isto não aconteça, ele entende que a ciência deve distinguir juízos
de fato e juízos de valor. “Isto implicava afirmar que, se o sociólogo era movido
por seus valores na hora de definir seu objeto, na condução da pesquisa, todas as
considerações pessoais do autor (seus juízos de valor ou axiológicos) deveriam
ser colocadas de lado” (SELL, 2002, p. 132).

Na sua atuação em pesquisa, o sociólogo deveria apenas trabalhar com


os juízos de fato. Independentemente do problema ético ou político, as ciências
sociais deveriam ser neutras. Neste caso, portanto, Weber indica uma separação
entre teoria e prática, quando as ciências deveriam indicar dados empíricos,
apenas, e não definições práticas.

Esta postura é indicada pela ideia de neutralidade axiológica, quando há


separação entre os teóricos e os movimentos políticos.

Se, por um lado, esta postura permitiu aos sociólogos uma


maior profissionalização de sua ciência (já que suas questões são
essencialmente teóricas), ao isolar a ciência da política, Weber deixou
as ciências humanas expostas ao perigo de tornarem-se ideologias
de justificação da ordem estabelecida, na medida em que elas estão
impedidas de fornecer ou apontar alguma solução prático-política
para as questões sociais (SELL, 2002, p. 133).

A ciência deve ser altamente racional, e o saber empírico deve ser buscado
por métodos e instrumentos adequados, e, ao propor soluções para um problema,
o cientista deve indicar todas as possibilidades, não dizendo o que deve ser feito
— mas o que é possível. Exemplo de Weber para tal situação:

Hoje falamos habitualmente da ciência como “livre de todas as


pressuposições”. Haverá tal coisa? Depende do que entendemos por
isso. Todo trabalho científico pressupõe que as regras da lógica do
método são válidas; são as bases gerais de nossa orientação no mundo;
e, pelo menos para nossa questão especial, essas pressuposições são o
aspecto menos problemático da ciência. A ciência pressupõe, ainda,
que o produto do trabalho científico é importante no sentido de que
“vale a pena conhecê-lo”. Nisto estão encerrados todos os nossos
problemas, evidentemente, pois esta pressuposição não pode ser
provada por meios científicos - só pode ser interpretada com referência
ao seu significado último, que devemos rejeitar ou aceitar, segundo a
nossa posição última em relação à vida. [...] A “ressuposição” geral da
Medicina é apresentada trivialmente na afirmação de que a Ciência
Médica tem a tarefa de manter a vida como tal e diminuir o sofrimento
na medida máxima de suas possibilidades. Se a vida vale a pena ser
vivida e quando - esta questão não é indagada pela Medicina (WEBER,
1979, p. 170-171 apud BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002,
p. 99).

154
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

Nesta discussão sobre ciência e valores, Weber indaga como é possível


atingir a objetividade do conhecimento, se os valores estarão sempre presentes
no cientista. Ele afirma que é possível atingir esta objetividade desde que
exista consciência destes valores e que eles sejam controlados por meio dos
procedimentos de análise, ou seja, que o rigor científico seja buscado a partir das
metodologias científicas.

Para isto Weber aplica sua ideia de tipo ideal, entendendo que é
uma metodologia que pode auxiliar na manutenção do rigor metodológico.
Vejamos como:

A ação do cientista é seletiva. Os valores são um guia para a escolha


de um certo objeto pelo cientista. A partir daí ele definirá uma certa
direção para a sua explicação e os limites da cadeia causal que ela é
capaz de estabelecer, ambos orientados por valores. As relações de
causalidade, por ele construídas na forma de hipóteses, constituirão
um esquema lógico-explicativo cuja objetividade é garantida pelo
rigor e obediência aos cânones do pensamento científico. O ponto
essencial a ser salientado é que o próprio cientista é quem atribui aos
aspectos do real e da história que examina uma ordem através da
qual procura estabelecer uma relação causal entre certos fenômenos.
Assim produz o que se chama tipo ideal (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 99).

Há, portanto, uma questão ética, necessária ao cientista, pois precisa manter
a verdade científica por meio da racionalidade com relação às suas finalidades —
e manter-se racional com relação a valores, buscando evidências e não apenas
reforçando algum posicionamento que já tenha a partir de seu conjunto moral.

Barbosa, Oliveira e Quintaneiro (2002, p. 110) apresentam a forma pela qual


Weber entende que é possível manter esta racionalidade e, por consequência, esta
objetividade com relação ao conhecimento tão necessária ao processo científico
de análise:

Dada a sua complexidade, a discussão realizada por Weber sobre a


objetividade das ciências sociais merece uma consideração cuidadosa.
Segundo o autor, para chegar ao conhecimento que pretende, o
cientista social efetua quatro operações: 1) estabelece leis e fatores
hipotéticos que servirão como meios para seu estudo; 2) analisa e
expõe ordenadamente “o agrupamento individual desses fatores
historicamente dados e sua combinação concreta e significativa”,
procurando tornar inteligível a causa e natureza dessa significação;
3) remonta ao passado para observar como se desenvolveram as
diferentes características individuais daqueles agrupamentos que
possuem importância para o presente e procura fornecer uma
explicação histórica a partir de tais constelações individuais anteriores,
e 4) avalia as constelações possíveis no futuro.
Weber endossa o ponto de vista segundo o qual as ciências sociais
visam a compreensão de eventos culturais enquanto singularidades.
O alvo é, portanto, captar a especificidade dos fenômenos estudados
e seus significados. Mas sendo a realidade cultural infinita, uma
investigação exaustiva, que considerasse todas as circunstâncias ou

155
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

variáveis envolvidas num determinado acontecimento, torna-se uma


pretensão inatingível. Por isso, o cientista precisa isolar, da “imensidade
absoluta, um fragmento ínfimo”: que considera relevante. O critério de
seleção operante nesse processo está dado pelo significado que certos
fenômenos possuem, tanto para ele como para a cultura e a época em
que se inserem. É a partir da consideração de ambos os registros que
será possível o ideal de objetividade e inteligibilidade nas ciências
sociais. Pode-se dizer, então, que o particular ou específico não é
aquilo que vem dado pela experiência, nem muito menos o ponto de
partida do conhecimento, mas o resultado de um esforço cognitivo que
discrimina, organiza e, enfim, abstrai certos aspectos da realidade na
tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados
fenômenos. Mas o método de estudo de que se utiliza baseia-se no
estado de desenvolvimento dos conhecimentos, nas estruturas
conceituais de que dispõe e nas normas de pensamento vigentes, o
que lhe permite obter resultados válidos não apenas para si próprio.
Existe uma grande diferença entre conferir significado à realidade
histórica por meio de ideias de valor e conhecer suas leis e ordená-la
de acordo com conceitos gerais e princípios lógicos, genéricos. Mas
a explicação do fato significativo em sua especificidade nunca estará
livre de pressupostos porque ele próprio foi escolhido em função de
valores. Com isso, Weber rejeita a possibilidade de uma ciência social
que reduza a realidade empírica a leis. Para explicar um acontecimento
concreto, o cientista agrupa uma certa constelação de fatores que lhe
permitam dar sentido a esta realidade particular.
Weber procura demonstrar que conceitos muito genéricos, extensos,
abrangentes ou abstratos, são menos proveitosos para o cientista
social por serem pobres em conteúdo, logo, afastados da riqueza da
realidade histórica. Portanto, a tentativa de explicar tais fenômenos
por meio de “leis” que expressem regularidades quantificáveis que
se repetem não passa de um trabalho preliminar, possivelmente
útil. Os fenômenos individuais são um conjunto infinito e caótico
de elementos cuja ordenação é realizada a partir da significação que
representam e por meio da imputação causal que lhe é feita. Logo, a)
o conhecimento de leis sociais não é um conhecimento do socialmente
real, mas unicamente um dos diversos meios auxiliares que o nosso
pensamento utiliza para esse efeito e, b) porque nenhum conhecimento
dos acontecimentos culturais poderá ser concebido senão com base na
significação que a realidade da vida, sempre configurada de modo
individual, possui para nós em determinadas relações singulares.
O princípio de seleção dos fenômenos culturais infinitamente diversos
é subjetivo, já que apenas o ponto de vista humano é capaz de conferir-
lhes sentido, assim como de proceder à imputação de causas concretas
e adequadas ou objetivamente possíveis, destacando algumas
conexões, construindo relações, e elaborando ou fazendo uso de
conceitos que pretendem ser fecundos para a investigação empírica,
embora inicialmente imprecisos e intuídos. Isto vai permitir “tomar
consciência não do que é genérico, mas, muito pelo contrário, do
que é específico a fenômenos culturais”. A resposta para o problema
da relação entre a objetividade do conceito puro e a compreensão
histórica encontra-se na elaboração dos tipos ideais, através dos quais
busca-se tornar compreensível a natureza particular das conexões que
se estabelecem empiricamente.

156
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER: TEORIA E MÉTODO

É por meio do conceito de tipo ideal, portanto, que Weber propõe


um instrumento que possa auxiliar o pesquisador a manter-se no campo da
objetividade. Este conceito será estudado de maneira mais aprofundada no
próximo tópico — que apresentará o arcabouço conceitual de Weber. Para
encerrar este tema, nas palavras do próprio Weber, vamos conhecer suas ideias
sobre estes princípios de seleção necessários ao pesquisador:

Disso resulta que todo o conhecimento da realidade cultural é sempre


um conhecimento subordinado a pontos de vista especificamente
particulares. Quando exigimos do historiador ou do sociólogo a
premissa elementar de saber distinguir entre o essencial e o secundário,
de possuir para esse fim os “pontos de vista” necessários, queremos
unicamente dizer que ele deverá saber referir — consciente ou
inconscientemente — os elementos da realidade a “valores culturais”
universais e destacar aquelas conexões que para nós se revistam de
significado. E se é frequente a opinião de que tais pontos de vista
poderão ser “deduzidos da própria matéria”, isto apenas se deve à
ingênua ilusão do especialista que não se dá conta de que — desde
o início e em virtude das ideias de valor com que inconscientemente
abordou o tema — destacou da imensidade absoluta um fragmento
ínfimo, e particularmente aquele cujo exame lhe importa.
A propósito desta seleção de “aspectos” especiais e individuais
do devir, que sempre e em todos os casos se realiza consciente
ou inconscientemente, reina também essa concepção do trabalho
científico-cultural que constitui a base da tão repetida afirmação de
que o elemento “pessoal” é o que verdadeiramente confere valor a
uma obra científica. Ou seja, de que qualquer obra deveria exprimir
uma “personalidade” paralelamente a outras qualidades.
Por certo que sem as ideias de valor do investigador não existiria
qualquer princípio de seleção nem conhecimento sensato do real
singular e, assim como, sem a crença do pesquisador na significação de
um conteúdo cultural qualquer resultaria completamente desprovido
de sentido todo o estudo do conhecimento da realidade individual,
também a orientação da sua convicção pessoal e a difração dos valores
no espelho da sua alma conferem ao seu trabalho uma direção. E os
valores a que o gênio científico refere os objetos da sua investigação
poderão determinar a “concepção” que se fará de toda uma época.
Isto é, não só poderão ser decisivos para aquilo que, nos fenômenos, se
considera “valiosos”, mas ainda para o que passa por ser significativo
ou insignificante, “importante” ou “secundário”.
O conhecimento científico-cultural tal como o entendemos encontra-se
preso, portanto, a premissas “subjetivas” pelo fato de apenas se ocupar
daqueles elementos da realidade que apresentem alguma relação, por
muito indireta que seja, com os acontecimentos a que conferimos uma
significação cultural. Apesar disso, continua naturalmente a ser um
conhecimento puramente causal, exatamente como o conhecimento de
eventos naturais individuais importantes, que têm caráter qualitativo
(WEBER, 2003, p. 97).

Finalizando este tópico sobre a teoria sociológica de Weber, segue uma


sugestão de vídeo, e seguimos para o próximo tópico, cujo foco de estudo está
direcionado para os principais conceitos das obras weberianas.

157
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

DICAS

Para se aprofundar no último dos autores clássicos, segue o link do último


vídeo produzido pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo – UNIVESP: Clássicos
da Sociologia: Max Weber, disponível na plataforma Youtube. Você poderá acessá-lo em:
https://www.youtube.com/watch?v=ea-sXQ5rwZ4.

158
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• Em Weber a ênfase é no indivíduo como elemento fundante da realidade social.

• Uma primeira questão enfrentada por Weber partiu da discussão neokantiana


sobre o uso dos mesmos métodos nas ciências da natureza e nas ciências sociais.
Weber não concordava com a busca por leis sociais defendida pelo positivismo,
que era o que justificava a unicidade entre os métodos das ciências naturais e
os métodos das ciências sociais.

• Para Weber, a finalidade de pesquisa não é a elaboração de leis, e sim a


utilização dos métodos individualizante e generalizante — de acordo com as
características e necessidades da pesquisa.

• A unidade básica da explicação sociológica é, para Weber, o indivíduo — que


ele compara a um átomo na sociologia interpretativa.

• Para Weber é essencial retornar à gênese de cada instituição para compreender


qual foi a atividade que deu importância para sua existência, e as razões
pelas quais continuaram a existir. Por isso, a análise deve se deter nas ações
individuais, que originaram as instituições e que as mantêm até o momento da
investigação.

• Weber indaga como é possível atingir a objetividade do conhecimento, se


os valores estarão sempre presentes no cientista. Ele afirma que é possível
atingir esta objetividade, desde que exista consciência destes valores e que eles
sejam controlados por meio dos procedimentos de análise e da neutralidade
axiológica, ou seja, que o rigor científico seja buscado a partir das metodologias
científicas. Para isto utiliza seu conceito de tipo ideal.

159
AUTOATIVIDADE

1 Weber recebeu diferentes influências na elaboração de seu pensamento


sociológico, sobretudo dos pensadores neokantianos. Sobre as ideias
desenvolvidas por Weber a partir das discussões teóricas e metodológicas
destes autores, analise as seguintes sentenças:

I – Weber indica que nas ciências sociais as leis científicas são possibilidades de
ações sociais, um meio e não a finalidade da pesquisa.
II – Weber reafirmava a importância da busca por leis sociais para que as
ciências sociais igualassem seus métodos com as ciências naturais.
III – Weber defendeu o uso de métodos individualizantes e generalizantes, a
serem utilizados de acordo com o objeto de estudo em questão na pesquisa.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas.

2 O individualismo metodológico é a forma desenvolvida por Weber para


a consolidação de uma metodologia das ciências sociais. Este método
inaugura uma nova perspectiva para as análises que envolvem a sociedade.
Isto posto, pode-se afirmar que para o individualismo metodológico a
unidade básica da explicação sociológica é:

a) ( ) o Conhecimento Objetivo.
b) ( ) a Desigualdade Social.
c) ( ) a Estrutura Social.
d) ( ) o Indivíduo.

160
UNIDADE 3
TÓPICO 2

CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO


SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA
SOCIEDADE

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior, você conheceu as bases teóricas e metodológicas
do pensamento de Max Weber, que definem a chamada teoria sociológica
compreensiva. Estas bases são fundamentais para entender a lógica das análises
do autor, e os conceitos que ele desenvolveu para amparar suas investigações
— especialmente as relações entre o individualismo metodológico e a noção de
ação social.

Prosseguindo seus estudos, este tópico lhe dará condições de aprofundar


os conceitos fundamentais da obra weberiana, embora não estejam todos aqui
presentes. Há materiais que direcionam o estudo para que você conheça mais
conceitos. O direcionamento se dá pela via dos conceitos mais utilizados na teoria
sociológica compreensiva.

Para tanto, iniciaremos com o mais básico e fundamental: a noção de


ação social. Em seguida, conheceremos a ideia de tipo ideal, utilizada por Weber
como instrumento metodológico. Logo após, estudaremos os conceitos de relação
social; poder e dominação; e estratificação social (classes, estamentos e partidos).

Com estas bases conceituais será possível avançar ao próximo tópico para
compreender os desdobramentos da sociologia de Weber, quando estes conceitos
são aplicados nas análises de fenômenos sociais. Bons estudos!

2 AÇÃO SOCIAL
Como vimos no tópico anterior, Weber busca utilizar como método de
análise social a compreensão e explicação do mundo, desenvolvendo a chamada
teoria sociológica compreensiva. É por meio desta metodologia que ele defende
a análise do objeto de estudo da sociologia, que para ele é a ação social. Este
conceito permeia toda a sua obra, e segue sendo discutido e interpretado ainda
nos dias atuais.

161
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

A sociologia, para ele, tem a tarefa de interpretar a ação social e seus


efeitos, sempre a partir do indivíduo como fundamento da explicação sociológica,
de acordo com o que vimos no item sobre o individualismo metodológico. Este
autor inova, portanto, ao trazer o foco de estudos para o indivíduo como gerador
das ações sociais, que seriam para ele o objeto formal da sociologia.

“A ação é definida por Weber como toda conduta humana (ato, omissão,
permissão) dotada de um significado subjetivo dado por quem a executa e que
orienta essa ação” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 104). A
ação, portanto, é um comportamento relacionado pelos indivíduos com um
sentido subjetivo.

E
IMPORTANT

Se a ação é um comportamento que o indivíduo relaciona a um sentido


subjetivo, a ação social é um comportamento orientado em seu curso pelo comportamento
de outros indivíduos (ou seja, social).

A partir da aplicabilidade do individualismo metodológico, portanto, é


que a sociologia procura na ação dos indivíduos, orientada em relação a outros
indivíduos, explicar os fenômenos sociais. Na prática se dá desta maneira:

A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido,


o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos
referida a outro ou outros - ou seja, da ação social, não se propondo
a julgar a validez de tais atos nem a compreender o agente enquanto
pessoa. Compreender uma ação é captar e interpretar sua conexão de
sentido, que será mais ou menos evidente para o sociólogo. Em suma:
ação compreensível é ação com sentido. As condutas humanas são
tanto mais racionalizadas quanto menor for a submissão do agente aos
costumes e afetos e quanto mais ele se oriente por um planejamento
adequado à situação. Pode-se dizer, portanto, que as ações serão
tanto mais intelectualmente compreensíveis (ou sociologicamente
explicáveis) quanto mais racionais, mas é possível a interpretação
endopática e o cálculo exclusivamente intelectual dos meios, direção
e efeitos da ação ainda quando existe uma grande distância entre os
valores do agente e os do sociólogo. Interpretar uma ação devida a
valores religiosos, a virtudes, ao fanatismo ou a afetos extremos que
podem não fazer parte da experiência do sociólogo ou aos quais ele
seja pouco suscetível pode, portanto, dar-se com um grau menor de
evidência (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 104).

O sociólogo, portanto, precisa determinar o sentido ou significado da


ação social, ou seja, o motivo pelo qual o agente fundamenta a sua ação social.

162
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

“Para a sociologia, importa recuperar a razão e a finalidade que os próprios


indivíduos conferem às suas atividades — bem como às suas relações com os
demais indivíduos e com a sociedade” (SELL, 2002, p. 110). Por isso a sociologia
de Weber é chamada de compreensiva, pois busca compreender o sentido da
ação social.

Para dar conta da quantidade de dimensões de uma ação social, Weber


elabora os chamados tipos puros da ação social, que orientam a análise das ações
sociais encontradas na sociedade. Eles são tipos ideais, conforme a definição que
estudaremos na próxima seção, instrumentos metodológicos e conceituais.

Vamos nos apropriar da descrição de Sell (2002, p. 111) dos tipos puros da
ação social:

• Ação social referente a fins: a ação é determinada por expectativas


quanto ao comportamento de objetos do mundo exterior e de
outras pessoas. Estas expectativas funcionam como “condições”
ou “meios” para alcançar fins próprios, ponderados e perseguidos
racionalmente como sucesso. Portanto, neste tipo de ação, o homem
coloca determinados objetivos e busca os meios mais adequados
para persegui-los. O importante é perceber que o motivo da ação é
alcançar sempre um resultado eficiente.
• Ação social referente a valores: a ação é determinada pela crença
consciente no valor — ético, estético, religioso ou qualquer que seja sua
interpretação — absoluto e inerente a determinado comportamento
como tal, independente do resultado. O motivo da ação, neste
caso, não é um resultado, mas um valor, independentemente dos
resultados positivos ou negativos que ela possa ter.
• Ação social afetiva: a ação é determinada de modo afetivo,
especialmente emocional: por afetos ou estados emocionais atuais.
• Ação social tradicional: a ação é determinada pelo costume
arraigado.

Weber reconhece que é possível que mais de um tipo de ação condicione


o indivíduo em seus comportamentos, portanto, estes tipos puros orientam a
análise, mas na prática podem aparecer mesclados em suas dimensões.

Podemos utilizar essas quatro categorias para analisar o sentido de um


sem-número de condutas, tanto daquelas praticadas, como das que o
agente se recusa a executar ou deixa de praticar: estudar, dar esmolas,
comprar, casar, participar de uma associação, fumar, presentear,
socorrer, castigar, comer certos alimentos, assistir à televisão, ir à
missa, à guerra etc. O sociólogo procura compreender o sentido que um
sujeito atribui à sua ação e seu significado. Há que se ter claro, porém,
o alerta de Weber de que “muito raras vezes a ação, especialmente a
social, está exclusivamente orientada por um ou outro destes tipos”
que não passam de modelos conceituais puros, o que quer dizer
que em geral as ações sofrem mais de um desses condicionamentos,
embora possam ser classificadas com base naquele que, no caso, é o
predominante (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 104).

163
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Dito isto, Weber procura explicar como as interações entre os indivíduos


formam os grupos sociais e, por consequência, as instituições sociais. O sentido
da ação social, sendo compartilhado, forma uma relação social. Parte-se do
pressuposto de que é provável que se aja de acordo com o sentido compartilhado,
seja nas relações sociais de caráter pessoal ou impessoal.

As relações sociais podem ser legitimadas por uma ordem legítima, por
meio da convenção ou do direito. Exemplos: agrupamentos (grupos coletivos
possuem órgãos administrativos); empresas (grupos buscando determinado fim
estabelecido racionalmente); associações (regulamentos aceitos voluntariamente);
instituições (regulamentos impostos aos seus membros) (SELL, 2002).

A ação social, portanto, é o conceito fundamental na teoria sociológica


compreensiva, e o caminho analítico se inicia nela, passando pela interação entre
os indivíduos e chegando às instituições. O caminho contrário também é possível,
partindo de uma instituição para compreender quais ações sociais são comuns
aos sujeitos que a formam. Para reforçar o quanto o indivíduo é importante para
a teoria sociológica de Weber, Sell (2002) apresenta um quadro como exemplo:

FIGURA 6 – EXEMPLO DE ESQUEMA TEÓRICO DE WEBER

INDIVÍDUO GRUPO COLETIVIDADE

Ação Social Relações Sociais Ordem legítima

Dar aulas Professor x alunos Escola

FONTE: Sell (2002, p. 113)

Barbosa, Oliveira e Quintaneiro (2002) destacam ainda a importância do


cuidado com a análise das ações sociais no seguinte aspecto:

É necessário distinguir uma ação propriamente social de dois


modos de conduta simplesmente reativos, sem caráter social e
cujo sentido não se conecta significativamente às ações do outro, a
saber: a) a ação homogênea - aquela executada por muitas pessoas
simultaneamente, como proteger-se contra uma calamidade natural,
ou aquelas reações uniformes de massa criadas pela situação de classe
quando, por exemplo, todos os empresários de um setor aumentam
automaticamente seus preços a partir do anúncio pelo governo de
que será criado um imposto específico; b) a ação proveniente de
uma imitação ou praticada sob a influência da ou condicionada pela
conduta de outros ou por uma massa (uma multidão, a imprensa e a
opinião pública seriam massas dispersas). Na medida em que o sujeito
não orientou causalmente sua conduta pelo comportamento de outros
já que ele apenas imita, não se estabelece uma relação de sentido, o
que coloca esse tipo de ação fora do campo de interesse da Sociologia
compreensiva (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 108).

164
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Para finalizar, vamos conhecer um pouco da análise do próprio autor


sobre o conceito de ação social, a partir de sua obra:

O Conceito de Ação Social


1. A ação social (incluindo tanto a omissão como a aquiescência)
pode ser orientada para as ações passadas, presentes ou futuras
de outros. Assim, pode ser causada por sentimento de vingança
de males do passado, defesa contra perigos do presente ou contra-
ataques futuros. Os “outros” podem ser indivíduos conhecidos ou
desconhecidos, ou podem constituir uma quantidade indefinida.
Por exemplo, “dinheiro” é um meio de troca que o indivíduo
aceita em pagamento, porque sua ação se orienta na expectativa de
que numerosos, mas desconhecidos e indeterminados “outros” o
aceitarão por sua vez, em algum tempo no futuro, como um meio
de troca.
2. Nem toda espécie de ação, nem mesmo a ação manifestadamente
formal, é “social”, no sentido da presente discussão. A ação formal
é não-social se orientada exclusivamente ao comportamento de
objetos inanimados. Atitudes subjetivas devem ser consideradas
ação social apenas se orientadas à ação de outros. A conduta
religiosa não é social, se permanece simplesmente uma questão de
contemplação, de oração solitária, etc. A atividade econômica de
um indivíduo apenas é social se é até o ponto em que concerne
também à atividade de terceiros. Falando de modo geral, em
termos formais, torna-se social apenas até o ponto em que reflete
a extensão em que os outros respeitam o controle real de uma
pessoa sobre bens econômicos. Mais concretamente, é social se, por
exemplo, em relação ao consumo de uma pessoa, as necessidades
futuras de outros são levadas em conta e determinam, portanto, a
“poupança” desta pessoa.
3. Nem todo tipo de contato entre seres humanos tem um caráter
social, mas apenas quando a ação do indivíduo é significativamente
orientada para a dos outros. Assim, a colisão entre dois ciclistas é
apenas um evento isolado, comparável a uma catástrofe natural.
Por outro lado, qualquer tentativa de um deles de evitar bater no
outro, com os insultos subsequentes, uma briga, ou mesmo uma
discussão pacífica, constituiriam uma forma de “ação social”.
4. A ação social também não é idêntica a: a) a ação uniforme de muitas
pessoas; b) a ação influenciada por outras pessoas. Por exemplo, se
no começo de uma chuva uma quantidade de pessoas na rua abrir
seus guarda-chuvas ao mesmo tempo, tal conduta normalmente
não se orienta para a dos outros, pois trata-se simplesmente de uma
reação semelhante de todos de protegerem-se contra a chuva. Sabe-
se também que a conduta de um indivíduo pode ser fortemente
influenciada pelo mero fato de que ele é um membro de uma
multidão contida num espaço limitado. Este constitui o assunto das
pesquisas sobre “psicologia de massas”, do tipo desenvolvido por
Le Bom, sendo conhecido como ação “condicionada pelas massas”.
Prosseguindo, é possível que um grande número de pessoas que se
encontram bastante dispersas reaja simultânea ou sucessivamente a
uma fonte de influência que atua de modo semelhante sobre todos
os indivíduos, como faz, por exemplo, a imprensa: desta maneira
a ação do indivíduo é influenciada por sua associação à multidão e
por sua própria percepção deste aglomerado. De fato, certos tipos
de reação são possíveis apenas pelo mero fato de que o indivíduo se
porta como parte de uma multidão embora outros tipos se tornem
mais difíceis sob as mesmas condições (WEBER, 2002, p. 37-38).

165
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Além de seu conceito central, ação social, Weber também desenvolve


a noção de tipo ideal — essencial para sua obra sociológica. A seguir nos
aprofundaremos neste conceito.

3 TIPO IDEAL
O pensamento weberiano é bastante conhecido por desenvolver a ideia de
tipo ideal, a fim de estabelecer como funcionam os conceitos sociológicos como
instrumentos de interpretação na busca pela compreensão da realidade social.
Ele busca, portanto, entender como os conceitos funcionam na ciência sociológica
e sua relação com formas conceituais de outras ciências.

Para Weber, o erro do positivismo consistia em tratar os conceitos e teorias


como uma reprodução real da realidade. O sociólogo não deveria lidar desta
maneira com estes instrumentos, já que o conhecimento humano não seria uma
reprodução da essência da realidade, ideia que ele extrai da filosofia kantiana
(SELL, 2002).

O conhecimento humano apenas consegue captar as relações entre as


coisas existentes, a partir da estrutura estabelecida pela mente humana. É o
pressuposto da ideia famosa de Kant: O real é relacional. Assim também, para
Weber, não seria possível que o conhecimento humano captasse toda a essência
da realidade de maneira exata e exaustiva. “A explicação sociológica só pode
captar determinados elementos da realidade, que são condicionados pela cultura
na qual o sociólogo está inserido” (SELL, 2002, p. 114).

É possível notar, portanto, o quanto o sujeito tem um papel ativo na


construção do conhecimento sociológico, já que é o próprio sociólogo quem
determina as dimensões e traços que serão analisados na realidade. Em outras
palavras, o recorte metodológico é estabelecido por uma pessoa, um profissional
que irá delimitar os aspectos e a relação entre eles.

Isto é necessário já que a sociedade é complexa e composta por diferentes


dimensões, cuja diversidade de elementos é infinita. O trabalho do cientista social,
neste caso, é muito distinto do cientista da natureza, já que o sociólogo procura
conhecer os aspectos socioculturais desde a composição histórica daquele recorte,
para compreender as relações atualizadas entre os elementos.

A generalização, portanto, é inevitável. Vejamos nas palavras de Barbosa,


Oliveira e Quintaneiro (2002, p. 30):

Sendo uma ciência generalizadora, a Sociologia constrói conceitos -


tipo, “vazios frente à realidade concreta do histórico” e distanciados
desta, mas unívocos porque pretendem ser fórmulas interpretativas
através das quais se apresenta uma explicação racional para a
realidade empírica que organiza. Esta adequação entre o conceito e

166
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

a realidade é tanto mais completa quanto maior a racionalidade da


conduta a ser interpretada, o que não impede a Sociologia de procurar
explicar fenômenos irracionais (místicos, proféticos, espirituais,
afetivos). O que dá valor a uma construção teórica é a concordância
entre a adequação de sentido que propõe e a prova dos fatos, caso
contrário, ela se torna inútil, seja do ponto de vista explicativo ou
do conhecimento da ação real. Quando é impossível realizar a prova
empírica, a evidência racional serve apenas como uma hipótese
dotada de plausibilidade. Uma construção teórica que pretende ser
uma explicação causal baseia-se em probabilidades de que um certo
processo “A” se siga, na forma esperada, a um outro determinado
processo “B”.

Sendo assim, interpretar exaustivamente, em todos os seus aspectos,


uma realidade e as relações que estabelece com todos os demais elementos
sociais não é possível, o que leva o cientista a trabalhar com os recortes já
mencionados, certos aspectos relevantes que, segundo seu princípio de
seleção, mereçam mais atenção. Este princípio de seleção apresenta, portanto,
os valores individuais do cientista.

Embora este recorte seja determinado pelo investigador e por sua época,
os conceitos e métodos somente são válidos sendo científicos. Daí a importância
do rigor metodológico. Pensando assim, Weber indica a importância de um
instrumento metodológico que oriente o cientista social na busca das relações
causais de um elemento, ou seja, um modelo de investigação-interpretação que o
guie nas suas análises sobre a realidade.

É neste ponto que ele apresenta como alternativa o conceito de tipos


ideais. Vejamos a definição a partir do autor:

Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um


ou vários pontos de vista, e mediante o encadeamento de grande
quantidade de fenômenos isolados dados, difusos e discretos, que se
podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo,
e que se ordenam segundo os pontos de vista unilateralmente
acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento
(WEBER, 2003, p. 106).

Segue um destaque importante:

E
IMPORTANT

Diferente de outros conceitos que refletem a sociedade, a ideia de tipo ideal


não se acha de forma pura na realidade, pois é uma construção teórica elaborada a partir
dos elementos enfatizados de um dado fenômeno — e a partir de um recorte realizado pelo
próprio sociólogo.

167
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Para explicar os limites e possibilidades desta construção teórica, Barbosa,


Oliveira e Quintaneiro (2002, p. 103) indicam três características do tipo ideal:

• Unilateralidade - Ao elaborar o tipo ideal, parte-se da escolha, numa


realidade infinita, de alguns elementos do objeto a ser interpretado
que são considerados pelo investigador os mais relevantes para a
explicação. Esse processo de seleção acentua - necessariamente –
certos traços e deixa de lado outros, o que confere unilateralidade
ao modelo puro.
• Racionalidade - Os elementos causais são relacionados pelo cientista
de modo racional, embora não haja dúvida sobre a influência, de
fato, de incontáveis fatores irracionais no desenvolvimento do
fenômeno real.
• Caráter utópico - No relativo à ênfase na racionalidade, o tipo ideal
só existe como utopia e não é, nem pretende ser, um reflexo da
realidade complexa, muito menos um modelo do que ela deveria
ser. Um conceito típico-ideal é um modelo simplificado do real,
elaborado com base em traços considerados essenciais para a
determinação da causalidade, segundo os critérios de quem
pretende explicar um fenômeno.

É possível construir tipos ideais de diversos exemplos, como interesses


de classe, grupos religiosos, outros grupos, enfim, todos os fenômenos sociais
são passíveis de serem analisados pela via da construção teórica dos tipos ideais.
Assim, as concepções do cientista o levam a realizar uma seleção dos aspectos a
serem analisados, comparando seu modelo à realidade em exame. Esta construção
ideal será diferente para cada cientista ou observador.

As próprias formas de ação, que vimos na seção anterior neste mesmo


tópico, são tipos ideais — não estão em sua forma pura na realidade. O sociólogo
necessita acentuar alguma característica da ação para compreender em qual tipo
ideal ela se encaixa.

Um exemplo da aplicação do tipo ideal encontra-se na obra A ética


protestante e o espírito do capitalismo. Weber parte de uma descrição
provisória que lhe serve como guia para a investigação empírica,
“indispensável à clara compreensão do objeto de investigação”, do que
entende inicialmente por “espírito do capitalismo”, e vai construindo
gradualmente esse conceito ao longo de sua pesquisa, para chegar
à sua forma definitiva apenas no final do trabalho. O tipo ideal é
utilizado como instrumento para conduzir o autor numa realidade
complexa. O autor reconhece que seu ponto de vista é um entre outros
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 30).

Sell (2002) faz um alerta importante sobre a elaboração de tipos ideais,


destacando que esta construção não pode ser arbitrária por parte do pesquisador
e, portanto, o ato de análise torne-se subjetivista. Weber propõe este conceito
como instrumento de pesquisa que permite uma aproximação mais objetiva da
realidade — permitindo a organização de dados e auxiliando na compreensão
das diferentes dimensões de um fenômeno social. Portanto, é essencial que os
acontecimentos, a realidade, sejam a base para esta análise.

168
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

“É justamente para isto que servem os tipos ideais: permitir ao pesquisador


uma forma constante de comparar suas teorias com a realidade pesquisada, a
partir de um aspecto da mesma” (SELL, 2002, p. 115).

Na obra de Weber, portanto, amplos conceitos são compreendidos como


tipos ideais, como o capitalismo, o feudalismo, a burocracia, o Estado, entre
outros. As elaborações de Marx sobre o capitalismo, por exemplo, para Weber,
são entendidas como tipos ideais — construções teóricas que auxiliam a análise,
mas não refletem a realidade total da aplicação deste modelo econômico.

DICAS

Para avançar nas leituras sobre o conceito e a aplicabilidade


dos tipos ideais, veja a obra Sobre a Teoria das Ciências
Sociais, com versão do ano de 2004 e publicada pela
Editora Centauro.

FONTE:<https://www.traca.com.br/capas/92/92672.jpg>.
Acesso em: 14 fev. 2019.

Marconi e Lakatos (1990, p. 34) apresentam o uso do tipo ideal de Weber


como um método das ciências sociais, chamado método tipológico. Vejamos o
que elas afirmam sobre o uso deste método:

Habilmente aplicado por Max Weber. Apresenta certas semelhanças


com o método comparativo. Ao comparar fenômenos sociais
complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos ideais, construídos a
partir da análise de aspectos essenciais do fenômeno. A característica
principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de
modelo para a análise e compreensão de casos concretos, realmente
existentes. Weber, através da classificação e comparação de diversos
tipos de cidades, determinou as características essenciais da cidade;
da mesma maneira, pesquisou as diferentes formas de capitalismo
para estabelecer a caracterização ideal do capitalismo moderno; e,
partindo do exame dos tipos de organização, apresentou o tipo ideal
de organização burocrática.
Exemplo: estudo de todos os tipos de governo democrático, do
presente e do passado, para estabelecer as características típicas ideais
da democracia.

169
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Para Weber, a vocação prioritária do cientista é separar os juízos


de realidade - o que é - e os juízos de valor - o que deve ser – da
análise científica, com a finalidade de perseguir o conhecimento
pelo conhecimento. Assim, o tipo ideal não é uma hipótese, pois se
configura como uma proposição que corresponde a uma realidade
concreta; portanto, é abstrato; não é uma descrição da realidade,
pois só retém, através de um processo de comparação e seleção de
similitudes, certos aspectos dela; também não pode ser considerado
como um "termo media", pois seu significado não emerge da noção
quantitativa da realidade. O tipo ideal não expressa a totalidade da
realidade, mas seus aspectos significativos, os caracteres mais gerais,
os que se encontram regularmente no fenômeno estudado.
O tipo ideal, segundo Weber, diferencia-se do conceito, porque não se
contenta com selecionar a realidade, mas também a enriquece. O papel
do cientista consiste em ampliar certas qualidades e fazer ressaltar
certos aspectos do fenômeno que se pretende analisar.
Entretanto, só podem ser objeto de estudo do método tipológico os
fenômenos que se prestam a uma divisão, a uma dicotomia de "tipo"
e "não-tipo". Os próprios estudos efetuados por Weber demonstram
essa característica:
"cidade" - "outros tipos de povoamento";
"capitalismo" - "outros tipos de estrutura socioeconômica";
“organização burocrática” – “organização não-burocrática”.

É desta maneira que opera o uso desta construção teórica chamada, por
Weber, de tipo ideal, que vem sendo interpretada e reaplicada desde então no
campo das ciências sociais. Outro campo que muito se utiliza desta noção é a
área de teoria organizacional, campo da administração. Se você se deparar com
textos desta área que utilizam este conceito, certamente estão se remetendo à
obra de Weber.

DICAS

Se você ficou curioso sobre a aplicabilidade dos conceitos de Weber nas teorias
organizacionais, procure realizar a leitura do artigo disponível no link: http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552003000200004. A referência é: MORAES, L. F.
R.; FILHO, A. D. M.; DIAS, D. V. O paradigma weberiano da ação social: um ensaio sobre a
compreensão do sentido, a criação de tipos ideais e suas aplicações na teoria organizacional.
Revista de Administração Contemporânea. Curitiba, v. 7, n. 2, p. 57-71, abr. – jun. 2003.

4 RELAÇÃO SOCIAL
Weber, ao pensar o conceito de relação social, destaca que são
comportamentos, condutas sociais que possuem seu sentido compartilhado. O
significado dado pelas pessoas às ações é entendido por todos os envolvidos,
constituindo a relação social. Como exemplos, temos as relações comerciais,
afetivas, políticas, de hostilidade, de amizade, entre outras.

170
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

“Podemos dizer que relação social é a probabilidade de que uma forma


determinada de conduta social tenha, em algum momento, seu sentido partilhado
pelos diversos agentes numa sociedade qualquer” (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 108).

Vejamos o exemplo indicado pelas autoras da citação anterior: você, como


membro da sociedade moderna, é capaz de compreender o gesto de uma pessoa
que pega seu cartão de crédito para pagar uma conta. No entanto, se um índio
que não tivesse convivência com este tipo de situação visse o ocorrido, ele não
compreenderia do que se trata. Ou seja, ele não partilharia do significado da ação
social (comercial) que estaria acontecendo ali.

Quando, ao agir, cada um de dois ou mais indivíduos orienta sua


conduta levando em conta a probabilidade de que o outro ou os outros
agirão socialmente de um modo que corresponde às expectativas do
primeiro agente, estamos diante de uma relação social. O gerente do
supermercado solicita a um empacotador que atenda um cliente. Temos
aqui três agentes cujas ações orientam-se por referências recíprocas,
cada um dos quais contando com a probabilidade de que o outro terá
uma conduta dotada de sentido e sobre a qual existem socialmente
expectativas correntes (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002,
p. 109).

Indiferente do caráter e do conteúdo destas relações, sejam de poder,


amor, conflito etc., uma característica importante para definir a relação social é
a reciprocidade, “embora essa reciprocidade não se encontre necessariamente
no conteúdo de sentido que cada agente lhe atribui, mas na capacidade de
cada um compreender o sentido da ação dos outros” (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 109).

Um parceiro pode sentir paixão pelo outro e não ser correspondido, um


prestador de serviço pode ser solidário ao cliente enquanto este é agressivo com
ele, entre outros. Não necessariamente a atuação é recíproca por parte dos agentes
envolvidos, mas todos compreendem e compartilham o significado das ações,
sabem o que está acontecendo. Além disso, o conteúdo atribuído a uma relação
não é permanente, pode variar.

Cada indivíduo, ao envolver-se nessas ou em quaisquer relações


sociais, toma por referência certas expectativas que possui da ação do
outro (ou outros) aos quais sua conduta se refere. O vendedor que
aceita um cheque do comprador, o desportista que atua com lealdade
com o adversário e o político que propõe a seus futuros eleitores
a execução de certos atos estão se baseando em probabilidades
esperadas da conduta daqueles que são o alvo de sua ação. Em suma:
as relações sociais são os conteúdos significativos atribuídos por
aqueles que agem tomando outro ou outros como referência - conflito,
piedade, concorrência, fidelidade, desejo sexual etc., e as condutas
de uns e de outros orientam-se por esse sentido, embora não tenham
que ter reciprocidade no que diz respeito ao conteúdo (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 110).

171
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Para que as relações sociais sejam identificadas como tais, é preciso que
estejam reguladas por expectativas recíprocas quanto ao seu significado, havendo
referências comuns ao significado das ações ali ocorridas. As relações também
podem mudar, passando de efêmeras para duráveis, serem interrompidas, serem
retomadas, mudarem de curso, entre outros.

As relações sociais são importantes na teoria weberiana, porque ele as


defende como estruturas fundamentais da sociedade: para ele, as instituições
existem apenas a partir da existência das relações. “Weber chama o Estado, a Igreja
ou o casamento de pretensas estruturas sociais que só existem de fato enquanto
houver a probabilidade de que se deem as relações sociais dotadas de conteúdos
significativos que as constituem” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002,
p. 110).

Os casamentos só existem porque pessoas pensam que devem se casar,


impostos existem porque são legítimos entre seus pagadores, e as cerimônias
religiosas são importantes para as pessoas que as frequentam. Assim, ao analisar
as relações sociais, nota-se que a instituição constituída com base nelas só existe
porque há uma conduta coletiva compartilhada a partir de referências de ação.

Weber indica uma análise das instituições sociais que ele chama de
personalidades coletivas:

Não são outra coisa que desenvolvimentos e entrelaçamentos de


ações específicas de pessoas individuais, já que apenas elas podem
ser sujeitos de uma ação orientada pelo seu sentido. Apesar disto, a
Sociologia não pode ignorar, mesmo para seus próprios fins, aquelas
estruturas sociais de natureza coletiva que são instrumentos de outras
maneiras de colocar-se diante da realidade. [...] Para a Sociologia, a
realidade Estado não se compõe necessariamente de seus elementos
jurídicos, ou mais precisamente, não deriva deles. Em todo caso,
não existe para ela uma personalidade coletiva em ação. Quando
fala do Estado, da nação, da sociedade anônima, da família, de uma
corporação militar ou de qualquer outra formação semelhante, refere-
se unicamente ao desenvolvimento, numa forma determinada, da
ação social de uns tantos indivíduos [...] (WEBER, 1984, p. 12 apud
BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 110).

Quanto mais racionais forem as relações sociais, mais facilmente é possível


expressá-las por meio de normas, tais como contratos ou acordos, sejam jurídicos,
econômicos, entre sócios etc. E quanto mais emotivas ou valorativas, mais difícil
é desenvolver uma ação racional deste tipo.

Weber trata também das relações sociais chamadas comunitárias, envoltas


no sentimento de pertença ao grupo e no reconhecimento do grupo acerca do
pertencimento do indivíduo. Da mesma maneira, ele fala sobre as relações sociais
associativas, baseadas em interesses mútuos entre os envolvidos.

172
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Weber refere-se também ao conteúdo comunitário de uma relação


social, fundado num sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional)
de pertença mútua, que se dá entre as partes envolvidas e com base
no qual a ação está reciprocamente referida, de modo semelhante ao
que costuma ocorrer entre os membros de uma família, estamento,
grupo religioso, escola, torcedores de um time ou entre amantes. Já
a relação associativa apoia-se num acordo de interesses motivado
racionalmente (seja com base em fins ou valores), como o que se dá
entre os participantes de um contrato matrimonial, de um sindicato, do
mercado livre e de associações religiosas ou como as Organizações Não
Governamentais. Podemos identificar, na maioria das relações sociais,
elementos comunitários e societários, assim como há motivos afetivos,
tradicionais, religiosos e racionais mesclados em quase todas as ações.
Numa igreja ou associação religiosa podemos encontrar claramente
tanto o conteúdo comunitário quanto o acordo de interesses racionais.
Se o sentimento de pertença a uma comunidade - a comunhão - é a
base da vida religiosa para o praticante leigo, o trabalho profissional
dos sacerdotes apoia-se em uma organização racional (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 110).

Além disso, a regularidade nas condutas interessa à ciência sociológica,


na medida em que podem tornar-se hábitos, depois costumes e direcionar
orientações racionais da ação dos indivíduos. “A moda é um uso que se contrapõe,
graças ao seu caráter de novidade, ao costume, mas também pode resultar de
convenções impostas por um estamento em busca de garantir seu prestígio, como
a distinção que se expressa no consumo da alta costura” (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 111). Vejamos como o próprio Weber destaca a
regularidade de costumes e sua relação com o indivíduo:

O processo de racionalização da conduta pode exigir que o agente tome


consciência e rejeite sua própria submissão à regularidade imposta
pelo costume. Os agentes podem orientar-se pelas suas crenças na
validez de uma ordem que lhes apresenta obrigações ou modelos de
conduta (como é o caso dos que vão à escola, ao templo ou ao trabalho).
Ao adquirir o prestígio da legitimidade, ou seja, quando a ordem se
torna válida para um ou mais agentes, “aumenta a probabilidade de
que a ação se oriente por ela em um grau considerável”, tanto mais
quanto mais ampla for a sua validez. A garantia da validade de uma
ordem pode se dar com base na “probabilidade de que, dentro de um
determinado círculo de homens, uma conduta discordante tropeçará
com uma relativa reprovação geral e sensível na prática” ou “na
probabilidade de coação física ou psíquica exercida por um quadro
de indivíduos instituídos com a missão de obrigar à observância dessa
ordem ou de castigar sua transgressão”. No primeiro caso, a ordem
chama-se convenção e, no segundo, direito (WEBER, 1984, p. 27 apud
BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 110).

A partir desta citação é possível observar como a noção de relações sociais


está intrinsecamente ligada com a ideia de poder, tão presente nas obras de Weber.
Ter a referência e compartilhar o comportamento de outrem, muitas vezes, indica
reconhecer a presença de uma ação de poder de um indivíduo sobre o outro, a
partir dos papéis que estejam desempenhando na relação. Existem relações que

173
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

pressupõem legitimidade para a tomada de decisões ou mesmo para representar


instituições ou grupos de indivíduos. É sobre este conceito que iremos tratar na
próxima seção. Mas, antes, um estudo mais detido das palavras do autor.

O conceito de Relação Social


O termo “relação social” será usado para designar a situação em que
duas ou mais pessoas estão empenhadas numa conduta onde cada qual
leva em conta o comportamento da outra de uma maneira significativa,
estando, portanto, orientada nestes termos. A relação social
consiste, assim, inteiramente na probabilidade de que os indivíduos
comportar-se-ão de uma maneira significativamente determinável. É
completamente irrelevante o porquê de tal probabilidade, mas onde
ela existe pode-se encontrar uma relação social.
1. Um critério de definição exige, pois, ao menos um mínimo de
orientação mútua da conduta de cada um em relação à de outro.
Seu conteúdo pode variar bastante: conflito, hostilidade, atração
sexual, amizade, lealdade ou intercâmbio comercial, pode envolver
cumprimento, evasão, ou rompimento de um acordo; competição
econômica, erótica ou de qualquer outro tipo; participação em
comunidades nacionais, estamentais ou de classe. Nestes últimos
casos, a mera associação de grupo pode não constituir ação social,
como discutiremos adiante. Além disso, a definição não nos informa
quanto ao grau de solidariedade ou oposição predominante entre
os que estão envolvidos nesta conduta.
[...]
1. O significado subjetivo de uma relação social pode mudar.
Por exemplo, uma relação política baseada na solidariedade
pode mudar para outra baseada no conflito. Mas então trata-se
simplesmente de uma questão de conveniência terminológica e
do grau de continuidade na mudança, podendo-se dizer que uma
nova relação está começando a existir ou que a antiga continua,
mas está adquirindo novo sentido. O significado também pode
oscilar entre a constância e a permanência.
2. O conteúdo de sentido que permanece relativamente constante
numa relação social pode ser expresso em axiomas que nos levam
a esperar que as partes envolvidas correspondam ao menos
aproximadamente a seus parceiros. Isto será tanto mais provável
quanto mais racional for a conduta em sua relação a valores ou fins
dados. Há muito menos possibilidade de formulação racional de
sentido subjetivo no caso de uma atração erótica ou de uma relação
baseada na lealdade pessoal ou em outro tipo emocional, do que
a existente, por exemplo, no caso de um contrato de negócios
(WEBER, 2002, p. 45-46).

5 PODER E DOMINAÇÃO
Outros conceitos presentes com muita frequência na teoria sociológica
weberiana são as noções de poder e dominação. Ambos permeiam a obra de
Weber, especialmente seus escritos políticos. É a partir deles que o autor busca
explicar como a vida social se mantém, já que são as ações individuais que a
constroem.

174
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Poder é definido como a capacidade de impor a própria vontade dentro


de uma relação social. Não se trata apenas do poder político, mas do poder
como um todo, vivenciado nas relações cotidianas entre as pessoas — e que
impõe um indivíduo sobre o outro. Não existe uma situação social específica
que desencadeie o uso do poder, já que a imposição da vontade de alguém pode
ocorrer em inúmeras situações.

Ele deve ser diferenciado da noção de dominação, que trata da


“probabilidade de encontrar obediência a um determinado mandato” (SELL,
2002, p. 137). Este conceito, sim, interessa mais diretamente à sociologia, pois
“possibilita a explicação da regularidade do conteúdo de ações e das relações
sociais” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 119).

Na dominação manifesta-se a vontade do dominador por meio da


influência nos atos de outros indivíduos, ou seja, os dominados agem por si
mesmos adotando a vontade de um ente que os domina — gerando assim a
obediência. Cabe à sociologia, então, compreender os fundamentos que tornam
esta autoridade, este domínio, legítimo.

FIGURA 7 – CHARGE SATIRIZANDO SITUAÇÃO DE DOMINAÇÃO

FONTE: <https://wikiteacher.wordpress.com/tag/max-weber/>. Acesso em: 11 jan. 2019.

Do ponto de vista analítico, Weber divide a dominação em três tipos puros


(conforme SELL, 2002, p. 137):

• Dominação legal racional: a obediência apoia-se na crença na


legalidade da lei e dos direitos de mando das pessoas autorizadas a
comandar pela lei.

175
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

• Dominação tradicional: sua legitimidade apoia-se na crença de que


o poder de mando tem um caráter sagrado, herdado dos tempos
antigos.
• Dominação carismática: a legitimidade da autoridade do líder
carismático lhe é conferida pelo afeto e confiança que os indivíduos
depositam nele.

Cada forma de dominação legítima baseia-se em distinta fonte de


autoridade, como é possível notar. Neste sentido, a luta é a essência da política
e da vida social: nem sempre pelo poder para enriquecer economicamente, às
vezes, pelas honras sociais que a posse do poder produz.

A vitória daqueles possuidores de qualidades - não importa se baseadas


na força, na devoção, na originalidade, na técnica demagógica,
na dissimulação etc. - as quais aumentam suas probabilidades de
entrar numa relação social (seja na posição de funcionário, mestre
de obras, diretor-geral, empresário, profeta, cônjuge ou deputado) é
chamada de seleção social. Nesse quadro, a realidade social aparece
como um complexo de estruturas de dominação. A possibilidade de
dominar é a de dar aos valores, ao conteúdo das relações sociais, o
sentido que interessa ao agente ou agentes em luta. [...] A luta pelo
estabelecimento de uma forma de dominação legítima - isto é, de
definições de conteúdos considerados válidos pelos participantes das
relações sociais - marca a evolução de cada uma das esferas da vida
coletiva em particular e define o conteúdo das relações sociais no seu
interior. As atitudes subjetivas de cada indivíduo que é parte dessa
ordem passam a orientar-se pela crença numa ordem legítima, a qual
acaba por corresponder ao interesse e vontade do dominante. Desse
ponto de vista, é a dominação o que mantém a coesão social, garante
a permanência das relações sociais e a existência da própria sociedade
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 121).

A partir destas ideias, Weber procura explicar a manutenção da vida


social, mesmo que o indivíduo seja, para ele, a fonte de dados para as análises
sociológicas. Como já destacado, é importantíssimo ter contato com a obra do
próprio autor no estudo de teorias sociológicas clássicas, portanto, seguem
definições obtidas na obra do próprio Weber.

Os conceitos de Poder e Dominação


Entende-se por poder a oportunidade existente dentro de uma
relação social que permite a alguém impor a sua própria vontade
mesmo contra a resistência e independentemente da base na qual esta
oportunidade se fundamenta.
Por dominação entende-se a oportunidade de ter um comando de um
dado conteúdo específico, obedecido por um dado grupo de pessoas.
Por “disciplina” entender-se-á a oportunidade de obter-se obediência
imediata e automática de uma forma previsível de um dado grupo de
pessoas, por causa de sua orientação prática ao comando.
1. O conceito de poder é sociologicamente amorfo. Todas as qualidades
concebíveis de circunstâncias podem pôr alguém numa situação na
qual possa exigir obediência à sua vontade. O conceito sociológico de
dominação consequentemente deve ser mais preciso e pode significar
apenas a probabilidade de que o comando será obedecido.

176
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

2. O conceito de “disciplina” inclui a “natureza prática” da obediência


em massa, sem crítica e sem resistência. O fato é que a dominação
depende apenas da presença real de uma pessoa emitindo com
sucesso comandos a outra; não implica necessariamente quer
a existência de um quadro administrativo, quer a existência de
uma associação. Na medida em que membros de uma associação
estão sujeitos ao exercício de uma tal dominação, denominar-se-á
“associação de dominação”.
3. O patriarca domina sem um quadro administrativo. Um chefe
beduíno, que recebe tributo das caravanas, pessoas e transportes
de bens que passam através de suas montanhas, domina todos
aqueles indivíduos mutáveis e indiferentes, aos quais, sem estarem
associados entre si, ocorreu encontrarem-se casualmente nesta
situação particular. Ele pode fazer isto em virtude de que seus
servidores reais agem, quando a ocasião exige, como seu quadro
administrativo, impondo sua vontade. Teoricamente, tal dominação
seria concebível também por uma pessoa sozinha, sem a ajuda de
qualquer quadro administrativo.
4. Se uma associação possui um quadro administrativo, ela será
sempre, numa certa medida, empenhada numa associação de
dominação. Mas este conceito é relativo. Normalmente a associação
de dominação é ao mesmo tempo também uma associação
administrativa. A natureza de uma associação é determinada por
uma variedade de fatores: a maneira pela qual a administração se
efetua, o caráter do pessoal, os objetos sobre os quais exerce controle
e a extensão da jurisdição efetiva da sua dominação. Os primeiros
dois fatores em particular dependem, no mais alto grau, da maneira
pela qual a autoridade é legitimada (WEBER, 2002, p. 97-98).

DICAS

Se você se interessou pelo estudo das categorias de


poder e dominação em Weber, cujo conteúdo é muito
amplo para ser concluído neste livro de estudos, procure
a leitura do segundo volume de Economia e Sociedade.
O capítulo IX é composto sobre o tema Sociologia
da Dominação. A referência completa é: WEBER, M.
Economia e sociedade: fundamentos da sociologia
compreensiva. v. 2. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 1999. Disponível em: https://ayanrafael.files.
wordpress.com/2011 /08/weber-m-economia-e-
sociedade-fundamentos-da-sociologia-compreensiva-
volume-2.pdf.

FONTE:<https://images-na.ssl-images-amazon.com/
images/I/41Nosaz2iQL._SX356_BO1,204,203,200_.jpg>.
Acesso em: 14 fev. 2019.

177
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

6 ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: CLASSES, ESTAMENTOS E


PARTIDOS
Weber também dedicou parte de sua obra para compreender como o
poder e a dominação estão presentes na sociedade e como estão associados à
estratificação social. Ele busca entender as posições do indivíduo a partir da
sua inserção em diferentes esferas da realidade, destacando que, do ponto de
vista econômico, as pessoas estão divididas em classes sociais, do ponto de
vista político estão em diferentes partidos, e do ponto de vista cultural estão em
diferentes estamentos (SELL, 2002).

Para o autor, as diferenças sociais podem ter vários princípios explicativos,


e o critério de classificação é dado pelo peso de uma esfera da vida coletiva
naquele momento — como no capitalismo é a esfera econômica que impera, as
desigualdades ocorrem principalmente pela posse de capital econômico. Em
sociedades anteriores, como a feudal, a linhagem (origem) era um critério de
classificação, por exemplo.

Como cada esfera da vida coletiva possui suas regras e lógicas de


funcionamento, o indivíduo orienta suas ações sociais a partir destas diretrizes.
O significado de suas ações terá um sentido compartilhado por quem também
participa daquela organização ou ordem social (instituição).

É nas ações e no sentido que o agente lhes confere que se atualiza


a lógica de cada uma das esferas da vida em sociedade, e é a partir
do contexto significante da ordem na qual uma ação individual
está inserida que poderemos compreender sociologicamente seu
significado (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 113).

Cada pessoa pode participar de diferentes esferas e orientar suas ações


sociais a depender de cada uma que esteja presente no momento da ação, por
isso Weber as dividiu essencialmente nos planos econômico, cultural e político
(classes, estamentos e partidos).

Quanto às classes, a posição de uma pessoa em uma determinada situação


de classe se refere à propriedade de bens ou habilitações. “Nesse contexto, as ações
sociais vão ter a sua racionalidade e o seu significado definidos pelo mercado
no qual os indivíduos lutam para adquirir poder econômico” (BARBOSA;
OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 113). Exemplo:

Como exemplos de classes, cita os proprietários de terras ou


de escravos, os industriais, os trabalhadores qualificados e os
profissionais liberais - todos os quais constituiriam grupos
positivamente privilegiados devido à sua situação no mercado, isto é,
a de possuidores de algum tipo de propriedade que tem valor (moeda,
terra, máquinas, conhecimentos). Os trabalhadores não qualificados,
ao contrário, formariam uma classe negativamente privilegiada, mas
é entre eles que se verificam com mais frequência ações comunitárias,
que envolvem o sentimento de pertença mútua. Em cada caso, o

178
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

conjunto específico de agentes orienta sua ação num sentido que é


definido pela sua posição/situação no mercado. É o sentido comum
(e fundado em determinadas probabilidades) dessas ações orientadas
para o mercado (de trabalho, de produtos, de empreendimentos) que
faz de cada conjunto de agentes uma classe (BARBOSA; OLIVEIRA;
QUINTANEIRO, 2002, p. 114).

Quando o significado das ações se orienta para a luta por honra e prestígio,
ou seja, pelo pertencimento a grupos de status, Weber fala da estratificação por
estamentos. As ações nos estamentos são orientadas pelo modo de vida, ou
seja, apenas pertence ao grupo quem atende uma determinada forma de vida.
Exemplo:

Weber cita os exemplos do reconhecimento social de que desfrutavam,


nos Estados Unidos, os descendentes das Primeiras Famílias da
Virgínia, da princesa indígena Pocahontas, dos Pilgrim Fathers e
dos Knickerbocker - o qual é comparável, dentro de certos limites,
ao prestígio que pretendem as chamadas tradicionais famílias de
algumas regiões brasileiras. Os estamentos (ou estados) expressam
sua honra por meio de um estilo de vida típico, constituído pelo
consumo de certos bens, por determinados comportamentos e modos
de expressão, pela celebração de matrimônios endogâmicos, uso de
um tipo específico de vestimentas etc. Ligadas a essas expectativas,
existem “limitações à vida social, isto é (...) especialmente no que
se refere ao matrimônio, até que o círculo assim formado alcance o
maior isolamento possível”, assim como a estigmatização de algumas
atividades, como o trabalho manual e até industrial. Os estamentos
garantem a validez das condutas desejáveis por meio de convenções,
através das quais expressa-se uma desaprovação geral relativamente
a comportamentos discordantes. A validez de uma ordem manifesta-
se no fato de que aquele que a transgride é obrigado a ocultar essa
violação (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 115).

Quanto aos partidos, estes dizem respeito à esfera do poder social,


vinculada à distribuição de poder gerada pelas diferenciações entre a ordem
social pelos estamentos, e a posse de bens das classes. A ação, neste caso, é
orientada pelo indivíduo no sentido de uma influência racional para a direção
de uma associação ou comunidade, por exemplo. O partido é a instância que luta
pelo domínio, e pode ou não adquirir caráter político.

Vejamos nas palavras do próprio Weber:

Toda ordem jurídica (não só a "estatal"), por sua configuração,


influencia diretamente a distribuição do poder dentro da comunidade
em questão, tanto do poder econômico quanto de qualquer outro. Por
"poder" entendemos, aqui, genericamente, a probabilidade de uma
pessoa ou várias impor, numa ação social, a vontade própria, mesmo
contra a oposição de outros participantes desta. Naturalmente, o poder
"economicamente condicionado" não é idêntico ao "poder" em geral.
O surgimento do poder econômico pode, antes pelo contrário, ser
consequência de um poder já existente por outros motivos. E o poder,
por sua vez, não é buscado exclusivamente para fins econômicos

179
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

(de enriquecimento), pois o poder, também o econômico, pode ser


apreciado "por si mesmo", e, com muita frequência, o empenho por ele
está também condicionado pela "honra" social que traz consigo. Mas
nem todo poder traz honra social. O típico boss americano bem como o
típico especulador em grande escala renunciam a ela conscientemente,
e, em geral, o "simples" poder econômico, particularmente o
"meramente" monetário, de modo algum constitui um fundamento
reconhecido da "honra" social. Por outro lado, o poder não é o único
fundamento da honra social. Ao contrário, a honra social (o prestígio)
pode ser, e com muita frequência o foi, a base de poder, também
daquele de natureza econômica. A ordem jurídica pode garantir,
além do poder, também a honra. Mas, em regra, ela não é sua fonte
primária, senão também, neste caso, um fator adicional que aumenta
a probabilidade de sua posse, embora nem sempre possa assegurá-la.
Denominamos "ordem social" a forma em que a "honra" social numa
comunidade se distribui entre os grupos típicos dos seus participantes.
Sua relação com a "ordem jurídica" é naturalmente semelhante à
da ordem econômica com esta. Não é idêntica à ordem econômica,
pois esta é para nós simplesmente o modo como são distribuídos e
empregados bens e serviços econômicos. Mas, naturalmente, está
condicionada, em alto grau, por ela e nela repercute. Fenômenos
da distribuição do poder dentro de uma comunidade são, então, as
"classes", os "estamentos" e os "partidos".
As "classes" não são comunidades no sentido aqui adotado, mas
representam apenas fundamentos possíveis (e frequentes) de uma
ação social. Falamos de uma "classe" quando 1) uma pluralidade de
pessoas tem em comum um componente causal específico de suas
oportunidades de vida, na medida em que 2) este componente está
representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de
bens e aquisitivos, e isto 3) em condições determinadas pelo mercado
de bens ou de trabalho ("situação de classe"). É o fato econômico mais
elementar que o modo como está distribuído o poder de disposição
sobre a propriedade material, dentro de uma pluralidade de pessoas
que se encontram e competem no mercado visando à troca, cria já por
si mesmo oportunidades de vida específicas. Segundo a lei da utilidade
marginal, exclui os não possuidores da participação na concorrência
quando se trata de bens de alto valor, em favor dos possuidores, e
monopoliza para estes, de fato, a aquisição desses bens.
[...]
Os estamentos, em contraste com as classes, são, em regra,
comunidades, ainda que frequentemente de natureza amorfa. Em
oposição à "situação de classe", determinada por fatores puramente
econômicos, compreendemos por "situação estamental" aquele
componente típico do destino vital humano que está condicionado
por uma específica avaliação social, positiva ou negativa, da honra,
vinculada a determinada qualidade comum a muitas pessoas. Esta
honra pode também estar ligada a uma situação de classe: as diferenças
das classes combinam-se das formas mais variadas às diferenças
estamentais, e a propriedade como tal, conforme já observamos, nem
sempre, mas com regularidade extraordinária, adquire, a longo prazo,
também significação estamental.
[...]

180
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA AÇÃO SOCIAL PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

Enquanto as "classes" têm seu verdadeiro lar na "ordem econômica", e


os "estamentos" na "ordem social", isto é, na esfera de distribuição da
"honra", exercendo a partir dali influência uns sobre os outros e ambos
sobre a ordem jurídica, além de também serem influenciados por
esta, os "partidos" têm seu lar na esfera do "poder". Sua ação dirige-se
ao exercício de "poder" social, e isto significa: influência sobre uma
ação social, de conteúdo qualquer: pode haver partidos, em princípio,
tanto num "clube" social quanto num "Estado". A ação social típica
dos "partidos", em oposição àquela das "classes" e dos "estamentos"
que não apresentam necessariamente este aspecto, implica sempre
a existência de uma relação associativa, pois pretende alcançar, de
maneira planejada, determinado fim - seja este de natureza "objetiva":
imposição de um programa por motivos ideais ou materiais, seja de
natureza "pessoal": prebendas, poder e, como consequência deste,
honra para seus líderes e partidários, ou, o que é o normal, pretende
conseguir tudo isto em conjunto. Por isso, partidos somente são
possíveis dentro de comunidades que, por sua vez, constituem, de
alguma forma, uma relação associativa, isto é, que possuem alguma
ordem racional e um aparato de pessoas dispostas a pô-la em prática,
pois o objetivo dos partidos é influenciar precisamente este aparato e,
se possível, compô-lo com seus adeptos (WEBER, 2002, p. 97-98).

A obra de Weber é extremamente ampla quando se trata de conceitos


e noções fundamentais para a sociologia. Uma das preocupações do autor foi,
inclusive, dotar a ciência sociológica de arcabouço conceitual. Não é possível
estudarmos todos eles em nosso livro de estudos, portanto, a dica é realizar leituras
que apresentem e esclareçam os aspectos conceituais da sociologia weberiana.
Segue uma sugestão de leitura inicial neste sentido, e então, prosseguindo, vamos
conhecer os desdobramentos da sociologia de Weber no próximo tópico.

DICAS

Um bom livro conceitual escrito por Weber chama-se Conceitos


Básicos de Sociologia. Traduzido por Rubens Eduardo Ferreira
Frias e Gerard Georges Delaunay. Primeira edição brasileira
publicada pela Centauro Editora, em 2002.

FONTE:<https://static.wmobjects.com.br/imgres/arquivos/
ids/3588520-344-344/.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019.

181
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• A ação é um comportamento que o indivíduo relaciona a um sentido subjetivo,


a ação social é um comportamento orientado em seu curso pelo comportamento
de outros indivíduos.

• Os tipos puros da ação social definidos por Weber são: ação social referente a
fins; ação social referente a valores; ação social afetiva; e ação social tradicional.

• Tipo ideal é uma construção teórica elaborada a partir dos elementos


enfatizados de um dado fenômeno — e a partir de um recorte realizado pelo
próprio sociólogo.

• Características do tipo ideal: unilateralidade, racionalidade e caráter utópico.

• Relação social é a probabilidade de que uma forma determinada de conduta


social tenha, em algum momento, seu sentido partilhado pelos diversos agentes
numa sociedade qualquer.

• Poder é definido por Weber como a capacidade de impor a própria vontade


dentro de uma relação social.

• Dominação é definida como a probabilidade de encontrar obediência a um


determinado mandato.

• Tipos puros da dominação identificados por Weber: dominação legal racional,


dominação tradicional e dominação carismática.

• Ao analisar a estratificação social, Weber indica que do ponto de vista


econômico as pessoas estão divididas em classes sociais, do ponto de vista
político estão em diferentes partidos, e do ponto de vista cultural estão em
diferentes estamentos.

182
AUTOATIVIDADE

1 Descreva os conceitos a seguir a partir das definições apresentadas por Max


Weber na Teoria Sociológica Compreensiva:

a) Ação Social:

b) Tipo Ideal:

c) Relação Social:

d) Poder:

e) Dominação:

183
184
UNIDADE 3
TÓPICO 3

OS DESDOBRAMENTOS DA
SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

1 INTRODUÇÃO
Este tópico finalizador trará para você diretrizes básicas para o estudo
sobre os desdobramentos da teoria sociológica de Weber. O próprio Weber
aplicou esta teoria e seu arcabouço intelectual em diferentes temas em vida,
portanto, deixou muitos estudos sobre os temas mais diversos.

Cabe ressaltar a distinção que Weber realizou entre a figura do cientista


e a do político, que culminou na obra Ciência e Política: duas vocações. Para ele, as
duas esferas são diferentes, cabendo ao cientista manter seu rigor metodológico,
o que não impediria a análise de problemas teóricos sobre a política ou debates
políticos. Ele mesmo desenvolveu alguns escritos considerados militantes.

Do ponto de vista sociológico, Weber estuda a dimensão política com


afinco, analisando o Estado moderno, as relações de poder, a burocracia, a
democracia, a profissão de político, a ética no campo político, entre outros.

Neste tópico, para finalizar este caderno de estudos, entenderemos os


aspectos fundamentais da sociologia da religião de Weber. O fenômeno religioso
é outra dimensão social estudada exaustivamente por ele. É a sociologia da
religião que gera suas análises sobre a racionalização da vida social — sendo que
a ideia de racionalização permeia as investigações sobre a modernidade.

A relação da racionalização com o desenvolvimento do capitalismo passa


também pelo estudo das religiões, tais como a ética protestante, tema bastante
famoso de suas produções. Por último, temos a aplicabilidade da noção de
dominação, especialmente quando falamos de dominação carismática, no estudo
sobre o carisma e o processo de desencantamento do mundo.

Todos estes estudos lançam um olhar diferenciado para a modernidade,


a partir de sua perspectiva fundante da teoria sociológica compreensiva, baseado
no individualismo metodológico. Desta maneira encerramos este tópico e o livro
de estudos, com o último dos autores clássicos da teoria sociológica. Boa leitura!

185
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

2 SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO
A sociologia da religião, em Weber, não se restringe ao estudo da religião
em si, mas sim ao estudo da modernidade, seu nascimento e desenvolvimento. A
modernidade, para ele, é caracterizada pelo processo de racionalização social, e
consequente perda de espaço por parte dos fenômenos religiosos. Assim, a razão
teria trazido o chamado processo de desencantamento do mundo, acompanhada
da perda de sentido e de liberdade.

Para este caminho de estudos, Weber buscou entender a relação entre


o protestantismo e a conduta econômica capitalista, depois as relações entre
economia e religião na Índia e na China. Com todos estes exemplos ele busca
compreender o Ocidente, e conclui que o processo de racionalização existe em
todas as culturas e nas mais diferentes formas, e o essencial é buscar analisar a
peculiaridade do racionalismo ocidental (SELL, 2002). Neste sentido:

Em toda religião que descansa numa técnica de salvação (como o


êxtase, a embriaguez, a possessão etc.) o renascimento sob o ponto
de vista religioso só parece acessível à aristocracia dos religiosamente
qualificados por meio de uma luta pessoal contra os apetites ou afetos
da rude natureza humana, apoiada em uma ética de virtuosos. Mas
a religião pode também fomentar o racionalismo prático. Em outras
palavras, estimular uma intensificação da racionalidade metódica,
sistemática, do modo de levar a vida, e uma objetivação e socialização
racional dos ordenamentos terrenos. Isto foi o que ocorreu com os
mosteiros católicos cujas práticas cotidianas somadas à frugalidade
dos internos tiveram como consequência inesperada um acúmulo
considerável de riqueza (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO,
2002, p. 126).

Weber destaca, portanto, nas religiões que reconhecem a salvação como


uma parte importante de seus dogmas e ritos, uma diferenciação entre as
orientais e as ocidentais. Nas religiões orientais a contemplação é uma atitude
salvacionista, enquanto nas religiões ocidentais o ascetismo, o que podemos
entender como a abstenção dos prazeres e do conforto material, prevalece como
modo de acesso à salvação.

As religiões orientais baseiam-se na ideia de fuga do mundo, de que os


humanos devem sair do mundo terreno para unirem-se aos deuses, promovendo
uma atitude contemplativa, na ideia de um recipiente — defendendo-se das
distrações mundanas.

No entanto, as religiões ocidentais defendem o oposto: o envolvimento


com o mundo, atividade diante da necessidade de organizar o mundo de acordo
com sua doutrina, defendendo um domínio racional do universo. “A atitude
religiosa ascética conduz o virtuoso a submeter seus impulsos naturais ao modo
sistematizado de levar a vida, o que pode provocar uma reorientação da vida
social da comunidade num sentido ético religioso, um domínio racional do
universo” (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 126). Detalhando
este processo:
186
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

Entregar-se aos bens mundanos põe em perigo a concentração sobre


os bens de salvação: é preciso, então, negá-los. Atuar sobre as esferas
seculares e submeter seus próprios impulsos naturais convertem-se,
para o asceta, numa vocação que ele tem que cumprir racionalmente.
Para compreender em linhas gerais a evolução e direções que tomam
as doutrinas ascéticas, é necessário que se analise a natureza da
organização das comunidades religiosas à luz dos processos de
racionalização, especialmente aqueles que se dão após a renovação
da ordem tradicional provocada pelo aparecimento de lideranças
carismáticas (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 126).

Desta maneira, Weber explica a diferenciação entre as doutrinas


salvacionistas orientais e ocidentais, e os motivos pelos quais o Ocidente sofre
influências dos processos de racionalização a partir da religião. O autor também
estudou as instituições: Igrejas.

“Igreja é definida por Weber como uma associação de dominação que se


utiliza de bens de salvação por meio da coação hierocrática exercida através de
um quadro administrativo que pretende ter o monopólio legítimo dessa coação”
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 127). A hierocracia é uma
organização que se mantém por meio da coerção psíquica que se utiliza das
concepções religiosas do indivíduo. Neste sentido, a Igreja submete seus membros
de maneira racional. Ele diferencia de congregação, que comporta auxiliares
permanentes unidos em torno de um profeta carismático, pois os sacerdotes
constituem hierarquia administrativa e, assim, representam a burocracia.

Esta racionalização burocrática que ocorre na própria comunidade


religiosa reflete na própria concepção de mundo que é apresentada aos fiéis, bem
como em explicações para desigualdades entre seus membros, por exemplo:

O processo de racionalização que ocorre na organização da


comunidade religiosa reflete-se em suas concepções de mundo e nas
razões que são apresentadas para explicar aos fiéis por que alguns são
mais afortunados do que outros - ou seja, o sofrimento individual visto
como imerecido - e por que nem sempre são os homens bons, mas
os maus, os que vencem... De modo geral, as religiões mais antigas
proporcionavam a teodiceia dos mais bem aquinhoados - os “homens
dominantes, os proprietários, os vitoriosos e os sadios”, os dotados
de “honras, poder, posses e prazer” - que viam, assim, legitimada a
sua boa sorte. Mas é necessário dar respostas aos mais carentes, os
oprimidos, que precisam de conforto e de esperança na redenção,
fornecendo-lhes uma teodiceia do seu sofrimento, uma interpretação
ética sobre “a incongruência entre o destino e o mérito”. A teodiceia
tinha que dar respostas também à injustiça e à imperfeição da ordem
social (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 127).

Cada religião de alguma maneira interfere na ordem social, portanto,


seja por meio do conjunto ideológico sobre as desigualdades — diferenças —,
seja por meio do estímulo a ações concretas de modificação ou manutenção da
ordem. Esta relação entre as formas apresentadas pelas religiões e a atuação de
seus membros no mundo é explicada por Barbosa, Oliveira e Quintaneiro:

187
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Embora os virtuosos tenham procurado ser exemplares na sua prática


religiosa, as exigências da vida cotidiana e de incorporação da massa
dos não virtuosos, os não qualificados religiosamente, reclamam
certos ajustes. As concessões que daí se originaram tiveram grande
significado para a vida cotidiana, especialmente do ponto de vista do
estabelecimento de uma ética racional voltada para o trabalho e para
a prática econômica, tradicionais fontes de atrito com a moralidade
religiosa. “Em quase todas as religiões orientais, os religiosos
permitiram que as massas permanecessem mergulhadas na tradição”,
mas dá-se uma grande diferença quando os virtuosos se organizam
numa seita ascética “lutando para modelar a vida nesse mundo
segundo a vontade de um deus”.
Com isso, propunham-se regras de conduta para os crentes, e sua
própria vida individual passava a ser orientada por princípios
racionalizadores. Para escapar à relação tensa que sempre existira
entre o mundo econômico e uma ética de fraternidade, colocam-se
duas alternativas: a ética puritana da vocação ou o misticismo. Se
este último é uma fuga do mundano por meio “de uma dedicação
sem objeto a todos”, unicamente pela devoção, o puritano “renunciou
ao universalismo do amor e rotinizou racionalmente todo o trabalho
neste mundo, como sendo um serviço à vontade de Deus e uma
comprovação de seu estado de graça”.
De acordo com suas características, cada ética religiosa penetra
diferentemente na ordem social (por exemplo, nas relações familiares,
com o vizinho, os pobres e os mais débeis), na punição do infrator, na
ordem jurídica e na econômica (como no caso da usura), no mundo
da ação política, na esfera sexual (inclusive a atitude a respeito
da mulher) e na da arte. Ao produzirem um desencantamento do
mundo e bloquearem a possibilidade de salvação por meio da fuga
contemplativa, as seitas protestantes ocidentais - que trilharam a via
do ascetismo secular e romperam a dupla ética que distinguia monges
e laicos - fomentaram uma racionalização metódica da conduta... que
teve intensos reflexos na esfera econômica! Na tentativa de combater
as interpretações economicistas ou psicologizantes das religiões e
de sua evolução, Weber abordou “os motivos que determinaram as
diferentes formas de racionalização ética da conduta da vida per se, e
procurou explicações internas à própria esfera religiosa”. Nossa tese
não é de que a natureza específica da religião constitui uma simples
função da camada que surge como sua adepta característica, ou que
ela represente a ideologia de tal camada, ou que seja um reflexo da
situação de interesse material ou ideal.
O que Weber faz aqui é uma referência à necessidade de se questionar
a unilateralidade da tese materialista, complementando-a com outras
vias de interpretação, nesse caso, a relação entre uma ética religiosa
e os fenômenos econômicos e sociais, ou melhor, os tipos de conduta
ou de modos de agir que possam ser mais favoráveis a certas formas
de organização da esfera econômica e a uma ética econômica. E
conclui: “Sempre que a direção da totalidade do modo de vida foi
racionalizada metodicamente, ela foi profundamente determinada por
valores últimos” religiosamente condicionados.
Através da análise de uma das direções em que evolui a esfera religiosa
no sentido de uma racionalização crescente, Weber encontrará a base
para explicar o predomínio de concepções e práticas econômicas
racionalizadas nas sociedades ocidentais. A autonomia da instância
religiosa é o pressuposto para que se considere o desenvolvimento
das doutrinas e dos sistemas de explicação religiosos a partir da lógica
de funcionamento do seu próprio campo. Não há elementos materiais

188
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

ou psicológicos que sejam determinantes desse processo: as relações


entre os diversos agentes religiosos são o fundamento principal de
toda causalidade nessa área. No caso de algumas seitas protestantes,
as tensões entre os campos econômico e religioso são superadas, e
podemos dizer que a afinidade eletiva entre os elementos dominantes
em cada um deles reforça o desenvolvimento da ética ascética e do
capitalismo enquanto uma forma de orientar a ação econômica
(BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 128).

Desta maneira, Weber conduz suas análises sobre a esfera religiosa,


buscando articular seus pressupostos doutrinários e a prática que é originada a
partir destes — já que ela pode modificar a atuação do indivíduo na esfera social.
Articulada a isso está a análise sobre a racionalização presente na modernidade,
especialmente no mundo ocidental, conforme veremos na seção a seguir.

DICAS

Este texto do livro de estudos apresenta as


diretrizes gerais da Sociologia da Religião de Weber, já
que suas interpretações influenciam as análises sobre tal
tema até a atualidade. No entanto, recomenda-se um
aprofundamento sobre o tema, e uma das sugestões é
a obra Sociologia das Religiões, do próprio Max Weber,
que pode ser encontrada em edição brasileira de 2015
pela Editora Ícone.

Outro material interessante na perspectiva da


Sociologia da Religião é o artigo disponível em: http://
www.ufjf.br/sacrilegens/files/2018/03/14-2-2.pdf. Ele
trata sobre a religião na perspectiva dos três autores
clássicos que estudamos neste livro, portanto, auxilia
enquanto síntese de conteúdo. A referência completa
é: COSTA, W. S. R. Religião na perspectiva sociológica
clássica: considerações sobre Durkheim, Marx e Weber.
Sacrilegens: Revista dos Alunos do Programa de Pós-
graduação em Ciência da Religião. Juiz de Fora, v. 14. n.
2. p. 03-24, jul. – dez. 2017.

FONTE:<https://images.livrariasaraiva.com.br/imagemnet/imagem.aspx/?pro_
id=3096496&qld=90&l=430&a=-1>. Acesso em: 14 fev. 2019.

3 CAPITALISMO E RACIONALIZAÇÃO SOCIAL


As análises classificadas na sociologia da religião weberiana buscam, de
alguma maneira, entender o processo de racionalização que gera as sociedades
modernas, a começar pelo seu famoso estudo sobre a ética protestante e sua
relação com o capitalismo, sobre o qual passamos a tratar.

189
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

DICAS

A obra A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo possui


publicação no Brasil pela Editora Companhia das Letras, com
tradução de José Marcos Mariani Macedo, publicada em 2004.
Há também versões de outras editoras publicadas no país.

FONTE:<https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/
I/51efgedw-DL.jpg>. Acesso em: 14 fev. 2019.

Sell (2002) destaca que existem dois grandes objetivos que o autor
pretende atingir com esta obra: desvendar as origens do capitalismo — já que
este é uma marca da civilização ocidental —, verificando a influência da religião
na origem do sistema capitalista industrial; e entender como avançou o processo
de racionalização no Ocidente, que não aconteceu no Oriente — e do qual o
capitalismo é a maior expressão.

Sobre a origem do capitalismo, Weber reconhece que foi um processo


complexo, com inúmeras causas e que não pode ser reduzido a uma delas, e
não defende que a religião luterana foi a única geradora deste comportamento
econômico, mas sim, a ética luterana favoreceu. Foi uma alavanca para o estímulo
do espírito capitalista.

O espírito do capitalismo é materializado por Weber por meio do destaque


de um conjunto de máximas do autor Benjamin Franklin, que são:

• lembra-te de que tempo é dinheiro;


• lembra-te de que o crédito é dinheiro;
• lembra-te de que dinheiro gera mais dinheiro;
• lembra-te de que o bom pagador é o dono da bolsa alheia.
[...]
O que estas máximas nos mostram é que o espírito do capitalismo
é uma ética de vida, um modo de ver e encarar a existência. Ser
capitalista não é ser uma pessoa avara, mas ter uma vida disciplinada,
ou ascética, de tal forma que as ações praticadas sempre revertam em
lucro (SELL, 2002, p. 119).

O modo de vida ascético diz respeito ao comportamento similar aos


monges, com uma vida dedicada à oração e à penitência.
190
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

Assim gera-se a comparação do comportamento ascético ao


comportamento do capitalista: rigor e disciplina dedicados ao trabalho. Dito
isto, Weber se pergunta como este modo de vida se generalizou no Ocidente,
identificando que a primeira contribuição ocorreu a partir do pensamento de
Martinho Lutero com a propagação da ideia de vocação. Para Lutero, “quanto
mais as pessoas aceitassem suas tarefas profissionais como um chamado de Deus
(vocação) e as cumprissem com disciplina, mais aptas estariam para ser salvas”
(SELL, 2002, p. 119).

As seitas protestantes como calvinismo, pietismo, metodismo, batistas,


levariam este processo ainda mais longe. Para Weber, a que melhor explica a
relação entre a ética protestante e a origem do capitalismo é o calvinismo. Nesta
doutrina, os homens seriam predestinados por Deus para a salvação ou para a
condenação — nenhum esforço próprio faria diferença, pois tudo dependeria do
divino (predestinação). Mas, e qual seria a relação deste comportamento com o
capitalismo? Vejamos:

Naturalmente, uma concepção desta causa grande angústia para as


pessoas. Como saber se eu vou ser salvo? Apesar de só Deus possuir
esta resposta, os calvinistas acreditavam que havia uma forma de obter
indícios para esta questão: trata-se do sucesso no trabalho. O cristão
está no mundo para glorificar a Deus, e deve fazê-lo trabalhando.
Ora, acontece que o cristão que estiver reservado para ser salvo,
vai levar uma vida disciplinada e cristã: o resultado só pode ser um
enriquecimento de seus bens materiais. Mas, como bom cristão, ele
não vai esbanjá-los em prazeres e em outras condutas consideradas
desonestas. Pelo contrário, ele vai continuar trabalhando e aplicando
seus recursos para obter mais lucratividade. O resultado é que, com
o tempo, esta pessoa tornar-se-á muito rica. Tudo o que ela ganha é
gasto somente com o necessário, sendo o resto aplicado na própria
produção (SELL, 2002, p. 120).

Segundo Weber, este comportamento acabou sendo o suporte para o


comportamento desejado pelo capitalismo: a busca pelo lucro por meio do trabalho
metódico e racional. Mesmo com a redução da vida religiosa na sociedade, esta
ética do trabalho se expandiu e a busca pelo lucro gradativamente se desligou da
religião (SELL, 2002). Vejamos este processo de desligamento:

Deve-se lembrar que a doutrina católica, dominante naquela época,


condenava a ambição do lucro e a usura. Para os calvinistas, no
entanto, desejar ser pobre era algo que soava tão absurdo como
desejar ser doente; “a prosperidade era o prêmio de uma vida santa”.
O mal não se encontrava na posse da riqueza, mas no seu uso para o
prazer, o luxo, o gozo espontâneo e a preguiça. Essa moralidade levou
a que alguns milionários norte-americanos preferissem não legar
sua fortuna aos próprios filhos como meio de temperá-los no esforço
produtivo. “Para os calvinistas, o deus inescrutável tem seus bons
motivos para repartir desigualmente os bens de fortuna, e o homem
se prova exclusivamente no trabalho profissional.” Segundo Weber, a
adoção dessa nova perspectiva trazida pelo protestantismo permite aos
primeiros empresários reverter sua condição de baixo prestígio social
e se transformarem nos heróis da nova sociedade que se instalava.

191
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Essa ética teve consequências marcantes sobre a vida econômica e, ao


combinar a “restrição do consumo com essa liberação da procura da
riqueza, é óbvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista
através da compulsão ascética da poupança”. Mas este foi apenas um
impulso inicial. A partir dele, o capitalismo libertou-se do abrigo de um
espírito religioso e a busca de riquezas passou a associar-se a paixões
puramente mundanas. O capitalismo moderno já não necessita mais do
suporte de qualquer força religiosa e sente que a influência da religião
sobre a vida econômica é tão prejudicial quanto a regulamentação pelo
Estado (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 135).

E
IMPORTANT

Em síntese, a relação estabelecida entre a ética protestante e o capitalismo


é, essencialmente, o comportamento estimulado pelas doutrinas protestantes que tratam
de vocação e do estímulo ao trabalho. Sendo assim, a busca pelo lucro torna-se uma
consequência, e que gradativamente desliga-se da religião.

Toda esta situação, chamada de protestantismo ascético, favoreceu também


um segundo aspecto investigado por Weber nas doutrinas já mencionadas: a
racionalização da vida. A vida metódica, disciplinada e ordenada dos membros
do protestantismo era uma forma racionalizada de vida.

Mesmo com a secularização, ou seja, redução da influência religiosa na


vida das pessoas, a continuidade da forma de vida ordenada gerou o chamado
desencantamento do mundo, que iremos estudar no próximo tópico.

No entanto, como vimos, este processo de uma cultura racionalizada não


ocorreu no Oriente, ou seja, as religiões deste espaço geográfico não exerceram a
mesma influência em sua realidade. Para buscar fundamentos de análise, Weber
estudou o hinduísmo e budismo na Índia e o confucionismo e taoísmo na China
(SELL, 2002).

Ele percebeu que precisaria diferenciar alguns aspectos para compreender


a influência da religião sobre a economia, já que estes aspectos condicionariam
o comportamento das pessoas — sua prática de vida. Estes aspectos seriam a
imagem de Deus e do mundo, pois eles direcionariam as ações do indivíduo para
a obtenção da salvação e, por consequência, seu modo de vida.

A primeira diferença — que parte da imagem de Deus — consiste na


distinção de dois tipos de religião: teocêntricas e cosmocêntricas. As religiões
teocêntricas, ocidentais, concebem um Deus criador que existe fora do mundo e
acima dele. Nas religiões cosmocêntricas, orientais, Deus e o mundo são a mesma
realidade (se confundem).

192
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

A segunda diferença — quanto à imagem do mundo — diz respeito a


promover a afirmação do mundo ou a negação do mundo. As religiões ocidentais
afirmam a vida mundana, não apresentam tensões quanto ao usufruto desta.
No entanto, as religiões orientais negam o mundo indicando dois possíveis
caminhos para a salvação: ou a vida em retiro espiritual ou a dedicação da vida
ao engajamento no mundo.

A partir disso, Weber classifica as religiões e percebe que as religiões


ocidentais combinam a imagem de um Deus que está fora do mundo com uma
visão negativa do mundo (lugar de pecado); enquanto as religiões orientais
combinam o Deus intramundano com duas visões: positiva e negativa do
mundo. Sendo assim, chega-se aos comportamentos individuais que são
originados por estas formas, já que a prática religiosa para a salvação vai ser
determinada por elas:

Nas religiões teocêntricas (deus está fora do mundo) existem dois


caminhos de salvação. Se houver uma imagem negativa da realidade
mundana, as religiões apresentam o caminho da dominação ascética
do mundo (como é caso da religião protestante). Quanto a religiões
teocêntricas como uma imagem positiva do mundo, Weber não
encontrou nenhum exemplo real deste tipo de religião. O importante
é perceber que as religiões teocêntricas com uma visão negativa do
mundo favorecem uma atitude “ativa” diante da realidade mundana.
Nas religiões cosmocêntricas (deus é o mundo), existem duas
possibilidades. Se há uma imagem negativa da realidade mundana, o
único caminho da salvação é a fuga do mundo (é o caso das religiões
da Índia, o hinduísmo e o budismo). Mas, se houver uma imagem
positiva do mundo, o caminho da salvação será uma acomodação
diante do mundo. Todavia, em ambos os casos, tratam-se de caminhos
de salvação que levam o homem a uma atitude “passiva” diante da
realidade mundana (SELL, 2002, p. 126).

Sell (2002, p. 127) sistematiza estas ideias em forma de quadro:

FIGURA 8 – QUADRO COMPARATIVO

TEORIA RELIGIOSA PRÁTICA RELIGIOSA

IMAGEM DE DEUS IMAGEM DO MUNDO SALVAÇÃO

Religião Teocêntrica Visão positiva do mundo ––– –––

Religião Teocêntrica Visão negativa do mundo Dominação do mundo

Religião Cosmocêntrica Visão positiva do mundo Acomodação do mundo

Religião Cosmocêntrica Visão negativa do mundo Fuga mística do mundo

FONTE: Sell (2002, p. 127)

193
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

As religiões orientais, portanto, levavam seus membros a atitudes


contemplativas diante do mundo, enquanto as religiões ocidentais levavam a
atitudes de engajamento no mundo. Portanto, a ética protestante favoreceu a
origem do capitalismo, enquanto isso não ocorreu nas religiões orientais.

Após a análise relativa às religiões como estímulo ou não ao modo


de vida capitalista, Weber observa também um fenômeno de redução das
concepções religiosas na vida social, o que é mais um aspecto que contribui para
a racionalização da sociedade. Vamos estudar o chamado desencantamento do
mundo a seguir.

4 CARISMA E DESENCANTAMENTO DO MUNDO


Weber buscou, em suas análises comparativas sobre as religiões, desenhar
o quadro da evolução cultural do Ocidente. Ele chega, assim, à conclusão de que
o processo de desencantamento do mundo — originado pela redução da esfera
religiosa na sociedade — provocou a racionalização do mundo e a perda de
aspectos culturais, conforme veremos adiante.

E
IMPORTANT

Pode-se afirmar, resumidamente, que o desencantamento do mundo é o


processo de substituição de concepções mágicas e religiosas sobre o mundo por concepções
racionalizadas da existência. A interpretação predominante de uma vida dominada por forças
divinas é substituída pela ideia de uma sociedade passível de completo domínio humano.

Este processo de desencantamento destitui um universo habitado pelo


sagrado, mágico e coloca em seu lugar o domínio da ciência e da técnica, e as
formas de organização racionais e burocratizadas. E Weber tinha uma posição
crítica com relação a isso:

O aumento do grau de racionalidade do mundo moderno não leva


necessariamente a um estágio superior de vida social. Weber sabia
que o processo de racionalização do mundo, da qual a organização
capitalista e a organização burocrática do Estado eram as maiores
expressões, tinha também o seu lado negativo. É neste sentido que ele
apresenta o seu diagnóstico da modernidade: a perda de sentido e a
perda de liberdade (SELL, 2002, p. 128).

Quanto à perda de sentido, Weber afirmava que isto ocorreria porque


a religião conferia sentido à realidade, indicando respostas sobre o porquê da
existência humana — de onde viemos e para onde vamos. No entanto, a ciência

194
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

não ocuparia este lugar — a partir da razão —, já que não procura dar sentido
à existência do mundo. A solução para ele também não seria retornar à religião,
mas sim permitir que no mundo moderno cada um escolhesse sua concepção.

Quanto à perda de liberdade, Weber apresenta o ingresso do racionalismo


na organização política e na economia, gerando a burocratização ou racionalização
social. Este movimento faz com que a humanidade tenha se libertado das forças
divinas e naturais, e tenha ficado presa em suas próprias criações, refém do
trabalho e das suas burocracias.

É neste ínterim que Weber traz a imagem de um agente de ruptura, o


líder, herói, profeta carismático.

A qualidade, que passa por extraordinária (cuja origem é condicionada


magicamente, quer se trate de profetas, feiticeiros, árbitros, chefes de
caçadas ou comandantes militares), de uma personalidade, graças à
qual esta é considerada possuidora de forças sobrenaturais, sobre-
humanas — ou pelo menos especificamente extracotidianas, não
acessíveis a qualquer pessoa — ou, então, tida como enviada de Deus,
ou ainda como exemplar e, em consequência, como chefe, caudilho,
guia ou líder (WEBER, 1999a, p. 193).

Weber reconhece um tipo de liderança possível na situação de


racionalidade, seja na esfera política ou religiosa, a partir de uma dominação
tradicional ou burocrática. Baseado em seu carisma pessoal e se posicionando
contra a dominação tradicional, estes líderes conseguem utilizar o poder racional
a seu favor.

Weber considerava que, no mais das vezes, as burocracias


dominantes, como a confuciana, caracterizavam-se pelo desprezo a
toda religiosidade irracional, respeitando-a apenas no interesse da
domesticação das massas. As classes e estamentos (os camponeses, os
artesãos, os comerciantes, os industriais etc.) relacionam-se de distintas
formas com a religiosidade. O proletariado moderno e as amplas
camadas da burguesia moderna, se é que tomam uma atitude religiosa
unilinear, costumam sentir indiferença ou aversão pelo religioso. A
consciência de depender do próprio rendimento, diz ele, é enfocada
ou completada pela da dependência a respeito das puras constelações
sociais, conjunturas econômicas e relações de poder sancionadas pela
lei (BARBOSA; OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002, p. 124).

Sendo assim, nas camadas mais baixas das classes desfavorecidas, que
possuem dificuldade no acesso às concepções racionais, encontra-se um terreno
fértil para que a dominação carismática ocupe seu espaço — na medida em que
concepções religiosas e mágicas conseguem acesso facilitado. As explicações e
interpretações emotivas, neste caso, superam as explicações racionais.

Neste contexto surgem com frequência as lideranças carismáticas, os


salvadores — sejam religiosos ou políticos. Estes, muitas vezes, após atingirem a
dominação perante os grupos, são corrompidos pelas instituições.

195
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Desta maneira, Weber busca explicações para este tipo de dominação


específica, que ele nota presente com frequência nas sociedades modernas — fruto
do processo de desencantamento do mundo. Os líderes carismáticos aparecem
ainda na esfera religiosa muitas vezes, e depois se descolam desta ou passam a
representar outros interesses. Ainda sobre esta dominação, vejamos a análise do
próprio Weber:

A criação de uma dominação carismática, no sentido "puro" aqui


exposto, é sempre resultado de situações extraordinárias externas,
especialmente políticas ou econômicas, ou internas, psíquicas,
particularmente religiosas, ou de ambas em conjunto. Nasce
da excitação comum a um grupo de pessoas, provocada pelo
extraordinário, e da entrega ao heroísmo, seja qual for o seu conteúdo.
Só disso já resulta que somente in statu nascendi tanto a fé do próprio
portador e de seus discípulos em seu carisma - seja este de conteúdo
profético ou de outro qualquer - quanto a entrega fiel a ele e à sua missão
por parte daqueles para os quais ele se sente enviado atuam com pleno
poder, unidade e força. Quando reflui o movimento que arrancou o
grupo carismaticamente dirigido do circuito da vida cotidiana, no
mínimo a dominação pura do carisma vê-se rompida, transferida
ao "institucional" e aí refratada. É então como que mecanizada, ou
é imperceptivelmente substituída por outros princípios estruturais
ou se confunde e se entrelaça com eles nas formas mais variadas, de
modo que chega a representar, dentro da formação histórica empírica,
um componente de fato inseparavelmente ligado a eles, muitas vezes
irreconhecivelmente desfigurado e somente depurável analiticamente
para a consideração teórica.
Portanto, a dominação carismática "pura" é instável num sentido
muito específico, e todas as suas alterações têm, em última instância,
uma única fonte. Na maioria das vezes, o desejo do próprio senhor,
mas sempre o de seus discípulos e mais ainda o dos adeptos
carismaticamente dominados, é de transformar o carisma e a felicidade
carismática de uma agraciação livre, única, externamente transitória
de épocas e pessoas extraordinárias em uma propriedade permanente
da vida cotidiana. Mas com isto transforma-se, inexoravelmente, o
caráter interno da estrutura. Seja que do séquito carismático de um
herói guerreiro nasça um Estado, ou que da comunidade carismática
de um profeta, artista, filósofo ou inovador ético ou científico nasçam
uma igreja, seita, academia, escola, ou então que de um grupo
carismaticamente dirigido, que persegue uma ideia cultural, nasça um
partido ou apenas um aparato de jornais e revistas - em todos estes
casos, a forma de existência do carisma acaba exposta às condições
da vida cotidiana e aos poderes que a dominam, sobretudo aos
interesses econômicos. E sempre é este o momento de mudança em
que os sequazes e discípulos carismáticos começam a transformar-se,
primeiro - como na trustis do rei franco - em comensais do senhor,
privilegiados por direitos especiais, e depois em feudatários, sacerdotes,
funcionários do Estado, funcionários de partido, oficiais, secretários,
redatores e editores, que pretendem viver do movimento carismático,
ou empregados, professores ou outras pessoas com interesses
profissionais, prebendados, detentores de cargos patrimoniais ou
algo semelhante. Os carismaticamente dominados, por outro lado,
tornam-se "súditos" regularmente tributários, membros contribuintes
de igrejas, seitas, partidos ou associações, soldados treinados e
disciplinados, forçados ao serviço, segundo determinadas regras e
ordens, ou "cidadãos" fiéis à lei.

196
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

A profecia carismática converte-se, apesar da advertência do apóstolo


para "não reprimir o espírito", inevitavelmente em dogma, doutrina,
teoria, regulamento, disposição jurídica ou conteúdo de uma tradição
que vai se petrificando. Precisamente a união dos dois poderes, que
em suas raízes são alheios entre si e inimigos, o carisma e a tradição,
constitui um fenômeno regular neste processo. Isto é facilmente
compreensível: o poder de ambos não se baseia em regras criadas
segundo um plano e uma finalidade e no conhecimento destas regras,
mas na fé simplesmente válida para o dominado - criança, cliente,
discípulo, sequaz ou feudatário - na santidade específica, absoluta ou
relativa da autoridade de pessoas concretas e na entrega a relações e
deveres de piedade diante destes, aos quais sempre inere, em ambos
os casos, alguma solenidade religiosa. Também as formas externas das
duas estruturas de dominação são frequentemente muito semelhantes,
e até podem chegar a ser idênticas. É difícil decidir pela aparência
externa se a comunidade de comensais de um príncipe guerreiro tem
caráter "patrimonial" ou "carismático"; isto depende do "espírito" que
anima a comunidade, vale dizer, do fundamento em que se apoia a
posição do senhor; da autoridade santificada pela tradição ou fé
pessoal em um herói. E o caminho que conduz da primeira situação à
última tem estações intermédias. Assim que a dominação carismática
perde seu caráter emocional de fé, que a distingue da vida cotidiana
vinculada à tradição, também sua base puramente pessoal - a aliança
com a tradição -, apesar de não ser a única possibilidade, constitui,
pelo menos em períodos com uma racionalização pouco desenvolvida
da técnica da vida, o passo natural e no mais das vezes inevitável.
Neste passo parece definitivamente abandonada e perdida a essência
do carisma, o que é realmente o caso, na medida em que se trata de
seu caráter eminentemente revolucionário, pois agora apoderam-
se dele - e este é o traço fundamental deste desenvolvimento que
tipicamente se repete - os interesses de todos os detentores de posições
de poder econômicas e sociais na legitimação de sua propriedade, pela
referência a uma autoridade e fonte carismática e, portanto, sagrada.
O carisma, em vez de atuar conforme seu sentido genuíno, de forma
revolucionária, diante de tudo o que seja tradicional ou se fundamente
na aquisição "legítima" de direitos, como acontece in statu nascendi,
atua exatamente no sentido contrário, como fundamento de "direitos
adquiridos". E precisamente nesta função alheia à sua índole torna-se
ele um componente da vida cotidiana, pois a necessidade, à qual ele
assim atende, é universal (WEBER, 1999a, p. 333).

197
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

LEITURA COMPLEMENTAR

O ASCETISMO E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO

Max Weber (trecho)

Para compreendermos a ligação entre as ideias religiosas fundamentais do


protestantismo ascético e suas máximas sobre a conduta econômica cotidiana, faz
se necessário examinar com especial cuidado os escritos que foram evidentemente
derivados da prática clerical. Para um tempo em que o além significava tudo,
quando a posição social de um cristão dependia de sua admissão à comunhão,
os clérigos com seu ministério, a disciplina da Igreja e a pregação exerciam uma
influência (que pode ser apreciada nas coleções consilia, casus conscietiae etc.)
que nós, homens modernos, somos totalmente incapazes de imaginar. Naquele
tempo, as forças religiosas que se expressavam por esses canais eram as influências
decisivas na formação do caráter nacional.

Para os propósitos deste capítulo, embora não para as demais finalidades,


podemos considerar o protestantismo ascético como um todo. Mas, uma vez que
o puritanismo inglês, que deriva do calvinismo, nos dá uma base religiosa mais
consistente da ideia de vocação, colocaremos no centro da discussão, de acordo
com o método que adotamos, um de seus representantes.

Richard Baxter ocupa posição destacada entre outros autores da ética


puritana, tanto pela sua atitude realista e eminentemente prática, como, ao
mesmo tempo, pelo reconhecimento universal do seu trabalho, manifestado pelas
contínuas reedições e traduções. Ele foi um presbiteriano e apologista do sínodo
de Westminster, mas ao mesmo tempo, como muitos dos melhores espíritos
de seu tempo, afastou-se gradualmente dos dogmas do calvinismo ortodoxo.
Interiormente se opunha à usurpação de Cromwell, assim como a qualquer
revolução. Era desfavorável às seitas e ao entusiasmo fanático dos santos, mas
tinha grande abertura quanto às peculiaridades exteriores e grande objetividade
com seus opositores.

Dirigiu seu campo de trabalho especificamente para a promoção prática


da vida moral por meio da Igreja. Perseguindo suas finalidades, como um dos
sacerdotes mais bem-sucedidos da história, colocou seus serviços à disposição do
governo parlamentar de Cromwell e da Restauração, até se retirar do ofício sob
esta última, antes do dia de São Bartolomeu.

Seu Christian Directory é o mais completo compêndio da ética puritana,


inteiramente ajustado à experiência prática de seu próprio ministério. Como
termo de comparação, usaremos o Theologische Bedenken de Spener como
representante do Pietismo alemão, a Apology de Barclay dos quakers, e alguns
outros representantes da ética ascética que, entretanto, por questões de espaço,
serão os mais limitados possível.

198
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

Agora, ao examinarmos o Saints Everlasting Rest ou o Christian Directory


de Baxter, ou trabalhos semelhantes de outros, chama de imediato a atenção
a ênfase colocada na discussão sobre a riqueza e sua aquisição nos elementos
ebioníticos do Novo Testamento. A riqueza em si constitui grande perigo; suas
tentações não têm fim, e sua busca não é apenas sem sentido, se comparada com
a importância superior do Reino de Deus, mas também moralmente suspeita.
Aqui o ascetismo parece voltado mais agudamente contra a aquisição de bens
terrenos do que em Calvino, que não via na riqueza do clero nenhum empecilho
à sua eficiência, mas antes via nisso uma expansão desejável de seu prestígio.
E até lhe permitia aplicar seus recursos a juros. Exemplos de condenação da
busca de dinheiro e de bens podem ser encontrados em grande quantidade nos
escritos puritanos, e comparados com a literatura ética da baixa Idade Média,
que era muito mais aberta nesse sentido. Além do mais, essas dúvidas foram
consideradas com grande seriedade; basta examiná-las mais de perto para
compreender suas implicações e significado ético. A verdadeira objeção moral é
quanto ao afrouxamento na segurança da posse, ao gozo da riqueza com o ócio
consequente e às tentações da carne e, acima de tudo, ao desvio da busca de uma
vida de retidão. De fato, a posse é condenável apenas por envolver tais perigos
de relaxamento. Pois o eterno repouso dos santos se encontra no outro mundo;
o homem sobre a terra deve, para ter certeza deste estado de graça, “trabalhar
naquilo que lhe foi destinado, ao longo de toda sua jornada. Não são o ócio e o
prazer, mas só a atividade que serve para aumentar a glória de Deus, conforme a
clara manifestação de Sua vontade. A perda de tempo é pois, em princípio, o mais
funesto dos pecados. A duração da vida humana é por demais curta e preciosa
para garantir a própria escolha. A perda de tempo na vida social, em conversas
ociosas, em luxos e mesmo em dormir mais que o necessário para a saúde, de seis
até o máximo de oito horas, é merecedora de absoluta condenação moral”. Não
se trata, pois, de reafirmar, com Franklin, que tempo é dinheiro, mas a posição é
verdadeira em certo sentido espiritual. Ela é infinitamente valiosa, pois que cada
hora perdida é perdida para o trabalho de glorificação a Deus”.

Assim, mesmo a contemplação inativa seria também sem valor, “ou


até diretamente repreensível, se ocorrer às expensas do trabalho diuturno do
indivíduo”. Por isso, seria menos agradável para Deus que a ativa execução de
Sua vontade dentro da vocação.

De mais a mais, o domingo foi feito para isso e, de acordo com Baxter,
“são sempre aqueles que não cumprem com sua missão que não têm tempo para
Deus, mesmo quando o momento o requer”.

Consoante isso, no trabalho principal de Baxter predomina uma pregação


constante, frequentemente quase apaixonada, de um trabalho físico ou mental
duro e constante.

E isto devido a dois motivos distintos. De um lado, o trabalho é uma


técnica ascética comprovada, como sempre tem sido na Igreja do Ocidente, em
forte contraste não só com o Oriente, mas também com quase todas as regras

199
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

monásticas do mundo. Em particular, apresenta-se como defesa específica contra


todas as tentações que o puritanismo agrupou sob o nome de vida impura, cujo
papel nunca foi insignificante.

O ascetismo sexual do puritanismo difere apenas no grau daquele


monástico, mas não no princípio; e de acordo com a concepção puritana do
casamento, sua influência prática é de muito maior alcance do que este. Por isso
as relações sexuais, mesmo no casamento, só são permitidas apenas como meio
desejado por Deus para aumentar Sua glória, de acordo com o mandamento
“Crescei e multiplicai-vos”. Ao lado de uma dieta vegetariana e de banhos frios,
contra todas as tentações sexuais é usada a mesma prescrição adotada contra as
dúvidas religiosas e o sentido de indignidade moral: “Trabalhe com vigor na
tua vocação”. Mas a coisa mais importante é que, acima de tudo, o trabalho
veio a ser considerado em si, como a própria finalidade da vida, ordenada por
Deus. As palavras de S. Paulo, “quem não trabalha não deve comer”, valem
incondicionalmente para todos. “A falta de vontade de trabalhar é sintoma da
falta de graça”.

Aqui, a diferença do ponto de vista medieval torna-se evidente. Tomás


de Aquino também deu esta interpretação às palavras de Paulo. Mas para ele o
trabalho era necessário só para a manutenção do indivíduo e da comunidade.
Quando tal finalidade fosse atingida, o preceito deixaria de ter qualquer
significado. De mais a mais, aquele só se referia à espécie humana, e não se
aplicaria ao indivíduo isoladamente que pudesse viver sem trabalho, de suas
posses; naturalmente, a contemplação, como forma de ação espiritual no reino
de Deus, torna-se preponderante sobre o sentido literal da injunção. Além disso,
para a teologia popular da época, a mais alta forma de produtividade monástica
consistia no aumento do Thesaurus ecclesiae por meio da oração e do canto. Tais
objeções ao dever de trabalhar não só deixam de ter importância para Baxter,
como ele frisa enfaticamente que a riqueza não exime quem quer que seja do
mandamento incondicional. Mesmo o rico não deve comer sem trabalhar, pois,
mesmo que não precise disso para sustentar suas próprias necessidades, há o
mandamento de Deus a que, tanto ele quanto o pobre devem obedecer.

Para todos, sem exceção, a providência divina reservou uma vocação, que
deve ser reconhecida e exercida. E esta vocação não é, como para os luteranos,
um destino ao qual deva se submeter e sair-se o melhor possível, mas um
mandamento de Deus ao indivíduo para que trabalhe para a glória divina. Esta
diferença, aparentemente sutil, teve consequências psicológicas profundas em
relação com o maior desenvolvimento desta interpretação providencial da ordem
econômica que começara com a Escolástica.

O fenômeno da divisão do trabalho e das ocupações na sociedade


fora abordado, entre outros, por Tomás de Aquino, ao qual nos referimos
oportunamente como uma consequência direta dos planos divinos. Porém o
lugar designado para cada homem nesta ordem segue ex causis naturalibus e é
aleatório (ou contingente, na linguagem escolástica). A diferenciação dos homens
em classes e ocupações estabelecidas por meio do desenvolvimento histórico
200
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

tornou-se, para Lutero, como vimos, o resultado direto da vontade divina; a


permanência do indivíduo no lugar e dentro dos limites demarcados por Deus
para ele, era, pois, um dever religioso. Isto foi certamente a consequência, visto
que as relações do luteranismo com o século eram geralmente incertas desde o
início e assim permaneceram.

[...]

Um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo moderno, e


não só dele, mas de toda a cultura moderna, é a conduta racional baseada na
ideia de vocação, nascida – como se tentou demonstrar nesta discussão – do
espírito do ascetismo cristão. Bastará reler a passagem de Franklin citada no
início deste ensaio para vislumbrar que os elementos essenciais daquela atitude
que chamamos aqui de espírito do capitalismo, são os mesmos que acabamos de
mostrar como conteúdo do ascetismo laico puritano, despidos apenas das bases
religiosas, já mortas no tempo de Franklin. A ideia de que o moderno trabalho
teria naturalmente um caráter ascético não é nova. O limitar-se ao trabalho
especializado, com a faustiana renúncia à universalidade do homem que envolve,
é uma condição para qualquer trabalho válido no mundo moderno; daí que a
realização e a renúncia, inevitavelmente, são, no mundo de hoje, mutuamente
condicionadas. Este traço fundamentalmente ascético da vida da classe média, se
é que pode ser considerado um estilo de vida e não apenas a falta de um, foi o que
Goethe quis nos ensinar das alturas de sua sabedoria no Wanderjahren e no fim
de vida que ele deu ao seu Fausto. Para ele, tal percepção significava a renúncia,
a despedida de uma humanidade de plenitude e beleza que não mais poderia se
repetir no curso de nosso desenvolvimento cultural, assim como não o pôde o
florescer da cultura ateniense da antiguidade.

O puritano quis trabalhar no âmbito da vocação; e todos fomos forçados


a segui-lo. Pois quando o ascetismo foi levado para fora das celas monásticas
e introduzido na vida quotidiana e começou a dominar a moralidade laica,
desempenhou seu papel na construção da tremenda harmonia da moderna ordem
econômica. Esta ordem está hoje ligada às condições técnica e econômica da
produção pelas máquinas, que determina a vida de todos os indivíduos nascidos
sob este regime, com força irresistível, não apenas os envolvidos diretamente
com a aquisição econômica. E talvez assim a determine até que seja queimada a
última tonelada de carvão fóssil. Na visão de Baxter, o cuidado para com os bens
materiais deveria repousar sobre os “ombros do santo como um leve manto, que
pode ser atirado de lado a qualquer momento”. Mas o destino quis que o manto
se tornasse uma prisão de ferro.

Uma vez que o ascetismo se encarregou de remodelar o mundo e nele


desenvolver seus ideais, os bens materiais adquiriram um poder crescente e, por
fim, inexorável, sobre a vida do homem como em nenhum outro período histórico.
Hoje, o espírito do ascetismo religioso, quem sabe se definitivamente, fugiu
da prisão. Mas o capitalismo vitorioso, uma vez que repousa em fundamentos
mecânicos, não mais precisa de seu suporte. Também o róseo colorido do seu
risonho herdeiro, o Iluminismo, parece estar desvanecendo irremediavelmente,
201
UNIDADE 3 | A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

e a ideia de dever no âmbito da vocação ronda nossas vidas como o fantasma


de crenças religiosas mortas. Onde a plenificação da vocação não pode ser
diretamente relacionada aos mais altos valores espirituais e culturais ou quando,
por outro lado, não precisa ser sentida apenas como uma pressão econômica, o
indivíduo geralmente abandona qualquer tentativa de justificá-la. “No campo de
seu maior desenvolvimento, nos Estados Unidos, a busca da riqueza, despida
de seu significado ético e religioso, tende a ser associada a paixões puramente
mundanas, que lhe dão com frequência um caráter de esporte”.

Ninguém sabe quem viverá, no futuro, nesta prisão ou se, no final


deste tremendo desenvolvimento, surgirão profetas inteiramente novos, ou se
haverá um grande ressurgimento de velhas ideias e ideais ou se, no lugar disso
tudo, uma petrificação mecanizada ornamentada com um tipo de convulsiva
autossignificância. Neste último estágio de desenvolvimento cultural, seus
integrantes poderão de fato ser chamados de “especialistas sem espírito,
sensualistas sem coração; nulidades que imaginam ter atingido um nível de
civilização nunca antes alcançado”.

Mas isto nos leva ao mundo dos julgamentos de valores e de fé, com
os quais não precisamos sobrecarregar esta discussão puramente histórica. A
próxima tarefa seria mais a de mostrar o significado do racionalismo ascético,
apenas abordado pelo esboço acima, quanto ao seu conteúdo de éticas sociais
práticas, ou seja, quanto aos tipos de organização e funções dos grupos sociais,
desde os conventículos até o Estado. A seguir, suas relações com o racionalismo
humanístico, seus ideais de vida e influência cultural. Depois teria de ser analisado
em relação ao desenvolvimento do empirismo filosófico e científico, e de ideais
espirituais e desenvolvimento técnico. Terá então de ser traçado, por meio de
todos os ramos da religiosidade ascética, o desenvolvimento histórico, desde
os primórdios medievais, do ascetismo laico até a sua transformação em puro
utilitarismo. Só então poderá ser avaliada a importância quantitativa cultural
do protestantismo ascético em suas relações com outros elementos plásticos da
cultura moderna.

Aqui, apenas tentamos traçar os fatos e a direção de sua influência a


partir de apenas um, embora importante, ponto de vista. Contudo, será também
necessário investigar como o ascetismo protestante foi por sua vez influenciado
em seu desenvolvimento e caráter pelo conjunto de condições sociais, e
especialmente econômicas. O homem moderno, mesmo com a melhor das
vontades, é em geral incapaz de atribuir às ideias religiosas a importância que
merecem em relação à cultura e ao caráter nacional. Não é, porém, meu intuito
substituir uma interpretação causal materialista unilateral por outra interpretação
espiritual, igualmente unilateral, da cultura e da história. Ambas são viáveis, mas,
se qualquer delas não for adotada como introdução, mas sim como conclusão, de
muito pouco serve no interesse da verdade histórica.

FONTE: WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 13. ed. São Paulo: Pioneira,
1999. Disponível em: <http://docplayer.com.br/46155788-A-etica-protestante-e-o-espirito-do-
capitalismo.html>. Acesso em: 14 fev. 2019.

202
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:

• A sociologia da religião em Weber não se restringe ao estudo da religião em si,


mas sim ao estudo da modernidade, seu nascimento e desenvolvimento.

• Para este caminho de estudos Weber buscou entender a relação entre o


protestantismo e a conduta econômica capitalista, depois as relações entre
economia e religião na Índia e na China.

• Weber conduz suas análises sobre a esfera religiosa, buscando articular seus
pressupostos doutrinários e a prática que é originada a partir destes — já que
ela pode modificar a atuação do indivíduo na esfera social.

• A relação estabelecida entre a ética protestante e o capitalismo é, essencialmente,


o comportamento estimulado pelas doutrinas protestantes que tratam de
vocação e do estímulo ao trabalho.

• O desencantamento do mundo é o processo de substituição de concepções


mágicas e religiosas sobre o mundo por concepções racionalizadas da existência.

• Weber reconhece um tipo de liderança possível na situação de racionalidade,


seja na esfera política ou religiosa, a partir de uma dominação tradicional
ou burocrática. Baseado em seu carisma pessoal e se posicionando contra a
dominação tradicional, estes líderes conseguem utilizar o poder racional a seu
favor. É o líder carismático.

203
AUTOATIVIDADE

1 O processo de racionalização social é um dos temas centrais das obras de


Weber, a partir de suas análises sobre a sociedade moderna. É uma temática
constantemente revisitada por seus intérpretes. Acerca das pesquisas e
teorias de Weber sobre a racionalização, analise as seguintes sentenças:

I – O trabalho metódico e racional defendido como prática de vida pela


ética das religiões protestantes estimulou o desenvolvimento do espírito do
capitalismo.
II – A religião favoreceu o desenvolvimento de um espírito condizente com as
práticas capitalistas, e sua esfera de atuação reduz com a racionalização social.
III – A redução do espaço das concepções da religião na sociedade é um
aspecto que contribuiu para a racionalização social.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
c) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.

2 Um dos processos que favoreceu a racionalização social, segundo Weber,


foi o chamado “desencantamento do mundo”. Sobre este processo, analise
as afirmações seguintes:

I – As formas de organização racionais e burocratizadas ganham espaço após


o desencantamento do mundo, favorecidas pela ciência e técnica.
II – Ele ocorre quando as práticas religiosas são substituídas por práticas
racionalizadas, reduzindo o espaço das forças divinas no mundo.
III – Ele ocorre quando as pessoas se desencantam com o mundo social e
passam a optar por práticas individualistas e isoladas.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.

204
REFERÊNCIAS

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